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Última atualização: 26/05/2020

Capítulo 1

Tem um bebê ao meu lado. Eu não sei como ele veio parar aqui, mas tem um bebê do meu lado. Na verdade, eu sei, ele acabou de sair da minha vagina depois de quatro horas de empurra-empurra, o que os médicos dizem que foi consideravelmente rápido tendo em vista que ele é meu primeiro filho e antes disso nada saiu da minha vagina. Eu fiz um “trabalho fenomenal”, eles disseram. Pra ser sincera, eu não lembro direito de muita coisa, só das enfermeiras me incentivando a empurrar enquanto um médico ficava com a cabeça entre minhas pernas, esperando uma cabeça sair dali. Não doeu tanto quanto eu imaginava, ou talvez tivesse doído muito, mas eu estou completamente imune a qualquer coisa. Inclusive ao bebê ao meu lado.
Assim que ele saiu de dentro de mim o médico perguntou se eu queria segurá-lo. Eu disse que não, de jeito nenhum, eu só queria dormir por um longo tempo e assistir aquele programa em que umas pessoas aleatórias iam procurar uma casa de verão para comprar. Às vezes era na Espanha, as vezes na Jamaica, e eu absolutamente ficava me matando para descobrir qual casa eles iam escolher, era fascinante como uma premissa tão simples pudesse ser tão viciante. Levaram o bebê e eu não perguntei se ele tinha cinco dedos em cada mão e pé, ou se tinha nascido com os órgãos no lugar certo. Eu só perguntei se podia dormir um pouquinho e quando acordei procurando pelo controle remoto, lá estava ele: embrulhado em uma manta que parecia bem confortável, com uma touquinha azul e bochechas rosadas. Ele emitia uns barulhos estranhos, eu não sabia se ele estava com fome ou tentando falar alguma coisa, mas bem, não me importava muito. Fechei meus olhos e tentei me concentrar o suficiente para esquecer que aquela criança havia saído de mim, morado em mim, e agora estava ao meu lado. Quando ele estava dentro de mim era bem fácil ignorar sua existência. As vezes ele chutava, as vezes doía, mas eu não me importava muito: Era só fechar os olhos e contar até o sentimento desaparecer. As vezes eu me sentia mal por me sentir completamente imparcial em relação ao meu próprio filho, mas eu não podia controlar como me sentia sobre ele do mesmo jeito como não podia controlar todas as outras coisas da minha vida.
Contei até dez. Depois até cem. Torci para não chorar, mas sabia que era impossível porque eu gosto de chorar. Chorar era meu trabalho preferido. Eu devia ter me formado nisso na faculdade. Eu poderia ser uma grande mestre na arte de chorar. Poderia dar palestras, publicar vídeos no youtube, até chorar em grandes programas televisivos e…
- ! Eu vim o mais rápido que pude - Ouvi a voz conhecida e um tanto perturbadora me acordar do transe. Eu não queria que Mia soubesse que o bebê havia nascido. Eu não queria que ninguém soubesse que o bebê havia nascido. Quem poderia ter avisado pra ela? - Uma enfermeira me ligou. Aparentemente eu sou seu contato de emergência - Ela sorriu ao parar a minha frente. Eu não a via há uns, sei lá, seis meses. E sua presença era bem desagradável.
- Você não precisava ter vindo - Falei sem muita animação ao me ajeitar na cama. Nada de programa inútil sobre casais na Espanha para mim.
- Claro que precisava! - Ela falou um pouco mais alto, apenas para receber um murmúrio de desaprovação da criança ao meu lado - Ai, meu Deus! Que coisinha mais linda, !
- Fala mais baixo, pelo amor de Deus.
- Desculpa, eu estou tão empolgada! - Mia falou mais uma vez - Posso segurá-lo?
- Fique à vontade.
