Escrita por Julia M. | Revisão por Gabriella
Capítulo 1
- John, to nervosa, eu não sei como me portar em um lugar desses – disse manhosa pondo a sandália de salto, ou seja, ia cair, droga. – não é melhor eu ficar em casa?
O John era alto, mas magrelo. Os cabelos escuros sempre arrumados, com o terno impecável junto com os sapatos sociais sempre engraxados. Eu nunca vi o John desarrumado, sempre com o hálito com cheiro de canela e os dentes brancos e alinhados. Era um executivo muito do arrumado. Apesar de não fazer mais isso, o John já curtiu bandas que eu ouço. Mas, segundo ele, não há mais tempo pra isso. Ela se dá 78% para o trabalho, e eu não posso competir com isso.
- , isso é importante, sério, você vai se sair bem, lembra? Sou portuguesa e nunca desisto! – ele disse sorrindo fraco.
- Eu sou Brasileira, Hill! – guinchei indo para direção oposta dele, como ele pretendia continuar uma relação assim? Ele não sabia de onde eu era nascida! E isso foi mais ridículo que dizer que o Frajola pegou o Piu-Piu – Eu não vou mai...
- , coloque suas sandálias e pegue sua bolsa, nós vamos hoje. – ele me cortou e pegou as chaves do carro dele. – te espero no elevador...
Eu estava em Paris dessa vez. John tinha outro jantar de negócios e eu sempre pedia pra ficar em casa, mas ele quase nunca fazia mesmo questão de me ter lá, eu sempre falava algo, de mais. Não gostava de ir, não sabia como me comportar perto de pessoas, importantes, eu só tinha visto poucas pessoas importantes, e todas nas minhas fotos. Coloquei as sandálias peguei minha bolsa e me dirigi até a porta, suspirei pesado, eu ia fazer uma merda, tinha certeza e as sandálias de salto só me ajudavam a ter certeza disso. Entrei no elevador e o John me esperava lá, ele me abraçou de lado, eu nunca brigava feio com ele, ele tinha cara de bebê, sorri de lado.
- Eu te amo, confio em você, vai se sair bem – ele disse e me beijou na cabeça.
- Eu te amo, e vou tentar não estragar nada, prometo. – disse e olhei pra ele. – Só que se eu fizer tudo certinho, vou querer uma coisa.
- Que coisa? – ele sorriu malicioso.
- Alguma coisa, mas relaxa que eu não desejo você... – disse entrando na brincadeira.
- Ok, vou virar Gay, só por isso! – ele apontou o dedo na minha cara, eu dei uma mordidinha na ponta do mesmo.
- Mentira seu bobão, eu te amo, mas eu ainda não sei o que vou querer. – ele me deu um selinho, tínhamos chegado na garagem.
Entramos no carro e foi tudo bem até o restaurante, que por sinal era um dos mais caros de Paris a cidade da comida boa e cara. Ele me levou até a nossa mesa onde nos esperavam quatro homens de meia idade em ternos e gordos. Eu não sabia falar muita coisa em Francês, então eu falava em inglês, o que a maioria sabia. Todos nos cumprimentaram, e um deles secou minhas pernas, droga de vestido tubinho!
-Une belle dame, est la vôtre? – um deles perguntou e eu sorri idiota, olhei pro John que achou aquilo normal e só respondeu com um sorriso.
- Oui, c'est mon – olhou para mim e deu um beijo no canto da boca. – Mon..
Dei uma garfada no prato - que quase foi o prato todo, nunca vem nada naqueles pratos. Acho que era um Carpaccio de salmão, na verdade, não sei bem, só sei que tinha salmão. Não, eu não sou fina como o meu namorado. Não sei falar francês e não estou acostumada a comer salmão, mas sim comida do café perto de casa. Foi um jantar entediante, mas pelo menos eu não abri a boca pra falar besteira, só pra dizer que eu era fotografa e que meu nome era . Um jantar bom, e relativamente agradável, gostava de sair com o John.
- Au revoir – isso eu sabia o clássico “tchau”, eu e John nos despedimos e saímos dali. Fomos para o lado de fora, mas não para o carro.
-Você se comportou como uma Lady, o que vai querer? – ele sussurrou no meu ouvido.
- Eu? Vou querer andar de baixo da torre... – Eu disse e saí correndo, a Torre ficava muito perto, talvez uns 3 minutos correndo, ele não perdeu tempo e correu atrás de mim. Como eu previ, não demoramos a chegar na torre, que estava linda e iluminada. Parei ofegante perto de um banco, estava ficando frio ali. Era quase inverno, quase natal, quase quatro meses que eu conhecia o John. Sentei no banco, tentando espantar os meus devaneios, e o John logo em seguida sentou. Ele me abraçou de lado e beijou a minha cabeça.
- Está muito frio não? – ele perguntou – é inverno já, e ainda não nevou...
-Mas vai nevar, sempre neva só acredite. Porque um natal não é natal sem neve, não aqui em Paris... – Eu olhei para o céu, logo ia nevar, eu sabia.
- Você é única, sempre acredita nas coisas... Um conto de fadas. – Ele disse, eu me irritaria com aquilo, mas estava tudo muito lindo diante dos meus olhos que eu nem liguei, só respondi.
- E você é o príncipe, que vai me tirar pra dançar... – ele fez uma reverência exagerada e me tirou para dançar eu ri. – E vai ser o cara da minha vida, vamos nos beijar e ficar juntos até que...
- Shh, não precisamos falar do futuro, só do presente. – ele colocou o dedo indicador nos meus lábios e depois me beijou, só com carinho, uma coisa que eu não sentia muita emoção, mas era com carinho. Nesse momento uma coisinha pequena e gelada tocou os nossos narizes, olhei rápido pra cima, estava chovendo...
- Está chovendo, acho que vamos estragar essas roupas que custam os olhos da car... – ele me beijou, assim me impedindo de continuar o meu discurso para sairmos da chuva.
- , eu simplesmente... EU-TE-AMO! – ele gritou
- Menino não grita! – sorri. – Eu já entendi, EU TE AMO! – gritei de volta, ele me beijou, um beijo forte. Uma coisa com desejo e logo fomos para o carro com sorrisos cúmplices.
Subimos pela escada, um corre-corre tarde da noite, a gente não ligava. Ele estava atrás de mim, e eu ‘fugia’ dele. Cheguei na porta grande e clara do apartamento, me atrapalhei com a porta e ele vinha subindo as escadas.
- Puta merda que me pariu. – xinguei tudo junto baixinho. Me atrapalhando com as chaves, e quando eu finalmente acertei a certa, uma coisa grande me abraçou por trás.
- há, agora eu te peguei ! – ele sorriu maníaco e eu ri me soltado dele.
- Duvido! – Passei correndo pela porta e esbarrei na mesa de centro da sala, demos risadas, continuei correndo pela casa. Até que cheguei no quarto e na hora de fechar a porta, ele colocou um pé na porta, assim me impedindo de fechar a mesma, dei risada da cara dele. Ele é mais forte, e claro, abriu a porta assim me pegando por trás e selando nossas bocas, o calor e a sincronia das nossas línguas no beijo davam conta do inverno parisiense. Logo foi parar no chão o casaco dele e o meu junto com os nossos sapatos, a camisa dele, minha meia calça. Estávamos ofegantes, e ele veio abrindo o meu vestido, ele tinha um zíper de cima a baixo. Eu mexia na calça dele até que ele tirou ela e jogou longe, namorado impaciente o meu. E o meu vestido também. Ele brincava com a minha calcinha e eu arranhava as costas dele. Ele subiu as mãos para o meu sutiã, ele se atrapalhou um pouco ali e eu ri, eu passava as minhas mãos nos seus ombros magros e o beijo se intensificava quando o celular dele tocou. E ele atendeu? Lógico que sim...
- alô? Ah o americano? Ok eu vou ver isso já – ele disse, e logo olhou para mim com cara de desculpa – desculpa, eu preciso fazer isso. É trabalho...
- Ok John. – disse colocando meu pijama, eu já estava farta disso tudo, mas para ele era trabalho, a mãe e eu e depois o trabalho de novo. – já me acostumei...
Peguei a coberta e o travesseiro e fui direto para a sala, não sem antes passar pela cozinha e pegar o chocolate. Que por sinal eu trazia quando vinha, o John era natural, nunca tinha um doce na casa dele, não que eu não gostasse de comida saudável, mas não ter um doce acabava comigo.
Me acomodei no sofá da sala e liguei a TV baixinho, estava passando um filme que eu não conhecia e eu juro que tentei ver ele, mas estava ficando com sono de tão entediada que resolvi ir para a cama. Passei pelo escritório do John e vi ele todo concentrado na tela do Notebook dele, suspirei e nem assim ele me ouviu.
- John vai dormir depois você termina isso... – disse com voz de cansada.
- Não , deixa eu só acabar aqui, é importante, tenho que estar pronto em relação á esses caras – ele disse sem nem olhar na minha cara. – Não vou demorar, só mais um pouco amor...
- Ok, que seja. Estou te esperando, beijo – eu disse jogando um beijo no ar para ele.
- Claro, eu não demoro.
Ele ainda ia se matar de tanto trabalhar, era de manhã e de noite, estava comigo e sempre com a cabeça no trabalho. E não adiantava falar com ele, ele nem ouvia, até que desisti e fiquei quieta em relação ao meu ponto de vista do trabalho dele. Deitei na cama, pensei em muitas coisas, pensei no meu trabalho, na minha família no Brasil, pensei que eu tinha 19 e o John 23, pensei que eu parecia uma velha que tinha perdido o marido para o trabalho, pensei que era tarde e que eu provavelmente estava com problemas ou um distúrbio causados pelo sono até que olhei o relógio que marcava bem grande que eram 3:00 da manhã e nada do John, só o barulho do teclado. Desisti de esperar, eu não era esposa, mas acho que estava perdendo o meu namorado para o trabalho, virei e deixei as pálpebras pesarem sob os meus olhos. Consegui dormir.
Acordei com a luz no meu rosto, e o despertador irritante que gritava do meu lado, o John estava lá do meu lado. Olhei para ele que fazia um cara de irritadinho, um bebê irritadinho. Desliguei o despertador e olhei para ele.
- John, que horas veio dormir? – perguntei calma.
- Acho que umas quatro da manhã... – ele bocejou – e acordei oito e meia para te levar na estação, certo?
- É isso mesmo, tenho que ir. – fiz biquinho – você vai quando?
- Eu? Vou viajar amanhã para o Texas, volto daqui a duas semanas, recebi a noticia ontem de noite. –Ele disse normal, isso para ele era normal, mas duas semanas era muito. – mas eu vou voltar amor.
- Eu sei que vai voltar.
- Sou essencial na sua vida, não posso sumir assim ...
- Ah seu metido! – eu disse rindo.
- Vamos , arruma suas malas que eu vou fazer o café da manhã. – John disse e foi para a cozinha enquanto eu fui para o banheiro fazer minha higiene pessoal. Fiz um coque frouxo e fui para a minha mala, aquilo era arrumado, o meu quarto era outra coisa. Meu quarto e minha casa eram uma bagunça de vez enquanto, mas minha mala era relativamente arrumada, então eu só fechei ela do jeito que estava . Peguei uma roupa e coloquei, depois fechei a mala.
Andei em direção a cozinha, esfregando as mãos nos braços em uma tentativa inútil, e idiota, de me aquecer. Fui logo para a cozinha, onde dei de cara com um John tentando fazer ovo. Ele não sabia, acho que ele sempre teve a empregadinha pra fazer isso para ele. Dei uma risada alta ele, estava com medo de quebrar o ovo.
- Ei Hill ta com medo do ovo te morder? – perguntei dando um sorrisinho de lado.
- HÁ-HÁ vem fazer você . – ele me disse dando espaço, assim me deixando de frente para a frigideira, eu fui em frente e fiz cara de ‘já ganhei’.
Peguei o ovo na mão e disse com voz de idiota, como fazemos para falar com um bebê.
- A gente pega o ovo, com cuidado que ele morde. Com muito cuidado damos batidinhas leves na ponta da bancada. – eu dizia e fazia o que falava. – Aí, agora cuidado com a margarina, despeja na frigideira e é só não deixar queimar, e não se esqueça do sal!
- Ai que coisa difícil, não vou tentar. – ele disse me tirando da frente da frigideira. – agora eu mexo?
- é isso mesmo, mas cuidado que espirra. – eu disse rindo.
- Ai cala boca sua gorda. – ele disse jogando um pouco da geléia em mim.
- EU? GORDA? – perguntei pegando os biscoitos e jogando nele. – Vai à merda Hill.
- Só se for com você ! – ele jogou uma uva em mim.
- Isso não dói, toma o suco John – dei língua e joguei suco de laranja nele que riu. Ficamos nessa guerrinha idiota de comida por um bom tempo.
- Toma – ele jogou o leite, que estava quente, aquilo atingiu minha barriga que ardeu e se contraiu de dor, estava muito quente mesmo. Logo levei a mão até a barriga, tirando a blusa.
- CARALHO! – eu xinguei. – isso está quente.
Ele ficou assustado e não sabia muito bem o que fazer, ficou me olhando abobado enquanto eu pegava o gelo e colocava no pano. Me sentei e então ele teve uma iniciativa e veio para o meu lado já pegando o gelo e colocando ele mesmo na minha barriga.
- , eu não sabia que estava quente, desculpa... – ele começou a falar e eu coloquei o dedo na boca dele, o impedindo de falar.
- Já foi John, agora é bom isso não piorar. – eu disse olhando o estrago que havia feito, uma marca vermelha, feia e grande, perfeito, eu pensei. – Só foi uma marquinha vermelha de nada John.
- quer que eu te leve para o hospital?
- John, eu não vou responder. Estou me trocando e pegando minhas coisas e te espero lá em baixo, não quero perder o meu trem. – eu disse indo para o quarto, mas a tempo de o ouvir ele falando.
- Puta merda , vê se larga de ser teimosa... – ele disse e foi pegando outra blusa na lavanderia.
Coloquei a primeira coisa que eu vi na minha frente e coloquei aquilo num saquinho, junto com a roupa suja. Dei uma arrumada no cabelo e tirei um pedaço de biscoito, eu tomaria banho se eu quisesse perder o meu trem, e eu não queria isso por isso não tomava banho.
Peguei minhas coisas e descer, o John já devia estar lá embaixo mesmo. Chamei o elevador e desci me arrastando, não queria ficar duas semanas longe do meu namorado. Quando cheguei na garagem ele já estava me esperando dentro do seu Porsche cayman prata. Entrei no carro e ele deu a partida com uma mão no volante e a outra segurando a minha. Quando paramos no sinal ele deu um beijo na minha cabeça.
- Desculpa , pela sua barriga. Vou ficar duas semanas fora, to indo hoje e não quero que você fique brigada comigo... – ele disse como uma criancinha de dois anos, e eu não agüentei, ri da cara dele.
- não to brava com você seu tonto! – eu disse – só não queria ir pro hospital, dramatico.
- é teimosa isso sim !
- aaah olha quer ficar meu amiguinho antes de ficar, - fiz pausa dramática e cara de sofrida – duas semanas fora.
- minha linda. – ele deu partida no carro
Fomos para a estação e na hora de partir eu tinha que ser fraca tosca e chorar.
- , não fica assim, são só duas semanas amor – ele me deu um beijo na testa.
- To chorando de idiota, eu sei. Nunca fui de chorar – fiz biquinho. – mas promete que não vai pegar nenhuma Texana?
- – ele riu. – prometo eu nunca faria isso.
Selei nossos lábios e beijei com saudades já. Ele me apertava contra sua cintura e eu bagunçava o cabelo dele. O contado da nossa pele, a minha quente e a dele fria, era bom. O trem apitou e eu me separei dele.
- Ok assim eu fico bem, te amo Hill, se cuida ok?
- Ok pequena, eu te amo. E te ligo sempre que der. – ele me deu mais um beijo na minha testa e limpou uma lagrima idiota que caiu. – agora vai e vê se trabalha !
- Você está falando que eu não trabalho?
- Não, só que precisa fazer mais isso. – ele me beijou, e de novo em menos de 48 horas, uma coisa pequena tocou o meu nariz. Era gelado, e com a minha pele relativamente quente, conseguiu me fazer olhar para cima. Quando descobri o que era, sorri largo, era um floco de neve, bem gelado e branquinho.
- Tá. Nevando. Eu disse! – falei pausadamente.
- Você me disse. – ele sussurrou no pé no meu ouvido. Ele me pegou no meio que no colo e deu uma pirueta comigo logo em seguida me dando um selinho demorado.
- não esquece que eu te amo .
- Não esquece que eu te amo Hill.
Subi no trem um tanto quanto desajeitada, fui passando pelos assentos vazios, outros cheios. Até que achei o meu lugar. Sentei na janela e olhei para o lado de fora, o John estava lá acenando idiota, sorri boba. O vidro estava gelado e esfumaçado, fiquei olhando aquela cena até o trem partir e o John lentamente sair da estação.
- Não esquece que eu te amo Hill. – sussurrei de novo baixinho para mim mesma.
Capítulo 2
Cheguei em casa chutando tudo e mais umas coisas que tinham na minha frente. Coloquei minhas malas no quarto e entrei direto no banho. Deixei a água quente e a atmosfera fria de Londres causar efeito sobre mim, era bom estar em casa, porcarias a vontade, dormir na hora que eu quisesse, trazia quem eu bem entendia. Lar doce lar.
Sai do banho, a muito custo, e coloquei a primeira roupa que vi no meu armário. Um moletom azul velho e surrado, meu favorito. Cambaleei até o telefone, e liguei a secretária eletrônica, logo em seguida fui desfazer minhas malas enquanto ouvia meus novos recados.
Você tem duas novas mensagens.
, é a . Quando chegar, me dá uma ligada preciso falar com você, é importante. Vamos marcar alguma coisa, mas me liga. Beijos.
Fui desfazendo a minha mala, colocando o que estava limpo dentro do armário e o que estava sujo deixei separado para lavar depois.
, chegou bem de viagem? Eu estou indo agora, na verdade, estou dentro do avião. Só queria dizer que eu estou com saudades. Bem, depois eu te ligo, eu tenho mesmo que desligar, sobreviva sem mim. Beijo.
Era a voz do John, sorri pro nada. Ok, eu era uma boba apaixonada, mas ele era tão perfeito. Eu não queria acordar desse sonho que eu sabia que eu estava fazendo parte. Sim eu poderia sonhar assim para sempre sem me importar. Peguei as roupas sujas e despejei tudo no cesto de roupa suja. Gemi baixinho com a montanha de roupa que eu tinha para lavar, e depois passar... Acho que eu vou gastar um dinheiro e mandar tudo para lavanderia de presente.
Peguei o telefone e deitei no sofá. Digitei o número tantas vezes digitado ali, e já decorado pelos meus dedos que eu não precisava olhar para saber que estava certo.
- Alô?
- , amor, cheguei! – sorri
- ! Eu espero que você tenha olhado sua secretaria, assim me poupa tempo, né?
