Capítulo 1

Mais um dia chega, o relógio desperta às sete horas da manhã, a claridade entra pela minha janela aberta, em mais uma manhã nublada. A brisa fraca e fria que entra me desperta dos meus devaneios, porém o friozinho do outono chega bom e reconfortante para ficar os famosos “cinco minutinhos” a mais, na cama. Este é um daqueles momentos em que só existe você no mundo. Fecho meus olhos, mas logo os torno a abrir, pois eu sei que, mesmo querendo afundar a cabeça no travesseiro e dormir novamente, o trabalho, a faculdade ou qualquer outra coisa que rodeia minha vida estará me esperando lá fora.
Você, lendo minha história, deve se perguntar, quem é ? Bom, vou tentar me resumir em algumas palavras. Sou a garota dos longos cabelos , pele macia, com olhos e misteriosos, segundo muita gente. Prazer, está sou eu! Decidi levantar logo da cama ou eu acabaria desistindo alguma hora, senti que a preguiça já tomava conta de mim novamente e eu não podia dar chances a ela. Fui ao banheiro, me preparando para mais um banho relaxante, claro, porque banhos rapidinhos não são para mim. Despi-me, liguei o chuveiro e a água quente, que batia em minhas costas, me relaxou por completo. Novamente não existia ninguém mais no mundo a não ser eu mesma. No meio do banho, estava me preparando para mais um dia rotineiro e entediante com pessoas cínicas e fúteis a minha volta, mas o que eu não sabia é que este dia não seria como todos os outros... Não, não este dia.
Com toda a força de vontade, que tirei não sei da onde, consegui sair do banho, depois de longos minutos que se passaram, incrivelmente rápidos, me enrolei na toalha e fui fazer minha higiene bucal, me olhei no gigantesco espelho do banheiro, analisando cada traço do meu rosto. As olheiras que adquiri com a última festa ainda persistiam um pouco, pensando comigo mesma, vi que maquiagem extra teria que ser utilizada, afinal de contas, para aquele bando de abutres que se dizem mulheres na faculdade em que estudo, até um fio de cabelo fora do lugar já é motivo para falar.
Acabando tudo no banheiro, fui ao meu quarto, abri o closet e peguei uma blusa roxa em formato de morcego, uma calça jeans bem descolada e que tinha detalhes em roxo e o sapato roxo mais lindo que já vi na minha vida e comprado recentemente. Fiz minha maquiagem, tomei meu café da manhã reforçado, peguei minha bolsa pronta para sair. Entrei no carro e dirigi até a faculdade, cheguei um pouco mais cedo que o habitual porque, pelo que me parece, grande parte da população decidiu se atrasar hoje, deixando o trânsito fluindo perfeitamente bem.
Já na faculdade, entrei na minha sala, esperando pela aula que estava por vir, porém, chegando um tanto cedo, tive que me conformar em esperar o tempo passar nas poltroninhas do hall. Então eu o vi. A primeira vista foi como a de um anjo aparecendo, seu rosto lindo, com pele morena, cabelos cor de mel e seus olhos , que tinham tal intensidade que era impossível não ficar olhando para ele, sem falar em seu corpo escultural, era realmente um Deus Grego. Seu nome ou do onde ele era ou vinha, eu ainda não sabia, mas eu iria descobrir! Ele fazia cara de quem estava perdido e um tanto temeroso, quando me viu, sua expressão mudou de um quase desespero para alívio. Foi quando falei com ele pela primeira vez, não sei por que, mas, involuntariamente, meu coração disparou e quando ele falou, o som da sua voz era como se me tirassem o ar.
- Olá, sou novo aqui! Meu nome é , acabo de vir transferido de outra faculdade e acho que estou meio perdido, poderia me ajudar? – Ele disse.
Sua voz era grossa e um tanto rouca, o que lhe dava um charme todo especial. Na hora que ele me fez a pergunta, fiquei sem reação, abobalhada com sua beleza, quase me esqueci de responder, quando notei seu olhar ansioso sobre mim, foi como se eu despertasse de um sonho.
- Oh, claro! – Dei um sorrisinho meio sem graça, ficando levemente corada, o que estava acontecendo comigo? – Você é aluno de qual curso? – Perguntei.
- Faço Administração! – Ele sorriu quando disse isto. – Por favor, me diga que ao menos no prédio certo eu estou.
Seu sorriso era encantador, aliás, tudo nele era. Antes de ficar deslumbrada com sua beleza novamente, resolvi desviar o olhar e responder a sua pergunta...
- Oh! Você está sim... – Disse sorrindo largamente. – Porém, é no sexto andar, você trouxe sua grade de horários? Assim posso te dar uma localização melhor! – E ter uma melhor para mim, pensei comigo mesma.
- Não, eu esqueci em casa, até estava ficando preocupado com isso, como posso descobrir minha sala? – Ele me lançou um olhar confuso e que ficou incrivelmente fofo nele.
Gentilmente expliquei para o garoto onde ele poderia imprimir uma nova grade de horários e assim descobrir sua sala, estava pronta para acompanhá-lo, quando olhei a minha volta. O lugar que antes era vazio agora se encontrava lotado de pessoas. Por algum motivo curioso, estar na presença dele me fez esquecer o resto do mundo.
- Nossa! Olha a hora! – Eu disse, olhando para o relógio e fazendo cara de apavorada.
- Oh, me desculpe, eu te atrasei! – Ele disse meio sem graça.
- Não, que isso, às vezes eu fico meio perdida no tempo! – Disse corando levemente. – Desculpe, mas acho que não poderei te acompanhar até o laboratório. Se quiser te explico como chegar e com quem falar lá... – Disse um tanto desanimada.
- Nossa! Isso seria ótimo! – Ele disse sorrindo largamente.
- Claro! – Disse e sorri fraco. Mesmo querendo disfarçar, ele pareceu ler através do meu olhar. Será que o desânimo em que me encontrei ficou tão aparente assim? Ah, está pergunta eu não sabia responder.
Novamente, fiquei sem graça sem saber o porquê, algo nele me interessava de um modo que eu não podia explicar. Se era por causa de sua beleza exótica ou então o seu jeito extremamente simpático, eu não sabia dizer! Ele apenas me olhava, como um detetive que quer desvendar um mistério, como se pelo seu olhar quisesse me dizer algo. Senti-me importante diante da profundeza do seu olhar e impotente pelo fato de não poder ajudá-lo, devido ao tempo que gostaria que tivesse parado naquele momento... O hall vai ficando cada vez mais vazio a nossa volta, fazendo com que eu me lembre novamente da aula, lhe explico onde tem de ir e com quem falar e me despeço rapidamente. Ando apressadamente para minha aula que, agora, perdeu toda a importância, porém o semblante daquele desconhecido não me sai da mente. Por quê?
Entro na sala perdida em pensamentos, minha cabeça está funcionando a mil por hora, dou uma ultima olhada para trás, como se estivesse na esperança de ver aquele garoto de novo, mal percebo que a aula já havia começado. O professor, brincalhão como sempre, não perdeu a chance de me zoar um pouquinho.
- Obrigado por se juntar a nós, senhorita . – Senhor Hantins disse.
Será que havia ficado quente de repente?
- De nada! – Falei abobalhada, sem conseguir pensar em algo mais criativo, só Deus sabe o quanto eu me crucificava por dentro.
Jefferson Hantins era simplesmente lindo! Seu cabelo curto e bagunçado era castanho, puxando quase para um caramelo, com olhos de um azul profundo, bem dotado de corpo e sempre andava muito bem perfumado, deveria ter, no máximo, vinte e seis anos e seu sorriso era encantador e muito cativante. Ele tinha um charme que deixava todas as garotas à volta dele babando, com seu jeito extremamente simpático e brincalhão, qualidades que faziam dele um homem, praticamente, perfeito para muitas garotas. Ele era professor de Direito do Trabalho e andava sempre de terno e gravata, devido a sua função de professor na faculdade e o seu modo de ensinar a matéria não era cansativo, ou deveria ser porque ele era lindo que nenhuma garota achava cansativo? Vai saber.
Tento disfarçar a grande gafe, porém é inevitável, provavelmente porque quando, em média, sessenta pessoas te olham, como se você fosse um palhaço de circo e você fique hipnotizada com a beleza do professor, seja mais difícil de disfarçar. Estando tão distraída, mal percebo que a porta atrás de mim escorrega por entre meus dedos e bate com força devido ao vento. Sim, com certeza está tinha de ser eu! Duas gafes seguidas só poderiam ter vindo de mim.
- Desculpe! – Digo, ficando mais vermelha que um pimentão.
Achei melhor ir para o meu lugar antes que o mico fosse ainda maior, minhas amigas, do lugar onde estavam, já riam de mim quase que descontroladamente, mas eu ainda estava muito distraída para ficar zangada. A aula estava interessante e chata ao mesmo tempo. Interessante por motivos óbvios, o professor era lindo. E chata porque, bom, minha mente estava há anos luz dali. Como de costume, eu me sentei junto as minhas duas melhores amigas, e , minhas fiéis escuderias, acho que tive muita sorte, não poderia ter encontrado duas pessoas melhores.
- Tinha que ser a . – disse, se contorcendo de tanto rir.
- A sempre consegue essas proezas! – falou, rindo e balançando a cabeça.
Juntas na aula, começamos a contar as novidades do que nos aconteceu no final de semana.
- Garotas, vocês nem sabem, eu e o Marcelo fomos naquele motel novo, que inaugurou faz pouco tempo, vocês não têm idéia do que é aquilo! – riu quando disse isso.
- Mas é ma pervertida! – riu. - Mas como é?
- Claro, ela chama a outra de safada, mas quer saber os detalhes... Esse mundo está mesmo perdido! – Eu disse rindo da pergunta retórica de .
- Ah, ela começou a dizer, tem que terminar não é?! Não se deve ficar curiosa! – disse, dando uma risadinha sapeca.
- Ok, será que agora eu posso contar? – disse, se fingindo de impaciente.
- Conta logo! – Eu disse, e antes que pode-se me interromper novamente, ela começou.
- Cara, a suíte que a gente ficou era enorme, tinha uma baita piscina com uma cascata, e a cama era redonda e em volta dela tinha cortinas rosa e era todo espelhado, isso sem falar na hidromassagem que era gigante.. Sério, o lugar é um sonho! – disse, parecendo deslumbrada.
- Sério? Vou ter que ir até lá para conhecer, então! – Eu disse, em som zombeteiro. – E você, o que fez ?
- Bom, eu fui viajar... AMIGAS, lá encontrei o garoto, cheguei a perder o fôlego com ele! – Nós rimos todas juntas.
- Danadinha, onde você o conheceu? Aliás, para onde você foi viajar? – Perguntei curiosa.
- Eu fui para o sítio do meu tio, na verdade, esse garoto trabalha lá, mas meu tio não pode nem sonhar que a gente saiu, porque, se não, já viu a confusão que vai dar, não é? – disse.
- E como ele é? – Eu perguntei, curiosa.
- Ah, o cara é um monumento, e super bem dotado, eu fiquei lá o final de semana. Na sexta, tinha tipo rodeio na cidade vizinha, sabe... Lá eu o conheci, a gente ficou, mas não transou, só que no sábado, meu tio saiu para resolver problemas e quando eu estava chegando ao sítio, depois da montaria, eu vi ele no curral. Ai sabe como é... Conversa vai, conversa vem, a gente acabou se empolgando e transando ali mesmo! – disse, e sua cara fazia parecer que a lembrança era muito boa.
- Pelo jeito o nosso final de semana foi ótimo! – disse. - Mas diz aí , com quem você saiu no final de semana?
Eu hesitei por alguns instantes para responder a sua pergunta, mas por fim me dei por vencida e respondi:
- Na verdade, não saí... - Disse, extremamente sem graça, eu sabia que aquela resposta iria me valer bons puxões de orelha. - Eu acabei ficando em casa porque minha mãe ficou insistindo para eu não sair! – Disse com uma voz um tanto conformada.
- Ah para , não creio que você ficou em casa com o dia lindo que fez tanto no sábado, como no domingo! Você não tem jeito mesmo... - falou, e seu tom era de quase raiva.
- Achei que entendessem o meu lado, se vocês vivessem com meus pais, entenderiam tudo que eu digo! – Falei um tanto chateada.
- , nós já tivemos essa conversa milhões de vezes, você não pode, simplesmente, se curvar aos desejos de todos! – disse, parecendo totalmente indignada.
Tudo aconteceu muito rápido, foi como em um passe de mágica e eu acabei por esquecer tudo que havia acontecido antes da aula, tanto o garoto de olhar intenso, quanto o mico da entrada. Aquela conversa havia me dado outras coisas para pensar, como a minha família. Elas realmente odiavam quando eu ficava presa em casa por causa dos meus pais, só que era inevitável. Meus pais exerciam sobre mim um controle maior do que eu podia escapar. Nas milhares de vezes que tivemos aquela conversa, eu sempre perdi e sempre prometia que ia tentar mudar, e a cada conversa dessas eu me convencia mais de que elas não eram como as outras da faculdade, elas eram diferente. Elas são aquele tipo de pessoa que você sabe que pode contar em qualquer horário, longe ou perto. Fazer uma comparação da nossa amizade seria como falar do vento, você não precisa ver ele, mas você pode senti-lo.
Aliás, já contei a vocês como começou nossa amizade? Não? Ah, então eu conto agora!
, e eu, começamos a faculdade, as três juntas no primeiro semestre, porém nem nos olhávamos, e nós três pensávamos que nunca seriamos amigas uma da outra. Até que um dia começou a conversar com e a começou a conversar comigo. Quando nos conhecemos melhor, foi como se fosse amor à primeira vista. Nós três juntas temos muitas histórias.
O tom que assumimos na nossa conversa estava extrapolando, um tanto, os limites e o professor acabou por nos chamar a atenção. Senti-me aliviada, por um momento, por aquela conversa extremamente desagradável ter fim, assim, tendo a oportunidade de pular para outro assunto bem mais interessante: nosso professor.
- Garotas, mudando de assunto, me digam o que é esse professor?! Lindo desse jeito e sem uma aliança no dedo, como isso é possível?! – Disse e o rumo que eu tomei na conversa pareceu dar certo.
- Concordo com você, ô lá em casa. Ele é perfeito! O sorriso, o modo como ele ensina a matéria, o jeito super simpático, sem falar que qualquer garota daqui morreria pra ter algo com ele! - disse.
- Com certeza, eu estou até pensando em pedir umas aulinhas particulares para ele! – Eu disse, fazendo uma carinha sapeca e dando uma risadinha maliciosa.
- Eu sei o tipo de aula particular que tu queres, safada, mau caráter! – disse dando risada.
- Sonhar não faz mal! – Eu disse, e nós três acabamos rindo novamente.
Nosso papo foi subitamente interrompido pelo risinho idiota e o arzinho fútil (como se fossem superiores a todos os outros), de Camila e Bianca. A única diferença entre elas era que Bianca era realmente rica e Camila era uma pobre, que se fazia de rica. Ninguém sabia por que elas ainda continuavam indo às aulas, não estudavam, somente conversavam e falavam vulgaridades, coisas como “eu quero leitinho” era normal entre elas. Quando o professor as viu rolou os olhos, vendo que seus temores continuavam. Além delas só falarem vulgaridades, elas eram totalmente sem senso, conversavam a aula inteira, em um tom alto e, por mais que o professor chama-se a sua atenção para que elas parassem, elas continuavam como se ele e nada fosse o mesmo. Elas mal olhavam para as outras pessoas e o seu maior foco eram os garotos, mas não qualquer garoto, eram somente os inteligentes que passavam cola, é claro. No começo, eles o faziam porque as achavam gostosas, pois, era somente elas olharem para eles com aquela carinha de “Oi, eu sou puta!” que a tara masculina se ligava, como se fosse controlado por controle remoto.
- Aí ninguém merece essas duas! – Ouvi Helena dizer para sua amiga, na classe atrás da nossa.
- Porque elas simplesmente não param de vir à aula? Não fazem diferença nenhuma! – Ouvi Mari cochichar com Clarisse, na classe da frente.
De todos os que tinham na sala os únicos que, em minha opinião e de minhas amigas, se salvavam eram três, Diego, Matheus e . Na verdade, e eu já havíamos namorado há algum tempo atrás, porém, tudo teve fim devido a Camila. As duas sempre sentavam com eles, eles já não agüentavam mais elas, mas continuavam com a “amizade” porque elas não deixavam mais eles em paz, pagavam para eles fazerem os trabalhos delas e para passarem cola. Camila já devia ter saído com todos, pelo menos com eu tinha certeza que sim.
- Af, um dia eu ainda vou entender porque a Camila entra como se fosse uma rainha, sendo que ela anda sempre com essa mesma calça encardida, olha lá, a estrela da calça já está até caindo! – Eu disse, vendo o estado deplorável que Camila sempre se encontrava.
- Cara, quando ela comprou aquela calça, ela era jeans clarinho e estava com as três estrelas do lado, intactas. Agora, está um jeans encardido, com uma estrela meia boca, outra quase caindo, e a terceira já se foi há muito tempo – disse as gargalhadas. – Como ela tem coragem de vir assim?
- Não, o pior é vir assim se achando a gostosa, com aquele estilinho, “Oi, eu sou uma pobre que gosta de se achar riquinha, mas só tenho a mim própria e uma calça guerreira!” – disse, nos tirando risadas mais altas que o devido.
- É uma piranha, mal vestida e que, ainda por cima, não sabe andar de salto! Ela parece até manca, se bem que nem os mancos andam como ela, ridícula! – Eu disse, completando o nosso momento “vamos ridicularizar Camila”.
- Gente, melhor a gente pegar o lencinho e limpar do lado aqui, que está escorrendo o veneno! – disse, encenando.
- O legal é ver a cara de terror que os guris fazem, sempre que elas chegam! – Eu disse.
- Sim, acho que eles dariam qualquer coisa para elas sumirem do mapa, elas são muito chatas, ninguém mais na turma agüenta elas! E o que é a outra? Com aquele nariz empinado, e com aquela cara de cavalo?! - falou, dando a última alfinetada possível, pois começamos a rir muito alto, fazendo assim com que o professor pedisse silêncio novamente.
Apesar de nunca ter deixado ninguém saber do meu pequeno romance com , eu gostava dele, mesmo ele achando que não, mas eu gostava. Depois dele, qualquer outro relacionamento para mim pareceu totalmente inviável, com ele tudo era muito certinho, saiamos fora da faculdade e nela éramos apenas amigos. Eu não queria ninguém “xeretando” minha vida, porém ele queria mais, ele queria que fossemos vistos tanto fora, como na faculdade. Minha insegurança causou a ruptura. Logo após ele teve um caso com Camila, ela devia ser o tipo de garota que ele gostava, sempre fazendo extravagâncias e loucuras, e eu? Bom, eu era a “certinha”. A lembrança do momento que meus olhos viram pela primeira vez, ainda é presente em minha memória, recordo como se fosse hoje o dia que começamos a namorar.


Capítulo 2

Flash Back: ON

- Porque não foi embora, como todo mundo? – perguntei a , que se aproximava aos poucos, se sentando na poltrona que se encontrava ao meu lado.
- Ah, minha mãe só vai vir me buscar as onze e meia da manhã, então acho que vou ficar e te fazer companhia, a não ser que você não me queira aqui! – Ele disse em tom zombeteiro.
- Como você adivinhou? – Eu disse, no mesmo tom.
- Me cortou! Deixa assim, minha vingança será maligna! – Ele disse rindo. – E então, você vai ir com o pessoal para o sítio?
A turma havia combinado um churrasco em um sítio de algum colega, do qual eu desconhecia até o presente, e haviam me convidado inúmeras vezes, na esperança de me tirar de casa nem que fosse por um final de semana. Porém, eu ainda não havia decidido se eu iria...
- Quem vai? – Perguntei.
- A princípio os guris, a , a , e mais uma galera... – Ele disse divertido.
- Ah sim, as gurias comentaram algo sobre isso, mas me diz de quem é o sítio? – Perguntei.
- Ah... – hesitou por longos minutos e, antes mesmo que ele pudesse dizer o nome da pessoa, eu já sabia que não iria gostar. – Dos pais da Bianca.
- Ah... – Disse tentando achar uma desculpa plausível para não ter que me submeter a ir a casa daquela piranha. – Bom... Sabe o que é?! Acabei de lembrar que o meu cachorro está grávido e não vai dá para eu ir... – Disse fingindo um arzinho triste.
riu com a minha resposta, fazendo com que eu risse junto com ele, porém, não parou de tentar me dissuadir.
- Meu, no começo a idéia também não me agradou, mas depois eu pensei melhor e acho que a gente deveria ir, é um lugar bem bonito pelo que me disseram, e a gente não precisa ficar perto delas, a gente somente ignora... – Ele disse, tentando fazer a situação parecer o mais natural possível.
A casa, mesmo sendo de Bianca, faria com que, conseqüentemente, Camila fosse junto e a simples idéia de passar um dia, mesmo que por pouco tempo, na presença de Camila me deu arrepios, tendo em vista o modo como ela se portava com os garotos no seu dia-a-dia (lê-se: totalmente puta), eu me perguntava se lá, onde a casa era dela, a mesma não faria coisas muito piores.
- Olha, eu realmente não sei, mas eu prometo que vou pensar, agora, por favor, podemos mudar de assunto? – Fiz uma expressão confusa e esperançosa, e ele pareceu atender ao meu pedido.
- Ok, eu vou deixar a escolha bem livre a você, só que te ter lá seria muito importante! – Ele disse.
Na hora não consegui entender a imensidão que suas palavras significavam e a forma que elas haviam me deixado, pensei ser somente coisas da minha cabeça ou o constrangimento, só depois percebi o quanto eu estava enganada.
- O que você vai fazer no final de semana se não for para a festa? – Ele me perguntou, e na sua voz tinha um tom que era um tanto especulativo.
- Ah, não sei ao certo, acho que a grande massa vai estar no tal do sítio, então acho que vai me sobrar pantufas, pipocas, cobertores e DVDs! – Disse.
- Porra brother, tu vais ficar em casa? – disse, indignado.
- Bom, em tese, sim... Por quê? – Falei um tanto receosa, eu sabia o que me esperava.
- Mas você não vai de jeito nenhum ficar sozinha, em casa, no final de semana! Estamos te oferecendo uma ótima oportunidade e você vai aproveitar ela! Já está mais do que decidido, você vai à festa! – disse em tom autoritário.
-Ah, por favor, você também não! – Eu disse com uma voz agoniada.
- Não, por favor, você! Onde já se viu uma garota nova e bonita como você não sair para se divertir, vai sim! – Insistiu ele.
Achei melhor mudar logo de assunto, antes que aquilo acabasse de uma maneira chata. Começamos a conversar sobre assuntos diversos e ele me contou onde trabalhava e o que gostava de fazer nas horas vagas. Eu fiz o mesmo, e foi quando notei que nunca havíamos conversado muito, não como naquele dia. A primeira uma hora passou incrivelmente rápido, e saber mais sobre ele se tornou como um vício, quanto mais ele falava, mais eu queria saber. Foi no momento em que estávamos brincando que teríamos dois cachorros, um gato, um papagaio e um peixe quando casássemos que aconteceu.
- Meu Deus olha à hora! – Disse com a voz espantada.
- Puta merda, minha mãe vai me esganar! – disse rindo. – Tudo culpa tua!
- Culpa minha? Ah claro, a culpa é sempre do mordomo ou da ! – Disse ao mesmo tempo em que arrumava minhas coisas.
- Anda logo, pequeno pigmeu! – Ele disse, me gozando.
- Vou te mostra o pequeno pigmeu, seu anão branco! – Disse rindo e quando fui para bater nele, ele segurou o meu braço e eu acabei por torcer meu pé, caindo sobre ele.
- Olha ai... Olha ai... – disse gargalhando. – Não consegue nem caminhar sobre uma superfície plana sem cair!
- Cala a boca, idiota! – Disse gargalhando junto.
Tentei me ajeitar, inutilmente. A forma em que estávamos limitados no pequeno espaço, fez com que eu caísse novamente e quando finalmente consegui me ajeitar, com a ajuda de , nós dois ainda estávamos meio que rindo e meio desnorteados. Só quando nos acalmamos que eu percebi que uma mão envolvia minha cintura com força... Eram as mãos dele! Foi quando reparei nele, realmente, pela primeira vez. Seu corpo atlético e seu sorriso encantador, cabelos bagunçados, que eram , e seus olhos me fitavam como se me analisassem a cada novo passo.
Ficamos emudecidos diante daquela situação, e nosso olhar parecia preso um ao outro, minha respiração começou a ficar levemente alterada e eu não sei por que eu me senti estranhamente eufórica, eu não havia notado logo no começo, mas logo após, percebi que estávamos realmente muito perto um do outro. Tentei manter a mente clara, e não olhar para sua boca, eu não sabia exatamente o porquê, mas havia me dado uma vontade louca de beijá-lo, porém, eu pensava que este desejo era somente meu e foi quando ele me olhava fundo nos olhos que eu escorreguei. Meus olhos involuntariamente desceram até sua boca, e isto pareceu ter dado a ele a resposta que ele procurava.
me beijou com uma vontade que nunca ninguém havia feito antes, sua boca se movia com urgência na minha, explorando cada canto dela. Quanto mais ele me beijava, mais eu queria. Sua boca parecia que tinha mel e o seu piercing na língua, dava ao beijo uma sensação diferente de todas as outras que eu havia experimentado antes. Minhas mãos seguiram pela extensão de seu pescoço até chegar a sua nuca, segurei com força em seus cabelos, o que fez com que ele soltasse um leve gemido e intensificasse o beijo.
Uma de suas mãos se posicionou entre meus cabelos, agarrando-os com força, o que dava ao beijo uma sensação completamente nova, o deixava cada vez mais intenso, enquanto sua outra mão segurava firme minha cintura, como se estivesse com medo que eu escapasse, me puxando para mais perto do seu corpo. Não sei por quanto tempo ficamos nos beijando, só sei que quando me dei por conta, eu já estava encostada na parede e o jeito que estávamos quase “enroscados”, não era polido para o lugar onde nos encontrávamos.
Sua mão agora ia explorando as demais partes do meu corpo, fazendo com que eu me arrepiasse completamente diante do seu toque preciso, ele estava me viciando, sem que eu sequer percebesse. O afastei com uma das mãos e ficamos um tempo distante um do outro, sem dizer nada, somente recuperando o fôlego. se afastou alguns passos, enquanto eu tentava entender o que havia acontecido, eu não sabia o que eu tinha feito, ou melhor, eu não sabia o porquê e, me aproveitando da breve distância que adquirimos, saí dali o mais rápido que pude pelas escadas, sendo seguida por ele.
- espera, vamos conversar. – Ele disse, me segurando pelo braço.
- , eu não sei o que foi aquilo, nem como aconteceu, me desculpa, quer dizer, não sei se é minha culpa ou de quem foi à culpa ou... – Ele me calou com um beijo, que estava mais quente do que o anterior, me colando contra a parede, bem preza para que, dessa vez, eu não pudesse sair correndo e recomeçou a falar.
- Você fala demais às vezes, sabia? – Ele disse rindo. – Não existem culpados nessa história, somente aconteceu o que nós dois já estávamos com vontade há meses, bom, quer dizer, eu estava... Não sei quanto a você! – Ele disse e pareceu meio envergonhado pelo que admitiu no final.
- , isso é loucura... – Foi a única coisa que eu consegui dizer, pois logo sua boca já estava colada a minha novamente.
- Eu vou te calar com um beijo sempre que você dizer alguma besteira. – Ele me disse, dando um sorrisinho excepcionalmente travesso, como se quisesse que eu dissesse mais.
A única coisa que consegui fazer na hora, foi rir, ele sem saber o que fazer, riu junto comigo.
– Bom, então qual seria a coisa “certa” para eu dizer? – Eu perguntei.
- Bom... Diga sim! – Ele me disse com um sorriso na boca, e eu fiquei me perguntado o que seria aquele “sim”.
- Sim? Sim ao que? – Perguntei meio confusa.
- Diga sim ao pedido de namoro que estou fazendo a você, neste exato instante! – Ele me disse e seu sorriso, agora, era largo.
- Você ficou completamente maluco? – Eu disse, tentando fugir da sua pergunta.
- Maluco por você! – Ele disse com um olhar malicioso.
Assim, de maneira mágica e impetuosa, tudo começou. Não tive como dizer não ao seu pedido, porque percebi que mesmo que o quisesse fazer, não poderia. Eu já estava ligada a ele mesmo sem perceber. No começo eu pedi para manter tudo em segredo, pois eu ainda precisava me adaptar a essa nova etapa da minha vida, ele concordou de bom grado, fora da faculdade íamos para restaurantes, parques, ou simplesmente ver o pôr-do-sol e, na faculdade, éramos amigos. Chegávamos juntos e íamos embora juntos, mas nunca ninguém suspeitou, pois a quantidade de gente que entrava e saia da faculdade era grande demais.
Minha vida havia dado uma volta muito grande, tudo com ele era diferente, era quente e a primeira noite que passamos juntos nunca sairá da minha memória...

- Que tipo de flores você gosta? – Ele perguntou depois de me dar um longo beijo.
- Rosas vermelhas! – Disse sem entender sua pergunta.
- Quer jantar comigo essa noite? – Ele me falou, quando me deixava na porta do serviço.
- Jantar? Nossa... Claro que eu quero! – Disse sorrindo.
- Bom, então posso te pegar aqui no serviço e te levo direto para minha casa, ok? – Ele disse.
- Me levar para sua casa? Achei que iria me levar para jantar... – Disse, parecendo confusa.
- E eu vou! Nós vamos jantar na minha casa, eu vou fazer a janta e ai de você que diga que ficou ruim! – Ele disse em tom ameaçador.
Não pude deixar de rir da sua expressão e, muito menos, recusar o convite. Ele me pegou na frente do serviço na hora marcada e me levou até o seu apartamento, ele se encontrava na cobertura e era lindo, o seu toque altamente refinado e o conforto que se podia enxergar eram gritantes. A sala estava escura e a única iluminação que vinha, era das velas espalhadas pelos cômodos. O aroma da comida, que vinha da cozinha, era maravilhoso e a mesa estava simplesmente linda, recostada perto da varanda da cobertura. Era como se tivéssemos as estrelas como testemunhas. Ele havia comprado vinho branco e eu não sabia de onde ele havia arranjado um castiçal para duas velas, mas ali, logo acima da mesa, se encontrava um, enquanto uma música muito suave tocava ao fundo, dando um toque romântico ao ambiente.
- , que... Lindo! – Eu sabia que tudo aquilo era muito mais que, simplesmente, lindo. Porém, na hora não consegui achar palavras para tal grandiosidade.
- Que bom que gostou! – Ele disse em um tom suave. – Espero que goste da comida também, acredite se quiser, fui eu mesmo que a fiz.
- Sabe, acho que esqueci a panela no fogo lá em casa! – Disse, em um tom brincalhão.
- Cala a boca! - Ele disse rindo. – Você tinha que estragar o momento, não é?
- Desculpe, não resisti! – Disse sem jeito.
Ele me encaminhou até onde eu ficaria na mesa e me serviu uma taça de vinho, logo ele trouxe a janta. Estava tudo perfeito, ele havia feito salmão ao molho de maracujá, acompanhado de uma salada leve.
- Nossa... Isso aqui está realmente muito bom! – Disse.
- Obrigada! – Ele disse sem jeito.
- Você tem um apartamento muito lindo! – Disse admirada pela beleza do lugar. – É uma visão incrível aqui de cima.
- Que bom que gostou, arrumei tudo pensando em você! – Ele disse em um tom amável, sorrindo.
Apenas sorri para ele e acabamos de comer em silêncio, apenas nos olhando, como se, pelo nosso olhar, pudéssemos dizer mais do que qualquer outra palavra pronunciada. Logo ele retirou a mesa e trouxe a sobremesa, ele havia feito fondue de chocolate com morangos silvestres e, para beber, um espumante.
- Você realmente sabe como conquistar uma mulher, pelo menos pela barriga! – Disse rindo.
me acompanhou, rindo com gosto da minha piada sem graça.
- Você é encantadora, a cada dia que passa gosto mais de você! – Ele disse.
Fiquei levemente corada e agradeci mentalmente a ele, por ter deixado a iluminação fraca porque, assim, ele não poderia ver o quão envergonhada eu havia ficado.
- Você quer dançar? – perguntou.
- Dançar? – Perguntei surpresa.
- Sim! – Ele disse sorrindo.
- Bom, digamos que eu não sou uma boa dançarina! – Disse, dando um sorrisinho sem graça.
- Eu vou me arriscar... – Ele disse, rindo de canto.
Quando vi, já estava envolvida por seus braços, me colando em seu corpo e me movendo lenta e tranquilamente pela sala. Seus olhos me encaravam e eu não podia deixar de ficar hipnotizada por eles, ele era lindo e, além disso, ele era meu. Não podia deixar de sentir um pouco de orgulho de mim mesma por saber disso. No meio da dança, me beijou, primeiramente, de uma forma calma e tranqüila, tínhamos todo o tempo para nós dois, mas logo seus beijos foram aumentando a profundidade e a intensidade.
Paramos de dançar e ele começou a me levar, sem desfazer o beijo, para o grande sofá de couro preto que tinha na sala. Sua boca se movia cada vez com mais urgência sobre a minha, e o toque de suas mãos sobre minha pele macia fazia com que eu sentisse como se milhares de descargas elétricas saíssem de mim. Nossa respiração foi ficando cada vez mais alterada e a excitação agora era presente em nossos olhos.
Ele foi descendo seus beijos pelo meu pescoço, me provocando inúmeros arrepios. Enquanto minhas mãos bagunçavam e puxavam seu cabelo, suas mãos desceram até a parte de baixo de minha blusa, somente para poder subir com ela, tirando-a para, logo após, voltar a me beijar. Desci minhas mãos pelo seu peitoral, arranhando-o, e senti suas mãos apertarem-se mais contra meu corpo, me fazendo estremecer. Ele continuava me beijando, descendo sua boca pelo meu pescoço, que, diga-se de passagem, é a parte mais sensível do meu corpo e a que me causa mais arrepios, até encontrar meus peitos, beijando-os por cima do sutiã, apertando-os com as mãos. Naquele momento, eu já não estava mais preocupada se minha respiração estava tão alta a ponto de ser quase constrangedora. Comecei a puxar a sua camisa, em um pedido mudo para que ele a tirasse, ele, prontamente, atendeu a meu pedido, tirando ela de uma só vez e a tocando para longe.
Ele voltou a me beijar e foi quando eu senti que a superfície a baixo de mim deixou de existir e que havia me pego no colo e estava me carregando para o seu quarto, sem desgrudar sua boca da minha. Ele me deitou na sua cama levemente, deitando-se sobre mim e não pude deixar de notar que o volume em sua calça estava grande. Sua boca foi descendo novamente até meus peitos, mais precisamente em meu sutiã que se abria pela frente, e com um movimento preciso ele o abriu com a boca, me dando um sorriso completamente safado. Ele sugava meus peitos e mordia, brincando com eles, me deixando completamente doida, joguei minha cabeça para trás, totalmente submissa a ele. foi descendo pela minha barriga, explorando cada cantinho dela, sem parar de apertar meus peitos, até encontrar o cós da minha calça, o seu olhar, naquele momento, era algo a ser desvendado, em uma mistura de um sorriso totalmente travesso, com um olhar carregado de excitação e cheio de determinação.
Ele retirou minha calça com agilidade, virando-me de bruços, começou a massagear minhas costas, quando notei que ele pegou algo na cabeceira da cama. Era uma flor, mais precisamente um botão de rosa vermelha, e foi somente naquele momento que eu havia reparado na sua pergunta mais cedo. Ele passava à rosa pela extensão das minhas costas, me provocando inúmeros arrepios e logo sua boca começou a seguir o trajeto que ela fazia, ao mesmo tempo em que pronunciava obscenidades para mim. Senti um líquido gelado ser derramado pelas minhas costas e percebi que segurava uma taça de vinho em uma das mãos... Como a taça havia ido parar ali? Eu também queria saber!
Ele sugava o líquido que havia derramado em minhas costas, como se aquilo fosse um néctar que brotava de minha pele, ele estava me deixando louca e ainda nem havia me penetrado... Quando acabou de sugar todo o liquido, colocou a taça de lado e foi com suas mãos até minha bunda apertando-a com vontade, parecia que algo naquela região o estava incomodando, pois logo ele me virou de frente para si e começou a beijar meu corpo novamente, dessa vez, descendo para uma área mais intima... Minha calcinha.
- Meu Deus, você já acordou hoje pela manhã com a intenção de me deixar louco? – Ele falou com a voz rouca.
- Porque da pergunta? – Disse com a voz carregada de excitação.
- Você sabia que eu fico louco com calcinha de renda preta e que, ainda por cima, é fio dental? – Ele perguntou, enquanto descia seus beijos pela minha coxa.
Eu não pude responder nada, não que eu não tivesse essa intenção, mas sim porque logo suas mãos arrancaram de uma vez minha calcinha, e sua boca se encontrava na minha intimidade. Rolei os olhos quando o senti me invadindo com sua língua, me sugando e dando leves mordidas ao mesmo tempo. Se enlouquecer de prazer fosse pecado, eu já estaria no inferno! Minhas mãos puxavam seus cabelos, cada vez com mais força, e a cada puxão sua investida era mais intensa. Logo comecei a gemer, o sentindo apertar mais suas mãos nas minhas coxas, até ele soltar uma, somente para poder me masturbar, ao mesmo tempo em que estimulava meu clitóris. Não demorou muito e eu tive meu primeiro orgasmo da noite. voltou para me beijar, parando logo para me olhar com um sorriso satisfeito, como o de dever cumprido, para mim.
- Foi bom para você? – Ele disse, sorrindo maliciosamente.
Um desejo súbito tomou conta de mim, fazendo com que eu grudasse nossas bocas de forma feroz e enlouquecedora. O joguei para o lado, somente para poder ficar por cima dele, abrindo, logo em seguida, o botão da sua calça e retirando-a sem cerimônias, dando espaço para a visão da sua cueca boxer preta, que ficava linda em seu corpo definido. Comecei a beijá-lo, aproveitando cada parte dele, sem me permitir esquecer um pedacinho sequer, desci pela extensão da sua barriga, o arranhando enquanto o beijava. Quando cheguei a sua cueca, olhei para ele com um sorriso malvado em meu rosto e mordi a ponta da sua cueca boxer, descendo com ela aos poucos, com a boca. Ele passava suas mãos por meus cabelos, me incentivando a continuar, enquanto erguia seu quadril para facilitar a retirada... Logo ele já estava sem ela também. Parei por alguns instantes, somente para apreciá-lo, se havia um homem mais lindo que aquele, eu ainda não conhecia.
Peguei sua ereção com as mãos e comecei a masturbá-lo, eu queria dar a ele o mesmo, ou até mesmo um prazer maior, do que ele havia me proporcionado. Em poucos instantes, estava gemendo e falando palavras desconexas, e, me aproveitando da situação, levei minha boca até sua ereção, olhando maliciosamente para ele, que me olhava como se implorasse para que eu o fizesse logo, a espera estava o torturando, e eu sabia muito bem disso. Comecei a beijar toda sua ereção de leve, fazendo carinho com a língua e dando leves beijinhos na ponta, vendo-o quase se contorcer de prazer, a única coisa que pude distinguir, das inúmeras palavras que saiam de sua boa, foi um ”por favor” e, sem pensar duas vezes, o invadi com minha boca, com movimentos rápidos e ritmado, enquanto apertava com vontade meus peitos.
Tudo aconteceu muito rápido após isso, quando percebi, havia retirado minha boca de seu corpo, agarrando minhas pernas por baixo, fazendo com que eu caísse de costas na cama. Percebi logo que seu orgasmo deveria estar perto, e tive o prazer de ver ele “lutar” com o pacote de camisinha e ganhar, colocando-a rapidamente e me penetrar de uma só vez, fazendo com que eu soltasse um gemido alto. Sua investida em mim era forte, ele parecia quase louco e eu estava adorando aquilo, arranhava suas costas, ao mesmo tempo em que ele se ajoelhou na cama e me levou para perto do seu corpo, enquanto puxava meu cabelo fazendo com que eu jogasse mais minha cabeça para trás, só para poder beijar meu pescoço. Não demorou muito, atingimos o orgasmo juntos, foi parando aos poucos, até desabar sobre mim, ambos exaustos.
- Sabe, a cada dia que passa, você me deixa mais louco! – Ele sussurrou em meu ouvido com a voz carregada de más intenções.
Não lhe respondi nada, apenas fiquei curtindo aquele momento, logo ele foi ao banheiro se limpar, seguido por mim, depois nos deitamos e, me abraçando forte ao seu corpo, adormecemos juntos. Após o primeiro mês, quis deixar tudo público, porém eu ainda não me sentia preparada, e foi quando começaram as brigas. Camila, todo mundo sabia, era louca por ele. Ele a ignorava totalmente, pois estava comigo, só que o fato de eu não querer assumir, deixou ele com o pé atrás. Um dia, depois de muito discutir, achamos melhor terminar tudo e ficarmos apenas amigos. No próximo final de semana, teve uma festa e Camila estava nela, e o inevitável ocorreu, eles ficaram, e o que foi pior, eu havia presenciado tudo.
Na hora, tudo que eu queria era que a terra se abrisse para eu me tocar lá dentro, notou logo que eu havia visto tudo, e tentou ir atrás, mas o estrago já estava feito. Eu nem o olhava mais e as nossas conversas se resumiam a um simples e frio “oi e tchau”. Não demorou muito para ele se convencer de que tudo que eu sentia por ele era passageiro.
Hoje, eu sei que, provavelmente, não tenha mais volta, porém todo o tempo que passamos juntos, ainda está vivo em minha mente, cada toque e cada gesto, foi tudo único. Às vezes me pergunto, se eu tivesse uma segunda chance de fazer tudo diferente, será que eu faria?