Eu não olhei para a cena, na verdade meus olhos caíram para a porta entre aberta. Por lá vi Alex, filho de Mia, meu sobrinho. Ele estava sentado em uma cadeira de metal, seus pés não tocavam o chão e ele parecia chateado. Seus cabelos estavam maiores do que eu lembrava. Fazia tempo que eu não o via, o que me chateava, mas fazia tempo que eu não via ninguém da família. Todo mundo tinha um jeito de lidar com a dor e, no meu caso, meu jeito era ficar sozinha, remoendo cada sentimento que um dia eu já tive, bom ou ruim. Eu não queria ver ninguém, falar com ninguém, e tirando idas ocasionais aos médicos, eu não saia realmente de casa. Minha sogra às vezes passava lá em casa e deixava algo para comer, ou meu cunhado tentava ir me visitar, mas normalmente eu não o respondia. Essas são as vantagens de se morar no fim do mundo. E Mia sempre parecia feliz demais quando nos falávamos por telefone, e era tão falso que me fazia sentir vontade de vomitar. Ela sempre foi mais forte do que eu, claro, então realmente existia a chance dela estar bem com tudo que estava acontecendo. Desde que nos entendemos por gente, Mia lidava melhor com as notícias ruins do que eu, ela sabia contornar as situações, eu não sabia e, nesse caso, não havia muito como contornar.
- Ele é lindo! - Mia apenas falou ao beijar o topo da cabeça do bebê.
- Por que o Alex não quis entrar?
- Ele está um pouco chateado hoje - Ela contou, balançando a criança no colo - Sabe como ele gosta de ser o centro das atenções e tudo mais.
- Mas ele não quer falar comigo?
- Vocês vão ter muito tempo pra conversar. Nós vamos morar com você! - Eu não sei se desmaiei ou se comecei a chorar, mas sei que Mia ficou desesperada e demorou um tempão para que eu me acalmasse. Eu achei que eles fossem levar a criança dali para me dar espaço e me acalmar, mas ninguém veio. Malditas enfermeiras britânicas - Você precisa de ajuda, , de verdade. Os primeiros meses do Alex foram horríveis e eu tinha ajuda, bem, a sua ajuda e do James…
- Eu posso fazer isso sozinha.
- Eu sei que você pode, mas eu não acho que você deva. E além do mais, eu tenho uma promessa a cumprir.
- Eu amo você Mia, eu juro que amo, e amo o Alex também, mas eu preciso ficar sozinha.
- Olha, … Você nunca vai estar sozinha agora, querendo ou não. Você tem o bebê, e ele precisa de você. Eu e o Alex queremos te ajudar.
- Ele parece realmente feliz em me ajudar - Comentei sem muito ânimo, respirando fundo e limpando as lágrimas que haviam caído sem permissão.
- Ele tem medo do Jim voltar e ele não estar lá para recebê-lo. Eu disse que isso não aconteceria porque…
- Porque ele não vai voltar - Minha voz falhou e Mia só pode respirar fundo, colocando o bebê de volta no berço.
-
- Mas é apenas a verdade. E honestamente, não acho que seja muito saudável tirar ele de casa e dos amigos num momento merda como esse.
- Nós falaremos sobre isso depois, tudo bem? - Ela sorriu e assentiu com a cabeça - Você precisa descansar.
Ela começou a andar, saindo de perto e indo para a direção de Alex, quando lhe chamei mais uma vez. Meu peito estava inflado, prestes a explodir.
- Você pode ligar a televisão?
Depois que Mia saiu eu pude dormir mais um pouquinho. Logo trouxeram meu almoço e vieram checar se eu estava bem. O bebê chorou algum tempo depois para ser alimentado e uma enfermeira me ensinou passo por passo de como fazer com a animação de quem havia visto um filme do Woody Allen, péssima. Logo ele começou a chorar e eu não sabia o que fazer, era desesperador e eu só queria que ele ficasse quietinho e voltasse a dormir. A enfermeira garantiu que eu ficaria bem, só precisava de prática, e ficou ao meu lado o tempo inteiro até o bebê arrotar. Depois ela foi embora e eu fiquei sozinha com aquela criança do meu lado, finalmente assistindo meu programa de TV em paz. Minha sogra me ligou, minha mãe e pai também, e meu cunhado jurou que viria nos visitar assim que pudesse. Todos pareciam alegres e contentes, demandando fotos da criança, perguntando detalhes que eu não sabia. “Quantos quilos ele tem? E que horas ele nasceu?” Meu Deus, quem grava essas coisas? Mia ficou encarregada de responder todos por mim, de avisar ao mundo que o bebê havia chegado, já que eu só queria dormir. Eu não sei que alegria o nascimento de meu filho poderia trazer o mundo, e claramente estava trazendo, porque a mim… Bem, era só um vazio. Um baita vazio.
- Qual será o nome dele? - Mia perguntou no fim daquele dia. Alex agora jogava alguma coisa em um aparelho esquisito. Ele ainda não havia entrado para falar comigo.