- Sua sedentária, eu vi sim ok? E agora estou curiosa quero saber o que você tem de tão importante para me dizer.
- Vamos marcar de sair, eu estou livre para o jantar, é que eu preciso te contar uma coisa...
- , eu estou ficando velha não agüento noticias muito fortes hein!
-Sua bobona, não é nada de mais ok? Pode ser ás 19 horas hoje?
- Pode sim , então até ás sete, e lembra que eu sou uma pobre velha que não agüenta noticias fortes. – nós duas rimos.
- Ok velha, beijo e tchau.
Eu gostava de falar com a , éramos melhores amigas desde os meus 8 anos, quando eu cheguei em Londres com a minha mãe e entrei na escola. Sabe aquela menininha que ficava no canto da sala, não tinha muitos amigos e era quietinha na escola? Era eu, ai a chegou e com certeza fomos quase um terror. Era eu e ela, um grupinho fechado, era eu e ela aprontando todas na escola, ai terminamos a escola e fizemos um curso de fotografia juntas e agora vagamos por um emprego decente. Com certeza era uma amizade de 11 anos que ninguém mais ia separar.
Fiquei olhando para o céu nublado e chuvoso de Londres, quando aquela cidade não chovia? Olhei para o monte de roupa suja que eu ia ter que lavar. Encarei ela por uns segundos e então decidi que tinha dinheiro o suficiente para mandar tudo para a lavanderia. Minhas pálpebras pesaram sobre meus olhos. Me arrastei para o meu quarto e me joguei na cama de qualquer jeito entrando de baixo do cobertor. Coloquei a mão em cima do medalhão, que ficava sempre no meu pescoço, me lembrei do meu avô e da minha mãe me dando ele no dia do meu aniversário de 16 anos, sorri involuntariamente. Meus olhos pesaram de novo indicando que eu estava mais cansada do que podia agüentar. Cantarolei uma música calma da que não me recordava do nome e deixei o sono me embalar naquela tarde chuvosa.
She's got a lip ring and five colours in her hair,
Not into fashion but I love the clothes she wears,
Her tattoo's always hidden by her underwear.
She don't care.
Everybody wants to know her name
I threw a house party and she came
Everyone asked me
Who the hell is she?
That weirdo with five colours in her hair.
- Puta que me pariu... – xinguei irritada, acordar com música? Pode ter gente que gosta, mas eu não gosto, mesmo. Olhei para o relógio que marcava 3 horas da tarde. Levantei da cama irritada e coloquei o chinelo. Prendi o cabelo em um coque frouxo e bocejei. Devem ter se mudado enquanto eu estava fora, só me falta ser todo dia assim.
She's just a loner with a sexy atittude,
I'd like to phone her cos she puts me in the mood.
The rumours spreading now, that she cooks in the nude.
She don't care
She don't care
Everybody wants to know her name,
How does she cope with her new found fame?
Everyone asks me,
Who the hell is she?
That weirdo with five colours in her hair.
- Ah não vão parar? Filhos da mãe! – Falava eu sozinha enquanto andava com passos largos pelo meu pequeno apartamento. Passei pela minha porta de madeira decidida e bati-a com força, será que só eu me incomodava com aquela musica alta?! Toquei a campainha duas vezes e nada. Bati na porta e nada. Fiquei irritada e bufei.
- Não vão atender? Não estão ouvindo? – eu falava para mim mesma. Comecei a esmurrar a porta com toda a força que os meus braços pequenos me proporcionavam, pelo amor de Deus, se não ouvissem seriam surdos.
A música cessou do lado de dentro do apartamento e eu sorri vitoriosa, acho que alguém ia vir falar comigo agora.
- , sua vez de atender a porta! – um deles berrou do outro lado da porta quebrando o silencio.
- Não viaja , é a vez do !
-Não , é a sua vez não minha. – outra voz rebateu lá de dentro.
- Gente se for o entregador de pizza, a pizza vai esfriar seus idiotas! Eu vou...
Aplausos saíram de dentro da casa, meu Deus, isso era um hospício? Sorri, eram quatro então? Ou tinha mais? Não demorou muito a porta abriu revelando um homem, ok eu sei que tenho namorado, mas se rolasse suruba com o vizinho, ia ser com ele com certeza. Ele era lindo, meu Deus, tinha os cabelos espetadinhos os ombros largos, era alto e tinha um perfume... Ok , foco, foco agora!
- Oi, você não é o entregador de pizzas né? – ele perguntou.
- Hum, eu não estou vestindo o uniforme deles, e não tenho uma pizza nas mãos... É não sou ele. – eu disse sorrindo. – Na verdade eu sou a vizinha do lado de vocês, e bem, eu estava dormindo quando a música de vocês me acordou.
- Ah me desculpa mesmo... – ele olhou para baixo sem graça. – Mas temos até dez horas da noite para ensaiar, mas relaxa que a gente não passa de sete da noite não.
- Espera, vocês não vão parar com a barulheira? – perguntei.
- É que temos que ensaiar, mas depois você se acostuma com a nossa música. – ele rebateu cínico.
- Ok, muito obrigada pela informação. – eu disse irônica. – e tenha um bom dia, e um bom ensaio.
- Tchau vizinha! – ele acenou cínico para mim e fechou a porta. Bufei irritada e fui para o meu apartamento.
- Arg, se rolar suruba com vizinho e prefiro o velho careca da cobertura, ele pelo menos é rico e não faz barulho! – sim eu falo muito sozinha. Eles voltaram a tocar no apartamento deles. Ok, guerra declarada vizinho. Fui até o meu super potente som e coloquei no ultimo volume o RIOT! do Paramore, eu particularmente gosto e prefiro músicas mais antigas. Aquilo não abafava o barulho deles, mas diminuía, e eu tinha certeza de que de lá eles ouviam a minha música. Ok, eles mexeram com agora eu poderia, se quisesse, infernizar a vida deles. Adivinhem, eu acho que queria.
Olhei o relógio velho da cozinha, que marcava 3:10 da tarde. Eu tinha até sete da noite livre, olhei de novo a inocente pia de roupa suja, suspirei pesado. Fui devagar até ela, eu ia lavar, não ia gastar dinheiro. E ia aproveitar para mexer na pia de louça do café e na casa, ia dar um jeito naquilo, estava com poeira pela falta de movimento. Ri sozinha, me senti a Maria-Lavadeira da casa. Fui andando e resmungando comigo mesma, peguei a primeira coisa e coloquei na máquina. Enquanto a roupa batia, eu decidi varrer a casa. Andei até o banheiro de empregadas, onde eu botava as vassouras e o as coisas de limpeza.
- Acredite você quer isso tanto quanto eu. – eu disse pra vassoura, algum problema comigo? Sim, muitos, e o primeiro estava do meu lado tocando agora mesmo. Antes de começar a varrer eu só parei para trocar o CD, dessa vez o American Idiot – Green Day. Peguei a vassoura e comecei do meu quarto, maravilha, uma pessoa alérgica a poeira varrendo a casa, realmente não vou comentar da minha crise nojenta de espirros incessantes. Terminei de varrer a casa, e ganhei de brinde uma renite, coloquei as roupas para secar e só faltava a louça. A essa altura eu nem resmungava mais, acho que a poeira e o movimento me deixaram ligada. Fiz espuma com a esponja e comecei a lavar a pouca louça que tinha na minha pia.
Olhei de relance para o relógio, que marcava 6:34 da tarde, eu já havia terminado as ‘tarefas’. Deitei suada no sofá e olhei para a janela. O meu CD já tinha acabado e o ensaio deles também. Suspirei cansada com o dia de faxina, olhei para o meu estado deplorável, descabelada, suada, com o nariz todo vermelho e dor de cabeça. Sim eu realmente estava com renite, e me senti uma criancinha que não pode mexer na poeira que fica doente.
Fui até o meu quarto e peguei a minha câmera, sentei no sofá e liguei ela. O John estava certo, fazia tempo que eu não procurava emprego, na câmera ainda estavam às fotos da ultima viajem que eu e a fizemos, para paris, quando eu comecei a sair com o John. Fiquei por pelo menos uns quarenta minutos mergulhando em lembranças que as fotos me traziam, momentos que com certeza não voltariam. Eu não saberia dizer se eu estava mais feliz antes de conhecer o John, ou agora que ele meio que entrou do nada na minha vida. Balancei a cabeça espantando os meus devaneios.
Decidi entrar no banho, fazer uma higiene porque eu estava precisando mesmo de uma.
Sentei na cama, eu estava mole de cansaço e com dor de cabeça. Abri a porta do meu armário e fiquei olhando as pilhas de roupas. Optei por uma jeans, uma blusa de manga preta, o meu salto vermelho poderoso hoho. Deixei o cabelo para secar sozinho. Olhei o meu relógio de pulso e vi que já eram 7:28 da noite, eu estava atrasada, arregalei os olhos e peguei minha bolsa correndo. O salto fazia um barulho alto, batendo contra os degraus da escada. Eu não gostava de elevadores, tinha medo de ficar presa em um deles, idiota eu sei, mas eu tenho fobia de ir sozinha. Minha cabeça latejava fortemente, eu mexia dentro da minha bolsa irritada. Porque, agora eu te pergunto o porquê das bolsas femininas serem sempre um local perfeito para perder coisas? Porque a gente colocava tudo dentro delas? Eu juro que eu poderia achar ali dentro até chaves que eu nunca mais usei na vida. Minha cabeça gritava por um remédio, e eu já estava pronta, não ia desmarcar com a agora.
Estava ficando irritada, não achava nada na bolsa, minha cabeça estava doendo, suspirei pesado.
- Cacete, que diabo dos infernos, eu posso matar um. Filho da mãe. Ainda estou atrasada com a , ela vai me matar, vou ter que ouvir ela reclamar... – eu falava enquanto andava. Eu estava distraída e eu diria que eu tinha batido na parede se ela não se mexesse e falasse, e eu conhecia aquela voz irritantemente boa de ouvir.
- Vizinha? Falando sozinha?! – o Vizinho, ele me segurou pelos ombros. – quer ajuda ai, boquinha suja?
- Três perguntas em uma frase?- perguntei em tom debochado.
- O que eu posso dizer se encontro uma maluca falando sozinha pelos corredores né?
- Maluca é a vó, apropósito seu nome é...?- me encostei na parede branca.
- , mas me chama de ... – ele sorriu tentador eu diria. Ele era um delicinha... , nada de delicinha! – você não ia para algum lugar?
Arregalei os olhos sentindo uma onde de choque passar pelo meu corpo, eu estava atrasada com a , eu ia perder o pescoço! Olhei para o relógio no meu pulso, que estava mais ranço que o normal eu diria, ele mercava calmamente que eu estava atrasada á quase 40 minutos. Eu saí correndo de novo, sem me despedir do . Pulando os degraus de dois em dois e desci a escada, já nem ligava pra minha dor de cabeça. Abri o carro, ignorando os seus ‘’plin piln’s ’’ irritantes, me joguei no carro de qualquer jeito jogando minha bolsa para trás. Dei partida, deixando o meu prédio, e o vizinho para trás.
A placa do Nando’s estava bem acima da minha cabeça, sorri para mim mesma e entrei. Logo eu vi a figura pequena da sentada um uma mesa de canto, mexendo sem animo nenhum no garfo com suas unhas fluorescente, a cara da , o estilo dela é o mais chamativo o possível, mas dessa vez ela estava meio... Apagada? Claro , você deixa a menina esperando por quase uma hora e quer que ela te receba sorrindo de orelha a orelha? Bufei com a minha consideração, ou a falta dela, segui de cabeça baixa até a mesa, onde me sentei, e juro que levei um susto quando vi a sorrindo.
- Desculpa por chegar atrasada de novo?
- Tudo bem , eu sabia que você ia se atrasar mesmo, e a minha noticia compensa isso – ela sorriu re eu sorri de lado.
- Ok, eu quero saber, estou morrendo de curiosidade!
- Espera, Amigo o de sempre para dois ok? – pediu para o garçom gostoso que jogava charme para ela, acho que eles já passaram uma noite juntos, rumores apenas. – Ok, preparada?
- Não. – eu disse sem pensar arrancando uma risada da , e claro, um chute dela por debaixo da mesa.
- Mas vai ouvir, Eu. .Ganhei.Um. Emprego! – Ela sorria feliz e eu me esqueci de como se respira, meu chão sumiu. Me senti estranha e mal, a tinha um emprego e eu não? Eu procurava a mais tempo que ela, não tinha ‘melhor’ entre nós duas, mas eu sei lá... Fiquei extasiada, eu estava com inveja da minha melhor amiga? Sorri o mais amarelo, e forçado eu diria, que pude.
- Isso é...Maravilhoso!
-Serio? Não parece pela sua cara... – ele disse com cuidado. Levantei batendo palmas feito uma doente maluca.
- Champanhe, garçom! - eu disse sorrindo, bem, ela conseguiu e eu não, quem se importava? Iríamos comemorar como duas melhores amigas.
- Mas onde é isso, quero saber ! – Talvez eu quisesse saber para... Eu não sei, eu sei que queria saber.
- É para uma agencia de modelos, eu fotografo as magrelas maquiadas! – ela sorriu, se isso era possível, mais ainda.
-Nossa realmente, muito bom...
O garçom chegou com os nossos pedidos e o champanhe, servindo a gente e secando a , ok o que falta? Ela tem emprego e daqui a pouco namorado? Espantei aquilo da minha cabeça, como eu podia estar sendo tão estúpida invejosa e nojenta? Eu ia ficar feliz pela minha amiga e fim de papo.
O resto da noite seguiu tranqüila, bebemos, comenos, rimos, bebemos mais, andamos e ficamos bêbadas lá pelas onze da noite. Até que cada uma seguiu seu rumo, a foi pro carro dela e eu pro meu, seguindo para casa.
Entrei subindo correndo as escadas, os meus saltos? Bem, eles devem estar em algum lugar do meu carro, espero. Se eu bem me lembro, a saiu com o garçom:- Nota mental, ligar para ela amanhã de manhã para saber se ela e o ruivo dormiram juntos.
Mas a era uma mestra em conquista, tipo assim todos os homens babam por ela quando ela coloca uma roupa mais... Sexy. E ela tem o charme, o dom ela sabe pegar eles pela "gravata".
A Ultima coisa que me lembro de fazer era de cantarolar uma frase, She's got a lip ring and five colours in her hair, logo em seguida dormindo, e me deixando ser guiada pelo som daquele ser.
Capítulo 3
Acordei, minha cabeça latejava, meus cabelos estavam emaranhados em meus dedos e eu tinha um sorriso grudado na minha cabeça...
Sentei na minha cama bocejando, cocei os olhos e tentei fazer um mapa mental do que eu fiz ontem à noite. Me lembro perfeitamente de ir para o restaurante, de descobrir que eu sou uma falida e que até minha amiga tinha emprego. Credo parece que a Tati é ruim no que faz, ela não é. Me lembro de beber, da gente sair andando e bebendo... Franzi o cenho. Dessa parte eu só me lembrava isso. E me lembrava de alguma coisa como: Tati + Garçom = liga preocupada de manhã cedo.
Levantei desanimada e fui até o banheiro, fazendo minha higiene matinal e ficando com hálito de menta, e os cabelos no lugar.
Me arrastei pesadamente até a cozinha e abri a geladeira, procurando algo de útil ali dentro. Acabei pegando o leite e fazendo um Nescau. Ah, eu não cresci muito bem, ainda tenho resquícios de infância. Levantei, o barulho da cadeira arrastando no piso de madeira me irritou profundamente.
– Urgh... – gemi.
Fui até o sofá e me joguei, literalmente ali. Se tem um lugar que é meu favorito na casa, é a minha sala. Ela era grande, com paredes beges, uma janela grandona e cortinas amarelas. Uma grande estante com CD’S e DVD’S, uma tevê de LCD e um sofá dos deuses, preto e cheio de almofadas. Tinha ainda minha estante de livros e um estéreo bem potente. Um lugar do qual eu adoro.
Peguei o telefone na base e liguei para a Tati. Chamou, chamou e não atendeu.
Fiz um biquinho bem digno de uma criançinha e encarei o teto branco.
– Tééédio porra... – murmurei para mim mesma.
Decidi ver TV em algum canal qualquer, mas baixinho, minha cabeça ainda latejava. Entediada com a programação e cansada de ficar em casa, resolvi ir ao parque tirar algumas fotos. Coloquei um short, uma blusa e a minha jaqueta de couro por cima. Peguei as chaves, a câmera e uns trocados, ninguém ia me ligar mesmo, então eu deixei o celular em algum lugar da sala.
Desci apressada pela escada, indo a pé mesmo até o Parque mais próximo. Fazia um dia bonito em Londres, eu nunca fui muito de natureza, mas eu diria que hoje eu faria boas fotos, não que eu preferisse fotos de paisagem, prefiro de pessoas. Mas eu me divertiria com as fotos do mesmo jeito.
Entrei no local verde, e tinha pessoas felizes. Eu não sei lidar com emoções expostas, mesmo. Acabei meio que saltitando feito uma idiota até o lago e acabei sentando por ali mesmo para fotografar.
Tirei a câmera, nada pratica, aquilo era “grande”, – na verdade um tamanho normal para uma câmera daquele tipo – e comecei a apontar para o nada, tirando fotos de pessoas. Casais, crianças, árvores. Absolutamente qualquer coisa, acho que até umas formigas eu fotografei.
Levantei satisfeita com o tempo... Com as horas que eu passei lá. Mas uma coisa me tirou da lente, minha barriga roncou, sou muito faminta. Tipo, eu como porque gosto, e acho ridículo meninas que controlam a água que bebem. Olhei de relance no meu relógio que marcavam mais de uma hora da tarde. Sorri, eu estava faminta, e com vontade de comer uma coisa doce. Avistei um carrinho de sorvete. Preciso dizer que andei feito uma retardada até ele? Não.
Comprei um sorvete [n/a Nããão, comprei um cachorrinho na barraquinha de sorvete :B]. Tomar sorvete em Londres, eu acho que seria mais sensato tomar um café, ou comer comida. Mas eu fiquei com o sorvete. Fui andando para casa, em passos arrastados. E assim demorando mais que o dobro do tempo que uma pessoa normal demoraria.
Avistei o meu prédio, estava na outra esquina, ali eu fui um pouco mais rápido, por ver uma figura pequena, morena e com as unhas chamativas. .
Daquela parte em diante eu andei como uma pessoa normal faria. Mas de normal, eu passei para rápido. Motivo? Soluços baixos no meu portão, e a dona deles tinha unhas chamativas.
Tati não disse nada, só se levantou e me abraçou mais forte que o normal, naquele momento deixando pingos, que reconheci como lágrimas, caírem livres no meu ombro.
A Tati não era exatamente uma Drama Queen, alguma coisa devia ter acontecido, uma coisa desastrosa. Com certeza.
– Tati, vem vamos subir. Aqui fora ta ficando frio. – cortei o silêncio.
– Ok... – ela murmurou fraco.
