Black Holes and Revelations
“I would cheat and lie and steal now I'll stay at home and kneel for you…”

Autora: Lu Casablancas
Beta-reader: Lê Assis (Capítulo 8 em diante)


01.

O sinal tocou estridente e os velhos portões de metal abriram emitindo o som de uma guitarra desafinada. Os mais de mil alunos ali presentes começaram o alvoroço: uns faziam a passagem, outros gritavam, muitos se abraçavam sorridentes. As patricinhas contavam para os quatro ventos suas férias em lugares exóticos; os atletas vangloriavam-se da quantidade de vezes que haviam bebido e feito sexo; os nerds mostravam projetos e sonhavam com universidades; os metaleiros relembravam animadamente o show do AC/DC ocorrido durante as férias.
E tinha muitos outros subgrupos saldando-se, facções estudantis que não se encaixavam perfeitamente nos padrões predefinidos; aquelas que são compostas por todos os tipos de gente, grupos verdadeiramente interessantes, muito mais que os dos ditos populares, justamente pela versatilidade de seus componentes. O pátio parecia uma verdadeira avalanche de risos, fofocas e abraços adolescentes; ao mesmo tempo em que faziam questão de permanecer no corriqueiro conversando com as mesmas pessoas e firmando-se nos lugares de anos anteriores, procuravam por novidades, algo que tornasse a tediosa York High School movimentada. A esperança do ano anterior fora completamente descartada. Até um zumbi tinha mais vida que ela.
Ela era alguém que não se encaixava em lugar algum. E nem ao menos fazia questão de estar próximo àquelas pessoas.
Seu nome era Watson, pelo menos era assim conhecida na York High School. Parecia um corpo sem alma, constantemente alheia a tudo e a todos. Estava sempre sozinha, ouvindo seu rock alternativo. Não sabiam nada a seu respeito, apenas que morava só na cidade. Não aparecia com amigos, não procurava por novos; não queria a presença dos colegas em seu cotidiano; não gostava de falar - quase nunca escutavam sua voz, a não ser quando murmurava um baixo “presente” ao ouvir a chamada.
Parecia uma máquina, um fantasma rondando a escola. Os mais absurdos chegavam a afirmar que ela era uma agente da Interpol.
Incrível como ignorância transforma-se facilmente em ironia.
Quando esses comentários estúpidos chegavam aos seus ouvidos, ria sádica com as hipóteses que formulavam ao seu respeito.
No ano anterior, assim que chegou à cidade, talvez motivados por sua beleza e estilo incomum, todos queriam sua amizade, entretanto, pouco tempo depois passaram a temê-la e consequentemente repudiá-la; era maquinal demais comparada aos efusivos que comandavam a juventude da cidade, ou pelo menos da York High School. Mas ainda assim continuava a ter admiradores. Era como se fosse um desejo secreto de cada garoto da escola; queriam, a todo custo, desvendar o enigma que representava Watson.
Se soubessem quem realmente era... Ah se soubessem o que já fizera e do que já fora acusada, não chegariam nem mesmo a meio metro de distância dela.
Ninguém sabia, nem mesmo o que estava por vir, mas naquele dia tudo mudaria. Naquele fatídico primeiro dia do último ano colegial nada seria mais o mesmo, ou tão monótono quanto costumava ser.
O sossego de Watson estava chegando ao seu fim.

Ela seguiu entediada até a sala, era sempre a primeira; em geral os alunos demoravam cerca de meia hora para chegar. Aqueles que assistiam à aula, claro. Por que, normalmente, o primeiro horário era vazio, principalmente se tratando de Filosofia.
Nesse curto espaço de tempo, aproveitava o silêncio quase inexistente na York High School. Aquele momento antes do começo das aulas era de extrema importância para o seu dia, proporcionava a sua meditação particular, no qual ela ouvia apenas o forte barulho do vento contra o vidro da janela. Era assim que encontrava forças para enfrentar o medíocre ambiente escolar que a cercava.
Mas nada disso aconteceu, sua rotina foi abalada assim que pôs os pés no assoalho de madeira da sala F.
Quando adentrou, deparou-se com uma cena, que por mais simples que fosse, a deixou um pouco confusa. Estava há tanto tempo acostumada com sua rotina, que qualquer coisa que fugisse dela fazia sua mente girar com imagens caleidoscópicas.
O professor, como sempre estava ausente, mas havia alguém, um garoto mais exatamente.
Um garoto de ofuscantes olhos que ela jurava conhecer de algum lugar. Ele estava posicionado prontamente no lado extremo da sala, ao fundo, na fila de cadeiras recostadas na parede das janelas. Era naquela fila que ela normalmente sentava, mais precisamente uma carteira à frente do jovem.
Quando colocou seus olhos sobre ele, ela parou. Ele mantinha o rosto em sua direção, sem a menor preocupação em disfarçar. Sua face era serena como a de uma criança, mas havia uma expressão sacana implícita em seu sorriso quase escondido no canto dos lábios, como se ele soubesse algo a mais. Algo extremamente proibido e perigoso.
Ela não conseguia parar de encará-lo por mais que o olhar do rapaz fosse capaz de desnudá-la. Nunca, naquela instituição, alguém fora corajoso o suficiente para olhá-la tão profundamente. Todos tinham medo de seus grandes olhos delineados de preto; de sua expressão pálida de olheiras arroxeadas, e principalmente, da sua indiferença maquinal.
E claro, medo da Interpol.
Se alguém um pouco mais observador que a maioria dos desatentos alunos daquela escola entrassem naquela sala, perceberia um frenesi no olhar dos dois. Era como se houvesse uma linha tênue entre eles emitindo milhares de palavras não ditas, fazendo o ambiente se tornar momentaneamente surreal, quase psicodélico.
Dois desconhecidos não se olham daquela forma. Desconhecidos desviam o olhar.
O garoto estava sentado despojadamente na carteira, tinha o cotovelo sobre a mesa e apoiava o queixo em uma das mãos. Ainda olhando para ela sugestivamente, passou a língua levemente pelo lábio inferior, mordendo-o em seguida, de um jeito misterioso. Ele piscou para ela e percebeu aquele leve sorriso sacana se alargar.
Quem é esse cara? Pensou.
Desconcertada, como se nada tivesse acontecido, se dirigiu automática até sua carteira de costume, mas parou subitamente, lembrando que havia um novo elemento no local e tudo o que ela menos queria eram novidades, principalmente se tratando de pessoas. A vida sistemática podia ser chata, mas era muito, muito mais fácil. E com toda a certeza aquele adolescente de jeans escuro e camisa branca significava perigo, assim como o seu penetrante olhar subliminar.
De cabeça baixa, ela deu meia volta, com o intuito de sentar em outro lugar, mas parou assim que ouviu a voz rouca... e familiar. Assim como os olhos.
- Não precisa ter medo – havia um tom debochado na rouquidão gostosa do timbre dele – eu não mordo.
Ela se virou rapidamente, sem falar nada, apenas enrugou a testa olhando-o atordoada. Ele parecia estar se divertindo com aquela situação, não só parecia, como de fato estava.
- Não do mesmo jeito que você – ele acrescentou mantendo seu olhar direto e firme sobre ela, com o agravante de um sorriso irônico perspicaz.
nada disse. Qualquer palavra poderia representar risco. Sentiu suas mãos gelarem e seu coração bater descompassado. Voltou-se para frente fingindo apatia àquelas palavras, ficando de costas para o estranho de olhos conhecidos. Inspirou fundo discretamente, fechou os olhos por uns dois segundos com o objetivo que as imagens a sua frente não parecessem tão confusas.
Por algum motivo, que ela julgaria sobrenatural pelo resto da vida, sentou-se no seu lugar de sempre, na carteira à frente do rapaz. Era como se existisse um magnetismo impedido que saísse de perto dele. Talvez fosse apenas a curiosidade pulsando crescente em suas veias. Não era muito inteligente que alguém como ela se envolvesse com qualquer tipo de investigação, ou até mesmo uma simples bisbilhotice, afinal, era um alvo constante delas.
Prendeu o cabelo em um nó frouxo, deixando que sua franja caísse sobre os olhos. Pegou o pequeno caderno em sua bolsa, onde gostava de escrever qualquer bobagem que lhe viesse à mente.
Sabia que ele a olhava atentamente, sua perita visão periférica o denunciava, notava também no silêncio que envolvia a atmosfera da sala.
Pela primeira vez desejou que todos os seus colegas estivessem por ali, mesmo com o barulho enlouquecedor que faziam, mesmo com todas as idiotices que era obrigada a aturar sendo que só podia se demonstrar minimamente enfadada - quando na verdade, sua real vontade era gritar com todos; mandar que calassem a boca; socá-los da cabeça aos pés.
Não conseguiu escrever nada de sua autoria, apenas músicas que gostava. Sentia-se intimidada. E esse sentimento era novo para Watson. No geral, o comando era dela, ninguém conseguia estremecê-la. Até aquela maldita manhã. E estava apenas começando.
Em poucos minutos seu papel de indiferente fora atormentado por ele, sua real impassibilidade transformou-se em uma preocupação há muito extinta.
Ainda mais dúvidas surgiriam na cabeça de se pudesse ver o olhar hipnotizado do adolescente em direção a sua nuca nua. Havia uma excitação explícita em seu rosto. Ele não parecia ligar para as pessoas que agora entravam ruidosamente na sala, olhava como se naquele pedaço descoberto de carne pudesse desvendar todas as faces dela. Como se fosse um seio nu.
Ele se recompôs instantaneamente ao ver que o volume de alunos já era bastante elevado. Tinha de ser um mínimo discreto, pelo menos por enquanto.

Todos pareciam tão concentrados revendo os amigos, abraçando uns aos outros, em um enjoativo clima de início de ano letivo, que a princípio não notaram o mais novo integrante da “fila excluída”. Mas logo a euforia estudantil foi cessando e Kate Simpson não deixaria de observar a presença daquele atraente calouro, inexplicavelmente posicionado atrás da estranha; só um louco não temeria Watson.
Kate ficou ereta como um pavão, ouviu os estímulos de seus clones, estufou os seios e abriu o mais largo e convidativo sorriso que conseguiu. Mirou o olhar perdido do rapaz, que admirava a paisagem do campus pelo vidro da janela, e foi seguindo seu caminho até o outro extremo da sala, determinada a falar com ele. Era bonito demais para ficar tão isolado dos ditos populares, não permitiria que ele continuasse com aquele ingênuo suicídio social.
- Oi – disse sentindo-se um pouco nervosa, ele era ainda mais encantador de perto.
O garoto levantou os olhos fingindo sobressalto, olhou-a docemente e abriu um sorriso suave.
- Oi – respondeu em um tom sereno, fingindo prazer em falar com ela.
Ela passou a mão pelos cabelos loiros, dissimulando uma vergonha que não tinha. Estendeu a mão e disse sem cerimônia:
- Sou Kate Simpson.
Ele olhou para ela mostrando-se encantado, pegou a mão da garota e disse:
- Sou Holmes.
Assim que o disse soltou a mão da garota bruscamente, deixando-a confusa. Mas sem baixar guarda, Kate continuou a falar cumprindo seus objetivos.
- Bom , aqui não é um lugar muito bom – ela começou olhando sugestivamente para Watson, a esquisita – Você pode se sentar comigo e meus amigos ali do outro lado.
olhou de Kate a , e fez questão em se demonstrar interessado em . Não estava com paciência para garotinhas populares de colegial como Kate Simpson. Era irritante ter que lidar com aquele tipo de situação e uma absurda perda de tempo. Sabia o quanto devia ser discreto e demonstrar-se paciente, mas também tinha total consciência do tipo de garota que Kate Simpson era e tudo o que ele menos precisava era colegiais grudentas.
- Muito obrigado Simpson, mas não precisa se incomodar – ele disse sorrindo em uma linha, sem olhá-la. Media a nuca de , propositalmente como um predador diante da caça.
Mas Kate não desistiria tão fácil, mesmo estando irritada por não receber a atenção que estava acostumada.
- Sério, acredite em mim, você não vai querer passar mais de dois minutos aí.
inspirou profundamente mostrando-se irritado, de forma intencional. Desviou seus olhos da nuca de e os colocou sobre Kate revirando-os impaciente.
- Pois aqui é exatamente onde eu quero estar – ele disse categórico, fazendo Kate expor uma expressão indignada no rosto. A rejeição não era algo que ela estivesse acostumada.
- Tudo bem – ela falou recompondo-se – quando quiser...
- Eu aviso – ele a interrompeu com um tom de ponto final.

A audição invejável de Watson permitiu que ela escutasse cada palavra de Kate Simpson com Holmes.
Nenhum garoto normal se recusaria a sentar próximo a Kate Simpson, ela era visivelmente a mais popular de toda a York High School. Seu pai era um magnata multimilionário e realizava todas as vontades da filha por não ser muito presente. Assim que completou dezessete anos ganhou um Porshe; nas sextas e nos sábados as festas em sua casa eram sagradas. Garotos, viagens internacionais, grifes; sem a menor dúvida, vivia no melhor estilo de vida Beverley Hills.
Somente um louco abdicaria de se aproximar de Kate. Mas Watson não era uma louca, assim como Holmes.
Ela tinha um objetivo. E ele também.
ficou impressionada com atitude do rapaz, no entanto se pôs em alerta. Ele era demasiadamente intrigante. Não só por sua beleza, mas principalmente por seu olhar – ela o conhecia de algum lugar – e mais: havia o sorriso dele, como se soubesse exatamente quem ela era, de fato.
Talvez fosse apenas mais uma paranóia. Talvez ele fosse apenas um garoto qualquer instigado por ela ser diferente. Não podia negar, ela chamava atenção. Mas também não podia negar que seu jeito dark-anti-social a camuflava.
Tinha que ser otimista e em menos de quarenta e oito horas o adolescente às suas costas perderia o fascínio por ela; como todos os outros que antes a admiraram.
Mas havia um detalhe: Holmes não era qualquer um.
E seu “fascínio” por Watson só havia de aumentar, dia após dia, sem que ela percebesse. Nem mesmo o próprio perceberia.
Finalmente o professor de Filosofia se mostrou presente na sala F, pondo em ordem seus cinquenta e sete alunos.
Albert Baker era um homem de meia idade, baixo, de barriga avantajada, e um tanto afônico devido aos seus vinte e seis anos como educador. Seu mais importante instrumento de trabalho já fora diversas vezes comprometido, mas parar de ensinar seria o mesmo que sua morte. Talvez pelo amor a profissão, fosse tão adorado por seus alunos.
Baker subiu no tablado e olhou para a geografia da classe. Ele notou que agora Watson tinha companhia. Um bonito calouro. Ele também notou que Kate Simpson estava de olho no adolescente.
Albert Baker era um bom observador, e por vezes, um bom oráculo, também.
Mas antes de realmente começar a sua aula, faria o calouro se apresentar, já era uma tradição, e o jovem não parecia ter objeções quanto à exposição.
E como um bom observador, Albert Baker não estava errado.
- Bom dia a todos! – começou Albert animado – Mais um início de ano letivo... espero que vocês tenham aproveitado bastante durante essas férias. Vocês já devem ter percebido a presença de um novo colega – o professor deu um sorriso cúmplice para a turma que já sabia o que viria - Por favor, queira se apresentar!
Como esperado por Albert, o estudante deu um sorriso astuto e se levantou prontamente, caminhando até o tablado de um jeito despojado.
Atrevido, sentou-se na mesa do professor e começou a falar.
- Hei – começou com um sorriso displicente – antes de falar o meu nome, gostaria de saber o nome daquela garota sentada à minha frente.
Kate Simpson não conseguiu disfarçar sua indignação.
- Se você conseguir fazer com que ela abra a boca, talvez descubra – havia uma acidez na voz da garota que fez o calouro ter vontade de rir.
ignorou o comentário de Kate, e olhou para , do mesmo jeito intenso do início da manhã, sem se preocupar que todos estavam vendo, fazendo comentários desdenhosos e dando risadinhas infantis.
Ela o olhou, e a principio, tentou se fazer indiferente, mas era impossível. Ele era intrigante e seus olhos a seduziam de uma maneira inexplicável.
Sem planejar, abriu a boca e se ouviu falar em meio a muitas pessoas pela primeira vez desde que se mudara.
- Watson - deu uma pausa ainda olhando-o, mas agora totalmente aturdida.
- Então você fala? – ele perguntou irônico arrancando risos nada discretos das garotas.
Ela piscou os olhos por cinco vezes, tentando se recompor. Havia algo naquele garoto que a assustava, deixava-a em parafuso. Mordeu o lábio inferior, sem ter a menor noção do quão apelativo aquele simples gesto era para , talvez para qualquer outro garoto, mas sentia-se conectado a ela, fissurado por ela. Eles tinham um passado em comum, por mais que ela não soubesse. E por mais, que em uma realidade distante daquela escola, de York, ela quisesse matá-lo – claro que ela ainda não tinha conhecimento desse desejo assassino com relação ao seu novo conhecido.
- Sem mais comentários – completou agora decidindo não olhar para o garoto, pois sabia que se trairia.
voltou seus olhos para a turma, satisfeito. Não por estar arrancando suspiros da maior parte das garotas ali presentes – que não se preocupavam em disfarçar -, mas sim por seu plano estar correndo exatamente como ele havia coordenado durante meses. Ela começara a notar que ele sabia de algo valioso a seu respeito.
Albert Baker observou os dois com olhos cautelosos. Havia algo muito errado e muito fogo estava por vir e flamejar, pressentiu o professor estranhamente, sentindo o coração apertar.
É, não tinha jeito, Baker era um oráculo ambulante.

As luzes se apagaram e as imagens no data show começaram a rodar. Não havia nada mais chato que data show para Watson, mesmo sendo a aula do senhor Baker e toda a sua dinâmica hiperativa.
encostou a cabeça no vidro da janela, planejando descansar. Mas seus planos foram interrompidos por uma voz rouca e sensual no pé de seu ouvido.
- Acho que esse não é o melhor momento para dormir, Watson.
A garota percebeu a ênfase irônica no “ Watson”
Aquela situação estava começando a irritá-la. Quem ele pensava que era para falar com ela daquele jeito, como se a conhecesse, e usando aquele tom de maníaco sexual?
estava cheia de dúvidas e ela não gostava de conviver com incertezas, sentia-se absurdamente insegura com elas. Olhou para trás com um olhar furioso e falou:
- Será que você não percebeu que eu não quero conversa, Holmes?
Ele abriu um sorriso exultante e disse em seguida:
- Pois eu quero todo o tipo de conversa com você, Watson – ele disse suave, sem deixar de dar seu sorriso enviesado.
o olhou irritada.
- Eu não te dei permissão para me chamar pelo primeiro nome – ela deu uma pausa respirando fundo – te peço educadamente que me deixe em paz.
- Eu não vou te deixar em paz - ele disse incisivo, porém sem perder sua irritante tranqüilidade - E você vai me encontrar, . Hoje. Às oito da noite, no Detroit.
- O que? Eu entendi isso? – ela perguntou exasperada, tentando conter seu tom - Eu não vou encontrar um estranho com jeito de maníaco sexual. Muito menos no Detroit.
riu gostosamente e depois disse calmo:
- Não sou um maníaco sexual, . E o Detroit é perfeito para nós dois.
A última frase de fez tremer, suas mãos suaram e mais uma vez ela respirou fundo, com a finalidade de encontrar forças para conseguir falar sem que sua voz falhasse.
- O que quer de mim, Holmes? – perguntou o mais direta possível.
Ele aproximou o rosto do dela e sussurrou cordial, com uma voz intencionalmente aveludada e sedutora:
- Quero você do meu lado de hoje em diante.
O que está acontecendo? Quem é esse cara? O que ele realmente quer de mim? Perguntas e mais perguntas começaram a surgir instantaneamente em sua mente. E mais curiosidade. E mais medo.
- Você é louco?
- Minha sanidade é maior do que você imagina – ele respondeu tranquilo, sabendo que a sua calma a afetaria profundamente
Ela apertou os olhos analisando-o, tentando descobrir se o conhecia de algum lugar. Mas nada vinha a sua mente. Depois daquela fatídica noite há quase dois anos atrás, suas lembranças de passados mais distantes não eram as mesmas. Era difícil lembrar-se da infância; forçou um pouco a memória, no entanto apenas vinham flashes e o único clarão que lhe veio foram olhos , mas sem corpo, sem rosto.
- Quem é você? – ela finalmente perguntou saciando sua vontade.
- Quem é você? – ele devolveu divertido.
Um silêncio se instalou sobre eles. julgou ser a melhor alternativa, mas estava enganada. Murphy não estava do seu lado. Tudo tendia piorar. Claro que para o seu atual entendimento de sua situação.
Eles se olhavam intensamente; tentava descobri-lo; apenas se divertia com aquele contato visual, dificultado pela pouca luz do ambiente, mas ainda assim, podia ver o rosto dela se contorcendo de curiosidade, incredulidade... confusão. Ele gostava disso.
- Será que o sobrenome te diz alguma coisa, ? – perguntou cortante após alguns minutos.
Ela não conseguiu controlar o nervosismo. Estremeceu.
Virou-se para frente com os olhos arregalados. Durante o resto do dia escolar, foram poucas as palavras que conseguiu proferir.
Ele sorriu tendo uma sensação parecida com a de um orgasmo. Agora podia ter certeza: a garota iria encontrá-lo, até mesmo no inferno se ele pedisse.

02.

não tinha o que se podia considerar um passado respeitável.
Era apenas um jovem de vinte anos, mas a sua vida fora repleta de desejos saciados. Os mais proibidos, ilegais, grandiosos. Também os infantis, mimados e sonhadores. Inclusive aquele que ele julgava ser o maior de todos.
Mal sabia que o maior de seus desejos ainda nem fora consumado, e que, perto deste, todos os outros não tinham a menor importância.
Noites em Paris, Nova York, Amsterdã, Londres. As garotas mais bonitas e de importância estavam ao seu lado em festas; Ferraris e hotéis de luxo.
Ninguém podia negar, tinha regalias de rei, ainda que houvesse muitos pesares.
Mas havia um porém: sua boa vida fora atrapalhada.
Agora ele queria o que era seu de volta.
E tinha sede de vingança.


A farsa estava, enfim, acabada.
Se esconder por trás de um codinome não é uma das melhores soluções, afinal de contas.
Será que o sobrenome te diz alguma coisa, ?
Essas palavras ecoavam em sua mente fazendo-a sentir incômodas vertigens. Ele sabia, e a cada vez que este fato martelava em sua cabeça, sentia a adrenalina do desespero circular sem dó por suas veias.
continuou calada durante muito tempo, mas o diferente em seu silêncio era a inquietação que a dominava. Mexia a perna direita compulsivamente, por vezes apertava o botão na caneta, quando não, começava a tamborilar os dedos sobre a mesa.
assistia a tudo satisfeito. Não deviam existir delongas. Antes pensara em demorar uma semana, duas, para chamar a atenção da garota aos poucos; mas em seu plano meticulosamente arquitetado havia um fator de extrema importância chamado tempo. Ele se divertia a cada vez que a garota à sua frente se movia impaciente, nervosa, compulsiva. Com toda a certeza, se houvesse tempo, a deixaria por mais alguns dias sem ciência de absolutamente nada, só provocando o medo e a insegurança nela, apenas para aproveitar o comando que em pouco tempo iria perder. Nada lhe parecia tão hilário quanto a face confusa e furiosa de .
Conhecia a fama de durona dela e isso o fazia gostar ainda mais da situação, tornava tudo mais excitante. Naquele momento podia ver toda superioridade dela cair abaixo. Ela estava envolta pela confusão que a menção do seu verdadeiro sobrenome causara. O melhor era saber de tudo, era sua mente ser a mais pura e translúcida água, se tratando de tudo que envolvesse os e os .
tentava entender o que se passava; com toda concentração que lhe restava, buscou em sua memória danificada alguma lembrança que lhe remetesse ao rapaz sentado às suas costas. E novamente a única imagem que lhe vinha eram olhos em flashes.
Era óbvio que ele sabia sua identidade; era ainda mais óbvio que isso lhe custaria muito caro. Quando se tem um passado comprometedor, você deve guardá-lo a sete chaves e torcer, fazer figas, cruzar os dedos, para que ninguém o descubra.
A garota abaixou a cabeça por um momento e pôs as mãos sobre os cabelos. Uma reação proveniente do seu desespero, da agonia que estava corroendo-a. Estava começando o seu segundo ano em York e fizera de tudo para que ninguém desconfiasse dela. Comportara-se como uma perfeita cidadã, uma verdadeira lady inglesa – claro que não com uma simpatia ao estilo Di, mas nunca fora vista em público fumando, ou bebendo; somente quando estava no Detroit se permitia agir como a pessoa politicamente incorreta que era. Algumas pessoas da escola achavam até mesmo que ela era virgem.
Mas então Holmes por algum motivo queria estragar sua vida. Talvez mandado por alguém, provavelmente .
Merda de !
A única pista que tinha sobre Holmes era o fato de ele ser um associado do Detroit, pois apenas sócios extremamente seletos da rede podiam entrar no de York. E se ele era realmente sócio, era tão podre quanto ela; tinha um histórico; um passado a temer.
A garota ergueu-se rapidamente, sentindo a cabeça latejar e o medo persistir. Sua mente trabalhava acelerada, mas sem realmente produzir algo significativo. Pensava em tudo ao mesmo tempo, mas nenhuma solução lhe ocorria. Trabalhar sob pressão era algo que ela estava totalmente acostumada, contudo, naquela situação era difícil, ainda mais ao lembrar-se dos olhos dele: ofuscantes e ; subliminares e intensos. Era confuso, irritamente confuso e assustador se sentir uma fraca. Não estava acostumada com a impotência diante um problema.
O pior era ter plena convicção de que fugir não era mais uma solução.

