
Prólogo.
Sentia-me a pessoa mais fraca desse mundo. Havia me atirado no precipício de vez. Sentia-me dilacerada por dentro, derrotada, exausta. Como se estivesse sido atropelada por um caminhão umas quinze vezes em um minuto.
Como eu não havia percebido?
Como eu pude deixar chegar a esse ponto? Sem conseguir controlar meus sentimentos.
Eu havia sido tão imprudente ao deixar que ele entrasse na minha vida dessa forma, com tanta intensidade. De deixar me dominar por essa loucura que foi nosso envolvimento.
Estacionei meu carro no acostamento. Eu sempre soube disso, de alguma forma; sempre soube que nunca fora um mero envolvimento. Nunca fora apenas atração física.
Apesar de este fator ajudar, a atração física era apenas um toque a mais. O nosso relacionamento sempre fora baseado na coisa mais importante. Amor. E nenhum de nós havia percebido. Apenas nos entregamos a isto, de corpo e alma.
Foi quando senti as lágrimas quentes escorrendo pelo meu rosto que percebi que eu estava desesperada.
Eu o amava.
E admitir essas palavras não era fácil. Causava dor, angústia, sofrimento.
Mas agora, mais do que nunca, eu precisava dele. Precisava do seu corpo junto ao meu, precisava me sentir quente. Ele mexia comigo, como nenhum outro fez, e isso me indignava... E fascinava.
Já era tarde demais. Eu havia perdido o pingo de sanidade que me restava. E num momento de puro impulso e loucura, foi que eu peguei meu celular, e escrevi as seguintes palavras, antes de fazer o retorno e voltar para minha casa:
“Te amo, porque você me seduz de uma forma enlouquecedora.
xx, .”
Capítulo 1 – How it all began.
Eu sempre pensei que tinha a melhor amiga do mundo. A mais compreensiva e conselheira. A típica “amiga para todas as horas”. Mas eu me enganara. Percebi que ela era a mais egoísta. não era nada legal, nada compreensiva.
- Você vai, ! – ela ainda insistia, colocando praticamente meu guarda-roupa inteiro abaixo. – Não vou deixar você perder uma noite como essa por causa de uma cólica.
- Mas que porra, ! Eu estou com dor. Você não consegue sair sem mim nem uma vez?
- Consigo. – me lançou um de seus sorrisos sapecas. – Mas eu não quero.
Olhei para ela com cara de poucos amigos. Um de seus defeitos era a insistência.
- Eu não vou. – repeti pela vigésima vez naquele dia.
- Qual é, ! Eu realmente não queria pegar todos os gatos da festa. – a garota à minha frente fez um pequeno beicinho, como se aquilo fosse um enorme sacrifício. – Toma um remédio, um banho quente, e vê se passa. Se passar, você vai. Se não passar, eu fico aqui com você.
Pensei na possibilidade. A balada realmente ia estar boa. Era uma nova boate que inaugurou no centro de Londres, duas semanas atrás, e que até agora eu só ouvi elogios.
Eu estava com uma cólica chata. Mas, pensando bem, desde quando isto me atrapalhava? No fundo, eu sabia que quando eu estivesse lá dentro, não ia me lembrar de nada.
Levantei-me da minha cama, já mais animada e sorri para .
- Não precisa chorar mais. – zoei. – Eu vou, com cólica ou sem. Mas não faço a mínima idéia de que roupa colocar. Alguma sugestão?
Ela riu, satisfeita com a minha rendição. Olhou para a cama – que continha uma boa quantidade de roupa –, e voltou a analisar meu guarda-roupa. Mexeu em alguma coisa lá dentro, que estava fora de meu campo de visão, deu um gritinho agudo, como se tivesse visto um milagre. Eu sabia tudo o que tinha lá dentro, e não existiam grandes motivos para tanta expectativa, eu nem havia comprado nada.
- Esse é perfeito! – ela tirou de dentro do móvel meu vestido preto favorito, e que, modéstia à parte, era muito lindo. Achei um pouco exagerado, mas como não conhecia o lugar, resolvi aceitar sua sugestão. Escolhemos um Peep-toe vermelho, um brinco de argolas prata, acompanhado de um anel de brilhante, e uma bolsa pequena, de pulso, apenas para carregar as coisas básicas. Entrei no banheiro, enquanto escolhia sua roupa e se arrumava. Tomei um banho quente e rápido, que foi o bastante para aliviar meu mal-estar.
havia posto todas as maquiagens possíveis em cima da minha penteadeira e finalizava a sua maquiagem passando um gloss rosa. Sua maquiagem estava intacta e perfeita, destacando seus olhos.
Baixei meus olhos para sua – que na verdade era minha – roupa, que se adequava melhor nela. Ela estava deslumbrante. O vestido verde escuro ficara lindo nela. Ela escolhera uma sandália com tiras na cor preta, junto com uma bolsa de pulso vermelha, para “quebrar o encanto”, e como acessórios um bracelete e um colar prata.
- Gata, - eu disse, começando a vestir-me. – se eu não fosse louca por homens, eu juro que te pegava.
Ela riu, me mandando um beijo e uma piscadinha.
- Louca não é a palavra exata, . – ela me disse. – Sedenta, tarada, fogosa é melhor.
Rolei os olhos, colocando o anel, a última peça que faltava, e indo para a penteadeira me maquiar. Não demorei muito para ficar pronta, finalizando com um perfume extremamente doce.
e eu partimos para a boate, com o carro dela.
Diferente de antes, eu estava ansiosa até demais para conhecer esse local tão famoso. E quando chegamos à frente do estabelecimento, meu queixo caiu. O lugar realmente era maravilhoso, e a roupa que colocamos se encaixava perfeitamente ali. Tivemos que enfrentar uma pequena fila, mas em cerca de dez minutos já estávamos passando pelos seguranças, entrando em um local totalmente sofisticado.
O bar era central e, ao redor da pista, continha as mesas, mas que quase não estavam sendo ocupadas. Antes de me jogar, dei uma olhada no público. Pessoas de todos os estilos dançavam a música eletrônica que tocava na pista.
Prestando mais atenção ao estabelecimento, percebi que ao lado direito havia uma escadaria. Olhei para , sorrindo:
- Tem mais de uma pista? - indaguei.
- Ao que parece, sim. - ela deu um sorriso esperto. - Vamos ver.
Fomos em direção às escadarias com certa dificuldade, passando por diversas pessoas. Passamos por alguns homens super loiros, altos e perfumados, que nos lançaram olhares de tirar o fôlego.
Quando chegamos ao segundo andar, nosso queixo (se é que era possível) caiu mais ainda. Era incrível, melhor do que a pista em que estávamos antes.
O DJ tocava no fundo, e antes de chegarmos ao local em que a pista estava, tinha uma área de lazer. Alguns puffes espalhados pelo chão - onde aquelas pessoas trêbadas estavam atiradas – e algumas poltronas e sofás. Umas duas mesas de sinuca em um canto. E alguns notebooks, para as pessoas acessarem seus sites de relacionamento. Quem, em sã consciência, iria vir a uma boate maravilhosa dessas, para usar internet e jogar sinuca? Rindo com esse pensamento, parti com para a pista, que parecia pegar fogo. Compramos duas garrafas de Ice, e tomamos nosso primeiro gole – após brindarmos, claro -, e fomos dançar.
A música era ótima. Dançamos bastante, intercalando com bebida e conversa. Comentávamos sobre as roupas das pessoas, principalmente as mulheres, sobre os gatos da festa, sobre tudo. Em nenhum momento me arrependi de ter levantado da cama, e nem lembrava mais que estava com cólica. Paramos apenas porque a Ice havia acabado, então saímos da pista e fomos para o bar de novo.
Enquanto o barman pegava nossas bebidas, nós nos encaramos, sorrindo.
- Foi a melhor balada que eu já vim. – comentei, gritando um pouco, devido o som.
- Realmente. – concordou. – Eu não sabia que era tão bom.
- Vou vir aqui a partir de hoje, vou falar com o pessoal da faculdade e... - não pude concluir, pois os olhos de se arregalaram para algum lugar que estava fora do meu campo de visão.
- Ai, meu Deus! – ela falou pausadamente. Fui com a intenção de virar a cabeça, para ver o motivo de tanto choque, mas ela me segurou. – Não olhe!
O barman deixou nossas bebidas ali, mas nem ligamos. Eu estava mais preocupada com e sua feição, que piorava a cada segundo.
- Me conta, então! – falei entre dentes. Peguei a garrafa de Ice, e bebi um gole enorme, quase me afogando. Com certeza, eu doaria um fígado, em troca de poder olhar para trás. estava atônita, parecendo estar em outro mundo. – !
Ela piscou diversas vezes, enfim voltando seu olhar para mim, e recuperando a fala.
- É o . – ela disse. Seu olhar transparecia medo e raiva e eu entendia o motivo. é ex-namorado da minha amiga. O homem que ela mais amou na vida. Eles estavam em um namoro de cinco anos, e então ela propôs para que eles casassem; ele não queria. Ela propôs para que eles morassem juntos; ele não queria. Ele não queria nada! Apenas queria continuar namorando, o menor dos compromissos. começou a pressionar, dizendo que o sonho dela era casar, e queria que fosse com ele, mas sempre dizia que “daquela forma estava maravilhoso”, até tomar medidas drásticas e chantageá-lo dizendo que ou ele casava, ou eles terminavam. preferiu terminar a casar. Mas ela o amava, e isto era um fato. – Ai meu Deus, ! O que eu faço?
- Ele já viu você? – indaguei desesperada. Ela negou com a cabeça.
- Está com os amigos idiotas dele. – ela bufou. – Mas estamos no seu campo de visão, ele pode nos ver.
Resolvi ajudar minha amiga a se livrar dessa enrascada.
- Tudo bem. – murmurei. Peguei nossas bebidas, nossas bolsas, e levantei-me. – Vamos sair daqui!
levantou-se também, tentando esconder seu rosto com o cabelo. Não ajudava muito. Ele a reconheceria. Antes de sairmos da pista, lancei um olhar para o desgraçado do . Costumávamos ser amigos, antes de ele fazer o que fez.
Fomos para a área de lazer da festa, que estava mais isolado, e sentamos no sofá. Ela estava pálida.
- Amiga! Sem recaídas. – disse, acabando por rir com essa situação. pegou a garrafa e começou a beber descontroladamente, como se aquilo fosse água. – Vai com calma, ! Não quero ter que carregar você para casa.
Ela soltou um suspiro, e enfim sorriu.
- Não vai ser preciso, . – ela fechou os olhos por um breve instante. – Só não esperava vê-lo por aqui. E não esperava vê-lo tão lindo. E tão cheiroso...
- Mas você nem chegou perto para sentir o cheiro. – Franzi o nariz, fazendo uma careta.
- Oh, eu sei. Mas tem coisas que, infelizmente, nunca mudam. – ela atirou a cabeça para trás, depois de terminar com o conteúdo na garrafa em cinco segundos. Abrindo olho, e fazendo feição de cachorro pidão para mim, ela pediu: – Pega mais uma para mim? Prometo que não vou ficar bêbada, pelo menos não mais que você. Eu só preciso tirar a adrenalina de dentro de mim.
Pensei duas vezes antes de levantar-me dali e ir em direção ao bar novamente. Nem olhei para ver se estava me vendo. Eu estava aqui, mas não significava – para ele, pelo menos – que também estava. Pedi duas Ice’s para o barman, e fiquei esperando. Tamborilava os dedos no balcão, acompanhando a batida do DJ.
Observando as pessoas ao meu redor, percebi um par de olhos escuros me encarando. Reconheci! Era um dos caras que estavam paquerando e eu quando chegamos.
Ele tinha cara de surfista. Era um loiro bronzeado, com os olhos escuros. Bonito, por sinal.
Peguei minhas bebidas e antes mesmo que eu pudesse pensar em levantar, o loiro-surfista-bronzeado estava ao meu lado, com a feição sacana.
- Hey. – ele disse, sentando ao meu lado. Vi que seus dentes eram extremamente brancos e retos quando sorriu.
- Hey. – respondi, não conseguindo ficar séria e sorrindo para ele também. Eu adorava dentes certinhos e branquinhos!
- Você gostaria de ver meu aparelho de som? – ele indagou. Meu sorriso transformou-se em careta automaticamente.
- E onde ele se encontra? – perguntei curiosa.
- Na minha casa. – ele disse como se aquilo fosse óbvio. Eca! Odiava dentes brancos! – Mais especificamente no meu quarto.
Dei uma risada cínica.
- Não, valeu. – lancei um sorriso falso para ele. Levantei-me e peguei as bebidas. – Eu passo essa.
- Tem certeza? A maioria das gatas nunca recusa. – o loiro disse convencido.
Pensei em dar as costas para ele, e deixá-lo falando sozinho, mas agi por impulso.
- Desculpe, eu não faço parte desse grupinho de garotas que usam drogas em baladas e pegam qualquer um. Eu só vim dançar. – Dei uma piscadinha para ele, e finalmente dando as costas para o loiro. Cara chato, convencido e bêbado!
Com um pouco de dificuldade, passei pelas pessoas e finalmente voltei à área de lazer da balada. permanecia sentada no mesmo lugar, e com um sorriso animado no rosto.
- Hey, posso saber o que aconteceu? – indaguei, sentando ao seu lado.
- Nada. – pegou sua bebida. – Já percebeu que esta balada está cheia de gatos?
- Ah, sim, percebi! Mas por enquanto nenhum deles prestou; sem querer acabar com as suas esperanças, é claro. – franzi o nariz para ela e rindo.
- Wow, alguém aqui teve algum perrengue no percurso do bar até este sofá.
Rolei os olhos.
- Só um loirinho bonitinho que mal deu oi e me convidou para “conhecer seu aparelho de som”. – formei aspas com as mãos.
- E por que você não foi? – ela me olhou chocada.
- Porque não, . – fiz um biquinho. – O diálogo é bom de vez em quando, para quebrar a rotina.
Foi a vez de rolar os olhos, impaciente.
- Oh, é mesmo. Esqueci que você não transa com os caras sem antes pegar a ficha policial dele.
Sorri de canto para ela.
- Não é isso, amiga! E só que não rola muita química com esses garotos que eu conheço nas baladas que, em geral, são bêbados e drogados.
- Mas são lindos, ! Faça isso pelo menos uma vez. – sorriu para mim.
- Se não rolar a química, eu não vou fazer. Para mim, sexo depende de química, atração física. – arqueei as sobrancelhas.
- Gosh, esqueça esse papo de química e amor à primeira vista com príncipes cavalgando em cavalos brancos, você tem... – ela parou de falar de repente, olhando acima de minha cabeça, com a expressão estupefata. Logo recuperou a fala, e lançou um sorriso duro. – Hey, .
Me virei e meu antigo amigo estava ali, nos olhando, metido em uma camisa pólo preta, e o seu perfume dominando todo o local. Ele era um cafajeste, mas era lindo.
- Vocês estão sentadas aqui falando de cavalos enquanto a festa está bombando? – agia como se nem estivesse à beira de um enfarte. Ele lançou um olhar para ela que, tenho certeza, a abalou. – Hey, .
se aproximou de e, como ela não tinha condições de se mover, ele praticamente a arrancou do sofá e a envolveu em um abraço.
- Hey, . – a ouvi responder, um pouco sufocada pelo seu abraço interminável, mas com a voz estável, o que me surpreendeu. Finalmente ele a soltou, e percebi que a pessoa abalada da relação não era , e sim . Os dois se olharam nos olhos, e quase pude ver as faíscas saltando para os lados.
dirigiu o olhar para mim, aumentou seu sorriso em diversão.
- !
- ! – praticamente gritei, sentindo seus braços me envolverem. era meu porto seguro, meu melhor amigo. E só agora que nos reencontramos que eu havia percebido o quanto senti sua falta. Quando nos soltamos, rimos um para o outro, como dois idiotas. Tínhamos muito que conversar.
olhou novamente para .
- Tudo bem. – ele suspirou. – , podemos conversar um pouco?
Ela piscou diversas vezes, mas afirmou com a cabeça. pegou sua mão e a puxou para uns puffes, próximo onde eu estava e que, por sorte, não havia ninguém. Ótimo, eu estava sobrando! E daria tudo para estar perto o bastante e escutar a conversa deles, mas como me contaria depois, fiquei tranqüila. Porém, isso não significava que eu não dava umas espiadas de vez em quando. falava, falava, e apenas afirmava com a cabeça e sorria. Eu conhecia os dois perfeitamente para saber onde isso ia dar.
A música que tocava era legal, mas eu não estava com vontade de dançar sozinha, obrigada. Na empolgação, comecei a balançar meu pé no ritmo da batida, e a consumir bebida alcoólica rapidamente. Eu não estava bêbada... Ainda. Era apenas a terceira garrafa.
Acabei me distraindo com os dois, e quando voltei minha atenção para as pessoas a minha volta, um homem lindo, maravilhoso, e que dava de dez a zero naquele surfista, se aproximava de mim sorrateiramente.
Seu cabelo estava meio bagunçado de uma forma sexy, suas bochechas estavam levemente rosadas, e seu sorriso discretamente malicioso era o que mais chamava atenção. Conforme ele se aproximava, pude sentir seu perfume mais de perto, e era algo maravilhoso e inebriante. Porém, eu sabia o que ele queria, era óbvio, e antes que ele pudesse dizer alguma coisa, eu me precipitei.
- Oh, não. – sorri para ele, simpática. Ele me olhou com feição curiosa.
- Não o quê?
- Não estou afim. – balancei minha cabeça negativamente.
Ele deu uma risada baixa, me olhando estranho, e sorvendo um pouco da bebida que tinha em mãos. Eu não distingui o que era.
- Não está a fim de quê?
O desconhecido fez um biquinho extremamente sexy, que me fez sorrir.
- Do que quer que vá oferecer!
Ele olhou para trás, e quando voltou, sua feição era de quem estava achando a situação engraçada.
- Eu não disse nada. – ele gesticulou com as mãos, confirmando aquilo.
É, realmente, ele não dissera nada e eu já havia o descartado.
- Mas ia. – respondi.
- Ia? – ele indagou, com um sorriso esperto nos lábios.
Tive que controlar os meus lábios para não acompanhá-lo e acabar sorrindo também.
