Autor: Lucas Esteves
Beta-reader: Camila Darc/Abby/Leeh
Prólogo
"Quatro meses... Os mais longos quatro meses das nossas vidas haviam se passado e o mundo a nossa volta parecia ter mudado tão radicalmente que se tornara irreconhecível aos nossos olhos. Mas eu sabia - eu percebia agora, observando as pessoas de cima, tendo só as luzes da cidade noturna no meu campo de visão, desaparecendo no horizonte, não importando para onde eu olhasse - que o mundo pouco se importava; eles estavam alheios a qualquer coisa que não fosse suas próprias vidas, ou a dos outros... ou algo do tipo.
As nossas vidas, independentes do resto do mundo, por outro lado, estavam completamente diferentes. Fazia quatro meses que estávamos em Londres, quatro meses que não víamos nossos pais e quatro tristes meses que havíamos perdido quatro dos nossos melhores amigos.
Nesses quatro meses quase desistimos por diversas vezes, mas cada vez que isso acontecia a dor da perda latejava no peito e nós voltávamos à busca. Foi mais por nós do que por eles, um pouco de egoísmo, eu acho. Mas, segundo Alice, não importava porque, importava que fosse feito.
A lua estava cheia, enorme, e, do alto daquele prédio, ela parecia quase alcançável, possível de se tocar. Iria amanhecer, mas ela estava longe de desaparecer do céu. Então, dali a algumas horas todos estariam achando aquilo estranho, astrônomos estariam procurando explicar o fenômeno. A NASA enlouqueceria ao ver no céu uma lua ao meio dia, no mundo inteiro. Alguns... Poucos, na verdade, saberiam o que estava por vir...
E eu me senti bem por saber que havia algo às sombras capaz de me matar, porque falhando na única oportunidade de salvar aqueles quem eu amava, eu perderia qualquer desejo de viver."
Capítulo 1 – Paranóia
Dois meses após os eventos de Midnight
Bum bum be-dum bum bum be-dum bum
A saia, de um tecido fino e esvoaçante, um palmo acima dos joelhos, fora mais do que o suficiente para convencer o segurança de que a boate agitada e barulhenta, preenchida por música eletrônica, não era um lugar discreto para um amasso.
Bum bum be-dum bum bum be-dum bum
Os saltos altos chamavam a atenção para si com o bater seco que ecoava do chão de madeira pelo corredor vazio, apenas alguns minutos após o segurança da boate ir ao banheiro limpar a roupa de um acidente envolvendo sua camisa branca e um copo de cerveja.
Bum bum be-dum bum bum be-dum bum
A atenção que ela chamava para si tornou-se indesejada a partir do momento que ultrapassou a porta grande de vidro que restringia o acesso àquela área. Foi quatro o número de seguranças que tentou tirá-la dali.
Bum bum be-dum bum bum be-dum bum
Uma chave de braço e um chute nas costas. Um soco forte com as mãos delicadas na bochecha direta e um empurrão. Mais um chute, dessa vez nas costelas. E um golpe direto na cabeça com um extintor, foi o suficiente para nocautear os quatro homens vestidos de terno e seguir a diante.
It's a thief in the night to come and grab you
It can creep up inside you and consume you
E então ela finalmente chegou ao seu local de destino: a sala muito luxuosa e extremamente restrita e protegida do dono de uma das maiores boates do subúrbio de Londres.
– Eu espero que você saiba que está em uma ala estritamente restrita da boate, mocinha – a voz debochada do homem baixo, vestido suntuosamente, disse de trás da mesa de vidro.
O olhar frio e objetivo dela não vacilou.
– Você tem algo que eu quero.
– Eu não vendo drogas aqui dentro – o olhar do homem ergueu-se para ela. – Não tenho culpa se as pessoas da sua idade vêm aqui para usá-las.
Ela sentiu uma vontade furiosa de socar aquele homem ali mesmo, mas ainda que o desprezo transparecesse no olhar, ela continuou imóvel.
– Você sabe do que eu estou falando – ela disse, impassível. – O seu pessoal roubou algo de grande estima que pertencia a um amigo meu e eu quero de volta.
Ele a olhou com maior minúcia. Curiosidade. Depois soltou uma risada alta e levantou as sobrancelhas com arrogância.
– Eu vou chamar a segurança, garota, você está querendo arranjar confusão no lugar errado, com a pessoa errada.
O homem se virou e estendeu a mão ao telefone.
Ain't gonna play nice
Watch out, you might just go under
Ele não viu o que aconteceu, nem como. Só viu que antes que pudesse sequer tocar o aparelho, o mesmo disparou de súbito com força e velocidade de cima da mesa e atingiu a parede da sala tão intensamente que foi reduzido a migalhas.
Ele olhou assustado para a menina e o olhar dela continuava estável como antes. Duro e frio. Só que agora havia um sorriso discreto no canto dos lábios.
Ele piscou, e de alguma forma pareceu ser tempo bastante para que a menina avançasse com raiva até a mesa e batesse as mãos com força na mesa de vidro. A mesa tremeu, mas não chegou a quebrar.
– Você sabe do que eu estou falando – ela repetiu, furiosa. – Estou falando da guitarra banhada à prata, gravada com os autógrafos de todos os integrantes da banda The Who, leiloada há cinco anos pelo Top Of The Pops para arrecadar dinheiro para uma instituição de crianças com câncer por vinte mil libras. A mesma guitarra que um amigo meu adquiriu através desse leilão e que você roubou dois meses atrás quando ela veio de um vilarejo no interior para a casa da família dele em Londres, depois que ele morreu em um incêndio. É disso que eu estou falando.
O homem trincou os dentes de ódio, mas suas mãos estavam tremendo, espremidas contra o vidro da mesa, de puro pavor.
– Você está louca...
Ele nem mesmo tivera tempo de terminar. A menina pegou uma pequena estátua de ouro em cima da mesa e bateu com força nas costas da mão esquerda do homem.
Disturbia
Am I scaring you tonight
Ele gritou de dor, mas ela gritou mais alto de raiva.
– Você sabe muito bem que roubou a guitarra uma semana depois que ela chegou na casa dos tios dele e, se você não me disser onde ela está por bem, me dirá por mal.
Ela levantou a estátua novamente ao ar e olhou-o em tom de ameaça.
– Eu a vendi! – ele urrou, comprimindo as pálpebras, esperando pela dor esmagadora na outra mão. – Eu a vendi duas semanas depois de tê-la roubado.
– Pra quem?
– Eu não...
Novamente ele gritou de dor, e ela ergueu a estátua da mão direita dele em ameaça,mais um vez.
– Pra quem? – ela perguntou lentamente.
– Um colecionador! – ele disse prevenindo que a estátua machucasse uma terceira vez suas mãos. – Um colecionador chamado Stanley Forkman que negocia itens raros e representativos da música com os Caça-Tesouros.
– Caça-Tesouros?
– Sim... São como são apelidados os ladrões que negociam os roubos para as outras pessoas aqui na região.
Ela suspirou. Parecia desanimada, mas de alguma forma muito centrada nos próprios pensamentos.
– Sabe onde posso encontrá-lo?
– Não... Tudo o que sei é que ele tem um apartamento em um prédio de nome em Londres, mas não sei exatamente qual.
A menina balançou a cabeça, os cabelos enrolados balançaram junto. Por detrás dos olhos castanhos, o homem viu uma determinação sombria. Os olhos frios calculavam e planejavam no rosto jovem e delicado da garota.
– Quem é você? – o homem indagou. – Por que está tão interessada nessa guitarra? O garoto que a comprou morreu meses atrás.
Ela sorriu para ele, os olhos ainda calculistas.
– Meu nome é , sou estudante do Ensino Médio, prazer – ela disse com cinismo. – A guitarra, a propósito, pode muito mais do que juntar poeira dentro de um armário velho com raridades e, eu acho que você deveria saber que eu sei que você acabou de chamar a segurança pelo dispositivo vermelho debaixo da mesa.
