Prólogo.

Eu andava decidida entre as pessoas da plataforma que esperavam o trem que partiria da estação Picaddilly, em Manchester, com destino a King's Cross, em Londres. Um condutor apitava e sinalizava para que os passageiros embarcassem, e assim eu entrei naquele trem e fui parar numa cabine vazia, largando a mochila pesada no banco e guardando o bilhete do trem no bolso. Uma certa desordem no corredor durou cerca de dez minutos enquanto os atrasados entravam e procuravam seus lugares. Minha expressão devia ser a mais hostil, pois um casal e um senhor de meia-idade fizeram menção a abrir a porta e se acomodar na minha cabine, mas eu os olhei rapidamente, erguendo uma sobrancelha, e eles se retiraram no momento que estiquei as pernas sobre o banco na minha frente. Eu puxei o iPod de dentro da mochila e pluguei os fones, agora baixando as persianas no vidro da porta da cabine, arrumando o capuz do casaco de moletom sobre a cabeça e tombando-a para trás, deixando que a batida de Running From Lions, do All Time Low, penetrasse por meus ouvidos.

Running from lions never felt like a mistake(Correr de leões nunca pareceu tanto um erro)

A letra fazia sentido enquanto eu ouvia Alex Gaskarth cantando.
Eu, com meus 18 anos de idade, recém-formada na escola, estava fugindo de casa. Fugindo dos meus leões. Eu sabia que estaria extremamente encrencada se encontrasse um rosto conhecido em plena viagem. Mas eu não planejava ser encontrada, por isso estava indo pra Londres, me misturar no meio de tantas pessoas diferentes. Me perder de vista.
Senti o trem dar um solavanco e eu escorreguei dois centímetros no assento; minha viagem iniciava, pontualmente, às 7:20 da noite. Evitei olhar pela janela, ainda estava claro mas meus olhos se desprenderam rapidamente da paisagem que corria em borrões enquanto o trem ganhava velocidade. Eu só queria me encolher no banco e adormecer, só acordando quando o bilheteiro passasse exigindo meu bilhete, voltando assim a dormir e sendo acordada novamente por alguém que estivesse passando e visse uma garota dormindo desmaiada no chão da cabine. Forcei os fones no ouvido enquanto eu deixava a voz de Hayley Williams acabar com minha audição em All I Wanted.
Tudo o que eu queria era esquecer os acontecimentos que levaram à minha fuga repentina.


Chapter One.

Duas horas antes

- Identidade, identidade... Não acredito que eu perdi minha identidade de novo. - Eu vasculhava na bagunça que era minha escrivaninha, em busca do RG perdido. - Que droga, , por que você tem que ser tão bagunceira assim?! - Exclamei pra mim mesma, agarrando os cabelos diante da pilha de livros descuidados da escola e folhas que pareciam estar sendo cuspidas pela primeira gaveta. Procurei em todo canto daquela escrivaninha, dentro de todos os livros, debaixo do porta-lápis e do teclado do computador, atrás da mesa, caso tivesse caído.
Não a encontrava em lugar algum e sabia que estava, literalmente, ferrada. Eu precisava de um documento de identificação pra tentar a merda do estágio que meus pais tanto insistem que eu faça naquela maldita empresa de publicidade. Sem identidade eu não tinha como me inscrever.
Foi então que um estalo repentino veio na minha mente. Meus pais! Eles estavam com a minha documentação e a papelada da universidade. Ah, claro. Cambridge.
Disparei feito um raio até o quarto dos meus pais, que assistiam tv tranquilamente na sala, e fui até a escrivaninha no canto. Remexi rapidamente para que não reclamassem depois da bagunça que eu fizera, sem querer. Hipoteca da casa, contas a pagar, contas pagas, uns telegramas e, debaixo de tudo, presos num clipe metálico, minha papelada. Procurei ver calmamente se minha identidade estava presa a tudo, então fui até a cama e sentei na beirada, separando os papéis em ordem pra que estivessem no seu devido lugar quando eu voltasse pro meu quarto.
- Histórico escolar, requerimento de diploma, declaração escolar... - Fui passando os documentos. Nisso, uma carteirinha, que não era escolar, caiu em meu colo. - IDENTIDADE! - Praticamente berrei, agarrando o cartão e o beijando rapidamente, esfregando-o no peito. Eu era meio estranha às vezes.
Quando fui juntar os papéis em ordem, meu olhar bateu numa xerox de uma folha antiga já. Minha certidão de nascimento. Estranhei, já que meus pais juraram que haviam perdido-a quando nos mudamos de Radcliffe. Analisei com cuidado, os olhos percorrendo a folha como se lessem através dela. Meu nome, embora a parte do sobrenome parecesse estar desgastada, a data e o local de nascimento, os nomes dos pais... Espera um minuto. Quem diabos são Martha e Stephan?
Meus pais mudaram de nome ou eu que mudei de pais...?
Estaquei com a recém-descoberta. Larguei os papéis e, sem querer, eles se soltaram do clipe de papel e voaram para o chão. Não me importei, desci correndo as escadas com uma agonia crescente no peito.

- O que é isso? - Ergui a folha xerocada bem nos olhos dos meus pais. Eles se assustaram com a minha entrada rápida e súbita na sala.
Meu pai tirou a folha das minhas mãos e a observou, a meia-luz dos abajures ligados. A princípio, com a estranha expressão de desentendimento. Minha mãe olhava curiosa o que era. Acompanhei suas expressões mudarem de confusão e curiosidade, para o espanto e o choque, como se tivessem descoberto algo tão sinistro quanto eu.
- Não sabia que seus nomes eram Martha e Stephan. - Eu falei, já que eles não abriam a boca.
Impassíveis, demoraram um tempo para responder, enquanto eu os encarava com a expressão dura. Se entreolharam e depois viraram os olhares, pesarosos e cautelosos, para mim. Eu podia sentir um calafrio subindo pela minha espinha, aquilo NÃO podia ser verdade.
- , veja... - Ela começou, se aprumando no sofá e falando lentamente.
- Não, Andrea. - Meu pai interveio, colocando a mão direita sobre as duas entrelaçadas da esposa. - Acho que ela já está na idade de saber.
- Saber o que?! - Eu exclamei, nervosa. Colei os braços ao redor do corpo, apertando os punhos. - Que seus nomes de verdade não são Andrea e Rupert?! - Eu falava num tom cada vez mais alto, sinal da minha irritação.
Eu não acreditava que aquilo estava acontecendo, não podia ser. Eu não iria aceitar que as duas pessoas mais importantes na minha vida eram... Uma mentira.
- Como? - Perguntei, suspirando alto e fechando os olhos.
- Você era a criança mais adorável que eu já vira. - Andrea, minha mãe, disse. Ela escolhia cuidadosamente as palavras e evitava contato visual comigo, mantendo seus olhos pregados no tapete da sala. Seu olhar subiu rapidamente e encontrou o meu e eu vi o ressentimento espelhado. - Seus pais... Martha e Stephan... Eram dois do nossos amigos mais próximos. Nos acostumamos com a sua presença, você estava sempre junto a eles. Claro, a filha de um ano, impossível de separar-se.
Sua voz era fraca e pestanejei, diante do olhar confuso de meu pai.
- Por que esconderam isso de mim o tempo todo? Hein? 18 anos vivendo sob o teto de vocês e nenhuma palavra! - Eu explodi de repente, assustando-os.
Aqueles dois... Estranhos - eu não conseguia mais pensar nos dois como meus pais - me adotaram e NUNCA mencionaram isso.
- Quisemos poupar você do que aconteceu aos nossos melhores amigos! - Percebi que minha mãe adotiva tinha os olhos marejados e que grossas lágrimas ameaçavam cair.- Me poupar? Vocês podiam ter me contado sobre isso! - Minha voz poderia ter sido ouvida na outra esquina.
- O que tá acontecendo aqui? - Alex, meu irmão mais velho, apareceu na sala, alarmado com a gritaria. - , por que você tá gritando desse jeito?
Pensei em mil respostas para a pergunta dele. Porque eu acabara de descobrir que era adotada. Porque eu não tinha pais de verdade. Porque eu estava a fim de gritar pra meio mundo que eu não pertencia àquela família? Soltei o ar, praticamente soltando fogo pelas ventas, e inspirei novamente, preparando meus pulmões pro grito que sucedeu.
- Por que eu tô gritando? PORQUE MINHA VIDA É UMA MENTIRA! - Explodi. Os dois acuados no sofá levantaram-se, Andrea agora chorava verdadeiramente. Rupert arrumou os óculos redondos e respirou fundo. - Esses dois mentiram pra mim por 18 anos, Alex! - Eu apontava para os únicos adultos no lugar.
- Como assim?! - Alex perguntou, confuso.
- Eu sou adotada! - Gritei, sentindo minha voz falhar um pouco. Um nó se instalou na minha garganta e eu já sentia meus olhos arderem, mas a última coisa que eu queria era chorar.
- O QUE?!
- , acho que você deve se acalmar um pouco para podermos sentar e conversar. - Rupert pediu. Seus olhos clamavam para que eu aceitasse sua condição de parar de agir erroneamente e falasse como uma pessoa civilizada antes de tudo.
- Qual o sobrenome que está manchado na folha? - Lembrei.
- Como?
- Meu sobrenome verdadeiro. - Forcei a barra com eles.
- . - A voz de Rupert falhou, derrotada. Ergueu seu olhar para mim novamente. - Por favor, , vamos lhe explicar tudo.
- Não quero saber explicações. Eu vou embora. - Falei, com o tom de voz mais baixo do que antes, ignorando os olhos marejados dos dois e o choque no rosto de Alex, por quem passei a toda e esbarrei brutamente. - Não me segue. - Ordenei a Alex quando percebi que ele fizera menção a correr atrás de mim, e subi correndo as escadas, batendo a porta do quarto com força.
Eu estava em pânico. Me sentia muito mal por terem me feito de boba todos esses anos, fingindo que fazia parte da família quando na verdade não era. Andava de um lado pro outro, agarrando os cabelos e fechando os olhos o máximo que eu podia. Não queria chorar, mas a vontade era imensa. Não queria fraquejar, mas era inevitável. Pisquei várias vezes pra espantar a lágrimas que já se acumulavam sobre meus olhos, totalmente desorientada.
Eu precisava ir embora. Não podia ficar sob o mesmo teto que eles. Peguei minha mochila largada ao lado da cama e vasculhei meu armário e gavetas. Separei roupas e coisas que talvez fosse precisar longe de casa. Eu tinha uma quantia de dinheiro guardada suficiente pra sobreviver; estava guardando para viajar nas férias, mas as notas de libra seriam melhor aproveitadas agora, com a minha fuga. Busquei coisas pelo quarto que pudessem ao menos me lembrar de Alex e dos amigos da antiga escola. Eu queria distância de qualquer coisa que fossem os Walker. Vesti meu moletom, calcei meu all star preto e saí.

- , não faz isso...
- Tarde demais, Alex. - Ele estava na escada quando eu desci com a mochila nas costas.
- Pensa direito no que você tá fazendo. - Alex gemeu, me segurando pelo braço, mas eu me desvencilhei rapidamente, vencendo os últimos degraus.
Os Walker estavam me encarando no hall de entrada e eu estaquei na frente deles, decidida.
- Me deixem passar.
- Você não vai a lugar algum, Walker.
- Não ouse me chamar assim. - Disse, entre dentes. - Eu não sou uma Walker.
- Não adianta, você não vai embora sem que nos ouça. - Rupert disse, agora mais controlado. Os olhos de Andrea estavam vermelhos, mas ela não chorava mais.
Não queria forçar passagem, mas era preciso. Os contornei e fui na direção da porta de entrada, porém eles foram mais rápidos e me seguraram pelo braço.
- Você NÃO vai embora, ! - Aquele tom de voz, agora imperativo, do meu pai adotivo aumentou minha irritação mais uma vez.
- EU VOU! - Eu estava gritando novamente. - E NÃO SE ATREVAM A ME IMPEDIR!
- Já estamos lhe impedindo. - Andrea fungou. Percebi que seus olhos estavam marejados novamente. Acho que ela nunca imaginou que a única filha - filha? - mulher se revoltaria como eu estava me revoltando com eles. - Você não vai. Eu estou mandando você ficar.
Subitamente, uma risada fraca se desprendeu da minha garganta e eu tinha um sorrisinho cínico nos lábios, que fariam qualquer um querer me esmurrar. Por mais que o momento não fosse apropriado para risos, eu abusei do meu sarcasmo ao repetir a famosa frase:
- Você não é a minha mãe.
Depois disso, saí decidida pela porta, de queixo erguido, deixando os dois plantados no meio do hall; Rupert atordoado, Andrea chorando novamente, e Alex sem saber o que fazer.

