Finalizada em: 26/10/2017

Capítulo Único

A chuva caia torrencialmente do lado de fora, os trovões se faziam audíveis a cada meio minuto, mas ele quase não os ouvia por mais altos que fossem. Tinha coisas demais em sua cabeça para prestar atenção naquele detalhe, mesmo que a chuva embaçasse consideravelmente sua visão da estrada.
Era, muito provavelmente, a mais forte chuva quejá havia enfrentado embora desconfiasse de que fosse apenas seu estado de espírito falando, seu péssimo humor refletindo na sua percepção das coisas e fazendo com que tudo naquele dia soasse ainda pior do que era de fato. E nem era como se precisasse de ajuda.
O que ele esperava ser um dos melhores dias de sua vida, bom, não era mais.
odiava discussões, de qualquer tipo, mas a daquele dia em especial ele não havia conseguido evitar. Era bem irônico, na verdade, que a pessoa que mais fugia de brigas tivesse se apaixonado justamente por alguém que não suportava engolir o que estava sentido. Costumava gostar disso na garota. Gostava até mesmo de vê-la irritada, na realidade. Divertia-se em provocá-la e sentia-se até mesmo meio bobo por isso. Por gostar tanto de alguém a esse ponto. Normalmente, ele apenas sorria enquanto ela esbravejava, o que a deixava sempre mais possessa do que já estava, obviamente. sempre deixava-a gritar antes de tomar alguma atitude e, quando o fazia, era apenas questão de segundos para que tudo passasse. No final, nunca tinham outro destino que não fosse a cama do casal. Ou qualquer lugar onde pudessem fazer amor.
Mas naquele dia não.
Naquele dia ele também estava irritado e se odiava por sentir-se assim. Por não estar conseguindo contornar a situação. Não era por ela e nem com ela que estava furioso, mas estava e as duas coisas não demoraram muito para se tornar uma só. Havia descontado sua irritação na mulher já furiosa, que ficou ainda mais furiosa, o deixando também mais furioso com si mesmo. Agora ambos estavam mudos lado a lado no carro. Eram apenas suspiros que bloqueavam palavras em seus lábios em silêncio.
não tinha ideia do que fazer simplesmente porque nem mesmo se lembrava de um dia ter ficado tão irritado com qualquer coisa. Nada conseguia tirá-lo do sério normalmente.
Com exceção daquilo.
- Desculpa. – decidiu começar. Alguém precisava começar e não seria ela. era do tipo que fazia tratamento de silêncio até que tudo fosse resolvido e, infelizmente, câmeras e paparazzis faziam parte da sua vida. Eram a parte podre dela. Uma da qual não podia fugir, vinha junto com o pacote.
- “Desculpa” não vai resolver o problema. – ela respondeu simplesmente, os braços cruzados em frente ao peito, a atenção na janela ao seu lado.
respirou fundo. Não estava irritado com ela, não era com ela, precisava se lembrar disso e de que ela também não estava falando em sua razão perfeita. Era a raiva tomando voz, mas ele não era tão maduro assim.
- O que você quer que eu faça?! – perguntou, um pouco mais alto do que o normal. Em outra ocasião faria alguma brincadeira, afinal, a única opção que ele tinha era largar a carreira e ambos sabiam que ele nunca faria isso. Ambos sabiam que aquela não era e nunca havia sido a vontade de qualquer um deles, mas, novamente, não era a razão quem falava e o tom de brincadeira passou à quilômetros de distância. – Quer que eu jogue minha vida pro alto?
Ela o encarou chocada, mas os olhos só continham raiva. A mais genuína raiva e ela só o encarou por meio minuto, negando com a cabeça ao bufar antes de se voltar mais uma vez para a janela.
- Não acredito que você realmente disse uma merda dessas. – resmungou desacreditada e ele não precisou ver seu rosto para saber que ela revirava os olhos.
- O que você quer então, ?! – perguntou em uma exclamação desnecessária. - Se não tem o que fazer, porque está tão nervosa?!
- Você está nervoso! – ela aumentou o tom de voz, virando-se para ele de forma acusatória.
