Última atualização: 21/11/2017

Capítulo 1.

- Ah, droga, droga, droga, merda! - gritei alto.
Isso tinha que estar acontecendo comigo e justo hoje.
Hoje eu tinha um super seminário pra apresentar na escola valendo 1/3 da minha nota. Segundo o professor, apresentar seminários nos prepara para o TCC, coisa que não me preocupa muito ainda, já que faltam dois anos pra acabar essa faculdade. Eu só vejo isso como uma forma de antecipar o sofrimento. Como se já não bastasse a porra desse seminário, eu começaria um estágio hoje. Começaria, coisa que eu não acho que vá mais acontecer já que a camisa da empresa antes branca agora está vermelha, graças a uma bendita meia e eu estou completamente atrasada pra faculdade. Como eu ia dizendo:
DROGA!.

(...)

- Caramba, ! - cochichou raivosa enquanto eu me sentava na cadeira ao lado dela.
- Eu sei, eu sei, eu me atrasei, mas eu estou aqui não estou?
- As duas senhoritas gostariam de compartilhar alguma coisa com a turma? - O professor olhou diretamente pra gente, Jesus, aquele homem era o cão.
Depois do pequeno sermão, o meu grupo apresentou e foi um total desastre, eu esqueci algumas partes e a fez o mesmo, os slides começaram a travar e a gente teve que terminar o seminário sem fotos ou vídeos. Recuperação em Economia era tudo o que eu precisava na minha vida, obrigado, Deus.
O sinal pra ir embora depois de 6 aulas soavam como um coral de anjos para os meus ouvidos, um coral de anjos e a porra de um aviso pra que eu não me atrasasse pro estágio.
- , vem almoçar com a gente. - Mark, A.K.A o namorado da , estava me chamando.
- Mark, eu realmente não posso, eu tenho esse estágio pra ir e eu já comecei ferrando o uniforme deles. Foi mal.
- Deixa a , amor, outro dia ela vai.- entrelaçou os dedos nos dele e eu automaticamente revirei os olhos, não que eu não goste dele, pelo o contrário, Mark é tudo que a sempre quis: ele é estudioso, carinhoso, tem paciência com as crises de ciúmes dela e compra tudo que ela pede, tudo até 20 dólares, mas compra.
O ônibus demorou, como de costume, mas não a ponto de me atrasar, eu estava confiante, com fome, mas confiante. Chegaria no horário certo, meu cabelo estava arrumado, dentes limpos, tudo em ordem, exceto a blusa do uniforme, mas eu daria um jeito, eu explicaria a minha supervisora o que aconteceu e dentro de poucos minutos eu estaria estagiando na maior empresa de publicidade de New York. . Entertaining.
Cumprimentei a recepcionista e apresentei meu crachá, que ela insistiu em conferir duas vezes devido a cor do meu uniforme ser duvidosa.
- Segura a porta pra mim! - Gritei para o menino aparentemente da minha idade que estava dentro do elevador. Ele me olhou correr para o elevador, mas não moveu um dedo para segurar a porta, por sorte cheguei a tempo de entrar. - Obrigado. - Disse sarcástica e de rabo de olho vi ele apenas erguer a sobrancelha, o ignorei e apertei o andar de número 7, mas no instante em que o fiz o elevador deu uma chacoalhada e parou.
- O que você fez? - O menino agora não tão desconhecido, me perguntou olhando pra mim, o que me permitiu reconhecê-lo.
- Eu não fiz nada.
- Mas é claro que fez! A gente estava subindo e você parou o elevador!
- Eu não parei nada! - Revidei no mesmo tom de voz nada baixo que ele usou comigo. - Deve ter acabado a energia ou sei lá o que.
- Ah que ótimo, mais clichê impossível.
- Nossa, você realmente é mal humorado como dizem.
- Como dizem quem, menina? Que merda você tá falando?
- Ah, cala a boca.
- Por que não cala você já que está falando desde que chegou aqui?
Nem me dei o trabalho de responder àquele garoto que, a propósito, estudava na minha faculdade. Pude reconhecê-lo depois que ergueu a cabeça para gritar comigo.
, eu conheço o indivíduo desde a 5° Série e o vejo sempre na mesma faculdade que eu. Nunca trocamos uma palavra durante todo esse tempo, ele era lindo, fato.
Era alto na medida certa, possuía cabelos e olhos , uma combinação que se encaixa perfeitamente misturada com uma personalidade de lixo. diz que ele foi tão babaca a ponto de terminar com a ex e fuder com a melhor amiga dela no mesmo dia, Mark diz que o cara é mal interpretado, eu não dava opiniões, até agora. Ele é um completo imbecil.
Já estávamos parados há mais ou menos 20 minutos quando escutei um barulho estranho vindo de .
Não me permiti virar e olhar, mas foi aí que ouvi o som pela segunda vez e parecia que ele estava… sufocando? Pela minha curiosidade não consegui me aguentar e virei pra ver o que estava acontecendo, foi quando me deparei com ele roxo em busca de ar.
- Ai, meu Deus! - A primeira reação que tive foi bater na porta do elevador.
- Socorro! Tem um rapaz passando mal aqui! Droga! - Em um gesto desesperado larguei minha pasta e a bolsa no chão e me agachei ao seu lado, batendo nas costas dele, esperando que ele cuspisse a droga de um chiclete entalado, ou algo assim, mas tudo que ele fazia era buscar incansavelmente por ar. Foi ai que eu reparei que ele não tirava o olho da porta, ele não estava engasgando, ele tinha claustrofobia.
- Você é claustrofóbico, ? - E no meio da falta de ar ele achou tempo para me martirizar só com um olhar, querendo dizer “Não é obvio?”
- Tá bom, foi mal. - Me coloquei na frente dele e segurei o seu rosto o colocando pra olhar diretamente pra mim. - Está tudo bem, meu pai tem isso às vezes, só olha pra mim, okay? Presta atenção na minha voz - consigo ver os olhos dele olharem os meus. - Respira fundo, solta o ar devagar, inspira, expira. - após fazer isso umas 3 vezes ele consegue se estabilizar e a cor volta pro seu rosto. - Você está melhor? - ele assente de olhos fechados.
- Hm, obrigado - Ele dirige a palavra a mim e eu percebo que ainda estou segurando o rosto dele e solto repentinamente.
- De nada. Ajuda se você tentar pensar em outra coisa e esquecer que está sem ventilação. - ele não parava de me encarar desde que recuperou o fôlego, totalmente sem graça me levantei pegando minha pasta e minha bolsa, me afastando o máximo dele que aquele cubículo permitia.
Eu estava nervosa, hoje era pra tudo ter corrido bem e está dando errado desde a hora em que acordei, e a porra desse calor insuportável aqui dentro não ajuda nem um pouco. Parece que não sou a única com calor, já que o cidadão que a pouco estava morrendo, agora está tirando a camisa.
- O que você está fazendo?
- Tirando a camisa, se eu fosse você eu fazia ou mesmo, ou vai morrer de calor. - Ele respondeu e suspirou fundo, eu queria olhar a barriga dele, mas eu não iria, não, não, droga, meu olhar abaixou rapidamente, porém foi o suficiente pra pensar Uau.
- Eu não vou ficar pelada na sua frente, .
- Você sabe o meu sobrenome e eu não sei nem o seu nome.
- Você nunca perguntou.
- Nem você e, mesmo assim, sabe. - Revirei os olhos pra resposta estupidamente perspicaz dele.
- .
- É o nome da minha gata. - Ele admitiu.
- Sério?
- Não. Qual gata se chamaria ? - ele deu um sorriso de lado e eu me permite sorrir daquela piada sem graça também.
- Pra uma empresa tão grande como essa eles estão demorando demais pra consertar esse elevador.
- Já ficou quebrado por mais de uma hora.
- Você costuma ficar preso no elevador daqui todo dia?
- Sempre que posso. - Sorri. - E você?
- Ah, essa é minha primeira vez. - Disse em um tom de brincadeira, me sentando também.
- Seja bem vinda, então.
Outro chacoalhado e as luzes do elevador se acendem e em poucos segundos ele começa a subir.
- Graças a Deus. - Plin. O barulhinho da porta se abrindo soa e desce no mesmo andar que o meu. Uma mulher extremamente elétrica com um celular no ouvido surge gritando.
- Vocês estão atrasados.
- É porque... - Tento argumentar, mas ela me interrompe.
- Sem desculpas, mocinha, me acompanhe. Senhor , também, seu pai não quer tratamento privilegiado. E veste essa camisa.
- Seu pai? - Me viro pra ele enquanto praticamente corremos pelo corredor seguindo aquela moça.
- Ah, ele é o dono disso aqui.
Ótimo.


Capítulo 2.

POV

- Então, aqui tem uma pilha de papéis de contratos e do limite máximo da data de entrega do que eles pediram, seja comercial, design de panfleto, exibição na timesquare, publicidades feita por artistas, etc. Tem tudo aqui nesses papéis, preciso que coloquem pra mim do mais atrasado ao que resta mais tempo. Conseguem fazer isso?
- Mas é claro, Sr. Sinclair. Te entregaremos tudo até às 18h.
- Eu espero que sim. Aqui nessa sala vocês tem café, doces, computador, pastas, impressora e meu telefone, só usem em caso de extrema importância, pois sou muito ocupada e odiaria dispensá-los por uma ligação. Estamos entendidos?
- Sim. - Respondi prontamente enquanto enchia a mão de amendoins. Recebeu um olhar de reprovação meu e da supervisora, mas pareceu não ligar.
Após ela deixar a sala me dei conta do trabalhão que tínhamos, separar documentos por data é a pior coisa que já inventaram, passaria a tarde lendo e separando papéis.
- Acho que a gente podia dividir essa pilha, assim você fica com a metade e eu também, o que acha? - Perguntei direcionando o olhar para o que não estava tão longe de mim.
- Tanto faz. - bufou pegando mais amendoim da mesinha. Dividi em partes iguais a pilha, ou pelo menos eu acho que sim e entreguei pra ele.
- Okay. Vamos nos concentrar e terminar o mais rápido possível. - Fui ignorada de novo, ignorada e substituída por uma música muito alta.
When you feel my heat, look into my eyes
Foco, . Ele escuta música na mesa dele e você trabalha em silêncio aqui.
It’s where my demons hide It’s where my demons hide
A Melodia cada vez mais alta se misturava com ele batucando na mesa.
Don’t get too close, It’s dark inside
Já tinha separado duas fichas que venciam dia 12/11. Ou era 12/12? O refrão vem mais alto.
It’s where my demons hide It’s where my demons hide
- ! - Gritei chamando sua atenção pra mim. - Eu sei que você deve amar Imagine Dragons e o caralho a quatro, eu não me importo se é sua banda favorita, os caras são bons, eu amo eles, mas eu não quero saber onde seus demônios se escondem e muito menos ouvir essa música alta agora. Então se você puder, por favor. Abaixa essa porra! - Disse tudo num fôlego só e ao terminar estava completamente vermelha de raiva e fiquei com mais raiva ainda quando ele riu. - Do que você está rindo?! - Perguntei com o fogo no olho de quem mataria ele agora se pudesse.
- Você fica muito engraçada brava. - Ele deu uma pequena gargalhada. - Tudo bem, eu abaixo, mas era só pedir não precisava ficar brava.
- Eu não estou brava.
- Você está sim. - Sorriu mais uma vez porém levantou as mãos em rendição- Foi mal, por mais cedo, sei que fui babaca lá no elevador. Eu vou abaixar.
Me surpreendi com a atitude dele. Fiquei sem saber o que falar. O que você fala numa hora dessas? “É você realmente foi um babaca” ou “Cala a boca, não finge ser bonzinho quando eu sei que não é” dentre as opções achei melhor dizer:
- Hmm, okay. Sem problemas.
O resto do dia correu bem, o elevador funcionou normalmente e não me irritou mais. Ganhei uma blusa de uniforme nova e meu ônibus passou na hora certinha. Exatamente às 18:33.
Cheguei em casa morta de cansaço, porém ainda tive disposição de ligar pra e contar como foi o dia, não tenho muita certeza de como a conversa acabou, a última coisa que me lembro é que estávamos falando sobre comida mexicana quando cai degradadamente no sono.


Capítulo 3.

Um mês se passou desde que comecei o estágio e reprovei em economia. A parte de reprovar ainda não aconteceu, mas eu sinto que vai.
Graças ao meu bom trabalho fui transferida para o setor criativo. também, mas graças ao pai. Nosso relacionamento era estável, eu não incomodava ele e ele não me incomodava, era o nosso trato. E apesar de passar praticamente 6h com ele em uma sala de escritório, na faculdade era como se nem nos conhecêssemos, o que não deixa de ser verdade. A gente não se conhece.
- Agora você vai ver isso aqui virar um verdadeiro caos. - Camila me disse jogando uma enorme caixa na minha mesa.
Camila também trabalhava no setor criativo e ficava na sala do lado da minha, ela não era tão mais velha, considerando que eu tinha 20 e ela 27.
- Caos? Por que caos?
- Ai , o Natal tá chegando. É agora que a gente fica cheio de trabalho pra entregar. Você vai ouvir tantas músicas de Natal e escolher entre tantas decorações pra essas empresas que não vivem sem a gente, que você vai desejar que o Natal não existisse.
- Eu amo o Natal.
- Vamos ver se até o final desse mês você continua pensando desse jeito. - Ela suspirou. - Última semana de novembro começa hoje. O que significa que estamos atrasados. A Sinclair mandou você se juntar com o e criar uma arte pra essas empresas da caixa, com frases marcantes e essas coisas. Anyway. Se precisar de mim sabe onde me encontrar. - Sorri desanimada.
Me juntar com o . Eu ia precisar de um milagre de Natal pra isso dar certo. Começando agora.
- . - Sacudi ele que estava dormindo deitado na mesa. – , acorda. A gente tá no meio do expediente.
- Hmm.
- , eu tô falando com você porra.
- Saco. - ele levantou. - O que você quer, ? - Ele gritou e na mesma hora eu me afastei e fui pra minha mesa.
- Nada, . Pode deixar que eu me viro sozinha.
- Mas que porra, vai ficar com raivinha agora? - Preferi não responder.
Tirei os papéis da caixa e liguei meu computador.
- Ah, droga. Foi mal ok? É porque eu estava dormindo e acordei nervoso.
- Você não pode gritar comigo sempre que quiser e achar que está tudo bem. Te acordei porque a Sinclair passou um trabalho pra gente, mas foi a última vez, da próxima você se explica com ela, com seu pai, ou pro caralho a quatro que você responde, se é que você responde pra alguém.
Ele suspirou.
- Desculpa. Eu…eu não vou mais gritar com você. - Arqueei a sobrancelhas e continuei tirando os papéis da caixa. - . - Me virei e olhei pra ele. - Foi mal.
- Whatever, pega um papel aí e monta uma campanha de Natal.
- Eu odeio o Natal.
- Entra na fila.

(...)

- O que você acha de “A manteiga de amendoim aprovada pelas renas” ?
Estávamos sentados na mesma mesa compartilhando ideias pra agilizar o serviço, quando ele disse a proposta e eu involuntariamente dei uma gargalhada.
- Foi mal. - Censurei o riso.
- Ah, , isso não vai dar não, eu não sou criativo.
- , esse é o setor criativo, como você chegou aqui se não é criativo?
- O velho me mandou pra cá. Você acha que eu pedi pra ficar na mesma sala que você de novo?
- Haha, muito engraçadinho. Usa a sua ironia pra manteiga de amendoim.
- Isso não faz sentido. Manteiga de amendoim não precisa de propaganda de Natal. Continua sendo o mesmo produto desde o começo do ano.
- Good Butter, a única manteiga de amendoim que o Papai Noel traz no saco de presentes. - Disse orgulhosa.
- Ah, que baita presente!
- Cala a boca e anota. - Dei um tapa no braço dele e ele sorriu.
- Eles não vão escolher essas ideias, né?
- Provavelmente não. - Gargalhamos juntos.
- Mas não é nossa culpa, a gente é só estagiário.
- Estagiários da parte criativa, a gente devia conseguir criar alguma coisa.
- Sinclair disse que você é bom no computador. Podia fazer uma arte sensacional pra cada marca, daquelas que não precisa nem de descrição.
- A Sinclair disse, foi? Hm, então estavam falando sobre mim.
- Não. Eu disse que ela precisava contratar mais um estagiário, um que soubesse mexer no photoshop e ela disse que não precisava, já que você tem vários cursos.
- Sei.
- Você não é tudo isso, . Pare de se achar. - Sorri colocando os pés pra cima da cadeira. Eu estava mentindo, ele era sim tudo isso, pelo menos de aparência. Mas ele não ia ouvir isso da minha boca nunca.
- Nunca diga "dessa agua não bebereis". - A voz dele dizendo isso me assusta considerando que acabei de pensar em nunca dizer que ele era boa pinta. Mas eu estava pensando então não tem a mínima chance dele ter ouvido mas mesmo assim me deixou pálida. - Você ficou pálida. A ideia pra marca de cerveja foi tão ruim assim?
- , essa ideia é péssima.
- Ah é oficial, eu desisto. Eu não nasci pra fazer slogan.
- E nasceu pra fazer o quê?
- Ficar bêbado.
- Parece um bom plano. - ele deu um sorriso de lado safado insinuando que eu concordava com ele. - Quer dizer, um bom plano pra você. Eu não bebo.
- Não bebe? Ah conta outra, .
- Não. Não bebo.
- Nadinha? - ele se espantou.
- Nadinha. - Respondi orgulhosa.
- Mas como? Não tem como ter 21 anos e nunca ter bebido um golinho sequer.
- 20. Até aqui nos ajudou o senhor.
- Wow. E por que ele não me ajudou? Porque, assim, eu já nasci bebendo.
- Escolha sua.
- Não tive muita escolha a não ser me embriagar, . - O tom de alegria na voz dele pareceu murchar. E os olhos foram do verde para o cinza.
- Não fala assim, , você tem tudo.
- “Tudo” - Ironizou e preferi não mergulhar no assunto.
- Eu acho que a gente podia falar com a Camila e ficar só com a parte de decorar o escritório e essas coisas.
- Ah, , decorar o escritório também é péssimo. - Choramingou
- Para de ser um bebezão, . - Sorri. - Se você quiser continuar fazendo dingles e slogans vai em frente.
- Eu conheço uma loja ótima que vende decoração de Natal aqui no centro. - Revirei os olhos e fui tentar amansar a Camila pra nos mudar de posto.

(...)

3 Semanas para o Natal
O final de novembro e a primeira semana de dezembro passaram voando, foi semana de testes na faculdade e eu tive que estudar feito louca pra recuperar economia. Minha vida estava meio entediante ultimamente, minha rotina era a seguinte:
- Acordar
- Faculdade
- Almoço (quando dava)
- Trabalho
- Casa
- Dormir
Sem nenhum desvio de rota e sem fugir um dia sequer à qualquer uma das obrigações. já sabia que só conseguia falar comigo na faculdade, ela descobriu isso depois de me chamar pras festinhas dela por um mês consecutivo e eu ir no total de 0/10. Ela desistiu e parou de me chamar. Não a culpo, eu ainda não iria mesmo se ela continuasse a chamar.
Camila tinha razão. O clima Natalino naquela empresa tinha cheiro e gosto de inferno. Já não bastasse os 200 dingles que eu e tivemos que fazer pra trocar de função com Jofrey, o cara da decoração.
- , como você vai levar isso tudo pra empresa? - perguntou apontando pra enorme montanha de sacolas com todo o tipo de decoração de Natal que estava estacionada na minha sala.
- Isso é problema do . A gente fez um trato: eu comprava e ele levava.
- Ultimamente a única palavra que você sabe falar é .
- Não viaja, . - Revirei os olhos e ela me deu língua.
- Essa histórinha de amor e ódio eu conheço.
- Não tem história, . A gente trabalha junto e só.
- Seeeei. Então por que tudo você menciona ele?
- Eu não menciono ninguém. Agora vai pra sua casa que seu namoradinho deve estar te esperando. - Empurrei ela até a porta que foi gargalhando.
- O meu está me esperando e o seu já está passando pra te pegar.
- Tchau, . - Bati a porta na cara dela e ouvi ela rir.
Ela estava errada, eu não mencionava tanto assim, mas é que involuntariamente a gente virou amigos de escritório.
De escritório, como o próprio nome dizia.
A gente não se via fora dele. E fora saber que ele não tivera uma gata com meu nome e que o pai dele era dono da empresa que a gente trabalhava eu não sabia mais nada sobre ele.
Então, não, não tinha o menor sentido ou cabimento a achar que tinha no mínimo uma atração ali.
Meu celular vibrou e era mensagem de um número não salvo, mas que eu conhecia.
Speaking of the devil…
- Tô aqui fora
- Então entra. O portão tá aberto.
Ouvi o rangido do portão e como ainda estava praticamente do lado da porta, abri antes dele bater.
- E ai. - Ele disse sorrindo .
- E ai. - Imitei seu tom de voz.
- Cadê as coisas? - Sai da frente e deixei ele ver a sacolada e as caixas que se amontoavam atrás de mim. – Porra, . Você sabe que a gente tem que arrumar tudo ainda hoje, né?
- Então você tem que se apressar. - Ele sacudiu a cabeça em negação e foi entrando.
- Se eu soubesse que era tanta coisa assim tinha vindo com uma van.
- Para de reclamar. - Disse enquanto segurava a porta pra ele passar com as coisas.
Acontece que não parou e reclamou até pegar última sacolinha do chão.
Me martirizou com o olhar.
- O que foi? Comprei o que tinha que comprar.
- Cimprei uqui tinhi di cimprir - fez uma voz de estupidamente infantil.
- Ah, cala a boca.
- Vamos?
- Espera só eu pegar minha bolsa lá em cima?
- Hm, okay. Posso beber agua?
- Claro. É só ir reto, a cozinha é no final do corredor.
Subi as escadas correndo a procura da minha bolsa que eu tinha certeza ter deixado no criado mudo do meu quarto, mas aparentemente não deixei lá. Merda. Já estava atrasada. Ia desistir dessa bolsa quando avistei a alça na gaveta semi aberta. Peguei e dei uma olhada no espelho rapidamente só pra checar.
Vestia uma calça jeans e uma blusa de manga comprida estampada com mini elefantes que eu amava.
Desci as escadas correndo e me deparei com na sala de estar olhando a centena de porta-retratos que eu tinha em cima da lareira, na mesinha de centro e na parede.
- Você tem uma família enorme. - Ele concluiu e sim eu tinha. - Moram todos aqui?
- Na verdade, não. Boa parte mora no Brasil, nessa casa é só eu e minha irmã. Mas meus pais moram na rua de baixo, eles estavam precisando de um tempo de drama adolescente.
- Eles não te aguentavam mais, né. Nem eu. - Revirei os olhos.
- E você tem irmão?
- Tenho um.
- Qual é o nome dele?
- Sam e ele não está disponível. Agora anda logo que a gente vai passar a tarde inteira decorando um prédio. - Ele caminhou rápido até a porta e eu tive que dar uma corridinha pra alcançálo.
- Relaxa. - Pensei. - O máximo de tempo que vamos passar arrumando vai ser…

(...)

