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Última atualização: 20/02/2020

I


Mais uma data comemorativa. Meu aniversário. Ah! Obrigada, obrigada!
Nada que Manhattan e uns loucos que me acompanhavam não resolvesse. Uns bons drinks, uns beijos triplos para me fazer contar umas histórias cômicas, e fotos. Sim! Muitas delas! Do contrário, como me lembraria no dia seguinte?
— Quero que saiba que não me esqueceria do seu aniversário e deixei um presentinho no seu apê.
, , ... Meu querido! Você não cansa de surpreender.
— Minha especialidade! Você sabe bem.
Assim como eu, , meu co-worker é amante das luzes que brilhavam e acendiam nossas íris, tão quanto os shots, música alta e fascínios de uma noite só.
— Um dia de sorte sempre cai com seu aniversário. Irônico, não? – Ele me saudou com sua gim-tônica e um sorriso que transbordava o delicado e sedutor.
— Pode chamar de sorte, mas nós fizemos com que essa “sorte” acontecesse, honey. – Sorri convencida e virei para o bar, lançando a piscadela significativa para o barman, Donan saberia o que me trazer, me conhecia melhor que os vizinhos do meu prédio. Marquee era definitivamente a minha segunda casa.
Digamos que já vivi a completa realização de sorte. E você, querida, foi fundamental! – Uma pequena margem de tempo nos separou para logo sentir seu hálito quente e furioso, que parecia gritar a centímetros dos meus lábios. Sua boca me tirava a atenção de qualquer outro lugar e boa parte da sanidade. E eu, definitivamente, não queria me afastar. mantinha seu corpo alerta e esperto demais para deixar qualquer mínimo sinal passar em branco. Sádico por mais e apreciador assíduo de rapidinhas, suas mãos mais que espertas me guiaram por um caminho ainda secreto para mim. Minhas pernas teimosas abraçaram sua cintura no momento que senti a parede chocar-se com as minhas costas. Já minhas mãos, ávidas demais, desenhavam todo seu tronco e seu peitoral –muito satisfatório, por sinal–. Meu cérebro precisava agir, mas era demasiadamente difícil com um mergulhado em meu pescoço, me fazendo arfar como há alguns anos atrás já fazia e eu poderia dizer convicta, como terminava.
— A chave, garotão. – Mal o vi se mexer, e a mesma pousou em minha mão em dois segundos, se for realmente possível.
Capaz ser tão esperto? Uma suíte havia ali, nada mal, devo acrescentar. Marquee sabia mesmo como fazer uma noite memorável.
O puxei pela gola da camisa social parcialmente aberta entre nossos corpos grudados, entretida pelo ritmo da música, mexi meu corpo em sintonia com o som que vinha porta afora. Seus olhos eram famintos e suas mãos, ágeis, não estavam muito diferentes quando assisti o próprio abrir de sua camisa os botões insistentes que faltavam, assim como o cinto dentre os passadores que me incomodava.
era a personificação de luxúria.
— Algum desejo? – Murmurei desafiante.
— Tire a roupa. Po...por... por favor!
— Gaguejando, darling? - Sorri travessa, sentando lentamente em seu colo. — Não se preocupe amor, eu vou resolver isso! - Beijei seus lábios lentamente, e queria vê-lo sofrer imerso em sua tensão sexual. Por Deus, eu amava ver ele assim!
Não poderia ter tido ideia melhor.
Uma garrafa de champanhe Perrier Jouet Rosé havia num criado-mudo que eu nem percebi por ali. Encarei seus olhos que transpareciam luxúria e parei por alguns segundos nas íris verdes com pintinhas cor-de-mel que se acendiam na meia luz do quarto, se tornando o principal clarão no cômodo. Nossas respirações cruzavam-se de forma fugaz e agarrei a garrafa avidamente, derramando o líquido pelo tronco nu de . Assistindo-o gemer enquanto o champanhe gelado dançava entre seus músculos
— Mais calmo?
Entornei por todo seu peitoral, despejando beijos tortuosos em caminho ao seu membro, onde fiz questão de angustiá-lo um pouquinho mais. Suas mãos trêmulas me buscaram em uma tentativa falha de sentir qualquer pedaço de pele exposta por mim, onde poderia cravar suas unhas e judiar com suas mãos, agora nada carinhosas. Sua ereção já me conhecia de outros carnavais muito bem pulados.
Literalmente.
Me aproximei do cós da sua calça, abrindo-a e o encarei. Mais um golinho não faria tanto mal assim, e segui os rastros do champanhe até que chegasse à sua glande. Caminhando por desenhos desconexos com a minha língua, ele agarrou um bocado dos meus cabelos.
— A ansiedade é inimiga número um da perfeição, senhor . – Sua ereção, já latejante, dançou por meus lábios pintados de um carmim atrevido em um beijo dramático –e perverso– de adeus . O que restou de álcool na garrafa me serviu uma golada generosa e então, entornado de uma só vez. Dei uma última piscadela para o meu tentador companheiro na diretoria da Magic! Magazine que ainda se enrolava com algumas palavras, enquanto saía da suíte girando a chave entre meus dedos. Algo que eu jamais esqueceria. E ele também não.
E eu me sentia ótima!
A flor da idade não é eterna, meu prestígio na empresa não é eterno, meu corpo não é eterno assim como a cara de tacho de talvez– não fosse também.
Aproveitaria as últimas horas daquele dia até seu último segundo, mesmo que a data me deixasse um ano mais velha. Vale à pena!
Me embrenhava novamente pelas pessoas, ao som de um J Balvin harmônico demais com Anitta, resultando em uma Downtown que não poderia descrever melhor o momento.
Eu poderia viver apenas disso.
<5H35PM.
Se era possível, eu jurava ter ouvido alguns pássaros cantar.
Sentia meus olhos pesados, mas não substituíram as atenções para o xingamento que exprimi quando levantei da cama. A cabeça que ainda rodopiava um bocado com um plus de perguntas sem resposta que pairavam e uma delas era “como eu vim parar aqui?”.
Preguiçosa o bastante para não planejar nada para as poucas horas que me restaram no dia, minha única atual preocupação era conseguir me arrastar até o banheiro, sedenta pela comodidade que a água quente em minha banheira ofertava. Fazer uma junção dos sais, que gastara uma fortuna e sequer usara, diziam que eles curavam qualquer coisa, até mesmo os erros do passado. Ou não era pra tanto?
Meia hora nestes sais e precisava dar o braço a torcer: eu era outra pessoa, ainda que alguns flashs da noite passada me fizessem rir, as gargalhadas ficavam por conta do meu querido . Espero fortemente que alguém com intenções piores que as minhas tenha dado a ele o belo trato que merece –seja lá o que isso signifique–.
Saindo da banheira, me enrolei em um roupão aconchegante, tateando por minhas pantufas, que me pareciam convidativas demais após horas em um bom salto alto. Ao menos pretendia me vestir tão cedo, hipnotizada sempre que via uma Nova Iorque ao seu anoitecer, fazendo milhares de pequenas luzes refletir a grande parede de vidro que se fundia à varanda. Saí do meu transe quando o celular apitou ao meu lado.
6H10PM.
“Poderia te deixar sem presente depois de ontem, mas eu te perdoo! P.S.: Logo eles chegam aí, seja receptiva!” — .
adorava joguinhos e ele era ágil com suas jogadas, precisava admitir, mas estava em um campo minado agora. O meu campo minado. Como diretora geral da Magic! Magazine tinha 51% do poderio em minhas mãos, desde a época em que foi apresentado, alguns dias depois de mim, assumindo os outros 49%. Parece pouco, mas essa margem magra de 2% me davam o maior poder de palavras, e de quebra, a parte que eu mais gostava: a última palavra. Em casos de emergências, acionávamos uma Assembleia Geral, onde os acionistas tinham o poder do voto também, mas quase nunca acontecia. De qualquer forma, tinha minha carreira como meu maior prêmio, construída com meu único esforço. Não precisei puxar o tapete de ninguém, nem enganar e muito menos roubar. Me formei na própria Magic! Magazine desde o dia 1 do estágio, então, mais do que nunca concordava com o cargo que ocupava e era plenamente realizada com ele.
Me perdi nos tecidos suaves da minha camisola, que após momentos preguiçosos, somei forças para vesti-la e ouvi a campainha tocar, indo ansiosa atender. Se existisse alguém no céu que tivesse piedade de mim, colocaria Blair Mitchell à minha porta agora mesmo e com os donuts que minha melhor amiga prometera em seu bilhete singelo no criado-mudo mais cedo. Enquanto laçava meu robe, abri a porta e uma cantoria se iniciou de imediato. Que porra está acontecendo? Encarei com furor o quinteto que não se abalou e continuou o que parecia uma serenata mexicana.
EU SEQUER ENTENDIA UMA PALAVRA, DEUS!
Pouco satisfeitos, fizeram da minha sala seu palco sem fucking permissão alguma.
Estava incrédula demais, meus braços não se descruzavam, minhas pernas não mexiam e meu queixo não iria parar de beijar o chão tão cedo. Aquele quinteto mexicano tinha uma audácia que me torrava a paciência. A pouca paciência que os sais conseguiram recuperar!
— Teimosa! Pedi que fosse receptiva! Espero que tenha gostado, os escolhi a dedo, deu um trabalho danado! Feliz Cumpleaños, mí amor!
Seu sorriso era cínico e seu corpo descansava casual no batente da minha porta lhe dando um ar de superioridade, que eu acreditaria cegamente, se não o tivesse visto ontem da forma que o deixei, mas faria questão de desfazê-lo.
— VOCÊ ENLOUQUECEU, DESGRAÇADO?
Ele riu e riu. Meu sangue, por si só, já estava em estado de ebulição.
— Não se preocupe, não tem pressa pra acabar. Ah sim! Quase me esqueci! – De trás de si, revelou um buquê de rosas vermelhas, colombianas se não me falha a memória, e talvez pra combinar com o clima. — Meu grand finale, senhorita!
Como um belíssimo filho da puta!
— Engula essas rosas e tire esses músicos daqui agora, !
— Não mesmo! – Negou com a cabeça. — Você me deixou 40 fucking minutos naquela suíte até que eu pudesse me acalmar. Sem roupas ainda por cima! – Declarou esbaforido. — Aproveite seus 40 minutos de serenata, my dear.
Ele se virou em direção ao elevador.
, volte aqui! Se você deixá-los aqui eu... – entrou no elevador calmamente, sorrindo. — EU. MATO. VOCÊ! – Vociferei, assistindo o elevador se fechar, quase em câmera lenta.
CARALHO! MIL VEZES CARALHO!!!
¡Mi Dios de los infiernos!
O resto da noite pareceu se arrastar. O tal quinteto dos infernos não tocou por 39 minutos e nem 41, mas exatamente os 40 que citou. Eu estava cega de ódio e minha cabeça parecia que ia explodir a qualquer minuto, ainda mais quando ouvia o reverberar daquela maldita serenata, que aparentemente me assombrava.
No dia seguinte bem cedo, fui à academia do condomínio, ficando por mais ou menos uma hora e não mais que isso, enquanto recebia alguns olhares tortos. Sabia que o coque que fiz não era dos melhores, mas também não chegava a tanto. Assim que tive o prazer de retornar pra casa, fui direto para o banho, dessa vez sem tempo para sais, e saí enrolada na toalha. Um novo dia de trabalho vinha por aí. Vestindo minhas roupas sociais-casuais usuais, logo disposta para a rotina de maquiagem que não exigia nada elaborado, assim como o cabelo que hoje fiz, um rabo de cavalo milimetricamente arrumado. Estava faminta, mas a cidade dos sonhos também castigava, e na maioria das vezes, tinha em seu trânsito a pretensão de nunca colaborar.
— Bom dia, senhorita ! – Disse Nicole, minha secretária. Loira e de olhos meigos que pareciam estar sempre prontos pra chorar, a moça tinha seus 21 anos e estava aqui desde seus 18, muito eficiente e sempre prestativa.
— Bom dia, Nikki, me atualize.
— Os acionistas já chegaram. – Disse de uma só vez, como quem revela um segredo. — Foram recepcionados pelo senhor , que deixou pastas em sua mesa para a reunião de hoje enquanto visitam outros departamentos.
— Tudo bem, Nikki, obrigada. Como sempre, muito atenta! Deixe um alerta com Anna para quando o senhor terminar, ele vir imediatamente para a minha sala, sim?
Aparentemente o dia começou 12 horas antes de mim.
Haviam 5 pastas em minha mesa. Boa coisa não podia ser. Juntando infortúnio com a calamidade, ao lado das pastas, havia uma caixa delicada de uma cafeteria que eu já conhecia. Ok, não foi tão mal assim. Um pedaço generoso de red velvet me aguardava deliciosamente, posicionado ao lado de um muffin de chocolate, de longe meus preferidos.
Ele ainda me conhecia bem demais.
Depois de tamanha filha-da-putagem de ontem, espero que ele não tenha acordado achando que colocar veneno nos meus doces preferidos seria uma boa ideia. Me deliciei com o red velvet que há tempos não comia. O Le Cirque Café era um dos melhores do mundo, e com a minha bênção. O GPS me indicava que do prédio da revista para o café, eram 23 minutos, mas o multiplique por 3. Trânsito!
Os doces pareceram amenizar a tensão que as pastas traziam, ou era apenas fome, nunca vou saber. Mas funcionou!
Haviam comparações com o público-alvo que a Magic! Magazine atingiu nos últimos seis meses e seus almejados lucros. Assim como as propostas do último ano que calculamos para batê-las em dois anos e precisamos apenas de um semestre muito bem aproveitado para ultrapassá-las.
Esses acionistas não vieram para turistar na Big Apple.
— Creio que esse bolo estava mais gostoso do que eu me lembrava! – , como sempre, entrou sorridente, esbanjando um belo terno azul marinho que moldava seu corpo.
— Não estava tão ruim. Mas desde que parei de ir lá, a qualidade despencou com certeza. Devo reclamar? – O encarei irônica, cruzando os braços. — Minha boca já provou de gostos piores! Tudo normal por aqui. – Ele gargalhou, coçando sua barba por fazer e seu movimento fez seu perfume dançar espaçoso pela minha sala. — Ei! Não precisa se sentar ok? Só vou te fazer uma pergunta.
— Céus, eu adoro quando se faz de rogada... Esse seu narizinho arrebitado me deixa louco, !
— O que os acionistas querem aqui tão cedo? – Seu sorriso se desfez e ele se pôs sério, como pouquíssimas vezes vi naquele rosto cafajeste.
— Acredite ou não, eu também não sei. Me entregaram as pastas, folheei e as deixei com você. Eles vão mexer algumas peças desse quebra-cabeças.
— Simples! Vamos adiantar a reunião. Pra agora.
Na sala de conferência e reuniões, todos já estavam acomodados nos seus assentos, prontos para começar. Haviam ali os cinco acionistas, eu, e Nicole ao fundo pronta para a ata. Um ou outro representavam a revista por outros países, buscando por resultados insinuantes de capital de giro, por exemplo, coisa que a distinção entre idades ali oferecia. Gareth ParenthWood, por exemplo, um galês muito charmoso de olhos claros e um sotaque arrastado que não reclamaria ter que ouvi-lo durante uma noite inteira, tinha por seus 30 anos e definitivamente significava como revelação para os sonhadores de um país tão pequeno. Hideke Choi, um japonês que falava pelos cotovelos em seus plenos 49 anos, provavelmente sua primeira palavra foi “ações”, visto que o mesmo acompanha a revista desde seus primórdios, com a bênção de seu pai. Antonella Montanari, a italiana que fazia tremer o interior de cada um à cada som que seu salto agulha cantava, não deixava uma tendência sequer passar em branco e sempre com um ar superior de síndrome de Miranda Priestly¹, fazendo com que seus 58 anos não deixassem vestígios por parte alguma. Antoine Blanché, o francês que fazia de qualquer reunião, suportável. Talvez fossem seus músculos que parecia sofrer naquele terno que lhe caía tão bem, sem contar os óculos que usava apenas para leitura –não que eu houvesse parado para notar isso, porque realmente não tinha– ou então, o sorriso que vez ou outra deixava escapar para amenizar o clima, iluminando toda a sala e fazendo com que sua pele negra brilhasse muito mais do que qualquer outra pessoa em seus 42 anos jamais conseguiria. Por último e não menos importante, Jim Phillips o americano de meia-idade que não era de falar muito, colocava seu terno preto e gravatas que iam das lisas às listradas, para não chamar a atenção, genuinamente se mantinha ali para desempatar o que quer que acabasse em votação.
— Bom dia a todos! – Iniciei cortês, com uma simpatia que não sabia que fazia parte de mim. — Espero que tenham sido muito bem recepcionados nos setores e constatado o óbvio, que essa revista é um exército incansável. Cada um com suas guerras diárias, e é das piores guerras de onde tiramos a força para continuarmos com o que fazemos de melhor. Bem-vindos!
Aplausos encheram meus ouvidos assim como massageavam de forma deliciosa meu ego, e eu amava essa sensação! ao meu lado direito, se levantou pronto para receber a palavra.
— Ditas as palavras da senhorita , faço delas as minhas. Essa revista é mais do que um conglomerado. Somos família, amigos. E no final, somos um só pelo mesmo propósito. Mais uma vez, sejam muito bem-vindos! – Um sorriso gentil e confiante despontava em seus lábios perfeitamente desenhados para aquele rosto.
— Se me permitem, eu gostaria de iniciar. – Gareth tomou a frente, recebendo acenos de cabeça em concordância enquanto se levantava da cadeira fechando seu paletó. — Vocês devem estar se perguntando porque viemos tão cedo hoje, não é? E eu respondo, sem via de dúvidas. Entregamos a vocês cinco pastas, correto? Todas elas com informações da própria revista que demandam um pouco mais de atenção e há uma sexta pasta, que está conosco, contendo o que Hideke Choi ficaria honrado em compartilhar. Por favor. – Cortês como seu habitual, Gareth mencionou o japonês, que afoito tomou a frente de bom grado. Minhas sobrancelhas que já sofriam unidas em confusão.
— Senhoras e senhores, sem delongas apresento a vocês a Hideaky! A única revista que visa métodos 100% naturais e orientais disponibilizando de uma clínica específica sediada no Japão! – Sorriu orgulhoso, enquanto seus olhos, que já não pareciam ser puxados o suficiente, se fecharem um pouco mais tamanha satisfação. Para mim e , o mesmo entregou uma pasta semelhante às outras cinco, mas com um número maior de páginas. — Como podem reparar, há informações com as principais características de benchmarking².
— Desculpe, Choi, não quero soar rude, mas essa são coisas que poderíamos procurar na internet. Não teríamos os números exatos, claro, mas um telefonema resolveria. – Disse , receoso.
— Calma senhor , nós vamos chegar lá. Trouxemos os números exatos com o propósito de adotar o benchmarking interno3 da Magic na própria Hideaky. Atitudes de grande impacto da Magic que podem revolucionar a Hideaky. – Concluiu sorrindo.
— Mas isso influenciaria o nosso benchmarking funcional4. – Expôs .
— E futuramente o bench’ competitivo5, o que não vai deixar uma impressão boa para a Magic, Choi. – Completei o raciocínio de .
— E vocês estão certos, não tiro a razão de vocês de forma alguma. Isso não aconteceria se Hideaky e Magic se tornassem uma só, concordam? Duas em uma. Benchmarking duplo. Entretenimento e medicina oriental. Me digam, não é perfeito?
Me limitei a sorrir para seu entusiasmo, que não me fazia cócegas. Mas acionistas poderiam atuar em outras mil companhias de ramos diversos, que continuariam podres de influentes e aqui, na Magic os mesmos tinham para suas participações um espaço relativamente grande para se expressarem da forma que achavam digno ao patamar da revista.
— Sim, sim! É realmente revolucionário. Mas a Magic está, como sempre, acima de suas expectativas em sua forma original e é exatamente isso que o nosso feedback com os benchmarkings mostram. – Moldei em meu rosto um sorriso ridículo de tão maternal ainda que esse ‘Made in China’ estivesse tentando roubar a essência da Magic.
— Os tempos mudaram, senhorita . Investimos neste segmento no Japão antes mesmo de pensar em se tornar tendência, da forma em que assistimos a valorização de 137% em um único ano.
— A Magic também obteve suas exorbitantes porcentagens nos segmentos que lhe dizem respeito e foram incríveis, posso lhe garantir, Choi, mas não acho conveniente ter que engolir método oriental goela abaixo por serem inferiores!
— Senhorita, assim fico ofendido. – Hideke Choi sorriu irônico, pois sabia que sua carta na manga era o poder que tinha por ser um dos acionistas mais influentes.
— O que ela quis dizer foi, que esse momento não é propício para uma mudança tão drástica na Magic, que apesar de nova, já bateu recordes inacreditáveis e este resultado do marketing milionário que investimos. – sobrepôs.
— Não, , eu quis dizer exatamente o que disse. – Ao contrário do que o momento pedia, minha voz estava ainda serena.
— Bom, dessa forma, vejo que a proposta não agradou, talvez precisem de mais tempo para absorver. Qualquer dúvida estou à disposição, por enquanto é só.
A reunião finalizou após alguns murmúrios aqui e ali e assisti os acionistas se dissiparem calmamente, inclusive os que fizeram questão de não abrir o bico por um segundo sequer, em vista que daqui a dois dias nos reuniríamos novamente, enquanto por essa semana todos estariam na cidade.
Voltando para a minha sala, sentada na cadeira, virei-me para a grande parede de vidro, encarando uma Nova Iorque de céu cinzento, me fazendo perder em pensamentos. Uma cidade que me abrira tantas portas e janelas, que nem eu mesma acreditava que era possível tantas chances assim. Perigos, agradeço por não ter vivido tantos assim e aos que temi, prefiro acreditar que apenas me fortaleceram. Vi meu sorriso refletir em alguns cubos de gelo em doses baratas de uísques por aí antes de me dar conta da mulher que poderia ser, e sou. Uma cidade em que amei demais e parcialmente fui amada de volta. Tinha deixado alguns amores para trás sim e, algumas vezes, da forma mais difícil precisei seguir em frente.
Apesar de aparentemente ter tudo sobre controle, não conseguia manter meus pensamentos longe da nostalgia.
Detestava.
E detestava ainda mais a sensação de egoísmo que queria me enfraquecer a qualquer custo e que fazia minha mente trabalhar a mil, sem descanso. Sempre me cobrei demais e passei a cobrar mais depois que me vi perdida na trilha em que eu mesma havia milimetricamente traçado ao sucesso, desde meu primeiro estágio na Magic, e me vi perdidamente apaixonada. Me lembro como se fosse ontem. Adiando planos, que não pensei duas vezes antes de programar, faltando a palestras e workshops complementares à grade curricular do curso, armando desculpas nos trabalhos em grupo e reuniões em família. Vivendo em prol de uma pessoa só, que na primeira oportunidade que teve de estudar em Londres, foi. Me deixando de forma empáfia para trás, despedaçada e com sonhos pela metade. Houveram consequências que poucos souberam o impacto e que na época aprendi horrores ao lidar. Algumas decisões ainda me assombravam vez ou outra, e feridas que se fecharam mas deixaram cicatrizes grossas demais pra se esconder. Essas me lembravam o quanto me machuquei pra sustentar sozinha, um fardo que não deveria e não podia, e por essas e outras, me vi obrigada a depender unicamente da força que me restava, e minha resiliência era o curativo das feridas que sangravam. Bate e volta, minha cabeça doía ao lembrar de tempos tão injustos, mas que me amadureceram tanto, da forma que grito nenhum de minha mãe jamais fizeram em tão pouco tempo.
Minhas unhas longas pararam de batucar a mesa assim que uma Blair irrompeu pela porta:
— Almoço? No Balthazar? Eu Dirijo! – Abriu um sorriso de orelha a orelha, nem parecia que estava trabalhando na época corrida em que estávamos.
— A vontade de ver você ultrapassar todos os faróis e xingar meio mundo é grande, mas a de adiantar o que puder é maior! Esses acionistas causaram alguns estragos por aqui... – Sorri para sua proposta tentadora.
— Ok, vamos pedir o quê? – A encarei confusa.
— Na-Na-Ni-Na-Não! Não vou permitir que fique trancafiada aqui, B. Você queria conhecer aquele restaurante esquisito, Grand Banks, há tempos!
— Em minha defesa, ele é muito bem avaliado e é um charme!
— Blair, ele é no meio do mar! Quando menos se espera, uma gaivota rouba sua lagosta! Apenas vá, quero rir das suas histórias depois!
— Eu vou te arrastar pra lá e você vai se arrepender pelas palavras rudes. Thomas me mostrou parte do cardápio de lá e... – Disparou em falar como uma metralhadora. — Ops...
— Thomas, huh? – Mordi a tampa da caneta a encarando. — Deus, desembuche de uma vez, estou curiosa!
— Ele é o chef do Grand Banks, ok? – Cruzou os braços, atuando um desinteresse que definitivamente não era seu.
— Entendi o interesse. Agora, sem Thomas, admita, o restaurante é um horror de esquisito! – Gargalhamos. — Vamos pedir algo de uma vez, e me conte os detalhes do Thomas!
Sem tempo de responder, Blair já abria o aplicativo em seu smartphone, me passando as opções para que entrássemos em acordo. Blair era deveras a minha pessoa preferida no mundo inteiro e nada, muito menos ninguém, mudaria isso e ela sabia muito bem disso pois era mútuo. Ainda que sejamos milimetricamente diferentes, nos damos muito bem há alguns milhares de anos e assim brincamos que fomos amigas em outra vida, só assim para explicar a parceria que tínhamos hoje.
A tese que preparava dava alguns pequenos passos no horário de almoço, que foi quase devorado por nossas fofocas e updates que trocávamos.
— Ei, ouvi o combinando algo pro seu endereço ontem. O que houve?
— Argh! Nem me lembre! – Rolei os olhos. — Ele simplesmente contratou um quinteto mexicano, com direito a sombrero e tudo.
— Mentira? Eu trocaria todos os meus sapatos Jimmy Choo só para ver sua cara na hora! – Minha melhor amiga gargalhou alto, tombando a cabeça para trás. — Meu Deus, eu preciso parabenizá-lo, isso foi épico! – Exagerada, limpou algumas lágrimas que brotavam no canto de seus olhos.
— Me parabenize, foi meu aniversário. – Me fingi de ofendida com uma voz esganiçada. — Cada vez que encontro alguém pelos corredores do condomínio, eles me apunhalam com olhares, está insuportável!
— Não é pra tanto! Você fez por merecer. – Ainda rindo por alguns instantes disse a minha melhor amiga.
— Deus! Você está do lado de quem?
— Não está mais aqui quem falou! – Fez um sinal como se fechasse um zíper em seus lábios. — Mas sinceramente, você o deixou pelado em pleno Marquee!
Apenas a encarei, fuzilando com o olhar.
— Já terminou de defendê-lo? – A encarei de sobrancelha arqueada enquanto ouvia meu créme-brulée se despedaçar na superfície.
, cá entre nós, não sente nada pelo dono dos outros 49%? As mulheres caem nos corredores da revista a cada passo dele, e tenho que concordar... – Minha melhor amiga deixou a frase no ar enquanto, como quem não quer nada, também aproveitava da primeira colherada de sua sobremesa francesa.
— Ok, Blair, chame uma ambulância para elas ou para você, não há nada que possa fazer.
, estou falando sério. Há coisas que você não gosta, mas precisa conversar, sabia?
— Blair Alexandra Mitch, colocaram álcool demais na sua sobremesa.
— Deus! Como foge do assunto, ! Oh, e você sabe que eu detesto meu nome do meio, está jogando sujo!
— Fale de uma vez por todas o que quer dizer, Blair. – A encarei.
— Deixe de ser covarde e o perdoe de uma vez! Esse muro de proteção que está construindo ao seu redor, eu já o vi destruir uma vez e não vai hesitar em fazê-lo de novo! – A loira à minha frente, com um tom acusador que sequer combinava com seu biotipo de Barbie, parecia estar convicta do que falava, e talvez, apenas talvez, tenha me desconcertado por alguns instantes. Não por suas palavras, mas pela veracidade com que defendia um fato que não se repetiria e todos os envolvidos estavam plenamente cientes.
— Blair, você está se ouvindo? Porque, sinceramente, eu acho que não.
— Ele está nos seus joguinhos porque gosta deles, e mais, gosta de quem provoca eles. Em, por favor acorde! Por mais que irrite, cada gesto dele há algo que ele sabe que você ama... Ele está arrependido. – Disse por fim, com apenas um fio de voz. — Isso não é suficiente?
— Não, não chega nem perto de ser suficiente. Não quando ele fez o que fez sem pensar duas vezes, Blair. – Respirei fundo. — Você mais do que ninguém sabe dos mais sórdidos detalhes. – Sem que reparasse, minha voz era apenas um sussurro. — E eu espero, fortemente, que não voltemos nesse assunto.
Não queria ser grossa com alguém tão essencial para mim e que esteve em momentos cruciais, mas estava muito bem do jeito que me encontrava e de quebra, tinha tudo o que precisava, obrigada!
— Desculpe, B, não queria falar assim com você. Mas não entendo, você sabe de tudo, viu e esteve lá quando tudo desmoronou, realmente não entendo.
— Não se culpe, vou me controlar antes que você fure os pneus do meu carro! – Riu, aliviando o clima.
— Não se esqueça que sempre que dá, está me usando como babá para seu Shih-tzu dependente químico!
— Ele não é dependente químico, my poor baby. – Dramatizou enquanto apertava em seu colar o pingente de patinhas como quem sentisse saudades.
— Normal ele não é, ou sinceramente me odeia.
— Não é difícil te odiar! – Sussurrou em brincadeira.
Enquanto ria das palhaçadas que Blair fazia, ouvi batidinhas na porta, que logo minha amiga se encarregou de autorizar a entrada.
— Com licença. – Nikki revelou-se. — Senhorita Mitch, Jaden Löw está aqui e quer saber sobre o ensaio de hoje.
— Ok. , me demita. – Sussurrou.
— O quê?
— Me demita, ou pague a minha fiança, porque eu vou matar esse cara!
— Não dentro da minha empresa, ok? Isso dá um processo danado! – Gargalhei. — Qual o problema com o coitado?
— Ele está me enlouquecendo! Ontem ele foi até meu apartamento pra conversar sobre paleta de cores, acredita?
— Senhorita Mitch, o que digo a ele? – Nicole insistiu.
— Fale que ele está demitido e sem direitos, Nikki. – Blair sorriu casual enquanto assistíamos a feição da minha secretária se contorcer em confusão. — Mentira, estou indo! – Revirou os olhos, pegando sua bolsa e celular.
“Não importa o valor, pague a fiança!” sussurrou pela última vez antes de bater a porta da minha sala, dando um ‘tchauzinho’ por último.


Miranda Priestly¹: Personagem fictício (e muito temido) interpretado por Meryl Streep no filme “O Diabo Veste Prada”;
Benchmarking²: É um processo de comparação de produtos, serviços e práticas empresariais, e é um importante instrumento de gestão das empresas. O benchmarking é realizado através de pesquisas para comparar as ações de cada empresa.
Benchmarking interno3: O benchmarking interno é praticado por empresas que visam identificar as melhores práticas internas da organização e disseminar sobre essas práticas para outros setores da organização.
Benchmarking competitivo4: O benchmarking competitivo foca em medir funções, métodos e características básicas de produção em relação aos seus concorrentes diretos, e melhorá-los de forma que a empresa possa inicialmente alcançar os seus concorrentes, e depois ultrapassá-los, tornando-a melhor do ramo, ou no mínimo melhor que seus concorrentes.