O homem reagiu virando a mesa contra ela e se armando de um revolver. Ele não esperou por uma reação. Atirou várias vezes seguidas, de olhos fechados, contra a menina. Tão rápido quanto o silêncio havia sido extirpado da sala pelo som alto dos tiros, ele voltou quando as balas acabaram.
Mãos tocaram as suas e o forçaram a largar a arma. Quando o homem abriu os olhos novamente, sorria travessa e abria suas mãos, despejando nelas as cinco balas que ele atirara contra ela.
Ela virou-se e caminhou até a porta de vidro antes de abri-la.
– Aliás, o dono da guitarra vai querer ela de volta – ele continuou a encará-la, confuso. – quando ele voltar.
I gotta get out, oh, figure this shit out
E ela deixou o cômodo com a mesma tranqüilidade com a qual havia entrado.
De volta ao corredor de chão de madeira, onde se ouvia abafada a música da boate, três homem altos e grandes, vestidos formal e ameaçadoramente em ternos pretos, a abordaram com armas em mãos.
Ela deu uma risada debochada e antes que eles pudessem perceber, ela investira um soco contra o que estava mais perto de si, pegou a arma dele e tirou o cartucho de balas, jogando cada um para um lado.
Um tiro foi disparado contra , mas ela deslizou para o chão e esticou as pernas. Os pés firmaram no chão e tomaram impulso para atingir os dois outros seguranças entre as pernas.
Ela levantou e distribuiu uma joelhada na testa de cada um, o suficiente para deixá-los inconscientes no chão.
Ela passou pela porta que a levava de volta a boate, e imediatamente agarrou as gravatas dos dois seguranças que a esperavam ali. Um puxão de cada lado, rápido e preciso, e um bateu a cabeça no outro e gritaram de dor. O grito foi abafado pela música e o movimento foi ágil o bastante para que ninguém percebesse.
Put on your green lights, we're in the city of wonder
No segundo seguinte a menina enfiou-se no meio do monte de gente que dançava. Eles não perceberiam a movimentação nem em um milhão de anos. A maioria estava drogada, outros apenas bêbados e as poucas exceções estavam mais preocupadas em dançar.
Ela avistou a porta em menos de dois minutos. Avistou também dois homens a procurando no meio da multidão pouco a frente e mais dois postados diante da posta.
sorriu e ao se aproximar do segurança mais próximo, puxou o braço de um garoto ao seu lado.
O menino loiro devolveu um sorriso para ela, e eles começaram a dançar muito próximos um do outro. Um dos seguranças passou despercebido, mas o outro a pegou com força pelos braços e encostou discretamente a ponta de uma arma nas costas da menina, depois de empurrar o loiro para longe.
O loiro trombou com outro rapaz, também loiro, mas um pouco mais alto, que estava dançando sozinho no meio da multidão. O rapaz olhou para o outro, para e o segurança, irritado.
– Ei! Sai pra lá. – disse ele. E empurrou o menino a sua frente de novo contra e o segurança.
A arma desviou pelo lado da barriga de e ela abaixou o braço, prendendo o braço do homem.
O menino que estava drogado desapareceu na multidão e o outro se aproximou dela e do segurança, irritado.
– Ela é uma arruaceira – disse o segurança. – Está tudo sobre controle.
– É – o rapaz respondeu. – Eu sei.
E chutou com força a mão do segurança, que urrou de dor e deixou a arma cair. Um segundo chute no peito do homem, e ele caiu sem ar no chão, lutando para normalizar a respiração.
O loiro pegou a mão de e a puxou para longe dali.
– Poxa, , porque você tem que fazer sempre do jeito mais difícil? – ele perguntou irritado, olhando para os lados e seguindo pela multidão.
– Você sabe que eu gosto de grandes emoções, Tom – ela riu.
– Teria sido tão mais fácil sair daqui se você tivesse me deixado entrar.
– É, mas seria chato – ela rodou os olhos. – Aliás, a saída não é por aqui.
Ela parou quando escapou do amontoado de pessoas do lado de uma parede alta. Os lábios desenharam um sorriso presunçoso.
– É sim – e ele apontou para cima.
Para onde a menina olhou logo em seguida e viu uma janela de vidro aberta.
Your mind is in disturbia
Ain't used to what you like
Os dois jovens atravessaram a rua correndo e olhando para os lados. O barulho da boate ficava cada vez mais distante.
Tom tirou um chaveiro do bolso e apertou um botão na lateral da grossa chave preta.
A Mercedes há poucos metros deles piscou as luzes e emitiu um discreto ruído grave. Tom abriu a porta do passageiro para e contornou o carro tomando o lugar do motorista.
O ruído baixo do motor preencheu o carro e eles saíram dali.
– Da próxima vez você que fica de fora! – ele disse.
A menina fez um bico e cruzou os braços. Ele sabia que ela estava com vontade de rir, mas ela ainda estava fingindo-se emburrada quando disse:
– Só porque eu gosto de me divertir...
Bum bum be-dum bum bum be-dum bum
Bum bum be-dum bum bum be-dum bum
Capítulo 2 – A Primeira Alme
Aquele prédio no centro velho de Londres estava em desuso há anos. Suas condições físicas eram deploráveis e as poucas pessoas que passavam diante dele podiam jurar pela sua aparência que a sujeita havia tomado conta do lugar por dentro.
Ninguém sabia que há pouco mais de dois meses cinco pessoas haviam chegado ali e usado o lugar como esconderijo. Propositalmente, com intenção de deixar o lugar parecer inabitável, por fora, nada havia mudado, mas dentro havia limpeza e conforto suficiente para que eles passassem uma noite ou outra.
De todo o modo, já era tão tarde da noite quando a Mercedes SLK chegou rápida e deslumbrante que ninguém que morava por aquelas redondezas notou a movimentação atípica.
- Eu não acredito que vocês chegaram tarde de novo! – Alice resmungou.
abriu a boca para responder, mas Tom, querendo evitar uma discussão, a interrompeu enquanto se jogava cansadamente no sofá velho onde Dougie estava deitado até os dois entrarem.
- Nós não temos culpa – ele disse. – É uma guitarra e vale muito dinheiro. Nós deveríamos ter imaginado que uma vez que ela foi roubada iria acabar sendo vendida e passando de mão em mão.
suspirou com pesar, de braços cruzados, em pé ao lado de Alice.
- É verdade – ela concordou, sem dar margens à discussões, assim como Tom. – Não adianta a gente ficar se lamentando por isso agora. Temos que ir atrás do dono atual...
Ela não precisou perguntar quem era.
- É um colecionador de raridades da música que mora em algum prédio rico do centro – disse .
Dougie suspirou e sorriu.
- Até que enfim, uma boa notícia!
Tom, de olhos fechados, concordou com ele, mas as três mulheres da sala pareceram não entender e correram os olhares para eles, confusas.
- O que é? – ele perguntou. – É uma notícia boa, não é? O colecionador, quero dizer. Finalmente chegou em alguém que não vai revendê-la.
Alice levantou as sobrancelhas e balançou a cabeça lentamente, ponderando, enquanto andava até o centro da sala.
Estava escuro e, sob a luz das velas, eles mal podiam ver uns os outros.
- Tem razão! – disse . – E podemos aproveitar o fato de que, pela primeira vez em um mês não estamos correndo contra o tempo para procurar os duas outros almes.
- O da e o do Harry... – Dougie concluiu.
deu os ombros.
- Pra mim parece uma boa idéia. Eu e o Tom podemos localizar o colecionador e recuperar o alme do Danny, a guitarra, enquanto a inventa uma visita à família da e o Dougie, à do Harry, para descobrir quais são seus respectivos almes.
Tom, Dougie e se entreolharam e concordaram. A idéia era boa, tinha grandes chances de dar certo e pouparia muito tempo.