Já fazia uma hora que eu saíra de casa. Agora estava longe, perambulando por um parque e mascando chiclete. Eu observava as crianças brincando no balanço e no escorrega, sendo vigiados por suas babás. Dois labradores corriam atrás de uma bola de futebol pela grama, enquanto um garoto de dez anos gingava ela habilmente com os pés, enganando os cães. Uma família passou por mim quando eu observava tudo e todos de um banco mais afastado, na sombra de uma grande árvore. Um casal e dois filhos pré-adolescentes. As crianças pareciam cúmplices e eu lembrei logo de Alex, pois costumávamos ser assim, próximos. Se um dia eu me arrependesse de ter fugido de casa, seria por sentir falta dele.
Quando eu estava prestes a levantar e andar sem rumo mais uma vez, meu celular vibrou no bolso. Olhei primeiro quem estava me ligando, então atendi calmamente.
- Alô?
- ? - Reconheci imediatamente a voz da minha melhor amiga.
- Oi, .
- Onde você está? Mas que merda, o Alex ligou pro desesperado dizendo que você tinha surtado e que saiu de casa. - Ela parecia preocupada e falava rapidamente. - O que houve?!
- Eu descobri uma coisa. - Falei, calma.
- O que? - A voz de era enérgica.
- Eu sou adotada. - Confessei, a voz mais baixa que o normal.
- Ah, ...
- Eles mentiram pra mim esse tempo todo, .
- Calma, ok? Faz o seguinte: vem pra cá, eu tô aqui na casa do , por favor, conversa com a gente.
- Desculpa te desapontar, amiga, mas eu vou embora.
- Você não pode ir! Pra onde você vai? Você tem dinheiro? - Senti uma nota de pânico e desespero na voz de . - , por favor! - Ela gemeu.
- Não sei pra onde vou, e dinheiro não é problema. - Respondi. - , calma, eu estou bem. - Ela emudeceu por um instante e eu pressenti que minha melhor amiga devia estar chorando agora. - Diga ao que eu ligo mais tarde quando estiver longe daqui. Eu amo vocês.
- Por favor...
- Tchau, .
E desliguei o celular, sentindo um peso na consciência. Eu era um tanto inconsequente e nem ao menos me dei o trabalho de lembrar dos meus dois melhores amigos. Agora eu causava sofrimento a mais duas pessoas que podiam me ajudar, mas como sou egoísta preferi fazer tudo sozinha. Pensei no que perguntara. Para onde eu iria? Eu tinha dinheiro suficiente pra me virar em algum lugar suficientemente longe de Manchester. Logo a ideia veio na minha cabeça.
Londres.
Levantei do banco do parque e andei até a saída dele, procurando um táxi vazio que pudesse me levar até a estação de trem, torcendo pra ter um que me levasse até a capital inglesa.

- Uma passagem de ida para Londres, por favor. - Eu disse, educadamente, à senhora do guichê. Ela me informou o preço e eu puxei umas notas de libra do bolso, pagando o bilhete e pegando-o. Meu trem partiria às 7:20, era o que informava no meu bilhete. Eram 6:45, então eu fiquei perambulando pela estação. Comprei uma lata de Coca na máquina de refrigerantes, chicletes, e a revista mais barata na banca de jornal. Sentei num banco vazio próximo à plataforma vazia onde algumas pessoas já aguardavam pacientemente o trem para seguirem viagem, bebendo do meu refrigerante e olhando em volta, distraída.
Percebi um garoto, da minha idade talvez, se aproximar também distraído. Parecia mais interessado em desembolar os fios dos fones de ouvido para iPod, idênticos aos meus guardados na mochila pesada. Ele usava uma touca na cabeça e não via por onde andava, mas estava tão próximo do banco, e se eu não tivesse puxado as pernas que estavam esticadas, folgadamente, ele teria tropeçado e caído de cara no chão. Engraçado ou não, o garoto olhou rapidamente pra mim e pro lugar ao meu lado no banco de madeira, antes vazio, agora ocupado pela minha mochila.
- Se importa se eu sentar aqui? - Perguntou. Vi que carregava um case, provavelmente com uma guitarra ou um violão dentro. Ou até mesmo um baixo.
- Não. - Respondi, tirando a mochila e colocando-a no colo.
Ele assentiu, agradecendo com um sorriso de boca fechada, e sentou do meu lado, apoiando o case no braço do banco. Não prestei muita atenção nele e voltei a beber minha Coca, olhando em volta. 6:55. A plataforma estava enchendo gradativamente, enquanto os passageiros do trem com destino a Londres aguardavam a hora de partir. Peguei o celular pra verificar a hora e me deparei com o fundo de tela, uma foto minha com e . Ri comigo mesma, então percebi que chegara uma mensagem de texto. Alex era o remetente.

Eu sei que você tá confusa e tudo mais, mas você devia desabafar com alguém. Me liga, me manda uma mensagem, um e-mail, um tweet... Por favor. Eu AINDA sou seu irmão mais velho. xx

Ri da audácia dele por ter dito que ainda era meu irmão mais velho. Eu não era mais uma Walker, não me sentia no direito de usar o sobrenome deles. Meu sobrenome era , eu agora usaria como nome e sobrenome. Porque era quem eu era de verdade e quem eu planejava ser. Em Londres. Olhei a hora e já eram 7:10. Olhei de soslaio para o garoto ao meu lado, entretido com o iPod, e percebi que ele me olhava de canto de olho. Levantei, erguendo a mochila e alçando-a nos ombros e já indo em direção ao trem parado na estação.
- Já é hora? - O garoto do banco perguntou, do nada, arrancando os fones de ouvido.
- O trem sai em 10 minutos. - Falei, olhando por cima do ombro, e vi que ele fez joinha com as mãos. Não sei por que, mas aquilo me fez sorrir involuntariamente.

Chapter Two.

Então, eu estava largada no banco, de olhos fechados, viajando no "pa ra pa pa pa" de Brick by Boring Brick, do Paramore. A viagem tinha, mais ou menos, uma hora, e eu quase apagara ouvindo música. Mas as luzes acesas do trem me irritavam e o aleatório do iPod parecia estar brincando comigo, já que só tocavam as músicas mais barulhentas. Me concentrei nas minhas unhas, cantarolando algo do Boys Like Girls, quando ouvi uma batida na porta da cabine. Estranhei e, sem que eu dissesse nada, o mesmo garoto que dividira o banco comigo na plataforma estava parado ali, sorrindo timidamente.
- Parece ironia, mas... Você se importa se eu sentar aqui? - Ele perguntou, repetindo a mesma pergunta de antes. - De novo. Er, me expulsaram do outro vagão.
- Por que te expulsaram do outro vagão?
- Porque eu tava tocando violão - Ele deu de ombros. - Incomodei uns velhos lá, pelo que parece.
Eu sorri de canto e fiz sinal com a cabeça para que entrasse na cabine. Ele entrou e se acomodou no banco em frente ao meu, colocando o case de couro ao seu lado. Ouvi a porta da cabine deslizar e fechar e logo o único barulho que eu ouvia era o do trem seguindo viagem. Voltei a prestar atenção nas minhas unhas, brincando com o fio dos fones de ouvido, enquanto o garoto se acomodava e jogava a mochila junto ao case, tirando a touca que cobria sua cabeça. Ele tinha cabelos desalinhados, bagunçados perfeitamente, caindo sobre olhos adoráveis que prenderam minha atenção por um breve momento. Desviei o olhar antes que ele percebesse.
Algo me dizia pra puxar papo com ele, ao menos perguntar seu nome. Por mais que eu não quisesse, precisava me distrair até chegar em Londres. Quando eu suspirei e abri a boca, ele foi mais rápido.
- Meu nome é - Disse, sorrindo de leve.
- . Ou , como preferir. - Me apresentei também.
- Oi, - disse, acenando pra mim, mexendo apenas os dedos, mesmo estando a centímetros de mim. Achei aquilo um tanto idiota, mas sorri em resposta. - O que te leva à Londres? - Ele se espreguiçou e tombou a cabeça no banco, me olhando.
- Problemas familiares. - Respondi, engolindo em seco. Não sabia se devia contar a ele que estava fugindo. - Meus pais, sabe... - Fiz um gesto indicando que ele sabia o que eu queria dizer, que pais são sempre pais.
- Não está fugindo de casa, está? - Indagou , franzindo a testa. Depois acrescentou, falando pausadamente: - Porque, se estiver, vou fazer o condutor parar esse trem e te levar de volta pra Manchester. - Seu tom de voz era calmo, mas seus olhos pareciam penetrantes e me desafiavam a achar que ele estava falando a verdade. Acho que estremeci e vacilei quando começou a rir e eu pude respirar. - Calma, . - Ele sorriu, voltando sua atenção para a mochila ao seu lado.
- Tudo bem, eu só... - Fiz uma pausa antes de continuar. Por que eu deveria contar a ele, um estranho, que eu conhecera há cinco minutos, que me dissera apenas seu nome, que estava fugindo de casa e dos meus famintos leões? Eu já estava pra inventar uma história diferente, enquanto não estava olhando pra mim. Mas foi só ele virar a cabeça, com uma palheta laranja entre os lábios, e me olhando novamente, senti como se pudesse confiar a ele minha história. - Estou sim fugindo de casa.
- Posso... Saber por quê? - Ele disse, calmamente. E me passou segurança. Assenti com a cabeça e me ajeitei no banco, puxando as pernas pra cima e abraçando meus joelhos. Então contei tudo que acontecera há duas horas.

- Eles esconderam isso de você por tanto tempo assim? - perguntou, depois de ouvir atentamente a minha história.
- Sim. E eu descobri por acaso, não tive intenção nenhuma de mexer naqueles papéis... Só queria minha identidade. - Falei, sinceramente, lembrando que minha identidade agora estava bem guardada na carteira, dentro da mochila.
- Sério que nunca passou na sua cabeça ser adotada? - Ele continuou. - Quer dizer... Nenhum indício?
Balancei a cabeça negativamente, buscando na memória se eu deixara escapar um indício qualquer da minha adoção. Alex apareceu na minha mente. Tão... Diferente de mim.
- Na verdade - eu disse, lentamente. -, meu irmão mais velho não se parece comigo. E notavam isso na escola, viviam dizendo que um de nós era adotado.
ergueu as sobracelhas num movimento rápido, como quem dizia "então é isso". Realmente. A verdade passara por mim diversas vezes e eu ignorara, pra mim eram meros comentários idiotas de marginais da sexta série que se tornaram verdadeiros marginais alguns anos depois. Eu nunca levara a sério porque conhecia aquilo de que haviam irmãos que não se pareciam em nada um com o outro, então simplesmente lançava um olhar feio para os outros e saía andando, fingindo que não estava ouvindo as piadinhas sem graça.
- Crianças são idiotas. - Ele disse, rindo de canto. - Sério, você fez o certo ao ignorar o que elas diziam.
- É, mas estavam falando a verdade.
- Mas você foi mais esperta e preferiu ignorar.
- E quebrei a cara anos depois. - Complementei, abaixando o tom de voz.
não falou nada, mas eu o olhei de relance e vi que ele me olhava, mordendo o lábio. Tentei desviar a atenção mas pareceu tão tentador. Me forcei a olhar para a paisagem pela janela, mas estava escurecendo e eu não via nada nítido através do vidro. Ficamos em silêncio por algum tempo, cada um com a atenção desviada para outro lugar em particular. Fechei os olhos ainda com o rosto voltado para a janela escura. Não tinha ideia de que horas deviam ser e pouco me importava. Me virei para novamente, que já estava me olhando.
- Sua vez de contar porque está indo pra Londres.
- Hum. Ok. - Ele disse, e pigarreou. - Fui visitar um amigo meu, ele também toca, er. - Apontou para o case.
- Guitarra?
- Violão e baixo. - riu baixinho. - E também piano, teclado e bateria, sem querer me gabar.
- Multifuncional. - Eu falei. - Pode montar uma banda sozinho. - Ri. - Você canta também?
- Não sou lá grandes coisa...
- Vai tentar carreira em Londres? - Perguntei, observando seus mínimos movimentos. Ele tamborilava os dedos em sincronia, levemente, eu quase não ouvia o som.
- Estou voltando pra casa, na verdade. Sou de Londres, moro com meus pais.
- Ainda? - Ironizei. - Qual sua idade afinal?
- Faço 20 em duas semanas.
- Parabéns adiantado. - Sorri para . Meti a mão no bolso e puxei os chicletes que havia comprado mais cedo. - Seu presente. Desculpa, não tinha coisa melhor.
- Obrigado. - Ele riu, pegando um chiclete. Depois guardou o resto no bolso das jeans e piscou pra mim. - Pra mais tarde.
Eu sorri momentaneamente. Lovefool do The Cardigans começou a tocar em meus fones de ouvido e eu franzi a testa. Prendendo o riso, peguei meu iPod do bolso e mudei de música. Eu adorava a opção shuffle, mas não precisava de uma música romântica e melosa naquele momento. Insisti em trocar de música enquanto umas opções absurdas não me satisfaziam e não combinavam com o momento, e só parei de pressionar o botão "forward" quando a voz de Gerard Way em Famous Last Words estourou meus tímpanos. My Chemical Romance ainda era uma das minhas favoritas.
O silêncio veio mais uma vez, agora cada um ocupado ouvindo música em seus respectivos iPods. colocou o case de seu violão/guitarra/baixo (até agora ele ainda não tinha dito o que era) no compartimento da cabine, acima de nossas cabeças. Depois colocou a mochila no banco e deitou sobre ela, usando-a de travesseiro. Eu fiz o mesmo com a minha, deitando de lado e ficando com o rosto virado para ele, que também me olhava. não parava de me olhar. Adormeci com seus olhos castanhos sobre mim.