II

Ainda precisava voltar ao ‘parto’ que estava sendo aquela tese, pois os acionistas permaneceriam na cidade por alguns dias. Precipitada? Um pouco. Mas essa era a minha maneira de manter o controle e, consequentemente, demonstrá-lo.
O dia pareceu durar 48h. Com modelos para ensaio aqui, revisões ali, nova capa, matérias, reuniões, tese... Céus!!!
As dezenas de xícaras de café me deixaram atenta para todo o dia, mas ao final dele, minha vista já se embaçava quando os óculos não ajudavam e minhas costas reclamavam. Talvez o silêncio que fazia ali àquela hora da noite fosse minha recompensa, ainda que vez ou outra, a voz de Blair reverberasse em minha cabeça com as besteiras que dizia.
— Ainda aqui, senhorita ? Algum problema? – Gareth ParenthWood questionou, me surpreendendo por vê-lo por aqui tão tarde.
— Ah não, só finalizando algumas coisas. – Sorri. — Confesso que não esperava ver mais alguém aqui, ainda.
— Apenas vim buscar as pastas com as relações gerais deste semestre, gostaria de revisá-las. – Levantou as pastas em suas mãos para mostrá-las. Gareth ainda estava de social, mas um tanto informal, com sua gravata frouxa e a camisa dobrada até os cotovelos, com uns botões abertos que com certeza não passariam despercebidos por mim.
— Algo em que possa ajudar, Gary?
— Nah, só quero me preparar para a reunião. – Sorriu. Um silêncio constrangedor se instalou entre nós quando não tivemos mais assuntos para preenchê-lo, aliás, não somos os mais chegados, vez ou outra um cafézinho, mas nada que ultrapassasse tal.
Seu sorriso se alargou um bocado enquanto ele encarava o chão. Ok, péssima hora para dar de cara com um louco em um prédio vazio.
— Hm, precisa de algo? – Perguntei mais uma vez, um tanto cautelosa. God knows o que se passa naquela cabeça!
— Me chame pelo apelido, ! Fica muito melhor na sua voz.
Oh, então era isso?
— Se quer saber, eu concordo! – Abri um sorriso simpático. — Então... – Comecei como se houvesse algum assunto para iniciar e esperava do fundo do meu coração que ele puxasse algum.
— Ah sim! Estou todo perdido! Desculpe. – Murmurou afobado, passando a mão livre pelos cabelos loiros. Jurava ter visto isso em câmera lenta. Onde fica o replay? — Aceita uma carona pra casa? – Questionou incerto, dando de ombros.
— Primeiramente, homem, se acalme! Segundo, agradeço a gentileza, mas vim de carro.
—Tudo bem então, fica pra próxima. Bom descanso, senhorita .
— Você está aqui há, no mínimo, 3 anos Gary, não precisa de tanta formalidade! – Exclamei óbvia. Ele sorriu sem mostrar os dentes, parecia tenso. — Sente aqui, vamos conversar. Se você puder, é claro!
— Fico agradecido, realmente gostaria de sanar algumas dúvidas. – O galês se sentou à minha frente, depositando as pastas na cadeira para que prosseguisse. — Após as declarações com as novas propostas do senhor Choi, me vieram algumas ideias. Haveria a possibilidade da Magic se abrir para uma parceria com um gigante do streaming, por exemplo?
— Bom, não posso garantir nada. Há muito o que fazer antes de confirmar algo desse porte, inclusive o tempo estimado e os custos, desculpe.
— Sim, sim! Claro! Não queria colocá-la em uma posição ruim. Mas imagine a Magic com conteúdos exclusivos dos seriados mais populares do mundo. As entrevistas, photoshoots, campanhas publicitárias, tudo! Exatamente tudo!
— De fato, me parece tentador, Gary! Parece que temos novidades para a próxima reunião. – Sorri encorajadora. — Consegue apresentá-la?
— Claro! – Se adiantou exasperado. — Desculpe tomar seu tempo, o senhor estava pra cima e pra baixo com Choi e...
— Perdão, ele o quê?
— Eles... Eles estão adiantando a iniciativa que o Choi apresentou.
— Mas sequer foi votado! – Exclamei mais alto que meu tom habitual.
— Exato, por isso questionei primeiro a senhorita. Mil perdões, , não era minha intenção exaltá-la.
— Não, de forma alguma. Apenas cuide da sua proposta incrível para a apresentação, está bem? Agradeço o toque, definitivamente precisamos organizar algumas coisas por aqui.
— Mil perdões novamente, e obrigado. Estou indo, boa noite, Em! – Assenti assistindo-o sair.
— Hm, Gareth? – Ele assentiu. — Se importa de aguardar um instante? Assim descemos juntos e discutimos sua proposta!
O galês sorriu e se aconchegou no charmoso sofá que havia ali até que eu organizasse minhas coisas. Mas que inferno estava pensando para fazer promessas com propostas a cada passo que dava? Não era primeira vez, e eu definitivamente não facilitaria. Talvez ele pensasse que estava dominando o grid para me deixar apra trás comendo areia? You wish!
Chegando em casa estava exausta e meus pés choravam naqueles saltos altos então me limitei apenas às coisas em que vim sonhando durante o percurso: comer, tomar banho e dormir. A cama abraçava tão bem meu corpo, que implorava para que eu finalmente testasse o homeoffice, ainda que a ideia me causasse uma ruguinha de dúvidas. Não me parece muito participativo, e talvez meus amados 51% perdessem um pouco de seus holofotes. Mas era algo a se pensar.
A manhã chegou, o sol se abriu e mais um dia se iniciou. Dessa vez, a ideia da academia não me parecia tão atrativa e me contentei com um banho para despertar de vez e um café da manhã caprichado que não via há tempos. Liguei para Blair, querendo saber o que ela achava de irmos juntas hoje, coisa que raramente acontecia, apenas quando ela decidia dormir aqui, o que ela aceitou de bom grado. “Eu dirijo”, a alertei, e essa era a forma de falar que ama alguém no melhor jeito nova-iorquino.
Não cansaria de repetir que tinha a melhor amiga dos sonhos. Mas não estava sendo o bastante pra ela, e sabia disso. De tudo o que ela já fez por mim, de todas as formas que ela me apoiou e os momentos em que ela esteve comigo. Aguentou os dramas pessoais e profissionais sem hesitar uma única vez.
— Bom dia, American Goddess! – Disse Blair, tão perfeitamente arrumada como sempre. Ah sim! E sempre feliz ao raiar do sol.
— Bom dia, babe! Já tomou café? – Perguntei enquanto íamos em direção ao meu carro, sendo surpreendida pelo silêncio da mulher ao meu lado que encarava o chão.
— Você era uma vadia insensível há 8 horas atrás, o que aconteceu? – Dramatizou. É claro que ela iria dramatizar! — Ah! E não, eu não tomei café! – Sorriu como se segundos atrás não houvesse me ofendido. Vadia tudo bem, agora insensível? Céus, isso era muito pior!
— De onde você tirou insensível? Sou super-empática, vou até pagar seu café da manhã. – Disse com ar convincente.
— Ok, ok. O que está acontecendo aqui, ? – Entramos no carro e B insistia em sua sobrancelha arqueada.
— Nada demais! Em pequenos gestos estou tentando te recompensar por ser uma ótima amiga. Baby steps... – Pisquei.
— Tem falado com a sua mãe?
— Sim. Ontem. – Confessei rapidamente.
— Eu sabia!!! E como estão as coisas por lá?
— Você sabe, B. Ela quer que eu me mude pra lá, mas estou aqui, justamente buscando uma vida confortável pra elas.
Enquanto dirigia, meu coração se apertou, obrigando minha memória a fazer um pequeno flashback de momentos ruins e difíceis. Blair estava do meu lado em todos.
— O que sua mãe tem dito pra ela? – Seu tom de voz era preocupado e cauteloso, pois ela sabia que o coração que estava comigo ali, perambulando em Manhattan, não estava sequer completo.
— Mamãe disse que ela está bem, só insiste nas mesmas perguntas.
— Você sabe o que fazer, . – Ela tocou meu ombro em um gesto de cumplicidade.
— Sim, eu sei B. Só não posso! Não agora.
— Você só está fazendo piorar com a distância e os maus entendidos. Tudo se resolve com uma conversa e uma passagem pra Inglaterra, . Ela precisa de você, principalmente agora.
Engoli em seco e firmei as mãos no volante. Permaneci quieta, porque eu sabia, pela milésima vez, que Blair estava certa, mas não poderia jogar tudo pro alto, não ainda.
— Ok, chegamos! – Tentei mudar de assunto.
— Você estava falando sério em me recompensar, babe! – Sorriu ao adentrar o salão do Asiate. Seguimos para a nossa mesa reservada.
— Me conte sobre o Thomas e quando vou dar a minha bênção a vocês.
Introduzi o assunto à minha melhor amiga, que logo se empolgou e a cada segundo, era como se recarregasse sua munição para a metralhadora de elogios que carregava. E dessa vez não estava exagerando! Eu apreciava mais um cafezinho, apenas para acompanhá-la, e gostava do jeito que a via. Seu sorriso parecia mais jovial e até seu cabelo recebia maiores cuidados. Antes, seus cabelos que haviam –adoravelmente– cachinhos nas pontas, eram injustamente sempre presos em um rabo-de-cavalo, agora raramente os via sequer com uma trancinha ou outra.
— Você está diferente, B. – Cruzei meus braços, como se realmente a analisasse.
— O quê? Como? São as sobrancelhas? Ah, eu mudei de salão, mas fiz uma ordem expressa para que não mudassem o formato e...
— Não B, relaxe! Diferente de forma boa.
— Ah, é? Tipo?
— Você está mais linda do que nunca! Sem contar que parece até mais responsável.
— Eu sempre fui responsável! – Aumentou alguns decibéis da sua voz para demonstrar sua indignação momentânea.
— Mas uma workaholic responsável! E estava te deixando maluca!
— Ok, você falando sobre workaholic? – Sorriu irônica.
— Não me venha com essa. Eu estava te elogiando aqui, remember?
— Inclusive, belas palavras, chefa! – Riu. — Mas agora é sério, me sinto melhor quando vejo que as pessoas ao meu redor perceberam quando essa nem era a intenção. Me sinto mais segura, sabe? E grande parte disso foi por largar meu lado workaholic de vez e cuidar melhor de mim, . Você deveria tentar.
— Ainda estamos falando de você. – Disse encarando a xícara à minha frente.
— Eu sei, mas...
— Mas, nada! Está vendo alguma ruga? – Perguntei óbvia apontando para o meu rosto. — Não? Ok, então eu consigo me cuidar. Podemos?
Puxei o guardanapo que descansava nas minhas as e sinalizei para trazerem a conta e seguirmos para o escritório.
— Então... Elogios pela manhã, huh? – Comentou como quem não quer nada enquanto íamos em direção ao carro novamente.
— Você sabe, está chegando a minha época preferida na empresa. – Pisquei.
— As demissões! – Concordei e adentramos o veículo. — Eu sabia que você nunca ia deixar de ser uma vadia insensível! – Trocamos um olhar cúmplice, gargalhando.
Fazíamos o caminho para a revista, enquanto alguma coisa das The Pussycat Dolls tocava e eu amava profundamente, fazendo o tempo passar sem que sequer fosse percebido, deixando a atmosfera mais leve para aquela manhã. Aproveitando o celular pareado com o carro, liguei para Nikki, deixando que a chamada ecoasse pelo veículo para que Blair tivesse a chance de acrescentar algum recado à secretária.
— Bom dia, senhorita . – Saudou.
— Bom dia, Nicole, só pra avisar que estou presa com a Blair no trânsito da 68th com a 72th Street, ok? Algo com uma ultrapassagem que deu errado. – Bufei. — Me informe se algo aparecer, ok?
— Tudo bem. Gareth ParenthWood passou para deixar três pastas e um pen-drive. O senhor Rui Angelo ligou e quer uma videoconferência para hoje e o senhor deixou um post-it com os seguintes dizeres “WTF?”. – Soletrou um tanto embaraçada e Blair deixou uma gargalhada alta escapar.
— Nada urgente, Nikki, obrigada.
Após exata 1 hora e 25 minutos, chegamos salvas no prédio da revista, e sim, apenas salvas, porque sãs nem tanto.
Minha mesa estava ainda da mesma forma que Nicole descrevera mais cedo quando pude me sentar de frente a ela e sim, Gareth definitivamente havia conseguido escrever a proposta em tão pouco tempo, o que deveria ter lhe custado boas horas de sono. E era incrível! A princípio, confesso, me parecia um pouco previsível mas ele desdobrou da melhor forma imaginável qualquer mínimo detalhe. Era perfeito! Exatamente o que a Magic precisava. Da forma que não perderia sua essência da forma que apenas acrescentaria.
Meu sorriso era tão grande quanto o que aquele projeto representava para a empresa.
Ladies and Gentlemen, A Magic! Magazine estava inovadora como sempre e crescendo como nunca viram antes.
Quanto a Rui Angelo, este é o homem que fundou a majestosa Magic! Magazine, que em primeira instância, era um projeto escolar de seu 8º ano e tornando-se um sonho e agora, a mais bela das realidades. O português era um dos homens mais humildes e justos que eu tive a chance de conhecer, o que tornava a Magic muito mais do que apenas meu ‘ganha pão’ quando era quase uma escola pra mim e meu sonho que se tornou realidade.
— Nikki, vou até a sala do , enquanto isso, contate Gareth ParenthWood e peça que aguarde na minha sala, sim? – A vi concordar enquanto me dirigia à sala do maior cafajeste que Manhattan já viu. — Por Deus, Anna, não precisa me anunciar.
— Mas ele está em... – Ouvi sua voz sumir gradativamente para ter o prazer de abrir a porta de supetão, fazendo os dois homens ali me encararem. e... Hideke Choi, mas é claro!
— Interrompo? – Sorri cínica e pude sentir os pares de olhos efervescentes e agradeci por não serem uma espécime de Ciclope ou algo do tipo.
, o que quer que seja, precisa esperar. – disse em descaso.
— Pois é, então diga isso ao Rui e quem sabe meus 51% não aumentam? – Segui até sua mesa, me aconchegando na cadeira ao lado de Choi que permanecia calado, mas sua veia na testa começava me preocupar.
Me enojava ver que fazia projetos pelas minhas costas, tudo bem que eu não contava tudo a ele de primeira, como melhores amigas contam fofocas, mas contava de qualquer forma.
— Choi, por favor, conversamos depois. – Indicou a direção da porta com as mãos, antes cruzadas em cima da mesa. — Ok, , o que quer?
— Rui ligou hoje e eu sequer estava aqui, mas ele quer algo com uma videoconferência.
— Essa época? Geralmente ele liga para as edições especiais.
— Eu sei, acha que ele vai encurtar alguns prazos? Já comecei a lista de demissões, caso seja o que peça.
— Não faço a mínima ideia, foi pra você que ele ligou! Mas sim, me parece fazer sentido que seja pelas demissões.
— Não fique com ciúmes, querido! Mas cá entre nós, eu sempre fui a preferida dele! – Pisquei marota.
— Foi pra isso que veio? – Perguntou amargo e fazendo-me arquear as sobrancelhas.
— Mais alguém te deixou pelado no Marquee? Que humor é esse?
, você resolveu do dia para a noite, proteger o galês engomadinho e isso é mais ridículo do que eu poderia imaginar! – Disse por vez, para, por fim, dar sua característica risada irônica e massagear sua barba por fazer.
— Pois bem, isso explica o post-it grosseiro de bom dia! – Ironizei. — , se quer saber, você está muito pior que eu. Protegendo o Choi? Sério? Eu esperava até que se insinuasse pra Antonella, mas sério, Choi?
O homem à minha frente passou as mãos inquietas e agoniadas pelo rosto, suspirando para soltar mais uma de suas risadas irônicas que me dava nos nervos.
— Abra os olhos, .
— Gareth até procurou por você, mas aparentemente estava ocupado demais com seu atual goldenboy. De qualquer forma, cada um de nós está com um dos acionistas mais influentes do comitê. – Ele concordou.
— E antes que eu me esqueça, que porra você descontou do meu cartão que me custou 10.500 dólares?
— Ah sim! Essa foi a multa do condomínio.
— Finalmente aceitou que morássemos juntos? Adorável, e só demorou 9 anos! Right on time...
— Esse foi o preço que custou o seu belo quinteto mexicano, babe, e jamais que eu pagaria do meu bolso pela sua ideia estúpida! E meus vizinhos me odeiam, by the way.
— Eles reclamaram? Não acredito! Eu definitivamente amei aqueles caras, mandam muito bem! Díos mio! – Ironizou sorrindo e eu só pude rolar os olhos.
— Às 16 horas, na minha sala, vamos ligar para o Rui.
Na volta para a minha sala, conversei com alguns supervisores de setores que encontrei em meio ao caminho para pegar os exemplares que precisavam ser autorizados.
— Ele já está a aguardando, senhorita . – Avisou Nikki quando cruzei seu campo de visão, em seu tom habitual.
— Vejam se não é o meu acionista favorito! – Abri meu melhor sorriso para saudá-lo, coisa que raramente acontecia, mas era com ele que revolucionaria a Magic. — Fiquei muito feliz que realmente tenha conseguido escrever a proposta em tão pouco tempo, fiquei preocupada com suas horas de sono! – Disse enquanto ia em direção à minha mesa para sentar à sua frente.
— Já tinha algumas coisas encaminhadas, confesso, mas precisei acrescentar muito. Essa é uma chance única!
— E está incrível, Gareth! Meus parabéns, eu estou sem palavras!
— Fico lisonjeado, , de verdade. Estava receoso, achei que não fosse impressionar.
— Não seja modesto, vamos lá! É incrível, mas precisamos colocar alguns pingos nos ís. Está com tempo?
— Sim, claro. O que achou do pen drive?
— Primeiramente, Gary, quando digo colocar os pingos nos ís, digo estar atento à qualquer detalhe. Não só por termos um concorrente direto ou até mais na votação, sem contar que pior que eles, nós somos os nossos maiores concorrentes. Qualquer detalhe é primordial, dessa forma, podemos rever os documentos e corrigi-los com outro prisma.
— Não tenha dúvidas, , seremos imbatíveis.
Pelas próximas 2h40, Gareth foi minha companhia e a melhor que poderia ter! Ele era fantástico! Habilidoso, ágil, cuidadoso e compenetrado. Não se distraiu por um segundo sequer e era um encanto para os olhos vê-lo daquela forma, diria que até um tanto workaholic, mas quem sou eu para falar algo, não é? Sem via de dúvidas, meu acionista favorito!
O acompanhei com o olhar ao sair da sala após um suspiro que puxou um sorriso de canto que brotou em nossos lábios. Estávamos confiantes e isso deixava meu dia muito melhor, a sensação de competência que rondava os ares por ali me causavam ondas de ambição.
— Nicole, contate Anna e peça os exemplares com a primeira avaliação para já. – Desliguei sem dar-lhe chance de resposta, certamente não carecia de seus murmúrios ecoando na minha cabeça pelo dia de hoje.
Hoje, a videoconferência com Rui e amanhã, a reunião. Não me permitiria parar por um segundo sequer, as edições especiais que Rui tanto amava não estavam 100% avaliadas por haver tempo demais até que chegasse a época da próxima publicação. Comecei com os exemplares mais rápidos, de entrevistas e colunas de moda que precisavam de uma pequena revisão e a autorização final para que fossem finalmente distribuídos, estampando em todos os lugares físicos e on-line.
Gostava de ver o resultado, gostava da repercussão, gostava das tendências ousadas que lançávamos, os relatos sobre matéria X ou Y que fulana viu sua vida melhorar em 100% após lê-la e as críticas, que eram cada vez menores e eu não descansaria até que fossem aniquiladas de qualquer forma da Magic! Magazine.
— Com licença, senhorita , aqui estão o restante dos exemplares da próxima edição, versão on-line e física. – Deixou em minha mesa um tablet e as pastas para a versão física.
— Nikki, avise direta e estritamente ao para priorizar as edições especiais. Vou mostrá-las ao Rui hoje mesmo. – Ordenei sem ao menos olhá-la mas Nikki, sabia que gostava de manter a excelência que Rui Angelo prezava e entendia que os segundos que perderia ali poderiam ser cruciais, mais cedo ou mais tarde, até que terminasse todas as avaliações
Na próxima edição especial que lançaremos tem Lupita Nyong’o como capa e traz sua trajetória até aqui e seu Oscar. Suas filantropias e como era ser embaixadora de causas como a luta contra a extinção dos elefantes pela WildAid e representar o nome da grande marca francesa Lancôme da mesma forma, até mesmo o suposto affair com Michael B. Jordan, junto da reviravolta que sua vida deu e o quanto pôde engrandecer a mulher exuberante que era em uma matéria exclusivíssima e com declarações mais do que inéditas da atriz.
Sem via de dúvidas, mandaria uma edição sem cortes para mamãe. Céus! Ela vai enlouquecer! Estava pra nascer maior admiradora de Lupita e vê-la pelos corredores da revista para os photoshoots, me fazia lembrar de mamãe a cada segundo.
Mamãe.
Eu sequer conseguia pensar nela sem que minha boca secasse e meu coração quase pulasse do peito. Sabia tudo que ela havia deixado para trás por mim, e agora, mais do que nunca. Não era a primeira vez que tínhamos que segurar o mundo com uma mão e estava longe de ser a última, eu sabia. Poderiam vir outras vinte batalhas, que nós ganharíamos todas, simplesmente porque estávamos juntas. Eu, mamãe e Blair, as forças que eu precisava e exatamente as que eu tinha.
As batidinhas tímidas na porta já denunciavam Nicole quando a mesma apareceu para entregar as próximas edições especiais, as mesmas que faríamos um ano inteirinho delas. Vi minha secretária ainda permanecer à frente da minha mesa. — Sim, Nikki, vá almoçar e faça o horário completo, ok?
, Hideke Choi a aguarda e está um tanto.... ansioso eu acho. – Disse receosa.
— Avise-o que amanhã antes da reunião conversamos. Antes disso, sem condições alguma. – Levantei meu rosto para encará-la. — E não permita que ninguém me interrompa novamente, estamos entendidas?
— Ele disse que não aceita um ‘não’ como resposta. – Completou.
— Então vamos decepcioná-lo porque a resposta continua ‘não’. – Decretei. — Só isso, Nicole?
— Senhorita , desculpe insistir mas é que ele deixou explícito que deseja conversar agora e...
— Recapitulando Nicole, deixo explícito que hoje não há condições. – Proferi pausadamente.
Haviam 12 pastas, para cada uma das próximas edições especiais que tanto investíamos e as mesmas que eram minha grande paixão. Dessa vez inovaríamos para longe dos lançamentos apenas para datas comemorativas –quando nos deixavam mais emotivos e etc– mas apostaríamos no que também era sinônimo de frisson: as melhores matérias e as únicas do mundo, em uma espécie de crossover de celebridades que ninguém nunca imaginou.
— COMO VOCÊ PODE NÃO TER TEMPO PARA O ACIONISTA MAIS INFLUENTE DO COMITÊ? – A porta da minha sala se chocou com a parede, fazendo um estrondo que perdeu lugar para o oriental furioso que andava em minha direção, me fazendo pensar melhor sobre a audácia desse filho da puta. Cruzei os braços, ainda sentada em minha cadeira assistindo o que eu jurava ser faíscas sair de suas narinas.


III

— Em que posso auxiliar, Vossa Majestade?
— Não use seu tom irônico comigo, garota! Sou o mais influente, sabe que tenho poder pra mudar muito aqui e tenho idade para ser seu pai! – Seu tom de voz era alto e parecia aumentar alguns decibéis a cada segundo.
— Primeiramente abaixe seu tom, Choi! Não está falando com qualquer um e sabe disso. Você pode ser influente, mas eu sou muito mais e repito, hoje estou sem condições de conversa alguma.
— Talvez você não queira medir influências, . Uma garota mimada e infantil que só sabe dar ordens corredores afora. O senhor merece a maior parte da porcentagem e você mesma sabe disso. – Ele colocou as duas mãos espalmadas na minha mesa, me encarando e talvez esse fosse seu jeito de tentar me intimidar.
— Engula suas palavras e aceite se quiser, mas eu tenho os 51% e eles vão continuar meus. – Sorri. — Agora se não se importa... – Apontei gentilmente a porta.
— Oh! Sua mimada infame! Eu me importo e muito! Você não vai ganhar aquela porra de votação amanhã e esse vai ser o primeiro passo do senhor à conquista da Magic!
— Não tente me intimidar, Hideke e vá trabalhar, você não vai tomar o meu lugar apenas me ameaçando. Ah! E não me falte com respeito, próxima vez, o senhor será suspenso.
— Você não teria coragem...
— Me teste. – Me levantei ficando na mesma altura que ele, podendo encará-lo da mesma forma que fazia, alinhando nossos olhares.
— Isso não vai ficar assim!
— Então sugiro que aja logo, porque os 51% ainda são meus. – Me aconcheguei em minha cadeira novamente e cruzei minhas mãos. Olhei em seus olhos para presenteá-lo com o melhor sorriso que poderia dar e fui presenteada de volta com sua saída triunfal batendo os pés como uma criança que não consegue o brinquedo que quer. Hideke Choi é influente? É. Mas também é um filho da puta egocêntrico e desacostumado a trabalhar. Podre de rico, herdou tudo de seu pai, inclusive a porcentagem de ações na Magic.
Mais um desaforo que precisei passar por cima. Já não me era novidade os inconformados que vociferavam besteiras para os seis continentes. Era gostoso vê-los se contorcer na ira enquanto a última palavra continuava a ser a minha.
Esquecendo do pequeno aborrecimento, mergulhei novamente nas edições especiais. No final, faria uma relação com a capa e resumo do conteúdo de todas, apenas para garantir que não passaria em branco nenhuma das informações mais importantes e que não ficaria pelo caminho, também, nenhuma dúvida. Sempre da forma elegante que era a marca registrada da Magic. Rui vai amá-las! Ainda haviam revistas para serem detalhadamente avaliadas, revisadas e resumidas, a maioria delas já haviam passado pelas mãos de pelo esquema que seguíamos à risca com duas avaliações por cada edição. A maratona era difícil, mas para Emma , estava no DNA de workaholic enxergar isso como uma tarde divertida em um parque de diversões.
Ouvi batidinhas e autorizei que entrassem, para logo ver um de rosto sereno. Inédito, por assim dizer, já que sempre estava com aquele maldito sorriso cafajeste e um pouco –bem pouco– galante.
— Vamos ligar pro Rui aqui mesmo ou na sala de conferência? E sim, Nicole me avisou que não queria receber ninguém, mas cá entre nós, sou mais do que ninguém não é? – Piscou e aí está! O sorriso cafajeste que falei!
— Na verdade, estou um pouco ocupada. Mais tarde decidimos, ok?
— Vou pedir para prepararem a sala de conferências, então.
— Apressadinho, huh? Isso não vai aumentar seus 49%, ... – Sorri sem mostrar os dentes, citando parte da audácia que Choi proferiu mais cedo.
— Não me importo, . Qual o problema?
— Seu querido China In Box me fez perder raros minutos logo hoje, a ponto de me insultar dizendo que meus 51% não me cabem e que você, meu querido, merecia o poder absoluto. – Disse por vez e poderia jurar que senti meu sangue correr mais rápido, apenas de me lembrar do afronte desse sem noção. Meu co-worker se sentou à minha frente e percebi suas sobrancelhas quase unidas em confusão.
— Pois bem, , eu não tenho nada a ver com isso! Se ele veio aqui despejar absurdos foi porque quis. Sequer comentei algo com ele que não fosse profissional.
— Reforce seu cercadinho de hashis, porque seu bebê está fugindo das regras da empresa, e o deixei avisado, se chegar a pensar em levantar o tom mais uma vez, está suspenso!
— Você sequer se abalou! – cruzou os braços e riu em puro divertimento.
— Claro que não! Preciso manter a ordem e, sinceramente? Ele ficou puto! – Gargalhamos. – Ei, eu conheço essa embalagem.
— Isso mesmo! Trouxe pra você, sabia que não tinha parado um segundo. – abriu a sacola para se exibir com uma fatia de torta holandesa, que não era apenas generosa, mas sim um milagre inteiro! E isso, sem contar o Gingerbread tão bem decorado junto dos muffins que saíam da sacola também. — Ah! Um muffin é meu e não me olhe assim, é de mirtilos!
— Por favor, fique com o muffin! Os anjos na padaria do céu choram toda vez que veem você comprando muffin de mirtilos!
— Não reclame, apenas coma! Vou buscar um café pra nós.
Não estava entendendo sua bondade repentina e sequer lembrava que existia alguma bondade ali. Para mim, Daria era composto de 70% água e 30% luxúria. Blair queria uma trégua, então parece que alguns passos estão sendo dados por aqui. Em segundos, ele estava de volta com o café da máquina no corredor, para ocupar da mesma forma seu lugar à minha frente.
— Expresso e doces: a melhor combinação para não pregar o olho a noite. – Rimos.
— Jura? Durmo como um bebê! Isso é bom, no final das contas, estava mesmo pensando em te chamar para um jantar hoje. – Ele sequer me olhou, tamanho descaramento. Estava ocupado demais retalhando seu muffin ridículo, aparentemente.
E estávamos empatados: enquanto ele se recusava me olhar, eu me recusava fortemente a aceitar mais uma fase dos seus jogos. Essa poderia ser a cartada final, mas pra mim, isso aconteceu anos antes e vinha enfrentando um vilão a cada dia por isso.
— Você nem quer esse muffin, você veio aqui pra isso. O quão cara-de-pau você pode ser, ? Eu sabia que não daria ponto sem nó...
, não é o que você está pensando, eu só...
— Você é ridículo! E eu estou farta dos seus joguinhos, simples e puramente farta!
— Me ouça, mulher! – Nikki bateu a porta, como o protocolo pedia, e entrou em seguida.
— Senhorita , faltam 10 minutos para a videoconferência com o Rui e a sala está pronta. Algo mais?
— Nicole, se desfaça das coisas na minha mesa, quero apenas as pastas. Em seguida, te espero na sala de conferências para fazer a ata, sim?
Busquei pela pasta com os resumos das edições especiais junto à de Gareth para juntá-las com minha bolsa e seguir em direção ao banheiro. Precisa me retocar, mas mais importante era ter ao menos dois minutos, coisa que achava essencial, para pensar em paz e pôr as coisas momentaneamente no lugar.
Retoquei o batom carmim e o iluminador que dava vida em pontos específicos do meu rosto. Respirei fundo, me encostando na pia, fechando os olhos calmamente – ou ao menos tentando – para repassar mentalmente os pontos principais que careciam ser citados e deixei qualquer aleatoriedade para trás. Mesmo após um bom tempo, Rui me veria exatamente da forma que estava acostumado: focada, decidida e inabalável. Fazendo jus aos 51% da Magic! Magazine, uma das queridinhas da cidade de Nova Iorque. Encarei meu reflexo no espelho para mais um suspiro, endireitei a postura e juntei minhas coisas fazendo meus saltos gritarem contra o piso no caminho até a sala de conferência. Nela já estava Nicole à postos mais ao fundo, e na primeira cadeira de um lado da grande mesa de reuniões, meu querido colega. Ocupei o lugar ao seu lado com a chamada em espera, que em segundos se desfez para revelar o rosto sorridente de Rui.
— Minha dupla dinâmica! – Saudou. — Sou mesmo um filho da puta sortudo, huh? Como vão as coisas? Vamos, me contem tudo!
— Mais perfeitas do que nunca, Rui! – O cumprimentei com um largo sorriso e dessa vez espontâneo, que ele mesmo me causava. — Nosso exército fashion continua na mais harmoniosa conexão, sem dúvidas!
— Vocês nunca decepcionam! Alguma novidade? – Enrolado em um roupão branco e felpudo ,que parecia tão confortável quanto um pedaço de nuvem, e aparentemente deitado, Rui estava diferente do que estávamos acostumados e, consequentemente, do que esperávamos.
— Bom, amanhã teremos uma Assembleia, se não for exagero chamá-la assim, onde eu apresento uma proposta com Gareth e com Choi. Hoje mesmo separamos as avaliações e resumos das nossas amadas edições especiais e as demissões estão em andamento, caso precise.
— Peguei vocês, não é? Aparecendo antes da hora e deixando vocês loucos! – Riu. — Céus! Eu amo esse suspense que sei fazer como ninguém! Gareth, né? You go girl! – Meu chefe disse com animação e bebericou algo em uma taça.
— Não acredito que você está bebendo, Rui! Por Deus, você não existe! – Gargalhei e ele me acompanhou. — E só para constar, isso é maldade pura!
— Nunca os impedi de beberem, inclusive, incentivo! E em minha defesa, não é maldade se logo, logo, chegar um uísque dos bons para enfeitar a mesa de cada um! – Angel se exibiu com sua taça mais uma vez insinuando um brinde.
— Então digo que está com a razão, chefe e nem em outra vida vou reclamar do presente! Obrigada. – Pisquei cúmplice.
, seja sincera, o que fez com meu galã desta vez?
— Estarei apresentando com ele na Assembleia amanhã, já lhe disse! – Brinquei.
— Não seja ruim, garota! Sabe que estou falando do bonitão do seu lado. Então me diga o que essa megera fez com você, bonitão. Sabe que posso demiti-la! – Dramatizou um bocado para sussurrar a última parte que me causou risos assim como no homem ao meu lado. Desgraçado!
— Se quer mesmo saber Rui, ela tem partido meu coração constantemente! – Disse teatralmente.
, como pode deixar esse homem escapar duas vezes? Olhe estes braços! Me coço para não te dar um aumento para continuar malhando!
— Angel, achei que havia ligado para saber da empresa. – Marquei o tom de obviedade na minha voz.
— Também! Tenho alguns comunicados a fazer, inclusive. – Suspirou. — Primeiro, podem guardar as edições especiais, porque na hora delas eu volto e, dessa vez, não foi por elas que apareci.
— Está acontecendo alguma coisa? – perguntou, se ajeitando na cadeira.
— Sim, mas vocês vão conseguir lidar perfeitamente. Para começar, hoje vocês terão um jantar de gala e espero uma foto sua, . É uma confraternização com as maiores revistas de Manhattan. – Comunicou por fim.
— Fazia tempo que não tínhamos que lidar com estes jantares. – Comentei.
— Sim, Manhattan parecia ter parado de vez com eles. – completou. — Algo em especial?
— Nah! – Abanou a mão demonstrando descaso. — Apenas vão e representem a revista. Bom, por hoje é só, algo a acrescentar? Falem agora ou calem-se para sempre!
— Por enquanto não, mas obrigado, Angelo! – sorriu.
— Se sorrir pra mim assim de novo, é oficial, te dou um aumento! Obrigado pelo quê, afinal de contas garanhão?
— Ela recusou um convite meu para jantar minutos atrás! – Rolei os olhos.
What. A. Gentleman! Bom, tenho que ir, aproveitem sua noite. Ah! Estou em Nova Iorque! – E desligou.
— O quê? – Dissemos juntos. Assim é o meu querido chefe! Bem humorado e raramente algo o tira do sério. Aos seus 58 anos, tinha aparência de 40 e sua alma era de 20, se não menos. Vivia intensa e imprevisivelmente, para cada semana estar em um lugar diferente, rodando o mundo inteiro. Rui Angelo é daquelas pessoas que tem o dom de distribuir risadas por onde passa com seu espírito leve e aventureiro, além do seu dom pela moda que estava sempre on fire. Rui também era o pai que nunca havia tido, ele sabia e dizia se orgulhar do quanto significava para mim.
— Meu Deus, não acredito que ele está finalmente aqui. Isso é tão Rui! – Sorri, repassando em minha cabeça a última das insanidades do meu chefe. O silêncio apoderou-se da sala de conferências e me vi obrigada a levantar e rumar para a minha sala mais uma vez.
— Nicole, se importa de nos dar licença um minuto? – se direcionou à secretária na outra extremidade da mesa.
— Está tudo bem, Nikki, junte suas coisas e vá pra casa. Já estou indo também. – Ela acenou com a cabeça e encostou a porta ao sair. — Pois não? – Com a sobrancelha arqueada me dirigi ao homem à minha frente.
, você me entendeu mal, mas também não tiro sua razão. Só não queria que você espelhasse todas as minhas ações em decisões que tomei uma década atrás! É um tanto injusto, até.
— Não é justo pra você, que não arca com as consequências até hoje.
— Por Deus! Eu era um moleque, mal sabia o que fazia e hoje te convidei pra jantar pra tentar tirar essa imagem horrível que construiu de mim.
— Não me faltaram motivos. – Cruzei os braços.
— Eu sei, você está certa e eu estou tentando me redimir. O que me diz? Passo pra te buscar hoje à noite? – Seus olhos buscaram pelos meus e insatisfeitos, caçavam por uma resposta. Os mesmos olhos que me fizeram viajar por tanto tempo com o verde que parecia ter sido pintado à mão com aquelas pintinhas cor-de-mel.
— Tudo bem, não estava afim de dirigir, de qualquer forma!
— Confie em mim, .
Saímos da sala de conferência para que cada um seguisse seu rumo, ainda que meus pensamentos seguissem uma rota contrária, e eu não queria controlá-los.
Encontrei Nikki organizando as últimas coisas que estavam fora do lugar em sua mesa.
— E Nicole, – A vi se virar para mim e concordar com a cabeça. — Não se preocupe com o Choi mais cedo, não foi culpa sua e ele tem umas atitudes duvidosas mesmo. – Pisquei e segui meu curso, aproveitando ainda sua presença, pedi que colocasse Blair na linha.
— B, consegue sair mais cedo hoje? Mais cedo, tipo agora.
— Na verdade não, mas como você é minha chefe, imagino que de uma forma ou de outra isso seja uma ordem, não é?
— Como se precisasse perguntar! – Ri. — Te espero no estacionamento, babe.
Saindo da minha sala, segui o corredor que dava acesso ao elevador e sequer vi mais nenhuma sombra de Nikki. O elevador chegou e eu entrei, para encarar meu reflexo nos espelhos pela segunda vez em pouco tempo e sendo invadida por pensamentos vaidosos de penteados para a noite de gala que me aguardava, assim como a jóia em qual apostar, já que meu tempo era um bocado curto.
Tirada dos devaneios pelo tilintar ao abrir as portas do elevador, irrompi em direção à uma das minhas maiores extravagâncias, meu BMW Concept 8, adentrando o veículo para jogar as pastas para trás, como estava acostumada. Os 10 minutos que Blair demorou para aparecer –que me pareceram 30–, pude usufruir da chance de mais uma vez, tentar organizar as ideias, e até podia ouvir mamãe falando que eu precisava de férias. Finalmente, a boneca apareceu e aparentemente trazia todos os registros desde o nascimento da Magic, tamanha era sua pilha de pastas.
— Certeza que está tudo bem sair agora? Não tem que colocar estagiários nos eixos ou algo do tipo? – Ri.
— Nah! Está tudo bem! Vamos? – Ela se aconchegou e percebi que estava até um pouco ofegante.
Liguei o carro e já vi minha melhor amiga se adiantar procurando algo na playlist que em um combinado silencioso, ambas sabíamos que era sempre responsabilidade dela.
— E como foi hoje com o Rui? O que ele achou das edições especiais?
— Ah, B, ele sequer ligou pra elas, foi mais para comunicar um jantar de gala com as melhores revistas de Manhattan, com direito a The Plaza e tudo!
— Eu podia jurar que haviam desistido de vez desses jantares.
— Pois é, e agora temos a missão de achar um vestido em 30 minutos.
Entramos em algumas lojas, torcendo o nariz para alguns, e se apaixonando perdidamente por outros totalmente fora de contexto para a ocasião, como a jaqueta de couro da nova coleção de Carolina Herrera e realmente, essa era a montanha russa de sensações que a Madison Avenue proporcionava. E foi na mesma loja que o encontramos. O vestido perfeito. Perfeito para mim, e nascido para aquela noite.
Braid Detail Silk by Carolina Herrera.
Ousado, sexy, elegante e vermelho.
Ainda encantadas pela Madison Ave, Blair sabia que ali, em algum lugar da Giuseppe Zanotti Design, haveria a combinação perfeita e não poderia estar mais certa.
O par de sandálias Three-Strap vermelha com o vestido me serviram como o sapatinho de cristal na Cinderela. A diferença é que, Giuseppe Zanotti, como um dos maiores estilistas de moda calçadista de luxo tinha o dom de ler os pensamentos ao apresentar aqueles belos 12 centímetros e alguns mil dólares que me calcariam hoje.
Infringimos algumas leis de trânsito ultrapassando alguns sinais vermelhos para corrermos até em casa e o horário de pico não ajudava.
Ao adentrar o apê, tinha exata 1h30 para me arrumar. Tempo este que levo na manhã antes de ir trabalhar.
Correria –e gritos apressados da Blair– à parte, quando pude me ver no espelho, gostei do resultado, e digo isso porque era apenas quando a General Mitch permitia, e, sinceramente, com seus olhos atentos, cada piscada era um acerto para a conta da minha melhor amiga girly e perfeccionista. Os cabelos presos em um coque banana tinha alguns fios soltos para desconstruí-lo. Para a maquiagem, nada exagerado, mas uma pele perfeita e cílios de dar inveja. Blair Mitch era minha fada madrinha e eu nem sequer sonhava em discordar!
Meu celular tocou para me desligar dos devaneios. Era .
— Sua carruagem te espera Cinderela! Está pronta? – Disse brincalhão.
— Mas ainda faltam 20 minutos!
— Ok, isso é um ‘não’.
— Ainda faltam alguns detalhes, se importa de subir?
Ouvi meu co-worker concordar e desligamos, para que então eu pudesse correr pelo apê procurando por uma Blair, que parecia gostar mais de usufruir do seu tempo maratonando “O Diabo Veste Prada” pela milésima vez, esparramada no sofá da minha sala.
Pois bem, não julgo, é um excelente filme!
— B, quando a campainha tocar é o , pode abrir por favor?
— E o que ele está fazendo aqui? – Disse mordendo sua fatia de pizza que... Por Deus Blair, eu a estava guardando!
— Me ofereceu carona.
— Por que não me falou que ia acompanhada? Poderia ter opinado em um vestido mais curto!
— Você não perguntou, oras! Preciso terminar de me arrumar. Ah! Pode servir vinho branco, ele ama!
Corri de volta para o quarto, a fim de escolher uma clutch que não me dei o luxo de me lembrar mais cedo. O closet que parecia menor a cada passo quando ouvi a campainha. Puxei a gaveta para tirar de lá o conjunto composto por anel e colar, da coleção Tiffany Soleste com jóia esmeralda rondada em diamantes.
Presente de Rui.
— Só mais uns minutinhos, juro que já vou! – Disse em direção ao corredor, alto o suficiente para me ouvirem, e tive a gargalhada de em resposta.
O vestido esticado na cama estava pronto para ser estreado, e assim o fiz, sentindo o tecido macio deslizar pela minha pele por toda sua extensão. Calcei as sandálias e pude conferir no que tanta correria resultou.
O look predominantemente vermelho e eu só podia ouvir Blair: “Você está matadora!”.
Com clutch finalmente em mãos segui para a sala, encontrei B deitada em um sofá e aconchegado em outro, muito bem em seu smoking por sinal.
— Tudo certo, Cinderela? – Perguntou a minha melhor amiga.
— Eu nem saí e você já se apossou de 100% das minhas coisas! – Brinquei. — Vai ficar por aqui?
— Não sei na verdade, e sim, , eu lembro das regras: 1 – Nada de mais de um boy; 2 – Respeitar a adega de vinhos; 3 – Pia limpa. – Blair enumerava nos dedos de uma mão e sua voz era puro tédio, me fazendo rir.
— Esqueceu a mais importante! Não pedir...
— Não pedir farinha para o vizinho porque você sempre tem farinha! – Rolou os olhos e cruzou os braços como uma adolescente emburrada.
— Que orgulho! Vamos, ? – Me virei para o homem que tinha as mãos nos bolsos dianteiros da calça e para o meu azar, estava terrivelmente deslumbrante. Seu perfume usual me rodeava, tornando difícil a tarefa de manter-me sóbria perto dele.
— Claro, claro! Vamos! E você está... Céus! Está perfeita . – Sorrimos.
Era uma trégua, after all.
— Obrigada, você também não está nada mal.
— Ah sim! E não iria me esquecer. – E como no meu aniversário, revelou mais um buquê de rosas colombianas, que pouco a pouco, começavam a se tornar meu mais novo vício. Então percebi que mesmo sem querer, elas fundiam-se com a cor do vestido.
— Confesso que a última vez que as recebi, não é das minhas memórias favoritas... Obrigada! Blair vai colocá-las na água, não é Blair?
— Lembre-se: estou tentando me redimir! – O co-worker sussurrou para piscar em seguida.
, vá de uma vez! – Pela milésima vez em cinco minutos, revirou os olhos. — Sim mamãe, as colocarei na água.
— Não me expulse da minha própria casa!
— Não estou. Só estou sendo esmagada entre meu próprio peso, o de vocês e da tensão sexual, então, por favor! – Abanou a mão no ar como não se importasse, e não tivesse visto que a fuzilava com o olhar. Pigarreei e segui até , e gostava de pensar que nenhum de nós concordava com Blair.
ofereceu seu braço para que eu o enlaçasse e não desapontei, assim o fiz para seguirmos em direção ao elevador.
— Última vez que estive aqui, pensei que fosse me estrangular. – Rimos para preencher o vazio silencioso do elevador. — Obrigado por aceitar o convite, Em.
Minha resposta foi calada por um bando de crianças barulhentas que pareciam ser nossa companhia até o térreo, e eu só pude sorrir para sua gentileza. Era estranho no final das contas, a trégua. Estava acostumada com outra realidade e acredito piamente que ele também, talvez a trégua fosse algo que eu teria que aprender, depois de tanta coisa.
O caminho foi tranquilo e pudemos conversar e dar algumas risadas enquanto ouvíamos sua playlist horrorosa, vinda direto da nossa adolescência, no último ano do colégio para ser mais precisa e o início da fase adulta, com a faculdade e o começo de estágio na Magic.
Não somos celebridades, mas era até irônico como cada um ali, no salão do The Plaza, tinha uma carta na manga. Era como um ninho de cobras onde todas vestiam Versace. Claro, haviam algumas exceções, um e outro que se safava sem o rabo preso com ninguém e eu não estava absolutamente certa sobre estar entre eles.
— Chegamos! Pronta para beber taças e taças de champanhe com combinações esquisitas de frutas e ser simpática por horas? – Disse o homem ao meu lado, revezando o olhar entre mim e o frisson mais à frente.
— Para sua informação, sei muito bem ser simpática! Mesmo por horas! Você não estava tentando se redimir? – Suspirei para dramatizar um pouquinho. — Anyway, focar em me embriagar o máximo possível antes de Melanie Vaughn vir me contar sobre a festa que fez no iate para seus poodles! Como pode ser tão sem noção? – Nossas risadas tomaram conta do carro e, de presente para a nossa sanidade mental, demos mais um longo suspiro. Haja paciência para o que estava por vir!
— Não é por nada, mas ouvi boatos que o sonho da Melanie é chegar á Magic! Ela já entregou o currículo? – brincou e saiu do veículo rindo, contornando-o pela frente parando ao meu lado e abrindo a porta como um legítimo cavalheiro de alguns séculos atrás. Ele entregou a chave para que manobrassem o carro e enlaçamos nossos braços novamente, não era de todo ruim, tenho que dizer.
— Ah! Só um segundo! – Me virei para estar de frente a ele. — Sua gravata, deixe-me arrumar. – Puxei as extremidades do laço para ajustar seu tamanho e endireitá-la em seu colarinho. Sua gravata borboleta marsala, que caía tão bem com a lapela da mesma cor em seu smoking. God have mercy! — Prontinho, agora sim! Vamos! – Dei dois tapinhas em seu ombro, como se precisasse deles para dispersar os pensamentos anteriores.
Adentramos o grande hotel, sendo devorados por alguns flashs dos atuais responsáveis pela grande cobertura do evento. Era até engraçado provar do próprio veneno, quando já havia feito o mesmo para conseguir as melhores notas no estágio.
— Senhorita , por favor uma pergunta: A Magic! Magazine está entre o atual “Top 5” de Manhattan: vocês estão conformados com isso? – Um garoto mirrado, e creio que em seu melhor terno perguntou, usando seu celular como gravador.
— Por Deus, meu jovem! – Dei uma risada irônica. — Folheie a Magic mais uma vez e veja que não estamos conformados com nada. E convenhamos, o 1º lugar está aí para ser conquistado e te digo uma coisa: esteja atento ao próximo nome a ocupá-lo, será a própria Magic. Obrigada. – O garoto recolheu sua gravação para dar espaço a uma jovem ansiosa ao lado de .
— Senhor , por gentileza: como parte do cérebro da ‘Tríplice de Ouro’ da Magic! Magazine, o senhor acha que é um bom momento para a Magic diversificar sua forma, como dizem os boatos?
— Primeiramente, obrigado pelo ‘Tríplice de Ouro’, é sempre a mesma sensação renovadora de ouvir, como se fosse a primeira vez! – Riu simpático. — Quanto aos boatos: sou contra spoilers!
— Senhor , aqui! – Uma garota irrompeu.
— Mil perdões pessoal, preciso ir. Seria uma lástima deixar uma mulher dessas esperando! Obrigado! – Demos um aceno para o último rajar de flashs que nos perseguiram e seguimos para o salão.
Sendo verdadeira, gostava de ver a forma que lidava com as perguntas e com quem as fazia, porque era muito diferente da forma que havíamos sido tratados na época em que precisamos correr atrás do que esses jovens corriam hoje. Assim como a dificuldade que tínhamos com os materiais e artefatos necessários de baixa qualidade para que conquistássemos o melhor que pudéssemos. Era uma caça por leões todos os dias.
Uma música agradável e ambiente tocava ao fundo quando logo nos servimos de taças de champanhe e decidimos nos separar para melhor socializar.
O local me parecia mais elegante do que me lembrava desde a última vez que estive ali, há dois anos. Banhado por conhecidos do ramo, e, devo acrescentar, alguns concorrentes os quais já havia trocado boas farpas. Vi quem me ajudou com conteúdos essenciais e não necessariamente exclusivos ainda na faculdade, como uma entrevista esclarecedora, bastidores de peças de teatro até photoshoots. Vi também quem esnobou e jogou o nome da –até então– pequena e recém nascida Magic na lama e havia espaço igualmente para quem mantinha apenas as relações estritamente profissionais. Cumprimentei a todos igualmente, e aos que pisaram, o meu mais sincero sorriso da atual ‘Tríplice de Ouro’ da Magic! Magazine.
Dito e feito.
Em pouco tempo, pude ver Melanie Vaughn oferecer-me uma taça de champanhe ao meu lado. Com toda sua loirice exagerada em um quase cosplay de Paris Hilton.
— Olá, amada! Não preciso dizer que está divina, não é? – Sorriu forçada, junto de sua voz estridente e nasalada que poderia partir em pedaços mínimos nossas taças. — Caroline Herrera?
— Claro. A própria! – Forcei um sorriso, talvez perto de simpático enquanto respondia o comentário sobre o vestido. — E, nossa! Arrasou no aniversário dos poodles esse ano. Realmente, não poderia ter imaginado algo igual, Mellie! – Pisquei. Emendei em seu assunto favorito, assim não faria questão de ficar por tanto tempo e poderia esbanjar seu bronzeado ¾ alaranjado em qualquer outro metro quadrado deste salão. Céus!
— Sim, sim! Foi divino, uma pena que não pôde ir. – Forçou um desânimo, que me dava náuseas. — Mas bem, cá entre nós, esse assunto já não é o único do momento e sim . – Sorriu.
— O ? Jura? E o que ele fez desta vez?
— Ah... O que eu gostaria que ele fizesse, não é mesmo? Por favor, me diga que ele está solteiro, e eu juro que posso descabelá-lo agora mesmo! – Vi a loira platinada à minha frente encará-lo e fazer uma espécie de garras com as mãos, e que assemelharam bastante, devido tamanho de suas unhas cor-de-rosa. Senti meus olhos se arregalarem de imediato e entornei o restante de champanhe em minha taça, colocando-a vazia na bandeja de um garçom que passava ali e substituindo por uma cheia. Precisava saciar a sede que me cercou.
— Hum... Nã.. Não que eu esteja fofocando, longe de mim, é claro! Mas o vi confirmar umas rosas vermelhas, aquelas colombianas lindíssimas, para alguém esses dias! – Disse rapidamente, para sentir o cítrico da bebida em meus lábios novamente, me dando conta do que diabos havia dito.
Ah, não!
— Não acredito! Não o vejo com ninguém há tempos, . Acha que é sério mesmo? – Colocou as mãos na cintura, estreitando a vista e me analisando. Talvez não percebesse minha mentira. Sinceramente, ela não era tão esperta assim. E outra, não era das piores mentiras, diante à trégua, só queria protegê-lo. Apenas.
— Você deveria tê-lo visto. Cheio de sorrisinhos, deve ser sério sim. – Dei de ombros.
— Que horror! Já estava sonhando com aqueles ombros largos, os olhos verdes e aquelas mãos... Ah, , como se concentra com um homem desses pelos corredores?
— Não se iluda, não é tudo isso. – Sorrimos e nos viramos em direção ao palco, onde havia uma movimentação.
Samantha Barry, editora-chefe da Glamour se aproximou do microfone em frente aos músicos para chamar a atenção.
— Boa noite! Sejam todos muito bem-vindos ao The Plaza e à noite de premiação á Vogue. – Aplausos preencheram o salão e vi se posicionar ao meu lado. — Agradeço a presença de todos e, antes do jantar, vamos ver um vídeo promocional da premiada da noite.
O vídeo se iniciou e nele havia a campanha entre Vogue e Glamour em suas plataformas de comunicação, que tinham como prioridade avançar e explorar mundialmente as vertentes de Marketing de Luxo. Marketing do Luxo, com curadoria da redação da Vogue, e Marketing Digital para Moda, com curadoria da Glamour. Os veículos se uniram com o objetivo de disponibilizar conteúdo nas áreas de moda e luxo com o selo de títulos que são referência nesses segmentos.
A hostess nos acompanhou à mesa com nossos nomes ao leste do salão. Um local reservado que nos permitia ter o prazer de observar a Big Apple ganhando pontos de luz conforme a noitada se abria em uma forma aconchegante, ainda que o local estivesse farto.
— Fiz o máximo que pude para ficarmos um pouco reservados, mas queria aquela mesa que uma vez você comentou...
! Não se preocupe, está ótimo! Obrigada. – Sorri terna mas ainda um pouco acanhada. — Mas me diga, como está a sua proposta com o Choi? – Perguntei enquanto abria o Menu a minha frente para analisá-lo.
— Não, não! Não vamos falar de trabalho aqui!
— É exatamente isso que estamos fazendo! – Exclamei óbvia.
— Ao menos não estamos rodeados de pastas! Ah! Espero que não se importe, pedi um Dom Périgon e espero ter me lembrado bem: vintage rosé.
— Mas você gosta do vinho branco! E quando você pediu? Estávamos juntos quase o tempo inteiro!
— Se acalme mulher! Tenho tudo sobre controle e hoje minha meta é me redimir! – Piscou e em seguida sinalizou algo para o garçom que não fazia ideia. — E Dona Valerie, como vai?
— Jura? Minha mãe? – O encarei entediada e ele acenou com a cabeça para que prosseguisse. — Ela está ótima. Uma versão menos louca do Rui, acredita? Vive viajando!
, eu devo um pedido de desculpas à ela. Não vai mudar tudo o que aconteceu, mas cá estou, tentando me redimir. – O garçom chegou para nos servir o champanhe rosé.
— Vamos com calma, garotão. Baby steps... – Levei a taça aos lábios e senti o adocicado leve junto da acidez explodir até o céu da minha boca.
— Tudo bem. Vamos pedir?
Durante o jantar, pôde contar suas histórias da temporada em que morou na Inglaterra, oportunidade que teve na faculdade e que nos afastou um bocado. Conseguimos dar boas risadas, apesar de tudo, e foi um jantar agradável.
Retornando ao salão principal, haveríamos de lidar com a premiação, mais um vídeo promocional e enfim abririam a balada para fechar a noite. Que saudades das luzes piscantes!
— Estamos celebrando nesta noite em homenagem à grande campanha revolucionária com iniciativa da Vogue. – Samantha retornou a falar em sua posição de anfitriã, com seu tom de voz gentil. — E peço uma salva de palmas pra que Eugenia de la Torriente possa receber sua merecida estatueta!
Recebendo a estatueta das mãos de Samantha Barry, uma sorridente e deslumbrante Eugenia de la Torriente ouviu o preencher e repercutir das palmas em sua homenagem. Senti meu sorriso se abrir junto ao de tantos ali presentes, que mulher! Que personalidade exuberante!
Segurou o mundo com uma mão e conquistou a estatueta com outra e me parecia a coisa mais certa do mundo.
— Me parece até um sonho! E quantas vezes sonhei com isso! – Eugenia iniciou com suas palavras. — Digo a vocês, não cheguei sozinha aqui e também não ganhei sozinha. Ajudem quem está ao seu lado e vocês verão sobre o que é empatia! Muito, muito obrigada e boa noite. – Ela levantou sua estatueta e alguns sorrisos se alongaram ainda mais, enquanto o seu próprio seria capaz de iluminar toda a cidade.
— Acho que caiu um cisco no meu olho! – Brincou Samantha ao retornar. — Obrigada a todos por esta noite e espero que possamos nos encontrar logo mais na London Eye, felizardos! Agradeço-lhes novamente e aproveitem a noite!
O último vídeo promocional se iniciou, tão bem trabalhado quanto o anterior e repetidamente frisava um encontro em... Londres?
— Não, não, não e não! Ele não fez isso! – Me dirigi a , exasperada.
— Caralho! Rui enlouqueceu de vez, não pode ser! – completou.
See you all soon.
London, 2019.