Albert Baker acendeu as luzes já sabendo que boa parte de seus alunos padeciam de cabeça baixa, aproveitando o escuro proveniente da necessidade do Data Show. Mas ele se surpreendeu ao ver que incrivelmente haviam rostos erguidos em meio àquelas cabeças baixas. Kate Simpson, Lily Smith, Holmes e Watson permaneciam de olhos bem abertos, vidrados, três deles hipnotizados e a última parecia apavorada.
Kate Simpson e Lily Smith não desviavam os olhos de , pareciam estar diante de diamantes. O garoto, por sua vez, olhava fascinado para a nuca de – nucas femininas eram o seu ponto fraco, mas aquela garota tinha algo que o atraía de uma forma que nem ele sabia explicar, talvez pelo perigo que representava envolver-se com ela. Já encarava o nada completamente estática; quem sabe pelo fato que a luz a deixasse em perigo constante; preferia o escuro, onde tudo era menos identificável, principalmente ela.
O professor ficou olhando para os dois jovens acomodados na “fila excluída” – assim chamada pelos estudantes daquela turma. Eles tinham uma ligação intrigante, pelo menos o rapaz era totalmente conectado a , como se a conhecesse há muito tempo. No entanto, Watson parecia muito distante e assustada, Albert Baker arriscaria até em dizer que ela estava apavorada.
É, Baker era irritantemente correto no quesito acerto, mesmo sem realmente saber do seu talento em clarividência.

Os alunos começaram a levantar suas cabeças vagarosamente, todos com olhos vermelhos e rostos inchados. Mesmo que gostassem do senhor Baker, era difícil controlar o sono em aulas expositivas como aquela, mostrando vídeos sobre aquecimento global e ensinando a importância do papel de cada cidadão no mundo.
As luzes acesas significavam o fim dos massacrantes cem minutos de daquela ladainha chamada conscientização humanitária que o professor havia preparada para o primeiro dia de aula. O resultado não fora decerto o que ele imaginara, pensou que talvez seus alunos se interessassem. Baker conseguia ser realmente ingênuo se tratando da sua profissão e dos seus alunos. Boa parte deles esperava ansiosamente que a aula acabasse para poderem ir ao banheiro do quinto andar puxar um baseado; e havia ainda aqueles que nem esperavam que os cem minutos corressem, pediam o passe de saída e só voltavam após um mínimo de duas carreiras de pó. Claro que havia pessoas interessadas na disciplina e com um incrível senso humanitário, mas esses alunos acabavam se tornando invisíveis perto dos outros.

se levantou em um súbito, tinha que sair dali, não conseguiria passar nem mais um minuto naquela sala com Holmes em seu encalço. Assim que os alunos começaram a esvaziar a sala para o intervalo de cinco minutos entre uma aula e outra, ela se movimentou em direção à porta. Mas antes que conseguisse chegar, sentiu uma mão quente em seu braço que a entorpeceu totalmente, pois já sabia a quem pertencia.
- Onde você pensa que vai, ? – ouviu a voz sedutora dele sussurrar em seu ouvido.
- Isso já está indo longe demais, Holmes – ela disse trêmula, porém ainda assim incisiva.
- Não pense que vai fugir de mim. Lembre-se que temos um compromisso hoje.
- Será que você pode me soltar e isso parecer menos suspeito aos olhos dos nossos coleguinhas? – falou a garota com uma ironia ácida e contundente.
- Claro – disse cortês soltando o braço da garota, porém segurando a mão dela, virando-a e pondo-a de frente para ele.
se viu mais uma vez encarando-o e mais uma vez sentiu-se fraca ao ver aqueles olhos; sentia que debaixo deles não conseguiria dissimular como antes fazia naturalmente.
- Me diz de uma vez o que você quer – ela falou com a voz cansada.
sorriu divertido, olhando-a maliciosamente. Intimidando-a.
- Eu já disse. Eu quero você – o garoto passou seus dedos delicadamente por sua bochecha esquerda.
- Pode ser mais claro, porque essa sua frase soou romântica – contestou firme e impaciente.
- Romântica? – perguntou debochado – Eu poderia sussurra isso em seu ouvido no meio de uma transa e isso não seria necessariamente romântico.
- Holmes! – a garota exclamou impaciente - Pára de brincadeiras, eu não sei quem é você, nem ao menos o que quer de mim.
Ele apenas riu. Mais uma vez.
- Você não é tão maquinal quantos os outros acham.
- O quê? Andou me investigando? – estava começando a se irritar de vez com os comentários sem sentido dele.
aproximou o rosto do dela lentamente, como se fosse um sommelier diante dum vinho do porto; a respiração dele era ruidosa e pausada. Ele não titubeou em pôr suas mãos suavemente no rosto da garota, mesmo sentindo toda a hesitação dela e as tentativas frustradas em recuar.
- Isso é bem óbvio, não acha? – disse olhando-a fixamente para nos olhos, enquanto seu polegar fazia pequenos círculos nas maçãs do rosto dela.
- Por quê? – perguntou confusa. Merda de olhos !
Ele apenas sorriu se afastando dela, mas sua feição tornou-se ameaçadora.
- Hoje à noite, no Detroit. E não ouse me deixar na mão, se você fugir será pior.

Definitivamente aquele não era o seu dia. Sentia o corpo tremer em ansiedade e confusão, além de toda a raiva em erupção por seu organismo. Raiva de si mesma por ter demonstrado tão facilmente o medo que estava sentindo; raiva de Holmes com seu tom arrogante, sua expressão prepotente e as ameaças explícitas no diálogo de poucos minutos que haviam tido.
Ele sabia do seu maior segredo em York: sua identidade. Tivera tanto cuidado em permanecer às sombras, que a simples possibilidade que alguém a descobrisse poucas vezes fora cogitada. Não deixaria aquele idiota atrapalhar seus planos, não havia chegado tão longe para que qualquer um a derrubasse tão facilmente quanto um castelo de cartas.
Sentada naquela sala barulhenta, tentava pensar. Mas a euforia de seus colegas estava impossível e ela, mais do que nunca, queria ter uma arma de destruição em massa. O pior era ter o idiota do senhor McGee como professor; um homem sem pulso, com a autoridade inferior a do faxineiro do corredor. Em todo início de ano letivo, as aulas de geografia eram nulas, pois Patrick McGee não conseguia dizer um simples chega.
Às vezes achava que ele ainda era virgem.
A garota apenas respirou fundo, sabendo que observava cada movimento seu. Tinha de agir friamente, ignorar os acéfalos a sua volta. Pegou o iPod na mochila e seus olhos, antes aflitos, agora estavam milagrosamente vazios como de costume, dissimulados e ela se sentiu no controle mais uma vez. Aproveitando a adrenalina do momento olhou para trás sorrindo ardilosa, encontrou os olhos de observando-a atentamente em uma frustrada tentativa de tentar entendê-la por completo.
Se ele achava que ) viera ao mundo de brincadeira, estava muito enganado. Mas de fato, não achava, sabia com precisão que ela era praticamente indomável e que o controle escaparia de suas mãos como o vento.
Ela voltou-se para frente e fechou os olhos em uma tentativa de buscar em sua mente Holmes, tinha certeza que o conhecia de algum lugar. A música relaxante de Enya deixou-a no estado de transcendência que precisava, pois facilitava que sua imaginação corresse solta para outras realidades.
Agora se via em um jardim cheio de flores e pássaros em um dia ensolarado. Estava visivelmente mais nova, devia ter uns sete anos. Seu cabelo estava mais claro, com leves cachos nas pontas e uma franja infantil que lhe trazia um ar ical. Aquela era uma inocente, sonhadora, visivelmente apaixonada e curiosa pelo mundo. Uma que não existia mais.
Essa era uma memória que insistia em lhe ocorrer, era involuntário, mas no fundo, gostava. Gostava de ver suas bochechas rosadas, os olhos brilhando, e principalmente, seu sorriso sincero. Ela não sabia se essas imagens realmente haviam sucedido, talvez fossem cenas de um filme que assistira em algum momento de sua vida. Contudo, preferia acreditar que acontecera, pois aquela era a única lembrança nítida e recorrente que tinha de sua infância.
Cerrou os olhos com força, focando na busca por ele, ou por alguém que tivesse aqueles mesmos olhos. E novamente apenas flashes surgiram. Forçou um pouco mais, agora apertando os dedos contra as têmporas e então, imagens psicodélicas apareceram, todas totalmente conturbadas. O lugar lhe parecia ser uma boate e ela andava rapidamente, desolada, se esquivando de forma rude das pessoas que dançavam feito loucas ao som de um PSY trance que chegava a machucar seus ouvidos. Depois, tudo que conseguiu lembrar foi de uns olhos – que não eram , mas cinzas -, e por fim, alguém falando “Finalmente, !”.
não agüentou mais, abriu os olhos sentindo a claridade corroer suas vistas e a cabeça latejar. Era sempre doloroso tentar lembrar. Mas ela sabia – infelizmente - o que acontecera na noite da boate (vale lembrar que não exatamente), só não sabia quem era o cara dos olhos e da voz. Tinha quinze anos naquela noite e tentava afastar qualquer vaga memória que lhe remetesse a ela, mas não era tão difícil, além do bloqueio dela mesma, havia bebido tanto e usado tantas drogas que seria praticamente impossível lembrar. Se não fosse pelo sofrimento e os acontecimentos daquele dia, não saberia nem mesmo que aquela noite acontecera.
Balançou a cabeça negativamente, lá estava ela sendo uma fraca mais uma vez. Respirou fundo – aquilo já estava mais constante que o aceitável – e direcionou sua atenção ao término da aula inútil de McGee. Ele parecia um tanto quanto agoniado, arriscaria em afirmar que ele tentava esconder, ineficaz, sua excitação no andar de baixo, já que Lily Smith propositalmente olhava sensualmente para o professor, mordendo o lábio inferior como uma perfeita vagabunda. Nesses poucos momentos até que gostava dela, pelo menos a garota sabia se divertir, mesmo que apenas às vezes.

- Então, porque você preferiu ficar com a Watson, a sentar com a gente? – perguntou curiosa Susan Stone, uma japonesa de corpo escultural, a no almoço.
Ele olhou para ela curioso e sem conter o riso virou-se para Kate, que adquirira um tom vermelho pimentão e uma expressão furiosa. Então Kate ficara magoada com a sua indiferença ao ponto de contar para as amigas? Fazia tanto tempo que não se envolvia com assuntos colegiais que ele se esquecera completamente o quanto tudo aquilo era ridículo. Ele voltou seu olhar para Susan, agora cordial e displicente.
- Ela é muito atraente, Susan. Aposto que todos os caras dessa mesa já se imaginaram com ela – disse, vendo que os colegas concordaram com sorrisos idiotas – E sem roupa alguma.
- Eu acho ela muito sem graça – disse Kate de repente, com um despeito explícito em seu tom de voz.
- Deixa de inveja, Kate! – exclamou Mike sorridente – A é como se fosse um desejo secreto de cada garoto dessa escola.
- Opa, adoro segredos sendo revelados! – falou Lily animada, recebendo um tapa de repressão de Kate, mas sem realmente se importar com isso – Ela é bem misteriosa e vamos admitir que isso deve ser excitante para os garotos, assim como nós ficamos encantadas com o calouro garanhão aqui! Kate que o diga!
- Até quando está sóbria você parece bêbada – disse Kate balançando a cabeça envergonhada – Não dê atenção a ela, a Lily gosta mais de destilados que do próprio pai.
Todos na mesa ficaram sérios de repente. percebeu que Kate mesquinhamente havia tocado em um assunto delicado como forma de castigo à amiga.
- Pois então, eu e a Lily temos muito em comum – ele disse em tom cortante a Kate e logo em seguida sorriu para Lily – Qualquer dia desses Lily, podemos sair juntos para beber e difamar nossos pais.
Um sorriso se formou instantaneamente no semblante de Lily e ela disse recuperando sua costumeira euforia:
- Olha que eu vou cobrar, hein Holmes!
- O que você acha dessa sexta-feira?
- Perfeito – falou sorrindo vitoriosa para amiga que estava lívida em fúria – e eu não estou brincando.
- Nem muito menos eu.

Estava acostumada a ser uma intrusa naquela mesa, mas ela particularmente se sentia bem ali. Ao seu lado estava Alex Stafford, o melhor jogador de xadrez de York, um orgulho para o colégio. Claro que não eram todos que reconheciam o mérito do garoto, mas ele não parecia ligar para isso, o garoto preocupava-se mais em observar Maggie Bensen, a líder das olimpíadas de matemática. A garota era realmente bonita, porém tinha certas peculiaridades que a tornava invisível aos olhos dos outros garotos, os populares por assim dizer. Maggie era tão desleixada ao ponto de ir para escola com meias diferentes e pregadores de roupa no cabelo. Mesmo sem entender realmente, sabia que esse desleixamento a tornava ainda mais especial para Alex.
Sempre que via aquele cotidiano comum dos adolescentes à sua volta, sentia-se tranquila, como se houvesse uma energia positiva entre aquelas pessoas que a revigorasse. Ninguém falava com ela, raras vezes lançavam olhares curiosos; todos já estavam acostumados com a presença daquela estranha inquilina, sempre calada e com respostas automáticas.
Mas naquele dia em especial se sentiu extremamente incomodada com seus colegas, pois o assunto do almoço não foi o que Maggie havia perdido pela décima vez, ou como fora a partida de Alex, nem muito menos como os saltos de Susan Matherson poderiam melhorar através dos princípios da física explicados por Rona Cotson. E sim Holmes na mesa de Kate Simpson.
ficara absurdamente aliviada ao ver que ele não a puxara para uma mesa, mas o nome dele rondando todo o refeitório em burburinhos deixou-a completamente irritada. Será que os adolescentes não poderiam ser mais críticos e pararem de julgar pelas aparências? Será que não estava na cara que Holmes era um canalha? Tudo bem, não estava. Ele tinha um físico invejável, um sorriso hipnotizante e um olhar de fazer qualquer garota normal suspirar. Se fosse há um tempo, provavelmente ela estaria planejando alguma forma de tê-lo... Tempo em que ela não era uma fugitiva, tempo onde suas preocupações eram basicamente Luke Carter, seu pai e as provas de matemática.
Ela fechou os olhos, pondo o volume do seu iPod no máximo e passou a prestar atenção na música envolvente de Arcade Fire que tocava. Crown of Love tinha tom sexy e mórbido com o poder de entorpecê-la. Se concentrou em relaxar, pois sabia que somente assim conseguiria enfrentar Holmes dali a poucas horas.

O resto das aulas transcorreu naturalmente, e preferiu dormir, mesmo que essa atitude não fosse condizente com o bom comportamento que estava acostumada a demonstrar diante daquelas pessoas.
Dormir faria o tempo passar mais rápido.
Ao fim da aula de História, que era a última do dia, levantou da cadeira como quem não quer nada, esbarrou no estojo propositalmente e se abaixou esperando que todos saíssem, até que por fim, empurrada por Lily Smith, Kate Simpson saiu da sala. A garota ouviu o sorrisinho irônico de e passos firmes às suas costas. Estremeceu assim que sentiu a calma respiração dele em seu pescoço. Estar decidida não significava que seu estado de alerta tivesse cessado, ou até mesmo reduzido. Qualquer aproximação dele fazia com que ela sentisse o medo circular.
- Então você quer falar comigo, ? – sussurrou contra a nuca da garota
- Quer parar de me chamar desse jeito?!
- O que acha de ? – a garota se moveu desconfortável, mas sem conseguir se desvencilhar de que mantinha o queixo sobre o ombro dela, como se fossem íntimos - Ou quer ter intimidade suficiente comigo ao ponto de preferir que eu me refira a você como ?
- Eu quero que você me chame de Watson, como todos de York – disse soltando um suspiro pesado.
Ele deu uma risada abafada e continuou a falar sussurrando no ouvido dela.
- Farei isso. Claro que somente se você...
- Não se preocupe quanto a isso, estarei lá às oito da noite – ela o interrompeu antes que ele consiga terminar a frase, já não aguenta mais aquela situação: controlando-a.
- Não que você tenha opção – ele disse pungente, mas sem abandonar seu tom tranquilo absurdamente irritante para .
Ela respirou fundo e disse cansada:
- Não que eu tenha opção.
Sem dizer mais nada a , afastou-se dele bruscamente antes que o garoto pudesse novamente começar com as chantagens. Rapidamente, pegou sua bolsa, pôs o estojo dentro dela e saiu da sala, deixando Holmes com um extenso sorriso de pura satisfação nos lábios.

03.
O Detroit era um pub/boate localizado no centro da cidade, em um bairro histórico e sujo; entregue ao tráfico e à prostituição.
Em um passado longínquo, morar no Kings significava luxo e prosperidade, principalmente em sua rua principal, a Freedom. Lá as casas eram majestosas e muitos membros da nobreza tinham propriedades naquela localidade.
Nos bons tempos do cinema, no auge do Paradiso, onde as únicas cores possíveis eram o preto e o branco, quando se falava pouco e se interpretava mais; era comum ver no Kings celebridades intelectuais da época.
Para poetas e romancistas, certamente uma parada obrigatória. Casas bem cuidadas, jardins cultivados com muito esmero, pessoas elegantes, cafés ao estilo parisiense; sediavam a inspiração para as obras burguesas do momento.
Mas agora, já não havia vestígios daquela época de luxuoso prestígio. A não ser pelas ruínas das velhas mansões, esboçando os mais diversos estilos arquitetônicos. Os bons tempos haviam definitivamente cedido espaço para a mais viva e genuína miséria que uma cidade aristocrática como York não deveria ter. O Kings carregava o peso das máfias inglesas, e a Freedom concentrava seus principais negócios de sustentação. Ali funcionavam casas noturnas de strip-tease, prostíbulos, cassinos, pubs ilegais.
A mais pura cocaína da Inglaterra se encontrava naquele local.
O Detroit era um dos pontos de venda.
O mais famoso e seleto.
E também, o mais perigoso.

A Rua Freedom estava vazia e mal iluminada, como em todas as segundas-feiras. As poucas luzes incandescentes, em dias de chuva como aquele, jaziam piscando no alto dos velhos postes de metal, intensificando o clima periférico e abandonado que fazia pessoas desacostumadas sentirem arrepios só ao passar de carro, quem dirá aqueles tinha a necessidade de andar por lá.
não temia nem um pouco a Freedom, mas naquela noite em especial, assim que pôs seus olhos sobre as casas em ruínas, as placas de neon, as prostitutas, os traficantes, e todos os outros tipos que compunham o cenário mórbido e marginalizado; sentiu um arrepio na espinha.
Logo que cruzou a esquina da Freedom com a Save Queen, viu algo tão corriqueiro, mas dessa vez se deu o trabalho de realmente prestar atenção àquelas cenas, e de alguma forma sua observação acabou deixando seu íntimo abalado. Viu algumas prostitutas dominadas pela heroína disputarem seus pontos de trabalho. Essas – sabia – eram aquelas que uma hora não custaria mais de quinze libras ao homem corajoso que aceitasse um sexo barato. Na verdade, nada mais que um estupro autorizado, já que eram violentadas quase todas as vezes em que estavam no ato.
Tinham o rosto danificado, manchas roxas pelos braços e pernas. A noite era fria, mas elas vestiam apenas trapos que lhes cobriam minimante o corpo. Lutavam pela sobrevivência do vício. Podiam conviver com tudo, menos com a abstinência.
Em frente ao Detroit, havia um cassino de uma rede internacional, onde também funcionava um prostíbulo luxuoso. Os frequentadores do Paradise eram os mais influentes políticos da Inglaterra, até mesmo os pertencentes à Câmara dos Lordes. Homens viciados nos jogos de sorte ou azar e amantes das profissionais do sexo. Ali estavam as mais raras peças: mulheres de todas as etnias, especializadas no prazer masculino. Elas eram lindas, dignas do prêmio Miss Universo, mas não passavam de escravas sexuais, obrigadas a fazer sexo ensandecidamente com homens prepotentes e muitas vezes com os hábitos mais peculiares e nojentos que se pode imaginar.
Não costumava se comover nem um pouco com isso. Sua relação com a Freedom era direta, poucas vezes emocional. Existia por uma questão de sobrevivência. E ela inteligentemente – ou não – se resumia a frequentar apenas o Detroit; o único lugar em York que se permitia ir.
Mas naquele dia específico, quando desceu do táxi pisando suas caras botas de couro preto no asfalto sujo da Freedom, sentiu-se como aquelas prostitutas que transavam sem opção. Sentiu-se incomodamente escravizada. Contudo, seguiu em frente, como já estava acostumada a fazer. Nos momentos em que sua vida está em jogo, o orgulho e a dignidade são os sentimentos que menos importam. sabia bem disso.
A garota inspirou profundamente antes de entrar no Detroit, olhou para todo o âmbito da extensa rua escura percebendo todas as mazelas que pairavam por aquele lugar. A promiscuidade, as drogas, o tráfico, a corrupção, tudo de podre estava ali. Inclusive eu não pôde deixar de lembrar.
Balançou a cabeça negativamente, não podia ficar pensando com sentimentalismo naquele momento. Tinha que ser fria, como já estava acostumada há um pouco mais de dois anos. Pouco importava quem estava morrendo se drogando, ou quantas garotas já haviam sido estupradas. O seu único foco era o objetivo que a tinha feito fugir para York e a nova ameaça que pairava sobre sua esfera.
Não era a primeira vez que entrava ali com a finalidade de tratar de “negócios”, mas dessa vez mal sabia qual era o real motivo de estar ali, completamente desarmada. Não sabia nada sobre aquele Holmes, apenas que ele tinha total ciência de seu envolvimento fatídico com a família . Tinha certeza que ele a manipularia das formas mais inescrupulosas possíveis, ou quem sabe até a entregaria para . E mais, Holmes também conhecia sua verdadeira identidade. E o que ela podia fazer? Seduzi-lo? Drogá-lo? Não, ele não fazia o tipo de pessoa que cai nesses joguinhos fáceis.
Logo quando entrou mostrando seu cartão de sócia, o silêncio incomum ao local preencheu seus ouvidos. Por dentro o Detroit de York podia ser melhor que muitas boates e pubs londrinos. Seus frequentadores não se resumiam aos mafiosos mal vistos pela sociedade: os high socities estavam inclusos. Talvez um bom atrativo fosse a facilidade em usar drogas e a ausência do perigo de ser preso por porte ilegal de certas substâncias.
Em segundas-feiras como aquela, nem mesmo a parte pub do Detroit funcionava. Estava vazio, o que tornava ainda mais suspeito o fato de Holmes ter marcado o encontro no Detroit. Mas se continuasse pensando tanto antes de seguir em frente acabaria tomando uma decisão burra, levada por sua covardia. Fugir talvez fosse a melhor opção para quem não conhecesse os sócios do Detroit, os tipos de contatos que tinham e do que eram capazes. conhecia esses artifícios, afinal, se não fosse por eles ela provavelmente estaria a sete palmos da superfície, ou melhor: teria virado pó.