Flash Back: OFF

- Com licença professor, posso atrapalhar? - Fui abruptamente arrancada de meus devaneios pela voz estridente do reitor.
- Claro Sr. Bittencourt, fique a vontade! – Senhor Hantins disse sorrindo.
- Primeiramente, bom dia, galera! – Senhor Bittencourt disse, sendo seguido de um coro de boa noite. – Eu vim aqui falar de um caso bem raro, teremos um novo aluno agregado a esta sala a partir de hoje, eu sei que já passou o tempo para reingresso, porém a direção obteve alguns imprevistos com a documentação dele, por isto, neste caso, foi aberta uma pequena exceção. Jefferson, ele irá entrar na sua próxima chamada, já avisei as secretárias, no momento, você somente escreve o nome dele nesta que você tem.
- Ok Reitor, mas onde ele está? – Senhor Hantins disse.
- Oh sim! - Ele se virou, abrindo a porta atrás de si, fazendo com que todos olhassem diretamente para porta, parecia que ele queria esse “suspense”. – Pode entrar...
entrou na sala, ficando ao lado do reitor e, sua presença ali causou certo alvoroço, de todos os lados da sala podiam-se ouvir cochichos, tanto das garotas como dos garotos e, como é de imaginar, a beleza do garoto não chamou apenas a minha atenção.
- Da onde será que ele é? – Emily disse para sua amiga Francini.
- Não sei, será que ele tem namorada? – Francini disse.
- Eu espero que não, seria um GRANDE desperdício! – Emily disse rindo para sua amiga.
- , você pode procurar um lugar para você se sentar agora, e na hora do intervalo passe com o professor e deixe o seu nome completo para não atrasar mais a aula. – Senhor Bittencourt disse.
apenas sorriu, acenando com a cabeça em sinal afirmativo e procurou um lugar para se sentar, ele não pareceu ter notado a minha presença e creio que, nem que esperasse, me veria, porque estávamos sentadas bem ao fundo, perto da parede onde já não haviam mais lugares disponíveis. Camila logo o fitou, deu para ver nos olhos dela que ela havia se interessado por ele, e ele havia percebido seu interesse. Porém, para o meu maior prazer, ele a ignorou, e a forma como ele a havia ignorado não deixava dúvidas de que o sentimento não era mutuo. A raiva e a dor da rejeição se fizeram presente no semblante de Camila, e eu queria poder ler pensamentos, somente naquele instante, para poder saber o que o garoto e Camila estavam pensando e, enquanto isso, minhas amigas já conversavam sobre o garoto novo...
- Vocês viram que gato?! – disse.
- Nossa cara, fazia muito tempo que não aparecia um colega tão bonito, será que ele tem aula sempre com a gente? – disse.
- Olha, eu não sei, mas bem que poderia ter, porque, vamos combinar, na nossa sala não tem um que se salve! – disse.
- Pior cara! - riu quando disse isso. – Aqui, a gente está com alguns casos perdidos.
Ambas me olharam, notando meu silêncio, eu não sabia exatamente o que dizer, eu não havia lhes contado que já conhecia aquele garoto e que talvez soubesse mais dele do que qualquer outra pessoa na sala e estava constantemente me perguntado se deveria lhes dizer.
- você está tão quieta, aconteceu algo? – disse, parecendo confusa com o meu silêncio insistente.
- Ela deve ter perdido o fôlego somente com tanta beleza! – disse rindo.
- Ela já deve estar tendo pensamentos eróticos com o garoto, por isso está tão calada! – falou, dando gargalhadas.
Não pude deixar de rir ao ouvir estes comentários delas.
– Calem a boca, suas pervertidas! – Disse rindo junto com elas.
O barulho já estava ficando demais e o professor pediu para que todos parassem de conversar. Fez-se silêncio depois de longos minutos, mas ainda era possível se ouvir vozes baixinhas, cochichando uma coisa ou outra.
- Depois vou tentar falar com ele! – Bella disse, a algumas classes na frente para sua amiga Fabi.
- Nossa... Você vai ter coragem?! Sei lá, ele parece ser quieto! – Fabi respondeu para Bella.
- Eu vou, afinal de contas devemos ser hospitaleiros, não é verdade? – Bella disse dando um sorrisinho sapeca para Fabi.
- Tu não tens jeito mesmo! - Fabi respondeu rindo.
Achei melhor parar de ouvir a conversa alheia, antes que eu ouvisse algo que eu não gostasse. Foi quando eu senti algo, como se alguém me observasse de longe, olhei para o lado e me fitava com curiosidade. Encarei aquele par de olhos, que eram de profundos, e quando ele notou que eu o peguei olhando, desviou seu olhar. Voltei a mim mesma, com minha amiga me perguntado sobre uma dúvida em uma questão do trabalho que o professor já havia distribuído.
- , você entendeu essa questão? – disse para mim, sem parecer ter notado minha pequena distração.
- Ah... Essa questão está no capítulo seis do polígrafo! – Eu disse, totalmente distraída.
A aula logo seguiu seu curso normal, não me atrevi a olhar novamente para , muito menos para . Saí da faculdade e fui direto para casa, almocei e me dirigi para o trabalho. O mesmo se passou tranquilamente, com os mesmo problemas de sempre, tudo rotineiro. Quando estava indo para casa, pelas nove horas da noite, notei que havia me esquecido de passar na faculdade para pegar um histórico de escolaridade para o serviço.
Cheguei, fui até o prédio que eu precisava para pedir o documento e quando estava voltando para meu carro, vi algo encostado no meu carro: . Fiquei confusa com sua presença ali, e me perguntando, ao mesmo tempo, o que ele fazia ali. Ele estava lindo, com uma bermuda e uma camisa, com tênis.
- O que faz aqui? – Eu disse, tentando parecer o mais natural possível.
- Eu estava indo até meu carro... – E apontou para o carro do lado, que era o seu. – E resolvi esperar você voltar, para conversar com você. – Ele disse sorrindo.
- Você chegou depois de mim? – Disse.
- Não, na verdade você chegou depois de mim e estacionou do meu lado, eu creio... - Burra, burra, burra, como você não viu que era o carro dele? Pensei, me condenando por ter escolhido logo aquele lugar para estacionar. – Eu estou aqui desde as cinco horas da tarde!
Obviamente não foi difícil para ele reconhecer meu carro, era um corsa do último modelo, quatro portas, cor caneta Bic azul, e com um adesivo das meninas super poderosas, que representava eu e minhas amigas.
- Ah bom, pode dizer... Estou ouvindo! – Disse sorrindo, tentando parecer natural e amável ao mesmo tempo.
- Bem, na verdade eu só não queria que ficasse essa coisa chata entre nós dois, mesmo depois de tudo o que aconteceu entre nós, eu te acho, e sempre te achei, uma mulher incrível e quero manter nossa amizade, não gosto de quando você passa por mim e mal me dá um oi! – Ele disse e quando falou isso seu semblante pareceu um tanto... Triste.
- Ok! – Foi tudo que eu consegui dizer.
Ele me fitou por um tempo, que parecia que nunca teria fim, e uma parte de mim queria que não tivesse. Quando me dei por conta, ele já estava a poucos metros de mim e sua mão tocava meu rosto, seu olhar era terno e sincero. Meu coração começou a bater mais forte em meu peito e eu tive que me lembrar de como se fazia para respirar. Não sabia até quando conseguiria manter o controle, tanto do meu corpo, quanto das minhas pernas, porém não precisei me controlar muito, logo ele se afastou e caminhou até seu carro. Ligou e saiu. Eu fiquei ali, parada, sem saber exatamente o que pensar ou fazer, eu me sentia perdida e, o que era pior, eu não tinha para quem dizer aquilo.


Capítulo 3

O vento frio que soprava, balançava levemente meu cabelo, fazendo com que as batidas do meu coração cessem aos pouco. Ainda com as pernas meio bambas e o olhar um tanto perdido, tentei ligar as coisas e ver o que significava tudo àquilo que havia acontecido. Deveria ter uma explicação lógica e racional para o modo como ele se portou comigo, porém a pergunta que eu mais me fazia, naquele momento, era: qual?
Eu percebi que alguém se aproximava, porém não tive forças o suficiente para sair do estado de transe em que eu me encontrava. A qualquer momento eu poderia perder todo o pouco de controle que ainda me restava e, estar sozinha com um estranho a minha volta, não seria uma boa hora para que eu me descontrolasse. Tentei ignorar a pessoa que, agora, se aproximava com passos mais rápidos e foi quando eu ouvi aquela voz incrivelmente familiar falando comigo...
- Você está bem? – disse e sua voz parecia um tanto preocupada.
- Es... Estou, eu acho... – Falei, tentando parecer o mais natural possível, mas foi tudo que consegui dizer.
Tentei me perguntar o porquê estava reagindo a tudo aquilo daquela forma. não podia ter tanto poder assim sobre mim, ele não tinha esse direito! Todavia, senti que estava para perder o pouco de controle que me restava, e logo ELE presenciaria a isto. Eu não podia deixar isto acontecer! Tentei respirar fundo para me acalmar, não que estivesse dando certo, o fato dele estar ali, fez com que eu ficasse um pouco mais nervosa por não querer parecer nervosa.
- Você quer que eu te acompanhe até o seu carro? – Ele me disse, com a voz preocupada.
- Não precisa... Ele está bem aqui. – Disse, apontando para o carro ao lado.
Ele me levou até meu carro e abriu a porta para mim, me sentou no banco do motorista e me fitou por longos minutos. Minha cabeça começou a desanuviar-se quando os olhos dele encontraram os meus, ele tinha algo que fazia com que eu me sentisse calma e protegida e, estar perto dele, me dava uma sensação estranha no estômago, como o de borboletas voando.
- Obrigada pela ajuda, na verdade, não sei o que houve comigo! – Admiti, ficando um tanto corada.
- Que isso, não foi nada! – Ele disse sorrindo. – Você estuda aqui?
Ele não parecia se lembrar de mim e eu não sabia se isso era uma coisa boa ou ruim, pelo menos ele não sairia daquela conversa pensando que a garota que ele havia conhecido no hall do prédio, era uma desequilibrada.
- Sim – Disse e ficou me olhando, como se esperasse pela continuação, mas ela não veio, então ele se prontificou em continuar a conversa.
- É mesmo? Em qual prédio? – Ele disse
E agora? Eu mentiria, fugiria de algum modo ou diria a verdade?
- Você não pretende me responder? – Ele perguntou.
- Não... Quer dizer sim... – Disse ficando completamente corada.
riu da minha confusão e decidiu mudar de assunto, mas porque eu não respondi? O que eu mais queria era saber mais sobre ele e aquela era a ocasião perfeita, então, eu deveria responder!
Realmente eu não podia ser mais azarada, porque logo caiu um temporal e a primeira opção que vimos para escaparmos dele, era entrar no carro e esperar a chuva passar. Na hora não lembrei ou não quis lembrar de que poderia levá-lo até uma parte coberta ou, até mesmo, ao seu carro com o meu, mas eu não queria me privar de sua presença ainda, não ainda.
Começamos a nos secar, liguei o ar quente porque, assim, poderíamos nos manter, pelo menos, quentes.
- Então, você costuma vir falar com estranhas no estacionamento com freqüência? – Disse, tentando parecer casual.
- Na verdade, só com as que parecem em choque! – Ele disse rindo. Ele ficou me encarando com um olhar intrigado por longos minutos e não pude deixar de me perguntar o porquê. - O que houve? – Perguntei, sem graça.
- Nada, na verdade, ainda estou esperando você sair do choque. O que aconteceu que te deixou assim? – Ele disse, parecendo um tanto preocupado.
Foi quando eu comecei a falar e achei que não ia parar tão cedo, expliquei a ele até onde deu sobre meu pequeno encontro com só que, pelo jeito, estava tudo tão confuso que ele me calou, colocando um dedo em minha boca. Fiquei paralisada, esperando que ele dissesse algo.
- Não precisa contar tudo, afinal de contas, acho que estou sendo meio indiscreto. – Ele me disse, sorrindo.
Mesmo assim eu queria acabar de falar, e, acho que mesmo que eu quisesse, não conseguiria parar de falar e foi então que eu percebi sobre o choque que ele havia se referido. Recomecei a falar e, inesperadamente, a chorar enquanto falava. Ele, com o olhar mais preocupado que antes, me perguntou o porquê daquilo. Foi quando eu senti aquela necessidade de falar para alguém tudo que eu guardava somente para mim, de como era minha vida, de como era minha família, de , enfim, de tudo.
Eu precisava de alguém para falar e aquele estranho, por mais inacreditável que fosse, era quem eu queria compartilhar, sim, eu devia estar louca! Em poucas palavras resumi a ele a história da minha vida, contei que eu era a “certinha” e que eu era cobrada demais em casa para errar. Meus pais sempre esperavam que eu fosse à melhor e eu me puxava para isso, e que meus sonhos “tolos e bobos”, como eles me diziam, eu guardava somente na minha cabeça. O porquê eu fiz isso? Um dia também espero saber!
- Mas porque você diz isso? Se você não quer fazer algo, não deveria ter que fazer! – Ele disse, e, quando disse isso, sua expressão era mais seria.
- Eu sei, mas é complicado... – Disse e dei um sorriso amarelo para ele.
- Complicado por quê? É simples, se você quer fazer algo vá e faça se não quer, não faça. – Ele disse e sua voz tinha um quê de determinação.
- Sim, era assim que deveria ser, mas não quando você tem pais como os meus! – Sorri, sem graça.
- Qual foi a maior loucura que você já fez? – Ele disse.
Na hora fiquei muda, não sabia o que responder para ele, eu nunca tinha feito grandes loucuras, será que ele não havia entendido a parte do “eu sou certinha”? O que eu iria dizer? Novamente fiquei muda e ele ficou com o olhar curioso e urgente sobre mim, como se esperasse, ansiosamente, a minha resposta.
- Eu acho que você não me compreendeu! – Disse, corando. – Eu não sou muito do tipo que faz “loucuras”.
- Ah pára, deve ter algo que você tenha feito. – Ele disse.
Não sei se foi minha resposta, mais uma vez negativa, ou a minha cara de envergonhada ou se ele, simplesmente, leu em meus olhos como ele parecia ter a facilidade de fazer.
- Na verdade não, mas eu sempre “brinco” com minhas amigas que um dia vamos arrombar o último andar do prédio de Educação Física e nadar na piscina que tem lá, antes de nos formarmos. Talvez um dia eu faça isso... – Eu disse sorrindo.
Em um movimento inesperado, saiu do carro, abriu minha porta e me puxou pelo braço, fechou meu carro e começou a me levar correndo pela insistente chuva que a cada minuto ficava pior. Eu perguntei aonde íamos, mas ele nada disse somente me levava. Não conseguia pensar em nada, ou melhor, não podia. Apenas sabia que estava sendo levada por uma mão, que era estranha, ao mesmo tempo em que não... O que estava acontecendo comigo?
Já entrávamos no prédio de Educação Física, completamente encharcados. O prédio já estava sendo, praticamente, fechado, tentei parar e o fazer parar, mas foi inútil, , praticamente, me arrastava pelo caminho. Não pude deixar de sentir um pouco de raiva no começo, mas logo mudou para uma preocupação súbita! Será que ele estava mesmo pensando em fazer aquilo que eu achava que ele ia fazer? Eu esperava fervorosamente que não!
- Está pronta? – Ele disse ao mesmo tempo em que me encarava com determinação nos seus olhos.
- Para o que? – Eu perguntei assustada.
- Para a primeira loucura da sua vida! – E, quando disse isso, começou a me puxar pelo braço de novo.
Quando ele viu que um guarda se aproximava, nos escondeu em um canto, ele só podia estar louco, ele não podia estar falando realmente sério. Um súbito desespero começou a se apoderar de mim e ele, evidentemente, percebeu.
- Fique calma, depois que tudo acontecer, você vai ver que a sensação será ótima! – Ele me disse, sorrindo maliciosamente.
Eu não consegui responder aquilo, quando o guarda passou, ele saiu comigo sorrateiramente pelos cantos, como se fossemos bandidos. Pelo menos era essa a sensação que eu tinha. Ele realmente havia enlouquecido, será que ele não pensava nas câmeras ou nas pessoas que podiam nos ver? E se nos pegassem, como seria? Meu peito apertou, fazendo com que falar fosse impossível. Eu não sabia o que estava sentindo exatamente, meu coração estava a milhão e eu comecei a tremer. me olhou fundo nos olhos e então me disse:
- Fique calma, não podemos voltar atrás agora, mas lhe garanto, está será a melhor sensação que você terá em toda a sua vida, mas não será a ultima, só temos que ser rápidos para sair daqui antes que o prédio feche! – disse, com um brilho em seu olhar.

Quando chegamos ao andar da gigantesca piscina, parou e olhou para os lados, o prédio ainda não estava fechado, ele começou a agir como se fosse aluno, abriu a porta, não havia ninguém perto e me puxou para dentro. Meu coração parecia que ia saltar do peito e eu fiquei paralisada, acho que, mesmo que viesse alguém, eu não conseguiria me mexer. Eu estava completamente travada!
Ele somente me olhava rindo maliciosamente, como se saboreasse cada segundo do que estávamos passando e, inesperadamente, pelo menos para mim, ele tirou os seus tênis e se jogou na piscina de roupa e tudo. A única coisa que se passou na minha cabeça, naquele momento, era de que ele só podia ser louco. Eu fiquei ali, de boca aberta, sem conseguir me mexer, ele devia estar pensando que eu era a maior idiota da face da terra, mas era inevitável o que eu sentia. O que todos pensariam se me pegassem ali? Meus pais simplesmente surtariam comigo, era capaz de me mandarem para uma faculdade na Suíça ou algo assim, claro, se eu saísse viva da história. E se eu fosse presa? Um milhão de coisas brotaram em minha cabeça quando a voz de me tirou do transe.
- Hey pequena medrosa, melhor vir logo, a água está ótima e não quero que você perca isso! – Ele disse, em tom de deboche.
Eu continuei paralisada e ele pareceu ouvir a dúvida no meu silêncio e continuou:
- Af, pensei que quando você chegasse aqui, seria um pouco mais corajosa e não somente mais uma medrosa mimadinha, tipo de filhinha do papai, como todas as outras que tem aqui! – Quando ele disse isso o seu tom era de quase raiva.
Eu fiquei completamente desnorteada, o que aquele cara estava pensando? Será que ele achava mesmo que podia falar aquelas coisas de mim sem me conhecer? - Que porra é essa? Quem você pensa que é para falar assim de mim, você nem me conhece! – Disse, com raiva.
- Ainda bem que não te conheço, não preciso de garotas fúteis como você que preferem viver na aba dos pais para não sofrerem e se arriscarem. Sai logo daqui, isto está realmente além da sua capacidade! E você não é a “certinha” porque seus pais querem e, sim, porque você mesma se fechou na sua bolha! – Ele disse, estupidamente, para mim.
Não sei o que aconteceu direito logo após isso, a raiva que me dominou foi tão grande que eu perdi o controle, naquele momento, a única coisa que eu queria era provar para aquele estúpido que eu não era como aquelas garotas da faculdade, fúteis e vazias. O que ele estava pensando para me dizer aquilo?!
Tirei meus sapatos e corri para a água, me tocando na piscina sem hesitar nem um centímetro, como ele mesmo havia dito, a água estava ótima. A sensação que eu sentia, naquele momento, era sem explicação, era raiva misturada com medo, porém extremamente prazerosa. Pela primeira vez na vida, me senti como se estivesse livre! Quando voltei para a superfície, me olhava com um sorriso largo no rosto, fiquei meio confusa, o que significaria aquele sorriso?
- Do que está rindo, idiota? – Eu disse áspera.
- Não precisa ficar brava, eu te devo desculpas e, ao mesmo tempo, devo te felicitar. Eu vi que você não teria coragem de vir sozinha, sua expressão, na hora, era de pane total, então eu pensei que te instigando e te comparando com o resto das garotas que existe aqui, você me provaria que não era assim, exatamente como imaginei, você pulou na água! – Ele disse, parecendo satisfeito.
Foi quando ouvimos a voz de pessoas se dirigindo a sala da piscina, olhei para ele com uma cara de pavor e ele me pediu calma. Começou a nadar rapidamente para a beirada, onde tinha a escada e eu o segui. Ele pegou os nossos calçados, com uma agilidade, e logo já estávamos escondidos atrás de alguns pilares, em uma parte que quem entrasse não nos perceberia. Quem entrava era um professor e dois guardas. Na hora pensei que era a pessoa mais azarada da face da terra, eu estava a mil por hora, pegou em meu braço meio rindo, meio fascinado, meio excitado. Comecei a rir junto com ele, sem saber do que estávamos rindo, e logo eu pude perceber sobre a sensação que ele falou que eu sentiria, a que seria uma das melhores de minha vida. Ele realmente não havia mentido, muito menos exagerado, aquela era a melhor sensação que eu já havia experimentado: o perigo!
Ele começou a me levar através dos pilares, as pessoas que entraram, se dirigiram para o outro lado da sala, se afastando de nós. Estávamos realmente encharcados, e nos segurando para não rir alucinadamente daquela situação, não sei como, mas conseguimos chegar à porta e a abrimos cuidadosamente. Novamente meu coração parecia que iria saltar pela boca e a adrenalina que pulsava em minhas veias era como se fosse uma droga injetada diretamente nela. Saímos da sala da piscina, com todo o cuidado que tivemos, se eles se virassem, naquele exato instante, nos pegariam na tampinha, porém a sorte pareceu estar do nosso lado. Fechamos a sala e saímos correndo o mais rápido que pudemos, de pés descalços e sem nos preocuparmos se estávamos fazendo barulho ou encharcando o chão.
Quando chegamos ao hall do prédio, olhamos para ver se não havia mais ninguém, a recepcionista não estava mais, mas o guarda estava. Maldito guarda! Como iríamos fazer para sair dali, com ele parado logo ali! Olhei para e ele tinha um brilho estranho em seu olhar, segui o seu olhar com o meu, vendo para onde ele olhava, quando percebi que ele encarava a janela. Fiquei pensando que aquilo era loucura, só que logo essa idéia desapareceu de minha mente, o que seria mais loucura do que aquilo tudo que havíamos feito até aquele exato momento?! Para os que se perguntam se algo naquele momento nos pararia, a resposta é: NADA!
Sorri para , o incentivando em qual que fosse a idéia louca que ele havia acabado de ter, ele sorriu largamente para mim, segurou minha mão e me arrastou para perto da janela, a abriu e passou para o outro lado, estendendo sua mão para que eu o seguisse. Tudo tinha de ser muito rápido, pois se alguém nos visse ali, trepados na janela, estaríamos completamente ferrados. O segui e começamos a escalar a janela que estava escorregadia, devido à chuva. Me agarrei com força à janela e começamos a escalá-la até que chegamos à rampa de acesso, se o guarda não virasse e, com um pouco de sorte, ele não viraria, sairíamos dali em breve, sem sermos notados. Minha excitação estava quase explodindo dentro de mim, como eu havia conseguido viver sem aquilo por tanto tempo?! Eu não sabia. E, por mais loucura que fosse, aquele estranho estava me fazendo sentir a melhor sensação de todas.
Quando as pessoas dizem que tudo que é perigoso é mais gostoso, elas não estão brincando, aquilo era quase tão prazeroso como sexo. Eu me arrisquei a olhar para baixo e a altura que estávamos era assustadora, me arrependi logo, porque travei e parecia que nada ia desempacar meu burro dali. Quando viu a minha reação, se segurou mais firme por uma mão e puxou meu rosto, me fazendo encarar seus olhos. Perdi-me na imensidão do seu olhar e esqueci meu medo, eu não podia ter medo agora, não, não agora!
Recomecei a caminhar pelo encosto da janela até que alcançamos à rampa de acesso, ele chegou primeiro e, logo após, eu. Ele me segurou firme para que eu não caísse e, apesar de estarmos totalmente molhados, seu corpo estava pegando fogo. Ficando tão perto do seu corpo eu pude sentir o cheiro delicioso do seu perfume. Logo ele se afastou e começamos a correr, colocamos nossos calçados, completamente molhados, depois de termos adquirido alguma distância do prédio e recomeçamos a correr até meu carro, agora rindo o mais alto que nosso peito deixava. A chuva persistia, entramos no meu carro quase sem fôlego, quando nos olhamos e dissemos ao mesmo tempo:
- Estamos encharcados!
Começamos a rir descontroladamente da sintonia em que estávamos, quem nos visse naquele momento e naquele estado, pensaria que éramos amigos de longa data, mal podia eles saber que éramos totalmente estranhos um para o outro. Um misto de emoções inundava meu corpo e mente. A adrenalina corria nas minhas veias, como uma droga quando injetada, me sentia como uma criança no seu primeiro passeio de bicicleta. Uma estranha sensação tomava conta de mim, era uma vontade incontrolável de gritar "eu estou aqui!". Estava tão confusa que demorei a perceber a situação... Como chegar em casa naquele estado?

Capítulo 4

- Tem certeza que não quer entrar? – Disse a .
- Eu acho que é melhor deixar você descansar, você teve um dia bastante agitado! – Ele me disse rindo.
- Não... Acho que nem que eu quisesse não iria conseguir dormir agora, estou a mil por hora! – Falei rindo. – Entra...
- Ok, ok, vou entrar um pouco, mas e os seus pais não iram estranhar ver você com um estranho todo molhado?
- Foi a chuva! – Eu disse rindo e já abrindo a porta do carro para descer. – E eles não precisam saber que você entrou. Você entra se seca, e sai sorrateiramente!
- Eu acho que te puxei para o lado negro da força, nanica! – Ele disse rindo da cara sapeca que fiz. – E por onde, exatamente, eu vou entrar?
- Bom, primeiro, eu vou ver se tem alguém em casa, é claro! – Falei rindo. – Se tiver, você entra pela minha janela, se não, você entra pela porta mesmo...
- Sua janela é aonde? – Ele disse.
- Bom essa parte é potencialmente problemática! – Falei hesitando. – Meu quarto fica no segundo andar, naquela parte ali. – Falei, apontando para a parte mais alta da casa, aonde o muro já não chegava mais.
- Potencialmente problemática? Tu deves estar de brincadeira, não é? – Ele disse com uma cara apavorada, olhando para o local logo abaixo da janela, a altura era assustadora. – Espero, fervorosamente, que seus pais não estejam em casa!
- Ué, quem arrombou um andar do prédio da faculdade somente para nadar na piscina, está com medinho de escalar uma janela? – Falei caçoando.
- Vai logo ver se seus pais estão em casa! – Ele falou, emburrado por ter perdido.
Subi a escadaria e abri a porta de madeira cuidadosamente, se tivesse alguém em casa, eu não queria e, muito menos, precisava acordá-los, eu estava muito excitada ainda para querer dar explicações, porém, a única coisa que eu não havia respondido e perguntado, era como ele iria embora? Logo nos saberíamos a resposta dessa pergunta, logo...
Encaminhei-me cuidadosamente para o quarto dos meus pais, abri a porta sem me atrever a fazer um barulhinho sequer, com medo de que até mesmo minha respiração fosse capaz de acordá-los, ao abrir a porta, o quarto estava vazio! Um alívio instantâneo se apoderou de mim, como um vento entrando pela janela, sem pedir permissão e, silenciosamente, a gente somente pode senti-lo... Logo parti para o próximo cômodo, o quarto de minha irmã não ficava muito mais longe do quarto dos meus pais, novamente abri a porta, sem ousar fazer um ruído, e, mais uma vez, encontrei o cômodo vazio.
Aquele momento não poderia ser mais perfeito, saí correndo sem ter o controle das minhas pernas, elas se moviam por si só, abri a porta e acenei para entrar, ele me observava ansioso e inquieto de dentro do carro, algo na sua expressão duvidava que a casa estivesse vazia e acho que há poucos minutos, na minha também.
- Sozinha? – Ele me perguntou, ainda com um ar duvidoso.
- Completamente! – Disse, dando um sorriso divertido.
- Por um minuto estava achando que teria que me tornar um escalador na marra! – Ele me disse, com um olhar espantado.
- Veja pelo lado positivo... – Disse, sendo subitamente interrompida por ele. - E tem lado positivo nessa situação? – Ele disse.
- Claro! – Falei com tom autoritário. – Pelo menos do chão você não passava.
- É tão bom ver a consideração que você tem por mim! – Ele falou abismado, porém sorrindo logo após.
- De nada! – Falei, dando um sorriso excepcionalmente travesso.
Às vezes me pergunto como que alguém que mal entrou em minha vida pode ter virado ela assim dos avessos, se fosse há algumas semanas atrás, aquilo tudo me pareceria o fim do mundo, quando que eu levaria um cara para a minha casa escondido dos meus pais? Nunca!
- Tem uma toalha logo aqui, se você quiser, pode tomar um banho! Fique a vontade e sinta-se em casa! – Disse sorrindo amavelmente.
- Ah, então vou andar pelado pela casa! – Ele disse rindo.
- Mas claro que não vai, tu estas pensando que está aonde? Na casa da mãe Joana? – Falei rindo junto com ele.
- Então não vou me sentir em casa! – Ele falou fazendo beicinho e não pude deixar de gargalhar com sua expressão de “cachorro pidão”.
- Como você é bobo... – Disse.
- Você que é... – Ele parou para pensar por longos instantes e eu fiquei com aquela típica cara de ponto de interrogação. - Aconteceu algo? – Perguntei, após alguns minutos de silêncio.
- Eu acabei de reparar que, bom, eu não sei seu nome! – Eu o vi corar ou foram somente os meus olhos pregando uma peça em mim?
- Ah... – Muda! Se grilos cantassem ao fundo neste momento, eles poderiam ser ouvidos.
- Eu vou ter que adivinhar? – Ele falou, sem jeito.
Novamente muda! Comecei a sentir aquele friozinho involuntário na barriga, porque eu tinha que me sentir assim diante das perguntas dele? Aquilo me irritava porque, obviamente, no pouco espaço de tempo que nos conhecemos melhor, já fizemos muitas loucuras e ainda assim eu hesitava quando tinha que responder algo sobre mim...
- Você não está com fome? Se quiser eu faço algo para você comer e... – Tentei fugir de fininho, sem saber exatamente o porquê, porém ele não me deu chances. Segurou meu braço, fez com que eu me sentasse ao seu lado no sofá e começou a falar...
- Porque você evita as minhas perguntas? – Ele perguntou curioso.
- Eu... Eu não sei – Disse, sem graça.
- Saber seu nome é um crime capital por um acaso que eu não mereço saber? – Ele falou em tom brincalhão, percebi que ele queria me deixar à vontade com ele novamente. – Fazemos assim, eu digo o meu e você diz o seu, o que acha?
Aquilo não era muito justo com ele, eu sabia disso, até porque eu já sabia o seu nome, ele somente não se lembrava de mim e eu não sabia se isso era uma coisa boa ou ruim, preferi ficar sem saber, por hora. E se ele estivesse me testando? E se ele se lembrasse de mim e estava esperando para ver se eu mentiria? Aquele era um risco que eu precisava correr, eu sabia disso. O que eu não sabia era para qual lado eu devia correr: verdade ou mentira?
- Eu me chamo , nos conhecemos no hall da faculdade, hoje pela tardinha! – Decidi que a verdade era mais segura.
- EU SABIA! Sabia que te conhecia de algum lugar... Seu rosto extremamente familiar, como não pude lembrar logo de cara... – Ele falava perplexo. – Então o meu nome você já deve saber?
- Sim! – Falei corando.
- E porque não me avisou antes? – Ele perguntou.
- Sei lá... Não pensei que íamos fazer tudo que fizemos hoje, na verdade, nós somos colegas hoje também, às vezes me pergunto se isso é o destino me pregando uma peça. – Ter de dizer tudo isso em voz alta era pior que saber.
- O nosso destino é criado pela mente! – Ele me falou, selando aquela conversa por completo. Senti-me completamente confusa com suas palavras e o impacto que elas tiveram sobre mim, decidi que era melhor mudar de assunto, aquele já estava ficando meio... Sei lá.
- E então, vai querer tomar banho ou vai passar a vez? – Perguntei amavelmente. – Não estou a fim de ver você doente...
- Ok, eu vou aceitar o banho! – Ele falou sorrindo.
Mostrei a onde era o banheiro e o deixei a vontade, tudo corria tranquilamente, mas sabe quando o que você menos espera acontece? Pois é, eu tive esta experiência! No meio do banho de , ouvi um carro silencioso ser estacionado perto do portão, foi quase imperceptível, se não fosse o barulho do portão se abrindo, talvez eu nem o tivesse notado, a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi: Meus pais... Estávamos ferrados, muito, muito ferrados!
Corri, completamente destrambelhada, para o banheiro, onde dei graças a Deus por não estar trancado, entrei sem cerimônias, abri a porta que dava acesso para o box e encontrei um assustado e se escondendo, quando me viu entrar sem avisar daquele jeito tão repentino.
- Meus pais! – Quase gritei dentro do banheiro, e sem pensar duas vezes, peguei a primeira roupa que vi dentro da cesta ao mesmo tempo em que ele desligava o chuveiro e se enrolava em uma toalha, me seguindo correndo até o quarto, havíamos deixado tudo molhado. Sem a menor educação, o empurrei para dentro do quarto e joguei sobre ele a roupa, a visão de seu corpo nu era linda, só que eu estava muito afoita para sequer prestar a atenção.
- Se esconde! – Mandei, sem pensar duas vezes. Voltei correndo para o banheiro peguei um pano e comecei a secar o chão que estava quase que completamente encharcado. Eu não tinha tempo de conferir se havia faltado algo porque, em seguida, a porta já estava sendo aberta, só escondi o pano, jogando ele em qualquer direção e me joguei no sofá, com a respiração completamente alterada tentando ainda formular uma desculpa, ao mínimo, convincente para dar.
- Oi mãe! – Falei tentando, inutilmente, parecer normal.
- Oi filha, porque está com essa respiração pesada? – Minha mãe disse, com cara de desconfiada para mim.
- Ah... – Varri minha mente atrás da desculpa que resistia em aparecer. – Eu...
- Nossa, que chuvarada! – Fui interrompida por meu pai. – Olá querida, como foi seu dia?
- Ótimo! – Falei ainda com a voz meio afoita.
- Porque está ofegante? – Meu pai perguntou. Perfeito! Agora eram dois que queriam saber.
- É que eu... – Trim trim, ouvi, ao longe, quase não acreditei, o telefone havia me salvado. A felicidade que me inundou nesse momento foi intoxicante e falei praticamente gritando e sem pensar duas vezes. – Eu atendo!
- O que será que ela tem? – Ouvi minha mãe questionando isso para o meu pai ao longe.
- Alô? – Disse.
- Alô, eu poderia falar com a Vera? – Ouvi uma voz desconhecida falar do outro lado do telefone.
- Claro, quem deseja? – Perguntei.
- Uma amiga dela! – Ela disse.
- Ok, eu vou chamá-la! – Falei, colocando a mão sobre o auto falante do telefone e dando um grito para minha mãe ao mesmo tempo – Mãe telefone...
Minha mãe não se demorou em chegar e eu aproveitei para dizer que ia tomar um banho, com aquela correria toda, havia me esquecido que estava com a roupa molhada e, por algum milagre de Deus, meus pais não haviam percebido. Porém o que eu faria? Tomaria um banho rapidinho porque havia alguém no meu quarto me esperando sem que meus pais soubessem e me arriscaria a que eles percebessem algo ou tomaria um dos meus banhos bem demorados e deixaria perigando que meus pais decidissem entrar em meu quarto enquanto eu me encontrava no banho e acabassem flagrando o intruso lá? Realmente este era um dilema!
- Não demora no banho ! – Ouvi meu pai gritar. – Ou eu vou desligar a chave!
Eu não sabia se era possível ter mais sorte do que aquela que eu estava tendo, meu pai nunca havia feito tal ameaça então, se eu a cumprisse e não demorasse, ele não iria estranhar, apenas acharia que eu acreditei nela... Perfeito! Tomei o banho mais rápido de toda a minha vida, nem eu sabia como havia conseguido ser tão rápida, saí enrolada na toalha e quando meu pai me viu sair, até ficou surpreso, mas nada disse, tentei sair com a cara meio emburrada para ele achar que eu havia ficado chateada, quem sabe ele não tentasse o truque novamente e, com um pouco de sorte, ele não tentaria.
- Eu vou dormir, estou super cansada, boa noite pai! – Disse, fazendo cara (nada convincente) de sono.
- Tem certeza que está cansada? Você me parece tão ativa... – Ele me olhava desconfiado.
- Estou sim, estou até com dor de cabeça, vou dormir! – Falei, fazendo uma cara mais convincente.
- Ok, boa noite então, querida! – Ele me disse ao mesmo tempo em que me dava um beijo na testa, dei boa noite para minha mãe que ainda estava no telefone e agradeci por não ter que dar explicações a ela também, mas, com certeza, ela me faria uma visitinha, e eu precisava tirar o outro do quarto, as coisas estavam ficando cada vez mais complicadas e eu não sabia o que eu ia fazer ainda.
Entrei no quarto fechando a porta com chave, somente por segurança, varri todo o quarto para ver se encontrava , porém: nada! Onde ele havia se metido?
- ... – Disse, sussurrando.
- Graças a Deus você apareceu! – Ele disse, me dando um susto, fazendo com que eu saltasse um gritinho. – Shiu, você quer chamar a atenção da casa inteira?
- Da onde você surgiu peste?! – Falei ainda assustada, mas moderando o tom de voz, ao mesmo tempo em que perguntava espantada. – E por que raios você ainda está pelado?!
- Você demorou demais para voltar, aí eu tive que ir me esconder em algum canto do seu quarto para o caso de um dos seus pais aparecerem, porque demorou tanto? – Ele falou com a voz ansiosa e preocupada ao mesmo tempo. – E quanto à roupa, bom, você me deu roupas de mulher e não as minhas!
- Eu tive que enrolar um pouco, se eu viesse logo de cara, aí sim que eles iriam desconfiar, mas isso agora não é relevante, o que precisamos agora, é primeiro dar um jeito de pegar suas roupas, na confusão devo ter pegado a errada e, segundo, dar um jeito de te tirar daqui e tem que ser logo... – Disse.
Ficamos por algum tempo calados apenas maquinando uma fuga, porém eu não tinha idéia de como fazer para ele sair dali sem ser visto pelos meus pais, por uma infelicidade do destino, minha mãe tinha o sono super leve e a passagem que dava acesso para as escadas que levavam a porta principal, passava pela frente do seu quarto do qual a porta se encontrava sempre aberta.
- Aconteceu algo filha, ouvimos um grito... – Ouvi minha mãe dizer do outro lado da porta, ao mesmo tempo em que tentava abri-la inutilmente. – Porque trancou a porta? Abre!
- , você sabe perfeitamente bem que não deve trancar a porta do quarto, abra-a imediatamente! – Ouvi meu pai praticamente rugir do outro lado da porta.
O horror passou pelo meu rosto e um calafrio percorreu todo o meu corpo, meus pais estavam mais atentos do que eu esperava e haviam ouvido ao meu pequeno grito, como que eu poderia deixá-los entrar e nos verem naquela situação. O que seria de mim, a sua querida filha certinha, se me vissem somente enrolada em uma toalha meio molhada e com um garoto (que tinha um corpo lindo, por sinal) totalmente desconhecido para eles, pelado no meu quarto, realmente não era algo muito fácil de explicar. Eu precisava de uma solução, uma resposta, mas o que... Sentia apenas que o chão estava sumindo debaixo dos meus pés, como se estivesse em uma espécie de pesadelo do qual você não consegue acordar... O que eu faria?


