Finalizada em: 02/04/2018

Capítulo Único

fechou os olhos, respirando fundo enquanto encostava a cabeça em seus ombros. Sobre seu colo, ambas as mãos já estavam entrelaçadas e enquanto os pais dela lamentavam logo a frente dos dois, como se não estivessem sentados logo adiante no sofá, ele beijou sua testa, tentando lhe passar a certeza de que tudo daria certo mesmo que não tivesse certeza nenhuma disso. Ele sabia que, na cabeça dela, o pior já havia passado. Tinham contato para seus pais, mas a verdade era que os pais dele eram muito piores.
Eram donos de uma multinacional líder em seu ramo de tecnologia. Praticamente a única no segmento e devido a isso estavam acostumados a ter todas as pessoas se curvando as suas vontades. Contrariá-los era um problema. Ter opinião diferente, também. Eram arrogantes e controladores. Tinham a vida dele inteira programada sem que tivesse opinado em qualquer momento.
E ele tinha acabado de por tudo a perder.
sabia que estava perdido e totalmente encrencado, mas no momento estava mais preocupado com o que diriam para a garota ao seu lado e até mesmo para a família dela. Não que estes também tivessem sido muito receptivos a ele.
A verdade era que e eram um casal improvável, vindo de costumes totalmente diferentes. Os pais dele esperavam que ele fosse grande, tivesse um futuro brilhante. Os pais dela esperavam que se casasse aos dezoito com um bom rapaz na mesma igreja que frequentavam. E já tinham até um pretendente. Ele se vestia sempre com camisas sociais bem passadas, jeans impecáveis e mantinha um cabelo muito bem arrumado.
, por outro lado, nunca havia escutado a palavra de Deus. Ele preferia jeans rasgados mesmo que seus pais odiassem e camisas duas vezes maiores que ele. As jaquetas também, ou moletons. Seu cabelo não era dos piores até decidir descolorir e agora preferia usar toucas do que arrumá-los. Ele sentia o desgosto dos pais dela sempre que olhavam para ele, com se perguntassem que pecado haviam cometido para ter que aguentar aquilo, mas ele não fazia o tipo que se importava com os julgamentos, diferente de .
E sabia que seus pais a olhariam da mesma forma quando chegassem. Não queriam que ele se envolvesse com ninguém antes de terminar a faculdade, mas se quisessem, a última pessoa que esperariam era , definitivamente. Não aceitariam ninguém de uma classe social que não fosse a mesma que a deles e estava tão longe dela que já podia até mesmo imaginar a expressão de desgosto.
A campainha tocou e ergueu a cabeça novamente, olhando junto com para a porta. Sua mãe já se dirigia até lá para atender e tentou não demonstrar o quão desconfortável ficou com a chegada dos próprios pais.
Conhecer os pais da namorada era o terror de qualquer garoto na sua idade, mas no momento ele estava muito mais preocupado com os seus próprios. Não com o que pensariam de ou de sua família. Ele não ligava muito. Ele tinha receio do que falariam e de como agiriam só por ela ser diferente dos padrões com os quais eles estavam acostumados.
A mãe de abriu a porta e sem esperar convite, a dele entrou na casa, se esquivando da outra mulher como se ela tivesse pulga ou algo do tipo.
Ia ser bem pior do que ele tinha imaginado. Ele decidiu ali.
- Por favor, me desculpe por eles. – ele sussurrou baixinho para antes de se levantar, mas ela fez o mesmo, não deixando que ele a soltasse, muito pelo contrário. levou a mão livre até as suas mãos juntas e a apertou com mais firmeza, demonstrando apoio.
- . – sua mãe falou de forma enérgica enquanto seu pai parava ao lado dela, ambos pondo de lado qualquer conduta de boas maneiras ao ignorar totalmente os donos da casa para repreendê-lo. Ah, e sabia que estavam putos. Putos demais. Só assim para que os dois largassem o trabalho e viessem atrás dele. Podia até mesmo imaginar a discussão depois da ligação dos pais de . Sua mãe teria jogado a responsabilidade do que tinha acontecido ao pai, que teria jogado de volta para ela. No final, nenhum deles deu o braço a torcer, fazendo com que ambos fossem obrigados a vir. Isso, ter que largar tudo, os deixava mais putos do que qualquer outra coisa. – Me diz que essa história é mentira para podermos ir logo embora daqui.
se perguntou se parecia mesmo mentira ele estando de mãos dadas com a garota, mas pra o caso da mãe não estar vendo, ergueu suas mãos juntas. Ela era inteligente o suficiente para entender aquilo como um “sim, é verdade” e ela entendeu. Sua mãe deu as costas, negando uma vez com a cabeça antes de se voltar novamente para ele. Os olhos cheios de raiva.
- É pra isso que te colocamos na melhor escola da cidade?! – esbravejou, aumentando consideravelmente o tom de voz. - Pra ser tão burro?! – perguntou, bufando ao dar as costas novamente para ele, desacreditada.
Ela podia estar falando sobre o fato da sua namorada de dezesseis anos estar grávida dele, que tinha a mesma idade, mas sabia que não era exatamente isso, por esse motivo nem falou nada ou tentou argumentar, apenas esperou que ela continuasse e a briga que se seguiria, começasse.
– Não é porque elas dizem estar grávidas, que realmente estão! – sua mãe exclamou e ele suspirou. Aquilo sim era o tipo de coisa que esperava da mulher.
- O que você quer dizer com isso?! – a mãe de interveio de imediato, visivelmente alterada com o insulto, mas falou mais alto que ela para ser ouvido antes que tudo ficasse ainda pior do que estava.
- Ela está, mãe. – respondeu, e a atenção de ambas as mulheres se voltaram para ele. – Não foi realmente a coisa mais inteligente que fizemos na vida, concordamos com isso, mas aconteceu. Se quiser gritar por isso, tudo bem, eu mereço, mas sem acusações, por favor. Você deve saber que precisa de duas pessoas pra conceber um bebê.
- Ah, seu moleque... – ela avançou para estapeá-lo no mesmo instante, o que ele deveria imaginar. Ser debochado era uma característica de que não agradava a maioria das pessoas e sua mãe, bom, ela odiava um pouco mais que todo mundo. Especialmente quando era com ela e ele nem podia julgá-la. Era sua mãe apesar dos pesares. Ele até tentava se controlar as vezes, mas em momentos como aquele, era difícil. Especialmente quando ela estava sendo preconceituosa, ainda mais com .
Seu pai, no entanto, colocou-se entre eles, segurando o ombro da mulher para mantê-la onde estava antes que o agredisse ali mesmo.
- , o que sua mãe está dizendo é que as pessoas costumam se aproveitar de gente como nós. – se justificou e não escondeu o revirar de olhos. Seu pai tinha o costume de manter o tom calmo e diplomático, mas era tão ruim quando sua mãe. - E mesmo que ela esteja grávida...
- Já chega! – o pai de interrompeu em um sobressalto que fez a garota pular ao seu lado, mas quase o agradeceu simplesmente porque isso interrompeu a fala de seu pai. Qualquer coisa que interrompesse aquela conversa, era bem vinda no momento. – Vocês não vão entrar na minha casa e ofender a minha família! – exclamou o homem, fazendo com que os pais do garoto se voltassem para ele.
- É a verdade! – sua mãe retrucou mais alto do que ele, como sempre sendo a dona de toda a razão. – É o que acontece a pessoas como nós e vocês se aproveitaram da ingenuidade do menino!
- Ingenuidade?! – a mãe da garota foi quem tomou a palavra, atingindo o mesmo tom autoritário. – Ele fez um filho na nossa menina! – gritou. - Ela tinha um voto de castidade com o senhor!
A situação era caótica, mas surpreso, não pode controlar sua expressão ao se voltar para a garota ao seu lado, uma das sobrancelhas erguidas como se perguntasse “desde quando?”. Seus pais continuavam berrando uns com os outros, mas ao invés disso ele ficou vendo a garota corar, desviando o olhar para o chão.
- Não conta se você for obrigada a fazer. – sussurrou a resposta que ninguém além dele notou. Não enquanto brigavam um com o outro.
Mas o sobressalto de sua mãe, foi o responsável por fazê-los voltar a atenção para a conversa:
- Então a faça tirar esse bebê! – exclamou, e nenhum deles soube dizer o que tinham perdido da conversa para chegar àquele ponto, ainda mais quando se distraíram por meio minuto.
- O quê?! - perguntou a sua mãe, chocado, mas quando ela se virou para ele para respondê-lo, a mãe da garota se pronunciou, perplexa:
- Está sugerindo um aborto?! – se exaltou. Não que já não estivesse exaltada antes, mas a situação se tornou um pouco pior depois daquela fala e suspirou. – Como pode entrar na minha casa e sugerir um aborto? Você tem noção de como isso é visto pelos olhos de Deus?!
- Eu não ligo para os olhos de Deus! – a mãe do garoto gritou, tentando falar mais alto do que a outra mulher que também gritava. - Eu ligo para o meu filho sendo pai aos dezesseis anos! – continuou, sem abaixar a voz. - Eu me recuso a compactuar com isso!
- Mas o filho é dele, você gostando ou não! – a mãe de respondeu no mesmo tom, tão determinada a ceder quanto a outra. Não que soubesse exatamente o ponto no qual queriam chegar, aquilo ficou confuso para ele em algum momento. - Foi ele que fez, e não reclamou de estar fazendo!
- Ele não sabia o que estava fazendo! – sua mãe devolveu, já impaciente também.
- Sabia sim! Sabia e deixou acontecer! – a outra mulher respondeu, avançando dois passos e ficou em alerta, como se elas pudessem sair nos tapas a qualquer instante. - Podia pelo menos ter evitado e não evitou! Ele tem culpa disso e não venha santificar o garoto!
- Quem está santificando alguém aqui são vocês! – sua mãe respondeu. - Se aproveitaram da situação e agora estão santificando a ela! Voto de castidade?! Me poupe!
