Fic by: Patrícia Jaculli | Beta: Lilá
Prólogo
O branco do quarto já não me incomodava mais. Não naquela altura, tamanho era o tempo em que eu estava ali. O monitor cardíaco continuava sendo o único barulho a ser ouvido naquele lugar. O mesmo barulho. Às vezes eu queria que ele parasse, para finalmente poder descansar. Mas eu não teria descanso, não agora. Eu devia me preparar psicologicamente, pois ele já devia estar chegando. E como se fosse previsto, a porta foi aberta e aquela figura tão conhecida e amada por mim surgiu ali. Eu poderia passar horas encarando suas feições, pois talvez eu não as visse mais tão cedo. E finalmente aquele pensamento veio à minha mente: Do que valera quase uma vida inteira devota a uma religião, quando em pouco tempo ele aparecera e trouxera verdadeira importância à minha existência? Os aparelhos que me ajudavam a respirar, dessa vez pareceram não ser o suficiente.
Capítulo 1 - Lar é onde o coração está, é onde nós começamos, onde nós pertencemos;
Céu meio azul, meio nublado, um sol tímido pedia permissão para sair, árvores, vultos, vultos...
Eu olhava para fora da janela do carro e então vi uma casa enquadrar-se no meu campo de visão, no momento em que finalmente estacionamos. Soltei um suspiro, pensando que mais uma vez teria que tornar aquela cidade e principalmente aquela casa em meu lar.
- Chegamos, família. - Meu pai anunciou do banco da frente. Ele, por incrível que pudesse parecer, estava num bom humor e isso era coisa rara de se ver.
Ben, meu irmão mais velho, foi o primeiro a abrir a porta, levando sua mochila nas costas. Minha mãe me mandou sair e pegar minhas coisas e eu a obedeci.
Bom, acho que devo esclarecer algumas coisas antes de tudo. Meu nome é Weiss-Schwartz e como a maioria das pessoas, eu tenho um apelido e prefiro que me chamem assim, apenas de já que quando falam "", eu sei que coisa boa não é. Tenho 17 anos e minha vida é... hmm... Eu ainda não encontrei o adjetivo certo que se encaixaria aqui. Ela começa, basicamente, um bom tempo antes de eu nascer, quando meus avós, pais do meu pai e judeus ortodoxos, fugiram para a Inglaterra da Alemanha nazista e lá (ou aqui, no caso) nasceu meu pai. Meus avós são judeus extremamente tradicionais e assim eles criaram meu pai, que se formou em diplomacia e na faculdade conheceu minha mãe e, felizmente, também aspirante à diplomata e judia. E desde que eles se casaram, nunca mais puderam parar em um só país.
Eu e meu irmão nascemos em Lyon, na França e crescemos lá, até que eu completei 10 anos e nós nos mudamos para Melbourne, na Austrália. Eu sei, "mas é do outro lado do mundo!", bom era o trabalho de meus pais e nós (querendo ou não) tínhamos que aceitar. Dois anos depois, estávamos em Johannesburg, África do Sul e mais tarde Washington, Estados Unidos. Tudo isso para finalmente estarmos aqui, na boa e velha terra da rainha, mais conhecida como Inglaterra e precisamente Londres.
- , o que você está fazendo parada aí? - Meu pai perguntou, vendo que eu estava perdida em pensamentos retrospectivos. - Vamos entrar, venha. - Ele estava animado demais e começava a me assustar.
Nós quatro adentramos a casa e ficamos a contemplando por algum tempo. Com certeza era a maior casa que nós já havíamos tido. Era na sua maior parte branca e apenas cores claras espalhavam-se. Tinham várias janelas enormes, o que deixava a casa ainda mais clara.
- Ok, vocês podem escolher os quartos. - Minha mãe disse e foi tudo para que Ben e eu subíssemos como foguetes as escadas.
- Ben, o quarto com varanda é meu. - Eu gritei, já que estava um pouco atrás dele. Ben entrou no primeiro quarto do corredor e trancou-se lá dentro. Desde que havíamos pegado o vôo nos Estados Unidos, ele não conversava com ninguém e, bom, eu podia entender. Ben tinha amigos e uma namorada em Washington, que teve que deixar lá e não estava aceitando isso muito bem. Mas meus pais nunca souberam disso, nós éramos judeus tradicionais e se meus pais soubessem que Ben algum dia tivera alguma relação com uma garota que não era judia, ele estaria oficialmente ferrado.
Coloquei minha cabeça para dentro do segundo quarto e lá estava a varanda de que eu precisava, onde descansaria meu querido telescópio. Estava tudo mobiliado e com certeza para um quarto de menina, havia uma cama de colcha branca com véus também brancos pendendo como um dossel e as paredes eram de um tom de lilás bem claro. Coloquei meu laptop e livros na escrivaninha, deixei as duas malas perto do armário, teria tempo para arrumar aquilo depois, pendurei alguns quadros dos meus filmes preferidos na parede, onde estava uma TV pregada. Respirei fundo e me joguei na cama, contemplando o teto e pensando em como eu iria encarar a escola amanhã.
- Bom dia na escola, senhorita Schwartz. - Lawrence, nosso motorista, disse sorrindo para mim e abrindo a porta.
- Obrigada, Larry. - Eu agradeci, pulando do carro e já vendo Ben andar até o portão da escola.
Lá estava eu, pela primeira vez em uma escola, já que a maior parte de minha vida eu estudei em casa e finalmente havia convencido meu pai de que poderia terminar o colegial numa escola de verdade.
- Vamos, mana. - Ouvi Ben gritar e corri para alcançá-lo.
- Aqui estamos nós. - Eu afirmei, olhando para ele.
- Você vai ficar bem? Sei lá... quer que eu... - Ben falou, meio gaguejando e eu ri. Ele tinha um grande senso protetor quando se tratava de mim.
- Tudo bem, eu me viro. - Eu disse e o abracei. Acenei e entrei na escola a procura da direção.
Algumas pessoas ali viravam-se para me encarar. Algumas não, muitas pessoas estavam fazendo isso e eu estava começando a me sentir desconfortável vendo-as cochichar em seguida. Olhei para o lado, passando uma mão pelo meu braço e visivelmente envergonhada, quando dei de cara com as costas de alguém e quase fui atirada para o chão, se essa mesma pessoa não tivesse passado seu braço pelas minhas costas para impedir que eu caísse, em um enorme reflexo.
- Me desculpe, eu não est.. - Comecei a falar rápido e levantei meus olhos para ver quem era a pessoa com quem eu havia colidido. Era um garoto, alguns centímetros mais alto que eu, olhos grandes e brilhantes, cabelos bagunçados e desgrenhados e um sorriso pretensioso no canto dos lábios.
- Você não estava..? - Ele perguntou, fazendo gestos com as mãos, percebendo que eu estava encarando cada parte de seu rosto. - Perdeu a fala? Ou isso é comum em você? - Ele continuou perguntando, divertido.
Eu franzi a testa para ele.
- Eu ia me desculpar, mas parece que isso não é mais do seu interesse. - Eu afirmei e voltei a andar, esbarrando propositalmente em seu ombro e passando pelos olhos dos amigos dele.
- De nada. - Ouvi ele gritar, mas ignorei e continuei minha caminhada até a sala da direção.
Após obter todos meus horários, o sinal já tinha batido há alguns minutos. Olhei para a folha e vi que meu primeiro horário era aula dupla de Álgebra e corri para a sala indicada. Algumas pessoas ainda entravam na sala e o professor as recebia. Um senhor baixinho e gordinho, com um grande bigode branco de leão marinho.
- E você deve ser a nova aluna, bem-vinda. - Ele disse, sem nenhum sorriso no rosto, porém não deixava de ser fofinho.
- Obrigada, Mr. Andrews. - Eu agradeci e me dirigi a algum lugar vago, enquanto o ouvia dar bom dia para a sala e vozes sonolentas responderem.
Encontrei um lugar vago na penúltima carteira e joguei minha mochila de lado, retirando meus cadernos e estojo para começar a copiar o que o professor já escrevia na lousa.
Minha concentração era tão grande em prestar atenção no professor e escrever em meu caderno, que quase gritei ao receber um pedaço de papel em minha cabeça. Ergui uma sobrancelha e o abri, vendo uma caligrafia bonita com os dizeres "Bem vinda ao Latymer Upper School". Olhei para o lado e vi uma garota acenar para mim. Retribuí o aceno e dei um meio sorriso, me perguntando o que ela realmente queria dizer com aquilo.
O sinal tocou e eu finalmente saí da terceira aula do dia: Biologia. Quando coloquei meu pé para fora da sala, senti alguém puxar meu braço.
- Hey! - A garota que havia me mandado o bilhete mais cedo, exclamou.
- Hey. - Eu disse, tentando sorrir, porém com o rosto contorcido em confusão.
- Meu nome é e você é a , certo? - Ela me perguntou e eu afirmei com a cabeça. - Bem vinda ao nosso colégio.
- Obrigada. - Eu sorri, sinceramente. - Mas por quê...
- Por que eu estou sendo legal com você? - terminou por mim. - Simplesmente porque eu fui com a sua cara. - Ela me afirmou e eu senti um alívio, já que não era a pessoa mais extrovertida do mundo e fazer amigos sempre fora um problema pra mim. - Agora vem, vamos até o refeitório.
e eu andávamos lado a lado até o refeitório e inúmeras pessoas passavam por nós e a cumprimentavam e ela respondia educadamente, muitas pessoas pareciam gostar dela por ali.
Chegamos até uma mesa onde estavam mais duas meninas, tão bem vestidas e bonitas quanto . - Hey, essa é a de quem eu falei.
- Oi. - Eu falei, tímida.
- . - A que estava de frente pra mim falou, sorrindo.
- . - A outra também se apresentou. - E então, de onde você veio?
- Pra falar a verdade... - Eu comecei, me sentando ao lado de e vendo sentar-se do meu outro lado. - Eu nasci na França, mas me mudei para vários países antes de vir pra cá e a última parada foi Washington, nos Estados Unidos.
- Uau. - As três fizeram ao mesmo tempo.
Senti alguém me cutucar e quando me virei um flash de uma câmera me cegou. - Olá, meu nome é Carter e você é a garota que já morou em zilhões de países, prazer.
- Prazer. - Eu falei, me sentindo envergonhada pela excitação do garoto.
- Carter, eu ouvi falar que temos novas espécies de plantas nas estufas, por que você não vai dar uma olhada? - disse e o garoto saiu como um foguete dali. Nós quatro caímos na gargalhada.
- Ele é louco, fique longe. - me advertiu e eu balancei a cabeça, afirmativamente e ainda rindo.
Virei meu rosto para a entrada e vi quatro garotos passarem por lá. Eles andavam sincronizados e quase em câmera lenta, atraindo alguns olhares admirados, furiosos ou de deboche. Percebi que entre eles estava o garoto com quem eu havia colidido mais cedo, com a sua mesma pose de dono do mundo.
Nossos olhares se cruzaram quando ele passou pela nossa mesa e eu pude perceber o quanto ele e seus amigos eram bonitos. Aqueles dois segundos bastaram para que eu sentisse um frio percorrer toda minha coluna vertebral, uma coisa que eu nunca havia sentido antes. Afastei esse pensamento o mais rápido possível, preferia ficar longe de sentimentos novos.
Ele rapidamente quebrou o contato visual e continuou andando até uma mesa extremamente afastada, ao lado dos banheiros, a onde eles começaram a conversar e rir.
- ? - chamou minha atenção, provavelmente percebendo meu devaneio.
- Oi? - Eu virei meu rosto para elas novamente. - Hmm... Vocês sabem quem são eles? - Eu perguntei, apontando minha cabeça na direção da mesa.
- Eles? - perguntou, apontando com o dedo para a mesa e fazendo uma voz misteriosa. - . - E apontou para o que batucava com os dedos em cima da mesa.
- . - continuou, apontando para um que ria descontroladamente.
- . - disse, me mostrando o que provavelmente contava a piada.
- E . - terminou, finalmente com o tal garoto em quem eu havia batido. Demorei um pouco mais de tempo meu olhar nele. Mas que diabos estava acontecendo comigo? - Por quê?
- Por nada, eu só esbarrei em um deles essa manhã. - Desconversei, porém elas não pararam.
- Ninguém sabe muito sobre eles... - ia dizendo. - E muita gente chega a achar que eles são esnobes, porque ninguém parece ser bom o bastante pra eles.
- Eles não se enturmam com mais ninguém a não ser eles próprios. - completou.
- Eles fazem muitas coisas debaixo dos panos. - fofocou. - Lembra do boato de que um deles havia dormido com a professora de Francês?
- Que coisa horrível de se inventar! - Eu exclamei e elas me encararam como se eu fosse um alienígena falando aquilo.
Continuei olhando na direção daquela mesa e (agora eu finalmente poderia parar de chamá-lo de garoto-mal-educado-que-eu-havia-trombado) deve ter percebido, porque parou de prestar atenção nos amigos e virou-se para mim. Era estranho, pois eu tinha vontade de ir até ele, como se ele tivesse um campo magnético e eu fosse o ímã. Os olhos dele eram extremamente profundos e misteriosos ao mesmo tempo, talvez descobrir todo aquele mistério que rondava ele e seus amigos fosse o que me atraía. Porém, ele novamente quebrou o contato visual e chacoalhou sua cabeça, voltando sua atenção para os amigos que agora encenavam algum tipo de dança e riam de si mesmos.
O sinal nos despertou, avisando que teríamos que voltar pras aulas. Fiquei feliz ao descobrir que teria Inglês agora e também, e não precisaria ficar em uma sala de desconhecidos de novo. Nos despedimos de e e rumamos para a sala.
A aula passou sem nada de especial, apenas a professora nos contando sobre Schopenhauer e seu pessimismo. Para minha sorte, tive Química com no penúltimo horário, o que era muito bom, já que a única coisa que eu nunca dominara muito bem era toda essa história de funções orgânicas e inorgânicas.
Meu último horário constava História e eu agradeci aos deuses, já que era minha matéria preferida. Eu estava sozinha novamente, então simplesmente entrei na sala e me sentei na terceira cadeira colada com a janela, cruzando meus braços e prestando atenção nos alunos que entravam. Distraí-me pensando o quanto eu havia perdido por nunca ter estudado em uma escola de verdade, até que uma figura masculina passou pela porta e prendeu minha atenção. Era ele. , com os botões de sua camisa afrouxados e sem a gravata do uniforme. Nossos olhares se cruzaram pela terceira vez aquele dia e ele fez uma expressão de espanto, antes de respirar fundo e se sentar o mais longe que ele conseguiu de mim, pelo menos foi isso que eu percebi. Bom, será que tinha alguma coisa de errado comigo? Me perguntei, olhando minhas roupas e percebendo que eu era normal até demais. Talvez o problema não fosse comigo e sim com ele, o que me deixava com mais vontade de interrogá-lo e saber exatamente qual era a dele.
Eu não estava realmente interessada nele. Longe de mim, eu mal sabia quem ele era. Eu só estava curiosa, até porque primeiro: ele parecia ser bem bipolar pro meu gosto, já que tinha sido um idiota mais cedo e agora apenas me repelia, como se realmente tivesse alguma coisa errada. E segundo: Eu não caía nos encantos de uma pessoa tão fácil assim e eu devia obedecer à tradição judaica. Infelizmente eu havia sido criada assim e não havia nada que eu pudesse fazer contra isso, eu previa meu pai ficando furioso só de saber que eu fizera novas amigas e que elas não eram nem de longe judias. Mas, por enquanto, ele não precisava saber. Ben era o revoltado com nossas tradições na família, mas não eu. Logo, pensamentos sobre um garoto que eu mal conhecia deveriam ser descartados imediatamente.
- Obrigado pela atenção de vocês, futuros historiadores. - Mr. Richards disse assim que o sinal tocou. Ele era uma graça, havia entendido cada palavra de sua explicação sobre a Revolução Russa. Porém, quando olhei para meu caderno, onde deveriam estar todas as anotações, lá estava um desenho de um garoto de cabelos bagunçados e olhar profundo. Fechei rapidamente meu caderno e vi passar correndo pelos outros alunos, ao sair da sala. Qual era o problema daquele garoto, afinal?
Percorri todo o corredor até meu armário, de onde tirei alguns cadernos e livros que precisava levar e coloquei outros. Encontrei Ben pelo caminho até o estacionamento e nós fomos juntos até onde Larry havia estacionado nossa mini van Lexus.
- E então, como foram no seu primeiro dia de aula? - Larry nos perguntou, abrindo a porta para nós.
- Eu fui chamado para almoçar com o time de basquete. - Ben contou animado, enquanto entrava no carro. - Talvez eu consiga uma vaga. - Ben era dois anos mais velho que eu, mas devido a um intercâmbio de línguas que ele havia feito de um ano, agora nós estávamos no mesmo ano.
- E você, ? - Larry olhou para mim e eu estava virada, prestando atenção em quatro garotos encostados em uma parede perto do portão.
Virei-me para ele e coloquei um pé dentro do carro. - Foi legal. - Sorri e entrei.
Capítulo 2 - Ela disse "Você deve estar louco, o que você pensa que eu sou?”;
's P.O.V.
- , você é um bunda-mole mesmo. - disse e deu um tapa na cabeça de , que mandou um dedo pra ele. - Não era pra você ter pedido pro seu tio ver a casa há um tempão?
As vozes dos caras ecoavam em minha cabeça, mas como se eles estivessem longe ou debaixo de uma cachoeira. Eu estava apenas prestando atenção no estacionamento, perdido em pensamentos.
- Eu sei, caras. - falou, levantando os ombros. - Foi mal.
- Foi péssimo, . - afirmou. - Eu não vejo a hora de morar sozinho, meus pais estão me enlouquecendo, man!
- Hey, o que há com o ? - Ouvi perguntar, baixo e pelo canto do olho vi os três unirem suas cabeças.
- PLANETA TERRA CHAMANDO, VOCÊ ESTÁ CONOSCO? EU REPITO... - E gritou em meu ouvido, me fazendo quase ter um ataque cardíaco e cair pra trás.
- Você quer me matar, seu retardado? - Exclamei, jogando uma bolinha de papel que tinha na mão em , enquanto os outros três rachavam o bico.
- , você... HAHAHAHA... devia... HAHAHA... ter visto sua cara. - gargalhava e limpava algumas lágrimas de riso de seu olho.
- Nhenhenhe, que engraçado. - Imitei a voz de , porém não consegui controlar o riso, ao ver meus amigos abraçados e gargalhando.
- Agora me diz, quem era? - levantou as sobrancelhas, fazendo uma cara de criancinha esperta.
- Quem era onde? - Franzi a testa do tipo "do que você está falando, seu louco?"
- Que você estava olhando! - falou, dando um tapa em minha cabeça e revirando os olhos. Cara, eles precisavam parar com essa mania de dar tapas na cabeça dos outros, estava começando a me irritar.
- Ninguém. - Afirmei, vendo aquela garota lançar um último olhar na nossa direção e entrar naquele carro enorme.
Os três levantaram os ombros e não disseram mais nada. Eles sabiam que eu era assim e quando eu quisesse falar alguma coisa, eu simplesmente falaria.
