Capítulo 1

- Merda - fechei o livro com força. Dizem que histórias que a gente não gosta, é melhor não ler, e por algum motivo, eu seguia aquele provérbio. Aparentemente pela primeira vez. Coloquei-o sobre o travesseiro, com a esperança que eu tivesse coragem pra continuar a ler aquele drama um pouco mais tarde. Naquele momento eu estava desidratando, apesar de não sentir calor. Precisava de água. Às vezes, não é bom estar sozinha.
Apresentações não são dispensáveis; meu nome é , completei 17 anos no início desse ano e curso o Ensino Médio em uma escola randômica de Manchester, a uma distância razoável de Londres. Faz sete dias desde que estou sozinha em casa. Meus pais, diferente da maioria que viaja a trabalho, decidiram tirar umas semanas de férias. Ou, segundo mamãe me contou, em seu closet, uma viagem de lua-de-mel. Por isso eu estava em casa, sentindo frio e sede, não aproveitando o tempo quente e úmido de Cancun, tampouco suas comidas apimentadas. Às vezes, é cansativo ter que olhar pra esse céu cinzento e sem vida. E olhar janela afora e ver nada mais do que a rua, outras casas, poucas pessoas e carros. Não que eu esperasse morar na zona rural, mas, sinceramente, um sol e um pouco de areia até que faz bem pra perder esse tom translúcido que se instalou na minha pele. Pensando bem, ele sempre esteve ali. Sinto-me praticamente transparente quando deito na areia da praia, o que significa que eu deveria começar a aceitar os fatos.
De qualquer forma, eu havia pego o diploma da conclusão do meu curso de Alemão na semana retrasada. O que significava que me sobrava absolutamente nada pra fazer, a não ser ler aquele livro que eu havia escondido dos olhos. Ou comprar outro.
E foi o que pus-me a fazer. Vesti um casaco preto, por cima da roupa básica que eu vestia, antes de pegar a bolsa na cama, e descer as escadas, calçando já na porta, um all star cano baixo, sem nem amarrar os cadarços, direito. Peguei a chave na mesa da copa, dando uma olhada rápida pros lados, pra ter certeza que tinha deixado tudo - quase - em ordem. Saí de casa com a sensação de estar esquecendo algo.
O caminho até o centro não era longo, eu conhecia de cor. Aquela livraria preferida sempre estivera à minha espera quando precisei. E mais uma vez, ali estava ela. Tentei ignorar que ela estava ali, de fato, porque era imóvel, e não porque eu era especial, de alguma forma.
O sininho tocou assim que abri e passei pela porta.
- , que bom te ver por aqui! - Joanne me recebeu com um sorriso.
Joanne era uma senhora de cabelos brancos como a neve, pele clarinha, de bochechas levemente rosadas, rugas e sonhos imaculados eram visíveis pelas finas lentes dos óculos que usava. Juro, adorável. Acima de tudo, uma vivacidade incrível, totalmente invejável. Ajudou-me a tirar o casaco, antes de me acompanhar à estante de livros novos, como de praxe.
- Bom te ver também. Hm, Shakespeare? - desde quando Shakespeare ficava em uma estante de novidades? Encarei a capa azulada do livro, apertando os lábios e franzindo os olhos, prestes a perguntar a intenção de deixar aquele, em específico, ali.
- É uma reedição - ela sorriu, simpática, me fazendo relaxar a expressão. Sempre adivinhando meus pensamentos. - Romance, este - sorriu de novo. De fato, eu não estava precisando de um romance.
- Parece.. antigo - deixei escapar. Ela deu uma risada simpática, apenas mudando de assunto, enquanto eu devolvia o livro pra estante, pegando outro.
- Seus pais ainda não voltaram de viagem? - ela me trouxe um em alemão, a notar-se pela capa. Ponderei antes de responder.
- Não, devem voltar em uma semana, ainda - dei um sorriso tímido, encolhendo os ombros. Notei que abraçava o livro, quando o sininho da porta da loja voltou a tocar. Joanne fez uma pequena reverência, por educação, saindo a passos rápidos, até a porta. Devo ter esquecido de mencionar a nacionalidade de Joanne. Francesa, de pais alemães. Isso faz dela - não de mim -, uma pessoa trilíngue, já que eu só comecei a estudar alemão quando ouvi Joanne falando e notei o quão fascinante era. Embora, apesar de ter fascínio por alemão, eu preze o inglês. O livro em meus braços era de contos. Trezentos e sessenta e cinco páginas, sem contar capa e contracapa; uma pra cada dia, de um ano não bissexto.
- Esta é a seção de livros novos, meu jovem - ela vinha puxando outra pessoa, me fazendo curvar o canto dos lábios, num sorriso, por seu jeito tão atencioso. Continuei encarando outros livros, mantendo o de contos perto de mim. Vi de soslaio que um garoto, mais alto que eu, parou ao meu lado, encarando a estante. Quando respondeu, sua voz soou grave, não aguda, como a maioria teria feito.
- Eu, eu não sei, eu só queria um... - ele começou, sem ter a chance de terminar de falar. A campainha soara novamente, fazendo Joanne sair, com um pequeno aviso, pra mim:
- Querida, pode falar com o rapaz, por favor? - suspirei, devolvendo outro livro qualquer para a velha estante de carvalho. Eu não era atendente, mas poderia fazer esse favor, tudo bem.
- Falar? - engasguei, ao encarar o rosto do garoto. Fingi um engasgo normal, pra disfarçar a situação anterior. Eu não sou de me apaixonar fácil, mas, pra ser sincera, aquele garoto era poderia ser uma exceção da beleza da raça masculina. - O que você procura? - permiti que meus olhos se fixassem nos dele.
- Pode começar com o nome - ele deu quase de ombros, num sorriso fraco. Vai ver que ele sabia que Joanne não era lá muito coerente, às vezes. - Ou me mostrando um livro.. de romance - ele restringiu, e encarou as prateleiras, mordendo o lábio, como que indeciso. Pra minha surpresa, eu também fiquei indecisa, por um instante. Livro, ou nome?
- Shakespeare. - Livro. Ele continuou me encarando, quase rindo. Ah, ele não podia ter pensado que meu nome era Shakespeare.
- - ele sorriu, estendendo a mão. Talvez fosse uma brincadeira por eu ter dito Shakespeare, ao invés de , então eu ri cordialmente.
- É um nome bonito - retribuí o gesto, dando um sorriso fraco, e esquecendo de dizer meu nome.
- Agora, Shakespeare? - ele sorriu, tombando a cabeça alguns poucos graus, de uma maneira que me lembrasse o que eu falava com ele. Claro, o livro.
- Ah, claro. Que tal "A Megera Domada"? - Me encostei de lado na estante, encarando alguns livros, e voltando o olhar a ele, em seguida. Ele riu.
- Parece perfeito - abri a boca pra rebater, mas depois de ouvir o "perfeito", fechei-a em seguida. Ele tinha concordado? - É. Achei... interessante - ele continuou, convicto, como se minha expressão confusa tivesse denunciado meus pensamentos.
- Interessante? - tentei desfazer minha curiosidade, antes de deixar a pergunta escapar. Sem sucesso.
- É. Suzi não vai gostar muito, mas é uma boa... indireta - notei que ele pegou o livro da estante. Eu só o havia apontado, antes.
- Suzi é sua... mãe? - desviei o olhar do meu futuro livro de contos, voltando aos dele. Olhos, a tal janela da alma, poderiam ser tão... difíceis de ler.
- Não! - ele arregalou os olhos, na minha direção, num movimento brusco e rápido, e seus olhos pareciam agitados. - Não, não... - ele olhou pra baixo, abaixando também o volume da voz.
- Ahn.. - suspirei, voltando a encarar a estante; eu não podia reclamar, ele tinha, de fato, respondido à minha pergunta. Descartei a possibilidade de girar nos calcanhares e sair dali, quando ele voltou a olhar pra mim. Na verdade, quando me olhou de verdade, pela primeira vez, por alguma fração de segundo. Seus olhos eram . Absurdamente .
- É... - ok, caso ele fosse continuar dizendo palavras monossilábicas, como 'não', e 'é', acompanhadas de reticências, eu poderia sair dali. Porém, quando finalmente tomei tal decisão e me virei de costas, encolhendo os ombros, eis que sua voz volta a surgir. - Ei, espera. Posso te.. retribuir o favor? Quer dizer, como posso? - Percebi que ele esticou a mão direita no alto, em minha direção, abaixando-a quando terminei de me virar. Tinha um sorriso de canto, também, quando percebeu que eu cederia, pela minha expressão denunciadora.
- Bom, não foi bem um favor, eu..
- Você tem outro compromisso? - ele me interrompeu, franzindo o cenho e finalmente se decidiu pelo livro que lhe entreguei, apertando-o entre as duas mãos.
- Na verdade, não mais. Eu só... acho que vou ligar pra , e... - deixei as ideias sobre o que eu faria escaparem, enquanto rolava os olhos, pensando alto e batendo as pestanas, confusa.
- ? - ele arqueou uma sobrancelha.
- , - corrigi, mordendo o lábio inferior, enquanto buscava o celular em algum canto da bolsa.
- Então você a conhece - foi a vez dele apoiar na estante, me encarando com um sorriso de canto, um tanto quanto vitorioso.
- É, eu.. - sorri, desistindo de pegar o celular, e, pra ser sincera, esquecendo do mesmo, pra voltar a encará-lo.
- Deve ser a , certo? - agradeci mentalmente por ele ser rápido, ou ao menos mais rápido do que eu. Embora tenha parecido assustada, com uma sobrancelha arqueada e a outra franzida.
- É, - dei de ombros, concordando, e então, numa fração de segundo, eu me lembrei: eu não sabia como ele tinha adivinhado meu nome. - Como? Quer dizer, como sabe meu nome?
- Ela fala de você às vezes - ele sorriu, espontâneo, como se dissesse "gosto de neve". Eu sorri aliviada, eles deviam ser apenas conhecidos.
- Ok, - meneei a cabeça, ainda sorrindo, intercalando o olhar entre seus olhos. - Acho que preciso ir.
- Certo, a gente... se vê, - ele concordou com a cabeça, abrindo um sorriso no instante que nosso olhar se encontrou, enquanto passava por mim, pra ir embora.
- É, a gente se vê - encolhi os ombros, me virando de costas, a ponto de poder vê-lo chegar ao caixa. Antes de seguir o mesmo caminho, decidi procurar outras estantes. Quem sabe eu achasse algo que me distraísse? Um garoto tão lindo devia ter namorada... Embora não tivesse aliança. Afinal, alianças não significam nada, hoje em dia.
Hilário que tenha saído antes que eu da livraria. Ainda mais quando eu tinha a intenção de ir embora antes que ele, pra não parecer interessada, ou, no mínimo curiosa sobre ele.
Se antes eu ponderava ligar pra , agora eu não tinha dúvidas quanto a isso.

Capítulo 2



- Ai, você não vem, mesmo? - eu choramingava no telefone, embora tivesse deixado bem claro que nada resolveria. Ela estava ocupada, com Craig. Ou estaria, em pouco tempo.
- Não posso, . Tenho mesmo que ir pra casa do Craig. Fiquei de ensinar química orgânica pra ele - ela disse em tom baixo, como se tentasse manter a calma. O que devia ser necessário, já que eu não havia parado de perguntar se ela não aceitaria sair de casa, pra me visitar.
Eu estava me tornando uma pessoa chata, com a viagem repentina dos meus pais. Se eu tivesse pais separados, estaria surtando por ter que escolher entre ficar com minha mãe nos feriados, ou com meu pai; embora os dois soubessem qual seria a resposta. Mas, como meus pais decidem ir pra uma lua de mel por se amarem demais, eu surto. Por ficar sozinha em casa.
- Ok, vou te deixar em paz. Ainda que química orgânica seja fácil - frisei a última palavra, antes de ouvir ela soltar um muxoxo de desculpas e desligar o telefone, junto comigo. Ainda se estivesse indo pra ensinar logaritmos, eu perdoaria. Mas precisar de ajuda pra química orgânica era uma desculpa um tanto batida pra quem quer sair com a garota que adora.
Dei um suspiro, talvez alto demais, me levantando do sofá, e dando uma olhada em volta, com uma pontada de esperança pra achar algo útil pra se fazer. Pela janela da sala, que dava lá fora, vi minha bicicleta. Não estava nevando, a ponto de me fazer desejar ficar em casa, mas estava frio, o que me fez desistir da idéia de pedalar, num passe de mágica. Então, uma luzinha se acendeu na minha cabeça, agitando, de repente, meu estômago. Do que chamavam aquilo, mesmo? Ah, é, borboletas. Claro, ansiedade. Eu já havia terminado de ler todos os livros em casa, exceto pelo de drama, que ainda não convém dizer o nome. Meu coração deu uma pequena palpitada, ao lembrar de , enquanto eu subia as escadas, com a ideia de me arrumar pra fazer uma pequena visita à loja da Joanne. Eu havia esquecido de comprar o livro, por mais que tivesse ido à loja única e exclusivamente para tal.
Ri de mim mesma, avaliando minha infantilidade. Óbvio que é coisa de garota sonhadora, típica de assistir filmes românticos clichês, sonhar que eu poderia chegar lá e lá encontrá-lo. O que poderia acontecer, na verdade, poderia não acontecer, também.
Comecei a tirar o pijama com certa velocidade, a partir do corredor, perto do quarto. Quem olhasse, pensaria que eu estaria fazendo uma trilha de roupas, não muito atraente por não conter peças íntimas, mas, de qualquer forma, uma trilha. O que não chegava a ser mentira. Revirei algumas gavetas, procurando qualquer sutiã pra colocar. Ou, ao menos, qualquer um que não fosse listradinho, de oncinha, zebrinha, ou seja lá a próxima estampa no diminutivo, que eu acharia. Finalmente, com uma peça branca na mão, vesti-a com um pouco de pressa, pegando qualquer regata colorida, pra pôr por cima, junto com um jeans justo. Escolhi a sapatilha, dessa vez, pela praticidade da mesma. Não tinha cadarços, nem tanto problema pra cair, embora machucasse um pouquinho. Por último, um casaco.
Finalmente consegui sair de casa, mesmo que cambaleante, devido à pressa. Entrei no carro, dessa vez me elogiando mentalmente por ter tido uma boa idéia, ao pegar a sandália certa. Desastrada como sou, poderia cair no meio do caminho e chegar lá ensopada. Algumas gotas tímidas anunciavam que o tempo estava propenso à chuva. Que falta de sorte.
No meio do caminho, a chuva deixou de timidez e caiu. Caiu sem avisar, forte, me obrigando a ligar o limpador de pára-brisas. Alguns relâmpagos e trovões iluminavam, enchendo a atmosfera de sons e caos. Agradeci mentalmente por não ter nenhum cachorro, ou ele estaria provavelmente chorando de medo da tempestade. E eu, toda bondosa, acabaria levando-o comigo, ou ficando em casa, pra tentar acalmar o pobrezinho. Mas como eu não tinha nenhum bichinho, toda essa linha de pensamento era desnecessária, sendo desfeita em seguida, já que eu estava estacionando em frente à livraria da Joanne. E não tinha qualquer outro carro próximo a ela, pra certo desapontamento meu.
Recostei no banco do carro, pensando por um instante em como minha ideia de sair pra encontrar o tal era idiota. Primeiro porque foi apenas coincidência encontrá-lo. Segundo, porque... Ok, e se eu o encontrasse? Minha língua provavelmente não me permitiria falar mais do que quatro ou cinco palavras.
Saí do carro com o humor completamente diferente do que tinha saído de casa. Tive a sensação de estar sendo observada, enquanto fechava a porta do carro, mas ignorei-a em seguida. Era comum, e nunca tinha alguém atrás de mim. Afinal, se tivesse, já teria me pego há anos. Tranquei o carro, correndo para a livraria, que, com a ajuda do tempo escuro, não parecia muito iluminada. De fora, ao menos.
- Boa tarde, querida - Joanne repetiu o ritual de cumprimento, me ajudando a tirar o casaco. Dessa vez a capa de chuva, também. Desde que eu era criança, ela me conhecia. Tínhamos nos apegado muito, já que mamãe era uma viciada em livros, quase uma traça de biblioteca.
- Boa tarde - eu suspirei, notando o espaço vazio, não fosse por nós duas. Tentei reprimir ao máximo o conhecido pensamento de ter sido idiota, trazendo à memória a sensação mais gostosa, de minutos atrás, quando realmente tinha acreditado que poderia encontrá-lo ali.
- Procurando alguém, querida? - ela sorriu, amigável, enquanto colocava meu casaco atrás do balcão. Diferente da maioria, que deixava no cabideiro. Voltei a passos largos, até a sessão na qual ela estava.
- Hã? - puxei minha mente de volta ao lugar onde meu corpo estava, pensando num plano rápido pra mantê-la ali. - Ah, não, eu só... É, vim procurar alguém - abaixei a cabeça, quando o olhar dela ponderou sobre mim. Por que pessoas mais velhas têm que ser tão espertas? Eu me sentia injustiçada em relação à elas.
- É aquele garoto de ontem, não é? - ela sorriu, me levando pra dentro da loja, enquanto eu concordava com um aceno de cabeça - Ontem, esqueci de te entregar. Porém, alguma coisa me deu certeza que voltarias, hoje.
- Entregar? - voltei os olhos aos dela, tentando esconder o lampejo de esperança. Aos olhos avioletados e invejantes, dela. Sim, avioletados e invejantes, mesmo. Ela deu meia volta, me tirando de novo da sessão de livros, me guiando até o balcão. Ela se enfiou atrás do mesmo, revirando algumas coisas, pequenas caixas coloridas e finalmente me entregou um papel.
- Parece um convite - ela sorriu, quando me entregou. Eu só fiz pegar o pedaço de papel e olhar desconfiada pra ele, embora com um sorriso de canto. Era um pedaço de papel de carta. Da loja, mesmo, porém a caligrafia era bem diferente da de Joanne. Reprimi a vontade de sorrir, agora me concentrando em apenas abrir o pedaço de papel dobrado. Realmente, se Joanne não me falasse, eu não saberia que era um convite. No papel constava apenas um endereço e um horário. A dúvida me alcançou quando pensei se seria uma festa, me deixando um pouco confusa sobre o que vestir. Porém, quando lembrei que era amiga do tal garoto, os pensamentos preocupados e preocupantes se dissiparam, me deixando sorridente.
Que sorte.
Me virei, entrando no balcão pra pegar minhas coisas, dar um beijo na bochecha de Joanne e sair, com um pouco de pressa. Porém, antes que saísse, ainda recebi uma advertência: - Cuidado com essa chuva, .
- Deixe a chuva cair, Joanne - eu sorri, vestindo tudo de qualquer jeito, pra me meter de novo dentro do carro, com um sorriso que poderia ser tão radiante, a ponto de poder evaporar mercúrio e ouro.

Pode passar pela cabeça de qualquer um que eu sou suicida, e, acredite, passou pela minha, também. Apesar da minha desconfiança por um lado, pelo outro eu sabia que não podia ficar trancada dentro de casa, esperando que realmente acontecesse pra mim. A felicidade não bate à sua porta duas vezes no mesmo mês e às vezes (muitas vezes) é preciso estar fora de casa pra encontrá-la. Provérbio inventado de última hora, mas bastante incentivador.
Colei o endereço ainda na folha de caderneta, no volante, assim que entrei no carro e dei partida. Agora, não me importava se eu estava com roupas apropriadas para o local, ou até mesmo se eu sabia chegar lá. Eu sabia que estava sendo movida por impulsos, e, se quer saber, isso pouco me preocupava.

Capítulo 3



Acredito em milagres, juro que acredito.
Mas assim que meu GPS saiu de área - sabe só Deus como -, entrei em desespero, que só parecia crescer mais e mais a cada segundo. Fazia uma meia hora que eu vagava pelas estradas que rodeavam Manchester, e não conseguia achar a bendita curva em S que era mencionada na parte de trás do papel. Começava a passar pela minha cabeça que talvez não fosse pra ser assim, simplesmente porque eu não era e nunca tinha sido um pequeno talismã da sorte. O bilhete pego atrasado, a chuva que caía teimosa e incessantemente, meus pais não estarem em casa e não aceitar sair comigo. Tudo indicava que eu estava no ápice do meu excesso de azar. Eu começava a achar que era melhor ligar para algum serviço público. Já ponderava entre o guincho (eu poderia simular uma batida), a polícia, a emergência e o corpo de bombeiros, quando avistei uma placa verde, com um desenho engaçado ao lado de um aviso de curva em S, a poucos metros. Um palhaço bem malfeito, porém engraçado, de um jeito levemente macabro, se for contar o fato que eu carrego comigo um insano medo de palhaços. Sem pensar duas vezes, virei o volante e foi naquela estrada que eu entrei, infelizmente, sem cantar pneu como nos livros de ação, porque a devida estrada não era pavimentada, mas sim, coberta de terra molhada. Por outro lado, derrapei de um jeito divertido, quase chegando a raspar o carro em uma árvore. Foi o leve perigo que me trouxe de volta à realidade.
Brequei o carro instantaneamente, inspirando algumas vezes e seguindo as últimas instruções, em seguida.
Não demorei até avistar uns três carros estacionados paralelamente a uma lata de lixo. Que eu não fazia idéia do porquê de estar exatamente ali, no meio de completamente nada.
Estacionei do lado de um carro azul que nem pensei ou consegui identificar pela marca e logo estava perto da lata de lixo, com o casaco a tiracolo, olhando ao meu redor. Me sentia uma pequena exploradora, no meio do que vagamente me remetia a uma floresta. Se a lata de lixo era algum tipo de dica pra chegar ao lugar certo, eu não saberia bem como fazê-lo.
- Uau, me perdi - exclamei, sem êxtase, cruzando os braços em ansiedade. Preferia cruzá-los a roer as unhas, mais infantil, porém menos agressivo.
Outra placa me chamou a atenção, e eu começava a me sentir estranha, sendo guiada por placas. Mas, é dito, às vezes é mais seguro seguir uma seta do que os seus instintos. Segui-a, dando em uma trilha, entre densas árvores. Lá no alto, o sol começava a brilhar, fraco, e eu só percebi porque ofuscou um pouco a minha vista quando alcancei o que parecia ser uma clareira.
- Um acampamento? - novamente, não hesitei em perguntar pra mim, mesma. Em tantos livros interessantes, as pessoas falavam sozinhas, que eu já não via mal algum em imitar certos personagens.
- - era a voz de , e ouvi num guincho. Me virei pra trás, arregalando os olhos, e, em resposta à sua expressão surpresa, devolvi um pouco mais intrigada do que ela.
- ? - apertei as sobrancelhas - ?
- Er, oi - ela suspirou, contendo a voz e puxando o garoto ao seu lado, que pude ver, era Craig.
- Vocês não iam estudar química? - meu queixo caía, pouco a pouco, em pasme.
- Erm, então... Tivemos que vir em cima da hora. Hoje é aniversário do meu irmão, aqui - sua voz saiu suave, e talvez, eu arrisco dizer, desiludida.
- Seu irmão? - eu arregalei os olhos - Ele não tava fazendo intercâmbio na Holanda, Escócia, ou sei lá o quê? - minha voz elevou três oitavos e eu tive a impressão que Craig deu um passo atrás, com medo.
- Bem, digamos que ele conseguiu... Expulsão. Ontem - ela revirava os olhos, desconcertada. Eu diria que quase com vergonha do ato do próprio irmão.
- Ele usa drogas? - meus olhos se arregalaram um pouco mais. Droga, na minha pequena concepção, era o único (e maior) motivo de uma expulsão de intercâmbio. Pensando melhor, milhares de outras coisas poderiam ter acontecido pra que ele fosse expulso. interrompeu meus pensamentos inúteis, revirando os olhos e pigarreando. O que, de modo ou de outro, me trouxe de volta à realidade.
- Não, ele adora sexo - revirou os olhos, e eu pude ver que suas bochechas ficaram vermelhas. O que só confirmou minha teoria anterior sobre ela ter vergonha dos atos do irmão. Eu dei uma risada baixa, pelo nariz, percebendo em seguida o garoto ao seu lado puxar o ar, como quem vai falar alguma coisa.
- Desde quando isso é uma coisa ruim? - Craig, que até então permanecia calado, resolveu se pronunciar. Só aí que eu notei as mãos dele ao redor da cintura de . Pelo visto, um ano a conhecendo não tinha sido suficiente pra saber exatamente tudo sobre ela. De repente, fez sentido ela querer estudar química com Craig e não sair comigo. Me senti extremamente tola quando terminei de ligar os fatos.
- Manchester tem muito mais coisas boas pra se fazer - ela deu de ombros, fazendo doce. Ergueu também o nariz, numa pose meramente metida.
- Claro, como estudar - ele revidou, com desgosto, entre uma risada baixa. Eu senti que aquele papo teria chances de se estender por horas, caso eu não dissesse algo pra chamar a atenção deles.
- Caham, o que vocês estão fazendo aqui, afinal? - os dois me encararam, surpreendidos. Eu tossi, e, fingindo um leve engasgo, tentei reformular a frase em seguida: - Quer dizer... Cadê o seu irmão? Eu acho que quero dar os parabéns a ele - dirigi a palavra à , que começava a se dispersar, brincando de apertar as mãos de Craig.
Rapidamente, os dois desfizeram o abraço, e ela disse alguma coisa no seu ouvido, que o fez rir de um modo pervertido. Eu abaixei o olhar, tentando meu melhor pra não imaginar o que ela teria falado pra ele. Ela tomou minha mão na dela, me puxando para um lado, enquanto ele foi na direção oposta, e eu sabia que, se ele continuasse andando até onde eu havia visto um sofá em quase bom estado, abandonado... De fato, eu não desejava sequer imaginar o que os dois fariam lá.
- Você nunca viu o meu irmão, não é? - mais uma vez, me tirou do devaneio, e começava a me dar certo nervoso não conseguir manter meus pensamentos quietos num canto só. Eu balancei a cabeça negativamente. - Então, acho que você vai gostar dele.
- Não, obrigada, você já sabe que eu não quero mais...
- Se envolver? Ele é a pessoa menos envolvente do mundo, acredite. Exceto pra Suzi - eu dei uma risada, enquanto ela dizia do seu jeito tipicamente neologista. - É, muito provavelmente, só o físico vai te interessar - concluiu, suspirando alto, como quem reclama. O nome 'Suzi' de repente me pareceu lembrar alguma coisa. Alguma coisa que eu deveria falar e não conseguia lembrar o que era. De repente, num movimento brusco, parou e observou. À nossa frente, o que, deu pra notar, era bem longe do acampamento improvisado, eram visíveis apenas jovens, vários com cigarro e nenhum desprovido de algum tipo de bebida alcoólica nas mãos. Com algum esforço, avistei um casal de idosos, ao fundo do tal cenário, mas instantaneamente, culpei minha imaginação, desistindo de continuar a vê-los, ficcionalmente ou não.
- Bem ali, - ela apontou, mas eu me confundi mais ainda. Então, o loiro super alto, o moreno baixinho, o castanho claro gorducho, ou o ruivo de cabelos cacheados que... - Vem, eu te levo.
Agradeci mentalmente quando ela me puxou pela mão, mais uma vez, até seu irmão, que não se encaixava em nenhuma das minhas alternativas anteriores.
- - eu exclamei, sem realmente expressar alguma coisa, além de choque.
Ele me olhou de volta, com os olhos arregalados e eu percebi que ele forçou os olhos pra me enxergar direito. assistia, sem dizer nada. Aliás, eu podia dizer que ela estava com algum tipo de ansiedade, pelo jeito que mudava o peso do corpo de uma perna pra outra. Ansiedade pra sair de perto.
- Eu conheço você! - ele me apontou, e eu cruzei os braços, desacreditada.
- Eu não te conheço - devolvi, apertando os olhos, de forma faiscante. Os dele se arregalaram e, percebendo o que havia dito, eu corrigi - Quer dizer, como irmão da , eu não te conheço.
- Ah, sim. Eu sou o da livraria, de ontem - ele fez um sinal bobo com as mãos, apontando pra trás, na última palavra, e eu ri. Eu devia ter lembrado dele, quando o vi, no dia anterior.
- Eu sou Shakespeare, lembra? - refiz a piadinha idiota da livraria, já que havíamos lembrado do assunto. Ele riu de volta, olhando repentinamente pros lados, me dando um conselho.
- Se eu fosse você, sairia desse lugar. Está repleto de loucos - sua voz carregada soou forte e eu me esforcei pra não rir. Só quando ele deu um urro, sem motivos aparentes, que eu percebi o que já devia ter percebido antes, bem antes. Lamentavelmente, ele estava bêbado.
- Então, tudo bem, eu acho que eu já estava indo, mesmo - fiz aquele sinal de carona, com o dedão em forma de joinha e apontei pra trás, como se dissesse que aquele era o caminho que eu ia tomar.
Como sempre, sendo covarde, egoísta e girando nos calcanhares.
- Não, não, espera - ele deu uma risada nervosa, me puxando pelo braço, justamente quando eu comecei a dar o primeiro passo pra trás. - Você me levou a sério demais - admitiu, desviando o olhar do meu, quando eu desisti de andar, devido à sua força no braço. Confesso que quase havia me esquecido a cor dos seus olhos, ligeiramente atraentes.
- Eu devo ficar, então? - cruzei os braços, lembrando que estava irritada com seu jeito difícil de entender, e agindo como tal. podia estar certa, ele não era nada envolvente. Ao menos, não era um perigo pra minha auto-diagnosticada filofobia.
- Sim - ele sorriu abertamente e eu entendi que eu finalmente havia dito algo coerente.
Antes de dizer qualquer outra coisa, ele olhou pros lados, como que pra garantir não tivesse ninguém nos observando e puxou pela minha mão, me levando a crer que era mania de irmãos puxar os outros pelas mãos. Quando dei por mim, já no acampamento, dentro de uma barraca improvisada, não estava mais ali. Ela possivelmente não se importava com o fato de eu ter conhecido o irmão dela antes mesmo dela me apresentar a ele.
Pra falar a verdade, eu não poderia me importar menos.

Capítulo 4




- Então, retomando, eu voltei. Um amigo meu conseguiu com que os organizadores do intercâmbio não ligassem para os meus pais, ele é um grande subornador - continuava tagarelando de forma divertida sobre como havia conseguido chegar e passar despercebido. Eu, particularmente, gostava.
- E depois? - eu quis saber, curiosa. Não é sempre que eu consigo esconder as coisas dos meus pais assim, portanto era absolutamente quase normal que eu me interessasse em saber como ele realizava tamanha façanha. Na verdade, eu mal conseguia esconder a mentira de mim mesma.
- Bom, eu tive que passar a noite num hotel, já que eles providenciaram minhas passagens, tamanha a pressa de me expulsar. É visível. Posso parecer insensível e todo o resto da lista de defeitos que puder imaginar, mas eu absolutamente tenho um pouco de massa cinzenta - ele fez uma pausa pra respirar, dando um gole na bebida. Eu sorri com o jeito desajeitado que ele o fez. - Quando eu 'voltei' de verdade, mostrando a cara, a ex-namorada que eu deixei aqui ficou sabendo do motivo da minha expulsão.
- Como? - eu arregalei os olhos, lembrando de subir o queixo e fechar a boca, em seguida. Eu podia jurar que ele não tinha entendido, já que minha única palavra alcançava mais do que o segundo sentido. Me referia, especialmente, a ele ter uma ex-namorada, e depois do intercâmbio, ainda falar com ela.
- Eu não sei, as notícias correm rápido demais! - ele ergueu as mãos num movimento rápido, rindo. De fato, ele havia entendido errado o que eu dissera.
- Você tem uma namorada? Suzi? - deduzi, de alguma forma inexplicável que fosse esse seu nome. Nada inexplicável, eu tinha pistas o suficiente pra acreditar que ela fosse isso.
- Te disse que as notícias correm rápido demais - ele riu sozinho, apoiando as palmas das mãos atrás do eixo corpóreo em seguida. - Mas, não, ela não é minha namorada. Acho que depois do que eu fiz, eu não tenho mais chances.
Eu mordi o lábio, desejando que ele concluísse a frase de um modo diferente. Quem sabe dizendo que não queria mais se envolver, ou algo do tipo. Mas isso não aconteceu, e eu fiquei na expectativa.
- Na verdade, eu não quero mais chances - deu uma risada e eu acabei rindo junto, aliviada. - Mas não falo isso porque estou alegre, com sangue no álcool. Eu não suporto aquela patricinha metida. que me arruma essas meninas estranhas, eu preciso pará-la.
- É, ela parece gostar bastante de você - eu zombei, numa risada baixinha. Com a resposta de , ele não pegou a minha ironia, o que me fez rir um pouco mais alto. era engraçado. E não um engraçado exagerado. Parecia realmente natural, vindo dele.
- Não, na verdade, eu acho que ela não gosta muito de mim, não.
Na verdade, eu tive um ataque de riso sério e a situação ficou desconfortável. O clima pesou e minha vontade de rir só aumentou. Imediatamente, eu fiz esforço pra me concentrar, o que pareceu surtir algum resultado bom. Continuei por esse caminho, até a vontade ter passado e ouvir minha boca pronunciar as desculpas.
- Quer dizer, hm... Então, o livro agradou? - de repente, parecia tão difícil puxar algum tipo de assunto, com um semi-desconhecido.
- Eu não sei... - seu jeito meio bêbado, meio sóbrio, voltou à ativa, enquanto ele gesticulava teatralmente pra essas três palavras.
- Ah, não sabe? - de repente, o cinismo deu as caras e eu mordi o lábio, assombrada com a minha repentina e inconveniente falta de educação.
- Não, eu... Comprei... - nessa hora, ele pareceu se perder nas palavras pra formar a próxima frase, fazendo uma pausa um pouco mais longa do que o normal, antes de voltar a falar. - Você foi uma boa vendedora, foi isso. Não, quer dizer. Mesmo que você não seja exatamente uma vendedora - estranhamente, ele sabia o modo exato de fazer o clima ficar leve e amistoso, outra vez.
- E a Suzi? - e de novo, minha curiosidade falou mais alto. Eu permiti.
- Ah, a Suzi? - elevou a voz alguns oitavos, provavelmente tentando recobrar imagens da - até então - misteriosa garota. Finalmente, ele se lembrou, coçando a nuca com uma expressão envergonhada. - Ah, é! No momento em que eu estava entregando o livro pra ela, fiquei sabendo que ela não gostava de Shakespeare, porque achava ele muito antiquado.
- Ah, Shakespeare? Como? Quer dizer, como você não sabia isso?
- Como eu poderia saber? Tudo o que eu tenho ouvido dela, nos nossos seis meses de namoro, é sobre as bolsas da Barney's, os sapatos Stella McCartney, os vestidos da Gucci e a loja online da... Bloomingdale's?
Ele saber as marcas e o que elas continham me impressionou e me fez pensar o tanto que ele, de fato, ouvira sobre isso. No entanto, antes que eu pudesse manejar sobre como responder a isso, ele repousou o corpo nos cotovelos, deixando a cabeça meio tombada pra trás, encarando o teto da barraca. Eu, sem saber direito o que fazer, encarei a entrada da barraca, que estava fechada.
No momento em que deixei que meu corpo relaxasse, me sentando ao lado de e deitando o corpo pra fechar os olhos - e foi quando eu percebi que estava mesmo cansada - o celular dele tocou, escandalosamente. Tanto que me levantei de volta num impulso assustado. Ele, porém, não pareceu mexer um músculo, de susto. Tampouco se assustou. Apenas olhou pro lado, pegou o celular e observou o visor, cético. Me lançou um olhar indefinível, que varia entre o tédio e a malícia, e então se levantou, devagar. Eu só franzi as sobrancelhas, batendo as pestanas e tentando entender o que se passava. Em seguida, deixou que seu celular caísse no chão, ainda tocando, e, sabendo que era falta de educação, não liguei em ver o visor. Se havia ignorado a ligação, não devia ser tão importante.
- Vem - ele estendeu a mão pra mim, com um sorriso, e, sem pensar duas vezes e tomada pelos meus digníssimos impulsos, mais uma vez, eu fui.

O próximo cenário era um lago. Tinha um pequeno cais, e, me esforçando, pude notar uma pequena saída, ou desembocadura, eu não me lembro bem o nome. O lago tinha um formato meio oval, com uma mata rasteira, ao lado da trilha de pedrinhas por onde eu cheguei, que levava ao 'porto'. Olhando pra cima, as nuvens negras brincavam pelo céu e eu podia jurar que, embora eu não estivesse sentindo ali, embaixo, lá em cima, estava ventando muito, a julgar pelo incessante movimento das nuvens. Ao meu redor, mais especificamente, ao redor do lago, havia uma mata alta e densa. Árvores altas, típicas da região, e mais típico ainda; o nevoeiro em volta das árvores, pairando leve sobre a água. Tons de cinza e verde-escuro ganhavam a paisagem, e, embora isso fosse meio mórbido, era exatamente o que meus olhos se agradavam em ver. O que chegava a ser engraçado, porque, dois dias atrás, tudo o que eu mais queria era exatamente o contrário. Sol, calor e água fresca.
De certa forma, eu tinha a parte da água fresca.
continuou me puxando, em silêncio e sem pressa, até que chegássemos à extremidade do píer. Ele tirou os sapatos, respirou fundo e se sentou na ponta, tocando os pés na água, tão baixo o nível que estávamos. Eu abracei o próprio corpo e me sentei à sua direita, de pernas cruzadas pro lado, pra não colocar os pés na água - provavelmente gelada -, sentindo um arrepio engraçado quando ele me abraçou de lado, passando o braço ao redor do meu ombro, de forma casual.
- Você tá com frio? - ele riu, parecendo nervoso. Eu o encarei de soslaio.
- Não exatamente... Por quê?
- Bom, porque eu não vou deixar você sair daqui, agora - ele testou uma cara de mau, virando rapidamente pra mim e eu achei graça, dei uma risada e passei o braço ao redor da sua cintura, devolvendo o abraço lateral.
- Não posso te subornar? - arrisquei com a voz baixa, lembrando do amigo sobre o qual ele havia contado anteriormente.
- Não vou deixar que entre nesse ramo - riu sozinho, soltando-se do nosso abraço de um jeito vagaroso e engraçado. Em seguida, se levantou, calçou os sapatos e foi até a pequena escada que levava a outro patamar, quase no nível da água, onde se encontrava um barquinho simples de madeira. Que, por acaso, eu não tinha notado, o que me fez me questionar se ele tinha aparecido magicamente ali, ou eu não havia prestado realmente atenção.
Imaginando que teria um passeio a dois, romântico, num barco, num meio de tarde nublado, de clima estável, eu travei. Especialmente ao vê-lo subir no barco, o que me fez encaixar todas as peças ao nosso redor. Meus olhos permaneceram parados, arregalados, diante dos magníficos olhos dele, repentinamente assustados e curiosos com a minha reação. Ou a falta dela. Eu me foquei e esforcei para desligar o alerta de pânico, mas não funcionou exatamente bem, então eu só me levantei, sem realmente pensar, fazendo o caminho de volta para a trilha que se perdia naquelas árvores assustadoras.
Bem, eu teria feito isso. Não fosse por .
Uma parte de mim me alertava sobre ele estar me chamando, e, embora essa parte quisesse ficar, entrar no barco e respirar o ar gélido, porém gostoso, a outra agia de forma completamente oposta, tomando conta dos meus sentidos motores e, em forma de proteção, agitando minhas pernas pra longe. Agradeci mentalmente quando ele me alcançou - o que, de uma forma ou de outra, atrapalhou meus semi-formados planos de fuga - e me manteve ali, parada. Seus braços eram relativamente fortes, então ele me segurou com força, impedindo que eu pensasse, embora eu mal soubesse que estava pensando. O seu perfume forte e claramente masculino intoxicou meus pulmões e eu senti que a parte emocional do meu cérebro vencera. Prova disso era a pequena comemoração, extravasada em outro arrepio e num giro de calcanhares.
- O que há com você, ? Tem medo de barcos? - ele sorria, inocente. Continuava me segurando pelos ombros.
Discordei vagarosamente com a cabeça, recuperando os sentidos na melhor velocidade possível para os meus neurônios, a maioria ainda em choque.
- Tudo bem, eu... Certo... - levei a mão à cabeça, por instinto, passando os dedos pelos meus fios finos, enquanto preparava uma frase inteligível. - Foi só tontura... Passou - sorri, confirmando a mentira.
Para o meu desconforto, ele continuou me encarando, e eu comecei a imaginar que era transparente e ele podia ver as mentiras através de mim, tal intensa era a maneira com que ele me observava, bem dentro dos olhos. Sem saber o que fazer, ou dizer, eu pigarreei e ele me soltou, como se acordasse de um transe. Balançou a cabeça levemente, caminhou à minha frente, em seguida, e entrou no barco. Virou-se, esperando alguma reação minha e, dessa vez, eu não tive desculpa, entrei. Antes que outra 'tontura' desse as caras.
- Dizem que todo mundo tem um lugar favorito, no mundo - eu retomei a conversa, me abraçando dentro do barco, sentada de frente pra ele.
- Acho que essas pessoas estavam certas - eu notei um sorriso se fazer no seu rosto, enquanto dizia isso, ao mesmo tempo em que usava um remo pra nos levar pra algum lugar, que, eu logo pude notar, era a tal 'desembocadura'. O que, na verdade, era só uma espécie de passagem pra outro lugar, a outra parte do lago. Esta, um pouco florida - e deveria ser bem mais bonita na primavera - e cheia de árvores de copas frondosas, diferentes do tipo pinheiro, que só se preocupavam em crescer verticalmente, que havíamos deixado pra trás, no nosso caminho. Entre pensamentos, agradeci por ter saído dentre aquelas árvores, que, apesar de lindas e quase natalinas, tinham algo de macabro. Algo de muito sério, apático e sombrio. Talvez fosse a pouca entrada de luz, ou o jeito com que ela batia nos grandes troncos, ou o jeito que aqueles lugares sempre tinham nevoeiro. Ou todas as opções reunidas numa só.
Enfim.
Notei minha boca entreabrir-se, em surpresa e encanto, mas apenas disfarcei com um sorriso simples. Paramos na terra e o pequeno barquinho foi amarrado a uma tora de madeira, por Danny, que não aparentava mais estar bêbado.
Embora eu estivesse morrendo de vontade de perguntar pra ele onde estávamos indo, caminhando pelo gramado brilhante, não pude fazê-lo. Sequer abri a boca. Tudo do lado de cá parecia mais vivo ou mais mágico que o lado de lá. Fiquei curiosa sobre o que faríamos ali, mas, olhando melhor, eu não parecia pertencer àquele lugar. Eu mal merecia estar ali e sabia disso. Era tão privado. Nunca um lugar me pareceu tão privado. Parecia ter sido criado, preservado e cultivado pra que somente a presença solene de Danny adentrasse-o. Eu me sentia uma intrusa ali - isso sem mencionar o fato que eu mal conhecia Daniel. Segurei a língua entre os dentes, impedindo-me de quebrar o silêncio, deixando que, se o mesmo devesse ser quebrado, fosse por quem havia me levado ali.
Eu mal havia percebido ter perdido o irmão da minha melhor amiga de vista, aturdida com tanta beleza ao meu redor, mas assim que olhei pra frente, notei-o voltando com as mãos vazias. Trazia no rosto apenas um sorriso simplório, porém sincero. Sentou-se à beira do lago e observou o sol, já baixo, se esconder entre as nuvens e as árvores com um detalhe de pureza.
A princípio, eu não entendi aquela atitude, mas meu cérebro me lembrou instantaneamente que ele tinha bebido, o que descartava, no mínimo, umas vinte e cinco, das trinta possibilidades de ele fazer algo que fosse normal. Pra um garoto que bebe, é muito profundo sentar-se à beira do rio, apoiado nas mãos, atrás do eixo da coluna, e erguer o rosto, encarando o por do sol, como se aquilo fosse hábito. Como se estivesse completamente acostumado a ter algumas horas observando aquela estrela brilhante.
Finalmente me juntando à ele, ele pôs uma mão no meu ombro, acariciando levemente. Eu sorri de canto e permaneci olhando o sol, procurando algum significado pra estarmos parados, sem dizer uma palavra sequer. Pela expressão de , o motivo era muito solene pra que eu entendesse-o. Logo eu, tão acostumada a livros, Shakespeare e alguns significados e outras palavras difíceis de compreender. Fiz a única coisa que não sabia se devia. Acabei me deixando adormecer ali, quando, algum tempo depois, ele permitiu que eu apoiasse a cabeça em seu colo.

