O começo...


Era uma manhã comum na cidade de Dover, no condado de Kent, no Reino Unido. Duas mulheres conversavam enquanto uma apresentava sua pequena filha de cabelos ruivos e grandes olhos castanhos à outra.

- Ele é lindo, Mary. Não acredito que você demorou quase dois anos para me mostrar seu filho! – A mulher, que estava deitada sobre a maca de uma maternidade com sua filha recém-nascida no colo, falava com uma mulher que estava em pé, segurando a mão de um menino de dois anos, com olhos extremamente , pele branca e cabelos .
- Desculpa, Katherine. – A mulher que estava em pé suplicou. – Seu marido não gosta de mim, ou seja, você não ia à minha casa, eu não ia à sua... Quando a gente saía, eu não ia levar um bebê, não é?
- Ok, Mary, está perdoada.

As duas ficaram conversando por algum tempo e nem se deram conta de que a miniatura de homem acariciava com certa dificuldade a mão da bebê.


- Filha, pode me ajudar a fazer o almoço? – Katherine gritou ao escutar os passos corridos da garota na escada.
- Não dá, mãe! Estou indo Para a casa da tia Mary!
- Ok, mas não demora!
- Ok mãe. Tchau! – Deu um rápido beijo na face da mulher e saiu, batendo a porta atrás de si.

Saiu correndo pela rua, cantando e dançando, como sempre fazia. Estava indo se encontrar com , seu melhor amigo. Naquela tarde, ele tinha prometido que iria ensiná-la a tocar violão. Ela adorava aprender coisas novas, e era talentosa. Na verdade, ela precisava ser, pois queria realizar seu sonho de um dia ser uma atriz famosa e trabalhar em vários musicais... Tinha que aprender o máximo possível.

Estava quase chegando, e ela podia ver , sentado na escadaria da porta, a esperando com seu violão. Parecia estar impaciente.

- Bom dia, . – Resmungou entre dentes. – Está atrasada. Meu pai quase me levou junto para a oficina.
- Bom dia, seu resmungão. – Sorriu, apertando as bochechas do garoto. – Desculpe se eu só tenho quinze anos e não posso sair de casa a hora que eu quiser.
- Cala a boca. – O humor de estava começando a melhorar. – Eu tenho que te ensinar uma música que eu escrevi há um tempo. – Tirou um papel com escritos que mais pareciam rabiscos. – Primeiro eu toco e você canta, depois eu te ensino a tocar, ok?
- Vai, pode ser... – A menina sorriu e tentou decifrar o que era a primeira palavra. – , me ajuda aqui...
- Ai, ai... – Ele riu. – I wonder...
- Ah! Está bom! – agradeceu. – Vamos lá...

Os primeiros acordes foram tocados. Era uma melodia serena, que falava das muitas perguntas que se tem na vida, mas de como as coisas ficam perfeitas quando se está em paz consigo mesmo e como só melhoram se a pessoa que você ama estiver ao seu lado.

- Gostou, ?
- Ah... Adorei! – Exclamou. – Você escreveu para alguém? – Sentiu medo da resposta.
- Escrevi. – A garota engoliu a seco.
- Para quem?
- Não importa. – sorriu. – Vem aqui, senta do meu lado que eu vou te ensinar a tocar.

Ela sentou ao seu lado e colocou o violão em seu colo. colocou seu braço em volta dela para firmar o violão, que por pouco não caiu no chão.

- Você tem que tomar mais cuidado. – Riu, pegando a mão de e ensinando alguns acordes.

Após alguns minutos, ela conseguiu tocar uma melodia simples e começou a cantar.

- Eu sou tão desajeitada. – Exclamou após desafinar.
- Não, não! Está perfeita! – “Assim como você” pensou.

E os dois ficaram se olhando por uns segundos, durante um silêncio constrangedor, até que desviou seus olhos, virando para o outro lado.

- Toma o seu violão. Preciso ir para casa. Já é hora do almoço.
- Mas eu pensei que você fosse almoçar aqui. Ainda preciso te ensinar muita coisa e... Espera, por favor! – Disse ele, segurando seu braço. – Entra. Minha mãe está lá em cima... Repousando. O bebê está chutando muito.
- Ah! É claro. – Disse rindo. – Eu queria mesmo falar com ela. Está grávida de quantos meses mesmo? Estou torcendo para ser uma menina... Vou ensiná-la tudo que eu sei...

E entraram super animados na casa, que, por sua vez, era linda. Era cheia de instrumentos musicais. Toda a família de Mary era musicista, e foi assim que começou a construir seu sonho: ser um grande cantor no futuro, como , que desejava ser uma atriz famosa. A amizade entre os dois começou assim: sonhando. Mas essa “amizade” foi ficando mais forte, e os sentimentos, cada vez mais confusos. Um não tinha coragem de falar para o outro o que pensava e vice-versa. Assim, continuaram amigos.

Ao chegarem no quarto, viram Mary sentada na cama, escrevendo em seu diário. , entusiasmada até demais, entrou no quarto correndo.

- Oi tia Mary! Você está tão linda! Nossa! Como cresceu! Ela vai ficar enorme! Igual ao . E vai ser a mais linda dos bebês, sendo filha de uma “lady” como você.
- Ai, ! Mas que graça! Obrigada pelo elogio, mas estou me sentindo tão inchada... Deixa para lá... Me diz, como você tem tanta certeza de que é uma menina?
- Eu só tenho, oras! Você já tem o como filho homem, agora precisa vir uma princesinha para dar o toque final nessa casa, que é maravilhosa!
- Tem razão... Mas é uma benção ter um filho, independente do sexo. – Disse, deixando acariciar sua barrida. – E Katherine? Como ela está?
- Ela está ótima. Queria vir te visitar, mas quase não temos tempo. Nossa vida está uma correria... E, olha, já estava me esquecendo da hora do almoço de novo! Me desculpe, tia Mary, prometi à mamãe que não iria demorar. – Disse, lhe dando um beijo e já se levantando.
- Então vá logo, minha querida... E mande um beijo meu para ela.
- Claro! Posso pedir para o me acompanhar até em casa? Preciso mostrar a ele uns sites de universidades que encontrei.
- Sim, pode! É bom que ele saia um pouco dessa casa e deixe o violão por uns instantes.

E assim, saiu do quarto, indo em direção ao outro lado, procurar seu amigo. Ele pegou seu skate e foram em direção à casa de Katherine. No caminho, existia um lago que ficava no parque mais bonito da cidade. Estava cheio de carrinhos de algodão-doce e pipocas. Compraram um pacotinho desta e comeram até chegarem.

- Olá, mamãe! Cheguei e trouxe visita. – entrou em casa, se dirigindo à mãe, que estava na cozinha, enquanto puxava escada acima pelo punho.
- Oi, tia Katherine! Como a senhora está linda hoje!
- Ah! Obrigada, ! Que gentileza... – Ficou rosada. – Ei, ! Pare de puxar o menino assim e venham almoçar! Os dois!
- Não dá! – Respondeu já no andar de cima. – Estou ocupada.

Entrou em seu quarto e ligou o computador. Abriu a homepage, que mostrava as melhores universidades de Artes Cênicas e Música do mundo.

- Olha, . Eu andei pesquisando umas universidades e descobri que eu posso conseguir uma bolsa de estudo em uma delas. Então eu vou me formar, viajar o mundo inteiro e construir uma carreira brilhante. Não é maravilhoso?
- É, parece ser. – Disse desanimado. – Mas, , você tem que saber que... Isso é só um sonho... É muito difícil conseguir uma bolsa de estudos em outro país. É praticamente impossível...
- O que você está dizendo? – Perguntou atônita, não entendendo onde ele queria chegar.
- , isso é só um sonho... Ele pode não se realizar. Eu só não quero que você sofra querendo tanto isso. Sei que sempre falamos em nos tornar artistas... Mas isso é coisa de criança... A realidade é outra. Não se pode simplesmente sonhar.

Nessa hora, estava chorando desesperadamente. Na verdade, ela não acreditava que estava escutando aquilo da pessoa em quem ela mais confiava e com quem elaborou tantos planos.

A garota não entendia que amadurecera, já vira as dificuldades da vida: a oficina de seu pai não dava lucro, já estava vindo outra pessoa para a família, o que resultava em mais despesas, e logo ele teria que ajudar seu pai, o que implicaria em ter que desistir de seus sonhos.

No fundo, o menino tinha um medo: o de conseguir ir para fora e, então, nunca mais voltar.

- Você não sabe o que está dizendo! – Gritou, empurrando-o porta afora. – Vai embora! Não quero mentirosos dentro da minha casa!
- ! Se acalme, por favor. Você não está me entendendo.
- Entendo o suficiente. Você tem medo de lutar pelo que quer. Não tem coragem de correr o risco... Eu não conheço mais você! Onde está o seu espírito aventureiro?
- , eu cresci! Agora eu vejo o mundo com outros olhos. Tenho responsabilidades que vêm em primeiro lugar. Conquistas, grandes assim, são só para alguns...
- Não! – Ela apertou os olhos, frustrada. – São para quem acredita! – E bateu a porta, deixando-o do lado de fora.

O garoto desceu as escadas desanimadamente, em um ritmo lento. Mary, ao escutar passos, foi para a sala ver quem era.

- Ah! Oi, querido. Vem almoçar! Chama a , por favor.
- Desculpa, tia. A gente brigou e eu vou para casa. – falou assim que pisou no último degrau. A mãe de segurou seu ombro e o puxou para se sentar no sofá, junto dela.
- Meu querido, vocês se dão tão bem. O que aconteceu?
- Eu falei para ela que o sonho dela é praticamente irrealizável e ela ficou brava.
- , a é muito sonhadora. Ela fica realmente abalada quando alguém fala que ela não vai conseguir fazer o que ela quer.
- Eu não sabia que ela iria se magoar tanto. - Ele disse com os olhos cheios de lágrimas. – Eu cresci e vejo as coisas diferentes agora. Eu sei que sonhos assim são difíceis de serem realizados e eu gosto muito da sua filha, tia Kath. Ela já não tem pai... Ela não merece sofrer mais.
- Ela não vai sofrer. A nunca sofreu por causa do pai dela ter morrido antes dela nascer e não vai sofrer agora se o seu sonho não for para frente. Ela vai começar a sonhar com outra coisa. – A mulher sorriu. – Então, vai lá em cima e conversa com ela. A tem um bom coração e vai te perdoar. Com certeza.

E o garoto foi. Fez seu caminho para o andar de cima e bateu na porta, que ainda estava fechada.

- Quem é? – A voz feminina do lado de dentro gritou.
- , sou eu. – Disse.
- Sai daqui! – Gritou enfurecida.
- Por favor, . Eu quero falar com você.

Ouviu-se, então, o barulho da chave girando. abriu a porta lentamente. A garota estava sentada, encostada na cabeceira de sua cama, abraçando uma almofada e com lágrimas em seus olhos. O menino, cautelosamente, andou até a beirada da cama, onde se sentou.

- Como você está? – Tentou, inutilmente, encostar-se aos pés de , mas ela rapidamente os puxou, apertando com ainda mais força a almofada contra seu corpo. – Olha, eu sei que eu fiz errado quando eu falei que seu sonho era impossível. – Esperou que fosse dito alguma coisa, mas só um murmúrio saiu da boca dela. – Eu acredito que você vai fazer a faculdade em qualquer lugar que você quiser, mas é uma coisa que exige muita dedicação e...
- Eu entendi. Não estou brava com você, .
- O quê? Do que você me chamou? – Ele arqueou uma de suas sobrancelhas.
- . É seu sobrenome, não é? .
- É, mas... Você nunca me chamou assim, tão fria. , eu não vou sair daqui até você me perdoar.
- , não adianta! Nossas mentes pensam diferentes agora! Eu tenho quinze anos e você tem dezessete. Não precisa tentar! Você sabia que isso ia acontecer, querendo ou não. Depois do que aconteceu hoje, nossa amizade nunca mais será a mesma. Eu percebi o que você sabia há muito tempo e nunca me disse: você cresceu. Está vendo as coisas de um jeito diferente e eu, simplesmente... – Uma pausa para respirar fundo entre os soluços de seu choro, que agora era intenso. – Simplesmente... Fiquei para trás na sua história.
- Não fale isso, ! – Seu tom era zangado. – Você sabe que eu nunca... Nunca deixaria você! – Berrou.
- Sei! – Sua voz fina de menina ressoou alta e estridente pelo quarto. – Você quase sempre me deixa sozinha na escola para ficar com os seus amigos! – Ficou de pé. – Você nunca fala para ninguém que me conhece desde sempre! Você nunca... – As palavras foram morrendo.
- Eu nunca o quê, ? Eu quero que você fale o que eu nunca fiz por você! Você sempre foi tudo para mim! Você era o motivo pelo qual eu acordava mais cedo para me arrumar para escola! Você sempre foi o meu mundo, ! Sempre! – falava tudo que estava preso na sua garganta há anos. – Se você tem coragem, fala alguma coisa que eu nunca fiz por você!
- Você nunca me amou! – A soltou, com lágrimas nos olhos. – Nunca... Nunca me amou do jeito que eu te amo.

Possuído pela fúria e com o sentimento de injustiça o corroendo por dentro por causa das palavras de , o , mais do que rapidamente, se levantou e tomou-a pelos ombros, puxando-a para perto de si e colando seus lábios.

Não foi um beijo demorado, nem sequer houve aprofundamento do ato.

- Isso foi... – Ele tentou começar a falar alguma coisa. – Me desculpe.
- Não, não! – gritou, segurando em seu pulso e impedindo que ele saísse do quarto. – ! – Berrou quando ele tentou se soltar. – Tudo bem.
- Isso foi errado.
- , eu te amo. – falou com os olhos brilhando.
- Eu também te amo, . – Os dois sorriram.
- Almoça aqui?
- Eu tenho que voltar para casa, mas amanhã a gente se vê no colégio. – Avisou e roubou um selinho da garota, que ficou parada, olhando para a porta, sorrindo, vendo a pessoa que ela mais amava desaparecer através dos degraus da escada de madeira.

Os primeiros problemas…



- Bom dia, ! – Disse na entrada do colégio, pulando de alegria.
- Bom dia, ! – Respondeu , que estava sendo puxada para um canto por sua amiga. – O que foi que aconteceu? Que felicidade é essa, amiga?
- É... Foi que... É, bem... Ele! – gaguejava, tentando explicar o que acontecera.
- Ele quem? Calma! Está me deixando nervosa. – As duas estavam muito ansiosas: uma para contar, a outra para ouvir.
- Ele falou comigo! Finalmente o falou comigo! Isso não é maravilhoso?
- Falou, é? Que bom! Estou muito feliz por você! – Disse, chateada. Mentira para amiga. Estava com raiva por ela estar tão feliz só porque tinha falado com ela. Era puro ciúme.
- Claro que está! Somos amigas! Na verdade, ele não falou comigo assim, sabe? Ele só me disse oi...
- Oi? Por que você está assim, então? Todo mundo dá oi por aí.
- Alô? Ele me disse aquele “oi”. Ele sabe que eu existo. Já é meio caminho andado.
- E daí? Você é a garota mais popular do colégio. Todos sabem quem é você. – E saiu em direção à sala de sua primeira aula, deixando para trás, tentando alcançá-la com seus saltos cor-de-rosa. – Você ainda gosta dele? É perda de tempo...
- Por quê? – Disse desconfiada. – Você sabe de alguma coisa?
- Eu? Claro que não! Digo... Ele nunca te deu bola desde o primeiro dia de aula. Não perca seu tempo. Parte pra outra. Eu sou sua amiga e não quero te ver sofrer.
- Eu sei, mas eu estou apaixonada! Preciso tentar! E você podia me ajudar... Já que é amiga dele.
- Veremos... – Disse , morrendo de raiva. Cumpriria com o pedido de ajudá-la, mas ajudá-la a ficar longe de .

Ao término das aulas, , voltando a pé para sua casa, viu uma BMW conversível, com o capô fechado, prateada parar ao seu lado. A garota parou de andar e observou a janela escura descer, revelando sua amiga .

- Entra, . Eu te deixo em casa.
- Não, obrigada. – Falou, ríspida, voltando a fazer seu caminho. A BMW andou um pouco mais.
- Vamos, . Você não vai querer andar quando pode vir sentada. O Alfred te leva.
- Não, obrigada, .
- Então eu te deixo na casa do .
- Eu não vou pra lá. Vai embora, não perca seu tempo comigo.
- Ai, amiga, então tudo bem. Até amanhã. – Miou e, em uma fração de segundo, o carro já estava se perdendo no fim da rua.

A soltou o ar que estava preso em seus pulmões e continuou sua calma caminhada.

- Olá, mãe! – Gritou abrindo a porta.
- Oi, meu amor. – Katherine apareceu no topo da escada. – Eu estava olhando algumas coisas antigas...
- Que coisas?
- Coisas do seu pai... Tem mais no porão, mas... Quer ver essas? – Os olhos da menina se encheram de lágrimas e ela correu para junto de sua mãe.