IV


Irrompi pelo salão de gala e por cima da música alta que tocava, era como se pudesse ouvir meus dentes rangendo em fúria e não duvidava.
, ! Espere! O que vai fazer?
— Preciso tirar isso a limpo! Ele não pode simplesmente nos despachar em outro país e achar isso certo! – A voz, antes recatada, agora atingia alguns bons decibéis a mais.
— Quer mesmo lidar com isso de cabeça quente?
— O que você quer? Que eu espere ele carimbar nossos passaportes? – Cruzei os braços. — Olhe, quer ficar? Fique! Chamo um táxi.
— Claro que não! Sabemos que Rui está em Manhattan, mas sequer sabemos onde.
— Você, não sabe. – Frisei. — É claro que ele está no Conrad Hotel. Enfim, você vai ou fica? – Perguntei um tanto ríspida, sabia que não era culpa dele, mas precisava se decidir afinal. Em resposta o vi suspirar e balançar a chave do carro nos dedos.
Cruzando a cidade, uma eternidade de quarenta minutos nos distanciava do Conrad Hotel e, neste meio tempo, minha cabeça dava nós quase cegos e meu coração se contorcia em acrobacias de pura e sincera raiva.
, tem certeza que quer chegar tarde no hotel para xingar seu chefe?
— Até porque não me parece tarde pra’ ele contar que vamos para outro continente! – Busquei pelo meu celular, discando o número de Rui. Pareciam intermináveis as vezes que disquei seu número para ouvir os repetitivos toques e ir parar na caixa postal. — É óbvio que ele não vai atender. – Murmurei.
— Não é tão ruim assim, o continente está aqui do lado!
— Você está do lado de quem, afinal, ? Uma hora ele vai atender. Tem que atender. – Tentei por mais alguns minutos e enfim, ouvi sua voz.
Me conte tu-do sobre o evento, querida! E cobre o a minha foto que pedi! – Coloquei a chamada no alto-falante.
— Angel foi esplêndido! Eugenia de la Torriente ficou tão emocionada! – Forjei uma voz serena. — Oh Antes que me esqueça, se me permite perguntar: QUE PORRA É ESSA? – Pude ouvir o riso dos dois homens.
Céus, então vocês já sabem! Fantástico, huh? – Disse Rui, fazendo pouco caso.
— Sério Rui, o que passou na sua cabeça? – Berrando as 7 Maravilhas do Mundo e não pretendia parar tão cedo e o homem na ligação sequer se importara.
O que passou pela minha cabeça é que não adianta você vir até o Conrad Hotel, apenas deixe seu passaporte em dia!
— Não estava indo ao Conrad Hotel! – me olhou para sussurrar um “O quê?”.
— Eu sei que está e que também está fazendo o bonitão de chofer, sua cobra! Conheço seu modus operandi!
— Olá, Rui! – o saudou, revelando-se.
I knew it! Apenas não venham! Tchau, tchau! – Desligou.
— Mas que inferno de mania de desligar do nada!
— Bom, já vimos no que deu! Vou te levar pra casa.
Me contentei em suspirar para recobrar a sanidade e concordar. Rui Angelo era o dono de todo aquele império, no final das contas. Olhando pela janela, assistindo uma garoa fina começar a cair pela cidade de Nova Iorque, mas notei que em poucos minutos já estacionava em frente ao meu prédio.
— Meu Deus, Rui é inacreditável! – Comentei pensativa, ainda com a cabeça recostada ao vidro do carro e ouvi a risada nasalada do homem ao meu lado.
— Descanse e coloque a cabeça no lugar. Amanhã conversamos sobre isso com tranquilidade, ok? – Percebi sua voz mais suave e calma.
— Bom, obrigada pela noite. Foi incrível, apesar de um final conturbado!
— Nessas horas, eu sempre acho que você vai acabar estrangulando alguém e infelizmente dessa vez eu era o mais próximo, mas eu tenho um bom seguro de vida! – Rimos, preenchendo o silêncio do carro que parecia maior conforme a garoa se intensificava e as pessoas na rua se esvaíam.
— No final das contas, não precisei te estrangular! Parece que sua missão de se redimir está indo muito bem, soldado! – Sorri encorajadora.
— Este era o meu dever, senhorita! – Piscou e simulou uma simples continência, fazendo-me rir.
— Desculpe, tenho que ir, Blair ainda deve estar esperando por mim. Faz de tudo para ser a primeira a ouvir as fofocas, acredita? – Sorri. — Obrigada, , de verdade. Boa noite.
Subindo ao apê, haviam poucos sinais da minha melhor amiga por ali. Uma embalagem de biscoitos aqui, uma caixinha de suco ali... Como uma criança. E como dizia minha intuição, ela estava no quarto de hóspedes, esparramada na cama e adormecida como um bebê. Longe de mim acordá-la agora, coisa que ela odiava com todas as forças, sem contar que poderia desperdiçar seu bom humor que tinha pela manhã. A amava demais para castigá-la assim, as fofocas poderiam esperar.
O sol nascia pela cortina que não fechei na noite passada e me arrependi amargamente. De qualquer forma, o dia da votação chegou!
Mal me levantei e já podia ouvir Blair cantarolando Katy Perry em sua plena felicidade matinal e um cheiro delicioso fazer meu estômago cantar, quase tão alto quanto ela. Me dei o luxo de um banho demorado e, quando saí do mesmo, até minha melhor amiga já havia desistido de cantar.
— Bom dia, B! Acordou tão cedo. – Beijei o topo da cabeça de uma Blair que zapeava os canais para, então, me servir de suco de laranja e cookie.
— Bom dia, femme fatale! Ei, fiz ovos com bacon fresquinhos e torradas, não me decepcione com um mero cookie.
— Vou precisar sair uns quarenta minutos antes, hoje. Dia de Assembleia, baby!
— Por nós: Pise no Choi! Ouvi umas palavras altas dele ontem pelos corredores. Novidade... – Reviramos os olhos, reação comum quando esse nome era citado.
— Anda muito estressadinho... Quando não, né?
Blair insistiu em dirigir para que eu pudesse revisar os dados da apresentação para mantê-los frescos na memória e assim o fiz pelos vinte minutos que me foram permitidos antes que chegássemos ao prédio da revista. Trocamos um “te vejo no almoço” ao longo que seguíamos para nossos departamentos.
Entrei no campo de visão de Nikki e passando por sua mesa, logo vendo-a quase à posto em meio ao caminho à minha sala.
— Bom dia, Nicole. Dia cheio, huh? Ligue para Anna e diga que quero que organize a Sala de Conferências. Contate Gareth no mesmo segundo que ele estacionar aqui e diga que preciso vê-lo imediatamente. Mande flores de agradecimento à Carolina Herrera e Giuseppe Zanotti. Ah! Ao ligar pra Anna diga para o passar aqui. Agora. Por enquanto é só, obrigada.
Vi em minha mesa o whisky que Rui prometera, escocês, e não poderia ter optado mais certo. De volta ao mergulho com o último lance de dados que precisavam ser estudados, ouvi batidinhas na porta que me interromperam quase em tempo recorde desta vez.
— Bom dia, ! Queria me ver? – adentrou a sala ainda com seu café matinal em mãos.
— Bom dia, ! Sim, sim, por favor, sente-se. Aproveitando que chegamos mais cedo para a Assembleia hoje e partindo do princípio que não durará o dia inteiro, ainda há a coluna sobre o jantar de gala e premiação a qual precisamos lidar. Cá está a minha proposta: o que acha de escrevermos juntos, dessa vez? – Perguntei direta, cruzando as mãos em cima da mesa.
— Como se fosse na....
— Como se fosse na faculdade! Exatamente! – O completei. — O que me diz?
— Nunca me passou que um dia voltaríamos a escrever juntos, mas acho ótimo! Claro!
— Perfeito! Acha que conseguimos começar a escrever hoje à noite?
— Estarei aqui! – Suspirou. — E , sobre o Choi...
, mil perdões mas preciso rever algumas coisas antes da Assembleia, se não se importa. Obrigada!
— Entendo, claro. Tenho que rever as minhas também! Sem problemas, até mais.
Pelo amor de mim mesmo, criança! Sou o dono desse lugar, não preciso ser anunciado! Tchauzinho. – Aos berros em tom brincalhão disse o homem que impulsionava a porta da minha sala.
— RUI? – Dissemos juntos e por Deus! Boquiabertos era pouco.
There you are! Venham cá, deem um abraço no chefinho de vocês! – Angel abriu os braços e me acolheu para que eu pudesse matar as saudades até mesmo do seu cheiro de lavanda. — Um homem desse tamanho não vai se acanhar, não é? – Abraçou da mesma forma e nos saudou com um grande sorriso. — Esses músculos... Como vinho, cada vez melhor, querido ! Cada vez melhor...
— Vai ficar de vez, certo? – Perguntei, tentando desviar do atual assunto.
— Pretendo ficar apenas hoje, para me antenar por aqui. Confesso, já gastei alguns mil dólares por ai!
— Na verdade, precisamos conversar sobre ontem. – disse incerto, colocando as mãos nos bolsos dianteiros da sua calça social.
— Sim, Rui, por favor esclareça tudo isso. – Sentamos no sofá e Rui se serviu do uísque que me presenteou. Passando uma dose para mim, uma para e outra para si, aproveitando de minha cadeira.
— Desculpe se os assustei, mas Londres é real!
— Angel, não é justo! E facilmente pode ir apenas um de nós.
, pode ser uma chance para você mesma conhecer também, e é incrível! – Comentou meu co-worker.
— Obrigada, mas eu passo.
— Não, , você não passa. – A voz de Rui se tornou quase uma sentença de morte e eu nunca o havia visto daquela forma.
— Sabe que não posso, sou parte da direção da redação e alguém precisa ocupar esse cargo. – Exclamei óbvia.
— Exato! E eu vou ocupar esse cargo. Mais alguma pergunta? – O clima cada vez mais nebuloso na sala não me acanhava, assim como nunca acanhou. — Não via problemas em representar a revista nas demais premiações, assim como fiz por muito tempo, mas como revista inovadora, creio que seja hora de mudança de ares.
— Rui, você tem certeza que...
— Sim, , você vai e ponto final. Por favor, aceite de uma vez! – Após sua voz soltar o veredito, a última dose em nossos copos foi virada por mim e por Rui enquanto exercia seu papel apenas ocupando um lugar ali.
— Você não sabe o que está fazendo Rui, definitivamente não sabe. – Murmurei.
— Na verdade, pesei todo e qualquer pró e contra. É o melhor momento possível, . – Seu olhar me encontrou com furor, e eu respondi da mesma forma. – Estou exausto, principalmente das suas picuinhas.
— Rui, você me conhece como a palma da sua mão e sabe que pode ser tudo, menos picuinha! – Me levantei ao ver meu chefe fazer o mesmo para alinhar nossos olhares, um bocado exaltado.
— Está tudo bem? – perguntou desnorteado ao – real – assunto.
— Tudo ótimo, só um pouco surpresa com essa viagem repentina. E ridícula!
— Pois bem, estamos tendo problemas no Paraíso garotão... – Rui usou seu melhor tom irônico quando se serviu de mais uma dose de uísque. — Pergunte a ela porque está renegando tanto a Inglaterra. Vamos lá, pergunte!
Puta que pariu.
— Rui... – Não percebi quando meus dentes começaram a ranger, mas sentia meu maxilar sofrer e era o menor dos problemas.
... – iniciou, mas logo se conteve. — Vou deixá-los a sós. Parecem ter muito o que conversar. – Virou o que sobrou de sua dose e sem tempo para respostas saiu porta afora. E eu pude, enfim, respirar.
— Meu Deus, Rui! O que você estava pensando?
— Eu estou te ajudando com a oportunidade perfeita, já passou da hora. Não lhe pesa a consciência, não? – Suspirou. — Anyway, passado mais um episódio da novela mexicana da Magic! Magazine, vou me inteirar dos outros departamentos! Tchau, tchau.
Rui Angelo. O amava com todas as forças, mas também me dava nos nervos como ninguém! Minhas pernas ainda um tanto fraquejadas conseguiram descansar quando encontraram o conforto do sofá para que eu distribuísse suspiros aos quatro cantos como forma de encenação dos sentimentos calados, os amores injustiçados e as feridas abertas que não cicatrizavam. E a culpa era minha, mas precisava ser forte e segurar a “máscara” por mais tempo, não só por mim, que me pegava castigando-me por achar que fiz pouco demais e que não era sequer o mínimo. Quando o mínimo já machucara demais. Estava perdida. Perdida em mim mesma. E talvez essa fosse a pior das possibilidades.
Pelas minhas contas, tinha 30 minutos até que Gareth chegasse a partir do tempo que me restara e era mais do que suficiente para que eu colocasse as ideias em seus devidos lugares.
Quarenta minutos passados, tese em perfeito estado e cada vírgula em seu lugar, exceto pelo próprio Gareth que se recusava a chegar. Comecei a anotar as ideias iniciais para a coluna do jantar e premiação de ontem, para que pudesse eliminar um pouco das tarefas enquanto mantinha-me ocupada sem encarar o relógio a cada segundo. Iniciando por um roteiro onde indicava os pontos altos da noite em detalhes, na mesma intensidade das tendências que lançamos e pudemos testar a popularidade das que entraram em nosso campo de visão durante a noite e sim, os fracassos. Batidinhas gentis na porta e logo pude ver par de olhos azuis me encontrarem.
— Bom dia, , desculpe pelo atraso logo hoje! Você sabe, um imprevisto em NYC e sua vida desanda uma semana inteirinha. – Riu acuado.
— Bom dia, Gary, sem problemas. Apenas me diga que está tudo certo para a Assembleia! – Procurei me certificar, convidando-o para sentar-se a minha frente.
— No mais perfeito estado! Nós vamos conseguir, , e eu estou ansioso por isso!
— Acha que podemos repassar as ideias? Desculpe, gosto de ter certeza de que tudo está perfeito!
— Não se preocupe, concordo plenamente e acho admirável da sua parte.
Pela próxima hora, debatemos fazendo uma prévia de tudo que apresentaríamos e era perfeito ver que nossas convicções eram as mesmas, as ambições, o modo de pensar, visões... Gareth com seu charme galês, sua elegância, educação e cavalheirismo era encantador de todas as formas que poderia imaginar. E ainda por cima, workaholic na medida certa!
Nicole bateu à minha porta para o bem de meus pensamentos.
— Senhorita , desculpe interromper, apenas para avisar que os acionistas já chegaram. Gostaria de recepcioná-los?
— Ah sim, claro! Perfeito! A Sala de Conferências está pronta?
— Sim, sim. Rui pediu para avisá-la que não o aguardem para a Assembleia.
— Já esperava por isso. Tudo bem, Nicole, é só. Obrigada. – De forma sutil a vi sumir pela porta como sempre.
, posso falar com você um segundo? – tomou o lugar que Nicole ocupava anteriormente à minha porta, irrompendo aflito. Concordei, pedindo licença a Gareth, que permaneceu em minha sala, para prosseguir com até a Sala de Conferências que estava vazia.
— Céus! Você está uma pilha, o que aconteceu?
— Choi. Não apareceu até agora, simplesmente sumiu, ! – Impaciente ele passou a mão pela barba que começava a nascer em seu rosto e afrouxou o nó em sua gravata.
— Primeiramente: Que desgraçado! Segundo: Vai ver ele só está atrasado, até o Gareth se atrasou hoje.
— Não, ele não atende o celular e nem em casa. Vou precisar que inicie enquanto ele não aparece, se importa? – Perguntou inquieto.
— Não, claro que não. Preciso recepcionar os acionistas, mas vou deixar um alerta com Nicole.
— Não se preocupe e obrigado, . Vou verificar com Anna se houve algum progresso, até já. – O homem estava perdido e atordoado, e por experiência própria, essa era a pior forma de tomar decisões e ainda por cima em frente a um bando de acionistas. Não achava correto que a Assembleia tivesse início sem Choi, se fosse o caso, mas sabia que se chegasse a hora e precisasse tomar uma decisão, ele faria da melhor forma. faria sozinho. Isso mesmo, senhoras e senhores, se fosse preciso, Jeremy enfrentaria acionistas famintos para defender a sua ideia.
— Nicole, Choi não chegou. Dê um jeito de trazê-lo até aqui nem que tenha que buscá-lo em casa e ele não atende de forma alguma. Diga que o quero aqui, e principalmente agora.
— Claire, do Design, sabe rastrear celulares, vou providenciar. – Respondeu a loira, em prontidão.
— Perfeito, avise o assim que conseguir algo. – Ouvia os berros dos saltos reverberarem no caminho de volta até a minha sala. — Gareth, perdão, isso está uma loucura hoje e vou precisar me ausentar mais uma vez para recepcionar os acionistas. Alguma dúvida? – Me sentei de frente a ele, atropelando algumas palavras.
— Algum problema, ? Algo em que possa ajudar? – E ainda por cima prestativo!
— Não se preocupe, tudo sob controle. Desculpe novamente, preciso mesmo ir, até já.
Rompi até o elevador, para ir até o Lounge, três andares abaixo, onde investimos para que nos tempos de tensão – que eram exatamente 100% dos dias – não assistíssemos ninguém arrancando os cabelos e apostamos em um local próprio da revista onde poderíamos aliviar boa parte da tensão no cotidiano. Em uma mesa redonda com arranjo de lírios, vi os três acionistas, que conversavam entre si.
— Vejam se não são exatamente quem eu desejava ver hoje! – Manifestei bem-humorada. — Queridos, bom dia! Desculpem a demora, como vão? – Indo em direção à mesa, sentei-me e assisti me acompanharem.
— Me parece muito confiante, senhorita ! – Mencionou Antoine, um francês bastante simpático, o que amenizava o clima que encontrei entre os três.
— Isso é música para os meus ouvidos, Blanché! – Fiz sinal para a garçonete, que estava ali para me trazer um café, apenas para acompanhá-los.
— Sim, vi ParenthWood pelos corredores e me parecia deveras convicto também! Vocês... Dois workaholics. Dupla perfeita. – Antonella se expressou em seu tom usual, que me parecia tédio. Como se houvesse sempre lugares melhores e mais importantes para ir, do que estar ali, conosco, meros mortais.
— Nos esforçamos bastante e sim, estamos preparados! – Beberiquei meu café assim que posto na mesa, sem esperar que Jim se manifestasse, coisa que raramente acontecia.
— Philips, como vai Gwen e as crianças na nova escola? – Perguntei diretamente ao homem de meia idade.
— Estão muito bem. Obrigado. – Se limitou.
Por mais vinte e cinco – fucking – minutos precisei acompanhá-los e pareciam ter me roubado cinquenta anos, tamanho eram seus resmungos com reclamações, muitos deles protagonizados por Antonella, ainda que Antoine tentasse desconversar, agora até mesmo Jim reclamava de coisas fúteis.
— Faltam 10 minutos para a Assembleia, o que acham de irmos? – Tentava me manter simpática, mas poderia sentir minha paciência se esvair, e restar a profissionalidade que era apenas o que eu precisava. Em resposta, não ouvi sequer um murmúrio ou uma reclamação – que era o que estavam mais habituados – mas me acompanharam quando me levantei.
Andares acima, os conduzi até a Sala de Conferências em perfeito estado que nos aguardava, onde já estavam e Gareth a postos. Presenciei um início de conversa entre os três, que se cumprimentaram, e me retirei em busca dos meus dois minutos de silêncio. Sem mais, nem menos, apenas.
— Senhorita ! – Nicole se adiantou quando ultrapassei seu campo de visão antes de chegar à porta do meu repartimento. — Choi: Seu celular foi rastreado pela última vez aqui, ontem, mais precisamente por volta do horário em que conversaram. Em sua casa, recepcionistas do prédio disseram dar informações apenas à membros da família.
— Cacete, onde diabos ele se meteu? – Sussurrei para mim mesma. — Atualizou o sobre isso?
— Sim, e ele apenas disse que vai fazer da sua melhor forma.
— Ok. Tudo certo para a ata? – Nicole balançou a cabeça em concordância. — Certo, um segundo e já vamos.
Adentrei meu escritório em direção à grande parede de vidro que me presenteava com a Nova Iorque matutina e vendo daquela altura os carros tão pequenos quanto formigas. Por sorte, não se ouvia nada da correria que se passava ali e era assim que me mantinha agora, inerte no silêncio. Essa era uma das chances que teria para diversificar a Magic! Magazine e tudo à sua volta, ver seu nome multiplicar em países que Vogue não conseguia e conquistar a estatueta como a de Eugenia de la Torriente. Esta jornada estava apenas começando. Por fim, respirei fundo e, em passos pesados, fui em direção à Nicole, que estava à minha espera porta afora.
— Vamos Nikki, It’s time.
Adentrando a Sala de Conferências, todos já devidamente acomodados, Nicole seguiu para seu lugar ao fundo onde permaneceu sozinha já que não convocava Anna para as atas porque dizia achar mais propício fazer por si só, mesmo quando já havíamos demais para lidar.
— Bom dia ao atual comitê da Magic! Magazine! – Introduzi. — Como sabem, hoje convocamos essa Assembleia que tem como objetivo sanar as falhas na atual dinâmica e apresentar soluções e inovações para a implementação no ramo da revista. Como de praxe, iniciamos em edições anteriores por ordem alfabética e hoje decidimos alterar a antiga ordem. Assim tendo início por mim e Gareth ParenthWood.
Os aplausos chegaram aos meus ouvidos em plena 1 hora e 45 minutos após o início da reunião, somando as réplicas e tréplicas de cada integrante do comitê e até vídeo promocional, para ser mais fácil de comprar as ideias. não havia se pronunciado até então, mas vez ou outra, o via anotar algo ao lado de esquemas sobre algo que não entendia ao certo e ele mesmo desenhava, me parecia compenetrado. Ele ocupava a primeira cadeira da grande mesa ao lado direito, enquanto eu e Gareth ocupávamos o lado esquerdo. Nos sentamos ao fim de nossa apresentação para dar espaço a , que se levantou para tomar a palavra.
— Bom, sem delongas, comunico que retiro minha candidatura nesta Assembleia. Com a ausência de Hideke Junji Choi, acho devidamente antiético dar continuidade em uma candidatura iniciada em conjunto. Obrigado e desculpem. – Minhas sobrancelhas estavam sendo castigadas da forma que se uniram. — As propostas de e Gareth são avassaladoras e devidamente promissoras para a revista, espero que tomem a decisão correta. – O observei juntar suas coisas e sair sem pronunciar mais nenhuma palavra.
— Para não influenciar, vamos nos retirar. Lembrando que a votação tem seu encerramento apenas quando todos os acionistas tiverem seus devidos votos em mãos. Obrigada. – Como , juntamos nossas coisas para nos retirar, deixando apenas um resumo individual para maiores esclarecimentos.
— Então, o que achou, ? Ah! Eu achei incrível! Acha que temos chance? Céus, a sensação de estar ali na frente é revigorante! – Gareth arremessou suas palavras como uma criança elétrica na loja de brinquedos e eu até ouvia sua voz, mas não identificava as palavras. — ?
Poderia falar com ele depois!
Me dirigi à sala de e poderia ouvir a voz de Gareth às minhas costas, buscando por uma resposta. Minha cabeça em um grandessíssimo nó e sem pensar duas vezes, invadi pela porta de sua sala, o encontrando com as mãos na cabeça, cotovelos encostados na mesa... Como se lutasse internamente contra um impasse gigantesco.
, o que aconteceu ali? Você tinha tudo para apresentar sozinho! – Ele mal se mexeu, limitando-se a levantar seu olhar, indicando que mais um homem estava ali.
, este é Dominique Burke. – O homem muito bem vestido e de cara fechada ofereceu sua mão em cumprimento e o fiz. — Ele é detetive. Precisamos do Rui.
— Não vai se demitir, não é? Desistir por aquela porra de Inglaterra mais uma vez? É apenas uma Assembleia, podemos anulá-la, você sabe! – Minha voz esganiçada se conteve quando percebi a forma que me olhava.
Sua voz grave me atingiu em cheio, como poucas vezes aconteceu com tanto furor, e eu precisei me sentar.
, Choi está morto.


V - Parte I.