Capítulo 5



Primeiro, a imagem se desfez diante dos meus olhos, e eu comecei a ter consciência que estava acordando.
A luz se infiltrava nas minhas pálpebras, que tomavam uma cor vermelho vivo. Com um pouco de um grande esforço, fui obrigada a abrir os olhos. O que acabei fazendo, depois de alguns resmungos.
Merda de sol forte.
Coloquei uma mão à frente do rosto, pra que facilitasse enxergar o ambiente à minha volta. Não tinha cheiro de grama, tampouco orvalho ao meu redor. Muito pelo contrário, eu estava bem seca, embora o lugar onde meu corpo estivesse não fosse propriamente aconchegante. Abri os olhos mais uma vez para acostumar minhas pupilas à luz, me forçando a ficar acordada assim que percebi que meus olhos se rendiam à preguiça incessantemente. Ergui o corpo e me arrastei até a janela, sem vontade. Fechei-a um pouco, melhorando consideravelmente minha repentina foto sensitividade e o friozinho que fazia naquela manhã.
Voltei para o sofá, sentando sem realmente encostar as costas no mesmo. A televisão ainda estava ligada, em um canal de compras por telefone, mas eu realmente não me senti culpada pelo fato dela ter ficado ligada a noite toda, gastando energia. Esquecer as coisas ligadas em casa era um fato que havia se tornado um hábito, ocorrendo quase sempre. Embora isso estivesse se agravando desde os últimos sete dias.
Enquanto eu deixava o olhar caído em algum canto inabitado da sala, minha mente se deleitava com as lembranças da noite anterior. Não havia tido nenhuma festa, é verdade, mas a noite tinha algo de espantosamente bom.
Resumidamente, havíamos saído do lago, o qual (eu só descobri depois) era um dos lugares favoritos de . Creio que, de fato, seja o preferido, porque pode ser só um disfarce dele pra que eu não o encontre, caso vire uma louca desesperada - acredite, isso é algo que eu nunca faria. Por outro lado, acredito que tenha dito a verdade, afinal há tantos cantos excepcionais em Manchester, que eu mal posso acreditar que não tenha nada melhor. Embora nunca tenha visto, de fato, algum mais interessante que aquele lago. O que não quer dizer que não exista. Enfim. Voltamos pro acampamento e gastamos algum tempo lá, e eu não cheguei a conhecer Suzi. O que só me intriga cada vez mais e mais. me convidou pra sair à noite e eu, tendo em mãos cartão de crédito e um passe livre pra noite, aceitei sem ponderar muito. Com isso, o caminho de volta foi mais tranquilo, embora não fosse tão mais perto, como eu acreditei que fosse ser. Normalmente, o caminho da volta é mais rápido, mas o tempo só parecia se estender, à medida que a lua subia com aquele brilho mortiço e anêmico. Isso, sem mencionar o fato que quem dirigia o meu carro era . Eu estava na carona e não tinha mais ninguém conosco, já que Craig e tinham, cada um, seu próprio carro pra dirigir. me levou ao shopping, pra fazer compras, e compramos tanto que mal consigo calcular nossos gastos, somados. Eu provavelmente estaria ferrada quando meus pais chegassem, mas ao menos eu tinha roupa para as festas do ano inteiro. É o que dizia .
Em certo ponto da noite, chegamos a um pub engraçado. A iluminação começava a ser atraente a partir da entrada do local, e, apesar de ser para maiores de idade, os meninos conseguiram com que entrássemos. Quase me senti no papel de tola, tendo acreditado por tanto tempo que Craig era só um nerd, mas não fiz isso porque o pub era cheio de atrativos, portanto eu tinha outros interesses, no momento. Ou talvez fosse a minha solidão, que, ao ver um mundo de enfeites e bebidas coloridas e de teor alcoólico bem maior do que eu poderia imaginar, decidia adormecer dentro do peito, me dando um pouco de sossego. parecia passear por lá, deslumbrada, provavelmente tanto quanto eu, visto que seus pés dançavam sem melodia, se enfiando entre um tumulto, pra chegar ao outro lado da pista de dança. Da maneira mais difícil. A única diferença entre ela e eu é que os olhos dela eram bem mais sensíveis às reações de luzes e batidas à nossa volta, portanto se encantavam com mais facilidade. Eu posso afirmar, por um lado, que não vi tanta graça em tantas luzes, porque tudo aquilo me remetia à cena assistida horas antes, e eu só conseguia era sentir uma espécie de... saudade. O que deveria ser estranho, já que eu mal havia me familiarizado com o local.
Num instante, e como por instinto feminino, ela achou o banheiro e deu um jeito de me arrastar até lá. No caminho, um casal parecia tentar se engolir, tamanha a intensidade do beijo. Com repulsa, ainda em traumas, eu me empurrei à parede oposta, por instinto - este, de autoproteção - e entendeu rapidamente, sem ao menos se afobar. Voltou até mim e, me puxando pelo pulso, finalmente terminou o caminho até o banheiro, em tempo recorde, antes que algumas lágrimas assustadas transbordassem dos meus olhos.
No banheiro, me prensou contra a parede, pelos ombros, em tom gutural. Nunca a vi tão brava, e, ao mesmo tempo, tão preocupada.
- Escuta, ! Você não pode ficar assim pra sempre, já são cinco meses desde que aquilo aconteceu! - dava pra notar que ela se esforçava para manter a voz suave, embora estivesse alterada e não obtivesse sucesso algum, assim. Eu concordei vagarosamente com a cabeça, desviando o olhar do dela, em busca de conforto em qualquer outro canto daquele banheiro enorme. Duas garotas que estavam fazendo a maquiagem me olharam atravessado, e saíram apressadamente do banheiro.
- , você tem que seguir em frente.
No fundo, eu sabia que devia dar-lhe ouvidos. Só não conseguia, afinal falar, de fato, é tão simples.
- Você sabe que é complicado - eu deixei escapar. - Desde aquele dia - e eu falava 'aquele', porque desde então, nenhuma de nós tinha coragem de dar o verdadeiro nome ao ocorrido -, todo dia é a mesma merda. E só piora. Eu não queria que fosse assim, as coisas não podem ser mais simples? Eu me apego a cada lampejo de esperança, mas simplesmente não dá - eu a bombardeei com lamentações efusivas, e, assim que terminei a frase, seu rosto tomou uma expressão terna. Chegava a parecer a minha mãe me elogiando nas épocas as quais o meu pai viajava e eu era a única fonte disponível pra que ela depositasse seu carinho.
- Às vezes, as coisas não acontecem do jeito que nós queremos, . Mas - continuou com mais delicadeza, ainda. Sua voz, então, poderia ser comparada à leveza de uma pluma - você não pode parar. Eu estou aqui com você, e estamos juntas nessa, sim?
Não consegui responder, já que minha cabeça estava ocupada em pensamentos que davam voltas completas em quem eu achava que era. Portanto, ainda em estado de órbita, só concordei com a cabeça, ainda que em velocidade recorde de lerdeza. Ela sorriu de volta e me deu um beijo na testa, percebendo que a crise estava contida. De repente, algo estralou do outro lado do banheiro, e eu voltei à realidade, com o sustinho. Mordi o lábio, acompanhando até o espelho, com o qual ela já estava até íntima. Apoiei as palmas das mãos no mármore da pia e, encarando o espelho angulado estrategicamente para baixo, encontrei o seu olhar. Ela estava séria, mas eu já me sentia mais calma, e quase ótima. Acabei sorrindo, antes de puxá-la pela mão pra fora do recinto.
- Vem, me consegue uma tequila e vamos dançar até cair.
E, bem, resumindo outra vez, eu cheguei a pensar que a noite não teria fim. Depois de dançarmos 'balançando a cadeira', com a intensidade temporal que Joanne chamaria de 'horrores', decidimos voltar pra casa; ainda, depois de vários shots de tequila e vodca. Como eu não queria ficar sozinha, sabendo que estava alterada, convenci-os a irem pra casa, e lá fizemos alguns jogos aleatórios, até que todos dormiram. Na sala, mesmo. Nos sofás.
Eu sei, pela manhã eu também me perguntei por que todos tinham ido embora, antes de me perguntar se aquela noite tinha mesmo acontecido, ou se eu só tinha sonhado. A prova foi encontrada em seguida, pra minha alegria; a camiseta que Craig usava na noite anterior estava jogada no canto do braço do sofá no qual eu dormia, minutos antes. Só me perguntei porque raios ele teria ido embora sem a camiseta. Um barulho de panelas veio da cozinha. Podia ser só uma raposa, mas eu, esperançosa, preferia acreditar que era , e que ninguém tinha ido embora ainda. Tudo menos acreditar que eu continuava sozinha com meus pensamentos.
Levantei devagar, já me preparando pra calçar um par de pantufas que estavam esquecidas ali, se a memória não me traía, desde a semana passada.
- , fiz café pra nós duas! - sorriu do outro lado da cozinha, assim que me viu.
- Uau, fez sozinha? - eu zombei. Sabíamos que ela era mimada o suficiente pra não saber como se fazia torradas de pão na torradeira. E, bem, eu estava quase lá e não podia falar muito dela, então segurei a língua entre os dentes. se preparava pra abrir a boca e responder com falta de educação, quando a campainha tocou. Eu fiz um sinal com os dedos, agradecendo mentalmente por ser salva pelo gongo, e saí correndo, pra atender a porta. O sorriso que vi em seguida me fez sorrir aliviada. Eu adorava rostos conhecidos.
- ! - era Odette, a empregada contratada pra trabalhar em casa. Seu sorriso estava amigável e sua aparência, descansada. Parecia outra mulher; mesmo com seus poucos 23 anos, tinha cara de 30, mas ainda assim, parecia mais nova. Tratávamo-nos como amigas, trocávamos receitas (as quais até hoje não aprendi a fazer, não fosse pela de bolo de chocolate) e, nas suas horas vagas, me ouvia pestanejar sobre .
- Você voltou cedo, Oddie, meus pais só chegam ao fim da próxima semana - eu dei passagem pra ela entrar.
Na verdade, já estava mais do que na hora da minha empregada aparecer. A casa estava literalmente revirada.
Eu me sentei no sofá, quando um lance de adrenalina me atingiu, ao lembrar de . Eu não fazia idéia do porquê de lembrar dele justo agora, mas eu havia conseguido. Na verdade, o que eu não havia conseguido era esquecê-lo, na maior parte do tempo. Segui Odette até a cozinha, a passos largos. Tinha me desacostumado com os passos rápidos dela, então dei uma bufada pra recuperar o fôlego, quando finalmente paramos, na cozinha. Ela também havia ficado surpresa com os aparentes dotes culinários de . A mesa tinha torradas de pão, geléia, panquecas e suco de limão com algumas coisas verdes. O que eu preferi, pro meu bem, imaginar que fosse hortelã.
Por favor, que ela não tenha colocado salsinha no suco de limão, outra vez.
- O disse quer te ver, hoje - a mestre cuca despejou a informação, sem muito interesse. Diferente de mim, curiosa.
- Ah, então quer dizer que é só eu ficar duas semanas fora que você arranja um namorado? - Odette se enfiou na conversa, com sua risada escandalosa. Confesso que senti falta.
- Não é um namorado - eu rosnei entre os dentes, me sentando à mesa. As panquecas tinham uma cara boa, resolvi experimentar uma.
- Ah, mas vai ser! - sua voz soou alta, da dispensa. - Há quanto tempo você não faz compras, menina? - eu cocei a cabeça, tentando recordar o fato.
- Acho que ainda tem uns enlatados, deve dar pra essa semana - de fato, ela tinha aprendido a cozinhar. Depois de um sinal de joinha, indicando êxito, eu continuei a comer.
- Enlatado não é pra você, tem que ir ao mercado - a voz de Odette piou de volta.
- Eu? - eu chiei, depois de morder a língua num gesto malfeito, ao tentar comer a torrada.
- É, chama esse seu namorado aí, e vai ainda hoje, senão não tem janta pra vocês - Odette voltou e me encarou do batente. Encarou do jeito que só ela e minha mãe sabiam fazê-lo. Só por isso eu não expliquei que não tinha namorado coisa nenhuma, e abaixei a cabeça, tentando ignorar; ela pigarreou. Quando Odette vinha, vinha pra passar a semana. Era meio imprevisível, na verdade, porque ela tinha todo o direito de ir dormir na própria casa quando quisesse, mas, cá pra mim, era legal a idéia de ter companhia.
Dando-me por vencida, eu enfiei o resto da panqueca na boca, e, engolindo a seco, ainda com medo de beber o suco semi esverdeado, acenei:
- Faz a lista, Oddie.

Finalmente, eu havia acabado as compras. E, sinceramente, eu não tinha percebido que a casa realmente estava sem comida, só notei ao ver os dois carrinhos lotados de comida que eu e empurrávamos ao caixa mais próximo. Odette sempre fazia a lista, então eu não ousaria abrir a boca pra dizer que ela tinha pedido comida demais. Sabia que não tinha o suficiente pra mais uma semana, mas não imaginei que chegasse a tanto. Bem, ou eu tinha comido demais, ou tinha passado muito tempo sem comer... Em casa.
Fora os mantimentos, não tinha nada de muito interessante no supermercado, então fomos rapidamente para o estacionamento, com a intenção de voltar logo pra casa. Começamos, então, a pôr as sacolas no carro. Uau, eram bem mais sacolas do que aparentava ser.
- Parece que não vai acabar, não é? - adivinhou o que eu ia dizer. Concordando, eu dei uma risada pelo nariz.
- Seu irmão pode ir lá em casa, hoje? - parei por um segundo de colocar as coisas no carro, apoiando o ombro na lateral e encarando-a. Ela não se deixou intimidar e parou, também. Voltei às sacolas.
- Talvez ele tenha algo, eu não sei... Aquele garoto... parece que não sei, acho que respira amigos - suspirou.
- Bom, a gente pode fazer um programa mais simples, hoje. Quem sabe um fondue de queijo, ou chocolate... - fiz a proposta, lembrando instantaneamente das cinco bandejinhas que havíamos comprado de morangos, mas, mais ainda, por lembrar que tinha comprado uma barra de chocolate, um quilo. - Ou talvez, um filme.
- Ah, um filme e fondue - ela sorriu, repentinamente animada. Pôs as últimas sacolas no porta malas, que eu fechei, em seguida. - Vou chamar o Craig. - concluiu com um sorriso e eu só pude ficar feliz, também. estava abrindo mão de sair escondida pra qualquer canto abandonado com Craig (que, soube depois, estavam ficando a sério e quase namorando), para ir para casa. Além do mais, se ele a fazia feliz, eu estava contente, também. Por ela.
Já em casa, à noite, eu viajava de olhos abertos, no sofá, sem droga alguma no sistema sanguíneo. Ainda assim, insistia em me encarar, indolente, esperando que eu tivesse algum tipo de reação pra que ela despejasse tudo o que queria. Que, por acaso, estava escrito na sua testa. Observando melhor, não era com descaso que ela me encarava, era aquele olhar intrometido de gente curiosa. Como se eu tivesse servido de cúmplice em algum tipo de crime. Bem, o que chegava mais perto de ser um crime era eu ter esquecido de derramar lágrimas, ao ver um casal caminhando de mãos dadas, no supermercado. Sequer tinha lembrado de , o que era - eu não a culpo - um fato curioso, afinal. Finalmente meu canal lacrimal tinha secado. Ou talvez eu só estivesse numa subespécie de coma pós-sermão, como o que tinha levado na noite anterior, e estivesse em estado de choque, como resultado. É, pensando melhor, era só estado de choque.
voltou pro meu quarto com um vestido preto, que mais parecia de festa, de casual não tinha nada. Eu a encarei de olhos arregalados e ela, como sempre, entendeu. Girou nos calcanhares e voltou pro closet, desistindo daquele vestido. Eu sorri internamente, quase sentindo o poder dentro de mim. Eu já estava pronta, até na maquiagem, a qual eu não havia carregado pra ter um ar mais casual. Despreocupada, deitei na cama, com a cabeça apoiada no pequeno cume de travesseiros, atrás de mim, eu encarei o mural, vazio. Precisava tirar fotos novas e colocar nele. Então, como se não bastasse eu já estar num estado de nervos o suficiente... tenso, ouvi um barulho de assoalho. Eu sabia que o barulho vinha de fora do quarto, mas preferi acreditar que era no closet. Fechei os olhos, tentando relaxar e, quando os abri, me deparei com algo estranho no quarto. Algo que, antes, não estava lá.
- ? - na verdade, eu quase gritei. Minha voz saiu tão alta quanto um berro, afinal.
Ele não deixou de sorrir, nem por um segundo. Muito pelo contrário, seu sorriso pareceu se alargar com o meu nervoso. Confesso que o resmungo que eu ia soltar ficou preso na minha garganta. Eu me acalmei rapidamente, apesar do meu coração continuar batendo forte.
- Desculpa - ele ria. De fato, suas desculpas eram da boca pra fora, porque ele continuava rindo, enquanto se aproximava de mim pra me cumprimentar. - Chegamos cedo?
Chegamos? Eu olhei pra porta novamente, já abraçando-o, como que pra me certificar que não tinha mais ninguém ali. Erro meu. Ao ver Craig, eu só me assustei mais e deu sua risada divertida. Eu contive uma pergunta educada do tipo 'quem deixou vocês entrarem?' por lembrar de Odette, e aproveitei pra afundar o rosto na curva do pescoço de , ainda em choque com as surpresas. Em troca, ele me apertou com mais força contra o próprio corpo. Era reconfortante e o perfume que ele exalava me lembrava os perfumes amadeirados do meu pai.
- Eu falei pra esse imbecil que a gente tinha que tocar a campainha, mas ele tinha que...
- É que a empregada estava lá fora - cortou o amigo, numa risada, e já me soltando pra se sentar ao meu lado na cama. - Não tinha cabimento eu ignorá-la e ir tocar a campainha.
Eu ri da pequena discussão deles e cumprimentei Craig, assim que ele se sentou ao meu lado. , já percebendo a situação do lado de fora, ordenou em alto e bom tom de dentro do closet:
- Podem ir descendo, que eu não quero ninguém me vendo de calcinha e sutiã!

Por sorte, e eu sempre disse que era sorte ter Odette em casa, a fondue nos esperava na sala de estar. Aposto que ela não escolheu a copa porque não tinha televisão, e, sem televisão, não aconteceria nada de especial. Nenhum clima. E, nossa, ela tinha puxado o sofá cama e colocado edredons, ali. Visto o modo que entreabri a boca, espantada, não parecia que eu morava naquela casa. Pareceria mais que eu estava surpresa - o que não era mentira - com a repentina mudança de decoração. Ao ver alguns dos novos filmes que havíamos comprado empilhados na mesinha, perto do aparelho de fondue, eu mordi o lábio, entendendo todo o esquema de Odette. Olhei pros lados, procurando alguma câmera escondida, sem sucesso. Nem sinal da espertinha.
Os meninos se jogaram no sofá e eu, ainda curiosa, fui pra pequena pilha de filmes. Tinha desde comédia romântica, até ação, passando por suspense, terror, drama e aventura. Supus que, experiente como Oddie era, tinha feito isso porque garotos tendem a odiar comédia romântica.
Afinal, tínhamos contratado uma empregada ou um cupido?
- Só faltam algumas velas vermelhas em formato de coração - ouvi cochichar, bem perto do meu ouvido. Tão perto que sua respiração bateu com força na minha orelha e eu assustei um pouco. Talvez ela estivesse com medo que a ouvissem. Ainda assim, eu ouvi um pouco de animação em sua voz. - De qualquer maneira, está ótimo. Agradeça à Odette.
Eu a encarei com os olhos arregalados, e as sobrancelhas franzidas, antes de bater as pestanas com avidez. Acabei sem respondê-la e, enquanto ela colocava o filme e todos nos arrumávamos em nossos lugares, imaginei se no contrato da minha empregada tinha algo sobre 'fidelidade'.
- Eu não acredito que você não quer comer morango com chocolate - Craig reclamava pra , indignado. Foi nessa parte que eu percebi que tinha deixado minha mente vagar de novo e havia perdido metade da conversa. Ou o que era interessante dela.
- É outra dieta? - arriscou, do meu lado, só pra receber um morango na camiseta. Sem chocolate, pra sorte dele.
- Eu só não quero com chocolate, oras - continuou fazendo doce. Virou-se de lado no sofá, de costas pra Craig e de frente pra mim, rindo de canto. Craig, entendendo, puxou-a pra um abraço e, se aquilo não fosse tão engraçado, eu diria que era bizarro.
esticou o braço pro alto, exibindo o controle do DVD que ostentava e logo ligou o aparelho. foi até lá e colocou o filme de terror, rindo junto com Craig, me fazendo pensar se eles tinham alguma intenção com esse filme. Bem, tirando a intenção que todos os garotos têm ao assistir filmes de terror com garotas. Eu só sabia o gênero do filme com antecedência porque era o que tinha a capa mais assustadora, e, bancando a garota esperta, conferi depois qual título faltava.
Em seguida, ele voltou e se deitou ao meu lado, passando casualmente um braço por baixo do meu pescoço. Estávamos os quatro deitados no sofá cama, um pouco espremidos, mas fora isso, tudo bem. Ficara decidido que os meninos deitariam nas 'bordas' do sofá e as meninas, logicamente, no meio, especialmente se começássemos com filme de terror. Foi o que acabou acontecendo, e, embora fosse estranho estar ouvindo as batidas do coração de , assim, como se fôssemos íntimos, dava muito mais segurança abraçar um garoto do que a sua melhor amiga. Sem ofensas.

Depois de uma hora de filme, em um dos milhares de clímax que a história rendia e se revolvia em, a luz do hall piscou. Craig, rindo com a apreensão de , disse que a luz escolheu o pior momento pra falhar. A princípio, pensei que fosse Odette na cozinha, visto que o hall levava, também ao quartinho dela. Depois, acontecendo de novo, cheguei a pensar que a luz estivesse com mau contato. De qualquer maneira, me remexi desconfortável, abraçando com um pouco mais de força. Ele mal tinha piscado, enquanto eu e já soltávamos alguns resmungos com a luz do hall piscando. dava uma risada zombeteira, pra mim e pra , quando a televisão desligou sozinha. Desligou numa das melhores partes, aquela em que o palhaço de aspecto demoníaco toma a tela inteira, com seu sorriso maldoso. No mesmo instante que a televisão desligou, a luz do hall fez o mesmo, assim como o aparelho de DVD. E tudo à nossa volta se tornou um breu, de um instante pro outro, não fosse a fraquíssima (em relação a todo o ambiente) iluminação provinda da vela que aquecia a fondue. Lógico que, instantaneamente, eu gritei. gritou comigo, assustada, também.
Os meninos explodiam em risadas, agora, e, em toda essa confusão, tudo o que eu sabia fazer era abraçar , com toda a força que eu sabia que podia despejar nele. Apostava que fazia o mesmo, com Craig. me abraçou de volta, apertando com cuidado a mão na minha nuca, já que minha cabeça se afundava no seu peitoral. A outra mão passou pela minha cintura, num abraço que me passou proteção, sem de fato dizer alguma coisa inteligível; eu mal conseguia prestar atenção ao que falavam ao meu redor, eu simplesmente morria de medo do escuro e nessas situações, só me apegava ao que poderia conter essa sensação ruim. Em seguida, um barulho estranho, muito perto de nós, se fez soar. Eu só contive o grito agudo, porque, antes do medo chegar às minhas cordas vocais e se manifestar em um berro, a razão me alcançou. Só podia ser o pote de pipocas que segurava antes, com a mão que agora estava na minha cintura. A mesma razão não alcançou tão rápido e ela soltou um berro, abafado por Craig, que a abraçou e veio pra perto de nós. O sofá fez um barulho engraçado, que eu estava acostumada a ouvir.
- Tudo bem por aí? - ele riu, parecendo despreocupado. Entre alguns pensamentos, me peguei sentindo inveja de pessoas que não tinham medo.
Noutros pensamentos, imaginei se Odette tinha algo a ver com isso, por ela não ter vindo quando berramos, mas do jeito que ela sempre trancava o quarto ao dormir, mal devia ter escutado.
- Acho que tem alguém brincando com a nossa cara...
- O quê, ? - perguntou, sem demora. Sua voz saiu trêmula. Provavelmente um pouco mais do que ela pretendia, já que ela pigarreou em seguida.
Quando um vento penetrou a sala, apagou a fraca chama que me permitia ver o rosto de , nas raras vezes que olhava pra cima. Eu fechei os olhos, imediatamente, segurando sua cintura contra mim.
- Essa brincadeira perdeu a graça, pra mim - eu gemi, ainda de olhos fechados, quando uma mão gelada tocou o meu braço. rapidamente me acalmou, dizendo que era Craig, fazendo gracinha. Eu bufei, soltando-o e me virando de frente pra onde deveria estar a televisão. Agora só a luz da lua podia iluminar a sala.
- Aquele ruivo deve ter desligado a caixa de força - acusou, apontando pra janela, mas ao fim da frase, parecia mais uma indagação. Olhamos todos pra janela e não vimos nada, o que me deu um certo arrepio.
Eu também estava em dúvida. Afinal, o que faria a luz do hall piscar? Se não me engano, a caixa de força não tinha um interruptor especial para aquela luz. Não costumava e não era normal que tivesse. e Craig, depois de mais protestos amedrontados de , resolveram levantar. Ela estava com muito medo e eles iam dar uma olhada do lado de fora da casa. Pudera, acabar a luz em meio a um filme de terror não é lá uma divindade. Porém, eu não queria ficar sozinha.
- Ah, não. Vocês vão ficar bem aqui - eu segurei pela cintura, num ato bem infantil, visto que ele estava em pé.
- Vocês ficam aqui e... tranquem tudo - sua voz soou teatralmente protetora, e, se eu não estivesse com tanto medo, riria.
- Tudo? - em troca, eu ergui uma sobrancelha. O mais próximo que meu humor chegava da alegria quando eu estava com medo era o escárnio.
- Ok, só essa porta e a janela - ele apontou, sua voz estava mais grave que de costume - Nós vamos até a caixa de luz, reativamos a força e resolvemos o problema - eu mordi o lábio, indecisa entre acreditar ou não. Olhei para o vulto que eu acreditava que fosse de , aguardando resposta. Craig se pronunciou depois de um tempo calculando.
- Vai ser bem rápido.
- É... E se a gente chamar a polícia? - arriscou.
- Acho que não é pra tanto - eu balbuciei com alguma velocidade. Franzi a sobrancelha, voltando a pensar e quem sabe bolar um plano rápido. Péssimas notícias; sou péssima com planos rápidos.
A essa altura, minhas pupilas já estavam se acostumando à luz. Ou à falta dela.
- Então, já voltamos. Vamos bater quatro vezes na porta, quando voltarmos - propôs o que parecia ser um plano perfeito. Quase ninguém bate quatro vezes na porta. Sem pestanejar, nós os seguimos. Craig foi com ele, e, em seguida, trancamos a porta e tiramos a chave.
- Como eles sabem onde é a caixa de luz?
Mal tive tempo de responder e meu celular vibrou no bolso de trás, quase me matando de susto. Havia me esquecido dele, completamente.
- É a pergunta deles - zombei sem humor. Pus-me a responder. - Sabe, e se isso foi um plano deles? - supus, enquanto voltávamos pro sofá, com a iluminação um tanto precária do meu celular.
Só então percebi que mordi a língua, conotativamente, quando abracei minha melhor amiga, no escuro. Eu não estava com muito medo. Na verdade, eu tinha bem menos medo. Talvez porque eu soubesse que tivesse alguém por nós lá fora. O jeito assustado que olhava na direção de cada barulhinho me dizia que isso deveria me assustar mais, mas...
- Sabe... respondeu, depois de um longo tempo em silêncio, como se tivesse demorado esse tempo pra pensar no que responder. - Se fosse um plano, acho que o Craig teria tentado, você sabe, mexer nas minhas calças. E... - ela suspirou, me soltando pra se ajeitar no sofá. - É, é isso.
A sala voltou a mergulhar no silêncio, porque nenhuma de nós duas se arriscava a dizer algo. Eu até pensei em comer um pouco de morango com chocolate, mas confesso que fiquei com medo de pegar algo que não devia. Aliás, aquele não era um momento apropriado pra comer, e, pensando melhor, nem conseguiria se quisesse: estávamos muito nervosas. O que só piorou quando ela me lançou a seguinte frase, a voz mais trêmula que as próprias mãos.
- , e-eu acho que vi algo... na janela.

Capítulo 6



Merda. Não trancamos a janela.
- Não tem nada ali, - respondi, sem nem olhar a janela. Poderia pegar fogo na janela, eu havia perdido a vontade de encará-la.
- , é... , UM FANTASMA! - sua voz titubeante cresceu cinco oitavos e o desespero e o fulgor em sua voz me tiraram do prumo de vez. Sua mão me apertava o braço sem piedade.
- Eu já te falei que essas coisas não existem - insisti, fechando os olhos. Juntando um pouco que eu chamo de coragem (e atrevimento), os abri novamente.
Tudo pra me deparar com o rosto pálido de na janela, ou o que parecia ser ele. Abro, então, um parêntese pra explicar o porquê de ter medo de quem já foi meu namorado.
Há cinco meses, segundo as contas de , nós namoramos. Há cinco meses, porque terminamos há cinco meses. Os nomes e chegaram a ficar marcados no colégio, e os professores chegavam a implicar conosco, apesar de nossas notas nunca terem caído, de fato. Nos conhecemos há basicamente dois anos, porém, de cinco meses pra cá - que eu ainda acredito que são seis -, não namoramos mais, por um acidente do destino. Um fatídico acidente. Namoramos por sete (e quase oito) meses. Nada poderia ser mais perfeito do que ele, poucas coisas que eu conheci poderiam me fazer sorrir tanto quanto ele fazia. Lembro de ter acordado algumas vezes com um buquê, noutras com SMS e nos dias que ele não fazia nada de muito especial pro momento que eu despertava, me esperava no portão do colégio. Embora isso ele já costumasse fazer desde sempre, jogava o cabelo do meu jeito preferido nesses dias e, pra variar, me acompanhava até a porta de todas as primeiras aulas, e até me dava um bombom quando estava de bom humor. No dia dos namorados, cheguei a ganhar uma viagem com ele, pra Veneza. O pai dele é multimilionário, enquanto a mãe é uma cabeleireira renomada, então pra ele era possível dar à namorada, de presente de dia dos namorados, uma viagem pra Itália. Além de algumas brincadeirinhas no salão que sairiam muito caro, caso eu não fosse a nora da dona do mesmo. Eu tinha muita, muita sorte em tê-lo. Ele não era o garoto popular, apesar de ter tudo pra isso, e eu me encantava cada vez mais com ele; eu nunca encontrei alguém melhor que ele. Em troca de tanta perfeição, eu me doava. Nunca chegamos aos finalmentes, na verdade, mas o doar está na alma, nos sentimentos. Nós selamos um contrato, nossas almas sabiam que pertenciam uma à outra e isso era o suficiente pra que tudo fluísse entre nós, sem corredeiras demais, nem deixar o rio secar.
Meus pais não são multimilionários, mas meu pai é um advogado importante em Manchester, enquanto a minha mãe trabalha com pinturas, vendendo-as, e até dando algumas aulas de artesanato quando sobra tempo. Seus quadros realmente valem uma boa grana, o que ajuda a nossa vida a ser muito confortável, digamos assim. E, bem, já é possível notar que minha vida tinha tudo pra ser perfeita. Eu tinha absolutamente tudo o que eu queria. Ou precisava.
Ah, James! Como pude esquecê-lo? James era o melhor amigo de , estava conosco em quase todas as situações. James era incrível, porém, se eu não tivesse tanta mania de perseguição, diria que ele tentava superar em várias coisas, como numa competição interna. Embora não conseguisse sequer se igualar a ele em quase nada, seus olhos exalavam algum tipo de inveja. O que eu acabei por entender quando ele tentou me beijar, em uma das festas do colégio. James era lindo, era sim, e eu ainda sequer pensava em namorar , mas não era pra mim. Tentou me beijar algumas outras vezes, que alegou estar bêbado pra aliviar a complicação com o amigo, mas isso ainda gerou conflitos entre ele e . Não durou muito, pro meu consolo. Se tinha algo que eu odiava, era errar com . Mesmo que ainda não fosse nada dele, tendo apenas paixão platônica pelo melhor amigo, não era o que eu chamo de 'interessante' causar problemas. Quando se resolveram e voltaram a ser amigos, foi quando eu e começamos a namorar e também foi quando ele disse que se não ficasse comigo logo, nunca mais teria a chance. Foi a minha maior alegria, descobrir que o sentimento era recíproco.
No dia em que James voltou a ser amigo de , eu não notei nada diferente, e nenhum dos dois se deu o trabalho de me dizer como foi a conversa. A princípio, não liguei, contanto que ele continuasse comigo. Depois de mais ou menos quatro meses, não era mais o mesmo, e mudava gradativamente. Não que ele estivesse me amando menos, destratando, ou me traindo, ele só estava mudando, pra pior. E não era o tipo de mudança que nós fazemos quando amadurecemos. É o tipo de mudança que uma substância causa na gente. Ou a falta dela, certo?
Numa viagem pra Grécia com os pais, e com a falta daquela substância que ele tanto aprendeu a apreciar (sabe só James desde quando), os pais dele descobriram que ele havia se viciado em drogas; foi o escândalo do ano. O jornal da escola quase chegou a publicar algo sobre isso, mas foi ameaçado de ser processado, então recuaram com os rumores. O argumento utilizado de muito boa maneira pelos pais, foi algo a ver com invasão de privacidade. A notícia fora abafada, mas os problemas, não. E eu assistia tudo de camarote, sem saber exatamente o que fazer, simplesmente por nunca ter tido algum tipo de experiência; talvez eu pudesse fazer algum tipo de chantagem pra que ele parasse, ou simplesmente mandá-lo pra uma clínica de reabilitação. Ao mesmo tempo em que minha preocupação e cuidados em torno de aumentava, James era cada vez menos presente nas reuniões entre os amigos. O que só aumentou minhas suspeitas pra cima daquele garoto de rosto bonito e sorriso sem vida. Meus pais nunca se importaram muito com isso e nunca intervieram no meu namoro, muito pelo contrário. Apoiavam. Tinham a estranha certeza que eu conseguiria ajudar o garoto. Com o apoio em casa, as coisas ficavam parcialmente mais fáceis, porque era uma preocupação a menos pra segurar sobre os ombros. Assim, se passaram mais algumas semanas, e nada de resultados. Ele tinha tentado ir pra uma clínica, mas fugira de lá, e, quando ele falava em se matar pra se livrar de tal carma, eu calculava a hora de cortar os pulsos.
Os pais de decidiram cortar a mesada dele, caso ele não parasse de vez. E cortaram.
Mas isso só durou até ele vir morar em casa, no quarto de hóspedes ao lado do meu. A meu ver, ele estava progredindo, e, segundo minha mãe, ele até parecia menos desgastado, em razão da falta de substâncias. Foi só então que eu me dei conta do quanto ele parecia acabado, antes. Todo o alívio que eu criava dentro de mim com tanto cuidado e precisão se esvaiu numa fração de segundo, com medo que ele voltasse ao estado ruim anterior. Apesar de ter esperanças que ele continuasse melhorando, algo me dizia pra ter cuidado. Aquilo poderia ser a tal intuição feminina.
Ao sétimo mês do nosso namoro, ele já estava de volta à própria casa e tudo parecia estar voltando aos conformes. Até a situação emocional de cada participante nessa história delicada parecia mais estável. Eu, na sala, contava os segundos pra que ele chegasse pra sairmos juntos. Ficara combinado que ele me levaria ao seu lugar favorito no mundo, fosse de carro, a pé, avião ou navio, e eu faria o mesmo, em troca, na semana seguinte. Pontualmente arrumada e ansiosa, eu esperava na sala, já de manhã. Às duas da tarde, percebendo que ele não viria (ao menos não tão cedo), decidi ligar na casa dele. Sua mãe atendeu ao telefone com a voz amarga e eu reativei o velho instinto alerta. Algo tinha acontecido com ele.
- Ele está no hospital, . Ele tentou se matar, de novo. É a terceira vez, na semana. Eu não sei quem traz essas coisas pra ele. Eu achei um pacote com ele - então ela desabou em soluços e eu, surpreendida, não consegui responder nada. Não conseguia ligar nada, ainda. Ele havia parado, ele estava sob controle. Ele havia ao menos diminuído, não? Ouvi o que parecia ser alguém pegando o telefone da mão da Sra. . Era o pai dele, e seu tom de voz não era o tom sério, porém agradável de sempre; era angustiado. - , por favor, venha pra cá.
Eu não tenho certeza se ele pediu isso, ou se pediu pra que eu não fosse, mas eu desliguei o telefone sem pensar duas vezes. Eu sequer pensava.
Terceira vez na semana, tentando se matar? Eu mordi o lábio, lembrando dos motivos dele: drogas, drogas, drogas. James. O sangue subia à minha cabeça, lembrando o nome do desgraçado. Eu sabia que ele não queria mais, mas, bem, com o que ele tentava se matar? Com as drogas.
Eu gemi, me contorcendo no sofá, esquecendo de vez toda a programação que tínhamos marcado praquele dia. O dia que deveria ter sido marcado por algo magnífico, tornara-se uma tortura. Uma parte da minha cabeça se dividia, contorcia-se em pensamentos cruéis com um, enquanto a outra se agoniava, pensando em como cuidar no bem estar do outro. Pensava também se eu teria a chance de fazê-lo ficar bem outra vez.
Fui pra casa dele e fiquei lá até que os pais dele tiveram que sair, vê-lo no hospital. Não cheguei a visitá-lo, e acho que ele sabia as minhas razões: eu só piorava tudo, quando ficava preocupada ou assustada demais. Permaneci em seu quarto, revirando algumas gavetas, atrás de algo que me acalmasse. Depois de alguns minutos sendo consumida pelas lembranças e preocupações, eu me joguei na cama dele, erguendo o rosto pra encarar a janela. Desejava arduamente que algum tipo de benção descesse pelo céu e entrasse por ela. Quando passei a mão por baixo do seu travesseiro, que ainda tinha o seu cheiro, percebi algo mais. O que, notei quando puxei a mão de volta, era um papelzinho.
You won't understand how much it hurts to let you go.
Assim que terminei de lê-lo, ou enquanto o lia, não sei dizer, o telefone tocou. Era o meu celular, tocando alguma música que ele adorava. Meus olhos se encheram de água e foi um pouco difícil apertar o botão que aceitava a ligação. Eu estava preocupada, e eu havia entendido que esse era o plano dele. Era doloroso, e ele queria se livrar daquela vida. Não de mim. E eu esperava realmente que estivesse certa e que as notícias no telefone fossem boas. O meu mundo totalmente girava em torno dele.
Atendi pra receber a pior notícia do mundo, a qual até hoje não posso e não quero acreditar. Ele não havia resistido.
O meu garoto havia conseguido se livrar das drogas, da pior forma possível. E havia me deixado, sozinha. Ele não tinha levado um pedaço do meu coração, quando se foi. Ele tinha levado a minha alma, a minha respiração e a minha sanidade. Imediatamente, eu senti o sangue pulsar com força na minha cabeça. Parecia que meu cérebro dilatava, enquanto meu coração bombeava o sangue com pressa; foi como se eu não conseguisse respirar. Ao contrário do que falávamos que quando um morresse, o outro sentiria a sua presença, eu me sentia completamente sozinha. Não era como se o espírito dele estivesse por ali, mas eu não sou sensitiva, então isso não faz a mínima diferença. O fato é que nunca me senti tão sozinha em toda a minha vida, menos ainda nesses dias que meus pais decidem viajar. Eu pretendia me matar. A minha vida inteira precisava ir embora com ele.
Eu me lembro que tentei me matar ali, mesmo. Desci trêmula até a cozinha dos e peguei uma faca afiada e, em seguida, fui pro banheiro do quarto dele. Não é o que eu chamo de bacana narrar o resto, e não só pelo exemplo péssimo a passar, mas também pelo meu erro, e, confesso, desejei arduamente alcançar meu objetivo. Fechei os olhos e só os abri novamente, ainda enxergando tudo um tanto quanto turvo, quando estava no hospital. Descobri que tinha ficado em estado instável e grave, por ter perdido muito sangue, e, alertados, meus pais puseram vigilância extra sobre mim, além de sempre esconder as facas de casa. Até , que entrou mais ou menos no meio da história, ficou atenta sobre as minhas atitudes.
No fim das contas, eu odiava James, dono do rosto bonitinho e da mente nefasta. Eu desejava vê-lo destruído. E, pra minha infelicidade, ele havia mudado de cidade. Ou se matado, eu não sei dizer, porque depois do enterro de (ao qual eu jamais compareci, mas fiquei sabendo que o caixão estava lacrado), eu nunca mais tive notícias dele.
James tinha sido invejoso e licitado meu melhor amigo, meu melhor tudo a entrar no mundo das drogas. James queria a mim, e achava que só podia destruir tudo entre eu e com a morte dele, com a destruição dele. Eu preferia que ele tentasse ficar comigo. E, se eu soubesse, eu preferiria ter ficado com ele e deixado o meu coração se partir em milhares de pedaços ao ver triste do que tê-lo morto. Eu preferia qualquer coisa, qualquer dor temporária; qualquer coisa exceto a perda permanente. Eu não podia ter perdido ele pra sempre. Eu não aceitava. Não podia aceitar.
Até alguns segundos atrás.
Um lampejo de consciência passava por mim, e eu cruzei os dedos, desejando pela primeira vez que estivesse morto e bem longe de mim.
Notei que tínhamos corrido para a cozinha, mas não lembrava exatamente como tinha ido parar ali.
- Fantasmas não existem - eu continuava repetindo pra mim e pra .
- Ah, até que faz algum sentido - ela concluiu, pensativa.
- Hã?
- É, quer dizer, fantasmas não têm que pedir pra entrar? Então, ele estava te chamando - ela continuava, esperando que eu concordasse com aquela baboseira.
- Isso são vampiros, - minha voz não podia ser mais estúpida. - Fantasmas deveriam atravessar paredes.
- Vampiros não atravessam paredes? - eu a encarei de olhos arregalados, mesmo que no escuro, esperando que ela dissesse que estava tirando uma com a minha cara.
- Os da Stephenie Meyer, quem sabe - eu rolei os olhos, reparando, de repente, em algo na janela.
se aproximou, curiosa, ou talvez com medo de ficar sozinha observando a cozinha e, do vidro, teve a mesma visão que eu. Uma peruca vermelha no chão, do lado de fora. No mesmo instante em que a vimos, a luz voltou. Tentei não ligar o fato de a luz ter acendido somente quando vimos a peruca por ela ter algo a ver com o rosto de na janela, ou até mesmo com a luz ter faltado. Até porque a luz voltou na hora que a achamos. De qualquer maneira, me conscientizei que meus pensamentos estavam embaralhados e desconexos e foi o melhor e mais rápido caminho pra lembrar que Craig e estavam do lado de fora da casa, religando a caixa de luz. Justamente a tempo de voltarmos correndo pra sala, no encalço da minha amiga, e ouvirmos as batidas ameaçadoras na porta.
- São só os meninos - ela tentou me tranquilizar, com a voz branda. Eu inspirei algumas vezes e tomei coragem de ir abrir a porta. Instantaneamente, recebi um abraço divertido de e uma risada de Craig. Talvez o abraço dele fosse uma pequena desculpa por ter nos assustado. Ou talvez nem tivesse sido culpa deles, mesmo.
- Mas e essa janela aberta? - instigou, provavelmente lembrando-se de ter nos mandado fechá-la. Ele estava indo direto para o aparelho de DVD, que tinha ligado automaticamente ao voltar a receber energia. Com a televisão, ocorreu o mesmo. Eu voltei a me empoleirar no sofá, cruzando as pernas de indiozinho, enquanto rolava outra discussão. Dessa vez, era , que não queria, de jeito nenhum, que continuássemos o filme de terror e que Craig, de quebra, fechasse a janela.
Resolvido o problema, voltamos pro sofá com uma comédia romântica na tela. Aparentemente, eles não estavam se entediando. Ao menos não ao ponto que eu pudesse notar.
Assim que o filme acabou, ela se levantou de supetão e ergueu os braços, sorrindo. Apesar de sorrir, suas palavras não eram as mais delicadas.
- E por hoje é só - disse, decidida. - Vocês vão dormir no quarto de hóspedes e eu e a vamos pro quarto dela.
- E provavelmente vocês vão pro quarto de hóspedes porque vamos ficar com medo de dormir essa noite - me ouvi dizendo.
- É verdade - ela assumiu, um pouco cabisbaixa. Ergueu a cabeça, em seguida, com um sorriso macabro. - E eu não tenho coragem de expulsar vocês, essa noite. Vamos ficar todos aqui.
- Credo, - retrucou, cruzando os braços. Não pude deixar de reparar que, cuidadoso, Craig pegava os edredons pra subirmos. Eu preferia esquecer o outro adjetivo que me vinha à cabeça: submisso, submisso, submisso. Coitado. De fato, não tinha como ir contra a vontade de . Não que ela fosse difícil de lidar, mas quando estava decidida, era como se o cosmo conspirasse a favor dela e contra tudo que fosse contra ela. Ou talvez isso só se chamasse determinação, mesmo.
Assim que nos certificamos que os meninos estavam fechando a porta do quarto, sem trancar, a pedidos, voamos pro meu quarto. O qual, afortunadamente, era suíte, portanto não tinha motivos para medo, caso quiséssemos ir ao banheiro no meio da noite. No meu quarto, nós puxamos a bicama e se deitou lá. Trancamos a porta, não bastasse simplesmente fechá-la.
Eu me enrolei nas cobertas e fechei os olhos, agradecendo por aquela noite estar a ponto de acabar, abrindo-os em seguida ao rever a imagem da janela. Sentia minha garganta sufocar levemente enquanto aquelas lembranças refrescavam a minha memória. Parecia que meu pulmão esquecia como fazer o movimento básico da respiração, enquanto um arrepio quente percorria o meu corpo. Arrepio, este, que só dava o ar de sua graça quando eu me sentia apreensiva, ansiosa.
Não sei quanto tempo levou até que eu adormecesse, mas em meus sonhos eu me sentia mais protegida, como se a atmosfera fosse completamente diferente. O que chegava a ser reconfortante, depois de uma noite daquela. Aliás, encerrando, por aquela noite já era o suficiente, mesmo.