- Mãe, por favor... - suspirou. A gritaria não ia chegar a lugar nenhum. Aliás, elas nem estavam tentando. Apenas acusavam uma a outra, mas sua fala, sua tentativa de amenizar as coisas, foi totalmente ignorada pelos gritos que se seguiram.
- Sim, ela escolheu fazer um voto, de se doar somente a Deus! – a mãe de a defendeu como se nunca tivesse dito nada. - Então esse moleque apareceu e fez a cabeça dela!
- Esse moleque?! – sua mãe vociferou, como se somente ela o pudesse chamar dessa forma. Ela avançou da direção da outra mulher e imediatamente arregalou os olhos, soltando finalmente a mão de para se colocar entre elas.
- Mãe! – ele repreendeu a mulher, que o segurou pelo ombro em uma tentativa de afastá-lo. se manteve firme, tirando as mãos dela de seus ombros. – Olha o que você está querendo fazer! – reclamou.
- Você está ouvindo o que estão dizendo?! – ela perguntou, irritada e incrédula.
- Eu estou dizendo que esse moleque abusou da inocência da minha filha! – a mãe de provocou e a garota colocou uma das mãos no rosto como se não acreditasse no que estava ouvindo.
- O quê?! – a mãe de devolveu. - Foi ele que...
- Já chega! Todo mundo! – gritou, finalmente perdendo a paciência e, dessa vez, até mesmo se voltou surpreso para ela. não era nem de longe uma pessoa calma, mas raríssimas vezes expressava isso. Ela vazia mais o tipo que remoia o ódio ou desabafava xingando as pessoas para ele. Gritar, definitivamente, não fazia o seu tipo e por isso ele ficou tão surpreso. Era como se tivesse atingido o limite. – Mãe, eu não fiz um voto de castidade porque eu simplesmente acordei e “nossa, que dia lindo pra fazer um voto”! Fui obrigada! Então não conta. Nunca foi minha vontade.
- Está vendo! – a mãe de exclamou, mas antes que ele tivesse tempo de repreendê-la mais uma vez, se voltou para ela.
- Eu ainda não terminei! – falou e o garoto não pôde conter o sorriso que surgiu em seus lábios com a atitude. Não que ele tivesse tentado esconder a admiração, mas não era exatamente o melhor momento para desafiar sua mãe. – Eu também não fiz nada sozinha, estávamos muito bem cientes do que estávamos fazendo! Talvez não tanto quanto gostaríamos ou isso não estaria acontecendo, mas ninguém foi induzido a nada. Foi uma escolha que fizemos juntos! A culpa não é só minha, a culpa não é só do , mas eu quero esse bebê tanto quanto vocês então parem de gritar! – ela própria gritou, mas com sua última fala, foi a vez de de ficar chocado.
- O quê?! – ele interferiu e desviou o olhar de sua mãe para ele sem entender o motivo. - Você realmente quer tirar o bebê? - perguntou, tão surpreso quanto chocado.
- E... Eu não... Eu não quero tirar o bebê. Não precisa ser assim. – ela disse, mas tinha algo mais e soube disso só em olhar para ela. - Só que... , não temos condições nenhuma de cuidar de um bebê com a nossa idade.
- Entregamos para adoção quando nascer. – o pai da garota respondeu, rapidamente, criando uma solução para o problema que ele, definitivamente, detestou. – Muitas famílias desejam um filho e não podem ter. Vão cuidar muito bem dele. – a garota concordou com o homem e não pôde deixar de notar o alívio dela com isso.
Ele não gostou do alívio dela com isso. Só não detestou porque o tom calmo do pai dela ao sugerir isso o irritou muito mais.
- é uma criança! – ele exclamou, chocado. - Você vai só dar ela assim? Para um estranho?!
- Um estranho que vai cuidar dela muito melhor do que a gente, . – ela respondeu e odiou o tom de voz diplomático em sua voz. A conhecia bem o suficiente para saber que estava surtando por dentro com tudo aquilo, mas mesmo assim tentou usar com ele aquele tom que usava quando queria convencer as pessoas de que estava certa. – Colocar o bebê para adoção é muito melhor do que aborto. – gesticulou na direção dos seus pais e o garoto negou com a cabeça.
- Eles não tem nada a ver com isso! – exclamou, para que ela voltasse a se focar nele ao invés de pedir ajuda para as pessoas ao redor. - É o nosso bebê!
- , nós temos dezesseis anos! – ela se exaltou também. - Nós não temos um emprego e mal terminamos a escola. Isso os envolve sim porque se ficarmos com esse bebê, vai sobrar para eles! São eles que vão sustentar a criança, isso se não tivermos que largar a escola para cuidar dele ou trabalhar!
- Não teríamos que largar a escola. – ele respondeu.
A verdade era que tinham chegado em um ponto chave quanto as diferenças entre os dois. Os pais de não teriam dificuldade de cuidar da criança mesmo que ele permanecesse na escola. Poderiam dar sempre do bom e do melhor para o bebê e ainda contratar mais de um turno de babás só para o garoto. Era quem teria que se sacrificar se ficasse com a criança. Era uma boca a mais para alimentar. Uma que precisaria de atenção vinte e quatro horas e eles não tinham condições de contratar ninguém para isso.
Mas não chegou a essa mesma conclusão. Apenas ela o fez porque conhecia sua própria realidade muito bem. Não cresceu em berço de ouro.
- Você não, mas você acha que eu vou poder levar uma cestinha com o bebê para lá? – ela retrucou exasperada. - É fácil você querer a criança, não é o seu corpo e nem a sua vida!
- É a minha vida sim! – ele a interrompeu. - Você espera que eu só te largue com um bebê no colo?
- Não, ! Mas quem vai passar pela gestação sou eu. Quem vai ter que amamentar e cuidar do bebê vinte e quatro horas também! Sou eu que vou ter que lagar a escola quando estiver perto do parto e ficar em casa cuidando dele logo depois de nascer. Sou eu que vou ficar gorda e ter que passar por enjôo matinal e qualquer outro sintoma da gravidez! Eu não quero esse bebê, . E essa decisão não é sua porque é no meu corpo que ela está crescendo! – agora ela estava verdadeiramente irritada e se calou ao notar que, pela primeira vez, estavam brigando. Também foi obrigado a concordar, com tristeza no coração, que ela estava certa. O máximo que ele podia fazer era acompanhar a gravidez de perto porque quem passaria por tudo, que sentiria literalmente na pele, era ela.
- Não precisa ser assim, . – tentou dizer, porque apesar de tudo ainda não queria que ela desse o bebê. Queria que pudessem pensar juntos em uma solução para ficar com ele, mas ela não estava aberta a conversa.
- É assim que as coisas são. – respondeu apenas e ele suspirou.
- A gente pode pelo menos conversar direito antes te tomar uma decisão? – tentou, mas ela negou com a cabeça inabalável, o que o irritou um pouco mais do que gostaria.
- Estamos conversando. – ela respondeu apenas e ele negou com a cabeça inconformado.
- Não, você está decretando. – falou com deboche. Normalmente ela ria do seu tom debochado, mas dessa vez sua reação foi muito mais parecida com a de sua mãe para ele.
- Sim, porque o corpo é meu e eu tenho a última palavra. – não mediu palavras para responder. - Não quero o bebê e ponto. – decretou de verdade agora e ele jogou os braços para o alto desacreditado.
- Você nem está tentando ver o outro lado, !
- Que outro lado, ?! – ela voltou a gritar. - Vai me dizer o quê?! Um bebê é a maior benção na vida de um casal? Por que mal somos um!
- Mal somos um casal?! – ele respondeu, ofendido, e ela bufou.
- Você entendeu o que eu quis dizer, !
- Que não somos um casal?!
- Que somos novos demais para ser qualquer coisa além de namorados! – se justificou, impaciente. - Que... Caramba, você é meu primeiro namorado! Filho é a alegria de um casal adulto e no mínimo com vida estável. Nós nem terminamos a escola!
Sem dizer mais nada, ele negou com a cabeça, desacreditado com todas as palavras da garota. sempre teve a cabeça no lugar e admirava sua maturidade. Enquanto as meninas da idade deles se sentavam em bandos para falar de garotos ou rir quando passavam, ela simplesmente procurava um canto para sentar e ler um livro em silêncio. Tinha uma visão muito mais ampla do mundo do que ele e gostava de ouvi-la falar sobre qualquer coisa. Menos naquele momento, porque ele não concordava. Podia não ser o momento certo, mas era filho deles. Ele não podia acreditar que ela sequer consideraria isso antes de tomar uma decisão. Era a mais racional, ele sabia, mas não conseguia entender a facilidade que ela tinha para simplesmente deixar o emocional de lado, se esquecer de que era uma outra vida que eles tinham criado.
- Podemos aceitar a ideia de por o bebê para adoção. – a mãe dele disse e ciente de que já havia perdido aquela batalha, se obrigou a ficar quieto, mesmo querendo gritar com todos ali. – Mas preferimos que ninguém saiba sobre isso.
revirou os olhos, mas se voltou para eles.
- E o que você sugere? – perguntou com certo deboche, fruto da irritação que a conversa com havia gerado. – Eu não vou ficar trancada em casa por nove meses só porque você não quer que ninguém saiba.
- É justo. – a mulher respondeu. – Sugiro uma clínica, com tudo pago. A que escolher. Depois do nascimento, colocamos o bebê para adoção e você volta para a escola como se nada tivesse acontecido.
- Ótimo. – a garota concordou e , perplexo, simplesmente deu as costas. Não adiantava ficar lá se tomariam todas as decisões sozinhos então preferia ir embora a passar mais nervoso.
- , aonde vai? – sua mãe perguntou, mas ele não parou ou olhou para trás, muito menos respondeu. Sua decisão não era importante de qualquer forma, então tudo que fez foi abrir a porta e se por para fora, fazendo questão de batê-la atrás de si.