— O quê? Isso é impossível! Ele estava aqui ontem. Eu... Meu Deus. – Minha voz se esvaiu no meio da frase, como em poucas vezes vi em toda a minha vida. Minha cabeça doía e eu engolia em seco com a informação que agora rodopiava, repercutindo por cada célula do meu corpo.
— Ele foi encontrado morto em seu carro esta manhã. Com um único tiro em seu peito. – Continuou meu co-worker.
— Acreditamos ter sido alguém que tenha conhecimento de técnicas, então a partir daí estamos procurando por qualquer outro modus operandi semelhante. – Sobrepôs Dominique.
— Já comunicaram a família dele? Como estão?
— A perícia está com o carro para buscas de digitais e DNA. Quanto à família, está sendo notificada neste momento, senhorita . Neste meio tempo, precisamos coletar as informações sobre onde ambos estavam entre ontem 23h30 e hoje às 7h00. Acreditamos em primeira instância ser algo premeditado. – Completou o investigador, com suas frases de efeito em voz automática.
— Às 23h30 ainda estávamos no baile de gala no The Plaza e chegamos um pouco tarde, por volta da 1h30, eu a deixei no prédio dela no Upper East Side e nos separamos. – esclareceu.
— De acordo, senhorita Jones?
— Sim, sim. Ele me deixou em casa e lá permaneci. Saí apenas hoje de manhã por volta das 7h20. – Continuei, sendo encurralada pelo incisivo par de olhos castanhos de Burke.
— Seu horário usual, senhorita?
— Não. Entro às 9h, geralmente saio 8h20 no máximo, mas hoje tivemos Assembleia, então precisei chegar mais cedo.
— Desculpe interrompê-los, mas não tenho certeza se os interrogatórios já começaram. – indagou com a voz firme e eu agradeci mentalmente.
— Não, senhor , mas terão início imediato. – Em sua postura impecável, Dominique respondeu automaticamente como um robô. Ouvimos a porta se abrir e mudamos a nossa atenção de direção. Rui chegou. E estava completamente leigo à situação.
— Vi alguns rostinhos duvidosos naquele trio da Sala de Conferências. Como foram? – Comentou calmamente depositando sua bolsa no braço do sofá escuro de , em seu imaculado humor usual. — é uma excelente competidora, mas você não está muito atrás, Don Juan! Desfaça já esse bico! – Nós três assistíamos como se houvéssemos perdido o poder de fala, diante todo seu positivismo.
— Rui... – Pigarrei, sem saber ao certo por onde começar. — Precisamos conversar e preferimos que sente.
— Não vou desistir sobre a Inglaterra. – Adiantou-se ranzinza. — E por que diabos estamos em quatro? – Se apressou para buscar por sua bolsa, se entretendo na mesma.
— Não, Rui, esqueça isso. Este é Dominique Burke, detetive. – O vi desistir de sua bolsa e se dirigir em direção do detetive, cumprimentando-o com um aperto de mãos. Seu rosto denunciava toda a confusão que passeava sua cabeça e eu o entendia perfeitamente, pois foi exatamente assim que me senti. Seus olhos, antes vidrados no homem, agora me encontraram, e eu não senti o chão abaixo dos meus pés, mas procurei forças para retomar a voz. — Ele está aqui pra os esclarecer sobre o desaparecimento de Choi. – Podia escutar minha voz agora terna ameaçar se perder no meio do caminho mas dessa vez eu não poderia me dar ao luxo. — Hideke Choi foi encontrado morto esta manhã. Sinto muito.
Era como se eu pudesse ver seus olhos escurecerem e perder a vida gradativamente, tudo na mais cruel câmera lenta. Ele se sentou na cadeira mais próxima e eu segurei em sua mão, sentindo-a gélida e um pouco trêmula. Não conseguia imaginar o tamanho do choque para Rui, mas sabia que compartilhávamos o vazio que ficava. Rui Angelo vira Choi crescer desde que seu pai comprou algumas ações e se tornou grande amigo de toda a família. Apesar de suas atitudes questionáveis, Rui tinha grande carinho por Hideke e lhe ensinou suas primeiras coisas sobre ações, investimentos e tudo mais, para que após a dolorida morte de seu pai, o então garoto prodígio pudesse seguir o legado da família preparado para o que viesse. E foi assim que Rui viu duas gerações de Choi passarem diante seus olhos e sumirem sem que pudesse fazer nada. Isso estava acima de seu controle, porém ele não queria aceitar isso e nós sabíamos, víamos sua dor e conseguíamos senti-la. E este não era o pior. O pior era assistir à tudo e não poder amenizar. Me doía ver sua dor.
— E a família dele? – Perguntou em um fio de voz.
— Está sendo notificada. – Pigarreei e abaixei o tom de voz, como em um sussurro, ainda sem coragem suficiente para soltar sua mão. — Ei, não precisa lidar com tudo isso agora, ok? Take your time. Eu e cuidaremos disso.
No meio tempo, fomos encaminhados à delegacia, ainda tendo que lidar com os abutres em frente ao prédio da revista, com seus flashs invasivos e perguntas absurdas para o momento impróprio que insistiam em nomear de escândalo. Mediante a tudo que ouvia, este era considerado um dos mais belos elogios. Os interrogatórios primários teriam início e seriam comandados por Dominique em sua forma de robô de 35 anos com seu melhor terno slim.
— De acordo com o relato do senhor , vocês estavam juntos boa parte da noite e início da madrugada, algo que queira acrescentar? – Sinalizei com a cabeça negativamente. — Responda, por favor. – Boa parte de sua voz ecoava pela saleta sem decoração, enquanto suas mãos estavam cruzadas em cima da mesa de metal frio.
— Não, nada a acrescentar.
— Poderia me confirmar horários e locais?
— Foi um jantar de gala no The Plaza e chegamos lá por volta das 21h, saímos de lá cerca de 1h ou 1h30 e fui diretamente para o meu apartamento no Upper East Side de carona com o . – Respondi.
— Perfeito. Me fale sobre a relação com o senhor Choi na empresa.
— Bom, ele ingressou no comitê após a morte do pai que cumpria a mesma função. Um tanto explosivo, mas muito responsável e visionário.
— Explosivo? Por que diz isso?
— Não era raro ver dedos sendo apontados na cara de uns e outros quando Choi estava por perto.
— Entendo, senhorita . O último registro de rede no celular de Hideke foi em sua sala. Sabe me dizer o porquê?
— Como disse, ele era explosivo e adorava apontar o dedo na cara e eu não fui poupada. – Relatei calmamente.
— Motivo?
— Eu não poderia atendê-lo no momento por conta da Assembleia e outros milhões de coisas, e então se achou no direito de entrar aos berros, dizendo que não sou merecedora do meu atual cargo.
— Compreendo. Quero que saiba que entraremos em contato constantemente com a senhorita e o senhor , tendo em vista que estão à frente da empresa atualmente e podem colaborar com os pequenos detalhes. – Pigarreou. — Por enquanto é só. Com Isso já temos uma linha de raciocínio a seguir.
O homem de grande estatura, e alguns gatos pingados de fios grisalhos em seus cabelos, me acompanhou até a porta da saleta sem graça que estávamos, se despedindo com um robótico “Até mais”.
Me retirei da saleta, logo encontrando um que parecia ser o próximo. Dito e feito. Dominique com sua voz grave logo anunciou o sobrenome do homem, que ainda estava com um copo de seu inseparável café.
, pode me esperar? – Prontamente acenei positivamente com a cabeça e lhe ofereci um meio sorriso, buscando confortá-lo, ao mínimo.
Ocupei o lugar de anteriormente nos bancos do gélido corredor e minha cabeça estava abarrotada de perguntas que, em busca de respostas, começava a doer. Céus! Hideke Choi ontem estava berrando horrores em minha sala e agora deixava mulher e filho enquanto tinha seu peito aberto em uma mesa de IML. Cruel demais para quem quer que fosse. Não sabia sequer o que sentir. Não havia visto sua família e não havia nada essencial a acrescentar à investigação, em um momento de egoísmo permiti me sentir temerosa e incerta. Temerosa de que não houvesse um fim disso tudo, que não houvessem terminado em Hideke. Incerta por mim, , Blair, Rui, a família de Choi e até mesmo a própria Magic... Até mamãe. Para todos os cantos que olhava, via que a situação era maior que meu controle e pelo menos até então, não havia nada o que pudesse fazer e isso fazia meus olhos ficarem mais atentos. Sinal de mais tempo é também, sinal de mais chances. Para nós, e para o assassino. Em um suspiro longo, me obriguei a ficar calma, mais uma vez. A chave para o negócio era sempre manter a calma, e quando todos a perdiam, eu a mantinha e agora não seria uma exceção. A vida ditava meu equilíbrio e aprendi desde criança que era exatamente assim que deveria ser. Tinha de ser, oras! Com a família desconstruída que tivera, muito cedo tive de protagonizar o papel de um pai ausente quando mamãe sequer se levantava após a morte de Eleanor, minha avó, que sequer a considerava como tal, tamanha era sua distância depois de mamãe ter engravidado jovem.
Nem ao menos sabia como fui devanear em lembranças tão distantes – e desgostosas – dessa forma. Céus! Um tormento por vez.
Senti um toque gentil em meu ombro enquanto, dispersa, encarava minhas unhas compridas em cima das pernas cruzadas, era .
— Está se sentindo bem? – Questionou e em seguida me ofereceu um copo com água, que aceitei de bom grado, tendo em vista que vez ou outra se formara nós em minha garganta.
— Sim, estou. – Respondi automaticamente, quase tão robótica quanto Dominique. — Até que foi rápido. Vamos? – concordou e ofereceu seu braço em um gesto cavalheiro como na noite passada e a recusa passou longe.
Seguimos para o estacionamento, onde estava o carro de , já que havia vindo com Burke. Precisávamos voltar para a Magic, onde muita coisa nos aguardava e uma delas era o pronunciamento oficial. Podia ouvir o alvoroço e sabia o que nos aguardava do lado de fora. No veículo de , logo cruzávamos a frente do prédio policial e não havia nada diferente do que deduzi. Como há algumas horas, fomos cegados por milhares de flashs famintos, agora com um plus de câmeras ao vivo para telejornais, que buscavam o que podiam para um furo de reportagem.
O escândalo deixaria uma bagunça irreparável para alguns, mas para outros era uma oportunidade de vender o que pudesse, da forma que pudesse, para ver os números de uma conta bancária subir. Choi estava morto, ninguém sabia como e nem o porquê, e eles queriam vender exatamente isso, não importasse o quê. E este era o jornalismo que me enojava.
Os vidros claros do carro não colaboravam e me restava apenas manter a feição compenetrada à frente, e até isso se tornou uma péssima ideia, já que a frente do veículo estava tomada por repórteres que impediam a nossa saída.
Que dia... Sequer era 12h.
Ainda no saguão, podia sentir a tensão que rondava o prédio da Magic! Magazine e não era pouca. Ao adentrar o elevador, eu e nos entreolhamos e soltamos um suspiro pesado em resultado à empatia de saber o que nos esperava andares acima. As portas do elevador se abriram e de boas-vindas tivemos os toques incessantes de milhões e milhões de telefones ao mesmo tempo. Uns e outros ainda boquiabertos, talvez sabendo agora através dos telejornais. Alguns olhares tortos se voltaram a nós e seguimos às nossas salas, sentindo os mesmos olhares pesados em nossas costas e buchichos reverberando a cada passo. Isso não me interessava, por incrível que pareça, mas preferia me preocupar com Rui, que parecia não estar em lugar nenhum e definitivamente, eu o entendia.
— Precisamos fazer os pronunciamentos. – disse e enrijeceu sua postura, como se buscasse por – ainda mais – coragem em si mesmo.
— Sim. Vamos falar com os acionistas primeiro, não precisamos de Antonella surtando e nos processando por coisa nenhuma agora. – Completei.
— Vamos fazer o de imprensa, dos acionistas e em seguida, da empresa. O que acha? – Ele enumerou em seus dedos e só então me dei conta da bola de neve que aquilo estava se tornando.
— Meu Deus... – Sussurrei mais pra mim mesma do que pra ele, mas ainda assim o ouvi concordar. — Bom, podemos ir pra minha sala? Colocamos as ideias em ordem e enfrentamos os leões. – Finalizei e seguimos ao fim do corredor e não era nada diferente sentir o peso dos olhares dos acionistas.
— GRAÇAS A DEUS, SENHORITA ! – Nicole apareceu afoita à nossa frente, embaralhando algumas palavras. — Eu não sei o que fazer! Estão ligando direto, os e-mails não param de chegar e...
— NICOLE! – Logo a interrompi, ríspida. — Desligue o telefone, inclusive, diga que mandei desligar todos. E-mails, ignore. E por Deus! Se acalme. Logo faremos os pronunciamentos e apenas isso. – Proferi autoritária, ditando seus passos como faria à uma criança, a vi respirar fundo e seus olhos grandes e quase chorosos buscarem por algum equilíbrio. Com ao meu encalço, segui até minha sala. — Ah! Procure Anna. As duas, aqui, em 20 minutos.
Dentro da sala, deixei minha bolsa em cima da grande mesa de trabalho, aproveitando para pegar meu notebook que logo usaríamos e fui em busca da garrafa de uísque, que me parecia atraente até demais essa hora. se acomodou no sofá e fiz o mesmo, enquanto nos servia as respectivas doses.
Iniciamos com pronunciamento para a imprensa, que pedia um cuidado maior e, na atual conjuntura, qualquer mínimo deslize nos enterraria vivos. Com o pronunciamento da empresa e acionistas, era válido até mesmo que improvisássemos, mas os fizemos mesmo assim para termos a mínima margem de segurança neste momento. pigarreou parecendo desconfortável.
— Em? – Ele me chamou em voz baixa, como se pisasse em um campo minado e assenti para que continuasse. — Você acha que ele sabia o que ia acontecer?
— Não, . Ninguém sabe quando vai morrer. – Finalizei a resposta mais genérica que poderia dar. Queria o enganar, mas assim não enganava nem a mim mesma. Entendia sua preocupação porque a sentia da mesma forma.
— Não! Isso eu sei. Digo, se alguém o estava ameaçando.
— Bom, ele pode ter feito alguns inimigos, assim como qualquer um aqui. Por quê? Ouviu algo enquanto depunha?
— Não. É só que... Estávamos há um tempo desenvolvendo a proposta e vez ou outra ele recebia uns telefonemas esquisitos, mensagens a todo minuto, um dia ele recebeu uma caixa e no outro um envelope. Não sei se continuou a receber, mas foi o que vi.
— Contou tudo isso ao Burke? – Arqueei a sobrancelha.
— Claro! Hoje mesmo. Pediu que ficássemos atentos a qualquer mínimo sinal. Pode ser algo do ramo ou até mesmo da empresa.
— Não é ninguém daqui, ! E coloco minha mão no fogo por isso! Ele estava no comitê há anos, margem suficiente para terem agido antes.
— Faz sentido... Enfim, os pronunciamentos?
— Estão prontos. – Ouvimos as batidinhas delicadas características de Nikki à porta e sibilou um “entre” e a mesma logo apareceu com Anna.
— Gostaria de nos ver, senhorita ? – Pronunciou-se, não era muito diferente de Nicole, fisicamente, exceto pelos seus cabelos castanhos e enormes que iam ondulados até o fim de suas costas.
— Por favor, entrem. Vou direto ao assunto. – Indiquei a elas as cadeiras que ficavam em frente à minha mesa, onde se acomodaram e se viraram em nossa direção. — Hoje o dia será cheio, acho que já tiveram uma amostra dele e sequer chegamos à metade. – Me levantei, dando pequenos passos enquanto falava. — Primeiramente, se não desligaram os telefones, vamos desligar todos, principalmente os que direcionam até aqui. Às 13h faremos o pronunciamento oficial à imprensa e será transmitido por todas as redes sociais da revista.
— Todas? Temos cerca de 30 minutos. – Se adiantou, preocupada, a secretária de .
— Tempo suficiente. – Afirmei.
— Precisamos que adiantem-se e peçam que levem a imprensa ao auditório. Junte todo o setor de Marketing se for preciso, mas o mundo todo precisa saber. Em 30 minutos. – Completou, .
— Saberão sobre nós apenas o que dissermos e nada além disso. Enquanto escrevemos os pronunciamentos, vocês convocam quem precisam. Rui está incomunicável no momento e isso também é indiscutível, certo? Alguma dúvida? –Finalizei objetiva. As moças acenaram positivamente, como já vi da mesma forma fazerem milhões de vezes. — Por mim, é só. Algo a acrescentar, ? – Ele negou com a cabeça.
Ambas logo saíram da sala, tão esquivas e imaculadas quanto entraram. Ouvi o silêncio dos últimos telefones que restavam e meus neurônios agradeceram, principalmente os que estavam à beira de um surto. no entanto, tinha o olhar perdido em sua dose de uísque apoiada na perna que estava cruzada.
— Se precisar de um tempo, sabe que posso ir sozinha. Não me importo. – Comentei enquanto colocava em ordem os pronunciamentos, agora em mãos.
— Obrigado, mas está tudo bem, . É só que... – Coçou sua barba rala, inquieto, enquanto seus angelicais lábios se formavam em linha reta. — Me custa a acreditar. Todos nós temos um segredo, não é? Mas a ponto de ser morto por um? – Engoli em seco quando direcionou seu olhar desolado à mim. Seu olhar me enfraquecia, de qualquer forma, mas dessa vez, muito mais, porque queria dizer que estava tudo sobre controle – como em 100% das vezes – e que eu tomaria as rédeas, mas dessa vez eu não conseguia ter certeza de absolutamente nada. Desde os tempos de faculdade, não o via assim, e quando aconteceu estávamos juntos, então automaticamente tudo se modificava e voltava para seu lugar. A nostalgia não me excitava e procurava abominá-la o máximo que podia, o momento não era dos melhores – pra não falar o pior possível – e eu não pude respondê-lo, me restou apenas lhe oferecer um sorriso reconfortante, que funcionava bem até pra mim mesma.
A vibração da imprensa sedenta reverberava em meus ossos e resultava no impacto magnificente dos meus saltos. O auditório superlotado não nos amedrontava, mas sabíamos que este era o propósito de cada um ali. Os trajes escuros em respeito escondiam parte das mãos trêmulas e olhares ansiosos nas câmeras, que queriam um deslize para estampar suas manchetes. Na cidade, haviam alguns gatos pingados de representantes internacionais, que conseguimos chamar a atenção.
— Boa tarde a todos. – Iniciei, determinante. — Hoje a Magic! Magazine reúne forças para se manter firme. Hoje, a Magic! Magazine perdeu um de seus pilares mais sólidos. Perdemos uma parte da nossa raiz, da nossa história, da essência e de toda a trajetória dessa revista. Levou consigo sua audácia, ousadia e tudo que enriquecia à sua volta, e não apenas a nós, mas também à sua família, que tanto honrou. – Engoli em seco, me dando o luxo de encarar cada rosto ali presente. Acenei com a cabeça, passando a palavra para , que finalizaria o comunicado oficial.
— Boa tarde. Não apenas um acionista ou um investidor que multiplicava nossos números, ele era um ser humano. Amigo, pai, marido, filho que teve seus últimos suspiros arrancados cruel e injustamente. E é com grande pesar que comunicamos oficialmente o falecimento de Hideke Junji Choi nesta manhã. Sem mais detalhes, confirmamos que as investigações já tiveram início e ao que o momento nos permite, estamos buscando a melhor forma de confortar a família. Agradecemos a atenção, obrigado. – O tom de voz grave de encerrou o pronunciamento da melhor forma que seus sentimentos conturbados permitiam e eu sabia que cada segundo ali, para ele, era uma eternidade, uma luta, Interna e externa.
Saímos do auditório sem delongas diretamente ao elevador, evitando ouvir perguntas. Em cerca de 10 minutos, teríamos o pronunciamento para os funcionários gerais da empresa, ainda que antes disso soubéssemos da guerra que teríamos de enfrentar com os acionistas, que batiam os pés, ansiosos por atenção e aproveitavam de xícaras de capuccino com cara de poucos amigos.
— Sabemos que demoramos e não faríamos isso se não fosse uma emergência. Então, por gentileza, voltemos à Sala de Conferências, vamos esclarecer tudo. – tomou a frente, determinante.
— É o mínimo, . Essa revista está um caos, e a “Tríplice” – fez aspas com as mãos – não parece nem se importar. – Vociferou uma Antonella em seu tom esnobe habitual, prontamente ignorada por todos na sala, já que suas birras não eram novidade para absolutamente ninguém.
— Bom, em claras palavras de Dominique Burke, um investigador da divisão de Unidade de Vítimas Especiais, tivemos a confirmação do desaparecimento de Hideke Choi, nesta manhã. – Esclareceu , que permaneceu em pé ao meu lado diante das primeiras cadeiras da extensa mesa de reuniões. Pigarreei.
— Choi foi encontrado morto em seu carro hoje, mais cedo. Com um único tiro enquanto, aparentemente, pretendia chegar até a empresa. Até então, não sabemos muito, mas a investigação já teve início. – Fui direta e esclarecedora, tendo em resposta alguns pares de olhos arregalados.
— É um momento delicado, mas continuaremos com o nosso dever de mantê-los informados e contamos com a mesma dedicação para que não vazem à imprensa. – Concluiu o homem ao meu lado.
— A família Choi deve desembarcar ainda essa noite aqui na cidade. Estamos tão abalados quanto vocês, mas nada como um dia após o outro. Faremos o pronunciamento aos funcionários e achamos importante a presença de vocês. – Investi em um tom de voz quase maternal, pois entendia que nenhuma das palavras ali foram fáceis de digerir. — Ah! E sim, a Assembleia de hoje está suspensa até segunda ordem.
Os corredores vazios denunciavam que todos já nos aguardavam no Lounge da revista e me lembrou da última vez que vi todos os funcionários juntos. Fora alguns anos atrás, com minha nomeação oficial junto da de . E hoje, uma situação totalmente oposta. Ao fundo, vi Blair, que disse um “Sinto muito” silencioso e tentou um sorriso que me encorajasse.
— Boa tarde a todos da Magic! Magazine. – Introduzi. — Sabemos que o dia não está sendo fácil e estamos aqui justamente para esclarecer o que está ao nosso alcance, e como Diretores Executivos, essa é uma notícia que nos dói.
— Hoje perdemos um imenso aliado na corrida diária da Magic! Magazine. Hideke Junji Choi um acionista, homem honrado e de grande história entre gerações aqui.
— Em sua homenagem e respeito, a Magic! Magazine fechará as portas amanhã, mas após isso, retornaremos a fazer o que fazemos de melhor para honrar sua memória.
— Agradecemos a atenção de vocês. Gostaria de pedir um minuto silêncio, por favor.
O silêncio começou imediato à partir do pedido de . A quietude intensa fez com que, como em nenhum momento até então, eu sentisse toda a angústia que carregava automaticamente àquele estágio. Tomei as decisões rápidas demais pelo que parecia certo na atual conjuntura, mas não me dei tempo de sentir e pensar o que precisava. E necessitava me sentir mais humana. Não sabia se ele foi apenas o primeiro ou se foi o único, e a dúvida era impiedosa.
Desfrutávamos, desta vez, o uísque de em sua sala, acomodados em seu sofá. Sem saber por onde começar ou se precisávamos terminar algo.
— Não sei se mergulho nas colunas da edição on-line, se acompanho os photoshoots, analiso novos contratos... Sequer comecei as demissões. – Suspirou , pensativo demais e desolado. Os pés em cima da pequena mesa de centro e a gravata com um nó que nem existia mais, os gelos tilintando em ambas as doses. — Não podemos parar. – Finalizou sua dose e se levantou de supetão, seguindo para sua mesa. Pretendia continuar como se nada estivesse acontecendo, mas era ainda mais difícil para ele, que tinha se tornado próximo ao homem a pouco tempo.
— Ei, ei, ei. – O puxei pelo braço, procurando seu par de olhos que tanto amava e hoje não tinham seu brilho usual. — Homem, se acalme. Viva seu luto. Quer saber? Vá pra casa, eu cuido das burocracias.
— Não vou te deixar com a faca e o queijo na mão para ser a workaholic que pediu a Deus!
— E eu não vou permitir que você tenha de escolher entre cintos turquesa e tiffany quando seu amigo foi assassinado. – Coloquei as mãos na cintura, observando-o.
— A última vez que usou esse tom comigo foi no 3º colegial e você parecia que ia me enforcar. Oh, espere... Você realmente me enforcou!
— Tic-tac, honey, tic-tac! – O apressei. — Vá pra casa, eu cuido de tudo. – Pisquei cúmplice e lhe lancei um sorriso encorajador sem nem saber se ainda conseguia.
— Obrigado, , de verdade. Minha cabeça está explodindo! – Suspirou, passando as mãos pelos cabelos castanhos. Pegou seu paletó, antes estirado no braço do sofá, e seu celular, rapidamente, se voltando até mim. — Até mais, , e obrigado, mesmo. – Sua mão se juntou à minha e espalhou seu calor por todo o meu corpo, mesmo que fosse só para deixar um de seus gentis beijos nas costas da minha mão. Ele saiu, batendo a porta, mas seu perfume permaneceu quase que estrategicamente em cada fucking canto daquela sala e as lembranças pareciam não me ajudar ali. Impaciente com a insistência patética do meu próprio cérebro, juntei os contratos, as colunas e tudo mais que precisava. Gostava mesmo era da minha sala, onde conseguia me concentrar da forma que parecia impossível nessa sala que me lembrava cada mínimo detalhe dele. E eu não precisava dessa distração. Na verdade, preferia deixar da forma que fiz por todo esse tempo e simplesmente ignorar e ser a melhor vadia sem coração que poderia ser – tinha funcionado perfeitamente até então.
Nicole, como um vulto, apareceu para se despedir como fazia todos os dias e, como um vulto, também se foi. A mesa em que trabalhava já tinha muita coisa finalizada, porém muitas que sequer havia começado, e todas elas pareciam ter prazo determinado e muito curto. Fui até a máquina de café no corredor e só então me dei conta que já havia escurecido e não gostava nem de pensar no quanto meu carro iria abarrotado de pastas hoje. Voltei a me concentrar nos papeis em minha mesa e pareciam se multiplicar a cada segundo, tão rápido quanto coelhos, e era por ver coisas como essas que meu lado workaholic enlouquecia. Ouvi batidinhas mansas em minha porta e, como da última vez, os pares de olhos azuis hipnotizantes se apresentaram.
— Mulher, você não descansa? – Sorriu encantador e, também como da última vez, estava encostado no batente da porta com as mangas da camisa social dobradas até o cotovelo e gravata frouxa.
— Não posso e nem quero parar! Você ouviu a Antonella mais cedo, a revista está um caos. – Suspirei. — Entre, por favor, Gareth.
— Que dia, huh? – Comentou o galês, se aconchegando na cadeira de frente à mim.
— Nem me fale, um dia e tanto! Umas 72 horas no mínimo. – Tomei um gole do café ao lado de uma das pilhas. — Ah sim! Gareth não tive tempo de falar com você sobre a Assembleia e eu sei que era super importante pra você mas...
, não se preocupe, eu entendo. É um momento delicado.
— Sei que estava empolgado com cada detalhe, mas realmente era impossível manter aquela Assembleia, desculpe.
— Digo e repito: eu entendo. Foi a atitude certa! – Deixou um meio sorriso pender em seus encantadores lábios.
— Não sou a única workaholic por aqui, huh? – Comentei, por querer alongar a conversa.
— Vim devolver os arquivos do semestre passado que peguei na outra noite. – Esclareceu. — Mas você parece sobrecarregada demais, deixe-me ajudá-la!
— Não, não! Já estava pronta pra ir pra casa. Posso resolver isso amanhã. Obrigada, Gareth, você sempre prestativo! – Sorri e me apressei em juntar as pastas.
— Os arquivos nem eram tão importantes assim, . – Senti sua mão brecar a minha, que estava frenética organizando as papeis.
— Pois, então...? – Franzi o cenho, esperando que ele continuasse.
— Gostaria de convidá-la para um jantar, ou um almoço talvez. – Encarei nossas mãos ainda juntas sobre a mesa e minhas sobrancelhas arquearam-se em surpresa. — Desculpe, , não queria faltar com respeito ao momento nem nada. Achei que seria bom pra nós, pra você... Enfim, como distração.
— Não! – Disse de imediato. — Só estou surpresa, confesso. Mas a ideia me parece ótima, Gary. Jantar?
— O que acha às 20h?
— Perfeito!
— Passo pra te buscar?
— Acho conveniente. – Sorri. — Te mando mensagem com o endereço. Bom, vamos descer?
Gareth apanhou meu paletó no braço do sofá e se apressou em abrir a porta para que eu passasse, como em filmes de décadas atrás. E eu precisava dizer que se seus gestos tinham o intuito de me fisgar, ele estava no caminho mais do que certo!

Blair deveria estar inspirada, já que um cheiro delicioso de algo doce invadia todo o apartamento. E os doces dela ninguém superava! Jamais!
— Finalmente! Minha executiva favorita! Que dia, hein?
— Argh, B! O que não aconteceu na minha vida inteira, aconteceu hoje e tudo de uma vez só! – Bufei, indo em direção à grande bancada da cozinha
— É por isso que digo: a parte administrativa dali não me atraí nadica de nada.
— Mas há suas glórias também, por incrível que pareça. Como, por exemplo, os cookies caseiros e maravilhosos, cheios de gotas de chocolate da melhor amiga... – Mencionei insinuativa e a vi revirar os olhos em resposta.
— Já estão no forno! Vá logo tomar seu banho e jante, senão nada de cookies para a senhorita! – Usou um tom maternal para as suas ordens. Típico Blair! — Rápido! Já vou fazer o chocolate quente!
Segui à risca as ordens da General Mitch para não correr o risco de ser privada da regalia dos melhores cookies que já comi na vida, ainda mais depois de um dia desses. O corpo relaxado, após um banho bem quente parecia ser ofuscado pela mente que ainda estava um turbilhão, e aparentemente não pararia tão cedo. A camisola macia e o robe que vestia reforçavam a sensação de descanso que precisava, fiz um coque alto e fui em direção à sala, onde Blair estava, assistindo algum episódio de Friends.
— Hey. – Me chamou em voz baixa ao me ver adentrar o cômodo. — Friends e cookies? – Perguntou com um brilho inocente no olhar de quem já sabia muito bem a resposta.
— Curam qualquer coisa! – Completamos em uníssono. E tínhamos certeza disso, porque foi algo que fizemos durante toda a nossa adolescência e até os dias atuais, como um ritual.
Agradeci aos céus por fazer com que as poucas horas que restavam da noite se arrastassem, me proporcionando a melhor terapia após um dia infernal, e eu não poderia ter agradecido mais. Agradecido por Blair estar lendo meus pensamentos e não tocar nos assuntos que evitava – e isso significava muito – quando, por incrível que pareça, lidaria amanhã junto de todas as pastas que trouxe para casa. E então, adormecemos ali, no sofá da sala e com o Netflix perguntando se ainda havia mais alguém assistindo e eu nem sequer pensava em reclamar, porque senti mais uma das mil faces de Blair Mitch me acolher.

Algum reggaetón tocava na academia para acordar de vez os gatos pingados ali logo cedo e eu procurava manter o ritmo da música, como estímulo. E os olhares tortos, depois da serenata horrorosa, já haviam me esquecido.
Hoje não iria ao trabalho, mas o trabalho estava logo ali, em casa, esparramado pela mesa do escritório. Blair não acordava tarde e hoje não foi exceção, mas quando se levantou, eu já estava enfurnada no escritório de banho tomado, café do lado e com alguns cookies restantes, desnorteada no emaranhado de papeis. Apesar de morar sozinha, investi no escritório, porque nos isolava bastante dos barulhos até do próprio prédio e das atividades aleatórias uma da outra.
Iniciei a montanha de papeis pelas demissões. Um corte incisivo. Era a parte mais rápida dali, deixando uma colher de chá para com algumas sugestões de demissão. Em seguida, a coluna do jantar de gala e premiação, os contratos temporários de edições X e Y, novas iniciativas de marketing, convite para Chanel, agradecimento à Lupita Nyong’o, Carolina Herrera e Giuseppe Zanotti. Sem esquecer da proposta milionária de campanha para Rita Ora. E como no prédio da revista, batidinhas acuadas soaram.
— Bom dia, amada! Já tomou café?
— Bom dia, B! Nah, só roubei uns cookiezinhos, mas estava esperando você acordar. – Ela não respondeu, mas como ontem, me lançou seu característico olhar maternal e ninguém, absolutamente ninguém, ousava desobedecê-lo.
Em um café da manhã digno de madames fofoqueiras, – que sabíamos que no fundo ainda éramos – colocamos a maioria dos assuntos em dia, inclusive o jantar no The Plaza, que ainda não havia tido tempo de atualizá-la sequer uma palavra.
— Vai passar o dia aqui? – Questionou minha melhor amiga. — Workaholic incurável! – Sussurrou brincalhona entre os goles em sua xícara de café.
— Me chame como quiser, mas B, a Magic está de cabeça pra baixo! E estava abalado demais, precisei mandá-lo para casa. – Abanei a mão no ar, suspirando.
— Uau. Ao que tudo indica, a rainha de gelo tem mesmo um coração! – Debochou e eu apenas ignorei seu comentário.
— Bom, o dever me chama. Desculpe, B, mas nada que você já não esteja acostumada! – Sorri em direção a ela e me servi de mais uma xícara de café.
— Tenho umas coisinhas pra pôr em dia, mas nada tão urgente. Logo apareço por lá. Ei, estava pensando em fazer risoto pro almoço, o que acha? Ou prefere pedir algo?
— Blair do céu, acabamos de tomar café!
— Não ligo. Às vezes vamos fazer algo elaborado e precisamos de tempo, ué! – Forjou uma desculpa esfarrapada, e eu sabia bem porque sabia de cor seu sorriso incontrolável de quando comia pelas beiradas! E ela estava exatamente assim agora.
— Nós? Fazendo algo elaborado? – Gargalhei. — Por acaso, a senhorita pediria no Grand Banks? – Cerrei o olhar.
— Não é só pelo Thomas, ok? A comida de lá é realmente divina!
— Divina pra você que fica de papinho com o chef! – Comentei risonha.
— Você também fica de papinho com seu chefe!
— Meu chefe é o Rui! – Comentei azeda.
— Você entendeu!
— Enfim, peça o que preferir, B, e o traga aqui logo, ou eu mesma vou lá. – Disse saindo da cozinha, em direção ao escritório. — E sem você! – Finalizei gritando do corredor, ouvindo a risada da mulher em resposta.
Algumas horas se passaram e o emaranhado de papeis agora já diminuíra bastante, e nesse meio tempo, Blair realmente aparecera, mas resolveu o que precisava em 40 minutos, senão menos, o que me causou uma pontinha de inveja. Aparecia uma vez ou outra minha melhor amiga, tentando me convencer a ir almoçar, coisa que faria apenas quando aniquilasse até o último post-it naquela mesa e recusei até mesmo suas ofertas de ajuda, não achava certo prendê-la ali. O celular apitou ao meu lado, era uma mensagem.
“Mal posso esperar para vê-la, .” — Gareth.
A mensagem que o celular revelou era uma das poucas coisas que me fariam desconcentrar: o belo par de olhos azuis que pareciam ter sido pintados à mão por Van Gogh.
“Digo o mesmo, Gareth.”
Depois de meia dúzia de ameaças, Blair me tirou do escritório para o almoço e sem novidades, voltamos aos nossos queridos Friends. No episódio, os cinco amigos iam para Londres, onde haveria mais um dos casamentos de Ross.
— Falando em Londres... Rui me pôs contra a parede, pra, você sabe... Colocar os pingos nos ís. – Comecei incerta. — Mas eu nunca me vi, de fato, fazendo isso sabe? Pra mim, está ótimo da forma que está! – Os olhos claros da loira logo desviaram do seriado para mim.
, vai ser a hora certa quando se sentir pronta pra explicar tudo que aconteceu e porque fez o que fez. Não consigo estipular uma data pra dizer quando é certo, ou se é uma boa ideia, mas sei de tudo que há debaixo desse tapete... Na hora certa, você vai saber o que fazer, sempre sabe. – Piscou, encorajadora.
— Mas B, eu...
— “Mas” nada! – Interrompeu-me, apontando para a televisão, despausando a série. — Se bem que eu tenho uma dúvida... – Voltou a pausar e eu sabia que boa coisa não era e murmurei um “lá vem”. — Vocês não “fizeram acontecer” no seu aniversário? – Meneei com a cabeça, para que ela prosseguisse. — Foi um remember? Meu OTP está vivo? Fica por isso mesmo? Porque o que eu vi, não foi qualquer beijinho!
— No meu aniversário é o único dia que eu me permito toda e qualquer coisa, você já deveria saber disso! E preciso admitir, aquele dia ele estava bem... arrumado. Inferno! Quase irresistível, então uns beijinhos não matariam ninguém! – Comentei, desviando meu olhar do seu, que ela dizia não me julgar, mas eu sabia que sim.
— Vocês estavam se engolindo em pleno Marquee! – Esbravejou.
— Mas pense, é como se fosse um Halloween fora de época. O nosso Halloween. Doçuras e algumas travessuras...
— Então não significou nada? E ele sabe disso? Porque eu acredito fortemente que não.
— Lógico que sabe! Não temos mais 15 anos, sabemos separar as coisas e outra, foi mais um episódio épico pros nossos joguinhos. E estamos ficando bons nisso! – Sorri.
— Não entendo vocês, realmente, não dá! – Se rendeu, dramática.
Terminamos o bendito episódio que tanto pausamos e Mitch logo se mandou para sua corrida diária, que geralmente fazia após o horário de trabalho e não queria perder o pique e eu, precisava me enfurnar mais uma vez no escritório.
Me restavam três boas horas até o jantar com Gareth e até então, já tinha até mesmo respondido os e-mails de Dominique com os dados de Choi que precisavam. Sequer conseguia me sentir segura como Dominique afirmava que poderia estar, mas minha cabeça insistia em tentar me fazer sentir aliviada, ao menos, tendo em vista de que a justiça estava trilhando o seu caminho e nesse jogo de xadrez era impossível ver a olho nu quem matou Hideke Choi. E na Caixa de Entrada havia também e-mails de mamãe, com vídeos compridíssimos – que ela insistia em não mandar por outras redes sociais por não ter paciência de ter que cortá-los – da comemoração do Dia da Árvore e vê-las sorrindo tão levemente me fazia ter certeza de tudo e que não mudaria absolutamente nada. Os sorrisos delas ultrapassavam a tela cheia do computador e eu nunca senti tanta inveja da Inglaterra e tanta saudade de tudo que via pelos vídeos e queria poder realmente aproveitar de todos os cheiros que poderia sentir, os abraços quentinhos e os olhinhos cor-de-mel que me encaravam ansiosos por cócegas em toda a sua barriga.
Céus, o coração estava pequeno como uma ervilha. Sabia que ela se questionava e às vezes se enraivecia pelas respostas cruas que tinha, por não entender, mas eu tinha plena certeza de cada passo e todos foram milimetricamente calculados para o seu bem.
Não havia mais o que fazer naquele escritório, agora, as paredes pareciam ter encurtado as distâncias entre si, e me esmagavam junto de tudo que senti durante os minutos preciosos dos vídeos que cansei de dar replay. Os pensamentos estavam indo longe demais e tomaram proporções gigantes em todas as tentativas falhas de tentar controlá-los, todas as mil vezes, e já aprendi o bastante pra saber que era, deveras, impossível.
Me levantei organizando as pastas e tudo que finalizei, deixando de fora apenas a lista interminada para as próximas demissões, nomes que que precisavam ficar em observação neste meio tempo e fui para o quarto, digitando uma mensagem para mamãe sobre os adoráveis vídeos. A casa continuava um completo silêncio, sem Blair, e assim como calculei, havia restado tempo suficiente para me arrumar para o jantar com ele, que arrisco dizer, era o galês mais cobiçado de Manhattan e eu poderia fazer esse esforço!
Caprichei nos sais de banho para me dar este luxo e ficar um bom tempo imersa, apenas com a preocupação de inspirar e expirar, sentindo as pequenas bolhas massagearem todo o meu corpo. Após sentir que boa parte dos nós que tinha nos ombros se desfizeram apenas com este poder, me enrolei no roupão com os cabelos pingando um pouco. Ouvi o girar de chaves e a voz de Blair cantarolando “Wannabe”.
— Aqui no quarto! – A avisei e em segundos, vi a loira adentrar o cômodo. — Correu esse tempo todo e não tem uma gota de suor? Conte outra! – Comentei em tom brincalhão, vendo que sua cara não era nada boa.
— Acredite, eu realmente fui.
— E...? – A incentivei a continuar.
— Dominique me parou pra depor no meio do caminho. – Disparou de uma só vez. — Eu estava correndo, linda e bela, quando olho pro lado e ele também estava! Me mostrou o distintivo e pediu que eu o acompanhasse. Do jeito que foi, me fez pensar que apareceria a S.W.A.T. e que eles iriam me prender ali mesmo! – Explicou aflita. — Tirando o susto... Ele é bom! Se continuar assim, esse caso encerra logo! – Tentou amenizar o clima.
— Ele não falou sobre nenhuma novidade?
— Eu perguntei, mas ele é robótico demais pra cair nos meus encantos e desembuchar! – Deu de ombros e eu ri nasalado.
— Meu Deus, às vezes me custa a acreditar que isso realmente aconteceu, sabe?
— Será que foi um aviso? – Mitch perguntou incerta, com os olhos um bocado arregalados.
— Céus, Blair! Ninguém mais vai morrer! – Exasperei. Mas no fim, sabia que até eu mesma já tive aquela dúvida, porém não queria aquilo correndo os pensamentos de Blair, ela não merecia esse fardo. — Enfim, preciso me arrumar.
— Uh! Gosto disso! Onde vamos?
— Então... – Iniciei um pouco duvidosa. — No meio de todo esse caos, Gareth me convidou pra jantar, pra me distrair um pouco.
— NÃO ACREDITO!!! Minha Nossa Senhora dos Galeses Engomadinhos, finalmente! Pronta para o 1º encontro? – Provocou.
— Não é encontro, ok? E eu já até me censurei, umas cem vezes, por pensar assim.
— Ah não? E o que é? – Cruzou os braços, me desafiando com sua sobrancelha arqueada.
— Bom, tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo pra nós dois e ele gentilmente ofereceu o jantar como uma espécie de válvula de escape.
— Também queria uma distração daquelas! – Se abanou, teatralmente, me arrancando risos. — Apenas se divirta, . Se for uma válvula de escape ótimo! Se não for? Ótimo também, mas se permita, ok?
— Obrigada, B, você não existe!
— Não me agradeça, apenas finalmente tire do closet aquele Miu Miu maravilhoso!
O reflexo no espelho me dava em resposta uma das melhores versões de mim e tinha a certeza disso por ver pelo mesmo, uma Blair que dava alguns pulinhos de alegria. E era ela, mais uma vez, minha fada madrinha.
Os cabelos soltos com ondas delicadas por todo o seu comprimento, alguns dedos abaixo dos ombros, me fazia querer vê-lo mais dessa forma, mesmo que no dia-a-dia. Nos olhos, a dupla por quem eu era obcecada: delineado marcado e cílios perfeitos, para que cada piscada fosse hipnotizante. O celular apitou com uma mensagem, era Gareth avisando que havia chegado e que me aguardava logo em frente ao prédio.
Encostado em uma das portas do carro, os ombros largos do loiro se sobressaíam enquanto seus braços estavam cruzados na altura do peito. Passou a mão pelos cabelos milimetricamente arrumados, talvez procurando arrumá-los ainda mais. O galês se desencostou no carro e abriu um sorriso que o deixava ainda mais encantador quando nossos olhares se encontraram.
— Sempre deslumbrante. – Manteve um sorriso ladino e galante, como de costume. — Boa noite, , como vai?
— Obrigada, Gareth. Você está igualmente divino. – O homem envolveu sua mão sobre a minha para me conduzir até o carro, o qual abriu a porta do lado do passageiro. — Agradeço o convite, mas quero que saiba que é um tormento se arrumar às cegas! – Sorri.
— Desculpe, é que prefiro o suspense! – Sua risada ecoou até um pouco tímida pelo veículo e completamente diferente da forma que se portava na empresa, agora parecia um garotinho, tamanha era a facilidade com que ria e a naturalidade que o fazia. Gareth Parenthwood era um homem que ia de acionista dominante a moleque travesso em segundos e eu estava fascinada por cada detalhe. — E quanto a roupa, se você usasse uma pantufa, viraria tendência até amanhã de manhã, .
— Que exagero! Foi muito gentil da sua parte Gary, e um tremendo carinho no meu ego, mas ainda um baita exagero! – Gargalhei ouvindo-o me acompanhar com sua risada aveludada, que poderia facilmente se tornar um dos meus sons favoritos.
Continuamos envolvidos demais no clima leve e sem artifícios que construímos no caminho até chegarmos no The Capital Grille. Um restaurante sofisticado e puramente americano. Conhecido pelas extravagâncias por todo seu salão com obras de arte, que eram únicas no mundo inteiro, e engenharia da fachada do prédio, que era uma obra de arte por si só.
— Procurei um lugar aconchegante o bastante pra esquecermos os dramas da Magic! Magazine. Espero ter acertado.
— Obrigada, Gareth. – Iniciei e ele me encarou, para que eu prosseguisse, enquanto andávamos até a entrada do restaurante. — Por se importar, enquanto tanta coisa está acontecendo.
— Pra falar a verdade, fiquei com receio, de... você sabe, não ter respeitado o seu tempo e etc.
— Você nunca erra. – Pisquei.
— Sem assuntos de trabalho, huh? – Gareth alertou, brincalhão.
— Sim, claro! Sem assuntos de trabalho! – Nos aconchegamos à mesa, um de frente para o outro e o galês se apressou em abrir a carta de vinhos. — Mas então, quando pretende se mudar de vez pra Cidade Que Nunca Dorme?
— Logo, eu espero. Já tenho visto alguns bairros, mas não defini ainda. Parece ridículo, mas essa indecisão está me matando!
— Mais um indício que você precisa se mudar logo. – Comentei insinuativa.
— Os indícios de indecisão e as aparições quase nulas na Magic não me convencem tão bem assim. – Ele entrou no jogo. Nenhum dos dois queria, de fato, falar, mas as entrelinhas se carregavam de esclarecer o que queríamos dizer. Indicou o vinho ao garçom e arqueou a sobrancelha, me encarando os olhos que eram uma ilha.
— Deveria refazer suas contas, Gareth. Há um terceiro motivo.
— Desconheço.
— Você sabe, a Magic é uma metamorfose e você se encaixa perfeitamente bem no gênero da revista e o queremos por perto. É essencial! – Sustentei nossos olhares fixos.
— É um motivo plausível... – Disse fingindo distração, assistindo ao garçom que nos servia do vinho que escolhera. — Acho que posso fazer o esforço de me manter por perto. – Nossos olhares vidrados tinham a capacidade de captar toda e qualquer malícia nas entrelinhas e eu não precisava me preocupar com muito, quando o homem à minha frente sabia quais eram minhas intenções e aparentava desfrutar das mesmas.
— Seria excelente, Gareth. – Fizemos um pequeno brinde e logo beberiquei do vinho, enquanto, por alguns segundos, nossos olhares se dispersavam e o vi provar da bebida doce e delicada. Nossos olhares se interligaram novamente e era quase impossível se desvencilhar, como se fossem magnéticos, ou dependentes. — Há algo que eu posso descobrir hoje sobre meu acionista favorito?
— Nah! Não muito! Não se iluda! – Sorriu ladino. — Modéstia à parte, sou ótimo na cozinha e prefiro salgados à doces. – Começou, enumerando nos dedos de uma mão. — Sei tocar piano e falar espanhol. Amo vinhos e para mim, Nicolas Cage é o melhor ator de todos os tempos! – Suspirou ainda com um pequeno sorriso que não despencava dos seus lábios e tragou da bebida em sua taça. — Sua vez.
— Não há nada que você já não saiba!
— Por favor, . Há muito que quero saber. – Abusou de seu tom de voz grave e sedutor que fizeram minhas pernas friccionarem entre si. — Não é justo eu saiba apenas o que a Forbes citou.
— Tudo bem, tudo bem! – Me rendi, risonha. — Atriz favorita, estou entre Meryl Streep e Viola Davis, prefiro mil vezes doce à salgado e tenho uma habilidade incrível de comê-los repetidamente, sem enjoar! – Ri e assim como ele, comecei enumerar nos dedos, dando pequenas pausas para apreciar do vinho. — Sou ótima em francês, mas não fluente, acho lindo italiano, mas não acho que minha cabeça aguenta outro idioma, até porque meu espanhol é péssimo! – Finalizei sorrindo.
Forbes esqueceu de avisar na capa que, a cada palavra, você se torna ainda mais admirável. – Sorri nasalado quando seu olhar me desconcertou e eu sequer consegui respondê-lo, como uma adolescente.
Fizemos os pedidos do jantar e a noite seguiu leve e espontânea da mesma forma que começou, e exatamente da forma que deveria ser. Gareth agora estava mais descontraído, de uma forma que eu jamais havia visto, mas poderia dizer que combinava com ele. O homem que aparentava ter mil faces, e metade delas eu havia descoberto nessa noite e estava amando cada segundo dessa descoberta. Um cavalheiro nato, príncipe dos dias modernos, nem músculos demais nem de menos delineavam seus braços, sem esquecer do par de olhos em um azul piscina que eu nunca havia visto igual, a boca angelical que proferia um sotaque forte e era um pecado por si só. Este homem poderia ter qualquer mulher que quisesse e a confiança que inspirava me fazia ter certeza disso.
Tinha tanta certeza assim porque era exatamente a forma que me sentia. Eu o queria. E não pretendia passar vontade.
Como um gentleman incurável, insistiu em deixar-me em casa e, da forma que aquelas íris me fascinavam, se tornava impossível recusar. O galês estacionou no meio fio em frente ao meu prédio e uma das suas manias que havia aprendido hoje – a mais adorável, aliás – era que ele mordia o lábio inferior antes de soltar um de seus sorrisos inocentes de garoto como havia feito no começo da noite, e que, neste momento, repetia.
— Espero que tenha conseguido distraí-la, pelo menos um pouco.
— Obrigada, eu precisava mesmo de uma válvula de escape e você foi perfeito pra isso! – Sorri terna. — Você foi a melhor das distrações, Gareth Parenthwood!
— Fico feliz que tenha gostado, porque pra mim, eu não poderia estar em companhia melhor essa noite. – O silêncio pairou por alguns segundos dentro do veículo e era audível apenas a respiração do homem ao meu lado. Gary enlaçou nossas mãos de forma tão rápida que só percebi quando nossos dedos davam intermináveis nós. — , você é uma mulher incrível e ninguém tem dúvidas disso, inclusive eu. – Riu nasalado. — Corajosa, destemida, imponente... — Onde quer chegar, Gary? – Não quis soar rude e espero não ter soado assim, quando fiz o melhor para demonstrar minha incerteza. — Como um reles acionista poderia se encantar por uma mulher tão dona de si, que lidera e põe em ordem um exército e sequer o notou? — Gareth, eu não estou entenden... – Uni minhas sobrancelhas e ele me interrompeu.
— E não lhe culpo. Gosto de ficar na ia, vendo você florescer. Hoje eu pude, finalmente, ter a sensação de ser enxergado de outra forma por você e acho que estou no caminho certo. – O homem fez um pequeno gesto, como um singelo carinho com seu polegar nas costas da minha mão. Seus grandes globos azuis me petrificaram e eu me mantive atenta ao seu discurso. — E se você me permite, senhorita , – Iniciou quase em um sussurro. — Eu gostaria de beijá-la. – Ele se aproximou e eu pude sentir a ponta de seu nariz encostar no meu.
— Não só permito, como incentivo. – Sorri e delicadamente pousei minha mão em sua nuca. Gareth ainda teve a audácia de brincar e, de quebra, me provocar um pouquinho mais com uns beijos no canto da boca e queixo para então, finalmente, me beijar. Sua boca parecia ser o encaixe perfeito para a minha em um beijo que iniciou calmo, mas ambos estávamos curiosos demais sobre o outro para mantê-lo dessa forma. O beijo se intensificou, mas não sem antes a ponta da sua língua, desenhar-se sobre meus lábios em mais uma das suas provocações. O pouco de gosto de vinho que ainda tinha em seus lábios deixava ainda melhor, mesmo quando uma de suas mãos passeou travessa pela minha a, deixando um apertão generoso ali.
— Muito melhor do que eu imaginei nos meus melhores sonhos. – Sussurrou ainda de olhos fechados.
— É seguro eu perguntar desde quando imagina isso? – Ri nasalado, sem conseguir mover minhas mãos de sua nuca.
— Céus... Faz um bom tempo!
— Gosto de saber que superei suas expectativas. – Os rostos ainda próximos permitiam que nossas respirações se misturassem e seu perfume me hipnotizasse com toda a força. Gareth me deixava com vontade e sede de mais. Mais de seus lábios, mais do doce do vinho açucarando o beijo, mais de suas mãos em mim e minha vontade para aqui, e principalmente, agora.
Não poderia – e nem queria – deixar passar em branco o que tinha ali. Movi minha mão de sua nuca para o rosto e encostei nossas testas. Um pequeno sorriso sacana brotava nos lábios, agora um pouco avermelhados, do galês e passei meu polegar por seu lábio inferior, sentindo-o a maciez dali, provando que toda a delicadeza que sentira pressionada sobre os meus lábios era, deveras, real e tentadora até demais. Encarei por poucos segundos a profundidade dos seus olhos, como se apenas o avisasse sobre o que viria a seguir, e o beijei.
Beijei como se retribuísse o seu próprio ato de segundos atrás, beijei como se o agradecesse, o beijei por desejo, por curiosidade, vontade.
Minhas mãos antes por suas bochechas, procuravam caminhos mais interessantes em seus ombros largos e costas. Já nas costas expostas que meu vestido ofertava, virou palco para o pecado que Gareth Parenthwood exercia em cada centímetro de pele dali, com direito à instigantes arranhões e as mãos grandes que me arrepiavam a cada movimento. Separei o beijo em busca de ar, mas me parecia um pecado separar daqueles lábios, e custava abrir mão deles. E céus! Custava horrores deixá-los longe dos meus.
— Gary, obrigada pelo jantar, pela gentileza, pela noite. Foi exatamente o que eu precisava. Mas...
— Sem “mas”! E sem despedidas.
— Isso é um convite? – Ri de leve.
— Se você aceitar, é! – Gareth riu nasalado e depositou um selinho delicado em meus lábios. — Então, o que acha?
— Melhor não, desculpe. Primeiro, vamos com calma. Segundo, amanhã será um dia cheio!
— Desculpas bem razoáveis, porém aceitas. Desta vez.
— E terá outra vez? – O desafiei, risonha.
— Terá? – Rebateu com a pergunta e eu apenas mantive o sorriso.
Touché! Boa noite, Gareth. – Disse por fim, batendo a porta do seu carro assim que saí. Ainda me virei para dar-lhe um “tchauzinho”, que foi respondido por seu sorriso. Segui até a entrada do prédio, buscando por minhas chaves para já separá-las e cumprimentei o porteiro com um ‘boa noite’ automático.
! – A voz de Gareth soou alta o bastante para me virar e logo encontrá-lo batendo a porta do veículo e completando a distância entre nós com passos largos. — Não me despedi direito. Posso? – Ri de sua desculpinha ordinária e da cara de inocente que apostou.
— Faço questão. – Respondi e o homem enlaçou, em tempo recorde, sua mão na minha e me puxou pela mesma, colando nossos corpos de uma forma que quando no carro, não foi possível. Pousou a outra mão em minhas costas nuas e a brisa da noite apenas colaborou com os arrepios que senti.
Um beijo digno de cinema, e nada menos que isso.
Me moldei para acompanhar seu ritmo, que coincidia com o meu e se tornava a combinação tão prazerosa quanto a dos beijos anteriores.
— Boa noite. – Soprei as palavras em seus lábios e me desvencilhei, antes que se tornasse ainda mais difícil de fazê-lo, me despedindo com um belo sorriso sem dar tempo para que o diabinho no meu ombro começasse a considerar fortemente a proposta de Gareth.
Gareth Parenthwood não decepcionava. E de uma vez por todas, meu acionista favorito!


V - Parte II.