- Vem, , vamos logo. - me chamou e eu me virei, indo na direção de seu carro, onde os garotos já estavam sentados. Todos nós tínhamos recém tiradas carteiras, mas era o único de nós quatro que tinha um carro totalmente dele (lê-se: mimado o suficiente para ter um), não que meu pai não tivesse dinheiro pra me dar um, já que ele tinha, mas era uma coisa que envolvia responsabilidade e bom, ele era um pai. Porém, nada impedia que pegássemos o carro de "emprestado" de vez em quando. Entrei no banco do passageiro da Pajero Sport e arrancou rapidamente dali.
Cheguei em casa e joguei minha mochila no sofá, subindo as escadas correndo. Joguei-me na cama e peguei meu violão, dedilhando algumas coisas nele.
- "This girl that moved up the road from me, she had the nicest legs i've ever seen..." (Essa garota abriu passagem para mim, ela tinha as melhores pernas que eu jamais vi...) - Cantei alguma letra qualquer que me veio a cabeça. E que tipo de letra era aquela? Balancei minha cabeça e coloquei o violão de lado, caindo pra trás com a cabeça em meu travesseiro. Quem era aquela garota? Cara, e como ela tinha um cheiro bom, eu quase não consegui fazer nenhuma piadinha por ela gaguejar, era meio hipnotizante. E seus olhos? Suas pernas? Acho que aquela saia do uniforme nunca tinha ficado tão bem em alguém. Ok, o que eu era? Um completo idiota? Quem quer que ela fosse eu não estava interessado. Garotas eram problema e eu não queria mais nenhum problema com nenhuma delas, tudo que eu devia me concentrar agora era na banda, conseguir gravar uma demo e mandar para a gravadora. A música, isso sim importava.
's P.O.V.
Passei praticamente a tarde inteira fazendo meus deveres. Eu finalmente havia descoberto a parte chata de estar em uma escola.
Ouvi alguém bater na porta de meu quarto e me virei. - Entra. - Disse e a figura de Bridget passou pela porta, trazendo uma bandeja.
- Com licença, . - Ela falou, com sua vozinha baixa e fina.
- Obrigada, Brie. - Eu agradeci, dando um beijo em sua bochecha e fazendo ela balançar a cabeça, rindo. Bridget e Lawrence, ou Brie e Larry como eu gostava de chamá-los, eram quase como pais pra mim, desde que eu nascera foram eles que cuidavam de mim e Ben, quando meus pais viajavam ou estavam ocupados demais no trabalho.
- Sua mãe deixou esse bilhete pra você. - E ela me entregou um pequeno papel, onde eu reconheci a caligrafia deitada de minha mãe.
"Você deve ir até o Instituto para Crianças com Síndrome de Dawn amanhã, será seu novo lugar para caridade
Beijos, mamãe."
- Eles não voltam hoje? - Perguntei, chateada.
- Não, minha querida. - Bridget afirmou. Ela odiava ser sempre a portadora de notícias como essas e ela sabia o quanto eu ainda ficava chateada. - Com licença. - Ela deu um beijo em minha cabeça e eu pedi a benção em hebraico para ela e ela me abençoou.
Eu estava cansada daqueles exercícios de Álgebra, então me levantei e me dirigi até a sala de instrumentos no fim do corredor. Lá estava meu piano branco de calda, onde me sentei e coloquei um dedo sobre a primeira tecla. Comecei a tocar Nocturne, op. 9 nº 2 de Chopin, tocá-la era quase como um costume. Fora a música mais difícil que eu aprendi no piano e era uma das quais eu mais gostava. Porém ainda nada se comparava ao meu querido conterrâneo Debussy.
Quando dei por mim, lá estava eu tocando e viajando em pensamentos sobre pessoas, mais precisamente garotos de olhos profundos e hipnotizantes. Por que eu não conseguia parar de pensar nele? O que estava acontecendo comigo, afinal? Eu precisava de uma vez por todas falar com aquele garoto, antes que todo aquele mistério me matasse. O dia seguinte, eu poderia simplesmente cumprimentá-lo e começar um papo sobre o tempo. É, talvez eu fizesse isso.
Acordei como um zumbi no dia seguinte. Minha cabeça girava de dor e isso significava uma coisa: resfriado. E era tudo culpa da janela da varanda que eu tinha esquecido aberta, depois de olhar as estrelas pelo telescópio. Continuei no meu estado zumbi durante as orações e o café, sem nenhuma vontade de comer cereal ou o sanduíche de pão sírio de Bridget. Coloquei fones no ouvido quando entrei no carro e não troquei nenhuma palavra com Ben ou Larry. Parecia que minha cabeça estava sendo esmagada por um rolo compressor a cada minuto.
Quando finalmente chegamos na escola, Ben despediu-se com um "melhoras, mana." e foi se encontrar com os amigos do basquete. Abri a porta do armário e tirei alguns cadernos de lá e quando fechei a porta me assustei com a pessoa que também pegava seus cadernos no armário ao lado do meu. Era muita coincidência o armário de ser bem ao lado do meu. Terminei de fechar a porta com um pouco mais de força e ele pareceu se assustar, enquanto virava os olhos pra mim e me encarava profundamente.
- Oi. - Era a falta de oxigênio na cabeça, eu tinha certeza... Por que diabos eu disse aquilo?
Ele franziu a testa e deu um pequeno sorriso e dessa vez, não era aquele convencido que sempre brincava em seus lábios e sim um que parecia quase um cumprimento.
- . - Alguém gritou e ele se virou, correndo para encontrar outros três garotos.
Bati com meu caderno de Álgebra em minha testa, com certeza eu estava ficando louca.
- Atchin.
- E aí, como você está? - perguntou, aparecendo em minha frente
- Como se um rolo compressor esmagasse minha cabeça. - Eu respondi, com uma voz mais baixa que o normal.
- Quer ir até a enfermaria? - ofereceu, enquanto andávamos até nossa sala.
- Eu estou bem. - Sorri fraco, entrando na sala. Mr. Andrews não parecia tão fofinho hoje.
Decidi que não agüentaria mais uma aula de Álgebra, então pedi ao Mr. Andrews se podia ir à enfermaria. Apesar de não fazer idéia de onde ficava, eu acharia de algum jeito. Já mencionei como o Latymer era grande? Parecia um campus de faculdade e nesse momento só o que eu via era grama e árvores, mas nada de enfermaria. Ao longe, enxerguei um garoto sentado embaixo de um carvalho. Não demorou muito para que eu percebesse que era ninguém menos do que . O destino era engraçado e estava brincando comigo. Não sei muito bem, mas no minuto seguinte minhas pernas simplesmente me conduziram até lá, sem que meu cérebro estivesse consciente disso. Postei-me à sua frente e ele levantou seus olhos até encontrar meu rosto.
- Olá. – Eu disse, tentando um sorriso. – Bom, você deve estar se perguntando por que eu estou aqui e... bom, se você quiser que eu vá embora, eu estava mesmo à procura da enfermaria, até porque com certeza eu seria a última pessoa com quem você gostaria de conversar e... - Eu disparei a falar e fazer gestos, sem pensar no que estava realmente dizendo. – Mas espera, eu não preciso sair, você tem um problema comigo! E afinal, qual é esse problema, hein? Você por acaso esconde alguma coisa? Ou simplesmente acha legal ficar "brincando"? É alguma coisa no meu cabelo? – Perguntei, colocando as mãos na cabeça. – Eu não acho que tenho um problema, você que é estranho. - Terminei meu monólogo e cruzei os braços. E ele estava rindo. Ai que raiva, ele não devia rir!
- Acho que nunca vi alguém falar tanto e tão rápido. - disse, ainda rindo e se levantando para ficar de frente para mim. Sua voz era como música para meus ouvidos. Porém eu devia me concentrar em ficar brava com ele naquele momento.
Abri minha boca algumas vezes, indignada. – Eu... Você não sabe manter um diálogo normal sem ofender as pessoas?
- Ah, me desculpe se eu te ofendi, peço desculpas. - Ele colocou a mão sobre o peito e fez uma reverência irônica. - Qual seu nome?
- Weiss-Schwartz... Espera, você está fugindo do assunto... Qual é seu problema, hein? - Perguntei, chegando um pouco mais perto dele e levantando a sobrancelha.
- Eu sou e só estou mantendo um diálogo normal. - afirmou, sorrindo com o canto dos lábios. - Tudo que você precisa saber é: seja esperta e fique longe de mim.
- Vamos dizer que eu não sou esperta, o que você quer dizer com isso? - Coloquei minhas mãos na cintura, ainda o desafiando. Nós estávamos a poucos centímetros um do outro.
- Que eu estou tentando fugir de você e você não está facilitando as coisas. - respondeu e eu continuei indignada. Como ele podia ser tão... tão... grosso!
- Fugir de mim? Eu por um acaso te fiz alguma coisa?
- Não, mas se continuar insistindo nisso... - E deixou a frase morrer.
- Você é algum tipo de vidente? - Franzi a testa para ele. Seus olhos se levantaram do meu rosto e avistaram alguma coisa atrás de mim.
- Nós temos que sair daqui. - afirmou e eu me assustei. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ele puxou meu braço. - Agora.
A ausência do sol me assustou. Nós estávamos novamente dentro do prédio da escola e eu não fazia idéia para onde estava me levando. No minuto seguinte a última coisa que vi foi abrindo uma porta, praticamente me empurrando para dentro e depois fechando-a atrás de si. Era um armário de coisas de limpeza extremamente apertado, o que fazia com que eu sentisse a respiração descompassada dele bater em meu rosto e nossos corpos ficassem a menos de 10 centímetros de distância.
- O que aconteceu? - Perguntei, ainda respirando ofegante.
- James, o zelador, com certeza nos entregaria. - respondeu, desviando o olhar.
- Está um pouco apertado aqui. - Comentei, sabendo que ele tinha consciência disso.
- É só o tempo de acabarem as aulas. - disse, parecendo muito desconfortável ali.
Numa tentativa de mexer minha perna, ela acabou roçando na perna de .
- Me desculpe.
Ouvi ele respirar fundo, parecia muito mais desconfortável do que eu.
- Tudo bem.
- ... - Eu o chamei e se assustou ao me ver pronunciar seu nome e voltou a me encarar. - Você não precisa fugir de mim. - Por que diabos eu estava insistindo naquilo? Eu tinha algum problema mental ou simplesmente estava me fingindo de boba?
- Você não entende. - Ele falou, balançando a cabeça.
- O quê? O que eu não entendo? - Perguntei, irritada.
O sinal que anunciava o fim das aulas tocou e levou sua mão a maçaneta, abrindo a porta e saindo daquele armário o mais rápido que ele pode, sumindo entre as pessoas.
Respirei fundo e bufei. De uma coisa eu estava certa: eu estava ficando completamente maluca. A minha curiosidade havia aumentado, tinha um problema comigo e eu queria descobrir, provavelmente não sossegaria até isso acontecer.
- . - Ouvi três vozes me chamarem e acordei de meus pensamentos.
- Oi, meninas. - Falei, sorrindo para elas.
- Está melhor? - perguntou, sempre solidária.
- Um pouco. - Eu afirmei. - Vamos comer? Estou morta de fome. - E elas concordaram e nós fomos juntas para o refeitório.
's P.O.V
Minha bicicleta finalmente me levou a algum lugar. Joguei-a de lado e sentei em uma pedra qualquer, da onde eu estava podia ver praticamente a cidade inteira. Cara, eu não podia fazer aquilo comigo mesmo de novo. Aquela garota estava despertando alguma coisa em mim e eu não podia deixar que isso acontecesse. No momento eu precisava estar focado no que eu queria para o resto da minha vida, eu tinha uma chance e por mais que eu pudesse ter sentido alguma mísera coisa por , eu não devia me desviar. A música, o meu futuro, a minha banda e o nosso sucesso, isso era o que mais importava pra mim agora e eu não precisava de uma garota para bagunçar minha cabeça.
Meu celular vibrou em meu bolso e eu o tirei de lá, vendo no visor o nome de .
- , onde você se meteu, dude?
- Longa história. - Afirmei. - Eu não vou voltar pra escola, encontro vocês no carro do mais tarde.
- Cara, não vá se meter em confusão. - disse, parecendo minha mãe. Ele tinha essa mania de querer mandar em nós como uma mãe mesmo, sempre gostara de ter o poder.
- Você está falando comigo, , eu nunca me meto em confusão. - Eu garanti. - É sério, está tudo bem e diga a Mrs. Fournier que eu mando beijos.
- , você não presta. - disse, rindo. - Até mais. - E desliguei.
Capítulo 3 – Tinha uma garota nova na cidade, ela tinha tudo decidido;
's P.O.V.
Dirigi-me para a última aula do dia. Meu resfriado estava me matando e eu consegui o recorde de 6 espirros por vez. Mr. Richards perguntou se eu estava bem o suficiente para assistir à sua aula e eu menti, dizendo que sim. Sentei-me no mesmo lugar do dia anterior e depois que Mr. Richards fechara a porta, percebi que não estava lá na última carteira, da última fileira. Bom, aquilo não devia importar pra mim e eu devia estar mais interessada na explicação que o professor já começara a dar, porém eu ainda pensava sobre o que havia acontecido mais cedo.
Mas logo forcei-me a deixar todos esses pensamentos de lado e prestar atenção à aula, com certeza a Revolução Russa era mais importante. Ou pelo menos devia ser.
Os minutos passaram extremamente lentos e eu não pude acreditar quando finalmente o sinal que dava fim a todas as aulas do dia soou. Não me leve a mal, eu amo História e Mr. Richards é um excelente professor, mas eu realmente precisava ir pra casa.
Encontrei ao sair da sala e nós começamos a conversar, enquanto íamos até o estacionamento.
- . - Nós ouvimos alguma voz a chamar e viramos rapidamente. Era um dos amigos de e quem eu lembrava ter o nome de . Os cabelos dele eram tão bagunçados quanto os de e assim como todos os outros, desrespeitava o uso do uniforme inteiro. E principalmente, era bonito e charmoso, como os outros ao seu lado.
- Nos falamos mais tarde. - me disse e despediu-se de mim, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, andando rápido até .
Levantei meus ombros e continuei andando a procura de Larry, finalmente o encontrando um pouco longe.
- Olá, Larry. - Eu o cumprimentei, quando ele, sorrindo para mim, abriu a porta do carro.
- Olá, senhorita. - Larry devolveu, fechando a porta para logo entrar no carro, onde Ben já estava, e sair dali.
- Está melhor? - Ben me perguntou, virando-se do banco do passageiro.
- Estou sim. - Menti mais uma vez. Se eu dissesse que não, provavelmente os dois me levariam em um médico e tudo que eu precisava era apenas minha cama.
Ben sorriu para mim e virou-se novamente para frente, apertando o botão de ligar o rádio e deixando qualquer música da rádio tocar. Nós tínhamos esse privilégio com Larry, ele era o único que nos deixava ouvir nossas músicas, já que papai sempre nos forçava a escutar a radio judaica.
Chegamos em casa e eu abri um sorriso ao ver o Lamborghini de meu pai estacionado lá. Entramos em casa e tudo parecia um pouco quieto, até que vi meus pais descerem as escadas. Meu pai, Joseph, tinha apenas 46 anos, mas a aparência de um homem de mais de 60, com sua enorme barba escura e seu kipá sempre na cabeça (Ele sempre diz que é para lembrar a presença de D'us). Minha mãe, Sarah, reluzia beleza, porém sempre coberta de muitas roupas escuras.
Nós fizemos a reverência, enquanto meu pai beijava nossas cabeças e nos abençoava. Ele ainda parecia tão animado quanto no dia em que chegamos e eu suspeitava que era por ele estar de volta a sua terra natal.
- Shalom aleikhem, papa. - Eu disse, sorrindo.
- Aleikhem shalom, minha filha. - Meu pai devolveu o sorriso. - Venha você e Benjamin nos contar sobre a escola. - Ele passou o braço pelos meus ombros e me conduziu até a sala de jantar.
Nos sentamos ao redor da grande mesa, onde ficava um dos vários Menorás que tínhamos e papai e mamãe pareciam excitados. Olhei para Ben e percebi que ele não ia falar nada.
- A escola está sendo bem legal. - Eu afirmei, balançando a cabeça afirmativamente.
- E você encontrou outras garotas judias? Talvez nós possamos conhecer a família... - Minha mãe ia dizendo, animada. Vi Ben bufar baixinho.
- Vocês pararam para pensar que poderia ser legal se tivéssemos outros tipos de amigos? Que sejam goys [não-judeus]? - Ben perguntou. Eu abaixei a cabeça, sabia exatamente aonde aquilo chegaria.
- Goys? - Meu pai quase gritou. - Faz eras que nosso povo sempre foi unido, confraternizando-se um com os outros, nós não precisamos de pessoas de outra religião, Benjamin.
- Nós sempre tivemos amigos judeus, como nós poderíamos tolerar pessoas de outra religião em nossa casa? - Minha mãe também argumentou. Ben sabia que já havia perdido, então apenas abaixou a cabeça.
- Por que nós não colocamos o Mezuzá na porta? Nós ainda não fizemos isso! - Eu disse, tentando desviar o assunto.
- Boa ideia, , vou pedir à Bridget. - Minha mãe afirmou e se levantou, logo sendo seguida por meu pai.
Alguns minutos depois, lá estávamos nós do lado de fora de casa enquanto Larry pregava com cuidado a caixa com o pergaminho. Virei-me para o lado oposto onde estavam meus familiares e arregalei meus olhos. Lá estava , vindo na nossa direção e quase atravessando a rua. Ela, e haviam me dito que moravam todas ali perto e eu dera meu endereço à nesse dia.
- Pai, eu acabei de lembrar de uma coisa que eu preciso fazer. - Eu falei tudo muito rápido.
- Agora? - Meu pai perguntou, já estava pronto para começar a oração.
- Sim, na-a... biblioteca. - Inventei e comecei a andar em direção a .
- ... - começou e eu a segurei pelos ombros e a empurrei até virarmos a esquina. - O que você está fazendo?
- Desculpe, eu.. minha casa está passando por uma pequena reforma... - Inventei mais uma vez. Mentir assim era horrível e ia contra todos meus princípios. continuou com um olhar de desconfiança pra mim. - Vamos dar uma volta?
levantou os ombros.
- Tudo bem.
E nós começamos a andar pelo bairro.
- Me diz. - Eu falei, sorrindo.
- O quê? - Ela se fingiu de desentendida.
- O que foi conversar com um daqueles garotos? - Continuei sorrindo e parecendo interessada.
suspirou e disse baixo:
- é meu primo, não exatamente meu primo, é apenas de terceiro grau ou quarto grau e meu pai vende imóveis e ele veio pedir para que eu falasse com papai sobre uma casa que e os amigos estão querendo alugar.
- E por que você não me disse que vocês eram primos? - Perguntei, chocada.
- Por que você não me perguntou! - respondeu e nós rimos. - Nós costumávamos ser muito amigos, mas hoje mal nos falamos. - Ele vive naquela bolha dele e de seus amigos. - Ela me contou, chutando algumas pedrinhas da calçada.
- Ah, , sinto muito. - Eu disse, ela parecia visivelmente desapontada com aquilo.