- Por que você também está! – devolveu rapidamente, desviando o olhar para ela por um instante, apenas o suficiente para ser seguro naquela chuva. Ele ainda estava tentando pensar naquilo, na segurança, mas ela não estava ajudando de verdade. - Você está nervosa e isso está me irritando!
- Não jogue a culpa para mim! Você está com raiva porque a situação é uma droga, porque os paparazzis nos cercaram e tivemos que fugir da nossa festa de noivado! – despejou de uma vez o que a incomodava. Não que fosse necessário verbalizar de fato.
- É, eu estou mesmo com raiva disso! – confessou ele, ainda mais frustrado agora que ela falou com todas as letras. – Mas essa é a minha vida!
- A sua vida é a minha vida! – esbravejou a mulher, soando ainda mais brava agora. – Por que é que só você pode ficar irritado? Só você pode descontar nos outros?! – gritou, o deixando em uma mistura de surpresa e choque.
Enquanto as palavras lhe atingiam com um baque, ele suspirou.
- Eu já te pedi desculpas. –diminuiu o tom de voz, falando em um murmúrio culpado. Ela estava certa, vida de um era também a vida do outro. Agora, oficialmente. Sabia que o que acontecia com ele, refletia nela assim como sabia que, independente disso, eram um do outro acima de qualquer coisa, de qualquer briga.
Discutir era o máximo que fariam, pois sempre terminariam juntos ao final do dia.
- E eu já disse que não resolve. – resmungou mais uma vez ao olhar para a janela, voltando para o ponto de onde haviam partido inicialmente. Seu tom era mais ameno agora, mas ela não soava menos mal humorada por isso, fazendo com que a encarasse, estreitando os olhos.
O que ela queria, então? Que porra de impasse sem sentido era aquele onde haviam acabado de se enfiar?
- Então é assim? – perguntou, confuso. - Ninguém pode fazer nada então vamos só ficar bufando um do lado do outro?
- Seria muito melhor do que essa discussão sem sentido que você arrumou. – devolveu, ainda focada demais na estrada do lado de fora da janela.
- Eu estou tentando me desculpar! – voltou a exclamar, chocado.
- Não adianta se desculpar se não para de discutir! – insistiu ela, virando-se mais uma vez o banco para ficar de frente para ele. - Não adianta se desculpar de cabeça quente, se vamos continuar brigando! – exclamou impaciente, mas no instante seguinte simplesmente deu as costas, inclinando-se para o banco de trás do carro.
Como se ele precisasse de mais alguma coisa para deixá-lo confuso.
- Mas que porra você está fazendo? – perguntou a ela, olhando de para a estrada.
- Pegando o guarda-chuva. – explicou, quase o chutando ao perder o equilíbrio e dar de cara com o banco ao seu lado.
a segurou para que não caísse.
- Por que você quer o guarda-chuva?! – ele voltou a perguntar, agora ainda mais confuso enquanto tentava intercalar a atenção dela para a estrada a frente, que ele quase não era capaz de ver com tanta chuva. Soltou-a somente após retornar para o banco da frente, quando julgou seguro.
- Para o carro. – ela pediu e ele arregalou os olhos. Agora entendia onde ela queria chegar. Não que fosse menos absurdo, ou que fizesse algum sentido. O mundo estava desabando e ela decidiu que era uma boa sair do carro?
- O quê?! – perguntou, decidindo que havia entendido errado.
- Para o carro. – ela repetiu, para a sua decepção.
- Você vai sair? – quis saber, mas havia certo deboche na sua voz. A única forma de não morrer afogada naquela chuva era com um bote e ela não tinha um bote.
- Se você não parar eu vou pular para fora. – avisou e jogou os braços para o alto.
- , ficou louca?! – exclamou desacreditado. - Olha pra fora! Nem dá pra ver lá fora!
- É melhor do que ficar aqui, no meio dessa discussão sem sentido!
- Ah, porque sair lá fora no meio desse vendaval faz um sentido enorme! – debochou mais uma vez. - Certo, prefere ficar bufando um do lado do outro? Vamos bufar. – ele falou, bufando, o que apenas a deixou ainda mais furiosa. Somente quando ela urrou, se deu conta de que não estava ajudando, muito pelo contrário, e acabou rindo.