Um solavanco. O trem diminuindo velocidade. Acordei repentinamente, uns vinte minutos depois de fechar os olhos, e levantei a cabeça, olhando pela janela. também estava acordado, se é que dormira. Estava tudo escuro e o trem parecia parado, no meio do caminho. Estranhei e franzi a testa, enquanto via algumas luzes lá fora, um tanto longe, de casas até mesmo próximas da linha ferroviária.
- O que aconteceu? - Perguntei à , que estava com metade do corpo pra fora da cabine, olhando o corredor pela porta.
- O trem parou, do nada. - Ele respondeu.
Apurando os ouvidos, pude ouvir algumas vozes vindas do corredor, era uma delas. Passageiros das cabines vizinhas estavam questionando o por quê do trem ter parado. Eu me fazia a mesma pergunta, já que estava num estágio de sono tranquilo, apenas ouvindo o som da locomotiva percorrendo o trilho e sentindo o leve balançar do trem. Eu estava ouvindo música nos dois primeiros minutos, mas os fones começaram a me incomodar e eu os arranquei, deixando-os pendendo do banco.
voltou do corredor um tempo depois e fechou a porta com um baque surdo.
- Já resolveram o problema. - Disse, devido à minha expressão confusa.
- Que merda, eu tava dormindo tão bem. - Resmunguei e ele riu. Sentimos um solavanco repentino e eu me segurei no banco. - Opa. - O trem voltara a andar, bem lentamente mas depois ganhando velocidade de novo.
- Pode voltar pro seu sono. - sorriu, sentando-se novamente a minha frente.
- Obrigada. - Disse, voltando a deitar. Fechei os olhos e apaguei de novo.


Chapter Three.

- ...
- Hum?
- Chegamos.
Eu ainda estava meio sonolenta quando senti me acordando. Pelo menos ele não fez como Alex costumava fazer, me sacudir até me derrubar da cama. deu um aperto no meu ombro e falou com a voz bem próxima do meu ouvido que havíamos chegado em Londres. Quando eu abri os olhos, vi que ele estava com a mochila nas costas e o case numa das mãos.
- Já? - Eu disse, a voz rouca de quem acaba de acordar. Devia estar com a cara amassada, mas não me importei. Catei os fones de ouvido caídos no chão e peguei minha mochila. Era noite já.
Saímos da cabine, eu me certifiquei de que não deixara nada lá. O bilheteiro vinha apagando as luzes pelo corredor; éramos praticamente os últimos a sair. O homem acenou e nos desejou uma boa noite. Lembrei do meu bilhete.
- Ei, como é que ele não pediu meu bilhete? - Perguntei à , enquanto andava lentamente pra fora do trem. - Estava no meu bolso.
- Eu não queria te acordar. - Ele respondeu, me acompanhando. - Seu bilhete tava na sua mochila, no bolso da frente.
- Mas eu tinha guardado no bolso da calça. - Eu não lembrava de o ter tirado e guardado na mochila.
- Não, eu vi quando você colocou na mochila. - franziu a testa, e eu também. Realmente não lembrava disso.
- Tudo bem, vai. Estou grogue de sono ainda. - Eu ri, me amparando no braço dele. Estávamos andando calmamente pela plataforma vazia em King's Cross. Havia apenas um guarda sentado longe de nós, comendo um donut particularmente grande e açucarado, e tomando um café extra grande também. Como se aquilo fosse garantia de o manter acordado vigiando tudo.
- Tenta não desmaiar em cima de mim no meio da rua, ok. Tá um pouco tarde pra isso e eu não sei se vou te aguentar. - riu. - Aliás, pra onde a senhorita planeja ir agora?
Boa pergunta. Eu não tinha lugar pra ir em Londres. Não tinha um pedaço de chão pra dormir. Na verdade, eu tinha, qualquer esquina vazia serviria pra mim, mas eu não queria me passar por mendiga. Me perguntei se conhecia algum lugar não muito longe e barato, e de confiança, lógico. Mas o modo como ele me olhava, esperando minha resposta, me dizia que ele não me deixaria sozinha.
- Na verdade...
- Você não tem onde cair de sono hoje, né? Adivinhei? - Ele deu uma risada ao ver minha expressão confirmando. Depois balançou a cabeça. - Típico de quem foge de casa.
- Obrigada pela parte que me toca. - Rolei os olhos. - O que você sugere, dormir aqui na estação? É, talvez aquele guarda precise de companhia e queria dividir o donut dele...
- Por que você não vem comigo pra casa dos meus pais?
Minha expressão mudou de sarcástica pra estupefata em segundos. estava perguntando se eu queria passar a noite na casa dos pais dele? Isso era... Não sei. Estranho, talvez. Franzi a testa pra ele, indagando o por quê do convite.
- Não tem problema nenhum, eles estão acostumados com amigos meus. - Ele completou. - Meus pais são tranquilos.
- Tudo bem, se não tem problema. - Dei de ombros e ele assentiu com a cabeça.
Pegamos um táxi na saída da estação, indicou ao taxista o endereço e ele deu partida no carro. Londres passava a toda pela janela do táxi enquanto percorríamos as ruas. As luzes cintilavam e a cidade fervia. Eu via as pessoas andando pelas ruas e calçadas, entrando e saindo de pubs lotados. O silêncio predominou o ambiente do carro desde que começara a viagem, não dissera mais nada, apenas me deixara olhar absorta pelo vidro da janela. Quando paramos num sinal vermelho, ele falou:
- Só tem uma coisa que eu vou te pedir, .
- O quê?
- Se meus pais e a minha irmã perguntarem, você é minha namorada de Manchester. Ok?
- Er. Ok. - Assenti, estranhando.

largou as chaves de casa numa mesinha no hall de entrada. Ele tirou o casaco, depois de largar as mochilas do lado da porta, guardou no armário e me indicou para que eu lhe desse meu moletom, mas eu acenei e disse que não precisava. Fui com ele até a cozinha, que ele indicara, onde encontramos seus pais. Eles pareciam simpáticos, a casa toda parecia. Tinha um ar de família feliz, me lembrava um pouco o clima na casa dos Walker, quando eles mentiam descaradamente pra mim e eu acreditava que éramos uma família de verdade.
Os pais de estavam tomando chá, mesmo que parecessem tarde. Seu pai comia um pedaço de torta de morango que me deu água na boca. Ficaram surpresos com a chegada repentina de , e mais ainda com a minha presença. Eu grudara nele e os observava, tentando parecer simpática e feliz em estar ali.
- Pai, mãe, essa é a . - me apresentou pras duas pessoas presentes na cozinha. - A garota de quem eu tinha falado.
- Sua namorada de Manchester? - O pai dele perguntou.
- , esses são meus pais. - os apresentou também.
- Prazer em conhecer os . - Falei, sorrindo falsamente. Eu precisava parecer que era namorada dele, então comecei a improvisar. - fala muito dos pais.
- Bom, ele falou muito de você ultimamente. - Sua mãe disse, mas eu sabia que era mentira. - É bom te conhecer também. , certo? - Assenti com a cabeça e ela sorriu. - Aceita alguma coisa pra beber? Água, suco, café...? Te ofereceria chá, mas esse não está tão bom assim. - Ela riu, apontando para a xícara na sua frente.
- Não, obrigada. - Eu sorri de volta.
- Vocês devem estar cansados da viagem. - Ela continuou.
- Estamos. - pareceu convincente enquanto passava o braço pela minha cintura e me abraçava de lado. Seus pais assentiram e sorriram para o casal que nós éramos. Acho que estavam mesmo convencidos de que eu era a nova namorada de . - está em casa? - Eu não sabia quem era .
- Está sim. - A sra. suspirou.
fez sinal pra que eu o acompanhasse e eu saí da cozinha, sorrindo para seus pais. Eles eram realmente gentis e eu quase deixei um suspiro de alívio escapar. Subimos as escadas correndo, eu sempre ficando pra trás e me puxando pela mão. Aquilo de fingir que namorávamos o afetara. Nos encontrávamos num corredor, no andar de cima. foi até a segunda porta, decorada com estrelinhas cor de rosa, e deu uma batida. Sem esperar resposta, abriu a porta, revelando o quarto da irmã mais nova que eu nem sabia que ele tinha.
- Oi, loser, resolveu voltar do Norte? - Uma garota parecida com ele, de uns 16 anos, disse. Estava sentada na cadeira giratória em frente à escrivaninha, teclando furiosamente no computador quando abriu a porta num rompante.
- É bom te ver também, irmãzinha. - Ele disse. - A propósito, essa é a , minha namorada.
me puxou pela mão e me trouxe a frente. Eu sorri timidamente para sua irmã, que ergueu a sobrancelha.
- Pensei que ela era loira, . - Disse. - Você me enganou.
- Você é daltônica. - Ele franziu a testa, erguendo as sobrancelhas para a garota. Percebi que ela se referia a outra garota, talvez. Eu sabia que não era quem devia ser. Percei também que e eram muito parecidos, exceto no tamanho. era menor, por ser mais nova. - Tanto faz. A vai ficar aqui comigo uns dias. Seja legal, ok? - passou a mão na cabeça dela como se ela fosse um cachorro bagunceiro que vai passear pela primeira vez. Ela deu um tapa na sua mão, riu.
- Eu sou legal. - Defendeu-se. - , não fique alojada no quarto dessa besta. É só bater na minha porta e a gente conversa. - sorriu.
- Pode deixar que eu vou ser mais delicada que o e esperar você abrir a porta. - Eu ri. Olhei para e ele rolou os olhos, o que me fez rir de novo.
- Vamos, não vou atrapalhar seu momento "eu e o computador" - disse para a irmã e seguiu para a porta, me puxando pela mão. Eu estava começando a gostar das sensações que a sua palma na minha estavam provocando. Uma espécie de choque térmico. Ou sei lá. - Boa noite, .
- Boa noite, . - Ela disse, ignorando o irmão. Eu sorri e acenei, enquanto ele fechava a porta.