Então eles olharam para Alice.
- Eu acho que pode dar certo – ela soou indiferente. – Vocês só não podem supor o alme errada, nós não temos tempo para lidar com possibilidades. Vocês precisaram ter certeza.
Todos eles pareceram concordar, mas estranharam quando a mulher virou-se e seguiu em direção a saída.
- E você? Onde aí? – Dougie perguntou.
Ela parou à porta, mas não chegou a virar-se para eles.
- Eu tenho coisas para resolver – ela disse.
E no segundo seguinte já não estava mais diante dos quatro.
suspirou alto e jogou-se no sofá menor ao lado de .
- Isso está me desanimando – a outra disse.
Dougie e Tom não responderam, mas sabia que eles estavam na mesma situação. Ela olhou para uma pulseira velha de pedrinhas negras no seu pulso. Os olhos encheram-se de lágrimas e o coração, de tristeza. Os outros três sentiram-se exatamente da mesma forma.
- Nós estamos cada vez mais perto – ela disse. – Não podemos desistir agora. Seja por nós ou por eles, não podemos desistir.
Em silêncio e não querendo pensar no dia seguinte, os outros três concordaram. Eles não poderiam desistir.
E mais uma vez, dentre outras inúmeras durante aqueles longos quatro meses, o silêncio se instalou no lugar de maneira violenta. Era denso, quase opressivo, fazendo os quatro sentirem-se isolados um dos outros. Era como um monstro que se escondia nas sombras com um sorriso insano nos lábios forçadamente fechados, apenas esperando para pegá-los no momento em que eram realmente vulneráveis: quando estavam sozinhos.
Mas Dougie e espantaram o monstro de volta para a escuridão do prédio quando se levantaram.
- Bom, gente, nós já vamos – disse . – Tom, nos vemos amanhã?
Ele olhou para ela e para Dougie e forçou um sorriso fraco.
- Por que não trocamos de lugar, Dougie? Eu vou à casa do Harry e você com a ! – ele propôs.
- Tem certeza?
- Claro, por mim, tanto faz...
Dougie abriu um sorriso e não disse mais nada, para Tom estava mais do que combinado. Ele e faziam uma dupla muito melhor do que se ela estivesse com Tom.
- Bom, boa noite pra quem fica, então... Amanhã vamos atrás da guitarra – sorriu.
e Tom retribuíram.
- Boa noite.
E logo depois os dois desapareceram pela mesma porta por onde Alice havia saído momentos atrás. E Tom quase podia ver o monstro silencioso espichar a cabeça maligna para fora da escuridão, enquanto observava abaixar o olhar para o chão, remexendo na pulseira preta do pulso nervosamente, com os olhos cheios de lágrimas.
- Você sente muito a falta dele, né, ? – Tom perguntou.
Ele aproximou-se dela no sofá, pousando o olhar na mesma pulseira.
- Muita, Tom... Mas não só dele, da também... – ela disse com a voz embargada. – Sempre fomos nós quatro, sabe? E era pra ser pra sempre.
Um suspiro pesado deixou os lábios de Tom.
- Sinto a mesma coisa em relação ao Danny e ao Harry – houve um vacilo na voz dele que fez levantar os olhos. – Mas tenho que admitir que nunca senti uma dor tão grande como a que senti quando vi a debaixo daquele nuvem negra, a vida dela...
Mas o que ele ia dizer morreu em algum lugar dentro de si e a frase pairou no ar morbidamente. O olhar de para ele, de repente, era muito curioso.
- Tom, eu posso fazer uma pergunta um tanto quanto indiscreta?
Ele olhou para ela e tentou parecer mais animado ao consentir, mas sua expressão continuava tomada por uma tristeza destrutiva.
- Claro que pode, !
- Você... – ela parou para procurar as palavras certas, mas não havia como perguntar aquilo sem soar indiscreta. – Você gostava da ? Quero dizer, você acha que se apaixonou por ela?
Ela viu os lábios do rapaz se entreabrirem, mas não passou disso. Algo ficou preso na sua garganta e parecia estar lá ha muito tempo. Ela só queria o ver dizer algo que precisava, algo que o corria por dentro por não ter sido dito antes.
Ele sentiu exatamente a mesma coisa.
- Eu tenha bastante certeza de que estava e ainda estou – foi o que ele disse.
Então um sorriso brotou nos lábios. Pequeno, sutil, não mais do que um vestígio, mas pela primeira vez em muito tempo, não era forçado. Era pela razão certa.
- Então, Tom, não deixe de acreditar que nós vamos conseguir trazê-los de volta – disse.
Ela sorriu para ele e tirou a pulseira de pedrinhas negras do seu pulso. Olhando para ele, como se esperasse um sinal de que ele confiava nela, a menina estendeu as duas mãos segurando o objeto para ele.
Tom confiava, mas era a primeira vez que a via tirar aquilo do pulso desde que ela havia colocado lá.
- Significa muito mais pra você – ele disse.
O sorriso dela sustentou-se.
- Eu sei, mas é você quem precisa mais – ela puxou o braço esquerdo dele e passou a pulseira pela mão, ajeitando-a no pulso do amigo. – O sempre apoiou demais eu, a e a . Acho que por ser o homem do nosso grupinho, sempre nos deu bastante força... Quem sabe ele não te ajuda também?
Tom soltou uma risada.
- Espero que ele consiga, porque eu acho que estou precisando.
Os dois desceram os olhares para a pulseira negra.
- É o alme dele, não é? Eu acredito que se isso pode trazê-lo de volta da morte, pode então nos conectar a ele de algum modo... – o olhar de voltou para o rosto de Tom. – Desde quando eu a coloquei, toda noite antes de dormir, eu peço a ele que me ajude a trazer ele, a , o Harry e o Danny de volta... E eu acho que de alguma forma, ele ajuda...
- Eu preciso de ajuda.
Ela ouviu a frase deixar os lábios do amigo como a mais dolorosa das confissões. Entretanto, ela já sabia bem disso e não precisava mais do que olhá-lo nos olhos para saber que ele queria e precisava de ajuda.
- Eu não sei se tudo isso é só besteira da minha cabeça, Tom, mas talvez você devesse pedir ajuda também...
Se ela ia dizer alguma coisa, Tom não sabia, mas não chegou a ouvir o fim da frase. Uma lágrima saltou para fora do olho da menina como um bichinho saindo timidamente da toca. Escorreu pela bochecha rápida e ao mesmo tempo suavemente. E dissipou-se no canto dos lábios.
Tom tocou-lhe a face com o carinho; o polegar apagou os vestígios que a lágrima deixara no rosto bonito de .
- Eu vou pedir e ele vai ajudar... A todos nós, ... – ele disse.
Ela assentiu silenciosamente.
- Vamos embora, Tom? Esse lugar às vezes ainda me dá arrepios.
O menino sorriu para ela e se levantou. Puxou-a para junto de si e os dois saíram dali.
O monstro do silêncio colocou mais uma vez a cabeça para fora do breu. O fogo no pavio das velas crepitava nos seus últimos segundos de vida. O monstro só não bufou irritado porque era o próprio silêncio.
Por hora, não havia mais ninguém ali para ele assombrar. Mas fora de Londres, longe dali, havia... E era a sua próxima parada.
Capítulo 3 – O Orfanato Becksonvill
Adam Smith sorriu com o canto dos lábios. Os olhos estavam fixos em Felícia Albrown. E ela sorriu de volta para ele quando a senhora Duffrey passou entre os dois e deixou as provas em cima das suas carteiras.
- Boa sorte – a garota disse em um murmúrio.
Havia um quê de sarcasmo na voz dela. Talvez fosse apenas confiança... Mas a Sra. Duffrey, mesmo tendo ouvido o comentário, não percebeu. Ela só sorriu como se aquele momento a deliciasse e respondeu:
- Vocês irão precisar!