+++


pulou para dentro da sacada no quarto de e suspirou enquanto olhava para a porta. Ele fazia muito isso, escalar a sacada do quarto dela no meio da noite para ficar com ela. deixava a porta sempre destrancada por isso, esperando por ele, mas visto que ignorava suas ligações imaginou também que dessa vez ela tivesse trancado tudo para mantê-lo longe.
Ele ainda não concordava com a decisão dela de por o bebê para adoção, mas depois de algumas horas sozinho podia ao menos entender a escolha. tinha planos para o futuro, e todos eles seriam impossíveis se tivesse um filho agora. Queria ficar com o bebê, mas não tinham nem mesmo idade o suficiente para serem considerados adultos pela sociedade. Não tinham idade para abrir uma conta em banco, morar sozinhos e ainda não tinha nem tirado a carteira de motorista. Não podiam ser pais, mesmo que ele quisesse e o garoto queria dizer isso a ela, mas não atendia.
E ele sabia o que tinha feito, tinha provado que ela estava certa quando disse que ser mãe exigia dela em tempo integral enquanto ele podia simplesmente virar as costas para suas responsabilidades. Ele fez exatamente isso quando saiu pela porta e a largou para trás com seus pais. podia saber o que queria, mas estava assustada com a coisa toda de estar grávida. E intimidada por todos os pais ali. Não podia ter ido embora mesmo que sua opinião não estivesse em pauta porque havia contribuído para a criação do problema. Porque ela precisava de apoio, mesmo que fosse apenas alguém para segurar sua mão.
Ele não foi essa pessoa, e estava arrependido por isso.
seguiu até a porta, finalmente pronto para abri-la, mas a encontrou fechada exatamente como esperava. Considerou ligar e pedir que abrisse, mas ciente de que não adiantaria, bateu fraco na porta, tentando chamar sua atenção sem acordar todos os vizinhos ou seus pais.
- ? – chamou em um sussurro. – Sou eu. Abre a porta, por favor. – pediu, mas mesmo após esperar por alguns minutos, ela não apareceu. Ele repetiu o gesto. – , por favor.
- Vai embora, . – ouviu baixo e suspirou.
- , me desculpa, por favor. – pediu, encostando a cabeça no vidro. - Você estava certa e eu errado.
- Eu sempre estou certa. – respondeu apenas e ele foi obrigado a concordar.
- Eu sei disso, mas fui estúpido assim mesmo. Fui estúpido por ir contra você e mais ainda por ir embora e te deixar sozinha com eles. Me desculpa, por favor. – implorou, mas não obteve qualquer retorno. Estava prestes a se sentar ali, de costas para a porta simplesmente porque se recusava a sair quando ela finalmente abriu a porta, quase o derrubando para trás por isso.
O mais rápido que pôde, se endireitou, ficando de frente para a garota parada ali.
- Me desculpa, . – ele pediu novamente, cuidadosamente se aproximando um passo.
- Você foi um idiota. – disse séria, e ele concordou.
- Eu sei. Agora eu sei. – ele respondeu. – Eu estava tão preocupado com essa coisa de falar com nossos pais que não pensei direito sobre ser pai. Eu... é nosso filho, . É cedo, definitivamente a hora errada, mas eu não queria, de verdade, fugir disso. Só que... Eu não parei para pensar tudo o que ser pai envolve. Sei que poderíamos amá-lo, aprender a cuidar dele, dar atenção, mas ter um filho vai muito além disso. – falou, enquanto ela apenas ouvia com atenção. – Não sei como você conseguiu pensar em tudo em meio ao que acontecia, mas eu entendo sua decisão. Queria que não precisasse ser assim, que tivéssemos condições de cuidar dele por nós mesmos, mas nós não temos.
- Não. – ela concordou, negando com a cabeça. – Eu quero ser mãe um dia, , mas não é hoje. Não pode ser hoje. - sussurrou, levando as duas mãos até a barriga e descendo o olhar até a região em seguida. – Ficaria feliz de fazer isso com você quando esse dia chegar, se ainda estivermos juntos até lá, mas enquanto não chega o melhor que podemos fazer é dar o bebê para adoção, para alguma família que quer muito isso, mas não pode ter. Alguém que o ame como amaríamos se fosse a hora certa.
notou que mesmo sabendo da gravidez há pouquíssimo tempo, a garota tinha alguma afeição pelo bebê e estava tão sentida quando ele por ter que fazer aquilo. Decidindo que ela precisava de um abraço, limitou a distância entre eles e passou um dos braços por seus ombros para puxá-la para si, fazendo com que ela escondesse o rosto na curva de seu pescoço. Sentiu um arrepio percorrer por seu corpo quando ela respirou ali e fechou os olhos quando os braços dela o envolveram também.
- Me desculpa por ter te deixado sozinha hoje com isso tudo. Por favor, me desculpa. – implorou, segurando seu corpo com mais firmeza contra o dele.
- Nós dois estávamos com medo.
- Mas você não tem como fugir. – respondeu e ela acabou rindo, mesmo que não tivesse soado totalmente alegre como ele estava acostumado a ouvir.
- É mais ou menos esse o ponto, não é? – ela perguntou e mesmo sem olhar para ela, pôde sentir um sorriso melancólico em sua voz.
- Percebi isso assim que fui embora. Desculpa. – pediu sinceramente.
- Saber que se arrepende é o suficiente. – ela respondeu, mas o beliscou em seguida, o fazendo se esquivar mesmo sem soltá-la.
- Ai! – exclamou, afastando-se o suficiente para olhar para ela com um bico insatisfeito no rosto.
- É o suficiente desde que não seja estúpido novamente, . – ela o repreendeu e ele mudou a expressão ao segurar o rosto dela entre as mãos.
- Eu vou ser sempre o estúpido da relação. – brincou, mas voltou a falar sério no instante seguinte. – Mas não assim, . Eu prometo. – falou ele. - Vou ficar do seu lado agora.
A garota sorriu para ele e beijou a ponta de seu nariz, a fazendo abaixar a cabeça envergonhada de forma que não pôde deixar de achar adorável, recebendo um tapa quando riu disso.
- Besta. – o acusou por deixá-la sem jeito e ele sorriu.
- Linda. – respondeu e a viu corar novamente antes de se afastar, segurando-o pela mão para puxá-lo para dentro do quarto junto com ela.
- Vem, passa a noite comigo. – pediu, e aquilo nem era uma novidade. Era praticamente rotina de fugir para a casa dela no meio da noite e nunca foram pegos por isso. Seus pais eram do tipo ausentes demais para darem sua falta, seu irmão mais velho, o acobertava em troca de favores e antes que os pais dela acordassem, já estava pulando para fora novamente.
Mas deveriam ter imaginado que dessa vez seria diferente, afinal, agora não era mais uma novidade que eram um casal.

+++


- . – o garoto despertou ao ouvir meu nome e confuso pela sonolência, levou alguns instantes para se dar conta de que a pessoa que o chamava era ninguém mais ninguém menos que seu próprio pai, mesmo quando ele estava na casa de e não na dele.
Aquilo, que ele estava na casa da namorada, também foi algo que ele demorou para assimilar. sempre fez o tipo lerdo pelas manhãs. Muito lerdo, e sempre achou aquilo de certa forma bonitinho quando tinha a oportunidade de ver, quando acordava ao sentir seu corpo deixar o espaço ao seu lado na cama.
Mas dessa vez não teve nada de bonitinho nisso, ou em todo o resto da situação.
tomou consciência de que estava perdido quando viu a expressão severa no rosto do pai, lhe acusando por, entre outras coisas, o fazer estar ali novamente, perdendo mais do seu precioso tempo.
- Imagina a minha surpresa ao passar no seu quarto, e não te encontrar lá essa manhã. – o homem falou, olhando dele para a garota ao seu lado que puxou o edredom para lhe cobrir as pernas. costumava dormir apenas de camiseta. Era grande o suficiente para se tornar uma camisola, mas ainda deixava grande parte de suas pernas a mostra. Não que o homem tivesse olhado para a região. Ela apenas se sentiu desconfortável pela situação e se condenou por não ter imaginado que dessa vez, confeririam seu quarto.
E os pais dela, ao lado dos dele, deixavam claro que compartilhavam o desgosto.
- Eu não acredito que você deixou um garoto entrar no seu quarto de madrugada. – a mãe dela falou, como se estivesse totalmente decepcionada. – Quantas vezes ele esteve aqui enquanto dormíamos? – perguntou a ela, que apenas mordeu o lábio inferior ao invés de responder. – Quantas, ? Quantas vezes você abriu a janela e o deixou entrar enquanto confiávamos que estava dormindo?
- Mãe, nós não fizemos nada, estávamos apenas dormindo também.
- Dessa vez. – o pai dela respondeu com o mesmo tom e olhou para a garota com pesar, sentindo-a desconfortável com as acusações.
A verdade era que os pais dela, apesar de controladores e fanáticos religiosos, também eram pais amorosos. Faziam de tudo pela filha única apesar de se excederem em certos costumes. Os pais dela, diferente dos dele, eram pais e ela não queria decepcioná-los ainda mais, exatamente como tinha acabado de fazer.
- Desculpe. – ela pediu dessa vez e , decidindo que aquela era sua deixa para ir embora, apertou sua mão uma vez em despedida antes de afastar os cobertores para se levantar, sob os olhares da garota enquanto seu pai negava com a cabeça.
- Tomamos a decisão certa, afinal. – falou o homem antes de dar as costas para deixar o quarto e parou onde estava para encarar o próprio pai, desconfiado com aquela fala.
- Que decisão? – quis saber, afinal, não estava ciente de qualquer uma.
- Não vamos falar sobre isso, . Vamos embora. – o homem respondeu, mas o garoto negou, dando um passo para trás. Agora queria saber do que ele falava. Precisava saber.
- Que decisão? – perguntou, se voltando para a garota como se lhe perguntasse se sabia de algo, mas ela negou com a cabeça também.
- , eu não tenho mais tempo para perder com você, vamos embora. – o homem falou de forma severa, claramente impaciente, mas ele se negou a obedecer. Não tinha medo. Estava mais do que acostumado com aquele to de voz vindo dele. Perdia a paciência muito rápido também.
- Não enquanto não me disser. – respondeu, olhando agora para a mãe da garota ainda no quarto, esperando que deixasse algo escapar.
- Não queremos mais os dois juntos. – ela disse, como se não importasse se ele soubesse desde que fosse embora da sua casa. – Você – ela apontou para . -, não o queremos mais perto da nossa filha. Não queremos que fale com ela, que olhe para ela, que chegue perto ou toque nela.
- Essa é a decisão? - aumentou a voz ao perguntar com deboche e segurou sua mão como se pedisse para de controlar ao menos um pouco. – Nos afastar é a decisão? – abaixou a voz, mas ainda continha certa doce de descaso em seu tom. – Isso não vai acontecer.
- Não fale mais nada. – o pai de disse a mulher, gesticulando então para que viesse de uma vez, mas isso serviu apenas para deixá-lo ainda mais desconfiado do que antes.
Sabia que tinha mais e por isso estreitou os olhos.
- Mais o quê? – ele perguntou e o homem bufou, perdendo a paciência.
- , vamos de uma vez antes que eu o arraste!
- Eu quero saber do que está falando! – o garoto respondeu no mesmo tom. – Se é sobre a minha vida eu tenho o direito de saber!
- Você não tem o direito de nada! – se exaltou o homem. - Não me venha falar dos seus direitos, nem mesmo é um homem ainda! Quando aprender a limpar a própria bagunça, nós conversamos. Enquanto isso você vem para a casa sem reclamar e aceita o que eu e sua mãe estamos impondo porque não tem nem ao menos idade para recusar.
- E que merda estão impondo?! Que a gente se afaste?! Isso não vai...
- Eles vão fazer algo para garantir isso, . – interrompeu a conversa, olhando para o homem. – É isso que ele está dizendo, não é? – ela perguntou e o garoto imediatamente se voltou para o pai.
- É isso que está planejando? Vão fazer o quê? Mandá-la para uma clínica longe daqui por nove meses? Você acha que isso vai resolver?
- , vamos embora!
- Eu não vou enquanto não souber o que está havendo! – exclamou.
- Você tem três segundos para passar antes que eu chame o Bruce lá embaixo para te arrastar, e você sabe que ele pode fazer isso.
O garoto se calou para a ameaça. Bruce era o cachorro de guarda de seu pai. Não no sentido literal, claro, era seu segurança. Praticamente uma muralha. E não gostava de . Não gostava justamente por momentos como aquele, em que era feito de babá e precisava carregar o garoto par fora de algum lugar. E ele era o dobro do tamanho de qualquer pessoa normal, carregar alguém como se fosse uma pena era muito fácil para ele.
- Vai embora, . – falou por ele e o garoto lhe encarou em tempo de vê-la acenar positivamente com a cabeça. – Vamos dar um jeito. – ela disse, segura e de alguma forma teve um mal pressentimento quando aquela fala. Sentiu vontade de beijá-la sem saber de onde viera o impulso. Não era exatamente uma novidade aquilo, a vontade de beijá-la, mas naquele momento, tão repentino, foi. Ele concordou com a cabeça, mesmo sentindo-se incerto sem motivo e suspirou vencido antes de seguir na direção do pai.
A mãe da garota abriu espaço para que passassem e desviou o olhar quando ele lhe encarou. não ligou para aquilo, preferiu repetir em sua mente, ao invés disso, que ninguém conseguira afastá-los mesmo que a mandassem para ter aquele bebê fora do país. Podiam não ter como lidar com aquilo, mas ele podia esperar nove meses por ela. Não chegava nem a ser um ano, mas não foi isso que aconteceu.
sim teria esperado, mas não foi apenas alguns meses, ou um ano. Seu pressentimento estava certo, afinal, pois depois daquele dia, nunca mais se viram.