POV
- 10 fucking horas decorando está merda, .
- Não me culpa! Eu não sabia que a gente ia ter que enfeitar todos os andares! - Ela rebateu me fazendo bufar de nervoso e levantar.
- Olha bem pra minha cara de ajudante do Papai Noel. Eu tô caindo fora. Tenho uma festa pra ir.
- , não. Falta a árvore.
- Eu tô pouco me fudendo pra porra de uma árvore de Natal. Se vira ai.
- Por favor. Está tarde. Não me deixa terminar sozinha. - Ela insistiu.
Realmente estava tarde, era 00h e só restava a gente naquele edifício. A gente e o segurança.
- Tchau, . - Dei as costas já com a chave da moto na mão.
- Por favor. - Ouvi ela pedir mais uma vez sem levantar o tom de voz e hesitei.
Eu só podia estar com merda na cabeça. Cogitar a ideia de largar uma foda marcada na festa da pra passar a noite decorando uma árvore de Natal com uma menina que eu não conheço nem há 5 meses. Merda na cabeça como disse.
Droga, .
Me virei de volta respirando fundo e soltei as chaves na mesinha.
- Vamos acabar logo com isso.
Enquanto eu segurava a escadinha pra conseguir colocar as bolinhas na parte mais alta ela cantarolava uma música em outro idioma mas no ritmo de Natal. Como ela podia ficar feliz uma hora dessas?
- , não dá pra ficar feliz agora não. Para de fingir.
- Eu não tô fingindo. É porque eu sempre decorava a árvore com a minha família toda reunida, quando era criança, ai a gente cantava músicas de Natal enquanto minhas tias cozinhavam alguma coisa gostosa, me deu saudades. - Levantei as sobrancelhas e ela desceu da escada. - Você nunca decorou uma árvore com sua família? - Ela pergunta olhando nos meus olhos e eu desvio abaixando e pegando alguns frufrus lá que eu não faço ideia da porra do nome.
- Eu não tenho família. - Disse simplesmente.
- Mas e o seu pai?
- Ele não é meu pai só porque gozou na minha mãe.
- Sua mãe, ela… - Não a deixei terminar e respondi de uma vez o que ela queria saber. Eu odiava falar da minha mãe.
- Ela morreu. - Me sentei no chão e comecei a colocar as cordinhas naquelas bolinhas estúpidas de Natal.
Parece que teve a mesma a ideia e se sentou nos pés da árvore de frente pra mim.
- Desculpa. Eu não sabia. Não precisa falar sobre se você não quiser. - E eu não queria falar sobre. Eu não falava sobre com ninguém. Eu odiava reviver que ela não estava mais aqui. Principalmente a tão pouco tempo do Natal, a época que ela amava.
- Ela fazia biscoitos de gengibre todo Natal. E deixava a gente decorar. - Me permiti falar a lembrança que veio na minha cabeça segurando pra não embargar a voz. Não aqui. Não agora. Não na frente dela. - Eu sempre estragava todos. - Sorri de lado e vi de canto fazer o mesmo. - Ela nem se importava. Só falava que eram os biscoitos mais lindos que ela já tinha visto. Era mentira claro, mas… eu gostava de ouvir ela falar.
- Você tinha quantos anos quando ela morreu? - hesitou ao perguntar.
- Eu tinha 9.
- Que droga, .
–É. Uma droga. - Concordei com a voz pesada.
- Seu pai… - Sacudi a cabeça com ódio.
- Ele é um merda. Sempre foi. - Me levantei e fui colocando umas bolinhas aleatórias na árvore. Já conseguia ver meus olhos marejarem não queria que ela também visse. Mas por algum motivo não conseguia parar de contar. - Só se importava com essa merda de empresa. Fui criado por babás, porque o babaca que deveria ser meu pai se importava mais com ações do que com os filhos que perderam a mãe. Eu odeio ter que vir aqui todo dia e trabalhar pra ele.
- Por que você vem? - Fiquei calado.
O motivo era um assunto particular não queria compartilhar minha vida toda com ela.
- Vários motivos, . Um dia eu te conto.
- Eu não sabia que seu pai era ruim com você. Porque não avisou antes? Nós podiamos ter feito dingles horríveis de presente pra ele, e olha que pra isso a gente tem talento. - O tom de voz dela e a cara super engraçada que fez me tirou um riso.
- , os dingles já saíram horríveis. - Ela abriu a boca espantada.
- aqueles dingles estavam incríveis. - Gargalhei concordando ironicamente e ela me acompanhou.
Depois de 40 minutos ouvindo ela contar histórias sem nexo que ela julgava de total importância e eu sorrir de todas a deixando emputecida por alguns segundos terminamos de decorar a árvore de Natal.
- Você me fez perder a festa da , .
- Ah aposto que você se divertiu muito mais desenrolando pisca- pisca comigo. - Ela concluiu convencida e orgulhosa da árvore de Natal toda decorada com cores aleatorias. - E ficou linda.
- Uhum. Vem eu te dou carona.
- Não. Não precisa, eu pego um ônibus.
- , é praticamente 1h da manhã você não vai conseguir pegar um ônibus.
- Ta bom. Vamos. Mas me chama de , acho muito cafona. - Revirei os olhos.
- Então vamos logo, ou eu vou deixar você ai. - Vesti a jaqueta e peguei as chaves da moto e ouvia ela ao meu encalço, passamos pelo segurança que nos desejou boa noite, provavelmente aliviado pra ficar livre e sentar e assistir um pornô na televisão.
- Ahn, , cadê o seu carro?
- Que carro? A gente vai de moto. - Apontei pra minha bebê estacionada na porta e senti enrijecer atrás de mim.
- Mas eu não sei andar de moto.
- E daí? Não é você que vai pilotar. - Peguei um dos capacetes e dei pra ela que ficou me olhando parada.
- , eu tenho medo. - Comecei a rir mas percebei que ela estava falando sério.
- Você tá brincando, né? - Ela trocou o peso pra outra perna e olhou pra baixo, além de estar com medo ela estava com vergonha de estar com medo. Eu com toda certeza zoaria ela sobre isso amanhã.
- . Você não vai morrer. Eu piloto essa Harley muito bem. Relaxa e coloca o capacete. Ainda hesitando ela colocou na cabeça. - Tem que apertar né, . - Me aproximei e apertei o capacete na cabeça dela. E subi na moto. - Agora sua vez. Monta na moto.
De longe foi uma das cenas mais engraçadas e de dar dó que eu ja presenciei.
- Você tá tremendo e eu nem liguei a moto. - Gargalhei.
- Para de rir . Eu te disse que tinha medo.
- Ta bom. Foi mal. Segura na minha cintura você vai se sentir mais segura.
Do espelho da moto vi ela hesitar, mas vendo que não tinha outra opção colocou as mãos na beirinha da minha cintura. Mas quando liguei a moto, ainda sem sair do lugar ela me agarrou e fechou os olhos e eu achei aquilo a coisa mais fofa que eu já tinha visto. Não me permiti pensar muito nisso e acelerei sentindo a respiração ofegante dela nas minhas costas.

Capítulo 4.

Segunda Feira. 12:37
POV
- Calma, , fala devagar. Você veio com ele de moto?
- Foi, . Era 1h da manhã e ele me trouxe em casa.
- E você quer que eu acredite que não rolou nenhum beijo? Nem umzinho?
- Não, . Eu já falei não rolou nada.
- E o que vocês ficaram fazendo até 1h da manhã, ?
- Conversando e decorando a árvore de Natal.
- Ouviu isso, Mark? Só tinha os dois e eles ficaram “Decorando a árvore de Natal”.
- Ah, eu ouvi bem. - Mark concordou, mas estava mais distraído que tudo jogando no celular.
- , escuta sua amiga que nunca ficou solteira. Dá em cima dele. Meninos são muito lerdos pra perceber qualquer sinal, o segredo é partir pra cima. - Revirei os olhos.
- Não é assim, . A gente só tava conversando e ele… ele me contou coisas.
- Quais coisas? Fetiches? - Ignorei o fato da minha amiga ser uma pervertida.
- Coisas da vida dele. Ele é um cara legal, mas não vou forçar nada, além disso ele não tinha uma namoradinha?
- Peguete, . Aquela bruxa. Odeio ela!
- Ela nunca te fez nada, . Ódio gratuito isso ai.
- Ódio gratuito nada! Ela vivia dando em cima do Mark.
- É , mas ela é solteira. Comprometido é o Mark.
- Mesmo assim, . Não gosto dela. - Preferi não discutir, a quando coloca coisa na cabeça… - Você vai trabalhar hoje de novo?
- Vou. E já tô atrasada.
- Saudades de ir no shopping com você, .
- A gente vai. Eu prometo. Sábado.
- Por que sábado? - Ela perguntou intrigada.
- Ah é porque o pessoal lá do escritório tá planejando uma festinha com amigo oculto e essas coisas. Uma festinha antes do Natal.
- Ah, tipo happy hour dos +35.
- Tchau, ! Tchau, Mark.
- Uh, tchau, . - ele ainda estava no maldito joguinho e enquanto ia me afastando ouvi a gritar que se ele não largasse o jogo ela ia quebrar.

- , me ajuda a distribuir os papeizinhos! - Camila gritava o meu nome no escritório.
Era nosso “break”. 15 minutos pra comer, relaxar e etc, geralmente às 16:00. O pessoal do nosso andar estava usando esse tempo pra organizar a festa de fim de ano e o amigo oculto.
- Tá o nome de todo mundo aqui? - perguntei derramando os papéis no saquinho antes mesmo de conferir.
- Sim. - Camila respondeu. - Só distribuir.
Fui passando por toda a ala criativa entregando papelzinho por papelzinho.
Eu gostava de trabalhar lá, apesar dos pesares, todo mundo era muito engraçado e colorido, era o andar mais animado, até o cara das correspondências dava uma enroladinha lá.
- , sua vez. Pega um papel. - cutuquei ele que estava batucando na mesa com um fone.
- Pegar o que? - Me respondeu totalmente confuso.
- O papel do amigo oculto. Duuuh!
- Ah, mas eu não vou participar. - Ele ja ia colocando os fones de novo mas segurei a mão dele antes dele conseguir recolocar.
- Como assim não vai participar? Seu nome tava aqui no saquinho.
- Eu não coloquei.
- , pega um papel agora! Não vou redistribuir pra todo mundo outro papel porque você não quer.
- Ah não, . Isso é coisa de gente velha. - Choramingou e eu revirei os olhos.
Ah que ridículo! Ele ia estragar a brincadeira toda!
- . Por favor. Sabe o trabalho que dá escrever o nome de 50 pessoas em mini papéis, colocar num saquinho e distribuir depois? - ele continuou me olhando com aquela cara de “não, não sei.” - Ta. Então não participa, merda.
- Não fica brava. - ele gargalhou. - Desmancha esse bico que eu pego um nome.
- Eu não tô fazendo bico. - elevei a voz um pouquinho e ele sorriu.
- Ai, . - Mergulhou a mão no pacotinho que restavam poucos papéis. - Se eu tirar você eu quero trocar. - avisou.
- Com todo prazer. - Sorri cinicamente. Apesar da gente não se odiar mais, o clima de cão e gato continuava. E mesmo não querendo admitir, eu gostava dele.
- Pronto. Agora vai. Sai daqui. Se não vou gritar que você tava tentando ler meu papel e boicotar o jogo.
- Grita. Grita que eu deixo sem saco. Ai você vai ficar sem seu brinquedo como presente de Natal. Ele abriu a boca e colocou a mão no membro.
- Você, você é uma pessoa maluca.
Dei dedo pra ele e terminei o corredor.
Sobrou um único papelzinho no fundo do saco. O meu. Tirei o Mason. Mason era muito tímido, tinha mais ou menos a minha idade, Camila já quis me juntar com ele uma vez mas, eu não queria um namorado, e mesmo se eu quisesse um Mason era muito tímido pra isso.

Flashback on
- Ah, , ele é uma graça
- Eu e a Camila estávamos bebendo milkshakes na lanchonete do prédio e observando Mason que comia um sanduíche sozinho na mesa da frente.
- Camila, para de querer me arrumar namorado!
- Você parece que está dormente, . Se eu tivesse a sua idade eu ficaria com o Mason. Mas tudo bem, eu entendo que você esteja enrabichada com o .
- Repete? Não entendi.
- Envolvida com o . Eu entendo.
Eu parei de chupar o canudinho e fiquei olhando pra ela. Envolvida? Enrabichada? Qual parte da minha vida eu estava perdendo?
- Camila, eu não estou envolvida com o . Quem te disse isso? - Indaguei e ela deu de ombros.
- Não importa. Se não está com ele, fica com o Mason na festa de Natal.
- Eu não vou ficar com ele!
- Então você está com o . - Camila levantou e foi andando, eu boquiaberta com toda a situação levantei e apressei o passo para alcançá-la e desmentir essa historinha boba.
- Eu não estou com ele!
- Então prova. Só um beijinho no Mason. Não é como se eu estivesse te pedindo pra casar com ele.
- Mas eu não preciso provar.
- Então está com ele.
- Não! E chega desse assunto!

Flashback off
Eu ainda não tinha mudado de ideia, eu não ficaria com o menino só pra me afirmar. Ele é lindo, mas independente disso, eu ficaria com ele se o conhecesse e não por beleza.
- Gente! Faz silêncio! Me escuta! A festa vai começar 23h! Cada um traz um prato de comida e o presente!
- Prato de comida? Desse jeito eu vou acabar desistindo. - encostou do meu lado rasgando o papelzinho com o nome do felizardo que ganharia no máximo um pote de maionese ou qualquer coisa aleatória que ele achasse no AP antes de sair de casa. Isso se ele viesse.
- Faz gelatina.
- Eu não sei fazer.
- Pelo amor de Deus. É agua e pózinho colorido. Minha prima de 6 anos sabe fazer.
- Então ela é uma menina muito esperta.
- Mais do que você, com certeza.
- Me surpreende o tanto que você confia em mim, . Obrigado.
- De nada, meu amorzinho. - Apertei as bochechas dele sabendo que ele odeia só pra vê-lo esbravejar comigo. Mas só percebi a proximidade que estávamos depois de estar com as duas mãos no rosto dele. Ele não esbravejou como pensei que fosse fazer, ou gritou. Ao invés disso continuou lá parado olhando pra mim.
Ele tinha aqueles olhos de menino carente, tristes, do tipo que dá vontade de levar pra casa e cuidar.
Passei algum tempo me perguntando por que meu coração acelerava tanto quando aqueles olhos me encaravam e não consegui chegar a nenhuma conclusão lógica.
Tirei as mãos do rosto dele repentinamente, com medo de que se eu ficasse mais um segundo ali naquela posição, um desastre ambiental pudesse acontecer. Seria o motivo exato pelo qual um meteoro colidiria com a terra naquele mesmo instante e todos ali virariam pó. Pigarrei roxa de vergonha por aquele momento eterno que na prática provavelmente foi 5 segundos.
- Aahn, então…quem você tirou? - disfarcei chegando um pouco pro lado oposto em que ele estava.
- Se eu falar estraga o jogo.
- Você nem quer participar do jogo, . Conta.
- Conta você primeiro.
- Eu não, você vai me enganar.
- Aaah, então vai ficar sem saber.

(...)

Era fim de expediente e acabei de ouvir duas meninas comentando no elevador que os ônibus estão de greve até Deus sabe quando.
Praticamente todo mundo que eu conheço já foi embora, agora quero ver como que eu vou voltar pra casa. Talvez se eu correr alcanço o . Bati ponto o mais rápido que pude e avancei pra porta da garagem e graças a Deus ele estava saindo com a moto naquele mesmo instante.
Parei ofegante na frente dele que levantou o visor do capacete pra poder me ver.
- Você acha que pode me dar carona hoje? Se não puder, tudo bem, eu peço um taxi. - Disse em um só fôlego ainda com a respiração descompensada. Ele me olhou sorrindo.
- Não era você que tinha medo de moto?
- Eu tenho. Mas os ônibus estão em greve.
- Ta legal. Eu te dou carona. Mas você fica me devendo uma.
- Ai ai ai. , eu já te falei, não posso entregar droga pra você. - Ironizei com a voz alta fazendo ele rir enquanto a senhorinha da limpeza passou assustada me fazendo arregalar os olhos de vergonha.
- Não é nada disso, eu só quero saber quanto que tá o seu programa e se você faz direito. - retrucou bem mais alto me fazendo corar e meter um tapão nas costas dele. - Eu já posso chegar metendo ou como que é?
- Cala a Boca, ! - Não consegui ficar séria por muito tempo acabei sorrindo.
- Sobe na moto e coloca o capacete.

POV
A subia na moto de um jeito muito engraçadinho, juro que se eu pudesse eu filmava.
- Ta se segurando?
- Mete bronca.
- Ninguém fala mete bronca, - gargalhei e ouvi ela sorrir também.
- Eu falo. - Acelerei com a moto.
- Ah esqueci de te falar. Tem algum problema se a gente passar la no meu irmão antes? Só vou pegar uma chave.
- Sem problemas. Só estou morrendo aqui. Posso esperar uns minutos. - Fiz uma curva fechada fazendo ela gritar.
- , não é uma montanha russa.
- Mas parece. Depois de uns minutos chegamos no AP do Sam. Encosto a moto na calçada e desligo o motor.
- Pode esperar aqui se você quiser, eu vou lá rapidinho. - Tiro o capacete e arrumo o cabelo com as mãos.
- Uh, okay.
Ando em direção ao interfone e aperto o número do apartamento dele.
- Sam, é o , traz as chaves aqui, não posso deixar a moto sozinha.
Aguardo uns minutinhos me olhando no reflexo da porta. Cara, eu estava acabado. Tinha emendando na farra desde sexta- feira, se dormi 4 horas essa noite foi muito. As olheiras estavam enormes, nem sei como dei conta de ficar lá naquele lugar o dia todo.
Sam abre a porta com as chaves e uma sacolinha.
- E ai?
- "E ai" nada, me dá um abraço. - Ele retruca e me abraça. - Tava achando que ia fugir de mim?
- Ta bom, chega. - Empurrei ele de leve e ouvi a risadinha da que tentou disfarçar quando nós dois olhamos pra ela.
- Hum, quem é essa?
- Ninguém, Sam. Me dá logo a chave que eu tô atrasado.
- Atrasado pra que? Me apresenta a moça. - Ele deu a volta por mim e foi andando rápido na direção da .
- Ah merda. - Apertei o passo e cheguei praticamente junto com ele.
- O sem educação aqui não quis apresentar a gente. Sam. - Esticou a mão pra que sorriu e o cumprimentou.
- Prazer, Sam. Me chamo , mas pode me chamar de . -
- Tá bom. Tá bom. Já são amiguinhos, agora me da a chave logo, Sam. Por isso que eu não venho aqui, você fica enrolando.
- Ai que menino chato, toma logo essa chave. Precisa ficar com ciúme da moça não, tá? Você sabe muito bem que eu gosto da mesma fruta que ela.
- Eu não tô com ciúme dela. - Exclamei.
- Ele não tem ciúme de mim não. A gente nem é nada um do outro, é só por que ele é insuportável mesmo.
- Insuportável é o segundo nome dele.
- Ha ha, como como os dois são engraçados.
- Eu até ia dar isso aqui pra ele, mas como ele ta todo engraçadinho, pega pra você, . É kibe.
- Ai que delícia. Obrigado.
- Você deu o meu kibe pra ela? - Perguntei indignado, ele sabe que eu sou louco por kibe, principalmente os que ele faz.
- Dei. - Disse simplesmente.
- Ai, para de fazer bico, eu divido com você. Parece um bebê chorão.
- Parece? - Sam retrucou.
- Vamos embora, . Você e o Sam juntos não dá certo.
O capacete deixava apenas os olhos dela à mostra e mesmo assim conseguia ver ela sorrindo, os seus olhos estreitavam e ficavam bem pequenos, brilhantes e alegres como sempre - Incríveis na minha opinião - Queria saber o que mantinha tão acesa.
- Foi legal te conhecer, Sam. - Montei na moto. - Obrigado pelo kibe.
- Meu kibe - Coloquei o capacete. - Te vejo depois.
- Tchau, - Deu ênfase no apelido dela. – , passa aqui no Natal? Só vai estar eu e o Kelvin.
- Se der eu passo. - Respondi ligando o motor e partindo dali.
A casa da não era tão longe então rapidinho a gente chegou lá. Eu não via a hora de chegar em casa e capotar na cama.
- Aqui seu kibe. - Ela estendeu uma mão com a sacolinha e com a outra puxou o capacete.
- Ah não precisa. O Sam deu pra você.
Se eu estava fazendo cú doce? Óbvio que eu estava, eu estava morto de fome, é claro que queria pegar o kibe e vazar.
- Como eu sei que você quer o kibe, mas por algum motivo está sendo gentil e dizendo pra mim ficar com essa coisinha árabe deliciosa, vou dividir pra nos dois.
Ela abriu o saco e encontrou dois kibes uma “divisão exata” segundo ela.
- Ai eu tô morto de fome. - sentei no meio fio que ficava de frente a casa dela e comecei a comer o kibe; aparentemente isso soou como um convite já que ela fez o mesmo, e quando eu me toquei, estávamos conversando na calçada sobre assuntos aleatórios e comendo um kibe enorme sem nenhum refrigerante, mas o último tópico se tornou irrelevante depois de 5 minutos ali.
- Fala sério que você nunca teve vontade de ir ao planetário.
- O que se faz de bom em um planetário? - Perguntei ansioso pelo argumento que arranjaria para me convencer a gostar tanto quanto ela, ela fazia isso sempre.
Me lembro de um dia no escritório em que ela levou muito pão de queijo e me fez comer com ela. “Se você comer o segundo você vai gostar. Por favor, . Você não está dando nem uma chance!” Ela me convenceu, e do segundo pão de queijo foi pro terceiro, quarto, quinto, até que tínhamos comido o saco todo.
- Olhar as estrelas? O céu? Tirar dúvida sobre o planeta terra, outros planetas, astros, cometas. A galáxia não soa interessante pra você?
- Na verdade, não. Prefiro gastar esse tempo indo em um show, bebendo ou sei lá.
- Eu gosto de tudo que envolva o céu. Uma profundidade tão grande vem de lá, é como se as estrelas estivessem nos mandando sinas sempre, basta prestar atenção.
- Ah é? E o que aquela estrela bem ali está te dizendo, ? - Apontei pra estrela mais pequeninha que vi.
- O tamanho do seu pinto. E aquela bem grande ali, o quanto você é babaca.
- Ah é assim? Pois bem, aquelas duas estrelas bem baixas e juntinhas ali. - Apontei e ela franziu os olhos pra enxergar. - São os seus peitos, é preciso muito esforço pra enxergar.
- Todo cheio das gracinhas né, pelo menos eu posso colocar silicone e seu piu piu vai ser pequeno pra sempre.
- Piu piu?? Francamente , e já que você ta achando minha piroca tão pequena assim, não vai achar ruim de ver ela né? - Ia abaixando as calças mas parei porque ela gritou.
- Ai meu deus! , não!
Comecei a rir vendo ela cobrir os olhos com a mão.
- Ja tá pra fora, , pode olhar. - Era mentira, o George tava bem seguro dentro das minhas calças, só queria pregar uma peça nela.
- , coloca…isso…esse pau… pra dentro!
- Vai me dizer que não gosta?
- Não! Eca!
- Então você é lésbica?
- O que? Não! ! Ai só coloca pra dentro!
Gargalhei mais ainda.
- Tudo bem, princesinha da frescolândia, pode olhar.
- Você não tá me enganando, né?
- Não, . Eu não estou.
- Jura?
- Juro.
Receosa ela tirou as mãos que cobriam o rosto, uma por vez, verificando se era seguro olhar.
- Você é um babaca, sabia? - a cara amarrada dela dizia uma coisa mas o canto da boca sorrindo queria dizer outra.
- Sabia. Mas você também. - Sorriu deixando os olhos bem pequenos, e Deus sabe que eu tentei segurar, mas merda!
Com ela eu não conseguia segurar nada, nem a porra de uma ereção nem a vontade que eu tinha de beija-la toda vez que a gente ficava juntos.
Eu não consigo interpretar muito bem ninguém, mas eu tinha a sensação de conhecer ela, mesmo com tanto pouco tempo. E talvez foi a quantidade de noites sem dormir, ou o efeito do kibe sem refri ou todas aquelas estrelas brilhando sob nossas cabeças como um sinal que me fez beija-la ali, naquele instante.
E por incrível que pareça ela retribuiu.
Minha mão na nuca dela e as dela no meu rosto, trocando uma corrente de energia acumulada.
Porra. O beijo dela tinha acendido cada estímulo do meu corpo. Se eu pretendia tirar essa noite pra relaxar, os planos tinham se auto-cancelado.
Como numa queda de energia repentina separamos os lábios.
Ela deve ter percebido a bobagem que estávamos fazendo. Coisa que eu deveria ter percebido antes.
- Droga. Desculpa, . Eu não…eu não quis.
- Não. - sorriu tímida. - Tudo bem… é só que a gente não devia ter feito isso. A gente só é amigo entende?
- , foi só um beijo. - dei uma risada curta e completamente sem graça.
- Eu sei. Só quero que você entenda que eu não posso me relacionar com alguém agora. Principalmente com alguém que… - Ela respirou fundo mas não terminou de falar.
- Alguém que o que? - Cravei meus olhos nos olhos dela. Estava temeroso pela resposta mas insisti com a voz firme. – Fala, .
- Alguém que fica com todo mundo. Eu gosto de você, mas você é inconstante, . Não posso me envolver com alguém assim. Principalmente agora que estou tão focada em estudar e trabalhar. Minha vida não foi fácil igual a sua.
Senti um impacto assim que ela terminou de falar. Gelei na hora.
O que ela estava pensando? Ela não sabia nada sobre a minha vida pra determinar se foi mais fácil que a dela. Que merda de menininha mimada. O que ela estava pensando não, o que eu estava pensando?
- Você tem razão, . A gente não devia ter feito isso. - Levantei abruptamente pegando os dois capacetes e montando na moto.
- . Calma, espera ai. Eu não quis... - se levantou rápido e foi até a moto. -
Esperei por uma justificativa, mas ela não veio. Sua voz estava carregada de arrependimento, talvez pelo beijo ou pelo jeito que falou, sinceramente eu não sei, mas também não ficaria lá para descobrir.
- Relaxa. Foi um erro. - Disse com a voz seca e liguei a moto. - Boa noite, .
Arranquei com a moto deixando ela lá. Duas esquinas depois da casa dela estacionei a moto no escanteio e disquei no telefone o número que já era acostumado a ligar quando estava pra explodir e precisava relaxar.
- Alô, ? Ta em casa? Se arruma que eu tô indo pra ai.