Mais ou menos duas semanas depois do ocorrido, eu estava bem mais calma. Já começava a ponderar se as imagens ainda salvas em minha mente eram verdadeiras, ou se eu tinha sonhado, e conforme os dias passavam, parecia que ficava mais fácil, a tensão se esvaía. Mal podia me lembrar do fato, exceto quando via a peruca ruiva, a qual eu havia decidido manter comigo. Evidências não se jogam no lixo. Afinal, o que fazia alguém usar uma peruca alaranjada? Ainda mais, desligar a caixa de força? Eu precisava da resposta.
O fato da mãe de ter um salão passou pela minha cabeça, e, lembrando dele na janela, achei apenas uma coincidência macabra, embora isso realmente não coincidisse com a luz do hall, que alguns dias depois, queimou. não usaria peruca só pra ir até a minha casa, e a perder no jardim. Sua mãe prezava demais seus trabalhos capilares, então eu descartei essa possibilidade rapidamente. Até porque eu não queria mais acreditar naquela história assombrosa e sem-irreal. Antes semi-irreal do que semi-real, no caso. Balancei a cabeça, procurando dispersar esses pensamentos. No mesmo instante, uma brisa bateu no meu rosto; entrou pela janela, sem dúvida.
Eu estava no meu quarto, com um sorriso abestalhado, arrumando os materiais escolares. As aulas estavam perto de ter início novamente e meus pais já tinham voltado pra casa. Tinham voltado um pouco mais cedo, porque, segundo papai, o tempo havia fechado e isso tirou o humor da minha mãe de ficar lá por mais uma semana. Tudo estava voltando ao seu jeito normal e pacato. Exceto pelos dias em que eu e decidíamos sair com os meninos, pra nos distrairmos dos dias frios daquelas férias. Eu adorava férias de verão; duravam mais e eram um pouco menos frias do que as férias de inverno. Não que eu não gostasse do frio, só era muito mais divertido, digamos assim, passar alguns dias com o céu azul. Eu chegava a me surpreender algumas vezes, quando o via sem nuvem alguma, o que era um tanto raro. Às vezes, também acreditava que o tempo ruim de Londres vinha se instalar em Manchester, mas essa teoria também se dissipava, ao lembrar que, bem, na Europa, quase todos os lugares são gelados e com tempo ruim. Ou talvez eu fosse muito mal informada, mesmo, e já não estivesse falando coisas que fizessem sentido.
Naquele dia, meus pais decidiram almoçar fora. E, completando o cenário da família perfeita, fui acompanhá-los. Odette não estava em casa, e isso significava falta de comida. Na verdade, de todas as mães que eu conhecia, só a minha não sabia cozinhar, então eu estava um pouco acostumada a ter que escapar de casa quando ninguém fazia o almoço, e meus pais enjoavam de comer comidas de delivery. Eu não comentava nada, pra não desanimar a minha mãe, mas almoço não era lá tão difícil de se fazer. Pelo menos, do que eu via Oddie fazer, não parecia tão difícil.
Paramos em um restaurante legal, perto do centro da cidade, numa avenida nem tanto movimentada. Eu saltei do carro, animada com a idéia de comer algo que não fosse pizza ou comida chinesa. Enquanto eu pegava um prato pra me servir, captei algo de estranho ao meu redor. Dei uma olhada em volta, sem conseguir detectar algo anormal. Minha mãe e meu pai estavam logo atrás de mim, começando pela salada. Eu voltei a me concentrar em fazer o meu prato, e dar atenção pras minhas paranóias um pouco depois. Talvez até depois de almoçar, se possível. Na mesa, me sentei de frente pro inseparável casal, e, de certa forma, senti orgulho deles. Eles sorriam apaixonadamente, o que até me dava uma espécie de motivação pra me apaixonar de novo. Chegava a ser agradável almoçar na presença deles, por mais que, às vezes, eles só vissem um ao outro. Me perguntei como ainda não tinham me dado um colar com pingente de coração, daqueles de abrir e fechar, com a foto dos dois, uma de cada lado. Em meio a tantos devaneios, outra coisa me atraiu, e dessa vez, decidi parar tudo que fazia, visto que já tinha pego comida e sentado. Agora eu podia prestar atenção ao meu redor. Corri os olhos pelas mesas à minha frente, sem nem me preocupar se meus pais perguntariam o que eu tanto olhava, coisa que tanto acontecia com . Seus pais viviam brigando e eu tinha a leve impressão que ficavam juntos mais pelos filhos, do que por eles mesmos. Impressão minha, talvez. Mais alguns segundos procurando algumas mesas em busca de algo anormal (o que, acredite, passou pela minha cabeça que pudesse ser algum assaltante ou até mesmo alguém morrendo envenenado), até encontrar um casal. Felizmente, eu não senti aqueles arrepios de medo que me rondavam quando via um casal bonito. Reparei neles provavelmente por ser um casal, e sorri, lembrando que não me sentia mais tão mal ao ver um. O que era bom, já que eu precisava seguir em frente, e só agora eu enxergava isso. O que eu não tinha enxergado ainda era que o cara que acompanhava a morena à mesa era sutilmente parecido com alguém que eu conhecia. Fiquei passada ao notar que o garoto era nada mais, nada menos do que Craig.
Espera, Craig?
- O que, filha? - minha mãe instigou, deixando o garfo e a faca no prato. Notei que ela tinha acabado de comer e eu fiquei estagnada no pedaço de carne. Engasguei.
Eu tinha falado tão alto assim?
- Nada, tive a impressão de ter visto alguém.
- Não vai cumprimentar? - meu pai, diga-se de passagem, educado, propôs. Eu balancei a cabeça, em discórdia. Se aquele era Craig, e aquela não era a , por que ele estava beijando-a?
- Eu não cumprimento traidores - fechei a cara, cruzando os braços e descruzando-os em seguida pra terminar de comer, também. Meus pais eram pacientes, mas eu preferia não abusar.
- Quer nos contar o que o traidor fez? - mamãe sugeriu, amigável. Confesso que fiquei em dúvida, por uma fração de segundo, e até abri a boca pra despejar tudo. No último instante, desisti, levando apenas uma garfada de tomate à boca. Optei por encurtar a história, pra não deixá-los sem resposta.
- Acabei de ver o Craig com outra menina. Ele é, bem, quase namorado da . E quem fica sério, não... não trai, não é? - eles continuaram me encarando, como se eu devesse dizer algo mais. Suspirei, pegando outra garfada de comida. - Quer dizer, não é certo.
- Querida, homens traem, mentem, mas também amam - minha mãe respondeu, solidária. Instantaneamente, eu lancei um olhar pro meu pai, buscando o rebate dele, que não ocorreu. Supus que concordasse. - Eles são fortes, mas só nos músculos. Têm a mente fraca.
- Mas são como gatos, não traem as pessoas de quem realmente gostam - acrescentou, sorrindo. Eu diria que seu sorriso tinha um quê de orgulho próprio.
- Não pode falar assim, querido - minha mãe o bronqueou, voltando a me dar atenção. - Todas as pessoas estão sujeitas a errar. Algumas fazem de propósito, outras fazem porque reúnem suas forças em um só lugar - sem pressa, ela indicou os braços do meu pai. Tinha que admitir que os braços dele não eram nada frágeis. Eu suspirei, tentando ligar os fatos. Não sabia como aquilo podia me ajudar.
- Então, significa que a tem que perdoá-lo? - passei a tomar o suco, interessada nas teorias dos meus pais. Eles se entreolharam e eu não captei o que disseram pelo olhar.
- Não sei. Mas creio que se ele trouxe outra garota a um restaurante, é porque não se importa em ser visto. Não acho que isso acrescente pontos favoráveis à situação dele.
Mantive os olhos cravados em Craig por mais alguns segundos, voltando a encarar a minha mãe. Percebi que ela tinha mais pra me falar.
- Só tome cuidado pra que ela não tome nenhuma decisão precipitada. E lembre-se que não pode escolher os caminhos pra que ela os siga.
Eu concordei com a cabeça, unindo meus talheres no prato, também, indicando que havia terminado de comer.
- Bom, meninas, eu vou pagar a conta. As senhoritas podem ir para o carro - meu pai sorriu, entregando o molho de chaves na mão da minha mãe. Fomos direto para o estacionamento, sem dizer uma palavra. Eu estava perdida em pensamentos, como sempre. Assim que entrei no carro, me ocorreu uma coisa: eu deveria ter tirado uma foto, ou poderia não acreditar.
Só me restou uma opção em relação ao semi-nerd traíra e risonho: desmascará-lo.

Capítulo 7



Acordei com uma overdose de desânimo. O despertador tocava uma música animada, e por mais que eu gostasse dela, quando servia de lembrete (de péssimo gosto, diga-se de passagem) que as aulas começariam naquele dia, me azucrinava. Abri as cortinas com pressa, pra me deparar com um nebuloso dia. Confesso que tinha esperanças que o dia amanhecesse ensolarado, e, vendo o tempo fechado, desisti de sonhar com a possibilidade até o resto da semana. Vesti um jeans escuro, combinado com um all star de cor vermelha, nada discreto, mas completamente indispensável. Peguei uma blusa qualquer, mas especialmente de cor azul marinho, e vesti por cima o paletó do colégio. Nos primeiros dias de aula, não era obrigatório usar o uniforme, mas eu também não abusava dessa regalia. Um casaco com o brasão do local deveria ser suficiente pra ser identificada como estudante. E, na verdade, era. Lembrei de passar rímel. O que, por acaso, eu só lembrava nos primeiros dias de aula. Por último, passei um batom rosa, com tons que lembravam o bege, mas ainda rosa. Parei de adicionar produtos ao meu rosto quando me senti pronta.
Eu tinha bolado alguns planos praquela manhã. Planejava bancar a psicopata e seguir Craig. Acreditei fielmente na minha teoria que homens que não prestam uma vez, não prestam nunca, e então, esperei até que as aulas recomeçassem pra que meu plano tivesse início. Embora pareça simples demais, a decisão não foi tomada de primeira. Talvez ele cometesse algum deslize no colégio, e as coisas facilitassem para o meu lado detetive. Era só o que eu esperava.
Coloquei a mochila atrás do ombro com pressa e desci as escadas. Na cozinha, um prato de panquecas me esperava na mesa. Ao lado do prato, cobertura de chocolate. Sentei às pressas; embora estivesse atrasada, decidira que ao menos uma colherada eu teria daquelas panquecas doces. Um bilhete me esperava ao lado dos talheres. Mal terminei de lê-lo e saí correndo, tendo consciência de que me atrasaria caso continuasse a comer e, no caminho da escola, pus-me a recordar os fatos ocorridos nas férias. As quais, não havia como negar, foram ótimas, por mais que eu não tivesse ido pra Cancun com meus pais. Tudo bem, eu me conformaria, logo. Odette estava de volta e eu começava a me lembrar de como tinha sido meu primeiro beijo com .
Lembrei que estávamos na frente da minha casa, no carro dele. A noite tinha sido incrível, e, sobrenaturalmente, não tinha nuvens no céu. O luar pairava com leveza sobre o asfalto e eu já me sentia bem a começar por esse fato. Tínhamos até tirado algum tempo para observar as estrelas, aquela noite. Não tive a oportunidade de contá-las, como sempre fora meu sonho, porque segurou as minhas mãos e me disse que eu teria verruga caso as apontasse. Ignorei sua superstição e deixei pra tentar mais tarde, na esperança de distraí-lo e contá-las, mas por fim, esqueci sobre a minha intenção secreta. A festa tinha sido um luau, com direito a fogueira, estrelas do mar na areia, roupas de banho e mar gelado com deliciosas ondas quebrando na areia. Era em uma praia numa dessas cidades da costa, a mais ou menos três horas de Manchester. O nome da cidade, quase sem dúvida alguma, era King's Lynn, ou algo perto disso. A praia, em si, era meio vazia e, como posso dizer, encontrava-se no meio do nada. Só se via areia e algumas árvores, até onde a vista alcançasse. A fogueira que tínhamos feito era o suficiente pra nos aquecer, quão fria fosse a noite, tão grande que era. O melhor de tudo era que a praia era calma, em relação às ondas, ou talvez eu tivesse dado sorte. Só o fato de ter um clima meio desértico me encantou, de cara.
Na praia, tinha prometido que iria me levar a uma fazenda de campos de lavanda, em alguma cidade, na província de Kent. Disse isso em algum momento que estávamos sozinhos, acompanhados apenas de um copo de suco, cada um com o seu. Eu não sabia o motivo do convite súbito, mas achava engraçado fazermos planos. Me agradava lembrar que tinha, muitas vezes, os mesmos gostos que eu, apesar de eu ter o costume de prezar a individualidade. Por outro lado, eu ainda não tinha voltado ao lago, e isso me dava uma espécie de saudades, por mais que eu não fosse acostumada a ir lá. Nem tivera tempo pra isso, aliás. Desde que tínhamos voltado de lá, não comentei mais sobre o lago e minha vontade de voltar. Não só por lembrar que o lugar pertencia muito mais a do que a mim, mas também por ter esquecido de pedir para voltar a fazer uma visita naquele local mágico (e um tanto quanto difícil de achar). De qualquer maneira, se eu precisasse encontrar em algum lugar, certamente o procuraria naquele lago. Melhor ainda, o procuraria além do lago, na parte mais secreta e particular.
Balancei a cabeça, afastando os pensamentos intrusos. Voltei a me focar no primeiro beijo entre eu e .
Não falávamos sobre nada interessante, no carro, então eu peguei a mochila na qual levara as roupas para o luau daquela noite e abri a porta do carro. Ele tentou, com pressa, travar as portas, mas desajeitado como acabou sendo, não conseguiu a tempo. Eu dei uma risada pelo nariz quando ouvi um resmungo vindo do carro, enquanto fechava a porta. A porta do lado do motorista abriu e um um tanto emburrado saiu de lá. Só consegui sorrir, virando o corpo de frente pra ele, quando parou atrás de mim. Fiquei entre ele e o carro, então resolvi apoiar as costas no veículo. O brilho soturno da lua dava um ar pálido à pele dele, e, se eu não soubesse que era iluminação lunar, diria que ele tinha luz própria. Mordi a parte interna da bochecha, esperando que ele dissesse alguma coisa. O que acabou não acontecendo.
- Fiz alguma coisa errada? - arrisquei.
Ele me encarou, solene, e deu um sorriso simplório, os lábios fechados. Concordou, balançando a cabeça, sem pressa.
- Claro que sim - respondeu, dando um passo à frente. Por instinto, eu teria recuado, mas como não era mais possível, encostei a cabeça no carro. - Na verdade, - ele tornou a falar, se corrigindo - eu é que vou fazer algo errado, agora - em seguida, ele inclinou o rosto na direção do meu, semicerrando os olhos à medida que se aproximava de mim. Por reflexo, fiz o mesmo.
Eu sorri de canto, um pouco surpresa com o fato, mas ao mesmo tempo, esperando que isso acontecesse. Em troca, deixei que a mochila caísse no chão, liberando minhas mãos, pra que eu pudesse usá-las instintivamente em seu cabelo. Mais especificamente, embrenhando-se nele, inicialmente com calma. Ele deu continuidade ao beijo por mais alguns minutos, e eu cheguei a me esquecer de respirar, por alguns segundos, recompensando algum tempo depois, quando ele partiu o beijo. Foi a primeira vez que ofeguei depois de um beijo, e não por ser um beijo violento, ou qualquer coisa do tipo; eu havia esquecido de respirar, tanto que tinha gostado de beijá-lo. Imaginei que tivesse algo a ver com hipnose.
colocou as mãos ao redor do meu maxilar e, depois de um sorriso calmo, depositou um selinho nos meus lábios. Eu sorri, encantada com tamanho cuidado. Até me lembrava alguém.
De súbito, veio-me a consciência, lembrando que eu deveria entrar logo em casa. Puxei o pulso de pra mim, observando de perto o horário em seu relógio. Foi um pouco difícil, já que era analógico e a luz ao nosso redor não era forte o suficiente pra que eu notasse as horas com rapidez. O poste de luz mais próximo ficava no vizinho da casa da frente.
- Você tem que ir dormir? - alguém finalmente disse alguma coisa, e não fui eu. Sua voz saíra mansa e eu sorri de canto, percebendo que ele estava muito mais próximo de mim do que alguns minutos atrás. Eu me sentia bem, mesmo que tão perto dele. Perceber a oscilação do seu peito, ao respirar, era incrível. O jeito com que o fazia me encantava e quase me lembrava alguém... Alguém que eu não conseguia recordar o nome, ou o rosto, embora parecesse estar na ponta da língua.
- Temo que sim - devolvi, sem realmente me importar muito com isso. O que eu levaria da minha mãe, afinal? No máximo, uma bronca, já que ela confiava em mim o suficiente pra saber que eu não faria besteiras dignas de visitas na delegacia, fora de casa. E, até onde eu sabia, ela ainda me achava completamente traumatizada em casais, portanto nunca tocava no assunto. O respeito que ela tinha por mim, como pessoa, a ponto de não tocar no assunto, me fazia sentir mil vezes melhor do que se ela tentasse a todo o momento consertar, falando sobre isso. Lorrane realmente sabia como ser mãe.
- Acho que estou cansada - completei, e depois de alguns segundos, acrescentei, já acomodando o rosto lateralmente no seu ombro: - A noite foi ótima, eu acho que te devo uma.
- Uma noite? - deu uma risada marota, de volta. Eu ri junto, captando o duplo sentido na sua resposta.
- Você é quem sabe - entrei na brincadeira, afastando o rosto do seu corpo, que, mesmo depois de uma noite na praia, ainda tinha seu cheiro naturalmente atraente. Talvez fosse um perfume estilo parfum, daqueles que duram por um dia completo e impregnam na roupa e na pele. De qualquer maneira, isso só o adicionava mais qualidades.
- Então - ele fechou os olhos, pra me dar um beijo na bochecha. Confesso que esperava um na boca - até amanhã.
Só consegui devolver um sorriso de volta, contente, afinal. A noite tinha sido agradável e fora fechada, como dizem, com chave de ouro.
Deixava-me alegre ter uma perspectiva diferente, na vida. Diferente, ao menos da que eu tinha. O que era, nada mais nada menos do que respirar e comer todos os dias, pra me manter viva. Um novo motivo me tirava da desagradável monotonia.
poderia ser esse motivo, não fosse por eu ter outros planos um pouco à frente. Desmascarar Craig ainda se encontrava no topo da minha lista de obrigações e desejos.
Acordei do devaneio, me notando diante do portão da Whalley Range High School, e me peguei pensando por alguns segundos como tinha chegado ali viva, já que eu mal me lembrava ter passado pelas ruas, em causa do devaneio que, muito certamente, destruiu qualquer realidade que pudesse ter tentado adentrar minha mente.
não se encontrava diante dos portões, me esperando apoiada no muro, e isso me deixou curiosa. Encarei o relógio, ansiosa, e o que me surpreendeu foi eu estar adiantada. Apesar disso, alguma coisa parecia diferente, ali. E não era a aglomeração de alunos o que me assustava, já que eu era quem chegava atrasada, quando a maioria dos alunos já tinha entrado.
Eu tinha que admitir que ainda me lembrava do episódio da falta de luz, em casa e a imagem de na janela, e que chegar de repente na escola só me fazia pensar mais nele; aquelas paredes tinham, verdade ou não, parte da nossa história em sua memória. Sobre a temível noite, pensei até que poderia ter sido um sonho meu. Um sonho que eu, , e Craig tivemos, todos no mesmo dia; o mesmo sonho. Com o tempo que fazia desde o ocorrido, algumas imagens já estavam até difusas na minha mente, e para cada vez que eu me perguntava se era mesmo realidade ou apenas sonho, eu me lembrava da maior prova que aquilo tinha acontecido. Eu tinha a peruca vermelho-alaranjada. O que significava que podia estar vivo, sim, ou ainda, de volta. Mas então eu me lembrava que ele tinha morrido e sido enterrado e voltava à estaca zero. Como era possível alguém morrer e voltar? Apenas uma resposta respondia adequadamente à minha pergunta: eu estava enlouquecendo.
De qualquer maneira, finalmente tinha feito algum sentido manter aquele amontoado de cabelo colorido guardado.
Por mais que, então, meus neurônios se mostrassem a ponto de pifar, toda vez que eu pensava sobre o assunto. O ocorrido. A tragédia.
- ? - eu pulei de susto, enquanto a pessoa que me chamou por trás dava uma risadinha. Felizmente, eu reconhecia aquela voz, e ela me era agradável aos ouvidos.
- ! - levei a mão ao peito, ao mesmo tempo em que me virava pra ela, sentindo meu coração bater descompassada e quase desnecessariamente rápido. Pensei em perguntar onde ela estava antes, mas já que ela estava ali, concluí que isso não fazia muita diferença. Apontei sutilmente com a cabeça em direção ao prédio da escola, e, entendendo, ela me seguiu até a entrada.
- Er, sabe - ela retomou a conversa, receosa, assim que pusemos os pés na espaçosa recepção do colégio - aquilo que tínhamos marcado pra hoje, depois do almoço... Eu não posso ir...
- Aquilo? - eu repeti, sem realmente me lembrar sobre o que ela falava. Da mesma forma, quis saber. - Por quê? - parei de andar, encarando-a de esguelha.
- Eu... combinei de sair com o Craig - ela apertou os olhos, como se tivesse medo da minha reação. Eu teria devolvido com brutalidade, se não tivesse pensando um pouco, antes de falar. Tocar no nome do tal garoto, me fez lembrar da pequena raiva que eu tinha dele e eu tive que me controlar pra não bater as pestanas com raiva. A raiva era um pouco pequena, em relação à que sentiria, ao saber a verdade, mas de qualquer maneira... Se eu não tivesse sentido receio de explodir e dá-la motivos pra ter medo de mim, teria dito naquele instante, mesmo, o quão canalha ele era. No entanto, guardei minhas energias pra depois. Eu teria tempo pra explodir de ódio depois, junto com ela.
No momento, eu me obrigava a pensar em maneiras de desmascará-lo, por mais que todas as ideias que eu tinha, acabassem frustradas. Depois de mais algumas, insistindo no que não deveria, comecei a ficar na dúvida se o melhor seria fazê-lo, ou simplesmente falar com , direto. Ela poderia acreditar em mim, era minha melhor amiga, e a informação que saía da minha boca deveria ter importância pra ela. Ou ao menos um pesar maior do que o que Craig diria em resposta. A verdade é que minha confiança era baixa até com minha melhor amiga e isso voltava a me fazer perguntar quem, ou o que eu era.
Pela primeira vez, fraquejei na decisão de seguir o garoto e fotografá-lo com outra garota. Decidi que seria uma prova boa, mas um tanto dolorosa. Eu não gostaria que alguém me provasse algo do tipo, dessa forma, já com provas em mãos. Não sem ao menos me preparar psicologicamente, antes. Restava saber se eu deveria prepará-la psicologicamente ou não; o que eu dissera antes era apenas a minha opinião, e eu não sabia a dela, ainda. Por mais que quisesse, não sabia lidar com coisas delicadas.
- Tudo bem, a gente marca um outro dia - acabei murmurando, alheia.
Isso, sim, deve tê-la assustado, porque ela me seguiu mesmo depois que eu dei as costas à ela, querendo explicação pro meu comportamento inesperado.
- Você não vai mesmo brigar comigo, dessa vez? - ela arregalou os olhos, eu pude ver, enquanto caminhava a passos largos.
Poderia dizer que ela estava se esforçando pra manter o mesmo ritmo que eu. Diminuí a velocidade, no intuito de parecer mais natural. Não era sempre que eu tinha aquela pressa.
- Eu deveria? - sabia que era de maus costumes responder a uma pergunta com outra, e me repreendia mentalmente, mas não consegui pensar em nada melhor. Não em tão pouco tempo. - A gente pode se ver mais à noite, num Café? - sugeri.
- Claro que sim - ela assentiu, meio séria. Imaginei que tivesse respondido séria, porque eu tinha perguntado mais séria ainda. Dei de ombros, tentando descontrair o clima, em seguida.
- Então, até lá, feia - brinquei, dando um sorriso de canto. Acenei e me virei com um pouco de pressa. Nunca fora muito boa em esconder planos, inquietações, nem nada, mas estava feliz que tivesse conseguido pelo menos uma vez na vida. Ainda que soubesse que tinha dado muita bandeira.
- Eu não sei o que você tem, , mas não conseguiu esconder de mim. Não totalmente - consegui ouvi-la dizer, cética, quase lendo meus pensamentos, pouco antes que eu tomasse distância o suficiente pra não ouvi-la falar mais. Eu podia jurar que, determinada como ela era, iria descobrir. Já que eu não tinha como esconder, o melhor era não ficar perto, pra não entregar meus pensamentos.
E, pensando melhor, eu não era mesmo boa em disfarçar algumas coisas. Especialmente de alguém tão próximo quanto . Manter distância seria melhor pra mim e pra ela. Mais ainda, pra ela.

Na aula de geometria espacial, eu me perguntava como falaria com mais tarde, e cheguei a ensaiar algumas frases comigo mesma. Infelizmente, nem meu cérebro me respondia direito. O que me deixava ainda mais confusa, se é que era possível. Acabei optando por eu mesma falar com ela, já que já tínhamos combinado de ir ao Café. Diria com as palavras mais doces e meigas possíveis. O momento era delicado, então eu deveria ser também. Cheguei também a pensar se eu devia acalmá-la antes de falar, mas lembrando que isso causaria mais tensão do que acalmá-la, desisti da ideia.
Minhas mãos estavam tremendo um pouco e eu já sentia o nervoso dar sinais de querer me dominar. De repente, nem eu sabia o porquê. Estava me sentindo nervosa, como se alguém estivesse a ponto de me aplicar uma injeção, daquelas com agulhas de diâmetro anormal, que deixavam a pele dolorida, mesmo depois de terem saído do corpo. Eu não sentia dor, mas sentia algum tipo de nervoso, inquietação. 'Ansiedade?', eu pensava, em conflito interno. Deixei o lápis na mesa, quando a falta de ar ameaçou se fazer presente. Não queria ficar mais nervosa do que já estava e, acreditando que o desenho geométrico - matéria, aliás, na qual eu era péssima - estivesse causando ou ajudando meu estresse, ergui a mão, pedindo ao professor autorização pra sair da sala. Aleguei estar com falta de ar, e vendo meu rosto pálido, que era como eu normalmente ficava quando estava nervosa, ele assentiu rapidamente. Sugeriu até que eu me dirigisse à enfermaria, e eu cheguei a concordar naquele instante, na pressa de sair da aula, mas na verdade não tinha a menor intenção de seguir sua instrução. Saí com velocidade da sala, munida apenas do meu celular. O que significava, infelizmente que eu teria que voltar para aquela sala, mais cedo ou mais tarde, em prol do meu material, esquecido na mesa.
Bufei, já do lado de fora, observando por um instante a cor clara do meu esmalte, enquanto eu me apoiava na parede. Pretendia me distrair, pra esquecer a crise repentina de nervoso. O esmalte era um tom de lilás que, perto do meu tom de pele, parecia dar continuidade a ela, mas ainda era um pouquinho mais escuro. Ou mais claro? O suficiente pra que eu notasse a diferença, ao menos. Minhas mãos estavam geladas e, sentindo um vento indesejado me atingir no corredor, eu achei melhor sair daquele prédio gélido. Mordi o lábio, lembrando que tinha esquecido o paletó dentro da sala de aula e, sem muitas opções, rumei às escadas, os braços cruzados na altura do peito, de frio. No andar de baixo, procurei pela saída de emergência guiando-me pelas placas verde folha, pendendo do teto. Mais por orientação, porque o caminho, em si, eu já conhecia e, realmente, eu meio que recordava o caminho às escadas de lance único que davam na parte de trás do bloco mais antigo da escola. Sabia até onde tinham pessoas pelos corredores a cada horário do dia, e, pelo que me restava ainda na memória, aquela porta de metal dava num espaço particularmente abandonado do gramado do colégio. Ninguém usava a porta de saída de emergência e a Whalley nunca fora vítima de incêndios, criminosos ou acidentais. Portanto, e essa era uma certeza, eu estaria segura. E, com sorte, quem sabe, segura até de mim mesma, com meus pensamentos desordenados e destrambelhados.
Apesar de sentir uma espécie de alegria ao encontrar a grande porta corta fogo, e dela abrir sem problemas, o vento, novamente inconveniente, voltou a me atormentar e eu me senti quase nervosa outra vez. O dia não tinha raios solares, então eu estava fadada a ficar algum tempo sentindo frio, como castigo pelo orgulho de não ter voltado à sala pra pegar meu paletó. Respirei alto, sentindo que mais tinha bufado do que suspirado e caminhei sem pressa até um tronco de árvore, estrategicamente deixado ali, eu arriscava, fazia alguns anos.
Me sentei nele, de costas para o prédio da escola, sentindo algumas lembranças virem à mente, mas não dei espaço pra que elas assolassem mais uma vez minha compostura. Soltei o cabelo, coisa que eu sempre deixava presa na aula de desenho geométrico, pra garantir que não me tirasse a concentração.
Aliás, o que não me tira a concentração?
Ergui o rosto, sustentando um sorriso de canto um tanto altivo por lembrar daquela saída em momento tão apropriado. De onde estava sentada, eu não podia ser vista, a não ser que alguém saísse pela porta dos fundos, vamos dizer, da escola, ou fizesse uma caminhada pela lateral da mesma. O que, é bom lembrar, não era dos mais rápidos caminhos. Às vezes eu me perguntava por que tínhamos uma saída de emergência na lateral mais abandonada da escola, sem que alguém realmente pretendesse que saíssemos por lá. Ao longe, mas não tão longe assim, eu podia ver árvores e um campo extenso. Fechei os olhos, apertando-os tanto quanto possível, sentindo frio. Já tinha entendido por que estava ventando, e, mais ainda, onde eu estava. As árvores balançavam ao sabor do vento, e, se eu fosse criança diria que estavam brincando de cócegas entre si. Ri da infantilidade repentina e estiquei os pés, tentando me distrair quando um pensamento captou minha atenção: eu ainda não sabia por que tinha ficado nervosa. Por outro lado, não sabia se queria realmente descobrir o que tinha me deixado sem ar. Talvez tivesse sido algum detalhe, algo que o professor falou e não encaixou com o que eu já tinha formado na minha mente.
O vento realmente parecia brincar, visto que, quando me atingia, parecia dar sossego às árvores, e vice-versa. Era, por um instante, como se não conseguisse atingir os dois opostos ao mesmo tempo e tivesse que atacar um de cada vez. Cada um, um pouco. Eu podia jurar que eu estava sentindo muito mais frio e cansaço do que as árvores, mas guardei meu protesto à mim mesma, quando uma figura nas árvores me chamou a atenção. Forcei os olhos, contraindo as pernas e cruzando-as, quase me sentindo uma dama, não fosse por eu estar sentada em um tronco velho, num dia frio. O que vi em seguida me surpreendeu um pouco, mas não o suficiente pra que eu saísse correndo dali. Um veado? Por que diabos um veado pastava ali?
É melhor nem mencionar, que, vendo um animal de tal espécie, me lembrei de outro. Craig voltou à minha mente e eu, aborrecida, fiz um estardalhaço mental, xingando-o de todos os nomes e maneiras possíveis e inimagináveis. Levantei sem pressa, quando concluí que estava tendo alucinações, e pior ainda, acreditando que pudessem ter algo a ver com excesso de vento na cabeça. Talvez eu aproveitasse pra fazer uma visita rápida na enfermaria, no caminho de volta pra sala. Chutando algumas pedrinhas, me virei de volta para o prédio do qual eu tinha saído, pra me deparar com uma figura conhecida.
Eu já tinha dito que ninguém, absolutamente ninguém, deveria me encontrar ali?
Porém, não foi exatamente uma surpresa encontrar alguém. Foi menos surpresa ainda esse alguém ser . Dessa vez não corri, não gritei, não desfacelei de medo, nem chorei. Nem eu mesma sei explicar qual o motivo sórdido que me fez permanecer ali, enraizada feito uma árvore. Respostas, quem sabe? Especialmente para a peruca, que, se eu não tivesse respostas logo, planejaria vender. Pisquei algumas vezes, tentando me fazer acordar daquela espécie de sonho e senti meu corpo inteiro vibrar, como num choque. De repente, o nervoso que se concentrava nos meus ombros, parecia descer, pouco a pouco, relaxando toda a tensão que eu vinha acumulando durante a manhã. Eu observei os seus traços, um por um, todos que eu me recordava, e perdi noção de quanto tempo passou enquanto eu fazia isso. Ele parecia imóvel, e isso só aumentou minha inábil desconfiança sobre ele ser projeção dos meus olhos saudosos. Mas uma coisa, eu não podia negar, era ele. Dessa vez a luz estava a meu favor e eu via, querendo ou não, o meu . O que eu queria, que eu precisava e que não estava ali.
A desconfiança falou mais alto do que o entusiasmo e eu me vi obrigada a sair daquele devaneio que eu sentia tanta falta de ter. Uma paz incrivelmente nova, que me lembrava algo do passado. Sabe algo do passado que você sente muita falta, e se acha nostálgica toda vez que lembra disso? Nostalgia poderia ser exatamente o que eu sentia, ao notar aquela paz. Aquela paz que eu reconhecia, de uma forma ou de outra. Estava tudo tão encantador, que alguma coisa só poderia estar errada.
Eu imaginava que fosse eu, delirando, e disposta a tirar toda e qualquer dúvida, eu sorri comigo mesma, quase confiante.
Ele me encarava perplexo, e eu não sabia o motivo, segurando a mochila em um ombro só. Eu, orgulhosa, com o celular no bolso da calça, abri um sorriso de canto. Tinha concluído que aquilo era uma miragem e já me parabenizava pela boa memória, já que, pra uma imagem falsa parecer real, a memória da criadora das imagens tem que ser boa. E, nossa, como ele parecia real, era meu autêntico . Eu contive uma gargalhada, percebendo o quanto eu estava sendo patética, deixando-me entreabrir a boca e admirar alguém morto.
Só voltei a ter noção das coisas ao meu redor quando ele tomou as rédeas da situação e deu o primeiro passo à frente, descendo os dois degraus que ligavam o bloco D à grama. Mordi o lábio, admirando sem pudor as coisas ao seu redor. Já que a imaginação era minha, eu tinha todo o direito de observar o que e por quanto tempo eu quisesse. Eu certamente estava abusando daquele poder.
Esperei pra ver o que minha imaginação me proporia, em seguida, dando a volta no tronco e me pondo diante dele, que parou de caminhar justo quando chegou à minha frente.
Suas bochechas estavam pouco rosadas, eu pensei se a minha criatividade o teria feito correr demais, ou se ele só estava assustado, mesmo, já que o seu peito subia e descia tão rapidamente quanto o meu. Meu cérebro só faltava pifar, de tanto que tentava entender aquela situação. Nunca, nem em um teste de biologia, a minha matéria preferida, eu tinha pensado tão rápido. Pra ser mais exata, nunca tinha pensado tão rápido: agora eu entendia o que o professor queria dizer quando falava sobre impulsos nervosos serem extremamente velozes. Mas agora isso não era tão importante, eu podia me sentir em conflito interno; por mais que parecesse sonho, continuava ali, em pé. Diante de mim!
Por mais que uma parte de mim tentasse me convencer que aquilo era só um holograma e que eu estava sonhando, a outra parte me dizia que eu tinha que ir embora. O alarme vermelho que piscava toda vez que ele estava mal, soou, mas...
- Você está aqui - eu não podia ir embora, se ele estava bem. Vale lembrar que eu proferi essa frase, a voz completamente suave, um sussurro quase inaudível. Eu agradeci mentalmente por ele ter entendido, porque não sabia até quando teria forças pra me aguentar em pé.
- Eu nunca deixaria você - sua voz devolveu depois de alguns segundos e eu estremeci. Eu não consegui decifrar a sua expressão e nem que o quisesse, conseguiria. Estava atordoada demais tentando entender o que eu mesma sentia. Não poderia comparar a nada na minha vida, a alegria que tinha sentido ao ouvir aquela voz novamente. Eu mordi o lábio, numa tentativa fracassada de impedir que meu queixo caísse. Assim que recobrei a consciência, e acredite, fiz-lo o mais rápido possível, rebati:
- Mas você, o papel... O papel no seu travesseiro - na verdade, balbuciei. As palavras pareciam se perder pelo caminho, embora eu soubesse exatamente o que pretendia dizer.
- Eu sei. Eu sei - ele consentiu, contraindo os lábios, como fazia quando se arrependia de algo. Esperei que ele dissesse alguma coisa, aflita. Eu esperava por essa resposta há meses. Ainda que não tivesse feito exatamente uma pergunta. - Me desculpa, não houve solução.
Me senti ingênua, conversando comigo mesma, assim que ouvi sua resposta. Imaginei por um instante, quem chegasse (se chegasse!), me veria conversando com o vento. Ou ainda menos do que isso. Não tendo tocado-o nem sentido seu cheiro, ainda, aquela era a maior prova que eu estava tendo algum tipo de visão. Eu me perguntava, então, se visões eram palpáveis.
De repente, senti uma vontade enorme de tocá-lo e aposto que foi a melhor ideia que eu tive naquela manhã. Quer dizer, depois de ter decidido sair da aula entediante de geometria, claro. Sobre , eu sentia demais a sua falta e o que me intrigou foi que só de pensar em tocá-lo, meu coração bateu acelerado e fora de ritmo. O que podia ser um bom ou mau sinal, e se eu quisesse descobrir logo se estava sonhando acordada ou vivendo a mais cruel realidade, eu precisava arriscar.
Eu fechei os olhos, sentindo uma lágrima fraca escorrer pela bochecha, mas não sabia dizer exatamente por que chorava ou até mesmo se o fazia. Abri os olhos em seguida, pronta pra fazer-lhe o pedido.
parecia um anjo. Estava corado, os cabelos cortados como de costume, as roupas limpas. Um misto de anjo com demônio, visto que ele mal chegava e já me fazia sentir num conflito interno. Eu sentia que, a qualquer momento, eu poderia despedaçar dentro daquele mar que ele costumava chamar simplória e distraidamente de olhos, os quais sempre me hipnotizavam. Eu tinha quase certeza que ele não fazia ideia do quão fraca eu me sentia por dentro. Cheguei a tentar balbuciar algo, mas como num desmaio, eu percebi que perderia os sentidos, tão aturdida que estava.
Ergui minha mão pra tocar o seu rosto, e mais rápido do que eu pude prever, as minhas pernas cederam e eu senti os seus braços me envolvendo antes que eu ficasse desacordada.
Então, ele era real.


Capítulo 8



Abri os olhos devagar, agradecida por não estar com dor de cabeça. Ainda assim, coloquei a mão instintivamente na cabeça, passando as mãos pelos fios, averiguando meu estado físico através do tato. Tudo que encontrei foi uma folha seca, que não lembro onde joguei, depois de tê-la despedaçado.
O que se passara na área externa do colégio voltou em flashes na minha mente, brincando com a minha sanidade. . Estava vivo. Eu só não sabia como, nem porquê.
No próximo instante, me vi sentada naquela típica cama de enfermaria, acolchoada. Olhando de um jeito meio vesgo, na direção do meu nariz, eu percebi um aparelho de aerossol. Devia ser de oxigênio, pela cor verde do tubinho que o ligava à fonte, na parede. Já estando acordada e respirando de modo autônomo, supus que não precisasse mais daquilo. Tirei-o do rosto, me ajoelhando em seguida na cama para desligar a saída de oxigênio. No entanto, no justo momento que eu me esticava pra isso, alguém fez meus movimentos serem todos em vão. Alguém alcançou a maçaneta de registro antes de mim, e eu mal tinha notado que tinha companhia. Nem sequer tinha olhado pros lados.
Pela voz eu reconheci, mas confesso, estava surpresa. Aliás, o que é normal o suficiente pra não me surpreender, hoje?
- Fico feliz que tenha acordado.
tinha um sorriso entre os lábios. Desnorteada, por um instante, e sabendo o motivo da minha falta de senso momentânea, eu senti a necessidade de fazer perguntas, como que pra me distrair.
- Obrigada, mas... Como eu vim parar aqui? - eu me lembrava de ter desmaiado nos braços de , mas não sabia dizer se ele tinha me levado à enfermaria ou não. Se eu tivesse ido sozinha até lá, poderia assinar meu atestado de loucura; não existia . Caso contrário... Enfim, eu tinha esperanças que soubesse algo que me faltasse saber.
Aliás, sobre , eu devo ter me esquecido de citar. Ele já poderia ter acabado o ano escolar, segundo ; eu ficava desacreditada só de pensar que ele poderia não estar mais ali, também. Perder uma pessoa importante já é mais que suficiente. Por ser um ano mais velho que ela, ele já devia realmente ter acabado o colégio, porém perdera o ano, aproveitando o intercâmbio. Não pude evitar morder o lábio, com ciúme, em rejeição aos meus pensamentos, que, nada inocentes, sabiam me dizer exatamente o que era 'aproveitar o intercâmbio', pra .
Encarei a parede vazia e branca à minha frente, sem reparar na expressão de enquanto ele respondia, o timbre tanto sugestivo quanto curioso.
- Ah, foi um cara aí. Eu o encontrei com você nos braços, enquanto eu matava uma aula - eu pus os pés no chão, testando minha capacidade de me manter em pé, ainda ouvindo-o. - Eu falei pra ele deixar que eu te levava até a enfermaria, mas ele insistiu. Aí eu o segui até aqui e ele disse que tinha que ir.
Apesar de ter conseguido me manter em pé por tempo suficiente pra ter certeza que não cairia mais, precisei apoiar as mãos atrás de mim, por garantia. Ficara feliz porque, por um lado, eu não tinha fingido desmaio, ido sozinha à enfermaria, nem nada. Alguém; e eu sabia muito bem quem, havia me levado, já que absolutamente ninguém checava o lado mais esquecido da escola. O lado ruim era que ele tinha ido embora, quando eu sequer tive tempo de me despedir. Por que tinha que ir?
Guardei essa pergunta pra mim mesma, já pensando em ir à casa de , mais tarde. A casa dos nunca estivera vazia, então achei que não causaria (muitos) problemas caso eu aparecesse pra uma visita à minha ex-sogra. Ao menos era o que eu esperava. Porém, sabia que essa visita deveria ser deixada pra bem mais tarde, e com isso eu queria dizer "outro dia". Naquele dia eu ainda teria que sair com à noite e vigiar Craig à tarde.
Suspirei, lembrando o motivo pelo qual eu não poderia espionar Craig à tarde: ele estaria com , o que tornaria as chances de deslize dele absolutamente nulas.
- Ah, isso foi agora, certo? - indaguei e ele concordou prontamente, passando um braço pela minha cintura e me acompanhando à saída. Eu pensei em perguntar onde estava a enfermeira, mas visto que eu não queria dar explicação tampouco relatórios de saúde, aproveitei a chance pra sair dali. Olhei pra cima, vê-lo responder a próxima pergunta. - E você decidiu ficar aqui comigo?
- Eu não poderia te deixar aqui - ele sorriu, galante, e eu voltei a olhar pra frente. Ao mesmo tempo em que sorriu, apertou minha cintura contra o seu corpo, num gesto carinhoso.
- Obrigada, - sorri entre os lábios, sinceramente agradecida. Quando chegamos ao estacionamento do colégio, eu percebi que estávamos indo embora. Olhei com pressa meu celular, conferindo o horário em seguida. Dei um tapa na própria testa, me lembrando do mais importante. - Ah, eu tenho que pegar o meu material.
- Relaxa - ele devolveu, numa expressão despreocupada enquanto sacava as chaves do bolso. Agradeci mentalmente por ter a chance de voltar de carro, não à pé. Pensei em agradecer o favor, mas logo em seguida compreendi seus cuidados comigo. Na verdade, quem estava servindo de favor era eu. Apostava como estava louco pra voltar pra casa e ir dormir. Era quase visível no seu rosto. - A vai trazer o seu material. E nós vamos a um lugar diferente, hoje.
Senti vontade de me jogar na frente de um carro, ao ouvir o fim da sua frase. Talvez ele não quisesse exatamente voltar pra casa e ir dormir. Talvez ele já tivesse planos e talvez eu não fosse uma desculpa pra ele ter matado aula e ir pra casa. Mordi a língua, repentinamente arrependida dos meus pensamentos maldosos. Animei em seguida, ao me lembrar de algumas coisas, esquecendo rapidinho a minha chateação comigo mesma. Guardava comigo a esperança, que não era pequena, de voltar ao lago, e ela pulsava, mesmo que pouco, a cada vez que surgia uma oportunidade. Sabia que poderia não acontecer outra vez, mas achei brilhante ele ter pensado em algo pra nós. Pena, pensava eu, que ele teria que adiantar um pouco seus planos praquela tarde, porque à noite eu não podia, de jeito nenhum, ficar sem ver a . Adiara por muito tempo contar o que sabia a ela e, a cada dia que passava, parecia que ficaria mais complicado.
Apoiamo-nos em seu carro, e num ato preguiçoso, eu me aconcheguei no abraço de , quando ele passou o braço ao redor dos meus ombros. Abracei-o de lado, inalando a fundo o perfume que ele usava. Fechei os olhos, aproveitando o perfume, mas abri-os em seguida, com medo de alguém ver a expressão boba que eu teria feito. Impressão minha ou o perfume dele melhora a cada dia?
De repente, a figura de se projetou em nossa direção. Eu só reparei nela quando já estava perto, e pensei por um instante o quanto ela teria corrido. Aliás, o rosto corado dela me fez lembrar de , numa fração de segundos, mas eu me segurei pra dizer qualquer coisa na frente de . Nota mental: contar sobre e possível alucinação à ela.
- Aqui estão. Os cadernos. A bolsa. O estojo. E o paletó - ela dizia por pausas, esbaforida, enumerando conforme entregava as coisas a , que já tinha me soltado pra, prontamente, pegar minhas coisas.
- Obrigada, - agradeci sinceramente, encolhendo os ombros. Eu mesma não teria tido coragem de voltar à sala, pra pegar o material. Ou vontade.
- Por nada - depois de um suspiro cansado ela sorriu e deu uma piscadela cúmplice. Arfou mais uma vez, levando uma mão ao colo, e deu uma recomendação ao irmão. - Já que você vai levar a pra casa, aproveita e avisa a mãe que eu vou almoçar no Craig, tudo bem?
deu de ombros e me deu o paletó e alguns livros pra segurar, enquanto ele abria o carro. No mesmo instante, eu pensei porque não comeria na escola. Ah, óbvio, ela mataria aula. Não a culpei, afinal ela tinha em quem se espelhar. Ela deu um sorriso radiante e com um aceno, se despediu da gente, antes de voltar a correr pro prédio da escola. Só uma palavra martelava na minha cabeça: Craig.