Sem pensar duas vezes, deixando que a raiva lhe dominasse, abriu a porta sem esperar que o carro parasse assustado ele freou bruscamente. Ambos foram jogados para frente.
- ENLOUQUECEU?! – gritou exasperado, voltando-se para ela imediatamente. segurava a testa com uma careta estampada em sua face e, imediatamente, ele se calou, assumindo um semblante de preocupação. Estavam no meio do nada, em uma chuva onde ninguém mais estava por perto para ajudá-los se algo acontecesse.
Uma linha fina de sangue escorreu por entre seus dedos e imediatamente soltou o cinto, inclinando-se sobre ela preocupado. Levou apenas um segundo para que ele esquecesse completamente qualquer outra coisa que poderia estar lhe incomodando. Não existia mais paparazzi, não existia mais qualquer tipo de raiva ou irritação, mas infelizmente não se podia dizer o mesmo dela que afastou sua mão quando ele tentou tocá-la, dando as costas para ele para sair do carro, abrindo o quarta-chuva no mesmo instante.
Surpreso por ela ter realmente feito aquilo, deixou o queixo cair e levou pelo menos três segundos para lembrar-se de seguí-la, abrindo a própria porta para sair do carro.
- ! – ele gritou, apertando os passos para chegar até ela sem se importar de fechar a porta atrás de si.
A rua estava escura apesar de estarem no meio da tarde, um horário em que o sol ainda deveria brilhar no céu. A chuva caia pesada sobre ele, fria, encharcando-o e fazendo com que estremecesse. Os ventos eram ainda piores do lado de fora, a pouca folhagem das árvores ao redor balançavam de forma no mínimo assustadora, como se pudessem despencar a qualquer instante. Na realidade, considerando-se o vendaval, era difícil acreditar é que ainda mantinham-se firmes no chão pois até mesmo andar parecia difícil sob aquelas condições. Um passo exigia mais do que o outro e , mesmo tentando acelerá-lo para alcançar a garota, teve dificuldade para se locomover, cobrindo os olhos com um dos braços para tentar, ao menos, enxergá-la no meio da chuva que caia em seus olhos.
Mais um relâmpago cortou o céu, iluminado consideravelmente a rua. , por instinto, se encolheu, olhando momentaneamente para trás no mesmo instante que o trovão soava, alto e ensurdecedor. O mundo parecia prestes a desabar em forma de chuva e ele não tinha ideia de onde havia saído tudo aquilo.
Fazia sol pela manhã, um ótimo dia para uma festa de noivado. A sua e sequer havia notado quando o tempo virou daquela forma tão brusca.
ouviu um gritinho logo a frente e imediatamente se voltou para , conseguindo apenas pular para o lado quando o guarda-chuva voou em sua direção. Já era difícil andar sob aquelas condições, era de se esperar que o guarda-chuva estivesse fora de cogitação, mas ela não pareceu notar de verdade. Não até perdê-lo. Ela acompanhou o objeto com um olhar decepcionado, seus cabelos já molhados demais para voarem com o vendo prendendo-se ao redor de seu rosto.
parecia uma criança magoada com aquele olhar, uma que acabara de derrubar seu doce. Ela havia formado um bico emburrado com os lábios, um que ele sabia, ela não havia notado e apesar da ocasião totalmente inadequada, embaixo da maior chuva que já havia enfrentado, riu, passando as mãos pelo rosto como se não acreditasse em si mesmo por ter uma reação como aquela.
De longe, viu bufar. Ela agora tinha sua atenção focada nele e, como era de se esperar, não ficou satisfeita com a reação que ele havia tido. Incomodada, deu as costas para ele, voltando a andar e sentindo-se de alguma forma melhor, ele voltou a correr para alcançá-la.
Sem dizer nada, o rapaz parou a sua frente, abrindo os braços com um olhar desafiador no rosto. Sem ligar para isso, apenas revirou os olhos, empurrando um dos seus braços para passar por ele.
deixou que ela desse apenas três passos antes de puxá-la de volta, fazendo com que seu corpo colidisse com o dele.
As mãos dela foram para seu peito enquanto o encarava, surpresa.