Capítulo 5.

"I messed up this time.
Late last night "

POV NARRADOR.

não sabia o porquê, mas chorou a noite toda depois que foi embora. Ela havia estragado tudo dessa vez.
O que foi aquilo? "Isso é errado", "Nós somos só amigos". A quem ela estava tentando enganar? Ela mesmo quase o beijou mais cedo! Pra falar a verdade, ela vem fantasiando isso desde que montaram aquela estúpida árvore de Natal juntos. sabia perfeitamente o motivo pelo qual se comportava daquele jeito, se fechava pra todo mundo, ele mesmo havia contado pra ela a razão de não se apegar à ninguém.
"Dói demais perder alguém que você ama, . Uma vez que você passa por isso, você não quer mais que aconteça. Você não pode mais deixar acontecer."
Ele havia se decepcionado de novo. E dessa vez a culpa era todinha dela.

No dia seguinte não apareceu no trabalho, e nem no dia posterior à esse. No quarto dia sem aparecer, decidiu fazer algo mais efetivo do que mandar mensagens e ligar pra ele. estava a ignorando totalmente.
- , desencana desse menino! - Ouvia Camila dizer toda vez que a amiga a pegava olhando pra mesa vazia ao seu lado.
- E se aconteceu alguma coisa, Camila?
- , o pai dele é dono dessa empresa, se alguma coisa tivesse acontecido com ele, a gente saberia.
- Ele não me atende...não me responde.
- Ele não quer te ver agora, supera.
- Eu preciso me desculpar com ele, e tem que ser antes da festa de Natal.
- Ahn... , desculpa te desapontar, mas a festa é daqui dois dias.
- Então eu preciso falar com ele ainda hoje.
correu na recepção em sua hora de almoço e pediu gentilmente para secretária o endereço do . Dizendo ter uma correspondência que precisava ser entregue em mãos, acabou por conseguir o que queria.

18:40 do dia 23 de dezembro. Sexta- feira.

Estava extremamente frio naquela noite. A cidade de New York estava coberta de neve e o trânsito totalmente caótico a lembrava que se ela não tivesse feito burrada poderia estar em casa tomando chocolate quente, e escolhendo uma roupa pra amanhã.
Apesar da correria das pessoas, a cidade estava linda. Toda acesa e decorada para o Natal, o clima natalino deixava tudo mais bonito.
Com passos largos e braços cruzados, caminhou ao seu destino não tão longe dali, não tinha pressa, hoje voltaria de taxi.
O endereço dizia:
Prédio Boulevard - Andar número 12, Ap 123.
Demorou alguns segundos para entrar naquele edifício todo decorado com coisas de Natal e com um porteiro simpático.
Adentrou o elevador junto com uma mulher grávida e torceu silenciosamente pra que ele estivesse em casa.
Ap 123. O último do corredor.
Com passos firmes e respiração ofegante, alcançou a porta dele. Sem um texto decorado ou uma mínima ideia do que queria dizer, hesitou ao bater na porta, mas mesmo assim o fez.
A resposta a sua primeira batida foi o silêncio, por isso resolveu bater de novo e de novo, até que ouviu uma voz arrastada gritar "Já vou".
Involuntariamente corou e passou as mãos sobre os cabelos, arrumando os fios bagunçados pelo frio e pelo capuz.
Um click se fez na porta e em poucos segundos ela se abriu, revelando um de cabelo bagunçado e moletom.
Um silêncio se instalou no momento em que os dois se viram.
- Nhmr – Pigarreou – Oi, .
- Oi, . - disse sem mais. - Como conseguiu meu endereço?
- A moça da recepção me passou.
- Hm.
Silêncio de novo.
- Eu vim falar com você, fiquei preocupada. Você não foi trabalhar ontem...nem hoje.
- Não estava muito afim. - a voz seca de e o jeito como a olhava deixava toda a situação pior, seus olhos antes e carentes, estavam vermelhos e elétricos, arregalados, fazendo as mãos dela suarem por dentro das luvas. Ele não estava sóbrio.
não mostraria muito interesse nessa conversa, fato. Ele até agora não tinha entendido o motivo de ter procurado seu endereço e ir lá falar com ele. Ele estava bem, não estava com raiva dela. Era normal as pessoas não esperarem as coisas dele, por isso não ficou com raiva dela. Chateado? Sim. Ela era a única pessoa que ele via todos os dias e não enjoava. tinha se tornado sua companhia diária. 4 dias sem ir no trabalho ou faculdade significava 4 dias sem vê-la. Ele não estava dando um gelo nela como a menina deveria estar imaginando, mas a razão por ele estar lá naquela merda de empresa todos os dias batendo ponto, era ela.
Obviamente tinha o lance do trato que ele fizera com o pai dele, mas a segunda razão era ela. Mesmo quando não estava em um dia bom, se distraia na presença dela. gostava de ter por perto, fazia parte da vida tanto quanto pentear os cabelos. Ela não era igual às meninas que ele fodia todos os dias por ai, ele a beijou não por ela ser gostosa, mas porque gostava dela, mas depois do que aconteceu segunda feira, sabia que ambos estariam constrangidos demais pelo acontecido para deixar pra trás e fingir que não aconteceu. E lidar com a saudades era melhor do que lidar com a indiferença.
- Eu só vim ver se você está bem. - engoliu seco antes e depois de falar.
- Como você pode ver, eu estou vivo.
- Ah então...ok.
Estúpida! Xingou a si mesma dando meia volta e se afastando dali. Mas antes que ouvisse o barulho da porta se fechar, virou novamente.
- , me desculpa ok? Eu não quis dizer o que eu disse naquele dia. Eu estraguei tudo e disse tudo errado. Eu sei que você tem seus motivos pra não se abrir com ninguém. Eu sei. E mesmo que não soubesse, não tenho o direito de determinar o que você faz e deixa fazer. Por isso eu vim aqui te pedir desculpas. Por saber de tudo isso e ainda assim ter sido uma completa babaca com você. Eu...eu não sei o que eu estava pensando, na verdade eu não estava. O que eu te falei foi da boca pra fora, e não sei se você vai acreditar no que eu estou falando, ou se vai ficar com raiva de mim, mas é verdade. Eu sinto muito, . Eu não queria ter te magoado.
Após dizer tudo num fôlego só, respirou fundo deixando as palavras no ar. ouvia tudo com atenção, porém sem demonstrar reação. Um silêncio de 2 minutos pairou ali e estava prestes a virar e ir embora, quando escutou a voz dele dizer.
- Eu não estou com raiva de você, .
- Não? - levantou o olhar e cravou nos dele.
- Não. Chateado sim. Com raiva, não.
- Você me perdoa por ter dito aquelas coisas?
- Eu te perdoo, , mas você não sabe de tudo pra tirar conclusões de tudo e jogar na minha cara, caralho.
- Eu sei que não...
- Você não sabe uma virgula da minha vida pra dizer merda. Eu sei que você devia estar pensando no momento, que eu não sou bom o suficiente pra você. - admitiu. Mesmo que doesse, isso era exatamente o que ela pensou quando disse.
- , não...
- E você tem razão. Eu não sou bom pra você. Por isso a partir de hoje, eu prometo não tentar mais nada. Até porque eu não preciso. Eu posso sair com qualquer garota que eu quiser, seu fora não me abala, . Você é só mais uma. – isso não era o que queria ouvir. Definitivamente não. Uma vontade instantânea de chorar veio e já podia sentir os olhos marejando.
- Me desculpas mais uma vez, eu não tive intenção. - Foi a única coisa que conseguiu dizer. Saiu dali às pressas. Elevador estúpido que não abria! Ouviu de longe a porta do apartamento se fechar e deu lugar às lágrimas. Apertava o botão com mais força à cada vez, como se isso o fosse fazer chegar mais rápido.
Finalmente ele abriu. Sem prestar muita atenção, topou com uma menina que saia do mesmo.
- Desculpa eu...eu não te vi. - Levantou os olhos e viu de quem se tratava.
- Sem problemas. - A menina saiu do elevador e foi diretamente aonde sabia que ela iria.
O elevador ficou aberto até que ela pudesse ver bater na porta e a abrir pra ela. E as lágrimas agora tinham mais um motivo pra cair.

22:00 PM.

Depois de sair do apartamento de completamente chorosa, foi direto pra casa. Sorte estar sozinha, precisava disso. Fez um chocolate quente e sentou-se no sofá de frente à televisão, não que prestasse alguma atenção no que estava passando, seus pensamentos estavam turbulentos demais pra isso.
As luzes da árvore de Natal piscavam sem parar, a deixando cada vez mais triste e nostálgica, e de repente toda aquela decoração pareceu ridícula e fútil, e o chocolate quente não estava aquecendo seu coração como dizia na caneca, estava tudo dando errado! Enquanto mudava freneticamente os canais da televisão em busca de alguma coisa menos festiva, lembrou-se do que Camila disse há um mês atrás:
"Até o fim do mês você vai estar odiando o Natal." E ela estava. Feriado estúpido, que nos faz acreditar que vai dar tudo certo como nos filmes, esse estava sendo o pior Natal de todos, e ele ainda nem tinha começado oficialmente.

Capítulo 6.

"Santa, tell me if you really care"


POV .
Véspera de Natal. 12:00 AM

- ! ! , acorda!
Uma gritaria zumbia no meu ouvido me fazendo pigarrear de raiva.
Minha cabeça latejava, o que ocasionou na demora pra recobrar os sentidos e responder a quem quer que seja que estava a acordando àquela hora da manhã.
- Aaarrrg. O que foi?
- Calma, meu amor, está nervosa? Não estava nem com um pouquinho de saudade da sua irmã preferida? - A voz era de Hailey. Merda. Eu deveria ter ido buscar ela no aeroporto.
- Aaah Hailey! Eu esqueci que você chegava hoje. Eu tomei um remédio pra insônia ontem, e acho que dormi demais.
Hailey era a pessoa mais independente que eu conhecia, e não estava falando isso só por ser minha irmã. Hailey era 5 anos mais velha que eu, e mesmo assim sempre nos demos muito bem. Éramos grudadas desde pequenas, tanto que nos mudamos pra essa casa juntas.
Hailey havia viajado pra Paris há 5 meses devido ao seu trabalho como estilista.
- Oh, meu Deus. O que foi que você está com essa carinha toda inchada? - Mesmo estando um tempo fora, Hailey me conhecia muito bem pra saber que eu não estava legal.
- Não é nada. É só um resfriado.
- Resfriado? Pra cima de mim, ? - Preferi ficar calada. - Eu não acredito que você vai ficar toda moroxoxo justo no dia do Natal! Você ama esse feriado!
- Eu sei. Eu sei.
- Então me conta, o que aconteceu?
- Eu não quero falar sobre isso agora. Já passou.
- Mas...
- Hailey, por favor.
- Okay. Eu paro de insistir se você for lavar essa cara de morta e ir comprar uns presentes comigo. - involuntariamente sorri, era disso que eu precisava, uma distração. Qualquer coisa que me fizesse parar de pensar em .

(...)


- Eu não acredito que você encontrou esse tanto de gente famosa! - Praticamente berrei. Tínhamos passado no centro pra comprar os presentes da nossa mãe e do nosso pai, e pro namorado novo da Hails que estava hospedado no hotel. Acabei por gostar do relógio que minha irmã escolheu e peguei um igual para o amigo oculto da empresa.
Definitivamente não ficaria pra festa. Todo o pique natalino tinha sido enterrado ontem.
- Benefícios do ramo, irmãzinha. - Hailey mostrava as fotos com os famosos que encontrou em Paris. - O que eu não dava pra ser essa Kendall Jenner viu...
- O que eu não dava pra continuar sendo eu só que com o dinheiro dela.
- Eu estava com saudades de você, anãzinha. - Hails me abraçou de lado.
- Eu também. Você volta pra Paris depois do Natal ou a temporada já acabou? - Perguntei parando um segundo pra arrumar o meu cachecol.
- Hummm... Na verdade tem uma coisa que eu preciso te contar, mas deixa pra quando estivermos todos juntos, na casa da mamãe e do papai.
- Ai ai ai ai ai, Hailey. Olha lá o que você vai contar em! Não quero ver o papai dando um ataque cardíaco justo no dia do Natal!
- Acredite. Eu também não. - Mas me conta mais sobre esse tal de Mathias. Como ele é? - Perguntei curiosa. Hailey sempre arrumava namorados...digamos assim... diferentes.
- Aaaah, , ele é maravilhoso. No momento em que eu vi ele, eu soube. - A franjinha dela balançava junto com a cabeça enquanto falava com tanta felicidade. E eu ficava feliz por ela. De verdade.
- Como vocês se conheceram? - Perguntei. Eu queria saber de todos os detalhes. Aproveitei que tínhamos parado em uma cafeteria pra questionar tudo o que queria saber sobre esses 5 meses que ela passou fora.
- Meu carro estragou no meio do nada acredita? E ele vinha passado na moto dele e me ofereceu ajuda. Ele tem uma Harley ! Toda preta! Uma daquelas custa o olho da cara!
Murchei de repente e Hailey percebeu.
- Iiih. O que foi? O que está afligindo essa cabecinha?
- Nada...
- , você sabe que pode me contar. - Hesitei, bebericando outro gole de café. - Qualquer coisa.
Decidi contar pra ela o que de fato afligia minha cabeça, dois dias depois de ter sido completamente humilhada por e senti um alívio ao fazer isso. Acho que eu precisava de alguém pra desabafar.
- E o pior de tudo, Hailey, é que eu gosto dele! Eu me dei conta disso antes de dizer todas aquelas bobeiras, mas eu não sei lidar com essas coisas! Eu nunca soube! Criei uma barreira pra esse sentimento imediatamente, sem nem mesmo dar uma chance de acontecer. Ai eu vou na casa dele pra me desculpar, e ele vem falar merda!
- Você tem que parar com essa insegurança, ! Você é linda! E não só por fora, eu digo linda de verdade, aquelas pessoas que entram na vida da gente pra alegrar, nos fazer ver o lado bom das coisas. Você é um raio de sol!
- Hailey, raio de Sol? - Sorri da expressão que ela usou.
- Me deixa terminar ok? Você é! Você é maravilhosa! E eu amo você, e se esse garoto não for capaz de te amar, , e ver o quão maravilhosa você é, talvez ele esteja certo. Ele não é bom o suficiente.
- Como você pode ficar tanto tempo fora? - Sorri com os olhos marejados e apertei ela em um abraço.
- Agora, a gente vai entrar nessa loja, você vai parar de chorar e vai escolher o vestido mais bonito e sexy que você encontrar. Vai entrar naquela festa deslumbrante e se ele não estiver lá azar o dele.
- Vestido sexy? Ah, eu não sei não...
- Vestido sexy! Não discute comigo, ! - Gargalhamos e concordei com ela. Se não estivesse naquela festa hoje, azar o dele.
Chega de chorar pelo leite derramado.

(...)


22:00 PM

- Uh...Hails? Você não acha que esse vestido não estava maior lá na loja? - Eu estava pronta. Tinha deixado o vestido por último, ou melhor, o pedaço de pano, porque aquele vestido estava curtíssimo.
- É, realmente. Olhando agora ele parece estar bem curtinho, mas não é essa a intenção?
- Aahnnnn, não? - Disse como se não fosse óbvio.
- , você reclama demais! Menos falatório e mais ação!
- Ta bom! O relógio do Mason já está na bolsa, e o Pudim?
- Ta na geladeira, ficou muito gostoso.
- Okay. Pera, você comeu?
- Não. - Encarei ela. - Só um pouquinho, mas nem dá pra ver, eu juro!
- Tudo bem, só porque você chegou hoje. Já mandei uma mensagem pro cara do taxi, ele já está vindo.
- Vai e arrasa, mana. E não se preocupe, já avisei pra mamãe e pro papai que você não vai poder ir na ceia.
- Obrigado, Hails, de verdade.
- Por nada, amore mio. - Ouço o barulho do taxi chegar e abraço ela forte, abaixo o vestido uma última vez antes de sair de casa e com ajuda da Hailey entro dentro do taxi e pego o pudim.
Hoje a noite promete, e se não for com o , vai ser com outra pessoa.
O edifício estava lo-ta-do. Tinha praticamente uma festa em cada andar.
Cumprimentei a moça da recepção que estava irreconhecível beijando o cara do correio, sorri. Entrei no elevador com mais umas 10 pessoas.
Estava todo mundo tão alegre.
Senti muitos olhares em cima de mim quando pisei no meu andar, porém meus olhos só fixaram em uma pessoa, um par de olhos era o único que eu queria.
As mãos já suavam de novo, tornando cada vez mais difícil segurar aquela bandeja. O resto das pessoas continuavam a festejar normalmente, mas eu mantinha os meus olhos no dele e ele não tirava os seus dos meus.
Caminhei reto sem desviar o olhar. Pretendia seguir outro caminho mas não consegui.
Estímulos e mais estímulos passavam pelo meu corpo, e eu não sei o que diabos tinha naquele olhar pra me deixar perdida e sem ação.
- Você veio. - Sorriu, e eu preferi não responder nada além de um sorriso fraco. - Eu não tinha mais nada pra fazer hoje e alguém me convenceu a participar do amigo oculto, então... - sorriu e meu coração saltou.
- Fico feliz.
- Você está linda. - sorriu ao dizer e eu tive que me segurar pra não beijá-lo ali mesmo.
- Obrigado. Você também se arrumou direitinho. - Direitinho... ele estava lindo! Os fios de cabelo jogado meio bagunçado como sempre, extremamente e conseguia sentir o perfume dele de longe. Vestia uma jaqueta de couro e uma blusa branca. Tudo colaborava pra deixar ele 100 mil vezes mais excitante.
- , eu queria te pedir desculpas por aquele dia, eu estava meio alto, e... - Antes que tivesse a chance de continuar se desculpando fomos interrompidos.
- ! - Ouvi gritarem meu nome e foi o que me fez tirar as atenções dele.
- Uh, oi, Camila.
- Vem, quero te apresentar pra uns amigos meus. - sorriu e fez um sinal com a cabeça indicando que eu fosse. Mas o problema é que eu não queria ir, eu queria ouvir o que ele tinha a dizer.
- Eu já volto. - Consegui dizer antes de ser arrastada pela Camila, que já estava um pouco bêbada, e mal conseguir colocar minha bandeja na mesa.
- Pessoal, essa é a , mas podem chamar ela de . - Quando a Camila disse "uns amigos meus" ela realmente quis dizer amigos. Estava em uma rodinha formada por 5 meninos, eles me encaravam de cima a baixo, e eu estava extremamente desconfortável com os olhares para as minhas pernas que recebia a cada 3 segundos. Mais um rapaz chegou na roda com vários copos na mão e me entregou um.
- Ah não, eu não bebo. - Exclamei, devolvendo o copo, mas ele fingiu que não viu.
- Então, , você está namorando? - O mais alto deles perguntou e eu mal consegui entender pelo bafo de álcool que me deixou tonta.
- Não...não... - Disfarcei bebendo um gole do que quer seja aquilo na minha mão, que inclusive tinha um gosto péssimo.
- A gente podia ficar mais tarde né, princesa, o que você acha? - O olhar de bêbado me assustava, e eu preferi me fazer de desentendida e fugir dali o mais rápido que pude.
Não consegui mais achar o no entanto, acabei por ficar sentada em uma mesa improvisada comendo algumas coisas e bebericando entre refrigerantes, e um coquetel rosinha que estavam servindo.
Mason estava totalmente perdido na festa também e o chamei para sentar comigo.
Não, eu ainda não queria nada com ele, e tenho 100% de certeza que era recíproco. Ele era muito educado, e parecia um bom rapaz, estávamos apenas aproveitando a companhia um do outro naquela festa e desviando de algumas pessoas que haviam bebido demais e queriam vomitar.
- Então, só vão revelar o amigo oculto 00h? - Ele perguntou no meu ouvido.
- Infelizmente, sim.
- Ah cara, essa festa está uma droga. Eu quero ir embora.
- Eu concordo totalmente com você.
Ficamos conversando a festa inteira e ele que era tão tímido se demonstrou um grande palhaço, me fazendo rir muito.
Já era 00h. E graças a Deus tinham decidido começar a revelar o amigo oculto.
- A pessoa que eu tirei é a pessoa mais chata desse prédio inteirooo. - Camila gritava totalmente bêbada, tirando um riso fácil meu, que por sinal representava que eu não estava muito legal também, o que é estranho já que a única coisa alcoólica que bebi foi um gole daquela coisa horrível que entregaram na minha mão. Fora isso, só alguns drinks rosas inofensivos.
- Sinclair, meu amooooor, vem pegar seu presente!
Todo mundo na sala gargalhou e eu mais uma vez busquei por na multidão. Sem sucesso. Pra onde será que ele foi?
5, 10, 15, 20 minutos depois, e só faltava eu pra entregar o presente.
- A pessoa que eu tirei, parece ser gente boa, apesar de ter conversado com ela só hoje. - Ouvi umas risadinhas e não pude deixar de rir junto. - Eu tirei o Mason. - Ele completamente tímido veio ao centro da roda pegar o presente que eu cuidadosamente embrulhei.
- Obrigado, . - Sorriu. E Deus, ele também não era de se jogar fora, o que eu bebi estava começando a fazer efeito porque eu já estava pensando besteira.
- Beija logoooooo! - Ouvi a voz de Camila gritar de longe e eu estava disposta a realmente fazer isso, não estava mais aqui, eu coloquei a merda desse vestido pra ele e ele não estava aqui. Eu queria descontar, fazer ele sentir muito, ou sei lá, eu só queria fazer alguma coisa! Eu ia agarrar o Mason e beijar ele ali agora, mas foi quando olhei as bochechas dele, totalmente coradas de vergonha, que um minuto de consciência bateu em mim. Eu não ia usar ele, ele não merecia, não tinha culpa de nada. Sorri pra ele mostrando todos os dentes, e o abracei.
- SEM BEIJO HOJE GALERA! DESCULPA, O SHOW ACABOU. - Aproveitei o embalo que estava para gritar. Quando todas as atenções saíram de nós eu me desvencilhei do abraço.
- Obrigado, . Não que eu não queira te beijar, mas é porque eu... - Sorri ao ver ele se atrapalhar com as palavras e o interrompi.
- Eu entendo, mais do que você imagina.
- Obrigado. - Sorriu tímido com a mão por trás da nuca e foi a minha deixa de ir embora.

(Gostaria que vocês colocassem essa música pra tocar agora, por favor. Faz muita diferença)
[Everyone's Got Something – Perrin Lamb]

O barulho da música misturado com toda aquela gritaria turravam a minha cabeça, então decidi subir pro telhado, pelo menos veria os fogos e a noite não teria sido em vão.
Subi pelas escadas e empurrei a porta que dava acesso ao telhado, imediatamente uma corrente de vento frio veio contra mim, mas de certa forma era bom. Encostei no parapeito e desci do salto que machucava meu pé há horas.
A cidade ficava tão mais bonita aqui de cima, luzes das casas, luzes dos fogos que explodiam no céu, luzes das estrelas. Não consegui segurar e deixei as lágrimas correrem livres pelo meu rosto. Com os olhos ainda fechados senti alguém parar do meu lado.
Demorei para secar os olhos e abri-los, encontrando com a mesma jaqueta de couro que estava há horas quando o encontrei, no começo da festa.
- Eu não vi que você estava ai, . - Enxuguei as lagrimas que corriam. - Não era pra você me ver assim.
- Por que não? Continua você.
- Agora no final do festa? Com o rosto todo inchado, maquiagem borrada...
- Continua você, . - Me permiti virar e encarar os seus olhos.
parecia tão bonito quando ficava vulnerável daquele jeito, quando éramos só nós dois.
- Anyway, eu acho que bebi demais. - Funguei. - Parece que o drink rosa tinha álcool afinal. - Ele sorriu pra mim, e eu não pude evitar de retribuir.
- Eu passei a festa toda aqui, olhando o céu, vendo as pessoas aqui de cima...
- Pensei que não gostasse de olhar o céu.
- Pensei que não bebesse. - Revirei os olhos sem tirar o sorriso do rosto. – Eu nem ia vir, , mas todos os sinais apontaram pra você hoje.
- Eu não acredito mais em sinais, . - Tirei uma mecha de cabelo do meu rosto e cruzei os braços por conta do frio.
- Eu quero me desculpar com você, . Me desculpar imensamente. E sei que desculpas não apagam atos, ou palavras, mas é uma das formas que encontro pra tentar reparar minhas merdas e elas são muitas. E você me deve um favor, da vez que te dei carona. Lembra? - Forçou um riso antes de prosseguir. - E eu quero que use ele perdoando esse tremendo panaca, que fuma um as vezes e não sabe o que está dizendo. - Sorri. Ele chegou um pouco mais perto, me fazendo arrepiar mais do que eu já estava.
tirou uma caixinha branca do bolso da jaqueta, ela tinha um laço prateado e era retangular.
- Pra você. Feliz Natal, - Só agora percebi que não havia ganhado presente no amigo oculto, me tirou então. Peguei a caixinha tão delicada e sorri ao puxar o laço, abrindo com cuidado para não cair. Assim que tirei a tampa pude perceber que dentro dela tinha um papelzinho branco dobrado, com uma mão segurei a caixinha e com a outra tentava desdobrar o papel o fazendo gargalhar e me ajudar.
- " ,.." - Comecei lendo em voz alta com um tom de brincadeira. - "...você acaba de adquirir a escritura de uma estrela,... - Sorri desconfiada, e o tom de brincadeira parou na hora. Olhei para que me encorajou a continuar lendo. - "... a estrela de número A66497.23 está agora em seu nome, sendo renomeada de A66497.23 para no dia 24.12.2016 às 16:00..." - Meus olhos já estavam cheios de lagrimas de novo. - ...
- Olha dentro da caixinha.
Obedeci, e encontrei lá dentro um lindo colar de prata com uma estrela balançando, a estrela tinha uma frase bem pequena gravada no seu verso.
"Christmas star"
Apertei o colar na minha mão com toda força possível e pulei no pescoço de , dando um abraço de urso que a muito tempo eu queria dar. Aquele colar, a estrela, os sinais, os 5 tipos de sorrisos que ele tinha, o coquetel rosa, o frio, a saudade, o amor, o Natal, tudo isso acumulado me fez segurar o rosto dele e beija-lo com urgência, e dessa vez não tinha pensamentos pra me atrapalhar, barreiras imaginárias, medo ou o caralho a quatro. Eu queria ele e eu queria agora.
- Eu não vou estragar tudo dessa vez. - Parei o beijo pra dizer e o vi gargalhar.
- Nem eu. - Piscou duas vezes, como se assimilasse o que estava acontecendo.
- Nós dois já começamos fazendo merda. Nem quero ver o que vai acontecer...
- Então não vamos uh? Vamos relaxar, já causamos danos demais um ao outro em menos de uma semana. - Gargalhei o abraçando novamente. – Sabe, , tô começando a achar que eu gosto muito mais de você bêbada.
- Eu também, . - Sorri tirando a jaqueta dele. - Eu também.
Ficamos ali o resto da noite e eu não poderia ter pedido desfecho melhor pra aquele dia, milagres de Natal acontecem afinal.