Subimos pelo elevador, com outra pessoa eu subo por ele. Sozinha? Sem jeito.
Tati suspirou pesado, e eu ainda não sabia nada sobre o estado deplorável da minha amiga. Na saída do elevador, o vizinho, Harry, e os amigos dele estavam pegando o elevador e ficaram olhando. Realmente, qual era o problema deles? Eles nunca viram uma mulher chorar?
Aninhei a Tati no meu ombro e fui para o meu apartamento, só ouvi risadas lá atrás. Idiotas.
Sentei a Tati no sofá.
– Meu amor, eu vou fazer um chocolate quente com pedacinhos de marshmallow. Fica por ai na sala que eu já volto. – disse eu, já me retirando para a cozinha.
Fiz o chocolate, quanta caloria aquilo tinha, mas tristeza se cura com chocolate, ou um homem, mas como aqui eu só tenho chocolate, ia ser isso mesmo.
– Toma... – eu disse dando uma xícara para ela e me sentando no chão, ao lado dela. – Vai me dizer por que está assim?
– Vou... – ela soluçou. – O... O Josh morreu!
– Ah Tati... – perdi a fala. Ele era velho coitado, o que eu podia fazer?
– Foi terrível, ele estava comendo, e ai engasgou e teve um treco, na minha frente! – Tati começou a chorar mais. – E eu tentei... Tentei levar ele. Botei no meu carro e tudo. Mas não, não, não!
Tati balançava a cabeça freneticamente.
– Ah meu Deus, nossa. E ai ele chegou lá e...?
– Quando eu levei ele na veterinária, ele foi pra dentro de uma sala e morreu, . Mortinho! – Josh era o cachorro da Tati, um labrador preto. – O enterro é amanhã. Você vai, né?
– Que pergunta, mas é claro amoreco meu. Te prometo que vai ficar tudo bem, ok?
– , o Josh vai pro céu? – ela riu com a idiotice da sua pergunta. – Digo, céu de cachorros...
– De boa, ele era danadinho, sempre nos portões quando eu saia para passear com ele. Meu palpite é que ele era muito danado pra isso. – sorri.
Fiquei de pé, logo em seguida ela. Tati riu junto comigo, mas logo chorou mais, de novo. Andei calma até ela e abracei a minha amiga.
– Nós vamos superar isso...
– Ok... – ela disse tentando parar de chorar. – posso dormir aqui hoje?
– Pode ficar o quanto quiser meu amor!
– Preciso de roupas, se importa de ir comigo até o meu apartamento?
– Não mesmo. Vamos com o meu carro, não queremos outro morto nessa família! – arranquei um risinho abafado dela.
– Sua vaca. – ela me deu um soquinho no braço. – eu estou muito bem!
Peguei as chaves do carro e desci com a Tati ao meu encalço. Fomos de carro até o apartamento dela, ela subiu rapidinho, pegando o necessário. Descendo com uma cara de nada, a Tati ia, tinha o Josh desde... Sempre, eu acho.
Ela entrou e fomos pra minha casa.
Cheguei em casa, e a Tati sabia onde e como se acomodar, ela era de casa. Fui para o banho enquanto a Tati fazia o almoço, atrasado algumas horas. Coloquei uma roupa bem confortável e fui ver como a minha amiga estava se saindo na cozinha.
– Tudo certo ai?
– Tudo sim, daqui a pouco a comida sai meu amor... E , sua secretaria eletrônica tem umas quatro mensagens.
– Ok, eu vou pondo a mesa. – eu disse indo para a mesa e colocando os pratos. Liguei a secretaria enquanto ia arrumando as coisas.
Você tem 3 novas mensagens:
Primeira mensagem:
“ , me liga assim que ouvir isso, e eu te amo”– era o Jonny, o John.
Segunda nova mensagem:
“, eu tentei ligar umas quinhentas vezes no seu celular, aonde você se meteu amor? Me liga!”
– Ixi, eu deixei o celular em algum lugar aqui em casa, ele deve estar subindo pelas paredes. – ri.
Terceira nova mensagem:
“Martinelli, aonde você se meteu? Agora que eu arranjo tempo para falar com você, você simplesmente some? ME LIGA!”
Adivinha quem era?
– Ele te ama, . Que fofo, estava preocupado...
– Ele ta é torrando a minha paciência, ele é grudento, urgh. Mas repare que ele só disse que me ama na primeira mensagem. – disse sorrindo marota.
Quarta nova mensagem:
– DESISTO MARTINELLI, VOU A UM BAR BEBER E PEGAR DANÇARINAS! – ele gritou do outro lado.
Dei uma risada gostosa, como o John era tosco quando queria. Sorri boba e peguei o telefone, eu ia ligar para ele.
– , liga pra esse retardado enquanto eu termino de arrumar as coisas aqui...
– Não fala assim do meu namoradinho irritadinho – diz bico discando o número dele.
No primeiro toque ele atendeu ao telefone.
– ?
– Não, o Obama seu idiota! – disse sentando no sofá.
– Eu te amo muito também, queridinha.
– Fala, o que você queria?
– Te dizer que eu te amo... – sorri boba olhando para o nada, tinha mais coisa no meio desse “te amo”. – E que eu estou trabalhando muito, e que principalmente não peguei nenhuma Texana que dança Country.
– Que bom, mas não espere um prêmio por isso, eu estou brava porque você ta viajando de novo.
Ele bufou, eu adorei aquilo, eu não sei, mas eu amo deixar as pessoas mal, pra baixo, eu nem sei por que, às vezes... Sai.
– Eu te ligo do Texas e você vem e reclama? Esse trabalho que faz você estar nessa confortável situação de não precisar trabalhar, ...
– Que bom, eu já disse que não quero o seu dinheiro e que sei me virar, nem que seja limpando casas! E para a sua informação, eu voltei a trabalhar, fui ao parque e tirei fotos. Espero que viva mais tempo com o seu dinheiro!
– Ótimo. Vai ficar de cu doce, fique. Eu nem ligo. Beijos e aguardo com saudades de você.
– EU NÃO! – ele desligou na minha cara. – Filho. De. Uma. Puta.
– , olha a boca menina! – era a única que ria das minha besteiras. Nem eu ria.
Realmente nem eu, eu não me teria como amiga.
Anoiteceu, e Harry e sua bandinha barulhenta tinham ensaiado. ficou melhor, disse que a música deles não era uma droga, que era boa. Eu acho que eles deviam aprender a pegar numa palheta antes de acabar com a minha paz. Eu e alugamos uns filmes, e eu acho que ela esqueceu essa loucura de “Ai meu cachorro...” Blargh. Meu Deus é um cachorro, imagina as pessoas fazerem tanto caso por cada um que já teve na vida. Eu já tive uns três e nem me importo, fico abalada quando um morre, eu não sou de pedra afinal, mas em uma ou duas horas passa. Estava sentada com a no sofá e estávamos vendo Querido John. Acho que todos já viram esse né? Eu estava vendo pela primeira vez, hum.
Bom, o fato é que estava em um fogo só, queria falar com o Harry e saber como o outros eram, e ficava inventando meios de ir lá e não simplesmente tomava vergonha na cara de ir lá e dar “Oi”, que na verdade eu não me daria o trabalho, ela parecia uma adolescente besta.
Minha sala estava uma bagunça, pipoca por todos os lados, chocolate até na TV, e eu havia derrubado Coca no tapete. Tinhas umas cobertas por ali e uns travesseiros também.
A começou a chorar de novo, lá vamos nós...
– , eu vou voltar para casa e ninguém vai me receber sorrindo e abanando o rabinho! – soluços. – Porque com ele? Porque não com o poodle da vizinha?
– , Deus quis assim, ou se você não acreditar em Deus, o destino quis assim. – êita, eu filosofei.
Ela ficou quieta e suspirou. Aquilo era divertido, meu Deus, só eu sei como segurei o riso ali. Ai você pensa/pergunta, essa pessoa não tem coração? Mas se coloque no meu lugar, eu estava explicando para uma mulher de 20 anos porque o cachorro dela morreu, pelo amor, minha amiga (a tal mulher) estava chorando!
– ... – eu perguntei. – Como é seu novo trabalho? Eu sei que você só começa na segunda, mas...
– Hum, estava esperando essa pergunta, . – ela sorriu pondo o dedo indicador na ponta dos lábios. – Eu basicamente chego cedo e espero as meninas chegarem, ai enquanto elas se produzem e trocam de roupa eu fico esperando, fazendo... Nada. Ai vamos para o estúdio, e eu tiro fotos das meninas. Simples.
– Uhum... – Porque eu não achava um emprego se era tão simples? – Você tá ansiosa?
– To sim, lembra da Carie, a modelo que saiu com a gente, a brasileira?
– Sim, claro. – sorri.
– Então, ela trabalha lá! E segunda ela vai fazer propagando para uma marca de roupas aqui que está lançando, e eu vou tirar fotos dela! – irradiava felicidade.
– Ai que lindo, eu nunca mais falei com ela. – fiz carinha de cachorrinho abandonado.
– AAAH! Que vontade de apertar essas bochechas! – berrou do nada. Lembra quando eu disse que não era muito fã de emoções expostas? tinha emoção para mostrar de sobra, ela era a típica pessoa emotiva, mas os opostos não se atraem?
– Credo garota, sai daqui! – dei risada e comecei a correr pela casa.
– Haha, volta aqui ! – ela riu irônica e começou a correr também. Assim dando inicio a uma corrida estranha, dentro na minha casa.
Era barulho de pés por toda a casa. Corremos a sala, e depois em volta do balcão da cozinha, onde eu peguei uvas e comecei a jogar nela, que ria como uma louca.
– , você não vai escapar de mim, te acharei onde você for!
Fomos para o quarto, onde ela pulou na minha cama, e no banheiro, onde eu molhei ela. Até que chegamos na sala de novo, fiquei em uma ponta do sofá e ela em outra, naquele Vou - não vou. Joguei mais uvas nela.
– Se renda! – gritei.
– Nunca, eu não desisto fácil!
Foi tudo muito rápido. botou os pés em cima do meu sofá. Deu dois pulos e literalmente se jogou em cima de mim. Obviamente caímos no chão fazendo um barulho estrondoso. Rimos de mais, como duas malucas.
– Ai, sai de cima de mim, isso dói! – eu pedi entre risos.
– Nunca mais eu faço isso, acho que quebrei a perna nessa posição. – ela riu mais.
– O que os vizinhos vão pensar de mim? – fingi preocupação.
– Ih, eu nem moro aqui mesmo! – ela deu de ombros, apertei os olhos como fendas e olhei nos olhos dela.
– Vou para o banho, to cansada. Essa maratona me matou. – falou, se levantando e indo para o banheiro.
– Sedentária, vou te levar para correr, aposto que a Carie se exercita! – dei língua e ela fechou a porta na minha cara.
Fui até o quarto pegar uma toalha, pantufas, um roupão e um tapete. saiu do banho e eu entrei, tomei um banho demorado, lavando bem cada centímetro do meu corpo, cuidar de amiga de luto cansa. Ter um problema que mora na parede seguinte a sua, cansa mais. Ainda mais se esse problema são quatro, que tocam. E para piorar, eram umas delicias.
Saí com a toalha na cabeça, apertando o roupão, para que nenhum ar passasse ali, e as pantufas nos pés para completar. Coloquei o pijama e deitei na minha cama, da qual se apossava sempre que dormia em casa. Fechei os olhos, pensando que já tinha dormido, estava frio e me enrolei na coberta. Eu simplesmente adoro o frio de Londres!
– ... – suspiro pesado. Pausa dramática. E as lagrimas. – O Jo...
– CALA A BOCA ! – gritei com ela. – Deus dos céus, eu sei, ele morreu. Ah tadinho, todas sentimos por ele, ele vai para um lugar melhor e blá, blá, blá... Precisa repetir de novo?
Ela riu.
– Boa Noite, .
– Vai pra merda e para de chorar no meu ouvido. – pessoas me dizem que sou ranzinza, não acredite nelas. – Boa noite.
Capítulo betado por Pillar Ferreira
Capítulo 4
Um despertador tocando, mais uma pessoa na ponta da cama é igual a... Você não precisa ser um gênio para saber que a pessoa em questão (no caso eu), caiu da cama fazendo um barulho estrondoso.
- Ai! – exclamei, e se levantou, assustada. – Minha cabeça!
O quarto explodiu em risadas. desceu da cama e me ajudou a levantar, eu tinha batido minha cabeça no criado-mudo, legal né? No enterro do cachorro da minha melhor amiga, eu estaria com um hematoma na testa.
- Você está legal? – perguntou bocejando.
- Desde que não tirem fotos minhas hoje, tudo certo. – sorri.
- Meu Deus, que anta! – bateu a mão na testa, do nada, acordando. – É um enterro, não uma festa.
- Hum...
- Primeira a usar o banheiro! – levantou o dedo e saiu do quarto.
- Legal, até porque eu tenho um reflexo super rápido! – falei, passando pela porta do banheiro arrancando risadas do outro lado da porta. Fui fazer um café da manhã bem caprichado, com direito a pedacinhos de bacon no prato que formavam um bonitinho Good Morning. Sorri com minha estupidez. Fiz café, panquecas, suco de laranja, coloquei frutas na mesa e para finalizar, muffins. Eu sei que não íamos comer nem metade, mas...
- Yey, muffins! – disse se sentando à mesa.
- Você – eu disse, apontando para ela. -, vai me esperar, porque eu ainda vou usar o banheiro.
- Mas são muffins!
- Nem ligo.
- Eu estou de luto!
- Nem ligo.
- Mas eu estou com fome!
- Nem ligo.
- Sou visita!
- Me espere! – disse, entrando no banheiro. Escovei os cabelos e os prendi em um rabo de cavalo alto, lavei o rosto e escovei os dentes. A água estava fria, demorei mais do que o normal para fazer isso. Dei uma olhada no espelho. Pareço uma maluca? disse que eu era maluca... Ah, pelo amor de Deus, eu estava mesmo ligando para o que aquele retardado dizia? Saí e fui para a cozinha, onde pegava pedacinhos do muffin dela.
- Oi. – ela levou um susto, e eu ri. – Nossa, você devia ter visto sua cara agora.
- Haha. – ela ironizou. – Vamos comer logo!
pegou seu Muffin (o que faltava pedacinhos) e suco, e eu peguei panquecas e suco também. Não trocamos uma palavra durante o café, acho que sou mesmo boa cozinheira, ou pelo menos o suficiente para calar a boca da minha amiga durante um tempo. Quem cortou o silêncio fui eu.
- Que horas temos que estar lá?
- Em uma hora e meia. – Ela disse, checando a hora no relógio da cozinha.
- Ok, eu tomo banho primeiro dessa vez! – Levantei e olhei para ela. – Você tira a mesa, amorzinho?
- Só porque você é meu docinho de amora. – ela disse, começando a guardar as coisas. Era incrível como a garota conseguia ser melosa e fofinha, mas eu gostava dela.
Entrei no chuveiro e tomei uma ducha bem rápida e quente. Quando saí, fui direto para o quarto, e logo a porta se fechou atrás de mim, havia entrado no banheiro. Eu tinha uma mania meio estranha, acho que por isso eu me atrasava um pouco para os meus compromissos: abria a porta no armário e sentava na cama para analisar o que ia vestir. Assim fiz. Sentei e fiquei observando as roupas que eu tinha, procurando por peças pretas. Olhei pela janela, era quase natal, estávamos no inverno, ia nevar, ou seja, peças pretas e de frio.
Optei por uma skinny preta, uma blusa cinza com uma jaqueta de couro por cima, cachecol vermelho, e para combinar, um scarpin vermelho. Deixei o cabelo solto e nem me maquiei muito. entrou no quarto bem na hora que eu tinha acabado de me arrumar. Ela assoviou.
- Minha amiga está gata demais, huh? – ela me olhou de cima a baixo, me avaliando.
- Vai logo que a gente tem que sair daqui em quinze minutos. – voltei para o banheiro e escovei os dentes, passei um batom vermelho, não curto muito batom, muito menos de cores fortes, mas eu havia comprado uma vez e achei que combinaria. Mas não ficou nada feio, ficou sexy, um sexy-acordei-agora, ou um sexy-estou-de-ressaca, e isso soou muito convencido, eca.
- , vamos! – gritei. – Você viu as chaves do carro?
Parei de falar quando ela apareceu. disse que eu estava bonita, mas ela estava muito linda mesmo, vestindo uma calça jeans clara com uma ankle e por cima uma blusa cinza que fazia um “V” na frente, e um sobretudo bege.
- Ok, acho que se eu soubesse assoviar, eu assoviaria.
- Menos, . – ela disse sorrindo - Vamos, as chaves estão em cima da mesa.
Peguei as chaves e descemos pelas escadas. Estava um frio terrível, e ventando, o que logo bagunçou nossos cabelos. Quem me desce na exata hora em que vai abrir o portão? Sim, senhoras e senhores, os meus vizinhos. foi tirar seu carro, e adivinhem mais, por seu apartamento ser do lado do meu, a sua vaga também era. abriu o portão e os outros esperavam ao lado dela, e um deles estava puxando conversa, que ultraje!
- Bom dia, vizinha. Vai fazer o que tão cedo na rua? – ele perguntou com a voz rouca. Não devia acordado há muito tempo.
- Vou a um enterro. – dei um sorriso amarelo.
- Que felicidade... – sussurrou, mais para ele do que para mim.
Coloquei a chave na ignição e girei uma primeira vez, o carro fez um barulho estranho e não funcionou. Claro. Com a minha sorte isso tinha que acontecer. Revirei os olhos, pensando em um milhão e meio de xingamentos. Girei a chave de novo. Nada. Eu poderia ter comprado outro carro, ou mandado para o conserto assim que comprei, ou qualquer outra coisa, mas não. , ao meu lado, parecia se divertir, já que estava dando risadas. Estúpido. Girei uma terceira vez, e adivinhem: nada. Deixei a cabeça cair sobre o volante, e a buzina soou, me assustando.
- Merda...
- Quer carona?
- Não, muito obrigada. – saí do carro e fui andando até o portão, onde estava conversando sei lá o que com os outros rapazes. – , o carro não ligou. Vamos andando, pode ser?
- , o cemitério fica a quinze quadras! – protestou, fazendo biquinho.
- Eu sei, mas o carro não está ligando...
- Temos... – ela parou para olhar no relógio de pulso. – Dez minutos para estar lá, a pé chegaremos em no mínimo vinte.
- Sim, mas o carro deu problema.
buzinou do nosso lado e sorriu. sorriu, os meninos sorriram, eu suspirei. Por favor, Deus, não me diga que a está pensando que eu vou entrar no mesmo carro que esses doentes.
- Quer carona, vizinha? – Eu ia responder que não, eu não queria, iria a pé mesmo, corria no parque quase todos os dias de manhã e não me importaria de ir a pé, mas a fez cara de cachorrinho, ela estava de luto, não queria andar, e três homens que eu nunca havia visto na vida me pediram para aceitar. Me senti a tirana, e então...
- Vamos para o Hyde Park. – eu disse, ocupando no banco da frente do carro dele.
