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Última atualização: 10/11/2017

Prólogo


- , vem cá! – gritava pela amiga enquanto corria pelo pátio do colégio.
- Ah, ... eu estou cansada! A gente está correndo há dez minutos a troco de nada. – A garota baixinha exclamou, enquanto tentava repor o fôlego, agachada segurando os joelhos.
caminhou até a amiga, um sorriso debochado brincando em seus lábios.
- Você é bem fracotinha né? – Ele alfinetou a outra, que lhe lançou um olhar mortal em resposta.
- Você que é um chato que fica correndo sem motivo, parece menino de maternal. – sentou-se no gramado, emburrada, vendo imitar seu gesto, ainda com o mesmo sorriso, que na opinião dela, era irritante.
- Pense bem! Eu sou seu amigo e prezo pela sua imagem. Você não ia querer ser vista por aí como gorda né? Estou apenas cuidando da sua aparência, correr é um ótimo exercício físico – O garoto zoou perversamente, sorrindo ainda mais ao ver a expressão chocada no rosto de . Como assim, gorda?
- Você é um insensível, ... não se diz a uma garota que ela está gorda... além do mais, eu nem estou tão gorda assim – argumentou tentando parecer casual, mas no fundo se preocupava com o que o amigo tinha dito. E se estivesse gorda mesmo? Estava sempre tão ocupada em parecer bonita, sempre ocupada tentando fazê-lo notá-la, e agora o mesmo vinha lhe dizer que estava gorda... era deprimente.
- Calma ai, ô nervosinha.. eu estou só brincando contigo! Claro que você não está gorda... está perfeita... para mim. – acrescentou, se aproximando de , de modo que seus rostos estavam a centímetros de distância. O coração da garota, nesse momento, parecia prestes a sair pela boca. O efeito do mínimo olhar de já fazia seus batimentos cardíacos acelerarem. Um pouco zonza com a aproximação repentina, tentou falar alguma coisa, mas suas palavras saíram incoerentes e confusas, o que fez rir.
- O que você está fazendo, ? – Ela perguntou, dessa vez um pouco mais consciente. Para conseguir ficar ‘sóbria’ ela precisava fechar os olhos, para não se dar conta dessa proximidade tão grande... como se o cheiro dele não fosse inebriante o suficiente.
nada respondeu, apenas continuou próximo da garota, rindo silenciosamente da sua reação exagerada. Podiam sentir suas respirações baterem em seus rostos, estavam cada vez mais próximos... até que restringiu toda essa proximidade espalmando suas mãos no peitoral de , que não insistiu, apenas se afastou... ele estava acostumado, era sempre assim.
- Sai daí, ow.
sorriu de lado e deitou na grama, apoiando a cabeça nos braços, olhando pro céu de modo distraído, seus olhos quase fechados por causa da claridade.
- Eu não te entendo, você só me evita, eu tento, mas você sempre me afasta... – Ele arriscou um olhar em direção à amiga que agora imitava sua ação, deitando-se na grama também.
- eu não vou entrar pra sua lista quilométrica, achei que soubesse... Além do mais, você é...
- Seu melhor amigo, é eu sei.


Capítulo 1


Nove anos depois...

- Se você continuar a contrair a testa dessa forma, vai ficar com rugas de expressão – escutou uma voz conhecida atrás dela. Estivera andando há um tempo, fazia um belo dia de sol, o primeiro depois de tanta chuva, e ela decidira ir ao trabalho andando. O ar fresco e o sol fraco ajudavam a clarear seus pensamentos, que eram todos embaraçosos e confusos, e sempre diziam respeito a uma única pessoa.
A moça olhou pra trás e, embora soubesse de quem se tratava, não deixava de ficar feliz em vê-lo.
-Scott! Bom dia, é tão bom te ver! – alcançou a figura alta e esguia de Scott Smith, abraçando-o pela cintura.
- Hey, é bom te ver também! Nunca mais nos falamos, parece que você andou esquecendo dos amigos – Scott comentou de maneira queixosa enquanto abraçava os ombros da amiga, que tinha metade da sua altura.
- Lógico que não me esqueci de você, Scott, não faça drama... é só que eu fiquei trancafiada naquele escritório por mais tempo esses dias, a Lauren tem puxado muito serviço de mim, sabe. – explicou enquanto andavam, e Scott pode perceber pelo seu semblante que ela estava cansada.
- Parece que aquela bruxa tem mesmo lhe explorado, não entendo como uma clínica de psicologia pode ter tanto trabalho pra uma secretária...-Scott ia falando, mas foi interrompido por .
- Eu sou agora ajudante particular dela, como seu ombro esquerdo, secretária é a . – tentou não parecer muito pomposa, mas mesmo assim Scott riu e deu de ombros, como se dissesse que aquele fato não era muito importante.
-Ainda assim não vejo motivo pra ela puxar tanto assim de você, senhorita ombro esquerdo – O rapaz comentou e os dois riram.
- Mas é sério, você parece realmente muito cansada... não tem dormido direito não é? Como se já não tivesse muito trabalho ainda fica até tarde assistindo Gossip Girl? Olha só hein! –Scott comentou brincalhão, e apenas riu de leve, chutando algumas pedrinhas pelo caminho, enquanto seu olhar caia lentamente pros pés. Scott pode perceber que tinha ficado um pouco abalada ao tocar no assunto da sua noite mal dormida, com certeza aquilo havia uma explicação.
- Hey, o que houve? – Ele perguntou, atraindo o olhar da amiga para o seu mais uma vez.
- Hm, nada demais, eu só não consegui dormir muito bem essa noite... tive uns sonhos ruins, mas, como eu disse, nada demais... – comentou superficialmente e logo Scott percebeu que esses sonhos estavam mais próximos de pesadelos.
- Sonhos com o quê? – Ele insistiu, e suspirou pesadamente, sabia que o amigo não iria desistir tão fácil.
- Hm, eu sonhei com o . – falou depois de um tempo sendo observada por Scott. E assim que terminou de falar, escutou o amigo suspirar... um suspiro cansado.
- , você tem que esquecer o . – Ele falou num tom monótono, cansado, quase implorando, como se já tivesse dito aquela frase milhares de vezes seguidas. - Eu sei, Scott, mas eu não tenho culpa do que sonho..tenho? – tentou se defender de alguma forma, mas Scott apenas a olhava de modo penetrante.
É, talvez ela tivesse sua parcela de culpa em sonhar com . Passou a maior parte da sua tarde anterior entretida com uma limpeza no apartamento, uma que ela protelara várias vezes e enfim conseguiu fazer. Mas ao mexer em álbuns velhos, remexer gavetas, encontrou várias fotos, cartas, bilhetinhos, presentes, coisas aleatórias que lhe lembravam .
Faziam seis meses que não via o amigo. Depois de começar o namoro com uma loira misteriosa, a Susan, ele havia sumido do mapa sem ao menos avisar, não dando sinal de vida em nenhum minuto de todo esse tempo. nunca havia ficado tanto tempo sem notícias de . Já tinha ligado para os pais do rapaz, perguntando a respeito, pedido notícias, tentou o seu celular e perguntou para os amigos... mas assim como ela, ninguém sabia que o que tinha acontecido, e se tinha acontecido, algo com ele.
Scott sempre disse que precisava seguir em frente e tentar esquecer o seu amor platônico pelo melhor amigo, sempre lhe lembrava que não era algo que fazia bem alimentar. Mas, por mais que dissessem que era errado, que ela precisava esquecer, sempre alguma coisa fazia com que ela voltasse a linha daquele velho sorriso que lhe fazia sentir coisas inexplicáveis.
Nunca havia se apaixonado de tal forma por alguém, como tinha se apaixonado por . E é lógico que ele não sabia disso, nunca quis lhe contar, nunca quis que ele soubesse de nada, sempre quis ficar com ele, mas isso nunca aconteceu. Não por falta de tentativa da parte de , porque ele já tentara, mas sempre o afastou com a desculpa de que eram ‘apenas amigos’, mas no fundo tudo aquilo era porque não queria ser apenas mais uma na vida dele. Não, ela queria ser a única.
Depois de remexer em todas suas coisas, e se lembrar de , não conseguiu mais parar de pensar nele, o dia inteiro, uma angústia tão grande tomava conta do coração dela, um pressentimento, alguma coisa que a incomodava por dentro, e ela apenas não sabia o que era. Talvez tivesse ficado tão impressionada com aquilo que sua mente cansada descarregou tudo em forma de sonho.
- Sobre o quê foi o sonho, afinal? – Scott perguntou com uma voz estranhamente educada. sabia que o amigo não gostava de falar naquele assunto, sabia que ele queria que ela seguisse em frente e esquecesse ... mas se ele ao menos soubesse o quanto era difícil.
- Foi realmente muito estranho, e eu não lembro direito – forçou um pouco a sua mente para se lembrar do estranho sonho que tivera. – Bom, eu lembro que no começo eu estava correndo desesperada, não lembro direito o local, mas tinha muita gente, realmente muita gente. Eu estava me esbarrando em todas elas, as pessoas falavam um idioma estranho, nada do que eu entendesse. Eu estava realmente muito desesperada, precisava chegar a algum lugar. Eu lembro que tinha uma escada, eu tinha que descer por ela, então eu desci e enquanto eu estava correndo eu o vi, uns dez metros de distância à minha frente, e eu fui correr até ele, mas ai o sonho acabou. – concluiu se sentindo um pouco frustrada. Não sabia exatamente com o quê, mas algo na sua cabeça lhe dizia que era porque ela queria ter chegado até , queria tê-lo visto, queria ter falado com ele, abraçado... mas nada disso aconteceu, ela simplesmente acordou para mais um dia inútil, mais um dia sem ouvir a voz dele.
- , quando você vai conseguir superar ? – Scott falou, mas a sua voz não tinha irritação, rispidez, nem nada do tipo. Pelo contrário, continha tristeza, soava em tom de dor. Dor era o que ele sentia, ver a sua amiga tão triste e ele não poder fazer nada. Sabia que não podia simplesmente tentar arrancar do coração dela, as coisas não eram bem assim.
pensou um pouco na pergunta, seu olhar caiu novamente para os pés, um suspiro involuntário saiu pelo seu nariz, ela parecia arrasada. Ela estava arrasada.
- Nunca, eu acho. – Ela comentou melancolicamente, retirando uma mecha de cabelo do rosto.
- Você não pode simplesmente sonhar com ele, acordar impressionada e resolver ir a pé para o trabalho... , me escuta – Scott chamou a atenção da amiga, parando de andar e ficando em frente à ela. Algumas pessoas que andavam atrás deles se esbarraram e reclamaram algumas vezes, mas eles não se importaram.
ergueu a cabeça para poder olhar para e Scott, e este pôde ver os seus olhos já rasos de lágrimas. Suspirou fundo, antes de puxar a amiga para um abraço, essa não negou, apenas abraçou a cintura do amigo, sentindo-se realmente bem por ter algum tipo de afeto e calor humano, sentira falta disso. Embora o nó na sua garganta estivesse tão grande e doesse muito, decidiu não chorar, ela quis não chorar.
Inspirou e expirou algumas vezes, se soltando do abraço de Scott, oferecendo a ele um sorriso fraco, mas de gratidão.
- Eu não pretendo ir a pé para o trabalho, eu vou pegar um ônibus mais à frente... – comentou mudando o rumo do assunto, respondendo à ‘bronca’ do amigo. Scott riu, e voltou a abraçá-la de lado, continuando assim o seu caminho.
Conversaram sobre coisas cotidianas, como trabalho e lazer. se divertiu com as histórias mirabolantes de Scott no cinema e das coisas que ele havia aprontado com a sua chefe no restaurante. Mas por outro lado, Scott ficou totalmente incrédulo quando disse que não tinha feito nada de muito legal durante esses dias. Ele insistiu até conseguir com que a amiga o acompanhasse a um passeio ao parque no sábado. Disse que ela precisava de algo do tipo.
E realmente, ela precisava. Fazia realmente um bom tempo desde que não se divertia, que não fazia algo que não fosse totalmente dedicado ao trabalho. Quem a visse assim até pensaria que ela não tinha amigos, mas na verdade ela os tinha. Só que todos eles estavam ocupados vivendo a sua própria vida, presos nos seus próprios problemas, ocupados demais para se importar se ela estava se divertindo ou não. Isso na opinião de .
Porque na verdade, eles até tentavam chamá-la para algum lugar, mas ela sempre estava cheia de trabalhos, com compromissos demais para se divertir ou alguma coisa do tipo. O fato é que estava sem cabeça para diversão, estava sem cabeça para qualquer coisa, e tentava descontar toda aquela dor e toda aquela preocupação no trabalho, que era uma forma que ela tinha de deixar a mente ocupada para que ela não pensasse em .
- Sabe, provavelmente a Lauren vai surtar. Ainda tenho que agendar algumas coisas e tenho uma papelada para preencher. Não é tempo de tirar folgas ou férias... – tentava argumentar, fugir de tudo aquilo.
-Lógico que é! Você falou a palavra certa agora! Férias! É isso o que você está precisando, ... de um tempo para você!
cogitou a possibilidade de fazer o que Scott sugeria, e de imediato imagens surgiam na sua cabeça, como flashes. Talvez se ela tirasse férias, poderia visitar seus pais, se tirasse férias poderia sair com as amigas, marcar um final de semana na casa de talvez?
Com esse pensamento um novo nó surgiu na sua garganta, e sentiu um aperto comprimir seu peito. Ela sentia falta dos seus amigos, sentia falta de , de e até mesmo de , que ela via todos os dias e não gastava um pouco de tempo para colocar a conversa em dia. Sabia que a amiga estava magoada com ela, sabia que ela tinha passado por alguns problemas e não estava lá pra ajudar, mas ela se sentia com tantos problemas que não podia se concentrar em resolver o dos outros. Estava sendo ela egoísta?
olhou para Scott e sorriu abertamente para o amigo, um sorriso verdadeiro que há muito tempo não conseguiu esboçar. Aquela conversa com ele tinha sido produtiva, apesar de ter falado tão pouco sobre o que deveria fazer, sentiu como se estivesse sendo puxada para realidade, como se tivesse acordado de um sono profundo.
- Eu vou falar com a Lauren... tirar umas férias.


estava saindo da sala de Lauren, acabara de pedir suas férias. Disse que precisava de um tempo pra ela, e depois de muito trabalho, nada era mais merecido do que um bom descanso. Lauren foi completamente compreensiva, ser psicóloga ajudava bastante nessas horas, mas disse que ainda não era tempo de tirar férias, precisava da ajuda de , e por enquanto não daria férias a ela. Mas a deixou com a promessa de que em breve lhe daria um bom descanso, e ainda a aconselhou a várias coisas. se sentia como se realmente tivesse acabado de sair de uma consulta, o que não deixava de ser uma grande verdade, quando viu limpando a sua mesa logo à frente. “Não será fácil!”, ela pensou. era a secretária de Lauren e trabalhava junto com na clínica. Eram amigas desde o jardim de infância, seus pais eram grandes amigos, elas cresceram juntas e eram praticamente como irmãs.
conseguiu o emprego com Lauren e, pouco tempo depois, conseguiu um para no seu antigo cargo.
Com o coração batendo fortemente, se dirigiu até a mesa da amiga, que não ergueu os olhos nem deu o mínimo sinal de ter visto a outra se aproximar.
- Bom dia, falou de modo educado, sorrindo nervosa na expectativa. Não que não cumprimentasse no trabalho, mas era sempre pra lhe passar algum trabalho, ou alguma documentação. Não se dirigia à ela por livre e espontânea vontade.
ergueu os olhos superficialmente, encarando de cima a baixo, antes de voltar a sua atenção ao que estava fazendo. suspirou pesadamente, não seria nada fácil.
- , será que você poderia olhar pra mim? – perguntou calmamente colocando as mãos no bolso da calça em sinal de nervosismo. bufou irritada e bateu na mesa, olhando agora para com irritação. Assustada, regrediu dois passos.
- O que você quer, ? Quer me passar algum trabalho é isso? Pode passar, sem problema, não faça drama nem nada assim para que eu olhe para você. – escutou falar aquilo com uma expressão assustada no rosto. Não que achasse que a amiga seria do tipo fácil, mas não esperava uma explosão logo de cara. Melhor assim, pensou. Melhor explosão do que ser indiferente.
- Desde quando você me chama de ? – perguntou atônita.
- Desde quando você fala comigo? – rebateu com grosseria.
- ... eu sempre falei com você... – tentou falar, mas tudo pareceu débil demais, porque simplesmente sorriu ironicamente.
- Fala é, amiga? Porque eu tive a impressão de que eu fiquei falando sozinha durante todo esse tempo, mas não... você realmente estava falando comigo? Que boba, eu que não percebi...
ficou parada, ainda sem saber direito o que falar e como. Sabia que tinha toda a razão de ser grossa com ela, e lhe dizer qualquer tipo de coisa, sabia que ela merecia aquilo. tinha sofrido tanto, precisou tanto da ajuda de , e ela esteve todo esse tempo tão afastada, mesmo tão perto, ela era simplesmente tão distante.
Sabia que não seria tão fácil assim reconquistar a amizade dela. Difícil, mas não impossível. E de qualquer forma estava disposta a correr atrás do tempo perdido.
- , eu sei que eu estive errada... eu – começou, mas foi interrompida por . Ela realmente parecia nervosa.
- Lógico que esteve errada! E só agora você veio notar isso... – bradou irritadíssima, e logo perdeu a paciência. Odiava quando a interrompia.
- Não me interrompe, merda! Eu já vim aqui falar com você e estou assumindo o meu erro, será que você podia pelo menos me escutar? – abandonou toda a calma e acabou elevando dois terços a voz. hesitou com os olhos arregalados de surpresa, mas depois voltou os olhos para o que estava fazendo antes de chegar, como se nada tivesse acontecido.
-...
-, eu estou em meu local de trabalho. Não acho que esse seja o melhor momento pra que a gente possa conversar. – ia fugindo do assunto, quando Lauren saiu da sua sala, olhando a cena.
- Tudo bem, , você pode tirar o dia de folga hoje, acho que vocês duas têm muito o quê conversar. – Falou.
piscou atordoada, não acreditando muito bem no que tinha escutado. Lauren não era do tipo de dar folgas assim do nada.
-Sim, ... acho que você e têm muito o quê conversar. Então podem aproveitar o dia de hoje para por a conversa em dia, estou sendo bastante solidária então aproveitem. – Lauren falou uma última vez, entendendo certo a expressão incrédula no rosto de .
olhou para , que tinha no rosto uma expressão suplicante. Suspirou pesadamente, e então se levantou acompanhando a amiga até a saída.

olhou incerta para assim que o garçom se afastou. Deu um gole generoso em seu café, e assim que sentiu o líquido quente descer por sua garganta, tomou um impulso de coragem e abriu a boca para falar, mas foi interrompida pela outra.
- Tudo bem, eu te desculpo.
olhou para a amiga atordoada, mas esta simplesmente sorria de um jeito enigmático, brincando com os muffins em seu prato.
- Eu acho que eu fui meio incompreensiva com você, não te deixei falar. Acho que eu estava irritada e surpresa demais na hora, você me pegou de guarda baixa. – confessou, rindo, pouco a vontade. Ergueu os olhos para , que ainda a observava incrédula. – Eu sei o quanto você sofreu pelo e tudo mais, só que eu não conseguia entender o porquê de você ter se afastado tanto da gente, digo de mim e das meninas... você sabe que nós estamos ao seu lado pra tudo, que a gente iria te entender...
- , eu...- começou a falar, mas sua voz saiu danificada. Sentia um caroço na sua garganta, pigarreou tentando falar mais claramente, mas o caroço só doeu ainda mais. – Me desculpe... eu... fui... uma... idiota.
E então, sem aviso, ela começou a chorar. Começou silencioso, mas de repente ela já estava soluçando. Fora um choro guardado há muito tempo, as lágrimas que ela lutou por tanto tempo agora estavam caindo livremente, lavando toda sua tristeza. já estava posta ao seu lado, afagando suas costas e soprando palavras de consolo.
- Tudo bem, , eu também errei muito com você. Nós duas erramos, colocamos o nosso sofrimento acima de qualquer coisa e nos esquecemos de dar apoio uma a outra.
continuou consolando por um tempo, até que ela se acalmasse o suficiente e, envergonhada, pedisse desculpas pela crise de choro. Mas ao mesmo tempo se sentia livre por ter enfim feito as pazes com a amiga. Queria mais do que tudo recuperar o tempo perdido.
Quando enfim se acalmou, pôde reparar na roupa que estava usando e se surpreendeu ao ver que ela usava roupas coloridas, diferente do seu preto melancólico e triste. Ela agora usava um vestido vermelho, e um salto estilo boneca, também da mesma cor. Notou que seu rosto parecia muito mais vivo e até mais feliz, que ela agora não tinha olheiras e seus cabelos pareciam muito mais cuidados. Muito diferente da última vez que tinha visto a amiga, que parecia estar em um luto sem fim por causa do fim de um relacionamento.
- Uau, o que eu perdi nesse tempo hein? – comentou dando uma mordida no seu pão de queijo.
- Muita coisa. – respondeu sapeca, mas com um leve tom acusador.
- Quais coisas?
- Tudo bem, não é tanta coisa assim, mas enfim. Eu tentei te ligar sabe, mas você deixou seu celular descarregado e nunca atendia telefonemas. E na clínica não falava comigo e... – abandonou o pequeno drama ao notar o olhar de – Tá, tudo bem. Eu pensei bastante nas coisas que a me disse, em relação a parar de ficar chorando pelo fim do relacionamento com o e seguir em frente... então eu realmente fiz isso, me presenteei com um belo banho de loja, e os resultados vieram como mágica. – tagarelou alegremente e arregalou os olhos.
- Resultados? Que resultados?
- Hm... lembra daquele meu professor de violão gostoso, aquele tal de Jeph?- perguntou recebendo um aceno positivo de – Então, ele vivia me insistindo pra sair, então... na semana passada eu disse sim.
- SÉRIO? Não brinca! Mas isso é DEMAIS, digo... ele é um gato, e... – comemorou alegremente e riu balançando a cabeça em afirmação, feliz pela amiga ter concordado.
- Sim, e ainda é um cavalheiro! E o melhor, ele está caidinho por mim. – completou, dando um gole no seu café, sorridente. olhou para a amiga, bobamente, e ergueu as sobrancelhas – Que foi?
- Quem é você e o que você fez com ? – perguntou em tom débil e revirou os olhos, rindo em seguida.
- Eu SOU a verdadeira, e essa pergunta você deveria fazer para o ‘Quem é você e no que você transformou a minha amiga?’ Urg, fala sério, depois do eu nunca mais fui a mesma, só deprimida, pelos cantos, lamentando o fim do namoro, me culpando por um fim que eu nem sei os motivos... comendo chocolate e chorando toda vez que via Um Amor pra Recordar...
- Mas você ama esse filme! – interrompeu incrédula, e balançou a mão como se aquele fato fosse inútil.
- Eu sei, mas não preciso chorar toda vez que vejo só porque me lembro do ... sinceramente, o melhor que eu faço é esquecer aquele traste.
- Uau, vejo que você passou da mágoa para raiva – notou o tom de voz que a amiga falava do ex-namorado.
- Eu só cansei de ficar chorando achando que a culpa é minha pelo fim do namoro. A culpa é dele, que é um otário. – falou simplesmente, mas pôde perceber que, no fundo, ela ainda escondia um grande sentimento.
- Hm, mas não seja injusta... não foi uma época ruim a que você passou com o , você era bem feliz... – tentou ponderar.
- É, mas você viu como eu fiquei depois? Um bagaço! Sofri demais. A Lauren me disse que eu deveria me libertar de tudo aquilo que me fazia lembrar dele. E se eu quisesse realmente esquecer, deveria devolver todas as coisas que pertenciam a ele. Então eu devolvi tudo que ele me deu... coloquei tudo em uma caixa, toquei a campainha e, antes que alguém atendesse, eu a deixei na porta da casa . – relatou. Sua voz transbordava o orgulho próprio, como se relatasse um feito bem produtivo.
- Fico feliz que finalmente tenha desiludido do e seguido em frente – sorriu para a amiga, que suspirou, olhando para ela.
- Agora só falta você desiludir do completou prontamente e sorriu amarelo, voltando a beber do seu café, como pretexto pra não responder. não insistiu, apenas suspirou fundo mais uma vez, balançando a cabeça negativamente.


- Não acredito que aquela megera não lhe deu as férias! Que bruxa! E ainda usa aquela desculpa de que ‘não é um bom tempo’! Ah, como você é boba! Se fosse eu faria um escândalo.
- Scott!- riu – A Lauren não é uma megera, ela foi, na verdade, bem compreensiva comigo. E me prometeu boas férias por um longo período, mas é como eu te disse... ainda não é hora, eu fui promovida há pouco tempo.
- Tanto faz! E você ainda acredita no que ela diz... há quanto tempo ela te prometeu férias, hein, hein? – Scott especulou, e deu de ombros, rindo em seguida.
- Nunca, já que eu nunca pedi.
- Ai, como você é sem graça, .- Scott censurou a amiga que riu, dando-lhe um beliscão na barriga.
Os dois amigos conversavam enquanto andavam pelo parque. Era sábado, portanto os dois podiam tirar o dia de folga. Amanheceu nublado, a previsão do tempo prometeu chuva forte ao longo do dia, então o parque estava menos movimentado do que de costume. No geral, as pessoas procuravam se refugiar em casa pra aproveitar a chuva como desculpa de passar boa parte do dia na televisão. A ausência de pessoas era um ponto bastante particular segundo Scott, ele tinha um certo problema com elas.
O casal de amigos passeava abraçado, conversando, quando um grupo de garotas passou por eles e uma delas em especial encarou Scott de um modo mais intenso do que as outras. riu desdenhosa quando elas se afastaram.
- Se elas soubessem do quê você gosta, talvez elas não olhassem tanto – Ela comentou enquanto eles se encaminhavam até um banco próximo.
- O pior não é nem isso, você precisa ver o meu ambiente de trabalho, eu mal consigo respirar... Às vezes dá vontade de beijar um homem na frente delas, só pra ver se elas perdem as esperanças. Mas algo me diz que nem assim elas desistiriam. – Scott comentou derrotado e riu, o abraçando pelos ombros.
Scott Smith era gay.
Sua opção sexual sempre foi a mesma, desde muito pequeno, desde quando ele brincava de dar selinhos nos amigos. Quando ele resolveu contar aos pais tinha apenas 16 anos de idade, e devido à visão preconceituosa deles, fora expulso de casa. Largado na rua pra viver por conta própria, nunca tinha se sentido sozinho em toda sua vida.
E foi assim que ele conheceu , a única pessoa que parecia não ter nenhum bloqueio, nem achar ele estranho, diferente dos outros. Pelo contrário, ela achava o máximo ter um amigo gay. Depois de apresentar Scott para os seus amigos, ela acabou arranjando um emprego para ele no restaurante da mãe de , como caixa. E desde então, a amizade continuou, e eles estiveram todos esses anos juntos.
- Eu devia deixar bem clara minha opção, eu sei que devia...
- Como se você não fosse afeminado o suficiente... – sentenciou e Scott lhe lançou um olhar incrédulo, mas cheio de humor.
- Eu sou afeminado? – Ele perguntou.
- Ah, eu saberia dizer que você é gay a uns dez metros de distância.- respondeu rindo e Scott continuou a olhando incrédulo.
- Nossa, valeu mesmo hein.
Conversaram mais um tempo, falaram sobre coisas bobas cotidianas. contou tudo sobre as pazes que fizera com , e sobre o novo encontro dela com Jeph.
- Bom, disso eu já sabia... ela me ligou contando. – Scott comentou quando lhe contou o quão surpresa estava com a reviravolta na vida da amiga.
- Sério? Nossa, acho que só eu que não sabia...
- Ah, ... todo mundo está recomeçando, né? só falta você agora. – Scott comentou quase casualmente, mas pôde sentir a acusação por trás das palavras do amigo.
- É, seria muito bom se vocês parassem de repetir isso o tempo inteiro.
- Isso é porque nós nos importamos com você, e queremos ver você superar isso. Já está mais do que na hora... – Scott apertou mais forte o ombro da amiga e lhe depositou um beijo no topo da cabeça, apenas suspirou e revirou os olhos, mal humorada.
- Se vocês soubessem o quanto é difícil...
- Náh, você supera... – Scott riu e sacudiu um pouco a amiga – Sabe, você precisa é de um namorado.
- Olha só quem fala, o encalhado. – acusou e Scott a olhou incrédulo e ressentido.
- Nossa, essa doeu. – Ele balbuciou e sorriu de lado, travessa.
- Então alcancei meu objetivo.


Capítulo 02


Assim como prometera a previsão do tempo, o sábado estava sendo chuvoso. Parecia que o inverno tinha chegado um mês mais cedo com toda aquela chuva, e o frio intenso fazia as pessoas se refugiarem debaixo dos cobertores e se aquecerem do jeito que podiam.
estava cochilando no sofá quando ouviu um tiroteio e acordou balbuciando palavras desconexas, assustada com o barulho, mas se acalmou ao ver que era só um filme que passava na televisão. Zonza e um tanto mal humorada, se levantou, pegou o controle em cima da estante e mudou o canal, enquanto voltava para o sofá do qual nunca desejou ter saído.
Enquanto mudava freneticamente de canal, pegou seu copo favorito com canudinho de sapo, o havia ganhado de lembrança do aniversário da sua irmã há dois anos, que estava na mesinha de centro e deu um longo gole de coca cola, pegando a vasilha de pipoca logo depois. Após muito mudar de canal, ela finalmente achou algo bom – uma longa maratona de Lost – Ótimo.
Era uma pena que os seus amigos estivessem indisponíveis nessa noite. Parecia ironia do destino que durante o tempo em que eles quiseram sua presença, ela estivesse sempre ‘ocupada demais’ e agora, quando ela queria fazer alguma coisa, todos eles estavam indisponíveis. Então seria mais uma noite solitária no sofá, assistindo televisão e comendo suas porcarias preferidas - Ótimo.
As janelas bateram furiosamente com o vento forte que soprava, ela se contorceu mais no sofá. A idéia de dormir sozinha numa noite como essa era, no mínimo, frustrante. Como seria bom um corpo quente ao lado do seu, alguém para abraçar, só com a desculpa de se aquecer.
Fazia um bom tempo desde que não dormia assim com alguém, na verdade desde seu último relacionamento sério, há quase um ano, com Brandon Daves.
Brandon era o tipo de cara perfeito. Bonito, educado e romântico, típico de homem que qualquer mulher sonharia em ter ao lado.
Durante um longo ano e ele moraram juntos, gostava muito dele e provavelmente teriam passado muito mais tempo juntos. Pena que ele tenha sumido, deixando uma carta explicando que fora morar na França com outro homem. É, esmola demais cego desconfia.
Foram meses difíceis para , durante muito tempo tudo o que fizera fora chorar. Entrou numa depressão terrível, e, apesar dos esforços dos seus parentes e amigos, somente duas palavras faziam com que ela erguesse a cabeça por debaixo dos cobertores: .
e eram amigos desde o colegial, melhores amigos. Mas era muito mais o que sentia por ele, além de amizade mantinha em segredo um amor muito intenso.
sempre fez o tipo conquistador, sempre conseguia qualquer garota que queria, o que irritava muito . Odiou todas as garotas com quem ele ficou, sempre achou que nenhuma delas era boa o suficiente para ele. No fundo sempre achou que ela era o melhor pra ele, apesar de nunca dizer nada.
Nunca tinha ficado com , mesmo não lhe faltando oportunidades. Sempre fizera o tipo amiga, que está presente em todas as situações. Sempre esteve perto de , eram tipo unha e carne, até que tudo isso mudou quando acabaram o colegial.
Depois de um namoro e emprego misteriosos, nunca mais foi o mesmo. Sempre tão distante, cheio de mistérios, se afastava cada vez mais de , chegando ao ponto crítico de sumir por longos seis meses... nem um telefonema.
se revirou preguiçosamente no sofá, tentava encontrar uma posição confortável e, enfim, a achou. Com os travesseiros abaixo da nuca, coberta com edredons, se sentia quente e confortável, não pretendia de jeito nenhum sair daquele sofá.
Estava sentindo as pálpebras pesarem e o corpo amolecer, estava quase cedendo ao sono quando escutou o som irritante da sua campainha e, em seguida, o barulho da vasilha e do copo, que segurava em suas mãos frouxas, cair no chão. Meio grogue, ergueu a cabeça para olhar o relógio digital, que lhe informava que era meia noite e quinze minutos. Quem seria e o que queria a essa hora? Assustada e um tanto mal humorada por ter sido acordada outra vez, foi até a porta e olhou no olho mágico, mas ao ver quem estava lá fora, a abriu rapidamente.
O espanto tomou conta do rosto de . De início pensou que estivesse sonhando, que fosse o seu subconsciente descarregando seus pensamentos diários, mas ela não estava com tanto sono assim para estar delirando. Parado do lado de fora, um rapaz se contorcia de frio, e, a julgar pelas marcas roxas em seu rosto, ele provavelmente tinha acabado de sofrer um acidente.
- Desculpe o incômodo, mas você demorou a atender. – se desculpou assim que olhou pra . Mas ela não respondeu, nem tomou iniciativa nenhuma. Não deu o menor sinal de que estava ouvindo, ela ainda estava muito espantada, e agora suas pernas estavam tremendo. Não era possível, não podia ser ele.
- você está me ouvindo? ? – chamou a atenção da amiga, que pareceu acordar do seu transe ao ouvir a voz dele. A voz dele, a voz que ela imaginou ouvir, a voz que ela achou que não escutaria mais. Alarmada e atordoada, ela abriu a porta, dando passagem para que ele entrasse.
- O que você está fazendo aqui? – conseguiu cuspir a pergunta para fora, sua voz soava completamente diferente do tom desejado. arqueou as sobrancelhas, confuso pelo tom de voz da amiga.
- Meu carro bateu. Eu estava chegando à cidade, mas estava tudo escuro e um otário perdeu o controle e bateu em meu carro, há essa hora ele deve estar todo esbagaçado. – respondeu, fazendo uma careta, soltou uma exclamação de espanto.
- O homem?
- Não, não. O carro. – respondeu fazendo mais uma careta, e acendeu a luz. Olhou para o rapaz, e pôde notar que ele estava realmente machucado. Tinha cortes na sobrancelha e seus dedos estavam ensangüentados, marcas roxas na testa e podia jurar que no resto do corpo também teria. Mas fora isso, continuava insuportavelmente lindo. Mesmo com o rosto machucado ele conseguia ter aquela beleza estonteante, e na opinião de , ele estava mais bonito do que ela lembrava.
- Você voltou é? – não pôde conter a acusação na sua voz. Apesar da surpresa da presença de , não conseguia disfarçar sua raiva, a raiva por ele tê-la deixado, raiva por ele não lhe dar um telefonema. E simplesmente, de repente, do nada, ele aparece todo machucado porque precisava dela. Se ele não tivesse se acidentado teria ido falar com ela?
arqueou as sobrancelhas, confuso pela acusação. Provavelmente ele não esperava uma explosão logo de cara. ao notar que ele não iria responder, continuou:
- É, porque depois de seis meses eu realmente achei que você não ia voltar mais, sabe? Cheguei até a pensar que você estivesse morto.
suspirou. É claro que ele sabia que ela sentiria sua falta, sabia que o que tinha feito fora errado, devia ter dito alguma coisa, ele simplesmente sumiu sem nenhuma explicação... mas mesmo assim, os motivos justificavam tudo aquilo. Sabia que apesar de magoá-la, era o melhor a ser feito.
- Eu sei, eu devia ter ligado, mas foi preciso, eu realmente precisava ir.
fez uma careta, já tinha escutado aquilo antes, era sempre essa a resposta de . Ele sempre precisava ir, sempre estava ocupado demais, sempre tinha algo mais importante e complexo que provavelmente achava que não entenderia. Mas ele nem ao menos tentava explicar, sempre era tão enigmático. - Eu achei que fossemos amigos – A voz de era totalmente desapontada, o que fez se sobressaltar.
- Nós somos!
- Não, , não somos. Amigos confiam uns nos outros, estão sempre ao lado quando as coisas estão ruins, e se ajudam em qualquer situação. Mas pense bem, sou sempre eu que toma as atitudes de amiga, porque quando você está com problemas a primeira pessoa a quem você recorre é a mim. Você sempre sabe onde me achar, mas e eu? Eu por acaso sei onde te encontrar? Você não esteve presente quando eu mais precisei de você, você simplesmente sumiu.
As palavras de atingiram em cheio no peito. Ele podia sentir a dor dela, podia sentir que tinha a magoado. Sabia tudo o que ela havia passado, é claro, mas sequer deu um telefonema ou escreveu uma carta. Não fez nada. Sabia que ela tinha ficado triste com ele e sofrido bastante, mas não esperava que ela fosse agir desse jeito. ‘Mas afinal de contas, o que você esperava, ? Uma recepção feliz? Você magoou a única pessoa que sempre esteve ao seu lado.’ Uma vozinha disse em seu subconsciente; ele estava errado e precisava se desculpar com ela.
- , olha... me desculpa ok? Eu sei que eu deveria ter ficado ao seu lado, mas eu realmente precisava ir. Eu não imaginei que fosse ficar tanto tempo fora, eu estava resolvendo uns problemas de trabalho, mas agora eu estou aqui...
- Não vai ser fácil, você sabe que não vai. – interrompeu friamente.
Nesse momento olhou diretamente nos olhos dela, um olhar intenso, quente. O mesmo olhar que sempre derretia , que a deixava submissa, sem chão, sem lugar.
- Me desculpe – A voz dele fervia arrependimento, e sabia que aquelas desculpas não eram só pelo sumiço, eram por tudo. Por todos os segredos, por todos os mistérios, que, no fundo, ela sabia que ele não podia contar mesmo que a irritasse tanto, sabia que teria que conviver com aquilo, por enquanto.
não respondeu de imediato, apenas continuou o olhando diretamente nos olhos. Era surpreendente o efeito que causava o simples olhar, os sobre os . Parecia aquecer todo o seu corpo, fazer o seu coração bater mais forte. Qualquer que fosse a desculpa de , estava temporariamente aceita, pelo menos ela não estava mais com raiva, era impossível ter raiva de quando ele a olhava dessa forma.
- Tudo bem, se você quiser que eu vá embora... – começou, preocupado que o silêncio de fosse uma resposta negativa.
- Largue de ser idiota, eu não vou deixar você ir a lugar algum! Ainda mais desse jeito, todo machucado. – interrompeu, rolando os olhos ao se aproximar de . – Parece que a coisa foi feia aí, hein?
- Ah, isso não é nada . Não se preocupe, nem está doendo – tentou reforçar a afirmação com um sorriso, mas não passou de uma careta. Sorrir doía.
riu.
Não acreditando nas palavras dele e, ignorando quando ele tentou se afastar, se aproximou com as mãos erguidas. Lentamente tocou o rosto dele, com cuidado para não o machucar. Ele parecia tão frágil, tão vulnerável nesse momento. Tão ferido e cheio de dor! não pôde evitar o surto de compaixão que sentiu ao vê-lo daquela forma.
parecia indiferente ao toque, mas o coração de estava acelerado. Era simplesmente inevitável, o contato, por mínimo que fosse, a deixava alterada. Analisou o rosto dele e pôde perceber com clareza os cortes. Não pareciam graves, então ela mesma podia cuidar daquilo. Sabia que se propusesse ajuda médica iria negar, ele odiava hospitais.
- Tem certeza que isso foi mesmo um acidente? Parece mais que levou um soco – murmurou enquanto reparava no corte razoavelmente fundo que ele tinha na sobrancelha.
- ... – a interrompeu, a voz rouca e séria. sentiu o coração acelerar, adorava ouvir o seu nome na voz dele. lhe lançou outro olhar intenso, que a fez sentir um frio percorrer sua espinha.
- Você passa meses sem dar notícias e, do nada, aparece na minha porta nesse estado! O que quer que eu pense? – falou frustrada, tentando não transparecer o efeito que tinha sobre ela com o mínimo olhar.
- Não quero que pense em nada, só que acredite em mim. – respondeu prontamente e ela bufou revirando os olhos. – Não confia em mim? – Novamente ele usou a força do seu olhar sobre , que pareceu derreter por completo. – Eu só preciso que você cuide de mim. – continuou a usar a força dos seus olhos e suspirou derrotada, ele sempre conseguia o que queria. Sempre.

Depois de ajudar a subir os degraus a caminho do seu quarto, o levou até o seu banheiro, alegando que ele precisava de um bom banho quente.
- Pronto, senta aí enquanto eu procuro uma roupa pra você vestir. – sentou na borda da sua banheira, indo procurar algo no armário para ele.
- Me diga, você tem roupas de homem na sua casa é? Ou vou ter que usar algo seu? – pode ouvir a voz debochada de do banheiro. Fingindo não escutar, ela pegou duas peças de roupa que achou que caberia.
- Ou... você recebe homens com freqüência na sua casa? – continuou, ao vê-la de volta ao cômodo com as roupas masculinas na mão.
- Não que te interesse, ... mas essas roupas eram do Brandon – respondeu rispidamente e vacilou. Apesar de óbvio ele não pensou nisso, instantaneamente se sentiu mal pelo que falou, lógico que falara na brincadeira, mas não sabia como a amiga entenderia.
- Desculpe , eu... – Ele tentou se redimir, mas foi impedido pela outra.
- Tudo bem, esquece. – Ela ainda tinha o tom ríspido na voz. suspirou pesadamente, parecia arrependido, mas sabia que nada poderia dizer. Se controlando para não ser mais grosseira com o amigo, completou num tom mais ameno.
- Aqui estão as roupas, aqui o roupão, nessas bancadas estão as coisa de banho, consegue fazer tudo isso sozinho?
- Ah, consigo, não estou morrendo ainda sabe? – respondeu parecendo mais aliviado ao notar a ausência de rispidez na voz da amiga.
- Certo vou preparar um chocolate quente e depois faço uns curativos nesses seus cortes.
já estava saindo do banheiro quando a chamou:
- ... – Ela se virou e pôode vê-lo com a cara mais fofa do mundo, os olhos queimando no seu com uma intensidade incrível. – Obrigado.
sorriu, balançando a cabeça em afirmação, virando de costas pra sair novamente.
- De nada, , só cuidado pra não se afogar.


observava atentamente. Admirava a maneira como ela ficava quando se concentrava e como suas sobrancelhas ficavam juntas e seus olhos brilhavam no foco de obter o resultado. O que ele podia afirmar sobre a amiga era que ela era bastante centrada quando fazia alguma coisa.
limpava os cortes de com um algodão umedecido com álcool, o avisara que podia doer, mas ele não se afastou, não protestou nem reagiu de forma alguma. Talvez ele já estivesse acostumado à dor.
Começou a fazer uns curativos nos cortes e passou uma pomada amarelada nas partes machucadas, seus dedos deslizavam suavemente em forma de círculos pelo rosto do rapaz. Com todo o cuidado para não o machucar ainda mais, ela espalhou todo o conteúdo das suas mãos no rosto dele.
fechou os olhos, apesar de ser um toque superficial era realmente agradável. As mãos de eram quentes e habilidosas, suspirou pesadamente ainda de olhos fechados. Mas entendeu isso como um sinal de cansaço, pois logo parou o que estava fazendo. abriu os olhos e fez uma careta, queria que ela continuasse. Mas , novamente, entendeu errado, como se fosse uma careta de dor.
- O.k., pode dormir aqui na minha cama. Tem uns edredons para te esquentar, e se quiser pode ligar o aquecedor. – falou enquanto deitava em sua cama, este olhou pra ela com uma cara surpresa e um sorriso um tanto malicioso.
- Eu vou dormir na sua cama?
rolou os olhos.
- Vai, e eu vou dormir no quarto ao lado. Qualquer coisa, já sabe. - já ia saindo quando a chamou novamente.
- Dorme aqui comigo. – Ele pediu no seu tom de voz mais amável, sem malícias nem segundas intenções. revirou os olhos novamente e ia se virar pra ir embora, mas falou em tom de súplica. – É sério, sem maldade. Eu quero que fique aqui.
Era impossível resistir a qualquer coisa que pedisse quando ele usava a força do seu olhar faiscante.
Boba de que sempre cedia.


estranhou acordar sem o peso do corpo de por cima do seu. Na noite anterior tanto ele pediu que ela acabou dormindo com ele. E, como ele havia prometido, não havia malícia. Apenas a abraçou e dormiu com a cabeça apoiada no seu ombro e os braços em volta da sua cintura. Um abraço inofensivo, mas que fez o coração de ficar inquieto por muito tempo.
Esperando acordar com ainda em sua cama, se assustou quando abriu os olhos e não o viu por lá. ‘Talvez ele ficou com fome e foi para cozinha’ Pensou consigo mesma, tentando ser otimista quando desceu as escadas apressada indo até a cozinha, esperando encontrá-lo sorrindo pra ela.
Mas não foi nada disso que viu. não estava na cozinha, nem no seu quarto, na sala, nem em qualquer outro lugar na casa. No instante em que percebeu isso, sentiu algo despencar no seu estômago, perdeu a graça e o ânimo pra fazer qualquer coisa o resto do dia.
Que boba você é, ! É tão óbvio que ele só veio aqui porque estava precisando de cuidados! Ele te usou e foi embora... ele não se importou nem em se despedir. E a culpa é toda sua por sempre fazer as vontades dele! reclamava consigo mesma por ter sido tão estúpida.
Se sentia uma completa idiota.
sempre fazia o que queria. Agia tão carinhosamente em um dia e no outro sumia sem deixar rastros. já estava mais do que farta dos seus mistérios e das suas mentiras. Era essa a palavra exata: “mentiras”. Sabia que ele escondia alguma coisa, só não sabia de fato o que era.
Os pensamentos bombardeavam a sua mente quando desceu novamente pra tomar café, depois do asseio diário.
Abriu a geladeira e bebeu leite direto da garrafa, quando fechou a porta encontrou, preso num ímã, um bilhete que lhe chamou a atenção.

Não me odeie” Dizia a primeira frase.
Eu sei que você deve estar com raiva, mas não fique. Eu realmente precisei sair.
Você estava dormindo tão bem que não quis te acordar, seria injusto depois de toda dedicação que teve comigo ontem. Obrigado por isso, não vou esquecer.
A roupa que você me emprestou está no cesto, não sei porquê você ainda as guarda.
Não se preocupe, não vou sumir, te ligo em breve.
Obrigado por tudo, de novo. Você não existe, sério.
Beijo na boca (haha, sacanagem)
.


Beijo na boca riu ao ler essa frase (e releu, e releu, e releu várias vezes).
Sentiu um súbito alívio por não ter usado-a e por ter se importado em, pelo menos, agradecer e deixar um bilhete. Mesmo se sentindo um pouco mais aliviada, não conseguia entender como uma pessoa teria alguma coisa pra fazer cedo em pleno domingo.
Deu outro gole no leite e acabou o derrubando no chão, desastrada, quando escutou o telefone tocar estridente na sala. O seu coração bateu dolorosamente forte contra o peito, tinha a esperança que fosse .
Mas uma vozinha lhe lembrou que provavelmente tinha pouco tempo que tinha saído da sua casa, e que ele não tinha necessidade nenhuma de lhe ligar, por enquanto.
- Alô? – Mesmo sabendo que não era ele, não conseguiu conter a ansiedade e a expectativa na sua voz.
- PICACHUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU – Um grito forte e agudo irrompeu do outro lado da linha, fazendo com que afastasse o telefone do ouvido uns trinta centímetros.
- Ai... ! – Ela gritou para a amiga, mal humorada – Não se grita no ouvido das pessoas de manhã cedo... hm.
- Awwww, Picachu! É tão bom ouvir sua voz de novo! – ignorou completamente o mal humor de , sua voz parecia animada.
- É bom ouvir a sua também, já estava achando que iria ficar no Brasil a vida inteira. – caçoou.
- Não, não... eu gosto do Brasil e tudo mais, mas sentia tanta saudade do friozinho de casa, lá é muito quente.
- Fico feliz que tenha voltado, senti sua falta. – falou sinceramente e pôde ouvir murmurar um ‘que bonitinho’ com vozinha de criança. – Eu sei que você sentiu minha falta também, nem precisa chorar – falou convencida e riu.
- Senti mesmo, e é por isso que estou convidando, aliás, intimando, você pra passar o domingo aqui em casa, e dormir aqui também, é claro! Amanhã eu mando o Luiz te levar no trabalho. Você, a e a . – falou. Luiz era o motorista particular e bonequinho dela. Fazia todas as vontades de , passava dia e noite rodando por toda a cidade, levando-a aonde ela queria ir, e, claro, as amigas dela também.
- Anh, ... você sabe que eu não gosto disso! Me sinto explorando o Luiz...
- , acordaaa! Eu fiz um favorzão pra ele quando o trouxe do Brasil pra cá. Ele não está sendo escravo nem nada disso, é o emprego dele e ele adora.
Isso era verdade. Luiz era filho da governanta da casa do pai de , no Brasil (O pai e a mãe dela moravam separados, o pai era brasileiro, mais e a mãe eram inglesas) e, depois de muito implorar, acabou trazendo ele pra Londres com ela pra ser o seu motorista, coisa que Luiz adorava fazer. Ele até tentou dar em cima das meninas, mas então acabou virando amigo delas também.
- Acorda, travuxa, pra quê coisa melhor? – falou e pensou num segundo. Sabia que não tinha alternativa, provavelmente ficaria no seu pé até ela ceder.
Por que todo mundo fazia isso?
sabia que a amiga era rica, muito rica aliás. A mãe era uma estilista famosa e tinha uma grife só dela. A grife que vestia pessoas ricas e famosas, socialites de toda a Europa.
O pai dela era dono de uma das maiores agências de viagens do Brasil, ou seja, nadava em dinheiro desde o dia em que veio ao mundo.
e tiveram uma criação bastante diferente, claro. Enquanto viajava por vários lugares do mundo, conhecendo pessoas ricas e famosas, foi criada em Suffolk, na classe média, junto com três irmãos e uma irmã.
Só depois do nascimento da sua quarta e última irmã, Elizabeth, foi que foi morar em Londres com a sua avó, e então conheceu , e os outros amigos.
Ainda ao telefone, e conversaram sobre pouca coisa, não acreditou quando lhe contou que não tivera férias ainda, e logo desligaram, com pressa quando alegou que precisava arrumar suas coisas.
Quando abriu a porta do seu quarto, pôde ver que sua cama ainda estava desforrada. Olhou para a poltrona próxima e viu que a caixa de primeiros socorros que ela usara na noite anterior ainda estava aberta.
Suspirando, foi inevitável não se lembrar da noite anterior.

Flashback


- Por que você faz isso? Fala com essa voz e faz essa carinha... consegue tudo o que quer. – dizia enquanto apagava a luz e se dirigia à cama, se sentando ao lado de , deitado e sorrindo pra ela, no escuro.
- Essa pergunta é retórica, mas, de qualquer forma, você acabou de responder. – Ele riu quando viu abrir e fechar a boca indignada. Não demorou muito e ela acabou rindo junto.
colocou uma das mãos em volta da cintura da garota, que estava sentada, e com a outra ele puxou a mão dela.
- Vem cá, deita aqui-iii- Ele pediu com a voz arrastada e, mesmo no escuro, sabia que os olhos dele faiscavam em sua direção.
Lentamente ela foi se deitando. retirou a mão da sua cintura e tocou o rosto dela. O coração de reagiu quase imediatamente, ela quase podia escutar seus batimentos frenéticos.
- Senti tanto sua falta. – sussurrou carinhosamente, acariciando levemente o rosto dela. agradeceu mentalmente a ausência de luz, assim ele não poderia ver como seu rosto ficou vermelho ao ouvir aquilo.
- Eu também, nem imagina o quanto. – Quase não pôde conter a dor em sua voz, e percebeu, porque imediatamente chegou mais perto da amiga, abraçando-a fortemente.
Aquele momento poderia durar pra sempre, no pensamento de . O calor do corpo de , o abraço dele, tudo aquilo era reconfortante demais.
Lembrou-se de ter pensado, mais cedo, no quanto era frustrante a idéia de dormir sozinha numa noite como aquela, e agora não poderia simplesmente pedir uma companhia melhor. Sorriu involuntariamente ao pensar naquilo.
Sentiu seus olhos pesarem, mas seu coração batia tão forte com aquele contato que ela não tinha a mínima vontade de dormir.
Mas pouco a pouco, o seu corpo foi cedendo ao cansaço e ela pôde ouvir a respiração tranqüila de bater no seu pescoço, e acabou dormindo.


End Flashback


sentiu uma sensação de vazio ao se lembrar dele. Não entendia como, depois de dizer que sentia falta dela, podia ir embora desse jeito.
Eu só espero que você cumpra sua promessa, . Eu vou ficar realmente aguardando sua ligação. falou pra si mesma, agressivamente, enquanto abria a porta do seu armário.


Capítulo 03


afogava um morango na taça de chocolate derretido enquanto e riam de alguma piada que havia contado. Estavam todas as quatro reunidas no quarto de falando futilidades e rindo de nada em especial.
Já se passavam das dez horas e elas já tinham ficado a tarde inteira nesse mesmo clima, dedicando o tempo para dar 'mimos' aos cabelos, unhas, e afins nas habituais horas de salão de beleza doméstico.
- , sua cretina se você derramar chocolate na minha cama eu vou te encher de porrada e eu falo sério - ameaçou, ao ver comendo morango em caldas enquanto ria, sua mão tremia e os pingos de chocolate estavam quase caindo sobre a colcha estampada de oncinhas.
- Desculpa...foi a fazendo piadinhas idiotas – desculpou-se, apressando-se em colocar o morango na boca e lamber as pontas dos dedos. - É, e eu bato em você também.. Tá ouvindo Pikachu? - ameaçou a outra amiga apontando-lhe uma colher cheia de chocolate, fazendo e se encolherem fingindo medo.
- Aaaaah, gente! Que saudade que eu estava de vocês, suas piranhas! Apesar é claro dos meus dois meses maravilhosos ao lado do meu princeso... Vocês fizeram falta! - comentou carinhosamente fechando os olhos de pura emoção. - Isso seria quase tocante e romântico se você não tivesse mencionado pela enésima vez 'os dois meses maravilhosos ao lado do meu princeso' - amansou a voz numa bela imitação de que corou levemente, fazendo e rirem concordando.
- É verdade... já era apaixonada pelo , mas depois dessa viagem vão ganhar o prêmio casal melação do ano... pela segunda vez consecutiva! - comentou recebendo uma almofadada de .
- Não vale! O ano passado o prêmio foi de e ! - gritou emocionada, mas ao perceber a mudança drástica no semblante de , arrependeu-se instantaneamente. - Ops, desculpa !
- Sem problemas, amiga! Já me acostumei com sua falta de tato – riu sem graça e corou furiosamente. Não é que estivesse com raiva da amiga, mas todo mundo sabia o quanto conseguia ser bola fora com suas indiscrições sem nem perceber. suspirou com uma expressão engraçada ao ver com cara de cão sem dono e continuou a falar num tom mais ameno e divertido - Pelo menos eu tenho o Jeph agora, né?
- Pois é, amiga, a quantas anda esse novo romance? – perguntou interessada, afastando completamente o assunto do ambiente. Primeiro porque sabia que aquilo afetaria completamente o humor de , e segundo porque ninguém aguentava mais ficar no meio do fogo cruzado entre os dois amigos.
- Nós saímos esses dias – disse vagamente e sem muita emoção, mas ao perceber os olhares de expectativa das amigas, concluiu a contragosto – Nós ficamos, ok?
As outras três amigas deram gritinhos empolgados que fez questão de ignorar, colocando dois morangos na boca ao mesmo tempo que revirava os olhos.
- E então, ele beija bem? – perguntou animadamente e pensou um pouco antes de dar de ombros – Nossa, tão mal assim?
- Não é que seja ruim, só é um pouco diferente do que eu estou acostumada. Ele é mais delicado do que os outros caras com quem já fiquei. Isso é legal, ele é um cavalheiro e tudo mais, mas meu tipo é diferente... – É o . Todas as amigas pensaram ao mesmo tempo, tendo a certeza de que era exatamente aquilo que se passava pela cabeça de , que agora encarava um ponto fixo na colcha de . Alguns segundos desconfortáveis de silêncio se passaram até que resolveu abrir a boca novamente.
- Eu preciso de um namorado.

As amigas se entreolharam e trocaram risinhos cúmplices. O último relacionamento de tinha sido no terceiro ano do colegial com Nolan Potter, com quem havia protagonizado a ceninha de rei e rainha do baile de formatura. Nolan fora estudar em Oxford e desde então não se viram ou se falaram mais.
- Cansou do celibato, amiga? – perguntou num tom zombeteiro e forçou uma expressão chocada e ofendida.
- Celibato porra nenhuma! Eu dei mais que chuchu na serra enquanto estava no Brasil. Vocês precisavam ver quantos homens maravilhosos dos nomes estranhos e corpos sarados e bronzeados. Meu Deus do céu! – levou os braços pra cima em sinal de agradecimento divino fazendo as amigas rirem do seu exagero.
- Não trouxe um pra contar história! – falou num tom falsamente acusatório e deu um tapa fraco no braço da amiga que riu bobamente enquanto falava em português “Oi gostosa”.
- Deixa só o saber da sua saliência, ! – falou enquanto digitava as teclas de um celular imaginário, fazendo a amiga gargalhar.
- Deus é mais, eu sou mais meu homem. Não sei o que faria da vida sem ele – concluiu apaixonadamente, fazendo as amigas rolarem os olhos e rirem. lançou mais um olhar vago e triste para a colcha, brincando com seus dedos pelo tecido. Estava feliz por . Estava sim e de verdade. Mas não conseguia ouvir sobre sua paixão e tamanho amor por , porque isso fazia lembrar . e começaram a namorar quase na mesma época que e , e era quase frustrante pensar que o romance da amiga deu certo e o dela não. Talvez fosse egoísmo pensar assim e ela sabia que no fundo nunca assumiria aquilo, mas era um sentimento ruim que invadia seu coração antes mesmo que ela pudesse evitar.
percebeu o desânimo de , e com serenidade afogou um morango no chocolate derretido e passou na ponta do nariz da amiga, que acordou do seu transe particular. Por um momento pareceu que fosse se irritar profundamente, mas o olhar sapeca de só fez com que ela desse risada junto com a amiga.
sorriu com a cena. Pelo canto do olho, podia perceber que estava lhe encarando. Não gostava disso, sabia que ela não iria desistir enquanto não lhe perguntasse aquilo que já sabia a resposta. Por mais que tivesse desenvolvido uma afinidade especial por , também era melhor amiga de , e portanto a conhecia com a palma da mão.
suspirou derrotada da mesma forma que fizera .
- Não, . Não sai com ninguém durante esse verão. Não aceitei nenhum convite, nem sequer recebi um. Me desliguei de todo mundo, não fui amiga boa o suficiente pra servir de consolo pra ninguém, não pensei uma vez se quer no fim do meu relacionamento com Brandon... Sim, eu pensei todo esse tempo em . É isso que você quer saber? - disparou num tom resignado, fazendo com que e se entreolhassem abobalhadas sem entender a repentina mudança de assunto. lançou um olhar receoso na direção de , mas a amiga permanecia inexpressiva, como se não tivesse dito absolutamente nada que lhe fosse interessante.
- Eu só ia dizer que tem uma gota de chocolate no seu queixo... - comentou num tom falsamente sereno.
bufou descrente "Esse é o melhor que você pode inventar?"
- Ah... eu não queria te pressionar...
- Eu percebi pela forma como você me olhava, você estava apertando minha mente! – se defendeu, embora já sentisse as bochechas arderem de vergonha. Maldita língua! Maldita mente paranoica!
- Eu não fiz nada!
- Sei... Sei...
- Você falou porque quis...
- Será que as duas gracinhas podem parar, por favor ? - interrompeu olhando as duas amigas com impaciência. – Vocês estão interrompendo o meu momento aqui.
e ficaram em silêncio apenas se entreolhando.
Na cabeça de tudo girava a velocidade máxima. Agora, estando ao lado das amigas pensava como conseguira se afastar tanto delas? Havia tanta cumplicidade e sinceridade no olhar de cada uma. Conseguiam completar frases uma da outra, conseguiam saber exatamente o que se passava na cabeça uma da outra e até mesmo sabiam interpretar um simples “oi”. só conseguia pensar em como não era merecedora de tanto carinho e compreensão, tendo sido tão péssima amiga quanto fora. Como conseguiu virar as costas para os problemas de , e só se importar consigo mesma? Mesmo que e estivessem ausentes, estivera lá o tempo todo quando o mundo de desabou com a partida de Brandon e o sumiço de . Quando a amiga mais precisou, no entanto, onde estava ? Mal, sem clima de festa, sem clima de ligações e sem paciência pra ouvir problemas que não fossem seus... Como foi egoísta!
Sabia que tinha sido uma péssima amiga, mas queria se redimir.
foi a primeira amiga que fez na vida. Brincavam que eram amigas de feto, já que suas mães eram também amigas e engravidaram na mesma época. Desde sempre frequentaram as mesmas escolas, tiveram os mesmos amigos e vez ou outra brigaram por gostarem do mesmo cara. No ensino fundamental conheceu e logo se tornaram melhores amigas, ainda em Suffolk. No início se sentiu rejeitada e com ciúmes, mas logo que conheceu se tornaram inseparáveis também, eram um trio e tanto.
fora a primeira a se mudar para Londres. A mãe era uma chef de cozinha bem sucedida e resolvera arriscar seu primeiro empreendimento próprio em Londres, o Bistrô . De início a amizade sobreviveu a distância, mas um ano depois os pais de se separaram e ela fora morar com o pai na capital inglesa também. Enquanto estivera sozinha em Suffolk, conheceu e logo criaram um laço de amizade muito grande, assim como que já era amigo de há muito tempo. Quando se mudou para Londres para morar com o irmão mais velho, a irmã mais nova de nasceu e então os seus pais a deixaram ir para Londres morar com a avó e completar sua educação, depois de muito implorar. Os motivos foram totalmente acadêmicos para os pais de , mas ela só fizera esse escândalo todo para ficar perto de e de quebra das amigas.
No ensino médio conheceram e e então estudaram todos juntos. ainda morava em Suffolk e vez ou outra passava férias e feriados na casa que dividia com o irmão, agregando a bagunça.
e se odiaram no mesmo instante em que se viram. sempre fora muito explosiva e não tinha muita paciência para as grosserias e birras da menina. Por terem os mesmos amigos em comum, precisaram fazer uma trégua e para surpresa de todos, descobriram muitas afinidades e logo se tornaram muito amigos, mas graças a personalidade forte de ambos, sempre estavam brigando e fazendo as pazes. Era evidente o interesse e a forte atração que os ligava, mas apenas no fim do 3 e último ano do colegial, exatamente no dia da formatura, eles conseguiram superar as diferenças e darem o primeiro beijo, já que fez de tudo para comparecer na formatura dos amigos. Ainda assim, quatro anos de enrolação se passaram até finalmente resolveram firmar namoro, já que havia se mudado para York fazer faculdade. Só quando finalmente se estabeleceu em Londres os dois assumiram o rolo.
Havia quem pudesse dizer que eles não durariam, mas foi entre 'tapas e beijos' que o namoro durou dois anos.
nunca havia visto apaixonado antes e era de se admirar, ele era romântico, sempre cheio de surpresas, o que com o tempo acabou amolecendo o coração de , que se mostrou uma namorada dedicada e muito amável. Todos sabiam que apesar das brigas, eles eram loucos um pelo outro. Eles estavam muito bem e então de repente, deixaram de estar.
simplesmente ficou estranho de uma hora pra outra, e antes um namorado apaixonado, se tornou uma pessoa carrancuda e simplesmente incapaz de se comunicar com clareza, sempre trazendo brigas à tona, sem motivo. E quando , cansada de tantas discussões propôs o fim do namoro, ele aceitou sem nem pestanejar.
ficou mal, depressiva até. Não saia mais de casa, usava preto constantemente como se alguém tivesse morrido, não conseguia ficar no mesmo ambiente que sem se sentir mal e ressentida. Até tentou reestabelecer uma amizade com ele, mas não deu muito certo.
era uma zero a esquerda, e sabia disso. Estivera tão ausente em meio a tantos problemas alheios pensando apenas nos seus dilemas egoístas. Sabia que não fazia o menor sentido.