Liam, um rapaz de recém completados vinte e um anos, quase sempre estava no bar. Não que ele fosse uma espécie de barman, ou qualquer outro tipo de funcionário de categoria inferior na hierarquia do Detroit. Ele era tão podre e tão poderoso quanto qualquer outro associado. Manipulava, extorquia e talvez, seu maior defeito fosse a intensidade que se envolvia com pessoas erradas, pessoas como Watson. Ela o fazia perder a coerência, esquecer-se dos objetivos, às vezes conseguia fazê-lo sentir remorsos. E isso definitivamente não era nada com o que ele pudesse lidar. Mas Liam preferia acreditar que estava no controle, que era apenas sexo e diversão.
Quem sabe se ele pudesse, futuramente, assistir a uma filmagem mostrando suas feições assim que viu a garota entrar no Detroit, naquela segunda, acreditaria no quão perigoso aquele "relacionamento" estava se tornando. A guinada que sentira no estômago ao vê-la entrar fora tão inesperada que Liam ficou momentaneamente assustado.
Ele era um jovem charmoso, sedutor. Sua beleza era umas de suas principais armas. Liam tinha estatura média, músculos bem trabalhados – nada muito excessivo-, cabelo preto e liso; chamava atenção de todas as social lights que frenquentavam a rede Detroit onde ele parecia sempre estar. Ele ainda não sabia, mas estava prestes a descobrir um grande segredo, que por sinal se tratava justamente da atraente garota que caminhava em sua direção com um olhar estranhamente cansado, um olhar que não fazia parte dela, não quando estava no Detroit. Não estava acostumado a vê-la desarmada. Na verdade o que melhor definiria seria: Liam não estava preparado.
Como se não tivesse percebido nada, nem mesmo notado a sua presença, continuou a se movimentar no bar como se houvesse algo mais interessante naquele dia parado e completamente solitário. Quando percebeu que sua indiferença não chamara a atenção dela, resolveu ceder, como sempre.
- O que te traz aqui hoje, ? – perguntou divertido - Sentiu saudades?
levantou a cabeça assustada, pois não havia percebido a presença de Liam. Estava tão perdida em seus próprios pensamentos que simplesmente havia esquecido tudo a sua volta. Mas assim que processou o tom e a expressão do rapaz, revirou os olhos impaciente – não estava disposta a ouvir as presunções de Liam.
- Não sonha, Liam – disse apoiando os cotovelos sobre o balcão cansada.
Ele deu uma risada sarcástica indo em direção a com toda a sua pose atraente e músculos chamativos à mostra devido à regata branca que usava. Liam apoiou os antebraços no balcão, ficando com o rosto próximo ao da garota, seu sorriso se alargou ao ver a expressão impaciente de persistir em sua face. Ele adorava provocá-la.
- Minha cama anda sentindo sua falta, – Liam sussurrou descaradamente.
jogou a cabeça para trás, como em um ato reflexo, não podia ceder às provocações de Liam, não podia esquecer-se do seu principal foco. E o garoto a sua frente com aqueles músculos fortes, o ar masculino apelativamente sensual não era a melhor dose de sensatez e tranquilidade da qual necessitava. Aquela proximidade só a deixava eufórica e incoerente.
A garota o olhou intensamente mostrando toda a sua irritação.
- Me esquece, ok?
- Isso é tudo o que você menos quer – ele disse incisivo.
Liam tinha uma errônea ideia que nutria fortes sentimentos por ele. Seu ego o fazia esquecer que nem ao menos sabia se Watson era mesmo Watson.
- Hoje, pode ter certeza, isso é tudo o que eu mais quero – a garota murmurou cansada.
- O que é que você tem? – Liam perguntou percebendo que a garota não estava para brincadeira. Sempre se demonstrava preocupado quando ela estava séria, ranzinza, ou difícil demais, afinal, a depender do humor da garota teria uma noite de sexo selvagem em seu apartamento. Ela era sempre muito inovadora e isso fazia seu corpo flamejar em excitação. E, inegavelmente, sua preocupação tinha um caráter afetivo, mas isso era um segredinho que seu coração contava aos sussurros a sua mente.
- Tenho coisas importantes a resolver.
- Do que se trata? – ele perguntou apertando os olhos em interesse. Devia ser realmente muito importante já que era uma segunda-feira à noite em pleno período letivo. Ele sabia que saídas assim eram feitas somente em último caso.
o olhou intensamente e decidiu que não custava nada perguntar, afinal, aquela também era uma função de Liam: informar.
- Liam, você sabe de algum associado chamado Holmes?
Liam apertou os olhos ardiloso, desconfiado. Ele sabia pouco sobre e qualquer pergunta que ela fazia despertava a sua curiosidade. Ele não era imbecil, embora por vezes se deixasse levar pelo estímulo que a garota provocava em seu corpo, principalmente se tratando do seu vanglorioso membro que ganhava vida própria a qualquer atitude minimamente sensual dela. Quando estava com esquecia todas as falcatruas que fazia parte; ele era apenas um animal excitado, e por vezes, se deixava levar pela paixão ardente e intensa que sentia por ela. Esses sentimentos lhe ocorriam quando os dois estavam sozinhos, ou na cama, transando loucamente, sem que se preocupassem com o amanhã, ou com decisões a serem tomadas em que vidas seriam preservadas ou descartadas. No dia seguinte ele procurava pensar na Princesa de Mônaco, ou na filha do presidente norte-americano e em como se sentia poderoso dormindo com as mulheres de homens egocêntricos e midiáticos.
O garoto abrandou sua expressão desconfiada, pois havia aberto os dois primeiros botões da blusa que vestia e esse pequeno e até, digamos que, singelo fato o fazia sair de qualquer linha de raciocínio.
- Não me provoca, Watson – ele disse sorrindo maliciosamente.
Ela sorriu mordendo o lábio inferior ainda mais sexy e abriu o terceiro botão, puxando a blusa um pouco para o lado, fazendo Liam ver a alça e uma parte sutil da renda de sua lingerie.
É vermelho... Filha da puta!
Ele a observou dolorosamente, sentindo os sinais de que qualquer banheiro mais próximo seria lucro, principalmente se Watson estivesse com ele.
- Será que você pode tirar os olhos dos meus seios por alguns minutos? – ela perguntou demonstrando indignação, embora sua voz não carregasse irritação, apenas divertimento. Ela simplesmente sentia um prazer fora do comum em deixar homens como Liam excitados nos horários mais inapropriados.
- Por mim eu tiraria sua roupa aqui mesmo e transaria com você nesse balcão – ele disse ainda sem encará-la, mas olhando seus seios com ainda mais tesão que antes.
Ela gargalhou alto, desceu do banco lentamente mantendo o olhar magneticamente conectado ao dele, deslumbrando-o. Depois, ela quebrou o olhar virando-se de costas para Liam; colocou as mãos no mármore frio pegando impulso conseguindo sentar-se em seguida. A garota girou o corpo agilmente em direção a Liam, que veio hipnotizado até ela posicionando-se malicioso entre suas pernas. Ela o apertou contra o seu corpo, fazendo-o ficar com o rosto colado em seus seios. Ele automaticamente a envolveu com seus braços musculosos e beijou a parte descoberta de seu colo, passando a língua suavemente pela região.
passou suas unhas estrategicamente grandes pela lateral do corpo de Liam, subindo-as sorrateiramente até a nuca, enquanto sentia beijos dolorosamente desesperados por seu colo e mãos ansiosas por suas costas. entrelaçou seus dedos nos cabelos de Liam puxando-os com força, fazendo-o olhá-la nos olhos.
- Seria uma experiência realmente... fantástica. Mas antes eu preciso que você me diga quem é Holmes.
Liam fechou os olhos tentando controlar sua já intensa excitação e começou a buscar o nome em sua memória momentaneamente danificada devido a situação “trágica” em que se encontrava.
- Bom, o único Holmes que frequenta o Detroit tem uns quarenta anos, muito magro e é viciado em cocaína há mais de vinte.
A garota enrugou as sobrancelhas com incredulidade. Aquela descrição de Liam não condizia em nada com a aparência juvenil do Holmes com quem estivera pela manhã.
- Isso é impossível. O Holmes que vem aqui hoje tem no máximo vinte anos e estuda na York.
Foi a vez de Liam lançar um olhar de incredulidade. Observou a garota como se ela fosse uma alienígena e começou a rir ruidosamente deixando-a irritada.
- , eu já disse que antes da aula você só deve usar no máximo um quarto de LSD, ou qualquer outro comprimido.
- Liam, eu não estava drogada ou bêbada. E ele marcou um encontro aqui, hoje. Pode acreditar, o cara é muito suspeito.
Liam riu novamente, sentindo sua excitação aumentar ao ver irritada. Ele subiu as mãos - que estavam no cós da calça da garota - por baixo da blusa, entrando em contato com a pele macia dela.
- Você é muito mais que suspeita, – ele disse com a voz alterada, quase um sussurro – mas agora eu sugiro que você me ajude.
- Ajudar você? – perguntou provocante. Sussurros de caras como Liam deviam ser proibidos por causar incontrolável tesão.
- Agora – Liam falou decidido.
E esqueceu completamente que Holmes estava por vir.
O garoto puxou mais para si, fazendo a garota cruzar as pernas em sua cintura e sair do balcão. Ela apertou as pernas pressionando o tronco de Liam, que instintivamente começou a andar para trás cegamente, procurando uma parede para se encostar. pôs o pescoço contra os lábios de Liam, fazendo o garoto sugá-lo ensandecido. Quando Liam finalmente esbarrou em uma parede, sentindo-se mais equilibrado, beijou o pescoço de e a girou, encostando-a na parede. Ela descruzou as pernas e pôs os pés no chão. O garoto a apertou e pressionou o sexo sugestivamente, mostrando sua intensa excitação. subiu umas das pernas, contornando o corpo do garoto e uma de suas mãos começou a traçar um caminho sinuoso pelo abdômen maravilhosamente bem traçado do rapaz, subindo a regata que ele vestia de forma voraz. Por sua vez, Liam pôs suas mãos na lateral da cintura de , subindo-as rapidamente em direção aos seios dela. Mas antes que pudesse arrancar aquele pedaço de pano completamente impróprio para a situação, uma voz inconveniente preencheu o lugar.
Uma voz que Liam a principio não entendeu o motivo de ter feito tremer.
- Olha só, se não é a Watson! Sempre soube que você é absurdamente humana, .
Assim que o ouviu, depois de ter empurrado Liam bruscamente e do seu curto ataque de tremedeira, ela se recompôs inspirando profundamente. Ajeitou a blusa que já se encontrava absurdamente amassada, passou a mão no cabelo tentando arrumá-lo, o prendeu em um nó frouxo e como se aquela situação constrangedora não tivesse acontecido, abriu um sorriso orgulhoso para Liam que olhava assustado para o garoto e se suas suspeitas fossem confirmadas, com toda a certeza aquilo não seria nada bom!
- Esse aqui é o Holmes - disse olhando sugestivamente para Liam, mostrando que não havia bebido, ou se drogado como o garoto acusara. Mas Liam olhava para com uma expressão de profunda incredulidade, deixando absurdamente curiosa.
- Não mesmo – ele disse por fim - Ele não é Holmes. Esse cara é o...
- – interrompeu o rapaz incisivo com um sorriso mordaz no canto dos lábios - Muito prazer, .

04.

Uma arma.
De qualquer tamanho, de qualquer calibre.
Naquele momento tudo que ela queria ter era uma arma. Ou, quem sabe, uma granada.

Os expressivos olhos da garota arregalaram-se. Nunca poderia imaginar que Holmes era . E muito menos que ele estivera ao seu lado durante um considerável espaço de tempo e não tinha cometido assassinato.
Com a respiração falha e as mãos trêmulas, desvencilhou-se rudemente de Liam. A única coisa que pulsava em sua mente era: “Eu vou morrer. vai me matar”. Mas sabia que enquanto estivesse com Liam e no Detroit, ela estaria segura.
Ela observou o sorriso vitorioso de sentindo a raiva borbulhar por suas veias. Odiava qualquer um que atendesse pelo sobrenome ; eles eram os culpados por sua atual situação, culpados pela pessoa que se tornara. Seu ódio mortal fez com que se reerguesse, mesmo sem a máscara de Watson. Não estava camuflada, mas sentia-se confiante.
fechou os olhos por um segundo, controlando sua respiração, esse exercício costumava deixá-la mais calma, aprendera anos atrás, quando ainda era uma garota normal tomando aulas de Yoga. Com toda a coragem que conseguiu reunir, começou a andar lentamente até a saída do bar; suspendeu o pedaço de madeira que impedia a entrada. Assim que saiu, sentiu arrepios ao ver que se aproximava.
Ele tinha todo um jeito displicente de andar que a deixava sem saber o que fazer. Talvez fosse pela forma como sorria: daquele jeito cínico e sacana. Ou simplesmente por temer ser assassinada. Sua coragem congelou, assim como seus membros inferiores. O coração de batia descontroladamente e a adrenalina corria solta por seu sangue. No fundo, era uma frouxa... no exato momento em que viu aqueles olhos, simplesmente paralisou; era incrível o poder deles sobre ela, quase sobrenatural.
O único movimento que conseguiu realizar foi encostar-se no balcão ao vê-lo tão próximo: ele, o seu sorriso e os seus olhos; um conjunto que a assustara desde o primeiro momento. Ele pôs um dos braços sobre o balcão, impedindo que ela fizesse qualquer movimento, e aproximou o rosto do dela, analisando cada pedaço minuciosamente, sem se preocupar com Liam, que observava a cena com olhos melindrados, controlando cada músculo para não levar embora dali. Mas sua experiência com os sócios do Detroit o fez permanecer quieto – ele sabia o quanto os frequentadores do local não eram comedidos. E mais: conhecia o passado nada amigável de .
ergueu uma das mãos e as colocou delicadamente sobre o rosto da garota, sentindo-a estremecer e arrepiar por completo, o que o fez rir satisfeito. Acariciou as maçãs do rosto de , mantendo o olhar fixo ao dela.
- Teremos uma noite longa, – ele disse sedutor, como se fossem íntimos.
Ela rolou os olhos, cansada daquela ladainha, não aguentava mais o mistério que ele fazia questão de manter a cada frase pronunciada.
- Temos tanto a resolver. E você me deve uma explicação.
Não tinha mais nada a perder, queria apenas que as todas as cartas fossem postas à mesa. Ela apertou os olhos e disse dura, decidida:
- Se você acha que eu simplesmente vou ficar esperando você me matar...
sorriu largamente, um sorriso estranho, pois não era cínico ou sarcástico, mas ainda assim tinha um quê de presunção.
- Não, – negou ao acariciar o rosto de , sentindo-a estremecer –, você não vai esperar que eu te mate, provavelmente faria primeiro.
- Legitima defesa.
Ele manteve uma expressão tão calma que sentiu-se desconcertada por estar tão nervosa e trêmula... E por outro motivo que ela não conseguia compreender muito bem.
- Não tenho o menor desejo em sujar minhas mãos com você. Não quero te matar, .
- Então o que você quer?
sorriu sorrateiramente, se curvou sobre a garota e sussurrou no ouvido dela.
- Quero me unir a você.
Um turbilhão de pensamentos perpassaram pela cabeça da garota. Que tipo de idiota pensava que ela era? Unir-se a ela? Se era uma piada, com certeza era de um humor obscuro que ela jamais seria capaz de captar.
A garota tinha uma expressão entre a raiva e a completa confusão. Sua mente girava e as imagens e informações lhe pareciam uma complexa obra de Salvador Dalí. Não havia nada concreto em que pudesse se apoiar e aquelas cinco palavrinhas não faziam o menor sentido para , nem para qualquer pessoa que soubesse daquela história, pelo menos a superfície dela, como - os detalhes sórdidos apenas tinha consciência.
Ela não saberia dizer com clareza por quanto tempo ficaram se olhando - ela com desespero e total incompreensão e ele com presunção – a única coisa que tinha consciência era do quão incomodo e desconfortável estava sendo aquele espaço de tempo. Ao se recompor, inesperadamente deu uma gargalhada irônica e disse:
-Você se ouviu, ? Ou pelo menos lembra que meu nome é e que isso remete a certos fatos envolvendo a sua família, mais exatamente ao seu querido pai?
Ele sorriu debochado, movimentando a mão direita delicadamente sobre rosto de , que desviou grosseiramente.
-, eu sei que você é mais inteligente que isso – seu timbre era tão suave quanto uma música de Enya – Primeiro lugar: meu pai nunca foi querido. E segundo: por que será que nós dois estamos oitenta por cento mais pobres?
E mais uma vez paralisou. Será que ela havia entendido direito? estava insinuando que os dois tinham sido vítimas de um mesmo golpe? Todas as vezes que imaginou , ele aparecia em algum cruzeiro, rodeado de mulheres de corpo escultural, com algum comparsa inteligente planejando abertamente formas de matá-la. Fantasioso, mas à sua mente desesperada e fértil parecia absolutamente possível e plausível.
ficou parada, sem conseguir formular alguma frase que fizesse sentido, aliás nada ali fazia sentido e era tudo muito suspeito. Podiam chamá-la de louca esquizofrênica e o diabo a quatro, mas ela simplesmente não acreditava em mais ninguém. Os últimos anos de sua vidinha medíocre haviam lhe ensinado que seres humanos simplesmente não merecem confiança.
- Acredite, você não tem alternativa a não ser confiar em mim – a voz tranquila de a interrompeu.
Aquelas palavras de invadiram os pensamentos da garota, não que fossem uma grande novidade, era apenas a realidade sendo jogada contra a sua cara mais uma vez. Ela apenas ponderou aquela afirmativa de , fosse qual fosse o objetivo dele, por enquanto, ela teria que acatar com absolutamente tudo que ele falasse, comandasse, ou pedisse. Não que o medo tivesse ido embora instantaneamente, mas durante aqueles anos em que ela havia se tornado uma fugitiva com uma falsa identidade, aprendera a analisar suas possibilidades com frieza e apenas encará-las de frente, mesmo com todos os problemas que facilmente enxergava. A experiência a tornou expert em transformar sentimentos com base na razão. Contudo, estar mais relaxada não significava que ela estivesse entendo o porquê da aproximação “pacífica” de .
-Eu não tenho escolha, certo? – perguntou vencida.
-Não – disse encarando fixamente - eu não pretendo perder e por isso preciso de você.
-Isso não faz o menor sentido – a garota balançou a cabeça negativamente e apertou os olhos como se pedisse resposta a .
-Tudo vai se encaixar, – e pela primeira vez pôde vê-lo dar um sorriso encorajador, e não os presunçosos ou arrogantes que vira naquelas poucas horas de contato que haviam tido – Daqui a pouco iremos ao meu apartamento e lá vou te contar toda história, vou fazer você entender essa loucura.
-Seu apartamento? – era exatamente isso que queria perguntar, com aquele mesmo tom indagador, mas a voz não era dela e sim de Liam, que depois de muito tempo parecia ter ganhado vida novamente.
desviou sua atenção para o rapaz, com uma notável expressão de hilaridade. Liam observava os dois com uma preocupada atenção, afinal, e em um mesmo espaço significava fagulhas, faíscas e acontecimentos contra a lei, ainda mais se estivessem dentro de um apartamento. Liam estava pouco se importando com . era a sua preocupação, incrivelmente ele sentia que não queria perdê-la e algo lhe dizia que em pouco tempo a relação deles não seria mais a mesma. Sentiu um estranho anseio com relação a esse pequeno fato que agora rondava sua cabeça.
-Sim, ela irá para o meu apartamento – falou sem ao menos olhar para que não se preocupou em rebatê-lo.
-Ela pode não querer ir – retrucou Liam dando um passo vacilante em direção a .
Percebendo a competição de poder que Liam estava criando, que por sinal já estava vencida, fez com que suas pernas se movessem a muito custo em direção ao bar. Olhou fixamente para Liam, que estava atrás do balcão, e assim que pegou sua enorme bolsa preta disse firme:
-Fique fora dessa, entendeu? O assunto aqui é entre mim e o .
-Não quero a minha garota no apartamento de um outro cara a essa hora da noite.
Não fora exatamente isso que ele planejara falar. Saiu um pouco sem querer, principalmente a parte “minha garota”. Ele se sentiu patético quase que instantaneamente, ainda mais ao ver a incredulidade no rosto de . Mas no fundo, era o que Liam sentia.
-O quê, Liam?! Pirou? Sua garota? – perguntou exaltada e um pouco cansada também, vale ressaltar.
Liam percebeu o cansaço dela, queria levá-la para casa e vê-la dormir a noite inteira. Na manhã seguinte ela poderia lhe contar porque mentira tão descaradamente, embora, no fundo, ele já soubesse.
-Eu só estou tentando te ajudar, . E, aliás, porque você nunca me contou quem realmente é?
conseguiu detectar nos olhos ébanos de Liam sentimentos que ela jamais pensou que ele fosse capaz de sentir. Isso deixou seu coração quente, esperançoso de alguma forma que ela não entendia. Talvez um primeiro indício de esperança que talvez aquela noite não terminasse tão mal assim.
-Como se você não soubesse – ela disse já não mais tão agressiva, só que precisava resolver rápido aquela conversa - Olha, fica na sua e não me atrapalha, ok?
-Eu apenas desconfiava. Tudo bem, se é isso que você quer, se você confia nesse cara...
-Cala a boa, Liam! – reclamou, odiava chantagens emocionais baratas - Isso tudo por falta de sexo hoje? Achei que você tinha passado da fase da adolescência.
-Oh , como você adivinhou?! – perguntou irritado - Vai logo, o não pode esperar.
-Que bom que estamos entendidos. Não pense em nos seguir.
-Não se preocupe, eu amo a mim mesmo o suficiente para não fazer uma loucura dessas.
-Ótimo.
Quando estava indo embora, ouviu Liam chamá-la baixo, como em uma súplica.
-.
Era estranho ouvir seu nome na voz dele, parecia uma estação de rádio sem sinal, embora de uma forma louca e inexplicável ela tenha gostado.
-O quê?
-Se cuida, esse cara não é confiável.
-Não se preocupe, eu também não sou.
Liam sorriu em confirmação, mas seu coração estava aos pulos. Queria de qualquer forma afastá-la de . Ele era perigoso, por muitas vezes implacável e pior: tinha inimigos mais ameaçadores que ele.
-Vamos logo, !
retribuiu o sorriso de Liam e disse, virando as costas em seguida:
-Até Liam.

seguiu cegamente, tentando esquecer o fato de estar caminhando em direção a um local deserto com o seu possível assassino, mas que opção ela tinha, afinal? Do que adiantava ficar tremendo de medo, sentindo o estômago afundar se nem ao menos podia fugir?
sentia um alívio próprio de missão cumprida, mas aquela era a parte mais fácil, de qualquer forma. Enfrentar não era nada comparado aos perigos que estavam por vir, mas algo lhe dizia que os dois realmente funcionariam juntos. Ele não saberia dizer se era uma profunda esperança, ou se aquele sentimento tinha um quê de razão. Ele sentia os passos firmes da garota à suas costas, o que lhe provava o quão decidida era. não estava preocupado realmente com ela, não mesmo. Ele ainda estava no comando e isso o tranquilizava, o rapaz apenas estava impressionado por ser mais corajosa e decidida do que ele já havia escutado.
Os dois percorreram o longo percurso do Detroit até a Save Queen a passos largos, mesmo sendo eles e , o lugar era perigoso em demasia, ainda mais com o pouco movimento de uma segunda-feira. Ali, sem dúvida alguma era um perfeito exemplo da barbárie inglesa, o Kings estava longe do que se pode chamar de civilização, ali era Terra de Ninguém, onde a ação dos governantes não chegava, aliás, muitos desses homens de Estado participavam ativamente das negociatas do Detroit, a rede que monopolizava o Kings.
-Quanto falta para chegarmos até o seu carro?
-Estamos em frente a ele?
-O que? Um BMW? Tá de brincadeira comigo, né? – perguntou incrédula.
-Por quê?
inspirou fundo. Ela não se permitia comprar um BMW justamente por estar oitenta porcento mais pobre, como ele podia? De qualquer forma, não se encontrava em posição de protestar.
-Desacostumei, só isso – falou cansada, mal podia esperar para aquele maldito dia acabar. Reprimir sentimentos de fúria sempre a deixava extremamente cansada.
apenas assentiu, afinal, chegava, enfim, a hora de finalmente sair da escuridão em que se encontrava.

Se algum dia lhe perguntassem sobre o caminho que fizera naquela noite, não saberia responder. apenas via imagens turvas que por vezes lhe pareciam absurdamente sem sentido; árvores esfumaçadas, uma mistura perfeita entre o surrealismo e o impressionismo. Não enxergava, não ouvia, estava em alerta constante. O incrível era que as possibilidades que aqueles fossem os últimos minutos de sua vida eram gritantes, mas ainda assim, algo lhe dizia que os rumos daquela história não seriam os mais trágicos. Uma esperança infantil? Talvez. Fosse o que fosse estava disposta a enfrentar, afinal, não havia lutado tanto para simplesmente abandonar aquela causa, a sua causa.
As inúmeras curvas faziam seu corpo deslizar desconfortavelmente no banco do carro. Mais que comprovado que , como a maioria dos homens, era um adepto a alta velocidade. Não que ela não gostasse, adorava na verdade, mas estava quase que em uma crise de esquizofrenia. Toda e qualquer ação de parecia evidenciar a proximidade de sua morte, ainda que houvesse aquele quase inexistente sentimento positivo.
Estava tensa, abraçava seu corpo inconsciente, como se aquele gesto fosse capaz de amenizar os calafrios estranhos em sua barriga. Pôde observar através de sua visão periférica o rosto impassível de . Ele transmitia uma serenidade tão sólida que ela não conseguia definir exatamente o que aquela expressão a fazia sentir. Seria um pouco mais de tranqüilidade, ou uma dose extra de terror?
não sabia que na verdade o estado de nervos de também não era dos melhores. O que o ajudava era o fato dele conseguir dissimular muito bem quando sentia algum receio. Ele temia estar sendo rastreado, embora tivesse se averiguado inúmeras vezes desde que chegara a York. Segundo BangKook estava tudo em ordens, mas ele não tinha certeza se ainda conseguia acreditar plenamente em qualquer homem, mesmo sendo BangKook, o cara que já o salvara inúmeras vezes comprovando toda sua lealdade a . Se, por um acaso, não estivesse tudo em ordens ele e estavam literalmente fritos, queimados, torturados, enfim, mortos.
Não demorou muito até que eles chegassem ao prédio de , que ficava em um bairro mais afastado do centro, até arrumado, arborizado com latas de lixo a cada cem metros. Os prédios eram antigos, projetados a uma distância equivalente, não ultrapassavam cinco andares. Todos tinham varandas e jardineiras. não imaginava se estabelecendo naquelas imediações típicas de famílias felizes. Bairros periféricos, dominados por traficantes eram mais o tipo dele, ainda mais quando ele afirmava ter perdido oitenta porcento de sua fortuna e tinha um BMW.