As duas ficaram buscando e conversando sobre coisas passadas.

- Como era o papai? – questionou.
- Você iria adorá-lo. Ele parecia muito com o . - Kath sorriu.
- Adorável, mas egoísta e ciumento. – concluiu, rindo.
- Ele não deixava eu ir na casa da Mary.
- Ele iria deixar eu ver o de tanto que eu iria incomodar ele. – Riu ainda mais.
- Seu pai faz falta, .
- Eu queria conhecê-lo. – Lágrimas voltaram a aparecer. – Acho que eu vou lá na tia Mary. – Enxugou seu rosto e rapidamente foi ao seu quarto.

Trocou sua calça jeans e sua blusa por um vestido vermelho. Continuou com a sandália branca, pegou seu celular e, sem mais delongas, correu para fora de casa.

Avistou a casa grande e amarela que seu melhor amigo morava. O estava sentado na escada, só de calça jeans, observando a rua. Ao vê-la, decidiu fazer uma brincadeira.

- Ei, princesa! – Gritou. – Você vem sempre aqui?
- Hm... – Entrou na brincadeira. – Não sempre. E você?
- Eu moro por aqui. Qual é o telefone da princesa? – sorriu, vendo a garota andar até ele com um olhar irônico e se sentar ao seu lado, logo antes de dar um tapa em seu braço.
- Eu não vou te passar meu telefone. Está pensando o quê? Sou uma garota difícil.
- Sei. – Riu, dando um selinho na menina e mordendo seu lábio inferior.
- Pára! – gargalhou. – Sua mãe vai ver.
- Sabe o que eu quero? Que todo mundo veja! Daqui a um mês vai ter o Baile de Inverno... Eu quero que você vá comigo.

engoliu a seco. O que diria para ?

- Tudo bem! – Respondeu empolgada, acariciando os cabelos da nuca de . – Quer ir lá para casa? Eu tenho que estudar...
- Não posso. Meu pai não quer que eu esteja fora de casa na hora em que ele chegar.
- Ah! Então eu vou voltar para casa.
- Tchau. – Deu outro beijo na menina. – Até amanhã.
- Até. – Ela sorriu.
- Ei! – O gritou quando estava passando pelo portão. – Eu te amo.
- Eu também. – Sorriu e continuou seu retorno ao lar, dançando e cantarolando alguma música cujo nome não se lembrava.

~*~


- Ei, ! Preciso falar com você. – Disse , se aproximando de , que estava sentada de baixo de uma árvore, fazendo seus deveres. Ela parecia nervosa.
- Não, . Nem começa. Já sei de tudo e estou muito chateada com você. Agora me deixa estudar.
- Espera... Você já sabe? Mas eu nem te falei ainda. – Ela não estava acreditando que sabia que já a tinha convidado.
- E nem precisava. Está na cara! Por que não me disse isso antes?
- Bom, eu iria te falar agora... Mas como você já sabe...
- E eu estou muito chateada... E decepcionada também.
- Então... Nossa amizade vai acabar?
- Ei, não exagera! – Respondeu , notando o rosto triste de . – Nossa amizade não vai acabar porque você tira nota máxima em espanhol e eu zero. Mas da próxima vez você poderia me ensinar... O que você faz todas as tardes? Podia ser caridosa com a sua amiga aqui.

Por um momento, o coração de aliviara o peso que vinha carregando desde a manhã, tentando contar à amiga que a convidara para o Baile de Inverno e que os dois se amavam. Mas o alívio durou pouco, trazendo, após, a culpa com ainda mais força.

- Ah! , senta aqui. – a puxou para que se sentasse ao seu lado. – Você já está sabendo do Baile de Inverno que vai acontecer daqui a um mês, não é?
- Sim... E é por isso que...
- E é por isso que... – Interrompeu. – Eu decidi tomar coragem. – engoliu a seco. Parecia adivinhar o que viria a seguir. – Vou convidar o para ir comigo. Não é uma ótima idéia?
- ...
- E é claro que eu vou com aquele vestido rosa que é simplesmente maravilhoso...
- ... – tentava interrompê-la inutilmente.
- Ah! E eu já estava me esquecendo! Precisamos achar alguém para ir com você! E não adianta dizer que não vai porque eu não vou deixar... O que você acha do ? Não... Ele é muito galinha... Já sei! Chama o ! Ele é um gato e vocês vão formar um casal lindo!
- , pára! Eu preciso te falar uma coisa! – Respirou fundo e começou. – Eu já tenho um par para o Baile.
- Ah! Que ótimo!
- Não! Escuta pelo menos uma vez na sua vida. – fechou os olhos. – O me chamou para ir com ele ao Baile... E eu aceitei.
- Você aceitou?! – Os olhos de começaram a se encher de lágrimas. – Mas como você pôde? Eu esperava tudo de você, menos isso! Você disse que iria me ajudar e traiu a nossa amizade!
- Não, ... Eu sempre amei o , antes mesmo de te conhecer.
- Mas você nunca me falou nada! Eu sempre deixei claro pra você que eu gostava do ! Você teve tantas oportunidades de me contar, ! – Os grandes olhos azuis da loira estavam mareados. – Não precisa nunca mais vir falar comigo... – Falou baixo.
- Nunca mais falar com você, ? Eu não fiz nada de errado para você me tratar desse jeito! – Disse irritada. Achava que tudo aquilo era injusto.
- Nada, ?! – aumentou seu tom de voz. – Você escondeu seu maior segredo de mim! Não se constrói uma amizade assim!
- , eu não sabia...
- Tchau, . – A loira saiu, jogando seu cabelo ao vendo, com um olhar ardendo em fúria.

~*~


estava encarando seu reflexo no espelho. Trajava um vestido vermelho que cobria apenas um de seus braços, mas deixava ambos os ombros à vista. Colocou por cima um leve bolero marrom claro, de mangas curtas, feito inteiramente de renda.

- Está horrível! – Gritou, se despindo daquela roupa. Abriu seu armário e procurou por algo simples, mas elegante. Não queria longo, nem nada quente demais, ao mesmo tempo em que não queria uma roupa aberta demais, afinal, aquele baile era para comemorar o início do inverno.

Nada entre suas opções parecia muito aceitável. Nenhum vestido parecia se encaixar na ocasião. Cobrindo seu corpo com a toalha, foi até o armário de sua mãe, encontrando lá a peça que parecia ser perfeita.

Era um vestido verde. No seu busto, um veludo verde-escuro completamente bordado chamava a atenção. Havia uma fita de um tom esmeralda, quase preto, sendo que esta deveria ser passada abaixo dos seios e, por fim, a saia. Um verde extremamente claro tomava conta do leve pano que terminava a composição harmoniosa da roupa.

, com cuidado, começou a olhar os detalhes. As alças eram cruzadas, fazendo um X na frente e outro atrás. As costas eram nuas, sendo que o que ligaria as duas partes da frente do busto era um tecido prateado, assim como as alças. Para terminar o figurino, encontrou pendurado ao lado do vestido uma echarpe de veludo, no mesmo tom do veludo da peça, só que sem os bordados.

A garota desceu as escadas com as peças nas mãos, gritando o nome de sua mãe.

- Fala, . – Katherine disse quando a menina chegou à sala.
- Mãe, você vai ter que me deixar usar seu vestido hoje.
- No baile?
- É, mãe. Eu encontrei um vestido verde, de veludo, no seu armário. Combina tanto com o inverno. O adora verde.
- Se seu namorado gosta, pode usar.
- Obrig... – A foi interrompida.
- Mas... – Houve ênfase na palavra. – Este vestido não me deu sorte. Eu queria fazer intercâmbio no Japão. Eu tinha acabado de fazer dezesseis anos, assim como você e, dois dias antes de eu fazer dezessete, um japonês que estava no baile me chamou para ir para o Japão. Eu tive que escolher entre realizar o meu sonho e ficar com o seu pai. – Katherine falou tenebrosa.

Sim, tinha feito dezesseis anos há treze dias e tinha pedido para namorar com ela no dia do seu aniversário, sendo que ele faria dezoito um dia depois do Baile de Inverno. não tinha falado com desde a briga, mas, desde então, tinha passado a dar em cima do descaradamente.

- E você escolheu o Japão. – A garota falou segura.
- De jeito nenhum! Caso contrário, eu não teria me casado com ele e você não estaria aqui hoje.
- Ele esperaria por você.
- É muito fácil falar, . Eu escolhi o amor.
- É... – Pensou alto.
- Bom, se você quer usá-lo, use, mas não diga que eu não avisei.
- Eu não acredito em azar. Vai dar tudo certo, mãe. Obrigada!

A menina deu um beijo no rosto da mãe e riu, correndo então para se arrumar para o Baile, que começaria em três horas e era onde ela encontraria .

Faltando quinze minutos para o início da festa, ainda estava terminando sua maquiagem e passando spray fixador em seu cabelo, que estava preso em um coque frouxo, com pontinhas esvoaçantes e algumas mechas, perfeitamente enroladas com o baby-liss, caindo sobre seu rosto.

passou seu perfume Dolce&Gabbana Light Blue> pela última vez, calçou sua sandália prateada de salto agulha, pegou sua bolsa da mesma cor, sua echarpe, olhou-se no espelho uma última vez e saiu, não sem antes se despedir de Katherine, que desejou boa sorte mais uma vez.

A garota caminhou até o colégio e, ao chegar lá, foi diretamente para o ginásio, onde estava ocorrendo a festa. O salão estava com as luzes apagadas e a iluminação vinha apenas das luzes coloridas da pista de dança, sendo que estas poderiam ser vistas do lado de fora.

A caminhou pelo salão, a procura de seu par, sem sucesso. Foi até a mesa de doces e, antes que pudesse pegar um daqueles maravilhosos docinhos, a abraçou por trás.

- Vem dançar. – Ele falou ao pé de seu ouvido. riu.

E os dois dançaram a noite inteira, sem se preocuparem em parar para comer ou beber qualquer coisa.

- Amor... – miou. – Eu vou pegar um ponche pra gente, ok?

E a garota foi, se despedindo do seu namorado com um rápido selinho. Atravessou a lotada pista de dança com certa dificuldade, mas chegou viva à mesa de bebidas. Encheu duas taças com o líquido rosa e começou a fazer o caminho de volta. De longe avistou o cabelo de , mas, conforme se aproximava, percebeu que uma garota de cabelos extremamente claros falava com ele.

cogitou a possibilidade de mostrar que ela era a namorada dele, mas ela já havia feito sofrer uma vez, não era justo fazer isso de novo por um mero capricho, por mais que a loira estivesse se jogando sobre o .

deu meia volta e andou para fora do salão. No pátio aberto do colégio também havia muitas pessoas, especialmente casais, que estavam aproveitando o céu estrelado, típico do início do inverno.

A olhou para a mãos. Dois copos. É, agora era seu e nada iria mudar isso.

A escolha…



A menina deu alguns passos pelo pátio, parando em frente a um muro que tinha um cartaz muito chamativo.

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- Você devia fazer. Eu vi como você e seu namorado roubaram a cena na pista de dança. – Uma voz masculina disse.
- ! – Ela gritou. – Ah! Aquilo não foi nada.
- Pára de ser modesta! – Ele riu.
- Ah! Se você quer saber, eu vou fazer sim. – Sorriu abertamente.
- Vou parar de atormentar você, então. – O garoto retribuiu o sorriso e se virou para voltar para o salão.
- Ei, ! – Gritou. – Você vai fazer? – Apontou para o cartaz.
- Vou... Quem sabe nós não fazemos um par romântico? – Deu uma piscadinha e saiu.

se virou novamente para olhar o anúncio.

- Princesa? – A voz de tirou a garota de seus devaneios. virou-se em um impulso e derramou um dos copos de ponche no terno do .
- Desculpa! – Ela tentou inutilmente secar a roupa dele.
- Tudo bem, meu amor. Eu não te achei lá dentro, pensei que estivesse aqui. Está tarde... Vamos embora?
- Ah! Ok. – Deixou as duas taças, uma vazia porque tinha sido derramada e uma vazia porque tinha sido bebida, sobre uma mesa e deu o braço para o rapaz.

e saíram da escola e começaram a andar de volta para suas casas, mas já eram três horas da manhã e eles tinham dançado desde as nove da noite. Os pés da menina reclamaram e ela teve de tirar as sandálias.

Por outro lado, as pedrinhas do asfalto machucavam. Os dois, então, decidiram que iriam pela praia que banhava Dover. Apesar de ela também ser cobertas de pedras, com certeza elas machucariam menos e o caminho seria mais agradável ao ver o Canal da Mancha.

- , a noite está linda. – beijou a bochecha do seu namorado e o abraçou pela cintura.
- Não tão linda quanto você. – falou. – Eu te amo, sabia?

Pararam para selarem um beijo doce, mas, antes que pudesses finalizá-lo, dois homens apareceram do nada e separaram o casal.

- ! – A garota berrou, assustada.
- ! Fica calma! – Ele respondeu.
- Entrega a bolsa, menina! Rápido! – Um dos estranhos mandou e ela obedeceu. O homem estava segurando os dois braços dela para trás e sua cabeça para cima, ameaçando-a com uma faca.
- A carteira, moleque! A carteira! – O outro assaltante exigiu, sendo mais atrevido com a fala.
- Amor, cuidado! – avisou quando viu que o ladrão iria esfaquear o garoto pelas costas.

O homem, em um impulso, se virou para e a teria cortado se o não tivesse pulado na frente e pegado em seu braço o corte que deveria ser no pescoço da .

- Corre, cara, corre! – Um deles falou e o som de seus passos sumiu pela areia.
- ! Ai, meu Deus! Você está machucado! – Disse , se agachando para socorrer seu herói. – Por que você se enfiou na frente dele daquele jeito? Olha o que aconteceu! – As lágrimas da garota ruiva escorreram pelo seu rosto.
- , pára de chorar desse jeito. Foi só um corte no braço. Poderia ter sido pior se tivesse acertado você. – Respondeu, tentando acalmá-la. – Você se machucou?
- Não, mas você sim. Precisamos de um hospital. – Afirmou enquanto o ajudava a se levantar.

Foram em direção à rua que tinham deixando e, para a sorte deles, uma viatura estava passando no momento. Pegaram carona com os policiais e foram para o hospital mais próximo. Enquanto era atendido, telefonou para sua mãe.

- Mãe... É a .
- , onde você se meteu? Já é tarde... Não! Pior! São quatro horas da manhã! Estou preocupada... Amor, você está chorando?
- Mãe, me escuta... – Fungou. – Eu e o estávamos voltando para casa quando fomos assaltados.
- Assaltados! – Interrompeu Katherine, desesperada.
- Não... Deixa eu explicar. A gente estava andando na praia quando dois homens nos abordaram. Eles tinham facas e tentaram me acertar, mas o me salvou. Só que ele se feriu e viemos para o hospital aqui perto do colégio... – Respirou um pouco em meio ao choro. – Vem para cá, mãe... Preciso de você.
- Estou indo, meu amor. Não se preocupe. Chego em um segundo. – E desligou o telefone.

Quando Katherine chegou faltava apenas um pouco para que fosse liberado. Não tinha acontecido nada de grave com ele, mas a garota só se acalmou ao vê-lo completamente bem.

- ! Meu amor, você está bem? – O abraçou com força.
- Estou, , mas... Ai! Não precisa me apertar tanto... O curativo...
- Ai, me desculpe! – Deu um beijo nele.
- Bem, acho melhor irmos agora. A Mary deve estar preocupada, . Já está amanhecendo.
- É verdade... – Suspirou . – Apesar de tudo... – Se voltou para a menina. – Adorei ter dançado com você. Eu te amo.
- Eu também te amo muito, . – Deu mais um selinho nele. – Muito mesmo. Feliz aniversário. – Ela sussurrou.

Sim, era dia 22 de dezembro, aniversário de , mas também era dia 22 de dezembro, penúltimo dia para a inscrição para os testes em Londres.

Katherine deixou o garoto em casa e depois foi para a sua junto de sua filha, que trocou de roupa rapidamente e, mesmo sendo sábado, foi para a escola se inscrever.

Chegando lá, pegou sua ficha e começou a preenchê-la.

- ? – A mesma voz masculina da noite passada tomou conta de toda a secretaria.
- ! – A menina exclamou. – Veio se inscrever?
- Claro, e você?
- Eu também.
- Que dia você vai para Londres? – Ele perguntou.
- Esse é meu maior problema... Não sei quando e nem como eu vou.
- Se você quiser eu te levo, mas...
- Fale sua condição. – A garota sorriu, entregando a ficha para a mulher responsável.
- Eu vou hoje à noite. Amanhã é domingo e segunda e terça não tem aula por causa do Natal. Aí eu faço o teste na quarta e chego aqui em Dover de novo só quarta à noite. Eu te levo, mas você tem que estar disposta a passar o Natal comigo. – falou.
- Bom, eu vou para casa e falo com a minha mãe, aí eu te ligo.
- Você tem meu telefone?
- Tenho, sim. – afirmou, se despedindo dele com um beijo na bochecha.