- Não precisa sentir, está tudo bem, eu não ligo. - E tentou um sorriso, que não me convenceu. - Bom, quer ir lá pra casa?
- E-eu... não dá. - Mordi o lábio. - Meus pais estão em casa e eu nem avisei que ia sair.
sorriu.
- Ok, te vejo amanhã na escola? - Ela parou de andar.
- Com certeza. - Sorri e me despedi dela, indo pelo caminho oposto. - Atchin! - Eu ainda precisava cuidar desse resfriado.
Meus pés me guiavam pelo corredor da escola sem a minha consciência. Bocejei uma, duas vezes. Eu havia ficado no Instituto no dia anterior até muito tarde e o que me deixara pouco tempo para fazer meus deveres da escola. Era sexta-feira e já fazia quase uma semana que eu estava ali. Avistei meu armário e a pessoa ao lado dele: . Aquilo era no mínimo cômico. Talvez a história de que ele tinha um tipo de campo magnético fosse verdadeira, por que destino? Eu não acreditava em destino e sim em escolhas certas. E a minha escolha naquele momento foi ir até lá e me postar na frente dele.
- ! - exclamou, um pouco surpreso. Durante o resto da semana eu não havia mais falado ou o visto, a não ser pelas aulas de História, em que ele continuava sentando completamente distante de mim e totalmente rígido, levantando-se assim que o sinal tocava.
- Olá. - Cumprimentei, sorrindo. - Resolvi vim fazer isso, já que você não faz.
- Ahn? - franziu a testa.
- Dizer oi, sabe, você é muito bipolar, eu não te entendo. - Eu falei, balançando a cabeça.
- Cara, eu já disse. - E ele começou a andar e eu o segui. - É melhor que você fique longe.
Abri a boca sem emitir som algum, tentando procurar alguma coisa pra dizer.
- Hún. - E saí dali, no minuto que o sinal anunciou o começo das aulas.
's P.O.V
Ela estava me deixando louco, isso era fato. Havia milhares de pessoas com quem ela poderia se confraternizar naquele colégio, por que raios insistia em vir falar comigo? Cada vez que ela se aproximava, aquele cheiro, aquelas pernas, aqueles olhos, tudo nela me atraía. Mas eu estava decidido a não ceder e eu precisava dar um jeito de fazer com que ela não me procurasse mais.
- . - Ouvi um dos garotos me gritar e me virei, vendo os caras parados mais ao longe.
- Cara, o tio do está procurando nossa casa. - disse, vibrando quando eu cheguei perto deles.
- Imagina, poder fazer barulho a hora que quiser, ensaiar, comer besteiras, dar festas... - dizia, sonhando e deu um tapa em sua cabeça.
- É, bem legal. - Afirmei, olhando para trás, mas não estava mais em meu campo de visão.
- , há algo de errado com você? - perguntou, me fazendo olhar para eles de novo.
- Claro que não, caras. - Eu disse, levantando as mãos. - Nós vamos ter nossa própria casa e logo vamos gravar uma demo, a sorte está do nosso lado.
- "Well, it's just my luck, yeah, yeah.." (Bom, é apenas a minha sorte, yeah, yeah) - cantou, fazendo uma dancinha ridícula e nós rimos, andando até o inferno, lê-se: primeira aula do dia.
's P.O.V.
O céu azul dava lugar a um sol que estalava de tão reluzente. Ninguém estava no refeitório, logo , , e eu nos dirigimos aos jardins, ouvindo uma história que contava sobre uma viagem. Enquanto tomei mais um gole daquele suco de caixinha, olhei ao meu redor. Lá estava Carter, o tal fotógrafo do primeiro dia e seus amigos, eles tinham imitações de sabres de luz nas mãos e fingiam uma luta, enquanto outras pessoas os observavam e riam, mas eles não pareciam se importar. Vi ao longe Ben e alguns garotos que vestiam moletons com o símbolo da escola e o nome do time de basquete. Ele me parecia feliz e eu estava feliz por ele.
Um vento ligeiramente gelado passou por nós e levantou um pouco minha saia (que parecia ser bem mais comprida que a das outras meninas), me fazendo corar e puxá-la para baixo. Quando levantei meus olhos, encontrei e seus amigos parados e nos encarando. Não tinha visto que estavam tão perto até poder ouvir o cochicho de um deles. As meninas também pareceram perceber a presença deles, pois lançaram um olhar que os analisava, com um pequeno sorriso no rosto e voltaram a conversar. Eu, porém, já estava novamente perdida nos olhos de . Ele com certeza me achava uma completa idiota, já que eu devia estar com cara de idiota naquela hora. Pareceu passar várias e várias horas que nossos olhos se cruzaram, mas não foram nem dois segundos, para que eu me desse conta que devia estar seguindo as garotas.
's P.O.V
- , sua prima e as amigas estão cada dia mais.. - Ouvi começar e logo o cortou.
- Presta atenção no que você vai falar. - advertiu e eu finalmente saí daquela coisa maluca que eu me encontrava, dando uma risada.
- Bonitas, cara, eu só ia dizer bonitas. - afirmou, meio emburrado.
- E parece que elas adotaram a novata. - disse e eu olhei para ele, franzindo a testa.
- É . - Eu falei baixo, sem prestar muita atenção no que realmente eu estava dizendo.
- Que é, ? - perguntou, levantando uma sobrancelha pra mim.
- O nome da novata é . - Repeti, agora um pouco mais alto e vi eles fazerem caras de confusão. - Ela tem História comigo.
E logo as caras deles se transformaram em compreensão e eu esperava as piadinhas.
- Ela parece ser legal. - disse e eu bufei, era só o que me faltava: os caras quererem ser amigos dela.
- Você podia chamar sua prima e as amigas pra sair, , sei lá, um dia.. - ia dizendo, como quem não quer nada.
- Dude, a não troca mais do que um "oi" comigo, você acha mesmo que elas iam querer sair com a gente? - balançou a cabeça em negação e nós sabíamos que não devíamos falar mais nada, ele estava certo.
- Nós temos jogo hoje. - nos lembrou e eu joguei minha cabeça pra trás.
- Certeza? - Perguntei e vi os três afirmarem.
Capítulo 4 – É apenas meu coração, salve você mesma, é apenas meu coração;
's P.O.V.
- Eu vou ligar para o Larry para avisar. - Eu disse, tirando meu celular de minha mochila e começando a discar os números.
- Nós temos MESMO que ir? Eu estou com fome. - reclamou, enquanto nós andávamos até o campo de rúgbi.
- , você comeu uma barrinha de cereal faz menos de meia hora. - a repreendeu, rindo.
- E depois nós não podemos perder a chance de ver os garotos do Palmers Green. - afirmou, referindo-se ao time adversário de nossa escola.
- Sua traidora. - apontou pra amiga, que mandou língua pra ela e as duas começaram a fazer caretas.
Desliguei o celular quando finalmente chegamos ao campo e fomos direto pra arquibancada. Eu não era a maior fã desses tipos de jogos, parecia violento demais pra mim, eu só estava indo por causa das meninas e principalmente por que não queria ter que ir pra casa e ficar sozinha.
- Vamos sentar ali. - apontou para o meio da arquibancada e nós a seguimos.
- Tomara que o Jake esteja jogando. - disse, com voz de sonhadora.
- Quem é Jake? - Perguntei, franzindo a testa.
- Ele. - E apontou para um garoto que entrava no campo de uniforme verde, ombros largos, cabelos loiros claríssimos e mandava beijos para a arquibancada, onde algumas meninas gritavam.
- Vocês têm que parar de flertar com o adversário. - falou e apontou para o time da nossa escola que agora entrava com uniforme vinho.
- Ok, com quem eu devo flertar, então? ? - perguntou, sarcástica e apontando para o campo, mas calou-se.
Arregalei meus olhos e os virei para o campo novamente, dentre os 15 jogadores havia 4 que eu já conhecia. Eles conversavam e se jogavam uns contra os outros e eu não segurei uma risada.
O apito para o começo do jogo soou e eu vi alguém com uniforme vinho sair correndo com a bola na mão e logo percebi que era . Jurei ter sentido se aprumar e parecer mais interessada no jogo, mas isso era só um pensamento meu. A bola ia passando na mão de vários garotos de uniforme vinho e eu vi a mim mesma começar a vibrar por dentro. E finalmente chegaram até o arco, ultrapassando-o e colocando a bola no chão para marcar o primeiro ponto. A arquibancada inteira ao meu lado vibrou, inclusive as meninas.
Alguns minutos mais tarde, nossa escola vencia por muito pouco e nesse exato momento eu via um garoto de uniforme verde correr com a bola debaixo do braço. Fiz uma careta ao ver vários jogadores se jogarem sobre ele tentando pegar a bola, mas sorri ao ver que no meio de todos, um de uniforme vinho conseguir sair e segurando a bola. Ele colocou-a no chão, convicto de que conseguiria marcar aquele ponto e chutou. A bola ultrapassou mais do meio do campo e finalmente passou por cima da trave.
Nós quatro nos levantamos num impulso aplaudindo e eu coloquei minhas mãos nos ouvidos, tentando abafar a gritaria. Firmei minha visão e pude enxergar que quem havia feito o ponto fora nada mais nada menos que , que no momento era abraçado pelos colegas do time e tinha um sorriso enorme no rosto. Senti um sorriso involuntário formar e ele olhou para a arquibancada, vi o olhar dele cair sobre mim e abaixei a cabeça, visivelmente nervosa. O que estava acontecendo comigo? Eu mal conhecia aquele garoto, porque ele tinha um efeito tão grande sobre mim? Quão patética eu era?
Fim de jogo e o Latymer havia conseguido desempatar quase no último minuto. Todos desciam das arquibancadas conversando animados sobre a partida e eu apenas escutava enquanto as meninas suspiravam por cada jogador.
Passávamos pelos vestiários de onde saíam muitos garotos com mochilas nas costas e uniformes molhados. Um garoto que eu lembrava ter Álgebra comigo e , se jogou em nós e tentou abraçar , que corria dele enquanto nós ríamos.
- . - Ouvi uma voz aveludada vir das minhas costas e me virei. estava parado na porta do vestiário, de onde devia estar saindo o último garoto. Ele fez sinal com a cabeça para dentro e franzi a testa, abaixando a minha cabeça e meio contrariada, seguindo-o para dentro do vestiário.
Eu estava certa, o vestiário estava vazio e eu ainda me perguntava porque estava ali, ou melhor, porque raios havia me chamado ali. Ele parou de andar e finalmente virou-se pra mim. Eu ainda tinha minha testa franzida.
- Belo jogo. - Eu disse, vendo que ele não dizia nada. - Eu nunca fui muito fã de rúgbi antes, mas vocês são bons.
- Obrigado. - sorriu, sincero.
O silêncio perdurou alguns minutos e eu resolvi quebrá-lo, vendo que não diria mais nada de novo.
- Bom, se você vai ser estranho assim de novo, eu realmente preciso ir, meu moto... - Mas antes que eu conseguisse terminar, ele começou a falar.
- Cara, eu.. - respirou fundo. - Eu estava falando sério quando te pedi para ser esperta e ficar longe de mim.
Eu franzi ainda mais a testa.
- Tudo bem. - Eu levantei meus braços. - Mas antes eu gostaria de saber o motivo. - E coloquei as mãos na cintura, chegando mais perto dele e esperando uma resposta.
- Eu já disse, você não entenderia... - Ele chutou o chão, parecia ser muito difícil pra ele dizer aquelas coisas e isso só me deixava mais confusa.
- , eu não sou burra, tenho certeza que posso entender! - Afirmei, com um tom um pouco mais alto. - Olha, eu só achei você legal, com esse seu jeito de fazer piada até de coisas sérias, como se você se camuflasse com isso e, por incrível que pareça, toda grosseria que você me diz, não parece me atingir... Pensei que pudéssemos ser amigos.
balançou a cabeça, daria tudo pra poder ler seus pensamentos naquela hora.
- Era isso... - E ele apontou pra mim. - Era isso que não podia acontecer! E... e se eu dissesse que nós não podemos ser amigos? N-nós não podemos ter nenhuma relação, ! Por favor, não dificulte as coisas, fique o mais longe que você puder de mim e salve a você mesma.
Eu arregalei meus olhos.
- , o que...
- Eu não quero você perto de mim! - Ele falou ríspido e me deu as costas, saindo do vestiário.
Meus olhos estavam marejados e eu franzi a testa, não era uma pessoa fácil de chorar. Balancei minha cabeça, mas alguma coisa dentro de mim doía e as palavras dele ecoavam na minha cabeça. "Eu não quero você perto de mim". Dei dois passos pra trás e passei correndo pela porta do vestiário, notando que não havia mais ninguém no campo. Continuei correndo até que meus pés finalmente alcançaram o estacionamento e meus olhos enxergaram Larry encostado no Lexus me esperando. Coloquei postura em meu corpo e respirei fundo, andando até lá com toda a classe que minha mãe me ensinara a ter nessas horas. Sorri para Larry quando ele abriu a porta e apenas me sentei, olhando o estacionamento da escola ficar para trás.
Eu meio que estava em choque e ao mesmo tempo muito confusa. Queria tantas explicações e ao mesmo tempo não queria. Por que afinal parecia tão perturbado com a minha presença? O que eu tinha feito de errado? Qual era o problema comigo que eu não conseguia enxergar?
Mas eu estava decidida, se ele realmente não queria nenhuma relação comigo, eu também não queria. Eu não sabia nem o verdadeiro motivo que me levava até ele, eu podia muito bem me livrar dessa minha curiosidade por meninos misteriosos da escola. E esse era apenas um dos motivos que eu acreditava me levar a ele e o outro eu não me atrevia a pensar e muito menos considerá-lo. Bom, e como ele mesmo disse, eu não ia dificultar as coisas, simplesmente não era pra ser. E eu não ia mais ficar preocupada com um cara louco que parece ter um campo de força me impedindo de ficar perto dele. pra mim não ia mais importar e eu iria ficar o mais longe que pudesse dele.
's P.O.V
Passei reto pelos caras que me olharam com uma cara esquisita, mas eu ia andando pra casa. O rosto com que me encarara enquanto eu agia feito um anormal ainda estava vivo em minha mente. Mas eu tentava convencer a mim mesmo que havia feito a coisa certa, causava um efeito muito grande em mim, uma coisa que nem eu sabia explicar direito e com certeza era a passagem certa para aquilo que eu mais temia. Eu havia prometido a mim mesmo, nada mais de garotas até que a banda desse certo e era inevitável que se eu ficasse perto dela, eu não poderia me controlar. Mas assim era melhor, por mais que eu tivesse machucado seus sentimentos. Era melhor que ela sentisse raiva de mim e isso me ajudaria.
O resto da tarde só serviu para me deixar irritado, já que eu havia tentado, sem sucesso, escrever uma música nova e tudo que vinha na minha cabeça eram letras sobre .
- Droga. – E outro papel quase atingiu a cesta de lixo.
's P.O.V.
Toda aquela confusão e vontade de chorar haviam sumido e agora eu sentia raiva de . Por ter me dito todas aquelas coisas, mas principalmente por ter aparecido em minha vida. Eu não queria mais pensar nele, era apenas um garoto qualquer que não fazia diferença e é assim que as coisas deviam ser.
Coloquei minhas botas de montaria nos pés e saí do quarto, só havia uma coisa que me acalmaria naquele dia e se chamava: Leon, meu cavalo.
Capítulo 5 - De volta para você, eu tentei te esquecer, eu tentei ficar longe, mas é tarde demais;
Um mês. Fazia praticamente um mês que eu havia me mudado para Londres. Eu não havia parado para pensar no tempo ainda, parecia que ele havia praticamente voado. Eu quase já podia chamar minha casa e toda a cidade de lar, tão confortável como eu estava ali. Ben e eu tínhamos bastante tempo juntos, mais do que antigamente e aproveitávamos para andar de bicicleta, a cavalo e ir até o Instituto. Fazia menos de uma semana que meus pais estavam fora, em um condado um pouco longe de Londres. Eu continuava sentindo a falta deles, porém menos do que antes, já que agora além de Ben, Larry e Brie, eu ainda tinha , e .
As garotas costumavam dizer que eu era a peça que faltava na vida delas e eu ficava extremamente feliz. Porém, logo uma tristeza me abatia quando ou me chamavam para ir até a casa delas e eu tinha que recusar. Era totalmente odioso manter aquela amizade escondida de Larry, Bridget e meus pais, mas eu tinha certeza que se queria continuar ao lado delas, era assim que deveria ser.
E finalmente eu não pensava em . Eu mal olhava para o lugar de sempre dele na aula de História e havia imaginado que ele mesmo pedira para trocar seu armário de lugar. Resumindo, eu quase não o via mais e me recusava a ficar há um metro que fosse dele. Eu estava fazendo exatamente o que ele havia me pedido.
- Vamos lá, , não há nada de errado em sair com a gente. - dizia, enquanto me empurrava de um lado para o outro e eu ria.
Era sexta-feira e nós andávamos até os portões da escola, abarrotados de gente. Eu sabia que Larry estaria me esperando naquele estacionamento e era bom eu começar a inventar uma desculpa muito boa se quisesse aceitar sair com as garotas.
- Ok, ok, vocês venceram. - Eu afirmei, levantando os braços e elas vibraram, batendo palminhas. - Me dêem um minuto. - Eu fiz "um" com o dedo e saí em disparada para o estacionamento, já avistando Larry parado em frente ao Lexus.
- Olá, senhorita. - Larry me cumprimentou, sorridente e eu retribuí o sorriso, começando a pensar no que diria pra ele.
- Hmm.. Larry, eu não vou para casa agora... - Comecei, eu não era boa com mentiras, nunca fui.
- Não vai, senhorita? Mas... - E Larry foi interrompido por Ben, que havia se postado ao meu lado.
- Está tudo bem, Larry, a e eu vamos ao cinema. - Ben disse rápido e eu fiquei espantada como ele parecia confiante. - É perto daqui, você não precisa se preocupar. - E acrescentou, vendo que Larry não havia sido completamente convencido.
- Tudo bem, se vocês insistem. - Larry cedeu e entrou no carro, enquanto acenávamos. Puxa, eu já tinha 17 anos e com certeza era tratada como uma criança de 10.
- Obrigada. - Eu disse para Ben e ele sorriu.
- Não tem problema, maninha, anda logo vai. - Ben me empurrou e eu corri de volta para as garotas.
- Bom, aonde nós vamos? - Perguntei, fazendo-as pararem de falar.
- Vem, você vai ter que esperar pra ver. - E elas me puxaram para o primeiro ponto de ônibus perto da escola.
's P.O.V.
- Eu vou fritar. - reclamou, puxando a gola de sua camiseta e se abanando.
Nós estávamos na minha casa ensaiando e, bem, meu pai nunca havia se dado o luxo de por um ar condicionado no porão e, por isso, havia largado seu instrumento e estava jogado em uma cadeira com uma latinha de coca-cola na mão, estava com a cara dentro do frigobar e eu continuava com o violão dedilhando algumas coisas.
- Desiste, , ninguém mais tá disposto pra ensaio. - falou, com a voz abafada por estar com a sua cara no frigobar. Bufei e larguei o violão.