10 ANOS DEPOIS

jogou a bituca de cigarro no chão e pisou em cima dela ao descer de seu esportivo de luxo. Era um conversível vermelho, chamava atenção por onde passava e ele gostava disso. Da atenção. Tanto quanto gostava de se fazer indiferente a ela, como se fosse melhor do que aquilo, melhor do que todo mundo.
Ele apertou o botão para fechar a capota e travar as portas e só então se deu ao trabalho de atravessar a rua, sem nenhuma pressa apesar de estar há pelo menos meia hora atrasado. Não tinha nenhuma vontade de estar ali e, sinceramente, não entedia ao menos o motivo. Allie faria tudo da forma que quisesse de qualquer maneira e não era como se ele se importasse com a cor das flores ou o local da festa. Era por isso afinal que contratou alguém para organizar o casamento, para não ter que se preocupar. Sua única função deveria ser o noivo. Se soubesse que teria trabalho, não faria o pedido.
direcionou-se para a entrada, sendo guiado pelo caminho de pedras no chão. Era um espaço aberto, para casamento ao ar livre exatamente como Allie planejava. Uma fonte elegante ao lado, o altar em frente a uma enorme árvore muito bem cuidada. Precisava admitir que era bonito, mas não se importaria em conhecer apenas no grande dia.
- , , você está aqui! – Allie exclamou, praticamente pulando sobre suas costas para abraçá-lo e ele sorriu apesar de não estar nem de longe animado. Seu sorriso falso demonstrava isso.
- Você me chamou. – respondeu, como se aquilo realmente importasse. Sabia que ela não acreditava de qualquer forma.
- Fofo. – ela riu, apertando sua bochecha, e ele não escondeu a descontentação ao encará-la. Não que ela tenha se importando. Era uma relação curiosa, aquela entre os dois. Não existia amor ou companheirismo e ambos sabiam. Dormiam juntos algumas vezes e tentava ao menos tratá-la com educação, mas não tinham nada que valesse o suficiente para um namoro, que dirá um casamento. Ela sabia disso, nunca escondeu, era um acordo de negócios, mas ela parecia empolgada demais com aquilo na maior parte do tempo. Uma alegria que o incomodava simplesmente porque pessoas barulhentas e animadas demais o deixam impaciente. Allie o fazia querer correr para longe e parecia se divertir com seu mal humor, mas céus, ele só queria que ela fosse menos feliz. – Não me olha assim. – ela o repreendeu, abraçando-o de lado. – Você está cheirando cigarro e temos um acordo.
- Você fechou esse acordo sozinha. – ele respondeu com um sorriso torto. Ele era sinônimo de sarcasmo, ela já o conhecia o suficiente para saber, mas fingiu não notar enquanto ele se soltava de seus braços, tocando a ponta de seu nariz com o dedo para fingir um companheirismo inexistente ao se livrar dela.
- . – ela falou, segurando-o pelos dois lados do blazer que vestia para que lhe encarasse. Estavam há poucos centímetros de distância um do outro, mas não se afastaram. – Você é um homem charmoso, muito bem vestido e elegante. O cheiro de cigarro não combina com isso tudo. – falou, de forma muito mais delicada que o normal enquanto arrumava seu terno já impecável.
- Allie, eu fumo quando preciso fazer algo que eu não quero fazer e eu não queria estar aqui. – ele respondeu no mesmo tom, imitando até mesmo o pequeno sorriso que brincava em seus lábios. – Sabe, foi por isso que te deixei contratar quem quisesse para organizar o casamento. Estou pagando para não ter que lidar com isso.
- É a escolha do lugar, querido. – ironizou a última palavra. – Precisa estar aqui nessa fase, eu me viro com o resto, sempre deixando claro como meu noivo tão ocupado está triste por não comparecer.
- Poderia ter usado essa desculpa hoje também.
- A escolha do lugar é algo para o casal fazer junto. – ela insistiu, segurando seu queixo para fechar seus lábios em um biquinho. – Agora coloque um lindo sorriso nesse rostinho e finja ser um marido radiante e feliz para que eu não tenha nenhum trabalho em te livrar do resto.
Ele tirou as mãos dela de seu rosto, mas se aproximou mais em seguida.
- Se fizer isso de novo, eu te beijo cheirando a cigarro. – respondeu, lhe roubando um selinho do qual ela não poderia se esquivar em público, mesmo detestando o cigarro. Um péssimo hábito que ele havia adquirido recentemente. Também não gostava muito, mas lhe acalmava quando estava irritado. Talvez precisasse de um novo hobby com cheiro menos incomodo, mas por hora, ela teria que se contentar porque ele também estava se contentando. – Radiante e feliz, por favor. – resmungou irônico, mas parou de imediato onde estava ao bater os olhos na mulher que lentamente se aproximava, com os olhos focados no tablet em sua mão. A postura ereta, salto alto nos pés. Uma saia justa ao corpo apesar do comprimento até a altura do joelho. Uma blusa branca de manga três quartos por dentro da saia. Seu cabelo comprido escondia parte do seu rosto, mas de alguma forma, ele soube no mesmo instante quem era, sem que mais nada fosse necessário.
A sensação ao vê-la foi o suficiente para que seus batimentos aumentassem consideravelmente. Não entendia o que despertava aquilo quando ainda não tinha um vislumbre de seu rosto, se era algo na sua forma de andar ou qualquer outra coisa que não podia explicar, mas sem que pudesse controlar se viu novamente como aquele adolescente de anos atrás, aquele que ele odiava por ser tão fraco, tão dependente de outras pessoas. Aquele que tinha que abaixar a cabeça para as decisões dos pais e que mudou completamente após perder a única mulher que havia amado por não se forte o suficiente. Não ter o poder que tinha hoje.
Mas então lá estava ela. Era , não precisou que chegasse perto para saber porque sentia sem que quisesse sentir. Era uma mistura de euforia e até mesmo satisfação. Saudades que não tinha mais o direito de sentir. Tinha até mesmo medo do que tudo aquilo podia significar. Depois de anos, não deveria mais se sentir assim. Há anos não sentia nenhuma daquelas coisas. Seu coração não disparou por mais ninguém em dez anos, não daquela forma. Ver outras pessoas não o deixavam feliz, no máximo causavam tédio ou repulsa. Era assim que ele era agora, a vida o tornara frio. sabia, preferia que fosse assim. Não se apegar as pessoas era sinônimo de também não sofrer por elas, mas o que a visão da garota fez com ele deixou claro que talvez não tivesse evoluído tanto quanto gostaria. Bastou apenas por os olhos nela para que tudo voltasse, sentimentos que ele nem ao menos sabia que ainda estavam ali, mas que estavam. Era como se revê-la fosse tudo o que ele queria na vida, mesmo sem saber disso antes, sem nunca ter notado e ela nem ao menos havia olhado para ele ainda.
- , o que foi? – Allie perguntou e , pouco mais a frente, ergueu a cabeça, como se a familiaridade no nome a despertasse para o mundo.
Quando os olhos dela pausaram sobre ele, sentiu tudo ao seu redor parar completamente. Viu a expressão dela mudar de suave para espantada no mesmo instante, os olhos bem abertos enquanto o encaravam com atenção, como se perguntassem como aquilo era possível. Tudo bem, ele não a julgava, a surpresa era mútua. Estavam frente a frente depois de anos, algo que ele nunca esperou que pudesse acontecer.
Claro, depois que saiu do colégio interno onde fora colocado pelos pais na adolescência, foi atrás dela. Teve um enorme trabalho para encontrá-la, não morava mais no mesmo lugar, já tinha acabado a escola. Na época não soube o que esperar, mas quando a encontrou namorava com o garoto que seus pais sempre sonharam para ela, havia se rendido.
Foi a primeira vez que seu coração se partiu e ele não esqueceria disso. Tudo o que aconteceu naquela época moldou quem ele era hoje. A rigidez dos pais que, sem seu consentimento, o mandaram para outro país e se livraram de seu filho o fizeram querer mudar, ser forte, firme e conquistar seu próprio espaço sem que dependesse de ninguém. Ela, que não o procurou e simplesmente esqueceu-se dele como se nunca tivesse sido importante de verdade, o fez não confiar em mais ninguém, não abrir seu coração para mais ninguém. O deixou frio, um pouco mais arrogante do que já era. O fez criar uma barreira ao redor do coração, uma onde a enterrou, mas que, aparentemente, não fora o suficiente, pois sentiu tudo voltar com um só olhar.
- Oh, ! – Allie exclamou ao ver a outra parada ali e deixou de lado para cumprimentá-la com animação. – Que bom que chegou. Nós amamos o lugar, vai ser aqui! – informou, segurando-a pelo braço antes de obrigá-la a se aproximar de , como se fosse necessário mais aproximação levando em conta a euforia desprezível em que seu peito se encontrava. – Esse é o , meu noivo!
- . – ele a corrigiu ao estender a mão como se não a conhecesse. Sabia que, independente disso, não tinha dúvidas de quem ele era. Também não dava para ter dúvidas de que ele também sabia. Estava estampado em seu rosto, apenas alguém como Allie podia não ver o óbvio.
- Ah, sim. Ele não gosta muito de “”. – Allie fingiu sussurrar para , que forçou um sorriso no rosto enquanto concordava com a cabeça.
- Tudo bem. – disse ela, aceitando o cumprimento ainda meio sem jeito. – É um prazer. – respondeu educada. – .
concordou com a cabeça, pensando que tinha coisas demais para dizer e, ao mesmo tempo, coisa nenhuma. Por muito tempo se perguntou como ela havia chegado ao ponto de simplesmente acatar a decisão dos seus pais sobre com quem deveria namorar. jamais perdoou os seus por terem afastado os dois, por terem mandado o bebê pra longe e o privado até mesmo de saber se era menino ou menina e se estava bem. Ela por outro lado não só aceitou como também virou uma pessoa que acatava todas as decisões sem questionar. Na juventude admirava o jeito dela, de fazer o que queria, seguir suas próprias idéias e ser tão inteligente. Depois de dois anos, a decepção foi tão grande quanto a dor do coração partido ao descobrir o que ela havia se tornado.
Naquela época foi embora engolindo muitas coisas que queria dizer e saber, mas agora, frente a frente com ela, apesar das perguntas ainda estarem ali cutucando sua curiosidade, sabia também que não era nem de longe pertinente. Não mudaria nada saber o que havia perdido para que ela chegasse àquele ponto.
- Eu... Ahn... Você pode me dar um minuto, por favor? – a voz de o despertou de seus devaneios e só então notou que Allie tagarelava sem parar nos ouvidos da mulher, que parecendo um tanto quanto desorientada, se retirou após o pedido, sem esperar por uma resposta.
- Estranho, ela nunca foi assim. – Allie falou para um totalmente mudo, mas não era exatamente uma novidade para que ela chegasse ao ponto de estranhar. – Normalmente ela é mais simpática. E empolgada. Não deve estar se sentindo bem, mas podemos ver os catálogos ao invés disso. – ela o segurou pelo braço, pronta para arrastá-lo sabe-se lá para onde, mas se manteve exatamente onde estava, um olhar irônico no rosto.
- Catálogos? – perguntou. – Você não quer realmente que eu escolha flores de decoração, quer?
- Não sei por que eu ainda tento... – ela resmungou com um suspiro, o soltando ao desistir da batalha perdida.
- Adoraria se não tentasse. – ele respondeu sem filtrar o que dizia. – Vou me despedir da mulher e voltar para a empresa. Fique feliz que eu vou pelo menos fingir educação. – disse, a fazendo revirar os olhos.
- Ah, obrigada querido. – ironizou, mas ele fingiu não notar seu tom.
- Disponha. – sorriu antes de se afastar, xingando a si mesmo mentalmente enquanto se perguntava o que diabos estava fazendo. Se despedir? Desde quando se importava com esse tipo de coisa? Por que estava indo atrás dela, afinal? Já haviam se passado dez anos. Dez.
Mas ela demonstrara a mesma reação a ele. Desconcentrada ainda pediu um tempo.
não sabia o que dizer, ou se havia algo a ser dito, mas precisava fazer aquilo. Sabia que com a sombra do filho que perderam, jamais teria paz. Que ele sempre estaria em seus pensamentos assim como ela, mas talvez conseguisse algum conforto em terminar o que jamais tinham tido a chance de terminar. Foram obrigados a se afastar no passado e nunca mais se encontraram até aquele momento que, ironicamente, era o seu casamento.
teve um vislumbre dela seguindo na direção dos banheiros e a seguiu. Chegou até lá em tempo de ouvir a porta bater e entrou logo atrás, não se importando com o símbolo na porta dizendo que aquele era o banheiro feminino.
Assim que ele entrou, ela pulou assustada. Estava de frente para o espelho, mas deu as costas para ele, ficando cara a cara com .
- O que você está fazendo? Enlouqueceu?! – ela perguntou espantada.
- Eu que te pergunto. Por que fugiu? – questionou, não medindo o tom de voz.
- Fugi? O quê?! – ela devolveu, soando um tanto quanto surpresa com a pergunta. – Eu fugi? – repetiu, chocada agora e ligeiramente ofendida. – O que você está pensando? Que eu vim me esconder de você? Que eu fiquei mexida por você?
- E não foi? – perguntou, recebendo um riso irônico em retorno antes de vê-la se voltar para o espelho, como se ele na realidade pouco importasse.
- Não estava me sentindo muito bem, então obrigada por me fazer rir. – falou sem se dar ao trabalho de encará-lo e revirou os olhos.
- Você continua uma péssima mentirosa, .
- E você concluiu isso porque me conhece muito bem? – ela perguntou, voltando-se novamente para ele ao se irritar com o comentário. – Por que não faz mais de dez anos que não nos vemos? Por isso? – falou, mas a pontinha de acusação que ele sentiu na fala o fez estreitar os olhos para ela.
- Não é como se a culpa fosse minha. – devolveu, com o mesmo ar de acusação.
- Você está dizendo que é minha?! – ela levantou o tom de voz, agora não apenas ligeiramente, mas sim totalmente ofendida. – Quem você pensa que é pra aparecer depois de dez anos com toda a arrogância do mundo e me dizer isso?! Já se passaram dez anos! Nem deveríamos falar sobre isso, não tem o que falar!
- Se não tem, por que veio se esconder então? – voltou a acusá-la.
- Eu não vim me esconder, ! O mundo não gira ao seu redor! – praticamente gritou, no mesmo instante em que a porta era aberta e Allie aparecia ali, encarando ambos desconfiada.
- Vocês já se conheciam? – perguntou ela, mas tudo o que fez foi bufar antes de dar as costas para a fim de sair dali. - . – Allie tentou chamá-lo, mas ele passou por ela antes que tivesse oportunidade de segurá-lo onde estava.
- Cuide do que tem que cuidar, preciso voltar à firma. – disse apenas antes de se afastar.