Em casa, a primeira coisa que fez foi pedir permissão à sua mãe para ir com para Londres. Katherine não teve objeções e só pediu para que perguntasse para se estava tudo bem.

A correu para o andar de cima e se jogou na cama com o telefone, discando o número de seu namorado.

- Oi, tia Mary... O está aí? Ok, eu espero... ?
- Oi, princesa...
- Sabe aquele teste para o seriado?
- Aquele de Londres?
- Isso...
- Sei... O que tem ele?
- Eu vou fazer! – disse animada. – E o se ofereceu para me levar, mas eu quero saber se você não se incomoda...
- Você gosta dele? – O perguntou, desconfiado.
- Claro que não, ! Só como amigo, meu amor...
- Você ficaria com ele?
- Amor, está duvidando de mim? – Do outro lado da linha, gargalhou.
- Então pode ir, meu bem.
- Ok, . Te vejo na quinta no colégio. Eu te amo muito. Feliz aniversário!
- Também te amo, princesa. – E desligaram.

colocou várias peças de roupas e diversos acessórios dentro de uma mala e ligou para o seu mais novo amigo para avisá-lo que aceitava a carona.

~*~


- , eu estou com tanto medo. – falava, olhando dentro dos olhos de . “” era o apelido que ela dera para ele.
- Fica calma, . Vai dar tudo certo. – E era o apelido que ele havia dado para . Ela não gostava muito, mas acabou aceitando.
- . – Uma mulher gritou. Era sua vez de fazer o teste. ficou sozinha. Sem ali, o tempo demorava muito mais para passar. Ela roia as unhas, ajeitava o cabelo, retocava a maquiagem e nada do garoto sair.
- . – A voz da mesma mulher chamou. A garota se dirigiu para uma porta aterrorizante. saiu lá de dentro e desejou um rápido “boa sorte”. recebeu orientações para ficar no meio da tela verde e então a porta foi fechada. – Vamos ver o que você tem para oferecer. – Uma mulher com seus setenta anos e uma face nada amigável falou. – Cante o refrão de uma música.
- Bom... Então vai ser de “Love Of My Life” do Queen... Love of my life, can’t you see… Take it back, take it back. Don’t take it away from me because you don’t know what it means to me. cantou e a idosa não se expressou, apenas entregou uma folha para a menina representar.

Teste feito, retorno para Dover.

As semanas e os meses passavam... e estavam cada vez mais apaixonados. A garota, às vezes, era pega chorando pelos cantos, mas , por mais que ela não dissesse, sabia que era porque, depois do teste, ninguém tinha ligado. Mas a vida continuava, certo? E assim o tempo ia ficando para trás.

Era uma bonita manhã de domingo, 22 de dezembro, aniversário de . Ele estava fazendo dezenove anos. A tinha dezessete e o namoro ainda estava firme. A festa seria naquela noite e os preparativos estavam agitados: seria surpresa.

A garota estava ajudando com tudo, mas foi interrompida pelo toque estridente de seu celular.

- Alô?
- ? – A voz falou.
- Eu mesma.
- Você fez um teste para um seriado inglês no ano passado. Nós achamos que você tinha muito potencial e precisava de uma oportunidade maior. Você foi chamada para estrelar um musical, mas, para isso, terá que pegar todas as suas coisas e embarcar no primeiro avião disponível para Los Angeles, sem data certa de retorno para a Europa. Se você disser “sim” nosso produtor estará te esperando no aeroporto com a chave de uma casa para você morar. Sua casa.
- Mas e minha mãe?
- Você vai ganhar o suficiente para ligar para ela todos os dias.
- Eu... Aceito. – respondeu incerta.
- Ótimo... Acabei de conferir aqui. Sai um vôo daqui a quatro horas, ou seja, você tem duas horas para arrumar tudo e estar no aeroporto.
- Ok, ok. Tchau. – E desligou.

pegou todas as malas que encontrou pela casa e, sem se preocupar em arrumar suas roupas, jogou todas as suas peças de forma desorganizada dentro delas. Colocou seus produtos de higiene e beleza em uma bolsa separada e, com certa dificuldade, desceu as escadas carregando as malas.

- Mãe, estou indo para Los Angeles!
- Como? – Katherine falou, surpresa.
- Me chamaram, mãe! Vou ser atriz! Você me apóia?
- Com certeza, meu amor! Realize o seu sonho. Eu vou sentir sua falta, mas eu sei que é o que você deseja. Você já é maior de idade e pode decidir o que faz. Além do mais, você vai voltar.
- É... O problema é que eu não sei quando eu volto... Mas você também pode ir me visitar.
- É, meu amor... Não se preocupe. Vá realizar seu sonho. É a sua oportunidade! É tudo que você sempre quis. O mundo é seu, meu amor. – As duas se abraçaram com força e saiu sozinha, dizendo à mãe que seria melhor que não a acompanhasse até o aeroporto, porque a dor da partida seria maior.

tomou um táxi e pediu para que a levasse à casa de . Tocou a campainha.

- ? – O garoto se surpreendeu com a presença da menina.
- Feliz aniversário! – Ela o abraçou com força, encaixando seu rosto na curva do pescoço dele. Ficaram daquele jeito por algum tempo. – Eu te amo muito, muito, muito! Mais do que eu amo qualquer outra pessoa! Você é meu príncipe, minha vida.
- Por que você está falando essas coisas? – O perguntou, sentindo seu pescoço ficar molhado.
- Amor... – As lágrimas começaram a escorrer. – Eu fui chamada para ir para Los Angeles estrelar um musical... Eu aceitei, então... Eu tenho que ir agora, sem data para voltar. – Agora ela chorava desesperadamente. – Eu te amo!
- Eu te amo, . Eu não vou olhar para nenhuma outra garota enquanto você estiver fora. Eu vou esperar você para sempre. – E, ambos com os rostos molhados, selaram um beijo doce e apaixonado.

A , então, sem olhar para trás, andou até o táxi, entrando nele. Encostou sua cabeça no vidro e deixou sua tristeza transparecer, olhando pela última vez para o amor da sua vida antes de partir para os Estados Unidos.

~*~


O tempo passava com voracidade. , pouco antes de fazer vinte anos, se mudou para Londres, e havia ficado muito amigo de . Londres era o lugar que ele tinha escolhido para fazer a faculdade. Andava pensando em e todos os dias olhava na internet notícias sobre ela.

”Sangue novo: conheça a nova estrela, !”

“Estréia brilhante da atriz no filme Só Mais Um Clichê!”

“Veja o novo photoshoot da ruiva e linda !”

“A perfeição existe: canta, dança e atua maravilhosamente.”

em um affair com seu par romântico do filme Só mais um clichê, ?”

estrela adaptação para o cinema de musical de sucesso da Broadway!”

“Mais um fansite para ! A inglesinha que conquistou a América!”

“Há rumores de que a ex-estrela-mirim e atual estrela de 22 anos, , esteja namorando seu primeiro par romântico, .”

“ ‘O me ajudou muito quando eu vim pra cá. Não sabia que ele estaria aqui e ele também não sabia de mim, então, quando descobrimos, ficamos muito próximos e nos ajudamos.’ Diz a estrela , comentando o que acha de, depois de cinco anos, voltar a fazer um filme com .”

“Mais um musical maravilhoso chega às telonas. Destaque para a atriz , que continua brilhante!”

“O sotaque da inglesinha preferida da América volta a aparecer em seu novo filme, no qual ela interpreta uma inglesa do séc. XIX que deseja conhecer o mundo.”

“Intimidade total! e em uma sessão de fotos romântica e sexy!”

“Estrela de 23 anos, , está morando com , seu amigo desde o primeiro filme, depois de assumirem o namoro.”

“Voltando para casa? , que faz 24 anos hoje, após descobrir que está grávida do seu noivo, , anuncia que foi chamada para concentrar sua carreira em Londres e que está voltando para a Inglaterra depois de sete anos longe!”


A volta…


Sete anos haviam se passado. e nunca mais tinham conversando e Katherine preferia não dar notícias a ele, pelo bem de ambos, pois sua filha seguira em frente, mas o Munn não, apenas crescera e seria errado alimentar falsas esperanças no garoto, uma vez que ele precisava continuar com a vida dele, achar uma garota que não fosse famosa, não estivesse grávida e noiva.

Era dia 22 de dezembro. Aniversário de vinte e seis anos de e também era o dia que estava se mudando para Londres. estava morando em uma rua calma e nada perigosa, não muito afastada do centro, mas, naquele dia em especial, a rua estava movimentada.

Três caminhões estavam parados na frente de uma casa enorme, branca com detalhes em madeira. Apesar de ser grande, a casa aparentava ser romântica e aconchegante. Do outro lado da rua, dezenas e dezenas de repórteres e fotógrafos ociavam, mas não ficariam assim por muito tempo.

esperou a casa ficar mobiliada, observando o movimento dos homens que isto faziam e o movimento dos jornalistas do lado de fora. O garoto viu os caminhões irem embora e pensou que isso fosse fazer a rua voltar à sua calma habitual. Assim que deu as costas para a estrada, em direção à sua casa, milhares de flashes dispararam e o barulho de um carro estacionando pôde ser ouvido. Virou-se para ver o que era. Um carro que parecia a BMW de , a não ser pela cor, que era preta, e pelo capô fechado, estava parando na frente da casa branca.

A porta do passageiro se abriu. Uma perna. Depois outra perna. A ansiedade do coração do garoto crescia mais e mais. Seria ela? Seria sua ? E então a figura feminina foi revelada: uma bota marrom de cano alto que tampava as pernas da calça Jeans de cor escura e uma blusa de lá cor-de-rosa, que cobria desde o pescoço até os pulsos. Nas mãos, a garota usava luvas de couro da mesma cor da bota, assim como a bolsa, que, como os óculos escuros para proteger os encantadores olhos verdes dos flashes, exibia um enorme símbolo da Dolce&Gabbana. Seus cabelos vermelhos compridos caiam graciosamente sobre seus ombros. Era ela.

Da outra porta saiu um homem de calça jeans, tênis branco, camiseta branca e um moletom aberto, parecendo inerte ao frio que fazia. Os óculos escuros também protegiam seus olhos , enquanto seu cabelo parecia irritantemente penteado. A garota caminhou até o lado do rapaz, que segurou sua cintura. Os flashes foram lançados com ainda maior freqüência e as perguntas apareceram.

- , com quantos meses você está?
- , , qual a sensação de voltar para casa depois de sete anos nos Estados Unidos?
- Por que vocês decidiram voltar para a Europa?
- Bom... – A mulher tentou responder. – Nós recebemos um convite de uma produtora de cinema muito boa, e acabamos aceitando quando descobrimos que eu estava grávida. Achamos que é bom para o bebê crescer onde os pais cresceram... E, se interessa tanto assim, eu estou com seis semanas.
- Isso é tudo, por agora. – O homem disse. – Acabamos de voltar de uma viagem cansativa, de nos mudar... está grávida, queremos entrar. Depois falaremos tudo que vocês querem saber.

O casal entrou na casa e em poucos momentos a rua tinha voltado ao seu estado original.

estava estarrecido com o que tinha acabado de presenciar. , ou melhor, a sua , estava com outro. E ele tinha prometido! E o pior, ele tinha cumprido! Ela não... Ela estava com outro. Estava com ! E grávida!

Voltou para casa e mal entrou já ouviu um barulho de outro carro estacionando em frente à sua casa. Era uma BMW, e dessa vez era a de . A campainha tocou e ele foi atender.

- Feliz aniversário, ! – Disse ela com um pacote na mão.
- ? Nossa! Que surpresa! Não esperava que você viesse aqui hoje...
- Toma! É para você... Não vai me convidar para entrar?
- Ah! Me desculpe... Entre. – respondeu. Os dois se sentaram no sofá enquanto ele abria seu presente. Era uma camisa social branca, provavelmente muito cara. – Er... Uma camisa! Que legal! Obrigado, !
- Gostou?
- Adorei. – Sorriu.
- Quero que vista ela. Vou te levar para jantar hoje à noite... A camisa não é o presente, bobinho. O jantar que é a surpresa.
- Mas...
- E não adianta falar que garotas não podem levar alguém para jantar. Hoje é seu aniversário e vamos comemorar juntos!
- Obrigado de novo, . – Disse rindo. – Só você para fazer esse dia ser um pouco mais feliz.
- O que foi? Aconteceu alguma coisa? – perguntou, enrolando uma mecha de seus cachos loiros em seu dedo indicador.
- Esse é o problema, não aconteceu... – “Ela não cumpriu a promessa” pensou, se lembrando de sua .
- Seja o que for, não se preocupe... – Exclamou se levantando. – Tenho que ir... Preciso resolver mais algumas coisas. Eu passo aqui às nove horas, ok?
- Ok.
- Não fica assim, gato. – O acariciou, percebendo que estava triste. – Hoje é seu aniversário. Não sei o que aconteceu, mas quero ver esses olhinhos brilhando de felicidade, como sempre brilharam.
- Você não existe, ! Obrigado.
- Ah! Não foi nada. E, bom, é claro que eu existo. – Brincou, se despedindo do garoto, que ficou parado na porta, admirando aquela garota, que mesmo não conseguindo o seu amor, sempre o fizera feliz.

~*~


- Ei, amor, já estou saindo. – avisou enquanto pegava as chaves do seu carro. Iria visitar sua mãe, mas não iria porque tinha uma entrevista marcada para aquela tarde de sexta-feira.
- Ei... Vai saindo sem nem me dar um beijo? – Exigiu o homem, já vendo se virar e lhe dar um selinho rápido.
- Eu tenho que ir, , se não vou chegar depois do pôr-do-sol. Se perguntarem onde eu estou, já sabe o que vai responder.
- “Foi visitar a mãe.” Pode deixar. Eu cuido disso. Sabe que eu queria muito ver a tia Katherine, né? Então manda um beijo para ela.
- Pode deixar. – Respondeu.
- E cuidado na estrada. Você agora tem outra vida dentro de você, .
- Querido, não sou mais uma garotinha irresponsável. Sei me cuidar e vou tomar o maior cuidado com o nosso filho. - Ela falou para seu noivo, que lhe deu um beijo mais romântico e caloroso, já cheio de saudades.
- Te amo. – Sussurrou e, como resposta, recebeu um sorriso de sua amada, que nunca lhe dissera essas palavras.

entrou no carro e seguiu em direção à sua cidade natal. Em sua lembrança só restara a imagem da rua de sua casa, que sempre fora palco de suas apresentações. Lembrava-se de quando saía cantando e dançando e os vizinhos rindo e achando uma graça aquela garotinha sonhadora. Agora ela conseguira chegar aonde queria.

Depois de duas horas de viagem, chegou em Dover. Passou pela praia e, no fim da rua de sua antiga casa, avistou algo que tinha feito questão de apagar da sua memória. Lá estava ela, a casa amarela, aonde se dirigia todas as tardes para se encontrar com seu amigo... O verdadeiro amor. Em frente à casa havia uma garotinha de cabelos negros, longos e cacheados, brincando sozinha: estava atuando, imitando .

A ruiva começou a chorar quando estacionou o carro. Percebera que tinha posto à prova seu sonho e seu amor, acabando por seguir o primeiro, se esquecendo de seu passado, dos seus amigos, de tia Mary, da sua filha, Anne, e, principalmente, do seu filho... .

Sua mãe não estava em casa quando bateu na porta. Deduziu que estivesse na casa de Mary. não queria ir lá, mas, se não fosse, perderia a viagem. Caminhou até aquele lugar que trazia muitas lembranças e avistou, mais uma vez, a garotinha.

- Olá. – Cumprimentou-a. – Você é a Anne, não é?
- Sou, sim...
- Nossa! Como você cresceu! Está linda! Você tinha só dois anos quando eu fui embora... Mas deixa pra lá... Katherine está por aí?
- Está, sim, mas... – Anne percebeu com quem estava falando. – Você é a !
- Sou...
- Não acredito! É você! – A abraçou. – Eu sou sua fã número um! Já assisti aos seus filmes! Sei suas falas quase todas de cor! – riu.
- Você é uma graça! Sabia que eu te conheço desde que você nasceu?
- É verdade... Você era a namorada do meu irmão.

O coração de se partiu ao ouvir aquilo no passado. “Você era a namorada do meu irmão”. Se lembrou da época em que namorou e da época em que trocaram juras de amor eterno e construíram sonhos juntos... Sonhos que nunca se realizariam.

- Bem, eu vou entrar então... – Receou por um instante. – Seu irmão está?
- Não, não...
- Ah! – “Ufa!” Foi o pensamento de . Não queria encontrá-lo naquele momento.
- Na verdade, ele não mora mais aqui. Ele mora em Londres. Está cursando administração na Imperial College. Vamos entrar que eu te dou o endereço e o telefone dele...

As duas entraram. A casa continuava a mesma. No sofá da sala se encontravam Mary e Katherine.