- Gostei da sua irmã. - Confessei, em voz baixa.
- Ela só quis deixar uma primeira impressão legal. Ela não é assim sempre. - suspirou, abrindo a última porta do corredor. - Meu quarto.
Ele clicou o interruptor e a luz invadiu o lugar. Eu entrei pelo portal e me vi num típico quarto de adolescente. Paredes azuis revestidas de pôsters de bandas e filmes, uma escrivaninha meio arrumada, meio bagunçada, uma cama de casal com um edredom azul e branco. Havia diversas caixas de papelão empilhadas perto da porta que dava pro banheiro. Uma suíte. foi até a porta do banheiro e acendou a luz de lá também, como se fosse confirmar que era um banheiro. Bobo, eu podia ver a banheira e um frasco de shampoo do lado dela. Percebi também que, embora suas coisas estivessem ali, o quarto parecia um tanto vazio. Uma estante tinha com as prateleiras vazias, apenas um microsystem desligado estava ali, numa das partes mais altas, o fio fora da tomada.
- Fique à vontade. - Ele disse, passando por mim na porta. - Vou pegar as mochilas.
Ele desceu e eu fiquei ali, analisando os pôsters na parede. Diversas bandas que eu gostava, diversos filmes que eu adorava assistir. Enfim, eu tinha coisas em comum com ele. Parei pra pensar na viagem de trem e em como um garoto estranho, que eu nunca vira na minha vida e permitira dividir uma cabine comigo durante a viagem toda, fez com que eu me sentisse tão à vontade assim. me fizera esquecer um pouco da minha fuga, dos meus pais adotivos, do meu irmão e dos meus dois melhores amigos. De tudo, pra falar a verdade. E varreu qualquer pensamento da minha cabeça quando me pediu pra fingir para sua família que nós dois namorávamos.
voltava equilibrando as duas mochilas e o case de couro. Largou tudo em cima da cama e depois parou do meu lado, olhando pro teto.
- Legal, né?
- Você tem bom gosto pra filmes e música. - Eu disse, colocando as mãos na cintura e olhando pro pôster do Green Day, logo acima da cama.
- Cara, eu preciso dormir. - falou, esfregando os olhos. Era tarde mesmo e eu também estava ficando com sono.
Me sentei na beirada da cama, puxando minha mochila e mexendo nela. Procurei meu celular pra verificar a hora. 11:23 da noite. Tudo que eu queria era vestir meu pijama de flanela e capotar. Peguei meu celular na bolsa, a fim de desligá-lo, e pude ver o número de mensagens e ligações perdidas. 12 ligações de . Outras 7 de . 9 de Alex. 14 mensagens dos três, me procurando. Digitei uma resposta e enviei pros três destinatários.

Parem de detonar meu celular, eu estou bem. Amanhã eu ligo. xx

Já estava desativando meu celular quando ele vibrou loucamente na minha mão e eu vi a foto de e o número de seu celular.
- Eu não morri.
- Percebi! - Seu tom de voz era novamente exasperado. - Por que não atendeu nossas ligações? Não leu as mensagens? Onde diabos você se meteu, ?!
- Não atendi porque o celular tava no modo vibratório e estava guardado. - Eu expliquei, calmamente.
- Você tá me deixando morta de preocupação! Me diz onde você tá.
- Londres. E não dá escândalo, eu estou bem. - Balancei os pés, olhando para os cadarços do all star.
- LONDRES?! O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO AÍ?! - Eu podia imaginar a expressão de choque e desespero no rosto de agora. Eu conhecia muito bem minha melhor amiga.
- Fugindo, oras. - Respondi, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
Por um momento esqueci que estava ali, e o vi me encarando com uma cara estranha. Fiz sinal de que não precisava se preocupar, ele apenas deu de ombros e foi até o closet bagunçado, remexendo nas roupas penduradas por cabides de madeira.
- , pára de bancar a louca, não precisa reagir dessa forma. Você me conhece, você é minha melhor amiga. - Falei, francamente, e suspirei. Eu estava começando a sentir falta dela.
- Espera, o quer falar com você. - A voz dela sumiu gradativamente.
- Alô? ? - Foi a vez da voz enérgica do meu melhor amigo.
- ! - Exclamei, sentindo um calor repentino no coração. Mesmo tendo esquecido dele por um momento, percebi que já sentia uma falta imensa dele.
- Como é que você tá? - A voz dele era falhada, como se estivesse sem fôlego.
- Bem.
- Tem certeza?
- Absoluta. - Sorri comigo mesma. - , faz um favor pra mim?
- Qualquer coisa. - Percebi que ele devia estar sorrindo quando falava.
- Dá um calmante pra sua namorada? Sério.
Sua risada encheu meu ouvido e eu sorri, imaginando como ele deve ter se divertido com aquele pedido. pigarreou do outro lado da linha e voltou a falar.
- Pode deixar, ela tá precisando mesmo. Estamos preocupados com você.
- Sério, não precisam se descabelar, eu estou... Bem. - Falei, olhando em volta. Meu olhar caiu sobre , sobrecarregado com roupas da viagem que tirara da mochila, uma boxer enroscada em seu pé, quase o fazendo tropeçar e cair pra trás. Patético. - Bem até demais, eu diria. - murmurei, de modo que só a pessoa do outro lado da linha pudesse ouvir.
- Hum. Tem homem no meio?
- Boa noite, .
- Tá, tá. Boa noite. Amanhã de manhã eu ligo, ok?
- Eu ligo antes, não esquenta.
Ele riu.
- Te amo, .
- Também te amo, . - E meu melhor amigo desligou.

Chapter Four.
- Acho que os lençóis devem estar limpos, minha mãe deve ter trocado. - disse, emergindo da bagunça de roupas que fizera. - Er. Vou te dar uma toalha pra você tomar um banho e se trocar.
Assenti com a cabeça e ele pegou uma toalha azul felpuda, me entregando antes de voltar à sua mochila. Fui até a minha na cama e peguei meu pijama xadrez de flanela vermelha e meus itens de higiene pessoal, indo até o banheiro dele e trancando a porta atrás de mim.
Banheiros de homens sempre foram tensos pra mim, mas a sra. devia manter o de bem arrumado como o resto da casa. As paredes eram azuis e revestidas de ladrilhos de azulejo azuis e brancos. Me despi, embolando a roupa e largando os tênis ao lado da privada, e entrei debaixo do chuveiro. Não me importei de molhar o cabelo, mesmo que fosse dormir assim que batesse na cama e tivesse 100% de chances de acordar com um ninho de mafagafos na cabeça. A água quente me fez sentir mais sonolenta ainda e eu não queria sair de lá. Levou o dia que eu tivera embora pelo ralo. Não demorei muito debaixo d'água pois achei que seria chato ficar horas e horas debaixo do chuveiro na casa dos outros. E eu nem devia estar ali. Me troquei, sentindo a maciez no tecido do meu pijama favorito, e escovei os dentes. Sequei o cabelo, deixando-o mais rebelde que antes, mas os assentei com um pente antes de sair do banheiro numa nuvem de vapor.
estava deitado na cama, de olhos fechados, ainda vestido. Tinha a cabeça embaixo dos dois braços e o rosto virado pro teto azul. O baque da porta do banheiro chamou sua atenção.
- Estava dormindo? - Perguntei, guardando a roupa, agora dobrada, e o resto das coisas na mochila que estava do lado da cama.
- Quase. - se espreguiçou ao sentar na cama. Eu bocejei. - Está com sono?
- Um pouquinho, talvez. - Eu disse, de olhos fechados, fazendo biquinho. riu e eu abri os olhos.
- Ok, vou deixar você dormir o seu pouquinho e vou tomar um banho. - Ele se levantou da cama e foi pro banheiro. Observei seus passos até a porta fechar.
Me joguei na cama de , ficando na mesma posição que ele estava há pouco, olhando pro teto. O sono veio batendo e eu tratei de me enfiar debaixo do edredom. Era fofo e confortável. Os travesseiros também eram fofos e eu me acomodei, como pude, no canto da cama. Afundei o rosto na fronha e inspirei. Tinha o perfume dele. Não sei por quê, mas eu gostei daquilo. A única luz no quarto eram de duas luminárias, uma ao lado da cama e uma na escrivaninha. Fechei os olhos, já letárgica, deixando o sono me embalar, quando ouvi a porta do banheiro se abrir e saiu de lá vestindo apenas uma boxer. Confesso que devia voltar a dormir, mas meus olhos pregaram no peitoral dele, que se aproximava da cama.
- Tentando me impressionar, ? - Voltei a fechar os olhos, como se não importasse que ele estivesse sem camisa, e deixei que ele presumisse meu sarcasmo com um sorrisinho bobo.
- Se eu quisesse fazer isso, já teria tirado a boxer. - Eu ouvi ele falar e rir. Abri os olhos e o vi sentado na cama, ao meu lado.
- A propósito - Comecei, e me sentei também. -, por quanto tempo vamos fingir que namoramos? Quer dizer, a gente nem se conhece direito.
- Só enquanto eu não invento outra história pra você ficar aqui. - suspirou.
Olhei pra ele de relance e observei o quarto, quase vazio.
- Pra que essas caixas? - Perguntei, curiosa.
- Vou me mudar essa semana pro meu próprio apartamento. Presente de aniversário adiantado.
- Legal... Eu sempre quis morar sozinha. - Comentei, olhando pra estante vazia em frente a cama.
- Você vem comigo quando eu me mudar. - disse, convicto.
- Quem disse? - Eu ri, soltando todo o ar.
- Ok, durma na rua. - fingiu indignação e virou o rosto.

- Estou brincando, bobo. Temos que fingir que estamos namorando, né. E se seus pais perguntarem?
- Digo que você resolveu ficar o verão inteiro aqui. Eles vão entender.
- Devo chamar você de namorado?
- Não o tempo todo. Só quando precisar se referir a mim. - soltou um suspiro e se virou pra mim. - Ah, e deixe explícito que eu sou seu.
Aquilo soou tão literal que eu, por um momento, quase acreditei que ele era realmente meu. E me encarava, olhando em meus olhos.
- Pode deixar. - Dei uma piscadela para ele, que sorriu. - Agora me deixa dormir.
- Deixo sim, vou ficar aqui olhando.
- Dude, você NÃO vai ficar me olhando dormir. - Revirei os olhos para ele enquanto me aconchegava no travesseiro fofo.
- Por que não? Eu vi você dormindo no trem. Você... Você fica linda quando dorme. - Ele disse, meio tímido, como se estivesse confessando uma coisa muito feia. Abri um sorriso enorme pra ele, e percebi na meia luz do abajur que corara um pouco, deixando que um sorrisinho fofo brotasse em seus lábios.
- Er. - Fiz, sem jeito. - Boa noite.
Me escondi debaixo do edredom pra que ele não me visse e fiquei de costas, virada pra parede. realmente me deixara sem jeito quando dissera aquilo. E agora iria dormir do meu lado. Fechei os olhos, sonolenta, tentando desviar meus pensamentos, mas dizendo que eu ficava linda dormindo ficara na minha mente e eu não conseguia desviar meus pensamentos daquilo. Acabei dormindo e sonhando que estava deitada no gramado do jardim, olhando pro céu azul de Manchester.