+++


Já fazia cerca de dez minutos que estava parado em frente ao prédio onde trabalhava. Ele jogou a cabeça para trás, tomando fôlego e se perguntando mais uma vez onde estava com a cabeça para ir até ali.
Ela estava certa, de novo e como sempre. Dez anos depois, não tinham que conversar sobre aquele assunto, era passado, não deveria mais existir, mas a verdade era que ele não conseguia simplesmente deixar para lá, passar uma borracha e fingir que nada nunca tinha acontecido. Haviam tido um filho juntos, não era possível que ela não pensasse sobre isso ainda. Tê-lo dado para adoção podia ser o melhor para ele na época, mas ainda era um filho e ele nunca soube o que aconteceu depois que foi mandado para o colégio interno. Não sabia se ela tinha tido uma gravidez saudável, se havia sido parto normal ou não. Como ela havia ficado, sozinha, se tinha tido apoio. Tudo que descobriu depois, o fez sem ajuda: A clínica na qual ela foi colocada, os pais de adoção do menino. Tinham tido um menino, mas não sabia se ela sabia disso, ou se queria saber.
havia tido dois péssimos dias desde que a reencontrara simplesmente porque não conseguia parar de pensar sobre isso. Precisava saber o que ela sabia, nem que fosse para finalmente deixar aquilo tudo para trás e, com esse pensamento, tomou coragem para se levantar.
Não saber era o que lhe segurava preso àquela história e ele não aguentava mais se manter daquela forma. Havia moldado sua vida em torno de uma vingança pelo que os pais haviam feito. Seguiu um caminho totalmente diferente do que esperava quando era adolescente simplesmente porque nunca conseguiu superar o que haviam feito.
Precisava superar, e para isso precisava dela.
Temendo que se recusasse a recebê-lo, usou o nome da noiva para ser anunciado pela recepção. Após ser liberado, seguiu até a sala indicada. O prédio tinha apenas três andares e o de ficava no último, tomava todo o andar. Era dona de uma empresa de eventos. Organizavam todos os tipos de festas e não só casamentos, embora esse fosse seu forte. Fazia dois anos que ela estava de volta ao país, mas ele nunca mais foi atrás para saber dela e por esse motivo não sabia disso até então.
Assim que desceu do elevador no terceiro andar, colocou as mãos nos bolsos do terno, fingindo uma tranquilidade muito maior do que sentia de fato e tomou seu caminho até a sala dela. Todas as divisórias eram de vidro e, por esse motivo, podia vê-la ao fundo, mesmo que estivesse concentrada demais em seu trabalho para notá-lo ali.
Apenas quando bateu na porta, ela ergueu o rosto dos papéis, encarando-o em um misto de surpresa e descontentamento. Talvez até decepção.
- Também fico feliz em te ver, obrigado. – comentou sem que pudesse notar assim que pisou dentro da sala.
- , o que veio fazer aqui? – perguntou, preferindo ignorar seu comentário ácido. - Pensei que Allie cuidaria do seu casamento.
- Não vim falar sobre isso. – ele respondeu, tirando o sorrisinho irônico do rosto e ela suspirou, como se estivesse muito cansada disso e dele.
- Essa é a única coisa que temos para conversar...
- Não é, e você sabe. – ele devolveu, a interrompendo sem se importar.
- ... – começou, em tom de aviso, e ele ergueu as mãos em sinal de rendição antes de se sentar na cadeira em frente a sua mesa, vendo a mulher se ajeitar ali por isso.
- Sem brigas, é apenas uma conversa, eu prometo.
- Não é essa a questão, . É só que... Faz dez anos. – tentou explicar, claramente desconfortável com sua presença. - Não precisamos conversar mais sobre isso, é passado.
- “Conversar mais”. – ele repetiu, sorrindo com certa melancolia que não condizia com ele há muito tempo. não era o tipo que se abatia. Não se importava o suficiente com nada para que pudesse se abater. Mas aquele assunto... Aquele assunto era um tanto quanto delicado. – Nós nunca conversamos, .
- Não. – ela concordou com um novo suspiro, colocando de lado a caneta que ainda estava em suas mãos. – Nunca conversamos, mas não faz mais diferença, faz? Já se passou tempo demais, . Não importa.
- Não? – ele perguntou, não querendo admitir que ouvir aquilo doeu. Não deveria doer, ele não queria que doesse. Passou anos afastando as pessoas para que não tivesse que sentir aquele tipo de dor. Era o pior tipo de dor. Não podia por um curativo quando as pessoas o magoavam, ou tomar um remédio para que passasse. Apenas o tempo podia curar aquilo e ele não queria ter que passar por tudo que havia passado, novamente.
O problema era que com ela, aparentemente, nem o tempo havia dado jeito, mas esperava que ignorar fosse o suficiente. Resolveu no passado, podia resolver agora. Ele só precisava saber tudo que queria saber para por fim colocar um ponto final em tudo aquilo. Era isso que ele queria, o final.
– Você conseguiu mesmo só... Deixar para lá? – voltou a dizer. - Como você conseguiu só deixar para lá? Você nunca se perguntou o que houve com a gente, comigo, ou com ele?
- . – ela disse apenas, em tom de súplica, e a dor que ele viu em seu olhar deixou claro que aquele assunto era tão delicado para ela quanto para ele. Sua voz soou embargada com a simples menção ao bebê e ela suspirou como se precisasse disso para se conter. – Por favor, eu não quero mesmo falar sobre isso.
- Não falar não vai fazer o problema desaparecer. – ele amenizou o tom de voz, mesmo que sua fala no final fosse contra tudo que ele havia passado o dia repetindo a si mesmo, sobre tentar ignorá-la. Aquela sua fala, no final, fez tudo ficar um tanto quanto óbvio. Definitivamente não ajudava. – Eu passei anos evitando o assunto tanto quanto você, mas olha onde estamos. Parece ter resolvido? – concluiu, não só para ela, mas como para si mesmo também.
- Não, não resolveu. – ela respondeu, agora soando impaciente. - , nada nunca vai resolver isso. Eu tive um bebê e o dei para adoção. Ele tem outra família, e nunca vai saber que tem outros pais. Nada vai mudar isso, uma conversa nunca vai mudar isso, então eu prefiro não conversar porque enquanto eu fingir que nada nunca aconteceu, eu também posso fingir que está tudo bem mesmo que pense nisso todos os dias.
não disse nada por um instante, totalmente sem fala e, ao mesmo tempo, sentindo-se culpado por trazer aquilo a tona. Pior, por acusá-la de não se importar quando, aparentemente, sofrera por aquilo tanto quanto ele.
Era de se esperar por isso afinal, não era? passou nove meses com o bebê na barriga. Era possível não criar qualquer tipo de laço com ele?
viu uma lágrima escorrer em seu rosto, mas ela a limpou rapidamente, como se esperasse que ele não tivesse visto.
- Você soube alguma coisa dele? – ele perguntou por fim, após dar um tempo a ela para que se recuperasse. – Você tentou saber, ou... Sabe alguma coisa? – quis saber e a viu negar com a cabeça.
- Só sei que é um menino porque o vi nascer. – respondeu, sua voz soando quase como um sussurro. – Depois disso, depois que ele foi embora, eu nunca... Nunca tive notícias.
concordou com a cabeça sem encará-la e após alguns segundos, após ponderar sobre o que fazer a seguida, finalmente continuou:
- Se você pudesse vê-lo hoje, mesmo de longe, só para saber se está bem, para conhecer seu rosto, seu nome, você gostaria de vê-lo? – perguntou. Não era apenas uma suposição vazia e o choque em sua expressão deixou claro que ela havia entendido isso.
- , o que você está sugerindo? – perguntou espantada e ele negou com a cabeça. – O encontrou? Você... Sabe dele? O conheceu?
- Eu te fiz uma pergunta. – respondeu ao invés disso e viu as lágrimas voltarem aos seus olhos quando concordou.
- Sim, eu gostaria. Muito. – respondeu em um suspiro e ele sentiu sua garganta fechar em vê-la daquela forma com a possibilidade. - ...
- Posso te levar até ele. – ele respondeu e ela levou a mão até a boca, meneando positivamente com a cabeça.
- Você sabe onde ele está.
- Eu sei. – concordou, levantando-se da cadeira e estendendo uma das mão para ela. – Vamos? – perguntou e novamente, ela meneou com a cabeça, colocando-se de pé e pegando sua bolsa ao lado da cadeira antes de aceitar sua mão.