Como couberam sete pessoas em um carro? Ele tinha uma Land Rover, e seus bancos de trás eram modificados: ao invés de três lugares, ele colocou um banco-sofá, que não tinha assento definido, e assim couberam todos. A ordem foi, dirigindo, eu ao lado, os outros três e atrás. Devo admitir que eles eram uns pedacinhos de mal caminho. tagarelava animadamente com eles. Olhei de lado para , ele era dono de olhos azuis, voz rouca, era forte, lábios cheios, e sua expressão... Era diferente, ele era repulsivo, mas bonito, e eu reparei nisso em menos de dois minutos! Parou em um sinal e se virou para mim, sorrindo de lado. Fiquei sem ação e virei o rosto, ligando o rádio. Sempre tem um idiota que quebra o silêncio, e um dos meninos do banco de trás fez isso por mim.
- Então, vizinha, acho que ainda não nos apresentamos. – ele sorriu. -Sou o , aquele é o Tom, esse é o , e ele é o .
Ele apontava para os meninos enquanto falava. Murmurei um "Oi".
- Sou a . – sorri sem mostrar os dentes.
- Sou . – sorriu, e eu poderia jurar que ela estava jogando charme para , que sorriu de volta.
- Então, vocês são as nossas vizinhas? – perguntou.
- Não, só a . – disse.
-Foi ela quem reclamou aquele dia! – disse. Ele precisava lembrar.
- Me desculpem, eu acabara de chegar de uma viagem e acordei com o som de vocês, fiquei irritada.
- Ah, agora é som, não é mais barulho? – perguntou. Retoricamente.
Fiquei quieta, será que ele não poderia ser pelo menos amigável já que eu estava pegando carona com quatro completos desconhecidos? O sinal abriu, finalmente.
- Eu estava ouvindo o ensaio de vocês ontem, – falou. - E sabe, vocês tocam bem, gostei de uma música que vocês faziam tipo do do do do doo...
- Five Colours! – falou rapidamente.
- Ainda não está pronta, estamos finalizando. – disse.
- Mas é sempre bom saber o que as pessoas acham. – completou.
- O que você acha, ? – me perguntou.
- Boa... – virei meu rosto para a paisagem, estávamos em outro semáforo, mas faltavam apenas seis quadras.
Os meninos e conversavam, e meu celular vibrou no bolso. Eu recebera uma mensagem. Remetente: Jonny. Mensagem: Estou com saudades de te beijar. Será que eu não pararia de sorrir involuntariamente com as coisas que ele fazia? Não conseguia ficar irritada com esse cara. Senti o olhar de nas minhas costas, já que estava meio virada para o lado da janela.
- Você não lembra, ? – perguntou.
- O que? – eu não ouvi uma palavra do que ela dissera. Risadas no banco de trás.
- Que você ficou com medo de fazer uma tatuagem! – ela deu risada e mostrou o pulso. – Íamos as duas fazer a mesma coisa, mas ela ficou com medo e eu tive que segurá-la cadeira. , mostra a sua!
Me virei para trás e puxei a manga da blusa, deixando à mostra em meu pulso o símbolo do infinito. (Sabe aquele 8 deitado?)
- Nossa, o pequeno também ficou com medo de fazer a primeira. – contou, e fez uma careta.
- Mas eu fiz! – ele sorriu.
Eles começaram a infernizar , e eu me virei para responder o John. Enviei: Volte para casa e eu matarei suas saudades. Resposta: Vou querer matar mais do que as saudades do beijo. Sorri, eu não ia dar risada sozinha no carro.
- Quantas quadras faltam? – perguntei, e parou o carro.
- Nenhuma. Chegamos.
- Muito obrigada meninos, por salvarem meus pés, já que a malvada da queria me fazer andar. – se despediu.
- Tchau, meninos.
Eles se despediram e nem se deu ao trabalho. Saí do carro e abracei pela cintura. Ela me deu um beijinho na bochecha e entramos no parque. Fomos direto para o tal lugar em que o Josh seria enterrado. não tocou no assunto sobre o carro.
Estava tudo certo, até o carinha gentil trazer o caixão do Labrador preto. Aí começou a chorar e a me abraçar, e para não fazer feio, fiz pelo menos uma cara de triste. Já tinha um buraco cavado e o homem só colocou o caixão ali dentro.
- Alguma coisa a dizer? – o homem perguntou, olhando no relógio. soluçou e, de dentro da bolsa, tirou um ossinho e uma coleira, que tinham pertencido ao Josh. Jogou em cima do caixão com cuidado e começou a falar.
- Eu tenho muito a agradecer, mas pelo visto eu não poderei fazer um discurso. – ela olhou para o homem com a pá de cara feia. – Então, Josh, você foi o melhor cachorro que eu já tive, mesmo que tenha sido o único... – soluço de novo e silêncio. – É isso, tchau Josh.
O silêncio imperou por um tempo. olhou para mim parecendo irritado, acho que eu deveria dizer algumas palavras. Olhei para baixo, coitadinho, ele foi um bom cachorro.
- Josh, eu te perdôo por ter estragado meu tapete, meu telefone, minha bolsa, e por me arrastar quando te levei para passear. Pode ir em paz...? – olhei para , que sorriu e fez um gesto com a mão para que o cara jogasse terra.
Drama.
e eu estávamos voltamos para casa andando, e paramos em uma Starbucks. Sentamos em uma mesa ao canto, e mexia com a chave de casa enquanto eu respondia a mensagem do John: Que tipo de saudades? E me virei para minha amiga silenciosa.
- Então...
- O é bem bonitinho, né? – disse, sorrindo de canto.
- Ah, ! Não vai me dizer que você realmente gostou!
- O que? Ele é uma coisa linda, admita. – ela fez cara de convencida. – O então, Deus, por que vizinhos assim não aparecem na minha casa?
- Barulhentos e irritantes?
- Não. Gostosos e solteiros. – ela suspirou.
- Pode levar... – meu celular vibrou. O John respondeu a mensagem: Droga, . Tive pensamentos obcenos com você... – Ai, credo!
- Que foi? Quem te mandou mensagem? – ficou curiosa. Mostrei pra ela a mensagem, fazendo-a rir. – John é uma figura, ele é tão...
- Apaixonante? – a cortei.
- Não, eu ia dizer certinho, mas quer dizer que a coisa vai bem séria então? – ela arqueou uma sobrancelha.
- Bom... – sorri como uma idiota, ele sempre fazia isso comigo, mesmo não estando por perto. E eu já disse isso. – Ah, , ele é fofo e sabe como tratar uma mulher, em todas as horas...
- Awn. – fez biquinho. – Quero um pra mim!
- Acredite, você não quer. – disse, respondendo a mensagem dele: Guarde-os para você, eu te ligo quando chegar em casa. Beijos, .- Eu ainda acho que por trás do John certinho tem um cara diferente.
- Um cara maníaco que mata animais indefesos? Ah, , eu estive pensando, a gente poderia procurar emprego pra você hoje. – disse, animada.
- Estou sem carro, vamos ter que andar.
- Não tem problema, só fiz charme para ir no carro dos meninos.- sorriu.
- Sua idiota, não acredito! – dei um tapa na cabeça dela. – Vamos.
Voltamos para casa, onde eu preparei algo para comermos. Enquanto isso, telefonava para algumas agências para marcar um horário à tarde. Claro que a maioria não tinha para o dia. O resultado foi: uma entrevista para hoje, uma para daqui a 3 dias, e outra em uma semana, se ainda tiverem vagas. Comemos na sala mesmo, vendo TV ao mesmo tempo. Lembrei que devia ligar para o John.
- , me dá o telefone? – pedi. Ela se esticou e me entregou.
- Vai ligar para... ? - perguntou.
- John. – sorri envergonhada, meu rosto queimou.
Digitei os números rapidamente e esperei enquanto chamava, eu precisava da voz do outro lado da linha, precisava das suas mãos nas minhas e de seus carinhos.
-John Hill falando.
- falando. – brinquei.
- , meu amor, que saudades de você!
-Eu digo o mesmo, aqui está tão chato sem você para torrar a minha paciência... – me deu um tapa na testa.
- Mas eu tenho uma ótima notícia! Vamos nos ver logo, chego em dois dias.
- Ah meu Deus, é sério?!
-Muito sério, amor. Chego às 13 da tarde, você pode me pegar na estação?
-Paris ou Londres?
-Paris, mon amour. Te espero lá.
- Ok John, beijo.
- Ei... Eu te amo. – desliguei sem responder.
Olhei para , e ela olhou para mim.
- Vou ter que cancelar com a agência que marcou para daqui a 3 dias, vou estar em Paris...
- Tudo bem, agora vamos comer. – ela disse, e eu sorri.
Comemos e ficamos esperando da minha entrevista.
Capítulo 5
Acordei e olhei pro relógio, eram nove e meia da manhã. Bocejei e me levantei devagar indo para o banheiro tomar um meu banho quentinho. Saí pior do que entrei, com ainda mais sono, e coloquei a roupa que havia separado na noite anterior. Peguei uma mala pequena e a fiz com roupas suficientes para dois dias. Ainda bocejando, tomei um café da manhã decente.
Ia pegar o John na estação. Meu carro não estava pronto, o cara do conserto era um incompetente.
Dei uma olhada em meu apartamento e me sentei na poltrona.
- Eu tinha que me lembrar de... – parei e fiquei pensando. – As chaves, isso mesmo as chaves da casa do John e preciso de carona até a estação.
Peguei o celular no bolso da jeans e digitei o número de . Enquanto chamava, comecei a procurar as chaves.
- , minha pequena! - estava de bom humor, isso era bom.
- , minha florzinha, faz um favor? – Não estava achando as chaves e comecei a jogar algumas almofadas no chão. – Me leva na estação? Meu carro ainda não está pronto.
-Ok, me deixa acordar que eu já passo ai, que horas você tem que estar lá?
- Dez horas... – Comecei a mexer nos armários da cozinha, maldita chave. – Dez horas eu tenho que estar lá.
- Ok, fique pronta!- Nem dei tchau para a e fui para o quarto, onde estaria aquela merda de chave?
Revirei algumas gavetas e desarrumei o banheiro, mas por fim achei a chave debaixo da cama. Eu tinha que correr lá para baixo. Peguei a mala, bolsa, celular, chave da casa do John, chave do meu carro e chave de casa.
Estava fechando a porta e me virei colocando as coisas na bolsa. Eu não estava esquecendo nada? Passagem, confere. Chaves, confere. Carteira, confere... Parei de andar abruptamente, eu tinha esbarrado em alguém.
- Desculpa! – Olhei para cima, era de novo. Mas não, hoje ele não ia estragar meu dia, sorri com todos os dentes para ele.
- Você não deveria andar olhando para baixo. – ele sorriu de volta.
- Você não deveria estar sempre aqui quando eu estou saindo.
- Empate. – ele disse levando as mãos ao alto.
- Desculpe, tenho que ir...
- Viajar, eu suponho. – Nossa, gênio! Descobriu isso por causa da mala? –É que a sua mala...
- É, tchau. – disse saindo de cena.
- Ei, ! – Ele apareceu na escada. - Qualquer dia desses você poderia ver o nosso ensaio, traga a , o Danny não para de falar sobre...
- Pode ser, mas agora eu realmente tenho que ir.
disse que eu estava atrasada, que ia perder o trem e mais um monte de coisas, assim que entrei em seu carro.
- Tchau amiga. – ela me deu um abraço apertado e um beijo na bochecha. – Se cuida, e cuidado com o John, se proteja, coma direito, durma bem e...
- , eu não vou morrer, vou viajar, como sempre faço. – Dei minhas chaves do carro para ela. – Beijo, se cuida também.
Fui para o trem que já ia partir. Sentei perto da janela e olhei para a , acenando como uma idiota.
- Sério, se proteja! Se vocês continuarem fazendo aquelas coisas todas que você me conta... – ela percebeu que uma mulher tapou os ouvidos do filho que estavam ao seu lado e parou de falar. – Me ligue quando chegar!
E saiu para pedir desculpas para a mulher.
O trem partiu, deixando minha amada Londres para trás com uma velocidade incrível. Encostei a cabeça e em pouco tempo deixei o balanço do trem e as vozes das pessoas para trás, acabei dormindo para só acordar em Paris.
Desci na estação e sorri, não tinha ninguém para me pegar, eu pegaria alguém dentro de uma hora. Encontrei um táxi e dei ao motorista o endereço anotado em um papel. O senhor de meia idade e cabelos grisalhos me levou direto para o apartamento do John.
- Merci. – sorri enquanto ele me dava o troco.
- Pour riem madame. – ele disse e eu saí do carro indo para a portaria.
O porteiro já me conhecia. Ele me alertou de alguma coisa que eu não entendi. Entrei na casa de John, era tão arrumada e grande... Fui direto para o quarto e coloquei a minha mala lá. Olhei no relógio, que marcava meio dia e quinze, e fui para a cozinha. Fiz uma comida qualquer.
Arrumei uma mesa bonitinha e me sentei na varanda. Inspirei o ar daquela cidade, era quase tão bom quanto o de Londres, tinha um cheiro de coisa antiga, e a atmosfera do lugar dava a ideia de que tudo podia acontecer. Eu já havia me entregado àquele lugar mágico. Fui para o sofá e deitei ali. Liguei a TV, mas não prestei atenção. Fiquei olhando em volta e achei, em cima da lareira, uma fileira de fotos minhas, andei até lá e fiquei observando as fotos, me lembrando de cada momento. Havia uma em que eu estava na praia. E outra em que eu e ele estávamos sentados e a tirou a foto. As coisas aconteciam muito rápido com John, quatro meses, era só o que tínhamos, mas era como se fosse um ano, eu não sabia se isso era bom ou ruim. Suspirei, estava com medo. Medo de não dar certo, medo de perdê-lo, de estar errada.
Peguei as chaves e desci para a garagem, claro que não tinha como confundir o carro dele, era o único daquele jeito. Saí dirigindo pelas ruas da cidade, eu não sabia como chegar à estação, e claro que ele deixou um mapa. Aquele sim era um carro.
Estacionei o carro e desci, isso era engraçado, não tinha nem uma hora que eu saíra daquela estação e lá estava eu de novo. Estava com saudades do meu amor.
O trem estava chegando, e muitas pessoas de rostos desconhecidos saíam daquele lugar, uma sinfonia de vozes começou a se alastrar pelo local, pessoas se abraçando e se beijando e toda a emoção da chegada. Procurei um pouco e o vi passando pelo degraus devagar procurando um rosto familiar, meu rosto. Estava de terno e gravata. Ele abriu um sorriso imenso e perfeitamente branco quando me viu e literalmente correu para o canto um pouco mais afastado onde eu estava. Largando suas coisas no chão, me deu um abraço desses que você gira a pessoa no ar e distribui beijos pelas bochechas e boca.
- Meu amor, que saudade!
- Eu nem acredito que você voltou mais cedo, sabe como é chato sem você aqui... – ele me cortou e me beijou, um beijo desses de tirar o ar dos pulmões. Sua língua se movia com a minha como um movimento ensaiado e suas mãos me seguravam em um abraço carinhoso.
As pessoas olhavam um pouco, mas quem se importava?
-Eu te amo tanto. – ele sorriu divertido. – Desculpe, eu precisava fazer isso. Saber se estava tudo em sua perfeita ordem.
- Tá.
Pegamos as coisas dele e fomos abraçados para o carro, era assim que deveria ser. Juntos, e não separados pela distância.
- Foi muito estranho falar com americanos e seus sotaques diferentes. – ele comentou.
- É bem diferente. – fiz uma careta. – Eu tenho vizinhos agora, Jonny.
- Vizinhos? Se mudaram quando eu estava fora? – fiz que sim com a cabeça.
- São quatro homens, eles tem uma banda, e ensaiam todos os dias.
- Me diz que eles são gays. – virei a cabeça assentindo irônica, ele era ciumento. - Quatro homens?
- John, eu não te trairia com nenhum deles, e só porque eu namoro você não quer dizer que eu não possa ter vizinhos.
- Eu só cuido do que é meu, por isso sou ciumento. – revirei os olhos, aquilo me matava.
- Ok, eu não quero brigar, mas não sou sua. – sorri para aliviar as coisas.
- Eu também, odeio brigar com você. – ele riu nervoso. – Você é minha.
Chegamos e subimos para o apartamento, ele viu a mesa e olhou para mim sorrindo. Juro que fiquei vermelha, mas sorri de volta.
- Isso é para mim? – ele perguntou abrindo uma panela. – Parece estar delicioso.
- Então vamos comer. – eu disse dando um beijo em sua bochecha.
Pegamos os pratos e sentamo-nos à mesa. Ele me deu a mão.
- Sabe, , momentos como esse que me fazem querer chegar em casa, para poder ver seu sorriso. – eu senti minha bochecha corar.
- Momentos como esse me deixam sem graça. - sussurrei.
- Não fique, isso está muito bom! – ele disse apontando para o prato. - Mas me conta, como foi a sua estadia em Londres?
- John, eu moro lá. – sorri. – Mas foi parada, fiz umas fotos, marquei entrevistas, e na primeira falaram que iam ligar... Eles não vão ligar. Acho que fotografar modelos não é minha vocação.
- Já parou para pensar que você pode estar procurando no lugar errado? – Olhei para a cara dele.
- Eu não posso largar minhas coisas lá e vir para cá. – ele fez uma careta.
Acabamos de comer e ele me disse que a secretária dele viria mais tarde limpar a casa. Sentamos na varanda.
- , vem cá. – ele me chamou para sentar no seu colo. – Agora sim.
-Eu estava admirando essa vista hoje mais cedo... – suspirei. – Ela é tão linda... Você não acha que esse lugar é mágico?
Ele não respondeu, só fechou os olhos e respirou fundo. Senti-me uma idiota por não ter obtido resposta. Mas fiquei quieta, aproveitando o silêncio. Pessoas dizem que o silêncio assusta, mas só se você tem medo, como o escuro. Fechei os olhos e entrelacei os meus dedos aos dele. Eu esperei para tê-lo comigo, mas agora que o tinha, havia alguma coisa faltando. Ignorei, eu era travada e ignorante, talvez não fosse nada, eu estava fazendo drama. Senti John se mexer um pouco, tirando os dedos dos meus, e me envolvendo em um abraço desajeitado. Deixei um sorriso se moldar em meus lábios e abri os olhos.
Ele se virou e encostou nossas bocas, para terminar o que havíamos começado.
Sua língua pedia para entrar, e meus dedos formigavam. Nossos olhos se fechavam e as línguas brincavam numa dança lenta, como velhas amigas. Ele foi subindo as mãos para o meu cabelo, à medida que o beijo ia aumentando a rapidez e nossas respirações iam ficando ofegantes. Eu não sentia mais a minha mão, estava formigando, e meu cabelo todo desarrumado. John estava subindo minha blusa, e...
- John? Eu vim te apresentar a... Oh, desculpe-me.
- Não tem problema. – ele disse levantando e arrumando os cabelos.