Tudo começou quando Scott finalmente conseguiu se estabelecer financeiramente e deu um passo importante na vida, alugou o próprio apartamento, deixando a casa que dividia com a avó, que lhe abrigara quando ele foi expulso de casa pelos pais ao assumir sua sexualidade. Não porque não gostasse de morar com elas, mas porque precisava começar a própria vida. Algum tempo depois, a avó de morreu, deixando seu coração totalmente em pedaços, sozinha, desamparada e completamente infeliz. Nesse meio tempo, Brandon apareceu. Brandon parecia ser a salvação de tudo, parecia ser o cara que a faria sair de uma tristeza absoluta, parecia ser o cara que finalmente a faria esquecer de pra sempre. Mas como todos os outros que vieram antes dele, Brandon também foi embora, deixando apenas algumas memórias. E era sempre assim. Bastava tudo desmoronar e aparecer com um sorriso para o mundo de desabar novamente. A quem queria enganar? Não deixava de pensar nele um instante se quer. Que culpa tinha de pensar nele a cada instante, deseja-lo a cada instante, sonhar acordada como uma adolescente apaixonada pela primeira vez? Toda vez que seus relacionamentos acabavam era assim, como se ela finalmente se desse conta de que todo aquele tempo fora uma enganação e aquele sentimento traiçoeiro estava ali novamente dançando na sua frente como se dissesse “Não adianta tentar se livrar de mim, eu sempre volto”.
Algum tempo depois que Brandon foi embora e estava finalmente se recuperando da fossa e da depressão, oficializou o namoro com Susan, uma loira misteriosa e rabugenta que nenhum dos amigos gostava ou entendia como podia gostar. E então tudo foi ribanceira abaixo. Todo o amor, a paixão, a obsessão voltaram com força total ao ver mais uma vez com outra pessoa que não ela. nunca entendera muito bem a relação de Susan e e nunca sabia dizer quando estavam juntos ou separados, só sabia que ela o deixava imensamente infeliz. Era visível. Quando pareceu que finalmente havia acabado... E então, sem explicação, sem mais nem menos, sumiu no mapa sem dar vestígios. Que droga!
Doença. Era isso que esse amor havia se tornado. Vício. Um vício impossível de se conter.
continuou fitando por alguns segundos, seu semblante estava sério, mas não tinha nenhum traço de acusação no modo como olhava para a amiga.
- Ainda, ? - Perguntou em voz baixa para que apenas a amiga a escutasse. comentava animadamente com sobre um tal de Lucas que havia conhecido no Brasil.
assentiu com a cabeça uma vez apenas. Sabia do que estava se referindo, todos sabiam, provavelmente até o próprio sabia. Como era possível não saber se ela não conseguia se conter do lado dele? Como era possível não saber que ela ainda pensava nele?
- Você tem que superar isso...- falou e e pararam para prestar atenção a conversa.
- Você fala assim como se eu não tentasse. Eu tento, tento muito até. Mas do nada ele aparece na minha frente e eu sinto todas aquelas coisas de novo, coisas que eu achava que não sentiria, até ele aparecer de novo. – exclamou, todas as células do seu corpo fervendo de frustração. estava sendo incompreensiva! Todos eram incompreensivos!
- Como você sabe que sentirá alguma coisa quando vê-lo se você não o viu ainda? Aposto que quando vocês se verem de novo nem sentirá mais nada. - falou, mais na intenção de convencer a si mesma do que a , porque no fundo ela mesma duvidava das suas palavras.
- Porque eu o vi ontem, posso afirmar que continuo sentindo as mesmas coisas - falou com rispidez, fisgando completamente a atenção das amigas que a olhavam boquiabertas e chocadas. – É, pois é! Aquele filho da puta apareceu na minha casa todo machucado dizendo que bateu o carro em não sei que porra de lugar e veio com aqueles olhinhos do caralho me pedindo abrigo. Dormiu na minha casa e saiu sem se despedir. Sem se despedir esse babac... – vomitava aquelas palavras desesperadamente, sem nem conseguir contar quantos palavrões saiam da sua boca. Mas foi interrompida por um grito de .
- ELE FOI NA SUA CASA? - exclamou em choque. Imediatamente ela deu um pulo da cama, fazendo a tigela de chocolate cair sobre sua amada colcha de oncinhas. Mas no momento ela não se importou, tudo que queria saber era como poderia ter aparecido e não lhe dizer nada. e sustentavam o mesmo olhar de choque e horror de , mas não emitiram nenhum som. bufou irritada e concordou com a cabeça. O semblante de se iluminou de repente e seus olhos brilhavam como não via em muito tempo.
- Meu bebê voltou!!! – Ela disse animadamente, batendo palminhas. e criaram uma afinidade no mesmo instante em que se conheceram. Ele era quase como irmão mais velho dela, era super querido pelos pais de e sempre a protegia de tudo e todos. No mesmo instante, porém, o mesmo sorriso deixou os lábios de e ela assumiu uma expressão totalmente desanimada – E ele não me deu uma ligação.
Ao perceber o desânimo de , sentiu algo em seu estômago se afundar. Sabia o quanto era importante para amiga, não queria ter dito nada que pudesse magoa-la. Mas pensando bem, quem havia a magoado com todos os seus sumiços e mentiras, deixando para trás e completamente no escuro alguém como , que o amava da forma mais fraternal possível. tomou as mãos de entre as suas e se apressou em consolar a amiga, embora ela mesma estivesse inconsolável. Não era hora de ser egoísta.
- Ele tinha sofrido um acidente, , acho que ele só parou na minha casa porque era o ponto mais próximo que ele tinha.
- Um acidente? está bem? Está ferido? – perguntou apressada e já tinha grossas lágrimas nos olhos. se sentiu minúscula naquele momento. Que merda tinha feito?
- , conte logo tudo. – exigiu com uma expressão sombria. Olhava fixamente para sem nenhum vestígio de sorriso. Imediatamente e voltaram as suas expressões curiosas e exigentes para , fazendo-a suspirar cansada.
Não sabia se isso era algo que gostaria de compartilhar com as amigas. Ainda achava que havia sido um sonho, que acabara dormindo no sofá e sonhou com . Queria acreditar nisso, queria acreditar que ele não a deixaria sem respostas.
Mas ao admirar os olhares de suas melhores amigas detalhistas e exigentes, ela soube que poderia confiar nelas, que poderia compartilhar qualquer coisa, que elas a entenderiam como sempre entenderam. Tomando fôlego uma vez, começou a contar.
Como as garotas eram detalhistas, interrompiam com alguma pergunta e contava tudo com a maior paciência, desde o início do seu sono no sofá, até o bilhete que achou na geladeira ao acordar.
- Então ele saiu? Simplesmente saiu sem dizer nada? - exclamou surpresa e concordou silenciosamente.
- Gente o que ele teria de tão importante para fazer num dia de domingo? - indagou percebendo enfim que havia derramado chocolate em sua cama, tentando limpar a enorme mancha marrom da sua colcha.
- Me pergunto a mesma coisa - falou angustiada. Pensar em e seus mistérios só a deixava com uma imensa interrogação na cabeça.
- anda muito estranho ultimamente. Da última vez que eu o vi, foi no aniversário de , há mais de seis meses atrás. Ele estava tão estranho... estressado, cheio de pressa. - comentou confusa também. Impressionante como todo mundo tinha a mesma interrogação no olhar só em falar dele.
- Olha o papo ta muito bom, mas eu vou ter que pedir pra vocês saírem de cima de minha cama, preciso lavar isso aqui. - falou, seu tom de voz continha um certo desespero.
- Quanto drama por causa de uma simples colcha, . - bufou irritada, levantando-se de mau humor.
- Drama? Drama? - Guinchou descontrolada, embolando o tecido nas mãos - Eu comprei essa obra prima em Paris ok? Um tecido fino e raríssimo, esse é o meu bebê! - E ao dizer isso, saiu apressada do quarto, provavelmente indo dar inúmeras recomendações para sua lavadeira.
e se limitaram a rir enquanto catava uns restos de frutas caramelizadas para comer. Sabiam que aquilo era só um pretexto pra ficar sozinha e discar furiosamente todos os números de que conhecia e xinga-lo em todas as cinco línguas em que era fluente.

'Era disso que eu precisava'. Pensou aconchegada ao seu edredom, observando a claridade do luar invadir o quarto de pelas cortinas esvoaçantes. As meninas estavam dormindo e ainda estava acordada, andara pensando no dia que tivera com as amigas. Era disso que ela estivera precisando. Risos, brincadeiras, zoações com as suas amigas não tinham preço. Não poderia ser medido o tamanho da felicidade que lhe invadia nesse raro momento. Até mesmo a sua aparência tinha mudado. alegando precisar dar um 'ar alegre a suas feições ' preparou tudo. Corte de cabelo, nova cor, hidratação e todos os mimos que um cabelo poderia ter direito. Antes o cabelo de estava longo e sem vida com a tintura desbotada de um semi- ruivo que fora pintado há muito tempo, fazia um bom tempo que não se preocupava em mudar a aparência. Agora, tudo estava melhor. O seu cabelo estava na sua cor natural novamente, depois de um corte sem dó, suas madeixas estavam no ombro com uns fios repicados e desfiados lhe dando um ar saudável e animado.
Não haveria nada no mundo como passar uma tarde com suas amigas. Enquanto as tivesse por perto mesmo que caladas, já estava bem. Precisava mais do que tudo de pessoas que a entendesse e que ficassem do seu lado. Tudo estava confuso e esses sumiços repentinos de não faziam nada para clarear seus pensamentos, apenas obscureciam ainda mais.
Desde sempre e foram amigos, dos melhores. Nunca tiveram segredos (Além de confidenciar seus verdadeiros sentimentos, ela sempre confidenciara tudo a ele) Sempre dividiram tudo e eram quase inseparáveis. só o perdia de vista para e . Seus fiéis escudeiros, companheiros de esportes, vídeo-games, e o que mais incomodava - azarar as garotas. Desde sempre fora bonito e desejado. Não era o que podemos chamar de 'Rei do Ensino Médio' mas teria sido, não fosse o imenso histórico de brigas na escola com os trogloditas do futebol.
Mesmo apesar das garotas babando em cima dele, achava que teria pra sempre em sua vida, tentava é claro apagar da sua mente o futuro como 'amiga', apenas fingia não se importar como seria, apenas o queria para sempre por perto. Agora no entanto ele se tornara mais distante do que poderia se tornar, mais ausente do que jamais havia sido.
Mesmo tendo o visto em menos de 24 horas, ela já sentia saudades. Tê-lo visto não melhorou sua sensação de abandono, só fez aumentar ainda mais. Se sentia rejeitada.
Um vazio comprimiu seu peito e um frio que não tinha nada haver com a leve brisa que penetrava pela janela entreaberta lhe arrepiou por inteiro. Menos de 24 horas atrás tinha sentido o cheiro dele, o abraço, visto aquele sorriso, olhado naqueles olhos que te derretiam por dentro. Aquele vazio que tomava conta dela naquele momento era um oco que suas amigas não podiam preencher, um oco que ninguém poderia preencher, apenas .
revirou-se na cama aconchegando-se um pouco mais, sentindo as pálpebras pesarem e o cansaço mental e físico daquele dia finalmente lhe invadirem.
- Boa noite, ... onde quer que você esteja, saiba que eu te amo.

estava terminando de anotar as últimas pesquisas quando o seu celular tocou estridente em cima da sua mesa.
Quando pegou o aparelho pode ler no visor o nome '' seguido da foto da sua amiga. Sorrindo, atendeu o telefone.
- Fala beluguinha. - cumprimentou animada ao atender o celular. Do outro lado da sala pode ver erguer os olhos e prestar atenção à conversa.
- Pikachuuu! Bom dia, o que você está fazendo? – A voz da amiga soou animada e estridente do outro lado da ligação.
- Hm...Trabalhando, será? – riu debochada enquanto terminava de anexar alguns papéis soltos por cima da mesa.
- Nossa, é mesmo. Tinha esquecido que você trabalha dia de sábado. - comentou queixosa, soltando um muxoxo decepcionado.
- Por quê? Aconteceu alguma coisa? - perguntou ao mesmo tempo que fazia sinal pra esperar, pois a amiga perguntava através de mímicas sobre o que ela estava falando.
- Hm não...Não. Na verdade eu só ia chamar você e para saírem com a gente agora. - falou parecendo verdadeiramente decepcionada.
- A gente? A gente quem? - perguntou, agora travando uma briga silenciosa com que havia saído do seu lugar, para escutar a conversa da amiga.
- Eu, , , e . - falou com o tom de voz quase casual, mas sabia que ela estava forçando, e se ela não demonstrava nenhuma empolgação ao dizer o nome '' e nem fazia nenhum comentário só podia ser por um motivo. E o coração de deu um salto só de pensar nisso.
- Ele está ai agora? - Chutou, quase fechando os olhos na expectativa. ao seu lado, colou a orelha do outro lado no celular, tentando ouvir a conversa também. As duas ficaram mudas esperando a resposta de .
- Siim! - suspirou aliviada, com certeza estava esperando que entendesse o recado subtendido.
A menção do nome fez o coração de acelerar, uma reação boba, mas era o efeito que o simples nome dele causava. Mas aquilo também havia lhe lembrado que faziam exatamente duas semanas que ela não o via. E agora ele simplesmente estava lá, saindo com os amigos como se absolutamente nada tivesse acontecido. Isso significava o que? Que ele estava de volta? Iria ficar pra valer ou era apenas mais uma visita?
Olhou para e notou que ela também havia ficado pensativa, sabia que ela não queria encontrar com , talvez fosse melhor para as duas se elas simplesmente não comparecessem, além do mais não podiam perder mais um dia de trabalho, haviam se comprometido, mesmo que fosse sábado e Lauren pudesse dar um 'alívio' à elas, o trabalho era a única desculpa plausível que tinham parar dar. tinha que admitir isso.
- Ah, que bom ...É uma pena, né, que eu tenha que trabalhar - tentou fazer a voz mais decepcionada possível pra poder convencer de que realmente estava sentindo muito - Mentira, ela não sentia nada. Olhou para e viu que a amiga usava de mímica para lhe dizer que também não poderia ir. – Olha, a também não vai. Sabe? Estamos trabalhando. - Completou.
- AAAAH! Poxa gente, sem vocês não vai ser a mesma coisa. – falou com a voz chorosa mas não se importou. A raiva estava consumindo com tanta intensidade que seria capaz de desligar o telefone na cara da amiga se ela fizesse drama desnecessário.
- Mande beijo pro e pro pra mim, tá? Diga a ELES DOIS que eu estou com saudades - frisou, ressaltando bem suas palavras. que se ferrasse e entendesse como ele quisesse entender.
- Mande beijo pro e pro OK? DIGA A ELES DOIS que eu estou com saudades - se intrometeu, usando da mesma técnica de . As duas trocaram um olhar cúmplice e deram risadinhas nervosas em silêncio.
- Er, tudo bem gente. Eu digo isso.
e despediram-se de mais calorosamente, mandando beijos e recomendações pra também. E então desligaram.
As duas amigas ficaram em silêncio, ambas olhando para o aparelho celular desligado em cima da mesa. Arriscaram um olhar uma para outra e tomando fôlego disseram ao mesmo tempo:
- Eu não quero ver o .
- Eu não quero ver o .
Ao perceberem o que haviam falado ao mesmo tempo, sorriram aliviadas. Não precisava ser dito mais nada nesse momento, porque elas se entendiam por completo agora. Sabiam que no fundo, seus corações gritavam desesperados para vê-los, mas a razão também dizia que não seria saudável se os vissem, porque elas não queriam sentir as coisas que elas sabiam que voltariam a sentir e que seria inevitável uma vez que eles entrassem em seu campo de visão.
estava com muita vontade de estar com , mas estava com raiva dele. Ele simplesmente não podia sumir e aparecer e brincar com sua vida e seus sentimentos como se não significassem nada. “Desculpa, , eu te amo, mas eu te odeio pra caralho nesse momento” pensou consigo mesma.

O Barney's era sempre muito cheio em dia de sexta feira, afinal era o point dos estudantes de colegial. Depois das aulas todos eles se reuniam para bater papo, namorar, ou apenas comemorar o início do fim de semana.
estava sentado com , comentando sobre as pernas de grupo de adolescentes logo à frente, enquanto e jogavam animadamente no celular.
- Elas não vão vir - falou assim que desligou o telefone. Deu um suspiro cansado e sugou um pouco do seu suco antes de retornar a falar, direcionando seu olhar para e , que pararam de comentar sobre as garotas ao ouvir o que a amiga disse – Elas estão com muita raiva de vocês dois, portanto, nem se quer mandaram beijos.
Nesse momento desligou o celular e passou a prestar atenção na conversa, lançando um sorriso compreensivo pra .
- Anime-se, amigo!
no entando revirou os olhos e deu de ombros. Se não queria vê-lo, era problema inteiramente dela. Embora tenha ficado um pouco mais desanimado, visto que nem voltou a olhar a perna das meninas.
- Quanto interesse é esse na sua ex namorada, ? - ironizou cinicamente, recebendo um olhar fuzilante de como resposta.
- Nada ué, se ela tá com raiva de mim até hoje eu não posso fazer nada. Tentei ser amigo. Estou triste é por , queria vê-la – Disse simplesmente, fazendo com que instintivamente lhe lançasse um olhar enviesado, ao que não notou. Ao perceber sua reação exagerada, desviou o olhar novamente, mas não passou despercebido por , que deu uma risadinha sacana.
- eu até entendo não vir, mas e ? – perguntou olhando descaradamente para que precisou fazer força para não rir, entendendo tudo e já entrando no clima. Nenhum dos rapazes pareceu perceber.
- Elas duas estão trabalhando – respondeu inicialmente deu um sorriso fraco, voltando sua atenção para o cardápio, temendo o que viria a seguir. apenas manteve seu semblante sereno, levemente interessado - mandou um beijo enorme pra o e pra o . E a disse que está morreendo de saudades do e do ! - concluiu cruelmente, aumentando um pouco da história para analisar a reação dos amigos. Amava os dois incondicionalmente, mas se precisasse escolher um lado nesse caso, escolheria o das amigas, sabia que estavam certas. abaixou a cabeça, mostrando claramente o quanto estava insatisfeito com aquilo, semicerrando os olhos como se estivesse lendo alguma palavra em um idioma desconhecido no cardápio. Fazendo a famosa cara de bunda. , no entanto, estava impassível, se estava incomodado não demonstrou uma reação se quer, com o semblante totalmente tranquilo e ameno a qualquer provocação possível. Parecia que não haviam lhe dito nada de importante e ainda zoou com .
- Olha como o é querido... – Ele disse num tom de voz divertido, fazendo com que e trocassem um olhar nervoso. Como conseguia ser tão frio? Elas sabiam bem do sentimento que ele sempre tivera por . Será que já havia superado? Pensaram ao mesmo tempo. - É, eu sou gostoso mesmo. - Gabou-se , jogando o cabelo para trás, fazendo rir e rolar os olhos. saiu do seu transe, dando-lhe um tapa leve nos ombros.
- Outch...O que eu fiz, príncipa? - perguntou fingindo-se de magoado.
- "Príncipa e Princeso", sério, o que esse Caribe fez com vocês? - zoou, recuperando o humor, enquanto jogava pedaços de batata frita no casal.
A tarde foi se passando tranquilamente. Em meio as conversas, zoações e risos, se permitia distrair alguns segundos - Quando e se beijavam e e se ocupavam em atrapalha-los-, para pensar em . A conhecia bem o suficiente para afirmar que ela estava brava com ele. A que ele conhecia odiava ser deixada do “escuro” e detestava ainda mais os sumiços de e ele sabia disso. Mas não faria nada pra mudar, simplesmente porque não podia. Sabia que no fundo era o melhor para eles ficarem afastados, (o melhor pra ela principalmente) mas ainda assim, no fundo, uma vozinha insistente lhe dizia que ele estava odiando ficar longe dela também.
"Você está de 'folga', pode vê-la" a vozinha lhe disse. "Ela precisa de algumas respostas".
Respostas. Sim, respostas era tudo que ela precisava. Conhecia , sabia que na sua cabeça inúmeras perguntas estavam sendo feitas, sabia que ela iria lhe bombardear com acusações que ele não poderia negar. Perguntas... Ela as jogaria em massa.
Respostas. Eram tudo que queria e exatamente tudo que não poderia lhe dar.

Eram seis horas quando saiu do escritório de Lauren. Havia trabalhado até mais tarde, pois tinha que ter seu álibi pronto caso perguntasse sobre o seu dia.
Desceu as escadas do prédio onde trabalhava, despedindo-se de Adam, o porteiro. Caminhou até o seu carro no estacionamento quase vazio, iria voltar pra casa sozinha essa noite já que havia recebido uma ligação de Jeph a chamando para jantar, normalmente dava uma carona a amiga, que não tinha carro. Enquanto caminhava em direção ao seu carro, pensava nesse jantar de Jeph e com bastante carinho. Sabia o quanto amava , mas também sabia o quanto a amiga queria seguir em frente e o quanto merecia ser feliz. era assumidamente Team , mas acima de tudo, era Team e prezava pela felicidade da amiga, ainda que fosse longe do seu amigo. Queria muito que desse certo. Que bom que Jeph havia aparecido, merecia. Se pelo menos... Lá vem, a vozinha da sua consciência falou. Se pelo menos... insistiu. Se pelo menos aparecesse alguém pra ela também... Já apareceu, sua consciência soou. Alguém que não fosse embora para fazer faculdade em outra cidade, pensou em resposta, alguém que não tivesse manias estranhas, alguém que não preferisse vestir suas roupas do que tirá-las... Se aparecesse alguém ela poderia ser feliz, ela poderia esquecer...
- Que foi? Esqueceu qual é a chave que abre a porta do seu carro? - deu um berro assustado e olhou para trás, dando de cara com que agora ria abertamente do seu susto. Estivera zonzando sozinha brincando com o seu chaveiro enquanto pensava à porta do seu carro que nem percebeu que estava sendo seguida.
- Te assustei? Desculpa... Não foi minha intenção - soprou serenamente com a expressão falsamente inocente, vendo que semicerrava os olhos ameaçadoramente para ele.
- Nunca mais faça isso, ! - Ela o censurou ainda respirando muito profundamente, mas o rapaz apenas sorriu travessamente, aproximando-se cada vez mais dela e depositando-lhe um beijo na testa. O coração de nem bem se recuperou do susto e já deu outro solavanco, a deixando tonta e sem ar.
-Cadê o seu carro? - Ela perguntou, tentando disfarçar seu nervosismo que agora nada tinha a ver com o susto que ele lhe dera.
- Eu sabia que você estava com o seu, então pedi pra o me trazer até aqui. - Ele respondeu simplesmente, ainda sem se afastar de , olhando-a nos olhos profundamente do jeito que só ele sabia fazer.
A cara confusa de deve ter sido muito engraçada por que ele soltou um riso divertido, erguendo a sua mão esquerda e colocando no rosto dela, acariciando o local com o polegar. Ao mesmo tempo com a outra mão ele pegou o chaveiro que segurava e o ergueu de forma que ela pudesse ver. Não que ela enxergasse alguma coisa nesse momento. Todas suas terminações nervosas estavam ativadas e ela só conseguia se concentrar em não ruborizar muito com o toque dele. Absolutamente sem sucesso. já havia percebido e parecia se divertir imensamente com a situação.
- Hoje eu dirijo. - Ele disse.
- V-Você dirige? Pra onde? - Ela perguntou atônita, agora que ele havia se afastado dela e se dirigia a porta do carona, abrindo-a e fazendo sinal pra que ela entrasse. Um convite um tanto irresistível, mas permaneceu firme em seu lugar. revirou os olhos um pouco impaciente.
- Eu estou te sequestrando essa noite e isso no seu próprio carro. - Ele falou dando um sorriso torto que na opinião de era arrasador e um golpe baixíssimo. Que escolha ela tinha se não ir com ele?
Faça-me o favor, ... Até parece que você pensou na hipótese de recusar. Além do mais, esse carro é seu. Entre no carro! Dê partida, deixe ele com cara de bunda na rua! Vamos garota, não ceda! Você consegue! Sua consciência gritava, mas a silenciou, entrando no carro sem nenhuma gota de orgulho se quer. A raiva de só duraria enquanto ele mantivesse aquelas mãos quentinhas e aqueles olhos faiscantes longe dela. Caso contrário, era jogo perdido.
Nunca que ela recusaria dar um passeio com ele. Não importava onde ela iria, onde ele a levaria, desde que estivesse com ela estaria bem.


Capítulo 04


[n/a: Aconselho colocarem para carregar I Caught Fire - The Used]

- Esse seu carro não tem uma boa frequência para rádio né? - comentou crítico enquanto mudava freneticamente as estações de rádio, na busca de algo bom para se ouvir. apenas revirou os olhos para a queixa do amigo como se fosse totalmente sem importância.
- Eu quero saber pra onde nós estamos indo - falou olhando a fora pela janela do automóvel, impaciente.
- Ah, você é muito curiosa! Relaaaaaaxe, estamos quaase chegando - falou arrastado, sorrindo radiante para ela, fazia tempos que não o via com tamanho bom humor. - Aliás, estaríamos quase chegando se esse seu... hm ... Carro... Não fosse tão lento.
- Se você acha tão lento assim, não deveria ter dirigido. Eu mesma poderia ter feito isso. - respondeu com a língua afiada. Odiava quando criticava seu carro. Ele podia ser um pouco lento e de uma geração bem antiga, mas ela tinha um carinho especial por ele, havia comprado com o próprio dinheiro.
-Aah, que fofinha! Defendendo a lata velh... Digo, carro. - O rapaz debochou, vendo a menor semicerrar os olhos em sua direção, parecendo divertir-se mais ainda com isso. - Relaxa, pequena. Eu tô brincando.
ficou em silêncio por um tempo, apenas observando enquanto mudava as estações de rádio. Parecia inacreditável que estivesse ao lado dele agora nesse momento. E parecia ainda mais inacreditável e surpreendente o modo como seu coração parecia quieto, calmo, reconfortado, assim como qualquer parte do seu corpo. Era isso que a presença de fazia, num instante era capaz de acionar todas as suas terminações nervosas e aumentar as batidas frenéticas do seu coração, e no outro momento tinha o dom de lhe acalmar, lhe deixar em paz e segura. Não sabia por que, mas estar do lado dele lhe passava uma segurança inabalável, uma cega confiança. O que era irônico, porque escondia muitas coisas e vivia cheio das meias verdades. lançou um olhar receoso para ele, que dirigia calmamente com o semblante tranquilo. Como ele conseguia? Trocaria toda a fortuna que não tinha em troca de saber o que se passava pela cabeça dele. - Nós por acaso estamos saindo da cidade? - perguntou depois de um tempo, se dando conta do quanto eles estavam se afastando de casa. Não queria começar nenhum assunto desagradável por enquanto.
- Não seja tão dramática, nós não chegamos nem no centro de Londres ainda. - respondeu divertido. Incrível como nada hoje parecia afeta-lo, nem muito menos a impaciência de .

[n/a : Coloque a música pra tocar!]

- FINALMENTE! - berrou repentinamente assustando , que imediatamente olhou para fora da janela, esperando ter chegado em algum lugar, mas tudo que viu foi estrada.
- Finalmente o que? - Perguntou rabugenta.
- Finalmente uma boa música, otária. O que mais seria? - Ele perguntou rindo ao mesmo tempo que aumentava quase ao máximo o volume do som.

Seemed to stop my breath
(Parecia parar minha respiração)
My head on your chest
(Minha cabeça no seu peito)
Waiting to cave in
(Esperando para sucumbir)
From the bottom of my...
(Do fundo do meu..)

- PENSEI QUE FINALMENTE TERÍAMOS CHEGADO.- teve que berrar para que ele pudesse ouvi-la, mas da mesma forma ele não lhe deu atenção, estava muito mais concentrado em ouvir, e batucar com as mãos no volante o ritmo da música.

Hear your voice again
(Ouvir sua voz de novo)
Can we dim the sun..
(Nós podemos escurecer o sol)
And wonder where we´ve been.
(E perguntar onde estamos)
Maybe you and me so..
(Talvez eu e você, então..)
Kiss me like you did
(Me beije como você beijou)
My heart stopped bleeding
(Meu coração parou de sangrar)
Such a softer sin.
(Como o pecado mais sofrido)
I'm Melting.. I'm Melting
(Eu estou derretendo)

começou cantando baixinho ao mesmo tempo que olhava pra de uma forma provocante, sorrindo enigmaticamente daquele jeito que apenas ele sabia fazer e em segundos ele estava gritando empolgado a plenos pulmões, arrancando sorrisos de má vontade dela, que prestava mais atenção na letra da música.

In your eyes..
(Em seus olhos)
I lost my place
(Eu perco meu lugar)
Could stay a while
(Posso ficar um pouco?)
And I'm melting
(E eu estou derretendo)
In your eyes..
(Em seus olhos..)
Like my first time
(Como na primeira vez)
That I caught fire
(Que eu peguei fogo)
Just stay with me, lay with me now.
(Apenas fique comigo, deite comigo agora)

- CANTE COMIGO! - Ele gritou e riu ao admirar a expressão incrédula dela. - EU NÃO SEI CANTAR! - Ela gritou em resposta, agora sem conseguir segurar o riso. Ele praticamente berrava a letra da música, e nem assim sua voz saia ruim, pelo contrário, ele quase fazia uma imitação perfeita de Bert McCracken.


Never caught my breath

(Nunca recuperei meu fôlego)
Every second I'm without you, I'm a mess

(Cada segundo que eu estou sem você, eu sou uma bagunça)
Ever known each other

(Mesmo conhecendo um ao outro)
Trust these words are stones

(Confie que essas palavras são pedras)
Why cuts aren't healing?

(Por que esses cortes não estão sarando?)
Learning how to love

(Aprendendo como amar)
I'm melting, I'm melting


(Eu estou derretendo, eu estou derretendo).

A letra da música era quase irônica na opinião de . Era exatamente tudo isso que ela sentia com . Como se ele pudesse a derreter com o olhar dele, como se ele pudesse penetrar seus pensamentos e mexer com a cabeça dela, como se ele pudesse convence-la de ir a qualquer lugar, ou melhor, como se não houvesse lugar pra ela se ele não estivesse lá.
admirou cantar animadamente, sentindo-se feliz apenas pelo estado de espírito dele.
Céus...como ela o amava!


You can stay and watch me fall

(Você poderia ficar e me ver cair)
And of course I’ll ask for help

(E é claro que eu pediria por ajuda)
Just stay with me now

(Apenas fique comigo agora)
We can take our pants off, stay in bed

(Nós podemos tirar nossas calças, ficar na cama)
Just make love, that's all

(Apenas fazer amor, isso é tudo)
Just stay with me now

(Apenas fique comigo agora)
I'm melting, I'm melting
(Eu estou derretendo, estou derretendo)


Como era possível se manter com raiva dele? Como era possível não sorrir e esquecer qualquer coisa quando ele estava ali do seu lado? Cantando tão sereno, tão animado, tão feliz, tão . Tão seu . De repente não haviam mistérios, não haviam mentiras, desaparecimentos, feridas, pesadelos, angústia, dor, só havia leveza. Naquele carro, ao som daquela música que traduzia perfeitamente todos os seus sentimentos por ele, podia se sentir segura, podia se sentir imensamente feliz. Tudo estaria bem desde que continuassem assim. Juntos.
Quando (para a infelicidade de ) a música acabou, desligou o som, suspirando fundo e sorrindo animadamente.
- Que foi, desistiu do meu rádio? - Perguntou divertida. Incrível como ele conseguia mudar radicalmente seu humor. Agora estava cheia de risinhos também.
- Me lembre de comprar um novo pra você, ok? - Ele zombou e riu quando ela lhe mostrou a língua como resposta - Não, não é isso. É que chegamos.
imediatamente olhou para a janela do carro. A poucos metros de distância ela podia ver um enorme M amarelo em cima de uma lanchonete.
- Você passou um século dirigindo pra me trazer para o McDonald's? Sendo que acabamos de passar por sei lá, uma centena pelo caminho? - agora estava esganiçada e incrédula, arrancando uma risadinha debochada e particularmente irritante de , que deu de ombros.
- Não é uma McDonald's comum. É onde nós costumávamos vir depois da aula. Isso antes do Barney’s abrir. - Ele respondeu enquanto estacionava o carro.
- Então é um clima meio nostálgico? - perguntou, abandonando o tom esganiçado e incrédulo, tentando esconder o quanto ficara emocionada com aquilo. apenas sorriu torto e sem lhe responder, saiu do carro.
Somente de pé agora, fora perceber na roupa que estava usando, e como geralmente acontecia, ela quase ficou sem ar. Ele era tão lindo, chegava a ser injusto.
Seus cabelos arrumados e bagunçados ao mesmo tempo lhe davam um ar sadio, disposto e digno daqueles galãs de televisão que são capazes de hipnotizar as mocinhas com um olhar. Ele usava uma camisa lisa branca com uma jaqueta de couro preto por cima, calça jeans e um tênis Adidas.
Entraram no estabelecimento - que por milagre não estava tão cheio para um dia de sexta feira, dirigiram-se até o caixa e após fazerem seus pedidos, sentaram-se numa mesa afastada no canto da lanchonete, perto das vidraças que davam para ver a rua afora.
se deu conta de como estava faminta quando começou a comer, fazia séculos que ela não ia na McDonald's e séculos que se quer comia um hamburguer. Sorriu sozinha ao tentar se recordar da última vez que tinha feito isso, mas tudo que conseguia pensar era que estava ali agora e o que importava era sua companhia atual.
- No que está pensando? - perguntou dando uma mordida generosa no seu hamburguer que agora estava na metade.
- Que é muito bom estar aqui com você. - soltou sem pensar muito bem no que estava dizendo. Essa era uma das desvantagens de se estar com . Ela nunca pensava muito bem nas coisas que dizia, afinal de contas era muito fácil ser ela mesma quando estava com ele.
sorriu discretamente com essa declaração, ainda mastigando. riu, pegando um guardanapo sobre a mesa e passando no canto da boca dele, suja com um pouco de molho. Era engraçado pensar em como sentia vergonha de sair para comer com outros caras em encontros casuais. Sempre media meticulosamente suas mastigadas, preocupada em não comer demais, ou falar com a boca cheia. Mas quando se tratava de , tudo acontecia com naturalidade. Perdera as contas de quantas vezes fizera nojentice ao lado dele na adolescência, competindo para ver quem conseguia falar com a boca mais cheia. Riu um pouco com a lembrança e depositou o guardanapo de volta na mesa.
Automaticamente, num gesto quase inconsciente colocou sua mão direita sobre a mesa mexendo seus dedos, como se pedisse que ela colocasse a sua mão em cima da dele. E assim ela fez.
notou que o seu coração começou a bater um pouco mais forte e sentiu como se pequenas descargas elétricas estivessem passando pelo seu corpo, e principalmente na mão, região onde sua pele entrava em contato com a dele.
- E você, em que está pensando? - Perguntou ao ver brincar distraído com o polegar nas costas da sua mão, o olhar dele estava caído sobre as mesmas e o seu semblante estava distraído, como se ele estivesse perdido em pensamentos.
não respondeu de imediato, apenas continuou fitando as mãos entrelaçadas sobre a mesa por um tempo, quase como se estivesse formulando as palavras e o que dizer. Lentamente ergueu o olhar, fitando a moça a sua frente com intensidade:
- Você.
Uma palavra, quatro letras. Incrível como aquilo podia soar como música, como uma linda melodia naquele momento. estava distraído, perdido em palavras pensando em . Aquilo era mais do que o suficiente para fazê-la sorrir.
- E eram pensamentos bons ou ruins? - Ela perguntou com a voz fininha, esquecendo-se completamente da comida na sua bandeja. De repente, comer parecia uma coisa tão inútil para se fazer nesse momento.
- E o que você acha? - perguntou em tom calmo com sua voz de veludo, ainda fazendo círculos invisíveis nas costas da mão dela com seu polegar - Eu sempre penso coisas boas sobre você. É impossível não pensar em algo bom, quando você aparece nos meus pensamentos.
Quando os dos olhos dele se encontraram com os dos olhos dela, o mundo pareceu pertencer a outra dimensão, ou talvez eles estivessem em outra dimensão. Naquele momento, era como se uma bolha invisível estivesse sobre eles, separando-os de todas as pessoas naquele local, como se não houvesse mais ninguém presente, apenas eles dois. Como se o mundo inteiro não tivesse mais importância. Os e haviam se encontrado novamente e podia sentir seu corpo derreter por dentro com o intenso olhar que parecia lhe penetrar por dentro.
Diante daquela situação, estando ali cara a cara com , sua mão entrelaçada a dele, seus olhares presos um ao outro, as palavras que ele acabara de dizer pareceram estimular uma chama dentro dela. Uma chama que lhe aquecia por dentro de coragem, coragem que ela não sabia que possuía até senti-la claramente em cada parte do seu corpo.
Por um momento ela desejou falar tudo que estava pensando, tudo que estava sentindo. Desejou falar sobre como odiava os mistérios dele, e de como se sentia excluída quando ele sumia sem lhe dar uma satisfação, desejou falar sobre como ele conseguia exercer um poder sobre ela, sobre como ela se sentia segura ao lado dele.
Desejou falar sobre amor. Sobre o amor que nutria por ele desde adolescente, amor que ela sabia que lhe consumiria por dentro porque apesar de tudo, não queria ser apenas a melhor amiga dele. Amor que ela jamais havia superado e que achava que nunca iria superar.
Num ímpeto de coragem, abriu a boca para proferir as palavras que apesar de desconexas em sua mente, fariam todo o sentido quando ela as dissesse.
- ... Eu...- Ela começou a dizer, mas nesse momento um garçom esbarrou-se na mesa deles, derrubando seu copo de Coca-Cola que molhou toda a mesa com o conteúdo preto, causando o maior alvoroço do garçom atrapalhado.
- Nossa! Senhorita, me desculpe! Me desculpe mesmo, vou trazer outro refrigerante para a senhorita, não se preocupe é por conta da casa! - O jovem garçom dizia apressado, despejando suas desculpas para , que apenas sorriu tentando esconder sua angustia.
- Não se preocupe, eu estou bem. Não precisa trazer outro. - Ela respondeu tranquilizando o rapaz, que parecia sinceramente muito desapontado com seu próprio desastre.
- É por conta da casa! - Ele insistiu quase suplicante, mas lhe assegurou de que estava bem, e então desculpando-se mais uma vez, ele limpou a mesa e saiu levando o copo vazio embora.
- Você pode beber do meu se quiser... - debochou sorrindo, mas apenas negou com a cabeça. De repente havia perdido a fome. Começou a beliscar suas batatas fritas, deixando sua mão cair frouxa sobre o seu colo. Com todo o alvoroço, havia soltado a mão de , e agora longe do toque dele seus pensamentos estavam mais claros e aquela súbita coragem havia lhe abandonado com a mesma velocidade que havia chegado.
- O que você ia falar, ? - perguntou terminando de vez seu hamburguer, com a expressão serena, como se absolutamente nada demais tivesse acontecido. - Hm, nada não besteira.
Ele simplesmente deu de ombros, bebendo sua Coca-Cola do jeito mais simples possível. Um dia, essa indiferença ainda iria matar .
- Vamos dar uma volta? - convidou repentinamente olhando para fora pela janela. apenas o encarou parecendo surpresa.
- Uma volta? - Ela repetiu e ele sorriu assentindo, olhando para ela.
- É... uma desculpa pra eu poder passar mais tempo com você.
De onde ele tirava tanto poder assim, não sabia. Não fazia a mínima ideia de como ele conseguia aquecer todo seu corpo com uma simples frase. E as vezes, ela chegava a pensar que ele sabia o que fazia com ela, e por isso se aproveitava em algumas situações.
Assim que pisaram fora da lanchonete, uma brisa fria passou por eles, fazendo abraçar seu corpo involuntariamente e andar ainda mais rápido em direção ao carro, só que foi obrigada a parar ao ouvir o chamado de .
- Onde você pensa que vai? - Ele perguntou meio divertido, com um sorriso torto brincando nos lábios, vendo a garota suspirar - Não senhora, nós vamos andando.
- Andando? - perguntou esganiçada - Você só pode estar de brincadeira.
- ...- começou a falar, mas a garota fez bico abraçando o próprio corpo como uma criança pequena. Adorável, na opinião dele, mas ainda assim insuficiente para comovê-lo. - Vamos andar.
- ..- começou manhosa. Ele olhou pra ela com uma ameaça nos olhos, mas ela apenas se aproximou ainda mais dele, fazendo uma cara meiga de cão sem dono - Tá frio.
Por alguns segundos ele apenas ficou a encarando fazer todo seu drama infantil. Era inevitável, não conseguia ignorar quando ela se fazia de abandonada desse jeito. abriu os braços, convidando-a a se aproximar, o que ela fez de muito bom grado.
- Ta frio agora? - Ele perguntou baixinho próximo ao pescoço dela, vendo-a se arrepiar e sorrindo malicioso por isso.
- Hmmmmmm. - Ela murmurou aconchegando-se ainda mais ao abraço, fazendo gargalhar.
- Pare de ser manhosa, ! - Ele criticou, vendo-a se afastar dele em seguida. - Eu to com frio, se eu pelo menos tivesse trazido meu casaco...
- Pode ficar com o meu, se for esse o problema - falou ao mesmo tempo que tirava sua jaqueta e colocava em , que tentava protestar.
- N-Não! Você vai ficar com frio por minha causa?
- Pode deixar, eu não tenho esse tipo de frescura - comentou marotamente, começando a andar e sorrindo sacana de costas, sem que visse, pois sabia que aquele comentário a irritaria.
- Frescura? Ah, mas agora você pode me implorar, morrer congelado a minha frente que eu não te dou esse casaco, ! - apressou-se a andar, para acompanhar o passo do amigo, esticando o dedo em seu rosto, fazendo o outro gargalhar abertamente agora. Não demorou muito e ela começou a rir também. É claro.
Andaram sem se importar muito com o destino que seria alcançado pelos seus passos despreocupados, a conversa fluía tão livremente e sem nenhum assunto especial, nada que envolvesse acusações, mistérios, sumiços, nem nenhum tipo de assunto que fosse fazer se retrair e se tornar fechado e obscuro. Riam, zoavam um ao outro, era quase como se nunca tivessem se separado. Como se esse fosse apenas mais um passeio num fim de semana comum.
não se sentia consertada, não se sentia como se uma parte dela tivesse retornado com - Se sentia como se essa parte nunca tivesse a deixado. - Olha só onde estamos! - exclamou depois de um tempo, só então dando-se conta de onde haviam ido parar. Estavam no parque da cidade que costumavam frequentar quando adolescentes.
Sem esperar resposta ou permissão de , o arrastou pela mão atravessando o portão verde, adentrando no parque.
Não estava muito cheio, algumas mães levavam as crianças pequenas em gangorras e balanços, enquanto outras crianças mais velhas corriam brincando entre si.
e continuaram a andar vagarosamente, apenas observando as crianças gritarem, rirem e brincarem. Suas mãos ainda estavam entrelaçadas, e nenhum dos dois estava com muita intenção de quebrar esse contato, por isso permaneceram assim, apenas se entreolhando de vez em quando, e sorrindo toda vez que o faziam.
Uma senhora de seus oitenta anos passou na frente deles, parecendo um tanto desesperada. se aproximou da senhora, tocando levemente o seu ombro, ela se virou assustada, mas quando viu a expressão preocupada do rapaz, ela apenas suspirou um pouco aliviada.
- Está tudo bem com a senhora? - Ele perguntou gentilmente e sorriu orgulhosa para ele.
- Ah, meu querido! Eu estou procurando o meu velho, ele disse que iria ao banheiro, mas não voltou mais... Ele está demorando muito! - A idosa explicou tristemente, era claro o seu desespero.
- Nós vamos ajuda-la a encontrar o seu marido, a senhora poderia nos dizer como ele se parece? - prometeu bondosamente e concordou com a cabeça, sorrindo meigamente, enquanto tomava a senhora pela mão, tentando acalma-la. - Como é seu nome?
- Linda Stevens, minha querida. – Srª Steven respondeu sorrindo tranquila para o casal de amigos.
Enquanto andavam a procura do Sr. Stevens, Linda contava tudo sobre o marido. Como o havia conhecido, como haviam se casado, de como sua falecida mãe "Que Deus a tenha" era contra o casamento. Relatou sobre seus sete filhos e seus dez netos, e todos seus natais perfeitos em família.
Pelo modo de como ela falava de seu "velho", pode perceber que ela o amava muito e os sessenta anos de casados haviam sido repletos de amor, o que só a fez querer ajudar ainda mais a Srª Stevens a encontrar seu amado.
O som de música clássica preencheu todo o local assim que eles viraram a curva que levava a fonte de água luminosa. sempre gostou de ver como o jorro de água subia e descia de acordo com o som da música. Ela parecia dançar...
- Olhe, Srª Stevens, aquele senhor ali por acaso é seu marido? - apontou para um senhor de idade sentado num bando próximo a fonte. Ele parecia maravilhado com o movimento da água, parecia totalmente alheio a qualquer conversa a sua volta.
-É sim! Ali está o meu velho fujão! Venham, venham meus jovens, venham conhece-lo!- Srª Stevens deu um gritinho de felicidade, e ergueu sua mão enrugada em direção ao marido, apressando o seu passo, arrastando e ao seu encalço.
- Antony Christopher Stevens! Onde o senhor andava? - Linda se aproximou do marido com um tom severo, apesar de estar claramente aliviada de tê-lo encontrado.
Sr. Stevens ergueu os olhos despertando do seu devaneio, olhando para a esposa. - Oh, Linda! Me desculpe, eu me distrai aqui nessa maravilhosa fonte. - Antony se explicou arrependido, para a esposa.
- Tudo bem meu velho, mas não faça mais isso! Se não fosse a ajuda desses jovens, eu estaria a sua procura até agora! - A Srª Stevens indicou e com a cabeça, com um olhar carinhoso e carregado de gratidão. Sr Stevens notou o casal de amigos pela primeira vez, sorrindo bondosamente pra eles em seguida.
- Muito obrigado...?
- e .
- Vocês são adoráveis, e formam um belo casal! – Srª Stevens sorriu meigamente para os dois que sorriram em resposta embora tivessem ruborizado levemente com o "belo casal".
- Não somos bem um casal. Ela é minha melhor amiga. - falou fazendo o sorriso de murchar minimamente. Mas Sr Stevens apenas sorriu.
- A Linda também era minha melhor amiga. E talvez esse seja o segredo de nossa felicidade.
e evitaram deliberadamente se olhar depois dessa declaração. Fosse ou não impressão sua, mas notou a mão de dar um aperto na sua. Sr Stevens alegou ser a hora de tomar seu remédio e logo se despediram. O casal de velhinhos agradeceu mais uma vez aos dois despejando carinho a cada palavra. Eram realmente muito amáveis.
- Um casal gentil, não é? - comentou quando se sentaram em um banco um pouco afastado do centro do parque.
- São sim, e eles nem aparentam ter a idade que tem - completou e sorriu concordando, logo sua cabeça foi bombardeada com pensamentos.
- No que está pensando? - perguntou após uns minutos de silêncio, olhando-a de canto.
- Em como deve ser envelhecer ao lado de alguém desse jeito. Casar, ter filhos, netos, compartilhar uma vida! Superar problemas juntos e dividir as alegrias... Isso deve ser o máximo. Hoje em dia a gente vê os casais com menos de cinco anos de casamento se divorciando. - tagarelou e passou o braço em volta dos ombros dela fazendo-a deitar a cabeça no seu ombro.
- Isso parece aquelas coisas de alma gêmea, sei lá. - falou, fazendo um carinho distraído nos cabelos de .
- Com certeza Sr e Srª Stevens são almas gêmeas. - respondeu fechando os olhos lentamente, inspirando profundamente o cheiro do perfume de e apreciando o carinho que ele fazia em seus cabelos.
Ficaram um tempo assim, abraçados, trocando carinhos, sentindo o calor e o cheiro um do outro, o momento e o contato era bom e ambos não queriam se separar.
- Eu tenho a sensação de querer parar o tempo quando você está assim comigo - murmurou baixinho com os olhos fechados, sua mão ainda fazia movimentos leves por entre as mechas de cabelo de .
O coração dela a entregou antes mesmo que ela pudesse dizer alguma coisa. Ergueu a cabeça para poder olhar para , que agora tinha os olhos abertos e a encarava com uma atenção e intensidade incríveis.
- Eu queria ficar assim o tempo todo com você, . - continuou, seus olhos faiscando na direção dela, o que a provocou um arrepio na espinha. Ele a derretia. - Então por que não fica? - perguntou o desafiando, mesmo que tentasse esconder, era claramente notado o desespero na sua voz. Ele não ia começar com essa conversa de que "Quero ficar, mas tenho que ir" Ela não o iria deixar ir embora.
- Porque eu não posso - respondeu simplesmente e ela soube que não iria conseguir faze-lo dizer mais nada além disso.
'Pelo menos não por hoje' Ela pensou. Mas não se importava com isso, contanto que ele não fosse embora e nem fosse sumir pra sempre qualquer resposta podia esperar, o mundo podia esperar, porque esse momento era dela. Esse momento era deles dois, um momento em que ela podia sentir o cheiro de , abraça-lo, olhar no fundo dos seus olhos e poder sentir seu coração em paz e seus sentimentos em completa calmaria. Porque ela sabia que quando acordasse e ele não estivesse mais lá, ela sentiria uma saudade dolorosa, sentiria seu coração sangrar e gritar pelo nome dele, pois poderiam se passar dois segundos de sua ausência que ela já estaria sentindo falta.
- Eu senti tantas saudades - se abaixou novamente, deitando sua cabeça no ombro dele, depositando um beijo tímido na curva do seu pescoço, local onde ela viu se arrepiar e intimamente sentiu-se satisfeita por isso.
- Eu também senti saudades de você, minha pequena. - suspirou fundo, respondendo num tom de voz indecifrável. Havia algum sentimento no modo como ele falava, só não conseguiu desvendar qual era.
Por alguma razão, ao encostar a cabeça sobre o peito de , percebeu que seu coração não era o único a portar-se mal essa noite...


Capítulo 5


[N/a : Aconselho colocarem para carregar All My Loving – The Beatles]


acordou com a lufada de vento frio que soprava por suas janelas entreabertas. Se remexeu preguiçosamente na cama, trazendo o edredom a altura do queixo a fim de se aquecer e com sorte pegar no sono novamente, afinal tivera um sono tão bom... Sonhou que a levou para jantar, que eles passearam pelo parque e que ele dizia que gostaria de ficar pra sempre com ela. De supetão, abriu os olhos assustada e mirou a parede branca do seu quarto. Hoje é sábado? Pensou ao revirar os olhos a procura do seu grande relógio de parede, que apontava às 11h30 de um glorioso e friorento domingo. se sentou tão rapidamente que o movimento a deixou tonta, passando a mão no cabelo afastando-os do rosto, ela começou a se lembrar da noite anterior.
O “jantar” com , o passeio no parque, como eles encontraram Sr e Sra Stevens, lembrou de estar sentada no banco com ele e ter ouvido todas aquelas coisas, e por fim de ter dormido no seu próprio carro enquanto dirigia até sua casa.
“Como eu pude dormir na presença de ?” se condenou enquanto se levantava, ouvindo a resposta da sua consciência. Você é idiota e patética, passa o tempo todo querendo ver o cara, quando tá com ele, dorme feito pedra.
Depois da sua habitual higiene, desceu para tomar café. Não conseguia entender de onde vinha tanta exaustão, sentia-se como se tivesse com milhares de horas de sono acumulado. Bocejando, abriu o armário da cozinha em busca do pó de café, quando escutou o telefone tocar estridente da sala.
- Alô?
- Nossa, até que enfim a bela adormecida acordou! Tentei te ligar desde cedo! - exclamou assim que atendeu.
- Bom dia pra você também - riu sarcasticamente e pode ouvir um bufo irritado e incrédulo do outro lado da linha, o que a fez rir ainda mais.
- Bom dia? Você quer dizer boa tarde não é?
- Pra mim ainda é de manhã porque eu não almocei – zombou enquanto apoiava o telefone no ombro e se dirigia de volta a cozinha a fim de preparar o seu tão precioso e necessário café extra forte.
- Fim de semana acaba contigo. Andou aprontando alguma ontem? Já vi que a noite foi boa... conta aí, conheceu algum cara? - quis saber, notando o humor da amiga. Sua voz fervia de curiosidade. Incrível como conseguia sacar apenas um tom de voz.
- Hm... foi bom sim, mas não é como você está pensando. - falou calmamente se divertindo a custa da curiosidade da amiga. Pode ouvir soltar um muxoxo ansioso.
- Vamos almoçar fora? - Convidou prontamente, fazendo gargalhar.


Quando chegou no restaurante, já estava numa mesa bebericando um suco. Ao ver a amiga se aproximar, semicerrou os olhos apontando para o relógio, criticando-a pela demora.
- Desculpe, demorei porque estava tentando escolher uma roupa, mas cheguei a conclusão de que estou sem nada bom para vestir - desculpou-se enquanto sentava-se a mesa em companhia da amiga.
- Estou percebendo - falou séria, lançando a amiga um olhar crítico enquanto balançava a cabeça em tom de reprovação. deu de ombros e tomou um gole do suco de .
- Meu Deus, eu to morrendo de sede! – Exclamou quando baixou o copo de volta a mesa depois de dar dois goles consideráveis e deixa-lo abaixo da metade. pareceu não se importar, continuava fitando com uma expressão muito séria e avaliativa, coisa que não passou despercebido pela amiga – , pare, eu nem estou tão mal vestida assim. Não tenho culpa se você é filha da estilista número um da Europa e nem se é encarnação da moda na terra, eu sou básica, já disse.
- Você precisa de um banho de loja, urgente. Uma pessoa assim não pode ser vista do meu lado e muito menos pode se dizer minha amiga, é suicídio social – concluiu, fazendo rir e revirar os olhos.
Continuaram falando sobre algumas bobagens e assuntos do dia a dia enquanto faziam seus pedidos. Fazia um tempo desde que não reservava um momento a sós com , desde que a amiga voltara das férias no Brasil, sempre que se viram estavam rodeadas pelas amigas. Não que não as amasse igual, mas gostava de passar um tempo com sua melhor amiga, sentira falta disso. falava animadamente sobre a nova campanha de moda a qual estava envolvida e entre um suspiro e outro lamentava-se do trabalho com a mãe. Sra era a dona da empresa e portanto mandava e desmandava em tudo e em todos, porém, sabia como ela e a filha eram unidas e feito um time. Mas trabalhar com família, pai e mãe de preferência, nunca era fácil, ela podia imaginar. Enquanto resmungava de uma discussão boba que tivera com a mãe e chefe, pensou com carinho nos seus pais e sentiu uma pontada imensa de saudades, fazia um tempo que não ligava e nem os visitava. Sentia também saudades dos irmãos.
- Como estão seus pais? – perguntou, verbalizando os pensamentos de , como sempre fazia.
- Estão bem! Estou devendo uma visita. Se pelo menos a Lauren me desse férias... – resmungou cabisbaixa, de uns tempos pra cá estava começando a odiar o seu trabalho.
- , você já pensou sobre voltar para faculdade? – perguntou notando a expressão resignada da amiga.
suspirou e pensou sobre aquela pergunta por um momento. Sentiu saudades do campus, da sala de aula, dos colegas, das leituras e até mesmo dos professores rígidos. Quando sua avó adoeceu, trancou o curso de psicologia e dedicou-se a senhora quase em tempo integral. Quando a avó morreu, aceitou o emprego de Lauren porque precisava pagar as contas de casa e se recusava a voltar para Suffolk morar com os pais. Mas agora sua avó não estava mais viva, não estava mais dependente de cuidados e atenção e havia lhe deixado uma quantidade considerável de herança que poderia pagar as despesas acadêmicas.
- ... E faltava tão pouco tempo para formatura quando você abandonou – despertou do seu devaneio ouvindo a voz de , que continuava falando. – , tá me ouvindo?
- Oi, to sim – disse, acordando do seu momento de transe – Estava pensando sobre o que você disse. Faltava apenas um semestre para me formar.
- Então, amiga! Por que você não volta? – perguntou com um brilho diferente nos olhos. Estava empolgada pela amiga, queria vê-la feliz e realizada.
- Eu não sei, . Não é como se eu tivesse pensado muito nisso. Digo, tanta coisa aconteceu. Scott saiu de casa e quando a vovó adoeceu tudo mudou, sabe? Eu só conseguia me dedicar para ela. Quando ela morreu, acho que uma parte de mim foi junto, na verdade acho que nunca me recuperei. Por isso me joguei de cabeça no relacionamento com o Brandon, estava cheia de expectativas, queria não me sentir vazia. E aí conheceu a Susan, começou a namorar, depois sumiu... Acho que nesse meio tempo a faculdade foi ficando para trás, minha cabeça estava ferrada, meu emocional também. – ponderou, pensando um pouco sobre a situação. Sentia-se aliviada por poder finalmente falar no assunto sem se sentir mal, sem sentir vontade de chorar. Sentia-se quase curada. De repente, uma chama até então desconhecida começava a se acender. E se?
- Mas nada disso está acontecendo agora. Você está bem. Scott ainda está entre nós, Brandon foi rodar a bolsinha em outro lugar e o está de volta... e solteiro! – disse animadamente e voltou sua atenção para uma outra questão não menos importante que havia sido levantada pela amiga.
- Como você sabe que ele está de volta? – perguntou sem se dar ao trabalho de esconder o interesse e rapidamente acrescentou uma outra questão não menos importante – E solteiro?
riu divertidamente e revirou os olhos, deixando um sorrisinho malcriado escapar dos seus lábios. Era realmente patética quando o assunto se tratava de .
- Porque ontem ele me disse que estava dando um trabalho danado arrumar o apartamento – disse simplesmente e sentiu uma pontadinha de felicidade começar a crescer dentro dela, mas manteve seus olhos cravados em , ainda faltava uma questão a ser respondida. – E pelo que parece, nem sinal de Susan nem de nenhuma outra mulher. Tá na pista!
A pontada de felicidade logo se transformou numa explosão de fogos de artifícios. não pode conter a tremedeira involuntária que lhe acometeu naquele momento de pura euforia. Era como se sentir viva novamente. estava de volta ao seu antigo apartamento, estava solteiro, estava por perto, estava disponível, não era temporário, não era por um dia ou uma semana, era pra ficar. não conseguiu evitar o imenso sorriso cheio de dentes e riu abertamente da reação exagerada da amiga.