Adam teve que morder o lábio para conter uma gargalhada. Felícia, por outro lado, abaixou a cabeça para a prova e pôs o lápis na mão em postos.
Era claro que eles não precisariam de sorte, quando tinham as respostas da prova decoradas na ponta da língua. Copiadas direto do gabarito original que eles tinham achado no armário da professora dois dias atrás.
Quando os dois, quase ao mesmo tempo, abriram a prova, eles sabiam as respostas antes mesmo de ler completamente as perguntas.
O meio sorriso no canto dos lábios do moreno continuou lá enquanto ele pegava o lápis e começava a escrever as respostas sem pressa.
Ah! Azar da bruxa velha se ela achava que eles eram um bando de órfãos ignorantes incapazes de roubar o gabarito de uma prova. Talvez só o que faltasse para que os outros também passassem a perna nela fosse coragem, mas isso Adam e Felícia tinham de sobra. O que ela faria se pegasse os dois colando?
Certamente não contaria para os pais deles.
Adam quase vacilou e riu alto ao pensar nisso.
Não que gostasse de ser órfão e viver naquele maldito lugar. Rezava todos os dias para se lembrar da sua vida antes do acidente que matara seus pais e tirara cada uma das memórias da sua vida inteira.
Era justamente para afastar o sofrimento de tentar se lembrar de algo e não conseguir que ele usava o melhor do seu humor negro para tirar alguma pequena coisa boa de tudo aquilo. Mesmo que não valesse a pena.
Entretanto, mais uma vez a prova de matemática incrivelmente difícil e que de nada contribuía para sua formação escolar o distraiu e fez com que não voltasse a pensar no rosto anônimo dos pais e na sua vida antes de ser achado pela senhora Teresa, a dona do orfanato Becksonvill.
Só quando ele acabou a prova mais de meia-hora depois – contando o tempo em que havia apenas embromado – é que ele voltou a pensar nisso.
Normalmente, quando estava com os rapazes do orfanato ou conversando com Tiff, o filho da cantineira, que sempre lhe arranjava uns biscoitos fresquinhos, ou até mesmo com Felícia, sua melhor amiga dentro daquele inferno, os pensamentos sobre tudo o que havia esquecido se afastavam totalmente. Mas nem nesses momentos ele sentia que pertencia àquele lugar.
E não ajudava ser o único caso de perda de memória entre as mais de cem crianças e adolescentes que moravam no orfanato.
Adam suspirou, balançando os cabelos encaracolados e colocando as mãos nos bolsos furados. Odiava tanto o trapo que a Sra. Teresa os fazia usar como roupa. Não que eles fossem obrigados, só que não tinham nada além de várias peças velhas de roupa e a Sra. Teresa insistia que tinha coisas mais importantes que roupas novas na vida.
Ela é uma bruxa, isso sim!
Ele nem estava há tanto tempo ali e já odiava aquele lugar tanto que se perguntava como Felícia havia suportado viver ali sua vida toda.
Será que ela não se perguntava se os pais haviam a deixado?
Porque ele certamente se perguntava sobre as milhares de possibilidades da sua vida antes do acidente. Ninguém o reconhecera, ninguém sabia quem ele era ou como havia terminado desmaiado, quase morto, dentro de uma caverna suja e úmida que a Sra. Teresa nunca ousaria explorar se Marie, sua pastor alemão, não tivesse entrado latindo veemente.
“Você poderia ter sido devorado por um urso!”, ela dizia.
Como havia chegado ali? Por que não tinha nenhuma memória da sua vida?
Ninguém sabia, mas a Sra. Teresa e suas funcionárias no orfanato haviam lido sobre um acidente em uma estrada para Londres. Uma batida de carro que havia vitimado supostamente duas pessoas não identificadas.
Os jornais diziam que os bombeiros suspeitavam que uma terceira pessoa estivesse envolvida, o filho do casal morto, Adam Smith. Só que seu corpo não fora achado, o casal não tinha amigos próximos que pudessem identificar ele como sendo o verdadeiro Adam e a história se deu por encerrada quando a Sra. Teresa decidiu acolhê-lo no orfanato.
Adam tentava não ser ingrato por isso, mas era difícil em um lugar como aquele.
A comida era horrível, as roupas que lhes eram dadas estavam sempre em péssimo estado e a cama onde dormia não era muito mais confortável que o chão. E também tinha pessoas como a professora Duffrey, funcionários do orfanato que viviam tratando todos eles mal.
Mas, mais uma vez, antes que Adam pudesse se preocupar demais com alguma dessas coisas, Tiff apareceu virando o corredor com um sorriso no rosto e uma vasilha de plástico escondida debaixo da camisa.
Adam olhou para os lados e correu até o rapaz.
Tiff tinha apenas nove anos, mas era esperto e espirituoso como nenhum outro garoto de Becksonvill. Os cabelos loiros eram lisos e caiam na frente dos olhos castanhos. Ele era pequeno e tinha um rosto com traços forte da infância.
Os olhos castanhos brilharam travessamente para Adam quando este se aproximou.
- Acabaram de sair do forno – ele cantarolou alegre.
Abriu a tampa da vasilha de leve e mostrou os biscoitos ainda quentinhos com gotas de chocolate em cima.
Adam sorriu agradecido. Os biscoitos da mãe de Tiff eram uma exclusividade da direção da escola, mas ela fazia tantos de uma só vez que não sentia a menor falta dos vários que desapareciam da cozinha.
- Muito, muito obrigado mesmo, Tiff – Adam agradeceu, pegando a vasilha de plástico e a escondendo embaixo da camisa, como Tiff fizera antes.
O menino sorriu, olhou para os lados hesitante e sussurrou:
- Apenas me devolva a vasilha o mais rápido possível... – ele disse. – Não que a minha mãe vá suspeitar de algo se perceber o sumiço dela, mas quanto menos motivos dermos para ela desconfiar, melhor.
Adam levantou os olhos da vasilha para o menino, sorrindo. Ele definitivamente não parecia ter somente nove anos!
- Pode ser hoje à noite depois do jantar?
- Seria ótimo!
Os dois trocaram um olhar cúmplice.
- Certo... Fico te devendo mais uma, Tiff! Obrigado!
- Sempre que quiser – o menor respondeu.
E depois voltou a desaparecer virando o corredor.
Adam olhou uma terceira vez ao redor certificando-se que ninguém estava olhando. Tendo certeza que todos ainda estavam nas aulas ou fazendo prova, ele seguiu pela direção oposta de Tiff.
Chegando ao cubículo que ele chamava de quarto, no andar dos dormitórios, ele fechou a porta de madeira embolorada com cuidado depois de passar um bilhete debaixo da porta do quarto de Felícia pedindo para ela ir vê-lo depois do almoço.
E não deu outra! Duas horas depois ele a ouviu bater na porta do seu quarto e a abriu dando passagem à amiga. Não havia muito mais espaço do que o necessário para a cama e uma pequena e velha mesinha de cabeceira, de modo que os dois tiveram que sentar em cima da cama e fechar a porta silenciosamente.
- O Tiff nunca nos decepciona – Felícia riu.
Adam tombou a cabeça para o lado com um sorriso.
- É por isso que eu amo aquele garoto!
Os biscoitos não estavam mais quentinhos como quando Tiff os entregara, mas ainda assim estavam um delícia. Nada que eles pudessem comer ali dentro se comparava aos biscoitos. E, se eles pudessem viver só deles, não comeriam mais a comida horrível servida no refeitório – a que não era feita pela mãe de Tiff.
- Então... – começou Adam. – Quantas questões você errou na prova?
- Duas – Felícia deu os ombros. – Eu tinha ido muito mal na do mês passado, seria suspeito se eu fosse bem demais nessa.
O moreno soltou uma risada.
- Eu errei só uma e acho que a bruxa vai ficar insatisfeita em saber que eu fui bem... Mesmo sem suspeitar de nada.
A garota balançou a cabeça enquanto pegava mais um biscoito e dava uma mordida generosa.