Capítulo 5

- O que eu faço? – Sussurrei apavorada para . – Se esconde!
- Onde? – Ele me disse, assustado.
- No mesmo lugar de antes, merda! – Falei nervosa, do outro lado da porta ainda se podia ouvir batidas insistentes da minha mãe ficando cada vez mais furiosa, porque, além de eu demorar em abrir a porta, não lhe respondia.
- abra esta porta agora! – Seu tom, neste momento, era de raiva total.
- Já vou! – Respondi mais nervosa ainda, ainda não havia conseguido se esconder por completo, ele estava lutando para entrar no pequeno espaço de onde havia saído. – Eu estou... Me barbeando (?).
- Se barbeando? Você ficou louca? – disse, rindo da desculpa completamente esfarrapada e sem noção que eu dei.
- Dane-se a desculpa, isso agora é o de menos, como que você entrou aí antes e agora que você precisa não consegue?! Entra... – Falei, empurrando ele para dentro do pequeno espaço, mas o seu corpo parecia ter adquirido volume de uma hora para outra, ele não entrava! Caí sobre o seu corpo seminu, fazendo com que minha toalha se abrisse um pouco, na hora pensei ter notado algo em seu olhar, mas logo achei que era impressão, afinal, aquilo estava ficando cômico. Nós tentávamos evitar o riso ou, se o fizéssemos, ao menos deveríamos mais cautelosos, mas a situação não nos permitia isso.
- , eu não estou de brincadeira, já mandei você abrir esta porta! – Agora as batidas não eram mais batidas, mas socos na porta, meu pai estava furioso e eu não conseguia esconder o guri.
A minha situação estava ficando realmente complicada, meu pai quase arrombando a porta, o garoto somente enrolado por um lençol que arrumamos, totalmente improvisado, a minha toalha abrindo e o corpo da criatura que não entrava. Você quer mais dureza que isso, pegue uma pedra!
- Cara, um dia você vai me contar direitinho como você entrou aqui antes, você só pode ter passado vaseli... – No mesmo momento foi como se uma luz acendesse em minha mente, olhei para ele com um olhar intuitivo e sua cara de pavor seguido do seu riso um tanto reprimido devido às condições exalou no ar.
- Nem pense nisso! – Ele sussurrava em tom enérgico.
- Meu filho, para fazer você entrar ali, eu faço o que eu quiser! – Falei, me levantando rápido demais, fazendo com que a insistente toalha desse uma leve caída, mostrando um pouco do meu corpo. Aquele momento foi estranho. Apesar de todo aquele sufoco que estávamos passando, não pude deixar de notar aqueles inocentes olhinhos que tinham um brilho estranho, um ar um tanto guloso se mostrou em seu semblante, nas duas vezes que minha toalha abriu-se levemente. Naquele momento meu corpo, involuntariamente, queria subir em cima do seu e que o resto do mundo se explodisse, era um desejo que crescia incontrolavelmente, porém, para minha (in)felicidade, consegui me controlar. Sentia-me confusa e atordoada, como que aquele desconhecido poderia despertar em mim sensações como aquelas que até agora eu só havia experimentado com .
Ele ainda me olhava, ambos parecíamos hipnotizados um pelo outro, senti que perdia novamente o controle das minhas pernas, elas estavam se movendo por si agora, me encaminhando para perto dele. Em passos curtos e lentos, eu lutava contra a minha mente para não fazer nenhuma idiotice, mas estava difícil. Um lado meu queria seguir em frente e outro insistia para ser racional e não fazer mais besteiras do que as já feitas. Ainda mais quando meus olhos, que eu não sabia se me enganavam ou não, tinham, de uma hora para outra, imaginado certo volume sobre o lençol.
De repente recobramos o pouco de sanidade que ainda nos restava devido ao estrondo vindo do outro lado da porta, meu pai tentava arrombá-la! Voltei completamente a mim quando ouvi o segundo “Bam!” e o olhar de desespero que nasceu dos nossos olhos foi esplêndido. Corri para pegar a vaselina, ainda não acreditava que ia fazer aquilo.
- Merda, não consigo achar! – Disse, entrando em desespero. Como era possível que uma coisa errada levasse a outra.
- Esquece essa vaselina, vem aqui me ajudar ao invés de ficar ali perdendo tempo! – Ele disse, tentando me dissuadir.
- Que esquecer o que, você não está entrando de jeito nenhum, é o único jeito! – Falei determinada, “Bam!”, ouvi meu pai se jogar novamente contra a porta, eu estava quase perdendo o controle quando virei meu rosto e disse como a mesma emoção de uma criança que está com um brinquedo novo. – ACHEI!
- Você é maluca, sério! – Ele falou após ver o brilho diabólico que eu tinha no olhar.
- Maluca ou não, agora você entra de qualquer modo... – Corri até ele, abri o pote de vaselina e, sem cerimônias, despejei sobre o seu corpo, lambuzando-o completamente. Eu não sabia ainda como eu iria fazer para explicar a gosma que ficou no chão depois, mas aquilo era o de menos, por hora eu precisava escondê-lo, antes que meu pai conseguisse arrombar aquela porta!
- Está bom! Não precisa de tanto, eu estou todo melecado! – Ele falou desgostoso.
- Ok, vamos tentar de novo, pronto? – Disse.
- Meu bem, eu nasci pronto! – Ele falou brincando, mesmo naquela enrascada ele conseguia fazer piada e eu, bem idiota, ainda dava risada.
- Ai ! Como você é idiota! – Disse rindo.
- Epa, epa, como assim “”?! Acho que já temos intimidade mais do que suficiente para você me chamar de , senhorita , ainda mais depois que você me cobriu de vaselina, aliás, um dia você vai pagar por isso! – Ele falou, caçoando.
- Ok... Senhor , melhorou? – Falei com ar risonho.
- Agora está perfeito! – Ele falou rindo.
Somente ri junto com ele e logo comecei a empurrá-lo, seu corpo agora entrava mais facilmente, era como cortar manteiga, fácil, fácil... Ele deu uma gemidinha, como quem diz que doeu um pouco, e foi quando seu corpo já estava quase totalmente entregue dentro daquele espaçinho que eu me preocupei com o tempo, “Bam! Creck!”, a fechadura finalmente cedia, porém, quando vi o corpo de dentro daquele pequeno espaço foi como se um jato de felicidade me acertasse em cheio. Ele havia entrado! Eu nem conseguia acreditar! Cobri a pequena entrada como pude e estava pronta para abrir a porta quando ouvi o telefone, ao longe, tocar. Novamente o telefone me salvava de ter de enfrentar a ira dos meus pais.

- Alô! - Ouvi meu pai bradar do outro lado da linha, totalmente sem paciência, com certeza aquela ligação, para ele, havia sido completamente inconveniente. – O que? Como que você deixou isso acontecer? Seu incompetente! Estou indo agora mesmo ali.
De uma hora para outra tudo pareceu ficar em silêncio, eu não sabia para onde meus pais haviam ido, somente que as batidas insistentes na minha porta haviam parado. Tentei grudar meu ouvido na porta para ver se ouvia algo, mas não rolou. O silêncio reinava absoluto e imperial no grande espaço do outro lado. Eu estava me perguntando se seria seguro tirar de lá. Eu estava suspeitando daquele silêncio todo repentino, há poucos minutos minha porta estava quase ao chão e agora tudo era paz.

- Eu acho que agora é seguro sair! – Falei para .
- Ué, para onde foram seus pais? – Ele perguntou, curioso.
- Eu também queria saber, mas isso é o de menos agora... Você precisa sair daqui rápido. – Disse.
- Mas e as minhas roupas? – Ele perguntou, aflito.
- Eu levo para você depois... – Disse resolvida.
- Como leva depois? Como você pretende que eu saia da sua casa pelado, e se alguém me ver?! Já pensou o mico, ou melhor, se eu sou preso? – Ele disse nervoso.
- Ai, cala a boca! Eu tenho preocupações maiores no momento do que me preocupar se você vai sair com o bumbum de fora! Ainda preciso descobrir como farei para tirar você daqui! – Falei impaciente.
Ficamos calados por longos minutos, maquinando como faríamos para tirá-lo dali, porém tudo que pensávamos nos parecia de certo modo inviável. Sair pela porta, normalmente, era fora de questão, minha mãe aparecendo e nos flagrando no exato momento e me vendo com um garoto pelado no meio do corredor não era algo fácil de explicar.
- Eu só vejo uma opção... – Falei hesitante.
- Qual? – me perguntou enquanto me lançava um olhar ansioso.
- Qual o seu sentimento em relação à janela? – Falei com um olhar angustiado.
- Os piores possíveis! – Ele me falou, horrorizado.
- Bom, mas nós temos que dar um jeito! – Falei com a voz fraca.
- Precisamos primeiro de uma roupa para mim! – Ele disse, pensativo.
- Já sei! Você fica aqui que eu vou resgatar sua roupa! – Falei enquanto me dirigia a porta.
Saí na direção do corredor, estava tudo muito escuro e silencioso, queria saber onde minha mãe estava, pois assim seria, pelo menos, mais fácil usar uma desculpa boa e racional, no caso dela aparecer. Inspecionei todos os quartos em busca de alguém, mas não havia ninguém, um alívio momentâneo me atingiu. O pensamento da casa estar vazia por motivos que eu desconhecia até o presente momento tornava tudo mais fácil. Desci pelas escadas no meio do breu, me segurando pelo corrimão para não cair, quando eu notei uma fraca luz ao longe; a televisão se encontrava ligada e minha mãe estava sentada escorada no sofá, assistindo-a ou, pelo menos, fingindo. Seu olhar parecia perdido ao longo da sala, vazio. Subi novamente, eu precisava falar com sobre a idéia que eu acabara de ter.
- JÁ SEI! – Entrei praticamente gritando dentro do quarto.
- Você está completamente maluca? Quer que eles venham aqui novamente? – Ele me falava com a voz completamente apavorada.
- Ai, cala a boca! Minha mãe está lá embaixo, assistindo televisão e não vai nos ouvir. Ouça! Suas roupas estão no banheiro, para você sair precisa ser pela porta, obviamente, a janela não é tão convidativa, mas minha mãe está lá, então, eu vou dar um jeito de distrair ela enquanto você sai, é perfeito! – Falei com um brilho significativo em meu olhar.
Caminhamos na direção do banheiro, cuidando até para que nossa respiração não fosse ouvida lá na China, eu comecei a sentir aquele mesmo frio na barriga que fiquei quando estávamos no prédio de Educação Física, porém, esse sentimento agora estava mais anestesiado. Não era como se fossemos ser presos a qualquer instante, mas se fossemos pegos, talvez, a polícia fosse chamada. Humilhação pública não estava exatamente nos nossos planos, então, mais uma vez, tentávamos ser discretos. Até que senti algo esmagando meus pés com uma força considerável.
- AI! – Gritei o mais baixo que consegui.
- Sh! – Ele me mandava ficar calada, fazendo sinais com pavor no seu rosto. – Você não consegue gritar quieta?
Comecei a rir inconscientemente da sua frase maluca, como se rir baixo fosse algo tão possível e racional como dizer para uma pessoa para pular sem sair do chão.
– Você pisou no meu pé e ainda por cima quer que eu não grite? Você é pesado, sabia? – Disse, ainda rindo.
- Eu não estou conseguindo enxergar direito no escuro! – Ele disse se explicando.
- Então me de sua mão, assim, pelo menos, você sabe a distância que eu estou de você. – No momento em que sua pele tocou a minha, algo estranhamente curioso aconteceu, era como se uma descarga elétrica estivesse passando por todo o nosso corpo (ou pelo menos pelo meu), fazendo com que eu soltasse sua mão de forma rápida e desenfreada.
- O que aconteceu? – Ele me perguntou aos sussurros.
- Você não sentiu? – Perguntei no mesmo tom, será que somente eu tinha sentido?
- O que eu deveria ter sentido? – Ele perguntou, confuso.
- Nada... Esquece. – Ele realmente não havia sentido ou não queria me dizer? Decidi esquecer logo aquilo, com certeza foi algo da minha cabeça. Peguei sua mão, novamente, a mesma descarga elétrica, tentei segurar desta vez, porém quem soltou a mão foi ele. Olhei para ele confusa, mas com um olhar intuitivo como o de uma mãe que pega o filho na mentira no ato, decididamente ele também havia sentido! - Que tal começarmos a ser sinceros, você sentiu também! – Falei com a voz acusativa.
- Ok, senti, mas achei melhor não falar, vai que você estava falando de outra coisa. – Ele falou, tentando se explicar.
Preferi não dizer nada, apenas segui em frente, sendo seguida por ele, o negócio de dar as mãos não havia dado certo, então continuamos afastamos mesmo. Ouvi um barulho logo após darmos alguns passos, olhei para trás e, acocado no chão, com expressão de dor estava .
- O que houve? – Perguntei, segurando uma gargalhada.
- Eu bati nesse treco! – Ele dizia, completamente puto, apontando para uma mesinha de canto. Uma vontade de rir subitamente e impiedosamente se apossou de mim novamente, rindo um tanto mais alto que o permitido, parecia que minhas risadas davam uma espécie de eco, devido ao silêncio mórbido que pairava no ar.
- Ah, achou engraçado, não é? – Ele me falava com um olhar insano de quem está prestes a tramar. Ele se levantou calmamente, como se estivesse em posição de ataque, ao mesmo tempo em que dizia: “Agora você vai ver!” e um sorriso, excepcionalmente sapeca, se formou em seu rosto. Comecei a caminhar para trás rindo mais ainda, ao mesmo tempo em que minhas mãos foram involuntariamente e defensivamente para frente enquanto eu só repetia “não, por favor não”.
se jogou em minha direção, unindo nossos corpos com um baque, fazendo com que caíssemos no chão e, novamente, eu pude sentir como se um choque percorresse todo o meu corpo, fazendo com que eu ficasse completamente arrepiada. Na queda batemos em um móvel e o vaso que estava em cima do mesmo se desequilibrara e ameaçou cair, porém o seguramos, evitando sua queda repentina. Porém, não fazer barulhos naquele momento era algo inevitável, começamos a rir descontroladamente, abafando nossas risadas com a mão, que não colaborava muito naquele momento.
Paramos no exato momento em que ouvimos um barulho vindo da parte de baixo da casa, e a preocupação assombrou o nosso olhar, nos paralisando, como saber se minha mãe havia ouvido a pequena “bagunça” que estávamos fazendo, ou se, simplesmente, o barulho era fruto da nossa imaginação. Como dizem, melhor prevenir do que remediar, no mesmo momento em que nosso olhar se cruzou, sabíamos exatamente o que fazer... Engatinhamos para o cômodo mais próximo, rindo até a alma daquela situação constrangedora. Seria algo lindo de se ver, eu, com um garoto pelado, engatinhando até um cômodo da casa.
- Acho que não vem ninguém! – Ele sussurrou no meu ouvido após alguns minutos.
- Vamos logo pegar suas roupas, isso de você pelado atrás de mim é meio esquisito. – Falei rindo.
- Concordo. Onde ficaria minha reputação se me descobrissem nessa situação com uma anã de jardim. – Ele falava com uma voz sapeca, como se estivesse assustado e inconformado.
- Sabe, estou pensando seriamente em deixar você brincar de Super Homem na janela! – Falei divertida.
Ele apenas riu, e saiu na frente para recuperar suas roupas, elas estavam estrategicamente no banheiro, e com um pouco (ou seria muita) de sorte meus pais não descobriram ela. – Me espere aqui que eu vou distrair minha mãe, mas fique em um ponto estratégico para que eu possa te dar um sinal para descer. Ai você me espera na cozinha enquanto eu levo minha mãe para o quarto.
- Ok. - Ele disse, sussurrando para mim.
Desci as escadas silenciosamente, se minha mãe estivesse dormindo no sofá eu não queria acordá-la até porque isso facilitaria muito as coisas para ambos os lados. Cheguei ao final dela, minha mãe parecia petrificada, do mesmo modo em que ela estava da última vez que a espiei. Eu já estava começando a pensar que ela havia dormindo daquele jeito, dei um pulo para trás quando ela se virou em minha direção no momento em que ouviu meus passos.
- Filha, pensei que já estivesse dormindo. – Ela me disse, aparentemente alheia a todo o barulho que eu havia feito.
- Eu estava, mas não consegui dormir e vim ver como você estava. – Disse, inocentemente, me sentando ao seu lado no sofá.
- É, percebi que você devia estar dormindo, você está toda despenteada. – Ela disse, arrumando o meu cabelo.
- Mãe, o que aconteceu? Você aqui, quietinha, vendo televisão, sozinha, porque não foi se deitar ainda? – Perguntei.
- Somente estou sem sono. – Ela falou secamente.
- Já é tarde, não acha melhor ir se deitar? – Falei, tentando novamente levá-la dali.
- Eu estou esperando o seu pai. – Ela falou com a voz vazia e desesperançada.
- Mãe, você sabe que ele sempre volta tarde quando vai tratar coisas de negócios. – Disse.
- Eu sei. – Ela não disse mais nada após isso, e um desespero tomou conta de mim quando reparei que descia as escadas e eu não havia conseguido convencer minha mãe ainda.
- Já sei! Eu vou pegar um chazinho para você se sentir melhor. Logo, logo o sono chega. – Falei enquanto me levantava do sofá.
- Não querida, pode ir descansar, eu mesma pego. – Ela disse, se levantando junto comigo.
Gelei! Ao longe, vi agachado novamente engatinhando até a cozinha rápido, mas mal sabia ele que aquele era o último lugar que eu queria que ele estivesse. – Mãe, não, deixa, eu insisto, eu vou! – Eu disse com a voz urgente.
- O que houve? Você ficou estranha, aconteceu algo? – Ela disse.
- Não, eu só estou preocupada. Eu insisto, por favor, eu pego para você. – Insisti, fazendo com que o meu desejo fosse absoluto. Ela apenas me olhou confusa, achando tudo aquilo muito estranho, mas não tentou discutir, apenas se sentou novamente e esperou com que eu trouxesse o chá.
Saí o mais depressa que pude para a cozinha, coloquei a água para aquecer, peguei um saquinho de chá, achei escondido em uma gaveta o calmante, apenas sendo observada por , quem estava embaixo da mesa escondido e quieto para não se arriscar em ser ouvido ou visto por minha mãe. Após alguns minutos o chá estava pronto, com o calmante dissolvido nele, quando estava prestes a levar para ela, a encontrei entrando na cozinha a minha procura, aquilo estava ficando complicado.
- Está pronto! – Falei sorrindo.
- Obrigada, você pode ir se deitar... Vou ficar mais um pouco aqui em baixo. – Ela falou.
- Não mesmo! Você vai tomar seu chá e ir se deitar junto comigo. – Saí pela cozinha, carregando o chá, desliguei a televisão e já a carregava sob protestos para o quarto, porém ela não resistiu muito, era como se eu carregasse uma criança para o quarto. Fiz com que ela tomasse o chá, a cobri, lhe dei um beijo e fechei a porta, logo após saí correndo para o andar de baixo, procurando não fazer muito barulho.
- Está na hora! - Falei para , que já saia de baixo da mesa. – Vamos, antes que mais alguma coisa aconteça!
- Graças a Deus – Ele disse aliviado.
No mesmo instante ouvi o portão elétrico abrindo-se, alguém lá em cima devia estar de sacanagem comigo, não era possível, meu pai não tinha uma hora pior para chegar. voltou para de baixo da mesa e eu, já com a porta aberta, achei melhor receber logo meu pai e despachá-lo. – Olá princesa, ainda acordada? – Ele disse, surpreso em me ver.
- Eu vim tomar um copo d’água e ouvi você chegando! – Falei com o olhar inocente.
Ele entrou, trancou a porta, e logo tratou de subir, me carregando consigo.
– Bom, então vamos nos deitar. – Ele disse.
- Vamos. – Sorri fracamente, mais um trabalho de descer novamente, nunca foi tão difícil tirar uma pessoa da minha casa.
Esperei por um tempo para que todos estivessem deitados, os minutos pareciam não passar, decidi sair logo do quarto, já estava me entediando ficar lá sem saber se o outro estava vivo ou morto. Desci as escadas, chamei por seu nome, ele estava exatamente no mesmo lugar que eu havia o deixado, senti uma súbita vontade de rir, mas me controlei, aquela noite já estava sendo longa o suficiente para eu transformá-la em mais longa ainda.
Ele me seguiu, silenciosamente, eu abri a porta com cuidado, abri o portão com a chave para não fazer barulho e vi o cruzar, me dando um olhar significativo de que aquele dia havia sido não somente louco, como emocionante. Ele deu um beijo no meu rosto e saiu andando no meio da escuridão, nenhuma palavra conseguiu ser pronunciada de minha boca, fiquei ali, parada, vendo-o se afastar, com um sentimento de vazio como se meu corpo o quisesse de volta.
Fui em direção ao meu quarto, me deitei em minha cama, desliguei a luz, programei a televisão, deixando apenas o seu som ao fundo, fiquei pensando em tudo que eu havia vivido, em tudo que eu havia experimentado naquele dia, me perguntando se tudo era realmente real, ou apenas um sonho muito bom, desejando com todas as minhas forças que amanhã, quando eu acordasse, fosse tudo verdadeiro, único... Eu não me sentia mais como qualquer pessoa, eu não era mais “normal”.
Normais levantam, reclamam, vestem, irritam-se, falam mal e cumprimentam sempre da mesma forma. Dão as mesmas respostas para os mesmos problemas. Tem o mesmo humor no serviço e em casa. Petrificam sorrisos no rosto, dão presentes sempre nas mesmas datas. Enfim, tem uma vida estafante e previsível. Fonte para vazios e enfados. Normais não surpreendem, não encantam. Nunca quis ter uma vida de contos de fada, nunca gostei de contos de fadas. Qualquer história que se presa termina com: "Viveram felizes para sempre!"? Só que ai você percebe que em algum momento da sua vida o mundo vai girar tão rápido que você não vai conseguir compreender. Você vai continuar vivendo em função das horas, porém, sem olhar para elas, porque não conseguirá mais acompanhar o tic-tac do relógio. Você precisará mudar e se adaptar todos os dias. Jogar fora alguns conceitos que já tinha como certos e definitivos. Em algum momento da sua vida... Nada será definitivo. As músicas que você gostava ontem já não servem mais para acalmar. Raivas e tristezas que eram tão claras, você passa a se perguntar os porquês. Em algum momento da sua vida, você vai precisar se recriar e, muito provavelmente, não contará com a ajuda de ninguém para isso. O relógio ao lado da cama vai continuar apontando o passar dos segundos. Você já não saberá se a desordem das coisas no seu armário, e no seu coração, é conseqüência da falta de tempo ou da falta de sorte.
Você vai ter que fraquejar para perceber que ainda pode ser forte. Você vai precisar chorar para encontrar o ponto exato que dói dentro da garganta. Você vai ter medo da simples possibilidade de que os minutos passem cada vez mais depressa e você não consiga mais mudar nem se adaptar nem acompanhar. Você vai precisar parar de fazer perguntas e vai ter que aceitar as respostas que a vida joga na sua cara antes mesmo do surgimento das dúvidas. Em algum momento o seu coração será uma coisa tão oscilante dentro do peito que você terá vontade de arrancá-lo, mas o máximo que podemos fazer é fingir que ele não existe e não machuca.
Eu não sabia se o meu caminho era certo ou errado, ele era simplesmente meu e pronto, a princípio era isto que eu vinha tentando me convencer. Porém, na minha busca pela verdade, eu acabei me perdendo nas mentiras e a fina linha do certo e errado agora havia borrado e eu não sabia exatamente como reconstituí-la. Por quantas vezes você parou para pensar em tudo que você já fez na sua vida e descobriu que tudo aquilo que você achava ser certo não passaram de mentiras? Minhas pálpebras pesaram e o sono invadiu todo o meu ser unanimemente, eu estava entregue e relaxada. Não demorou muito para eu adormecer.


Capítulo 6

Samanta’s POV

Eu não sabia onde eu estava, somente que tudo a minha volta girava e girava como quando uma criança fica rodando naqueles brinquedos gira-gira e quando sai do brinquedo está completamente tonta, no entanto elas não sentem nenhum tipo de dor. Onde eu estava eu não sabia, eu queria poder me lembrar. Só que eu tinha apenas lembranças vagas do que havia acontecido, o que eu sabia era que eu estava deitada em uma cama que não era minha e meu corpo parecia muito rígido. Minha mente foi clareando aos poucos, me trazendo de volta a realidade, aquela sensação de tontura estava passando e tudo a minha volta estava ficando mais claro e, ao longe, eu podia ouvir um barulho de uma máquina apitando.

- Você quer uma bebida? – Alguém me ofereceu. Alguém que eu não conhecia, mas que era lindo.
- Claro, um Martini. – Respondi.
- Você tem um gosto requintado... – Ele falou, sorrindo para mim sedutoramente.
- Você ainda não viu nem a metade! – Falei determinada.
- Você gosta de jogos? – Ele sussurrou ao pé do meu ouvido.
- Quem não gosta? – Falei, lançando-lhe um olhar sacana.
- Quer conhecer meu apartamento? – Ele me convidou com um sorriso malicioso em seus lábios.
- Com certeza! – Falei chegando mais perto para beijá-lo. A bebida chegou e ele me alcançou pouco depois de partir o beijo, bebi todo o conteúdo do copo de uma só vez, sendo fitada pelo olhar malicioso daquele cara.
- Que tal dançarmos um pouco, antes? – Ele falou.
- Porque não... – Falei enquanto o puxava para a pista de dança.
À medida que eu ia dançando, eu ia ficando mais louca, e tudo a minha volta tinha um brilho diferente, cores vibrantes me cegavam, ao mesmo tempo em que meus pulos ficavam mais altos, me deixando tonta e cambaleante. Senti alguém me segurar pela cintura, evitando minha queda. Eu estava me sentindo enjoada de uma hora para a outra, queria ir até o banheiro e tirar tudo aquilo para fora, mas eu não conseguia, não que eu não quisesse, mas alguém me segurava e me impedia de ir; o estranho!
Tentei fazer força para ele me soltar, empurrando-o, mas ele não se afastou, continuava a me cercar e me carregava para o lado oposto do que eu queria e pretendia ir. Ele dizia coisas desconexas para mim, algo como para eu ficar calma, que se eu fosse com ele, tudo ficaria bem. Só percebi que estava fora da boate quando um vento gelado soprou no meu rosto. O sangue pareceu formigar em baixo da minha pele, fazendo com que eu recuperasse um pouco a lucidez; quando me dei conta do que estava para acontecer tentei fugir, mas já era tarde, logo senti uma dor forte e aguda no meu rosto e um gosto de ferrugem exalou em minha boca.
- É melhor você se comportar ou eu terei de te ensinar boas maneiras. – Ele me dizia rindo, bêbado.
- Me solte, eu quero ir para casa... – Falei com a voz sonolenta e um tanto enrolada, ao mesmo tempo em que cuspia sangue. Ele me calou com um beijo que teve um efeito anestésico sobre mim, me agarrei no seu pescoço, beijando-o demoradamente e loucamente, eu estava completamente submissa a ele sem ao menos perceber isso.
Ele me colocou dentro de um carro que não era o meu, no banco do carona, fechou a porta e em seguida já estava sentado ao meu lado, a velocidade que a gente estava na estrada teria me assustado se eu não estivesse tão alterada no momento. Ele começou a fazer ziguezague na pista, como se brincasse com nossas vidas. Eu estava me sentindo estranha, era como se a morte estivesse com sua capa preta ao meu lado, esperando para me dar o seu beijo. Logo após está sensação, a única coisa que eu me lembro era de tudo estar girando e uma dor insuportável em minha cabeça... Após alguns minutos, apaguei por completo!

’s POV

Apesar de ter passado a noite, era como se eu ainda não tivesse adormecido, eu não sabia se tudo aquilo havia passado de um sonho incrivelmente bom ou se realmente havia acontecido. Com a cabeça parecendo um turbilhão e um sorriso bobo no rosto, repensei em como era minha vida. Na faculdade as pessoas vivem inúmeras histórias, algumas que a gente pára e ri sozinhos. E gargalhadas são certas quando relembradas pelas pessoas que as viveram. Muitas pessoas já passaram na minha vida e algumas delas marcaram-na de modos diferentes. Algumas, hoje já são formadas, outras eu não vi mais depois de termos estudado juntas, outros saíram do país, alguns encontro e algumas outras e outros apenas nos corredores ou na lancheria. Em casa eu sentia que era como estar presa em um presídio de luxo, se assim pode-se dizer. Meus pais eram completamente opostos um do outro, minha mãe adorava sair, viajar, viver... Já meu pai preferia trabalhar, como ele sempre me dizia, “e quem irá pagar as contas absurdas de sua mãe e manter nosso padrão de vida se eu não o fizer por nós?”, era, de certo modo, complicado.
Eu precisava ser perfeita, sempre, o tempo todo, perfeita. Tirar as melhores notas, ter o melhor emprego, ser a melhor do emprego. Melhores roupas, ter a melhor casa, ser a mais inteligente. Eles queriam um projétil de filha que até dois dias atrás eu estava conseguindo ser, porém, desde o último dia, tudo mudou. Eu conheço a seguinte frase: queria parar o tempo naquele momento, por tantas vezes eu ouvi isso ou me disseram isso. Sempre penso no que gostaria que pudesse acontecer, sem perceber que o que há de mais importante, aconteceu. Uma conquista, um sonho realizado, uma viagem, um abraço amigo, um apoio, uma promoção, uma dança. Um beijo, um abraço, o calor, a essência, o cheiro, o gosto, o aconchego... Se você desejar que o tempo pare naquele momento, pare e pense agora: Será que não parou? O que ficou é eterno. Aquele instante foi eterno. Afinal, o tempo é tão relativo. E curto. Passa rápido demais. Não é nem possível perceber o quanto algo nos tocou, nos fez feliz. E depois, fica nos sonhos, no desejo de que o tempo tivesse parado naquele momento. Talvez esteja nas aspirações para o futuro. São tantas coisas que ficam, que existem. Dentro de nós. E algo martelava dentro de minha cabeça, de todas as coisas que eu vivi na minha vida, e principalmente naquela última noite, de apenas uma eu posso ter certeza: O tempo parou naquele momento.
Foi o instante mais forte do “para sempre” já presenciado. Estrelas brilhavam, parecia que a cada instante elas ficavam mais fortes. Em alguns momentos, era como se elas pudessem explodir, tão forte e profundo era aquele brilho. Os corpos projetavam-se para juntos um do outro, como se estivessem se jogando em um abismo. O que senti, ou melhor, sentimos, naquele momento era vivo demais, que não havia pensamentos no depois, apenas na memória e no coração. Era hora de levantar, mais um dia, eu não sabia se eu conseguiria ficar sem aquilo, eu não sabia se algum dia eu sentiria novamente aquilo. Uma parte grandiosa de mim desejava que sim, cada célula do meu corpo clamava por aquilo, o medo, o frio na barriga, a sensação de liberdade e, acima de tudo: o perigo!
Abri a porta do meu quarto e segui em direção ao banheiro para a mesma rotina de sempre. Era sábado. Desci pela longa escadaria, porém parei na metade, porque tudo estava estranhamente silencioso, calmo e eu já estava começando a me perguntar se estava na casa certa. Subi novamente, fui em direção ao quarto dos meus pais, vazio. Voltei ao meu quarto, olhei o calendário, era realmente sábado. Saí do quarto, abri a porta do quarto de minha irmã, também vazio. Não que aquilo fosse algo anormal, minha irmã dormir fora por todo o final de semana várias vezes seguidas era normal. Ela era o meu oposto, como água e óleo, nunca nos misturamos. Ela ia para as festas dela e eu ficava em casa a estudar e estudar. Ela era rebelde, eu era na minha, a obediente, ou, como ela costuma dizer, a favorita. Se ela soubesse que por muitas vezes eu daria qualquer coisa para ser como ela, talvez ela não me achasse mais tão “perfeita”.
Aquele momento, completamente sozinha, me fez ter vontade de um bom e demorado banho. Tirei minha roupa, desamarrei meus cabelos, liguei o chuveiro e deixei que a água quente cobrisse meu corpo de forma unânime. Aquilo me deixa relaxada, de tal modo que eu não queria e muito menos precisava pensar em algo. Porém, pensamentos são sempre inevitáveis. Sentimentos confusos e misteriosos formam pensamentos que insistem em voar, voar para longe, me deixando totalmente sem ter o controle da situação... Não consigo equilibrar o emocional e o racional e sinto que, mais uma vez, essa história pode ter o mesmo rumo de todas as outras... É estranho depositar a confiança em uma pessoa que até então é completamente desconhecida, fazer planos, sonhar e de um momento para o outro tudo na sua vida mudar. Em um passado não muito distante, isso nunca teria acontecido ou ao menos eu teria cogitado tal idéia. O fato de uma pessoa aparentemente normal, mas ao mesmo tempo estranha para eu ter, de certo modo, o controle sobre minha felicidade, me assustava. Eu não queria pensar nas conseqüências, pensar faz com que as pessoas se transformem em medrosas e eu não queria fraquejar. Não neste momento.
Saí do meu estado de transe no momento em que o telefone tocou. Saco! Acho que vou deixar tocar, o banho estava bom demais para ser interrompido por uma ligação que certamente não seria para mim, eles sempre desistem, e se for importante iram ligar mais tarde, certamente. Depois de uma longa insistência que estava sendo quase irritante, pararam. Tudo era calmaria, silêncio, novamente. Cinco segundos depois, o mesmo trim trim irritante recomeçou. Desliguei o chuveiro, furiosa, me enrolei em minha toalha, sem me dar ao trabalho de me secar muito, eu ainda pretendia acabar aquele banho, e atendi ao telefone com um tom grosso.
- Alô? – Disse sem vontade.
- , sou eu, seu pai, estou ligando apenas para avisar que estou no hospital com sua mãe. – Meu pai falava com um tom urgente, ao mesmo tempo em que pretendia parecer calmo.
- Hospital? – Depois de um leve momento, paralisada, esta foi a única palavra que pude pronunciar.
- Sim. Sua irmã sofreu um acidente de carro. – Ele dizia com um tom amargo. – Ligaram para sua mãe hoje pela manhã e ela me ligou, tive de deixar uma reunião importante, inclusive.
Reunião? Acidente? Minha mãe? Insensível? Eu estava paralisada, completamente paralisada, não raciocinava, não reagia, ouso dizer que nem sequer escutava meu pai do outro lado da linha. Era como se eu tivesse perdido meu chão, minha irmã, hospitalizada, e eu não fazia idéia do seu estado. Esse era um daqueles momentos estranhos que às vezes (muitas vezes) passamos em nossas vidas. Tudo girava e se embaralhava muito rápido na minha cabeça, e por mais que eu quisesse falar e pedir explicações e saber como ela estava, nenhum som era emitido por minha boca e uma lágrima escorria por meu rosto pálido sem que eu pudesse ter controle sobre ela. Eu me sentia em um mundo paralelo, como um dia poderia ser simplesmente perfeito e o seguinte desastroso? Recobrei o sentido da realidade quando meu pai gritava comigo do outro lado da linha, após não notar reação nenhuma da minha parte.
- Filha, você está bem? Responda-me algo! – Meu pai dizia, parecendo aflito.
- Sim. – Disse após longo período calada. – Para qual hospital a levaram?
- Eu vou lhe buscar para vir ao hospital pela parte da tarde, logo após o almoço, esteja pronta. Ela veio para o Hospital de Pronto Socorro, mas ainda não a mandaram para o quarto... – Ele falou, selando aquela conversa, logo após se despediu e desligou. Eu continuei ali, parada, sem esboçar reação alguma. Fui perdendo a força em minha mão e o telefone foi escorregando aos poucos, até encontrar o lustroso tapete persa azul que minha mãe havia comprado não fazia muito.
Eu tentava recobrar minha sanidade e sair daquele choque do qual eu me encontrava, porém eu não conseguia. Como quando você quer muito uma coisa, mas você não tem o controle do seu corpo e da sua mente para fazê-lo. Bem como dizem, por mais próximo que esteja, inatingível está. As dúvidas e o medo fazem com que as pernas travem, os braços se cruzem e a boca se cale. O corpo pára, talvez até mesmo a respiração tenha dado uma pausa, tamanha apreensão o envolve. A mente congela, por instantes não há ontem, nem amanhã, talvez nem mesmo o hoje. No escuro, arrepios, lágrimas, sonhos despedaçados. Trancada naquela angustia, sem lados, sem frente, sem trás. Sem vento, sem calor, sem frio. Somente um coração apertado e sonhos jogados pela janela e levados para longe, dissolvidos no ar. Ali tudo parou. Mas o mundo lá fora seguiu em tal velocidade que talvez, ao abrir os olhos, já não seja mais o mesmo mundo, o seu mundo ou o mundo do qual aquele garoto estranho nunca fez parte.
Aquilo tudo fazia parte de um pesadelo e eu acordaria gritando logo em seguida ou era a realidade que vinha estragar mais uma vez o mundo perfeito do qual eu havia projetado? Meu celular tocou, uma mensagem, me fez despertar, olhei pela minha volta, por todas as direções, o telefone no chão, o chão inundado e, tristemente, observei que tudo era não somente real como um pesadelo na vida real. Peguei meu celular, mensagem da minha amiga avisando sobre o trabalho de segunda, do qual eu não teria cabeça alguma para fazer. O que aconteceu a seguir, não posso explicar exatamente da onde veio, uma onda de energia se apoderou de mim, fazendo com que eu me dirigisse correndo até meu quarto, me secando rapidamente e colocando a primeira roupa que eu encontrara pela frente. Eu precisava ir até onde eles estavam, não que eu e minha irmã fossemos melhores amigas, não, na verdade, o fato de não termos nada em comum não havia ajudado na nossa aproximação.
Porém, sua irmã, sua única irmã, se acidenta, e, por mais negro que nosso passado possa ter sido, por questão de segundos é esquecido. Seu sangue, de certo modo, um pedaço de você. Peguei a chave de meu carro, eu não sabia e muito menos estava interessada se eu tinha condições emocionais de dirigir, e talvez futuramente eu fosse crucificada por todos, por ter me permitido sair naquele estado de nervos e não ter ouvido meu pai quando me mandou ficar em casa, mas ele achava realmente que eu ficaria em casa depois de saber daquilo? Em questão de vinte e cinco minutos, estava parada na frente do hospital, ligando para meu pai para saber onde estavam.