Capítulo 7.

Depois de ficarmos até umas 4h da manhã no telhado da empresa, decidimos ir pra casa dele.
A sua moto não me incomodava mais, aquele friozinho na barriga era compensado pelo cheiro dele na minha frente.
- Seu apartamento é bem arrumadinho. - Disse, soltando os saltos que carregava na minha mão ao lado da porta.
- Ah, obrigado. - Coçou a nuca. - É bem simples na verdade.
- Eu gosto. - Sorri mostrando os dentes. Eu estava desacelerando, o efeito do álcool já estava quase no fim.
- Ahnn...Então, você pode ficar à vontade... se quiser tomar um banho ou comer...
- Ai, cala a boca. - Sorri indo ao seu encontro, a gente já tinha demorado demais pra deixar aquilo acontecer, sabe lá o que ia se passar na nossa cabeça amanhã, eu precisava fazer o que queria fazer hoje. Beijei ele novamente, com uma urgência ainda maior, acariciava a sua nuca enquanto as mãos dele desceram para a minha bunda. Antes de fazer qualquer coisa ele parou o beijo e me olhou, como se pedisse permissão para prosseguir, eu acenei com a cabeça dando passe livre para que ele continuasse.
Suas mãos apalpavam minha coxa, e eu pulei no colo dele o fazendo encostar na parede, arranhei suas costas o fazendo arrepiar, e em compensação recebia chupões pelo pescoço me fazendo gemer.
- Acho melhor a gente ir...pro quarto - Disse ofegante, ainda sem descer do seu colo viramos na primeira porta à direita.
me jogou na cama e parou de quatro em cima de mim.
Ele tirava sua camisa e eu desabotoava sua calça o mais rápido que minhas mãos trêmulas permitiam, rapidamente sentei e puxei meu vestido para cima, o jogando de qualquer jeito no chão. Graças à Deus eu estava com uma lingerie bonita naquele dia.
- Você é linda sabia, ? - questionou retoricamente, me fazendo rir. - Linda. - Subiu desde a minha virilha até o meu pescoço com beijos, mas foi quando ele colocou seu membro pra fora que a diversão começou.

(...)


Acordei com um feixe de luz na minha cara misturado com uma puta dor de cabeça, permaneci com os olhos fechados um tempo pra poder me localizar. O que aconteceu ontem? Eu estava na festa de Natal, fui para o telhado... encontrei ? Que me comprou uma estrela? Ainda de olhos fechados coloquei a mão no meu peito sentindo o colar, ok, então não foi um sonho. Eu realmente tinha ficado com ontem, e pelas minhas contas eu deveria estar na cama dele.
Dito e feito.
Abri os olhos devagar pra me acostumar com a claridade e senti a respiração de nas minhas costas. Me virei de frente pra ele com muito cuidado pra não acorda-lo, e apesar da dor de cabeça incessante, me permiti ficar ali olhando ele por alguns minutos, absorvendo alguns detalhes. tinha a respiração pesada e também tinha sardinhas que vinham das costas até os ombros, sorri ao vê-las. Sua raiz do cabelo estava suada e não deixei de notar o tamanho dos seus cílios, eram de dar inveja, suspirei e abaixei o olhar um pouco na tentativa de fugir da atração eminente, o que não funcionou muito, já que meus olhos pousaram bem na bundinha empinada em baixo do lençol. Ai, me deu até um calor. respirou fundo e abriu um olho ainda com sono. Fui pega.
- Hmmm. - resmungou com a voz embargada de sono. - Você estava me olhando dormir, ?
- Não. - abriu os olhos e me encarou. - Só um pouquinho. - Fiz sinal com os dedos e ele sorriu.
- Qual é o seu relatório?
- Nenhum.
- Nenhuma piadinha do tipo "Você baba enquanto dorme?"
- Você baba enquanto dorme. - Retruquei e me sentei, percebi que estava nua e peguei meu sutiã na cabeceira o mais rápido que pude, mais embaraçoso que isso? Impossível.
- Mentirosa. Você ronca sabia? - Me implicou, relevando totalmente o fato dos meus peitos estarem pra fora há 3 segundos atrás. "Talvez ele nem tenha percebido." - Torci mentalmente e joguei o travesseiro na cara dele por ter dito que eu ronco. - Ai ai! É brava também.
- Estou com dor de cabeça. - Fechei os olhos pra ver se a pressão passava um pouco.
- Primeira vez que você bebe e bebe daquele tanto. Não sei como não deu PT.
- PT? - Perguntei curiosa.
- É. PT: Perda Total. Quando você bebe além da conta e passa mal. Onde que você vive garota?
- Eu não achei que aqueles drinks rosa iriam ter álcool, parecia tão inofensivo. - deu uma risada gostosa e espontânea.
- Ai , a gente não mede o nível de álcool pela cor. - Dei de ombros, vestindo a calcinha por baixo do lençol. - Vem vou te dar um remedinho ótimo.
- E um café da manhã também? - Insisti ganhando um sorrisinho enquanto ele vestia uma cueca samba canção. Meu Deus que corpo era aquele? Eu já ia passar mal antes de levantar direito? É isso mesmo produção? Papai Noel demorou atender as cartinhas, mas quando atendeu também...
- Você vem? - chamou me tirando do transe.
- Anh, claro. - Respondi.
A cozinha dele era bem espaçosa e extremamente organizada. Se minha mãe entrasse aqui, a primeira coisa que ela diria seria "Está vendo, ? Isso sim é uma casa organizada, não a sua."
procurava por um remédio no armário e eu procurava olhar todos os lugares em busca de fotografias, mas não encontrei nenhuma.
- Achei, bebe isso. - Me entregou um frasco pequeno com um líquido amarelo.
- Tem certeza que é uma boa ideia?
- Relaxa, eu bebo um desses todo dia. - lancei um olhar de reprovação pra ele. - O que foi? Estou sendo honesto. - Prendi a respiração e engoli o conteúdo amargo, e tenho quase certeza que fiz uma careta daquelas.
- Eca.
- Estou com fome. - abriu a geladeira procurando por alguma coisa.
- O que você tem aqui? - Espiei por trás dele.
- Cerveja.
- Que legal! - disse ironicamente e o empurrei de lado. - Você só tem petisco aqui. Azeitona, queijo, presunto, salaminho.
- É pra comer com a cerveja. - revirei os olhos, o que ele era? Um alcoólatra?
- Você pelo menos tem pão? - Me virei indignada
- Acabou semana passada.
- Deus, você passa fome, vamos sair pra comprar uma coisa.
- Ah não, , tô com preguiça. - Ele fez uma cara manhosa e eu ri da expressão dele.
- Para de fazer essa cara de gato de botas e me arruma uma toalha pra eu tomar banho.
- Mas eu estou com fome.
- Quanto mais rápido você trouxer a toalha criança, mais rápido a gente come. - Foi pro quarto bufando e voltou com uma toalha e uma escova de dentes embalada. - Obrigado.
- Vai logo, fêdozinho.
- Ei, eu estou sempre cheirosa!
- Você está é me deixando doido andando só de calcinha e sutiã pra lá e pra cá.
Olhei pra baixo e corei. Joguei a toalha de qualquer jeito e corri para o que eu pensava ser o banheiro.
- Você sabe que eu ainda posso ver sua bunda né? - Ele gargalhava e eu só queria achar o banheiro. Quantas portas tinham naquele apartamento?
- Vai se foder! - Gritei de volta, finalmente achando o banheiro.

(...)


Passamos em um restaurante ali perto e sentamos para almoçar, acontece que não era mais hora do café da manhã como havíamos pensado.
Pedi peito de frango com purê de batatas e acompanhamento de batata frita, pediu uma macarronada com almôndegas.
- Eu tô muito desconfortável com esse vestido. - Disse.
- Relaxa, ninguém tá te vendo. - Respondeu, antes de enfiar uma garfada de macarrão na boca. - Cara, eu realmente estava com fome.
- Eu também. - Nossa eu estava muito esfomeada, já estava praticamente terminando o meu prato e pensando em pedir outro.
Comemos a porção de batatas e bebemos muito, muito refrigerante. deu um sinal pra eu prestar atenção que ele ia fazer alguma coisa, mas eu não imaginei que essa coisa fosse um arroto.
Uma senhora que estava atrás se assustou e nos olhou com olhar de reprovação, tentei segurar o riso, mas acabei gargalhando na cara dela, achei melhor sairmos dali antes que ela mandasse os gerentes retirar a gente do estabelecimento.
- Então, vamos comprar um sorvete?
- Por Deus, . Ainda cabe coisa ai na sua barriga? - sorrimos juntos desviando das pessoas aleatórias na calçada.
- Cabe.
- Vai ficar muito cheia e vai querer vomitar, depois não diga que eu não avisei.
- Ah cala a boca. - Encostei na mão dele pra puxa-lo para dentro da sorveteria e gelei imediatamente ao seu toque. achou graça e pôs os braços ao redor do meu pescoço, me guiando para sorveteria.
- Eu quero uma bola de sorvete de açaí, uma de chocomenta, uma de limão, e uma de creme. - Pedi. - Por favor. - Acrescentei ao vendedor.
- Credo, , eu vou querer 2 bolas de sorvete de chocolate.
- Ah, , chocolate? Que sem graça. Pede uma de açaí.
- Açalee? Que diabos é um Açalee?
- Não é Açalee. É açaí. É do Brasil. É gostoso
- Não parece bom não, .
- Você vai gostar, por favor! - Insisti.
- Uma bola de Acali também. - se referiu ao vendedor.
- Açaí. - Corrigi.
- Açaí.
O nosso sorvete veio em um potinho vermelho de Natal, e ai que me toquei. Hoje era 25, ainda era Natal e eu não passei nos meus pais. "Quando acabar o sorvete eu vou." Estabeleci uma meta mentalmente comigo mesmo. Acabamos por sentar em um banquinho do lado de fora.
- Tem um gosto estranho.
- O que?
- Esse sorvete roxo. Mas tipo, é bom.
- Lógico que é bom. - revirou os olhos e se aproximou pra me beijar. "Só depois desse beijo." Acrescentei na meta.
- Fica melhor ainda na sua boca. - Sorri.
- Ai você é tão brega, , essa cantada já funcionou com você alguma vez?
- Não sei, me diz você.
Ficamos beijando por um tempo e parávamos para observar as pessoas na rua de vez em quando. Eu estava encostada no peito dele, e seus braços passavam pelas minhas costas me esquentando do frio nova-iorquino. Seria uma pena se eu tivesse que sair daquele abraço, mas eu tinha que sair, minha irmã chegou de viajem, era Natal, minha família não tinha notícias minhas, eu precisava passar lá.
- Eu tenho que ir. - Respirei fundo.
- Mas já?
- Eu sei que você me ama e não pode viver sem mim - Brinquei. - Mas eu tenho que passar lá em casa.
- Ah.
- Mas a gente se vê amanhã, quer dizer, se você quiser e tal...
- Eu quero. - Sorri ao ouvir aquilo. - Eu te deixo em casa.
O caminho de volta pra casa me fez questionar o que havia feito mudar de ideia, quanto ao fato de não tentar mais nada comigo, ele havia sido bem claro no dia anterior a festa. Aceitei o fato de que ele nem iria, mas ele foi, e a gente tá aqui juntos agora, o quão rápido a situação pode mudar? Ok, eu confesso, eu estava louca para perguntar, mas toda hora que ia abrir a boca pra dizer "hey, o que fez você ficar comigo mesmo depois de ter me dispensado naquele dia?", eu recuava. O que aconteceu antes parecia tão irrelevante, quer dizer, a gente estava ali agora né? Como não deveria ter importância, mas minha cabeça paranoica precisava de uma base, de uma estabilidade. Eu precisava saber quais foram e quais são as intenções dele, mas não hoje, hoje foi muito bom pra no fim do dia eu apertar o botão de autodestruição. E também não é como se ele fosse meu namorado, whatever.
- Tá entregue. - estacionou na porta da minha casa e tirou o capacete.
- Obrigada, .
- Por nada, . - Enfatizou o e eu sorri ao descer da moto. - O motorista não ganha nem um beijo de agradecimento?
- O motorista não ganha nada. - Fez bico. - A passageira, por outro lado, deveria ganhar uma recompensa por bom comportamento e tal.
- É, ela deveria. - Me aproximei e o beijei, e dei vários selinhos após.
- Se a vizinha grega ver a gente beijando aqui...
- Ela vai querer participar também.
- Para de fazer esse sorriso safado! - sorri, as mãos dele iam na minha cintura e as minhas batucavam de leve o seu pescoço.
- O que? Eu não tenho um sorriso safado! - gargalhou.
- Tem sim! Tem o sorriso safado, tem o de deboche... - Comecei a listar nos dedos. E ele assentia me interrompendo com beijos.
- Tenho muitos tipos de sorrisos então em.
- Tem, agora eu vou. Tchau, . - Me soltei dos braços dele.
- Nem um beijo de despedida, gatinha? - Insistiu.
- Esses foram os beijos de despedida, passar bem. - Entreguei o capacete na mão dele e peguei meus saltos que estavam numa espécie de bolsinha ao lado da moto.
- Inacreditável, . - gritou e eu mandei um tchauzinho no ar.
Cheguei em casa exausta, morta de sono e ainda tive que arrumar disposição para entrar no chuveiro, tomar um banho descente e ir na casa dos meus pais.
Coloquei colírio nos meus olhos pra tirar um pouco da vermelhidão do sono e cansaço, vesti um vestido florido e um sobretudo.
Eram 18:00 em ponto, em aproximadamente 15 minutos chegaria lá a pé. Parei para cogitar a ideia de ir de taxi, mas não fazia muito sentido, era uma rua abaixo, me certifiquei que as portas estavam trancadas e fui.

Encontrei na porta da casa dos meus pais a suposta moto do namorado da Hailey, Mathias.
Esfreguei os pés no tapete que ficava na porta e empurrei a mesma.
- Mãe? - Chamei por ela fechando a porta o mais rápido possível estava, muito frio.
- , estamos aqui! - O cheirinho delicioso da comida da minha mãe vindo da sala de jantar invadia minhas narinas.
Ao chegar lá me deparo com a mesa cheia de comidas deliciosas que me davam agua na boca.
- , Vem aqui conhecer o Mathias! - Minha irmã ficava muito animada com tudo, principalmente reuniões de família. – Mathias, voici ma soeur, .
- Ces't un plaisir de vous rencontrer, . - Mathias estendeu a mão para me cumprimentar. Ele era lindo, tinha o cabelo grande jogado pra trás e um olhar marcante.
- Non, tout le plaisir est por moi. - Apertei sua mão respondendo que o prazer em conhece-lo era todo meu.
Benditas aulas de francês que mamãe pagou.
- Eu vou falar com a mamãe, já volto pra falar mais com vocês. Je reviens tout de suite. - Traduzi pra ele que sorriu largo assentindo.
Caminhei em direção a cozinha. E vi minha mãe de costas mexendo alguma coisa no fogo.
- Mãe. - Chamei.
- , vem cá me dar um beijo. - Sorri. Minha relação com minha mãe era a melhor, nós somos tipo melhores amigas. - Como está linda!
- Mãe, eu passei aqui antes de ontem, parece que não me vê desde o Natal passado. - Sorrimos juntas.
- Você parece cansada, filhinha.
- Só um pouquinho, fiquei até tarde na festa de Natal ontem.
- E foi bom?
- Foi. - Sorri de lado. - Cadê o papai?
- Tá lá na sala vendo jogo, só sabe fazer isso da vida dele, não me ajuda com nada. - gargalhei e caminhei pra sala. Meu pai e minha mãe se arranhavam desde sempre, mas nunca se separaram, juntos há mais 28 anos, e isso de casados.
- Pai? - Chamei-o antes de adentrar no cômodo.
- Filha! Senta aqui comigo. - Meu pai me chamou batendo no estofado do sofá ao seu lado. - Como você tá?
- Eu estou bem. Só um pouquinho cansada.
- Mas fico feliz que veio ceiar com a gente hoje. - Ele me abraçou de lado e eu sorri. Em casa eu só falava português, mas por morar tantos anos aqui, eu acabava me enrolando com algumas palavras e expressões e emendava com o inglês, mas meu pai não gostava disso de jeito nenhum, ele falava inglês só quando precisava e ainda assim odiava.
- Você já viu o namorado da Hailey?
- Hmm. - Resmungou. - Francês. Agora vamos ter que falar em três idiomas nessa casa. - Gargalhei.
- Não fique tão mad
- Você mesmo mistura as coisas o tempo todo. Mad. Diga "bravo", "nervoso".
- Ai pai, desculpas, mas é porque a gente já está aqui há tanto tempo que eu me esqueço algumas palavras. Eu falo inglês desde os 9 anos, você não pode ficar com raiva toda vez que eu falar inglês aqui em casa. - Suspirei.
- Estamos aqui há tempo demais na verdade, no começo foi bom, mas agora eu e sua mãe estamos...
- Estamos o que? - O interrompi. - Vocês não querem back to Brazil, né?
- Sim. Nós estamos pensando em voltar para o Brasil. E queremos que você volte com a gente.
Enrijeci o corpo na hora. Ele não podia estar falando sério, não justo agora. Minha vida era nos EUA. Minha faculdade, meus amigos, meu emprego... . Logo agora que estava tudo indo tão bem.
- Pai, isso não é justo! Vocês não podem tomar essa decisão por mim!
- Filha, não tomamos uma decisão ainda, só achamos que seria melhor para todos nós, sua irmã já não para em casa há muito tempo, ainda mais agora que ela diz estar de mudança para França, só temos você. No fundo você sempre soube que voltaríamos.
- Não sabia que seria agora. - Me levantei do braço do sofá em que estava sentada e caminhei para o lado de fora, precisava respirar um pouco. Ele não podia me obrigar a ir embora com eles, não era justo, não era... o que eu queria.
- ? - A voz de Hailey me tirou do transe. - Está tudo bem? Mamãe disse que o jantar está pronto.
- Está, é só que o papai me tira do sério as vezes.
- Ele te contou que está querendo se mudar, né? - Ela respirou fundo parando ao meu lado, e eu me virei ficando de frente ela.
- Você sabia? - Perguntei e ela olhou pra baixo.
- Eu fiquei sabendo ontem, no jantar.
- E por que não me contou nada?! - Exclamei em um tom mais alto do que queria.
- Porque você estava em um encontro, , eu não ia te ligar pra contar uma coisa que nem ao menos está decidida.
- Meu pai parece bem decidido.
- Mas a mamãe não, ela gosta daqui. - Seus olhos se voltaram para os meus. – Calma, , vai dar tudo certo, e além do mais eu tenho uma notícia que vai te animar muito.
- O que? - Perguntei curiosa.
- Vem, vamos contar com todo mundo junto.
Hailey pegou na minha mão e foi me puxando até a sala de jantar, todos os outros já estavam na mesa quando chegamos.
Minha mãe estava na ponta da mesa, a sua esquerda Mathias que sorria ao brincar com a cachorrinha que se escondia embaixo da mesa, a sua direita estava meu pai, que me olhou assim que chegamos no cômodo, porém desviei o olhar.
O jantar correu bem, na medida do possível. Minha mãe queria conversar tantas coisas com o Mathias, Hailey e eu tivemos que ficar traduzindo a conversa o jantar inteiro.
No fim do jantar fui à cozinha buscar o Pudim para servir como sobremesa, e assim que todos tinham se servido, Hailey cochichou alguma coisa no ouvido do seu namorado e ambos levantaram.
- Eu queria contar uma coisa pra vocês. - Ela começou. - Pensei em contar ontem, mas a não estava presente, não seria a mesma coisa. - Mathias assentia com a cabeça e sorria sem parar, embora eu tenha certeza que ele não estava entendo nada, mas sabia do que se tratava.
- Eu e Mathias já estamos juntos há algum tempo, não há apenas 3 meses, eu o conheci ainda aqui, em Nova Iorque. - Tudo bem, quem não estava entendo absolutamente nada agora era eu. - E bom, acho melhor falar logo, né, amor? Eu...eu estou gravida.
A cara de choque da minha mãe foi instantânea. A minha boca e a dela se abriram na mesma hora em que a cara do meu pai se fechou.
- Hailey...eu... - Minha mãe tentou começar mas parou antes de concluir o que queria falar.
- Bom, eu sempre quis ter um sobrinho. - Quebrei o gelo. - Parabéns!
- E a gente decidiu se casar. - Falou rapidamente e de rabo de olho pude ver meu pai fechar os olhos e sacudir a cabeça em negação.
- Hailey, minha filha, você não acha que está se precipitando? Essa é uma decisão muito séria.
- Mãe, eu estou grávida, isso também é sério, e o Mathias está disposto a se casar comigo e ter esse bebê do meu lado.
- Querida, mas não há pressa em se casar! Eu não vejo motivo!
- Eu sabia que ia ser um problema, por isso eu já marquei a data do casamento.
- Já marcou? - Eu e minha mãe exclamamos ao mesmo tempo, meu pai apenas observava a cena e tive medo de quando ele resolvesse abrir a boca.
- 18 de janeiro. - Tive dó do Mathias que estava suando há tanto tempo e nem sabia em que parte estávamos.
- Muito bem, então. Você é uma mulher adulta e sabe o que faz. - Minha mãe decidiu encerrar a discussão se dando por vencida.
- Pai?
- Me mande o convite. - ele se levantou deixando a sobremesa intacta sob a mesa.
Sorri sem graça. Ótimo. Teremos uma longa guerra até dia 18 de janeiro.
Preferi ir embora antes de presenciar mais uma cena, fui pra casa sozinha. Hailey dormiria com Mathias aquela noite, e todas daqui pra frente. Eu estava sozinha de novo, pra variar. Estava tão cansada que desmaiei na cama sem ao menos trocar de roupa.

Capítulo 8.