- ... – ele a chamou, mantendo uma expressão suave no rosto. Levou uma das mãos até sua face, afastando o cabelo de seu rosto e, em seguida, de sua testa, analisando brevemente o pequeno corte recém aberto ali. – Eu amo você. Sabe disso, não sabe? – ele perguntou, sorrindo de lado e a viu desviar o olhar. Mais uma vez, riu. Agora do seu claro esforço para não dar o braço a torcer. Em resposta, tentou empurrá-lo, mas já segurava o riso e decidindo ser seguro, apenas a segurou mais perto, roubando um beijo em sua bochecha.
- Você é ridículo, . – resmungou e ele sorriu ainda mais.
- Podemos discutir isso no carro? Está frio, e chovendo. – disse ele, vestindo na cabeça de o gorro de sua jaqueta, que ela provavelmente esquecera de que tinha ali.
- Não tem discussão. – ela respondeu, tirando o cabelo dos olhos. – Você é. – completou, mas já não estava mais furiosa. Ele sabia só de olhar para ela.
- Se eu concordar, a gente pode ir para o carro? – ele insistiu e dessa vez, quem riu foi ela.
levou uma das mãos para sua nuca, puxando seu rosto e, em seguida, seus lábios para si. , no primeiro instante, apenas sorriu contra sua, aproveitando a sensação de seus lábios nos dele antes de finalmente iniciar o beijo, entreabrindo seus lábios para que assim pudessem explorar um ao outro.
A chuva, de repente, era irrelevante. Tão irrelevante quanto a briga da qual nenhum dos dois se lembrava mais.
deu mais um passo, mesmo que a distância entre os dois já fosse mínima. Sentia cada parte do seu corpo, no dele. Quente apesar do frio que fazia, da chuva. Levou uma das mãos até os cabelos molhados dela, segurando-os em um bolo enquanto apreciava a sensação de seus lábios movendo-se junto aos dele, tão macios e convidativos quanto podiam ser.
Ele era louco por ela, por cada mínima parte dela.
puxou seu lábio inferior entre os dentes, rompendo o beijo por um único instante antes de iniciar outro que, no entanto, foi interrompido por com um sorrisinho no rosto.
- Me sinto um pouco mais tentada a ir para o carro agora. – ela falou contra seus lábios, antes mesmo que ele abrisse os olhos e riu ao soltá-la.
- As roupas estão molhadas, vamos ter que tirá-las. – brincou e rindo travessa, ela concordou, dando dois passos para trás enquanto o encarava. ergueu uma sobrancelha e ela imitou o gesto. – O quê? Vai me deixar começar sozinha? - quis saber, dando as costas no instante seguinte para voltar ao carro.
Ainda com um sorriso brincando nos lábios, a acompanhou com o olhar por alguns segundos antes de dar o primeiro passo. corria embaixo da chuva e ele podia até mesmo ouvir o som da sua risada na própria cabeça. Com a chuva forte, da distância que estavam, seria impossível ouvir de fato, mas de alguma forma ele podia imaginar o som, já previamente gravado em sua mente.
Ele a amava mais do que poderia descrever, amava absolutamente tudo nela, desde as exclamações quando estava irritada até sua súbitas mudanças de humor naquela época chave de todo mês. Gostava de cada uma de suas manias, de seus tiques e a conhecia melhor do que ninguém. Melhor do que ela mesma as vezes, mas foi então, enquanto olhava para ela e pensava na importância que tinha em sua vida, que tudo aconteceu.
Que tudo desabou.
Em um segundo, corria alegremente para o carro, olhando sobre os ombros para saber se era acompanhada.
Não, ele não a seguia pois acabou perdido demais em seus pensamentos sobre ela. Perdido o suficiente para não escutar o outro carro se aproximar em alta velocidade.
havia descido do veículo em plena curva e ele só se deu conta do ponto cego quando já era tarde demais.
A única coisa que ele conseguiu fazer foi arregalar os olhos, isso apenas porque o gesto foi totalmente automático e impensado.