Devia ser cedo quando eu abri os olhos e me deparei com aquela parede azul lotada de pôsters. Na verdade, a primeira coisa que vi foi o teto, do mesmo tom de azul que o céu no meu sonho. Me apoiei nos cotovelos, olhando ao meu redor, e percebi que estava sozinha, não estava no quarto. Pela luz cálida que entrava pela janela através das cortinas, não devia ser mais que nove horas. Levantei calmamente, me espreguiçando, e fui trocar de roupa. Afinal, estava na casa de pessoas que eu não conhecia bem, fingindo namorar o filho deles, então não achei que devia andar de pijama pra lá e pra cá. Escovei os dentes e dei um trato na bagunça que era meu cabelo. Levei uns bons dez minutos desembolando os nós, pois dormira com o cabelo ainda úmido. Vesti a mesma jeans e uma camiseta rosa listrada. Desci e encontrei a sra. terminando de arrumar a mesa do café-da-manhã. Ela sorriu simpática quando me viu e eu estranhei não ter visto em lugar algum da casa por onde passei.
- Bom dia, . - Disse a sra. .
- Ah, bom dia. Precisa de ajuda?
- Eu não recusaria. - Ela riu, pegando uma jarra de suco de laranja e me entregando. - Coloca na mesa pra mim, por favor?
- Claro. - Levei até a sala de jantar adjacente, pousando a jarra de vidro na mesa quase pronta.
- Dormiu bem? - Eu afirmei com a cabeça. A sra. vinha trazendo duas caixas de cereal Crunchy Nut.
- A propósito, sra. , onde está o ? - Disse, me sentando à mesa.
- Dormindo. No sofá. - A sra. franziu a testa, apontando pro sofá da sala, visível ali da sala de jantar. Pude ver dormindo tranquilamente com a cabeça recostada num travesseiro e todas as almofadas do estofado estavam jogadas no chão. - Estranho. - Ela disse.
- Por que?
- Geralmente, ele dorme no quarto mesmo. Quando eu olho de manhã, todos os lençóis estão no lugar. Mas não hoje.
Ela parou por um momento, pensativa. Presumi que estava pensando por que o filho de 19 anos não dormiu no quarto com a namorada nova, quando costumava fazer isso com outras garotas. Também achei um tanto estranho, pois ele estava do meu lado à noite, quando eu adormeci, mas me lembro bem de que não deu a entender que dormiria na mesma cama que eu. Não fiz objeções, claro, estava morta de sono e só queria um canto pra dormir.
Enquanto a sra. deliberava sozinha e voltava à cozinha, eu fiquei ali sentada, olhando pras minhas unhas. A ouvi dizendo que eu podia me servir, que não fizesse cerimônias, e eu apenas sorri em resposta. Não tinha fome e nem mesmo a pilha de torradas e o vidro de geléia de uva ao meu lado abriu meu apetite. Depois de um tempo olhando pro papel de parede listrado da sala de jantar, ouvi o típico chiado da frigideira, o som de bacons e ovos sendo preparados. Com isso, também ouvi murmúrios vindos da sala e a voz da sra. . Estiquei o pescoço e vi que acordara e vinha até a cozinha, os olhos semicerrados de sono e o cabelo totalmente desalinhado.
- Bom dia. - Eu disse, quando ele apareceu na minha frente.
- Bom dia, . - sentou-se numa cadeira ao meu lado e sua mãe veio com uma travessa de bacons. Ele atacou os bacons e eu, humildemente, peguei uma torrada.
- Dormiu bem no sofá? - Perguntei, depois de uma mordida, tentando não sorrir. - Sua mãe disse que você não costuma fazer isso.
- Oh, mãe, andou me difamando?
Eu ri quando se dirigiu à mãe com a expressão ofendida. Puro fingimento, pois logo depois ele olhou pra mim e deu uma piscadela, voltando sua atenção ao bacon em seu prato.
- Quer dizer que seus pais deixavam suas namoradas dormirem aqui? - Perguntei, desmanchando um pedaço de torrada com os dedos.
- Meus pais são bonzinhos, né? - sorriu de lado.
- Mas pelo que sua mãe disse, era pra você dormir no sofá.
- Eu dormi hoje.
Então, entendi por que a sra. achou estranho. dormia com as namoradas no quarto, mas como eu não era namorada dele de verdade, ele dormiu no sofá. E sua mãe achou estranho porque, aos olhos dela, nós namoramos, então ele teria dormido comigo. Confuso, mas eu consegui entender. Pensei se devia dizer a ele que não me importava se ele quisesse dormir na própria cama, que não fizesse cerimônias comigo e que dormisse ao meu lado, mas achei que soaria um tanto atrevida.
- O que você quer fazer hoje? - se dirigiu a mim, quando eu tomei um gole do suco de laranja que a sra. serviu num copo de vidro decorado com linhas coloridas.
- Não sei. Sou nova aqui, esqueceu? O que você vai fazer hoje?
- Nada. - Ele deu de ombros, e eu ri. - Quer me ajudar a terminar de encaixotar minhas coisas?
- Vai se mudar essa semana?
- Nós vamos. Sexta ou sábado. Depende do meu pai também, vou usar o carro dele.
- Então, vamos encaixotar. - Concluí.
- Ah, , se você quiser... Podemos sair mais tarde. - Disse , terminando seu bacon. - Podemos, sei lá, dar uma volta. Que tal um Starbucks?
A palavra "Starbucks" parece ter feito meus olhos dilatarem e brilharem, já que assim que a pronunciou um sorriso se abriu em seu rosto, e ele parecia satisfeito. Eu era uma viciada em potencial em Starbucks. Era meu lugar favorito no mundo, minha segunda casa em Manchester. Starbucks me lembrava bons momentos com e , dias frios em que tudo que fazíamos era sentar na mesa mais escondida e passar horas nos entupindo de cafeína e muffins de chocolate, conversando sobre qualquer besteira.
- Starbucks está ótimo. - Falei, agora animada, e ele deu uma risada tão gostosa e divertida que me fez sorrir mais ainda.

Depois de um tempo em que eu só ouvia a sra. falando com na cozinha, apareceu pro café-da-manhã e conversou comigo sobre algumas coisas aleatórias, pois seu passatempo favorito era perturbar o irmão mais velho. Eu estava sendo bem aceita por eles, embora não tivesse nem 24 horas de convivência. Os pais de eram gentis e sempre puxavam assunto. também, falava sem parar enquanto comia torradas com geléia. me deixou interagindo com sua família, embora eu quisesse interagir mais com ele.
Ajudei a sra. a arrumar a mesa e lavar a louça, ela comentava sobre na escola e o que pretendia fazer agora que moraria sozinho. Assim que terminamos de guardar os pratos limpos, apareceu na porta e fez sinal pra que eu o acompanhasse. Pedi licença à sra. e nós subimos as escadas, voltando ao seu quarto. Enquanto ele ía no banheiro e se trocava, já que ainda estava de boxer e camiseta, peguei meu celular na mochila e o liguei. Dessa vez não havia nenhuma mensagem ou ligação perdida, então cumpri o que dissera a na noite passada e liguei para seu celular. Não passava de 10 horas da manhã, ele devia estar acordando ainda. O celular deu três toques e uma voz sonolenta atendeu.
- Não precisava ligar tão cedo, .
- Bom dia, . - Eu dei uma risadinha. - Desculpa se te acordei.
- Tudo bem. Eu deixei o celular ligado por sua causa mesmo. E você, como passou a noite?
- Foi tudo bem... Eu estou bem. - Repeti, pela milésima vez. Não cansava de dizer aquilo, queria garantir que estava bem. E estava.
- O que vai fazer agora, em Londres? Está sozinha? - A voz dele era a mesma voz rouca que eu costumava ouvir quando ligava pra ele de madrugada.
- Vou... Dar uma volta. - Eu não estava mentindo. - Ver o que se tem pra fazer na capital.
- Se cuida, ok? Não quero ter que sair de Manchester e ir resgatar você das garras de algum londrino bêbado altas horas da noite.
Eu ri quando ele disse isso, imaginando a cena. realmente faria isso por mim, já havia feito antes e, com certeza, faria de novo.
- Não se preocupa. E diz pra que depois eu ligo pra ela, ok.
- Ela não quis tomar o calmante ontem, . - riu. - Tive que, hum, usar do meu charme.
- Me poupe, . - Eu ri. - Não quero nem saber o que vocês fizeram ontem.
- Hmm, você nem imagina. - Eu podia imaginar o sorriso malicioso de . - Assistimos tv a noite toda, depois que a te ligou. Depois ela capotou de sono no meu sofá e eu deixei ela lá.
- Não vou ligar se você disser que minha melhor amiga está dormindo na sua cama, .
Ele ficou em silêncio.
- Ok, presumo que seu silêncio confirme que a está dormindo do seu lado.
- Eu não fiz nada! - tentou se defender.
- Ok, , pode voltar ao seu sono.
- Tudo bem... Se cuida, .
- Pode deixar. - Ri comigo mesma.
Sem mais delongas, nós dois desligamos ao mesmo tempo. Eu continuava com um sorriso na cara enquanto lembrava dos meus dois melhores amigos. Como eu queria estar com eles agora.
saiu do banheiro, agora vestindo jeans e uma camiseta azul. O cabelo continuava a mesma desordem de quando acordou, algo me dizia que ele não era muito fã de pentes e escovas. Guardei o celular no bolso e fui até a escrivaninha onde ele já estava separando alguns livros.
- Não sabe pentear o cabelo? - Eu disse, sorrindo pra ele. Ultimamente eu sorria muito.
- Gosto dele assim. As garotas gostam. - piscou pra mim e voltou sua atenção à bagunça na escrivaninha.
- Tanto faz. - Revirei os olhos. - Vamos encaixotar suas coisas, ok? - E começamos a arrumar tudo.


Chapter Five.

Já eram quase 4 da tarde quando eu e terminamos de guardar tudo. Havíamos feito uma pausa pro almoço, uma lasanha gigante que a sra. preparou, e depois voltamos a nos trancar no quarto. Era divertido estar com ele. O tempo passou rápido enquanto empilhávamos seus pertences nas caixas vazias que o sr. trouxe. Descobri diversas coisas em comum, além dos filmes e bandas pendurados em sua parede. Nos entendemos bem.
Quando eram 4:30, avisou que podíamos parar e eu me larguei na cama dele.
- Vamos? - Disse, pegando seu iPhone e guardando no bolso.
- Starbucks? - Percebi que meus olhos estavam quase brilhando.
- Yeah, baby. - riu e me puxou pela mão.
Eu o segui, descendo as escadas correndo e rindo feito duas crianças bobas. Passamos por , tagarelando no telefone na sala, e avisou à mãe que iríamos sair. E saímos pela porta, ainda correndo, ele me puxando pela mão pra que eu acelerasse. não sabia que minhas habilidades em corrida eram totalmente mínimas e que eu não tinha coordenação suficiente pra correr e não tropeçar. Quase tropecei nos meus próprios pés quando já estávamos na esquina, mas me segurou antes que eu atingisse o chão.
- Descoordenada, hein? - Ele riu, me segurando pelos cotovelos.
- Você nem imagina...
Andamos lado a lado, separados, no meio das pessoas. Ao pararmos numa esquina para atravessarmos a rua, pegou na minha mão mais uma vez, entrelaçando nossos dedos. Não podia negar que aquilo provocava arrepios em mim. Sabia que devia me acostumar, mas toda vez que eu sentia seu toque era como se uma descarga elétrica passasse pelo meu corpo, me deixando imune e totalmente sem rumo. Caminhamos de mãos dadas, conversando, sorrindo. Qualquer um que nos visse diria que éramos um casal de verdade.
E eu não podia negar, estava começando a gostar dessa ideia. Ou talvez estivesse começando a gostar demais de . Eu já não desgrudava os olhos dele, não me cansava de olhar seus traços. E era sempre surpreendida por seus olhos , o que me deixava desconcertada.
Chegamos à cafeteria e , cavalheiro, abriu a porta pra mim. O familiar aroma de grãos de café e muffins recém-assados abriu meu apetite, meus olhos devem ter crescido dez centímetros só de ver as pessoas andando por ali com seus frappuccinos e expressos.
- O que vai querer?
- Hum. Um frappuccino de chocolate. - Disse, após fingir analisar o menu; eu já sabia o que queria.
fez os pedidos e nós nos sentamos numa das mesas afastadas dentro da loja. O canto em que ficamos me deu a leve sensação de dejá vu, e o que faltava na cena eram meus dois melhores amigos de Manchester dividindo seu latte comigo. Eu ataquei meu frappuccino assim que coloquei as mãos nele.
- Pela sua cara, você é uma viciada em potencial em Starbucks. - deduziu, apontando seu indicador pra mim e pro copo em minhas mãos.
- Nossa, você me conhece. - Ironizei. - Tá tão na cara assim?
- Bom, você não parou de beber desde que pagamos e tá na cara que você vai pedir outro.
- Sou uma viciada, o que eu posso fazer? - Levantei as mãos, indicando derrota. - E Starbucks sempre me lembra Manchester.
- Saudades de casa? - perguntou, meio cauteloso. Ele evitou contato visual enquanto falava e só levantou os olhos pra ver minha reação. Eu inspirei, calma, e pensei por um segundo, deixando me perder em pensamentos e desviando o olhar para o enorme vidro na entrada onde era possível ver a rua não tão movimentada. - Quer dizer, você sabe...
- Só sinto falta dos meus amigos e do meu irmão. - Falei. - E do meu quarto. E da minha cama.
- Minha cama não é tão confortável assim?
Eu ri e quase o chamei de idiota.
- Não, e talvez eu durma no sofá hoje.
- Nem vem, aquele sofá é meu! - Ele se exaltava, me fazendo rir sem parar. - A não ser que...
- O que, ?
- Nada, deixa pra lá. - fez uma careta e deu de ombros, voltando a tomar seu mocha frappuccino.
- A propósito, por que você não... Dorme? Sabe, na própria cama? - Perguntei, mordendo o lábio. Eu continuava achando que ele não devia fazer cerimônias e acordar todos os dias com as costas quebradas de dormir no sofá. O sofá dos era confortável até, mas não o suficiente pra alguém passar as noites dormindo ali. E eu conseguia imaginar perfeitamente o quadro de que eu era a traída e expulsava do quarto, deixando-o na companhia do sofá e das almofadas.
- Você não se importa? - Ele franziu o cenho.
- Não. Nem um pouco. Eu quem devia dormir no sofá, aliás.
- Eu já disse que ele é meu! - bateu com o punho na mesa, fingindo indignação. - Mas ok. Se você quer que eu durma com você.
- Pra mim tanto faz. - Admiti. - É a sua cama.
- Ok, essa noite você terá minha companhia. - Ele piscou.
- Uau, o que devo vestir? - Ironizei.
- Boba. - Eu ri quando deu língua, feito uma criança, fazendo uma carinha fofa. - Quer outro frappuccino?
Minha expressão fez ele dar uma risada e levantar, indo em direção ao balcão, não sem antes dar um beliscão na minha bochecha e me deixar com um sorriso idiota no rosto.

