Prólogo.

Lá estava ela, saindo com o marido, a minha última vitima, a minha letra . Falo de , decoradora de ambientes conhecida mundialmente, que morava em uma das casas mais deslumbrantes do país e era casada com o homem mais desejado de toda a Inglaterra: . Assisti, com paciência, a toda a calma deles para entrar no carro, com um sorriso confiante no rosto. Aquela seria a última vez que teria sua mulher ao seu lado por puro merecimento. era uma assassina, ladra de maridos.

Capítulo um

Estávamos atrasados, contagiados com toda essa emoção. Gravidez novamente e, dessa vez, eu tinha certeza de que daria certo. Em três meses, eu teria o meu pequeno filho em meus braços para contemplá-lo e dar a ele tudo o que não pude dar aos dois perdidos. Olhei sorridente e confiante para . Ele tinha um sorriso radiante no rosto. Tenho certeza de que pensava no mesmo que eu. Ele sempre fora louco para ter uma família, filhos. Qualquer pessoa que apenas olhasse para ele, para o seu sorriso, o seu modo bobo de falar e acariciar a minha barriga saberia... Saberia que seria um ótimo pai.
Chegamos à casa de sua mãe alguns minutos após sair da nossa. Era domingo e um ritual: em todos os domingos, havia almoço na casa dos s. , como sempre cavalheiro, deu a volta no carro e o abriu para que eu pudesse sair.
- Chegamos, minha princesa - ele dizia enquanto beijava minha mão. Sorri bobamente ao fim de tal ato e apenas fui caminhando com ele até o portão da casa. Senti algo vibrar em minha bolsa e retirei de lá meu celular que pedia histericamente por atenção.
- Alô? – dizia, enquanto colocava o telefone na orelha, mas a ligação estava péssima. Só era possível ouvir chiados. Olhei para sem entender.
- Amor, vá entrando que eu já vou. Vou ver quem é aqui, ‘ta?- mandei um beijinho, sorrindo, e o vi assentir com a cabeça e entrar na casa de sua mãe, enquanto eu esperava alguma fala no telefone.
- Alô? Tem alguém aí? - os chiados só aumentavam cada vez mais. Eu não conseguia entender nada, mas parecia ter alguém gritando ao fundo. Desliguei o aparelho, achando que era algum tipo de brincadeira idiota, mas não deu mais do que vinte segundos para ele voltar a tocar. Suspirei pesado, atendendo novamente.
- Alô? – só chiados – Você quer fazer o favor de parar de palhaçada?- disse um pouco mais irritada. Odiava trotes e a comida de minha sogra me esperava. Sabia que ela havia feito mousse de morango; a minha preferida. Ouvi algo se mexer atrás da árvore que tinha ao lado do portão da bela casa e olhei na mesma direção. Tudo o que pude sentir foi o cheiro do clorofórmio atingindo as minhas narinas e o meu corpo desfalecer.

- Está na hora de acordar, minha pequena.
- - abri os olhos lentamente, me deparando com uma figura estranha: um cara completamente vestido de preto com máscara e tudo. A minha primeira reação foi tentar gritar. Só então senti que havia algo cobrindo a minha boca: uma fita. Não sei direito. Logo em seguida, pude sentir também algo gelado em meu pescoço. Ainda com os olhos abertos e o horror daquele lugar correndo por minhas veias, passei as mãos pelo pescoço e senti que estava com uma espécie de coleira de metal. Entendi o que estava acontecendo: eu havia sido seqüestrada. Tentei gritar novamente, mas não consegui. Aquele estranho ainda me olhava de forma sádica e cínica.

Capítulo dois

- Ora , não seja tola. Para que gritar? Afinal, estamos entre amigos. Olhe... - ele fez um gesto amplo para que eu olhasse ao redor e, quando eu o fiz, mais um grito quis sair da minha garganta. Havia cerca de vinte mulheres comigo naquele lugar. Eu não sabia ao certo... Tenho certeza de que me esqueci de contar alguma.
- Vamos lá, , você não vai cumprimentar a sua querida amiga Suzan? - o sarcasmo não saía de sua voz.
Eu percorri o meu rosto rapidamente por aquela sala até vê-la: ela estava apenas de roupas íntimas, assim como todas naquela sala. Suzan Walker, minha ex-amiga, a ex-mulher do meu atual marido, com os olhos marejados. Olhei para o estranho, como se estivesse pedindo uma explicação, e em seguida ele deu uma alta risada, assustando todas nós que estávamos na sala. Abracei meu corpo e percebi: não era apenas Suzan e todas as outras que estavam de roupas íntimas. Eu também estava.
- Você quer saber por que está aqui. Não é, ? O que você fez para ser selecionada, para estar entre essas mulheres. Não é, querida? Não se espante. Não irei lhe fazer mal. E muito menos ao seu bebê – ele dizia tranqüilamente, mas a sua voz não me passava confiança. As lágrimas quentes correram por meu rosto ao pensar no meu filho. O que será que aconteceria com todas nós dali para frente? Senti uma grande ardência na boca e fui despertada de meus pensamentos com ela. Só então pude ver que aquele homem havia retirado a fita de minha boca.
- O QUE ESTOU FAZENDO AQUI?- gritei em pânico e mais uma risada saiu daquele maldito. A minha maior vontade no momento era de matá-lo, acabar com ele e com tudo aquilo. Eu queria isso mais do que tudo.
- Acalme-se, querida. Isso pode afetar o seu bebê - sequei as minhas lágrimas com as mãos trêmulas e me lembrei do que o médico havia dito: “sem estresse, sem salto, sem gorduras”. Senti a mão gelada daquele miserável tocar o meu rosto e o olhei assustada.
- Assim que eu gosto: caladinha – o sorriso em sua face só era visto por uma pequena abertura que aquela máscara tinha. Ele não diminuía. Era um sorriso maldoso, que causava medo. Tenho certeza de que não era apenas em mim, mas em todas naquela sala, que permaneciam caladas.
- Já que a minha última convidada chegou, acho que eu posso começar. Não é? – vi o homem se afastar, ir até uma caixa de papelão e puxar uma pasta pequena amarela. Como aquelas em que guardam os nossos históricos escolares – O que temos aqui? Alisson Stuart. Engravidou aos dezenove anos e abandonou ao próprio filho. Que coisa feia, Alisson. Você não se envergonha?– ele dizia, olhando para uma das mulheres desconhecidas da sala.
- Eu... Eu não seria uma boa mãe – após alguns minutos de silêncio, pude ouvir a voz trêmula e baixa da mulher.
- Então por quê? Por que você engravidou? Por que não se cuidou? – o homem indagava com uma voz severa e parecia ter raiva.
- Foi um descuido - após mais alguns minutos, pude ouvir novamente a voz de Alisson, ainda trêmula e agora embargada. Vi o homem caminhando até ela lentamente e depois lhe bater com a pasta amarela que estava em suas mãos.
- Calada – ele disse, puxando-a pelo braço, levantando-a mesmo contra sua vontade e a puxou para outra sala. De repente, um enorme telão desceu sobre a parede que se localizava à nossa frente, mostrando uma sala aparentemente normal, toda branca, com uma porta vermelha no final. Havia algo no chão que eu não era capaz de deduzir o que era agora. Segundos depois, o homem entrou, puxando Alisson pelo braço, e a jogou lá dentro, derrubando-a diretamente no chão. Ouvi um grito por parte de Alisson e só então entendi. Eram agulhas no chão.
- Bem, Alisson, tenho duas escolhas para lhe dar: você pode sair correndo e passar por aquela porta vermelha - disse ele, apontando para a porta - Ela dará direto para a rua – surpreendi-me. Ele deixaria Alisson ir embora? Ela diria a alguém onde nós estávamos? Estávamos salvas?
Ele demorou algum tempo para se pronunciar novamente.
- Ou então... - um choro de bebê ecoou pelo lugar, chamando a atenção de todas nós para uma daquelas bolsas onde se colocam bebês - Ou então você pode salvar aquele bebê. A escolha é sua, querida Alisson - ele sorriu, ainda segurando a maçaneta da porta - Você deve ter uns quinze minutos para resolver se quer salvar o bebê - ele disse e apontou para cima. Uma corda segurava um peso grande e ela parecia que não agüentaria por muito tempo.
Alisson olhava sem saber o que fazer. Então, o homem fechou a porta. Rapidamente, ela se levantou e saiu correndo em direção ao bebê. Suspirei aliviada. Aquela criança estava salva. A sala era enorme de comprimento e Alisson gritava com as agulhas entrando em seus pés. Quando ela finalmente chegou ao bebê, deu um suspiro profundo e saiu correndo em direção à porta.

Capítulo três

Merda, Alisson. Era um bebê.
A tensão estava notável entre todas nós. Não deu muito tempo depois que Alisson saiu da sala e o peso caiu em cima do bebê. Mordi os lábios para conter um grito de desespero. Pude ouvir alguns suspiros, choros e até grunhidos ao meu lado, mas não me movi. Aquele homem ainda não havia voltado e nós não havíamos trocado uma palavra também. Dava medo de falar e atrair a atenção dele. Olhei para o alto, pensando em Buck, no meu marido. Como ele estaria agora? O que estaria fazendo? Deus, por favor, ajude-me!
Um bom tempo depois, aquele homem voltou à sala com um sorriso debochado em seu rosto.
- Viram que covardia? Alisson foi embora e deixou o bebê morrer - “maldito miserável, era apenas uma criança”, era o que eu mais queria dizer, mas o silêncio permaneceu no lugar - Tenho o jantar de vocês - ele saiu rapidamente daquela sala e depois voltou com um carrinho, como aqueles onde se coloca o café da manhã quando se pede serviço de quarto em hotel, com vários pratos. Foi distribuindo-os um para cada uma de nós. Tinha uma carne cortadinha em quadradinhos, ainda crua, com algo que eu deduzi ser cenoura e um pouco de arroz. Olhei para a comida sem o mínimo apetite. O olhar do homem parou em mim - Coma tudo, . Vai ser a única coisa que você irá comer até a hora do almoço amanhã. Olhe, coloquei até arroz para você. Viu? Você é a minha preferida - levantei o olhar para poder observá-lo e depois olhei novamente para o prato. Aquela carne parecia fígado. Eu odiava fígado. Sempre odiei. Mesmo assim, peguei um pouco da carne e enfiei na boca, sem pensar. Eu tinha ânsia enquanto mastigava aquela carne horrível, mas eu comeria. Não por mim, e sim pelo meu filho.
Ele nos observava comer com um sorriso vitorioso no rosto. Eu nunca comi tão depressa na minha vida. Praticamente engoli a comida sem ao menos mastigar.
- Gostaram do jantar? - ele perguntou e novamente não obteve resposta - Sabe, essa é a melhor parte de vocês: a que dá a vida. Só que vocês, tolas e estúpidas, desprezaram essa vida e olhe agora: tudo o que vocês têm para comer é o que dá a vida - eu estava meio confusa, mas não o suficiente para não ficar assustada.
- Desculpe, mas o que era isso? - perguntei baixo e minha voz saiu falhada. Mais uma risada. Até agora, eu não via tanta graça em nada.
- Lembra-se de Alisson? A traidora de bebês? - ele dizia com sarcasmo - Isso era o que daria a vida aos filhos dela. Ela não quis, não soube aproveitar - ele suspirou pesado, como se realmente sentisse muito. Foi então que entendi.

Capítulo quatro

Alisson estava morta. Ela não havia sobrevivido e eu havia acabado de comer o útero de uma mulher. Senti toda a comida que eu havia ingerido voltar à garganta e implorar para sair, porém eu segurei. O medo do que aconteceria se eu vomitasse ali era maior do que tudo. As lágrimas percorriam o meu rosto.

- Ora . Não seja uma menina má. Não tem motivos para chorar, oras. Você nem ao menos a conhecia - repulsa, nojo... Era isso o que eu sentia. Permaneci calada e ainda chorando. Ele se abaixou à minha frente, acariciando meu rosto com a ponta dos dedos.

- Não encoste em mim – minha voz era trêmula e eu não me reconhecia. Eu sempre soubera ser firme com as pessoas.
- Não vá me dizer que está com medo, ! – ele deu um risinho irritante – Você é a letra e prometo que vou ser bonzinho na sua vez – “na sua vez”. Era isso. Não tinha chances de sair dali com vida. Mordi os lábios e fechei os olhos, tentando não imaginar como seria na minha vez. Como eu morreria? Se iria doer, se eu ia sofrer ou se seria rápido...

- Bem, garotas, agora tenho que ir. Desejo a todas uma boa noite e, amanhã cedo, eu virei para fazer o almoço de vocês – ele piscou sugestivamente para Bonnie que adquiriu uma cor pálida e olhos arregalados.

A noite foi nada confortável. Era terrível dormir com aquela coleira no pescoço. Apenas me deitei no chão frio e sujo e permiti que as minhas lágrimas caíssem em silêncio. O que eu mais queria agora era o conforto do meu lar, o conforto do abraço do meu marido, do meu melhor amigo, da minha vida: . Era tudo o que eu mais queria... Acordar e perceber que nada disso havia acontecido. Ver que foi tudo um sonho, que ele estaria ao meu lado, me faria um chocolate quente, me colocaria em seu colo e iria ficar acariciando meus cabelos até que eu me acalmasse por completo. Fechei os olhos, lembrando-me das últimas semanas. Ele estava tão ansioso com a chegada do nosso filho. Não parava de falar nele por um segundo. Era tudo o que ele sabia dizer. Comprava coisas a todo o momento para a criança: carrinhos, sapatinhos... Até jogos que ele só poderia jogar quando tivesse lá pros seus dez anos o comprara. Lembrei-me também de como ele ficou lindo todo sujinho de tinta azul bebê, pois ele fez questão de pintar o quarto do próprio filho e não me deixou ficar para ver, alegando que eu iria querer fazer coisas que eu não poderia. Eu sabia, eu tinha certeza de que ele estava procurando por mim. Ele não desistiria.

Capítulo cinco

Não sei quanto tempo se passou ou se já era de manhã ou ainda de madrugada, pois a luz do sol não entrava naquele lugar.
Fui a primeira a “acordar”. Se é que eu poderia dizer isso, já que não havia dormido. Demorou algum tempo até alguém fazer algum movimento. Quando vi quem era, dei um sorriso amarelo. Suzan havia acordado. Apenas me olhou de cara feia. Permanecemos em silêncio até ela se pronunciar.
- Até aqui você teve que se meter, né? Nem aqui você deixou o momento ser meu. Não é, ? Sempre atraindo a atenção de todos! – ela dizia realmente brava. Não esperava que ela estivesse realmente zangada por eu estar ali. Afinal de contas, ela tinha raiva de mim e eu iria morrer, assim como ela – Você vai ficar feliz quando vê-lo me matando, ? Vai ficar contente quando vê-lo acabar comigo? Ou prefere quando você mesma faz isso? – sua voz continha amargura, mas eu não era culpada. Não era culpada por ter me apaixonado perdidamente por e ele por mim. Era culpada de nada do que estava acontecendo.
- Você acha mesmo que eu queria estar aqui, Suzan? Você acha que eu queria estar aqui nessa merda desse lugar, sendo que eu poderia estar confortável na minha casa, esperando pela chegada do meu filho? – respondi baixo e bem educada, olhando para ela. Suzan estava mudada da menina que conheci. A Suzan que conheci era doce, divertida e amiga. A que eu via agora era velha, amargurada e sem sentimentos.
- Ora, vejo que as amiguinhas estão se acertando – ele mal havia terminado de falar conosco e já havia virado seu olhar para Bonnie, como se estivesse mais interessado na garota. Não sei se por medo ou por curiosidade em saber o que aconteceria agora, mas eu e Suzan não abrimos mais a boca.
- Ora, ora, Bonnie. Bom dia! - dizia ele com um tom sarcástico, enquanto se aproximava da mesma - Chegou sua vez. Está ansiosa? – ao que falava com ela, foi se abaixando e ficando ajoelhado na frente da mulher. Sinceramente, não me surpreendi quando começou a acariciar os seios de Bonnie sobre seu sutiã. A mesma não mencionara nenhuma palavra até aquele momento, quando começou a chorar e pedir-lhe que a soltasse. Realmente deu pena dela, mas, afinal, quem não estava querendo sair dali? Aquele medo e angústia dominavam o lugar escuro e nojento. Foi aí que a voz do medo tomou novamente o local.

Capítulo seis

- Então iremos começar. Não quero ser injusto, então lhe darei duas opções. Dependendo da sua escolha, decidirá sua vida! Escolha imediatamente, minha querida: dê-me um filho, faça um comigo, ajude-me a criá-lo e fique viva. Ou recuse e tenha o mesmo destino de Alisson. Lembra-se dela, não? - enquanto ia dizendo, continuava a acariciar os seios fartos da mulher que estava se apavorando mais e mais a cada palavra. Ao terminar as propostas, ele se levantou e começou a andar, olhando cada uma das mulheres que ali estavam presas, esperando a resposta de Bonnie – Então...? Não tenho o dia todo. Preciso fazer o almoço de vocês. Responda-me, Bonnie!- disse com uma voz fria e grossa.
Bonnie continuava pálida, enquanto suas lágrimas rolavam pelo seu rosto mais branco que o de um fantasma, e, com um suspiro, levantou-se e disse, tentando mostrar coragem.
- Aceito lhe dar um filho e cuidarei dele com minha vida! - ao terminar o pronunciamento, soltou um longo suspiro, voltando o olhar para o chão na esperança de que aquilo lhe desse a passagem de saída dali.
Não sei como, mas quando percebi o que estava acontecendo, Bonnie estava de quatro sobre uma mesa de metal no meio daquela sala, com uma luz sobre ela e seus pés e joelhos presos à mesa, impossibilitando-a de se mover, assim como suas mãos também se encontravam presas. Seu pescoço ainda estava com aquela coleira e sua corrente, presa no teto. Como será que ele soltou a corrente dela? Eu conseguiria soltar a minha também?
Não consegui pensar por muito tempo. Os gritos de Bonnie ecoavam dentro da minha cabeça e aqueles berros se tornavam mais e mais altos. Em alguns momentos, chegavam a parecer de prazer, mas logo essa idéia era quebrada com seu próximo grito. Foi quando ele soltou uma risada cínica, perguntando.
- O que é isso, minha putinha? Está gozando? Não... Você está sangrando! - e aquela risada tomou toda a sala e se tornava mais agonizante do que os gritos de Bonnie. Eu não conseguia continuar olhando aquela cena, mas os gritos se acabaram e eu o vi passando pela minha frente, fazendo carinho em meu rosto, como se eu fosse uma criança. Aquilo me enojou e aquela minha ânsia de vômito voltou. Porém logo foi embora quando o vi voltar com uma faca na mão. O que será que vai fazer com aquilo? Voltei a observá-lo e, com um golpe rápido e certeiro, entrou de uma vez dentro da bunda de Bonnie que, por sua vez, soltou um grito agonizante. Não um urro agonizante. Ainda não entendia por que aquilo estava acontecendo e o porquê daquela faca. Foi então que a própria mulher soltou um grito, perguntando o motivo de aquilo estar acontecendo com ela. Aquela voz grossa e fria voltou a falar, agora com um pouco de falha por estar ofegante graças ao sexo.
- Não foi isso que pediu ao seu filho quando o despiu e o obrigou a fazer sexo com você? Não queria uma pica dentro de si? Agora tem. Não reclame. Ele não reclamou e, mesmo assim, você o matou. Lembra-se disso? - Bonnie não voltou a abrir sua boca. Apenas abaixou sua cabeça como podia e suspirou pesado. Tanto que de onde estava, consegui ouvir.
Ele não parava de bombar nela quando começou a esfregar a faca sobre a mesma, como se estivesse retalhando-a. A cada vez que esfregava a faca sobre ela, ele a balançava, respingando o sangue dela, que se mantinha em um choro pesado e silencioso, em todas nós. Quando decidi pedir para que parasse e a entregasse à polícia, ele parou do nada, como se estivesse em minha mente, vendo meus pensamentos. Com certa brutalidade, soltou-a, a jogou praticamente deitada sobre a mesa e a prendeu novamente. Achando que aquilo havia acabado, abaixei minha cabeça para tentar me esquecer do que havia acabado de ver, mas não consegui, graças a um grito vindo de Bonnie. Sim, ele havia enfiado a lâmina da faca dentro da vagina da mulher e, como se tirasse carne em um açougue, foi cortando a mesma até o início de sua barriga, retirando-lhe seu útero e sorrindo para nós, dizendo para agradecermos a Bonnie, pois, por causa dela, teríamos almoço naquele dia. Bonnie ficou gritando e agonizando de dor durante uns quarenta minutos até que tudo parasse e finalmente fosse a morte, por falta de sangue, creio eu. Enquanto Bonnie gritava, eu e mais algumas mulheres que não reconhecia chorávamos e pedíamos perdão pelo o que fosse que tivéssemos feito, mas ele parecia não nós ouvir, pois não estava conosco na sala e, acho eu, preparando nosso "almoço".
Alguns minutos depois, pude observá-lo voltando com uma panela em mãos e os mesmos pratos de plástico do dia anterior. Ele foi jogando os nossos pratos na nossa frente e apenas os observávamos, ainda chorando. Não conseguia parar de pensar em Bonnie, na forma brutal como havia morrido. Eu só queria entender o que eu estava fazendo ali. Eu nunca matara nenhum de meus filhos, nunca havia feito mal a nenhuma criança e esse parecia o motivo de todas as mulheres estarem ali. Afinal de contas, o que eu havia feito? Fui despertada de meus pensamentos quando mais uma risada soou pelo cômodo.
- Não vão comer? - ele disse friamente como sempre, observando cada uma de nós detalhadamente. Senti meu estômago embrulhar com o cheiro que a "comida" exalava. Ele havia picado o útero de Bonnie e, aparentemente, fritado o mesmo. Meu rosto ainda molhado olhava atentamente para o homem que me observava agora – Por que não come, ? Não está bom para você? - ele dizia sutilmente. Mordi os lábios, amedrontada.
- Por quê? Por que está fazendo isso? Por que estou aqui? - expressei meus pensamentos com a voz baixa e submissa. Aos poucos, fui me encolhendo, encostada à parede. Aquele homem brutal e nojento estava ajoelhado na minha frente, encarando-me como se eu fosse uma criança, e, então, senti algo gelado tocar minha barriga. Meu filho. Era sua mão revestida com uma luva de látex que começara a fazer carinho em minha barriga. Simplesmente fechei os olhos e tentei com todas minhas forças imaginar que era ali naquele momento, acariciando-me, mas caí totalmente na real quando ele começou a conversar comigo.
- Ora, , minha linda, esse garotão precisa se alimentar para ficar forte. Ou você quer que ele morra antes mesmo de nascer? - ele dizia com uma voz calma, como se realmente estivesse preocupado com meu filho ou talvez até mesmo comigo. Não me atrevi a responder ou ao menos abrir os meus olhos. Acho que secá-lo resolveu algo, afinal, ele me soltou e se afastou de mim, dizendo apenas que eu iria saber o meu motivo, assim como todas as outras, na hora que sua punição chegasse. Também falou que a minha não estava perto de acontecer. Não sei se na hora senti alívio ou mais medo. Sei somente que com aquele cheiro tomando o quarto, virei meu rosto e vomitei tudo o que havia no estômago: líquidos e mais líquidos! O que fez o olhar dele se voltar para mim. Como se pudesse, me encolhi ainda mais, com medo do que ele poderia fazer.