+++


Derek ainda não tinha completado dez anos, mas era pequeno para sua idade, assim como também havia sido. A garoto inteirinho era uma pequena cópia de aos nove anos. As bochechas fofas, a mesma cor e corte de cabelo. Tudo era exatamente igual com exceção de seus olhos, que eram idênticos ao de sua mãe.
Quem visse os três juntos jamais poderia negar as semelhanças.
sentia-se melancólico sempre que olhava para o garoto, porém uma parte dele também ficava feliz em ver o menino brincar com as outras crianças durante o intervalo de suas aulas. Ele era um menino alegre e muito espontâneo. Seu coração se enchia de tranquilidade em vê-lo e fazia isso mais vezes do que provavelmente deveria.
Se sentaram na praça em frente a escola quando chegaram, um pouco antes do horário correto. Quando o sinal tocou e o menino saiu, não precisou dizer nada para que acertasse quem era o garoto, deixando-se derramar todas as lágrimas que havia segurado durante o caminho. Ela abaixou a cabeça, colocou uma das mãos em frente aos olhos e simplesmente chorou pelos primeiros dez minutos enquanto se limitava em olhar o garoto correr de um lado para o outro. Não achou certo interferir naquele momento, era dela. Chorar também foi sua primeira reação ao vê-lo e já fazia anos que não chorava também.
Quando conseguiu se controlar o suficiente para olhar o garoto, ela o fez independente de seus olhos ainda molhados e ele soube o que viria a seguir. Havia passado por todos os estágios daquilo, de ver seu filho pela primeira vez.
- N... Nós... Não podemos chegar perto? Falar com ele? – ela perguntou, se virando para com certa súplica no olhar. – Não podemos dar um jeito de estar na vida dele? Mesmo que ele não saiba que...?
- Não. - a interrompeu, desviando a atenção do garoto para se voltar para ela. – Não podemos, , porque se nos envolvermos vamos querer contar a verdade em algum momento, vamos querer que ele saiba que somos seus pais e não temos mais esse direito. – respondeu, já havia passado dias pensando naquilo. Semanas. - Isso bagunçaria a vida e a cabeça dele e não podemos ser os responsáveis por arruinar tudo em que ele acredita. Saber a verdade não vai contribuir para o bem estar dele, muito pelo contrário. Ele descobriria que a vida na qual sempre acreditou é mentira, que tem pais que o rejeitaram e ficaria triste, confuso. Se sentiria traído, abandonado e solitário. – falou, vendo as lágrimas lentamente voltarem para os seus olhos. - Isso o afetaria para pior, o mudaria. Nos aproximarmos seria benéfico apenas para nós, não para ele. Seria egoísmo.
soube que ela chegou a mesma conclusão que ele havia chegado quando desabou em lágrimas mais uma vez e agora a puxou para seus braços. Deixou que ela escondesse o rosto em seu ombro, e chorasse tudo o que precisava chorar porque entendia o que se passava em seu coração. Se havia alguém que podia entender, esse alguém era ele e apenas ofereceu o apoio que ela precisava.
- O melhor ato que podemos fazer por ele como pais é não fazer nada. – ela concluiu, erguendo a cabeça para encará-lo e ele concordou com pesar.
- Sim, é. – disse, por pior que fosse ter que verbalizar.
Ela se afastou de para voltar a olhar para o garoto, que agora se sentava para comer. Ficaram algum tempo daquela forma, observando-o sem dizer nada. tinha coisas a perguntar, mas optou por se manter em silêncio. Aquele era um momento precioso demais para ser estragado com qualquer coisa daquele tipo e o silêncio foi quebrado apenas cerca de quinze minutos depois, pela própria :
- Sabe, eu me arrependi. – ela começou, fungando enquanto limpava os olhos com as costas da mão. - Antes mesmo de abandoná-lo, eu me arrependi. Me apeguei ao bebê, não queria que o tirassem de mim depois que nascesse, mas não podia fazer nada. As únicas pessoas que sabiam que eu estava lá além de você queriam o bebê longe. A única pessoa com quem pude desabafar foi uma das médicas que contou para minha mãe. Já estava perto do bebê nascer, a terapeuta que fazia meu acompanhamento de repente começou a falar de como era ruim ser mãe, de como aquilo estragaria minha vida, tentando me fazer mudar de ideia, mas eu não queria dar meu filho. Eu tentei fazer contato com você, porque eu precisava muito de ajuda. Eu estava sozinha, com medo, mas sabia que se não tinha me ligado ainda era porque tinha algo errado, o que só me deixava ainda pior porque eu não sabia o que. – contou, voltando a encará-lo com os olhos cheios de lágrimas de forma que foi impossível para ele conter as suas também. – Depois que ele nasceu, não me deixaram segurá-lo. – disse, engolindo em seco enquanto se lembrava. – Eu implorei para que me deixassem segurá-lo só uma vez, e gritei, mas não deixaram. Eu nunca pude segurar meu bebê nos braços e dizer que era sua mãe, nenhuma vez, e chorei por isso por dias. Tentei dizer para mim mesma que estava fazendo o melhor para ele e para mim, mas ainda assim doeu tanto e eu estava sozinha.
- , me desculpa. – ele sussurrou, deixando que suas próprias lágrimas escorressem ao ouvir o relato. Passou todos os dias dentro do internato sentindo raiva dos pais e em nenhum momento se perguntou o que ela estaria passando grávida e sozinha, sem qualquer tipo de apoio.
- A culpa não foi sua. – ela respondeu, tentando controlar o choro. – Eu sei o que eles fizeram, para onde te mandaram. Te procurei assim que eu voltei e seu irmão me contou. Colégio interno na Suíça. Só para garotos, e sem telefone. Meus pais mudaram o meu também e como já voltei da clínica para uma casa e colégio diferente, ficou impossível manter contato. E eu tentei. Tentei até ligar para a escola, tentei me passar por sua mãe. Implorei que seu irmão me ajudasse também...
- Ele não faz nada de graça.
- Não faz. – ela respondeu. – E o preço não é barato.
- Não. – respondeu, temendo perguntar o que o irmão havia pedido em troca. Naquela época ele era ainda pior do que hoje em dia. – Eu nunca os perdoei por terem feito isso. – ele continuou, contando o seu lado da história. – Por terem me mandado para lá sem a chance de me despedir. Por terem me isolado do mundo sem ter qualquer notícia e por te tirarem de mim. Eu nunca superei, eu nunca deixei de pensar sobre isso. Eles fizeram tudo por imagem, por apresso à suas carreiras, ao dinheiro, aos negócios da família. Eu jurei que vingaria isso, que destruiria o que construíram e...
- Tem se empenhado bastante. – ela completou por ele, que a encarou confuso. – Eu tenho televisão em casa, . O caçula do império, ao invés de assumir a empresa da família, abriu a sua própria, no mesmo ramo. Soube seu plano assim que ouvi a matéria. Soube o porquê também. Tentei não acompanhar os números, não queria ficar feliz por isso, mas não dá pra ignorar quando tudo o que vocês fazem sai na TV. – Você conseguiu, eles estão por um fio, mas não tenho orgulho disso. Você também não deveria ter. – ela falou, e o julgamento estava bem óbvio em seu tom de voz. Assim como a confusão estampada na face de com aquela informação. – Você dedicou dez anos a eles. Você perdeu dez anos para eles. Você podia ter se dedicado ao piano, era bom nisso. Na sua música, mas jogou tudo fora. Você ao menos continua praticando? – ela perguntou e pela primeira vez ele sentiu nojo de si mesmo por tudo que havia feito, mesmo que seus pais tivessem merecido cada segundo daquilo.
Não, nunca mais praticou. Evitou todas as aulas de música no colégio porque sabia que para por seu plano em prática precisava de outro tipo de estudo.