Quando o carro a atingiu, ele gritou. não teve tempo nem para isso, chocada demais enquanto o via ir em sua direção. Mas , longe demais para fazer alguma coisa, gritou antes mesmo de pensar sobre o que fazia. Ele já não pensava em mais nada. A chuva se tornou irrelevante, o ambiente ao seu redor deixou de existir. Foram poucas, na verdade, as coisas que ele foi capaz de assimilar. Primeiro veio o som. O carro freando bruscamente, mesmo já estado próximo demais. Depois, a batida, o barulho do seu corpo chocando-se com a lataria do veículo e, logo depois, com o chão, após voar alguns metros.
De início ficou imóvel, preso no lugar. Era como se o tempo tivesse congelado e ele se viu incapaz mover um músculo sequer, ou de respirar. Sentiu a temperatura de seu próprio corpo cair gradativamente conforme o medo se alastrava por ele, vendo a mulher inerte no chão, ao longe.
O motorista do outro carro, o que a atropelá-la, abriu a janela e arregalou os olhos quando a viu ali, em frente ao carro, mas não conseguiu notá-lo ali. não via mais nada e só foi capaz de voltar a si quando o homem no outro carro voltou a acelerar para dar ré, fazendo a volta para fugir dali após ver o que tinha acontecido. Toda a cena pareceu levar uma eternidade para acontecer, entre a batida e a fuga, mas não levou mais de um único minuto.
Sua vida destruída em um minuto.
Sem esperar que o carro terminasse de se afastar, só então, correu até ela. Seu coração parecia prestes a sair pela boca e imediatamente tudo voltou, como se ele tivesse acordado repentinamente. A chuva estava de volta, o frio. O ar saia condensado de sua boca e lágrimas de desespero já escorriam por sua face.
- , , ... – ele falou, aflito, ao chegar até ela. Havia sangue por toda parte, escorrendo pela pista junto com a chuva que o lavava quase imediatamente. Ela estava inconsciente e o pequeno corte em sua testa de pouco mais cedo parecia totalmente irrelevante perto de seu estado atual.
Tinha sangue em seus cabelos, vários cortes em seu rosto, pequenos resíduos de vidro presos em sua pele, mas não era nada disso que o assustava e sim a poça vermelha que ele via se formar embaixo de sua cabeça. A poça que nem mesmo toda aquela chuva estava dando conta de limpar.
Tremendo, embora o frio fosse o último motivo, ele se abaixou ao seu lado. Tentou tocar seu rosto, mas sua mão vacilou. Ele não sabia o que fazer. Estava assustado demais, desesperado demais.
- ... – viu os lábios dela formarem seu apelido, mas não foi capaz de ouvir seu sussurro fraco. Sentindo uma pontinha mínima de esperança, ele soltou o ar pela boca e ignorando todo o sangue, a tomou em seus braços de forma cuidadosa, erguendo seu corpo apenas o suficiente para acomodá-la em seu peito.
- N... não fala nada. – ele pediu, sua voz vacilando em meio ao nervoso, transformando-se em um simples gaguejar. - Eu vou te levar para o hospital.
- ... – ela repetiu e, dessa vez, ele ouviu. Apenas porque estavam próximos demais para que ele não escutasse, mesmo sua voz tão fraca. – Não. – pediu e ele lhe encarou espantado.
- O que... o que está pedindo? – quis saber, mesmo que no fundo já soubesse. Já tivesse entendido. Sempre foram assim, afinal. Entendiam-se sem que palavras fossem necessárias e por isso ele sabia.
Odiou saber.
era médica, afinal e a dor que aquilo causou em seu coração foi maior do que tudo.
Ela entendia a própria situação mais do que ninguém e por isso não queria ser levada ao médico.
- Não vai dar tempo. – ela voltou a dizer, sua voz tão baixa que ele podia apenas imaginar o esforço que fazia para dizer aquilo.
tossiu e seu rosto se contorceu de dor quando mais sangue escorreu por sua boca, o fazendo gemer em conjunto, em total desespero. Um resmungo completamente apavorado enquanto a chuva se misturava com as lágrimas, impedindo-o de enxergá-la direito ao embaçarem sua visão.