Eu estava cheia já quando saímos da Starbucks. Depois do segundo frappuccino, eu comprei alguns muffins para comermos enquanto andávamos de volta pra casa.
- Você quer me engordar, ? - perguntou, comendo o quinto muffin.
- Hum... - Fiz, provando o meu terceiro. Eu era mais controlada que ele. - Quem sabe?
Ele riu, de boca cheia, terminando de comer e pegando mais um no saco de papel pardo que eu carregava. Na volta pra casa, pegamos outro caminho. queria me mostrar um pouco das ruas londrinas que ele estava acostumado, e não os principais locais que uma pessoa de fora vai. Eu mesma não estava tão interessada em conhecer a torre do relógio, o Parlamento, e qualquer outro lugar londrino que estivesse no roteiro dos turistas que se amontoavam pelo centro.
Eu caminhava olhando em volta, enquanto comia os muffins e falava sobre música. Ele tentava me fazer rir, andando de costas na rua, fazendo o moonwalking na calçada, quase esbarrando nas pessoas que andavam e lhe lançavam olhares tortos. Rimos alto quando ele quase caiu por cima de um cão, que corria pela calçada levando seu dono junto pela coleira. Acho que as pessoas pensavam que estávamos bêbados ou algo parecido, pois eu entrei na brincadeira de e também arriscava alguns passos a lá Michael Jackson. Me empolguei e dei uns passos de bailarina pela calçada, rodopiando sem ver pra onde ía e quase derrubando todas as frutas de uma banca na calçada.
- Perdão! - Eu exclamei pro senhor, ajudando-o a equilibrar os caixotes antes que todas as frutas coloridas rolassem pela calçada.
parou no meio-fio, ofegante, rindo da minha cara, enquanto eu corava furiosamente e ouvia o dono da banca de frutas ralhar comigo.
- Tenha mais atenção, menina!
- Me desculpe... Er, , para de rir de mim! Ah, me desculpe mesmo, senhor. - Continuava a falar, sendo puxada pelo braço por , deixando o senhor falando sozinho.
- Vamos logo antes que você acabe com outra banca de frutas. - Ele riu, entrelaçando o braço dele ao meu. - , me dá outro muffin? - Seus olhos brilharam ao olhar a sacola de papel que eu ainda carregava. Eu a estendi e pegou, dando um sorrisinho.
- Estou começando a achar que tem alguma coisa de diferente nesses muffins.
- Tipo... - mordia mais um.
- Acho que são muffins de haxixe.
Ele quase cuspiu o muffin que comia e começou a rir. Muito alto. Eu ri junto, sei lá por quê.
- , não fala merda. - balançou a cabeça, me desaprovando. - Anda, a gente tá quase chegando.
- Em casa? - Perguntei, olhando em volta. Ainda estávamos numa espécie de centro comercial, não estávamos na zona residencial onde morava.
- Não, no Jackson's. - Ele piscou e sorriu de lado, e eu me perguntei o que diabos era Jackson's.


Chapter Six.

- ! - exclamou ao entrarmos no local. - Dudes!
Acontece que o Jackson's é um pub. Um pub que, aparentemente, ele costuma frequentar, já que acenava freneticamente para um grupo de pessoas nos fundos. Não costumava frequentar pubs em Manchester, embora tenha ido com e no aniversário dele, mas a atmosfera que o Jackson's tinha era aconchegante. Tinha paredes revestidas de madeira, mesinhas e sofás nos cantos de estofado verde. E havia um quê irlandês nele. Exceto que não parecia o típico pub cheio de caras bêbados já que haviam duas garotas da minha idade, mais ou menos, cercadas de outros dois caras, que parecia conhecer.
- ! - um deles disse, indo em sua direção. Os dois bateram as palmas, se cumprimentando. - E... Garota bonita? - ergueu as sobrancelhas ao me ver, praticamente escondida atrás de .
- Essa é a , de Manchester - me apresentou, e eu senti cinco pares de olhos sobre mim. - , esse é o meu povo.
- Meu povo? Quanta consideração, - uma das garotas, que estava atrás do balcão, se manifestou.
- Você sabe que eu te amo, - ele riu, indo até ela e beliscando suas bochechas, dando um beijo estalado na testa dela.
- Ei, mais respeito - um dos garotos disse com a voz alta, fazendo os outros rirem. - O que a de Manchester vai achar?
- Que você é um ciumento de marca maior - a outra garota, sentada numa das banquetas do bar, rolou os olhos. - Sejam legais e se apresentem.
- Ok. Oi, eu sou - o "ciumento" disse, sorrindo para mim. - Desculpa, mas é que o às vezes esquece que algumas pessoas aqui são comprometidas.
- Nossa, quanto amor - resmungou. - Já que vocês não falam e só sabem resmungar...
- Quem resmunga aqui é você!
- Cala a boca, dude! , essas são e . Os acéfalos são e .
Todos me cumprimentaram e uma conversa paralela começou. Eu me desliguei rapidamente, observando o interior do pub. Eu gostei dali. Tinha um ar jovem, conferido principalmente pelas presenças cômicas dos amigos de . Havia uma placa em neon, agora desligada, com Jackson's em letras disformes perto da porta de entrada. Algo me dizia que eu passaria diversas noites ali.
Os amigos de eram, no mínimo, tão bobos quanto o próprio. Faziam piadinhas e zoavam uns aos outros o tempo todo. e mantinham a ordem, enquanto conversavam sobre outra coisa, elas me inteiraram do assunto ao ver que eu parecia um tanto perdida, apenas observando.
- Vai ficar quanto tempo na cidade, ? - me perguntou e eu me aproximei. Os outros quatro conversavam sobre qualquer baboseira e riam alto, desviei a atenção sem me importar.
- Não sei ainda - disse. Eu realmente não sabia.
- Está na casa do ? - assenti com a cabeça. - Ele não tentou te molestar nem nada parecido durante a noite, ou sim?
- Ele, na verdade, dormiu no sofá - franzi o cenho.
- O dormiu no sofá?! - exclamou, surgindo atrás do balcão. Ela se abaixara para pegar alguma coisa; era garçonete no Jackson's, pelo que presumi. Vestia jeans e uma camisa pólo branca, por baixo de um avental preto, e tinha o cabelo longo preso em um rabo-de cavalo. - Não acredito!
- Tem algo de errado nisso? - perguntei.
- Bom, ele costuma dormir com as namoradas. Sabe como é... é desses.
Todos achavam que nós éramos um casal, não só os pais e a irmã dele. Ótimo.
- Vocês já... Sabe - pelo olhar de , ela queria saber mais do que devia. Balancei a cabeça negativamente e ela assentiu, como se entendesse.
Depois disso, eu engatei uma conversa sobre Londres e elas se mostraram empolgadas comigo. Como turista. Fizeram prometer que me traria de volta e eu garanti que voltaria, já que não tinha exatamente o que fazer em Londres, e muito menos companhia. Tinha , sempre no quarto ao lado, disposta a me distrair contando coisas que pudessem envergonhar o irmão. Tinha o Sr. e a Sra. , dispostos a me distrair contando coisas que também pudessem envergonhar . E tinha . Mas agora também tinha , , e . Estava me dando bem com todos eles, para falar a verdade. Passamos o resto da tarde e o começo da noite londrina ali, enquanto víamos o pub começar a encher.

- Hora de ir - havia se aproximado e dito aquilo ao pé de ouvido, o que me arrepiou de uma forma que não deveria.
- Já? - fez biquinho. Eu ri. - Eu quero a para mim!
- Ei, indivíduo! - ouvi se rebelar. - Esqueceu de mim?
- Você já é minha, rawr - ele a puxou pela cintura e fingiu um rosnado sexy, o que fez todos rirem.
- Eu volto, - prometi.
fez sinal para que eu o seguisse, depois de nos despedirmos de seus amigos, e saímos. Já era noite em Londres, algo próximo das nove horas. Não imaginava que tivesse passado tanto tempo no pub com eles. O céu estava salpicado de estrelas, escondidas por nuvens também, e eu quase adquiri um torcicolo por ficar admirando o céu.
- Não existem estrelas em Manchester? - ironizou, praticamente me guiando para que eu não desse com a cara num poste.
- Não costumavam aparecer quando eu morava lá - fiz um biquinho, ainda com o olhar voltado para o céu.
- Ow, tadinha, não via estrelas - as duas mãos dele apertaram com força minhas bochechas.
- Ai, pára de apertar minhas bochechas, que merda - reclamei, tentando me desvencilhar de suas mãos. Ele sorriu, malandro, e largou meu rosto. - E, não, eu não via estrelas.
- Hum, se quiser, eu te faço ver estrelas - disse, de modo sedutor. Ou o mais parecido com isso. Ele se aproximara de mim, olhando nos meus olhos. Qual é a dele?
- Que xaveco barato, - o empurrei e continuei andando. Agora reconhecia a rua onde estávamos, mais uma esquina e chegaríamos em sua casa.
- É brincadeira, . - riu . - Ou será que não? - acrescentou, erguendo a sobrancelha.
- Não - eu decidi por ele. - Ei, quer apostar corrida? Até a porta. 1, 2, 3 e...
- Já!
Nós corremos, desembestados, pela rua, agora vazia. Qualquer um que olhasse da janela de casa, veria dois indivíduos correndo feito crianças pela rua, rindo alto, enquanto apostavam corrida. Para minha surpresa, não encontrei nenhum obstáculo no caminho que fiz, correndo o mais rápido que eu podia para poder ganhar de . E ganhei! O cadarço do all star dele desamarrou e o fez tropeçar, fazendo com que ele parasse e me desse uns dois segundos de vantagem. Enquanto se equilibrava na grade do portão de alguém, eu corria até a entrada de sua casa e me apoiava no beiral da porta. Dez segundos depois, ele apareceu, parando bem rente a mim.
- Eu ganhei! - gargalhei, bem na cara dele. - Você é um perdedor, .
- Injusto - reclamou. - O que você quer?
- Como assim?
- Você ganhou a corrida, precisa de um prêmio.
- Mas a gente não apostou nada.
- E daí? Fala, o que você quer?
- Uma massagem - falei, só pra provocar ele.
- Hmmm, massagem? - fez sua melhor cara de tarado e eu rolei os olhos.
- Não pensa besteira.
- Tudo bem, eu te faço uma massagem antes de dormir - ele arriou os ombros, derrotado. - Tudo bem?
- Eba! - pulei em cima dele, agarrando-o pelo pescoço.
- Sai, você parece uma criança!
- Idiota - o esmurrei de leve e a porta atrás de nós se abriu, revelando uma com o olhar suspeito. - Oi, - a cumprimentei, rindo, e entrei no hall iluminado.