- Não sei.
- Claro que sabe. Você e o tinham um nome em mente, não tinham?
- Faz muito tempo. Eu não lembro se nós chegamos a uma decisão final.
- Tudo bem, vamos deixar o nome para depois. Por enquanto o chamaremos apenas de bebê.
Nós voltamos para casa na manhã seguinte. Eu queria ter ficado mais tempo no hospital, sendo medicada, sem ter de trocar fraldas e todo o resto. Apesar das enfermeiras serem meio esquisitas e pouco prestativas, eu preferia ter ficado lá por muito tempo, mas meu seguro só devia cobrir uma noite no hospital então era melhor não brincar com a sorte e ir pra casa. No fim, era bom ter Mia já que ela poderia fazer o “trabalho sujo” enquanto eu dormia. No caminho para casa Alex parecia mais triste ainda do que no dia anterior e eu me sentia muito culpada no fim das contas. Ele tinha sua casa, sua vida em Londres. Por mais que ele ainda fosse pequeno em seus quatro anos, ele já sabia muito e sabia bem que deixar Londres era um erro. Foi isso que eu disse a anos atrás quando nos mudamos para Brighton, logo após nos casarmos. Ele sempre gostou de lá, ele gostava das praias e do clima de cidade pequena que Brighton possuía. Tudo bem que ele foi criado na Califórnia, por mais que tivesse nascido na Inglaterra, então ele sentia falta da praia e todo o resto. Por amor eu deixei meu apartamento adorável em Canary Wharf para uma casa exagerada perto da praia, onde poderíamos ter cachorros e muitos filhos. Claro que nada disso aconteceu, quer dizer, nós não chegamos a ter nenhum cachorro e agora tínhamos um filho, com a pequena diferença de que ele não estava lá para ver nenhum dos nossos planos virarem realidade.
Era sempre deprimente voltar para lá, porque ele não estava lá, então todo cômodo parecia muito vazio e grande. Quando tudo aconteceu todos os nossos parentes ofereceram que eu morasse com eles, mas assim como Alex eu queria me apegar a esperança que um dia voltaria para mim e se eu não estivesse em casa, ele não conseguiria me encontrar. Era idiota porque seis meses se passaram desde que ele se foi e ele ainda não voltou, nenhuma parte dele voltou para casa.
- Caramba, , como você consegue viver assim?
A casa estava super bem arrumada, porque eu não tinha muito a fazer a não ser arrumar a maldita casa. Foi assim que eu tive minhas primeiras contrações: Eu estava passando pano no chão quando a bolsa estourou. Super comum, aparentemente ficar maníaca por arrumação é comum quando se está prestes a parir.
- Assim como?
- Sozinha aqui. É enorme! - Ela reclamou - Onde estão as coisas do bebê?
- Não tem muita coisa…
- !
- O berço está montado, pelo menos - Dei de ombros, observando Alex ir até a sala e se sentar no sofá, ligando a TV em seguida.
- Você pediu a sua tia se pode ligar a TV, Alex? - Mia questionou o menino que se virou, meio mal humorado.
- Minha casa agora - Ele se resumiu a falar e tudo que Mia pode fazer foi suspirar, meio derrotada.
Eu fiquei em casa com o bebê enquanto Mia e Alex foram fazer compras. Fraldas, todas essas coisas de bebê, eu não tinha muita coisa. Tudo era basicamente o que eu comprei durante os três primeiros meses de gestação, quando e eu estávamos loucos e comprávamos tudo o que víamos pela frente. Ele era mais fanático do que eu e adorava comprar coisinhas de bebê. Todo dia quando chegava em casa ele vinha com algo novo e estava sempre muito, muito empolgado. Ele queria ser pai mais do que qualquer outra coisa naquele universo e por isso era tão injusto que eu estivesse vivendo esse momento sem ele.
Quando Mia chegou, trazendo sacos e sacos de coisas, o bebê estava chorando. Chorando muito. E eu não sabia o que fazer. Era assustador porque eu sabia que ele estava sujo, dava pra sentir o cheiro, mas eu não sabia o que fazer. Eu comecei a chorar em desespero também porque eu não lembrava como trocar uma maldita fralda. Mia logo pegou o bebê e Alex ficou parado, olhando pra criança e perguntando a si mesmo o que ele tinha feito para merecer perder seu pai e ter de morar com sua tia maluca e seu primo. Pobrezinho.