- ... – ele a chamou novamente, ignorando o que a mulher havia dito. Não podia simplesmente aceitar aquilo assim. – E... eu vou... – se interrompeu. Não tinha ideia do que deveria fazer. Estava assustado demais para conseguir pensar com clareza. Pensar, na verdade, era a última coisa que ele fazia e apenas deixou que as lágrimas caíssem com mais intensidade.
- , só... – ela mordeu o lábio inferior ao vacilar em suas palavras, seus dentes avermelhados, sujos de sangue. – Me escuta. – pediu delicadamente, piscando os olhos que o encaravam por tempo demais antes de voltar a abri-los.
- Não. – ele negou com a cabeça, tentando recuperar o fôlego para pensar em algo. – E... eu preciso... A gente...
- ... – repetiu, segurando em sua roupa ensopada pelo mal tempo. – Eu te amo. – sussurrou, a voz embargada pela dor da despedida e baixa pela condição na qual ela se encontrava.
- Não. – negou novamente, inclinando-se sobre ela na mais profunda agonia. Ela estava dando adeus. Ela não suportaria dar adeus. - , não.
- Nunca se esqueça disso, por favor. – ela continuou, como se ele não tivesse dito nada e só teve certeza de que ela também chorava, quando a ouviu fungar. Estava tentado se manter firme por ele, mas tinha medo de morrer. Tanto quanto ele tinha de perdê-la, mas não estava são o suficiente para se dar conta de que deveria ser o contrário. Que era ele quem deveria consolá-la naquele momento.
- , não... – sussurrou, segurando-se ela. - Não, não, por favor. Fica comigo, por favor...
- Eu te amo, . – ela voltou a repetir e ele pode sentir o sorriso em sua voz mesmo sem vê-lo devido a cabeça baixa, tentando em vão controlar as lágrimas que escorriam. - Eu fui a mulher mais feliz do mundo ao seu lado. – prosseguiu, tocando seu rosto. Ele ergueu novamente a cabeça, mas uma nova onda de tosse fez com que ela se encolhesse, segurando o próprio peito. Ela escondeu o rosto em sua blusa e sentiu o próprio coração vacilar.
- ! – exclamou aterrorizado, olhando para os lados como se pudesse encontrar alguém para pedir ajuda mesmo que estivessem no meio do nada, parados sozinhos naquele lugar. Sentiu apenas mais pânico ao notar isso enquanto ela estremecia em seus braços. – , por favor... – ele implorou, rezando para que aquele pedido fosse o suficiente. - Você não vai morrer, por favor...
- ... – ela voltou a chamar em meio a um suspiro. Finalmente havia parado de tossir e precisou de toda sua força para afastá-lo o suficiente para voltar a encará-lo. - Desculpa por não demonstrar isso sempre... – ela continuou e ele levou vários segundos para entender que estava completando a fala anterior, fazendo-o negar com a cabeça. – Desculpe por não dizer todos os dias o quanto eu te amo... O quanto me fez feliz.
- Por Deus, para de falar. – pediu, não suportando aquelas palavras de despedida.
Outro trovão soou entre eles, mas isso não a impediu de prosseguir. Ainda não tinha terminado.
- Eu amei cada segundo que eu passei ao seu lado, . E tudo que eu peço...
- Você não vai pedir nada. – ele a interrompeu com toda a dor que tinha dentro de si. - Isso não é...
- Desculpa por ter arrumado briga a toa. – ela insistiu enquanto ainda conseguia falar, o ignorando mais uma vez mesmo que olhasse no fundo de seus olhos a cada nova palavra proferida. – E por ter perdido tanto tempo irritada por besteira... – segurou novamente o peito, fazendo careta ao suspirar. - Desculpa por não ter dito todos os dias o quão especial você é... – gemeu, estava ficando mais difícil e ele soube que sua hora estava chegando. Quis pedir novamente para que se calasse, mas não teve forças para isso. - Desculpa não ter te amado tanto quanto você merece.
- V... você... amou. – respondeu, mas só teve certeza de que ela ouviu em meio ao choro quando respondeu:
- Não. Eu não... – vacilou, pendendo-se em suas palavras. - Seja feliz. – sussurrou, como se aquilo exigisse dela um esforço sobre humano. - Encontre outra pessoa e seja feliz. É só isso... É só isso que eu quero...