- Essa é a Andy, é americana, mas logo vocês se acertam. Veio cuidar da casa.– Essa deveria ser a secretária do John, trazendo a Andy. – Essa é a...?
- Sou a . – sorri. Ela tinha uma cara de metida à lá francesa, e roupas de marca. Levantei e arrumei o cabelo. – Você é a...?
- Betty LeClaire, secretária do John, futura proprietária de todas as empresas LeClaire. – ela sorriu cínica.
- Bê querida, obrigada por trazer Andy aqui. – O John sorriu para ela. Tudo bem ele fazer cara de idiota, porque é homem e não resistiria às pernas dela, não adianta fantasiar um homem que não olharia. Porém, seria mais sensato esperar que eu saísse, ou não olhar. – Bem, eu mal cheguei e acho que deveria tirar breves férias do trabalho. Então, nos falamos depois.
Cheguei mais perto do John e dei um selinho rápido nele, puxando a parte inferior dos seus lábios, me virei para a Betty e me despedi.
- Apareça depois, sim? – Acenei brevemente para ela e Andy foi fechar a porta.
John acelerou o carro de um modo Speed Racer me arrancando gargalhadas. A música estava alta, as janelas abertas, o velocímetro querendo chegar ao seu máximo, e nós estávamos rindo, um pouco bêbados.
- Chegamos. – John comentou quando teve que diminuir para entrar no prédio.
- Ah, eu queria mais. – ele fez uma careta.
- Depois que a gente se acidentar, eu quero ver. – escondi os olhos com as mãos.
- Eu não... – John riu.
-Vem. – O puxei pela mão e subimos para o apartamento.
Sentei no sofá tirando as botas e relaxando o corpo nas almofadas. Tínhamos acabado de chegar do que foi um jantar agradável, só eu e ele num restaurante novo. John foi um fofo, desligou o computador e o celular, e ainda me garantiu que enquanto eu estivesse aqui, só ia trabalhar em programas comigo. Nem me derreti como uma adolescente. Meus olhos estavam pesados e eu pude sentir que iam fechar.
- , telefone para você!
- Já atendi! – Peguei o telefone no gancho. – Alô?
- Oi minha flor do campo! – estava bêbada. – Então, eu estou ligando para...
- Para...? ?
- Ah sim, lembrei. Para te avisar que o seu carro ficou pronto e que eu pego amanhã de manhã. – deu um grito do nada e me assustou.
- , onde você está mulher? – Falei um pouco mais alto para ver se ela escutava.
- Num show que o pessoal do estúdio me arrastou, isso tá muito louco, bebi uma coisa laranja muito estranha! - Dei risada, minha amiga era irresponsável.
- Depois a gente se fala. Pegue leve na bebida que amanhã você trabalha! – ela desligou.
- Que a queria? – John chegou à sala com dois copos de conhaque e me entregou um.
- Me avisar que meu carro ta pronto. – dei de ombros.
- Ele quebrou quando, amor?
- Uns dias antes de vir para cá. – a bebida descia queimando minha garganta. Ele deu uma risada abafada.
- Não sabe nem beber direito, minha criançinha.
- Eu odeio quando você fala assim. Só porque eu tenho 19 e você 23? Quando você tinha quatro anos, eu estava nascendo, então vou morrer depois, rá. – Fechei os olhos e depositei todo meu peso no sofá.
- Eu vou viver para sempre, só para ver você sorrir. – Não me dei ao trabalho de responder. Ele ligou a TV num canal de culinária. As vozes foram ficando distantes e minha visão lentamente ficando mais desfocada. E então meus olhos foram fechando lentamente.
As duas últimas coisas que me lembro foram de que John me carregou para cama tirando meus jeans para que eu dormisse melhor, me cobriu, deu um beijo em minha bochecha e foi para a sala. Mas a última coisa me intrigou um pouco. O rosto de veio em minha mente.
Capítulo 6
- , acorda amor. – John beijava meu rosto em uma tentativa de me acordar.
- Só mais umas horinhas...
- Umas horinhas?
-É ué, horinhas. – dei uma risada baixinha e me levantei da cama, indo para o banheiro escovar os dentes e dar um jeito no cabelo.
Chegando à sala, Jonny me abraçou pela cintura e deu um beijo em minha bochecha.
- ! Olha isso! – ele apontou para um prato com ovos mexidos. – Aprendi!
- Awn, agora eu te ensino o café. – Dei um selinho nele. – Brincadeirinha, eu sei que você tem ótimos dotes culinários.
- Sim, olha a mesa que preparei para você. –disse apontando para a mesa, que eu devo admitir, estava muito bonita e arrumada. – Tem até ovos.
Sentei-me ao seu lado: ele na cabeceira da mesa e eu na lateral. Tomamos café da manhã conversando civilizadamente, sem repetir o incidente da última vez. Foi agradável. John tentou me trazer para Paris e eu disse que não. Falamos sobre o queijo e ele comentou que era de um amigo dono de uma loja especializada. Falamos sobre trabalho. John tentou me trazer para Paris. Conversamos sobre a e os tempos mais “normais” de John, de quando ouvia músicas e saía para dançar. Ele me contou sobre uma boate daqui, e tentou me trazer para Paris. Terminei de tomar café e saí da mesa.
- , porque essa resistência? Você não quer morar comigo?
- Jonny, eu tenho uma vida em Londres. Tenho a , que é uma completa irresponsável... Tenho amigos e uma vida por lá. E falo inglês, não francês. – John fez um sinal para eu ficar quieta e ficou de joelhos no chão.
- , casa comigo. –pegou a minha mão e beijou. – Vem morar aqui!
Fiquei sem reação, e emiti sons estranhos. Ele estava louco? Nem seis meses nós tínhamos. Olhei em seus olhos, depois para o chão.
- Nossa, John... Assim? - Ele olhou divertido e começou a rir. Rir de ficar vermelho e sentar no chão. Mas não só de sentar, ele deitou e teve uns engasgos. Que tipo de pegadinha era essa? O cara pede para casar comigo e dá gargalhadas depois? Eu era o tipo de pessoa para casar, mas não exatamente agora, me acho nova demais. Ele se recompôs e me abraçou.
- , eu estava de brincadeira. Nem anel eu tenho aqui. – Dei um tapa no braço dele, meus dedos ficaram marcados no mesmo. – Porra , que foi? Você não viria morar comigo mesmo.
- Para, assim eu me sinto culpada!
- Mas você sabe que é verdade. – Tinha um martelo de culpa batendo na minha cabeça agora mesmo. – Ou viria?
- Me acho nova para morar junto. – Desviei o olhar para a janela. Ele pegou minhas mãos.
- Você teria seu apartamento. – A campainha tocou. Salva pelo gongo, ainda bem! John foi atender, era Andy.
- Bom dia! – Ela sempre estava sorrindo, mesmo no trabalho.
- Bom dia. – sorri.
-Então, quer dar uma volta no parque? – John me perguntou.
- Ah sim, o dia está lindo. – disse a mulher que se dirigia para a cozinha.
- Claro. Vou só trocar de roupa.
- Olha amor, vamos ficar por ali. – John disse me puxando pela mão para debaixo de uma árvore.
O dia estava lindo, fazia sol, mas batia uma leve brisa fria. Estendi uma toalha dessas de piquenique para sentarmos. Havia muitos casais por ali, crianças e pessoas de idade jogando farelos para pombos. Peguei meu livro de dentro da bolsa e John deitou com a cabeça em meu colo.
Passado um bom tempo, me chamou.
- , vem cá. –se sentou de frente pra mim e me beijou. De início estávamos sentados, mas acabamos o beijo deitados na grama.
- Tem crianças olhando. – olhei para os lados.
- Que olhem. – Ele olhou para seu relógio. – Vem, corre!.
- Hã? – ele me puxou pelas mãos e começou a correr pela grama. – John, para com isso!
- Sobe aqui. Você é lerda! –fez sinal para me carregar nas costas. Correu comigo como um louco. Tudo o que as pessoas pensavam quando viam um cara da idade dele carregando uma mulher nas costas era que ele estava louco, ou bêbado. Enfim, correu comigo pelo parque até achar a saída.
- Onde estamos indo? – chegamos ao carro e ele me desceu.
- Não vou falar, só me diz se está com fome. – fiz que sim com a cabeça. – Então entra.
- Não faz cara de pegador, você tem cara de criança. – comecei a rir. Ele acelerou o carro e saímos pelas ruas da cidade. Liguei o rádio, tocava uma música qualquer.
John me guiava para uma rua cheia de bistrôs e cafés. Parou o carro frente à um restaurante pequeno e de aparência velha, com mesinhas na calçada e um senhor tocando violão. Olhei para John, era isso? Um almoço? Tanto segredo para um almoço?
Ele puxou uma cadeira para mim em uma mesinha reservada. Não falou nada, fez movimentos exagerados para um garçom, e do vaso de flores à sua direita, pegou uma margarida e me entregou.
Mal reparei quando uma senhora de cabelos grisalhos chegou perto de nós dois cumprimentando John.
- Meu Deus, Jonny, não acredito que você veio. Está tão grande agora, menino! – A senhora arregalou os olhos.
-Pois é, mas estou bem aqui. Tinha que voltar às raízes uma hora. –riu. – Essa é a .
- Ah sim, a menina. Arrisco dizer que é mais bonita do que você disse, querido. – ela piscou para mim. – Bem, vou mandar preparar aquele prato que sua mãe pedia. – ela saiu berrando para dentro da cozinha.
- Raízes? – olhei para ele sorrindo boba. – Ok, estou perdida.
- Eu vinha aqui quando era mais novo. Devia ter uns dez, doze anos. – Olhei para ele, que continuou a falar. – E eu te trouxe aqui para te conhecer mais. Hoje acordei pensando que não sabia as coisas mais simples da sua vida. Como por exemplo, seu primeiro namorado; primeiro dente que caiu; o que você planeja para o futuro; o que você quer daqui pra frente...
- Acho ótimo.
-Eu começo. Levei um tombo no meu aniversário de três anos e derrubei a mesa de doces e o bolo. Todo mundo ficou mais preocupado com isso do que com o meu braço machucado.
- Awn, coitado do meu amorzinho.
- O bolo era caro. Mas depois meu tio veio me ajudar. – ele sorriu. – Sua vez.
- Quando eu tinha cinco anos, caí dentro da piscina e quase me afoguei. Mas aprendi a nadar, e ganhei quatro medalhas de natação quando competia. – dei risada.
- Quando eu tinha mais ou menos seis anos, era o “terror” da escolinha. Falaram pra minha mãe me levar na psicóloga e comecei a espernear e correr em círculos na sala dela, e depois de duas seções ela me expulsou. Eu era mimado, e completamente nojento.
- Deu para ver, mas, minha vez... – sorri vitoriosa. – Quando eu tinha oito anos, dizia que a minha cor favorita era o arco-íris, porque ele tinha tudo o que eu gostava no mesmo lugar.
- Quando eu tinha nove anos, passei a morar com meu tio. Ele me pôs na linha, mas até isso acontecer, quase coloquei fogo na casa dele. Ele não ficou bravo, nem gritou. Só disse que se eu queria agir como um delinquente, seria tratado como um. Me prendeu no viveiro dos pássaros por dois dias inteiros. Depois daquilo, passei a respeitá-lo, e muito.
- Credo. – suspirei. O que eu diria agora? – Tá, quando fiz treze anos tive um porre, dos feios. Minha mãe nunca soube, mas depois disso não bebi mais.
- Quando eu tinha quinze anos, entrei em coma alcoólico. Minha mãe descobriu, e meu tio também. Fiquei um ano inteiro preso em casa. Da escola pra casa, da casa pra escola.
Olhei perplexa, esse homem era o capeta em forma de gente! Não sei como, mas tomou juízo só quando adulto.
A mulher, que eu ainda não sabia o nome, chegou com dois pratos de uma comida que eu não sabia o nome. O cheirinho estava bom, me lembrava de quando meu avô cozinhava pra mim. Logo atrás dela, veio um garçom com duas taças de vinho tinto.
- Hum, que delícia. – John disse ao sentir o aroma da comida.
- Nossa, cheira tão bem! – eu disse, pegando o garfo e espetando uma batata. – O gosto é melhor do que o cheiro.
- Obrigada. Esse fui eu que fiz. – ela sorriu saindo de cena para atender outra mesa.
- Tá tudo muito bom, mas vamos continuar? – John perguntou.
- Hum... Tive três namorados, você é o quarto. – Fiquei vermelha.
- Só? Eu tive... – Ele parou e contou nos dedos! – Quinze namoradas, contando com você. Mas os namoros não duravam mais do que alguns meses. Menos uma, com ela eu fiquei três anos... Bons tempos.
Arregalei os olhos e evitei olhar pra ele. Continuamos comendo e contando por horas fatos de nossas vidas, até a senhora do restaurante, que eu ainda não sabia o nome, trazer a conta.
- O que você quer fazer? – o homem que estava ao meu lado me perguntou. – Hoje o dia é só seu, tipo um ’s Day!
- Hum... Um dia só meu? – Sorri sapeca. – Eu quero fazer uma coisa que morro de vontade!
- O que? – John me olhou com os olhos arregalados.
-Não pense com a cabeça de baixo, amor! – Dei risada. – Precisamos de um carro potente.
- Carro, confere. Bem potente, confere. – ele fingiu marcar algo na mão. – Vem, o carro ta logo ali.
-Tá, me deixa dirigir. – Entrei no banco do motorista pegando as chaves da mão dele. – Só preciso fazer uma coisinha...
-PeloamordeDeus! – Ele me viu clicar no GPS sem entender nada. – Que diabos você vai...
-Cala a boca! – Eu estava ajustando um lugar desconhecido. Dirigindo às cegas, era quase isso. – Isso chega até 200 km/h, é?
Arranquei com o carro pelas ruas estreitas do bairro onde estávamos, vendo uma rodovia logo à frente. No GPS, uma linha vermelha e uma bolinha, se eu entendi bem, explicavam onde eu deveria chegar. Abri as janelas, colocando os óculos de sol e pisando fundo.
- Devagar, você nem sabe onde está indo. – John estava incomodado, eu ri ligando o rádio. – , sério, reduz.
- Você pode e eu não? Eu sei dirigir! – Acelerei até 120. Eu já disse que aquele era o carro dos meus sonhos?
- Não é questão de você saber ou não. Diminui, amor. – Acelerei mais, chegando a 150 quilômetros por hora. Os carros passavam por mim com uma velocidade incrível, eu só ouvia zunidos. Lá na frente, podia avistar pequeno trânsito se formando.
- O que ta acontecendo ali? – Perguntei sem tirar os olhos da estrada.
- Não sei, se você diminuir um pouco...
- Você pode relaxar? – Fechei a cara. – É sempre sério, nunca se solta, tem 23 anos, não 53.
- Nossa, como se eu fosse uma pessoa tão velha. –revirou os olhos e abaixou o volume da música.
- Tá vendo? Você não gosta de música alta, não sai à noite, não para de trabalhar. Quer se matar ou algo do tipo? Me diz a ultima viagem que você fez.
- Caso você não lembre, voltei não tem dois dias do Texas. – Bufei e comecei a bater minhas unhas no volante.
- Eu quis dizer por vontade própria.
-Fui pra Nova Zelândia mergulhar. Tem uns quatro anos já. E não, eu não quero me matar.
- Então o que você quer? Onde pretende chegar assim? – Perguntei com a voz calma, e recebi gritos em troca.
- Eu não sei onde isso vai dar, mas a minha situação, financeiramente falando, vai acabar melhor que a sua! Estou pensando no meu futuro, diferente de você. E quer saber, o que isso te interessa? Daqui dois ou três anos, quero estar casado e bem resolvido, e você?
- Eu não sei! – Olhei pra ele e desatei a falar. – Não planejo cada segundo da minha vida, não quero saber como vou estar daqui dois anos! Não me interessa como eu, financeiramente falando, esteja. Desde que esteja feliz.
- Isso é infantilidade, . Você está sendo burra! Vai ser feliz debaixo da ponte?!
- Você é um babaca, e se eu for feliz? Quem liga? – Gritei de volta. – Você?
- FREIA AGORA! – John gritou e não sei bem o que aconteceu, não deu tempo de olhar pra frente, só freei e fechei os olhos, ouvi os pneus cantando no asfalto, e o carro derrapou. John xingou e abri os olhos, que agora estavam molhados.
- Que foi isso? – Tirei o cinto e saí do carro. O pequeno trânsito na frente era porque um caminhão tombara. Dei a volta no carro e, com as mãos trêmulas, abri a porta.
- Jonny? – chamei e ele saiu com cara de nada. Dei um abraço nele. – Você ta bem?
- Foi por pouco... – ele ficou olhando pra mim. – Culpa sua, se você não estivesse dirigindo nessa velocidade, nada disso teria acontecido.
-Você que estava brigando comigo! – Me soltei dele e entrei no banco do carona, as pessoas já estavam buzinando irritadas.
Ele deu a volta e entrou no carro, dando a volta e pegando a pista de sentido contrário. John desligou o GPS e não olhou pra mim até chegarmos em casa.
Foi tão quieto, sem rádio, sem vozes, sem buzinas. Minhas mãos tremiam, mas eu não estava assustada. Pensei em ligar pra , mas achei melhor não. Durante o percurso, pensei no que havíamos dito no carro, e aquilo ecoou na minha cabeça por um tempo. Daqui dois ou três anos quero estar casado e bem resolvido, e você? O que eu queria pra minha vida daqui dois ou três anos?
Olhei pra janela, venderia a minha liberdade? Porque pra mim, casar era como vender minha alma para uma pessoa com quem eu teria de passar o resto da vida. Não quero estar sozinha aos 40 anos, mas não quero ter um anel pesado no dedo da mão esquerda antes dos 30, pelo menos. E eu só tinha dezenove. Quem sabe como eu estaria até lá? Suspirei de novo, do que eu estava falando?
Olhei pra frente, e fiz uma força imensa pra segurar as lágrimas que queriam cair bem agora. Quando me dei, conta o carro estava parado e John já adentrava o prédio. Abri a porta e saí do carro correndo para pegar o elevador.
- Você poderia ter segurado a porta para mim. – bufei. Ele não me respondeu. Subimos em silêncio. Quando chegamos ao andar certo, saí na frente e não segurei a porta. Peguei a chave na bolsa e fui direto pro quarto me livrar dos saltos e prender o cabelo. John bateu na porta entrando em silêncio e tirou os sapatos, indo para a cozinha. Revirei os olhos, ele estava fingindo que eu não existia? Eu era a criança da história?
Fui pra cozinha também, mas ele não estava mais lá. Fiz um chá e fui pra sala ver TV, mas como estava tudo em francês, peguei uma revista que eu trouxera. John estava na varanda, tomando uma dose de conhaque. Ri sozinha, eu bebendo chá e ele conhaque após a briga.
Estava anoitecendo e eu havia lido e relido a revista. John ainda estava na varanda quando entrou e se limitou a cuspir a pergunta:
- Você tem que pegar o trem amanhã de manhã, ou hoje?