Chegando em casa e nem sinal de Blair, o que deixava o silêncio dos corredores até um pouco assustador, sem contar com a iluminação do apartamento, que vinha apenas das luzes da rua através da parede de vidro. Tirei os saltos e virei a poltrona para a parede transparente, que sempre me dava as melhores visões de Nova Iorque. Assim permaneci, imersa no escuro da casa e saboreando os doces flashes desta noite e quão agradável se tornara. Alguns determinados flashes se tornavam ainda melhores quando percebi que ainda sentia o gosto doce dele. Sua educação, bom humor, os olhos gentis e a leveza da simplicidade que guiou o jantar, incluso do cavalheirismo encantador. Gary é, de fato, um homem dos sonhos.
andava ao meu lado enquanto cruzávamos os corredores sem cor da delegacia, antes mesmo do nosso horário na Magic. Dominique precisava de documentos com os horários dos funcionários, assim como os números de Choi desde seu patrimônio até as ausências em Assembleias, absolutamente tudo.
— Bom dia. Temos novidades, sentem-se. – Burke pegou um amontoado de folhas de papel e logo se sentou à nossa frente, que desta vez, estávamos em sua sala. Assentimos e ele prosseguiu. — Achamos uma pegada parcial. Não é das melhores novidades como uma digital, mas já nos ajuda. Ainda estamos estudando, pretendemos cruzar com os dados do fabricante e consequentemente com o de compradores e então, com o de funcionários da empresa, inicialmente.
— Então, até mesmo o gênero do assassino é indefinido? – Perguntei um tanto ríspida. Queria não soar de tal forma, mas era extremamente difícil quando tudo ao seu redor começava desmoronar e não havia saída e nem uma forma de segurança à qual poderia se agarrar. Era frustrante. Angustiante.
— Senhorita , entendemos sua insatisfação, mas trabalhamos com uma varredura precisa no veículo de Hideke, e dessa forma decidimos olhar de outro prisma. Estamos perdendo algo! Para acharmos apenas uma pegada parcial, é porque ele conhecia o assassino.
— Era uma reunião de propósito inovador para a revista, sinceramente, algo que nos custaria milhões mas renderia muito mais. – Explicou .
— Poderia ser alguém que perderia boa parte desse montante com a inovação de vocês.
— É uma agulha no palheiro. – Comentei. Burke respirou fundo e estava pensativo demais, seus olhos corriam por toda a sala, inquietos. — No que está pensando, Dominique?
— Bom, é que no carro não achamos nada além de seu celular. Sem pastas, papeis e nem sequer uma caneta, como se ele estivesse saindo para um passeio no parque.
— Então, isso só reforça a ideia de que ele conhecia o assassino, certo? – perguntou, incerto.
— Também. Mas também pode apontar para uma direção que não cogitamos...
— Ele poderia estar querendo retirar a candidatura. Poderia ter sentido sua primeira ameaça. – Vociferei, completando o raciocínio.
— Exato, senhorita ! Então voltamos ao meio profissional. – Pigarreou. — Não deveria amedrontá-los com tais teorias e nem criar falsas esperanças, mas por apontar o rumo profissional, devo alertá-los. Isso reforça a forte teoria de ser alguém da empresa, ou concorrente, enfim.
— Estamos trabalhando junto de um assassino. – Lamentou , ao meu lado, passando as mãos nervosas no rosto.
— Sim, estamos. – Concordei e Dominique não pareceu se abalar, de certo já estava acostumado com o pior e nosso desalento não o fazia cócegas. O telefone na mesa do detetive tocou e ele prontamente atendeu, pelos pouquíssimos segundos que durou, ao final proferiu apenas um “ok” dirigindo sua atenção a nós novamente.
— Me desculpem, preciso ir. Peçam que registrem os documentos que trouxeram como evidência. Alguma dúvida? – Assentimos negativamente e ele começou a vestir apressado o paletó que estava no encosto de sua cadeira. — Certo. Vocês continuarão sendo os primeiros a terem as informações sobre o caso, mesmo com a chegada da família. Até mais.
Mais uma vez percorremos os diversos corredores acinzentados do prédio, ouvindo os telefones que não paravam de tocar e começando a lidar com a realidade de que ouviríamos aquilo o dia inteiro, por tempo indeterminado.
— Bom dia. Burke requereu estes documentos. – tomou a frente, entregando-os ao senhor de idade que tomava conta dos arquivos.
— Pessoais ou evidência? – Perguntou com a voz falha por conta da idade avançada, mas com o tom grave da melhor forma que podia, no famoso curto e grosso.
— Evidência. – Rebateu meu co-worker.
— Preencha este formulário e me entregue completo, com os documentos em mãos. – Orientou ranzinza e nos sentamos nas cadeiras por ali para preenchê-lo. Aparentemente haviam mais folhas no formulário do que as que entregamos. Tenho dó! Se juntássemos ambos formulários, teríamos cerca de dez folhas e só precisávamos entregar cinco! Alguns bons e vários minutos foram gastos para preenchê-los e logo poderíamos ter a injeção de simpatia do senhor no balcão. — Aqui estão. – Colocamos as pranchetas em cima do balcão e o senhor ajustou seus óculos ao rosto para revisá-los.
— Aparentemente tudo certo... Hum... . – O olhou por cima dos óculos ao proferir o nome do homem ao meu lado com certo desprezo. uniu as sobrancelhas, talvez buscando uma explicação plausível mas sem tempo para tal, logo seguimos para o elevador à frente. Enquanto esperávamos o elevador que acabara de descer, vez ou outra ainda ouvíamos o senhor do balcão, mal-humorado demais, vociferar o nome e sobrenome de por repetidas vezes, como quem odiara tal nome e se perguntava audível “Que nome é esse?”. Vai ver ele realmente não foi com a cara do meu co-worker, pois é, paciência! Ri nasalado e saquei meu celular da bolsa, enquanto o elevador parecia demorar décadas.
? ?
— Ah não! De novo não! – O homem comentou baixinho e irritadiço ao meu lado e se virou na direção da voz. Um homem bem mais novo estava em frente ao balcão dos arquivos. — Algo errado?
— Você... Você é ? – O homem repetiu, parecia trabalhar ali apesar de nunca tê-lo visto, estava com os formulários em mãos.
— Sim, sou eu. Problemas com os formulários? – Deu passos pequenos ao homem que folheava os papeis e o encarou.
— ¡Hermano! Soy yo!
— Ah não...
— Sim, hermanito. Eu mesmo! Seu melhor e único, rommie! – Ele abriu os braços em um tom convencido até demais, mesmo para ele.
— Abel! Cacete! Não é possível! – o puxou para um abraço e eu ainda assistia, um tanto incrédula também, tendo poucas das memórias da faculdade. Aqueles dois juntos me deram boas dores de cabeça, mas as risadas que demos eram quase inesquecíveis! Ele havia mudado da água para o vinho, fisicamente, mas seu sorriso era de se reconhecer a quilômetros de distância, sempre o mesmo. Tudo bem que os dreads e ternos ajustados o mudaram muito, mas ainda me parecia o mesmo moleque que odiava as saladas nos lanches do refeitório da faculdade.
— Me largue, seu lunático, tarólogo de humanas! – Se desvencilhou de com um sorriso tão grande quanto o de . — E não amasse minhas roupas, minha mulher é ciumenta demais. Eu que sou o investigador, mas ela é melhor que eu quando se trata disso!
— VOCÊ SE CASOU?! – Me intrometi, mas estava espantada demais para abaixar o tom, e alguns pescoços se viraram em nossa direção.
— Aparentemente, meu amigo aqui ainda tem o mesmo mel com as garotas! Hello darling! – Comentou insinuativo na tentativa de uma cantada e eu soltei uma gargalhada.
— Que nojo, Abel! Você é o pior do mundo em cantadas, como se casou?
— VOCÊ! – Apontou o dedo para mim e permaneci no mesmo lugar. — Look at you! ! Claramente a mesma oradora da turma! Não mudou nada! Parece estar rica, mas mesmo assim! Deus! Parecia ontem que vocês me enchiam os ouvidos com as melosidades de casal e hoje estão aqui, sendo fichados! É realmente um mundo muito pequeno. – Riu.
— Não fomos fichados, tapado! – Disse , revirando os olhos. — Somos os Editores Executivos da Magic! Magazine.
— Puts! O acionista morto? – Abel fez uma careta ao citar o fato e nós o acompanhamos. Era cada vez pior ouvir o que aconteceu. — A perícia está sofrendo. Não há praticamente nada que entregue o assassino. Foi realmente muito bem estudado, premeditado.
— Isso parece não ter fim. – Lamentei. — Mas enfim, não acredito que alguém domou o coração geek do gênio de NYU!
— Me respeite. Sou uma autoridade policial e um romântico incurável, by the way. Estava claro que isso iria acontecer!
— Ela deve se arrepender cada dia de sua vida. – Sussurrou , afim de irritar o antigo colega de quarto.
— Oh! Me perdoe personalidade fashion do ano! Não compreendo seu sotaque inglês, pode repetir? – Abel ironizou com voz afetada e eu contive minha gargalhada, afinal, poderia não parecer, mas ali ainda era um local de trabalho. — Você também, coração de gelo! Não ria! Pelo menos agora você ganha para dar uma de mandona!
— Deus do céu, homem se acalme! – O alertei, ainda contendo as risadas. — Você só mudou fisicamente, porque continua falando até pelos cotovelos!
Such a bossy… – Comentou, desdenhando, mas sabia que segurava sua risada também. — Editores Executivos, huh? Algum de nós ficou com o dinheiro, porque definitivamente não fui eu.
— A grana é boa, mas as preocupações de lá são de deixar de cabelo em pé. – disse e checou o relógio em seu pulso. — Inclusive, precisamos ir.
— Vá. Antes que a mande você ir. – Provocou e riu nasalado, ignorando-o.
— Pegue meu número pessoal no formulário e me ligue, vamos marcar algo o mais rápido possível. Preciso ver com meus próprios olhos que sua primeira dama não é apenas inflável! – Chamei o elevador mais uma vez enquanto se despedia de Abel com mais uma de suas chacotas. Eles voltaram, deveras, a ser garotos!
— Quando voltarem aqui, me procurem. Se não tiverem nenhum chá com a Rainha Elizabeth é claro, não quero atrapalhar a agenda de vocês! – Nos despedimos com um breve abraço e foi para o elevador. Logo o acompanhei e mandei um beijo no ar para Abel, enquanto as portas fechavam.
Alguns fotógrafos insistentes estavam em frente ao prédio da Magic! Magazine quando chegamos, sem contar um ou outro paparazzi que acampava nos prédios do outro lado da rua, abusando de todo o zoom de suas câmeras buscando por alguma novidade do caso Choi, coisa que nem eu mesma tinha.
Nos corredores, tudo parecia estar no mesmo ritmo como se não houvéssemos parado e eu sabia que a Magic tinha esse poder, de se refazer mantendo seus elementos essenciais como se nunca se esquecesse de onde surgiu.
— Bom dia, Nicole. Novidades? – A secretária, como sempre, apressadamente buscou sua agenda e me seguiu no trajeto de sua mesa até minha sala.
— Bom dia, senhorita . Sim e não. Os telefones ainda tocam incansavelmente por informações do andamento do caso no mundo inteiro. O senhor Rui Angelo ligou, não pretende aparecer no prédio essa semana, mas disse que a senhorita sabe onde encontrá-lo. Gareth ParenthWood espera pela senhorita, já faz um tempo na verdade e ele disse que passaria no Lounge, mas logo voltaria. Autorizo a entrada dele? – A moça respirou fundo, buscando ar após as mil palavras que despejara de uma só vez.
— Hoje não podemos desligar os telefones. Há contratos a serem acertados e uma chamada perdida pode custar uma parceria milionária. Quanto ao Gareth, sim claro, autorize. Entregue essas pastas para Anna, tudo perfeitamente revisado apenas precisa da assinatura de e as propostas podem ser enviadas. É só, obrigada Nicole.
Em minha mesa, haviam os horários para os photoshoots de hoje e pretendia acompanhar a maioria, senão todos. Era a minha maneira de ter certeza de que nada nos abalaria a ponto de degenerar uma das maiores revistas do mundo. O primeiro começaria em vinte minutos e nesse meio tempo eu precisava determinar a paleta de cores para a próxima capa mesmo que ainda não houvéssemos sequer publicado esta. O verdadeiro “um olho no peixe e outro no gato”. As batidinhas na porta desta vez eram fortes demais para serem de Nikki e quando adentrou, vi os olhos que eram apaixonantes demais para serem os dela, também.
— À que devo a honra? – O saudei travessa com um sorriso tímido, que queria dominar meu rosto de uma vez.
— Vim lhe agradecer por ter aceito o meu convite, não consegui pensar nisso ontem! – Riu acanhado.
— Já agradeci umas vinte vezes e nunca vai ser demais. Obrigada pela atenção, significou muito.
— Fico lisonjeado. E é por isso que gostaria de lhe fazer outro convite hoje, se puder, é claro!
— Só peço que não me deixe mal acostumada!
— Não sei como, mas ajudei Kristaps Porzings com uma cláusula difícil que o New York Knicks queria rescindir depois da sua lesão, e ele quis me agradecer convidando para sua festa de aniversário. – Explicou simplesmente.
— Bons drinques e uma companhia são irrecusáveis. Pois então, parece que temos outro encontro marcado.
— Sim, parece que sim. Às 22h? – Perguntou e eu afirmei com a cabeça. Gareth estava diferente, desta vez. Não fisicamente – continuava de tirar o fôlego– mas seu olhar... parecia mais sombrio, escuro, não sei ao certo. Fechou seu paletó e piscou com um dos olhos, sussurrando um “Até mais tarde” saindo porta afora. Cumprimentou , que aparentemente já se preparava para entrar.
— Olá, querida ! – Irrompeu o maior cafajeste de Manhattan com um bom humor que não havia visto nos últimos dias.
— Ver o Abel te deixou melancólico a ponto de me chamar assim? – Retruquei em tom jocoso, já que este era um apelido que me chamava apenas na época da faculdade.
— Eu sempre te chamei assim, querida . – Piscou, deixando um sorriso devasso em seus lábios e eu arqueei as sobrancelhas.
— De uma vez por todas, o que veio fazer aqui, infeliz? – Vociferei áspera. — Acabamos de nos ver!
— Vim saber como está. – Disse simplesmente. — E aparentemente muito bem, não é? – Insinuou, indicando a porta com a mão, se referindo a Gareth que saíra há pouco.
— Já viu? – Cruzei meus braços, observando-o.
— Você adora quando venho te visitar. – Sentou-se na cadeira em frente a minha mesa.
— Não é bem uma visita, você está do outro lado do corredor! – Exclamei óbvia. — E outra, eu nunca disse isso.
— Verdade. Mas seu corpo diz. E você sabe disso. Não consegue disfarçar! – mordeu o lábio inferior, segurando um sorriso convencido.
— Está te faltando trabalho, por acaso? – Ele gargalhou e eu cerrei os olhos, desejando não ter ouvido aquela petulância. — Enfim, de qualquer forma, precisamos de mais um acionista, ou dois, já que o poder do Choi era imenso. Inicialmente pensei e um acionista controlador¹.
— Não acho tão vantajoso, .
— Pois reveja seus conceitos! É totalmente vantajoso, porque o teremos à disposição boa parte do tempo. O salário seria maior, o que dá impressão de gasto, mas o que podemos extrair dele pode gerar até quinze vezes mais.
— Mas se não escolhermos o perfeito, estaremos ferrados quinze vezes mais!
— Não seja pessimista. Jamais escolheríamos alguém errado e sabe disso. – Comentei confiante e lhe ofereci uma piscadela, apoiando meu rosto em uma mão. — Então, o que acha?
— Não sei, ... Não acho seguro arriscar a Magic dessa forma no momento que estamos. Sem contar que as entrevistas pro cargo serão imensas.
— Não precisaremos de entrevistas. – Adiantei convicta.
— Você já tem um candidato! – Ele exclamou, quase lendo meus pensamentos e concordei com a cabeça. — Como não suspeitei disso?
— Exato! Gareth ParenthWood.
— Não. – Cortou-me de imediato.
— Você nem cogitou a ideia!
— Não preciso. E nem quero.
— Como não?! – Exasperei.
— Não gosto dele. Acho mediano, aprendiz... Cru demais, sabe?
— Você está louco! Viu a proposta na Assembleia, que inclusive nas suas palavras era “avassaladora”.
— Era, realmente. Naquele momento. Não imaginava que era para se tornar um pilar da revista, pro resto da vida! Repito, mediano.
— Não lhe entendo, de verdade. Vou te dar um tempo para pensar, sei que vai mudar de ideia. – Suspirei, olhando a hora no visor do celular. — Vou acompanhar um photoshoot e já estou atrasada. Você vem? – Me levantei, vestindo apressada meu blazer que estava no encosto da cadeira e apenas murmurou um “mais tarde eu vou” e o deixei ali, ele precisava pensar mais um pouco.
O dia se arrastou um bocado com todos os photoshoots que precisavam ser feitos e a equipe estava definitivamente desfocada e deixando que muitos detalhes passassem em branco. De todos os photoshoots do dia, sete foram remarcados para o dia seguinte, o que totalizava a metade de todos eles. Precisei rever toda e qualquer característica ali, estávamos deixando escorrer pelos nossos dedos toda a excelência que a Magic sempre teve, sem contar que gastamos a tarde inteira apenas para isto. Mal tive tempo para o almoço, assim como Blair que acompanhava os shoots, também não e nos contentamos com os salgadinhos das máquinas automáticas nos corredores.
Boa parte da equipe desceu até o Lounge para descansar por um tempo, enquanto prometi que reveria alguns pontos que estávamos seguindo na sessão de fotos de hoje até o horário que voltassem, em uma hora. Ainda nos restávamos três photoshoots para hoje e precisávamos manter a cabeça no lugar. Uma equipe dispersa é a pior coisa que poderia acontecer agora. Era, realmente, muita coisa para digerir em pouco tempo, mas essa era a tal de força que a vida exigia tanto que tivéssemos. Blair me ajudou depois de tirar um tempo para descansar – ela tinha realmente abandonado o movimento workaholic – e tudo se encaixava melhor e fazia mais sentido quando tínhamos alguém da área, ou simplesmente quando era a melhor amiga. Após os reajustes artísticos e o descanso, apostei em uma conversa motivacional, parecia uma boa pedida. E Abel iria adorar me ver mandona por todo o prédio – e ganhando por isso, como ele gostava de lembrar.
O primeiro photoshoot teve um andamento mais coerente com a qualidade Magic! Magazine e eu pude deixá-los seguir em paz, porque faltava mais alguém que me devia uma resposta e nunca, repito, nunca esqueceria de tal.
Subi mais um andar de elevador e saindo do mesmo passei pela máquina de café e optei por um expresso, pegando como segunda opção um capuccino, atravessando o corredor indo em direção contrária à minha sala. Adentrei a sala de , de supetão.
— Gareth. Temos de promovê-lo, sabe disso.
, não. – Ele que estava checando algo em seu celular logo o largou em cima da mesa. Me sentei à sua frente e depositei os copos na mesa.
, ele é tão novo quanto nós e tão notável quanto! Ele é focado, persuasivo e inovador tal como precisamos.
— Discordo. Acho ele previsível. Tão previsível quanto aquele país do tamanho de um ovo que ele vive enfurnado. – Comentou mal-humorado.
— Ele nasceu lá, é normal. Você nasceu aqui e vive enfurnado aqui também! Suas desculpas são descabidas e sem noção nenhuma, . – Cruzei meus braços, aguardando que falasse algo e finalmente desse o braço a torcer.
— Se promovermos ele para Acionista Controlador, precisaremos de um outro para ocupar seu antigo lugar. É tampar o Sol com uma peneira, !
— Deixe de ser cabeça dura! E sim, precisaremos de mais alguém e apenas desta vez podemos investir um pouco mais de tempo, analisando um por um, mas isso é o de menos.
— Ainda não sei. Continuo achando arriscado demais.
— Então faça um teste com o Gareth.
— O quê?
— Sim. Dê a ele uma tarefa de acordo com o cargo e se ele resolver no tempo ideal, você vai saber que ele é perfeito para o cargo. – Expliquei.
— E se ele não passar? – Revirei os olhos.
— Então começamos a caça por dois acionistas, sem promoções. O que acha?
— Parece justo.
Let’s do it! – Sorri convencida, finalmente. — Não se acostume, foi apenas uma gentileza! – Pus o café a sua frente e beberiquei o meu.
— Por que capuccino?
— Você nem gosta de expresso, sem contar que esses dias você está soft demais! Quase optei por apenas leite com açúcar! – Zombei.
— Não me surpreenderia que no seu tivesse uísque.
— Esse eu tomo toda vez que penso em te esganar. Lembro no processo que daria e desisto. Sorte sua! – O olhei de soslaio enquanto tomava mais um gole do café.
— Você não conseguiria me esganar! Perderia as forças assim que olhasse nos meus olhos que eu sei, pois é, eu sei que você ama! – Disse convencido e levantou seu copo no ar, como quem propunha um brinde.
— Céus, você é ridículo ! – Cerrei os olhos e cessei minha risada finalizando o café expresso.
— Diga que eu estou mentindo. – Sorriu presunçoso.
— Isso não interessa. – Revirei os olhos, querendo mudar de assunto. — Preciso ir, vai ficar?
— Está cedo para uma workaholic. – Provocou, brincando com a caneta em seus dedos. — Vou ficar, talvez, acompanhar os shoots que restaram. Boa noite, . – Dei de ombros e lhe ofereci um breve sorriso em resposta, logo saindo de sua sala. Retornei para a minha, onde precisava buscar minha bolsa e estava bastante aliviada por não precisar ir para casa com pastas à tiracolo desta vez, até porque havia muito mais com que me preocupar, e este era Gareth ParenthWood em toda a sua elegância e cavalheirismo, ao meu lado, mais uma vez. Não havia do que reclamar.
O vestido preto e ajustado ao meu corpo exaltava minhas curvas e exatamente por isso tinha lá sua sensualidade. As alças finas e o decote reto davam notoriedade ao meu colo, somando na sensualidade da peça enquanto a cor cuidava da elegância por si só. Como coadjuvantes, brincos longos que chamavam a atenção para si através do cabelo semi-preso e os inseparáveis Louboutins Raynibo, que já eram um evento em sua natural forma, uma clutch minimalista a tiracolo e pronto! Ready to go!
Parecia uma missão impossível na hora que pisei em casa, conseguir me arrumar dentro de toda a pontualidade de Gareth, mas no final deu como o planejado, e cronometrado como sempre, o galês avisou por mensagem sobre sua chegada há pouco. Desci e, como da última vez, ele me aguardava encostado no carro. Seu traje all black dava a impressão de generosos músculos em seus braços, realçando sua beleza loura e de olhos azuis safira. Na ingenuidade de cumprimentá-lo com um beijo no rosto, realmente o fiz, mas a mão gentil do homem em minha nuca logo me guiou de encontro com seus lábios em um cumprimento muito melhor.
— Boa noite, . Claramente a mulher mais bonita da noite! – Proferiu sobre meus lábios e galante como de costume, segurando suavemente em meu queixo.
— Olá, Gareth. E você de tirar o fôlego, as always! – Como já era de se esperar, o galês me acompanhou gentilmente até seu carro, abrindo a porta no lado do passageiro.
A luxuosa mansão do jogador revelação desta temporada na NBA não era tão longe assim, ou a companhia de Gareth era boa o bastante para não me fazer perceber se realmente era. Cruzávamos os enormes jardins da casa onde Kristaps Porzingis celebrava mais um ano de vida e já podíamos ouvir a música alta e animada, pelas janelas escapavam parte das luzes piscantes no local, exatamente o que eu precisava no momento. Passamos por um corredor integralmente cravados por espelhos em cada mínimo centímetro dando um ar enigmático á cada passo que a música se tornava mais alta.
Desta vez, totalmente diferente do jantar e premiação no The Plaza Hotel, dias atrás, havia uma galera animada e dançante por todos os lados e até mesmo uns gatos pingados que arriscavam seus passos ensaiados. Como não pode faltar extravagâncias em festas de estrelas do basquete, o aniversário tinha tema circense com direito a contorcionistas pendurados no ar, alguns palhaços bizarros e até espelhos falantes. Os convidados não estavam à caráter, porém não havia nada que não pudéssemos resolver ali mesmo, não quando se tinha um cômodo da mansão exatamente com esse propósito! Gareth logo se apressou e adentrou o cômodo com um sorriso travesso, tateando os excêntricos adereços como quem procurava a peça perfeita. Encarou uma estola de plumas vermelhas e volumosas em um dos cabides, tomando-a em suas mãos. Fitou-me como quem pedia permissão e eu sabia que meu olhar não respondia nada além de um explícito “sim”, andando até mim através das meias-luzes do cômodo, Gareth se aproximou, parando atrás de mim. Suas mãos subiram lentamente por meus braços nus chegando até os ombros, onde depositou um beijo demorado em cada um deles enquanto os vestia com a estola, deixando que a mesma deslizasse por eles e parasse rente ao meu quadril e por ali permaneceria.
Precisávamos cumprimentar o aniversariante, mas não sem antes de Gareth se apossar de uma espécie de cartola de um vermelho tão vivo quanto a minha estola, como se combinássemos, e não foi uma má ideia, inclusive.
Retornamos ao salão, onde boa parte da socialite de Manhattan e quiçá de toda a Nova Iorque estavam. Minha mão parecia formigar conforme, em pequenos gestos, o galês começava a enlaçá-las e sem mais enrolações, as enlacei de uma vez, já que era do desejo de ambos. Desde os fundos do grande salão, palmas se tornavam cada vez mais audíveis à ponto de ofuscar a música que tocava e o responsável por toda a agitação era ninguém mais, ninguém menos que o próprio Kristaps em um esplendor digno de anfitrião aniversariante em uma elegância inegável de um paletó, que fazia jus ao brilho que faltava na festa, já que era inteiramente coberto por glitter prata. Transparecia toda sua jovialidade e ousadia na combinação que fez, apostando na máscara que cobria metade do rosto inspirada em “O Fantasma da Ópera”. Ainda no topo das escadas, de onde aparecera, o jogador agradeceu brevemente os cumprimentos com um sorriso deslumbrante e logo descera as escadas para cumprimentar os convidados individualmente.
— Hey, isso pode demorar um pouco. Vamos no bar? – O acionista disse um tanto perto do meu ouvido e eu queria poder dizer que a proximidade era por conta da música, que voltara a soar alto, mas a mão que acariciava minha cintura contrariava totalmente essa teoria. Difícil mesmo era disfarçar que em todos os toques deste homem em mim, deixavam um rasto de fogo ainda maior. E eu estava para entrar em chamas por conta dos sorrisos que soltava, os beijos solitários e quase inocentes que vez ou outra deixava em meus ombros e nuca. Murmurei um “claro” e logo cruzávamos o mar de gente novamente.
Seguindo as singularidades do tema circense, o bar tinha sua regra própria: para “abrir os trabalhos”, antes da primeira bebida da noite, cada convidado teria o dever de começar com uma simples dose de tequila. Gareth encarando a regra, riu e eu o acompanhei enquanto via que ele continuava um pouco hesitante quanto à ela, precisando ser influenciado pelo meu pontapé inicial. Oras, era uma regra, não havia como fugir!
Deixei um selinho nos lábios de Gary e me dirigi ao bartender que nos serviu prontamente das duas doses mesmo que o acionista continuasse hesitante. — Não acredito que Gareth ParenthWood, um acionista cobiçado e o homem com quem estou saindo, está com medo de uma única e ingênua dose de tequila! – Zombei, vendo-o morder os lábios pra conter o riso enquanto colocava as mãos nos bolsos dianteiros da calça, andando até mim.
— Não é medo! É que preferia compartilhar de um Dry Martini com você. – Se aproximou mais, o bastante para sentir seu hálito quente em minha nuca. — É mais afrodisíaco.
— Teremos tempo pra provar de tudo que é afrodisíaco. – Sorri, respondendo a sua frase que, confesso, soara um pouco brega, mas foquei no seu legítimo propósito. — Mas não sem antes cumprir a regra. – Pisquei para ele e virei a dose de uma vez, sentindo o arder gostoso descer pela garganta.
— Essa é das minhas! – Bradou, Kristaps, abrindo os braços, pomposo. Me virei para ele com um sorriso, vendo que logo ele e Gareth se cumprimentavam, risonhos. — Então.... É você, a chefe que coloca esse garotão na linha, huh?
– Gargalhou e o galês respondeu com um soco em seu braço. — Você o deixou bobo, parece que tem 15 anos de novo!
— Generosidade sua! Sou e é uma honra conhecê-lo.
, minha querida... – O aniversariante me abraçou pelos ombros. — Cuide deste homem, ele mudou a minha vida. Torço para serem felizes!
— Hey, hey, hey! Vamos com calma Kris! – Gareth interrompeu, desconcertado. — E a deixe respirar, amigo!
— Para sua tristeza, não solto sua garota enquanto não virar a tequila, buddy!
— Uh! Gosto disso! – Incentivei o jogador e fizemos um hi-five, animados. — Vamos, Gary!
— Vamos, Gary! – Kristaps me imitou com voz afetada e Gareth – finalmente– virou a dose de uma vez, como manda o figurino. Vibramos junto do bartender que acompanhava o desenrolar da trama, chamando parte da atenção pra nós.
— Pronto, babe. Dry Martini? – Passei meus braços por seus ombros, sorrindo, sentindo suas mãos apossarem minha cintura. O aniversariante se embrenhou entre as pessoas novamente enquanto a festa seguia animada desde o primeiro minuto, da forma que não via há tempos.
Arrisquei algumas músicas com Gareth na pista de dança, mas ele parecia educado demais para arriscar um twerk, o lado bom é que a valsa estava em dia como exigia o manual dos poucos cavalheiros modernos.
Com mais uma extravagância para a conta, o bolo com vários andares adentrou o salão – por pouco não batia a altura do próprio jogador – e o coro de ‘feliz aniversário’ tomou todo o cômodo.
— Vem cá. – O acionista me conduziu em meio os convidados para que pudéssemos subir as escadas na maior velocidade que conseguíssemos, quando a única iluminação do local eram das velas pirotécnicas no bolo. Apressado e um bocado atrapalhado, o galês contava as portas do extenso corredor do andar superior, sem motivo aparente. — Quatorze! É essa, vem. – Ele tirou uma chave do bolso interno do paletó e a destrancou. Sem tempo para as banalidades – como acender a luz – ele me prensou entre seu corpo e a porta atrás das minhas costas sem cerimônia alguma e eu arfei. Suas mãos grandes e curiosas desenhavam todo o meu corpo, desde as coxas até a nuca, onde gostava de se demorar um pouco mais. — Estava louco por um tempinho com você.
— E finalmente conseguimos, então vamos falar um pouco menos. – Murmurei e o beijei. Assim como ele, eu queria aquilo e queria logo. E em mais uma das suas “manias gracinhas”, ele sorriu no meio do beijo e pude sentir que tirou a mão que acariciava a minha coxa e não demorou pra que eu gemesse em descontentamento. Podia sentir seu corpo mexendo para tatear o interruptor com dificuldades nítidas, partimos o beijo e ele soprou um “desculpe” amuado, tirando o celular de seu paletó, acendendo a lanterna. Ri de sua afobação enquanto me juntava a ele para achar o bendito interruptor, quando percebemos que bastava a boa e velha palma para acender as luzes dali. O cômodo era uma sala de cinema, e nos aguardava muito confortável por sinal, talvez não com os mesmos propósitos que nós, mas ainda assim, divina. Encarei todo o cômodo e não escondi minha admiração, tudo bem que me custaria mais alguns pares de anos na Magic para que pudesse custear uma daquelas já que não aguentava mais maratonar a saga que era Blair com caixinhas de suco e farelo de cookies no sofá da sala, quando não no meu quarto.
— Desculpe, não queria te assustar apressando as coisas. – Se apressou, o acionista.
— Não! Não se preocupe, Gary. Não tem problema de adiantarmos um pouquinho as coisas. – Levantei meu olhar dos seus lábios até seus olhos e sorri, insinuativa.
— Era exatamente isso que eu queria ouvir. – Com delicadeza, afastou alguns fios de cabelo do meu rosto e com a outra mão, colou nossos corpos com precisão, iniciando mais um beijo. Desta vez, sabíamos sem dúvida alguma, qual linha cruzar para chegar onde queríamos, e eu estava ansiosa por isso. Gareth tirou a mão do meu rosto e deslizou até meu pescoço, emaranhando-a pelos cabelos dali, puxando alguns sem que pudesse controlar um gemido. Ele deu uma risada sacana e isso apenas contribuiu para que meu desejo aumentasse, respondi passando as mãos por seus ombros impulsionando para que seu paletó caísse pelos braços e os beijos me torturavam ainda mais quando chegaram ao meu colo. Nos guiávamos às cegas até o grande sofá do cômodo e em ironia aos carinhos ardentes e apressados, ele gentilmente me apoiou no braço do sofá, ficando por cima. Cessamos os beijos por um breve momento, nos encarando com respirações ofegantes e lábios vermelhos, de uma forma que eu sequer pensava que Gareth poderia ficar mais tentador. Gareth ParenthWood não tinha noção do que estava fazendo comigo!
— Parece uma crueldade se separar desses lábios, . – Sussurrou com a voz rouca, brincando com seu dedo em minha bochecha, deslizando-o até meu lábio inferior que formigava.
— Não vejo necessidade deles separados. – Lhe dei um selinho demorado, transformando-o em uma trilha de beijo desde sua bochecha e maxilar, tendo como rumo o peitoral do galês que ainda estava coberto pela camisa social preta mas não duraria muito mais tempo. Enquanto beijava seu pescoço, pude me embriagar em seu perfume que tinha as características perfeitas do homem: era forte e sedutor, mas ainda assim, com uma suavidade inimitável.
Comecei a abrir os primeiros botões de sua camisa e uma das mãos do acionista parou em meu cabelo, puxando-os cuidadosamente apenas o suficiente para que retornasse com os carinhos em seu pescoço. Não hesitei e o fiz, ouvindo-o gemer baixinho à medida que obtia espaço para abusar de seu peitoral. Deixei alguns arranhões leves em suas costas, me deliciando na carne nua do acionista quando a porta foi aberta de supetão. Um casal jovem, quase adolescentes, se atracava selvagem como se não houvesse amanhã – e não estavam errados afinal, exceto pelo local. O rosto do galês era pura confusão mesmo que o rosado de suas bochechas o deixassem uma graça. Pigarreei e o casal pareceu não se abalar, pelo contrário, a moça encarou o pigarro como um incentivo vindo de seu parceiro e cruzou as pernas na cintura do mesmo.
Por Deus... tenha dó!
— Ok, já chega! – Bradei, assistindo os dois se desvencilharem com o susto. Levantei do sofá, ajeitando o vestido. — É como assistir a forma de um bebê ser consumado! – Eles nada responderam, apesar das caras atônitas responderem por si só. Saíram apressados, batendo a porta que eu permaneci encarando, com as mãos na cintura ainda um tanto descrente.
Seria cômico, se não fosse trágico.
Me voltei para Gary no sofá, que já vestia sua camisa.
— Isso foi quase um foursome. – Comentou sem jeito, deslizando a mão pelos cabelos afim de organizá-los.
— Eram quase duas crianças e eu já podia ver mais uma vindo ao mundo! – Respondi dramática e ele riu, dispensando o pouco de tensão que restara. Me sentei ao seu lado, ouvindo-o respirar quando passou um de seus braços por minhas costas e usou o outro para virar meu rosto para si.
— Desculpe, isso foi péssimo.
— Se eu estivesse contando, diria que essa foi a vigésima vez que pediu desculpas só essa noite. Vou passar à não desculpá-lo mais! – Sorri travessa, apoiando a cabeça em seu ombro.
— Pode soar atrevido, mas eu aceito os riscos. – Enlaçou sua mão à minha. — O que acha de irmos para a minha casa?
— Era exatamente isso que eu queria ouvir. – Rebati com a mesma frase que ele usara mais cedo. Ele sorriu e me beijou, segurando-me pela nuca como se me impedisse de fugir, como se tivesse coragem para tal, não é?
Nos arrumamos da melhor forma que nos era permitida e, pela segunda vez naquela noite, corremos por aquele longo corredor, como adolescentes. Descemos as escadas com pressa e desaceleramos conforme nos aproximávamos do salão, quando me ofereceu seu braço para enlaçar, da mesma forma que chegamos ao local.
Atravessamos o bizarro corredor de espelhos, nos dando o luxo de uma última tacinha de champanhe. Era um longo corredor, oras! ParenthWood jogou as chaves nas mãos do manobrista que no tempo perfeito de finalizarmos nossa bebida, apareceu com o carro do acionista.
O portão alto se abriu automaticamente para que adentrássemos o condomínio gigantesco no Tribeca, um bairro nobre de Manhattan que ia desde o leste do rio Hudson até a Broadway, possibilitando mil e uma vistas diferentes da cidade. Aproveitando as vantagens das altas horas, adentramos o elevador livre e Gareth selecionou o andar, que demoraria um pouco, tendo em vista que era o último, um pouco acima do 23° andar. Ele sabia o que isso significava e eu não conseguia me conter sobre tal. Nos entreolhamos e sorrimos travessos, puxando sua mão e o enlaçando em um beijo. Senti seu corpo me pressionar contra as paredes gélidas do elevador enquanto o beijo tomava velocidade, já que aquilo não sanava nossas necessidades.
Nossos corpos imploravam por mais.
Subi uma perna até sua cintura e meu vestido permitiu que sua mão passeasse livre na pele nua da minha coxa, onde deixou um apertão generoso. Desvencilhou suas mãos com rapidez para apertar o botão que travou o elevador e em resposta, sorri sobre seus lábios.
— Temos mais um minuto. – Sussurrou malicioso. Sem prorrogações, retornamos de onde paramos e ele mesmo impulsionou minha perna à sua cintura, desta vez mais atrevido, indo até minha nádega, beliscando. Gemi e mordi seu lábio inferior, priorizando agilizar o processo, abrindo os primeiros botões de sua camisa novamente, sentindo o elevador se movimentar. O puxei pela gola, passeando meus dedos entre seus cabelos loiros dispersando-os até seus ombros largos que, definitivamente, merecia mais atenção. A porta do elevador se abriu e ouvimos um pigarro, nos separando instantaneamente quando sequer havíamos percebido que após destravado, o elevador foi solicitado e nem nos atentamos à tal. Uma senhora elegante de casaco de peles, ocupou o espaço restante e nos mantemos em silêncio, tentando controlar as respirações aceleradas. A tal senhora desembarcou apenas dois andares após e nos permitimos rir da situação, tão similar à que fomos sujeitos mais cedo.
O elevador tilintou, abrindo suas portas no último andar e não demorou pra que sentisse a brisa gelada da noite arrepiando meus braços. Percebendo isso, Gary cobriu meus ombros com seu paletó, tomando a frente para destrancar a porta. As luzes revelaram um apartamento vasto e perfeitamente organizado, com artes diversas por todos os cantos. Sem perder tempo observando os detalhes do local, ele se aproximou, juntando um punhado dos cabelos que caíram pelos meus ombros e segurou-os com força para beijar e mordiscar toda a pele que fora exposta. Minhas pernas friccionaram entre si no momento que mordeu o lóbulo da minha orelha, permitindo que meus cabelos caíssem em cascatas pelos ombros novamente. Um tapa forte e estalado me fez morder o lábio para impedir um gemido e ele se limitou à me encarar, inabalável. Gostava do que via, gostava de me ver desta forma, gostava de me fazer sentir assim e de saber que era ele, que me causava tudo isso.
Desgraçado!