- A verdade – disse ela – é que ela não dá a mínima pra gente!
Adam concordou apenas com um gesto da cabeça.
- Eu não sei por que elas trazem tanta gente pra cá se odeiam tanto crianças... – a garota continuou. – Quer dizer, seria muito mais fácil elas acharem nossos pais ou algum parente, do que nos criar pela vida inteira.
Adam mordeu o biscoito nas mãos com raiva.
- É claro que seria! Mas elas devem ter um bom motivo... Você acha mesmo que ninguém saberia dizer quem eu sou? – ele respondeu com um sarcasmo ácido na voz. – Mesmo que minha família fosse pequena e o fato de eu ter perdido a memória... Eu não posso ter nascido no chão, né?
Felícia deu uma gargalhada e olhou para ele com as sobrancelhas contraídas uma contra a outra acima do nariz.
- Você realmente acha que a Sra. Teresa sabe sobre você e mentiu durante todos esses meses? – ela não parecia duvidar dele, mas também não parecia concordar totalmente.
Adam crispou os lábios.
- Não sei... O que eu acho é que o governo dá dinheiro para o orfanato se manter e só uma parte desse dinheiro é usada! – ele disse criticamente. – Você realmente acha que iam deixar a gente viver nessas condições? E você mesmo disse que ano passado, quando fiscais vieram nos visitar, a Sra. Teresa deu roupas novas a todo mundo e colocou a mãe do Tiff no refeitório.
Felícia hesitou.
- É verdade... Mas daí à acusar eles de mentirem para a gente para nos manter aqui já é demais! Seria quase um sequestro! – ela disse. Os olhos baixaram para a vasilha de biscoitos mais uma vez e alguma coisa ficou entalada na sua garganta. Alguma coisa que ela estava hesitando para dizer. – Além do mais... Você sabe muito bem quem você é.
Ele engoliu o que estava na boca e olhou para ela com as sobrancelhas levantadas.
- Ah, Adam, você às vezes age como se não soubesse quem você é, mas a Sra. Teresa tem a sua certidão de nascimento... O fato de você não se lembrar de nada não muda o fato de que você é Adam Smith.
- Ninguém conseguiu me reconhecer! – ele retrucou.
- Porque os seus pais eram filhos únicos e vocês eram a única família um do outro – ela insistiu. – É claro que ninguém nunca soube como você foi para dentro daquela gruta, mas se você deixar de ser teimoso um pouco vai concordar comigo que você mesmo deve ter ido até lá quando acordou, se abrigar, e depois que acordou essa era uma das memórias que lhe sumiram da cabeça!
Ele suspirou profundamente e Felícia viu a expressão contrariada no rosto dele.
- Por que, então, você não aceita entrar comigo na sala da Sra. Teresa e esclarecer tudo isso?
Ela olhou para ele irritada. Como era teimoso!
- Porque não tem o que ser esclarecido!
Ele se levantou da cama com um olhar desafiador.
- Sábado, então, quando ela for fazer uma das suas viagens rotineiras para Londres! – ele disse. – E daí saberemos se tem ou não tem o que ser esclarecido!
Ela rolou os olhos.
- Me dê um bom motivo – ela pediu.
Adam riu dela. Sabia que era fácil convencê-la.
- Ah, qual é! Até parece que você não me ajudou a entrar quinhentas vezes na sala dos professores roubar gabaritos... Quer desafio maior do que invadir a sala da dona do Becksonvill?
Felícia deu um suspiro longo.
- Está bem – ela disse, se levantando. – Então sábado à meia-noite.
- Perfeito! – Adam exclamou.
Depois os dois riram um para o outro e voltaram a comer os biscoitos.
Felícia esforçou-se para mudar o assunto e mantê-lo longe de qualquer coisa que pudesse ter a ver com a história de Adam e as memórias que ele tanto queria recuperar. Mas, por mais que ela conseguisse isso no diálogo dos dois, a cabeça de Adam martelava tentando buscar qualquer coisa naquela cena que lhe pudesse parecer familiar.
Uma fala, um sorriso... Qualquer coisa. Só que não encontrou nada.
Ele pensou no que Felícia dissera há pouco.
Ela estava certa! Ele sabia quem era, ele sabia por que ninguém parecia conhecê-lo e tudo isso eram fatos relacionados à sua família. Os únicos que podiam esclarecer todas as suas dúvidas haviam morrido no mesmo acidente que ele deveria ter morrido. Ele era Adam Smith! Sabia disso...
Mas, então, por que se sentia como se não fosse?
Capítulo 4 – Terror e Amor Rimam
A brisa fria da madrugada lambeu o rosto do casal acomodado dentro da Mercedes SLK. A menina jogou o cachecol pelo ombro e fechou a janela ao seu lado.
– O que nós estamos esperando mesmo? – ela perguntou emburrada, olhando para frente.
Há cerca de trinta metros havia um prédio de luxo, com uma portaria enorme cercada por vidros fumê.
O rapaz ao lado dela apertou o volante entre os dedos e soprou a franja que caia na testa.
– Estamos esperando que o porteiro durma – ele respondeu como se fosse óbvio. – A menos que você queira explicar a ele porque dois estranhos deveriam ter permissão para entrar em um dos prédios mais luxuosos de Londres, às duas horas da madrugada.
Ela rolou os olhos.
– Ele já deve estar no sétimo sono, Dougie.
– Como você pode ter certeza disso? – ele perguntou. – Nós não podemos nos dar ao luxo de falhar outra vez, !
Ela se mexeu, agitada e ansiosa, no banco de couro.
– Eu sei, mas... Poxa, Dougie, até que horas vamos ficar aqui? Você sabe que podemos fazer isso com ou sem porteiro... Por que você se recusa a fazer?
Dougie encarou com um olhar frustrado. O perfil dela estava especialmente bonito, iluminado apenas pela luz fraca do poste no meio do quarteirão.
– Eu não me sinto bem, não me sinto... Humano... Fazendo essas coisas – sua voz não soou mais alta que um murmúrio.
A menina olhou-o carinhosamente.
– Então vamos acabar logo com isso, está bem?
Os dedos dela deslizaram através das curtas mechas loiras do rapaz. Seu rosto se aproximou com calma e seus lábios cobriram os dele com ternura.
Quando se afastaram, Dougie forçou um sorriso fraco, ainda não se sentindo realmente confortável quanto àquilo. Abriu a porta do carro discretamente e os dois saíram da Mercedes, travando-a silenciosamente e seguindo quietos pela escuridão da rua.
Esgueiraram-se pela escuridão até poucos metros da portaria, encostados à um muro alto que ia até a cabine da portaria, interrompido por um portão eletrônico que dava para a garagem no sub-nível.
Com a agilidade de um ginasta, e em um movimento que os olhos de não foram rápidos o bastante para captar, Dougie saltou para cima do muro, equilibrando-se sobre ele imediatamente.
Um segundo depois, o rapaz estava sobre o teto da cabine da portaria, dando passos tão suaves que, mesmo com o silêncio sufocante daquela noite, nenhum ruído podia ser ouvido sob seus tênis. Ele fez um sinal para , que ela só foi capaz de enxergar forçando os olhos.
Dougie sentou-se na beirada do teto, pouco mais de um metro acima do vidro fumê que contornava a cabine. Enquanto isso, cautelosamente, a garota deslizou pela escuridão até parar exatamente em baixo do rapaz, agachada sob a janela.
Em outra situação seria mais fácil simplesmente pular o muro, mesmo que isso exigisse um maior esforço da menina, mas ali ele era alto demais e jamais poderia escalá-lo como Dougie tinha feito. Dificultava também que a janela extensa cercasse a guarita em todas as suas quatro paredes, para das o máximo de visibilidade ao porteiro.
Então, só havia uma chance de fazerem aquilo. E teria que ser rápido.