- Alô? – Meu pai respondeu com uma voz curiosa do outro lado da linha.
- Pai, onde vocês estão? Estou na frente do hospital, me diga o andar para eu ir encontrar com vocês! – Disse, sem cerimônias.
- , eu não mandei você ficar me esperando em casa? Como que você vem dirigindo até aqui... – Ele dizia quando foi interrompido por mim.
- Pai, realmente adoraria ficar aqui ouvindo todo o seu sermão, mas, na verdade, não estou com saco agora, poderia somente me dizer o andar e depois que eu possa ir vê-la e deixar o sermão para quando chegamos em casa? De um jeito ou de outro, você me dizendo ou não, eu vou descobrir! – Disse, determinada.
- Ela já foi levada para o quarto. Quinto andar, quarto 503A. – Ele disse, conformado.
- Estou subindo. – Desliguei o celular, sem esperar que ele se despedisse e me encaminhei ao elevador mais próximo.

Não demorei muito para achar o quarto, ele era perto do elevador, e quando entrei no quarto foi como se um injeção de anestésico fosse injetada diretamente em minha veia, ver ela, sorrindo, fazendo brincadeiras juntamente com outra amiga que havia ido visitá-la, parecendo bem, cheia de vida, foi como se um peso de toneladas fosse retirado de minhas costas. Observando rapidamente a minha volta, já haviam mandado presentes, balões, flores, ursinhos, provavelmente de amigos e admiradores, o estrago maior havia sido de uma perna quebrada e uns arranhões. Eu estava louca para enchê-la de perguntas para saber como havia acontecido, mas preferi me preservar e não estragar sua visita com minhas perguntas fora de hora, haveria muito tempo depois.
O olhar de meu pai caiu imediatamente sobre mim. Seu olhar era calmo, sereno, mas eu sabia que por trás dele havia muito mais do que isto. Minha mãe mal reparou, na verdade, ela estava mais interessada em paparicar minha irmã. Um ciúme um tanto bobo começou a crescer no meu íntimo. Pensamentos interligados, tão altos e tão alucinados estavam. E nessa conexão, quase irracional, algo se perdeu. No horizonte, ou mesmo além. O aperto no peito, inevitável. A busca incessante pelo reencontro. Aquela angústia crescia. Deixou a solidão como imperadora e a indecisão como mestra. Sonhos sem nexo, medos e vazios. E o dia a ser atormentada por eles. E era despertada e adormecia com tal facilidade que era assustador.
Tornou-se aparente a dúvida no meu olhar, transparecia nas mais simples atitudes, nos mais simples gestos. Era aparente que algo deixava aquele coração tão frágil e tão medroso por saber que estava vulnerável às intempéries. Meu coração estava apertado e eu sentia apenas em meus pensamentos. Esses, já sem destino, vagavam e se perdiam além do tempo, em busca de já nem se sabe o quê. Minha irmã foi a primeira a notar.
- Você vai ficar aí parada, ou pretende me dar um oi, um abraço, ou qualquer outra coisa? – Ela me dizia em tom brincalhão, fazendo novamente com que a armadura que me envolvia se quebrasse e virasse pó.
- Desculpe, eu não queria atrapalhar a sua visita, eu posso esperar. – Respondi um tanto sem jeito.
- Na verdade, já estou de saída. – A amiga de Samanta dizia, logo após se virou novamente para ela, lhe deu um abraço e, com um sorriso, dizia. - Até mais, Samy, melhora, viu? Não vá se matar por aí, pois eu quero você inteira para poder viajar.
Logo após se despediu dos meus pais e de mim e saiu corredor afora. Eu me sentia deslocada, segundos antes de cruzar aquela porta, ver ela era tudo que eu queria, saber como ela estava, mas agora, aquilo parecia, sei lá... Encaminhei-me em direção a ela, novamente queria abrir a minha boca e enchê-la de perguntas, mas elas não saiam, ela me conhecia tão bem, creio que no meu olhar ela podia ver qualquer coisa, saber qualquer coisa.
- Não vai descarregar suas perguntas? – Ela dizia suavemente. – Eu sei que deve de ter várias!
- Como você sabe que eu tenho perguntas? – Disse, ficando corada.
- Ora, , não faça rodeios. Diga logo! – Ela falou imperadora.
- Como isto aconteceu? – Falei em voz baixa. Senti que ela olhava fixamente para meus pais, como dando um sinal para que aquela fosse à deixa deles. Eles entenderam o recado, e nos deixaram a sós, e um dia eu ia aprender como fazer aquilo.
- Conheci um cara ontem à noite, que, pelo que parece, me drogou. – Ela falava aquilo com uma naturalidade. Como se fosse normal os caras drogarem ela.
- E você fala isto com esta calma? – Falei intrigada.
- Você queria que eu falasse isto como? Indignada? – Ela disse em tom de deboche.
- Não sei, sei lá, mas você fala isso como se fosse à coisa mais natural do mundo. – Falei confusa.
- De certo modo, isso é comum. Eu não seria a primeira e muito menos a última a que isto irá acontecer, disto você pode ficar certa! Mas eu não quero ficar falando disso, você já viu que estou bem, não tem porque ficar remoendo isso, eu fui descuidada, admito, mas será um erro que pretendo não deixar mais acontecer. – Ela disse, ficando pensativa logo após.
- O que houve? – Perguntei hesitante.
Antes de responder, ela deu um sorriso seco.
– É tão fácil ser você. Você não se preocupa, não causa problemas... – Ela disse, dando uma risada irônica. – Você é tão perfeita.
- Não sou perfeita. – Falei um tanto indignada. Eu estava cansada daquela palavra... “perfeita”, da onde todos tiravam isto, porque eu sempre precisava ser isto. Eu estava fatigada, ouvir aquilo me dava raiva.
- Mas você é! Você não pode fugir disso, você sempre será a boazinha, a calma, a sensata, e eu sempre serei a maluca, a causadora de confusões e desordem. Pensa que não sei que hoje eles me paparicam e amanhã não irão me jogar na cara mais um ato insensato? – Ela sorria ironicamente novamente.
- Você não sabe o que eu daria para ser como você... – Falei com a voz vazia e o olhar perdido.
- Você não poderá ser assim, não enquanto você morar com eles. – Ela disse, rindo alto.
Aquela idéia caiu sobre mim como um baque. Não enquanto você morar com eles... Seria aquela a resposta? Sair de casa? A liberdade a todo custo, talvez fosse meu caminho para a felicidade ou seria a ruína total? O medo cresceu no meu peito novamente, eu precisava de uma decisão e eu sabia que aquela era a hora. A resposta tão clara e evidente, como água jorrando da fonte mais cristalina. Levantei-me, sorri para ela, como uma criança que descobre algo novo, e, sem hesitar um milímetro, disse:
- Não sei se essa é a hora certa ou não, mas você está certa, só vou ser realmente livre após sair de casa. – Disse sorrindo, a voz embargada. – Eu volto para te visitar amanhã, vou ficar na casa da , não sei como será daqui para frente, mas sei que precisarei ser forte, e vou provar não somente para você, como para todos, que eu não sou perfeita, e, pela primeira vez na minha vida, vou viver!
Ela parecia assustada, como se algo no que lhe disse tivesse a confundido.
– Wow, da onde surgiu isso?
- Você conta para eles com jeitinho? – Eu disse, fazendo careta.
- Com certeza! – Ela disse dando um sorriso malicioso, como se saboreasse aquilo tudo que eu estava prestes a fazer. – Uma hora?
- Creio que será suficiente. Tentarei ser rápida. – Disse.
- Boa sorte! – Ela falou, dando um sorriso compreensivo. - Creio que você vai precisar.
- Obrigada! – Logo após dizer isso a abracei, e saí pela porta segurando uma lágrima que insistia em querer cair. Eu me sentia angustiada por não saber como seria a reação da minha família, Samanta eu sabia, seria a única a me apoiar. Ao seguir aquele caminho tudo seria mais difícil, mas eu deveria estar disposta a cruzar ele, minha felicidade dependia disso, e, por um lado, eu estava me sentindo feliz.

Novos planos surgem e esses se afastam dos outros, a vida parece tomar um novo rumo e é como se os caminhos seguissem em lados opostos. Outras coisas voltam a alegria diante de luzes coloridas e da luz que faz o branco brilhar, a energia de algum abraço, de algum sorriso, de alguma música. E o ciclo da vida segue em seu rumo, algumas coisas vão ficando para trás e outras cada dia mais perto.
Ao fechar aquela porta atrás de mim, naquela manhã fria de outono, eu estava deixando algo além, deixava tudo o que fora até aquele momento. Em passos lentos eu segui, os ponteiros do relógio andavam rapidamente, da mesma forma que meus passos aceleraram. Sem olhar para trás, sem questionar ou temer, eu ia. Já havia passado à hora de romper com o que me prendia ao passado. Nada aconteceu como eu gostaria. Eu não queria atos extremos, nem bruscos. Mas assim foi. E, não fosse assim, jamais aquele ciclo teria se fechado. Não foi o que eu sonhei, não era essa a lembrança que eu queria guardar desse momento. Tomar as próprias decisões e partir por um caminho onde estavam meus ideais e, de certo modo, minha alegria, não foi tarefa fácil. Para trás ficaram sorrisos e sonhos que jamais serão realizados e um vazio que pode ser nunca preenchido. Lágrimas rolaram por meu rosto, na brisa fria, os passos apressados, depois da porta.


Capítulo 7

Fazia alguns dias que eu estava me sentindo pra baixo. Coisas boas estavam acontecendo, mas eu não estava conseguindo viver todos aqueles momentos com plenitude. Muitos sorrisos, muitas conversas, muitos lugares, porém eu sentia-me vazia. Sentia-me uma menina descalça a correr no asfalto quente das três horas da tarde em dezembro. Sentia-me da mesma forma de quando tinha oito anos e imaginava que embaixo da minha cama havia um monstro. Eram momentos em que eu não me encontrava dentro mim e dentro de meu mundo. Meu pensamento voava longe. Meu corpo estava em um lugar, mas minha mente e minha alma vagavam descontroladas por caminhos longínquos e desconhecidos. O olhar de carinho era dirigido a mim e o abraço tão forte, profundo e quente dos meus amigos continuava igual. Mas eu não estava ali. Jamais dissera que algo me incomodava, até porque não sabia o que era. Em nenhum momento falara que estava me sentindo deslocada, amedrontada e com uma vontade louca de fugir. Mas o abraço deles parecia acalmar o mundo, mesmo que por alguns instantes.
Por quanto tempo agi da mesma forma, pensei do mesmo jeito, fiz as mesmas coisas. Um belo dia, ao acordar, decidi dar um basta e um novo “eu” surgiu. Alguém decidido, alguém impulsivo, alguém que busca os seus sonhos, inova, corre, luta, vai por novos caminhos, encontra novas pessoas, realiza objetivos. Em algum momento olha para os lados, olha para si e percebe que sente falta de algumas coisas do passado. Bate a saudade. E a certeza de não se poder ter tudo na vida paira mais uma vez em minha mente. Por um instante, o consolo é saber que para ter uma coisa, é preciso abrir mão de outra. Conforta. Mas não deixa menos saudoso aquele momento. E, apesar de tudo, a felicidade permanece naquele coração.
A palavra que mais tem ecoado em minha mente é essa tal de responsabilidade. Como ela tem me feito pensar, me deixado sem dormir, me levado à reflexão. Eu tenho analisado muito o valor da responsabilidade e a importância de ser responsável. Nunca fui muito de me preocupar quanto a isto. Eu sempre tinha tudo que eu precisava sem ter que fazer grandes esforços. Fazia um pouco mais de duas semanas que eu havia saído de casa e tudo na minha vida não parecia ter melhorado muito, o grande peso que havia saído de minhas costas, por outro lado ainda emanava com a força de um touro. Eu precisava fazer alguma coisa, achar um lugar fixo para eu ficar, não que eu não gostasse de ficar junto com a , não. Mas você não se sente completamente em casa, porque aquela não é sua casa. Meus pais ainda não falavam comigo, e creio que além de minhas amigas, nenhuma outra pessoa sabia que eu havia saído de casa e o motivo pelo qual eu ficava “brisando” nas aulas.
Em uma sexta-feira pela manhã fora surpreendida no meio da aula com flores e um bilhete que dizia “tudo vai ficar bem”, não havia assinatura. Olhares curiosos pairavam sobre mim, e eu começava a me achar uma espécie de animal exótico em extinção.
- Quem lhe mandou isso, ? – ouvi me perguntando.
- Não sei, não está assinado... – disse, ficando pensativa.
- Ihhh, a tem um admirador secreto, huuuum. – Ouvia dizendo com um tom cômico para .
- Ai, que nada... – falei, sentindo um calor sobre humano me envolvendo.
- Olha que bonitinho, ela ficou com vergonha. - dizia, caçoando de mim.
- Ai, cala a boca! – disse rindo.
- A letra não é de ninguém conhecido? – perguntou.
- Não, foi escrito em computador – disse pensativa, aquilo estava estranho, quem me mandaria aquilo com aquele bilhete. Óbvio, só podia ter sido uma das garotas, caso contrario porque não assinariam? – Ok, qual das duas me mandou isso?
- Como assim, ? Não te mandei nada, eu juro! – me dizia com uma expressão seria. - Nem eu, amiga, se eu tivesse mandado eu teria assinado ou te dito assim que você recebeu... – me disse com o tom cheio de sinceridade. - Mas quem teria me mandado isso? Olha só, lê para você ver! – passei o papel para ambas e elas fizeram aquela expressão de ponto de interrogação juntamente comigo. A pessoa que me enviara tinha tomado cuidado para que nem sequer sua letra pudesse ser reconhecida. Ficamos um tempo olhando todos da sala. Seria alguém dali, ou de outro lugar, não sabíamos, porém, a pessoa sabia mais do que pensávamos, aquela frase, aquela pequena frase, cheia de significados, pelo menos para mim, tudo vai ficar bem não saía da minha cabeça. Mas quem saberia, e porque me enviaria aquilo, não havia motivo aparente. A aula estava quase começando, o professor, lindo como sempre, já estava se preparando. A camisa pólo verde realçava seu peitoral musculoso fazendo com que todas babassem ao ver ele. A combinação com a calça jeans escura e o sapato esporte havia sido perfeita. O cabelo rebelde como sempre e aquele perfume inebriante que preenchia o ar... Se aquele homem soubesse o quão me deixava desnorteada, totalmente perdida... Ele me olhou de uma hora pra outra, e me lançou um sorriso, acompanhado de um olhar fascinante que me deixou completamente sem ar. Será que fui tão indiscreta enquanto o analisava que ele reparou? O rubor tomou conta do meu rosto. Pergunto-me porque que nessas horas a terra nunca se abre para nos tocarmos lá dentro...
- Algum problema, amor? – me perguntava, ao ver minha reação e meu rosto rosado.
- Nenhum. – Menti.
Decididamente, era melhor eu voltar minha atenção para outro lugar. Mas olhar para ele era tão viciante que só me desprendi da magia que ele lançava sobre mim, no momento em que ele fez a chamada e percebi que não havia ido à aula novamente. Que estranho. Era a segunda sexta que ele não aparecia desde que vivemos aquilo tudo. Teria eu realmente sonhado? Não era possível! Tentei não pensar sobre aquilo, ele simplesmente deveria não querer ir para a aula, só isso, nada demais, é claro. Eu estava sentindo um incômodo, uma inquietação, olhei para todos os lados, tinha um garoto, um garoto de óculos, camisa preta com um desenho de uma águia na frente, calça jeans e tênis, com o cabelo levemente aparado e negro, me olhava pensativo, ele tinha uma forma esquisita, um olhar esquisito, seu olhar parecia ver através de mim. E o meu olhar, o encarando, profundamente sob seus olhos não o incomodou em nenhum momento, era como se ele estivesse me olhando, mas sua mente estava em outro lugar. Ele não parecia consciente de que eu havia reparado. Um frio percorreu minha espinha e achei melhor desviar o olhar.
Ele havia conseguido me deixar envergonhada, e parece que ultimamente, todos andavam conseguindo isto. Baixei minha cabeça e fiquei encarando meu caderno, fingindo que estava lendo algo muito interessante na folha em branco. Com certeza o garoto do qual eu não fazia idéia do nome e até poucos segundos atrás da existência, não seria o autor de tal coisa, isso era absurdo, não é mesmo, ele não podia ter me mandado aquilo, eu nunca havia o visto na vida. Todavia, se eu nunca reparei, como posso saber desde quando somos colegas, e se ele fosse... Não, não, não, estou delirando, não, definitivamente não.
- Amiga, você se lembra daquele garoto ser nosso colega? – perguntei discretamente para .
- Ele é nosso colega já faz dois semestres. – ela falou com um olhar confuso de como quem diz “poxa, que pergunta idiota, como você não se lembra dele”. – Por quê?
- Nada, é que eu nunca havia reparado. – tentei desconversar, e ela ficou me olhando curiosamente, me analisando. – Amiga, vou ao banheiro.
- Quer que eu vá junto? – ela falou, já se levantando.
- Não, não, eu vou sozinha, fica e anota as coisas importantes. – falei saindo rapidamente, eu precisava fugir. Antes de fechar a porta, notei outro olhar, outro olhar sobre mim de alguém que eu não fazia idéia que conhecia. Um garoto alto, de olhos azuis, camisa e calça social, todo engravatado, de boa aparência, cabelo com moicano, bonito, realmente bonito. Encarava-me. Poxa, será que hoje todos tiraram o dia para fazer isso, ou era eu que nunca havia reparado em nenhum desses olhares, e aqui fico eu pensando nisso, eu preciso parar de pensar nisso, está ficando demais, eu vou enlouquecer e...
Meu sangue gelou ao mesmo tempo em que começou a correr mais rápido, como se estivesse fervendo por baixo de minha pele. O professor estava parado naquele pequeno vão onde eu fiquei hipnotizada com o garoto, me dando um sorriso estranhamente sapeca e me deixando totalmente envergonhada. Ai, meu deus, que mico! Retribui-lhe um sorriso envergonhado, tentando pensar em uma desculpa razoável a pergunta que eu sabia que viria logo.
- Esqueceu algo, senhorita? – ele perguntou educadamente.
Sim, de perguntar quando o senhor pretende violar todas as regras e me tomar como sua. Pensei enquanto minha fala, que havia decidido ir dar uma volta na China provavelmente, não voltava para me dar um “alô”. – Eu estou indo ao banheiro e...
- Huuum, é que a senhorita ficou aqui parada e pensei em vir aqui para olhar e apreciar o que olhava. – ele falou rindo, logo após me interromper, tentando achar a direção que eu olhava até poucos segundos atrás.
- Ah, é... Quer dizer, não, quer dizer, na verdade, não sei. Hum, melhor eu ir, é, isso, melhor. – falei, virando as costas e saindo apressadamente.
O banheiro, finalmente o banheiro. Apoiei-me na grandiosa pia de mármore, e empurrei o botão para liberar a água da torneira. Lavei meu rosto, sem me importar se a maquiagem ia sair ou não, eu precisava de um pouco de água nele. Fitei meu olhar no espelho, encarando-me. Será que eu estava ficando louca, ou algo parecido, eu não sabia. O banheiro estava aparentemente vazio, também pudera, em pleno horário de aula não tinha muitas pessoas que iam para lá.
- Se acalma, , fica tranquila! – falava para mim mesma, enquanto me olhava no espelho. – Afinal, muita gente recebe flores, não é mesmo, porque você está assim só porque você recebeu flores anônimas, claro que isso só pode ser uma brincadeira de mau gosto, claro, não tem porque se preocupar. Logo a pessoa vai aparecer e dizer, “hey, , gostou das flores que te mandei?”, claro que vai, com certeza, e, quando isto acontecer, você vai poder matar a pessoa por ter te deixado assim. Olhe o seu estado, esse cabelo todo espigado, você lavou ele com shampoo de laranja, e o estado do seu rosto, aff, como você pode se deixar ficar assim e... – No momento em que minhas mãos gesticulavam enquanto eu discutia e criticava a mim mesma no espelho, a visão daquela garota ali, paralisou-me.
Desde quando aquela ela estaria parada, pensava, enquanto meu rosto horrorizado via a figura de uma garota me olhando atônita. Certo, eu não estava em um dos meus melhores dias. Pensa na desculpa, droga, porque ela me olha como se eu fosse um ET ou algo do tipo, muitas pessoas conversam com seus espelhos, claro que não em público e com certeza não na faculdade, mas porque as pessoas se apegam nesses detalhes. Para minha felicidade (ou seria infelicidade? Não sei ainda estou decidindo), somente abaixou a cabeça e seguiu até um banheiro vago, como quem pensa “melhor não dizer nada, cada um que fique com sua loucura” e achei melhor me mandar dali antes que ela voltasse e pensasse que eu pretendia continuar com o meu discurso para mim mesma.
Saí do banheiro, sem vontade de entrar na sala, com medo de passar mais um mico, aquele dia estava sendo demais, o que eu mais queria era sair logo da faculdade. Respirei fundo, tomei coragem, mão na maçaneta, era fácil, somente abrir a porta e entrar, passando como um foguete por todos, sentar na cadeira e fingir que está assistindo a aula, quando, na verdade, está analisando cada traço da perfeição do professor. Não devia ser difícil fazer isso. Vamos lá, coragem! Abri a porta, sabe aquela sensação que você tem às vezes de que algo na sua roupa deve estar rasgado ou que você está com a cara pintada tipo de palhaço, e que as pessoas te olham e ficam se segurando para não apontar o dedinho na sua cara e rir como loucas?! Pois é, eu estava com essa sensação. Entrei na sala, da qual eu tinha uma sensação de que crescia e crescia enquanto eu ia ficando cada vez menor. Eu estava pirando, eu precisava me acalmar, porque eu estou desse jeito, é idiotice! Ok, calma, respira, senta. Pronto, estou segura.
Agora é só prestar atenção na aula, esperar ela acabar e sair correndo até o carro com a e ir para casa. Não deveria ser difícil, só que eu estava inquieta, não conseguia parar de me mexer na cadeira e me movimentar, minha amiga sentia meu incômodo, eu podia perceber sua curiosidade crescendo, aos poucos, avassaladora por seus olhos, me fitando, cuidando, ela era esperta e atenta o suficiente para perceber o quanto as flores havia mexido comigo, afinal de contas, estou há décadas (ok, exagero básico) sem ter um namorado. Eu admito que essa possibilidade me deixe um pouco assustada, acho que saí meio que traumatizada do meu relacionamento com . Eu observava o relógio se mover cada vez mais lentamente, a aula não dava sinais de que iria acabar e nada do que o professor falava parecia fazer sentido, eu estava me sentindo como uma intrusa nesse mundo, tudo estava muito complicado e confuso, inclusive minha cabeça, que agora começava a girar. Minha visão começou a ficar turva, minhas pálpebras insistiam em se fechar, embora eu relutasse muito para que isso não acontecesse, e de repente não havia mais sala de aula, não havia mais ninguém, apenas eu, sentada na frente da classe, e o professor olhando para mim com seu rosto perfeito, seus cabelos que pediam para serem puxados e sua boca macia. Não sei como, mas no segundo seguinte ele estava muito próximo de mim, tão próximo que eu conseguia sentir sua respiração.
Ele segurou minha mão e me fez levantar para que nossos corpos ficassem juntos, em perfeita sintonia. Sua boca estava vindo em direção a minha, mas ele preferiu beijar meu pescoço, o que me fez ficar arrepiada. Minhas mãos percorriam seu tórax definido e ele me fazia delirar cada vez mais. Ele beijou todo o meu rosto até finalmente chegar onde queria... Minha boca. Eu queria mais, muito mais, ele começava a explorar o meu corpo com suas mãos grandes e nessa hora eu falei seu nome com um tom de malícia: "Jefferson, Jeff..."
- Srta. . - ouvia a voz de Jefferson, enquanto sentia que algo me balançava, acordei assustada, e as primeiras palavras pronunciadas por minha boca causaram minha completa e total derrota...
- Jeff, quer dizer, Jefferson, quer dizer Sr. Hantins... - merda, pensei comigo mesma, senti o rubor me cobrindo enquanto eu pensava em uma explicação para o que não tinha explicação. Com certeza, este não era meu dia!
- Você chamou meu nome, quer alguma coisa? – Aquilo foi um leve sorriso ou eu sonhei... Ele perguntou com um tom desconfiado.
- Nã-ão, quer dizer... - Droga! Eu precisava pensar em qualquer coisa para falar, se não ele iria pensar que eu estava pensando nele, o que não era mentira, mas era uma informação desnecessária para um professor - Eu achei muito interessante o que você estava falando... – Nossa, como eu pensei rápido nisso, eu sou uma gênia!
- Você achou interessante a história que eu contei sobre eu ter sido demitido da outra faculdade por que uma aluna se apaixonou por mim? - Ele indagou, completamente confuso.
Merda, super merda, o que eu faço agora, deve ser assim que aqueles nerds que vivem pagando micos se sentem, por que todo mundo tem que ficar olhando para mim, aliás, por que eu resolvi sair de casa mesmo? Ah, sim, porque sou uma idiota. Ok, não deve ser difícil achar uma saída, eu posso dizer que é interessante por que... Porque... Saco, não tem porque, o que eu digo, my god, porque que nessas horas nunca aparece algo milagroso para distrair todo mundo enquanto a pessoa em questão foge de fininho... droga!
- Senhorita? - Jeff dizia, ligeiramente rindo, e por um segundo ele parecia estar se divertindo com o meu embaraço. - Não vai responder? - sim, definitivamente ele estava se divertindo!
- Vou, claro que vou. - Falei enquanto minha mente trabalhava rapidamente na busca de uma resposta - Eu achei interessante porque não é todo dia que se escuta uma história dessas, oras. - Gênia mais uma vez!
- Oh, sim, claro! - ele se virou e saiu, se dirigindo para frente da sala novamente, parecendo levemente decepcionado, era como se eu tivesse estragado uma espécie de piada interna dele, e por um momento, creio que estraguei.
Ele liberou a todos para o intervalo, segundos depois, incrível, será que o meu sonho erótico não podia esperar só um pouco? Quando eu estava saindo da sala o Jeff, merda!, o Sr. Hantins me chamou até a mesa dele. Será que ele iria brigar comigo ou fazer meu sonho virar realidade? Confesso que eu prefiro a segunda opção. Pelo canto do olho eu observei atentamente os dois garotos tão diferentes e ao mesmo tempo tão intrigantes saírem enquanto me fitavam. Minhas pernas queriam ir até onde o monumento em forma de professor me chamava, mas minha mente queria ir até os outros dois, para investigá-los. Um deles, poderia sim ter me enviado aquilo, e a mensagem poderia significar outra coisa da qual eu ainda não fazia idéia. v - Srta ? – Credo, como aquele homem mexia comigo, sua voz, eu não podia deixar de imaginá-lo sussurrando para mim roucamente.
- Sim? – respondi automaticamente, soltando um leve suspiro.
Ele deu um sorriso torto, esperando que eu me aproximasse, mas estava difícil conseguir raciocinar e agir ao mesmo tempo. – Poderia vir até aqui? – ele me dizia me fitando com aqueles olhos azuis muito profundos.
- Oh, claro, sim, estou indo, claro. – Como ele fazia isso, meu Deus.
- Eu só queria que você soubesse que seja lá o que você tem passado ultimamente, tudo vai acabar bem. – ele me disse rindo encantadoramente, porém, eu não consegui admirar aquele sorriso com plena exatidão, pois quatro palavrinhas proferidas por sua boca me deixaram em um estado de transe e eu não conseguia parar de repeti-las na minha cabeça, tudo vai acabar bem. – Você está bem? – Ele disse, enquanto se levantava para pegar minha mão quando percebeu que eu havia ficado pálida, e o toque de sua pele sobre a minha causou algum tipo de descarga elétrica onde eu só via duas opções, sair dali correndo ou me agarrar em seu pescoço imediatamente, sendo que eu preciso admitir que a segunda fosse mais tentadora.
- Obrigada. – Foi só o que eu pude dizer antes de virar as costas e sair feito um raio pela porta, deixando Jeff com um olhar confuso, vasculhando por sua memória, o que deveria ter dito ou feito de errado para eu ter tal reação.
Eu já não fazia idéia de onde os meus amigos estavam, deviam ter descido para o pátio para aproveitar o que restava do intervalo, e, por outro lado, eu não estava me importando muito com isso, minha cabeça tinha milhões de coisas para com as quais se preocupar no momento. Teria sido ele, não pode ser, mas aquelas palavras... Minha cabeça começava a girar novamente. Aquilo não seria apenas inacreditável, como impossível, um professor, uma aluna, você achou interessante eu ter dito que fui demitido da outra faculdade porque uma aluna se apaixonou por mim? Aquilo foi um aviso, será? Eu preciso ir embora daqui, preciso ir para casa, estou me sentindo tão cansada, tão confusa.
Naquele momento, eu não sei da onde, mas uma força me dominou, no exato momento em que percebi estar sendo novamente observada. Aquele garoto, bem arrumado, de olhar intrigante, o de moicano, da sala, me olhava fixamente de novo. Meus pés se moviam sem que eu pudesse controlá-los, eles apenas andavam, me moviam, na direção dele.
– Olá! Meu nome é , e o seu? – as palavras eram pronunciadas por minha boca inevitavelmente, eu não sabia o porquê que eu estava fazendo aquilo, em dias normais, eu nem notaria a presença dele.
Ele apenas sorriu um sorriso divertido, porém sem emoção.
– E isso importa? – ele disse, sua voz era grossa, porém macia. Seu olhar era penetrante, era como se eu pudesse me perder neles.
- Claro que importa! – respondi determinada.
- É mesmo? Por quê? – ele perguntou, se aproximando lentamente de mim. Olhei ligeiramente a nossa volta, ele estava perto das escadas, ou melhor, estávamos perto das escadas, onde havia uma porta grande de ferro azul que nos escondia, aonde alguns alunos iam uma vez que outra para fumar ou apenas ficarem sentados nas escadas. Só que estava tudo vazio, silencioso, alguns poucos alunos chegavam ao andar pelos elevadores para irem até suas salas. Meu peito apertou, meu coração disparou, minha respiração ficou irregular. Era como se eu pudesse sentir a adrenalina correndo por minhas veias. – Por que ficou calada? - Ele sussurrou perto da minha boca.
- Porque me mandou aquelas flores e aquele bilhete, o que você pensa que sabe de mim? – minha voz saiu cortante. Ele me fitava, com olhos arregalados, e confusos.
- Do que você está falando? – ele perguntou-me enquanto se afastava de mim. Decididamente, eu havia quebrado o clima.
- Ah, por favor, não se faça! Você sabe muito bem do que eu estou falando. – disse, irritada. Eu não via motivos para aquele joguinho de esconde-esconde.
- Não, eu não sei. Só o que sei é que eu estava aqui e você veio até mim, se apresentado, sendo que até poucos dias atrás ignorava completamente minha existência, e, agora, você quer que eu diga ou admita algo que eu não faço idéia do que seja. Você é louca garota. – eu fiquei ali, parada, vendo ele se afastar irritado, em direção da sala. Fui caminhando de costas, em um impulso joguei meu corpo para trás, me agarrando no corrimão da escada, sentando nele para tentar controlar minhas pernas que tremiam descontroladamente. Eu estava perdendo o controle.
Tomei coragem suficiente para ir para minha sala, agora eu precisava encarar duas pessoas, o garoto cujo eu não sabia o nome, e o professor do qual eu havia fugido sem dar maiores explicações. Fui ao banheiro, lavei meu rosto, me encarei demoradamente, e saí determinada em direção da sala, entrei, sem me atrever olhar para os lados, sentei no meu lugar, e olhei para minhas amigas em um pedido mudo que não perguntassem nada, que foi prontamente atendido. O professor me olhou, analisou seu relógio de pulso, soltou um sorriso de canto. Baixei minha cabeça, abri meu caderno, fiquei paralisada. Dentro havia um pequeno bilhete escrito a punho: fui eu; te espero lá fora!
Olhei para os lados, mas meu olhar prendeu-se imediatamente naquele garoto, o esquisito, de óculos e olhar perturbado, que me fitava quase que insanamente. Ele virou seu rosto, olhando o caderno, fechou-o, levantou-se, e saiu sem dizer nada. Perdi o controle sobre mim novamente, fui tomada por uma vontade que ia além de mim, me levantei e fui à direção da porta, eu precisava resolver todo aquele mistério. Quando estava com a mão na maçaneta, o professor me chamou... – Aonde vai, Senhorita?! Você mal chegou e já vai sair novamente?
- Preciso ligar pro meu cachorro... Pra minha mãe, ou melhor, para minha mãe buscar meu cachorro... É, é isso! – ele me olhou, confuso, claro que ele, além de não entender nada, não havia acreditado em nada, nem eu acreditava naquilo, mas não lhe dei chances para revidar. Logo fechei a porta atrás de mim, observando, pela última vez, não somente o olhar dele, como o de minhas amigas. Definitivamente, eu teria que dar muitas explicações.

Fui em direção ao hall, e logo o encontrei perto das poltronas, ele me olhou surpreso, ele parecia não esperar me ver ali. Eu precisava interrogá-lo, saber, a curiosidade estava me matando.
- Foi você quem... - Ele não me deixou falar, pois, obviamente, ele não queria falar, ele queria “ação”, se assim posso dizer. No momento seguinte, tudo que pude perceber, era que seus dedos envolviam meus cabelos, e sua boca movia-se urgentemente sobre a minha. Sua mão apertava forte meu corpo contra o seu e meus braços analisavam seu corpo. Onde ele escondia aqueles músculos todos, eu não sabia. Eu o beijava com vontade, com um desejo louco que eu não fazia idéia da onde havia surgido. Aquilo estava ficando quente demais, descontrolado demais, ele já estava sentado na pequena mesa de centro do hall e eu já estava no seu colo. Ambos ofegantes e com um fogo que parecia tomar conta de nós. Tentei me separar de seu corpo, assustada, mas ele queria mais, ele não queria parar, ele me puxava, me prendia com seus beijos e suas caricias. Foi difícil criar forças suficientes para escapar dele, ele era sedutor, mesmo com aquele estilo diferente. Em nenhum momento, ele foi meu tipo, aquela não era eu, o que eu estava fazendo... – Não! – gritei, saindo daquele circulo vicioso que seus braços haviam criado ao redor de nós. Olhei para o lado, desnorteada, me fitava, com um olhar frio, vazio, triste. Aquilo só podia ser um pesadelo, eu iria acordar gritando, no meio da aula, novamente. Sim, só poderia ser isso. Um pesadelo.
- , não é o que você está pensando... – saí em sua direção, porém, ele apenas balançou a cabeça negativamente e ergueu a mão, em sinal de que não queria ouvir nem uma só palavra pronunciada por mim.
Uma vontade de chorar cresceu latente em meu peito, eu me sentia novamente fraca e com as pernas bambas. O garoto do qual eu ainda desconhecia o nome, levantou-se e foi para a sala, antes de entrar, ainda me fitou, como quem diz que temos um assunto inacabado. Fiquei por mais dez minutos sem ter reação alguma, apenas parada, olhando para o vazio, com aquele aperto que me deixava sem fala. ficou parado, ainda me olhando, friamente, amargamente. Eu queria explicar, eu precisava explicar, mas eu não conseguia. Lágrimas escorriam por meu rosto involuntariamente.
- Você... – ele começou a dizer, desistindo.
- Por favor, me escu... – ele ergueu a mão para eu me calar, enquanto apertava os olhos, firme, como se quisesse lacrá-los.
- Você, foi a maior decepção que eu já tive em toda minha vida. Nem de perto, nenhuma outra pessoa me magoou ou me machucou como você. Como consegue se olhar no espelho? – ele dizia, cuspindo aquelas palavras duras, na minha cara, sem se atrever a olhar para mim, frio. Aquele, nem de perto era o que eu conhecia.
Fiquei o observando, tremendo, chorando, com olhos arregalados e assustados, sentindo o peso do meu corpo ser mais forte, me jogar para baixo, de joelhos no chão. Eu pude sentir o chão sumir sob meus pés, não tive forças para falar nada, apenas conseguia vê-lo distanciar-se a passos dolorosos para longe de mim novamente. Sentia que realmente ele se fora... E desta vez para não voltar mais. Não consegui voltar para a sala, fiquei sentada nas poltronas do hall para me acalmar, ninguém podia me ver naquele estado, quando a turma fosse liberada, e minhas amigas trouxessem meu material, eu precisava estar bem. Fui ao banheiro, eu já havia perdido as contas de quantas vezes eu havia feito isso hoje, eu estava horrível. Deplorável, é uma palavra mais adequada. O inchaço havia sumido, mas meu olhar continuava vazio, eu sabia que minhas amigas iriam respeitar meu silêncio, mas uma hora elas iriam querer saber o que havia acontecido, eu precisava de uma desculpa, que, de certo modo, eu já tinha. Meus pais seriam a melhor desculpa.
Quando a sala foi liberada, as garotas trouxeram, como imaginei, minhas coisas, eu peguei enquanto elas me olharam com um olhar apreensivo. Não consegui olhar e nenhum dos outros. Quando me virei na direção do elevador, quase não pude acreditar no que meus olhos me mostravam. saía de dentro do elevador com uma garota agarrada em seu braço, se era namorada ou não, eu ainda não fazia idéia. Eu o encarei, ele me olhou, mas era como se ele não me conhecesse, pois logo ele virou o rosto em direção do professor de Direito. Provavelmente ele veio falar sobre suas inúmeras faltas.
- , vamos? – me chamava. Apenas saí em sua direção, dei um leve sorriso que foi prontamente atendido com outro e seguimos o caminho de casa sem dizer nenhuma palavra. Quando chegamos, tratei logo de tomar um banho, colocar uma roupa confortável e ir para o quarto; eu não queria conversar. Deitada, no escuro, fiquei pensando em tudo que eu fiz hoje, todos os garotos que eu pirei, pensando ser o remetente das flores, sendo que a verdade estava, ou pelo menos deveria estar, clara como água na minha frente. Eu não sabia porque eu havia beijado aquele garoto, olhando para ele, de longe, ele me dava um pouco de medo. Medo. Seria este o motivo para toda essa confusão, uma palavra tão pequenina, com um vasto poder. O frio na barriga, aquela sensação de estar fazendo algo errado, aquilo me preenchia. Eu havia experimentado sensações novas, inúmeras sensações novas, só que a que eu mais desejava ter, a que mais me fazia falta, parecia estar caminhando para longe de mim. O que mais me chocou durante todo este dia, não foram às palavras duras de , até porque, eu ainda não conseguia ter um completo entendimento da sua reação, logo dele, que havia me traído, se assim posso dizer, com Camila há poucos meses atrás, brincando com meus sentimentos.
Mas, sim, perceber que além de aparentemente, ter uma namorada até que se prove o contrário, também não parecia lembrar-se de mim. Espera, por que raios isso está me afetado tanto? Meu silêncio estava se tornando ensurdecedor. Por mais que eu pensasse e tentasse ligar os pontos, de apenas três coisas eu podia ter certeza. Primeiro, eu ainda não fazia idéia de quem havia me mandado as flores, poderia ser o garoto que me agarrou, como poderia ser meu professor, como poderia ser tantas outras pessoas. Segundo, por mais que eu pense e pense e tente achar a resposta, não consigo entender porque reagiu daquele jeito, aquelas palavras, as amargas lembranças de nosso relacionamento, não me permitem tal entendimento. Terceiro, eu sinto que minha vida precisa de emoções fortes e havia me apresentando a tantas. Na verdade, sei que não deveria me ligar a ele como se fosse à ignição para o que há de mais louco em mim; mas um estranho sentimento dizia que me sentiria totalmente completa se ele passasse por elas comigo. Eu queria, definitivamente, sentir o gosto amargo do perigo junto dele. Viver sem tudo aquilo não era viver, era apenas existir... Todas as vezes que fecho meus olhos eu lembro, é como se um pedaço dele ficasse sempre aqui.