- Tá, então o que os gênios querem fazer? - Perguntei, sarcástico.
- Hey... - levantou da cadeira e nós o encaramos como se ele fosse o ser mais estranho do planeta. - Eu conheço um lugar, vai espantar o calor e... - Ele sorriu.
- E? - perguntou, dando um tapa na cabeça dele.
- Vocês vão ter que ver. - tirou a chave do carro de seu bolso e nós levantamos na mesma hora, seguindo ele.
's P.O.V.
Os prédios estavam sumindo e começavam a dar lugar as plantações, ovelhas e casas. Eu franzi a testa, me perguntando aonde nós estávamos indo, nunca havia andado de ônibus antes e podia parecer bobo, mas era divertido. , que sentava ao meu lado no ônibus, viu minha expressão e sorriu.
- É um lugar que eu vinha quando era menor, melhor que a piscina nesse verão. - Ela disse, puxando os cabelos pra trás e fazendo um coque.
- Mas o quê... - Eu ia dizer quando o ônibus parou e me puxou para fora dali. e vieram atrás da gente e eu fiquei admirando a paisagem natural à minha volta.
- Vem... - me chamou de novo e eu as segui. - Olá, senhor Winkleman. - Ela cumprimentou um senhor que abriu uma porta gigantesca de madeira que tinha um placa dizendo "Bem Vindo à St. Austell Hill".
- . - Ele tirou o chapéu e nós começamos a correr por toda aquela grama que cobria o vilarejo. Após alguns minutos de caminhada, em algum lugar ali perto, eu conseguia ouvir um barulho alto e tudo se confirmou, quando, depois de passarmos por alguns arbustos, consegui ver um rio enorme, com uma cachoeira ao fundo.
Eu sorri.
- Legal, né? - perguntou, tirando seus sapatos.
- Muito! - Eu exclamei e me abaixei para tocar a água. Estava congelante.
Quando me levantei novamente, , e estavam apenas de lingerie, prontas para pular na água.
- O que vocês estão fazendo? - Franzi a testa, vendo empurrar na água.
- Tudo bem, , quase ninguém vem aqui. - afirmou e pulou graciosamente na água.
- É um lugar que o... - começou, mas mordeu o lábio. - um amigo descobriu. - E sorriu pra mim, tentando me convencer. Olhei para a água e depois para meu uniforme, de novo pra água e para meu uniforme. Por fim, puxei minha gravata e a tirei pelo pescoço, enquanto se atirava na água e elas gritavam. Desabotoei minha camisa, tirei meus sapatos, minhas meias e minha saia incrivelmente rápido e no minuto seguinte, estava atirando água em , às gargalhadas.
's P.O.V
- , você disse que ia espantar o calor, não fazer ele aumentar! Eu tô cansado de andar, cara. - Eu disse, colocando as mãos no joelho.
- É, , onde nós estamos, afinal? - perguntou, fazendo cara de nojo ao tirar uma folha com um bicho de sua roupa.
- Parem de reclamar, seus maricas, nós chegamos. - apontou para uns arbustos e se apressou, empurrando as plantas e mostrando uma paisagem muito, MUITO maneira. Um rio, árvores, pedras e o mais legal... uma cachoeira.
- Ei, olha! - apontou para um amontoado de roupas. Pegou uma saia e franziu a testa.
- Roupas. - falou e eu revirei os olhos, puxa que gênio. - De garotas.
- Do nosso colégio? - levantou uma sobrancelha, pensando. Mas balançou a cabeça. - Deixa isso aí, . - Ele falou, jogando o tênis pra cima.
Eu já arrancava minha camiseta e jogava em qualquer lugar, ficando apenas de boxers e vendo tirar as meias. Sorri e cheguei perto dele e gritei em seu ouvido, fazendo o idiota se assustar e cair na água. Bom, ele me devia isso.
- , você é um idiota! - gritou, me mandando dedo. Sorri com a minha façanha, mas no segundo seguinte estava caindo na água fria, sendo empurrado por , que tinha sido empurrado por . As nossas risadas cessaram, porém um som agudo de novas risadas podia ser ouvido.
- Vocês ouviram isso? - Perguntei, olhando para os lados.
- Ih, ficou maluco de vez. - girou o dedo perto do ouvido. - , o anormal aqui é o .
- Hey! - pulou em cima de , dando um caldo nele.
- Calem a boca, eu também ouvi. - gritou, mas o som de risadas não foi ouvido novamente. - Bom, quem quer ir até a cachoeira?
E logo os três estavam se matando para ver quem chegava primeiro, balancei a cabeça e os segui.
's P.O.V. - < a target="blank" href="http://www.youtube.com/watch?v=Yu17HNXfsTM">Shania Twain - Man, I Feel Like A Woman
- "Oh, oh, oh, i wanna be free yeah, to feel the way i feel.." (Oh, oh, oh, eu quero ser livre yeah, para me sentir do jeito que eu me sinto...) - Nós cantávamos, ou melhor, gritávamos e fingíamos uma dança dentro da água.
se apoiou em uma pedra e subiu, fazendo uma pose sexy. - "Man, I feel like a woman!" (Cara, eu me sinto como uma mulher!) - Risadas.
- Ei, vamos até a cachoeira? - pediu, subindo na pedra e ficando ao lado de . as seguiu e eu continuei ali dentro, elas ficaram loucas que eu ia sair dali depois de finalmente ter acostumado com aquela água gelada.
- Encontro vocês lá. - Eu disse e mergulhei, começando a nadar até o outro lado, onde havíamos deixado nossas roupas.
Eu tinha sorte de ter aprendido a mergulhar de olhos abertos, ou eu nunca enxergaria nada a minha frente. Bom, e eu não sei se queria ter enxergado o que eu enxerguei naquela hora. Meus olhos haviam se fechado e quando eu os abri de novo, um pare de olhos incrivelmente cintilantes me olhavam, passando algum tipo de medo, mas ao mesmo tempo alívio. E eu conhecia aqueles olhos, podia fazer quase um mês, mas eu nunca poderia esquecer. Só quando nós dois emergimos e eu pude finalmente ver cada traço de , é que eu me convenci mesmo que era ele.
Mas aquele transe em que nós estávamos foi interrompido por um grito que havia vindo de alguma das meninas e nós rapidamente nadamos até lá. Eu sentia meu coração bater muito forte em meu peito, como se antes ele tivesse meio em "coma". Que sensação idiota era aquela.
- O-o que.. voc-cês estão fazendo aqui? - gaguejava e eu percebi que os amigos de também estavam ali. Parecia que todos estavam envergonhados e dentro da água novamente.
- Nós? O que vocês estão fazendo aqui? - Vi , um dos amigos de , retrucar.
- Eu venho aqui desde que tinha 6 anos! - rebateu, colocando-se na frente de .
- Você quer dizer... nós. - corrigiu e lançou um olhar pra ele que eu não consegui entender muito bem.
Eu sentia um par de olhos em cima de mim, fixos, porém eu não tinha coragem de me virar e encará-los.
- Legal, agora vai ficar esse clima chato? - , o último amigo, se pronunciou. - Nós ainda podemos nos divertir!
- Eu não tenho certeza disso. - Eu disse, olhando para mim mesma e meus trajes e as meninas concordaram. Nós nos mantínhamos a certa distância deles, nos cobrindo o máximo que podíamos.
- Tudo bem, vocês podem hmm... pegar nossas camisetas. - falou e pela primeira vez naquele dia desviou os olhos de mim. O que ele estava fazendo? Devia concordar comigo, para que nós pudéssemos ir embora.
Os garotos se entreolharam e balançaram a cabeça positivamente. Olhei para as meninas e elas também se entreolhavam, parecendo concordar com a ideia. Só eu estava sendo racional ali?
Bufei e comecei a nadar atrás delas até a margem onde estavam as camisetas dos meninos, perto de nossas roupas.
- Virem pra lá! - pediu, apontando. - Hmm... Por favor.
Ouvi os garotos bufarem baixo e virarem, enquanto nos apoiávamos nas pedras para sair da água. pegou uma camiseta preta com alguns desenhos, uma azul clara, uma outra azul marinho com alguns escritos e eu, quando fui pegar a última, uma camisa xadrez, jurei ter visto os 4 espionando, porém não tinha certeza.
- Pronto. - se pronunciou e eles se viraram. Todas as camisetas vinham até metade de nossas coxas, logo estávamos bem protegidas. Eles nos olharam por alguns segundos e eu senti o sangue concentrar em minha bochecha, tornando-as vermelhas.
- Ei, vocês ficarem bem. - quebrou o silêncio e nós sorrimos. - Com certeza melhor do que esses idiotas ficam. - E eles começaram a dar tapas na cabeça dele, enquanto nós ríamos.
- O que vocês estão esperando? Tem um cipó ali. - (o tarzan) disse, animado e nós nos olhamos, pulando na água e nadando atrás deles até a cachoeira.
Eram oito horas e começava a escurecer, eu havia acabado de olhar no painel do carro de . Sim, exatamente isso, no carro de era onde eu, , e estávamos. Ele tinha uma Pajero Sport, então não estávamos tão espremidos como devia parecer. Logo era eu ao lado de (engraçado, né?), que estava ao lado de , ao seu lado e no porta-malas. e dividiam o banco do passageiro e dirigia.
Bom, eu não podia dizer que havia sido uma tarde ruim, definitivamente não. Aqueles garotos, além do que eram por fora, eram muito mais por dentro e pareciam saber se divertir. Com o passar das horas, as meninas e eu havíamos nos soltado um pouco, principalmente quando tudo virara uma guerra de água que tinha rendido boas risadas. No final, oferecera uma carona, já que, de acordo com ele, seria ruim pegar um ônibus com roupas molhadas. Sim, nós ainda usávamos as camisetas deles, porém agora usávamos nossas saias da escola por baixo.
Eu olhava a rua passar rapidamente diante de meus olhos, enquanto no carro de tocava uma música legal, alguma coisa como "she's everything i ask for, everythig i ask for.." e todos conversavam, a não ser por mim e . Pra falar a verdade, nós não havíamos trocado se quer uma palavra, não diretamente pelo menos. Aquilo era muito estranho, eu não sabia nem ao menos explicar. Acho que nós dois ainda estávamos chocados com o "reencontro", mas ao mesmo tempo aliviados com ele. Bom, eu estava aliviada, não sabia dizer por que exatamente, ou se é que eu podia chamar aquilo que eu estava sentindo de alívio, mas era bom ter o joelho de roçando no meu naquele instante. Eu estava MESMO pensando isso?
- ... - Eu disse, me aproximando do seu banco. - Minha casa é a mais próxima da da , você pode me deixar lá primeiro? - Pedi, falando um pouco baixo.
- Claro. - Ele desviou a atenção para me dar um sorriso de afirmação e depois voltou para frente.
- Nós temos um show amanhã! - gritou, batendo em sua própria testa e fazendo todos calarem-se.
- Show? - perguntou e eu vi que ela, assim como todas nós, tinha a mesma expressão confusa.
- Nós temos uma banda. - explicou para nós. – Hmm... Se chama McFLY.
- McFLY... - começou, mas foi interrompida.
- Não, não é um lanche do McDonalds. - afirmou.
- Eu ia dizer como Marty McFLY, do filme...? - continuou perguntando. Pude ver corar pelo retrovisor.
- Na mosca. - afirmou, do banco da frente.
- Não somos famosos, nem de longe, mas fazemos alguns shows, sabe, meu primo consegue alguns lugares para tocarmos. - continuou explicando e nós finalmente entendemos.
- Isso é... bem legal. - Eu afirmei e vi e sorrirem em agradecimento. Jurei ter visto um pequeno sorriso aparecer no canto dos lábios de .
- Mas isso é apenas até conseguirmos um contrato com uma gravadora. - disse, bem certo daquilo.
- Bom, a questão é: nós temos um show amanhã. - repetiu e os garotos se animaram. - Não se animem, tenho a playlist guardada em algum lugar.
- Sério, cara? - desviou o olhar para .
- Sério e as músicas são ruins, muito ruins. - falou, bufando.
- Vocês deviam vir. - tentou, olhando para nós.
- Nós? - Lívia perguntou, demonstrando o espanto de todas nós.
- É, pra dar apoio moral, vocês sabem. - disse e nós nos entreolhamos. Estava estampado na cara das três "será mesmo que eles acham que nós vamos ser tipo BFFs de agora em diante?".
- Mas com certeza elas têm coisas mais importantes para fazer, . - falou por nós e eu olhei pra ele, que tinha desviado o olhar de mim.
- Talvez nós apareçamos por lá. - disse, dando de ombros. Eu sorri, ok, por que estava sorrindo com a possibilidade de sair com e seus amigos?
- É, talvez seja legal ter um programa diferente, pra variar. - também disse indiferente. Logo todos haviam voltado a conversar, agora o assunto parecia o mesmo: o tal McFLY.
Porém, parecia estar calado. Por que ele estava tão calado? Nem parecia o mesmo garoto de um mês atrás!
- A minha camisa ficou bem em você. - Ouvi aquela voz aveludada sair bem perto da minha orelha e virei para encará-lo, percebendo que seu rosto estava extremamente perto. Olhei para a camisa que eu vestia e depois pra ele de novo. Parecia que ele havia cuspido aquela frase e agora se sentia arrependido.
- E-eu... - Comecei.
- Chegamos. - anunciou quando finalmente paramos em frente minha casa. - Uau, , sua casa é enorme.
- Outch. - e disseram juntos, quando olharam para a casa.
- Hmm... Obrigada. - Eu agradeci sem graça e abri a porta, saindo do carro. Acenei para eles e recebi acenos de volta.
- Nos convide para a próxima festa. - falou e arrancou o carro dali. Eu soltei uma risada. Eu não queria que as pessoas me conhecessem como "a garota que tem uma casa gigantesca", bom, na verdade eu não queria que as pessoas se aproximassem de mim por interesse e então quanto mais minha condição financeira fosse escondida, melhor era. Suspirei, eu torcia para que meus pais não tivessem chegado em casa ainda.
Capítulo 6 - Oh, eu não sei lidar com isso, meu coração está batendo forte;
Coloquei as duas mãos na maçaneta e a girei com muita cautela, eu poderia simplesmente me esgueirar até o quarto, tomar um banho e se tivesse sorte, nem Larry e nem Brie perceberiam. Abri a porta mais devagar ainda, o tamanho suficiente para que meu corpo pequeno pudesse passar por ali. As luzes do hall estavam apagadas e eu já ia suspirar aliviada, fechando a porta atrás de mim, quando essas mesmas luzes foram acesas, não por Larry ou Brie, mas pela minha mãe, enquanto meu pai já cruzava os braços e tinha aquele olhar que sempre me deixava com um furo no estômago.
- Weiss-Schwartz. - Minha mãe se postou ao lado de meu pai e eu engoli em seco. - Espero que você tenha uma boa explicação para o lugar em que você estava e o porquê de estar vestindo essa roupa molhada.
- Mamãe, eu... - Eu passava meus olhos de minha mãe para meu pai, nervosa. Até que vi uma figura conhecida aparecer no hall, uma que eu conhecia há muito tempo. - Rabino! - Exclamei, surpresa.
- Laíla tov (Boa Noite), . - Rabino disse, mexendo a cabeça e me encarando naqueles trajes. Rabino era um grande amigo de nossa família, ele estava nela desde quando meu pai ainda era adolescente, ele sempre nos acompanhou em nossas viagens, sempre que podia, mas havia ficado na África do Sul e eu não esperava vê-lo na Inglaterra com a gente de novo.
- Laíla tov. - Eu respondi, movimentando minha cabeça e encarei meus pais novamente, eu sabia que eles ainda esperavam uma resposta. - E-eu estava com Ben... Larry não disse a vocês? - Por que mentia descaradamente na frente de meus pais? E ainda por cima na frente de Rabino.
- E onde Benjamin está agora? - Papai perguntou e eu sentia minhas mãos suarem frio.
Um barulho de porta sendo aberta e a minha salvação passou por ela. - Shalom, família. - Ben entrou sorridente e se postou ao meu lado. - Eu deixei a aqui e fui alugar um filme... - Levantou a caixinha de DVD.
Meus pais nos analisaram, pensando se aquilo realmente havia os convencido, mas Ben era natural demais com esse negócio de mentira e até eu acreditei nele.
- Tudo bem. - Mamãe disse e deu um meio sorriso, mas cerrou os olhos para mim. – Agora, você, suba lá pra cima e está de castigo até amanhã, faça todas as orações 3 vezes e vá se deitar.
- Mas... - Eu ia começar e minha mãe me olhou daquele mesmo jeito que meu pai. Eu sabia que pra ela estar naquele estado, não era nada bom. - Ken (Sim), mama. - E me dirigi à escada, vendo Ben vir atrás e piscar, sorrindo ao passar por mim e entrar em seu quarto.
's P.O.V
- Cara, eu vou pra casa. - falou e se levantou do sofá que estávamos sentados e ele zapeava canais. - Você está mais estranho que o normal hoje, .
- Do que você está falando? Eu tô normal, só... - E deixei minha fala morrer, sem conseguir encontrar nada para completá-la.
- Só tem um problema, hmm... tem alguma coisa a ver com aquelas garotas? - continuou em pé, me encarando e aquilo era um tanto chato.
- Qual é, aquelas garotas? Por que eu teria um problema com elas? - Coloquei a melhor cara de sarcasmo e olhei para ele, sabendo que aquilo o convencia.
- De qualquer forma, é melhor eu ir, meus pais podem querer colocar meu quarto para alugar se eu não voltar pra casa. - disse, com um certo humor negro, sem parecer muito animado com aquilo. Apertei a mão dele, um tipo de toque que eu e os garotos havíamos inventado e ele abriu a porta de casa, saindo e logo desaparecendo de minha vista.
Meu olhar caiu sobre meus pés, depois se elevou até a Lua que de tão cheia, poderia cegar com a sua luz. E podia soar muito patético, mas aquela Lua me lembrou de . Deixei um suspiro escapar, eu realmente estava ferrado. Fora muito difícil me acostumar a vê-la naquele colégio sem poder dizer um ‘oi’ ou vir até mim e dizer alguma coisa engraçada. Mas ela passava por mim como se nós nunca tivéssemos nos visto antes e por mais que eu estivesse determinado a ficar longe dela, o seu cheiro, seu sorriso e principalmente seu olhar não deixavam de me hipnotizar por todo mês que havia se passado. Aquilo parecia ser ainda mais difícil do que tê-la por perto, já que me fazia direcionar ainda mais meus pensamentos pra ela. Nem trocar de armário havia me ajudado, eu ainda não me controlava, olhando-a da última carteira em toda aula de História. As músicas que eu escutava me lembravam ela, eu escrevia letras inspiradas nela, nada mais estava como eu havia planejado e me afastar de , tinha me prejudicado mais.
Então, colocar meus olhos fixos nos dela essa tarde havia feito com que aquela coisa dentro de mim, que tinha vontade de sair cada vez que eu a via, acordasse. Ao mesmo tempo em que eu me obrigava a me sentir irritado com a presença dela, uma alegria e um alívio dentro de mim se formavam. Como eu era idiota, estava estragando meus próprios planos me sentindo daquele jeito, sabendo que ela já nem se lembrava de mim.