O garoto a encarou, seu rosto visível apenas por causa da luz alaranjada do poste. Ela assentiu confiante.
Depois se abaixou, pegou uma pedra qualquer no chão, do tamanho da palma da sua mão, e jogou-a para cima. O companheiro a pegou no ar apenas para jogá-la para trás, na direção oposta.
Quando a pedra caiu no chão, o ruído soou alto no meio do silêncio, rompendo-o momentaneamente.
Nada aconteceu. Nenhuma janela se abriu, nenhum barulho dentro da guarita e ninguém saiu dali para verificar a origem do ruído.
sorriu e ergueu as duas mãos. Dougie correspondeu a ambos os gestos e, segurando-a firme, puxou-a para cima, para junto dele.
– Você está bem? – ele perguntou.
Ela lhe olhou com uma expressão de euforia.
– Estou ótima... Agora vamos por aqui? – ela apontou para um corredor estreito do lado de dentro do muro lateral à guarita.
Dougie acompanhou o olhar dela, mas negou com a cabeça.
– Vamos por aquela sacada – ele apontou para a esquerda dos dois, para uma sacada grande, cerca de um metro para cima. – Segundo a planta que eles têm no site do edifício, o primeiro andar acima do térreo é um salão de festa... De lá podemos ir de escadas para o número oito, que na verdade é o nono andar, evitando câmeras ou sermos surpreendidos pelo porteiro.
Mesmo no escuro, mas agora de perto, foi possível vê-la levantar uma sobrancelha.
– Não se preocupe – ele emendou. – Eu te dou uma mãozinha para subir ali.
Foram dez minutos para conseguirem colocar para dentro da sacada. Dougie, por outro lado, não demorou um minuto inteiro. Ele pulou para agarrar a grade vermelha, deu um impulso com os pés na parede abaixo da sacada e saltou para o lado de .
Ela bateu de leve no seu ombro ao ver o sorriso convencido dele.
– Agora é com você! – ele riu, indicando a porta de vidro.
sorriu com falsa modéstia e estalou os dedos. Depois colocou cada mão em uma das portas de correr e empurrou no sentido contrário. Ela franziu a testa e Dougie bufou com impaciência.
– Vamos, , rápido! – ele rolou os olhos.
Ela sorriu e deu os ombros.
– É você quem manda...
E aplicou o mesmo movimento de antes, só que mais rápido e de uma só vez. Um estalo metálico ecoou alto e rapidamente quando, no interior da fechadura, a trava se quebrou.
Quando Dougie ajudou-a a puxar, os dois lados correram facilmente um para longe do outro.
Sorrateiramente, invadiram o salão e encostaram a porta de vidro. O cômodo era realmente grande, com duas entradas para banheiros feminino e masculino ao fundo e outra para um fraudário. Centenas de mesas estavam desmontadas e agrupadas em um canto distante dos dois e havia um pequeno palco vazio no canto à direita dos dois. O chão era coberto por mármore e as várias colunas que se distribuíam igualmente pelo salão também, com contornos espelhados.
– Não mentiram quando disseram que era de luxo – assoviou.
– Não deve ser mentira também que é um dos edifícios mais caros de Londres.
Ela riu baixinho.
– Bom, vamos fazer isso de uma vez.
Dougie apenas concordou e os dois atravessaram o salão na direção da porta de entrada.
Saindo dali, eles se viram em um hall pequeno com um espelho de bordas esculpidas em madeira. Duas portas de elevadores estavam a frente, enquanto uma menor, para a escadaria, estava logo ao lado.
Uma vez que a porta do salão de fechou ao lado deles, o ambiente escureceu tanto que se tornou impossível enxergar um o outro. sussurrou para Dougie que não se mexesse por um instante e alguns segundos depois um facho de luz irrompeu pela escuridão.
– Uma lanterna... – ele riu, olhando o que a namorada segurava. – Muito esperto da sua parte.
Ela fez sinal para que falasse mais baixo e empurrou suavemente a porta pesada da escadaria.
Demorou algum tempo para que conseguissem subir os oito lances de escada e, eventualmente, Dougie percebia estar indo muito rápido e tinha que parar para esperar . Contudo, parte da demora foi devido ao fato de terem se movido com cautela e sem pressa.
Quando enfim acharam a porta idêntica àquela pela qual haviam entrado, só que com o número oito, Dougie puxou-a com certo esforço e abriu passagem para outro hall, muito parecido com o do primeiro andar, só que menor.
Eles se viram cercados por sete portas: uma atrás, pela qual tinham vindo, as duas dos elevadores à frente, e mais quatro: duas de cada lado, que eles sabiam ser dos apartamentos.
– E agora? – Dougie questionou, coçando o queixo.
se demorou, apontando a luz da lanterna para cada uma das portas, analisando-as atentamente. Depois de um ou dois minutos, ela voltou a luz da lanterna para o apartamento de número oitenta de dois.
– É esse – ela disse. Não havia dúvida na sua voz, mas Dougie desconfiou do sorriso ligeiramente sarcástico nos seus lábios.
– E você chegou a essa conclusão porque...
– Ele é um colecionador viciado em música, não é? Pense nisso... – e piscou para o rapaz.
Demorou algum tempo para que Dougie mudasse sua expressão de completa confusão para uma de esclarecimento descrente.
– Você não pode estar falando de Blink! – o olhar dele correu para o número na porta e voltou para ela. – Sério? Blink-182? Esse é seu melhor palpite? O número do apartamento não é nem 182 de verdade.
Ela deu os ombros, seguindo na direção da porta e parando a centímetros dela. Passou os dedos pelos números de metal pregados à mesma.
– O primeiro algarismo, ou dois no caso dos apartamentos do décimo andar em diante, se refere ao número do andar. E o segundo ao número do apartamento em si... – ela se virou novamente para Dougie. – Como o edifício não tem dezoito andares e, bom, nós sabemos que é no oitavo mesmo...
Ela deixou a frase no ar, mas Dougie sabia que ela já estava convencida de que estava certa.
Mesmo hesitante, ele concordou enquanto ela tirava um grampo do bolso e começava a manuseá-lo dentro da fechadura. Normalmente ficaria apreensivo por não saber se estavam invadindo o apartamento certo, mas uma vez que já haviam invadido o prédio em si, que mal teria se tivessem que averiguar um por um?
Levou uns três minutos para que conseguisse abrir a porta. Logo depois dela, dentro do apartamento, estendia-se um corredor largo e curto e, com o auxílio da lanterna de , era possível ver um cômodo extenso ao fim dele.
– Apague a luz – Dougie alertou. – O dono pode estar aí dentro.
– Eu não acho... Se for mesmo o cara que achamos na internet, então não tem ninguém aqui – ela viu Dougie perguntar “Por quê?” com a expressão. – Lembra? O que tinha um blog? Ele mantém esse apartamento... Isto é, se for o certo... Só para a sua enorme coleção de luxo.
– Que, claro, envolve uma guitarra com certo teor mágico que é uma âncora que liga a alma do meu amigo à Terra, mesmo que, infelizmente, ele esteja no inferno.
riu do sarcasmo.
– Tudo bem, eu não vou arriscar.
Sem a luz branca os guiando, ficou um pouco mais difícil seguir pelo corredor escuro sem esbarrar em nada.
Só quando Dougie apoiou a mão em uma mesinha de canto, no fim do corredor, percebeu que estava tremendo. Mesmo que tudo estivesse dando certo até ali, eles podiam perfeitamente estar no apartamento errado... E mesmo que achassem o certo... E que revistassem de cabo a rabo a coleção daquele cara, que garantiam tinha de que ele era a pessoa certa?
Na verdade, nenhuma. Mesmo que o nome dele batesse com o nome que e Tom haviam conseguido, não havia a garantia de que não havia outra pessoa com o mesmo nome morando em Londres.
“E em um apartamento de luxo, colecionando exatamente a mesma coisa que o outro... Seria muita coincidência, mas não seria impossível”, Dougie pensou com amargura.