- Mãe? – Disse .
- ! Você veio. Ah! Que saudade, minha filha! – As duas se abraçaram muito forte. Um abraço que procurava compensar todos os anos de separação entre as duas. – Como você está linda! E meu netinho... Logo a barriguinha vai aparecer! – sorriu e abraçou a "tia".
- Tia Mary!
- Ai, minha querida! Quanto tempo

Então as três se sentaram e ficaram contando as novidades, que eram muitas. O tempo foi passando e já tinha dado a hora de Katherine e irem para casa. Elas se despediram de Mary e já iam saindo pelo portão quando Anne veio correndo entregar um papel à ruiva.

- Aqui. Não esquece, . É o telefone do .
- Ah! Não precisava.
- Claro que precisava. Ele vai adorar quando você ligar para ele. Caso contrário, não teria esperado todo esse tempo por você.
- Anne! – Mary repreendeu. – Nós já falamos sobre isso, mocinha!
- Opa... Tchau, . Tchau, tia Katherine. – E as duas entraram em casa.
- O quê? – perguntou enquanto saía. – É verdade, mãe, que o me esperou por todo esse tempo?
- A gente conversa sobre isso em casa, . Agora vamos.

A caminhada de volta foi silenciosa. Katherine ficava imaginando o que falaria para a filha. Já não podia acreditar no que estava acontecendo: o seu cumprira a promessa e esperara por todo aquele tempo.

Chegando em casa, as duas foram conversar no quarto.

- É verdade, ... O esperou você durante esses sete anos. É muito tempo e até você esqueceu, porque ninguém suportaria tanto... Mas ele te amava, era completamente apaixonado por você... Por isso ele cumpriu com a sua promessa. Ele acreditou que vocês poderiam viver um amor juntos. Mas, pra você, o sonho de ser grande e famosa foi maior. Eu até tentei conversar com ele, convencê-lo a encontrar outra pessoa quando você começou a namorar com o , mas ele dizia: “Não, tia Katherine, na minha vida existe a e somente a . Não posso ser feliz longe da sua filha. Mesmo que ela não volte, a gente não manda no coração. Não posso simplesmente apagá-la da minha memória e seguir em frente. Eu amo a ”. – Reportava Katherine à sua filha, que já chorava como um bebê.
- Não pode ser verdade! Como ele pôde me amar... Durante todo esse tempo? – Perguntou entre soluços. – Por que eu não voltei, mamãe? Por que eu fui me envolver com o ? Por que eu não fiz igual a você e escolhi o amor?
- , olhando você assim, só me resta te fazer uma última pergunta. – Disse Katherine, fitando sua filha seriamente. – Você... Você, mesmo depois de começar uma vida com o e ficar grávida... Você ainda ama o ?

ficou pálida. Não sabia ao certo a resposta. Seus sentimentos estavam muito confusos. No fundo, ela sabia que era completamente apaixonada por . Seu estômago começou a embrulhar com os pensamentos.

- E então... O que você me diz? – Katherine pediu.
- Eu... Acho que vou vomitar. – E saiu correndo para o banheiro.

Ao voltar, deitou no colo de sua mãe, que começou a acariciar seus cabelos.

- Me desculpe, . Não queria te forçar a responder agora, mas você precisa decidir o que realmente sente e o que quer para a sua vida. Aliás, sua decisão afetará também o seu filho. Já parou para pensar nisso?

Não, ela não tinha pensado em seu filho até aquele momento. Poderia até amar muito mais do que amava , mas e seu filho? Não contava? E então voltou a chorar, só que, desta vez, silenciosamente.

- Não se preocupe, querida. A partir de agora estarei sempre ao seu lado. E não importa a sua decisão, que eu sei que será tomada com consciência, eu vou te apoiar.
- Obrigada, mãe. Não sei o que seria de mim sem a senhora. Me perdoa?
- Não é para mim que você deve pedir desculpas. Você sabe disso. Mas é melhor dormirmos agora. – E então apagou a luz do abajur, que era a única acesa, e as duas dormiram juntinhas e abraçadas, não querendo nunca mais se distanciarem.

~*~


abriu a porta da sua casa ao escutar os roncos do motor da BMW prateada de .

A noite estava fria e ambos estavam arrumados o suficiente para qualquer um acreditar que estavam indo a um baile de gala. entregou as chaves do carro para ele, passando para o banco do passageiro.

- Boa noite, aniversariante. – Ela tentou roubar um beijo dele, mas só conseguiu beijar o seu rosto.
- Er... Boa noite... Podemos ir? – Sem esperar a resposta, deu a partida.

Sem perceber, em alguns segundos, estava dirigindo a quase 140 km/h.

- , você quer matar a gente?! – gritou.
- Nossa! – Ele pisou no freio. – Desculpa, . Seu carro é muito leve... Eu nem percebi. Desculpa.
- Ah. Tudo bem. – A garota olhou no velocímetro: 60 km/h. Muito melhor.

Os dois pararam na frente de um restaurante movimentado na Oxford Street. Vários famosos o freqüentavam e tinha decidido que iria para lá para provar que, para ela e para toda a família , dinheiro não era problema.

Saíram do carro e vários flashes vieram na direção deles.

- Querem dar algum recado para a coluna social de amanhã?
- Vocês estão aqui convidados por ?
- Sem comentários. Coloque isso em nome de e seu namorado . – Ela falou, saindo da mira dos jornalistas.
- O está aqui? – arqueou uma sobrancelha.
- Não sei... Vai fazer alguma diferença? – disse, curiosa.
- De forma alguma.

Foram para a mesa reservada. Ficava na frente de uma janela enorme que tinha vista para o fundo do restaurante: um jardim completamente enfeitado com luzes para o natal, que se aproximava. A alva neve cobria boa parte das plantas, mas era essencial para formar a atmosfera romântica do lugar.

- , sobre o que eu falei lá fora...
- Tudo bem, ... Eu não acho ruim você ser minha namorada. Pelo contrário, você é adorável. – pegou delicadamente a mão da garota cujos olhas estavam brilhando. – Hey, , vou ao banheiro.

Atravessou rapidamente o extenso salão e chegou ao banheiro. Para seu espanto, estava lá dentro.

- ?
- Desculpe. – O homem se virou. – Eu te conheço ou você é fã?
- , sou eu! O !
- ! – levou as mãos à cabeça em sinal de surpresa.
- Cara, quanto tempo!
- E aí, cara, está morando aqui em Londres? – O de olhos pareceu interessado.
- Estou, cara. E você? – fingiu não saber.
- Está desatualizado, ? Saiu em todas as revistas, em todos os tablóides... Eu e minha noiva nos mudamos para cá hoje. Vai ser melhor para o nosso filho.
- Noiva? Filho? – Fez-se de desentendido. – Cara, você conseguiu mesmo fazer sua vida em Hollywood! Sua noiva é atriz?
- , minha noiva é a ... – percebeu a careta do .
- E como ela está?
- Ela não lembra mais de você, . A cabeça dela não tem espaço para coisas do passado, porque o futuro dela é brilhante. Se você um dia sentiu ou ainda sente algo por ela, por favor, nos deixe em paz. A vida dela vai ser melhor assim e você vai ser feliz com outra garota. Não corra atrás da . Você não quer chorar porque ela não vai se lembrar de você. Acredite, cara, você não quer. – E então ele saiu do banheiro.

O garoto colocou suas mãos sobre a bancada da pia e encarou seu reflexo no espelho. Ele não era o mesmo cara de sete anos atrás. Suas feições agora eram de um homem e não mais de um adolescente, mas de alguma forma ele parecia ainda estar preso àquele passado, sendo que sua menina, a garota inocente que tinha saído de Dover há sete anos, tinha seguido em frente com a sua vida.

Por mais que fosse difícil de admitir, estava certo. Não fazia o menor sentido ele ir interferir na vida da sua ex-namorada, que estava noiva! E grávida! E nem se lembrava dele! Ou será que lembrava? Não, ele iria parar de pensar nela. Mas ele iria conversar com ela quando tivesse a oportunidade, por mais que esta pudesse demorar, para tirar todas aquelas dúvidas. Mas ele esperaria. Sim, esperaria o tempo que fosse necessário. Não queria estragar a vida da mulher que ele mais amava em todo o mundo. E com esses pensamentos, voltou para sua mesa, para passar o resto da noite ao lado da pessoa que, mais cedo, havia se intitulado sua namorada.

~*~


acordou sentindo aquele cheiro maravilhoso do café da sua mãe. Desceu tranquilamente as escadas pelas quais ela sempre corria. Abraçou a mãe por trás e beijou sua bochecha.

- Bom dia, querida. – Katherine acariciou os cabelos macios da filha. – Que saudade de ver você de pé aqui na cozinha logo de manhã. – Falou, entregando para a garota um copo de suco de laranja e um prato com cookies.
- Você não sabe como é bom acordar nessa casa depois de tanto tempo longe. – A garota levou um cookie à boca.
- Gostou da sua casa nova?
- Adorei, mãe! É grande, confortável e aconchegante! Eu tenho a vida que eu sempre sonhei... – concluiu.
- Tirando a parte de se tornar uma .
- É, mãe... Mas para você conseguir realizar um sonho, você tem que esquecer outro. O me faz muito feliz! Foi ele que me apoiou quando eu estava sozinha em Hollywood. Foi ele que chorou comigo quando eu estava com saudade da Inglaterra. Foi ele que me assistiu durante horas tentando decorar uma fala cheia de gírias americanas. E foi ele que esteve lá na primeira cena que eu gravei. Ele é especial por isso e é com ele, mãe, que eu vou ficar. Nesses últimos sete anos eu nunca falei o nome do em voz alta e, para todos, eu não me lembro mais dele. É melhor que continue assim. – Respirou fundo.
- , está tudo bem? – Katherine perguntou preocupada. A havia ficado extremamente pálida enquanto falava.
- É só um enjôo. É por causa do bebê... Passa logo... – Deixou o prato sobre a mesinha de centro e ficou de pé. – Acho melhor eu voltar pra Londres agora.
- Tudo bem. Se você quer ir... – As duas se abraçaram. – Não demora pra voltar.
- Eu prometo que não. – Mandou um beijo no ar e foi para sua BMW preta.

deu a partida e pegou a estrada. Tirou o capô do carro para sentir melhor o vento vindo em seu rosto, com a esperança de que aquele enjôo passasse, mas a brisa só fazia ela se sentir pior, e agora sabia o porquê: não era o bebê. Era ansiedade. Sempre, desde criança, tudo que envolvia o nome “” fazia seu estômago revirar. Mais de quinze anos depois isso não seria diferente, seria?

Conforme os pensamentos invadiam sua cabeça, os olhos de se enchiam de lágrimas.

- Droga! – Ela deu um murro no volante. – Por que você não sai da minha cabeça e vai viver sua vidinha infeliz, ? Por que você insiste em destruir minha felicidade? A minha vida era perfeita até eu voltar! – Ela gritava para o vento que batia fortemente em seu cabelo e em seus olhos, protegidos pelos óculos de sol. – E por que você tem que ser tão burra, , e deixar um perdedor se meter no seu caminho?! Você é ! Uma das atrizes mais bem pagas do mundo! Você é famosa, rica, linda e talentosa! O que aquele garoto é? Um nada perto de você! Acorda, , deixa o conquistar o seu coração! – Agora as palavras simplesmente eram vomitadas da sua boca, sem gritos. – Você nunca deu uma chance para ele, deu? Não! Você nunca quis dar! Você adora o e vai se casar e vai ter um filho com ele! Só falta ele conquistar o seu coração! – respirou fundo. – É, eu vou entregar meu coração para o de uma vez. O é passado. Eu amo o , eu sei disso. – E com essas palavras, acelerou o carro para chegar mais rápido nos braços de seu noivo.

chegou em casa gritando o nome de , que apareceu rapidamente.

- Eu te amo! Eu te amo! Muito mesmo! – O abraçou. – Promete que nunca vai me deixar?
- Prometo, prometo. – Ele a abraçou de volta, beijando sua testa.
- Olha... Eu quero pedir uma coisa. Podemos adiantar o nosso casamento? Por favor.
- Claro. Tudo bem. Mas eu posso saber o porquê de você ter mudado de idéia?
- Ah! – Pensou em uma desculpa. – Eu não quero me casar com uma barriga enorme. – Riu e deu mais um beijo em .
- Está certo. Daqui dois meses está bom? – Acariciou o rosto de sua noiva.
- Está ótimo.
- Então está ok, . Eu vou dar uma entrevista e não demoro. – A beijou e saiu.

As lembranças...


resolveu trocar de roupa. Colocou algo mais casual e, antes de por sua calça jeans na máquina de lavar, percebeu que um papel caíra de seu bolso.

Olhou atentamente para o papel com letras desenhadas pelas mãos da garota de nove anos.

Edgware Road, 413. Londres, Inglaterra, Reino Unido
5297-5118



Seus olhos não acreditavam. Edgware Road, 413? Ela morava na Edgware Road, 416! Eles eram quase... Vizinhos. E esta palavra fazia seu estômago revirar. Perto demais.

Será que ele estava em casa? Ela precisava saber...

Pegou o telefone e tentou discar o número rapidamente, ignorando o tremor das suas mãos. Lembrou-se da última vez que falara com . Ele tinha ligado para ela no celular que ela tinha na Inglaterra e, por sorte, ela ainda não tinha cancelado aquele número.

- Corta! – O diretor gritou.
- O que foi? – perguntou, preocupada. – Eu errei a fala?
- Não, . – apareceu. – Seu celular está tocando... Mas não é o novo.
- Ué... – A menina saiu do set de filmagem e pegou o celular roxo nas mãos. – É o celular lá de Dover. – Ela sorriu ao ver na tela o nome "". – Alô?
- ? – A voz. Ah! Aquela voz!
- ! – Falou animada.
- Quanto tempo! Faz dois meses que você foi e a gente não se falou mais. Eu sinto tanto a sua falta. Acho que não vou agüentar nem mais um dia sem você. Volta logo. – O metralhou, deixando-a sem palavras. Ela não iria voltar tão cedo.
- ! Dá para terminar a cena ou você vai demorar? – O diretor falou, irritado.
- , eu estou numa gravação. Depois a gente se fala.
- Tá... Eu... Eu te amo. – Balbuciou.
- Tá... Legal. Tchau. Depois eu te ligo.


E desde esse dia eles nunca mais se falaram. A tinha cancelado o seu celular inglês e preferiu não ligar de volta para : ela não suportaria ouvir ele pedindo para ela voltar. Só falava com sua mãe, todos os dias, mas a fez prometer que não diria para o seu telefone. E isso seria o melhor para todos.



Pegou o telefone com medo e levou ao ouvido. Estava chamando.

~*~



estava sentado em sua cama, organizando algumas fotos, abrindo algumas caixas antigas.

tinha ido rapidamente até Dover para buscar suas malas. Ela aceitara morar com depois que ele pedira durante o jantar, afinal, sete anos de caso mereciam um namoro digno.

Olhando suas coisa antigas, o achou uma caixa com cartas. Cartas dela. Foi abrindo uma por uma.

”Eu te amo! Mais do que tudo!
Sua .”

“Meu príncipe... Te amo!
.”

“Porque todo mundo sabe que você é o melhor pra mim.
.”

“Por mais que eu tente te esquecer, isso nunca será possível. Eu te amo!”

“Feitos um para o outro.
.”

“Eu te amo.”


E então encontrou uma maior do que as outras.

Hey, meu amor.
Bom... Nem parece, mas já faz um ano. Um ano de namoro. O aniversário mais especial para um casal e, por isso, merece mais do que aquelas cartinhas que eu vivo mandando.
Um ano, e eu espero que dure muito mais. Claro que eu não vou fazer uma carta para cada ano que passar (talvez até faça), mas o primeiro é muito especial.

Meu príncipe, eu te amo. E eu vou te amar até o meu último fôlego de vida. Você é meu fôlego de vida.

Pra sempre sua,

.



E quando a última carta foi fechada, o toque estridente do telefone despertou o de qualquer um de seus pensamentos.

Por sorte, o aparelho era sem fio e estava ao seu lado, sobre a cama.

- Alô? – Ele atendeu. Silêncio do outro lado da linha. – Alô? Quem é? – Nenhuma resposta. – Olha, dá para escutar sua respiração. Dá para falar alguma coisa?


E então o barulho do “tu, tu, tu” adentrou o ouvido de .

~*~



apertou o botão de desligar. O que ela tinha feito? Seja o que fosse que ela estivesse sentindo, ela precisava falar com ele.

Redial.

- Alô?
- Eu gostaria de falar com o senhor .
- ? – A voz parecia assustada. – , é você?
- Senhor... – Continuou com a voz trêmula. – Eu sou do banco. Gostaria de oferecer ao senhor um novíssimo cartão de crédito! – Imitou as atendentes de telemarketing.
- Desculpa, sua voz é tão... Nossa! Desculpe, não estou interessado.

E mais uma vez ambos os telefones foram desligados.