Capítulo 8

Hoje acordei meio melancólica. Acordei pensando no passado, mais precisamente nos erros dele. Em como minha vida mudou, em como eu mudei. Não faz muito tempo, acreditava que ficaria sozinha. Que ninguém merecia meu amor, eu acho que desacreditei na vida, na beleza dos sentimentos. E hoje me deparo apaixonada. Envolvida por alguém cujas qualidades não podem ser medidas, cujo abraço faz inacreditavelmente bem, os beijos são incrivelmente intensos e o sorriso ilumina. E saber que tudo foi acontecendo naturalmente, enquanto íamos conversando, nos encontrando, nos envolvendo. Eu o observava de longe, podia vê-lo sorrindo e conversando com todos. Ah, aquela alegria e aquele jeito de se comunicar que eu tanto gostava, admirava. Sentia-me feliz em observá-lo, já havia feito isso tantas incontáveis vezes. Era bom saber que ele estava recuperado de toda mágoa.
Talvez aquele fosse o momento de falar com ele, porém não consegui sair do lugar, então fiquei por mais alguns instantes o observando, aquele sorriso que me trazia paz, boas recordações, nostalgia. Fui me aproximando aos poucos, me escondendo para que ele não pudesse notar minha presença. Eu me senti uma fugitiva da policia me esgueirando pelos cantos, porém eu não podia evitar, me sentia uma adolescente apaixonada perto dele, uma criança, ele era tão maduro, tão cheio de si, tão independente, não que eu não fosse, mas parecia que perto dele isso passava não somente despercebido, mas também batido por mim. Pude ouvir a voz dele, aquele equilíbrio perfeito que eu sempre quisera adquirir me fizeram lembrar o otimismo e persistência que sempre foram tão fortes nele.
Lembrei-me das palavras duras que ouvi daquela voz, que tinha deixado de lado sua maciez e ficou somente com a parte firme, onde mostrou decepção com tudo o que havia acontecido; imediata e involuntariamente, meu semblante ficou sério. Não pude deixar de lembrar o silêncio que se fez, era hora de arriscar. Seja forte – repetia para mim mesma em pensamento. Foquei meu olhar sobre ele, e por um milésimo de segundo não pude pensar em nada que não fosse à saudade que sentia daquele abraço. Eu podia sentir o aperto esmagador bem no meio do meu peito, a dor me tirou o fôlego. Ele se despedia do pequeno grupo de amigos, preparando-se para ir embora, estava gargalhando de alguma piada feita por um de seus amigos. Ainda sorrindo, seus pés giraram para a direção onde eu me encontrava, paralisada. E fez-se o silêncio. Ao ver-me, ele se calou. Por um instante sua expressão endureceu, ele ficou rígido e sério.
Ele fingiu não me notar e desviou seu olhar, não consegui deixar de encará-lo fundo nos olhos. Aquele brilho estimulante que irradiava felicidade não estava mais presente, para onde teria ido? Dei um passo na sua direção, ele não se moveu. Ergui minha mão, delicadamente e lentamente, até seu rosto, com um olhar apreensivo, cauteloso, movendo seu rosto vagarosamente para que pudesse falar com ele. Vi em seu olhar uma dor somente uma vez antes vista, ou talvez maior. Ele ergueu a mão rapidamente, fazendo sinal para que eu parasse - e eu nem mesmo tinha começado. Em seguida colocou o dedo em frente à boca, em pedido de silêncio. Tentei mais uma vez, afinal, eu estava ali, tão perto, faltava tão pouco. Ele me olhou fixamente nos olhos, pela primeira vez depois de tanto tempo, meu coração começou a acelerar em um ritmo descompassado, era como se ele quisesse sair pela boca, minha respiração começou a ficar alterada. Seu olhar não era gentil, era duro, encontrei outro homem naquele olhar. Insisti em tentar falar e mais uma vez ele impediu. Em seu olhar havia desprezo, certa tristeza, decepção. Eu baixei a cabeça, virei-me e segui não acreditando que estive tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Não podia acreditar que minhas atitudes pudessem ter sido tão fortes a ponto de destruir o laço de amor que nos unia, a ponto de romper toda a relação, a ponto de transformar aquele homem. Virei-me para olhá-lo, mais uma vez, talvez pela última. Uma lágrima correu por meu rosto e eu me fui.
Desci as escadas, não tinha cabeça para esperar pelo elevador, e caminhar ia me ajudar a pensar. Caminhei sem rumo pelo estacionamento e quando notei já estava do lado de fora da faculdade, do outro lado da rua, encarando o vazio. Eu estava em um estado lastimável. Achei mais prudente voltar para a faculdade e sair de carro, não sabia se eu tinha condições, mas algo em minha cabeça apenas dizia - Dane-se! . Subi no carro, e comecei a dirigir sem saber exatamente para onde queria ir. Na realidade, eu só queria ficar longe, de tudo, faculdade, família, emprego, e acima de tudo... . Eu estava quase saindo da cidade, eu podia ver a ponte em minha frente. Eu teria passado rapidamente por ela se um pequeno aglomerado de pessoas não tivesse despertado a minha curiosidade. Estacionei o carro em um lugar que eu não sabia se era permitido, mas onde havia mais carros estacionados. As pessoas em minha frente estavam em torno de uma pessoa não grudadas a ela, porém perto o suficiente para que eu não conseguisse enxergar totalmente o que acontecia.
Fui me aproximando aos poucos, diminuindo a distância que existia entre eu e as pessoas. Eu estava absurdamente inquieta. Percebi que o garoto do qual eu não fazia idéia de quem era não estava escorado na ponte, ele estava do outro lado dela, como se ele fosse pular para o abismo que tinha logo abaixo. Meus pés começaram a se mover mais depressa, meu coração começou a acelerar, eu ainda estava longe, o carro pode ser estacionado longe da ponte apenas. Quando meus olhos ficaram em um padrão aceitável no campo de visão, eu notei aquele rosto extremamente familiar, um pavor começou a se apoderar do meu corpo, comecei a gritar desesperadamente e loucamente.
- O SEGUREM! PELO AMOR DE DEUS, O SEGUREM! – Gritava freneticamente. Algumas pessoas olharam em minha direção, com um olhar confuso, o que aquela gente estúpida estava pensando?! Elas tinham que segurá-lo. Lágrimas começaram a rolar grossas e pesadas demais para que eu pudesse segurá-las. – ! – Gritei ao mesmo tempo em que corria. Dois homens musculosos da onde eu não fazia qualquer idéia da onde surgiram, seguraram-me pela cintura, detendo-me. Quando ouviu seu nome, olhou para o lado, quando seus olhos fixaram-se nos meus, ele pareceu surpreso e ao mesmo tempo confuso. – NÃO FAÇA ISSO! – Eu não podia deixar de gritar. - ME SOLTEM! SEGUREM-NO, NÃO O DEIXEM PULAR!
Meus esforços pareciam inúteis. Os dois trogloditas que me seguravam apenas mandavam eu me acalmar. E então, me dando um último olhar ele pulou. A sensação de presenciar aquilo era como se estivessem me dado um chute bem na boca do estômago. Por um instante eu não pude sentir minhas pernas, tudo começou a ficar distorcido e escuro. Vendo que eu havia me acalmado, ambos os homens me soltaram, eu caí de joelhos, chorando, desesperadamente, como se minha alma tivesse sido arrancada do meu corpo. Todos me olhavam sem entender, uma moça veio até mim e perguntou se eu me sentia bem, “voei” para cima dela, logo senti dois braços fortes me agarrando novamente. Eu estava fora de controle. Após alguns minutos me debatendo, fiquei sem forças, e percebendo isso, eles novamente me soltaram. Caí de joelhos, me deitei no chão sem me importar que estivesse sujo e quente. Eu ainda soluçava. O sol forte acima sobre minha cabeça e o calor que emanava do chão fazia com que eu suasse muito, mas eu não conseguia me importar com aquilo, eu ainda estava em choque. Abracei meus joelhos ainda deitada no chão, fechei os olhos, ainda tentando me acalmar, inutilmente.
Logo uma sombra me cobriu, e eu imaginei que os fortões tivessem voltado para me tirar dali, porém uma mão gelada e molhada passou por meu rosto extremamente quente e suado. Abri os olhos e dei um salto. Certamente o calor e o choque estavam fazendo com que eu tivesse alucinações. estava parado na minha frente, um sorriso exalando em seu rosto, seu cabelo curto e bagunçado pingava água, aliás, todo o seu corpo.
– Oi, !
Ele abriu um sorriso que me deixou sem ar, precisei pensar por um momento para organizar meus pensamentos. Olhei a minha volta, agora outra pessoa estava do outro lado da ponte. A realidade começou a vir à tona, tão rápido que senti minha cabeça girar, minha expressão congelou, e apesar de não ter um espelho na minha frente, eu sabia que era de horror. tentou vir mais junto de mim, mas aquilo não ajudou na minha asfixia. Eu pude sentir as maçãs do meu rosto ficando vermelhas, e um calor que não era o do sol e muito menos o do chão, tomou conta de mim. Que mico, quero morrer, era a única coisa da qual eu conseguia pensar. ficou em silêncio, apenas me observando, ele estava dando espaço para que eu pudesse entender que lugar era aquele. Ao longe algumas pessoas ainda me observavam com um olhar confuso, outras com um olhar curioso e outras com um olhar que dizia que eu devia ser louca.
- Isso aqui... – Eu tentei falar, murmurando, a voz ainda presa na minha garganta.
- Sim. É um lugar onde a gente pula de bungee-jump, ninguém quer tentar suicídio, mesmo que este lugar seja conhecido pelos mais íntimos como “salto da morte”. – Ele deu um sorriso duro.
- Como eu sou idiota. – Disse, ficando novamente vermelha. – Por um momento eu achei... Achei que... – Eu não conseguia terminar.
- Eu sei. Eu pensei em sair e ir lhe explicar, mas eu não tinha mais como sair de lá. Eu já estava equipado e quanto antes eu saltasse, mais cedo eu poderia vir ao seu encontro.
Ficamos em silêncio por um instante, ao não ver nenhuma reação de minha parte, ele pegou minha mão. Meu coração disparou. Ele tinha um poder sobre minhas emoções que eu não sabia como conter e muito menos sabia o porquê. Levantei um tanto a contra gosto, e apenas o segui. Ele me levava para perto da ponte, a pessoa que estava parada do outro lado, havia pulado. Eu sentia muitos olharem cravados nas minhas costas e não tive coragem de olhar, eu olhava para baixo, ainda sentindo meu rosto vermelho. Era uma reação idiota, eu sabia disso, só que era involuntária. falou rapidamente com uma moça, loira com o cabelo preso em um rabo de cavalo, de estatura mediana, meio gordinha, que ficava em frente a uma espécie de barreira, onde dava acesso a todo o pessoal que ficava com os equipamentos, não podia ter certeza se meus olhos me enganavam, mas acho que o vi passando algo para ela. Eu pude notar que algumas pessoas da fila ficaram carrancudas, porém ele apenas me puxava pela mão para além da barreira. Pude notar que estávamos furando a fila.
- Eu já estava indo embora, mas como você está aqui, eu resolvi que a melhor maneira de arrancar essa expressão de pesar no seu rosto é fazendo você experimentar um pouco da sensação. – Ele disse para mim, com um sorriso divertindo dançando em seus lábios.
- Você está louco? – Disse, com a expressão mais bizarra passando por meu rosto.
- Só pela manhã. – Ele me disse, com um sorriso excepcionalmente travesso. Quando notei, já havia muitas pessoas a nossa volta, balançando cordas e equipamentos e dando instruções das quais eu não conseguia acompanhar. Tentei sair dali, mas um homem alto e musculoso apareceu, me barrando. Virei-me para com um olhar aflito. Todos pararam a nossa volta, quando notaram minha hesitação, ele apenas me abraçou forte, contra o seu corpo, ainda molhado, sussurrando no meu ouvido. - Lembra-se da piscina? Vamos novamente fazer isso juntos! – Havia determinação em sua voz e um tom autoritário que não me deixou dúvidas de que eu não tinha escolha. Apenas balancei a cabeça, aquela sensação estranha, do perigo desconhecido novamente, estava no meu peito. Uma excitação tomou conta de mim. Enquanto estávamos sendo presos por cordas e mais cordas e enquanto recebíamos instruções de como deveríamos ficar com as cordas, uma moça de cabelos longos e negros, alta e magra, abriu uma pequena portinhola da qual eu jamais notaria na ponte. - Saltar de bungee-jump vai mudar a sua vida! – Disse ele. Dei um sorriso fraco e foi como se ele pudesse ouvir o ceticismo na minha voz. - Estou falando sério! – Ele continuou. – Você vai descobrir que é a coisa mais difícil e, ao mesmo tempo, a coisa mais fácil que existe. - Meu olhar ficou carregado de ponto de interrogações. Eu não conseguia entender a extensão das suas palavras. Já estávamos do outro lado da portinhola, eu me agarrava a ponte, pavor começava a se apossar de todo o meu corpo e mente. Eu sentia que a qualquer minuto eu começaria a gritar, louca e desesperadamente de novo. Meu senso de sobrevivência começou a dar sinal, era uma reação natural me dizendo para ter medo. Ah, sim, eu comentei que tenho medo de altura? Pois é, eu tenho! Ele puxou meu rosto, prontamente, indo me explicar o que suas palavras queriam dizer. - Difícil porque saltar de bungee-jump é – não minto – assustador. Primeiro, porque o chão está logo ali, o que aumenta a sensação de estar caindo. Segundo, porque você tem que prender a corda nos seus pés, pode até prender na metade do corpo, mas prender nos pés é mais seguro, evitando “trancos” ou um mau jeito no corpo durante a queda, e isso significa que você tem que, literalmente, mergulhar de cabeça no nada. E, terceiro, você faz isso sozinho na maioria das vezes, no nosso caso será um pouco diferente, nós estamos optando por fazer isso juntos. E, ao mesmo tempo, é a coisa mais fácil do mundo, porque você precisa simplesmente saltar. Ou, ainda, não fazer nada – apenas deixar o corpo cair para frente. E a gravidade faz o resto. Simples assim… - Ele falou tão naturalmente aquilo tudo que eu não pude deixar de comentar aquela calma toda.
- Simples assim é o caralho! – Disse alto demais, arrancando gargalhadas não somente dele como de outras pessoas que estavam próximas.
- Fique calma! – Ele dizia, rindo, da minha expressão de pavor. A mulher cujo nome eu desconhecia nos interrompeu...
- Com licença, enquanto vocês decidem se pulam ou não, que tal escolherem já o modo como querem cair? – Ela disse, me deixando confusa.
- Como assim, como eu quero cair? – Disse atônita.
Ela riu da minha expressão, e me explicou calmamente.
– Existem quatro opções: a primeira é você cair na água, mergulhando até a cintura. A segunda é cair mergulhando apenas a cabeça. A terceira é molhar as mãos, apenas. E a quarta é não se molhar. Precisamos saber disso agora, para poder ajustar a corda.
me olhou, um sorriso diabólico cobriu seu lindo rosto, eu sabia qual a opção ele queria, obviamente, a pior. Aquela sensação de perigo novamente tomando conta de mim, eu me sentia quase a mulher maravilha, só que em uma versão menos gostosa e que não sabia voar. Sorri para ele, mostrando que estava submissa demais para não acatar seus desejos. Ele pareceu gostar daquilo mais do que devia.
– Ficaremos com a primeira. – A voz dele soou alto.
A mulher deu um sorriso malicioso. E sabia o que ela devia estar pensando, estava mais claro do que água que era a minha primeira vez ali, a pequena cena que eu tinha feito mais cedo mostrava isso claramente. Após ajustar a corda, ela se virou para nos e perguntou:
- Estão prontos?
disse que sim, só que eu, por mais que quisesse, não conseguia me soltar da ponte. Eu estava novamente paralisada. Sem ar, o medo estava sendo mais forte. puxou meu rosto lentamente para junto do seu, tão perto que nossas bocas quase se tocavam. Segurou em minha mão, em um pedido mudo para eu soltar, eu não consegui. Achei que ele iria ficar impaciente, me xingar, mas seus olhos eram gentis e calmos. Ele sorriu. Passou a mão pelo meu rosto, tentava me acalmar, fazer com que eu me focasse apenas nele, como na piscina.
- Você gosta de dançar? – Ele perguntou, e eu fiquei perdida.
- Gosto... – Disse, surpresa. – Por quê?
- Vamos imaginar uma pequena situação. Apenas ouça-me, feche os olhos, e finja que nada existe a sua volta. Estamos em uma pequena sala, a música que toca não é muito agitada, mas ao mesmo tempo não é calma. A música envolve teus pensamentos, a melodia leva teu corpo... Perde-se o controle, é como se a sua alma saísse de você e tomasse um novo caminho, mas por instantes parece que teu corpo está junto, e flutua... Teus pés saem do chão, acredite, por um segundo é como se você pudesse voar. – Aquelas palavras estavam me deixando solta, senti minha mão amolecer no parapeito da ponte, meu corpo movia-se sem sair do chão lentamente junto ao dele, ele prosseguia. - A música te guia, te conduz no caminho da alegria, da felicidade, do sonho.
Eu já não conseguia pensar em nada, apenas em como seria tão bom viver tão livre quanto à música me permite estar; E meus pensamentos desprendem-se de mim, voam ao infinito e quando retornam estão ainda mais malucos, depressivos, alegres e insanos. Não havia música alguma, mas na minha mente eu podia ouvi-la, a música me transportava para aquele olhar, mesmo que somente em pensamento. Minha mão se soltou, lentamente, e nos caímos. E é, realmente, a coisa mais fácil do mundo. É uma sensação estranha. E deliciosa. Primeiro seu estômago vai até sua boca. Não me lembro de um dia em que gritei tão alto. Nós mergulhamos fundo na água, não tinha modos possíveis e imagináveis de descrever a sensação, ela é incrivelmente única. Depois, quando a corda estica totalmente e volta a te puxar para cima, ele volta para a barriga, e depois torna a voltar para a cabeça quando você cai de novo. Ok, eu concordo que não foi uma das descrições mais convincentes. Mas, assim como a teoria do “o mais difícil é o mais fácil”, às vezes o mais estranho e assustador é, também, o mais surpreendente.
Quando eu chegasse em casa, eu poderia dizer que fiz uma coisa nova no dia. Hoje, pela primeira vez na minha vida, eu pulei de Bungee Jump. Nossa! Não tenho palavras para explicar a sensação que é aquele negócio. É pânico, adrenalina, pavor, sentimento de liberdade, felicidade... Resumindo, uma loucura. Tem horas que você acha que o seu coração não vai aguentar. Quem viveu, sabe. Quem não sabe, nunca entenderá por meio de explicação. A equipe que fica no topo da ponte eleva um pouco a corda para que você não fique submerso na água. Um barquinho vem te buscar quando você já parou de balançar. E, do barquinho, você é encaminhado para a beira do rio, onde ficam todos os ônibus dos turistas de variados lugares, que vem, muitas vezes, apenas para saltar. Eu estava encharcada e realizada. A adrenalina ainda pulsava em minhas veias, tão rápido que eu senti que poderia correr por léguas e não cansar.
me olhava com satisfação. Havia um brilho diferente no seu olhar, um algo a mais que eu não conseguia identificar. Um súbito desejo de pular em seu colo, beijar seus lábios macios e arranhar toda a extensão do seu peito até a barriga estava tomando conta de mim. Porém, a parte de mim que lutava para ser, nem que fosse por um momento, sã e centrada, reprimiu esse desejo. Não sei se eu podia, mas acabei indo no ônibus junto com ele e alguns turistas, e, desde que saí do barquinho até todo o passeio de volta no ônibus, eu e os outros “jumpers” do grupo só estávamos quietos, com um sorriso de orelha a orelha, com endorfina correndo solta nas veias, absortos demais em nossos próprios pensamentos para poder dizer qualquer coisa. Foi só quando eu estava na estação rodoviária, pensando em como faria para ir para casa, que lembrei que havia deixado passar um mero detalhe; o carro.




Capítulo 9

Eu fitava o vazio, sentada em um dos bancos da estação, pensando em uma possível solução. Não havia. Pensei em voltar para a ponte, mas fui logo informada que quando os saltos acabassem todos os turistas iriam embora, o carro seria rebocado. Mas rebocado para onde, simplesmente ninguém sabia me dizer. Aquilo estava me deprimindo. Ir para o trabalho estava fora de questão, o que eu diria para o meu chefe, eu ainda não sabia. Eu estava encharcada, sem carro e atrasada para o serviço. Meu celular tocava insistentemente, mas eu estava sem vontade para atender, deixei tocar sem nem sequer me dar ao trabalho de abrir a pequena bolsinha em formato de urso - onde o carregava - e olhar quem era. Eu já sabia da onde era; do trabalho.
A idéia de ir para casa me trocar para voltar ao trabalho de ônibus, não me agradou. Então, cheguei à conclusão de que já que eu já estava ferrada mesmo, eu podia muito bem fazer o serviço completo. estava em um banco, só um pouco mais adiante, deitado, provavelmente esperando que eu me decidisse. Levantei, e segui até o seu lado, já passava um pouco da hora do almoço e eu estava faminta. Passei uma de minhas pernas por cima do banco, sentando-me sobre ele, arrancando alguns olhares desaprovadores a nossa volta. Suas mãos subiram pelas minhas coxas até minha cintura, me causando arrepios.
– Quer comer algo? – Falei com a voz abafada. Será que somente eu havia percebido o duplo sentido naquelas palavras? Seu sorriso, em resposta, era resplandecente.
– Claro. - Ele sentou-se, ainda comigo sobre seu colo, segurando-me pelas costas, a centímetros de minha boca; era como se outra descarga elétrica passasse por nossos corpos úmidos, trazendo novamente aquele desejo insano de tê-lo apenas para mim. Tentei me lembrar de que estávamos em um lugar público e, um tanto a contra gosto, saí do seu colo.

Caminhamos até o final da estação, onde encontramos - sem demora nenhuma – os bares. Senti meu estômago revirar de fome e entrei no primeiro bar que vi, sem me importar que seu aspecto não fosse dos mais convidativos. As mesas rústicas tinham uma aparência suja e a garçonete de longos cabelos negros e nariz pontudo, parecia um chafariz, do modo pelo qual transpirava. Sobre os balcões, do outro lado, notava-se a cozinha, modesta e com uma chapa que não parecia ser muito usada, porem um tanto suja. Aquilo, confesso, acabaria com a fome de qualquer pessoa. Eu estava faminta de mais para me importar com o que eu via, entrei e sentei na primeira mesinha de canto que vi na minha frente, esperando que a garçonete chegasse com o cardápio. Obviamente ela não veio. Ela me olhava, entediada, do outro lado do balcão e não se abalou quando comecei a encará-la descaradamente para vir nos atender. Por fim, levantou-se e foi em direção ao balcão, para pegar o cardápio, não havia nenhum a vista.
– O cardápio? – Ouvi sua voz grossa soar alto. A garçonete o analisou demoradamente, a roupa molhada, o cabelo bagunçado, o corpo atlético, moreno e os olhos que a observavam cuidadosamente, enquanto ela mascava um chiclete com a boca aberta, como se aquilo fosse altamente sexy. Simplesmente deplorável. Ela ergueu a mão logo acima de um pequeno armário de canto, sem desgrudar os olhos de nem um centímetro do corpo dele, como se desejasse arrancar toda a sua roupa e pegá-lo em cima do balcão mesmo. Aquilo me incomodou secretamente, e eu desviei meus olhos para não pensar. Logo, ele estava de volta, com dois papelões onde havia escrito menu. Aquilo só podia ser piada. Olhei o cardápio demoradamente, pensando no que gostaria de comer, quando me lembrei de uma coisa óbvia, eu tinha muito dinheiro em minha carteira, que estava localizada dentro de minha bolsa, que estava segura dentro do meu confortável carro. Dentro dos meus bolsos, havia exatos cinco reais, o que se come com isso?! Eu tinha certeza de que não era muita coisa. - Não vai pedir? – perguntou, após notar que eu não me manifestei. Não notei quando a garçonete se aproximou. A garçonete robusta estava parada ao nosso lado, com olhos de gato, apenas observando e esperando o nosso pedido. Olhei para ele, aflita, sem saber o que dizer ou como dizer que eu não tinha dinheiro. - Acho que vamos esperar mais um pouco. – disse à garçonete, cordialmente.
- Como quiser. – Ela respondeu com a voz desinteressada, enquanto se afastava com raiva por termos feito com que ela saísse da cadeira desnecessariamente.
- Por que não quis pedir? – me perguntou.
- Eu não estou mais com fome. – Ao dizer isso, meus olhos se fixaram na mesa, denunciando a mentira.
- Até a nem dez minutos atrás você estava completamente faminta, agora a sua fome misteriosamente passou, por que não me conta a verdade? – Ele disse, mas não pude desgrudar meus olhos da mesa para olhar seu rosto.
- Meu dinheiro ficou no carro... – Senti um calor involuntário subindo por meu rosto. – Então acho que terei que segurar minha fome apenas para mim, até chegar a minha casa.
- , olha para mim... – disse, e quando ergui meus olhos, ainda com pouca coragem, vi que seus olhos eram gentis e que um sorriso educado e brincalhão cobria seus lábios. Sinto que às vezes deveríamos nos calar e deixar que o silêncio falasse, pois há sentimentos que a linguagem não sabe traduzir e há emoções que as palavras não sabem explicar. Era assim que eu me sentia toda vez que eu precisava ficar perto dele. Ele me trazia uma paz que vinha sempre acompanhada de uma excitação que eu não sabia explicar ou se conseguiria explicar. Tentei achar o sentido em sua expressão para saber o que eu deveria falar – ou ao menos ter uma pista disto –, mas nada me ocorreu. Por fim, decidi que continuar em silêncio era o mais eficaz naquele momento. - Se o que lhe preocupa é o dinheiro, eu tenho o bastante para nós dois. – Ele falou, por fim, erguendo a mão rapidamente quando eu fiz menção de retrucar seus planos. – E você pode me pagar depois, se isto lhe fizer mais feliz, mesmo eu achando que é totalmente desnecessário.
Um sorriso tímido apareceu em meus lábios, e um calor estranho cobriu minhas bochechas. Sua mão se ergueu novamente, chamando a garçonete, ela parecia atenta o suficiente em tudo o que fazíamos, pois ela não demorou em chegar. Pedi licença e fui ao banheiro enquanto ele pedia o que quer que fosse que estivesse no cardápio. O banheiro era terrível, havia uma única pia suja, ao lado de um vaso branco encardido, que dava vontade de vomitar só de olhar. O espelho velho tinha pequenas ranhuras e pontos desgastados. Fazia calor, percebi pelo brilho que tinha na minha testa que eu estava suada e com uma aparência horrível. Olhei em volta, procurando papel; ri de mim mesma esperando isso. Tomei coragem e abri a torneira de aparência horrível. Lavei meu rosto, o choque com a água gelada me causou uma sensação de prazer estranha. Eu sorri. Por fim, saí do banheiro, e voltei à mesa.
tinha pedido dois sanduiches simples e Coca, algo que seria realmente apenas para refrear o nosso estômago até que tivéssemos tempo de comer algo descente.
– Obrigada. – Disse, por fim, com a voz composta.
Bebi toda a Coca, surpresa por estar com tanta sede, que até então eu não sabia que estava. Servi-me mais e dei uma mordida no sanduíche. Estava horrível. Mas eu estava com muita fome para me importar com isso. Só o que eu podia esperar era que ele não me fizesse passar mal. Ao acabar de comer, ele pagou pelo lanche e saímos dali, feliz por me livrar de um lugar daqueles. O calor estava insuportável, e tudo que eu queria era um pouco mais de água fria sobre cada centímetro do meu corpo.
- Quer ir andando ou prefere pegar um táxi? – Ouvi perguntar. Eu não tinha dinheiro e não queria que ele gastasse mais ainda comigo.
- Prefiro andar. – Logo após dizer as palavras, me arrependi delas, mas eu não iria voltar atrás. O sol impiedoso me deixou inquieta e insuportavelmente quente.

Andamos por algumas quadras, chegando a um bairro mais “rico”, se assim posso dizer, com casas imensas e piscinas enormes e altamente convidativas. Uma em especial me chamou atenção. O muro era baixo e não tinha cerca elétrica, a parte da frente da casa tinha um portão em grades , com um vasto quintal de grama verde. A casa era na esquina, por cima do muro baixo pude notar uma piscina exuberante, com a água azul e cristalina, limpa e bem tratada. O calor fez minha cabeça girar, minha respiração ficou alterada, minhas pernas tremiam, e um desejo louco tomou posse de todo meu corpo. As portas da garagem se abriram, e um carro grande e preto saiu para a estrada. Seguiu pelo caminho da esquerda e não parou até desaparecer.
Antes que eu pudesse me concentrar para saber o que eu estava prestes a fazer, me vi tirando os sapatos, e pegando na mão de , que me olhou assustado após sair de qualquer linha de pensamento que estivesse tendo no momento. Ele apenas me seguiu, sem contestar, tentando entender o que eu queria. - Me ergue! – Falei, virando-me para ele com olhos brilhantes e excitados.
- O que você... – Eu coloquei um dedo meu em sua boca, pedindo para que não falasse. Ele não questionou, apenas me ajudou a subir. Minha blusa branca de alça e meu short jeans me ajudaram a ser flexível o suficiente.
Antes de deixar meu corpo cair para o outro lado, levei minha cabeça em direção de e o chamei.
– E aí, vai vir ou ficar me olhando com essa cara de bobo? Nunca pensei que você fosse ser covarde... – Lhe lancei um sorriso travesso, sabendo que aquilo faria ele se irritar e vir até meu encontro para me provar que não era covarde.
- Vou te mostrar o covarde! – Ele me disse com a voz entrecortada. Deu um pulo razoavelmente alto, e alcançou a parte de cima do muro sem dificuldade, ele era bem alto. Deixei meu corpo pender para o outro lado, satisfeita agora que ele me seguia. Caí na grama fofa, sentindo um leve impacto quando caí. Dei risada de mim mesma. pulou para o outro lado sem problemas, caiu de pé, meio agachado. Segurou-se no muro quando sentiu o impacto do chão contra seus pés. Novamente, sem pensar, corri em direção da piscina, tirei meu short, e como estava sem sutiã, achei melhor não retirar a blusa. De calcinha e blusa branca, que provavelmente ficaria transparente na água, me joguei. Logo atrás de mim, se jogou. Aquela água fria em contato com o meu corpo extremamente quente fez minha cabeça girar novamente. - Já pensou se os vizinhos nos veem aqui, sua maluca? – disse para mim, mas na sua voz não tinha medo e sim excitação.
- Talvez chamem a polícia! – Gargalhei, enquanto dizia isso.
- Você perdeu totalmente a noção. – Ele riu alto, enquanto chegava mais perto de mim. Meu coração disparou.
- Devem ser as minhas novas companhias... – Falei com um sorriso perverso.
- Sua mãe nunca lhe falou para não andar com más companhias? – Ele disse e um sorriso malicioso dançou em seus lábios. Ele continuava chegando muito perto, meu coração palpitou de hiperatividade.
- Dizer todas dizem, mas sabe como é, os filhos nunca dão ouvidos. Talvez eu deva começar a evitá-los a partir de agora... – Quando ele ficou a centímetros de mim, meus braços foram para o seu pescoço e as minhas pernas envolveram sua cintura. Seus braços seguraram minha cintura e minha respiração começou a ficar alterada. Tão perto dele, era constrangedor.
- Se quiser, eu posso te mostrar quem são seus amigos certos. – Ele dizia isso tão perto de minha boca que era quase impossível conseguir falar algo coerente.
- É mesmo? Então me diga quem é... – Falei, com minha boca indo de encontro à dele. Começou a ficar quente de novo, as mãos dele desceram por meu corpo até encontrar minha bunda, ele a apertou com força e não pude deixar de revirar meus olhos. Eu podia sentir a sua respiração quente vindo rápida em meu rosto e eu sabia que ele podia sentir o mesmo. Quando estávamos prestes a nos beijar, ouvimos um barulho, imediatamente ficamos paralisados. - Que barulho foi esse? – Eu disse, atordoada.
- Não sei, será que alguém nos viu aqui? – Ele disse.
- Sei lá, não fiquei prestando muito atenção a nossa volta nos últimos minutos. – Disse, confusa.
- Prenda a respiração. – Ele me avisou quando notou que tinha movimento na casa. Ele me puxou para baixo d’água e me arrastou para a beirada.
- Como vamos sair daqui? – Sussurrei, alarmada.
- Calma, daremos um jeito. – Ele olhava discretamente para cima, receoso que alguém pudesse estar olhando no mesmo momento.
- Nossas roupas... – Eu lembrei, horrorizada.
- Não tem ninguém na janela, eu acho que o dono da casa chegou, precisamos sair agora e podemos nos esconder naqueles arbustos enquanto pensamos em um modo de sair sem sermos vistos.
- Ok, vamos um de cada vez. – Fiz sinal para que ele fosse à frente. - Não, você vai primeiro, eu te ergo e você corre em direção as roupas, pega e se esconde. Enquanto isso eu espero. – Ele planejou tudo de um jeito que eu percebi que não teria discussão.
- Tem certeza? E se não der certo? – Não pude deixar de perguntar.
- Aí, provavelmente, seremos presos. – Seu olhar era sério, seu sorriso de deboche.
- Como você pode brincar em uma hora dessas... – Revirei meus olhos em sinal de desaprovação.
- Qualquer coisa, eu digo que foi a má companhia de uma garota sensual, de blusa branca transparente. – Ele disse, sorrindo maliciosamente, enquanto olhava para minha blusa transparente, um olhar de cobiça.
- Quando me ver, frágil e indefesa, duvido que acreditem na versão de um taradinho que só gosta de tirar a virtude de menininhas como eu. – Meu olhar tentava ser inocente, o canto da minha boca se retorceu levemente em um sorriso, minhas mãos começaram a descer por seu peito nu, sem controle. Se controle, pensava para mim mesma. Esse não era o momento.
- Eu adoraria ficar aqui e provar o quanto errada você está... – Seus olhos desceram novamente para minha blusa. – Mas acho que precisamos ser rápidos.
- Tudo bem, vamos fazer logo isso. – Eu disse, sem vontade. Ele olhou mais uma vez para cima, se certificando, não havia movimento. Pegou minha cintura com força e me elevou. Sentou-me na borda da piscina, sem grandes esforços, pelo que pareceu. Girei minhas pernas rapidamente e segui correndo em direção das nossas roupas, abaixei-me de costas para ele, ouvi algo desconexo ao longe, percebendo ser dele. Peguei as roupas e me escondi em alguns arbustos. Logo após, vi novamente sua cabeça subir para ver se tinha alguém, vendo que estava livre o caminho ele saiu da piscina rapidamente, só de cueca boxer preta. Imediatamente minha respiração ficou descompassada. - Pega as suas roupas... – Falei, alcançando suas roupas sem vontade alguma que ele colocasse elas, a visão dele estava mais do que maravilhosa. – O que você disse quando saí? Eu não pude ouvir direito...
- Você ouviu? Credo, falei mais alto do que eu imaginei. – Ele falou, pela primeira vez, ficando corado. Insisti.
- Ouvi, mas você ainda não me disse o que falou! – Pressionei.
- Deixa quieto. Que tal colocarmos a roupa e sairmos logo daqui, sim? – Ele tentou desviar o assunto, mas se ele esperava que fosse ser tão fácil, ele realmente não me conhecia.
- Claro, mas antes me diz o que você disse... – Olhei para ele, determinadamente.
- Por que não pulamos essa? – Ele falou, esperançoso. Coitado!
- Que tal parar de me enrolar e dizer logo? – Falei, com um sorriso debochado.
- Você é sempre tão chata e insistente assim ou é só quando você quer constranger as pessoas? – Ele disse, tentando me distrair novamente.
- Em geral sim, mas você ainda não me disse... Não é mais fácil falar logo do que ficar adiando o que você sabe que não vou deixar passar? – Falei, lhe lançando outro olhar decidido.
- Você é terrível! – Ele falou com a voz afiada.
- Mais do que você possa imaginar! – Falei, acidamente. Por fim ele se rendeu.
- Tudo bem, eu digo, mas não me venha se fazer de ofendida, quem insistiu em saber foi você mesmo! – Ele falou, mas hesitou novamente.
- Mas quanta enrolação, diz logo, homem! – Falei, irritada.
- Você está de fio dental, branca, e fez questão de se abaixar virada para mim. Digamos que foi uma visão... Muito, muito boa. Satisfeita? – Ele dizia isso sem olhar meus olhos. Com vergonha, novamente.
Eu deveria ter ficado envergonhada, mas eu não pude, pelo contrário, aquilo fez o sangue ferver por baixo da minha pele. - Muito.
Ouvimos a porta que dava para os fundos abrir, revelando o dono da casa, provavelmente. Quase enfartei quando vi quem era o dono da casa, precisei de um minuto para me recompor. , sem deixar de notar, me perguntou:
– O que houve?
- Você não reconhece? – Falei, incrédula.
- Eu deveria? – Ele parecia confuso.
- É o nosso professor da Faculdade, aula de sexta, como pode não lembrar? – Eu estava atônita.
- O Hantins? – Ele parecia mais surpreso do que antes.
- É claro, como você pode esquecer? – Respondi alto demais, e isto quase denunciou a nossa localização. Agora mais do que nunca precisávamos ficar escondidos. Porque, meu deus, porque ele precisava ir se sentar ali justo nesse momento. Jeff veio até perto da piscina, olhou os arbustos em volta, por fim balançou a cabeça, como se quisesse tirar qualquer que fosse pensamento que tinha na cabeça, como se fosse ridículo ou impossível. Suspirei aliviada. Alguma coisa chamou sua atenção dentro da casa, e ele foi em direção à ela. Decidi que aquela era a hora, puxei pelo braço e disse. – Vamos agora!