Mais um suspiro escapou, enquanto eu me lembrava de ver minha camisa escorregar por seu corpo pequeno, porém modelado perfeitamente, com as curvas certas e as pernas que eu tanto amava. É, eu era homem e não espiar enquanto elas colocavam nossas roupas era muito, muito difícil.
Olhei para os lados e me assustei, vendo que não estava mais na porta de casa e minhas pernas haviam me guiado até uma boa distância. Eu conhecia aquela rua, estivera ali mais cedo e, outch, era impressão minha ou aquela era a enorme casa de ?
Minhas deduções se confirmaram quando vi vultos vindos de um quarto com varanda no segundo andar, uma silhueta pequena e modelada. Era ela. Cara, quando eu comecei a fazer coisas sem os meus comandos? Aquilo era muito estranho, porém eu poderia passar várias horas atrás do arbusto de seu jardim, vendo-a se mover em seu quarto.
Os segundos começaram a se passar e esses segundos se transformaram em minutos, que logo se transformaram em horas. Por sua casa ser tão grande em largura e possuir enormes janelas, a visão que eu tinha de seu quarto era privilegiada. Vi quando ela havia saído do banho enrolada em um roupão branco e os cabelos molhados caíam por seus ombros. Não deixei de notar um pequeno tipo de altar na única parede que eu conseguia enxergar e o quanto tempo ela passou perto dele. Eu só devia estar ficando maluco mesmo, quando eu me imaginaria ali, quase um Tom Cruise em uma missão impossível, observando uma garota que tinha tanto poder sobre mim, que não me deixava ir embora? Eu estava mais para um Romeo enrustido do que qualquer outra coisa. Bom, pelo menos eu tinha minha Julieta.
's P.O.V.
O relógio da cabeceira marcava exatamente 22:00h e eu havia acabado todas as tarefas que minha mãe havia me incumbido. Eu gostava de rezar, era praticamente normal pra mim, mas minha mãe fazia parecer quase um castigo e o pior, eu não estava com sono, na verdade não estava com nenhum pouco de sono. Garotas e garotos da minha idade estavam se arrumando para sair a essa hora numa sexta-feira à noite, mas eu não. Nenhuma vez em todos meus 17 anos, eu soube o que era sair com amigos e ir a uma festa com música alta e pessoas dançando ou a um pub com uma banda legal onde poderíamos jogar conversa fora. O máximo de diversão para mim resumia-se às festas que meus pais davam em todos os feriados judeus, onde alguns amigos (judeus) vinham com suas famílias para comemorar. Na verdade, ter amigos diferentes, para variar, ainda era uma novidade pra mim e eu gostaria de um dia poder ter uma história engraçada ou assustadora para contar aos meus netos. Mas não, eu não tinha nenhuma em toda essa minha vida de nômade, eu sentia que minha adolescência passava rápido diante de meus olhos e pensar nisso me deixava cada vez com menos perspectiva.
Eu apostava que devia ser um desses garotos que estava se arrumando para sair. Lembrar-me dele, fazia sempre tudo vir à tona. Eu estava bem afastada dele, pelo menos eu pensava que estava. Mas ter aquelas pupilas brilhantes grudadas nas minhas essa tarde, me fez pensar. Havia alguma coisa que aquele garoto despertava em mim, era mais que curiosidade. Era algo bom, eu tinha certeza, ou eu não veria um sorriso meu refletido no espelho nesse exato momento. Sentir o alívio de tê-lo por perto de novo, fizera toda raiva do nosso último encontro acabar, enterrar-se. E agora eu estava disposta a deixar que ele guiasse, mesmo que fosse desse seu jeito estranho, mas talvez assim eu pudesse descobrir mais sobre esse garoto que tanto me fascinava.
Um barulho vindo da rua me acordou de vários pensamentos que rondavam minha cabeça. O barulho de novo, um farfalhar de folhas. Andei até a varanda e olhei para baixo, vendo apenas o jardim que rodeava minha casa, nenhum carro ou pessoa pela vizinhança, já que era um lugar muito residencial e pouco movimentado. Suspirei e passei uma de minhas mãos pelo meu telescópico, a noite estava perfeita, mas eu não sentia nenhuma vontade de observar aqueles pontinhos no céu mais especificamente, eu queria apenas sentir a pequena brisa que fazia com que meus pelos do braço se arrepiassem. E aquilo havia me inspirado e quando eu estava inspirada, só havia uma coisa que eu conseguia fazer. Catch Me - Demi Lovato
- "Before I fall too fast, kiss me quick, but make it last... (Antes de eu cair rapidamente, me beije logo, mas faça durar...) - Comecei baixinho, apenas cantarolando. - So I can see how badly this will hurt me, when you'll say goodbye..." (Então eu posso ver o quanto vai me doer quando você me disser adeus..) - E aos poucos fui aumentando o tom, enquanto me divertia com as plantinhas do canteiro.
Novamente o barulho, olhei para um arbusto no jardim, talvez fosse um gato. - "Keep it sweet, keep it slow, let the future pass and don't let go, but tonight I could fall to soon into this beautiful moonlight..." (Faça isso doce, faça isso devagar, deixe o futuro passar e não se deixe ir, mas hoje a noite eu poderia estar sob esse lindo luar...) - Sorri, enquanto caminhava pela varanda e o par de olhos de viajavam por minha mente.
Respirei fundo e aumentei bastante o meu tom. Eu havia feito canto lírico quando pequena e tinha essa mania de cantar quando precisava extravasar, na maioria eram composições próprias. - "But you're so hypnotising, you've got me laughing while I sing, you've got me smiling in my sleep... (Mas você é tão hipnotizante, você me tem rindo enquanto eu canto, você me tem sorrindo enquanto durmo...) - Eu podia pressentir os vizinhos abrindo suas janelas a procura de quem estava cantando àquela hora da noite, mas eu não me importava. - And I can see this's unravelling, your love is where i'm falling, but please don't catch me..." (E eu posso ver que isso não posso desfazer, seu amor é onde eu estou, mas por favor não me tenha...).
O barulho dessa vez foi mais alto e logo veio um baque de uma coisa pesada caindo no chão. Arregalei meus olhos quando vi um garoto sair detrás do arbusto, xingar e limpar suas roupas. Mas foi só quando o garoto levantou a cabeça que eu senti como se meus olhos fossem saltar de meu rosto. Os grandes olhos brilhantes e inconfundíveis de me encararam e eu prendi a respiração, sem saber o que fazer ou pensar.
- Oi. - Ele sussurrou, sem graça. Um sorriso meio involuntário surgiu no canto de meus lábios.
- ... - Eu cruzei os braços, também falando baixo. - Eu gostaria muito de saber o que você estava fazendo atrás do arbusto de flores da minha mãe.
mordeu o lábio e olhou para os lados, provavelmente procurando alguma coisa para dizer. Seus olhos se postaram na grande árvore que crescia perto da minha varanda e quando eu pisquei meus olhos, ele já estava escalando a árvore e se encaixando em um galho que quase o possibilitava pular dentro da varanda. Corri até a ponta onde ele estava.
Um frio desceu por minha espinha, mas não havia brisa dessa vez.
- Eu estava passando e ouvi você cantar, eu... - E ele olhou pra baixo e riu, talvez se sentindo idiota por falar aquilo. - achei muito bom.
- Obrigada. - Agradeci, passando minhas mãos por meus braços descobertos. - Então, você mudou de idéia sobre o que me disse há um mês atrás?
- , você pode simplesmente continuar a cantar? - pediu, ignorando completamente o que eu havia dito e nessa hora tive vontade de mergulhar em seus olhos, naquela íris brilhante e cristalina.
Respirei fundo de novo. Eu não cantava para outras pessoas, tivera algumas péssimas e traumatizantes apresentações de canto e desde então, as únicas pessoas que me ouviam cantar eram meus pais, Ben, Larry e Brie. Mas quando me dei conta, as palavras simplesmente estavam saindo de minha boca. - "See this heart? Won't settle down, like a child running scared from a clown... (Vê esse coração? Não o deixe triste, como uma criança correndo com medo do palhaço...) - Voltei a cantar baixo, mas dessa vez mais por vergonha do que qualquer outra coisa. - "I'm terrified of what you'll do, my stomach screams just when i look at you.." (Estou assustada com o que você vai fazer, meu estomago grita quando eu olho pra você..).
O sorriso presunçoso e torto começara a surgir no rosto de e eu engolia em seco com medo de faltar oxigênio para continuar. - "Run far away, so I can breath, even though you're far from suffocating me..." (Vou pra longe e então consigo respirar, embora você esteja longe de estar me sufocando...) - Minhas mãos no muro da varanda suavam descontroladamente, mas ainda assim as palavras conseguiam sair de minha boca. - "I can't set my hopes to high, 'cause every hello ends with a goodbye..." (Eu não posso criar esperanças, porque todo olá termina com um tchau...) Chega, antes que eu morra de vergonha. - Disse, já sentindo minhas bochechas ficarem quentes.
riu e pulou pra dentro da varanda.
- "But you're so hypnotising, you've got me laughing while I sing, you've got me smiling in my sleep... (Mas você é tão hipnotizante, você me tem rindo enquanto eu canto, você me tem sorrindo enquanto durmo...) - Ele cantou, com sua voz grave, levemente rouca e suave ao mesmo tempo, no timbre perfeito. Meu queixo estava no chão, como ele havia aprendido a letra tão rápido?
Nós dois respiramos, abrimos a boca juntos...
- "And I can see this's unravelling, your love is where I'm falling, but please don't catch me..." (E eu posso ver que isso não posso desfazer, seu amor é onde eu estou, mas por favor não me tenha...). - E cantamos, fazendo com que nossas vozes se misturassem.
- Não está terminada. - Eu disse, levantando os ombros.
- Você compôs? - perguntou, levantando a sobrancelha.
- Por que a indignação? - Cruzei os braços e também levantei a sobrancelha.
- É só que... é boa. - falou, passando a mãos pelos cabelos já cuidadosamente bagunçados.
- Obrigada. - Agradeci novamente. - E então, você não respondeu minha pergunta: mudou de idéia ou não?
deu um passo pra frente e levantou o braço, tocando vagarosamente em uma de minhas bochechas com as costas de sua mão e deslizou igualmente devagar como se testasse se conseguiria fazer isso. Respirei fundo pela oitava vez aquele dia, minhas costas estavam coladas no vidro e quando pisquei por um segundo, havia desaparecido. Andei até o muro e o encontrei já descendo a árvore e começando a andar pelo meu jardim. Corri até o meio da varanda e me debrucei sobre o para-peito.
- "So now you see why I'm scared, I can't open up my heart without a care..." (Então agora você vê por que estou assustada, eu não posso abrir meu coração sem cuidado...) - Cantei uma letra qualquer, que acabara de vir a minha mente. parou de andar.
- But here I go, it's what I feel and for the first time in my life I know it's real... (Mas aqui eu vou, é o que eu sinto e pela primeira vez na minha vida sei que é real...) - foi cantando enquanto virava-se e levantava a cabeça pra mim. - É uma música de menina, mas talvez combine. - E voltou a andar, logo saindo do meu jardim, assim como de meu campo de visão.
Capítulo 7 – Eu sinto falta da sua voz, o som mais alto em minha cabeça;
Sábado, Shabat para os judeus ou o dia de descanso. Ele começava ao pôr-do-sol da sexta-feira e ia até o pôr-do-sol do sábado, era como o domingo das outras pessoas. Nesse dia, os judeus realmente descansavam, já que era proibido desde carregar dinheiro no bolso até dirigir. E, bom, ali estava eu tendo uma das importantes refeições do Shabat, o café da manhã, repleto de coisas gostosas e a primeira refeição em família desde que havíamos chegado em Londres.
- E por que, afinal de contas, estava cantando ontem à noite, maninha? - Ben interrompeu o silêncio e dando uma mordida no seu pão.
- Você estava cantando, minha filha? - Mamãe se pronunciou, olhando com certa curiosidade para mim.
- Não sei como os vizinhos não reclamaram. - Ben levantou os ombros e eu dei-lhe um tapa na perna por baixo da mesa, vendo-o fazer uma cara de dor.
- Desde quando você voltou a cantar, ? - Meu pai continuou com aquela conversa. Toda minha família sabia que há muito tempo eu não me sentia bem o suficiente para cantar.
- É... eu... me deu vontade. - Gaguejei um pouco, balançando a cabeça.
- Eu gostaria de visitar a sinagoga mais próxima, Joseph. - Rabino disse, olhando para meu pai. Certamente percebeu o quanto aquela conversa estava me deixando desconfortável.
- Ótima idéia, Benjamin e não foram a nenhuma sinagoga durante todo mês, estou certo? - Meu pai nos olhou, fazendo com que eu e Ben nos entreolhássemos.
- Papa... - Comecei.
- Nós estávamos atolados de deveres, o Instituto nos toma quase todo o tempo fora da escola. - Ben disse, sorrindo para que eu concordasse também.
- Tudo bem, eu posso levá-los hoje, minhas crianças. - Rabino ofereceu-se, com um sorriso terno.
- Perfeito. - Papai disse, limpando-se com um guardanapo.
- Subam e se troquem... andem. - Mamãe levantou-se, nos empurrando para fora da cozinha.
Encarei meu quarto da porta. Ele havia sofrido várias alterações, ou devo dizer, adições. Um quadro enorme de Leon repousava sobre a parede de minha cama. Minha escrivaninha estava lotada de livros e cadernos, todos bem arrumados por Brie. Ao lado da TV, quadros de filmes de Audrey, Chaplin e Eastwood estavam grudados. Tudo aquilo me fazia sentir ainda mais que eu estava em um verdadeiro lar.
Com um controle, abri o meu guarda-roupas e me perdi em tantas peças. Logo optei por uma saia branca levemente pregueada e uma blusa de cashmere azul da Lacoste, assim. Penteei meus cabelos, sentada em minha penteadeira e encarando um reflexo de uma menina sem graça de cabelos certinhos. Suspirei e me virei, aquele reflexo me incomodava. Ouvi os passos de Ben na escada e o segui, encontrando Rabino nos esperando no hall de entrada.
's P.O.V.
- Ei, , pega! - Eu disse, jogando uma latinha de Coca-Cola para ele, que pegou e abriu tomando um grande gole. Era sábado e como de costume nós quatro estávamos reunidos na casa de , onde jogávamos videogame, (tentávamos) compor, comíamos besteiras e falávamos besteira.
Sentei-me naquelas poltronas de couro tipo do papai, que o pai de tinha para ver os jogos do campeonato inglês. me olhava com uma careta.
- Que foi, estranho? - Perguntei, abrindo minha latinha.
- Eu disse que queria também, cara, por que você trouxe só pro ? Vocês estão tendo um caso? Se for isso, eu quero saber... quero agora! - disparou a falar, como se estivesse numa cena de filme. havia pausado o videogame e, assim como e eu, olhava incrédulo para o pobre garoto.
- , você cheirou? - perguntou, sério. Mas nós não aguentamos e caímos na gargalhada, era um completo palhaço.
- Beleza, então vamos ver quem vai rir agora. - disse, pegando o controle do videogame e fazendo um gesto com a cabeça para que eu pegasse o outro.
- Hey, ... - começou, dando espaço para que eu sentasse. - Você podia chamar sua prima e as amigas para o show hoje...
- É, elas disseram que iriam... - concordou, sem tirar os olhos da TV.
- Ah, caras, não sei não... - falou, coçando a cabeça.
- , segura. - Joguei o controle pra ele. – Vou... hmm... tomar água. - Eu disse levantando e eles deram de ombros.
Tocar naquele assunto havia me feito lembrar de algumas coisas, lembrar da noite passada e de como a voz doce de invadia minha mente, eu já sentia falta daquela voz, como se fosse um vício. Eu estava conseguindo cavar um buraco e me enterrar mais ainda, será que eu iria conseguir sair dessa?
- Droga. - Resmunguei, colocando o copo já vazio de água na pia e limpando a boca com a manga da camisa xadrez.
- Vai amarelar, ? - perguntou, quando eu já estava de volta pra sala.
- Você não me conhece, . - Peguei o controle da mão de e comecei a acelerar meu carrinho.
- E aí? - fez para .
- Vou mandar uma sms, mas não garanto nada. - afirmou, saindo com o celular na mão.
's P.O.V.
- "But here i go, it's what i feel and for the first time in my life i know it's real..." (Mas aqui eu vou, é o que eu sinto e pela primeira vez na minha vida sei que é real...) - Cantei a letra de e fazendo a melodia com o piano. Bufei e apoiei meus cotovelos nas teclas, fazendo um barulho estrondoso. Aquela letra era ótima e se encaixava perfeitamente na música que eu e minha avó havíamos composto na última vez que eu estivera na Alemanha, porém não havíamos conseguido terminá-la. Bom, mas o que viria depois? Eu não fazia idéia.
O barulho de maçaneta girando me fez acordar de meus pensamentos e vi Ben passar pela porta, jogando meu celular em cima do piano.
- Estava berrando no seu quarto. - Ele disse, sentando-se na poltrona preferida de papai.
Olhei o aparelho e no visor continha três ligações de , uma de , uma de e por final uma mensagem de dizendo: "Atende o celular, ! Vamos sair hoje, ok? Esteja na minha casa às 7 em ponto, beijos." Respirei fundo e deixei que o ar saísse devagar de meus pulmões.
- Agora eu entendo você. - Falei, colocando o celular de volta sobre o piano e de costas para Ben.
- Eu sabia que um dia você entenderia, mas , não se culpe por isso. - Ben afirmou, dando de ombros.
- Como não? Eu só queria poder dizer "sim, , nós podemos sair e talvez meu pai possa nos levar", mas não... eu tenho que fazer tudo as escondidas. - Gesticulei, realmente irritada com aquilo.
- Eu posso te ajudar. - Ben falou e eu ouvi um barulho que significava que ele havia se levantado.
- Mentindo de novo? Eu não posso, Ben, isso é tão errado. - Falei, com a voz fraca.
Meu irmão sentou-se ao meu lado na banqueta.
- Não é errado, , você só está no seu direito de viver sua vida, nossos pais não enxergam, mas HaShem (Deus) sabe disso. - E me abraçou pelos ombros. Fixei meus olhos nas teclas do piano. Ben tinha razão.
- Você pode mesmo me ajudar? - Perguntei, olhando para o sorriso de satisfação que havia se formado no rosto de Ben.
Ouvi algumas vozes vindo do andar de baixo, corri até o corredor sentindo um pouco de frio por ainda estar de toalha, mas sorri ao ouvir a voz de Ben se pronunciar na sala. Escada.
- Shalom, família. - Ben disse e ouvi uma mistura de vozes respondê-lo. - Eu queria pedir se posso levar a em uma peça de teatro hoje.
- Hoje, Benjamin? - Minha mãe se pronunciou. - Mas é Shabat.
- Deixe eles, Sarah, não há problema em assistir uma boa peça de teatro no Shabat. - Rabino afirmou e eu me estiquei sobre o corrimão, apenas precisava ouvir o "tudo bem" de papai.