- Não pode ser. – Ela caiu no sofá. - Ele ainda se lembra de mim!

Mas tentou afastar esses pensamentos e fazer o almoço, afinal, logo o seu noivo chegaria em casa e na noite seguinte celebrariam o Natal.

~*~


- Bom dia, meu amor. – Disse . Estava toda arrumada e passava um batom vermelho enquanto tentava acordar . – Acorda. Já são quase dez horas! É véspera de Natal!
- Hm... Ainda é de madrugada! – Disse, fazendo rir. – Hoje é domingo?
- Não, bobinho! Falei para você não ficar assistindo aquele filme ontem, ou melhor, hoje de madrugada. Agora está aí... Morto de sono e trocando os dias. Hoje é segunda.
- Ah! – Se levantou e abraçou por trás, sussurrando em seu ouvido. – Hoje nós não temos nada para fazer. Nem entrevistas, nem decorar falas... Vamos ficar em casa...
- Não, não, não! Hoje eu não posso. – Respondeu, afastando , que tentava beijá-la. – Você vai borrar o meu batom.
- Não gosto desse batom mesmo. – Tentou mais uma vez, mas caiu sentado na cama, desistindo. – Bem... Posso saber aonde você vai? Porque o dia está horrível. Vai chover.
- Primeiro: o dia está lindo. Está nublado, eu gosto. Sentia falta desse tempo lá na Califórnia. Segundo: hoje é um dia especial.
- Como assim? – Perguntou, vendo o sorriso de .
- Vou experimentar meu vestido de noiva! Não é demais?
- Por que você não me disse antes? Eu poderia te levar.
- Claro que não! Você não pode ver o vestido da noiva. – Pegou sua bolsa e deu um selinho em . – Eu volto no fim da tarde, ok? A Elisabeth deve chegar a qualquer momento para preparar a ceia. Acho que nossos convidados não vão chegar antes de mim. – Apontou para ele. – Não se preocupe. A Keira vai comigo. Nós vamos aproveitar para fazer umas comprinhas.
- Tá bom. E você também não precisa se preocupar comigo... – Gritou para , que já estava no andar de baixo, saindo. – Vou ficar bem aqui... Sozinho... Carente...
- Ah! Não faça drama, ! – Respondeu entre risos.


pegou seu carro e seguiu em direção à casa de Keira Knightley, sua amiga londrina, que conhecera em Hollywood. O tempo realmente indicava chuva e acelerou para não demorar muito.

- , vou ligar o rádio... – Disse a amiga.
- Tudo bem. Só não põe música eletrônica que me deixa com dor de cabeça.
- Tá bom, tá bom. Você acabou com a graça... Hey, eu estava pensando... Vai rolar uma festa na casa do Rupert e vai bombar... Vamos, amiga! A gente precisa voltar a sair para essas festas, igual a gente fazia lá na Califórnia!
- Eu era irresponsável naquela época. – A ruiva riu. – Agora eu vou ser mãe. Não posso ficar bebendo daquele jeito. E também não curto ficar saindo toda semana, igual você.
- Ah! Está me chamando de irresponsável? – Keira gargalhou enquanto procurava uma música. – Pois eu também mudei, amiga. Tanto é que agora eu estou... Digamos... Hm... Namorando sério.
- O quê?! Que maravilha, Keira! Quem diria que você iria parar com esse troca-troca de homens. Quantos anos ele tem? Só por curiosidade...
- Bem... Eu não sei direito... Por volta de uns... Cinqüenta anos?
- O quê?! Trocou os de vinte por um de cinqüenta? Que aventura!
- Pois é! Estou apaixonada, amiga! Só tem um problema...
- Ih! Lá vem bomba!
- Ele é casado!
- Keira! – se espantou. – Você é amante do cara? Isso não é um namoro sério! – As duas riram.
- Ah, ! Eu estou apaixonada! O que eu posso fazer? A gente não manda no coração.
- É verdade. – se desanimou. A frase da sua amiga a fizera se lembrar de .


O silêncio ficou no ar por algum tempo, até que a Knightley finalmente escolheu uma estação de rádio. Tocava uma música romântica e linda que, de acordo com o locutor, era um grande sucesso na internet.

- Nossa, essa música é linda. – observou.
- A voz do cantor também. Ele deve ser um gato.
- Keira! Vai querer dar em cima do cantor também?
- Depende... Você o conhece?
- Não sei... Mas essa voz não me é estranha. – E então caiu a ficha de . Era a voz de .
- Dá vontade de matar, né? – Keira tirou de seus pensamentos. - A garota da música que fez o cara sofrer tanto assim.
- Como assim? É só uma música.
- Músicas perfeitas assim só podem surgir de algo verdadeiro. Um amor verdadeiro.


engoliu a seco. As palavras da amiga a atingiram fundo. Seria dele? Ele teria escrito para ela? Esses eram seus pensamentos até ser interrompida pela Knightley.

- , é aqui a loja. Pode parar.
- Hã? Ah! Tá! Chegamos, né?
- Ei, ! Acorda! Vamos...

~*~



estava em sua casa, coincidentemente escutando o rádio também. Percebeu que a música que tocava era dele e ficou chocado. Como ela teria ido parar na rádio? Mas a resposta estava bem ao seu lado.

- , você viu onde eu coloquei meu celular? – perguntou. – Ele está sem bateria e eu não consigo encontrar.
- , você está ouvindo essa música na rádio? – perguntou ironicamente.
- Estou.
- Eu acho que ela estava naquele meu CD de composições que eu dei para você ouvir. E sabe o que eu me lembro? Que eu falei que era só para você ouvir! E agora está na rádio! O locutor disse que é um sucesso na internet!
- Bem, ... Não precisa ficar nervoso.
- Nervoso? Eu? Não! Você sabe que eu estava guardando para lançar na hora certa!
- , eu só coloquei essa música na internet! – A loira começava a se desesperar. – Senta aqui e pensa comigo. – O puxou para o sofá, fazendo-o se acalmar. – Sua música é muito boa. Todas elas. E as pessoas estão amando. Está fazendo sucesso. Logo elas vão querer ouvir outras composições suas e você vai se tornar um ídolo! Vai ter um monte de fãs, assim como eu! – Se animou. – Você está sendo egoísta guardando essas músicas perfeitas só para você. Você não sonha em lançar um CD? Em ficar famoso? Então!
- Qual é o problema de vocês, hein? Vocês ficam sonhando com coisas, idolatrando coisas! Sonhos são só para alguns! Para aqueles que têm sorte! Vocês acreditam em tudo! – Agora ele falava mais consigo mesmo do que com .
- Como assim? De quem mais você está falando? – então percebeu que também se referia à na frente de . Por sorte ela não compreendeu.
- Não... Nada! Esquece. Mas saiba que eu estou muito chateado, . Muito mesmo. – Se levantou e foi saindo de casa. – Graças a você, talvez eu nunca possa lançar um CD na vida. Você poderia ter falado comigo antes. – Seu olhar era de decepção e já estava com o rosto cheio de lágrimas. – Estou perdendo a confiança em você depois de sete anos. E se esse é o seu jeito de mostrar que me ama... Eu dispenso.
- , espera! Eu... – Debbie tentou, mas ele já tinha saído e batido a porta com força.

~*~


- Keira, não é nada disso que eu quero! – dizia, visivelmente frustrada. – Esses vestidos são muito extravagantes. Eu queria algo mais clássico. Sem esses decotes exagerados ou essas caldas quilométricas.
- Ai, , mas casamento é extravagância, luxo, exagero! Qual é a graça se não for?
- Keira, eu estou me casando grávida. Eu tenho que ser mais sóbria. Eu não posso continuar a agir como uma adolescente!
- Tá, tá! – A Knightley abanou o ar e chamou a vendedora. – Olha, não gostamos desses. Vocês têm algo mais... – Lançou um olhar para a amiga. – Sóbrio?

~*~



estava na casa de , seu melhor amigo. Seu olhar estava perdido em um grande quadro que ele havia mandado fazer dele e da sua namorada, , para presenteá-la no dia dos namorados, mas, agora que os dois moravam juntos, cobria quase toda a parede principal da sala.

- Eu podia ter impedido ela de ir, cara. – O falou ao perceber que Victor adentrava a sala, vindo da cozinha.
- “Se você ama alguém, deixe-o ir. Se voltar, é porque sempre foi seu. Se não, é porque nunca foi.”. Já ouviu isso, ?
- Eu poderia estar aqui com a , aproveitando a neve. Ela poderia estar trabalhando no hospital com a e eu poderia estar no escritório com você e...
- E aí ela iria ser sempre infeliz, pensando na oportunidade de realizar o sonho dela que ela teria perdido... , quando a gente saiu de Dover e veio para Londres, você me prometeu que ia seguir em frente com a sua vida. Você não fez isso. Nós fomos para a faculdade de administração e, por algum milagre da vida, eu encontrei a , que estava fazendo medicina. Você nunca namorou sério com ninguém, sempre pensando na , e até que essa sua obsessão por ela fazia sentido quando ela estava solteira. Quando começaram os rumores dela com o , você devia ter deixado ela pra trás, arrumado uma namorada. Cara, os tablóides aumentam, mas não inventam. Eles tinham alguma coisa, ! E você devia ter seguido o exemplo dela e continuado a viver.
- Você acha que ela estaria infeliz se ela estivesse comigo?! – gritou, desesperado.
- Estaria! – berrou. – Ela sempre pensaria no que poderia ter acontecido! Se ela fez isso, é porque ela queria ir! Se você tivesse feito ela ficar, ela seria infeliz! Para ela ficar com você e ser feliz o mesmo tempo, ela deveria ter escolhido ficar, ! Acorda para a vida, ! A não é sua mais! Ela não voltou! Ela nunca foi inteiramente sua! Acabou! Esquece!


O soltou seu corpo sobre o sofá de couro branco de . Passou as mãos pelo rosto em um ato desesperado. Será que sua garota estava mesmo apaixonada por ? Será que ela o tinha esquecido completamente?

~*~


- Não, Keira! Aquele vestido mais parecia lingerie! A única coisa que tinha de vestido era a saia, depois tinha um sutiã! Faça-me o favor!
- Mas, , o que você comprou é tão comum! Você é ! Inovar faz parte da sua natureza! Aquele vestido ia cobrir sua barriga de grávida com renda! Ia ficar um charme? E aquele bege com vermelho de camponesa medieval? Cara, era lindo! Você pode inovar e não aproveita!


tinha comprado um vestido de noiva tradicional: tomara-que-caia, justo no corpo, aberto na saia. Branco, coberto de renda. O véu ia até a cintura, as luvas até um pouco acima do cotovelo e a calda arrastava-se apenas um metro no chão. Simples e sofisticado.

- Eu gostei do que eu comprei. Se a minha barriga estiver muito grande, tem como eu pegar um pedaço de seda, enrolar na barriga, que não vai fazer diferença. É do jeito que eu sempre sonhei.
- Eu vou casar com aquele vestido que você rejeitou e...
- Se você se casar, né, amiga? Se envolvendo com homem casado, eu já teria perdido as esperanças. – interrompeu os sonhos da amiga.
- Só porque você está feliz com o seu casamento, não quer dizer que todo mundo esteja! Ele vai se divorciar para ficar comigo! – Keira afirmou.
- Eu pareço feliz? – A não tinha a intenção de ser ouvida, mas os ouvidos atentos da Knightley não deixaram aquelas rápidas e quase inaudíveis palavras passarem desapercebidas.
- Você não está feliz? – Perguntou preocupada. Apesar de ser meio exagerada e fazer coisas por impulso, ela era uma boa amiga.
- Esquece, Keira. Eu to muito feliz. Vamos fazer os convites? – E, entrando no carro, as duas se dirigiram à gráfica


decidiu por um convite que se transformaria em porta retrato depois. Era branco, com as letras douradas. Mandou fazer mil individuais e quatrocentos para a família. Claro que depois ela poderia pedir mais, caso fosse necessário, afinal, ela iria distribuir os individuais nos das famílias e poderia faltar algum: não era fácil ter que convidar quase Hollywood inteira.

A lista de convidados ainda tinha que sofrer alguns ajustes e por isso o número certo de convidados não poderia ser dito.

Um convite modelo foi impresso para que pudesse ver se era aquilo que ela queria.

Katherine e John & Leslie e Marius
Convidam para o casamento de
e
A se realizar às 5:30PM de sábado, 6 de fevereiro, no rancho Stone Fall, na saída para Birmingham
Contamos com a sua presença.


- Está perfeito. Pode imprimir os quatrocentos grandes e mil individuais. Eu te trago a lista depois. – A saiu e, entrando no carro com a amiga, voltou para casa.

O encontro...


- , que idéia é essa de sair de casa daquele jeito? Depois de sete anos de amor e dedicação, uma coisa que eu faço e você não gosta é motivo para tanto drama? – brigou com , que não disse nada, deixando um silêncio constrangedor por alguns segundos. – Vai me ignorar agora? Me acusar até a morte por eu querer que me namorado faça sucesso com as suas músicas? – A garota chorava. – Vai me ignorar agora que... Que nosso filho precisa de você?! – Passou a mão sobre sua barriga.

, ao ouvir isso, pareceu não saber mais como se respirava. Ele ficou pálido, o coração parecia saltar pela boca. Olhou para , que em meio às lágrimas, esboçava um sorriso de expectativa, desejando ferozmente que ele a perdoasse por sua atitude.

Ele gostava dela, mas não o suficiente. Seu amor era de , a sua , e era com ela que ele queria ter um filho. Sentiu uma angústia muito forte por tê-la acusado de não ser confiável, sendo que o seu erro fora muito maior: ela estava esperando um filho seu, mas ele nunca sequer pensara em transformar aquele namoro em algo mais sério, como uma família.

, que também tinha ficado surpreso com a notícia, não sabia se os deixava a sós ou ficava por ali mesmo. Preferiu ficar para saber o final da história. tentava abrir a boca, mas não saía nada, nenhuma palavra. Estava feliz pelo filho, mas não pela situação em que se encontrava. Fechou os olhos, encostando a cabeça no braço do sofá e sentindo dor em todos os músculos do corpo, que estavam tensos. Passou as duas mãos no rosto, bufando.

- Fala alguma coisa, meu amor! – pediu, intensificando o choro em um ato desesperado pela atenção de .

Ele finalmente olhou fundo nos olhos da garota e tentou organizar os pensamentos antes de falar qualquer coisa.

- Como?
- Bom, você sabe... Quando uma garota e um garoto se conhecem. – Começou e teve que segurar o riso para não ofendê-la.
- Não, ! Não é disso que eu estou falando! – Disse , passando a mão furiosamente no rosto, perdendo a paciência com . Ele se levantou e a segurou pelos braços, desesperado. – Eu... Você... Como?!
- , solta ela! – Interveio , separando os dois. Os braços da loira estavam com marcas. – Você enlouqueceu? , senta aí... Eu vou buscar uma água pra você.

Os dois ficaram ali, sentados na sala. encarava , mas ele não conseguia corresponder ao olhar. Sentia raiva de si mesmo por ter se descontrolado daquele jeito.

- Posso saber o porquê de você ter agido assim? – perguntou e, sem sua resposta, chorou ainda mais, se levantando com raiva. – Nem precisa explicar! É ela, não é? Outra vez ela conseguiu acabar com a minha vida! Por que você não consegue esquecê-la? Eu me esforço tanto pra te fazer feliz, pra você me enxergar... Eu me esforço pra fazer você me amar, ... Quer saber? Eu não vou mais me rastejar aos seus pés. Você sabe que eu te amo e a prova disso é esse filho que eu estou esperando! Se você não é capaz de ficar feliz por saber que vai ter um filho, imagina ser feliz comigo!
- , pára! – Se levantou também e abraçou-a fortemente, enquanto ela derramava suas lágrimas em seu ombro. – Me perdoa... Eu sou um idiota, . Me desculpa, eu me descontrolei... Minha cabeça está muito confusa... Mas me escuta... – Colocou suas mãos em volta do rosto da loira. – Eu estou muito feliz por ser pai. – Riu. – Eu vou ter um filho! É a coisa mais maravilhosa que poderia acontecer... E mais maravilhoso ainda é eu ter você ao meu lado pra criar essa criança. – Essa última frase soou um pouco falha, pois não era completamente sincera, mas foi o suficiente para perdoá-lo.

~*~


Um mês depois, os convites para o casamento de e estavam prontos, e ela fazia questão de entregar pessoalmente para Mary e Katherine. Os dois entraram na BMW preta e se dirigiram para Dover. foi dirigindo. Estava com uma camisa cavada que realçava seu corpo malhado, resultado de horas na academia todos os dias, seu cabelo esvoaçava com o vento e o sol tornava seus olhos tão que hipnotizariam qualquer uma, inclusive , que não conseguia tirar os olhos de seu noivo.