Minha mãe assustou ao me ver chegar em casa tão cego. Tão logo chegamos, ela veio ao nosso encontro, as sobrancelhas franzidas. Não sabia dizer se ela estava, de fato, preocupada.
- O que aconteceu, filha? Voltou cedo - minha mãe já estava do lado de fora quando chegamos, fazendo uma pintura ao ar livre. Eu só fiz descer do carro, sem me importar em pegar os materiais. Na realidade, eu os havia esquecido, e me senti um pouco folgada ao ver carregando-os todos, apesar de ter sido sem muito esforço.
Quando minha mãe parou na nossa frente, eu me senti na obrigação de apresentá-los.
- Já te apresentei o , mãe? - eu sabia que não, mas disse casualmente e esperava ter sido o mais natural possível. Com certeza, o que eu menos precisava era minha mãe acreditando que eu estava saindo com outros meninos e se preocupando de qualquer forma.
- Creio que não - sua voz tornou-se mais doce, ainda. Olhei pra , pra me certificar que ele ainda estava ostentando aquele sorriso singelo e encantador. - É um prazer conhecê-lo.
- Ora, o prazer é todo meu, Sra. - ele fez uma pequena reverência com a cabeça e eu me perguntei onde ele teria aprendido isso.
Intercâmbio, talvez?
Eu passei pela porta seguida de , ouvindo a conversa fiada dos dois, quando minha mãe voltou a se dirigir a mim, com ternura. Eu podia apostar que meu pai não estava em casa.
- A aula acabou mais cedo, filha? - ela insistiu, e, sem saber se estava sendo ingênua, ou simplesmente irônica, eu concordei o mais verdadeira possível.
- Na verdade, - me corrigiu. Desejei mentalmente que ele não falasse, de fato, a verdade - a veio almoçar em casa, hoje, porque fomos liberados das aulas da tarde. Então, ela aproveitou pra me pedir ajuda em um trabalho de botânica.
Eu devo ter me esquecido de mencionar que apesar de figura de bom moço, resultado de boa aparência, situação financeira e educação (quando necessário), também era um pouco arrogante, orgulhoso e convencido, nas horas vagas. Normalmente, eu esquecia essa parte, porque os olhos dele me hipnotizavam justo quando eu estava a ponto de lembrar. De qualquer forma, eu estava de volta ao meu estado sóbrio e pretendia olhá-lo diretamente nos olhos somente depois de uma explicação coerente sobre aquilo. Quer dizer, o trabalho de botânica.
Segurei minha língua entre os dentes, pra não denunciar a mentira de , lembrando que eu mesma não tinha aulas de botânica. Biologia avançada já era suficiente pra mim e ele tinha tanta consciência sobre isso quanto eu. Ou será que isso é considerado botânica, de alguma forma?
- Onde está a ? - minha mãe sorria, simpática. Eu esperei pra ver se tinha alguma resposta interessante.
- Foi pra casa. Ficou tão cansada depois da prova de hoje, que precisou de descanso - o sorriso penoso e o jeito que deu de ombros quase me fizeram acreditar naquela mentira. Minha mãe se sentiu penalizada, também, mas em seguida virou-se pra mim. Eu juraria que ela ia perguntar se eu tinha ido bem na fictícia prova, mas, no entanto, me deu um beijo na bochecha.
- Não voltem tarde, crianças - revirei os olhos, ao absorver o fim da frase. deu um sorriso orgulhoso de canto e eu me senti um pouco desconfortável com a situação. Investi no assunto.
- Ela não foi pra casa do Craig? - confirmei, em voz baixa, assim que minha mãe se afastou.
Só fez concordar com a cabeça, e, em seguida, alfinetou, com certo desgosto.
- Eu não gosto do Craig. Sei que ele não faz nem vai fazer nada de bom pra ela - meu rosto se enrugou em uma expressão cautelosa. O que ele sabia? - Mas depois de tantas garotas estúpidas que ela trouxe pra minha vida, o mínimo que eu posso fazer é deixar que ela prove o próprio veneno - vingativo, também era vingativo. Além de observador.
- Você sabe que Craig a trai?
Fiz esforço pra notar qualquer oscilação em sua íris, mas foi inútil. podia esconder tudo o que sentia, às vezes. Até surpresa, se o tivesse sentido, não aparentava.
- Sim, eu sei.

- ? - me tirou de transe, passando a mão com cuidado pela minha. Eu percebi que encarava a minha frente, conforme as coisas se aproximavam de nós. Estrada, árvores, mato, e até neblina.
Estávamos no seu carro, indo a algum lugar. O qual eu realmente não sabia o que era, nem onde. Nem as placas, que apareciam vez ou outra, ajudavam a me localizar.
- Você ficou aérea, depois que saímos da sua casa - ele observou, perfeitamente, voltando a olhar pra frente depois de um olhar rápido pra mim.
Realmente, depois que saímos de casa, eu me pus a pensar em ter aliados. A aula de história geral me lembrou que, em todas as batalhas, nenhum país venceu sozinho. Por mais que não fosse exatamente uma batalha o que eu vivia, eu... Pensava se era conveniente me unir à . Ou ao menos tentar, uma vez que ele tinha a opção e liberdade pra recusar meu pedido.
- É - concordei com um aceno de cabeça, acariciando sua mão com pressa, antes que ele a tirasse da minha. - Foi algo que você disse...
- O que, exatamente? - insistiu e eu desejei tê-lo deixado curioso. Eu sempre gostei de um pouco de mistério, e como sempre lia meus pensamentos pelos meus olhos, eu nunca conseguia manter isso por muito tempo. Tentei ignorar que ele só não estava lendo meus pensamentos porque estava um pouco mais ocupado com a infindável estrada.
- Craig - meu próprio cérebro estava ficando cansado de dizer aquele nome, mas eu precisava por um fim naquela história, logo. - Você sabe que ele trai a sua irmã. Por que não faz nada?
- Porque mesmo que eu falasse, não iria adiantar. se acha tão esperta, que, caso eu dissesse alguma coisa, diria que inventei e falaria com o Owens, que ficaria ainda mais cauteloso - deu de ombros, voltando a se focar completamente na estrada. Pensei em perguntar onde estávamos indo, mas voltei ao assunto, ainda preocupada.
- Você não quer me ajudar a provar isso? - mal terminei de dizer e negou-me a pergunta. - É só me ajudar com o plano - insisti.
- Você tem algum plano? - arqueou a sobrancelha, com um sorriso de canto.
Esforcei-me pra manter o autocontrole, fosse lá pra que isso me serviria no momento.
- Na verdade, não tenho. Mas eu posso ter um plano, se você me ajudar. Você é bom nisso - despejei, sem realmente saber tampouco se ele me ajudaria ou era bom em armações.
- Sugiro que você prove isso a ela, porque se disser alguma coisa, eu duvido muito que ela acredite em você - ele rebateu ainda em discórdia.
Desviei a atenção do seu rosto e notei a tempo a curva que ele fez; dava-se em uma placa meramente conhecida. Era a placa que, tempos atrás, tinha o palhaço. Eu sabia disso porque tinha a marca ao redor de onde deveria ter o adesivo.
Tentei conter meu entusiasmo, fechando as mãos em punhos e apertando as unhas contra a pele. Eu realmente não me lembrava de ter ido por aquele caminho, mas, ah, eu tinha me perdido quando tentei ir. Pensando bem, eu tinha mesmo voltado por ali, com e . De qualquer forma, não foi possível conter o meu sorriso. Eu tinha ficado tanto tempo sem esperanças, (ou conformada o suficiente), acreditando que não voltaria ali, que assim de supetão me vi perto daquele paraíso cheio de luz, cores e vida. Na verdade, nós ainda adentrávamos o corredor de árvores com o carro, seguindo pela trilha, mas meu coração já batia acelerado, ansiando por estar de novo no píer, e então no barco, e então...
soltou um risinho, me tirando novamente do devaneio. Mordi a parte interna do lábio, virando o rosto com pressa pra encará-lo, quando percebi que tinha inclinado o corpo pra frente, ansiosa por ver mais daquele lugar que tanto tinha me encantado.
Não me importei de me virar sorrindo, pra ele, parecendo uma criança ao ganhar presente de natal. Eu me sentia radiante, brilhante, encantada.
E ansiosa.
- Vamos, , acelere - eu disse com um sorriso, enquanto ele obedecia, entrelaçando sua mão esquerda à minha e me...
De repente, fui me esquecendo sobre o que queria pensar antes, sobre...
Sobre algo que, antes, estava me preocupando e me estressando. Agora era primavera, e era esse um dos únicos pensamentos que rondavam a minha mente. Até porque, se no inverno aquele lugar era maravilhoso, na primavera deveria ser incomensuravelmente mais bonito.
Eu só queria estar de volta naquele lugar, eu precisava. Não sabia se era , ou se era o lago, o que me fazia esquecer todos os problemas, as preocupações e o que mais pudesse infernizar e me martirizar.
Talvez o que tivesse um efeito bom nele, também tivesse um efeito bom em mim e talvez, eu ousava pensar, eu pudesse pertencer àquele lugar, algum dia. Eu só precisava que estivesse ali, também, ou não estaria completo.

- Tem algum motivo pra estarmos aqui? - a sobriedade finalmente me alcançou, depois de desviar o olhar do seu.
Seus olhos brilhavam ao espelho d'água, que estava atrás de mim, e eu só me lembrei de perguntar sobre isso, quando o sol se punha. O que, eu devo admitir, era um espetáculo. Sem pensar muito, e justo quando olhei para os pés, respondeu de uma só vez:
- Você é o motivo - eu senti um arrepio engraçado e sorri contra a minha vontade, ainda sem coragem de olhá-lo. Podia jurar que ele tinha tombado a cabeça alguns graus pro lado, como fizera da primeira vez que nos vemos.
Senti as bochechas arderem, e, antes de dizer qualquer coisa, ele se aproximou de mim, a passos largos na verde grama, (que, acredite, estava incalculavelmente mais brilhante do que da primeira vez que a vi), e levou as mãos até a minha cintura. Comecei a acreditar que deveria me acostumar às sensações que ele me proporcionava; como, por exemplo, o calor equivocado que tomava conta do meu corpo a cada vez que ele me olhava nos olhos, ou encostava sua pele na minha. A princípio, pensei que ele fosse me abraçar, mas o caminho que seu olhar fez sobre o meu rosto, demorada e calculadamente, me fez pensar em outra ação.
Seus olhos , mais uma vez magníficos, me encararam, espreitando-me. Foi quando me permiti observar o seu rosto, explorando cada poro, célula e milímetro, mesmo que a uns quinze centímetros de distância; era o suficiente pra que eu tivesse o foco perfeito, embora eu tivesse a certeza de que seria muito mais interessante observá-lo mais de perto.
Não consegui parar de encarar sua boca, e por um instante, até acreditei que fosse ficar ali pra sempre; acredite, eu poderia. A boca de estava entreaberta, e ele puxava o ar pesadamente, me dando o anseio de tirar o que quer que o estivesse preocupando, de dentro de sua cabeça. Ou talvez eu é que estivesse ficando paranóica, mesmo, já que agora tinha seu corpo tão perto do meu. Isso era motivo suficiente pra que eu perdesse a razão.
Só me dei conta que estava entre seus dois braços, num verdadeiro e digno abraço, quando ele deu uma leve apertada no meu corpo contra o seu, provavelmente percebendo que meus olhos tinham perdido o foco e eu me perdi dentro da sua beleza. De alguma forma, eu sentia que precisava daquele menino tanto quanto precisava de pulmões, ou que algum dia iria querê-lo a esse tanto.
E, por mais que às vezes, ele me fizesse prender a respiração, mesmo que inconsciente, e isso parecesse ruim, eu até gostava disso. De um modo desastroso, chegava a ser adorável.
Esforcei-me pra trazer uma lufada de ar pra dentro dos pulmões e tomei coragem de encará-lo nos olhos, com a consciência que de lá não sairia tão cedo. Com os pensamentos perdidos dentro de suas íris e solenes, eu fechei os olhos, impulsionando o corpo levemente pra frente e para cima, pra que ele encaixasse os seus lábios nos meus.
Percebi quando seu rosto se aproximou mais do meu, por sentir sua respiração quente bater no meu rosto, e quando sua boca finalmente se encaixou na minha, foi como se uma corrente de fogos de artifício tivesse explodido dentro de mim. Incontáveis células do meu corpo vibraram, me proporcionando a sensação de um choque elétrico, junto com a alegria que fazia meu coração acelerar, também ansioso por mais.
Selei com um pouco de urgência, até, meus lábios aos dele, quando ele os separou, inflando o peito. Sequer cheguei a pensar que ele precisasse de ar, eu só conseguia pensar na minha necessidade. O meu egoísmo, a minha vontade. Meus lábios pareciam estar formigando, tamanho o desejo que sentia de tocá-los.
E não que eu pudesse realmente explicar, eu só precisei tocá-los, assim como eu sentira que precisava ir àquele lugar.
A combinação de e o cenário perfeito me deixavam estonteada e eu fraquejei nos joelhos, por um instante, desejando ter recuperado rápido o suficiente pra que ele não notasse. Deu certo, e eu dei um passo pra trás. Provavelmente entendendo que eu precisava de algum tipo de apoio, me guiou, mesmo que de costas, até uma árvore, e me prensou contra ela. Eu estava encurralada, no sentido mais amplo da palavra.
Em seguida, foi muito mais fácil beijá-lo. Depois da risada fraca e de sensação calmante de brincar com os meus ouvidos, o dorso da sua mão passou pela minha bochecha, me fazendo fechar os olhos devagar. Tive que piscar algumas vezes, pra tentar mantê-los abertos por mais tempo do que (achei que) conseguiria. Demorei alguns segundos pra compreender a sensação que eu sentia na boca do estômago, brincando com o pouco de seriedade que me restava. Parecia uma espécie de cócegas; borboletas?
levou a boca ao meu pescoço nu, enquanto eu ergui a mão até o seu pescoço, arranhando-o devagar. Beijou meu maxilar devagar, o que me deu uma sensação completamente nova de felicidade, e foi descendo então para o meu pescoço, quase a ponto de alcançar a nuca. Eu sentia meu corpo pulsar conforme os seus lábios passeavam pela minha pele, e, eu me atreveria dizer, a sensação de cócegas agora se alastrava por onde ele passava seus lábios quentes; minha respiração fazia alguns pauses, tão delicado era seu toque que eu não queria atrapalhá-lo.
Talvez eu estivesse me sentindo completa, conforme meu sangue pulsava. De repente, como num flash, quando aprofundamos (mais) o beijo, foi inevitável a presença dele na minha mente. Senti uma fisgada na boca do estômago e minha alma pareceu definhar por ali. Gradativamente, eu senti o ar me faltar, e dessa vez, do jeito ruim. O que me obrigou a abaixar as mãos até os ombros de , afastando-o levemente de mim. Eu clamava por ar, e parecia que não tinha nada parecido ao meu redor, parecia que tinha me esquecido sobra como fazê-lo.
A imagem de , a imagem mais recente que eu tinha dele, foi o que me fez parar de respirar.
Eu não estava preparada pra recordar disso justo quando beijava e, na verdade, não havia parado de respirar porque estava entusiasmada, mas porque estava assustada.
Bati as pestanas algumas vezes, recostando a cabeça na árvore e pensando se o ar voltaria à mim, quando me dei conta que não tinha parado de respirar nem por um segundo. ainda me segurava, e eu já acreditava que era por causa disso que meu corpo continuava funcionando em perfeita ordem. Todas as coisas pareciam tão difíceis de serem definidas, ditas ou... Qualquer coisa, mas ainda estava lá. Essa era uma certeza fácil de pronunciar.
- , você está bem? - ouvir a sua voz, mesmo que preocupada, me fez sentir melhor. Controlei um impulso de empurrá-lo e sair correndo dali somente por causa dele. Eu não podia decepcionar a ele, não mais do que já deveria tê-lo feito, terminando um beijo encantador de forma tão abrupta.
Pensei em algumas coisas pra responder, numa fração de segundos, mas nada me pareceu adequado, enquanto eu mantinha os olhos diante dos seus, sempre tão majestosos e mesmo que às vezes humildes, superiores. Não me atreveria a dizer que não podia. Ele e eu sabíamos muito bem que eu não tinha nenhum tipo de compromisso sério, e por isso mesmo eu não podia usar essa desculpa. Além disso, me lembrava filmes adolescentes beijar e se arrepender com um 'eu... não posso', e sair correndo.
Eu não estava arrependida. E eu precisava ser um pouco mais forte do que isso. Bem, um pouco menos fraca, pelo menos.
- Eu... - mordi o lábio, puxando com um pouco de dificuldade o ar, como acontecia quando eu via um casal, dois meses atrás. Aproveitei o tempo extra pra pensar em uma desculpa cabível. - Senti falta de ar.
- Quer voltar pra casa? - eu percebi que ele perguntou com relutância, não queria propor aquilo. Mas eu precisava, e mais uma vez eu pensaria em mim primeiro. Concordei, meneando a cabeça afirmativamente. Se ele realmente soltou um suspiro desaprovando minha atitude, eu não percebi. Estava muito ocupada, me afundando em pensamentos estúpidos.
Afinal, que tipo de pessoa eu era? me tirava da pacata Manchester pra me levar ao tão por mim adorado lago, que, por acaso, só ele sabia onde ficava. O que eu devo admitir, só aumentava minha excitação sobre o local; o segredo sobre sua localização. Ele assumia que o motivo de estar ali era nada mais, nada menos do que eu, e eu recuava, como uma criança com medo do armário, o que, convenhamos, é insano. Eu recuava quando ele dava um passo à frente. Um passo que fazia toda a diferença quando tudo que eu precisava fazer era parar de ter alucinações com e de deixar minha vida no zero a zero. Porque, de alguma forma bem inumana, eu sabia que não o teria de volta. E meio que me conformava com isso, embora quando eu o visse - de verdade ou não -, minha opinião parecesse fraquejar.
Abracei com a cabeça ainda meio erguida, fechando os olhos com pressa, assim que ele me encarou, ainda tanto aflito quanto confuso. Sabia que ele tentaria me decifrar e era justamente o que eu não queria; não queria que ele lesse através de mim e entendesse a história que acontecera entre o garoto que cruzara com ele naquela mesma manhã e eu. Eu mesma queria esquecer isso, mas como?
Suspirei, me forçando a esquecer essas cognições, mantendo-as reclusas em algum cárcere dentro do canto mais isolado da minha mente. , a princípio, ficou estático com o abraço, mas depois de alguns segundos, ele me devolveu a carícia, passando os dedos pelos meus cabelos. Sussurrou qualquer coisa ininteligível e nós voltamos para o barco, e então para o carro. Fiz todo o caminho quieta, já que nenhum de nós dois ousou abrir a boca.
Era óbvio que tinha algo errado.
queria descobrir o que era e eu queria esconder; tanto quanto possível. Na verdade, queria esquecer o motivo pelo qual parti o beijo e decidi covardemente voltar pra casa, quando tinha o paraíso na palma da minha mão, abraçando-me pela cintura.
Não consegui evitar o sentimento de fracasso, assim que me sentei no carro dele. estava errada, não era a pessoa menos 'envolvível' do mundo. Essa pessoa era eu.


Capítulo 9



Continuei me sentindo frustrada, mesmo depois de dizer mil vezes que estava tudo bem. O sorriso dele quase me convenceu.
A meu ver, ele realmente tinha acreditado que me faltou o ar. Não chegava a ser exatamente uma mentira. Omissão, quem sabe.
De qualquer maneira, eu ainda me senti estranha, mesmo depois de assisti-lo sumir de vista, com a sua BMW. E, eu devia admitir, o carro era legitimamente lindo. Tomei um banho e liguei pra , que não me atendeu ao celular. Tentei no número de casa, e sua mãe disse que ela não estava em casa, perguntou até porque eu não tinha ido encontrar-me com ela, no Café. Imediatamente, veio até mim a imagem dela sozinha, brava e pressionando um indefeso copo de vidro entre seus finos, porém fortes, dedos.
Eu só me perguntei por que ela não atendeu a minha ligação.

Não consegui chegar ao Café a tempo, e, percebendo que ela não estava lá e tinha ido embora, eu decidi ir pra casa. Estava cansada, portanto precisava da minha cama.
No dia seguinte ela não me esperava em frente ao colégio. Eu engoli a seco, meio que esperando isso, mas meio frustrada. Talvez fosse mais uma prova que era puro erro criar esperanças; só causavam problemas, onde quer que fosse.
Suspirei fundo e caminhei lentamente até o portão, sem motivação alguma. A única coisa, aliás, que me fazia andar era o medo de encontrar por acaso, em qualquer corredor. Por esse motivo, caminhei com o olhar baixo, tentando não esbarrar em (quase) ninguém. Quanto menos, melhor. Eu apertei os olhos, quando esbarrei em alguém que, pelo calçado, eu poderia dizer quem era. Sutilmente me desvencilhei como uma fuinha covarde, daquelas que correm quando menos se espera. Balancei a cabeça, abstraindo minhas comparações absurdas e sem lógica.
Chegava a ser clichê demais que eu me encontrasse com alguém tão conhecido. De qualquer forma, eu tinha consciência que aquela escola não era grande o suficiente pra que eu ficasse escondida de algo ou alguém por bastante tempo. Ou um dia todo. Infelizmente, muito menos de mim mesma.
Os letreiros de 'covarde' piscaram fervorosamente pela minha consciência enquanto eu me dirigia à sala de aula, por mais que faltasse algum tempo pra bater o sinal. No mínimo, o suficiente pra bater um bom papo. Sentei devagar, já que tinha chegado ao meu destino, abri o caderno e desenhei qualquer coisa aleatória, no intuito de fazer o tempo passar mais rápido. Como era praticamente minha única amiga no colégio, e eu não tinha muitas aulas com ela, eu já esperava sentar sozinha na carteira ou ficar sem dupla. Bem, foi o que aconteceu.
A professora mal amada passou qualquer coisa inútil na lousa, pra que copiássemos e depois deu um texto pra fazermos. Fiquei surpresa de ter acabado o texto rápido, levando em conta que estava um tanto conturbada e tinha quase certeza que não conseguiria me concentrar. Foi mais fácil do que eu pensei, apesar da qualidade do texto produzido ser algo questionável.
Fingi que tinha me esforçado o suficiente pra que ficasse bom e sorri quando a professora elogiou-o, passando os olhos por cima. Nós duas sabíamos que ela nem tinha lido, tampouco leria ou chegaria a saber se o texto estava bom ou ruim, mas eu teria a nota do mesmo jeito. Nós duas fingimos que estava tudo ótimo e cada uma foi pro seu lado. Bem isso é teórico, já que eu fui liberada da aula, enquanto ela continuou recolhendo as últimas redações, sentada em sua mera cadeira de professora.
Aguardei no pátio, nem um pouco ansiosa, pela próxima aula. Feliz e infelizmente, nada muito diferente aconteceu até que batesse o sinal do almoço, exceto por não ter ido à aula de biologia avançada que tínhamos. Eu não tinha mais visto sombra de , não tinha me mandado sms alguma e não tinha me dado sinal de vida.
O lado bom (e era um grande esforço ver por esse lado) era que eu não teria que aguentar brigando comigo pela minha falta ao Café, quando eu passei a tarde com o seu irmão, e também não teria que aguentar de cara fechada. Na realidade, eu só imaginava que ele estaria de cara fechada, porém sabia que mesmo que o estivesse, esconderia muito bem de mim. Eu provavelmente já disse que ele é muito bom nisso. Por último, ainda olhando pelo lado bom, eu não estava tendo alucinações com , por mais que no dia anterior eu tivesse tido a prova que ele era mais real e concreto do que meu medo do escuro. O que importa é minha sanidade. E o lado ruim - e que anulava todos os pontos bons - é que, aparentemente, eu estava sozinha.
Peguei minha bandeja de almoço, o suco de manga e rumei à mesa que costumava sentar com .
Alguns minutos se passaram até que ela se sentasse ali. Estava sem o uniforme da escola, usando apenas o paletó desabotoado por cima. Ela passou algum tempo com a cabeça pra frente, e eu imaginava que observava o meu cashmere. Arriscou, então, algumas palavras.
- Craig me disse algumas coisas sobre você - eu esperava qualquer frase, desde 'bom dia, ' até 'cretina, me deixou esperando'. Tudo, menos isso. Realmente fui pega de surpresa. Levei uma colher de qualquer coisa à boca e mastiguei antes de perguntar:
- O que ele falou? - foi inútil fingir desinteresse. Ela legível nos meus olhos a sentença: estou ardendo em curiosidade. Ela pareceu perder a paciência e, deixando os talheres ao redor do prato, só fez levantar os óculos de sol que ostentava, pra cabeleira. Ostentava, na verdade, olhos vermelhos.
Instantaneamente eu liguei os olhos avermelhados de ao que Craig deveria ter dito sobre mim. Franzi as sobrancelhas, incapaz de formular qualquer frase. Deixei que ela falasse.
- , se tinha alguém em quem eu achei que pudesse confiar, esse alguém era você - ela ter começado o discurso de tal forma me fez entreabrir a boca. Era a confirmação das minhas teorias mais incabíveis. - Eu nunca pensei que, tendo o meu irmão ao seu lado, você iria querer mais. - Meus olhos se arregalaram pra fora das órbitas, dessa vez.
Um que eu não sabia que ela tinha conhecimento sobre eu e . não queria contar a ela por convenção e eu, por medo. Não sabia qual seria a reação dela, embora estivesse batendo de frente com isso agora. Dois: quem diabos contaria tudo isso a ela, senão eu ou ? Ah, Craig.
Minhas mãos queimaram feito brasa, em raiva, contudo eu tive que reprimir a raiva até que ela terminasse de contar. Minha cabeça dava voltas, e com tantas perguntas rondando-a, eu mal sabia o que dizer.
- Foi Craig quem te disse isso? - perdi o controle da situação, deixei que minha voz guinchasse. - Quer dizer, sobre ?
- Foi - ela consentiu, com pesar. Torceu o lábio, dando de ombros em seguida. - Mas esse não é o problema, eu até entendo que tenham medo da minha reação. Eu sei que sou um pouco explosiva às vezes, mas... , o Craig? O que você iria querer com o Craig, um nerd que não faz mal pra ninguém?
No mesmo instante, eu senti como se o mundo tivesse parado. Acho que doeria menos se alguém tivesse me arremessado contra uma parede e depois me jogado no fundo do mar; aposto que não sentiria quase nada. Meu olhar subiu pesarosa e lentamente do prato até os olhos dela, e eu permaneci ali, estagnada, os olhos arregalados e a boca escancarada. Meu coração bateu descompassado, em nervoso, e pega de surpresa mais uma vez, eu balbuciei qualquer coisa, ainda ingerindo aquela informação. Afinal, o que, exatamente, eu iria querer com Craig?
- Mas é isso o que eu quero saber. É uma ótima pergunta - fechei as mãos em punhos, evitando dar uma olhada ao redor. Se encontrasse o cretino num raio de dez metros, acabaria com aquele sorrisinho embasbacado dele. E 'morte' com '' na capa não exatamente era algo que eu queria nas manchetes do próximo domingo. Não que eu me importasse com isso, quando o morto era Craig.
Além de trair , a tinha feito chorar. E pelo motivo errado, como se não bastasse. A coitada deveria ter chorado por acreditar que... Merda, ela... Não, ela não podia acreditar.
Ela me conhecia muito melhor do que a ele, não era possível que ela ficasse do lado dele. A verdade dele não era a certa. Era uma mentira.
- Eu nunca tentaria nada com aquele traíra. Nunca, . Você me conhece, você sabe do que eu sou e do que eu não sou capaz - eu levei as mãos em direção ao próprio corpo, me defendendo. Realmente, eu estava perdendo o controle. Tantas coisas passavam pela minha cabeça, e tudo tão rápido, que eu não conseguia me organizar no meio de tudo aquilo. A única coisa que eu podia e sabia dizer era que eu não, eu nunca ficaria com ele. Eu nunca trairia a confiança da minha melhor amiga por um garoto. Um garoto que ela ama, ainda! - Isso é um absurdo! - completei.
- Exatamente, . E eu nunca achei que você fosse assim. Eu... Estou muito decepcionada com você, .
O ar escapou dos meus pulmões antes que eu pudesse retê-los, assim que ela me chamou pelo sobrenome. A coragem que eu sentia pouco antes para desmascará-lo sumiu e o que tomou conta do vazio foi a indignação. Como ele tinha sido capaz de fazer algo do tipo? Armar minha melhor amiga contra mim? E como ela tinha acreditado nele?
Eu sabia que o amor podia ser cego, mas não acreditava que chegaria a tanto.
- Eu não tinha noção da sua falta de cérebro, - eu sabia que mais cedo ou mais tarde eu a magoaria com essas palavras rudes, e ainda, mais cedo ou mais tarde, ela as entenderia. Nem que eu tivesse que dar o sangue por isso, era minha honra. - Se tem alguém decepcionada aqui, esse alguém sou eu. Com você. Como pôde ser tão cega e acreditar nesse cretino? - ela abriu a boca pra falar, e eu voltei a falar por cima. Por esse instante, percebi que o refeitório inteiro fizera uma roda ao redor da nossa mesa. Não consegui me importar com eles, ainda. - Ele traiu a sua, a minha e a confiança do . Ele mentiu pra você, ele está mentindo pra você, , pelo amor de Deus! - eu vi quando uma lágrima caiu dos seus olhos, e ela rapidamente abaixou os óculos, no intuito de esconder a vermelhidão dos olhos mais uma vez. - Eu o vi traindo você. Com outra. , você não pode acreditar naquele imbecil.
Eu sabia que discursos grandes normalmente faziam as pessoas prestarem atenção a trinta por cento do que é dito, mas como ela poderia não acreditar em mim?
- Ele previu tudo o que você diria, - ela disse, entristecida. Sua voz saiu suave, chateada. - Todos os pontos e vírgulas. E você até colocou o nisso, sendo que ele nem se mete na minha vida pessoal.
Mordi a língua, pra não devolver com (mais) falta de educação. Eu poderia ter dito tantas, tantas, tantas coisas, mas acabei sem dizer nada. Minha língua simplesmente se mostrou inerte a todo e qualquer esforço que eu fizesse pra movê-la. Não disse nada, apenas senti uma lágrima escorrer pelo canto da minha bochecha.
devia ter dito algo sobre eu não sair dali quando eu me levantei, porque não tínhamos terminado de conversar, mas eu só meneei a cabeça em discórdia, finalmente cedendo às afirmações dela. Entreguei os pontos assim, sem mais nem menos, simplesmente por perder o rumo.
Ainda estava me esforçando pra entender o que se passava ali. Meu cérebro se esforçava como nunca pra criar possibilidades; eu precisava saber como e o que ele tinha dito.
E mesmo que ele tentasse, ele não adivinharia que eu falaria pra naquela tarde, a anterior, que ele a teria traído. A não ser que ele lesse mentes, o que tornava a teoria completamente aceitável, porém impossível. Outra possibilidade era que tivesse falado pra ele que me encontraria aquela tarde. Ela poderia ter dito que eu estava estranha, e malditamente nerd como Craig era, ele teria captado tudo no ato e resolvido a história à moda dele. Agora acreditava nele porque pensara que no dia anterior... No dia anterior eu estava me sentindo culpada. ÓBVIO, desvendado.
Arregalei ainda mais os olhos, se possível, e peguei meu material de qualquer jeito, pra enfiar tudo na bolsa. Peguei-a de qualquer jeito e saí voando pelos corredores, esbarrando antes em todos os curiosos que estavam à minha frente. Lembro de ter lançado um olhar repugnante à , antes de sair dali. Eu senti nojo, e por outro lado, dó, dela ter acreditado na besteira do namorado dela. Aliás, eram namorados? Só parei num corredor de armários, quando dois braços me seguraram bruscamente, impedindo-me de mover.
- Aonde pensa que vai? - eu desejava ter escutado todas as vozes possíveis, exceto essa. Meu corpo estremeceu, em nervoso, e eu começava a acreditar que explodiria a qualquer segundo.
- Não é da sua conta. E sai da minha frente, seu cretino - tentei gritar, mas minha voz não saiu mais alto do que como se fosse aquela uma conversa normal. Talvez eu tivesse medo dele, se comparasse a minha inteligência à dele. Agora eu sabia que ele era inteligente o suficiente pra acabar com meus planos antes mesmo que eu os dissesse em voz alta. Eu pulsava em ódio, até porque odiava quando alguém descobria e destruía o que eu planejava. Se meus olhos mudassem de cor conforme meu humor, certamente minhas íris teriam o tom vermelho mais vivo jamais visto.
Seu sorriso cínico se abriu na minha direção e instintivamente, eu recuei alguns passos. Ou tentei, já que ele ainda me segurava pelos ombros com uma força que ninguém jamais impusera a mim.
- Então, . Parece que meu plano está indo às mil maravilhas, não é? E se não está, começamos bem, eu diria - deu um sorriso descarado, o sorriso que eu desejava nunca ter visto na vida. Especialmente no rosto dele. - Um passo de cada vez, e eu chegarei lá. - ele dizia, o olhar calmo demais pra que eu pudesse desvendar o que estivesse por vir. Sequer ousei perguntar onde ele queria chegar.
- Me solta, Craig Owens - me ouvi rosnar. Meu maxilar se mantinha rígido, contraído. Eu olhei ao redor, nos armários, pelo corredor, e não consegui ver ninguém, mas não liguei isso ao fato de eu não estar raciocinando direito. Assim como eu via coisas onde não tinha, eu poderia não ver onde teriam coisas. Ou pessoas.
Assim sendo, sem platéia, eu ergui as mãos pra socá-lo no peito, com toda a força que me restava. E olha que não era pouca, apesar de ter gasto boa parte da minha energia tentando dialogar com , mesmo que de forma malsucedida.
Os socos mal distribuídos pelo seu peito não pareceram fazer muito efeito sobre o garoto, porque ele nem ao menos fez cara de dor. Eu me perguntei se seria uma velha tática pra que eu pensasse que não estava dando certo e parasse. Com esse pensamento, eu bati com o triplo de força, apertando os olhos, até que ele parou os meus braços pelos punhos. Dei-me conta do quão forte eu era perto dele. O que, algebricamente falando, significava uma porção mínima de quase nada.
Por mais que eu tentasse manter a aparência razoavelmente ofensiva, a minha força me impedia de cumprir com a minha intenção. Nada conveniente. Ele me prensou contra a parede e foi a primeira vez que eu odiei estar entre a parede e alguém. Que eu me lembrasse, ninguém nunca tinha me forçado a nada.
- Sabe o que vai acontecer agora, ? - tive a impressão de seu sorriso ter se alargado mais ao início da seguinte frase: Eu vou dar o golpe de misericórdia - seu olhar saltava de um olho ao outro meu, ele parecia, ao mesmo tempo que excitado, preocupado. Isso me deu a certeza que tinha mais do plano dele pra vir, eu só não sabia o que poderia ser, embora fizesse a mínima ideia do que seria. Ainda assim, a mínima ideia não me deu base o suficiente pra que eu tomasse alguma providência. Não a tempo.
Só tive tempo de negar com a cabeça, um pouco zonza, quase compreendendo o que aconteceria em seguida. Ouvi passos vindos da escadaria e concluí que seria , me seguindo pra obter algum tipo de explicação ou me fuzilar um pouco mais com o olhar. A única coisa que eu não soube explicar foi como eu acabei de frente pra Craig, que estava entre eu e a parede.
De repente, a sua mão me tomou pelo pescoço, e se em um segundo, me puxava pra ele, no outro, me empurrou na direção oposta. É mais do que certo que eu caí sentada, na pose mais humilhante possível. Agradeci mentalmente por ele não ter selado a sua boca imunda e nojenta à minha. Pra ser sincera, até cair era mais agradável que estar perto dele, contanto que fosse cair pra longe dele.
O que eu não esperava, apesar de todas as evidências, era que estivesse ali. Eu tombei a cabeça pra trás, escondendo-a entre as mãos, pensando se Craig poderia ser um pouco mais psicopata. Como demônios ele teria conseguido bolar um plano tão imensamente encaixado? O pior, eu caíra em todas, absolutamente todas as armadilhas dele.
Eu sequer tinha conseguido socá-lo decentemente. Quer dizer, por que meninas eram tão relativamente fracas, perto de meninos? No sentido físico-brutal, mesmo.
me encarava mais perplexa do que nunca. Pensei em voltar a esconder o rosto entre as mãos, mas alguma coisa me prendeu ali, encarando o seu rosto chateado sobre mim. Sua expressão não poderia ser mais escandalizada. Ou decepcionada, eu não sei dizer. Só sabia que tinha algo de muito ruim e muito triste em seu rosto, seu olhar e no seu lábio torcido. Pela primeira vez, acreditei que ela tivesse nojo de mim, tão forte quanto eu de Craig.
Suspirei, me apoiando nas próprias mãos pra me levantar, enquanto ela começava a oratória, aos berros. Devo acrescentar também que isso não melhorou em nada o meu humor.
A cada segundo que passava, as coisas pioravam, por mais que parecesse impossível. As coisas sempre podem piorar, não é Murphy?
- , eu... Você me envergonha, . Eu tenho vergonha de dizer que te conheço. Você é ridícula - cuspia as palavras, franzindo as sobrancelhas em horror.
Mesmo sabendo que ela estava errada e que toda aquela situação tinha sido armada, não pude evitar que aquelas palavras me ferissem. Afinal, pra isso que elas foram proferidas, não?
Craig, atrás dela, ostentava um pequeno sorriso de vitória, o qual escondeu assim que ela deu uma olhadela pra trás, ver o que eu tanto encarava, com ódio no olhar. Eu desejava arduamente que olhares pudessem matar. Desejava com todo o meu sangue, que pulsava escandalosamente pelas minhas veias.
Ok, isso eu já sabia; ele queria arruinar a minha amizade com . Agora, qual o motivo?
Sabia que não adiantaria nada, absolutamente nada, dizer qualquer coisa. Sabia tanto, aliás, que decidi sair dali antes que mais alguma coisa ruim acontecesse. Já tinha percebido que levantara com o pé esquerdo, portanto o melhor era eu parar de dar chances para Craig. Por mais que ele já tivesse fodido tudo que estivesse ao seu alcance, eu achei melhor erguer guarda e sair dali, já que de uma forma ou de outra, aquele imbecil me surpreendia com novas maneiras de acabar comigo. E foi o que fiz, por fim, mesmo sabendo que tinha sido a coisa mais covarde entre todas que poderia ter feito.
As coisas estavam saindo do meu controle, e procurando uma saída pra encrenca na qual eu me metera eu pensei em , a única pessoa que sabia sobre o outro lado da moeda e que eu tinha quase certeza que confiaria em mim. Não, eu tinha absoluta certeza. era o meu aval, e eu precisava encontrá-lo logo. Antes que qualquer outra pessoa o fizesse, embora eu soubesse que ele acreditaria em mim, não em ou Craig. Ficara combinado entre nós que toda e qualquer informação que saísse da boca de Craig seria inválida e irreal.
Por mais que a tarde anterior tivesse sido um desastre por minha causa, eu sentia que ainda podia contar com ele. Eu pensei ter visto enquanto cruzava um corredor, mas muito ocupada com meu choro compulsivamente nervoso, eu deixei pra me preocupar com alucinações depois. Talvez eu precisasse me internar; as coisas estavam começando a dar errado demais pra mim.

Saquei o celular assim que saí pela porta corta fogo do prédio D. Eu esperava que não tivesse me seguido, porque eu realmente não queria isso. Não queria me sentir mais vulnerável do que já me sentia.
Eu só precisava ligar pra .
'Eu já sei de tudo, . Estou indo praí', ele disse com pressa, antes de desligar. Acho que ele mal sabia onde eu realmente estava, já que levou algum tempo até que saísse por aquela porta, mas confesso que só de sentir sua preocupação na voz, eu me senti melhor. Eu esperava sentada no tronco, afoita, quando ele finalmente me encontrou.
Levantei num salto e corri de encontro a ele, até que nossos corpos colidiram, num abraço demorado. Eu precisava de proteção, e de alguma forma, ele estava me passando o que eu precisava. Pela lógica, continuei ali, abraçando-o, até que ele tomasse frente de alguma ação. Percebendo que ele apenas devolvia meu abraço com cuidado, eu deixei que escapassem algumas coisas da minha boca.
- Eu não sei o que fiz de bom pra conhecer você - ele ficou em silêncio diante da minha declaração. Eu já disse que, às vezes, a melhor resposta é o silêncio?
- Tudo bem, , ele vai ter o que merece - respondeu, finalmente, num suspiro depois de longos segundos.
Não era exatamente a resposta que eu esperava, mas ainda assim, me confortou. Suspirei, fechando os olhos, apertando-o com um pouco mais de força contra mim.
Depois de alguns segundos assim, não sei dizer exatamente o quanto demorei no abraço, ele me afastou vagarosamente do seu corpo, me olhou nos olhos e segurou meu rosto, com cuidado. Depois do empurrão de Craig, qualquer toque mais fraco era cuidadoso e delicado, comigo.
Dei um sorriso encabulado e um tanto preocupado, antes de receber um selinho dele, que voltou a repetir o que dissera antes, dessa vez, em promessa.
- Não confia em mim? - instigou, com um sorriso de canto. Apenas concordei com a cabeça, sentindo o ar voltar a passear livremente pelos meus pulmões. Era como se algo que tampasse a minha garganta enquanto eu estava perto de Craig saísse dali quando eu me aproximava de . E isso me fazia sentir tão imensamente bem, que toda vez que eu estava perto dele, eu desejava parar o tempo. Toda vez.
- Não confio no Craig - respondi com cuidado, pra evitar que caísse no choro. - Você viu o que ele fez. Você... Você, quer dizer, você sabe.
, percebendo que eu me enrolara nas palavras, me puxou pela mão e sentou no banco. Sentei ao seu lado, enquanto ele puxava minhas pernas pra cima das pernas dele. Nós ficamos algum tempo em silêncio, e então ele voltou a falar, remexendo na mochila e pegando uma câmera.
- Você vai ficar brava comigo, mas... Eu precisei fazer isso.
- Uma gravadora de vídeo? - eu cuspi, indignada. Agora que tudo tinha passado, de que me servia aquilo?
Ele concordou com a cabeça, mordendo o lábio. Estremeci.
- É, mas você tem que assistir o que está gravado.
Encarei-o com cara de interrogação, até que ele abriu e ligou a câmera. Levei meus braços ao redor do corpo dele, pra me segurar e garantir que eu não cairia, enquanto ele escolhia o tal vídeo pra que eu assistisse. Eu não sabia pra que tinha que assistir a um vídeo, mas se fosse me acalmar, eu aceitaria até maracujá com tylenol.
Apertou o play e a imagem negra rapidamente deu lugar à duas pessoas conversando. Na verdade, eram vozes e eu reconheci Craig e nelas. Minha boca se escancarou ao ouvir o seguinte.