Quando caiu em si, estava do outro lado do cômodo, de frente para uma cortina branca. Com um puxão brusco e silencioso, ela abriu a cortina, deixando a luz externa entrar e ajudá-los a enxergar.
Ela não se impressionou com nada ali. Havia um jogo de dois sofás brancos e um barzinho cercando uma mesinha de centro. Mas Dougie chamou sua atenção para três outras portas à sua direita.
Ele foi até lá e olhou, cuidadosamente, dentro de cada uma. A primeira era um banheiro, a segunda parecia ser só algum tipo de dispensa, mas o cômodo por detrás da terceira era tão amplo que sua vista se perdia na escuridão.
Ele chamou a namorada com um sinal e foi entrando, em passos silenciosos. Quando ela apareceu à porta, ele fez um sinal para que esperasse.
Pouco a pouco a visão foi se acostumando com o breu. Sombras disformes foram tomando forma diante dos seus olhos e, mesmo no escuro, ele pôde ver enormes estantes de vidro guardando os mais diversos tipo de objetos.
Dentro de um cubo de vidro próximo a ele, havia uma folha comprida de papel. Ele reconheceu a playlist amassada que, muito provavelmente, era de algum show. Mas ao longo das estantes havia muito mais: baquetas, palhetas, camisetas... E uma guitarra na qual as palavras The Who brilhavam prateadas no escuro.
Primeiro, os olhos brilharam em empolgação, depois um sorriso largo brotou dos lábios cantos dos lábios. Essa foi a reação de quando Dougie surgiu do seu lado com a guitarra prateada de Danny nas mãos. Hesitante e com os dedos tremendo, ela tocou o metal frio, depois as cordas, esticadas perfeitamente sobre o braço, esperando ansiosas para serem tocadas.
Os olhos dela correram rasos para encontrar os do namorado.
– Vamos trazer Danny de volta! – ela sussurrou, e a confiança que tinha naquelas palavras a inundou e aqueceu por dentro.
Dougie assentiu, sorrindo também, mas quando seus lábios se abriram para responder, travaram e crisparam em terror. Os olhos saltaram com instantaneidade para a porta do cômodo e, antes que percebesse que havia algo de errado, ele estava perto da porta, escorado à parede, espiando o corredor pelo limite do batente.
Quando ela se aproximou já sabia que o rapaz ouvira alguma coisa. Algo que ela só era capaz de ouvir agora; passos abafados pelo carpete, mas que o silêncio insistia em denunciar.
O olhar de Dougie se voltou para ela. Seus lábios se moveram com a mais perfeita discrição e, mesmo que o escuro dificultasse a visão, ela suspirou confirmando ter entendido a única palavra que Dougie desenhara no ar com a boca: demônio.
Então o garoto levantou três dedos da mão direita. assentiu. Ele contou... Um segundo... Dois... Três! E duas silhuetas surgiram na porta, caminhando pelo corredor sem notar a presença de Dougie e .
O rapaz foi tão rápido que a garota ainda não estava preparada quando aconteceu. Ele saltou, pendurou-se na parte superior do batente da porta com uma das mãos, balançou no ar e atingiu o dono do primeiro semblante com um chute na lateral direita do corpo. O corpo magro e baixo do porteiro se chocou contra a parede com tanta força que suas costelas não deviam mais estar inteiras, mas quando o homem abriu os olhos e a escuridão envolveu seus globos oculares ele não parecia ter sentido o impacto.
A outra silhueta era de uma mulher. Ornado por cachos ruivos, o rosto seria angelical se os olhos negros não denunciassem o que havia de maligno nele.
antecipou sua reação. A mão direita se ergueu em punho e acertou o rosto da ruiva. Sangue salpicou e a mandíbula se deslocou ao som de um estalo medonho. A morena pegou na mão do namorado e o puxou pelo corredor, enquanto a ruiva cambaleava para trás.
Só que enquanto a mulher colocava a mandíbula no lugar e limpava o sangue da boca, o porteiro já estava de pé com um sorriso cheio de pretensão. Ele ergueu a mão espalmada no ar e, a poucos metros de si, os corpos de e Dougie foram arremessados contra a parede. Dougie gritou de dor, mas não pareceu sentir mais do que um desconforto.
O homem e a mulher se aproximaram despreocupados.
– Vocês acharam mesmo que iam conseguir o alme fácil assim? – a voz veio do corpo do porteiro, mas havia algo de não-humano nela.
Apesar de não conseguir se mexer, Dougie sorriu.
– Depois da surra que vocês levaram no nosso último encontro? – o rapaz debochou. – Na verdade, Alastair, foi exatamente o que eu pensei!
O sorriso evaporou dos lábios que o demônio controlava. Ele agitou a mão e Dougie sentiu a pressão que prendia seu corpo aumentar, transformando-se em uma dor aguda nos pulsos e nos tornozelos.
– Não sabia que você tinha arranjado uma companheira – riu. – Depois da sua vergonhosa derrota pra gente da última vez, você devia saber mesmo que não pode com a gente sozinho... Damian não mandou lembranças?
O olhar negro do demônio se voltou para . Agora sua atenção estava nela e a pressão sobre o corpo de Dougie havia desaparecido. Com os dentes trincados em fúria, ele jogou a pressão sobre , mas para ela pareceu apenas um aperto leve no peito.
– Vamos falar sobre derrota quando eu destruir esse alme! – a mulher se pronunciou. Sua voz era doce, mas havia amargura nela.
Ela estendeu a mão e a guitarra prateada disparou da mão de Dougie para a dela.
– Mandem lembranças para Alice – uma risada cínica ecoou pelo cômodo.
Os dois demônios curvaram os dedos das mãos. Dougie logo sentiu como se houvessem mãos invisíveis apertando seu pescoço cada vez mais forte, tão forte que supôs que se não morresse asfixiado, o pescoço logo quebraria. , mais uma vez, não pareceu se abalar, mas quando o poder da ruiva se manifestou, invisível e ameaçador, comprimiu o pescoço da ruiva contra seus músculos.
– Eu sei que vocês mal devem estar respirando, mas como é de praxe... – a ruiva deixou a frase morrer no ar; sua voz conseguia ser fria como gelo mesmo em tom de piada. – Últimas palavras?
Dougie não reagiu. Seu pulmão queimava e ele lutava desesperadamente por ar. Mas ainda sorriu.
– Só uma... – ela disse com a voz sufocada. – Cristo.
Foi como se ela tivesse atingido os demônios com um soco fraco que não os fez nem sequer cambalear, mas desviou suas atenções e quebrou a força que os prendia.
Dougie aspirou uma golfada de ar e no segundo seguinte deslizou pelo chão, chutando os pés da ruiva. Ela caiu de costas e, quando a guitarra voou da sua mão, o garoto a pegou no ar.
socou Alastair no rosto e se virou, não vendo Dougie na sala. Os dois demônios já levantavam novamente as mãos na sua direção, mas ela foi mais rápida: sacou dois frasquinhos transparentes do bolso e jogou contra eles. Quando o vidro quebrou, a água benta queimou toda a pele onde respingou e disparou pelo corredor para a saída. Só então viu Dougie voltando da cozinha com um saco de sal grosso nas mãos.
– Esperto! – ela riu.
Ele sorriu de volta, rasgou o saco com as mãos e jogou o sal sobre os dois demônios. Os gritos de agonia se tornaram mais altos, eles não conseguiam mais se mover.
Lá fora, uma sirene soou alta, se aproximando a cada segundo.
O casal se entreolhou.
– Eles devem ter disparado o alarme.
– Ou alguém acordou e chamou a polícia.
Dougie concordou.
– Temos que dar o fora daqui!
De mãos dadas, correram para a porta da sacada. quebrou a fechadura como havia feito para entrar. Abraçou Dougie, olhando para baixo. Aquele lado do prédio era voltado para o lado oposto da rua, de modo que abaixo da sacada havia apenas um beco escuro.