- Por favor, você não pode... ... - mas antes que ele terminasse, seus olhos se fecharam e ele gritou, apavorado com a possibilidade tão real de perdê-la para sempre. – ! – ele insistiu, chamando-a enquanto as lágrimas caiam sem controle, misturando com as gotas pesadas da chuva forte que ainda caia sobre ambos, bloqueando-a dele. a abraçou, escondendo o rosto em seu pescoço enquanto chorava sobre o corpo frio da jovem. Sem vida. - Não, não, não! – exclamou, afastando-se o suficiente para olhar em seu rosto, não aceitando aquela realidade. – ! – voltou a gritar, mas até mesmo o eco de seu nome fica travado na chuva. De repente, ela parecia ainda pior, a água caia com força quase bruta, como se o céu estivesse derramando lágrimas através das nuvens e se perguntou se não foi assim que a chuva começou afinal. Estava tão focado na discussão sem sentido que não lembrava quando havia começado, sabia apenas que o tempo estava ótimo até chegarem naquela estrada específica.
Havia sido predestinado? Ela estava marcada para morrer ali? Naquele dia? A chuva era uma consequência? Um aviso?
tremia drasticamente em uma mistura terrível de frio e desespero. De nervoso, pânico. O pensamento, sobre ter chegado a sua hora, não ajudou. Tinham acabado de ficar noivos, iam começar uma vida. Como aquilo podia ser justo? Como ela podia morrer justo do dia que deveria ser um dos mais felizes de sua vida?
– Por favor, ... – repetiu, e dessa vez tomou coragem para conferir sua pulsação. Sentia, no fundo do coração, que a tinha perdido. De alguma forma ele sabia, mesmo que não pudesse explicar como e agarrou-se a última esperança que poderia ter.
Levou uma das mãos trêmulas até o local correto. Fora, inclusive, ela que o ensinou a encontrar, mas mesmo certo de estar fazendo exatamente como instruído por ela, não sentiu a pulsação e voltou a gritar, em plenos pulmões com ela em seus braços.
Havia perdido a mulher que mais amava, a que amou desde o início e sabia, tanto quanto ela, isso nunca iria mudar. fechou os olhos, negando com a cabeça como se pudesse, de alguma forma, mudar o que havia acontecido. Fingindo que nada estava errado, mas ele sabia. No fundo, sabia.
Não tinha mais volta.
Ela havia partido.
Outro trovão soou, alto o suficiente para trazer consigo aquela sensação de que até mesmo o chão vacilara sobre a fúria dos céus. Dessa vez, no entanto, ele não se importou e tampouco se assustou. Estava tudo bem se a chuva quisesse devorá-lo. Seu coração não iria se molhar, não mais do que já se molhava com as lágrimas que ele próprio derramava.
vagaria por ai, procurando por ela enquanto culpava a chuva por tê-la deixado ir, mesmo que, na verdade, soubesse que era muito mais provável se agarrar a ela, até mesmo a última gota, como se dessa forma pudesse manter viva a sensação do último beijo que trocaram ali.
Aquele amor, o que sentiram um pelo outro, nunca iria acabar, mesmo quando ele fechasse os olhos, permanentemente como ela.
Ele só precisaria ter forças para seguir, para permitir que não acabasse ali, junto com a dor de saber que não a veria novamente, que não teria mais seu sorriso, sua companhia, o seu coração. não queria seguir. Por ele, se deixava levar pela chuva assim como ela, mas sabia que tinha uma promessa a cumprir. Uma com a qual nunca havia concordado, uma que seria a sua maldição pelo resto da vida, mas que como seu último pedido, teria que cumprir.
O de seguir, mesmo sem ela.
O de seguir sabendo que nunca mais teria a pessoa que mais amou.


Fim.



Nota da autora: Mais uma da sofrencia! Só pra não variar em nada! Hahaha
Normalmente eu escrevo fics assim empolgada igual a uma criança, mas essa eu confesso que me deixou na bad também. Não me odeiam muito. XD
Enfim, de qualquer forma, espero que tenham gostado! Hahaha Essa foi para o comeback do Suju <3





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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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