Chapter Seven.

Nos três dias que se passaram, eu me senti plenamente aceita em Londres. me surpreendera ao me chamar de 'cunhada' três vezes numa conversa pelo telefone com uma amiga sua. precisou sair pra resolver algumas coisas suas e eu não o impedi. Recebera diversas mensagens de texto e ligações de e , e uma de Alex. Senti sua falta no momento em que a ligação terminou e eu quis voltar para Manchester só para ver meu irmão. Aprendi o caminho sozinha pro Jackson's e passei algumas boas horas conversando com e . aparecia de vez em quando e eu gostava de sua companhia, era um garoto engraçado. Eram todos da mesma idade que eu e , diferenças apenas de 1 ou 2 anos. Já me sentia parte do grupo e fez questão de manter uma conversa comigo, enquanto a namorada servia alguns clientes que jogavam conversa fora, enquanto comiam batata frita. Na hora do almoço, o pub ficava quase deserto. Só que era sexta-feira, e logo mais o local estaria lotado. se desculpou por não poder bater papo comigo e , eu observei, enquanto ela corria de um lado para o outro, checando o estoque e se tudo estava no devido lugar. Sexta-feira era uma loucura, de acordo com ela.
- Vocês costumam vir aqui sempre? - perguntei, quando eu e estávamos sentados numa mesa nos fundos do bar. O sofá em que eu afundara era fofo e me dava vontade de ficar pulando nele o tempo todo.
- Sim, desde que a conseguiu esse emprego aqui. E o dono, o sr. Jackson - ele apontou para um senhor de uns 50 anos de idade, trajando uma camisa xadrez e um colete laranja por cima. Parecia o Marty McFly da terceira idade. - Ele é legal e está sempre dando uma moral. E pizza grátis - riu.
- Gostei da parte da pizza grátis.
- Você é das minhas - estendeu a mão e nós batemos as palmas, num high-5 em câmera lenta.
- A propósito, que horas são agora? - perguntei, bebendo do meu refrigerante.
- Quase 3 da tarde. Por quê? Compromisso com o ? - ele disse, de uma forma que eu pudesse entender as segundas intenções, erguendo uma sobrancelha.
- Na verdade, sim. Ele vai levar umas coisas para o apartamento novo e eu disse que o ajudaria. Dia de mudança.
- Hum, a primeira noite sozinhos em Londres - abriu um sorriso malicioso. - Vão aproveitar a noite já que vão sair da casa dos pais do , né.
- Se você chama "aproveitar a noite" dormindo no chão da sala vazia dele... Vamos aproveitar a noite!
- No chão? Credo. Eu emprestaria um colchão, mas o meu está em uso - ele piscou.
- Cala a boca e me deixa ir embora! - eu ri. Me levantei e fui andando até a porta do pub, mandando um beijo no ar para .

- Para que tanta tralha, ? - perguntei, quando ele carregava as caixas para o carro que o Sr. lhe emprestara.
- Ei, são minhas coisas. Não é culpa minha que você não tenha tralha nenhuma sua para carregar - ele resmungou, depois de colocar duas caixas pesadas no porta-malas.
- Sorte a sua, ou eu faria você carregar minhas tralhas - eu ri.
- Você é folgada, sabia? - riu, batendo o porta-malas depois que as caixas foram guardadas. Duas malas suas estavam no banco de trás, junto com minha mochila.
- Já me disseram isso antes.
Entramos no carro, acenando para os pais de e , que estavam na janela nos observando. tomou seu lugar no banco do motorista, e eu no do carona, ao seu lado. Eu estava pensando se ele dirigia feito um louco como alguns amigos de Manchester, mas ele nos conduziu calmamente pelas ruas, saindo da área residencial onde morava e entrando nas ruas agitadas de Londres. Seu novo apartamento não era muito longe da casa dos pais, apenas 30 minutos de carro, bem no centro da cidade.
Passamos cinco minutos num silêncio estranho; eu olhando pela janela, mas sentindo que me observava pelo canto do olho, enquanto mantinha sua atenção no trânsito. Aquilo começou a me incomodar, estava me sentindo desconfortável com seus olhares furtivos. Paramos num sinal vermelho e eu estendi a mão para o rádio, ligando-o em qualquer estação que pudesse preencher o silêncio que tanto me incomodava. O locutor anunciava a última música que tocara, agora outra melodia podia ser ouvida.
- I am restless, and I keep trembling, everyone watch me as I descend - cantarolei as primeiras palavras de Run, Don't Walk do Hey Monday, em voz baixa.
- Into a feeling that's overwhelming me - ouvi a voz de continuar a cantar do ponto em que parei. Eu, que estava observando duas garotas com uniformes escolares andando de mãos dadas na calçada, desviei o olhar e encontrei dois olhos me encarando. Seus dedos batucavam no volante acompanhando a música. - I finally stopped, stopped making sense.
Pressionei o botão de volume e a voz de Cassadee Pope diminuiu o tom, era apenas uma música de fundo. O sinal mudou de vermelho para verde e acelerou.
- Você canta bem - falei. Honestamente. realmente tinha uma voz boa. - Você também canta, além de tocar toda aquela lista infinita de instrumentos? - ironizei.
- Toco, canto - ele listou. - E encanto.
Minha gargalhada saiu mais alta do que o costume, aposto que as pessoas que trafegavam na rua ouviram quando eu praticamente explodi.
- Não ri de mim, eu tô falando a verdade - ele tentou se defender, mas começou a rir também.
- , é melhor você ficar quietinho e só prestar atenção na rua, ok? - rolei os olhos e voltei a aumentar o volume do rádio. A música estava na metade já.

For the record, when I'm with you things are looking better for once.

Fiquei com essa frase na cabeça o resto da viagem de carro até chegar ao prédio novo. Enquanto percorríamos pela rua, meus pensamentos voaram de volta a Manchester. A fachada do prédio me lembrava o que Alex me mostrara uma vez, sonhando em sair de casa. "Qualquer dia, eu vou morar aqui, . E você vai estar no quarto ao lado, porque você não vai conseguir se virar sozinha sem o Alex aqui", ele dissera, enquanto abraçava meus ombros e me acompanhava até a escola. Olha só onde estou, pensei. Me virando sozinha em Londres. Desde que eu fora embora de casa, não havia pensado em como as coisas deveriam estar. Meus pais adotivos não queriam que eu fosse embora, mas tampouco podiam me impedir. Tenho 18 anos, sou maior de idade e sei cuidar de mim mesma. Se não tivessem certeza de que eu estaria bem, teriam tentado me rastrear de uma maneira ou de outra, e teriam me encontrado nas ruas de Londres. Sorte a minha que tinha encontrado e que ele tivesse me levado até sua família. Ou as coisas estariam bem esquisitas para mim.

O carro parou na garagem do prédio. A frente dele era branca com ladrilhos verdes, parecia novo, e havia um pequeno jardim na entrada do prédio. O porteiro, simpático, acenou e nos desejou "boa tarde" quando me puxou pela manga do casaco e nós entramos no elevador. Haviam dez andares, cada qual com três apartamentos. pressionou o botão do sétimo andar e aguardamos a porta do elevador se fechar com um baque seco e metálico.
- Devia ter comprado um no terceiro andar, deve ser mais barato - zombei, enquanto o elevador subia. abriu a boca pra responder, mas eu o impedi. - É brincadeira.
- Você é uma bobona - ele suspirou.
- Que amor, - ralhei com ele e fiz bico. - Aliás, por que não trouxe suas tralhas?
- Eu vou voltar para buscar.
- Tá, né.
As portas do elevador se abriram num longo corredor com 3 portas. Uma à direita, uma à esquerda e uma na ponta, bem no final dele. saiu do elevador primeiro e foi até a porta à minha esquerda, tirando do bolso as chaves e abrindo a porta branca recém-pintada. Havia uma plaquinha na altura dos meus olhos, na parede, com os números 702. fez sinal para mim, que estava parada no meio do corredor, e entrou no apartamento, deixando a porta aberta para que eu passasse e, logo depois, fechando-a.
Era um típico apartamento de solteiro. E estava vazio. Meus passos ecoavam pelo assoalho de madeira clara. A sala era pequena, vazia do jeito que estava parecia maior, mas eu podia imaginar os móveis, que só chegariam na próxima semana, e ficaria perfeito. Não havia uma janela, e sim uma sacada com porta de correr de vidro, que dava pra rua por onde chegamos. Fui até lá, no meu encalço, e deixei que uma leve brisa de verão deixasse meu cabelo ainda mais rebelado. Pude ver a London Eye ao longe. A torre do relógio. A Tower Bridge e os carros que passavam por ela. Podia avistar cabines telefônicas vermelhas. Pessoas caminhando despreocupadas com sacolas de compras, com óculos de sol e lattes da Starbucks. Sorri comigo mesma ao olhar para baixo e ver um trio de amigos, duas garotas e um garoto, da minha idade. Me lembraram e . Fui até a cozinha montada, pequena também. Me permiti abrir e revirar os armários vazios, pensando encontrar pelo menos um pacote de biscoito que a Sra. teria mandado trazer. Passei uns dez minutos rondando o apartamento com , nossos passos e nossas vozes ecoando pelos cômodos vazios. O banheiro, para minha surpresa, tinha uma banheira de pézinhos, como a em que eu tomara banho na casa dele, e parecia novo em folha. Ladrilhos azuis da cor do céu preenchiam uma parte da parede, outra era pintada com uma tinta no mesmo tom de azul.
- Agora, a parte principal... - disse, misteriosamente. - Meu quarto.
- Aham, a parte principal - zoei, e deixei que ele me conduzisse até a porta branca.
Estava vazio, assim como o resto do apartamento. E cheirava a tinta fresca, as paredes de um branco imaculado. Era maior que a sala, obviamente, mas parecia um cômodo introspectivo agora, sem nada para preenchê-lo. A não ser os dois futuros moradores que olhavam para o teto.
- Aqui que a mágica acontece - ele tornou a falar e minha risada ecoou pelo quarto.
- Não é exatamente fabuloso, mas eu gostei - falei, sinceramente. Ele sorriu de lado. - Só faltam os móveis, né.
- Não é exatamente fabuloso, mas VAI ficar exatamente fabuloso. Não duvide de mim - disse. - Uma pena não ter nada para comer. Estou começando a ficar com fome...
- Hum. Me dá dinheiro que eu vou na lanchonete que eu vi ali na esquina e compro o nosso jantar.
- Você me explora, - ele resmungou, mas meteu as mãos nos bolsos e me entregou algumas notas de libra bem amassadas, piores que as que eu carregava. - Vamos descer juntos, eu preciso pegar minhas tralhas no carro.
- Suas tralhas - eu ri, dando um tapinha no braço dele e o empurrando.
- Minhas tralhas - deu uma daquelas piscadelas, uma das que eu já estava me acostumando.
Saímos do apartamento e descemos pelo elevador novamente. Nos separamos na entrada do prédio; foi na direção da garagem buscar as coisas, e eu passei pela portaria, acenando simpaticamente para o porteiro e voltando à rua.

Levei exatos vinte minutos na lanchonete da esquina. Era um McDonald's wannabe, agradável até. Pedi quatro lanches para viagem, pois estávamos mesmo famintos, e voltei carregando as sacolas de papel. O cheiro de carne frita na chapa estava me atraindo e aumentando minha fome, então soquei o botão do sétimo andar no elevador e esperei, impaciente, para que as portas se abrissem novamente. Fui e voltei sozinha da viagem de elevador; o prédio parecia até vazio. Retirei meus pensamentos ao ouvir vozes e o som de uma televisão no apartamento em frente o de . Bati três vezes e ele abriu a porta rapidamente, me deixando batê-la com o pé, devido às mãos ocupadas. também estava ocupado, trouxera as caixas e mais um trilhão de coisas do carro e se divertia abrindo e fechando as caixas de papelão e arrancando a fita adesiva.
- Hoje - anunciei. - comeremos como reis! - fiz um gesto exagerado, depositando as sacolas da lanchonete no balcão de granito da cozinha. Foi então que vi uma barraca de camping, de náilon azul, no meio da sala de estar. - Er, ... Uma explicação, por favor.
Ele, que estava olhando atentamente para uma miniatura do Bart Simpson, ergueu os olhos para mim. Depois se deu conta.
- Ah, sim. O quarto foi pintado hoje cedo e a tinta demorou a secar, então meu pai achou melhor não trazer o colchão. E o cheiro irrita, então vamos dormir na sala - ele completou, abrindo os braços e indicando o cômodo semi-vazio.
- Vamos dormir no chão? Dentro de uma barraca de camping? No meio da sala? - eu e meu otimisto.
- Não, meu pai trouxe sacos de dormir - apontou para duas coisas emboladas num canto. Pareciam fofas. - Estavam no closet, encontrei agora a pouco.
- Podemos comer? Estou faminta - resmunguei, jogando os ombros pra frente e tombando a cabeça. veio até mim e me sacudiu pelos ombros, rindo.
- Vamos, antes que você desmaie e eu tenha trabalho pra te enfiar dentro de um saco de dormir.