– Não é... Alto demais? – ela hesitou.
– Nunca é alto demais – Dougie riu.
E saltaram para a escuridão, deixando os dois demônios para trás. Eles só conseguiram se levantar alguns minutos mais tarde, mas sabiam que haviam perdido os garotos.
Ouviram quando o motor de uma Mercedes rugiu, longe dali, no silêncio da noite londrina.
Capítulo 5 - Quente
Adam se esgueirou para fora do quarto, sem interromper o silêncio absoluto que percorria os corredores do Orfanato Becksonvill. Do seu quarto até a saída o caminho era particularmente grande. Fosse da porta da frente ou da porta dos fundos, não fazia diferença, seu quarto parecia ficar quase no centro exato do prédio, longe de qualquer porta ou janela para o exterior.
Para piorar a situação, ele estava com febre. Mais uma vez. Mas como se tratava do aniversário clandestino que ele e Felícia haviam armado para Tiff (já que o pobrezinho do garoto não teria uma festa de verdade), ele não poderia faltar.
Que sorte a minha!
Contudo, ainda que não se sentisse muito bem, estava feliz. Sob toda a rigidez das regras do orfanato, não houve muita coisa que ele e Felícia pudessem fazer pelo amigo, mas pelo menos o aniversário dele não passaria em branco. E diante de toda a ajuda que Tiff dera a ele nos últimos meses, proporcionar aquilo para o garoto era um verdadeiro privilégio.
Quando Adam chegou até o último corredor que dava para a porta dos fundos, olhou através de uma das janelas de vidro e viu o horizonte escuro, enfeitado por uma luz alaranjada ao longe. Era uma fogueira. Ele não podia ver, mas já sabia.
Com cuidados extremos, demorou um pouco para abrir a janela. Mais do que havia planejado. Então, depois de longos minutos, passou por ela para o lado de fora.
Quando Adam chegou à pequena clareira nos fundos do orfanato, Felícia já estava lá com Tiff. Diante da fogueira sobre a qual espetinhos de marshmallows repousavam, os dois conversavam alegres. Os olhos do menino brilhavam de realização. Adam sentiu que aquilo tudo já valia a pena.
– Você demorou... – Felícia reclamou quando ele se sentou de frente para ela e Tiff, do outro lado da fogueira.
– Não é exatamente fácil sair de lá sem chamar atenção – ele riu.
Ela olhou Tiff de soslaio, mas ele estava distraído colocando mais um esperto na fogueira. Depois lançou um olhar sério para Adam.
– Tem certeza de que ninguém te viu? – perguntou, inclinada para o amigo.
– Eu acho que não... – ele respondeu olhando na direção do orfanato.
Ajudava que a clareira estivesse a mais de trezentos metros do prédio.
– Você acha?
– Eu tomei o máximo de cuidado possível...
A garota lhe fez uma careta, mas não disse nada. Como se nem tivesse visto, Adam estendeu-se para frente abrindo um sorriso.
– E aí, Tiff? Algum destes está pronto?
O menino sorriu, pegando um dos espetos com marshmellows e entregando-o para o mais velho.
Adam deu uma mordida e fez um sinal de “ok” para o pequeno.
– Está no ponto! – e deu outra mordida. – Mas me conta... Como está se sentindo mais velho?
Tiff deus os olhos, pegando outro espeto e entregando-o para Felícia.
– Na verdade, do mesmo jeito de ontem...
Felícia riu.
– É, normalmente é assim... A não ser quando você ganha o direito de dirigir ou comprar bebida alcoólica.
A noite seguiu com várias gargalhadas e a madrugada ia alta com uma brisa fria que, volta e meia, causava arrepios no trio.
Como não tinham relógio, não sabiam que horas eram, mas já passava das três e meia quando, sonolento, Tiff se levantou para ir dormir. Agradeceu aos dois amigos e deu um abraço em cada um deles, antes de seguir cautelosamente para o dormitório.
Tão logo o semblante do menino desapareceu no horizonte escuro, Adam deixou o corpo cair para trás e suspirou. Felícia levantou-se e lançou um olhar divertido para o garoto.
– Não adianta fazer teatro, Adam, por mais cansado que você esteja, vai me ajudar aqui – ela disse, e saiu recolhendo os espetos jogados na grama. – Você sabe que nós não podemos deixar nenhum vestígio de que passamos a noite aqui.
De costas para o amigo, ela só ouviu um gemido de lamentação como resposta, e riu para si mesma.
– Vamos! – cobrou novamente, virando-se para ele. – Seu frou...
Então parou de chofre. Há menos de um metro, o amigo se contorcia encolhido, abraçado ao próprio corpo.
– Oh, meu Deus, Adam, o que foi? – ela perguntou, ajoelhando-se ao lado do amigo.
– Está ardendo... – a voz não saiu mais alta do que um murmúrio. – Meu estômago... Está queimando...
O rosto dele parecia corado, mas sob a luz alaranjada da fogueira não era possível ter certeza.
– Se for azia, largue de ser tão exagerado, não... – novamente ela se interrompeu quando tocou a face do rapaz, e o olhou com espanto. – Adam, você está ardendo em febre!
O garoto não ouviu o que ela disse, sua atenção estava toda voltada para a dor. Não era azia, tampouco algo parecido com uma febre comum. Vinha de dentro, como se a febre fosse interior, mas muito pior. Era fogo que queimava por dentro, incessante e insistente.
Quando abriu os olhos novamente, Felícia não estava mais ali. Seu primeiro impulso foi gritar pela amiga, mas lembrou-se de onde estavam... E que não deveriam estar ali.
O que estava acontecendo? Horas mais cedo estava com uma febre boba que nem ameaçava ser uma gripe e agora isso?
Adam respirou fundo, esperando que o ar frio da noite fosse aliviar a sensação insuportável de calor dentro de si, mas o alívio não veio. A imagem de Felícia entrou novamente no seu campo de visão. Ela estava só com a camiseta regata de baixo e a blusa grossa de frio estava em suas mãos, ensopada. Ela se ajoelhou ao lado do rapaz e levantou a camisa dele, passando a blusa molhada sobre a barriga e o peito. Depois passou pelo rosto e na testa do amigo.
– Está melhorando? – perguntou nervosa, repetindo o processo desde o começo.
Adam não respondeu. O primeiro contato da água fria com a sua pele foi como um choque... Ou dezenas de ferroadas... Primeiro na barriga e no peito, depois na cabeça, e então... Parou. Simples, subitamente, da mesma maneira que havia começado, acabou.
Ainda meio atordoado, abriu os olhos cautelosamente, como se qualquer movimento em falso pudesse trazer a dor de volta. Felícia estava ali, olhando com espanto e expectativa.
– Adam? – ela o chamou. – Está tudo bem? O que... O que aconteceu?
O menino hesitou e gaguejou:
– Eu... Eu não sei!
Continua...
Nota do Autor (27/02/11): Ai, ai. Bom, gente, o capítulo foi esses dias ao ar e já to mandando atualização, então não falem mal de mim se demorar pra entrar. Aliás, não falem mal de ninguém, porque todo mundo aqui sabe que autores, betas e staffs têm vida própria. Não quero ver minhas lindas e amadas leitoras causando esses problemas chatos no site, ok? Amo vocês, SUAS LINDAS!
Ok, momento conscientização over. Espero que tenham gostado do capítulo, apesar dele ser curtindo. Ou vou mandar o próximo assim que possível! Continuem comentando loucamente sem parar!
Quem quiser me seguir no Twitter, é @lucas_esteves. E meu Formspring é /lucasesteves. Não se acanhem, VEM GENTE! Quero vocês!
Beijão, Lucas.
N/b: Qualquer erro na fic mande para leeh.rodriigues@gmail.com :) Não utilizem a caixa de comentários, por favor. Agradeço desde já.