- Ia me dar uma cantada! – exclamei como se fosse óbvio. Pude ver lançar um olhar na minha direção, e sibilar “Transe com ele!”, rolei os olhos para ela. Voltei a olhar para o gato a minha frente. – Algo do tipo “Ei, gata.”, o que não é nada esperto ou bacana, depois continuaria: “Sabe o que ficaria bem em você? Eu!”.
Ele deu uma risada e sua voz não era nada mal. A risada transformou-se em gargalhada, o que me contagiou. Permiti-me um sorriso discreto.
- Wow, dizem isso na vida real? – ele indagou agora sério. – Para o seu governo, não sou desse tipo.
Suspirei.
- Para mim, você pode ser do tipo que vai às festas porque saca a carência dos tipos sensíveis. O que é pior, porque é falso.
- Primeiro, - ele gesticulou. – você é louca, o que não deixa de ser atraente. Segundo, não sou desse tipo!
- Então o que está fazendo aqui? – franzi a testa, agora beirando a curiosidade. Ele conseguiu chamar minha atenção com esse jeito.
- Eu sou da banda! – ele apontou para cima. Olhei e a única coisa que vi foi o teto colorido da boate. – No andar de cima há outra pista, mas esta é privada. As pessoas fazem aniversários, reuniões e tudo mais. Fui cantar em um aniversário. Ganho cinqüenta reais de cachê. E grana é grana, gata.
- Well, sua voz é legal. – sorri para ele, sentindo meu rosto esquentar.
- Valeu. E você, o que faz aqui, além de encarar feio sua Ice? – ele sorriu, e vi seus olhos brilharem de diversão. Ri.
- Isso pode ser legal. – eu disse em tom defensivo, o escutando rir do meu embaraço.
- Preciso pegar minhas coisas lá em cima. Foi bom falar com você. – ele deu uma piscadinha sexy para mim, e deu as costas. Vi ele dar dois passos, e depois voltar. – Para você saber, eu só ia dizer, “Meu nome é , e o seu?”. Só isso. Tinha esperanças de batermos um papinho e descobrir que não é do tipo que freqüenta essas festas e se droga. Isso explicaria por que a maior gata da festa está sozinha num canto. – Abaixei minha cabeça, percebendo o fora que eu havia cometido. Minhas bochechas arderam. Ele continuou. – Tem razão, os caras são uns monstros, - ele abaixou, ficando na mesma altura que eu, já que eu estava sentada. – e as garotas são até piores. Espero que não procriem, mas vão procriar e vamos ter que fazer o melhor para lutar e não deixar essa laia dominar o mundo. Só isso.
Dei uma risada bastante constrangida com tudo isso, vi se levantar e dar as costas novamente. Ele realmente era diferente.
- ! – exclamei, vendo olhar para trás com a expressão confusa. – Meu nome é .
- Foi um prazer conhecer você, ! – dirigiu um sorriso satisfeito para mim e partiu.
Capítulo 2 – Another Day.
Atravessei o campus, indo em direção a e , que nem me viram. Desde o dia da boate eles estavam juntos. Novamente apaixonados, melados, e necessitados. Não podia dar uma brecha de silêncio para eles, que os dois sempre se agarravam. Mas a platéia - no caso, eu – estava sempre presente, e não se importava, eles estavam felizes.
- Hey, vocês! – falei animada e alto demais, apenas para que eles parassem de tentar encostar a garganta do outro com a língua na frente de todos. Eles me olharam e sorriram.
- Hey. – os dois falaram juntos, igualmente animados.
Enfiei-me entre eles, pegando no braço de cada um, para que não parassem no meio da rua (literalmente!) e começassem a melação. A saudade fazia coisas absurdas.
- Vamos a uma Starbucks, por Deus. – exclamei. – Preciso de cafeína.
- Acabamos de vir de lá, mas não tem problema, nós vamos. – sorriu, colocando seus óculos escuros.
- Ele já ligou, ? – indagou. Bufei.
- Ele não vai ligar!
- Vai, sim. – falou confiante, pela vigésima vez desde que conheci e contei da pequena conversa que tivemos.
- Ele nem tem meu telefone. – rolei os olhos para o sol.
Desde sábado, o tempo andava ótimo. Sol, calor, nada de vento.
- Ele arrumará, amiga! – sorriu de canto. Ela e concordavam com a opinião de que ia dar um jeito, ia mover montanhas para me achar, para descobrir meu número, onde eu estudava e onde eu trabalhava. Mas eu era pessimista, e iria permanecer assim, obrigada. – Os homens fazem loucuras quando ficam loucos por alguma garota. E tenho certeza, esse tal de ficou.
- Porque ele ligaria? Eu nem fui simpática com ele! – exclamei.
- Você parecia um repelente ambulante, , mas quer saber? Nós, homens, gostamos de desafio. – disse. Ele deu uma risada estilo cafetão, o que me fez olhá-lo surpresa.
Esperamos o semáforo ficar livre, para podermos atravessar e ir para a Starbucks, que ficava em frente à faculdade que eu freqüentava.
- Vai por mim, ! Ele vai achá-la e, quando isso acontecer, agarre-o na hora, pule nele, porque é isso que quer. – reforçou. Aposto que os dois estavam torcendo para que eu encontrasse novamente, apenas porque estão cansados da minha companhia, de empacar o romance dos dois.
- Independente de querer, eu não sou vadia. E boas moças não pulam nos homens, . – disse, sorrindo angelicalmente para ela e .
- Oh, daí eu vou ter que discordar de você, . – disse para mim. Olhei para ele, e tentava formar um sorriso malicioso nos lábios, mas ele era muito meigo para este tipo de coisa. – é uma boa moça, mas eu perdi as contas de quantas vezes ela pulou em mim nesse final de semana.
Abri a boca chocada, gargalhando.
- Otário. – xingou-o, mas estava rindo também. Aqueles dois tinham mais fogo do que qualquer um que eu já havia visto na vida. – Até parece que você não provoca.
- É claro que provoco, . Adoro quando os cabelos da sua nuca se arrepiam. Quase tenho um org...
- Psiu, vocês dois! – exclamei para que se calassem. Estávamos entrando na Starbucks, e o estabelecimento estava cheio de gente. Eles se calaram na hora, mas eu sabia que assim que voltássemos para a rua, as provocações recomeçariam.
Enfrentamos uma pequena fila e logo estávamos no balcão. e pediram dois milk-shakes de ovomaltine, e eu pedi um cappuccino. Pagamos a conta e saímos do estabelecimento.
Caminhávamos devagar, para não derramar as bebidas.
- Você vai trabalhar hoje? – me perguntou.
- Nops. – respondi, assoprando a espuma para esfriar. – Me deram folga.
- Vamos fazer alguma coisa, então. Nós três.
- O quê, por exemplo? – indaguei.
- Podemos ir lá para casa. – sugeriu, observando as lojas e estabelecimentos por onde passávamos. – Assistir um filme, comer pipoca, e beber até morrer... Ei, isso aqui é novo não é? Aliás, o que é isso?
Olhei para onde apontava.
- Ah, é a Emissora de Rádio Universit... – Parei de falar, atônita com o que via. Quando abaixei os olhos para ver sobre o vidro da Emissora, meus olhos foram direto para quem estava ali dentro. – Ai, meu Deus.
- O que? – falou, olhando para o mesmo local, e fazendo a mesma feição.
- Virem-se, ele vai achar que estou atrás dele. – Virei de costas, em uma atitude idiota de me esconder.
- Oh, está atrás dele. Passou o fim de semana rastreando todos os ’s do campus. – confirmou, forçando-me a virar para frente novamente. Era ele, era ali dentro da Emissora.
- Ele não precisa saber disso! – apelei. levantou os olhos para onde nós estávamos, e abriu um sorriso lindo. – Ele está acenando. Oi!
Acabei acenando de volta e rindo feito uma tonta. Por pouco não derramei meu precioso café, de tão eufórica que fiquei.
- Está, sim. – disse, com a voz esganiçada. Por Deus, , não grite! – Viu? Falei que ele gosta de você.
Olhei para eles dois, em uma súplica. O que eu fazia agora? Entrava, caminhava, pulava, gritava?
Voltei a observar , e ele estava com uma tampa de caneta na boca, e escrevia algo. Pela pressa, ele estava um tanto atrapalhado. Que fofo!
Ele colocou no vidro um papel laranja, com algumas palavras escritas no mesmo. Tive que virar minha cabeça para esquerda, assim como e fizeram. A cena foi um tanto patética.
Demorei um pouco para distinguir as palavras escritas ali: “ENTRE AQUI”, estava de cabeça para baixo.
- Está de ponta-cabeça. – murmurei, sem muita certeza.
- Vai entrar mesmo assim. – e disseram ao mesmo tempo.
Estava insegura, mas, admito, queria entrar ali. A tremedeira em minhas mãos começara, eu estava nervosa, pois havia passado o final de semana inteiro pensando nele e querendo me matar por não ter anotado seu telefone. A chance era essa. Mas e eles dois?
pareceu perceber minha dúvida, e sorriu, ansiosa como eu.
- Estaremos te esperando no apartamento de , ok? – ela sugeriu.
Assenti para eles, e nos despedimos. O apartamento de ficava a duas quadras dali, não seria problema.
Entrei na pequena emissora de rádio, agarrando o copo com as duas mãos, devido ao nervosismo, e fui em direção à sala onde se encontrava. Entrei sorrateiramente, e esperei até que ele pudesse falar comigo.
- Aqui é , com músicas diversificadas, como rola toda segunda de manhã na Rádio Universitária. – disse ao microfone, olhando para mim, e apontando para a cadeira que ficava à sua frente. Sentei-me, em silêncio.
. Era um sobrenome que combinava com ele.
alcançou-me um fone.
– Qualquer música chorosa, mala, agitada ou legal. – o vi apertar alguns botões, no aparelho à sua frente. – Pediram “Girlfriend In A Coma”, um clássico dos The Smiths. Então tocaremos isso...
Eca. Antes que ele pudesse apertar o Play, observei o microfone ao alto, na minha frente e vi nele uma ideia maluca. Liguei-o, mas esse gesto passou despercebido por .
- Desculpe, - falei ao microfone, sabendo que todos estavam ouvindo minha voz horrível. – não tocaremos isso.
me olhou chocado.
- Está ligado! – ele sussurrou.
- Eu sei, fui eu que liguei. – Não tentei falar baixo, sabendo que muita gente escutava. Ri da sua cara. Ele acabou se recompondo, e se aproximou do seu microfone novamente.
- Minha nova produtora, senhoras e senhores, ... – ele entortou a boca, embaraçado e constrangido. – Droga, não sei seu sobrenome.
Trinquei os dentes, para não soltar uma gargalhada extremamente alta.
- . – anunciei. – . Estarrecedor, não é? Típico de gente famosa, esquecer a equipe dos bastidores.
riu, mostrando dentes brancos. Seu hálito de menta chegou até meu rosto, fazendo um pequeno arrepio percorrer minha espinha.
Ele resolveu entrar na brincadeira.
- Certo. Desculpa. Ia falar algo sobre a música?
- Não vamos tocá-la. – eu disse, bebericando mais um pouco do meu café. – O problema das rádios universitárias é que pedem muito para tocar músicas melancólicas.
- Você é dura! – ele disse automaticamente, mas com um sorriso em seus lábios vermelhos.
Parabéns, , você está conseguindo ser um repelente ambulante novamente. Mas, se eu não estava enganada, ele parecia estar gostando.
- As pessoas querem ser guiadas. – em um gesto impulsivo, dei uma piscadinha para ele, e sorri. – Então, qual é a sua, DJ? Gosta de falar com pessoas que não podem responder?
- Não. – percebi que seus olhos me analisavam. – Eu só curto música.
- Por que algo melancólico? – indaguei. – Por que não algo animado, como Ramones?
- Bem, , percebi que a galera se sente mal nas manhãs de segunda.
- Por quê?
- Normalmente, nos finais de semana, fazem algo que se arrependem. – não sei como, mas seus olhos conseguiram ficar mais intensos em minha direção. Senti meu rosto corar, e tentei esconder a vermelhidão com o copo.
Decidi que abrir o jogo de forma divertida e discreta era o jeito certo de agir.
- Ou não fazem algo e se arrependem. – fui sincera ao sorrir para ele. Talvez estivesse certa. Eu deveria esquecer aquele papo de química e amor à primeira vista. Prossegui, vendo-o me observar com certa curiosidade. – É possível se arrepender mais das coisas que não fez, que das que fez. Tipo pegar o telefone de alguém que conheceu.
riu.
- Seria uma tragédia. – sua voz estava um tanto rouca. – A menos que a garota... Desculpe, a mulher, tivesse te dado o maior fora.
Ops! Realmente eu não havia deixado uma impressão boa à primeira vista, na boate.
- Ou não. Ou a mulher tivesse a certeza de que o cara era igual a todos os outros, até perceber que cometera um terrível engano. – desliguei o microfone, e me encostei na cadeira. Os segundos de silêncio se passaram, com me olhando em uma mescla de diversão e fascínio, até lembrar-se de que o microfone dele estava ligado esperando.
- Ouvirão The Smiths, e Ramones. Voltamos já. – anunciou, e finalmente desligou o microfone, ao mesmo tempo em que dava play na musica.
A tremedeira em minhas mãos havia piorado ao perceber que estava metido em uma camiseta cinza, e que combinava perfeitamente com ele.
Minha vontade era me matar, por não ter colocado uma roupa melhor pela manhã, e por ter optado por tênis, calça jeans e uma flanela por cima de uma regata básica branca.
Vi que, se eu deixasse, iríamos ficar naquele silêncio até Deus-sabe-quando, nos fitando apenas, com feições nada santas.
Resolvi que deveria quebrar o silêncio e iniciar uma conversa normal, sem indiretas e provocações. Minha curiosidade para saber quem realmente era crescera dentro de mim.
- Então, - finalmente quebrei o silêncio, ainda o observando. – desde quando você trabalha aqui?
- Há uns três meses. – ele sorriu de canto. – É bom trabalhar aqui. Ninguém fica me controlando quando estou no estúdio, até porque ninguém fica aqui. Sou só eu.
Acabei rindo.
- Por que a graça? – ele indagou.
- Porque eu freqüento a Universidade de Londres. Ela fica a menos de duas quadras daqui. Eu passo por aqui duas vezes ao dia, todos os dias, e nunca vi você.
- E fomos nos conhecer na boate, que é bastante longe daqui. – ele continuou o meu raciocínio. – Mas acho que se não fosse na boate, nunca nos conheceríamos.
Arqueei uma das minhas sobrancelhas para ele, desconfiada.
- Por quê?
- Porque quando eu estou aqui dentro, não presto muita atenção às pessoas que estão passando lá fora, então eu não olharia para você. E, provavelmente, você não entraria aqui dentro para conhecer o cara da voz sedutora que fala todas as manhãs na rádio. - ele se gabou.
- Você tem razão... – concordei, mas logo percebendo o furo que havia dado. Senti meu rosto enrubescer. Logo tratei de consertar, ou tentar, pelo menos. – Tem razão quanto à parte da boate e tal...
Ops! Acabei fechando meus olhos por um breve momento, morta de vergonha, e quando voltei a abri-los, estava me olhando, parecendo achar engraçado o meu embaraço. Ele fez sinal para que eu fizesse silêncio, e voltou sua atenção ao microfone.
- Então, senhoras e senhoras, essa foi a programação de hoje. Vamos fechar a programação tocando Green Day. Uma ótima segunda-feira para todos, sem depressões e melações. Até amanhã! – ele anunciou, colocando a música para tocar. Vi levantar-se.
Automaticamente, meus olhos foram para o pedaço de sua barriga que havia ficado exposta, quando ele se espreguiçou. Uau, nada mal!
Antes que ele pudesse perceber, desviei meu olhar para a parede, como quem não quer nada. Tarde demais. Escutei a risada baixa de , mas ignorei, como quem não teve culpa de nada.
- Vem. – ele disse, indicando que eu o seguisse e foi o que fiz, sem nem ao menos pestanejar. Íamos conversando, enquanto fechava as quatro janelas do estúdio, junto com a persiana. Ele desligou todos os aparelhos, comigo em seu encalço, e saímos para o sol da rua.
Não fazia a mínima idéia de onde estávamos indo. Mas não questionei, ele dizendo ou não, eu iria igual.
- Então, você disse que freqüenta a faculdade. – disse, enquanto atravessávamos a rua. – O que você faz?
- Artes. – eu disse.
- Você pinta? – ele indagou, beirando a curiosidade.
- Sim. – respondi. Senti meu tom de voz se suavizar, quando começamos a tocar nesse assunto. – Eu amo pintar. Tudo o que eu sinto transpassa os quadros.
- Como assim?
- Meus quadros expressam o que eu estou sentindo no momento, na maioria das vezes. Se eu estou de bom humor, acabo desenhando algo vibrante e colorido. – estava sendo sincera. Ele estava nos guiando, dobrando para uma rua à direita. – Quando estou triste, brava, eu acabo pintando algo totalmente deprimente.
Escutei sua risada, e quando o olhei, seus olhos me estudavam.
- O quê? – perguntei.
- O seu sentimento em relação à pintura é a mesma coisa que eu sinto com a música. – ele sorriu. Vi algo brilhar em seus olhos. – É por isso que eu estou na rádio. E é por isso que eu estou te levando a um lugar legal. Quero te mostrar uma coisa.
puxou minha mão, entrando em um prédio residencial. Sem falar nada, ele apertou o botão, chamando o elevador. O olhei, tentando desvendar sua expressão. Sem sucesso algum, claro.
- Onde estamos indo?
- Ao meu apartamento. – ele sorriu.
Encarei os olhos intensos a minha frente. Eles continham um certo toque de inocência e diversão, o que me deixou muito intrigada, porém, de certo modo, aliviada também.
Foi estranho, até mesmo para mim, não negar o convite de ir ao apartamento de uma pessoa que eu nem conhecia. Mas essa pessoa era , e o tom que ele usara não era nada parecido com “venha conhecer meu aparelho de som”.
Sentamos em seu sofá de couro preto, e começamos uma conversa legal. À medida que o papo fluía, fiquei sabendo mais da vida dele.
- Então, eu amo meus pais e minha irmã, de verdade! – ele dizia. – Mas eu não podia ficar dependendo deles por muito tempo.
- Eu sei bem como é. – concordei, tentando fazer com que meu tom de voz não parecesse melancólico. – Você precisa sentir o gosto da independência, não é mesmo?!