Ele fez pesinho para que eu subisse, tentei ser rápida e eficiente enquanto subia e me atirava para o outro lado do muro. Logo após, me seguiu. O sol já não estava mais tão quente, era mais baixo, perto do fim da tarde. Ambos caímos no chão duro, machucou um pouco a queda, mas eu estava tão feliz que não me importei. Provavelmente deixaria um hematoma. Corremos pela rua, rindo tão alto que não sabia se nossos pulmões aguentariam. Eu me sentia novamente viva, sentia meu sangue pulsar tão rápido por minhas veias e meu coração bater em um ritmo acelerado que era impossível não sentir uma vontade enorme de gritar, e foi o que eu fiz.
- EUUUUU ESTOOOOOOOOU VIIIIIIIIIIIIIIIIIIVA! – Comecei a gargalhar, erguendo minhas mãos para cima, enquanto corríamos pela rua, algumas pessoas colocaram a cabeça para fora da janela, para ver o que estava acontecendo.
- ! – Ouvi me chamar de longe. Parei onde estava, estagnada, enquanto ele se aproximava correndo. – Meu carro está logo aqui...
- Seu carro? – Falei ofegante, o olhar confuso.
- Sim, meu carro. – Ele disse.
- Mas antes de sairmos de lá, você queria pegar um táxi, pensei que estivesse sem carro. – Falei, a voz confusa, ainda ofegando.
- Nós dois íamos pegar um táxi até aqui, não ia deixar meu carro aqui. – Ele falou, a voz composta e óbvia. Ele pegou meu braço, e me guiou para o lugar do carro, logo paramos ao lado de um Maserati Quattroporte preto, monumental.
– Uau! – Não pude dizer mais nada. Ele deu um sorriso tímido para mim, e entrou no carro, logo após eu o segui.
- Para onde? – Ele perguntou.
- Bom, eu não posso chegar em casa assim, minha amiga ia fazer muitas perguntas e eu ia ter que explicar muita coisa, se você não se importasse, eu podia ir para sua casa me secar... Sem falar que ainda preciso pegar meu carro. – Ao me lembrar do carro, um lampejo triste passou por meu rosto. Eu ainda não sabia o que fazer.
- Vamos recuperar seu carro, ok? – se inclinou para mim, colocando delicadamente sua mão em meu rosto, um olhar gentil e terno cobria seu rosto.

Apenas assenti com a cabeça. Ele ligou o carro e partiu. Não demorou muito estávamos em sua casa, enorme, tinha dois pisos e uma varanda aconchegante. Ela era verde, com portões e janelas brancas. Ele abriu o portão e, logo após, a porta, pediu para que eu ficasse a vontade e me indicou a escada lateral, que levava à parte de cima da casa, onde eu encontraria o banheiro e poderia me secar. A sala parecia ser muito cômoda, tinha uma gigantesca televisão de plasma com um sofá de couro preto, com dois “pufes” ao lado. Em cima das estantes, fotos, muitas fotos, dele, dos pais, amigos, família em geral, em praias e lugares bonitos, mas uma em geral me chamou a atenção. Aquele rostinho não me era desconhecido, a garota agarrada em seu pescoço, bonita, magra, cabelos negros até os ombros, ambos com um sorriso largo em seu rosto, imediatamente o dia que eu o vi saindo com ela do elevador inundou minha memória; a namoradinha.
Senti uma magoa secreta se abrir em meu peito, baixei meus olhos para que ele não notasse a tristeza ou o rancor neles. Decidi subir logo as escadas e tomar um bom banho antes que eu ficasse doente. Pelo caminho, mais fotos, nas paredes, deles. Aquilo levou todo o meu bom humor, a lembrança da piscina, ele quase me beijando, ele me tocando, ele era um sem vergonha. Com namorada e queria ficar comigo, não fazia sentido, aquilo estava estragando minha visão de homem perfeito. Fiquei imediatamente carrancuda por meu conto de fadas ter chegado ao fim tão rápido. Meu príncipe tinha caído do cavalo e o seu cavalo não era branco, e sim preto. Tudo errado!
- , por aqui... – Ele me indicou o banheiro e quando precisei erguer meus olhos para olhar para onde ele apontava, e consequentemente para seu rosto, sua expressão ficou confusa, vendo minha cara emburrada.
- Obrigada! – Eu disse, acidamente. Ele novamente não entendeu.
- Aconteceu algo errado? – Ele perguntou, cauteloso.
- Nada! – Falei, novamente carrancuda, e fechei a porta. Assim que tranquei a porta, desejei poder voltar atrás. O meu comportamento era inadmissível, nem eu mesma conseguia entender.
O banheiro era grande, tinha uma pia enorme, com um espelho gigante redondo. Ao lado o vaso branco e discreto, o box era amplo e as portas eram vidraças transparentes. Tirei minha roupa, me olhei no espelho, eu estava um caco. Meu cabelo parecia ter vida própria, tal qual era seu estado. Entrei no box, abri o chuveiro e deixei que a água quente relaxasse meu corpo. Não quis pensar em nada enquanto estava ali, aquela água estava me tranquilizando e eu sabia que se eu pensasse, teria que recomeçar todo o processo. Usei um pouco do shampoo e condicionador, sem saber se podia, mas já que eu estava ali, não tinha como não usar, meu cabelo precisava ser lavado. Por fim, não podia mais adiar, desliguei o chuveiro e peguei uma toalha qualquer, que eu não sabia de quem era.
Olhei-me novamente no espelho, achei uma escova de cabelo e me penteei. Abri a porta, olhei para os lados, mas não encontrei por canto algum. O achei dentro de um quarto que devia ser o seu, com uma cama box altamente convidativa, um roupeiro de casal preto e branco enorme, uma televisão com DVD sob uma escrivaninha. Uma poltrona ao lado. Ele estava na varanda, com uma visão linda do luar. O tempo passou tão rápido que não notei quando anoiteceu. Meus pés me guiaram até ele, em frenesi. Quando sentiu minha presença ele se virou, me viu apenas com o cabelo molhado e a toalha enrolada, seus olhos desceram por todo meu corpo, me analisando cuidadosamente, seu olhar de desejo era inconfundível. Lembrei-me das fotos e minha expressão ficou dura, ele pareceu confuso novamente.
- Eu queria saber se você tem alguma roupa para me emprestar? Pode ser qualquer uma mesmo, é só para eu poder ir para casa, já que as minhas estão totalmente molhadas. – Minha voz saiu mais cortante do que eu queria. Ele ficou confuso, mas por fim me indicou o caminho.
- Tudo bem, por aqui. – Ele me disse, e quando eu me virei para sair, eu tropecei no tapete – tapada – e quando estava prestes a cair, suas mãos envolveram meu corpo, a toalha se abriu e caiu, ficando presa na parte onde suas mãos seguravam.
- Meu Deus! – Arfei, mas seus olhos não desgrudaram dos meus, seu rosto começou a se aproximar, suas mãos se apertaram em minha cintura, um desejo absurdo começou a crescer em meu peito e eu já não conseguia me importar se ele tinha uma namorada ou não, a única coisa que eu sabia era que o queria.
Minha respiração ficou descontrolada, era embaraçoso, mas eu não conseguia dar a devida importância. Não existia nada no mundo além de nós dois, no quarto dele. Ele hesitou, estava sem camisa, seu corpo bem definido, podia sentir cada quadradinho de sua barriga contra meu corpo. Eu o sentia quente, muito quente, como se sua pele estivesse fervendo. Tão próxima de seu corpo, senti o volume em suas calças – e que volume – subir. Uma de suas mãos começou a traçar o caminho de minha cintura até meu pescoço, minha respiração indo e vindo muito rápido. Aquilo não podia ser o paraíso, com certeza não, pois se fosse, seriamos mandados de volta para o inferno. Seus olhos eram famintos, o desejo puro encravado neles mostrava que nada no mundo podia detê-lo naquele momento, exceto...
- O que está acontecendo aqui? – Ouvi uma voz feminina falar da porta. Instintivamente, minhas mãos foram para meu corpo, e enrolou a toalha em torno de mim.
- , não é o que você está pensando! – disse, erguendo as mãos para o ar como se quisesse parar o transito. Fiquei corada.
- Ih, pelo jeito eu interrompi algo. – Ela dizia, se divertindo. Eu não conseguia entender. Olhei seu rosto e vi de quem se tratava. Era a mesma garota das fotos, mas aquela não era a reação que eu esperava nesse momento.
- Desculpe! – Eu disse por fim, minha voz, porém, saiu cortada.
- Não vai me apresentar sua amiga, ? – Ela dizia, me analisando. Não sabia onde enfiar minha cara.
- , esta é a ! – Ele disse, evidentemente envergonhado. Ele não fez menção de dizer mais nada, em choque pensei, assim como eu, então ela prosseguiu.
- Então você é a famosa ! – Ela disse com o olhar divertido.
Epa.
- Famosa? – Falei com a voz abafada. Confusa.
– Já que você não é educado o suficiente, deixa que eu mesma me apresente! – Ela disse. Seria agora que eu saberia tudo, era por isso que ele hesitou, eu saberia que ela era a namorada dele e ele não sabia o que dizer porque ela nos pegou em um estado lastimável. E o que ela quis dizer com “famosa”? Ela era louca, não havia outra explicação para sua reação, talvez ela pulasse em meu pescoço logo após se apresentar e era por isso que ele estava quieto, ele já estava atento, esperando para o momento de detê-la. Ou talvez eu seja a louca que fica imaginando histórias absurdas. Quando ela falou, seu tom era alto e claro: - Sou , irmã desse chato, prazer!
Por essa eu não esperava! Irmã! Minha cabeça começou a girar, o sorriso dela, agora, era largo, provavelmente, se deliciando da minha expressão horrorizada. Novamente, a minha vida tinha dado uma guinada tão rápida que eu não podia acompanhar.


Capítulo 10

- Irmã? – Arfei.
- Sim, foi o que eu disse... – Ela repetia cada palavra com cuidado, como se estivesse lidando com uma pessoa com problemas mentais.
- Acho que isso é de mais para a minha cabeça. – Eu me sentia tonta. , me olhava, rindo da minha reação exagerada.
- O que você esperava que eu fosse? – Ela me perguntou, um olhar debochado me fitando.
- É vergonhoso demais. – Falei, balançando minha cabeça negativamente.
- Ok, eu acho que podemos ir... – falou pela primeira vez. Eu havia me esquecido de sua presença por um segundo.
- E onde é que vocês vão? – Ela perguntou, curiosa.
- Eu preciso me vestir. – Falei, corando.
- Hum... Tem razão. Acho que tenho algumas roupas que vão servir. – Ela falou, e olhou para seu irmão rapidamente, um olhar cheio de significados.
- Obrigada.
- Não precisa agradecer, afinal de contas, não queremos que nenhum acidente aconteça mais, não é mesmo? – Seu olhar era malicioso quando encarou seu irmão.
- Você não precisa ficar lembrando-se do pequeno incidente a toda hora, ! – Sua voz era desaprovadora, mas seus olhos eram brincalhões, nenhum arrependimento existia ali.
- Venha, , eu vou lhe dar roupas, antes que algum tarado te pegue! – Ela gargalhava, olhando seu irmão novamente. O olhar de sob meu corpo enrolado na toalha me deixou com vergonha. Meu coração disparou, minha respiração começou a ficar desigual.
- Não demorem!
- Vê se não enche! – A ouvi gargalhar. Saímos do quarto e seguimos até o final de um corredor. Entramos em um quarto que mais parecia o da Penélope, era simplesmente mágico. Tinha uma cama box imensa, com um edredom com símbolos chineses, rosa, com um roupeiro de porta de correr branco. Vários pufes em volta de um grosso tapete rosa, a parede sul era totalmente envidraçada, dando para uma modesta sacada, como a do quarto de seu irmão. Tinha uma cortina rosa, bordada em branco, que cobria toda a extensão da parede. As paredes eram em um tom de vinho e tinha um adesivo de uma arvore branca, com seus galhos longos e flores. Uma escrivaninha modesta, branca, com um computador e uma televisão de LCD tela plana, preta. Um convidativo sofá de couro preto no canto. - Fica a vontade, vou ver algo confortável para você vestir.
- Obrigada. – Disse, sentando no sofá. Eu não conseguia parar de olhar tudo a minha volta.
- Então, da onde você conhece o ?
- Ele é meu colega em um dia da semana, na faculdade.
- Seu colega em um dia da semana e você já está no quarto dele, seminua?! – Ela gargalhou e eu corei.
- É uma longa história... – Falei, sem graça.
- Que um dia, com toda certeza, eu ficarei sabendo! - Não respondi. Estava muito sem graça com a sua forma despreocupada de falar. Ela era tão gentil, tão acolhedora. Não consegui deixar de ficar sem graça por ter pensado que eles eram namorados, e, ainda por cima, em ter pensado que mesmo que fossem namorados, que ele teria traído ela comigo se não fosse ela chegar no exato momento. Eu precisava tirar ele da cabeça, aquilo não era saudável. Ela mesma tinha dito que mal nos conhecemos e olha tudo que aconteceu. Eu no quarto dele, só com uma toalha, que havia caído, me deixando completamente exposta. Eu era louca! Eu sabia disso. - Você gosta? – Ela se virou para mim, perguntando, me arrancando da minha linha de pensamentos.
- É lindo! – E realmente era. Um vestido primaveril, preto, totalmente bordado em flores rosa, era tomara que caia, justo na parte de cima e solto na parte de baixo. O vestido era lindo. De uma beleza delicada.
- Que bom que gostou. Experimenta... – Ela me alcançou o vestido, me puxando pela mão. Entrei no seu closet, um espelho enorme, em volta de várias roupas, uma mais linda que a outra. Eu nunca tinha conhecido alguém com tanto glamour. Claro que as garotas da faculdade são mesmo chiques e refinadas, mas ela... Não era desse mundo, ela encantava, era graciosa. Uma pontinha de inveja cresceu no meu peito. Se ela imaginasse tudo que já se passou comigo e seu irmão, como aquilo tudo tinha mudado minha vida. Tudo aconteceu rápido e repentino, sair de casa, arrombar um andar da faculdade, nadar na piscina de uma casa desconhecida, quase nua no quarto do seu irmão, ou seria nua? - Pode ficar a vontade para se vestir, eu vou procurar meu celular. Estou esperando uma ligação para uma festinha, hoje a noite promete! – Ela falava, rindo, maliciosa e sapeca como sempre. Hoje a noite promete, se ela imaginasse como ela estava certa em contextos diferentes. Não demorou, ela voltou ao quarto. – Desculpa, , mas minha carona chegou, mas olha, fica realmente à vontade, okay? E toma cuidado com os tarados... – Ela ria alto quando fechou a porta atrás de mim e ouvi sua voz soar alto quando se afastou... – , eu estou indo, não vá fazer nada que eu não faria!
- O que? – O ouvi gritar, mas ela não ouviu, já havia descido as escadas rapidamente, pude ouvir os estalos do seu salto sob a madeira. Decidi colocar logo minha roupa, antes que ficasse ainda mais tarde para ir para casa e minha amiga ficasse preocupada. Tirei a toalha e coloquei o vestido na frente do meu corpo, me imaginando dentro dele. Ele parecia ter um caimento lindo no corpo e fiquei imaginando quantas libras ela teria gastado nele e no cuidado que eu teria que tomar para não estragar, manchar ou qualquer derivado que pudesse arruinar o vestido. Não notei que a porta não estava trancada, ou melhor, não sabia. Só vi quando entrou e sua voz grossa soou alto pela extensão do quarto. – Mana, o que você que... – Sua voz ficou presa na garganta no momento em que virei apavorada, cobrindo meu corpo com o que eu podia do curto vestido. Corei imediatamente. Ele perdeu a cor, a retomou no dobro da intensidade, pigarreou e só depois, ainda gaguejando, que conseguiu falar... – Me des... Cu-ul... Pe! - Ele fechou a porta, sem dizer mais nada, eu me joguei para trás, no chão. O grosso tapete amorteceu minha queda. Parecia que sempre que eu estava perto dele meu corpo teimava em ficar sem roupa. O dia na minha casa, nossos corpos muito juntos, o calor que vinha do corpo dele, sua boca perto da minha... Isso tudo estava me fazendo pirar. Eu precisava me recompor. É claro que ele era lindo, gentil, fofo, e perfeito, e... Ok, chega! Os minutos se passavam, eu podia ouvir o tic tac de um relógio em algum lugar do quarto. Levantei-me e me vesti, não queria que mais acidentes acontecessem, ou será que eu queria? Não! Claro que não. Eu estava devidamente vestida e decente. Ouvi alguém bater a porta. - Posso entrar? – Ouvi sua voz, receosa, perguntar.
- Claro.
Ele me encarou por um momento infinito, com olhos arregalados e surpresos. O que ele estava pensando?

’s POV

Eu bati na porta, receoso, não sabia o que eu iria encontrar do outro lado, um olhar furioso ou envergonhado. Um rosto frio ou corado. Aquela garota mexia comigo de um modo estranho desde o primeiro dia que a vi. Seu rosto molhado pelas grossas lágrimas que teimavam em cair de seu rosto delicado, mesmo contra a sua vontade. O choque ao me ver.
– Posso entrar?
- Claro. - Abri a porta lentamente, a surpresa me pegou forte e desprevenido. Ela estava linda, o vestido caía em seu corpo com magnitude. O corpo dela, cada traço de seu corpo definido, suas curvas... Como eu fui idiota! Como não fui bater na porta, sabia que era o quarto da e sabia que ela estava lá, mas como eu ia adivinhar que ela estava sozinha? Ela devia ter namorado e eu era apenas mais um idiota me portando como um pirralho de doze anos. Ela apenas era delicada para me responder com uma grosseria, ela ficava corada com frequência. - Você queria perguntar alguma coisa? – Ela especulou.
- Eu... Rua... Você... Carro. – Gaguejei.
- O que?
Respire fundo.
- Eu vou esperar você lá na rua, para pegarmos o seu carro.
- Ah, ok, eu já estou indo.
Havia algo diferente no modo como ela me olhou. Ela não pareceu apenas indiferente. Ela parecia... Triste. Àquela hora, no quarto, devo ter forçado a barra demais, já foi a segunda vez na mesma noite. Vou pedir desculpas para ela, no carro, dizer que foi sem querer, que eu realmente não tive a intensão. Ela era diferente e eu sabia que precisava tirar ela da minha cabeça, mas naquele momento, em meu quarto, como naquela vez no quarto dela, a toalha abrindo, deixando exposto seu corpo. Que vontade que eu tenho de possui-la, fazê-la minha, apenas minha. Comecei a fechar a porta lentamente, mas hesitei, seus olhos me especularam, curiosos novamente. Respirei fundo mais uma vez antes de recomeçar a falar, tentando controlar o tremor em minha voz.
- Onde está ?
- Ah... – Ela corou, não pude entender o porquê, a pergunta parecia inocente. – Ela me deixou aqui e disse que a carona dela havia chegado. Eu achei que ela havia avisado você.
- Eu a ouvi gritar, mas não pude entender com clareza. – Lhe assegurei. Ela abriu a boca para falar algo, mas sua voz pareceu ficar trancada na garganta, como a minha. De repente, me senti nervoso. Olhei, hipnotizado, para sua boca carnuda e macia, e fiquei devaneando como seria beijá-la. Bani esse pensamento imediatamente, antes que seus olhos perspicazes pudessem ler minha expressão. Ela me olhava, intrigada e confusa novamente, algo como um ar de insatisfação pairou por seu rosto, mas foi muito rápido para que eu pudesse ter certeza de que não havia simplesmente imaginado. - Você está linda! – Imediatamente, após dizer as palavras, me arrependi delas. Na verdade, eu não sabia o porquê eu as tinha dito.
- Obrigada.
- Eu... Eu acho... Acho que te espero no carro. – Gaguejei novamente.
- Prometo que não vou demorar, e aí você poderá se livrar logo de mim, acho que deve estar cansado de eu lhe meter em tantos problemas e confusões. – Um sorriso delicado e envergonhado cobriu seus lábios.
- Se todos os meus problemas e confusões fossem como as que você me coloca, eu estaria sempre feliz. Vejo você no carro.
Sorri gentilmente, abaixei minha cabeça e fechei a porta atrás de mim. Desci pela longa escadaria, matutando sua expressão. Suas diversas expressões. Entrei no carro e esperei. Ela não demorou muito para descer, entrou no carro e o seu perfume me inundou como uma droga. Ela estava levemente maquiada, os olhos pintados em volta de preto, um brilho em gloss, que era um rosa perolado cobria seus lábios, e o cabelo estava preso em um rabo de cavalo, que deixava seu pescoço a mostra. Seu rosto e seu perfume novamente me hipnotizaram e eu me vi a encarando ao mesmo tempo em que chegava mais perto. Ela me olhava com olhos grandes e arregalados. Mas não recuou. Pelo contrário, seu corpo a impulsionou para frente, correspondendo ao meu movimento. Olhei fundo em seus olhos, senti seu hálito bater em minha face, sua respiração vinha rápida e desigual. Olhei sua boca, prestes a satisfazer o desejo que me cegava, quando senti algo vibrar e um som alto e agudo aumentar e preencher o carro. Imediatamente, voltei à realidade.

’s POV

Meu coração pulava em um ritmo descompassado, quase doloroso. Eu queria amaldiçoar quem quer que fosse que o estivesse ligando. Respirei mais rápido – tentando inutilmente me acalmar – e olhei para a janela, desviando meu olhar do seu. Não queria ficar a mercê da tentação de novo. Eu não sabia como olhá-lo novamente, e o que eu estava prestes a fazer. Mas eu não conseguia me controlar. Cada movimento dele parecia me convidar a chegar mais perto dele e de seu corpo e de sua boca. Claro, ele era homem, ele apenas seguia seus instintos, não queria dizer que ele me achasse interessante a esse ponto.
- Melhor irmos! – Ele disse, com a voz áspera, após desligar.
- Concordo. – Minha voz saiu fria.
- Me desculpe.
Suas palavras abalaram minha fisionomia cuidadosamente composta.
– Pelo que?
- Pelo quarto, as duas vezes, e por agora a pouco no carro. Não foi minha intensão, não sei onde eu estava com a cabeça.
Fiquei chocada. Não, realmente eu devia estar um pouco mais do que chocada. Eu já sabia que ele não queria nada comigo e que os instintos deviam ter agido mais altos, mas ouvir aquilo em voz alta era outra coisa. Imediatamente, fiquei carrancuda.
– Não se preocupe, não foi nada importante. - Observei com cuidado pelo canto do olho, sua expressão endurecer. Ele ligou o carro e partiu sem dizer nada, dirigia rápido. Ele realmente devia ter pressa em se livrar de mim. Eu devia o incomodar. Ele me levou por ruas desconhecidas no meio da escuridão, onde só a parte iluminada pelos faróis do carro estava visível. Não demorou muito para chegarmos até um restaurante onde tinha muitos carros estacionados na frente. As pessoas que entravam nele estavam bem arrumadas e penteadas, e havia uma maitrê na entrada principal. Era um lugar lindo, na frente tinha um chafariz enorme, com luzes em volta. Ele saiu do carro e eu o segui, ele não me esperou para começar a andar e eu me perguntava o porquê da atitude dele. Ele sempre era muito cortês e agora estava grosso e rude. - Aonde vamos? – Perguntei, já na entrada do restaurante.
- Falar com a programadora dos saltos, ela deve saber onde está seu carro e eu fiquei sabendo que ela está aqui.
- Como sabe que ela está aqui?
- Porque ela costuma vir sempre aqui depois dos saltos, ela gosta de confraternizar com os demais e paga uma noite de jantares. Claro que isso garante a ela o retorno deles.
- Compreendo... E por que você não se juntou a eles?
- Estou me juntando agora. – Ele me deu um sorriso gentil.
- Bom, então, vou falar com ela logo para não interferir no jantar de todos. – Falei, tímida e insatisfeita.
- Não me ouviu dizer que ela dá o jantar para os que saltam?
- Ouvi...
- Então como vai ir a procurar rapidamente e ir embora? Que eu bem me lembre, você saltou!
- Eu... Quer dizer... Eu não estou nos planos dela. Não! Que isso, eu falo com ela e me vou. Ela não deve se lembrar de mim, nem vai reparar.
- Não seja ridícula! – Ele pegou meu braço, me levando para dentro, localizando facilmente a mesa. Ela logo nos avistou, levantou-se e seguiu em nossa direção.
- pensei que não fosse chegar nunca! – Ela dizia com um sorriso enorme em seu rosto. – Ah, e você trouxe a garota que saltou com você, que maravilha.
- Você lembra-se de mim? – Perguntei, chocada.
- Mas é claro, quem não lembra? – Ela gargalhou e continuou. – Não se preocupe, querida, acontece nas melhores famílias, sei o quanto deve parecer estranho para os de fora ver alguém se atirar em uma ponte. - Corei! - Venham, vamos para a mesa jantar.
- Na verdade, nós estamos com um pequeno problema. Ela esqueceu o carro dela nos saltos e eu acho que ela está um pouco aflita demais para pegá-lo, já que ele foi rebocado, para conseguir comer qualquer coisa. Eu sei que você sabe para onde ele foi, queria o endereço. – Ele conversava com ela, despreocupadamente.
- Oh, querido, é claro. Aguardem-me por um instante, que vou pegar o endereço. – Ela saiu, mas não demorou a voltar. Entregou-nos um papel com um pequeno endereço.
- Obrigada! – A voz dele fervia de uma gratidão quase venerada.
- Não vão ficar mesmo para jantar?
- Não precisa ir comigo, você pode ficar e curtir o jantar, afinal, isso é uma espécie de ritual, não é mesmo? – Consegui falar após longos minutos apenas observando.
- Não! Eu vou com você! – A voz dele tinha um tom determinado. Não haveria discussão.
- Bom, então boa sorte. Mas você sabe que está fechado lá, agora, deve ser difícil tirar o carro dela. – Seu olhar era preocupado.
- Não se preocupe. – Ele sorriu perversamente.
- Você é impossível, sabia? – Ela riu.
- Até logo! – Ele se despediu dela e se virou para mim. Despedi-me dela rapidamente e o segui. Ela voltou para a mesa e continuou conversando com todos descontraidamente, nos dando, antes, um último olhar.
O caminho até o carro se seguiu silencioso. Parecia que ele estava tendo o cuidado de não conversar comigo mais do que seria necessário. Peguei o cartão e li o nome do endereço. Não era longe dali. Em poucos minutos chegamos, estava tudo desligado e na frente do portão dizia “cuidado com o cachorro”. Ele novamente abriu a porta sem dizer nada e saiu, e eu o segui, foi caminhando até a frente do portão e parou de imediato. Eu o segui, sem entender o que ele pretendia, com certeza tínhamos demorado muito para vir e já tinham fechado. Eu teria que ir para casa sem carro e teria que explicar uma história muito grande para , que já devia estar arrancando todos os cabelos de tanta preocupação. Já era tarde da noite.
- Melhor irmos embora e voltarmos pela manhã. – Disse, com a voz resignada.
- Não. – Sua mão agarrou meu braço, me restringindo.
- Mas está fechado. – Disse em uma voz fraquinha.
- Eu lhe prometi que o carro seria seu hoje e será! – O mesmo olhar determinado. Perdi a fala. Observei enquanto ele contornava o local, sem dizer nada, uma casinha de cachorro estava mais a frente, e o mesmo dormia. Não conseguia entender o que ele pretendia. Ele assoviou e o cachorro acordou, ele só podia estar louco. O cachorro primeiramente rosnou, procurando por aonde vinha o barulho que o acordara. Quando avistou , ele abanou seu rabo e seguiu como uma criança feliz para onde ele estava. Fiquei de boca aberta, sem entender. Ele fez um carinho rápido no cachorro e se virou para mim. - Aquela é minha amiga ! Seja bonzinho com ela, está ouvindo? Tome aqui... – Ele deu para o cachorro algo de comer. E na sua outra mão havia uma bolinha da qual ele me alcançou. – Toca para ele.
Eu hesitei.
– É... Não sei se é uma boa ideia.
- Para de ser boba! Toca logo.
Aproximei-me lentamente, o cachorro era enorme, e não parecia ser mais tão amistoso agora que eu estava perto. Pigarreei.
– Ok.
Joguei a bolinha o mais longe que pude, e ele correu e voltou em tempo recorde. Largou a bolinha e ela rolou para meus pés, seu rabo balançava freneticamente e eu sabia que ele queria que lançasse novamente. Peguei a bolinha em minhas mãos e a lancei forte novamente. Ele a seguiu e logo retornou. riu e pegou a bolinha. Olhou-me satisfeito, mas não disse nada.
- Tudo bem, Lester, agora chega, nós vamos entrar. – Ele largou a bolinha para o cachorro, que a pegou e voltou para a casinha, sem fazer mais objeções. Ele entrou até uma parte da grade, onde havia uma pequena passagem, quase imperceptível, e eu me perguntei quantas vezes ele já havia entrado naquele lugar à noite. As palavras da mulher no restaurante vieram claras na minha mente. Ele passou para o outro lado e estendeu a mão para que eu o acompanhasse. Passei pelo estreito caminho e segui para onde era uma extensão de carros. Ele ainda não dizia nada, apenas me puxava, me dirigia, até além dos carros. - Vê seu carro em algum lugar?
- Ainda não.
- Aliás, qual é o seu carro mesmo?
- Um XSara Picasso, preto.
- Bom, é um carro grande, se destaca entre os outros... Você procura por ali e eu por aqui.
- Tudo bem.
Andei por minutos, ou horas, que parecia não ter fim. Procurei por todos os cantos, mas nada achei. Queria saber se teria alguma pista, mas eu não o via em lugar algum, estava ficando muito frio e cada vez mais escuro, eu estava ficando com medo. Tentei seguir pelo caminho que eu cheguei ali, porém não obtive sucesso imediato. Acelerei meu passo, aflita, meu coração começou a oscilar, comecei a suar frio, minhas pernas ficaram bambas e eu não sabia se podia gritar. Corri o mais depressa que pude, mas o salto não ajudou na minha coordenação e me vi caindo após tropeçar em algo duro. Soltei um grito de dor. Segurei minha perna forte, como se isso fizesse a dor ficar menor, e olhei para as nuvens carregadas que se formavam no céu.
Senti a umidade que caía constante do céu em gotículas finas. Perfeito! Eu estava com a perna dolorida, o vestido que não era meu devia estar sujo e eu estava começando a ficar encharcada. Ouvi passos rápidos vindo em minha direção.
! – Ele gritou.
- Aqui! – Gritei de volta.
Ele me achou logo.
– O que aconteceu com você? – Sua voz era urgente e preocupada.
- Eu caí!
- Não me diga, nunca ia reparar! – Ele disse, zangado. – Quero saber como!
- Qual é o seu problema?! – Falei, revoltada.
- Nenhum. – Ele disse rápido demais e desviou os olhos.
- Oh, é mesmo? Quem está falando mentiras óbvias agora? – Disse, ríspida.
- Eu achei seu carro. Venha, vou te carregar até lá. - De repente, o chão desapareceu. Ele me ergueu e me levou para o caminho oposto ao que eu estava, andou alguns minutos em silêncio, a cara amarrada, pensativo. A chuva insistente que caía, agora estava mais grossa, meu cabelo estava encharcado e pesado, o vestido estava colado contra meu corpo. Seu cabelo pingava, e sua camisa branca já estava um tanto transparente e colada contra seu corpo. De uma hora para outra, me senti quente. Meu tornozelo doía insistentemente, mas eu não estava mais dando atenção a ele. Eu fitava nos olhos novamente e uma vontade, ou algo mais parecido com um desejo insistente, aumentava, não, não, essa não é a expressão correta, ele gritava em meu peito. Ele me colocou sobre o capô do meu carro e foi olhar minha perna. Estava inchada. - Nossa! Você fez um estrago e tanto aqui. – Ele estava preocupado, mas eu não.
- Não está doendo tanto. – Menti.
- Você mente muito mal. – Ele zombou.
- Obrigada por me ajudar a achar o carro. v - Eu acho que deveria levar você para um médico. Vamos sair logo com seu carro.
- Não preciso de um médico, estou bem! – Menti de novo. Mas antes que ele pudesse abrir a boca para fazer qualquer objeção, continuei. – Como vamos sair daqui se a porta está fechada e provavelmente o carro não vai passar pela entrada estreita pela qual passamos?
- Acho que podemos dar um jeito.
- Eu só te meto em problemas.
- Você me diverte. É diferente das patricinhas da faculdade que só o que sabem dizer é “cuidado que posso quebrar minha unha”... – Ele riu.
- Obrigada. Eu acho... – Falei, sem jeito. – Mas então, qual é o plano?
- Bom, tendo em vista que já temos em nosso histórico duas invasões de propriedade, provável morte na sua casa se os seus pais nos pegassem, e um toque de adrenalina, acho que não seria nada mal se, para variar, conseguíssemos tirar o carro sem que a polícia venha atrás de nós.
- E como a gente faz isso?
- Está vendo aquela casinha? – Ele apontou para uma casa de madeira não muito distante.
- Sim.
- Primeiro, precisamos dar um jeito de entrar lá e apagar seu carro do registro. Depois, precisamos achar a chave reserva que tem lá dentro. Abrir o portão e sair para a liberdade.
- Quantas vezes já fez isso? – Não pude deixar de perguntar após segundos de hesitação. Ele parecia muito à vontade com a situação e com o plano.
Ele suspirou resignado e respondeu.
– Uma vez... Com o carro da . - Não quis perguntar mais nada sobre isso, mas armazenei essa informação com cuidado para pensar nela posteriormente. – Bom, então acho que temos que ir. – Ele ia se afastando. Mas minhas mãos não conseguiram deixar as dele se afastarem.
Ele me olhou, inseguro, inquieto e confuso. Eu sabia que precisávamos ser rápidos, meu instinto de auto preservação me dizia que eu deveria ser rápida. Mas não pude deixá-lo se afastar. Ele se voltou em minha direção, sua respiração desigual, entrava e saía muito rápida. Meu coração acelerou, eu o fitava com olhos perspicazes e desejosos. Eu o queria. Sim, eu sabia disso. Ele abriu a boca para falar, mas não lhe dei tempo. Eu não podia pensar, não queria pensar. Meus lábios se grudaram aos dele, e minhas mãos envolveram rápido e forte seu pescoço. Ele, no começou, ficou imóvel, surpreso, não tinha reação, estava paralisado. Mas com o passar dos minutos, ele relaxou e acho que o estalo que deu em sua cabeça foi tão forte quanto na minha. Um desejo absurdo de mandar o mundo se foder naquele momento e a sensação do tempo ficar cada vez mais curto à medida que o beijo ficava mais longo, me causou uma sensação estranha. O ar entrava e saía muito superficialmente. Ele literalmente me jogou contra o capô do carro, me “amassando” contra ele. Minhas pernas envolveram sua cintura, e suas mãos transitavam por meu pescoço, minha cintura, minhas coxas. Eu revirei meus olhos de prazer. Seus lábios desceram para meu pescoço, enquanto minhas mãos puxavam sua camisa para cima.
Quando nossa respiração estava tão alta que era constrangedor, ouvimos o cachorro latir muito alto e insistentemente, sem nos importarmos de imediato. Do nada, uma voz irrompeu pela escuridão, nos congelando.
– Quem está ai?