Capítulo sete

Porém, o seu olhar não durou muito sobre mim.
- Você - seguiu o dedo dele com o olhar e vi uma menina jovem. Não parecia ter mais do que dezesseis anos - Limpe essa bagunça - ele dizia sério - Ali no canto tem uma balde com água e desinfetante. Vamos - ele falou o “vamos'” mais alto, como se fosse uma ordem – Bem, garotas, vejo vocês no jantar - o olhar dele parou sobre Catherine, que deu um soluço alto e abaixou a cabeça, fazendo-o rir enquanto seguia para fora da sala.
O clima ficou tenso quando ele saiu. Catherine não parava de chorar e todas nós a olhávamos com pena. Fiquei imaginando em como seria a morte dela; se seria pior do que a de Bonnie ou não. Parecia que nós não tínhamos escapatória. Todas nós morreríamos. Dei um grunhido quando pensei nisso. Que mundo injusto. O que seria feito do meu filho? Ele seria criado por aquele assassino? Levei o meu olhar até Suzan e ela era a única que parecia não se preocupar ali.
- Você é a culpada disso – levantei-me rapidamente, indo na direção dela
- Eu? O que eu teria a ver com isso, garota? Cale a boca – Suzan também se levantou rapidamente, vindo em minha direção, como se fosse me atacar. Eu podia sentir a adrenalina correndo as minhas veias. É lógico... Como eu não havia pensado nisso antes? Essa invejosa, ridícula e idiota... Era tudo uma vingança por eu ter roubado o marido dela e ela ter perdido o bebê.
- Cale a boca você, sua vadia. Pensa que não saquei? Você nem ao menos está se preocupando. Para que isso, Suzan? Diga-me. Faz você feliz ver pessoas morrendo por sua causa? - avancei na direção dela, mas não consegui me aproximar, pois aquela corrente em meu pescoço nos mantinha distantes. - Você está maluca, garota. Maluca. Está achando que é o centro do universo. Não é? – ela dizia debochada e a minha vontade de socar a cara dela era cada vez maior. Respirei fundo, tentando encontrar uma calma que estava distante agora. Dei uma risada.
- Pelo menos para o seu ex-marido, queridinha, sou o mundo todo, sua arrombada. Você acha que não sei o que ele fazia com você? – ri cinicamente – Você só tinha serventia de puta para ele, sua vadia – sorri vitoriosa com o silêncio dela e dei as costas, voltando para o meu lugar, até sentir algo quente atingir as minhas costas. Eu simplesmente não acreditava que ela havia feito aquilo. Dei o meu melhor sorriso para ela – É o melhor que pode fazer? – ri com deboche da cara dela – Realmente... O tinha me dito que você era bem fraquinha, mas pensei que era só na cama e não em tudo – levantei uma sobrancelha, rindo cinicamente da cara que Suzan fazia. Acredite, se ela pudesse me matar com o olhar, ela o faria – O que foi, queridinha? Ficou sem respostas? – pude observar o olhar das outras mulheres sobre nós, sem entender nada – Sabe o que é, gente? É que a Suzan não consegue nem segurar o marido dela. Ainda por cima, é burra o suficiente para perder a única coisa que a faria ter um elo com ele. Essa imbecil bebeu, grávida, e perdeu o filho. Lógico... Quando o marido dela tinha algo melhor, nunca ia adiantar ela se oferecer para ele. Afinal de contas, você está bem acabadinha. Não é, Suzan? – eu não sabia de onde me saía coragem para falar todas aquelas coisas. Apenas que elas estavam saindo da minha boca sem o meu controle.
Suzan começou a me tacar mais pedaços do útero que estava presente em seu prato e eu ria.
– Vai ficar sem comida, Suzan. Apesar de que acho que isso é muito bom. Deveria comer o que você é: merda – vi o prato de plástico dela voar em minha direção, mas não consegui desviar e ele acertou minha testa em cheio. Dei um grito irado. Ela não sabia com quem estava mexendo. Peguei meu prato também e comecei a atirar pedaços de útero nela. Meus olhos faiscavam de raiva – Vagabunda , biscate, burra... É isso o que você é, Suzan: uma biscate burra. Não consegue nem segurar o próprio homem... Mas desde criança você sempre foi assim, né? Sempre perdia todos os namoradinhos para mim, sempre se iludia com alguém - eu ria, enquanto jogava os pedaços nela. Assim que eles terminaram, lancei o prato também na direção dela, que acertou em cheio em seus lábios, fazendo-os inchar quase que instantaneamente – Uma vez perdedora, sempre perdedora, Suzan – sentei-me no meu lugar – É isso que você é: uma perdedora!
- Belo show – pude ver o cara entrando novamente naquela sala e, naquele momento, o medo voltou a mim. O que eu havia feito? Fui seguindo-o com o olhar e pude vê-lo pegar Suzan pelos cabelos e levantá-la do chão – Acham bonito ficarem brigando? Vocês acham que estão aqui para isso? – ele dizia bravo, olhando para as duas. Olhei para Suzan e abaixei o olhar. Pude apenas ouvir barulhos estalados de tapas e pequenos ofegos de dor vindo de Suzan. Não me atrevi a olhar.
- E você, dona ? Mal chegou aqui e já está arrumando encrenca? – eu ouvia a voz cada vez mais perto de mim e comecei a me arrepiar de medo. Senti uma dor forte na cabeça, com ele me pegando pelos cabelos e levantando-me, puxando os mesmos – Eu esperava que você fosse boazinha e fizesse as pazes com a Suzan depois de tantos anos – ele me encarava e pelo buraco que tinha para os olhos na máscara. Eu via a seriedade dele. Em seguida, senti um tapa queimar na minha face e não segurei as lágrimas. Assim foi: cinco tapas com força foram depositados em cada lado do meu rosto, enquanto as lágrimas caíam dele. Nunca, em toda a minha vida, eu havia apanhado – Não seja mimada. Pare de chorar. Estou apenas disciplinando você. Não quero que isso aconteça novamente. Ouviram? – ele olhava para todas nós agora e me soltara. Nós o respondemos apenas com acenos positivos de cabeça.
- Suzan e , vocês podem começar a comer agor. – olhei para o homem intrigada. Como assim comer? – VOCÊS ESTÃO SURDAS? – ele gritou e apontou os pedaços no chão – Comecem a comer IMEDIATAMENTE! – engoli em seco. Eu teria que comer aquilo?
- Mas... Mas esse chão está imundo – mordi os lábios, chorosa.
- Que tivesse pensado nisso antes de jogar a comida no chão. Vamos, comecem a comer agora – ele dizia sério. Olhei para Suzan, que retribuiu com um olhar frio. Não sabia o que fazer. Simplesmente comecei a pegar cada pedacinho que estava por perto de mim e, com algumas tentativas inúteis de limpá-los, fui comendo-os. Eu sentia nojo, náuseas e tentava não pensar em Bonnie ao comer aquilo, mas era impossível. Maldita Suzan. Para que ela foi inventar a idéia de jogar esta droga?
- Está bom. Já comeram bem – o homem dizia, observando os poucos pedaços que haviam sobrado no chão – Se brigarem novamente, podem ter certeza de que vou castigá-las. Ouviram bem? – o seu tom de voz era sério e duro – E que isso sirva de lição para todas. Qualquer desentendimento aqui será punido – dito isso, ele saiu novamente da sala. Óbvio que a minha vontade no momento era partir para cima da vadia da Suzan, mas eu não podia. Sentei-me em meu canto, abraçando as minhas pernas e deixei o choro rolar, me relembrando das cenas humilhantes vividas há segundos atrás. Nunca, em toda a minha vida, eu havia levado um tapa, ainda mais no rosto. Nunca tinha deixado ninguém pisar em mim, ninguém me dizer o que fazer e muito menos mandar em mim.

A noite não foi melhor do que a anterior. Jurei ter ouvido a voz de gritando meu nome a plenos pulmões. Estava tão perto e ao mesmo tempo tão longe, como a doce ilusão do timbre da sua voz. Não demorou muito para que os soluços e as lágrimas tomassem conta de mim, acordando a menina que estava ao meu lado.
- Desculpe – sussurrei enquanto secava as lagrimas
- Tudo bem, – ela deu um sorrisinho de lado – Chamo-me Yasmin – parei para analisá-la novamente. Olhos cor de mel, cabelos castanhos e o seu corpo nem era desenvolvido ainda. Fui despertada de meus pensamentos quando ouvimos um estalo.
- Fazendo amizades, ? – o homem entrou na sala. Supus que já era de manhã a essa hora. Apenas o olhei e não respondi. Observei-o se aproximar de mim – Responda-me quando eu falar com você – ele dizia, apertando minhas bochechas nos meus dentes e soltando logo em seguida, jogando minha cabeça para trás. Apenas assenti. Olhei para Yasmin que também estava parada ao meu lado.
- O que é isso? – apontei para a chapa de marcar gado na mão dele.
- Você verá, – ele disse, sorrindo. Suspirei com medo e tristeza. Eram os únicos sentimentos que eu andava tendo recentemente: medo e tristeza. Saudade também fazia parte deles, mas o medo era sempre o maior de todos.

Capítulo oito

Assim que ele falou comigo, imediatamente saiu puxando uma garota loira, de estatura média e um corpo bem desenvolvido, para dentro daquela maldita sala, onde as garotas entravam e não saíam. Aquela era a vez de Catherine Broke. Não sabia o que pensar. Só imaginava que ele deveria demorar muito com ela para que minha vez chegasse nunca. Mas ao mesmo tempo, não queria pensar no sofrimento que ela teria, pois uma coisa já estava clara: todas que entravam ali acabavam morrendo de um modo horrível.
Em meio toda minha confusão, o telão se ligou novamente, mostrando aquela mulher presa a correntes na parede, que pareciam estar super apertadas. Estavam esticadas e prendendo-a em um formato de um xis. Eu desviava o olhar e tampava os ouvidos. Não queria ver e nem ouvir nada, mas, ao mesmo tempo, queria ver e imaginar o que estaria por vir ainda. "Deus, tire-me daqui, traga meu marido aqui. Ele conseguirá me tirar daqui", era somente o que eu conseguia entender claramente de meus pensamentos.
Enquanto eu olhava em lado contrário do telão, veio-me na mente uma vontade louca de tentar fugir, mas foi só eu me por em pé que escutei os gritos de Catherine. Inevitavelmente, virei-me, olhando o telão. "Não acredito. Ele está marcando-a? O que é aquilo nela? Um cifrão! Mas... Mas por quê?". Paralisada, eu só conseguia pensar nessas perguntas, enquanto meu corpo escorregava pela parede fria e sebosa. A essa altura, eu não me preocupava com isso. Estava espantada. Catherine gritava e se sacudia, tentando se soltar, enquanto ele marcava totalmente o corpo dela com marcas que pareciam notas, retangulares com cifrões no meio. Eram tantas marcas, mas tantas, que mesmo com a porta fechada, conseguíamos sentir o cheiro do couro dela se queimando. Era um cheiro enjoativo, mas que nos fez perceber como nossa morte estava próxima. Estava a uma porta de distância de nós.
Não sei como ela agüentava toda aquela dor. Se fosse eu, já teria desmaiado há muito tempo!
Depois de alguns minutos, não sei ao certo, já estava com toda minha percepção afetada. Ela já estava com o corpo todo marcado e molhado. Molhado de lágrimas, pois ela chorava muito. Afinal, quem não choraria? Ele então pegou uma fita de couro, com uma bolinha vermelha no meio, como aquelas em que se usa em sexo, e prendeu a boca dela. Imediatamente, seus gritos foram abafados. Quase não ouvíamos mais e, após isso, ele sumiu da imagem no telão. Meu corpo se estremeceu todo, pensando que talvez ele estivesse vindo buscar mais uma para sua "brincadeira". Eu me encolhia cada vez mais, encostada à parede. Eu não sabia mais o que poderia fazer e foi aí que ele apareceu novamente na imagem Agora, com uma faca de açougueiro em mãos, olhando para a câmera que transmitia as imagens para nós, ele começou um discurso: "Esta é Catherine Broke. Linda, não? Pois então, ela não lhes parece uma mulher má. Parece? Mas ela é! Com seus vinte e três anos de idade, foi capaz de vender seu bebê a um pedófilo, que pretendia criá-lo sob seus abusos. Tudo isto por quê? Porque não foi capaz de amá-lo um pouco mais a ponto de lutar para ter condições de criá-lo! Então já que ela necessita tanto de dinheiro, por que não damos a ela?". Ao terminar de falar isso, ele foi passando a faca que parecia estar muito afiada, pois ele mal passava sobre a pele dela e já arrancava pedaços da mesma. Ele a cortava, arrancando as marcas do corpo, como se estivesse recortando. Ela tinha uma cara imensa de dor e nem lágrimas mais rolavam pelo seu rosto. Quando percebi isso, ele derramou um líquido sobre a faca, limpando o sangue da mesma, e voltou a cortá-la. Enquanto ele se abaixou para guardar o líquido, deu para ver claramente. Era álcool. Na mesma hora me arrepiei toda, imaginando a dor que aquela pobre coitada estaria sentindo.
Essa agonia se estendia por horas e horas. Já tinha me acostumado com aquilo, mas ele sempre nos surpreende. Quando eu menos esperava, arrancou aquela mordaça da boca dela, deixando-a esgoelar. Sim, esgoelar de dor. Com um zoom, que parecia ter sido automático da câmera, mostrava-a totalmente já sem pele. Mas mostrava também vários, mas vários mesmo, insetos. Dentre eles, mosquitos, besouros e vermes, subindo pelos seus pés e começando a comê-la em carne viva.
Uma ânsia de vômito me veio na hora. Infelizmente, eutinha nada no estômago para vomitar. Era o que eu achava. Imediatamente, virei-me para a direita, enchendo meu prato de comida de vômito. Mal foi eu terminar de vomitar, aquele verme saiu da sala, com suas mãos sujas de sangue, lamentando-se e se desculpando conosco, dizendo que não teríamos comida naquele dia, pois Catherine era forte e não morreria tão cedo para que ele tirasse nosso alimento dela. Explicou também que ficaríamos ali, vendo-a ser comida viva por insetos e escutaríamos seus gritos para nos lembrarmos de nossos pecados e que seres inocentes não deveriam pagar pelos nossos erros. Foi aí que me veio à cabeça: todas ali deveriam ter tido filhos. Todas até agora foram torturadas e mortas por algo que fizeram aos seus filhos.
Não terminei de pensar direito e senti uma pontada forte na barriga que, com tamanha dor, deu-me uma tontura onde acabei desmaiando.

Fui acordada alguns minutos depois, com um cheiro forte adentrando o meu nariz. Ainda estava zonza e confusa, mas percebi que ao meu redor o ambiente era escuro e que eu não estava mais acompanhada por aquelas mulheres. Uma sombra à minha frente fez um tremor percorrer todo o meu corpo e me causar um arrepio ruim.

Capítulo nove

- Você só me decepciona, - senti o meu rosto esquentar depois do tapa que repentinamente me acordou. Tentei me levantar, mas não conseguia. Só então senti. Eu estava deitada em algum tipo de tábua de madeira e meus pulsos, tornozelos e pescoço, eram presos por um metal que parecia pregado ou parafusado à madeira - É uma fraca mesmo. Não é? - outro tapa. Apertei os olhos, controlando-me para falar nada, com medo da reação que uma palavra minha provocaria nele - Não agüenta ver uma mortezinha. Precisa desmaiar, né? - mais um tapa. As lágrimas começaram a rolar pelos meus olhos, enquanto eles se acostumavam com o escuro.
- Des... Desculpe-me - foi tudo o que saiu da minha boca após um longo soluço.
- Desculpas não são boas o suficiente, . Que garotinha mimada você está me saindo... Não acha que merece um castigo por isso? - sua voz era sarcástica, porém firme. Isso afirmava que mesmo que minha resposta fosse um não, eu seria castigada.
- Por favor... Desculpe-me... - minha voz era trêmula de medo e as lágrimas embaçavam a minha visa. Então ouvi um barulho. Parecia um maquinismo sendo ligado. Não demorou muito até que eu entendesse. Aquela madeira começou a se afastar, puxando os meus braços e pernas um para cada lado, deixando-me toda esticada. Eu apertava os olhos e tentava ao máximo não gritar para ver se ele iria parar com aquilo, mas a máquina não parava, puxando os meus braços ao máximo que eu agüentava e depois a um limite que eu não conseguia mais agüentar. A dor que eu sentia entre as ligações dos meus braços com os ombros e das pernas com a virilha era insuportável, até que ouvi um estalo e conter o grito foi impossível. Soltei o berro que estava preso em minha garganta desde o início da tortura. Meu braço doía muito. Eu não podia suportar aquela dor.
Enquanto eu gritava, ele rapidamente colocou uma mão sobre a minha boca, na tentativa de abafar o grito e desligou a máquina.
- Caladinha - disse em um tom sério e áspero que me assustou. Consegui controlar os gritos, mas não o choro e os soluços que eram realmente altos. Ele começou a desparafusar os meus pés da madeira e, logo em seguida, os meus braços. Quando chegou ao meu braço esquerdo, a dor era tremenda. Após soltá-lo, ele movimentou o meu braço, o que me fez soltar grunhidos altos - Pelo visto, não quebrou. Só deslocou. Está vendo? Foi nada. Pare de fazer escândalo - dito isso, ele desparafusou o ferro que me prendia no pescoço, puxando-me pelo braço esquerdo. A dor era muita e eu não consegui conter.
- Por favor, está doendo! Solte! - parecia que ele se deliciava com a minha dor e lágrimas, porque quanto mais eu pedia para que parasse, mais ele puxava com força o meu braço.
- Eu já disse para ficar calada e, se não calar a boca agora, vou voltar com você para o quarto - ele disse alto, parecendo furioso. O choro que já era presente só aumentou.
Novamente já estávamos na sala. Ele pegou a minha corrente e me prendeu novamente pelo pescoço. Observei tudo o que ele fazia enquanto me prendia. Logo que ele o fez, saiu da sala, sem nenhuma palavra. A dor no meu braço era enorme e eu não tinha a mínima noção do que fazer, até que Yasmin dirigiu o seu olhar na minha direção.
- Pronto , . Já acabou - seu tom de voz era sereno, como se quisesse me acalmar, mas calma era uma coisa que eu não teria naquele momento. O choro continuou alto e claro.
- Você está machucada? Tem algo doendo? - ela disse, ainda tranquilamente, e só assenti com a cabeça - O que aconteceu? Diga-me - ela parecia ter uma maturidade acima do normal para uma garota tão jovem, enquanto eu me comportava como uma criancinha que havia acabado de ralar o joelho pela primeira vez. Apenas indiquei o braço esquerdo.
- Ele deslocou – dizia, enquanto olhava para o braço. Yasmin então deu um breve sorriso.
- Posso resolver isso. Vai doer um pouco, mas depois a dor passa totalmente. Deixa-me tentar? - ela falava confiante, enquanto dava um sorrisinho de canto de boca.
- Pode - minha voz saiu trêmula, com medo da dor que poderia ser causada a seguir. Observei Yasmin se levantar, pegar o meu braço e, logo em seguida, puxá-lo, fazendo- o estalar novamente. Estalo que dessa vez foi completamente abafado por um grito meu.
- Prontinho - assim que ela soltou meu braço, realmente a dor havia diminuído bastante. Sorri para ela da melhor forma que pude.
- Obrigada, Yasmin. Mesmo - disse ainda com a voz trêmula, enquanto mexia meu braço.
De repente, pudemos ouvir a porta batendo novamente - o que devo assumir foi um espanto para todas nós. O que mais ele queria ali conosco?
- Bem, meninas, tenho uma noticia ótima para vocês - ele dizia numa falsa empolgação - Estou animado hoje e duas sortudas vão fazer companhia à Catherine - ele mal terminou de completar a frase e já estávamos todas de boca aberta. Quem seriam as duas? Ele manteria a ordem alfabética? Ou ele escolheria quem quisesse? Minhas mãos ficaram trêmulas enquanto eu olhava para o homem - E darei um prêmio para quem adivinhar quem são as duas - o seu tom de voz ainda era "animado" e risonho como eu jamais tinha visto antes - Vamos lá. Ninguém aqui quer uma foto de um familiar? - ele dizia descontraído. A foto de um familiar. Isso me tentou a levantar a mão, porém não o fiz, com medo de que isso afetasse na escolha. Susan levantou uma mão.
- Diga, Susan - ele se virou para ela, ainda animado.
- Deby e Elizabeth - ela dizia, apontando as duas mulheres que eram as "primeiras da fila" e rapidamente olharam espantadas para Susan.
- Muito bem, querida - o homem disse, aproximando-se dela e acariciando seu rosto de leve – Diga-me: de quem você quer a foto? - ele falava calmamente e com uma doçura que era incrível.
-. Quero uma foto do meu ex-marido - ela dizia, olhando para ele e logo em seguida para mim, com um sorriso vitorioso no rosto. Ela só poderia estar brincando comigo. Eu não podia acreditar.

Capítulo dez

- Você não pode fazer isso! – gritei, enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto. Pude ver através dos olhos embaçados pelas lágrimas o sorriso de Susan aumentando.
- Calada, . Você não é mais a minha favorita. Agora é a Susan e ela tem direito à foto que você não vai ter - o homem dizia, ainda acariciando o rosto dela - Pela sua obediência e eficiência, Susan querida, lhe darei uma foto e uma ligação, apenas para você ouvir a voz de seu ex-marido - minha boca se abriu em forma de protesto e puxei o ar com força, enquanto todas ali olhavam para mim com pena. Apenas abaixei a cabeça, alisando a minha barriga, tentando sentir o meu filho, tentando sentir a parte de que estava dentro de mim.
- O que foi, ? Está tristonha? - senti a mão fria tocar meu rosto e levantei o olhar para o homem, fazendo que sim com a cabeça. Quando eu menos esperava, mais um tapa me acertou o rosto - Isso tudo é por sua culpa, por você ser uma fraca. Eu sinceramente esperava que você respondesse - ele riu com deboche e pude ouvir a risada de Susan - Vou pegar a sua foto e o telefone para você ligar - ele saiu da sala com passos silenciosos.
Alguns minutos depois, pude observá-lo voltar com um papel em mãos e um celular em outra. Eu sentia algo estranho; um misto de dor na nuca e pequenos puxões na barriga que me deixavam incomodada.
Ele estendeu a foto para ela, que sorriu debochada, enquanto me olhava. Pude vê-lo discar uns números no aparelho. A princípio, a ligação estava no viva-voz. Enquanto chamava, Susan e o homem mantinham o olhar sob mim, como se aquilo tivesse sido combinado entre os dois.
"Alô?". No momento em que ouvi aquela voz, os meus lábios tremeram, meus braços vacilaram, meu coração disparou e me senti em êxtase. O homem tirou a ligação do viva-voz e deixou o telefone no ouvido de Susan, enquanto ela só ouvia e soltava risadinhas baixinhas. Meu momento de êxtase passou e eu vi ali a minha chance de sair daquele lugar.
- SOCORRO, ! - gritei o mais alto que os meus pulmões me permitiam. Rapidamente, o homem desligou o telefone e veio pisando duro em minha direção. Pegou o aparelho que tinha em mãos e bateu sem a mínima piedade em meu rosto, me fazendo soltar um gritinho de dor.
- Você é idiota? É BURRA? VOCÊ TEM ALGUM PROBLEMA MENTAL? - ele gritava comigo, enquanto estapeava meu rosto e meus soluços tomavam conta da sala - Vou cuidar de você mais tarde, sua idiota - ele se virou para Deby, a desamarrando e pegando-a pelos cabelos. Ele terminou de soltá-la e, sem a menor paciência, foi a arrastando pelos cabelos para dentro daquela sala. Não sei, mas acho que já estava me acostumando com a idéia de que eu iria acabar passando por aquele portal para a tortura como todas as outras foram, pois pensamentos sobre minha vida toda começaram a se passar na minha mente.
Chega a ser engraçado, mas toda minha curiosidade de criança se foi ao me lembrar de que eu nunca consegui deixar uma porta da minha casa fechada por causa da curiosidade em saber o que se passava em cada cômodo que me cercava. Como sempre, meus pensamentos foram interrompidos pelo telão sendo ligado novamente. Deby estava amarrada em um formato de xis, com uma corrente que chegava estar vermelha de tão quente, pois seus pulsos e tornozelos, onde estavam amarrados com a corrente, estavam totalmente queimados. Acima dela, um pedaço de madeira como uma mesa estava pendurado por uma corda. Mas essa madeira tinha uma espécie de espinhos. Tinha cravos. Não sei dizer especificamente o que era, mas eram muitos e absurdamente grandes. Pareciam ser feitos de algum tipo de metal, porque pareciam enferrujados. O mais estranho de tudo era que embaixo de onde ela estava amarrada, tinha um tipo de recipiente; uma piscina talvez bem funda mesmo. Mas o pior de tudo era que estava até a metade cheia de sangue viscoso, grosso e gosmento. De tanto ver tragédias, eu já não me espantei e nem ânsia mais estava me dando. Eu estaria me transformando numa pessoa má e fria? Meu marido me amaria ou conseguiria trazer a pessoa que sempre fui de volta?
Deby se debatia e gritava em meio ao choro. Nem pena eu sentia mais. Só sabia sentir aquele medo de saber o que aconteceria comigo. Então toda gritaria foi silenciada e, quando virei meu olhar para o telão, percebi: aquela mesa com espetos havia caído sobre Deby ,a perfurando toda. Pelos espetos escorria, como se uma torneira estivesse aberta, o sangue dela que era misturado àquele monte que ali já estava.
Aquele silêncio permaneceu ali não durante muito tempo, creio que no máximo uns trinta minutos, e logo não havia mais sangue escorrendo. Feito isso, a mesa com os espetos se levantou, juntamente com a mesa em que ela estava deitada. Levantou-se, deixando-a em pé e, para nossa surpresa, os espetos que a perfuraram formavam uma estrela de ponta cabeça, tipo aquela usada em rituais.
- É isso? Estamos passando por um ritual? - foi isso que acabei interrogando em voz alta, mesmo sem perceber. O homem que seria o mais temido de todos se essas torturas fossem espalhadas pelo mundo estava à minha frente e abriu um breve sorriso, me olhando.