Ele me olhou misteriosamente.
- Hm, e a sua família, como são? Você mora com eles? – indagou.
- Não, eu moro sozinha! Eles são normais. Nada de muito intrigante. Uma família típica de Londres. – menti sorrateiramente, e logo tratei de desconversar. – Você faz faculdade de quê?
- Música. – o tom de devoção tomara conta de sua voz, deixando a desconfiança de lado. – Não tem nada que me interesse tanto quanto a música. Já pensei em advocacia e medicina, mas a música parece fácil para mim. Como respirar, entende? Como você disse em relação aos quadros; tudo o que eu escrevo tem relação ao meu sentimento. Eu meio que... Me sinto melhor depois que componho uma música. Tem gente que acha isso inútil, mas...
Sua voz morreu, deixando a frase inacabada. Suas bochechas estavam ruborizadas, e ele estava totalmente sem jeito, coçando a nuca, tentando disfarçar.
Eu entendia perfeitamente o que ele queria dizer.
- Não é inútil, . – disse, lhe dando uma força. – É apenas o que você gosta. Você se sente... Você quando está fazendo o que gosta. – dei uma risada discreta. - Você precisa fazer isso para poder prosseguir.
Ele deu um sobressalto, aparentemente surpreso com meu raciocínio.
- Você é uma versão minha, garota. Uma versão mais bonita, é claro. – ele brincou, me fazendo ruborizar. – E mais atraente.
Ri, sem conseguir me conter, e ficamos em silêncio por um tempo curto, apenas refletindo. Foi ele quem tomou a iniciativa de falar.
- Eu nem perguntei se você queria beber alguma coisa. – murmurou, parecendo falar mais consigo mesmo, dando um tapa na sua testa. Recuperando-se, olhou para mim: - Quer beber alguma coisa? Uma cerveja, um café, uma água?
- Não, valeu. Estou bem.
Vi ele levantar-se e me olhar curioso.
- Você falou tão pouco da sua vida. – ele refletiu. – Mesmo assim eu vou te mostrar. Vem.
Levantei-me, e o segui pelo seu apartamento. Não pude deixar de notar que toda a mobília era composta por duas cores: branco com tabaco. Combinava perfeitamente com ele, com seu jeito despreocupado, mas não me parece seu feitio mobiliar um apartamento com tanta perfeição, tudo milimetricamente colocado nos lugares corretos.
- Não foi você quem decorou, não é mesmo? – indaguei mais para confirmar do que perguntar.
- Não. – ele gargalhou, jogando brevemente a cabeça para trás. – Foi minha irmã. Ela disse que só me deixaria sair de casa se a deixasse cuidar da decoração.
Achei aquilo fofo, porém não falei nada. Ele parecia ter uma relação legal com a família, parecia ser apegado a sua irmã principalmente.
Meu pensamento se perdeu quando parou em uma das quatro portas brancas. Para fazer suspense, ele soltou um suspiro e abriu a porta lentamente. Senti meu pé bater continuamente no chão, fazendo um barulho irritante.
Ele parou de abrir a porta, parando na metade do processo, e me olhou divertido.
- Ansiosa assim? – seu sorriso de diversão e deboche, transformou-se em malícia. Não pude deixar de rir. Eu era muito ansiosa e curiosa.
- Muito! – declarei. O olhei suplicante. – Pode, por favor, abrir a porta e me mostrar essa coisa?
- Posso. – ele rolou os olhos. – Só não chame de coisa. É uma ofensa.
Não respondi, vendo-o abrir a porta, finalmente. foi para o lado, dando espaço para que eu pudesse entrar.
Assim que pus os olhos naquela coisa – que não merecia ser chamada assim, deixo claro – fiquei maravilhada, chocada, admirada. Resumindo: eu estava sem palavras aquilo.
Abri minha boca três vezes, tentando formular algo concreto, que fizesse sentindo. Não consegui.
O olhei. Ele parecia um pouco envergonhado, mas esperava alguma reação de minha parte, sem sucesso.
era, sem duvidas, alguém admirável; mesmo eu o conhecendo há tão pouco tempo.
Quando ele falara sobre o que estava cursando na faculdade, com aquele tom que parecia ser um homem apaixonado por alguém, eu não havia levado muita fé. Mas agora eu via... respirava música, literalmente.
Capitulo 3 – Chemistry.
Perdi as contas de quantas vezes olhei , tentando falar algo, com a expressão maravilhada. Ele gesticulou para que eu entrasse, e assim o fiz.
Havia uma estante enorme. E quando eu digo enorme, significa que ela ocupava toda a extensão de uma parede, até o teto.
A estante era marfim, e continha apenas prateleiras, nada de gavetas, nada de portas. Tinha quase certeza que aquela estante havia sido feita sob medida, para aquele propósito. Mas não foi isso me deixou sem palavras; nessas prateleiras havia CDs, milhares deles. Eu nunca havia visto tantos discos assim.
estava sentado no chão, sua íris me estudando, com suas costas escoradas na parede. Um sorriso brincava em seus lábios. Percebi que ele esperava alguma reação de minha parte.
- UAU! – exclamei. Ele riu do meu jeito, e causou pequenos tremores na minha coluna. Virei para a estante, dando alguns passos à frente, e passando a mão por alguns CDs. Aquilo realmente era verdade? – Deve ter mais de 500 CDs aqui!
- Na verdade, eu perdi a conta depois que chegou aos 480. – ele brincou. – Escolha um e coloque. Vou pegar uma bebida pra nós.
Assenti, e comecei a procurar algum do meu gosto. Percebi que tinha de tudo quanto é tipo. Mas quando parei em um cd específico, um sorriso se abriu em minha face. O peguei; aquele era um dos melhores!
O rádio, junto com outros aparelhos de som, ficava de frente para a estante, encostados à outra parede, muito bem posicionados. Liguei o rádio, pus o CD e quando estava apertando play, me entregou uma lata de cerveja. Sentei-me ao seu lado, no chão mesmo, com as minhas costas apoiadas na parede. Não era desconfortável.
Abri a cerveja e tomei um grande gole, suspirando logo depois. O perfume inebriante do cara ao meu lado invadiu minhas narinas e meu pulmão. me olhou surpreso quando a primeira música começou a tocar.
- Hm, gosta de AC/DC, então? – ele indagou, e eu balancei a cabeça afirmativamente. Sua voz ficou mais séria, perturbadoramente sexy. – Gosta de rock, de cerveja, vai à balada, é legal e, principalmente, linda. Quer casar comigo, ?
Acabei me perdendo nos seus olhos intensos, que brilhavam de malícia. Eu sabia que ele estava brincando, mas as palavras foram proferidas em um tom de voz rouca, que me deixou molenga. Dei um jeito de sair do transe, bebendo vários goles da cerveja, e gargalhei alto para disfarçar.
- Vejamos... – entrei em sua brincadeira, arqueando uma sobrancelha, fingindo pensar. – Você é divertido, gosta de música de uma forma assustadora e encantadora...
- Sou gostoso. – ele interrompeu-me. Acabei arqueando as duas sobrancelhas em sua direção. Ele sorriu maroto. – Eu vi você me olhando na rádio, ok?
- E modesto, também. – meu tom estava levemente irônico, e eu me concentrava em não ruborizar. Nós dois rimos. – Mas eu mal te conheço, minha mãe sempre disse para eu não casar com desconhecidos. Desculpe.
virou seu corpo em minha direção, fazendo com que ficássemos de frente para o outro.
- É fácil. Podemos resolver isso. – ele sorriu malicioso. Dessa vez foi impossível controlar a vergonha, senti meu rosto esquentando.
- Podemos, é? – indaguei. Ele fez que sim com a cabeça. – E como nós vamos resolver?
- Simples. Com uma rapidinha tenho certeza que nos conheceremos melhor.
Abri minha boca, em estado de choque.
- O quê, ? – praticamente gritei.
Ele riu breve.
- Não é essa rapidinha, . Se bem que... – a malícia brilhava em seus olhos, mas logo se desfez, e ele soltou uma gargalhada. – Rapidinha de pergunta, . Bate - pronto. Eu falo uma palavra e você diz a primeira coisa que lhe vem à mente. E depois você faz comigo.
me lançou uma piscadinha. Pensei um pouco no assunto, bebericando um gole da cerveja.
- Hm, isso vai ser interessante. - sorri para ele. – Mas você começa, ok?
- Ok. – respondeu. Meus olhos acabaram indo para seus lábios, quando ele olhou para o nada, e mordeu o mesmo. – Música?
- Rock. – respondi de prontidão. Sorrimos um para o outro.
- Doce?
- Chocolate.
- Verde?
- Parque. – sorri.
- Família?
- Pressão. – respirei fundo, e comecei a observar minhas mãos, como se ali houvesse algo interessante. Senti o olhar dele pesando sobre mim. Sua expressão era de quem tentava me decifrar, quando ergui os meus olhos para ele. Por algum motivo, e eu não sabia qual era, ele não indagou; apenas prosseguiu com o jogo.
– Amor?
Fiz uma careta. Não havia nada que viesse a minha mente. Ela estava vaga, o que era esquisito. Fiquei por meio segundo observando os olhos em minha frente, sua expressão era confusa, e foi isso que me ajudou.
- Confusão. – respondi.
- Hm. – ele balançou a cabeça lentamente, concordando. – Tinta?
- Vida.
- Sexo?
- Química. – falei por impulso, sentindo meu rosto esquentar quando me observou; uma de suas sobrancelhas arqueadas.
- Se você diz. – ele deu uma risada, e um sorriso maroto tomou conta de seu rosto. Rolei os olhos, mas devolvi seu olhar.
- Minha vez! – anunciei. Pensei por um momento, passando minha língua entre meus lábios, para umedecer. - Música?
- . – ele respondeu. Acabei rindo, finalizando a cerveja em minhas mãos.
- Doce?
- Morango. – disse, fazendo um bico. – Chocolate e morango são ótimos juntos, já te contaram?
Rolei meus olhos mais uma vez.
Ele está te paquerando, ! Se liga.
Ignorei os diversos pensamentos, e prossegui.
- Verde?
- Paz.
- Família?
- Michelle. – , ao contrário de mim, respondeu de prontidão. – Minha irmã. – ele explicou-se. Apenas concordei com a cabeça.
- Amor?
- Sexo. – o sorriso torto estava de volta aos seus lábios e seu olhar estava intenso. Um arrepio percorreu-me da cabeça aos pés, fazendo-me perder o meado da conversa. Demorei algum tempo para lembrar o que estava fazendo.
- Sexo? – fiz a última pergunta. Notei que minha voz estava levemente rouca. Queria quebrar o contato visual, mas algo não deixou, fazendo-me sustentar o olhar de . Meu rosto esquentou novamente, mas nem com isso pude desviar. Meio segundo se passou – que me pareceram horas – quando os lábios rosados e extremamente convidativos de sopraram:
- !
Pisquei diversas vezes. Eu só poderia estar louca, ouvindo coisas. Ouvindo meu nome de uma forma sedutora vinda dele. O modo intenso como proferiu as seis letras de meu nome causou diversos calafrios por minha espinha, um atrás do outro e, por um breve momento, pensei que estivesse com febre, ou algo do tipo. Mas não, era apenas o efeito dele sobre mim.
Cheguei à conclusão de que estava mesmo enlouquecendo – e não me surpreenderia se meus amigos me levassem ao manicômio depois disso – quando, agindo por impulso, me aproximei mais de . Muito mais.
Cheguei perto o bastante para sentir o calor do seu corpo transpassar o meu; sua respiração quente e seu hálito de menta misturado a cerveja chegar a meu rosto (e, acredite, era inebriante!); seu perfume chegar às minhas narinas, me fazendo entontar e ao mesmo tempo ficar consciente dos meus atos.
Ele poderia ter falado qualquer outra coisa. Sexo – Mulheres. Sexo – Vida. Qualquer outra coisa, mas ele falou meu nome. E falou de uma forma irresistível. E fora este um dos motivos que me fez agir; o outro motivo era a vontade, e essa não era nem um pouco pequena.
Acabei com os centímetros de distância. Meus olhos se fecharam lentamente, e minha boca cobriu a de no mesmo instante que nossas línguas quentes se encontraram. Elas pareciam em uma luta, uma luta bastante prazerosa, vale constar; e a maior confusão de todas era que elas pareciam se conhecer perfeitamente. Movíamo-nos conforme a música, literalmente, e a sincronia entre elas era algo assustador.
Minhas mãos foram até os cabelos macios de , e o bagunçaram um pouco mais. Elas desceram até sua nuca, e deixei com que minha unha passasse lentamente por ali, sentindo q ele se arrepiar no mesmo instante.
envolveu minha cintura com as mãos, me puxando para mais perto, quase fundindo nossos corpos em um só. Suas mãos passearam por toda a extensão das minhas costas, subindo para meu cabelo, onde ele agarrou pela nuca, fazendo um calor percorrer meu corpo lentamente.
Não contestei quando sua mão entrou por dentro da flanela e da regata que eu usava, e acariciou minhas costas, descendo lentamente para minha bunda. Porque eu não contestei? Porque eu estava amando aquilo. As sensações pareciam ser novas para mim. Como se eu nunca tivesse beijado alguém; como se fosse meu primeiro beijo. As sensações que estava trazendo eram totalmente novas, e eu não entendia o motivo. Experiência da parte dele, talvez?! Não importava, eu não queria que aquilo tivesse fim.
Minhas mãos passearam por seu pescoço novamente, descendo lentamente para seu bíceps, ainda o provocando com minha unha. E, antes que eu percebesse, suas mãos estavam em minha barriga, subindo cada vez mais.
Precisava de oxigênio, eu tinha plena consciência, mas nenhum dos dois conseguiu se refrear. Paramos apenas quando deu uma mordida no meu lado inferior um pouco forte, que me deixou entre a dor e o prazer, e eu aproveitei para puxar o máximo de ar possível, sentindo sua língua cumprimentar a minha novamente, e recomeçar a pequena luta.
Minhas mãos desceram para seu peito, sentindo os músculos contraídos de . Subitamente lembrei-me do estúdio e da parte exposta de sua barriga que eu havia visto sem querer. Irresistível! Sem me conter, acabei descendo para sua barriga, e pus as mãos para debaixo da blusa cinza. Nós dois estávamos quentes, mas no momento que entrei em contato com sua pele, senti um arrepio passear por nós dois, em uma sincronia perfeita, ao mesmo tempo.
Eu não sentia mais meus lábios, nem sabia se eles ainda estavam ali. Mas quem se importava com lábios? Por Deus, eles nem eram importantes!
Algum movimento fez com que a garrafa vazia de cerveja caísse, dando um baque. Aquele barulho fez com que eu tomasse consciência dos meus atos; fez com que eu encarasse os fatos: eu estava me agarrando com um desconhecido, no apartamento de um desconhecido. Um desconhecido muito bom.
Quebrei o beijo subitamente, tirei as mãos de dentro da blusa de , e abri meus olhos. Suas mãos ainda permaneciam em mim, quando nossos olhares se encontraram. Seu olhar expressava confusão, fascínio, desejo. O meu era vergonha, pavor, desejo.
Ele me olhava curioso, esperando uma explicação.
Tive que pigarrear uma três vezes seguidas para encontrar minha voz. Não funcionou muito bem, pois a única coisa que eu encontrei foi uma voz beirando a sedução e rouca. Era a minha mesmo?
- Hmmmm. – murmurei, tentando encontrar algo concreto e com sentido para dizer. Só havia uma coisa. – Desculpe por isso. Eu não sei o que aconteceu.
Vi a sobrancelha dele se arquear, em uma expressão desafiadora.
Tive que respirar fundo algumas vezes para regular minha respiração; não deu certo. Eu ainda estava abalada física e emocionalmente.
Sem conseguir me conter, baixei meus olhos para os lábios levemente avermelhados de . Meu Deus, eles eram tão tentadores!
continuava parado, esboçando a mesma expressão. Ele esperava por uma explicação.
Respirando fundo mais uma vez; decidi falar.
- Olhe, - minha voz ainda estava esquisita, o que não a tornava muito convincente. Que legal! - eu não quero que você tenha a impressão errada de mim, está bem?
- Impressão errada? - ele falou em sua voz levemente rouca, o que causou leves arrepios de calor em minha coluna. Eu sabia que se continuasse, eu não manteria o autocontrole por muito tempo. - Que impressão errada eu teria de você, ?
Pela segunda vez naquele dia escutei pronunciar meu apelido. Ok, apelido era uma coisa muito comum! Porém eu não lembro em momento algum - nem mesmo na boate - de eu ter dito que meu apelido era . Ou ele deduziu por si mesmo, ou ele resolvera criar um apelido para mim esporadicamente. E acertou em cheio!
- Não sei, ! - havia criado um apelido de última hora, mas que combinava perfeitamente com . Ele esboçou um sorriso torto, mas esperou que eu continuasse. - Eu só não quero que você pense que eu estou acostumada a ir a apartamentos de estranhos para beijar estranhos e... Quase transar com estranhos; quando eu não estou! Quando eu nunca fui capaz disso.
Meus lábios projetaram um pequeno beicinho. A risada baixa de invadiu-me, mas eu não fui capaz de desviar meus olhos. Meu All Star surrado me parecia a melhor opção para se ver. Não por muito tempo, já que senti a mão de em meu queixo. Ele levantou delicadamente meu rosto, para que eu o encarasse. Sua íris estava intensa sobre mim, parecendo enxergar minha alma. Não tive como fugir daquele olhar, nem mesmo se quisesse. Sinceramente, eu não queria.
- Por mim tudo bem. - ele murmurou em sua voz perturbadora. No intuito de arrancar nosso último fio de sanidade, lançou-me um sorriso encapetado, malicioso, e que não o faria ir pro céu.
Que homem era aquele?
Eu não sabia! E nem queria saber. Eu já não me importava se ele era apenas um estranho. Já sabia o nome dele, ótimo! Era o suficiente!
Segurei a vontade de tomar a iniciativa e beijá-lo novamente, esperando que dessa vez ele o fizesse.
Como se lesse meus pensamentos, levou a mão que permanecia em meu queixo até minha nuca, meu ponto fraco, e agarrou alguns fios de cabelos, forte o bastante para que eu arfasse. Não doeu, muito ao contrário; apenas ajudou a me sentir mais quente. A mão dele que ainda permanecia em minha cintura apertou a região, me puxando para seu corpo novamente.