Ao adentrar no apartamento de , esquadrinhou cada objeto ali presente procurando alguma evidência que o denunciasse de alguma forma. Tinha a esperança pueril de que uma simples observação do aposento poderia salvá-la das chantagens que estava prestes a ouvir. A verdade era que não havia muito que analisar. Logo quando abriu a porta, viu um sofá de três lugares em tom pastel, videogames, uma televisão LED quarenta e duas polegadas, inúmeros DVDs espalhados pela mesinha de centro onde ainda havia duas garrafas de Heineken e três de Smirnoff Ice – a Ice, supôs, significava que uma mulher estivera com ele. E ainda havia um incrível – e chamativo - frigobar vermelho.
O lugar era tão normalmente desarrumado como o apartamento de um homem deveria ser que suspirou decepcionada. Ela apenas o seguiu, sentando-se no sofá quando ele fez uma reverência silenciosa enquanto se acomodava em uma poltrona aparentemente confortável.
- Você quer algo para beber? – perguntou.
Ela balançou a cabeça negativamente.
- Vamos ao que interessa, .
assentiu, mas antes de começar a falar foi até o frigobar, pegou uma cerveja, abriu e tomou um gole.
- É uma história longa – ele disse jogando a cabeça para trás e fechando os olhos – você precisa ouvir atentamente para acreditar na história, para perceber que faz sentido.
- O que quer dizer com isso?
- É uma história sem pé nem cabeça, como toda grande conspiração... como toda grande máfia.
- Continue.
Essa era uma parte importante do plano. Ele teria que conquistar a confiança de , mas os fatos não ajudavam. Eram tão loucamente absurdos que seria um milagre acreditar nele. Só que ele precisava dela, a verdade era essa. Não sob chantagens e ameaças, mas sim ao seu lado, contra aqueles que planejavam tirá-los de cena.
- Os nossos pais, você sabe, não eram exatamente amigos – ele começou a falar com a voz cansada – e acredito que você tenha idéia do porquê disso.
apertou os olhos, ela nunca soubera nada além do essencial e parecia que havia ainda muita falcatrua ali. O tom de evidenciava isso.
- Não sei muito.
soltou um suspiro pesado, seria mais difícil do que ele imaginava.
- Eles foram amigos, há anos atrás. E montaram uma parte fundamental da rede Detroit...
- Nada que um mendigo em Nova York não saiba – interrompeu impaciente.
- Quando estudavam em Oxford, eram os melhores alunos de Lógica e Estatística da Universidade. O que era impressionante levando em consideração os finais de semana regados a bebedeiras e saídas com as garotas da cidade.
- Você vai me contar uma historinha, é isso? – não conseguiu se conter.
- É importante – falou coçando a orelha e tomando um gole generoso de sua cerveja – Um dia eles resolveram ir a Vegas, arrumaram uma mochila e foram embora, sem nem mesmo terem o dinheiro das passagens de volta. E como você deve saber, voltaram seis meses depois cheios da grana e, principalmente, de idéias. Abandonaram Oxford de vez, mas de lá trouxeram mentes importante para a concretização do projeto deles. E essas pessoas eram tão inteligentes quanto eles, e essas pessoas são responsáveis por nossa situação.
- Nossa situação? – perguntou sem entender.
- Não é só você que é uma foragida, . Eu também sou.
- Não estou entendendo.
- Parte dos associados da rede Detroit querem matar a nós dois, parte nos quer no comando.
- Como alguém em sã consciência pode querer a nós dois no comando?
- Um de nós. Mas não importa. O que pouca gente sabe, é que mesmo sendo inimigos, nossos pais comandavam unidos.
- Isso não faz sentido.
- Pense um pouco, é claro que sempre houve um inimigo maior. Os dois eram majoritários. Trinta porcento de cada.
A cabeça da garota agora poderia explodir, e ela gostaria que isso fosse possível. Suas sinapses estavam aceleradas e aquelas informações não faziam o menor sentido para ela, se tudo aquilo fosse verdade, poderia então significar que...
- Então Albert não mandou matar o meu pai?
sorriu argucioso, confirmando.
- Eu...
Ela tentou falar alguma coisa, mas nada conseguia formular. Tinha vontade de vomitar, sua mente, agora, trabalhava a mil por segundo e as conclusões as quais estava chegando não eram nada agradáveis. Se toda aquela conspiração fosse de fato real, fora durante todo o tempo a maior de todas as marionetes. Era uma foragida da polícia e tudo graças a sua estupidez emocional. Havia cometido um crime e nada justificava o que fizera. Nem mesmo o fato de ter sido apenas uma peça naquele perigoso jogo de xadrez. Depois de dois anos afastando aquele sentimento de arrependimento, culpa e dor, sentia que não conseguiria mais.
- Está sentindo remorsos, ?
Ela o olhou com a fúria esvaindo por seus olhos que começavam a ficar vermelhos e úmidos.
- Você só pode estar querendo acabar comigo.
- Por que eu faria isso? – a voz de era macia, mas a ousadia ainda estava lá - Você é a minha única aliada de peso.
Não estava aguentando mais aquele cinismo. inspirou profundamente e explodiu, sentindo lágrimas furiosas escorrerem por seu rosto. E vomitou aquelas palavras que despedaçavam seu coração e faziam suas penas e mãos tremerem:
- Eu matei seu pai, !
Fez-se um silêncio mortal, ela pensou, então, que chegara sua hora. Imaginou levantando calmamente, caminhando em sua direção cortês, com um sorriso galanteador nos lábios. Ela fecharia os olhos e sentiria o metal frio contra sua têmpora esquerda. Ouviria o barulho fatal e sua vida iria rumo a uma interminável escuridão.
Mas nada disso aconteceu.
apenas ergueu uma das sobrancelhas e soltou um risinho irônico antes de falar contundente:
- Isso pouco importa.
Não era possível que ele fosse tão inabalável e indiferente. sentia que um caminhão havia passado por cima dela. A cabeça explodia em uma enxaqueca infernal e uma tremedeira tomava conta do seu corpo sem que ela permitisse. Talvez fosse pelo fato que todas aquelas emoções transbordavam de uma só vez. Depois de muito tempo carregando o peso de um assassinato sozinha, sem ter ninguém para suplantá-la psicologicamente, estava finalmente surtando. Drogas, bebedeiras e sexo não são suficientes, não são capazes de tirar as dores de ninguém, apenas dão uma falsa sensação de prazer. Momentânea. Rápida demais.
- Não acredito que não importe. Não é possível que você seja tão sem coração, nem eu sou.
- O mundo não tem coração, . Não espere que o mundo abra os braços para você.
sabia disso, muito mais que a maioria das adolescentes de dezessete anos da Inglaterra.
Ao passo que sentia seu coração aos pedaços, agia com surpreendente naturalidade. Isso a confundia, a deixava perdida, sem saber a quem recorrer. Estava sozinha e sufocada. Dores que fazia questão de manter distantes, estavam borbulhando, corroendo todo o seu sistema. Sentia-se fraca e não conseguia se controlar. A dor de ter cometido um assassinato estava consumindo-a, mais que nunca. Fora uma marionete. Tirara a vida de alguém que não lhe fizera nada. Albert não era um homem inocente, mas ela nada tinha com isso. E o mais importante: ele não matara seu pai.
- E aliás, quem disse que isso realmente aconteceu?
- Você me ouviu? Eu o matei.
- Não. Você desmaiou antes que pudesse matá-lo.
- O quê?- perguntou confusa - Como pode ter tanta certeza?
olhou-a intensamente, deu mais um gole em sua cerveja e disse, por fim:
- Eu vi.

05.

Robert Sparcks beijava Haut Turnbull - um importante associado da rede Detroit, e também membro da Câmara de Lordes – calorosamente. Suas mãos grandes e habilidosas passeavam pelo corpo do homem de meia idade sem o menor pudor. Ele não estava sentindo prazer em beijá-lo, ou sequer os corriqueiros arrepios que acontecem quando se está apaixonado por alguém, porque, bem, ele definitivamente não estava caído de amores por aquele velho cheio de pelos nos glúteos, cujas habilidades resumiam-se a falar de suas aplicações, reclamar da família e dizer que sua mulher era um atraso de vida.
Você é um atraso de vida, meu bem” pensou Robert enquanto estava em uma tentativa mais eficaz de excitar seu parceiro por conveniência. Suas mãos deslizavam pela virilha de Haut, por cima da calça Armani que ele usava, mas que em pouco tempo se encontraria em algum canto do quarto daquele luxuoso apartamento que Haut havia lhe presenteado na zona norte de Londres, no Fuhan.
Robert estava masturbando Turnbull, quando de repente ouviu “New York, New York”. Este toque o faz saber exatamente quem era e, sem conseguir refrear seus impulsos, soltou o membro enrijecido de Haut. Ouviu o homem xingar, mas não se importou e saiu correndo em direção ao banheiro, afinal, não tocaria em seu lindíssimo Blackberry com as mãos sujas, principalmente se tratando do pênis em questão.
Sabia que Mike estava ligando. Um nova-iorquino tentando sobreviver em Londres; era um cara duro, mas Robert o amava perdidamente. E o odiava ao mesmo tempo. Não havia nada que o aborrecesse mais que pobreza. Ele necessitava de todos os luxos que via na TV. Não era à toa que dormia com Turnbull. Ele sabia que a sua especialidade era mentir, iludir, acabar com a vida de homens como Turnbull. Tinha plena consciência sobre ser muito melhor sendo um estelionatário da pior espécie que um homem fiel.
Ele atendeu Mike em voz baixa, chamando-o de Candice, o que fez o namorado questionar indignado o que significava aquilo.
- Você ainda está com esse velho, Rob?
- Mike, por favor, não comece com essas ceninhas. Você sabe que precisamos dele.
- Você precisa dele; do luxo, do dinheiro. Eu não me importo com essas coisas. Me bastaria ser feliz ao seu lado, Rob. Me bastaria, mesmo sem um tostão no bolso.
Robert suspirou irritado. Os sonhos de Mike não eram compatíveis aos seus. Jamais se permitiria ficar em um apartamentinho qualquer no centro de Londres, ou no Brooklin, onde Mike crescera em Nova York. Ele queria o poder e, de qualquer forma, agora era tarde demais. Já entrara em um jogo sem saída. Enquanto houvessem cartas, ele teria que jogá-las.
- Já tivemos essa discussão antes. Eu preciso disso... E preciso de você também.
Ouve um longo momento de silêncio, até que Mike finalmente se pronunciou.
- Você pensa em mim enquanto transa com ele?
Robert soltou uma gargalhada baixa.
- Tenho que pensar em algo que me mantenha excitado. Você é uma dessas coisas, baby.
Mike riu do outro lado da linha.
- Sinto sua falta. Quero passar aí mais tarde. Quando o velho vai embora?
- Quando eu finalizá-lo.
- Então ande rápido com isso!
- Vou ter que me concentrar muito em você para conseguir ficar excitado – disse Robert maliciosamente.
- Que tal se eu te ajudar?
- Está ficando ousado, heim, Mike?
- Vamos logo com isso! – Mike soltou um suspiro risonho - Estou completamente nu, me imagine. Ele está começando a ganhar vida. Estou imaginando você chupando o meu. E eu quero chupar o seu...
Robert sentiu toda sua excitação vir à tona, aquele tesão que sentia apenas com Mike. Era uma pena ter que descarregar suas energias com Turnbull, uma total perda de tempo. Odiava esse tipo de troglodita, que permanece no armário por toda vida. Mas Mike o ajudava quando necessário, e sua libido vinha à tona. Sempre fora muito voluptuoso, só que de vez em quando precisava de uma ajudinha. Teve que se controlar para não atingir seu clímax com Mike sussurrando orgias em seu ouvido. Desligou o celular rapidamente e foi direto até Turnbull, que se encontrava andando de um lado para outro, completamente nu. Mike o olhou decidido e o empurrou de costas para a parede com certa brutalidade. Não se importou com os protocolos que costumavam ser seguidos entre os dois naqueles momentos, apenas o penetrou de uma só vez. Geralmente, o homem preferia ser o ativo, mas Robert sabia que no fundo o velho gostava de toda a viadagem.


Uma semana e meia havia se passado desde a segunda-feira fatídica. Depois da revelação que lhe fora feita, disse apenas que ela precisava confiar nele. E que saber demais é sempre um problema.
Ela desmaiara; não havia cometido o assassinato que por tanto tempo a perseguiu em pesadelos e fora seu maior fantasma, causando inúmeras noites de insônia. Por tantas vezes se perguntara se realmente puxara o gatilho, mas sua carga emocional naquele dia estava tão sobrecarregada, a cocaína agia descontroladamente por suas veias. Sem contar os ácidos que havia ingerido, acompanhados de exageradas doses de uísque. Essa não era a única lembrança que fora apagada de sua mente. Mal se lembrava de sua infância. Mal se lembrava do próprio pai, o homem que tanto havia amado, e por quem pegara em uma arma pela primeira vez na vida. Algumas coisas inúteis ainda permaneciam intocáveis, outras eram apenas rabiscos em uma folha de papel em branco.
Havia, então, um novo questionamento: se não fora ela, quem matara Albert , no fim das contas? Ficara tão chocada que nem se deu o trabalho de fazer essa pergunta. Por algumas vezes tentou reconstruir a cena, mas sua cabeça parecia que iria rachar a qualquer momento. Desistiu. Não importava mais. E , ele estivera na cena do crime. Teria ele sido capaz de matar o próprio pai?
Agora, sabia que teria um longo trabalho pela frente, mas isso não bastava. Queria estar por dentro de tudo, participar ativamente das operações. lhe mandara uma mensagem naquela manhã, dizendo “esteja preparada”. Não sabia o significado de estar preparada. Seria fisicamente, psicologicamente? Isso a deixava ansiosa, e ansiedade lhe causava dores físicas: seu estômago simplesmente sucumbia aos estragos de uma gastrite nervosa.
Ele continuava indo a York High School, embora faltasse muito. E quando ia, sempre estava ao lado de Lily Smith, mas fazia questão de sentar-se atrás de durante as aulas e fazer algum comentário sórdido que apenas ela poderia ouvir. se resumia a suspirar irritada, enquanto Kate Simpson olhava chateada para os dois. Nesta manhã, por exemplo, ele fizera questão de demonstrar para todos que os dois tinham algo, embora o algo interpretado pelos outros tivesse um significado diferente. estava se cansando desses jogos.
Na quarta-feira, às sete da noite, algo a tomou de sobressalto: sua campainha tocou. Para pessoas comuns, o som de uma buzina no início da noite é completamente aceitável. Contudo, para aquele som inspirava certo temor, pois instantaneamente lhe ocorreu ser a lhe escoltar para a “missão”, exigindo que estivesse preparada, o que quer que isso significasse. Mas ao olhar no olho mágico, viu outra pessoa encostada no vão da porta: Liam. Segurando uma solitária rosa vermelha.
Ela vestia um blusão branco, um tanto transparente, evidenciando seu sutiã em azul com bolhinha brancas e uma calcinha mínima; mas aquele era Liam, e ele já a vira sem roupa alguma, não tinha por que se preocupar em vestir algo mais decente. Apenas abriu a porta com um olhar de interrogação. Fazia uma semana e meia que haviam se visto, e Liam nunca aparecia em sua porta, a não ser quando eles procuravam algum lugar para transar loucamente, depois de uma noitada recheada de preliminares e bebidas.
Mas o olhar de Liam ao vê-la de cabelos molhados e não tão composta em roupas não foi só de excitação, mas também de súplica; havia sentimento ali, e não soube como agir. O deixou entrar, com a rosa na mão e aquele sentimento que ela não sabia identificar.
- Que surpresa, Liam – disse após fechar a porta cuidadosamente.
Liam a olhou como nunca se permitira antes. Havia aquela intensidade que jamais percebera antes, nunca fora apreciada daquela forma... Talvez uns dois garotos há uns anos atrás, mas fazia tempos e ela se esquecera como era sentir-se daquela forma: única para um cara.
Liam ia sentar no sofá, mas como se dominado por um impulso, voltou-se para , deixando a rosa no sofá. Seu olhar agora era de uma intensidade determinada, como se nada fosse capaz de pará-lo. E ficou momentaneamente paralisada ao vê-lo tão decidido. Ele tomou-a abruptamente, empurrando-a contra a porta. Grudou seus lábios aos dela com uma urgência vívida, suas mãos ásperas subiam desde sua coxa até seus glúteos cobertos por aquela pequenina calcinha de bolinhas, combinando com seu sutiã. Ele subia seu blusão branco com voracidade. Não se preocupara em pedir permissão. Ele estava louco por , se ela não quisesse, que o parasse. Mas ela não o fez. Sentiu a libido de Liam como se fosse sua, deixou que aqueles lábios percorressem seu pescoço, deixou que aquelas mãos hostis corressem soltas por seu corpo, desbravando-o.
Ela não conseguia se concentrar, mas sabia que queria a blusa vermelha de Liam longe dali. Começou a subi-la em meio as mordidinhas que ele dava em seus ombros e pescoço. Ele afastou o rosto por um momento do corpo dela, e quando a blusa vermelha já encontrava-se distante, os dois sorriram inebriados pela combustão de luxúria ocorrendo em seus corpos. Liam colou sua testa na dela e inesperadamente disse algo que fez sentir-se a melhor das mulheres do mundo:
- Eu preciso tanto disso – ele se aproximou de seu ouvido e sussurrou: - Preciso tanto de você.
Ela sentiu-se aquecida, agradecida, motivada pela declaração daquele cara tão desejado pelas mulheres mais cobiçadas da alta sociedade. Desejado por ela também.
Liam começou com uma desajeitada missão de retirar as roupas de , enquanto ela cumpria seu papel com maestria. As calças dele estavam devidamente desabotoadas, mesmo com dedos vacilantes conseguia fazer calças deslizaram e irem de encontro ao chão. Eles não precisavam de muito, apenas que a calcinha da garota fosse parar longe dali. E foi o que Liam fez. Ao mesmo tempo em que retirava aquele pedaço inútil de pano, beijava o corpo de . Ela se encarregara de retirar o blusão, mas o sutiã permanecia intacto. Na verdade, as bolinhas brancas não atrapalhariam o que os dois jovens planejavam fazer.
Liam já estava ajoelhado no chão quando olhou malicioso para o rosto de , como se estivesse desafiando-a. Na verdade, ele estava. Não era qualquer um que aguentava um orgasmo de pé. Ela apenas sorriu, como se duvidasse dele. Ela não duvidava, estava apenas provocando, e provocações – ela sabia - sempre surtem os efeitos desejados, ao menos na situação em que se encontravam.
Ao ver a intimidade de desnuda ele só pode sorrir quase como um atleta em missão cumprida. Quase. Faltava a parte mais importante: ouvi-la suspirar e gemer embebida, em meio a orgasmos múltiplos. Ele não se demorou, segurou as coxas dela, apertando-as. Antes, a provocaria mais um pouco. Ergueu-se de pé e deslizou sua mão direita em direção à intimidade de . Começou a movimentar seus dedos sorrateiramente, devagar, de forma dolorosa, fazendo com que a garota apertasse seus ombros, sentido-se torturada. Ele sugava seu pescoço, descia com beijos até seu colo, e então seus beijos rumavam em direção ao sexo úmido da garota, que já encontrava-se fora de si. Agora era hora da primeira onde de prazer que ele lhe propiciaria naquela noite.
sentiu a língua quente de Liam em sua intimidade, causando-lhe uma incontrolável excitação. Ele nem ao menos havia lhe penetrado, mas seus pés contorciam-se incontrolavelmente, o corpo formigava e ela não conseguia controlar os gemidos. Os movimentos eram precisos, circulares, atingindo-a nos pontos certos. Nunca havia experimentado sexo oral sóbria, e aquela sensação de total percepção era maravilhosa. Estava quase chegando ao seu ponto máximo, quando, tomada por uma força que ela não saberia dizer de onde viera, puxou Liam pelo cabelo e laçou uma de suas pernas envolta do corpo dele.
- É agora, Liam, quero você dentro de mim – ela arfou desnorteada.
Sua cabeça pendeu para trás e suas unhas arranharam toda a extensão do corpo dele ao seu alcance.
Ao vê-la de cabelos bagunçados, corada e com aquela expressão pré-orgástica, ele pegou uma das mãos dela e pôs sobre seu membro enrijecido. Ela sorriu de olhos fechados, extasiada, e Liam amou aquilo. Amou vê-la entregue de tal forma; amou a forma sensual como ela começou a masturbá-lo, retribuindo o prazer que a pouco ele havia lhe oferecido. Amou-a por amá-la.
Ele já não aguentaria mais se segurar, mas antes tinha que pôr a camisinha. Tão necessária e tão odiosa. A bendita estava no bolso de sua calça, que por sorte não estava tão longe deles. ficou esparramada contra a parede, maravilhada, e pegou a camisinha quando Liam jogou para ela. Abriu-a com o dente, sem esconder um sorriso malicioso. Liam já não cabia em si, era doloroso demais. A garota movimentou a mão mais uma vez pelo membro de Liam, apenas para atentá-lo. Por fim, pôs o preservativo - nem ela aguentava mais -, e então Liam a atingiu de uma só vez. gostou da rudeza com a qual ele lhe penetrá-la. Ela gostava de intensidade, e sussurrava no ouvido do rapaz para que ele fosse mais rápido. Ele não conseguiu se segurar por muito tempo, mas não se importou, sabia que sua sessão de provocação lhe custaria isso: uma descarga nervosa antes que ela se sentisse saciada. Mas Liam conseguiu continuar os movimentos por tempo suficiente para que também atingisse seu ponto máximo.
Os dois caíram no chão exaustos, suados, satisfeitos.
Liam beijou na testa, sentindo seu coração se preencher por um pulsar desenfreado, e desta vez ele sabia que não era apenas por conta do sexo; definitivamente não era só por conta disso.
sentiu-se confortável deitada no linóleo frio, pois os braços de Liam eram suficientes. Sentia-se protegida. Gostava disso. Gostou ainda mais daquela aparição inexplicável e inesperada dele.
Adormeceram sem que percebessem.
Ali mesmo, no chão frio e duro.
Só acordaram com os raios de sol na manhã do dia seguinte.

Eram seis da manhã e já se encontrava de pé, andando de um lado para o outro por seu apartamento. Ele tentava incessantemente comunicar-se com um dos seus mais preciosos informantes, sem obter sucesso. Aquilo estava começando a enlouquecê-lo. Já havia arquitetado todos os seus passos, e também da sua mais nova companheira, para o fim de semana. Mas para que tudo corresse bem, ele precisava de notícias a respeito de certas pessoas do seu passado, onde ele depositava todas as suas esperanças de que elas o ajudariam. O seu destino de sábado não era dos mais seguros, sabia. Ele já estivera lá e fora expulso, mas nada como o tempo, uma certa quantidade de dinheiro e contatos para amortecer aversões alheias.
Jogou o celular no sofá, impaciente, cansado. Foi para a sacada e ascendeu um cigarro, a fim de tentar aliviar a ansiedade. Foi então que algo lhe ocorreu. Algo à respeito de , agora sua parceira, se é que ele podia chamá-la dessa forma. Parceiros têm confiança um no outro e, bom, e estavam longe desse estado alfa de cumplicidade entre membros de uma equipe.
não podia ter sobrevivido tanto tempo apenas com uma falsa identidade. Ela tinha aliados, e Liam Rilley não estava nessa lista. Sentia que Liam era apenas mais uma peça dos jogos dela. Mas então a noite da segunda-feira da semana anterior lhe veio em flashes na memória. Ela estivera indefesa, mas por quê?
Não era possível que durante dois anos ela tivesse conseguido permanecer freqüentando o Detroit de York e nenhum sócio tivesse dado um jeito de entregá-la para a polícia. Uma armação das mais simples possíveis poderia ter obtido resultado imediato. era a menina dos olhos de seu pai. Embora ele tivesse discrição à respeito dela, todos sabiam à seu respeito, precisam saber, já que representava um ponto fraco do senhor sócio majoritário.
Talvez o trunfo de sua sobrevivência fosse justamente os contatos.
Só que ainda havia mais uma coisa que o inquietou:
Ela ficara genuinamente surpresa com a história que ele lhe contara; ou talvez ele tivesse decidido acreditar na veracidade das emoções da garota um pouco cedo demais.
Fechou os olhos, cansado de suas suposições. Precisava de fatos concretos, e era angustiante saber que esse é o tipo de coisa que demora a acontecer. Foi então que seu celular tocou. Não olhou para ver quem era. Já sabia.
Robert Sparcks estava finalmente retornando depois de suas infinitas ligações.

Aquela manhã fora no mínimo memorável.
acordou sentindo uma espécie de conforto dolorido, uma sensação estranha, mas totalmente compreensível. Liam estava ali, ao seu lado, e ela sentia-se infinitamente bem deitada nos braços dele, mesmo que estivessem no chão. Vendo a situação dos dois, ela riu baixo. Não haviam conseguido nem mesmo chegar ao sofá.
Após a intensidade daquela chegada surpresa de Liam e do que se sucedera deixando-os arfantes, os dois mergulharam em um silêncio gostoso, aproveitando a presença do outro. Não houvera coragem para mexer um só músculo, não disseram uma só palavra. A respiração ofegante, o cheiro e os corações acelerados diziam tudo. Observou o corpo nu deles juntos e agradeceu a onda de calor que invadira a Inglaterra naquela semana. Mas também havia o calor que irradiava do corpo dele, e era tão absolutamente reconfortante que ela desejou que aquilo tudo se repetisse mais vezes.
Sem conseguir se refrear, começou a percorrer o tronco definido do rapaz com sua mão delicadamente, e antes que se desse conta, o sorriso estava em seus lábios. Jamais se imaginara com Liam daquela forma, nunca passara por sua cabeça que sentiria aquela alegria tola por estar nos braços dele, ou o frio na barriga ao imaginar como seria quando ele acordasse. O que significava tudo aquilo? Seria apenas a sensação de estar se sentindo protegida? Ou havia realmente algum sentimento naquela relação que se baseara durante tanto tempo no desejo carnal? Então ela se lembrou do que ele lhe dissera: “Eu preciso tanto disso. Preciso tanto de você”.
Ela o beijou nos lábios, ansiando que ele acordasse o mais depressa possível. Liam, o cara que aparecia constantemente em colunas sociais ao lado das mais disputadas burguesas, estava ao seu lado agora, e pela primeira vez queria se sentir importante para ele. Queria que ele a desejasse mais que as outras mulheres. Sentiu-se boba por esse tipo de sentimento, mas pensou que talvez isso fosse comum às meninas de dezessete anos, e se permitiu sentir como uma, ao menos daquela vez.
Liam sorriu contra os lábios de e automaticamente subiu suas mãos pelas costas dela suavemente.
- Não me diga que ainda estamos nus!
- Totalmente – ela riu – Bom dia!
- Bom dia, – respondeu, puxando-a para mais um beijo. Havia um prazer claro na forma como ele chamara o verdadeiro nome dela. Além do prazer, também estava explícito o ar cúmplice. gostou disso, porque talvez não estivesse tão sozinha quanto imaginara.
- Eu me lembro de estar usando sutiã quando dormi.
- Digamos que eu me encarreguei disso durante a noite. Sinceramente, você fica melhor sem – as mãos de Liam instantaneamente pararam sobre o seio nu da garota, apertando-o um pouco, sem a rapidez da noite anterior.
olhou para o local e depois para Liam com um sorrisinho nos lábios.
- Vamos fazer de novo, é isso? – perguntou hesitante.
- Calma, só estou aproveitando cada parte do seu corpo. Sempre estive chapado, ou bêbado demais...
- Ontem nenhum de nós estava chapado, ou bêbado – interrompeu .
- É, mas ontem eu estava meio desesperado, meio louco.
Sem que pudesse se controlar, se viu atingida por uma espécie de decepção. Talvez tivesse enfeitado muito o que acontecera. Quantas vezes ela e Liam haviam transado? Inúmeras. Embora não lembrasse de Liam ter dito nenhuma daquelas palavras que dissera; as palavras dele eram geralmente vulgar, o que de fato a estimulava, o que de fato a excitava. E era nisso em que a relação deles se baseava, em sexo, apenas nisso.
Não, ela não queria que ele sentisse apenas isso por ela. Apenas desejo e luxúria. Definitivamente não.
- Claro – disse sem planejar o tom murcho que saíra.
- O quero dizer é que eu estava desesperado por você – falou Liam, segurando o queixo da garota para que ela o olhasse.
- O quê?
Ele sorriu, e como se dissesse que o sol nascera, ou que o mundo gira, completou:
- Eu sou louco por você, .