- Craig, tem uma coisa que eu preciso te falar, cara - a voz de deu abertura ao vídeo. A camiseta à frente mal se movia, e pela escuridão ao redor da tela, notava-se que a câmera estava dentro de algum lugar, escondida.
- Fala, - o outro respondeu, fingindo desinteresse e camaradagem ao mesmo tempo. Craig nunca fora muito amigo de , a não ser por conveniência.
- Sabe a ? - ele pigarreou, continuando o assunto. O outro respondeu com um murmúrio instigante e ele voltou a falar. - Pois é, cara, ela pegou você traindo a , a minha irmã.
- Você sabe que eu não faria isso - continuou a fingir desinteresse. respondeu com a voz rude, em afirmativa.
- Nós dois
sabemos que você fez.
Os dois permaneceram em silêncio por alguns segundos, até que tornou a falar.
- disse que vai contar a depois de amanhã, quando as aulas começarem. Disse também que depois disso, nunca mais te olhará no rosto; ela planeja afastar vocês dois porque disse que você não é bom pra ela - eu ousava dizer: ele disse com arrogância. - Você sabe que, sendo melhor amiga dela, tem voz ativa nas decisões dela.
Craig ficou em silêncio e só se ouvia, por alguns segundos, a respiração pesada dele. Dele ou de . Suspirou e finalmente respondeu:
- E por que você me ajudaria a livrar minha pele?
- Você é um cara esperto, eu não iria te querer contra mim. Apesar de você ter errado com a minha querida irmã. É algo que você tem que corrigir.
- O que você acha que eu posso fazer? Quer dizer, a não pode descobrir isso - sua voz pareceu preocupada.
- Então não deixe que ela descubra. Você tem dois dias - a voz de me remeteu a líderes de gangue, do tipo mal encarados que deixam tudo subentendido.
- Uh, ok. Eu vou tomar as providências necessárias - Craig respondeu com uma tosse fingida. No mesmo instante que disse a próxima frase, a câmera se ergueu. Ele devia ter erguido a mochila.
- Certo, a gente se vê por aí, camarada.
Era claro que o 'camarada' dito por era nada mais nada menos que falso. Dava pra notar pelo tom da voz, mas Craig, que agora aparecia no vídeo, apenas sorriu de volta; sorriu de canto, meio apreensivo.


O vídeo voltou a ficar preto e , um pouco excitado demais com a situação, eu diria, voltou a esticar o dedo pra colocar o próximo vídeo. Eu o parei, encarando-o. Queria ver a reação do seu rosto, enquanto eu concluía, ainda confusa.
- Então, foi tudo um plano... seu?


Capítulo 10



Pensei, numa fração de segundo, se deveria ficar com raiva dele, mas decidi que não precisava ser tão severa.
- Você é quem o viu trair, e é a melhor amiga da . É óbvio que você é o primeiro alvo que ele teria que afastar dela. É muito claro que só confiaria em você - ele coçou a nuca, parecendo pela primeira vez... vulnerável. Pela primeira vez, era como se eu tivesse desvendado-o, por mais bobo que parecesse o motivo.
Eu ainda estava digerindo as informações que o vídeo me trouxera. Era um plano de , tudo um plano de ... No fim das contas, ele se importava, sim, com a irmã. Mas não deixara que eu mesma contasse isso a e escolhera ele mesmo fazer um plano. Sozinho.
Fez sentido, então, eu encontrá-lo vagando pela escola e matando aula. Claro que deveria ser coincidência ele me encontrar justo naquela hora, bem, isso é inegável, mas depois, o lago? Não tínhamos ido pra lá por minha causa? Teria o motivo Craig por trás disso?
- Você me levou pro lago... Só pra me manter longe... Daqui? Só pra que eu não contasse pro... Pra ? - minha voz saiu um pouco repulsiva e chateada. Eu batia as pestanas assiduamente.
- , escuta. Eu poderia ter te levado pra qualquer lugar no mundo, mas eu escolhi te levar pra lá - eu assistia às suas íris oscilando, hipnotizada, enquanto ele se explicava. Imaginei por um segundo se o tempo também teria parado quando ele falou. Sua voz parecia preocupada, e se eu não soubesse que poderia ser com o plano, juraria que era comigo. Ele não queria que eu entendesse errado.
Concordei com a cabeça, devagar, assim que percebi que ele terminou a frase. Realmente, poderíamos ter ido a qualquer lugar, e ele me levou ao adorável lago. Fiquei agradecida por isso, mas ainda intrigada.
- Eu deveria estar brava com você, não?
- Talvez... - ele me abraçou de lado, passando a segurar a câmera com a outra mão. Confesso, eu teria deixado cair. Suspirou, antes de completar. - Desculpa, mas vai dar certo assim.
- Eu espero que sim. Tem mais algum vídeo? Isso pode não ser suficiente pra incriminá-lo - finalmente minha cabeça começava a funcionar rapidamente, do jeito que mais me agradava. Aproveitei essa rapidez, já bolando um plano rápido sobre como colocar esse vídeo pra que, no mínimo, visse. Só de pensar que ele seria realmente desmascarado, um peso enorme saía dos meus ombros.
Até a chateação pelos olhares de sobre mim.
voltou a por um vídeo e trouxe o visor novamente pra perto de mim. Eu observei atentamente, e era a cena do refeitório, onde discutia comigo. Mordi o lábio com pesar, sem a menor vontade de relembrar a cena, mas continuei a assistir ao vídeo, pelo ângulo que ele estava. Eu nem tinha percebido que estava tão perto de nós, a ponto de pegar a imagem e o áudio tão bem.
Ou talvez fosse o zoom. E talvez também tivéssemos falado um pouco alto demais.
Estava tão entretida na discussão infundada que acabei sem perceber de fato que não tinha tanta gente desconhecida, assim, ao nosso redor. Era visível até Craig, do vídeo. Na verdade, ele fora filmado por apenas alguns segundos, e o cretino sorria.
Antes de eu sair correndo de cena, ele saiu, antecipando a minha ação. tinha corrido antes de nós dois, se escondendo, na cena do armário, dentro de armário grande. Eu jurava que era o da faxineira. O qual ficava, por razão desconhecida, no mesmo corredor dos armários estudantis. Era, ainda, o único armário 'corpo inteiro'.
Ainda era um mistério pra mim que ele tivesse conseguido se esconder ali, sem fazer barulho. até pegara o sorriso abestalhado de Craig, quando se virou de costas pra ele.
Tudo tinha sido tão incrivelmente cronometrado que me dava ânsia. Dava inveja. Sabia que nunca bolaria um plano daquele.
Eu estava com um pouco de raiva de por ter feito tudo sozinho e me deixado à deriva com meus medos, reações e sentimentos.
Tudo poderia ter dado errado, mas incrível, deu certo. As coisas seguiram conforme o plano dele. Como? Mais estranho ainda era pensar que embora tudo tivesse dado errado pra mim, ainda estava dando certo.
Estava nos planos dele.
Como?

O visor voltou a ficar preto, como se dissesse que tinha acabado o vídeo, e eu continuei encarando-o, por um tempo. Não como se quisesse que continuasse, mas estava terminando de processar tudo o que tinha visto. De súbito, voltei à realidade. me encarava com o olhar, eu diria, ansioso.
- E Craig previu o que eu diria. Como? - ergui o rosto e questionei, encarando-o, quando percebi que meu rosto se encontrava no peito dele.
- Foi um risco que eu corri. Mas esperto como ele é, ele já saberia como você diria. Não tinham muitas opções de defesa pra você, na verdade - ele deu de ombros, desligando a gravadora e devolvendo-a à mochila.
O que mais me intrigava em era que ele não tinha a necessidade de se gabar; ele já era tão inteligente e calculista que isso já o fazia ser um altar por si só.
Ele já era a arrogância, querendo ou não. Embora não fosse, de fato, arrogante. Não comigo.
- , isso tudo é tão... É tanta informação pra mim - eu tentei me soltar dele por um instante, mas quase perdi o equilíbrio no tronco, então voltei a agarrar o seu corpo contra o meu. - Sabe, tem tantos 'como', 'por que', e 'talvez' na minha cabeça, que eu... Eu não sei o que fazer com tudo isso.
Ele suspirou, passando a mão pela minha nuca, com carinho. Eu fechei os olhos por um instante, aproveitando o cuidado.
- Você vai levar isso pra casa, vai gravar em um CD e vai mostrar pra na primeira oportunidade que tiver - apesar dele ter dito com muita calma e eu não querer abusar disso, ousei perguntar mais:
- Oportunidade? - repeti, pensando no que exatamente seria uma oportunidade. - Como eu vou obrigar a teimosa a sentar e assistir algo que veio das minhas mãos? Ela tem nojo de mim, .
- Tem razão, mas... - rebateu, pensativo. Enfiou a mão esquerda na mochila e pegou a câmera junto com o cabo USB, parando no meio do caminho pra repensar. - Pensando melhor, deixa que eu mesmo mostro isso pra ela. É uma chance de me tornar mais próximo dela e...
- Não, tudo bem, eu tive uma ideia - me levantei de súbito, quase caindo. Minhas pernas estavam formigando, tanto que ficaram erguidas nas coxas de .
Na verdade, eu não tinha tido ideia alguma, mas eu não poderia deixar que ele resolvesse tudo, de novo. Eu não podia deixar que a situação viesse e fosse e eu ficasse inerte, observando, enquanto tinha meu nome nisso. Eu é que tinha visto Craig trair e eu mesma provaria isso à .
Como eu dissera antes, isso era uma questão de honra. E de amizade.
Suspirei, já me notando de frente pra , que me encarava um tanto suspeito. Esforcei-me pra convencê-lo que eu realmente tinha uma ideia; afinal mais cedo ou mais tarde eu teria, mesmo.
Peguei a câmera da sua mão, junto com o cabo USB e levei algum tempo pra perceber que tinha deixado minha bolsa jogada na grama. Fui até ela e guardei com cuidado as preciosas informações. Reergui o corpo e me inclinei pra , dando-lhe um beijo estalado na boca. Confesso que esse simples ato me fez estremecer por completo.
- Você parece brava comigo - disse, por fim. Eu torci o nariz, lembrando como eu realmente tinha cara de brava quando ficava pensativa. Dei de ombros, me esforçando em um sorriso carinhoso.
- A única coisa que me irritou disso é que você fez tudo sozinho, - passei a mão pelo seu rosto, acariciando sua bochecha com o polegar. Ele fechou os olhos por um segundo e isso me fez sorrir um pouco mais. - Eu sei que você foi inteligente e eu admiro muito isso, mas deixe comigo, a partir de agora.
Dito isso, eu voltei pro prédio D. Tinha consciência que perdera a aula de Espanhol, então aproveitaria o tempo na biblioteca, procurando o que fazer com aquele vídeo. Eu certamente teria uma boa ideia.

Tinha absoluta consciência, também, que saí de queixo erguido, (talvez) convencendo e o mundo que eu tinha um plano. Bem, é óbvio que eu menti.
E se enganei , me considero esperta o suficiente pra ter um plano mestre em segundos. Mas como sou mais realista do que sonhadora, sei que é mais fácil enganar a mim mesma do que a ele, que já está no ramo há muito mais tempo, provavelmente.
Suspirei desolada, sentada numa cadeira da biblioteca, reconhecendo o fracasso e pensando em recorrer às minhas opções clichês e básicas. Eu poderia mostrar em uma aula de biologia avançada, que pedisse um trabalho qualquer. Eu poderia fazer em slides, colocar o vídeo no DVD e pronto. Ou chamaria a turma toda (e quanto mais pessoas, mais divertida a humilhação), ou... A mais simples e difícil: mostrar na casa da . Difícil porque ela não queria me ver nem cravejada de diamantes, quando mais (ou menos) com a câmera do irmão em mãos. Apesar de poder mostrar o vídeo à ela por mim, e acredite, eu saberia admitir que ele o faria mil vezes melhor que eu se quisesse, eu me recusava a perder a reação horrorizada dela ao ver a armadilha fúnebre em que caíra. Mórbido.
Por outro lado, não queria que ela sofresse humilhação. Sim, porque apesar de Craig ser tachado de traidor, ela seria a corna, por pior que possa soar. E, eu tinha que admitir, isso seria péssimo, mesmo ainda estando um pouco magoada com a falta de confiança dela em mim, mais cedo.
Já que o vídeo estava em meu poder, eu cuidaria pra fazer o mínimo estrago possível para o lado de e inversamente, muito mais, pra Craig.
Finalmente, cheguei à aula de História, a última do dia. Agradeci mentalmente inúmeras vezes por ter faltado à essa aula. Só tínhamos duas aulas juntas, e eu sempre achei isso pouco, mas naquele dia não me pareceu menos que o suficiente. Um pouco agitada como sou, teria mostrado o vídeo ali, mesmo, pela filmadora.

O dia passou como um borrão e até sexta feira foi tudo igual. As mesmas pessoas, os mesmos olhares, a mesma mediocridade de sempre. Quem sabe um pouco acentuada.
Bem, isso só durou até a sexta porque foi exatamente quando vi Craig beijando pela sexagésima vez que minha ficha caiu por completo. Somente na sexta, meus neurônios voltaram à ativa. Foi só então que eu percebi que estivera fora do ar o tempo todo. Eu mal me lembrava de ter pensado em como desmascarar Craig, embora tivesse as provas e o dossiê completo dos seus erros.
Se é que eu ainda podia ser considerada amiga dela, precisava fazer algo. E se não era mais considerada, estava mais do que na hora de ser de novo.
Combinei com de ir à casa dele à tarde. Ficara combinado em segredo, já que não podia saber de mim, nem sequer contar sobre minha visita à sua casa pra Craig. Decidi assim, de última hora, que o melhor seria pegá-la de surpresa. Eu sabia que, como humano, era feio desejar algo ruim à alguém e até sentia uma pequena culpa, mas quem regrou isso certamente não conhecia a maldade. Muito menos a vingança.
Ética era algo que eu até tinha conhecimento sobre, mas não havia compreendido como usar em momentos extremos como esse, ainda.

Eu já tinha sutilmente empurrado o aparelho de DVD pra trás, assim, com um pouco mais de sombra, se tornaria quase impossível notar a presença do pequeno pen drive na entrada USB. Foi o tempo justo de sair da aula de sexta feira, ir até em casa e passar o conteúdo da câmera para a pen drive, vulgo oitava maravilha. deixou tudo arrumado, no ponto, pra evitar que ela reparasse o pequeno objeto inserto ali.
Passei a tarde com , assistindo a filmes antes de preparar tudo, e, quando chegou, o que foi à noite, ele me deu um beijo rápido antes de sair da sala.
Fiquei desnorteada por um instante, mas depois entendi que ela tinha chegado e, portanto, ele tinha que fazer o teatro combinado.
Escondi-me atrás do sofá, mesmo, que tinha mais um menos duas jardas de distância da parede. Aliás, da janela, logo atrás de mim. Senti-me grata por estarmos no segundo andar, ou eu teria medo de alguém aparecer na janela aberta. , talvez.
Ele voltou conversando casualmente com . Supondo que tivesse a convencido, sorri confiante e fechei os olhos, desejando que tudo desse certo. Só quando eles ligaram a TV pra dar início ao suposto filme, eu percebi que tinha parado de respirar. Estava claramente apreensiva, apesar de todo o conforto de ter ali.
começou a escandalizar, provavelmente ao ver meu rosto na televisão, mas parou em seguida. O que eu ouvi, então, foi a tal conversa secreta entre Craig e . Afastei-me lentamente do sofá à janela, me pondo de pé para finalmente apreciar o espetáculo. Eu sempre disse que nenhuma ocupação dura para sempre. E com Craig Owens... Não tinha razão pra ser diferente.
Ela tinha levado as mãos à boca, em surpresa e choque e eu me permiti limpar a garganta, num pigarreio falso e fraco. Notório que era um sinal pra que ela me reparasse ali. O olhar de pra mim foi emergencial, como se quisesse me salvar de um tubarão, mas eu só sorri diante do seu cuidado. O pior havia passado e eu sabia que agora se arrependia por não ter acreditado em mim. Eu vi isso pelo olhar de incredulidade e vergonha que ela intercalava entre eu e a televisão, na qual passava agora a cena do refeitório, no almoço.
Sentei entre os dois no sofá, observando em silêncio até o fim. Arrisco dizer que não ousou me tocar, talvez com medo da irmã a quem não devia conhecer tão bem quanto dizia. Confesso, até, que me senti atrevida querendo adivinhar tudo assim, se cara, mas deixei isso pra lá quando me abraçou de lado.
- Descuuulpa, ! - afundou o rosto no meu ombro, choramingando com a voz arrastada.
Eu sorri, aliviada. suspirou, se levantando pra, provavelmente tirar a pen drive do DVD. Deixou-a na mesa de centro e fez um gesto antes de sair da sala.
continuava pendurada em mim, e eu, me sentindo quase inútil, por um segundo, passei a mão pelo seu ombro, devolvendo um abraço forte e, em seguida, batidinhas leves com a palma da mão nas suas costas. Esperava que aquilo a confortasse.
- Tudo bem, - disse umas duas vezes.
Incrível como eu não sei o que dizer, quando mais preciso de palavras.
- Não, sério - ela continuava, chorosa. - A cretina fui eu. E Craig realmente me enganou. E eu... Eu sou... Eu sou... - essa foi a pause mais longa que ela fez, antes de retornar com a voz translucidamente chateada. - Sou uma corna traída de chifres, não é mesmo?
Olhei pra baixo, ainda achando aquelas palavras fortes demais, mas ela manteve o rosto abaixado e eu não pude ver sua expressão, apesar de quase poder desenhá-la pelo seu tom de voz. Peguei-me pensando o quanto é injusto designar tal fardo a uma pessoa que nada fez de errado, certo? Eu preferia pensar que ela era a vítima, apenas.
- Eu não queria que soubesse o que realmente aconteceu, assim - comecei a falar, com uma nota triste na minha voz. Sabia que poderia ser chocante ser a última a saber das coisas, mas não houve exatamente outro modo de resolver isso.
- Eu fui uma cega. Craig vai me pagar por isso! - ela praguejava, agora soluçando. Abracei-a com mais força, tentando fazê-la sentir-se melhor, quase inutilmente, pensei. Na verdade, o abraço pareceu surtir algum efeito, mais forte, e eu aproveitei a deixa.
- Confia em mim, agora? - averiguei, meio ansiosa.
- Meio que sim - ela disse séria, e eu tive que abaixar o rosto novamente, para encará-la, incrédula. Ela deu uma risada escandalosa quando seu olhar encontrou o meu e corrigiu. - Muito. Com a minha vida.
- Nossa, que romântica - zombei, tentando disfarçar o susto. Seria apavorante descobrir que, depois de provar que merecia, ela não tinha confiança em mim.
- Craig vai ter o que merece - ela se desvencilhou de mim e encarou a televisão já desligada com o olhar brilhando, sonhadora. Sutilmente psicopata.
Eu já tinha visto aquele mesmo olhar, antes, e não fazia muito tempo. Eu sabia muito bem o que era: vingança.

Naquela mesma noite, dormiu em casa. Ela disse que tinha algumas coisas que precisava me dizer e eu achava o mesmo. Isso, sem contar o apoio moral que eu deveria dar, mas vinha enrolando para, porque ainda não queria usar a palavra do nome daquele maldito.
Fiquei sabendo, com mais detalhes, que Craig tinha dito à ela no domingo mesmo, para saírem segunda à tarde. Então, na segunda feira, enquanto eu saía com , ele falava com . Claro que tinha sido um plano de me fazer esquecer sobre o Café com , mas até aí Craig acertara, "adivinhando", que eu não iria ao Café por vergonha dos meus maus atos. Vergonha de algo que não fiz!
- Não suporto esse C. - tentei falar a inicial do seu nome pra ver se me aborrecia menos. A diferença foi tão sutil que mal compensou. - Desde o início.
- É, eu sei - ela admitiu de cabeça baixa. Estava na cama auxiliar, sentada de frente pra mim. - Mas eu tenho um plano!
Eu sorri, contente por ela ter um plano, mas sentindo a necessidade de falar sobre (um assunto, aliás, que mal saía da minha cabeça), atropelei suas ideias:
- , tenho algo muito sério a lhe falar - disse, fazendo jus à minha frase, o timbre sério. Pigarreei, notando que ela ficou igualmente séria, rapidamente, e ponderei por um instante por onde começar - Bom, eu acho que eu sei a quem pertencia aquela peruca - ela sorriu forçado, como se isso fosse bom, mas notando que eu permaneci meio sem expressão, ela ganhou cara de interrogação. Prossegui. - E... A minha suspeita é o .
Como previsto, ela caiu na gargalhada. Foi preciso muito autocontrole pra que eu não desligasse o abajur e virasse para o lado, birrenta.
- , me desculpa a indelicadeza, mas... Ele morreu - foi cautelosa, porém sucinta, depois que o acesso de riso passou. - Faz um tempo.
- Você acha que eu não sei? - foi difícil não entrar em desespero. Por mais que me viessem argumentos, a verdade é que contra o fato, eu não podia ter argumentos.
Ter, até tinha, mas tinha tanto dúvidas quanto certeza sobre eles.
- Foi culpa dele, eu ter desmaiado - aleguei, jogando a informação de uma vez; se pensasse muito naquilo, me sentiria boba demais. E se já sabia mesmo que eu estava ao menos ficando com , não teria problema alfinetar. - E foi ele o garoto que encontrou comigo no colo. Depois, ele o seguiu até a enfermaria e ele teve que ir. Eu sei por que o me disse isso quando eu acordei. O está de prova.
Respirei, encarando , que me devolvia o olhar, cética; nem sequer tinha piscado.
- Olha, , eu até lembro... Nós vimos alguém muito parecido com o das fotos, na janela. Mas pode ter sido qualquer baderneiro... Querendo assustar a gente.
Eu sabia que aquela hipótese até que tinha alguma base, mas por mais fiel que parecesse à realidade, não parecia a certa. Eu não sentia como se fosse a certa. Por outro lado, por mais irreal que parecesse eu dizer que era , por algum motivo - talvez me espionar? -, parecia certo. Parecia encaixar, de alguma maneira, ao que vinha acontecendo.
- E a peruca? - se antes eu queria provar que não existia, agora eu usava todas as armas possíveis pra provar o contrário. Significava provar minha sanidade.
- Ele não queria ser reconhecido - ela respondeu com obviedade.
- Aquilo era uma pista, não um rastro de baderneiro - protestei. Recompus-me em seguida. - Você tem que acreditar em mim.
- Suplicando assim, como recusar? - ela deu de ombros, sorrindo à meia luz. Não foi suficiente pra mim.
- . Eu desmaiei de frente pra ele, no Bloco D. Eu desmaiei ao lado daquele tronco abandonado. Eu não tenho nem um arranhão - mostrei os braços, por mais que soubesse que não era tão fácil assim enxergá-los à noite. Da mesma forma, ela deu uma olhada, virando-se para o lado pra dormir, enfim. - viu alguém me levar à enfermaria. Eu vou encontrar de novo! - insisti, quase me convencendo.
Quase me convenci de que estava enlouquecendo, isso sim.
Eu não tinha garantia nenhuma que veria outra vez, já que as duas únicas vezes que o vira (ou teriam sido mais?) foram por causa dele. Única e exclusivamente dele.
Virei-me para o lado, desejando arduamente que o visse outra vez. Queria conversar mais com ele, queria tocá-lo. Queria, especialmente, não perder os sentidos e a voz perto dele.
Dedos cruzados.

Capítulo 11



Finalmente a segunda feira chegou, e, se comparado ao que senti de desanimo na segunda anterior, ao acordar, posso dizer que senti o completo oposto.
Dormir com esperanças, acordar com expectativas.
Até a música que tocava no meu iPod me animava. Parecia dar uma espécie de trilha sonora ao espetáculo que começaria. Chegava a ser uma ironia, já que estávamos no anfiteatro.
me informou de antemão que conversou com a psicóloga, a psiquiatra, a diretora e até o coordenador do colégio, pra conseguir liberar todas as classes para o anfiteatro, que, vamos combinar, apesar de enorme, não dava sinais de conseguir abrigar aquela escola inteira. Tudo bem, afinal eu já tinha reservado o meu lugar.
Algumas vezes, me perguntei se teria feito drama, dizendo (e acentuando) todos os erros de Craig para com ela (e comigo, que não deveria ter nada a ver com a história), ou se tinha simplesmente subornado todo o corpo docente. Triste, porém, verdade.
Ela subiu ao palco, parecendo acuada antes que as palavras descobrissem o caminho para que fluíssem. Pigarreou, e, com um sorriso inocente, tornou-se a mais santa do mundo.
Aos olhos alheios.
- Olá, alunos da querida Whalley Range High. Meu nome é completamente insignificante, diante da adorável descoberta que farão em segundos - ela sorriu angelical, ao fim da sua frase. - Eu espero que gostem.
Ao mesmo tempo, as luzes, como devia ter sido combinado, se apagaram gradativamente e o foco se tornou as imagens que o retroprojetor passava em um telão no palco, perto de . Nesse momento, eu meio que saí do ar de novo, já que já tinha visto aquele filme. Lembro de ter rido muito (mesmo!), quando Craig se levantou escandalosamente, assim que o vídeo acabou, e me lançou um olhar ameaçador. Pensei em mandar um gesto - ou insulto - pra ele, mas só consegui dar risada. Seu nervoso me dava ainda mais alegria.
Craig subiu ao palco, onde ainda estava e apesar de eu ter ficado alerta - ainda rindo - quanto à isso, , que estava ao meu lado, não ligou, então eu relaxei na poltrona. No momento que ele tentava pegar o microfone do suporte, o fez com mais velocidade e devolveu com toda a raiva tudo o que tinha dentro de si. Novamente, eu não prestei atenção.
Notei a porta do auditório se abrir, e uma figura familiar se esgueirar para fora. Achei mais do que bom não ser ninguém do corpo docente (ela teria subornado-os para não entrarem ali, também?), mas achei necessário ir atrás. Pensando melhor, não. Eu tinha esperado muito tempo para aquele momento e não o perderia por nada.
Quando voltei à realidade, percebi que ela falava exatamente o que eu sentia, desde o fim das férias, e que só vinha se agravando.
- Portanto, Craig, eu vim pedir publicamente pra que você perceba que lugar de traidores, cretinos, mentirosos e idiotas, não é comigo. Nem com a - a cara de nunca se fez tão dissimulada. Eu ria cada vez mais do show de horrores.
A cada palavra que ela falava, dez vezes mais ele ficava vermelho. Já calculava o tempo que ele demoraria pra explodir e o que faria quando o fizesse.
Uma vaia começou no momento que ele tentou se defender, e, entendendo que não tinha mais saída, tangencial ou não, ele começou a xingar a platéia, que revidou com mais vaias e risadas. Sentindo o peso do vexame, ele virou-se pra , sibilou alguma coisa entre os dentes e ela tirou o microfone de perto do rosto pra responder-lhe com falta de educação. O auditório se manteve numa espécie de silêncio, tentando ouvir o que se passava entre os dois.

Aproveitei o momento de distração de todos, e, notando que a porta estava novamente aberta, vi novamente o vulto, dessa vez parado. Pedi licença a , que ainda mantinha um sorriso vitorioso escondido no canto dos lábios. E não era pra menos; se tinha descoberto tudo e eu tinha me livrado de todos os problemas com Craig, era ele o motivo. Aliás, estávamos tão entretidos com a desmoralização de Craig, contemplando o fruto do nosso trabalho, que nos esquecemos do resto do mundo. Eu, aliás, teria esquecido, não fosse por ter me lembrado de ver o que deveria ser , na porta do auditório.
Já a caminho da porta (que, de tão gigante, mais me lembrava portas de filmes de terror), a abrir e atravessei. Um arrepio gelado percorreu a minha espinha e eu não sabia dizer se era medo. Se era, não podia distinguir o motivo, dentre as opções: poderia ser o que ele pensaria de mim depois daqueles vídeos e aquela história toda, mas isso meio que não devia ter importância. Se alguém tivesse que me dar explicações de qualquer natureza que fosse (e caso eu me desse uma prova mais concreta de que ele era mais que uma visão), era ele. E não um psiquiatra, que eu já começava a ponderar visitar, quando eu seguia por puro instinto o que deviam ser seus vultos, pelos corredores. Se era , qual o motivo dele estar fugindo?
A cada corredor que eu atravessava correndo e a cada esquina que eu dobrava, a única coisa que eu tinha tempo de ver era um pedaço do casaco, ou uma sombra, ou respiração. Não chegava a ser uma busca justa, pois quem quer que fosse que eu seguisse, estava com muita vantagem em relação à mim.
Comecei a entrar em conflito interno, sentindo tanto medo quanto curiosidade. A cada passo que eu dava, me obrigava a ir um pouco mais, pra ver até onde chegaria. Por outro lado, a cada passo que eu dava, alguma coisa me dizia que eu devia recuar. Alguma coisa me dizia que aquilo era uma armadilha, como todas as outras que eu caíra na semana passada.
'Concentre-se', eu ordenei a mim mesma, sem muita convicção.
Por fim, dobrei mais um corredor, antes de perceber estar numa ala a qual eu mal conhecia. Eu nem sequer a conhecia. Olhei ao redor. Uma ala nova? Seria possível?
Sem muito tempo pra discutir mentalmente sobre a minha localização, percebi que estava sem mais pistas. Não tinha mais vultos, sombras, barulhos, ou portas batendo pra que eu fosse atrás. Apoiei o corpo, ofegante, contra a parede, incerta sobre como agir em seguida. Não queria culpar a mim mesma, mas...
E se fosse fruto da minha imaginação? Pasmei. Eu bem que podia ter acabado fantasiando tudo.
Ou não.
O que explicaria, então o barulho das portas batendo? E todas estavam destrancadas, eu passei por elas. E os vultos? Eu não podia ter imaginado tudo com a simples sombra que o cabelo pode criar sobre os olhos; seria sutil demais.
Meus olhos, aliás, se davam o trabalho de percorrer o lugar que eu estava, à procura de algo útil, algum motivo. Não devia ser à toa que eu estava ali.
Pensando ter ouvido um barulho à minha esquerda, me virei bruscamente, a percepção mais apurada do que nunca. Porém, mal terminei de virar, senti como se tivesse uma respiração pesada logo atrás de mim. Aquela sensação de ter feito a escolha errada me invadiu em forma de arrepios e eu voltei a me virar para o outro lado, prendendo inevitavelmente a respiração ao chocar meu olhar no dele.
Ele abriu a boca pra pronunciar algo. Eu julgava que era meu nome, mas não sei dizer se isso realmente aconteceu.
Forcei meu cérebro a reagir, mas toda resposta que obtive foi um instintivo passo atrás, quando ele deu um à frente.
Estava me odiando por reagir daquela maneira. Estava estampado no cenho estranhamente franzido de que ele não estava esperando exatamente aquela reação de mim. Na verdade, minha reação surpreendeu até a mim, acredite.
- Com medo de mim? - disse ele. Sua expressão parecia mais cautelosa a cada segundo.
Fiz que não com a cabeça, apesar de minhas pernas terem ameaçado sair por onde me trouxeram. Por um instante, eu podia jurar que tinha o mapa do colégio de volta à minha cabeça. Eu podia jurar que sabia como sair dali, num segundo, mas eu me contive. Havia esperado o inferno por aquele momento, e, de repente, sozinha em um fim de corredor com , eu me sentia ameaçada?
Ele avançou mais um passo; eu tinha certeza que ele calculava até o tamanho das passadas, cuidando pra que eu não realmente fugisse dali. Como se eu pudesse.
- Posso te tocar, hoje? - seu rosto se contorceu em uma careta de dúvida. Eu dei um meio sorriso, ainda não me sentindo segura o suficiente pra falar, mas ao menos decidida o suficiente pra não sair dali.
- Claro que sim - respondi, não muito certa daquilo.
Uma série de medos incabíveis atravessou meu cérebro. Ou a parte dele que ainda funcionava.
De repente, não sabia se queria correr o risco de sentir sua mão atravessar a minha. Porém, de maneira alguma eu recuaria. Repetira mentalmente tantas vezes que não sairia dali, que já estava convencida que conseguiria fazê-lo. Então, esperando que ele tocasse minha mão, eu a estendi vagarosamente, os olhos estrategicamente fechados, mas o que senti em seguida foi meu corpo sendo envolvido pouco a pouco pelo de . Uma pontada de satisfação reduziu o ritmo acelerado do meu coração. Devolvi o abraço, aliviada.
Foi como se eu finalmente conseguisse respirar, depois de muito tempo na água.
Outras milhares de dúvidas surgiram, e eu me vi obrigada a soltá-lo, se quisesse esclarecê-las. Senti-me grata por ainda ter um pouco de autocontrole e força de vontade.
- Você... - pigarreei, antes de continuar, no intuito de ganhar tempo pra formular uma frase inteligente. - Você me deve algumas respostas - não tinha certeza se era possível entender a partir dali, então completei: Tenho muito a saber, - percebi em seguida que minha adição não tinha feito muita diferença.
Ele ficou em silêncio e eu não compreendi o que ele quis dizer pelo olhar.
- Você tem muito a me explicar, sabe disso, não? - insisti, esperando uma resposta.
Com o olhar levemente desfocado, ele concordou com um aceno de cabeça. Por um instante, pareceu como se eu o tivesse desconcertado. Ou ao menos o desligado por alguns segundos da realidade. Eu preferi acreditar nas hipóteses.
- Por que viemos tão longe? - perguntei, me sentindo no direito de saber, mas não conseguindo realmente ler sua expressão de volta pra mim.
Começava a acreditar que quem não sabia decifrar as pessoas era eu, e não que elas eram difíceis de se ler.
- Você sabe que eu aprecio privacidade - respondeu apenas.
Não consegui concordar com a cabeça, apesar de saber que era verdade. Um murmúrio fraco escapou dos meus pulmões. Culpei seus olhos por essa falha minha. Perdera-me olhando diretamente neles.
Fui a primeira a desviar o olhar.
- Eu vou te explicar tudo. Logo - deu um beijo demorado no topo da minha cabeça. Nossos corpos ainda estavam perto o suficiente pra que eu quase sentisse o seu calor; e eu não ousaria me separar dele. Tampouco poderia prever se conseguiria.
Ok, completamente conseguiria. Percebi que sim, quando ele me soltou e desapareceu a passos quase lentos pelo corredor pelo qual eu vim seguindo-o.
Permaneci com os pés fincados no chão, digerindo a última conversa.
Novamente, eu ficara com muitos pensamentos e poucas falas. Pouca ação e muito mistério. E muitas, muitas perguntas, pra tão poucas respostas. Argh!
Agora que tudo com Craig se resolvera, eu me perguntava o que diria, caso soubesse desse último episódio.
Quanto a mim, eu descobriria o mais cedo possível o que acontecia de errado com . Ou comigo.

No mesmo dia, mais tarde, os segundos se arrastavam no relógio. Não, sério. Literalmente.
Talvez eu estivesse agitada demais, esperando a aula de história geral chegar ao fim. Eu batucava a borracha do lápis na bochecha, num ritmo qualquer, já que o relógio localizado acima da lousa era de segundos contínuos. Só me angustiava mais.
Comecei a folhear o caderno de anotações, quase conseguindo me distrair. Mais alguns segundos, e eu já tinha ido e voltado todas as matérias umas quatro vezes.
Bufei, erguendo o olhar até o relógio, e do relógio pra porta.
A pessoa que vinha atormentando minha sanidade passou pelo vidro da porta e meu coração disparou. Não sei dizer se fiquei realmente surpresa. Ultimamente, era só eu me distrair e lá estava .
Imaginei se ele sabia que eu estaria naquela sala; quase não tinha dúvidas, sabia que ele estava indo embora. Já sabia por que maravilhoso motivo eu nunca o via na saída: ele sempre saía mais cedo. E eu ainda me perguntava por que nunca o via na saída.
- Estou começando a te entender, - murmurei mais baixo que o possível.
E passei o resto da aula fora do ar.

Na saída da sala, me esperava na porta. Seu sorriso não me parecia espontâneo, mas eu liguei isso ao fato de nós costumeiramente esperarmos a irmã dele se perder de nossa vista. E assim que isso ocorreu, ele me acompanhou até meu armário, sem dizer uma palavra. Quando eu parei, pra guardar alguns livros, olhei-o de esguelha. Surpreendi-me ao notar que ele estava me olhando de volta, então, um pouco incomodada, e não gostando nada do seu comportamento incomum, tentei puxar assunto. Comecei casualmente.
Quase perfeitamente casual.
- Tempo ruim hoje, não? - estava claro no meu tom de voz que eu tentava parecer despreocupada, mas falar rápido não exatamente me ajudou.
- De novo - ele deu uma risada fraca, mas permaneceu rígido em sua postura. Parecia distante.
Murmurei qualquer coisa e fechei o armário, inquieta. Virei-me de frente pra , meio esperando que ele dissesse algo mais.
Ele estava aéreo demais, e como normalmente esse era meu papel, eu estava estranhando muito. Incomodava ter que puxar algum tipo de assunto, porque o silêncio entre nós não parecia tão confortável, daquela vez.
Antes de me permitir me perguntar se ele sabia alguma coisa sobre , pus-me a questionar:
- Me fala, , o que tá acontecendo? - cruzei os braços na altura do peito, pra evitar ficar cutucando as unhas e agitando os dedos. Eu devia estar parecendo bem impaciente.
suspirou e pareceu medir as palavras antes de falar. Estranho, porque eu nunca percebia essas coisas. Ele nunca era transparente o suficiente pra que eu o entendesse.
- Mudei uma aula minha... Vamos ter aula de geopolítica juntos.
Estreitei os olhos, aproveitando seu momento de fraqueza pra tentar pegar mais informações sobre o seu humor. Ou pensamentos.
A única coisa que consegui (depois do Nobel com o qual me presenteei mentalmente por perceber a inquietação de , por mais visível que estivesse) foi perceber que ele ainda parecia...
- Você não falou tudo - saiu mais parecida com uma indagação do que uma acusação.
- Ainda estou esperando para saber o que você acha disso - sua voz saiu grave, me convencendo com a sua ansiedade, falsa ou não. Abri um pouco mais os olhos, surpresa.
Ter aula de geopolítica sozinha era péssimo.
- Acho ótimo, - respondi com franqueza. Uma parte do meu cérebro (a mais tonta) pulava de alegria. Meu coração reagiu, enquanto eu tentava disfarçar tudo isso num sorriso largo e, eu esperava, suficientemente convincente.
- Não vai achar que é pra te controlar? - ele arriscou, relaxando um pouco mais a postura. Fiz esforço mental pra tentar descobrir o que mais estava diferente em . Além da postura.
- Tenho certeza que não.
E além da mentira que eu contara.
- Ah, bom, porque eu nunca tentaria... Sabe, fazer isso de propósito. Fazer aula de geopolítica com você pra te vigiar. Eu me interesso por isso, só uni o útil ao agradável.
Ah. Sim. Claro.
Em troca, eu sorri. Tanto pra disfarçar o quanto eu sabia das suas verdades, quanto pelo nervosismo que notei presente em sua voz.
Controle é ciúme, não é?
De qualquer maneira, eu estava muito ocupada me elogiando por ter notado uma mentira, as emoções de e mais algumas coisas que ele normalmente guardava muito bem de mim. Eu arriscava dizer que até de si mesmo.
Quem sabe, aliás, eu não estivesse melhorando no quesito 'detectar mentiras'?
me tirou do meu devaneio. Passou o braço ao redor do meu ombro e me guiou pra fora. Olhei de soslaio para ele, mas ele já estava recomposto. Andava confiante, o peito levemente inflado e os olhos novamente insondáveis. Era como se o véu de poeira que normalmente estava ali, e que tinha saído pouco tempo atrás, tivesse voltado a turvar minha visão ao tentar olhar através dele.
Eu me perguntava como isso era possível.

Somente na noite de terça feira, juntei coragem o suficiente pra discar o número de .
- Oi, linda! - exclamou, bem humorada. - Qual é o problema, amiga?
Pigarreei, tentando atrasar o processo. Porém, agora que eu tinha ligado, não podia dar pra trás. O pior é que eu tinha consciência disso.
- É do - cuspi as palavras, garantindo, assim, que não desistiria de última hora e desligaria o telefone, alegando uma terrível dor de barriga.
Sim, porque essa era, de fato, uma opção.
- Ah, o seu finado namorado... - tossiu. - , são visões.
Revirei os olhos, indignada. Não era possível que ela ainda não confiasse na minha sanidade.
- Você deveria me apoiar - bufei.
- A psicóloga da escola passa todas as tardes no colégio - disse , entre pausas. Eu jurava que estava comendo.
- Você tá em débito comigo, no quesito confiança... - mencionei, quase como quem não quer nada.
- Fala o que eu tenho que fazer - ela devolveu, já sem muito humor.
Quase me arrependi da chantagem, não fosse por ela ter funcionado.
- Tô interessada em fazer pesquisa de campo na casa do .
- O quê? - engasgou.
- É... Eu o vi no meio da aula de história. Ou no início, eu não lembro. Foi entre algum 'então' e outro 'portanto', do professor - balancei a cabeça para os lados, procurando me focar no quadro de lembranças. - Você é a pessoa mais indicada a ir comigo. Eu vou provar a você que ele existe! Não é uma visão!
- Não entro em quarto de defunto. Ponto final.
- Se não encontrarmos evidências, eu... - comecei, mas fui interrompida.
- E se encontrarmos a mãe dele? Você sabe o que os pais dele devem pensar de você. Ou já esqueceu? - acusava, com pouca cautela. Eu estremeci.
Era verdade. Depois da morte de , eu não tinha mais tido notícias sequer de seus pais. E quando tentei contato, digamos que não fui muito querida. O sorriso dos dois parecia artificial e depois de algum tempo os mesmos sorrisos desapareceram. Sutilmente, eles davam pistas de não me quererem mais ali. A princípio, compreendi que 'devo lembrá-los o filho deles. Causo algum tipo de sofrimento, com isso', mas em uma ligação que fiz ao seu pai (já não sei mais o porquê) ouvi uma reclamação injusta da minha ex-sogra.
Finalmente, entendi que ponderavam sobre o problema ser eu.
Acreditavam que eu tinha levado pra tal caminho. E eu, ao invés de lutar com a verdade, me afundei mais em chateação por conta desse tipo de comentário. Péssimo.
De repente, eu me lembrei sobre o que ela falava, como se isso tivesse voltado às minhas lembranças, depois de muito tempo adormecido. Não era exatamente uma mentira.
A parte de ter estado adormecido, digo.
- Eu sei - respondi num suspiro.
- Por que você acha que alguém morto pode reviver? - ela indagou, me testando.
Pergunta difícil.
- Eu não sei. Mas sei o que vi e vou tirar a prova.
- , você não vai me convencer.

- Com quem você aprende essas coisas? - sussurrou, de um modo que parecia um berro rouco e fraco. Estávamos no jardim dos .
- Que coisas, ? - devolvi, em sussurros, também, alheia.
De um instante para o outro, eu entendi sobre o que ela falava.
- Aprendi com seu irmão - dei de ombros, estudando uma forma de entrar no casarão. Uma que não fosse tão óbvia quanto as portas da frente ou do fundo, ao menos.
Procurávamos uma entrada alternativa porque impusera que, caso não fosse do modo meramente espião dela, ela não iria me ajudar. E porque as portas deveriam ter alarme de segurança.
Então, estávamos escondidas nos arbustos, observando a janela que representava o quarto de .
- Pode me lembrar por que estamos neste lugar tenebroso? - sua voz tremeu e eu jurava que era porque as luzes do jardim ficavam apagadas à noite. Aquilo me assustava, também, e eu senti um arrepio gelado, que não era exatamente de medo ou frio.
- Vou tirar essa história de alucinação a limpo - e agora era questão de honra e de tempo. Questão intimamente pessoal. E de sanidade.
Eu não podia ter pirado meio ano depois do fatídico dia. Mal considerava a possibilidade, mas quando a luz da janela que espreitávamos se acendeu, eu a descartei completamente.
Meus olhos se fixaram naquela abertura de 1,5 por 1 metro na parede, ansiosíssimos e prontos pra engolir qualquer detalhe que se modificasse. Pela visão periférica, percebi que fazia o mesmo, porém seu rosto era um misto de terror e curiosidade.
Ouvimos um barulho nos fundos, e, com pressa, mas ainda prestando certa atenção à janela de , da qual concluímos que não sairia nada, esgueiramo-nos até lá, recostadas na parede.
- Uau - disse baixinho, em tom de admiração. Ou surpresa.
Suspirei aliviada, vendo que o jardim dos fundos mantinha-se fiel à minha memória. Nenhuma mudança, a não ser por um banco aqui ou ali. Só então percebi que a animação de se referia à porta dos fundos, deixava apenas encostada. Dava pra notar pelas sombras projetadas no batente que não estava exatamente fechada.
Era a nossa chance.