- Música não leva ninguém a lugar nenhum. – ele respondeu o que repetiu para si mesmo por anos e ela negou com a cabeça como se reprovasse.
- Isso era o que eles diziam, os seus pais. Você se vingou ao custo de sua própria vida. Se tornou aquilo que mais odiava, mais desprezava. E se tornou tão arrogante quanto eles, tão frio quanto eles. Que tipo de vingança é essa, onde você é quem mais perde? Levou a empresa deles, mas se tornou quem eles mais queriam que você fosse. É o filho digno de orgulho.
- Você não sabe nada sobre mim. – ele a interrompeu entredentes, em óbvia irritação pelo rumo que a conversa tinha tomado. Irritação por, principalmente, saber que ela estava certa, por ter a verdade jogada em seu colo daquela forma. – Não me conhece mais, não pode dizer isso.
- Não, eu não te conheço, porque você se tornou alguém que não vale a pena conhecer. – ela devolveu, sem se importar com o quão cruel suas palavras podiam ser.
- Chega, vamos embora. – decretou, levantando-se de onde estava. Por ele, a deixaria ali, mas não era ainda não cretino ao ponto de fazer aquilo quando a tinha levado até lá, e feito com que fosse em seu carro ainda por cima. Mas ela não se levantou. – Eu vou te deixar ai se não vier logo, .
- , eu não estou falando isso para te provocar, ou te deixar irritado. – ela disse, levantando-se do banco para ficar frente a frente com ele. – Eu estou falando para que abra os seus olhos, pois ainda dá tempo para mudar isso.
- E o que você quer que eu faça? Largue tudo? – riu com deboche. – Largue a minha vida do dia para a noite? Tudo o que eu construi?
- Eu quero que você siga seu coração e faça algo por você, algo que queria de verdade, . – ela respondeu. – Você ao menos está se casando por amor? Ou só por quem ela é? Por uma parceria comercial?
- Ah, cala a boca. – ele bufou, dando as costas para ela e seguindo para seu carro.
- Vai me dizer que não é isso? – ela continuou, seguindo-o. – Você por acaso a ama?
- Não, eu não amo! – se exaltou, chamando a atenção de algumas pessoas próximas na praça. Por sorte o sinal da escola tocou no exato momento, fazendo com que o som fosse abafado ao menos dentro da escola, para onde ambos olharam despedindo-se silenciosamente do garoto que entrava para mais um período de aulas. Apenas quando todas as crianças entraram, ele voltou a falar. – Eu só amei uma mulher a minha vida inteira e jurei não amar mais ninguém quando ela partiu meu coração. – ele falou, fazendo com que o encarasse com certo espanto. – Eu te procurei depois que me formei e sai, foi a primeira coisa que eu fiz. Fui até sua faculdade no dia da visitação, te encontrei na...
- Biblioteca. – ela completou, os olhos arregalados e espantados, como se repentinamente tivesse visto um fantasma. – Era mesmo você. E... eu... achei que era...
- Culpa? – ele adivinhou. – Eu pelo menos tentei fazer algo ou pelo menos ser diferente. Você só abaixou a cabeça depois de tudo. Depois de privarem você até mesmo de segurá-lo no colo. Foram cruéis e você só...
- Você não sabe de nada, ! – ela o interrompeu. - Não fale do que não sabe!
- Não sei? Porque essa sua fala foi exatamente a minha há tipo, dez minutos atrás.
- Eu me aproximei dele porque era um bom garoto, porque me apoiou contra meus pais! , eles queriam que eu fosse dona de casa, esse era o destino que esperavam de mim e eu fui pra faculdade. Com ele. Tivemos que enfrentar gente demais e nos aproximamos sim.
- Por favor, me poupe dos detalhes. – ele resmungou, revirando os olhos ao continuar seu caminho até o carro.
- , nós não ficamos juntos nenhuma vez depois daquele dia! – ela exclamou, fazendo-o parar ao aumentar novamente o tom de voz. – Por que você acha que eu senti culpa por beijá-lo? Se eu não te amasse, você acha que eu sentiria culpa?! – perguntou. – Você acha que também não partiu meu coração quando saiu e não foi atrás de mim?
- Eu fui! E você me viu! Acabou de dizer que viu! – se exaltou.
- E que achei que fosse só imaginação! Você não falou comigo porque pensou que eu estava com ele e eu pensei que você só não se importava mais! – respondeu no mesmo tom, já aos gritos no meio da praça e diminuiu a voz ao notar. – O único homem que eu amei também partiu meu coração. – disse, mais baixo agora. – Como você acha que eu fiquei ao reencontrá-lo prestes a se casar?
- Não é de verdade.
- Mas é um casamento. – ela devolveu. – Eu ficaria bem se soubesse que você pelo menos está feliz, ou que está se casando por amor. Que encontrou outra pessoa como eu nunca fui capaz de fazer, mas... Não. Está se casando por vingança. Não faça isso, .
- Está me pedindo para não casar?
- Estou te pedindo para ser feliz. E não vai ser com ela. – se aproximou, o suficiente para tocar seu peito com uma das mãos. – , quando você chegar ao fim dessa vingança você pode até comemorar no primeiro instante, mas quando olhar para trás e ver tudo que deixou passar, tudo que não fez, vai se sentir miserável e eu vou ficar péssima em saber disso porque... Porque o amor que sempre senti, ele nunca acabou também. Porque dói te ver fazendo isso e eu me recuso ficar para assistir.
Ela deu um passo para trás, pronta para se afastar dele, mas com o coração prestes a sair pela boca, ele a segurou onde estava. Manteve sua mão onde estava, e deu mais dois passos a frente, fazendo com que seus corpos também ficassem próximos. O cabelo dela batendo em seu ombro quando a brisa o jogava para frente ao assoprar. Ele sentia seu perfume como se fizesse parte dele e as borboletas no estômago vieram para lembrá-lo do que era ser um adolescente. Ou, quem sabe, para lembrá-lo do que era estar perto de alguém de quem realmente gostava.
- E se... E se eu estivesse disposto a largar tudo? – ele perguntou repentinamente, levando a mão livre até seu rosto. – E se eu largasse tudo, você ficaria?
- ... – ela negou com a cabeça, tentando se afastar novamente, mas ele segurou sua mão com um pouco mais de firmeza, não permitindo que o fizesse. - , você não pode fazer isso por outra pessoa. Tem que ser por você mesmo. Você precisa se encontrar antes de se dedicar a alguém. Precisa se dedicar um pouco a si mesmo.
- Você é minha única conexão com o velho . – confessou. Era a primeira vez em anos que cogitava fazer aquilo, largar tudo. Era a primeira vez em anos que admitia que outra pessoa além dele estava certa, primeira vez que se sentia mal por tudo que havia conquistado, que realmente pensava sobre estar ou não fazendo o certo. - Não posso encontrá-lo sozinho.
- Eu posso ficar, . Mas não do jeito que você está sugerindo. Eu não posso ser o motivo para que tome qualquer decisão daqui para frente, tem que ser você, partir de você. Posso ficar apenas como uma telespectadora, no máximo uma amiga.
- Conselheira? – ele tentou, e ela sorriu ao negar com a cabeça.
- Seus passos você tem que decidir. Não vou ajudar em nada, e nem te dizer o que fazer. – respondeu. – Eu não posso, e você sabe disso, .
- Você vai tornar essa coisa de ser amiga difícil pra mim, não vai? – se afastou, ciente de que não tinha mais o que avançar dali e ela concordou.
- Definitivamente não.
- Nem com o primeiro passo? – tentou, sabendo muito bem que, no fundo, era em vão.
- ... – o repreendeu e ele suspirou, vencido. – Você sabe qual é o primeiro passo. – ela disse apenas e após pensar por um instante, ele foi obrigado a concordar, mesmo que contrariado.
Sim, ele sabia qual era o primeiro passo. Só precisava começar.