Lily Smith estava entornando mais uma dose de uísque escocês quando apareceu ao seu lado. Seu rosto enrubesceu ao ver o olhar reprovador do seu mais novo amigo.
- Você não precisa disso o tempo todo, Lily.
- Bom, seu alvo parece não estar muito interessado em você – retrucou mal-humorada.
- Do que está falando?
- Ah, Holmes, fala sério! Watson está com um sorriso do tamanho do mundo, e pelo visto você não é o motivo. Bom, só para lembrar, ela nunca sorri.
apenas riu. A vida de colegiais geralmente giram em torno de romances, havia esquecido tanta coisa dessa época. Mas ele também havia percebido tal fato, e não era muito difícil imaginar o porquê do bom humor de . Liam havia levado-a à York High School naquela manhã.
- Eu não desisto fácil – disse com um sorriso enviesado, do jeito que Lily gostava.
- Seu cretino! Pare de sorrir desse jeito! – falou Lily, dando um tapinha no braço de .
- Só porque eu sei que você se derrete quando eu faço isso – ele disse sorrindo, abraçando Lily de lado.
- Me derreto mesmo, mas meu coração não é desse cachorro com um sorriso sexy ao meu lado.
- É de um cachorro de trinte e três anos. Sim, eu já estou sabendo.
gostava de Lily. Ela era verdadeira e espontânea, mesmo tendo a vida que tinha, rodeada de falsidade; era autêntica. Costumava ser tão fácil conversar com ela que ele se sentia bem, descontraído. Ela o relembrava de como era bom ter amigos. Simplesmente aparecera num momento ideal, onde sua vida estava recheada de dúvidas e desconfianças; vingança e medo.
A manhã transcorrera sem grandes acontecimentos. , apesar do seu sorriso no canto dos lábios, ainda permanecia distante de todos, evitava os olhares invasivos de . Sua atmosfera continuava a ser delimitada por ela mesma, envolta por fones e por sua mente impenetrável. Mas era inevitável, não conseguia passar muito tempo longe dela, sentia uma necessidade sobrenatural em provocá-la, ouvi-la falar; vê-la mexer no cabelo quando ficava nervosa, apertar os olhos devido à constante irritação que ele lhe causava.
Ele não sabia explicar aquele magnetismo que o puxava em direção à ela. Não era apenas pela beleza, pelas fantasias sexuais da sua época de adolescente. Tudo bem que estavam ligados por um laço marcado por assassinatos, perseguições, mentiras, corrupção; que estavam em uma teia grudenta, sedenta. Mas, querendo ou não, tinham apenas um ao outro, o que quer que isso significasse, fosse qual fosse a dimensão daquela situação. Às vezes ele pensava o quão intrigante era aquele seu destino ao lado de .
Durante boa parte de sua adolescência tivera as mais inescrupulosas fantasias envolvendo-a, imaginando o sexo proibido envolto de uma adrenalina absurdamente excitante. Ele gostava de tudo o que estava fora de protocolo. E estar ao lado de uma com certeza feria toda a burocracia estúpida do seu pai. O merda que tornava sua vida um inferno, que o fazia ter aquelas crises existenciais patéticas. Até o dia que ele decidiu não se importar mais com as pessoas; era mais fácil viver sozinho. Depois percebeu o quão covarde havia sido. Descobrira um ano antes, em um dos verões mais espetaculares de sua vida. Ele prometeu salvar a responsável por sua mudança. Mas ele nunca mais voltou a Brighton. Embora por vezes deixasse seus pensamentos correrem soltos por aqueles três meses; embora sempre acabasse bebendo e fumando um pouco mais que o necessário.
Por volta das duas da tarde, quando passava pelo corredor em direção à sala de aula, foi ao seu encontro. Ela estava irritantemente bonita naquele vestido preto estampado com delicadas e pequeninas flores brancas, um pouco acima dos joelhos, com alcinhas provocantes, mostrando os ossinhos da clavícula. Um sorriso sacana surgiu instantaneamente em seus lábios ao permitir que sua imaginação devaneasse rumo a um setor, digamos que, mais erótico, envolvendo ele e a garota a sua frente. O que ele podia fazer, afinal de contas era um desejo reprimido, e esses são sempre os piores.
Ele puxou o braço da garota e ela estremeceu em um susto.
- O que você quer? – dessa vez ela não parecia completamente irritada, só um pouco impaciente, e sabia o motivo daquela relativa tolerância.
Ele sorriu e olhou-a sem se preocupar com as pessoas em volta, que achavam que os dois eram um espetáculo aberto ao público. Sem se preocupar com o desconforto aparente de ao vê-lo encarando-a daquele jeito invasivo.
- Só vim ter certeza que a sua pele hoje está realmente mais bonita que nos dias anteriores.
Ele só disse isso porque era o que geralmente as mulheres dizem a respeito do sexo: a pele fica bonita, o humor mais relaxado. E a “tranquilidade” dela significava que Liam havia feito um bom serviço. Infelizmente. Ele preferia ter sido o causador daquela mudança repentina nela.
riu, e isso, inevitavelmente, fez sorrir.
- O que está querendo dizer, Holmes? Que minha pele geralmente é feia?
Ele se aproximou mais dela e sussurrou em seu ouvido:
- Não, só estou dizendo que parece que você teve um orgasmo recentemente.
Ele pôde sentir sorrindo, ela estava desdenhosa como nunca havia visto antes. E então foi a vez dela sussurrar em seu ouvido, causando-lhe uma sensação gostosa de satisfação.
- E não é que tive um dos bons?
Ele riu gotosamente pela forma direta e descontraída em que aquela conversinha boba se desenrolara. Geralmente ela vinha com quatro pedras na mão, esquivando-se dele, mesmo após a conversa que haviam tido. Mesmo sabendo que dali em diante trabalhariam juntos. Talvez aquele fosse um sinal de que as coisas estavam mudando.
deu um tapinha no ombro dele e o olhou presunçosa.
- Acho que você está precisando disso, Sherlock.
Ele piscou galanteador.
- Elementar, minha cara Watson.
Quando ia falar mais alguma coisa, o professor de geografia passou pelo corredor, chamando todos para a sala. Ela virou-se com aquela expressão vitoriosa que estava dominando-a naquela manhã. encaminhou-se até a tediosa sala, sabendo que não prestaria atenção em nada, apenas na nuca de , que costumava ficar exposta nas aulas que ela considerava chatas.
E, com certeza, Geografia Física era umas dela.

Capítulo revisado por Mari Alves.


06.

O tempo não era o seu melhor amigo nas aulas de Geografia, com certeza. Patrick McGee e a sua falta de firmeza e competência a deixava completamente entediada. E então, dominada por aquela euforia que ainda agia sobre ela, decidiu se divertir um pouco, de uma forma que até então não havia se permitido. Na verdade, fazia muito tempo que não tinha diálogos que a fizessem rir como há poucos minutos com .
De alguma forma, ela identificara no olhar dele uma espécie de desejo por ela. Real, palpável, diferente das outras vezes que ele lhe vinha com comentários sórdidos. Por que não se divertir um pouco com ele? Estava cansada daquele papel de indiferença ao mundo, ao divertimento, as sensações de bem-estar. Liam, na noite anterior, fizera com que acordasse; a fez sentir-se viva mais uma vez. Daria o troco em por aquele primeiro dia em que haviam se visto. Ele fizera questão de deixá-la assustada e totalmente envolta por uma esquizofrenia sufocante.
Pôs um sorriso provocante nos lábios e virou-se para trás, dando de cara com um olhar perdido nela. Ele a encarou com olhos indagadores, afinal evitava qualquer tipo de contato visual com ele; mas após aquela conversa descontraída que haviam tido ele poderia esperar menos frieza vindo dela, certo? É, talvez.
Ela quebrou o olhar dos dois virando-se para frente mais uma vez, não sem antes deixar um bilhete na mesa do garoto. Depois, soltou o cabelo e os movimentou um pouco. Homens gostam desse tipo de provocação tola. Ela levantou uma das mãos fazendo com que o professor interrompesse a aula.
- Alguma colocação sobre as florestas temperadas caducifólias, senhorita Watson? – perguntou McGee no seu odioso tom arrastado.
- Não, professor. Apenas quero um passe para ir ao banheiro – ao dizer isso, as pessoas a olharam incrédulas. Esse seu simples gesto nunca fora visto antes, era sempre tão disciplinada e compenetrada que seus colegas esqueciam que era uma adolescente como qualquer outra. Que ela falava e podia sim querer fugir de uma aula insuportável daquela. Bom, de qualquer forma, eles achavam que ela era uma agente da Interpol.
McGee, como previsto, permitiu sem pestanejar. levantou e encaminhou-se em direção a porta da sala. Com um sorriso e um caminhar que fizeram com que todos olhassem de boca aberta. apenas observava a cena divertido. Se aquelas pessoas soubessem que aquela garota costumava controlar os adolescentes de uma cidadezinha inglesa não tão distante dali... Foi perdido nesse pensamento que ele notou olhar sugestivamente para ele antes de sair definitivamente da sala. E então ele percebeu o papel amassado em cima de sua mesa.
“Encontre-me daqui a cinco minutos na sala de música. Não se preocupe, ninguém nos encontrará lá”
Sugestivo. Mais até que o olhar que a pouco ela havia lhe lançado. Mas se tratando de sabia que teria que controlar aquela empolgação crescente. Ela era uma armadilha personificada e nos últimos dias não andara muito satisfeita com o comportamento dele. Se bem que Liam havia se encarregado de deixá-la sem o ar sombrio que geralmente a envolvia.
De repente seu pensamento tomou outro rumo, fazendo o seu habitual sorriso sacana brotar em seus lábios. O vestido preto de alcinhas que a garota utilizava lhe era particularmente atraente. De uma forma doce e perigosa. Automaticamente ele se imaginou a sós na sala de música com ela e seu vestidinho pseudo boa-moça.
A voz dela ecoou em seus pensamentos: Acho que você está precisando disso, Sherlock.
E, sem dizer uma só palavra ao professor, saiu da sala.

estava sentada sobre o tampo de um imenso piano de cauda, com as pernas cruzadas e as mãos apoiadas na madeira polida do instrumento. Quando o viu entrando, ela sorriu presunçosamente e havia um ar sexy na forma como ela se portava: as coxas à mostra, o decote do vestido exaltado pela forma em que se posicionara, sem contar com sua expressão facial totalmente provocante. observou tudo atentamente, desnudando-a com seu olhar invasivo e, ao perceber não haver sequer uma mínima repressão por parte de , encaminhou-se em direção ao imperioso instrumento onde ela se encontrava. Seus passos eram lentos, pois ele aproveitava a visão que tinha da maravilhosa garota a sua frente, o corpo dela e seus atributos.
- Posso saber que vivacidade é essa? – perguntou enquanto parava em frente a ela.
riu jogando a cabeça para trás, fazendo com que seu cabelo se movimentasse e, consequentemente, exaltasse seu seio, tornando tudo ainda mais provocante.
- Ah, você já sabe o motivo disto.
decidiu arriscar e pôs uma de suas mãos na coxa dela, ansiando pela textura da pele macia dela. Ela não recuara. Decidiu começar a deslizar sua mão por aquela região, sem explorar muito o resto.
- Você está interessante hoje.
Ela olhou para a mão dele em sua perna e disse:
- Tudo culpa de uma boa noite de sexo, é claro.
E antes que ele pudesse arriscar outro movimento sobre a pele macia de , ela desceu do piano rapidamente, como um gato ardiloso. Ele apenas sorriu em compreensão, a palavra armadilha voltou a ressoar em sua mente. A garota começou a andar rumo ao fundo da sala, onde se encontrava uma parede encoberta, em sua maioria, por guitarras e baixos, sendo que no centro havia três instrumentos iluminados especialmente, ao que parecia uma guitarra, um baixo clássico e um violão.
Ela começou a olhar os instrumentos de uma forma um tanto paradoxal; era perceptível tanto a admiração quanto a hesitação. Por fim, acabou pegando o violão. A garota sentou-se em um puff vermelho e começou a dedilhar uns poucos acordes distraidamente.
ficou observando como ela parecia se atrapalhar em alguns acordes, o modo em que seu cabelo caia sobre o rosto evidentemente concentrado. Ela parecia tentar lembrar como tocar algo que não soube identificar imediatamente, e então ela levantou a cabeça dando-lhe um sorriso confuso.
- Estou um pouco enferrujada.
nada disse, apenas tratou de encaminhar-se em direção ao puff azul em frente ao dela. Eles permaneceram em silêncio por uns minutos, enquanto ainda dedilhava descompromissadamente algumas notas. Até que finalmente se pronunciou.
- Sabe, senhorita Watson, ainda estou esperando algo bom sair daí – ele disse brincalhão após alguns minutos.
Ela ergueu as sobrancelhas em direção a e sorriu, mas não havia hostilidade em seu sorriso. Ela apenas balançou a cabeça e respondeu simplesmente:
- Eu costumava ser realmente boa nisso, mas ultimamente eu não tenho lembrado muitas coisas do meu passado.
não esperava uma resposta tão vulnerável quanto aquela. Um pouco de presunção misturada a sensualidade vista a pouco, sim. Mas vulnerabilidade, nunca. Ele se mexeu desconfortavelmente no puff e tentou manter alguma espécie de conexão com o olhar dela, contudo o rosto dela estava escondido pelo cabelo, enquanto ela mais uma vez tentava arrancar alguma lembrança do que parecia ser uma música que aparentemente ela sabia tocar.
- Você não lembra de nenhuma?
- Nenhuma dos Beatles! – ela disse em um riso meio exasperado – Tem uma que lembro, acho que perfeitamente.
- A Day in the Life?
Ela balançou a cabeça negativamente.
- Já disse, nada de Beatles, nem mesmo a Sgt. Pepper’s!
- Vamos lá, ! – ele sussurrou o sobrenome dela.
De repente, como em um surto de memória, uma partitura completa aparecera em sua mente. olhou intensamente para antes de começar os primeiros acordes. Ela sempre gostara daquela música, talvez por seu significado ela não tivesse esquecido como se tocava. E então começou, encarando mesmo com a franja caindo por seu rosto. E o rapaz percebeu uma agressividade naquele olhar enérgico. Nas primeiras notas ele reconheceu a a música dos Smiths.

I am the son
Eu sou o filho
And the heir
E o herdeiro
Of a shyness that is criminally vulgar
De uma timidez que é criminosamente vulgar
I am the son and heir
Eu sou filho e herdeiro
Of nothing in particular
De nada em particular

A voz de era bonita, seu timbre era suave, seu sussurro agressivo em “of a shyness that is criminally vulgar” era expressivo e sexy. Tudo o que uma voz feminina precisava. Mas não foi apenas esses detalhes que reparou, ela cantava como se direcionado a ele, ainda que seu olhar por vezes se perdesse no espaço. E então, notou que talvez fosse um desabafo, ou quem sabe ela o estivesse acusando através da letra de Morrissey, que ele por sinal conhecia de cor.

You shut your mouth
Você, cale sua boca
How can you say
Como pode dizer
I go about things the wrong way?
Que eu faço as coisas do modo errado?
I am human and I need to be loved
Eu sou humano e preciso ser amado
Just like everybody else does
Como todos precisam

sentia aquela música efervescer dentro de si, como o hino de si mesma. Havia uma hostilidade pertencente a ela naquela letra, e também o sentimento de incompreensão que costumava sentir por parte de outros. Além de tudo, era presente na letra a revolta eminente em oposição a certas pessoas e inclusive a si mesmo; emoções que faziam parte dela, sempre haviam feito.
A letra fluia naturalmente, as notas eram transmitidas ao violão como se ela tivesse ensaiado nos últimos dois anos apenas essa música.

I am the son
Eu sou o filho
And the heir
E o herdeiro
Of a shyness that is criminally vulgar
De uma timidez que é criminosamente vulgar
I am the son and heir
Eu sou o filho e o herdeiro
Oh, of nothing in particular
Oh, de nada em particular

You shut your mouth
Você, cale sua boca
How can you say
Como pode dizer
I go about things the wrong way?
Que faço as coisas do modo errado?
I am human and I need to be loved
Eu sou humano e preciso ser amado
Just like everybody else does
Como todos precisam

E não era só sua voz que era bonita, ela era realmente boa no violão. Mesmo com sua força parecendo ser capaz de destruir todas as cordas a qualquer momento. Ela tinha ritmo, perfeita noção de tempo, e , que tinha um ouvido apurado se tratando do instrumento, percebeu que ela não errava uma única nota. Finalmente ele compreendeu que aquela música continha a essência da alma de .

There's a club, if you'd like to go
Há um clube, se você quiser ir
You could meet somebody who really loves you
Você poderia encontrar alguém que te ame de verdade
So you go, and you stand on your own
Então você vai, e você fica sozinho
And you leave on your own
E você vai embora sozinho
And you go home, and you cry
E você vai pra casa, e você chora
And you want to die
E você quer morrer

Então, veio uma lembrança. Um pouco embaçada, mas ela apareceu e incrivelmente estava lá. Ela sabia que era ele pelos olhos desconcertantes encarando-a com uma curiosidade intrigante. Ela tinha treze anos, sabia, pois vestia a blusa vermelha do Ramones, jeans rasgados nos joelhos e aquele velho all star de couro branco. Ela havia usado aquela combinação para ir ao show do Morrissey e esse era o principal motivo de saber que tinha treze anos. também se lembrou ter desejado que parasse de apenas olhá-la e viesse ao seu encontro, desejara que lhe dissesse alguma mera palavra. Mas ele se restringira a observá-la minuciosamente.
Tudo ficou escuro e aquela sensação de estação de rádio mal sintonizada voltou, deixando agoniada, fazendo com que ela tocasse e cantasse com ainda mais força. Agora, sem direcionar a canção à ele, seu olhar se perdeu em um ponto qualquer da sala, por vezes fechava os olhos sentindo a melodia tomar, cada vez mais, conta de si.

When you say it's gonna happen "now"
Quando você diz que vai acontecer "agora"
Well, when exactly do you mean?
Bem, quando exatamente você quer dizer?
See, I've already waited too long
Veja, eu já esperei demais
And all my hope is gone
E toda minha esperança se foi

também lembrou do show do Morrissey, sorriu quando a imagem de aos treze anos surgiu em sua mente. Ela vestia uma blusa dos Ramones mesmo podendo estar com a do The Smiths, tal como os diversos fãs que rodeavam a arena estavam. Mas ele havia gostado, só mostrara mais uma afinidade musical entre eles.
Ele não fazia ideia de onde queria realmente chegar com a cena que fazia, não sabia se ela o chamara propositalmente já pensando em cantar essa música para distraí-lo de alguma forma; se o objetivo fora de fato este, ela o conseguira com êxito. Ele estava curioso demais para se preocupar com o resto.

You shut your mouth
Você, cale sua boca
How can you say
Como pode dizer
I go about things the wrong way?
Que eu faço as coisas do modo errado?
I am human and I need to be loved
Eu sou humano e preciso ser amado
Just like everybody else does
Como todos precisam

Aos poucos foi tocando os últimos acordes e permanecia estático, esperando o que ela faria. A garota colocou o violão no chão e se esparramou no puff como se estivesse exausta. O que não entedia era o real significado daquela cena.
Ele só tinha que entender o significado da música para compreender tudo.
Mas ele só conhecera o lado glamoroso do passado de , jamais soubera dos sentimentos que a dominavam naquela época. Ah, se ele soubesse o que estava por detrás daquela garota...

- Pensei que o efeito Liam durasse mais tempo – finalmente disse, fazendo revirar os olhos – Sabe, você está com aquele seu ar sombrio de novo.
- Você deve estar pensando que eu planejei tudo isso – ela falou simplesmente, sem exaltar a voz.
Ele sorriu e lançou uma olhar oblíquo a ela, com uma das sobrancelhas erguidas.
- Tenha certeza disso.
A garota suspirou pesadamente e mexeu desajeitada no cabelo. reparou que aquele gesto era uma espécie de sinal de nervosismo dela. O que, afinal, abalara o seu humor tão cheio de si de mais cedo? Que fantasmas aquela música mórbida fora capaz de trazer?
- Em parte planejei sim, óbvio. Em parte não.
- Claro que planejou! Você me seduziu para me trazer até aqui – seu tom era irônico, mesmo tendo a perfeita noção de que agora estava estranhamente vulnerável.
Esse comentário pareceu despertá-la, ela inclinou-se, apoiando seu peso nos braços. Um sorriso furtivo se estampou em seus lábios.
- Não foi difícil perceber que você tem uma espécie de, ahm, como dizer isso sem soar estranho...
- Uma espécie de se desejo carnal desenfreado por você - ele interrompeu zombeteiro.
- Você está fazendo piada com isso, mas sim. Seu olhar, , é capaz de tirar todas as minhas roupas com a força do pensamento.
Por um momento ponderou aquela informação saindo da boca de . Era verdade, sempre fora e ele não iria negar, nunca foi o tipo de cara que tem vergonha desse tipo de coisa, afinal, se o tivesse, não demonstraria tão explicitamente o seu desejo.
- Muito esperta. Mas eu não sou o único cara que tem vontade de te levar para cama.
fechou os olhos como se tentasse se concentrar e tentou não pensar como ela estava ainda mais sexy em meio àquela confusão. Contudo, sentiu-se atiçado em provocá-la com maus olhares luxuriosos e foi o que tratou de fazer rapidamente. Ela não percebeu logo, mas depois balançou a cabeça negativamente, como em uma tentativa de ignorá-lo.
- E isso tem muito tempo, certo? Eu lembrei do show do Morrissey em Wembley e você me olhava desse jeito. Eu tinha treze anos e lá estava você querendo...
- Te desvirginar, sim, aquele era eu – ele interrompeu mais uma vez, mantendo seu olhar firme nos seios dela. Estava gostando de desarticulá-la, de ser capaz de invadi-la apenas ao observá-la um pouco mais meticulosamente.
o olhou com indiferença, apesar de que talvez fosse um pouco assustador encarar como um cara que no passado fora meio obcecado por ela. Decidiu que realmente não importava, até porque lembrara de algumas coisas à respeito de , coisas que suas supostas amigas costumavam comentar quando por um acaso ele não estava por perto. Os sussurros que chegavam aos seus ouvidos se tratando dele não eram nada puritanos. Afastou aqueles pensamentos e levantou-se com um ar decidido. Ela deu curtos passos indo de um lado a outro e em seguia virou-se para .
- O ponto não é esse. Eu não planejei cantar essa música, mas ela veio e eu não conseguir parar de tocá-la. Mas sim, planejei te seduzir e você sabe o porquê.
- Tudo bem, ainda aceito ser seduzido por você.
ergueu as duas sobrancelhas, como se dissesse “É isso que você quer? Então aguente”. Ela andou em direção a ele que continuava sentado com um sorrisinho cínico nos lábios, esperando a próxima ação dela. posicionou-se atrás dele e com pôs suas mãos levemente nos ombros do rapaz. Abaixou-se lentamente e mordiscou o lóbulo da orelha dele. Antes que ele fizesse qualquer outro movimento, ela perguntou sedutoramente:
- Você matou o seu pai, ?
Ele virou-se rapidamente para ela, seus olhos, antes encobertos por luxúria e insolência, agora estavam em chamas, ardendo em fúria. aproximou seu rosto do dela e sentiu seu hálito quente de menta tamanha proximidade dos dois.
- O que você pensa que está fazendo?
Ela sorriu sem mostrar os dentes, com os lábios curvados.
- Estou jogando as minhas cartas. Não sou a única refém nessa história. Acredite em mim – respondeu com a voz dura fazendo questão de encará-lo profundamente.
sorriu. De um jeito um tanto demoníaco. Ele tinha aquele ar infernal e não importava o quão corajosa se sentisse, ele lhe causava arrepios. Principalmente quando sorria daquele jeito cheio de si. Era um sorriso fatal, ela sabia reconhecê-lo, mas nunca fazia ideia do que viria pela frente. Ele girou o pescoço estralando-o, como se estivesse se preparando. Mais uma vez os arrepios, só que agora acompanhados de um vertiginoso frio na barriga.
- Essa é uma resposta que você não terá, querida – o cinismo cortante era ainda mais intensificado quando a possibilidade de ter matado o próprio pai lhe vinha a cabeça.
Mas quem sou para ficar nesse puritanismo? Pensou . Os dois eram, por assim dizer, farinha do mesmo saco. Não que fosse capaz de matar o próprio pai, mas talvez nunca houvesse cogitado isso porque o amava. O que o Albert teria feito a para coagi-lo a um assassinato? E antes de tudo, quem garantia que fora realmente ele que puxara o gatilho?
- Não acredito que você o matou, .
se resumiu a rir e sua face assumiu uma expressão de falsa surpresa.
- Mas que gracinha, . Você de repente passou a confiar em mim?
Ele notara que ela estava jogando, mas era tarde demais para voltar atrás.
- Não se trata disso. Já conheci os piores assassinos que a Inglaterra já teve e você não se parece nenhum pouco com eles.
- Os psicopatas são os seres mais simpáticos do mundo, pelo menos aparentemente.
Se ele não cairia nos jogos, por que não se utilizar da verdade?
- Tudo bem, , não vou mais subestimar sua inteligência – ela encaminhou-se para o puff e sentou sem muitas formalidades – Você quer que eu confie em você, mas não posso confiar em uma pessoa que seria capaz de matar o próprio pai, porque como você sabe, eu morreria pelo meu.
olhou para ela parecendo ponderar a informação.
- Você quer saber a verdade? Vou te falar a verdade, então – ele foi até o puff ao lado dela e sentou – Não, eu não matei o meu pai. Mas você tem que saber uma coisa sobre mim: eu não sou um cara legal. Então não se assuste se eu disser que a morte de Albert , de certa forma, foi um alívio.
Houve um longo momento de silêncio.
- Ele molestava você, ?
ergueu as sobrancelhas e riu. Descontroladamente. ficou parada com os olhos arregalados.
- Esse tipo de coisa está na moda, mas não aconteceu comigo, felizmente – ele respirou fundo antes de recomeçar a falar – Meu pai era o tipo de cara capaz de tudo, não muito diferente do seu pai. A diferença era que o senhor amava a prole dele – nesse ponto riu de uma forma meio amarga – O que eu quero dizer é que durante muitos anos, apesar dos meus dribles, ele fez de minha vida um inferno. Por muito tempo senti um desejo fora do comum de matá-lo, mas fui covarde e quando vi a cena de seu assassinato fiquei em choque. Me senti ridículo porque queria ajudá-lo, queria ajudar você, mas estava completamente imóvel. Resumindo: sim, eu o mataria... se tivesse coragem o suficiente para isso.
ficou esperando que ele continuasse, no entanto ele ficou calado, com as sobrancelhas erguidas, um ar arrogante e talvez houvesse um pouco de ira também. Ela preferiu ignorar as emoções que emanavam dele. Resolveu tentar sanar a maior de suas dúvidas, antes que o medo a atingisse em cheio:
- Quem puxou o gatilho?
Ele balançou a cabeça negativamente.
- Essa resposta você não vai ter, .
- Você quer que eu confie em você, mas não confia em mim. Qual é a sua, hein?
- Só estou tentando tornar as coisas mais fáceis. Já disse, saber demais sempre é um problema.
- Então, me diga, o que fazer com você? – o tom de era cortante.
Ele levantou-se do puff de uma só vez e começou a tomar seu caminho em direção a porta. Antes de ir embora, ele disse:
- Eu posso falar sobre o que planejo para o próximo sábado, posso falar sobre o que aconteceu em meu passado, mas isso não – ele deu um longo suspiro - E quero você hoje em meu apartamento, às sete da noite. Estarei esperando, .
E antes que pudesse rebatê-lo, saiu fechando a porta.