Capítulo 12



Com um pouco mais de pressa, e o dobro da atenção, eu a cutuquei e fiz sinais para que me seguisse.
Aparentemente, os pais dele, Carl e Janette, faziam pizza no forno que tinham instalado do lado de fora. Dei uma checada rápida, confirmando se faltava algum ingrediente. As chances de qualquer um dos dois entrar, procurando algum ingrediente que faltasse, eram bem menores, caso não faltasse nenhum. E pelo que pude perceber, estava tudo ali. Apesar de eu não entender quase nada sobre o esquema de uma pizza.
A não ser pelo processo final. Disso, eu entendo.
- No três - sussurrou. Senti êxtase em sua voz, e, confesso, senti-me arrepiada. Apreensiva. - Um... Dois... Três! - quando os dois se viraram, saímos em disparada, evitando ao máximo pisar com o calcanhar, no evidente intuito de não provocar barulho. Até porque o assoalho era de madeira, e apesar dos terem dinheiro o suficiente para trocá-lo anualmente e deixá-lo forte, eu preferia não arriscar; alguma madeira sempre range no horário menos apropriado.
E aconteceu.
Antes mesmo que terminássemos de passar pela porta. E eu tinha absoluta certeza que não estava acima do peso. Era a madeira, que sempre rangia no momento errado.
Passamos feito foguete pela porta, enquanto eu reclamava baixinho:
- Eu não disse? Se não der nada errado, não é a minha vida! - eu dei um gemido distorcido bem mais baixo, em desaprovação à situação, puxando pra dentro da primeira porta que vi, ao passo que a dos fundos batia, tamanha a pressa que tínhamos tido ao passar por ela. Falta de cuidado, também.
Estava escuro. No mesmo momento que me dei conta disso, ouvi passos do lado de fora da porta e antes que eu pudesse abrir a boca, a mão de voava em mim, com o intuito de me calar. Eu me perguntei como ela conseguiu enxergar, mesmo com tudo tão escuro.
- Filho, foi você? - era a voz de Janette, quase preocupada. Eu suava frio, desejando rigorosamente que ela não resolvesse bancar a detetive e abrir as portas. Ou, pior, aquela porta.
Arqueei uma sobrancelha pra , mas não sei o que ela me devolveu. Aliás, aposto que ela sequer viu meu gesto, enquanto eu tirava sua mão da minha boca.
- Deve ter sido só o vento, Janette. Venha logo me ajudar! - a voz, que me lembrava exatamente a de Carl, reclamou. Impaciente, como sempre.
Ela respondeu qualquer coisa e voltou. Pude ouvir quando a porta dos fundos se fechou num clique. Provavelmente a tinha fechado no intuito de não se assustar novamente com o barulho.
Devagar, eu abri a porta à qual me pressionava contra e saí do cômodo, que, pensando melhor, deveria ser o escritório.
A porta dos fundos, até onde eu me lembrava, não tinha vidro, então eu e teríamos que ter cuidado redobrado, pra perceber se alguém se aproximaria por trás de nós, já que não seria possível ver sombras pelo vidro. Com alguns sinais e sussurros, decidimos que andaríamos uma de costas para a outra. Era ruim, pois eu sempre veria as coisas antes de , mas era melhor, afinal poderíamos olhar para praticamente todos os ângulos ao mesmo tempo.
Eu confesso que estava com medo de me assustar.
- É a única maneira, - sussurrou, com pesar. Não me encorajou em nada.
Não seria fácil, e, sinceramente, eu começava a pensar em desistir, embora não fosse exatamente possível. Não era como se eu pudesse simplesmente falar 'Ai, desisto' e pular a janela.
Por um lado, o que estávamos cometendo era ilegal. Era invasão de privacidade, se desagradasse aos donos e eles nos acusassem erroneamente de arrombar as portas. Se agradasse, seria apenas uma visita surpresa, tendo em vista que as portas não estavam exatamente fechadas. Trancadas. Enfim.
O corredor não era estreito, mas era um tanto grande demais. Comprido. Seria mais difícil ainda passar por ali, chegar até a sala de estar e subir as escadas. O plano era chegar ao quarto de .
Só então eu percebi o que a mãe de tinha dito, no momento que eu e estávamos escondidas, no escritório. Ela disse filho. Infelizmente, mal pude pensar em falar isso pra , pra usar ou não a meu favor, pois a situação mal permitia que eu abrisse a boca.
Telepatia serviria bem como uma luva, naquele instante.
Mais alguns passos tímidos, cuidadosos e mais da nossa respiração cautelosa. Tudo que eu podia ouvir era meu próprio coração batendo, saltando. Pulsava como se estivesse em meus ouvidos, e, sinceramente, eu tentava não ligar toda essa agitação à minha alegria de estar de volta àquela casa. Apesar das circunstâncias.
A escada que dava aos quartos se bifurcava, e eu e tivemos que nos separar. Imaginei mesmo que ela não conseguiria subir as escadas de costas, então acabamos subindo lado a lado, com a atenção redobrada. Seria melhor não mencionar o fato que subiu as escadas pressionando o próprio corpo contra a parede, como se a mesma pudesse engoli-la, ou como se aquilo a tornasse parte de algum filme de perseguição policial, mas, de qualquer maneira...
Se for o que a agrada, o que eu posso fazer?
- Eu vou pela esquerda, que é o quarto do - paramos no topo da escada. As luzes do corredor estavam apagadas e todas as portas estavam fechadas. Isso era um pouco assustador, mas nada comparado à minha ansiedade. Eu finalmente estava ali. Novamente. - Você pode ir por ali, que vai dar no quarto dos pais dele - sussurrei, sabendo que ela não resistiria e iria junto comigo.
- Você sabe que eu não entro em quarto de defunto - ela devolveu, pra minha surpresa. Escolheu ir pela direita, mesmo. O quarto dos pais. - Se eu encontrar evidências, vou te bipar - no mesmo instante, ela ergueu o walkie talkie amarelo ovo que tinha ganho, eu chutava, no natal passado. De uma tia distante, alegava.
E o pior é que eu também tinha um em mãos. Bom, eu não podia estar sem, se ela tinha um, certo? Certo.
- Ok, boa sorte no quarto dos pais do defunto - devolvi com deboche, ainda em sussurros. deu de ombros e à luz fraca que vinha das escadas, eu jurava que ela estava ficando nervosa com a situação. Quem não ficaria?
Abaixou-se e pôs a mochila camuflada no chão, sem fazer barulho. Abriu alguns compartimentos, e, ao último, pegou uma lanterna. Ergueu-a e a exibiu pra mim, acendendo-a nos meus olhos, em seguida.
- Aham, entendi! Você pegou o espírito da coisa. Agora, vai - eu rosnei, antes de lembrar que eu também tinha uma lanterna. pôs a mochila de volta nos ombros e desapareceu na escuridão, acendendo a lanterna pra abrir porta por porta, até encontrar alguma que tivesse uma cama de casal, e eu fiquei observando. Provavelmente esse foi o raciocínio dela, porque só quando ela abriu a porta do que me lembrava ser o quarto dos pais de , ela entrou, fechando, sem vestígio de ruído, a porta atrás de si.
Eu apertei os lábios, um contra o outro, enquanto reunia coragem o suficiente pra fazer o mesmo. Quer dizer, pegar a lanterna da minha mochila (que, por acaso, era idêntica à de . Devia ser uma dela e uma do irmão) e entrar no quarto de .
Além da lanterna, me armei da câmera que eu trouxera, mas no último instante, desisti. Pensei em desistir de entrar também, mas relembrando minhas faltas com a coragem, eu resolvi prosseguir. Abaixei o olhar sorrateiramente, já diante da porta dele, observando a abertura entre a porta e o piso. A luz estava apagada.
Lancei mais um olhar ao corredor, como que pra garantir que eu estava sozinha. Decidi não acender a lanterna ainda; meu cérebro (agora, funcionando) me lembrou que ele poderia estar simplesmente deitado na cama, ou meio adormecido.
Eu temia que ele estivesse ali, mas sem mais delongas, abri a porta. Uma hora isso teria que acontecer, e fiz isso o mais vagarosamente possível. Deixei a lanterna desligada e abaixada e pus o walkie talkie amarelo no bolso de trás do jeans, adentrando o quarto em seguida.
Estava tudo escuro, não fosse pela luz fraca que emanava do monitor do seu computador. O computador não estaria ligado no quarto de por conveniência dos pais. Isso era uma certeza. Eu me preparava pra por a mochila na sua cama e procurar pela minha câmera, no intuito de registrar a minha primeira evidência, quando percebi uma música tocar ao fundo. Desesperada, eu olhei para os lados, procurando um rádio programado pra ligar àquela hora, mas não o encontrei. O que vi foi a porta do banheiro, encostada. A fresta que estava aberta tinha luz, prova que tinha alguém no banheiro. E eu tinha fortes suspeitas de quem pudesse ser. Óbvio.
A parte alucinada dos meus sentidos motores decidiu adentrar o banheiro, tirar uma foto e sair dali. Como se nada tivesse acontecido. E eu me detive, quando encostei a mão na maçaneta. Pensando melhor, não seria uma boa ideia. E por mais que eu me sentisse no direito (um direito bem imoral, aliás) de adentrar o cômodo, preferi ficar onde estava.
Imaginando que ele tivesse acabado de entrar no banho, eu me sentei na cama, abrindo a mochila e conferindo se todos os itens estavam ali. Assim que conferidos, dei uma olhada ao redor; o quarto, em si, era uma prova que estava vivo. E mais uma prova que estava tudo estável com o meu sistema nervoso. Embora eu soubesse que poderia não durar muito, já que, ultimamente, quando aparecia, eu parecia dar curto circuito.
Ergui o próprio corpo, pondo a câmera à frente dos olhos, pronta pra tirar uma foto panorâmica do quarto. Quanto mais evidências, melhor. E eu apostava que estava muito à frente de .
Algo na estante me chamou a atenção, e eu caminhei até ela, totalmente guiada por instintos. Instintos, até hoje, não me causaram muita encrenca, então eu não vi mal algum em segui-los.
Na estante, jazia um porta retrato de tamanho médio. Clichê demais dizer que era uma foto minha e de , ali?
O dia do meu aniversário.
Veio como um flash na minha cabeça, enquanto eu pegava o objeto e o aproximava do meu rosto. O tempo que me distraí foi o tempo exato pra perceber alguém atrás de mim. No quarto escuro, eu esperava um assassino, considerando a sorte que vinha tomando conta de mim, ultimamente.
Devagar, eu pus o porta retrato de volta à estante, para evitar que, com qualquer susto, derrubasse-o. E eu realmente esperava que fosse apenas um sapo na cama, o que quer que tivesse aguçado minha percepção. Virei-me devagar, me deparando com ninguém mais, ninguém menos do que , do outro lado do quarto. Ele estava na porta do banheiro, me olhando surpreso.
Não mais surpreso do que o meu olhar de volta pra ele.
Sua boca estava entreaberta e, pra minha (maior) tentação, ele só tinha uma toalha pendurada na altura de uma calça. Ou talvez mais abaixo disso, eu não me permiti olhar por muito tempo, porque aí eu já tinha absoluta certeza de que não era minha imaginação. Eu me apoiei delicadamente na estante atrás de mim, garantindo que não desfalecesse ali mesmo.
Não, ali.
Forcei-me a sorrir, torcendo pra que ele não saísse gritando 'Invasora, invasora!', pela casa. Aí, sim, eu estaria ferrada.
Acenei, tímida.
Ele devolveu o aceno, desconcertado. As sobrancelhas ainda estavam franzidas.
Cada segundo corria generosamente devagar.
Estava desenhada em seus olhos a sentença 'O que você está fazendo aqui?', com todas as ênfases.
Fechou a porta atrás de si, enquanto eu olhava rapidamente para a sua cama, onde a mochila que eu antes carregava, e que possivelmente era de , estava aberta. Aberta.
Ah, não. Ah, não! Não, não, não, não, não.
Tarde demais, ele acendeu a luz do quarto e seguiu o meu olhar, antes que eu pudesse ter tempo de disfarçar e, mais disfarçadamente ainda, jogar a mochila janela afora.
Como se isso fosse, de fato, possível.
- Isso é... Seu? - ele foi o primeiro a falar, e eu só concordei com a cabeça, percebendo que, enquanto ele se movimentava sem medos, eu me mantinha fiel à estante. Presa. Soltei-a devagar, confiando mais em meus próprios pés.
À medida que eu dava passos em sua direção e ganhava proximidade, perdia minha confiança. Precisei me sentar na cama, enquanto o observava abrir a mochila e mexer nela. Confesso que não o acusei de falta de educação, já, que, bem... Eu tinha invadido a sua casa.
Eu não estava exatamente em uma posição favorável pra reclamar de qualquer coisa. E já estava grata mais do que o suficiente por ele não ter perguntado, com rispidez, o que raios eu fazia na casa dele, na hora do jantar. Tão grata que decidi sorrir e puxar um assunto.
Embora toda a galáxia já tenha reparado que sou péssima nisso, também.
- Você vai se vestir? - não que aquilo me incomodasse. Estava perfeitamente confortável, no sentido mais amplo da palavra.
- Prefere que eu me vista? - perguntou, parecendo divertido com o meu nervosismo, de repente. Antes que eu pudesse responder, ele voltou a falar. - Por que você trouxe tudo isso? - percebi que ele continuava a mexer na mochila, e, pro meu desespero, minhas mãos não obedeciam ao comando de parar as ações dele. - Câmera, lanterna, binóculos, lupa... Nossa, você tem caneta e bloco de anotações!
Antes que eu pudesse me mover pra pegar a caneta da sua mão, ele percebeu o que eu preferia que não percebesse.
- E é uma caneta de luz negra! - ele disse, agora entusiasmado. Se não estivesse tão entusiasmado com os apetrechos que socara na mochila, minha vergonha seria maior.
- É, é uma caneta... Especial. Agora, devolva - eu tentei parecer brava enquanto me inclinava pra ele, mas não consegui, de verdade. Sinto a necessidade de confessar que estava feliz demais pra conseguir sequer parecer brava. Feliz e humilhada. Era notório que eu tinha ido 'armada pra guerra', pra casa de .
- Calma, calma - ele sorriu, escrevendo alguma coisa literalmente ilegível no pulso, antes de acender a pequena luz e enxergar. Inclinei-me um pouco mais e pude ver. Era meu nome. - Funciona!
Quando ele concluiu, pronto pra devolver a caneta, o walkie talkie deu sinal de vida. Eu arregalei os olhos, mas isso não ajudou em nada, e em instantes, começou a falar ao que eu tirava o aparelho do bolso.
- , ! Tá me ouvindo? Bom, eu... Eu tô com um probleminha, aqui - ela sussurrava. - É melhor que você não responda, mesmo, ou eu vou ter mais problemas - então, ela ficou alguns instantes em silêncio e tudo que eu pude fazer foi encarar , atônita. Claramente, eu esperava uma reação dele, mas foi, infelizmente, a mesma que a minha, que consistia basicamente em esperar pelo walkie talkie. - Acho que é a mãe do seu falecido. Eu vou parar de falar, ela tá vindo pro armário. , pode vir logo me ajudar? O quarto dela é tenebroso e... Oh, meu Deus! É ela, mesmo! Câmbio, desligo.
Assim, de repente, ela finalizou a transmissão. me impediu de levar o radiotransmissor à boca, deixando-o na cama, ao lado de todas as tralhas detetivescas.
- Você fica aqui - ele disse com calma, antes de sair pela porta. Continuei encarando aquele grande objeto de madeira branca, antes de pensar um pouco mais claramente.
O que há com todos os homens? Todos têm que ser tão controlados, assim, ou é só o contraste com a minha tortuosa carência de autocontrole?
Depois de agradecer mentalmente por não ter rido da babaquice que foi levarmos um walkie talkie amarelo, ou, pior ainda, chamando-o de falecido, finalmente pensei em me esconder no armário, mas achei mais prudente entrar no banheiro, onde eu poderia trancar a porta. E eu não saiba o que ele vestiria, ou não vestiria, ao abrir o armário, então...

Não demorou dois minutos até que os dois voltassem. Eu tinha trancado a porta do banheiro e só abri quando disse que era ele, com confirmando ao fundo.
Só quando fechei a porta atrás de mim, percebi o quão desconfortável eu estava com a situação.
Estava super feliz, é verdade, que existia, estava de volta e que eu não estava pirando. Mas depois de seis meses, era simplesmente... Eu não sei, tinha algo diferente. E não parecia ser algo nele.
- Ok, , você me provou que ele existe - falava como se não estivesse ali. Ela colocou a mochila na cama, ao lado da minha, de uma maneira bem indelicada. - Mas não precisava me assustar desse tanto. Eu achei que a mãe dele fosse me matar - e levou a mão ao coração, valorizando seu susto.
- Você quer dizer, se ela te encontrasse, não? - acrescentei, me sentando na cadeira do computador, um pouco longe, porém de frente pra ela.
, de costas pra nós, e de frente para o armário, deixou que a toalha caísse e eu só fiz por a mão na frente do rosto ao mesmo tempo em que reprovava-o, em um gemido nervoso.
- Podia ter nos avisado, ! - ao que ela reclamava e eu concordava, ele gargalhou, completamente à vontade, não bastasse ele estar no próprio quarto.
Vestiu apenas uma bermuda e, de chinelos, aproximou-se de nós a passos lentos. Ficou entre e eu. Notei que ele tentava secar o cabelo, com a toalha.
Fiquei assistindo enquanto ele o fazia de forma desajeitada e despreocupada.
- , você quer contar agora por que você tá vivo? - eu me ouvi dizer. Senti que, enquanto não soubesse isso, o desconfortável bloqueio continuaria ali.
Quem é que não se sente intimidado ao falar com alguém que aparentemente morreu, mas, na verdade, está vivo? Nada saía natural e nada sairia natural até que eu soubesse totalmente a verdade.
Ele suspirou, puxou a cadeira de rodinhas sobre a qual eu estava sentada para perto da cama e se sentou ao lado de . A toalha descansava nos seus ombros, nus.
Foi preciso muita força de vontade pra não morder o lábio indiscretamente ali, mesmo, e respirar, como se estivesse tudo na mais perfeita ordem.
Porque é claro que não estava.
- Vocês querem mesmo saber? - ele apertou os olhos, percebendo que não poderia fugir daquilo por muito mais tempo.
Rapidamente, eu e concordamos freneticamente com a cabeça, mas sem dizer nada além de murmúrios.
- Está bem - mordeu o lábio, provavelmente pensando por onde começar. - Eu tive uma overdose - ele disse, virando-se pra encarar eu e ao mesmo tempo. O milésimo de segundo que a encarei foi suficiente pra entender que ela estava entediada. Porque já sabia essa parte.
- Sim, e aí você morreu - ela o cortou, reafirmando minha teoria. Eu dei uma risada nervosa, apertando as unhas da mão esquerda contra a palma da outra. - Agora nos diga como você voltou.
- É... Complicado - começou.
- Imagine pra mim! - ela devolveu, impaciente. - Vamos logo com isso!
- Eu realmente fui parar em um hospital, em coma - era inquestionável que ele escolhia as palavras, quase a dedo, antes de pronunciá-las. - E meus pais ficaram realmente loucos. Pirados.
Ficamos todos em silêncio, como se o que ele tivesse dito nos fizesse pensar. Na verdade, eu não pensei em muita coisa. Toda a minha atenção estava voltada para os lábios e as palavras de .
- Queriam me internar. Queriam me mandar pra fora do país. Queriam tudo. Queriam me afastar de você, - de repente, os seus olhos tomaram outra aparência. Foi como se ele finalmente tivesse dito algo que escondia até de si mesmo. O pior ainda estava por vir. - E eu aceitei. Eu estava desesperado, também. E eu percebi que eu precisava tomar alguma atitude.
- Por quê? - eu perguntei, sem saber exatamente à que me referia.
- Eu sabia que não conseguiria sair dessa, sozinho - ele devolveu, o olhar aparentemente derrotado. Ou arrependido, não sei bem. Não, arrependido provavelmente não.
- Então, você decidiu mudar de país? Sumir, dar por morte morrida? - questionava, encarando-o em choque.
- Eu aceitei a clínica de reabilitação - ele declarou, me olhando nos olhos pela primeira vez naquela conversa. Acho que esperava por minha aprovação, mas lenta como estava, eu mal pude arquitetar uma resposta coerente. - Eu sabia que estava acabando com a gente, e, , você não sabe como isso me corroia.
Sua voz realmente soou dolorosa. Aquilo se refletiu em uma pontada de dor, em mim, no meu coração.
- Me corroeu você... Morrer - só então percebi o quanto aquilo parecia patético, apesar de doloroso. Ele não estava morto. - Por que aceitou dizer que estava morto? Por que não me disse?
- Porque eu sabia que, no momento que eu te visse, eu desistiria de tudo - mais alguns segundos em silêncio se seguiram. parecia interessada, agora, ela mal piscava. - Você não imagina como as primeiras semanas foram terríveis, sem você.
Eu abri a boca, mas, antes que pudesse protestar, ele retomou:
- Eu não levei ao menos um porta retrato seu. Não levei celular. Eu fui sozinho e limpo pra lá, , - ele disse, o olhar levemente conturbado -, porque a intenção deles era que eu saísse como entrei. Limpo.
- Funcionou? - arriscou. Apesar de inconveniente, às vezes, eu agradeci por ela não estar tão em choque quanto eu. Ela, ao menos, falava coisas inteligentes.
- Sim, funcionou - ele sorriu, pela primeira vez parecendo aliviado. - E eu nunca me senti tão feliz por voltar pra casa.
Eu pensei em perguntar por que ele tinha aceitado ser tido como morto, mas preferi ficar quieta, quando lembrei que já tínhamos feito essa pergunta. E, pior, a resposta tinha sido boa o suficiente pra me convencer.
- Seus pais pagaram um funeral pra você - eu disse, incrédula. Com nojo. arregalou os olhos, acrescentando:
- Nossa, que mórbido.
E voltamos ao silêncio.
- Você ficou esses seis meses, lá? - arrisquei mais uma pergunta. Ele me negou com a cabeça.
- Voltei faz um mês. E até decidi ir disfarçado à sua casa, ver como você estava, mas acho que alguma coisa não deu certo. Alguém apagou as luzes, e eu tive que sair correndo.
Meus olhos se arregalaram, e eu senti o sangue desaparecer da minha cabeça. Estava pasma. não estava muito diferente de mim, e eu sabia o motivo exato.
- Então, a peruca era... Sua, mas... As luzes, não foi você? - eu arregalei os olhos ainda mais, como se fosse possível. Piscava assiduamente, também.
- É, a peruca era minha. Eu acabei perdendo, na fuga - reafirmou, o olhar baixo. Uma risada parecia se esconder no canto do seu lábio. Era engraçado dizer que uma peruca era dele, até porque sabíamos que a peruca era, na verdade, da mãe dele.
- Então, tinha mais alguém - confirmou, com o olhar perdido em tantas informações. - E não era você. Uau.
- Uau. Quer dizer, preferíamos que fosse você - alfinetei.
- Então, talvez tivesse um baderneiro, ali, mesmo. Acho que nós duas estávamos certas, - disse, a voz branda. Eu ainda não me sentia calma sobre isso.
Algo estava mal explicado, e, quando meu instinto preocupado soava, nós duas sabíamos que faltava algo. Algo que estava na nossa cara, mas nós ainda não tínhamos visto.
Talvez algum detalhe.
- Eu acho que não. Não costumo ter inimizade com ninguém, você sabe - eu mordi o lábio, preocupada. E eu que ficara tanto tempo sozinha.
se levantou de súbito; o seu telefone vibrava, e ela o atendeu rapidamente. Saiu de perto de nós e foi para o banheiro, encerrando a conversa, por enquanto.
soltou um suspiro um pouco aliviado e eu imaginei que fosse pela ausência de . Devo admitir, às vezes era um pouco mais intimidadora do que o necessário.
Mas ele, ele estava mais bonito do que nunca. Ele não me intimidava mais. Não como na primeira vez que o vi, depois da sua forjada morte. Seu cabelo ainda respingava e ele sorria de um jeito que, eu ousava dizer, era sexy. Na verdade, eu não tinha opção a não ser aceitar o fato que absolutamente tudo em era sexy e me atraía pra ele. De uma forma quase irreal.
Queria beijá-lo ali, mesmo.
Por mais errado que pudesse parecer, já que agora eu estava tendo um relacionamento um pouco mais sério com , eu não resistiria se arriscasse me beijar.
Era uma certeza. Eu esqueceria no momento que me tocasse novamente. Eu tinha tanta certeza disso quanto do contrário. Os dois tinham esse poder estranho.
Percebi que gastamos todo o tempo que tivemos juntos, nos encarando; eu, terrivelmente atraída, e ele... Terrivelmente atraente.
- , o resgate está chegando - disse, ainda em seu linguajar diferenciado, já guardando todas as coisas que alcançava, na própria mochila. Traduziu em seguida, meio impaciente, notando pelo meu olhar que eu mal a entendi. - vem nos buscar.
Ela ter dito o nome do irmão serviu como um comando, pra mim. Imediatamente, me recompus, pondo os pés no chão com pressa.
- Vamos casalzinho, cooperem ou eu apanho em casa - ela continuou a reclamar, até que eu me levantei, e , ao meu encalço, me ajudou a guardar as coisas na minha mochila. - Isso, assim, mesmo. Quando se trabalha em cooperação, todo mundo sai ganhando.
Comando, este, que só durou até que eu ouvisse a respiração pesada de no pé do meu ouvido. Talvez fosse só impressão minha. Só impressão.
Ele deu uma risada e me deu um abraço demorado, que me causou um ótimo arrepio, diga-se de passagem, antes de sairmos do seu quarto. havia, então, chegado com o carro, para buscar-nos.

É preciso mencionar que fiquei completamente aérea no carro? Eu só esperava que não tivessem conversado sobre , porque não era o momento certo pra que soubesse sobre ele.
Eu temia a sua reação, assim como tinha temido a reação de sobre eu e . Ainda assim, nós dois não fazíamos nada diante dela, pra não assustá-la.
E sobre ; ele tinha tantas informações a me dar, e, incrível, a cada informação surgia mais ramificações. Tinha tanto sobre ele que eu ainda queria saber, apesar de conhecê-lo bem como a palma da minha mão. Ou tê-lo conhecido bem como a palma da minha mão.
Dizem que as pessoas são assim, quando você acha que sabe tudo sobre elas, elas tomam uma atitude tão fora do caráter que você tem que começar tudo de novo. Eu me sentia exatamente assim sobre , porém, como quer que fosse, eu estava disposta a começar tudo de novo, por ele. Com ele.
Estava disposta a (re)conhecer todos os seus detalhes.
De alguma forma, eu sentia como se pudesse fazer isso, a qualquer momento, de agora em diante. Parecia que eu tinha aberto, vamos dizer, a porta para o próximo nível.
Ainda era como se ele soubesse muito mais do que eu sentisse que pudesse também saber, mas, sinceramente, eu estava indubitavelmente ansiosa por isso.
Eu mal podia esperar.


Capítulo 13



Acordei, me lembrando da noite anterior. Foi impossível parar de sorrir, nos primeiros quinze minutos, tamanha a realização pessoal sobre os últimos acontecimentos.
Voltei a me deitar no momento que percebi que acordara uma hora antes do necessário pra me arrumar e ir pro colégio. Eram seis horas, e eu só precisava acordar, no mínimo, às sete. Eu já vestia jeans quando percebi isso, mas não liguei em voltar para a cama, e, assim que o fiz, checando mais uma vez o horário no celular, reparei em uma sms nova. Era .
Dizia "venha me pegar de carro, hoje, estou louca pra tomar café fora de casa", apenas. Fiz um bilhete mental, preguei na porta de entrada das minhas pálpebras e voltei a dormir.

Do contrário do que pensei, não estava radiante naquela manhã. Muito pelo contrário, ela mal falava. Honestamente, isso me intrigou.
- , o que há com você? - eu perguntei, virando um gole cuidadoso do meu moca, que estava bem quente.
- Hã? - o seu olhar encontrou o meu depois de algum tempo, que eu, pacientemente, encarei-a.
- Você tá quieta, hoje - reformulei a frase, mordiscando um pedaço de pão tostado. - Nem tocou no café da manhã.
- É... - ela meneou a cabeça, torcendo o nariz. - Acho que estou, mesmo. Sabe o que é? - me senti satisfeita quando ela fez essa pergunta, que na verdade era retórica. Era crucial pra que eu abrisse caminho às perguntas. De qualquer maneira, ela continuou antes que eu respondesse, e por aí, já percebi que era grave. - Eu... Vi você e o ontem e achei bonito.
Eu fiquei em silêncio, esperando por mais informações. Nada perigoso, até então.
- E eu senti inveja. E me senti sozinha, também - ela admitiu, suspirando pesado. Não pude evitar por o café de volta ao balcão, pra pegar na sua mão e tentar lhe passar algum conforto. Ela não recusou a princípio, mas depois recolheu a mão pra pegar a xícara, ainda intocada. - E eu acho que... Eu acho que sinto falta do Craig.
Eu tossi fraco, fingindo um engasgo casual, pra evitar torcer o rosto ou fazer qualquer outra expressão desagradável. Quando voltei a encará-la, ela olhava algum ponto nulo, o que me deu um pouco de segurança, já que minha tossida tinha sido realmente falsa.
Eu fiz um sinal pro atendente, pedindo a nossa conta, enquanto ainda se mantinha dispersa.
Sim, eu tinha plena consciência de que estava e vinha sendo uma péssima amiga, mas eu tinha grandes intenções de mudar meu comportamento. Ou melhorar o dela. Por exemplo, eu ouvi falar de uma festa, à noite. Comecei a tentar distraí-la:
- Olha, você tem que esquecer o Craig - e não comecei bem. - E eu acho que você pode começar indo numa festa. Uma festa hoje à noite. Isso! Festa! - eu sorri, erguendo a sobrancelha.
- Será? - ela disse devagar, tomando um pequeno susto quando o atendente voltou com a conta. Devia ser mais grave do que aparentava. normalmente era forte com essas coisas de coração partido, mas quando se machucava de verdade, parecia que entrava em coma. - Não, acho que eu vou ficar em casa. Obrigada, mesmo assim, pelo convite.
- Por quê? - eu perguntei, enquanto colocava o dinheiro no balcão e me levantava, pronta pra ir embora. - Quer dizer, você não pode ficar em casa! Hoje é quarta! - percebi que isso pareceu completamente festeiro, mas como não encontrei nada melhor pra falar, deixei assim mesmo.
- Estou desanimada, quero curtir a minha fossa - eu arregalei os olhos ao ouvi-la falar assim. Não fora exatamente grosseiro, mas eu me senti intimidada a falar mais alguma coisa e o assunto acabou morrendo.
Quando eu abri a porta do carro, ela retomou a conversa, como se tivesse ficado um bom tempo fora do ar e só então ela se lembrasse de conversar.
- Que festa é essa? - perguntou com um pouco de interesse, enquanto colocava o cinto. Eu estava girando a chave de ignição, quando imaginei ter visto um vulto na minha janela.
Ao invés de olhar, me concentrei em responder . Quem sabe a interessasse, se divertir um pouco? Ela parecia estar precisando.
- Parece que é na casa do Sam - comecei a dar a marcha ré, finalmente saindo do estacionamento e indo para a escola.
- Quem é Sam? - ela perguntou, alheia. Quando olhei de canto, notei que ela encarava algum ponto distante, na janela.
- Sam é um jogador de futebol. Está no segundo ano, e, se não estou errada, está solteiro - eu ia falando de maneira insinuante. riu da brincadeira, entendendo minhas intenções.
- Ele é loiro? - perguntou, repentinamente interessada. Estranho, porque eu nunca fiquei sabendo da sua afeição por loiros. Concordei com a cabeça e ela sorriu, de repente, eufórica. - Tudo bem, mas vamos precisar fazer compras.
- Essa é a melhor parte! - eu concordei com um sorriso. Não é explicável em palavras o alívio que senti ao perceber que ela cedera, finalmente. Que preferia sair comigo, fazer compras, aproveitar a vida e esquecer Craig a ficar em casa, comendo chocolate e assistindo qualquer filme dramático.
- Depois da aula, então? Compras? - confirmei.
- Compras!

As aulas da manhã correram bem rápido, visto que um peso enorme tinha sido tirado dos meus ombros - adivinhe o nome do problema - e ainda, de brinde, eu ganhara uma aula livre, porque algum professor teve problemas na família. Aparentemente, e com isso excluo o professor com problemas na família da regra a seguir, quando as coisas começam a ir bem, elas só tendem a melhorar.
Receio que nem seja preciso mencionar o quanto isso é agradável.
Tudo que eu lembro daquela manhã é que disse que encontraria alguém pra levar à festa, e, segundo ele, o jogo estava virando. Era a vez dele apresentar as pessoas à irmã, mas alguma coisa me dizia que, por mais babaca ou convincentemente perfeito, mas ainda babaca, que ele pudesse ser a próxima companhia da irmã escolhida por ele, ela perceberia. Depois de Craig, estava mais atenta.
De qualquer maneira, nada mudava o fato de que as aulas daquele dia haviam acabado e eu estava finalmente indo fazer compras, antes que acabasse a tarde, também.
- Precisamos entrar nessa loja! - soltou um pouco alto, um gritinho afetado, ao ver escrito 'liquidação' na vitrine da River Island.
Entramos.
Saímos com bolsas, sapatos e casacos.
- Próxima parada, MAC! - foi a minha vez de dizer, extasiada.
Bem fácil presumir com o que saímos de lá.
- , não acha que falta um vestido? - a mais nova instigou, enquanto dobrávamos uma conhecida esquina, já pondo os olhos no letreiro mal iluminado da Juicy Couture.
- Ou talvez até mais algumas peças de roupa - eu brinquei de volta, correndo com as várias sacolas que tinha nas mãos, até a loja.
Mais sacolas.
Mais lojas.
Mais risadas.
Paramos de criar gastos somente às seis da tarde, quando a maioria das lojas fechou e percebemos que precisávamos jantar, ou ao menos comer qualquer coisa, antes da festa.
- Nossa! Nossa, nossa, nossa! Estou morrendo de fome!
- Eu também! - concordei com uma careta. - Acho que não comi nada desde o horário do almoço.
Ela deu uma risada antes de adentrar uma pizzaria. Fui atrás.

Quando um garçom passou com uma travessa prateada, esticou o braço pra pegar a primeira taça de champagne da noite. Fiz o mesmo.
Já tínhamos consumido a cota de licor desejada e estávamos pulando para o champagne e depois, segundo , iríamos diretamente aos destilados. Parecia que eu tinha conseguido reanimá-la, mas eu já me perguntava até que ponto isso era considerado bom.
- Finalmente, a melhor parte da noite! A nós! - ela brincou, brindando comigo antes de virar alguns goles generosos. Bem, falo assim porque foi o que fiz e suponho que tenha feito, a julgar pelo que restou de nossas taças, assim que voltamos do brinde. - Vamos, temos que virar isso aqui, ficar bêbadas, jogar algum jogo babaca e quebrar algum vidro.
Eu a encarei, abismada. O que ela tinha ingerido? Uísque?
- É, a melhor parte... - devolvi, sem muito interesse, a expressão meio torta, antes de perceber alguém conhecido. - Olha, não é o Calvin, ali? - eu apontei com um atinado aceno de cabeça. Ela jogou o cabelo pra trás, e, mais discretamente ainda, lançou um olhar para onde eu apontei.
- Ah, meu Deus. Aquele ali? Aquele maravilhoso com uma taça igualmente magnífica nas mãos? - quando seu rosto voltou a me encarar, tinha um sorriso enorme no lugar da boca. - Caramba, como eu pude não reparar nesses meninos bonitos, antes?
- Pare com tantas perguntas! Vá falar com ele - eu disse, rindo. Ela levou a sério, entregou-me a taça de champagne e foi.
Encarei perplexa enquanto seu corpo se movimentava confiante até o garoto, que, por acaso, não era nada loiro.
Deixei a taça dela em qualquer canto, caminhando ainda sem rumo. Só parei quando cheguei em um banco, do lado de fora, no jardim dos fundos. Sam, ou o que eu achava que pudesse ser ele, se agarrava com alguma menina aleatória e eu desviei o olhar sem pressa, agradecida por não ter mais traumas em relação à isso. Justo no momento que pensei em , o vi saindo da casa.
Olhou para os lados, olhou pra frente, deu um sorriso e veio na minha direção. Virei o que restou do líquido em um fôlego só.
- demorou pra sair de perto de você - ele disse, encarando a piscina iluminada à nossa frente. Tinha algumas bexigas coloridas, ali.
- E vai demorar mais ainda pra voltar - eu brinquei, rindo e deixei a taça de lado. Imediatamente, virou o rosto na minha direção, sorrindo faceiro.
Eu sabia o que aquele sorriso significava. E os arrepios que eu só sentia quando estava perto dele se fizeram presentes, logo abaixo do meu pescoço.
- Muito bom - ele disse, apenas, enquanto levava a mão esquerda à minha nuca. Fiz todo o esforço que pude pra não fechar os olhos e consegui captar todo o momento que ele o fez, lentamente.
Aproximou o rosto do meu e, mesmo querendo falar alguma coisa, não consegui. Fechei, finalmente, os olhos, enquanto ele encostava sua boca lentamente na minha. Entendendo o que ele queria, eu afastei meu rosto alguns milímetros do dele, semicerrando os olhos antes de dar-lhe um selinho e puxá-lo dali.
Imediatamente, ele se levantou e postou as mãos na minha cintura, acompanhando-me até a cozinha, onde era visível desde bebida, comida e pessoas conversando, até pessoas se engolindo. Não, sério. E eu pretendia pegar uma garrafa de vodca, mas não foi possível. No caminho pra geladeira, me puxou pela cintura, contra si, de costas, e eu senti um arrepio. Ergui as mãos, mesmo que de costas, até seus ombros e então me virei de frente pra ele, mantendo os braços repousados nos seus ombros. O sorriso no rosto dele era um pouco diferente do meu; talvez mais malicioso.
Sem muita dificuldade, ele me ergueu pela cintura e me pôs sentada no balcão. Seu sorriso contemplativo voltava a me tirar da realidade, e, antes que eu pudesse me dar conta, ele havia se colocado entre as minhas pernas, abertas. Agradeci por ter escolhido ir de shorts, diferente de .
Suas mãos pareciam indecisas, porque antes de adentrar minha blusa, parecia estar brincando de subir e descer nas laterais do meu corpo, vagarosamente. Enquanto eu distribuía beijos pelo lóbulo da sua orelha e pescoço, ele beijava meu ombro esquerdo, como se estivesse beijando minha boca. O toque dos seus lábios sobre a minha pele era tão suave, que, se estivesse distraída, mal sentiria.
Mas não, eu estava completamente atenta e receptiva às suas provocações. E tentava dar o troco.
Passei a contornar círculos em seu pescoço, enquanto descia uma mão até o fim das suas costas, prensando-o levemente contra mim com as unhas, provocando, em seguida um arranhão arrastado, demorado. Acho que isso o agradou mais do que eu esperava, porque a resposta foi mais do que instantânea. passou a subir minha blusa até certo ponto, abaixar e voltar a subir, alternando subir a mão com apertá-la em mim, apertando-me, consequentemente, contra ele. E, agora que minha outra mão estava espalmada nas suas costas, mais especificamente, no início dos seus ombros, e a outra se mantinha, então, no seu ilíaco.
Percebi que estava fazendo algo que eu não costumava fazer, mas quem é que pode dizer que eu parei? Talvez fosse o álcool; a cada segundo que eu fechava os olhos, eu sentia como se o mundo desse uma leve girada, como um carrossel tranquilo e gentil. E repentinamente agitado, já que estava ali, e agora subia os beijos para o meu pescoço, mandíbula, até voltar à minha boca. Estava quente.
- Ei! - ouvi uma voz gritar ao fundo. - Ei! Vocês dois! - de novo, e agora ficava mais forte. Era uma voz arrastada, bem bêbada. Eu só não podia sentir o cheiro porque estava mais concentrada nos lábios de . E quando ele abrisse os olhos, eu me concentraria na cor imensamente azul de suas íris.
Então, , a contragosto, partiu o beijo, finalizando-o com um selinho. Ele ainda me olhou por alguns segundos, e eu me perdi naquele mar estonteantemente belo, seus olhos, antes que ele virasse o rosto com desgosto.
- Brandon? - parecia mais surpreso do que eu. Talvez irritado. - O que você quer?
Olhei ao redor, pra me certificar que as pessoas que estavam na cozinha continuavam ocupadas com seus afazeres. Só um ou dois virou a cabeça quando o referido Brandon chegou aos gritos.
Confesso que tinha esquecido que o resto do mundo ainda estava ali.
A música já estava suficientemente alta, e, por mais que estivéssemos na cozinha, o som que vinha do possível DJ (ou iPod pré programado) era completamente audível. O garoto tinha porte de jogador de futebol, e um sorriso canalha. Se inclinou na direção de , pondo a mão no ouvido, como quem diz que não ouviu direito. Segurava, na outra mão, uma garrafa de destilado. E estava sem camiseta, descalço.
- Olha, olha pra mim! Tem quartos lá em cima! - ele sorriu primeiro pra , que não mudou a expressão ligeiramente indolente, e então sorriu pra mim. Eu apertei os lábios numa linha fina, esperando que isso fosse o suficiente pra que ele percebesse que estava bêbado e saísse dali. Ele já estava falando besteira. - O Samuel não vai se importar se vocês dormirem por lá.
Então, ele riu, deu as costas e desapareceu porta afora.
- Samuel era seu amigo, não era? - eu indaguei, assim que tive a atenção de de volta pra mim. Voltei a enlaçar seu pescoço com meus braços.
- O melhor, até eu decidir ir pra Dinamarca - como é possível notar, não foi pra Escócia nem pra Holanda. - E sair do time de futebol - observei atentamente, enquanto ele dava de ombros. Seus lábios estavam um pouco avermelhados. O suficiente pra que me servisse de tentação.
- Então, você vai se importar se a gente for pra um quarto? - ele perguntou, roçando o nariz no meu. Isso me causou um arrepio.
Óbvio que nem um pouco.
- Por mim, tudo bem - eu sorri, abraçando-o. Ao que eu o abracei, ele me tirou dali, me levando assim, no colo, mesmo, até o quarto. Subiu as escadas com um pouco de dificuldade, mas eu mal pude pensar em pedir pra descer. Enquanto subíamos, tentava se fazer de forte e cheio de coordenação motora e me dava beijos mal distribuídos no pescoço, intercalando mordidas e chupões que não demoraram mais que alguns segundos.
Abriu porta por porta até chegar a uma cujo cômodo se encontrava vazio. Entramos e mal eu pus os pés no chão, me puxava para um beijo, me deixando completamente tonta. Literal e metaforicamente. Não era um beijo violento, mas, eu posso dizer, tinha urgência. Retribuí da mesma forma, já que compartilhava, eu tinha certeza, das mesmas vontades que ele.
Quando dei por mim, estava prensada contra a parede, e, por mais que meus pés dessem sinais de querer formigarem, eu não sentia vontade de mexê-los ou de me sentar. Ou ficar em pé. mantinha o corpo encaixados no meu, e, mais uma vez, eu tinha as pernas enlaçando o redor da cintura dele.
pôs sua mão atrás da minha cintura, me apertando com vontade contra si e, em resposta, eu apertei mais as pernas ao redor da cintura dele. De volta, ele mordeu o lóbulo da minha orelha, puxando-o lentamente até soltá-lo. Sussurrou alguma coisa no meu pescoço, e depois mais uma vez no pé do meu ouvido, e eu jurava que era meu nome. Tentei evitar que um gemido escapasse, então acabei optando por arranhá-lo nas costas. Não foi exatamente intencional, apesar de tudo. Foi tão instintual quanto a vez em que saí de carro sozinha, procurando o lugar da festa dele.
Quem acabou por soltar um suspiro foi , mais uma vez, no meu ouvido. Tentei abaixar um pouco as minhas pernas, enquanto abaixava minhas mãos pelas suas costas. Não foi difícil, já que, convenhamos, eu estava prensada contra a parede. Ao encostar o que devia ser o fim da sua camiseta, eu a puxei pra cima, dando os primeiros indícios de que estava bêbada, apaixonada e morrendo pra tirar a camiseta dele.
Não exatamente nessa ordem.
voltou seu rosto ao meu e me arrancou um beijo apaixonado, demorado e envolvente. Sua língua brincava com a minha e eu me sentia entorpecida, no bom sentido, enquanto ele apertava minha cintura contra o corpo dele. A sensação era escandalosamente boa, excitante, e, apesar de ainda não ter tirado a camiseta e me deixado sentir seu corpo no meu, eu estava adorando aquilo.
O beijo dele era extremamente tóxico, como... Como a coisa mais clichê que puderes pensar: uma droga. Tóxico e viciante.
Finalmente, finalizamos o beijo, sincronizados e, inebriada, eu só pude pôr, finalmente, os pés no chão, levando as duas mãos até a barra da sua camiseta e puxando-a para cima pra tirá-la de uma vez por todas. É bem óbvio que ele fez o mesmo com a minha, mas com a velocidade bem mais acelerada. Por um instante, eu pensei se o mundo teria um tempo marcado pra acabar. E se estava próximo.
Balancei a cabeça, afastando tais pensamentos, e, talvez pensando que eu estivesse tentando seduzi-lo, deu uma risada divertida, me dando vários beijos pelo rosto, enquanto apoiava as mãos no meu pescoço, com leveza. Em seguida, me puxou para si, resfolegante, e caminhou de costas até a cama de casal, a alguns passos de nós.
A primeira coisa que fez foi me deitar nela, e então ele se ajoelhou, com as pernas ao redor do meu corpo. Beijou meu pescoço, enquanto descia os dedos cuidadosamente pelos meus quadris, me apertando contra si no instante em que eu percebi que, por mais certo que fosse, perderia o controle. Eu já desabotoava a sua calça, e já enxergava tudo turvo, mas nesse instante, tudo me pareceu muito claro.
Era aquilo o que eu queria. Eu tinha certeza.