Em um movimento rápido, aproximou nossos rostos. Apenas aproximou, me deixando extremamente impaciente. Senti sua língua quente passear por toda a extensão de meus lábios, enquanto o de seus olhos me invadia novamente.
Senti seus dentes pegarem meu lábio inferior, e morderem forte o suficiente para deixá-los dormentes. os puxou lentamente, logo os soltando. Senti seu nariz roçar o meu, em um toque delicado, o que me fez sorrir levemente.
Ele parecia se esforçar para controlar-se, e eu não entendia o motivo. Eu queria aquilo.
Como se lesse novamente meus pensamentos, ele parou com as provocações, ficando a milímetros do meu rosto, me fazendo enxergar cada (im)perfeição de seu rosto. Olhando de perto, eu via cada traço dele, cada poro. Ele era perfeito!
- Eu também não quero que você pense errado de mim. - ele murmurou, mas sua voz estava intensa. - Não quero que você pense que eu estou acostumado a trazer garotas para o meu apartamento. Você é uma exceção e eu nem sei por quê. Acho que... Acho que você chamou mesmo minha atenção.
Sorrimos um para o outro. Um sorriso simples, mas que dizia tudo o que precisávamos naquele momento. Os dois queriam a mesma coisa, e nada estava nos impedindo.
- Por mim tudo bem. - sussurrei, repetindo sua fala minutos antes.
E então aconteceu.
Nossos lábios praticamente colidiram, mas sem erro... Em uma sincronia perfeita. Nossas línguas quentes se tocaram nos causando arrepios deliciosos.
Minhas mãos foram para o cabelo de , o puxando e brincando de bagunçá-lo.
Abri os olhos e, sem parar de nos beijar, encontrei os de também abertos. Soltamos risadas abafadas durante o beijo.
Em um movimento rápido, as mãos dele que estavam espalmadas em minha bunda, me puxaram para ele, fazendo-me colocar uma perna de cada lado do seu corpo, e sentar em seu colo, sentindo o volume extremamente convidativo, me fazendo sorrir mais uma vez, maliciosa.
Ele apertou minha bunda, pressionando nossas intimidades, nos fazendo soltar gemidos abafados. Foi então que percebi: eu estava no comando!
Movimentei-me, fazendo pressão em seu sexo, o fazendo arfar. Sua boca deslizou pelo meu maxilar, deixando uma trilha de fogo por onde passava. Chegou a meu ouvido, mordendo levemente o lóbulo, me fazendo fechar os olhos e aproveitar as sensações. Senti o pênis de pulsando abaixo de mim, me deixando extremamente excitada. A boca de chegou ao meu pescoço, dando chupões que deixariam roxos. Mas é como dizem: base, pó e corretivo existem para quê?
Suspirei fundo quando a boca de começou a descer pra meu colo - ou a parte que a regata deixava exposta, ao mesmo tempo em que praticamente arrancava minha flanela. Suas mãos brincaram por um breve tempo com a barra da blusa, mas logo a puxaram pela minha cabeça. Resolvi ajudar, e a tirei, ficando apenas com o meu sutiã branco com bolinhas lilás. sorriu malicioso quase engolindo meus seios com os olhos.
Devolvendo seu sorriso e gesto, levei minhas mãos até sua camisa, e a puxei pelo corpo escultural de , deixando tudo exposto. Bem, quase tudo. Ele cooperou, liberando os braços. Estávamos quites, pelo menos para mim. , que pelo visto não pensava desta forma, passou suas mãos pelas minhas costas, subindo para onde ele acreditava estar o fecho do sutiã. Ele me olhou confuso.
Sem conseguir controlar a risada, puxei uma das mãos dele, e as levei até o centro dos meus seios, onde se encontrava o fecho frontal de meu sutiã. Com uma mão ele o abriu, facilmente. A experiência era um dom!
Sua boca cobriu a minha. Avidez e urgência disputando o topo. Senti as pontas de seus dedos deslizarem sobre meu corpo, me arrepiando, e tirando meu sutiã lentamente, como se eu nem percebesse. Deixei com que a peça deslizasse sobre os meus braços e fosse jogada para qualquer canto enquanto a língua de acariciava a minha. Eu não conseguia me concentrar muito tempo em alguma coisa. As mãos dele estavam me causando loucuras.
largou meus lábios, quebrando o beijo com um chupão no meu lábio inferior. Ele dirigiu-me um sorriso perverso, que eu interpretei como algo "prepare-se". Mordi meu lábio inferior dormente e inchado e me preparei para o que viria a seguir.
Ele me colou ao seu corpo, me segurando com força a mais. Em uma habilidade surpreendente, ele nos levantou sem hesitar, em um movimento rápido e com agilidade. Entrelacei minhas pernas em sua cintura, e percebi que ainda estava de tênis. Enquanto ele perambulava vacilante pelo cômodo, eu me ocupei em tirar meus calçados e meias com os pés, facilitando o trabalho de depois.
De onde eu estava, tive uma bela visão de seu pescoço, e me aproveitei da situação. Comecei a dar chupões extensos naquela região, sentindo o perfume inebriante de me invadir e me dar mais tesão. Mordisquei seu pescoço descendo para seu ombro, até onde alcancei, e fui para a sua orelha, onde soltei um longo suspiro, e mordisquei seu lóbulo, como ele havia feito comigo minutos antes.
resolveu ficar naquela sala mesmo.
Ele me sentou na mesa que ficava os aparelhos de som e só agora eu pude perceber o quão extensa ela era. Ele empurrou alguns papéis, canetas, grampos e badulaques para o chão. Aquilo nos levou a risadas... Mas foram breves; logo estávamos com as bocas ocupadas novamente. Ou pelo menos, ele estava.
A boca dele deslizou para meu colo lentamente. Sua língua estava me deixando fervendo! Passei uma das mãos pela mesa, atrás de mim, vendo a extensão dela. O suficiente. Antes que eu pudesse concretizar meus planos, levou sua língua quente até meu seio, lambeu os dois, tudo, deixando o mamilo por último. Seus movimentos fortes e circulares me fizeram gemer alto, e arquear as costas, oferecendo-me. Senti que minha nuca estava suada. E nós não havíamos chegado nem na metade. Levei minha mão até seu cabelo, e o puxei, no mesmo instante em que ele chupava meu colo. Ele deu uma leve mordiscada em meu mamilo, me fazendo arfar seu nome; essa atitude o fez parar com os movimentos, e me olhar surpreso. Vi que em seus olhos espelhavam o mesmo sentimento que os meus: desejo!
O puxei para mim, enquanto me arrastava para trás. A mesa era grande o suficiente para que deitássemos. Eu não sabia o motivo de ele comprar uma mesa tão grande, mas agradecia.
Escutando um barulho, conclui que havia liberado seus tênis.
Ele colou seu corpo ao meu, nós dois deitados na mesa, quentes e ofegantes. Não demoramos muito a voltar com os beijos.
Agarrei um punhado de cabelo da nuca de , quando senti sua mão descer pela extensão da minha barriga, chegando ao cós da minha jeans. Rapidamente, como ele fizera com o sutiã, a calça já estava aberta, e eu a senti descendo por minhas pernas. Ele a tirou, com a minha ajuda e por um breve momento eu senti-me envergonhada por ficar apenas com minha calcinha branca com bolinhas lilases. Mas a vergonha foi embora quando vi que a intenção dele era tirar a calcinha também. Sorri maliciosa para ele.
- Direitos iguais, meu anjo. – Dando uma piscadinha, fui até o cós da calça dele, e fiz o mesmo movimento, abrindo e deslizando o jeans por suas pernas até onde consegui.
Ele ajudou no processo, tirando a calça com os próprios pés, entregando a sua pressa, e revelando uma boxer preta que, particularmente, encaixava-se perfeitamente em seu corpo. O gesto fez com que eu desse uma pequena gargalhada, e o puxasse de novo para um beijo de tirar o fôlego. Enquanto tentávamos alcançar a garganta do outro com a língua, desci minhas mãos para sua bunda onde dei uma apertada de leve, me surpreendendo com o volume. Sorrimos um para o outro durante o beijo. Subi um pouco minhas mãos, encontrando a barra da boxer, e a deslizei para baixo. Fazendo o mesmo movimento que fizera com a calça, a tirou. Repentinamente, sua boca largou a minha, e desceu pelo meu corpo, intercalando chupões, lambidas e beijos por toda a extensão, dando-me sensações maravilhosas.
Apoiei-me em meus cotovelos para ver qual era o seu objetivo com isso. devolveu meu olhar; seus olhos gritando por malícia e urgência. Seus dentes agarraram a alça da única peça que nos atrapalhava e a deslizaram por minhas pernas, ao mesmo tempo em que passava as pontas dos dedos por elas, me fazendo arrepiar. Ele levou sua boca a meu tornozelo, depositando leves beijos; subindo para minha panturrilha, minha coxa e, finalmente, para minha intimidade. Seu beijo delicado me fez ofegar, e quando sua língua quente começou a fazer primeiramente movimentos leves, não pude conter os gemidos. Sua delicadeza era impressionante, e estava me levando ao delírio, mas eu queria muito mais. Levei minha mão ao seu cabelo suado, incentivando seus movimentos, e ele assim o fez. A língua de fazia movimentos rápidos e circulares em meu clitóris, fazendo-me sussurrar seu nome. Ele deu mais algumas sugadas, e eu pude sentir o orgasmo se aproximando.
pareceu perceber, parando com os movimentos. Surpreendeu-me quando dois dedos invadiram meu sexo, me fazendo gritar descontroladamente. Seus movimentos contínuos estavam me causando ondas de prazer e meu corpo se movimentava conforme ele entrava e saia de mim.
Dei um último grito, sentindo meu corpo relaxar e uma última onda de prazer me invadir.
Eu estava ofegante e extasiada, pois havia acabado de ter o melhor orgasmo da minha vida com .
Não tive tempo de permanecer com a minha linha de pensamento, pois os lábios de voltaram para os meus, em uma rapidez impressionante.
Por um momento, eu tive a leve impressão de que nunca cansaria.
Seu beijo era urgente como nunca. Suas mãos agarraram minha coxa, as separando, colocando-as em volta de sua cintura. Ele estava prestes a me penetrar, quando vi sua íris arregalar-se.
- Cacete! – ele proferiu. O olhei sem entender. levantou-se, a procura de sua jeans. Tirou sua carteira, e de dentro dela um pequeno pacote. Preservativo. Não era necessário, já que eu era precavida de outras formas, mas deixei-me divertir com o seu embaraço. Nem dez segundos haviam se passado e, protegido devidamente, voltou para mim, mais brusco dessa vez, agarrando minha cintura e me encaixando com seu corpo.
E foi observando seus olhos, que eu o senti me penetrar com uma força surpreendente.
Arqueei minhas costas, sentindo um prazer inexplicável, misturado a uma dor gostosa. Gemidos e ofegadas me dominavam e eu já não estava consciente de meus atos.
Levei minhas mãos até suas costas musculosas, o arranhando conforme o prazer aumentava.
Enlouquecida de prazer, comecei a movimentar-me junto, rebolando. Meu gesto fez com que gemidos fossem proferidos por , numa sincronia com o meu. Revirei os olhos de prazer, e pensei que fosse passar mal de tão bom que aquilo era.
As sensações vividas até agora com eram todas novidades. E ele parecia conhecer-me tão bem. Parecia saber exatamente os pontos certos a me tocar. Parecia saber exatamente como me fazer gritar seu nome.
Mas não era apenas a minha sanidade que estava ao fim. apertou minha cintura fortemente, aumentando os movimentos. O baque dos quadris era ouvido, misturados aos nossos gemidos, mas que logo foram substituídos por gritos.
Então aquele era o limite da dor e do prazer. Em todas as minhas transas (e elas não foram muitas, acredite) eu nunca havia presenciado tantas sensações juntas, nunca havia tido um prazer tão grande, nunca havia tido uma dor tão gostosa, fazendo querer mais daquilo. Mas agora, eu via que podia viver entre o prazer e a dor, tranquilamente... Ou melhor, enlouquecidamente.
Nossos corpos estavam colados e nossas respirações haviam se tornado falhas quando soltou um gemido mais alto, e eu senti seu corpo relaxar sobre o meu. Querendo me proporcionar um segundo orgasmo naquele dia, ele permaneceu com os movimentos, fortes e certeiros. Movia-me com ele, extasiada. E fiquei mais extasiada ainda quando um segundo gozo me atingiu, mais forte do que o anterior, mais prazeroso que o anterior. Um último grito soltou-se de meus lábios, e um último arrepio percorreu todo o meu corpo. Em segundos, retirou a camisinha, e a colocou no lixo ali próximo, sem se afastar de mim. Ele depositou seu corpo suado em cima do meu, que estava no mesmo estado.
Ficamos em silêncio por algum momento, esperando as respirações se normalizarem, e eu esperava que os tremores parassem. Meu corpo tremia ainda surpreendido com as ondas de prazer, e um sorriso discreto tomava conta de meus lábios dormentes e inchados.
estava com o rosto escondido na curva de meu pescoço, e sua boca brincava com o lóbulo de minha orelha, lentamente, fazendo-me sentir sua respiração. Eu acariciava seu pescoço lentamente.
Estava grogue; o sono tomando conta de mim. Aquela mesa não estava ajudando; ela havia tornado-se extremamente desconfortável, mas eu não tinha forças para reclamar. Não tinha forças para um mínimo movimento. Dei um suspiro cansado.
pareceu interpretar bem e numa agilidade impressionante, ele me puxou daquela mesa, levantando nós dois. Segurei forte em seu pescoço, contornando sua cintura com as pernas, enquanto ele caminhava pelo corredor do apartamento e entrava em outra porta branca. Seu quarto. Não estava consciente o suficiente para ver os detalhes, mas a mobília era igual a todo o apartamento: branco com tabaco. Aquilo me fez sorrir levemente.
Ele nos deitou na sua cama King Size, e não me descolou de seu corpo um mínimo segundo. Aquilo era bom. Eu ainda estava abalada.
Ficamos em silêncio, sem pronunciar nada, apenas escutando nossas respirações, e os batimentos cardíacos ainda acelerados.
Não consegui olhá-lo. Não, não era vergonha, nem nada. Era só surpresa. Por um momento eu pensei que talvez tivesse razão, talvez eu devesse enlouquecer e transar com desconhecidos, esquecer da química e de toda aquela baboseira. Porém, como um estalo, eu percebi que ela estava errada mais uma vez. Era inevitável. Era incrível.
Escutei a respiração calma de , e o olhando depois de toda aquela loucura que tivemos, confirmei que ele estava dormindo. Sua feição era serena, mas o ar de anjo encapetado ainda estava em seu rosto. Fechei meus olhos e me aninhei mais a ele, dando um suspiro profundo.
Antes que eu entrasse no mundo dos sonos, um sorriso brincou em meus lábios. Ali, com certeza, havia química. Química que eu não tive igual a minha vida inteira. Química pura.
Algo fez com que eu despertasse. Talvez a ausência do sol lá fora, ou talvez o silêncio intenso que predominava.
Abri meus olhos de supetão, como se tivesse acordado de um pesadelo... Mas eu não tive nenhum pesadelo, nenhum sonho. Eu dormi perfeitamente bem, como não dormia há tempos. Isso fez com que um sorriso brincasse nos cantos de meus lábios.
O teto branco ocupava toda minha visão, me fazendo estranhar. Onde estavam as minhas estrelas?
E como se tivesse levado um choque, virei para meu lado esquerdo, confirmando minhas suspeitas.
- Ai, meu Deus! - sussurrei, arregalando os olhos. Ok, ele era lindo, mas o que eu havia feito? - AI MEU DEUS! - praticamente berrei. Aquilo o fez abrir os olhos, visivelmente assustado.
Sentei na cama, tapando com o lençol o meu corpo nu.
- DEUS! - exclamei mais uma vez. Eu não tinha a mínima noção de quanto tempo havia dormido.
- O quê? - ele indagou, confuso, sentando. Repeti de uma forma desesperada "ai meu Deus". Ele me olhou assustado, de uma forma super fofa. Não havia tempo para admirações. - Estamos rezando? Você costuma rezar à noite? Hm, ok, amém!
voltou a deitar.
- Que horas são? - perguntei em uma forma de desespero.
Ele se esticou para poder observar o relógio no criado-mudo.
- Dezoito e quarenta e cinco. - ele bocejou.
ia perguntar alguma coisa, mas eu o interrompi, levantando de repente, sem me importar em pegar o lençol. Olhei ao meu redor. Onde estavam minhas roupas?
Murmurando um palavrão, sai daquele quarto, indo para o dormitório que estavam as minhas roupas.
Comecei a vestir-me, me atrapalhando com os jeans, e teria caído de cara no chão se não tivesse me segurado.
Coloquei a regata, atirei a flanela de qualquer jeito, coloquei meus tênis, e peguei minha bolsa.
Não queria olhar para ele... Não depois de tudo!
Fui para a sala, com passos rápidos, ouvindo os dele próximo a mim. Será que ele não podia simplesmente ficar quieto e me deixar ir embora?
Sem me importar com gentilezas, eu abri a porta, e olhei para ele mais uma vez.
- Então... Tchau! - minha voz não passava de um murmúrio. respondeu com um aceno na cabeça, que eu interpretei com uma despedida. Caminhei até o hall, ou pelo menos era o meu objetivo, até ele colocar o braço na frente, impedindo meu ato. Olhei para ele, sem entender.
- Não faz assim, .
- Assim como? - indaguei.
- Não aja como se nada tivesse acontecido. - sua voz estava intensa.
- O que aconteceu?
- Você sabe. - ele fechou os olhos por um breve momento. - Não me faça te deixar ir embora. Nós dois sabemos que o rolou naquele quarto não foi pouca coisa. Então não me faça sair para uma festa outra vez e encontrar outra garota, nós dois sabemos que eu não vou gostar dessa garota tanto quanto eu gostei de você... Nem a metade.
Olhei para meus tênis surrados, e senti meu rosto esquentar. Sorri abobadamente.
- Tudo bem! - eu respondi, o olhando, e aumentando o sorriso.
- Tudo bem? - ele perguntou, sem entender, sorrindo também.
- Tudo bem, você pode me ligar. - disse alta e claramente.