Ela estava parada na porta do apartamento 402 há mais ou menos meia hora. Dois motivos justificavam sua ridícula situação vegetativa:
Um: ela queria deixar puto.
Dois: sua constante mania de perseguição estava agindo com muita eficácia sobre ela. Talvez ele estivesse acompanhado por dois capangas armados até os dentes...
Balançou a cabeça nervosa, esse tipo de pensamente geralmente ocorria na época em que ela ainda cheirava cocaína, mas fazia quase um ano que parara, então por que continuava com aquele martírio? Ah, talvez porque você já tenha sido alvo de balas algumas dúzias de vezes, ! Pensou consigo mesma.
Inspirou profundamente antes de tocar a campainha, não demorou muito para aparecer.
Diferentemente do que ela imaginara, ele não ficara chateado, parecia mais aliviado que qualquer outra coisa. Mas não foi só isso que reparou.
- Entra, .
A garota notou o uso do seu primeiro nome; não que ele nunca o tivesse proferido, mas nunca daquela forma serena. Fora completamente natural, sabia e isso tornava tudo ainda mais estranho. No entanto, parou de se preocupar com esse detalhe quase que imediatamente.
Ela estava mais concentrada em observar atentamente o tronco nu de , já que ele usava apenas uma boxer azul. Definitivamente, ele era agradavelmente gostoso, não havia outras palavras que pudessem defini-lo melhor. As costas eram largas, o peitoral definido, de uma forma que gostava. E havia aquela maravilhosa tatuagem, tornando-o ainda mais irresistível aos seus olhos.
Ela constatou que ele era menos musculoso que Liam.
Na verdade, nunca gostara de homens marombados.
estava na medida certa, aliás, mais que certa.
Para a tristeza de , ele decidira pôr uma blusa. Uma blusa branca com o rosto de Lou Reed estampado em preto. É, ele realmente estava se empenhado para que desejasse arrancar aquele pedaço de pano a qualquer custo.
- Vai ficar aí parada? – ele perguntou quando já estava esparramado no sofá, olhando atentamente para a televisão.
Ela adentrou no apartamento fechando a porta silenciosamente.
- Você me chamou aqui para assistir futebol? – perguntou sentando-se no braço do sofá; quanto mais distante de , melhor estaria.
- Está nos acréscimos, espera só um instante – respondeu sem olhá-la, completamente compenetrado em sua TV gigante.
assentiu um pouco sem reação, era completamente esquisito estar em uma situação aparentemente normal com . Ela jamais o imaginara daquele jeito: completamente largado em um sofá, tomando cerveja, rodeado de caixas de pizza, assistindo a um jogo de futebol. Esse tipo de coisa condizia a um cara normal. era o tipo de cara que vivia cercado de prostitutas e alguns pacotes de pó espalhados pela mesa de sua sala. Ok, , ele não é um gangster; teve de rir de seu pensamento.
Ela costumava se divertir com futebol, na realidade, antes gostava bastante. Hoje, porém, sentia-se indiferente. Honestamente, se distanciara de muito do que gostava. Seu apreço pela música, cinema, seriados de TV e futebol haviam cedido lugar aos seus planos sobre o próximo passo a dar, ou que grande festa poderia ir.
- Não sei por que ainda perco meu tempo vendo isso – ela ouviu reclamar e logo em seguida desligando a televisão – E aí, você quer alguma coisa?
- Você está se referindo aos restos mortais dessa pizza família ao seu lado? Não, obrigada.
riu um pouco, mas levantou-se e foi até o fabuloso frigobar vermelho e pegou uma garrafa de Stella Artois, em seguida, jogo-a para , que pegou um pouco sem jeito, quase derrubando a cerveja. Ela abriu e logo deu um gole. Estava perfeitamente gelada, do jeito que qualquer ser humano gostava. E era uma Stella Artois. Maravilhosa.
- Bom gosto para cervejas – ela disse levantando a garrafa.
O rapaz jogou-se no sofá de novo e assentiu com a cabeça.
- Qual é o plano para sábado? – ela perguntou após um grande gole em sua cerveja.
que estivera largado empertigou-se sentado mais próximo a ela, olhando para cima, já que a garota estava um pouco mais alta que ele sentada no braço do sofá.
- Antes de qualquer coisa você precisa saber que precisamos de aliados. Temos que ser carismáticos, mas temidos, o que é difícil, sendo que temos vinte e dezessete anos.
- Eu ainda estou sem entender muita coisa.
- É como se estivéssemos preparando o terreno, como se estivéssemos buscando um exército para lutar ao nosso lado.
- Certo, mas como posso ajudar se nem ao menos sei quem é o meu inimigo? – ela perguntou sarcástica, querendo saber se ainda continuaria com aquela história de que saber demais é sempre um problema.
passou a mão no cabelo, não irritado, mas cansado.
- Iremos a Brighton e lá nosso inimigo é Juan Fuentes.
- Um gangster mexicano? – perguntou divertida.
- Um cafetão colombiano mais especificamente.
- Se Tony Montana temia os colombianos, quem dirá eu – falou a garota um pouco exaspera, fazendo alusão ao filme Scarface, cujo personagem principal, Tony Montana, fora um dos piores criminosos da Flórida.
riu gostosamente e viu algo de verdadeiro naquele sorriso.
- É bem por aí, ele não é brincadeira.
- E quem irá nos ajudar?
- Há uma garota que poderia estar disposta a ser nossa aliada, tenho poucas informações, mas tudo indica que sim.
Uma garota, um cafetão... Não era muito difícil juntar dois e dois.
- É uma prostituta? – perguntou com as sobrancelhas erguidas.
não respondeu de imediato e sem olhar para balançou a cabeça positivamente.
- Sim, é uma prostituta.
Havia algo ali, ela sabia. Preferiu mudar de assunto, porque de qualquer sorte ela precisava entender o que se passaria em Brighton.
- E qual é o grande plano?
- Em primeiro lugar precisamos conseguir falar com a garota, mas para isso temos que distrair Juan Fuentes.
- E é aí que eu entro, certo?
- Exato. Você vai se fingir interessada pelo lugar...
- A mais nova puta do senhor Juan Fuentes! – interrompeu a garota em um falso ar triunfante.
- Que bom que você entende rápido.
Ela o olhou desconfiada, analisando a expressão ansiosa no rosto de .
- O que realmente significa essa garota, ?
Diferente do que ela imaginava, ele a encarou firme, contundente e disse sem nenhuma emoção aparente:
- Possibilidades e informações preciosas, basicamente isso.
- Só isso? – perguntou franzindo o cenho.
- Só – respondeu seguramente.
Ela decidiu não contestar mais, começou a achar que seria divertido seduzir Juan Fuentes.
- Esse cara é um filho da puta, não é? Esse Juan Fuentes...
- Um dos maiores que já conheci.
- Isso não deve ser pouca coisa – constatou sentindo uma ansiedade crescente tomar conta de si. Não de uma forma ruim, mas sim empolgante, excitante.
- Não é.
- Vai ser divertido – falou com um ar animado, quase rindo ao imaginar um homem de porte, bigodudo, fumando um charuto fedorento.
riu, mas disse em contraposição:
- Então o seu divertido, no meu dicionário, é sinônimo de “Puta que pariu, tô fora!”
sorriu.
- Isso é tudo o que preciso saber?
- Por hoje sim.
- E se eu fizer aquela pergunta você vai me responder?
- Não mesmo – definitivamente ele estava cansado, não fizera nenhuma insinuação para a garota e ela notou as olheiras dele, o rosto amassado como se ele não dormisse há horas. Como não percebera na escola? Haviam estado tão próximos naquela manhã.
- , você...
- Ta na hora de ir embora – ele a interrompeu, seu tom não era grosseiro, ou irritado, era apenas... esgotado.
A garota assentiu e o fez parar quando fez menção de se levantar.
- Eu conheço o caminho.
- Só estava tentando ser um cavalheiro.
- Poupe seus esforços para sábado – ela respondeu com um sorriso divertido.
Quando já estava puxando a maçaneta cuidadosamente, ouviu chamá-la:
- , uma última coisa!
Ela parou no vão da porta e olhou para trás esperando o que ele tinha a dizer.
- Não confie no Rilley – ele disse um tanto sombrio.
A garota apenas o olhou como se esperasse uma explicação plausível, mas sabia que explicações não eram o forte de .
- Apenas acredite em mim.
Aquela frase já a estava deixando furiosa, ela o olhou raivosamente, antes de dizer:
- Quando você vai entender que, para mim, a pessoa em quem não devo confiar é você, ?
E antes que ele pudesse responder ela saiu batendo a porta, já pegando seu celular e apertando o número três de discagem rápida.
Ela mal podia esperar para estar nos braços de Liam Rilley mais uma vez.

07.


A mulher caminhava pela Inside Avenue sem destino. Seus passos eram lentos, despreocupados; mas o rebolado sexy estava presente, arrancando as costumeiras olhadelas descaradas dos homens que por ali passavam. Isto, bem, era algo que nunca se dissiparia dela. Afinal, era Cindy Johnson e se pudesse ser definida em uma única palavra, seria, sem sombra de dúvidas, deslumbrante.
Parou por um momento, sentindo os pés doerem. Encostou-se em um poste e ascendeu sua inseparável cigarrilha. Na primeira tragada sentiu o alívio tomar conta de si, óbvio que queria algo de maior efeito, contudo só mais tarde Chino passaria em seu quarto para deixar a encomenda que fizera dias atrás. Claro, ela esperava conseguir vender boa parte dos produtos, mas não era de ferro e na situação em que se encontrava umas carreiras extras de cocaína não fariam mal.
Fariam, mas essa é uma outra história.
Ela continuava a fumar a cigarrilha prazerosamente e exibia, sem a menor vergonha, suas longas pernas torneadas cobertas por uma luxuriosa meia arrastão vermelho-vinho. O ar arrogante estava presente, como sempre. Talvez fosse isso que tanto atraia os homens: o desprezo que nutria por eles.
Sentimentos confusos a acompanhavam: ela estava extasiada e absolutamente surpresa por sua ousadia. Fugir da “prisão” Paradise Night Club – Brighton era pura nitroglicerina!
Nesse exato momento Juan Fuentes devia estar soltando fogo pelas ventas.
E ela poderia definir seu atual status como absolutamente fodida, mas quem se importa? Quando se é uma escrava sempre se é uma fodida, principalmente quando o seu “dono” te tem como preferida. O furacão Cindy Johnson simplesmente era o maior trunfo do ilustríssimo senhor Juan Fuentes; não havia um só sócio Detroit da Inglaterra que não sonhasse em ter uma noite ardente com ela, entretanto apenas os mais importantes conseguiam esse triunfo.
Ah, Cindy Johnson...
Ela era uma lenda.
E perigosa.
E vigiada a todo o momento.
Sua vida era um inferno.
Tivera que aprender a lidar com o poder de ter consigo tantos segredos, afinal os homens mais importantes do cenário inglês – e até mesmo europeu - constantemente passavam por sua cama. Eles confidenciavam a ela suas mais dissimuladas falcatruas e ela ouvia a tudo sem falar uma só palavra. Tentava fazer ouvido de mercador, mas era impossível não registrar na memória assassinatos encomendados, desvios de verba bilionários, envolvimentos com guerrilhas terroristas...
Cindy Johnson, antes de qualquer coisa, era uma bomba relógio ambulante, prestes a explodir.
Uma prova do fato acima mencionado foi como ela começou a gargalhar descontroladamente, feito uma louca psicopata, no meio da rua. De repente, o riso transformou-se em choro descontrolado. Ela engasgou, soluçou, arfou e caiu no chão respirando sofregamente. Sua situação era patética. Sentia-se infeliz, acabada, incompleta; tudo, menos livre.
Liberdade e Cindy Johnson nunca caberiam na mesma frase. Era assim desde ela decidira fugir dos maus tratos de sua mãe e vendera seu corpo a Juan Fuentes, não sabia na época, mas este homem também exigiria sua alma para sempre. Transformara-se, então, em uma eterna serviçal, escrava até o túmulo. O mais próximo de liberdade que já havia chegado fora um ano atrás.
Aquele fora o melhor verão de sua vida.
Algumas vezes permitia que seus olhos se enchessem de genuínas lágrimas ao lembrar.
Ao lembrar-se de .


- Está tudo esquematizado – disse Joel Mitchell, andando de um lado para o outro – Você e a garota dividirão esse quarto no Albergue In Action, desculpe, mas foi o melhor que consegui.
- Eu conheço esse lugar, Joel, é um lixo.
O homem parou com a movimentação hiperativa e afrontou com os olhos semi-cerrados e uma expressão séria.
- , em Brightom você não tem muitas opções.
balançou a cabeça com um sorriso vencido no rosto.
- Sou um homem morto, entendi.
- Que bom que você entende o quanto é um fodido. Agora me ouça com muita atenção.
apenas deu uma tragada no cigarro e ergueu as sobrancelhas esperando o que Mitchell lhe diria. Joel se agachou firmando-se no calcanhares, de forma a encarar o rapaz fazendo com que ele não fosse capaz de desviar o olhar.
- Nada de Cindy Johnson, . Ela vai te arruinar e, além de você, a outra garota.
Ele sabia que Joel estava certo, tinha total convicção do perigo que Cindy Johnson lhe traria. Só que Joel não sabia algo que detinha conhecimento há séculos: Cindy Johnson também significava informações, muito preciosas, diga-se de passagem. E então, ele apenas olhou para Joel com um olhar que poderia ser confundido com um fuzilamento, e disse suavemente:
- Isso, Mitchell, fica por minha conta.
Joel olhou para com um sorriso sacana no rosto, o homem tinha cerca de trinta e três anos. Era atraente à sua maneira. Mas tinha uma enorme cicatriz do lado direito do rosto, fruto de uma tentativa de assassinato por seu irmão mais velho. O irmão dele, agora, estava em algum canto profundo do Oceano Índico. Ele levantou-se em um pulo e recomeçou com o irritante andar compulsivo.
- Você vai desistir de tudo, você é puto de um cara coração mole, – falou observando a vizinhança de pela janela.
- O que te faz pensar isso? – perguntou , mas no seguindo seguinte se arrependeu.
- Você ainda é apaixonado por essa garota, pensa que eu não sei?

acordou no sábado às oito da manhã. Cedo demais, pensou.
Ela estava completamente envolvida nos braços de Liam, mas sentia-se estranhamente sufocada. Três dias atrás acordar ao lado dele fora como uma dádiva, um lembrete de que ainda estava viva. Agora, em contraste, sentia-se como se estivesse presa em uma jaula feito um leão dopado.
Um leão dopado, não havia melhor definição que essa sobre ela naquele momento.
Talvez aquela sensação fosse fruto do que lhe dissera na quarta-feira; a cada passo que Liam dava em sua direção, ela sentia uma tentadora vontade de recuar. Mas ele era persuasivo o bastante para fazê-la ir pra cama com ele mais uma vez. Ele tinha efeito sobre ela o suficiente para convencê-la a passar uma noite de sexta-feira em casa, assistindo ao canal fechado e tomando vinho. Vinho! Ela tinha ficado em casa com um cara tomando vinho!
preferia cerveja. E bebidas destiladas.
Vinho e champanhe eram o tipo de coisa referentes às social lights com quem Liam estava acostumado.
Entretanto, ela não podia negar que seu estômago dera umas duas voltas em sua barriga naquela noite, ou que o toque suave de Liam a deixava com uma vontade meio louca de agarrá-lo energicamente. No entanto, ela também não podia negar que os sorrisos de Liam estavam deixando-a com vontade de correr dele. Não sabia lidar com aquilo, porque ela não sentia vontade de sorrir do mesmo jeito para ele.
Gostava de Liam, admitia que sim. Mas definitivamente não estava apaixonada. Talvez não ainda, mas só a possibilidade dele já está a deixava sem saber o que fazer.
O fato era que estava confusa. Não sentia grandes sentimentos por aquele cara que agora estava abraçando-a enquanto dormia, mas sabia que se desse chance seria capaz de sentir algo mais forte, quem sabe até arrebatador.
Ela queria?
Talvez.
Ela poderia?
Definitivamente, não.
Não estando entrelaçada a . Principalmente ao notar que os dois provavelmente se conheciam há tempos e não conseguira sentir nada agradável sobre o relacionamento de ambos. Aquela sensação de estar próxima ao desconhecido só a deixava mais arisca e ansiosa. Uma curiosidade crônica se apossava dela avassaladoramente.
Decidiu levantar, tentando não acordar Liam, o que seria bastante difícil já que estava quase fundida a ele. Ela agradeceu ao fato de que vinho sempre faz com que as pessoas fiquem quase inconscientes durante o sono depois de um porre. Vinho tinha lá suas vantagens, até que sentiu a primeira pontada na cabeça.
É, não tinha jeito, vinho era uma merda total.
A primeira coisa que fez foi ligar o celular, poderia ter mandado alguma mensagem falando algo sobre o que fariam, porque na sexta ele simplesmente sumira o dia inteiro. Acabou acertando na mosca, realmente lhe mandara uma mensagem dizendo que a buscaria às cinco da tarde, mas nada de Liam ficar sabendo para onde eles iriam. Bloqueou o telefone para não correr o risco de Liam pegar aquela mensagem e começar a investigar demais.
Mais uma vez a desconfiança com relação a Liam. conseguira implantar uma enorme pulga atrás da orelha de . Mesmo sentindo que Liam gostava dela, não conseguia confiar nele, não mais que antes, talvez até menos que antes. Ficava desconfiada a cada telefone que ele atendia as escondidas, ou mesmo quando ele fazia perguntas aparentemente inocentes como “E o seu dia hoje?”. Mais uma vez Liam estava sendo apenas um informante e um bom sexybudy. Aliás, um excelente sexybudy.
preferia que ele fosse, para ela, um pouco mais que isso.
Sentiu o vento frio da manhã cortante contra seu corpo nu, estremeceu e decidiu que já estava na hora de tomar um banho e começar a se preparar para sua viagem a Brighton. Além disso, banhos sempre iluminavam seus pensamentos quando eles estavam completamente contraditórios e confusos.

fumava o quinto cigarro daquela manha nervosamente. Que seu pulmão fosse pro espaço, estava pouco se importando com um futuro câncer, ou insuficiência respiratória. Ele esperava que a porra da nicotina fizesse efeito e acalmasse seus hormônios como costumava fazer. Ele não queria usar outra droga que o tirasse de sua linha de raciocínio, até porque ele já passara da fase de consumir drogas loucamente. Embora, o principal motivo de não usá-las não estivesse exclusivamente associado ao fato dele ter decidido parar. Ele só não queria foder de vez com a oportunidade de sua vida.
Afinal, oportunidade como aquela de pôr tudo em seus devidos encaixes não apareceria tão cedo. Era um importante pedaço do seu astucioso plano, ainda que fosse o começo.
Ah, ele também desejava ardentemente salvá-la, contudo temia ser fraco demais e pôr tudo a perder.
E havia aquela estranha conexão com . Além do desejo carnal, além da necessidade estratégica de tê-la como aliada.
Era como se vozes do além sussurrassem o tempo todo em seu ouvido que ele devia está ao lado dela sempre, porque ela sim era sua salvação. E quem era ele para desobedecer as vozes do além?
Salvação... Ele sempre buscara algo que pudesse salvá-lo, fossem drogas, mulheres, amigos – mesmo os falsos e interesseiros. É, essas não eram as melhores ideias para se encontrar qualquer coisa remetente a salvação. Mas se tratando de e sua mente perturbada e pervertida, não era surpresa ele ter usado de tais artifícios. De alguma forma ele acreditava nas suas chances de ser salvo de si mesmo, de sua estrutura autodestrutiva. Fato que comprova que fé, independente sobre o que seja, é um sentimento bem engraçado... E motivador. E essencial.
Já que o cigarro não faria efeito, pensou que deveria fazer algo que pudesse sanar sua ansiedade. Não sair por aí bebendo, mas algo como andar sem destino pela cidade, aproveitando que o sol naquela época do ano não era mais abrasador. Deixou o celular no apartamento e pegou seu iPod; queria desligar-se do mundo e aproveitar sua própria companhia.
Ele estava em uma praça de York que costumava ficar movimentada durante os finais de semana. Cheia de famílias felizes, crianças brincando com carrinhos de controle remoto, pais sorrindo idiotas. Aquele ambiente não favorecia em nada a sanidade emocional de . Era típico dele sentir saudades do que não tinha vivido. Aquela alegria familiar nunca lhe pertencera, mas era como se fosse uma meta senti-la, fazer com que aquele tipo de cena um dia se tornasse dele.
Estaria ele virando um idiota sentimental?
Ele virou de costas para a praça. Sentia-se passional demais para assistir àquele tipo de cena.
Ironicamente começou a tocar Supersonic do Oasis.
- I need to be myself, I can't be no one else, I'm feeling supersonic, give me gin and tonic, you can have it all but how much do you want it? – cantarolou sarcasticamente.
Acabou entrando em uma cafeteria chamada Lucy’s Coffe. Sentou-se em uma mesa completamente distante de todos, não que ele fosse um solitário, se fosse outro dia teria dado um jeito de paquerar alguma garçonete bonitona; mas aquele não era um dia qualquer. Aquele era o dia em que reveria Cindy Johnson.
- ? – ele ouviu uma voz que o fez sorrir quase que instantaneamente.
- Quer dizer que hoje seu café da manhã não vai ser destilados?
Lily ignorou o comentário maldoso do amigo e sentou-se ao lado dele no sofá florido próximo ao do quadro de Elvis Presley.
- Quer tirar isso dos ouvidos?
- Por que esse bom humor, hein Lily? Sem álcool, sorriso no rosto... O que aconteceu?
- O Todd me ligou! – ela falou juntando as mãos e lançando um sorriso apaixonado para .
Cenas sentimentais, ele realmente não precisava daquilo!
- Todd? O nome do cara não era Oliver?
- Oliver Todd, duh – disse Lily revirando os olhos.
- Hum... E aí?
- Ele falou que me ama, mas tem medo do que pode acontecer se o meu pai descobrir.
- Isso me cheira a desculpa esfarrapada – sibilou sem muita emoção.
Lily revirou os olhos impaciente, afinal ele estava mesmo intragável.
- Meu pai e Oliver são sócios, .
ergueu as sobrancelhas e um sorriso de espanto e entendimento se espalhou por seu rosto.
- Ahm, isso complica um pouco as coisas.
Uma garçonete chegou e olhou para descaradamente, mesmo vendo Lily ao lado dele. O rapaz percebeu, mas não estava com paciência para seus costumeiros flertes. Apenas pediu um Frappé e dispensou a mulher.
- O que há com você? – perguntou Lily com uma voz tão doce que sentiu vontade de lhe contar tudo, mas se resumiu a suspirar pesadamente.
- Digamos que hoje é um grande dia.
- Vai explicar melhor ou eu vou ter que ficar te seduzindo que nem aquela garçonete?
riu. As mulheres geralmente tinham a mesma ideia a seu respeito, como se tivesse um cartaz de neon em sua testa “Quer arrancar informações de mim? Pois bem, seduza-me”.
- Não. Digamos que eu vou rever uma pessoa do meu passado.
Lily pareceu surpresa com a resposta do amigo e disse despreocupadamente:
- Pensei que tinha algo a ver com a Watson, vi vocês dois meio íntimos e depois sumiram naquela aula de geografia... Todo mundo ficou comentando.
Ele sorriu balançando a cabeça negativamente. Na verdade, adoraria que os boatos fossem verdadeiros desde sua vida inteira.
- Ah, a Watson é muito difícil. Praticamente inalcançável.
- Ela é lésbica? – tentou Lily pasma.
era tão lésbica quanto ele era gay, ou seja, absolutamente não. Se bem que ele podia se aproveitar da situação... Mas na verdade ele não estava com energia para isso, nem mesmo com vontade.
- Não! – negou veemente - Quero dizer, ela tem um caso.
Lily simplesmente assentiu positivamente, em entendimento. E, em um espasmo de memória, falou inesperadamente:
- Ah, a Kate mandou te perguntar se você não quer passar na casa dela mais tarde.
- Os pais dela não estão em casa, certo? - perguntou o rapaz em tom indiferente.
- Isso mesmo.
- Posso pensar no assunto.
Lily o olhou por cima dos óculos de sol, com um sorrisinho no canto do lábios
- Está dispensando sexo fácil, ?
- É – disse levantando o ombro esquerdo em um rápido movimento de quem não se importa.
- Quem é essa pessoa? É sua ex-namorada?
Ele balançou a cabeça negativamente e disse sem olhar para Lily:
- Eu gostava dela.
- Amava?
Por que garotas sempre são tão espertas e indiscretas?
- Acho que sim.
- Ainda ama?
- Provavelmente.
Lily pareceu ponderar aquilo, mas seu instinto feminino lhe dissera desde o primeiro momento que o cara a sua frente tinha sensibilidade, se não o tivesse não a teria defendido de Kate Simpson. E que sim, através daquela máscara era capaz de amar uma mulher verdadeiramente.
- E essa coisa com a Watson então é só uma atração, vontade de levá-la para sua cama, esse tipo de coisa, certo?
- Watson é... – minha salvação, ele quase disse isso, mas parou quando viu um quadro de uma vaca que parecia olhar para ele, e então reconheceu que era o quadro de uma capa dum álbum do Pink Floyd. Típico.
- Ela é...? – perguntou Lily estralando os dedos para chamar a atenção de .
- Minha salvação – deixou escapar, por fim, sem realmente planejar.
- Aquela garota pode ser tudo, , menos a salvação de alguém.
avaliou o que Lily dissera. Ele também achava isso, mas seu subconsciente insistia em lhe afirmar o contrário. Por muitas vezes se pegava imaginando o que o puxava tão magneticamente em direção a ela. No fim, apenas sabia que devia estar ao lado dela, insistir para que ela confiasse nele... Ele queria ao seu lado.
Se ele mesmo não entendia, então, por que Lily seria capaz?
- Já sei, esse é o tipo de coisa que só você pode entender.
Essa garota tinha o poder de ler seus pensamentos, não era possível!
- Isso aí, Lily – ele respondeu com um sorriso sereno para a amiga – Às vezes acho que você está na minha mente, vendo tudo sobre mim.
- Eu bem que gostaria de ser capaz – ela disse séria – Você é mais misterioso que minha curiosidade pode suportar.
sorriu mais uma vez, começando a bagunçar o cabelo da garota levemente, enquanto ela pedia para ele parar entre risos.
- Então, digamos que você tem uma clarividência bem exaltada.