Capítulo onze

- Bingo! descobriu o motivo da morte da Deby. Cruel, não? Sacrificar seu próprio filho em um ritual! Pena que senti nada. Ela não passava de uma assassina desconhecida para mim. Mas infelizmente, , você ainda será castigada. Porém, antes, iremos ler uma historinha para nossa amiga Elizabeth! - dito isso, meu coração se acelerou ao ponto de parecer que estava tremendo. Ele se virou para Elizabeth a desamarrando e, sorrindo, disse novamente - Não lhes disse que estou de bom humor? Irei antecipar as nossas brincadeirinhas e hoje mais uma irá entrar na sala! – logo, ele soltou uma gargalhada um tanto quanto maligna - Vocês sabiam que a nossa belíssima Elizabeth é escritora? - ele apontou para a mulher loira que parecia apavorada na situação - Sabiam que o filho dela morreu afogado porque a mamãezinha dele, num descuido, ignorou o pedido do pobre menino de ir brincar com ele no quintal em um belo dia de sol? Ela simplesmente disse “estou ocupada. Brinque você!”. Recorda-se disso, Elizabeth? - só de ouvi-lo falar, senti meu coração apertar. Devia ser uma dor terrível para aquela mulher recordar-se daquilo. Voltei meu olhar novamente para Elizabeth que agora parecia perturbada.
- CALE A BOCA! VOCÊ SABE NADA DE MIM! VOCÊ NÃO SABE O QUE SINTO! - pudemos ouvir sua voz esganiçada gritar e, logo em seguida, uma gargalhada ecoar pelo ambiente.
- Bem, eu realmente não sei muito sobre você. Não é, Elizabeth? Só sabemos o que os jornais estamparam como você era uma ótima mãe e como ficou abalada pelo incidente com o seu filhinho - ele mantinha o tom de deboche na voz - Mas por trás das câmeras, você sente mais porque sabe que a culpa foi sua. Foi tudo por um descuido seu, pela sua ganância, por você querer cada vez mais fama e dinheiro - o homem ia falando e aproximando-se de Elizabeth que estava relativamente longe de mim. Quando chegou à frente dela, virou um belo tapa na face da mulher - Não ouse gritar comigo novamente, sua vagabunda barata. Apesar de que... Foram belas últimas palavras - ele riu irônico, soltando-a e pegando pelos cabelos – Vamos, Elizabeth, diga para as suas companheiras o quanto você sente - ele sacudiu um pouco a mulher que agora chorava abertamente pelo braço - VAMOS, DIGA! - gritou mediante ao silêncio dela. Observamos a mulher virar-se para ele.
- Quer saber? Que se dane, seu otário de merda. Estou cansada. Sou a próxima. Não sou? - então ela berrou - VOCÊ É MUITO PIOR DO QUE TODAS NÓS QUE ESTAMOS AQUI! MUITO PIOR! MUITO! - Elizabeth parou por um minuto para respirar e então voltou a falar em seu tom de voz habitual - Veja só: você está nos punindo por termos tirado os nossos filhos. Não é? E a ? Ela está grávida, carrega um filho na barriga e o que você está fazendo? ESTÁ ARRISCANDO A VIDA DO FILHO DELA! Agora me diga o porquê. Quem você acha que é? Deus? Você não é Deus. Sei da culpa que carrego, mas você é ninguém para me punir, é nada para estar fazendo isso com todas essas mulheres. Você é apenas um imbecil de merda que com certeza não pode ter filhos - dito isso, ela cuspiu na máscara do homem que tinha um sorriso cínico no rosto. Todas nós a observávamos perplexas.
- Foi realmente muito corajoso de sua parte dizer isso, Elizabeth - sua voz ainda era sarcástica - Porém uma grande pretensão, se você achava que isso realmente ia me atingir - ele riu - Todas aqui estão porque mereceram. Inclusive você, - o olhar dele se voltou a mim e me encolhi da melhor forma que poderia - Vamos deixar de papo, huh? Agora é a sua vez, Elizabeth - o homem foi puxando-a até o tão temido quartinho e aquele recipiente que eu havia visto em baixo da mesa onde Deby havia sido morta estava lá novamente, porém agora completamente cheio. Parecia um pouco diluído, já que não estava tão grosso e gosmento como há momentos atrás. Vi o homem prender novamente Elizabeth e deixá-la, por alguns segundos, sozinha, voltando rapidamente com uma corda grossa em mãos e começando a amarrar seus braços no seu tronco e suas pernas juntas, enquanto Elizabeth permanecia calada. Parecia ter aceitado a situação. Como alguém poderia aceitar uma circunstância daquelas? Eu, no mínimo, estaria desesperada, gritando para que ele me soltasse e implorando por perdão, mas Elizabeth não. Parecia calma e tranqüila, como se nada pudesse abalá-la.
Depois de amarrá-la, o homem a pegou no colo.
- Aqui se faz, aqui se paga, Elizabeth. Você morrerá como seu filho morreu: afogada, no sangue de mães displicentes e tão criminosas quanto você - e colocou-a dentro da "piscina" transparente, afundando-a dentro do sangue. Logo em seguida, puxou a parte de cima da piscina, ainda segurando a cabeça de Elizabeth que tentava levantar-se e trancou-a lá dentro.
Ver aquilo estava me dando mais agonia do que pena, raiva ou qualquer outra coisa. Ver aquela mulher toda amarrada e desesperada tentando sair do meio daquele sangue todo... Só de me lembrar já me dá tontura, agonia e ânsias! Apesar de tudo, meus olhos não saíam dali.
Não demorou muito e a garota parou totalmente. Parecia ter morrido. O homem parecia afobado e agoniado por vê-la daquela forma, pois a tirou rapidamente depois que ela ficou imóvel. Ela estava totalmente ensangüentada e parecia ter engolido um bom tanto de sangue. Ela pingava... Não. Ela escorria sangue de todos os lugares de teu corpo. Deu para ver quando ele abriu a porta de onde ele jogava as garotas mortas que ali era um quintal. Então ali seria a saída, a nossa fuga daquele lugar horrendo. Mas não sei... Parecia que seria muito fácil, mesmo estando amarrada. Eu já havia sofrido muito para poder me preocupar. Era por ali ou por lugar nenhum mais.
Logo depois de jogar Elizabeth no quintal, mesmo sabendo que ela estava morta, senti dor em meu próprio corpo por causa da brutalidade que ele a jogou. Eu olhava para ele pela TV e não conseguia tirar meus olhos dele. O mesmo passou pela porta e falou algo que não entendi e eu nem queria entender. Eu estava tão aérea com meus pensamentos que prestava atenção em literalmente nada. Apenas em simplesmente fugir dali na primeira oportunidade. Ele pareceu notar meus pensamentos e fui puxada de volta para aquele quarto com um tapa forte em meu rosto.
Fugir dali, sair viva de toda aquela loucura... Isso me fazia decorar cada detalhe daquele homem, caso eu tivesse a oportunidade de ir até a policia. Meu Deus, onde está aquela meiga, carinhosa, fofa, menina e mimada que sempre fui? Eu parecia mais uma leoa enfurecida e calculista tentando resgatar meu filhote de um ninho de hienas. Ele então me deu uma última olhada, tentando me intimidar, e me soltou, jogando meus cabelos, empurrando minha cabeça e fazendo com que eu a batesse na parede. Senti a pancada e falei nada. Abaixei meu olhar e me encolhi novamente. Acho que ele se convenceu de que eu queria nada demais, pois saiu da sala com aquela risada maldosa que ele sempre tinha quando saía dali. Antes de sair, disse somente uma coisa:
- Por culpa da , que anda muito pensativa e com cara de que vai aprontar algo, todas irão sofrer. Ninguém irá comer hoje! - e saiu batendo a porta com toda a força que parecia ter. Tanto que a mesma não se fechou e voltou a se abrir.
Quando percebeu que a porta havia ficado aberta, voltou, olhando para todas e a fechou calmamente. Dessa vez, havia um silêncio inconfundível e tamanho que deu para ouvir a tranca fechando. Eu não sabia se deveria agradecer por não ter que comer o útero de Elizabeth ou se estava aflita por não poder comer nada. Era tudo muito confuso naquele momento.
Olhei para a minha mão suja e suspirei. Minha aliança brilhava reluzente no meu dedo anelar. Sorri por um momento ao pensar que ele estava me procurando. Ele estava atrás de mim e iria me encontrar nem que para isso ele tivesse que andar por todo o mundo. Beijei a aliança com delicadeza e, logo em seguida, pude ouvir uma risada debochada. Virei o meu olhar para a dona da risada e a encarei. Suzan estava ali, parecendo divertida, enquanto acariciava e beijava a foto de , me olhando com deboche. Eu estava tão cansada daquilo, tão exausta de toda aquela maldade. Suspirei e só abaixei a cabeça. Então pude ouvir novamente uma risada de Suzan
- Que foi ,? Está perdendo a prática em maltratar as pessoas? - o deboche era notório em sua voz – Sabe... Quem sabe, se eu sair daqui viva, eu fale com o . Toque nele, faça carinho no seu rosto... - enquanto ela falava, as lágrimas rolavam pelos meus olhos. Suspirei pesado.
- Cale a boca, Suzan - foi tudo o que consegui dizer no momento. Sentia minha voz embargada, meus olhos acumulavam lágrimas e minha garganta estava seca.
- Uh, tem alguém com medinho aqui, é? - apenas encostei a cabeça à parede.
- Não. Só sou inteligente demais para cair na pilha de uma otária como você - soltei um risinho pequeno - Afinal de contas, você não conseguiu segurar nem o seu marido, né? Ops, ou melhor, ex-marido, MEU atual marido. De que adianta você ter uma foto dele, Suzan? Se lá fora, ele está preocupado COMIGO e ME procurando? Se quando eu sair daqui, quem vai ter todo o carinho dele vai ser eu? - eu encarava Suzan enquanto falava e pude ver o seu sorriso vitorioso murchar aos poucos. Respirei fundo novamente, jogando a cabeça para trás e bufando.
- Ei, tem alguém aí? – perguntei, me referindo ao homem que tornou a minha vida um pesadelo, ao homem que fazia me sentir no inferno ultimamente. Pude ouvir uma voz, mas não sei de onde veio
- O que quer, ? - ele dizia mal humorado. Mordi os lábios
- Estou com sede - disse meio baixo e pude ouvir a risada dele ecoar em alto e bom som pela sala.
- Você acha que está em algum hotel cinco estrelas, ? - ele debochava - Bem, tem uma garrafa de água ao lado da Suzan. Por que não pede a ela? Não me incomode mais. Você não vai querer saber o que farei se for incomodado novamente - ele era seco e de repente a voz sumiu. Olhei para Suzan que tinha o sorriso vitorioso nos lábios novamente.
- Suzan, será que você pode me passar a água? - a minha garganta estava seca, mas tão seca que a pouca saliva que eu engolia parecia descer arranhando.
- Ah, agora você quer água, ? – deboche. Mais uma vez, deboche. Sempre odiei quando debochavam de mim e isso vinha acontecendo com freqüência ultimamente
- Não seja infantil, Suzan. Por favor, me dê a água. Estou com sede - eu tentava dizer submissa, mas parece que nada adiantou
- E o que tenho a ver com isso? Quando o encontrar você, ele lhe dará a sua água, queridinha - ela se ajeitou como se fosse dormir e me mexi desconfortável no meu lugar. O choro invadiu meu corpo, ou pelo menos, a sensação dele. As lágrimas não escorriam pelos meus olhos, mas eles ardiam com tamanha intensidade que eu achei que fosse chorar. Tentei me concentrar para dormir, o que aconteceu algum tempo depois. Um bom tempo, devo acrescentar.

Acordei, sentindo uma forte dor na cabeça, e abri os olhos assustada, olhando para o que puxava o meu cabelo, ou melhor, quem. Aquele homem tinha o poder de estragar a minha vida. Eu estava em um sonho lindo com o , onde nada disso acontecia.
- Está achando que eu me esqueci do que você fez ontem, ? - ele falava baixinho e tentei responder, mas só então percebi que algo tampava minha boca - Pois é... Eu não me esqueci, querida - senti a mão áspera do homem tocar o meu rosto – Sabe, ... Venho a observando há algum tempo. De longe, óbvio. E você... Hmmm... - ele mordeu os lábios como quem tem desejo. Olhei-o espantada – Lembra-se há três semanas, quando você estava tomando banho de sol em uma das poucas tardes de calor em Londres? Você me deixou louco só com aquele shortinho e a batinha - ele deu uma risada e senti sua mão escorregar calmamente do meu rosto e descer pelo pescoço, alisando-o com brutalidade - Acho que vou tomar você pra mim, . O que você acha, hein? - o medo percorria o meu corpo e eu tentava ao máximo me afastar, enquanto ele apertava o meu pescoço e descia as mãos na direção do meu seio - Matarei todas e fugirei com você, com você e o seu bebê, que vai ser nosso - ele dizia, parecendo alucinado. Meu coração parecia que ia sair pela boca enquanto ele falava. Senti um apertão no meu seio e apertei os olhos conseqüentemente com a dor que aquilo me causou - O que foi? Não gostou? - senti o lado esquerdo do meu rosto esquentar e uma lágrima solitária caiu dos meus olhos. O homem pegou uma de suas mãos e colocou-a no meu pescoço, empurrando-me contra a parede. Com a outra mão, foi puxando meu sutiã sem a mínima pena, rasgando-o com facilidade. Meu corpo tremia de frio, de medo, de pavor, do que poderia acontecer. Foi então que eu senti os lábios dele tocarem o bico do meu seio. A sensação de medo só piorou. Eu sentia nojo, muito nojo do que ele estava fazendo. Tentei me mexer para tirá-lo dali, mas foi em vão. Ele continuava a sugar o meu seio.
- Hm... - ele fez uma pequena pausa - A mamãe já tem leitinho- ele riu e apertou meu seio, fazendo com que um pouco de leite escorresse - Nunca vi peitos tão gostosos como os seus, - ele riu e me soltou, me dando a enorme sensação de alívio, que não durou por muito tempo. Pude vê-lo soltar a minha corrente e sorrir. Ele tirou uma espécie de controle do bolso e apertou um botão que fez soar um alarme alto, assustando todas as outras que dormiam e a mim também – Acordem, vamos. Está na hora da ser castigada - ele ria com deboche.
Tirou a fita que estava em minha boca e me pegou pelos cabelos novamente, me puxando para o quarto onde eu estivera da outra vez. Senti um arrepio ruim percorrer a minha espinha e uma fisgada forte na barriga, o que me fez parar de andar e puxar o corpo para baixo, fazendo a dor que eu sentia com ele puxando os meus cabelos aumentar.
- Pare de gracinha. Levante-se, - ele dizia sério e seco, mas e não era capaz de obedecer. Eu sabia que dor era aquela, já havia sentido essa dor antes. Senti um sacolejo na cabeça e ele levantando o meu rosto, me puxando pelos cabelos – Levante-se agora. Ande - ele dizia bravo e sua voz parecia distante agora.
- Eu... Eu... Não... O... Con... Consi... Consigo - gaguejei – Do... Dói - apertei os olhos, quando outra fisgada forte veio. Senti algo molhar a minha calcinha e não precisei olhar para saber o que era, o que estava acontecendo. Eu estava sangrando.
Pude observar a expressão no rosto do homem mudar de raiva pra preocupação. Pude ver o desespero em seus olhos, enquanto ele me pegava no colo e corria comigo para algum lugar que eu não sabia onde era.
Alguns segundos depois, senti meu corpo repousar sobre um colchão e dei uma gemidinha de dor. Respirei fundo, tentando me controlar, mas era impossível. Meu rosto estava tomado pelas lágrimas. Mais um. Eu havia perdido mais um filho, mais um tesouro e um presente que me fora roubado, por causa daquele homem, por causa daquele maldito lugar.

Capítulo doze

Meu raciocínio estava lento, mas eu podia ver o homem andando de um lado para o outro, desesperado, no quarto. Quando ele percebeu que a minha atenção estava presa nele, virou-se para mim e depositou um tapa no meu rosto com força.
- Acalme-se. Fique calma. Fique calma, senão você vai perder o seu filho, está me ouvindo? - sua voz era séria, porém vacilante. Ele parecia se sentir culpado pelo o que estava acontecendo, e ele realmente era o culpado.
- Eu já perdi - disse num fio de voz - Eu perdi o meu filho, o meu bebê que eu esperava há tanto tempo por sua causa, porque você me prendeu aqui - as lágrimas rolavam pelo meu rosto – Por que você não me deixou tê-lo? Você quer ensinar tudo a todos, dar lições de moral, e está matando mulheres porque elas matam seus filhos, quando na verdade você é pior do que a gente. Você matou um filho que não é seu, um filho que é esperado há mais de três anos. Você está feliz agora? - eu não sabia de onde tirava tanta coragem para falar aquilo. Não sabia de onde eu tirava forças para falar e chorar com tanta intensidade.
- CALE A BOCA! - ele gritou e me olhou novamente. Parecia transtornado - Cale a sua maldita boca. A culpa disso é sua, toda sua - ele grunhiu e me pegou pelo braço, me puxando e levando-me novamente para a sala onde eu estava antes e prendendo aquela coleira no meu pescoço. Todas as mulheres ali presentes me olhavam; umas com pena, outras com compaixão, outras tristes pelo acontecido. Eu vi apenas um sorriso feliz, cínico, debochado, maldoso e petulante. Suzan. Ela estava sorrindo, ela estava feliz com a perda do meu bebê, ela havia adorado tudo aquilo. Encolhi-me contra a parede, alisando a minha barriga que ainda permanecia, onde o meu pequeno filho havia estado. Onde era vazio agora. Era assim que eu me sentia: vazia.
- É, ... Eu não segurei meu marido, mas você não consegue segurar nem um filho, né? - a voz de Suzan entrou pelos meus ouvidos, me fazendo me sentir pior do que eu já sentia.
- Cale a boca, Suzan - uma das mulheres presentes na sala disse - Não seja ridícula a esse ponto. Respeite o sofrimento dos outros - ela disse brava e pude ver Suzan revirar os olhos e se calar. Olhei para a mulher e fiz um gesto com a cabeça em forma de agradecimento. Pude vê-la sorrir para mim como se não fosse nada.

’s p.o.v

Uma semana. Havia uma semana que ela estava sumida, uma semana que eu não ouvia a voz dela, uma semana que eu não acariciava sua barriga, uma semana que eu não via o seu sorriso radiante. Lembro-me claramente do que aconteceu no dia do almoço na casa da minha mãe: entrei em casa, como pediu, e estranhei sua demora de quinze minutos para falar ao telefone. Levantei-me e fui procurar por ela. Quando cheguei ao portão da casa, não encontrei nada, apenas seus pertences jogados ao chão. O desespero tomou conta de mim naquele exato momento. não iria para lugar nenhum sem me avisar; ela não faria isso. Eu não podia perder nem um segundo; eu tinha que encontrá-la e rápido. Porém, não consegui. Acionei a policia, ajudei-os nas buscas, tentei de toda forma encontrá-la, mas isso parecia impossível.
Estava me preparando para sair para mais um dia de busca. Terminava a água que estava em meu copo, quando o mesmo de repente se quebrou na minha mão, fazendo-a se cortar e o sangue pingar dela. Corri rapidamente na direção da pia com uma sensação ruim no peito, sensação de que algo de ruim e errado estava acontecendo, o que só fez com que minha angustia aumentasse, enquanto eu via meu sangue se misturar com a água e ir ralo abaixo. Pouco me importei com o corte. Sequei-o com um pano de prato e rapidamente entrei no carro.
Como sempre dirigia rápido, sem me importar com os sinais e multas que levaria, quanto mais cedo começássemos, antes a encontraríamos.

Elisabeth's p.o.v

Eu não estava nem um pouco nervosa com a morte. Não havia preocupação em relação a ela. Quando eu vi aquela 'piscina' de sangue, a minha vontade de rir foi grande, assumo. Um fato que ninguém sabia: eu entraria para o Guinness por conseguir ficar mais de vinte minutos em baixo d’água. Pensei no meu filho e senti vontade de chorar. Pensei em como ele era feliz e como ele não ia querer que eu sofresse. omo ele era doce, como ele sempre foi bom... Em tudo. Gentil, educado... Apesar de ser só uma criança, Josh era muito educado e compreensivo com as coisas. Senti um aperto no coração enquanto me lembrava disso.
Pude sentir o homem me amarrando e não consegui me mover. Algo me dizia para não resistir. Olhei para a porta por onde eu entrara. E todas aquelas mulheres? O que seria delas? O que seria da família delas? Morrer seria bem mais fácil do que agüentar uma vida inteira de culpa pela morte do meu filho; mas será que a morte me livraria da culpa de não ter ajudado todas aquelas mulheres quando eu podia? O que seria mais justo, mais sensato? Pensei mais uma vez em Josh. Ele ajudaria todas aquelas mulheres.
Deixei o homem me pôr na bacia de sangue e fiz força para colocar a cabeça pra cima, tentando dar realidade aos fatos. Assumo que, durante os vinte minutos que estive debaixo daquele sangue, fiquei aflita, porém consegui passá-los quase todo sem respirar. Bebi um pouco de sangue e me senti enjoada com isso, mas assim que eu vi que não agüentaria mais, fiquei paralisada dentro do sangue. Demorou cerca de mais uns cinco minutos para que ele me tirasse daquele mar de sangue e, com toda a brutalidade que tinha no corpo, me jogasse numa espécie de jardim. Ali pude ver o corpo de Alisson, Bonnie, Catherine e Deby. Fiquei algum tempo ali, deitada e recuperando minhas forças. Ouvi uma sirene alta apitando de dentro da casa e suspirei. Ele havia me descoberto. Levantei-me rapidamente para fugir dali e, com toda a força que eu tinha, corri; corri em direção a um portão trancado, como eu havia imaginado. Olhei à minha volta, procurando algo que pudesse me ajudar a pular daquela altura. Encontrei um latão desses grandes em que se coloca lixo e não perdi a oportunidade. Carreguei-o comigo até o portão com certa dificuldade e subi nele, sentando no portão e em seguida indo direto ao chão. O baque doeu, mas eu não conseguia sentir dor naquele momento com a adrenalina. Não me deixava sentir dor; a única coisa em que eu pensava era correr, correr o mais rápido possível. Não olhei para trás enquanto corria, mas o caminho daquele local estava decorado à minha mente; cada pedaçinho dele. Quando finalmente parei para olhar para trás, eu já não conseguia enxergar a casa. O cansaço estava tomando conta do meu corpo, então passei a caminhar, rezando para que nada de ruim acontecesse enquanto eu demorava, rezando para que ele não sentisse falta do meu corpo, rezando para que ele não matasse mais ninguém, rezando para que tudo desse certo.
Aos poucos, o sol foi baixando, fazendo a noite fria cair. Eu andava, andava, andava e mesmo assim ainda parecia estar longe da cidade. Meus olhos soltaram faíscas quando reconheci a rua onde eu estava. Estava a cinco ruas da minha casa, a quinze ruas da delegacia mais próxima. Não pensei em parar em casa e continuei seguindo. Iria direto para a delegacia. Meu corpo estava mole e implorava por descanso, o sangue no qual fiquei mergulhada estava seco e grudado no meu corpo, minha respiração era falha e minhas pernas pareciam querer ceder e parar. Não consigo me recordar o número de vezes em que tropecei no meio do caminho. Sorri novamente; faltavam apenas seis ruas agora. Era como se cada vez mais perto eu estivesse, mais faltasse para que eu chegasse. Respirei fundo; eu tinha que fazer aquilo, eu não podia simplesmente me negar a ajudar tantas pessoas, tantas mulheres, tantas vidas. Sorri ao lembrar de grávida. Seu marido com certeza ficaria radiante ao vê-la novamente e ela também ao sair daquele inferno.
Quando fui ver, faltavam apenas alguns passos para a delegacia. Comecei a apressar meus passos e tentar correr. Entrei na delegacia, empurrando a porta com o peso do corpo. Pude ver três homens parados. Um deles parecia abatido e não vestia roupa de policial, e os outros dois estavam de farda. Quando seus olhos pararam em mim, pude vê-los me olhar com pavor, com pânico e preocupação. O homem sem farda correu até mim e me segurou bem no momento em que eu ia cair. Olhei para seus olhos e o vi me encarando com preocupação. Minha respiração estava falha e minha garganta parecia travada. Ao meu redor, vi os outros dois homens correndo para pegar água e algo que pudesse cobrir o meu corpo. Senti o gelado da água na minha garganta e respirei aliviada. Sorri quando senti um cobertor me envolvendo. Olhei novamente para os homens.
- Ajudem, por favor... – esforcei-me em falar. Eu já não conseguia ver nitidamente e não conseguia mais ouvir a voz deles direito. Apenas sabia que eles estavam me pedindo para ficar acordada, o que eu não consegui fazer.

Capítulo treze

's p.o.v

Mais um dia - um dia em que não conseguíamos achá-la. Eu estava desesperado. Nenhuma notícia da minha esposa e do meu filho surgira. Eu já tinha estado nas TVs, nas rádios, em tudo o que você possa imaginar.
Assim que chegamos à delegacia, desci do carro. Precisava usar o banheiro. Quando terminei de fazê-lo, comecei a combinar com os policiais o horário das buscas no dia seguinte, insistindo para que fôssemos mais cedo. Por mim, continuaríamos vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, mas os policiais insistiam que à noite não conseguiríamos nada. Ouvi a porta se abrindo e me espantei ao olhar para quem estava entrando na delegacia. Nunca havia visto aquela mulher, mas, ao vê-la, senti esperança, senti que tudo ia começar a dar certo. Vi que ela estava se desequilibrando e corri até ela, amparando-a, enquanto os outros policiais pegavam um cobertor e água para a mulher. Eu tentava entender o que ela resmungava, mas estava difícil. A mulher tremia toda e parecia estar alucinando. Tentei balançá-la.
- Fique acordada. Por favor, fique acordada - a mulher me olhava como se me entendesse e tivesse algo a falar - Não durma. Vamos, fique acordada - eu tentava agitá-la, mas ela não reagia muito bem.
- Ajudem, por favor... - foi tudo o que ela disse antes de desmaiar em meus braços. Peguei-a no colo rapidamente e saí correndo com ela na direção do meu carro. Algo me dizia que aquela mulher iria me ajudar a encontrar a minha esposa.
Acho que eu nunca dirigi tão rápido na minha vida. A viatura da polícia vinha atrás de mim. Deixei o carro aberto, enquanto saía correndo com a mulher nos braços. Que se danasse o carro; eu queria aquela mulher acordada, queria a minha de volta.