Segunda- Feira. 26 de dezembro.
- Aaaah, eu não acredito que a gente veio trabalhar hoje! Um dia após o Natal! - Eu caminhava junto com Camila até a entrada do prédio, realmente era uma droga.
- Welcome to the real world! - Cantarolei.
- Não é justo! Mas pelo menos a festa foi boa, quer dizer, eu acho que foi, não me lembro de muita coisa.
- Ah, a festa foi ótima. - Concordei.
- Hmmmm, essa carinha aí eu conheço.
- Que cara? - Apertei o botão do elevador.
- Pra cima de mim, ? Você ficou com alguém! E se me lembro você passou a festa inteira com o Mason.
- O que? Camila, nada a ver!
- , se você precisa de um incentivo, eu dormi com o chefe da nossa seção.
- O que?! - Gritei.
- Shiiiu. - Camila tapou minha boca, mas a cara de surpresa continuou a mesma.
- O Brandom? - Perguntei mais baixo dessa vez. Brandom era chefe da área criativa, ele estava acima da Sinclair. Eu só vi ele uma única vez, tremendamente lindo. Moreno dos olhos azuis. Parecia uma perdição latina.
- Sim, mas isso não pode sair daqui. - Sorriu orgulhosa.
- Sou um túmulo. - Passei um zíper imaginário na minha boca e ela sorriu. - Boa jogada, pegando o chefe. - Camila revirou os olhos.
- Agora sua vez, com quem você ficou mocinha? - Respirei fundo sem saber se devia falar, mas não me segurei.
- O . - Os olhos dela se arregalaram e ela deu uma risada.
- Eu sabia que nesse mato tinha coelho!
- É, mas você não pode falar pra ninguém. - Ela fez o mesmo sinal de zíper. - Pra ninguém!
As portas do elevador se abriram e saímos dele.
- Bom trabalho, pegando o dono. - Camila soltou a mesma piadinha que fiz com ela e foi para sua mesa, achei graça e sentei no meu lugar. Eu havia me esquecido que seria dono de tudo aquilo ali um dia, ele parecia tão tranquilo, ele não dava a mínima. Eu como estagiária faltava ficar louca, querendo entregar tudo certinho e perfeito, se essa empresa fosse minha, eu já estaria internada há muito tempo.
- Gatinha. - A voz de despertou meus pensamentos. - Pensando em mim?
- Ugh, não me chama de gatinha.
- Por que não, gatinha? - Persistiu tirando os óculos escuros e sentando do meu lado como sempre fazia.
- Porquê é nojento e brega.
- Ai, eu tô com sono. - Debruçou sobre a mesa. - Faz a minha parte hoje.
- O que? Não!
- Por favor, . - Choramingou.
- Não.
- Ah então a... - levantou a cabeça e olhou no seu relatório em cima da mesa. - Coca cola. - Leu o nome da empresa que foi direcionada pra ele e eu fiquei de boca aberta. - Vai ficar sem aprovação do novo design.
- Cala a boca! Por que você fica com a Coca Cola e eu fico com enlatados?
- Isso é coisa do meu pai. - Deu de ombros. - Pode fazer se você quiser, ele nem vai ler de qualquer jeito.
A voz do se carregava de raiva misturada com tristeza toda vez que falava do pai, e isso me deixava igualmente triste apesar de o conhecer tão pouco, ninguém deveria ter esse tipo de relacionamento com o pai.
- Mas se ele não lê suas avaliações, como ele sabe que você é bom pra comandar a corporativa? - Perguntei.
- Ele não sabe, ele espera que eu seja. É melhor a empresa ficar no meu nome do que no nome de um filho gay. - revirou os olhos. - Ele é ridículo.
- Ele te colocou aqui só pra não deixar o Sam tomar conta?
- Sim, ele seria tão mais útil aqui.
- Mas ele não pode fazer isso! Vocês dois tem direito por serem filhos dele.
- Ele emancipou a gente, ele pode fazer o que ele quiser.
- Merda, .
- Merda. - Concordou.
- Mas relaxa, quando ele morrer você vende. - Sorri de lado e ele me acompanhou.
- Pode apostar que sim. - Se ajeitou na cadeira. - E como foi o Natal com sua família?
- O resto de Natal você quer dizer. Foi bom. - Disse. - Na verdade foi horrível, minha irmã descobriu que está grávida e vai se casar com um francês daqui o que? - Fiz uma conta mentalmente provavelmente errada. - 20 dias, e vai se mudar para a França, e pra completar meu pai está com umas ideias malucas que eu nem quero lembrar.
- White girl problems.
- White girl vai tomar no cu, o riquinho aqui é você.
- Calma, gatinha, estou só te implicando.
- Arg! Não me chama de gatinha!
- Gatinha.
- Que nojo de você, . - Sacudi a cabeça em negação e virei minha cadeira ficando de costas pra ele.
- Ah não sei não, você não estava com nojo ontem quando nós dois... - Arregalei os olhos quando percebi que ele ia soltar a bomba ali no escritório rodeado de gente fofoqueira, rapidamente pulei e tapei a boca dele.
- Por Deus, ! Quer que eu seja demitida? - Cochichei brava no ouvido dele e tirei minhas mãos da sua boca devagar me certificando que ele não ia fazer outra cena.
- Sai comigo amanhã. - Encarou perguntando.
- Não posso. - Respondi, me voltando para o computador.
- Por que não?
- Porque não é certo, somos colegas de trabalho.
- Aaah, deixa disso, .
A verdade é que eu não podia sair com ele, não correndo risco de ir embora para o Brasil a qualquer momento, não era justo comigo e nem com ele, mas o problema é que a porra daqueles olhos tinham o mesmo efeito de droga.
- Se eu disser que sim, você me levaria aonde?
- Pra minha casa ué. - Revirei os olhos e voltei pro computador. - Ou um bar?
- , eu tenho cara de quem frequenta bares? - ele ponderou por alguns segundos e ia abrir a boca mas o impedi. - Não responde.
- Uma boate então, nada tão pervertido e nada tão santo, o que me diz?
- Amanhã é terça-feira...quarta-feira a gente trabalha...
- Nah, eu dou folga pra gente.
- Você pode fazer isso? - perguntei e ele apontou pra placa luminosa no teto.
- Aquele ali, é de . - Inacreditável, dei de ombros e ele sorriu.
- Me pega em casa. - Acabei por concordar.
- Sim senhora.

Terça- Feira. 27 de dezembro. 21:30

- Ah, mas que merda! - Gritei comigo mesmo. Tinha inventado de fazer um babyliss no cabelo pra diferenciar, mas agora não sei se vai dar tempo de fazer no cabelo todo.
Tinha concordado em ir com na boate às 22h, ele ia passar aqui em casa e iríamos juntos. Isso não era um encontro, que fique bem claro, éramos apenas dois colegas de trabalho saindo pra uma happy hour na terça- feira. - "Nada demais." - Convencia a mim mesma.
Acabei por vestir um vestido vinho que tinha guardado, ele era curto e tinha um decote ajustável na frente, presente da Hailey. Nos pés calçava um salto bege torcendo para que eu não ficasse muito tempo em pé. Batucava os dedos na pia ansiosa para finalizar o cabelo.
- já deve estar chegando... - Pensei novamente em voz alta.
Decidi bagunçar um pouco os cachos que já havia feito pra ficar mais natural e prático, sem condições de eu terminar todo esse cabelo até as 22h. Desliguei o babyliss bufando e fui checar a bolsa.
Celular, chaves, carteira de identidade, carteira convencional com dinheiro, batom, espelho.... acho que é só isso.
"Camisinha" - Me lembrei. Corri para o banheiro na esperança de achar nem que seja uma, mas elas tinham acabado, PORRA! Procurei nas coisas da Hailey e não encontrei uma sequer.
"Talvez se eu for na farmácia agora, dê tempo de voltar antes que o chegue." Ponderei. Mas antes que colocasse a mão na chave para sair, ouvi uma buzina, já era. Tranquei a porta pensando "É melhor ele ter uma"
- Gatinha! - Gritou de longe e eu quis morrer com esse apelido que ele tinha me arrumado.
- Para de me chamar de gatinha! Pelo amor de Deus! De onde você tirou isso? - Deu de ombros.
- Já chega reclamando. - ele sorriu por trás do capacete, pude ver pelos canto dos seus olhos que se franziram.
- Cala a boca, gatinho. - Montei na moto enfatizando o 'gatinho' com voz de desdém, o capacete estava amarrado na parte de trás, então só desamarrei e ajustei na minha cabeça.
- Olha só, aprendeu direitinho, te daria um beijo mas estou de capacete.
- Então vamos logo pra você tirar ele o mais rápido possível. - Corei minutos depois ao perceber o que tinha dito, eu não sabia exatamente como agir com . Nunca soube, mas menos ainda agora, depois que a gente transou. Eu devo agir como ficante? Como amiga? Fingir que nada aconteceu e deixar ele determinar o que a gente era? De qualquer forma eu estava me esforçando pra ser o mais natural possível, e se eu não conseguisse, bom, ao menos seria engraçado.
A boate que estávamos indo não era aonde eu pensava, pensei que iríamos para um pub no subúrbio ou coisa assim, mas foi só quando chegamos que percebi que estávamos no Upper East Side, merda, eu não tenho dinheiro pra isso não.
estacionou junto das outras motos, nos possibilitando descer, tirei o capacete e dei uma ajeitada no cabelo usando as mãos. Essa era a parte ruim de andar de moto, seu cabelo se embaraça todinho. Puxei o vestido um pouco mais pra baixo e aguardei ele entregar a chave para o manobrista.
- Manobrista de moto. - Conclui. - Uau.
- É, prefiro que ela fique segura.
- Se você está dizendo, né... - Me permiti olhar o que ele estava vestindo pela primeira vez essa noite. vestia uma calça jeans escura acompanhada de uma camisa manga longa preta com um capuz cinza, a camisa era grande, pegava na metade da bunda dele. Sim, eu olhei.
- Você está linda, vamos? - O elogio me surpreendeu.
- Vamos.
Passamos na frente da enorme fila do lado de fora da boate e quis me desculpar por estarmos furando fila, mas disse que isso acontecia o tempo todo, que o nome dele estava na lista, preferi não discordar. Adentramos no local e o som da música já estrondava meus ouvidos, a boate estava lotada. Era dívida entre a pista, lá em baixo, e o que eu defini por camarote, no andar de cima; mesas acompanhadas de sofás, e era lá que tinha reservado, claro.
- Nossa, aqui está muito cheio.
- Eu disse ao Joe que seria um ótimo negócio comprar isso aqui.
- Joe? - Me sentei no sofá e ele me acompanhou.
- Um amigo meu, ele deve estar aqui hoje. - deu uma olhadinha para os lados o procurando, mas creio que não o encontrou.
- Hum.
- Se você quiser dançar...
- Dançar? Eu? Ah, não obrigado. Tenho vergonha.
- Vergonha? Você? - Ele estreitou os olhos pra mim.
- É sério. - tentei o convencer, mas só fiz ele rir.
- Tudo bem, , eu acredito. - Sorri e me aproximei um pouco mais dele, eu vou beijar essa boca e vai ser agora, como o esperado, não recusou o beijo, só intensificou me fazendo arrepiar, infelizmente, paramos de nos beijar quando faltou o ar.
- Se você parar pra pensar, isso é melhor do que dançar. - deu um sorriso safado e colocou a mão na minha coxa, apertando, eu retribuía o beijando de leve e arranhando devagar seu pescoço só pra sentir ele arrepiar.
- . - Uma voz chamou e parei o que estava fazendo para me virar e ver quem estava chamando.
- , oi. - a cumprimentou sem se levantar.
- Fazia um tempo que não vinha aqui. - completou, a palavra se dirigia a ele, mas os olhos não paravam de me encarar, me deixando completamente sem graça, pareceu perceber.
- , essa é a .
- Oi. - Disse sem muita emoção e ela retribuiu com um sorrisinho forçado.
- A gente se ver por ai, . - Ela passou por nós e foi pra alguma mesa bem depois da nossa graças a Deus.
- Simpática né. - Alfinetei e ele fez um barulho de desdém com a boca.
- Nah, isso é coisa de .
- Hm. Ela é alguma coisa sua? - Perguntei.
- Sério? - Me retrucou sorrindo, mas como não respondi nada ele entendeu que a minha resposta era um 'sim'. - A gente só fica as vezes, nada sério.
- Naquele dia que fui na sua casa, encontrei com ela.
- Ah. - Ergueu as sobrancelhas.
- E dois dias depois você foi na festa do escritório e me deu um colar e tudo mais... - Joguei no ar. Não estava com ciúmes, mas eu tinha que saber se o rolo dele com ela continuava.
- Ah, , você quer mesmo falar disso agora? - Dei de ombros e ele bufou. - Ela foi lá em casa sim, mas não fizemos sexo, se é isso que quer saber, você me deixou com a cabeça bem fodida.
- E por que você decidiu ir na festa aquele dia? - Ele jogou um braço no banco por trás de mim.
- Porque você aparecia na porra de qualquer lugar que eu fosse. Eu saí de moto aquela noite e passei no Sam para deixar um presente de Natal pra ele e acredita que ele me mandou dois quibes? Um para a minha amiga secreta e um pra mim. - Sorri.- Parei pra lanchar e ganhei um biscoitinho da sorte escrito: Os sinais estão em todos os lugares. - Gargalhei e ele me acompanhou. - É sério, , e pra completar eu olhei pro céu e vi as estrelas e a primeira coisa que me veio na cabeça foi você, até ser chamado de pela moça da Starbucks me lembrou você e sua implicância, e eu... eu não podia deixar de ir e tentar de novo, te pedir desculpas por tudo que aconteceu.
- Você pensou "Ai meu Deus. Eu preciso beijar ela de novo" - Brinquei.
- Não, eu pensei: "Caralho, eu preciso beijar ela de novo." - deu aquele sorriso e eu não pude deixar de acompanhá-lo.
- Então beija.
Depois de ficarmos um pouco lá em cima, decidiu ir buscar umas bebidas pra gente, mas que merda esse garoto estava fazendo que me deixava boba? Estava perdida nos meus pensamentos quando percebi um rapaz mais velho se aproximar.
- Oi. - Dirigiu- se a mim e eu sorri sem mostrar os dentes. - Sou John.
- . - respondi seca.
- Ta afim de sair daqui? - gritou no meu ouvido devido a música alta.
- Não, obrigada. - Respondi de volta.
- Qual é? É até um pecado você ficar aqui sem ninguém.
- Eu não estou sem ninguém. - Gritei de volta, já estava ficando constrangida com a situação e confesso que com um pouco de medo, estava sozinha com aquele cara, se ele tentasse fazer alguma coisa eu poderia gritar o tanto que fosse que ninguém escutaria. Me afastei dele máximo que pude no estofado, mas ele se aproximou de novo.
- Por favor, vai embora. - Disse já sem paciência e ele pousou a mão na minha coxa. Levantei abruptamente e comecei a sair dali, mas vi que ele me seguia, e no meio da multidão, mesmo que no camarote, não consegui ir muito longe, ele agarrou o meu braço.
- Calma, gostosinha, eu sei que você também quer. - Os braços dele apertavam os meus.
- Me solta! - Gritei em vão. Ele já segurava meu rosto a força pra me beijar.
- ? - Ouvi de longe a voz do se aproximar. - O que está acontecendo aqui? Solta ela!
- ! - Exclamei aliviada.
- Soltar ela por que parceiro? Ela já estava bem soltinha quando encontrei ela.
- Cara, eu não quero criar confusão, solta a moça. - A pressão nos meus braços aumentava ao invés de diminuir, soltou os copos numa mesa que estava ali do lado.
- Se você quiser a gatinha vai ter que vir pegar. - Tudo aconteceu muito rápido, eu só vi o se aproximar e dar um soco na cara do homem, com o impacto do soco ele me soltou e ficou meio zonzo, aproveitei o meio tempo e sai dali indo para trás do .
- Só eu chamo ela de gatinha. - Exclamou, deixando o cara com mais raiva, que partiu pra cima do retribuindo o soco.
- ! - Gritei assustada.
- Se você não tivesse chegado eu ia foder com ela gostoso! A vadia querendo ou não!
- Arrombado do caralho! - limpou o sangue da boca de qualquer jeito com a manga e revidou com dois socos na cara do tal John, que caiu no chão. Mas mesmo assim não parou, deu vários chutes nele enquanto estava no chão embora eu implorasse pra que ele parasse várias vezes, todos antes distraídos em seu próprio mundinho agora observam o cara desacordado babar sangue no chão. Eu estava apavorada, nervosa, e nesse momento já chorava há muito tempo.
- ! Por favor, para! - Gritei com a voz embargada atrás dele. Ele se virou e me olhou, seus olhos estavam vermelhos de raiva, mas ao notar que eu chorava desesperadamente ele percebeu o que estava fazendo, parece que ele estava numa espécie de transe de raiva, sem ver o que estava acontecendo.
- Eu....eu...vamos embora daqui, . - Falou atordoado olhando pra vários lugares e ofegante. E eu só sabia chorar desesperadamente. - Por favor. - Acrescentou, assenti ainda chorando, segurei na mão dele e fomos para fora da boate. Sentamos no meio fio da calçada, nós dois precisávamos nos recuperar antes de falar qualquer coisa.
Depois de uns minutos calada tomei coragem pra iniciar a conversa.
- , o que aconteceu lá dentro...- Olhei pro lado e vi que ele também chorava. estava com a boca toda arrebentada e chorando.
Me aproximei até que não sobrasse nenhum espaço entre nós e o abracei, as perguntas esperariam. O abracei e deixei que ele chorasse, ele chorava em silêncio, soluçava, porém não fazia barulho algum. Vê-lo daquele jeito partiu meu coração, e meus olhos já estavam marejados de novo.
- ... - Chamei baixinho.
- Ele quase te fez a mesma coisa que fez com ela... - Falou sem parar de chorar e eu não entendi o que quis dizer.
- Ela quem, ?
- Com ela, com a minha mãe. Ele ia te estuprar, . - Se voltou pra mim. - Igual fizeram com a minha mãe. - Aquilo me atingiu como bala no peito. A mãe dele foi estuprada, isso explica a reação dele, o transe de raiva, a crise de choro... Ainda chocada com a revelação e sem saber o que dizer preferi tentar acalmá-lo.
- Eu estou bem, okay? Ele não fez nada comigo, ele não teve a chance, porque você chegou. Olha pra mim. - Segurei o rosto dele o fazendo me olhar. - Você me salvou. - Aos poucos ele foi parando de chorar e se acalmou. - Vamos pra casa uh? Vamos de táxi.
- Mas a minha moto... - Começou a falar e eu o interrompi.
- Tenho certeza que vai estar bem guardada. - Eu não estava bem. Eu realmente seria estuprada se o não tivesse chegado e pensar naquilo me dava arrepios, meu coração ainda batia acelerado e receoso. Recuei até do porteiro da boate que veio abrir a porta do taxi pra gente. Eu não estava nada bem. Optei por irmos para o apartamento dele, subimos em silêncio e ele abriu a porta com a chave que estava no bolso.
- Eu vou fazer uma compressa de gelo pra você.
- , não precisa.
- Precisa sim, sua boca está muito inchada. - atordoada com meus pensamentos eu precisava fazer alguma coisa para me distrair, sei que se eu parasse e ficasse quieta entraria em pânico e começaria a chorar pelo que quase aconteceu comigo hoje, eu não queria pensar.
- Aqui. - Me sentei do lado dele com um pano de prato que achei na gaveta da cozinha e alguns gelos. - Deixa que eu seguro pra você. - Ele suspirou.
- Desculpas.
- Não foi sua culpa.
- Por ter te deixado sozinha, foi minha culpa. - Suspirei fundo.
- Você está dizendo isso por causa da sua mãe? - Receei ao perguntar, mas ele não se importou.
- Ela saiu e me chamou pra ir. Eu nem dei atenção, eu era criança, queria ficar vendo tv. Eu me despedi e ela perguntou se eu queria que ela trouxesse alguma coisa, eu pedi chocolate, ela concordou sorrindo, como sempre. - fechou os olhos para contar. - Ela bagunçou meu cabelo com as mãos e saiu. Veio a tarde e ela não voltou, a noite, o outro dia, 24h. Meu pai prestou queixa de desaparecimento, acharam ela, mas já era tarde, só acharam o corpo. Ela foi estuprada e morta logo depois. O que mais me doeu, , foi quando devolveram os pertences que estavam com ela, na bolsa estavam dois bombons, ela não esqueceu, se eu tivesse ido com ela, talvez... talvez não teria acontecido, ela ainda ia estar aqui.
O abracei forte, criança nenhuma devia passar por isso, nenhuma pessoa devia passar por isso.
- Prenderam quem fez isso com ela? - ele assentiu.
- Mas não foi o suficiente, o trauma que ele me causou, a maneira como ele acabou com a vida da minha mãe, da minha família. Nem pena de morte seria o suficiente.
- Eu sinto muito. - Foi a única coisa que coisa que consegui dizer, não tinha palavras, não tinha o que falar, nada que eu dissesse mudaria o fato que aconteceu, a dor e a culpa que ele sentia todos os dias, não havia nada a ser dito, embora eu queria que houvesse.
- Acho que já desinchou um pouco. - Mudei de assunto depois de alguns minutos em silêncio. Tirei a compressa de gelo da boca dele e coloquei a mão de leve o fazendo retrair. - Você levou um soco e tanto.
- É, mas ele ficou pior. - Disse sem um pingo de dó.
- Ele deu soco no pior lugar.
- Por quê? - Indagou.
- Porque não posso te beijar.
- Desgraçado. - Sorriu de leve. - Pior encontro de todos.
- A gente não tem muita sorte. - Sorri e ele me acompanhou.
- Dorme aqui hoje? - Pediu e eu hesitei por uns instantes, mas ao lembrar que Hailey não estava lá, decidi ficar, melhor do que ir pra casa e ficar sozinha.
- Okay. - concordei sorrindo.
Não aconteceu nada entre a gente naquela noite, peguei no sono sentindo o calor do seu corpo me abraçar.

Capítulo 9.

POV

Amanheci sentindo um vazio do lado da cama. Joguei os braços para checar e comprovei. Suspirei fundo, pra onde ela foi?
Levantei da cama meio zonzo procurando os chinelos, mas como não os encontrei de primeira deixei pra lá e fui direto pro banheiro.
Joguei uma água no rosto, escovei os dentes e baguncei os cabelos com a mão.
Caminhei ainda descalço, bocejando até a cozinha.
- Hey. - Ouço uma voz me chamar da sala.
- Ué, você ainda está aqui? - Me assustei.
- Nossa, bom dia pra você também. - exclamou indignada.
- Foi mal. - cocei o olho. - É porque eu achei que você já tinha ido embora.
- Eu acordei e não consegui mais dormir, não quis te acordar então sentei aqui pra ver televisão.
- Hm. - sentei do lado dela no sofá. - Que isso que você tá vendo?
- Ru Paul Drag Race! - Ela disse mega animada e eu gargalhei.
- É sobre oque? - perguntei.
- É um reality show de Drag Queens, é o melhor programa da TV depois de Keeping up With the Kardashians.
- Ah, , pelo amor de Deus, os dois são horríveis.
- Você nunca assistiu.
- Aham, e nem quero. - Ela me olhou com uma cara perversa e eu rapidamente entendi o que ela queria. - Não. Não. Não. Nem pensar.
- Por favoooor, você vai gostar! - Insistiu.
- Não vou não! - Exclamei.
- Eu te faço café. - Propôs e eu cocei o queixo, eu estava com fome, o quão ruim esse seriado podia ser?
- Um episódio. - deu um pulinho no sofá e eu achei graça, depois de ontem não custava nada assistir um seriado bobo com ela.
- Sua boca está melhor? - Perguntou e eu assenti, eu tinha até esquecido que aquele babaca tinha arrebentado a minha boca. - Só doí quando encosta. E você, está bem?
- Uhum. - Assentiu sem graça tocando o braço involuntariamente, foi quando reparei que as marcas da mão do cara ainda estavam nela.
- O seu braço... - Comecei e ela ficou totalmente sem graça.
- Não foi nada, já estou bem. - Retrucou se levantando mas segurei a mão dela.
- Deixa eu ver. - ela hesitou, mas voltou a se sentar, puxando um pouco mais a manga do vestido que vestia, a mão do desgraçado tinha deixado uma marca roxa no braço dela e isso por algum motivo me deixou com muita raiva. - Olha o que ele te fez! Seu braço tá roxo!
- Não...Não tem problema. - tentou parecer mais tranquila possível em relação a toda a situação, mas os olhos delas diziam ao contrário.
- Lógico que tem problema, ! Isso é minha culpa, agora você está com a marca desse filho da puta no seu braço. - Passei a mão na cabeça nervoso.
- , já passou, de verdade, está tudo bem. - Demorei a engolir o que ela falava. - Agora se você me dá licença, eu vou fazer um café porque eu tô morreeeeeendo de fome, desmancha essa cara emburrada. - apertou de leve a minha bochecha.
Ver ela machucada, me deixou mais puto do que eu esperava, essa menina é encrenca, e mesmo sabendo que eu estava me enrolando cada vez mais, não queria sair.