Só quando o garçom trouxe os pedidos e sentiu o cheiro delicioso de carne que ela percebeu o quanto estava faminta. Felicidade abria apetite.
As duas amigas comeram em silêncio por um tempo, apenas saboreando as deliciosas iguarias. Na verdade, poderia estar comendo pedra e quebrando todos os dentes, mas nem assim pararia de sorrir.
- Amiga pelo amor de Deus, você está patética, pare! – disse sem se conter, gargalhando durante um tempo, levando a risadas também.
- Eu sei, mas eu não consigo. Se nós não estivéssemos em público eu estaria dançando Macarena. Eu não sei explicar, mas eu estou tão feliz! – Respondeu num tom engraçado que fez parar de rir e contemplar a amiga com um sorriso satisfeito, como o de uma mãe orgulhosa e feliz.
- Eu não lembro a última vez que te vi tão animada – falou e a amiga soltou um suspiro, dando um sorriso tímido em seguida.
passou mais tempo que o necessário mastigando um pedaço particularmente muito gostoso da sua comida. Na verdade estava pensando numa boa forma de explicar a os acontecimentos recentes.
- Bom, quando eu estava saindo do trabalho o apareceu e disse que queria me levar pra um lugar - relatou enquanto colocava um pouco de salada na boca e mastigava lentamente.
- Assim do nada? Ele simplesmente apareceu? – falou exaltada, aparentando muito interesse pelo assunto. semicerrou os olhos e encarou a amiga.
- Você sabia. – Ela acusou e semicerrou ainda mais os olhos quando fez menção de abrir a boca para negar. soltou um suspiro e revirou os olhos, dando de ombros em seguida, como uma criança que é pega no flagra.
- Bom, ele queria te ver, você não foi almoçar com a gente. Eu meio que deixei escapar a hora que você saia do trabalho. Ah, qual é , todo mundo sabe que você tava doidinha pra ver o , só não esperava que ele fosse aparecer de surpresa pra te ver – disse abandonando o tom de voz cínico, fazendo rir debochadamente.
- É, ele me deu um susto, aliás - relembrou do encontro com o amigo, com um sorrisinho no rosto.
- Onde ele te levou?
- No McDonalds - respondeu simplesmente, e riu em seguida, ao ver bufar cética e revirar os olhos.
- McDonalds? Tão romântico esse ... chega me comovi - Comentou irônica.
- Na verdade foi bastante bonito, até. Nós ficamos num clima meio nostálgico relembrando os velhos tempos e tudo o mais. – disse com um brilho nos olhos, relembrando da noite anterior e de toda troca de olhares e abraços. Que saudade...
- Só isso? – parecia insatisfeita e apenas riu, dando de ombros despreocupada.
- Eu quase me declarei pra ele, se aquele garçom não tivesse aparecido.... - suspirou e tapou os olhos com as mãos, sentindo-se bastante frustrada e envergonhada. riu da reação da amiga e baixou os talheres sob o prato agora vazio em cima da mesa, declarando que havia encerrado sua quota de comilança.
- E então aconteceu mais alguma coisa?- Perguntou quando finalmente retirou as mãos do rosto em sinal de vergonha.
- Bom nós fomos dar uma volta no parque, encontramos um casal de velhinhos e...
- Afinal de contas teve algo interessante? - interrompeu com uma cara entediada que fez rir novamente.
- Nós andamos de mãos dadas pelo parque, sentamos num banco e ficamos falando coisas fofas, trocando carícias e... Quer parar de olhar assim? - ralhou com a amiga que a olhava com uma carinha maravilhada e um sorriso bobo nos olhos... Sorriso de ironia.
- Awn, continue... Adoro coisas melosas e românticas - colocou as mãos no queixo e bateu as pestanas falsamente, fazendo semicerrar os olhos.
- Se não queria ouvir não perguntasse.
- Oucth! Nervosinha, só fico empolgada de ouvir sobre a saga interminável de e apaixonadinhos e lerdinhos.
- Não, ... ele não está apaixonado - engasgou com o suco que tinha acabado de beber, recebendo um olhar de reprovação de .
- as vezes eu tenho vontade de te espancar. Você é cega? - perguntou um tanto quanto irritada vendo tossir várias vezes, levantando os braços engasgada.
- Argh.. Como você pode saber que ele está apaixonado? O cara mal voltou pra cidade depois de tanto tempo sem dar as caras - perguntou com a voz quase normal.
- O é louco por você, e só você não vê isso... E cuidado pra não engasgar de novo - falou assim que viu elevar o copo novamente a boca.
- Não é verdade, ele não é louco por mim - negou, sentindo o rosto arder e as famosas borboletas no estomago lhe incomodarem, borbulhando o seu almoço que parecia querer voltar numa velocidade que a deixava enjoada.
- Ele sempre ficou no seu pé no colegial e você sempre negou...
- , ele era um galinha e eu não ia ficar com ele pra ser só mais uma. – se defendeu e recebeu um olhar de reprovação de – O que foi?
- quando você fala assim me dá uma vergonha absurda de você. Ok, que quando você era apaixonada pelo tinha seus 13, 14 anos. E essa sua visão de “ser só mais uma” era bem condizente com sua mentalidade de pré adolescente da época, mas hoje em dia você me dar o mesmo argumento me deixa perplexa – falou rapidamente e engoliu seco, prestando mais atenção no discurso da amiga, não teve nem coragem de abrir a boca tamanho seu choque – Amiga você está reproduzindo uma visão machista. Todas as mulheres que o se envolveu, todas, você criticou. Arranjou algum motivo pra falar mal, pra não gostar e muitas delas eram até legais e você odiou todas pelo simples fato de que elas tinham o que você queria e nunca teve coragem de correr atrás.
“O sempre gostou de você, , sempre! Ele sempre deu investidas, sempre deu cantadas, você sempre bancou a donzela em perigo e dizia que não queria ser só mais uma mas nunca deu a ele a chance de provar que você era diferente. Você tem essa visão meio masoquista de curtir sua própria dor, você poderia ter evitado todo esse tormento se tivesse tacado um beijo na boca dele em todas as mil oportunidades que teve. Agora o tá aí, solteiro, de volta, mais gato do que nunca e ainda assim você não toma uma atitude, não faz nada e ainda fica reclamando”
Quando terminou seu discurso, não foi capaz de abrir a boca para dizer absolutamente nada. Duvidava que ainda tivesse capacidade de falar alguma coisa, duvidava que pudesse abrir a boca e impedir que seu almoço retornasse por completo e duvidava que pudesse se quer se mexer, havia criado raízes naquela cadeira. Todas as palavras de perfuravam seus tímpanos e ecoavam na sua mente quase como se a amiga estivesse gritando com ela. sempre fora sincera, mas nunca a tinha visto agir daquela maneira. Sabia que ela era assumidamente Team , já que os dois eram quase como irmãos, mas aquelas palavras pareciam guardadas há muito tempo.
- O que eu faço? – perguntou por fim com uma vozinha mínima. Toda alegria e euforia se dissiparam. – E se eu tiver perdido todo esse tempo e agora ele não quiser mais nada comigo?
- Bom, aí você vai ter que aceitar que perdeu o amor da sua vida. – disse simplesmente, mas ao notar o olhar de choque e horror de , ela deu uma risadinha debochada – , tome uma atitude. No lugar de eu também não rastejaria aos seus pés, tem uma hora que a gente cansa de correr atrás.
- Sabe eu não entendo vocês. Um dia me dizem pra desistir dele, e no outro me dizem que ele gosta de mim... O que eu suspostamente deveria fazer? - exclamou indignada, mas permaneceu calma e impassiva.
- O problema é que você quer sempre que os outros lhe digam o que fazer com o seu próprio problema e nem venha dizer que não é, porque é sim. Pare pra pensar: De tanto correr atrás de você, o se cansou, ele foi sempre rejeitado, porque acha que agora depois de vários anos ele continuaria levando fora? Se você fosse o tipo de pessoa que pede conselho e faz as coisas, tudo bem, mas você sempre prefere deixar as coisas como estão, com medo de se declarar e levar um fora. Amiga, levar fora faz parte! levou tantos, por que você não saberia lidar com um? - falou prontamente e sentiu novamente a sinceridade lhe perfurar por completo. Naquele momento, sentiu-se mínima. Sentiu-se mimada, tola e imatura. Sabia que tinha toda razão, mas era orgulhosa demais para admitir.
- Você acha que ele já me superou? – perguntou por fim e pareceu pensar por um tempo, sorrindo sinceramente em seguida, antes de dizer.
- Eu acho que ele ainda é louco por você.



- Nossa, quando você disse que estava precisando de roupa, eu não imaginei que tivesse em situação de emergência - exclamou assim que abriu o armário de .
- A coisa aqui tá precária. - Scott concordou enquanto segurava um cabide com um vestido amarelo particularmente velho - Sério que você ainda usa isso? - Ele lançou um ultimo olhar crítico a peça de roupa antes de joga-la na cama com nojo.
- Haha, bem engraçadinhos vocês. Ao invés de ficarem criticando, me ajudem a escolher algo que preste - falou mal humorada, sentando-se na beira da cama.
Estava há algumas horas na sua casa na companhia das amigas e de Scott, que agora fuçavam todo o seu guarda roupa em busca de algo que lhe servisse bem para usar a noite. havia convidado os amigos para assistir o show da sua banda cover de Beatles que aconteceria naquela mesma noite num pub próximo dali. Prontamente, e as amigas se reuniram mais cedo para escolherem juntas o que vestir, o que não estava rendendo muito sucesso.
- Esse é o grande problema: NÃO tem algo que preste - contrapôs passando rapidamente os cabides, com um olhar de nojo para as roupas.
- Vai nua! É até melhor que já poupa o trabalho do de ficar tirando - comentou cínica, fazendo e rirem alto e lhe arremessar um travesseiro, porém, sem muito força, já que não pudera deixar de rir envergonhada também.
- Não precisa ir nua, mas pelo amor de Deus faça o favor de colocar uma calcinha decente - Scott falou, tirando da gaveta de uma velha e surrada calcinha fio dental.
- Scott! - gritou, levantando-se exasperada, tomando a calcinha de suas mãos. As amigas agora estavam as gargalhadas enquanto observavam e Scott brigando pela calcinha.
- Que foi? É só um conselho, nunca se sabe quando vamos chegar aos finalmentes. - Scott falou na maior cara-de-pau, quando perdeu a pequena batalha. murmurou um 'bobo' constrangida e se sentou novamente, enfiando a calcinha nos bolsos e arrumando os cabelos.
- Achei uma coisa que preste! - gritou feliz chamando a atenção dos amigos. Retirou do cabide uma calça skinny de cintura alta novíssima que ainda tinha a etiqueta da loja. - Me diz, como você nunca usou isso?
- Anh, não sei, não... Acho que nunca tinha visto ela ai - murmurou ainda constrangida.
- A única peça boa ela não usa. - riu, e Scott balançou a cabeça.
- Também no meio de tanto lixo...
- OLHA! Esse realmente muito lindo! - levantou-se da cama, mirando uma peça de roupa dentro do armário da amiga. O cropped de manga cumprida banco com listras pretas era outro item que ainda não havia usado.
- Certo, a skinny, o cropped...Amiga você bem que podia fazer algo nesses cabelos né? – falou lançando um olhar crítico para a amiga.
- Não, eu gosto dele solto - negou e deu de ombros, olhando o relógio.
- Bom, temos que nos arrumar. você é a mais horrorosa daqui então vai tomar um banho pra eu te maquiar e dar um jeito nesse seu cabelo - Ela deu pressa e se levantou a contragosto, marchando emburrada para o banheiro, em meio a risadinha dos amigos. Quando virou de costas, Scott prontamente retirou a calcinha surrada do seu bolso e estendeu para cima, sacudindo-a.
- VOU ESCOLHER UMA CALCINHA PRA VOCÊ - Scott gritou alfinetando a amiga. se virou de costas horrorizada ao ver o amigo dançando com sua calcinha para cima e partiu para cima dele enchendo-o de tapas e mordidas, tentando resgatar a peça de roupa novamente, sem se importar com a plateia composta pelas outras três amigas que agora berravam de rir da cena.
- VÃO SE FODER! - gritou vermelha de vergonha quando finalmente conseguiu recuperar a calcinha e entrou no banheiro batendo a porta com fúria, provocando mais risadas das amigas.

Depois de trocar os ingressos e estacionar o carro a uma distancia razoável, desceu do carro e contemplou o pub que parecia já estar cheio e ecoava uma música que ela até então desconhecia. Esperou o carro esvaziar e contemplou as amigas que ajustavam as roupas e se olhavam através do reflexo dos vidros do carro. estava usando um vestido curto e de mangas cumpridas, o tecido quente a protegia do frio, embora essa noite estivesse apenas bem ventilada. Ao seu lado a tiracolo estava Jeph, que havia se convidado prontamente para acompanha-a na programação, era um grande fã de Beatles. Scott ajustava o cabelo de e batia levemente na mão da amiga toda vez que ela tentava protestar.
- Scott, tá tudo bem, eu já to pronta, para! – resmungava enquanto o amigo passava os polegares por suas sobrancelhas, “penteando-as”.
- Amiga, está mesmo, se o não te pegar hoje eu nem sei o que eu faço. – Scott disse por fim e revirou os olhos dando uma risadinha baixa, estava se sentindo nervosa. Jeph observou a cena e perguntou intrigado:
- e se gostam?
- É bem por aí, eles dois são complicados, lerdos e idiotas, não tente entender, eu já to nessa há tantos anos e já desisti – disse balançando os braços como se tentasse espantar uma mosca invisível. sorriu meigamente para Jeph e ultrapassou os amigos, andando com em direção a entrada do pub, deixando Jeph um com uma expressão ainda confusa.
- Jeph, meu bem, esses dois aí se gostam desde sempre, mas é lerda demais pra confessar e anda estranho demais para se importar – Scott explicou, acompanhando o casal ao seu lado. cruzou um dos braços em Jeph e o outro em Scott, entrando com os dois no pub, um de cada lado.
- Como assim estranho? – Jeph continuou questionando ainda intrigado. revirou os olhos prestes a dar uma resposta sem paciência como “Não é da sua conta”, mas Scott foi mais rápido.
- Estranho no sentindo de sumir muito, falar umas coisas sem sentido, aparecer de repente, e de uns tempos pra cá, parece ter desistido em investir em – Scott explicou baixinho, mas ao ver que Jeph ainda parecia meio confuso concluiu – Realmente, é complicado até para nós os amigos mais próximos, com o tempo você entende.

O pub já estava parcialmente cheio, puderam notar assim que entraram. Pessoas conversavam animadamente, garçons se equilibravam por entre as mesas para não derrubarem as imensas canecas de chop que estavam sendo servidas. Ao fundo uma melodia animada entonava, misturando-se ao som de conversas altas e risadas que preenchiam o local de forma aconchegante. revirou os olhos pelo ambiente procurando sinal dos outros amigos quando notou duas mãos grandes lhe puxarem para um abraço apertado.
- Vocês vieram nos prestigiar, que bom! – Ouviu a voz de ecoar no meio do abraço e retribuiu o aperto do amigo, sorrindo animadamente por tê-lo visto.
- É claro que nós viemos! – respondeu animada, notando a figura de ao seu lado e sorrindo para amiga, tinham se visto há pouco tempo e ela tinha saído da sua casa mais cedo para encontrar-se com antes do show.
- Vamos, vou levar vocês até a mesa em que o , e o Mike estão – disse assim que terminou de cumprimentar os outros amigos. Mas parou ao notar a figura até então desconhecida de Jeph – E você é?
- Ah, Jeph! – O rapaz disse um tanto quanto constrangido e tímido, estendendo a mão para que o fitava com uma expressão de curiosidade e crítica. Lançou um olhar rápido para que o fitou com imensa reprovação e logo se esforçou para lançar um sorriso acolhedor.
- Ah sim, Jeph! Bem vindo cara, prazer te conhecer. Bom, venham por aqui. – disse por fim e desviou-se de algumas mesas para levar os amigos até o destino.
- Cara, Mike tá aqui? – resmungou num muxoxo resignado e deu um sorrisinho compreensivo para a amiga. Mike era apaixonado por ela e embora desse milhares de diretas e indiretas que não retribuía os sentimentos, ele parecia nunca desistir.
- Relaxe, amiga, é só você fingir que ele não existe. – disse passando o braço pelo ombro da amiga, motivando-a.
precisou se desviar de algumas pessoas para conseguir chegar na mesa em que os outros amigos estavam esperando. Não precisou perguntar o que havia acontecido quando as amigas pararam de andar a sua frente para saber que haviam chegado.
Seus olhares se cruzaram numa rapidez fenomenal. mal havia vasculhado a mesa a procura dele e notou que seus olhos já estavam em busca dos dela também. Quando se encontraram, e faiscaram um para o outro, fazendo notar suas borboletas voando freneticamente dentro dela. Mais do que nunca, se é que isso era possível.
estava simplesmente lindo. Usava uma calça jeans de lavagem escura, um pouco mais apertada do que o normal, realçando suas pernas que estavam mais grossas do que se lembrava de terem sido. Usava uma camisa social dobrada nos cotovelos e uma bota de canos curtos de couro. sentiu vontade de tirar toda sua roupa no mesmo segundo que o viu, e não se importou muito em olhar descaradamente para ele, já que havia percebido que também a encarava sem cerimônia, seu olhar percorria todo o seu corpo e naquele segundo ela sentia como se estivesse totalmente desarmada, despida, como se ele fosse capaz de enxergar sua alma. Naqueles poucos segundos de conexão entre os e , sentia que aquele pub antes quase lotado agora estava vazio. Só existia ela, só existia e a bolha impenetrável deles dois.
Exceto pela voz irritante de Mike e uma mão pegajosa que sacodia a seu ombro.
- Oi, ! To falando com você! – desviou o olhar de , que agora cumprimentava animadamente as outras amigas, Scott e Jeph, e se virou para falar com Mike, já que não o via há algum tempo. – Caramba que saudade, você sumiu!
- Ah, oi Mike! – sorriu sincera e o abraçou. Apesar de tê-lo odiado por alguns segundos, gostava bastante da companhia do amigo. Exceto quando ele a importunava para pedir favores com .
- Oi ! – cumprimentou o outro amigo assim que Mike a soltou, indo abraçar calorosamente , que mantinha um sorriso sem graça e cansado. abraçou fortemente lhe retirando do chão por alguns segundos e esta riu, dando-lhe um tapinha nos ombros, notando que estavam sendo observados por e .
- Que saudade, ! Como você está? – perguntou atencioso, passando as mãos pelo rosto da amiga – Caramba como você está gata! – Ele exclamou fazendo rir e bufar revirando os olhos.
- Você também não está nada mal, disse observando o amigo que parecia um pouco mais forte, como se estivesse malhando. Nesse momento sentiu um toque quente e suave na sua mão esquerda e virando-se de costas pra , deu de cara com , que estava alguns centímetros de distância, segurando sua mão e lhe lançando um sorriso torto que ela tanto amava. De repente, manter seu coração quieto parecia impossível.
- Você já teve mais consideração por mim, agora eu sou o último com quem você fala – disse baixinho num tom de voz divertido que fez rir e se aproximar, dando-lhe um beijo na bochecha, ao mesmo tempo que sentia os braços de em volta da sua cintura, puxando-lhe para um abraço. – Você está linda.
O cheiro de invadiu as narinas de e ela inspirou aquele aroma profundamente, como se estivesse inalando uma droga. A cada respirada, percebia o ar sair suavamente por seus pulmões lhe causando uma sensação de relaxamento. Como se o cheiro dele fosse uma substância da qual ela fosse dependente e na ausência dele passasse por um processo de abstinência. Soaria dramático falar daquela forma, mas era absolutamente assim que se sentia.
Soltaram-se do abraço e puxou uma cadeira para que ela se sentasse ao seu lado, o que aceitou de bom grado. Logo engataram numa conversa animada esquecendo-se da presença de todos os outros amigos ao redor. Aquela bolha estava de volta.
- Soube que você está de volta, está até arrumando seu apartamento – disse assim que se sentou, falando um pouco alto para pudesse a escutar.
- Sim! Está uma zona, não o deixei muito arrumado quando saí! – O rapaz confessou rindo baixinho e o acompanhou.
“Por que você saiu?” Foi a pergunta que quis fazer. Mas, ao invés disso, pensou em não o pressionar tão rapidamente.
- O que o trouxe de volta?
bebericou o seu chop e sem fitar diretamente, respondeu com um tom de voz sem emoção. - É minha casa.
abriu a boca para responder, mas fechou novamente sentindo-se um pouco constrangida por ter sido tão taxativo. Deu de ombros a contra gosto e fitou um ponto qualquer da mesa. O rapaz percebeu, porque logo se apressou em continuar.
- Digamos que os motivos pelos quais eu fui embora já não existam mais.
- Eu nem vou perguntar que motivos são esses, quero evitar mentiras e respostas vazias – respondeu prontamente ainda sem encarar nos olhos, visivelmente magoada. Só levantou a cabeça para encara-lo porque percebeu que estava rindo. Não uma risada verdadeira, não a risada que ela tanto amava, mas uma risada seca, sem muita emoção.
- Você está chateada? – Ele perguntou e deu de ombros, um pouco irritada.
- Por que você foi embora? Tem algo a ver com a Susan? Cadê ela? Vocês terminaram? – perguntou de uma vez, sem nem tentar fingir ou abandonar o tom acusatório. pareceu não se abalar com as perguntas, já esperava que ela as fizesse, quase como se tivesse ensaiado sua resposta, falou mecanicamente.
- Fui embora porque precisava resolver questões da minha vida, recebi uma proposta de emprego em outro lugar, Susan não pesou minha decisão, teria ido com ou sem ela. Nós não estamos juntos faz um bom tempo – respondeu simplesmente, dando um gole considerável do chop e o depositando novamente na mesa, sabia que estava sendo milimetricamente encarado por , que procurava vestígios de mentira nas suas palavras.
- E o emprego não deu certo? Por que voltou? – perguntou ainda desconfiada. Se ele estava finalmente lhe dando algumas respostas, não iria parar de importuna-lo com perguntas ainda. Os outros amigos haviam engatando uma conversa animada e não prestavam a menor atenção no que estavam falando, a hora era agora.
- Digamos que não era o que eu queria. Muito trabalho, pouca recompensa – respondeu simplesmente e lançou um sorriso um pouco mais ameno para – Além do mais eu senti saudade de receber seus foras.
abriu e fechou a boca para responder alguma coisa mas as palavras simplesmente não vieram. Não esperava uma resposta dessas tão repentinamente. Estavam falando de uma coisa séria, como se atrevia a brincar nos momentos mais impróprios? Não conseguiu evitar ruborizar um pouco com a declaração, o que fez o amigo rir mais abertamente, aparentemente mais sossegado que o assunto não estivesse mais no foco dos seus sumiços. notou que ele estava desviando o tema, mas resolveu não insistir. Ele estava bem, estava de volta, estava sem a chata da Susan. Por ora, era o suficiente.
- Hey, gente! Vou precisar subir no palco agora, já vamos começar a tocar. Me desejem boa sorte! – anunciou, levantando-se da mesa, despedindo-se dos amigos.
- Boa sorte meu princeso! – disse dando-lhe vários selinhos, fazendo-o rir. Agradeceu a saudação dos amigos “Boa sorte, ” e foi para o palco logo a frente, reunir-se com o resto da sua banda improvisada. fizera faculdade, trabalhava numa agência de publicidade, mas seu hobby e grande paixão era a música. Por isso, sempre que podia se reunia com alguns amigos para tocar em pubs londrinos e em cidades vizinhas. Tinham até uma quantidade considerável de fãs, o que não agradava muito .
- Poxa, ver o ali no palco me dá até saudade daquele projeto de banda que a gente tinha, né? – falou, aproximando-se de . Agora já estavam de pé um pouco mais próximos do palco para prestigiar o amigo. Ao ouvir o que dizia, não pode deixar de sorrir.
- É verdade, você ainda lembra? McFLY! – riu da lembrança sendo acompanhado por e por que ainda estava próxima e ouvia a conversa. – Ensaiávamos todos os dias na garagem do .
- É, uma pena que o Damien foi embora e a gente perdeu um integrante, ficamos só nós 3. Teríamos feito história, já pensou? – falou sonhador e sorriu minimamente, calando-se em seguida, fitando algum ponto fixo do palco. O que não passou despercebido por .
- Ei, ... E o Damien, como está? Tem o visto? – perguntou se referindo ao irmão mais velho de . Moravam juntos até alguns anos atrás Damien ser transferido do emprego e mudar de cidade. Gostava de Damien, era apenas três anos mais velho do que , mas era tão zoado quanto o irmão mais novo. Sempre vivia salvando de encrencas na escola e o acobertando para os pais. Pensando bem, já não se lembrava de ter visto Damien há um tempo, mais de um ano.
- Ele está bem – disse simplesmente. E antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, a banda começou a se apresentar, movimentando as pessoas ao seu redor e fazendo com o que o barulho dos acordes musicais fizessem sua próxima pergunta ser silenciada e logo em seguida esquecida.

ficou abismada em ver como eles realmente cantavam e tocavam parecido com os Beatles de verdade, era um cover realmente digno de se assistir. Já tinha presenciado os shows da banda de antes, mas dessa vez tinha que admitir que estavam de parabéns.
Depois de tocadas Help, Twist and Shout, She Loves you, Hold me Tight, o vocalista pegou no microfone e gritou novamente, dessa vez muito mais animado ao perceber a aprovação da plateia.
a essa altura já estava bêbado e completamente fora do campo de visão dos amigos. Bastou dar um mísero selinho em Jeph para que começasse a beber desenfreadamente e tratar de se espalhar pelo ambiente. Provavelmente para azarar alguma garota, pensou.
e Mike pareciam estar se dando bem, dançavam animadamente e as vezes até trocavam uns beijos. Eles sempre ficavam quando se viam, mas se Mike tentasse passar dos limites ou tentasse manter contato de maneira romântica no dia seguinte, era cruelmente impedido por , que o tratava de maneira totalmente casual.
Scott, , Jeph e dançavam animadamente. Esta última sempre gritando “É meu” toda vez que um grupo de meninas entoava “lindo e gostoso” perto dela.
- Agora eu quero ver os casais dançando hein – O vocalista gritou e a plateia fez o mesmo. Sorriu para o baterista e então num conjunto a banda começou uma nova música.

[N/a: Aperta Play!]

Close your eyes and I'll kiss you
(Feche os olhos e eu te beijarei)
Tomorrow I'll miss you
(Amanhã eu sentirei sua falta)
Remember I'll aways be true
(Lembre-se eu sempre serei fiel)
And then while, i'm away
(E quando eu estiver fora)
I'll write home everyday
(Eu escreverei para casa todos os dias)
And I'll send all my loving to you
(E eu enviarei todo meu amor para você)

arriscou um olhar hesitante em direção a e sorriu timidamente ao perceber que ele também lhe olhava. Ele lhe ofereceu a mão, com um sorriso nos lábios, trazendo-a mais para perto. Ao unir suas mãos as dele, ela sentiu puxar-lhe a cintura e logo colocou seus braços ao redor do pescoço dele, e então começaram a dançar no ritmo da música.

I'll pretend that I'm kissing
(Eu irei fingir que estou beijando)
The lips I am missing
(Os lábios que sinto falta)
And hope that my dreams will come true
(E esperar que meus sonhos se tornem realidade)
And then while I'm away
(E quando eu estiver fora)
I'll write home everyday
(Eu escreverei para casa todos os dias)
And I'll send all my loving to you
(E eu enviarei todo meu amor para você)

Enquanto rodopiavam no ritmo da música, pode perceber que dançava muito bem. As vezes arriscava um giro e com isso fazia a garota rir. Ele estava ali, bem humorado, estava dançando, girando, inventando passos e rindo junto com ela. Não precisavam conversar sobre nada, não precisavam falar sobre nenhum assunto desagradável. Estavam juntos, estavam bem.
Quando descansou a cabeça no ombro dele, sentindo o delicioso cheiro de colonia masculina emanar do seu corpo, suspirou fundo pensando sobre a conversa que tivera mais cedo com . Tudo agora fazia sentido. Ele estava de volta, estava solteiro. Ela estava solteira, eles estavam mais velhos mais maduros. Quem sabe agora não era a hora de investir naquele amor adolescente que nunca parecia ter sua hora de acontecer? Ergueu um pouco a cabeça e aplicou um beijo tímido na curva do pescoço de , notando com satisfação que ele havia ficado arrepiado. Sentiu o aperto de na sua cintura e de repente, num surto de coragem, uma chama se acendia e queimava dentro dela. Ergueu um pouco mais o olhar, sentindo suas bochechas colarem com as de , notando sua pele friccionada na dele fazer uma cosquinha gostosa com aquele pinicar de barba recém feita. lançou um olhar receoso ao rapaz, que a fitava com toda atenção do mundo. Quando seus olhares se cruzaram, a garota sentiu todos os pelos do seu corpo se eriçarem e cada célula dentro de si vibrarem e implorarem pelo contato. desviou um pouco o olhar, apenas para encarar faminto os lábios de . Inconscientemente, ela os umedeceu, quase como um convite silencioso para que ele se aproximasse. Ela não o recusaria, não dessa vez. Lentamente, ainda embalados pelo ritmo da música, mas sem se preocuparem em dançar nem em se quer se mover, aproximaram ainda mais os rostos, roçando seus lábios uns nos outros. podia sentir seu coração pulsar na garganta, seus ritmos já estavam descompassados, mas não se importava, não agora que sentia que o coração dela estava em sintonia com o de . Podia sentir, através daquele aperto que o coração dele batia com tamanha rebeldia feito o seu.
Quando se aproximou ainda mais, abraçando pela nuca, viu o rapaz fechar os olhos e sorriu empolgada e excitada, aquilo estava realmente acontecendo. Fechou os olhos, abriu a boca levemente, sentiu seus lábios se moldarem aos de , quando uma vibração forte ressaltou no bolso da calça de , fazendo-o se afastar de supetão e deixar um pouco zonza, ainda com as mãos pra cima. observou o nome no visor e com uma expressão de puro pânico guardou o aparelho novamente no bolso, suspirando e fechando os olhos com força, antes de abri-los e encarar que estava completamente catatônica.
- eu preciso ir pra casa, aconteceu uma emergência – disse simplesmente e ao notar a expressão chocada de , se apressou em dizer – Não se preocupe, não vou viajar, só preciso mesmo ir pra casa, não dá pra explicar agora, diz ao que a banda foi o máximo e se despede dos outros por mim. – Ele se apressou em dizer, dando um beijo na testa da garota e sem deixar que ela tivesse o direito de resposta, deu-lhe as costas, desviando-se com rapidez e habilidade pela multidão de pessoas aglomeradas ao seu redor, rumando em passos largos para a saída, deixando uma boquiaberta e completamente sem reação no meio da pista de dança.

All my loving, uuuh All my loving, I will send to you...


Capítulo 6


O vento soprava furiosamente em seus cabelos, uma leve garoa caia, molhando seu rosto com pingos gelados. Seu semblante expressava um misto de confusão e nervosismo, estava começando a se arrepender de ter vindo. Que ideia mais tola, vir se declarar para o seu melhor amigo, assim do nada, o que ele iria dizer?
havia acordado de um pesadelo horrível naquela manhã, sonhara mais uma vez com a multidão, com a sensação de angústia e da correria para chegar até . Estivera pensando em tudo aquilo que havia lhe dito alguns dias atrás e em toda a força que a amiga havia lhe dado para finalmente se declarar. Isso somado ao quase beijo que havia dado em no domingo passado e a decisão estava tomada. Ela sabia que ele ainda nutria sentimentos por ela e aquela certeza fora o suficiente para faze-la tomar uma atitude. Era quarta-feira a tarde e ela havia saído mais cedo do trabalho, era a oportunidade perfeita.
Não adiantava se desesperar, agora já é tarde demais, repetiu para si mesma, enquanto entrava no prédio. Estranhou ao ver a portaria vazia, mas não esperou pelo porteiro, quanto mais cedo isso acabar melhor. Simplesmente entrou no elevador e apertou o botão 7, sentindo seu coração bater aceleradamente a cada andar que se elevava.
Quando o número “7” apareceu no visor, a porta se abriu com um estalido eletrônico indicando que havia chegado no seu destino e não era mais hora para recuar. Suspirando fundo ela saiu, rumando pelo corredor que se iluminava conforme ela adiantava. Parou na porta do 702 e tentou controlar o nervosismo, respirou fundo pela enésima vez e repetiu para si mesma que estava tudo bem, o máximo que podia acontecer era ele lhe dizer um não. Super simples.
Lutando contra o intenso desejo de ir embora, ela tocou a campainha.
Não demorou muito e um rapaz alto e extremamente bonito atendeu a porta, parecendo surpreso ao notar quem estava ali.
- , uau... você por aqui a essa hora, que surpresa. – Ele soou com a voz rouca, dando passagem para ela entrar, embora ele mesmo estivesse um pouco atordoado.
- Anh, oi ... Desculpe pelo incomodo, vir assim de surpresa, se você achar que essa não é uma boa hora eu posso ir embora – Ela falou, desejando por tudo que era mais sagrado que essa fosse uma péssima hora e que ele a mandasse ir para casa. Não sabia de onde esse impulso de coragem havia surgido , mas nesse momento ele havia desaparecido por completo e tudo o que ela mais queria era estar em casa, segura em sua cama, e não ali, prestes a ouvir o “não” de sua vida.
- Hey, calma, você parece um pouco nervosa, algum problema? Aconteceu alguma coisa? - perguntou protetor e atencioso, parecendo verdadeiramente preocupado com a cara de enterro de .
- Não, não aconteceu nada. – Ainda respondeu com a vozinha mínima, o coração batendo forte com expectativa. É agora, meu Deus – Eu só preciso te dizer uma coisa que eu estou escondendo a algum tempo.
- Senta aqui – indicou o sofá para ela, e sentou-se ele mesmo de frente, na poltrona mais próxima.
suspirou , fechando os olhos com força. Já era difícil fazer isso, e seria pior ainda se tivesse que encarar os olhos intensos de , que a miravam com toda a atenção do mundo.
- eu não aguento mais isso. Não aguento mais seus sumiços, seus mistérios, esse tom de indiferença que você adquiriu não sei de onde, esse seu novo jeito de fingir que não liga, que não sente nada, e num segundo depois você se torna tão quente e tão receptível. Você me esconde coisas, mas eu não posso reclamar, também escondi algo de você. - Abriu os olhos, mas ao encontrar o olhar confuso e ansioso de , sentiu aquelas conhecidas sensações de desconforto ao pé do estômago e as costumeiras borboletas flutuarem dentro de si. Um dia ainda arrancaria a força das asas daquelas malditas borboletas – Eu não posso mais esconder que eu sou e sempre fui louca por você. Eu sempre quis que você me beijasse com amor e não como fazia com aquelas garotas que costumava ficar e largar. Eu sempre quis que você percebesse que eu sempre estive ao seu lado e sempre vou estar, mas não quero mais ser só sua melhor amiga, quero ser mais.
praticamente cuspiu todas aquelas palavras, era acima de tudo um alivio estar desabafando tudo aquilo depois de tanto tempo. Tremia fervorosamente dos pés a cabeça e se sentia como uma adolescente de 15 anos confessando seu amor pelo professor de história. Não tinha estrutura emocional nenhuma naquele momento e agora que havia finalmente arrancado o band aid era praticamente impossível parar. Precisou respirar profundamente controlando o impulso de desembestar a falar novamente. Fechou os olhos com força numa careta, não aguentava olhar para com aquela expectativa e mirar o semblante confuso dele, como se tivesse acabado de levar uma bofetada na cara.
estava inexpressível, e ela deduziu que fosse de choque. Aos poucos ele começou a raciocinar direito, como se estivesse digerindo lentamente cada palavra dela. estava começando a sentir o silencio incomodar e abriu os olhos desesperada, pronta para pedir qualquer palavra que fosse, quando percebeu que estava sorrindo torto, e agora exibia um brilho diferente no olhar.
- Eu não posso lhe dizer todas as coisas que quer saber, mas posso lhe dar o beijo que sempre quis.
Antes mesmo que pudesse entender o que estava acontecendo, os lábios de já estavam nos seus. A surpresa foi tão grande que ela demorou para se entregar ao beijo. Os lábios de moviam-se lentamente nos seus, o toque era doce, delicado e carregado de sentimento. Uma mão dele já estava na sua nuca, e a outra acariciava seu rosto delicadamente.
agora parecia uma adolescente apaixonada que dava o seu primeiro beijo, as mãos tremiam tanto que ela as entrelaçou com força nos cabelos de .
O beijo se intensificou aos poucos, a língua de contornou o lábio inferior de , como se pedisse permissão e esta concedeu. Quando as línguas se encontraram, sentiu uma explosão de felicidade. O beijo era perfeito, encaixava na maneira certa, os movimentos eram sincronizados e o gosto era magnífico. não podia acreditar que estava desejando tanto ir embora ha alguns minutos e agora estava beijando . O ritmo foi ficando acelerado, ele se debruçou no sofá por cima dela, deitando-a e pondo-se confortavelmente sobre seu corpo, beijando-a com mais intensidade...

O telefone tocava estridente na mesinha de centro. resmungou baixinho e foi atende-lo. Estivera na poltrona do lado da janela há duas horas, contemplando a chuva que batia na vidraça, fazendo o som de que tanto gostava de ouvir. Estivera tão sonolenta e confortável que se distraíra devaneando com e nem percebeu o telefone tocando.
- Alo? - Atendeu um pouco mal humorada, esperou dois segundos e não obtendo resposta, deligou o telefone carrancuda. Amaldiçoava quem tinha interrompido seus devaneios logo numa hora tão boa quanto aquela.
Por um milagre divino, Lauren havia lhe concedido uma folga graças a um congresso que precisara ir em Liverpool, que a deixaria fora do consultório até a próxima segunda feira, o que renderia a um quase feriado prolongado, visto que ainda estava na quarta-feira. Estava tão compenetrada sentada próximo a janela observando o movimento que acabara devaneando com mais uma vez.
Como o prometido, estava de volta. A respeito da sua repentina necessidade de ir embora do pub no domingo passado, havia mandado uma mensagem mais tarde naquela mesma noite explicando que havia deixado o gás ligado e um dos vizinhos lhe mandou uma mensagem avisando que estava escapando e portanto corria o risco de incendiar todo o prédio. Se acreditou ou não naquela história, naquele ponto era irrelevante, visto que agora ele pelo menos se dava ao trabalho de mandar sms ou ligar para avisar as coisas. Não haviam conversado sobre o semi beijo ou o que quer que tenha sido aquele momento no pub. Não haviam se encontrado desde então, mas o coração de se sentia feliz e reconfortado ao saber que já tinham data marcada para aquilo. O final de semana que se aproximava era o aniversário de e os amigos estavam combinando uma festa surpresa para a amiga na casa de e já havia confirmado presença.
Só de pensar nessa festa, o coração de revirava de expectativas, estava tomando coragem para finalmente fazer aquilo que precisava e desde então, era só nisso que pensava.
- Não sei por quanto tempo você vai ficar bancando a melhor amiga – Scott lhe dissera outro dia enquanto assistiam a um filme qualquer na casa de .
- O que você quer dizer com isso? Eu realmente sou a melhor amiga dele, só gosto um pouco mais do que isso, digamos. – que tinha acabado de pegar um punhado de pipoca e parado a meio caminho da boca, perguntou.
- Bom... – Scott parou para refletir, possivelmente medindo as palavras que usaria – Você deveria deixar claro suas intenções.
- Até parece que tem coragem para isso – riu, debochando da amiga enquanto tomava um gole particularmente grande do seu refrigerante.
- É não tenho coragem mesmo, sou uma Maria-Mole. – admitiu como se estivesse se orgulhando disso, o que não era o caso já que tinha vergonha de assumir se quer que ficava devaneando com nos seus momentos de solidão.
- Bom, ai já é problema seu. Se quer continuar sendo amiguinha dele, vai em frente. Quem sabe ele te convida para ser madrinha do casamento dele com uma loira qualquer, tipo a Susan, corajosa, independente... –Scott deu de ombros, somente na intenção de provocar, mas também sabia que aquilo tinha dado um “que” de pânico a .
“É, o Scott ajuda muito” Pensou com ironia, lembrando-se do acontecido. Sabia que ele queria muito que ela abrisse o jogo logo de vez, mas também não conseguia faze-lo entender que ela não tinha coragem o suficiente para dizer o que sentia. Tinha muito medo da rejeição.
Por isso preferia recorrer a , que sempre fora muito paciente, mas que também não estava lhe dizendo nada muito produtivo. “O já foi rejeitado por você várias vezes, se eu fosse ele eu também não ficaria mais correndo atrás, portanto não espere que ele demonstre interesse” No resumo era como dizia : “Ele já correu muito atrás de você, agora é sua vez de ir atrás dele”
Mas ninguém era capaz de superar que com seu bom humor e malícia conseguia fechar com chave de ouro a porta da auto estima de .
“Se eu fosse você eu me apressaria, é lindo e interessante. Esse ar misterioso dele é o que da graça, sem contar que... Amiga, ele é muito gostoso. Muitas mulheres devem babar aos pés dele, assim como você, e elas são corajosas sabe... Quanto tempo você acha que ele vai durar? Assim, eu mesmo pegaria ele se não tivesse o Jeph” E ao contemplar o olhar mortal de , apressou-se a continuar “E se você não gostasse dele, claro.”
Mesmo apesar de não gostar de absolutamente nada do que eles diziam, eles tinham razão. Afinal de contas os amigos não servem para dizer as coisas que você quer ouvir, e sim aquelas que você precisa ouvir. E no caso, ouvir que ela precisava tomar uma atitude não era exatamente o que ela queria ouvir, mas o que precisava.
O fato era que: era lindo e solteiro. A qualquer momento ele poderia se apaixonar por uma mulher que tivesse coragem o suficiente para deixar claro os seus sentimentos, e ficaria numa pior. Porque não iria mais correr atrás dela.
nunca fora do tipo que corria atrás. Talvez fosse por isso que tinha ficado com tão poucos garotos ao longo de sua vida, não que fosse tímida, mas nunca tivera coragem o suficiente para chegar em um cara. O medo da rejeição sempre fora grande, e verdade seja dita, ela era muito mal acostumada a receber as cantadas. Mas estava ali novamente obrigando-a a fazer algo que ela não faria por mais ninguém, mas ele valia aquele sacrifício. Porque ela sabia, que viver sem ele, sem ao menos ter tentado seria bem pior do que viver se acostumando com o fato de não poder tê-lo porque ele não a quis.
O telefone tocou novamente acordando do seu transe e arrastando para longe dos seus pensamentos quando uma voz materna soou do outro lado da linha no momento em que ela dissera “Alo”
- Como está minha preciosa? – Sua mãe falou no mesmo instante, fazendo soltar um gritinho de felicidade e saudades, apreciando bastante ouvir a voz da sua mãe.
- Mãe!!! Que saudade! – falou imediatamente mais animada, sentando-se no sofá cruzando as pernas feito índio, o sorriso de orelha a orelha ao ouvir a forma carinhosa como sua mãe costumava lhe chamar “preciosa”.
- Eu também estou com saudade! Todos nós estamos, você nunca mais deu as caras por aqui, até parece que não tem família! – Sra falou num muxoxo dramático que fez rolar os olhos e rir baixinho. Mães são todas iguais.
- Mãe, as coisas estão corridas por aqui, mas prometo ir para Suffolk qualquer dia desses. – respondeu sinceramente. Estava com saudades de casa, dos irmãos e pequena irmã Lizzie.
- Me conte, quais as novidades movimentam sua vida agitada em Londres? – Sua mãe lhe perguntou mais animada ao ouvir a promessa da filha, abandonando o tom dramático e acusatório e puxando assunto, o que aceitou de bom grado.
Tagarelaram alguns minutos no telefone, se lamentando, pra variar, de Lauren e da rotina. Conversaram um pouco sobre os negócios da família, que pareciam ir bem. Falaram sobre a pequena Lizzie que agora tinha oito anos e estava mais tagarela e risonha do que nunca. até conversou um pouco com a irmã no telefone antes de retornar a ligação com sua mãe que se divertia ouvindo as histórias de Scott e , se derretia com o romance de e , se emocionava com a história de decepção amorosa de e , e claro, se enchia de expectativas com .
- Então, quer dizer que ele está de volta? – Sra perguntou depois de um tempo que mantinha a mãe atualizada das novidades – Falei com os pais dele esses dias, disseram que apareceu por aqui rapidamente, mas não teve aqui em casa... Diga para esse ingrato que estou com saudades, vou tira-lo do meu testamento!
riu baixinho imaginando a expressão no rosto da sua mãe nesse momento. Sabia o quanto ela e os pais de eram amigos e o quanto ela gostava do rapaz e torcia para que ficassem juntos. Ela mais do que todos os outros dava o maior apoio para o casal.
- Vou dizer sim! Quer dizer que ele apareceu por aí? Eu tinha ligado desesperada pros pais dele pedindo por notícias quando ele estava sumido – falou distraidamente, agora já estava deitada no sofá, as pernas pra cima e olhando para o teto.
- Ele esteve por aqui recentemente, questão de um dia. Os pais pareciam aliviados. Quem eu nunca mais vi por aqui foi o Damien, tem tido notícias? – A mãe de perguntou, trazendo a tona um questionamento que havia sido feito há menos de uma semana.
- Na verdade não, perguntei até isso pro mas ele respondeu vagamente que o irmão estava bem – respondeu pensativa. Fazia tempo que não via Damien e que já não falava mais do irmão. Sempre que alguém perguntava ele desconversava ou apenas dizia que estava bem. Será que estavam brigados?
- Esses dois irmãos não sei não... Vocês quando crescem esquecem dos pais, não vão mais visitar – Sra retomou seu tom dramático fazendo rir e se esquecer por um momento dos irmãos para dar atenção a sua mãe.
Conversaram mais um pouco sobre algumas coisas bobas até que trouxe a tona uma ideia que havia lhe dado há alguns dias atrás, sobre retomar os estudos. Sua mãe deu alguns gritinhos e a filha riu, podendo imaginar a cara que fazia enquanto dava alguns pulinhos de felicidade, sabia o quanto queria que voltasse a faculdade e concluísse seus estudos. Naquele momento, parecia que sua decisão havia sido feita.

Estava de folga e sem nada para fazer, portanto não precisaria ficar em casa. Pegou o casaco e a capa de chuva no cabideiro, apanhou sua chave do carro e recolheu uns folhetos que estavam em cima da bancada antes de abrir a porta para sair de casa.
Dirigia calmamente pelas ruas da cidade que havia aprendido a amar. Londres havia lhe acolhido há nove anos, quando fora morar com a avó para concluir seu ensino médio. Desde então, amava a cidade como a sua própria. Contemplava com tranquilidade as ruas da cidade enquanto dirigia rumo a City University of London, universidade que havia estudado psicologia por alguns anos. Faltavam apenas duas semanas para as aulas iniciarem, sabia que não seria fácil retomar os estudos de uma hora para outra, não sabia nem se seria possível ser aceita numa classe já concluindo, mas tentara mesmo assim. Ainda tinha contato com o reitor e com alguns professores por quem era muito querida. Havia prometido se esforçar e concluir dessa vez, faltava apenas um semestre de estudos. Conversara com o reitor por telefone algumas vezes naquela semana, sondando as possibilidades. Contou todos os problemas que havia passado no último ano e prometeu que entraria também numa terapia, sabia que precisava e não estava mais em posição de negar. Se queria recomeçar sua vida, precisava cuidar de si, da sua insegurança, da sua dependência emocional e de tantos traumas que havia passado nos últimos tempos. Sentia-se confiante. Ao contemplar a estrutura da sua antiga universidade, sentiu-se em casa. Sabia que era a decisão certa a ser feita. Havia passado por tanta coisa, por tanto tormento, por tantos momentos de tristeza e infelicidade e instabilidade emocional, retornar para a faculdade parecia ser uma luz no final do túnel, parecia ser o fechamento de um ciclo doloroso mas que agora parecia estar se curando. Com esse pensamento, saiu do carro, fechando a porta atrás de si e rumando para o portão de entrada da universidade que tanto amava, sentindo o cheiro característico que tanto havia sentido falta e nem havia se dado conta. A hora havia chegado. Estava finalmente pronta para retornar.
Duas horas depois, saiu da universidade com vários papeis e contratos na mão e um sorriso de orelha a orelha no rosto. Mal podia acreditar que dentro de duas semanas estaria de volta para faculdade, mal podia acreditar que dentro de duas semanas estaria retomando a correria de estudos, muito café, provas, testes, estágios supervisionados e horas de pesquisa. Mal podia acreditar que havia dado mais uma chance ao seu futuro e que finalmente estava fazendo algo que a deixava completa e feliz, e algo que não tinha absolutamente nada a ver com . Tudo parecia estar dando finalmente certo, pensou. Se queria ser feliz com alguém, precisava ser feliz consigo mesma e estava finalmente indo em busca disso. Estava pegando o celular no bolso para digitar o número da mãe, avisando das boas novas quando o aparelho começou a vibrar. Assustada com a coincidência, notou o nome “” no visor e rapidamente atendeu o amigo.
- Hey, !
- Oi! Saudade de você, te vi pouco no domingo, como está? – perguntou divertido e atencioso para a amiga que sorriu sinceramente do outro lado da linha. Sentia saudades de .
- Na verdade, estou ótima. Acabei de me matricular de volta na faculdade – falou, sem conseguir conter a empolgação. Queria que a mãe fosse a primeira a saber, mas naquele momento parecia inútil guardar segredo e a animação. Ouviu comemorar do outro lado da linha e sorriu junto com o amigo – Estou perto da sua casa, quer que eu dê um pulo por aí? – Perguntou analisando as ruas ao seu redor. morava há alguns quarteirões de distancia dali.
- Claro! Vem pra cá.
estacionou o carro há algumas ruas de distância e caminhou calmamente pelo caminho que conhecia pela casa de . Queria andar um pouco e aproveitar para respirar o ar puro e tranquilo da cidade, apreciando a garoa leve que caia no fim de tarde, anunciando de uma vez por todas o fim do verão e o início do que seria um bom outono, na sua opinião.
A um certo ponto do trajeto, começou a achar que estava andando em círculos, porque já conseguia identificar alguns rostos de tanto vê-los. Um senhor com seus cinquenta anos de idade já havia passado por ela umas três vezes, e nessas mesmas três vezes ele sorrira e acenara com serenidade.
Começou a achar tudo isso muito estranho, primeiro porque definitivamente não estava andando em círculos. Olhou de um lado para o outro, para frente e para trás e sentiu-se cada vez mais certa que estava no caminho correto. Suspirou balançando a cabeça, afastando os pensamentos bobos que começaram a lhe invadir involuntariamente.
Era um pensamento engraçado que alguém a estivesse seguindo, mas isso não deixou de incomodar . E foi por isso que desviou rapidamente em uma ruela, apressando um pouco o passo quando não pode mais ser vista. Apressou em correr para o outro lado e aguardar atrás do muro, para ver se esse mesmo senhor iria entrar por essa mesma ruela e se perguntar por qual dos dois lados ela teria ido. Alguns segundos se passaram e nada do homem atravessar, já estava se sentindo ridícula e com uma baita vontade de rir de si mesma, quando para sua surpresa o homem apareceu, num passo apressado, olhando de um lado pro outro claramente em busca de alguma coisa.
virou-se para frente, pressionando –se contra o concreto frio. Seu coração palpitava rapidamente.
Era isso, estava sendo seguida.
Arriscou um olhar para trás novamente, mas o Senhor já havia desaparecido, andou um pouco mais rápido atravessando mais duas ruas, seu coração batendo furiosamente contra sua caixa torácica. Arriscou um olhar por cima do ombro, e tendo certeza de não ver nenhum sinal do senhor possivelmente um maníaco estuprador, entrou no prédio.
Cumprimentou Bob, o porteiro com entusiasmo e nervosismo, tentando se controlar do imenso susto que havia passado alguns segundos atrás. Ele nem precisou perguntar nada para ela, apenas deu passagem para que entrasse, indo em direção a escadaria que dava acesso aos apartamentos acima. Seu coração ainda batia acelerado pela euforia de agora a pouco, mas tratava-se de acalmar com o tempo, subiu um pouco mais rápido a fim de chegar na casa dele logo.