- Quero pegar hoje. – Olhei no relógio. – Agora só o ultimo trem. Daqui uma hora.
- Tá.
Saí do quarto e fui arrumar minhas malas sem pressa, e liguei pra , pedindo pra ela me buscar. O John? Ainda não havia trocado palavras comigo que não fossem monossílabas, idiota.
- Vai logo, se não eu não volto pra casa hoje!
- Tá. – ele levantou pegando as chaves do carro.
- Leva as malas pra mim? – pedi fazendo biquinho.
- Ok. – ele pegou as malas e chamou o elevador.
Entramos no carro e logo já estávamos na estação, esperando meu trem atrasado.
Eu mexia em um canudo de plástico. John parecia nervoso, e eu tive que fazer força para não rir.
- . – ele suspirou. – Eu queria te pedir desculpas.
- Hm. – Me assustei com a atitude dele, pensei que fosse dizer que ia viajar, ou que o trem havia chegado. – É, desculpas aceitas...
- Não fique brava comigo. –me deu um selinho. – Eu fico mal com essas coisas.
Bom saber que eu não era a única a sentir isso. E então o abracei. Ouvi o trem chegar.
- John, tenho que ir. – Dei um beijo na bochecha dele. Pegando minhas malas, entrei no trem, pela segunda vez em duas semanas, e vi a figura magra e alta de John ficar para trás.
Conclusões do dia: não devo dirigir um Porsche em velocidade máxima e meu namorado é um idiota.
Capítulos betados por Ana Caroline Mello
Capítulo 7
- Para tudo, ! – fez sinal pra eu parar de falar. – Vocês quase bateram o carro?
- É, aí ele ficou me culpando, e eu só ia bater porque ele estava berrando no meu ouvido. – Me justifiquei enquanto pegava os cafés. Ela era um anjo que caiu na terra. Estávamos saindo da estação quando me disse que conseguiu uma entrevista pra mim no dia seguinte, na agência que ela estava trabalhando, para fotografar para um cara. ficou os dois dias que eu estive fora lutando para me darem uma chance, e conseguiu. Eu estava esperando o cara chegar. Preciso dizer que estava nervosa, suando pelas mãos e respirando rápido demais? Peguei o café e dei um gole.
-O que ele disse depois? – Ela foi indo pro estúdio, dando oi pra um monte de gente.
- Que eu não sabia o que queria da vida, que ele não se matava de trabalhar à toa, fazia isso pra ter uma vida resolvida e rica daqui uns dois anos. – Fiz careta. – Depois se desculpou, mas eu estive pensando, porque não ir pra lá? Eu casava com ele, e com os contatos dele eu teria um emprego assim que pisasse na cidade.
- Você me deixaria, Martinelli? – Ela arregalou os olhos, pasma.
- Não , claro que não! – Me apressei em dizer.
- Acho bom. – Ela disse pegando a câmera e se virando para uma mulher para perguntar quando as modelos chegariam.
- Trouxe sua câmera? –começou a arrumar minha saia.
- Claro. –tirou um batom da bolsa e passou em mim.
- Vai saber ué. – Ela me deu um espelho e um rímel enquanto arrumava meu cabelo. – Melhor assim. Vem cá.
Ela foi para uma arara de roupas e me deu uma jaqueta no estilo militar, cinza com preto.
- Veste isso, e troca essas botas por esses sapatos. – Ela me deu uma ankle boot. – Seu número é 36?
- , minha roupa não vai influenciar na escolha do... – Olhei pra cima enquanto puxava o zíper. – Qual o nome dele?
- O Smith é perfeccionista, isso vai contar, e ele é gay, se arruma mais que as meninas daqui. Respira e troca esses brincos.
- Obrigada por me deixar nervosa! – Respirei fundo tirando meus brincos e colocando um que estava segurando.
- Mas ele é legal e me adora, eu fiz biquinho e ele te passou na frente de duas meninas. – Suspirei e sorri dando mais um gole do meu café.
- Tá bom, vou ficar calma. E obrigada viu, por tudo. – Ela bateu continência.
- To aqui pra isso.
- , você pode me emprestar essas roupas? Não são do ensaio?
- Lógico, se não, não emprestava. – Ela disse como se fosse óbvio.
- Você é doida, quero ver se te pegarem. – reprovei sua atitude, ela deu uma gargalhada.
- Amor, a sala de espera é ali, eu tenho que ficar para ir arrumando as coisas. –indicou com o dedo uma porta. – Boa sorte.
- Ai, eu preciso muito disso. – dizendo isso, saí da sala.
Sentada, com a saia toda amassada de tanto torcer no dedo, café e uns cinco copos d’água já tomados, e de tanto batucar os saltos no chão, a recepcionista pediu pra eu me controlar.
Na porta, avistei uma figura alta e com um sorriso maroto nos lábios.
- Oi, oi gente! – o homem disse, e devo admitir, a voz dele era gay.
-Olá, Smith. – A recepcionista disse, chamando ele no canto, e entregou uma prancheta.
- Martinelli, . – Ele chamou e eu me levantei sorrindo. – Ai meu Deus! Dá uma voltinha, menina! Que arraso! Me animei, entra.
- Hum, oi, meu nome é e eu vim ocupar o cargo de fotógrafa. – Sorri nervosa, sentando em sua sala.
- Tá, quer trabalhar para mim? –ficou sério, isso era ruim? – Posso ver suas fotos?
- Claro. – De dentro da bolsa tirei meu book e entreguei para ele. Durante os dez minutos que ele analisou, fiquei nervosa. Aquele seria outro não? Suspirei, observando a sala. Havia fotos e fotos dele com modelos, estilistas. Também desenhos, livros, CD’s e muitos papeis. Fora as engenhocas mais estranhas que você pode imaginar. Ímãs com caras de bichinhos, relógios antigos, telefone do século XIX, e bloquinhos de papeis de todas as cores. Milhares deles.
- , querida... – Ele suspirou e por detrás dos óculos redondos, piscou. – Eu tenho mais quatro entrevistas para hoje, e gostaria de falar com as outras meninas. Mas as fotos são boas, é o que procuro. Posso te ligar depois?
- Claro. – Anotei meu telefone em um de seus bloquinhos e dei para ele. – Caso a não tenha dado meu telefone ainda.
Levantei e saí da porta com um sorriso. As outras meninas estavam na sala de espera, e me viram sair com passos decididos e movimentos precisos.
- Posso falar com a ? – perguntei para a secretária.
- Sim, primeira porta, à esquerda.
- Meninas. – Passei sorrindo e acenando para as mulheres no sofá de espera.
Assim que cruzei a porta, parei e suspirei. Eu precisava parar de sofrer por ansiedade. Meus passos ficaram vacilantes a cada pensamento de fracasso que florescia na minha mente. Abri a porta e vi trabalhando. Por trás, e com cuidado, fui até a arara e coloquei meus sapatos, peguei meu casaco e tirei os brincos. E então a Mulher-Maravilha tira seu disfarce. Bufei irritada e joguei o book dentro da bolsa, me dirigindo à porta dando um breve aceno de cabeça para minha amiga.
Saí dali o mais rápido o possível e cruzei o estacionamento todo em direção ao carro, agora pronto e sem problemas (espero), e entrei nele arrancando com todos os 100 quilômetros por hora que ele me permitia abrindo os vidros e colocando óculos escuros.
- Quer saber? Nem queria. – Fiz cara de indiferente e continuei a falar. – Quem eu quero enganar? Eu quero muito esse emprego, merda.
- Awn não faz isso! – Disse aflita para a TV. Eu estava vendo Te Amarei Para Sempre, de novo. – Isso não ia dar certo.
A minha campainha tocou e eu pausei o filme, indo atender. Adivinhe quem era? Acertou se disse .
- Que coisa é essa? – Ela fez cara de nojo para o meu pijama velho.
-Oi para você também, . – ironizei, e me ignorando completamente, ela entrou no meu apartamento vendo o estado da sala.
- Deixa eu adivinhar, o Smith não te deu uma resposta. Você dirigiu para casa, fez pipoca e pegou um filme, que deve ser Te Amarei Para Sempre. De novo.
- Não. – eu disse, ficando em frente da TV, fazendo uma pose qualquer para ela não ver a tela. Ela fez cara de séria e pegou o copo de suco ameaçando jogar na mesinha de centro. Sou louca pela minha sala, saí da frente da TV pegando o copo das mãos dela e colocando-o no porta copos. Assim, deixei a visão para TV livre.
- Sabia! – Ela sorriu. Logo em seguida, fez cara de nojo. – Vai se trocar, vamos almoçar...
Fui para o quarto colocando uma jeans, blusa básica e um casaco cinza, finalizando com tênis, baguncei o cabelo, e ponto final. Ao sair, assoviou.
-Besta, pra onde a gente vai? – perguntei.
- Vamos comer qualquer coisa. Pode ser uma tarde no SPA, que acha? – Tenho certeza que meus olhos brilharam. – Eu pago.
- Já fui. – ri alto chamando o elevador com ao meu encalço.
Descemos e cada uma pegou seu carro, deixei ir na frente, eu não sabia onde era esse tal SPA.
Após alguns minutos, ela me levou para a parte rica da cidade, onde não estava acostumada a ir, ali viviam famílias de fachada com muito dinheiro, crianças em coleiras e muitas árvores.
Acabamos parando na frente de um lugar estilo LA, fiquei olhando boba pra , o lugar tinha paredes brancas com listras pretas e o nome em ferro pendurado em cima da porta automática de vidro, e um pequeno tapete vermelho que seguia da calçada até a porta.
- Não vou te deixar pagar isso. – disse, parada de frente para o SPA.
- E eu não vou discutir, encare isso como um presente, pode ser?
- Não sei... – Ela me empurrou para dentro do local e eu me dei por vencida, aquilo tinha chão de mármore branco! – Ok, mas que fique claro, não gosto da ideia.
- Claro que não... – riu – Vamos por aqui, .
Fomos para um lugar e vestimos roupões. Tivemos massagens, santas massagens.
- Preciso vir aqui mais vezes... – Eu disse de olhos fechados.
- Preciso te trazer aqui mais vezes... – disse e nós rimos.
- Concordo. Mas então, o que me conta de bom?
- Precisamos aceitar o convite dos seus vizinhos, o de ir a um ensaio deles.
- Por quê? – Arqueei uma sobrancelha.
- Porque eles tocam bem... E eu estou sozinha, e o não é de se jogar fora. – Ela disse. – Nem o ...
- Nem o , e nem o .
- Pare de chamá-los pelo sobrenome.
- Ué, eu mal os conheço. – Fiz careta. – Mas tenho uma idéia melhor para hoje.
- No que a senhorita está pensando?
- Lets’s Party Today!
- Fechado, saindo daqui a gente passa no shopping. – Nós rimos. – Dia fútil.
- Viva o Dia Fútil. – Fechei os olhos e aproveitei a massagem.
- Olha esse aqui! – apontou-me um vestido vermelho e apertado. Fiz uma careta. – Impossível. Vimos seis lojas e nenhuma tinha o que queria?
-É que estamos procurando nas lojas erradas. – Sorri puxando-a e entrando em uma loja bonitinha, com vestidos para usar no dia a dia. – Não precisa ser em loja de festas.
- Ah, olha isso! – olhou para um vestido branco com rendas pretas de alças grossas e ia até pouco antes do joelho. – Preciso provar.
- Ok, eu fico aqui! – Disse enquanto ela ia entrando no provador. Passei os dedos pelas araras cheias de vestidos, saias, blusas, casacos e tudo o que imaginar. Ia olhando para cada um deles fazendo careta ou sorrindo e separando. Acabei provando uns cinco vestidos, e fiquei com um azul escuro de alças finas e cintura marcada com saia esvoaçante que acabou completando com um cinto preto lindo.
- Feliz? Comprei um vestido e um cinto novinho. – Sorri amarelo.
- Muito, mas eu preciso passar em mais uma loja. – me levou para uma loja de sapatos lindos dignos de tapete vermelho. Como não queria gastar muito, e estar em uma loja de sapatos não ajudava, saí para tomar um mate.
Sentei em um dos banquinhos quando meu celular começou a tocar.
- Alô?
- ? – Era o John.
- Oi, John.
- Oi amor, estou almoçando e alguma coisa me lembrou você, então resolvi ligar.
- Hm, bem, estou meio ocupada agora... Merda. – olhei para os lados procurando uma desculpa qualquer.
-Fazendo o que?
- Bem, estou... – me gritou para irmos embora. – Ajudando a com coisas do trabalho dela. Te ligo depois. Tchau. Te amo.
- Ok... É bem provável que eu apareça esse fim de semana. Depois falamos.- Ele mandou um beijo e desligou. Corri para seguir .
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- Já escolheu seu sapato? – Disfarcei.
- Já, era só pagar e pegar. – Ela disse seguindo para o estacionamento. – Mas quem era?
- John. – Respondi indiferente.
- Você não parece animada. – Ela olhou para mim e verificou se estava com febre.
- Eu sei lá. Só não estava muito a fim de falar com ele. – Sorri.
- Ai, sei o que é isso. Seu namoro está caindo na mesmice. – Ela fez cara de drama por uns minutos e eu ri.
- Ou eu só não tenho o que falar, e não estou querendo ouvir frases melosas de “eu te amo tanto, minha garota londrina-brasileira”. – Imitei a voz dele.
- Mesmice. – Ela entrou no carro e deu partida enquanto eu entrava no meu. Arranquei com o carro para o apartamento dela.
Chegando lá, estacionei do lado de fora encontrando no portão.
- Oi. – Ela disse.
- Vamos. Muito trabalho para hoje. – A puxei para as escadas e subimos correndo para o segundo andar.
- Entra e fecha a porta. – Ela sorriu. – Onde vamos hoje?
- Mínima idéia. – Eu respondi, encostando-me na bancada e pegando um copo de água.
- Ok, temos duas opções, a balada de sempre, ou um pub, de sempre.
- Que tal algo novo? – Sorri sombriamente e ela caiu na gargalhada. – Eu soube de um lugar tipo um pub, mas com espaço para dançar, que abriu ontem.
- Você nem me avisa dessas coisas, a gente podia ter ido ontem. – Ela me deu um tapa.
- Ai mulher, não me bate! Primeiro dia é fora de cogitação, muito cheio. – corri para o notebook dela, aberto e ligado. Digitei rapidamente no Google o nome do local.
- Ta aqui, chama “Fret”.
- Nome estranho. – ela riu vendo as fotos. – Mas parece ser bom.
- Nome estranho? Tem uma balada em Tókio que tem nome de Útero.
- Ok. Já são quase sete da noite, faz assim, eu tomo banho no meu quarto e você no quarto de hóspedes, pode ser? – Assenti e fui para um banho rápido. Saindo, coloquei meu vestido e uma meia calça fina cinza, sandália abotinada e finalizei com colares pesados, desses de correntes.
Passei delineador preto na parte de cimas dos cílios e um gloss transparente, baguncei o cabelo e passei perfume. Estava pronta. Saí do quarto, encontrando colocando sapatos, peguei minha bolsa e fomos para o carro. Tivemos que imprimir o mapa de onde era o lugar, pois nem eu nem ela sabíamos. E para falar a verdade, estávamos perdidas.
- Ali, vira ali! – Gritei apontando a rua, fazendo-a virar bruscamente. – Wow, quero voltar viva para casa, sabia?
- Para de drama. – Ela revirou os olhos, caindo na gargalhada. – Tem estacionamento...
- Vem, vamos beber algumas. – Saí do carro pulando.
- Espera, Zerinho ou Um, quem perder volta dirigindo, e não bebe... Muito. – Agitamos as mãos jogando, na sorte, quem ia voltar dirigindo. Olhei para ela: eu colocara zero, e ela zero.
- Empate... As duas bebem. – Eu disse, e esperei o sermão de como íamos nos dar mal, mas ela não falou nada, só um sonoro:
-Let’s Party! – E agitando as mãos, entramos na fila. – Que fila pequena, deve estar vazio.
- Vocês chegaram adiantadas. – O segurança avisou. – A fila grande começa nove horas. Oito e meia ainda está vazio.
- Obrigada. – Sorri para ele, seguindo a e sussurrando no ouvido dela. –Não me lembro de pedir informação.
O local era incrível. Acho que abri uns belos palmos da boca e babei um pouco. O chão era espelhado, e as paredes pretas e vermelhas, com luzes que iam para todos os lados, e de todas as cores. Havia caixinhas de som no chão, que davam impressão de que o chão tremia com as batidas fortes da música, e mais ao fundo tinha um bar. Mais fundo ainda, quase em outra salinha, umas mesas de baixa iluminação, com sofás nos lugar de cadeiras comuns. O local tinha uma atmosfera de que tudo era possível, e de que nada era proibido. Cheirava a canela com fumo, mesmo não tendo ninguém fumando, mas não deixava de ser bom. Sorri varrendo o lugar com os olhos. Muita gente bonita, alguns bêbados, outros só curtindo o som. Puxei a para perto para falar com ela.
- Vamos pra lá? – Apontei as mesinhas, e ela concordou. Acabamos pegando uma mesa na parede. ficou um pouco antes, parou no bar para pegar uma bebida. E voltou com duas Cubas Libres. Fiz careta.
- Vamos começar por baixo. – Ela disse. – Depois você passa mal e a culpa vai ser minha.
- Ok, mamãe.
Ficamos conversando e bebendo. Ela começou com duas Cubas Libres, e depois trouxe cervejas. Deixei-a escolhei o que íamos beber, já que eu não fazia idéia. Já pelas dez horas, eu sentia o álcool me deixando alterada, mas não bêbada. Cansada de conversar com , já não ouvia mais o que ela dizia e só assentia em resposta. Acabei a convidando para dançar.
Puxei-a pela mão, eu ouvia batidas, mas não sabia distinguir qual música era. Comecei a dançar, mas depois de alguns minutos, já estava sozinha, e a com um cara bonito. Comecei a sentir meu corpo esquentar e entendi mais ou menos o que se passava por ali, estava tocando Lady Gaga, que aliás, não poderia faltar, e aquelas luzes estavam me cegando, o que me irritava. Eu me mexia no ritmo da música de um jeito que nunca dancei. Sozinha, podia sentir o som entrando na cabeça, e não estava pensando bem, estava me mexendo bem. Sentia de vez em quando respirações perto do meu ouvido, e alguém falando alguma coisa, mas ignorava completamente, então eles iam embora. A arte de ignorar o que não interessa.
Depois de minutos, voltou, xingando o cara de antes e me puxando para nossa mesa. Do jeito que eu estava, nem perguntei, só a segui.
- , tira esse sorriso idiota da cara. – ela disse irritada. – Aquele idiota me deu um fora quando eu o beijei, parece que tinha medo de mulher.
- Moço, uma cerveja. – Pedi. Depois de olhar para a cara da , refiz o pedido. – Uma cerveja e uma dose de Vodka. Dupla.
- Obrigada. – Ela sorriu.
- Não, a dose é pra mim. – falei, virando tudo de uma vez quando as bebidas chegaram.