POV

Mal dormi essa noite, não sei como o não acordou comigo mexendo na cama, aquele ali dorme igual uma pedra. Levantei cedo e fui sentar no sofá, sabia que não ia conseguir dormir, os acontecimentos que aconteceram e os que quase aconteceram ontem a noite, martelavam na minha cabeça por mais que eu quisesse esquecer. As mãos daquele homem marcadas no meu braço me davam arrepios só de olhar, se o não tivesse chegado.... A crise de raiva, a forma como ele teria continuado batendo naquele homem se eu não tivesse o parado, o choro depois de tudo, o que ele me contou sobre a mãe dele, o fato de que ele não hesitou ao me defender mesmo nós não sendo nada, tudo pulsava na minha mente sem parar. Quando ele acordou disfarcei o máximo que pude, já bastava eu ficar mal, ele não precisava ficar também. Mas má mentirosa como sou, não consegui fingir por muito tempo, logo ele percebeu as marcas no meu braço e aí não teve como desviar do assunto. Tentei mudar de assunto novamente, fiz até um café e torradas pra gente, mas não consegui escapar por muito tempo. Tivemos uma conversa honesta sobre tudo. Contei que ainda me sentia mal e não estava tão no clima como demonstrava.
- Não gosto de te ver triste. - Finalizou e eu corei. - Se eu te comprasse um sorvete mais tarde, você ficaria mais feliz?
- De qual sabor? - Disse ainda envergonhada. Não tinha me acostumado com as demonstrações de carinho vindas dele.
- De Açali, aquele roxo. - Gargalhei.
- De açaí você quer dizer.
- Sim, é um nome difícil. - Sorriu e eu o acompanhei.
- Okay.
- Seu café é muito bom a propósito.
- É, eu sei. - Ele bagunçou meu cabelo - Ah não, ! Você não sossega nem quando eu tô triste. - Fiz drama.
- Você ainda tá triste? - Se sentou de frente pra mim com uma cara preocupada e eu sorri por trás do cabelo espalhado na minha cara. - , isso não se faz, fiquei preocupado.
- E você ia fazer o quê?
- Isso. - Se aproximou e me beijou. - Mas vai devagar, gatinha, que eu tô ferido.
- Achei que tinha esquecido desse nome ridículo.
- Você não me deixa esquecer. - Voltou a me beijar e no momento era tudo com que eu queria me preocupar...

Capítulo 10.

Dia 30 de dezembro.

- , eu não te vejo mais!
- Para de drama, , a gente se vê todo dia na faculdade. - Respondi revirando os olhos.
tinha vindo na minha casa fazer uma visita "surpresa"
- É, mas não é igual antes, você me contava tudo, e agora não quer me dizer nem onde passou o Natal!
- Eu já disse, na festa do escritório.
- E com quem você está saindo?
- Com ninguém, , deixa de paranoia.
- Ah é? E esse chupão no seu pescoço? Quem fez? A Hailey? - Respirei fundo. Eu não queria mencionar por dois motivos: 1- A ia pirar por ela odiar o . 2- Eu não sabia o que a gente era exatamente pra contar pra alguém, mas não era como se eu estivesse resistindo bem a tentação de contar pra alguém, quero poder comentar com ela.
- Eu te conto com uma condição.
- Qual? - Perguntou ansiosa.
- Se você prometer ficar fora disso. Eu não quero opiniões ou piadinhas. Okay?
- Okay. - Respirei fundo antes de contar.
- Eu meio que estou saindo com o . - Os olhos da se arregalar imediatamente.
- O , ? Eu te criei pra isso, ?
- , para de fazer drama - Gargalhei. - Não é como se eu estivesse namorando Hitler.
- É sim!
- Agora você está exagerando, e além do mais você me prometeu que não ia dar pitaco.
- Mas... - Começou e eu a interrompi.
- Viu?! Era por isso que não queria te contar.
- Ta legal, faz o que você quiser, mas não venha chorar na minha porta depois.
- Eu não vou, , sabe por quê? Porque eu sei muito bem cuidar de mim mesma.
- , foi ele que machucou seu braço? Porque se ele te bateu eu sinto muito, mas eu vou lá na delegacia denunciar ele.
- Não foi ele, , e eu não quero falar sobre isso. - Bufei.
- Tem certeza? - Insitiu e eu explodi.
- Sim, eu tenho certeza caralho. Desembucha, o que você veio fazer aqui?
- Eu vim te chamar pra uma festa de ano novo maravilhosaaa! Tenho 4 ingressos, Mark e eu pegamos dois. Se o seu namoradinho quiser eu posso vender um pra ele.
- E o meu? - Perguntei.
- O seu eu te dou, mas nem a pau que eu vou dar um pro . Se ele quiser ser seu beijo de ano novo, avisa que ele vai ter que mover aquele traseiro de ouro até aqui e me pagar 200 dólares, e eu só recebo em dinheiro.
- E se ele não quiser?
- Então vocês vão passar o ano novo separados porque eu não aceito passar longe de você, . - Respirei fundo pensando no que faria para convencer o a ir comigo, esperei a ir embora e tomei coragem para ligar pra ele. No momento em que começou a chamar eu me dei conta que era uma péssima ideia, mas quando ia desligar ele atendeu.

- Alô?
- Ahn, Oi . É a .
- Oi , aconteceu alguma coisa?
- Não...nada não. Só queria perguntar uma coisa.
- Apertei a mão na minha perna, morrendo de vergonha. Eu provavelmente estava parecendo uma desesperada, afinal a gente se viu ontem.
- Pode falar.
- Aahn, então.... eu só queria saber onde você vai passar o ano novo.
- Não decidi ainda, por quê?
- Por nada.
- Sorri sem graça e me martirizei, eu não ia convidar ele. - Então tá bom, te vejo depois. - Minha barriga estava rodopiando, ia desligar antes que eu vomitasse.
- Espera. - O ouvi chamar do outro lado da linha, me impedindo de desligar. - Você quer ir em algum lugar?
- Não...não. É só que a , minha amiga, me chamou pra uma festa besta de ano novo ai eu pensei...mas deixa pra lá.
- Você ia me chamar pra ir com você?
- Gargalhou de leve do outro lado da linha e eu o acompanhei. - , você é um desastre para marcar encontros, mas quem sabe com o tempo você aprenda com o melhor.
- Ah cala a boca.
- Vou facilitar pra você. Ok, vamos. Tem que comprar ingressos?
- Sim.
- Disse me lembrando da bobagem que a estava fazendo só porque o ingresso era para o .
- Tudo bem, fala pra sua amiga, , certo? Que eu pago o seu e o meu na entrada.
- Ah, não precisa se preocupar comigo, eu ganhei um no sorteio que teve.
- Menti descaradamente e fechei os olhos de vergonha, mesmo sabendo que ele não podia me ver.
- Hm...okay.
- Então, combinado?
- Combinado. Te pego às 22h?
- Às 22h.
- Vejo você sábado gatinha. Não morra de saudades.
- Nem nos seus sonhos .
- Sorri pelo nariz. - Agora desliga logo esse telefone que você está tomando meu tempo.- ouvi o mesmo gargalhar leve e encerrar a ligação

Depois de recapitular que a gente ia sim passar o ano novo juntos, liguei pra e confirmei com ela, que pareceu surpresa dele ter concordado em ir, mais tarde decidi passar nos meus pais para pegar algumas correspondências minhas que ainda tinham lá por endereço.
Empurrei o portãozinho baixo e passei na caixa de correio recolhendo 3 envelopes, um deles sendo da minha faculdade; estranhei, porém resolvi abrir em casa, só ia passar e dar um oi pra minha mãe antes.
A porta estava aberta, então nem me importei em chamar antes de entrar, logo dei de cara com meu pai e minha mãe conversando, sentados na mesa da sala de estar. Não demorou muito para eles perceberem que eu estava ali.
- ! - Minha mãe exclamou com uma voz nervosa e eu arquei a sobrancelha. - O que faz aqui? - perguntou ainda apreensiva.
- Ahn, eu só vim pegar umas correspondências minhas e resolvi dar um oi. Está tudo bem?
Minha mãe trocou olhares com meu pai antes de responder.
- Por que não estaria?
- Não sei, você está estranha. - Meu pai suspirou fundo.
- Conta logo pra ela, Miranda...sobre a faculdade.
- Me contar o que? O que tem minha faculdade? - Pelo olhar deles de nervosismo associei a carta que tinha em mãos e resolvi abri-la.
- , espera... - Minha mãe disse calma, mas eu já havia aberto a correspondência.
"Srta ,
Seu pedido de transferência foi bem-sucedido..."

Passei o olho rápido nos parágrafos seguintes até encontrar o que mais temia.
"...a academia de Relações Internacionais assegura também a continuação da vaga de estágio para o local de transferência localizado em: Rio de Janeiro-Brazil"
- Será que alguém pode me explicar isso? Será que algum de vocês pode me lembrar de quando eu pedi transferência? - Ambos ficaram calados o que me deixou muito nervosa. - MÃE?
- Filha a gente ia te contar, só estávamos esperando o momento certo. - Disse receosa com as mãos no rosto. - A gente vai voltar para o Brasil.
Paralisei no mesmo instante. Acho que eu já esperava que isso fosse acontecer um dia, mas não agora.
- Vocês não têm o direito de fazerem isso comigo! Pedir transferências da minha faculdade? Sem ao menos me avisar?
- ... - Minha mãe começou e eu a interrompi
- Não venha com agora! A minha vida toda é aqui! Eu cresci aqui! Eu não me lembro de praticamente nada do Brasil! Não espere que eu fique feliz com essa porra de notícia!
- Olha o respeito com sua mãe! - Meu pai levantou a voz, e eu dei uma risada sarcástica.
- Não me venha falar de respeito agora, pai. Pois muito bem, eu estou indo na faculdade explicar que isso foi um tremendo mal-entendido. - Me levantei nervosa.
- Você não vai fazer isso, ! Nós vamos voltar para o Brasil, queira você ou não! - Meu pai esbravejou batendo na mesa.
- Então boa sorte em tentar me dopar e me colocar dentro do avião.
- Você não me deixa outra escolha à não ser deixar você por conta própria.
- Você não pode fazer isso!
- Não só posso, como vou. Se você quiser ficar aqui tudo bem. Mas vai ter que se manter.
- Eu trabalho! Eu vou dar um jeito.
- Seu estágio não paga nem a metade da faculdade, . - Eu já estava chorando de raiva nesse momento, como ele pode fazer isso comigo? - E se você acha que vai continuar morando naquela casa sozinha, você está enganada, já coloquei as duas casas para venda.
- E se eu arrumar um emprego e conseguir me manter aqui?
- Um emprego com um salário alto sem ao menos ter terminado a faculdade? Duvido. A escolha é sua, se ficar aqui não conte com nenhuma ajuda minha.
- Mãe? - Clamei por ela ainda chorando, esperando que ela ao menos intervisse, ou fosse contra.
- Filha, tenta entender a gente. Sua irmã está se mudando para a França, não podemos ficar tão longe assim das duas. - Suspirou fundo. - Você é minha caçula.
Eu estava tentando entender o lado deles, eu realmente estava. Mas nada fazia sentido na minha cabeça. Por que ir agora? Logo agora?
Assenti ainda com lágrimas nos olhos, precisava sair dali, peguei minha chave em cima da mesa e sai batendo porta.
O vento cortava forte na minha frente bagunçando meu cabelo e os pensamentos surgiam embaralhados na minha mente. Motivos para ficar. Motivos para ir.
Não queria brigar com meus pais, nem me rebelar, nunca fui essa filha, esse cargo deixei pra Hailey e ela já o exerce muito bem. Porém ter que ir embora assim de uma hora pra outra me deixava muito puta, mas o que eu poderia fazer?
Ficar sem casa, sem faculdade e sem emprego em plena New York não parecia um bom plano. Bufei alto frustrada, eu tinha que descobrir algum jeito de permanecer aqui, e tinha que ser rápido, eu tinha duas semanas até o casamento da Hailey, que conhecendo meu pai essa é provavelmente a data que iremos embora. Ele não perderia o casamento da filha, mas também não ficaria pra ver muito mais.
Eu tenho duas semanas pra dizer adeus a New York ou bolar um plano muito bom que me faça ficar.

31 de dezembro. 22:10 PM.

Não consegui dormir muito bem essa noite tentando bolar alguma coisa que me fizesse ficar, mas infelizmente não consegui nada. Estava cansada e indisposta, e se eu já não tivesse combinado com a e o , que por sinal estava atrasado, nem iria pra essa festa de ano novo.
Estava pronta há quase 20 minutos agora, sentada no sofá esperando o , onde esse menino se meteu? já havia me ligado 15 vezes perguntando onde eu estava. "Em casa" respondia todas as vezes " você percebe que eu estou com os ingressos de vocês? Eu e o Mark estamos plantados aqui na porta esperando vocês sem poder entrar!"
"Ele já deve estar chegando" afirmei, sem nem ao menos saber se era verdade. Ele poderia ter esquecido, ou ter arrumado coisa melhor, ou ter decidido não ir, mas de jeito nenhum eu ia ligar pra ele confirmando o bolo. Se ele não aparecesse, eu agradeceria, não estava no clima.
A Tv mostrava a Times Square lotada de gente e claro, toda iluminada, aguardando a descida da bola que aconteceria à 00h. Eu amava ver a disposição de todas essas pessoas que passavam o dia em pé pra ver o fim de ano mais famoso do mundo, mas tenho que admitir, é realmente uma sensação muito gostosa, a euforia é transmitida pelo ar, não tem como ficar triste ali.
Ouço uma buzina do lado de fora e deduzo ser o , desligo a tv e desamasso meu vestido com as mãos, pego minha bolsa e dou uma última checada no relógio antes de sair de casa. 22:30.
A vai me matar no momento em que pisarmos lá.
- Você está atrasado. - Disse para o assim que o vi.
- Eu sei, dormi demais. - Fechei a cara pra ele e ele sorriu de lado. - Mas eu cheguei, não é isso que importa?
- Não. - falei mal humorada tirando o capacete das mãos dele. Meu telefone tocou de novo. - Ai é a pra falar que estamos atrasados, de novo. - Bufei montando na moto, sem me apoiar em nada pois estava com as mãos cheias.
- Deixa eu falar com ela. - pediu e eu o olhei desconfiada. - Eu não vou fazer nada! Só vou falar que já estamos chegando. -
Ainda receosa entreguei o celular, desocupando minha mão, passei a alça da bolsa pelos meus ombros e me certifiquei que ela estava segura.
"- Oi, amiga da , tudo bem? Já estamos chegando" - dizia, mas não conseguia ouvir o que a estava dizendo do outro lado da linha. "- Certo, eu entendo, mas já estamos chegando, agora vou desligar aqui porque você sabe né, se continuarmos nos falando eu não posso dirigir a moto."- Sorri involuntariamente. "- Nos vemos em 10 minutos."
- Aqui. - Me entregou o celular. - Insistente sua amiga né? - sorriu.
- Muito, acha que pode chegar lá em 10 minutos?
- Certeza. - colocou o capacete e eu imediatamente o segurei, ele teria que ir muito rápido pra cumprir esse prazo.
Dito e feito, a moto acelerou como uma bala. Apesar de estar "acostumada" com essa moto, ainda me cagava de medo toda vez que tinha uma curva ou quando ele decidia ir cortando caminho entre os carros, apertava ele mais que tudo. Em pouco tempo estávamos de frente o salão de festas e logo avistamos a e o Mark parados no jardim ao lado da recepção.
- São eles. - Apontei.
- Vamos lá então, a moto já está estacionada.
Caminhamos separados em direção aos dois e essa parte era sempre a mais constrangedora, não saber se devo ou não pegar na mão dele.
- Meu Deus! Até que enfim! - gritou de longe e eu e o trocamos olhares.
- Oi pra você também . Oi Mark. - Acenei achando graça da forma como vinha andando na frente dele e ele me acompanhou nas risadas.
- Não tem oi pra você . Pega os ingressos e vamos entrar logo.
- Ahnn, oi. Você quer que eu te pague agora? - decidiu participar do diálogo fazendo a notar sua presença pela primeira vez em que chegamos. Ela o analisou da cabeça aos pés, tenho certeza que reparou até no amassado da camisa social branca que ele vestia e principalmente nos olhos. Não a culpo, meu olhar sempre parava lá também.
- Não precisa, depois a me entrega.
- Vamos? - Mark perguntou pegando na mão da e indo na nossa frente. Eu já tinha dado o primeiro passo para segui-los quando me puxa e me dá um beijo. Apesar de ser pega de surpresa demoro menos de 1 segundo para retribuir. Quando a falta de ar nos separou ele encerrou com um selinho, mordiscando o canto da minha boca e me lançou um sorriso safado, me fazendo revirar os olhos.
- Vem logo . - O puxei pela mão e pela primeira vez senti que estava tudo bem em fazer isso, e respirei tranquila por estar suficientemente distraída pra esquecer dos problemas que me esperavam em casa.
A festa corria bem e animada, confesso que tinha muita gente bonita e tão bem vestida que me sentiria mal, mas sorri satisfeita ao lembrar que tinha escolhido o meu melhor vestido, um preto justo com algumas lantejoulas também da cor preta.
- A gente veio combinando. - cochichou no meu ouvido. - Preto e branco.
- São duas cores completamente diferentes, . - sorri.
- Mas combinam. - me olhou nos olhos.
- É verdade. - Admiti, o olhando de volta. - Combinam. - Ele coçou a orelha e devido a convivência percebi que ele estava nervoso.
- O que foi? - Perguntei.
- Eu preciso falar com você.
- Você ta ficando com outra? - Me adiantei tão depressa que até eu me surpreendi. - Porque se estiver, tudo bem a gente nunca estabeleceu nada.
- O que? - gargalhou. - Não é nada disso, gatinha. - Passou a mão no meu cabelo o bagunçando.
- Então o que foi?
- Eu queria te fazer uma proposta. - Semicerrei os olhos preocupada pra que rumo essa conversa estava tomando.
- , se for uma coisa muito séria acho melhor você esperar um pouco, porquê já vão fazer a contagem regressiva.
- Vou ser rápido. - Prometeu.
- Diz.
- Eu nem sei como te pedir isso, na verdade só tomei coragem porque nós dois bebemos os 12 drinks que ofereciam no bar. - Sorri juntamente com ele. Já tínhamos perdido a e o Mark há muito tempo, estava sentada numa parte alta de um murinho que tinha no final do salão, e ele estava em pé no meio das minhas pernas e suas mãos passavam pela minha cintura. - Certo. Bom, eu preciso ir ver minha avó, essa semana pra ser mais exato. Faz tipo uns 5 anos que não vou lá porque sempre invento uma desculpa e ela acaba engolindo. Ela me ligou e me convidou pra ir lá ver ela, eu disse que não podia, pois iria acompanhar minha namorada em uma cirurgia...
- , os doze drinks já estão fazendo efeito.
- Espera, deixa eu terminar. - Ergui uma sobrancelha o mandando prosseguir e com as mãos prendia meu cabelo em um coque.
- Ela disse que era uma pena, pois ela estaria comemorando 70 anos e queria muito me ver, disse que estava muito doente e que tinha medo de morrer sem me ver mais uma vez - comecei a prestar mais atenção na história.
- Você devia ir visita-la . - Disse sincera e ele assentiu.
- Eu sei. Eu sei. Eu vou. - Sorri.- Mas eu preciso que você vá comigo. - Minha serenidade se transformou em confusão, eu não estava entendendo mais nada.
- É o que?
- Eu preciso que você vá comigo. - Repetiu.
- Por quê? - Questionei.
- Porque eu disse que tinha uma namorada, droga. E agora se eu aparecer lá sem nenhuma namorada ela vai achar que eu sou um mentiroso.
- E você é. - Falei levantando a sobrancelha para deixar bem claro.
- Eu sei disso e você também sabe, mas ela não.
- Ta, deixa eu ver se eu entendi direito, você quer que eu finja ser sua namorada por um dia?
- Na verdade são 5 dias, mas sim.
- Você está bêbado. - Deduzi e desci de onde estava sentada.
- Arg! Não estou. - Bufou nervoso- E além do mais qual o problema? A gente já se conhece e estamos ficando há um tempão. - "Tempão" ironizei mentalmente.
- O problema, , é que eu não vou mentir pra sua avó.
- Mas você nem conhece ela. - Disse com uma cara confusa e eu gargalhei seca - Eu fico te devendo uma, por favor, .
- Não. Não. E não. Eu não ganho nada com isso.
- Você ganha uma viagem de férias com tudo pago pro Tenessee.
Eu estava pronta pra virar as costas quando tive uma ideia, eu poderia usar isso ao meu favor. Meu pai disse que eu poderia ficar em New York com uma condição, se eu me mantesse.
Eu posso me virar, só preciso conseguir um cargo melhor, então vou ganhar meu próprio dinheiro e não vou precisar depender do meu pai.
- Com uma condição, você vai me conseguir uma das vagas de superior assistente que estão abertas.
- Só isso? Feito. - Estendeu a mão pra mim e eu apertei.
Eu ia triplicar meu salário apenas fingindo ser a namorada do por uma semana, o que poderia dar errado?
- Mas temos que combinar isso direito, e além do mais eu tenho que estar aqui dia 17 pro casamento da minha irmã.
- Relaxa, até lá a gente já voltou.
- Uma semana certo? E nem tente se aproveitar de mim.
- Como se eu quisesse, sabia que minhas primas são uma mais gostosa que a outra? - Brincou me abraçando por trás.
- Os primos também? Porque eu estou totalmente disponível.
- Todos primos são feios. - Gargalhei.
- Aham, . - Revirei os olhos enquanto tentava identificar o porquê de a música ter parado. - Vão fazer a contagem. - Disse baixinho, mas como tinha sua cabeça apoiada em meus ombros, não foi difícil para ele escutar.
- Sim. - Respondeu.
Era engraçado observar algumas meninas olhando de um lado pro outro na esperança de achar alguém para beijar de última hora.
- 10! 9!
O DJ começou a contar e todos correram para o lado de fora onde explodiriam os fogos.
Nem precisamos fazer muito esforço para isso, apenas viramos de frente permanecendo no mesmo lugar.
- 8! 7!
Vi de relance puxar Mark lá pra fora o mais rápido que seu salto permitia e involuntariamente sorri.
- 6! 5! - Gritavam forte
- Você não acredita nessa besteira de beijo ano novo né? - perguntou sorrindo baixo no meu ouvido me dando cosquinhas.
- Não. - Me virei ficando frente à frente com ele.
- 4!
- Mas nós vamos fazer mesmo assim não vamos? - Passou a mão tirando um fio de cabelo que estava no meu rosto.
- 3!
- Com certeza. - Sorri e me acompanhou. Naquele momento eu estava tão calma, ali e agora eu tinha quase certeza que tudo ia ficar bem.
- 2!
Involuntariamente fechei os olhos e desejei que aquela tranquilidade e esse momento durassem para sempre.
- 1!
Senti os lábios do junto aos meus e nossas línguas se encontraram, dançando e se envolvendo numa sintonia incrível como sempre faziam. Conseguia ouvir o barulho ensurdecedor de fogos explodindo um atrás do outro e um coro de pessoas gritando; "Happy New Year!" Nos separamos devagar.
- Feliz ano novo, .
- Pra você também, gatinho. - Bati a ponta do dedo no nariz ele e ele revirou os olhos.
Após a queima de fogos encontramos Mark e a .
- Hey onde vocês estavam? - Mark perguntou, sorri ao notar que ele estava com a cara toda cheia de batom vermelho.
- A gente veio dar um tempinho aqui, mas com certeza não nos divertimos igual vocês. - Fiz um sinal com o dedo ao redor da minha boca e ele entendeu de cara, esfregando a mão no seu rosto.
- Ah, , já falei pra você não usar esse batom! Minha avó vai encher o saco.
- Até parece que eu não vou usar esse é batom. É Nars, querido. Nars não se guarda.
- Tem no seu Blazer também, cara. - apontou segurando o riso.
- É alugado, droga. - Reclamou dando batidinhas e olhando feio pra que se fingia de desentendida.
- Vocês beberam? - perguntou me cheirando.
- Um pouquinho.
- Tô vendo, eu bebi só o vermelhinho. - Como estava escuro não dava pra ver muito bem o que estava acontecendo e estava aproveitando para passar a mão na minha bunda.
- Para. - Cochichei.
- Que? - perguntou
- Nada não, tava só pensando em voz alta. - segurou o riso e descia de novo a mão das costas para o meu bumbum.
- Meu Deus, agora não. - Tentei manter a voz baixa.
- Agora não o que? - Foi a vez de Mark perguntar e estava achando graça da vergonha que eu estava passando.
- É só que o está ficando excitado aqui e eu estou dizendo para ele que agora não. - Provoquei e foi a vez de Mark segurar o riso, pelo contrário me lançou um olhar indignado.
- Ta com vergonha de gritar de prazer em público, donzela? - Revidou.
- Meu Deus, arranjem um quarto. - revirou os olhos, terminando o drink que tinha em mãos
- Eu não vou arranjar quarto nenhum, porque não vai acontecer nada hoje.
- Soldado ferido. - Mark exclamou com a mão no peito fazendo graça. - Quando eu e a começamos a namorar ela também era muito difícil.
- Ah, não. - Começamos juntos e troquei olhares com ele. - Não estamos namorando. - Dissemos ao mesmo tempo e o empurrei para o lado oposto.
- Ah, é que eu achei que estavam. - Mark se desculpou.
- Eca! Não. - Afirmei.
- Só se eu tivesse muito chapado.
- Nem assim você me teria, bebê, nem assim. - Apertei a bochecha dele e dei um risinho falso. - Vamos no banheiro comigo, ?
- Vamos. - Concordou.
- Por que elas sempre vão no banheiro juntas? - ouvi Mark resmungar enquanto íamos nos afastando
Caminhamos em silêncio até o banheiro, não era tão longe. No minuto que entramos no banheiro quebrou o silêncio.
- Você e o hein...
- Não começa, é casual. - Respondi.
- Casual, certo.
- Certo.
- Mas...ele beija bem? - Disse retocando o batom e acabamos por gargalhar.
- Pior que sim. - Concordei ainda rindo. - A barriga dele , é tão definida quanto de um jogador de futebol americano.
- Cuidado pra não se apaixonar.
- Ore por mim.
- Eu vou. - Fechou os olhos e ergueu as mãos arrancando uma risada minha e ela também não se segurou.
- Ele me fez uma proposta. - Comentei.
- De namoro?
- Deus, não. Ele quer que eu finja ser a namorada dele por uma semana.
- Mas todo mundo sabe que vocês não são "namorados". - Fez aspas com as mãos ao dizer a última a palavra.
- No Tenessee.
- Tenessee?
- Sim, pra família dele, mas tipo é só uma semana.
- E você aceitou? - Arregalou os olhos.
- Aceitei, mas ele disse que vai me conseguir outro cargo lá na empresa e você sabe que eu preciso.
- Pelo lance do seu pai né.
- Sim. - Me apoiei na pia desanimada. - Se eu conseguir essa vaga, eu consigo ficar, e se pra isso eu preciso pegar na mão do e chamar ele de meu amor, eu faço.
- Que dia vocês vão?
- Antes do casamento da Hailey, não sei a data exatamente.
- , não esquece que não é de verdade, não quero te ver machucada depois.
- Nem eu , mas vale o risco.