- Você sabe trocar uma fralda, . Você sabe. Não precisa chorar.
- Não sei, não.
- Foi você quem me ensinou a trocar as fraldas do Alex, lembra? Foi você! Você sabe fazer essas coisas, , só precisa se acalmar - Ela me consolou, mas foi meio inútil.
- Eu não quero esse bebe, Mia. Eu não quero nada disso - Continuei a chorar e Mia suspirou, olhando para mim.
- Ei, . Respira fundo. Você tem esse bebê e nada no mundo vai tirá-lo de você, então melhor se acostumar com ele e se apaixonar por ele, ouviu?
- Eu achei que nada no mundo fosse me tirar o , também.
- Você não vai falar sobre isso agora. Não enquanto seu filho está todo cagado.
- Mamãe falou palavrão! Mamãe falou palavrão! - Alex celebrou, mostrando um pouquinho da criança alegre e divertida que era. Continuei a chorar por um longo tempo, sem conseguir parar, e Mia resolveu que era melhor dar um banho no bebê. Fiquei com Alex na sala que parecia assustadora e vazia e o menino de olhos escuros veio até mim, sentando em meu colo e me dando um abraço bem apertado.
- Eu também sinto falta do papai, Tia. E do tio também.
- Me perdoa por te fazer morar comigo, Alex - Chorei e ele fez um barulho engraçadinho como se negasse.
- Eu gosto de morar com você, tia. E eu gosto do primo Liam, ele chora muito, mas ele é legal.
- Liam? Da onde você tirou esse nome?
- Tio me disse que o nome dele era Liam.
- Quando? - Fiquei sem ar, sem fôlego, tonta.
- Quando ele foi embora - Foi a vez dele respirar bem fundo. Pelo menos ele lembrava do nome do meu filho. Tentei buscar calma, buscar força, mas não consegui direito. Ele me deu um beijo na bochecha e sorriu - Não fica triste, tia. Eu te amo, tá bom?
- Tá bem, meu amor.


Capítulo 2

Alex veio como uma surpresa. Eu me lembro bem como ele chegou, embrulhadinho em sua manta azul, um verdadeiro presente dos céus. Nós não esperávamos por ele, mas o queríamos mais do que tudo.
James, meu irmão mais velho, nunca foi um verdadeiro namorador. Ele era o oposto de galã de cinema mesmo sendo extremamente bonito - quer dizer, ele era terrível até aprender a tornar suas sobrancelhas em duas coisas separadas, não em uma união de pelos. Enfim, Jim não tinha muita sorte com garotas até seus vinte e tantos anos, quando finalmente sua vida começou a dar certo. Ele era jornalista, daqueles bem bons que escrevem resenhas bonitas e aparecem em jornais importantes. Com vinte e oito anos, James arranjou esse emprego ótimo no maior jornal da inglaterra, o Telegraph. O único grande problema era que James não sabia lidar muito bem com pessoas e logo passou a odiar essa garota que trabalhava com ele. Nessa época eu, em meus vinte e dois anos, morava em Los Angeles com a ideia idiota de que seria uma atriz de verdade, daquelas que ganham o oscar e se casam com atores famosos. James tinha essa carreira mais pé no chão, mesmo que arriscada ao mesmo tempo, e vivia viajando com essa tal garota a trabalho, a garota que ele odiava mais do que sua própria vida. Então um dia, quando fui lhe visitar, ele marcou de me encontrar num restaurante após seu trabalho e me deixou mofando por horas a fim, até que ele chegou trazendo uma garota. Garota essa que se chamava Mia.
- Eu achei que você a odiasse - Falei para Jim assim que Mia saiu para ir ao banheiro.
- Eu a odeio - Ele respirou fundo - Mas tem algo nela que eu não sei explicar, … Ela… Ela pode ser insuportável e arrogante, mas… Toda vez que eu estou com ela eu quero ser melhor, quero trabalhar mais, ser uma pessoa melhor.
- James, você quer ser mais importante na vida ou quer uma namorada?
- Posso ter os dois? - Ele piscou e logo depois Mia chegou. Os olhos dele brilhavam e os de Mia também, mas naquele momento eu não esperava que três anos depois Mia e ele fossem ter Alex e fossem se apaixonar de verdade. Pra mim, os três ainda eram uma surpresa um tanto surreal, mas que no fim das contas foi bem vinda.