O sorriso malicioso estava de novo em seus lábios. Suas mãos estavam de novo nas minhas costas.
- Pra que eu vou ligar pra você, se você está bem aqui na minha frente? - isso foi o que eu ouvi de sua voz extremamente sedutora, antes da minha sanidade ir para o ralo.
Ouvi a porta bater, no mesmo instante em que a boca de colou na minha.
Nenhum dos dois teve controle o suficiente para ir até o quarto.
Foi no sofá onde começamos tudo de novo, e até melhor.
Capítulo 4
Era hora do intervalo do trabalho e eu adentrava a Starbucks ali perto.
Ao avistar sentada em uma das mesas fiz sinal para que esperasse.
Caminhei até o balcão, onde pedi uns cookies de chocolate e um café expresso com bastante chantilly.
Peguei o meu pedido e me direcionei à minha amiga, que sorria.
- Pensei que não fosse chegar nunca. - ela disse serenamente, mas sua voz tinha um quê de histeria.
- Oi pra você também, meu amor! - eu disse quase pausadamente, apenas para irritá-la.
Larguei minha bolsa, junto com a pasta e o fichário na cadeira vazia, e sentei-me na sua frente.
- Não venha com "oizinhos" pra cima de mim, sua safada! - ela dava pequenos pulos, ainda sentada. Arqueei as sobrancelhas. - Anda, quero saber tudo. Todos os detalhes!
- Acredite, você não vai querer saber de todos os detalhes, meu bem. - ri alto.
Seu olhar estava me fuzilando.
Enquanto comia, fui contando da pequena aventura de três dias atrás. Desde o momento em que eu entrei na rádio, até o momento em que eu saí do apartamento, com seu número de telefone gravado em meu celular.
É, três dias haviam se passado.
Setenta e duas horas, não que eu estivesse obcecada com o tempo e estivesse contando. Claro que não. Era óbvio que eu adoraria receber uma ligação, mas eu não podia reclamar. E não era corajosa o bastante para ligar.
O máximo que eu poderia fazer era esperar para que meu celular tocasse.
- Ai, meu Deus! - exclamou, pegando um cookie e o devorando. Ri daquelas três palavras, lembrando do meu surto de ontem. - Em cima da mesa? Em cima do sofá? No banho? Minha amiga virou uma femme fatale e eu não estava sabendo?!
- Cale a boca! - disse, mas estava rindo junto com ela. - Você fala como se não tivesse feito em lugares piores. Não só com , vale citar.
- Ok, admito que fiz! - ela gargalhou, mas fez uma careta. - Mas a caçamba de um caminhão em um ferro velho não é tão horrível assim, ok?!
- Se você diz.
- Mas o assunto aqui é você. - ela desviou. - E agora? Vocês estão juntos?
- , nós transamos segunda-feira, três dias atrás, e você está me perguntando quando vamos casar em Las Vegas?! - rimos. Mas fazendo um pequeno bico, respondi. - Não sei. Ele disse que me ligaria para nos vermos novamente.
- Isso significa que vocês estão juntos, não?
- Não. - eu disse. - Acho que é mais um lance casual. Nos damos bem na cama e ponto.
- Não exatamente na cama, amiga. - deu seu sorriso safado. Eu, que tomava o último gole do café, quase me afoguei. Foi um sacrifício engolir para depois cair na risada.
- ! - exclamei, depois de conseguir conter a crise de riso.
- Aliás, pode me fazer um favorzinho? - ela disse casualmente, enrolando uma mecha do cabelo no indicador. - Quando você encontrar o , pergunte onde ele comprou essa mesa.
Ri de seu jeito casual, como se estivéssemos falando do tempo.
- Hm, acho que ele fez sob medida. - sorri. - Mas, que mal lhe pergunte, pra que você quer uma mesa daquele jeito?
Ela arqueou as duas sobrancelhas perfeitas para mim.
- Não seja egoísta, . - fez um beicinho, me fazendo sorrir.
- Não serei. Vou perguntar para onde ele comprou ou mandou fazer. - Dei uma piscadela. Olhei no relógio, constatando que estava na hora de voltar para o serviço.
Nos despedimos e me fez prometer que ligaria caso tivesse novidades.
Dei duas batidas na porta branca à minha frente e esperei.
- Entre! - a voz de minha chefe, Karen, exclamou.
Um sorriso brotou em meus lábios, assim que eu abri a porta.
- Diga, ! - ela sorriu de volta.
- Acabo de vender um quadro. - disse, entregando a nota fiscal para ela. Observei o processo: sua boca abriu, chocada, fechou, abriu de novo. Karen tentou falar algo, mas apenas sorriu.
- Você acaba de conseguir vender o meu quadro favorito? - ela praticamente gritou.
- Yep! E sem desconto algum. - exclamei, me sentindo contagiada pelo seu ânimo. Ok, eu havia ficado feliz em vender o quadro mais caro do ateliê de Karen Widmüller. Mas eu estava olhando meu celular de cinco em cinco minutos. Eu não estava esperando nenhuma ligação. Só estava conferindo as horas. É, quem sabe se eu repetir isso várias vezes, talvez vire realidade. Ou não.
- Meu Deus, ! - ela levantou-se. - Você conseguiu! Eu estou tentando vender este quadro desde que abri o meu ateliê. Aliás, não só eu... As outras estagiárias que vieram antes você também tentaram.
- Obrigada, Karen! - sorri, sentindo minhas bochechas queimarem. O ateliê de Karen Widmüller era um dos melhores de Londres, na minha opinião. Foi o único a me recebeu de braços abertos quando eu precisei de um estágio. Karen era muito querida e eu tive sorte de não ter uma dessas chefes megeras. Ela não gostava de muita gente trabalhando com ela. Apenas duas; uma estagiária, para vender, e uma assistente, que pintava e também vendia.
Segundo Karen, era melhor ter poucas pessoas trabalhando. Não havia competições para ver quem vende mais, e nem essas rixas que todo o trabalho tem.
- Não precisa agradecer. - ela olhou as horas em seu relógio de pulso e disse: - Você pode ir pra casa... Ou pra qualquer outro lugar. Está livre!
- Mas, Karen, eu ainda não completei as horas de trab...
- Não importa. Você vendeu mais do eu esperava. - ela deu uma piscadela. - Vou adicionar o lucro ao seu pagamento, ok?
- Ok. Obrigada, Karen! - agradeci mais uma vez.
- Pare de agradecer, ! Se manda daqui! - seu tom de voz havia autoridade, mas ela ria.
- Ok, estou me mandando. - Rimos. - Tchau, querida.
- Tchau, . Até amanhã. - ela acenou.
Peguei minha bolsa e fui até o carro.
Já estava anoitecendo e os últimos raios solares no céu deixavam Londres linda.
Fiz bico ao constatar que precisava ir para a faculdade. A biblioteca de lá ficava aberta vinte e quatro horas - ou quase isso - e eu tinha que fazer um trabalho.
Picasso poderia ser um dos meus artistas preferidos, mas não era por isso que eu ficava feliz, pois tinha que fazer uma biografia dele, incluindo dez obras, onde eu teria que descrevê-las e tinha que escolher uma delas para fazer um esboço. É, eu sempre suspeitei que o senhor Potter fosse gay.
Ouvi o meu celular vibrar insistentemente.
- Alô? - atendi, sem ter tempo de olhar o visor. O trânsito estava uma loucura!
- Oi. Sou eu. - a voz do outro lado da linha disse. Meu coração começou a acelerar como se tivesse ensaiando para o carnaval. Mas era óbvio que era por causa do trânsito. Um carro passou a toda velocidade do meu lado. Aquilo era um bom motivo para o meu coração quase ter um infarto. Ou não.
Pigarreei, tentando manter minha voz estável.
- Oi. - foi o que eu consegui dizer. Minha voz saíra falha.
- Er... Eu espero não estar atrapalhando. Está tudo bem?
Mordi meu lábio inferior, contendo um sorriso. Consegui estacionar o carro decentemente no campus da faculdade, e atirei minha cabeça no encosto do banco.
- Não, não está atrapalhando, . - eu disse, rápido demais. - Comigo está tudo bem. E por aí?
- Tudo. Ei, eu posso ligar depois...
- Não precisa. Eu já sai do trabalho. É só que você me pegou de surpresa.
- Desculpa. - disse, me fazendo sorrir. – Então, você está livre hoje?
Mordi o lábio inferior mais uma vez.
- Na verdade não. - meu tom de voz era desanimado. - Eu tenho que fazer uma porcaria de um trabalho sobre Picasso. Daí vim aqui na faculdade.
- Viu, eu te disse que estava atrapalhando. - ele riu, me contagiando.
- E eu te disse que não está! - insisti, suspirando levemente. - Acabei de chegar aqui. Mas depois eu vou estar livre.
Fiz careta. O volante parecia um bom lugar para eu bater minha cabeça até morrer. Só o que faltava era eu dizer "sexo grátis aqui".
- Hmm. Então me liga assim que você terminar pra marcarmos... Algo. - disse, e pude jurar que um sorriso sapeca estava no seu rosto perfeito, o que me fez sorrir feito um cabide, o que já era normal a essa altura.
Algo? Tá bom, , conta outra. Percebendo que mais uma vez eu estava o deixando no vácuo por causa dos meus pensamentos, tratei de consertar.
- Claro que ligo. - eu disse. - Desculpa, . Eu realmente preciso fazer este trabalho.
Escutei sua risada, seguida de um suspiro.
- , tá tudo bem. Só me ligue assim que acabar. Quero ver você!
- Eu também. - murmurei. Se eu tivesse cara a cara com ele, com certeza ficaria roxa de vergonha. Sou tímida, ok? Minha sorte que as coisas ditas no telefone são muito mais fáceis. - Beijos.
- Beijos, . - as últimas palavras proferidas por me fizeram sorrir. E algo me dizia que aquele dia ia ser tão... Longo!
Desafivelei o cinto de segurança, pegando o que eu precisava e adentrei a faculdade, acenando para o porteiro noturno.
Os corredores estavam vazios e silenciosos, mas aquilo não me amedrontava.
Fui até a biblioteca, onde John, o bibliotecário da noite, lia um livro. Aproximei-me dele, vendo sua distração e tentando fazer o mínimo de barulho possível.
- OI, JOHN! - berrei, vendo-o pular e derrubar o livro que tinha em mãos. Comecei a rir.
John era estranho. Era uma espécie de nerd, mas ele era divertido.
- Oi, . Veio estudar a essa hora? - ele indagou, fazendo careta. Ele estava certo, ninguém frequentava a faculdade de noite. Ninguém precisava fazer um trabalho de noite, até porque tinham o dia inteiro para fazê-lo. Mas eu trabalhava e me sobrava a noite para os deveres da escola.
- Sempre, né, John. - fiz bico. O relógio na parede me fez lembrar que eu precisava terminar o quanto antes. - Ei, onde ficam os livros sobre Pablo Picasso?
Ele digitou algo no computador.
- Corredor 7. - ele sorriu. Acenei para ele e parti para o corredor sete. Ele era enorme, mas eu não tive muita dificuldade em achar o que queria. Peguei vários livros que falavam sobre as principais obras e sobre a biografia. Fui sentar nas mesas de estudo, onde comecei a tortura.
Já estava sentada ali há uma hora e vinte minutos, e tinha leve impressão de que minha bunda estava quadrada. Por sorte, já havia conseguido fazer a maior parte daquela porcaria. Descrever as obras havia sido fácil, o problema seria resumir a biografia daquele pintor chato (mentira, ele é um dos meus favoritos) e escrever em minhas próprias palavras.
Os óculos usados apenas para leitura já incomodavam. Mas quanto mais rápido eu fizesse, mais rápido eu terminaria.
- . - John se aproximou me dando um pequeno susto. Suspirei, olhando para ele. - Desculpa. Eu vou descer na lanchonete. Quer alguma coisa de lá?
Era proibido comer na biblioteca, mas provavelmente John percebera o quanto eu estava exausta.
- Não precisa. Obrigada. - sorri para John, que apenas acenou e partiu. Prendi meu cabelo em um coque frouxo e voltei para a seção tortura. Não por muito tempo.
Algo me incomodava, e eu não tinha a mínima noção do que era. Talvez o silêncio perturbador. Ou talvez... Aquela sensação de estar sendo observava que pairava em mim. Mas, claro, era apenas o cansaço, que aumentava cada vez mais.
Continuei fazendo meu trabalho até sentir meus olhos pesarem. Droga, eu realmente precisava de cafeína. Deveria ter aceitado quando John ofereceu.
Tirei meus óculos, e prendi meu cabelo novamente no coque. Fechei os olhos por um breve momento, apertando minhas têmporas, para aliviar a dor de cabeça e encostei a testa na mesa gelada. A sensação era boa.
Senti um pequeno vento na minha nuca exposta, seguido de um arrepio gostoso que desceu por toda a minha coluna.
Abri os olhos lentamente, contra a minha vontade e a única coisa que eu tinha em meu campo de visão era a mesa. Eu havia pegado no sono.
Um segundo vento, seguido de um segundo arrepio.
Levantei minha cabeça subitamente, sabendo que em algum lugar do meu rosto havia uma marca vermelha.
Terceiro vento. Terceiro arrepio.
Mas... Aquilo não era vento. Era um assopro. Eu não estava sozinha. Onde estava John?
Não, não podia ser o bibliotecário. Nós nem éramos amigos. Apenas conhecidos. Ele não teria a audácia de assoprar minha nuca e me causar arrepios... Ou teria?
Algo foi de encontro com minha nuca, causando sucessões de arrepios. Suspirei fundo, até perceber o que era aquilo. Lábios.
Virei subitamente, pegando-o de surpresa, mas quem ficou nesse estado, de fato, fora eu. Por pouco meus olhos não saltaram das órbitas.
- Mas... O que... - tentei dizer, mas foi em vão.
- Estava muito entediado em casa. Resolvi vir aqui. - disse naturalmente, lançando um sorriso sapeca para mim. Depois que meu transe repentino passou, limitei-me a dar uma boa olhada nele e quase me engasguei. Camisa pólo roxa? Puta que pariu.
Suspirei, sentindo seu perfume maravilhoso em minhas narinas. Sorri com aquilo.
- Oi. - eu disse, olhando fundo em seus olhos castanhos.
Ele apenas deu uma piscadinha sexy. Num minuto estávamos nos olhando e, no outro, havia me puxado pela cintura, colando nossas bocas. Senti sua língua deslizar pelos meus lábios, delicadamente, me fazendo abri-los, cedendo a passagem. Nossas línguas se acariciavam, sem segundas intenções, em um beijo delicado. Levei minhas mãos até seu cabelo macio, o bagunçando enquanto as dele acariciavam minhas costas, em um carinho gostoso.
Sorri durante o beijo, o quebrando com um selinho longo.
Encontrei os olhos de e aquilo fez meu sorriso aumentar. Ele deu uma pigarreada de leve.
- Você já terminou o seu trabalho? - indagou.
- Não. - fiz bico, e ele me acompanhou, me fazendo rir. - Mas falta pouco. Só tenho que resumir mais uns três parágrafos.
- Hm, então eu vou te esperar.
Observei-o caminhar até a mesa e sentar na cadeira ao lado da minha. Pisquei algumas vezes, desconcertada. Aquilo, provavelmente, não ia ser bom. Com ao meu lado, eu vou levar o dobro do tempo que levaria se ele não estivesse ali. Não é por nada, mas ter seu perfume perigosamente perto era exigir demais da minha concentração. Mas, ok, não custa tentar.
Sentei ao seu lado e continuei meu trabalho. O máximo que consegui foi escrever apenas duas linhas, pois o olhar de pesava cada vez mais em mim.
Virei minha cabeça lentamente em sua direção, arqueando as duas sobrancelhas para ele.
- O quê? - ele perguntou, com a expressão inocente. Como se eu tivesse algum tipo de autocontrole, por favor!
- Você está tirando a minha concentração. - mordi o lábio inferior.
- Estou? - estava chocado. Assenti. - Mas eu não estou fazendo nada além de olhar.
- Pare de olhar. - fiz careta e ele riu logo em seguida.
Continuei escrevendo. Três linhas, até sentir sua boca perto da minha orelha.
- É que você fica tão sexy quando está concentrada, sabia? - sussurrou em meu ouvido. Um tremor. Dois, três, quatro... Respirei fundo e consegui me acalmar.
- Não, eu não sabia. - sorri sincera para ele. - Obrigada, eu acho.
- De nada. - ele ainda estava em meu ouvido.
Resmunguei alguma coisa sem nexo, e bati minha testa na mesa, o que causou uma risada em . Pelo visto, eu não iria ter paz.
- Falta muito, ? - ele murmurou, pela vigésima vez naquela noite.
- Não. Você parece uma criança, . - ri, escrevendo algumas palavras. - Acabei.
- Você vai ver a criança depois. - Mais um tremor. Que ótimo! Ele não poderia falar nada que meu corpo já anunciava sinais de que lembrava perfeitamente da mesa em sua casa.
Suspirei fundo, levantando-me e pegando minhas coisas, incluindo o trabalho. permanecia sentado, me olhando com aquela cara de cão sem dono.
- Vem. - o chamei. Ele se levantou de prontidão e me seguiu. Acenei para John, o agradecendo, e caminhei pelos corredores vazios da faculdade.
- Onde estamos indo? - ele perguntou em um tom de voz baixo.
- Entregar essa porcaria. - apontei o papel em minhas mãos. Dobrei o corredor.
- E onde você vai deixá-lo?
- Aqui. - sorri, parando em frente a uma porta, onde tinha uma placa anunciando "Sala dos Professores". A abri, enxergando apenas uma escuridão.
Procurei às cegas pelo interruptor, o achando sem demora.
- Oh, merda! - xinguei, apertando o interruptor cinco vezes seguidas, sem ver resultado algum.
- O que foi?
- Está sem luz. - choraminguei. procurou o interruptor e, como eu fizera, apertou várias vezes. Nada. - Que ótimo.
- Ei. - ele pegou seu celular, apertando em qualquer tecla e iluminando o local. Não muito, apenas o suficiente para nos guiar até onde eu precisava. - Pelo menos alguém é inteligente por aqui.
Mesmo sem enxergar, soube que um sorriso malicioso estava em seus lábios. Não pude deixar de sorrir junto, mesmo no meio daquela escuridão.