- Quer dizer que você resolveu voltar para a faculdade? – perguntou animado quando se acomodou confortavelmente no chão da sua sala, largando seu corpo no puff amarelo chamativo que ficava em frente a enorme TV de plasma.
- Sim! Resolvi concluir meus estudos. Ainda não sei como vai ficar com a Lauren, provavelmente eu reduza minha carga horária, já que de certa forma o que eu faço pra ela conta como experiência pro meu curso... Além do mais, preciso ganhar um dinheiro, boa parte da herança da minha avó vai pra esse semestre que está particularmente salgado – respondeu, explicando sua situação enquanto contemplava se sentar ao seu lado no carpete, lhe passando uma bacia de pipoca.
- Que legal, . Fico orgulhoso por você. Vai ser uma boa psicóloga, só precisa cuidar dessa mente bagunçada – disse em tom protetor e riu, enchendo a boca com um punhado particularmente grande de pipoca.
Conversaram por alguns momentos sobre trabalho, estudos, e algumas frivolidades do dia a dia, apenas matando a saudade de passarem um tempo juntos. tinha uma amizade muito especial e sincera com .
- E então, você e o ? Quando é que vai rolar? – perguntou depois de um tempo, fazendo engasgar um pouco com a pipoca e o amigo riu travessamente.
- Do que é que você tá falando? – perguntou com os olhos marejados, recuperando-se. deu de ombros e revirou os olhos como se estivesse falando da coisa mais óbvia do mundo.
- Todo mundo já sabe e já notou, . A gente meio que espera por isso há séculos. Não ache que eu não percebi a tensão sexual entre vocês no pub no domingo. – respondeu, fazendo corar furiosamente e tentar disfarçar bebendo um gole particularmente longo de coca cola.
- Não sei de onde vocês tiram isso. Eu e o somos amigos, ele não gosta de mim. Bom... Pelo menos não mais, já que aparentemente ele já gostou de mim antes – falou incerta. Suas próprias palavras soavam como um enorme soco na cara, não queria que fosse verdade.
– Na verdade, eu presumo que você tenha sido a única garota de quem o realmente gostou. – Completou , fazendo o coração de bater aceleradamente, num ritmo descompassado.
- Ele te disse isso? - Ela perguntou, insegura.
- Disse, ué. Não era segredo – respondeu, dando de ombros com simplicidade - Ele se incomodava muito quando você tinha algum ficante ou namorado. – completou, agora exibindo um sorriso divertido, como se estivesse se lembrando de algo muito engraçado. – Ele realmente pirava.
se sentiu quente de repente. Uma onda de calor subiu pelo seu pescoço, e ela teve certeza de que estava ruborizando, se controlando o máximo que pôde para manter os músculos do rosto inflexíveis, ela perguntou:
- Mas por que ele se comportava daquela maneira ridícula, ficando com um monte de garotas artificiais, logo depois de dar em cima de mim?
- Você vivia dando o fora nele, e ele respeitava isso... Embora a gente tenha que assumir que ele conseguia ser meio insistente as vezes. Mas, bom, o que você esperava? Que ele ficasse sozinho? Nah... O pegava aquelas meninas para se divertir mesmo, se ele achasse que tinha chances verdadeiras com você, acho que teria aquietado o facho, sabe?
Tudo fazia sentido com explicando todas essas coisas que , Scott, e tentaram lhe falar milhares de vezes. Era verdade. realmente fora apaixonado por ela, tudo fazia sentido, tudo se encaixava. Não era ciúmes de melhor amigo que ele sentia, ele gostava dela. E ... ... Como fora otária! Desperdiçara anos apenas pelo medo da rejeição que nunca teria acontecido, é claro que não iria mais tentar, ele era um adulto, amadurecido, não apenas um garoto imaturo que ficaria correndo atrás de uma garota a vida inteira, uma garota que aparentemente não queria nada com ele.
Agora fazia sentido. Fazia sentido esse comportamento indiferente de , fazia sentido ele tentar camuflar os sentimentos quando estava perto de . Tudo fazia sentido. Menos, é claro, os seus sumiços e seus mistérios. Isso realmente não fazia sentido, e tinha impressão de que nunca saberia a sua origem, mas no momento isso não a atormentava, o que lhe incomodava era que tivera em suas mãos e o deixara escapar. Burra, burra, BURRA!
- Meu Deus.... Eu sou tão... burra! – proferiu as palavras que não queriam deixar a sua cabeça.
- Por que está se xingando? - perguntou surpreso – Não está feliz?
- Por que eu estaria? Eu desperdicei a chance que tinha, e agora eu aposto que não me quer mais.
- E por que você não conta logo de uma vez? - perguntou, com a cara extremamente confusa, fazendo < quase sorrir. As vezes ele era muito lento de entender as coisas.
- Por que eu tenho medo de que seja tarde demais, que ele não me queira. Eu acho que eu não lidaria bem com a rejeição de novo. Doeria. – falou, agora sentindo os seus olhos arderem, não precisou explicar para , ele pareceu entender que ela se referia a Brandon e o modo brutal como ele a deixara, indo morar com outro homem – E não seria um cara qualquer, que eu sofreria e depois iria me recompor... Seria o .
Os dois amigos ficaram em silêncio durante um tempo, apenas escutando a chuva que voltara bater contra a janela. As palavras de pareciam ecoar pela sala mal iluminada.
- Você realmente o ama. – falou depois de um tempo, num tom conclusivo, como uma criança que aprende a moral da fábula. soltou um sorrisinho triste, incapaz de se conter, era tão fofo mesmo sendo tão simples.
- Sim, eu o amo. Muito. – falou, sentindo uma dorzinha no peito a consumir. Como ela queria nesse momento estar com , sentindo o cheiro dele, olhando naqueles olhos intensos, o abraçando mais uma vez e se sentindo segura apenas em ouvir o timbre da sua voz, ou o som perfeito da sua risada.
- Tá, agora me escuta – falou, virando-se de lado, segurando nos braços de com rapidez, a tomando de surpresa, retirando-a dos seus devaneios melancólicos. – Não fique ai pensando se é tarde demais ou não, pelo menos tente! está solteiro, você também , vocês são jovens e não existe tempo a perder. Pense em como foi triste saber que ele esteve ali o tempo todo louco por você, e que você por medo nunca demonstrou nada por ele, agora pense em como seria duas vezes pior descobrir daqui a algum tempo que você poderia ter tudo, mas perdeu por medo novamente. – O brilho estranho no olhar de chamou a atenção de . Era quase maníaco, era como se ele estivesse tentando fazer uma lavagem cerebral nela, tentando encaixar algo em sua cabeça. – Você é uma pessoa linda. Por dentro e por fora. E me mata te ver assim tão insegura. Você estuda essas coisas de cabeça, de mente, sei lá, sabe disso melhor do que eu, sabe que o poder do pensamento atrai as coisas. Você precisa abrir mão dessa insegurança, dessa baixa auto estima, precisa se fortalecer. Você precisa parar de pensar que é burra ou que não é boa o suficiente. Você é incrível, . E não só o percebeu isso, mas vários outros caras. Não é porque não deu certo com o Brandon ou com qualquer um outro que não vai dar certo com todo mundo. A vida é assim, a gente cai e depois levanta, você precisa parar de sentir medo de ser rejeitada.
- Mas... – Ela tentou falar, mas o amigo pôs o dedo indicador em seus lábios, pedindo silêncio.
- Me prometa, que da próxima vez que você vê-lo você irá falar com ele. – pediu, sua voz não estava mais divertida e nem bem humorada. Ele estava sério.
- Mas a próxima vez será no sábado, no aniversário de falou com a vozinha mínima, sentindo-se um pouco desesperada.
- Então será sábado – falou, sorrindo agora abertamente parecendo maravilhado com o fato de que seus dois melhores amigos iriam finalmente ficar juntos. - Prometa
- Eu prometo – respondeu um pouco incerta do que estava fazendo. Naquele momento, desejou beber toda a tequila do mundo.
- E depois me conte tudo ok? - Ele complementou e riu repentinamente, lembrando-se de alguma coisa – O que foi?
- Nada, é que você me lembra o Scott falando assim.
- Tá me chamando de biba? - se fez falsamente ofendido com uma voz afeminada fazendo rir gostosamente, e então ele sorriu satisfeito por conseguir seu objetivo.
- Hm... Não sei, se você não tivesse namorado com minha amiga, talvez eu achasse que... É BRINCADEIRA, ! – apressou-se em continuar ao ver os olhos de se arregalarem e ele lhe bater com uma almofada.
Os dois riram por um tempo, porque tentava acerta-lhe novamente, ela tentava tirar a almofada da sua mão. Depois de alguns segundos eles simplesmente se esqueceram da almofada e começaram a rir sem realmente saber por que.
- É, você e , um casal que eu achei que nunca ia ter fim – falou depois que as risadas cessaram. – Até hoje eu realmente não entendo como isso acabou.
- Eu te contei, a gente estava brigando demais e eu decidi que deveríamos terminar – respondeu casualmente, embora os traços de bom humor estivessem se esvaindo.
- É, você contou, mas isso não significa que eu acreditei – falou prontamente, fazendo o amigo olhar-lhe surpreso. – Ah, qual é , todo mundo sabia que você e eram como água e vinho, norte e sul, doce e salgado... Completamente opostos. Mas a gente também sabia que vocês se amavam muito e então briga nunca seria realmente o motivo para vocês terem terminado.
encarou por um tempo, mesmo depois de ela ter acabado de falar. Parecia um pouco incomodado com o rumo do assunto, mas havia outro sentimento que não pode detectar no início, mas talvez fosse infelicidade.
- Eu nunca consegui esconder muito bem as coisas de você não é? - Ele brincou com um sorriso triste.
- Não e também não sei porque tenta. – falou séria, embora desse um pequeno sorrisinho enviesado.
- Ei nem vem, você também escondeu que gostava do lembrou-lhe, mas revirou os olhos, como se aquilo fosse relevante.
- Mas te contei não foi? Então... Abre a boca.
suspirou fundo, desviando os olhos de , voltando a mirar a janela sem muita importância. Parecia frustrado, como ela nunca o vira antes.
- Eu não quis contar, por que depois de um tempo fiquei com vergonha do que fiz – Ele confessou numa voz baixa.
- Você traiu ? - perguntou imediatamente num tom urgente e curioso, fazendo franzir a sobrancelha e olha-la como se aquilo fosse um absurdo.
- Não, não... Claro que não.
- Então fala logo, ... Que drama!
- Você tem razão, sabe, eu realmente amava muito , e nós estávamos bem. As vezes queríamos arrancar a cabeça um do outro – falou sorrindo saudoso, com os olhos fixos novamente num ponto vago da vidraça, mordeu os lábios lembrando-se de alguma coisa, possivelmente boa – Mas nós realmente nos amávamos, e eu estava feliz com ela.
“As vezes eu chegava a ter a impressão de que iríamos ficar a vida inteira juntos e acho que foi isso que me assustou. Sabe, tudo mudou depois que o Caleb se casou. Meu irmão namorou por três anos com a Jane e casou com 20 anos de idade, muito novo e quase não aproveitou as coisas para simplesmente se comprometer para a ‘Vida Toda’ “– fez aspas com a mão, cada vez mais amargurado, a medida que continuava a falar. simplesmente escutava com bastante atenção.
“Eu comecei a olhar minha própria vida e eu percebi que não estava muito diferente de seguir o rumo dele, quero dizer, eu e estamos juntos há dois anos e eu pensei que depois seria eu a me casar, ter filhos... Isso me assustou! Então eu...”
- Então você achou que deveria aproveitar mais a sua vida por que logo iria assumir responsabilidades que achava que não estava pronto. – completou, séria e apenas confirmou a com a cabeça, parecendo envergonhado – Então por isso formulou todas aquelas brigas, para dar a impressão de que que tinha terminado com você.
- Eu pensei que se ela terminasse comigo, a faria se sentir melhor, superior. E ela poderia achar alguém para lhe fazer companhia e não sofreria tanto. Eu achei que seria melhor...
- Parece que você conseguiu o que queria, ela agora está com o Jeph que parece bastante disposto a encarar um compromisso. Se sente melhor?
- Péssimo – respondeu, mas infeliz do que nunca – Eu sei o que você vai dizer, que eu procurei isso, que eu terminei com ela sabendo das consequências, que eu sou o culpado... Eu sei, eu sei!
- Eu não ia dizer nada disso – falou com serenidade, fazendo a olhar surpreso – Eu não acho que seja um bicho de sete cabeças, você queria liberdade, curtir a vida, e não queria magoa-la por isso, fazendo com que ela se sentisse rejeitada, mas eu ainda acho que você poderia ter sido honesto com ela. Só não entendo porque está tão infeliz assim... Em tese, era como você planejava, ela até encontrou outro alguém.
- É essa parte que me irrita mais. – respondeu, um brilho raivoso tomando conta dos seus olhos – O perfeito Jeph, divertido, carismático, carinhoso, simpático.... Argh, ele me enoja. – falou com repúdia, entortando a boca. fez um esforço para não sorrir daquela cena, ele havia sido super paciente com ela quando precisara, iria ser leal a nesse momento.
- Isso me parece ciúmes. – Ela não pode evitar o comentário.
- Nada saiu como eu planejava, ! Eu achei que seria fácil esquecer e que nós poderíamos ser amigos, mas ela passou na mágoa pro ódio com tanta facilidade. E quando ela começou a beijar aquele... Jeph, eu me senti um lixo, eu estava bem até aquele momento.
nunca tinha visto tão desamparado. Ele parecia realmente muito arrependido e infeliz, sabia que não o odiava, sabia que ela ainda amava embora continuasse negando para todo mundo, mas também sabia que ela estava tentando seguir em frente, e tinha toda razão para fazer isso. Por um momento ficou sem saber o que dizer ao amigo, mas no fim das contas decidiu que lhe dizer a verdade era a melhor solução.
- Olha, não está realmente satisfeita com sua cara, mas é só porque ela é birrenta e orgulhosa demais para admitir que quer você de volta. Acho que todo esse “ódio” que ela diz sentir, é simplesmente porque você pareceu superar tudo com muita facilidade quando ela estava numa pior. Mas o Jeph, ele é realmente um cara legal, e ele a está fazendo feliz. Eu sei que ela pode estar meio irredutível no momento, mas ela não te odeia. Tenho certeza de que ainda te ama muito. – falou, atraindo o olhar de . Procurou medir todas as suas palavras de modo que ele entendesse e não se sentisse pior do que já estava se sentindo.
- Mas ela me odeia! – exclamou desesperado, como se não tivesse ouvido uma palavra do que havia lhe dito.
- Você a ama? - perguntou séria e impaciente.
- Claro que sim! – respondeu prontamente.
- Então lute. – Ela falou em tom decisivo, mas ao ver que a expressão dele ainda era de dor, ela continuou, com uma abordagem melhor – “Não fique ai pensando se é tarde demais ou não, pelo menos tente!” - usou a mesma frase que havia lhe dito, minutos atrás quando a história se iniciara, por ela. – “Pense em como seria duas vezes pior descobrir daqui a algum tempo que você poderia ter tudo, mas perdeu por medo novamente”
parou por alguns minutos, calado e inexpressível, apenas olhando para e tentando absorver as palavras que ela dizia. Depois de trocarem um longo e intenso olhar, ele exibiu um sorriso torto, parecendo se sentir um pouco mais confiante.
- Acho que estamos no mesmo barco né, precisamos dizer para as pessoas que amamos que nós as amamos, e no entanto acho que somos covardes demais para isso. – falou, brincando com a ocasião. não pode deixar de sorrir também. Essa era uma das coisas que ela mais gostava em , ele sabia descontrair o momento e tirar uma brincadeira até com as coisas que pareceriam mais tristes.
- Acho que sou a pessoa mais covarde do mundo – Ela falou, fingindo um tom derrotado, embora sorrisse.
- Ei, pare de tentar roubar o meu lugar, eu sou o mais covarde. Pelo menos você já vai falar com o sábado. – brincou, puxando a ponta do cabelo de .
- Ai, e ainda tem isso – Ela soltou um muxoxo, perdendo um terço do animo, mas logo mordeu sua bochecha, fazendo-a rir.
- Não fique assim, se ele te colocar na sarjeta você pode vir pra mim, acho que nós faríamos um belo casal – falou apontando para si mesmo, fazendo rir verdadeiramente.
- Acho que faríamos um belo casal de covardes. – Ela sentenciou, e gargalhou gostosamente.
- E nossos filhos seriam os covardezinhos. – completou, e concordou rindo mais ainda.
- Bom, pelo menos essa é a parte boa. Temos um ao outro – falou, toda a gratidão e amizade colocadas naquele olhar que dirigia a . Ele pareceu entender o recado, porque sorriu para ela com todos os dentes e covas, fazendo-a sentir-se feliz por dentro.
- Isso supera qualquer coisa. – Ele falou, e ela sorriu também.
E depois disso, o clima ficou bem mais leve e as conversas vagaram para bem longe de , , amor e angústia.
Podiam estar sofrendo e extremamente confusos, mas enquanto tivessem o apoio e amizade um do outro, eles poderiam superar qualquer coisa.


Capítulo 7 - parte I: It's tequila, baby!


[N/a¹: Capítulo realmente muito longo e portanto dividido em duas partes, sorry btw]
[N/a²: É extremamente recomendável que vocês já coloquem para carregar Work – Rihanna, faz toda a diferença]

O sol se pôs, dando lugar a uma noite fria e estrelada. A lua brilhava no topo e apesar da temperatura gélida, o clima estava seco, sem vestígios da chuva forte dos últimos dias, uma das imensas vantagens de estar em Brighton, que possuía um clima mais quente e temperado do que o de Londres. E nessa noite, em particular, nenhum sinal de nuvens e nem de chuva.
A mãe de estava numa convenção importante de moda na França e não poderia estar presente para o aniversário da filha e portanto os amigos a levariam para um final de semana na casa de praia de em Brighton que ficava há apenas uma hora de Londres, com a desculpa de que iriam beber algumas cervejas, passar um tempo na praia e aproveitarem os últimos resquícios do verão antes que a temperatura caísse definitivamente.
O que não sabia, entretanto, é que os amigos haviam preparado uma imensa festa surpresa para ela no interior da enorme casa de praia de . Ao invés de convidar apenas os habituais sete amigos, tinham feito uma imensa lista de convidados que iam desde os amigos mais antigos do colegial, até os colegas de faculdade de espalhados pelas regiões. Por ser uma pessoa muito querida e influente, os amigos não tiveram dificuldade de convencer as pessoas a comparecerem. Obviamente, já que ninguém recusa bebida e comida de graça.
Tudo conspirava para que fosse uma grande noite, e seria.
passou os olhos cansada pelo local, admirando o bom trabalho que haviam feito durante boa parte da tarde. Sorriu satisfeita ao notar o varal de luzes enfeitar o imenso jardim da casa, contrastando bem com as mesas com forros brancos e enfeites de velas.
- , dá uma mãozinha aqui, por favor – chamou a atenção da amiga, que acordou do seu devaneio, indo apressada em sua direção, observando o amigo parecer bastante atrapalhado. – Que eu faço agora? - Ele estava parado na bancada da área gourmet, apontando para os vasos de vidro a sua frente.
- Você coloca água nos vasos, só uns três dedos...Tá vendo? - ligou a torneira auxiliando o amigo – E ai você coloca só uma mão dessas bolinhas coloridas de silicone dentro do arranjo - Ela jogou as bolinhas de silicone rosa no arranjo de vidro com água, que imediatamente adquiriu um tom de rosa.
- Uau, eu não sabia que as bolinhas se dissolviam na água – admirou a água ficar rosa, com uma expressão infantil no rosto, fazendo rir.
- Não dissolvem, . Elas são de silicone, então na água elas aparentam dissolver, mas elas estão ai. – explicou, como se o rapaz ao seu lado tivesse dois anos de idade. – Bom, depois que você fizer isso, você coloca as velas enfeitadas por cima, elas vão ficar boiando na água. Mas coloque com cuidado porque pode....
Mas nunca concluiu o que podia acontecer. Foi interrompida por um som horrível de pano se rasgando. Virando-se lentamente para trás, com a expressão mortificada no rosto, deparou-se com uma estressada travando uma dura batalha contra uma toalha de mesa. O som do tecido se rasgando indicara a que a amiga havia saído derrotada da guerra.
- Meu Deus, ... O QUE exatamente você PENSA que está fazendo? - se irritou, correndo ao encontro da amiga que parecia prestes a cair no choro.
- Essa porcaria não quer ficar no lugar, eu já segurei as duas pontas, mas ela sempre cai! – respondeu, sua voz carregada de frustração.
- Mas também, como você é retardada! Eu falei para você segurar enquanto fosse cercando, mas você obviamente não quis me ouvir... - resmungou enraivada, tomando sem muita delicadeza o tecido da mão de , assumindo o serviço, deixando a outra lívida de fúria.
- NÃO ME CHAME DE RETARDADA! – berrou irritadíssima, ruborizando imediatamente, tomando a toalha de volta das mãos da amiga. e que estavam por perto correram para apartar uma possível briga.
- NÃO TENHO CULPA SE VOCÊ NÃO SABE COLOCAR UMA TOALHA NA MESA – berrou igualmente irritada. ia abrindo a boca para responder outra coisa, mas foi interrompida por , que se aproximava calmamente das duas, observando a cena com uma expressão de profundo tédio.
- Desculpem atrapalhar o que seria uma discussão maravilhosa, mas o cara das comidas chegou, e eu quero saber o que eu faço com elas – perguntou com a voz calma e o semblante impassível, parecendo completamente alheio a discursão das duas mulheres, do contrário de e que pareciam nervosos, como se as duas fossem arrancar os cabelos ali mesmo.
- Será que você não sabe trazer pra cá? Ou eu vou ter que fazer isso também? - explodiu com ele, mal direcionando o olhar na sua direção. apenas lhe deu um olhar gelado como se dissesse para ela não se atrever a descontar sua raiva nele.
- Quem encomendou e acertou as coisas com ele foi você, então talvez você devesse mesmo ir fazer isso também. Estava tentando te ajudar - E com toda a indiferença que aparecera, ele também fora embora, como se não tivesse nem ao menos aberto a boca.
- , calma... – tocou no ombro dela, a advertindo. Agora que sabia dos sentimentos de por , ele se tornara mais cauteloso, ainda mais porque ele sabia que não tinha intenção de descontar sua raiva nele, embora nesse momento ela não estivesse nem ligando para o que achava disso. Ele nem se importara mesmo.
suspirou cansada, os preparativos da festa estavam a deixando imensamente mal humorada, estava desde cedo arrumando tudo com os amigos tentando deixar tudo perfeito. Mal teve um segundo de paz e sentiu o celular vibrar no seu bolso.
- Alô? - Disse impaciente.
- Nossa que estresse, hein? - cumprimentou a amiga com um ar de riso em sua voz e suspirou mais uma vez, acalmando-se.
- Por que você ficou com a parte mais fácil, distrair . Levar ela pra fazer compras, fingir que nada está acontecendo e depois trazê-la pra cá... Fácil. – falou rabugenta, mas assim como , não lhe deu atenção.
- Estamos na casa de , ela está tomando banho para ir para aí. A convenci a vestir uma roupa melhorzinha, disse que vamos para alguma balada aí em Brighton. Daqui há umas duas horas chegaremos aí.
- Tudo bem, já terminamos de arrumar as coisas por aqui. – falou um pouco mais calma, olhando em volta. Tudo já estava devidamente no lugar, após uma tarde inteira de trabalho pesado. – Só alguns ajustes aqui e ali – Ela concluiu ao ver que ainda tentava arrumar a toalha de mesa, e tentava lhe ajudar, embora achasse que ele estava mesmo era evitando o máximo que ela chorasse. ajudava a colocar os salgados e doces na mesa.
- Tente sobreviver – falou, rindo sarcasticamente.
- Vou tentar. – falou, desligando o celular logo em seguida.
Respirou fundo tentando relaxar, dali a algum tempo os convidados chegariam e ela não iria se divertir se continuasse toda rabugenta desse jeito. Ainda mais se fosse descontando nos amigos, que estavam fazendo um trabalho fantástico também. Sabia que todo esse estresse estava sendo originado pelos motivos errados. Havia criado muitas expectativas com o aniversário de . E essa era a primeira vez que estava cara a cara com desde o acontecido no pub há uma semana. Haviam se falado pouco e interagido pouco, devido a quantidade enorme de coisas que tinham para fazer ajudando os amigos a organizar a festa de . Particularmente achara muito inacreditável ver ali no sábado a tarde disposto a ajuda-los, estava sempre tão cheio de compromissos e tão cheio de coisas para fazer que se admirava nele ter tido tempo para algo tão simples quanto uma festa de uma amiga.
- Olha... – Ela começou falando com uma voz calma e medida. Como uma garotinha envergonhada que pede desculpas pelas travessuras – Eu quero pedir desculpas a vocês pelo jeito que eu os tratei, vocês não merecem isso. – Ela falou, olhando para os amigos. e pararam o que estavam fazendo para olha-la com atenção. – Vocês fizeram coisas fantásticas hoje, e eu deveria estar agradecendo e não os tratando assim. É claro que todos nos importamos com , é só que eu estou um pouco nervosa. Me desculpem. – Ela terminou de falar, olhando nos rostos dos amigos de um por um, parando em e trocando um olhar cúmplice com ele, que sorriu de canto, indicando que tinha entendido.
- Relaxa, ... Tá de boa – falou, sorrindo pra ela, dando-lhe um beijinho na mão, e logo voltando para arrumar a mesa. lançou um olhar zeloso para , como se perguntasse silenciosamente se estava tudo bem com ela. Quando esta mostrou-lhe a língua e sorriu, ele desviou seu olhar para , sorrindo tranquilamente demonstrando que estava tudo bem. olhou para , e ele apenas deu de ombros, voltando a fazer o que estava fazendo, mas ela pode notar que ele estava dando um sorrisinho torto e sacana do jeito que ela gostava.
- Desculpa. – pediu também com uma vozinha mínima, e sorriu paciente para ela. Notou com satisfação que o rasgão do pano havia sido disfarçado com um enorme broche em formato de rosa, que dera um efeito muito bonito na mesa, parecia parte essencial da decoração.
- , terminamos de arrumar aqui as comidas, mas esse doce veio partido não é culpa minha – se apressou em informar, temendo uma possivel explosão da amiga. Mas meramente riu, olhando no relógio.
- Pode comer, e vamos logos nos arrumar.

Cerca de uma hora e meia depois, a casa estava cheia com os convidados que riam, conversavam em voz alta e bebiam drinks animadamente. A maioria das pessoas presente era composta de amigos do colegial, amigos de festas, e alguns primos próximos de . No todo, e passaram boa parte do tempo recepcionando as pessoas. Por vezes soltavam gritinhos de felicidade quando viam amigas e amigos próximos na época da escola, e vez ou outra trocavam sorrisinhos sem graça com alguns ex ficantes que pareciam surgir do nada.
A parte dos ‘ex’ parecia incomodar particularmente a , que não largava da namorada um segundo se quer, e sorria dizendo “É minha” toda vez que alguém dizia o quanto ela estava linda. E estava mesmo. Seu cabelo originalmente liso, hoje exibia grossos cachos que caiam muito bem com o decote do seu vestido verde escuro, acima do joelho.
também não estava por baixo. Usava um vestido que havia comprado durante aquela semana especialmente para festa de . Era um tubinho preto de mangas cumpridas com detalhes de pérolas nas mangas e as costas nuas. Realçava bastante o seu corpo e contrastava perfeitamente bem com a maquiagem que havia feito nela, os olhos bem delineados e um batom vermelho que havia se apaixonado, segundo Máh, era o Ruby Woo da Mac.
- Você está realmente linda, sabia? - Escutou uma vozinha lhe falar próximo ao ouvido, e se virou rapidamente, dando de cara com sorrindo calmamente para ela, lhe fitando com uma expressão engraçada no rosto.
- Obrigada, você também está! – Ela agradeceu retribuindo o elogio com sinceridade, observando o que o amigo vestia. Usava uma jaqueta verde escura aberta, exibindo uma blusa branca lisa em gola V que deixava seu corpo desenhado. Uma calça skinny preta e all star. Simples, mas muito bonito.
sorriu, e pode perceber que essa noite ele causaria arrepios e suspiro a muitas garotas. Esperava que esse feito não gerasse nenhuma briga entre ele e , sabia que a amiga traria Jeph a tiracolo.
- E então, já decidiu como vai fazer? - Ele perguntou, acordando-a dos pensamentos que vagavam rapidamente.
- Como vou fazer o que? - Ela perguntou confusa e distraída, acordando do seu pequeno transe. Por um momento havia devaneado para uma realidade em que arrastava alguma menina pelos cabelos e Jeph e brigavam com tacos de sinuca.
- Hoje é sábado, . Aniversário de . – falou, ressaltando suas palavras, como se houvesse algo por trás daquilo, mas ela estava tão distraída que não percebeu, apenas fez cara de interrogação, causando um riso debochado de – Você tem uma promessa a cumprir. – Ele completou, lançando-lhe um olhar subtendido.
suspirou fundo, repentinamente sentindo-se gelada por dentro, sabia que nada tinha a ver com a temperatura ambiente. Nesse momento, um garçom passou por eles, oferecendo algumas bebidas numa bandeja.
- Aceitam, senhores? – Perguntou o garçom com educação e arriscou uma olhada na bandeja, não reconhecendo nenhum dos drinks. “Ainda não, muito cedo” ouviu responder mas não lhe deu atenção.
- Tudo isso aqui é alcóolico, certo? – perguntou e ao ver o garçom confirmar com a cabeça, ela pegou o primeiro copinho de shot a sua frente, vendo o garçom se afastar e notar lhe lançando um olhar duvidoso.
- Já?
- Bom, eu tenho uma promessa a cumprir, ninguém falou nada sobre ter que cumpri-la sóbria – deu de ombros e arriscou um olhar ao drink, cheirando-o em seguida. Não fazia ideia do que tinha dentro mas a porcentagem de álcool parecia muito alta só pelo cheiro.
- Pra que esse nervosismo todo? – perguntou debochado e deu de ombros mais uma vez, preparando-se para virar o shot - Diga a verdade, “, eu te amo” – Ele falou, imitando uma vozinha fina que tinha certeza que não era dela. Deu um risinho enquanto virava a bebida que descia rasgando por sua garganta, ao mesmo tempo que ouvia uma voz conhecida soar atrás deles.
- Eu também te amo, mas não precisa falar com essa vozinha gay.
sentiu o conteúdo quente da bebida engrossar na sua garganta, formando um bolo quase impossível de engolir. Engasgou algumas vezes e tossiu um pouco ao sentir o líquido rasgando sua garganta ao mesmo tempo que era pega no susto. Suas pernas vacilaram e por pouco ela não caiu devido ao tamanho choque que tivera ao sentir praticamente se materializar ali ao seu lado. Não entendia como não o tinha visto se aproximar antes mas agora poderia saber que ele estava ali, não apenas por ter escutado sua voz, mas por sentir o inconfundível cheiro do seu perfume que lhe invadia fortemente as narinas, lhe inebriando muito mais do que o shot misto de vodka, absinto e redbull que havia acabado de virar.
- Buh, ele me pegou no flagra - falou prontamente, num tom de voz divertido dando um beijinho na bochecha de que fez careta, limpando-a em seguida, embora também estivesse rindo. Seus olhos porém ainda estavam fixos em , que a essa altura tentava enxugar um pouco das lágrimas que haviam se formado no canto dos seus olhos devido ao seu constrangedor momento de engasgo que tentara ser encoberto por . Sem sucesso.
- Shot forte, ? – perguntou num tom de voz falsamente educado que camuflava o deboche que extravasava em forma de um sorrisinho enviesado. levantou a cabeça, virando-se lentamente arriscando um olhar para o amigo, sorrindo falsamente, rezando para que não tivesse corado de vergonha e afirmou com a cabeça.
- Bastante. Essa coisa de beber shot sem saber o que tem dentro é muito arriscado, acabei de virar vodka e absinto juntos. – Ela respondeu e riu junto com os amigos ao verem as expressões engraçadas nos rostos deles.
Arriscou um olhar furtivo para tentando decifrar seus pensamentos e percebeu que o olhar dele estava fulminante em sua direção também. Dizer que ele estava perfeito era pouco. Usava uma camisa de flanela preta de manga cumprida e uma calça jeans preta um pouco apertada, demorou o seu olhar mais tempo do que deveria nessa última. Ao se dar conta disso, corou furiosamente e voltou a mirar o rosto de que agora tinha um sorriso maroto nos lábios e encarava o corpo dela da mesma forma. parecia ter entendido que havia sobrado porque quando se deu conta, o amigo já não estava mais entre eles.
Sentia o coração bater descompassadamente, desde o acontecido no último domingo não tinha ficado a sós com ainda, abriu a boca para puxar algum assunto mas assustou-se ao sentir o seu celular vibrar na mini bolsa que carregava. Quando pegou o aparelho, viu que recebera uma mensagem de :

“Estou chegando. Abaixe o som e se prepare. Apague as luzes. Xoxo”

sorriu ao receber a mensagem e seu rosto se iluminou num sorriso, havia chegado a hora. Virou-se de costas sem dizer uma palavra para e apressadamente se dirigiu a mesa do DJ e pediu para que desligasse o som e lhe emprestasse o microfone, o que ela usou para chamar a atenção das pessoas e pedir silêncio. Todos no local olharam para ela.
- É o seguinte pessoal, a chegou! Vamos apagar as luzes da casa e fazer o máximo de silêncio possível. – Ela falou, enquanto ia prontamente correndo até a entrada da casa e apagando todas as luzes de dentro e as pessoas tratavam de fazer o máximo de silêncio.
“Chegamos” Foi a mensagem simples que recebeu, 5 minutos depois de .
se aproximou de e as duas trocaram risinhos cúmplices, ambas imaginando a reação de ao entrar na casa completamente vazia e escura, se dirigindo ao jardim para ver os amigos e encontrar uma verdadeira festa esperando por ela. Haviam feito tudo com muito carinho e pensado nos mínimos detalhes, queriam que fosse perfeito. se afastou pegando a chave da sua casa e se dirigindo a entrada.
- Vou abrir a porta pra elas, vou dizer que estamos aqui na área da piscina fazendo um “esquente”, ok? Já sabem, quando ela aparecer façam o maior barulho do mundo – Ela disse se dirigindo aos convidados que riram e acenaram positivamente com a cabeça, esperando ansiosos enquanto a menina se afastava de vista, indo em direção a entrada da casa.
Alguns minutos depois puderam ouvir a voz de que tagarelava com as amigas e Jeph conforme se aproximava da área da piscina.
- Meu Deus, por que essas luzes todas apagadas? Cadê esse pessoal? Não me digam que eu me arrumei toda pra nada, é meu aniversáááárioooo – Ela dizia arrastada se aproximando do jardim – , e , eu acho bom vocês estarem prontos e não morgados, hoje eu quero beijar na b...
Mas onde ela queria beijar não chegou a dizer. Quando entrou seus olhos focaram o jardim completamente iluminado pela gambiarra e enfeitado com mesas e cadeiras, sua expressão foi de confusão para choque. Ao perceberem a proximidade da aniversariante, os convidados fizeram um coro de “Surpresa” e o queixo de despencou, expressando que ela não fazia a menor ideia do que havia sido arquitetado por suas costas.
Seu olhar surpreso percorreu pelo monte de gente querida reunida ali, até que seu olhar recaiu sobre cinco rostos cúmplices sorrindo para ela, como se dissessem em uníssono “Te peguei”. O canto de parabéns terminou com vários vivas e assovios, e ainda surpresa e chocada, se inclinou para assoprar a vela e fazer o seu pedido, embora achasse que tudo o que ela precisava estava bem ali.
Enxugou e derramou várias lágrimas ao cumprimentar pessoas queridas, e assim como e , soltava gritinhos emocionados ao encontrar amigos antigos. Isso tudo sendo assistida sob o olhar carinhoso dos amigos que admiravam satisfeitos a felicidade que haviam proporcionado a , que era uma pessoa extremamente benquista.
- Vem dançaaaaar! – se virou e deu de cara com Melanie, uma de suas primas mais queridas – Como pode a aniversariante ficar ai parada? - E prontamente a puxou para uma rodinha de dança que durou várias músicas.
já tinha perdido as contas de quantas músicas havia dançado, sempre que uma música terminava, outra começava e outra rodinha de dança lhe puxava. Foi com muito esforço que conseguiu escapar, quase uma hora depois para mesa em que e os outros estavam, já meio bêbados e rindo animadamente.
- Cansou, little ? - zoou assim que ela se aproximou toda suada e arfando – Você está linda! Realmente parece a aniversariante – O amigo riu, notando na roupa que a amiga usava fazendo os outros rirem em concordância. estava deslumbrante. Usava um vestido curto de paetês dourados que contrastava muito bem com os acessórios pretos compostos por brincos grandes e uma bolsa pequena, além de suas unhas e seus olhos esfumaçados estarem pretos também, contrastando bem com o batom nude.
- Claaaaro que não! Vim cumprimentar vocês! Sei que toda ideia veio dessas cabecinhas aqui! – Ela exclamou animadamente enquanto percorria a mesa dando beijinhos nos rostos de cada um, antes de se sentar numa cadeira ao lado de .
- Você consegue analisar pessoas mais bonitas, inteligentes e que te amem mais nesse local? Acho que não - disse num tom de voz convencida e ao seu lado riu alto, concordando.
- Vocês são maravilhosos mesmo. Obrigada – disse agradecida enquanto roubava o salgado que tinha a meio centímetro da boca colocando-o rapidamente na sua própria – Decupa amio, eu toco ome – Ela concluiu de boca cheia sob o olhar indignado de e o olhar debochado de .
- Credo, quem vê esse sorriso de mocinha nem imagina que é pedreira desse jeito – falou, arrancando risada dos amigos que estavam na mesa. Ao lado dela encontrava-se , com quem ela estava de mãos entrelaçadas. Ao lado dele, estava , arrodeado por , e . e Jeph dançavam animadamente em algum lugar da pista de dança improvisada.
- Ei, , cadê aquele garçom com os shots estranhos? To querendo começar – disse de repente chamando a atenção da amiga que lançou um olhar pelo ambiente não encontrando o garçom e logo em seguida deu de ombros.
- Não sei, eu particularmente estou me guardando pro melhor da festa – respondeu com um sorriso maroto brincando nos lábios, sendo observada atentamente pelo olhar confuso de .
- Eu já cheguei. – Ela disse fazendo todos os outros rirem, inclusive , que revirou os olhos embora escondesse sua animação.
- Você verá em aproximadamente 10 minutos – respondeu misteriosa, consultando o relógio do celular de , que estava ao seu lado.
- É o Scott? Ele está vindo? - perguntou de imediato, parecendo esperançosa.
- Desde quando se guarda pro Scott? - perguntou, fazendo todos olharem-na confusos – É, porque ela falou que ia se guardar pro melhor da festa.
- É, vou me guardar até o dia que ele virar hétero – falou em tom divertido e sarcástico.
- Oh, coitada... Vai se guardar pro resto da vida – forçou uma voz sofredora, fazendo todos presentes rirem, menos que parecia um tanto mal humorado.
- Babaca – Ele soltou de repente, olhando para um ponto fixo na pista de dança, o que fez com que os amigos olhassem na mesma direção, procurando o que ele estava olhando. Pareceu uma coreografia ensaiada porque todos os rostos exibiram o mesmo aspecto de “Ah, só podia ser”, virando-se de frente em seguida.
Há alguns metros de distância dali, podiam ver e Jeph dançando animadamente juntos, completamente alheios as pessoas ao redor. Pareciam felizes e apaixonados, pelo menos ele parecia, pelo modo como olhava para a garota e a abraçava ocasionalmente dizendo coisas em seu ouvido, fazendo-a corar e rir bobamente.
- Alô, terra chamando ! – estalou os dedos na frente do amigo, chamando sua atenção.
- Quê? - acordou mal humorado do seu transe.
- Isso tudo ai é pela , é? Quer um babador? - alfinetou o amigo que parecia constrangido e um pouco cismado. observou a amiga de longe. Parecia verdadeiramente feliz como não a via há algum tempo. Não percebera nenhum traço de fingimento e muito menos falsa felicidade para atingir . Parecia verdadeiramente bem.
- Ah, não enche – se levantou, virando de um só gole o uisque em seu copo, e levantando-se de imediato. Tinha seus olhos atentos em e queria ficar o mais distante dela possível. Também, quem tinha mandado ela vir tão bonita? O vestido leve azul marinho de alcinhas que usava e realçavam o corpo que ele conhecia tão bem...
- Onde você vai? - perguntou quando se levantou, despertando-o dos seus devaneios.
- Eu vou andar. – Ele respondeu simplesmente, se afastando. Os amigos se entreolharam, e num sinal mutuo de “Espero que ele não faça nenhuma besteira” eles voltaram a falar sobre outro assunto qualquer.
Mas mantinha os seus olhos em , que se afastava rapidamente para a frente da casa, longe do barulho e da confusão das pessoas presentes. Uma onda de piedade tomou conta dela, devia ser horrível estar na situação em que ele estava, ver a mulher que ele amava nos braços de outro homem, se sentindo tão feliz e segura, sem precisar dele. conhecia essa sensação, e talvez por isso soubesse exatamente o que dizer, ou que não dizer a naquele momento.
Levantou-se e não explicou os amigos onde iria, sentiu que os olhares deles estavam nela, mas não se importou, apenas trilhou o mesmo caminho que fizera a momentos antes, e foi atrás dele.
E lá estava ele, sentado no banco, na entrada da casa, onde a música parecia distante. se aproximou de fininho e se sentou ao lado dele, permanecendo em silêncio, mostrando ali, sem palavras, que ela estava ao lado dele e entendia seu sofrimento.
- Eu só gostaria de poder voltar no tempo e nunca ter abandonado ela. – falou depois de um tempo em silêncio, olhando para um ponto fixo a sua frente, com seu semblante triste.
encostou sua cabeça no ombro dele, e entrelaçou suas mãos as do amigo, apertando-as. Depositou-lhe um beijo na clavícula e permaneceu em silêncio, apenas o apoiando intimamente.
Os minutos se passaram lentamente e pouco a pouco pode perceber que estava recuperando o humor. Palavras não eram necessárias. Sabiam do sofrimento um do outro e já haviam dito tudo que poderia ser dito quanto ao assunto. Apesar de ser sua amiga, também era. E naquele momento, precisava mais dela do que , que parecia – Graças a Deus – muito bem nos braços de Jeph. Aos poucos foram falando algumas coisas, notando o jeito estranho como as plantas se balançavam e o modo como os insetos chegavam perto delas, rindo bobamente ao constatar as besteiras que estavam dizendo. Amizade é leveza.
- Obrigado – Ele falou depois de um tempo, olhando de canto para a amiga que simplesmente sorriu.
- Nem agradeça – deu de ombros e beijou a bochecha do amigo que sorriu calmamente, fechando os olhos com o carinho.
- Eu posso saber o que vocês dois estão fazendo aqui? Será que e sabem disso? - Uma voz fina e conhecida soou perto deles, os assuntando e os fazendo virar para trás imediatamente, e depois para frente, vendo Scott olha-los com uma cara confusa.
Ao lado de Scott estavam um homem e uma mulher vestidos com colete preto e calça e saia justas, o que pareceu a , um casal de paquitos. Só que eles tinham um cinto, que em cada lado estava depositada uma garrafa de tequila.
Os tequileiros.
- Scott! – arfou, parecendo assustada enquanto ria. Scott apenas os olhava de um jeito desconfiado.
- Ei, para de nos olhar assim, não estamos ficando, ok? - falou, incomodando-se com o olhar penetrante do seu amigo gay. Scott pareceu facilmente satisfeito com a palavra de , portanto deu de ombros e entrou na casa se direcionando aos amigos, rindo mais afeminado do que o normal.
- Tive uns imprevistos no caminho, mas cheguei! Cadê minha bebezinha?
- Vamos, ela precisa ver isso – se levantou, arrastando , Scott e o casal de tequileiros consigo para a área da piscina, em busca de .
- Ali, aquela menina dourada maravilhosa, tá vendo? - Scott apontou ao Tequileiro, já identificando sentada a mesa com os amigos, conversando e rindo animadamente.
- Tudo bem, você sabe o que fazer – falou, e o John, o tequileiro sorriu para ela, marotamente.
fez um sinal significativo ao DJ que imediatamente baixou o som, o deixando ambiente. As pessoas se viraram para procurar o motivo da festa ter parado, mas ao detectar um homem vestido de paquito correndo em direção a assoprando o apito, elas pararam para observar, parecendo excitadas em expectativa.
- ALO ALO, FELIZ ANIVERSÁRIO! – John gritou, parando de frente a , que estava surpresa, pega em choque. – Você sabe como as pessoas de grande estilo comemoram seus aniversários? - John perguntou em voz alta, para que riu surpresa, notando o volume nos bolsos do rapaz, soltando uma exclamação de pura felicidade.
- TEQUILA! - gritou, apontando para uma das garrafas presas no cinto do Tequileiro, fazendo com que todos inclusive John, rissem.
- Está preparada? - Ele perguntou, retirando as duas garrafas do cinto, mostrando-as a que riu excitada. – Qual das duas?
- As duas – Ela respondeu, sorrindo marotamente e mais uma vez, todos começaram a gritar. Prontamente John despejou na boca de o líquido transparente, a Tequila pura, e logo depois a misturada.
engoliu a mistura tequila fazendo uma careta engraçada, ao mesmo tempo que John cobria seus olhos com uma venda preta. Fez um sinal com a cabeça para o DJ, e logo começou a rodar a cabeça dela no ritmo da música. Tudo que podia ser visto era a massa de cabelos chicoteando no ar.
- Como se sente? - John perguntou quando largou a cabeça de . Ela estava um pouco vermelha e com os cabelos bagunçados, mas com um sorriso imenso no rosto. Passou a mão pelo rosto, arrumando os cabelos e se levantou, levando as mãos pra cima dando um gritinho de felicidade em seguida: Estou ótima!!! – Ela gritou sob os vivas e aplausos dos seus convidados e amigos.
A declaração fora suficiente para que uma fila de mulheres se formasse na cadeira em que John servia a tequila, e outra enorme de homens na cadeira que Scarlett, a tequileira servia.
- E agora a diversão vai começar – murmurou para quando John pegou sua mão, conduzindo-a para a mesma cadeira que instantes atrás, estivera .
- SCOOOOOOOTT! – gritou se atirando nos braços do amigo, ao mesmo tempo que John assoprava o apito balançando a cabeça de . – Você veioooooo!
- Você acha que eu ia perder a festa da minha Little Bee? Nem pensar! – Scott falou, com seu tom anormalmente afeminado.
- Você não sabe o quanto eu fico feliz em saber que você também participou disso – falou, indicando o imenso jardim com a mão, referindo-se a surpresa feita para ela.
- Claro que sim, imagina de quem a ideia do tequileiro bonitão surgiu?- Scott deu uma piscadela, fazendo-a rir. – Agora veeeeeeeeeeeeeem, vamos bebeeeer! – Ele disse puxando a amiga para a fila em que John servia a bebida, e ignorando quando algumas pessoas falaram que a fila dos homens era em Scarlett, ele entrou no meio das meninas. “Ele vai sentar no meu colo e acabou, eu que paguei essa merda” ele dizia animadamente fazendo chorar de rir.
Depois de muitas doses, de furarem fila, de se jogarem no colo das pessoas que iam ser servidas, pelo menos 70% da festa já estava alta. Muitos ainda protestaram quando depois de uma hora, John falou que daria um tempo na tequila, mas voltaram a dançar animados, quando ele disse que dali há um tempo de intervalo voltaria.
- Eita que ninguém vai dirigir aqui hoje... – comentou ao ver o entusiasmo das pessoas na pista de dança. Ele estava ao lado da mesa de comidas, abraçando por trás e apoiando o queixo no ombro dela.
- Claaaaaro que não, essa festa só acaba amanhã de manhã! – falou, ¼ de voz mais alta que o normal. , que estava do lado de , puxou para um abraço, beijando-lhe a testa.
- Você bebeu tequila demais. – Ele falou, num tom super protetor, que fez sorrir e mostrar-lhe a língua.
- Ainda nem comecei direito – Ela falou com a voz enrolada, fazendo rir.
- Nem eu... – comentou num suspiro, olhando para Scarlett, a tequileira. acompanhou o olhar do namorado, mirando o objeto de atenção logo atrás dela e retornou seu olhar para com uma expressão fechada.
- Pare de olhar pra ela, já falei que se quiser beber, tem que ser com o John. - Ela falou, restringindo o namorado, que imediatamente parou de olhar para Scarlett, com uma cara resignada.
e Luzia se entreolharam e rolaram os olhos, sorrindo, encostou a cabeça no peito de e continuou assim por um tempo, apenas descansando, enquanto ele afagava-lhe os cabelos e observava a festa.
- Tava com saudade de você – disse um tanto embriagada, apertando o amigo com mais força no seu abraço. riu, embora se sentisse um pouco desconfortável com o aperto na sua barriga.
- Eu também estava. Mas eu comi, então se você não quiser que eu vomite, me solte – Ele disse num tom de voz engraçado, fazendo rir e afrouxar o aperto em volta do corpo dele. Depositou um beijo no topo da cabeça da amiga e sorriu ao ouvi-la dizer – Não vai embora de novo, ok?
- Não vou! Quem iria cuidar de você bêbada se eu não tivesse aqui? – respondeu em tom divertido, embora tivesse ficado levemente emocionado com a declaração da amiga, sabia que era muito importante para ela e que possivelmente a tinha feito sofrer algumas vezes com seus sumiços. era a coisa mais próxima de uma irmã que tinha. Ela riu com o comentário e se afastou um pouco, sem deixar de abraça-lo para mostrar sua careta.
- Eu não tô bêbada, ainda nem bebi o shot de absinto com ! – Ela disse voltando a encostar sua cabeça no tronco de , fazendo-o rir baixinho.
Seu olhar percorria todo o local, em busca de uma pessoa. Encontrou várias, antes de seu olhar recair em quem ele realmente estava procurando. Um pouco mais a frente, na pista de dança, estava . Ela dançava animadamente uma música que não conhecia, sorria, cantava e fechava os olhos no ritmo da música, como se pudesse senti-la. permaneceu assim, por um tempo, apenas a observando. Fazia tempos que não a via assim tão animada e feliz.
Nesse mesmo instante, porém, pode perceber outra pessoa chegando perto de . pegou a mão dela, e a convidou para dançar com ele, o que ela aceitou, sorrindo radiante. Ele a abraçava pela cintura e ela mantinha suas mãos no pescoço dele, enquanto eles movimentavam seus corpos sincronizados no ritmo da música.
sentiu como se algo extremamente gelado estivesse descendo por sua garganta. Gelado e áspero. Sentiu um bolo engolfar-lhe o pomo de adão, mas ao mesmo tempo sentiu também uma onda de calor ocupar sua cabeça, e sabia que nada disso tinha a ver com a bebida, afinal de contas, de longe ele era o mais sóbrio daquela festa. Queria manter-se alerta.
- Vish, olha, ... Parece que o tá roubando sua mulher – comentou divertido, notando também o modo como e dançavam animados no salão. tentou o máximo não transparecer nada, apenas desviou o olhar da cena, encarando outro ponto qualquer da festa, fingindo indiferença.
- Ela não é minha mulher. – Falou simplesmente, mas apenas riu sacana e ocupou-se em beijar o pescoço de que se balançava quase minimamente ao som da música. deu de ombros e acrescentou – Ela não quis ser quando teve chance, deixa a vez do .
ergueu a cabeça para olhar , ao mesmo tempo que fazia um sonoro “Xiiii, emburrou!”, sendo beliscado por que o censurava. observou de canto o amigo olhar para outro ponto do jardim que não fosse onde e dançavam. Viu que ele estava incomodado, embora quisesse disfarçar, e ali estava a brecha que procurara há tempos. Segurou nos dois lados do rosto dele, e o puxou um pouco para baixo, de modo que ele pudesse olha-la nos olhos.
- Você ainda a ama não é? - Perguntou baixinho, de modo que só pudesse ouvir.
olhou confuso para por um momento, e no outro apenas balançou a cabeça negativamente, fugindo do assunto.
- é minha amiga, . É claro que eu a amo – desconversou, pela primeira vez parecendo desconfortável. Mas sorriu, apertando-lhe a bochecha.
- Não minta. Você sabe do que eu to falando, você ainda gosta dela. E ficou todo incomodado ao vê-la com o falou sabiamente embora ainda estivesse bêbada, sinalizando e com um olhar, onde eles ainda dançavam.
olhou para e depois olhou para . Seus olhos faiscaram na direção dela, e ele pensou consigo mesmo que não tivera a oportunidade de dize-la o quanto ela estava linda nessa noite em especial. Afinal ela era linda sempre, e ele SEMPRE achara isso.
Não precisou responder nada, porque parecia entender exatamente o que se passava na cabeça dele, sem dizer nada, apenas o tomou pela mão, levando-o para pista de dança. Por um momento pensou que quisesse dançar com ele, mas no outro, percebeu que ela na verdade o estava levando até onde e estavam. Tentou puxar a amiga, sentindo toda aquela situação ser muito maternal, mas estava alcoolizada e levemente surda, já que a música estrondava no ouvido deles. tentou dizer algo para , mas ou ela não ouviu, ou o ignorou completamente. Ele acreditava piamente na segunda opção.


Capítulo 7 - parte II: Shameless


Já estavam muito próximos de onde e dançavam animadamente para que pudesse impedir de fazer qualquer coisa que fosse. e logo notaram os amigos e sorriram para eles, chamando-os para mais perto.
- HEY, ! – gritou de modo que o outro amigo pudesse ouvi-la. O olhar de recaiu sobre as mãos entrelaçadas de e e sentiu seu estômago afundar, sabia que não havia nada entre os dois, mas não pode deixar de se sentir incomodada por não ser ela quem estava ali. Olhou para , e percebeu que este, porém tinha os olhos fixos na mão de que ainda estava sob a cintura de , e pela cara que ele fazia, não estava gostando nem um pouco daquilo.
- OI, ! OI, ! – falou animadamente, se direcionando aos amigos. ainda estava com uma expressão séria, mas deu um sorriso convincente para , que retribuiu. era muito ingênuo.
- Vem cá, dançar comigo... E deixa a com o ai! – falou no ouvido de , deixando as coisas subtendidas. O rapaz prontamente puxou pelo braço e a guiou pela pista de dança enquanto o DJ trocava a música e avistava o garçom com shots mais uma vez.
- Eeeeei, vem aqui! – chamou e o garçom virou de costas, a reconhecendo e lhe oferecendo mais um shot, dessa vez que a garota reconheceu como sendo de Jägger e redbull, o que ela virou num só gole. Ao mesmo tempo que ouvia a próxima música que estava começando.
[N/a: Coloquem a música pra tocar e deem uma olhadinha na letra!!!]

- Você não acha que já tá bebendo demais não? – zombou um tanto superprotetor quando devolveu o copo de shot para o garçom e começou a se balançar ao ritmo da música que tinha acabado de começar seus primeiros acordes.
- , o irmãozinho você banca pra , pra mim não – A mulher lhe respondeu de olhos ainda fechados, contendo um sorriso – Puta que pariu eu amo essa música.

Work, work, work, work, work, work
(Trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar)
He said me haffi
(Ele me disse que eu tenho que)
Work, work, work, work, work, work
(Trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar)
He see me do mi
(Ele me vê fazendo)
Dirt, dirt, dirt, dirt, dirt, dirt!
(Sacanagem, sacanagem, sacanagem, sacanagem)

se balançava no ritmo da música, ainda de olhos fechados, alternando seus movimentos entre lentos e rápidos conforme o ritmo da música se modificava, rebolando habilmente no mesmo lugar. permaneceu parado olhando para a garota a sua frente que parecia nem notar sua existência e deu um sorriso ainda surpreso por não ser do tipo que se solta em pista de dança.
- Você já está alteradinha – Ele disse num riso divertido perto dela, que o puxou pelo braço, colocando as mãos dele em volta de sua cintura e pressionava o seu dedo indicador nos lábios dele, ainda de olhos fechados.
- Sh, cala boca e só dança, – Ela disse pressionando seu corpo contra o dele ainda de frente, fazendo suas cinturas colarem uma na outra – Você fala demais...
Nuh botha text me in a crisis

(Ninguém vai me mandar mensagem durante a crise)
I believed all of your dreams, adoration
(Eu acreditei em todos os seus sonhos, adoração)
You took my heart and my keys and my patience
(Você pegou meu coração e minhas chaves e minha paciência)
You took my heart on my sleeve for decoration
(Você tirou meu coração da manga para por na decoração)
You mistaken my love I brought for you for foundation
(Você confundiu meu amor, eu te trouxe para o que eu sou de verdade)

- All that I wanted from you was to give me something that I never had, something that you've never seen - cantou baixinho no pé do ouvido de e sorriu satisfeita ao vê-lo se arrepiar com sua boca próxima no pescoço dele. Ela aplicou um beijo demorado e molhado no local, vendo-o se arrepiar mais uma vez e sentiu o aperto de em sua cintura se intensificar enquanto ela movimentava suas pernas por entre as dele, rebolando lenta e provocativamente.
mordeu o lábio inferior ao sentir se afastar um pouco, o suficiente apenas para lhe dar as costas e encostar seu corpo ao dele, rebolando de uma maneira absurdamente tentadora contra sua pélvis. Ainda estava com a parte da música que havia cantado em seu ouvido alguns segundos atrás, mas não conseguia no momento raciocinar em mais nada enquanto ela remexia sua bunda – que estava particularmente grande naquele vestido justo – tão perto dele.
, é ... Ela está bêbada, releve.
- I mean who am I to hold your past against you?
continuou cantando baixinho enquanto rebolava lentamente contra o corpo de , colocando suas mãos por cima das dele, que pareciam incertas ao segurar os seus quadris. Pressionou suas mãos por entre as dele intensificando o aperto. Sentiu os lábios de tocarem o seu pescoço descoberto e jogou ainda mais a cabeça para trás, fechando os olhos e se balançando ao ritmo da música.
A essa altura do campeonato, não se importavam com a pequena plateia que havia se formado ao redor deles. Sabiam que o jeito como estavam dançando atraia olhares das pessoas, principalmente dos seus amigos, que ocasionalmente faziam carinhas de risos e mordiam os lábios em expectativa. Não se importavam com absolutamente nada. Pelo menos, não . travava uma luta absurda com seus pensamentos que estavam em conflito com seus hormônios cheios de desejo.
A fricção entre os dois corpos estava realmente deixando insano. Sentia-se um pouco patético por deixar que uma pessoa tivesse tanto controle sobre ele e sobre suas emoções, mas a vida inteira sempre tinha sido assim quando o assunto era . Achou que tinha superado, mas ultimamente, desde que havia voltado, parecia que uma bolha havia sido colocada em volta deles e percebia agora que se tratava de uma imensa tensão sexual que nunca havia existido antes.
Ela nunca tinha lhe dado bola ou o menor sinal de avanço possível. E no entanto, estava ali, rebolando descaradamente contra sua pélvis fazendo movimentos para trás e para frente como se mandasse uma mensagem clara, além, é óbvio, de cantar algumas partes da música que continham um conteúdo subtendido. Só esse pensamento foi o suficiente para fazer o coração de palpitar dolorosamente contra sua caixa torácica. Não era justo, estava sendo absurdamente cruel se estivesse o iludindo dessa forma.

Sorry if I'm way less friendly
(Desculpe se eu pareço um pouco menos amigável)
I got niggas tryna end me, oh
(Tenho uns caras que querem acabar comigo)
I spilled all my emotions tonight, I’m sorry
(Eu derramei todas minhas emoções hoje, me desculpe)
Rollin', rollin', rollin', rollin', rollin'
(Fumando, fumando, fumando, fumando)
How many more shots until you're rollin'?
(Quantas doses até você fumar um?)
We just need a face to face
(Nós só precisamos de um cara a cara)
You could pick the time and the place
(Você pode escolher a hora e o local)
You spent some time away
(Você passou um tempo fora)
Now you need to forward and give me all the
(Agora você precisa seguir em frente e me dar todo…)
Work, work, work, work...


O medo da rejeição não existia, o álcool a deixava extremamente segura de si. E havia algo na maneira que lhe apertava que dizia que ele não iria a lugar nenhum. Num impulso, virou de frente e abriu os olhos o encarando com intensidade. retribuiu o olhar, as mãos ainda da cintura dela, e deixou-se admirar por um tempo os lábios vermelhos da garota, mais convidativos que o normal.
Você não pode!
Uma vozinha gritou na sua cabeça no instante em que ouvia o DJ trocar a música. Com esse impulso que precisava para quebrar o contato tentador com , se afastou alguns passos, soltando o corpo da mulher e lhe deu as costas, caminhando em passos largos para o mais distante dela possível, o olhar confuso de ainda cravado em sua mente no instante em que ele se afastava, rumando para frente da casa na intenção de obter mais ar.
dispensou a mesa de comidas e principalmente a de bebidas. “De bêbado já basta a ” pensou. Passou direto pela mesa dos amigos que já tinham saído da pista de dança e recobravam o fôlego entre risadas e mais bebidas. Não queria companhia nesse momento, nem muito menos ouvir as piadas que certamente sabia que iriam fazer em decorrência do pequeno espetáculo que havia proporcionado com aos amigos.
Era inacreditável como conseguia pensar agora longe do perfume inebriante de e dos movimentos provocantes dela contra o seu corpo. Que merda estava acontecendo? Sempre tivera um carinho especial por ela, mas desde que voltara, ficar perto dela parecia mais difícil. Talvez fosse o fato de que pela primeira vez em muito tempo, ambos estivessem solteiros e desimpedidos, ou talvez fosse o fato de estar inegavelmente mais gostosa do que nunca, mas havia uma tensão ali, algo subtendido, algo que não entendia, não tinha certeza se queria entender e com certeza temia.
Andou em direção a entrada principal da casa, que agora estava completamente vazia, todos seus habitantes estavam nos fundos ou escondidos por alguns quartos. apalpou seus bolsos e bufou frustrado ao perceber que não tinha trazido nenhum maço de cigarro com ele. Adquirira uma péssima mania de fumar nos últimos meses toda vez que se sentia estressado ou sobrecarregado, ou seja, todos os dias. Desde que voltara, no entanto, estar próximo de e dos amigos o havia mantido longe do cigarro por um tempo. Mas hoje, naquele exato momento, ela seria o motivo pelo qual ele iria fumar. Estava estressado, nervoso, tenso.
Estava já pensando em se virar e entrar no quarto em que estava dividindo com para buscar seu precioso maço, quando ouviu uma voz conhecida atrás de si, fazendo todas suas terminações nervosas serem ativadas, como se um fio desencapado estivesse dentro de si.
- Das duas uma, você escolhe: Ou eu danço muito bem ou muito mal – entoou enquanto caminhava calmamente em sua direção, o semblante estava calmo e quase impassível, mas pode perceber pelo tom de voz dela, que existia uma acusação no ar. Além, é claro, do tom de deboche. Ela estava absurdamente confiante.
- Você dança aceitável, nota seis – brincou, dando de ombros, mantendo seu tom de voz leve e despreocupado, tentando disfarçar seu nervosismo. Andou alguns passos até chegar ao banco, onde sentou-se tentando se manter imóvel. Era impressionante como se sentia adolescente de novo perto de . – Até que pra uma bêbada você tá ok.
- Eu não tô bêbada! – exclamou rindo e balançando a cabeça, fazendo dar uma risada nasalada da cena. – Olha só – Ela foi dizendo enquanto se aproximava do amigo sentado no banco – Eu até sei fazer um quatro com as pernas!
colocou suas mãos pra cima e lentamente começou a levantar uma de suas pernas, dobrando-a de lado enquanto se equilibrava em outra. Levantou a cabeça para olhar para e riram juntos quando sua tentativa foi frustrada e acabou desequilibrando um pouco para o lado, logo sendo atendida por , que acabou com a menina em seu colo rindo bastante.
Riram desajeitadamente por um tempo e passou suas mãos pelo pescoço de , parando de rir mas mantendo um sorriso brincalhão em seus lábios enquanto fitava o amigo de lado, ainda em seu colo. Quando o olhar de encontrou o de , seus rostos tão próximos, ele pode perceber alguma coisa no traço do sorriso dela que lhe dizia que todo aquele desequilíbrio fora totalmente proposital.
- Olha só que sorte a minha que dessa vez você está aqui para me segurar quando eu caio – Se antes achava que o desequilíbrio fora proposital, agora ele tinha certeza. O tom de voz irônico e debochado de lhe diziam isso com muita clareza quando ela proferiu a última frase, seu semblante sereno e quase inocente.
- Eu sempre estou aqui pra te segurar quando cair, disse com um sorriso, retirando uma mecha do cabelo dela que estava cobrindo seus olhos. estava particularmente linda naquela noite em especial, ainda mais quando agia daquela forma mais desinibida e confiante que ele tinha certeza que era por conta do álcool, mas que não a via agir há muito tempo, sempre tão insegura e triste por conta de todos os acontecimentos de sua vida.
- Engraçado você dizer isso, não me lembro de ter visto você correr ao meu encontro quando meu mundo desabou – soprou serenamente, brincando com suas mãos na nuca de , acariciando os cabelos da região.
- Por que está falando sobre isso? Eu to aqui agora – falou franzindo o cenho, não gostava do rumo que aquela conversa estava tomando, sabia onde isso iria parar e não queria levar adiante.
- Ué, você ainda não sabe? – falou jogando a cabeça um pouco para o lado, olhando para com um sorrisinho inocente e uma expressão fingida de dúvida, o que o fez franzir o rosto ainda mais.
- Não sei do que? – Perguntou confuso, tendo a certeza de que estava se divertindo as suas custas.
- O porquê de eu me importar mais do que os outros com seus sumiços - falou se aproximando mais ainda do rosto dele, deixando suas bocas a apenas alguns centímetros de distância. Observou o semblante confuso e ansioso de e se afastou novamente mais um pouco, apenas o suficiente para mirar seus olhos com carinho e ternura, passando sua mão pelo rosto do rapaz, fazendo desenhos invisíveis na bochecha dele, que ainda a olhava com uma expressão difícil de decifrar – Ninguém te contou que eu te amo, ? Será que você nunca percebeu?
falara com o tom de voz mais manso e angelical que já ouvira falar na vida. Sabia que ela estava bêbada, conseguia sentir de longe o cheiro de álcool sair de sua boca enquanto ela falava e seus olhos possuíam um brilho mais intenso do que o normal. Era engraçado perceber como de alguns instantes ela saia de uma mulher provocativa, sensual e atraente, para uma menina doce, meiga e inocente, tudo isso na mesma mulher e absolutamente adorável na opinião de , que agora sentia seu coração palpitar dolorosamente contra o peito. Não era verdade, ela o amava como melhor ami...
- E não apenas como meu melhor amigo, todo mundo sabe que você é bem mais do que isso e acho que você já percebeu, só não quer admitir – complementou sua fala como se fosse capaz de ler os pensamentos de , o que o assustou um pouco. Olhou confuso para a mulher sentada em seu colo, com o rosto tão próximo ao seu e observou enquanto ela falava calmamente, com a voz um pouco arrastada, passando os dedos pelos lábios entreabertos dele – Eu sempre quis te beijar...
ficou paralisado diante daquela declaração. Sentia seu coração bater com uma velocidade quase dolorosa dentro do seu peito e tinha a certeza que seria capaz de ouvir ou sentir diante da proximidade que estavam. Sua boca ficou seca e inconscientemente passou a língua por entre os lábios a fim de umedecê-los. sorriu com isso e mordeu seu próprio lábio inferior de um jeito sapeca, parecia um convite.
Instantaneamente foram aproximando mais os rostos, ainda conectados pelo intenso olhar que compartilhavam, meio confuso, meio receoso, cheio de expectativas. Sentia suas respirações se misturando e conforme se aproximavam, foi fechando os olhos, sentindo as mãos de deslizarem por entre seu rosto até sua nuca, entrelaçando os dedos em seu cabelo.
Quando seus lábios se roçaram, o coração de deu um solavanco, acelerando ainda mais, se é que isso era possível. Pressionaram suas bocas em um selinho demorado, respirando profundamente enquanto o faziam. Instintivamente, passou a língua pelo lábio inferior de , como se pedisse permissão para iniciar um beijo, a que ela prontamente concedeu, entreabrindo os lábios e os encaixando habilmente nos dele.
havia pensado bastante sobre aquele momento, sobre o dia em que finalmente beijaria . Mas podia dizer facilmente agora, que nem em todos os seus devaneios, havia imaginado que encaixaria tão bem e tão facilmente como estava sendo. Os lábios dela eram macios e úmidos e se movimentavam com delicadeza nos seus, as línguas quentes se acariciavam e exploravam todos os cantos de suas bocas, ansiosas de expectativa. O beijo que iniciara tenro, agora estava se tornando um pouco mais intenso, sentia puxar alguns fios de seu cabelo na nuca e um arrepio percorreu seu corpo, acendendo também uma luz vermelha dentro de sua consciência.
Não!
partiu o beijo, afastando-se do rosto de , e prontamente ergueu a mulher com seus braços, levando-a para cima, fazendo com que ela se levantasse do seu colo, se afastando dela em seguida.
- O que foi agora? – Pode ouvir a voz de perguntar as suas costas, mas não quis se virar, seu corpo protestava sua decisão a cada segundo e temia que não tivesse controle o suficiente para ficar longe dela se os e se encontrassem novamente.
- Você tá bêbada e tá falando muita besteira – respondeu secamente ainda de costas, fechando os olhos com força numa expressão de dor quando sentiu andar atrás de si, fazendo o contorno do seu corpo e ficando de frente para ele. Abriu os olhos e pode perceber que ela agora sorria descaradamente da tentativa dele de se manter são, parecia pedir arrego aos céus.
- Para de fugir de mim, , eu sei que você também quer – Ela respondeu com uma vozinha convencida que fez o rapaz semicerrar os olhos em tom de advertência, o qual ela ignorou completamente, se aproximando dele novamente, já entrelaçando seus braços ao redor do pescoço dele, local onde se ocupou em distribuir alguns beijos, sob protestos de .
- , para, você vai acordar arrependida disso tudo amanhã. – Ele falava tentando ignorar os arrepios que invadiam sua pele a cada beijo que ela aplicava no local. Que porra estava fazendo com ele?
- , para de ser chato, você me quer, eu te quero, que tal você simplesmente calar a boca e me beijar? – disse com a voz abafada, ainda aplicando beijos em seu pescoço. Ia abrir a boca para falar mais alguma coisa mas se calou ao sentir os lábios dela prenderem o lóbulo da sua orelha, puxando-o com delicadeza, fazendo-o fechar os olhos involuntariamente.
- , anda, vamos pra cama. – disse recobrando um pouco da sua consciência, arrastando a mulher para a entrada da casa, mas apressou-se a continuar ao ver que ela havia tirado o rosto do seu pescoço e lhe encarava com os olhos brilhando de uma malícia que ele nunca tinha visto antes – Para dormir!!! Você tá bêbada.
- Eu não quero ir pra cama com você pra dormir. – disse o segurando pela gola da camisa, o impedindo de continuar andando e o fazendo olhar para ela. – Podemos até dormir depois, mas primeiro...
Deu um sorriso sacana desabotoando alguns botões da camisa de e observando a expressão de dor dele, deu um risinho debochando, aplicando-lhe um selinho e logo depois prendendo o lábio inferior dele entre os seus dentes e puxando um pouco.
Mesmo sabendo que aquilo estava profundamente errado, mesmo sabendo que ela estava bêbada e provavelmente não tinha total consciência do que estava fazendo e falando, deixou que ela continuasse a desabotoar a sua camisa. Talvez pela surpresa, talvez pela ansiedade, talvez pela expectativa. Não saberia dizer exatamente, mas sabia que se odiava com todas as forças por não ter forças o suficiente para para-la naquele momento. Ela estava tão irresistível. O menor toque dela era capaz de lhe excitar e pode constatar isso quando a mão dela tocou sua pele por baixo da camisa, o arrepiando dos pés a cabeça.
- , para, não podemos – Com todo bom senso que conseguiu reunir, resmungou baixinho, restringindo as mãos da garota que passeavam por seu peitoral quase desnudo.
- Me diga, por quê? Me dê um bom motivo e eu juro que eu paro – sussurrou, sua respiração batendo no rosto de , o deixando completamente hipnotizado, o que provavelmente a satisfez, já que estava começando a perceber o efeito que tinha sobre ele. ficou em silêncio por alguns segundos, o que não necessariamente significava falta de motivos – afinal de contas, haviam vários – mas apenas porque não conseguia concentrar-se muito bem com os lábios de sobre os dele. A última coisa que viu foi o sorriso vitorioso de antes de fechar os olhos em sinal de derrota.
uniu os seus lábios aos dele, traçando o contorno da boca do rapaz com sua língua habilidosa, já recebendo a permissão de aprofundar o beijo, que dessa vez não começou calmo, tenro e nem muito menos carinhoso. Era intenso, voraz, cheio de vontade, desejo e paixão reprimidos.