Capítulo 11

- Eu perguntei: quem está aí? – Ouvi uma voz ecoar pela escuridão, rompendo o silêncio desconfortável que se seguiu. A pessoa que falava não era nova, pelo contrário, parecia ser de um senhor idoso. A imagem de um zelador de colégio veio à minha cabeça tão rapidamente, que achei ridículo pensar nisso logo neste momento.
se afastou de mim, e minhas pernas caíram flácidas no chão. Machucou um pouco a queda, mas não consegui sentir a dor. Os passos se tornaram lentos e precavidos, à medida que seguiam em nossa direção, senti mãos largas e fortes me puxarem para o lado de um carro. Eu não estava prestando atenção ao que estava fazendo, eu estava no piloto automático. Eu me sentia tonta. Contornamos alguns carros, sempre seguindo para a direção mais distante da pessoa inesperada, a qual não deveria estar ali. Não era possível ele não saber que o lugar tinha um vigia, era até um pouco patético pensar nisso.
- Vamos ficar aqui escondidos um pouco... – Ele me falava, aos sussurros.
- Como você pode esquecer que tinha um guarda?! – Falei, com o tom mais indignado que minha voz baixa pode pronunciar.
- Me desculpe por não ter uma grade de horário dos vigias.
- É só o que está me faltando! Ser pega e chamarem a polícia. Perfeito!
- Você não é a única aqui que precisa se preocupar com isso, ok? Cala a boca e mantenha a calma, não é hora de dar ataque! – Seu tom era grosso novamente. Bufei de raiva.
- Você é tão... Estúpido! – Minha expressão de raiva não era tão impressionante como a dele.
Paramos de notar a existência do guarda por longos minutos e isso quase causou nossa ruína. O guarda estava perto de mais e quase era possível nos ouvir. Ele tapou minha boca com uma das mãos e começou a me puxar para o lado, nos afastando novamente do guarda. Ele continuava a olhar e a procurar da onde vinha o barulho que ele ouvira, mas nada achava. Fiquei me perguntando por quanto tempo ele ficaria ainda olhando e investigando. O meu tempo se esgotava, a cada minuto ficava mais tarde, mais escuro. já devia estar aos frangalhos. Um medo começou a subir por minha espinha. Fiquei completamente arrepiada. Outro barulho veio de algum lugar não muito distante do guarda, não sabia o que era, mas fiquei me perguntando se mais alguém veio arrombar o lugar. O cachorro latiu novamente, forte e insistentemente, o guarda seguiu naquela direção, e, quando o local ficou iluminado pela luz da lanterna, senti um alívio absurdo ao ver um gato, e ao ouvir as palavras que seguiram do guarda.
- Hum... Um gato em parceiro. – Ele riu levemente. – Eu devia ter imaginado.
Logo após, colocou a coleira no cachorro e o levou por outro caminho, se afastando de nós. Olhando daquele ponto, o lugar parecia maior do que eu conseguia ver. Ele ainda estava carrancudo, respirando rápido e forte, como para se acalmar. Tentei deixar minha expressão a mais fechada e fria que eu conseguisse. Eu queria, e ia, lhe dar um gelo por toda a eternidade, se eu pudesse. Mas a surpresa me desarmou. Não tive uma reação imediata para o que aconteceu logo em seguida. Ele me puxou bruscamente pelo braço novamente, machucou, mas eu não tive tempo de me importar, sua boca já estava grudada na minha ferozmente. Suas mãos grudavam nossos corpos, os deixando tão juntos, como se ele quisesse impedir qualquer espaço que fosse entre nós. Minhas mãos se uniram em seu pescoço, puxando forte o seu cabelo, fazendo-o soltar um gemido baixo contra minha boca.
Seu corpo cambaleou e ele desequilibrou-se, caindo para trás, desunindo nossas bocas. Paramos por segundos em um arfar louco, mas novamente fui tomada por uma vontade insana e não queria pensar. Passei minha perna por seu quadril e puxei grosseiramente sua camisa, para que ele viesse de encontro a minha boca. Ele atendeu prontamente, me puxando novamente para mais perto do seu corpo, como se qualquer distância que se existisse entre nós fosse um insulto. Suas mãos agarraram minhas coxas, forte, apertando e dando tapas. Gemi forte contra sua boca. Aquilo só o fez ficar mais excitado, me beijando mais ferozmente. Em alguma parte da minha cabeça, eu sabia que tinha que ficar preocupada com o barulho que estávamos fazendo, e, acima de tudo, com o que estávamos fazendo, já não havia abusado da sorte o bastante para uma noite? Pelo jeito, não!
Eu senti o seu corpo ficar tenso, como se ele estivesse pensando o mesmo que eu. Tínhamos pouco tempo e isso era um fato, mas eu não conseguia parar, não queria parar. Eu queria que o tempo congelasse naquele momento e que só existíssemos nós dois. Suas mãos subiram por baixo do meu vestido, alcançando meus seios, e apertando-os, não conseguia entender porque ele apenas não descia um pouco ele, mas quando suas mãos começaram a fazer o percurso por todo o meu corpo, como se estivesse o esculpindo, eu pude entender. Ofeguei forte contra sua orelha, enquanto ele beijava meu pescoço. Eu já não aguentava mais e ele parecia não aguentar também. Desci minhas mãos pela extensão do seu corpo, ele era tão lindo. Porém, ele deliberou por um momento, tenso, e se afastou. Eu tentei beijá-lo novamente, mas ele se manteve a uma distância segura de minha boca, o olhar não correspondia com a reação, ardia como fogo em desejo.
- O que aconteceu? – Perguntei, arfando. Tentei chegar perto dele novamente, mas não consegui. Ele era mais forte.
- Enlouquecemos! Foi isso que aconteceu! – Seu tom era de repreensão.
Eu ri amargamente.
– Está fazendo piada a essa hora da noite?
- Não quero fazer isso! – Sua voz era tão fraca quanto o seu desejo. Eu podia ver a resposta contrária em seus olhos, e no modo como suas mãos hesitavam em meus braços, ainda me restringindo.
- Você só pode estar brincando comigo! – A indignação começou a me dominar, ele não podia estar fazendo aquilo comigo, ele não podia me deixar naquele estado logo após me provocar, dizendo que era errado.
- Não me olhe desse jeito... – Eu o fuzilava com meu olhar. – Só estou te livrando de algo que sei que vai se arrepender quando o dia clarear.
Olhei para ele, confusa, do que ele estava falando?
- Como assim me arrepender quando o dia clarear? Você é louco? Como pode dizer uma coisa dessas para mim?
- Você pode estar indignada agora, mas vai me agradecer depois. Não pense que está sendo fácil pensar racionalmente agora, e lutar contra o desejo de te jogar no chão e fazer tudo que quiser com você. – Eu sorri com malícia do seu tom e do modo como seus olhos ficaram perversamente satisfeitos e maldosos pensando nisso. – Mas, quando você chegar à sua casa, dormir, acordar e pensar no seu namorado... – Epa! Que namorado? – Você vai realmente me agradecer.
Ele disse isso como se fosse seu plano original, mas eu podia ver que ele estava disposto a “pecar” na primeira oportunidade. Ele deixou a guarda baixa apenas por um instante, após deduzir, estupidamente, que estava certo quanto eu ter um namorado, suas mãos pousaram sobre minhas pernas, e eu grudei novamente nossas bocas ferozmente. Agarrei com força em seu pescoço para que não fosse tão fácil para ele me afastar. Ele não conseguiu lutar por muito tempo para me soltar, ele se rendeu rápido, como imaginei. Suas mãos subiram novamente por minhas coxas, apertando com tanta força que me causou dor. Mas eu não sentia a dor, eu sentia prazer, a dor me fazia sentir mais excitada que antes. Em outro lapso de sanidade dele, ele me afastou.
- Para! – Ele ofegava.
- Para de tentar bancar o bom moço e deixa o teu desejo te levar. – Falei, mordendo sua orelha. O seu desejo de me afastar e ser um bom menino, estava se esgotando. A cada investida que eu dava, ficava mais fraco. Eu praticamente não me reconhecia, em dias normais eu não faria isso. Não que ainda houvesse algo da antiga em mim, eu gostava da minha nova versão, ela era ousada, ela era sedutora.
- Você não pensa no seu namorado? E no pouco tempo que temos para tirar o seu carro daqui?
Eu não acreditava no que estava ouvindo. Medo? O medo só estava me deixando mais excitada, e ele não conseguia ver isso. Não era possível! Minha voz saiu mais grossa do que eu pretendia.
– Mas que namorado, do que você está falando? Se não quer transar comigo, é só falar! Não precisa ficar inventando um milhão de desculpas.
Ele se assustou com a amargura na minha voz e com a forma repentina que me afastei dele.
– O que? Você não tem namorado?
- Olha, quer saber?! Tem razão! Eu ia mesmo me arrepender pela manhã. Nada mais poderia me causar isso do que um estúpido que não vai dar conta do serviço e aí fica inventando desculpas.
Minhas palavras o açoitaram. Eu podia ver. Estava prestes a me levantar e sair do seu colo, totalmente insatisfeita, mas congelei ao ver sua expressão. Ela era furiosa. Ele praticamente rugiu as palavras.
– Eu vou te mostrar o estúpido! - Imediatamente, suas mãos me pegaram no colo, me batendo contra o capô de um carro. Soltei um gemido alto, sendo abafado pela boca dele logo em seguida. O choque contra o carro machucou, mas ele não parecia mais se importar. Uma mistura de dor e prazer que me fez ficar mais louca. Aquilo jamais seria amor, nós dois sabíamos disso, era apenas sexo, era o que desejávamos desde que tínhamos nos visto pela primeira vez. Não mais que de repente, ele estava impaciente, impaciente de mais para que tirássemos a roupa, minhas mãos seguiram para sua calça, baixando-a juntamente com sua boxer. Ele me colocou no chão e me alcançou uma camisinha, se afastando por poucos segundos de meu corpo para que eu pudesse colocá-la. Logo, me empurrou com força para o carro. Um olhar de prazer brincando em seus olhos. Ergueu-me em seus braços fortes. - Gostosa! – Ele sussurrou em meu ouvido, arrepiando-me.
Ele começou a me beijar com vontade, falando obscenidades. Eu queria partir o beijo para tirar minha calcinha, mas ele não deixou, apenas a afastou para o lado, e, sem dizer nem uma palavra mais, me invadiu de uma só vez. Ambos gememos alto contra nossas bocas, e ele, sem esperar para nos acostumarmos com o corpo um do outro, foi aumentando o ritmo. Eu tentava, inutilmente, abafar meus gemidos e diminuir o volume de minhas arfadas, mas estava mesmo sendo um serviço árduo. Não existia sensação no mundo como ter ele dentro de mim. Um arrepio passou por todo meu corpo, estávamos suados, ofegantes, e tentando não fazer muito barulho. Ele me olhava perversamente, adorando cada minuto que me fazia gemer, me xingando de cada nome que conhecia. Eu estava adorando, era algo diferente daquilo com o qual eu estava acostumada. Eu era sempre tratada como uma bonequinha, na cama, como algo delicado. Era sempre um momento doce. Com ele não, ele me tratava rudemente, selvagemente. Eu estava amando cada minuto.
Quando sentiu que eu estava chegando ao clímax, ele diminuiu o ritmo, me torturando, olhei para ele com raiva e tentei balançar meu corpo mais rápido, mas, como ele me segurava pelas duas pernas, não havia muita coisa da qual eu poderia fazer. Toda vez que eu tentava ir mais rápido, ele me amassava um pouco mais sobre o capo do carro e me erguia um pouco. Pelo seu olhar, vi o quanto ele estava adorando aquilo. Um sorriso extremamente sacana cobriu seus lábios.
- ‘Tá gostando, vadia? – Ao acabar de dizer isso, ele acelerou o ritmo, estocando rápido e profundo. Rolei os olhos de prazer.
Sua boca se grudou à minha, e tentei sussurrar, ofegante:
- Seu idiota... Esse é o melhor que pode fazer?
Ao ouvir minhas palavras, ele praticamente enlouqueceu, colocando ainda mais rápido e ainda mais profundo, eu podia ouvir o barulho que dava quando nossos corpos batiam. Soltei uma gargalhada abafada contra sua boca, me divertindo. Eu sabia que não íamos aguentar por muito tempo mais. Porém, eu gozei primeiro que ele, senti meu corpo tremer e amolecer, enquanto ele ainda investia as últimas vezes, não demorou muito para ele gozar. Ele soltou minhas pernas e ficamos escorados e suados contra o carro. Coloquei minha cabeça em seu ombro e beijei seu pescoço. Ele afagava meu cabelo tranquilamente.
Encarei aqueles olhos por longos minutos, não sei o que ele procurava em meus olhos e não sei o que encontrou. Ele me beijou delicadamente, era um contraste enorme com o beijo que tínhamos trocado não fazia muito tempo. O beijo foi longo, e começou a me deixar sem fôlego, a vontade cresceu em mim novamente. O desejo, não totalmente saciado, apenas abrandado, gritava em meu peito. Ele sentiu como eu começava a me animar novamente e começou a rir.
- Você nunca está satisfeita?
- Digamos que eu acho que ainda não tive o bastante.
- Mas eu tenho a leve impressão que você vai ter que controlar essa vontade, a menos que queira seu carro...
- Tem razão... – Suspirei, derrotada.
Ele se afastou de mim, e começou a colocar sua calça. A distância entre nós me incomodou. Eu queria seu corpo quente e suado perto do meu, queria sua boca macia em meu pescoço, mordendo e me fazendo suspirar. Ajeitei-me do modo que eu pude ver o vestido emprestado arruinado. Era branco, eu queria morrer. Lavar e retirar cada mancha de terra e lama que tinha nele não ia ser uma tarefa das mais fáceis. Vestidos e nada descentes, ouvimos o barulho de um jipe se afastando ao longe.
- Ele deve ter ido fazer a ronda. – falou. Ele sabia que tinha ronda, mas não sabia que tinha guarda? Havia algo errado nessa história toda, mas eu não achava o furo. Ele segurou minha mão, e senti como se uma nova onda de descarga elétrica percorresse todo meu corpo, mas tentei me manter focada no que precisávamos fazer. Corremos até a pequena cabana, onde ficavam os registros. O guarda ficava ali e a cada hora que saía para fazer a ronda, deveria trancar a porta, mas nem sempre era o que fazia, por isso, a porta encontrava-se apenas encostada, quando chegamos até ela. Ele seguiu para o livro que reconhecera como sendo dos registros, em cima, vários papeis de carros apreendidos recentemente. O primeiro era o meu. Um golpe de sorte. – Acho que a sorte começou a sorrir para nós, pequena.
Ele pegou o papel, colocou no bolso, mas, ainda assim, olhou dentro do livro para ter certeza de que não tinha realmente nada assinalado. Não havia nem um borrão de caneta que pudesse indicar que era de meu carro. O alívio se apoderou de mim, forte e instintivo. Ele pegou minha mão e me puxou para fora da sala.
– Como vamos abrir o portão? – Perguntei.
Ele soltou um pigarro.
- Não sei exatamente, quem sabe voltamos para a cabana e procuramos, sem tentar bagunçar muito.
- Pode ser, mas você acha que lá vai ter a chave? O guarda não deveria, tipo, carregar ela?
- Ele, também, devia trancar a porta sempre que sai e, no entanto, ela estava aberta.
- Vamos logo procurar a porcaria da chave na cabana! – Saí na frente, vendo ele me soltar com um sorrisinho malicioso quando percebeu que ganhou. Ao entrar no pequeno espaço escuro e apertado da cabana, uma nova emoção me dominou. Meu coração acelerou, e comecei a pensar em quanto tempo ainda tínhamos. Se o guarda aparecesse e nos pegasse, não ia ser muito legal, a sensação de ter a polícia atrás da gente, porém, por outro lado, espaço escuro, vazio, apertado, silencioso, me trazia outras vontades. Na cabana, uma pequena mesa amarrotada de papéis, um computador do século passado, um armário de canto, e uma cadeira de madeira.
Eu não conseguia me conter, era praticamente inevitável, eu queria mais, e quanto pior fosse o lugar, parecia que maior a vontade ficava. Virei para ele, mordendo o lábio e fazendo uma expressão falsa de inocência. Ele detectou o perigo e seus olhos se estreitaram, esperando pelo ataque. Lutei contra a vontade de rir e gargalhar até dar vontade de rolar pelo chão, para manter meu teatrinho. Coloquei um dedo na boca, mordendo-o discretamente. Andei lentamente até a direção dele e me abracei nele, encostando-o na parede de madeira.
- Está tão frio aqui, me aquece... – Minha boca foi para o seu pescoço. Ele soltou o ar, sofridamente.
- Se controle! – Ele parecia mais determinado em convencer a si mesmo do que a mim.
- Eu já te disse que tenho medo do escuro e que o frio não ajuda na minha recuperação... – Eu continuava, enquanto ele apertava mais seus braços em volta da minha cintura. –... E que lugares extremamente apertados me dão uma vontade louca de fazer sexo loucamente? – Sussurrei em seu ouvido, tentando parecer inocente e séria. Como se eu estivesse falando algo de vital importância.
- Você não tem jeito!
- Eu nunca disse que tinha... – Sorri, diabolicamente, para ele.
- Agora não é hora para isso, acho que já nos divertimos o bastante por essa noite, neste lugar. – Sua voz enfraqueceu na última parte, quando sentiu minha mão fazer carinho sobre o seu membro, ficando “animadinho” na mesma hora. O empurrei lentamente, sem desviar meus olhos dos seus, e abri sua calça. Tirei seu membro ereto de sua boxer e retirei sua camisa. Ele não lutava mais, estava apenas se deixando guiar. Desci lentamente por seu corpo, beijando cada pedacinho, enquanto o masturbava lentamente. Ele gemeu abafado. As mãos do lado do corpo em punho, tentando se controlar, ainda. Sorri sarcasticamente para ele, e aumentei o ritmo de minha mão. Ele gemeu alto. Reduzi o ritmo novamente, para torturá-lo lentamente. Ele balançou seu corpo, fazendo uma careta, como se estivesse reclamando. Deliciei-me vendo a cena. Passei minha língua, lentamente, pela base do seu membro, o vendo suspirar. – Por que você me tortura desse jeito?! – O ouvi sussurrar.
- Meninos malvados merecem ter um castigo! – Olhei, sapeca, para ele.
- Você me paga!
Ri, exuberantemente, de sua expressão. Ele colocou uma de suas mãos em minha cabeça, desejando impulsioná-la, mas eu a retirei e a prendi no canto de seu corpo. Agarrei, com firmeza, um braço de cada lado. Eu sabia que se ele fizesse um pouco mais de força, ele se soltaria, mas ele parecia estar gostando da idéia de eu o prender e não usar as mãos para provocá-lo. Voltei minha atenção para o seu membro, estava mais difícil fazer as coisas lentamente, mas eu estava me esforçando. Novamente, passei minha língua na base de seu membro, ele jogou sua cabeça para trás, esperando, impacientemente, pelo resto. Coloquei a ponta de seu membro dentro de minha boca e o olhei furtivamente, ele revirou os olhos, soltou o ar rudemente. Seu corpo começou a fazer movimentos suaves, enquanto minha boca aumentava o ritmo lentamente. Suas mãos não queriam mais ficar presas, então coloquei um pouco mais de força, imaginando em que momento ele venceria.
Após alguns minutos de movimentos ritmados, indo do lento ao rápido, eu parei subitamente. Ele me olhou, surpreso e indignado.
– É melhor nos apressarmos, você não quer tanto isso, não é mesmo? – Minha expressão inocente o provocou.
- Vou te mostrar o que meninas malcriadas, que provocam homens, recebem! – Sua voz tinha um tom de insulto. Eu ri perversamente. Divertindo-me, de repente. Ele soltou suas mãos, me empurrando para trás, me levantei depressa, e ele agarrou meu braço com força, me colocando de costas, apoiada na mesa. Pegou outra camisinha na carteira, colocou, afastou minha calcinha para o lado e me invadiu como antes, de uma só vez. Mordi a boca para não gemer alto. Ele ia muito rápido, totalmente sem controle, totalmente tomado pelo tesão e pelo desejo. Ele sabia que se fosse rápido demais, o momento não ia se prolongar muito para nenhum dos dois, mas, para este momento, isso era perfeito, porque não tínhamos tempo. Ele colocou uma de suas mãos em um dos meus seios e o apertou, enquanto me puxava para perto do seu peito suado. Sussurrou em meu ouvido. - É assim que você gosta, não é mesmo? – Rolei meus olhos, ficando arrepiada. Ele me chamava de cada nome vulgar que conhecia. Eu fazia o mesmo. Ele puxou meu cabelo quando sentiu que estava prestes a gozar e aumentou mais o ritmo. Gozamos juntos. Eu estava satisfeita. Fiquei apoiada na mesa por mais alguns minutos, enquanto ele beijava minhas costas lentamente, alisando, novamente, meu cabelo. – Você sempre tem esse fogo todo ou hoje é uma exceção?
- Não, acho que é só com musculosos de olhos , que eu mal conheço. E você?
- Creio que só com malucas dispostas a fazer sexo selvagem em lugares estranhos toda hora.
- Tem que escolher melhor suas amizades, então. – Falei, com um falso ar de repreensão.
- Acho que nunca conheci alguém tão maluca quanto você. E olha que a minha irmã tem fortes tendências a insanidades.
- Acho que foi por isso que eu e ela nos demos tão bem... – Sorri fraco. Eu estava exausta.
- Vamos dar um jeito nisso antes que a polícia apareça e nos coloque atrás de uma cela de prisão.
Ele deu um jeito de se arrumar como pode, e eu tentei fazer o mesmo. Meu cabelo devia estar em um estado lastimável. Não me admiraria se ele tivesse vida própria nesse momento.
– Por onde começamos a procurar?
- Olha por cima da mesa que eu vou procurar aqui no armário.
- Se eu achar primeiro, que prêmio eu ganho?
- Seu carro de volta! – Ele gargalhou. Fechei minha expressão para ele. Olhei por cima de tudo que eu pude, não estava notando o que fazia e como procurava. Eu tentava ser o mais minuciosa que eu podia, mas, de relance, olhei para ele, e parecia que tentava me esconder algo. Fiquei curiosa. Estiquei-me na ponta dos pés, a tempo de o ver colocar uma senha em um cofre, que abriu imediatamente. Olhei, horrorizada, para ele, que ainda não tinha percebido que eu havia visto. Ele pegou uma chave, fechou o cofre, cobriu com um pano, vasculhou mais um pouco o armário e levantou-se, virando-se pra mim com um olhar triunfante.
- Achei! – Seu sorriso era reluzente.
- Onde estava? – Tentei manter minha voz calorosa, mas ela saiu mais fria do que eu esperava.
- De baixo de umas bugigangas. O que você tem? – Seu olhar era cauteloso.
- É mesmo? Você aprendeu a ser mentiroso com quem?! Ou esse foi um dom que você adquiriu com o passar dos anos, sozinho? – Minha expressão fria o assustou.
- Do que está falando?
- Eu vi você tirando essa chave do cofre, , e depois fechar ele e remexer um pouco mais no armário! Por que mentiu para mim? – A raiva crescia forte em meu peito, avassaladora.
- Calma, !
- Me acalmar? Você mente para mim na maior cara dura e sou eu quem tem que se acalmar?
- Você está perdendo o senso! Me deixa explicar...
- Vai para o inferno! - Afastei suas mãos quando elas vieram ao meu encontro. Ele respirou fundo, querendo se acalmar. Eu tentava fazer o mesmo. A raiva doía em meu peito, me fazendo perder o ar. – Por favor, me dê às chaves... – Levantei minha mão, com a palma para cima, para ele me alcançar. Ele não se moveu.
- Não! Quem as achou fui eu, então, primeiro você vai me ouvir e depois terá as chaves.
- Ótimo! Eu espero o guarda lá fora, prefiro ser presa a ficar aqui com um mentiroso barato. – Virei-me, disposta a sair dali com a maior dignidade que eu pudesse, mas ele correu para me pegar por trás e me prensou contra a parede.
- Por favor, me deixe explicar! – Sua voz era intensa contra meu ouvido.
- Me solte ou eu vou gritar!
- Eu solto, não precisa gritar, só me deixe explicar, será que estou pedindo muito? Eu ia lhe explicar essa parte, só queria que não fosse agora, porque agora precisamos ser rápidos, por favor, eu te ajudo a tirar o carro daqui e respondo a todas as perguntas que você quiser! Eu prometo! – Sua voz ardia numa sinceridade resignada.
Virei-me para olhá-lo. Seu olhar era agoniado.
- Não sei se acredito...
Seu olhar entristeceu e depois de segundos ficou intenso. Sua boca se grudou a minha com uma urgência desenfreada. Pegou-me de surpresa e tentei afastá-lo, lutando o quanto pude contra seu beijo, fracassando em seguida. Não consegui não retribuir seu beijo, porque aquele desejo começou a pular e gritar no meu peito, querendo se libertar. Meus braços se fecharam em seu pescoço e meus dedos se enrolaram em seu cabelo, puxando e o trazendo mais para mim. E, cedo demais, ele me soltou.
- Vamos nos manter descentes. – Ele dizia, ofegando.
- Foi você quem começou! – Acusei.
Ele me deu um sorriso deliciosamente travesso.
– Vamos!
Ele abriu o portão, liberando nossa passagem. Voltou para a cabana, guardou a chave no compartimento que a achou e voltou ao meu encontro.
– Será que o guarda já voltou?
- Não sei, depois da nossa pequena brincadeira lá dentro não ouvi mais nada. – Ele riu maliciosamente.
- Será que é seguro ligar o carro?
- Eu acho que é mais seguro a gente empurrar.
- Empurrar? – Perguntei, hesitante.
- Sim... – Ele riu, sarcástico. – Não acha que tem condições? - Não respondi. - Eu vou te ajudar. Não vai ser tão ruim e o carro não está muito longe do portão.
- Ok. – Não consegui dizer mais nada.
Ele tirou a trava do carro, e ficou em frente à porta aberta, me mandou ir para trás e empurrar, enquanto ele empurrava dali. Não foi tão difícil quanto eu achei que seria, na verdade, eu acho que quem fez a maior parte da força foi ele mesmo. Como mágica, meu carro estava, finalmente, do lado de fora daquele lugar. Olhei para trás, olhando, pela última vez, para o lugar onde eu fizera tantas loucuras, mas que, em meu íntimo, esperava nunca mais precisar ver. Subi no banco da direção, sendo seguida de , no carona, ele, agora, sorria para mim, aliviado e vitorioso. Mas a curiosidade me deixou ainda mais ansiosa.
- Bom, agora que estamos fora do lugar, e no carro, pode começar a falar. – Olhei para ele e vi seu olhar hesitante. O silêncio se prolongou por minutos incontáveis, e eu desejei poder saber o que ele pensava. O que ele escondia de mim?


Capítulo 12

- Não sei por onde começar. – Ele desviou o olhar.
- Que tal pelo começo?
- Não é tão simples quanto parece.
- Eu devia ter adivinhado que você não ia me contar nada! – Grunhi.
- Eu não disse que não ia contar, apenas que não sabia como começar! Não coloque palavras na minha boca! – Seu tom era indignado.
- Tudo bem, então, quando estiver pronto, sou toda ouvidos. – Falei, presunçosa.
Ele deliberou por um instante, antes de começar a falar.
– Talvez seja mais fácil se você me disser exatamente o que quer saber...
Respirei fundo, para me acalmar.
– Porque tentou esconder de mim que tinha um cofre e que você sabia a senha?
- Eu já lhe falei essa primeira parte, eu queria evitar o ataque que vi lá dentro. – Ele limitou-se a responder apenas o que eu perguntei, então, pensei nas perguntas mais importantes para fazer.
- Como você sabia a senha? - Ele não respondeu imediatamente. Ele olhou em direção à rua, na direção da sua janela, e o silêncio se estendeu até ficar desconfortável. Fiquei tentando imaginar em que momento ele ficaria interessado em começar a falar. Já estava impaciente de tanto esperar, e nada. - Não vai me dizer? – Impus.
- Vou... - Suas palavras se perderam no silêncio que se prolongava.
- Ainda estou esperando.
- Você é bem impaciente, não é mesmo?
- Só quando tentam me enrolar!
- Eu conheço a dona, por isso sei a senha. – Ele disse de supetão. Não compreendi imediatamente.
- Você conhece a dona e ela decidiu te dar a senha de um cofre? Que estranho! Eu conheço o açougueiro e nem por isso ele me deu a senha do banco dele.
- Não seja patética!
- Então não me faça ser! Que tal me contar sem rodeios?
- Eu namorei a dona daqui, satisfeita?! – Ele não gritou apenas as palavras na minha direção, ele praticamente as jogou, as amassou no meu rosto.
- Namorou? – Minha expressão era cética.
- Podemos dizer que rolou um clima por algum tempo, mas, como tudo na vida, teve um fim. Assim como esta conversa. – Seu tom era de quem selava um assunto sem sequer considerar voltar atrás.
- Se você acredita verdadeiramente nessas palavras que acabou de pronunciar por último, com certeza não me conhece direito! – Meu olhar era frio.
- Não tem mais o que dizer!
- Claro que tem! Você me enganou!
- Eu não lhe enganei!
- Você planejou isso desde o começo, não é mesmo? Quantas vezes já usou esse golpe? Dez? Vinte? Trinta? – Meus braços se moviam para todos os lados, a raiva abrandada, agora corria solta por todo meu corpo, me dominando.
- Não seja absurda! – Ele gritou as palavras furiosas.
- Gosta de trazer as garotinhas para cá para poder transar com elas? Qual é a desculpa que dá para as outras? Certamente eu devo ter sido mais fácil! Mais conveniente! Meu Deus, como fui burra! – Passei minhas mãos por meus cabelos e senti a umidade em meus olhos aumentar e transbordar.
Ele me olhou, assustado, quando me viu chorando, não conseguiu dar a resposta espirituosa, que, eu pude sentir, estava na ponta de sua língua.
– Por que está chorando? – Seus olhos ardiam em preocupação, seu corpo girou, sentando-se em uma das suas pernas e colocando a outra entre os dois bancos. Suas mãos voaram instintivamente para me alcançar, recuando na metade do caminho.
- Porque estou furiosa!
- , se calma, eu não entendo... Porque você está tendo essa reação... – Sua voz assumiu um tom gentil. Eu não podia responder aquela indagação porque eu também não tinha a resposta. Não exata. Eu cheguei à conclusão após pensar brevemente que foi a sensação de ser enganada. De que tudo fora premeditado. Minha cabeça girava muito rapidamente, eu queria sair dali e ficar só, queria poder não querer seu corpo perto do meu novamente. Ele se aproximou lentamente. Colocou sua mão em meu rosto, meu coração acelerou. Tentei ser indiferente ao seu toque, tentar não pensar que ele estava a apenas alguns centímetros de mim, com seu corpo musculoso e quente. - Me desculpe. – Sua voz fervia de uma sinceridade absurda. Aquilo me surpreendeu. – Em nenhum momento eu quis te enganar, em nenhum momento eu te trouxe aqui para fazer sexo com você. Eu vou entender e respeitar se você não quiser mais falar comigo, só achei que precisava saber. – Seus olhos eram tristes.
Uma nova força me dominou. Encheu meu corpo com um desejo estranho e insano, me remexi no banco, ficando de lado. Ele ainda não era consciente do que eu estava querendo fazer, nem do desejo que ardia por minhas veias quase como se fosse me enlouquecer. Ele abriu seus olhos e me encarou, demoradamente, um pingo de algo novo brilhando em seus olhos .
– Não sei se posso acreditar nisso. Lamento...
- Quer que eu saia do seu carro? – Seu rosto desmoronou um pouco. Meu peitou doeu, com uma força aguda, quando ele fez aquela pergunta. Não, eu não queria que ele saísse, eu o queria perto da minha boca, queria suas mãos no meu corpo. Tentei lutar contra aquele desejo. - Acho melhor levar a gente para casa.
- Não precisa me levar, meu carro está aqui.
- É... Tinha esquecido. Olha, realmente, você não precisa ficar mais tempo comigo do que o necessário.
- Do que está falando? - Eu sei que você não me quer mais perto depois disso tudo que você pensa que eu fiz. Mas também sei que está tentando ser educada. Só que isso não é necessário, você vai me ignorar de qualquer maneira depois disso, então só estou facilitan... – Minha boca se grudou a dele com urgência.
Minhas mãos agarraram, com força, sua camisa, puxando-o para perto de mim; seus braços uniram nossos corpos. Entrelacei meus braços em sua nuca e ele prendeu seus dedos em meu cabelo, intensificando nosso beijo. Ele me puxou para cima e bateu minhas costas contra a porta, se ajoelhando no meu banco. Minhas mãos seguiram por sua nuca, até os seus cabelos, enquanto suas mãos apertavam minha cintura, como se desejasse arrancá-la. Suas mãos ágeis delinearam meu corpo. Sua mão subiu e desceu por minhas costas, indo em direção a minha coxa, enroscando a mão em minha panturrilha, me puxando para o colo dele. Ele agarrou meus cabelos com força, me deixando mais feroz enquanto o beijava. Senti uma pontada de um leve sorriso em seus lábios ao mesmo tempo em que ele me beijava.
Sua boca se separou da minha, contra minha vontade. Ele beijou o lóbulo de minha orelha e depois sussurrou em meu ouvido.
– Eu sabia que você me queria tanto quanto eu te quero. Eu realmente achei que você ia resistir mais, mas fico feliz por parecer que eu estava errado. - Eu estava pronta para dar uma resposta que seria colossal, mas sua boca se uniu a minha, me impossibilitando de falar. Ele entrelaçou seus dedos em meus cabelos, puxando minha cabeça para trás, para poder colocar sua boca no meu pescoço. Um arrepio cobriu todo meu corpo. Comecei a rebolar em seu colo, submissa aos seus carinhos, e ao modo como ele me fazia delirar. – Que tal a gente ir mais lentamente dessa vez? – Ele murmurou em meu ouvido, a voz rouca.
Ele me prendeu contra o volante do carro, e se inclinou ligeiramente contra a parte de baixo do banco, encontrando logo o que queria. Ele colocou o banco o máximo que era possível para trás, e me puxou para que nossos lábios se encontrassem novamente. Meu sangue parecia pulsar mais forte, e meu coração batia em um ritmo desigual, como se o seu som pudesse preencher todo o carro. Suas mãos se prenderam mais sobre meu corpo e ele me empurrou, desunindo nossas bocas novamente. Fiquei confusa.
- Fiz algo errado?
- Pelo contrário... – Sua risada maliciosa me deu um misto de um prazer perverso.
- Então porque não deixa eu me aconchegar mais no seu corpo? - Me prendi ao corpo dele, novamente indo em direção de sua boca, ele me afastou novamente. – Qual é o problema?! – Agora com raiva.
Ele parecia se divertir enquanto observava minhas reações.
– Só pensei que estaríamos mais bem acomodados no banco de trás, digamos que quero dar uma atenção melhor para o seu corpo. – Ele me olhava com cobiça, descendo por meu colo, meus seios, minha barriga até minhas coxas.
Não pensei duas vezes, me esgueirei pelo pequeno espaço até o banco de trás, sendo seguida por ele, que já me virava no banco. Ele puxou-me para perto dele e me beijou grosseiramente. Suas mãos passaram para parte de trás do meu vestido, abrindo-o. Ele desceu meu vestido até estar na cintura. Inclinou-se sobre mim, beijando cada centímetro do meu corpo, em um percurso de beijos enlouquecedores. Ele colocou suas mãos por baixo do meu vestido, e por dentro da minha calcinha, encontrando minha intimidade. Seus dedinhos brincavam, me enlouquecendo, enquanto ele ainda beijava meus seios e os apertava com a outra mão. Ele seguiu em um ritmo mais rápido enquanto tocava meu clitóris, fazendo eu me contorcer de prazer e pedir um murmúrio baixo para que ele não parasse.
Senti que ele diminuiu o ritmo e desceu seus beijos por minha cintura, o vestido ainda o restringindo. Ele tirou sua mão de minha intimidade, apenas para retirar o resto do vestido. Quando se livrou dele, o tocou para um canto qualquer do carro. Ele me olhou, determinado, um misto de prazer e luxúria cobrindo seus olhos, e seus lábios em um sorriso sacana. Ele se inclinou para minha intimidade, e, sem pensar duas vezes, me invadiu com sua língua. Ao sentir seu toque, foi como se uma onda de uma corrente elétrica me invadisse. Minhas mãos foram em direção do seu cabelo, puxando e o trazendo para mais perto de mim. Ele continuou, com o dobro da ferocidade. Soltei leves gemidos de prazer e vi seus olhos se fixarem em mim, satisfeito. Eu não queria mais esperar, não conseguia mais esperar, puxei sua camisa, mas ele não se moveu. Continuou a passar sua língua repetidas vezes por minha intimidade, fazendo com que eu jogasse no lixo o pouco de sanidade que ainda me restava.
- ... – Tentei ofegar, porém minha voz era um murmúrio muito fraco e baixo. Eu atingi o clímax poucos minutos depois dessa pequena brincadeira, mas ele não parou, nem desacelerou, nem um minuto. Pelo contrário, parecia que fazer com que eu atingisse o orgasmo através da sua língua o deixava mais louco. Suas mãos se apertaram contra minha coxa, e eu puxava seu cabelo furiosamente. Não sei quanto tempo ficamos nessa brincadeirinha, só o que sei é que foi um bom tempo, ele ainda me fez ter mais dois orgasmos antes de se sentir satisfeito em deixar aquela região. Quando ele parou, foi abrupto, seu corpo de repente estava sobre o meu, ambos suados, nos beijando como se o amanhã não existisse. Como se não tivéssemos tempo o bastante para nós dois. Eu puxei sua camisa para cima e ele a retirou, jogando-a em qualquer canto, como havia feito com o vestido. Minhas mãos seguiram por seu peito, arranhando toda a sua extensão, até chegar a sua calça. Abri os botões rapidamente, e a forcei para baixo, ele correspondeu, como sabia que faria. Antes da calça se perder em algum canto do carro, ele retirou uma camisinha do bolso, e entregou a mim. – Quantas camisinhas você costuma carregar? – Perguntei, incrédula.
- Muitas! – Seus olhos eram intensos. Ele se manteve ereto enquanto eu colocava a camisinha nele, logo após, me jogou contra o banco do carro novamente, e pretendia vir para cima de mim novamente. Minhas mãos o conteram, e seu olhar ficou confuso. Agora era a minha vez de apreciar o momento. Ele tentou vir novamente, mas novamente eu o restringi. – Fiz algo errado?
Sorri perversamente, o vendo usar as mesmas palavras que eu havia usado.
- Não quero...
- O que? – Ele me interrompeu, seu olhar passando da confusão para a fúria.
- Posso terminar ou você quer ter um ataque antes? – Olhei para ele, ainda me divertindo. Ele esperou pacientemente, ou pelo menos, fingindo estar calmo. O encostei contra o banco do carro, e segurei sua ereção. Ele fechou os olhos ao meu toque, respirando mais forte. – Você achou mesmo que ia ficar no controle?
Ele não abriu os olhos, estava novamente entregue, novamente submisso. Minha mão aumentou o ritmo.
– Por que você me tortura desse jeito? – Ele gemeu, ainda de olhos fechados.
- Quer que eu pare? – Diminui o ritmo até quase parar, mas não parando. Ele rosnou de olhos fechados e eu sorri maliciosamente. Soltei seu membro de uma hora para outra, obrigando-o a abrir os olhos, confuso, me fitando, para entender o que me fizera parar. Não lhe dei chance para perguntar, grudei nossas bocas com uma nova urgência no ar, e subi sobre ele, deixando seu membro penetrar em mim aos poucos. Desci rebolando, vendo-o tentar controlar suas emoções, e me deixar fazer o que quisesse com ele. Quando sentiu que estava completamente dentro de mim, ele não pode se controlar mais, seus movimentos se tornaram rápidos e instantâneos. Mexi-me deliciosamente sobre ele, ofegando rápido, assim como ele. As palavras obscenas voltaram, e os tapas - em minha coxa e minha bunda - pareciam me enlouquecer mais. Sua respiração rude contra minha orelha fazia com que um arrepio percorresse toda minha espinha. Sua boca desceu por meu colo, até encontrar meus seios, e ele desfrutou mais um pouco deles.
Eu senti que não estava muito longe de atingir o orgasmo, e ele também sentiu, pois seu ritmo diminuiu, como se tentasse prolongar aquele momento. Mas eu não queria diminuir, eu queria aumentar, comecei a rebolar sobre seu membro, arrancando dele mais gemidos. Ele segurou meu rosto, para que seus olhos encontrassem os meus. Perdi-me na imensidão que parecia se encontrar diante daquele olhar, e tudo que passamos passou por mim como um vídeo, e me perguntei, se algum dia, caso fosse necessário, eu estaria pronta para abrir mão daquilo. Daqueles sentimentos que faziam com que eu me sentisse viva à medida que eu os descobria. Eu sabia a resposta, ela era clara, como água. Não, eu jamais estaria pronta.
Pensando nisso, meu corpo teve sensações involuntárias, querendo afastar o pensamento de dor e se voltar novamente para o prazer absurdo que aquele homem que eu mal conhecia me causava. Meus movimentos sobre ele ficaram ritmados e fortes, eu queria prolongar o momento, mas, ao mesmo tempo, eu queria prazer. Ele agarrou meus cabelos com força, colocando minha cabeça para trás, para colocar novamente sua boca em meu pescoço, e, com um gemido alto, teve o seu orgasmo, não demorou muito, eu também. Caí, exausta, sobre seu corpo suado, o único som era o de nosso coração acelerado e de nossa respiração desigual. Como se já fosse hábito, ele alisou minhas costas calmamente.
Mexi-me lentamente, para poder encarar aquele par de olhos intrigantes e intensos. Perguntei-me se ele estava tão sem vontade de ir embora quanto eu. Uni nossas testas, e demos demorados selinhos, apreciando mais o momento. Ele me deitou no banco lentamente, se separou de mim por um momento, que parecia infinito, deu um jeito na camisinha e voltou para perto de mim. Deitei sobre seu peito e deixei que ele fizesse carinho em meu cabelo e em minhas costas, enquanto brincava com os quadradinhos de sua barriga. Após pensar brevemente, e lembrar que havia alguém me esperando realmente em casa, e que devia estar preocupada, recuperei, ou pelo menos tentei, o que me restava de sanidade ou de razão.
- Acho que já passou um pouco da hora, deve estar preocupada. - Eu estava deitada em seu peito, com a cabeça em seu ombro, e vontade zero de levantar, o banco de trás do carro estava tão bom. resmungou algo incompreensível, e não parecia nem um pouco satisfeito em ter que levantar dali. Eu tentei levantar a cabeça, mas uma das mãos dele a forçou para baixo, de novo.
- Me deixa ir, por favor, a vai me pedir explicações e eu já estou me complicando demais...
- Eu sei, eu sei... – Ele, então, tirou os braços de cima de mim, me dando espaço para sair, e, com toda a força de vontade que tinha, junto da vontade de não levar bronca, claro, me levantei, catei a roupa no banco da frente, e, fazendo malabarismo, me vesti com ao meu lado, tentando se enfiar novamente no jeans. - Eu vou te deixar em casa.
- Eu sou maior de idade e estou de carro.
- Os criminosos levam isto em conta também! – Ele parecia decidido e eu nada disposta a discutir novamente, aceitei a condição.
- Claro, você pode me “acompanhar” até a minha casa. – Ele vestiu suas roupas e eu fiz o mesmo com a minha. Saiu do carro e eu fui para o banco da frente, esperei até ele entrar no carro, e segui pela rua. Chegando em frente ao prédio de , ele parou ao meu lado, abaixou o vidro do carro, eu abaixei o meu vidro, ele mandou um beijinho com um biquinho fofo e acelerou pela rua até onde eu não o podia ver mais.
Estacionei o carro e entrei no apartamento, tentando, ao máximo, não fazer barulho, e, sorrateiramente, verifiquei barulhos na casa, não tinha, pensei em deitar de uma vez, porque, se fizesse barulho, certamente acordaria , e isso não ia ser legal, mas o dia foi longo e cansativo, e eu estava necessitando de um banho e roupas limpas. Andei, silenciosamente, até o armário e peguei um pijama confortável, e, enfim, fui tomar o banho merecido, demorei como sempre e tive a impressão de dormir algumas vezes com a água caindo em cima de mim. Fui até a pia escovei os dentes, e prendi o cabelo em um coque, lavei o rosto com um sabonete especial, especializado para acne, não que eu precisasse, mas é sempre bom prevenir, enxuguei o rosto e fui deitar. Aquele parecia ser o dia mais longo de minha vida, e o mais intenso em vários sentidos.
Eu me sentia extremamente cansada, porém realizada. Em alguns segundos eu tive a impressão de estar com um pé na consciência e outro na inconsciência, pensei sobre o que eu já tinha lido sobre isso, é uma das fases do sono, mas foi só isso, porque, antes de perceber, já tinha dormido.
Subia pelas escadas da casa dos meus pais, estava indo para o meu quarto, mas eu tinha uma sensação esquisita, nunca tinha percebido como a escada para o segundo andar era grande, cheguei ao topo da escada, o corredor tinha uma cor diferente, minha mãe e sua compulsão por decoração, quando cheguei ao meu quarto, a porta estava pesada, como se não fosse mais usada, entrei no quarto e reparei que a janela estava escancarada, dei alguns passos lentos até ela e a fechei, percebi que estava calor, pensei em ligar o ar-condicionado, mas eu nunca acho o bendito controle, quando ia abrir novamente a janela, o telefone tocou, eu estava sozinha, pelo menos não tinha visto ninguém pela casa, fui atender ao telefone, que estava tocando estridentemente, saí pelo corredor, percebi que a mesinha com o telefone não estava lá, o telefone tocava na sala, e estava alto demais, comecei a descer a escada, no segundo degrau, pisei na beirada e caí, quando ia atingir a escada, acordei ofegante, com a sensação de choro preso na garganta, meu celular tocava insistente na cabeceira da cama, o peguei e atendi, praticamente por impulso nervoso.
- Alô?! – Minha voz estava grossa e rouca, a palavra saiu meio embolada.
- Ainda dormindo, ? – A voz conhecida me fez despertar e trouxe sensações que poucas vozes me fariam sentir.
- Pai? – Respondi, com a voz menos rouca.
- É assim que você vive depois que saiu de casa?
- Não, sim, na verdade, hoje foi um dia incomum.
- Entendo... Você pode vir para casa mais tarde?
- Claro.
- Ótimo, estou lhe esperando, até mais tarde.
A voz de meu pai e as lembranças que me trazia, me deixou com um aperto no peito, um peso no coração, várias sensações juntas, uma querendo subir por cima da outra, todas querendo me afogar, me fizeram chorar, assim como fazia quando era criança, quando a voz severa de meu pai me repreendia. Quando meu choro estava no fim, lembranças do dia anterior me invadiram, passaram como flashbacks em minha cabeça, tudo o que senti e vi, voando por mim, o dia foi um dia para ficar na minha história, talvez o fim de uma parte da minha vida, uma lembrança enterrada, talvez o começo de uma linda história, por isso, estiquei mais o choro, para brindar a este novo capítulo.