- Vá se foder, . - xinguei, mas estava dando risada. O guiei até os armários dos professores, sabendo que o do Sr. Potter estava aberto propositalmente. O abri, depositando o trabalho ali. Fechei o armário, virando para , que me olhava sério.
- Vamos? - falei, em uma falsa animação. Eu estava cansada. Não sabia se teria forças para fazer alguma coisa. Mas, se tratando de , tudo pode acontecer.
- Agora eu não quero ir. - sua voz soou ameaçadora aos meus ouvidos. E para dar um ar mais perigoso, reforçando aquilo, o celular de apagou. Ele não fez questão de acendê-lo de novo.
- Você adora ser do contra, né?! - debochei, estreitando os olhos, tentando enxergar alguma coisa. Odiando aquele silêncio, dei uma leve pigarreada, inventando algo para falar. - Parece criança...
Mal terminei a frase e senti sua boca se aproximar de meu ouvido, mordendo o lóbulo forte o suficiente para me fazer ofegar.
- Frase errada. - sua voz rouca soou ao pé do ouvido. Mordi meu lábio inferior, contendo a vontade de pular nele. Faculdade. Pablo Picasso. Biblioteca. Sala dos professores. Era nisso que eu tinha que focar. - Eu te avisei que mostraria quem é a criança.
- ... - murmurei. Juro que tentei pôr algum tipo de afirmação na minha voz. Mas aquilo, até mesmo para mim, soou como um pedido... Não para parar, e sim por mais.
Senti o nariz dele deslizar até o meu. Nossas respirações se misturando. Seu hálito de menta de encontro com a minha boca entreaberta. Senti minhas costas baterem nos armários, me fazendo perceber que havia me levado para trás.
Meus olhos haviam se acostumado com a escuridão, porém o máximo que eu poderia enxergar era a sombra de .
Algo dentro de mim estava me avisando que não adiantaria fugir, não adiantaria negar. Mais cedo ou mais tarde eu faria o que - e eu - queria. Por que adiar?
Suspirei fundo. Como se percebesse que eu havia me rendido, colou nossos corpos, me fazendo colar as costas no armário. E o medo de derrubá-lo, onde fica? Longe, beeem longe!
Jogando o último rastro de sanidade para o mesmo lugar em que estava o medo de derrubar o armário, eu surpreendi , agarrando sua nuca, fazendo sua boca encontrar a minha.
O hálito maravilhoso dele se misturou ao meu. Seu cheiro maravilhoso entrou em minhas narinas, me deixando drogada. Sua língua lutava, dançava e se misturava com a minha. Diferente de antes, aquilo estava cheio de segundas intenções. E terceiras, quartas... O que mais havia ali eram intenções.
Senti a mão de deslizar pelas minhas costas, descendo para minha bunda. Peguei impulso e rodeei sua cintura com as minhas pernas, ficando da sua altura. As mãos dele foram parar dentro da minha blusa, me fazendo arrepiar. Ele passava as pontas dos dedos - onde deveria ter unhas -, me fazendo ter a certeza de que ficaria marcas de roxo. Separei o beijo, mordendo seu lábio inferior fortemente. Desci para seu pescoço, dando chupões fortes e mordidas, alternando com puxadas em seu cabelo.
Senti minha blusa subir rapidamente, levantando os braços, e ajudando a tirá-la por completo. Com uma mão apenas, abri o fecho do sutiã, o qual eu mesma tirei e atirei para um lugar invisível.
A língua de desceu de meu pescoço para meu colo, mas devido a nossa posição, não conseguiu alcançar o objetivo. Arqueei minhas costas, deixando minha cabeça encostar no armário, e me apoiei em seu cabelo. Suas mãos seguravam minhas costas com firmeza, não me deixando cair.
Fiquei ofegante, quase gemendo, quando sua língua quente encontrou meus seios. Puxei seu cabelo o mais forte que pude, enquanto ele subia novamente para minha boca, me beijando louca e bruscamente.
Consegui escorregar um pouco, deixando minha intimidade tocar a dele, já excitada e pulsante. Apertei minhas pernas que estavam em sua cintura, fazendo meu sexo pressionar o seu, no ponto certo.
Gemi baixinho, enquanto mordia meu lábio forte, me fazendo sentir um leve gosto de sangue.
- Droga. É isso o que você é. Uma droga! - ele disse rouco e alto, cambaleando pela sala, nos fazendo tropeçar algumas vezes. - Você é viciante, sabia? Seu cheiro, seu gosto, sua atitude. Você me deixa louco, .
Ele me sentou em algo. O que eu não distingui de imediato.
- Obrigada, eu acho. - disse em um último fio de voz. Soltei uma risada alta. - Você tem fetiches por mesa, ?
- Só quando estou com você. - ele admitiu. - Desculpa se não tem uma cama macia por perto... Prometo te compensar depois.
- Pode deixar que vou cobrar. - esforcei para que minha voz ardesse em luxúria e eu acho que funcionou, já que voltou a me beijar da mesma forma urgente de antes.
Peguei a barra de sua pólo, e a tirei rapidamente, para logo depois voltarmos com os beijos.
Arranhei todo seu peitoral e costas com as minhas unhas, enquanto me puxava pra ponta da mesa, fazendo nossos sexos se encontrarem novamente, me pressionando cada vez mais contra ele. Ele me puxava cada vez mais, me fazendo pensar que me penetraria ali mesmo, os dois de jeans. Com esse pensamento, eu abri minha calça, tirando eu mesma. Aprendi a tirar a roupa sozinha quando deveria ter três anos de idade, não precisava da ajuda de para tirá-las... Apenas para tirar as dele e acelerar o processo.
Puxei minha calça junto com a minha calcinha pra o chão. Logo estava de volta e de boxers. Malditas boxers.
Fui às cegas, tentando encontrar a barra da cueca, mas encontrei outra coisa, que trouxe alguns gemidos de . Resolvi me divertir apenas um pouco.
Acariciei com a unha o pênis de por cima da boxer, escutando gemidos e palavras desconexas proferidas por ele. Ameacei pôr a mão por dentro da cueca, porém antes que isso pudesse concretizar, senti as mãos de agarrarem meus pulsos, me causando gargalhadas.
Senti algo leve bater contra o chão. Imaginei sendo a cueca. me puxou contra si, encaixando-se entre minhas pernas.
- Ei, que cor ela é? - provoquei, antes que ele pudesse me penetrar.
- Ela quem? - ele ofegou. Não precisei olhá-lo para perceber seu autocontrole.
- A cueca, . - sussurrei ao pé do seu ouvido, rindo baixo ao que ele bufou. De raiva, de excitação, eu não sabia.
- Azul, roxa, vermelha, branca... A cor que você quiser.
Ri novamente. Mas a gargalhada morreu na garganta, e foi substituída por um gemido. havia me penetrado em uma força tremenda. Agora me conta uma novidade. Não sei como eu pude me esquecer o quanto era bom tê-lo dentro de mim. O quão bom era escutar sua respiração rápida.
Ele movimentava-se lentamente, me fazendo apertar seu bíceps com a unha, na intenção de machucar e avisá-lo que eu queria mais.
Seus movimentos foram aumentando gradativamente, junto com os nossos gemidos. Eu não conseguia me controlar, e ele parecia estar me acompanhando. Preciso dizer que eu nem lembrava onde estava? Acho que não.
Colei minha boca à dele, o beijando no mesmo ritmo em que ele entrava e saia de mim. Abafei por um tempo nossos gemidos. Mas, como uma humana normal, eu precisava respirar.
Arqueei minhas costas, desgrudando nossas bocas e agarrei o cabelo da sua nuca, me movimentando junto com ele, querendo que aquilo fosse cada vez mais rápido, mas que nunca viesse a acabar.
Mas, como dizem, tudo o que é bom dura pouco. Senti o orgasmo se aproximando. Soltei um gemido mais alto que todos os outros, quando ondas de prazer invadiram meu corpo. Eu não tinha forças para mais nada.
deu algumas estocadas, até atingir o limite. Senti o líquido quente em mim, me fazendo sorrir fracamente, e então ele parou também exausto.
Encostei minha testa em seu ombro, esperando nossas respirações normalizarem e o abracei.
Aquilo era bom.
Capítulo 5 - Rhytm of Love... Or not.
A respiração de estava acelerada, como a minha. Seu peito nu, ainda contra o meu, contraia cada vez mais devagar, finalmente se acalmando. Sua risada nasalada adentrou meus ouvidos, fazendo-me franzir o cenho, mesmo que ele não pudesse enxergar.
- O que foi? - não pude deixar de indagar. Minha curiosidade era maior que tudo.
deu uma segunda risadinha, mordiscando meu ombro de uma forma gostosa e disse:
- Da próxima vez prometo que será em um lugar confortável...
- Se você se controlar até chegarmos a uma cama, eu topo. - brinquei. A verdade é que eu não me apego a lugares. Pelo menos, não com . A verdade também é que eu não me reconhecia mais... não precisava saber disso, óbvio.
- Eu já falei o quanto você é gostosa? - ele perguntou, ao pé do meu ouvido, deixando-me desconcertada e me arrepiando. Aquela voz rouca, aquele cheiro, aquele jeito certeiro dele, era o pacote perfeito para se perder a sanidade.
Apenas suspirei.
- Não. - disse eu, em um último fio de voz. Não era uma resposta muito concreta, mas não conseguia pensar em outra diferente. Escorei minha testa em seu ombro, sentindo seus dedos dedilharem a lateral da minha cintura.
- Então eu digo: você é muito gostosa. - disse as últimas quatro palavras pausadamente, frisando cada uma delas cuidadosamente. Ofeguei. - Fica meio impossível pensar em chegar à cama quando a única coisa que quero é tirar a sua roupa.
É como dizem: um gesto vale mais do que mil palavras. Antes que eu pudesse pensar em falar alguma besteira, puxei a nuca dele, fazendo sua boca ir de encontro a minha. Instantaneamente, sua língua começou a brincar com a minha, sem parar um segundo. Enquanto eu puxava seu cabelo, senti quebrar o beijo, fazendo-me morder seu lábio inferior, reclamando. Sua boca criou uma linha de fogo por onde passava. Desceu pelo meu pescoço, não esquecendo de deixar belos chupões por ali. Desceu para meu colo, no mesmo momento em que respirar era uma tarefa árdua para mim. Minha única reação foi de jogar minha cabeça para trás e segurar os cabelos da sua nuca o mais forte que eu podia, como se aquilo pudesse me sustentar, ao sentir sua língua quente em um dos meus seios. Seus chupões me faziam ofegar, o que o fazia chupar ainda mais. Uma corrente sem fim. resolveu dar atenção ao outro peito, fazendo as mesmas coisas. Puxei-o novamente para mim, beijando-o de qualquer jeito, sem nem mesmo perceber se estava beijando no lugar certo. Provavelmente sim, já que no minuto seguinte, uma de suas mãos foi parar em meu cabelo, fazendo um cafuné, mas que logo transformou-se em leves puxões na nuca. A outra mão estava deslizando pelo meu corpo, arrepiando-me por onde passava.
Pela primeira vez desde que nos conhecemos, nós estávamos apenas curtindo as sensações, como se não tivéssemos mais nada para fazer.
O beijo de tinha um gosto bom. De creme dental e café.
Levei minhas mãos para suas costas macias, fazendo um carinho por toda a extensão, sentindo cada músculo contraído dele.
Esqueci do mundo lá fora, esqueci do local em que me encontrava, esqueci de quem eu era.
Como se eu estivesse levando um choque, um barulho de passos no corredor veio aos meus ouvidos, fazendo-nos parar o beijo abruptamente.
- Shhh. - sibilou em meu ouvido. Concordei com a cabeça, mesmo sabendo que ele não podia ver.
Os passos aumentaram, até finalmente chegar exatamente onde estávamos: na sala dos professores. Tentei respirar o mais calmamente possível, para fazer o mínimo de barulho, ao mesmo tempo em que distinguia duas vozes diferentes.
- Ultimamente não tem muitos alunos aqui de noite. – a primeira voz disse. – Alguns vem para fazer trabalhos, utilizar a biblioteca e...
Prendi totalmente o fôlego quando senti a porta abrindo. Se alguém nos pegasse ali, naquela situação constrangedora, estávamos ferrados. Primeiro, porque eu sou aluna, segundo porque não freqüenta a faculdade e terceiro, bem, esse não é um lugar apropriado para transar.
O barulho do interruptor de luz soou em meus ouvidos, repetidas vezes. Umas cinco, se eu não me engano. Por um breve momento, permiti-me suspirar baixinho, aliviada, pois eles não iam conseguir nos ver pelados.
- Acho que essa lâmpada queimou. – uma voz que eu reconheci sendo de uma professora disse. Por pouco não respondi com um pequeno sarcasmo, mas não era o momento apropriado, então preferi deixar para mais tarde. – Vamos lá no primeiro andar. Vou chamar alguém pra trocar aqui. Depois pegamos as pastas.
A outra voz apenas concordou e logo após a porta foi fechada, fazendo um a minha frente finalmente respirar.
- Por pouco eles não te viram nua em pêlos. – disse, fazendo-me rir e ruborizar um pouco.
- Ia ser tão engraçado. – usei de todo o sarcasmo que eu podia proporcionar ao mundo para dizer, sendo retribuída com um selinho. Ok, respira de novo.
e eu resolvemos nos separar, com medo de que outra pessoa pudesse resolver fazer uma visita àquela sala. No puro tato, cada um recuperou suas roupas e nos vestimos às cegas, fazendo uma brincadeira aqui e outra provocação ali.
Eu estava gostando disso mais do que deveria, mas eu lidaria com isso depois.
Saímos daquela sala o mais silenciosamente possível, cuidando para que ninguém nos visse saindo dali e obtendo uma sorte fora do comum.
Fomos caminhando um do lado do outro em direção ao estacionamento. Por um momento, pensei que fosse pegar na minha mão, mas quando olhei, ele estava apenas coçando a cabeça. Excesso de sono, isso é que dá.
Quando finalmente nos olhamos, eu estava de frente para ele, ao lado do meu carro. Encarei-o, dando sinal de que estava o esperando falar. Ele deu aquele sorriso sacana, o qual tenho certeza de que rolou diversas vezes naquela salinha, encostou uma mão no carro, na lateral do meu corpo, perto o suficiente para eu sentir o cheiro bom dele. Mas não falou nada.
- E agora?! – murmurei, retribuindo o sorriso sapeca.
- E agora... – pegou uma mecha do meu cabelo entre seus dedos, começando a brincar distraidamente. Será que esse cara faz alguma coisa?! Aprendeu hipnose ou simplesmente é lindo por natureza?! Dei um leve balançar na cabeça, forçando-me a recuperar a concentração. – Tá com fome?
Assim que ele terminou, meu estômago pareceu acordar, dando um ronco maior que o motor do meu carro. Assenti com a cabeça, fazendo um pequeno bico involuntário. A risadinha que deu logo após foi capaz de trazer uma sucessão de arrepios.
- Então vamos comer. Fast-food do Mc. Topa?
- Claro. – concordei. Jamais se recusa um McDonald’s com um tigrão desses. Digo!
- Vou deixar meu carro aqui, vamos no seu carro. Depois passo para pegar. – a piscadinha que deu foi impagável. Meio desnorteada, fiz a volta em meu próprio carro, jogando a chave para ele e sentando no banco de carona.
Precisaria de toda a sorte do mundo pra me manter sã enquanto estivesse com . O efeito que ele causava em mim era mais rápido e mais terminal do que uma dose pesada de Absinto.
Era claro que eu tinha consciência de que não era nada elegante devorar um hamburguer na frente de um homem, como eu estava fazendo, mas eu não me importava e parecia que também não. Só percebi que estava faminta quando comecei a comer, o que era totalmente estranho.
Estranho também era onde estávamos. O capô do meu carro estava servindo de assento para nós dois, que estávamos em uma espécie de barranco, onde se enxergava uma linda Londres escura, iluminada por casas e postes com luzes.
Desde mais nova eu era apaixonada pela noite. Achava ela romântica, sedutora, provocativa e parecia que nunca tinha fim. Não era diferente agora.
Não contive uma risada, fazendo me olhar curioso, com o canto da boca sujo de mostarda.
- O que foi? - ele perguntou, com a boca cheia. Ri de novo.
- Nada. - suspirei, um pouco estufada. - Só estava lembrando.
- De que?
- De que tinha decidido virar vegetariana. - entortei o nariz. Era verdade, mas uma verdade impossível.
- JURA? - o berro de se misturou a uma gargalhada, o que me fez rir junto. - CARNE É A MELHOR COISA DO MUNDO!
- Eu sei, eu sei. - revirei os olhos, terminando com meu hambúrguer e meu refrigerante. - Mas minha celulite não.
- , meu bem, olha pra mim. - ele disse calmamente, como se falava com uma criança. Olhei. - Você é gostosa e pode comer quanta carne quiser. - dito isso, deu um tapa na minha perna, que não doeu, claro. - E se você engordar, a gente dá um jeitinho.
Ri, sem saber o que responder. Ele sempre dava um jeito de me deixar sem graça.
- Bom, se você diz. - bocejei, sem conseguir controlar. - Preciso ir pra casa, . Amanhã eu tenho faculdade, trabalho e tudo o mais.
- E tudo o mais, claro.
Ele deu um pulo para o chão, assustando-me ao me pegar pela cintura e me levar junto a ele.
Rodeamos o carro e dessa vez eu fui dirigindo. Pela primeira vez, o assunto morreu e o único som que reinava era o do rádio.
Estranhei, mas não comentei. Aquilo era desconfortável.
Eu até queria puxar algum tipo de assunto, mas todas as ideias pareciam um motivo pra ele me achar uma idiota. Eu realmente era uma idiota, mas disfarçava.
O silêncio prevaleceu até chegarmos novamente no campus, para pegar seu carro.
Pousei minhas mãos nas pernas, olhando para ele com um sorriso singelo.
- Adiós. - brinquei. Ele se aproximou, dando-me vários selinhos, um atrás do outro.
- A gente se fala, . Se cuida. - ele sorriu, saindo do carro.
- Você também. - disse, tendo a certeza de que ele ouvira.
Observei o caminho dele até o carro. abriu a porta e parou por um segundo, virando-se pra mim. Sorrimos um para o outro e eu dei partida no carro, em direção a minha casa.