+++


25 de outubro de 2016
confirma em coletiva de imprensa: O noivado que uniria a Joy Corporation e a Beely Company chega ao fim. O futuro da fusão é incerto.”

30 de outubro de 2016
“Estratégia de negócio? Mesmo após confirmar término de noivado, é fotografado saindo da agencia contratada para organizar seu casamento com Allie Beely.”

05 de novembro de 2016
“Reunião de negócios ou encontro familiar? Se reuniram essa tarde os representantes da Joy Corporation e da L.B. International.”

12 de dezembro de 2016
“Beely Company em crise. Uma das três maiores companhias de tecnologia pode estar prestes a fechar as portas.”

21 de dezembro de 2016
“Fusão que vira aquisição: Joy Corporation anuncia compra da Beely Company, tornando-se agora a número um no segmento.”

04 de janeiro de 2017
“Reunião entre representantes da Joy Corporation e da L.B. International geram especulações. Nova fusão a caminho?”

19 de fevereiro de 2017
“O impacto causado pela fusão entre Joy Corporation e L.B. International.”

11 de abril de 2017
deixa a presidência da Joy B. International”


TRÊS ANOS DEPOIS
20 de abril de 2020

- Eu bem que deveria ter suspeitado daquele café na cama. – fala ao adentrar a cozinha com o tablet em mãos e riu ao notá-lo, puxando a mulher para seus braços e segurando o objeto para colocá-lo de qualquer jeito sobre a mesa. Sabia muito bem o motivo para aquela fala. Era realmente culpado daquela acusação. – Não consegue ficar fora da mídia consegue? – ela perguntou divertida ao passar os braços ao redor de seu pescoço e ele deu de ombros como se não fosse nada demais ter sucesso em absolutamente tudo que se punha a fazer.
- Chamar atenção é tipo um talento nato. – ele respondeu brincalhão, roubando dela um beijo na bochecha. – O que eu posso fazer se o mundo não vive sem ? – perguntou convencido e ela ergueu uma sobrancelha como se aquela fosse a maior besteira que já havia escutado.
- Ah, não é como se se deixasse esconder, não é? – perguntou e ele riu de forma travessa. Outra acusação da qual era culpado. Não que ele se importasse. Há três anos ela o pediu que fizesse algo que gostasse, algo por si mesmo, e finalmente estava fazendo isso, tendo sucesso com isso. Não ligava se o mundo soubesse. Sabia que ela também não ligava. Ambos estavam orgulhosos na verdade e aquilo tornava os dias mais leves.
- Eles se perguntavam para onde eu tinha ido e o que estava fazendo da vida. – respondeu. Após renunciar seu cargo na empresa, fez questão de ficar em off enquanto redescobria seu lugar ao mundo. Foi difícil no início, especialmente deixar o império construído nas mãos dos pais. Ele tinha chegado longe demais para deixar tudo com eles, mas a verdade era que aquele sempre havia sido o sonho dos dois e não os dele. Eles seriam felizes com a empresa, cuidariam dela tão bem quanto ele o faria e hoje conseguia ficar satisfeito em saber disso, mesmo que ainda estivesse trilhando o caminho do perdão aos poucos. – Agora eles sabem. – completou por fim, rindo após dar de ombros.
- E você está tão triste, não está? – ela ironizou e ele fez bico ao concordar, fingindo inocência como se fosse uma criança.
- Demais. – disse, balançando-a de um lado para o outro sem soltá-la. - Agora eles sabem que nasceu para brilhar. Sou maravilhoso em qualquer coisa.
- Alguém ainda precisa trabalhar a modéstia, não? – ela respondeu sem conter uma risada e ele sorriu por isso, lhe roubando agora um selinho. Sim, ainda tinha um ego um tanto quanto exagerado, mas havia melhorado ao longo do tempo. Nunca voltou a ser o velho de dezesseis anos, mas isso não era de fato possível, ela também não era a mesma . O tempo havia moldado os dois e agora ele podia dizer que ao menos era uma pessoa melhor, uma pessoa feliz, e devia a ela todas as mudanças boas que havia tido na vida.
cumpriu seu acordo de não lhe dizer o caminho, de apenas ficar ao seu lado, mas apesar dele ter tomado a atitude de mudar, cada uma delas, sabia que sem ela jamais o teria feito.
- Eles descobririam uma hora ou outra. – respondeu, falando sério agora ao justificar o motivo que o levou ao anúncio feito aquela manhã. - O grupo está fazendo sucesso, a empresa cresceu muito de uma hora para a outra. As perguntas começariam em algum momento.
- Eu sei disso. – ela respondeu, aproximando os lábios de seu pescoço. – E estou muito orgulhosa. – deixou um beijo ali após sussurrar. inclinou o rosto para beijá-la, mas antes que tivesse oportunidade ela afastou o rosto com um riso. – Talvez... – ela começou quando ele a encarou contrariado e a mulher mordeu o lábio inferior. – Talvez não seja só eu que esteja orgulhosa. – ela se afastou, dando alguns passos de costas enquanto olhava para cima como se pensasse em algo.
- Uhm? – ele perguntou, agora confuso enquanto a via se afastar.
- É, sabe... Eu quero dizer, nós estamos. – ela continuou, erguendo as sobrancelhas para ele de forma travessa enquanto mantinha no rosto um sorriso divertido. Não que isso tudo tivesse ajudado.
- Nós quem, ? – perguntou e ela acabou rindo.
- Você é tão estúpido, sabia? – ela respondeu, finalmente parando onde estava. – Eu estou te dando todos os sinais há dias!
- Sinais? – questionou novamente e, junto com outra risada, ela tirou do bolso do short um teste de gravidez que levantou para que ele visse. Não tinha como ser mais clara que isso. – O que...? – ele começou, arregalando os olhos ao finalmente entender o que estava acontecendo. Ele pegou o objeto das mãos dela, e olhou de para os dois risquinhos pelo menos três vezes sem conseguir dizer absolutamente nada.
- Você sabe que eu mergulhei isso no xixi, não sabe? – ela perguntou, mas ele ignorou completamente a sua fala.
- Dois riscos quer dizer grávida? – perguntou, chocado e igualmente eufórico, sendo consumido também pela expectativa daquela resposta mesmo que já soubesse. - Está escrito na legenda aqui do lado que quer dizer grávida. – falou, voltando a olhar para ela após conferir mais uma vez o teste para se certificar de que não estava louco.
- Ah, jura? – ela perguntou, claramente segurando o riso. Não mostraria o teste a ele se fosse negativo, afinal. – E isso quer dizer que...? Eu confio em você para interpretar a legenda.
- Você está grávida? – perguntou ainda, agora também emocionado e dessa vez ela foi sim obrigada a rir.
- , é sério?! – perguntou, e o viu soltar uma risada nervosa e igualmente feliz.
- Caramba, você está grávida! – ele exclamou finalmente, deixando o teste de lado para avançar até ela, a pegando nos braços para girá-la pela cozinha. – Vamos ser pais! – gritou animado, já decidindo ali mesmo que aquele era, definitivamente, o melhor dia se sua vida. O único que poderia superar seria o nascimento do bebê, é claro, mas no momento nenhum dia podia ser melhor do que aquele.
- Vamos ser pais! – ela concordou, sentindo os olhos lacrimejarem quando ele a colocou no chão. – Eu estou grávida. – disse finalmente, vendo o sorrido dele se alargar ainda mais antes de segurar seu rosto para beijá-la, decidindo que, finalmente, havia encontrado o seu verdadeiro lugar no mundo.


Bônus

“Identidade do presidente da MY Entertainment é finalmente revelada
Em anuncio oficial nas redes sociais, o mistério de anos foi finalmente solucionado. , fundador da Joy Corporation, se aventura no mundo da música.


Há anos a MY Entertainment chamou atenção a cerca do mistério que a envolvia: O segredo para o sucesso. Na manhã de hoje (20), um texto em suas redes sociais revelou o que por anos todos tentaram descobrir, o nome do verdadeiro fundador da companhia e responsável por levá-la tão longe em tão pouco tempo.
A MY Entertainment surgiu misteriosamente, revolucionando a industria musical. O debut do primeiro grupo agenciado pela companhia foi um sucesso comprovado pelas paradas internacionais e um choque para todos os envolvidos nesse segmento, por conquistar em pouco tempo o que as maiores agências levaram anos para construir.
Agora o responsável por isso possui nome e sobrenome: , que estava fora da mídia desde 2016 após renunciar o cargo na Joy B. Corporation, também fundada por ele.
Uma mudança drástica de segmento, mas outra administração excepcional de garantiu o sucesso da MY Entertainment em total sigilo.
Não se sabe ainda os motivos que envolveram o anúncio. Jogo de marketing, mera transparência? Talvez sempre vá haver questões a cerca da MY Entertainment ou do próprio . Tudo o que nos resta, é esperar pela próxima notícia.

- 20 de abril de 2020 (Atualizado há 1 hora)”


Fim.



Nota da autora: Ai, essa fic foi definitivamente um parto, mas sabe que eu gostei? Hahaha Espero que tenham curtido também e, pls, comentem! <3
Xx
Mayh.



Outras Fanfics:
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