Os enfermeiros rapidamente a levaram para dentro, enquanto me sentei no corredor de espera. Ela demorava muito lá dentro. Eu não conseguia ficar ali parado. Fui até a cantina, tomei um café para ver se o tempo passava, e nada. Tomei um refrigerante, e nada. Acho que fiz umas cinco visitas à cantina, e nada de alguém dar informações, nem a mim e nem aos policiais. Suspirei pesado. Quanto tempo mais demoraria? Acho que ficamos umas três horas esperando, até que um médico apareceu. Levantei-me rapidamente.
- Como ela está? Quando a gente vai poder vê-la? - disse apressado e o médico soltou um suspiro pesado.
- Infelizmente, senhor, ela está em coma e eu não sei quando essa situação vai melhorar. Afinal de contas, os pulmões dela estão cheios de água - senti as lágrimas escorrerem pelos meus olhos. Nós estávamos tão perto e tudo tinha acabado assim. Isso não era justo. Não era.
Soltei um grunhido alto e soquei a parede ao meu lado. Isso não podia estar acontecendo.
- Ela falou alguma coisa? – perguntei, tentando achar alguma pista. O médico olhou para o alto, como se pensasse
- Ela disse: , Suzan, bebê, ajuda e interior - pude ouvir um suspiro do médico. Comecei a juntar as coisas e minha mente ia formulando situações. estava onde aquela mulher estava. Agora isso era fato. Suzan... Suzan. Não era possível. Seria coincidência demais ser a mesma Suzan... Será que sim? Bebê, o meu bebê. O que será que ela queria dizer com aquilo? Será que meu filho estava em perigo? Interior. Lógico, com certeza elas estavam em algum casebre abandonado no interior da cidade. Olhei para os policiais.
- Não sei se vocês vão comigo, mas eu vou voltar a procurar a minha esposa. Essa mulher é a prova de que um segundo é valioso demais e que, em um segundo, podemos perdê-la - disse sério e observei o olhar dos policiais me seguindo. Um deles vindo ao meu encontro.
- Nós dois procuramos, enquanto o meu amigo ali fica de guarda. Se ela acordar e der alguma pista, ele nos liga - o policial disse simpático.

's p.o.v

Eu não queria mais saber de nada, ouvir nada, sentir nada. Eu simplesmente queria morrer, junto com o meu filho. Suspirei ao pensar nele. Senti mais lágrimas escorrendo pelos meus olhos. E se me encontrasse? O que eu diria a ele? Que perdi mais um dos nossos filhos? O terceiro filho.
Ouvi a porta ser aberta, mas não me movimentei. Vi o homem vir em minha direção e me encolhi, fugindo do olhar dele que se abaixou à minha frente. Estendeu uma caixinha dourada para mim.
- É para você - ele disse - Para pedir desculpas pelo que fiz - olhei para ele com nojo. Peguei a caixinha e abri, mas não esbocei nenhum sorriso ao ver os chocolates ali. Devolvi a caixa pra ele.
- VOCÊ ACHA QUE VAI COMPRAR O MEU PERDÃO, POR TER TIRADO O MEU FILHO DE MIM, COM UMA CAIXINHA DE CHOCOLATES? - gritei desesperada - Você está muito enganado, se acha isso, seu infeliz. MUITO - tentei me levantar, mas não consegui. Eu queria enfiar aqueles chocolates pela goela dele abaixo, queria mais era que ele se fodesse com aquele chocolate imbecil dele. Ao invés da sua característica risada, pude ouvir um suspiro pesado.
- Eu tentei me desculpar, mas, como você não quer aceitar, vou voltar a ser quem eu sou - ele disse já com a voz grossa e pegou a caixa de papelão, batendo-me no rosto com ela duas vezes, uma de cada lado da face.
- VAMOS LÁ, ENTÃO! MATE-ME, VAMOS. VOCÊ JÁ ACABOU COM O MEU FILHO. ACABE COMIGO TAMBÉM! - gritei nervosa. As lágrimas corriam pelo meu rosto com uma velocidade imensa e eu queria socá-lo. A risada de deboche apareceu seguida das seguintes palavras:
- Ainda não é a sua vez, querida. , fique calma. Ela já, já chega - ele piscou para mim e foi até Frankie que o olhava encolhida no canto e deu uma risada da cara dela - Matar o próprio filho, Frankie? Ou melhor: matar os próprios filhos - sua voz tinha uma espécie de nojo e encarei a mulher assustada - É isso aí mesmo que vocês estão ouvindo - ele dizia em tom acusador - Esta mulher matou os dois filhos; um de três anos e outro de apenas nove meses. Sabem por quê? - ele nos encarava sério e seu olhar voltou-se para Frankie - Por vingança, para vingar-se do marido que havia abandonado o lar - seus olhos faiscavam de ódio e isso era perceptível. Ele a pegou pelo braço, soltando-a e arrastando a mulher que chorava para o temido quartinho.

Capítulo quatorze

Segundos depois que eles entraram no quartinho, o telão que ficava à nossa frente se ligou, mostrando que o homem amarrava Frankie a uma mesa, com pernas e braços abertos. Virando-se de costas para ela e mexendo em um armário, pegou uma espécie de mordaça com um cano em sua ponta (n/a: é mais ou menos isso, gente: clique aqui ) e prendeu na boca de Frankie, mesmo sob as tentativas de se mexer e impedi-lo de por aquilo em sua boca. Pudemos vê-lo sorrir, encaixar um funil com um cano mais cumprido no cano que ficava para fora da mordaça e então depositar um tapa no rosto da mulher que se mexia desesperadamente.
- Vamos começar. Parece ansiosa, não é, Frankie? - ele dizia, debochando. A câmera foi acompanhando o seu trajeto. Ele foi até um fogão, pegou um tipo de chaleira e sorriu - Vamos limpar a sua alma dos seus pecados, querida - ele disse, voltando à Frankie, e começou a derramar o líquido no funil. A água que saía de dentro da chaleira parecia turva, meio branca, e estava fervendo. Isso era notório. Primeiro pelas tentativas de grito de Frankie e segundo pela fumaça que saia de chaleira. O homem a olhava sem a mínima piedade e continuava a derramar o líquido pelo funil, fazendo a mulher engolir toda aquela água.
Senti um arrepio ruim correr pela minha espinha. Aquilo era tortura medieval. Como ele era capaz disso? Como alguém seria capaz de ser tão ruim quanto aquele homem?
- Acho que você não está limpa de seus pecados ainda, Frankie - sua risada ainda permanecia. Em seguida, ele pegou um vidro de detergente e começou a derramá-lo pelo funil. Assim que o mesmo acabou, achei que havia acabado também a tortura da garota e que ele a deixaria morrer ali, daquela forma, mas foi um engano. Um grande engano.
Eu nunca sabia o que esperar dele e não deveria ter me surpreendido quando o vi pegar um despedaçador de peitos . Eu sabia para o que aquilo servia e senti o meu corpo se contorcer de dor só de imaginar o que ele faria com aquela mulher.
As pontas do instrumento estavam vermelhas. Era um sinal de que ele as havia esquentado na brasa. Não demorou a começar. Pegou o despedaçador e o encaixou no seio da mulher. Logo em seguida, começou a apertá-lo no peito da mesma, fazendo com que ele ficasse todo queimado e começasse a ser perfurado. Frankie debatia os braços como podia, e as pernas também. Eu sentia pena dela. Apesar de tudo o que tinha feito com os filhos, não era aquele homem que poderia julgar aquilo.
- O que acha, Frankie? - ele dizia, enquanto ia para o outro seio da mulher, o do lado esquerdo. Voltei minha atenção ao seu seio direito e ele estava irreconhecível; queimado, rasgado, perfurado, sangrando. Senti o estômago embrulhar e uma ânsia muito grande, mais tentei controlá-la - Você realmente achou que isso teria acabado tão facilmente? - ele falava, enquanto apertava o outro seio da mulher – Não. Não vai ser fácil para você. Matar uma criança esfaqueada e, quanto à outra, matá-la queimada e colocar o próprio filho no forno? Você sabe que merece isto, não é? - pude ver Frankie assentindo que sim com a cabeça. Seu rosto estava tomado de lágrimas e ela não conseguia gritar graças ao funil que estava em sua boca.
Ele soltou o seio dela, rindo debochadamente, e então puxou algo que era coberto por um pano preto. Não consegui distinguir o que era, até que ele puxou a capa preta e pude ver uma vaca de ferro. Uma vaca grande o bastante. O que ele faria com aquilo?
Quando ouvi um gemido de dor de Frankie, voltei minha atenção até ela que estava com os pulsos amarrados juntos e os tornozelos também. O homem a pegou no colo e a posicionou dentro da vaca que agora estava aberta, com uma metade de cada lado. Ele colocou as mãos de Frankie onde seria a pata da frente, a barriga, apoiada na parte de ferro onde seria a abdômen do animal, e os pés, onde seriam as patas traseiras da mesma. Fechou a vaca, juntando as duas metades, trancando-a com alguns cadeados, e foi empurrando a mesma na direção da porta. Pude perceber então que a vaca estava em cima de um suporte, também de ferro, que tinha rodinhas em baixo. Em cima, havia alguns pedaços de madeira. Como de costume, não entendi o que ele pretendia fazer, até vê-lo à nossa frente, sorrindo para todas nós.
- Espero que não tenhamos vegetarianas aqui hoje - ele riu, abaixou e acendeu um fósforo, pondo fogo em uma espécie de fogueira em baixo daquela vaca de metal. Todas na sala adquiriram expressão de surpresa. Eu jamais imaginaria que ele faria aquilo. Se bem que não sabia muito bem o que imaginar dele... Eu não sabia o que esperar de um maldito assassino psicopata como aquele.
Mordi os lábios de leve e abaixei a cabeça. Aos poucos, podíamos ouvir os gritos de Frankie, que saíam de dentro da vaca, parecendo um mugido alto e dolorido. Ela parecia desesperada. O cheiro de queimado começava a preencher a sala. Era terrível e enjoativo. Os gritos da mulher eram cada vez mais altos e as risadas do homem também. Ele parecia se divertir com os 'mugidos' que saíam da vaca.
- Estão vendo? Hoje vocês vão comer churrasco. Carne de primeira! Espero que a apreciem - ele sorriu maldoso e saiu da sala, enquanto Frankie ainda gritava agonizante. Tentei cobrir os ouvidos para não ouvir os berros dela, mas era impossível. Queimada viva... Deve ser terrível.
Olhei para o alto, tentando me distrair, mas não consegui. Então, o homem entrou novamente na sala, sorrindo.

Capítulo quinze

- Tenho uma surpresinha para você, - sua voz não era bondosa. Muito pelo contrário. Pude vê-lo pegar Suzan, soltando-a, e ir caminhando com ela em minha direção, enquanto eu só observava. Ele parou com ela perto de mim e riu - Você terá uma nova vizinha - ele disse debochado e prendeu Suzan ao meu lado. Respirei fundo, engolindo seco. O que eu havia feito para merecer isso?
Pude ouvir Suzan rir junto ao homem. Apenas levantei o meu olhar para ele. Se eu pudesse, o mataria com a força do pensamento, com os olhos.
- Ótimo - disse debochada e me surpreendi. De onde havia saído aquele deboche? - Assim vai ser mais fácil quebrar sua cara quando ela resolver me irritar - olhei para Suzan que ainda me olhava com deboche e soltou uma risadinha ao fim da frase.
- Sem brigas, querida. Aposto que sua mamãe não lhe ensinou isso - ele disse num tom paternal e logo saiu da sala.
Eu não conseguia entender o que estava havendo ali, que tipo de doente era aquele homem, que tipo de coisas ele seria capaz de fazer. Depois do que ele havia feito com Frankie, meu medo só aumentara. Será que ele usaria técnicas de tortura medieval comigo? Mordi os lábios, preocupada e sem saber o que fazer naquele momento. Suspirei pesado e a minha idéia de sair dali fora se esvaindo. Meu medo foi tirando toda a coragem que eu tinha.
O homem não demorou até voltar para a sala, dessa vez com uma colher vazada em mãos. Olhei-o assustada, enquanto ele caminhava em minha direção.
- Bem, . Visto que você perdeu o bebê, farei a sua curetagem agora - ele dizia sério.
Encarei-o de olhos arregalados. Ele não faria aquilo. De forma nenhuma eu permitiria que ele encostasse a sua mão imunda à minha barriga, onde o feto morto do meu filho permanecia.
- Não. Você não vai tocar em mim - disse apavorada. Os meus olhos rapidamente encheram-se de lágrimas - Não vai. Deixe o meu filho aqui - disse chorosa.
- Não estou perguntando, . Estou afirmando que farei a sua curetagem.
Pude senti-lo me pegar pelos cabelos novamente e muita dor para me manter em cima das minhas pernas. Soltei um grunhido alto. Minha respiração estava descompassada. Ele me puxou até o quarto, onde eu estive na noite anterior, e me jogou na cama acolchoada novamente, prendendo minhas mãos em sua cabeceira com um par de algemas. Logo em seguida, prendeu minhas duas pernas, uma em cada um daqueles 'pés' que as ginecologistas usam quando estamos nos consultando. Eu me mexia, tentava me debater. Não queria que ele tocasse em mim. Eu precisava sair dali... Não queria que ele tirasse meu filho de dentro de mim.
Meus gritos pareciam agradá-lo, pois ele sorria cada vez mais com eles. Então, ele passou a mão pelo meu rosto e não pensei um minuto antes de mordê-lo; mordê-lo com toda a força que eu tinha. Havia pegado um grande pedaço de sua mão e finquei meus dentes ali com tudo.

's p.o.v

Entrei no meu carro, seguido pelo policial, coloquei o cinto e saí dirigindo. Interior... No interior da cidade. Era para lá que eu ia e a procuraria com todas as minhas forças. Eu ia procurar até achar. Não iria para casa sem comigo. Queria a minha esposa e o meu filho também.
Apesar de toda a velocidade com que eu dirigia, a estrada parecia cada vez mais longa, sem nenhuma construção pelo caminho. Eu estava atento a tudo, a todo e qualquer sinal.
Ao longe, pude avistar uma casa grande. Olhei para o policial. A luz de um dos quartos parecia acesa e havia um homem lá dentro. Pisei fundo no acelerador e parei em frente ao lugar, saindo do carro rapidamente. Comecei a tocar a campainha com toda a vontade que eu podia, enquanto com a outra mão esmurrava a porta. Posso jurar que ouvi uma mulher soltar um grito e, uns cinco minutos depois, um homem apareceu na porta. Ele tinha os cabelos meio avermelhados e olhos verdes. Em sua mão, havia uma grande mordida. Eu tentava olhar para dentro da casa, mas o corpo do homem bloqueava grande parte da minha visão.
- O que querem? - ele disse. Sua voz era firme e grossa – Por que tanto desespero? - e então ele pareceu perceber que havia um policial junto de mim - O que houve, senhor policial? – o mesmo nos encarava sem expressão.
- Estamos fazendo uma investigação por essa parte da cidade. Gostaria de saber se posso entrar - o policial se pronunciou e o homem manteve-se parado na porta.
- Ora, senhor policial, que tolice. Essa área é uma das menos movimentadas do país. O que haveria em minha casa? - ele disse em tom de deboche, o que causou um desconforto no policial que pigarreou para ele.
- Se não tem nenhuma coisa de mais na sua casa, não tem por que você não nos deixar entrar - eu disse tão debochado quanto ele. Eu sentia que algo estranho rondava aquele homem.
Assim que terminei de falar, ele nos deu passagem para observar a casa. Outro grunhido veio do andar de cima e olhei para as escadas, me preparando para subi-las.

Capítulo dezesseis

Quando o homem me impediu.
- Por favor, peço que não vão ao andar de cima. Tenho uma filha com deficiência mental e estamos tentando alimentá-la agora - ele disse com a voz baixa. Eu queria subir, iria subir, independentemente de qualquer coisa, e forcei passagem, o que enfureceu o homem - Ah, quer saber? Vocês têm nada o que fazer aqui dentro. Saiam da minha casa imediatamente. Só entraram aqui com um mandato - ele dizia, enquanto nos empurrava na direção da porta de saída.
- O QUE FOI? POR QUE NÃO POSSO VER A SUA FILHINHA RETARDADA? DIGA-ME! - eu gritava nervoso. Sabia que tinha passado dos limites e que aquele homem podia ser um inocente, mas aquela inocência toda estava me deixando desconfiado.
O policial me segurou pelos ombros.
- , acalme-se. Não deve mesmo estar acontecendo algo aqui. Pare de ofender o homem - ele disse e virou-se para o mesmo - Desculpe pelo transtorno, senhor - o policial dizia, enquanto me levava até o meu carro. Entrei nele e soquei o volante com toda a força que eu tinha, para descontar a minha raiva, enquanto o policial me olhava assustado.
- Tínhamos que ter entrado lá. Temos que arrumar esse mandato. Precisamos entrar naquela casa. Precisamos! - as palavras saíam de minha boca sem permissão, fazendo pouco sentido.
- , não vamos voltar a essa casa. Ouviu bem? Não vamos! - o policial disse sério - Você viu o que disse ao homem? Ele pode processar você. Há nada ali. É só um desses caras ricos que gostam do sossego do interior - o policial me segurava pelos ombros, enquanto falava, e falava firme, para ter certeza de que eu absorvia o que ele queria dizer. Mas eu não queria absorver. Havia algo errado ali e eu sabia disso.
- Não é possível que você não tenha visto. Ele mentiu! Estava mentindo! Tem alguma coisa de errado, SIM, dentro daquela casa e não vou desistir enquanto eu não entrar lá e ver com os meus próprios olhos – determinação. Essa era uma das minhas melhores qualidades. Ainda mais quando a minha esposa poderia estar em perigo. Minha esposa e meu filho.
- Escute-me aqui. Se você vier até aqui novamente para atormentar esse homem, vamos parar as buscas e prendê-lo - o policial disse sério. Só podia ser brincadeira. Que tipo de ameaça era aquela?
Deitei a cabeça no volante do carro e senti as lágrimas escorrem pelos olhos. Eu sabia que havia algo errado naquele lugar.

's p.o.v

O homem me puxava pelos cabelos e sacudia minha cabeça, na tentativa de me fazer soltar de sua mão. Mas eu não soltaria tão cedo.
Senti o gosto de seu sangue invadir minha boca e sorri involuntariamente. apertei mais um pouco os dentes, até minha boca estar repleta de seu sangue. Soltei-a e cuspi o líquido para o lado, o encarando. Ele segurava a mão e urrava de dor.
Quando viu que eu estava sorrindo, veio até mim, com um sorriso maldoso no rosto, acertando em seguida um belo soco de punho fechado na minha face. Soltei um grito alto de dor. Ouvi a campainha tocar e pude ver os olhos do homem se arregalarem em espanto. Então ele não esperava visita... Então alguém estava ali para socorrer todas nós.
Ele pegou um pano branco que estava em cima de uma mesinha, ao lado da cama, embolou-o e começou a tentar forçá-lo na minha boca. Eu mantinha a mesma travada, enquanto ele tentava enfiar aquele pano na minha boca.
A campainha ainda tocava e alguém esmurrava a porta. O homem se abaixou e, sem a mínima piedade, depositou uma mordida no meu seio, puxando-o com brutalidade, como se fosse arrancar o mesmo. Não pude conter e gritei mais uma vez. Ele enfiou o pano em minha boca, saindo do quarto. Eu tentava cuspir o pedaço de tecido a todo custo, tentava empurrá-lo com a língua, mas não era fácil. Pude ouvir duas vozes no andar de baixo e soltei um grunhido, o mais alto que eu poderia soltar. Sentia um desconforto na barriga e apertei os olhos. Foi então que ouvi... A voz de . Ele estava ali. O meu marido estava ali para me buscar.
Tentei soltar outro grunhido, mas este não saiu tão alto como o outro. Mesmo assim, esperava que ele tivesse ouvido. Pude sentir as lágrimas de felicidade escorrerem por meus olhos e um sorriso brotar em meu rosto.
A porta se abriu instantes depois, mas não era o homem que eu queria ver que a abriu. Encarei o homem com a máscara preta no rosto. Ele tinha um sorriso vitorioso no rosto.
- Sabe quem estava aqui , ? Sabe quem veio me visitar? O seu maridinho - ele riu. As lágrimas de felicidade pararam e o sorriso se esvaiu do meu rosto. O que ele havia feito com ?
Vendo o meu desespero em falar, ele tirou o pano da minha boca.
- O que você fez com ele? O QUE VOCÊ FEZ COM O MEU MARIDO? - gritei agoniada; o que rendeu mais uma risada ao homem.
- Bem, querida... Seu maridinho agora deve estar voltando para casa e tenho certeza de que o policial não vai mais trazê-lo de volta, depois de todas as ofensas que ele proferiu a mim - um alívio percorreu meu corpo. estava bem, graças a Deus. Mas ao mesmo tempo em que o alívio percorreu meu corpo, a desesperança fez o mesmo. Ele não voltaria, eu não seria salva, eu não sairia daquele lugar - E você, hein ? Está muito, mais muito abusada, sabia? - sua voz agora era brava. Pude sentir outro soco no rosto, o que fez com que o gosto de sangue, agora o meu, voltasse à minha boca - Você é uma garotinha muito estúpida mesmo, né? - ele ria com deboche - Quer mesmo ficar com esse idiotinha aí dentro, né? Pois bem, você ficará com ele, até o mesmo sair sozinho, mas não ache que isso... - ele mostrou a mão que tinha uma marca forte da mordida que eu havia lhe dado -... Vai passar em branco, . Não pense que vai, porque não vai mesmo.

Capítulo dezessete

Ele me soltou novamente, mas por pouco tempo. Ainda naquele mesmo quarto, ele prendeu meu corpo em forma de “X” com algemas que eram presas ao teto e ao chão e enfiou novamente o pano em minha boca. Minhas pernas estavam abertas e meus braços para cima. Não demorou muito para que eu sentisse a primeira chicotada acertar minhas costas, fazendo um estalo alto e trazendo junto com ele uma dor no lactente. Gritei, mas o som fora abafado pelo pano em minha boca. Lágrimas escorreram por meus olhos sem a menor dificuldade. Não demorou um minuto para que o chicote acertasse novamente a pele de minhas costas.
Não sei ao certo por quanto tempo aquilo durou, mas pareceu demorar a eternidade para que ele parasse.
Olhei para minhas mãos e as vi roxas, pois a circulação de sangue naquela área era quase nula, devido às algemas apertadas que a envolviam.
- Você por acaso tem idéia do que fez? - senti uma ardência forte na bunda e virei meu rosto para o homem, vendo-o com uma vara fininha na mão - Você quase estragou tudo, - a varinha atingiu minha bunda novamente, dessa vez com mais força - Achou que ficaria livre de mim tão facilmente? - seu riso debochado como sempre ecoou pelo cômodo, junto com o som da varinha, e um grunhido me escapou pelos lábios - Mas não vai, . Vai ficar aqui e morrer como todas as outras, porque você merece - sua mão alisou minha bunda dolorida pelas chicotadas e a vareta, trazendo um pequeno alívio para a região. Mas o mesmo não durou muito, pois assim que ele terminou de alisá-la, a apertou com força.
Apertei os olhos e joguei a cabeça para trás, debatendo meu corpo da melhor forma que pude.
- É assim que você gosta querida? - seu hálito quente bateu em meu ouvido, me fazendo ter arrepios ruins. Suas mãos subiram para os meus seios, apertando-os por cima do sutiã e fazendo com que ele ficasse úmido com o leite que eles continham - Pelo visto, sim - um risinho irritante saiu de sua boca em meu ouvido e ele afastou-se de mim, em seguida saindo do cômodo.
Suspirei aliviada. Por alguns segundos, havia se passado por minha cabeça o que ele poderia fazer. Rapidamente, o homem voltou, me tirando dos meus pensamentos.
- Voltei - ouvi sua voz que, dessa vez, veio de forma diferente. Ele parecia contente com algo; extremamente parecido com quando chegava a casa mais cedo de surpresa. Suas mãos foram direcionadas aos meus cabelos e ele os prendeu em um coque com algum elástico – Agora, sim, podemos continuar. Seus cabelos estavam me impedindo de fazer isso - o pânico voltou a me preencher quando o cara começou a depositar beijos babados e nojentos por meu pescoço, descendo-os para os meus ombros e movimentando seu corpo em volta do meu, até que parasse na minha frente. Seus olhos brilhavam com luxúria e seu sorriso era maníaco.
- Eu vou lhe dar um novo filho, . Bem melhor do que esse que morreu - meus olhos instantaneamente se arregalaram. Ele não podia fazer aquilo... Ele não deveria fazer aquilo...
Tentei movimentar os braços e gritar, mas não consegui muito com isso.