Capítulo 8


acordou com a luz ofuscante do sol, que entrava pela cortina semi-aberta. A claridade incomodava seus olhos, portanto a fim de se livrar dela, pôs um travesseiro sobre o rosto, com a intenção de voltar a dormir, mas isso não foi possível graças a uma dor repentina na cabeça, uma pontada forte e aguda que a fez apertar os olhos ainda fechados, ouvindo um zunido estranho ecoar por seus ouvidos. Se contorceu um pouco na cama e desejou não ter o feito, seu corpo todo doía, sentia como se tivesse sido atropelada por um trem.
“Ressaca” Pensou com derrota. Isso que dava beber tequila e tantos shots estranhos de uma só vez. Xingando mentalmente o tequileiro com seu corpo escultural, o garçom que havia contratado, e a si mesma, se levantou sentindo o seu corpo pesar toneladas, e foi ao banheiro cuidar do seu asseio matinal. Tomou um susto ao se deparar com o seu reflexo no espelho. Estava horrível. Seu rosto estava com fundas olheiras que se misturavam com o delineador borrado e suas bochechas estavam avermelhadas por conta do batom além de ter marcas de lençol por toda parte do rosto. Riu um pouco ao admirar sua aparência, sentindo-se numa imitação perfeita do coringa, mas logo se arrependeu de rir – Rir doía. Com um suspiro, ela começou sua higiene, tentando por tudo dar um jeito naquela péssima aparência que lhe abatia.
Suspirou profundamente quando sentiu o jato forte de água quente bater contra seu corpo dolorido como uma gostosa massagem. Sentia-se literalmente como a última bolacha do pacote – toda quebrada. Não se lembrava nem como havia ido parar na cama e se perguntava onde estaria – com quem dividiria um dos quartos de hóspede da casa de – já que a amiga não estava no quarto quando acordou.
Enquanto se arrumava depois de um bom banho, tentava se esforçar para lembrar da noite anterior. Sabia que havia sido uma festa e tanto, ficava feliz por poder proporcionar tanta felicidade para . Lembrava-se de alguns shots, umas boas doses de tequila sendo servidas com John no seu colo e de muitas danças com os amigos. Enquanto secava seus cabelos calmamente, notou uma caixinha de remédio em cima do criado mudo, junto a ela se encontrava um bilhete. Se aproximou mais e recolheu o pequeno papel com as mãos.
“Você bebeu muito ontem, aposto que vai acordar com uma tremenda dor de cabeça. Tome dois comprimidos desse. Bom dia”
leu o bilhetinho duas vezes, não precisava ter o nome “” no final, para saber que fora escrito por ele, conhecia aquela caligrafia desajeitada desde o ensino fundamental. Semicerrou os olhos ao reler e reler o bilhete, tentando recordar como havia ido parar naquela cama depois da festa, afinal, não lembrava nem como ela havia terminado. Sabia que tinha bebido, que tinha dançado com , que tinha dançado com... Naquele instante, rápido como uma ânsia de vômito, as lembranças bombardearam sua mente com os acontecimentos da noite anterior.

Flashback


uniu os seus lábios aos dele, traçando o contorno da boca do rapaz com sua língua habilidosa, já recebendo a permissão de aprofundar o beijo, que dessa vez não começou calmo, tenro e nem muito menos carinhoso. Era intenso, voraz, cheio de vontade, desejo e paixão reprimidos.
Não era uma disputa pelo ser mais forte, ou predominante. Era apenas um beijo apaixonado cheio de desejos e segundas intenções. Apesar de ser a primeira vez que aquilo acontecia entre eles, o beijo encaixava perfeitamente. Suas línguas brincavam uma na outra, causando arrepios ocasionais em ambas as partes.
Chegara a um ponto de não conseguirem saber quais mãos eram de quem pela voracidade com que se beijavam. Se o primeiro fora calmo e sereno, este beijo era urgente e cheio de desespero, era como se quisessem recobrar o tempo perdido. tinha uma de suas mãos na nuca de , seus dedos entrelaçados no cabelo dela, assim como os dela estavam no seus, bagunçando-os. Com a outra mão, ele a abraçava pela cintura com força.
Talvez fosse o álcool falando mais alto , mas naquele momento ela se sentiu corajosa, não havia razão para não ser com lhe beijando daquele jeito. Uma de suas mãos ainda o segurava pela gola da camisa, e portanto ela foi descendo, colocando sua mão por dentro de sua camisa de botão entre aberta, sentindo contrair-se deixando escapar um breve gemido durante o beijo. Somente então quando ela o segurou pelo cós da calça, pareceu se dar conta do que realmente estava acontecendo.
Dessa vez o pensamento que o restringia fora muito além, aquilo realmente já podia ir longe demais, e apesar de querer com todas as suas forças deixar continuar com aquilo, também havia aquela parte dele que não o deixava ir além. E essa parte pareceu despertar, porque num impulso ele interrompeu o beijo, segurando fortemente nos braços de , afastando-a dele. abriu os olhos, recobrando a consciência, e deu de cara com uma confusa mas muito satisfeita consigo mesma.
- Que é? Vai dizer que você não quer?- Ela perguntou mordendo o lábio inferior contendo um sorriso completamente provocante, sabia que queria e sentia o efeito que causava nele o que a deixava extremamente confiante. suspirou fundo, passando as mãos por entre os cabelos e quando sentiu as mãos de se aproximarem dele de novo, deu dois passos largos para trás, ainda de frente a ela.
- , qual é a porra do seu problema? – explodiu aparentemente furioso, as mãos ainda no cabelo e a respiração descompassada e os lábios extremamente vermelhos, misturados com o batom dela que agora estava um pouco borrado. deu de ombos, extremamente calma, embora tivesse se mantido no mesmo lugar, sem arriscar uma aproximação de novamente.
- Não existe absolutamente nenhum problema – respondeu sustentando o olhar de que agora beirava a incredulidade, achava que a menina estava ficando louca e o querendo enlouquecer em consequência.
- Olha meu estado. – falou, desnecessariamente, porque já o encarava com um olhar faiscante. Ele apontava para o próprio corpo, a camisa quase completamente desabotoada, os cabelos bagunçados, os lábios extremamente vermelhos e seu cinto desafivelado - Olha o SEU estado, onde você acha que nós iriamos parar assim? - encarava completamente enraivado e confuso por ela ter se mantido tão calma diante daquela situação. Calma até aquele momento, porque depois de sua última frase ela parecia ter finalmente cedido a raiva. Observou a menina semicerrar os olhos e o encarar lívida de fúria.
- Eu não fiz nada que eu não quisesse fazer! – Bradou irritada, alterando o tom de voz. Estava extremamente frustrada por estar agindo daquela forma. Não acreditava que depois de tudo estava sendo rejeitada.
- Você não sabe o que quer, você está bêbada, você poderia amanhecer arrependida - respondeu rapidamente, embora tivesse baixado um pouco o tom de voz. Precisava se acalmar, não queria brigar ainda mais com ela.
- Pare de me tratar como uma criança, eu já sei muito bem o que quero ou não fazer! - bufou irritada, batendo o pé no chão, agindo exatamente como uma criança. Coisa que faria rir em qualquer outro dia da sua vida, mas nesse momento só o fez revirar os olhos cansado.
- Você está sendo ridícula.
- VOCÊ está sendo ridículo! - gritou enlouquecida, sem conseguir se conter. Tremia da cabeça aos pés, tamanha era sua raiva de , mas acima de tudo não conseguia entender o comportamento hostil dele tão de repente.
“TUDO ISSO está sendo EXTREMAMENTE RIDÍCULO! Primeiro você desaparece sem dar notícias, depois no meio da noite vem na minha casa pedir abrigo, depois você misteriosamente volta, cheio de segredos, com um comportamento todo indiferente, sendo uma pessoa COMPLETAMENTE DIFERENTE DO QUE ERA ANTES! Dai pra foder com minha cabeça você volta, fica fofo, romântico de repente, e aí quando eu to me acostumando, você me afasta de forma que eu não sei o que quer. Ridículo é você, me responde, O QUE É QUE VOCÊ QUER, ?”

vomitou aquelas palavras rapidamente, sem se importar se estava gritando, sem se importar se estava parecendo completamente desequilibrada naquele momento. Todo aquele desabafo era real, era vindo do fundo do coração e resultado de muitos anos de pensamento contido. Não conseguia entender porque estava complicando tudo de novo, não conseguia aceitar a rejeição, não podia ser. Todo mundo que passava por sua vida ia embora, ela não iria aguentar passar por isso com também. Olhou para o amigo e notou que este estava completamente em choque, estava pálido e com a boca entreaberta, parecia completamente confuso. O que deixou com ainda mais raiva.
- Você veio até mim hoje, VOCÊ! Você olhou de forma estranha quando eu estava com o , e você veio dançar comigo, Você – me – beijou! - ressaltou aquelas palavras lentamente, a essa altura já havia avançado em direção ao rapaz e o cutucava com o dedo indicador com força no peito a cada palavra que dizia, como se estivesse golpeando . - Você me beijou, e agora você me afasta e ainda se atreve a me ACUSAR por isso!- finalizou seu pequeno discurso, parando para respirar fundo. Estava irreconhecível, jogava aquelas palavras repetidamente sem conseguir se conter, estava extremamente aborrecida com . Mas naquele momento ele não parecia capaz de dizer nada, estava extremamente sério, contido, apenas escutando o que ela tinha a dizer.
- AH NÃO, DE NOVO NÃO, VOCÊ NÃO VAI VIRAR PEDRA AGORA NÃO! PORRA, DIZ ALGUMA COISA! DEMONSTRA ALGUMA COISA! - Ela gritou enfurecida sentindo lágrimas se formarem em seus olhos. Fechou os punhos, dando-lhe murros repetidos, no peitoral, no ombro, sem receber qualquer tipo de defesa de . Ela fazia aquilo com o maior aperto no coração. Queria magoa-lo, queria despejar nele a dor da rejeição que ele havia lhe causado quando lhe tratara de forma tão hostil. estava tão enlouquecida de raiva que não percebera que estava chorando, tentava infringir dor, mas ele estava ali imóvel, apenas a olhando com uma expressão que ela não conseguia decifrar. foi perdendo a força, agora que o choro começava a aumentar, deixou sua cabeça afundar no peito de quando este segurou seus ombros e lhe puxou pra um abraço apertado. Apenas ficou ali chorando tudo que tinha para chorar, e coisas que ela nem sabia porque. Talvez estivesse mesmo bêbada. Se deixou ser consolada por , porque não sabia mesmo como ficar com raiva dele, ela não conseguia.
- Você precisa dormir- Ele falou, num tom sereno, beijando-lhe o topo da cabeça, acariciando seus cabelos.
- Eu não quero - Ela murmurou, limpando as lágrimas que caiam do seu rosto. Ergueu a cabeça para olhar para , mas sentiu um incrível cansaço que não havia ali ha alguns segundos lhe abater, talvez fosse devido o esforço de golpear o rapaz.
- Você não está em condições de conversar, não está sóbria e sabe disso – respondeu ignorando completamente a objeção de , afastando alguns fios de cabelo do rosto dela. Sentiu se afastar do abraço e apenas a deixou ir, sem deixar de encara-la, que parecia um pouco mais calma, embora estivesse com os olhos ainda marejados.
- E se eu estivesse sóbria? – Ela perguntou séria, enxugando o rosto o encarando com intensidade. Pensou por um momento que fosse iniciar outra briga com , mas ele apenas se manteve quieto, calmo, em silêncio por alguns segundos antes de dar um sorriso torto e se aproximar mais dela, segurando seu rosto com as duas mãos e depositando um beijo demorado em sua testa.
- Então essa seria outra conversa – Respondeu, soltando seu rosto e se afastando um pouco, virando de costas e entrando na casa – Boa noite, .


Fim do Flashback


Com uma forte sensação de desconforto, se sentou na cama, absorvendo cada detalhe de lembrança da noite anterior. Não conseguia associar seu comportamento da noite anterior com a pessoa que ela havia se tornado nos últimos anos. Apesar de estar alcoolizada, recobrou um tanto de confiança que não sentia há sabe Deus quanto tempo.
Lembrou-se com clareza da dança com e dos seus movimentos ousados e todas as suas diretas e indiretas para ele. Lembrou-se de forçar um desequilíbrio para cair no colo dele, lembrou-se do beijo e de toda sua atitude de se atirar em cima dele. Riu silenciosamente, sentindo-se nervosa mas assumindo que a situação toda havia sido muito cômica agora que ela estava sóbria e sem traços da mulher corajosa e determinada da noite anterior “Eu fui foda” pensou rindo enquanto fechava os olhos e abraçava os joelhos, mordendo um dos dedos dobrados na boca, rindo descontroladamente. “Que porra foi que eu fiz?”
Ao recordar da briga com ele, porém, foi perdendo um pouco o sorriso. estava criando motivos para afasta-la e ela sabia, ela sentia – não era apenas pela bebida. É claro que agradecia mentalmente por ele não ter feito nada com ela naquele momento de fragilidade, sabia que não seria justo e também não era do feitio de , embora tudo que ela tivesse dito fosse verdade. Passara nove anos da vida gostando dele e estava tão absurdamente nervosa pela perspectiva de confessar esse sentimento que acabara exagerando – e muito – na bebida.
E agora estava dando desculpas para ela, “Você bebeu demais” Isso era ridículo! Ele podia agora pensar que tudo aquilo havia sido fruto da bebedeira e duvidar dos sentimentos reais dela. Suspirou um pouco confusa, sentindo sua cabeça rodar e o estômago embrulhar, as lembranças bombardeando sua mente sem a menor piedade.
Mas acima de tudo havia um pensamento que não queria sair da cabeça de : Havia beijado . Depois de anos apenas sonhando com esse momento, ela finalmente o tivera e fora real, tinha o beijado, e faria muito mais se não tivesse seu surto de auto controle. Outro pensamento muito real passava por sua cabeça, trazendo de volta o seu sorriso bobo: queria. Apesar de inventar motivos para afasta-la, era muito claro para ela naquele momento. Ele podia evitar, podia afastar, mas ele queria. O seu corpo respondia perfeitamente bem aos estímulos de .
Rindo de si mesma, pegou sua pequena mala escolhendo uma roupa básica já que o dia estava ensolarado e bem ventilado. Secou o cabelo, passou um pouco de base, pó e blush para corar o rosto pálido e amenizar o efeito da ressaca. Precisava de um pouco de ar, não se sentia pronta para encarar os amigos ainda e muito menos .
“Você supera” Disse a si mesma, saindo do quarto e ignorando a caixa de analgésicos.


terminou de depositar o último engradado de cerveja no chão da cozinha com um suspiro cansado, afinal de contas era a terceira caixa que descarregava em 15 minutos. Segurou no balcão da pia, procurando um lugar para se apoiar e conseqüentemente repor a energia.
- Cansa né? – Comentou com um sorriso irônico, ao ver segundos depois largar a caixa no chão, ofegante como ele.
- Nem... me... fale! – balbuciou entre um ofego e outro – Nem sei pra que tanta bebida.
- Isso só pode ser coisa da , sabe como ela é exagerada .
- Nem sei pra que tudo isso, as pessoas aqui nem gostam de beber. Sobrou tanta bebida ontem! – falou, sarcástico e riu, aprovando com a cabeça.
- Naaada supera o Jeph, ele bebe demais! Não parava o copo! - continuou com ironia, referindo-se ao comportamento certinho demais do namorado de , que alegou não beber quando lhe serviram várias opções que incluíam álcool. Jeph fazia o bom moço, bom aluno, bom filho e consequentemente bom namorado. Essa parte em especial desagradava , que não conseguia de jeito nenhum gostar do rapaz.
-Babaca – Falou só por falar, de repente com raiva. A simples menção do nome “Jeph” já o fazia mudar o humor do vinho pra água.
- Ciúmes? - perguntou só sacaneando com . Sabia dos sentimentos dele por , e não aprovara os motivos para o termino do namoro. Entendia perfeitamente o desafeto dele por Jeph (Embora o próprio Jeph não soubesse, ninguém tivera a boa vontade de contar pra ele que e tinham sido namorados)
- Eu só não consigo entender porque todo mundo age como se ele fosse perfeito. É “Jeph pra cá, Jeph pra lá” Não entendo o que ele tem demais. – concluiu com a testa enrugada, mostrando claramente sua impaciência e intolerância quanto ao namoradinho de .
não podia dizer que não entendia , porque ele entendia. Não era fruto dos seus ciúmes por a história de que todos estavam dando demasiada atenção a ele. Era compreensível, até. Por mais que sofresse em assumir, era verdade que Jeph estava fazendo um bem imenso a , nesse momento. Por muito tempo todo mundo achou que ela não daria a volta por cima, que continuaria a agir como se alguém tivesse morrido, quando simplesmente Jeph apareceu em sua vida. Querendo ou não assumir, Jeph estava fazendo muito feliz. Então era admissível que todos o tratassem bem, afinal todos amavam e se preocupavam com .
- Você devia começar a parar de implicar com o Jeph, ele é até um cara legal. tá feliz com ele, e se você gosta mesmo dela é isso que importa, né? - falou do jeito mais razoável possível. Podia ser brincalhão e gostava de zoar os amigos, mas quando era para falar sério, ele era um ótimo amigo.
- Ela tá feliz... Ela... Tá bem sem mim – falou, perdendo o raciocínio na metade. Pelo jeito que falava estava envolvido demais com seus pensamentos, e sua expressão de angustia demonstrava seu sofrimento. – Ela nem liga se eu existo. Ela me ignora completamente, antes ela me evitava porque não queria sofrer, mas hoje ela me odeia.
Para era agonizante ver naquela situação, não conseguia associar seu amigo ao sorridente, piadista, amigo e conselheiro. Não conseguia associar como ele era, antes esperto, um pouco tímido, as vezes reservado, a esse de agora : Angustiado, pelos cantos, com uma expressão frustrada e derrotada. Esse não era o que ele conhecia. Só mesmo uma pessoa muito importante como para abate-lo daquela forma. Era claro que ele a amava, e muito.
Ultimamente vinha comparando – inevitavelmente – com cada vez mais freqüência, a . Depois dos isolamentos repentinos de e de sua apatia a todos, fora impossível não o assemelhar a desde que este voltara do seu sumiço prolongado. Afinal, ele adquiriu esse mesmo comportamento. Sabia que havia se envolvido com a Susan, uma loira (muito bonita na opinião de ) de origens desconhecidas, e depois dela ele sumira. Não tivera a chance de perguntar a onde estava essa mulher e se eles ainda estavam juntos, embora duvidasse muito disso depois do jeito que rolara entre ele e na noite passada.
A diferença na verdade, era que pelo menos tinha uma justificativa plausível para esse tipo de comportamento, mas não tinha aparentemente motivo nenhum para se tornar a pessoa fechada que se tornara. Quem vissse hoje em dia duvidaria de quem ele era antes. Feliz, alegre, meio bobo, com piadas de duplo sentido para tudo, e meio mulherengo. Certo que ele sempre tivera um lado – bem lá no fundo – tímido e reservado, mas ultimamente isso vira a tona com uma intensidade muito grande, de modo que ele era visto frequentemente pensativo e não dava brecha para perguntas que envolviam seus mistérios.
Mistério era bem a palavra que poderia descrever no momento. Quando lhe perguntavam ele murmurava ‘Trabalho’ e rapidamente mudava o rumo do assunto. Mas conhecia bem o suficiente para dizer que havia muito mais por trás disso, e o que mais lhe intrigava era o porquê de nunca tê-lo contado o que era. Nunca houvera segredo entre eles.
O que poderia ser de tão importante para seu melhor amigo estar escondendo?

***


“TUDO ISSO está sendo EXTREMAMENTE RIDÍCULO! Primeiro você desaparece sem dar notícias, depois no meio da noite vem na minha casa pedir abrigo, depois você misteriosamente volta, cheio de segredos, com um comportamento todo indiferente, sendo uma pessoa COMPLETAMENTE DIFERENTE DO QUE ERA ANTES! Dai pra foder com minha cabeça você volta, fica fofo, romântico de repente, e aí quando eu to me acostumando, você me afasta de forma que eu não sei o que quer. Ridículo é você, me responde, O QUE É QUE VOCÊ QUER, ?”
“Você veio até mim hoje, VOCÊ! Você olhou de forma estranha quando eu estava com o , e você veio dançar comigo, Você – me – beijou! - ressaltou aquelas palavras lentamente, a essa altura já havia avançado em direção ao rapaz e o cutucava com o dedo indicador com força no peito a cada palavra que dizia, como se estivesse golpeando . - Você me beijou, e agora você me afasta e ainda se atreve a me ACUSAR por isso!” - finalizou seu pequeno discurso, parando para respirar fundo. Estava irreconhecível, jogava aquelas palavras repetidamente sem conseguir se conter, estava extremamente aborrecida com . Mas naquele momento ele não parecia capaz de dizer nada, estava extremamente sério, contido, apenas escutando o que ela tinha a dizer.


estava deitado em uma das espreguiçadeiras, com um cigarro aceso entre os dedos. Não muito longe, ele podia ouvir e conversando animadamente com e Melanie. Mike, e Jeph jogavam algum jogo de tabuleiro, enquanto inventava algum pretexto como ‘celular’ para não se juntar a eles.
deu outra tragada no cigarro, com o pensamento bem distante da cena feliz de um domingo entre amigos. Não era como se não tivesse se divertindo, porque ele estava e muito. Fazia tempos que não saia com pessoas queridas, na verdade fazia tempo que ele não tinha pessoas queridas. Rodeado daquela gente...
Por falta de costume talvez ele tivesse se esquecido de como era bom estar num domingo deitado, sem fazer nada, apenas jogando conversa fora com os amigos, sem se preocupar com o amanhã. Era como se estivesse vivendo a vida de uma outra pessoa.
Mas não era bem nisso que ele estava pensando. Pensava em , e em todas as coisas que haviam acontecido na noite anterior. Aqueles flashes de memória bombardeavam sua mente, e por mais que ele tentasse se concentrar em alguma outra coisa, não conseguia se desviar do pensamento de que há menos de 24 horas atrás ele estava aos beijos com sua melhor amiga.
Mas ela não era bem sua ‘melhor amiga’. Na verdade, se sentia um pouco pré-adolescente usando esse termo. Mas não era por isso, era pelo fato de que nem quando eles eram pré-adolescentes ela fora somente sua melhor amiga. Sempre fora mais, ou ao menos ele sempre quisera que ela fosse mais. Só que ela nunca quis. E era isso o que tanto fazia a cabeça de girar, perguntas e mais perguntas lhe bombardeavam unicamente porque ele não conseguia assimilar uma que lhe rejeitava, a essa que fazia questão de estar com ele. Ela nunca o quisera, e por isso ele desistira, por isso e porque não tinha mais como pensar em nada mais que não fosse o seu trabalho.
Devia confessar que fazia um bom tempo que ele não lembrava de , ou que ele procurava não lembrar. Era perigoso para ela, tanto ou até mais quanto era para ele.
Mas era inevitável estando onde ele estava, no auge das lembranças, no meio dos seus melhores e únicos amigos verdadeiros, era quase impossível se ver livre da força que sempre tivera sobre ele.
Talvez não estivesse se empenhando o bastante para não pensar em . Porque ele gostava de se lembrar daquele beijo caloroso que eles haviam tido na noite passada. Nunca provara nada igual, e fora apenas um beijo. já tinha tido muito mais com outras mulheres antes e nunca sentira nada parecido com o que sentira ontem.
Olhou novamente para a aglomeração dos seus amigos a sua frente, eles pareciam mais felizes do que nunca. Mike, e agora jogavam as meninas na piscina enquanto Scott e Jeph se afastavam, não querendo se molhar.
- Vem, ! A agua ta otima! – Mike gritou da piscina chamando o amigo.
- Ah nem, vocês se divertem sem mim! – disse, fugindo da brincadeira. Não estava com muito espírito para zoações de sempre, e não era de agora. Quase cogitou a hipótese de esquecer as preocupações e ir se divertir, mas ao invés disso, deu uma desculpa de “vou dar uma volta” o que era de fato uma boa oportunidade para clarear a mente.
Esmagando a butuca que restara do seu cigarro, se levantou, e ignorando os chamados dos seus amigos com um sorriso, se afastou em direção a saída da casa, para uma tarde de domingo ensolarada.

***


- Você precisa dormir- Ele falou, num tom sereno, beijando-lhe o topo da cabeça, acariciando seus cabelos.
- Eu não quero - Ela murmurou, limpando as lágrimas que caiam do seu rosto. Ergueu a cabeça para olhar para , mas sentiu um incrível cansaço que não havia ali ha alguns segundos lhe abater, talvez fosse devido o esforço de golpear o rapaz.
- Você não está em condições de conversar, não está sóbria e sabe disso – respondeu ignorando completamente a objeção de , afastando alguns fios de cabelo do rosto dela. Sentiu se afastar do abraço e apenas a deixou ir, sem deixar de encara-la, que parecia um pouco mais calma, embora estivesse com os olhos ainda marejados.
- E se eu estivesse sóbria? – Ela perguntou séria, enxugando o rosto o encarando com intensidade. Pensou por um momento que fosse iniciar outra briga com , mas ele apenas se manteve quieto, calmo, em silêncio por alguns segundos antes de dar um sorriso torto e se aproximar mais dela, segurando seu rosto com as duas mãos e depositando um beijo demorado em sua testa.
- Então essa seria outra conversa. – Respondeu, soltando seu rosto e se afastando um pouco, virando de costas e entrando na casa. – Boa noite, .


As vozes ecoavam na cabeça de como flashes de memórias da noite passada. Todas as lembranças estavam frescas em sua mente, era quase possível sentir o cheiro de , a textura do seus lábios, o molde do seu corpo, a força com que suas mãos apertavam-na para perto de si, e o mais importante de tudo... O gosto daquele beijo.
A cada segundo que se lembrava do ocorrido, sentia-se quente por dentro, confortável. O timbre da voz dele, o jeito como ele a olhava fazia com que ela se derretesse por dentro.
Uma leve brisa salgada passou por , ricocheteando seus cabelos, e fazendo com que por instinto ela abraçasse os joelhos, numa posição fetal. Afundou ainda mais os pés na areia de pedrinhas, e apoiou o queixo nos joelhos, olhando para o mar inexpressivamente.
Como um bom domingo pós festa pedia, todos haviam acordado muito tarde, e como fora uma das últimas a se levantar, preferiu não ficar lá por muito tempo. Evitara o máximo a presença de , embora não tivesse tido nenhuma dificuldade, ele sempre desaparecia nos lugares onde ela ia. O que era um mau sinal.
Tinha consciência de que tudo que dissera a ele era a mais pura verdade, embora não tivesse coragem de dizer tudo isso se não tivesse uma pequena ajuda das suas amigas tequila, jägger, vodka, absinto e cerveja. Tudo de que precisava era um passeio para clarear as ideias e respirar um pouco de ar puro, nada melhor do que na praia. Depois de andar vagarosamente por um tempo, apenas apreciando o encontro confortavel dos seus pés com a areia, ela se sentou perto do mar num local deserto. Melhor, impossível.
- Um sorvete pelo seus pensamentos – Se estivesse em pé, ela provavelmente teria pulado de susto ao ouvir a voz de soar tão próxima. Mas tudo que pudera fazer fora olhar pra cima assustada, dando de cara com um risonho .
- ! – Ela o repreendeu, enquanto ele ria, saboreando-se do susto que lhe dera. apenas fechou a cara olhando para um novo ponto fixo do mar. Seu coração acelerou descompassadamente e podia senti-lo na boca. Estava começando a hiperventilar e sentir todas suas amigas querendo sair do seu estômago, numa ânsia de vômito horrível. Se controlou da melhor maneira que podia, sabia que aquilo era fruto do seu nervosismo. Uma hora ou outra teria que encarar . Melhor que fizesse isso afastada do olhar dos amigos.
Silenciosamente – e sem convite- sentou-se na areia, ao lado de , dobrando os joelhos na mesma posição que ela se encontrava, e como ela não lhe disse nada, ele apenas continuou em silêncio, olhando na mesma direção.
suspirou cansada. Estava odiando aquele silêncio. Sabia exatamente o que estava fazendo, era o natural dele, era o que ele sempre fazia quando sabia que estava chateada ou com raiva dele por algum motivo. Era o que ele fazia também quando sentia que ela estava triste e que não queria conversar a respeito: Sentava-se ao lado dela e não dizia nada, apenas lhe mostrando que ele estava ali e que ela podia contar com ele, ou que ele estava arrependido. Aquilo de fato sempre funcionava, sempre acabava ficando bem, ou o perdoando com suas desculpas silênciosas, mas nesse momento ela de fato estava odiando aquilo, por incrível que pareça não queria a presença de ali, queria apenas ficar sozinha, e longe do perfume másculo e inebriante que invadia suas narinas sem permissão.
- O que você está fazendo aqui, ? - perguntou num tom seco e cansado, numa voz que parecia estranha aos seus próprios ouvidos. Não olhava para diretamente, porque sabia que o encontro de e iria lhe desarmar, e tudo que ela menos precisava no momento era ser submissa a . “Chega” uma vozinha na sua mente, lhe dizia.
- Por que, você não me quer aqui? Ontem você parecia me querer bastante, já está arrependida?- perguntou rapidamente na defensiva, dando um risinho sacana enquanto falava, ainda olhando para o mar. abriu e fechou a boca para responder algumas vezes mas desistiu, sentindo seu rosto corar um pouco e ela ceder ao riso também.
- Não foi isso que eu disse, eu apenas perguntei o que você está fazendo aqui. – continuou falando, um pouco menos ranzinza do que antes. “Agora ele vai levar as coisas como brincadeira, eu sabia” pensou, um pouco chateada, embora estivesse agradecida por ele não tornar a situação constrangedora. Percebeu se retrair ao seu lado, e resolveu continuar amenizando, pois se achou muito grossa – Digo, por que não está lá com o pessoal curtindo e tudo mais.
- Eles estavam brincando e sorrindo, e eu não me senti a vontade, resolvi dar um volta... E acabei encontrando você aqui... Mas se você quiser eu posso ir embora – falou na defensiva, obrigando a olha-lo nos olhos. Não entendeu direito o motivo, afinal de contas ultimamente parecia uma pedra: Não se abalava com nada, e tinha uma cara indiferente para tudo. Então, porque naquele momento ele parecia sinceramente incomodado com a rejeição dela?
suspirou mais uma vez, encarando-o nos olhos pela primeira vez naquele dia. Como era possível ter raiva dele? Como era possível se sentir mal pela oscilação de humor da noite anterior? Como era possível ter raiva dele quando ele parecia tão sincero como agora? Não havia mentiras, não havia bipolaridade, não havia mistérios – pelo menos não naquele momento. Havia só e , e a intensa troca de olhar entre eles.
- Você está chateada. – constatou, não era uma pergunta, era uma afirmação, quase como um fato. sorriu a contragosto, mas não o suficiente, apenas um sorriso torto, um sorriso de escárnio.
- Não estou chateada, apenas inconformada. – Ela respondeu, virando-se de frente novamente, evitando-o olhar nos olhos.
- Por quê? - perguntou sinceramente, proferindo a pergunta silenciosa dos seus olhos, embora ele também não a olhasse mais. Encarava fixamente a linha do horizonte e mantinha seus olhos semicerrados se protegendo da claridade, absorto em seus próprios pensamentos.
respirou fundo pela incontável vez naquele dia. Era relaxante sentir o ar puro e salgado invadir seu corpo, e lhe acalmar. Mas ela não estava nervosa, não mais, sabia exatamente o que fazer dessa vez, afinal de contas, depois de nove anos estava na hora de dar um fim aquilo, de um jeito ou de outro precisava saber da verdade. E ela queria falar da forma mais clara possível, para que não houvesse brechas para má interpretação ou nenhuma outra coisa. Mas, antes, queria que ver até onde iria seu poder sobre , queria que ele experimentasse um pouco das sensações que ela teve ao longo de todos esses anos. Sentia-se novamente confiante.
- Eu não devia ter retribuído seu beijo ontem a noite, falou calmamente, virando-se para encara-lo novamente. Ficou satisfeita ao notar a surpresa dele com a mudança repentina do assunto, ele pareceu ser pego de baixa guarda. Mas não só isso. também percebeu que ele parecia incomodado com alguma coisa, e que ele não estava conseguindo disfarçar na sua habitual máscara protetora, talvez ele não conseguisse esconder. Parabéns, , ponto!
- Você não precisa falar sobre isso, vamos deixar como está – Ele respondeu, forçando um sorriso, e iria continuar falando, mas balançou a cabeça negativamente, como se pedisse pra que ele se calasse.
- Não, ... Eu não devia ter feito isso, não sem antes conversar com uma pessoa, você tem razão, eu estava bêbada - falou, encarando de lado, que parecia concentrado demais em algum ponto do mar, quase inexpressível. Ao ouvir “eu estava bêbada”, esboçou um sorriso a contragosto, como se dissesse “É, eu sabia”. sorriu por dentro por perceber que ele não era de todo frieza, ela estava inexpressiva, o que deixou um pouco desconcertado. Ela de fato não sabia de onde existia tanta coragem.
- Que pessoa...? – Ele perguntou calmamente depois de um tempo, parecia não ser capaz de se conter. Virou-se lentamente para encarar que o observava atentamente. Tentou demonstrar no seu tom de voz uma leve curiosidade, quase como quem pergunta por educação, mas sabia, tarde demais, ela havia percebido que não era só isso. Ele estava incomodado.
- eu estou apaixonada por alguém – falou, sustentando firmemente o olhar dele. Numa fração de segundos, assumiu diversas expressões diferentes: Surpresa, raiva, dor e rejeição. Mas no segundo seguinte camuflou tudo isso numa expressão sofredora de curiosidade. Incrível como ele conseguia ser ele mesmo quando estava com .
- Por quem? - Ele perguntou educadamente interessado, e ela sorriu por dentro, enquanto por fora mantinha os músculos inexpressivos, não deixando transparecer nada. Queria mostrar para ele como era lidar 24 horas com uma pessoa indiferente.
- Ele é meu amigo há algum tempo, mas ainda não sabe de nada – começou falando calmamente, embora sentisse seu coração pulsar dolorosamente contra o peito.
“É o pensou automaticamente, sentindo algo dentro de si despencar. Havia percebido a forma como os amigos estavam mais íntimos e próximos. Havia percebido os segredinhos e excesso de cumplicidade, além de ter notado a forma como haviam dançado animadamente na noite passada. Embora seus pensamentos estivessem o traindo, permaneceu inexpressível, aguardando pacientemente enquanto a amiga suspirava, pronta para continuar seu diálogo.
- Eu amo o jeito como ele sorri... – continuou deixando um sorriso doce lhe escapar dos lábios, era involuntário quando ela se lembrava do sorriso de , várias imagens apareceram em sua cabeça, todas elas exibiam sorrindo de diversas formas que ela gostava de ver, mas a maioria delas era com aquele sorriso torto especial que a tirava o fôlego. – Amo o som da sua risada... – continuou, ao mesmo momento que agora tentava por tudo não demonstrar nenhuma reação física, enquanto emocionalmente ele parecia dilacerado. Ela amava o som da risada dele, amava a gargalhada, e até mesmo quando ele ria para zoar com ela, até mesmo assim, ela adorava o som de sua risada.
- Amo o jeito como ele me olha... - achou que não aguentaria ouvir isso por muito tempo, apenas deixava clara uma expressão de educada curiosidade, tentava ao máximo ser frio e indiferente aquilo mas não conseguia, havia uma certa magia naquele ar que o impedia de ser nada mais e nada a menos do que , só .
agora olhava nos olhos dele. Mesmo com aquela expressão estranha, amava o olhar dele. Era como se ele pudesse enxergar sua alma, era como se ele a pudesse derreter, todas as batalhas, todas as brigas eram ganhas quando ele simplesmente mantinha aquela força do olhar dos seus nos dela. Mas ele não podia ganhar, não agora.
- Eu também amo o som da sua voz... - falou, o olhando com meiguice. Por um momento sentiu inveja daquele homem por quem ela estava apaixonada, seu olhar, sua voz ficava diferente quando falava dele. “Tarde demais” pensou, enquanto notava o quanto estava apaixonada por esse alguém e estava ali apenas confidenciando o seu amor adolescente para seu melhor amigo.
nesse momento se lembrava do timbre da voz de , o jeito de veludo, macio que ele usava suas palavras, ora pra acalma-la, ora para pedir alguma coisa, ora sendo sedutor, ora sendo divertido. Não importava a ocasião, a voz dele a fazia sentir-se quente por dentro.
- Eu amo o jeito que ele me abraça... – continuou calmamente, saboreando as sensações que sentia agora, já que ele não mais sustentava seu olhar, havia voltado a encarar firmemente a linha do horizonte. Se fosse para ele a recusar, que fosse agora, que fosse sabendo dos seus sentimentos, não conseguia acreditar que ele estava sendo bobo o suficiente para não perceber que ele era o “cara” de quem ela estava falando, ou talvez ele só estivesse pensando num modo de recusa-la... Não importava, que pelo menos ele soubesse o que ela sentia de uma vez por todas. revirou os olhos impaciente, parecendo prestes a interromper o discurso do amor, não aguentava mais uma palavra.
- E eu amei o jeito como ele me beijou ontem à noite... – declarou, sentindo dessa vez seu coração bater acelerado, antes que ele pudesse falar mais alguma coisa.
Imediatamente sentiu suas terminações nervosas entrarem num choque elétrico. Olhou imediatamente para boquiaberto e confuso, será que ele ouvira direito? e tinham se beijado? Não era possível. Aquilo não estava acontecendo.
Mas ao encarar , percebeu que ela ria docemente do modo como ele parecia desnorteado, ela parecia se divertir da sua confusão mental.
- Eu deveria ter falado tudo isso antes de deixar ele me beijar, mas não deu... – Ela lhe confessou simplesmente, numa voz baixa, dando de ombros como quem pede desculpas por uma travessura. não conseguia dizer nada, não conseguia expressar mais nenhum tipo de reação, apenas estava quieto e em choque com a revelação. Por um minuto teve vontade de matar , como ela podia mexer tanto com a cabeça dele daquele jeito? Sustentou o olhar dela, semicerrando os olhos, vendo-a sorrir travessamente com isso.
- Eu quem te beijei ontem – falou calmamente e de maneira receosa, quase como uma pergunta. Para seu alívio ouviu rir, e deu-se conta do quanto ela estava próxima a ele. Seus narizes já podiam se roçar um no outro. Suspirou pesadamente e deixou o ar sair de seus pulmões. e não tinham se beijado – Eu te odeio.
- Você me ama – falou calmamente, observando os músculos dele, antes enrijecidos, agora relaxarem um pouco ao sentirem o seu toque, já que ela havia depositado um selinho nos lábios dele, ainda sem partir o contato direto dos seus olhos – E eu te amo – Ela complementou, notando um sorriso torto ameaçar brotar nos lábios dele e seus olhos adquirirem um brilho muito bonito que ela nunca tinha visto antes.
- Todo mundo sabe... que eu te amo. – falou agora sentindo-se um pouco mais nervosa, quando percebeu se afastar, desviando o olhar dela, e mirando o mar com uma expressão séria. “Por favor, de novo não, de novo não”
- Você me ama? - perguntou sério, com uma voz mais rouca que o normal, sem a olhar nos olhos. suspirou cansada, será que ele não tinha escutado nada daquilo?
- Sim, muito.
A reação de fora simplesmente inesperada, ele segurou nos dois lados da cabeça e apoiou a testa no joelho, suspirando profundamente – Eu não devia ter voltado – Ele disse levantando-se em seguida.
Se fosse possível, o queixo de teria ido ao chão quando ouviu as palavras dele e o observou levantar-se tão rapidamente deixando-a com a cara de taxo sentada na areia. Como era possível que o jogo tivesse virado dessa forma? Ela havia se declarado, já sabia que o tal cara era ele, ele tinha dado um sorriso, ele gostava dela também, o que ele estava fazendo? E por que não estavam se beijando nesse momento? Ela não estava bêbada, esta ERA uma outra conversa, o que mais podia estar acontecendo?
- Do que você está falando, ? Que história horrível é essa de não ter voltado? - perguntou, levantando –se de um salto, odiando o rumo que aquela conversa tinha tomado. Como podia as coisas virarem daquele jeito? Com tudo era 8 ou 80, ou bom demais, ou muito ruim.
- Isso não é certo, eu não sou uma boa pessoa pra você – se virou de frente, encarando-a nos olhos notando a expressão mais dilacerada que já tinha visto antes, o que o pegou de baixa guarda – , você tá chorando?
Tinha sido impossível segurar as lágrimas, sentia-se idiota por chorar, prometera a si mesma que fosse qual fosse a reação dele, ela aguentaria, não choraria, mas não sabia que podia ser assim. E uma coisa eram palavras, outra era a realidade. Estava tão chocada que nem havia se dado conta das lágrimas até começar a sentir sua visão ser embaçada pela presença delas.
- Eu magoei você - estava calmo novamente, expirou o ar do seu corpo, sentindo-se tão desamparado quanto , não havia mais indiferença nem frieza nos seus olhos, ele voltara a ser intenso como sempre e talvez mais do que nunca. Parecia travar uma dura batalha consigo mesmo, parecia estar sentindo uma dor imensa e não fazia ideia do que era, mas sentia-se tão angustiada por vê-lo daquela forma. – Me desculpe...
- Não faça isso não se desculpe! Não precisa se desculpar por não me amar mais dessa forma, você não tem culpa. Eu cheguei tarde demais - passou a mão pelo rosto, contendo as lágrimas que empatavam sua visão e lhe impediam de ver a expressão confusa de . – Eu devo ter interpretado errado os seus sinais!
- Espere, você acha que tudo isso é porque eu não te amo? - perguntou, parecendo agora um pouco aborrecido, agora tinha as sobrancelhas unidas num misto de confusão. Não estava mais aguentando isso. Queria socar em todas as áreas expostas do seu corpo. Não aguentava mais aquele drama, aquela tensão, aquela angústia e agonia. Não aguentava mais se sentir amada e logo depois rejeitada. Precisava que ele fosse claro e direto de uma vez.
- , pelo amor de Deus, eu não aguento mais. Se você não me ama e não me quer é só você dizer. Eu preciso que você dig...
- Não seja ridícula, ! – interrompeu irritado e incrédulo, assustando que agora o olhava com atenção e confusão. suspirou fundo, contendo sua irritação. Fechou os olhos com força e manteve o cenho franzido, como se quisesse se impedir de dizer o que estava prestes a dizer, como se estivesse tentando manter alguma espécie de autocontrole, o que pareceu ser sem sucesso, quando ele abriu os olhos e os faiscou na direção de , mais intenso do que nunca.
– Eu sempre amei você.
Estavam ali sendo ditas as palavras que sempre sonhara em ouvir. Estava bem ali a sua frente a única pessoa capaz de faze-la sentir-se especial, segura, feliz e apaixonada no mesmo momento. A única pessoa capaz de faze-la sentir completa, estava ali sem sombra de dúvidas o amor de sua vida, dizendo as palavras que ensaiou ouvir em um sonho perfeito.
Só que aquilo não era mais um devaneio, era a realidade. Ele estava ali, aquilo não era um sonho, tudo conspirava para que fosse perfeito – ela sabia disso – só não entendia porque sentia uma angustia tão grande engolfar-lhe o peito de uma forma agonizante, por que ela estava chorando então? Aquele era seu , e ele estava dizendo que a amava!
- Por favor, não chore... – implorou sentindo-se impotente. Odiava quando ela chorava, e odiava ainda mais quando ele era responsável por suas lágrimas. pode notar que ele mesmo parecia travar uma batalha absurda para impedir que algumas surgissem nos seus próprios olhos. parecia em dor.
- Por favor não vá embora, não repita isso mais nunca! Nunca fale da sua volta como um erro, se você não me quer, só me diga, mas se você me quer, por favor não tente negar – pediu-lhe com uma vozinha mínima, estava carregada de dor e ao ver fazer menção de falar, ela se aproximou colocando os dedos nos lábios dele, o restringindo. – Se você me quer então me deixa te querer também.
olhou profundamente nos olhos marejados da mulher a sua frente. A sua menina, a sua garota havia crescido se tornado uma mulher linda e madura. Como ele seria capaz? Como ele seria capaz de fazer qualquer coisa para machuca-la? Machucar alguém que o fazia ser ele mesmo, e se esquecer de todos aqueles problemas, machuca-la implicaria machucar a si mesmo. Mas como ele podia não machuca-la se sabia que se a rejeitasse a deixaria mal e se a deixasse entrar correria o risco de machuca-la ainda mais?
- De onde surgiu tudo isso, ? Quero dizer... Você nunca me quis – falou relutante, o cenho franzido em confusão, dúvida, agonia e desespero. Aqueles sentimentos traiçoeiros estavam ali novamente. Logo quando ele achou ter superado... Logo quando mais do que nunca ele precisava ter superado...
- Eu sempre te quis, , sempre, sempre, sempre – respondeu firmemente, encontrando força sobrenatural para falar. Agora que o band aid finalmente havia sido removido, não poderia mais conter – Eu nunca tive coragem de admitir, sempre achei que você só estivesse querendo me transformar em apenas mais uma e eu tinha medo de perder sua amizade. Eu entendo que você não me queira mais hoje em dia, mas eu precisa...
- Eu quero você - falou imediatamente interrompendo-a, tentando manter sua voz estável. Por um momento odiou a si mesmo por não conseguir manter o autocontrole de que tanto precisava. Mas sabia que aquilo era impossível naquele momento. Não apenas porque não conseguia magoar mas porque ele a queria, queria muito, e não conseguia mais se conter. Antes era possível porque não sabia dos sentimentos dela, mas agora que ela o queria também, como podia se manter firme? – Mas eu não sou bom o suficiente pra você – concluiu, sentindo sua voz embargar um pouco. Nunca havia chorado na frente de mulher nenhuma na sua vida e nesse momento não se importava em ser a primeira. Sentia seus olhos queimarem e embaçarem sua visão.
- Quando é que você vai entender que é a única pessoa boa pra mim? - perguntou segurando os dois lados do rosto de , olhando-o nos olhos novamente. Ela limpou com delicadeza duas lágrimas grossas que caíram dos olhos dele, mantendo seu olhar faiscante na direção dos dele, um sorriso teimoso brincava nos seus lábios. Ela estava conseguindo o que tanto queria – romper a barreira de .
- Eu te amo tanto... – Ele respondeu com os olhos semicerrados, encostando sua testa na dela, segurando no seu rosto com força, assim como ela fazia com ele. Por um momento ele se esqueceu da voz da sua cabeça que repetia “Isso não está certo” por um momento ele se esqueceu de tudo e se concentrou em . Se concentrou na única coisa que fazia seu coração palpitar e o fazia sentir completamente bem e vivo. Nem sua família, nem seus amigos, por melhores que fossem tinham o poder que tinha sobre ele.
encostou seus lábios nos dela com delicadeza. Sem pressa, sem medo, sem receios, sem preocupações. Quando sentiu suas mãos acariciarem seu rosto com cuidado, entendeu que não havia nada mais certo do que aquilo. Seus lábios moviam-se lentamente nos dela, não demorou muito para que suas línguas se encontrassem e eles iniciassem um beijo lento e carregado de emoção.
Não havia pressa, não havia urgência, não havia nada além deles dois, daquela praia, do barulho das ondas se quebrando há alguns metros de distância, daquela última tarde ensolarada de domingo e daquele beijo cheio de ternura. acariciava o rosto de com o polegar, enquanto sua outra mão, descia pelas costas dela, a abraçando de forma protetora, como se tivesse medo que ela fosse desaparecer.
Era tudo tão doce, tão meigo, tão esperado entre eles. O beijo era carregado do mais puro amor que sentiam um pelo outro, moviam seus lábios em sincronia e ambos sorriam durante o beijo, satisfeitos demais para negarem aquela alegria.
Quando o beijo finalizou, deu alguns selinhos nos lábios de , vendo-o o sorrir, mas logo depois olha-la tristemente.
- O que foi? - Ela perguntou levantando a cabeça dele, procurando o seu olhar, quando ele os fechou com força – Olha pra mim – ela pediu, vendo-o encarar triste.
- Me prometa que nunca vai me deixar magoar você, e que se um dia eu fizer isso você vai encontrar a si mesma – pediu, seu tom de voz enigmático deixando confusa. Sabia que ela não iria entender de imediato, mas queria que ela pensasse naquilo, caso um dia – o que ele não queria que acontecesse- ela precisasse. – Você é um pedaço de mim, . – Ele a olhou uma intensidade que ela nunca tinha visto antes.
- Você também é um pedaço de mim, – Ela respondeu sinceramente, embora ainda estivesse incerta sobre o que ele estava querendo dizer.
- Eu sei – Ele respondeu, depositando-lhe um selinho nos lábios.
- , eu te amo. Sabe disso não sabe? - perguntou sentindo uma pontada de preocupação ao encarar aqueles olhos. Mas sua preocupação durou pouco, pois nesse exato segundo sorriu. Não daquela forma triste, e nem daquele jeito sarcástico que costumava fazer. Ele sorriu verdadeiramente, com todos os dentes, parecendo mais feliz do que já o tinha visto na vida.
Sua preocupação durou pouco, porque logo em seguida, os lábios de alcançaram os seus novamente, dessa vez pedindo por um contato mais intenso. E ela entendeu, entendeu que essa era sua forma de dizer que sabia que ela o amava, e de dizer ele mesmo em outra linguagem – uma que ela apreciava ainda mais – que ele a amava também.


Capítulo 09


A chegada dos fortes ventos e das constantes chuvas marcava o início de outubro com seu característico clima outonal que, dessa vez, estava mais frio do que de costume. Os meteorologistas começaram a prever que “o inverno está chegando mais cedo” com a queda brusca da temperatura nos últimos tempos. Os raros dias secos e ventilados eram comemorados. Esse era um dos dias de sol em Londres, apesar do céu nublado, os raios luminosos clareavam e aqueciam uma gloriosa manhã de outono.
Gloriosa, pelo menos, para . Sentada na cabine do seu carro, dirigia calmamente pelas ruas da cidade cantarolando baixinho uma música qualquer no rádio. Ao seu lado, ocasionalmente lhe lançava olhares furtivos e reprimia alguns risinhos debochados enquanto revirava os olhos. A razão para isso era um tanto quanto óbvia, visto que não era comum ver de tamanho bom humor numa manhã de trabalho em plena segunda-feira às 7h.
- Meu Deus, você parece que tem uma banana inteira na boca de tão escancarado que está o seu sorriso – comentou depois de um tempo, incapaz de se conter. Estivera mordendo a própria língua há alguns minutos, reprimindo diversos comentários irônicos.
parou de cantarolar e lançou um sorriso ainda maior – se é que isso era possível – para a amiga que apenas revirou os olhos, embora estivesse rindo.
- Eu estou feliz, ora bolas. Não está fazendo frio, não está chovendo, eu estou viva, estamos todos vivos, a vida não é uma beleza? – comentou tranquilamente e soltou uma risadinha maldosa.
- Nossa, essa animação toda e vocês nem transaram. Vai ficar insuportável, eu não quero nem ver...
sorriu calmamente deixando a provocação passar. Nem seria capaz de minar seu bom humor hoje.
- Ótimo, ainda bem que você não quer ver. Não sou fã do voyeurismo, também não estava nos meus planos deixar você ver.
- Há, há, há engraçadinha – mostrou a língua e deu uma risada baixinha, recompondo-se – Mas, sério agora! Vocês estão nessa há... sei lá, um mês? – Perguntou incerta e logo continuou ao ver confirmar com a cabeça silenciosamente – E não foram para os finalmentes? Meu Deus qual o problema de vocês?
- Não temos absolutamente problema algum! – defendeu-se tranquilamente, embora seu sorriso tivesse murchado um pouco – Acho que só não tivemos oportunidade.
- Putz, sério? Para começar, no dia que vocês ficaram estavam na casa de praia, tinham vários quartos lá, sabe?
- Tínhamos tanta coisa para conversar, tanta coisa para confessar... Acho que sexo acabou ficando para segundo plano. Não me leve a mal, eu desejo o , bastante. E acho que ele também me quer dessa forma, mas...
- Acha? Sério, você acha? – perguntou incrédula percebendo perder completamente o sorriso do rosto – Ai, sério, não me diga que você tá insegura.
- Não é isso... – começou e logo perdeu-se em pensamentos. Suspirou nervosamente e continuou sob o olhar inquisitivo de – É que realmente esse último mês foi complicado. O conseguiu um emprego novo naquela empresa de tecnologia que te falei, e eu tô de volta aos estudos. Trabalho de manhã e de tarde, à noite faculdade, chego em casa morta e cheia de coisa para estudar e nos fins de semana ele não esteve todos aqui, então...
- Por que algo me diz que não se trata apenas disso? – perguntou avaliando milimetricamente as expressões faciais da amiga, que a essa altura encontrava-se um tanto quanto envergonhada, embora tentasse se manter impassível. Algo que estava aprendendo com e falhando miseravelmente – Não vem bancar a misteriosa.
- Não é isso... É que, e se ele não me quiser desse jeito? Se o amor dele for fraternal demais? – perguntou de uma vez, ruborizando tanto que seu rosto atingiu uma coloração próxima ao vermelho vivo de sua blusa de lã. Ao ouvir isso, gargalhou gostosamente, batendo palminhas. bufou irritada e freou bruscamente, fazendo a cabeça da amiga bater contra o porta luvas.
- AI, SUA VAGABUNDA! – exclamou enraivecida enquanto massageava a testa. , ao seu lado lhe lançava um olhar mortal em resposta.
- To falando sério.
- Não seja ridícula, ! É claro que o te quer. Qualquer ser humano sóbrio e até mesmo bêbado da festa da viu a forma como ele dançava com você. Ele praticamente te comeu com os olhos e isso é um elogio e tanto – respondeu mal humorada, massageando a testa e abrindo o espelho do carona para checar a situação da sua cabeça – Agora vê se expõe suas inseguranças com o Dr. Parker, não sabia que tava nesse nível já. Falando nisso, como tá a terapia?
- Tenho uma sessão com ele hoje... Tá indo legal, eu acho. – respondeu meio incerta, já estacionando na clínica.
- Para quem vai ser psicóloga, não me parece muito feliz em fazer terapia, como pretende atender seus pacientes?
- Não vou atender pacientes. Não nasci pra isso. Sou mais voltada para o RH, gestão de pessoas, psicologia organizacional e tal... Não me imagino num consultório atendendo pessoas.
- Que bom, elas agradecem. Imagina se você fosse dar uma porrada nelas toda vez que dissessem algo que você não gosta de ouvir? – comentou ironicamente e lhe lançou um olhar maligno em resposta – Nossa, credo, você tá andando demais com o .
E a simples menção do nome dele foi o suficiente para fazer voltar a sorrir novamente. Tudo estava bem.