Dia 10 de janeiro. Dia da viagem

Depois da festa de ano novo foi um pulo pro dia da viagem. 10 dias se passaram e eu tínhamos conversado o mínimo possível nessa semana, e o pouco que conversamos era sobre a bendita viagem. Poucos dias após a festa de ano novo compramos as passagens e disse que pagaria pelas duas, tentei dizer que não precisava, mas ele não me deu ouvidos.
Pedi a Hailey que avisasse meus pais casualmente que iria viajar, não tinha falado com eles desde aquele dia em que praticamente fui deserdada, mas não queria que ficassem preocupados apesar de tudo. Eu precisava desse emprego, o rumo continuo da minha vida neste momento estava baseado em uma coisa que nem ao menos estava garantida.

Flashback ON
- . - me chamou baixinho, estávamos no escritório. - Eu consegui te colocar na entrevista, mas é o máximo que posso fazer. - Cochichou no meu ouvido.
- Mas eu não vou conseguir passar! Achei que você fosse me dar uma vaga! - Cochichei de volta nervosa, olhando para os lados para me certificar que ninguém estava olhando.
- Olha, eu posso ser o herdeiro disso aqui, mas enquanto não estiver no meu nome, eu não posso fazer muito.
- Ta. Ta! Eu vou dar um jeito.
- Também não entendi o porquê você quer subir de cargo, nem se formou ainda.
- Eu preciso da grana pra umas coisas ai. - semicerrou os olhos para mim me analisando, mas não questionou.
- As passagens estão marcadas para o dia 10/01. Às 11:40. A entrevista vai ser pouco antes do vôo, as 09:00h.
- Não vai dar tempo , temos que fazer o check-in e tudo.
- Aaaah, eu vou fazer dar tempo.
Flashback OFF

- , você vai hoje? - perguntou pelo telefone, tinha acabado de me ligar. Estava no meu quarto organizando o que faltava.
- Sim. - Respondi segurando o telefone entre o ombro e meu ouvido. - Estou terminando de fechar as malas.
- Nem deu pra gente se despedir. - Afirmou tristonha e eu sorri de lado.
- É só uma semana , e se tudo der certo, a gente vai continuar se vendo todos os dias na faculdade.
- Torço por isso, me liga quando chegar lá?
- Pode apostar, estarei com as galinhas na Tenessee enquanto você curte o friozinho de New York.
- Não me faça pegar esse vôo pra poder ir ver você interagindo com as galinhas e filmar para um momento futuro. - Gargalhou do outro lado da linha.
- Na verdade, isso seria um grande favor, assim não precisaria passar uma semana inteira confinada com o . - Suspirei fundo, colocando o passaporte e documentos na bolsa de mão.
- Até parece que você não está adorando, , ficou toda derretida quando ele te deu esse colar, que você não tira do pescoço por sinal. - Olhei involuntariamente pro colar e coloquei uma das mãos sobre ele
- Você não estava lá pra comprovar isso.
- E nem preciso, só de ouvir você contando deu pra perceber. - sabia de tudo, depois do ano novo sentamos pra conversar e acabei falando demais, mas preferi não comentar o evento que aconteceu na boate, e muito menos o que havia me contado sobre sua mãe.
- E além do mais que a gente estava indo bem nesse lance casual, olha, ele não é um anjo, e muito menos eu sou santa pra ficar aguentando gracinhas e atitudes que eu sei que ele tem.
- É o signo dele...já te disse. - Me cortou mas ignorei e continuei falando.
- A gente só dá certo porque sabemos o mínimo um do outro, e eu gostaria que continuasse assim. Simples.
- Você está exagerando de um tanto que parece que está indo viajar de férias com ex. - Bufei com a piadinha ridícula - Relaxa, se apesar da personalidade difícil que ele tem, você consegue aguenta-lo todos os dias tendo que trabalhar, de férias vai ser moleza.
- Você tem razão, é só , e é por um bem maior.
- Por NY baby, vale qualquer coisa. - sorri.
- Tenho que ir, ainda tenho a entrevista.
- Boa sorte então, e boa viagem.
- Obrigado. - Suspirei aliviada, fechando a última mala. - Até mais.
Conferi meus documentos pela centésima vez, e me certifiquei de que estava pronta antes de ligar pro taxi. Mandei uma mensagem de texto ao avisando que estava saindo de casa agora pra entrevista.

[08:33, 10/01/2017] : Tô saindo de casa agora. Cadê você?
[08:35, 10/01/2017] Fuckboy #1: Eu já estou aqui"

7 minutos foi o tempo que o taxi demorou para chegar aqui em casa, e já tinha me martirizado o máximo possível por não tê-lo chamado antes, se a gente perdesse esse voo por minha causa, iria me matar.
- Times Square, por favor. Vai o mais rápido que você puder. - O motorista obedeceu minhas ordens e ao estacionar em frente ao grande edifício da . Entertainment avistei falando ao celular e com algumas malas ao seu redor.
Desci do carro correndo e pedi ao motorista que acertasse o preço da corrida com "o moço bem ali" apontei para o que pareceu acabar de perceber que eu havia chegado, desligou o celular e veio caminhando em passos rápidos ao meu encontro.
- Pode subir, o pessoal da entrevista está te aguardando, vou ficar com suas coisas te esperando aqui em baixo.
- Okay. - Suspirei fundo chacoalhando as mãos no ar de nervoso. - Vou subir lá. - Comecei a andar indo para o prédio quando ouvi a voz de chamar meu nome.
- ! - Me virei. - Boa sorte. - Exclamou sorrindo e eu retribui o gesto.

's POV
Ter feito concordar em viajar comigo foi mais fácil do que eu pensava. Eu estava preparado pra enfrentar um leão muito maior do que uma vaga de emprego, quando ela me disse que essa era sua condição para me acompanhar, confesso que fiquei surpreso. Se fosse eu no lugar dela pediria dinheiro, bem mais efetivo que um emprego, mas ela era diferente, jamais faria isso. Já estava com vergonha o suficiente por ter me pedido um emprego. Alguma coisa definitivamente estava acontecendo, de jeito nenhum ela toparia se não estivesse tramando alguma.
Olhei para o relógio do celular e vi que já eram 9:40, se ela demorasse mais um pouquinho na entrevista, perderíamos o vôo.
Não era pra ter entrevista, eu tentei colocar ela direto na lista de ocupantes das vagas, mas aparentemente meu pai tem políticas muito serias em relação a mérito.
- Vamos logo ... - resmunguei em voz alta.
Boca santa, assim que terminei a frase, pude avista-la saindo da porta giratória.
Bati palmas rápidas com a intenção de chamar a atenção dela para que se apressasse. Porra.
- Vambora, ! - Gritei de longe e a observei apertar o passo, praticamente correu, para ser sincero.
- Ai, cheguei. - Disse ofegante. - Cadê o taxi?
- Mandei embora, não ia caber as minhas coisas e as suas no porta-malas.
- E como vamos para o aeroporto?
- Meu motorista vai levar a gente. - Apontei para a limusine estacionada pouco afastada da entrada principal. - Vem.
- Desde quando você tem um motorista? - Perguntou boquiaberta me seguindo e eu pisquei pra ela.
- Desde sempre, não é mesmo, Ronald? - Dirigi a palavra ao bom e velho Ronald, que estava nos esperando a porta do carro.
- Conheço o senhor desde muito pequeno. - Afirmou sorrindo, em seguida abriu a porta do passageiro para que pudesse entrar e logo depois eu.
- Preciso que vá o mais rápido que puder, Ronald. - Bati a porta.
- Posso pega-lo emprestado depois? - cochichou no meu ouvido me fazendo sorrir e simultaneamente me lembrar de uma coisa que eu tinha que fazer.
Enfiei a mão no bolso da jaqueta e tirei de lá uma caixinha pequena de veludo com dois anéis que comprei mais cedo.
- Se vamos fingir estar namorando precisamos de uma aliança. - Ela sorriu intrigada e franziu as sobrancelhas. - Me dê sua mão. - estendeu a mão esquerda.
Com uma das minhas mãos segurei e com a outra coloquei a aliança que graças a Deus encaixou certinho. - Pronto, agora é uma mulher comprometida. - Peguei a outra aliança e coloquei no meu dedo sem muita cerimônia.
- Como sabia o tamanho do meu anel?
- Eu não sabia. - Confessei. - Peguei o segundo menor, porque sua mão é muito pequena, e torci para que fosse o certo. - Revirou os olhos.
- Pelo menos você tem bom gosto. - Estendeu a mão um pouco a frente para poder ver melhor e um sorriso automático se formou nos meus lábios, mas logo o desfiz.
Minutos depois estávamos no aeroporto e cara, essa porra estava lotada.
- Já são 10h20m, merda. - Exclamei.
- Vamos correr então. - deu a ideia e eu apenas segui disparado em direção ao check-in.
- Eu vou seguindo vocês com a bagagem, Sr.. - Ronald gritou de longe.
A pouco tempo de distância podia sentir tentando acompanhar o meu ritmo, mas não dava pra esperar ela agora, eu precisava chegar no check-in e precisava chegar rápido. Fui torcendo para que a funcionária estivesse de bom humor e nos deixasse passar, mesmo que muito atrasados.
Parei no balcão ofegante e demorei alguns segundos para me recuperar da correria toda, estava realmente sedentário.
- Pois não? - A atendente dirigiu a palavra a mim.
- Gostaria de fazer o check-in para o vôo New York - Maryville. Tenessee
- O senhor se refere ao vôo das 18h?
- Não. - Inspirei buscando ar pois havia corrido muito. - O das 11:40.
- Sinto muito, senhor, mas o tempo limite para embarque já foi excedido, todavia o senhor pode estar pegando o próximo voo para Maryville às 18h.
- O que aconteceu? - chegou cansada e parou apoiada com as mãos nos joelhos. Passei a mão na cara nervoso.
- Não tem nada que você possa fazer pra nos colocar na área de embarque? - Perguntei elevando o tom de voz.
- Não, senhor, mas.... - A interrompi abrindo a carteira.
- Qual seu preço? - Ela me olhou assustada. - Todo mundo tem um preço, me diga, qual é o seu?
- ! - me repreendeu, mas a ignorei.
- Eu não posso aceitar suborno senhor, eu sinto muito. - Assenti, abrindo o talão de cheque que tinha na carteira.
- $3,000 dólares está bom pra você? - Empurrei o cheque pelo o balcão, ela se certificou que ninguém estava olhando e receosa pegou o cheque para si, o dobrando discretamente e colocando no bolso.
- Temos que ser rápidos, ou as bagagens vão ficar de fora do avião, documento em mãos. - peguei meu passaporte, identidade e as passagens. vendo a correria ja estava com tudo pronto nas mãos.
- Pode confirmar seu nome por favor?
- Rosenberg . - respondi com a voz pouco rouca
- Senhorita, pode fazer o mesmo por favor?
- .
A atendente carimbou algumas coisas e com um enorme sorriso no rosto nos devolveu os documentos.
- Podem despachar a bagagem. Obrigado e tenham uma boa viagem.
- Graças a Deus.
- Ela só precisava de um incentivo. - Afirmei.
- Bem ainda assim é errado subornar as pessoas, ela não devia ter aceitado - retrucou.
- Você queria que a gente perdesse o voo? Se você quiser pegar o caminho mais longo e o mais certo, embarque no próximo, mas eu vou agora.
me fitou indignada para não dizer puta e se virou de costas, auxiliando Ronald a passar as malas pelo escaneador. Não acredito que ela ficou brava só por causa disso, ela já devia saber que eu sou um babaca e me ignorar. Claro que ninguém tem que aguentar o cavalo aqui dando patadas sem parar, mas mesmo assim eu não falo as coisas por mal, quando eu vejo eu já disse.
Depois de passar as bagagens pelo raio-x foi a nossa vez.
foi na frente. Ainda sem falar comigo, tirou primeiro o colar que envolvia deu pescoço desde o Natal, depois a aliança que concordamos em usar mais cedo, os sapatos e passou sem maiores problemas.
Quando foi minha vez o negócio foi mais complicado.
Tirei a jaquetas, o cinto, o sapato, o cordão de ouro, a aliança e mesmo assim continuava apitando.
- Se o senhor puder tirar a blusa.
- Fala sério. - Sacudi a cabeça em negação, mas mesmo assim puxei a camisa por cima da cabeça, e mesmo assim ouvi o soar do apito novamente.
O segurança me revistou verificando os bolsos e tudo mais.
- Se continuar detectando algo suspeito ao atravessar, eu sinto muito, mas você não vai poder passar para a sala de embarque.
Não tinha mais nada pra tirar, enfiava as mãos nos bolsos procurando alguma coisa, e vi de lado algumas meninas que estavam atrás da gente piscar pra mim e também vi fechar a cara pra elas. Sorri.
- Aha! Achei. Tinha uma moedinha de 5 centavos presa no fundo do bolso, ao tentar pela enésima vez, pude atravessar o portal em silêncio finalmente.
Fiz um sinal com a cabeça para o segurança o cumprimentando, e fui colocando as coisas que estavam na cesta de volta ao lugar em que pertenciam, comigo.
- Boa viagem, Senhor , e para você também, Senhorita . Quando estiver de volta na cidade, não hesite em me ligar se precisar.
- Muito obrigado, Ronald. - Abriu um sorrisão para o meu motorista.- Você é demais!
Após me despedir rapidamente de Ronald adentrei mais a fundo da sala de embarque a procura de um lugar para sentar, ia na frente com braços cruzados, pisando forte e fazendo barulho a cada vez que seus pés encostavam no chão. Balancei a cabeça em negação, todo esse drama só porque a disse para pegar o próximo voo.
Por fim encontramos duas cadeiras separadas no ultimo corredor de espera, agora era só aguardar o nosso voo ser chamado.

's Pov
Nem saímos de New York e o já começou com as babaquices dele, se ele pensa que vai ficar me dando mal resposta pra qualquer coisa a viagem toda só porque estaremos perto da família dele ele está muito enganado, eu acabo com essa farsa a hora que eu quiser.
- Atenção. - O autofalante anunciava. - Primeira chamada para o Voo 10087. Conexão New York - Maryville, Tenessee.
Peguei minha bolsa de mão que repousava no chão e troquei olhares com .
- É o nosso. - Afirmou.
- É, eu sei.
- Embarque para a primeira classe guichê número 1. - A voz mecânica extremamente irritante voltou a informar. Caminhei em direção ao balcão com um número 1 enorme em cima, é claro que tinha que comprar passagens de primeira classe, claro que tinha.
20 minutos depois e já estávamos acomodados dentro do avião.
tirou do bolso uma caixinha pequena com alguns comprimidos e engoliu dois deles de uma vez, sem ao menos tocar em um copo de água. Me perguntei para o que seriam aqueles remédios, mas definitivamente não queria puxar conversa, já teria que interagir com ele o suficiente no momento em que pisássemos no Tenesse.
Admito, nunca tinha viajado na primeira classe. O cheiro do ambiente era uniforme já que não era tão abafado e apertado. Duas poltronas juntas ao invés de três, de fato era bem mais confortável, mas nem todos podem se dar o luxo.
- Ta demorando muito pra decolar. - mencionou ao meu lado tirando a jaqueta. - Está quente né?!
- Não. - Retruquei, não por implicância, mas porque realmente não estava calor, e olha que eu vestia um sobretudo que aquecia bastante, mas não tinha vontade de tirar.
- Porra, mas que demora. - ainda olhando pra frente pude observar de canto de olho ele tentando espiar o corredor.
- Devem estar embarcando as outras classes. - Disse como quem não quer nada, e realmente não queria, estava morrendo de tédio.
- Vou caminhar até a porta um pouco, já volto. - Tentou dizer, mas no minuto que ia se levantar as portas se fecharam, e as aeromoças começaram a dar as instruções.
- Você ta passando mal? - Perguntei depois da 5° vez que ele bufou passando a mão no rosto.
- Não, tô legal.
- Não parece. - Franzi as sobrancelhas.
O avião avançava pela pista de decolagem, a poucos metros de decolar. Esse friozinho na barriga no momento da decolagem era impagável, senti todas as vezes que viajei, acho que isso é uma das coisas que você não se acostuma nunca. Graças à Deus estávamos oficialmente no voando.
- São quantas horas de voo mesmo? - me questionou.
- 3 horas eu acho.
- Puta merda.
- Ta com medo ? - Cutuquei a costela dele com um sorriso maldoso.
- Só de morrer sufocado a não sei quantos mil pés do chão.
Claro! Como pude me esquecer? Ele tinha claustrofobia, se passou mal no elevador, imagina no avião.
- E agora? - Questionei.
- Esperar que o remédio para dormir faça efeito. - Soltou o ar pela boca. - Me distrai enquanto isso? - Pediu
- Não, mas obrigada pelo convite.
- Vai continuar bolada? Foi mal por mais cedo... Hoje nosso dia não foi dos mais românticos.
- Não mesmo.
- Desde que te vi não ganhei um beijo. - Resmungou e sorri sarcástica.
- E nem vai.
- Greve de beijo? Até quando?
- Greve de você. Pra sempre.
- Gatinha... - Começou e veio chegando no meu pescoço, coloquei a mão na cara dele e o empurrei pra lá.
- Me chamando assim que você não vai ganhar nada.
- Mulher é o diabo parceiro.
- Então arruma um macho. - revirou os olhos e tentava se distrair com o chaveiro de macaquinho.
Eu era orgulhosa, nunca neguei, mas sabia o quanto era ruim sofrer com uma crise, eu mesmo tinha crise de ansiedade. Titubiei ainda avaliando se devia ou não começar algum assunto. Me dei por vencida em poucos segundos.
- Então...- Comecei. - Se vamos fingir estar namorando a gente podia pensar em alguns detalhes. Por exemplo se perguntarem onde a gente se conheceu, temos que saber responder. voltou seu olhar pra mim e me lançou um sorriso suave.
- Na faculdade? - Deu a ideia.
- Pode ser...Você faz faculdade de que mesmo?
- Administração, e você?
- Relações Internacionais. - Ergueu as sobrancelhas assimilando a informação, era quase como se a gente tivesse no nosso primeiro encontro.
- E namoramos há quanto tempo? - Questionou coçando os olhos.
- Há 5 meses?! - falei incerta.
- Justo.
- Tem alguma coisa da sua família que eu deva saber?
- Hmm, não muito. Eles são parentes da minha mãe, morei um tempo com eles após ela falecer. Só eu. - Acrescentou. - O Sam não.
Assenti com a cabeça prestando atenção para que não esquecesse depois. - Eles são...como posso dizer? Humildes. - Assenti. - Eles podem ser um pouco "caipiras", mas não é por mal, é só...a realidade deles.
- Entendi, o contrário de você.
- Ei, eu sou humilde também ok? - se defendeu.
- "Tenho um motorista desde sempre" "Só viajo de primeira classe" "Posso subornar quem eu quiser"
- Para, , você sabe que não sou assim. Eu tenho um motorista, mas ele é funcionário do meu pai, desde que tirei a minha habilitação quase não o vejo, eu quase nunca viajo e a moça ia fazer a gente perder o voo.
- Ta bom, se você diz... continua a história. - Me olhou de rabo de olho sem saber se eu tinha engolido sua justificativa, todavia prosseguiu com as aulas.
- Meu primo e a irmã dele estarão nos esperando no aeroporto. Jason e Savannah.
- Jason e Savannah. - repeti a fim de decorar mais rápido.
- Tenho mais dois primos, mas esses não são irmãos. O Henrico que é filho do meu tio mais velho, Johnson. E a Leighton filha da minha tia que era gêmea com a minha mãe, Merida. Nós dois se parecemos muito você vai ver quando chegar lá.
- Deve ser bom ter uma tia parecida com sua mãe. Assim você nunca vai esquecer o rosto dela. - sorri acolhedora apesar de receosa por ter tocado em algo muito pessoal.
- É bom. - concordou retribuindo o sorriso. Suspirou fundo voltando o assunto. - E tem a minha avó, Lily.
- Então estou completamente apresentada a todos os membros.
- Creio que sim, não me lembro de mais ninguém...
- Mais alguma coisa? - Persisti.
- Só não fica muito perto do Henrico. Ele é invejoso e bem falso.
- Certo. - Afirmei vendo ele bocejar. - O remédio já tá fazendo efeito?
- Eu espero que sim... - Coçou o olho manhoso e não pude conter o risinho brotando no canto da minha boca.
- Tenta dormir, vou pegar uma coberta.
- Não precisa. - Afirmou mas eu já tinha pego a embalagem que disponibilizaram pra gente.
- Deixa de bobagem.
Abri o saquinho e tirei lá dentro uma manta bem fofinha e branquinha, ela era bem maior do que parecia ser.
- Ta cheirosa. - Comentou no momento em que joguei sobre nós dois
- Lógico que tá, você viu o preço da passagem? - revirou os olhos e deitou a poltrona, fiz o mesmo.
- Vou tentar dormir antes que eu pire.
- Eu também vou tentar dormir um pouco, acordei muito cedo.
- Boa noite. - Arregalei os olhos rindo e ele veio se tocar depois. - Bom dia. Ah, , eu tô grogue, da um desconto.
Gargalhei de leve e me apoiei em seu ombro, e tenho quase certeza que adormecemos ao mesmo tempo...

(...)


estava tão cansada, que nem se deu conta que havia dormido a viagem toda, salvo a vez que acordou assustada com o chute na poltrona que recebeu da senhorinha que estava atrás, a mesma se desculpou imensamente. - Muito mais do que o necessário - pensou.
Despertou- se realmente no momento em que a aeromoça passou avisando que o avião iria fazer aterrisagem, para que os passageiros tivessem tempo de se organizar e deixar a aeronave.
dormia em um sono profundo ao seu lado, estava em uma serenidade tão grande durante o sono que teve dó de acorda- lo.
- ? - o chacoalhou devagar. - Acorda, já chegamos. - O rapaz estava tão chapado de calmante vulgo remedinho para dormir, que apenas virou o rosto tentando se afastar do barulho que tentava o despertar.
chacoalhou mais forte dessa vez.
- Vamos logo, , já desceu todo mundo. - Arriscou uma mentirinha pra ver se ele se tocava, mas nada. teve então a ideia de pegar um dos copos com agua que a aeromoça havia entregue antes da decolagem e derramar um pouquinho no rosto do rapaz adormecido.
Aparentemente havia funcionado. esfregou a mão no rosto.
- Arg, o que foi?
- Chegamos, levanta.
- Já já. - Retrucou com a voz arrastada e voltou a dormir. já estava sem paciência, o avião já havia se chocado ao chão e estava quase no final da pista de aterrisagem.
Pegou o que restava de agua no copinho e jogou na cabeça dele. grunhiu de raiva.
- Ah não , tô todo molhado. - Resmungou sem ao menos abrir os olhos.
bufou e puxou a coberta com tudo.
- Levanta. Agora. - Esbravejou. E por um momento sentiu que estava fazendo papel de mãe e isso a deixou com mais raiva ainda.
- Eu não consigo levantar. - Respondeu lentamente. Era verdade, sentia moleza em todos os músculos. Dois comprimidos desse calmante valiam como um mata leão.
- Quanto mais você ficar deitado pior vai ser pra levantar. - se pôs de pé, como a maioria dos demais passageiros, e pegou a sua bolsa colocada anteriormente no bagageiro acima dos assentos.
As comissárias de bordo abriram a porta, liberando a passagem.
O subconsciente de tinha ciência de que precisava levantar, mas não tinha forças, estava dopado. Lutou contra si mesmo e num pulo se pôs de pé, esfregou as mãos no rosto com força para despertar e pegou sua jaqueta jogada no banco ainda meio zonzo.
- Vamos? - o questionou visto que eram praticamente os últimos que não haviam descido.
- Vamos. - seguiu quase caindo pelos cantos, nem quando estava bêbado perdia o senso de equilíbrio assim. - Nunca mais tomo esse remédio. - Afirmou, e subitamente percebeu que teria que fingir ser o amor da vida de em pleno Tenesse, e agora a atuação começaria pra valer.