Meu pijama nunca me pareceu tão confortável quanto naquele momento. Já havia perdido a conta de quantos filmes havia visto desde ontem à noite, quantos chocolates, pipocas, refrigerantes havia ingerido... E permaneceria assim pelo resto do final de semana.
É, a fossa me pegou de vez e eu me deixei levar. Isso tudo tinha motivo, com nome, apelido, sobrenome: rejeição.
Depois daquele fato na faculdade, e eu nunca mais nos falamos. Sem motivo aparente. Ele nunca mais me procurou, não atendia minhas ligações, não respondia meus e-mails. Estranhei, julguei-me por ter feito algo, por ter errado, mas cansei de correr atrás, afinal, nós estávamos apenas ficando. Apesar de eu ter desistido de conseguir contato, fiquei abalada. Ser rejeitada pode destruir uma mulher e era assim que eu estava.
Que amor próprio o quê, o negócio era afogar minhas mágoas nos filmes românticos, nas gorduras e em tudo que há de bom.
O fato, o verdadeiro fato, era que eu precisava de um sinal de vida de . Precisa de um "adeus" que fosse! Mas precisava saber o que estava acontecendo. Não vinha resposta e era isso que me torturava.
Cansei da minha cama e resolvi levantar para tomar um banho relaxante e foi isso que eu fiz.
Resolvi checar meus e-mails, para ver se havia alguma mensagem animadora que dizia "levanta dessa cama e vai viver". Não encontrei, obviamente.
Vírus, vírus, convite, e-mail de , mais vírus e alguns e-mails com mensagens nada animadoras.
Bufei frustrada, largando o computador de lado e procurando alguma distração na televisão. Senhor dos Anéis. Ótimo, nada romântico! O universo estava conspirando ao meu favor... Pelo menos até a campainha tocar insistentemente.
Levantei, contrariada. Não estava em clima para visitas, nem mesmo para minha melhor amiga. Quem era o desocupado que vinha atrapalhar minha fossa? Só podia ser...
- ? - praticamente berrei, surpresa, ao abrir a porta. Para confirmar, engasguei com a própria saliva.
- Oi. Não morri. - Ele tentou brincar, mas seu desconforto era visível. O meu também. O cretino continuava impecavelmente lindo naquela jaqueta de couro sobreposta à blusa branca lisa e coladinha.
Concentra, .
- Percebi. - dei uma risadinha irônica. Era mais forte que eu. O nervosismo começava no pé e agora já estava se alojando nos dedos das mãos, fazendo-me tremelicar.
- Eu estava ocupado, cheio de trabalho e... Não vai me convidar para entrar? - ele estava nervoso, isso era visível. Desconfortável, esquisito e lindo. Deus do céu, dê forças.
- Claro. Entra, . - Dei espaço para que entrasse, tendo certeza de que a forma que eu dissera seu sobrenome dava a entender que eu estava frustrada e braba. A ponto de colocar as mãos na cintura e bater o pé.
Ele dirigiu-se ao sofá, deixando aquele conhecido rastro de perfume viciante. Nada que me deixasse louca, pirada, a ponto de surtar, gritar, dar uns bons tapas nele e depois pular nele. Nada, longe de mim! Suspirei bem, bem fundo, fechei a porta com toda a calma do mundo e segui até o sofá, sentando em uma distância razoável e estranha.
Olhei para as minhas mãos, esperando que ele falasse. Não demorou muito.
- E então, como você está? - ele perguntou. A voz estável, não demonstrando nada. Nada.
- Bem. Estou ótima. - respondi rápido demais, fazendo me encarar. Encarei de volta. Ambos tentando desvendar uma certa incógnita. - E você?
- Eu... Bem, estou trabalhando aos montes. Continuo naquela boate, tocando bastante. E na rádio. Não tenho mais tempo pra nada.
- Nem pra me ligar. - completei.
- Não é bem assim, . Foi tudo meio louco. Eu só estava tentando assimilar tudo. E então... - parou, sacudindo a cabeça. - Foi isso.
- Foi isso. - repeti, fazendo um gesto contrário, assentindo com a cabeça.
Senti se aproximando. Sua mão quente e macia pegou na minha. Vi seu sorriso lindo. Aquele sorriso. O meu sorriso.
- Senti sua falta. Da sua risada, do seu cheiro, do seu sorriso. - se aproximou mais ainda, dando um beijo na minha bochecha. Não me aguentei e me limitei a sorrir um pouco. - Principalmente do seu gosto.
Não entendi. Fiquei algum tempo me perguntando como. Mas no primeiro momento estávamos conversando e no outro eu estava beijando . Na boca! Diferente das outras vezes, estranhamente, mais calmo, mais distante. Não deixava de ser bom, mas me deixava preocupada.
Esqueci da minha fossa, da minha preocupação, esqueci tudo, inclusive da cor da minha calcinha, assim que ele começou a acariciar minha bochecha, durante o beijo. Eu permanecia parada, um pouco dopada. Esquecendo do mundo. Mas, claro, algo atrapalhou. O celular de vibrou, fazendo-me suspirar frustrada e me separar dele. Me encostei no sofá, fechando os olhos.
pigarreou ao meu lado.
- , preciso ir. Agora! - sua voz estava urgente.
- O quê? - olhei para ele, meio desesperada, sentindo a raiva voltando.
- Preciso ir. Trabalho. - Ele me puxou. Um selinho rápido. Levantou e, sem esperar que eu fizesse o mesmo, saiu do meu apartamento. Sem explicações, sem nada.
Não estava entendendo mais nada e estava ficando maluca. Encolhi-me no sofá, dormindo um pouco. Era só o que eu podia fazer.
Era uma noite de sábado e eu batia o pé com minhas pantufas na minha sala, esgotada de tédio até a cabeça. Já nem esperava notícias de mais. Ele sumira de novo, já havia três semanas. Só queria sair, na verdade, beber e esquecer de tudo.
Como se lesse meus pensamentos, meu telefone tocou. Era , me animando e dizendo que passaria na minha casa em uma hora, que era para eu esperá-la linda e cheirosa. E foi o que fiz.
Talvez para minha auto-estima ou mesmo para ser olhada e conquistar alguém, arrumei-me como nao fazia há tempos. Coloquei minha melhor roupa, coloquei meu sapato favorito e me maquiei da maneira mais sexy que conseguia. Ao ouvir o bipe de no celular, desci com a minha bolsa de mão e entrei no seu carro.
- Hey. - dissemos praticamente juntas. Ela estava linda também.
- Vamos aonde? - indaguei, um tanto receosa.
- Não se preocupe, florzinha. Vamos em um Pub maravilhoso que fui com o esses dias. Nada perto daquela boate. - Vi quando ela sorriu no volante, ao meu lado.
- Obrigada.
- De nada. É só pra dizer que ainda amo você.
- Também amo você.
Ela deu uma risada sem graça e aumentou o volume do rádio. Avril Lavigne?!
Olhei para ela com uma feição assustada. Ela riu. Eu ri. Assim seria a noite inteira.
O Pub realmente era maravilhoso! E cheio. e eu estávamos sentadas em uma mesa, com tequila, sal e limão em nossa frente, ainda não ingeridos.
Olhei pra ela, rindo abertamente.
- Pelo amor, não consigo esperar mais.
Ela riu.
Fizemos 3 baterias. Nada que nos deixasse bêbadas... Apenas alegres.
Fiz um biquinho inconsciente e, em um impulso, anunciei.
- Vou ficar com ele apenas mais uma vez e depois vou dar um pé na bunda dele. - disse, convicta.
- Sei. Uma vez no primeiro momento, depois ele vai te persuadir e...
- ! - exclamei. - Você tem que confiar no meu auto-controle. E, também, não posso ficar nessa situação de esperar me ligar quando resolver e se resolver ligar.
- Você sabe que eu estou brincando, não é? - disse, carinhosamente. Assenti com a cabeça. - Estou com orgulho de você. Só que... É difícil....
- Deus do céu! - bufei, deitando minha testa mesa, suspirando diversas vezes. Quando me acalmei, vi que precisava de mais tequila. - Eu sei que é difícil. O desgraçado sabe como mexer comigo. É lindo, cheiroso, e...
- E é bom de cama. - completou, dando uma risada sacana, que eu interpretei como "você está ferrada".
Olhei pra ela com cara de poucos amigos, fazendo-a rir.
Enchi o copo de tequila, fazendo o mesmo processo com o sal e limão. Vendo que aquilo não era o sufiente, repeti o gesto mais duas vez, sentindo o Pub girar aos meus olhos.
- Ops. - murmurei, minha voz saindo meio grogue. Gargalhei sozinha.
- Eu posso não ser solteira, mas não sou cega. Como tem gente linda aqui! - disse.
Minha cabeça deu um pequeno estalo e eu lembrei que existiam pessoas. Mais especificamente, homens. Comecei a observar a ala masculina do lugar e era bem eclético. Tinha os mais velhos, os mais bonitinhos, os "bons", os casados, os solteiros (ou fingiam), os que estavam agarrando alguém casualmente também.
Mas nenhum me chamou a atenção. Sempre tinha algo demais, ou faltava algo no conjunto. Eu estava frustrada! Não por muito tempo...
Um cara me chamou a atenção. Ele estava acompanho, mas era lindo. A jaqueta de couro ficava perfeitamente bem nele, modelando seu corpo não muito musculoso, mas perfeito. A única coisa ruim nisso tudo era a garota que estava com ele. Uma loira tingida, com os cabelos curtos e repicados, alta, magra, não muito bonita, mas para feia não servia. Ela estava de salto e short jeans, mostrando pernas absurdamente longas, lindas e magras.
Suspirei, encostando-me na cadeira, mas não deixando de observar o casal.
- Queria ser alta e magra também, com pernas infinitas. - murmurei, frustrada.
, ao meu lado, exclamou que não estava entendendo, mas seguiu a direção do meu olhar.
- MEU DEUS! - ela praticamente berrou.
- Viu, eu disse! - concordei. - Ser magra, com pernas longas e alta, deve ser barbada assim.
- ! - ela observava atenta e chocada ao casal na nossa frente. Fiz o mesmo e me arrependi logo em seguida.
O homem que estava com a menina, o lindo da jaqueta de couro e que nesse momento dava o maior chupão em seu pescoço, era familiar. Até demais.
Nesse momento ele estava falando algumas palavras lindas em seu ouvido, elogiando, sendo o mais cretino e o mais lindo dos homens, pra depois levá-la pra cama.
- Filho da puta! - Foi a única coisa que consegui expressar. Levantei dali, com vontade de derrubar tudo, mas não foi o que eu fiz. - Vou pegar bebida.
- , não vá se incomodar...
- Não vou, prometo. Vou ser a pessoa mais simpática e doce do mundo. Cretino!
Fui até o bar, mudando de ideia logo em seguida. Fingindo ir no banheiro, caminhei lentamente naquela direção, passando pelo casal, fingindo tropeçar e esbarrando nele.
- Ops, desculpa. Não vi vocês aí... ? - fingi surpresa, quando encarei aqueles olhos . - Oh, que coincidência, querido.
- ? - ele perguntou, aparentemente assustado, sem saber o que fazer. - Mas o que...
- Vim dançar. Vocês vieram se pegar, pelo visto, né. - dei uma risadinha. Aquela com o nome "vadia" e que eu guardava para essas ocasiões. - Não vai me apresentar a moça?
- Ahn, vou. ... Essa é Mayah. Minha, minha... - olhou para a tal Mayah, desconcertado, pedindo socorro. Ela deu um sorriso inocente e, puta que pariu, ela era linda. Meiga, linda, e com pernas longas.
- Namorada. - Mayah disse para mim. - Sabe como são os homens, nunca seguros.
Dei minha risada vadia.
- Sei bem. Nunca seguros, mas sempre aprontando, não é mesmo?
A garota estava sem entender, concordando com a cabeça.
- E quem é ela, amor? - Mayah, a namorada, perguntou para .
- Essa é , minha amiga. - a convicção na voz de era perceptível. E eu digeri a palavra "amiga", por um certo tempo, sem saber o que fazer.
Dei meu melhor sorriso fingido e saí dali sem explicação, dirigindo-me ao banheiro, meio desnorteada.
Dei sorte que havia um sofá por ali. Foi onde eu me atirei, sem saber direito a posição, sem saber se estavam me olhando, sem saber o que eu estava fazendo.
E fora ali que eu desabei. Como um bebê.
Capítulo 6 – God, give me patience!
Eu sentia o vento forte bater em meu rosto, fazendo meus olhos lacrimejarem. Não me importava. Como se para reforçar aquilo, aumentei a velocidade dos meus pés, sentindo o suor escorrer por minha espinha. Minha respiração não estava fácil; eu me concentrava em respirar pelo nariz e soltar pela boca. Concentrava-me também na música dos meus fones de ouvido, que berravam em meus tímpanos... Um rock pesado, daqueles em que a bateria e a guitarra se destacavam. Era exatamente disso que eu precisava. Controlar minha raiva, voltar a ser quem eu era, retomar minha rotina, apagar a vontade de socar o rosto perfeito de alguém. Esquecer.
Sempre quando surgia esses ataques de raiva, quando eu lembrava o último ocorrido, eu preferia sair de casa. Não conseguia ficar entre quatro paredes, pois me conhecia, sabia muito bem que iria me deprimir... E eu não queria essa vida pra mim. Então eu saía... Normalmente para uma praça, em frente ao meu prédio. E corria. Corria até que todos esses pensamentos raivosos e deprimentes fossem embora. Chegava a ficar por horas ali.
O vento daquele dia cinzento aumentara. Gelado, cortante, que ao mesmo tempo dava um alívio. Eu gostava. Já havia perdido a conta de quantas voltas havia dado e de quantas músicas havia escutado... O tempo não importava. Nada mais importava. Fechei meus olhos brevemente, sem parar de correr, sentindo o vento mais intenso. Respirei fundo; uma, duas, três vezes. Estava me acalmando aos poucos, deixando todas aquelas lembranças – boas e ruins – pra trás, momentaneamente. Estava conseguindo trazer o autocontrole novamente... Pelo menos até o momento que meu peito se chocara em outro peito. Meus olhos se abriram, as dores surgiram. A raiva também. Encarei aqueles olhos a minha frente, fulminando-os com toda a força que eu podia.
Sua feição era de apreensão e ele não sabia direito o que fazer. Encarei mais uma vez aqueles olhos , demonstrando que não havia gostado da “surpresa”. Desviei o caminho e recomecei a correr, como se ele não estivesse ali, como se aquilo tivesse sido uma visão.
- ! – gritou, logo atrás de mim. – , por favor! Vamos conversar...
Desapareça, desapareça, desapareça... eu repetia a mim mesma, enquanto corria.
- ! - ouvi o grito de novamente. Quando me dei conta, ele estava ao meu lado, correndo junto comigo.
- Desapareça, . - explanei meu pensamento, transmitindo a raiva que eu sentia no meu tom de voz.
- Desapareço. - Ele concordou e eu suspirei aliviada. - Mas só depois que você deixar eu explicar tudo.
Bufei, parando de correr e tirando meus fones. Ele também me acompanhou, ficando na minha frente.
- Certo. Você tem três minutos. Depois desapareça. - meu tom de voz era seco. A vontade de socar o rosto de era quase equivalente a vontade de cheirar o pescoço dele. Quase.
Ele ficou me olhando, analisando, e eu não estava gostando nada daquilo.
- Já se passaram trinta segundos, . - anunciei.
- Hm, ok. Mayah é minha namorada. - disse, como se estivesse falando da queda do muro de Berlin.
- Já deu pra perceber aquele dia na boate. Ela deixou bem claro. - eu disse. - Um minuto.
- Ela estava viajando com os pais. Foi pra Argentina, ficou um tempo lá. Mas nós tínhamos combinado que enquanto ela estava longe, poderíamos ter outros casos. Mayah estava solteira lá e eu aqui. Então conheci você e, eu juro, não sinto um terço do que sinto por você. Não tenho explicação melhor pra dar... Mas a nossa química na cama é surpreendente. E se você topar, nós podemos continuar isso às escondidas.
Abri minha boca. Apavorada, com mais raiva ainda.
- Olha. - comecei, tentando encontrar uma calma que não existia em mim. - Não sei qual foi a impressão que eu te passei. Mas eu não estou interessada nessa sua proposta. E foi só sexo, ... Eu não estou querendo saber a proporção do seu sentimento. E nem quero mais olhar pra sua cara, também. Você já falou o que tinha pra falar e o seu tempo já esgotou. Tchau.
Coloquei novamente meus fones e voltei a correr, dessa vez em direção ao meu apartamento, sem olhar pra trás e o xingando mentalmente, mesmo querendo gritar.
Não era um dia bom pra ir à faculdade. Eu não estava com muita paciência pra falar sobre arte, muito menos desenhar e pintar, quem dirá ouvir a voz irritante da Consuelo por mais meia hora. Eu estava assim há semanas... Desde que encontrei naquela praça. E estava até cogitando a ideia de largar a faculdade e o estágio e partir pra outra. Assim, sem mais nem menos. Eu só estava precisando mudar de vida, em todos os sentidos. A raiva ainda me consumia, mas estava um pouco adormecida, pois nunca mais havia tocado no nome de , a não ser na minha cabeça. Nunca mais ouvi a voz dele e ele nunca mais havia me procurado. Alívio, eu acho.
Consuelo falava, falava e falava. Meu cérebro não estava processando muita coisa e minha cabeça parecia explodir. Havia perdido a conta de quantas vezes havia bocejado. Precisava de cafeína, aspirina e minha cama. Mas eu precisava assistir às aulas. Para piorar minha manhã, alguma pessoa muito querida da minha sala de aula havia esquecido de colocar o celular no modo "silencioso", fazendo que o toque mais irritante já escutado ecoasse em todo o local. Não contive minha curiosidade e olhei ao redor pra descobrir que estava tão desligado a ponto de não se tocar, mas todo mundo parecia me encarar, como se a louca ali fosse eu. Demorei alguns segundos até que pulei da cadeira e percebi que o celular era o meu. Ótimo.
Peguei-o de dentro da bolsa, e rapidamente o silenciei, dando uma olhada no visor.
.
Bufei alto, ignorando a chamada. Era só o que me faltava.
Percebi que havia falado a última frase alto demais, recebendo um olhar ranzinza da dona Consuelo. Peguei minhas coisas, levantando dali. Não dava mais.
Disquei aquele número que já sabia de cor e salteado. Precisava de .