Liam olhou mais uma vez para o teto, enquanto ouvia o barulho do chuveiro na suíte de .
Ele estava mesmo enrascado.
Totalmente acabado.
Ou seja, completamente apaixonado por . De quatro por ela. Amando-a perdidamente.
Não sabia lidar com o que estava sentido. Sabia que queria o corpo dela junto ao seu, sentir os beijos, os sussurros, os gemidos... Apenas queria estar ao lado dela, porque aquela loucura de ter seu coração quase saindo pela boca trazia uma sensação realmente muito melhor e mais viciante que qualquer outra droga que ele já tivesse experimentado. Só que ele conhecia o suficiente para saber que para ela as coisas não aconteciam da mesma forma.
Ele podia ver que ela se fechava para o mundo.
Talvez para impedir que mais atrocidades aconteçam com ela...
Teve vontade de colocá-la em seus ombros e fugir, mas sabia que não havia como fugir. Nem ele, nem ela. Principalmente ele.
Quando iria cogitar a possibilidade de um dia estar assim?
Jamais poderia imaginar que uma noite na Knights of Romania mudaria sua vida para sempre.

Flashback:

A boate mais luxuosa e luxuriosa da Rede Detroit sem a menor sombra de dúvidas era a Knights of Romania.
Não havia nada como aquele estabelecimento; se você queria sexo, drogas, música e funcionários atraentes aquele era o lugar, absolutamente. Apenas os associados mais seletos podiam entrar e maiores de dezoito anos, muito embora, os homens que desejassem realizar suas fantasias sexuais com garotinhas, conseguissem concessões. A depender de sua importância, claro. A hierarquia definitivamente faz toda diferença quando se é um sócio Detroit.
A Knights of Romania era imensa e seu ambiente era circular. Nas extremidades havia cortinas, onde por trás delas estavam colchões d’água ou camas redondas iluminadas por luzes incandescentes, pois assim, se o local estivesse ocupado, quem estivesse do lado de fora veria as sombras se movimentando, geralmente loucamente. Esses lugares eram chamados de Cages.
O DJ sempre mixava músicas temáticas, que auxiliavam na chegada ao clímax e das duas até às duas e cinco da manhã ele colocava sons de gemidos: sufocados, histéricos, guturais. Era comum que em uma mesma Cage fosse divida por mais de um casal. Era uma verdadeira orgia de luxo. Enquanto estivessem transando selvagemmente, você poderia acionar um botão e pedir um uísque, ou uma camisinha diferente, e até mesmo solicitar uma prostituta.
E se você pensa que apenas homens iam para o lugar, está muito enganado. As social lights do mundo inteiro procuravam ao menos uma vez na vida ir para a Knights of Romania. Afinal, está na moda ter as mais diversas experiências sexuais.
Naquele dia Liam chegara cedo, não gostava quando isso acontecia porque geralmente as pessoas ainda estavam sóbrias e em um falso de clima de recatamento. Muito hipócrita, já que se ia para lá para transar e de uma forma não muito convencional. As mulheres acabariam, de alguma forma, sem roupa alguma e com a boca em um lugar que geralmente fica acobertado por cuecas.
Foi então que ele a viu. De pé, apoiada no balcão do bar; o cabelo estava solto, um pouco bagunçado; a blusa estava em perfeito estado e completamente colada ao corpo; já a saia, por sua vez, estava totalmente torta. Talvez essa daí não tenha perdido tempo, Liam pensou. E gostou dela por isso. Aproximou-se sorrateiramente por trás e já foi colocando suas mãos na perna dela, subindo-as por baixo da saia. A garota não olhou para trás, apenas continuou bebendo a Heineken, mas ele percebeu um sorrisinho e decidiu continuar. Procurou o elástico da calcinha, mas não encontrou nada. Posicionou a mão na bunda dela e encostou seus lábios no ouvido da garota.
- Quer dizer que sua noite já começou, ou você não perde tempo?
- Sempre começo a noite de calcinha, mas dessa vez foi só uma rapidinha – ela continuava a olhar para frente e o barman parecia necessitar de um banheiro com mais urgência que os dois.
- Você se importaria se fizéssemos aqui, na presença desse nobre rapaz que lhe serviu essa cerveja? – ele perguntou olhando para o barman, se divertindo ao ver a atrapalhação total do rapaz, que deveria ter uns vinte e dois anos, mais velho que ele e com certeza com muito menos experiência. Ele deslizou sua mão até a parte interna da cocha dela, em seguida foi para a virilha, até que enfim colocou os dedos na intimidade da garota, pressionando os grandes lábios em uma massagem dolorosa. Viu que ela ainda se controlava. Buscou o clitóris, foi então que percebeu ela se contrair.
- Você gostaria de um sexo oral? – ela perguntou, mas não para Liam e sim para o barman.
O homem nada disse e ela o olhou intrigada.
- Por favor, continue com isso – ela disse para Liam o olhando pela primeira vez. E Liam continuou, já sentindo o líquido dela em seus dedos. Ela estava ficando ainda mais lubrificada à medida que Liam continuava os movimentos, alternando as compressões entre os grandes lábios e o clitóris.
Ela começou a gemer baixinho, olhando firme para o barman, e então rapidamente pegou a mão do homem, que estava tão excitado, mal conseguindo raciocinar, e pôs em seu peito por cima da blusa.
- Vamos lá, aperte-o, coloque essa sua mãozinha dentro do sutiã e eu farei o que você quiser.
E o barman o fez. Liam não estava incomodado, muito pelo contrário. Ela o estava excitando com aquela história.
A garota puxou o barman, fazendo-o ficar inclinado por cima do balcão e aproximou os lábios dos dois em milímetros, sem beijá-lo. Ela apenas gemia contra os lábios dele. E Liam continuava com os movimentos.
- Imagine se você me penetrasse aqui e agora? – ela sussurrou contra os lábios do barman.
E então Liam a puxou e sussurrou em seu ouvido:
- Se você transar com esse cara, vai ter que ter fôlego para mim depois – ele disse intensificando os movimentos.
- Você vai ter que me provocar um orgasmo dos bons, bonitão – ela disse entre gemidos, virando-se para Liam.
- São só os meus dedos, imagine o resto.
- Então me ajude com esse barman aqui.
Liam pressionou seus dedos sobre o clitóris dela uma última vez, ouvindo-a gemer aberta e altamente. Então tirou a mão da intimidade da garota. O barman por sua vez tirara a mão do peito dela, olhando esperançoso para os dois.
- Você quer levá-lo para uma Cage? – perguntou Liam.
- Não, quero que você me ponha em cima desse balcão, quero entrar nesse lugar.
O barman abriu um sorriso malicioso e Liam apenas fez o que a garota queria, mas permaneceu do lado de fora. Assistindo a tudo atentamente.
Ele viu entrar triunfante no bar e o barman, não conseguindo mais refrear seus impulsos, agarrou-a. O homem a segurou pelos cabelos e ela tratou de por a mão dentro da calça dele. Ele soltou um gemido gutural, em seguida puxou a blusa da garota com força. A blusa rasgou pelas laterais.
Muito rapidamente, as calças do homem já estavam arriadas e a saia da garota levantada. Os dois foram rumo a uma coluna circular e começaram, de fato, a transar.
Pessoas circulavam pelo lugar, mas agiam como se nada estivesse acontecendo. Liam, no entanto, sentia-se cada vez mais excitado. Mas preferiu esperar sua vez e observar tudo atentamente, elucubrando o que essa garota seria capaz dentro de uma Cage.
Depois de algum tempo, ela e o barman, pararam exaustos.
Pelo menos foi o que ele achou.
A garota puxou o barman pela mão, saindo do bar.
Ela simplesmente deixara Liam para trás.
Ao invés de estar irritado, ele estava com um estranho sorriso de indignação mesclado com satisfação no canto dos lábios.

Fim do Flashback

Decidiu o ir para o banheiro, sabia que ela estava tomando banho, mas lembrar de tudo aquilo o deixara com vontade dela. E nada como fazer no banho em uma manhã de sábado, ainda mais se fosse com ela.
já estava se enxaguando quando ouviu a maçaneta girar. Liam, ela sabia. Também sabia o que ele queria. Mas não era exatamente aquilo que ela tinha em mente. Naquele exato momento ela estava imaginando se conseguiria sobreviver àquele final de semana ao lado de . E não seria com Liam ocupando sua mente que raciocinaria plenamente a respeito do que estava para acontecer.
Assim que ele entrou, com um enorme sorriso no rosto, tratou de pegar sua toalha e enrolar sobre o corpo. Ele deu um sorrisinho cínico e começou a se aproximar. suspirou pesadamente, pois infelizmente Liam não entendera a mensagem. Ela encostou-se na parede, abraçou a si e manteve uma expressão séria no rosto, contudo Liam parecia inabalável. O rapaz abriu o boxe de vidro lentamente e entrou mesmo vestido com sua boxer. Ele apoiou uma mão de cada lado de e beijou o pescoço dela ainda molhado.
Respire, .
Ela começou a desviar dos beijos de Liam, até que, por fim, disse:
- Chega, ok?
Liam franziu o cenho, mas agradeceu por estar com o rosto enterrado no pescoço da garota, assim ela não veria o quanto aquele simples chega o atingira. É claro que sentir-se atingindo não o faria desistir. Como em muitos outros momentos, ela era o que ele mais queria. Ele mordeu o lóbulo dela suavemente, depois soltou sua respiração quente nela, sentindo a garota arrepiar.
- Tem certeza? – perguntou Liam sedutoramente.
Ela fechou os olhos, inspirou profundamente e por fim, pôs as duas mãos nos ombros de Liam afastando-o dela.
- Por favor, Liam. Você sabe, tenho um dia cheio hoje.
Ele semi-cerrou os olhos e balançou a cabeça positivamente, não como se concordasse, mas de forma sarcástica.
- Claro... As suas coisas a resolver!
- Não dificulte o meu lado, Liam – ela sibilou irritada.
Ele cruzou os braços, deixando evidente a contração dos seus músculos, fazendo o instinto de ficar em alerta. Por dois motivos distintos. Um: ele ficava sexy demais. Dois: sendo Liam o cara em questão, aquilo era, no mínimo, ameaçador.
- Que coisas são essas, ? Mais um segredo seu? Por acaso e coisas têm o mesmo significado?
Ela enrugou a testa e arregalou os olhos em espanto. Não por Liam ter deduzido, até porque era óbvio demais que ela e estavam “trabalhando” juntos. Mas pelo tom ultrajado que ele usara, evidenciando uma espécie de ciúmes ardente. Liam estava mesmo com ciúmes? E dela?
- Sabe, isso ta bem estranho! Pra quê isso tudo, hein?
- Você ainda não entendeu, ? – o timbre dele agora era sereno, e havia um quê de angústia também.
ficou momentaneamente confusa, ela preferia que ele gritasse. Não sabia lidar com um Liam sensível.
- O que tem para ser entendido? – sua voz pareceu a de uma garotinha perdida.
- Às vezes tão inteligente e às vezes tão... Burra? – disse Liam, e apesar do conteúdo da frase, ele falara aquilo calmamente. Mas obviamente se sentiu atingida negativamente.
- Certo, quando foi que isso aqui entrou para o ramo das ofensas?
Isto reascendeu a irritação de Liam.
- Eu não suporto saber que você tem segredinhos com esse cara, mas principalmente, não suporto saber que você não confia em mim.
- Essa conversa está muito ridícula para mim... Ah, espera, talvez o meu nível de inteligência não seja suficientemente bom para compreender o que se passa nessa sua mente louca!
Ele riu amargamente, e passou as mãos no cabelo nervoso.
- Acho que você já entendeu o quanto eu estou louco por você, o quanto estou... Caralho! Eu estou completamente apaixonado por você, !
Rapidamente ficou estatelada, definitivamente ela não estava preparada para aquela declaração. O ar, de repente, ficou pouco e ela sentiu uma tristeza imensa tomando conta dela.
- Liam, por favor, eu...
- Você não sente o mesmo por mim – ele interrompeu e a sonoridade de sua voz tinha um quê de acre.
- Não, não sinto. Merda, Liam! Estamos nessa há três dias...
- Nos conhecemos há muito mais tempo que isso. Essa não é a melhor desculpa, ...
- Não me chame assim – ela disse entredentes.
- Claro, só o seu queridinho pode te chamar assim, não é? Aquele cara que supostamente é o seu futuro assassino.
- Você não sabe de nada, então cala a merda da sua boca!
- Aí é que você se engana, . Eu sei até demais.
Ela o olhou confusa. E então a voz de ecoou mais uma vez em sua mente “Não confie no Rilley”.
- Vá embora, Liam. Suma daqui. Você tem cinco minutos, quando eu sair do banheiro quero você longe deste apartamento!
Ele franziu o cenho e dessa vez os olhos de Liam exprimiam algo que só poderia chamar de dor. Ele foi se aproximando dela lentamente e quando a tocou ela tremeu.
- ... – o tom dele agora era de súplica.
- Agora, Liam – cortou impiedosa, ignorando qualquer voz em sua mente lhe dizendo para mudar de ideia.
Ele assentiu em entendimento e o olhar dele endureceu, assim como seu timbre quando ele, por fim, disse:
- Como queira.
Assim que o rapaz saiu furiosamente do boxe, fazendo questão de bater a porta do banheiro com força; pôde sentir a raiva de Liam transbordando por seus poros e queimando-a pouco a pouco. Também pôde sentir o arrependimento dominando rapidamente todas as partes de seu corpo. Não por medo daquela iminente ameaça subliminar no “como queira” dele. Honestamente, ela só o queria ao seu lado.
Mas havia a desconfiança que implantara em seu subconsciente, que infelizmente acabou sendo mais forte que qualquer desejo de envolvimento que reverberasse dentro dela. Se fosse sincera consigo mesma, como ela poderia confiar em um cara como Liam? Ele era cercado de mistérios que provavelmente seriam capazes de ressuscitar defuntos; o tipo de coisa que ela procurava não se envolver, pelo menos até aparecer. Um cafetão colombiano sócio Detroit nunca seria um alvo do qual ela se prontificaria a enfrentar.
De repente, um sentimento que a vinha perseguindo nos últimos dias a pegou com força total: medo.
Merda! Mil vezes merda!
A garota recostou-se na parede e deslizou até o chão. Sentia o coração apertar e a respiração pesar. Abraçou o corpo envolto pela toalha com força, tentando não tremer, não pensar; o que mais desejava no momento, não era mais Liam, era a sensação de estar entorpecida. De não sentir o desespero dominar cada sentido de sua mente e consequentemente de seu corpo.
Ela tinha que lidar com aquela sensação de estar ao lado de pessoas com quem não podia confiar. E agora aquela situação com Liam... Era tão miseravelmente inexplicável ela sentir-se daquela forma por conta da atitude dele. Não fora sempre ela que o considerara apenas o sexbuddy? Não fora sempre ela que fizera joguinhos de sedução? E por que merda estava naquele estado deplorável?
Talvez porque a sensação de estar completamente sozinha no mundo tivesse tomado-a com força total agora.
Pelo menos, ele demonstrara sentimentos fortes por ela. E agora ela o dispensara, de forma a despertar o lado negro de Liam. Ela não estava preparada para isso, porque ele lhe dera três dias de paz em meio a uma guerra emocional que já durava dois anos, dois longos anos se escondendo... Anos de autodestruição, automutilação.
estava simplesmente cansada.
Cansada de correr, de lutar contra si mesma.
Naquele momento ela tinha vontade de morrer.
Mas foi então que lembrou.
Não era só medo e cansaço. Havia muito mais de raiva em sua confusão emocional desencadeada por Liam. Raiva de toda aquela merda em que fora metida sem o seu consentimento. Raiva de seu pai por ser um corrupto da pior espécie. Mas principalmente, raiva de si mesma por se deixar envolver naquela tremenda bagunça tão completamente.
E ela lembrou-se de , não era possível não se deixar invadir pelos mais obscuros sentimentos se tratando dele. Livrara-a do peso de um assassinato, mas a puxara para uma luta que ela não tinha certeza ter forças para enfrentar. Ele a prendera por tempo indefinido aos planos dele, não oferecendo possibilidades, tornando-a uma espécie de escrava em liberdade condicional.
, naquele momento, odiava com cada célula que pulsava em seu corpo.
Mas então, por que merda algo lhe dizia que ele era sua única salvação?

Capítulos betados por Abby

08.

Sábado, 14 de Outubro.

Meu coração anda aos pulos, apertado, contorcido. Seu bater me parece algo entre o vacilante caminhar de um bêbado vagabundo e a precisa e destrutiva explosão de uma granada. E ele puxa minha alma na mesma direção de seu deturpado abismo sentimental. A verdade é que estou sucumbindo a estas forças externas e internas que agem com tamanha força sobre mim. Mas continuo a lutar. A favor de quem, em prol de quê, eu ainda não sei, só sei que essa minha força não é cem por cento proveniente de uma motivação egoísta, há algo mais em volta dela, uma emoção crescente de pertencimento, mas não sei sua origem. Eu simplesmente caio vertiginosamente e então me ergo em um inexplicável súbito de entusiasmo enérgico, como um fantasma que me empurra e de repente estende a mão.
Acho que estou ficando louca, é a única explicação plausível e convincente.
.


Era pouco mais das cinco da tarde quando estacionou um velho Chevrolet Chevette 87 em frente ao prédio de . Resolveu dar um tempo antes de enfim chamá-la; queria repassar seu plano e, mais que qualquer coisa, precisava dar um trago no Carlton que se encontrava estrategicamente no bolso de sua jaqueta.
Desceu do Ferro Velho e recostou-se na porta caindo aos pedaços. Ele deu uma olhada na pacata vizinhança do bairro e pôde sentir o vento fresco de fim de tarde batendo contra seu rosto; acendeu o cigarro, deu uma tragada profunda para depois soltá-la com extremo alívio. Quase que instantaneamente desistiu de pensar sobre o que aconteceria em Brighton. Quase, porque logo em seguida os rostos que estariam por lá apareceram em sua mente, como um aviso de que ele não poderia se distrair em momento algum.
Fato impossível, sendo que Cindy Johnson e estariam na mesma cidade, algo para deixar seus hormônios loucos. E ainda havia o fator Juan Fuentes, fazendo sua adrenalina ser produzida insanamente. Sua intuição estava muito dividida para ele estar pessimista ou otimista com relação a sua situação, apenas sabia que pretendia “dominar” Brighton, destruir Fuentes e, de quebra, levar Cindy embora daquele pardieiro. Nessa perspectiva, seu objetivo talvez fosse grandioso demais, mas não totalmente impossível.
Ah, ele só queria uma cerveja gelada, sinal que já era hora de dar sinal de vida para a sua parceira de combate.