Capítulo dezoito

- Sh, boneca. Não se assuste. nosso filho vai ser lindo. Vai lembrar você e eu - ele puxou as alças de meu sutiã, abaixando-o com brutalidade enquanto falava - E sempre que eu olhar para ele, vou me lembrar de como você é linda, maravilhosa... - seus sussurros, por mais calmos que fossem, me deixavam cada vez mais amedrontada. As lágrimas já escorriam de meus olhos sem a menor dificuldade. Suas mãos desceram até os meus seios, apertando-os - Ou quem sabe não será uma linda garotinha, idêntica a você - o entusiasmo estava explícito em sua voz, o que não diminuía em nada o meu medo. Muito pelo contrário.
Meus pensamentos foram desviados quando senti seus lábios tocarem os bicos dos meus seios. Soltei um grunhido, o mais alto que pude, e tentei novamente - sem sucesso - puxar meu corpo para trás, na tentativa de afastá-lo. Não adiantou. Suas mãos prenderam minha cintura dolorida, puxando meu corpo para frente. Pânico. Era isso o que eu sentia: pânico. Uma de suas mãos foi descendo de minha cintura até minha intimidade.
- Hm... Como ela é macia... - seus lábios ainda estavam colados aos meus seios enquanto ele dizia isso. Esforcei-me novamente e um grito desesperado demonstrou o meu pavor. Isso não o abalou em momento algo, pois ele continuou a sugar meus seios e seu dedo foi direcionado ao meu clitóris, fazendo movimentos circulares numa tentativa de me excitar, o que seria impossível. Ouvi um rosnado bravo vir de sua boca.
- O que foi, querida? Não está gostando? - o sarcasmo estava evidente em sua voz, que também continha um tom de braveza - Não sou bom o suficiente para você, ? - senti um tapa estalar em minha face - Não sou como ele, sua vadia? - ele riu. Apertei meus olhos, pensando em , mas meus pensamentos não duraram muito - Mas você está aqui, comigo agora - senti seu dedo penetrar em mim completamente, seco e bruto, arrancando um gemido alto de dor de meus lábios. A dor parecia não parar e meu órgão pulsava de dor em seu dedo - Aquele merda faz assim? - ele riu - Você é minha, , e nada vai mudar isso - logo em seguida, outro dedo me penetrou, fazendo com que eu debatesse o corpo de forma desesperada - Fique quieta. sua puta - grunhi com o adjetivo que ele utilizou - Que foi? Não gostou, putinha? - seus dedos saíram de mim e, com uma rapidez fora do comum, ele me soltou, jogando-me na cama - Mas você é minha putinha... Uma putinha de péssima qualidade, devo acrescentar - ele sentou-se sobre minhas pernas e inclinou seu corpo na direção do meu, passando a língua sobre meus lábios entreabertos - Mas vou ensiná-la a ser uma boa putinha bem obediente, certo? - meus olhos estavam arregalados - Responda quando eu falar com você, - ele gritou, me fazendo assustar e gemer de dor quando sua mão atingiu meu rosto. Apenas assenti com a cabeça. Eu não poderia desobedecê-lo. Caso contrário, só seria cada vez mais punida. A dor de não ter o meu filho já era suficiente.

Capítulo dezenove

Para o meu alívio, ele me pegou novamente. Agora pelos punhos, amarrando-os com uma algema de couro que tinha uma corrente junto a ela, foi puxando-me para fora do quarto, onde pude reparar na casa. Parecia rica, porém muito mal cuidada. Os móveis pareciam velhos e mal tratados.
- Pois é. Quando a minha avó morreu e deixou essa casa, jurei que jamais moveria um móvel aqui dentro - ele disse como se lesse meus pensamentos. Se eu pudesse responder, com certeza diria: "jurou também que nunca a limparia?". A mobília era bonita, vintage e de muito estilo. Uma limpeza e aquela casa ficaria linda.
Minha observação acabou assim que vi uma porta preta. O medo tomou conta do meu corpo novamente quando ela foi aberta e voltei ao quartinho. Olhei para todas ali e elas pareciam tão apreensivas quanto eu. O homem me empurrou para dentro do lugar, prendendo-me novamente naquela corrente.
- Trouxe a amiguinha de vocês de volta. Está feliz, Suzan? - ele riu com deboche e ela assentiu com a cabeça - Bem, vou deixar a mordaça e as algemas da sob sua responsabilidade. Você saberá quando tirá-las - ele riu – Já, já venho com uma nova brincadeirinha. Quem ganhar poderá escolher um castigo que aplicarei em quem a vencedora escolher – gelei. Isso não poderia acontecer. Nenhuma de nós ali era sangue frio o suficiente para fazer aquelas brincadeiras. Olhei com medo para as mulheres à minha volta, esperando que elas manifestassem algum indício de que iriam participar, mas a única que vi animada com isso foi Suzan.
Sem mais uma palavra, ele saiu do quarto, deixando-me ali com as costas e bunda doloridas, mãos amarradas, boca amordaçada, seios expostos e amedrontada. Muito amedrontada.

Capítulo vinte

O tempo parecia passar lentamente e cada segundo parecia um dia. Minha boca estava seca e a mordaça me impedia de engolir a minha própria saliva direito. Olhei para Suzan, como se pedisse piedade, e tudo que recebi de volta foi um risinho debochado e maldoso. Suspirei, abaixando a cabeça.
- Você não acha que deveria soltá-la, Suzan? - uma mulher que eu não conhecia, mas se localizava um pouco longe, falou. Virei meu olhar para ela, demonstrando gratidão.
- Sei quando soltá-la e não se meta nisso - Suzan também olhou para a mulher, mas com arrogância. A moça soltou uma risada de escárnio.
- O que você ganha com isso, Suzan? Acha que vai ficar livre de morrer como todas nós? - a mulher revirou os olhos - Pois saiba que não vai. Tenho certeza de que não e de que a sua morte será terrível. Talvez bem pior que a da Frankie. Agora, diga-me: de que lhe serve maltratar a , se você também não vai sair daqui viva? - Suzan riu e se levantou, ficando em uma posição de autoridade.
- Serve-me porque estou com vontade de maltratá-la e você tem nada com isso, Ully. Não tem que se meter no que faço. Posso até morrer, mas esse é o meu prêmio; o prêmio por ter perdido o meu marido... Meu marido e meu filho para essa mulher - ela apontou para mim como se eu nem ao menos estivesse ali.
- Ah, agora eu entendo, então. O seu problema todo é rancor, não é, Suzan? Porque seu ex-marido encontrou alguém melhor para ele? Alguém que não era você? - a mulher que aparentava ter lá os seus trinta e sete anos provocava Suzan e isso estava funcionando, pois vi que ela fechou as duas mãos com força.
- Cale a sua boca, sua vadia imunda. Você é tão nada quanto eu. Seu filho morreu como, hein? Diga-me! - Suzan revidou a provocação e vi a mulher abaixar a cabeça e suspirar pesado - Ué, conte para nós como foi que seu filho morreu, Ully. Por que não quer mais falar? - Suzan debochava sem piedade da mulher.
Soltei um grunhido me e levantei com dificuldade do chão, pois não tinha como ter apoio com as mãos e minha barriga ainda estava grande.
- Que foi, ? Vai defender a sua amiguinha? - ela riu - Talvez isso traga conseqüências nada boas para você. Não acha? - meu olhar era cortante e Suzan sabia que eu não tinha medo dela, que eu estava mais do que brava. Estava indignada com a sua frieza - Não vai me responder? - sua mão tocou meu rosto em um tapa leve, mas humilhante – Ah, é. Você não pode - em seguida, recebi outro tapa, dessa vez mais forte, e um empurrão que me fez cair novamente.
Assim que meu corpo tocou o chão, o homem entrou no quartinho novamente, aproximando-se de mim. Suzan se sentou e ficou calada. O homem retirou a mordaça de minha boca com ignorância, fazendo com que eu gemesse de dor, e em seguida soltou as minhas duas mãos. Encarei-o ainda sentada, enquanto ele estava de pé.
- Vamos brincar agora. Você não poderia ficar de fora, não é, ? - ele riu e passou as mãos sob o meu cabelo como um carinho que ele daria a um cachorro - Então vamos ao que interessa. Como vocês sabem, a próxima a ir comigo para o meu querido quartinho é a Georgia, mas tenho uma surpresinha para ela - ele riu e colocou a mordaça que estava em minha boca na de Georgia, que já chorava e suplicava para que ele lhe fizesse nada. O telão ligou e nele apareceu outra mulher - Quero que vocês adivinhem o que essa bela moça é da nossa amiguinha Georgia. Quem ganhar poderá resolver: se Georgia morrerá e a sua convidada misteriosa vai assistir, ou se a convidada misteriosa morrerá e Georgia irá assistir - a garota estava sentada em uma cadeira com a boca também amordaçada, com os dois braços presos aos braços das cadeiras e as pernas igualmente presas às pernas do assento. Olhei para Georgia e seu desespero era explícito. Ela se mexia, debatia e gritava o máximo que podia pela mordaça - Então comecem - Suzan logo levantou a mão.
- Ela é irmã da Georgia - Suzan gritou e o homem negou com a cabeça.
- Vamos lá. Ninguém mais vai tentar? Só a Suzan é corajosa aqui? - ele tentava nos incentivar a participar daquele joguinho bizarro dele, mas nós não conseguiríamos - Não se esqueçam: se Suzan ganhar, ela poderá escolher o que quer fazer com quem ela quiser - sabia que seria eu. Eu seria o alvo de Suzan, mas não teria coragem de entrar naquele joguinho, de ficar torturando uma pessoa.
Georgia estava aflita e tentava de todas as formas tirar a mordaça de sua boca. Suzan já havia levantado a mão novamente quando Ully gritou.
- Prima. Ela é prima dela - o homem virou-se para ela, surpreso por alguém realmente ter aceitado entrar na sua brincadeirinha.
- Olhe só... Temos uma pessoa inteligente aqui - ele riu - Pois é, querida. Elas são primas. Não é, Georgia? - o homem tirou a mordaça da boca delal, que começou a xingá-lo e gritar que ele era maluco, um completo insano, que ele iria para o inferno e outras coisas - Agora escolha, Ully. Quem deverá morrer: Georgia ou Giovanna? - nesse instante, Georgia começou a suplicar para que Ully a escolhesse. A mulher olhava com duvida para a mulher e para a garota do telão, não sabendo o que fazer. Seu olhar continha arrependimento... Arrependimento por ter aceitado entrar naquela brincadeira – Vamos, Ully. Escolha - o homem pressionou e moça gritou mais uma vez de forma desesperada que Ully deveria escolhê-la para morrer.
- Georgia. Escolho a Georgia - a mulher caiu no choro pesado e meus olhos marejaram também. Eu queria chorar. Queria muito chorar só de imaginar como deveria estar a cabeça de Ully por ter feito aquela escolha. Georgia calou-se, sem parar de chorar, mas parecia aliviada; aliviada por saber que sua prima sairia bem. O homem imediatamente pegou-a, soltando-a e puxando-a para o quartinho. Quando chegou a ele, a mulher olhou para a prima com um olhar que eu não saberia descrever. Um olhar de compaixão, de medo e alívio ao mesmo tempo. Os olhos de Giovanna arregalaram-se ao ver a prima e ela se movimentou desconfortável na cadeira.
- Está tudo bem. Não se preocupe. Você sairá bem - sua voz ecoou de forma doce e chorosa ao mesmo tempo, o que me fez sentir pena dela. Giovanna ainda a olhava como quem pedia explicações do porquê ela estar ali, quando o homem empurrou-a com mais força, fazendo com que ela caísse no chão. Ele a puxou pelos cabelos, fazendo com que ela ficasse de pé novamente. Sentou-a em outra cadeira, amarrando-a e amordaçando-a, deixando-a ao lado de sua prima.
- Pois bem, Georgia. Você sabe que é inteiramente culpada pelo que fez, não é? Sabe que a culpa é totalmente sua por seu filho ter morrido e que será punida por isso agora - ele a encarou e ela assentiu com a cabeça após soltar um longo suspiro - Mas você não sabe que a sua priminha aqui... - ele passou por trás das duas, pegando Giovanna pelos cabelos e sacudindo a sua cabeça - Fez a mesma coisa que você. Sabia? - Georgia arregalou os olhos na direção da prima que assentiu com a cabeça, confirmando que havia feito um aborto - E o que ninguém sabe é que, por mais que Ully tenha escolhido você, as duas irão morrer hoje - ele riu de forma malvada e Georgia voltou a ficar agitada, debatendo-se - Acalme-se. Quanto mais você se agitar, pior será - ele acariciou seu rosto como se estivesse falando a coisa mais normal do mundo. Então ele voltou-se para Giovanna - Está vendo aquela porta ali? - a garota assentiu com a cabeça, olhando para a porta indicada - Você entrará lá e decidirá como a sua prima irá morrer - ele levantou a cadeira, ainda com a garota sentada e amarrada, e foi caminhando até a porta, deixando-a no chão apenas para abri-la. Pegou-a novamente, colocando-a dentro da sala. A imagem da nossa TV se dividiu em duas e eu estava nervosa. Em uma parte, a imagem de Georgia e daquele infeliz no quartinho, e na outra, a de Giovanna sozinha em uma sala sem nada dentro, com dois fones de ouvidos enormes e sem a mordaça - Então ‘ta. Olhe só, eu lhe perguntarei uma coisa e você terá que responder de um a seis. Se não responder, escolherei sua resposta e aí será pior - sua voz era severa agora e ele transmitia autoridade. Pegou uma caneta piloto preta e começou a escrever em Georgia. O número um estava na cabeça; o dois, no braço direito; o três, no braço esquerdo; o quatro, na perna esquerda; o cinco, na direita; e o seis no tronco - Então vamos. Qual é o seu número preferido, querida? - a forma como ele disse “querida” era completamente debochada.
- Dois... - sua voz era tremida e amedrontada. O homem se virou para uma mesinha com um pano preto a cobrindo, deixando à mostra várias facas, alicates e etc. Então pegou um alicate.
- Escolha mais um número - perguntou-lhe com a maior tranqüilidade possível.
- Três... - Giovanna estava confusa e nós também estávamos. Mas a confusão acabou quando o homem pegou o dedo anelar de Georgia e apertou o alicate nele, fazendo com que o dedo saísse de sua mão e que a mesma gritasse de forma desesperada mesmo que com a mordaça em sua boca. Ele se dirigiu a uma espécie de tanque e jogou o dedo da mesma lá dentro. Em poucos segundos, piranhas devoraram o dedo de Georgia.
- Minhas amigas estão com fome - ele riu. Pegou um quadro de cores, onde o rosa indicava um, vermelho indicava dois, roxo indicava três, branco indicava quatro, amarelo, cinco, e azul, seis - Mas me diga fofa: qual é sua cor preferida? Rosa, vermelho, roxo, branco, amarelo ou azul? - a garota estremeceu dentro da sala.
- Rosa... - sua voz baixa ecoou pela sala e ele riu de forma maldosa, pegando uma tesoura grande e posicionando-a na orelha de Georgia. Fechou-a com brutalidade, fazendo com que a mesma caísse no chão segundos depois, e mais um grito de Georgia ecoou no ambiente.
Apertei os olhos e cobri os ouvidos. Não queria mais ver e nem ouvir aquilo. Meu estômago estava embrulhado e mesmo estando a tanto tempo sem comer eu sentia vontade de vomitar.
Os gritos de Georgia ficavam cada vez mais altos e desesperados. Mesmo tampando os ouvidos, eu ainda conseguia ouvir os berros. Involuntariamente, lágrimas começaram a escorrer por meus olhos. Eu tinha medo; medo do que poderia acontecer comigo. Ele estava cada vez pior, as mortes estavam cada vez mais dolorosas e eu não sabia quando seria minha vez, não sabia como seria.
Abri os olhos novamente, olhando para o telão depois de alguns segundos de silêncio, e a cena que vi com certeza foi a mais chocante que eu já havia visto em toda a minha vida. Georgia estava sem os braços e pernas. Seus lábios também não estavam lá. Em seu rosto, havia apenas um dos olhos. Ela chorava desesperadamente e implorava com resmungos para que ele parasse. Foi quando o homem sem a mínima piedade furou-lhe o olho que sobrava com um abridor de vinho. Meu choque foi tanto que um grito ecoou de meus lábios, fazendo com que as outras mulheres que também estavam de olhos fechados me olhassem. Apertei novamente os olhos. Eu não podia acreditar em tudo aquilo. Era surreal, simplesmente impossível. Aquele tipo de coisa só acontecia em filmes e não na vida real. O homem pareceu retirar a mordaça da boca de Georgia, pois ela começou a gritar e implorar para que ele parasse, para que acabasse logo com tudo aquilo.
- Acho que o seu cabelo daria uma bela peruca... Você não acha, Georgia? - ele riu e ouvimos um estalo que provavelmente fora um tapa - Cale a sua maldita boca, sua vadia - dessa vez, outro som mais abafado e um gemido de dor de Georgia.
Levantei o meu olhar novamente para o telão, com medo do que veria. Ele parecia esperar que olhássemos para fazer o que queria. No momento em que olhei, ele começou a puxar os fios de cabelo de Georgia em tufos, arrancando-os e fazendo com que ela gritasse desesperadamente de dor. Quando eu pensava que ele tinha acabado, o homem me mostrava o quão insano poderia ser, o quão pior poderia fazer.
Quando havia acabado de arrancar todos os cabelos da cabeça de Georgia, sorriu satisfeito, murmurando próximo ao local onde ficava sua orelha.
- Você é uma merda... Uma merda de mulherzinha barata que matou o próprio filho, que matou uma criança inocente... Como se sente agora, Georgia? Quando é você que está morrendo? – suspirei, ainda olhando para o telão. Ele parecia ter acabado, mas não, não havia. Ele não tinha limites, não sabia parar.
Quase todas estavam de olhos abertos quando ele pegou um alicate e aproximou-se da mulher. Não sei como, mas ele prendeu uma espécie de elástico em sua boca, fazendo com que ela ficasse aberta, e começou a arrancar um por um dos dentes de Georgia.
- Já lhe falaram que você tem belos dentes? - ele riu - Belos dentes e uma alma podre - e puxou mais um dente com força.
Olhei de relance para Suzan e, por incrível que pareça, ela parecia se divertir com toda aquela situação bizarra. Georgia soltava grunhidos e gemidos altos de dor, mas aquilo não fez com que ele parasse até que não houvesse mais nenhum dente em sua boca. Então ele a pegou no colo e, como se estivesse jogando o lixo fora, jogou Georgia dentro do tanque das piranhas.
- Tenha uma boa morte, Georgia - riu e foi até a sala, onde Giovanna se encontrava, pegando-a também. A garota quando viu o tanque de piranhas e a agitação delas arregalou os olhos, debatendo-se na cadeira - Acalme-se, querida. Não colocarei você ali - ele posicionou a mulher no meio da sala e pegou um tipo de vaporizador. A garota mexia-se inquieta.
Ao que o homem começou a direcionar o vapor quente contra seu corpo, a pele da mulher ia queimando aos poucos. Mas a forma como queimava era dolorosa. Eu quase conseguia sentir a dor dela.
Quando o corpo da mulher estava cheio de bolhas das queimaduras causadas pelo vaporizador, ele parou e pegou um balde que estava no canto da sala. Colocando luvas nas mãos, o que me assustou, ele sem pensar muito jogou o conteúdo dele no corpo da garota que grunhiu. Seu corpo parecia queimar e se desfazer. Aquilo era ácido e estava corroendo todo o corpo de Giovanna. Ele foi jogando lentamente a substância por suas pernas, depois tronco e ombros, e saiu da sala, deixando o telão ligado para que nós pudéssemos ver o ácido corroendo o corpo de Giovanna.

Capítulo vinte e um

Acredito que Giovanna tenha morrido rápido ou não sei. Só sei que, quando abri os olhos, o seu corpo não estava mais lá. O homem abriu a porta e adentrou o cômodo com aquele carrinho de comida. Arregalei os olhos, imaginando o que ele daria para agente comer. Quando ele destampou os pratos, imediatamente cobri meu nariz. O cheiro era forte como comida podre, azeda.
- Bem, garotas, acreditam que me esqueci de que havia feito comidinha para vocês? - ele disse debochado e foi colocando o prato na frente de cada uma de nós – E, bem, devido ao tempo fora da geladeira, acredito que ela esteja um pouquinho ruim. Mas isso com certeza não fará mal a vocês - e saiu sem mais nenhuma explicação.
Eu estava curiosa para saber o que Ully escolheria e nervosa, pois eu não estava livre de qualquer punição, por mais que ela houvesse me defendido.
Olhei para o prato, cogitando a opção "comer aquela gororoba", porém ao ver a comida completamente azeda e com mofo por cima, o meu estômago embrulhou. Empurrei o prato para o mais longe que consegui e observei as mulheres ao meu lado. Todas elas pareciam se recusar a comer aquela comida horrorosa. Recostei a cabeça à parede, não agüentando mais estar ali. Não que eu tivesse gostado em alguma hora. Muito pelo contrário. Só que aquilo já passava dos limites de tudo que eu poderia agüentar. O meu corpo formigava de forma irritante enquanto a minha nuca coçava, denunciando completamente o meu momento de fúria. Apenas os que me conheciam bem sabiam disso. Suzan me conhecia bem.
- Tem alguém irritada por aqui? - revirei os olhos, controlando-me para não responder - Uh, ela está tentando ignorar. Está sem resposta - ri sem vontade, virando-me na direção dela da melhor forma que pude.
- Não. Apenas não sei latir. Então não posso me comunicar com você - ouvi uma breve risadinha que eu não sabia de quem era e Suzan soltou um urro de raiva. Meus cabelos me incomodavam, aquele lugar fedido me incomodava, tudo me incomodava.
Pensei ter ouvido a porta abrir, mas, como o aquele maldito monstro não apareceu, tirei a idéia da cabeça. Até que ouvi Holly gemer de dor. Virei o meu olhar para ela e lá estava ele, silencioso e maldoso, retirando a sua coleira e a puxando para o quartinho novamente.
- Hoje pareço com sede de sangue. Não estou feliz o suficiente com o que vi - ele pegou no queixo de Holly, fazendo-a olhar para aqueles olhos frios que somente ele tinha - Você é nojenta, desprezível. Não merece o chão em que pisa, o ar que respira, sua maldita viciada de merda - e então cuspiu em seu rosto, fazendo a mesma gritar de nojo – Sabe, quando você perdeu o seu bebe até ter uma overdose, pareceu não se importar, já que continuou usando a sua maldita droga – o homem riu desdenhoso - Pois bem, agora você está no paraíso - ele apontou para uma mesa, onde havia algumas carreiras de pó branco que logo deduzi ser cocaína e ao lado algumas seringas também cheias de alguma coisa que não pude reconhecer - Ou no inferno, já que para ex-dependentes ver a sua droga tão próxima deve ser uma coisa difícil. Não é? - ele debochou - Veremos se a sua heroína irá salvá-la hoje - riu debochado e a sentou em uma cadeira, amarrando os seus pulsos e deixando-a imóvel, enquanto suplicava para que ele não fizesse isso.
Assim que ele injetou a primeira dose da droga que continha na seringa e concluí ser heroína, em pouco tempo o corpo de Holly pareceu relaxar completamente e uma expressão mais feliz e tranqüila surgiu em seu rosto. Perdi as contas de quantas doses daquilo ele injetou nela e, quando achei que o mesmo havia acabado, como sempre eu estava enganada. Ele pegou uma espécie de bandeja de madeira, onde estavam as carreiras de pó branco, e começou a esfregar pelo nariz de Holly, enquanto a mesma aspirava-o. Já havia sido mais de dez carreiras de cocaína e ele parecia não querer parar mesmo com o nariz da mulher sangrando.
- Chega... Eu... Eu... Eu não... Não quero - a voz da mulher saiu completamente mole e dopada. Enquanto ela parecia tentar lutar contra o vício, o homem ria abertamente.

Capítulo vinte e dois

Em menos de dez minutos, a Holly que estava ali já era outra. A mulher suava e gritava coisas que ninguém conseguia compreender. Parecia em uma longa discussão com uma pessoa que nem ao menos existia. Apesar de amarrada, não parava quieta. Movia-se de todas as formas, tentando se livrar das amarras. A sua respiração estava tão descompassada que éramos capazes de ouvir a forma forte com que ela respirava. Não posso negar que eu estava completamente apavorada com a situação. Nunca imaginei que era isso que acontecia com pessoas que tinham overdose.
O homem estava sentado a poucos metros de distância de Holly em um sofá branco encardido. Eu queria conseguir tomar alguma atitude, ou sei lá, ajudar Holly de alguma forma, acabar com o sofrimento dela, mas eu não conseguia. Jamais conseguiria ajudar ninguém que estivesse ali. Eu não tinha mais esperanças - esperanças de sair dali viva, de conseguir algum dia ter um bebê, de conseguir ver o meu marido novamente. Eu já sabia que nada disso aconteceria.