Mia logo voltou com o bebê no colo. Ele estava acordado, para minha tristeza, mas estava cheirosinho quando foi colocado em meus braços. Foi a primeira vez que eu realmente vi o meu filho: Vi seus olhinhos esbugalhados, suas bochechas muito rosadas, seus cabelinhos loiros ainda meio molhados e bem penteados para frente. Ele era bem cabeludo, considerando o fato de ser um bebezinho ainda. Não tão cabeludo quanto Alex, que nasceu com tanto cabelo que Mia conseguiu prender em um pequeno coque quando ele tinha seis meses. A realização de que aquela criança, minha criança, era realmente um pedaço meu e de me deixou um tanto tonta e foi bem difícil voltar a realidade - o que eu apenas fiz quando Alex veio até nós e beijou a testa do primo, brincando com ele.
- Boa noite, primo Liam e Tia - Alex falou ao se afastar e Mia parou por um segundo, meio assustada.
- Liam? - Ela questionou um tanto assustada.
- Sim, mamãe, o tio me disse que o nome do bebê era Liam.
- Disse?
- Quando ele foi viajar pro céu e pediu pra cuidar da tia e do primo Liam - Alex terminou de contar sua história e sorriu para a mãe - Eu vou cuidar deles, mamãe, vou sim.
- Claro que vai, meu amor - Mia pegou o bebê no colo e lhe deu um beijo - Eu já volto - Anunciou ao me deixar sozinha mais uma vez, por mais tempo que deveria, e quando voltou Liam parecia dormir calmamente.
Que bebê lindo eu tinha. Era estranho, porque ele era meu, e eu não o queria, mas isso não tirava o fato de que ele era lindo. No pouco tempo em que Mia esteve fora eu pus o bebê para dormir em seu bercinho e sai em busca de uma foto. Apenas uma foto. Eu só queria comprovar uma coisa.
Quando se está em negação você pode fazer duas coisas: Ignorar completamente o fato e viver como se nada tivesse acontecido ou fazer o total oposto. Eu, por acaso, vivi como se ele nunca tivesse saído de perto de mim por um dia sequer. Então ver suas fotos não fazia parte da minha rotina, porque em minha mente ele não havia realmente partido e eu beirava a insanidade com a ausência cortante que causava.
Mas eu quis ver sua foto aquela noite, eu queria comparar se aquele bebê dormindo no bercinho que havia escolhido era parecido com seu pai. Demorou um tempo mas achei a foto de em sua infância, que sua mãe havia mandado para nós assim que descobri estar grávida - ou teria sido para o vídeo cafona de nossa festa de noivado? - enfim, eu achei a foto e levei até Liam, colocando a foto ao seu lado. Mia, para meu azar, chegou na hora.
- O que você está fazendo?
- Teste de DNA, eu acho - Sorri, meio idiota. Mia caminhou até mim e analisou a foto- Olha como eles se parecem!
- Sim, ele parece a versão mais bonita do , nem precisava de fotos para comprovar - Ela disse ao se separar, beijando minha bochecha - Acho que nossos homens nos deixaram com suas pequenas versões, aqueles filhos da puta egocêntricos - Acabamos rindo, porque realmente era verdade. Alex era a cópia cuspida de James e isso era óbvio desde o dia em que ele nasceu. Eu não estou brincando: No dia em que Alex nasceu, e eu tivemos que sair do quarto para rir do fato que não havia nada de Mia naquele bebê. Ele tinha os cabelos de James, o formato do rosto de James, e quando cresceu tinha o sorriso de James. Olhar para ele era doloroso agora que eu não tinha meu irmão, mas era um alívio ao mesmo tempo já que de certa forma eu sempre o tinha. A ideia de que meu bebê seria isso, seria o que Alex era, uma lembrança de seu pai, me doeu bastante - Agora vamos dormir, você deve estar exausta e já já ele acorda.