— Vou buscar um vinho pra gente. – Se desvencilhou ligeiro e desfrutei das vistas que tinha em sua sala: o mar ao fundo, o pouco da luz da Lua refletindo na parede, as obras que faziam do cômodo um museu à parte.
Encarei maravilhada a peça considerada ícone do Impressionismo, “Meules” de Claude Monet pintada em 1890, um dos poucos exemplares da série Almiares do pintor. E Céus! Aquela era obra única no mundo!
— Gostou, huh? – Gareth retornou com duas taças na mão, entregando uma para mim.
— Esse é realmente, um Meules legítimo?
— O próprio! Meules de Oscar-Claude Monet, legítimo.
— Mas... Como? Esse é o único no mundo inteiro! – Insisti boquiaberta. Deus! Aquela peça era meu sonho desde que me conheço por gente.
— Exato. – Respondeu calmamente, bebericando em sua taça. — Minha mãe é dona de uma rede de condomínios de luxo, inclusive esse aqui, e precisou vender o do Flatiron District por completo pra suprir o valor do quadro. – Finalizou claramente sem muito ânimo.
— É ainda mais bonito do que eu imaginei! Tenho uma réplica fiel pra ficar admirando, até porque, agora eu já sei quem está com o único do mundo. – Sorri e o segui até o sofá, me aconchegando ao seu lado. — Tal mãe, tal filho, huh?
— Não é tão simples quanto parece... – Busquei por sua mão, fazendo um carinho ali, encorajando-o, para caso quisesse continuar. — Meu pai faleceu quando eu tinha 15 anos e ela assumiu tudo que ele fundou. Desde então, nos afastamos bastante porque ela se tornou fria depois que conheceu o mundo dos negócios e até hoje tenta se reaproximar, gastando bilhões de dólares. E não está funcionando. – Finalizou sua taça de uma vez, colocando-a na mesa de centro.
— Se quer saber, não a culpo. O mundo dos negócios é cruel, principalmente com as mulheres. Demora muito pra que consigamos ser enxergadas com seriedade. Dê uma chance pra ela... Ela só quer ser reconhecida pelo seu esforço.
— É mesmo tão difícil assim?
— Oh! Você não tem ideia do quanto! Tive sorte de encontrar o Rui, que me apoiou e acreditou desde o meu primeiro dia de estágio. Mas quando tive de enfrentar sozinha a frente da Magic... – Suspirei. — Bom, hoje já estou calejada e não comprei o Meules antes de você porque gastei o dinheiro processando uma boa parte do mundo, e demorou, mas aprenderam a me respeitar. – Pisquei e como ele, finalizei minha taça de vinho.
— Desculpe, eu realmente não fazia ideia. Forbes não mentiu. Você é mesmo uma Dama de Ferro. – Sussurrou com o olhar cravado ao meu, roçando as pontas dos nossos narizes e encostou nossas testas. Senti seu perfume se confundir com o do vinho que exalava de nós dois e bastou para que um arrepio subisse por todo meu corpo. — , você é incrível. Absolutamente incrível! E eu não poderia estar mais fascinado por você. – Após um gracioso carinho que fez nas minhas bochechas com os dedos, nos beijamos. E diferente da pressa com que chegamos ali, seus lábios conduziam calmo e atenciosamente, parecendo querer despir nossas almas, fazer delas uma só. Buscou por minhas mãos, pousando-as em seu peitoral e tateando meus dedos até os botões da camisa, ri sobre seus lábios e ele me acompanhou, abrindo o primeiro botão. O peso do seu corpo fez com que invertêssemos as posições de mais cedo e encostasse minhas costas no braço do sofá, para que o galês ficasse por cima. Mesmo por cima do vestido, ele beijou da minha barriga até os seios e o tecido da roupa não interferiu nas sensações que ele me causou enquanto apertava minha coxa. Fechei os olhos sentindo o calor dos seus lábios na região e os arrepios apenas se multiplicaram, era inútil tentar controlá-los. Passei uma mão por sua nuca, descendo-a pelos ombros com o fim de despi-lo da camisa enquanto ele se posicionava entre as minhas pernas, colando nossos corpos e facilitando para que eu subisse a perna até sua cintura para sentir nossas pélvis se roçarem. As mordiscadas disfarçadas de beijos eram divinos mas não ao ponto de ofuscar a mão que descia uma das alças finas do vestido. Sorri e posicionei minha mão em cima da sua, como se o ajudasse ali e ele apenas sorriu, presenteando-me com beijos molhados no local onde a alça ocupava, quando eu mesma me encarreguei de descer a outra, alargando o sorriso sujo no rosto do galês. Segurou uma alça de cada lado, com firmeza, e as desceu lentamente, observando atento cada centímetro de pele revelado.
Gareth passou a ponta da língua entre meus seios em uma lentidão tortuosa, que fez minhas pernas ao redor de sua cintura, se apertarem um pouco mais, a ereção friccionou do meu sexo fazendo ambos pulsarem. O quente de seus lábios tomou um dos seios com suavidade, apenas pela auréola, brincando na região. No outro, sua mão o tomou por completo, apertando e massageando, olhou-me travesso como se quisesse que me preparasse para o que viesse a seguir. Abocanhou um dos seios e não reprimi um gemido desta vez, a língua ágil estimulava por todo o mamilo e revezava com os lábios que sugavam, vez ou outra. Insisti no atrito de nossas intimidades e senti seu hálito quente arfar contra a minha pele, alternou o carinho entre os seios e passou dois de seus dedos sobre meus lábios para que eu chupasse. O sorriso que tomou seus lábios assim que o fiz, era cafajeste e eu amava cada centímetro dele em seu rosto, tirou os dedos da minha boca e usou deles molhados para estimular mais do meu mamilo.
Já não sabia mais por onde arranhar em seus ombros, era pouco demais, eu queria mais. Muito mais.
Parecendo ler meus pensamentos, ele subiu meu vestido de qualquer forma e se levantou. O homem segurou minha mão e saiu disparado pela casa, atravessando alguns corredores e a soltou apenas para abrir uma porta dupla, com maior agilidade. Não precisei de muito para saber que era seu quarto até porque, o que mais me importava era forma que me beijou, afim de nos conduzir até a cama. Fiquei de costas para ele e o mesmo me deixou um beijo solitário em um dos ombros, descendo o zíper nas costas do vestido aos poucos, fazendo dessa demora um verdadeiro castigo. Com as alças presas em seus dedos desceu meu vestido, conseguindo tatear meu corpo ao modo que fazia, deixando-me apenas de calcinha e com os saltos, que quis tirá-los, mas fui impedida.
— Não os tire. Gosto assim. – Sussurrou junto ao meu ouvido e me virei para o homem, recebendo o olhar que estudou cada centímetro do meu corpo seminu, passei os braços por seu pescoço, enlaçando-o, para iniciar um beijo calmo, porém carregado de malícia. Sentei na beirada da cama, trazendo-o comigo pois queria seu corpo quase em chamas por cima de mim, novamente. Mordiscava a região entre meu queixo e boca enquanto uma mão descia libidinosa pela lateral do meu corpo e eu sentia seus dedos desenhassem uma trilha de fogo conforme seu toque conhecia minhas curvas. Sua mão chegou até meu ventre e minha respiração se cortou-se, ansiosa.
Passeou com sua mão por minha intimidade em uma suavidade que apenas aumentava a ansiedade, com os olhos atentos captando cada poro meu que arrepiava com seus toques e sorria com cada um deles, como se fossem uma grande conquista. Por cima do tecido fino da calcinha estimulou-me em movimentos suaves de vai-vem com seu dedo médio, afastou para o lado alguns centímetros da roupa íntima e me tocou. Arfei em resposta, permitindo que ele deslizasse por minha carne úmida da região em um sinal de súplica por aquilo.
Com um dedo, começou um singelo movimento circular no clitóris e me penetrou com outros dois. Minhas costas se arquearam e não consegui segurar o gemido que rasgou minha garganta. Os movimentos se alternavam entre ora rodopiar dentro de mim e ora, o vai-vem em velocidades intercaladas. Cacete! Eu estava a ponto enlouquecer!
Ele se aproximou do meu rosto, o suficiente para morder meu lábio inferior sem tirar seus dedos de mim.
— Me diga o que quer. – Ordenou, com a voz rouca.
— Só... não pare. – Diferente dele, sussurrei sôfrega quando não consegui proferir frase melhor. Ele sorriu e direcionou-se até meu mamilo, me atiçando com uma lambida sozinha ali. Adicionou o dedão para friccionar o clitóris enquanto cada vez mais, seus dedos encharcados deslizavam com maior facilidade, agarrei o lençol quando senti uma ondulação na região do ventre.
— Não, não, não... Ainda não. – Lentamente tirou os dedos do meu sexo, levando-os até sua boca e lambendo até a última gota com meu gosto. Assistir a tal cena fez meu corpo se arrepiar por completo em um milésimo e ele sabia disso, porque apreciou até o último segundo.
Respirei fundo e minhas mão foram ávidas até seu pescoço para juntar nossas bocas. Queria beijá-lo e sentir o seu gosto, junto do meu, junto do vinho para misturá-los ainda mais. Inverti as posições durante o beijo e fiquei por cima, em seu colo, sentindo que o zíper da sua calça já estava aberto para facilitar as coisas mas ainda não estavam como eu queria. Vagarosamente me desvencilhei do beijo e da posição anterior, cravei meu olhar no seu e a meia-luz do cômodo contribuiu para deixar um pouco mais misterioso e com essa vantagem, beijei sua ereção ainda que por cima dos tecidos que vestia quando instantaneamente sua mão agarrou um bocado de cabelos meus como se incentivasse que eu continuasse na região.
— Não seja tão apressado, babe. – Disse calmamente, subindo minhas mãos até o cós de sua calça social e a deslizei com sua ajuda. Como se não houvesse dito nada á pouco, o homem se encarregou de deslizar sua boxer junto, ri nasalado com sua pressa mas não quis mais disfarçar a minha e passei a língua por toda a extensão de seu pênis ereto para abocanhá-lo sem mais delongas. Ele gemeu quando sentiu minha língua quente deslizar por seus centímetros para começar a masturbá-lo e chupá-lo, simultaneamente.
Concentrei-me na cabecinha, serpenteando minha língua na região sem pressa alguma, querendo torturá-lo como fizera minutos atrás.
— Caralho, ! Eu preciso te fuder.
— Então me foda. Agora. – Com fúria, me puxou pela nuca, colando nossos lábios com urgência, da forma que eu pudesse voltar ao seu colo para em seguida rolarmos pela cama e invertermos, novamente. Essa era mais uma das mil faces de Gareth que eu não conhecia mas cada segundo descobrindo é uma verdadeira montanha-russa –e eu sempre amei montanhas-russas–. Desvencilhamos por alguns segundos enquanto me esticava até o criado-mudo na procura de um preservativo e pude ver de relance que o galês se desfazia melhor das roupas. O acionista estalou mais um tapa forte na minha nádega e puxou minha calcinha com agilidade, no meio tempo em que abria a embalagem. Ele se posicionou atrás de mim e seu membro tocou levemente minha entrada, suas mãos firmes afastaram um pouco minhas pernas para permitir que a ereção roçasse mais um pouco. Ainda de costas, tateei a ereção para vesti-la com o preservativo e Gareth o fez, apressado, enlaçando minha cintura com o intuito de grudar nossos corpos, provocando uma maior fricção em nossas intimidades.
— De quatro. – Sussurrou sacana ao pé do meu ouvido e prontamente acatei, empinando-me luxuriosa em sua direção. Apertou uma nádega e em um flash, passou a língua por todo o meu sexo, deixando-me mais molhada do que antes e fervendo como nunca. Brincou com minha entrada, ameaçando penetrar e em resposta rebolei sobre seu membro enquanto ele inundava suas mãos em meus cabelos novamente e puxou-os. — Quero ver seu rosto quando entrar em você, . – Decretou, um pouco até sombrio devido a voz rouca, para me dar o prazer de - finalmente- sentir seus centímetros me penetrarem, lentamente, dando a chance de apreciar cada segundo da sensação de deleite. Gareth arfou e eu contive um gemido quando estava dentro de mim por completo, este, incontrolável quando senti mais uma de suas palmadas arder em mim e se movimentou, iniciando as estocadas ainda que lentas. Soltou meus cabelos e afundou a mão da curva da minha cintura, possessivo, como impulso desde o primeiro até seu último centímetro me proporcionando o luxo de sentir o pulsar das veias de seu membro.
Fincou os dedos mais fortes na minha cintura e impulsionou para a frente, enterrando-se de uma só vez, agarrei os lençóis mas já não controlava os gemidos e nem fazia questão. Retomou as estocadas rápidas e me impulsionei contra o seu corpo, fazendo do movimento mais intenso, ouvindo o som de ambas as pélvis se chocando e tornando o tesão incomparável. Seus dedos encontraram meu clitóris, deixando um carinho ali em movimentos circulares enquanto retirava seu pênis para deitar-se de barriga para cima entre as minhas pernas. Encaixou seu rosto próximo á minha vagina e sem perder tempo passou a língua num caminho entre o clitóris e a vagina lentamente, deixando-me inebriada e imediatamente enfraquecendo minhas pernas. Tomou meu clitóris em seus lábios e chupou-o habilidoso como em um beijo, deixando que a ponta da língua o pincelasse em lapsos, estimulando-me sem descanso mesmo com a respiração ofegante. Dois dedos me penetraram enquanto a língua trabalhava fielmente e eu sabia que não aguentaria muito mais tempo, não quando já sentia parte do meu corpo formigar e despontar uma sensação gostosa em meu ventre. Rebolei em seus dedos que entravam e saíam repetidamente e joguei a cabeça para trás, gemendo alto e sentindo cada parte do meu corpo tomado por aquela sensação. Gareth cessou os movimentos assim que me viu atingir o ápice, aguardando que recobrasse a respiração. Cai sobre o colchão, sentindo o filete de suor que começava a se formar na minha testa e desgrudei os cabelos dali.
Mas, é claro que eu não havia terminado e não perderia tempo algum.
O galês ameaçou se levantar e puxei-o gentilmente pelo braço, para que se sentasse na cama. Empurrei seus ombros para se encostasse na cabeceira, vendo que ambos estavam com sorrisos pervertidos tatuados no rosto e não tínhamos nenhuma intenção de disfarçá-los. Sentei e seu colo e automaticamente suas mãos agarraram meus seios, que tinham o tamanho perfeito para suas mãos, pertenciam ali. Apoiei-me sobre os joelhos, posicionando sua ereção em minha entrada para que, como ele, pudesse brincar, lubrificando a cabecinha enquanto vez ou outra, sentava apenas sobre ela. Desceu as mãos fortes, apertando minha cintura mais uma vez e eu sentei sobre seu pau. Assistindo seus lábios, agora vermelhos demais, serem mais um pouco castigados pelos dentes que os mordiam para reprimir um gemido.
Cavalguei sobre ele, iniciando devagar, ainda sentindo alguns espasmos devido o orgasmo há pouco. Aumentei a velocidade gradativamente, sentindo a respiração do homem começar a desregular e bater nos meus seios que pulavam com o movimento, tomando sua atenção. Nossos cheiros misturados tomavam o quarto e junto do único som ali de respirações desreguladas, corpos se chocando e gemidos parecia ser a melhor forma de terminar essa noite. O homem massageou meu clitóris já sensível e aumentei a velocidade, sentindo-me contrair de vez em quando. Mordiscou meu mamilo rapidamente e livrou as duas mãos para que retornassem a minha cintura, forçando-me de encontro com seu membro com mais força. Ele soltou um gemido alto e rouco junto a mim, que senti as pernas trêmulas enquanto minha intimidade sobre a sua, pulsava.
ParenthWood puxou-me pelo pescoço, urgente porém delicado, deixando uma mão na minha nuca para me beijar. Um beijo doce e calmo, como quem queria apaziguar a insanidade que acontecera nessa cama nos últimos minutos. Separamos o beijo e o acionista segurou em meu queixo, para um selinho demorado. Saí de cima dele, aconchegando-me ao seu lado, ouvindo as batidas do seu coração que estavam apressadas demais sabendo que o meu não estava diferente. Cauteloso, retomou a mão em minha cintura e encaixou seu rosto na curva do meu pescoço.
— Você é incrível, . – Sussurrou maravilhado, depositando um beijo na região. — Gostosa. – Mordeu meu lábio inferior e rimos nasalado, nos cobrindo com o edredom para adormecermos tranquilos e sem demora.
Meu celular tocava irritante em cima do criado mudo e o tateei da melhor forma possível para desligá-lo, me virando para voltar a dormir. Pareciam ter passado apenas dez míseros minutos desde que dormimos quando ouvi o celular tocar mais uma vez, me despertando para o horário na Magic. Me levantei ainda um pouco desmotivada, vendo Gareth dormindo calmamente e sorri com os flashes da noite passada que perambulavam minha mente para me apressar a procurar por minhas roupas espalhadas. Não queria acordá-lo e realmente não o faria, uma mensagem bastava e em qualquer caso, que passasse na Magic mais tarde. Me vesti apressada, ouvindo o celular despertar pela terceira vez porque eu sabia que sempre me acordava no último, desliguei-o e me curvei para deixar um beijo carinhoso na bochecha galês, juntando minha bolsa para deixar o quarto.
Fui descalça até a sala na tentativa de fazer menos barulho possível, atravessando o cômodo para me aproveitar do espelho que tinha ali me arrumando da melhor forma que me fora possível.
— Olá, querida. Bom dia! – Uma senhora em trajes elegantes e cabelos milimetricamente arrumados em um coque se manifestou do outro lado da sala, sorrindo simpática, com uma xícara de café em mãos.
— Oi, bom dia. – Respondi incerta.
— Desculpe minha indelicadeza, sou Karen ParenthWood, mãe de Gareth. – Ora, mas é claro que era! Os olhos são exatamente iguais.
— Muito prazer. , trabalho com o Gareth.
— Na Magic! Magazine, certo? – Assenti com a cabeça. — Oh! Sinto muito pelo seu acionista, mas não posso dizer que não conhecia seu pior lado... Acontece. – Comentou fria e automaticamente.
— A senhora o conheceu?
— E como! Aquele desgraçado comprou um dos meus prédios e pagou apenas 73% simplesmente porque quis. O problema foram as controvérsias que achou no contrato e tomou posse.
— Ele era um filho da puta esperto, não posso negar! – Dei de ombros.
— Então será um caso difícil de solucionar, ele deve ter colecionado inimigos. Segure a barra, querida. – Alertou desdenhosa, aumentando o finco que havia entre suas sobrancelhas.
— Bom, Karen, eu adoraria ficar, mas você sabe, aquela empresa não vai se conduzir sozinha, não é? – Lhe ofereci um sorriso agradável. — Foi um enorme prazer conhecê-la, até mais. – Não a ouvi corresponder e sequer esperava que o fizesse, já que sua cara julgava-me desde o primeiro segundo juntas no cômodo e ao sair, ainda podia sentir o peso do seu olhar julgador sobre mim.
Da mais rápida maneira, pedi um táxi que me levasse até em casa, sem enrolar para tomar banho e me arrumar, já que mais um dia me aguardava na minha querida – catastrófica – Magic Magazine.
Como de costume nos últimos anos, os saltos altos castigavam o chão e a cada passo, via um estagiário ou outro retornar a sua mesa apressados, quietos e focados em fingir que estavam deveras trabalhando.
— Bom dia, Nikki. Me atualize.
— Bom dia, senhorita . Dominique Burke ligou, avisando sobre os e-mails com atualizações do caso para que tenhamos e possamos seguir a linha do tempo que traçaram. O senhor pediu para avisá-la que há seu próprio candidato para acionista e requereu que fosse a sala dele o mais rápido possível.
— Certo. Tudo tranquilo, até então. Obrigada, pode ir. – Forcei um sorriso, sem mostrar os dentes, abrindo e folheando as pastas que estavam na mesa, na verdade, tentei, mas Nicole parada me encarando começava a me assustar. — Pois não, Nicole?
— Desculpe, senhorita , mas é que no caminho pra cá, todos os dias, procuro me atualizar sobre os acontecimentos. – Começou incerta, travando em algumas palavras. — E hoje, as capas das primeiras fofocas matinais eram... Eram com a senhorita.
— Mas que porra...? – Exaltei, sussurrando para mim mesma. — E o que dizem, Nicole? Quer saber? Passe pra cá esse tablet. – A loira me entregou receosa e os resultados da pesquisa que mencionara eram imensos.
“Sem sequer deixar um acionista descansar em paz, Cleveland- se anima em noitada.” – US Weekly.
“R.I.P.? Não para ela! Cleveland- tira acionista da cartola após a morte trágica de um.” – Perez Hilton.
“Magic! Magazine vive romance com acionista back-up?” –The Drudge Report.
“Thank U next? Editora Executiva de Magic! Magazine não quer saber de luto.” – Radar Online.

Fotos estampavam as manchetes sensacionalistas, junto de enxurradas de piadas em duplo sentido. A casa de Kristaps parecia ter sido o cenário perfeito para que tanta estupidez pudesse ser disparada dessa forma, fora fácil para eles. E queriam o quê? Likes? Patético. O pior era ver a lista infinita de manchetes desnecessárias e cada vez que atualizávamos a página, elas se multiplicavam.
— Não sabia se já havia visto, então achei melhor avisá-la.
— Fez certo. Não há problema, não quando eu tenho minhas cartas na manga. – Suspirei, recobrando meu ar confiante. — Obrigada, Nikki, provou mais uma vez o tamanho da sua lealdade. Vou até o . – Revirei os olhos. — Ah sim! Ligue no Lounge e peça o B-Fast7, dois muffins, chocolate e mirtilos. Pode dispensar o café, vou pegar da máquina, peça que entreguem na sala de . – Saquei meu celular e no caminho até meu querido co-worker, digitei uma mensagem de agradecimento a Gareth. — Não toque nesse telefone, Anna. Eu não preciso ser anunciada. – Ordenei ranzinza já girando a maçaneta da sala daquele sem-vergonha. — Céus, , converse com a Anna e essa obsessão de ter que me anunciar, já faz anos.
— Faz parte do trabalho dela. Não implique com a garota. – Riu nasalado.
— Fiquei sabendo que tem um acionista na mira. – Mordi o lábio inferior, contendo um sorriso, sentando-me à sua frente.
— Tudo indica que sim. – Sorriu presunçoso.
— Você foi rápido dessa vez. – Estreitei os olhos, encarando-o.
— Pois é, querida ! Mas não sou o único com um acionista no papo, não é? – Foi a vez de eu senti seus olhos sobre mim, estagnados. Não cruéis como em um interrogatório, mas confusos, como se tentassem achar a verdade em algum lugar.
— Você viu.
— Sim, , eu vi. Então...?
— Então, o quê? – Anna irrompeu pela porta trazendo o pedido que ordenara há pouco, me dando tempo apenas para ouvir murmurar um “vou buscar seu café” desconversado e automático demais para que conseguisse esconder algo. Tirei o combo da sacola, separando nossas respectivas partes já que não pretendia deixá-lo olhando porque sabia bem que, como eu, ele não conseguia tomar café em casa.
— Gareth, huh? – Comentou dando de ombros.
— Pois, é. – Me limitei, sem querer estender as fofocas que eram difíceis de se engolir por si só.
, me diz que essa promoção que quer dar a ele não tem nada a ver com sua vida pessoal.
— Me choca que você tenha coragem de me perguntar algo assim, . Logo você, que mais do que ninguém, sabe que eu não misturo as coisas. – Empurrei o muffin a sua frente, junto do croissant.
— Não me faz sentido algum essa promoção logo para ele e logo agora. – Contrapôs, calmamente.
— Isso se chama ressurgir das cinzas. Você deveria tentar.
— Bom, seguindo esse raciocínio foi que eu cheguei no meu acionista.
— Não espere que eu pergunte, honey.
— Melanie Vaughn.
— É o quê?
— Sim, Melanie Vaughn.
— Você reclama do Gareth mas prefere a Melanie? – Ri sarcástica. — Perdeu o juízo? Ela é burra como uma porta.
— Negativo. Ao meu ver, ela é tão promissora quanto o seu imaculado protegido.
— Ela pegou carona no negócio que o próprio pai fundou. – Suspirei. — Se for pra paparicar o pai dela e tê-lo nas mãos, eu aceito. Ele é dono de metade de Manhattan!
— Aí é que você se engana, porque o pai não vem no pacote.
, ela não vai fazer nada além de babar em você pelos corredores o dia inteiro!
— Isso não é bem um problema. – Sorriu angelical. Filho da puta. — A não ser que seja um problema pra você, querida . – O cerrei os olhos.
— Não é problema algum, meu bem, mas, caso esteja carente recomendo Tinder ou PornHub em casos mais específicos, e não colocar a empresa em perigo.
— Aceitando ela, é o único jeito de eu aceitar o seu protegi... o Gareth. – Corrigiu-se propositalmente.
— Isso é algum tipo de chantagem? Porque, se for, eu recomendo que não faça debaixo do teto da minha revista. – Alertei calmamente. — Os efeitos colaterais podem ser terríveis. – Sussurrei intimidadora, soltando um meio sorriso, quebrando o gelo.
— Eu não ameacei ninguém, mas isso, com certeza, foi uma ameaça. – Sorriu vitorioso e céus! Eu odeio esse sorriso!
— Pois bem, aproveite seu muffin, porque, essa vadia aqui, tem algumas peças pra mexer nesse tabuleiro. – Pisquei marota e me levantei, para rumar à minha sala novamente.
— Não remexa demais o tabuleiro, , ou eu invoco os mariachis! – Disse por fim, bem humorado e exibindo mais um dos sorrisos que eu odiava me dando a deixa pra sair em passos rápidos e confiantes como de costume.
Virei minha cadeira em direção à visão de NYC que me ajudava a pensar. estava determinado de uma forma que poucas vezes vira antes e aparentemente, algum coelho da cartola eu teria que tirar ou essa ideia ridícula permaneceria viva demais para que pudéssemos reverter.
O estranho era pensar no problema de e aquele sorriso cafajeste surgir na minha mente. O mesmo sorriso que me refugiou durante anos e o mesmo que quase me aniquilou na mesma intensidade. Era a minha cura e minha doença. Veneno e antídoto. E apesar de dizer odiar, em nenhum segundo de todos esses anos, eu amei, sequer 1% a menos do que no primeiro dia.
— Alguma mulher em chamas por aqui? – Blair irrompeu pela porta, sorridente como em cem por cento das vezes e agradeci por rasgar meus pensamentos. — Porque se Gareth Parenthwood passasse a mão em mim, eu ficaria em chamas como uma usina! – Abanou-se dramática, se sentando apressada à minha frente.
— É o que dizem as revistas, certo? – Comentei em humor, vendo-a soltar um muxoxo.
— Sim, querida, essa parte é horrível. Mas, se pensar pelo lado positivo, você é uma celebridade que eles seguem. Oh! Em uma delas te chamaram de Nova Anna Wintour! – Bateu palmas animadas e eu apenas ri, do seu próprio entusiasmo. — Vou precisar implorar pra conseguir alguns detalhes?
— Não aqui. Você sabe como é... A “rádio corredor”.
— Então não marque nada pra hoje, quero saber os detalhes quanto antes!
— Cuidado com o tom, porque a última vez que chequei ainda era sua chefe. – Sorri brincalhona, vendo-a me acompanhar, mostrando o dedo do meio.
— Que bom que estão juntas! – Brotou , com o mesmo sorriso que vira há pouco, como se não estivesse tentando afundar a empresa. — Queria mesmo falar com vocês.
— Homem, me dê dois minutos de paz! – Revirei os olhos. — E outra, o que virou isso aqui? Clube do livro?
— Hey Anakin²! – Minha melhor amiga fez uma voz cômica, como quem interpretava o personagem.
— Olá, Obi-Wan³! – respondeu como Blair.
— Céus! Quanto tempo faz que não maratonamos nossos filmes? Já estou esquecendo as falas! – Levantou-se exclusivamente para dar um soco de leve no braço do meu co-worker.
— Acho que precisamos maratonar o mais rápido possível, tipo, pra já!
— Ah! Que saudades do meu parceiro de filmes! – A loira o abraçou pela cintura, que correspondeu, sorridente.
— Querem que eu saia pra ficarem mais a vontade? – Encarei-os entediada.
— Caminha, queen bee, já íamos te convidar para a maratona de Star Wars. – Ele ironizou, cravando seu olhar ao meu.
— Agradeço, querido, mas eu passo. O que quer afinal de contas?
— Abel vai passar lá em casa mais tarde e queria saber se não queriam ir também. Pelos velhos tempos da faculdade.
Aquele Abel? – Blair petrificou.
— Sim, B. Esqueci de te contar, estávamos na delegacia com o Burke e antes de ir embora, demos de cara com o Abel Fanning. Melhor amigo de e sim, eles continuam exatamente a mesma coisa juntos!
— Um nerd, amava Star Wars também. – ajudou-a a lembrar. — Ele tinha uma queda terrível por você!
— Não acredito! O esquisito de barba falhada?
— O próprio! – Dissemos juntos.
— Não acredito que ele tinha uma queda por mim, nunca disse nada.
— Ah! Tinha medo da sua reação, tímido demais e etc, coisa de nerd.
— Você também era nerd e vivia se declarando para a , ele poderia ter seguido o seu exemplo.
— Está tão interessada que quer mudar o passado, B? – A provoquei.
— Eu topo muito trombar esse nerd medroso e esquisito depois de tanto tempo! – Exclamou determinada com m finco entre as sobrancelhas.
— Não foi você mesma que me ordenou que não marcasse nada para hoje, há exatos cinco minutos atrás senhorita Mitch? – Como um poço de maturidade, a loira limitou sua resposta apenas dando de ombros.
— Bom, eu acho que isso é um ‘sim’. E você, , vai? – Perguntou incerto.
— É pelos bons tempos da faculdade, certo? – Sorri. — Alguém tem que levar seu amado vinho branco.
— Não leve nada, , não se incomode.
— Faço questão.
— Claramente estou sobrando, então vou voltar para o meu departamento.
— Já estou de saída, Blair. – Se adiantou o homem. — Vejo vocês duas mais tarde. – Disse por fim, se dirigindo a porta enquanto eu inspirava seu perfume que continuava forte e impregnado no local, ouvindo desconexas e ao fundo, as coisas que Blair falava, sem prestar atenção para me afundar em tudo que ele me fazia sentir, com tão pouco.
Na busca incansável por nos redimirmos, os dias pareciam ainda mais longos na revista e por algum milagre enquanto estávamos em baixa, havíamos contratos em mãos incluindo os da nova campanha inédita e bilionária em parceria com a casa de design de moda de luxo americana Kate Spade. Desta forma, Choi não continuaria como pauta principal da Magic, não quando as contas estavam milimetricamente calculadas e após cairmos, essa era nossa única chance de portar uma campanha de luxo. O contrato na mão de Rita Ora nos dava mais uma esperança e assim que recebêssemos aquela assinatura, poderíamos respirar –um pouco– em paz.
Eram ajustes aqui e ali que vestiriam uma revista inteira, no final das contas ainda haviam as fotos experimentais que eram essenciais, para os ajustes e mudanças antes de que tudo fosse finalizado no próprio ateliê.
Essa foi uma jogada certeira, já que a Marie Claire e TIME estavam com Tessa Thompson na capa, InStyle com Priyanka Chopra, Paper com Kourtney Kardashian e as capas da edição anual da Vanity Fair Hollywood estavam dando o que falar, já que reúne as estrelas mais promissoras: Chadwick Bosean, Saoirse Roman, Thimothée Chalamet, Rami Malek, Yalitza Aparicio, Regina King, Nicholas Hoult, Tessa Thompson, Henry Golding, John David Washington e Elizabeth Debicki.
Passei por lugares que há tempos não visitava em Manhattan durante o dia inteiro enquanto testava e aprovava os tecidos das coleções, assim como os books das modelos que demonstrariam as criações e é por isso que nos custaria tanto dinheiro e seria nada mais, nada menos que a cartada final.
Encostei as costas na parede do elevador enquanto aproveitava os segundos de silêncio e fechei os olhos, suspirando e descansei enquanto me foi possível. A maioria dos funcionários já arrumavam suas coisas à medida que o sol se punha, pintando os corredores de alaranjado e ao passar por Nikki que se organizava, a ouvi já se despedir. Busquei um café na máquina e permaneci no corredor, cada vez mais quieto, observando a grande Nova Iorque ainda mais apressada no horário de pico. Respirei calmamente pela primeira vez no dia, distraindo-me apenas com o silêncio só por alguns momentos que não contei, me dando um momento de paz.
— Parabéns, , é incrível como você mantém essa empresa na ponta do lápis. – A voz estridente e fina se anunciou atrás de mim, e eu me virei.
— Melanie! Fico feliz que tenha gostado, inclusive, que surpresa vê-la aqui. – Forcei um tom simpático que fora estranho até para mim mesma, percebendo que o alaranjado nos corredores não ultrapassava o forçado de sua pele, que era como a de Donald Trump de megahair.
— Não nos falamos desde o jantar no The Plaza. Tenho tanto pra te contar!
— Melanie, os termos do contrato preci... ! – Pigarreou. — Oi! Achei que estaria no ateliê da Kate Spade. – Melanie pegou os papéis das mãos de que me encarava como quem queria ler minha mente, quando estava um turbilhão, e um turbilhão de xingamentos. Nunca fui religiosa, mas agora eu rezava vinte Ave Marias para que ele não tivesse feito o que eu achava que tinha.
— Teremos tempo pra falar de tudo agora... Boss! Até amanhã, querida! – Deu uma última piscadela para um que continuava mudo e saiu saltitante e alaranjada como de costume, até o elevador. Respirei fundo, arqueando a sobrancelha e me dirigindo à minha sala, sendo o suficiente pra que ele me seguisse.
— Me diga o que você fez. – Sussurrei entredentes.
— Fiz o que era necessário. – Respondeu simplesmente.
— Coincidência. Porque eu estava prestes a fazer o mesmo antes de você agir pelas minhas costas!
— Cacete, ! Tento preencher esse cargo desde o dia 1 e nada até agora, só ela aceitou. Ela tem o dinheiro e a influência que precisamos.
— Gareth era o candidato perfeito, sabe disso. Conhece exatamente como trabalhamos, é versátil e tem o dinheiro e a influência. Por que caralhos tinha que me esfaquear pelas costas?
— Sei que vai promovê-lo, e ela é um plano B caso seu príncipe vire um sapo.
— Se aquilo já era um contrato como o conseguiu sem minha assinatura?
— Pelo Estatuto de Diretoria Única, onde a cada...
— Cada seis meses, um membro da Diretoria cota alterações sem que careça de outrem. – Completei-o, cruzando os braços e suspirando, porque pelo que tudo indica, eu precisava levantar bandeira branca. — Parabéns por usar uma lei interna e fez por debaixo dos panos. Você foi sujo.
— Se quer saber, não tenho o remorso que quer que eu sinta e faria tudo de novo. Foi pela empresa e estou farto de ter que acatar tudo o que a “Dama de Ferro” da capa da Forbes tem a dizer. Eu também sou Diretoria, . Aceite! – Esbravejou rude e de narinas infladas.
— Fora. Agora.
— O prazer é todo meu. – Respondeu tão cruel e seguro quanto eu. Os olhares cravados, os ombros tensos e os maxilares travados eram intensos para ambos e nos diziam que aquilo acabava ali. Ele bateu a porta ao sair e eu quis descontar da mesma forma mas pensei em uma melhor maneira, marcando com Gareth o mais rápido possível uma reunião.
Li algumas vezes a mensagem do galês que confirmava sua passagem pela empresa na manhã seguinte, o mais cedo possível e um sorriso brotou no canto dos meus lábios.
Em um restaurante próximo pedi algo que pudesse comer já que estava faminta enquanto ia aos Arquivos da empresa, esperando que o tempo passasse mais rápido e na esperança de achar algo que competisse à altura do nocaute que me dera. Uma brecha, um contrato de Responsabilidade Única... Não sei o que é mas sei que preciso. Peguei duas caixas de Estatutos, Leis e Constituições da Magic, empilhando-as para levar até minha sala. Iria revisar cada regra de Admissão e Diretoria daquela empresa até achar uma que me favorecesse e isso poderia tomar um bom tempo mas antes de Gareth chegar era uma larga margem de tempo e até lá, cada vírgula estaria em seu devido lugar.
A recepção me avisou sobre o pedido que chegara e eu desci para receber, desta vez, o Buddakan receberia uma gorda gorjeta pela rapidez. O cheiro delicioso da comida se espalhava na sala e abria-me ainda mais o apetite, fazendo do yakissoba o melhor do mundo. Enquanto comia, percebi meus ombros pesados pelo cansaço e as horas que adentraram com a noite apenas contribuíam com isso.
— Achei que jantaríamos juntos. – Apesar de me sobressair com o susto, não tirei os olhos dos documentos. — Com Abel e Blair, na verdade. Desculpe, não queria te assustar.
— Vou mais tarde, Blair não deu sinal de vida ainda. – Respondi automaticamente.
— Olhe, , não quer ir, tudo bem, apenas não impeça Blair de ir.
— Não perderia esse remember por nada! – Olhei de relance apenas para lhe lançar uma piscadela, retomando meu foco anterior.
— Não quer ir agora? Já estou de saída.
— Ainda estou trabalhando, mas obrigada. – O ouvi suspirar e passar a mão pelos cabelos já nem tão arrumados assim, se dando por vencido, e puxando a cadeira de frente para mim.
— Se quiser promover o Gareth, eu vou assinar. Não precisa procurar por brechas pra contratá-lo sem o meu aval. – disse simplesmente, totalmente diferente da forma que o vira momentos atrás.
— Por quê?
— Por quê, o quê?
— Por que assinaria assim tão facilmente?
— Ainda não confio nele, mas é você quem está pedindo, ... E não há nada que eu consiga negar à você. – soltou um sorriso melancólico deixando que seus lábios formassem uma linha reta e eu engoli em seco, tentando – em vão– disfarçar a forma como meu coração disparara com tanta facilidade. Pigarreei, mantendo a postura.
— Dessa forma, só me resta discutir os novos termos com ele. – Fechei as pastas na tentativa de fugir do olhar do homem a minha frente. — Obrigada. Podemos ir?
— Sim, claro! – Ele se levantou e tomou a frente, seguindo até a porta para que eu passasse e eu estranhei um bocado, já que não era sempre que me dava essa honra, inclusive, quando o mesmo se repetiu no elevador antes que chegássemos ao seu belíssimo Chevelle 70’.
O bairro de Chelsea estava mais encantador do que me lembrava e tão acolhedor, que parecia ter saído de um filme de comédia romântica, sem contar que a paz dali era renovadora, o silêncio nem de longe parecia Manhattan. Uma das maiores vantagens do bairro era estar entre os centros comerciais turísticos e a serenidade dos restaurantes intimistas. Já , continuava exatamente da mesma forma, com o gênero indeciso para decoração como nos gêneros de filmes que colecionava junto dos boxes de séries. No entanto, a sua estante repleta de livros, era um festival de suspense e ficção científica, sem explicar de forma alguma de que forma fora terminar na Magic.
Desvencilhado da gravata e dos primeiros botões da camisa social, dobrou as mangas até os cotovelos e eu queria poder dizer que não memorizei cada movimento seu detalhadamente através do reflexo perfeito que tinha dele pelo espelho no corredor.
— Lembro que te prometi um vinho. – Pigarreei, chamando minha própria atenção, por mais ridículo que parecesse. — Vou buscar um por aqui mesmo, não me demoro.
— Tenho vinho aqui, se importa de pegar pra nós? – Neguei com a cabeça. — Antes da segunda porta, à esquerda, tenho uma adega e a maioria é branco, eu sei, mas tenho mais tintos lá em cima, se quiser. – Ele disse mais alto para que eu pudesse ouvir enquanto me dirigia até o cômodo, estudando os vinhos com suas nacionalidades e as safras, buscando o mais propício pro momento. Optei por um tinto suave e um branco Château Palmer, de 2005 que faria da bebida, definitivamente, pontuada e aveludada na medida certa.
— Ouvi falar muito bem desse Château Palmer, deve ser divino. – Comentei simplesmente, quando cheguei à cozinha.
— Esse tinto Rui me deu de aniversário junto de um petit verdot que me fez parar de recusar os tintos.
— Rui quer nos ver alcoólatras! – Ri e ele me acompanhou, colocando duas taças sobre a bancada, nos servindo do tinto primeiro. Propôs um brinde que acatei sem pensar duas vezes, sentindo a suavidade e a acidez se misturarem na mesma proporção conforme a bebida tomava minha boca.
— Definitivamente, tenho um tinto favorito! Mas... O vinho não será tão bom sem um jantar, então mãos á obra!
— Não acredito que você vai mesmo cozinhar, ! Achei que fossemos pedir algo.
— Gosto de cozinhar, é quase terapêutico. Sem contar, que eu estava levando em consideração que você fizesse aquela sua torta.
— A de maçã?
— A própria!
— Não! – Choraminguei um pouco, logo caindo na gargalhada. — Faz anos que eu não faço aquela torta!
— Faz anos que eu não como. – Ele contrapôs, me servindo de mais um pouco de vinho, continuando a me observar, esperando resposta.
— Tudo bem, tudo bem! – Me dei por vencida, mais facilmente do que imaginei. O vi fazer uma comemoraçãozinha ridícula, igual a que fazia nos gols dos campeonatos do último ano de escola e não segurei a risada, que contagiou ao homem também.
me ajudou a separar os ingredientes para que eu ficasse na bancada enquanto ele continuava entre o fogão e a pia. Aproveitou para dar play na sua playlist e o primeiro a tocar fora Maroon 5, sua banda favorita de toda a vida com “Sunday Morning” que cantarolamos em alguns momentos. Um cheiro ótimo começava despontar das panelas que ele mexia no meio tempo em que se estabanava entre elas rendendo gargalhadas entre nós. Depois de preparar a massa da torta, a separei em três partes para que pudessem descansar um pouco na geladeira enquanto preparava o recheio.
, prove esse molho. Está bom? – Perguntou, ele, jogando o pano de prato no ombro e direcionando a colher até meus lábios.
— Um pouquinho mais de pimenta, mas está ótimo! – Pisquei pra ele e me voltei para a bancada, cortando em fatias uma parte da massa que faria o trançado que cobriria a torta, pronta pra finalizá-la. As taças mantinham-se sempre cheias, ajudando nossas risadas saíssem mais livres do que o normal, até que a melodia soou. Can’t Help Falling In Love. Elvis Presley. Baile de formatura, nossa música.
Nos olhamos de imediato, claramente compartilhando da mesma memória e ele sorriu. Seus movimentos pareciam em câmera lenta quando desligou as bocas do fogão e se aproximando, eu já conseguia ouvir o que me dissera aquela noite.
“Tomei alguns ponches, eu sei, mas tenho apenas uma certeza e essa, é que eu quero dançar com você, .”

— Tomei algumas taças de vinho, eu sei, mas tenho apenas uma certeza e essa, é que eu quero dançar com você, . – Repetiu, tão galante e significativo quando anos atrás e eu não hesitei antes, então sequer pensaria em fazê-lo agora.
(N/A: Coloquem essa música para tocar: https://www.youtube.com/watch?v=vGJTaP6anOU)
Seus olhos brilharam da forma que eu sempre me encantei e os meus brilhavam da mesma forma, tinha essa certeza, porque era intrínseco quando se referia a . E era intrínseco que eu me sentiria da mesma forma que me senti na noite do baile cada vez que me tocava. O coração que latejava enamorado desde o primeiro dia, batia tão intensamente a fazer jus de cada palavra que soava por nós.
Wise men say, only fools rush in
(Homens sábios dizem que só os tolos se entregam)
But I can't help, falling in love with you
(Mas eu não consigo evitar de me apaixonar por você)
Shall I stay? Would it be a sin
(Devo ficar? Seria um pecado)
If I can't help, falling in love with you?
(Se eu não consigo evitar de me apaixonar por você)

buscou por minha mão estática ao lado do meu corpo, que covarde demais, não tive coragem de enlaçá-la a dele, que quente demais, distribuiu pequenos choques conforme nos juntávamos. Este homem tem um poder quase sobrenatural e não havia nenhuma célula no meu corpo que ousasse recusar isso, já que cada poro se arrepiava perto dele.
Como todas as vezes.
E nada diferente de agora.
Como um ímã, encostei minha cabeça em seu ombro, sentindo a naturalidade com que nossos corpos, tão conhecidos um do outro, se movimentavam, em uma destreza que era inexplicável, senão, pelos corações que em seu ritmo próprio, gritavam por si só.
Fechei os olhos, sentindo as mil borboletas no estômago dominarem-me quando seu perfume, que ainda era o mesmo, me extasiava como à adolescente que era quando nos declaramos a primeira vez. Sua mão que passeava tranquila em minhas costas, me traziam de volta a sensação de abrigo que sentia com ele.
Deslizei a mão livre até sua nuca, em um carinho lento como a música para nos afundar ainda mais na bolha que o passado e o presente nos prendiam. Não sabia o que estava acontecendo, mas mesmo sem essa certeza, eu não queria parar. Não quando tudo que me fez apaixonar por este homem, estava, mais uma vez, ali na minha frente. Ele mesmo, sem tirar, nem pôr. E não paramos, mesmo quando a música acabou e começou uma bem mais animada, porém não havia nada, que nos tirasse dali, simplesmente porque queríamos ficar.

Like a river flows, surely to the sea
(Como um rio que corre certamente para o mar)
Darling, so it goes somethings are meant to be
(Querida, assim algumas coisas estão destinadas a acontecer)
Take my hand, take my whole life too
(Pegue minha mão, pegue minha vida inteira também)
For I can't help, Falling in love with you
(Pois eu não consigo evitar de me apaixonar por você)


Acionista Controlador¹: Ele poderá direcionar com relação as atividades sociais, o funcionamento da empresa e ainda, é capaz de eleger grande parte dos que administram a empresa. Além disso, o acionista controlador responde pelos danos causados pelos atos relacionados a abuso de poder. Anakin Skywalker²: Darth Vader é o protagonista da trilogia prequela e antagonista da trilogia original da série de filmes Star Wars. Obi-Wan Kenobi³: É um personagem da série Star Wars.