Chapter Eight.

Jantamos como reis naquela noite. Passamos um bom tempo ao redor do balcão de granito da cozinha, comendo nossos cheeseburgers e tomando nossos refrigerantes. Parecíamos duas crianças, principalmente porque começamos a travar uma guerra de batatas. Tudo parou quando me tacou uma batata frita e ela ficou presa no meu cabelo. Então, não parecíamos mais crianças, pois ele se aproximou de mim para desembolar a batata frita dos meus fios castanhos e parou a centímetros, seu rosto próximo ao meu. Nossos narizes roçavam, ele estava incrivelmente perto agora. Senti sua respiração por um breve momento e então seus olhos estavam nos meus. Como um ímã, tão atraentes. Antes que qualquer um dissesse algo, tirou a batata frita do meu cabelo e a jogou longe, ainda sem desviar o olhar do meu rosto. Me obriguei a falar.
- Você tem futuro como cabelereiro. - praticamente gaguejei, agarrando meu milkshake de chocolate e me ocupando de morder o canudinho enquanto bebia.
- Talvez... - pareceu acordar de repente.
Passou-se um momento em silêncio, em que tudo que podíamos ouvir era o som de nossa própria respiração. Eu respirava fundo, mastigando meu cheeseburger e evitando olhar para . Ele ocupou-se de comer suas batatas, sem negar olhares de canto de olho na minha direção. Não entendi por que estávamos agindo assim. Há pouco estávamos brincando e disputando batatas, agora disfarçávamos o que quase acontecera. Se eu não tivesse dito algo, talvez tivesse me beijado. E não posso negar que, agora, pensando nisso, arrependo-me de ter aberto a boca.

A noite caía lá fora e eu tomei um bom banho quente antes de trocar minha jeans de sempre, por uma calça de pijama e uma camiseta limpa. Quando eu saí do banheiro, vi a sala já preparada. arrumara os dois sacos de dormir dentro da barraca. Eu ainda não entendia para que aquele trambolho no meio da sala, se podíamos muito bem entrar nos sacos de dormir e acordar vivos na manhã seguinte. Mas conhecendo , mesmo que há poucos dias, eu podia considerar que a barraca de náilon azul era um escudo e que seria, no mínimo, divertido dormir dentro dela.
Espiei pela porta de vidro da sacada. Fazia uma noite fresca de verão em Londres. Eu podia ver minúsculos pontos de luz no céu escuro, através do vidro, estrelas ao longe. Corri a porta e deixei que uma brisa fresca de verão incomodasse meus olhos e deixasse meu cabelo já sem pentear ainda mais rebelde. A porta do banheiro se abriu e depois fechou com um estalido, mas eu não olhei para trás. Debrucei-me na amurada, observando um trio de garotas bêbadas trocando as pernas na calçada.
- Ei. - apareceu do meu lado.
- Oi. - murmurei e sorri de lado.
- Aproveitando-se da minha sacada e da minha vista privilegiada?
- É a melhor parte da casa... - confessei.
- Eu jurava que era o quarto. - franzia a testa, o que me fez rir. - Se quiser, pode ficar com a sacada. Pode até dormir aqui.
- Aham, claro, eu vim morar com você, mas, na verdade, vou morar na sacada - ironizei. - Quem precisa de uma cama e um teto quando se tem... O chão e o céu?
- Isso soou profundo - ele disse, com uma falsa expressão de perplexidade. - filosofando, isso é coisa que não se vê todo dia.
- Cala a boca - eu ri.
- Vem calar - ele me desafiou. Eu sabia que era uma brincadeira, mas do jeito que ele falou, dava para entender o que estava subentendido. hesitou um minuto, seu olhar focando a rua, agora deserta. Depois do incidente na cozinha, nos mantemos a uma certa distância um do outro. Assim que terminamos de comer, eu arrumei a cozinha e ele foi ajeitar algumas coisas no quarto e na sala. Agora era a primeira vez, desde que eu o interrompera na cozinha, que conversávamos, então, tentamos manter tudo naturalmente. Uma parte de mim queria voltar à guerra de batata frita e retirar a idiotice que eu dissera. Devia ter ficado de boca fechada e perdida nos olhos castanhos de . Queria ver o que ele iria fazer se não tivesse tirado o pedaço de batata do meu cabelo.
Olhei para o alto, para o céu escuro, para as minúsculas estrelas que pareciam piscar para mim. Não haviam nuvens as escondendo hoje e outras milhares pareciam querer aparecer. Lembrei do dia em que voltava do Jackson's pela primeira vez com .

- Não existem estrelas em Manchester?
- Não costumavam aparecer quando eu morava lá.


Eu costumava viajar demais na minha cabeça. continuava imóvel, hesitante, como se precisasse falar algo mas não soubesse exatamente como o faria. Eu continuei olhando para as estrelas, relembrando dos últimos dias. e dariam tudo pra ver as estrelas em Londres também. Pareciam mais brilhantes do que de qualquer outro lugar que eu já vira. Em Manchester, elas pareciam ter algum tipo de preconceito comigo, pois sempre estavam escondidas. E eu gostava de estrelas, era a minha forma favorita.
Um grupo de bêbados passou a toda pela rua, rindo e cantando embolado Love Story, da Taylor Swift. Reprimi uma risada quando dois passaram a dançar e encenar a história no meio da rua, como Romeu e Julieta de pernas bambas. O grupo foi cantando escandalosamente até o final da rua, onde mudaram para uma música do anos 80 e desapareceram na esquina. Eu ri comigo mesma e ainda estava pensativo ao meu lado, seu braço roçando levemente no meu. Tinha um ar de riso depois de presenciar um cover da Taylor Swift de graça, mas continuava distante. Pigarreei, distraída, e abri a boca para falar. Devia parar com essa mania.
- Esse foi o melhor cover da Taylor que eu já ouvi - falei, casualmente.
não respondeu. O silêncio dele começava a me incomodar e eu não tinha maneiras de puxar um assunto se ele não falava nada.
- Acho que vou dormir. Estou ficando com sono - comuniquei, afastando-me da sacada e já passando pela porta de vidro.
Ao pisar na sala, uma mão segurou a manga da minha camiseta.
- Espera, .
Virei-me rapidamente e colidi com . Por instinto, minhas mãos espalmaram no peito dele. Eu o encarei. ainda permanecia hesitante, mas agora abrira a boca para falar.
- Desculpe-me por isso.
E, antes que eu pudesse me perguntar por que eu o desculparia, ele segurou meu rosto com as duas mãos, aproximando-se perigosamente. Eu fechei os olhos, deixando a respiração dele voltar a bater no meu rosto. Seu perfume de banho recém-tomado me inebriava. inclinou o rosto e colou seus lábios nos meus, num beijo calmo. Permanecemos de olhos fechados e bocas coladas, até que eu subi as mãos para seus ombros, deixando uma escorregar para sua nuca, trazendo-o mais para perto. Senti a língua de pedir passagem e a concedi, aprofundando o beijo devagar. Então, era isso? Ele queria me beijar e não sabia se devia? Talvez pensava o mesmo que eu; se eu não tivesse dito nada antes, esse beijo já teria acontecido. Mas eu não me importava mais, tudo que eu queria era sentir o toque macio das mãos de no meu rosto. O beijo não era nada mais do que o que queríamos há algum tempo. Era doce, a boca dele tinha um gosto que eu nunca provara. Eu queria mais. Passamos longos minutos apenas sentindo o sabor um do outro. Ao final, descolei meus lábios dos de e ele colou nossas testas, ainda de olhos fechados.
- Não vou te desculpar por isso - eu murmurei.
- Não me importo - ele praticamente sussurrou, seu hálito me arrebatando. - Foi melhor do que eu imaginei.
- Já estava na hora de parar de imaginar como seria me beijar e... Me beijar - minha voz saía um tanto fraca, mas consegui sorrir.
- Não sou tão cara-de-pau assim - confessou. - Não quando gosto de uma garota...
- Você fala demais, . - eu ri.
- Tudo bem, vou ficar quieto.
Ao ouvir isso, dei uma risada, seguida de um sorriso concedido por ele. Meu braços se fecharam em torno do seu pescoço e eu vi quando seus olhos faiscaram sobre mim. Me aproximei e o beijei novamente, calando-o, antes que pudesse abrir a boca e falar mais alguma coisa. Quando me separei dele, abri um sorriso vitorioso.
- Pronto.
- Pronto o que?
- Eu te mandei calar a boca e você me desafiou a te calar. Eu te calei.
- Você que pensa - revirou os olhos.
- Penso mesmo, te beijei de novo para você não ter que abrir a boca e falar.
- Então, você é dessas do movimento "cala a boca e beija logo"? - ele fez uma cara pensativa, enrugando a testa e entortando a boca.
- Não. Não quando gosto de alguém - assumi.
Eu já estava considerando aquela hipótese há alguns dias. Em pouco tempo, a companhia de era mais do que necessária. Ele me acolhera de boa vontade, me colocara em sua casa, me deixara fazer parte da sua rotina sem nem ao menos saber nada sobre mim. Agora, depois de poucos dias na intimidade de sua família, eu o conhecia como ninguém e estava disposta a descobrir mais sobre . Eu gostava dele. Ele me fazia rir, discutia comigo, me chamava de criança e boba, me divertia. Tínhamos vários pontos em comum e eu sabia que poderia descobrir outros. foi como uma luz que surgiu no fim do túnel; na verdade, naquela plataforma, naquele trem indo de Manchester para Londres.
Seus braços se estreitaram na minha cintura e ficamos abraçados por um tempo, apenas sentindo a presença um do outro. tinha um abraço aconchegante e eu ficaria relutante em ter que sair dali. Mas era tarde e eu já dava sinais de que desmaiaria de sono a qualquer momento.
- Acho melhor irmos dormir, - murmurei, a voz abafada porque estava com a cabeça enterrada em seu pescoço. Aquilo era bom.
- Antes que você desmaie nos meus braços? - ele riu.
- Não seria má ideia... - ponderei. - Mas eu quero um travesseiro.
- Bem, você tem um saco de dormir só seu - deu de ombros e eu sorri.
- Vamos antes que um caia sobre o outro dormindo.
- Isso não seria má ideia!
- Vem logo!
O puxei até a barraca de camping e nos instalamos nos sacos de dormir. A única luz que vinha agora era a da rua, através da porta de correr da sacada. Antes que eu pudesse me acomodar, virar para o lado e dormir, se aproximou de mim e me deu um selinho demorado.
- Boa noite, .
- Boa noite, - respondi, sem conter um enorme sorriso.

Continua.


N/A: (18/10/2010) Here I am! Me deem parabéns porque ontem foi meu aniversário e eu me senti meio forever alone até a hora de dormir '-' att demorada, I know, se não fosse a Kath eu nem teria mandado... preciso parar de enrolar. N/A pequena porque não estou com tanta paciência hoje... xoxo.
N/B: Bu! Quanta demora, I know. O FFOBS passando pela reforma, rebetagens, vestibular e wow, sobrevivi, I guess. Enfim, Miracle, quero atualização logo! E ah, já sabem. Qualquer erro, digo, qualquer erro MESMO, envie diretamente a mim, seja por email ou tweet ou sinal de fumaça, ok? Obrigada, pessoal!


tamente a mim. Se preferir, pode enviar um tweet informando sobre o possível erro. Não envie email para a Miracle Biah, para o site ou use a caixinha de comentários, ok?! Obrigada, pessoal! x