, por sua vez, estava tão deslumbrante quanto ele. O cabelo ruivo e longo solto, contrastando com seus olhos castanhos e o vestido verde curto. Chegaram pelo litoral. O mar estava tranqüilo, mas o frio estava intenso. A casa de Katherine estava vazia e logo soube onde encontrá-la: na casa de Mary. Para sua surpresa, havia uma BMW prata estacionada em frente à casa amarela.

- A Mary está com visitas? – perguntou, estacionando.
- É o que parece. Tomara que não seja quem eu estou pensando. – Respondeu entre dentes.

Infelizmente, o destino a decepcionaria ainda mais. Eles foram até a porta e tocaram a campainha.

- ? – Anne atendeu, mostrando espanto assim que a viu e só piorando a expressão ao avistar . – Noivo da ?
- Olá, Anne! – cumprimentou. – Sim, esse é o meu noivo. O que foi com você? Está estranha... – Desconfiou. – Não vai nos deixar entrar?
- Não! – Anne exclamou, ocupando todo o vão da porta, e percebeu que denunciara toda a situação ao ver a cara dos dois. – Bom, é que minha mãe não está...
- Anne, quem é que chegou? – Mary gritou do lado de dentro.
- Er... Podem entrar. – Se sentiu derrotada, abrindo espaço para os dois.

entrou primeiro e parou no hall da sala. iria perguntar qual era o problema, mas logo percebeu: estava ali. Pior do que isso: estava lá também. estava com uma roupinha de bebê no colo e com o braço em volta dos seus ombros. Liam uma revista que continha imagens de berços e quartos infantis.

- ? – A voz trêmula da garota saiu baixa. Aquela voz fez o rapaz tirar os olho da revista e olhar fundo nos olhos da amada.
- ? – Os olhos dele brilharam. Fez menção de levantar, mas a mão de se espalmou em seu peito e o empurrou de volta para o encosto do sofá. Os olhos azuis de ardiam de raiva.
- Hey, , porque você não conta para sua tia Mary e para sua mãe o que você veio fazer aqui?
- ? – arqueou uma sobrancelha.
- Hey! Tia Mary! Mãe! – gritou, ignorando por completo a reação de surpresa do . – Eu vim entregar os convites do meu casamento!

A garota entregou um grande envelope no qual estava escrito em letras douradas “Família ” para Mary, que abriu com um grande sorriso. Antes que pudesse admirar a obra de arte que era aquele convite, tomou-o das mãos de sua mãe e contou os individuais.

- Está faltando um. – Provocou.
- Que eu saiba, a família é composta apenas por Mary, Darren, Anne e . Estou errada? – Usou do tom irônico.
- O meu namorado não vai para casamento nenhum sem que eu esteja presente. – alegou e então viu a tirar um convite individual de dentro da bolsa e entregar para Mary. sorriu vitoriosa.
- Você tem sorte, , que nosso filho não terá nascido até dia... Qual o dia? Ah! Quatro de fevereiro. Ou eu pediria para ele também.
- Quatro de fevereiro? – gritou. – ! Hoje é dia vinte e cinco de janeiro! Tá muito em cima!
- Nós tivemos que adiantar o casamento para a barriga da não aparecer no vestido. – falou, mexendo no seu cabelo, tirando algumas mexas do cabelo que caiam no olho e deixando todas as mulheres naquela sala, desde a mais nova até a mais velha, completamente hipnotizadas.
- , eu estou muito feliz por vocês. – Katherine abriu um sorriso enorme.
- Bom, eu também estou feliz. – mentiu.
- É! – chamou a atenção com um berro. – É sempre muito bom quando encontramos um casal tão feliz quanto a gente!
- Tenho certeza que sim. – Anne murmurou mais para si mesma do que para ser escutado ao ver a enrolar os braços no pescoço de em um sorriso exagerado e o envolver a cintura de sua noiva por trás, acariciando a barriga dela, tentando passar a idéia de um casal perfeito. – Os dois possuem o mesmo tanto de felicidade.

Todos na sala ficaram trocando olhares tensos.

- Mamãe... – chamou. – Vamos voltar para Londres, ok? Ainda há algumas coisas para serem arrumadas, temos entrevistas, sessões de fotos... – Deu um beijo na mulher, outro em Mary e outro em Anne.
- Pois é... Tchau, gente! Esperamos vocês no casamento! – Disse e, dirigindo-se para o carro, o casal partiu para Londres.

~*~


- Ai, Keira, você está tão linda! – exclamou vendo a melhor amiga entrar pela porta da frente da casa, que havia se tornado um imenso salão de beleza para a noiva.
- Meu Deus, ! Você quem está linda! – A Knightley foi até ela, que estava sentada enquanto o melhor cabeleireiro de Nova York arrumava seu cabelo, e deu um beijo em seu rosto. – Parabéns, amiga!
- Ah! Você vai ser a madrinha mais linda!
- Ah! Que nada! As outras madrinhas estão lindas! Está tudo lindo! Colocaram um tapete vermelho na grama, que está verdinha por causa da neve de ontem, aí cobriram todo o lugar com um pano branco para, caso neve, não nevar em você ou nos convidado. Os bancos branquinhos, tudo enfeitado de vermelho! Está perfeito, ! – Ela parecia empolgada.
- É... Tem muita gente lá? Eu tenho que sair daqui a quarenta minutos ainda! – A não parecia feliz com essa idéia.

O cabeleireiro finalizou o cabelo, desejou parabéns e sorte e foi embora. Ela estava pronta. Ficou de pé e se olhou no espelho. O vestido branco tomara-que-caia, aberto na saia, coberto com uma renda, brilhava porque era feito com fios de diamantes. Suas luvas da mesma renda e um buquê de rosas vermelhas desespinhadas, que combinavam com a unha, da mesma cor.

- Os convidados estão chegando ainda. Fica tranquila que o casamento começa daqui à uma hora. Sai daqui a quarenta minutos que você vai se atrasar dez minutos. Mais do que perfeito para a noiva!
- Está bom, Keira! – Riu da empolgação da outra.
- Então eu vou voltar pro Stone Fall. Fica bem, ok? Boa sorte!

E saiu pela porta da frente.

estava ansiosa, nervosa, receosa. Não sabia se aquilo era o certo a se fazer, mas ela não queria fazê-lo. O tempo parecia correr e seus pensamentos confusos já tinham feito quinze minutos passarem sem que ela percebesse. O barulho da porta se abrindo a acordou de seu transe. Virou-se subitamente para a porta e viu lá, parado, vestindo um terno preto sobre uma camisa branca e uma gravata azul-céu. Seus cabelos caíam de uma maneira perfeita sobre a pele branca, que estava um pouco avermelhada nas maçãs.

- ! – Alicia gritou, segurando a barra do vestido e então correndo até ele e se jogando em seus braços. Enterrou seu rosto na curva de seu pescoço, esquecendo-se completamente da maquiagem. – Eu quis falar com você desde que eu cheguei aqui! Me desculpa, meu amor!

O estava sem reação. Não sabia se a abraçava ou se a empurrava para longe porque ela iria se casar. Preferiu não fazer nada e ela acabou o soltando.

- Você me esqueceu, ? – Ela perguntou chorosa.
- Não, , não... – Ele sorriu docemente, acariciando-a no rosto. – Se eu tivesse esquecido, eu não estaria aqui.

A andou para o sofá e chamou o garoto para se sentar ao seu lado. Se olharam em silêncio por alguns instantes.

- Por quê? – Ele perguntou. – Por que, ? Você prometeu me esperar! Prometeu que seria minha para sempre. Eu tentava te ligar, você não atendia! Você me disse que ligaria de volta, mas nunca ligou! Você pode me culpar por eu ter ficado com a durante esses sete anos, mas sempre foi rápido e nunca foi sério! A gravidez dela foi um descuido! Mas eu nunca pensei em me casar! Porque eu sabia... Eu sabia! Que você era a dona do meu coração! E eu esperava que você estivesse me esperando e por isso nunca foi sério, para não te trair. Por mais que eu soubesse dos rumores entre você e o , eu não conseguia me ver na velhice ao lado de nenhuma outra mulher. E eu pensei que você cumpriria sua promessa. – Os olhos do estavam mareados. – E eu só queria saber por quê.
- ... Eu nunca te esqueci. Nem por um minuto! – gritou, passando as costas das luvas brancas nos olhos cobertos com lápis preto.
- Não foi o que pareceu! Eu encontrei com o num restaurante e ele me disse que você tinha se esquecido de mim! , eu pensei em você todos os dias! – Ele também chorava.
- Eu precisava fingir que tinha deixado tudo para trás! A pressão da música era muito grande, porque eu comecei junto com o . Todos esperavam que eu fosse ficar com ele... Eu fui fraca, ... Me deixei levar pela pressão, pelo glamour da profissão e me esqueci... Me esqueci da importância do único e verdadeiro amor... – Soluçava.
- Você se esqueceu, ... – Ele falou em um misto de rancor, raiva e tristeza. – Você preferiu um sonho distante. Achou que a felicidade estava lá... Era verdade? Você se sente feliz? Esse casamento era o que você queria ou seria melhor ter ficado em Dover, mudado para Londres, ter um trabalho comum, mas estando comigo? Como você se sente, ?

O silêncio reinou. A garota não era capaz de encará-lo. Acabara de perceber que tinha feito uma besteira irreparável. Iria se casar, não tinha feito faculdade, estava grávida... As coisas estavam claras. Chorou.

- E agora que você vê o que você prefere, é tarde demais. Eu ainda preciso de você, , mas você me perdeu. A garota que “não era nada sério” ficou grávida. Se você tivesse me falado que se arrependia de tudo antes dela me contar, eu poderia falar para ela que assumiria, sustentaria e daria auxílio, mas já era, . Eu prometi ficar com ela e eu, ao contrário de certas pessoas, cumpro o que eu prometo. – Seu tom era machucado. – Agora eu vou voltar para o rancho. E você vai se casar com o . – Se levantou e bateu a porta atrás de si.

não teve reação instantânea. Ficou parada, limpando suas lágrimas com as luvas. Quando se deu conta de que tinha ido embora, correu para a entrada, mas, como ele dissera, já era tarde demais. Parecia que as palavras dele a atravessavam, como flechas ou cacos de vidro, e transpassavam lentamente cada parte do seu corpo, causando uma dor imensurável. Bateu a porta da frente e correu em direção ao seu quarto.

Por ironia do destino, esqueceu que estava com o vestido de noiva e não levantou a barra. Quando estava quase chegando ao topo da escada, tropeçou no forro e caiu sobre suas mãos. Em uma tentativa de se levantar, caiu novamente por causa da visão embaçada pelas lágrimas, mas, dessa vez, bateu o queixo no degrau de cima, sentindo gosto de sangue. Pela última vez, forçou ficar de pé, embaraçando-se na roupa e, já sem forças para se segurar, rolou escada abaixo, caindo desmaiada aos pés desta.

~*~


- Mary, a está demorando, não está? – Katherine falava, já ansiosa, tendo a visão panorâmica do pupto para os convidados.
- Realmente... O está ficando nervoso. – Mary afirmou. – O também. – Murmurou triste.

olhava para o relógio de dois em dois minutos. Se ela tivesse saído da casa quinze minutos depois dele, já deveria ter chegado lá há vinte minutos, o que fazia a estar dez minutos mais atrasada do que o atraso combinado. Seu celular vibrou no bolso da sua calça. Se levantou e foi para a parte de trás da tenda.

- Alô?
- ? Aqui é a .
- ? Algum problema com o ?
- , a está aqui.
- O quê? Não! – Abaixou a voz. – Ela está vindo para cá. Eu sei! Ela estava pronta!
- Não, ! A empregada a encontrou desmaiada nos pés da escada, com sangue saindo da boca e, provavelmente, do útero. E é claro que é ela. A empregada não é burra, trouxe os documentos e eu não conheço nenhuma outra grávida que se casaria hoje. Vem pra cá. Avisa a família dela!
- Tá, tchau! – Desligou o aparelho. – O que foi que eu fiz?

Levou as mãos à cabeça e atravessou o tapete vermelho ao encontro de .

- Hey, a acabou de me ligar.
- E o que eu tenho a ver com isso? – Murmurou, mais parecendo um rugido.
- Sua noiva está no hospital com sangramento. Aparentemente, ela caiu da escada.
- A ?
- É, a . Avisa pra mãe dela e pra todo mundo. Eu estou indo pra lá.

avisou para a família e para os convidados. Disse para aproveitarem a festa que, por causa da gravidez da noiva, o casamento seria adiado.

Pisando fundo, o e o chegaram na cidade em menos de meia hora.

- Vocês demoraram! – falou quando viu todos chegando. – A passa bem... Mas a queda pressionou muito a barriga. Ela estava só com doze semanas e, bom, o bebê não resistiu.
- Ai, meu Deus! – Katherine desmaiou no sofá da sala de espera e foi acudida por Mary.

não conseguia acreditar. Lágrimas começavam a formar em seus olhos e seu maxilar se mostrava tenso. empalideceu.

- Ela já pode receber visitas? – O perguntou e recebeu como resposta um balanço de cabeça de , que confirmava. Ele já se dirigia para o corredor de acesso, mas foi puxado por .
- Eu sou o noivo dela e sou eu quem vou até lá. A prioridade de visita é dos familiares e não de pessoas esquecidas no passado.
- Não! Eu que tenho que falar com ela primeiro!
- Posso saber o por quê? – O questionou em tom ameaçador, se aproximando de , que tinha praticamente a mesma altura dele, mas parecia ficar muito menor perto da fúria que os olhos demonstravam.
- Bom, é que... – hesitou por um momento e percebeu que ele precisava falar a verdade. – É tudo minha culpa. É minha culpa a ter sofrido esse acidente e ter perdido o bebê... Eu fui falar com ela...

o olhou com os olhos faiscando de raiva e sua primeira reação foi socar o rosto de , que caiu no chão, com sangue pingando de seu nariz. O homem tentou avançar mais uma vez.

- Seu desgraçado! Filho da puta! – Mas antes que o pudesse quebrar todos os dentes do , duas enfermeiras, com a ajuda de Mary, o seguraram com dificuldade. – Ela estava esperando um filho meu! Estávamos construindo uma vida juntos! Aí você aparece e estraga tudo! Acaba com o meu casamento! Faz a perder o meu... – Ele chorava, o que fazia ficar mais fácil de controlá-lo. As enfermeiras o soltaram e uma delas foi ver a situação de , que ainda sangrava e que também chorava.

se levantou e olhou nos olhos de . Viu o ódio crescendo ali. O apontou o dedo para .

- Antes que eu perca a paciência com você... Você vai dar o fora daqui! Vai esquecer a e fingir que nada aconteceu entre vocês dois. Isso se você ainda a ama e não quer vê-la sofrer. Você já trouxe muita dor para a nossa família. Ela perdeu um bebê por sua culpa. Isso que você sente não é amor! É inveja! Então... Saía das nossas vidas. Arrume outra pessoa e esqueça, esqueça, entendeu? A ... Ela não precisa de mais sofrimento. – E saiu pelo corredor, entrando no quarto de sua noiva.

Katherine acordou um pouco tonta, mas logo em seguida desmaiou. Ela simplesmente não suportava ver sangue e, por descuido, desviou o olhar para . Ela foi levada para a emergência por estar grávida e ter elevado o seu nível de estresse.

O , não agüentando mais tudo o que acontecia, saiu do hospital. Lá fora estava chovendo muito e a noite já tinha caído. Ele se sentou no meio fio e chorou intensamente. Chorou por tudo que sofrera e fizera as pessoas sofrerem. Tinha ódio de si mesmo por ter ido esclarecer as coisas com . Se não fosse por ele, todos estariam felizes na festa de casamento. e teriam sua lua-de-mel, ele e continuariam com o namoro, os bebês nasceriam... Sim, seria uma vida feliz. E não seria mais por culpa dele.

Os pingos grossos que caíam em suas costas pararam, mas a chuva continuava. Sentiu uma mão em seu ombro e uma pessoa se sentando ao seu lado com um guarda-chuva. Ele se virou para o lado e viu que era Anne, sua irmã.

- Hey, você precisa voltar lá pra dentro... Está frio aqui fora. Além do que, precisamos concertar esse nariz lindo. – Tentou fazê-lo rir, sem sucesso. – A está bem, se você quer saber... Você precisa ir lá ver ela. A tia Katherine desmaiou de novo quando você saiu correndo e... , você está me ouvindo?
- Olha, Anne, eu não quero conversar agora, está bem? Sai daqui, se não você vai ficar doente.
- É você quem vai ficar doente se continuar aqui.
- Eu não me importo. De verdade. Eu fiz as pessoas lá de dentro sofrerem. Você não viu? Por que eu não posso sofrer no lugar delas? O que mais me dói é ver que eu acabei com a felicidade da . Por isso, pouco me importa se eu for atropelado, assaltado, pegar uma doença ou morrer... Eu causei toda essa desgraça.
- Cala a boca, ! Você percebeu a burrice que você acabou de dizer? – Anne chorava. Ela amava seu irmão e sempre soube a dor que ele sentia por ter perdido , mas não agüentava vê-lo daquele jeito. – Você não pode falar isso. Existem pessoas que se importam com você: eu, a mamãe, o papai, a tia Katherine, a ... A ! Você não é culpado pelo acidente que ela sofreu. Você não sabe o que aconteceu... Ninguém sabe. Não pode se culpar assim, . Todos nós estamos sofrendo, mas precisamos ser fortes. A vida continua. Eles podem tentar ter outro filho. Para tudo tem um jeito. A questão é... Você vai ter um filho e a mãe dele está lá dentro, passando mal, chorando, com medo. Você não pode deixar ela sozinha. Não pode abandonar a nossa família. Não pode abandonar o mundo.