- AI. MEU. SENHOR. – ela olhava para mim com cara de espanto.
- Que foi? Que foi? Onde? O que?
- Seus vizinhos. . . . . E ! – Ela acenou para alguém. – Minha noite pode terminar bem.
Dei risada sem acreditar. Virei-me avistando os quatro, muito charmosos, vindo em nossa direção. Bufei, já vi tudo, essa noite ia terminar bem para a e para . Pedi outra cerveja para o barman.
- Oi... – disse.
- Gente. – completou seguido por e .
- Meninas. – continuou, sentando do lado da . – Que fazem aqui?
- Bebendo um pouco. – Eu disse com voz estranha, dando um gole na cerveja.
- Um pouco? – perguntou rindo e pedindo cervejas para os outros.
Começamos uma conversa animada sobre comida e música, e bebemos muito durante esse tempo. e minha amiga estavam felizes, conversando, e o resto estava sobrando.
Se antes eu estava meio bêbeda, agora eu estava completamente, mal raciocinando.
Vi e saírem para dançar com sorrisos cúmplices, e depois de um tempo, percebi que todos iam dançar, e bom, fui junto.
Após algumas músicas, dançava com uma menina estranha, com , com uma ruiva e comigo. Acho que depois de um bom tempo que eu fui processar isso.
- Vou ao banheiro. – Disse para o rapaz, saindo de cena e o deixando sozinho.
No caminho, tropecei umas vezes, e esbarrei em dezenas de pessoas que me xingaram, mas acabei chegando inteira.Olhei no espelho: toda suada, descabelada, com a maquiagem fora do lugar, e arfando. Respirei fundo, lavando o rosto com água gelada. Abri a bolsa procurando o delineador, mas só achei um lápis e um gloss. Bem, não tem tu, vai tu mesmo. Acabei dando um jeito no cabelo com os dedos e arrumei a maquiagem e roupa, demorando mais que o normal, já que eu mais cambaleava do que fazia as coisas. Não deveria ter bebido, isso sempre acontece... Mas, se bem que uma a mais, uma a menos... Não faria mal. Sorri.
Saí para o bar, deixando na pista de dança sozinho, mas acabei vendo que ele dançava bem sozinho, desajeitado, mas bem. Fiquei olhando para ele por um tempo, até me tocar que estava na passagem e as pessoas já queriam me bater. Sai rápido dali.
- Oi. – Olhei e acabei vendo dois barmans borrados, pisquei os olhos e acabei fazendo o pedido. – Uma dose da coisa mais forte daí.
- Não acha que já é o suficiente? – chegou por trás, me assustando.
- Não. – Tentei pegar o copo, mas ele foi mais rápido dando um gole só e acabando com minha bebida. – Para você, chega. A me pediu pra te tirar daqui.
- Ah, entendi. Você veio porque ela pediu. – Tentei focalizar a visão, mas não dava, estava vendo mais ou menos três s ali. – Eu estou bem, sério.
- Estou vendo. –fez sinais para o barman não me dar mais nada. –
- Que pena, isso é uma pena. – Eu disse arrumando o vestido com cara de deboche.
- O que é uma pena? – Fiz cara de brava e ele riu. – Calma...
- É uma pena, se você não fosse tão chato, prepotente, irritante, besta, idiota, ignorante, eu te pegava, pegava mesmo. E é uma pena você vir aqui “cuidar” de mim.
- , você nem me conhece, por que acha que eu sou tudo isso? – Ele estava levando na brincadeira. Sorrindo bonitinho.
- Isso é pelo pouco que eu conheço, você me acordou com sua musiquinha irritante, e não parece ter bom caráter. E outra, no mínimo é um galinha, só aqui deve ter pegado umas tantas. – Soltei tudo de uma vez, embolando a voz.
- Só por isso? Não vou discutir, você está bêbada, nem lembrará disso amanhã. Eu não sou assim. – Ele falou sério.
- Prova.
- O que? – Ele ficou me olhando e eu arqueei as sobrancelhas. – Ok.
Ele me puxou para pista de dança e começamos a nos mexer no ritmo da música, de novo. Eu não estava entendo nada, só me mexia de acordo com , as luzes se multiplicaram na minha cabeça e o cheiro do local se tornou ruim, me sufocando. Eu podia sentir que não estava bem. chegou mais perto, se encostando em mim, colocando as mãos no meu quadril, ele estava tão perto que eu sentia sua respiração descompassada, suas mão começaram a suar. E eu não agüentei, aquilo era demais, caí na gargalhada, comecei a rir como uma maluca, primeira vez aqui e já manchei minha reputação. Apoiei as mãos nos ombros de escondendo meu rosto no peito dele. Cheguei mais perto de seu ouvido e disse:
- Babá, que belo jeito de me manter bem. Isso vai me provar seu caráter?
- Não. – ele respondeu. – Mas é tudo que vai acontecer, por hoje.
- Ok, claro. Nem vou lembrar disso amanhã. Seus olhos refletem todas essas luzes, que aliás, são uma merda, acho que vou ficar cega.
- São chatas mesmo. – Ele deu de ombros.
- Vou para o bar. – Tropecei no caminho e ele me segurou. – Opa!
- Não vai. – Ele me segurou. Fiz biquinho e senti uma pontada na cabeça, fechei os olhos instintivamente, senti minhas pernas ficarem moles, e não senti mais o chão. Abri os olhos desesperada e aquelas luzes vieram em cheio no meu olho. Bufei irritada tentando andar, mas não deu. Aquele lugar estava me sufocando. Varri o local com os olhos a procura da minha amiga. Acabei vendo as famosas bolinhas azuis e parei de andar. Comecei a ficar mole e meu ar faltou por segundos. Eu ia desmaiar.
- , vou desmaiar. – avisei me segurando nele. – Acho que bebi de mais.
- Ai Jesus. Ela vai cair. – Ouvi gritar, pensei em rir, mas não seu tempo.
Capítulo 8
Abri os olhos, visualizando um teto branco, e me virei lentamente para os lados, confirmando que estava em casa. Suspirei aliviada. Olhei para todos os lados, não vendo ninguém além de mim. Só pra confirmar, vai saber o que fiz depois que eu apaguei. Saí da cama, levando cobertor e travesseiro junto, os jogando no sofá da sala, e segui para a cozinha. Sorri besta quando cheguei perto da cafeteira, tinha um bilhetinho amarelo, da , que dizia assim:
Bom dia bela adormecida.
Esse café eu fiz ontem, beba!
Depois tome um banho gelado e vista uma roupa legal, não fique em casa hoje.
.
Sorri amassando o papel e jogando fora. sempre querendo ser mãe. Peguei um pouco de café e fui separar uma roupa para vestir depois do banho, algo bem quentinho e gostoso, estava frio, eu só faltava rachar os dentes, de tanto bater um no outro. Acabando o café, me despi e fui para o banho. Bem, sobre o banho, ele durou vinte longos minutos, quinze deles eu tentei criar coragem para entrar de baixo da água gelada que doía a espinha só de ver. Saí enrolada no roupão, corri para o quarto e me troquei. Quando acabei, liguei a TV no canal chato do tempo, para ver a previsão, enquanto colocava os sapatos, e lutava para achar o outro par, e ainda tentava achar meu celular.Vamos lá, , ontem você desligou e colocou... Na bolsa. Que eu não estava achando. Dei uma olhada por cima das coisas, quem quer que seja que me trouxe em casa, não ia esconder, certo? Bem, então, meus parabéns . Eu perdi a bolsa. Mas, se tivesse perdido, não conseguiriam entrar em casa para me deixar aqui. Quando eu estava a ponto de ficar desesperada, a campainha tocou. Gente inoportuna é dose. Corri até a porta para abrir antes que a pessoa fosse embora.
- Ah, é você. – Vi parado na porta sorrindo. Fechei a cara. – Por que está aqui?
- Bom dia, adoraria entrar, mas na verdade não dá. – Ele ironizou e eu acabei rindo.
- Me desculpe, quer entrar, ?
- ! Me chama de . E, na verdade não, você que vai entrar no nosso apartamento.
- Hm, sequestro relâmpago? – Ri seguindo-o para a porta vizinha. Entrei, esperando uma bagunça dessas de quarto de faculdade de menino, cerveja e pizzas pelo chão. Mas não, eu só vi um apartamento arrumadinho, maior que o meu. E mais arrumado que o meu! – Nossa, com todo respeito, eu jurava que isso fosse bagunçado. Tipo, restos de pizza e roupas pelo chão.
- É o que todas dizem... – apareceu assim que entramos pela porta, me dando um susto. – Oi, .
- . – Fiz cara de morte. O silêncio se instalou.
- Ta frio. – chegou, de onde eu deduzi ser a cozinha, com um copo na mão. E seguiu cantarolando. – Está chegando o natal.
- Desculpa, mas por que estou aqui? – Perguntei olhando o relógio, para dar um ar de ocupada demais. Mas não estava, na verdade.
- Ah, claro. – desapareceu corredor adentro gritando alguma coisa.
- O apartamento de vocês é bonito, e arrumado. E maior que o meu. – Puxei assunto para não parecer chata.
- É, mudanças aqui e ali na planta resolveram. E bem... Dinheiro também. – sorriu indo para a sala. O segui de perto. Chegando lá, estava com e , jogando videogame, e... A minha bolsa estava do lado deles. Ok, não me lembro de como ela estava ali, e estava rezando Pai Nosso e Ave Maria para descobrir que nada rolou (até porque eu não queria). Bem, talvez eu quisesse... Não! Credo.
- Isso é seu, certo? – Ele perguntou pausando o jogo.
- Sim, obrigada. – Peguei a bolsa de suas mãos, o fitando. Silêncio.
- Não vai conferir?
- Eu deveria?
- Vai que um doido mexeu para ver se tinha algemas e essas coisas... –olhou para . – Mas posso não ter deixado ninguém mexer.
Silêncio. Abri minha bolsa e conferi as coisas, tudo no lugar.
– Seu celular tocou a noite inteira. – me disse.
- Desculpa... – Corei. – Bem, obrigada, mas preciso ir.
- Vai onde? – perguntou sorrindo. Credo, quatro contra um não dá!
- Sair. – Sorri indo para a porta. E veio atrás para me indicar o caminho.
- Eu sei onde fica. Tchau.
Que clichê de vida, minha bolsa não poderia estar com a ? Desci as escadas e fiquei olhando para a rua, decidindo se iria para a direita, ou esquerda. Acabei ficando com a direita. Saí andando. Para onde? Não sabia, ia ver onde ia dar. Eu tinha minha bolsa, trocados, lápis de olho, celular e minha boa vontade. Peguei um caminho desconhecido, estava meio perdida, mas estava gostando, era um bairro antigo, com crianças correndo de um lado para o outro, senhoras cuidando de barraquinhas de flores, e cachorros sentados nas varandas das casas.
Uma barraquinha me chamou atenção, ela tinha flores que se destacavam, coloridas, e com cheiros fortes. Aproximei-me da senhora que as vendia e ela me recebeu com um sorriso de orelha a orelha.
- O que a bela moça vai querer? – Ela perguntou. – Essa semana é especial, são flores importadas.
- Esses Lírios são bonitos, quanto está?
- Ah, boa escolha. Estão baratinhos. –me mostrou o preço. – Eles são a atração principal do festival esse ano, sabia?
- Que festival? – Perguntei.
- O Festival das Flores de Paris. –disse sorrindo me entregando as flores.
- Obrigada. – Paguei e saí andando, lembrei-me de John, eu poderia usá-lo como desculpa para ir ao festival. Tirei o telefone do bolso e liguei para seu escritório.
- Jonny?
- Não, Betty, gostaria de deixar recado?
- Betty? John está? É a . –Me apressei em dizer.
- ? Que ?
- Martinelli, namorada do John. – Disse com a voz arrastada.
- Ah, essa . John está em horário de almoço, quer deixar recado? Marcar hora? – Que diabos ela estava pensando? Reprimi a vontade de dizer que diferente dela, eu não precisava marcar hora.
- Não, avisa ele que eu estarei aí no fim de semana.
- Ele vai ter uma reunião.
- No fim de semana?
- Exatamente, muito trabalho, você sabe. – Eu sabia. Na minha cabeça, um diabinho começou a sussurrar: Betty 10 x 0.
- Ok. Peça para ele me ligar, certo?
-Eu direi. – E desligou na minha cara. Continuei andando pela cidade, por ruas entranhas até mesmo para mim, que morava ali há tempo. No fim das contas, acabei saindo em uma avenida conhecida perto de casa, e acabei com o resto do meu dinheiro em uma Starbucks.
O telefone começou a tocar insistentemente, e eu tive que dar uns pulos para não pisar em nada que estava jogado no chão.
- Alô?
- ? É a .
- Como se eu não soubesse. – Adverti séria. – Bem, oi.
-Oi, você está bem? Leu meu recado? – perguntou cuidadosa.
- Li, e já sai, comprei flores brancas, e acabei com o meu dinheiro.
- Tá, você recebeu alguma ligação especial hoje?
- Não... Por que?
- Só pra saber. –disse rápido. – Bom saber que está tudo bem. Mais tarde vou passar aí.
- É, já está tudo bem, tomei umas dúzias de remédios para dor de cabeça e vou apagar geral. – Ironizei. – Não, eu não vou dar uma de Michael Jackson.
- Acho bom. Bem, tchau. Qualquer coisa me ligue. Mas ligue mesmo. – A voz dela soava preocupada e cuidadosa, e eu desliguei. O que ela estaria me escondendo?
Fui para o meu quarto. Não que fosse dormir, ainda nem tinha passado a hora do almoço. Eu só ia tirar os sapatos e ficar na cama, fazendo nada, sozinha. Coisa de gente deprimida.
Sentei na cama e fiquei olhando para o teto. Comecei a pensar em tudo. Eu tinha uns probleminhas, meu namorado morava em outro país, eu não tinha de enfrentar a distância de cidades, mas sim de países. Minha melhor, e na verdade única amiga já tinha um trabalho e eu estava encostada, gastando dinheiro com lírios e café. Tinha uma banda na parede ao lado da minha, com caras bonitos, e eu simplesmente não traía meu namorado, mas não posso dizer o mesmo dele, tenho a impressão de que tenho chifres enormes. Ouço música velha. Moro no centro da cidade. Tenho dezenove anos, não sou londrina, não sei quem é meu pai, minha mãe morreu, e meu avô também. Sou normal, até certo ponto. Eu só sou estranha na parte em que me considero perfeitamente normal.
Ah, não vamos esquecer meu pior problema, nunca termino o que começo. Eu sei que isso deveria estar no começo dessa história, mas aproveito para tirar o atraso.
Parei de encarar o teto e olhei à minha volta. Eu não poderia continuar assim, precisava de um emprego. Já tinha desistido da agência da , o cara nem ligou, e fazem dias. Eu precisava reformar o apartamento, a única parte que me agradava de verdade era a sala. E para reformar o quarto, banheiro e cozinha, eu precisava de dinheiro. Eu fico em casa parada, mofando, o máximo que faço, fora de casa, é viajar e fazer unhas, e tomar café. Eu precisava de um emprego.
Levantei e fui até meu armário, abrindo-o. Eu gostava das minhas roupas, mas a maioria não usava há anos. Se der as roupas, posso comprar mais, e para comprar mais, precisava de um emprego. Não posso viver de mesada. Segui para um espelho e vi meu reflexo, tinha que cortar o cabelo, acho que já tem um ano que eu não corto, ele está enorme, e com pontas duplas. Para pagar salão, preciso de dinheiro, para ter dinheiro, preciso de emprego.
Não dava mais, tudo aponta para um emprego.
Agora.
Hm, momento depressão, preciso parar de sentar na cama para pensar nessas coisas. Levantei de uma vez só indo para a janela e olhando os carros lá embaixo. Eu podia tentar alguma coisa nova, podia largar a fotografia! É sim, tentar algo mais fácil, algo como áudio visual, ou propaganda, ou quem sabe publicidade! Imagine eu, Martinelli, publicitária! Suspirei animada, precisava fazer pesquisas!
Peguei o computador e coloquei no colo, pesquisando sobre as três profissões, anotando coisas e prendendo no mural de recador os prós e contras das três. Fiquei nessa o resto da tarde, até dormir sentada no chão mesmo.
- Então, foi assim que decidi que eu vou para a faculdade, fazer propaganda! – Eu encontrei a e a levei para tomar café, e aproveitei para contar a novidade.
- Ah, . – ela deixou uma lágrima escapar. – Você está crescida! Vai para a faculdade, teve cabeça para decidir sozinha!
- Ô amiga, obrigada, mas não precisa chorar. – Sorri. –Afinal, é dia de comemorar, e...
- Você não vai ser uma desmiolada que nem eu! Você vai para a faculdade! Com dezenove aninhos. –arregalou os olhos. – Você não está com medo? Quero dizer, é a faculdade!
- , cala a boca, está me assustando!
- Ok, desculpa. Só que não vai mais nem ter tempo para mim!
- Por quê? Eu só vou estudar meio período.
- E como a madame vai pagar a faculdade? Vai ter que trabalhar! – Ela arqueou as sobrancelhas e eu r.
- Eu tenho dinheiro guardado! – Dei a língua. – Eu vou sempre ter tempo para você.
- Acho bom. – ela resmungou e fomos pagar as contas. Voltando para casa, acabamos nos perdendo e pegamos outra rua, com vários anúncios nas paredes e papeis velhos arrancados pela chuva. – Credo, que lugar estranho.
- É mesmo, aperta um pouco o passo. – Disse para ela e continuamos andando. Eu estava pronta para dar uma de ninja de salto alto a qualquer instante.
- Ei, , olha! – Ela parou de andar e ficou olhando para um cartaz na parede. – São seus vizinhos!
- , agora não né? – a puxei, mas acabei parando ao seu lado, e fiquei olhando o papel. Eram os vizinhos, eles estavam em um cartaz de show.
- Vem, , vamos logo. – Apertei meu casaco contra o corpo tentando me esquentar.
- , aqui diz que eles vão se apresentar hoje, numa casa de show na rua de trás. – sorriu. – A gente podia ir!
Um trovão barulhento irrompeu do céu e uma grossa chuva começou a cair em cima de nós, forçando-nos a sair correndo. Fomos rápido até os carros, porém ficamos molhadas do mesmo jeito. Não adiantou nada.
- Nossa, tenho que me acostumar com essas chuvas do capeta que aparecem do nada! – Comentei arrancando risos da minha amiga.
- Pois então, já é tempo. – Ela sorriu e se despediu de mim entrando em seu carro, dando partida e sumindo rua abaixo. Entrei no carro e segui para meu apartamento. Subi rapidamente as escadas e entrei em casa. Correndo para um banho quente, fiquei lá por um longo tempo, depois acabei dormindo. Depois, me dei conta que hoje era primeiro de dezembro, o inverno estava chegando, e junto com ele, o natal e o novo ano. Adoro fazer listinhas de fim de ano.