Um mês havia se passado desde o episódio da praia e desde então e estavam, para todos os efeitos, juntos. Não se pode dizer que vê-los chegando de mãos dadas na casa de praia da mãe de tenha sido um espanto para os amigos, visto que, em algum ponto da vida, a ideia dos dois finalmente serem um casal já tinha passado pela cabeça de cada um deles. A reação que mais se assemelharia com a verdade teria sido uma expressão coletiva de “até que enfim”.
Desde então, era comum ver só sorrisos por aí. Mesmo quando estava trabalhando arduamente, mesmo quando Lauren lhe enchia de compromissos, mesmo quando tinha uma pilha de livros para ler na faculdade, mesmo com as poucas horas disponíveis para ficarem juntos, mesmo assim, era a alegria em pessoa. Na verdade, no único momento em que , talvez, não fosse apenas só sorrisos fosse nas horas da terapia.
- , preciso que você se concentre – Dr Parker lhe chamou a atenção mais tarde naquele mesmo dia durante a sessão. estivera desconcentrada contando as horas para o almoço que tinha marcado com .
- Desculpe, o que foi que você perguntou mesmo?
Dr. Parker se endireitou na cadeira e fixou seu olhar firmemente nas íris apaixonadas e sonhadoras de .
- Eu estou preocupado com você.
arrepiou-se de repente, não gostando nem um pouco do rumo da conversa. Considerava que havia feito um progresso imenso nos últimos tempos. Não chorava mais a perda da avó, não tinha ódio nem sentia rejeição pela partida de Brandon, estava bem, tinha aparecido para curar tudo, não entendia porque o Dr. Parker insistia em repetir coisas agourentas em suas sessões. Na verdade, no fundo, ela até entendia. Mas preferia silenciar essa intuição.
Ao tomar o silenciamento de como uma deixa para continuar, Dr. Parker prosseguiu:
- Você está colocando sua vida nos eixos agora. Finalmente vai concluir sua graduação, devia estar pensando um pouco mais sobre o que espera do seu futuro. Mas, por que, toda vez que falo com você, suas únicas dúvidas, incertezas e projetos rondam a existência de ?
“Não me leve a mal, acho que o pode ser um rapaz incrível, vocês cresceram juntos, e você o ama a sua vida toda. Estou feliz por você estar feliz, mas, por outro lado, essa relação hoje talvez não seja saudável para você”
Essa relação hoje talvez não seja saudável para você.
Se, mais cedo, chegou a pensar que nada seria capaz de alterar seu humor, agora ela definitivamente tinha mudado de ideia. Dr. Parker era muitíssimo capaz de afetar sua alegria. Como ele podia dizer uma coisa daquelas? Daquilo que tinha lhe feito tão feliz nos últimos dias?
- Por que está dizendo isso?
- Porque você está priorizando o . Em tudo na sua vida, o vem em primeiro lugar e não deveria ser assim. Partindo do pressuposto de uma relação comum, isso já seria errado e passível a muito sofrimento, imagine numa relação como a de vocês...
- Como a de vocês...? – perguntou, não entendendo muito bem o que o Dr. Parker queria dizer.
- Como a de vocês, cheia de segredos, omissões e inverdades. Você mesma me disse que o estava escondendo alguma coisa. Que, nas palavras dele mesmo, não era uma pessoa boa para você. Já lhe ocorreu que talvez ele tenha razão? – Dr. Parker perguntou com um tom de voz ameno, analisando cada reação de , que a essa altura estava chocada e mortificada com as palavras que estavam sendo proferidas pela boca do seu terapeuta.
- Que? Mas isso é ridículo. Não é porque o está escondendo algo que automaticamente isso faz dele uma pessoa ruim. Ele pode estar precisando de ajuda, pode estar precisando ser salvo...
- E ele seria salvo por você? Você acha que com o seu amor pode cura-lo de alguma coisa perigosa que ele pode ter se envolvido?
, eu não estou lhe dizendo para terminar seu relacionamento. Estou dizendo que você precisa priorizar a si mesma nesse momento. A depressão tem recaídas violentas se não tratada e algumas situações são gatilhos poderosos para desencadear isso. Foque nos seus estudos, no seu trabalho, no seu projeto, o que você quer da vida? O que você espera de si mesma? Você está tão ocupada tentando salvar o de algo que nem você mesma entende, que não percebe que está deixando de cuidar de si mesma. Já lhe ocorreu que talvez você precise ser mais firme com ele? A base de todo bom relacionamento saudável é a confiança. Diga-me, você confia no ?”
Você confia do ?
Confio. Era a primeira resposta que lhe ocorria responder naquele momento. Porém, antes que pudesse abrir a boca para verbalizar com tanta precisão, algo dentro de si pareceu querer despertar. Será mesmo que sua confiança em estava começando a se abalar? Não, não era possível.
- Confio. Ele pode estar em apuros, pode estar escondendo algo, de fato. Mas eu confio cegamente no , ele não faria nada errado. Todos nós temos segredos.
- Todos nós temos segredos – Repetiu calmamente o Dr. Parker – E temos direito de guarda-los apenas para nós. Mas, a partir do momento que nossos segredos machucam ou impedem o crescimento de outras pessoas, perdemos esse direito.
- O que você está tentando me dizer?
- Estou te dizendo que talvez seja melhor ir com calma. Você está feliz, fico feliz por você. Mas talvez seja melhor ir com calma, sem colocar todas suas expectativas nisso. O pode ser uma boa pessoa, acredito que seja mesmo, e não acho que ele entenda o poder que tem sobre você, mas você sabe o quanto ele te afeta. Talvez seja hora de faze-lo deixar de ser o centro da sua vida e começar a ser você mesma o centro.
- E como eu faço isso? Eu estou estava tão feliz... – afundou na cadeira sentindo um desânimo imenso lhe acometer naquele momento. Toda felicidade, toda alegria, todo sentimento de conquista de finalmente estar com pareceu ter sido apagado com o imenso balde de água fria que Dr. Parker estava jogando sobre si.
- Continue feliz! Mas fique sempre atenta aos sinais, não silencie sua intuição. Se você não conseguir estabelecer uma relação de confiança e parceria com e os segredos dele começarem a atrapalhar sua relação e a sua vida, você precisará ser mais firme.


saiu do consultório de Dr. Parker um tanto quanto desconcertada naquela manhã. Era impressionante como o terapeuta tinha a habilidade de lhe dizer as coisas que ela se recusava com veeminencia escutar dos seus amigos. Talvez fosse porque os amigos ela podia bater a cabeça no porta luvas e o Dr. Parker não. Fosse pelo que fosse, o fato era que estava com a cabeça fervilhando de pensamentos, sentindo-se absurdamente confusa.
Se por um lado sentia-se tão feliz a ponto de saltitar pela rua, por outro, sabia que o Dr. Parker tinha razão. Desde que tinha lembrança, sua vida fora voltada para chamar atenção de , de atrai-lo, de tê-lo só para ela. As frustrações e inseguranças que adquirira com esse comportamento eram dolorosas e não podiam se repetir. Precisava focar mais na própria vida, nos próprios sonhos, nas próprias ambições.
E quais seriam elas?
Pensando em quais seus planos para o futuro, adentrou o restaurante que tinha combinado de se encontrar com para o almoço. O tempo entre os dois estava tão escasso que a menor brecha que encontraram no meio da semana, marcaram um almoço apenas com o pretexto de colocarem a conversa em dia e matarem um pouco da saudade.
Ao sentar-se na mesa reservada, notou em seu relógio que havia chegado 15 minutos adiantada ao horário que haviam combinado. Aproveitou aquele tempo para adiantar a leitura da faculdade, hoje não teria aula, mas precisava deixar um trabalho gigantesco pronto para dali há alguns dias. Pediu um suco de laranja ao garçom e aguardou pacientemente enquanto se entretinha com sua leitura.
Os minutos foram se passando tão rapidamente que se surpreendeu ao perceber que não só seu suco tinha chegado, como ela já tinha o bebericado distraidamente por completo e agora sugava apenas o vento. Olhou no relógio mais uma vez vendo que trinta minutos haviam se passado e estava há 15 atrasado. Tudo bem, a qualquer minuto agora ele podia entrar pela porta daquele restaurante. Mais umas páginas para adiantar a leitura...
Quando mais vinte minutos se passaram, já estava lendo e relendo a mesma linha trinta vezes e não conseguia absorver conhecimento algum. O que poderia ter acontecido? Desbloqueou a tela do celular, vasculhou a conversa com : nenhuma mensagem. Subiu as mensagens antigas para ver se tinha se confundido no horário, mas não, ele estava mesmo bastante atrasado. Fechando seu livro e bufando um tanto quanto impaciente, pediu mais um suco, já estava lhe dando sede novamente.
O tempo se passava cada vez mais lentamente agora. Cada minuto irritava tão profundamente que ela tinha dificuldade em manter-se imóvel. Sua perna esquerda, que estava cruzada, balançava-se para frente e para trás embaixo da mesa enquanto seu olhar percorria o ambiente, evitando os olhares das pessoas que começavam a lhe encarar com certa pena. “As pessoas precisam se acostumar vendo uma mulher sozinha num restaurante” pensou consigo mesma, embora soubesse que não era para estar sozinha nesse momento.
Aquela altura do campeonato estava atrasado há uma hora. sentia uma vontade absurda de chorar de raiva. O que custava ter feito uma ligação? Ou ter atendido a porcaria do celular quando ela tinha ligado por, no mínimo, umas 30 vezes? Estava começando a ficar apavorada, pensando que algo de muito grave tinha acontecido, quando entrou no restaurante disparado feito uma bala, andando em sua direção com o rosto um tanto quanto suado e uma expressão cansada e esbaforida. , a essa altura, estava lívida de fúria.
- Desculpe pelo atraso, desculpe, desculpe, desculpe mesmo! Tive um contratempo horrível, mas cheguei – Ele foi se desculpando enquanto aproximava-se para beijar a testa de , sentando-se defronte a ela na mesa.
- Você está uma hora atrasado – disse calmamente, medindo suas palavras, sentindo um acesso de fúria começar a crescer dentro de si.
- Eu sei, desculpe, eu tive um contratem...
- Você já disse isso. – salientou entredentes, sentindo suas narinas inflarem. Nesse momento, que até então não tinha lhe olhado diretamente nos olhos, ergueu o olhar, lhe encarando um tanto quanto incerto. Pelo menos, era isso que imaginava, não dava para saber com exatidão sua expressão, seus olhos estavam escondidos por baixo de um enorme óculos escuros. – Você já pode tirar os óculos?
- Que? An.. – perguntou fazendo-se de desentendido e notou que as mãos dele que seguravam o cardápio tremiam levemente. Observando o olhar de sob suas mãos, apressou-se em largar o cardápio e repousa-las sobre o colo com o pretexto de olhar alguma coisa no relógio.
No momento em que baixou um pouco a cabeça, seus óculos escorregaram um pouco pelo rosto, permitindo que visse um corte superficial na sua sobrancelha, onde um filete de sangue começava a escorrer.
- , o que é isso? – perguntou apontando para o lugar onde estava machucado e levantou a cabeça de imediato, escondendo algo no bolso. Quando ele viu debruçar-se sobre a mesa para tirar seus óculos, levantou a mão tentando restringir, mas ela foi mais rápida. Em um segundo tomou o objeto entre as mãos, deixando a mostra os olhos dele. tentou rever a posse dos óculos, mas ergueu a mão, colocando-a para trás assim que voltou a sentar-se corretamente, lhe encarando com uma expressão de surpresa, choque raiva e preocupação.
- O que foi isso? – perguntou com as sobrancelhas arqueadas, os óculos de em sua mão ainda levantada. Ao ver suspirar, revirar os olhos e tentar limpar o sangue com as mãos, deixou sua mão cair no colo, sabendo que não obteria nenhuma resposta honesta. Só isso fez seu sangue fervilhar nas veias.
- Não foi nada, eu apenas bati a cabeça na porta do carro – desconversou sem olhar para diretamente, surpreendendo-se ao ouvir a risada carregada de escárnio dela.
- Suas mentiras já foram melhores. O estoque acabou? – Ela perguntou com a língua afiada, fazendo franzir o cenho – Eu perguntei o que aconteceu de verdade, não a versão que você inventou para me ludibriar – Ela completou sem rodeios, perdendo qualquer resquício de paciência.
- Eu não posso fazer nada se você queria uma versão emocionante, mas é o que tem para hoje – respondeu tão rapidamente que não refreou o pensamento. arqueou ainda mais a sobrancelha e ele apressou-se em completar – Desculpe, não quis dizer isso.
- Eu não sei com quem você acha que tá falando. Mas comigo essas versões não colam mais. Você pode até ter entrado pela porta da minha casa com uma conversa de que bateu o carro. Ok, isso eu até aceitei. Mas tá ficando frequente demais você sair por aí “esbarrando” nas coisas e vir me contar como se eu fosse idiota ou fosse cair nessa – bradou chateada, jogando os óculos de de volta em seu peitoral, o assustando de repente com esse comportamento tão inesperado e não característico dela – Achei que antes de tudo fôssemos amigos. Você parece bem treinado para mentir, mas só pra te informar que eu te conheço a minha vida toda. Não sou como a Susan ou qualquer outra que cai na sua conversa mole.
“Se você me disse alguma coisa e eu acreditei é porque eu quis acreditar. Porque estava feliz de finalmente estarmos juntos. Mas hoje você finalmente me estressou. Me deixou plantada te esperando, não me deu um telefonema, não atendeu minhas ligações, não me mandou uma mensagem e ainda por cima chega com essa cara toda rachada me dando desculpa esfarrapada achando que eu vou cair nessa. Você tá esquecendo com quem tá falando”
respondeu batendo o guardanapo de pano com força na mesa, levantando-se em seguida, deixando com a maior cara de taxo do mundo.
- O que você tá fazendo?
- Eu? Eu to indo embora. Eu tenho que trabalhar.
- Mas nós nem almoçamos...- balbuciou atúrdito e apontou para o garçom atrás deles com frieza.
- Se resolva com ele, tem comida o suficiente na casa. Meu horário de almoço acabou, se quisesse almoçar comigo teria chegado mais cedo ou então me traria uma boa dose de verdade, mas acho que isso não está no cardápio do dia – respondeu tão disparadamente com uma confiança tão grande que assustou até a si mesma. lhe deixara absurdamente chateada, absurdamente enfurecida. Era o cúmulo do absurdo achar que poderia brincar com ela dessa forma. Antes de tudo, eram amigos e uma atitude dessas era, no mínimo, desleal.
- , me desculpe, vamos conversar...
- Cuida desse corte e fica longe de portas, tá? – advertiu ironicamente, dando uma palmadinha no ombro dele quando se afastou em direção a porta do restaurante, deixando atordoado atrás de si quando ela surpreendeu os dois indo embora sem nem ao menos querer conversar.
Ao observar sair em disparada pela rua, fechou os olhos com força, sentindo um desespero tomar conta de si. Estava ferrado. Nunca tinha visto agir com tanta raiva e sabia que para chegar nesses extremos, ele tinha passado dos limites. Ela estava mais do que chateada, estava furiosa e vê-la assim deixava realmente apavorado.
Mirou o reflexo do seu rosto através da colher de prata e soltou um resmungo ao ver seu rosto adquirir um tom arroxeado no local que fora atingido. Era muito óbvio o que tinha se passado ali. “Porta, ? Francamente...”
- DROGA! – Ele resmungou enraivado, batendo na mesa ao se levantar, pouco se importando com a pequena plateia formada ao seu redor.
Nota mental: Nunca mais voltar nesse restaurante.

***


Enquanto lia e fichava todo o conteúdo para concluir o trabalho quilométrico exigido pela profª Reynolds, surpreendia-se mais uma vez com uma ligação de . Já estava começando a ficar irritante. Precisava de toda concentração possível e essa era a décima ligação que ela rejeitava em menos de duas horas. “De repente agora você virou um grande fã de telefonemas, não é? Tô estudando. Nos falamos com as palavrinhas mágicas, xoxo” Fora a mensagem que enviara para ele há alguns minutos atrás, mas ele parecia ter se feito de desentendido.
Era surpreendente até para ela mesma toda aquela reação no restaurante. Não sabia de onde tinha surgido tanto ódio. Há alguns dias atrás poderia apostar que se isso tivesse acontecido, provavelmente ficaria chateada, triste, ressentida, mas continuaria sentada no restaurante comendo sua refeição pacientemente com medo de com um comportamento indevido causar uma discussão e ocasionalmente o afastamento de . Talvez tenha sido devido as inúmeras zoações feitas por , que lhe repetia o quanto era boba quando se tratava de , ou talvez fosse a raiva que tinha sentido de mais cedo, ou talvez fosse fruto da sua sessão com Dr. Parker. Fosse porque fosse, o caso é que havia explodido.
Agora, calma e confortável na sua casa, horas mais tarde, não podia dizer que ainda estava assim tão enraivada. Parte de si ainda ficava um pouco receosa ao ignorar tantas ligações, no fundo ainda sentia medo que desistisse e fosse embora, mas agora tinha que admitir que esse medo estava menor, ocupava uma parte menor dentro de si. “Talvez seja hora de faze-lo deixar de ser o centro da sua vida e começar a ser você mesma o centro”, era uma frase que insistia em perambular por sua cabeça o dia inteiro, martelando sem parar.
Já passava das 22h quando percebeu que seu telefone já não tocava mais. Nenhum bipe de mensagem. Talvez ele tenha desistido. Talvez tenha ido dormir. Talvez tenha saído para beber. Talvez esteja com outra nesse momento. E lá estava sendo paranoica novamente. Estava bom demais para ser verdade ser uma femme fatale decidida num dia só. A quem queria enganar? O amava tanto, ficar longe dele durante o dia a dia já era tão sofrido, estar brigada então era um tormento. A mão de mandar mensagem chegou a tremer algumas vezes, mas manteve-se firme.
Percebeu que não estava mais conseguindo se concentrar no trabalho quando sua mente passou a elaborar um cenário perfeito em que lhe contava tudo e não passava de um grande mal entendido, os dois ficavam bem, felizes para sempre, sem segredos e sumiços repentinos.
acordou do seu transe pelo toque da sua campainha, indicando que alguém estava a espera na porta. Embora tivesse uma forte impressão de quem iria encontrar do outro lado, dirigiu-se ao olho mágico em passos relutantes, sentindo seu coração acelerar instantaneamente, não queria correr e colocar tudo a perder, precisava manter a calma. Ao observar a silhueta de no olho mágico, soube que estava certa. Ponto para sua intuição.
- Não vou abrir, pode ir embora - falou próximo a fresta da porta, observando erguer o olhar para o olho mágico.
- , por favor, não seja orgulhosa - Ouviu a voz de ecoar do outro lado e percebeu que ele estava se esforçando ao máximo para manter a compostura. Embora seu coração estivesse acelerado, com saudades e com muita vontade de estar com ele, ainda estava muito chateada, a voz do seu terapeuta ecoava insistentemente em sua cabeça repetindo que ela precisava ser mais firme.
- Você sabe o que eu quero, diga as palavrinhas mágicas e eu abro a porta - respondeu, embora tivesse uma grande intuição de que ele não falaria absolutamente nada.
- Eu trouxe pizza - respondeu do outro lado, o tom de voz mais manso e um tanto quanto brincalhão. Naquele instante, quase como se alguém tivesse apertado um gatilho, sentiu sua barriga roncar, estava estudando há horas sem comer… - É de peperoni - continuou, como se estivesse verbalizando os seus pensamentos.
Droga, era a sua favorita.
Em segundos, destrancou a porta, mas, antes que pudesse empurra-la, abriu apenas uma fresta, o suficiente para colocar uma mão para fora, sacudindo-a:
- É sério isso? - perguntou indignado, mas não se deu ao trabalho de responder. Num bufo irritado, ele entregou a caixa de pizza na mão de garota, que logo passou para dentro, fechando a porta na cara dele.
- … - pediu baixinho batendo na porta outra vez - Por favor, abre a porta…
- Tá pronto pra me falar a verdade agora? – respondeu do outro lado, sentindo o coração na garganta de tão nervosa que estava. Essa coisa de ser firme e decidida era muito difícil, visto que ele aparecia com aquela voz mansa e os olhos arrependidos trazendo seu sabor de pizza favorito.
suspirou ruidosamente e prendeu a respiração em expectativa.
- Eu tomei um soco, tá legal? – respondeu de uma vez a contragosto, baixo, porém o suficientemente audível para compreender. Achando a resposta convincente e verdadeira o suficiente para continuar, destrancou a porta, dando passagem para ele.
- Acho que podemos começar daí – Ela respondeu dirigindo-se ao balcão da cozinha, onde colocou a pizza e sentou-se num dos banquinhos, observando passar desgostoso pela porta, trancando-a atrás de si, em seguida andando em passos arrastados até a cozinha, não se atrevendo a olhar diretamente para .
- Quando se sentir pronto – falou, apoiando sua cabeça nos cotovelos, olhando para como uma criança pequena que espera o desfecho de uma história. Ele lhe lançou um olhar ameaçador e enraivado em resposta, mas ela não se deixou abater, sua expressão cínica estava impassível, o traço quase imperceptível de sorriso vitorioso no rosto por conseguir sua primeira resposta sincera em séculos.
- Eu me envolvi numa briga, ok? – respondeu mal humorado, aparentemente arrependendo-se de ter ido até ali e aparentemente sem encontrar razões para ir embora. Parecia desconfortável e estava adorando tudo aquilo.
- Com quem?
- Não quero falar disso.
- A porta da rua é a serventia da casa.
Os dois ficaram se encarando por alguns instantes. fuzilava com o olhar e ela sustentava parecendo ter um escudo impenetrável. Ficaram nessa por alguns segundos. O suficiente para quase abandonar tudo e lhe encher de beijos, tinha que admitir que aquela briguinha estava até sendo excitante naquele momento – extrair segredos de era tão animador que até ignorava o fato de que era uma briga e, portanto, algo ruim.
- Com o Damien – respondeu a contragosto, atirando-se no banquinho em frente a . A resposta parecia ter sido tão difícil de ser dada que era como expurgar veneno. retirou as mãos do queixo e endireitou-se sob o banquinho, abandonando a expressão cínica e olhando para com assombro e preocupação. A sinceridade nas palavras dele era irrevogável.
- O que houve? – Ela perguntou chocada vendo-o resmungar baixinho, parecendo perceber uma batalha perdida.
- Não estamos nos falando. Ultimamente as coisas entre nós tem sido... tensas. – respondeu sombriamente e semicerrou os olhos. O coração tão acelerado por finalmente receber respostas sinceras que tinha medo de perguntar alguma coisa errada e voltar a se esconder novamente.
- Por que?
- Não quero falar disso, pediu com uma expressão triste de súplica, mas manteve-se – com muita dificuldade – irredutível. Observou levantar-se e ir em direção a geladeira, abrindo o congelador e retirando calmamente algumas pedras de gelo de uma cuba, colocando num pano, aproximando-se dele novamente.
- Você está com um roxo horrível no seu rosto, posso cuidar disso. É um alívio imenso se livrar de um hematoma. – Ela respondeu calmamente enquanto pressionava o pano gelado no rosto de delicadamente, vendo-o contrair-se e fazer uma careta – Assim como falar a verdade pode ser um alívio. Eu não vou a lugar algum, mas se você não me contar eu te expulso daqui em dois tempos. Desembucha.
pareceu pensar por alguns segundos, sustentando o olhar firme de . Ao encontrar os dos olhos dela, sabia que não tinha saída. Ser sincero, naquele momento, pareceu ser a coisa certa a ser feita. Mas, nem sempre fazer o certo era fácil. Parecendo odiar e temer o tópico do assunto, fechou os olhos aproveitando o toque suave do gelo no seu rosto, ao mesmo tempo que temia a reação de , ao responder num suspiro:
- Por causa da Susan.
No mesmo instante sentiu a falta do gelo no seu rosto, indicando que tinha parado de cuidar dos seus machucados. Fechando ainda mais olhos numa careta, arriscou abrir um olho para encarar a melhor amiga, que parecia chocada, surpresa e acima de tudo extremamente enraivada.
- Me dê um bom motivo para eu não deixar seu outro olho roxo para combinar bem com esse daí – Ela respondeu entredentes segurando o pano com gelo na mão como se fosse uma arma. segurou a mão dela delicadamente e voltou a pressionar contra o seu rosto com calma, olhando-a diretamente com carinho e um tanto quanto... medo.
- Eu estou te contando a verdade...? – Tentou, meio receoso e embora ela tivesse uma expressão enraivada e desconfiada, continuou a pressionar o gelo sob seu rosto, embora sem muita delicadeza dessa vez.
- Bom, para resumir bem, ela está com o Damien. E por algum motivo ele se sente ameaçado por mim. Ele é louco por ela – respondeu e percebeu franzir o cenho confusa e assustada, desconcentrada demais para conseguir continuar a cuidar do seu rosto. pegou o pano e assumiu o serviço sozinho enquanto ela tentava assimilar o que tinha acabado de ouvir.
- Susan e Damien juntos? Como eles se conheciam? Damien nem aqui mora – perguntou chocada, voltando a se sentar sobre o banquinho. Antes que pudesse responder, outro pensamento pareceu recorrer a e ela logo lhe lançou um olhar mortal e ameaçador, os olhos semicerrados – Você encontrou com ela?
- Quê? Eu? Eu não, nunca mais a vi. – respondeu tão rapidamente e tão surpreso que assumiu como sinceridade e apenas assentiu, embora ainda estivesse um pouco desconfiada – Estávamos juntos quando fomos visita-lo e ela me traiu com ele.
- Nossa, que horror! Seu irmão e sua própria namorada! – arquejou assustada e resmungou com o pano de gelo no rosto, dando de ombros indiferente – Ex- namorada – apressou-se em continuar e sorriu um pouco – Mas por que Damien se sente ameaçado por você?
- Porque ele é idiota. Eu não quero nada com ela. Fiquei chateado na época, confesso, mas depois disso superei bem, não tenho o menor contato com ela.
- Foi por isso que você foi embora? – perguntou e sentiu enrijecer um pouco ao seu lado, parecendo pensativo de repente.
- De certa forma... – Ele respondeu baixinho.
- E o que o Damien estava fazendo aqui? – perguntou ainda confusa. Pelo que sabia, o irmão de estava morando em outra cidade há alguns anos para trabalho. Vez ou outra se visitavam, mas fazia um bom tempo que não ouvia falar dele.
- Encher o saco, basicamente. Me disse uns desaforos, se alterou, não gostou do que eu disse sobre a Susan e foi embora – respondeu, abaixando o pano com gelo sob a bancada, pressionando os dedos sob o local que visivelmente tinha recebido um soco bem dado.
- O que você disse sobre a Susan? – perguntou curiosa e deu uma risadinha baixa.
- Que ela era uma vaca
- ! – repreendeu horrorizada e ele lhe lançou um olhar confuso – Não diga isso, não cuspa no prato que comeu.
- Não to cuspindo em nada, ela é mesmo uma vaca. Me traiu com meu irmão, respondeu confuso, como se explicasse uma coisa óbvia para uma criança. Não entendia porque , logo , estava lhe recriminando.
- Se você fala desse jeito com tanto ressentimento dela, significa que ainda não superou – disse mal humorada. Ouvir falar daquele jeito de Susan tinha lhe deixado preocupada. Se Damien achava que o irmão era uma ameaça e ainda se importava com o fato o suficiente para ofender Susan significava que ele ainda nutria sentimentos por ela. Isso fazia com que a mente de trabalhasse em velocidade da luz, criando diversas teorias sobre seus sumiços, suas mentiras e sobre a falta de desejo dele por ela.
- Superar? – perguntou confuso, mas não estava mais prestando atenção. Lhe dando as costas, ela pegou o pano sobre a bancada e dirigiu-se a pia da cozinha para limpar. ainda sem entender absolutamente nada, foi atrás dela, virando-a de frente para ele e erguendo seu rosto para poder olha-la nos olhos. A tempo o suficiente de ver uma lágrima malcriada por ali. – Tá vendo por que eu não queria te contar?
- Prefere mentir pra mim? – perguntou tentando soar enraivada, mas tudo que conseguiu foi parecer birrenta, visto que a tristeza era o sentimento que estava imperando nesse momento. Ao perceber do que se tratava, deu um sorrisinho torto e se aproximou um pouco, fazendo lhe restringir crispando os lábios – Tá rindo de que, seu imbecil?
- Você está com ciúmes – Ele disse baixinho como se estivesse dizendo algo realmente muito engraçado. de repente ficou enfurecida, e lhe socou os ombros, tentando se afastar, mas foi mais rápido segurando seus pulsos e lhe puxando para um abraço, o qual não quis retribuir, fazendo-o rir – Meu amor, deixe de bobagem...
sentiu suas pernas tremerem e seu coração derreter ao ouvi-lo falar “meu amor” com aquela voz divertida e tranquila, tão serena e sincera. Embora tivesse ficado tocada com isso, ainda sentia-se insegura e ciumenta o suficiente para não querer abraça-lo de boa vontade. Percebendo isso, segurou sua cintura, carregando-a contra sua vontade até a bancada da cozinha, onde a sentou, abrindo suas pernas com delicadeza e encaixando-se no meio delas.
- , eu amo você. Sempre amei você. E todo mundo sabe disso. – Ele respondeu baixinho, procurando seu olhar enquanto ela estava de cabeça baixa, mirando o chão. – Eu estava com a Susan, mas nunca achei que tivesse chances com você. Eu estava seguindo minha vida. Eu gostava dela sim, foi bom por um tempo, mas ela me traiu. Sei que você não gosta que eu fale mal, mas a Susan é sem caráter por diversos outros motivos. Eu não tenho ressentimentos com ela com relação ao Damien, mas não se esqueça que ele também é meu irmão e embora seja cabeça dura eu o amo bastante. Acho que ele merecia coisa melhor.
respondeu calmamente, erguendo o queixo de com os dedos delicadamente, fazendo-a olha-lo nos olhos. sorriu de um jeito tão meigo que teve vontade de apertar seu pescoço e sufoca-lo num abraço, mas controlou-se. Ele beijou uma bochecha, depois beijou a outra, e o nariz e então lhe aplicou um selinho delicado nos lábios.
- Quanto a mim, eu tenho você. Que é minha parceira, minha melhor amiga e minha namorada. Pra que eu preciso de outra coisa? – Ele respondeu baixinho e sentiu o coração acelerar tanto que quase sufocou. As pernas tremiam de um jeito que se não estivesse sentada seria capaz de cair. Ele disse namorada?
- O que você disse? – Ela perguntou com uma vozinha mínima e riu baixinho, beijando-a novamente, mas o afastou pelos ombros, lhe encarando firmemente – É sério, repete.
- Repetir o que? – Ele perguntou cínicamente e semicerrou os olhos. Que ótimo, tinham invertido as posições tão rapidamente. – Que eu te amo?
- Não, depois – perguntou sentindo seu rosto aquecer e riu mais uma vez.
- Que você é minha parceira? – Ele perguntou baixinho aproximando-se para beijar o pescoço dela, que arrepiou-se dos pés a cabeça ao sentir os lábios quentes e macios de sob sua pele.
- Depois – arfou enquanto suas mãos que estavam pressionadas no ombro dele, relaxaram lhe abraçando pela nuca.
- Minha melhor amiga? – perguntou numa voz arrastada, fazendo uma trilha de beijos pelo pescoço dela, mordendo o lóbulo de sua orelha, puxando-a com delicadeza entre dentes.
- Depois...? – gemeu baixinho perdendo o pouco do controle que tinha, involuntariamente afastando um pouco o rosto para o lado, arrepiada com o toque dele, sentindo a respiração quente bater contra o seu ouvido.
- Minha namorada? – afastou-se o suficiente para encarar nos olhos. O encontro dos faiscantes contra os em chamas fez com que os dois entrassem em combustão. arriscou um olhar sedento para a boca de , vermelha, carnuda e tão convidativa. Sem esperar mais um segundo, ela sorriu marotamente e disse, antes de emaranhar seus dedos sob os cabelos da nuca dele, puxando-o para um beijo voraz e cheio de saudade:
- Eu aceito.
Beijavam-se com tanta vontade que ocasionalmente suspiravam fundo entre o beijo. Era cheio de saudade, de desejo, de pedidos de desculpas, de reconciliação pelo pequeno impasse que tiveram. acreditava inteiramente nas palavras de . Sabia, pela relutância que ele tivera em falar, que aquelas palavras eram verdadeiras. Embora ainda estivesse chateada pela forma como ele tinha agido mais cedo.
- Mas vou te avisando, me deixa plantada te esperando em algum lugar sem me avisar pra você ver – disse de repente, interrompendo beijo, o empurrando novamente pelos ombros, fazendo sorrir um pouco aproximando-se novamente para beija-la, sendo mais uma vez barrado – É sério, e nem adianta vir batendo na minha porta com pizza.
- Da próxima vez eu trago pizza e sorvete – brincou, recebendo um tapa no ombro em resposta – É brincadeira!
- Não vai ter próxima vez. Acho bom você parar de mentir com medo da minha reação e me contar as coisas – ameaçou e assentiu, embora tivesse parado de rir. Ela semicerrou os olhos e apontou um dedo próximo ao rosto dele – É sério, e nem adianta chorar na minha porta.
- Da próxima vez eu trago pizza, sorvete e tequila... Já que você adora uma tequ... É brincadeira, não-vai-ter-uma-próxima-vez – Ele disse pausadamente entre risos, recebendo os tapas de em resposta – Para, eu já apanhei demais por hoje, para, paraaa – Ele disse puxando as pernas de de repente para a ponta da bancada, fazendo-a dar um gritinho assustado em resposta. cruzou as pernas dela sob sua cintura e deslizou as mãos pelas coxas da garota, apalpando a região com firmeza, fazendo com que aos poucos, as carícias deixassem o tom de brincadeira e os risos fossem se perdendo conforme as respirações voltavam a ficar ofegantes enquanto eles se encaravam fixamente.
puxou o lábio inferior de entredentes e ela passou suas mãos pela nuca do rapaz, entrelaçando seus dedos pelos cabelos já bagunçados dele. Uma das mãos de permanecia segurando a coxa de com firmeza, enquanto a outra ele deslizou lentamente pela lateral do corpo dela, tocando cada parte com desejo, fazendo com que o coração dela acelerasse freneticamente quando ele finalmente parou sob seu seio, apertando-o com força, antes de suspirar ruidosamente voltando a beija-la com vontade.
Quando a língua quente de se chocou contra a sua, sentiu seu corpo inteiro em chamas de repente. O beijo dele era envolvente, viciante, assim como seu cheiro e seu toque e a essa altura do campeonato encontrava-se completamente viciada nele e naquela sensação maravilhosa que tinha quando estavam juntos. Beijavam-se com intensidade e os toques ficavam cada vez mais ousados. Quando sentiu puxar a barra da sua camiseta para cima, interrompeu o beijo.
- Posso te fazer uma pergunta sobre sexo? – Ela falou com uma voz sapeca e riu, franzindo o cenho sem entender nada, embora continuasse com sua mão na barra da camiseta dela, seus dedos formigando ao sentir a pele quente da barriga da garota.
- Pode
- Por que nunca fizemos? – Ela perguntou e gargalhou em resposta, embora seu rosto tivesse ruborizado totalmente. Riram juntos por alguns segundos e respondeu, já preparando-se para retirar a camiseta dela:
- Podemos resolver isso agora...
- Não, não podemos, essa é a questão – respondeu frustrada, retirando a mão de de baixo da sua camiseta, incapaz de rir da expressão frustrada e chocada que tinha aparecido no rosto dele, tendo a certeza que essa mesma expressão estava em seu olhar.
- Por quê? – perguntou horrorizado, encarando como se ela tivesse anunciado o cancelamento do Natal.
- Estou em “dias de menina” – Ela respondeu fazendo aspas com as mãos, descruzando as pernas da cintura dele, afastando-o levemente com os pés, visto que ele parecia abobalhado demais para se mover. Num impulso, desceu da bancada e olhou para ele com uma expressão triste – Não vai rolar.
- O chuveiro está aí para isso!!! – respondeu parecendo ter uma ideia brilhante, mas parecia já estar recomposta, porque riu baixinho dirigindo-se a prateleira pegando alguns pratos.
- Não, , nossa primeira vez não vai ser assim, desculpe – Ela respondeu dando de ombros e ele lhe lançou um olhar ameaçador, parecendo se dar conta de algo.
- Você me provocou – Ele acusou e fez uma expressão chocada e ultrajada, embora estivesse fingindo.
- Eu? Você acha que eu não fiquei na vontade também?
- Ficou? – Ele perguntou maliciosamente e sentiu-se despida de repente. O olhar que lhe lançava era sujo da cabeça aos pés e ela adorou aquilo. De repente, uma tensão sexual absurda se instalou entre eles. Era palpável. Fez com que toda insegurança que havia sentido nos últimos dias se tornasse uma grande piada. Ela era desejada. A julgar pelo volume das calças de , era muito desejada.
- Bastante, mas... – Ela respondeu dando de ombros e deu um risinho, sentando-se na bancada, abrindo a caixa de pizza com uma expressão que dizia “bom, se não tem jeito...”
Enquanto comiam entre risinhos e brincadeiras, um pensamento pareceu ocorrer a .
- Você vai estar desbotando no final de semana também? – Perguntou fazendo ter uma crise de risos tão grande que engasgou com alguns pedaços de pizza.
- ...? Que ridículo, desbotando? – Ela perguntou tossindo e ele deu de ombros, mordendo mais um pedaço da sua pizza entre risinhos. Um dos males de namorar com seu melhor amigo: aturar as piadinhas.
- Responde.
- Bom, não, não vou mais estar. – Ela respondeu ruborizando mais uma vez ao receber o olhar malicioso de – Por quê?
- Bom saber. Vou te sequestrar. Faça as malas, vamos viajar – Ele respondeu de repente e o sorriso de iluminou, assim como sua imaginação.
O resto da noite passou com risadas, brincadeiras, beijos e conversas mal intencionadas que deixavam arrepiada em expectativa. Mais tarde naquela noite, enquanto preparava-se para dormir depois de precisar ir embora para trabalhar cedo, flagrou-se já sentindo saudades dele. Abraçou-se entre os lençóis feliz e empolgada por sentir o cheiro dele ainda em seu corpo.
Seu coração estava em paz, sua consciência estava limpa e seu corpo estava em chamas. Se essa não era a definição de felicidade que Dr. Parker quis dizer, então ela não saberia dizer qual era.


Capítulo 10


[N/A: Aconselho colocarem para carregar Never Be Alone – Shawn Mendes]

- Eu só acho que seria uma ideia brilhante me contar para onde estamos indo. – falou recostando-se no banco do carona, observando a paisagem campestre ficando para trás conforme o automóvel acelerava. Estavam viajando há algumas horas, depois de lhe implorar para trocar alguns horários no trabalho para que pudessem sair ainda na sexta-feira, o que ela não pôde recusar. Não era todo dia que ele estava disponível e fazendo questão de passar um final de semana inteiro só com ela, sem ocupações, sem segredos, sem mistérios. Era quase como um sonho.
- Não acho. Prefiro que você relaxe e se deixe levar. – respondeu alegremente e podia jurar que jamais tinha o visto em tamanho bom humor. Ele estava particularmente radiante hoje, o que contribuía consideravelmente para sua aparência, visto que ele estava mais bonito do que nunca na visão dela.
Observou o rapaz ligar o rádio com uma das mãos, enquanto a outra segurava firmemente o volante, admirando os traços do corpo dele. As veias saltadas pelos braços, os sinais pelo pescoço, o traço do sorriso... Céus, como ele era lindo! E como estava apaixonada! Sorrindo sozinha, demorou a perceber que tinha escolhido uma estação até ouvir a voz de Kelly Rowland ecoar pela cabine do carro.
- Tá de brincadeira? – falou numa risada debochada e aumentou um pouco o volume – , essa música é brega.
- Re.la.xe.
- Como eu posso relaxar se estamos viajando há horas, eu não sei pra onde, Kelly Rowland está cantando e você me ignorando? – falou, aumentando o tom de voz a cada segundo, visto que a medida que ela falava, aumentava o volume, rindo até fazê-la bufar irritada cruzando os braços.
- WHEN LOVE TAKES OVEEEEEEEER, YEAAAAAH, YOU KNOW YOU CAN’T DENYYY!!! – berrou entonando numa voz fininha quase estourando os tímpanos de , que fechou os olhos numa careta, enquanto balançava a cabeça em negação, incrédula.
- , essa música é ridícula, pare com isso. – reclamou quando sentiu o som estrondar no carro, mas não lhe deu atenção.
- Give me a reason, I got know, do you feel it toooooooo? – Ele cantou um trecho da música apontando para ela, fazendo caras e bocas que logo arrancaram um sorriso dela, a contragosto. Como era possível birrar com qualquer coisa que fosse quando ele estava em tamanho bom humor?
- Para de ser idiota, diz pra onde estamos indo. – revirou os olhos e abaixou um pouco o volume, mas logo tratou de aumentar novamente, dessa vez dando pulinhos no banco do carro, berrando a plenos pulmões. Ela nem conseguia entender como ele sabia a letra da música, visto que Kelly Rowland não fazia nem um pouco o gosto musical dele.
- And I-I-I-I-I-I-I’ll be loving you all the timeee continuou cantando empolgado apontando para enquanto o fazia – Cause I-I-I-I-I-I-I want to make this right, with yoou.
A essa altura não conseguia mais refrear a risada. conseguia ser tão bobo as vezes. Em momentos como esses, ele conseguia fazer com que ela se sentisse de volta ao ensino médio, cantando a caminho da escola ou fazendo alguma palhaçada em sala de aula. Aquele era o seu melhor amigo de quem tanto sentira falta. O palhaço, bobo, capaz de lhe arrancar os melhores sorrisos e gargalhadas.
- Você é bobo. – Ela revirou os olhos sorrindo, apenas gargalhou e abaixou o volume, a medida que a música ia chegando aos acordes finais – E está bem humorado – Ela notificou vendo-o balançar a cabeça, jogando os cabelos para trás, sorrindo radiante.
- Claro que estou bem humorado. Estou viajando por um final de semana inteiro no campo com você, sem trabalho, sem nada, só com você. – respondeu sorrindo alegremente como se aquilo fosse óbvio.
- Ahá, então não estamos indo para praia! – apontou para ele com as duas mãos como quem desvenda um mistério insolúvel, uma criança depois do caça tesouros. apenas revirou os olhos por baixo dos óculos escuros e continuou sorrindo.
- Ora, ora, Sherlock Holmes. – debochou e lhe mostrou a língua – O meteorologista não tem sido muito otimista em relação a sol, então acho que era óbvio que não iríamos para praia, embora você ache que isso é bem minha noção de como curtir com sua cara – debochou, a voz carregada de acusação que ignorou deliberadamente.
- Não custava nada me dizer mesmo assim, ajuda na hora de fazer as malas. Mas, que bom, me empacotei para o certo – mostrou um sorriso sem dentes, visivelmente orgulhosa de si mesma enquanto observava dar de ombros.
- Não achei que fosse importante saber. Pelo menos pra mim não importa muito o lugar desde que eu esteja com você.
abriu e fechou a boca pensando em responder alguma coisa, mas silenciou todas as vezes. Nada que ela dissesse nesse momento seria relevante para lhe responder a altura. Ele não era muito de quem demonstrava sentimentos o tempo todo, então qualquer pequena demonstração já era muito bem vinda. Aquele momento ficaria gravado na memória de como uma das coisas mais fofas e espontâneas que ele já tinha dito na vida.
afastou um pouco o cinto de segurança e inclinou-se para aplicar um beijo na bochecha de , roçando seu nariz de leve contra a pele da bochecha dele, que inclinou um pouco a cabeça lhe lançando um olhar enviesado e ela sorriu, logo sendo imitada por ele. beijou seu rosto novamente e encostou a cabeça em seu ombro, mostrando que dali em diante ia deixar de ser birrenta e se comportar direitinho.
Afinal, tinha razão. Para que se preocupar? Era sexta-feira a tarde, não estavam trabalhando, não teria aula, estavam juntos... estavam juntos. Eram argumentos o suficiente. Fazia um clima outonal com um leve frio gostoso e continuaria assim, com um bom pretexto de ficarem grudados o tempo inteiro para se aquecer. O que poderia ser melhor?
As horas foram se passando conforme a paisagem ao redor deles ia se modificando. se oferecera para dirigir algumas vezes, mas continuava tranquilo sob o volante enquanto ela era encarregada das comidas e da playlist. Divertiram-se comendo batatas fritas e vez ou outra cantarolavam juntos suas músicas favoritas relembrando alguma coisa de anos atrás.
- E aí teve aquela vez na festa do Luke que você comeu dez cachorros quentes de uma só vez só para impressionar a Lolla que nem se quer te deu um beijinho. – ria freneticamente recordando o episódio em que apostara com um amigo para beijar uma menina que lhe deu um fora.
- Você diz isso, mas estava doida para me beijar – respondeu com uma expressão convencida que logo rebateu.
- Até queria, mas você era idiota demais na época para perceber que eu era a mulher da sua vida.
- Ah, eu que era idiota? Eu dei em cima de você em todas as oportunidades que tive e você arregou, ARREGOU SIM. – Ele berrou quando ela tentou interromper – ARREGONA COVARDE.
- Eu não era arregona, cala a boca. – estapeou o ombro de que se encolheu rindo – Você que era retardado e não conseguia manter sua boca quieta.
- Você não me queria! – exclamou defendendo-se e apenas revirou os olhos – Quer dizer, até queria, agora eu sei que você se mordia de vontade de me beijar, mas era covarde demais para dizer.
- Eu não era covarde! – exclamou irritando-se de repente e lhe lançou um olhar de lado como se dissesse “Ah, para, né”. – Eu só não queria ser mais uma pra você.
- Mais uma? , eu era doido por você.
- Eu não tinha como saber disso. – Ela respondeu ajeitando-se desconfortavelmente no carro. Falar sobre aquilo ainda a deixava um tanto quanto incomodada, mesmo que estivessem finalmente juntos.
- Claro que tinha como saber, todos nossos amigos falavam. – respondeu como se aquilo fosse óbvio – Mas, sério, me explica porque você nunca me disse nada.
- Ai, será que não é óbvio? Eu me sentia insegura, – confessou a contragosto e franziu o cenho, pronto para interromper em deboche quando ela completou. – E eu tô falando sério.
“Você sempre foi bonito, sempre chamou atenção. E eu sempre gostei de você, sempre tive medo de contar e perder nossa amizade. Medo que, se por um milagre divino você me quisesse também, algo entre a gente não desse certo e nossa amizade acabasse e afetasse nossa relação com os outros, como aconteceu anos mais tarde com a e com o . Eu achava que você só queria me dar uns beijos como dava em todas as outras meninas. Nunca imaginei que comigo pudesse ser diferente. Nunca achei que eu fizesse seu tipo”.
- Meu tipo? – perguntou confuso num tom de voz mais sério. De repente, a conversa parecera ficar mais intensa e ele passou a entender a veracidade daquelas palavras e sentimentos. Nunca imaginaria que era, no fundo, uma pessoa tão insegura, o que era estranho, ela sempre fora sua melhor amiga, achava que conhecia e sabia tudo sobre ela.
- É, aquelas meninas mais desinibidas, engraçadas, extrovertidas. Eu nunca me senti feia até passar a conviver com as meninas que você namorava. Todas eram tão... exóticas, diferentes, pareciam ter algo a mais. E eu achava que de certa forma eu não seria o suficiente. – confessou, sentindo-se desconfortável e aliviada ao mesmo tempo. Desconfortável, porque era chato falar sobre aquilo e aliviada, por finalmente poder se abrir com daquela forma.
- ... Eu não fazia ideia. – respondeu baixinho e apenas sorriu, concordando com a cabeça murmurando um “eu sei”. – Você não tinha que se sentir insegura. Você é linda, sempre foi linda. Além de ser inteligente e esforçada, você sempre chamou atenção dos caras na escola, sabe disso.
- Nunca fui a que tem mais pretendentes, mas tive uns e outros no meu pé sim. – falou como se aquilo fosse um fato sem importância – Mas não era a mesma coisa. Eu me sentia errada por te amar daquela forma e era horrível para mim te ver com outras pessoas.
- Eu sei como é o sentimento – murmurou entredentes referindo-se aos namorados de e em especial, a Brandon, com quem ela fora morar junto certa vez.
- Mas isso é passado agora – respondeu dando de ombros, evitando aprofundar-se no assunto. Mas era tarde demais, já estava absorto em pensamentos, todas aquelas confissões eram novidade para ele.
- Me desculpe se eu, de alguma forma, te fiz sofrer e se sentir inferior. Eu nunca tive intenção – Ele pediu sinceramente, sentindo-se infeliz de repente. sorriu e aproximou-se para lhe dar outro beijo na bochecha, mas dessa vez não retribuiu o sorriso.
- Deixa de ser bobo. Está tudo bem agora. Eu sei que você me ama, é louco por mim, sempre me quis e bla bla bla. – disse voltando a se sentar normalmente no banco do carona observando esboçar um sorriso mínimo – E eu tomei coragem, não tomei? Tá tudo bem.
- Como está indo na terapia? – perguntou de repente e lhe lançou um olhar confuso; – É, como tem sido, tá gostando?
pensou um pouco sobre o assunto, sentindo um balde de água gelada escorrer por sua garganta e congelar seu interior – o sentimento característico que tinha nas sessões com Dr. Parker, de quem ela preferia não recordar no momento.
- Tá tudo bem. – Respondeu dando de ombros.
- Eu te amo e quero te ver feliz. Sabe disso, não sabe? – perguntou num tom de voz enigmático que fez se retrair. Ah, não. Maldita hora que entraram naquele tópico de conversa. Queria seu animado de volta.
- Sei sim. E você sabe que é recíproco, não sabe? Então porque tá com essa cara? – respondeu esticando o canto da boca de pra cima, forçando um sorriso, o qual ele deu a contragosto. – Se você não sorrir, eu não vou te dizer o tamanho das calcinhas que eu trouxe.
E logo voltou a sorrir largamente, afastando aquele assunto de uma vez, voltando a ser animado e divertido como há minutos atrás.

***


- Ei, acorda... , chegamos.
despertou de um cochilo ao ouvir a voz de lhe chamando calmamente enquanto sacodia seu ombro com delicadeza. Não lembrava em que ponto da viagem acabara dormindo, mas quando deu conta, já estava babando contra o vidro gelado do carro.
- Ops, cochilei. – falou numa voz sonolenta, espreguiçando-se no carro e observando atentamente em volta – Onde estamos?
- Em Lake District, vamos ficar na casa do lago dos meus tios. Eles não estão por aqui e me fizeram essa gentileza – respondeu já saindo do carro e o acompanhou, sentindo a brisa gelada bater contra seu rosto, pinicando seu nariz e seus lábios – Bem-vinda a Ambleside, já conhecia?
percorreu os olhos pela paisagem deixando um sorriso abobalhado escapar a medida que girava o corpo em 360º, observando tudo em volta. Estavam em frente a uma casa de pedra com uma construção antiga em tom medieval, arrodeado de troncos de árvores com algumas folhas amareladas, o chão coberto delas. Em frente a casa, por trás dos galhos das árvores, podiam ver o contorno de um lago enorme, refletindo as luzes do sol fraco que estava quase se pondo.
- Nunca vim aqui, parece tão aconchegante – disse ainda sorrindo enquanto esvaziava o carro com as malas.
- Da varanda de cima dá para ter uma visão muito bonita do lago, espere só para ver. – disse sorrindo e logo correu em seu auxílio para cuidar das malas.
esteve atenta a cada mínimo detalhe da casa quando entraram para se acomodar. Desde a construção até a decoração da mobília, que mesclava o simples e o sofisticado, dando um contraste perfeito a casa, que parecia tão aconchegante por dentro quanto era por fora. Subiram até a suíte para guardar as malas e enquanto abria a porta da varanda, sentiu um frio percorrer sua espinha e borboletas frenéticas farfalharem as asas no seu estômago. Uma cama de casal de dossel ornamentava o quarto que tinha tons de bege e vinho.
- Vem ver – Escutou a voz de lhe chamar e foi em sua direção, contemplando maravilhada a vista do enorme lago pela sacada da varanda.
- Que lugar incrível! – exclamou e acompanhou seu olhar sorrindo satisfeito pela reação dela.
- Quer dar uma volta no lago? O sol vai se pôr já já, depois nos acomodamos direito. – Ele propôs e concordou com a cabeça animadamente.
Depois de pegarem uma manta grossa contra o frio e trocarem os sapatos por botas mais quentinhas, andaram juntos pela trilha entre árvores até o lago, conversando animadamente sobre a região, dando updates sobre a localidade e fazendo planos para o dia seguinte.
Quando chegaram perto das margens do lago, pôde notar o sol já enfraquecendo no céu, o tom alaranjado era refletido nas águas calmas a sua frente e os pássaros voavam para longe. A frente deles, algumas crianças corriam por um píer onde pequenos barquinhos estavam parados. A vista era incrível e não podia estar mais feliz.
- Vamos tirar uma foto, quero eternizar esse momento – Ela disse de repente, tirando o celular do bolso e juntando-se a numa selfie que acabou se tornando trezentas, visto que agora ela se entretinha em tirar foto de cada centímetro daquela vista. Queria lembrar daquele momento para sempre.
- Vem cá. – chamou depois de um tempo, sentando-se no chão e cobrindo-se com a manta, chamando para se aninhar ao seu lado, ao que ela aceitou de bom grado.
- Então, gostou do lugar? – perguntou esfregando sua mão no braço de , aquecendo-a por baixo da manta grossa em que estavam cobertos observando-a assentir e sorrir meigamente em resposta.
- É lindo!
- Sabe, para mim ainda é difícil acreditar que você é minha... namorada. confessou de repente, fazendo com que lhe lançasse um olhar de esguelha virando o rosto para poder encara-lo melhor. – É, eu achei que tinha te superado.
- Eu nunca achei que tivesse te superado – respondeu com um sorriso calmo, recordando-se sem dor alguma dos últimos anos – Nem mesmo quando eu estava com o Brandon. Eu gostava dele, gostava do que tínhamos, mas na minha cabeça, em todo momento parecia faltar alguma coisa.
- O que, por exemplo?
- Não sei te dizer o que, só achava que não era o suficiente, que não era o máximo que eu podia chegar, que não era o máximo que eu podia sentir. E ainda estando com ele, eu sentia ciúmes de você com outras. Não tanto quanto antes, acho que meu amor por você acabou se tornando diferente. Eu queria que você fosse feliz, comigo ou sem mim – confessou dando de ombros ainda com o sorriso singelo no rosto, sendo milimetricamente observada por que ainda passava a mão sob o seu braço – Mas aí quando o Brandon foi embora e você também... Foi como uma avalanche...
- Me desculpe por ter te feito sofrer com meu sumiço – disse baixinho e dessa vez o encarou enquanto ele desviava o olhar vagamente pelo lago – Eu precisava sair, me encontrar, minha vida estava um caos e eu não tinha com quem conversar, me sentia perdido.
- Por quê? Você tem a mim, sempre teve a mim. E o , o , as meninas...
- Eu sei disso. Mas eu senti que precisava ser sozinho – respondeu num tom de voz enigmático que fez se arrepiar por um momento. Lá estava novamente aquele traço obscuro da personalidade de que criava mil barreiras e muralhas entre eles, entre os sentimentos do homem que ela tanto amava. Queria que se abrisse com ela, queria entender o que tinha acontecido e o que ainda acontecia para torna-lo tão amargo as vezes. – Não quis te magoar.
- Espero que um dia você confie em mim o suficiente para se abrir comigo – comentou tristemente observando desviar o olhar do lago para encara-la um tanto quanto confuso e chocado.
- Eu confio em você.
- Então por que eu sinto que existem tantas barreiras entre nós? – perguntou ainda com o tom de voz triste e desfez sua expressão chocada, olhando para ela como se quisesse muito dizer alguma coisa, mas não pudesse.
- Eu confio em você mais do que em qualquer outra pessoa na vida – respondeu com veeminencia – Mas existem coisas que eu prefiro guardar só pra mim... Por enquanto.
- Por enquanto – repetiu e resolveu não se aprofundar mais no assunto. Aquele era o máximo que sabia que podia chegar naquele dia. Tinha conversado tanto com , tinham desabafado sobre tantas coisas, não queria pressiona-lo e acabar estragando tudo. Quando ele se sentisse confortável, diria. Enquanto não mentisse mais para ela tudo estava bem.

Estava sendo uma noite muito agradável.
Depois de assistirem ao pôr do sol na beira do lago, resmungou de frio e eles retornaram para o interior da casa, onde se empenharam em arrumar as malas e desbravar o interior da cozinha. Não sairiam para jantar fora hoje, porque prometera cozinhar uma receita de massa italiana que adorava e sentia saudades. Cozinharam juntos por um tempo, entre risadas e zoações, vez ou outra cantarolando baixinho alguma música que tocava na rádio.
Quando o cheiro de manjericão e molho de tomate tomou conta da casa, se sentiu faminta de repente, as batatas fritas pareciam ter sido comidas há anos atrás. tinha subido por alguns minutos para tomar banho enquanto limpava a bagunçava que haviam feito na cozinha.
- Bom, como estamos sem mesa, vamos improvisar no chão mesmo – disse entrando na cozinha de repente, cheirando a sabonete e loção pós barba. riu enquanto secava as mãos no pano de prato, lançando um olhar para o rapaz que terminava de vestir uma camisa cinza de algodão, sacodindo os cabelos molhados.
- O chão me parece ótimo, mas está por sua conta. Vou subir para tomar um banho, estou imunda – sentenciou e subiu em disparada para o quarto no andar de cima. Ao abrir sua mala, sentiu o coração acelerar freneticamente em expectativas notando sua nécessaire de lingeries.
Há muitos anos imaginava como seria o dia em que finalmente ela e seriam como um só. Mas, assim como todo relacionamento com ele, nunca havia passado de meras cenas ilusórias na sua mentalidade fértil e apaixonada. Agora, no entanto, esses devaneios estavam muito próximos da realidade e ela se sentia nervosa e a flor da pele a cada segundo. Sentia-se como se fosse virgem novamente tamanho era o seu nervosismo.
demorou mais tempo do que o necessário no banho. Deixava as gotas quentes caírem sob seu corpo relaxando seus músculos retesados de tensão a medida que tentava acalmar seus batimentos cardíacos. Será que se sentia assim também? Nervoso, ansioso e a flor da pele? Era impressionante como era capaz de voltar a se sentir adolescente quando se tratava dele.
Depois de finalmente se secar, optou por um conjunto de lingerie preta de renda básica e um vestido solto de mangas cumpridas, porque ainda estava um pouco frio mesmo dentro de casa. Soltou os cabelos do coque malfeito do banho, borrifou algumas gotas do seu perfume favorito, hidratou suas pernas, passou um pouco de gloss nos lábios e checou sua aparência no espelho, parcialmente satisfeita com o que via. Estava simples, mas estava visivelmente feliz, o que dava um upgrade considerável no seu visual.
Enquanto descia as escadas rumo ao andar de baixo, sentiu seu estômago roncar de fome. O cheiro estava delicioso e exatamente como ela lembrava na adolescência. Conforme foi se aproximando da sala, percebeu que algumas luzes estavam apagadas, sendo refletidas apenas pela do corredor, por algumas velas que queimavam no chão e pelo intenso fogo da lareira, que tinha suas chamas crepitando fazendo o som que ela tanto gostava de ouvir.
- , o que você fez? – perguntou divertindo-se indo de encontro ao rapaz que estava sentado no chão sob o carpete, servindo duas taças do vinho tinto.
- Tentei ser romântico, mas não presto pra isso – respondeu rindo, sendo acompanhado por que sentava-se no chão a sua frente aceitando uma taça do vinho.
- Eu gostei, ficou conceitual – Ela respondeu brindando sua taça na dele enquanto observava o redor da sala mal iluminada mais aconchegante do que nunca a luz das velas e da lareira.
- Nossa, ficou muito bom – disse provando da massa – Eu estava inspirado!
- Você? Eu fiz a maior parte das coisas!
- Ok, você cortou algumas cebolas e lavou os pratos, parabéns – zoou e lhe ofereceu o dedo do meio, recebendo um beijinho estalado no ar em reposta.
- Mas ok, ficou bom mesmo. Senti saudades da sua comida. – falou espontaneamente e recebeu um olhar divertido de em resposta. Dando-se conta do sentido dúbio das suas palavras, abriu e fechou a boca algumas vezes ficando vermelha da cor de beterraba enquanto ria abertamente – Você entendeu, idiota.
- Eu não disse nada – Ele respondeu dando de ombros, baixando o prato já vazio, pondo-o de lado e bebericando mais uma taça de vinho enquanto esticava as pernas sob o carpete, sendo imitado por .
O resto do jantar se sucedeu da maneira mais tranquila possível. Era engraçado como e estavam em perfeita sintonia para um casal recém formado. Não perdiam assunto e mesmo nos momentos de silêncio, não se sentiam desconfortáveis. O clima entre eles era harmônico e em meio a zoações e carinhos, equilibravam a relação de melhores amigos e namorados. - Eu fico me perguntando se algum dia minha ficha vai cair – disse depois de algum tempo num silêncio confortável onde os únicos barulhos ouvidos eram do crepitar do fogo na lareira e dos seus próprios pensamentos. ergueu o olhar numa pergunta silenciosa – De que estamos juntos.
- Parece difícil de acreditar mesmo – Ele respondeu sorrindo, estendendo a mão num convite para que ela se sentasse ao seu lado como fizera mais cedo na beira do lago. Assim que se aninhou no seu abraço, beijou o topo da cabeça dela – Estou feliz por estarmos aqui.
- Eu amo muito você – respondeu, erguendo a cabeça de modo que pudesse encarar nos olhos e sorriu ao vê-lo esboçar o sorriso mais lindo que já tinha visto em toda sua vida.