De alma lavada, como depois de todo bom choro, me levantei da cama. Atravessei o quarto com passadas firmes e fui para o banheiro, dei uma boa olhada no espelho e estava um pouco diferente, talvez fosse minha visão matinal, entrei debaixo do chuveiro e tomei um banho, dessa vez, não tão demorado, voltei ao quarto e escolhi uma roupa leve e discreta, como estava me sentindo, um short jeans, que ia até a metade da minha coxa, e uma blusa vermelha, um pouco grudada no corpo, mas sem decote, nos pés, decidi colocar um tênis, azul, com um detalhe dourado do lado, como toque pessoal, de acessórios, coloquei uma pulseira de ouro, meio torcida, fina e discreta, um colar de ouro com um pingente pequeno, que me trazia lembranças de uma boa viagem, e um brinco pequeno, para completar. Penteei o cabelo, e o deixei solto, fiz uma maquiagem discreta, apenas para valorizar meus traços.
Saí do quarto, já pronta e fui à cozinha, encontrei sentada à mesa, lendo uma revista de moda e bebendo um copo de suco, assim que sentiu a minha presença, ela levantou a cabeça e me encarou com cara de poucos amigos.
- Nunca mais faça isso. – Reparei que ela falava realmente sério.
- Desculpe, ontem a noite passou rápida demais e eu...
- Não quero saber com foi a sua noite, só quero que não faça mais isso, da próxima vez me avise, ou pelo menos faça menos barulho quando chegar! – Ela fez uma pausa, quando ia dizer outra frase, tentando me explicar, ela recomeçou. – Tem um recado para você, Jefferson disse que precisa dar uma palavrinha com você, pediu para você tentar entrar em contato assim que possível.
- Só isso?
- Só.
- Ok! Estou saindo. Vou passar pela casa dos meus pais, desculpe por ontem, bom dia.
- Bom dia. – Ela voltou a prestar atenção total à revista, me ignorando completamente.
O que será que o professor Hantins queria comigo? Essa era uma pergunta que me fazia no momento, e que, curiosamente, me deixava com uma sensação de leveza, como meu dia estava leve, observando as pessoas, pela janela do apartamento, que estavam andando pela rua. Algumas conversavam, outras exaltadas brigavam, em sua grande maioria pareciam estressadas. Se as pessoas soubessem o quanto aproveitar o tempo livre para fazerem coisas diferentes era bom, elas certamente o fariam.
E não adianta vir com aquela desculpa clássica de que "eu não tenho tempo livre". É claro que você tem. Todos nós temos. Alguns mais, outros menos, isso é claro.
Talvez se as pessoas deixassem de passar tanto tempo jogadas no sofá, vendo aqueles programinhas mais ou menos que assistem todos os dias; ou se acordassem uma hora mais cedo, já que isso às vezes acontece, mas elas viram para o lado porque podem dormir mais; ou se elas não fossem direto para casa após o trabalho.
Passear no parque, caminhar no calçadão, comer pipoca na varanda, brincar com o cachorro, visitar alguém querido, ler um novo livro, conhecer alguém novo, praticar um novo esporte, ir ao cinema, comprar uma roupa nova, ir a uma festa diferente, comer algo inusitado, visitar um lugar exótico, reencontrar um amigo de infância, passear por lugares visitados no passado, ouvir uma rádio diferente, mudar o itinerário diário, escolher um novo lugar para ser seu porto seguro e momento de reflexão, escolher um novo colo para chorar...
Pensando no que meu pai queria comigo, outros pensamentos vieram à minha cabeça. As pessoas poderiam reclamar menos e agir mais. Poderiam viver mais divertida e perigosamente... Um sorriso brotou em meu rosto. Perigosamente, era o tipo certo de diversão. Era a droga mais viciante. As pessoas poderiam ser mais felizes...
Resolvi deixar essa questão de lado e me concentrar na visita aos meus pais. Peguei uma maçã, esse é o lado bom de morar com uma garota preocupada com a saúde, passei no quarto, peguei o celular e a carteira, e voei para fora de casa. Já no carro, coloquei uma música nem muito lenta, melancólica, nem muito rápida, elétrica, na média, como o meu dia, até agora, pelo menos, reparei que meu combustível estava baixo, então, tracei meu itinerário; posto de gasolina, casa dos pais, dia livre, me desliguei do mundo dos pensamentos e segui, no ritmo da música.
O posto de gasolina estava vazio e o atendente - um homem gordo, com uma cara redonda e um bigode feio - veio me atender.
- Bom dia, senhorita.
- Bom dia, poderia completar, por favor? Gasolina aditivada.
- Claro. - Enquanto ele andava, apertei o botão que abria o tanque, passado algum tempo, ele voltou, e eu paguei o combustível.
Peguei o caminho para a casa dos meus pais e a cada metro que passava, ia ficando tensa, não era culpa minha, era uma reação involuntária. Chegando à rua deles, eu mal conseguia mover o pescoço, estacionei em frente à casa que passei praticamente toda a minha vida. Estar parada ali em frente me trouxe um bolo à garganta, hesitei por um instante, será que eu teria coragem para enfrentar o que quer que fosse que havia lá dentro?


Capítulo 13

Refleti se queria mesmo escutar o que meu pai queria falar para mim, provavelmente seria algum discurso crítico e moralista sobre a minha vida. Com um senso de convicção e determinação me lembrei do dia do hospital. Eu agora era corajosa, eu não podia ser uma covarde. Desci do carro antes que outros pensamentos me invadissem e minassem a minha força, fui até a porta da frente, subindo cada degrau como soldado em marcha da sete de setembro. Parei diante da porta, novamente hesitante. Não sabia se batia na porta, se ligava para meu pai avisando que estava na frente da casa ou se me sentava no chão, agarrava meus joelhos e chorava. Devo dizer que a última opção era realmente tentadora.
Porém, eu notei que não havia entregado as chaves da minha antiga casa, não tinha certeza nem se eu havia retirado ela de minha bolsa. Sentei-me sobre um dos degraus e vasculhei por cada canto dela. O molho de chaves estava ali, afinal de contas, sorrindo galantemente para mim. Entrar sem ser notada era muito mais tentador, então, foi isso que eu fiz. Entrei com minhas próprias chaves, e, com minha visão panorâmica analisei rapidamente toda a sala. Vazia! Não posso exprimir com clareza, as emoções e os fatos que se sucederam logo em seguida. Alívio. Medo. Receio. Angustia. Alívio novamente. Não, eu não estou louca e muito menos sinto tudo isso só por conseguir ver a sala vazia.
Eu entrei pelo hall até a sala, com milhões de lembranças invadindo sem controle minha mente, e enquanto devaneava sobre minha vida, ao virar para encarar a fabulosa lareira, meu pai me encarava, os olhos astutos como os de um felino. Encarar aqueles olhos da cor do chocolate era mais difícil do que deveria ser.
- Oi! – ele falou, encarando-me.
- Oi... – meus lábios conseguiram se mover languidamente. O silêncio afundou no meio do buraco que era a sala.
Estive ali, sentindo pena de mim mesma e juntando lembranças para jogar fora. De certo modo eu lamentava por estar ali, porém, isso provavelmente não me ajudaria. Eu sentia como se estivesse enchendo e lotando uma enorme gaveta da qual não entrava, nem cabia mais nada. Desorganizada, eu precisava dar um destino para cada pedaço da minha vida, para cada essência da minha alma. Eu ainda encarava-o calada, um aperto forte em meu peito. Uma vontade louca de chorar. Eu queria correr e me abraçar nele, mas ao mesmo tempo, eu queria sair correndo dali. Os sentimentos eram incompatíveis, eles não encaixavam.
- Quer se sentar? – ele quebrou o gelo.
- Claro. – respondi sem ter certeza se minhas pernas obedeceriam ao comando correto. Eu ainda estava parada no mesmo lugar sem conseguir me mexer, havia uma luta sendo travada naquele exato momento e o meu maior inimigo, era ninguém mais ninguém menos, do que eu mesma.
- Então venha... – ele estimulou.
Forcei minhas pernas a obedecerem. O meu pequeno confronto pessoal deveria esperar um pouco mais. Eu precisava esvaziar minha gaveta, logo, foi o que comecei a fazer. Assim eu sabia que seria muito mais fácil encarar aquele homem. Aquele homem que até não muito tempo atrás eu seguia cegamente como meu maior exemplo, como se fosse meu herói particular. Esvaziando a gaveta e juntando lembranças para jogar fora. Rasgando pedaços de mim mesma que ninguém podia saber, provavelmente me ajudaria a esquecer, pelo menos, era disto que eu tentava me convencer. Ele não falou, então forcei o fim do desagradável silêncio.
- Você me queria aqui, então eu vim. Devo dizer que estou minimamente curiosa. – não havia necessidade de dizer que eu realmente estava pirando de curiosidade.
- Filha - ouvi aquela palavra com um choque direto em meu coração – já está na hora de acabar com toda esta loucura. Sua mãe precisa de você aqui, eu preciso de você aqui, sempre tão responsável, madura... Em que momento eu lhe perdi?
- Eu... Eu não... Eu acho... – eu não conseguia acabar. Eu não sabia mais o que eu queria. Os dois desejos emanavam por todo meu corpo me deixando tonta. Encarar aqueles olhos tristes e vazios, seu semblante taciturno como raramente eu havia visto, era uma facada direto em meu coração. Eu era um monstro?
- Você não precisa me responder nada agora, apenas pense. E tente considerar pelo menos o que eu estou dizendo. O seu lugar é aqui, como antigamente, ao nosso lado - ele colocou sua mão sobre a minha e minha garganta se fechou reprimindo meu choro histérico. Eu procurava por controle em cada pedaço de mim, mas não achava. Novamente tudo o que eu queria era me abraçar a ele e me sentir protegida.
- Me desculpe - eu disse em uma voz fraquinha - realmente me desculpe, mas eu não posso. – eu sabia, instintivamente, como na noite anterior que eu não conseguiria nem poderia me desfazer daquela outra metade de mim. E aquela metade, louca e viva, exigia que eu fosse livre.
Ele me encarava, o semblante sem vida, estaria eu vendo o reflexo de meu próprio rosto? Sempre falaram que eu era tão parecida com ele. Ele me abraçou e foi difícil me controlar. As lágrimas eram grossas demais para que eu conseguisse conte-las ou segurá-las. Elas corriam, traiçoeiramente, por minhas bochechas. Ele afagou minhas costas e meus cabelos esperando a onda de pesar e dor – um pedaço menor em mim comparado à dor de perder a minha outra metade – sumir e acalmar.
- Eu preciso ir. – falei após longos minutos. A voz levemente controlada.
- Apenas pense... – ele repetiu – se não quiser voltar a morar conosco, pelo menos aceite um apartamento.
Considerei aquilo por um segundo, era uma solução até que fácil de levar. Porém, eu sabia que sua única intenção era me comprar, me trazer de volta para a mordomia, o dinheiro, o luxo, e...
- Ficar sob seu domínio não é mais uma opção.
- Não me entenda mal, , foi apenas uma sugestão, para o seu bem. – sua voz assumiu um tom rude.
- Sim, eu entendo como foi por todos esses anos em que estive encarcerada e sob o seu jugo, não é? - Derramei calmamente sobre ele parte do que sentia.
- Nunca a mantive presa aqui, e se sentiu assim é porque nunca soube aproveitar a boa vida que sempre fiz questão de dar a você e sua irmã. – Senti certo ressentimento em sua voz, porém estava com algumas coisas entaladas dentro de mim que impediam dessas palavras me atingirem completamente.
- Pai, olha, eu prometo pensar um pouco mais nisso, mas agora não... Eu preciso ir, tenho algumas coisas pra resolver hoje. – disse em tom definitivo.
- Ok, - continha ressentimento em sua voz - como queira, eu espero sua resposta.
Sai em direção à porta sendo seguida por ele, e pretendia seguir diretamente para meu carro sem me permitir olhar para trás, mas, ao invés disso fiquei parada enquanto a brisa fria do outono soprava e o sol brincava com o meu cabelo. A gaveta secava. enquanto eu via cada pedaço meu sendo varrido pelo vento daquela rua e assim as lembranças iam indo parar em algum lugar do lixo de minha cabeça. Bastou limpar a gaveta para entender o quanto aquele asfalto era tão preto e quente, mas que nunca deixaria de andar descalça sobre ele.
Entrei no carro, olhei para a porta, olhei para meu pai, liguei o carro e antes que outra lágrima fosse capaz de cair, acelerei o mais rápido que minhas pernas, trêmulas, permitiam. Na minha cabeça, consegui projetar a visão de minha mãe: frágil, indefesa, chorosa, insegura. Ela gostava de se mostrar forte e eu sabia o quanto a separação devia estar sendo difícil para ela. Parei algumas quadras a frente, e encarei meu reflexo no espelho retrovisor. Eu sabia que eu deveria sentir-me culpada pelo estado dela, talvez esse pedaço de mim que eu não podia abrir mão fosse meu lado egoísta do qual eu nunca tinha desfrutado. Ele não me machucava, mas ele também não me fazia completamente feliz. Ele apenas me lembrava de que sendo feliz eu estava machucando outra pessoa. Sim, eu era um monstro.
O celular tocou e eu pulei com o barulho inesperado. Não reconheci o número e pensei sobre atender ou não, por fim, resolvi atender. – Alô, minha vida é um saco?
- Senhorita Goulart? – a voz rouca e sedutora soou do outro lado me paralisando.
- Professor Hantins? O que quer? Como conseguiu meu número? – perguntei a voz sobressaltada.
- Oh, me desculpe! Peguei nos arquivos da faculdade, espero que não se importe. – Fala sério! Me importar? Eu estava louca de felicidade. – Eu gostaria de conversar com você, poderia me encontrar na sua sala de aula em uma hora?
Silêncio.
- Senhorita?
Silêncio.
- Senhorita, está ai? – ele perguntou ansioso.
- Sim. – minha voz era baixa, minha cabeça voava imaginando o que ele poderia querer comigo. – me desculpe professor... Mas o que exatamente quer conversar comigo?
- Quando nos encontrarmos conversamos sobre isso, não quero falar pelo telefone. Você vai poder estar lá?
- Er, claro...
- Ótimo! – será que imaginei o sorriso em sua voz?
Quando olhei no espelho, estava horrível, com a maquiagem toda escorrida, tratei de estacionar logo o carro e refiz tudo. Olhei no relógio pra me situar no tempo e espaço antes de ligar o carro e para meu espanto já estava na hora do almoço e eu devia me encontrar com o Prof. Hantins dali à uma hora, não daria tempo de almoçar, liguei o carro e fui tomar um frozen yogurt, que eu amo, mas faz tempo que não tomava, pois o tempo andava bem frio por aqui. No caminho para a loja eu admirei a paisagem, fazia um belo dia, o sol estava morno, abri a janela do carro e deixei o vento entrar, o céu estava de um azul límpido e havia muitas pessoas na rua.
Já na loja fiz o pedido mais amado por amantes de doces (que se permitem avançar o sinal de vez em nunca) como eu, iogurte natural, morango, cereja e pêssego com calda de maracujá. Saboreei cada colherada como se fosse única, a rara preciosidade, estava sentada em um banco do canto da loja, olhando as pessoas passarem e fazerem seus pedidos, estava desatenta, nada ocupava minha mente realmente, meus olhos me mostravam imagens que sem ajuda do meu cérebro (que me fazia o favor de estar desligado, no automático) eram sem sentido. Assim que acabei fui para o carro, onde liguei o cérebro novamente, e indagações encheram meu cérebro, mas passei por elas e rumei para a universidade. Aproximei-me em velocidade baixa do campus, estava vazio, era anormal, pois sempre que chego naquele lugar ele está apinhado de gente. Desci do carro preguiçosamente, enquanto caminhava pelo estacionamento minha pulseira se soltou do meu braço, me abaixei para pegá-la e continuei andando, tentando fechá-la. Eu estava de cabeça baixa, meus pés seguiam um caminho que já conheciam, quando cheguei ao corredor da minha sala o fecho já estava de volta no lugar. A porta estava aberta, e eu ‘sentia’ a presença de alguém lá.
Entrei na sala perdida em pensamentos, senti o cheiro de seu perfume que inundou meus pulmões como se eu estivesse me afogando, seu sorriso modesto, porém ainda cativante me deslumbrou. O cabelo bagunçado, o paletó impecável. Ele mexia em seu notebook e ao notar minha presença virou-se para me encarar. Os olhos verdes me hipnotizavam.
- Boa tarde, senhorita! – a voz aveludada dele me encantou.
- Boa tarde, professor! – minha voz apesar de baixa saiu intensa.
- Como está? – ele continuava com as formalidades e eu continuava estática na porta.
- Bem, e o senhor? – seu olhar foi de repreensão a menção da palavra “senhor”.
- Por favor, não me chame de “senhor”, faz com que eu pareça muito mais velho... – ele me deu um sorriso maroto.
- Tudo bem, professor, não lhe chamo de senhor. – meu sorriso foi tímido, senti um leve rubor cobrir meu rosto.
- Melhor assim! – ele abriu mais o sorriso. – Porque não se senta aqui? – ele indicou uma cadeira ao seu lado, meu coração disparou.
Minha mente e meu corpo pareciam não estar conectadas, pois minhas pernas não seguiam o comando da minha mente. Minha mente gritava descontrolada, vai logo idiota! Tá esperando o quê? Vai para perto do professor lindo e gostoso! Minhas pernas se grudaram no chão como se tivesse uma força dominadora que as impedisse de sair dali. Eu o encarava, vendo-o reprimir um sorriso pela minha hesitação, tentando inutilmente, manter o ar educado e sério, seus olhos o entregavam. Ele levantou-se da cadeira lentamente, e caminhou a passos curtos até onde eu me encontrava. Meu coração parecia que ia sair da boca, meu estômago se contraiu com um frio inesperado na barriga.
A mente incontrolável, não mais pertence ao corpo. Ela cria mil e uma situações. As previsíveis e as mais inesperadas. Tudo está tão perto, tudo está tão longe. E o corpo se projeta, segue a risca as instruções daquela mente insana, medonha e criativa. Sem medo uma a outra se unem. E seguem juntas, na busca por aquela felicidade. Tantas vezes escondida, tantas vezes sufocada. E a libertam, desamarram todos os nós que a prendiam. E ela voa... Livre! E essa liberdade tem cheiro de grama cortada, sensação de paz como quando nos dias de calor vem a chuva. Ela permite novos sonhos, onde corpo e mente seguem lado a lado, no mesmo compasso. E não importa o quanto possa ser contraditório, mas somente quando estão presos, mente e corpo, é que a alma pode realmente estar livre.
Ele pegou minha mão com muita delicadeza e a apertou com carinho antes de dizer:
- Você está se sentindo bem? – ele disse você e não senhorita como costumava fazer. Não consegui responder por isso só balancei a cabeça.
- Por que não me acompanha? – ele puxou minha mão sutilmente, me levando até o lugar onde ele até poucos minutos atrás ocupava. Minhas pernas seguiram um comando involuntário. Tenho certeza que se ele quisesse me levar para qualquer lugar que fosse elas simplesmente o seguiriam.
- Tem algum problema? – ele pressionou. – A senhorita parecia bem até alguns segundos atrás, agora parece que viu uma assombração ou algo do gênero.
Senhorita e não você. Será que eu havia apenas imaginado antes?
Ele começava a ficar preocupado, e isso me libertou um pouco da magia que ele lançava em mim. – Desculpe, professor. Eu acho que brisei. Desculpe-me.
O sorriso sapeca estava de volta. O semblante preocupado e confuso desanuviou-se daquele rosto. Tentei pensar em outras coisas que não fosse à beleza do professor e o modo como o seu corpo tão próximo do meu fazia meu coração pular. – O que o senh... – travei a palavra no meio quando notei sua expressão – Desculpe... é difícil, não sei como lhe chamar.
- Que tal de Jefferson? Eu, pelo menos, acho meu nome bonito... – ele sorriu convidativo.
- Eu também. – No momento que disse as palavras, quis poder arrancá-las! Mas ele sorriu parecendo satisfeito.
- Então... – troquei rapidamente de assunto – o que você queria comigo? – o chamar de você era estranho, pelo menos para mim. Ele sorriu, antes de começar.
- Sei que pode não ser da minha conta, mas o que anda acontecendo com a senhorita ultimamente?
Eu devia chamá-lo pelo nome e tratar como você, mas ele continuava com as formalidades. – Como assim, senhor?! – Tive o cuidado de enfatizar bem a palavra.
- Fiz algo errado?
- Se eu devo lhe chamar de Jefferson ou de você, porque não pode fazer o mesmo?
- Porque sou seu professor.
- E eu a sua aluna.
Ele sorriu de canto, todo o meu interior parecia querer gritar.
- Tudo bem, ! – senti um surto de prazer se apoderar de todo meu corpo ao ouvir aquela voz sedutora dizer tão perto meu nome. Eu sabia que era uma reação estúpida, mas ainda assim, não conseguia deixar de senti-la. – Melhorou?
- Certamente, está muito melhor, Jefferson! – aquela sensação esquisita de que era errado chamar meu professor pelo primeiro nome foi passando. Começou a ser natural, com as brincadeiras. – Mas finalmente, vai me dizer?
- Vou! – e ele se calou. Ficou me encarando, seu olhar era profundo e intenso. Sem pensar, meu corpo começou a se inclinar para o dele e vice e versa. E então, quebrando algum tipo de encanto que tinha se lançado sobre nós, ele falou: - Estou preocupado com o seu desempenho durante as aulas, te vejo muito dispersa, seu rendimento caiu e a vejo quieta. Não é mais como no começo quando tinha que pedir para parar de falar com suas amigas, conversei com elas muito rapidamente na última aula, para ver se elas sabiam o que lhe acontecia, nada souberam me dizer, então, por fim, decidir vir eu mesmo conversar com você.
- Não está acontecendo nada... – menti. Na minha cabeça, eu tinha a visão mental de como havia sido a ultima aula com ele e certamente, não tinha sido agradável.
- Porque está mentindo? – ele colocou a sua mão na minha e aquela sensação esmagadora de desejo cresceu no meu peito me tirando o fôlego. Se controle! Eu dizia, repetidas vezes, para mim mesma.
- Não estou mentindo! – tentei colocar alguma força e insulto na voz, mas fracassei rápida e completamente. Para tentar ser mais convincente, me levantei como se fosse sair da sala. Quando pensei em me virar uma de suas mãos já agarrará meu braço me puxando de volta. Não de uma forma que fosse me machucar, mas sua pegada era forte.
- Não vá! – uma de suas mãos foi para minha cintura por puro instinto. Colou nossos corpos e eu podia sentir a sua respiração no meu rosto. – Não quis lhe ofender de forma alguma. Só acho que não está me dizendo complemente a verdade.
Fiz a burrada de erguer a cabeça e encarar seu rosto, tão próximo do meu, tão convidativo, tão apelativo. A distância que existia entre nossas bocas não era muita e tanto ele como eu podíamos quebrar essa pequena barreira facilmente. Minha respiração começou a ficar alterada, entrava e saia rápido demais me constrangendo. Tentei me afastar, mas sua mão apertou minha cintura e eu fiquei paralisada. Ele estava alterado assim como eu? Eu não podia acreditar!
- Diz que não, se quiser que eu pare... – seu rosto se aproximou do meu com cuidado, lentamente, prolongando aquele momento. Eu podia ouvir nossas respirações mais rápidas, e a resposta que nossos corpos emitiam ao mundo. Sua outra mão subiu para minha nuca, e seus dedos se enrolaram no meu cabelo. Minhas mãos continuavam flácidas, uma em seu peito a outra agarrada na mesa. Quando nossos lábios estavam perto o suficiente para quase se tocar, o celular tocou.


Cap. 14

Alô? – ele falou com tom de raiva, a mão ainda agarrava minha cintura, o corpo ainda grudado ao meu.
Enquanto ele falava no telefone, minha mente começou a voltar para a realidade, e eu comecei a ficar racional. Tentei me endireitar sutilmente, porém ele me lançou alguns olhares desaprovadores, como quem diz “porque você está se mexendo se assim está tão confortável?”. Comecei a olhar para a porta insistentemente, temendo que alguém passasse na hora e nos visse naquela situação. Não seria algo muito fácil de explicar, mas ele não parecia se importar. Mentalmente, eu amaldiçoava quem quer que fosse a pessoa do telefone, por ter interrompido aquilo que poderia ter sido um dos melhores momentos da minha vida.
Ouvi passos de um salto alto contra o chão marmóreo. Me desenrosquei dele imediatamente, querendo mais do que tudo que pudéssemos nos fechar dentro de uma bolha para sempre. Ele andou dois passos para trás me dando espaço ainda com um olhar confuso, e eu andei até atrás de uma classe e me sentei em uma das cadeiras estofadas pretas. Quando ele desligou e ia vir para junto de mim uma moça alta, loira e bonita veio ao nosso encontro. Ela usava um vestido estilo piquenique roxo e preto e solto em seu corpo com uma meia calça preta e uma bota de salto alto e bico fino preta com fivelas em prata. O cabelo loiro vinha solto e era ondulado nas pontas e o rosto bem maquiado me lembrava uma boneca. O perfume exalava por toda a sala. O sorriso no seu rosto desmoronou um pouco quando ela notou que ele não estava sozinho. Pelo crachá que ela usava, notava-se que ela também trabalhava na faculdade, mas não creio que fosse professora.
- Desculpe, eu pensei que estivesse sozinho. – o sorriso tímido estava ali, e eu fiquei me perguntando se ele deu em cima dela também. Imediatamente, uma raiva latejou no meu peito como se pudesse me partir em duas. Eu já disse que sou idiota?
- Eu estou terminando um assunto com uma aluna e lhe procuro no décimo andar pode ser?
- Na verdade – falei me levantando – nós já acabamos. Até mais, professor. – tentei ser educada e lancei um sorriso amarelo para ambos, a raiva fluía por minha corrente sanguínea.
- , espere... – ele falou, mas já estava com a voz distante de mim. Não senti a presença de ninguém vindo atrás de mim. Até porque, sei que seria ridículo, ele vir correndo atrás de mim como o príncipe no seu cavalo branco.
Eu não ia exigir dele explicação nenhuma, até porque ele não me devia. Se ele tinha um caso com aquela moça, eu seria a última pessoa que gostaria de saber. Não sabia muito bem como iria encará-lo durante a próxima aula, talvez o mais apropriado fosse eu dar um gelo. Quando o elevador chegou ao térreo tomei um susto e meu estomago palpitou. Ele estava escorado na recepção do saguão um olhar infeliz no seu lindo rosto a expressão séria.
Baixei meus olhos e tentei ir por outro caminho, ele me seguiu. Fui em direção da saída que tinha pelo bar, onde passava pelo lado do elevador dos professores e funcionários, pelo qual ele deve ter usado para chegar mais rápido que eu. Ali, pelo menos, ele não tinha como fazer muitas coisas. Os seguranças estavam em volta, tinha as pessoas que trabalhavam no bar e a recepcionista. Ele jamais seria louco o suficiente para fazer algo.
Senti uma mão segurar forte em meu braço e me puxar, pensei em gritar, mas não deu tempo. Uma boca estava grudada a minha e minhas costas bateram em algo metálico me machucando. Minhas mãos ganharam vida própria, e seguraram no seu cabelo o puxando para mais perto de mim. Senti suas mãos descerem por minha cintura até minha bunda até encontrar minhas coxas e me levantar no ar. Entrelacei minhas pernas na sua cintura. Desgrudei nossas bocas, em um ofegar louco, pedindo por um pouco de ar. Foi só ai que notei que estávamos dentro do elevador, parados no terceiro andar, a porta que devia ter aberto agora estava novamente fechada.
- Você é maluco! – sussurrei, enquanto ele beijava meu pescoço.
- Você me deixa maluco! – ele disse contra meu pescoço.
- Me solte, vamos sair desse elevador antes que alguém o chame lá em baixo e nos veja nessa situação.
- Mas está tão gostoso aqui... – minhas unhas desceram pela extensão do seu tórax, arranhando seu corpo perfeito por sobre a camisa. O senti solta o ar mais irregularmente.
- Não vai ficar tão gostoso se um segurança pegar a gente nessa posição mais especificamente. E se chamarem o elevador lá em baixo teremos que parar com isso de todo jeito.
- Eu não precisaria estar me preocupando com isso agora se você não tivesse fugido de mim lá em cima... – sua boca agora estava no meu queixo.
- Eu não queria interromper a sua conversa com a Barbie. – na minha voz havia ressentimento novamente, ao me lembrar que ele poderia estar tendo um caso com ela. Comecei a recuar, ficando rígida. Obviamente ele percebeu.
Sua boca foi para minha orelha, e ele a colocou no meu nódulo me causando um arrepio por todo meu corpo. Minhas pernas se fecharam com mais força na sua cintura e ele sorriu satisfeito. – Não seja absurda! Ela é apenas uma colega de serviço, nunca tive e nem terei nada com ela...
Minhas mãos bagunçavam seu cabelo e sua boca se uniu a minha, nossas línguas lutavam. Ele me apertou mais contra a parede de metal do elevador e retirou uma das mãos da minha bunda e subiu por meu corpo por baixo da minha blusa até alcançar meus seios. Parei de beijá-lo e olhei para ele, um brilho de excitação dançando em seus olhos. Quando percebeu minha reação, ele parou. Sua mão fez menção de sair dali e eu grudei nossas bocas com ferocidade. Ele alcançou um de meus seios com a sua mão e o apertou com vontade, gemi baixo contra sua boca. Ele baixou mais meu corpo para que eu pudesse sentir facilmente o volume nas suas calças.
- Vamos para um lugar mais discreto. Eu conheço um motel que... – eu o interrompi.
- Não quero ir para um motel, quero ir para uma das salas lá em cima ou desse andar mesmo, tanto faz.
Ele sorriu. Sua mão foi para os comandos do elevador e ele apertou o décimo primeiro andar. Ele me soltou, contra a nossa vontade, para o caso de haver alguém naquele andar. Saímos indiferentes do elevador, e andamos um pouco pelo andar. Revistamos cada uma das salas, pelo que parecia não tinha ninguém. Ele me abraçou por trás e enquanto beijava meu pescoço me guiou até uma das ultimas salas que tinha, entramos sem nos importarmos em fechar a porta de imediato. Ele me prensou na parede e abriu o fecho do meu short.
- Isso é loucura, professor! - Falei ofegante, quando senti seus dedos invadirem minha intimidade. É claro que eu já estava longe de querer que ele parasse.
Uma risada estridente veio do corredor. Congelei novamente, Jefferson se afastou de mim se recompondo e eu fechei o fecho do meu short. Ele se sentou na classe do professor e eu corri da forma mais silenciosa que pude, puxando uma cadeira para o lado dele como se estivéssemos estudando alguma coisa. O pequeno detalhe que esperávamos que passasse despercebido era que não havia material algum sobre a mesa. Por dentro eu me sentia aquecida, estimulada, com aquela sensação boa que apenas o perigo me proporcionava.
O cabelo completamente desarrumado, a roupa bagunçada, eu devia estar mais parecida com uma louca. Tentei parecer normal, se é que isso era possível. A mão dele voou para minhas coxas, alisando de leve, fazendo com que eu lhe lançasse um olhar sugestivo. Os passos ficaram mais altos e as risadas mais barulhentas, era um casal que assim como nós estava revistando todas as salas. Um sorriso brotou involuntário em meus lábios imaginando o quanto aquilo era cômico. Quando chegaram a nossa, eles estavam se abraçando, entrando na sala aos beijos e não haviam nos notado. A mão de Jefferson agora estava sobre a mesa.
A garota era magra, cabelos cacheados médios e castanhos claro, o garoto forte, cabelo curto e preto era alto. Ela pulou no seu colo entrelaçando as pernas em torno da sua cintura ainda sem nos notar. Jefferson deu um pigarro levemente alto, fazendo o casal parar estático. Ambos olharam em nossa direção, os rostos pálidos. Ele a soltou e se afastou dela e ambos ficaram muito vermelhos. Eu senti uma vontade louca de rir, até minha barriga estar doendo a ponto de me jogar no chão e rolar. Jefferson, apesar do ar sério tinha um olhar de quem estava se divertindo perversamente com tudo o que estava acontecendo. O garoto tentou se explicar:
- Professor, nos desculpe-nos apenas estávamos... – o garoto não conseguiu terminar, pois Jefferson terminou a frase por ele.
- Querendo dar uma rapidinha? – e então não consegui me conter. Minha voz se rasgou em uma risada ruidosa e alta. O casal ficou mais sem jeito ainda.
- Desculpe... – tentei controlar minha voz, mas estava sendo difícil. – Me dêem licença, por favor. A mão de Jefferson quis voar para meu braço, mas ele se conteve no caminho quando lembrou de que não estávamos sozinhos.
- Senhorita - me virei para ele e meu coração começou um ritmo frenético. - Sinto muito, acho que depois acabamos este assunto.
Ele não estava satisfeito e isso era fácil de ver em seu rosto, mas ele sabia que precisava cuidar do casal infrator antes de fazer qualquer outra coisa. Apenas lhe dei um sorriso simpático e segui para a porta sem olhar para trás. Minha mente nadava enquanto eu tentava compreender e assimilar tudo que tinha acontecido entre nós. Eu cheguei até o elevador sem realmente ver o caminho. Apertei mecanicamente o botão para o térreo e segui para meu carro. Para onde eu ia? Para casa? Não, eu não estava com vontade de ir e aturar o mau humor da .
Sabe, eu me sinto perversamente bem hoje... Tão bem que seria capaz até de chegar ao ponto de considerar ligar para o . Aquele senso de propósito louco de um perigo insano me preencheu. Vocês sabem o que dizem sobre cutucar a onça com vara curta, não é? Caminhando na direção do carro ainda decidindo, procurei meu celular na bolsa abri a lista telefônica não que eu precisasse eu sabia o numero de cor, mas nesse momento eu queria poder olhar o numero, o nome, e imaginar como eu seria recebida. É, esse jogo estava começando a ficar realmente perigoso para mim.
Algo em minha cabeça gritou “foda-se” e o sorriso perverso que cobriu meus lábios fez com que o guarda alto, forte e moreno (já disse como gosto de morenos altos e fortes não é? Ok, parei) me observa-se curioso; abri a porta do carro, fechei o celular, não ia ligar, não, eu não ia, eu não vou, eu não quero, não preciso ligar para ele... Não preciso... Eu sou uma menina boazinha. Cinco segundos depois. Dane-se! As boazinhas não se divertem! Disquei rapidamente o número dele já dentro do carro.
- Fala. – atendeu já no terceiro toque.
- Antigamente você era mais educado...
Não houve ação do outro lado e me perguntei por um segundo se ele havia desligado ao reconhecer minha voz, o silêncio pasmo e mudo foi rompido após longos dez segundos que me pareceram mais dez horas.
- ? – ele perguntou perplexo.
- Olha ele ainda lembra da minha voz – sorri fraco - Sim, sim, você não está alucinando. Mas você costumava ser mais rápido, está muito destreinado. – ri em seguida de mim mesma.
- É que eu atendi sem ver quem era... A que devo a honra desta ligação? – Ele não havia me repelido, ele realmente queria e ia entrar na minha brincadeira insana.
- Queria saber se topa sair comigo hoje. – levaram mais alguns segundo para ele responder; o mesmo silêncio pasmo.
- Tipo que horas?
- Tipo agora.
- Você está bêbada? Drogada? Chamada?
Ri alto.
- Obrigada pela parte que me toca, me sinto realmente mais amada depois desse comentário. Você quer ou não quer?
- Eu juro que não te entendo!
- Aff! Não comece! Apenas responda... Você quer ou não quer?
Após mais alguns segundos de hesitação ele por fim se rendeu. - Pode ser, onde?
Sorri para mim mesma vitoriosa. Ah como eu amava esse meu outro lado!
- Aceito sugestões.
- Huum... Ok me espere pronta na frente da tua casa, te pego em uma hora pode ser?
- Aonde vamos? Sim, o horário esta perfeito. Mas sabe que to morando com a , não é?
- Sim, sei. E quanto ao lugar... Será surpresa. – ele riu e logo após desligou.
Algo me dizia que aquele encontro ia ser bom, muuuuito bom.


N/A: Oii gatinhas *-* Viram, como prometido nem demorei muuuuito (ta, so um pouquinho ashusahuas)
Mas eu acho que esse cap. ficou legal, pelo menos eu gostei de escrever ele, vai ser meio que o começo de tooooda a confusão mesmo. Muita coisa vem rolando por ai se eu conseguir colocar no papel tudo que eu tenho na cabeça... Espero que gostem da att. não deixem de comentar :P
Bjão, (L)

Nota da Beta: Qualquer erro nessa atualização é meu, só meu. Reclamações por e-mail ou pelo twitter, nada de e-mails para o site, ok?
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that xx