- Ei, sua imprestável surda, acorda! – cutucava meus olhos. – Levanta, a gente tem que estar lá em quarenta minutos, e você ta fedendo!
- Primeiro: onde? – Sentei e olhei para ela. – Segundo: devolve a chave da minha casa.
- ! No show dos meninos! Eles disseram que a gente poderia ir a um ensaio, só que eu pensei, eles não vão se importar se aparecermos lá, o show é em... – Ela checou o relógio - Trinta e nove minutos. Anda, eu separo sua roupa!
- Não, eu não vou ao show, não nos convidaram! E você nem disse que a gente ia sair!
- Por favor, por eles! Eles foram legais em vir te deixar em casa e tudo mais.
- Não, eu não vou lá só porque você quer, e eu já agradeci hoje mais cedo!
- Ah, entendi, agora está claro. – Ela sorriu. – Você não vai porque tem um namorado ciumento, e se sente atraída por um deles. Tudo bem, não te culpo, eles são um pedaço de mal caminho. Por qual deles você tem uma queda?
- Por nenhum. – Bufei. – Ou talvez por um...
- Então é isso, John não te deixa sair, e te disse para não chegar perto deles.
Olhei para ela sem acreditar, oi? Desculpe, acho que não ouvi bem, ela acha que eu não vou porque tenho namorado? Pois vou, e ainda é arriscado colocar alguém de corno.
- Quanto tempo? – Ela pulou de alegria correndo pro meu quarto separar alguma roupa.
- Bem... Trinta e sete minutos. –gritou, e eu voei pro banho, o terceiro do dia. Acho que já podia ficar sem tomar banho por mais um bom tempo. Mentira.
Tomei um banho corrido e me vesti, colocando os sapatos no corredor, e acabei secando o cabelo com as janelas abertas. A me levou até o local, chegamos exatamente quarenta e um minutos depois. Estava lotado, era um lugar estranho, de começo de banda, sabe? Fiquei me perguntando como a conhecia esse lugar, mas acabei guardando para mim mesma. Enfim, tinham mesas no segundo andar, e o palco era no primeiro, e como estava lotado de gente estranha lá em baixo, obriguei a se sentar lá em cima.
Meia hora depois, eu já estava querendo voltar para casa, e tinha bebido um monte de refrigerante. E estava batucando tanto os pés, que a ameaçou pegar fita adesiva e prender minhas pernas na cadeira. Nossa mesa estava lotada de bilhetinhos anônimos de homens.
- Eles estão demorando demais, não quero mais ficar. Quero voltar para casa. –resmunguei manhosa.
- Espera um pouco, se eles não aparecerem em dez minutos, te levo para casa. – Assim que ela terminou a frase, ouvimos as pessoas berrarem e baterem palmas. As luzes se apagaram, e só uma iluminação especial continuou acesa, então eu vi os quatro saírem de trás das cortinas e o apresentador do show começou a falar.
- Desculpem o atraso, a culpa foi do . Sempre é, ele passou mal. – As meninas gritaram como doidas quando levantou a mão em um gesto de culpa. – Enfim, esse é o McFly! no vocal, no baixo, na guitarra e na bateria, aplausos gente!
E as pessoas simplesmente surtaram.
Eles começaram a tocar, tocaram cinco músicas, sendo que uma delas eu conhecia, a Five Colours, e inevitavelmente cantei junto. Em uma das músicas, as pessoas simplesmente aplaudiram por sete minutos e meio! Como alguém consegue sete minutos e meio de aplausos em lugares como esse? Também, não pude deixar de reparar em como estava lindo, sorrindo de lado, com um belo agasalho verde, e parecendo confiante. Eles terminaram e outra banda entrou.
- Nossa, eles são bons. – A pulava com a segunda banda.
- É, devo admitir, eles são bons mesmo. – Fiz cara de derrotada. – Vamos?
- Ficou doida? Precisamos ir ao camarim! – Ela fez cara diabólica. – Você quer, eu sei.
- Ah é, claro, porque a gente pode! Precisa de crachá, amor. – Fiz cara de descaso.
- Me segue, e a gente não vai precisar roubar o crachá de ninguém! – ela saiu me puxando escada abaixo e me levou para o meio da muvuca. Pulamos durante o fim de uma música e então ela apontou para uma porta com um homem quarentão com cara de poucos amigos e piercings na orelha. E também tatuagens nos braços. E acho que ele rosnava.
- Ali deve ser a entrada, vem. – E saiu me puxando. Por sorte, consegui chegar inteira à porta, só com o pé pisoteado. retocou o gloss, deu um jeito no cabelo e puxou os peitos pra cima. – Faz o mesmo, anda.
- Não! To bem, obrigada. – E ela me puxou para perto do cara. Ele olhou torto e eu suspirei pesado. – Olá! Precisamos entrar.
- Sem crachá, nada feito. – Ele rosnou. Eu sabia que ele rosnava!
- Mas é que só a minha amiga tem crachá, e ela perdeu no meio do show. – fez biquinho.
- Ah é? – O cara arqueou uma sobrancelha e olhou a gente de cima a baixo, com um sorriso nos lábios. – E qual era a porta?
- A porta...? – Olhei para ela nervosa, que sorriu cínica e disse.
- Ora, a porta do McFly!
- Sim, mas tem um número no crachá. – Ele me olhou. – Você sabe. Um bem grande, informando a porta.
- Porta quatro...? – Ele deu risada.
- Não, lá estão os... – Ele parou para checar na lista. – Caras do palco.
- Não. Não mesmo, impossível, eles estão lá, tenho certeza. Checa de novo, pode checar. – ficou impaciente.
- Não, eles não estão lá. – Ele sentou no banco e ignorou os xingamentos da .
- Moço, cá entre nós... Precisa mesmo de crachá? Sabe como é, eu não tenho, a minha amiga não tem, e bem... Em todos os shows, muitas meninas passam por essa porta sem crachá. - Desatei a falar. Não deu muito certo, pois ele me botou em cima do ombro e me tirou de perto da porta. Assim que me colocou no chão, veio correndo até mim, aliás eu estava fora da casa. – Ah, ele me expulsou!
- Lógico, sua besta! Isso é coisa de se falar pro cara? “Eu não tenho crachá e duvido que precise!” Você queria o que? Que ele abrisse caminho? –me olhou irritada tirando o cabelo do olho. – Mas não tem problema, só ficou mais divertido, me segue.
- O que? Ta maluca? Não tem como entrar lá! – Fui atrás dela, que andava sorrateiramente para a parte de trás da casa de shows, olhando para os lados. Tipo um 007 fora de época.
- Todo camarim tem saída de emergência! – Ela afastou uma lixeira três vezes maior que ela e me mostrou uma porta cinza com um cadeado grande. – Só preciso abrir isso...
- Sim, amiga, com uma chave. Vamos. – Eu disse puxando a mão dela.
- Não, sua chata! – Ela tirou um clipe da bolsa e ficou um tempo tentando abrir o cadeado. Por milagre, o cadeado fez “tic” e abriu. Sorri e a segui pelo corredor apertado e escuro. Não era grande, e logo ouvimos risadas escandalosas, sons de vozes e baquetas, ou violões. Tínhamos conseguido, estávamos dentro, no camarim! Acabamos saindo dentro de um armário de vassouras e demos um jeito na roupa. Abrimos a porta que dava para um corredor, e nele haviam mais seis. A maioria estava aberta. Fomos passando por elas procurando os meninos, sem sucesso.
- Desculpa! – Eu disse dando risada depois de colocar a cara dentro de um camarim de porta aberta, e bem, não eram os meninos. – , eles não estão nas portas abertas, e eu não vou sair abrindo portas fechadas!
- Depois de tentar enganar um segurança, ser expulsa da casa, entrar pelos fundos “arrombando” a porta e colocar a cara dentro de quatro camarins abertos, você simplesmente não quer abrir duas portas? – ela me olhou indignada, colocando a mão na maçaneta da primeira porta. – Pelo amor! Faz assim, a gente abre essa, se não for, pedimos desculpas e abrimos outra.
- Ok. – respondi colocando a mão no bolso da casaco e fechando os olhos. – Um, dois, três.
Ela abriu a porta na cara e na coragem de uma vez só, e eu abri os olhos. Havia três japoneses olhando para a gente, perplexos. Não aguentei e comecei a rir. Fechei a porta e sentei no corredor, chorando de tanto dar risada. me acompanhou, e ficamos no chão por pelo menos cinco minutos, rindo escandalosamente. Quando estávamos no ponto de rolar no chão, ela parou abruptamente e arregalou os olhos. Não aguentei a cara dela e ri mais, enquanto ela fazia que não com a cabeça.
- Meninas, eu não sabia que vocês viriam! – Ouvi a voz dele e parei de rir. Levantei com a ajuda de e cumprimentei todos. – Vocês precisavam de crachá para entrar aqui, sabiam?
- É, como entraram? – quis saber.
- Bem... – Suspirei envergonhada. – Uma longa, longa história.
- Ah, conta! – pediu, e antes que eu dissesse qualquer coisa, abriu a boca.
- Ok, primeiro estávamos andando pela rua e vimos o cartaz. Eu conhecia o lugar e arrastei a pra cá. Ela resistiu, mas eu dou conta do recado. Enfim, esperamos o atraso de vocês e vimos o show, que, aliás, foi muito bom, parabéns. Assim que acabou, tentamos passar pelo cara de dois metros de altura lá no fim do corredor e ele nos barrou, e acabou nos expulsando, então viemos para a parte de trás da casa e eu arrombei a porta da saída de emergência. Saímos em um armário de vassouras e abrimos cinco portas até encontrar vocês, e cá estamos. – Ela sorriu e parou para respirar.
- Wow. – disse antes de cair na risada. – Como assim? Olha o seu tamanho menina, você nunca arrombaria aquela porta!
tirou do bolso um clipe deformado e um cadeado grande, sorrindo vitoriosa.
- Tamanho não é documento. – perigosa em ação, ela ia dar o bote hoje. E ele? Ele é macho, caiu na dela. – E agora?
- Poderíamos sair para jantar. – Dei uma dica, desligada do estrago.
- Estou morto de fome! – comentou sorrindo.
-Perfeito, a gente leva vocês num lugar legal. – falou. Eles pegaram as coisas no camarim, e fomos em direção à porta (que, curiosamente, era a que o cara de dois metros estava). Passei sorrindo cinicamente e mandou beijinhos no ar, entregando para ele o cadeado que rompeu. Os meninos acharam graça. Fui no meu carro, e a no dela. Os meninos, nos deles. Eles nos levaram para um restaurante Italiano. Pegamos uma mesa grande e ficamos na seguinte ordem: eu, na frente, ao meu lado, na frente dela, em seguida, com à sua frente. Acabamos pedindo macarronada e vinho (fiquei no refrigerante mesmo).
- Você sabia que a gente perde cem fios de cabelo por dia? – começou a mexer nos cabelos fingindo preocupação e arrancando risos de todos. Nossa mesa era, de longe, a mais barulhenta do restaurante.
- Eu acho que se você deixar seu cabelo assim... – mexeu no cabelo dele e, propositalmente, chegou mais perto - Fica melhor.
Chutei-a por debaixo da mesa e demos risadinhas cúmplices.
- , sobre você.... – começou. – Você viaja muito?
- Não muito. Só para Paris.
- Muito. – soltou. – Até demais!
- Para que? – ficou curioso.
- Tem uma pessoa que conheço lá. – Olhei desesperada para .
- Um namorado...? – sorriu. Fiquei vermelha.
- Um amigo. – bateu na mesa dando um ponto final na conversa. - Credo, esse povo tem mania de se meter na vida dos outros.
- E falar o que não deve. – Reduzi meus olhos a fendas para ela.
Apertei sua mão em agradecimento por debaixo da mesa depois, mesmo assim.
- Ok, ok. Esse jogo é assim: cada um toma uma dose e fala seu estado civil, tipo namorando, livre e essas coisas. – inventou esse jogo de perguntas e respostas, depois de estar bem alegre. Era divertido, e acabou nos rendendo boas risadas. – Eu começo.
Ele virou. Sal. Limão.
- Livre para quem quiser pegar. – E demos risadas.
virou. Sal. Limão.
- Enrolado. –deu um muxoxo triste. E rimos.
Vez do . Sal. Limão.
- Interessado. – E olhou para .
. Sal. Limão.
- Fazendo doações. – Ele puxou as risadas da mesa. – Agora, as meninas.
virou. Sal. Limão.
- Para quem quiser. –fez cara diabólica. – , você.
Peguei o copo, olhei o conteúdo, respirei fundo, e virei. Sal. Limão.
- Touch and go. – Joguei os cabelos para trás fazendo pose, e arranquei risadas da mesa toda. Olhei no relógio e me espantei, passava de meia noite. – Nossa, acho que já dá para ir pagando a conta, gente. Já é mais de meia noite! Daqui a pouco vão ter que nos guiar pra casa.
- Credo, amanhã tenho que trabalhar. – fez biquinho e chamou o garçom. Cada um começou a sacar um cartão de crédito diferente, e acabamos decidindo que os meninos iriam pagar, depois de muita insistência da parte deles.
- Amiga, seu celular ta tocando. – me deu o aparelho e ficou com minha bolsa.
- Ai, já volto. – Me distanciei da mesa e fui atender, era estranho alguém me ligar uma hora dessas. – Alô...
- ? – John? Estranho – Oi, eu não conseguia dormir...
- Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
- Tá tudo bem sim. Nossa, que barulho, onde você tá? –senti uma autoridade querendo abrir as asas em algum lugar naquela frase.
- Em um restaurante com os meus vizinhos. Digo, amigos... – Sussurrei na esperança de ele entender o que eu queria que entendesse. – A tá comigo.
- Ah, claro, porque com a o mundo tá salvo.
- Quer me dizer alguma coisa? – bufei, irritada.
- Não, nada. É só que eu imaginava que essa minha dor de cabeça tinha motivo! – Fiquei pasma, abri a boca e deixei a minha língua métrica cair depois dessa.
- Sabe, eu to com uma LEVE impressão de que você está insinuando alguma coisa. – Cerrei os dentes, decidida a provocar. – Assim, bem de leve.
- É, talvez não tão de leve. Quem sabe por ser seu namorado eu tenha algum direito.
- Direito de quê? – me indignei.
- Direito de saber antes com qual renca você vai sair, ou pelo menos que tipo de amizade você tem com cantores babacas e drogados. Pensei que a sua fase “menina de colegial que ama bad-boys” já tivesse passado. – Ele começou a se alterar. – Mas beleza, volta pra sua , e seus lugares estranhos, suas pessoas estranhas!
- Nossa, vou aproveitar que não to sóbria... – provoquei mais, sabendo que aquilo o faria pensar caraminholas pelo resto da noite – E fingir que não ouvi isso. Pro seu bem. – Respirei fundo, sentindo o ódio correndo por minhas veias. – Nem tenta falar nada! Você acha que vou ficar ouvindo? Você nunca me ouve quando eu te peço para dar uma relaxada do trabalho. Por que eu te ouviria, e pararia de sair com quem me faz bem? Ela é minha amiga, eles são meus amigos, é com eles que eu saio e me divirto, porque é você que nunca está aqui! E se quer saber, eu tolero muito essa Betty, com você toda hora, te ligando o tempo todo. E ainda, pra ajudar, não dá pra saber o que você prefere: seu trabalho e suas secretárias, ou eu. Então a gente tá, no mínimo, quite, não acha?
- Como você...? Ah, cala a boca. – Ele estava perdido.
- O QUÊ? CALA A BOCA VOCÊ, LÁ NA CASA DO... – respirei fundo e continuei. – Melhor. Você quer saber? Tá reclamando muito de uma dor de cabeça que não tem. Ou, pelo menos, não tinha, até agora. Durma com o analgésico do lado da cama. E com o celular também, mas da próxima, liga pra Betty, porque eu não vou atender!
Desliguei o celular e senti vontade de sentar no chão, mas antes que desse uma de mulher fragilizada, respirei fundo, tentando me acalmar. Passei a mão pelos cabelos, dei dois tapinhas no rosto, me recompus e saí do banheiro sorrindo e desfilando. A caminho da mesa, pesquei em bandejas de garçons que passavam, dois drinks, um seguido do outro, do que quer que fosse. Alegrei-me mais, se isso era possível. Aquela sensação de coragem crescendo, um fogo subindo, e a vontade de soltar o cabelo e fazer alguma coisa errada. Principalmente depois de ter ouvido tanta besteira daquele babaca. Olhei para a mesa e só vi , menos bêbado que os outros, todo charmoso com aquela barba por fazer. Dei um sorriso perigoso, e sem parar para pensar, sentei em seu colo e o agarrei pela gola da camisa. Selei nossos lábios e comecei a beijá-lo com uma ferocidade que eu não costumava ter, estranhando a quase imediata resposta. Ele teve de apoiar uma das mãos na mesa para não cairmos, sem interromper o beijo. chegou um pouco depois (e logo deu meia-volta), e não entendeu nada. Tinha vontade de rir de John. Se era para ouvir bronca, ouviria com motivo. Mantive o beijo por minutos, com receio de algumas marcas de mãos na cintura, arranhões na nuca ou lábios rasgados visíveis no dia seguinte. Ele tinha braços fortes, e me fazia arrepiar toda hora, algo completamente físico e perigoso. O que mais eu queria? Brigava com meu namorado, e pegava um cara de uma banda que tinha braços fortes. Decidi que estava na hora de deixá-lo respirar. Arrumei o cabelo e soltei uma risada brincalhona, antes de me retirar, o deixando estático, boquiaberto, como se tivesse acabado de ter sido levado aos céus.
- Boa noite. – Saí rindo dos olhares confusos, e encontrei na porta, sem saber de nada. Peguei minha bolsa da mão dela, acenei sem olhar para trás e entrei no carro, me sentindo poderosa.
- , o que aconteceu? Sua boca está vermelha, e seu cabelo... – Ela tentou vir atrás de mim, mas eu arranquei com o carro e a deixei para trás. Ela, , os meninos, e minha sanidade. Todos na porta do restaurante. Eu juro que nunca provei nada melhor que aquilo. Pura adrenalina.
Capítulo betado por Ana Caroline Mello
Continua...
Nota da Autora: Oi, oi, mais dois! Eu não paro de atazanar vocês nunca!
Mas enfim, cá está, mais dois, o primeiro não ta bom, mas o segundo... Está bem bom, segundo eu mesma.
Sem esquecer que eu fiz isso com a ajuda da lary-linda que veio passar o resto das férias aqui no fim do mundo, e se vocês aprovarem o 8° capítulo, vou aproveitar e mandar todas vocês lerem a dela, Flashback, muito boa mesmo.
FAQ - não tem, mais uma vez. Ê vida!
Enfim, muitos beijos, e comentem, divulguem e leiam (:
Julia M.
Nota da Beta: Brotos, caso tenha algum erro de português/script/html, podem entrar em contato comigo pelo twitter ou por e-mail, fiquem à vontade. E pelo twitter eu digo como ta o processo de betagem/se já mandei pro site, essas coisas, então pode seguir, se quiser =D