's POV

Já havia se passado quatro dias desde que aquela mulher não identificada tinha chegado até a delegacia completamente banhada em sangue, que havíamos ido até aquela casa suspeita no interior. Quatro dias que eu não tinha nenhuma notícia e motivação além do fato de querer a minha esposa e o filho comigo novamente. Não me importando com o quanto isso pudesse me custar.
Eu estava no quarto que seria do nosso pequeno filho. Ele já estava todo pronto. O papel de parede com listras brancas e amarelas, o armário com as roupinhas do nosso bebê... Aquilo estava me matando. Eu não sabia quanto tempo conseguiria agüentar toda aquela pressão, todas aquelas coisas, tudo que estava acontecendo. Eu nem ao menos sabia como havia suportado até agora. Saí do quarto, fechando a porta com delicadeza, e entrei no meu quarto. Ou melhor, no nosso quarto. No cômodo que eu compartilhava com , esperando que tudo aquilo tivesse sido um terrível pesadelo e que ela estivesse ali, sentada em nossa cama com o seu sorriso angelical, chamando-me para ver algum programa de TV. Mas não. Ela não estava lá. Apenas a cama vazia, o quarto bagunçado.
Respirei fundo e me deitei onde ela dormia todas as noites. O seu cheiro permanecia lá, lembrando-me de que a minha mulher não era apenas um delírio. Eu queria ser forte, queria não sofrer, mas isso não era possível. Precisava de junto comigo. Ela era a bateria que recarregava minhas forças, a minha vontade. Sem ela, não existia força e muito menos vontade. O único desejo que eu tinha era de morrer. Morrer com certeza doeria menos do que não tê-la ali, não poder abraçá-la, beijá-la, nem olhar para o seu rosto. Não vou negar que já tenha cogitado a possibilidade de me matar. Só que toda vez que eu olhava para o criado-mudo ao meu lado e via a sua foto e a da última ultra-sonografia que ela havia feito, isso me dava esperanças. Esperanças de que ela ainda estava viva, de que precisava que eu lutasse para encontrá-la. precisava de mim e eu não iria decepcioná-la.
Levantei-me. Eu não poderia perder tempo me lamentando. Peguei um casaco atrás da porta e parti para a delegacia. Os policiais pareciam cansados de mim, mas era exatamente assim que eu queria que eles se sentissem: cansados. Enquanto não encontrassem a minha mulher, eu iria cansá-los.
No caminho até a delegacia, várias coisas passavam por minha cabeça. Alguma idéia deveria me ajudar, algo deve ter escapado à minha atenção, alguma coisa importante... Eu sabia disso. Alguma coisa naquela mulher que havia chegado à delegacia... Eu não sabia ao certo, mas havia alguma coisa faltando naquele quebra-cabeça infeliz.
A falta de paciência dos policiais ao me ver ali era evidente. Eles já estavam impacientes com a minha insistência, mas com certeza, se estivessem no meu lugar, fariam o mesmo que eu ou talvez até pior.
- E então... Por onde começaremos a busca hoje? - apoiei-me no balcão da entrada e os dois policiais, que estavam ali sempre, olharam-me cabisbaixos até.
- Desculpe, senhor . Não haverá buscas – encarei-os assustado.
- Como assim não haverá buscas? Vocês estão brincando. Não é? – minha voz exaltada demonstrava o meu nervosismo e eu não conseguia, e nem ao menos queria, controlá-lo.
- Infelizmente não, senhor. Devivo ao estado em que aquela mulher chegou aqui, acredita-se que todas as mulheres que desapareceram já estejam mortas ou muito piores do que aquela senhora. Então o chefe decretou que encerrássemos as buscas e começássemos a trabalhar em outros casos que podem ser solucionados - um gosto amargo dominou a minha boca e eu percebi que era sangue. Eu estava mordendo com tanta força o meu lábio inferior que o mesmo sangrou.
- QUE TIPO DE MERDA DE BRINCADEIRA É ESSA QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO?! – urrei, ameaçando partir para cima dos policiais - COMO ASSIM O CASO DA MINHA MULHER NÃO É MAIS IMPORTANTE?! COMO ASSIM O CASO DELA NÃO PODE SER SOLUCIONADO?! – as lágrimas já escorriam por meus olhos. Nem ao menos a droga da polícia acreditava mais no caso.
- Senhor, por favor, acalme-se. Não estamos dizendo que vamos parar de procurar. Apenas que não procuraremos todos os dias como antes. Se encontrarmos mais pistas, voltaremos às buscas diárias. Porém não podemos procurar por coisas que não existem, coisas no escuro - a forma calma com que o policial falava estava me deixando completamente enraivecido. As minhas mãos já bagunçavam e puxavam o meu cabelo, denunciando o meu nervosismo – Desculpe-me, senhor. Não podemos fazer nada - dito isso, ele voltou para a sua sala junto com o outro.
Ali, no hall da delegacia, vi toda a minha esperança ir embora. Eu jamais encontraria .

Capítulo vinte e três

's POV

Estava decidido: eu não iria mais suportar aquela dor. Aquilo era forte demais para mim, muito pesado para que eu pudesse agüentar.
Entrei em casa, observando todas as coisas que ela havia feito. Tudo naquela casa tinha o toque de . Tudo ali se parecia com ela. Peguei um porta-retratos com uma foto. A nossa primeira foto de casados. estava radiante em seu vestido de noiva e o sorriso que estampava os nossos rostos estavam repletos de amor, repletos de paixão. Toquei seu rosto com delicadeza na foto, desejando que pudesse tocá-la de verdade.
Subi as escadas para o nosso quarto, ainda observando como ela fora cuidadosa ao decorar a nossa casa. As lágrimas já desciam sem controle por meu rosto e os meus soluços ocupavam o ambiente.
- Como eu queria que você estivesse aqui agora, meu amor - falei para a foto, desejando que, onde quer que ela estivesse, a mulher sentisse aquilo, sentisse o amor que eu sentia por ela – Por que você foi atender àquele maldito telefone? Por que a deixei sozinha? Por quê, ? Por quê? - entrei em nosso quarto e deixei o porta-retratos em cima da cama, no lugar que pertencia a ela.
Caminhei até o cofre. O objeto prata reluziu e o peguei entre os dedos com firmeza, verificando que estava com munição. Deitei-me em nossa cama, abraçando o seu travesseiro. Respirei fundo, tentando inalar todo o seu cheiro para mim, tentando suprir a sua falta, mas aquilo não adiantava. O telefone começou a tocar, porém eu não atenderia. Não queria falar nada com ninguém naquele momento. Eu morreria em paz e deixaria aquele sofrimento de lado.
Destravei a arma e apertei mais o travesseiro.
- Perdoe-me, meu amor, mas não consigo mais. Não consigo mais ser forte. Não agüento mais essa dor maldita. Perdoe-me, . Não posso mais suportar isso nem por um segundo - abri a boca pronto para atirar quando a mensagem da secretária eletrônica começou a falar e pude novamente ouvir a sua voz por uma última vez. Nós riamos enquanto gravávamos a mensagem.
"Oi. Você ligou para a casa dos ...". A sua voz invadiu o ambiente. "Para ...", ela murmurou, rindo, e a cena daquele dia veio à minha mente... A forma com que ela tentava me empurrar sem força alguma. "Deixe o recado e retornaremos...". Sorri de lado com a lembrança da melhor coisa que havia acontecido em minha vida, com a lembrança da mulher que amo, da mulher pela qual eu estava prestes a me matar. "Juro que se continuar a me morder vou beliscar você...". Ela ria e novamente a cena se projetou em minha mente. Eu dava pequenas mordiscadas em seu pescoço enquanto ela tentava gravar a mensagem da caixa eletrônica. A mesma sempre dizia que ia trocar, mas eu nunca deixava. Fechei os olhos. Agora seria a hora.
- Senhor , aqui é da delegacia de polícia e nós ligamos para informar que a senhora Elizabeth acordou. Temos pistas sobre o caso da sua esposa. Por favor, retorne quando possível.

Capítulo vinte e quatro

’s POV

Meu coração chegou a congelar por alguns minutos. Eu mal podia acreditar naquela ligação. Dei um salto da cama, mas já era tarde para atender. O policial havia desligado. Coloquei a primeira roupa quente que vi e saí correndo para o hospital. Para que perder tempo ligando se eu poderia ir diretamente até lá e ficar por dentro de tudo o que estava acontecendo? Eu estava tão ansioso que as minhas mãos suadas escorregavam pelo volante do carro. Não sei ao certo quanto tempo levei, mas cheguei mais rápido do que esperava ao hospital.
- Bom dia, senhor. Em que posso ajudá-lo? – a recepcionista exibiu o seu melhor sorriso, olhando-me de cima abaixo.
- Eu gostaria de ver a paciente Elizabeth – tentei ser o mais simpático possível. Acredito que não tenha funcionado muito, já que a minha voz soou um tanto quanto desesperada. A mulher me indicou o andar para o qual eu deveria ir.
Ao chegar lá não foi uma surpresa encontrar dois policiais parados na porta do quarto. Tentei entrar sem dar satisfações ou falar com eles, porém fui barrado
- Senhor, o delegado está fazendo perguntas à paciente. No momento não pode falar com ela – bufei frustrado. Por que motivo imbecil eu não poderia entrar para ouvir o depoimento dela, para ouvir as perguntas que o delegado estava fazendo?
Sentei-me em uma cadeira que ficava ao no corredor e de frente para a porta do quarto. Cada segundo parecia horas, horas lentas e torturantes que não queriam de forma alguma acabar. Quando o delegado abriu a porta, dei um salto da minha cadeira.
- E então, senhor delegado? O que o descobriu? – perguntei rapidamente sem ao menos dar tempo de o homem me cumprimentar com um “boa noite”.
- Bem, conseguimos algumas informações que acreditamos ser muito boas. Vamos investigá-las e em breve entraremos em contato com o senhor! – olhei bravo para o homem. Como assim só aquilo?! Era só aquilo que ele tinha para me falar?
- Que tipo de informações? Quero saber de tudo, quero saber o que vai ser investigado, quero ajudar na investigação! Quero encontrar a minha mulher logo! – saí andando atrás do delegado pelos corredores do hospital e ele parecia nem ao menos se dar ao trabalho de me ouvir.
- Senhor, isso é um trabalho da policia. Já ajudou bastante até onde pôde. Prometemos que lhe daríamos informações sobre qualquer novidade no caso da sua esposa e fizemos isso. Agora pedimos para que o senhor espere o nosso próximo contato em casa, já que infelizmente não pode ajudar em nada.
- Então por que me chamaram aqui? - rebati irritado.
- Não o chamamos aqui. Pedimos para que retornasse a nossa ligação. Lamento se o senhor se precipitou, acreditando que vindo até aqui teria mais informações – o meu sangue fervia nas veias e eu tentava me controlar para não mandar aquele delegado imbecil à merda ou a lugares piores.
Saí do hospital bufando e o mais rápido possível. Minha mente divagava sobre as tais pistas. Algo dentro de mim dizia que alguma coisa boa iria acontecer em breve. Talvez fosse só a esperança de ter a minha esposa novamente... Eu esperava sinceramente que não.

's POV

O homem não demorou a sumir, deixando Holly ali agonizando. A tensão era tão grande que poderia ser cortada facilmente com uma faca. Joguei a cabeça para trás numa tentativa falha de pensar que as coisas dariam certo. A cada dia eu perdia mais as minhas esperanças. Não que eu não desejasse que chegasse a qualquer momento. Eu sabia que ele devia estar desesperado procurando por mim, mas sentia que o desespero dele não podia me salvar.
O rangido da porta me despertou dos pensamentos negativos que estava tendo.
- Muito bem. Uma mocinha aqui ganhou o direito de pedir qualquer coisa - o homem aproximou-se de Ully que não demorou a arregalar os olhos - Acalme-se, querida. Você não tem o que temer - ele riu – As suas companheiras que sim. Vamos. Quero saber qual é o seu desejo. Qual é o seu pedido?
- Eu... Eu quero que... Que... – o seu olhar vagava por todas na sala - Quero que você nos dê um prato de comida direita, água e direito a banho - o homem riu com escárnio do pedido da Ully.
- Oh, esqueci-me de que agora abri um hotel cinco estrelas - o homem revirou os olhos - Quero que me diga alguém e o que devo fazer com esse alguém - ele começou a andar pelo quarto, olhando para cada uma de nós, e apontou para mim - Será a ? - puxou-me pelo braço, fazendo com que me levantasse. Imediatamente as lágrimas escorreram por meus olhos.
- NÃO! NÃO É A ! - Ully gritou rapidamente, o que me fez sentir um pouco aliviada. Os dedos gelados do homem à minha frente tocaram minha face em forma de carinho.
- Viu, querida? Você já fez uma amiguinha - mal ele terminou a frase e pude sentir o meu corpo ser jogado contra o chão – Então, Ully... Não tenho todo o tempo do mundo - os passos daquele homem à minha frente me deixavam cada vez mais nervosa. Eu não tinha a mínima noção do que ele podia fazer. Não sabia se mudaria de idéia de repente e resolveria escolher a quem machucar. Temia por todas ali, temia por mim.
Olhei para as mulheres que dividiam aquele mesmo quarto comigo e pude ver no rosto de quase todas uma expressão de medo – medo de ser escolhida por Ully, medo do que poderia lhes acontecer. A única expressão tranqüila que eu vi foi a de Suzan e isso não me causou nenhum tipo de surpresa - SE NÃO ESCOLHER LOGO, ESCOLHO EU E LEVO VOCÊ JUNTO! ANDE! QUERO O NOME AGORA! - olhei na direção de onde vinha aquela voz que nos assombrava e o homem estava abaixado na frente de Ully, segurando-a pelos cabelos. - Suzan. Escolho a Suzan - Ully tremia e seus olhos vermelhos revelavam que ela estava prestes a chorar. Naquele momento senti pena. Mais pena da pobre Ully do que de Suzan que agora tinha uma expressão mista de deboche e raiva no rosto.
- Já que você está demorando de mais para me responder, vou levar a Suzan e escolherei o castigo que darei a ela. Não tenho tempo para perder com uma sentimentalzinha de merda - o homem soltou dos cabelos de Ully e caminhou até Suzan, soltando-a e a puxando pelo braço logo em seguida.
- Juro que quando eu voltar, sua vadia, vou fazer da sua vida um inferno - Suzan cuspiu as palavras de forma amedrontadora enquanto era puxada para fora do quarto.

Capítulo vinte e cinco

O homem saiu carregando Suzan para fora do quarto e, para nossa surpresa, ela não apareceu imediatamente no telão, o que fez com que todas naquela sala se entreolhassem. Suspirei pesado. Apesar de tudo o que me fez, eu não desejava mal a Suzan. Não aquele tipo de mal. Na realidade, não desejaria aquele sofrimento a ninguém.
O telão foi ligado repentinamente para nossa surpresa.
- Sabe... Enquanto vinha aqui para cima, tive uma idéia - o homem apareceu na tela - Já que a nossa amiga Suzan aqui aparentemente tem algum problema com a nossa amiga , que tal se a nossa viesse para cá para executar a sentença? - gelei e neguei rapidamente com a cabeça. Em menos de um segundo, o homem já estava dentro da sala - Não foi uma pergunta, , e sim uma ordem. Caso você desobedeça, tomará o lugar de Suzan - minhas pernas tremiam, tanto pelo contato, quanto pelo nervoso do que aquela mente perversa poderia me pedir.
Respirei fundo enquanto o homem me soltava e me carregava até o quartinho. Assim que adentrei o mesmo, Suzan estava deitada em uma espécie de maca e completamente imobilizada. Olhei-a com pesar.
- Ah, não acredito que você está com pena dela, - a voz do homem soou debochada, mais debochada do que nunca, e eu assenti.
- NÃO PRECISO DA SUA PENA, VADIA! - a risada do homem ecoou pelo ambiente depois do protesto de Suzan. Respirei fundo, negando com a cabeça.
- Bem, querida, já viu que a nossa amiga não quer pena, né? - eu sentia a tontura dominar o meu corpo a cada palavra ou risada daquele homem - Então essa é a sua mesa de materiais - ele apontou uma bandeja que continha diversos bisturis. Alguns enferrujados, outros aparentemente novos - A idéia aqui é apenas machucar e não matar. Ok? - ele disse calmo, como se explicasse as regras de um jogo. Deu-me um beijo na testa e se sentou em uma poltrona ao canto.
Olhei para a porta, pensando se conseguiria fugir dali. Por mais que eu não gostasse de Suzan e soubesse que isso era recíproco, eu não queria sujar minhas mãos com o sangue dela, não queria fazer mal àquela mulher, mesmo sabendo que ela faria aquilo comigo com o maior prazer do mundo. Eu não era o mesmo tipo de pessoa que ela.
Ouvi a risada de Suzan. Uma risada de vitória.
- Eu sabia... Eu sabia que você não seria capaz, - ela ria - Por isso escolhi você para vir para cá, para me torturar. Eu sempre soube o quão fraca você era com toda aquela história de mamãe abandonada pelo papai. Você nunca foi forte e usava essa desculpinha, de que tinha que cuidar da mamãe doente, para se fazer de santa. Na verdade, você não é corajosa. O ato mais corajoso que você teve até hoje foi roubar o meu homem e tenho quase certeza absoluta que em grande parte isso foi trabalho dele. Com certeza ele ficou com pena de você, com pena da pobre sem pai, da pobre indefesa, da pobre que não pode fazer nada por si mesma, da coitadinha da que não mata nem uma formiga! - mais uma risada de deboche - Por isso, ... Por isso vou sair daqui intacta e você vai tomar o meu lugar... Você merece sofrer, pois não passa de uma burra! - apertei os olhos com as lembranças dolorosas que Suzan me trazia. Coisas que compartilhei com ela no auge da nossa amizade, coisas que pensei que essa mulher nunca diria a ninguém.
Respirei fundo e sequei a lágrima solitária que correu por minha face. Se era isso o que Suzan queria, é o que ela teria. Peguei um dos pequenos bisturis que estavam dispostos sobre a bandeja. A minha mão estava trêmula e eu não sabia direito o que fazer. Direcionei o objeto prateado que reluzia em minhas mãos ao braço de Suzan. Ao encostar o objeto à sua pele, pensei se era realmente aquilo o que eu queria. Claro que não. Eu não queria machucar ninguém. Queria apenas sair daquele maldito lugar... Mas, ao ouvir mais uma risada de deboche vindo dos lábios de Suzan, aquele pensamento saiu da minha cabeça.
Quando fiz o primeiro corte em sua pele, vi que sua expressão facial mudou de debochada para amedrontada. Suzan apertava os olhos e tentava não gritar a cada corte que eu fazia em sua pele. As minhas mãos ainda tremiam descontroladamente quando o homem se levantou da poltrona com um ar divertido.
- querida, vê-se de longe quão inexperiente você é, mas não se preocupe. Vou lhe dar uma ajudinha - então o homem segurou em minha mão e, ao invés de cortes, ele fazia “recortes”, arrancando pedaços da pele e carne de Suzan que já não tentava mais esconder a dor e se esgoelava - Continue assim. Não tenha dó dela, pois não terei de você se perceber que está com peninha - ele soltou minha mão e voltou a se sentar na poltrona.
Continuei com o "trabalho" que me fora designado. As lágrimas pediam para escorrer por meu rosto, porém eu tentava controlá-las com tudo. Não sei ao certo quanto tempo passei fazendo aqueles malditos cortes na pele de Suzan, mas, quando o chão já estava ensopado já havia alguns pedaços que considerei suficientes de sua pele no chão, parei.
- Acho que está bom - o homem riu e se levantou. Analisou Suzan como se observasse se o meu trabalho estava bem feito - Meus parabéns, . Acho que trarei você para ser minha ajudante. Que tal? - abaixei a cabeça enquanto o homem mexia em uma espécie de armário - Só acho que agora você tem que limpar os ferimentos para que eles não infeccionem - dito isso, estendeu uma garrafa de álcool e senti um arrepio na espinha. No fundo no fundo, eu havia odiado fazer tudo aquilo. Por mais que Suzan tenha me feito muito mal, por mais que ela debochasse de mim, eu ainda guardava lembranças da época em que éramos amigas, apesar de não assumir isso.
Com as mãos trêmulas, abri a garrafa de álcool e fui despejando aos poucos em cima dos machucados, enquanto mais gritos ensurdecedores preenchiam o ambiente.

Capítulo vinte e seis

Larguei a garrafa de álcool assim que a mesma estava vazia. As lágrimas molhavam o meu rosto e eu não tinha coragem de olhar para nada além do chão. Permaneci ali estática. Eu mal acreditava no que tinha acabado de fazer. Com certeza, jamais acreditaria se alguém algum dia me dissesse algo do gênero.
Eu conseguia ouvir passos na sala, mas não tinha controle sobre o meu corpo para fazê-lo se movimentar. Senti uma mão gelada envolver o meu pulso enquanto me puxava. Supus rapidamente que fosse aquele maldito homem me levando de volta para aquela sala onde costumávamos ficar. - Muito bem. Fico espantado com como você conseguiu se sair tão bem - a mão do homem acariciava o meu rosto. Olhei ao redor e não estava naquela sala cercada de mulheres - Querida, sei que você sofre pela perda do seu bebê. Sei disso. Porém podemos fazer outro. Já lhe prometi isso - arregalei os olhos, não entendendo aonde ele queria chegar - Sei que você não quer tirar o seu daí de dentro, então vamos fabricar o nosso mesmo assim. Que tal? Aí ele já terá um bom espaço para ele ficar. Não ficará apertado - engoli em seco quando senti as mãos daquele homem novamente em meus seios - Espero que seja boazinha dessa vez. Não quero ter que bater em você - sua voz doce e calma me deixava cada vez mais nervosa e enojada. Tudo o que eu havia feito com Suzan se passava por minha cabeça.
As duas mãos do homem foram em direção à minha calcinha, fazendo-me encolher as pernas. Empurrei as suas mãos com toda a força que eu tinha que, apesar de não ser muita, distanciou-o.
- Ok então. Você que escolheu isso - uma de suas mãos puxou a minha com força, prendendo-a à cabeceira da cama e fazendo o mesmo com a outra antes que eu pudesse protestar - Você tem que entender... Você é minha. Só minha - os dentes do homem mordiscaram o meu lábio inferior e aquilo me provocou uma ânsia ainda maior.
Com o canto dos olhos, pude vê-lo retirando a sua calça e cueca de uma vez. O membro ainda não estava suficientemente duro para que ele pudesse agir, então o mesmo se sentou na beirada da cama e puxou a minha calcinha de uma só vez. O seu olhar deslumbrado na minha intimidade me fez sentir um arrepio ruim. Uma de suas mãos a tocou, trazendo um flash da ultima vez que eu havia estado naquele quarto.
- Espero que hoje você fique molhada, porque, caso contrário, vou a seco - duas lágrimas escorreram por meu rosto quando o homem subiu em mim. Ele fazia movimentos de vai-e-vem, esfregando o membro em minha coxa, enquanto seus os lábios sugavam os meus seios com força, fazendo-me sentir dor, mais do que da última vez. Eu soltava gemidos de dor, nojo, tristeza, medo. Todos os sentimentos se confundiam em minha cabeça, cada um me mandando fazer uma coisa diferente.
Um grito escapou de meus lábios assim que senti aquele homem imundo dentro de mim. Eu tentava não chorar e não gritar, mas era impossível. Eu só rezava para que aquilo acabasse logo, com os olhos o mais fechados possível, pensando que, assim que eu os abrisse, acordaria daquele maldito pesadelo e estaria livre. Eu esperava por aquilo mais do que tudo, porém não foi o que aconteceu.
Senti o peso do corpo do homem saindo de cima do meu e abri os olhos para vê-lo com um olhar de fascínio e felicidade sobre mim enquanto vestia as suas calças. Os soluços não paravam de escapar de meus lábios. Eu me sentia imunda, podre por dentro.
- Fique calma, querida. Tenho certeza de que o nosso bebê vai ser lindo - uma de suas mãos acariciou o meu rosto, fazendo-me fechar os olhos novamente - Para você ver como é a minha preferida, agora ficará aqui, nesse quarto inteirinho só para você. Não é maravilhoso? - olhei ao redor. Havia a cama em que eu estava deitada, uma cadeira de balanço, uma pequena escrivaninha e um banheiro pequeno e sujo - Posso até providenciar uma pequena limpeza. Que tal? - eu não sabia o que estava acontecendo. Não entendia o motivo daquela mudança de comportamento. Não entendia o motivo de eu estar sendo tão "bem tratada", se é que eu poderia dizer aquilo. Algo estava estranho e eu queria entender o que era.
O homem saiu do quarto, deixando-me ali, presa e imersa em meus pensamentos. Não sei quanto tempo fiquei lá, mas acredito que tenha levado mais do que duas horas até que o homem abrisse novamente a porta do quarto com um balde e materiais de limpeza nas mãos.
- Vim limpar o quarto e o banheiro para a futura mãe do meu filho - o sorriso em seu rosto era doentio e eu sentia que algo, ruim ou não, estava para acontecer.