Ela levantou e tentou puxá-lo junto, mas ele não levantou.

- O que foi agora?
- Eu não posso.
- Não pode o quê?
- Não posso voltar lá... O vai acabar fazendo um buraco na minha cabeça de tanto que ele vai me bater. – Resmungou, fitando a irmã.
- , você está parecendo uma criancinha chorona que não vai pra escola com medo dos marmanjos que roubam o seu lanche. – Ela conseguiu tirar uma risada do . – Vamos lá... Se ele vier te encher, eu te ajudo.
- Está bom, Srta. Eu Sou Valente. – Os dois gargalharam e saíram em direção à parte de dentro do hospital.

percebeu que estava exagerando o seu medo. Ele decidiu que não deixaria aquele “mauricinho metido a galã” falar daquele jeito de novo com ele. No dia seguinte, voltaria ao hospital para ver e pedir desculpas pelo que ele falara. E se tudo desse certo, o não estaria lá.

~*~


- ... – abriu a porta chorando e a abraçou. – , eu não entendo por que isso aconteceu.
- Está tudo bem, . – Ela sorriu. – Nós podemos nos casar dentro de duas semanas. Não acho que a barriga vai estar enorme. Dá pra disfarçar.

E foi então que ele percebeu que não tinha idéia da gravidade da situação.

- , meu amor... – O se sentou ao lado dela na cama. – Você caiu da escada. – Seus olhos úmidos. – O bebê... Não existe... Não mais.
- O quê? – A começou a deixar escapar as lágrimas, que rolavam diretamente através do seu rosto para o seu busto, que em pouco tempo estava encharcado. – ... Me diz... Por quê? – Ela o abraçou muito forte, enterrando seu rosto na curva do pescoço dele. – É tão injusto.
- Eu sei... – suspirou. – Não fica triste. Não foi culpa sua... Eu vou pra casa. Acho que sua mãe quer ficar aqui com você durante a noite. Amanhã eu volto.

O homem saiu do quarto e, ainda limpando o rosto, atravessou toda a sala do hospital e foi para o carro. tinha desistido de ficar do lado de dentro e se sentou de novo na calçada, sendo protegido pelo guarda-chuva de Anne. Viu passar correndo, provavelmente com medo de molhar aquele cabelo e liso, que ele julgava ser chapinha. Vendo o noivo de ir embora, se levantou.

- Anne, vamos entrar. Agora eu não vou voltar pra cá. – Tomou o guarda-chuva das mãos da irmã e caminhou até o lado de dentro.
- ! – A garota berrou, correndo até ele com as mãos na cabeça para molhar menos seus longos cabelos e . – Me espera!


A Vida Adulta…



Os dois entraram. Viram Katherine desmaiada. Um médico examinava seus batimentos cardíacos com um sorriso, mostrando que estava tudo bem. Mary estava com a cabeça de Kath no colo e acenava com a cabeça, aceitando a informação.

O foi até .

- Hey, , será que eu posso entrar?
- Claro.
- Ah! Que bom. – Já ia tomando o seu caminho, quando um chamado da médica o fez parar.
- Tem paparazzi ou coisas assim lá fora?
- Não que eu tenha visto. – Sorriu e abriu a porta.

O quarto, todo branco com azul, revelava um clima pacífico. A cama estava centralizada na parede. No lado oposto tinha uma poltrona. Subiu seus olhos para ver a ruiva que estava deitada. Ela deixava escapar alguns soluços. Suas mãos, mais brancas que de costume, cobriam seu rosto. Provavelmente estava chorando.

- ... – falou, depois de observar toda a cena.

A garota parecia sofrer para fazer cada movimento. Tirou as mãos do rosto lentamente e passou o indicador sob e sobre os olhos. Ao contrário das mãos, o rosto estava extremamente vermelho. Suas íris castanhas estavam praticamente escondidas nas veias dilatadas, mas olharam para ele com fúria.

- Sai daqui. – Pequenas gotas d’água caíram em seu rosto. Seus lábios comprimidos de raiva.
- , eu preciso falar com você.
- Não! – Gritou. – Da última vez que você veio falar comigo, você me fez chorar, eu caí da escada e perdi o meu bebê! Por sua culpa, minha família está destruída! E agora você quer falar comigo?! Minha vida já está uma desgraça! Não tem como você destruí-la mais! Sai daqui! Você já fez o seu trabalho! Conseguiu me levar pro fundo do poço na vida pessoal! A única coisa que me resta é a carreira! Se você quer conversar, sua intenção é destruir minha vida profissional também! Eu não vou deixar! Sai daqui ou eu aperto o botão para chamar a médica!
- , não foi minha culpa! Eu fui falar com você porque...

E então apertou o botão. abriu a porta rapidamente.

- Algum problema?
- Tira ele daqui, doutora. Por favor.
- , você tem que escutar o que ele tem para falar.
- Eu não quero falar com ele.
- Dois minutos, . Eu não vou ter paz se eu não falar com você... – suplicou.

Com lágrimas guardadas em suas pálpebras inferiores, a fez que sim com a cabeça e se ajeitou na cama. O se aproximou até ficar ao lado dela. Fez um sinal para que se retirasse.

- , eu sei que eu não deveria ter ido à sua casa justo antes do casamento. Se eu não tivesse ido, você estaria feliz, casada, esperando um filho. Mas... Você não seria feliz com o . - Deu uma longa pausa e tocou os fios ruivos da garota, que, agora, chorava visivelmente de tristeza. - Eu queria te deixar feliz e acabei causando o oposto. Desculpe-me. Eu só queria falar isso. Eu entendo se você não quiser falar comigo nunca mais.

O já se levantava quando aquelas mãos realmente pálidas seguraram o seu terno.

- Eu que tenho que pedir desculpas... – Seu choro era intenso. – Perder meu bebê é tão injusto que eu... Preciso colocar a culpa em alguém. E você me fez chorar tanto, hoje, mais cedo, que eu acabei jogando toda a minha frustração em você. Perdoa-me, ! Eu sou uma pessoa horrível.
- Não é... – Ele se virou e se sentou na beirada da cama. – Eu entendo, .
- Eu te amo tanto que quando você está perto, eu nem tenho controle das minhas ações. – O abraçou.
- Tudo bem... – Sorriu, a puxando para mais perto. – Eu te amo. Muito... – Deu um beijo no topo da sua cabeça. – Mas agora é tarde para isso. A está grávida, . Eu não posso abandoná-la. Mas eu quero que você saiba que eu te amo. Te amo muito. Mais do que eu sou capaz de amar. Vou amar para sempre, desde sempre. Você é minha princesa, minha alma gêmea. Por mais que entrem outras pessoas nas nossas vidas, nada pode acabar com o nosso amor. E, nem que seja depois da morte, nós vamos ficar juntos e vamos viver o nosso amor.

Os dois agora choravam. Era um tipo de sentimento de perda, saudade, ou talvez só a realidade que fosse dura de mais.

se soltou um pouco do abraço e encarou os olhos encantadoramente de . Com carinho, entrelaçou seus dedos nos cabelos da nuca dele e, sentando sobre seus próprios joelhos, o puxou para um beijo. Não era como os beijos da adolescência. Era um beijo maduro, experiente, e, apesar de ambos terem tido experiências com outras pessoas, aquele parecia ser o melhor beijo de suas vidas.

- Eu preciso de você. – A falou em um suspiro. – Mais do que eu preciso de mim mesma.
- Eu sempre precisei de você. – Deu um selinho nela. – E agora que eu não posso te ter, eu preciso ainda mais. Você é como uma droga que vicia no primeiro uso. Dá para sustentar um tempo, mas te consome depois. E quanto mais você foge, mais envolvido você fica. Quando não tem, causa abstinência, um sofrimento inigualável e, ao tentar se recuperar, a necessidade aumenta.

Sem se importar em deixar o cabelo de arrumado, enfiou suas mãos debaixo deles e a puxou para outro beijo intenso. Ele se virou sobre o corpo dela. passeava com suas mãos pelos ombros do garoto até o abdômen. Com uma habilidade inesperada, ela afrouxou a gravata dele e começou a desabotoar a camisa, o que fez o voltar à realidade.

- Não, . – Se levantou da cama e arrumou a roupa. – Eu estou com a .

A garota deslizou a mão dos olhos até os cabelos, se amaldiçoando.

- Eu estraguei tudo de novo, não é? Eu atravessei a barreira.
- A culpa não é sua. – Falou, tentando esconder o nervosismo. – Eu deixei. É melhor que isso não se repita.
- Mas, , eu preciso de você! – A ficou de pé. Ela não estava com o vestido de noiva, mas com a camisola do hospital. Foi até ele e colocou os braços em volta de seu pescoço.
- Não, . Foi um erro. A minha namorada está grávida e ela precisa de mim. – A afastou pela cintura. – E é isso que eu vou fazer agora: vê-la.
- . – Ela deu um selinho nele, que gemeu. – O que foi?
- Foi só um soco que seu noivo me seu. Machucou o nariz e a boca, mas não foi nada. Eu volto depois, . Tchau. – E fechou a porta atrás de si.

~*~


estava em um quarto do hospital. Estava sentada em uma cadeira e um médico media sua pressão. entrou e esperou o doutor terminar de examiná-la. Ao ficarem a sós, nenhum dos dois trocou uma palavra ou olhar, mas, depois de um tempo, o arriscou.

- Você está bem? – Sem sucesso. estava chateada com ele. – Não vai responder?
- Então me responde primeiro. Por que você foi à casa da antes do casamento dela? – Seus olhos estavam mareados e confusos. demonstrava a angústia no rosto. Ele fora ver porque a amava, mas não pensara em . – Pensei que já tivéssemos falado sobre isso. Eu sei que eu nunca vou ter todo o amor que você tem por ela, mas é comigo que você vai ter um filho, uma vida... É de mim que você vai receber atenção, carinho e o amor que você merece. Não da .
- Eu sei, . – limpou as lágrimas que caíam do rosto da sua namorada. – Eu vou ser sincero com você. Eu fui lá para esclarecer algumas coisas.
- Tipo, por que ela escolheu o e não você? – A loira adivinhou.
- Isso... Eu precisava saber se ela ainda me amava. – O silêncio perdurou. Eles não conseguiam se encarar. – Ela não o ama. Eles vão ser infelizes. Ela vai...
- Não... – Interrompeu. - Ela escolheu o e vai ser muito feliz. Assim como a gente. – O encarou. – A não ser que você pense que nós não vamos ser felizes.
- Não... Claro que não.
- Então não se iluda mais, . – Ela voltou a chorar, escondendo o seu rosto nas mãos e não sabia o que fazer para consolá-la. – Ela se foi. Não é mais sua. Você não pode viver sofrendo. Esqueça ela. Eu te amo e sempre vou te amar. Será que você não pode fazer um esforço para me notar e, um dia, dizer que me ama? Eu sou capaz de tudo por você, . E ela? Ela abandonou o sonho? Abandonou o noivo? Abandonou as regras da sociedade? Ela não fez nada disso! Ela não te ama!

Os dois se abraçaram. Não tinham coragem de dizerem mais nada. se perdeu nas palavras de . O que ela falara era verdade, mas tinha dito que o amava e que precisava dele. Duas garotas, uma única escolha. Ele estava aprendendo a viver com , e poderia construir uma família com ela. Mas e ? Ela parecera tão diferente depois do acidente... Parecia disposta a largar o para viver ao seu lado, pois o amava. E o que seria o amor?

pensava em tudo que já tinha lido ou ouvido sobre essa palavra, que fez sua vida virar de pernas pro ar. Procurava descobrir qual das duas garotas descrevia melhor esse sentimento. Na ânsia por encontrar a resposta, se deixou iludir pelo coração, bloqueando qualquer interferência racional que pudesse aparecer.

- Eu te amo... – Suspirou.
- O que você disse? – o afastou, e olhou em seus olhos. – Você não precisa me iludir com essas palavras, sabe?
- Linda, eu te amo. – Repetiu o rapaz, agora com um sorriso de adolescente no rosto. estava surpresa e feliz por ouvir essas palavras. – E não precisa duvidar. A prova disso está aqui. – Colocou a mão sobre a barriga dela. – Nosso filho. Nossa família, nosso amor.

Dois meses depois...


- Victoria! Que saudade! – abraçou a amiga, que acabara de chegar ao aeroporto.
- , querida! Eu também morri de saudade! Hm... Estou vendo que a barriguinha já está crescendo! Quantas semanas?
- Quinze! – A loira sorriu, encantada.

As duas entraram na BMW prata da e foram para casa.

- Me conta, amiga, como foi a estadia no Brasil?
- Foi ótima. Nunca vi tanto homem bonito junto na minha vida. O Rio não é lugar só de mulheres bonitas... Os homens são maravilhosos: bronzeados, de sunga... – Victoria se abanava com uma revista, cuja capa estampava: “ e de volta ao cinema!”. – Você viu? Ele voltou a atuar. Adoro ele.
- Quem? O ?
- É... Ele mesmo. Fiquei sabendo do casamento que não aconteceu por causa do acidente dela. Eles não se casaram, casaram?
- Não... Talvez no fim do ano eles decidam. Aliás, a decida. Ela diz que está se recuperando da perda do bebê.
- Ai... Odeio ela. Mas, pelo menos, ela atrasa o casamento. Aí eu tenho mais chances com o meu amorzinho. – Victoria alisava a foto de .
- Não... Atrasar o casamento é horrível. Ela pode largar o noivo e dar em cima do , para roubá-lo de mim.
- Ah! É! Eles já foram namorados, né? Eu lembro que vocês eram amigas e brigaram por causa dele. Eu até lembro quando você falou que teria ele a qualquer preço... – Os olhos quase pretos de Victoria brilharam. Ela percebera. – Você falou sério?
- Por que você quer saber?
- Porque eu sei que você seria capaz de tudo mesmo. Você não fez nenhuma loucura, fez?
- O que é isso? Um interrogatório? Eu não fiz nada... Eu não sou nenhuma adolescente.
- , eu te conheço. Você não tem nada para me contar? Algo que esqueceu? Tipo... O filho não ser do ?
- O quê?! Que absurdo! Eu nunca faria uma coisa dessas com ele.
- Mas se vocês começaram a namorar no dia do aniversário dele, você poderia ter, no máximo, treze semanas.
- Quem você pensa que é para dizer algo assim? Você não sabe de nada da minha vida com o . Nós ficamos juntos outras vezes, mas só firmamos no aniversário dele. Cuidado com o que você diz, garota.
- Está bem, não se estressa. – E continuaram o caminho.

~*~


dedilhava alguma coisa no violão, sentado no sofá da sua casa. tinha saído para buscar sua amiga, Victoria Menzies, no aeroporto, de volta de uma viagem para o Brasil. Vez ou outra, ele olhava pela janela, tentando enxergar a casa de , que andava muito movimentada.

Todo dia, quando a noite se aproximava, o via um cambaleante e chamativo bater na porta. A camisa quase sempre manchada, molhada, com os primeiros botões abertos. O cabelo, que sempre fora perfeitamente penteado, chegava sempre desarrumado. Os olhos contrastando com o vermelho dos olhos e da pele, que poucas vezes, naqueles últimos dois meses, apareciam brancos.

Logo depois, a porta se abria e a ruiva se revelava. Olhos tristes se levantavam e encaravam a figura deplorável que aquele homem havia se tornado. E então gritos. Gritos. Mais gritos. E os dois entravam em casa, batendo com certa força a porta atrás deles.

Mas nunca era possível ver o que acontecia do lado de dentro da casa e isso era o que mais preocupava . Aquela noite não seria diferente, e era por isso que ele olhava para fora, esperando a chegada do .

Parou de dedilhar e ficou de pé, em frente a janela. Apesar de ser quatro de abril, plena primavera, o clima londrino não fingia ser de outro país. O vento que entrava pela pequena fresta aberta fez o fechar o zíper de seu moletom laranja e colocar as mãos dentro dos bolsos da calça jeans. Olhou para o jardim de , completamente florido, mas vazio... Vazio da criatura que era capaz de encher com sua luz e sua personalidade todo o ambiente.