Capítulo 14



Acho que nem preciso dizer que, depois da noite anterior, eu não precisava de mais nada, certo?
Uma outra dose, quem sabe.
Acordei na manhã seguinte, bem cedo. Imaginei que fosse por causa do meu relógio de pulso, que apitava a cada uma hora. E eu não sabia como eu mesma suportava aquilo, mas o relógio em si era útil. Indispensável, então. Isso, segundo meus pais, sempre pontuais.
Acordei com me puxando pra perto dele. Na verdade, despertei nesse momento. Ele passou o braço por baixo meu corpo e me puxou lentamente, provavelmente pra que eu não acordasse, mas, pra sua infelicidade, eu já estava em estado de "semi acordada" havia algum tempo. Levei uns centésimos de segundo pra perceber que ele sorria, e, enquanto eu sorri de volta, eu só consegui reparar em um beijo demorado, que ele me deu na testa. Continuei sorrindo, mas internamente desejando que toda aquela claridade fosse embora. Ergui o próprio corpo até e dei-lhe um beijo estalado na curva do seu pescoço. Infelizmente, logo depois do beijo, me lembrei que dia o sol trazia naquela manhã.
- Deus do céu! Hoje é quinta feira! - eu disse num sobressalto, com a boca escancarada, depois de alguns segundos pensando. Preguiçosamente, passou os dedos pela curva lateral do meu corpo e, depois de mais alguns beijos que ele deu no meu pescoço, eu voltei a falar, a voz enrolada, mas ainda preocupada. - Meus pais vão me matar. Eu dormi fora e não avisei.
Meus pais não eram o tipo que achavam que qualquer bandido poderia me pegar e me sequestrar na rua, mas não tendo avisado que não ia dormir em casa, as chances deles terem se preocupado eram grandes.
- E nós temos escola - acrescentou, notando meu desespero só crescer enquanto eu cuidadosamente me desvencilhava dele.
Ajoelhei-me e fiquei de frente pra ele, na cama. Ele estava vestindo só boxer, o que me fazia pensar de novo e de novo na noite passada. Eu não lembrava do momento que ele tinha colocado boxer pra dormir, mas esperava que o motivo tivesse sido eu. Respeito por mim. Aliás, tentei não pensar muito nisso, porque já estava quase perdendo o controle e tirando-a novamente.
Infelizmente, tínhamos que ir pra escola, ainda.
- ... - eu o chamei, quando ele se preparava pra levantar. Parou o movimento, virando o rosto pra mim. Voltando toda sua atenção pra mim, enquanto eu pensava em como dizer. - Eu... Você me leva pra casa? - minha voz saiu um pouco envergonhada, então acho que o quis aproveitar e piorar o meu estado.
Brincando comigo.
- Claro, podemos até tomar um café no caminho. Aí eu falo com seus pais, você me apresenta como seu namorado e aí fica tudo bem - ele deu uma piscada, parecendo natural e bem à vontade. Na verdade, eu esperei pra ver se ele não tinha, mesmo, reparado que ele mencionou a palavra namorado.
Eu acho que escapou.
Mas foi exatamente o que eu ouvi. Pra mim, foi como se só aquela palavra tivesse sido dita, de tudo.
- Namorado, ? - eu arqueei uma sobrancelha. Por um instante, eu pareci enxergar através dos seus olhos, compondo seu rosto lívido, mas no outro segundo, ele já tinha se recomposto.
- É, acho que seus pais se sentiriam mais seguros, assim, não é? - depois de algum tempo me encarando (o que eu espero que tenha sido pra ganhar tempo) ele respondeu. Respondeu e se virou de costas pra mim, pra colocar a camisa.
- Ah, é... - esbocei um pequeno sorriso amarelo, de fachada. Enquanto eu sorria, meu cérebro tentava entender as ações dele e ligar à fala, ao clima no quarto e à oscilação das suas íris , no pouco tempo que elas tinham pra focarem-se em mim. Me recompus. - Bom, acho que tudo bem. Eu só... Acho que vou levar uma bronca, mas eu posso lidar com isso - suspirei, me levantando devagar e vestindo o shorts curto que usei na noite passada.
- E aí, nós vamos pra escola - ele completou, calmo. Devia estar apenas testando o meu nível de paciência. Me senti grata por ser apenas irônica, em seguida:
- Ou fingimos que vamos, . São sete horas, caso você não tenha reparado - e chequei o relógio. Eu estava ferrada, já havia passado um pouco das sete horas. - Nossa! Eu tenho uma hora pra estar em casa!
Isso me desesperou, e eu comecei a me vestir, com pressa. Se eu não me vestisse rápido o suficiente, não estivesse em casa 'pra ontem' e não tivesse uma ótima desculpa, eu poderia dizer adeus pra toda minha vida social. E meus ouvidos; meus pais normalmente não falavam muito, nem alto comigo, mas, ultimamente, conforme minha relação se estreitava com , mais medo eu tinha que minha mãe descobrisse alguma coisa, se preocupasse demais, perdesse o controle e tentasse me prender em casa. Ou fazer um interrogatório, como quando a me contou sobre os pais dela querendo saber do primeiro namorado dela. Eu não tinha passado por isso e evitaria até onde fosse possível, assistir a meus pais interrogando e inspecionando algum namorado meu. Futuro namorado, no caso.
Felizmente, fez tudo com quase a mesma pressa que eu. E já era um avanço enorme, porque ele estava se vestindo em câmera lenta, antes do meu pequeno surto descompensado.
- Vamos, então? - disse, quando finalmente estava pronto. Eu estava pronta havia algum tempo, mas no momento que me preparei pra responder, me lembrei. Meu colar de laço dourado, eu (quase) nunca o tirava.
- Aham. Calma... - respondi com a voz arrastada, enquanto colocava o colar, que tinha tirado da bolsa. - Pronto, vamos! - dei em um selinho rápido antes de destrancar a porta do quarto.
Descemos as escadas, e ele me mantinha bem próxima do seu corpo, com a mão esquerda na minha cintura. Podia ser um pouco difícil pra que eu andasse, mas eu não fazia questão que ele me soltasse. Também podia parecer um pouco possessivo, mas não é como se eu me importasse com isso, também.
Nem ele.
No momento em que vimos , nossos corpos se repeliram, mesmo que contra a minha vontade. Eu reprimi um suspiro pesado antes de sentir sua mão pegar pelo meu braço, pra sairmos dali. Deu tempo de reparar no cara com quem ela estava conversando, era o Peter. Se não me engano, joga futebol no time do colégio.
- Bom dia pra você também, - chegou resmungando, em resposta ao favor que fez de tirá-la do papo de Peter. O tal garoto tinha aparência de tarado, apesar de bem arrumado.
- Você não dormiu à noite, dormiu? - perguntou, ainda puxando-a pelo braço, até que ela o sacudiu e ele pareceu se lembrar de soltá-la. A essa altura, ele já tinha me soltado fazia um bom tempo. Casualmente, acabou por me puxar novamente, pelo pulso, como que pra me levar até o carro. Deu pra perceber, pelo caminho que fazíamos pelo casarão. parou mais uma vez pra conversar, e mesmo antes de ver o rosto do pobre coitado, ele a puxou novamente; segurava cada uma em uma mão. - E vamos logo, ainda temos que levar a pra casa.
Parecia bravo, e isso me fez reativar um instinto alerta. Dessa vez, eu sentia que estava incomodando.
- , se for um problema, eu posso chamar um táxi - dei a iniciativa de chamar um táxi, apesar de ter certeza absoluta de que eu não tinha dinheiro algum pra pagá-lo.
- Não tem problema algum, - intercedeu docemente por , no momento que ele abria a boca pra falar algo.
Ele escolheu ficar quieto e com a expressão fechada, enquanto contornávamos alguns carros até chegar ao seu.
Em quinze minutos, estávamos estacionando em frente à minha casa, eu torcendo pra não levar uma bronca tão grande quanto a que eu tinha imaginado, na casa de Sam.
Desci correndo do carro antes que pensasse em mais alguma besteira e veio junto, com a mesma pressa.

Quando voltamos, estava desmoronado.
o cutucava, impaciente, até que ele acordou. Seu olhar estava tão atordoado quanto a pressa da irmã, em ir pra casa. Não pude evitar uma risada, mesmo que discreta.
se arrumou no banco, como se não tivesse cochilado nem por um segundo e deu partida.
No momento que ele olhou para o retrovisor e seu olhar encontrou o meu, seu pé pisou com mais força no acelerador, e eu imaginei por um instante, se ele queria se livrar de mim, de repente, apertando o acelerador e esperando que eu fosse deixada pra trás, por milagre. Abaixei o olhar, tentando me distrair com qualquer outra coisa.
- , a gente não vai pra aula, hoje - ouvi a voz de . Paramos no sinal.
- Como assim? - finalmente ergui a cabeça, e bem a tempo de perceber que ele dava uma olhada demorada em cada uma de nós duas. Parecia avaliar nossa aparência.
O comportamento de estava me assustando, porque, depois de uma noite maravilhosa como aquela, não deveria existir erros, muito menos de comunicação. Mas como poderia isso acontecer, sendo que eu conseguia desvendá-lo uma vez a cada semana?
- Bem assim, os pais dela acham que vamos pra aula. E os nossos, eu ainda não sei - ela respondeu com simplicidade.
- Mas, se quiserem, vamos ter que ir. está toda animada pra quebrar as regras, hoje, não sei o que há com ela - eu não faço a mínima ideia de por que disse isso. Nem me importo tanto assim com as regras, só... Escapou. Provavelmente por teimosia.
Talvez eu só quisesse mostrar algum ponto positivo sobre mim pra , porque fazia mais de uma hora que eu não recebia um olhar aprovativo dele.
- Mas foi você quem teve essa ideia - retrucou, dando língua.
- Vocês não tomaram café, tomaram? Parecem nervosas - reclamou, confirmando minhas teorias que tinha algo errado. Com ele.
Em menos de algumas sinapses, a mão de voou no seu braço.
- Ao menos a minha noite foi maravilhosa! - ela desandou a falar. - Conheci mais gente legal numa única noite do que você, , poderia em toda sua vida! - então deu uma risada, antes de retomar o discurso. - E depois, eu conheci o Callum. É um nome engraçado, mas combina com ele. Ele é engraçado e até me chamou pra sair.
- E você vai sair com ele? - perguntei, já levando o corpo entre os dois bancos, apoiando as mãos nos apoios de cabeça.
- Claro que não, . Eu o conheci ontem. Até parece! - ela riu, como se fosse mais óbvio do que já era, mas parando pra pensar, em seguida. Lembrou-se de perguntar o que tínhamos feito. - E como foi a noite de vocês. Foi tão boa quanto a minha?
Um instante de silêncio se fez e eu fui a primeira a falar, depois de uma pigarreada fraca. E acho que nesse meio tempo, eu e ficamos quietos pelo mesmo motivo.
- Eu... Fiquei sozinha a noite toda. Acho que não sou interessante o suficiente pros alunos da Whalley Range High. Pena - disse, com um ar de tristeza. olhou pra trás, e eu vi surpresa nos seus olhos. Acabou sendo melhor, pois ele deu continuidade ao meu teatro. Quer dizer, parecendo surpreso.
- Isso é só porque o voltou - disse, rindo, e me deu uma piscada cúmplice.
Tomei o cuidado de (tentar) observar a expressão de , se variaria ou não. Eu mal pude vê-lo no retrovisor, porque me encarava esperando resposta, e ele mal se mexeu. Eu mal respirava.
Ia mal.
- É, o voltou - concordei, de um jeito que variava entre a timidez e a vontade de parar de conversar. Na verdade, eu queria desaparecer.
A essa hora, devia se perguntar quem diabos era , de onde tinha voltado e por que sua irmã ficara tão feliz com isso. Ou isso, ou estava feliz por ter uma chance de se livrar de mim e a reprimia tão bem a ponto de torná-la invisível. Segunda possibilidade descartada, logo de primeira. Ele não ficaria tanto tempo comigo, pra, de repente, perceber que prefere que eu fique longe dele.
- Viu? Quando o universo conspira a nosso favor, até as coisas mais ruins são para o bem - finalizou a conversa, com um sorriso e uma frase que não era bem um dito popular, ou uma filosofia boa. Finalizou, também, porque depois daquilo, ninguém disse mais nada.
Eu, porque me sentia um completo fracasso. Especialmente em esconder as coisas.

Na casa deles, seus pais decidiram que iriamos à aula, atrasados ou não. Mesmo do quarto de , foi possível ouvir a discussão. Disseram que ligariam no colégio, se preciso fosse. Não tiveram outra opção, a não ser tomar um banho e voltar para o carro, comigo. Acabamos saindo da casa deles às nove horas, por conta do atraso de .
- Ela quer se arrumar pro tal Callum, talvez - eu dizia, do banco de trás, tentando achar algo útil pra dizer. bufou e eu recuei no quesito amigável, não me sentindo mais à vontade pra falar.
- Às nove? Acho que não entramos no colégio a essa hora - respondeu com deboche, dando uma última olhada no relógio. Instantaneamente, o clima ficou pesado no carro, e, pior, não deveria. Não depois da noite anterior. Deveria ser completamente proibido que aquele clima ruim se instalasse ali, mas, depois da noite passada, tudo se tornara realmente mais sensível. Como se estivéssemos em um novo estágio.
Quase como um relacionamento.
No momento em que se virava pra trás, eu me senti obrigada a alertá-lo sobre estar vindo. Mas apenas isso, afinal eu não queria dar brechas pra mais das suas grosserias. Eu só esperava que minha voz tivesse sido indiferente, chateada, estúpida e alta o suficiente pra que não saísse da sua cabeça tão cedo. Assim como a sua voz, que ainda berrava nos meus ouvidos a palavra 'namorado'.
Esperava que ele só estivesse estúpido, assim, por ciúmes, mas não sabia até quando aguentaria em silêncio.

Pela terça-feira da semana seguinte, as coisas estavam mais resolvidas. O que parecia uma grosseria sem fim era só um acesso que deveria ser de ciúmes (a pior parte de ter um relacionamento escondido é não contar à sua melhor amiga e pedir conselhos à ela sobre isso). De qualquer maneira, aquilo parecia resolvido, e, como se ainda fosse preciso, no fim da nossa conversa, disse "Uma frase mal colocada minha foi o suficiente pra fazer ir abaixo todas as minhas esperanças de um dia perfeito." Essa frase me ganhou e depois disso, eu dei um beijo estalado e demorado, nele. Tudo voltou a ficar bem entre nós, e melhorava cada vez mais.

tinha ficado de se encontrar comigo no vestiário masculino, depois do treino dele, já que ele tinha voltado pro time de futebol. Na verdade, nos encontrávamos em frente ao vestiário. E eu esperava que aquele lugar não estivesse cheirando mal, porque ele sabia que, se estivesse, iríamos para o feminino. Era o combinado meio que de sempre. Mas dessa vez, eu resolvi inovar.
Enquanto os meninos treinavam futebol, eu entrei e me escondi em um armário. Aliás, no último deles, o que sempre ficava destrancado. É por eu saber as manias de um vestiário masculino que eu percebo, então, o quanto costumo frequentar o local. Eu estava escondida, ali, e pretendia dar um susto em assim que ele se sentasse em algum banco pra me esperar. E enquanto isso não acontecia, eu tive que esperar no armário abandonado até que todos os meninos tomassem banho e saíssem dali. Acredite em mim, pareceu demorar bem mais que uma hora e eu poderia ter evitado ouvir boa parte das conversas, ali.
Mas, finalmente, o barulho cessara e só um ruído ao fundo se fazia presente. Não era como o barulho baixo de uma máquina de barbear. Era mais como uma conversa baixa, cochichada. Resolvi abrir a porta do armário e me aproximar. Curiosa, como só eu.
Era conversando, e vinha na minha direção. Me escondi em um armário bem a tempo de chegarem à frente de onde eu estava, segundos antes.
- Incrível como ela me faz parecer um babaca pra mim, mesmo. Parece que eu sou uma criança, perto dela - falava de um modo que parecia reclamar. Se fosse sobre mim que ele falava, eu ficaria admirada. Adoraria ter o poder de fazê-lo parecer um babaca, por pior que possa parecer. - E ainda, daquelas que fazem birra. Sempre quero aproveitar o tempo com ela e essa babaquice toda.
O garoto que o acompanhava era Samuel. Eu abri um sorriso de canto, imaginando que estivesse em um momento íntimo com o amigo. Mas íntimo sem o sentido maldoso. Fiquei feliz por ele, porque, de certa forma, parecia ruim pra ele que Samuel não fosse mais seu melhor amigo. Talvez ele estivesse tentando arrumar isso e claramente o outro tentava o mesmo. Ouvia-o atentamente, murmurando algumas respostas indecifráveis.
- E o pior de tudo é que eu gosto.
Foi a hora que o amigo dele riu, dizendo mais algumas palavras meio fora de compreensibilidade, e algo que me pareceu 'amor' ou algo relacionado a isso. Eu tenho quase certeza que ouvi 'amor'. E foi nessa hora que eu me senti desafiada a entender sobre o que aquela conversa realmente tratava (além do óbvio) e me ergui na ponta dos pés, pois, afinal, ou falava muito alto, ou Samuel tinha problemas em falar em tom de voz audível. Ergui-me sem medo e inocentemente, já que os furos do armário ficavam em um ponto alto da porta do mesmo. Os dois não estavam na frente do armário, tinham passado por ali e feito a pequena curva que dava nos espelhos, e então na saída do vestiário, aí não teria problemas e ninguém poderia ver minha orelha apoiada na fenda superior. Com algum esforço, eu cheguei lá, e já falava a próxima frase, quando eu perdi o equilíbrio, tentei me apoiar na porta erroneamente, e caí de frente, abrindo-a com força.
- Minha dignidade foi pelo ralo quando... - a porta bateu no armário ao lado, fazendo estardalhaço. parou a frase pela metade, mesmo, e eu saí correndo a passos leves, ziguezagueando até o último armário do corredor onde eu estava, antes. Era mais longe, eu não ouvia nada direito, mas era o mais seguro.
E como eu sempre digo, se nada der errado, não é a minha vida.
Cinco minutos se passaram, mais algum zumbidos, e eu me sentia completamente estranha. Meu sangue pulsava e eu sentia ansiedade e arrependimento. Talvez vergonha, também. Precisava ter escutado toda a conversa, e não tropeçado, dado bandeira que estava ali e ainda voltado para o último armário. Não sabia qual das minhas ações tinha sido, de longe, a pior.
Agora, nem saberia quando teria abaixado a guarda, ou ouviria a conversa. Nem poderia assustá-lo.
- Pode sair daí, - a voz de soou de frente para o armário dentro do qual eu me escondia.
Tenho a impressão que meu sangue parou de correr pelas minhas veias no mesmo instante. Quem me assustou, foi ele, quando minha intenção inicial era completamente adversa à essa ideia.
Lentamente, abri a porta do armário e pulei pra fora. Era óbvio que eu estava naquele armário, na verdade; todos os outros estavam abertos. Escancarados.
- Surpresa? - tentei, a voz bamba refletia como minhas pernas estavam. Ou deveriam estar, já que eu quase não as sentia. Já falei que o sangue parou de bombear?
Isso sem falar na minha surpresa. estava sem camiseta. Eu devia ter tido a ideia da surpresa no vestiário alguns dias mais cedo.
- O que você tá fazendo... Aqui? - sua voz refletia o brilho confuso em seus olhos. Ele mordeu o lábio ao final da frase e eu considerei seriamente a possibilidade de me apoiar em algo. Sólido.
Abracei-o.
- Vim fazer-lhe uma surpresa, portanto não me trate assim - devolvi com a maior doçura que pude. Já que eu estava encrencada, podia ao menos tentar melhorar minha situação. Qualquer pouco já era uma grandiosa vitória, pra mim.
- Mas o que... Por que aqui dentro? - ele voltou a perguntar, não estivesse satisfeito com a minha resposta anterior. Ao menos ele me abraçou de volta. Eu murmurei qualquer coisa e ficou por isso, mesmo, apesar de eu ainda sentir vergonha por ser pega no ato. Ultimamente eu vinha passando por episódios vergonhosos. E o pior é que não tinha nada em comum entre eles, pra que eu pudesse pará-los.
- Achei que estaria inovando, agora, vamos parar de me envergonhar. Vamos sair daqui. Ou, sei lá, ir... Pra casa - comecei a frase sem encarar seus olhos e terminei encarando-os, motivo esse pelo qual acabei convidando a ir em casa, plena terça-feira à tarde.
- , eu não sei. Já passa das cinco horas, hoje o treino foi pesado...
Na verdade, era bom que ele tivesse recusado, mas eu odiava ser contrariada. Mesmo que fosse eu me contrariando depois de me contrariar. Ou o contrário.
- Não é desculpa. Você nunca jantou em casa, , e nós estamos juntos há dois meses.
Ótimo argumento, .
E o que mais me assustava era que nesses dois meses que estávamos 'juntos', ainda não tinha me pedido em namoro, apesar de dar todos os indícios de que era isso que ele queria. Ou de que não queria o contrário, que parássemos de nos ver. De qualquer maneira, eu estava tentando aproximá-lo de mim, de alguma forma. Fisicamente, eu já tinha conseguido.
- Só dois meses? Parece que eu te conheço faz bem mais tempo - ele deu uma risada fraca, me dando um selinho demorado nos lábios. Eu sorri, aprofundando o beijo enquanto levava a mão esquerda até a sua nuca, acariciando-a com calma. Ele retribuiu o beijo e, me puxando contra si pela cintura, demos alguns passos até o armário atrás dele. Sua mão passeava pela minha cintura, fazendo curvas com as pontas dos dedos, pra cima e pra baixo. Eu conseguia sentir sua respiração bater no meu rosto, nas poucas vezes que mudamos o rosto de posição. abriu as pernas pra me deixar entre elas, facilitando o contato entre nossos corpos. Agora suas duas mãos estavam em minha cintura (e eu amava isso), puxando-me contra ele descontroladamente, enquanto eu distribuía beijos pelo seu maxilar, pescoço e algumas mordidas fraquinhas que faziam-no me puxar com mais força contra si.
Teríamos continuado nesse clima, se não ouvíssemos algum barulho vindo da porta. Um grupo de meninas que passou correndo, e, a julgar pelos gritos desordenados, líderes de torcida.
No entanto, dessa vez, nossos corpos não se repeliram (eu nem tinha força de vontade suficiente pra isso, mesmo). Afastei o rosto lentamente do dele, depois de selar mais uma vez nossos lábios, mesmo que por um curto espaço de tempo.
- Então, a que horas eu te pego? - sua voz tornou-se arrastada, puxada pra manha, e eu amei isso.
Sua frase piscou algumas vezes na minha cabeça, antes que eu pudesse, de fato, responder. A intenção inicial era convencê-lo a ir pra casa, mas, de repente, também seria interessante, caso ele me levasse para algum lugar. Bem interessante.
- Oito. Aonde vamos? - eu sorri, encantada com a ideia e algumas possibilidades que passaram por trás dos meus olhos. Apoiei as duas mãos nos seus ombros.
- A um lugar especial - sorriu de volta, me encantando mais ainda. Se aquela fosse a intenção dele, estava conseguindo me seduzir. Mesmo depois de eu ter quase certeza que gostava era dele. Não de . Eu mal conseguia lembrar deste outro, quando com .
Concordei com um aceno de cabeça, e, lentamente, nossos corpos se separaram. foi vestir uma camiseta enquanto eu recompunha minha compostura. Era hora de ir embora, mas só nos separamos a partir da porta do vestiário e, como de costume, seguimos como amigos até o estacionamento.
Por mais que fosse incômodo fingir-me apenas amiga dele, por enquanto, era por um lado, bom. Como 'amiga' dele, eu conversava muito mais com ele do que faria, se fosse uma ficante. Ficantes não tinham vez com , como dizia. Até algumas namoradas; mal havia conversa. E aparentemente achava algumas tão chatas que era melhor beijar e não falar nada do que falar, e, bem...
Essas últimas informações são suposições de minha ambiciosa e idealista mente.
No estacionamento, me acompanhou até meu carro. Sabendo o que ele faria, que normalmente consistia em se virar de costas e só acenar novamente pra mim, quando em seu carro, eu o puxei pelo pulso e lhe dei um selinho demorado. Apesar de me sentir um pouco desprotegida, pelo fato de estarmos em um local público, eu não poderia me sentir mais segura. Confuso. Mas eu me sentia confortável perto dele.
Realmente, mesmo conhecendo-o há poucos meses, era impossível não sentir como se nos conhecêssemos há muito mais tempo. Isso era incrivelmente bom.


Capítulo 15



Sabia que tínhamos passado em torno de seis horas naquele quarto, na casa de Sam, mas, pra mim, passara tudo tão rápido. Os meses, as horas com ele, as semanas, os minutos, os dias. Cada momento com ele era gasto de forma tão inteligente e restauradora, que passava como um relâmpago. Mas não por minha cabeça. Nela, eu continuava vendo e revendo aquelas imagens, em modo câmera lenta, enquanto jantava, na noite do sábado.
A minha primeira vez. Com . Eu ainda não podia acreditar.
- , você não vai comer nada? - minha mãe indagou, enquanto levava uma garfada à boca, e só então eu percebi que estava sorrindo feito pateta. Sorrindo sozinha.
- Acho que perdi a fome - eu disse, por fim, quando aterrissei de volta na realidade. Me levantei com pressa, pegando o casaco que estava na minha cadeira de jantar. Dei um beijo na testa de cada um, alternando as frases enquanto o fazia, apressada. - Tô saindo, família. Mãe. Pai. Amo vocês.
E saí correndo pra sala.
- Espera aí, mocinha. Aonde vai? - meu pai me parou no ato. Eu abria a porta de entrada, quando ouvi a voz sonora dele.
- Vou à casa da ! - gritei de volta, e, sem nem esperar resposta, saí.
- Me liga quando chegar lá! - deu tempo de ouvir, antes de fugir pro carro.
Graham também sabia ser um bom pai, mas não sabia a hora certa de tentar ser protetor ou não. Por isso mesmo saí correndo de casa; se ele escolhesse aquele momento pra bancar o paizão, eu provavelmente só sairia dentro de duas horas. Ou, com sorte, uma hora e meia.

No carro, meu celular tocou. Era .
- Alô? - eu atendi com cuidado, não querendo ser vista por um policial e levar uma multa.
- ! - ela parecia aliviada, mas sua voz tinha um quê de apreensão.
- O que aconteceu? - perguntei de imediato, temendo internamente que fosse algo com .
- Ah, é o Aaron - ela disse com a voz chorosa, mas chorosa de uma maneira falsa. - Ele bateu o carro e está no hospital.
Aaron é o garoto com o qual ela se, digamos, relacionou na festa de quarta-feira passada. Na tentativa de se aproximar de Calvin, que descobriu depois ser um babaca, e o que só confirma minhas teorias meio furadas sobre todos os jogadores de futebol, baseball, basquete e rugby terem excesso de massa muscular e falta da cinzenta. Na verdade, foi minha mãe quem me ensinou isso, mas tanto faz. Isso era só uma teoria falha, já que era dotado dos dois, com o bônus de não ser o tipo galinha. E eu sabia que estava errada, nisso. Ele poderia parar de ser controlado no quesito mulheres no momento que quisesse, e... Enfim, acabou conhecendo Aaron, que é um cara legal, mas eu não sei direito quem é. Rico e extravagante, segundo ela.
E agora, hospitalizado.
- Já sei, já sei. E você está indo para lá, certo? - eu disse, parando em uma esquina bem iluminada, sem desligar o motor do carro nem destravar as portas. - Vamos ter que desmarcar?
- É. Eu não acho que vou poder sair hoje... - ela respondeu, chorosa. Talvez o seu choro fosse um pouco real. Ou, no mínimo, chateado, embora eu achasse quase impossível ela chorar por alguém que conheceu, vamos ver, três dias atrás? - Desculpa.
Eu fiquei alguns segundos em silêncio, pensando no que fazer. Quando eu me preparava pra desligar, ela voltou a falar, receosa.
- Ah, ! Posso te pedir um favor?
- Depende.
- Pode me dar cobertura? - eu fiquei mais um tempo sem dizer nada, dessa vez, tentando entender o porquê dela me pedir isso. - É que eu vou falar pra minha mãe que vou dormir na sua casa e já vejo se passo a noite no hospital, com ele.
Não ousei dizer que era cedo demais pra passar a noite, uma hora ou o que quer que fosse, no hospital, com Aaron. Já que eu precisava da mesma proteção tanto quanto ela precisava da minha, aceitei.
- Claro, tudo bem. E não volte muito tarde, amanhã, ok? - sorri, mesmo sabendo que ela nunca teria visto o sorriso. Ela ficou um pouco mais animada, do outro lado da linha.
- Ah, ! Linda, maravilhosa, estonteante! Muito obrigada, eu te devo uma! - falou com pressa, antes de desligar o telefone.
Decidi ligar pra e tentei, mas o número dele só caía na caixa postal. E eu não tinha coragem o suficiente pra ligar na casa dele e falar com a mãe de , perguntando por ele. Não tinha desculpas convincentes o suficiente pra alegar que precisava falar com ele. Mais uma vez com seu número dando caixa postal e desisti.
Pensei em aparecer na casa dele, como tinha feito com , mas aquela tinha sido uma situação extrema e eu não planejava usar o mesmo plano duas vezes. Até porque era completamente ilegal.
Aproveitei o sinal verde, acelerei e voltei pra casa.

Inquieta, eu não conseguia dormir. Foi numa dessas reviradas que eu dei na cama, que vi meu celular piscar, da estante próxima ao computador. Ao invés de apenas me perguntar por que o tinha deixado ali, dar de ombros e virar para o lado, já que eu mal me lembrava de ter passado pela estante, me levantei e fui até lá. O vento frio que vinha da janela entreaberta me fez arrepiar até o último fio de cabelo.
Notei que, na estante, tinha deixado o celular em um espaço entre dois livros. O espaço que faltava, acredite, era do livro que eu tentara ler nas férias que meus pais viajaram. Só eu me lembro dele?
Olhei para os lados, pensando repentinamente em como achá-lo, onde o tinha deixado, e, ainda, como o acharia, depois de tanto tempo. Naquele instante, senti falta de Joanne.
Felizmente, o celular falou mais alto que meus pensamentos e eu logo voltei à realidade, porém, no exato momento em que tentei atender, a ligação caiu. Apesar de não conseguir dormir, minha visão estava um pouco embaçada, pelo meu estado de sonolência, então não consegui exatamente ver quem me ligara. Assim que apertei os olhos pra enxergar melhor o tal número, ligaram de novo. A inconfundível foto de apareceu no visor (eu tinha que tirar aquela foto constrangedora dela dali, logo) e eu atendi sem muita pressa.
- O que aconteceu? - minha voz saiu um pouco mais grossa do que eu achei que pudesse, devido à falta de uso.
Pigarreei.
- , eu sei que são... - fez uma pausa breve, parecendo pensar no que falar. - Ah, tanto faz que horas são. Tem como você me pegar, aqui?
- Aqui? - eu devolvi, sem entender. Na verdade, querendo não ter entendido.
- É, no hospital - ela disse, como se fosse óbvio, mas só estava tentando parecer natural. Sua voz acentuava-se nas notas de ansiedade. - Você pode?
- Agora? - eu fiz manha, mas lembrando que deveria passar a noite lá, surgiu uma pergunta: O que aconteceu, pra você não dormir aí?
- Tenho que falar agora? Estou de frente para um hospital mal assombrado e não vejo graça alguma nisso.
- Tem, senão vai continuar na frente do hospital mal assombrado até que um taxista bondoso faça uma corrida de graça - o que, basicamente, equivalia a nunca.
- Isso é constrangedor - ela reclamou, demorou alguns segundos e depois voltou a falar. Eu estava esperando em silêncio. - Ok, eu... Acho que o Aaron tá me usando.
- , você tá implicada com todos os caras que conhece, desde o caso Craig - eu disse, tentando parecer realmente brava. - Você sabe que nem todos são iguais a ele.
- É, eu sei. Mas o Aaron é. Uma tal de Maddie ligou aqui, procurando ele. Ligou no celular dele! - sua voz parecia exasperada, mas controlada. Ao mesmo tempo. - E ela o chama de querido!
- Já pensou se eles são primos? Irmãos?
- Já, e irmãos brigam. Irmãos não se tratam por 'querido' e outras delicadezas. Ou essa Maddie é namorada dele, ou é ex.
- Ou a mãe dele.
- Mas a voz dela não é de velha, ! - ela finalizou a conversa com um argumento, brava. Eu suspirei, sem ter mais assunto. Não estando lá, eu não poderia julgar ninguém. Nem nada.
- Tudo bem, pega um táxi e vem pra cá. Eu tenho algum dinheiro aqui. Amanhã a gente sai com o Callum, que tal? Você tinha gostado dele, não tinha? - disparei a falar, um pouco irritada.
- Aham - ela murmurou. - Mas, eu...
- Sem mas. Chame logo o táxi. Te amo, tchauzinho! - cortei-a, desligando o celular e voltando pra cama, que, por sorte, ainda estava quente. Não acreditei quando percebi que estava levantada sabe-se lá a que horas da madrugada, esperando minha amiga voltar.

Mal acordei e meu celular já tinha uma mensagem não lida, logo pela manhã. Ah, e uma ligação perdida.
Ambas de .
Mas reforçando a ideia de que eu, quando acordo, fico vesga de sono por alguns minutos, acabei não acreditando que fosse verdade. Cri que ainda estivesse sonhando.
Na tela, assim que abri a mensagem, apareceu "a gente pode se ver, hoje?". Um convite. Assim, sem mais, nem menos.
Eu tentei apenas apagar a mensagem, deixar o celular na gaveta do criado mudo, voltar pra cama e voltar a dormir, mas já estava acordada. E me encarava.
- , era o , não era? - senti ânimo em sua voz e isso não era bom. Nada bom, especialmente quando ela deveria estar mau humorada, só pelo fato de ter acordado. Ela sempre ficava.
- Era, mas... Ele quer me ver, hoje - voltei para a cama e me virei para o lado oposto a ela. Nem dois segundos depois, senti um peso atrás de mim, na cama.
- E qual é o problema? - ela perguntou com inocência, ao que eu me virava lentamente para encará-la.
- O problema, , é que ele mentiu pra mim - eu disse, com franqueza, mas tenho quase certeza de que pareci rancorosa. Dizer o nome dela no meio da frase requeria mais atenção dela àquele ponto, então eu esperava que ela tivesse entendido. - E eu não quero confiar nele, de novo.
- O Craig também, mas ele era um cafajeste - abaixou a cabeça, nesse ponto. Ergueu-a em seguida, como se o argumento a seguir fosse realmente relevante. - Mas o parece gostar de você. E vocês namoraram. Tenho certeza que ele ainda te ama. E eu sei que você ainda gosta dele - gentilmente dispôs de suas verdades, ao que eu assenti em silêncio e o mais estática possível, pra que ela não percebesse qualquer mudança de humor, minha. - Eu daria uma chance a ele.
- Você tem um coração generoso, mas é uma pena que não tenha o mesmo potencial pra outras coisas. Tem uma grande diferença entre ser babaca por natureza e ser babaca de propósito - respondi, antes que ela discursasse sobre o ex. Eu esperava ter dado fim à conversa.
se levantou com as mãos para o alto e ergueu as sobrancelhas, de um jeito que quase sempre me convencia. Apesar de suas mãos dizerem 'não me culpe', seus olhos diziam 'estou certa, siga minhas instruções'. Convincente e motivador.
- Se eu fosse você, daria uma chance a ele. E um bom argumento é que, por mais que tenha feito tudo o que fez, fez por você. Pense nisso.
Ela falou daquele jeito que mães falam antes de fechar sorrateiramente a porta do quarto e deixar a pobre criança perdida em um mar de pensamentos. Era o que eu tinha o costume de ver em filmes e aguardava ansiosamente por acontecer comigo, simplesmente para fazer diferente.
Aliás, não fez por mim. Fez foi pelas drogas. Eu devia ser só um pretexto no meio de tudo. Mas talvez ele realmente não tivesse feito tanto por mal, assim. Ou eu que era panaca o suficiente para acreditar.
- O que você vai fazer? - fui tirada do meu devaneio, como é possível perceber.
- Eu não sei - respondi, ainda alheia, olhando para o teto. Tentando me perder de novo em pensamentos.
- Se não decidir em cinco minutos, eu ligo pra ele - tentou o método chantagem. Eu dei uma risada aguda, particularmente pela sua infantilidade. - Então, decida logo.
- O problema é que eu não tenho um bom motivo pra ir - dei de ombros, voltando a encará-la e esperando que ela não visse pelo outro lado. O que, claramente, não aconteceu.
- Também não tem um bom motivo pra não ir. Então, vamos ligar pra ele, combinar a que horas ele te pega e marcar um encontro! - ao dizer a última palavra, o seu corpo pirou. se mexeu como num pulo, mas não tirou os pés do chão e depois sorriu, agitando as mãos no alto. Na mesma hora, derrubou meu celular, que, por sorte, não perdeu a bateria ali, mesmo.
- Tudo bem. Mas isso é tudo ideia sua. Se algo der errado...
- Claro, claro - ela dizia metodicamente, enquanto me entregava o celular com cuidado.

Lá estava eu, pleno sábado à tarde, na recepção do campo de golfe, onde uma música de Hey Monday tocava. Começou a tocar exatamente quando entrei e parecia feita pra mim. Foi como se alguém estivesse esperando que eu entrasse, pra colocar aquela música, em especial, de trilha sonora. E o pior é que encaixava completamente. Desde a letra, passando pelo drama, até o ritmo.
O engraçado foi eu ter pego o celular junto com o verso da música que dizia exatamente 'mas é muito tarde, muito tarde pra ligar'. E, apesar de não tê-lo feito tão rapidamente, foi o tempo justo pra que a música me fizesse pensar. Se eu deveria ligar pra ele, se eu deveria estar ali. Se ele merecia que eu estivesse ali.
É basicamente repetir a música, dizer tudo o que estar ali me fazia sentir e pensar. E o que aquela melodia me trazia de volta. O inferno pelo qual eu tinha passado, sozinha. E, talvez, se ele tivesse ido embora, assim, sem mais nem menos... Talvez não desse tanta importância para o 'nós', quanto eu dava.
Queria que ele estivesse ali, sempre quis. Queria-o bem. E ele sabia disso, deveria saber. Mas, de repente, ele foi embora e as manchas dele ficaram em mim. Por um bom tempo e, quem sabe, pra sempre. Na verdade, eu esperava que não fosse pra sempre, se fosse pra 'continuar em mim' da maneira que vinha 'continuando', eu preferia, sinceramente, que parasse. Embora eu já não tivesse muitas esperanças quanto a isso, já que, quando eu começava a esquecê-lo, ele reaparecia.
Eu o queria, sabia disso, mas não deveria. E minha conduta seria mil vezes mais forte que minha tentação; eu me esforçaria pra que isso não fosse só teoria. Eu só o queria bem, e queria ficar por perto, pra garantir que isso aconteceria, mas, no fundo, o que eu mais queria era me situar. Entender o que eu queria, o que eu não queria, e, principalmente, achar uma saída. Achar algo pra fazer, uma solução viável.
Ele nunca voltaria. O tempo não voltaria. Talvez eu precisasse de mais tempo. Precisava pensar.
- Você veio! - a voz dele soou atrás de mim e eu me virei sem muita pressa. Toda a força que eu vinha reunindo dentro de mim, esvaiu de repente. Como se a voz dele tivesse o efeito de me desarmar.
Isso, se eu for olhar pelo lado menos pior da coisa.
- Você achou mesmo que eu não viria? - eu me surpreendi, sorrindo.
- Sinceramente? - ele deu uma risada, levando o braço ao redor da minha cintura. Não pareceu desconfortável, e eu o acompanhei até o balcão. - Tudo que eu esperava era que viesse. Preciso falar com você.
O seu tom soou sério e isso me provocou um arrepio quente. Instantaneamente, senti preocupação.
Acabei sem falar mais nada e, quando vi que ele tinha o recibo da recepção, puxei-o para a porta que dava em uma área verde. E um mini estacionamento, onde pegamos um carrinho, o qual dirigiu.
- Acho que você já pode falar - finalmente, eu disse alguma coisa. Ele me olhou espantado, talvez pela demora da minha resposta.
Se ele tinha dito algo antes, também, eu não tinha escutado. Não foi por mal.
- Ah, eu... Queria manter a nossa amizade. Acho que é algo muito grande pra perdermos, assim - ele disse, dando uma olhada rápida pro lado. Estacionou, e só então eu percebi que ele tinha trazido até sua bolsa de golfe, com todos seus tacos. Instantaneamente, percebi o que faltava. A minha.
Fiquei tão atordoada pensando nele, no que aconteceria e em como agir, que esqueci tudo. Só havia levado minha bolsa, pra pagar o táxi da volta. tinha me levado ao campo, pra garantir que eu não fugiria. Ah, se ela soubesse.
- É. Era algo muito grande pra que você arriscasse, assim - respondi, baixo. Mas ainda alto o suficiente pra que ele ouvisse. Prova de que ainda haviam manchas dele, em mim. Rancor. Saudade.
Eu tinha mais algumas palavras pra definir o que eu sentia, mas talvez não fosse uma boa pedida.
- Eu sei, e foi por isso que eu voltei - ele disse, só então percebendo meu desespero anterior. Sobre os tacos, digo. - Quer usar os meus? Eu posso te emprestar.
Concordei com um aceno de cabeça sobre os tacos, mas voltei rapidamente ao mais importante:
- Mas voltou depois de seis longos meses. Você me deixou aqui, enquanto isso. Você não podia ter feito isso.
- Onde mais você queria estar? Comigo? - ele perguntou, mas sem realmente se importar. Tirava a bolinha da bolsa, puxando em seguida um taco, que deslizou pela sua mão ao ver minha resposta negativa.
Encarei o taco na grama, não muito surpresa. E se fosse parte do teatro dele se fazer de coitado?
- Então, você preferia ter ido comigo, pra clínica? - ele disse, apertando os lábios um contra o outro, em seguida. Seu rosto continuava amplamente sereno, embora com resquícios de nervoso. - Preferia ter passado todo o sofrimento que eu passei? Aquele ambiente é pesado pra você, mas, você preferia ter ido? - a cada palavra que pronunciava, sua voz subia uma nota. Eu me encolhi, um pouco assustada. Não era bem essa a reação que eu esperava dele. Não palavras que mais se assemelhavam a acusações e gritos.
Embora não fosse, na verdade, nenhum dos dois e eu soubesse que minha cabeça constituía e ampliava hiperbolicamente situações frágeis e malsucedidas.
- Eu só queria que você tivesse ficado aqui! - respondi, jogando com força o taco no chão, como uma maneira de descontar minha raiva.
A essa hora tínhamos, visivelmente, esquecido o golfe.
- É insensato você reclamar disso, agora. Eu não posso mudar o passado - ele disse com a voz branda, repentinamente calmo. Mas é claro que não era insensato que eu reclamasse. - É muito tarde pra isso.
Aliás, reclamando antes ou depois, que diferença fazia? Ele não estava lá pra ouvir, da mesma forma.
- Tem razão em apenas um ponto. É tarde demais - eu disse, desistindo e me virando de costas. Pretendia ir andando até a recepção, chamar um táxi e ir embora.
Era bem mais fácil me virar de costas e tentar ir embora, quando...
Espera, tentar?
- Você não vai escapar de mim, assim, . Eu não estou arriscando tudo que tenho à toa! - me puxou pelo braço, me virando com brutalidade de frente pra ele.
Fiquei tão entorpecida pela apreensão, que não chegou a doer.
- E o que você está arriscando? A sua imagem? Ou sua saúde? Porque, caso você não se lembre, não fui eu quem te colocou nesse pesadelo - respondi num ímpeto, tentando me desvencilhar e criando coragem para falar mais. Nesse momento eu nem me lembrava de James, pretendia acusar , mesmo. - Não fui eu quem acabou com a sua imagem com os seus próprios pais - e, enquanto ele tentou falar por cima da minha voz alguma coisa que eu não consigo me lembrar, eu precisei berrar, tão nervosa que estava. - E NÃO FUI EU QUEM FORJOU A PRÓPRIA MERDA DE MORTE!
Foi o suficiente pra que ele se calasse, me soltasse e reerguesse o queixo, até então, caído. Sua postura, anteriormente inflada, encontrava-se levemente curvada, como se alguém o tivesse atingido com uma faca.
A situação encaixava-se perfeitamente em um dia de chuva, com trovões escabrosos e pouca iluminação, porém, ironicamente, o dia estava atípica e maravilhosamente ensolarado. Eu podia ouvir os passarinhos gorjeando conforme minha respiração se equilibrava novamente. parecia não ter sido tirado da sua calma.
Como ele ousava?
No momento em que tentou se aproximar de mim, eu me afastei alguns passos, até que ele finalmente parou. Abaixou as mãos e colocou-as nos bolsos. Sua expressão novamente não me agradou muito, mas eu esperava pela sua reação. Respondeu:
- , eu só preciso de uma chance. Eu não teria voltado por outro motivo ou pessoa - ele dizia e eu abaixava os olhos, nervosa. Era pior encará-lo, então, quieta, controlava a súbita vontade de chorar. Não iria fazê-lo ali, ele não merecia. Não devia merecer. E, sim, isso era tudo que eu tinha em mente pra usar contra ele, pra me restabelecer. Pra me acalmar e pensar que não valia a pena.
No entanto, parecia estar lendo meus pensamentos, já que, mais uma vez, tentou me desarmar.
- Eu amo você, . Eu posso não ter dito isso o suficiente, mas eu direi, de agora em diante. Eu prometo! - ergui o olhar até seus olhos, atordoados. Suas sobrancelhas estavam unidas, em sinal de clemência.
Como ele ousava me amar?
- , eu... - parei a frase pela metade, tanto por não saber como continuar, quanto por não querer desmoronar nas palavras seguintes. Queria e não queria continuar. Queria sumir.
- , você tem todo o tempo do mundo! Eu é que preciso de uma chance, então, vamos fazer assim! - ele sorriu, meio receoso. O resultado foi um sorriso torto. - , por favor, me escuta - ele pediu, vendo que, mais uma vez, eu precisei abaixar o olhar. Ergueu meu rosto gentilmente. E eu mal tinha percebido ele se aproximando.
- Eu não sei. Não sei se merecemos uma segunda chance. Depois de tudo. Tudo mudou desde que nos conhecemos! E isso é tão complicado, tão ruim. Você não merece todo o meu sofrimento. Eu senti tanto a sua falta, eu me magoei tanto, pensando que tinha perdido você - só minha boca se movia, enquanto eu falava. Aparentemente, eu tinha perdido o controle sobre as outras partes do meu corpo.
Com carinho, me abraçou. Um abraço delicado e cuidadoso. Minha conduta perdia o prumo, perto dele, e ele só podia saber disso, pra agir de tal maneira. Fez o pedido de novo:
- Por favor, . Eu preciso ter essa chance de te reconquistar. Eu preciso ter você de novo. Eu preciso ter esperanças, ao menos esperanças, de te ter novamente - sua voz dizia com calma, como se tivéssemos todo o tempo do mundo. Bem, eu tinha, mas ele não, se é que é possível entender. - E mesmo que você não me dê essa chance, eu preciso que você ao menos saiba que eu vou fazer tudo que estiver ao meu alcance pra que você seja minha, de novo. Porque eu te amo. E é isso que quem ama, faz.
Então era isso o que ele chamava amor? Cuidar, desaparecer, voltar e implorar por perdão? Brincar com meu coração, como se fosse inquebrável? Amar era aquele jogo de machucar, chatear, e, ainda, de uma forma bem insana, fazer bem um ao outro? Se fosse, como ele ousava me amar tão gentilmente? Ele complicava tudo, assim.
- Olha, eu não sei - tentei escapar daquela conversa. - Eu estou meio confusa, agora, certo? É, talvez eu deva ir pra casa.
- , é só uma palavra. Apenas deixe eu te mostrar - ele devolveu, com súplica no olhar. Ele já gesticulava. - Mostrar que... Ainda somos bons um para o outro.
Talvez até fôssemos. Talvez não. Talvez eu devesse deixar ali e dar o fora. Talvez eu devesse beijá-lo e perdoá-lo.
E foi de tanto pensar em possibilidades, que, quando eu tentei dizer algo, adivinha?
- Talvez - acho que respondi o que não deveria e mais alheia do que o necessário.
Não deveria, porque eu sabia o que ele faria com aquela e qualquer outra resposta que não fosse expressamente negativa. Um talvez, para ele, era normalmente considerado um 'sim'.
- Obrigado! - o que eu disse? - , eu vou fazer tudo, tudo! - ele respondeu, animado. - Vou fazer tudo que estiver ao meu alcance pra te reconquistar.
O pior era que eu ainda gostava dele, mas algo bem dentro de mim bradava "É errado, é incerto, cai fora!"
- Tudo bem, - eu precisava clarear a minha cabeça. O melhor jeito era, provavelmente, mudando de assunto. - Olha, por que a gente não volta ao jogo?
Assim que acabei de falar, me abaixei e peguei o taco no chão. Afinal, eu deveria estar agradecida, já que golfe era um esporte calmo.
- Claro. Vamos, vamos - ele empunhou o segundo taco de maior distância, já que eu tinha pegado o maior.
Minha tacada foi relativamente forte. A bola deu uma bela aproximada do buraco. Nem sequer tive tempo de pensar no que viria a seguir e já caminhava em direção ao carrinho de golfe. Fui atrás, e, então, atrás da bolinha.