Mia dormiu comigo, o que era muito estranho porque nós nunca dormimos juntas antes. E, na verdade, nós mal dormimos porque Liam acordava o tempo inteiro, chorando de fome, carência, porque estava cagado ou por qualquer outro motivo bebês acordam para irritar seus pais. Alex às vezes aparecia no quarto e pedia por silêncio, voltando para cama depois de bater a porta bem forte, e quando o sol nasceu eu estava exausta. Mais exausta do que fiquei quando pari Liam. Mais cansada do que fiquei nas noites em que esperei seu pai voltar. Na manhã seguinte eu estava um caco, e foi exatamente nesse dia que minha sogra resolveu aparecer. Eu nunca tive um relacionamento ruim com ela, mas agora que estava morto eu realmente não queria vê-la. Quando uma mãe perde um filho ela fica louca e quando uma mulher perde seu marido, ela fica louca também. E eu estava louca, e Leslie também.
Ela era bonita para sua idade, sempre bem elegante e reservada, mas agora ela vivia destrambelhada, chorando e fazendo parte de retiros espirituais, onde dançou pelada e chamou pela lua.
- Meu Deus, , como você consegue viver assim? - Ela me perguntou assim que entrou em casa. Eu não entendi porque a pergunta inicialmente - Onde está o meu neto?
- Aqui, vovó! - Alex chamou, pulando do sofá e saindo correndo até ela. Ele não era oficialmente neto de minha sogra, mas como minha mãe morava na Argentina e passava pouquíssimo tempo com o neto e os filhos, Alex meio que se agarrou em Leslie.
- Olá, pequeno príncipe - Ela disse ao agarrar o menino, que sorriu com o carinho. A cena me fez sorrir porque, por alguns segundos, tudo pareceu normal - E onde está o seu tio , bonitão?
As palavras de Leslie não foram intencionais ou maldosas. Ela realmente não sabia a onde estava e quando percebeu o que falou, colocou Alex no chão e tentou agir como se não estivesse a beira das lágrimas. Alex ficou em silêncio e eu não pude fazer nada a não ser respirar fundo, secar minhas lágrimas e correr para pegar o bebê, o usando como escudo. Leslie não conseguia parar de chorar e era meio meloso, bem chato na verdade, porque eu não sabia lidar. Eu queria que ela fosse embora. Eu queria que ela nunca tivesse vindo em primeiro lugar. O jeito como nos olhávamos, o olhar de pena que trocamos, era bem doloroso.
- Ele se parece tanto com o - Leslie chorou um pouco mais ao beijar o topo da cabeça do neto. Mia concordou - Me sinto quase num dejavu, quando ele era… Pequeno… - Ela chorava mais e mais - Tão lindo, tão frágil… Meu menino, ele era…
- Ei, que tal eu segurar o Liam por uns minutinhos? - Mia se ofereceu e os olhos protetores de Leslie se abriram.
- Liam?
- Sim, o nome dele… - Mia ajudou mas Leslie pareceu meio furiosa.
- Eu pensei que faria uma homenagem a - Falou, me olhando meio raivosamente - Era o mínimo que poderia ser feito em meio às circunstâncias…
- odiava o nome dele - Foi a minha vez de falar, sem nem um pingo de bom humor - Porque eu chamaria o nosso filho de se o pai dele odiava esse nome? Seria uma falta de respeito.
- Seria uma homenagem.
- Seria ridículo.
No fim das contas, acabei cedendo. O nome de Liam, no papel pelo menos, se tornou Liam . Era horrível, mas pelo menos era melhor do que ter o ódio eterno de minha sogra e toda a família . Definitivamente eu voltei a ser a pessoa preferida deles depois de enfiar um no meio do nome do menino. Mia nao teve esse problema, na verdade ela simplesmente acordou um dia e disse que o nome do bebê seria Alex. Jim concordou, já que ele e Mia não queriam ter um bebê antes disso e nunca pensaram na ideia de ter uma criança antes de Alex existir, então o nome dele foi decidido e todo mundo apenas fez “awwwn”. Quando eu disse que meu filho se chamaria Liam todo mundo fez “oooh” e perguntou se não era meio rude não homenagear o pai dele. Ei, eu sei, meu marido morreu. Não precisa ficar lembrando. Mas, aparentemente, todo mundo gostava de ficar lembrando já que o primeiro mês de Liam foi passado com visitas dos parentes de e dos meus, do pessoal do trabalho de Jim e , amigos de infância e gente que não importava. Todo mundo queria conhecer o bebê e julgar seu nome, queriam fofocar sobre a minha pobre vida ou algo assim. O primeiro mês de Liam foi como um borrão a onde eu sorria para as pessoas, agradecia as comidinhas que eles traziam e fingia adorar os presentes. Mia estava lá o tempo inteiro e Alex era o verdadeiro anfitrião da festa - ele adorava as visitas porque adorava receber toda a atenção do mundo. Um doce de garoto, o meu Alex.