- Lawrence... - Papai começou, mas logo Ben o interrompeu.
- Pai, deixe o Larry descansar hoje, eu levo. - Ben disse, com todo aquele seu tom de pura confiança.
- Você não pode dirigir hoje, Benjamin, vão outro dia. - Papai falou e ele com seu tom que me dava tanto medo.
- É o último dia da peça, é de Shakeaspere e precisa fazer um trabalho. - Ben tentou mais. - Bevakasha (por favor).
Silêncio. Provavelmente meus pais estavam se entreolhando como sempre faziam, como se pudessem ler as mentes um do outro.
- Vão, mas estejam de volta às 10. - A voz de mamãe me fez quase dar pulinhos, se eu não estivesse tão escondida.
- Pode deixar, mama. - Ben disse e logo ouvi seus passos na escada. Sorri animada para ele e ele devolveu um sorriso sem mostrar os dentes, talvez transmitindo alegria por mim. - Vá se trocar, maninha. - E foi me empurrando até meu quarto. E agora, que roupa eu iria usar?
Alguns minutos mais tarde, eu e Ben estávamos em seu Troller a caminho da casa de que, por sinal, não era muito longe da minha. Logo Ben estava estacionando em frente a uma casa grande e um pouco antiga.
- Obrigada. - Eu disse meio baixo e Ben sorriu pra mim. Estiquei-me e o beijei na bochecha, vendo-o fazer careta.
- Se cuide, às 10 ok? - Ben falou, me vendo sair do carro.
Fiz uma pose de soldado, tomando continência e ele riu, saindo cantando pneu com seu carro tão amado. Respirei fundo e me virei, andando em direção a porta da casa de . Toquei a campainha e ouvi algumas risadas em seguida. Franzi o cenho e o barulho de chave e maçaneta sendo giradas foi ouvido.
- Hey! - sorriu, animada. Mas vi sua face se contorcer em uma de confusão quando olhou minhas roupas. Eu usava um sobretudo Burberry que minha mãe havia trazido para mim de uma de suas viagens e botas baixas, assim. Talvez não tenha sido a escolha certa.
- Ok, não acertei no vestuário. - Admiti, dando um sorriso tímido enquanto me dava passagem para adentrar sua casa. Era maior ainda por dentro.
- Não é que... - Ela começou, mas não conseguiu terminar. - As meninas estão lá em cima, vamos. - E me puxou pela mão escada acima.
O quarto de era completamente cor de rosa e contrastava com as outras partes da casa que pareciam não ser dessa década. se maquiava em um espelho e parecia entediada lendo uma revista.
- Olhem quem resolveu aparecer. - disse e eu dei um tchauzinho tímido, vendo as duas virem em minha direção com sorrisos largos e vestindo roupas extremamente legais, com uma saia escura que ia da cintura até metade de sua coxa, uma blusa branca e casaquinho e Marcella calça jeans skinny e uma blusa preta rendada. Assim e assim, respectivamente.
Porém, elas também me olharam com certa estranheza, notando minha roupa. Bom, eu não estava acostumada a sair e para mim era difícil.
- Você está linda, . - disse, sendo sincera.
- Mas não é exatamente a roupa certa para ir aonde nós vamos. - continuou por ela.
- Eu entendi, mas afinal aonde nós vamos? - Perguntei, enquanto via elas me puxarem para o closet de .
- Será uma surpresa, ok? Mas antes, precisamos que você nos deixe... - ia dizendo, enquanto me sentava em uma cadeira em frente a outro espelho.
- Vão em frente. - Eu afirmei, antes que ela terminasse. Não sabia ao certo porque estava fazendo aquilo, mas eu confiava naquelas garotas.
- , o que é esse colar? Você está sempre o usando. - perguntou, apontando para meu pescoço. A essa altura eu já não me reconhecia quando olhava aquela imagem no espelho, aquela não era eu, definitivamente.
Coloquei a mão sobre meu pingente da estrela de Davi. - Meu avô me deu. - Respondi, não era mentira, mas ainda não estava pronta para contar a verdade.
- Seu cabelo está pronto. - avisou, sorrindo e eu olhei pra cima, encarando as três.
- Obrigada, vocês são demais. - Afirmei e elas se uniram a mim num abraço em grupo.
"Bi, bi" O barulho de uma buzina nos acordou e , que finalmente estava pronta no seu vestido de ombros caídos roxo, se apressou para pegar sua bolsa. Assim.
- Quem é? - Perguntei, confusa.
e sorriram como se estivessem planejando algo e me puxaram para fora do quarto. "bi, bi" mais uma vez aquela buzina.
abriu a porta de sua casa e revelou uma Pajero Sport com um som que era quase ensurdecedor. Song 2 - Blur.
Woo-hoo, when i feel heavy metal woo-hoo, and i'm pins and i'm needles woo-hoo...
(Uhu, quando eu sinto o heavy metal uhu, sinto um grande formigamento uhu...)
- Ei, só para avisar... Nós estamos um pouco atrasados. - A voz de me acordou de um transe, enquanto aquilo ainda entrava em minha cabeça. Então elas haviam aceitado ir ao show deles. Um frio na barriga me deixou visivelmente nervosa. Segui as garotas, que após o aviso de já tentavam se acomodar no carro.
- Oi. - Eu disse, vendo no banco do passageiro com uma que o xingava por estar com uma mão "acidentalmente" em sua perna. no porta malas, que encarava os pés, e... .
Não pude evitar a troca de olhares entre e eu, quando arrancou dali, mas como já fosse esperado, ele apenas desviou o olhar. Parecia alheio ao que acontecera na noite anterior, como se nós fôssemos pessoas que tivessem acabado de se conhecer. O que havia de tão errado com esse garoto? Por que apenas não mostrava quem ele realmente era? E por que raios escondia-se atrás dessa máscara tão misteriosa? Quantas perguntas, nenhuma resposta.
Devido ao meu longo devaneio, eu não havia nem percebido quando já estacionava seu carro em uma vaga privilegiada, pois um letreiro piscante mostrava a tal casa de shows que eles se apresentariam.
Coloquei a mão na porta do carro, mas assustei-me quando a mesma havia sido aberta por fora, me fazendo encarar um par de tênis. Subi meu olhar e me deparei com aqueles pequenos raios luminosos que eram os olhos de e sua mão grande estava estendida... para mim?
- Vamos. - Ele disse, não era uma pergunta ou uma sugestão.
Minha mão pequena contrastou com a sua no momento que aceitei a gentileza, ao sair do carro percebi que os outros já estavam bem na frente. Olhei de volta para , ele me encarava, talvez fosse meu novo visual que o assustara. Não era por menos, meu cabelo estava preso num rabo de cavalo e fizera um topete enorme em minha cabeça. Um vestido preto de mangas compridas emprestado de , deixava minhas costas e pernas descobertas. A maquiagem forte em meus olhos era o que mais me assustava, eu mal passava batom.
Capítulo 8 - Eu sei que as aparências podem enganar, mas vi uma luz em você;
- Que lugar é esse, afinal? - perguntou quando adentramos o local e olhávamos em volta.
- Eu nem sei em que bairro estamos. - disse, confusa.
- Vocês podem ficar caladas e escolherem uma mesa? Afinal, vocês decidiram vir. - falou e cruzou os braços bufando.
- Acho que aquela mesa está boa. - se pronunciou apontando para uma mesa redonda com uma poltrona vermelha rodeando-a. O local ainda estava bem vazio devido ao horário, os garotos iriam tocar um pouco mais tarde.
Todos concordaram e seguimos para a mesa. Ainda havia um clima estranho entre os dois grupos de pessoas ali, um gelo que talvez demorasse para ser quebrado, se dependesse de .
- Então... - começou colocando as mão na mesa e encarando nós quatro.
- Eu vou pegar uma bebida. - disse e levantou, fazendo e acompanharem-na.
Olhei para os lados e percebi que 4 pares de olhos me encaravam. - Hmm... vocês não vão se preparar? Ajustar os instrumentos e essas coisas? - Perguntei, para quebrar aquele silêncio.
- Está tudo ajustado, passamos aqui mais cedo. - me afirmou. - Não vamos ganhar muito dinheiro essa noite.
- O lugar está às traças. - fez careta. - Nem meu tio John encararia isso aqui.
- Mas vocês são bons, certo? É só tocarem e deixar que a música guie o momento. - Eu disse, levantando os ombros.
- E o que você sabe sobre música? - perguntou ríspido.
- Bom, e-eu... - Gaguejei, por que ele estava dizendo aquilo? Por que ele continuava a sustentar aquela máscara horrorosa?
- Vou lá atrás. - anunciou e deixou a mesa numa rapidez incrível.
- Ele é um idiota, sabe. - tentou, mas aquilo havia me afetado. Levantei sem olhar para eles e me dirigi até o banheiro.
Encarei o espelho do banheiro, minha imagem refletida. Eu não poderia me dar o luxo de ficar aborrecida com , eu sabia, eu via por trás dele e tinha completa consciência de quem ele realmente era. Por mais misterioso que fosse e eu ia provar isso pra ele e para todos ali.
Quando voltei do banheiro, as garotas já estavam de volta à mesa, porém os garotos não. Sentei-me ao lado de e sorri para ela que bebia um Martíni.
- Nunca pensei que você realmente quisesse vir hoje. - Falei, olhando para frente, onde os meninos se postavam para começar seu show.
- Nem eu. - afirmou, levantando os ombros. - Eu simplesmente vim.
Os quatro rapazes estavam a postos no palco, mas ninguém parecia realmente notar a presença deles ali. Um deles pigarreou, numa tentativa falha de chamar atenção e apresentou a banda, e logo começando com uma música que me lembrava vagamente uma música horrível de country que não tinha nada a ver com eles.
Quatro músicas mais tarde, os garotos avisaram que teriam um intervalo de 5 minutos e voltariam. Nós, mais precisamente eu, decidimos ir ao encontro deles para dar algum apoio. Todas nós havíamos concordado que eles eram realmente bons, cada um com seu instrumento e havia sintonia entre os quatro, mas as músicas escolhidas pelo dono do lugar, não pareciam combinar nada com o que eles estavam acostumados a tocar e muito menos com as pessoas que estavam ali esperando o dinheiro pago para entrar valer alguma coisa.
- Foi... uma boa apresentação. - disse, quando nós encontramos os quatro rostos derrotados deles.
- A quem estamos enganando? Está sendo um lixo. - afirmou, apoiando-se em uma barra de metal.
- O que será depois daqui? Cantar no metrô? - tentou uma piadinha de mau gosto, que não animou nenhum deles.
- São as músicas. - disse, gesticulando. - Parecem não ser nem desse século.
- Talvez eu possa ajudar vocês. - Eu falei, tendo uma ótima idéia. - Eu só preciso que alguém aceite. - E mirei meus olhos em .
Todos ali acompanharam meu olhar e depois se entreolharam sem entender muito. Todos menos .
- Acho melhor nós irmos pegar algo pra beber, né? - disse, empurrando e consigo. parecia estar confusa, mas havia entendido aonde eu queria chegar e puxou as garotas com ela também.
- O que você está tramando? - perguntou, olhando para os lados e meio enraivecido com aquilo.
- Seu jeito grosseiro não vai me abalar hoje, . - Afirmei a ele antes de qualquer coisa.
- , eu... eu não posso. - disse, parecendo meio incomodado. - Qualquer coisa que seja que essa sua cabecinha maluca esteja planejando.
- O que é? Você tem medo? - Falei, aquilo sempre funcionava com garotos, medo era uma coisa que não podia existir no vocabulário deles.
- Medo? Eu? Você não me conhece. - riu, aquele seu sorriso torto e pretensioso.
- Bom, pra mim é o que parece. - Dei de ombros. - Você não quer nem ouvir o que eu tenho a dizer.
me encarou profundamente, daquele jeito que parecia estar lendo nossa mente ou pelo menos parecia ser o que ele estava tentando fazer. Seus olhos quase saltavam de seu rosto, brilhantes como diamantes e provocando pequenos choques elétricos em minha pele. Nossas respirações pareciam embaralhadas em uma só, um pequeno sorriso em meu rosto e uma pequena gota de suor escorrendo do dele. Centímetros para que nossos narizes se tocassem...
- Você venceu, o que eu tenho que fazer? - perguntou e meu sorriso se alargou. Ele iria me agradecer depois.
Pigarreei.
- Boa noite! - Exclamei no microfone e atraí alguns olhares curiosos das pessoas ali (sem saber se era por causa da microfonia ou não). - Meu nome é e talvez não seja o que vocês esperam ouvir hoje, mas eu prometo fazer o melhor, quer dizer, nós prometemos. - E eu olhei para ao meu lado, segurando outro microfone. Gwyneth Paltrow & Huey Lewis - Cruisin'.
E a música começou a soar, fazendo minhas mãos começarem a ficar trêmulas, mas eu não podia me deixar levar por traumas do passado, eu tinha que fazer aquilo.
Virei meu corpo para , olhando fundo nos olhos dele e esperando que ele fizesse sua parte.
- "Baby, let's cruise..." (Baby, vamos viajar...) - cantou e não pude evitar um sorriso aparecer no canto de minha boca, devido aquele timbre de voz que parecia me fazer tão bem.
Levantei o microfone até bem perto de minha boca.
- "Away from here..." (Para longe daqui..) - E cantei, tentando dar o melhor de mim.
- "Don't be confused..." (Não se confunda...) - continuou e sem pensar muito levei uma de minhas mãos até a sua, tocando-a bem devagar.
- "The way it's clear..." (O caminho está livre...) - Soltei minha mão da dele e olhei pra frente, percebendo que uma pequena aglomeração (talvez curiosa) de pessoas se formava na frente do palco.
Voltei meu olhar para e nós dois levantamos nossos microfones juntos. Mais uma vez naquela sincronia que tanto me assustava e surpreendia.
- "And if you want it you got it forever... (E se você quiser, terá para sempre...) - Cantamos juntos, fazendo nossas vozes contrastarem daquele jeito. - "This is not a one night stand... (Não é para ser só uma noite...)
- Baby, yeah..." - Cantei, dando um sorrisinho e me virando, andando pelo palco.
- "So, let the music take your mind... (Então, deixe a música controlar sua mente...) - Cantamos mais uma vez e eu percebi que havia relaxado, já tentando interagir com as pessoas que se aglomeravam ali e batiam palmas. - Just release and you'll find... (Apenas relaxe e você descobrirá...)
Nos encontramos no meio do palco, meu olhar foi até as seis pessoas que nos olhavam com tanta confusão e satisfação ao mesmo tempo. Sorri, achando aquilo engraçado. Virei-me e percebi muito perto de mim, com seu microfone quase tocando o meu.
- You're gonna fly away, glad you're goin' my way... (Você vai voar para longe, fico feliz que você esteja no meu caminho...) - Eu via meu reflexo em seus olhos, o mundo parecia ser alheio para nós dois e só havia a música nos unindo mais uma vez. - I love it when we're cruising together!... The music is played for love, cruising is made for love... (Adoro enquanto estamos viajando juntos, a musica é tocada para o amor, viajar é feito para amor...)
Aquele era o que me deixava tão fascinada, parecia que quando ele estava cantando, quando havia música, tudo para ele se transformava e sua máscara rude despencava no chão. Fitei seus olhos, sorrindo por poder finalmente ter feito com que ele estivesse ali.
- I love it when we're cruising together..." (Adoro enquanto estamos viajando juntos...)
- "Baby, tonight... (Baby, essa noite...) - cantou, abrindo o braço livre e fazendo uma dancinha engraçada.
- Belong to us... (Pertence à nós...) - Cantei, tentando conter a risada que seus movimentos estavam proporcionando. Vi a multidão de pessoas crescer cada vez mais, juntos batendo palmas no ritmo da música.
- Everything's right... (Tudo está certo...) - me puxou pelo braço e fez com que eu girasse e parasse em seus braços.
- Do what you must... (Faça o que tiver que fazer...) - Gaguejei um pouco por estar envolvida em seus braços. Sorri, envergonhada saindo de perto dele.
- And inch by inch we get closer and closer... (E de pouquinho em pouquinho, ficamos mais e mais perto...) - Cantamos e eu havia entrado na brincadeira de , imitando suas dancinhas. - To every little part of each other... (Um do outro...)
- Ooh baby... - Olhei pra ele e vi surgir aquele sorriso torto, mas não era prepotente dessa vez, era talvez de orgulho.
- So... (Então...) - fez e chegou mais uma vez perto de mim para que pudéssemos repetir o refrão.
As pessoas ali cantavam conosco, algumas arriscavam dançar ao ritmo da música e outras até se beijavam deixando que o som as levasse. Isso me deixava feliz, cantar era meu maior prazer e poder dividir isso com outras pessoas não tinha preço.
- Cruise with me, baby... (Viaje comigo, baby...) - Fui cantando e andando ao encontro de no meio do palco, fazendo nossos microfones quase se encontrarem novamente.
Involuntariamente fechamos nossos olhos e eu pude sentir meu coração aumentar vários batimentos.
- Uhhhh, Uhhhh, Oooh baby let's cruise... (Oh baby, vamos viajar...)
- Let's flow, let's glide... (Vamos flutuar, vamos deslizar...) - Ainda de olhos fechados, cantei e fui sentindo aquele momento nos embalar.
- Ooooh let's open up... (Vamos ficar abertos...) - Abri meus olhos e me deparei com o sorriso de , totalmente encantador.
- And go inside... (E ir fundo...) - Ri, envergonhada de provavelmente estar com uma cara de idiota para ele.
Pela última vez, colocamos nossos microfones a postos e deixamos que nossas cordas vocais comandassem.
- And if you want it you got it forever, i could just stay here beside you and love you baby... (E se quiser, você terá pra sempre, eu poderia só ficar aqui ao seu lado te amando, baby...)
Os aplausos pareciam quase uma ilusão pra mim, minha respiração ainda se encontrava ofegante depois de tudo e eu olhava das pessoas ali em baixo para o cara sorrindo bobo ao meu lado. Puxei o microfone pra cima e soltei sem pensar:
- Obrigada, agora eu quero que suba aqui o verdadeiro McFLY. - E olhei para os garotos, fazendo sinal para que eles subissem pro palco. Os três se entreolharam, deram de ombros e subiram, se postando em seus instrumentos. Vi fazer um sinal de positivo pra mim, me fazendo rir enquanto eu descia do palco e dava lugar pra quem o merecia. O som de baquetas contando e o querido "Help" foi puxado pelos meninos, fazendo a platéia se animar, pois todo mundo conhecia a letra.
- Você... você... - gaguejava, me vendo correr até elas e encontrar o espanto estampado em suas faces.
- Foi ótima! - disse e colocou um braço por cima do meu ombro.
- Sei lá, eu senti que deveria fazer isso. - Falei, ainda meio extasiada por tudo que havia acontecido.
- Acho que nós não somos boa influência pra você, , eu não lembro de ter conhecido esse seu lado aventureiro. - brincou e nós rimos.
- Vocês são as melhores influências! - Puxei as outras duas para mais um abraço em grupo naquela noite.