Mas não demorou muito até que o vazio fosse preenchido. abriu a porta e, caminhando docemente pelo gramado do jardim, sentou-se no balanço que estava entre as flores. Deu um pequeno impulso e deixou o vento fazer o resto do trabalho. Trajava um short vermelho de cetim e uma blusa branca de algodão. Os pés descalços acariciavam a grama verde, e, nos cabelos, uma tiara da mesma cor e tecido do short. Um olhar perdido incomodava o garoto na janela. Eles não haviam se falado a sós desde o dia no quarto do hospital e ele achava que daquele jeito era melhor.

~*~


Os últimos dias estavam passando cada vez mais lentamente para a . Seu noivo chegava em casa cada dia mais bêbado e o que doía, na verdade, não eram os ferimentos externos que ele deixava, mas aqueles que ele deixava em sua alma.

se tornara um homem violento, desmotivado. Não era mais aquele homem de aparência e personalidade angélica. As palavras torpes que saíam da boca dele, depois das doses de bebida, feriam no mais fundo de sua alma. E a pior parte era que ela não podia simplesmente arrumar suas malas e sair de casa. A fama dava abertura para a falta de privacidade e aquela atitude desejada poderia causar um escândalo, um tumulto na mídia, e, agora que sua vida pessoal era um completo desastre, a última coisa que ela precisava era de um escândalo para arruinar sua carreira.

Felizmente, os hematomas deixados pelo corpo da eram facilmente cobertos por maquiagem ou escondidos pela roupa. A maioria era nos braços, resultado de puxões e o jeito bruto de segurá-la; nas costas, por causa de quedas e empurrões; nas pernas, devido a chutes; e, no rosto, gerados a partir de tapas. A parte ruim era a dor extrema, disfarçada nos sorrisos, mas que estava sempre lá, presente, atormentando.

Nem a cama, onde deveria descansar, parecia um lugar pacífico depois de tudo que o seu noivo a tinha obrigado a fazer ali.

Ela estava deitada no sofá, com os olhos fechados, tentando substituir aqueles pensamentos turbulentos por alguns mais doces. Levantou-se e foi até a janela. Observou a atmosfera primaveril por alguns instantes e decidiu que talvez fosse melhor entrar nela do que apenas olhá-la.

Abriu a porta e caminhou pelo gramado. Sentou-se no balanço que estava entre as flores e deu um leve impulso. Fechou os olhos, aproveitando uma das poucas vezes do dia que poderia ter uma boa sensação. Apertou as pálpebras quando se lembrou que seu noivo não demoraria a chegar, estacionando de qualquer jeito, cambaleando até a porta, e, então, a violentando secretamente.

Ah! Como ela se arrependia. Se ela pudesse apenas voltar no tempo e corrigir o maior erro.

Se soubesse o que uma escolha, que parecia ser tão próspera, causaria no futuro!

Se ela soubesse que... Que a amava de verdade e que sua felicidade eterna estava do lado dele.

E o ronco do motor a fez despertar dos pensamentos. A porta parecia ter sido batida com ainda mais força. Os murmúrios bêbados chegaram aos seus ouvidos mais cedo.

viu o sapato preto pisar do lado de dentro do portão. Trocaram olhares. Ele furioso. Ela assustada. Caminhou cada vez mais devagar e, chegando, com um puxão, a lançou na grama. A não ousou encará-lo.

- Olha para mim! – Berrou, enquanto chorava. Ela obedeceu. – Por que, ?
- Por que o quê, ? – Falou baixo, levando um chute.

Ele a deixou na grama e entrou na casa.

, escutando o barulho do homem no andar de cima, criou forças e se levantou. Correu para a parte de dentro, pegou uma sandália branca para combinar com a roupa e as chaves do seu carro. Dirigiu-se rapidamente para a garagem, jogou os sapatos dentro do carro, deu a partida e saiu.

~*~


estava assistindo a um reality show idiota que estava passando, mas sua concentração não estava lá. Ouvira o carro de chegando e se preocupara com a sua garota.

Ficou prestando atenção em todo sim que saía da casa. E foi quando escutou um ronco de motor. Olhou pela janela e viu a BMW preta desaparecer na estrada e, sem pensar duas vezes, pegou seu carro e a seguiu.

Os dois carros, quase a 125 Km/h, só pararam no momento que chegaram na praia. Primeiro a BMW, depois o Vectra do .

desceu carregando as sandálias nas mãos e deixando o veículo destravado. Pisou na areia e começou a chorar.

desceu também. Não se preocupou em trancar o automóvel. Adentrou a praia e foi até a garota, segurando em sua cintura. virou e jogou seus braços em volta do pescoço dele, chorando, desesperadamente, no ombro do garoto.

- Não chora... Por favor. – Acariciou seus cabelos.
- É mais forte que eu... Minha vida acabou. – Falou com a voz abafada.
- O que aconteceu? Você tem a vida que sempre quis.
- Eu não tenho... – Se afastou, se preparando para sentar na areia e contar o que aconteceu. se sentou ao seu lado. – O bebê... Sem ele... Depois dele... A perda dele... O ... – Dizia entre soluços.
- O que aconteceu?! – Insistiu. – Pára de chorar... – A abraçou e esperou ela se acalmar.
- Quando eu perdi o bebê, , eu achei que fosse ficar tudo bem, porque eu pensei que o me amasse, mas... Ele começou a chegar bêbado em casa, não ser tão preocupado com os compromissos e com as gravações, só ligar para a bebida... , ele cheira a vodca. O cheiro de Acqua de Gio dele não existe mais e... – Hesitou.
- E o quê? – O incentivou.
- Ele se tornou cada vez mais violento...
- Ele não fez nada com você, fez? – O rapaz se exaltou e caiu no choro. – Mas, ... Eu não entendo... Você não tem marcas. Não tem nada em você!
- Vem comigo. – A pediu, ficou de pé e estendeu a mão para .

Andando contra o vento, se aproximavam cada vez mais do mar, até que a água salgada tocou os pés de ambos.

- Você vai congelar. – Segurou o braço da garota.
- Você precisa ver... É primavera, mas você não precisa vir se você não quiser. – Respondeu baixo, de olhos fechados, aproveitando o vento da praia.
- Eu vou com você. – Sussurrou no ouvido ela. – Eu sempre vou estar com você. Eu sempre estive, não vai ser diferente agora.

Caminharam até mais fundo, sem se importarem em molhar as roupas. Quando a água estava na altura do pescoço, mergulhou e, quando emergiu, revelou um rosto cheio de arranhões e hematomas. Foram para um lugar onde a água ficava na altura das costelas.

- Me promete... – Ele segurou em sua nuca. – Me promete que o que eu vou mostrar não vai mudar nada entre a gente.
- Nunca... – agarrou os cabelos de e a puxou para um beijo.

A se afastou um pouco, deu uma leve flutuada, ficando a uma distância razoável do e, deixando uma lágrima cair, levantou sua blusa branca, revelando seu corpo completamente ferido. Virou de costas para que ele pudesse ver os machucados graves.

- Eu não acredito que aquele desgraçado fez isso com você. – nadou até a garota e a abraçou.
- Eu errei muito, . Muito... Eu fui egoísta e te fiz sofrer.
- Não! – Ele a calou com um selinho.
- Eu mereço esse sofrimento!
- Não merece!
- Mereço!
- Não merece!
- Mereço!
- Ah! Cala a boca, ! – E a beijou.

Um beijo profundo, na mistura de amor e desejo reprimido. O passeava com suas mãos pelo corpo daquela mulher que ele sempre amara e, ao tocar seus machucados, ele sentia a dor dela em sua própria carne. As mãos dela, por sua vez, não se decidiam entre o abdômen dele, por baixo do casaco laranja, ou os ombros largos, molhados pelas gotas que caíam dos cabelos . Em poucos minutos, o casaco e a blusa de já estavam na água, junto com a blusa de .

- Eu preciso de você. – Ela falou. – E eu já te disse isso. – Arfou. – Eu quero terminar o que você não deixou eu terminar no hospital.
- Você vai se sentir culpada depois. – Afirmou, segurando com firmeza o rosto da menina.
- Eu não vou. – Estava certa das suas palavras. – Talvez você...
- Não tenho motivo para isso. Eu sou homem, não é novidade para mim. E eu não me sentiria culpado de trair minha namorada com o amor da minha vida.
- Eu te amo. – Os olhos brilhando.

Voltaram a se beijar. As mãos estavam desesperadas. Eles sabiam que aquele era o momento deles. Depois de tantos anos de espera, eles finalmente concretizariam o amor.

Quando saíram da água, encontraram suas roupas na praia, graças às ondas. Vestiram-se com as peças molhadas e se sentaram na areia.

, cansado, se deitou, colocando uma das mãos atrás da cabeça. se deitou sobre seu peito, aproveitando a sensação de paz que há muito tempo não sentia.

- Está com frio? – A voz do soou docemente.
- Não... – Os dois sorriram. – Eu te amo, seu chato.
- ... Não está na hora de irmos embora? Você não almoçou, eu também não... A deve estar chegando em casa.
- Eu não quero ir embora...

ficou de pé e começou a andar sob o sol. se levantou, com um sorriso infantil.

- , lembra de quando a gente corria na praça lá de Dover?

- Hey, , aposto que você é lento demais para me pegar.

O sol das cinco horas da tarde estava brilhando com força sobre os cabelos ruivos da garota de dezesseis anos.

- Duvida? – Seus olhos pareciam ainda mais incrivelmente belos na claridade intensa. – Eu te dou folga de dois metros.

A gargalhou e começou a correr. esperou ela estar um pouco mais a frente e correu atrás. A diferença de altura favoreceu o garoto, e, em menos de cinco minutos, ele estava segurando pela cintura e se jogando na areia com ela.

- Bobinha... – Riu. – Eu devia ter apostado. Eu poderia estar rico agora.
- Ah! – fez uma cara de piedade irônica. – Acho que então temos uma pessoa mais bobinha do que eu aqui...
- Bobo? Eu? – ficou de pé e carregou a namorada. – Vamos ver quem cai na água primeiro.

E, indo até um ponto em que o mar batia em seus joelhos, lançou-a para frente. A garota caiu de costas na água fria e, chegando à superfície, puxou o braço de seu namorado, arrastando para, então, beijá-lo embaixo da água.


- Eu desisto! Você sempre vai ser mais rápido do que eu para correr na areia! – ria, com o corpo de sobre o dela, depois de correrem um bom percurso e ele pular sobre ela, ganhando a corrida.
- Que bom que você se rende. – Se levantou. – Agora vamos.
- ... – miou enquanto se sentava. – Eu não quero voltar para casa.
- , você tem que comer.
- , o problema não é a praia! Eu não quero ficar aqui! Eu só não quero voltar para casa e voltar a ser o saco de pancadas do . Pela primeira vez em dois meses, eu me senti feliz e plena. Você não pode me abandonar.
- Eu não vou. – Disse, enquanto calçava os tênis brancos. – Você pode ir lá pra casa e comer por lá, mas tem que sair de lá antes da chegar com a Victoria. A última coisa que eu quero é mais uma discussão com ela.

E, então, cada um foi para o seu carro, voltando para Londres.

~*~


chegava em casa, de carro, com sua amiga Victoria, depois de uma tarde de compras no shopping.

Estranhou quando viu uma BMW preta parada ao lado do Vectra azul-escuro metálico de . As duas garotas se entreolharam com raiva quando escutaram risadas do lado de dentro da casa.

- ! Que surpresa te ver aqui! – disse quando entrou em casa.
- , eu... Eu pensei que...
- Que íamos demorar para voltar? Pois é... Eu e a Vicky fomos ao shopping, mas eu fiquei cansada e decidi voltar. – Deu um beijo em e puxou Victoria para perto. – Essa é a Victoria. Vicky, esse é o meu namorado, pai do meu filho.
- Prazer. – cumprimentou.
- Bem, eu acho que eu vou indo, então... – interrompeu. Seu coração parecia se quebrar conforme andava para perto da porta. Estava saindo de perto do seu anjo, seu protetor, para voltar para a vida que escolheu, ao lado de .
- Mas já, ? Eu gostaria de te conhecer melhor. – Victoria pediu.
- Ah... Outro dia, então... Eu tenho mesmo que voltar. – Hesitou por um momento e olhou para . – O deve estar me esperando, já que eu não almocei em casa.
- Então deixe eu te acompanhar até lá. – pediu, de forma evidentemente fingida.
- Obrigada, . – agradeceu. De certa forma, com alguém por perto, as agressões seriam retardadas.

pegou seu carro, junto com a loira, e estacionou na garagem de sua casa. Antes que as duas saíssem, sentiu alguém segurando em seu pulso.

- Espera... Quero falar com você. – pediu. – Confio no , por isso eu não vou arrumar briga por causa dessa “surpresa”. A questão é que eu não confio em você. Da próxima vez que você for almoçar com o pai do meu filho, procure saber se eu estou em casa antes. Porque se eu te ver sozinha com ele de novo... Eu não sei do que eu seria capaz.
- Fica tranquila. – respondeu, ariscamente. – Você já o tem todinho para você. Faça bom proveito. Aliás, eu não sou do tipo que corre atrás de homens comprometidos.

As duas saíram do carro e entraram na casa. levou um susto ao ver parado na sala, com uma garrafa na mão, parecendo um mendigo. A loira, ao ver a ruiva se encolher toda com o olhar do noivo, percebeu o que estava acontecendo.

- Olá, . – Foi saindo dali. – Bom, vou deixar vocês... A sós... Tchau, ... E... Volte lá em casa sempre... O vai adorar. – Quis provocar, mas não sabia o que tinha acabado de fazer.
- , para o quarto. – Mandou o , a seguindo.

~*~


- Ela não veio só te visitar, não é? – Victoria questionou.
- Como disse?
- Isso que você ouviu. Vocês não são só amigos... A também não é tão burra assim...
- Olha, a gente só almoçou aqui em casa. Não houve nada. – se defendeu.
- Vou ver se acredito. – Pegou uma revista e pulou no sofá. – O problema de vocês é que não sabem mentir.

entrou em casa, e, sem olhar para , foi direto para a cozinha. Encheu um copo com água e bebeu.

- , você deve estar querendo uma explicação. – tocou em seu ombro.
- Não. Não precisa dizer nada. – Sorriu fraco, colocando seu dedo sobre a boca do namorado. – Eu confio em você. Sei que não faria nada para me magoar.
- Como pode ter tanta certeza assim, hein, mocinha? – Ele provocou, dando diversos selinhos na garota.
- Eu posso, ué... – Empurrou-o de leve. – , pára! Temos visitas...
- E daí? – Um sorriso pervertido apareceu em seu rosto, mas antes que pudessem falar qualquer outra coisa, um grito familiar chegou a seus ouvidos.
- O que foi isso? – perguntou, preocupada.
- Eu vou acabar com esse cara. – urrou, saindo pela cozinha com um mau pressentimento.

~*~


- Por acaso eu te dei permissão para ir até lá? – berrava. – Eu te fiz uma pergunta!

apenas ficava calada. Não podia responder nada, senão ele bateria ainda mais nela. O começou a quebrar os objetos ao seu redor e, para evitar ser atingida, tentou correr para o outro quarto, sendo impedida de fechar a porta pela mão de , que também foi responsável por jogá-la na cama.

- Você anda me traindo com aquele merdinha!
- Não, , não... Isso não é verdade. – Chorava desesperadamente.
- Não minta para mim! – Seu tom de voz era mais do que ameaçador. – Não minta para mim, sua vadia!
- , pára! Por favor! Você não é assim, meu amor. Eu te conheço e sei que isso é só a bebida... – A ruiva se aproximou, segurando em seu rosto, para acalmá-lo.

Todo seu esforço fora inútil. A ira do era tanta que nada podia detê-lo. Ele segurou seus pulsos com uma única mão e com a outra a esbofeteou no rosto, o que a fez cair no chão, gritando de tanta dor.

pegou um vaso de vidro que estava sobre a estante e segurou sobre a sua cabeça, ameaçando atirá-lo a qualquer momento.

- Eu não sou idiota. Você nunca soube me amar. Sempre quis aquele idiota. Tanto que foi capaz de se jogar da escada para matar o meu filho.
- Isso não é verdade. – Disse, com um suspiro. Seus olhos castanhos estavam horrorizados. Ela sabia que nunca seria capaz de tamanha crueldade.
- Você acabou com a minha vida. Eu me cansei de você! E eu vou acabar com você agora! – Começou a rir freneticamente. – Você é tão burra que nem percebeu que eu estava te traindo. E tenha certeza... Ela é bem melhor que você. Sabe qual o nome dela? É Victoria... Lindo, não é? – arrumou o vaso em suas mãos, se preparando para tacá-lo.

Continua...


Nota da Autora - Clara: Oi, meninas!
Desculpe a demora pra atualizar... Tanto eu quanto a Mila andamos muito ocupadas... Mas agora tentaremos atualizar com mais frequência, ok? Espero que vocês gostem!
Beijos, beijos :*



Mesma autora:
My Christmas Gift
Diga Que Me Ama
Dez Passos Para O Paraíso
4AM Forever
Cancún Depois Dos 25
Meu Inferno
Agora...
Déjeuner Du Matin



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