Capítulo 3


Foi no fim do primeiro mês que eu percebi que não havia pensado em , ou em qualquer coisa que seja, por muito tempo. Me agarrei a ideia de não pensar nele e tentei seguir em frente, mas foi na primeira consulta médica que tive que percebi que não estava tão bem quanto pensava. Meu estado automático aparentemente não estava convencendo Mia - ou ninguém, que seja.
- Ela está com depressão pós parto - Mia disse sem pestanejar. Eu só pude a olhar em choque, pois eu tinha total certeza de que não estava com depressão pós parto.
- O diagnóstico de depressão pós parto não é...
- Eu estou te dando o diagnóstico - Ela falou com tranquilidade. Caramba, tem gente nesse mundo que totalmente me odeia.
- O que você acha disso, senhora ?
- Olha, eu estou bem. De verdade. Será que nós podemos ver a minha vagina agora?
Minha vagina estava ótima, no lugar que deveria estar, e Liam não chorou durante aquela consulta. E eu estava realmente bem, de verdade. O médico pediu para que eu voltasse em breve e me receitou algumas coisas, tipo vitaminas e coisas naturais.
O caminho de volta para casa foi intensamente desconfortável, já que Mia estava putissima comigo e Liam resolveu acordar. Ela esperou o momento certo para explodir e foi assim que colocamos Liam em seu berço e deixamos Alex cuidando dele. Deixar uma criança de quatro anos cuidando de um recém-nascido sempre é uma ideia genial.
- Você tem que acordar pra vida, . Sério. Já chega. Eu estou no limite com você - Ela exagerou, levantando suas mãos e articulando furiosamente.
- Eu estou ótima!
- Você só sabe responder que está ótima, que está bem, mas demonstra exatamente o contrário! - Ela grunhiu em sua frustração, sentando no sofá da sala e quase chorando. Me senti meio culpada porque Mia nunca chorava - Você sabe há quanto tempo eu estou morando com vocês?
- Uns… Cinco dias?
- Um mês. Um fucking mês. Você sabe quando a Lesley foi embora?
- Essa semana?
- Três semanas, .
- Puxa vida…
- Eu sei que você está sofrendo, eu também estou, mas nós não temos direito de ficar paradas no tempo sofrendo. Eu queria poder parar e chorar, mas eu não posso, eu tenho que ser forte…
- Ninguém tem de ser forte.
- Eu tenho. Por você, pelo Liam, pelo Alex…- Sua voz falhou, seus olhos choraram - Pelo Jim.
- Você não precisa ser forte por mim.
- Claro que preciso! - Ela grunhiu novamente - , pelo amor de Deus, você tem que acordar pra vida. Eu não aguento mais isso.
- Eu acho que vou pedir pizza de jantar, você quer algo?
- Seu irmão tinha razão sobre você.
- Sobre? - Ergui o cenho e Mia riu.
- Você se faz de sonsa, de sofredora, para conseguir as coisas dos outros. Ele sempre disse que você não era madura o suficiente, que você…
- Acho melhor comida chinesa… - E então Mia bateu a porta na minha cara e eu não entendi direito o porquê, mas foi bom porque pude pedir comida chinesa e estava uma delícia.

Para entender o meu relacionamento com Mia eu tenho que voltar no tempo, bem antes de tudo isso que está acontecendo agora. Quando Jim e Mia se conheceram, Jim e eu não estávamos no melhor relacionamento do mundo. Por mais que fossemos super amigos durante a infância e adolescência - bem, ele era seis anos mais velho então minha infância basicamente começava junto com a sua adolescência, mas Jim era bem legal e ele me tratava bem, me protegia e brincava comigo como um irmão de verdade. Nós éramos grandes amigos até ele sair de casa para estudar, o que era idiota porque nós morávamos em Londres e literalmente estávamos na capital do mundo, mas Jim quis estudar jornalismo em Edimburgo porque era trouxa. Enfim, nós continuamos amigos, mas nos afastamos, mesmo quando ele voltou. Ele se tornou um tanto protetor quando foi minha vez de entrar na faculdade, sempre indo às festas comigo e fazendo o papel de pai, o que era um saco e eu realmente passei a odiá-lo por um tempo. Nós quase não nos falávamos porque me irritava o fato dele ser minha sombra.