Quando ligou, já estava com tudo preparado e o principal, já tinha se recomposto emocionalmente. Sentia-se mais pronta que nunca para partir rumo àquele destino incerto que a esperava. Foram necessárias muitas respirações a fundo e duas doses de vodka para acalmar os nervos. Precisava controlar toda a raiva que tomara conta de si devastadoramente mais cedo: tinha que calcular tudo meticulosamente, sem a influência de uma crescente apreensão.
A verdade mesmo era que ela queria umas férias.
estava encostado em um Chevrolet Chevette 87 e fumava um cigarro vagarosamente. Ele usava uma jaqueta jeans escura, óculos Ray Ban aviador e os cabelos estavam bagunçados, não de forma cuidadosa, mas como se ele tivesse passado por um furacão. Ainda assim, era inquestionável o quanto estava sexy com aquele jeito um tanto perdido. sentiu-se estranhamente desconcertada devido a aparência perturbadoramente atraente de .
Ao vê-la carregando uma mala imensa e uma frasqueira pesada com dificuldade, ele foi imediatamente em direção a ela, pegando a mala sem dizer uma só palavra. Era meio bizarro vê-lo tão sério e calado, e mais bizarro ainda era sentir certo temor quanto a isso.
Ela tentou quebrar o clima tenso, fazendo uma pergunta óbvia, mas considerou pertinente já que iriam viajar juntos.
- Ahm, , que merda de carro é esse? Cadê aquela super BMW? – Tudo bem, talvez ela devesse ter dito isso sem aquele “merda”. Mas pareceu não se importar, ele até riu. soltou um discreto suspiro aliviado.
- Basicamente, porque nós somos o casal Leslie e Frederick; vamos nos hospedar em um albergue vagabundo... Acho que uma BMW não é muito condizente – Ele disse com um sorriso indulgente – Isso aqui está pesado!
ignorou o comentário do rapaz. Afinal, ela não sabia se aquela viagem duraria apenas um final de semana, ou mesmo se ela duraria o fim de semana.
- Fala sério que meu nome é Leslie?
- Era o nome do cachorro da minha tia-avó – Disse , dando os ombros.
- Claro, me sinto muito melhor agora. Qual era a raça?
- Yorkshire.
- Já percebeu como Yorkshires abanam o rabinho para todo mundo? Sou mesmo uma vadia!
- Então o nome Leslie a fará lembrar um período da sua vida, – Ele falou em tom sóbrio, mas recheado de uma acidez quase palpável.
A garota preferiu ignorar a real intensidade do comentário de , soltou um risinho debochado e disse balançando a cabeça negativamente:
- Idiota.
enfim fechou o porta-malas a muito custo e os dois entraram no carro silenciosamente. Quando deu partida, logo sentiu o desconforto de um automóvel com mais de vinte anos. O cheiro forte do álcool, combustível e do mofo; o estofado desconfortável, os amortecedores quase inexistentes, mas nada se comparava ao barulho da lataria batendo. Era simplesmente insuportável.
A garota ficou observando dirigir como se nada estivesse acontecendo, como se aquele cheiro de rasgar as paredes nasais de qualquer ser humano não fosse nada para ela. - Para quem não queria chamar atenção... – Comentou a garota, ao ver que, sempre que passavam por alguma rua movimentada, as pessoas faziam questão de fazer brincadeirinhas idiotas e escandalosas com relação ao carro, principalmente quando se tratava de grupos de adolescentes.
- Prefiro me concentrar em fazer esse carro andar.
- Muito bom saber que até você acredita no potencial dessa preciosidade. – Disse sarcasticamente.
ficou um tanto quanto impaciente ao ouvir o comentário da garota; afinal, ainda sentia a ansiedade corroendo-lhe até os ossos, causando um desconforto emocional com o qual ele definitivamente não sabia como lidar. não morreria se ao menos tentasse colaborar de vez em quando.
- Tenta não reclamar, . Não estraga o meu bom humor de hoje. - Falou, em tom cortante.
Ouviu a garota bufar em reprovação, mas não ligou; se ela ficasse calada... Quem sabe assim conseguiria visualizar seu plano de salvamento. Ele sabia, livrar uma prostituta de seu cafetão era muito mais complicado que salvar um prédio inteiro em chamas. Mas olhou para o lado, lembrando-se que agora não estava sozinho. A sua parceira era uma garota e tanto; sentia isso como o fato mais verossímil naquela história toda. E sua aposta tola de que ela jamais o deixaria na mão em um momento decisivo também lhe soava como verdade palpável.
Se bem que, + Cindy Johnson + + Juan Fuentes & Cia = Apocalipse na próxima esquina.
Qualquer ser humano com um mínimo de consciência perceberia o fato acima. Mas ele era apenas um idiota em um momento passional demais, envolvido demais.
Com fogo.
Muito em breve perceberia a dimensão do incêndio.
começou a batucar no volante ao ritmo de Roll With It, sentindo-se estranhamente feliz. O cara só podia ser considerado um louco; alguns diriam que esse seria o efeito de Oasis. Pessoas de sua cidade natal culpariam ; já ele acusaria toda a situação: , Juan Fuentes, Brighton, seus planos... Cindy Johnson! Aquela ansiedade desesperadora de repente lhe dera uma louca vontade de gargalhar, como os desesperados, de fato, fazem. Ele se conteve em um sorriso aberto, apenas parecendo estar alegre; era o máximo que conseguia fazer para reduzir sua “ridicularidade”.
Ao ver o rapaz sorrindo tão larga e verdadeiramente, estranhou. Ela, que antes estivera empolgada, agora, já na estrada, sentia-se tensa.
- , você está feliz?
Ele olhou para ela de sobressalto e respondeu sinceramente:
- Não, estou ansioso.
Ela balançou a cabeça positivamente, em sinal de entendimento.
- Essa garota, a prostituta... Você quer ajudá-la, certo?
- Também. – Disse , em uma tentativa frustrada de se fazer indiferente - É uma garota legal, não merece o que o Fuentes faz com ela.
deu um sorrisinho sarcástico.
- E desde quando se arrisca em nome de uma garota, ahm, legal?
Por um tempo, ficou em silêncio, apenas prestando atenção na estrada. Então, de repente, ele virou-se para e falou com um sorriso astuto, mas genuíno:
- Desde que ele seja completamente apaixonado por ela.
Por um motivo muito óbvio, ela lembrou de Liam. E o arrependimento começou a percorrer suas veias com força total. Poderia ter tido um final de manhã tão mais proveitoso. Muito mais intenso e verdadeiro, ela tinha certeza. Sua estúpida mania de razão e autocontrole novamente atrapalhando-a; fazendo-a retornar a letargia robótica.
Caralho! Eu estou completamente apaixonado por você, !
Estremeceu ao pensar no efeito que aquelas palavras estavam causando em seu coração. Hora errada, pensou com pesar.
- Você é... Apaixonado por essa garota?
Não havia por que mentir agora. Ela acabaria descobrindo depois, de qualquer forma.
- Ao que tudo indica, sim. – Disse, simplesmente.
ficou em silêncio, tentando imaginar como seria apaixonado. Que tipo de cara ele era para uma garota? Com toda certeza, esse heroi que tenta salvar o amor de sua vida das mãos de um homem perverso não era exatamente o que ela tinha em mente, se tratando dele. apaixonado estava mais para o tipo de cara que mete os pés pelas mãos. Se bem que enfrentar o cafetão colombiano poderia ser chamado de meter os pés pelas mãos.
Eles ficaram um bom tempo sem falar absolutamente nada, apenas ouvindo a versão de Oasis de Cum On Feel The Noise no carro. Não que aquele Chevette 87 tivesse um cd player; aquele objeto localizado próximo ao condicionador de ar do carro com certeza era um toca-fitas empoeirado.
Ao passo que se deixava levar pela música, ele dividia sua atenção entre a estrada e a garota ao seu lado. A curiosidade sobre ela parecia nunca ir embora. Geralmente estava relacionada ao fato de ele desejá-la, mas, naquele momento, não era isso que estava chamando sua atenção; não mesmo. Eram os pensamentos que, volta e meia, faziam questão de tomar conta de sua mente... Aquela história sobre ela ser sua salvação. Para ele, era como se fosse uma fogueira no meio de um deserto de gelo. O problema é que ela era os dois: o gelo e o fogo; como o total contraste que representava. Talvez essa história de fogo e gelo fosse apenas mais um clichê atual, mas o fato é que podia ser tudo ao mesmo tempo, ao menos para ele.
Salvação; perdição; orgulho; redenção; tranqüilidade; agonia; fogo; gelo.
Todas as contradições possíveis pertenciam a ela, somente a ela.
Eles já estavam em uma pequena cidade inglesa próxima a Brighton, e agora dirigia mais lentamente, já que o carro parecia poder desmanchar sempre o que o velocímetro beirava os noventa quilômetros por hora. Isso permitia que as constantes olhadelas que lançasse para fossem percebidas. Ao invés de desviar o olhar, a garota o devolvia em mesma intensidade. Por muito tempo não falaram nada, ficaram nesse jogo de troca de olhares com significados subliminares, embora nem eles compreendessem o que significavam. Até que, por fim, ela quebrou o silêncio.
- Se por um acaso eu quisesse salvar o Liam, você me ajudaria?
a olhou sem nenhuma expressão aparente, somente como se pensasse à respeito.
- Honestamente? Não.
- Mas eu estou te ajudando com essa garota. – Insistiu .
- Ela não é só a garota por quem sou apaixonado, ela tem informações importantes para nós dois.
Tudo bem, aquilo podia ser verdade, mas não significava que ela não poderia exigir que ele pagasse na mesma moeda a ela.
- Ainda assim...
- E você não sabe quem é Liam Rilley – Interrompeu , parando o carro bruscamente em uma sinaleira, quase atropelando um menino que não passava dos dez anos.
- Sei, sim. – Sibilou , teimosamente, mesmo sabendo que era muito mais provável que estivesse certo.
- Pensa que sabe.
Ela soltou um riso rancoroso.
- E você não vai me contar porque saber demais é sempre um problema, certo?
- Está ficando esperta, – Disse , com um sarcasmo cansado.
- Estou ficando cheia dessa história, . E não venha me dizer que eu preciso confiar em você.
- É, você já deixou bem claro o que acha sobre isso da última vez.
- Pois é.
Por um ou dois minutos, ele ficou encarando-a, mas não o olhava de volta. Os carros começaram a buzinar e novamente deu partida, mas não seguiu em frente, parou o carro no acostamento, e ainda assim evitava seu olhar. Ele ponderou por um momento sua atitude seguinte, mas precisava tomar uma postura imediatamente, precisava demonstrar, de alguma forma, que tinha que confiar nele.
tirou o cinto e inclinou-se em direção a garota; ela permaneceu estática mesmo percebendo o movimento dele. Ele, delicadamente, afastou uma mecha do cabelo dela que lhe caia sobre os olhos e a fez olhá-lo ao virar o rosto dela em sua direção, tocando em seu queixo delicadamente.
- – Falou ele, suavemente – Por mais que você não acredite, estou tentando te proteger. Olha, vamos avaliar por uma ótica mais racional, já que você não acredita nas minhas boas intenções.
- Fale.
- Se eu pôr você em perigo, estarei colocando a mim em perigo também – Ele suspirou, abatido. - Você é a minha única verdadeira aliada, porque sei que quando você estiver preparada e souber de tudo, sua causa será a minha e tenho total convicção que só serei imbatível com você ao meu lado.
ficou estarrecida com a intensidade poderosa do olhar e das palavras de . Ela não queria demonstrar, mas o jeito como seus olhos brilhavam próximos aos dela, a forma como sua boca se movia lentamente e o som calmo de sua voz a faziam acreditar. Acreditar que tinham um objetivo em comum e que, de algum jeito, sairiam vivos daquela sujeira toda. Mas ao invés de assentir, ela devolveu o olhar em mesma intensidade e ele entendeu que a batalha ainda não estava vencida, que era preciso continuar dando razões à confiança de .
Ele pôs sua mão direita suavemente no pescoço dela e passou o polegar por sua bochecha levemente. Seu olhar continuava firme e profundo, com um ar de verdade, ainda que verdade e lhe soassem como antônimos.
- Eu simplesmente preciso de você, nós precisamos um do outro. Faz pouco tempo que você me conhece, mas sei quem é você, sei do seu passado, coisas que nem mesmo você lembra... E também sei o quanto é difícil confiar em alguém depois de tudo que você passou, sei que sua memória ainda não está em perfeitas condições. Mas prometo te ajudar, se você me ajudar.
Ela mordeu o lábio inferior levemente, sentindo um frio tomar conta de si. continuava olhando-a, esperando uma resposta, deixando claro que não estava disposto a continuar com aquele lero-lero. O que tinha para ser dito, ele já o tinha feito, agora as cartas estavam com ela. fechou os olhos momentaneamente, sentindo o polegar de ainda deslizar deliciosamente sobre a pele do seu rosto.
- Sabe o que é estranho nessa história toda? – A voz dela saíra disforme, mas ela decidiu que não se importava. – É que às vezes sinto como se algo nos ligasse, acho que foi assim desde o início, desde a primeira vez que te vi.
A garota parou por um momento, observando-o com mais cautela, fixando-se nos ofuscantes olhos de , porque, afinal de contas, era como se fossem dois imãs de atração para ela. Ela não hesitou ao levantar a mão e deslizar seu indicar pelo rosto de , de forma rápida, mas marcante.
- E talvez isso que vou falar agora seja ridículo, clichê ou sei lá... Mas são seus olhos. É como se eu tivesse apenas a lembrança de seus olhos no que se remete ao nosso passado e, bizarramente, isso me traz um sentimento de conforto inexplicável... Às vezes eu te odeio por isso, mas então algo me diz que é para estarmos juntos.
Ela parou por um momento, deixando as palavras no ar, porque os olhos de brilharam de um jeito familiar que fez seu coração se preencher de um bater desenfreado; um pouco temeroso, um pouco esperançoso. Mas ela preferiu acreditar que era por um motivo bom. E, então, ele se aproximou dela e ela sentiu os dedos das mãos gelarem. Os lábios dele curvaram-se em um sorriso doce, algo novo se considerasse aquele olhar. De repente, sem que ela percebesse, ele estava puxando sua nuca delicadamente e os dois ficavam mais próximos, até que, enfim, ela pudesse ver os sinais do rosto dele e, antes que tivesse o reflexo de se afastar, seus músculos congelaram e ela ficou esperando, atônita, o próximo movimento do rapaz.
Por alguns segundos, viu um momento de indecisão nos olhos de ; seu olhar era trêmulo, se é que isso era possível. Ele simplesmente não desviava os olhos dos lábios dela e estava tomada por um mundo de emoções inexplicáveis que nem ao menos tinha força para se afastar; ou puxá-lo em sua direção. Na verdade, ela não sabia o que queria exatamente.
Mas então, ele desviou a direção de seus lábios e beijou levemente a testa da garota e, em seguida, a puxou para um abraço. Um abraço que a fez ficar sem ar; contudo, de repente, veio a necessidade de retribuir, de puxá-lo contra si... E a sensação foi maravilhosa. Foi absurdamente fantástico poder ter alguém a envolvendo tão firmemente; alguém que talvez compartilhasse seu mesmo sentimento de desespero e desamparo. Um abraço longo, forte... Desesperado. E, então, depois de uns cinco minutos, ou mais, eles se afastaram lentamente; mas ao invés de ficarem simplesmente desconfortáveis com a situação, novamente se olharam com intensidade e um sorriso invadiu os lábios de ambos.
- Nós vamos conseguir, certo? Brighton é só o primeiro passo. – Ele disse, já ligando o carro e seguindo caminho.
- Isso aí, Brighton será nossa!
Ele olhou para ela de esguelha, sorriu e mexeu no Ipod conectado a pequenas caixas de som. Começou a tocar Rebellion (Lies), do Arcade Fire; e aquela música sempre fazia seu coração se inflar de esperança.
- E o fato de você estar envolvida com Liam me incomoda porque... – Ele acrescentou, parando um momento e lançando seu costumeiro sorriso sacana em direção a - Bem, você sabe, tenho uma ligação sexual com você.
Ela revirou os olhos e riu.
- Você é ridículo assim com todas as garotas ou reserva esses comentários só para mim?
Ele deu um sorriso torto que achou fofo, loucamente fofo.
- Sinta-se especial, você é a única merecedora de comentários esdrúxulos.

Passaram por cidades pseudo-campestres, pequenos vilarejos, cidades-industriais, portuárias, até enfim chegarem à litorânea e gloriosa Brighton. As tranquilas “roads” inglesas fizeram com que não entrasse em grande desespero por conta do carro caindo aos pedaços. dirigia devagar, mas seu próprio ritmo parecia um tanto alucinante, como se ele estivesse ligado a heroína, ou possuísse alguma espécie de hiperatividade momentânea. Embora quando olhasse para demonstrasse uma tranquilidade quase palpável; mas em questões de segundos, desatava a dirigir movimentando-se constantemente, acelerando e desacelerando.
Às vezes, eles trocavam uns olhares rápidos, mas nada de real intensidade como antes. Eram apenas olhadelas prosseguidas de risos nasalados e revirar de olhos impacientes. O clima estava favorável, eles estavam mais confortáveis um com o outro. Eles quase esqueceram o que os aguardava.
Quase.
tratou de seguir até uma lanchonete de esquina, simpática, porém visivelmente simples. Lily Smith provavelmente a definiria como um local de caminhoneiros, pensou, rindo, ao lembrar-se dela. Podia até ser um local de caminhoneiros, sem preconceitos com a classe, mas sem a menor dúvida serviam um hambúrguer maravilhoso. Jimmy’s Burguer era um local conhecido para , o que o fazia sentir-se mais tranquilo diante de sua situação de homem marcado.
Eles saíram do carro e o seguiu, silenciosa. E começou a observá-lo, mas seus olhos não eram mais temerosos, eram apenas observadores, tentando captar a essência de . Ele tinha um jeito próprio de andar, não cheio de si, não cabisbaixo, sua cabeça era sempre erguida, os ombros um pouco caídos e os passos displicentes. Ela escolheu uma mesa que ficava ao lado das janelas imensas de vidro, sentou-se e tentou parar de olhá-lo. Uma ansiedade perturbadora tomou conta de seu corpo quando ela lembrou do que acontecera mais cedo. O que fora aquilo? Ela e realmente haviam falado sentimentalmente sobre a situação amorosa de ambos?
Balançou a cabeça negativamente se sentindo cansada; aquele dia fora composto por uma carga emocional que ela não se permitira sentir fazia muito tempo. Liam e sua declaração completamente inesperada e absolutamente destrutiva, ao menos na atual conjuntura. Logo depois, ela e falando sobre confiança e ligação, sendo que apenas um mês atrás ela estivera pensando que ele gostaria de ter o prazer em matá-la. Ela mesma chegou a pensar que gostaria de extirpar a vida de o mais rápido possível.
Seria mais simples se ela ainda quisesse.
- Quanto vale seus pensamentos? – Disse , sentando-se ao seu lado, apoiando uma bandeja com duas xícaras de café na mesa empoeirada.
- Mais do que você pode pagar. – Ela falou suavemente, com um sorriso levemente debochado no canto dos lábios; aproveitou para pegar uma das xícaras fumegantes – Não tinha chantilly? balançou a cabeça negativamente e apoiou os cotovelos sobre a mesa empoeirada. Ele assumiu um ar cansado e comedido ao encarar através dos óculos de sol e ela pôde sentir um olhar duro; sabia que não era por ela ter feito algo errado, mas sim porque a situação de ambos era bem delicada.
- Depois daqui iremos ao albergue. Mas o que posso te adiantar aqui é o seguinte: minha situação em Brighton não é das mais agradáveis.
- Com isso você quer dizer que tem muitos inimigos?
- Também, quero dizer, você tem que considerar que Juan Fuentes tem muitos seguidores. Mas não é só isso, há um ano atrás, mais ou menos, aconteceram coisas. Coisas que não posso explicar agora, mas que me deixaram marcado nessa cidade.
ponderou aquela informação, talvez ela não tivesse tanta noção do perigo em que se metera, ou melhor, que a tinha colocado.
- Em que merda você me meteu, ?
- Está com medo, ? – Ele provocou, mas não com o mesmo sorriso diabólico que sempre estava em seus lábios, ele tinha um ar casado.
- Não é medo, é senso de auto-preservação – Ela disse duramente, depois de um suspiro abrandou sua expressão. – Eu só preciso saber em que estou andando.
assentiu e tomou um breve gole do café. Ele repousou a xícara sobre a mesa, olhou algo por cima dos ombros dela que pareceu surpreendê-lo, mas logo no segundo seguinte ele inclinou-se sobre a mesa em sua direção, moveu sua mão direita pretensiosamente rumo ao seu rosto e acariciou sua bochecha esquerda. Tão delicadamente que sentiu vontade de fechar os olhos e suspirar, mas ela se conteve porque algo lhe dizia que havia um quê estranheza na atitude de . Sem contar que aquilo poderia parecer como se ela estivesse na dele. O que não era verdade, ao menos não cem por cento verdade.
- Se aproxime de mim lentamente e coloque sua mão em meu rosto. – Sua voz era doce, mas a instrução fora suficiente para entender que alguém entrara no café, alguém que remetia perigo.
Alguém que chegara para lembrar a ambos que eles enfim haviam chegado a Brighton.

viu os olhos de se ascenderem em compreensão. Ela levou as mãos ao rosto dele e sorriu de uma forma tão convincente que ele teve de lembrar a si mesmo que aquilo não passava de uma benfeita encenação. Ele sentiu a mão da garota pressionando sua nuca, de forma a aproximá-lo. Eles estavam cara a cara e agradeceu por ainda estar usando óculos escuros; aquela proximidade com o estava deixando constantemente perturbado, de uma forma maravilhosa. No entanto. Ela se aproximou mais, mas só para sussurrar em seu ouvido.
- Vou sentar ao seu lado e nós iremos agir como o casal apaixonado que somos, você sabe, Leslie e Frederick.
apenas disse:
- Mal posso esperar.
Ele não precisou ver, mas sabia que provavelmente havia revirado os olhos. Primeiro, ela soltou o cabelo que lhe caiu sobre os ombros como uma cascata e, como quem não quer nada, sentou-se ao seu lado, no desconfortável sofá florido, com uma expressão branda. Ela o olhou sorrindo, se aproximou de forma leve, quase descontraída, com se eles de fato fossem íntimos. Ela enterrou o rosto no pescoço dele e disse suavemente.
- Vamos, Fred, me abrace.
obedeceu, mas ouviu soltar um muxoxo em reprovação. Ele tinha feito o que ela havia pedido, certo?
- Eu estou aqui para que você não possa ser visto, idiota.

Ela tinha certeza que seu rosto era um mar de coragem e indiferença, muito embora por dentro estivesse quase entrando em combustão. Não o tipo de combustão que te faz arder em desejo, mas do tipo que te faz querer sair correndo e afundar em um lago parcialmente congelado. Mas certos tipos de situações a faziam assumir uma faceta fria e calculista e ela sempre agradeceu muito por isso, agora não era diferente.
Porque, por mais simples que fosse beijar um cara para protegê-los, esse cara era , o que tornava as coisas um pouco mais complicadas do que seriam se ele fosse outro qualquer.
Talvez porque, na verdade, ela sentisse um pouquinho de desejo por ele.
O tipo de atração completamente descabida e fatal. Mas era verdade. Por quantas vezes ela tinha se pego pensando sobre a aparência totalmente atraente de ?
O que tornava tudo mais perigoso... E mais interessante, claro.
Mas então, de repente, a estava beijando, não sem antes dizer com o seu costumeiro ar zombeteiro “Ótima desculpa para me beijar, ”. Não houve tempo para uma resposta malcriada, sabia que sua voz soaria rouca e completamente traiçoeira a ela. Ela apenas se deixou levar pelas mãos de , que seguraram seu rosto delicadamente e fechou os olhos, pois não estava preparada para encarar aquelas ofuscantes pedras .
E começou ali, naquela lanchonete de esquina completamente acabada, o beijo que mudaria tudo, não de forma romântica, mas sim catastrófica. Era o primeiro passo dado para simplesmente pôr fogo Brighton. Era a primeira labareda, a labareda que significava, sim, desejo, mas também destruição. Era o incêndio se aproximando.
não queria saber do plano, nem de nada naquele momento, ele estava beijando , afinal. E ela não estava se comportando como uma maquinaria velha. No início começara como um beijo quase mecânico, sem sincronia alguma. Mas, agora, as mãos de ambos estavam descontroladas, afoitas, um puxando o outro, o beijo ficava rápido, depois lento como se estivessem degustando um ao outro, saboreando, descobrindo.
E estavam tão perfeitamente encaixados que pareciam um jovem casal que sabiam o que estavam fazendo e simplesmente gostavam muito daquilo. Não que não fosse verdade. decidiu que era bom demais beijar , mas ele não precisava saber disso; ela sempre poderia culpar a situação. E se serem Leslie e Frederick implicaria que cenas como aquelas se repetissem.
Mas daí ela lembrou da prostituta.
A merda da prostituta por quem ele era apaixonado e por quem ela arriscaria sua própria vida, mesmo que não tivesse vontade fazer isto.
Ela queria se afastar, mas não podia se deixar abalar por aquele pensamento, ainda estava tentando salvar sua própria vida ali, e mais cedo vira alguém. Eles estavam se escondendo, ela lembrou. Beijando-se para salvar as suas próprias vidas; ela era uma sobrevivente, não era?
sentiu a garota ficar estranhamente cálida e não gostou daquilo, ele queria o calor anterior e então sorriu, sentindo o desafio tamborilar contra seu peito. Por um instante, parou o beijo e instantaneamente abriu os olhos; eles se olharam e sorriu convencido. não expressava nada, apenas revirou os olhos como se dissesse “vamos acabar de vez com isso”. Mas ignorou e segurou a nuca dela de forma firme, porém delicada. Aproximou-se lentamente, ainda com o sorriso estampado no rosto, e sentiu-se glorificado quando sentiu estremecer. Ele colou os lábios contra os dela, então se afastou, mordiscou o lábio inferior, puxando-o levemente, enquanto subia suas mãos pelas costas da garota. Sentiu a ceder ao estímulo e então voltou a beijá-la.
Lenta e gloriosamente;
depois rápida e causticamente.
sabia que não havia necessidade de tanta movimentação, mas a havia provocado; feito ela querer mais. E apesar de saber que assim que os dois se separassem ela se arrependeria, decidiu que aquele momento valia o preço do arrependimento. Antes, já se sentira atraída por . Primeiro quando fora em seu apartamento, depois naquela tarde, quando ele a buscara; e agora ele a estava beijando e ela correspondendo com fervor.
Não havia como ser o contrário. tinha mãos precisas e firmes; lábios habilidosos.
Ela simplesmente decidiu esquecer a tal prostituta.
E lá estavam eles mais uma vez, descontrolados, parecendo dois loucos famintos em um sofazinho florido de uma lanchonete.
Foi então que eles ouviram um ruído e sentiu congelar. Ela se afastou dele, tomando o cuidado de manter os braços em torno de seu pescoço, mas sua vontade era fugir dali o mais rápido possível. Para um buraco, de preferência bem profundo.
- Desculpe em interromper, mas vocês dois já estavam ultrapassando os limites. – Disse um homem que usava uma ridícula camisa havaiana floral; com uma enorme cicatriz no rosto.
sorriu, parecendo estranhamente sem graça, o que achou estranho. Mas ela relaxou ao perceber que o homem não representava perigo.
- Olha só se não é velho James. – a abraçou de lado. – Essa aqui é a Leslie, Jimmy... Minha namorada.
- Sempre muito intenso, uh?! – Falou James alegremente. – Mas vocês dois já estavam ultrapassando o limite de um simples amasso.
Foi então que percebeu que de uma forma muito louca suas pernas estavam sobre as de . Ela tratou de colocá-las para baixo e sorriu sem graça.
- Me desculpe, James. Semana passada, quando estávamos em Londres, quase nos expulsaram do McDonald’s. – falou, graciosa, no seu melhor ar descontraído.
- Tudo bem, conheço bem esse rapaz. – Piscou brincalhão para o rapaz.
- Não tão bem. – se defendeu.
sorriu educadamente, depois olhou para Danny da forma mais íntima que ela conseguiu; apesar de estar constrangida, seu instinto de sobrevivência sempre a faziam uma excelente atriz.
- Acho melhor irmos andando, Fred. – Anunciou .
concordou e reparou que, ao encará-lo, seus olhos estavam tomados por um deleite completamente desconcertante. Mas logo lembrou que tudo aquilo era uma atuação, nada mais que isso. É claro que provavelmente gostara de todo aquele amasso naquele lugarzinho esdrúxulo. O garoto já se mostrara interessado em levá-la para o quarto mais próximo inúmeras vezes. Nada mais que isso; aquela intensidade que sentira, ela pensou, fora apenas dela.
Era melhor que assim o fosse.
- Jimmy, vamos até o balcão para eu pagar a conta?
estreitou os olhos, mas fingiu não ver, continuou com sua postura cordial.
- Claro! Foi um prazer te conhecer, Lyla.
- Leslie, meu nome é Leslie. – Corrigiu .
Ele sorriu gentilmente e então disse com a voz baixa:
- Sabe como é; gosta tanto daquela bandinha estúpida que achei que seu nome era Lyla!
Foi então que entendeu. O tal Jimmy sabia de tudo, mas não tinha pretensões de que ela soubesse disso. Ela decidiu não discutir, mas um mau-humor imenso começou a tomar conta dela; deixou que os dois sumissem sem maiores objeções, mas também não disse mais absolutamente nada de simpático para o tal do Jimmy.

- Joel! – Disse ; bem baixo, quase em um sussurro. – Por que merda você fez isso?
- Você está fodendo tudo, ; essa garota... Você sabe o quanto o conteúdo aqui é explosivo, não sabe?
- Porra, é claro que eu sei! Mas eu não quero envolver desse jeito.
- Ela não é uma bonequinha de porcelana, ela precisa saber. A garota é inteligente, às vezes muito mais que você.
- O que você quer dizer com isso?
- Você é muito impulsivo, é a emoção da história toda.
tentou se controlar: mais uma vez aquela ladainha de Joel.
- Esquece isso, só quero saber o que merda Haut Turnbull está fazendo em Brighton! Aliás, o que ele estava fazendo aqui?
- Eu estou sempre sendo observado; mas não se preocupe, Robert Sparcks também está por aqui.
- E aquela bicha não me avisou nada! Por quê?
- Por que... Por algum motivo, Haut Turnbull adiou a lua de mel secreta deles, em Nice, exatamente hoje, depois de receber uma ligação.
- E o que isso quer dizer?
- Quer dizer que eles já estavam sentados naquele estúpido jatinho particular do Turnbull, quando, por sorte do destino, o filho da puta recebeu uma ligação e mudou as coordenadas de sua viagem. Agora ele está aqui para mostrar Brighton a seu sobrinho.
- É impressão minha ou...?
- Sim, , tem alguém espionando você. Robert não teve nem tempo de te ligar.
começou a sentir a mente ferver. Um nome em especial tamborilava em sua cabeça.
Já estava na hora de contar tudo para .
Tudo o que ele sabia e mais um pouco sobre Liam Rilley.

Continua...



Nota da Autora: E aí, ainda tem algum ser humano que se dispõe a ler essa fic? E aí galera, o que acharam desse capítulo? Bom, antes de qualquer coisa, devo desculpas pela demora. Não tenho muito que falar, estou meio cansada porque meus dias estão uma loucura! Mas vou responder rapidinho aos comentários!

Ah, man00b, por favor, me mande um e-mail, qualquer coisa sobre Brighton, porque eu só sou uma pobre brasileira tentando escrever sobre a Inglaterra mimi HGSAUYGSUYAGYSU E aí, o que achou deste capítulo? Ainda não tem nada muito quente como eu sei que a senhorita gosta, maaaas já foi um avanço, né?
Cell, o Liam... Eu também gosto dele sabia? Mas ainda não posso falar muito sobre ele. O Liam é um personagem legal, por vários motivos...
Mari Alves, você já betou um capítulo dessa fic! Nossa, espero que ainda leia BHR haha O Liam ainda vai aparecer muito, não se preocupe.
Jess, a senhorita é mais uma amante do Liam? É isso mesmo, Arnaldo?
Paola, desculpe, demorei haha mas aqui está mais um capítulo!
Vick, adoreeeei você! HSUIAHSUIAHISUA Então, eu amei seu comentário, de verdade. Acho que fiz você sofrer, desculpe, mas não abandone BHR, por favor!
Tayane aqui está mais uma att e obrigada por achar isso tudo de BHR!
Sarinha Oliveira, sua linda! O Liam, olha esse Liam fanfarrão... Será? HASUHSUIAHSIAHSIU Pois é, tem um piriguete agora HUISAHSIUAHSU Espero que tenha gostado desse capítulo!
Med, e aí? Você ainda lê essa fic depois de todo esse tempo? Haha E aí? O que acha que o Liam fez?
Malu, a atualização não veio logo mimim Espero que goste desse capítulo!
Sabryna, pennylane, Jéssica e Liz: Mais uma att galera, espero que gostem!
Bela: Boooss, será que você ainda lê isso? Ta ligada que é madrinha dessa fic, né?
Binki acho que você é a primeira pessoa que eu vi lendo com o coisa linda do Luke, aff, aquela voz dele me mata de uma só vez? Você já ouviu as duas músicas ‘novas” do The Kooks?
Oi Camiss!!! Você é uma leitora novíssima! Olha, não sei se esse capítulo vai te agradar, para falar a verdade não estou muito satisfeita com ele, mas eu sei que vou acabar jogando tudo fora se pensar em reescrevê-lo haha Bom, e aí? O que acha do Liam? E do “Holmes”?
Amandinha, sua linda! Você não vai ser mais minha colega de profissão, comofaz agora?
Enfim, gente, muito obrigada mesmo! Cada comentário faz essa história valer a pena e eu estou muito feliz por vocês acompanharem essa traminha. MUITO OBRIGADA MESMO!

Erros? Me avisem por aqui! :) Beijos, Lê Assis.