's POV

Elisabeth havia acordado há dois dias e eu ainda não havia obtido "permissão" para entrar em seu quarto. A polícia também colaborava com a operação “não vamos dar nenhuma informação para ele”.
Estava novamente no hospital, sentado na cadeira que ficava ao lado da porta do quarto de Elisabeth. Por via das dúvidas, havia resolvido acampar ali. Afinal de contas, e se o maldito serial killer tivesse descoberto que uma de suas "vítimas" havia sobrevivido e estava prestes a contar pistas preciosas sobre a sua localização? Eu realmente não confiava mais na polícia. Não como confiava antes.
O meu celular vibrou e dei um sorriso mínimo ao ver o nome “James” no identificador de chamadas.
- Pode falar - atendi diretamente. Sabia que James era um homem ocupado e não tinha tempo para rodeios.
- Precisamos nos encontrar - a voz grossa do homem me animou por instantes - Tenho ótimas informações para você a respeito daquela casa - soltei uma risada de alívio. Finalmente algo parecia estar dando certo – Sim. Encontrei pistas suficientes para que você consiga um mandato.

Capítulo vinte e sete

's POV

Pedi para que James viesse até o hospital o mais rápido possível, já que eu não sairia de lá por nada.
Não demorou mais de quarenta minutos para que o homem alto e de aparência séria chegasse a mim no hospital. Ele carregava uma mala preta em mãos. Abriu-a e logo puxou um envelope pardo de dentro. E, tão rápido quanto entrou, saiu sem nenhuma palavra. Era disso que eu gostava no serviço do James. Ele era silencioso, rápido e não se intrometia nos meus assuntos.
Abri o envelope com os dedos trêmulos. Na realidade, eu estava ansioso, mas temia pelo que poderia encontrar ali. Puxei um bloco grosso de folhas que descobri serem fotos. No começo, apenas fotografias daquela casa – aquela que ficou na minha cabeça por todos esses dias –, daquele maldito homem de cabelos ruivos e olhos verdes perversos, e depois fotos do muro de trás da casa. Logo em seguida, outra por cima do muro – a foto que me deixou apavorado e com uma ânsia de vômito além do comum. Havia cadáveres ali apodrecendo. Foi inevitável olhar atentamente para aquelas mulheres para ver se eu não encontrava a minha .

's POV

Assim que terminou de limpar o quarto, o homem saiu do mesmo, voltando segundos depois.
- Vou soltá-la, mas lhe dou um aviso, . Não tente se machucar e muito menos o nosso filho. Se fizer isso, pode ter certeza de que vai se arrepender amargamente – a sua voz era séria enquanto ele soltava os meus pulsos e tornozelos das correntes em que anteriormente eles estavam presos. Apenas me mantive quieta. Senti um objeto metálico envolvendo o meu tornozelo novamente e não me surpreendi ao ver que era uma algema com uma grande corrente que me permitia andar por todo o cômodo – Prontinho. Pode tomar banho se quiser. Tem toalha para você - respirei fundo, tentando controlar a vontade de gritar com aquele homem, de dizer novamente que era um doente mental. O que ele estava pensando? Que eu era sua hospede? Que aquilo aliviaria tudo o que ele já me havia feito passar?
Apenas assenti com a cabeça e o homem logo saiu do quarto comentando algo sobre o que faria para o jantar. Levantei-me lentamente, olhando para aquele quarto. Respirei fundo e o cheiro de desinfetante barato atingiu as minhas narinas, trazendo junto com ele um enjôo que fez com que eu corresse rapidamente para o banheiro.


's POV

Levantei-me da cadeira em que estava sentado, pronto para ir à delegacia entregar as fotos para os policiais, quando vi o delegado caminhando em minha direção.
- Bom dia, senhor delegado - sim, eu havia realmente pegado algum tipo de nojo daquele homem e não conseguia me dirigir ao mesmo sem utilizar do bom e velho sarcasmo. - Alguma pista sobre o caso da minha esposa? Elisabeth forneceu alguma informação importante? - sorri sem mostrar os dentes
- Senhor , conseguimos informações o suficiente para seguir com a nossa investigação, porém por enquanto a senhora Elisabeth está com a memória um tanto quanto debilitada e não pode nos ajudar muito – o seu tom de voz era profissional e ele não mostrava nenhum tipo de pesar por estar sendo tão incompetente.
- Vê-se de longe que a sua equipe não é tão competente como haviam me dito antes. Não é? - o meu nível de deboche era máximo.
- Estamos fazendo o que está ao nosso alcance. Se o senhor não entende isso, infelizmente não posso fazer nada - o tom de voz do delegado que antes era profissional e calmo agora havia passado para irritado.
- É exatamente disso que estou falando. Nem o senhor e nem a sua equipe podem fazer nada, porque são um bando de incompetentes - interrompi antes que o delegado pudesse começar a falar e joguei um bolo de fotos nas mãos dele - Mesmo sendo um mero civil e passando vinte e quatro horas por dia nesse hospital para assegurar que nenhuma nova falta de competência do seu pessoal prejudicasse o caso, consegui provas. Provas o suficiente para ir ao local onde EU desconfiei que a minha esposa está desde o princípio, mas um dos seus policiais ameaçou parar as buscas caso eu insistisse. Irônico, não? Espero que agora que já entreguei o material todo pronto em sua mão, o senhor tome alguma atitude, porque é isso o que estou indo fazer agora - a passos largos caminhei para fora do hospital enquanto ouvia o aquele delegado de merda chamar o meu nome.

Capítulo vinte e oito

Olhei para o chuveiro e eu nem ao menos lembrava há quantos dias eu não tomava banho. Sentia o meu corpo pedir por aquilo. Timidamente entrei no espaço do box e girei o registro, sentindo a água quente tocar minha pele. Um arrepio correu por todo o meu corpo. Senti lágrimas escorrendo. Há quantos dias eu deveria estar aqui?
O sabonete fazia bolhas cheirosas por todo o meu corpo, mas isso não me fazia sentir menos suja. Suja por ter visto todas aquelas mortes, suja por ter perdido o meu bebê, suja por ter feito o que havia acabado de fazer com Suzan, suja por ter sido violentada. Eu era suja. Simplesmente isso: suja. E, no fundo, eu sabia que merecia todo aquele sofrimento pelo qual estava passando. Eu havia roubado o marido da minha melhor amiga e ela tinha perdido o seu bebê por isso. Nunca fui boa como pensava que era. Eu não merecia a vida que tinha ao lado de . Apesar de amá-lo com todas as forças, eu sabia que minha atitude havia sido errada.
Ouvi a porta do quarto ser aberta e rapidamente fechei o registro da água, enrolando-me na toalha que estava pendurada ali.
- Não seja tola, . Não há nada aí que eu não tenha visto - o homem soltou um risinho - Trouxe sua comida: uma sopa de ervilha - assenti com a cabeça – Bem, estou um pouco ocupado lá embaixo, então provavelmente não subirei novamente - assenti novamente com a cabeça. O homem se aproximou e me beijou na testa, fazendo o meu corpo inteiro tremer de medo.

Killer’s POV

Desci as escadas para o porão. A minha cabeça borbulhava. Eu sabia que eles estavam se aproximando. Sabia muito bem que logo achariam essa casa, que tinha que fugir com daqui para o bem do bebê que com certeza havia sido gerado hoje depois de nossa relação.
Abri a porta do porão e aquelas mulheres desprezíveis arregalaram os olhos ao verem que eu não estava acompanhado de .
- Quanto espanto em me ver - ri debochadamente - Eu realmente não pretendia vir aqui agora, até porque estou realmente cansado, mas preciso andar um pouco com o processo de vocês. Sabe, ando tendo um bloqueio criativo muito grande, o que me faz demorar a pensar em como deveria matar todas vocês. Por isso, vou deixar um pouquinho da minha criatividade de lado e dar um jeito logo em algumas hoje - puxei o objeto prateado da parte de traz da calça e logo os gritos histéricos começaram - E amanhã me acerto com outra parte. Sabe como é, né? Tenho que ser rápido antes que consigam me descobrir - explicava tudo com calma.
Aproximei-me de Izzy que chorava e implorava por piedade. Ri sarcasticamente. Nenhuma daquelas mulheres merecia piedade. Disparei rapidamente contra a cabeça da mesma, que logo caiu no chão. July rezava e pedia perdão a Deus. Ainda bem que ela sabia que eu não iria perdoá-la. Rapidamente fiz outro disparo, deixando a mulher ainda com as mãos unidas. Katie apenas me encarava com curiosidade, como se eu fosse algum tipo de monstro a ser estudado. Ri baixo com esse pensamento, disparando contra ela também. Lori estava encolhida e abraçava os joelhos. De todas as que estavam ali, com certeza era a mais atraente. Pena que o que tinha de beleza tinha de podridão e sujeira. Mais um disparo. E finalmente mirei a arma para a última vitima do dia, Magareth, que apenas teve tempo de balbuciar um “por quê?” antes de receber o tiro.
As outras mulheres estavam histéricas e imploravam por piedade, pedindo para não serem as próximas. Óbvio que não seriam. Eu havia executado as cinco para poder matar as outras com mais diversão. Soltei uma risada e saí do cômodo rapidamente. Entrei em um dos quartos que eu mais havia gostado de criar, passei a mão em uma das lanças e sorri. Eu realmente era um cara criativo. Bati a porta e entrei no quarto da frente. Ainda faltava terminar a pintura e eu não podia deixar isso para depois. Algumas daquelas mulheres tinham que ser executadas ainda hoje. Peguei o balde de tinta e comecei a pintar os desenhos na parede.

Capítulo vinte e nove

Parei o carro a algumas esquinas daquela casa. Minha cabeça estava aérea. Sabia que tinha que entrar lá, sabia que a possibilidade de encontrar a minha esposa ali dentro era grande, mas a chance de encontrá-la morta, no meio de um daqueles corpos que vi na foto, me aterrorizava. Eu não sabia como reagir, caso a minha estivesse morta.
Respirei fundo, buscando o último resquício de coragem que ainda tinha dentro de mim. Olhei para o relógio que marcava quase duas horas da manhã. Saí do carro, colocando a mochila nas costas. Ali dentro havia tudo o que eu poderia precisar. Fui caminhando pela rua escura, fazendo o maior silêncio possível. Não queria anunciar a minha chegada. Quando avistei a casa, minhas pernas tremiam. Contornei a mesma, indo para os fundos. Olhei ao redor. Aparentemente, não havia nenhuma luz acesa.
Subi no muro e o cheiro forte de carne podre atingiu as minhas narinas. Peguei a lanterna e, assim que iluminei a área, percebi que os corpos das mulheres das fotos ainda estavam ali. As moscas faziam um barulho alto. Com a lanterna, eu focava o rosto de alguma delas, pedindo internamente para que não encontrasse a minha esposa. Havia muitos corpos – alguns mais decompostos do que outros, o que me fazia perder mais tempo olhando para elas.
Olhando por alto, não consegui encontrar e isso fazia meu peito encher de esperança. Avistei uma porta do outro lado do quintal. Era por ali que eu ia entrar.

Killer’s POV

Abri a porta do quarto e a encontrei ali, dormindo como um anjo, os cabelos loiros caindo pelo rosto. Sorri ternamente. Aquela mulher era minha e nada iria tirá-la de mim. Eu sabia, obviamente, que a polícia estava louca à procura dela, que seu marido, aquele merdinha, estava desesperado por ela, mas quem não estaria? A mulher era um anjo, e com aquele anjo eu teria um filho. Querendo ou não, agora a moça carregava uma semente minha dentro de seu ventre e esse bebê ela não iria perder, pois eu cuidaria disso pessoalmente. Nem que tivesse que mantê-la amarrada em uma cama durante toda a gravidez, esse bebê iria nascer.
Saí do quarto sem fazer barulho. Eu não queria acordá-la. Dormir bem era uma das coisas necessárias para que o nosso bebê ficasse bem. Liguei a TV da sala de visitas. A notícia fez meus olhos arregalarem.

“POLÍCIA DESCOBRE NOVAS PISTAS NO SUMIÇO DE !”

Droga, droga. Mil vezes droga. Isso não podia acontecer de forma alguma.
Levantei-me num pulo da cadeira. Eu teria mesmo que terminar as execuções hoje e fugir com daqui. Desci as escadas correndo. Não daria muito tempo para a tinta secar, mas eu não podia me preocupar com isso agora. Peguei a pasta que continha os nomes das mulheres que restavam ali. Ainda sobravam onze e a minha intenção era de pôr apenas oito na brincadeira. Suzan ficaria de fora da rodada, pois estava se recuperando e não me traria diversão alguma. Talvez eu acabasse com ela de forma rápida.
Adentrei o cômodo, empurrando a porta com força, e logo os olhares assustados se dirigiram a mim. Aquilo era do que eu mais gostava: do medo, de saber que elas tremiam só com a minha presença. Porém, nenhuma daquelas mulheres tinha valor. Todas elas, sem exceção, haviam matado os filhos. E todas elas pagariam por isso. Agora.
- Natalie Lathiner, dezessete anos – falei em voz alta, fazendo com que a mesma me olhasse – Você, Natalie, fez um aborto porque o seu namoradinho não ia assumir o filho de vocês – um soluço alto escapou pela boca da garota, fazendo com que eu desse uma risada – Quanta falta de responsabilidade, querida. Não dão aula de educação sexual na escola? NÃO ENSINAM VOCÊS A USAR CAMISINHA?! – gritei, aproximando-me da garota que tentava ao máximo se afastar de mim, encolhendo-se contra a parede – NA HORA DE FAZER O FILHO, É MUITO FÁCIL, NÃO?! Pois se prepare e vá rezando bastante, porque seus minutos estão contados. Olivia Fenix – dei uma risada quando a mesma me encarou – Merece o prêmio de mamãe descuidada do ano – a mulher que me olhava com os olhos sérios aos poucos foi murchando – Você não aprendeu a olhar o retrovisor na hora de dar ré, mamãe? – o deboche saía involuntariamente por meus lábios – Pois bem, em poucos minutos, vai estar ao lado do seu filho. Isso se ele quiser falar com você.
- Você não sabe do que está falando – a voz fina e estridente da mulher atingiu os meus ouvidos – VOCÊ NÃO PODE BRINCAR ASSIM COM A MINHA DOR! – revirei os olhos, ignorando-a – VOCÊ É UM MERDA! PROVAVELMENTE NÃO TEM NADA, FOI ABANDONADO PELA MERDA DA SUA MÃE E CRESCEU ASSIM, COMPLEXADO! POR ISSO ESTÁ FAZENDO AS COISAS QUE FAZ! POR QUE VOCÊ NÃO FAZ UM FILHO?! – dessa vez, quem riu com deboche foi a mulher – VOCÊ NÃO DEVE PODER, NÉ?! – respirei fundo, tentando me controlar para não acabar com a moça ali, rápido demais, sem sofrimento nenhum, pois assim seria muito mais fácil para ela do que como eu estava pensando.
- Sabe, você disse várias coisas e alguma delas podem ser verdades... Mas a maior verdade de todas é que não me importo com nada do que disse – minha mão avançou contra a face da mulher, atingindo-a em cheio – Pamela, Queen e Rose, vocês, hein? Não foram capazes nem de se cuidar no início da gravidez. Não são capazes ao menos de segurar um bebê na barriga.
- E você acha que sabe como é? Acha que sabe como nos sentimos sobre isso? – Rose falou. A voz não era alterada e o choro fazia a mesma parecer acabada. Aproximei-me da garota, que parecia não ter medo de mim – Você não sabe como é a alegria de saber que vai ser mãe e então perder tudo! – sua voz se alterou – Perder a esperança de ver a criança em seus braços, de ouvi-la falar “mamãe”, de vê-la sorrindo ao chegar a casa... Você não sabe como é olhar o quarto que seria do seu filho e vê-lo vazio, como um mero escritório.
- Bem, se vocês tivessem se cuidado, nada disso teria acontecido – levantei-me, olhando novamente para a pasta – Suzan, você fica para depois, querida – ouvi apenas um resmungo em resposta – Taylor, achou que não seria capaz de cuidar de um filho deficiente, não é? – virei-me para a mulher que estava ao lado de Suzan, sua expressão em choque, nervosa demais para responder alguma coisa – Sabe, ninguém tem uma cruz maior do que a que pode segurar – assenti – E você rejeitou a sua cruz. Por isso agora está pegando o peso dobrado: para aprender que nem tudo é tão simples assim. Hum... Ully, você é um caso interessante – ri – Uma babá deveria cuidar dos filhos das pessoas, não é? E não matá-los. Porque você era PAGA para tratar bem o filho da nossa amiga Victoria aqui, e não esquecê-lo por um minuto na banheira. Vocês duas são um lixo de pessoa. Você, Victoria, por não poder cuidar do seu filho e precisar de uma babá para isso – apontei para a mulher que soluçava alto – E você, Ully, por ser tão incompetente a ponto de não pensar que uma criança de três anos não pode ficar sozinha em uma banheira, enquanto você atende o telefone – fui até o canto do quarto e peguei uma corrente específica para essa situação. Ajoelhei-me em frente de cada uma delas, prendendo as suas “coleiras” de metal no objeto e algemando suas mãos para trás. Soltei-as da parede e puxei a corrente, fazendo com que todas andassem em direção à porta. Passamos por todo o corredor e só o que eu ouvia eram soluços e súplicas. E aquilo só me motivava cada vez mais.
Abri mais uma porta e fui soltando-as uma a uma, empurrando-as para dentro.
- Bem, quatro de vocês sairão vivas dessa sala – apertei o botão do interfone ao lado da parede, fazendo minha voz soar alto dentro da sala – Aquela porta, no final da sala, é a saída de vocês. Boa sorte.

Rose’s POV

Assim que ele terminou de falar, as luzes da sala se acenderam, deixando-nos ver o lugar em que estávamos. As paredes laterais eram revestidas por lanças de ferro grossas. Engoli em seco. Parecia fácil chegar até a porta, se o caminho por elas não fosse feito de lâminas. Apertei os olhos. Eu queria sobreviver. Eu... Tentaria sair daquele lugar de qualquer forma.
Respirei fundo, tomando coragem, e de forma rápida coloquei o primeiro pé na lâmina. Um grito escapou por meus lábios e percebi que, assim que coloquei o pé ali, as paredes começaram a se fechar. As outras ao meu redor estavam tão apavoradas quanto eu. O desespero tomava conta dos nossos olhares e as nossas súplicas giravam em torno de perdão, ou um pedido de ajuda, mas nós sabíamos que ele não viria. Corri o mais rápido que conseguia, tentando não pensar na dor. O corredor era um tanto quanto longo e as lanças pareciam tirar pedaços de carne dos meus pés. Eu não duvidava que isso estivesse acontecendo, porém não era hora pra me preocupar com isso.
Abri a porta, dando em outro ambiente escuro. Sentei-me no canto. Naquele momento, permiti-me chorar novamente. Agora de dor. A porta foi aberta mais três vezes e então houve um barulho alto, das duas paredes se chocando. Eu não entendia o porquê, mas não sentia como se fosse sair dali. Não sentia que aquilo já tinha acabado.
Mal tive tempo de completar meu raciocínio, pois as luzes da sala em que estávamos foi acesa, revelando que Ully, Olivia e Pamela estavam comigo na sala. As paredes eram pretas, com labaredas de fogo pintadas nas mesmas. Meu Deus, ele ia nos matar queimadas. Não havia saída. Não conseguiríamos sobreviver e, pelos soluços altos que escapavam das bocas das mulheres ao meu lado, eu sabia que elas também já haviam percebido. Havia outra porta no final da sala. Mesmo com dor, levantei-me, indo até a mesma. Ouvi um grito vindo de trás e me virei para ver. Uma chama saía da do piso. Comecei a forçar a porta de todas as formas possíveis, contudo ela não abria de jeito nenhum. Os gritos e murros não adiantavam de nada. Senti um forte ardor no braço e a última coisa que vi foi uma das labaredas saindo de baixo dos meus pés.

’s POV

Ao longe, eu conseguia ouvir gritos desesperados. Meu coração batia tão rápido que sentia como se ele fosse sair pela minha boca a qualquer momento. Girei a maçaneta da porta e a mesma não abriu. Ok, isso era óbvio. Que tipo de assassino em série deixaria uma porta destrancada? Abaixei-me ali, enquanto olhava dentro da mochila, à procura de algo que me ajudasse a abrir a maldita porta. Os gritos eram cada vez mais altos e isso me deixava mais nervoso, só de pensar que um daqueles berros poderia ser o da minha mulher.
A pistola fez certo peso em minha mão. Verifiquei se o silenciador estava no lugar correto e, rápida e silenciosamente, acertei a maçaneta. A cena que veio a seguir nunca havia sequer passado por minha cabeça em hipótese alguma. Três mulheres estavam presas por uma corrente no pescoço, todas elas de roupas intimas. Assim que adentrei a sala, todos os olhares se viraram para mim. Suzan estava ali. Arregalei os olhos.
- O que está acontecendo aqui? – minha voz saiu esganiçada. O meu psicológico não estava preparado para aquilo.
- Por favor, ajude a gente – uma das mulheres falou um pouco alto demais, fazendo com que eu me virasse rapidamente para ela e colocasse o dedo indicador sobre os seus lábios, emitindo um “shhh” – Estamos presas aqui há dias. Por favor, não deixe a gente aqui. Por favor – aproximei-me da parede, onde a corrente delas ficava presa, e tentei forçá-la para soltar a mulher, mas ela era aparentemente forte demais. Suspirei pesado
- Tudo bem. Vou ajudar vocês. Só preciso saber... Saber se tem alguma aqui – tentava me manter calmo, enquanto discava o número da polícia em meu telefone. Eu estava lá dentro. Nem que fosse para me prenderem por invasão a domicílio, eles teriam que comparecer.
- Sim, ele s levou hoje mais cedo e não voltou – a outra mulher se pronunciou. Naquele momento, várias coisas se passavam por minha cabeça
- E o que isso quer dizer? – minha voz saía estrangulada só de pensar que eu poderia ter perdido a minha mulher por causa de algumas horas. Isso me matava.
- Eu não sei, mas quando as garotas não voltam... Elas geralmente estão mortas – as lágrimas rapidamente escorreram por meu rosto – Porém, não tenho certeza. Não tenho – eu já não raciocinava direito àquela hora. Havia chances de que a minha esposa não estivesse mais viva e isso me devastava completamente.
A atendente da polícia no telefone me despertou dos meus devaneios. Passei rapidamente as coordenadas. Eu já estava desacreditado, quando Suzan se movimentou. Os seus olhos me queimaram de cima a baixo.
- Sabia que foi ela quem fez isso comigo? – Suzan apontou os machucados em seu corpo. Não, eu não acreditaria nunca que a minha poderia fazer aquilo com alguém. Principalmente com Suzan, que era tão sua amiga – Ela não está morta, . Bem, não estava assim que terminou comigo – um suspiro escapou pelos lábios de Suzan, como se essa decidisse ou não me contar sobre algo – Ele a levou da sala. Provavelmente a prendeu em outro lugar... – eu estava prestes a me virar para sair da sala em busca de , com a esperança renovada de que a encontraria viva, quando a porta dali se abriu. Aquele maldito, filho de uma puta me olhava com deboche e escárnio, a máscara preta cobrindo seu rosto, mas os olhos... Os olhos frios e maldosos de que eu me recordava muito bem de ter visto naquele dia, os olhos que reconheceria em qualquer lugar.
- O QUE VOCÊ FEZ COM A MINHA ESPOSA, SEU FILHO DA PUTA?! – levantei a mão que segurava a arma, apontando-a na direção do homem que ria com deboche – VAMOS! FALE-ME OU VOU MATAR VOCÊ! – minha mão tremia de raiva, nervoso e medo. Não medo dele. Medo do que o cara podia ter feito com a minha . Isso, sim.
- Sua esposa? Bem, agora ela é minha, MINHA MULHER! – o tom de voz logo demonstrou o quão desequilibrado aquele homem era – E você não vai tirá-la de mim. NÃO VAI! – o cara saiu correndo em minha direção e, antes que eu pudesse me defender ou apertar o gatilho, o mesmo já havia me acertado com o soco. A minha cabeça girava e eu estava um tanto quanto desnorteado, quando outro me atingiu, derrubando-me. Senti a arma caindo ao longe. Eu tinha que me levantar e sabia disso. Tinha que lutar, lutar pela minha esposa – Você não sabe ao menos brigar e está querendo uma mulher como aquela? Perdedor – ele falava próximo o suficiente para eu saber que estava a poucos passos de mim. Puxei uma de suas pernas, derrubando-o no chão, e rapidamente subi nele.
- Isso... É por tirar a minha esposa de mim – toda a força que existia em mim foi direcionada para o soco que acertei em sua face – Isso é por ser um maníaco psicótico – outro soco – Isso é por achar que pode ter uma mulher como a ao seu lado – outro soco – E esses são para descontar a minha raiva em você – eu falava em meio aos ataques. Minha mão sangrava e latejava, mas não parei até que o homem estivesse desacordado. Virei-me para as mulheres na sala e, ao contrário do que imaginava, elas não estavam horrorizadas, e sim gratas por eu ter feito aquilo.
Fucei o bolso da calça do homem no chão e encontrei um molho de chaves. Corri até Suzan e incrivelmente consegui abrir o cadeado rapidamente. Com a mesma chave, soltei as outras duas.
- Ok. Agora vocês duas ajudem a Suzan e saiam dessa casa. A polícia já está chegando – eu tentava passar calma para aquelas mulheres, porém ainda tinha que procurar .
Dei uma última olhada para as três mulheres ali presentes e saí correndo pela porta aberta. Um cheiro estranho de fumaça preenchia o lugar. Arregalei os olhos.
Merda. A casa estava pegando fogo.