Jim se preocupava comigo, se preocupava com as minhas escolhas. Talvez porque nossos pais fossem tão relapsos, Jim tivesse tomado essa posição. Mas no fim das contas nem toda a superproteção de Jim me protegeu das minhas escolhas: No fim da faculdade - eu havia me formado em história - decidi que queria ser atriz. Foi uma decisão abrupta que me pegou desprevenida, mas que pareceu a coisa mais certa do mundo. Sem pedir permissão, arrumei minhas malas, tirei meu visto e me mudei para a Califórnia, bem longe de James.
Não era rebeldia, mas parecia certo para mim. A vida toda eu tinha seguido as regras. Estudado por longas horas, mantido meu cabelo bem arrumado, fazendo serviço comunitário na igreja e me mantinha longe de palavrões, bebida e sexo. Só que quando fiz 22 anos eu pensei: Porque? Porque eu estava perdendo minha vida enquanto meu irmão mais velho bebia feito um cachorro, nunca penteava os cabelos e usava palavrões a cada nova frase. Ele estava bem feliz e eu estava bem miserável. Então me mudei para longe dele, cortei o cabelo na altura do ombro, aprendi a passar maquiagem com uma Kim Kardashian bêbada numa festa e por fim, perdi a virgindade pra um cara chamado Mikael - ou pelo menos pensei que tivesse perdido, porque quando fui ao médico na semana seguinte ele disse que minha dignidade ainda estava lá. Mikael não era lá grandes coisas e eu não realmente gostava dele, o que era ruim, mas ele me levava para lugares caros e me apresentava a celebridades. E dizia me amar.
Quando o conheci, logo assim que cheguei em Los Angeles, não tinha ideia de quem ele era. Para mim, Mikael era apenas mais um ator tentando ganhar um papel numa audição aberta para o live show de Grease na Fox - ele conseguiu o papel principal enquanto eu era uma dançarina dos fundos. Na época eu não tinha ideia de que ele era filho de um dos maiores produtores de Hollywood e que basicamente não precisava trabalhar.
- Eu gosto de manter as coisas simples, - Ele falou ao mexer em seus cabelos aloirados, que mantinha perfeitamente penteados para trás num corte moderno para a época. Suas rugas eram um tanto proeminentes, mas ninguém falava nada - Um jantar à luz de velas em frente ao oceano, ou uma viagem ao campo a dois… Eu sou um homem muito simples, entende?
- Claro - Não, eu não entendia.
- Você tem ideia do que é ter tantas responsabilidades? Não, claro que não, você acabou de chegar na cidade…
- Eu tenho muitas…
- - Ele segurou minhas mãos logo em nosso primeiro encontro, olhando em meus olhos com tanta intensidade, me fazendo sentir como se eu fosse a única mulher no mundo - Eu sou um bom homem, não sou?
- Sim?
- Eu sou.
- Tudo bem, então - Não sabia o que responder - Bom saber.
- Eu e você - Pouco a pouco ele se aproximou de mim, seus lábios ficando a poucos centímetros de minha face. Meu corpo se arrepiou novamente em estupor, em choque. Era o primeiro homem que eu beijaria desde o ensino médio. E ele me beijou sem pressa, sem língua, sem nada. Foi estranho, mas pensei que fosse o jeito dos americanos. O engraçado foi que duas semanas depois quando conheci eu percebi que não era assim, nada assim. Beijos eram pra ser especiais. Beijos deviam te elevar para um nível de alegria ainda não conhecida. Durante todos os meus anos com , o que não foram muitos se você parar para pensar que eu e ele planejamos passar a eternidade juntos, eu ainda me apaixonava a cada beijo. A cada novo beijo, eu juro por Deus, eu me sentia como aquela garotinha de vinte e dois anos.
Por teoria, eu ainda estava com Mikael quando me apaixonei por - e meu relacionamento com Mikael demorou um tempo para chegar ao fim oficialmente. Por esse motivo e por muitos outros, Mia não confiava plenamente em mim. Ela sempre conseguia encontrar um motivo para me culpar, mesmo sem querer, e sempre parecia procurar uma razão para comprar que eu era de fato irresponsável e infantil. Por isso ela está pegando no meu pé do jeito que está. Só pode ser por isso.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.

Outras Fanfics: Hazel


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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