VI

Após ter Blair sapateando e nos atrapalhando na cozinha, me vi mais aliviada sabendo que a playlist não nos juntaria de novo – mesmo tendo a certeza de que a real culpa não era dela –, mas eu não diria que foi impulso meu, muito menos saudade. Minha melhor amiga preencheu cem por cento dos silêncios que sobravam e de quebra me ajudou com a torta, apenas para ter uma desculpa esfarrapada de comer metade do recheio da sobremesa.
e Blair eram muito próximos e tinham muito em comum, era gostoso vê-los da forma que se tratavam, como irmãos até. Cada mínimo detalhe dessa união fazia meu coração aquecer, me fazendo duvidar se ainda havia algum lugar em mim que não fosse completamente apaixonada pelos dois.

— Aparentemente, seu date arregou - Blair comentou em direção ao meu co-worker, como quem não queria nada.
— Não cante vitória, Mitch. Não ainda!
— Ele deve estar ocupado demais brincando de casinha com a excelentíssima esposa da autoridade policial. - Ironizou.
— Você mal consegue se conter de ansiedade para revê-lo, B.
— Por Deus, ! Se ocupe com a sua torta. Mais recheio, menos conversa!
— Você me deixou com duas colheres de recheio, Blair! - Rebati, risonha. — Não fique emburrada, se quiser, te deixo confeitar com o chantilly.
— Você sabe que eu amo essa parte. - Ainda de braços cruzados, tentando manter a pose de durona, ela atravessou a cozinha, pegando o spray de chantilly na bancada para exercer sua função.

A campainha tocou e automaticamente, eu e olhamos para Blair que tentava fingir-se demasiadamente ocupada com a torta.

— Eu atendo. - Me adiantei, indo até a porta em passos largos, recebendo o sorriso largo de Abel. — Não acredito que você veio mesmo! - O abracei, passando meus braços pelos ombros do homem, sentindo-o corresponder na mesma intensidade. Abel estava vestido de forma despojada, os cabelos de dreadlocks estavam presos como em um rabo de cavalo, calça jeans clara e uma regata dos Knicks que deixavam seus braços fortes à mostra, exibindo as tatuagens que cintilavam em sua pele negra. Ah, Abel... Era o irmão que eu nunca tive.
— Não poderia perder meus amigos executivos manchando os terninhos com molho, por mim! É uma honra! - Sorriu travesso e eu lhe respondi com um revirar de olhos, que serviu para transformar seu sorriso em uma gargalhada gostosa.
— Por que demorou tanto? Dia ruim para tirar as cutículas? - se pronunciou no cômodo, logo zombando do amigo, partindo para o abraço. Eles não mudaram nada!
— Essa conclusão você tira mais tarde, daddy! - Piscou e desviou seu olhar para Blair, logo que adentramos a cozinha para servi-lo de uma taça de vinho. Não vimos a loira retribuir o olhar porque insistia em usar a sobremesa como desculpa para ignorar o que acontecia. — Blair... Continua com a beleza digna de Rainha do Baile de Formatura. Não foi à toa que votei duzentas vezes pra te eleger.
— Eu teria ganhado da mesma forma. - Se limitou, soltando o chantilly que usava para finalmente, encará-lo. — Faz um bom tempo, Abel. - Comentou séria, com uma mão na cintura e a sobrancelha arqueada. O que estava acontecendo com Blair?
— Quase uma década. - Sorriu melancólico, colocando as mãos nos bolsos dianteiros da calça jeans. Eu e nos olhamos, compartilhando da mesma sensação: sabíamos que havíamos perdido parte daquela história.
— Então! - tomou a frente, estourando a bolha cheia de tensão em que estávamos. — Abel, como se livrou do último semestre em Oxford e se juntou à polícia? Isso é surreal demais!
— Quando ingressamos no último semestre, eu também me candidatei para a polícia de NYC, esperando que me convocassem apenas quando terminasse o curso em Oxford. Com todos os testes vocacionais na polícia, pude justificar e me formar as notas dos testes e honra policial. - Explicou calmamente.
— Mas, e vocês dois, huh? Trabalhando juntos!
— Parece que o destino foi cruel desta vez. - Lhe dei um meio sorriso, servindo vinho em sua taça vazia.
— Eu diria o contrário: acho que o destino foi certeiro. - se pronunciou.
— Vocês dois... Rodam e rodam, mas sempre voltam um para o lado do outro.
— Quanta bobagem, Abel! Quando fui promovida à Diretoria da Magic, sabia que dividiria com alguém. - Beberiquei do meu vinho. — Rui me deu uma lista com os vinte nomes mais promissores do mercado e o dele estava no meio, mas haviam nomes ainda mais promissores na época.
— Isso não te magoa? Cara, ela não botou fé em você!
— Isso é um elogio, ela faz pior no escritório. Essa mulher não tem piedade nenhuma! - respondeu, fazendo-se de afetado e eu ri, revirando os olhos em seguida.
— Parem com o chororô! Não fazia ideia do quanto ele havia mudado depois da Inglaterra. Karma’s a bitch!
— Não se deixe enganar, Abel. - Blair finalmente se pronunciou. — Bate e volta, um se enfurna na sala do outro, cheios de muffins, cafés, docinhos e portas trancadas. Tire suas próprias conclusões!

O jantar continuou da mesma maneira que começou, repleto de risadas e memórias vergonhosas de anos atrás. Revimos a gravação do aniversário memorável de com sua irmã gêmea, no qual apenas ela aproveitou a festa, tendo em vista que ele mesmo não era muito chegado na celebração e tomou seu primeiro porre, na frente de todos, e eternizado ali, bem na nossa frente. Um clássico inegável entre o nosso quarteto.

— Cass me culpa até hoje e não me deixa beber nada nas festas de família!
— Cass odiava a gente! - Disse.
— Ela não me odiava. Me fazia até brownies! - Abel discordou.
— Ela queria perder o BV dela com você. - confessou e rolou os olhos.
— Oh! Nesse caso... Olá, cunhadinho! - Piscou maroto para que se manteve sério. Blair se levantou, levando as duas garrafas de vinho vazias para a cozinha e logo a segui.
— B, está tudo bem? - Perguntei e a assisti enfiar a cabeça na geladeira apenas para buscar a torta, desviando do meu olhar.
— Podemos ir embora depois da sobremesa? Estou exausta. - Assenti com a cabeça, ajudando a servir a sobremesa. Nós duas sabíamos que o quê quer que a estivesse incomodando, ela teria passe livre para me dizer quando quiser.

Retornamos à sala, terminando o vídeo de aniversário e relembrando tudo que tínhamos direito, para tomarmos coragem o suficiente e juntarmos as louças, escalando Abel para lavá-las porque, aparentemente, dormiria ali hoje. Quando resolvemos ir para casa, eu e B dividimos um táxi, fazendo com que o silêncio sepulcral dela se espalhasse no veículo também. A rota até a casa da loira logo terminou e ela se despediu com um abraço forte, típico “maternal Blair”, murmurando um “até amanhã”.
A entrada no prédio da Magic finalmente estava livre dos paparazzis e pude respirar um pouco mais tranquila como há semanas não fazia, mesmo sabendo que as chamas se alastravam cada vez mais fortes nos corredores da revista.

— Novidades, Nicole?
— Temos os sete photoshoots remarcados para hoje e os horários estão na sua mesa. Consegui mais uma caixa nos Arquivos com as cláusulas de políticas da empresa, como a senhorita checava ontem e liguei para Dominique em busca de novidades: nada.
— Rui? - Adentrei minha sala, indo direto para a minha mesa, ouvindo os passos de Nikki me seguirem.
— Não atende e nem responde os e-mails.
— Me confirme em todos os photoshoots e quanto os Arquivos: esqueça, apenas marque algum horário para que eu fale com Gareth entre as fotos. Pode ir. - Deixei minha bolsa e casaco na mesa, saindo assim que vi Nikki recolher a caixa para se retirar também, mas me limitei até a máquina de café.

Os corredores estavam silenciosos, da sua forma, mas estavam. As coisas pareciam finalmente estar voltando ao normal, em seus devidos lugares. Aproveitando a calmaria do curto caminho até a sala, saquei o celular, vendo que Blair não havia mandado sequer uma mensagem e nem mesmo visualizado a que mandara noite passada, no entanto, eu reconhecia que ela precisava de um tempo para si. Beberiquei o macchiato fumegante em minhas mãos, retornando à minha sala, sem delongas.

Morning, boss!
— Melanie! Que surpresa, aqui, tão cedo.
— Somos colegas de trabalho, agora, isso vai ocorrer mais frequentemente do que você imagina! - A loira parecia muito confortável em meu sofá, dirigi-me à minha mesa e sentando para melhor digerir a informação. Me custava acreditar que ele realmente fez isso. — Aproveitando a brecha... - Vaughn se levantou, vagarosa, indo até à cadeira de frente a mim, onde se sentou. — Já podemos parar de fingir que somos amigas. - Sua voz era tediosa e fazia com que meu estômago embrulhasse logo cedo.
— Já era hora. - Sorri cínica, sem mostrar os dentes, cruzando meus dedos sobre a mesa, encarando-a.
— Você sabe por que estou aqui e que não ligo para Magic! Magazine nenhuma, porém essa era a hora perfeita pra eu me infiltrar.
— Ora, ora... O que temos aqui? Colocando as asinhas para fora, Vaughn? - Forcei um sorriso, cravando meus olhos nela. — Você já tentou puxar meu tapete uma vez e sequer passou da porta. Deveria se envergonhar de si mesma. - Proferi com escárnio.
— Você sabe o cargo que eu quero e começar mentindo pra mim, não é bem o jeito certo de me impedir.
— Não tenho medo das suas ameaças, que sequer um dia me fizeram cócegas. - Espalmei minhas mãos na mesa e me levantei, encarando o par de olhos azuis da mulher. — Sabe que não há ninguém que tire a Diretoria Executiva de mim, porque eu nasci pra ocupar este cargo.
— O contrato estará na sua mesa no fim do dia. Me dê a Diretoria e deixo tudo dessa revista meia-boca, do jeito que está. - Melanie cruzou os braços na altura do peito, com a sobrancelha arqueada. — É a última chance.
— Já deveria saber que não barganho por míseros contratos, barganho por poder. - Suspirei, indicando-a a direção da porta. — E se me der licença, a CEO mais promissora do ano tem sua soberania para perpetuar. - Pisquei marota, vendo-a se levantar contrariada e me aconcheguei mais uma vez na poltrona da Diretoria.

Essa é a minha revista; Meu império. E ninguém há de tocar.
Respirei fundo, abstraindo tudo que precisei ouvir de Melanie, porque se ninguém a colocou no lugar dela, eu a colocaria e não vejo problemas nisso. Tudo que a “herdeira” da Bustle sonhava era um posto sólido para fabricar seu nome de Editora-Chefe, e a Magic tem sua reputação firme como uma rocha, a única revista que poderia oferecê-la o que tanto quer. Sua segunda missão, era . Isso mesmo, ter o próprio como parte do seu pacote de Editora-Chefe perfeita do ano.
As pastas dos photoshoots estavam em cima da mesa, organizadas por horário e mesmo tendo que recomeçá-los, precisei ter as fotos das sessões passadas em mãos. Cada pasta teria de forma detalhada tudo o que precisávamos melhorar, porque o relógio estava contando as horas, e contava rápido demais. Mais uma edição que precisaria ficar pronta em tempo recorde, e esta, mais do que as anteriores, carregava uma espécie de culpa que todo esse mistério em volta de Choi, carregava.
Agora, também, não era hora de desapontar Kate Spade e tudo que seu nome representava. O nome de Kate junto do nome da Magic era tudo que precisávamos até que tivéssemos segurança suficiente para deixar o fantasma de Choi e suas manchetes cruéis para trás.
Algumas batidinhas na porta soaram antes que fosse aberta, calmamente. Era Gareth.

— Bom dia, . Te procurei ontem, para um almoço, mas você não estava. Queria falar comigo? - Ele sorriu, fechando a porta atrás de si e se dirigindo até minha mesa.
— Bom dia, Gareth. Ah! Ontem foi uma loucura, uma montanha-russa que você sequer imagina! - Revirei os olhos, assistindo-o tirar o paletó e esticá-lo no encosto da cadeira. O galês deu a volta em minha mesa e parou atrás da poltrona em que estava sentada, depositando um beijo demorado no topo da minha cabeça. Deslizou as mãos por meus ombros em uma massagem simples e confortável.
— Está tão tensa, . - Ouvir o apelido do meu nome em sua voz causou sensações totalmente diferentes das que sentia ao soar dos lábios de . Desta vez, não soavam tão agradáveis quanto com . — Há algo em que possa ajudar? Porque, aquelas fotos... Céus! As manchetes!
— Sim, terríveis e eu realmente não ligo. Mas, te chamei por outro motivo. - Suspirei, sentindo-o cessar a massagem em meus ombros e voltar até a frente da mesa. — Bom, o Choi era dono de um poder absurdo aqui e precisamos de alguém a altura para preenchê-lo. - Pigarreei, vendo-o se retesar. — Acionista Controlador: com este cargo você vai deter uma grande vantagem quanto ao peso dos seus votos em Assembleias, e nenhum outro acionista tem esse capital votante sem que interfira em ações distintas.
— Isso é incrível, ! - Gareth exclamou maravilhado, fazendo do seu par de olhos azuis brilharem cintilantes se assemelhando ainda mais a algum mar caribenho.
— Não se preocupe, não há nada que precise responder agora. e eu lhe daremos o tempo necessário para ler os termos do contrato e ficar ciente de toda e qualquer vírgula do seu novo termo.
— Pensei que sempre faziam esses comunicados juntos.
— E fazemos! Mas está integrando uma nova acionista. - Forcei um sorriso que me dava enxaquecas apenas por pensar em tal cena, empurrando para a frente do loiro a pasta com o novo contrato. — Aguardaremos sua resposta.
— Eu aceito. - Prontificou. — Quaisquer que sejam os termos. - Abriu a pasta, apressado, assinando onde lhe era exigido. — Os horários mais longos, as obrigações... Tudo vimos na faculdade, não é? - Comentou enquanto folheava as páginas, assinando-as.
— Se é assim que acha melhor... Bem-vindo ao novo cargo de Acionista Controlador da Magic! Magazine. - Lhe ofereci um aperto de mãos, que ele correspondeu. — É uma honra tê-lo na empresa.
— Obrigado pela confiança, . Garanto que vou fazer deste cargo um marco na Magic.
— Fico feliz em ouvir isso! - Sorri, desvencilhando do aperto de mãos que o galês manteve. — Nicole vai providenciar as respectivas cópias do contrato assinado e autenticado, que logo estarão em suas mãos. Seu escritório será no andar inferior, começando amanhã mesmo. - Me levantei da poltrona, vendo-o fazer o mesmo. — Amanhã apresento-lhe as acomodações. Alguma dúvida? - Questionei, andando até a porta para acompanhá-lo.
— Jantar. Hoje à noite? - Puxou minha mão com força suficiente para que me virasse para ele, juntando nossos corpos e encostando-me à porta. Uma mão estava espalmada na porta, como se me prendesse entre ambos, e não demorou até que ouvisse a fechadura ser trancada. A mão antes espalmada agora dominava minha nuca e a outra apertava a cintura, enquanto beijos eram distribuídos por meu pescoço e parte do colo exposto. — Não aguento de saudades de você, . Seu cheiro, o seu cabelo, essas roupas...
— Gareth, aqui não. - Tentei pará-lo à medida que ele tomava liberdade e as batidinhas na porta vieram de bom grado, ainda que a maçaneta mexesse descontrolada devido à tranca. — Até amanhã. - Lhe ofereci um sorriso forçado, enquanto arrumava parte dos cabelos para destrancar a porta. Ele buscou sua pasta na cadeira à frente da minha mesa e vestiu seu paletó de qualquer jeito, atravessando a porta e dando de cara com na saída, murmurando algo que não me esforcei pra entender.
— Não deveriam usar a sala pra isso, . Achei que sabia. - adentrou minha sala, abrindo o botão de seu paletó tão bem cortado e se aconchegando em frente à mesa em que trabalhava.
— Você que o diga. - Pigarreei, encarando-o. — Já acomodou a nova acionista?
— Melanie está feliz com o cargo.
— Não consigo imaginar o quanto. - Revirei os olhos. — É a primeira vez que ela pisa no prédio de uma revista de carreira sólida.
— De qualquer forma, eu vim me desculpar sobre como falei com você. Tem coisa demais na minha cabeça e nenhuma delas é sua culpa, então não tenho o direito de descontá-las em você.
— Não é como se você tivesse dito apenas mentiras. - Suspirei. — Tenho estado bastante cega. Tem certeza que não quer tirar um tempo até digerir toda essa coisa do Choi?
— O jantar foi suficiente pra me distrair da ideia de que Hideke ainda está em uma mesa de autópsia.
— Talvez a reunião de apresentação de amanhã lhe distraia mais um pouco? - Sorri esperançosa.
— Ah, isso... - Passeou as mãos pelo rosto, agoniado. — Esse cara... Não me acostumo com ele. - Coçou sua barba rala, pensativo. — O que sabemos dele, afinal? Ele tem mãe?
— Até onde eu sei sim, inclusive a conheci há pouco.
— Já? Você demorou um ano pra conhecer a minha mãe!
— Não que seja da sua conta, mas foi por acaso. E outra, você foi meu primeiro namorado, eu precisava ter certeza! - Expliquei óbvia.
— Muita coisa mudou em dez anos.
— São nove e meio pra mim.
— Você está contando os meses? - invocou seu sorriso que cafajeste que, céus, nem eu acreditava em mim mesma quando dizia odiar.
— Claro que não! - Me defendi, fingindo-me de ultrajada. Mudei a cadeira giratória de posição, de forma que ficasse de costas para ele, pelo menos até que me recuperasse de tamanho embaraço. Deus! Parecia que eu tinha dezessete anos de novo! — Gareth assinou os termos. - Voltei-me a ele, mudando de assunto drasticamente. — A partir de amanhã, ele será, oficialmente, o nosso Acionista Controlador. - Sorri satisfeita, sabendo que essa era a melhor forma de tirar o sorriso cafajeste daqueles lábios perfeitos.
— Bom, se você está satisfeita... - Deu de ombros. — Então fico mais aliviado.

me olhou, significativo, e automaticamente minha mente foi invadida pelas memórias da noite passada, graças àquelas írises que nunca perdiam sua intensidade. Fui obrigada a pigarrear mais uma vez, pelo bem de minha própria sanidade, e novamente, as batidinhas na porta foram capazes de salvar o dia. Nicole adentrou a sala, e eu a agradeci mentalmente, principalmente por me salvar de mim mesma.

— Senhorita , desculpe interromper, mas Dominique Burke está na linha 3 e se diz ocupado demais, então gostaria de saber se podem ir à delegacia às 15h. - Olhei para que assentiu com a cabeça, energeticamente. Murmurei um tanto robótica a resposta positiva para Nikki, que logo se dispersou.
— Isso soa como um encontro. - comentou, sem humor, soltando um muxoxo com a boca.
— Parece que sim. - O respondi, compartilhando do seu mau-humor.
— Passo aqui mais tarde. - Levantou-se, um tanto contrariado. — Obrigado por toda a preocupação, . - Forçou um sorriso, mais uma vez, buscando por minha mão encima da mesa e tomando-a com as suas. — Obrigado. - Sussurrou, passeado os dedos em carinhos desconexos nas costas da minha mão, depositando um beijo demorado em seguida. Me desliguei do transe apenas quando ouvi o baque da porta que ele batera atrás de si ao sair, conseguindo ainda sentir seus lábios na minha pele.

A imensidão de catálogos em minha mesa categorizava as paletas de cores dos looks da coleção que Kate Spade demorara tanto para finalmente lançar. As fotos estavam lindas e evidenciavam detalhes que a olho nu não enxergávamos, e este detalhe, dava toda a imponência que a Magic tem como marca. No entanto, outros detalhes, ainda menores, se perderam no caminho, fazendo com que a qualidade se perdesse em outros aspectos, então, voltávamos à estaca zero, como em um loop infinito. Os fantasmas da morte de Choi nos assombravam mais do que deveria, e começava a ficar nítido em cada vírgula proferida nessa empresa.
A porta da sala fora aberta delicadamente por uma Blair que colocou apenas a cabeça para dentro, sorrindo como se pedisse permissão para entrar e eu a correspondi.

— Exatamente quem eu queria ver. - Logo sentou-se à minha frente, mas não sem antes pegar o pote de cookies que deixava na mesa de centro. — B, as fotos estão fantásticas e não terminei de revisá-las, mas as que eu vi, estão incríveis e não esperava menos. Acompanhei parte da edição e há detalhes, que eu mesma, deixei escapar, ficaram gritantes depois de prontos.
— Mas...
— Mas, precisamos ser ainda mais criativos que isso. Levantar a qualidade dos cliques, torná-los até radicais se possível, porque a atual situação da revista implora por isso.
— Quer refazer?
— Reservamos os estúdios para os photoshoots e apenas eles, então temos tempo suficiente entre amanhã e depois, se necessário. O que acha?
— Você que é a chefe, aqui.
— Deus! O que há de errado com você? - A loira permaneceu calada. — Abel? - Arrisquei, tendo como resposta sua risada nasalada fraca, já que Blair calada era uma catástrofe anunciada.
— Ele me ligou, e diz que quer jantar.
— Já respondeu?
— Não. Você sabe... Thomas.
— Thomas não “te deixa” comer? Porque um jantar é sobre isso: comer.
— Você ama doces e joga fora os que lhe traz, apenas por orgulho. Como ousa me dar conselhos?
— Atrevida. - Me fiz de séria por alguns segundos, mas pouco duraram, pois assim que eu e Blair nos encaramos, caímos na gargalhada. — B, aceite. Ele está concertando as coisas.
também está. - Revirei os olhos.
— Mas o assunto é você.
— Eu vou, mas é pra que meus lindos olhos verdes tenham o prazer de ver que aquele esquisito não mudou. - Cruzou os braços como se estivesse emburrada, no entanto, eu sabia, que assim como eu, ela apenas tentava convencer a si mesma.
— Vá se achar que realmente é melhor pra você, porque depois de ver como ficou após o jantar na casa do , não sei se uma segunda dose é bom pra você.
— Não sei direto o que aconteceu... Foi tão estranho, ele tão perto, depois de tanto tempo. Era coisa demais pra sentir em pouco tempo. - Minha melhor amiga suspirou calmamente. — É isso que sente com todo santo dia?
— Só não tome decisões precipitadas B, você não merece sofrer com elas. - Ignorei sua pergunta.
— Desde quando você é carinhosa assim? - Ela sorriu, zombando para aliviar o clima, porém de pouco durou porque as batidinhas típicas de Nikki logo soaram.
— Senhorita ? - Assenti. — Antonella está na linha. - Informou-me e agradeci, vendo-a fechar a porta. Massageei as têmporas automaticamente, suspirando.
— Me parece ótimo assistir você colocar Antonella no lugar dela em questão de segundos, mas as correções dos photoshoots não se farão sozinhas.
— Obrigada pelo apoio e quando sair peça pra Nikki repor meus cookies.
— Céus! Ela deve odiar esse emprego! - Saiu sorridente com tempo para que eu lhe mandasse uma última piscadela até que ela batesse a porta atrás de si.
— Bom dia, Antonella. Em que posso ajudá-la? - Atendi o telefone.
Primeiro: em não me deixar esperando tanto como tem acontecido ultimamente. - Revirei os olhos. — Segundo: preciso dos updates sobre o caso de Hideke.
— Não temos nenhuma novidade.
Como não?
— Eu mesma já os avisei que quando as novidades chegarem, vocês saberão.
Vou falar com o investigador.
— Primeiro fale comigo, porque se eu não autorizar que as informações sejam repassadas, então elas não serão. - Suspirei audivelmente, tendo certeza de que ela ouvira do outro lado.
Acredito que já tenha sido apresentada à minha sobrinha, não é? - Comentou em seu tom esnobe usual.
— E sobre quem estamos falando? - A ouvi rir nasalado.
Melanie Vaughn. A garota é muito promissora, vai crescer e ter uma brilhante carreira desde cedo. - Merda! Nos últimos dias, tudo parecia ter o nome da filhote de Donald Trump envolvido.
— Bom, isso não é exatamente da minha conta.
E realmente não é, mas o prêmio NAMAS¹ dela, seja.
— Não se preocupe com os prêmios, na minha estante já tenho cinco. Se estes esclarecimentos forem suficientes a você, ainda tenho pilhas de contratos a assinar, fale com Nicole, ela me passará o recado. - Digitei o código que redirecionava a ligação para a secretária, me dando o luxo de não ouvir a resposta de Antonella. — Ela continua na linha. - Informei Nikki, que assentiu de imediato enquanto via meu celular vibrar encima da mesa e adentrar a sala. — Oi, mãe.
Oi, querida, como vai?
— Eu que te pergunto. Não é de me ligar em horário de trabalho. - Vi acomodar-se a minha frente como de costume, com uma ruga entre suas sobrancelhas enquanto me ouvia falar.
Está, só me aumentaram as saudades. - Automaticamente, senti um peso se instalar no meu coração.
— Logo, logo, mãe. - Passei a mão livre nos cabelos, um tanto agitada. — Logo resolveremos isso.
— Bom dia, sogrinha! - Pronunciou-se risonho, meu co-worker.
É ele?
— Sim, mãe... perdeu o juízo! - Fiz um muxoxo com a boca, ouvindo a gargalhada gostosa do homem. — Te ligo mais tarde, ok? - A mais velha assentiu, nos despedindo e desligando em seguida, para que me direcionasse aos olhos cor-de-mel que me encaravam. — Isso foi rápido. Fazem o quê? Vinte minutos desde que saíra da minha sala?
— Melanie está no meu escritório, com a desculpa que sem o dela estar cem por cento reformado, ela não consegue se concentrar.
— Aproveitando que está aqui, assine estes. - Lhe empurrei os termos que confirmavam os contratos fechados da edição passada e que sem modificações, seriam arquivados. — Não acha que vai ficar aqui, não é?
— Na verdade, vou.
— Definitivamente, não.
— Este é o único lugar em que Melanie não pisa. É como um santuário!
— Tem lá seus motivos. - Conclui óbvia. — Você disse que não veria problemas quando ela começasse babar por você pelos corredores, e é exatamente isso que ela está fazendo.
— Não estou interessado. - Deu de ombros.
— Então vá para a Sala de Conferências.
— Lá é frio.
— Nem me venha com essa.
— É escuro e solitário. Mulher, tenha misericórdia! - Choramingou.
— Não consigo me concentrar com você aqui. - Confessei de uma vez.
— Eu, por acaso, te disperso, querida ? - Perguntou como quem não queria nada, deixando parte de um sorriso brotar no canto de sua boca.
— Que autoestima inabalável, , faça-me o favor! - Estreitei os olhos, sentindo parte da paciência me faltar. Ele tem esse dom.
— Isso não é uma resposta convincente.
— Você me dá nos nervos.

Voltei para aos papéis espalhados pela mesa, empurrando parte deles para porque quando concentrado, ele falava menos, apesar de não conseguir manter suas piadinhas quietas. Arcar com tamanha carga de trabalho nos custou a manhã inteira e começo da tarde, que me ajudaram a admitir em partes que ter ali, literalmente do meu lado, as decisões se tornavam até mais fáceis, e principalmente mais rápida, um tanto divertidas também.
estava esparramado em uma poltrona que puxou para perto e lia um relatório, enquanto suas pernas remexiam, pulando ansiosas.

— Céus, você não almoça?
— Geralmente peço alguma coisa e almoço aqui.
— Você não vai ficar sem almoçar, sob o meu olhar. - Levantou-se, tomando das minhas mãos as fotos que eu avaliava.
— Trabalhar na mesma empresa e ter salas praticamente coladas, me faz, automaticamente, estar sob seu olhar o tempo inteiro. - Tentei retomar as folhas que ainda estavam em suas mãos, mas ele recuou.
— Sorte a minha. - Piscou, travesso. — Le Bernardin, por minha conta e você sabe que não aceitarei “não” como resposta.

O encarei e tirei os óculos de grau que colocara há pouco, tendo a certeza de que, conhecendo-o como o conhecia, sabia que aquele homem seria capaz de me enlouquecer até que finalmente o aceitasse. E eu estava tentada a fazer esse esforço, porque se ele começava a mostrar as cartas que tinha em mãos, então eu poderia fazer o mesmo.
Pareei meu celular com o carro e dei play na playlist, para ter certeza de que em minhas músicas nenhuma delas nos deixaria melancólicos demais. Nikki havia reservado, ainda que de última hora, uma mesa para nós e como de costume, esta era um tanto afastada, coisa que o horário de pico em Manhattan não permitia e de quebra, concedia uma calmaria que definitivamente não coincidia com o horário na megalópole.

— Se controle, mulher. Não falaremos de trabalho. - comentou risonho, ajeitando o guardanapo no colo assim que nos aconchegamos à mesa.
— Até porque da última vez que tentamos isso, você quis falar sobre a minha mãe.
— Então... - Inquieto, insistiu em remexer o guardanapo sob suas pernas. — Você e Gareth são tipo um casal, agora? - Comentou abanando a mão vez ou outra, dividindo a atenção com o guardanapo que parecia lhe dar trabalho.
— Deus! Você é péssimo em puxar assunto.
— Porque, se forem, sabe que precisa comunicar à Diretoria e esta, sou eu.
— Pensei que não falaríamos sobre trabalho.
— Justo. - Pigarreou. — Quando vocês foram embora, Abel e eu ligamos para Cass. Foi ridículo ver a forma como ela ruborizou falando com ele. - Revirou os olhos.
— Com você ou com ela, Abel vai dar um jeito de complementar a família ! - Pisquei marota, vendo a cara do homem transparecer o tédio. — Seja menos ranzinza ao falar da Cass, tudo bem, ela odiava a gente nas horas vagas, mas sempre que precisávamos, ela se prontificava a ajudar.
— Ajudava sempre que Abel estava junto.
— Me choca que essa “queda” dela por ele tenha durado tantos anos.
— É mais comum do que você imagina, . - Fez um muxoxo com a boca, encarando-me por alguns instantes.
— Já sabe o que vai pedir? - Desconversei, buscando o menu à minha frente.

Almocei tranquila como há tempos não fazia, sentindo-me mais leve como a tensão dos últimos dias não me permitia ser e graças à , que mesmo sem saber, tem esse poder ridiculamente descomunal sobre mim.
Os corredores cinza e sem vida da delegacia já não me eram mais tão estranhos assim, ter decorado um caminho alternativo cortando um corredor ou outro para chegar mais rápido à sala de Burke também já se tornara normal.

— Boa tarde, Dominique. - o cumprimentou, assim que o delegado adentrou a sala que o aguardávamos.
— Alguma novidade pra nós?
— Boa tarde. Sim e não. - Cruzou os dedos encima da mesa, enrijecendo sua postura. — Sim, porque a família Choi chegou à cidade e estão entrando com um processo de irresponsabilidade contra vocês. Eles alegam que, levando em consideração que o empresário foi morto a caminho do trabalho, o encargo da segurança era inteiramente da empresa. É bom prepararem os cofres da revista.
— Não podemos arcar com um processo desse porte. Aliás, nem devemos, porque nenhuma empresa cobre itinerário algum! - Exasperei, ultrajada.
— Bom, vou ceder às devidas evidências necessárias para o decorrer do processo já que a investigação continua confidencial e sou a autoridade no encargo. Infelizmente, não há mais nada em que possa colaborar com ambas partes.
— E que evidências cedidas seriam essas?
— Horário estimado da morte, calibre do revólver, objetos encontrados ou que foram dados como perdidos, últimas mensagens no celular... Essas coisas.

Burke alugou boa parte da nossa tarde, explicando as entrelinhas de cada evidência para ao fim de tudo, ele nos explicar também, com todas as letras de que a Família Choi não nos desejava ver até que o caso fosse encerrado, ou no tribunal.
Quando de volta à Magic, gastava as solas de seus sapatos andando de um lado para o outro, impaciente.

— Eles querem fazer dinheiro às custas da morte dele, , isso não é justo!
— Mas é a família dele, , e por favor, não se envolva nisso.
— Não posso deixar isso passar diante dos meus olhos e não me envolver, , não consigo... - Deixou a frase morrer, pesaroso, coçando sua barba e bufando em seguida. Andou em passos largos até a garrafa de uísque, servindo-se de uma dose dupla, virando-a de uma só vez e se apressando em preparar outra.
— O que pensa que está fazendo? - Tomei a frente, tirando a garrafa de suas mãos.
— Resolvendo da forma que você resolve.
— Mas você sempre foi o mais racional de nós... - Pigarreei, engolindo em seco. — De nós na empresa. - Finalizei incerta.
— De nós dois, ... O mais racional de nós dois. - Completou amargurado a frase que eu mal consegui finalizar.
— Apenas não se intrometa nos assuntos dos Choi e não falamos mais nisso. - Como resposta, tive uma risada nasalada do homem, como se me dissesse “e você não me conhece?” e realmente não havia nada que encasquetasse, que alguém conseguisse convencê-lo do contrário. — Vou resolver os últimos ajustes da apresentação ao comitê e amanhã lhe atualizo.
— Não tenho nada marcado pra agora.
— Mas vou ficar até tarde.
— Duas cabeças pensam melhor que uma. - Deu de ombros, simplesmente.

se manteve atento aguardando que eu rebatesse como em cem por cento das vezes, porém não o fiz, já que “infelizmente” dei ouvidos para o diabinho no meu ombro que o queria ali a todo custo.

— E antes que você rebata: eu faço questão. - Aconchegou-se na cadeira, demonstrando-se bastante confortável.
— Para começar, precisamos esclarecer as porcentagens e as funções dos novos acionistas. - Dei o pontapé inicial, juntando as pastas em uma pilha para que tivéssemos maior espaço.

Meu co-worker prendeu-se em meio ao trabalho durante horas seguidas, de forma que o vi vez ou outra resmungar sobre a tensão que travava seus ombros. Buscamos diversas caixas no Arquivo para procurarmos as taxas que usaríamos na demonstração de fluxo verdadeiro com os acionistas controladores anteriores. Muitos dos arquivos ainda não haviam sido digitalizados e estavam sendo com o tempo, então a maioria das vezes precisávamos nos enfurnar em meio às caixas. Quanto à Melanie, não havia nada que a diferenciasse dos demais acionistas, inclusive não podemos proibi-la de sugerir melhorias, mas o mais importante era que ainda poderíamos vetá-las. dispersava-se dos papeis apenas quando seu celular vibrava no bolso interno de seu paletó, lendo o que aparentavam ser mensagens muito das engraçadinhas, por sinal.
A noite caíra mais a fundo, tarde como alertara à que ficaríamos e de muito já havíamos adiantado, inclusive o quadro de funcionários nas plataformas digitais que temos muito orgulho de exibir, mas que sabíamos que poderia muito bem ser atualizado pelo departamento de Marketing. Sabemos que temos quem os faça para nós, mas os fazemos porque gostamos apesar de ainda encarar muito do que precisávamos arcar com os papeis espalhados pela mesa. afrouxou o nó de sua gravata e fez a gentileza de ir até a máquina de café no corredor para buscar algo que nos mantivesse acordados.

. - me chamou e eu murmurei para que continuasse. — Tem algo que não sai da minha cabeça.
— O quê? - Desviei a atenção dos papeis para seu rosto.
— Desde aquela conversa sobre Londres... Digo, você e Rui estavam transtornados.
— Águas passadas, não se preocupe, você ainda morava na Inglaterra. - Abanei a mão no ar, me esforçando o máximo para que não transparecesse a briga interna que se iniciou dentro de mim.
— Seja franca comigo, . - Ele largou o que fazia para me encurralar com seu olhar que sempre tinha imenso poder sobre mim. — O que aconteceu conosco? Somos como dois estranhos, agora.
— Muita coisa mudou.
— Eu sei. Só não sabia que era o suficiente pra nos afastar desse jeito.
— Foi você quem deu o primeiro passo pra toda essa distância, . - Respondi fria, e ele riu descrente.
— É essa a sua única desculpa? Jogar a culpa em mim? - Se levantou, aproximando-se de mim.
— Não é uma desculpa, é um fato.
— Se eu não tivesse ido para a Inglaterra, nem juntos estaríamos trabalhando agora.
— Não reclamo de ter ido, mas a forma como o fez. - Suspirei, não conseguindo conter o tom rude. — , você aceitou o estágio, alugou uma casa e até fez as malas para só então, me comunicar. Namorávamos há mais de quatro anos e você não teve o mínimo de decência. - Despejei de uma só vez, sem pensar muito bem nas palavras. — E mesmo depois de tantos erros, eu ainda tremo sempre que você me olha. - Sussurrei enfraquecida, sem, definitivamente pensar sobre as palavras.

Um silêncio se instalou no cômodo, onde só se ouvia nossas respirações e este serviu apenas para que eu me arrependesse precipitadamente do que dissera.

— Por isso tenho tentado do meu melhor para me redimir. - Ele soprou de voz tão falha quanto a minha, deslizando as mãos pelas laterais do meu rosto, envolvendo-o afável e colando nossas testas. — Eu quero ser o homem que você merece, querida . - Deslizou a ponta do nariz, delicado, por minhas bochechas e fechei meus olhos, memorizando o carinho por mais que me recordasse vividamente de todas as outras vezes que o fizera. — Mas isso demanda tempo, e paciência.
— Eu sei. - Lhe respondi quase sem forças, com meu último fio de voz.


depositou um beijo quente e demorado em minha testa, traçando um caminho atencioso desde as têmporas, descendo-os pelas bochechas, beijando também meu maxilar e queixo com a mesma dedicação, deixando-me de pernas ridiculamente bambas, sendo denunciada pela minha respiração que estava audivelmente entrecortada até que percebi que a sua também não estava calma.
Como se houvéssemos combinado, desceu os olhos no instante em que subi os meus, resultando em um choque que percorreu toda a minha espinha, eriçando os mesmos poros que se eriçavam na adolescente apaixonada por aquele mesmo homem e sofriam da mesma consequência, com a certeza adulta que tínhamos.

— Me desculpe, . - Ele passeou seu polegar lentamente por meus lábios e se afastou. Desfez o nó já frouxo da gravata de uma só vez, que parecia sufocá-lo e saiu da sala em passos largos. Minha garganta travou ao mesmo tempo em que meu cérebro gritava para que eu falasse algo que o fizesse ficar enquanto o assistia se afastar.

O paletó esquecido ali exalava o cheiro que me causava tantas borboletas no estômago, impregnando-o por todo escritório e principalmente na minha mente.
Imitando seu gesto de mais cedo e consequentemente dando razão à sua “teoria”, preparei um uísque duplo já que essa era a única forma que sabia resolver as coisas que não se solucionavam com assinaturas em contratos milionários, como estava acostumada.
Separei os catálogos dos photoshoots que eram os próximos a serem encaixotados nos Arquivos e aparentemente era tudo o que me restava fazer ali. terminara a apresentação dos acionistas enquanto eu estudava os catálogos dos shoots refeitos –que melhoraram em cem por cento– da forma que tinha previsto.
Minha mente estava acelerada e trabalhando a mil, no entanto não haver nada com o que ocupá-la, parecia acelerá-la ainda mais. Ouvi passos ao fundo se tornarem mais próximos e logo retornou, deixando um empilhado de pastas na minha mesa.

— São contratos pendentes, os esqueci no meu carro, desculpe. - Proferiu afobado, sem me olhar uma única vez.
— Tudo bem, obrigada, e não precisa se desculpar a cada segundo, .
— Não o faria se não houvesse motivo. - Explicou-se calmo, empurrando as pastas até próximo a mim para finalmente levantar seu olhar, e eu realmente preferia que não o tivesse feito.

Ao redor dos olhos sempre intensamente radiantes, percebi olheiras gritantes que cercavam os olhos vermelhos do homem.

— Já estou indo, quer uma carona até em casa?
— Não vou deixar você sair assim. - Céus! O homem estava miserável!
— Quer a carona? - Tornou a repetir, desta vez, mais imponente enquanto vestia seu paletó esquecido ali.
, por favor...
? - Ouvi me chamarem e ambos viramos para a porta. — Vi a luz do seu escritório acesa e sei que até agora não jantou. - Mostrou-me as sacolas largas. — Vim lhe trazer algumas coisas só não sabia que estava acompanhada.
— Seu namorado pode lhe dar uma carona. - Meu co-worker sussurrou perto de mim, debochado. — Como vai, Gareth? Não se preocupem, casal, já estava de saída. - Inundou as mãos nos bolsos dianteiros da calça, tirando-as apenas para dar um tapinha gentil nas costas do galês quando passou por ele.
— Ele está bem?
— Sim, só está sobrecarregado. - Suspirei, vendo-o descansar as sacolas sob minha mesa e contorná-la para me cumprimentar com um selinho. — Que surpresa, não precisava se incomodar, Gareth.
— Espero que goste de comida tailandesa. - Comentou esperançoso enquanto tirava as comidas da sacola, que logo inundaram o escritório com o cheiro gostoso dos temperos.
— Eu amo e há tempos não como.

Engatamos em uma conversa descontraída à medida que comíamos, de forma que fora capaz de me livrar da bolha de tensão que me prendi com anteriormente. Apesar de seus olhos vermelhados custassem a sair da minha mente, porém tão orgulhoso quanto eu, não havia muito que eu pudesse fazer.
Já Gareth, de vez em quando mencionava estar ansioso com a apresentação de seu novo cargo e que a possibilidade de não se adequar a tal o apavorava. O galês também insistiu para me levar até em casa, mas não havia muito que me fizesse trocar o silêncio do meu próprio carro agora.
Quando um sol preguiçoso começou a aparecer no céu de Manhattan, puxei as cobertas para o lado e me levantei. Tomei um banho rápido porque mais um dia extraordinário me aguardava na Magic! Magazine.
Sentia falta do cheiro adocicado das panquecas matinais de Blair, contudo desde o jantar com e Abel, a loira não se prontificara muitas vezes em mandar mensagens ou em responder as que eu mandava, mas também não era a primeira que isso acontecia.
Os corredores da revista estavam cada vez mais calmos, talvez porque cada um de nós começava a nos acostumar com a nuvenzinha que nos perseguia, aceitando que o caso Choi era algo que fugia do nosso controle.
Saí do elevador tirando os óculos escuros e atravessando o corredor até meu escritório, passando pela mesa de Nicole, sem vê-la por lá. Encontrei a secretária enquanto retirava de minha mesa tudo o que precisava ser arquivado, como deixara separado na noite anterior.