[N/A: Coloquem a música para tocar!]

inclinou a cabeça de modo que seus lábios puderam alcançar os de , que já estavam prontos para recebe-lo. Trocaram um último sorriso singelo antes de suas bocas chocarem-se uma contra a outra, causando aquelas sensações tão conhecidas e ao mesmo tempo tão inusitadas.
O beijo, que começou tenro e gentil, passou a se intensificar a medida que suas línguas se chocavam sedentas pelo gosto uma da outra. mordeu o lábio inferior de e voltou a beija-la, dessa vez de forma mais intensa, de modo que seus corpos começaram a ficar inquietos e moviam-se involuntariamente. Uma das mãos de já estava entrelaçada no cabelo de e ela tentava abraça-lo da forma que podia. Com isso, afastaram-se assustados ao sentir o líquido gelado do vinho percorrer o pescoço de quando tentou abraçá-lo pela nuca, esquecendo-se completamente da taça que ainda estava em suas mãos.
- Ai, me desculpe! – disse ajoelhando-se afobada, repousando a taça próxima aos pratos, mas apenas riu baixinho retirando a camisa em seguida. arriscou um olhar para o peitoral nu do rapaz a sua frente e um calor não característico do vinho subiu por seu corpo quando lhe puxou para um abraço, ainda ajoelhados no chão de frente um para o outro, tomando seus lábios em outro beijo, que dessa vez começou mais intenso.
A medida que suas línguas brincavam uma na outra e perdiam cada vez mais o fôlego, acariciou as coxas de , deslizando suas mãos para cima, puxando o tecido do vestido no caminho, interrompendo o beijo para retira-lo de uma só vez. No entanto, antes que ele pudesse encarar o corpo dela por completo, o abraçou com força, colando seu corpo no dele, tomada por um misto de nervosismo e insegurança de repente.
- Ei, o que foi? – perguntou baixinho em seu ouvido e sentiu-se arrepiar por completo, ainda sem solta-lo do abraço apertado. O coração batia freneticamente no peito – Sou eu... Seu .
Sou eu... Seu .
relaxou um pouco o aperto no pescoço dele, sentindo seu rosto ruborizar completamente por estar tão despida na frente dele. Tão despida e tão insegura. O que ele diria do seu corpo? E se depois de tudo ele não gostasse? Amaldiçoava-se por sentir aquelas coisas num momento daqueles, mas não conseguia evitar. Assustou-se um pouco quando segurou sua cintura e inclinou o peso do corpo sob o seu, deitando-se por cima de si no chão.
- Você é linda – disse olhando-a nos olhos, usando a força dos seus olhos faiscantes e penetrantes. Uma das suas mãos que ainda estava pousada sob a cintura dela deslizou percorrendo a lateral do corpo até o rosto, onde acariciou uma bochecha com delicadeza, aplicando um beijo no local – E eu só quero olhar para você.
relaxou um pouco ao sentir se afastar a medida que seu olhar baixava percorrendo cada pedaço do seu corpo seminu com demasiada atenção. Com a intensidade do olhar, parecia querer gravar cada milímetro do que via, cada curva de , cada sinal, cada textura, cada pelo arrepiado de excitação a medida que ele retirava o próprio cinto e desabotoava o cós da própria calça, ajoelhando-se novamente ainda sem retirar o olhar do corpo dela, que a essa altura do campeonato, mordia o próprio lábio inferior analisando milimetricamente o corpo dele já exposto. Depois de livrar-se da calça, abaixou-se para percorrer uma trilha de beijos da ponta dos pés de até suas coxas, olhando-a diretamente nos olhos enquanto o fazia.
O encontro dos e derreteu por completo.
Ser observada por foi uma das experiências mais excitantes da vida de . Era indescritível a sensação que tinha ao ser milimetricamente analisada sob aquele olhar tão intenso e tão apaixonado. Era como se ele fosse capaz de enxergar sua alma, como se cada pedaço do seu corpo fosse a coisa mais bonita que ele tivesse visto na vida. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se a mulher mais bonita do mundo.
- Você é linda por inteiro – sussurrou baixinho subindo a trilha de beijos por sua barriga até chegar ao seu colo, onde distribuiu alguns chupões enquanto suas mãos hábeis deslizavam pelas costas da mulher, procurando pelo fecho do sutiã. – E eu quero você.
- Eu sou sua – respondeu e sorriu contra os seus seios em resposta, fazendo-a arquejar fechando os olhos sentindo o toque dos lábios dele contra sua pele, enlaçando seus dedos no cabelo da nuca dele.
- E eu sou seu. – respondeu antes de beijá-la novamente, sentindo a veracidade daquelas palavras.
Se outrora houveram dúvidas, naquele momento elas estavam sendo sanadas. Eles eram, de fato, o encaixe perfeito um do outro. De repente, tudo aquilo que parecia faltar com outras pessoas estava sendo encontrado naquele momento em que sentiam as mãos percorrendo ansiosas e sedentas pelo corpo um do outro, retirando as últimas peças de roupa que ainda usavam.
Embora a casa estivesse parcialmente aquecida pelo fogo da lareira, seus corpos estavam suados em chamas, extasiados demais para se privarem daquele momento tão esperado durante tantos anos. Exploravam o corpo um do outro sem pudores, ultrapassando limites e descobrindo novas sensações sob o toque tão preciso um do outro.
Sentiam-se mais felizes do que nunca tinham se sentido na vida e a certeza de pertencerem um ao outro era mais real do que nunca. Não precisavam de mais nada desde que estivessem juntos. Ali mesmo, no carpete da sala, entre gemidos e arquejos, sorriam involuntariamente a cada oscilação que os transformava finalmente em um só.


Capítulo 11


- Eu acho que bebi um pouco demais. – ponderou depois de um tempo, a voz um tanto quanto arrastada.
- Um pouco? Amor, você secou a garrafa de vodka praticamente sozinho. – , que estava sentada do seu lado no sofá, zombou.
Era uma noite friorenta de sábado e os amigos estavam atirados na sala da linda mansão de . A mãe da garota estava viajando e ela resolveu chamar os amigos para fazer uma social como nos velhos tempos. Após alguns shots e muitas risadas, se encontravam um pouco alterados falando alto e rindo de besteiras qualquer.
- Cara, eu tô é com fome! , pelo amor de Deus, o que tem pra comer aqui? – perguntou apertando a barriga em desconforto. Estava sentada no chão entre as pernas de Jeph, que lhe dava pequenos beijinhos no ombro. , há alguns metros de distância, bebericava sua cerveja calmamente lançando olhares furtivos para o casal que não parecia notar sua presença.
- A Dorothy fez cachorro quente, está na cozinha, já, já eu esquento. – respondeu enquanto tentava ler o rótulo da garrafa de tequila. Estava tão distraída que se assustou ao sentir o chute de , quase derrubando a garrafa no chão – Ai! Sua vaca, o que é? – Perguntou chocada.
- Eu estou com fome agora. – respondeu petulante, recebendo um olhar mortal em resposta.
- Meu Deus, que morta fome. Parece até que está grávida. – falou emburrada, porém já se levantando em direção a cozinha.
Os amigos foram surpreendidos com grunhidos e tossidas vindas de , que ao ouvir a sentença de , engasgou com sua cerveja. o fitou com intenso desprezo, reprovando intensamente sua reação, mas ele apenas continuou tossindo engasgado e ruborizado demais para dizer alguma coisa. Jeph permanecia impassível sem notar algo de errado na situação.
, , e trocaram olhares cúmplices no momento em que Jeph alisou a barriga de em tom de brincadeira.
- Até que daria uma grávida bonitinha, né? – Ele disse fazendo os amigos rirem desconfortáveis. sorriu amarelo e murmurou um “para, amor”, visivelmente desconcertada.
apenas se resumiu a virar de uma só vez o conteúdo da sua cerveja que ainda estava na metade. Se teria que aguentar aquilo, que pelo menos aguentasse bêbado.
Revirando os olhos e dando um suspiro ruidoso e cansado, se desvencilhou dos braços de Jeph e rumou até a cozinha com o pretexto de ajudar . , Scott e trocaram olhares e se levantaram também. Sabiam que na verdade aquilo era só um pretexto para evitar .
- Eu estou FARTA dele! – verbalizou no momento em que entraram na cozinha. , que estava logo atrás da amiga, passou um dos seus braços pelo ombro dela em sinal de conforto e compreensão.
- Calma, amiga. Dessa vez o não disse nada. – ponderou num tom de voz calmo e contido, tentando amenizar a situação. Sabia, no entanto, que tinha falhado miseravelmente quando recebeu o olhar fulminante de . Com uma careta, se afastou lentamente da amiga, dando-lhe tapinhas no ombro como quem foge de um cão raivoso.
- Não o defenda! – disse raivosa – Esse imbecil não precisa dizer nada para estar errado. Até calado ele faz merda! Eu não entendo! Queria ficar solteiro, ficou. Agora tá por aí fazendo carinha de cão sem dono, tendo reações exageradas toda vez que eu e o Jeph estamos juntos! – Desabafou tentando pôr tudo não gritar e chamar atenção dos meninos que estavam na sala. Porém, a tequila já estava elevada em seu organismo e sua voz saiu um pouco mais esganiçada do que de costume.
fez um “shhh” com a mão. Temia que Jeph escutasse algo referente ao assunto. Ainda não sabia que e eram ex namorados e esse não seria um bom momento para saber. Não enquanto estivessem todos bêbados.
- Relaxa, o está com o violão na mão e eles não estão dando a mínima para o que estamos dizendo. – Scott disse, dando uma olhada de relance na sala onde os meninos estavam reunidos. Todos riam de alguma palhaçada dita por e pareciam compor alguma música de bêbado. Tudo sob controle.
- Amiga, no fundo você sabe por que o está assim. – falou num suspiro cansado. Estava exausta de ficar no meio da guerra fria entre e .
cruzou os braços numa atitude de rebeldia e desafio, respondendo um “não sei”. revirou os olhos por mais tempo que o normal, estava visivelmente alcoolizada. conteve uma risada nasalada com a cena.
- Porque ele te ama e está se mordendo de ciúmes. E tá arrependido. – respondeu sem muita paciência – E não ajudou em nada você já ter engatado o namoro com outra pessoa tão cedo.
- Tão cedo? Você preferia que eu ficasse o que, sofrendo? – perguntou ultrajada.
- Não, não preferia. Mas você não sabe ser feliz sozinha? Tem que estar com um homem pra ser feliz? Sinceramente, você é capaz de dizer que gosta de verdade do Jeph? Está apaixonada por ele? Porque às vezes eu tenho a impressão de que você só está com ele para esfregar na cara do que você superou, quando claramente você não superou. – respondeu afiente e arregalou os olhos boquiaberta. arregalou os olhos e apertou com força o braço de que assobiou audivelmente. Scott, prevendo a briga, sentou-se na bancada da cozinha animado.
- Eu não acredito que você está dizendo isso! – exclamou ofendida e foi a vez de cruzar os braços e manter uma expressão de desafio.
- Tá, agora me diga que eu to errada.
- Você tá errada!
- Tá, então você não gosta mais do ? Você tá realmente feliz com o Jeph e está perdidamente apaixonada por ele?
pensou por um momento, visivelmente desconfortável e conteve um risinho convencido.
- Bom, não ainda... Mas tenho certeza que quase lá. – respondeu otimista e riu debochente.
- Tá bom.
- Porra, , você não torce por minha felicidade? Achei que gostasse do Jeph! – perguntou magoada e revirou os olhos mais uma vez.
- Eu gosto dele! E é lógico que eu torço por sua felicidade! Mas eu não tenho certeza se começar a namorar foi a decisão mais sábia. E se fosse o namorando com outra, como você se sentiria?
- Na merda! Porque eu não queria terminar. Mas ele queria, então por que tá se sentindo mal?
- Porque ele ainda te ama, né amiga? Ele queria ficar solteiro, mas não deixou de te amar de repente. – quem respondeu, se metendo na discussão, o tom de voz ameno como se estivesse explicando algo óbvio para uma criança.
- Ah, aí é muito fácil, né? Ele esperava o que? Que eu fosse esperar por ele a vida inteira? Quer dizer, segundo vocês, tá certo o querer ficar solteiro e negligenciar um relacionamento de anos em prol de algumas noites de farras, bebidas e mulheres, mas não é ok eu me envolver num novo relacionamento? – perguntou magoada e enraivada.
- Ninguém disse que o que o fez é certo. Só estamos dizendo que ele não deixou de te amar. – respondeu num tom de voz calmo, chamando atenção para si. – E honestamente, eu não te culpo por começar a namorar com o Jeph, ninguém pode julgar a forma que você teve de superar o relacionamento.
- Desde que isso não seja magoando outra pessoa... – disse.
- E eu tô magoando o Jeph? – perguntou desaforente e sustentou o olhar.
- Ainda não, mas você gostaria de estar namorando com uma pessoa que não está 100% envolvida com você?
- Vocês são defensoras oficiais do agora, é isso? O que é, estão com peninha dele porque ele enjoou da vida vazia de festas, badalação e tudo o mais? Pois eu quero mais é que ele se foda. – exclamou enraivada, vomitando aquelas palavras como se estivesse expurgando o mais puro veneno. As amigas e Scott se entreolharam sem saber o que dizer que não inflamasse ainda mais uma briga com o temperamento esquentado da amiga somado a boas doses de tequila.
- Pessoas cometem erros, . O foi imaturo, mas ele se arrepende e não sabe como te dizer. Não seja tão dura com ele, você sofreu, mas ele também está sofrendo agora. – disse num surto de piedade por . Sabia que ele tinha errado, mas sabia dos sentimentos do amigo.
- não sente minha falta, . Ele só está entediado e com o ego machucado porque eu encontrei outra pessoa que me queira e me deseje como ele não fez. Ele é homem e homem tem dificuldade em dividir as coisas. – disse de uma forma calma, que surpreendeu as amigas. Calma, porém, decidida. Todos ali sabiam que o assunto estaria encerrado no momento em que ela se calasse – O Jeph é maravilhoso e eu vou cuidar dele. para mim é sinônimo de passado. Ele que lide com a própria dor, eu não me interesso.
- Pois é, amiga. Pelo menos você tem um pinto para chamar de seu. E eu? Eu tô na secaaaaa. – Scott falou num tom de sofrimento fazendo as amigas rirem. Instantaneamente o clima da cozinha tornou-se mais leve.
- E eu? Eu não sei qual foi a última vez que eu tive um orgasmo com algo que não fosse o meu vibrador. – falou entre risos, porém ficou séria ao ponderar. – Eu preciso conhecer gente nova.
- Graças à Deus eu e o transamos dia sim e outro também. – jogou as mãos para cima em agradecimento e foi acertada em cheio por que lhe lançou um pão na cabeça. se assustou, mas ao perceber o que tinha acontecido caiu na gargalhada juntamente com as outras amigas.
- Até a desencalhou, é para glorificar de pé! – exclamou rindo para a amiga que agora zombava de comendo o pão que lhe fora acertado há instantes atrás.
Ao ouvir a frase de , deu de ombros com um sorriso satisfeito.
- Desencalhei com o amor da minha vida. – declarou simplesmente recebendo “awns” e pedalas, sentindo seus cabelos serem bagunçados por Scott.
- Fico feliz por você, amiga, não te aguentava mais daquele jeito ranzinza e mal humorado, parecia até a , cruzes! – Scott se benzeu, já se defendendo dos tapas de com uma colher de pau na mão, fazendo as amigas rirem.
- Mas nos conta, como anda o relacionamento mais esperado do século? Passaram o final de semana passado inteirinho juntos no campo... – começou com um sorrisinho cínico.
- Eu preciso de detalhes! Meus ovários estão em frangalhos! – Scott pediu animente batendo a colher de pau na palma da mão. ria tão freneticamente que engasgou com o pedaço de pão que ainda mastigava.
acompanhou a risada das amigas. Seu olhar furtivamente vagou à sala, parando em . Como ele era lindo! Estava agora com o violão na mão e cantarolava algumas coisas que e rabiscavam num papel. Ele estava calmo o semblante tranquilo dizia que estava divertindo-se intensamente com os amigos. Gostava de vê-lo assim. Tão lindo, tão tranquilo, tão dela.
Subitamente sentiu uma vontade incontrolável de atirar aquele violão longe e lhe arrancar todas as roupas.
No entanto, suspirou fundo e desviou o olhar da sala até as amigas que ainda estavam esperando por sua resposta.
- Está tudo muito bem. – Respondeu vagamente enquanto desviava o olhar de até Scott e as amigas que a olhavam cheios de expectativas. – Nunca gozei tanto em minha vida.
Ouviu os gritinhos animados e as palminhas dos amigos. “É disso que eu estou falando”, pôde ouvir Scott gritar e uniu-se a eles nos pulinhos e gritinhos sentindo-se imensamente boba, bêbada, apaixonada e feliz.
- E ESSE CACHORRO QUENTE NÃO FICA PRONTO NUNCAAAAAA? – Ouviram o berro de vindo da sala e aos risos se apressaram em servir a comida.

- , pelo amor de Deus, existem outras pessoas para comer ainda, sabia? – exclamou indignada, contemplando o rapaz abocanhar metade de um cachorro quente de uma só vez.
- Me eixa em az! – respondeu de boca cheia lançando um olhar de desprezo para a garota.
- Tenha educação pelo menos, seu cretino. – riu do outro lado da mesa, fingindo tapar os olhos enquanto ria, deixando algumas gotas de molho caírem pelo canto da boca cheia.
- Amor, deixa! Ele tá com fome. – Jeph dizia calmamente defendendo , que por sua vez, respondeu um “gado” enquanto dava uma sonora engolida.
- Jeph! Ele está comendo o quinto cachorro quente! Esse último inclusive era seu! – ralhou indignada, mas o namorado limitava-se a rir da cena.
- Fala a verdade, , você tá assim porque queria comer tudo sozinha. Relaxa, florzinha, sobrou pra você. – disse estendendo um pão para a garota que o fitava com uma expressão mista de choque e raiva. O choque dava-se por conta do ex namorado tê-la chamado pelo mesmo apelido que usava enquanto estavam juntos. Minha flor. O uso daquele apelido numa conotação tão irônica fez o coração de acelerar descompassente. Não que ela fosse admitir.
Num impulso, pegou o pão da mão de e em seguida deu-lhe um sonoro tapa na nuca.
- Vou comer mesmo, antes que você acabe com tudo e vá comer os rebocos das paredes.
poderia jurar que tinha visto a linha de um sorriso torto nos lábios da garota. Sentindo as entranhas fervilharem, se virou de volta para a mesa contendo um sorriso esperançoso.
- Nossos amigos são idiotas. – disse se aproximando de , que estava mais afastada sentada no sofá observando a cena entre risinhos.
- Muito! Mas eu gosto assim. – Ela respondeu deitando a cabeça no peito do namorado quando este se sentou ao seu lado, abraçando-a no sofá.
- É engraçado perceber como já fazem quase seis anos que terminamos a escola e, no entanto, ainda estamos todos juntos, fazendo as mesmas besteiras de sempre. – falou rindo baixinho ao observar a pequena guerra que se instalou na mesa para rasparem as últimas colheres de molho da tigela.
- Eu gosto de vê-los assim. Juntos. – disse, lançando um olhar carinhoso para os amigos. – Não sei te explicar, a sensação é de paz. Como se enquanto estivermos juntos, estaremos bem. Seguros.
A essa altura os olhos de estavam sob , a observava de canto de olho e admirava o sorriso bobo que brincava nos lábios dela. Ela estava visivelmente genuinamente feliz. Acariciou os cabelos da mulher com delicadeza, enquanto fitava seu rosto com calma.
Sabia que o que estava fazendo era errado. Sabia que se fosse esperto iria para bem longe, mas agora já estava envolvido até o pescoço. Até a alma, diria. Só de pensar em ficar longe de isso lhe causava uma dor quase insuportável. Ela era seu sonho realizado e sua maior fonte de paz e calmaria. Os últimos dias eram quase como se estivesse vivendo um sonho de tão bons que haviam sido. Desde que voltaram de viagem dormiram uma semana inteira juntos e mesmo com horas e horas de conversa, sempre parecia haver mais assunto para colocar em dia.
Ao perceber o silêncio de , se virou para o namorado e surpreendeu-se ao vê-lo a encarando com uma expressão tão intensa. Um olhar carregado de significados que ela não entendia.
- No que está pensando? – Perguntou olhando para de canto. Levou uma de suas mãos delicente até o rosto do rapaz, passando por suas bochechas. sorriu com o carinho e fechou os olhos momentaneamente. Quando os abriu, seu olhar faiscou na direção de .
e .
- Estava pensando em como eu te amo e no quanto você me faz feliz. – respondeu com uma voz baixa e rouca. , que antes tinha uma expressão confusa, deu lugar ao sorriso mais bonito e expressivo que já tinha visto na vida. Os olhos dela iluminavam.
“Puta merda, eu estou fodido”, pensou ao admirar aqueles olhos verdes que ele tanto amava e pelos quais estava perdidamente apaixonado.
- Que coisa boa de ouvir, meu amor!
- Eu te amo tanto, você não faz ideia... – continuou, seu coração parecia querer saltar da boca, o pressentimento tão ruim que o invadia num momento que deveria ser de pura felicidade. Só em pensar em se afastar dela...
- Me mostra então! – respondeu baixinho aproximando seus lábios dos dele, sentindo um formigamento agradável ao friccionar sua pele contra a dele.
entrelaçou sua mão que antes alisava o cabelo de na nuca dela, trazendo-a mais para perto, acabando de uma vez com a curta distância que havia entre eles.
O beijo começou lento, carinhoso, terno e afetuoso. Quase inocente. O beijo que quisera dar desde os treze anos. O primeiro beijo que simbolizava todo aquele sentimento até então tão confuso e tão culpado por sua melhor amiga. Conforme as línguas se acariciavam, sorriam entre o beijo pela pura felicidade de estarem juntos.
E todo aperto no peito tinha ido embora, todos os medos pareciam infundados. Tudo estava bem.
Conforme as línguas se chocavam, sensações mais profundas acometeram o casal, que começou a intensificar o beijo involuntariamente. brincava com a língua de na sua, e sua mão que antes acariciava o rosto do rapaz, agora estava emaranhada por entre os cabelos já bagunçados da nuca dele. Mordeu e puxou o lábio inferior de entre os seus e sorriu perversamente ao ouvi-lo grunhir baixinho enquanto apertava gentilmente sua cintura com a outra mão livre. soltou um gemido baixinho entre o beijo que fez todos os pelos do corpo de se eriçarem.
- Para. – Ele disse num sussurro partindo o beijo depois de um tempo sem fôlego. Mas era tarde demais, ele já tinha atiçado . Ela agora distribuía beijos e mordidas pelo pescoço do rapaz que se esforçava para manter o controle.
- , é sério. Nós estamos na sala, nossos amigos estão por perto. – continuou em uma voz fraca e fechou os olhos com força quando sentiu a mordida de no lóbulo da sua orelha.
Merda.
- A casa de tem vários quartos vazios. – falou num sussurro, observando com satisfação o pescoço de se arrepiar e o rapaz se levantar rapidamente a puxando pelo braço, fazendo-a rir baixinho.
Os amigos não perceberam a urgência e o desespero de e quando eles saíram às pressas da sala, subindo os degraus da casa de . e estavam bêbados demais para notar qualquer coisa. , Scott e fofocavam animente enquanto a essa altura Jeph e também já tinham sumido.
riu do desespero de quando chegaram no primeiro andar. Tateavam cegamente pelo corredor e ela tentava se concentrar em achar a maçaneta da porta com a abraçando por trás e dizendo as obscenidades mais excitantes que já tinha escutado na vida. Forçou a primeira porta, mas logo desistiu. Com dificuldade e quase tropeçando com o peso de sobre si, forçou a maçaneta da segunda que para seu alívio estava aberta.
O quarto de era enorme. Mesmo mal iluminado, exibia um charme indiscutível. Não tiveram tempo de reparar em maiores detalhes da decoração pois se beijavam com tanta ferocidade que não havia espaço para nenhum outro pensamento. logo ficou de frente para , empurrando-o com força contra a porta pela qual tinham acabado de entrar.
Questão de segundos depois, inverteu as posições, jogando contra a parede mais próxima. A essa altura estavam sem camisas e com as respirações ofegantes. segurou nos dois lados da coxa de e ela tomou impulso para que ele a suspendesse, cruzando suas pernas em cada lado do corpo dele. As mãos hábeis de subiam pelas costas de buscando o fecho do sutiã.
Se beijavam com ferocidade e volúpia, todo traço de carinho tinha sido deixado para trás. Estavam completamente em chamas. bagunçava os cabelos de enquanto ele cambaleava até a cama, onde jogou o corpo dela sem a menor cerimônia.
As mãos trabalhavam entre beijos, mordidas, palavrões e outras coisas ditas naquele momento de puro desejo. Não demoraram para estarem completamente despidos e arquejando com os corpos suados, movimentando-se em ritmo sincronizado.
Tampouco se importavam se os gemidos de iriam chamar atenção dos amigos. Esperavam que estivessem bêbados ou ocupados demais para se importarem.

- Isso, . Coloca pra fora mesmo. Melhor pra fora do que pra dentro. – dizia dando tapinhas no ombro de que vomitava freneticamente num balde. Estavam na sala jogando Just Dance bêbados quando começou a passar mal.
- Vocês precisam definitivamente começar a mastigar direito a comida de vocês. – falou, lançando um olhar de puro nojo para o conteúdo do balde em que estava debruçado há vinte minutos vomitando furiosamente.
Ouviram batidas abafadas vindo do andar de cima e algumas vozes distantes. Scott colocou as mãos nos ouvidos e gritou:
- PAREM DE ME MATAR DE INVEJAAA! – Assustando , que estava quase dormindo no sofá há poucos metros dali.
- O que? Hã? Quem tá matando quem? – Balbuciou confuso, os olhos vermelhos e injetados por conta do álcool.
- e , transando loucamente... No meu quarto! – falou derrotada num choramingo e Scott ofereceu o ombro para a amiga que fingiu chorar.
- Pode ser a e o Jeph também. – falou dando de ombros no mesmo instante em que foi acometido por outra crise de vômito incontrolável. Podiam jurar que tinham escutado um soluço no meio dos arrotos.
- e Jeph estão muito bem, obrigada. Os créditos são todos do e da . – disse sem emoção descendo as escadas com Jeph em seu encalço. – O que tá acontecendo? – Perguntou numa voz horrorizada ao ver encolhido no chão com um balde entre suas pernas.
- bebeu e comeu demais, tá colocando os bofes pra fora. apagou e Scott e estão com recalque do e da . – resumiu enquanto se dirigia a no canto da sala.
passou a mão na testa de , vendo o rapaz suar frio.
- , você está bem? – perguntou. Sua voz continha um misto de sentimentos. Preocupação, cansaço, raiva e pena. Com muito esforço, ergueu a cabeça para olhar a garota e respondeu num choramingo.
- ... Me desculpa! – podia jurar que tinha visto uma lágrima escorrer dos olhos do rapaz. – Me desculpa...
- Do que você tá falando, ? Vem, vamos levantar, você precisa tomar um banho. – disse calmamente se agachando para ficar de frente ao rapaz, sem aparentar se importar com o vômito a sua frente.
ergueu olhar para e ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao notar que ele estava mesmo chorando. Os olhos vermelhos lhe fitavam com tanta intensidade que ela sentiu vontade de quebrar o contato visual e sair correndo, mas não conseguiu. Não conseguia deixá-lo sozinho num momento como esse.
- Eu sou um idiota, eu sou um idiota. – falou repetidamente, embolando as palavras por conta da quantidade de álcool no seu organismo.
, Scott e se entreolharam apreensivos sem saber como proceder para evitar que uma saia justa acontecesse naquele momento de sensibilidade do amigo. Jeph estava alheio a toda a situação.
Não por muito tempo.
- Eu sou um idiota por ter te perdido, . Você foi a melhor namorada de todas. – sentenciou antes de vomitar no balde, deixando um clima tenso pairando no ar. Ninguém se atrevia a dizer uma só palavra. tampou os olhos com a mão num sinal de vergonha alheia, suspirou com a mão na boca pega no susto e Scott encarou Jeph profundamente em busca de alguma reação, mas ele parecia tão desnorteado como se tivesse acabado de levar um murro na cara.
Mas nenhuma expressão superava a de .
Muitas emoções pareciam ter passado pelo rosto dela naquele momento. Surpresa, vergonha, medo, raiva, frustração, tristeza... E angústia. estava angustiada.
- Cala a boca, , você tá falando coisas sem sentido, vem, você precisa tomar um banho e curar essa bebedeira. – Ela exclamou afastando o balde do alcance do rapaz, que parecia desolado demais para resmungar qualquer outra coisa que fosse.
- Do que ele tá falando? – Jeph perguntou calmamente, mas repreendeu nervosamente.
- Agora não, Jeph. Ele precisa da nossa ajuda. Depois, ok?
Num suspiro cansado, retirou uma mecha de cabelo de da testa suada, acariciando seu rosto com piedade – Vem, levanta. Jeph, uma ajudinha aqui, por favor?
Ela pediu e prontamente foi atendida pelo namorado, que apoiou o braço de por seus ombros, erguendo-o.
- Vamos levá-lo para o banheiro. precisa de um banho e uma boa noite de sono. – disse num tom de voz pesaroso. Por mais que odiasse o rapaz, não podia deixá-lo naquela situação.
e Scott observaram a amiga subir as escadas arrastando consigo. A essa altura, os barulhos do primeiro andar já tinham cessado.
- Ca... ra... lho! – Scott sibilou assim que eles sumiram do campo de vista. – Meu Deus, que torta de climão, vocês viram a cara do Jeph? Meu Deus, coitado, descobrir assim.
- Você viu a cara da ? Cara, que foda! A até tenta evitar, mas ela ainda ama o . – disse alisando os cabelos de que dormia feito pedra no seu colo.
- Eu tô chocada até agora. Sabia que uma hora ou outra ia acabar dando nisso. Essa coisa deles conviverem próximos demais e a não contar para o Jeph que ela e são ex... – completou ainda desnorteada.
- Eles ainda vão ficar juntos, e . Eu tenho certeza e torço por isso. – disse se dirigindo para o balde que havia utilizado há minutos atrás com uma expressão de nojo. – Eca! Precisamos limpar isso... Como conseguiu vomitar isso tudo?
Scott se aproximou dando uma sacudida no conteúdo do balde.
- Hm... Deixe-me ver, aqui tem aproximente 750ml de salsicha – Scott ponderou depois de dar uma analisada no balde, o que fez com que e se contorcessem de nojo, embora estivessem rindo.
- Eca, Scott!!! – Disseram em uníssono jogando almofadas contra o amigo.

sorriu ao se aconchegar no peito nu de e sentiu seu coração acelerado e aquecido. Ainda não estava acostumada com a sensação maravilhosa de ouvir o coração dele. Tão entregue, tão apaixonado e tão seu. Se aninhou preguiçosamente no abraço do namorado, sabendo que não trocaria aquele momento por nada nesse mundo.
passava a ponta dos dedos pelas costas nuas e levemente suadas de , repousavam tranquilamente depois do descarrego de energias.
- Dessa vez nos superamos. – Ele disse depois de um tempo fazendo rir.
- E quando não? Nos últimos dias estamos parecendo um casal de coelhos.
- É para tirar o atraso. – riu beijando o topo da cabeça dela que fazia desenhos invisíveis no seu peito. Ao sentir o beijo, desceu a mão pelo tronco do rapaz.
- E que atraso é esse que eu não me canso de tirar? – Ela disse maliciosa acariciando o namorado que riu abertamente. Apesar de estar no clima, se afastou, levantando da cama.
- Já que você quer um segundo round, preciso parar no pit stop. – Ele disse divertidamente, enquanto corria para o banheiro. – Guarde esse pensamento!
- Vem logo, vou começar sem você! – falou rindo, virando de lado e abraçando o travesseiro que estava sob o lugar de .
Era incrível como há uma semana atrás estava insegura sobre sexo e agora, no entanto, não conseguia se desgrudar dele um só instante. Pareciam tão íntimos até mesmo nesse aspecto em tão pouco tempo. Não sentia mais nenhuma vergonha dele.
Estava tão feliz!
Foi interrompida dos seus devaneios apaixonados pela vibração de um celular vindo de algum lugar próximo. Tateou até encontrar no chão o celular de que piscava o visor anunciando uma chamada.
Juanita.
Nesse momento, o coração de pareceu saltar. Todo seu sangue parecia ter sido drenado do corpo e um líquido gelado escorreu por seu corpo, fazendo-a tremer dos pés à cabeça. Eram 02h45 da manhã. Quem era Juanita e o que ela queria com àquela hora?
Em meio ao seu nervosismo, analisou suas possibilidades rapidamente. Questionaria a respeito daquela ligação? Brigaria, faria um escândalo de ciúmes e exigiria saber a resposta? Quem era aquela mulher e o que ela queria ligando uma hora daquelas? Uma ex namorada?
Mas podia ser mais do que isso. Algo na intuição de pareceu apontar para a possibilidade daquilo ter algo a ver com os segredos que tanto escondia. Num impulso incontrolável, rejeitou a ligação sem pensar direito sobre o que estava fazendo. Enfiou o celular de volta no bolso da calça dele e virou-se na cama a tempo de ver sair do banheiro e caminhar inteiramente pelado em sua direção.
Mas estava pálida e nervosa demais para corresponder imediatamente.
- O que foi? Tá tudo bem com você? – perguntou preocupado e sorriu amarelo, desviando-se dele com o pretexto de ir ao banheiro.
- Tô sim, só um pouco apertada também, já volto. – Ela respondeu, correndo até o banheiro.
Fechou a porta com delicadeza e olhou-se no espelho mirando seu reflexo apavorado. O que faria? Seria honesta e perguntaria diretamente quem era aquela mulher e o que queria àquela hora? Não, ele provavelmente não responderia.
Não passava por sua cabeça a possibilidade de estar sendo traída. estava tão entregue e tão devoto por ela que isso não fazia o menor sentido. Algo dentro de si lhe dizia que talvez Juanita fosse uma chave para entender todo o mistério que rondava a vida de ultimamente. E queria saber o que era, estava atormentando seu juízo e atrapalhando sua felicidade.
Não diria nada. Estava decidido. Se não queria lhe dar as respostas por boa vontade, ela iria atrás delas sozinha.
Suspirou fundo, ajeitou o cabelo e tratou de colocar o melhor sorriso para disfarçar seu nervosismo ao sair do banheiro.
- Onde estávamos?


Capítulo 12


- Juanita? Do tipo mexicana?
- Sim, Juanita. Não faço ideia se era mexicana.
- Mas de onde será que ele conhece ela?
- Eu não sei, .
- Você não vai perguntar?
- Será que é alguma ex namorada dele?
- , você não está ajudan...
- Shhhh, o tá vindo ai!
, e cessaram os cochichos pressurosos e voltaram as posições normais enquanto fingiam olhar o cardápio uma da outra, mas na verdade com o pretexto de ouvirem o que tinha a dizer sobre a tal da Juanita.
Uma semana já havia se passado desde o episódio na casa de e desde então e não tinham se visto. Esses últimos dias estavam sendo particularmente corridos na vida de ambos e embora conversassem o tempo todo por telefone, ainda não tinham se encontrado pessoalmente, o que deixava ainda mais confusa.
Confusa e um tanto quanto paranoica a respeito, compartilhou com as amigas sobre a ligação do último sábado e aproveitou para ouvir as opiniões delas, precisava de uma luz e de conselhos sobre o que fazer. Mas não queria falar sobre o assunto com .
- , vocês precisam repor os papéis higiênicos do banheiro masculino – disse quando regressou para mesa em que as amigas esperavam.
- Não sei se te agradeço por me avisar, ou se te bato por sua audácia – respondeu risonha e ergueu as mãos falsamente ofendido.
- Eu estou tentando te ajudar! Como é que a gente paga fortunas num bistrô caro desses e nem papel higiênico tem no banheiro?
- No caso, você não paga nada. Então deveria ficar calado. – disse contendo um risinho e concordou com um aceno de cabeça enquanto se limitava a rir.
- Ainda bem, de que adianta ter uma amiga rica dona de um bistrô e não comer de graça? – defendeu-se.
- No caso, a dona é a minha mãe, então eu não sou rica, apenas uma reles funcionária – respondeu bem humorada.
- Por falar em funcionário, cadê o Scott? – perguntou revirando o olhar pelo ambiente a procura do amigo.
- Estou aqui, pikachu, vim perguntar se já escolheram os pedidos de vocês. – Scott se materializou ao lado dos amigos fazendo uma careta estranha.
- Ué, por que você tá de garçom? – perguntou confusa.
- Por que o Dave inventou de passar mal e cá estou. – Scott resmungou olhando com cara de poucos amigos para que riu levemente. – Não quero servir vocês, queria sentar e fofocar junto. Podem pedir, mas saibam que vou cuspir na comida. – Ele complementou fazendo os amigos rirem.
- Eu quero um... – começou, mas foi interrompida pela voz de , que saiu horrorizada ao mirar a porta principal do restaurante.
- Aquela é a ? – Ele perguntou desconfortável apontando com o queixo para uma mulher que entrava no recinto acompanhada de um rapaz alto e esbelto – Com o Jeph?
Era perceptível no semblante de que ele estava nervoso e completamente desconfortável ao encarar a ex namorada adentrar o restaurante com seu novo namorado em seu encalço. Tinha sido absurdamente constrangedor para ele saber tudo que havia feito no último final de semana quando tinha ficado bêbado.
acordou de cueca embalado nos edredons de um dos quartos de hóspede da casa de , com dor de cabeça e sem memória alguma da gafe da noite anterior. É compreensível o choque que ele tivera ao descobrir que além de ter se declarado para a ex namorada que atualmente o odiava, ele também tinha feito tudo isso na frente do atual namorado dela, que apesar dos pesares, era um rapaz gentil que não merecia ser enganado.
até tentou falar com , mas ela tinha ido embora cedo com Jeph na manhã seguinte. Ligou algumas vezes e deu caixa, mandou mensagens que não foram respondidas. Soube através dos amigos que Jeph – em sua imensa compaixão – compreendeu a situação e continuou com ela normalmente. Mas, para todos os efeitos, e pelo que ele soube por livre e espontânea vontade de , ela agora evitaria deliberente todos os ambientes em que ele estivesse.
Isso significava retirar os amigos de uma vez por todas do meio de um fogo cruzado que era a relação de amor e ódio entre e . Mas também significava que precisariam se equilibrar em manter contato com os dois sem deixar ninguém magoado. O que obviamente não estava dando muito certo.
Quando focalizou os amigos sentados na mesa, seu sorriso murchou instantaneamente. Não fora convidada para esse almoço. Nem se quer sabia que estavam juntos. Estava passando por perto do bistrô e resolvera passar para dar um alô a Scott e , mas no entanto se deparava com suas amigas e .
Era difícil dizer quem estava mais desconfortável entre e . Jeph, no entanto, parecia levar a situação com mais maturidade do que o normal.
- Oi, meninas! Oi, Scott! E ai, , beleza? – Jeph cumprimentou educente as pessoas da mesa, o que fez aumentar a vontade de de se esconder num buraco para sempre. Ele tinha se declarado para a namorada do cara e ele estava ali lhe cumprimentando com educação e simpatia! Não merecia isso. Jeph era um cara legal.
- Oi, Jeph! Oi, ! – cumprimentou sondando uma expressão no rosto de , que parecia completamente desnorteada. Sabia que não podia cobrar dos amigos um convite: ela deixara bem claro que não queria fazer parte de programações em que estivesse incluso. O que deixava os amigos em uma saia justa porque não podiam priorizar ou um ou outro: fariam o convite e deixariam que eles dois se engalfinhassem para decidir quem iria e quem não iria. Mas nesse caso, a programação fora feita pelo próprio .
- Ah, oi! – Ela cumprimentou a todos com um sorriso fechado e sem graça. – Não sabia que estariam todos juntos.
- Não quer ficar e almoçar conosco? – perguntou rapidamente e sentiu o coração bater descompassado comprimindo seu pomo de adão quando relutantemente lhe dirigiu o olhar. – Digo, ainda nem almoçamos, vocês poderiam ficar conosco, Jeph? – Apressou-se em responder temendo uma explosão de . Explosão que não veio.
- Ah, não, tudo bem. Obrigada, . – respondeu educente tentando manter seu semblante impassível, embora seu lábio tremesse levemente – Nós vamos indo! Manda um oi para sua mãe, ! Diz que estou com saudade – disse formalmente já despedindo-se dos amigos.
Jeph lançou um olhar pesaroso para o grupo na mesa, visivelmente desconfortável e penalizado com a situação, mas logo despediu-se acompanhando a namorada porta afora.
Os amigos ficaram em silêncio alguns segundos contemplando a silhueta de desaparecer de vista e desviaram o olhar para , esperando achar o amigo depressivo e afundado em sua cadeira. No entanto, ele estava intrigado e um tanto quanto ativo.
- Sinto muito, . Sei que é uma situação chata – disse quebrando o gelo.
- Vocês perceberam o que eu percebi? – perguntou sem dar atenção a amiga.
- O que? Que ela te chamou de como sempre? – Scott respondeu, recebendo um chute nas canelas por . – Outch!!
- Não, não... Ela falou comigo! Ela falou, ela não gritou, não me xingou, não me desprezou... Ela falou comigo com educação! Talvez ela não me odeie tanto assim – disse esperançoso, quase como se estivesse conversando consigo mesmo do que com os amigos.
- ... Tente não criar muitas expectativas com isso. Ela ainda tá com o Jeph, você sabe – alertou mantendo o tom de voz compreensivo.
- Ela está evitando os lugares em que você está, amigo... – começou tentando ser razoável. Sabia que o amigo estava tentando se agarrar a qualquer fio de esperança, mas não podia iludi-lo dessa forma. parecia decididamente empenhada em esquecê-lo.
- Ela só está tentando fugir de mim, fugir do que sente por mim. Ela se importa, eu sei que ela ainda se importa. Vocês não veem, mas eu vejo. – continuou confiante e os amigos se entreolharam e deram de ombros, não queriam cortar a vibe dele com outras duras doses de realidade.
- O papo tá bom, mas será que as madames podem pedir? Eu tô esperando. – Scott interrompeu o devaneio de batendo no cardápio e chamando a atenção dos amigos.

***


até queria tirar um tempo para pensar a respeito dos dramas da vida de e , mas sua mente não conseguia se manter interessada sobre o assunto por mais do que míseros cinco minutos. Não enquanto Juanita perambulava seus pensamentos incessantemente.
Não tinha coragem de perguntar a quem ela era, de onde era e o que queria com ele em plena madrugada. Não tinha coragem de perguntar e ainda não tinha se decidido quanto ao motivo. Ela achava que era porque não queria estar aparentando ser uma namorada insegura e paranoica, suas amigas achavam que ela tinha era medo da resposta e Dr. Parker achava que era porque ela preferia nunca ter visto essa ligação.
“Estou dando importância demais para isso”, repetia para si mesma enquanto dirigia calmamente retornando para casa. Tentou manter seus pensamentos distantes de , Juanita e o que quer que fosse, quando uma nova música começou a tocar na rádio.
Mas que ironia...
Ela sorriu a contragosto ao ouvir os acordes iniciais de I Caught Fire do The Used, a música que ouviu berrar para ela nesse mesmo carro há algum tempo atrás, logo que voltou para a cidade, ainda apenas como seu melhor amigo. Lembrou-se da noite em que ele fora buscá-la de surpresa no trabalho e em que quase se declarou para ele.
sorriu deixando as lembranças daquela noite invadirem sua mente. Era inacreditável como aquelas memórias pareciam pertencer a um passado distante, como se já estivesse com há anos. Aquele mês que estavam juntos parecia ter durado a eternidade, quase como se tivesse se esquecido como era sua vida antes de ter como seu namorado.
Namorado.
Que palavra esquisita para defini-lo! Incrível como uma simples nomenclatura poderia despertar sensações esquisitas em uma pessoa.
- I melted in your eyes, like my first time that I caught fire. – cantarolou baixinho, sentindo uma intensa saudade repentina de invadir seu coração. Estava o evitando há alguns dias, de tanta tensão que estava sentindo.
Naquele momento, parecer tão dependente dele não lhe soou tão vergonhoso. Na verdade, combinava perfeitamente bem com a real situação, pois quando se deu conta do trajeto que tinha feito, estava na verdade em frente a casa dele e não a sua. Riu sozinha da sua falta de atenção e por um momento pensou em dar ré e voltar para casa, mas logo mudou de ideia.
Talvez não fosse uma má ideia aparecer do nada para dizer um “oi” com o pretexto de matar algumas horinhas de descuido com ele. Sabia que estava ocupado em suas coisas e ela também deveria estar estudando, mas a imagem de lhe veio à mente e a ideia de vê-lo parecia tão atraente e tentadora. Antes que pudesse perceber, já estava estacionando e descendo do carro.
estranhou ao notar que o porteiro não estava em seu lugar de costume. Ficou na ponta do pés para tentar encarar algo além do grande portão de ferro e estranhou ainda mais ao notar que estava aberto. Aproveitando a deixa para fazer uma surpresa para , entrou sorrateiramente no edifício, rumando para o elevador com uma grande sensação de dejavu dentro de si.
Assim que a porta se abriu com um estalido mecânico, sentiu seu coração acelerar. Inacreditável como a simples expectativa de ver a deixava ansiosa. Andou pelo corredor de apartamentos sem realmente olhar em volta, apenas apressou-se até chegar no nº 702, sentindo sua respiração descompassada de apreensão e ansiedade.
Tocou a campainha e esperou por um tempo pulando nos calcanhares, sem obter resposta. Tocou mais uma vez, supondo que ele estivesse no banho ou no telefone, mas novamente não obteve resposta. Mas aquilo não fazia sentido. disse que estaria em casa a essa hora...
- ? – chamou batendo na porta com os nós dos dedos vermelhos, sentindo-se boba por fazer isso. Se tocou a campainha e ele não atendeu, obviamente não estava em casa.
Já estava desistindo, pronta para girar nos calcanhares e ir embora quando ouviu o barulho de correntes e chaves vindo de dentro do apartamento. Virou-se a tempo de contemplar um assustado com um semblante que transparecia puro choque e surpresa. De um jeito não positivo.
- ? – O tom dele era de pura descrença, como se esperasse qualquer pessoa no mundo menos ela naquele momento.
- Oi... Eu bati na sua porta antes, por que não atendeu? – perguntou confusa e um tanto constrangida com a expressão chocada no rosto dele. Esperava um semblante menos assombroso.
- Estranhei não ter sido anunciada. – falou com as sobrancelhas franzidas e sentiu-se extremamente desconfortável. Estava sendo invasiva. Arrependia-se amargamente do momento em que descera do carro para fazer uma visita surpresa.
- Seu porteiro não estava na portaria, achei que não teria problema te fazer uma visita. – confessou e o rosto de suavizou um pouco, só então dando-se conta de que ela ainda estava do lado de fora do apartamento.
- Entre, entre!
Assim que entrou no apartamento, fechou a porta apressente, girando a chave duas vezes e colocando as correntes do pega ladrão.
- Alguém te viu entrando aqui, alguém falou com você? – perguntou e franziu o cenho, odiando o tom de voz que ele usava para falar com ela. Seja lá o que esperava dessa visita inesperada, não era nada do que estava recebendo.
- Não...
não respondeu. Foi até a mesinha de centro e pegou o celular, digitando furiosamente alguns números enquanto perambulava para lá e para cá com uma mão na cintura e um semblante preocupado enquanto esperava a outra pessoa da linha atender.
- Matt! – Ele disse num tom de voz zangado – Que porra é essa?
tentou se manter atenta a conversa, mas não conseguiu. Antes que pudesse dar conta, seus olhos estavam encontrando dificuldade em focalizar qualquer coisa que fosse devido as lágrimas que agora transbordavam sem sua permissão. Sentia-se envergonhada. Poderia estar em casa e evitando toda essa situação de ser uma namorada grudenta e inconveniente.
Sentou-se encolhida no sofá, contendo a vontade de ir embora. Estava tão absorta nos próprios pensamentos que não notou que lhe chamava, já tinha finalizado a ligação com o tal do Matt que ela não sabia e nem se importava quem era.
- ? Você está bem? – perguntou sentando-se ao seu lado no sofá. Seu semblante agora parecia um pouco mais tranquilo, embora ainda tivesse traço de choque e surpresa em seu olhar.
apenas acenou positivamente sentindo-se incapaz de responder sinceramente aquela pergunta.
- Tem certeza? – sentiu os dedos de tocarem seu queixo delicente o erguendo para que ela pudesse ver a expressão confusa e preocupada do namorado.
- Desculpe. – disse sem conseguir se conter. Era sufocante a sensação de estar sendo invasiva, de não ser bem-vinda, de estar atrapalhando de alguma forma. O que estava fazendo ali? Ele nem queria sua companhia...
- Desculpar pelo quê? – indagou confuso.
- Por ter aparecido de surpresa, por não ter esperado o porteiro para me anunciar, por ter insistido na porta até você abrir e por atrapalhar seus afazeres. – continuou rapidamente. Sentia-se tão idiota por agir de uma maneira tão vulnerável, mas não conseguia evitar.
- ! Você não precisa se desculpar, você não me atrapalhou em nada, eu é que te peço desculpas pela forma como reagi, mas não tem nada a ver com você, eu juro. – respondeu com veemência e franziu o cenho confusa.
- E teria a ver com quem?
suspirou e se aproximou para aplicar um beijo delicado sob sua testa.
- Meu amor, a única coisa que sua presença faz é me alegrar. – Ele disse sincero. – Estou chateado com coisas do trabalho... E com o meu porteiro! Ele não pode sumir assim, não quando as coisas aqui no prédio não andam tão seguras. Hoje foi você, mas...
- Aconteceu alguma coisa? – perguntou.
- Não sei se é uma boa ideia te contar isso, acho que você pode ficar um pouco paranoica. – confessou, mas já tinha atiçado a curiosidade de .
- Fala logo, !
- Está bem, está bem. – Ele suspirou resignado. – Há alguns dias atrás invadiram a casa do meu vizinho, levaram tudo, mas ele ficou ok.
- ! – disse exasperada – Por que você não me contou nada?
- Por conta dessa mesma reação aí que eu já esperava. – Ele disse dando de ombros, recebendo uma cara feia em resposta.
- Como ele está, fizeram algo com ele? – perguntou preocupada e negou com a cabeça.
- Ele está bem, não mostrou resistência. – assegurou tentando tranquilizar a namorada. – E foi por isso que não atendi a porta de imediato.
- Você disse que não ouviu. – acusou desconfiada.
- Eu não quis te contar e te deixar preocupada. – respondeu displicente.
- Nós não tínhamos combinado que você me deixaria tirar as próprias conclusões sobre as coisas e não mentiria mais para mim com medo da minha reação? – perguntou num tom minimamente magoado, recebendo um beijo de em resposta.
- Eu sei, estou errado, me desculpe. – Ele disse numa expressão de cão sem dono que custou a aceitar. – Sem mais mentiras, prometo.
Mas sabia que aquela era mais uma mentira.
O que era extremamente doloroso de conceber.
Precisou conter um intenso desejo de confronta-lo a respeito de Juanita. Achou que essa talvez fosse a oportunidade perfeita para colocar sua lealdade a prova. Mas teve medo. Medo de descobrir que não apenas reprovaria no teste tão cedo, como também de descobrir quem era essa tal Juanita. Porque algo na cabeça de dizia que ela era alguém importante o suficiente para ter seu nome salvo na agenda do celular de e para ter liberdade de liga-lo às 02h de um final de semana.
A verdade é que sabia que Juanita não seria um assunto que conseguiria arrancar de com facilidade. Estava no meio de uma encruzilhada: embora quisesse saber quem ela era e o que representava, tinha medo da resposta acabar com toda sua fonte de paz e felicidade e com todo o conto de fadas que estava vivendo nos últimos tempos.
Não confrontaria , sabia que ele não diria a verdade. Mas se ele não queria ser sincero por bem, ela encontraria outros meios de sanar suas dúvidas. Só precisaria criar coragem para assumir as consequências. Fossem quais fossem.
- Mas então... – Despertou dos seus devaneios ao ouvir a voz de . – A que devo o prazer da visita inesperada? Isso tudo é saudade?
- Me sinto uma idiota com você falando assim. – confessou com as bochechas enrubescidas. riu baixinho tomando-a para um abraço e ela aceitou de bom grado esconder seu rosto na curva do pescoço dele.
- Não se sinta boba, amor, eu adorei te ver. Também estava com saudades. – disse sinceramente acariciando seus cabelos.
E por um momento fugaz, isso era tudo o que importava. Qualquer outro pensamento foi varrido da mente de pelo simples fato de estar nos braços de . Ele não era infiel. Não sabia explicar como, mas tinha essa certeza muito clara em seu coração quando estava perto dele. Seja lá quem for Juanita, sabia que ela era única no coração dele. Podia sentir.
De bom grado, uniu seus lábios aos de iniciando um beijo intenso. Sentiu uma maravilhosa sensação de euforia por estar assim tão conectada a ele novamente. Estava com tanta saudade! Beijavam-se com vontade e logo as mãos tornaram-se inquietas demais para conter carícias e afagos.
Sem que pudesse perceber como tinha acontecido, estava deitada no sofá com sobre si, tocando seu corpo sem nenhum pudor sob os tecidos da roupa. Beijavam-se com voracidade e podiam sentir as respirações ofegantes a medida que eram tomados pela excitação do momento.
Enquanto cada toque ficava mais urgente, tentavam tirar a roupa um do outro entre ofegos e gemidos abafados. estava com as mãos no peitoral desnudo de e ele estava prestes a desabotoar seu sutiã quando foram interrompidos pelo toque estridente do celular de , que os assustou de imediato. resmungou para que ele silenciasse o aparelho, mas assim que reconheceu o nome no visor, afastou-se para atender com um semblante totalmente carregado.
Ele estava branco feito papel.
- Fale. – Atendeu com a voz rouca, levantando do sofá e afastando-se o máximo possível de , falando entre murmúrios, o que só a deixou ainda mais suspeita.
Toda áurea de felicidade e conforto que estivera sentindo há segundos atrás fora desmanchada pela ligação misteriosa que afastara dos seus braços.
E só tinha uma suspeita ecoando em sua mente.
E se fosse Juanita?
- Quem é? – Cochichou para quando ele virou de frente para ela, perambulando pela sala. Ele afastou o celular do ouvido e murmurou um “trabalho” parecendo muito chateado.
- É claro que eu já cuidei de tudo. – pode ouvir resmungar e fez um esforço para não parecer que estava atenta aquela conversa mais do que deveria.
- Eu tô de saco cheio, essa não é uma boa hora, lide com isso. Tchau. – rosnou algum tempo depois desligando o celular com selvageria. apenas observou a cena sem conseguir associar a mesma pessoa de segundos atrás.
Permaneceram em silêncio por um tempo até desmoronar desanimado sob o sofá bufando cansado.
- Desculpe por isso, precisei atender.
- Quem era? – perguntou novamente.
- Coisa do trabalho, , nada interessante. – respondeu vagamente e sentiu algo dentro de si despencar. Por que ele tornava tudo tão difícil?
- Desculpe... Perdi um pouco o clima. – Ele confessou e pôde perceber sua expressão extremamente frustrada que naquela noite nada mais aconteceria.
- Tudo bem. Você está bem?
- To sim, só preciso tomar um banho gelado e isso tudo passa.
- Vou pedir uma pizza e assistimos filmes até você melhorar. – propôs e sorriu levantando-se rumo ao banheiro.
- Parece ótimo.
Assim que sumiu de vista, foi invadida por uma sensação de intensa euforia repentina. Seu coração acelerou e as borboletas em seu estomago pareciam brigar intensamente por espaço. Estava nervosa, ansiosa, sentindo-se prestes a fazer uma coisa horrível e abominável, mas que não conseguia controlar. Precisava de respostas.
Correu sorrateiramente até a mesa de centro onde diversos papeis estavam espalhados, procurou inicialmente pelo celular de : sem sucesso. Deveria saber... Ele levou para o banho, péssimo sinal. Desesperançosa, lançou um olhar para a pilha de papéis a sua frente perguntando-se se valeria a pena mexer nas coisas dele em busca de respostas.
estava estranho desde que retornara à cidade, isso era um fato. Enigmático, criando desculpas esfarrapadas, aparecendo com mais machucados do que conseguia explicar e agora recebendo ligações misteriosas de pessoas que não falava a respeito. Que trabalho era esse? Quem era Juanita? Quem – era – Juanita?
Antes que pudesse controlar o pensamento, começou a vasculhar rapidamente pelos papéis da mesinha. Contas de luz, condomínio, cobranças de cartão de crédito, uma carta... Uma carta de Damien?
Eufórica e sentindo o coração saltar pela boca, abriu o envelope e prendeu a respiração. Antes que pudesse ler o conteúdo, no entanto, ouviu o barulho do box se abrindo indicando que já havia saído do banho e em instantes estaria na sala novamente. dobrou a carta novamente contendo a vontade de guardá-la no bolso da sua calça, mas antes que pudesse colocá-la na mesinha de centro, em sua agonia, acabou derrubando-a no chão.
-... O chuveiro está quente, você deveria experimentar um ba... - foi perdendo a voz a medida que seus olhos focalizavam se erguendo do chão rapidamente ajeitando sua roupa.
- O que você estava fazendo? - perguntou com o semblante confuso, notando ruborizar e vacilar.
- Hm? Ah, é... meu celular, ele caiu no chão e eu fui procurar - Ela respondeu rapidamente e franziu o cenho. Ela nunca fora uma boa mentirosa.
notou o rapaz percorrer o olhar pela sala rapidamente e percebeu sua atenção se demorar na mesinha de centro cheia de papeis vasculhados. Prendeu a respiração por um momento, mas manteve-se firme.
- Você por acaso estava mexendo nas minhas coisas? - perguntou calmamente, encarando-a diretamente.
respirou fundo e não desviou o olhar. Forçou sua expressão mais ultrajada ao perguntar:
- Quê? Por que eu faria isso?
- Não sei, por isso perguntei.
- E eu teria motivos para mexer nas suas coisas? - perguntou em tom de riso, mas não vacilou.
- Apenas se estivesse desconfiada de alguma coisa. - Ele respondeu ainda incerto, mas sorriu calmamente enquanto andava até ele para lhe aplicar um beijo estalado nos lábios.
- Que bobagem, meu amor. Que motivos eu teria para desconfiar de você, não é mesmo? – disse convincente e continuou com o cenho franzido desconfiado demais para falar qualquer coisa.
- Procurei por anúncios de pizzaria local, mas não achei, você guarda onde? – perguntou mentindo descarente. Andar demais com estava sendo uma péssima influência.
- No imã da geladeira. – respondeu devagar sondando os passos da namorada, que caminhou despreocupente até a cozinha, embora sentisse seu coração a ponto de explodir dentro da caixa torácica. Quase tinha sido pega no flagra!
Sentia apreensão com todo aquele mistério em volta de . E uma curiosidade latente para abrir a carta de Damien. Quem em sã consciência se comunicava através de cartas hoje em dia? Na era dos e-mails, whatsapp e derivados... Era estranho! Não deveria ser, mas era. Algo em dizia que era e sua intuição não costumava falhar.
Temia e preocupava-se com as oscilações constantes de humor de e sentia tristeza por estar começando a mentir para ele. Queria colocar seu relacionamento numa redoma de vidro e protege-lo a qualquer custo, mas precisava admitir que os segredos a estavam sufocando e que precisava fazer algo a respeito.
A pergunta era: será que ela tinha coragem de descobrir o que quer que fosse?
Se não tinha, iria encontrar.