- Alô? - ouvi a voz da minha amiga do outro lado da linha.
- Oi. - Foi o que eu disse. Sabia que não seria necessária muita explicação.
- Oi, . Tudo bem? - ela estava cautelosa.
- Acho que sim. Você tá muito ocupada?
- Não. Quer ir a algum lugar?
- Lá em casa está ótimo. Tô saindo da faculdade agora, te encontro lá? - estava tentando esconder a súplica na minha voz, mas não obtive muito sucesso. Não com a minha melhor amiga.
- Claro, vou trocar de roupa e já vou pra lá. Beijo. - desligamos.
Peguei o carro e fui pra minha casa. Por todo o caminho, ignorei seis chamadas de . Minha raiva crescendo à medida que as ligações se tornavam frequentes.
O toque da campainha havia me tirado do transe. Meus pensamentos estavam bagunçados, teria que tomar algumas decisões que nunca pensei que um dia aconteceria, precisava mudar algumas coisas na minha rotina. Novamente, precisava esquecer.
Abri a porta, dando de cara com , que sorria docemente pra mim.
- Oi. - nos cumprimentados com um beijo na bochecha. Ofereci um café e fomos pra cozinha. Enquanto eu preparava, ela me analisava. Eu não estava muito confortável, mas não tinha como fugir por muito tempo da minha amiga.
- Como você está, ? - ela indagou.
- Bem. - o seu olhar me repreendia. - Sério, estou bem. Só estou com um pouco de raiva, porque...
Meu celular tocara novamente. Peguei do bolso do meu jeans e mostrei o visor para ela.
- É a décima vez, ou mais. Estou brava por isso. Ele não me larga. Por que não sossega com a namorada dele?
Ela serviu seu café, enquanto eu sentava na pequena mesa que havia ali.
- Tem algo mais? - perguntou.
- Tem. - assoprei o café quente, sentindo o vapor no meu rosto. Suspirei antes de anunciar: - Vou largar a faculdade de arte.
- O QUÊ? Você está brincando, não é? - se alterou. Neguei. Definitivamente eu não estava brincando. - , você ama aquilo!
- Eu sei, eu sei. - disse eu. - Eu não aguento mais. É todo o dia. Eu não tenho mais a mesma criatividade, a mesma cabeça, muito menos a mesma paciência.
- Você tem certeza de que quer isso? - Assenti, bebericando o café. - Bom, então... Estou do seu lado.
- Obrigada, linda. - sorri pra ela. Meu telefone tocou novamente, fazendo-me revirar os olhos. Até bufou. havia se tornado meu carma. Não por muito tempo...
É sempre assim. Sempre haverá coisas na nossa vida que nos fazem tão bem que chega a ser insano, só que essas mesmas coisas não nos pertencem e, eventualmente, nos farão mal.
era uma dessas coisas.
Minha conclusão sobre ele? Não era mais necessário em minha vida. The end.
Claro que talvez, em uma possibilidade remota, eu sentisse falta daquele calor que sentia quando ele me tocava, do cheiro que emanava de sua pele e a intensidade com que aqueles olhos me encaravam... Mas é a vida e se eu continuar falando do que eu sentiria falta, provavelmente nunca mais sairia daqui.
Seres humanos foram projetados para se adaptar. Você obviamente conhece a teoria de Darwin e tudo mais, então...
- ! ! HEY! – ouvi um estalo de dedos na altura dos meus olhos.
- Hm. – murmurei.
- Garota, onde você está? – balançava a cabeça negativamente em minha frente.
- Na teoria da seleção natural. – ouvi minha voz dizer, enquanto meus olhos ainda estavam fixados em algum ponto da cozinha.
- O quê? – estreitou seus olhos.
- Não importa, esquece. – chacoalhei minha cabeça pra tentar voltar ao normal.
- Que tal procurar um psicólogo? Acho que esse não tá te fazendo bem...
- Quer saber? – sorri, pegando o celular que continha mais três chamadas perdidas do próprio. – Vou dar mais um fora nele, amigavelmente. Se mesmo sendo grossa não adiantou, talvez mostrar que eu não estou me importando funcione.
- E você não está?
- Ninguém precisa saber, . – sorri, sem mostrar os dentes.
Peguei meu celular e digitei rapidamente.
“Vá logo em busca da sua felicidade, pois eu já encontrei a minha.
Beijos, .”
Não me pergunte o que “eu já encontrei a minha” significou, pois nem eu mesma tenho certeza. Mas a vida é feita de aparências, não é?
Capítulo 7- Another day, another bed.
Ouvia Piece of My Heart, da Janis Joplin, no último volume, enquanto tomava um banho de espuma na banheira. Sério, quem inventou esse negócio merecia ganhar o prêmio Nobel ou algo assim, pois é um dos melhores métodos para espantar os problemas, preocupações e tudo o que estiver te atormentando.
- I want you to come on, come on, come on, come on and take it, take it! Take another little piece of my heart now, baby! Oh, oh, break it!... – eu tentava, inutilmente, imitar o timbre grave da Janis, enquanto passava um sabonete preguiçosamente pela minha perna direita.
O relógio devia marcar umas sete da noite e, graças a Deus, eu não havia mais recebido nenhuma ligação do . Submergi completamente na água, tentando prender a respiração pelo máximo de tempo que meus pulmões conseguiam. Eu adorava fazer aquilo e, não, não sei por qual motivo... Até que ouvi a campainha tocar. Ignorei. Tocou novamente. Ninguém iria interromper meu banho sagrado. Tocou novamente por duas vezes. Filho da puta. Tocou mais uma vez, mais uma, mais uma, outra.
- FUCK! – gritei, emergindo rapidamente, só então percebendo que meus pulmões estavam quase entrando em falência.
A campainha continuava a tocar incessantemente. Agarrei uma toalha vermelha e enrolei em volta do meu corpo, saindo do banheiro, inundando a casa inteira com a água que escorria dos meus cabelos pelo meu corpo por onde passava, enquanto xingava baixinho o abençoado que veio me encher o saco. Abri a porta de uma vez com a pior expressão facial que alguém poderia exibir... Arregalando meus olhos quando vi de quem se tratava.
- Hey, . – disse, com aquela voz rouca ridícula e as mãos nos bolsos. – Bela toalha. – arqueou uma sobrancelha, medindo cada centímetro do meu corpo.
- Obrigada. O que você quer? – perguntei, secamente.
- Hã... Estou seguindo ordens.
- Que ordens?
- As suas, pra ser específico.
- Não entendi.
- Você disse mais cedo pra eu buscar minha felicidade, então eu vim...
- Não ouse! – interrompi, cerrando os olhos. – Não me venha com essa frasezinha clichê e ridícula.
Meu tom não era de raiva, nem ódio, nem nada disso. Pelo contrário, era bastante amistoso e demonstrava superioridade.
- Come on, . Não vai me convidar pra tomar um café, ou um suco... Um Martini?
- Martini é bebida de veado. – agora eu arqueei uma sobrancelha, provocando-o.
- Cerveja, então? – pendeu sua cabeça para a direita.
- Agora você está falando a minha língua. Mas, ainda assim... Não. – sorri sem humor.
- Então eu mesmo me convido. – disse, enquanto passava pelo pequeno espaço da porta, movimentando seu corpo perigosamente perto do meu. – Sabe, eu gosto daqui... Tem o seu cheiro.
- E a Mayah, como está? – fechei a porta com força, virando-me pra ele, que já estava sentando-se no sofá e cruzei meus braços.
- Isso é ciúme na sua voz, ? – ele também cruzou seus braços (e que braços!) que encaixavam-se perfeitamente embaixo do tecido fino da camiseta verde musgo, exibindo mais um daqueles estúpidos sorrisos enviesados.
- Vai sonhando, . – rolei os olhos, tentando não parecer uma idiota. – Eu não me importo com ela ou... Com você.
- Não é o que está parecendo. – fez menção de levantar, fazendo-me dar um passo pra trás.
- Não se atreva! – minha voz demonstrava nervosismo e eu queria me torturar por isso.
- Me atrevo sim! – se levantou em um pulo e, antes que eu percebesse, ele já estava na minha frente. Perigosamente perto.
- ! Vá embora. – usei o tom mais seco que eu poderia proporcionar. Fechando os olhos rapidamente, eu tentava me controlar. A veia do meu pescoço pulsava e eu poderia apostar que ela estava quase saltando. – É melhor assim, se você quiser manter esse rosto intacto.
Respirei fundo, tentando controlar aquela fusão de querer e não poder. Eu não podia me humilhar dessa forma apenas por sexo. Eu não queria o que tinha a oferecer. Eu não aceitaria migalhas de ninguém, muito menos dele.
Olhei-o com firmeza, mostrando a minha certeza de que não estava aberta a negócios. deu um passo para trás, incerto, e eu pude respirar normalmente.
- Por que você nunca me contou? – eu finalmente perguntei, depois que estávamos há minutos em silêncio. Não precisava de mais explicações, ele era esperto o suficiente para entender do que se tratava.
- Porque não importava. – ele disse aquilo como se fosse a coisa mais óbvia.
- NÃO IMPORTAVA? – indaguei.
- É, . Não importava. E, na verdade, não importa agora. Mayah é minha amiga de infância e eu não posso dizer não para uma coisa que já estava certo. Já estava combinado que nós iríamos continuar a relação quando ela voltasse. Eu não posso!
- Ótimo! – dirigi-lhe um sorriso gélido, demonstrando minha repugna. – Então, eu ainda não compreendi o motivo importantíssimo que fez você vir até aqui... Se Mayah é tão importante, vá até ela, . Não perca seu tempo vindo aqui!
- Aí é que está! – ele deu um passo à frente, mas eu me mantive imóvel. Não iria cair nos encantos de novamente. Nunca mais. – Eu não quero deixar você, o que nós temos é legal. Não vejo problemas em continuarmos. Até porque, você é ótima de cama!
Soltei aquela gargalhada. Aquela em que eu conseguia demonstrar toda a minha raiva e desgosto!
- É, já ouvi isso. – respondi. – Mas não, , eu não estou interessada nas suas migalhas, na sua proposta.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. cuidadosamente se aproximou, ficando a centímetros de distância. Continuei impassível, imóvel. Mantendo o meu escudo firme, sem deixar me amolecer pela aproximação perigosa. Senti os centímetros diminuírem, lentamente, e a mão de encontrar meu braço esquerdo. Eu ainda estava de toalha e isso não estava certo... Nem um pouco! Seu polegar traçou uma trilha invisível no meu braço e, no mesmo instante, meu braço se arrepiou, meu corpo todo se arrepiou... E, mesmo que ele não pudesse ver, eu estava pegando fogo. No braço, no corpo todo. Eu sentia a falta de , mesmo que sexualmente.
Não me movi. Senti a mão dele fazendo um caminho perigoso, descendo até minha mão, subindo novamente e indo até meu ombro. Eu não desgrudava meus olhos dos seus . Não podia ceder. Atrevendo-se, ele colocou a mão na barra da minha toalha, tentando arrancá-la. Foi aí que eu despertei. Com um tapa em sua mão, afastei-o. Meus batimentos cardíacos estavam disparados, minha respiração estava ofegante e, por um momento, cogitei a proposta de . Não!
- Vá embora! – disse aquelas duas palavras lentamente, rezando para que ele as compreendesse. – É melhor assim. E eu preciso sair, você está me atrasando!
deu seu melhor sorriso sacana, como se ele soubesse que eu não tinha compromisso algum, que aquela era só uma desculpa esfarrapada, enquanto eu estava presenciando uma guerra dentro de mim.
- Nós dois sabemos o quanto somos bons juntos. Nisso. Mas tudo bem!
Com um suspiro longo, ele passou por mim, abrindo a porta e desaparecendo. Ao ouvir o clique da porta se fechando, pude dar um suspiro de alívio, que logo se tornou tortura. , ao passar, deixou o rastro do seu perfume. Droga!
Mas, mesmo assim, era um alívio. Por um segundo, pensei que ele não ia desistir e eu não ia resistir. Mas eu venci! Ele fora embora, mesmo sabendo que eu não iria agüentar por muito tempo.
As coisas aconteceram rápido demais.
Em um segundo eu estava sozinha, suspirando aliviada... E no outro segundo, a porta se abrira, mostrando um sedento, furioso e irresistível. Não entendi muito bem como aquilo fora acontecer; quando dei por mim, sua boca tinha encontrado a minha e eu já não me importava com mais nada. Tentei relutar, falar algo... Tentei encontrar força em mim para fazer isso. Mas logo ouvi a porta se fechar atrás de nós, no mesmo momento em que ele envolvia minha cintura e me tirava do chão.
Suas mãos continham uma corrente elétrica. Meu corpo entrava em guerra, por onde elas passavam, como se dissesse “vocês por aqui, de novo”. O beijo de era delicioso; nossas línguas dançavam em um ritmo louco.
cambaleava comigo pelo meu apartamento, enquanto me beijava e deixava a toalha por qualquer canto da casa. Eu estava nua em pêlos, enquanto ele ainda estava completamente vestido. Injustiça!
- Onde... É... - ele tentava perguntar, enquanto eu o atacava.
- À direita. – respondi, sabendo que ele se referia ao meu quarto.
me atirou na cama, logo após largando seu corpo sobre o meu, fazendo-me sentir todos os seus músculos, sendo amortecido pelo colchão. Enlacei seu corpo com minhas pernas, não permitindo que ele saísse dali.
Arranquei sua camisa, atirando-a para qualquer lado, e me concentrei em passar as mãos por toda a extensão de suas costas e de deixar marcas. Eu não me importava com as conseqüências, só em arranhar cada pedacinho de . Não demorei muito para tirar o resto de sua roupa, igualando-o a mim.
Não estávamos no clima da enrolação. Nem das preliminares. Quando eu consegui pegar fôlego, já havia me penetrado com uma força tremenda, dando a sensação de que eu iria explodir. Seus movimentos eram ritmados e intensos e, por causa disso – ou pelo tesão enorme –, não demoramos muito chegar no clímax.
Senti o corpo dele pesar sobre o meu. O ar me faltava e eu estava em transe. ofegava em meu ouvido e aquilo era, de certa forma, confortante.
- Transamos em uma cama... Finalmente! – falara, depois de alguns minutos de recuperação, para o meu ombro. – E você mandou super bem!
Fiquei alguns segundos encarando o teto do meu quarto, sem entender o que estava acontecendo ali. nunca havia me tratado assim. Ou talvez eu houvesse fantasiado bastante as coisas.
Dei um empurrão nele, não obtendo muito sucesso.
- O que foi? Estou pesando? – ele levantou, sentando ao meu lado.
- Agora que já conseguiu o que queria, já pode ir embora... Não? – disse eu, com toda a frieza que absorvi.
- O quê? Por quê? Você nunca foi disso! - ele estava estranhando aquilo? ÓTIMO!
- Mas agora sou! Aliás, você também nunca foi disso, não é? – lancei um sorriso gélido para ele, levantando da cama, em direção ao meu guarda-roupa. Coloquei meu roupão felpudo, cruzando os braços a minha frente. – “E você mandou super bem”, qual vai ser o próximo passo? Deixar o dinheiro no criado-mudo pelo serviço bem feito? Canalha!
- ! – ele se exasperou, levantando da cama em minha direção. – Qual é! Eu nunca tratei você assim! Eu sempre fui leal e verdad...
A frase mentirosa de foi interrompida pelo seu próprio celular, localizado no carpete do meu quarto. Nós dois olhamos para o aparelho, que exibia bem grande o nome de Mayah. Minha gargalhada ecoou pelo quarto, superando o som do celular.
- É, nós dois sabemos o quanto você foi leal e verdadeiro. Mas querido, para um sexo casual, sabemos que não é preciso de muito! Então, não me iluda. Muito menos iluda a si próprio!
- ! Eu nunca te tratei como um sexo casual, por favor! Você foi uma...
- Não ouse, ok?! E vá atrás da Mayah. Ela está atrás de você. E não se preocupe, o serviço de hoje foi por conta da casa! – dei ênfase nas últimas palavras e sentia meus olhos arderem. Mas chorar na frente dele já era demais!
Ele tentou retrucar, mas viu, pela minha feição, que já havia estragado tudo. Eu estava me sentindo um lixo. Estava me sentindo a sobra! Estava me sentindo a outra, literalmente!
Desviei meu olhar de , vendo-o vestir-se rapidamente e indo embora do meu apartamento de vez.
O silêncio, depois que ele foi embora, era ensurdecedor. Uma tortura. Respirei fundo, tentando fazer com que aquelas lágrimas não caíssem, mas já era tarde demais. Em um gesto de fúria e coerência, arranquei os lençóis da minha cama. Levei para a área de serviço, juntando a toalha no caminho, e os coloquei na máquina de lavar, concentrando-me em colocar bastante sabão em pó. Não queria o cheiro dele me perseguindo.
Voltei para o quarto, arrancando o roupão com a mesma vontade. Liguei o chuveiro no gelado, sentindo calafrios e agonia no corpo todo. Apanhei a bucha, colocando bastante sabonete líquido e esfregando em cada pedaço do corpo que havia tocado, eliminando todos os cheiros, toques e lembranças dele.
Não queria mais saber de . Não queria lembrar do seu cheiro e correr o risco de enlouquecer. Nunca mais!
Continua...
Nota da Autora: Oi, doçuras! Como estão?
Como foram de Natal e Ano novo?
Demorei um pouco pra mandar esse capítulo, mais do que eu esperava... porque eu queria deixar ele do jeito que eu imaginei, e queria que fosse melhor que o outro. Acho que não tive muito sucesso, mas...
O que acharam? Esse fave tá surpreendendo, né?
Sei que essa nc não foi das melhores, mas prometo bastante coisa pra depois! Hehe.
Por favor, não me abandonem! E não odeiem o pobre coitado!
Amei cada comentário e apareço aqui todos os dias pra verificar se alguém mandou algo fofo! :)
E eu tenho um blog, onde escrevo textos, coisas que penso e, às vezes, posso postar trechos da Me Seduz. Vou colocar o link!
Espero que tenham gostado desse capítulo, e até logo, bem logo (eu espero)!
Um beijão,
Nicoly.
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Nota da Beta: Qualquer erro nessa fanfic é meu, então me avise por email ou mesmo no twitter. Quer saber quando essa fic vai atualizar? Fique de olho aqui. Obrigada. Xx.