Capítulo 16



Algumas tacadas a mais e, na minha primeira dificuldade com um buraco, se ofereceu pra ajudar. Mesmo não lembrando do momento em que aceitei, não contestei muito o fato.
Pode ter sido seu perfume, o que me tirou da realidade para o passado, por alguns minutos. Sempre tão envolvente.
Quando me dei conta, seus braços já seguravam os meus. O direito passava pela lateral do meu, e sua mão estava envolta em minha mão direita, que segurava o taco. O mesmo para mão e braço esquerdo. Seu corpo, atrás de mim, envolvia o meu como num abraço. Era como se eu não pudesse fugir dali, querendo ou não.
Até que meu celular tocasse e como quem me ligava era , e eu reconhecia isso pelo toque escolhido a dedo pra ele, eu precisei me afastar de , pra atendê-lo.
Com uma distância razoável, atendi o telefone. Tudo em questão de segundos.
Na verdade, foi uma ótima válvula de escape. Uma ligação.
- Oi, - atendi, finalmente. Olhei pra trás e avistei , sentado na grama, olhando pra algum lugar qualquer.
- ! - sua voz estava animada. Tinha o poder de me animar, também. - Vai fazer alguma coisa amanhã à noite? - sua voz pigarreou em alguma parte, no meio da frase.
- Claro que não. O que você quer fazer? - perguntei, já me sentindo no clima pra sair com ele. E sair de perto de , só porque eu não queria continuar me lembrando do passado. - Quero ir para o lago. Vamos acampar, . E vamos hoje! - pedi, realmente acreditando que ele toparia. Fazia algum tempo que não íamos lá, então não vi mal algum em pedir.
- Não, tenho uma ideia melhor. Você está precisando de diversão.
- Você não pretende ir ao fliperama, não é? - perguntei receosa de um modo que, se era o que ele pretendia, não iria mais querer.
- Pretendo te levar a um parque de diversões. Alton Towers, pode ser?
- Ah, pode, claro. Mas, , nós vamos pegar estrada à noite? - tirei minha última dúvida. deu uma risada como resposta. Era óbvio que sim. - Tudo bem, então, acho que você pode me pegar às seis. E é bom não se atrasar, quero passar a noite toda com você.
- Serei pontual. Até as seis, minha linda.
E desligamos.
Suspirei e me virei de volta pra , mas já sem vontade de falar com ele. Eu estava era muito certa quando disse, há algum tempo atrás, que minha mãe não fazia nada de errado, ao deixar que a ferida secasse sozinha. Cutucar algo que ainda não está curado é um pecado.
Portanto, era errado estar ali.
Acenou pra mim e eu fui até ele, esquecendo todo o enredo que eu criava na minha cabeça, segundos antes. Era de se esperar, mas realmente me surpreendeu não conseguir me lembrar o que acontecia antes de chegar perto de novamente. Ele me abraçou de lado e, de esguelha, eu reparei que ele tinha guardado todos os tacos. Estávamos, finalmente, indo embora.
- Vou te deixar em casa - apesar de sua voz parecer amigável, seu rosto se assemelhava a uma folha de papel em branco.
- Eu fiz alguma coisa?
- Eu lembrei que tenho um compromisso - ele devolveu com simplicidade. - Entra aí, tô atrasado.
No caminho que o carrinho fez até onde o pegamos, me perguntei se ele tinha super poderes. Ou ao menos o suficiente pra ouvir minha conversa com e mudar completamente o humor.
Ou se simplesmente tinha um compromisso chato o suficiente para o qual não poderia se atrasar, em hipótese alguma.
É, deveria ser só isso. Eu estava ficando paranóica demais.
Passei como um borrão pela recepção. Não me lembro de muita coisa, nem se paramos por lá. Fiquei completamente fora do ar por um bom tempo, pensando, pensando e pensando, até que chamou minha atenção com um estalar de dedos.
- ? Nossa, finalmente! - ele deu uma risada nervosa. - Achei que estivesse em estado de choque.
Preferia estar, mesmo. Numa cama de hospital eu teria mais paz.
Levei um susto quando percebi que já estávamos estacionados em frente à minha casa. Consultei o relógio de pulso: quase cinco horas. Suspirei, abri a porta do carro e já colocava um pé pra fora, quando me parou, segurando-me pelo braço direito.
- Não está esquecendo nada? - sua voz claramente dizia que eu esquecia algo. Eu sabia bem o que era.
- Ah, é, desculpa. Obrigada por hoje, - dei meu melhor sorriso, sabendo que era exatamente isso o que não faltava. Foi muito mais gratificante ver seu rosto se contorcer para artificialmente produzir um sorriso, em resposta. Óbvio que eu não ia dar um beijo de despedida nele.
- Sem problemas. Não vai me convidar pra entrar? - a pergunta dele me deixou um pouco confusa. Será que, de repente, ele tinha esquecido tudo que aconteceu? Ou esquecido que, de repente, talvez meus pais ainda pensassem que ele estava morto e pudessem enfartar só de vê-lo na soleira de casa? Ou talvez que ele tinha um compromisso repentinamente inadiável?
- Acho que não. Além disso, num primeiro encontro, normalmente, o menino acompanha a garota até a porta de casa - eu disse um pouco alto demais, e brava, como se fosse obrigação dele fazer isso. Se ele resolvesse fazer isso, estaria a um passo de entrar em casa. O que seria evidentemente pior.
Achei que soubesse tudo que ele poderia responder, mas fui surpreendida. Pra variar.
- Esse não foi nosso primeiro encontro, .
Parei a mão no caminho pra abrir a porta, voltei o corpo todo pra ele, no carro, devagar, e o encarei, atônita.
- Como é?
- É, eu... - então, ele pareceu desconcertado. E a pessoa adorável que dissera algum tempo antes que me amava mudou completamente. Transformou-se em uma pessoa fria, do maxilar rígido e, como se faltasse algo, manteve olhar distante, como se tivesse desistido de ser gentil. Tudo em uma fração de segundos. - , eu tenho que ir. Estou realmente atrasado - me encarou por alguns segundos, levou a mão à minha, fez um carinho com o polegar no dorso da minha mão e fez menção de ligar o motor. Parei sua mão no ato. - , por favor, não complique as coisas. A gente se vê amanhã, tudo bem?
Tive que pensar um pouco antes de falar. Simplesmente por não estar acostumada com aquele estranho tipo de resposta, vindo dele. Recuei, saí do carro e dei um leve aceno.
- Até amanhã.
- Eu amo você - mal ele disse isso e já arrancou com o carro. Eu assistia, imóvel, ao que ele desaparecia no final da rua. Não pude evitar me perguntar o óbvio: qual o problema dele?
Eu podia jurar de pés juntos que ele nunca foi aquela pessoa que eu vi no domingo à tarde. Nunca foi frio, bipolar, ou tão... Estranho.
Ele podia usar drogas antes de sair de férias de mim, mas, com certeza, ele não costumava ser tão idiota, assim. Havia algo meramente errado com ele.

No dia seguinte, me preparando para sair com , depois que saí do banho reparei em algo na minha cama.
- Mãe, o correio veio hoje? - perguntei, pondo metade do corpo pra fora do quarto.
- Não, filha... - sua voz soou distante, no corredor, enquanto eu voltava pra pegar o envelope branco na minha cama. Não tinha nenhum selo, então isso já descartava as chances do correio. E de ser uma correspondência normal.
- Tudo bem, é só abrir - sibilei pra mim mesma, ainda enrolada na toalha. Meu relógio apitou, anunciando que mais uma hora tinha se passado. - Mas só depois de me trocar.

A carta que vinha dentro do envelope era impressa.
No instante em que me sentei na cama, dei uma olhada ao redor, enquanto passava a toalha pela cabeça, numa tentativa não tão empenhada de secar o cabelo. Dizia a carta:
"Se não quiser acabar sozinha, é melhor terminar com um dos dois, e logo." A princípio, não fez o menor sentido. Continuei a ler. "Não passou pela sua cabeça que você não pode ter tudo o que quiser?" Torci o nariz, terminando de ler as acusações, que começavam a fazer sentido justo ao final do texto. "É melhor que você tome uma decisão logo, ou eu a tomarei por você. E eu garanto que é melhor que você faça isso sozinha." E então, senti como se o mundo tivesse parado, porque senti um tranco forte na cabeça. Arrepio de medo, um arrepio quente. E eu estava lá, o rosto estático e as mãos enrijecidas ao redor de uma folha de papel. Eu deveria ter uma interrogação desenhada nas minhas linhas de expressão. Na testa, enrugada. No nariz, torcido. Na boca, entreaberta.
Apesar de estar claro e evidente que aquilo era uma ameaça, ainda não fazia sentido.
Óbvio que o assunto só poderia ser e , mas a única pessoa que sabia de , não sabia de . E essa pessoa era . Mas se ela soubesse de , não me mandaria uma carta que tangenciava o terrorismo nem em um milhão de anos. Ela certamente seria o terrorismo. Cheguei a pensar que talvez fosse minha mãe (afinal, quem mais teria acesso ao meu quarto?), mas descartei a possibilidade de que poderia ser alguém da família, na hora. Minha mãe se ocupava com tantas coisas, incluindo meu pai, que às vezes não sobrava tempo nem pra dar aulas. Quanto mais pra imprimir cartas intimidadoras pra mim, sua própria filha.
Incontestável, não podia ser ela.
A parte de tomar a decisão sozinha me lembrou uma discussão que eu tive com minha consciência. Eu tinha que tomar todas as decisões sozinhas, quando se tratava de .
De repente, uma ideia surgiu e eu me vi pegando rapidamente o envelope e procurando com avidez por um destinatário, bem como remetente. Destinada a , enviada por espaço em branco.
Mais duas provas; primeiro, que o correio não passou. Segundo, a carta era mesmo endereçada a mim. E se minha mãe não tivesse feito aquilo, alguém tinha passado pelo meu quarto.
Ergui meu próprio corpo da cama rapidamente, me sentindo repentinamente violada. Mas não vigiada. Quem quer que estivesse ali, teria saído dali bem antes que eu chegasse, provavelmente, já que eu normalmente deixava minha janela aberta. Ou talvez tivessem entrado pela porta dos fundos, mesmo.
Gelei, nesse instante.
Sabia de experiência própria que não era impossível entrar em uma casa sem permissão, já que eu mesma tinha tido sucesso, nisso, na primeira vez.
Pensei em perguntar pra minha mãe se alguma amiga, ou alguém, tinha vindo em casa, mas fiquei com medo da resposta ser negativa, então deixei pra depois. Eu me preparava pra rasgar a carta e descer pra comer qualquer coisa na cozinha, mas algo me impediu. Aquilo era uma evidência, eu não podia perder.
E, que maravilha, eu também não podia contar com , pra isso. Só pelo fato de que, quando foi apenas mencionado, ele já teve um ataque de ciúmes. E se é bem legal por um lado, pelo outro, é uma porcaria tremenda. É péssimo quando ele se tranca na mente dele, parece que ninguém consegue adentrar.
Tranca todo mundo pra fora, sem dó.
Então, quase sem decisão alguma sobre o assunto, dobrei o envelope e guardei-o em uma caixinha vermelha, onde eu guardava também minhas jóias. Tinha um fundo falso e eu sempre soube que um dia seria útil para eventos futuros.

Eu mal terminava de comer o bolo que Odette tinha feito na sexta-feira, do qual, aliás, só tinha restado um único pedaço, quando a campainha tocou. Comecei a organizar a pequena bagunça que tinha feito na mesa, levando em seguida o prato à pia, ao que minha mãe desceu as escadas correndo e acompanhada de meu pai. Passaram pela porta da cozinha e foram, com pressa, em direção a porta. Tarde demais quando pensei em pará-los.
Fiquei no corredor que dava para a porta, tentando ouvir a conversa, mas acabei sem ouvir nada. Já estava começando a acreditar que o problema era eu, mal dos ouvidos.
Quando percebi que fecharam a porta da frente e passos se aproximaram de mim, voltei o mais rápido que pude pra cozinha, pra dar a entender que eu estava realmente ocupada com alguma coisa. Porque é claro que eu não estava.
- ? - a voz de ecoou. Respondi de imediato e ele apareceu em alguns segundos, na porta da cozinha. - Já está pronta?
- Nasci pronta - disse, sorrindo, a frase que sempre quis usar. Saltei do banco no qual estava sentada e fui até ele. me deu um abraço apertado, na cintura.
- Então, vamos - levou a mão à minha cintura e me levava à porta de entrada, quando eu me lembrei de fechar as portas de casa. Na verdade, me lembrei do envelope intimidador.
Mais alguns minutos e já estávamos no carro.

Olhei para o lado, enquanto tirava o cinto, já que já tínhamos estacionado, e parecia suar frio. Ou estava muito ansioso, ou preocupado. Ou nervoso.
Algumas sensações são muito confusas de entender, mesmo expostas, assim, no rosto dos outros.
- Você tá bem, ? - perguntei, desistindo de abrir a porta.
- Estou, eu só... Tô com fome, vamos entrar?
Tentei não parecer tão confusa quanto eu estava. podia ter tudo, menos cara de fome. Ou fome. Mas ainda assim...
- Ah, ok. Então, vamos logo - forcei-me a sorrir e em seguida, saímos do carro, pra comprar as entradas. As quais, por motivos óbvios, pagou.

Em frente a barraca que vendia waffles com sorvete, parou de reagir. A atendente nos olhou significativamente e eu só dei as costas pra ela, ficando de frente pra .
- , pode falar comigo só um pouco, e, por favor, parar de ficar aéreo? - eu sabia que isso poderia soar rude, mas era, sinceramente, preocupado. - Tá me assustando - finalmente, ele saiu de sua nuvem se pensamentos e seus olhos se tornaram menos turvos. Chegou a focá-los em mim.
- Posso falar com você por um instante?
- Claro - respondi, sem realmente saber se era isso que eu queria. Estava tão apreensivo que eu fiquei com medo do que ele pudesse falar.
- Prometa que vai prestar atenção e ouvir, até que eu termine de falar.
- Prometo - de novo, eu não sabia se era isso o que eu queria, mesmo. Mas fiz.
- Você não faz ideia de quantas vezes eu já pedi alguém em namoro - no primeiro segundo que ele começou a falar, meu coração deu uma palpitada. Tentei evitar sorrir, até porque até então eu não sabia se o que ele queria pra nós era isso ou não. - Eu queria algo original de verdade, dessa vez. Mas parece que todas as outras tentativas, e com isso, eu digo as outras meninas, foi mais fácil. Foi pensar e escolher. E com você, não. E ainda não parece apropriado, enquanto, com elas, qualquer opção era boa o bastante. Mesmo se não fosse, não teria diferença.
Eu não disse nada, em resposta. Tive medo de dizer, e, consequentemente, acabar com o momento. Esperei que ele voltasse a falar.
- Mas não é por mal, . Descobri ainda há pouco que, quando gostamos de alguém, é mais difícil ainda agradá-la, e agradar a si mesmo. Ao mesmo tempo... Não é suficiente, com você.
Senti uma vontade imensa de abraçá-lo e dizer o quanto eu era sortuda de tê-lo como... Espera, ele ainda não tinha feito o pedido.
- Então? - instiguei-o a falar mais, mas como eu já disse que poderia, minha voz deve ter tomado um tom que deixou-o intimidado. Lembrei que tinha prometido ficar quieta e fiz sinal de silêncio, jogando o zíper fora, numa brincadeira bem infantil.
- Então, quer namorar comigo? - no final da frase, eu conheci o mais incrível que eu já tinha visto. Sorridente, tímido (acredite, se quiser) e ansioso.
Dessa vez foi impossível segurar o sorriso. Sorri o mais apaixonada e encantada que pude.
- Claro que quero - e assim que terminei de falar, nós nos beijamos. Com certa urgência, até.
Por dentro, alguma vozinha bem mal educada gritava os cânticos de aleluia.

No caminho de volta, eu tinha um ursinho (que, pelo tamanho, poderia ficar na minha cama), um donut que eu provavelmente não comeria em casa, uma camiseta manchada de doce (é, a minha) e um namorado. Levei a mão direita à sua nuca, acariciando-lhe com o maior cuidado possível, já que eu não tinha o costume de entender nem conter a força que eu tinha nas unhas. Ele sorriu de volta e eu continuei o carinho até que meu braço cansou, mas, a essa altura, já estávamos perto de casa.
Preferia não mencionar, mas precisei de um esforço enorme pra não dormir, enquanto na estrada. Já era um pouco tarde, eu teria aula na manhã seguinte e a noite tinha sido meio agitada.
Depois de me despedir de , abri a porta de entrada só pra perceber que estava sozinha em casa. Ninguém na sala de estar e nenhum barulho. Nenhuma luz acesa.
- Mãe? Pai? - e ninguém me respondeu. Chaveei a porta da frente e fui para a cozinha, onde, normalmente meus pais deixavam um aviso, quando saíam. Mas, vendo o quadro risque e rabisque em branco, me lembrei que eles saíram na exata hora em que chegou. E ainda não tinham voltado.
Acendi algumas luzes, e, claro, não apaguei a maioria, conforme adentrei minha casa.
A cena a seguir foi um pouco perturbadora, e o ursinho chegou a cair da minha mão, tamanho o choque. Abri a porta do meu quarto e me deparei com o abajur de chão derrubado. O abajur tinha o costume de ficar ao lado da poltrona, perto da janela, e agora estava derrubado, sem o menor sinal de não ter quebrado a lâmpada, mas eu não me senti corajosa o suficiente pra conferir isso. Ergui o olhar e tomei o pior dos sustos. A janela estava aberta. O arrepio voltou a passar pelas minhas costas, até meu último fio de cabelo.
Claro, como eu não pensei nisso antes? A janela!
A janela que eu erroneamente esqueci aberta. Ou talvez eu tivesse fechado e tivessem arrombado. Tanto faz, eu simplesmente não pensei direito depois que percebi que minha privacidade tinha sido, mais uma vez, violada. Dei alguns passos rápidos até o closet e o tranquei por dentro, assim que entrei.
Eu realmente não tinha coragem de ir até a janela fechá-la. Nem até o banheiro, que tinha a porta entreaberta, conferir se tinha algo lá. Sempre tive medo de banheiros sombrios à noite e, no momento, o meu banheiro se enquadrava na categoria.
Portanto, o seguro era ficar longe dele.
Deslizei até o chão, e com o celular em mãos fui pra baixo de uns casacos. Minhas mãos tremiam enquanto eu me preparava pra discar algum número. Ainda estava em dúvida sobre ligar para o número de ou da polícia, mas pensar que, com a polícia ali, meus pais ficariam sabendo e achariam que eu estava paranóica de novo... Isso me fez desistir da polícia. Escândalo era tudo o que eu menos precisava.
- ! - falei um pouco alto, mas com medo de ter alguém lá fora e esse alguém me ouvir, diminuí o volume da minha voz.
- ? O que foi? - a voz dele volveu preocupada. Lógico que detectou o desespero na minha. - Aconteceu alguma coisa?
- Na verdade, sim. Eu acho que alguém entrou aqui em casa, enquanto eu estava fora.
- O que fez você acreditar nisso? - ele perguntou.
- A janela estava aberta. Aliás, ela está aberta. E meu abajur tá caído no chão - falei as coisas que consegui me lembrar.
- Só isso? Pode ter sido um vento, - ele só podia estar tentando me acalmar, não deveria ter outro motivo pra ele não acreditar em mim.
- Só isso porque não tive coragem de checar pelo resto - devolvi, o tom de voz ainda mais nervoso. - E meus pais ainda não chegaram.
- Não? - finalmente sua voz tomou o tom de preocupação que eu esperava. - Eu tô indo praí. Você abre a porta pra mim?
- A do closet, né? - perguntei, com escárnio, e ele suspirou. Eu fiz o mesmo, já me arrependendo das grosserias repentinas. - Olha, desculpa, eu só tô com medo. Tem uma chave atrás do segundo vaso de parede.
- Aqueles vasos perto da porta?
- É. É o do meio, não tem erro - eu concordei com pressa. - Vou desligar, vem logo.
Não sei se ele se despediu, também, porque encerrei a ligação, meio afobada. Fechei os olhos depois de procurar na minha bolsa um fone de ouvidos que eu sempre deixava por lá, colocar uma música qualquer no celular e aguardar quase ansiosa, porém, pacientemente até que ele chegasse e tentasse girar a maçaneta do closet. Isso demorou de cinco a dez minutos.
Abri a porta do closet com dificuldade, devido à minha tentativa de rapidez, e assim que aberta, o abracei, os olhos fechados mais uma vez.
Até porque, quando os abri, dei de cara com o quarto assustadoramente nos conformes. O abajur estava em pé, a janela fechada. E a porta do banheiro, também fechada. Como se nada tivesse acontecido.


Capítulo 17


Maravilha.
Ser taxada de louca era tudo o que eu queria. Óbvio.
Foi com palidez que eu observei o meu quarto. O abajur. A janela. E a porta do banheiro. A maldita porta que, algum tempo atrás, eu jurava que não estava fechada. Não estava, mesmo!
Soltei-me do abraço de devagar, ainda amedrontada. Andei até o abajur, olhei por baixo da cúpula, a fim de conferir a lâmpada (a qual eu deveria ter conferido antes, bem antes) e, pra meu espanto, estava intacta. Porém, quando tentei acendê-lo, a luz não obedeceu. Estava queimada.
Não precisei sequer tocar a janela. Estava fechada, ambas as partes de vidro e madeira. O trinco estava trancado. Gelei só de pensar que tinha estado praticamente no mesmo cômodo que alguém que muito provavelmente não queria o meu bem. Porque é claro que eu não tinha imaginado o abajur caído nem a janela aberta.
Olhei pra trás, com o receio de encontrar um muito preocupado com minha saúde mental, mas tudo que encontrei foi sua expressão calma. Na verdade, variava entre calma, penosa e pensativa.
- Você acha que eu imaginei tudo, não é? - nem sei por que perguntei. Era meio óbvio que a resposta seria positiva.
Vi morder o lábio inferior, puxando-o pra dentro, de maneira que sua boca se tornava tão fina quanto um envelope. Devia estar com dó de mim, ou talvez dele mesmo, de estar naquela situação.
Tudo o que eu mais precisava era que o mundo explodisse naquele instante.
- Mas, olha, a luz tá queimada. E não estava, eu tenho certeza - tentei usar isso a meu favor, ao mesmo tempo que tentei controlar o exaspero em minha voz.
- Eu só acho que você está cansada, . Talvez você precise de um descanso, um banho quente... - ele ia dizendo com a voz calma, enquanto se aproximava pra me abraçar. - E trancar toda a casa.
De novo, sobrara pra mim provar a alguém que eu não tinha minha sanidade alterada. Isso, depois de provar a mim mesma, claro. E, embora eu quisesse, sabia que não conseguiria naquele momento.
Eu precisava pensar mais claramente, ter uma visão mais ampla dos fatos. Tinha que fazer isso antes que os detalhes me escapassem da mente, mas não tão cedo, assim. O terror ainda estava cheirando a fresco na minha memória e isso não me ajudava em nada.
O meu maior medo se tornara realidade e, maravilha, eu teria que lidar com isso sozinha. Até que eu encontrasse uma prova. E com prova, eu nem sequer sonhava em incluir a carta recebida anteriormente. Que, aliás, devia ter tudo a ver com minha janela aberta, meu abajur derrubado e todo meu pânico subsequente.
Tinha um lado bom em todo o mal: estava comigo. Ele não sabia exatamente o que se passava ali, mas o que mais me agradava era que estava ali, da mesma maneira.
- Se eu for tomar um banho, você me espera? - eu afastei o rosto do peitoral dele, pra perguntar olhando-o nos olhos. Apesar do meu esforço pra parecer casual, pareceu um pedido meio desesperado.
Ele deu um sorriso e uma risada fraca e, seguido de um murmúrio em concordância, fez uma proposta:
- Quer que eu passe a noite com você?
- Sim, por favor! - novamente, foi um pouco difícil conter o entusiasmo desesperador em minha voz. Amedrontada, sou a coisa mais vergonhosa do mundo.
Puxei-o pela mão até o banheiro. Entendendo o que poderia acontecer de melhor por ali, ele trancou a porta atrás de si e eu só faltei agradecer-lhe por toda a segurança que ele me dava, mesmo que inconscientemente. Agradeci basicamente com um beijo em seu pescoço, e, a julgar pela resposta, que foi um aperto bruto em minha cintura e uma mordida fraca no meu ombro, fiz o certo. Ainda me segurando bem próximo de si, me pôs na bancada da pia, distribuindo beijos pelo meu colo, e começando a descê-los. Exatamente nesse instante, eu me lembrei do quão atordoada ainda estava e o empurrei devagar.
- , ainda estamos no banheiro... - seria um pouco rude dizer, mas eu tinha ido ali pra tomar banho.
- E? - ele voltou a se aproximar de mim, agora com mordidas no lóbulo da minha orelha.
- E... - que, mais uma vez, eu perdi o prumo, perto de . Devolvi o insulto à minha sanidade, levando minhas mãos até o cós da sua calça, e, pronta pra abaixá-lo, as luzes falharam. Percebi porque, numa fração de segundo, minhas pálpebras se tornaram mais escuras. - Melhor eu tomar um banho, antes que falte luz.
Foi a desculpa perfeita.
E, sabendo como eu odeio escuro, e que ele teria que descer as escadas pra rever a caixa de luz, não se opôs. De imediato.
- Então me dá suas roupas, aí.
Do jeito que ele falou, eu fiquei assustada. E aposto que foi possível perceber isso pela minha expressão atordoada.
- Vou colocar no cesto, - sua voz me pareceu um tanto entediada, provavelmente porque eu sou ótima em entender as coisas de primeira.
Entrei debaixo do chuveiro, e, conforme fui tirando as roupas, entreguei pra ele. De repente, era tão estranho tirá-las. Preferi fechar as cortinas, por mais que não fosse exatamente uma proteção. Tinha alguns desenhos, mas nada demais, e, ainda, era de um fumê um pouco transparente. Eu podia ver o vulto de se movimentando até o cesto e voltando, enquanto eu ligava o chuveiro.
- Você sabe quem pode ter entrado na sua casa? - dei um sorriso aliviado quando ouvi isso de . Ele acreditava em mim e isso era o suficiente.
- Nem tenho ideia - respondi sinceramente, pegando o xampu e passando com pressa no cabelo. Estava, sim, com um pouco de medo, especialmente de a luz faltar. - Mas conseguiu me assustar. De novo.
- O que você quer dizer com isso? Já fizeram isso outra vez e você não me disse?
- Você estava aqui da outra vez, . Foi quando as luzes acabaram... - deixei a frase no ar, enquanto terminava de jogar água nos cabelos e começava a lavar o rosto. - Eu não sei o porque disso, mas algo me diz que pode, sim, ser a mesma pessoa.
Isso o conteve por alguns minutos em pensamento, e, quando eu não conferia de través se ele ainda estava ali, apressava-me pra terminar o banho.
Enrolei uma toalha no corpo e abri a cortina. Levei um susto ao dar de frente com uma marca no espelho, mas me distraiu rapidamente, fazendo a marca (que era uma mão) adquirir importância mínima. Ele me deu um beijo diretamente nos lábios, me puxando pela cintura contra si. Eu, um pouco mais sã, dei alguns passos, ainda beijando-o, até onde eu sabia que ficava a pia. Finalizei o beijo com uma mordida e me virei de costas pra ele, procurando minha escova de cabelos.
- Você tá linda - ele sussurrou no meu pescoço, me causando uma série de arrepios tortuosos.
- Não tô... - respondi, depois de inspirar fundo e de algumas piscadas. Já mal lembrava por que motivo havia pegado a escova.
- Como não? Não acredita em mim? - sua voz ainda se mantinha calma, aveludada. Aposto que era de propósito, me deixava a ponto de revirar os olhos, largar tudo e beijá-lo. E não só beijá-lo.
Quando consegui, novamente, recuperar minha compostura, respondi com um sorriso sarcástico.
- Não é isso, , é que meu espelho está mais convincente.
E nem com isso, ele desistiu de sua pinta sedutora. Deu uma risada, segurou-me pela cintura e apoiou o queixo no meu ombro, me olhando diretamente pelo reflexo do espelho. Eu sorri, mas percebendo que coraria, como acontecia muitas vezes, simplesmente por estar com ele, desviei o olhar. Voltei a perceber a marca de mão no espelho, mas já estava tão fraca, que eu mal pude reparar nela sem precisar apertar os olhos, pra torná-la mais precisa. percebeu minha paranóia, acompanhando meu olhar, provavelmente. Pegou a escova e passou pelo meu cabelo, tentando me distrair. Cabelos penteados, eu tirei delicadamente a escova de sua mão e a coloquei de volta à gaveta, no momento que senti suas mãos fazerem uma espécie de pressão pra que eu me virasse de frente pra ele, de novo. Ele me deu um selinho demorado, e enquanto uma parte do meu cérebro agradecia por ele não ter feito mais do que isso, a outra me mandava ir me trocar. E eu a obedeci.
Pedi a que me esperasse no quarto e corri de toalha para o closet, onde me troquei. Coloquei um pijama discreto; um short mais ou menos um palmo e meio acima do joelho e a blusa do conjunto, que também não era muito grande, nem muito curta. No ponto.
Quando abri a porta e voltei para o quarto, não estava na cama, onde eu o tinha deixado. Aquilo me gelou a espinha, e com um mau pressentimento, eu fui procurá-lo no meu banheiro. Tudo bem que eu tinha me demorado um pouco pra escolher um pijama que fosse ideal (e, com isso, eu quero dizer aquele pijama que não é de piranha, nem de santa), mas também não demorei tanto, assim. Chamei por ele duas vezes, a primeira quando abri a porta do closet, e depois enquanto dava uma olhada no banheiro. Depois de alguns segundos, ele respondeu. Sua voz vinha de fora do quarto e só então percebi que a porta estava destrancada. Caminhei até a metade do corredor, evitando ir até o fim, no quarto de meus pais. Atrás de mim, tinha uma porta fechada, do quarto de hóspedes, então sem olhar pra trás, desci as escadas e, chamando-o mais uma vez, percebi de que lado sua voz vinha. O encontrei perto da porta dos fundos, com uma chave na mão e um olhar incerto no rosto.
- A porta dos fundos estava destrancada, e não tem mais ninguém na casa. Além de nós - eu arregalei os olhos quando ele disse isso. Então, tinha mesmo.
Quer dizer, óbvio que eu sabia que tinha, mas não esperava que realmente tivesse. No fundo, no fundo, tinha esperanças que fosse, mesmo, minha imaginação.
- Você a trancou, agora? - perguntei, depois de tentar girar a maçaneta.
- Aham. Vem, vamos dormir.
E fomos, mesmo. Passei na cozinha pra pegar uma garrafinha de água e subimos. No quarto, ele não pareceu querer algo que se intitule sexo, então eu fiquei mais calma. Em todos os filmes de terror, sexo é sinal de morte e abstinência é a chave. Sim, sou supersticiosa.
Só precisei agradecer mentalmente mais uma vez, antes de dormir, por não ter sido obrigada a expor esse tipo de pensamento. dormiu com o braço ao redor da minha cintura, me puxando contra ele. Claro que ele sabia que eu me sentia bem mais segura assim. Sabia como se portar perto de mim. Ele era o cara perfeito, no sentido mais amplo da palavra, e ele sabia disso.

Na manhã seguinte, acordei com o despertador. só deu uma revirada meio inconsciente, e virou pro lado; ainda estava dormindo, jogado no outro canto da cama. Eu me esgueirei para a porta, praticamente personificando a expressão 'pisando em gelo fino'. Desci as escadas, esperando encontrar minha mãe ou meu pai, mas tudo que achei na cozinha foram ovos mexidos e uma jarra de suco. Um barulho de aspirador de pó ressoou da sala e eu segui o barulho, encontrando Odette, por fim.
- Oi, menina! - ela disse, quando me viu, desligando o barulhento aspirador.
- Bom dia! Meus pais ainda não chegaram? - perguntei a primeira coisa que me veio à cabeça, enquanto coçava os olhos.
- Só voltam em quatro dias. Não viu o bilhete deles, não? Falaram até que você já estava avisada - Oddie perguntou, erguendo a postura de um jeito quase intimidador. Discordei com um aceno de cabeça e um bocejo. Aliás, que bilhete? Teria que procurar, depois.
- Ah, então... Eu acho que só vim agradecer pelo café da manhã, mesmo.
- Por nada, menina! - ela sorriu, voltando a ligar o aspirador de pó.
Eu sabia até quando toda aquela animação dela duraria. Até que ela visse e então fizesse o maior escarcéu porque não era que estava por lá.
Ah, não!
Parei no meio do caminho pra cozinha, voltando até a sala, pra me certificar que Odette não faria isso. Se mais uma única pessoa falasse de para , eu seria obrigada a explicar tudo. Assim que ela desligou o aparelho, seu olhar se moveu não para mim, mas para algo atrás de mim. Percebi que era algo atrás de mim, mas preferia não ter percebido. Preferia que não tivesse alguém atrás de mim.
Pra variar, havia me pegado no ato. Enquanto Oddie entreabria a boca lentamente, eu me apressei em me virar de costas para , que estava sem camisa, e, apoiando a mão em lugar seguro, como seu ombro, apresentá-los. Do jeito mais natural possível.
- , essa é Odette - falei, olhando para ele, com um sorriso forçado a casual. - Oddie, esse é o ... - e olhei para ela, que ainda tinha o olhar espantado, eu já não sabia se era porque tinha um homem na casa, ou porque esse homem era . O irmão da . - Mas vocês já se conhecem, não é?
- Oi, Odette - ele respondeu, com um aceno, antes que eu o tirasse dali, puxando-o pelo pulso.
- É, agora vamos tomar café. Odette é ótima em fazer café, vamos - saí dali com uma desculpa óbvia, e encarando Oddie de um jeito que ela poderia entender algo como 'Não fale nada, não agora'.
Já disse que sou um desastre quando estou afobada, não? Nem sei por que reforço essa afirmação, chega a ser desnecessário.

- Quer que eu te leve pra escola? - ele perguntou, enquanto comia alguma coisa que eu não sabia bem o que era. Ele fez um sanduíche cheio de coisas e eu, sinceramente, não tinha interesse algum em descobrir o que tinha dentro dele.
- Pode ser... - respondi, pegando o celular pra atendê-lo. Era , e eu fiz um sinal pra ele ficar em silêncio. - Oi, .
- ! Pode me dar carona, hoje? Ou ao menos ir a pé pra escola, comigo? - a voz dela estava manhosa, pra variar.
- Por quê? Seu irmão não dormiu em casa? - debochei, rindo. deu um sorriso e revirou os olhos, terminando o lanche.
- Como você adivinhou? Sabe o pior? Meus pais nem ligam. Só falaram que vão ter uma conversinha com ele! - percebendo que aquela conversa poderia se estender mais do que já se estendia, decidi concordar com ela e ponto.
- Adivinhei porque sou esperta. Eu te busco de carro - dei um sorriso simplório pro telefone, quase desligando, mas parei-me quando ouvi sua resposta. Aliás, tentei parar, porque já estava apertando o botão.
Ouvi apenas:
- Esperta o suficiente para nossa prova de biologia avançada, hoje?
Droga, eu tinha esquecido completamente. Levantei de súbito, depois de alguns goles do suco, que era de alguma fruta bem vermelha, poderia ser amora, e corri para o quarto dos meus pais.
Na cama, jazia um bilhete do caderno de anotações da minha mãe. Dizia exatamente o que Odette me dissera, incluindo a advertência que Oddie viria no dia seguinte, e ficaria até quinta feira dormindo em casa. Na sexta, ela deveria passar em casa à tarde, e só. Ao lado do papel, um pacotinho de dinheiro. A quantia que minha mãe sempre deixava, não importava o tempo que ela ficava fora. Isso, sem mencionar o cartão para emergências que ficava em sua terceira gaveta do closet. Contei as cédulas, por garantia.
É, quem quer que tenha entrado, não queria dinheiro.
Levei o dinheiro pra caixinha do meu closet onde eu guardava as economias e já me arrumei pra ir pra escola. Eu ainda devia ter uns quinze minutos, então chamei pra se arrumar também e esperei na cozinha, onde tentei guardar o que sobrou na mesa, pra ajudar Odette.
Acabou que foi em seu carro e eu no meu. Ele estava na janela do meu, e eu já girava a chave da ignição, quando me lembrei de perguntar:
- Você viu meus pais saindo ontem, não foi? - ele concordou com a cabeça. - O que vocês conversaram, na porta?
- O quê? - uma interrogação se formou nas linhas da sua testa. - Ah! Mal falei com eles. Eu estava chegando, quando um carro estacionou e uma mulher saiu dele. Esperei que ela tocasse a campainha e seus pais saíssem, e, quando eles estavam pra fechar a porta, me apresentei como irmão da , e falei que vim te buscar pra ir pra casa.
- Ah, entendi - fez sentido. - Aliás, tenho que ir, senão um membro da família vai ficar bravo comigo.
- Acho que eu te vejo na aula de geopolítica. Se estiver vivo até lá.
Ele deu uma risada debochada, assim que acabou de falar e me deu um selinho demorado. Eu fiz um carinho na sua nuca e, assim que ele saiu da minha janela, eu dei partida.

Meus pais voltaram na quinta feira à tarde com umas sacolas; meu pai com sacolas de eletrônicos e livros e minha mãe com algumas telas, tintas, e cosméticos. Outra coisa em comum sobre os dois, foi que voltaram com duas malas. Duas malas que não foram, mas que voltaram com eles. E que provavelmente ficariam comigo, já que prometeram, que, quando comprassem mais malas, seriam minhas. As minhas estavam velhas o suficiente. De verdade.
- Então, viajaram pra fazer compras! - eu falei ainda apoiada na parede, comendo uma colherada do merengue, enquanto Odette os ajudava com as coisas. - Pra onde vocês foram?
- Pra onde mais? Pra Londres - minha mãe respondeu, animada.
Falou como se fosse tão óbvio que me senti errada pelo simples fato de perguntar.
- Trouxeram o que pra mim? - perguntei, me sentando no braço do sofá, um pouco mais interessada.
- Alguns CDs, um relógio de pulso que armazena e mostra fotos, uma câmera nova... - meu pai começou, mencionando sobre a parte dele.
- Cosméticos, querida! - minha mãe completou, remexendo sua mala, no maior estilo peruona, que, vale lembrar, não costumava ser o dela. - Ah, e um anel.
Peguei o anel, que era uma flor enorme com algo que brilhava, no meio.
- É um diamante - Lorrane alfinetou. - Tinha alguma pedrinha vagabunda aí, então fomos a uma joalheria e trocamos na hora, porque nossa filha merece.
- Você está brincando - respondi de cara.
- Claro que estou. Ainda é a pedrinha vagabunda, mas ela brilha muito, não é?
Eu concordei com um aceno de cabeça, colocando o anel no dedo. Era pesado. No instante seguinte, a campainha tocou e ninguém fez menção de se levantar. Meu pai parecia confortável em sua poltrona, conferindo suas compras, e minha mãe tirava mais paletas (tanto de pintura, quando de cosméticos) da mala, que, aparentemente, não guardava só pra roupas. Logo, também estava muito interessada em seus afazeres, pra abrir a porta. A campainha tocou mais uma vez e, dessa vez, Odette me mandou atender dizendo que ela mesma estava muito ocupada com o que fazer para o jantar. Como se eu já não estivesse indo.
- ? - eu perguntei um pouco baixo, assim que abri a porta.

Continua...

N/A: Não tenho muito pra falar, só que estou atrasada em escrever bastante. :( Confesso que dei uma desanimada de escrever Papercut, mas vou me esforçar pra continuar logo, e atualizar o mais breve possível. Desculpem, mas eu dei uma bela travada na história e o capítulo 18 está pela metade.
Se alguém tiver uma idéia, comente na caixinha de comentários, eu com certeza vou considerá-la.
Beijos, lindas!



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