Meu cérebro e meu coração nunca trabalharam tão rápido na minha vida, era tanta informação que aquela apresentação havia criado que me assustava. Eu olhava para , agora ali no lugar a onde ele pertencia, e consecutivos frios na barriga me tomavam. Eu não podia mais negar, aquele garoto mexia de uma forma incrivelmente maluca comigo, era como estar no paraíso e no inferno ao mesmo tempo, provar de vários gostos e estar em completo estado de êxtase. E a música era o que nos unia, querendo eu e ele ou não, ela nos transformava em duas pessoas diferentes, com outras identidades e outras histórias.
Ao fim da música, eu voltei de meus pensamentos e percebi que os garotos não iriam tocar mais nada, ou provavelmente também não receberiam nada. Vi que largou seu instrumento de qualquer jeito no palco e correu, chegando incrivelmente rápido até nós.
- Eu preciso falar com você. - Ele disse, extremamente rápido e embolado.
As meninas me olharam, provavelmente não entendendo absolutamente nada do que estava acontecendo. Abaixei minha cabeça e segui até fora da casa de shows que dava para uma rua completamente deserta e pouco iluminada.
Suas mãos estavam nos bolsos da calça jeans e ele brincava com uma pedrinha da calçada, tive vontade de rir do jeito dele, tão alheio e despreocupado.
- Por que você fez isso? - perguntou.
- Isso... você quer dizer... cantar? Não sei, senti que era a coisa certa a fazer. - Disse, tentando parecer despreocupada.
- Você é uma péssima mentirosa. - afirmou e sorriu torto. - Eu quero dizer, depois de tudo que eu te disse e todo esse mês te ignorando... Você devia me odiar.
Ri.
- Eu devia te odiar mesmo, mas o estranho é que eu não odeio. - Fixei meus olhos nele, apesar da tentativa de de não me olhar. - Porque eu sei que debaixo dessa sua carcaça de durão, existe alguém de verdade e esse alguém só é libertado quando você está cantando.
- Você está enganada... - finalmente olhou pra mim, um olhar que eu não conseguia ler, com suas sobrancelhas franzidas. Eu estava prestes a interrompê-lo. - Ele só é libertado quando você está por perto.
O silêncio, aquele silêncio. Meu queixo deveria estar no chão, meus olhos arregalados numa expressão de espanto. Mas eu mantive a mesma expressão firme, eu queria acreditar que ele não havia dito nenhuma daquelas palavras. Eu queria ter um controle que pudesse voltar e poder assistir àquilo mais uma vez para ter certeza.
Um alarme disparou de minha bolsa, quebrando o silêncio. Meu celular, já deviam ser quase 10 horas. Ben ia me matar. Meus pais iam me matar.
- Eu preciso ir. - Eu disse, sabendo que ele provavelmente já sabia disso. Virei minhas costas para entrar novamente no lugar.
- Eu te levo. - Ouvi a voz de às minhas costas, me fazendo parar de andar. - Por favor... eu... te devo essa.
Minutos mais tarde eu estava sentada no banco passageiro do carro de , com na direção. Eu não podia recusar sua carona, afinal encontrei , e se divertindo com os meninos em volta do bar e não queria estragar isso. E eu devia admitir, eu meio que gostei dele me dever esse tipo de favor.
Seus olhos estavam completamente focalizados na rua a sua frente, nem um movimento se quer. Eu apenas mantinha minhas mãos juntas sobre minhas pernas e também olhava para frente. Porém meu cérebro era a perfeita oposição ao meu corpo, revirava-se como um louco, cheio de pensamentos.
O rádio estava ligado em uma estação qualquer, tocando uma música que, bom, não era das melhores.
- Posso mudar? - Pedi, quase sussurrando e recebi um balanço de cabeça como afirmação. Passei algumas estações até finalmente encontrar Coldplay tocando Don't Panic, uma das minhas músicas preferidas deles.
Comecei a sussurrar a música baixinho, enquanto batia minhas pernas no ritmo da música. Envolvi-me tanto com aquilo que não percebi quando finalmente estacionou em frente minha casa. Olhei para suas mãos que se soltaram do volante e finalmente para seu rosto que aos poucos se virava para mim.
- Obrigada, . - Eu disse, não somente pela carona, mas como por tudo.
- Não, tudo bem... eu só... - E antes que pudesse terminar qualquer coisa que tinha para dizer, coloquei meus lábios sobre a superfície macia de sua bochecha. Minutos intermináveis pareceram se passar enquanto a pele de minha boca estava em contato com a pele da bochecha de , era um momento um tanto quanto mágico. Quando voltei à posição normal, encontrei seus olhos escancarados e sua boca levemente aberta, como que se quisesse dizer alguma coisa. Abaixei a cabeça e sorri, me virando para a maçaneta do carro.
- Eu também me sinto liberta quando estou com você. - Eu disse, olhando pela janela do carro e sem esperar que ele dissesse alguma coisa, abri a porta e corri até a soleira da minha casa. Ouvi o barulho de pneu cantando e quando me virei, ele já não estava mais lá. Suspirei e mais uma vez entrei em casa me sentindo como uma fugitiva, nas pontas dos pés. Tudo estava escuro, andei vagarosamente até o pé da escada mal enxergando o caminho à minha frente.
Senti uma mão grande segurar meu braço e prendi a respiração, com medo de me virar.
- Tudo bem, sou eu. - Ouvi a voz sussurrada e tranquila de Ben, o que me fez soltar todo ar de uma só vez.
- Quer me matar do coração? - Perguntei, vendo ele ficar ao meu lado enquanto subíamos as escadas.
- Convenci papai e mamãe a pegarem a última sessão de ópera de hoje. - Ben disse e eu percebi sua voz convencida. - Eu paguei as entradas pra eles, portanto você está me devendo essa.
- Tudo bem, eu pago e com juros. - Falei, mostrando o quanto eu estava agradecida.
Ben olhou para mim de cima a baixo quando chegamos num corredor onde tinha luz e percebeu minhas roupas. - Você está bonita.
- É, essa maquiagem, nem me reconheço. - Comentei, me sentindo envergonhada. Meu irmão não era dessas coisas.
- Não é a maquiagem, seus olhos estão... diferentes. - Ben deu de ombros e entrou dentro do quarto.
Franzi o rosto, não entendendo muito bem aonde ele queria chegar. Entrei em meu quarto e fui até a penteadeira, ver meu reflexo. Ben tinha razão, era estranho, mas meus olhos tinham algo diferente, talvez um brilho que nunca existiu.
Capítulo 9 – Eu fiz um plano e fui o homem que só podia amar a si mesmo;
's P.O.V.
- São sete e vinte e cinco, você vai se atrasar, . - Era a quarta vez que eu ouvia a voz irritante da minha querida madrasta gritar da cozinha. Ela achava que eu não sabia que horas eram? Eu não havia pregado o olho a noite inteira, fora uma madrugada difícil, muito difícil. Minha mente estivera ativa demais para me deixar dormir. Ainda não entrava na minha cabeça que eu pudesse estar sentindo algo por . Cara, como eu odiava a mim mesmo por fazer burrice atrás de burrice. O que viria agora? Eu a pediria em casamento? Cristo.
- Merda. - Resmunguei após me levantar e dar com a cabeça na prateleira em cima da minha cama. Isso era o que a falta de uma boa noite de sono fazia comigo.
Caminhei rápido até o banheiro e abri todo o registro do chuveiro, até que a água ficasse completamente congelada. Tirei as boxers e entrei no banho sentindo alguns arrepios quando a água gelada entrava em contato com a minha pele ainda quente.
Minutos depois de terminar minha higiene matinal, saí do banheiro com uma toalha amarrada de qualquer jeito na cintura à procura de um uniforme decente que eu pudesse vestir. Encontrei a camisa jogada dentro da cestinha de lixo e as calças em cima da TV, eu não tinha tempo para a gravata e, se eu tivesse sorte, levaria uma suspensão por isso e não teria que olhar naqueles olhos.
Joguei a mochila nos ombros e desci as escadas. Encontrei meu pai sentado na mesa da cozinha lendo o jornal e comendo panquecas, sem tirar os olhos da notícia principal, ele disse:
- Bom dia, filho. - Com sua voz grave que mesmo depois de 18 anos, ainda me metia medo.
- Bom dia. - Resmunguei mais uma vez, enfiando alguns biscoitos, que estavam em cima da mesa, na boca.
- Não vai se sentar e tomar café, ? - Olívia perguntou, com aqueles olhos infantis.
- Estou atrasado. - Disse, pegando mais alguns biscoitos e saindo pela porta dos fundos. Era difícil pra eu suportá-la, eu simplesmente não conseguia gostar de alguém que tentava todos os dias se colocar no lugar de minha mãe. Ainda mais se fosse alguém com apenas 32 anos. Não me leve a mal, mas ela era bem irritante. E depois, ninguém nunca tomaria o lugar de minha mãe, apenas meu pai não enxergava isso.
Perder-me em pensamentos sobre minha madrasta havia me tomado mais tempo do que deveria, logo subi em minha bicicleta e pedalei o mais rápido que consegui em direção ao Latymer.
Encontrei a entrada do colégio vazia, o sinal já devia ter batido e eu tive que amarrar minha bicicleta de qualquer jeito e correr para não ser pego por nenhum monitor de corredor ou o zelador.
Eu tinha nascido com a bunda virada pra lua mesmo, consegui entrar na sala de Biologia quando o professor estava fechando a porta e só recebi um olhar feio dele.
- Que cara horrível, . - falou, franzindo a testa enquanto eu sentava a sua frente e ao lado de .
- Valeu, mas eu me olhei no espelho hoje, . - Eu disse, rolando os olhos pra ele.
- Tá mal-humorado também, cara. - continuou e percebi que me encarava. - Que houve?
- Nada, não dormi direito. - Respondi, olhando pra frente.
- E essa sua insônia tem apelido? - finalmente abriu a boca. - Talvez... ?
- Quê? Do que você tá falando? - Perguntei, irritado. - Por que a teria a ver com isso?
- Calma, cara, você ficou nervoso demais pro meu gosto. - disse, dando uma risadinha.
- Algum problema aí com os senhores? - Mr. Jackson perguntou, arrumando seus óculos de fundo de garrafa.
- Não, tudo bem por aqui, Mr. Jackson. - disse, sorrindo amarelo.
- Então é bom que o senhor vire para frente e vocês comecem a copiar. - Ele mandou e nós apenas obedecemos, como cachorrinhos.
Fora incrivelmente insuportável aturar as três aulas antes do intervalo. Eu estava num estado de completo transe, como se tivesse saído de meu corpo e um vegetal estivesse no lugar. Levantei-me um segundo antes do sinal tocar e sem olhar para os lados, apressei o passo até meu armário, onde joguei alguns livros e tranquei, tudo isso numa rapidez que chegou a me assustar. Eu precisava ficar sozinho, sentia que não conseguia respirar com tudo aquilo martelando em minha cabeça.
Sem me importar, "furtei" um violão da sala de música e caminhei tranquilamente até o carvalho, aquele mais distante naquela imensidão verde. Música era o que eu precisava para me libertar.
Em poucos minutos eu tinha alguma coisa composta, escrita em um caderno rabiscado de anotações, algo como: Getaway - Holiday Parade
"She's like the girls I used to see, in all those black and white movies...
(Ela é como aquelas garotas que eu via em todos os filmes branco e preto...)
She's my Georgia royalty and now she's growing on me...
(Ela é minha realeza da Georgia e acho que ela está gostando de mim...)
This girl's the music in my room, each day the reason why I move
(Essa garota é a música no meu quarto, o razão porque eu me movo cada dia)
Ouvi alguns passos se aproximarem e parei imediatamente de tocar, jogando o caderno de lado e encontrando um par de sapatos de boneca à minha frente, seguidos pelas meias do uniforme, uma parte de pernas que começaram a me dar um pouco de calor, mas que logo foram cobertas por uma saia e a camisa, e finalmente o rosto de entrou em meu campo de visão. (Uniforme)
Fiquei sem reação, olhando para seu rosto sorridente. Ela se abaixou perto de mim e um perfume que parecia juntar todas as coisas boas do mundo invadiu minhas narinas, era como bolo de chocolate ainda quente. Mas antes que pudesse impedir, ela pegara meu caderno e começava a folhear. Ótimo, eu estava morto.
- Uh, você compôs isso, ? - perguntou, passando os olhos pelos meus rabiscos.
- Eu... não... não é da sua conta! - E puxei o caderno de suas mãos rapidamente. Sua feição sorridente desmanchou-se e havia confusão em seu rosto. Respirei fundo. - Me desculpa, eu preciso...
- Ficar sozinho? - completou por mim e infelizmente eu não conseguia ser rude ou fazer alguma piadinha, não com ela. Respirei mais uma vez.
- Quer dar uma volta? - Perguntei, provavelmente fora de mim e completamente louco.
não conseguiu esconder suas bochechas, que adquiriram um tom mais rosado que o normal, e começou a caminhar, me fazendo acompanhá-la.
- E-eu não paro de pensar no dueto de sábado. - meio que cuspiu aquilo e pareceu se arrepender depois. - Quer dizer, em como as pessoas aplaudiram depois.
- Você salvou a nossa pele. - Afirmei, por que me sentia tão desconfortável em conversar aquilo com ela?
- Não foi nada, eu faria outra vez se fosse pra ver você daquele jeito de novo. - disse e olhou para baixo, não pude ler seus olhos.
- Como assim? - Perguntei confuso, tentando fazê-la olhar pra mim.
- O que há com você, ? - parou de andar e ficou na minha frente. Tinha uma feição dura. - Eu não entendo por que você se esconde por trás de todo um mistério... Quer dizer, eu não sou burra, tenho certeza que entenderia o que quer que você tem a esconder.
Suas pupilas mexiam-se de um lado para o outro, enquanto soltava pequenos suspiros pelo nariz, esperando alguma ação da minha parte. Eu mal conseguia pensar, tendo aquela garota com os olhos tão fixos em mim, um olhar que denunciava o quanto ela queria poder entender tudo que estava acontecendo.
- Tinha uma garota... - As palavras começaram a sair sem meu comando de minha boca, enquanto eu olhava para minhas mãos. - ela era muito especial pra mim, uma grande amiga... - Contei e começou a prestar muita atenção ao que eu falava. - Mas eu comecei a confundir sentimentos de amizade e acabei me apaixonando por ela.
- ... - começou, mas se calou rapidamente.
- Começamos a sair, nós realmente gostávamos um do outro e estava dando certo, até que... - E eu olhei para o horizonte a minha frente.
- O que aconteceu? - perguntou, aflita.
- Ela morreu em um acidente de carro. - Afirmei, tentando me segurar para não desabar na frente dela. - E eu jurei, no leito de morte dela, que nunca mais me apaixonaria por ninguém até que eu tivesse uma vida estável na música, até que conseguisse realizar meu sonho.
- Eu... eu sinto muito, . - disse e abriu os braços, fazendo menção de me abraçar, mas pareceu pensar mais um pouco.
- Não tem problema, eu já... me acostumei. - Falei, tentando um sorriso fraco para que a convencesse de que eu estava bem. Eu nunca tinha falado nada sobre Jamie com ninguém após sua morte, nem com os garotos. Porém, eu parecia necessitado de falar isso com .
Percebi que estava inquieta, provavelmente se perguntando o que toda essa história tinha a ver com ela e meu jeito frio de tratá-la. - Você deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com você, não é?
E fez que sim com a cabeça.
- Eu ainda não entendi onde...
- Você interferiu nos meus planos. - Eu disse e joguei longe uma pedrinha que achei no chão. Liberando toda a tensão que estava presa ali.
- , eu agradeceria muito se você fosse um pouco mais objetivo. - sorriu sem graça, a dúvida e confusão estampada em seus olhos.
Eu ri, mal acreditando no que eu estava prestes a fazer.
- Você acha que eu realmente não quero ficar perto de você, ? Eu mal consigo dormir desde o dia em que te vi pela primeira vez, você tem estado em todos os meus pensamentos! E você ainda não percebeu como eu pareço um idiota quando estou com você, sentindo todas aquelas cambalhotas no estômago e esse maldito coração batendo feito um louco? - E então finalmente juntei a coragem que eu não tinha e a olhei nos olhos, com os dentes levemente cerrados. - Existe uma coisa dentro de mim que parece querer sair a cada vez que olho nos seus olhos, é como se estivesse esperando por você há muito tempo e agora você finalmente está aqui, ferrando com tudo que eu sonhava desde o momento que pôs os pés nessa cidade. - Nós nos olhamos por míseros dois segundos, quando o sinal tocou longe e eu corri o mais rápido que pude, antes que eu explodisse ali mesmo.
's P.O.V.
Um soco no estômago. Muitas pessoas já devem ter levado socos no estômago, eu nunca tinha levado um, não até aquele dia. Não digo um soco no estômago literalmente, mas a sensação dele, atingindo você lentamente.
, o garoto pelo qual eu me perguntava o por quê de estar mexendo tão bruscamente com a minha vida, tinha acabado de dizer algumas palavras que tinham dificuldade de entrar em minha cabeça. Enquanto eu achava que ele não gostava de mim, tinha algum problema comigo ou talvez um distúrbio bipolar, na verdade eu estava presente em seus pensamentos? Isso era... era... totalmente inacreditável.
Mas não era isso que fazia o soco no estômago doer tanto, era o fato de como ele odiava que eu estivesse ali, tentando descobrir qual era o problema dele, sem nem ao menos saber que na verdade eu mesma era o tal problema. Ele não aceitava que pudesse sentir algo por mim e isso estava me destruindo, sem que eu soubesse o porquê.
Uma lágrima solitária percorreu minha bochecha até encontrar o fim dela e cair no chão. Aquilo havia me assustado, eu passei a mão pelo meu rosto limpando a lágrima e depois olhei para minhas mãos para ver se isso era mesmo aquela substância que sai de nosso olho quando algum sentimento é ativado. E para minha infelicidade, é, eu estava chorando.
Corri pelos jardins do Latymer até finalmente atingir o prédio ausente da luz do sol, que me fez parar ao ver todas aquelas pessoas transitando pelos corredores e indo em direção às suas próximas aulas. Eu não queria chamar atenção, muito menos se tivesse que explicar alguma coisa.
Abaixei minha cabeça e com o passo um pouco mais largo, andei para minha aula de Inglês.
- Nós te procuramos o intervalo inteiro, por onde você esteve? - perguntou, parecendo minha mãe, enquanto me olhava sentar ao seu lado.
Olhei para frente, fingindo prestar atenção na saudação que nossa professora dava aos alunos.
- Eu... biblioteca. - Respondi, como eu era uma péssima mentirosa!
- Eu procurei lá, , você não estava em lugar nenhum. - dizia, tentando retirar alguma coisa de mim.
- Eu estava entre os livros sobre astrologia... - Tentei mais uma vez. - Me desculpe não avisar, eu precisei ficar sozinha.
deu uma última olhada curiosa em mim e se ajeitou em sua cadeira, prestando atenção na aula.
Não era a primeira vez que a aula de Inglês passava indiferente pra mim, mas daquela vez eu tinha o que ocupar minha cabeça. Ainda podia ouvir a voz de viva em minha memória repetindo cada palavra, fazendo meu coração bater tão forte que chegava a doer. Eu nunca estive tão confusa em toda minha vida, porém (e estranhamente) tudo o que eu queria naquele momento era olhar nos olhos de e poder me sentir bem.