— Bom dia, Nicole. Novidade?
— Bom dia, senhorita . Ligaram do ateliê de Kate Spade para saber se poderiam mandar alguém para buscar as fotos ou se levaríamos.
— Blair vai escolher alguém para entregá-las, inclusive chame-a e eu mesma converso com ela. Obrigada. - Sorri, vendo a mais nova equilibrar as pastas em um só braço para encostar a porta com a mão livre ao sair.

O tablet qual Nikki me mostrou sobre as manchetes sensacionalistas que fui protagonista há pouco tempo ainda estava ali, ao lado do computador e não me contive quando quis saber se o nome da Magic fazia parte de algumas delas.
O jornalismo sujo dava a cara à tapa mais uma vez e apesar de fazer meu sangue ferver, carecia me manter a par das manchetes porque quem muito expele veneno, muito pode sofrer quando o vento soprá-lo de volta.

— É sempre uma honra ser convocada pela secretária da minha chefe! - Blair adentrou a sala, sorridente como lhe era de costume pela manhã.
— Me parece o único jeito de conseguir falar com você, agora.
— Vejo que hoje é um dos dias em que acordou afiada! - Torceu os lábios, dramática.
— Vamos enfrentar os acionistas. Mais uma vez.
— Sei que da última vez... Bem, aconteceu o que aconteceu, mas não deixe essa neura te atormentar, tudo bem?
— É como se eu estivesse indo para a Sala de Conferências me preparando para dar a mesma notícia.
— Posso ir pra reunião com você. - Sugeriu.
— É logo após o almoço, você estará com os estagiários.
— Então almoçamos juntas no Grand Banks e você ainda conhece o Tom. - Explicou simplesmente, leve e sorridente na melhor forma Blair Mitch. — Não é um convite, é uma ordem!
— Apenas não ousem querer mandar em mim. - Disse insinuativa.
— Eu não atreveria, mas pelo tom preciso perguntar quem foi o corajoso que o fez.
— Você e seu querido amigo, , com mania de quererem me enfiar almoços goela abaixo.
— Oh! me enche de orgulho! - Dramatizou, suspirando alto e apenas semicerrei os olhos para olhá-la.
— Escolha alguém ou vá você mesma entregar as fotos no ateliê de Kate Spade. - Mudei de assunto. — Sei que está pensando sobre e-mails, mas entregar em mãos demonstra maior respeito, então é isso que vamos fazer.
— Eu até que poderia ir... - Comentou pensativa. — Mas está cedo demais para o almoço e não posso ficar enrolando até o horário porque minha chefe está me ouvindo pensar alto.
— Bem pensado! - Acrescentei em tom jocoso, rindo com minha melhor amiga.
— Se bem que a Fifth Avenue em horário de almoço não é para mim. Jaden Löw. - Decretou.
— Uau! Problemas no Paraíso?
— Os de sempre, só preciso mantê-lo ocupado.
— Fifth Avenue mantem qualquer um ocupado por horas! - Ponderei, dando de ombros. — Certo. Ele vai precisar assinar três Termos de Compromisso, um deles aqui e os outros dois junto da assinatura do destinatário.
— Extremamente confidencial, entendi. - Repassei os termos para a loira que os folheou de imediato, estudando-os. — Não tente me enganar com trabalho, almoçamos juntas. - Intimou-me pela última vez antes de sair da sala.

As pastas que me entregara noite passada ainda estavam ali da mesma forma e comecei a revisá-las para que até a reunião já tivesse terminado ao menos uma boa parte delas. Ter que assinar acima de seu nome já me era suficiente para lembrar nitidamente dos seus olhos avermelhados noite passada.
Abri o e-mail e tentei manter-me ocupada com eles que haviam diversos não respondidos, que por experiência própria sabia que isso poderia custar caro. Alguns jornais da região enviaram solicitações para que mencionassem nossos depoimentos dos últimos dias sobre o caso Choi e consequentemente cobrassem as autoridades policiais sobre o desfecho da investigação. Essas menções poderiam ser as únicas boas publicidades que veríamos durante um bom tempo, apesar de pequenas, agora soavam como uma luz no fim do túnel.
De minuto em minuto me pegava encarando a maçaneta na esperança que girasse e revelasse aquele sorriso cafajeste como acontecia em todas as manhãs. Não aconteceu.
Queria me convencer de que não me acostumei com a gargalhada livre dele ecoando todos os dias, logo cedo, mas já era tarde demais. Não enganava nem a mim mesma. Levantei-me decidida o suficiente para cruzar o corredor e lhe oferecer um sorriso de tirar o fôlego como fazia comigo. Mas isso também não aconteceu.
Os copos de café que peguei no meio do caminho para nós, pareceram esfriar instantaneamente e hoje, que eu quis, Anna não me anunciou.
Adentrei sua sala e as risadas cessaram. Melanie Vaughn massageava o ombro de com uma mão enquanto com a outra, o abraçava de forma desajeitada. A loira desvencilhou-se quando me percebeu ali, sorrindo de canto.
Ele não apareceu porque estava ocupado demais, afinal de contas.

— Bom dia, . Algum problema? - perguntou tranquilo, voltando a atenção aos papeis em sua mesa.
— Não. Eu só... - Pigarreei, limpando a garganta. — Só vim perguntar se recebeu algum e-mail do The New Yorker.
— Vou deixá-los a sós. - Melanie se pronunciou. — Bom dia chefe, até a reunião! - Cumprimentou-me mandando um beijo no ar, jogando a bolsa no ombro e desfilando confiante até a saída, sendo seus passos o único som naquela sala.
— É pra mim? - perguntou, enquanto eu me concentrava em não demonstrar a quão atônita estava.
— O quê? - Falhei.
— O café. É pra mim?
— Sim, claro. Pra nos manter atentos para a reunião. - Lhe forcei um sorriso automático, sentando na cadeira à frente de sua mesa, empurrando o copo para ele.
— Os e-mails... - iniciou e eu agradeci mentalmente, porque se não fosse pelo café minha boca estaria seca. — Quer levá-los como pauta na reunião?
— Seria ótimo, já que envolve a imagem de toda a revista e pelo menos um pilar já estará reunido hoje. - Batidinhas na porta nos interromperam e eram aceleradas demais para que pudesse reconhecê-las, logo um tufo de cabelos louros platinados adentrou a sala novamente, em passos apressados.
— Esqueceu sua gravata. - Murmurou incerta enquanto tirava a peça do interior de sua bolsa, entregando-o. Suspirei conforme sentira um buraco se formar no meu estômago e não sabia se era nojo ou puro constrangimento por ir em busca de algo tão simples e precisar lidar com uma realidade oposta.
— Vou apenas comunicar o comitê sobre o contato do The New Yorker, não se preocupe. - Levantei-me apressada.
— Podemos discutir esses pontos em um almoço. O que acha?
— Não, obrigada. - Beberiquei meu café, caminhando até a porta, recuperando o ar que não percebi estar prendendo até então. O ouvi resmungar alguma coisa, mas precisei fechar a porta antes que pudesse concluir para que saísse enquanto ainda me restava sanidade.
Os passos eram largos até minha sala, fazendo com que o barulho dos saltos ajudasse a dissipar os pensamentos embaralhados. Vi Melanie adentrar o elevador e sorrir largo para mim, mandando um beijo no ar e deslizando as pontas dos dedos nos cantos dos lábios, como quem limpava o veneno que escorria, e eu não duvidava que algo mortal, deveras, escorria ali. As postas do elevador se fecharam e segui meu rumo até que sentisse o conforto da poltrona em minhas costas.
Estava certa que de voltaria a me concentrar em tudo que deveria e merecia minha atenção, mas irrompendo por minha sala me impediu.
— Desta vez Anna não me anunciou. - Saudei-o sarcástica, vendo que permanecera quieto. — E eu, sinceramente, preferia que ela o tivesse feito.
— O que você viu lá...
— Não é da minha conta. - O cortei, amarga. — Se veio falar sobre o The New Yorker, quero que lide com eles. Obrigada.
— Num almoço, talvez?
— Vou almoçar com Blair, mas agradeço o convite. - Revezando o olhar poucas vezes entre ele e o computador. — Por favor, lide com o The New Yorker logo, isso está me matando de ansiedade. Nem acredito que alguém está interessado na história verdadeira e não só vender manchete. Precisamos levar isso para a reunião, então, se não se importa
— Certo. Pode dizer a Blair que lhe mandei um beijo? - Assenti positivamente, levantando o olhar apenas para assisti-lo sair.
— Senhorita ? - Nikki tomou o lugar de na porta. — Antoine Blanché quer falar com a senhorita.
— Faltam mais de duas horas pra reunião. - Murmurei para mim mesma, sinalizando para que autorizasse a entrada do acionista.
— Sei que estou adiantado, mas qual europeu nunca está, não é? - Adentrou a sala com seu humor leve que não condizia nada com os demais franceses. — Está esplêndida, .
— Quanta gentileza, Blanché. Sempre um cavalheiro sem igual! - Cumprimentei-o com um aperto de mãos, ambos com sorrisos calorosos.
— Desculpe não tê-la avisado que chegaria mais cedo, mas prometo ser breve. - Sua feição simpática se tornou séria e indiquei o sofá para que conversássemos mais à vontade. — Muita coisa tem acontecido ultimamente, muitas manchetes estampam o nome da Magic, inúmeros dedos estão sendo apontados diretamente para vocês.
— Antoine, a investigação...
— Permita-me finalizar, senhorita . - Tomou minha mão, cobrindo-a gentilmente com a sua, em um carinho leve e reconfortante. — Tenho certeza que estão fazendo tudo o que podem, nunca duvidei disso e a Magic! Magazine não poderia estar em melhores mãos. Você e o são a dupla de número mais impressionantes do mercado mundial! Não se abalem, porque eu sei de todo o comprometimento de vocês.
— Obrigada, Blanché. Confesso que tem sido difícil ouvir palavras tão bonitas quanto as suas. Obrigada por confiar em nós mesmo após tanta coisa. De uma hora para a outra houvemos de lidar com inúmeras coisas e todas elas fugiam do nosso controle.
— Bom, eu disse que seria breve, e fui. - Sorriu, quebrando o gelo como tinha o dom de fazer mesmo em meio a reuniões, tamanha era sua simpatia. — Nos vemos logo, logo.
— Obrigada pela compreensão, é muito importante pra nós.

O acionista se despediu com o mesmo sorriso acolhedor quando o acompanhei até a porta, vendo Blair ao fundo, conversando com Nicole. Ambas o cumprimentaram e minha melhor amiga se apressou em adentrar a sala.

— Não fuja, Thomas está doido pra te conhecer.
— Não está muito cedo?
— Na verdade, Blanché já nos tomou meia hora de almoço. - Cruzou os braços na altura do peito em uma falsa indignação.
— Tudo isso? Mal vi passar.
— Está tudo bem?
— Sim. Ele foi muito gentil. Veio mais cedo para se mostrar complacente com tudo que está acontecendo. - Busquei meu celular encima da mesa e logo saímos em direção ao elevador.
— Ele é o típico cavalheiro francês.
— Vou me lembrar muito disso quando estiver encarando Antonella pelas próximas horas.
— Sorte do Gareth que vai se afastar do grupinho e ainda ganhar mais alguns milhões por ano. Deve estar ansioso, porque eu estaria! - Adentramos o elevador vazio e aguardamos até que chegássemos até o térreo.
— Não imagina o quanto! Se bem que, na verdade, vocês dois são muito parecidos.
— Mulher, você deve estar delirando de fome!
— B, se observar bem, vocês dois são ansiosos e cheios de verdades absolutas. Ambos não sobrevivem sem saber que melhoram qualquer mínima coisa no dia de alguém, sem contar que parecem terem crescido sendo embalados pelos braços de Einstein!
— Eu adoraria ter aquele sotaque galês dele.
— Ah sim! O sotaque... - Suspirei dramática, andando até o carro de Blair. — Você não tem noção do poder daquele sotaque, B.
— Então... Esse romance, está a que pé, huh? Preciso perguntá-lo quais as intenções com você? - Adentramos o veículo, já prendendo os cintos de segurança.
— Não temos um status e não sinto falta de ter um. O fato de trabalharmos juntos pode complicar as coisas.
— Sobre quem está falando, ? - Blair me encarou, com um sorriso fraco.
— Falando em . - Pigarreei. — Ele está tendo uma espécie de affair com a Melanie. - Tentei fingir-me de desinteressada, mas o grito de Blair não me permitiu fazê-lo.
— ELE O QUÊ?
— Você está surpresa? Porque eu não.
— ELE O QUÊ? - Repetiu, um tanto mais baixo, porém igualmente atônita.
— Conversamos na minha sala ontem à noite e ele não estava nada bem. Todos os dias, pouco depois de chegar, ele vai me atormentar e hoje não foi.
— Céus, mulher! Conte de uma vez! - Blair me apressou.
— Fui tão estúpida que me custa revivê-lo, Blair. - Revirei os olhos, suspirando para voltar a relatá-lo. — Busquei nossos cafés na máquina e fui para a sala dele normalmente, não é minha primeira vez. Anna não me anunciou e eu achei um milagre, mas a Melanie toda... Engalfinhada no dorso de me enojou mais do que eu imaginei.
— Tem mais? Conte tudo!
— Ela saiu da sala como se nada tivesse acontecido e eu engatei uma conversa sobre trabalho, esquecendo até do café, então ele precisou, simplesmente, me lembrar dos cafés na minha mão. - Mordi o lábio inferior com um pouco de força, como uma espécie de punição apenas por lembrar a quão patética fui. — Como se não bastasse, Melanie ainda voltou para devolver a gravata dele. - Finalizei entredentes, sem perceber que amassava algumas folhas que sequer vi pegar. Blair me encarava de olhos arregalados, enquanto sua boca abria e fechava inúmeras vezes, sem ter o que dizer.
— Você está louca de ciúmes! - Gargalhou alto, batendo palmas desajeitadas.
— É isso que tem a dizer?
— Se encare no retrovisor! Está vermelha de ciúmes, !
— Ligue este carro e vamos para o Grand Banks logo. - Intimei-a, mau humorada.

Blair acatou, mas não continha as risadas de vez em quando, dizendo se lembrar da minha cara enquanto contava e me dava nos nervos.
Sabia que qualquer dia desses, a carteira de motorista da minha melhor amiga seria cassada, se já não tivesse sido, tamanha era sua pressa em cruzar faróis sem necessidade. O restaurante Grand Banks era um tanto fora de mão, então estacionamos o mais perto possível, tendo de andar cerca de dez minutos.
Ao adentrarmos, Blair cumprimentou sorridente a maioria dos garçons, alguns com direito a apelidos e tudo o mais. Segui os passos da loira até uma mesa que se dividia entre o interno e o externo do restaurante. Ainda me custava acostumar com o estilo do restaurante, mas é um esforço mínimo, por Blair.

— Mude essa cara. Manhattan sequer tem gaivotas!
— Seria horrível pagar essa fortuna e simplesmente perder para uma gaivota. - Comentei mau humorada, esticando o guardanapo em meu colo assim que nos aconchegamos. — Não vai avisá-lo que chegou ou algo do tipo?
— Nah! Todos os garçons que cumprimentei vão avisá-lo de uma só vez. Isso o deixa louco! - Riu maléfica, abanando a mão no ar, fazendo pouco caso. — Não vai pedir entrada, não é?
— Se pedirmos, não teremos tempo para o prato principal.
— Você não desacelera nem pra comer. - Revirou os olhos. — Não sei nem porque estou surpresa. - Suspirou, enquanto olhávamos o menu. — Anyway. Ostras? Tom garante que são afrodisíacas!
— Não há nada de afrodisíaco em comê-las e vinte minutos depois ter de encarar Melanie pendurada em . Eu passo.
— Talvez um Tropicalia te ajude a engolir parte desse orgulho. - Comentou como quem não queria nada, soltando alguns risinhos e fingindo olhar as opções de drinks.
— Não bebo antes de reuniões.
— Até porque a garrafa de uísque pela metade na sua sala, diz exatamente isso!
— Têm sido dias difíceis! - Me justifiquei. — Um ceviche com patas de caranguejo está ótimo.
— Só? - Encarou-me com a sobrancelha arqueada.
— E o Tropicalia. - A ouvi gargalhar e chamar o garçom para anotar os pedidos.

O drink chegou pouco tempo após o pedido e o toque cítrico que aparecia após sentir a melancia adocicar o céu da boca na mesma intensidade da vodca, me fizera rapidamente torcer o braço sobre o restaurante. Apesar de não cumprir com a estética intimista que estava acostumada, Grand Banks não precisou de muito para me convencer que sua fama era válida. Tropicalia me fizera optar por pequenos goles, na ilusão de que demoraria mais para que finalizasse o drink.
Blair, sempre me lembrando que tem um parafuso à menos, pediu um Mariner que nada mais é do que gim, um toque de Saint Germain e absinto, me fazendo duvidar se realmente teria espaço para o limão que diziam colocar.

... - Colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, um pouco sem jeito. — Thomas não conhece minha mãe ainda.
— Ele não sabe que Rose não é sua mãe biológica. - Completei, vendo-a assentir.
— Tom é de família tradicional, então prefiro conversar com ele antes.
— Não se preocupe B, não vou mencionar, mas só de ver o jeito que fala sobre ele, sei que algo pequeno desse jeito jamais separariam vocês. - Segurei sua mão, como se quisesse passar a confiança que sentia sobre os dois.
— Oh! Ele está vindo! - Se apressou, arrumando os cabelos. — Finja ser simpática, . - Juntei minhas sobrancelhas, confusa, sem ter tempo de retrucá-la ao ver o rapaz vestido em um dólmã selar seus lábios rapidamente aos dela.

Ambos sorridentes de orelha a orelha e desta forma era difícil não arriscar que o casal se conhecia há tempos. Logo fui contagiada pelo sorriso acolhedor do casal, ou pelo menos fingi ter sido.

— Finalmente consegui trazer alguém muito importante pra mim, para que vocês se conheçam. Tom, essa é...
! - Ele a completou imediatamente. — Blair fala tanto de você! - Levantei-me para cumprimentá-lo com um aperto de mãos, mas o chef deixou um beijo nas costas da mão que lhe estendi, aproveitando para puxar-me em um abraço acalorado. — É tão importante pra mim conhecê-la.
— Blair não fica dez minutos sem mencioná-lo, estava ansiosa por isso também, Thomas. - Proferi da melhor forma possível, abafada pelo abraço.
— Como está ? - Engatou em outro assunto, tagarelando sem parar tal como a namorada.
— Não, meu bem. Eles ainda não estão juntos. - Blair o corrigiu. — Estou tentando, mas deu um passo terrível hoje, depois te conto. Está cada dia mais difícil! - Lamentou-se a loira, dramática, sem ver que meu rosto não evidenciava nada além de completa confusão.
— Suponho que vocês sejam tipo um grupinho “Pró-”, não é? - Cruzei meus braços, esbanjando um tom irônico.
— Uau! Que humor incrível! Típica ! - Thomas puxou uma cadeira para si, sentando-se entre mim e sua namorada. — Na verdade, estamos apenas tramando um jeito de juntá-los. O quão lindo pode ser um amor de colegial, certo?

Deus! Thomas é milimetricamente calculado para ser tudo o que minha melhor amiga implorou à sua taróloga!
A mão em que descansava seu rosto, nos permitia perceber nitidamente os olhos claros da loira, maravilhados, revezando entre mim e o chef enquanto conversávamos. Isso apenas confirmava minha teoria de que o casal é mais parecido do que poderia imaginar!
Por serem tão falantes me chocava que minha melhor amiga tenha conseguido guardar por dois minutos todas as suas palavras apenas para nos observar. Preciso acrescentar que amava cada segundo ali, sabendo que a mulher que tanto me ajudou, encontrou alguém de sentimentos tão intensos quanto os dela.
Nossos pratos foram servidos e aproveitei para saboreá-lo cuidadosamente, já que era difícil disputar fala com o casal, sem contar que se me preocupasse em ser simpática demais, de acordo com o horário apertado, comeria menos do que estou acostumada.
Thomas provou como colocou –literalmente– o nome do Grand Banks na boca de toda a Nova Iorque. Apesar de não ser fã árdua de ceviche, o prato preparado por Tom supria todas as falhas que me faziam recusá-lo tão árdua e injustamente. Tinha a acidez normal dos ingredientes, mas nenhum sabor sobressaía o outro, eles simplesmente se complementavam, se tornando deliciosamente impossível distinguir o que fazia o prato tão especial.
Enquanto conversávamos fomos interrompidos algumas vezes por clientes que faziam questão de cumprimentar o chef e apesar de querer, não pude ficar mais para observar o quanto o casal era merecedor entre si, mas Blair fez questão de voltar comigo, então logo estávamos de volta aos corredores da Magic! Magazine com uma incógnita que rondava minha cabeça.

— O quanto Thomas sabe sobre mim e ? - A intimei, assim que adentramos minha sala.
— Não muito.
— Não muito, quanto?
— Tom não sabe de tudo, se é o que está perguntando. - Assenti. — Até porque... Estava pensando em levar para jantar, hoje mesmo, no GB para apresentá-lo também.
— Reserve mais um assento, tem uma namorada para levar. - Dei de ombros. — Vou buscar um café, quer?
— Não vai levar nenhum para o outro lado do corredor? - Provocou-me e a encarei com tédio.
— Não cometo o mesmo erro duas vezes.

Saindo da sala, não precisei de muito tempo até ouvir Nikki me bombardear com quais acionistas já haviam chegado e seus respectivos horários, acompanhando-me até a máquina de café.

— Não se preocupe, Nicole, os receberei assim que todos chegarem. - pronunciou-se atrás de mim enquanto a secretária embolava algumas palavras até que me atualizasse de tudo, voltando para sua mesa. — , posso falar com você?
— Claro. Alguma novidade sobre o The New Yorker?
— Não exatamente. - Suspirou. — Sobre hoje de manhã, eu...
— Me diga apenas o que eu precisar saber como parte da Diretoria, . - O encarei durante alguns segundos. — E se quiser saber, estava certo. Eu deveria ter deixado que Anna me anunciasse quantas vezes quisesse. - Lhe forcei um sorriso, marchando de volta à sala, encontrando uma Blair muito confortável em meu sofá, mexendo no celular.
está no corredor caso queira falar com ele.
— Podemos mudar esse sofá pra minha sala? É tão confortável e você simplesmente o ignora.
— Se bem lhe conheço, você vai dormir todos os dias após o almoço e isso vai nos custar muito trabalho.
— Não quero saber dos detalhes, mas às vezes me esqueço que está com o Gareth então esse sofá deve ser o mais bem usado dessa sala!
— Minha única resposta viável pra isso que disse é lhe ignorar porque já estou indo para a reunião. Pode ficar se quiser, mas se comer todos os meus cookies deixe um post-it no computador de Nikki para repô-los. - Não a ouvi concordar, mas percebi que estava ocupada demais organizando as almofadas da sua melhor forma para um cochilo.
A Sala de Conferências estava mais fria que seu habitual, e eu sabia que nada tinha a ver com o clima, e sim com o medo irracional que me circulava. O medo de que estivéssemos presos em uma espécie de Jogo Mortais e que a cada vez que pisássemos naquela sala, seria com menos um de nós.
Segundo as inúmeras mensagens que me mandara nesta manhã, Gareth estava tão tenso quanto no dia da Assembleia. Aquele dia, que deixou tudo de cabeça para baixo.
Vi Antonella chegar cedo e se instalar no escritório de Melanie, então conhecendo-as, sabia que uma conversa entre sobrinha e tia nunca me soara tão perversa.
Olhar para Antoine agora me era sinônimo de serenidade. O homem além de um expert na arte de fazer dinheiro, também detém clara destreza com questões humanas de forma simples e genuína, como poucas vezes tive o luxo de encarar em meio ao centro financeiro mais pulsante do mundo. Jim não pareceu mudar muito, continuando um tanto tedioso.
Ouvi algumas risadas vindas do fim do corredor e automaticamente soube que chegara com os acionistas. Aguardei-os na porta da Sala de Conferências para que os cumprimentasse individualmente, ensaiando meu melhor sorriso para cumprimentar Melanie que provava que enlaçar seu braço ao de se tornara um vício. Apesar de se dizer tão ansioso, Gareth não estava entre eles e isso foi suficiente pra que eu ficasse inquieta. Olhei significativa para assim que vi todos tomarem seus lugares, indicando a cadeira vazia do galês ao meu lado e ele apenas deu de ombros como quem dizia não saber. Suspirei audível, chamando a atenção mais do que queria, fazendo os demais acionistas também encararem a cadeira ao meu lado. Talvez, sendo perseguidos pela mesma neura que me atormentara nesta manhã, porém logo pudemos ouvir os passos firmes e apressados do acionista cruzando o corredor para adentrar a sala, fazendo a apreensão baixar consideravelmente entre todos nós.
Como sempre, eu e ocupávamos os primeiros assentos na ponta da mesa com nossos respectivos acionistas ao lado.

— Boa tarde. É sempre um privilégio tê-los reunidos. Agradeço a compreensão por termos convocado antes da reunião bimestral. Vamos lá! , por favor. - Passei a palavra para o homem ao meu lado.
— Muita coisa aconteceu e isso não é bem uma novidade para nenhum de nós, mas posso prometê-los que a investigação está a todo vapor e que até sabermos o desfecho desse pesadelo é questão de dias. - Esclareceu. — No entanto, no mundo dos negócios não podemos nos permitir parar e esta é a principal pauta desta reunião. - Levantou-se, fechando o paletó lentamente de forma que prendesse a atenção de todos em seu pequeno gesto. — A Magic não é uma revista comum, uma revista previsível e vocês já devem saber disso. Confesso que vimos alguns números despencarem, mas não há nada que possamos remediar, não quando apresentamos ao comitê a nova acionista e o Acionista Controlador.
— Senhoras e senhores, Melanie Vaughn é a mais nova acionista do comitê e Gareth ParenthWood, acionista controlador da Magic! Magazine.

Palmas soaram pela sala não muito animadas, devo dizer, exceto pelas de Antonella que sobressaíam as de todos presentes. Gareth pigarreou, chamando a atenção para um breve discurso.

— Não consigo descrever a sensação de ser e de, antes de qualquer coisa, me sentir designado pra este cargo, então agradeço à todo minuto. - Virou-se para mim, sorrindo doce. — Tenho certeza que colaborou para a minha promoção e agradeço igualmente. Não vou decepcioná-los. - Finalizou confiante, sentando-se, ouvindo palmas acanhadas dos acionistas.
— Não dizer algumas palavras, querida? - Antonella incentivou a nova acionista.
— Claro, tia.
Tia? - Blanché proferiu tão surpreso quanto .
— É como dizem: essa empresa é como uma família. - A loira deu de ombros, levantando-se. — Se tornar uma acionista é o primeiro grande passo da minha carreira sem papai e sei que vou crescer aqui, ver meu nome florescer, ser imponente como essa revista merece. - Tornou-se ao seu assento, brevemente, ao som das palmas solitárias de Antonella. Os rostos naquela sala transpareciam pura confusão, até mesmo de Nikki ao fundo, cheios de olhos semicerrados e sobrancelhas unidas. Seu discurso foi uma espécie de... Ameaça ao meu nome?

Um silêncio de instalou por alguns instantes e tomei a frente, sem muitas outras opções.

— Bom, Melanie está com o escritório que será de Gareth apenas até o fim desta semana, que já expira seu tempo suficiente até que se atualize sobre a empresa.
— Pensei que ficaria com o escritório. - Vaughn retrucou.
— Nenhum outro acionista tem escritório, precisava apenas observar. - Respondi simplesmente. — Alguma pergunta? - Vi Jim Phillips levantar a mão e assenti para que se expusesse.
— Se precisávamos suprir a falta de Choi no comitê, duas novas contratações não vão sobrecarregar ao invés de frear o fluxo de caixa?
— Sim e não. - iniciou. — Sim, porque a contratação direta de ParenthWood vai nos custar mais, mas não, porque achamos que tudo o que precisávamos também, era diversificar e tudo indicava a contratação de Gareth. Em compensação, sabem tão bem quanto nós que o tamanho do poder de Hideke era inquestionável, de forma que uma contratação isolada não faria muita diferença.
— Não é estranho que apenas quem tem uma espécie de relacionamento com os Diretores tenham sidos beneficiados nessa leva? - Jim perguntou em um tom insinuativo que nas poucas vezes que o vi abrir a boca nunca soaram.
— Isso não tem nada a ver com nossas vidas pessoais, Jim. Posso lhe assegurar, até porque raramente conseguimos contratar alguém sem o aval do outro. - Tentei manter meu tom razoável mesmo que já sentisse meu sangue bombear mais rápido.
— Senhorita , as manchetes eram repetitivas por toda a Nova Iorque e só estampavam você e Gareth aos beijos.
— Por mais humilhante que soe, me precavi sobre algum de vocês questionarem nossas decisões e trouxe todas as cartas com as respostas negativas que recebemos após ter um acionista morto. - proferiu firme, abrindo a pasta que não notei ao seu lado, com cartas de alguns –vários– escritórios renomados de Manhattan, exibindo-as.
— Tudo bem, senhor , infelizmente me parecem verídicas. Sinto muito, deve ter sido como procurar uma agulha no palheiro. - Jim ajeitou os óculos de grau ao rosto.
— Não. - Espalmei as mãos na mesa, levantando-me para encarar firmemente Jim. — Não quero que acredite nas minhas decisões apenas quando tiver uma pasta à tiracolo pra lhe apresentar um argumento forte o bastante que o convença. Jim Phillips, acredite na minha ética ou passe na minha sala para buscar sua carta de recomendação pra complementar outro comitê. - Engoli em seco, sabendo que aquilo poderia me custar caro, mas não caro o suficiente para deixar que qualquer um me questionasse embaixo de meus próprios olhos.
— Não gosto que usem deste tom comigo. - O americano disparou ultrajado.
— Acostume-se. Este é o tom que usarei sempre que questionar minha ética ou de , até que entenda que não é uma boa ideia fazer isso na minha empresa. - Retornei à minha cadeira, tirando de suas mãos a pasta de . — Se o que te incomoda é o tom, o que me incomoda é seu descaso, Phillips.
— Certo. - O americano arrumou-se em sua cadeira, ajeitando o nó da gravata que pareceu incomodá-lo um minuto para outro. — Não me expressei corretamente e reconheço. Perdão, senhorita .
— Nobre da sua parte reconhecer o erro, Jim, mas mais nobre seria não se repetir. E outra, não estou sozinha na Diretoria, deve desculpas ao igualmente.
— Tive uma colocação inapropriada, senhor ...
— Não se preocupe, Jim. Eu já entendi. - se adiantou, amigável demais com quem acabara de duvidar de seu trabalho.
— Bom, nos próximos dias o The New Yorker irá publicar alguns dos depoimentos que temos dado nos últimos dias sobre a investigação da morte de Hideke e queria deixá-los notificados que nada será alterado além do que dissermos a eles. - Informei, unindo minhas mãos encima da mesa. — Alguma objeção? - O silêncio pareceu consentir. — Perfeito. Declaro essa reunião oficialmente finalizada.

Gareth foi o primeiro a deixar a sala e precisei me apressar para alcançá-lo.

— Algum problema, ? - Me arrepiei ao ouvir o apelido em sua voz mais uma vez, de forma que parecia errado.

— O que aconteceu? Quase se atrasou para sua própria apresentação.
— Eu não estava me sentindo bem, mas não quis alarmá-la.
— Tente se acostumar. - Sorri encorajadora. — Daqui em diante isso vai acontecer muito, talvez tome a frente de algumas negociações também.
— Desculpe, serei mais cuidadoso. - Acariciou minha bochecha, mas precisei tirar sua mão dali, lembrando-me de outro assunto que precisava pontuar.
— Precisamos falar sobre essas “demonstrações públicas de afeto”. - Fiz aspas com as mãos. — Isso foi suficiente para duvidarem da minha integridade profissional hoje e de quebra quase me custou um acionista quando acabamos que achar um.
— Vai ser difícil, mas vou me policiar. - Sorriu ladino, não sabendo muito bem o que fazer com a mão que acariciara meu rosto, apenas mergulhando ambas no bolso dianteiro de sua calça social.
— Ah! Escolha o arquiteto para planejar seu escritório, ok? - Finalizei antes de retornar à Sala de Conferências para buscar as coisas que havia deixado para trás, restando apenas Antonella no cômodo enquanto revirava algo em sua bolsa.

Ouvia alguns murmúrios ao fundo e pareciam apenas os agradecimentos de Melanie aos cumprimentos de Blanché e Phillips, enquanto aguardavam o elevador. O pequeno grupo de acionistas embarcaou no elevador e deixaram o corredor em um silêncio cortante, mas que não me incomodava, ao contrário, até agradecia.

— Quero que saiba que faço enorme torcida por e Melanie. - A italiana comentou calmamente, parecendo –finalmente– conseguir organizar sua bolsa. — Espero que saiba que eles já são um casal.
— Espero que saiba, que apenas eles podem informar o relacionamento dentro da empresa, o que faz da sua “informação” apenas fofoca. - Orientei-a. — Confrontei nesta manhã, e ele nada confirmou. Passar bem, Antonella. - A deixei sozinha na sala, sem me importar se queria argumentar. E a quem eu queria enganar? Nunca me interessei realmente com as palavras dela.
— Senhorita ! - Nikki apareceu afoita, com Anna em seu encalço. — A senhorita precisa ir até o lobby. - Os rostos pálidos das secretárias não me permitiram sequer perguntar o que acontecia, apenas me apressei até o elevador com destino aos andares inferiores.

Com a agonia que me contagiara, o elevador pareceu demorar séculos e o único som ali, eram meus saltos que batiam ritmados no chão.
A porta do elevador se abriu e sem entender muita coisa, fui engolida por uma multidão de fotógrafos e seus flashs incessantes.
Criei força para atravessar a multidão, tendo como foco chegar até que estava tão cercado quanto eu e seu rosto vermelho me dizia que algo grave acontecia para deixá-lo furioso da forma que estava.

! ! - Gritou agoniado. — Diga a eles que eu estava aqui o tempo inteiro.
— O que está acontecendo? - Quanto mais nervoso parecia estar, mais flashs eram disparados em nossa direção, deixando-nos cegos. Alguns repórteres também tentavam colher alguma informação, com seus microfones intrometidos.
, você está preso, acusado de matar Hideke Choi. - Dominique Burke proferiu firme, mantendo os pulsos de junto de suas costas, algemando-o. — Temos um mandado de busca para o escritório dele. - Entregou-me um envelope, logo fazendo sinal para que uma dupla de policiais avançasse até o elevador.

Tentei me movimentar em meio ao glomerado de jornalistas que pareceram potencializar seus flashs, quase que nos cegando por completo, nos sufocando com perguntas descabidas e gravadores ao nosso redor, como verdadeiros urubus na carniça.
Urubus sensacionalistas.
Pouco conseguir me mover em meio ao amontoado de pessoas, já que boa parte de minhas forças se esvaíram ao ter que assistir ser preso diante de mim.

, tem o direito de permanecer calado ou tudo que disser pode, e será, usado contra você. - Puxaram-no brutalmente, como um animal doente que ia para o abate e essa injustiça doía como se fosse diretamente em mim, e que de certa forma, era.
— Abel, o que está fazendo? - Gritei esganiçada ao ver seu rosto em meio àquele pesadelo.
— Estou fazendo o meu trabalho. - Limitou-se, de maxilar travado, puxando seu melhor amigo para fora do prédio.
— Não diga nada. Vou te dar o melhor advogado do país. - Sussurrei o mais próximo que pude chegar de , ainda que Abel nos encarasse como quem queria nos dizer algo que não consegui captar, sendo arrastado como um criminoso até o carro de polícia.

Antes de adentrar o veículo, me olhou e foi a pior coisa que poderia ter feito. O resto das minhas forças se dissiparam apenas com seu olhar que era de longe, a pior forma que já me olhara. Um buraco se abriu em meu estômago, uma pane dominou minha mente e meu coração parecia não saber em que ritmo bater, ou bater de qualquer forma: estava preso e não havia nada que eu pudesse fazer.
Saí dos devaneios quando senti uma mão firme nas minhas costas, era um dos seguranças do prédio que abria espaço para que eu passasse. Os passos até o elevador nunca foram tão longos e como em uma areia movediça, quanto mais eu me mexia, mais eu parecia me afundar.
Ouvia perguntas absurdas em todas as direções, flashs cada vez mais invasivos e algumas mãos gananciosas me puxavam, estourando as poucas pulseiras que tinha em meu pulso. O segurança impulsionou-me no elevador e se esforçou para que ninguém passasse até que se fechassem as portas, aguardando ansiosamente que se fechassem sentindo os flashs me chicotearem.
Fui direto para o último andar onde nossas salas ficavam, sem saber se teria coragem de verificar os demais andares da revista. Segui o lado contrário à minha sala, sem poder avançar muito e logo sendo impedida por faixas policiais que isolavam as proximidades da sala dele. Um guarda estava apostos ali também, exibindo seu revólver orgulhosamente enquanto vigiava a sala do homem mais doce que já conhecera.
No corredor haviam caixas e mais caixas empilhadas com as coisas do meu co-worker e céus! Isso me agoniava de uma maneira que chegava doer. Era nítido que nem nos meus piores pesadelos seria capaz de algo dessa magnitude e pelo contrário, ele sempre foi uma das pessoas de mais impecável índole que tive a sorte de conhecer, senão a mais incrível de todas elas.
Era mais fácil acreditar, que se pudesse, teria morrido no lugar de Choi, ao invés de tê-lo matado como o acusavam. Era uma injustiça: pura, covarde e nojenta. A pior delas.

— Qual será o destino da revista agora, senhorita ? - Ouvi a voz desconhecida soar assim que abri a porta da minha sala e precisei respirar fundo, entendendo que não estava delirando. — Vai presidir sozinha? vai apodrecer na cadeia? - A jornalista insistiu, enquanto eu tentava desviar de seu microfone que apontava em minha direção, com uma câmera pequena direcionada a mim da mesma maneira.

Me esgueirei como pude tentando driblar suas perguntas estúpidas, adentrando minha sala em passos ágeis, mas fui impedida de trancá-la quando esticou o braço que segurava a câmera, para dentro. Fui até a mesa vazia de Nikki, puxando o telefone para chamar os seguranças do lobby, me mantendo calada enquanto não chegavam, porque se bem conhecia aquele tipo de jornalistas, se retrucássemos seria muito pior. As teorias da repórter se tornavam cada vez mais loucas e os passos apressados de três seguranças logo me trouxeram o pouco de calma que poderia sentir.
Que humilhação.
Meu co-worker estava preso injustamente, seu escritório lacrado para perícia, o meu invado por repórteres famintos, assassino de Choi ainda à solta... Era de enlouquecer qualquer um, inclusive –ou principalmente– a mim, já que as poucas coisas que realmente me afetam em cheio eram as diretamente ligadas a e vê-lo sofrer me deixava fraca e perdida como se estivesse vagando num deserto há meses. As paredes pareciam estar se movimentando e diminuindo a distância entre si, me esmagando de pouco em pouco.
Era infundado, desesperador, angustiante, desanimador, enlouquecedor e principalmente... Quase mortal.
Minha mente não trabalhava, não pensava, não reagia, apenas revivia o momento em que seus olhos me enfraqueceram como nunca antes.
Andava de um lado para o outro em minha sala, podendo ver através da janela de vidro atrás da minha mesa, as pessoas lá embaixo, tão pequenas e inofensivas como formigas, mas os flashs que ainda disparavam de suas câmeras demonstravam o quão desumanas poderiam ser.
Eu queria reagir, queria ajudá-lo, queria tirá-lo de lá, o queria livre... O queria aqui.
Também queria conseguir controlar e resolver imediatamente, porém tudo o que conseguia pensar escorria imediatamente pelos meus dedos antes que pudesse me agarrar a eles.
Eu queria gritar, como há tempos não fazia e queria chorar, como uma criança, sem impedimentos.
Empurrei tudo o que estava em cima da minha mesa em um lapso de repulsa a mim mesma, sentindo o choro rasgar minha garganta à medida que meu corpo perdia o esforço para se manter de pé.

! ! - Senti os braços de Blair abraçarem minha cintura, enquanto se agachava até mim. — Vamos conseguir resolver isso, ele é inocente.
— Eu... - Solucei, respirando entrecortado. — Eu não sei o que fazer, Blair.

Quando se tratava de , eu só me sentia impotente.

NAMAS¹: Em 2007, a organização do Emmy Awards criou uma organização de membros da classe dedicada à Mídia, chamada de National Academy of Media Arts & Sciences (NAMAS), premiando os mais promissores da categoria anual dos meios de comunicação social.




Continua...



Nota da autora: Hello, hello! ;D Como estão? Espero que muito bem, porque eu estou ótima!
Primeiramente: FELIZ ANO NOVO PARA NÓS! A primeira att de 2020 veio do jeitinho que a gente gosta: com momentos do nosso casal, pisões dessa PP dona do mundo e claramente, aquele drama que me doeu horrores por escrever. Sério! Acreditem em mim! HAHAHAHAHAHA
Estava pensando aqui, e queria deixar avisado que se sofrerem com essa att, peço encarecidamente que se preparem para as próximas porque apesar do grande amor que têm, esse casal ainda vai passar por poucas e boas.
Em segundo lugar, preciso esclarecer também que a tt demorou horrores e a culpa é toda dos Ficstapes e Especiais no site porque estou em 80% de todos eles. Pra onde vocês olharem... EU ESTAREI LÁ!!!! HAHAHAHAHA Temos também uma beta nova, que é um doce! ♥ Sem contar as leitoras novas, que são muitaaas e que me deixam de queixo caído com comentários, indicações e etc, etc. Tudo o que fazem por BOSSY, fazem por mim também ♥
Como de costume, obrigada por lerem, e principalmente comentarem, me derreto sempre! A sumida voltou!
Um agradecimento especialíssimo à Karolyne Cox>, uma autora novinha no site, mas uma amiga minha de anossss e total responsável por me convencer à tirar BOSSY do papel. :,)
Beijos, se cuidem e até a próxima att!
XOXO ♥



Nota de Beta:Que atualização maravilhosa, viu? Mesmo com todo o sufoco que foi ter o nosso querido Cox levado preso, preciso dizer que me deixou bastante feliz essa att (sem falar na Melanie achando que tem poder, né?? Nada a ver).
Amei que a Emma conheceu o Tom, achei super divertido que a Blair contou "fofocas" pra ele rsrs. Mas espero que resolvam logo essa questão com a prisão do Dario, quero só ver como a Emma vai fazer pra livrar ele disso.
Não vejo a hora da att, Lívia.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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