Capítulo 13


Uma brisa leve e fria passou por entre as janelas e esvoaçou com delicadeza as cortinas do quarto. Alguns feches de luz refletiam o tecido fino anunciando que uma gloriosa manhã de outono estava acontecendo lá fora. semicerrou os olhos ao sentir a claridade atingir seu rosto reprimindo um muxoxo por ter sido interrompida de um sono tão gostoso. Revirou-se preguiçosamente na cama, mas teve seu caminho bloqueado por um peso em volta da sua cintura.
Com um pequeno esforço, afrouxou o abraço de e se virou de frente para o rapaz, que estava embalado num sono profundo com a cabeça recostada no seu travesseiro. passou a mão pelos cabelos embaraçados dele e ficou a admirar a expressão calma e tranquila que ele tinha quando estava adormecido. Observou seus ombros subindo e descendo calmamente ritmando sua respiração com a boca entreaberta.
retirou a mão do rosto de e as aninhou na própria coberta, puxando-as para cima, sorrindo feito uma criança abobalhada.
Ainda sentia dificuldade em se acostumar com a sensação maravilhosa de felicidade que explodia dentro de si quando estava ao lado de . Constantemente se flagrava beliscando-se para acreditar que tudo aquilo estava realmente acontecendo e não era apenas fruto de um sonho.
era dela.
Dormia calmo e tranquilo na cama dela.
Dormia nu e exausto depois de ter transado com ela.
Sorriu satisfeita por pensar que aqueles momentos tão preciosos eram sua rotina. Quase dois meses haviam se passado desde que assumiram o sentimento que tinham um pelo outro e o relacionamento parecia cada vez mais sólido, mais sério e mais feliz. passava a maior parte do tempo sorrindo.
Exceto quando pensava em Juanita.
Ainda não tinha criado coragem para saber quem ela era, e nem tinha feito reais esforços para descobrir. Boa parte do tempo pensava que não era nada demais e que estava sendo paranoica. A outra parte do tempo repassava a ligação na cabeça. E por alguma razão que não conseguia explicar, não conseguia esquecer a carta de Damien que achara na casa de outro dia. Eles não estavam brigados? Será que tinha alguma coisa a ver com Susan? Ou a própria Juanita...
E era por isso que sempre desistia de ir a fundo na desconfiança. Porque começava a ficar paranoica e pensar bobagens. era fiel. Era dela. E essa era a única coisa que lhe importava no momento.
Olhou para o relógio no criado mudo e suspirou ruidosamente ao ver que ele apontava 07h15 de uma segunda-feira.
Não queria encarar sua rotina e principalmente: não queria acordar para a dele.
Mas não podia ser egoísta.
- Amor – Ela chamou pressionando os dedos no ombro do rapaz que soltou um resmungo baixo. insistiu. - Meu amor, acorde! – Ela deu pequenos empurrões no ombro dele, sacudindo-o de leve. Ele soltou um resmungo mais sonoro e se aconchegou no corpo de , abraçando-a novamente.
- Vida... – disse entre o aperto, rindo abafadamente – ADAM! – Gritou fazendo-o pular de susto, sentando na cama bruscamente.
- Puta que pariu, ! – Ele reclamou assustado, observando as gargalhadas da namorada. – Perdeu seus bons modos?
- Desculpe, lindo, mas é que você não queria acordar de jeito nenhum e eu não queria que você se atrasasse – Ela disse entre risos, apreciando o rosto ainda confuso e sonolento dele – Você fica tão babaca quando acorda.
- Deveria ter experimentado falar perto de mim, com esse bafo matinal, eu com toda certeza teria acordado mais cedo – revidou rindo satisfeito quando arregalou os olhos chocada.
- Ah, seu filho da puta, agora você vai ter que me beijar só pra calar essa boca – falou inclinando-se na direção dele fazendo biquinho enquanto ele se levantava rindo correndo para o banheiro.
Entre risadas e zoações, escovaram os dentes, se sujaram com creme dental, tiraram selfies estranhas e riram das próprias idiotices.
Essa era uma das coisas que mais achavam interessantes a respeito de namorar um com o outro. Eram, acima de tudo, melhores amigos. Já se conheciam há tantos anos, tinham tanta intimidade, todo o relacionamento parecia ter pulado diversas etapas de um relacionamento convencional.
- Vamos tomar banho – disse, já se despindo da camisa larga de que havia usado na noite anterior, ficando completamente nua. a fitou com uma expressão que era mista de tesão, sofrimento e resignação. Se aproximou da namorada, segurou seus seios com as duas mãos, beijou cada um deles antes de se virar para o box – Só se for banho mesmo. Estou super atrasado, hoje não vou comparecer.
riu entrando no chuveiro também.
- Não queria que você tivesse que ir – Disse enquanto ensaboava as costas de .
- Eu sei, mas eu preciso. É aqui do lado, são só três dias e eu estarei de volta.
- Me desacostumei a dormir sozinha – falou baixinho dando de ombros. riu do tom manhoso dela.
- Mas você mora sozinha.
- Mas não tem sido assim ultimamente, né? Você tá sempre aqui e eu tô sempre lá no seu apartamento. Acabei me acostumando. – explicou e seu rosto se iluminou com uma ideia que havia lhe ocorrido mais cedo e que agora parecia fazer todo sentido. – Não teria que ser assim se você viesse morar comigo. – Concluiu com uma expressão marota e observou na espreita.
Seu sorriso sapeca foi murchando ao perceber o rosto de adquirir uma expressão dura e fechada, o rosto perdendo completamente a cor. Deveria ter percebido o reflexo do seu semblante em , porque logo se esforçou para dar um sorriso amarelo, virando-se novamente para o chuveiro, ficando de costas e molhando o cabelo.
- Nossa, foi uma ideia tão ruim assim? – perguntou completamente sem graça, desligando o registro de água, observando sair do box e ir pegar a toalha. Ao ouvir a voz dela, ele se virou e forçou um sorriso nem um pouco convincente.
- Do que você está falando? – perguntou se fazendo de desentendido.
- Eu te convidei para morar comigo, por que você está se fazendo de desentendido? – dizia enquanto se enrolava no roupão, saindo do box e notando sair no banheiro evitando deliberadamente lhe olhar, o que só a irritou ainda mais.
- Você não me convidou, você fez uma brincadeira – respondeu num tom de voz calmo, como se explicasse uma coisa óbvia. Por um motivo que não sabia explicar, sentiu-se muito irritada.
- Eu falei em tom de brincadeira, mas era verdade.
- Eu não tinha como saber que era sério – deu de ombros enquanto catava suas peças de roupa e ia se vestindo calmamente, percebendo o clima do quarto mudar completamente.
- Por que você não experimenta ser honesto uma vez na vida e para de fazer rodeios e simplesmente diz que não quer morar comigo? – perguntou ficando de frente para o rapaz o olhando diretamente nos olhos.
- Eu não quero morar com você – disse calmamente e sentiu seu coração gelar por completo. Procurou vestígios de brincadeira no olhar de , mas não encontrou. Esperou alguns segundos que mais pareceram uma eternidade, mas ele não disse mais nada.
- Nossa – disse por fim, dando de costas indo em direção ao armário para que não pudesse ver as lágrimas que surgiram nos seus olhos. Ouviu o suspiro ruidoso dele, mas não se virou de costas.
- Você disse que era para eu ser honesto – Pôde ouvir a voz de sair um pouco ressentida, mas não lhe deu atenção. Procurou uma roupa para usar no trabalho enquanto passava alguns cabides – , eu tô falando com você.
- Por que? – perguntou virando-se bruscamente – Por que não quer morar comigo?
suspirou e passou a mão pela nuca, fazendo uma careta visivelmente incomodada.
- Porque as coisas estão boas do jeito que estão – Disse e ao ver arqueando as sobrancelhas, completou num tom de voz mais alto – Você está me pressionando!
- Eu não estou te pressionando! Só estou checando o quão sério você acha que nosso relacionamento vai chegar. – respondeu visivelmente chateada – Nós nos conhecemos a vida inteira, não somos novos nisso e eu achei que você quisesse ficar comigo para valer e não apenas um test drive.
- Você está dizendo que eu não levo o nosso relacionamento a sério? – perguntou e sabia que tinha o magoado, mas não se importou muito com isso.
- Você está agindo como um menino mimado que se sente encurralado com medo de compromisso, como se eu estivesse te obrigando a casar!
- Não tem nada a ver com medo de compromisso, eu esperei por você minha vida toda, casaria com você sem sombra de dúvidas, inclusive, achei que tivesse deixado claro para você que eu quero passar o resto da vida contigo. – exclamou visivelmente frustrado.
- Então qual é a grande questão de vir morar comigo? – praticamente gritou, o que irritou ainda mais.
- Você não ouviu nada do que eu disse? Eu disse que não tenho medo de compromisso, que eu sempre esperei por você. Mas você, como sempre, só escuta o que te convém – urrou extremamente chateado.
- Eu ouvi claramente que você não quer morar comigo! – Ela revidou.
- Você acha que morar junto é o que define a seriedade de um relacionamento? – perguntou e manteve-se firme.
- E se for?
- Se fosse assim, seu relacionamento com o Brandon teria dado certo. Vocês moraram juntos um tempo, tá esquecida? – falou sem pensar e arqueou as sobrancelhas chocada e ofendida.
- Eu não acredito que você tá jogando isso na minha cara! São coisas completamente diferentes!
- Se você não aguenta ouvir uma resposta sincera, por que faz a pergunta? Você queria que eu mentisse? - exclamou indignado.
- Não seria a primeira vez, já estou acostumada com tudo o que sai da sua boca ser mentira. - respondeu num tom de voz baixo, a língua afiadíssima. No mesmo instante que verbalizou a última frase, se arrependeu do que tinha dito. O semblante de estava visivelmente magoado. Porém, antes que pudesse se redimir e reverter a ofensa, ele já tinha se recuperado.
- Deve ser por isso que eu não quero morar com você. Não posso te dar o que você quer e não aguento suas cobranças e acusações. Você fala de mim, mas quem não consegue se comprometer é você. É mimada e imatura o suficiente para não saber lidar com uma resposta honesta.
falou friamente e sentiu as palavras atingirem como um soco no estômago.
E aquele não era o golpe final.
- Deve ser por isso que eu não compartilho tudo com você. Você não aguenta ouvir verdades.
o encarou mortificada. Sabia que havia o magoado e teria pedido desculpas se ele não tivesse começado a falar. Mas agora, naquele momento, a tinha magoado muito mais. Tinha finalmente colocado as cartas na mesa, exposto as feridas abertas.
Ele mentia para ela.
E era muito claro quanto a isso.
Ficaram se encarando por alguns minutos, ambos horrorizados demais com a mudança drástica no clima entre eles. Estavam tendo a primeira briga desde que estavam juntos.
- Preciso ir – quebrou o silêncio depois de um tempo, sua voz saindo anormalmente rouca. deu de ombros friamente e lhe deu as costas indo em direção ao banheiro.
- Boa viagem – Ela falou de costas para ele, temendo que se o visse se deixasse desmoronar.
- Te aviso quando eu chegar – disse pegando sua jaqueta e saindo pelo quarto, fechando a porta com um estalido mínimo. entrou no banheiro e fechou a porta atrás de si, escorregando até sentar-se no chão sem conseguir conter as lágrimas. Em segundos estava chorando copiosamente.
Que merda tinha acabado de acontecer?

***

- Então foi aí que ele me disse que não quer que a gente fique num clima estranho e que deseja que eu seja muito feliz com o Jeph. Dá pra acreditar? ? , você está me ouvindo?
A voz estridente de acordou dos seus devaneios e ela olhou para amiga com uma expressão que implorava por desculpas.
- Você não ouviu nada do que eu disse, né? – falou num tom de desgosto e fez uma careta culpada. – Argh, eu tô falando sozinha há quanto tempo?
- Não muito, eu ouvi quando você disse que o te ligou e que vocês conversaram. – respondeu com honestidade e bufou sonoramente.
- , o que você tem? Você passou o dia todo com essa cara horrível e chegou no trabalho com esses olhos inchados. Não quis perguntar nada antes, mas estou preocupada. Você quer conversar a respeito? – perguntou analisando a amiga com um olhar preocupado e foi a vez de suspirar.
- Nada demais... Tive uma briga com o .
- Uuuh, problemas no paraíso? – sorriu de lado e se afundou na cadeira. – Ah, qual é amiga? Não pode ter sido tão sério. Vocês acabaram de começar, é só a primeira briguinha de casal.
- Não foi só uma briguinha. – falou com convicção e franziu o cenho estranhando.
- Vocês são perfeitos juntos e tem a melhor sintonia que eu já vi mesmo em tão pouco tempo como namorados. Tenho certeza que vai se resolver logo mais. – continuou falando com convicção e fez uma careta triste.
- Foi diferente, . Sério. O foi muito cruel, disse coisas bem horríveis de se escutar. Ele simplesmente admitiu que mente pra mim, você tem noção disso? Ele disse com todas as letras que esconde algo de mim. Você tem noção de como eu me senti ouvindo isso? Agora mesmo é que minha paranoia com essa tal Juanita e esses sumiços dele está piorando!
- Sério que ele disse isso? Que sacanagem! Mas em que contexto veio essa afirmação?
- E de que isso importa? Ele disse que mente pra mim e acabou!
- , as pessoas falam coisas absurdas quando estão magoadas ou com raiva. O temperamento do sempre foi mais tranquilo que o seu, mas não é como se ele fosse um cavalheiro quando está com raiva. O que você fez para que ele dissesse isso?
- Sério que você vai me culpar pelo que ele disse? – perguntou ultrajada e apenas rolou os olhos.
- Eu não estou te culpando. Estou dizendo que toda ação tem uma reação e quero entender o que aconteceu para poder te aconselhar.
- Eu basicamente pedi para ele morar comigo e ele surtou. Surtou! Tentou reverter as coisas, disse que eu estava pressionando ele, falou que eu sou imatura e não consigo ouvir uma resposta honesta e enfim deu a cartada final dizendo que esconde coisa de mim.
desabafou com tanto desgosto que era como se estivesse expurgando veneno. Tinha remoído esse assunto na sua cabeça o dia inteiro, mas estar verbalizando em voz alta parecia aumentar ainda mais a dor, parecia tornar a história ainda mais real. , que estivera escutando com atenção, disse:
- Amiga, você de fato pressionou ele. E você de fato não soube escutar uma resposta sincera.
arregalou os olhos, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, se apressou em concluir:
- Quando nós fazemos uma pergunta, temos que aceitar a resposta. Mas eu entendo que você tenha ficado magoada, no seu lugar, eu também ficaria. E eu realmente não entendo por que o não quer morar com você, já que vocês já vivem grudados um no outro do mesmo jeito. E eu entendo que você fique ainda mais desconfiada, porque é óbvio que aí tem coisa.
, que estava de boca aberta e pronta para rebater, suspirou fundo.
- Obrigada!!!
- É realmente estranho essa relutância do . Vocês estão juntos e se conhecem a vida toda. E com essa fala idiota, ele acabou de selar sua paranoia. – admitiu e resmungou frustrada.
- Pois é. E agora ele está viajando, nós não estamos nos falando e eu estou angustiada com essa sensação ruim que não quer passar por nada nesse mundo.
- Eu te entendo, . De verdade. Mas eu realmente não acho que o esteja te traindo nem nada desse tipo. Ele te ama muito e todo mundo sabe disso. – disse tentando amenizar a situação.
- Mas, , nem tudo nessa vida gira em torno de traição carnal. Quando uma pessoa mente para você, isso também é uma forma de traição. É questão de confiança. Como eu posso ter um relacionamento saudável com alguém que mente para mim? Independente do contexto dessa mentira, é uma mentira do mesmo jeito!
- Eu entendo e concordo com você, amiga. Mas eu não sei o que te dizer. Eu tenho relutância em acreditar que o seria capaz de mentir sobre algo que te envolvesse e te machucasse de alguma forma.
- , não me dizer a verdade dá brechas para especulações! E especulações me consomem por dentro. Eu sou uma pessoa ansiosa e você disso, sabe como minha cabeça fica.
- Eu sei, amiga. Mas você já parou pra pensar que ele pode estar fazendo algo justamente porque a verdade pode te machucar?
- , quando é que uma mentira pode ser melhor que uma verdade? A mentira sempre vai machucar mais, por mais florida que ela seja, é só uma ilusão. A verdade pode até doer, a verdade pode até machucar, mas ela também cura. Viver uma mentira é estar numa corda bamba. Viver sabendo que alguém mente pra você achando que é para o seu bem é viver constantemente paranoico.
- O que você pretende fazer? – perguntou e deu de ombros tristemente.
- Não sei. Acho que nós dois precisamos ter uma conversa madura quando ele voltar pra casa. Mas estou com medo. Medo que a gente acabe se distanciando.
- Não acho que isso vá acontecer – respondeu.
- Eu tô com um pressentimento tão ruim...
- , veja só. O não é totalmente sincero com você. Ok, isso é uma bosta. Mas ele te ama, ele te ama incondicionalmente e isso deve servir para alguma coisa. Você pelo menos tem certeza do que ele sente por você, já é um começo. Eu sei que você está triste porque vocês tiveram a primeira briga, mas acredite, já já vocês vão estar bem, esbanjando melosidade aos quatro cantos. Vida a dois é assim, vocês só precisam se ajustar.
ouviu atentamente as palavras da amiga tentando internalizar o que ela dizia. Aquela altura do campeonato não estava mais sentindo tanta raiva – o nó na sua garganta não lhe permitia sentir outra coisa que não fosse angústia. Estava com um aperto estranho no peito, um pressentimento ruim, uma tristeza inexplicável. Naquele momento, tudo o que queria era saber se ele estava bem. Por outro lado, não daria o braço a torcer mandando uma mensagem, ainda estava magoada e triste pelas coisas que tinha escutado.
- Sério, . Confia em mim. Vocês dois se amam muito e essa foi uma briga chata, mas já já vocês vão se resolver. Sério. Vocês são e , pelo amor de Deus. – persistiu e deixou um sorrisinho mínimo escapar dos seus lábios.
- Tudo bem. Mas eu não quero mais falar disso, ok? – disse empertigando-se na cadeira, querendo mudar o rumo do assunto e dar uma trégua aos seus pensamentos. – Me conte do Thomas, ele te ligou... e aí?
sorriu com a mudança do assunto e prontamente contou a amiga novamente sobre a conversa com o ex namorado.
Segundo , havia ligado para aliviar as tensões que haviam se instalado desde o último encontro na casa de , em que ele tinha ficado alcoolizado e acabara se declarando para a ex. explicou que havia pedido desculpas e que tinha prometido que de agora em diante iria respeitar o espaço dela e também sua escolha em ficar com Jeph. E além de tudo, tinha lhe desejado felicidade.
- Uau, isso é bom, não é? – disse e deu um sorrisinho debochado.
- Não, em se tratando do Thomas, acho que é só mais uma parte do showzinho dele.
- Você acha mesmo, ? Sei lá, o pode estar amadurecendo. Tirando o time dele de campo já que viu que você quer mesmo ficar com o Jeph.
- Ai, , sério isso? Que nada! O Thomas já não me queria. Ok, ai me viu com outra pessoa e de repente fica de recalque. E aí quando ele não recebe a atenção que queria, desiste de novo e resolve me desejar felicidades... Ah, qual é! – exclamou com desdém e semicerrou os olhos.
- , eu não te entendo. O que você quer do ? Não, sério, não tô querendo defender. – apressou em explicar-se ao ver a expressão no rosto da amiga – Mas é só que tudo que o faz, te irrita. Se ele te deixa em paz, você acha que ele não se importa com você. Se ele fica magoado, você se irrita porque ele terminou e não deveria agir assim. E se ele te liga desejando felicidades, você se irrita porque ele está fazendo um showzinho. Sério... o que você quer que ele faça?
- Eu não quero nada, . Nada! Mas isso tudo para mim é apenas ego ferido de um homem que não sabe o que quer. O Thomas não me quer de volta. Ele não tem coragem de lutar por mim, não tem coragem de me encarar sóbrio e me dizer com todas as letras que se arrepende do que fez e que foi um babaca simplesmente porque ele não se arrepende do que fez e ainda quer continuar solteiro. Ele apenas ficou com recalque por saber que existe outro cara dormindo na minha cama, mas não é homem o suficiente para me dizer que me quer de volta, simplesmente porque não quer! Então eu tô farta dessa covardia, dele bancar o maduro agora só porque quer chamar atenção. Tô de saco cheio!
- E se ele te dissesse sóbrio que ainda te ama, que ainda te quer, e bancasse a Meredith Grey com “pick me, choose me”, você largaria tudo e ficaria com ele? – perguntou e revirou os olhos.
- Não se trata disso.
- Não desvie o assunto, me responda com sinceridade! – insistiu e bufou.
- Eu estou com o Jeph. Além do mais, tô cansada das inconstâncias do Thomas.
- Então pronto, amiga! Não cobre que o corra atrás de você, já sabendo que você vai dizer um não!
- , não se trata disso! Nós não podemos simplesmente condicionar nossas decisões com base no que outras pessoas vão ou não vão fazer! Se ele quisesse MESMO tentar, ele tentaria! Porque o não ele já tem.
- Acho que você tá sendo um pouco irredutível. – disse tentando amenizar a situação, mas balançou a cabeça com teimosia.
- Não, não estou. Mas também não quero ser implicante. Eu disse a ele que tudo bem, por mim podemos ter uma relação saudável. Tô de saco cheio de pisar em ovos com ele. Se ele quer assim, que assim seja.
- Então vocês vão ser amigos? – perguntou.
- Digamos que vamos apenas coexistir em harmonia com respeito ao que tivemos e consideração por dividirmos amigos em comum.
- Hm... Que maduros. Vamos ver quanto tempo durará até vocês atirarem comida um no outro no próximo jantar entre amigos. – disse num tom brincalhão arrancando um sorriso a contragosto de .
O resto da tarde se passou com um clima mais ameno entre as amigas. A energia negativa de tinha suavizado um pouco ao conversar com . Tinha sido reconfortante, apesar de tudo, ouvir que eles dois eram um casal exemplo e que logo estariam bem. Precisava acreditar e se agarrar nessa premissa com todas as forças para encarar o que quer que estivesse adiante.
Apesar de estar triste e magoada pelas coisas que tinha dito, sentia saudade dele. Saudade de estar aninhada nos seus braços e sentindo o cheiro tão reconfortante que emanava da pele que ela tanto amava. Torcia para que estivesse bem, lia e relia mil vezes a mensagem que ele lhe mandara mais cedo naquele mesmo dia.
“Cheguei. Estou bem. Amo você.”
O orgulho não lhe permitira responder aquela mensagem. Ainda estava ressentida, mas aliviada por saber que ele ainda tinha se dado ao trabalho de dar uma satisfação. “Amo você” lia e relia essas pequenas duas palavras que juntas suavizavam aquele nó terrível no seu coração.
Tudo ficaria bem.
***

dirigia com parcimônia pelas ruas da cidade iluminadas pelos postes e faróis dos carros. Estava voltando para casa depois de um dia particularmente exaustivo de trabalho e estudos. Embora estivesse cansada e necessitando de um banho quente, não sentia pressa para chegar logo. Sabia que não encontraria o calor que tanto precisava na sua cama – não estaria lá. Sabia que seria apenas mais uma noite solitária sem ele para ajudar a embalar seu sono.
Tivera tempo de pensar sobre a briga ao longo do dia. Ainda se sentia magoada pelas duras palavras de , mas não sentia mais raiva. Sentia que o havia provocado. Sabia que também tinha sido cruel na escolha de palavras e o que havia pressionado. Mas o que tinha dito era golpe baixo. Apesar de magoada, sentia preocupação por ele. Queria saber como estava, queria contar sobre o seu dia e queria o consolo dele.
Por mais irônico que fosse querer ser consolada justamente pela pessoa que a tinha magoado.
era, além de tudo, seu melhor amigo e não ter ele para conversar era uma das piores sensações. não havia retornado nenhuma das ligações e não tinha respondido nenhuma mensagem, sabia que estava sendo mimada, mas sentia que precisava desse tempo para colocar as ideias no lugar.
Dirigia tão calmamente que os motoristas ao redor não conseguiam acompanhar sua trajetória e constantemente faziam sinal de luz ou buzinavam reclamando da sua lerdeza. Mas ela não se importava, deixava com que todos a ultrapassassem e continuava seu ritmo devagar e quase parando, sem a menor pressa de chegar em seu destino.
Sua distração, no entanto, não foi o suficiente para deixar de notar um carro preto que acompanhava sua velocidade, independente de qual fosse. semicerrou os olhos para enxergar pelo retrovisor, mas não reconheceu o modelo daquele carro. Chegou a pensar que fosse um motorista de primeira viagem e que sua direção defensiva parecia segura para outras pessoas que ainda estavam aprendendo. Riu consigo mesma e aumentou o volume do som, tentando voltar aos seus pensamentos melancólicos.
Porém, não conseguiu sentir pena de si mesma e de toda situação com durante muito tempo porque aquela sensação estranha começou a incomoda-la. O carro preto continuava lá. ligou a seta, desacelerou e deixou que o motorista a ultrapassasse. Ele não o fez. Inicialmente parecera coisa da sua cabeça, mas depois passou a fazer pequenos testes. Acelerou um pouco a velocidade, ele acelerou também.
E então uma vozinha na sua cabeça começou a ecoar e tentou silenciá-la. Seria loucura demais pensar nisso. Estava ficando paranoica sem a menor necessidade. Acelerou o carro com tudo que podia, sem se importar com eventuais multas de transito. Certamente quem estava dirigindo aquele carro perceberia que ela queria ficar em paz e não servir como guia.
ultrapassou um carro, o preto atrás dela também. Passou outro e mais outro, e um ziguezague até se dar conta da realidade apavorante diante dos seus olhos.
Estava sendo seguida.
Novamente.
E agora? Pensou desesperada a vozinha na sua consciência. Com o coração acelerado, se aventurou por becos e ruas que não eram rota para sua casa. A fim de despistar, tomou velocidade e entrou em duas curvas com o sinal quase fechando e notou com infelicidade que o carro preto ignorou completamente as leis de transito e ultrapassou o sinal vermelho.
estava à beira de um colapso nervoso. Não conseguia pensar com clareza no que deveria fazer. Para quem poderia ligar? Deveria ligar para a polícia? Dirigia feito louca ziguezagueando entre carros e ultrapassando sinais sempre checando no retrovisor. Num ato completamente desesperado, jogou o carro na contramão e quase deu de frente com um ônibus. Não conseguia nem pensar, apenas agir.
No impulso, desviou dos carros e seguiu para outra pista dando-se conta que o carro preto tinha permanecido na mesma direção, logo perdendo-se de vista. Ninguém poderia prever que ela cometeria esse ato de insanidade. Com as mãos trêmulas, parou no acostamento e respirou algumas vezes antes de recobrar a atenção.
Certificando-se de que ninguém mais a seguia, manobrou na direção correta e dirigiu o mais rápido que podia em direção a sua casa. O coração acelerado e o olhar fixo no retrovisor, mas sem sinal do carro preto. Abriu a porta da sua garagem antes mesmo de entrar na rua de casa e desligou o controle assim que entrou da maneira mais rápida que podia.
Tremia da cabeça aos pés e se sentia apavorada com a perspectiva de estar sendo seguida. Subiu com pressa as escadas de casa, sem se preocupar em acender as luzes e observou a rua pela janela a fora, por entre as cortinas. Aparentemente tudo permanecia tranquilo na sua vizinhança, notou aliviada recobrando aos poucos a normalidade dos batimentos cardíacos.
Quando saiu da janela e tentou se tranquilizar, acendeu as luzes e voltou aos seus afazeres. Não pôde ver que estacionado há alguns metros de distância, atrás de uma árvore e de faróis desligados, uma pessoa a observava acender as luzes de casa, dentro da cabine de um carro preto.


Capítulo 14


A grossa camada de chuva batia furiosamente contra o para-brisas conforme o carro ganhava velocidade. A paisagem urbana de Londres havia ficado para trás há alguns minutos enquanto ele dirigia pela estrada. Os sons de buzina e demais ruídos de trânsito haviam sido substituídos pelo total silêncio. Agora estava sozinho pela Newham Way acompanhado apenas pelos seus pensamentos... Que pareciam tão barulhentos mesmo em completo silêncio.
A voz de ecoava na sua cabeça. As palavras por ela proferidas horas atrás ainda perfuravam seus tímpanos e rasgavam o coração. Ela havia o chamado de mentiroso. Por mais que ela o tivesse magoado, precisava admitir que tinha razão: o que só o deixou com ainda mais raiva, dessa vez de si mesmo.
Suspirou fundo e ligou o som do carro a fim de distrair a cabeça. Odiava brigar com Serena, ainda mais agora que estavam finalmente juntos. Sentia raiva, mágoa e acima de tudo, arrependimento pelas coisas que tinham sido ditas naquela manhã e sabia que estava tão enfurecida e magoada quanto. E sabia que ela tinha razão de estar desse jeito.
“É para o bem dela”, pensou tentando abafar a voz da sua consciência que insistia em perguntar se era para o bem dela ou dele próprio.
suspirou fundo. Não sabia o que era certo a ser feito já fazia um bom tempo. Toda sua noção de “certou ou errado” tinha ido por água abaixo. Toda vez que pensava sobre o que era correto a fazer, repensava seu retorno para cidade, seu envolvimento com e então, ficava na estaca zero novamente. Quando se tratava de Serena, não conseguia ser 100% racional e fazer apenas o que deveria ser feito. Se bem soubesse, não teria se reaproximado dela dessa forma. Mas agora que tinha a liberdade de beijar e abraçar quando quisesse, separar-se dela poderia causar uma dor física.
Só o pensamento de romper qualquer ligação que criara com sua melhor amiga/namorada fez afundar-se deprimido no banco do carro. Se sentia perdido. As últimas semanas e os últimos meses na companhia dela pareciam pertencer a um sonho proibido. Assistir os momentos felizes da sua vida ainda o assustava porque sentia-se vivendo a vida de outra pessoa. O que não fazia o menor sentido. Aquela era sua cidade, seus amigos, sua namorada... Não deveria parecer tão difícil.

Enquanto dirigia pela Broad Road em Havernhill, observou a paisagem campestre cheia de árvores e verde, agora um tanto quanto seca e chuvosa por conta do outono. Conhecia aquela estrada com a palma da mão, se antes esse caminho ligava diretamente a casa dos pais, hoje só trazia desgosto e tristeza. Dirigiu calmamente pela estrada que ficava mais estreita e lamacenta e desacelerou um pouco ao se tocar de que finalmente tinha chegado ao seu destino.
Os portões de ferro verde musgo anunciavam que havia chegado na HM Highpoint Prison. Com o coração acelerado e a respiração falha, desligou o carro e ficou encarando a estrutura carcerária a sua frente. Sabia o que precisava ser feito, mas não conseguia encontrar forças para fazê-lo. Suspirou fundo mais uma vez reunindo toda coragem que tinha, e saiu do automóvel batendo a porta atrás de si.
Seus passos chapinhavam na estrada lamacenta e a respiração se tornou cada vez mais ruidosa. Podia ouvir o coração acelerado bater freneticamente contra caixa torácica e o pensamento já não conseguia soar conexo.
Se identificou para os seguranças logo a frente e dirigiu-se ao interior da prisão, rumo a sala de visitas habituais. Depois de seguir a burocracia de revistas, parou no balcão onde um rapaz digitava rapidamente em seu computador.
- Bom dia. – A voz de ecoou anormalmente rouca pela segunda vez naquele dia. O rapaz murmurou um “dia” sem tirar a atenção do seu serviço.

- Vim visitar uma pessoa. – Falou novamente, um pouco mais alto dessa vez. O rapaz não tirou os olhos do teclado, apenas passou uma prancheta pelo balcão, a frente de .
assinou seu nome e vasculhou os bolsos depositando na cesta seu celular, carteira, chave do carro e relógio. Sentindo-se imensamente infeliz e vazio, sentou-se na cadeira dura por alguns minutos de espera que mais lhe pareceram horas.
Batucou na perna do ritmo de alguma música que não conseguiria dizer qual, enquanto esperava numa sala junto com meia dúzia de outras pessoas que assim como ele, estavam indo visitar alguém. Dedicou um tempo para reparar nas pessoas paradas ali e divagou tentando adivinhar quais crimes aquelas pessoas tinham cometido para receber essas visitas. Uma mulher estava sentada com um barrigão que indicava aproximadamente oito meses de gestação e mantinha os olhos carinhosamente em duas crianças que brincavam aos seus pés.
sentiu uma pontada de pena e simpatia tomarem conta de si. Não sabia a sensação, mas imaginava o quão terrível era ficar sozinha naquela situação com dois filhos para criar e um ainda por vir ao mundo. Como deveria ser horrível depender de uma pessoa que estava presa... Instantaneamente pensou em e sentiu o pomo de adão apertar.
Com uma angústia enorme apertando o peito, quase havia se esquecido do motivo para estar naquele lugar e todo o nervosismo que estava sentindo momentos antes. Foi lembrado do motivo para tanta ansiedade no momento em que uma sirene tocou, devastando seus pensamentos e acelerando seus movimentos cardíacos novamente.
O horário de visitas havia começado.
se levantou com relutância e andou em passos curtos a uma saleta a direita. Sentou-se em uma mesa afastada no canto e esperou. Alguns prisioneiros passaram em seus trajes laranjas e foram dirigidos a seus familiares e amigos. esperou pacientemente, seus olhos vasculhando pela fila até que reconheceu o que estava procurando. No último da fila, estava aquele rosto que ele conhecia tão bem quanto o seu próprio.
Os olhos estavam opacos e sem brilho, fundos e encobertos por olheiras arroxeadas. Os cabelos secos e sem vida e a barba por fazer lhe davam uns três anos a mais. Estava acabado. Quando seus olhares se cruzaram, sentiu-se minúsculo.
O rapaz foi conduzido até a mesa em que estava e se sentou ainda encarando o menor profundamente nos olhos. Não saberia dizer quais sentimentos estavam presentes ali. Ficaram em silêncio se encarando por um momento, os olhares carregados de significados. Depois de alguns minutos, o prisioneiro quebrou o silêncio.
- Olá, irmãozinho. – Falou com um sorriso torto e irônico. suspirou e revirou os olhos, mantendo-se firme sem sorrir.
- Oi, Damien.
Os dois irmãos se encararam com intensidade, o olhar de Damien carregado de deboche, contendo uma fúria maníaca. sabia que ele desejava naquele momento arrancar sua cabeça e, portanto, controlava suas palavras e reações.
- Você veio sozinho dessa vez. – Damien notou em sua voz arrastada. deixou a provocação passar.
- Como você está?
Ao verbalizar aquela pergunta, percebeu que tinha sido a coisa errada a se fazer. O semblante irônico e debochado de Damien agora assumia um tom vermelho, seus olhos semicerrados lívidos de fúria.
- Como eu estou? – Sibilou cheio de ódio e se apressou em continuar.
- Quis dizer em relação a reabilita…
- Me diga como VOCÊ está, . Porque eu continuo no INFERNO que VOCÊ me colocou! – Damien vociferou e algumas pessoas ao redor pararam para olhar. suspirou nervoso tremendo dos pés à cabeça.
- Você se colocou nesse inferno, Damien. Você. Eu tentei te ajudar e te livrar dessa.
- Me ajudar? Você me traiu! Se eu tô aqui hoje é por sua causa!
- Droga, Damien, eu não tive escolha! Eu fiz o melhor que eu pude com o que eu tinha. O que você faria no meu lu…
- QUALQUER COISA MENOS ISSO! – Damien berrou chamando atenção de alguns seguranças ao redor que seguraram o cassetete com mais firmeza entre as mãos, o olhar de aviso – Você é meu irmão! Você tinha escolha. Eu jamais faria isso com você!
- VOCÊ me meteu nisso tudo! Você me obrigou, eu não tive escolha, eu tentei te proteger. Graças a você e suas péssimas decisões eu tenho que lidar que com as merdas que VOCÊ trouxe para minha vida – alterou um pouco o tom de voz, os olhos ardendo em brasa e a garganta engolfada num nó horrível.
- Você me colocou na prisão! Se eu bem me recordo, você deveria estar na cela comigo, ou talvez numa segurança máxima. – Damien cuspiu as palavras e o olhou boquiaberto por alguns segundos antes de responder com uma voz anormalmente rouca:
- Não transfira seus erros para mim.
- Transferir? Pelo menos eu nunca matei ninguém.
Os dois irmãos se encararam pelo que pareceram horas. O semblante de Damien continha uma fúria quase palpável, os olhos tresloucados fuzilavam sem piedade. Dava para perceber que ele diria qualquer coisa, por mais cruel que fosse, só para magoar o irmão mais novo. Não que a essa altura do campeonato não estivesse magoado o suficiente - sua expressão estava repleta de uma dor muito profunda. Por dentro, o coração de estava dilacerado.
- Você sabe muito bem o que aconteceu, não distorça as coisas. – Foi tudo o que conseguiu responder frente àquela provocação.
- Eu sei? A única coisa que eu sei é que você me colocou aqui.
- Para de resmungar, eu não vim aqui para ouvir suas lamentações, já tivemos essa conversa antes. O que eu vim te dizer é sério. – revirou os olhos perdendo a paciência.
- Se você não veio me dizer que eu estou livre, então não estou interessado. – Damien respondeu taxativamente.
- Para que você quer sair daqui quando sabe que eles estão todos sedentos por sua cabeça? Pelo menos aqui dentro você está vivo. Eu salvei sua vida.
- Salvou? Você destruiu minha vida. Se você bem soubesse o que eu passo nesse lugar você nunca teria feito isso comigo. E agora você vem desesperado atrás de mim porque precisa da minha ajuda, porque a essa altura do campeonato, eles já sabem quem é você e o que você fez e estão caçando sua cabeça também. Por que você não faz o que fez comigo e vem para uma cela do meu lado? Só assim eu verei justiça nisso.
- O que eu fiz além de tentar ajudar você? – sibilou enraivado.
- Quando eu pedi sua ajuda não era bem essa que eu queria. – Damien respondeu erguendo as mãos para que as algemas ficassem visíveis.
- Pelo menos aqui você está VIVO, lá fora você estaria…
- POIS EU PREFERIA ESTAR MORTO DO QUE ESTAR AQUI. VOCÊ DEVERIA TER ME DEIXADO MORRER ENTÃO. – Damien berrou enfurecido e se retraiu assustado em sua cadeira. Num átimo dois seguranças já estavam a postos contendo os braços do prisioneiro que pareceria querer ir para cima do irmão que observava a situação de olhos arregalados de puro choque.
- Damien, não diga isso. Eu preciso da sua aju… – disse baixinho abandonando completamente a raiva, desesperado por informações que pudessem ajuda-lo nesse momento. Sua voz era carregada de súplica.
- FODA-SE! – Damien disse enquanto estava sendo arrastado de volta pelo corredor quando levantou pedindo que os seguranças esperassem mais um momento. Seus olhos ardiam e podia crer que já estavam marejados.
- Damien, eu sou seu irmão. – Disse olhando diretamente nos olhos iguais aos seus, mas eles já não lhe transmitiam vida. Em resposta, Damien cuspiu bem no meio do seu rosto e fechou olhos deixando duas grossas lágrimas rolarem por seus olhos misturando-se ao líquido da humilhação que escorria ao mesmo tempo que ouvia as palavras de Damien ecoarem enquanto era arrastado de volta para o corredor.
- Você não é meu irmão. Nosso horário de visitas acabou, vou tirar seu nome da lista de família. Você morreu para mim. Você está sozinho.
Damien foi arrastado pelos policiais enquanto limpava o cuspe do irmão com a manga do casaco, secando suas lágrimas juntamente com ele.
Lançou um olhar de mágoa e ressentimento pela porta que acabara de se fechar a sua frente e deu as costas a sala de visitas, ignorando olhares das pessoas ao seu redor, sentindo a veracidade das palavras do irmão que ecoavam impiedosamente na sua cabeça. Sentia-se mais sozinho do que nunca.

***



As lágrimas caiam descontroladamente dos seus olhos. Sentia-se perdido, sentia-se sozinho, apavorado e amedrontado. Retornara a Suffolk mesmo sabendo que aquilo era perigoso e provavelmente errado, mas precisava tentar mais uma vez. Precisava da ajuda de Damien e de respostas para todas as dúvidas que importunavam sua cabeça.
Como Damien era estúpido, ingrato, burro e cruel! Como não conseguia enxergar que toda merda que estava acontecendo era culpa dele!
“Ele que se foda!” pensou com agressividade. Provavelmente era a droga falando mais alto, havia todo um processo de reabilitação por trás daquilo tudo. Talvez o irmão não quisera dizer tudo que disse… Ou talvez sim, no fim das contas ele tinha mesmo razão. Era por causa de que ele estava na cadeia.
Se pelo menos ele entendesse suas intenções…
suspirou fundo. Seria difícil sem a contribuição de Damien, precisava de ajuda para dar fim aquele pesadelo. Queria voltar a ter uma vida normal, um trabalho normal e a chance de ter um relacionamento normal com Serena.
Serena.
Não conseguia nem pensar nela naquele momento. Não a merecia, tinha certeza disso. Se fosse bom o suficiente, não teria voltado, não teria nem começado, ou já teria dado fim a tudo aquilo que estava acontecendo entre eles. Ela não merecia sofrer mais. Já havia passado por tanta coisa, não merecia sofrer por causa dele.
Nesse ponto as coisas se tornavam confusas em sua mente. Se ele fosse embora agora, a faria sofrer. Se não fosse, ela corria o risco de sofrer bem mais e por razões diferentes.
Ela o amava, sabia disso.
“Ela me ama” pensou e uma chama se acendeu em meio a todo o caos que se encontrava sua cabeça nesse momento. Porque era exatamente isso que representava em sua vida. A luz no fim do túnel. O que faria sem ela?
Algumas pessoas passavam a vida inteira sem sentir aquela certeza. Aquela de que alguém do outro lado te ama. tinha essa certeza. o amava. E agora não sabia dizer se essa certeza era o motivo para que ele fosse feliz, ou que se sentisse desesperado. Sentia-se responsável por ela.
E se alguma coisa acontecesse com ela? Não conseguia nem pensar naquela possibilidade. Olhou para o aparelho telefônico a sua frente e sentiu uma saudade esmagadora apertar o seu peito, embora fizessem apenas algumas horas desde o desentendimento entre eles.
Aquela briga parecia tão absurda naquele momento. Não queria ficar sem ela.
Era seu porto seguro, seu ponto de paz. Precisou refrear todos os pensamentos que o impulsionavam a dirigir de volta para cidade e implorar pelo perdão dela. Tinha outras coisas que precisava cuidar antes de fazer isso.
Deu partida no carro deixando a Highpoint para trás, controlando o impulso de sair dali e ir para casa dos seus pais que ficava apenas alguns quilômetros de distância. Sentia falta dos pais, mas agora, mais do que nunca, não conseguia encará-los nos olhos. Não quando aqueles olhares carinhosos e fraternais lhe perguntariam a única coisa que não poderia responder “Como está Damien? Onde está? Por que não vem nos visitar?”
Não queria preocupar seus pais dizendo que seu filho mais velho estava preso por tráfico de drogas e coisas mais pesadas, e nem também que seu filho mais novo estava prestes a ter sua cabeça a prêmio.
Sentiu um arrepio percorrer sua espinha, sabendo que a essa altura do campeonato não adiantava hesitar. O que precisa ser feito, deve ser feito. Dirigiu em direção oposta a tudo que queria e encarou o que precisava.
“Cheguei bem” digitou e enviou para Serena, mesmo sabendo que estava muito longe de chegar ao seu destino e que tudo aquilo estava muito longe de acabar.


Capítulo 15


[N/a: Sugiro colocarem para carregar a música “Down” de Jason Walker e colocarem para tocar quando virem a próxima nota da autora!]

Encarou o aparelho celular a sua frente mais uma vez e suspirou fundo em sinal de resignação. Nada. Novamente. Bufou enraivada e empurrou o celular na mesa, levantando-se impaciente.
Dois dias haviam se passado desde a briga com . Dois dias sem notícias além de um mísero “cheguei bem” horas depois de ter partido.
não havia tomado iniciativa de falar ou ligar, não por falta de tentativa, mas só porque não sabia muito bem o que dizer. Guiado por seu silêncio, também não dissera mais nada. E agora estavam assim, em guerra fria. Ouvir todas aquelas coisas tinha sido realmente muito doloroso, mas o silêncio total era completamente angustiante. Preferia mil brigas com do que simplesmente não dizer nada.
Hipocrisia ou não, sentia-se enraivada por não ter insistido no contato. Ela não respondera sua mensagem, mas sempre checava sua caixa de entrada esperando que ele fizesse uma nova tentativa. Sem sucesso. Mais silêncio.
Andou um pouco pela sala tentando organizar os pensamentos que ecoavam por sua cabeça. Nem sabia direito o que estava sentindo. Não conseguia entender o que se passava em sua cabeça. Estava há dois meses com . O tempo poderia parecer pouco para qualquer outra pessoa, mas considerando o fato de serem melhores amigos desde criança e que nutria por ele um amor intenso há mais de dez anos, dois meses juntos parecia tempo mais do que aceitável para morarem juntos.
tinha 24 anos e 25, não eram adolescentes. Talvez novos demais para se casar, mas não jovens demais para morarem juntos, certo? Ela tentava se convencer de que não tinha sido muito mimada em seu pedido. Que razão ele teria para não querer morar com ela? Conhecia o suficiente! Sabia que era alérgico a abacaxis e penicilinas, que só fumava quando estava extremamente nervoso ou chateado, seu tipo sanguíneo era O+, sua cor favorita era verde, seu filme favorito era De Volta Para o Futuro e que sua banda favorita era The Beatles. Conhecia .
“Você conhece ou costumava conhecê-lo?” A vozinha em sua consciência perguntou e sentiu-se minúscula de repente. O que ela conhecia era amável, brincalhão, engraçado, justo, protetor e amigo. Esse que era seu melhor amigo e por quem era apaixonada há anos. Mas esse não era o mesmo de hoje em dia. Não em tempo integral, pelo menos. Ele também tinha oscilações de humor, se retraía, falava pouco, era cheio de segredos, mistérios e meias verdades. escondia um segredo e isso não era mais suposição da cabeça de Serena. Era um fato.
“Será mesmo que eu quero saber o que ele esconde?”, se perguntou e engoliu em seco, mortificada demais para assumir em voz alta que talvez preferisse não saber o que ele tanto escondia. Será que conseguiria lidar com o que quer que fosse? E se ele estivesse metido em algo perigoso?
Não teria coragem de cogitar algo nesse nível se não tivesse sido seguida dias atrás de uma maneira extremamente suspeita. E para falar a verdade, era a segunda vez que tinha sido seguida em dois meses. Coincidentemente o período que voltara para cidade. Mas não poderia ser, nada que envolvesse ele poderia deixa-la em perigo. Não poderia ser de jeito nenhum.
A verdade é que Dr. Parker tinha razão no que havia dito horas mais cedo naquele mesmo dia. poderia até berrar a plenos pulmões que não queria ser deixada no escuro, que queria saber o que ele escondia. Mas ao considerar que talvez a verdade fosse responsável por afasta-los, então ela também afastaria - inconsistentemente- a verdade que ele escondia. Porque nada poderia ser mais doloroso do que se afastar dele.
Mesmo que não soubesse exatamente o motivo para ele se afastar tanto, sabia que confiava em . Mesmo que ele não estivesse necessariamente fazendo esforços para merecer essa confiança, confiava nele. Sentia-se segura quanto ao caráter dele, pelo menos. Isso já poderia ser o suficiente por hora.
Ziguezagueou pela casa por alguns minutos até perceber que já estava atrasada para aula. Recolheu a bolsa no cabideiro, vestiu o sobretudo e saiu apressada de casa, ignorando o celular que tinha jogado na mesa.



- Alguma dúvida, ? – Professora Smith perguntou depois de um tempo, sobressaltando que notava que a sala estava vazia.
- Hm, não, professora! Só me distraí um pouco. – Confessou envergonhada organizando seus materiais e preparando-se para levantar.
- Serena, está tudo bem mesmo? Nos últimos dias estou te percebendo bem distraída. – Professora Smith perguntou atenciosa e apenas confirmou com a cabeça, forçando um sorriso. Não parecendo convencida, a professora continuou. – Não pretende abandonar os estudos dessa vez, não é mesmo?
- Não! Não vou abandonar nada! – garantiu com firmeza e observou o rosto da professora se iluminar.
- Tem ido as sessões com Parker? É importante que se cuide se quiser se tornar uma boa psicóloga.
- Eu sei e eu vou, juro. – prometeu sinceramente, agradecendo a preocupação da professora. Sabia que ela falava aquilo para o seu bem, mas sentiu-se triste por sua situação de desânimo ser tão visível.
Sabia que aquilo não era certo. Deixar seus estudos de lado por conta de outras pessoas. Já cometera esse erro antes com toda questão do Brandon, não pretendia repeti-lo. Cada dia que passava tornava-se mais consciente da sua dependência emocional com relação a e sabia o quanto isso não era saudável. Não podia transferir seu medo de abandono para ele e era como Dr Parker tinha lhe dito outra vez “É uma responsabilidade muito grande colocar nas mãos de uma pessoa tanta importância; além de melhor amigo é namorado, é mais saudável que não deposite tanta carga emocional em uma pessoa só, pois na ausência dele você pode ruir”. E era isso.
Mais tarde naquela mesma noite, enquanto dirigia de volta para casa, decidiu que não queria saber. Fosse o que fosse, sabia que iria resultar num afastamento entre eles e ela não queria isso. Preferia ficar com ele a ficar sem ele. E nenhuma verdade nesse mundo poderia ser mais importante do que estar com . Estava decidido. Não importava quem era Juanita, não fazia diferença se ele tinha alguma razão oculta para não querer morar com ela, não queria saber.
Em meio aos pensamentos, lançava um olhar ou outro no retrovisor para checar movimentação estranha dos carros a sua volta. Não que quisesse admitir, mas estava se tornando um pouco paranoica quanto a isso. Estava se aproximando de casa quando notou um carro preto estacionado na sua rua. Com o coração batendo freneticamente, desacelerou a velocidade e pode contemplar a placa que conhecia muito bem.
Tremendo da cabeça aos pés, estacionou bem atrás do carro de sem nem se importar em abrir a garagem. Suas pernas estavam bambas quando desceu e sua boca de repente ficou seca. Afundou as mãos nos bolsos do sobretudo e caminhou lentamente para a porta da sua casa, onde um rapaz que ela conhecia muito bem estava sentado sob os degraus olhando fixamente para os próprios sapatos.
ergueu os olhos para encarar quando ela se aproximou a uma distância razoável. Quando seus olhares se cruzaram, precisou refrear o impulso que sentiu de jogar seus braços ao redor do pescoço dele. Só agora conseguia perceber quão esmagadora era a saudade dele.

[N/a: Podem colocar a música para tocar!]

Ele usava a jaqueta preta de couro que ela tanto amava. Seus olhos estavam tão brilhantes quanto se lembrava, mas arrodeados por marcas roxas de olheiras. Vê-lo naquela expressão tão abatida fez sentir-se murcha por dentro.
Ficaram se encarando por algum tempo em silêncio absortos demais em seus próprios pensamentos. estava sério, mas não parecia com raiva. suspirou sentindo seu coração doer de tanto bater descompassado.
- Oi. – Ela rompeu o silêncio numa vozinha rouca. apenas acenou com a cabeça, ainda sem quebrar o contato visual. – Como foi de viagem? Achei que só fosse chegar amanhã. – continuou, tentando manter o tom de voz cortês.
- Tranquila. – respondeu dando de ombros com as mãos ainda dentro da jaqueta. suspirou mais uma vez.
- O que está fazendo na porta da minha casa?
- Provando para mim mesmo que eu poderia estar te esperando lá dentro, mas não tenho a chave. – Ele respondeu e pode perceber um traço mínimo do sorriso torto nos lábios dele.
- Eu moro sozinha, você não tem que ter a chave da minha casa. – Ela respondeu prontamente e eles se olharam por alguns segundos antes de trocarem um meio sorriso torto, ainda tristes. se levantou, retirou as mãos da jaqueta e ficou alguns centímetros de distância de Serena.
- Me desculpe pelas coisas horríveis que eu te falei. – Ele disse sério, porém calmo. – Você não merecia ouvir nada daquilo e não foi de coração.
- Tudo bem, eu te pressionei e fui mimada. Não existe pressa para morarmos juntos. – deu de ombros retirando as mãos do sobretudo para consertar um mecha de cabelo que caia sobre os olhos.
- Você não me pressionou, só me pegou de surpresa. Às vezes fico sem saber o que dizer e acabo falando merda, me perdoe. Mas eu falei sério quando disse que pretendia passar a vida inteira com você.
- , deixa pra lá, ok? Não precisamos falar disso agora. Eu me empolguei porque estávamos passando tempo demais juntos e acabei falando no calor da emoção. Não quero parecer grude.
- Você não é grude, sério! Não se trata disso. – interrompeu e se calou, contendo um suspiro. Estava cansada demais para ter essa briga.
- Eu não vim aqui para brigar, me desculpe. – verbalizou os pensamentos dela. – Não foi com sinceridade.
- Será? Qual foi a parte que não foi sincera? Você dizer que não quer morar comigo, você me chamar de mimada ou você dizer que é por isso que mente para mim? – perguntou com a voz embargada e franziu o cenho incomodado.
- Me desculpe por ter te chamado de mimada. Você é uma pessoa forte, eu estava com raiva e magoado por você ter me chamado de mentiroso.
- Mas você admite que esconde coisas de mim! – falou já sentindo as grossas lágrimas que tanto evitou durante os últimos dias, escorrerem pelo seu rosto. O barulho de trovão os assustou, mas não foi o suficiente para quebrar o contato visual entre eles.
- Eu não te contar tudo não significa que eu não seja honesto com você. Existem coisas que eu prefiro guardar só para mim apenas porque preciso. Só queria que acreditasse que nada disso tem a ver com meu sentimento por você. Eu te amo muito, nunca questione isso. – falou baixinho segurando o rosto de entre as mãos e ela virou o rosto se sentindo frustrada, com medo que o contato direto com os olhos de numa proximidade tão grande acabassem a desarmando como sempre fazia.
- Desde quando mentir para mim é para o meu bem? E como você pode me amar e não ser honesto comigo? – perguntou contendo um soluço. Não acreditava que isso finalmente estava acontecendo, que os segredos de estavam ficando entre eles. Mas não ia desistir assim tão fácil.
- Eu sei que parece loucura, talvez a maior loucura de todas. Mas, você confia em mim? - perguntou encarando-a profundamente. olhou fundo naqueles olhos que pareciam perfurar sua alma e de repente não sentiu medo. Era seu e ela confiava nele. Assentindo mais uma vez, sentiu lágrimas caírem por suas bochechas e limpou entre os polegares.
- Eu amo você. – disse e se desvencilhou dos braços dele, deixando-o confuso.

- Eu não quero que a gente termine! Não quero sofrer pensando será que toda vez que eu te vejo pode ser a última. – disse sem conseguir mais conter as lágrimas. Sentiu algumas gotas de chuva pinicarem seu rosto, mas não se importou e aparentemente também não.
- Serena, pelo amor de Deus. Eu dirigi por horas e vim correndo para cá. Para ver você. Você acha que eu vou a algum lugar? Eu não consigo ficar longe de você. Não de novo. Eu to aqui, morrendo de saudade e de remorsos por ter te magoado, você acha mesmo que eu vou te deixar? – perguntou ¼ de voz mais alto que o normal.
- Não me deixe. – sussurrou com o rosto raso de lágrimas misturadas com a chuva que agora engrossava consideravelmente. permaneceu sério.
- Eu não vou a lugar algum. – Disse antes de se atirar em cima dela, sem se conter mais um segundo. sentiu o braço de na sua cintura lhe puxando para um abraço, ao mesmo tempo que outra mão segurava sua nuca lhe trazendo para perto da boca sedenta por um beijo. Entrelaçou com força sua mão por entre os cabelos dele o abraçando pelo pescoço enquanto se entregava ferozmente ao beijo. Estavam onde nunca deveriam ter saído, no lugar que mais gostavam de estar. Um no outro.
Continuaram se beijando por um tempo até serem surpreendidos por mais um trovão e um relampejo que iluminou toda rua ao redor. Pararam de se beijar e se olharam por um segundo, os lábios vermelhos e os cabelos bagunçados. Sorriram bobamente um para ao outro, bêbados de felicidade por estarem finalmente juntos.
- Vamos entrar. – disse, tomando pela mão e caminhando apressadamente até a porta retirando as chaves do bolso.
Assim que adentraram o interior da casa, arrepiaram-se com o contraste do clima quente e abafado, mais aconchegante que o frio que fazia lá fora. não esperou nem terminar de fechar a porta e já estava pressionando-a contra a parede em mais um dos beijos de tirar o fôlego.
Continuaram a se beijar, dessa vez com volúpia. sentiu puxar seu sobretudo para baixo e ainda desajeitada durante o beijo ela o retirou sentindo um arrepio percorrer sua espinha quando os lábios dele alcançaram seu pescoço. O contraste dos lábios quentes e macios de em sua pele úmida e gelada fez abafar um gemido mordendo o lábio inferior com força.
Imitou o gesto dele, puxando a jaqueta para baixo e sorriu satisfeita quando ele retirou a peça de roupa.
- Que bom que você está aqui. – sussurrou baixinho no ouvido do namorado que passava a língua demoradamente no lóbulo da sua orelha, eriçando todos os pelos do seu corpo.
- Que saudade… – murmurou em resposta, apertando firmemente em suas mãos, mordendo a orelha dela devagar, arrancando outro gemido que ele tanto amava ouvir.
segurou o rosto de entre as mãos e posicionou-se novamente frente a ele, iniciando outro beijo longo e apaixonado. Mãos, toques, suspiros, beijos e mais beijos desesperados foram trocados enquanto eles se mantinham ocupados tentando despir um ao outro.
segurou os dois lados da cintura de erguendo o corpo da namorada que prontamente cruzou suas pernas em cada lado do corpo dele, ficando em seu colo. Ainda sem interromper um beijo voraz, a guiou cegamente até o sofá, onde se sentou no braço, ainda ofegante pelo beijo que era interrompido por mordidas fortes.
inclinou seu corpo para trás, deitando-se no sofá enquanto desafivelava a própria calça e observava fazer o mesmo com as últimas peças de roupa que ainda estava usando. Quando ele inclinou-se para deitar por cima dela, inverteu as posições, deitando-o no sofá e sentando por cima dele, sentindo seu corpo arrepiar por inteiro ao sentir a ereção dele friccionando em sua intimidade.
espalmou as mãos nas costas de e num só movimento desafivelou o sutiã dela, jogando-o no chão quando ele caiu frouxamente em seus braços, já se entretendo distribuindo beijos e mordidas na região recém exposta, enquanto puxava seus cabelos com força, jogando sua cabeça para trás entusiasmada com o carinho.
Instintivamente movimentou-se para frente e para trás indicando a o que ela queria e sorriu ao perceber ele ficar ainda mais ereto ouvindo seu gemido abafado.
- Você é linda demais, sabia? – Ele sussurrou bem próximo ao ouvido dela, as mãos hábeis já afastavam a calcinha para o lado tocando onde ela bem queria. Sorriu extasiado ao notar a expressão sôfrega dela, tão entregue, tão apaixonada, tão sua. Não podia aguentar mais um segundo se quer de saudade. Precisava tanto tê-la. E em um só movimento, encaixou seu corpo ao dele, soltando toda a respiração ao mesmo tempo que fechava os olhos de satisfação.
A chuva caía com mais força lá fora e batia furiosamente contra a vidraça. O vento gélido adentrava por entre as frestas das janelas entreabertas, mas eles não se importavam, estavam em chamas. Seus corpos se friccionavam um no outro fazendo movimentos que apesar de conhecerem tão bem, sempre pareciam como a primeira vez.
Entre gemidos e mordidas, se reconciliavam pelos momentos que ficaram distantes deixando a saudade falar mais alto, afastando qualquer medo, insegurança, mentira e meias verdades. Naquele momento, nada mais importava além dos seus corpos grudados e os corações acelerados em busca do clímax que atingiriam juntos.
Para depois começarem novamente.


Continua...



Nota da autora: Olá, misteriosas!
E AI, MISTERIOSAS????????? TODAS VIVAS DEPOIS DESSA ATUALIZAÇÃO DUPLA?
Sei que demorei, mas espero que tenha me redimido o suficiente com esses dois capítulos cheios de informações para processar.
Agora FINALMENTE entramos na segunda parte da história e eu já vou logo avisando aos navegantes: preparem o coração.
O que me leva diretamente ao segundo ponto: Nossa pp está finalmente a beira desse colapso emocional. Espero que vocês não estejam me odiando, e se estiverem me permitam explicar:
Não vou romantizar relacionamentos tóxicos! Estou ciente (e agora a pp está começando a ficar também) da dependência emocional que ela tem com o pp. Mas eu preciso mostrar para vocês o outro lado da história, além de problematizar isso. Eu sei que é errado preferir ficar em silêncio e no escuro, mas preciso que vocês entendam o que se passa na cabeça de uma pessoa que está nessa situação e exercitem um pouco de empatia. Todas queremos uma pp badass e independente, mas nem todas sabemos como algumas pessoas fazem para conseguirem chegar lá. Nossa pp está em estado de negação e isso é normal. Dr Parker está plantando a sementinha e ela vai florescer, prometo.
E quanto ao segredo do pp, já sabemos pelo menos 25% do que ele tanto esconde. Isso significa dizer que agora é com vocês darem uma de CSI e começarem a elaborar as teorias. O que sabemos é que realmente tem a ver com o irmão dele que está preso. O que vem a partir daí? Em breve saberemos.
Assim como prometi no nosso grupo, o resultado da PRIMEIRA PARTE do bolão saiu e as PRIMEIRAS vencedoras vão ganhar a primeira parte do capítulo 16 quando ele for enviado para a beta.
Vou listar as vencedoras e vou deixar um aviso IMPORTANTE: Para terem direito ao capítulo, preciso que as ganhadoras comentem AQUI para que eu saiba que já leram as atualizações, ou não vai adiantar de nada receberem att adiantada né? Deixem seus respectivos e-mails e nos vemos na próxima!

VENCEDORAS DO CAP 16 PARTE I:

Larissa Caiado
Fernanda Souza
Brenda Silva
Larissa Cristina
Bruna Cruz

Essas foram as que votaram na opção que se encaixava melhor no que foi revelado neste capítulo, não quer dizer que outras teorias foram descartadas. Farei um novo bolão conforme a fic for dando continuidade.

Besitos molhadinhos e até a próxima!

Mesma autora de:
A Beautiful Nightmare (Longfic/Em Andamento)
01. Revival (Ficstape)
Mixtape: Shout Out To My Ex

Trailer de M&A | Grupo da fic | Minha ask.fm | Ask da Serena (pp de M&A)




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Para saber quando essa linda fic vai atualizar, acompanhe aqui.



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