- , ei, ! - Eu chamava pelo garoto e tentava alcançá-lo ao mesmo tempo. Finalmente sucesso, ele havia parado e procurava por quem o chamara tão desesperadamente.
- ? - franziu a testa, vendo que eu andava arfante até ele.
- Oi. - Eu falei, sorrindo. Era fim das aulas, não havia aparecido na aula de História, portanto eu não tivera a chance de pará-lo para conseguir alguma explicação. - Como você está?
- Ótimo. - respondeu, ainda estranhando a minha repentina aproximação. - E você?
- Bem, obrigada por perguntar. - Sorri mais uma vez, tentando fazê-lo ter confiança em mim. - Você pode me fazer um favor?
Sua feição finalmente ficou clara, ele pareceu entender que eu nunca falaria com ele se não quisesse alguma coisa, imagem que eu não queria ter passado pra ele. - Hm, claro, ainda te devemos por sábado.
- Aquilo não foi nada, não pense que vocês me devem algo. - Disse, tentando melhorar minha imagem. - Você pode pedir para o me encontrar hoje... nesse endereço? - E estendi um pequeno papel para ele.
pegou o papel e olhou para mim. Um sorriso torto, parecido com o de , apareceu em sua face e eu logo entendi.
- É sobre um trabalho de História, ele não foi na aula e nós teremos que fazer uma dupla. - Meu Deus, quantas mentiras mais eu contaria aquele dia? - Diga a ele que é importantíssimo que ele vá, não deixe que ele fuja.
- Ahn, tem certeza que é só um trabalho? - perguntou, ainda sorrindo torto.
- Absoluta certeza. - Afirmei, tentando parecer o mais convincente possível. - Obrigada, , é ótimo conversar com você, mas eu preciso ir, Larry está esperando. - E comecei a andar para trás, a fim de sair dali antes que ele me perguntasse mais alguma coisa.
- De nada. - Eu o ouvi gritar, enquanto me afastava o mais rápido que pude.
Capítulo 10 - Todos os dias eu tento me afastar e eu me vejo não querendo fazer isso;
- Pode parar aí mesmo, dona . - vi surgir (como sempre) na minha frente e me impedir de chegar ao estacionamento.
- Oi, . - eu disse, sorrindo amarelo e freando até ficar de frente a ela.
- Não tem dessa de "oi, ". Você está fugindo de mim desde sábado! - exclamou, como se eu fosse tipo... seu namorado.
- Eu não estou fugindo, eu só... - e me interrompeu antes que eu terminasse de falar.
- Vamos tomar um sorvete comigo. - ela disse, mudando completamente de humor e dando um sorriso amigável. Não tinha como dizer não, eu realmente estava evitando-a, já que sabia que ela estava desconfiada sobre minha repentina "amizade" com .
Soltei o ar. - Tudo bem. - e sorri. - Preciso avisar o Larry e... Ben! - gritei quando vi Ben passar por nós duas.
- Hey. - Ben aproximou-se, cumprimentando-nos.
- Você pode dizer ao Larry que eu não vou pra casa e... você sabe. - falei, piscando pra ele, que certamente entendeu o recado de inventar qualquer coisa sobre aonde eu ia.
- Ok, é mais uma que você me deve. - Ben foi dizendo enquanto se afastava.
- Vamos? - falei para e depois lembrando que ela ainda não conhecia meu irmão.
- Achei que era seu clone masculino chegando. - ela disse e nós rimos, enquanto andávamos até os portões da escola, e eu contava alguns fatos sobre Ben.
Chegamos a uma sorveteria não muito longe do Latymer; era um lugar todo colorido e provavelmente dedicado à crianças. Fizemos nosso pedido no balcão e sentamos em uma mesa cor-de-rosa ao lado de uma piscina de bolinhas.
- Desembucha. - falou, chamando minha atenção.
- Ahn... não entendi. - balancei a cabeça, rindo sem graça, ainda numa tentativa de fugir daquela conversa.
- , ingênua . - sorriu, como se dissesse "eu não nasci ontem". - Você acha que pode, "do nada", cantar um dueto maravilhoso com , voltar pra casa de carona com ele e hoje simplesmente sumir no intervalo e me deixar por fora de tudo?
Suspirei, me dando por vencida.
- Desculpe, , eu devia ter falado antes... quer dizer, não que haja muito para contar, mas eu vou te explicar. - comecei a narrar tudo que havia acontecido entre e eu, desde o primeiro dia de aula até hoje. ouvia atenta, fazendo expressões de surpresa de vez em quando.
- E é isso. - mordi o lábio.
estava chocada. - Mas e você? O que você sente por ele?
Aquela pergunta. Como eu fugia daquela pergunta todos os dias em que esteve em minha vida.
- Eu não faço idéia. - ri nervosa. - É uma coisa maior que me liga a ele, algo que vai além de alguma explicação lógica. - e depois me senti patética ao ter dito aquilo.
sorriu. - Own, você gosta dele.
- Não. - eu me apressei a dizer. - Não, , é só uma coisa passageira, talvez atração física.
- , qual é o problema? - perguntou. Nossos sorvetes chegaram e eu enfiei uma colherada no meu e coloquei tudo na boca. - Eu não sou a maior fã do do mundo, acho ele e o bem parecidos, para falar a verdade. Todos uns idiotas. Mas, se você gosta dele, é normal. Eu apoio vocês. - e segurou minha mão.
- Você não ouviu a história? - limpei minha boca no guardanapo. - Ele não me quer por perto, me odeia por interferir em seu "sonho". - fiz aspas com as mãos.
- Idiota. - rolou os olhos.
- Eu não quero mais falar sobre isso, tudo bem? - pedi, sem graça, e afirmou com a cabeça.
Continuei comendo meu sorvete de flocos, concentrada demais para prestar atenção no que estava falando. No entanto, vi um garoto entrar em meu campo de visão. Eu conhecia aquele garoto de algum lugar. Cabelos loiros, olhos verdes e... Ele estava olhando pra mim? Era impressão minha ou ele batucava no balcão, enquanto me encarava indiscretamente?
parou, vendo que eu não estava mesmo prestando atenção ao que ela falava, e resolveu descobrir o motivo de meu devaneio, virando-se e também encarando o garoto.
- , você e Jake Hirschestão flertando? - e bateu na mesa, me acordando.
- Slechi li! (Me desculpe!) - exclamei, assustada. Não havia me dado conta do que eu havia falado até ver a expressão confusa no rosto de .
- O que você disse? - perguntou, fazendo careta.
- Nada, você me assustou! - disse, mudando de assunto. Jake Hirsch, era o jogador de rúgbi do Palmers Green, o colégio adversário do Latymer; eu finalmente havia me lembrado.
- Tudo bem, mas ele estava olhando pra você! Jake Hirsch! - disse histérica, enquanto o garoto virava-se de costas e andava para fora da sorveteria, aonde estava estacionada uma moto preta.
Ri dela. - Eu não me importo! - e imitei a voz histérica dela, fazendo-a me mandar língua, enquanto se levantava para pagarmos a conta.
's P.O.V.
Bam. Mais um estrondo causado por mais um soco que eu dava na porta do meu armário. Eu não estava me importando se estava destruindo-o, a vontade de socar algo era tão grande que não me deixava pensar. Eu era um completo trouxa, não passava de um idiota de marca maior. Por que diabos eu havia dito todas aquelas coisas estúpidas? Era totalmente inaceitável para mim que, agora, soubesse de todos meus sentimentos por ela. E principalmente que eu fora covarde o suficiente para fugir antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. É lógico que eu fugi, não aguentaria ficar ali e ouvir um "Você é retardado? Se enxerga." dela.
Um barulho vindo de fora do meu quarto me chamou atenção, era a voz de Olívia.
- Não adianta, , ele está aí há horas. - ouvi ela dizer. ? Por que estava ali? Os caras sabiam que quando eu precisava ficar sozinho, eu simplesmente precisava.
- Tudo bem, eu vou tentar convencer ele a sair. O é uma criança mimada. - disse, dando uma risadinha. Eu era a criança mimada? Ok, o que ele era então? Um integrante dos Teletubbies?
- Você quem sabe, estarei lá embaixo qualquer coisa. - Olívia falou e ouvi passos, mostrando que ela finalmente havia descido as escadas.
- ? - chamou. Eu não queria falar com ninguém, que ele apodrecesse ali. - Eu sei que você está aí, cara, eu só quero dar um recado.
- Vai embora. - falei, rolando os olhos. - Vaza cara, não quero papo com ninguém.
- Eu não vim conversar com você, seu idiota, já disse que é só um recado. - continuou insistindo. Um recado, foda-se. - E é da .
Silêncio. Até minha respiração estava falhando. Um recado da ? Por que, afinal de contas, ela mandaria um recado para mim? E ainda, pelo ?
Sabem o que dizem né? A curiosidade matou o gato. Eu não estava nem aí para esse ditado idiota, eu queria saber o que era o tal recado, por mais singelo ou arrebatador que fosse.
- O que é? - perguntei, abrindo a porta para . Ele deu um sorriso idiota, que me fez rolar os olhos. Eu era um filho da mãe de um curioso, só isso.
- Ok, ela pediu para que você encontrasse com ela... - ele puxou algo de seu bolso traseiro. - nesse endereço. - e me entregou um papel pequeno.
- E por que ela quer que eu a encontre nesse lugar? - perguntei, franzindo minha testa. Não fazia idéia de onde era.
- Ela disse que é sobre um trabalho de História que vocês terão que fazer juntos. Eu não sei cara, mas para mim isso é só uma desculpa. - e outro sorriso idiota apareceu.
- Eu não vou. - afirmei, entrando em meu quarto e jogando o papel em qualquer lugar. veio atrás.
- Foi mal, cara, mas ela pediu que eu não deixasse você fugir. - levantou os ombros e girou a chave do carro de nas mãos.
- O que é agora? Vocês estão de complô contra mim? - perguntei, levantando os braços, indignado.
- Não é um complô, . - começou a mexer em alguma coisa em cima da escrivaninha. - Mas você não está nem um pouco curioso?
Eu estava curioso. Estava MUITO curioso por sinal. Mas eu seria um idiota ainda maior se fosse, isso eu não tinha dúvida. - Não. - menti.
bufou. Ele sabia o quão teimoso e orgulhoso eu era, não pedi que ele aceitasse fazer favores para ninguém. Muito menos se esse "ninguém" fosse Schwartz.
- Mas eu estou, então levanta essa bunda daí e se troca. - falou, soando parecido com Olívia. - 15 minutos, . - e saiu do meu quarto.
Fiquei olhando para o papel com o endereço em cima do criado-mudo. Bom, eu estava no inferno mesmo, por que não fazer isso direito? É o que dizem, afinal.
Abri meu armário e percebi que a porta estava rangendo, sinal de que eu havia a estragado. Nem ligava. Pela primeira vez me senti em dúvida sobre o que vestir, era uma garota diferente, eu não queria parecer mais idiota do que eu já era.
No final, decidi por uma calça jeans qualquer e uma camiseta de banda, eu não tinha nada de especial para colocar e também não queria parecer outra pessoa. Desci as escadas de dois em dois degraus e encontrei esparramado no sofá, assistindo a um programa qualquer.
- Vamos antes que eu desista dessa idiotice. - falei, abrindo a porta de casa.
demorou um bom tempo para encontrar o endereço, ainda mais se estamos falando de . Não estávamos achando o número 117, até que encontramos um campo de futebol abandonado antes de uma casa endereçada 118 mais ao longe. De longe, pude ver uma pessoa parada bem no meio do campo. O vestido branco levantava com o vento relativamente forte que havia ali. Nem olhei para , abri a porta do carro e andei até a porta do campo. Havia uma placa escrito "propriedade abandonada, não entre" caída no meio do mato grande que crescia ali.
Olhei para trás, mas não estava ali. Tudo bem, ele era tapado, mas sabia que daquele momento em diante eu iria fazer o resto sozinho.
Chegando mais perto, pude ver que não estava "sozinha", digo, ela mexia em um tipo de telescópio; eu não entendi direito do que se tratava aquilo. Apenas me aproximei e fiquei bem perto de suas costas, só observando e sem dizer uma palavra.
deve ter sentido a presença de alguém ali, pois virou-se e se assustou comigo ali parado. Levantei uma mão, em sinal de aceno e ela sorriu.
- Um cometa deve aparecer hoje. - disse e olhou pelo seu telescópio mais uma vez. - Pouca gente sabe disso, ele é muito pequeno, mas a visão é fascinante.
- Hm. - fiz, tentando mostrar que não estava interessado em nenhum cometa idiota, eu só queria que ela me desse o fora e eu pudesse ir embora.
Funcionou, porque ela largou o telescópio e andou a pouca distância que nos separava, com um sorriso sem graça no rosto. O vento bagunçava seus cabelos, fazendo com que eles atravessassem seu rosto de uma forma encantadora.
- Eu nunca acreditei em amor à primeira vista, . - sussurrou e eu soube o que viria depois. Eu havia meio que me preparado praquilo. - E pode parecer o maior dos clichês do mundo, mas quando você disse aquelas coisas eu... - ela fez uma pausa, olhou para o chão e depois olhou para mim de novo. - Eu percebi que me sentia da mesma maneira.
Ok, para aquilo eu não estava preparado. Eu senti as palavras pararem na minha boca, como se estivessem confusas agora. Percebi minha mão suando e as escondi no bolso da calça. - Não... você não... pode... - gaguejei, sem saber o que dizer.
bufou, parecia irritada. Olhei para o lado e juntei minhas mãos.
- Eu queria ficar longe de você, mas eu não consigo, tá legal? Você acha que eu devia estar aqui? Eu simplesmente não tenho domínio sobre meus atos quando o assunto é você. - falei, soltando todas as palavras sem pensar em nenhuma delas antes de dizer. Aquilo tinha se tornado frequente pra mim, não é?
- Me desculpa! É isso o que você quer ouvir? Me desculpa por vir, estragar sua vida perfeita e fazer você se sentir assim! - disse, alterando alguns tons na sua voz.
Eu sabia que nossos corações estavam batendo forte e nossas cabeças trabalhavam rápido, enquanto nós nos encarávamos por vários segundos, sem dizer uma palavra.
- Pode parecer idiota ou masoquista, mas eu gosto de me sentir assim. - falei, com a voz baixa.
Seus olhos focaram os meus, e eu não conseguia entendê-los, mas de algum jeito, sabia que ela estava sofrendo. Num instante o clima tenso de discussão se dissolveu.
- Eu só queria saber quem é . - sussurrou e fechou seus olhos.
- Talvez você possa. - afirmei, levantando os ombros. - Por que eu quero saber quem é Schwartz. - e sorri.
Patrícia sorriu junto e estendeu a mão. - Oi, meu nome é Weiss-Schwartz, mas gosto que me chamam de .
- Oi, meu nome é , mas gosto que me chamem de . - e nós apertamos as mãos, como se estivéssemos nos conhecendo pela primeira vez.
Patrícia olhou para o céu. - Está na hora. - e correu para seu telescópio.
O vento agora era quase insuportável, chegava a fazer barulho. - Você não quer ver? - ela perguntou. Dei de ombros e me juntei a ela.
A visão era realmente fascinante, tinha razão. Ver aquele pequeno ponto de "luz" cortar o céu me fizera reconsiderar sobre tê-lo chamado de cometa idiota. Mais fascinante ainda era ver como curtia aquilo, seus olhos brilhando de ansiedade. Era uma visão mil vezes mais bonita do que aquele cometa... hm... deixa pra lá.
Logo o vento trouxe a chuva, no momento exato em que não conseguíamos mais ver o cometa. Ela começou devagar, mas, em poucos minutos, havia se tornado uma verdadeira tempestade caindo em nós dois. Nós estávamos em tempo de seca (incrível isso em Londres, huh?) e talvez fosse a primeira chuva em dias. Não havia lugar para se esconder. começou a correr pelo campo de braços abertos e olhos fechados. Eu apenas a observava.
- É divertido, não é? - perguntou, dando uma pirueta. - Tomar chuva. - ela me lembrava uma criança no primeiro dia no parquinho. Gostava daquela visão.
- Não, não é. Nós vamos pegar um resfriado desse jeito. - afirmei, tentando me cobrir da chuva com meus braços.
O cabelo de escorria por sua pele e seus cílios grandes pareciam ainda maiores. O vestido antes branco, não preciso dizer, agora estava completamente transparente, exibindo sua lingerie cor de rosa claro. Era incrível como parecia apenas uma menina, mas possuía um corpo de uma deus... mulher.
- Vamos lá, , se solte. - falou, animada, e chegou perto de mim. Pegou meus braços e os abriu. - Não é melhor assim?
Cara, por que ela havia chegado tão perto? Eu não conseguia tirar meus olhos de sua boca levemente roxeada. Era quase torturante.
- Estou me soltando. - falei, jogando minha cabeça pra trás e fechando os olhos. Senti se distanciar, imaginando se ela estava fazendo o mesmo.
- Tá com você. - ouvi a voz de , enquanto sentia uma pontada no peito, sabendo que ela havia tocado ali, literalmente.
Olhei de volta pra ela e a vi correr, fazendo caretas para mim. - Você não sabe com que está brincando. - e corri atrás dela.
- Você não me pega, , desiste. - ela dizia, correndo e rindo. Com certeza, me fazendo correr mais ainda.
A vontade de prová-la que eu a pegaria era tão grande, que quando finalmente consegui alcançá-la, não tive tempo de frear, fazendo com que meu corpo colidisse com o dela, derrubando a nós dois no chão. Eu por cima dela.
- Quem está rindo agora? - abri um sorriso, colocando meus braços ao lado do corpo dela. Cara, como nossos rostos estavam perto, meu nariz quase encostava no nariz gelado dela. Os olhos dela eram tão brilhantes que eu poderia morrer olhando para eles.
não disse nada, tinha uma expressão diferente no rosto, que eu não consegui entender.
- , eu... preciso... - ela começou a dizer, tentando se livrar de mim. Saí de cima dela e a vi levantar e começar a andar até seu telescópio. Incrivelmente rápido, ela o desmontou e começou a andar para fora do campo, me deixando ali sozinho e sem entender nada.
Continua...
Mensagem da Autora:
Olá fofas =) Não via a hora de postar esse capítulo, é onde finalmente começa a história dos dois. Devo acrescentar que momentos de "quase beijo" como esses vão acontecer muito até eles finalmente se beijarem, adoro um suspense :x Bom, agradecendo sempre aos comentários e continuando a pedir para que vocês sempre deixem suas opiniões na caixinha de comentário, nem que seja uma coisa bem simples, eu adoro "conhecer" as leitoras e saber o que elas estão achando lol É isso então, beijinhos.
Ps: Eu tive que mudar o Jake, porque eu achei esse ator (me fugiu o nome dele) mais parecido com o que eu imaginava do que o Zach Roering.
Patrícia x
Eu estarei sempre disponível para críticas, elogios ou um papo amigável em: Orkut, Twitter, Facebook, Formspring, Email e MSN