Capítulo trinta

A fumaça branca logo tomou conta da casa toda. Eu corria pelos corredores e gritava desesperadamente. Precisava encontrar a minha mulher. Já tinha vasculhado todo o andar de baixo e agora corria pelos corredores do de cima. A visibilidade era quase nenhuma e eu não conseguia ouvir nenhum som. As lágrimas escorriam por meu rosto sem autorização. Lágrimas de medo. Medo de não conseguir encontrá-la a tempo. Medo de perder a minha mulher. Ainda mais agora, que eu estava tão perto.
- , AMOR! SE VOCÊ ESTÁ ME OUVINDO, GRITE! GRITE, MEU AMOR, POR FAVOR! – eu berrava, mas nada. Nenhum sinal.

’s POV

Eu estava ali, deitada naquela cama. As lágrimas novamente escorriam por meu rosto. Agora havia se tornado mais claro: eu não conseguiria sair dali. Não havia mais esperanças para mim. Mesmo sabendo que devia estar me procurando desesperadamente, como ele encontraria esse lugar? Aquele homem havia o despistado, despistado a policia naquele dia. Eles não voltariam a procurar aqui. Eu sentia que, em breve, meu marido aceitaria que estava viúvo e se esqueceria de mim. Arrumaria outra mulher e viveria feliz com ela, enquanto eu estaria ali, presa aquele homem, se não carregando um filho dele no ventre, e esse pensamento me assombrava.
Um cheiro estranho de queimado começou a preencher o quarto, fazendo com que eu abrisse os olhos. Uma fumaça branca passava pelo duto da ventilação. O que aquele maníaco estava fazendo agora? Levantei-me da cama o mais rápido que pude e tentei alcançar a porta, mas a corrente em meu pé não me deixava chegar até a mesma.
- , AMOR! SE VOCÊ ESTÁ ME OUVINDO, GRITE! GRITE, MEU AMOR, POR FAVOR! – era a voz dele, a voz do meu marido. E, por alguns segundos, cogitei estar tendo alucinações com fumaça branca e a voz do homem que eu amava, até que ouvi novamente seus gritos.
- EU ESTOU AQUI, ! ESTOU AQUI! – eu gritava o mais alto que podia, mas ele parecia não ouvir. Até que o vi ali, pelo quadrado de vidro que tinha na parede do quarto. Vi sua feição desesperada, vi as lágrimas que molhavam seu rosto, e sorri aliviada. – EU ESTOU AQUI, AMOR! ESTOU AQUI! – eu acenava desesperadamente, porém o homem passou direto. Não era possível. Como ele não havia me visto?
- ! – gritei novamente. A fumaça começava a me deixar um tanto quanto zonza, quando finalmente entendi. Aquilo era um vidro para mim, contudo para ele não deveria ser o mesmo. O cara não estava me vendo. Merda!
Olhei ao redor. Eu tinha que encontrar algo, qualquer coisa que pudesse quebrar aquela merda de vidro. Um globo de neve. Isso com certeza seria pesado para pelo menos fazer barulho o suficiente para chamar a atenção de .

’s POV

As sirenes gritavam no andar de baixo, indicando que a polícia já estava no local, mas eu não sairia dali sem a minha esposa. Virei-me para um espelho retangular que havia no corredor e a imagem que refletia ali era a de um homem desesperado, de um homem que já estava perdendo as esperanças de encontrar a mulher que amava. Encostei a cabeça ao mesmo, tentando pegar um pouco de fôlego. Aquela fumaça, além de dificultar a minha visão, me fazia tossir e reduzia o meu condicionamento físico. Respirei fundo. Eu precisava voltar a procurar por .
Já estava desencostando a cabeça do espelho, quando um barulho alto ecoou pelo corredor. Arregalei os olhos, olhando ao redor, tentando encontrar alguma coisa.
- , É VOCÊ?! – gritei novamente. Meu coração parecia querer explodir.
- Senhor – um homem todo vestido de amarelo e com uma máscara apareceu no corredor. – Eu sou o tenente Casey e o senhor precisa sair. Nós vamos continuar com as buscas – pude ler na vestimenta do homem que ele era um bombeiro.
- Não vou sair. Não vou sair dessa maldita casa sem a minha mulher nos braços – virei-me novamente em direção ao corredor. Eu entraria em todos os quartos de novo, gritaria por seu nome quantas vezes fosse preciso. Olhei mais uma vez para o espelho e pude ver que o mesmo estava trincado.
- Senhor, por favor... – a voz do bombeiro parecia ter virado apenas um zumbido em minha cabeça. Aquele espelho não estava trincado antes. Ou estava?
- AJUDE-ME A QUEBRAR ESSE ESPELHO! – gritei com o bombeiro que tentava me puxar pelo braço para me tirar do corredor. – VAMOS! ANDE! PEGUE ALGUMA DROGA DE FERRAMENTA! MINHA MULHER ESTÁ AÍ! - eu apontava desesperadamente para o espelho. Certamente parecia um louco e não tinha nenhuma credibilidade, mas isso não me importava. – ANDE! OU VOCÊ ARRUMA ALGO, OU EU VOU QUEBRAR COM A MÃO! – o tal tenente Casey pareceu despertar de um transe com o meu grito e, poucos segundos depois, surgiu com uma espécie de picareta. Bateu com a mesma contra o espelho e, assim que o mesmo se partiu em vários pedaços, eu a vi. Seus olhos molhados de lágrimas, e eu vi o sorriso em seu rosto. Eu havia a encontrado. Finalmente, eu havia encontrado a minha esposa.
-... – passei pelo vão retangular no meio da parede em coisa de meio segundo. Parecia ter mais fumaça ali dentro do que em todo o resto da casa. Abracei o corpo miúdo da minha esposa, mal acreditando que ela estava comigo novamente, mal acreditando que a tinha em meus braços.
-... Vamos, amor. Vamos sair daqui – quando eu ia puxá-la para sair do quarto, pude ver o metal prateado reluzente em seu tornozelo. – ELA ESTÁ PRESA! – gritei para o bombeiro que passou um rádio para outra pessoa, informando que precisaria de um material para cortar as correntes. – Amor... Amor, nem acredito – eu distribuía beijos por toda sua face. – Nós vamos sair daqui, princesa. Nós conseguimos. Você nunca mais vai ficar um segundo sozinha
- Eu... Você conseguiu. Você veio. Encontrou-me – a voz de parecia mais baixa que o normal. Ela abriu a boca, como se fosse dizer mais alguma palavra, e então seu corpo ficou mole em meus braços.
- NÃO...! NÃO, ! ACORDE...! ACORDE, AMOR, POR FAVOR! – os bombeiros entraram no quarto com uma serra elétrica e, depois disso, tudo aconteceu em uma questão de milésimos de segundos. Os bombeiros cortaram a corrente que prendia a perna de e a colocaram numa maca. Tudo começou a ficar embaçado e turvo. E então a escuridão também tomou conta de mim.

O cheiro forte de éter logo incomodou meu nariz. Abri os olhos rapidamente e me sentei na cama. Olhei para as minhas mãos e para a minha roupa e vi que não estava sonhando alguns segundos atrás. Assim que me sentei, a enfermeira entrou no quarto.
- Que bom que acordou, senhor – sua voz doce e angelical não me acalmou em nada.
- Cadê a minha esposa? – eu não estava me importando se estava sendo grosso ou algo do gênero.
- Acalme-se, por favor, senhor. O médico vai vir vê-lo e aí irá liberá-lo – bufei. Não sei por que eu esperava ser respondido objetivamente. Levantei-me da cama, empurrando a mulher vestida de branco para o lado, enquanto saía do que percebi ser a enfermaria do hospital.
- Eu quero saber onde está a minha esposa e quero saber isso imediatamente! – alterei a voz e logo um homem grisalho apareceu no meu campo de visão.
- Senhor , se continuar gritando, não vai conseguir nada – seu tom de voz sério fez com que eu respirasse fundo, tentando buscar paciência ou algo do gênero. Sem dizer mais uma palavra, o médico saiu da enfermaria e foi caminhando pelo corredor do hospital. A movimentação de policiais ali era intensa, mas eu nem ao menos ligava. Meu único objetivo era saber onde estava e qual era o seu estado de saúde.
O médico abriu uma porta que revelava um consultório bem equipado.
- Pode se sentar. Vou pegar a ficha da sua esposa e todos os dados referentes ao estado de saúde dela – sentei-me na cadeira em frente à mesa, um tanto quanto impaciente, enquanto o médico procurava pela pasta com o nome de e olhava os dados contidos nela. – Bem, sua esposa inalou muita fumaça. Está bastante desidratada e desnutrida, mas, apesar disso, ela e o bebê estão bem. Precisará ficar no hospital por alguns dias, apenas para termos a garantia de que vai ficar bem – um suspiro aliviado escapou por meus lábios.
- Eu quero vê-la. Em qual quarto ela está? Quero vê-la agora, por favor – levantei-me da cadeira, enquanto o médico assentia com a cabeça. Ele já havia percebido que não teria conversa e muito menos adiantaria tentar me convencer do contrário. Eu ficaria ao lado da minha esposa, cuidando dela pessoalmente.
- Por favor, não faça muito barulho. Apenas a deixe descansar – o médico alertou antes de apontar a porta com o dedo indicador. Concordei e girei a maçaneta lentamente. Uma fina fresta de luz entrava pela cortina e iluminava o quarto. Alívio era aquilo que eu sentia no momento. Alívio em saber que minha esposa e meu filho estavam bem e que todo aquele pesadelo havia terminado, tanto para como para mim.
Aproximei-me da cama o mais silenciosamente que pude e segurei a mão delicada da minha esposa. Com a outra, acariciei de leve seus cabelos. Vê-la dormindo me tranquilizava, porém eu não conseguia tirar da cabeça tudo o que poderia ter acontecido e tudo o que deve ter acontecido com ela durante esse tempo.
- ? – o tom de sua voz era tão baixo que mal passava de um sussurro. – Isso é mais um dos meus sonhos? – seus olhos buscavam os meus como um pedido de explicação e neguei com a cabeça.
- Acabou, meu amor. Acabou. Nós estamos juntos agora e nada vai nos separar – abaixei-me, depositando um beijo suave em sua testa. – Eu estou aqui e vou cuidar de você, e do nosso filho – no momento em que ouviu falar do nosso filho, as lágrimas escorreram por seus olhos.
- Não tem filho, . Não tem bebê. Eu perdi – sua voz saiu ainda mais baixa do que antes, fazendo com que eu arregalasse os olhos. O médico havia acabado de me garantir que o nosso bebê estava bem.
Apenas fiz que sim com a cabeça e continuei com o carinho em seus cabelos, murmurando um “Sh. Está tudo bem agora”, enquanto os soluços de preenchiam o quarto. Assim que eles cessaram e o choro diminuiu, soltei a mão e os cabelos de . Precisava falar com o médico, perguntar o que realmente estava acontecendo.
- Meu amor, olhe só: eu vou ali falar com o seu médico e já vou voltar. Ok? – fez que sim com a cabeça. Apressei-me pelo corredor, logo encontrando a porta do doutor Mark. Dei duas batidinhas na mesma e, sem esperar pela resposta, adentrei o consultório.
- Senhor , em que posso ajudá-lo? – doutor Mark se levantou da sua cadeira, olhando-me um pouco confuso. – Está sentindo algo? Sua esposa esta sentindo algo? - Não, senhor. Estamos bem, mas a minha esposa... Ela... Disse que perdeu o bebê – um suspiro pesado escapou por meus lábios. – E o senhor me disse que ele estava bem. Quero saber o que está acontecendo – a expressão confusa logo se instalou pela face do doutor Mark.
- O bebê da senhora está bem. Assim que ela chegou aqui, fizemos todo tipo de exame e constatamos que ele não corre risco – o médico pegou novamente a ficha de , como se fosse para confirmar o fato. – Sim, é o que está escrito aqui. Olhe – peguei a ficha que o médico estendia em minha direção e passei os olhos pela folha, como se entendesse algo que estava escrito ali.
- Mas por que ela está falando que perdeu o bebê, então? – devolvi a folha ao médico que logo a colocou no lugar.
- Não sei, mas vamos ao quarto da sua esposa e vou falar com ela.

’s POV

Acordar naquele quarto de hospital me assustou a princípio, mas, quando o vi ali, eu sabia que tudo estava bem. Sabia que o homem que eu amava estava comigo, sabia que estava a salvo. Porém, quando ele falou do nosso bebê com tanto ânimo, tanta felicidade, aqueles momentos logo voltaram à minha mente. E controlar as lágrimas foi impossível.
O rangido da porta abrindo fez com que eu olhasse para a mesma. Pude ver um homem de jaleco extremamente branco entrar acompanhado por no quarto.
- Boa noite, senhora . Eu sou o doutor Mark e estou cuidando da senhora. Como se sente? – sua voz baixa e calma passava tranquilidade.
- Boa noite, doutor Mark – se sentou ao meu lado na cama, segurando minha mão. Sentia seus dedos passando calmamente pelas costas da minha mão direita. – Sinto-me bem. Obrigada.
- O seu marido veio falar comigo. Ele me contou que a senhora disse ter perdido o bebê que carregava – meus olhos instantaneamente começaram a arder e eu sabia que em poucos segundos as lágrimas viriam.
- Sim. Eu... Eu perdi o nosso filho – me beijou a cabeça, sem parar com o carinho em minha mão.
- Senhora, eu realizei uma bateria de exames assim que a você entrou aqui no hospital e posso afirmar com toda certeza que a senhora está gravida de vinte e oito semanas e que daqui a aproximadamente dois meses dará à luz – arregalei os olhos e mordi o lábio inferior. Aquele médico só podia ser doido mesmo. Não era possível depois de todo aquele sangue o meu bebê ter resistido. Era?
- Doutor, o senhor não está entendendo. Eu sangrei. Eu... Senti muita dor, igual às das últimas vezes em que sofri um aborto – a mão de soltou a minha e pousou em cima da minha barriga. - Eu... Eu não acredito que essa criança esteja aqui. Nem a sinto mais!
- Vamos fazer uma coisa, ? – assenti. – Amanhã cedo, no primeiro horário, você vai fazer uma ultrassonografia com a obstetra aqui do hospital e aí nós confirmaremos que o seu bebê continua aí dentro, forte e saudável.
O médico não disse mais nada depois da minha confirmação. Apenas avisou que se eu sentisse algo era para tocar a campainha que ficava ao lado da minha cama.

’s POV

Só de poder sentir o calor da pele da minha mulher, de poder ver seus olhos, sentir o cheiro natural que sua pele emanava, eu não tinha palavras para descrever o que sentia ao tê-la ali, ao meu lado, comigo. Confesso que fiquei confuso com ela falando sobre o nosso filho e que fiquei triste também quando afirmou com todas as letras ao médico que havia perdido a criança, que não a sentia mais.
Seu semblante sereno enquanto dormia me tranquilizava, mas eu sabia que não poderia dormir. Eu ainda não tinha notícias do que havia acontecido com aquele maldito que havia feito minha mulher passar por tudo aquilo. Eu não sabia se ele estava morto, porém desejava com todas as minhas forças que estivesse.
Saí do quarto silenciosamente e peguei o celular. Disquei para a delegacia. Eu queria notícias, informações sobre o caso.
- Oi. Boa noite. Aqui quem fala é e estou ligando para saber o que houve com o sequestrador da minha esposa – disparei na pobre atendente que, ao saber quem era e a informação que eu desejava, logo me transferiu para o delegado. Legal. Justo aquele delegado de merda.
- Boa noite, . Aqui quem fala é o delegado Steves. Em que posso ajudá-lo? – seu sarcasmo era evidente, mostrando que o nosso sentimento era recíproco.
- Eu gostaria de saber o que houve com o sequestrador da minha esposa, delegado – tentei manter a calma, mas ainda havia uma pontinha de sarcasmo em minha voz.
-Senhor , o sequestrador da sua esposa está morto – pronto. Era só isso que eu precisava saber. Aquele desgraçado nunca mais atrapalharia a minha vida e muito menos a da minha . – Senhor ? Senhor? O senhor está me ouvindo? – desliguei a ligação sem responder.

A noite havia demorado incrivelmente para passar. Eu estava ansioso para ver a tal ultrassonografia que faria, para saber se meu filho estava ou não bem. Logo que os primeiros raios solares invadiram o quarto, abriu os olhos.
- Bom dia, meu amor – aproximei-me da cama, tocando delicadamente seu rosto.
- Bom dia – seu tom de voz ainda era cansado e um tanto quanto fraco, eu diria, mas aquilo ia passar. Nós íamos ficar bem, seríamos felizes, iríamos apagar aquilo que aconteceu com a gente.
- Vou avisar a enfermeira que você acordou para ela trazer o seu café da manhã. Você deve estar com fome, não é? – beijei a cabeça de e saí do quarto, avisando rapidamente a chefe de enfermagem que havia acordado e pedindo à mesma que servissem algo para ela comer. Quando voltei ao quarto, assustei-me ao ver chorando novamente. - Amor, o que houve? Está sentindo algo? Algo está doendo? Responda-me, – minha voz saía estrangulada com medo. Medo de que ela estivesse sentindo dor, medo de que algo tivesse lhe acontecido nesses segundos em que eu estive fora.
- Não... Eu só... Eu estou com medo – seus braços passaram ao redor do meu pescoço. – Estou com medo, . Medo de ter perdido o nosso filho, medo de aquele homem voltar – a cada soluço que escapava por seus lábios, era como se eu levasse uma facada lenta e dolorosa.
- Amor... Acalme-se, por favor, – eu acariciava suas costas em nosso abraço. – O nosso bebê vai estar bem e eu lhe juro, meu amor: aquele homem nunca mais vai voltar para as nossas vidas. Juro. Você não precisa ter medo. Nós estamos bem agora.

’s POV

Eu queria ao máximo esconder de o meu medo, mas, quando ele me pegou chorando no quarto, foi inevitável deixar escapar tudo o que eu sentia naquela hora. A angústia, a sensação de que algo ia dar errado não me abandonavam, mesmo sabendo que agora eu estava com o homem que eu amava e que ele me protegeria de tudo e de todos.
Assim que terminei o café da manhã, o médico adentrou o quarto, informando que a obstetra iria me ver em vinte minutos. Vinte minutos que demoraram uma eternidade para passar. Quando adentrei a sala de ultrassonografia, eu sentia minha mão suar e meus dedos tremendo, mesmo com eles estando entrelaçados ao de . Respirei fundo quando a médica me indicou a maca e me deitei na mesma.
- Bom, , vamos lá. Eu vou jogar o gel na sua barriga. Você vai sentir um geladinho. Ok? – assenti com a cabeça e, segundos depois, senti o gel gelado em minha barriga. A médica ligou a máquina do ultrassom e apertei mais a mão de .
Então aconteceu. Assim que a médica começou a passar o aparelho pela minha barriga, ela sinalizou o bebê no monitor. Logo em seguida, o som dos batimentos cardíacos do nosso filho preencheu o quarto. Ele estava vivo. O meu bebê estava comigo. Em alguns meses, eu seria mamãe e seria o papai mais maravilhoso do mundo.

’s POV

Após uns três dias no hospital para assegurar que a saúde de e do bebê estivessem cem por cento, fomos liberados pelo doutor Mark, liberou a saída de com algumas recomendações. O sorriso não abandonava os nossos rostos por nada.
Ajudei a descer do carro com todo cuidado possível. Ela sabia que eu seria chato e teria que lidar com isso. Afinal de contas, era o nosso filho e todo cuidado seria pouco depois do que ela havia passado. Adentramos nossa casa e pude ver nos olhos de que ela mal acreditava estar ali. Seus braços me envolveram de forma carinhosa.
- Nem acredito que estou aqui com você e com o nosso filho – seu sussurro me arrepiou por inteiro.
- Mas eu sabia o tempo todo que teria você de volta. Jamais desistiria de tê-la comigo – beijei-lhe o topo da cabeça com um sorriso estampado nos lábios. Agora nós seríamos felizes para sempre.

Aquele maldito havia falhado. Mas é como se diz, né? Se quiser que um serviço saia bem feito, faça você mesmo. Eu vi o casalzinho entrar em casa como em um comercial de margarina. Aquela mulher ainda carregava o meu filho no ventre. Pelo menos isso aquele infeliz não destruiu. Porém, se os dois pensavam que havia acabado, estavam muito enganados. Eu não desistiria. Eu teria aquele bebê, custasse o que tivesse que custar. Aquela criança ia ser minha e não haveria ou que pudesse impedir isso.


Fim.


N/A (20/06/13): Ai, gente. Estou chorando agora. Sério. Nem sei o que escrever nessa N/A. Acho que eu deveria começar agradecendo a todas vocês, que me acompanharam todo esse tempo que escrevi Schwanger (não tenho a conta, mas acredito que já tenha bem uns três anos), e a vocês que começaram a ler há pouco tempo, mas ainda assim estão nos comentários surtando a cada atualização. Agradecer também a quem não comenta, porém lê, gosta e acaba divulgando a fic. Agradecer à Ana, que desde sempre se mostrou muito solícita em relação às minhas fanfics, e que não é só uma beta, e sim uma grande amiga, a quem eu sei que posso recorrer a qualquer momento.
Eu não sei muito bem o que dizer nessa N/A de despedida... Que não é uma N/A de despedida total, porque acho que vocês já compreenderam, né? O killer ruivo, que vocês tanto odiavam, não era o bam-bam-bam da história. E aí? Palpites sobre quem é o mandante de tudo? Sobre quem vai atormentar ainda mais a sua vida na parte 2 da fanfic? Comentem.
PS: Peço um milhão de desculpas pela demora no capítulo final. A realidade é que a faculdade está me sugando e eu não tinha mesmo tempo para terminar de escrever esse capítulo. E ainda fiquei com medo da reação de vocês. Medo de não agradar ninguém com esse final. Um medo que nunca senti em todos esses anos que escrevo fanfics. Mais uma vez, muito obrigada pelo apoio de vocês e desculpem se não agradei.


PS 2: Teve uma linda que pediu para eu indicar as minhas outras fics e postar um resuminho. Aí está.

Nightmare - Por Bela Schmidt e Leticia Pan [Restritas/Andamento]
Minutos depois, alguns passos em minha direção direcionaram meu rosto para trás. Por ironia do destino, resolveu escolher o mesmo lado da escola que eu para limpar. O sorriso malicioso em seu rosto me fazia querer agarrá-lo e matá-lo ao mesmo tempo. Ambos lentamente. Voltei o meu olhar para o que estava fazendo, ainda irritada, porque aquele maldito garoto não podia respeitar os meus hormônios. Os malditos hormônios que me faziam querer pular nele a cada milésimo de segundo. Hormônios filhos da puta. filho da puta. Joguei o pano que usava para limpar o espelho em cima da pia, como se aquilo fosse ajudar muito na minha frustração. O sorriso debochado e malicioso se alargava a cada segundo, quanto mais ele percebia como meu corpo respondia à provocação. Sem pensar, virei-me furiosa em direção a ele e o peguei pela gola da camisa.
- O que você quer de mim, ?
- Eu quero você – foi o suficiente para o controle ir para o espaço.


Forgotten Hapiness - Por Leticia Pan [Restritas/Andamento]
- Não há nada que possa ser feito agora - os dedos de tocaram meu queixo, fazendo-me levantar o rosto e sua expressão, que a princípio era serena, agora era de horror. - O que é isso no seu rosto, ? - sua voz era dura, o que fez com que eu me encolhesse.
- Não é nada, . Não é nada - virei-me para o espelho, abrindo a embalagem da base, mas Dougie segurou minha mão.
- Ele... Ele bateu em você?
(...)
- Ver você assim me excita. Fica linda dessa forma, frágil e delicada - ele abaixou as calças, colocando o membro para fora. Engoli em seco. Em seguida, ajoelhou-me no chão. - Seja boazinha. Lembre-se de que pessoas lá fora dependem disso - então suas mãos foram para minha cabeça, controlando a velocidade dos meus movimentos. Seus gemidos me davam ânsia. Não demorou até que ele chegasse ao orgasmo. Tentei tirar seu membro de minha boca, mas sua mão forte segurou minha cabeça, impedindo-me. - Engula - seu tom de voz era de ordem. Mas aquilo só poderia ser brincadeira. Olhei para ele com o rosto molhado das lagrimas que eu havia despejado. – ENGULA! - minha face foi atingida violentamente com um tapa. Dei um soluço e respirei pesado, engolindo o líquido daquele homem.


PS 3: Teve uma outra linda que pediu formas de se comunicar comigo, então aqui está o meu Facebook . Ou então é só falar no @leticiapan, no Twitter. Podem falar sem medo que eu não mordo, viu? Até a próxima.

N/B: Gente, acho que vou me encolher no cantinho. Como assim Schwanger acabou? E como a Leh pode ser tão fofa?! Sério. Eu estou de cara com esse fim. Schwanger foi simplesmente uma das primeiras fics que peguei para betar... E, todo esse tempo, a Leticia foi uma linda, atenciosa e compreensiva. E ótima amiga, devo acrescentar!
Como já deu para perceber, nem tenho palavras... Então apenas digo para comentarem pra cacete e aguardarem a parte 2!
Ana;

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