Capítulo 11.

– Você está com cara de morto. – mencionou enquanto caminhavam pelo imenso corredor até a saída para o aeroporto, onde segundo , seus primos estariam esperando. A trajetória até lá foi em silêncio. Ao ver que o portal se aproximava, um choque de semancol passou pela cabeça ainda adormecida de e ele teve a ideia de pegar na mão de .
– Quais deles são seus primos? – indagou olhando para os lados e vendo todas aquelas pessoas esperando por alguém.
– Aqueles ali. – apontou para um menino lindo que tinha os cabelos loiro escuro e os olhos azuis, além de ser muito alto. Ao seu lado estava uma menina com quase a mesma estatura que o menino, com as mesmas cores de cabelo e dos olhos, porém parecia mais nova.
– Heyyy! – O menino começou a acenar para , que caminhava com ao encontro deles.
“Deus me ajude.” – Pensou a menina, ele era mais bonito ainda de perto.
abraçou os dois e só depois a apresentou.
– Jason e Savannah, essa é a , minha namorada. – teve a sensação de engolir uma bola de basquete quando escutou ser chamada de namorada, mas tentou agir naturalmente como se fosse verdade.
– Olá, é um prazer conhecer vocês! – exclamou abraçando primeiro Jason e depois a menina que pareceu muito alegre em recebê-la.
– O prazer é nosso, né, Jason? – Savannah perguntou ao irmão que assentiu fechando os olhos. – nunca trouxe moça nenhuma pra cá, ainda mais bonita assim. – Savannah tinha um sotaque tão fofo que deixou encantada com a mesma.
– Muito obrigada. – Sorriu sem graça pelo elogio.
– Não é tão bonita assim. – fez uma careta e levou um tapa de causando risada nos irmãos.
– Hum, então, vocês têm malas? Não quero ser chato, mas é melhor pegarmos logo a estrada, daqui para a fazenda é um pouco longe e vovó está louca pra ver você. – Jason coçou a cabeça tímido e bocejou antes de assentir e ir para a esteira com o primo buscar as malas.

Pov

– Vem, vamos esperar os meninos no carro. – Savannah me convidou logo após que os meninos saíram para buscar as malas, achei uma boa ideia, e a segui para fora do aeroporto. De cara já se notava que a cidade era pequena. Pela quantidade de carros no aeroporto e pelo silêncio também, eu estava tão acostumada com todo o movimento em New York que estar em um lugar tranquilo era no mínimo estranho.
– Aqui é tranquilo, né. – Comentei ao encontrarmos o carro deles, uma caminhonete prata, ela assentiu.
– É bem chato. – Fez uma careta e sorriu. – Preferia morar em New York como o , lá é maravilhoso.
– Eu sou suspeita a falar porque eu amo minha cidade, então… – Sorri largo pra ela e vi os meninos se aproximando com um carrinho e nossas malas e colocaram na parte de trás da caminhonete.
– Você quer ir dirigindo, ? – Jason propôs e negou.
– Estou com muito sono pra isso, você dirige e eu vou atrás com a .
Jason não discordou e entramos todos dentro do carro. A medida que Jason ia dirigindo eu sentia tudo ficar cada vez mais longe; os comércios iam diminuindo e consequentemente as pessoas, até que estávamos em uma rodovia onde se via apenas algumas casas soltas bem distantes uma da outra em um grande terreno de mato. Após algum tempo na rodovia, Jason virou o carro numa estradinha de terra e seguiu por lá durante uns 20 minutos, eu não saberia voltar pra casa, se quisesse me manter em cativeiro aqui o resto da vida, ele poderia. Nem a CIA conseguiria chegar aqui.
A uma curta distância, avistei uma casa pintada de vermelho no meio do nada.
“Aqui não…Aqui não” – Fechei os olhos e torci para que aquele fosse só um atalho pra alguma cidade que era onde a avó de morava, com gente e asfalto, mas meus pedidos foram negados pelo destino e a caminhonete parou bem em frente à casa no meio do nada.
– Chegamos. – Jason desligou o motor para o meu desespero e deve ter percebido minha cara porque soltou uma risadinha debochada seguida de um “ai ai”. Descemos do carro e a primeira coisa que fiz foi atolar o pé em algo fundo, úmido e mole.
– Eca. Eca. Eca. – Disse com os olhos fechados e sacudindo os braços. – Me diz que não é bosta. Por favor, , me diz! – Perguntei pouco histérica, ainda, sem coragem de abrir os olhos e o imbecil começou a gargalhar da minha cara acompanhado do primo. Abri os olhos com raiva e hesitante, olhei para baixo, era só lama. – Não tem graça. – Disse brava e puxei meu pé para cima tentando achar um lugar mais seco pra poder pisar, meu sapato estava arruinado.
– Vem, vamos entrar. – Savannah correu na frente, subindo os poucos degraus que haviam na entrada da casa. Jason foi ao seu encalço e eu fui mais atrás, com cuidado, para não atolar o pé em outra coisa que possa, ou não, ser lama.
– Da pra parar de rir? – Perguntei firme a que estava do meu lado soltando risadinhas a cada 1s.
– É só que eu não consigo esquecer sua cara de nojo. – Justificou.
– Ha há. – Dei uma risada falsa. – Além de caipira, ele é engraçado. – semicerrou os olhos pra mim. Subi os degraus da entrada e optei por deixar os sapatos lá do lado de fora mesmo.
A casa era bem maior dentro do que parecia por fora. O primeiro cômodo visível era a sala, decorado com vários pratos de porcelana e muitos, muitos porta-retratos. Conseguia escutar algumas pessoas conversando por ali, e antes que eu tentasse adivinhar aonde era pegou na minha mão e me guiou para uma porta na lateral, era outra sala, só que essa provavelmente era a mais usada.
! – Uma senhora praticamente gritou sorrindo e se levantou o mais rápido que pode.
– Oi, vó. – foi ao encontro da senhorinha com um sorriso simpático e a abraçou, não pude deixar de sorrir com a cena, ela era tão fofinha.
– E essa deve ser a sua noiva! – A avó de se desvencilhou do abraço do neto e mirou os olhos em mim. – E por que ela está descalça?! – Corei.
– Não é minha noiva, vó, somos só namorados. – Corei novamente, pensar em ser noiva era pior do que ser namorada.
– Me desculpe, é que eu pisei na lama e não quis sujar a casa da senhora e não tem problema, eu vou lavar depois o sapa…– Fui interrompida por um abraço de urso.
– Você se preocupa demais, menininha! – Sorriu. – E deixe de bobagem, , você não tem mais idade para namoros, é óbvio que ela é sua noiva. – Sorri desconcertada, mas não iria corrigi-la, se ela soubesse que nem namorados nós éramos… – Estou tão feliz que vieram! Vou buscar um café! – abriu a boca provavelmente pra dizer que não precisava, mas ela já havia saído do cômodo.
– Será que posso ver meu primo agora? – uma figura feminina surgiu na porta com uma menininha no colo e o sorriso de se abriu.
– Boo! – A garotinha gritou com os braços estendidos pra ele e surpreendente ele a pegou no colo. – , rodando com uma criança no colo em pleno meio do nada vulgo Tenessee, isso era algo inédito.
– Oi, minha princesa, tio Boo tava com muita saudade de você.
– Bem muita? – A menininha perguntou.
– Bem muita. – assentiu beijando sua bochecha e abraçando a mulher que provavelmente devia ser a filha da irmã gêmea da mãe dele, já que até a sobrancelha dos dois eram a mesma.
– Ah, Leighton, essa é a .
– É um prazer, , falou muito bem de você. – Leighton me deu um abraço.
– Falou é? – Arqueei a sobrancelha pro e ele disfarçou brincando com a menina no colo. – É um prazer te conhecer também.
– Essa aqui é minha filha, Anne. Diz oi pra moça, filha, ela é namorada do Tio Boo. – A menina fechou a cara pra mim e me deu língua. – Okay, está de castigo. – Leighton pegou ela do colo de .
– Não, mamãe. – Choramingou.
– Então diz oi pra . – Leighton disse firme e a menina me direcionou um “Oi” ainda meio emburrada.
Tive a chance de conversar um pouquinho com todos, inclusive com a tia de , que era gêmea de sua mãe que por sinal, era muito linda e muito simpática, todos eram, na verdade. Sem contar que a avó de , Lily, era aparentemente a melhor cozinheira do mundo, ela serviu vários biscoitinhos caseiros durante a tarde e me garantiu que ia me escrever a receita. Quando foi chegando ao fim da tarde, me levou pra olhar o fundo da casa, era como um deck e possuía uma cerquinha de madeira ao seu redor, ele se debruçou na sacadinha e começou a encarar o horizonte.
– E ai, o que achou da vista? – Me perguntou sem tirar os olhos de onde estava olhando.
– É bem…verde. – Disse meio em dúvida, estávamos no meio nada, não tinha vista. Ele sorriu largo e olhou pra mim.
– É bem verde. – Concordou, voltando o olhar pro horizonte e eu me aproximei. – Desculpas ter te pedido pra vir pro deserto americano comigo.
– Não é como se eu não tivesse aceitado. – Me encostei na coluna de madeira. – Foi um trato.
– Certo.
– Então…Tio boo? – perguntei e ele revirou os olhos me fazendo rir.
– Nem me pergunte de onde ela tirou esse nome, só sei que me chama assim desde sempre.
– Ela não gostou muito de mim.
– Ninguém gosta. – Me implicou e eu sorri sarcasticamente. – Exceto talvez quando você me beija, ai você fica muito legal e eu passo a gostar de você. – Se endireitou ficando bem perto de mim.
– Ah, é?
– Sim.
– Mas eu não preciso que você goste de mim. – Virei a cara desviando do beijo eminente.
– Mas eu quero gostar. – passou a mão na minha nuca e depositou um beijo molhado na mesma. – Eu quero muito. – virou o meu rosto devagar e me beijou, mas dessa vez não desviei.

Capítulo 12

Acordei com o barulho perturbador de um despertador extremamente barulhento combinado com uma luz forte na minha cara. Abri os olhos sonolenta tentando localizar a fonte do barulho e o achei na mesinha ao lado da cama, bati a mão de qualquer jeito e o desliguei, sentia se escondendo nas minhas costas provavelmente da luz que vinha da janela. Alguém passou por aqui e abriu as cortinas, deduzi que fosse para nos acordar. Depois do café da tarde servido pela dona Lily, e eu fomos conversar no deck, acabou que ficamos lá mais tempo do que deveríamos até mais ou menos a hora do jantar, quando fomos convidados para se juntar aos outros. Jantamos e com a alegação de estar muito cansado, fez sua avó liberar a gente para ir dormir, acontece que o que nenhum de nós previu era que dormiríamos no mesmo quarto e na mesma cama.
. – Cutuquei-o pelos ombros. – Que horas o pessoal aqui começa a acordar? – perguntei.
– Umas 6:30…7:00. Por que? – Se apoiou nos cotovelos ainda sonolento e com o cabelo todo bagunçado.
– Acho que devemos levantar então. – deu de ombros e deitou virado pro outro lado.
– Daqui 10 minutos.
– Okay. – Assenti simplesmente, fechei os olhos por um segundo e ouvi baterem na porta.
, amor, você não vem tomar café? – Alguém chamou. – Já são 7:00.
Suspirei fundo.
Se 7:00 deveria servir como um incentivo para acordar, serviu como mais um motivo para continuar dormindo.
– Ugh. – resmungou baixinho antes de gritar “Já estou indo”.
se virou pra mim e disse um “Eai?” antes de se levantar num pulo da cama. “Estou testando sua técnica de quanto mais ficar deitado é pior.” Alegou.
– Justo. – Fiz o mesmo só que com o dobro da preguiça.
Ainda bocejando, caminhei descalça até minhas malas jogadas no canto do quarto procurando pela escova de dente e alguma roupa pra vestir. Peguei um short simples e uma camiseta escrito “Not your city”.
, você acha que se a gente tomar banho eles vão ficar esperando muito pra tomar o café? – Perguntei.
– Uh, provavelmente. Acho melhor a gente tomar café com eles e antes do almoço a gente banha.
– Hm, ok. – assenti e fui até o banheiro para escovar meus dentes.
– Chega pra lá. – me deu uma bundada pegando meu lugar na pia frente ao espelho. Resmunguei algum som aleatório porque estava com a boca cheia de espuma e ele riu, cuspi a espuma na pia, indignada.
– Podia ter cuspido em você. – Disse. – Mas não vou me rebaixar. – Dei de ombros e joguei os cabelos. Vesti minha roupa e cheguei meu celular enquanto decidia qual roupa vestir, acho que nem a Kim Kardashian demorava tanto pra montar um look.
Amiga como vai tudo? – Era uma mensagem da .
Tudo normal. – Respondi
Tudo normal como, ? Me dá detalhes. – Revirei os olhos sorrindo.
Normal, ué.
A família dele gostou de você? Perceberam que é mentira?
Acho que gostaram sim, e não, não sabem que é mentira.
Isso é bom. Estou entrando na sala, já, já te mando mensagem.
Antes de responder um “ok” pra ela, seu status ficou offline e eu desisti.
– Pronto. – Vi saindo do banheiro vestido com uma bermuda simples e uma camiseta vermelha.
– Ah, para, né. 3 horas pra vestir isso ai? Pelo amor de deus, ! – Ele olhou pra si mesmo e ficou ofendido.
– Isso aí nada. Tava decidindo uma roupa adequada pra ocasião, no caso roupas práticas.
– Com um relógio gigante? – Cruzei os braços e arqueei as sobrancelhas. – Tá parecendo um rapper brega.
– Ah, cala a boca vai. – Ele fez o sinal de blablabla com as mãos e passou os braços ao redor do meu pescoço nos guiando pra fora do quarto.
– Bom dia. – exclamou ao chegar na cozinha.
O cheiro de café fresco invadia minhas narinas, e a mesa estava repleta de coisas, tinha ovo, bacon, bolo e biscoitinhos caseiros.
Estaria eu no paraíso disfarçado de Tenessee?
deu um beijo na bochecha de sua avó e eu desejei bom dia antes de me sentar, estava ao lado de e de Savannah ao mesmo tempo, o que era bom, Savannah contava muitas histórias engraçadas. Como pode ter saído de uma família tão legal? A resposta, eu, provavelmente nunca descobriria e também no momento, estava mais interessante em comer os biscoitinhos.
– Então, , como você conheceu meu neto? – A avó de soltou uma gargalhada curta e aconchegante, ansiosa por uma boa história. Sorri sem mostrar os dentes.
– A gente? – enrolei. – Na faculdade mesmo.
– E como foi? – Savannah insistiu me fazendo querer fingir uma caganeira, não tinha história porque nós não namorávamos! me lançava um olhar apreensivo como de quem dissesse "Inventa qualquer coisa! "
– É uma história bem engraçada na verdade, e eu não se triscávamos, ai um dia ficamos presos no elevador juntos. – Lancei um olhar cúmplice pro que sorriu de lado. – E ai a gente teve tempo pra conversar, depois foi só questão de tempo, a gente já tinha alguns amigos em comum e bom, por ironia do destino eu ainda consegui um estágio na empresa do pai dele. A gente virou primeiramente amigos e depois ele me pediu em namoro. – Sorri largo. – E foi isso. Tem sido isso, pelos últimos 5 meses né, amor? – Virei olhando pra ele e todo mundo na mesa estava calado prestando atenção na história.
– Aiiin, vocês são tão fofos juntos! Eu quero achar alguém que me olhe do jeito que vocês se olham.
Me senti imunda.
Eu havia contado uma historinha de amor baseada em pequenos fatos de verdade, e o pior é que eles compraram. Deus, estava mentindo para uma senhorinha! Eu era uma pessoa horrível! A avó de esticou a mão por cima da mesa e tocou a minha com um sorriso.
– Obrigado por isso, , por trazer como presente mais um membro pra nossa família.
“Não! Não agradeça a ele! Somos mentirosos! Nós dois!!!” – Quis gritar mas me contentei por mostrar um sorriso.
Jason chegou um pouco depois com a roupa toda suja de barro, estava usando um chapéu e nas mãos tinha um porco pequeno. Detalhe, um porco morto, ou quase morto, meu estômago revirou na hora.
– Bom dia. Bom dia. – Acenou com a cabeça para mim e . – Acabei de pegar essa beleza. – Exclamou orgulhoso levantando o porco para o alto, deixando o focinho do bicho cara a cara comigo. Eu juro que segurei o vômito de uma maneira que nunca tinha segurado antes, eu provavelmente devia estar verde, e quem diz que não era possível ficar verde, com a ânsia que estou sentindo, eu sinto que era possível ficar de qualquer cor ao tentar segurar isso. Por sorte, pareceu perceber.
– Ah cara, abaixa isso ai, tô tomando café.
– Seu primo está certo Jason, coloque sob a pia, já já vou prepará-lo e poderemos comer ele no almoço.
O porco se contorceu nas mãos de Jason e começou a se debater, me fazendo dar um grito de susto mais alto do que queria. se divertia imensamente com a situação apesar de ter feito o favor de pedir para o seu primo tirar o animal dali, quase podia sentir o riso que ele estava segurando. Semicerrei os olhos pra ele e engoli seco sentindo o cheiro ruim de porco esvair dali. Subitamente perdi o apetite.
A avó de conversava animadamente e dava um jeito de incluir todos nós na conversa. Quando começou a recolher as coisas da mesa me ofereci para ajudar mas ela não aceitou de jeito nenhum, disse que eu era visita, e que eu poderia retribuir quando ela fosse na minha casa, achei uma graça, quase me fez esquecer a cena do porco, quase.
Segui para o quarto para pegar meu celular e ver se havia alguma mensagem, vinha ao meu encalço.
– Virou meu grude foi? – Debochei e ele deu uma risadinha forçada.
– Nos seus sonhos.
– E nos seus também né. You wish I was your baby momma. – Cantarolei a letra da música da Beyoncé só pra provoca-lo.
– Toda cheia das liberdades que eu não te dei né . – Se aproximou.
– Ah, não deu não? Quando sua língua tava na minha boca ontem a noite parecia o contrário. – Ergui o queixo o desafiando a chegar mais perto.
– Você ta brincando com fogo gatinha.
– Eu nunca fui café com leite, você sabe.
– Sabe , esse é o seu defeito. Você se acha demais, mas a verdade é que você não é tudo isso. – Resolvi rebater, mas ia brincar um pouquinho.
– Não sou ? – Caminhei em passos lentos até acabar com o espaço que existia entre nós. Coloquei o indicador no peito dele, e fui o empurrando até a parede, onde ficamos a poucos centímetros de distância. Beijei várias vezes a sua nuca devagar, passei as mãos pelas suas costas e subi as mesmas até o pescoço, arranhando lentamente sentindo ele se arrepiar. Sorri de lado, vitoriosa. Mordi o lóbulo da sua orelha e vi ele fechar os olhos com prazer. Senti o volume do seu brinquedinho pronto para a ação, havia conseguido o que queria, então com a voz mais sexy que consegui fazer, cochichei em seu ouvido;
– Se fode sozinho. – me afastei subitamente e ele se jogou a cabeça para trás com a mão no rosto nervoso e eu só consegui gargalhar vendo a cena.
– Filha de uma puta, isso não tem graça.
– Eu tô achando bem engraçado pra falar a verdade. – Gargalhei mais um pouquinho.
Ignorei o fato de ter deixado o totalmente excitado e frustrado e me joguei na cama com o celular. passou por mim e foi direto para sua mala, tirou de lá uma calça jeans e puxou sua bermuda atual para baixo ali mesmo, na minha frente.
– Hey! Perdeu a noção foi? – Exclamei indignada, tirando os olhos do aparelho celular por um momento e observando semi nu.
– Nunca tive. – Jogou a bermuda na minha cara e o botão bateu com força no meu nariz.
– Ai! E por que você está vestindo essa calça jeans pra começo de conversa?
– Vou sair. – Disse simplesmente me fazendo sentar na cama.
– Pra onde? – Ele não respondeu. – E vai me deixar aqui sozinha? Ah mas não vai mesmo.
Levantei subitamente e fiz o mesmo, arranquei meu short e o substituí pela primeira calça jeans que eu vi, onde quer que ele fosse eu iria. Deduzi que por ele estar de calças, se eu vestisse também estaria adequada para acompanha– lo. Deduzi né. Para onde ele poderia ir nesse fim de mundo as 7:30 da manhã que fez meu cérebro vibrar de curiosidade.
– Uh…pra onde a gente está indo? – Questionei.
– Pra onde eu estou indo talvez seja a questão, você só está me seguindo. – Espalmou as mãos no ar me fazendo revirar os olhos.
Nada contra a família de , mas ir pra qualquer lugar com o era melhor do que sentar aqui e ficar encarando o teto pelo resto da manhã. Coloquei meu celular no cós da calça e exclamei um “Tô pronta!” Animada o fazendo sorrir de lado e revirar os olhos.
tinha vários tipos de sorrisos. 7 eu diria, mas quem está contando? Eu gostava de todos eles, e era uma droga admitir que o sorriso dele exercia em mim uma influência maior do que deveria, era pra ser uma coisa casual. – É uma coisa casual. – Dizia em pensamento para tentar me convencer e rapidamente espantei esses pensamentos enamorados sombrios da minha mente. Onde ja se viu, ficar contando as expressões faciais de um cara? Só podia estar louca mesmo.
Saímos do quarto e disse a sua vó que estava indo visitar o Pegasus. Que diabos é um Pegasus? – Me perguntei.
Segui pela saída da casa.
– A gente vai de carro? – Perguntei curiosa.
– Não, nós vamos andando. – Respondeu apertando o passo, dei uma corridinha para conseguir acompanha– lo.
– Pra qual direção? Não tem nada aqui perto, só a grama.
– Nós vamos até aquela casinha ali. – Apontou pra uma estrutura de madeira pouco distante.
– O tal Pegasus mora lá? – Questionei ainda acompanhando seus passos largos.
– Positivo.
Não era possível uma pessoa morar numa estrutura de madeira. – Esse tal Pegasus devia passar muito frio durante a noite. – Pensei.
Caminhamos em silêncio até a casinha e minhas pernas ja estavam fracas, juro por Deus. Considerei voltar, mas a distância até a casa de e a distância que faltava até a casa desse Pegasus era a mesma, se não maior. Bela burrada que você veio se meter em .
– Ta muito quente. – Suspirei me abanando com as mãos, embora o esforço fosse em vão.
– Já estamos chegando, e além do mais você que quis me acompanhar.
– Você acha que depois de contar aquele tanto de mentira na mesa eu conseguiria ficar encarando sua avó?
– Porque não conseguiria, amor? – Me pirraçou fazendo referência ao que disse mais cedo.
– Olha aqui, eu não sabia o que falar! – Me defendi colocando as mãos no peito. – Não sei de onde saiu aquilo.
– Claro que sabe gatinha. – bagunçou meu cabelo entre risos. – Eu sei que você me ama.
– Ahn, é oque? – Arqueei as sobrancelhas.
– Eu sei que você me ama, que você me deseja, que você me quer. Eu sei que nos seus sonhos a gente é casado e você me chama de amor noite e dia.
– Cruzes que tipo de livro de romance você anda lendo? Eu em. – Acabei por gargalhar da afirmação sórdida dele e ele me acompanhou, após uns 5 minutos caminhando finalmente fomos capazes de alcançar a casa.
Que não era na verdade uma casa.
Estávamos em um estábulo e o tal “Pegasus” era um cavalo.

XXX


Pov .

– Um cavalo. – disse cruzando os braços e parando na entrada do estábulo. – Pegasus é um cavalo.
– Lógico, você pensou que eu conhecia alguém chamado Pegasus? – Franzi as sobrancelhas como se não fosse óbvio. Pegasus era meu cavalo, tinha ele desde criança.
– Hey, amigão. – Me aproximei pisando no feno cuidadosamente para não assusta lo. – Se lembra de mim? – Pegasus relinchou dando dois “passos” para trás, ele estava preso numa cerquinha com algumas cordas amarradas. – Vamos correr um pouquinho? – Fui soltando as cordas que o amarravam no celeiro e abri a cerca. – , conheça o Pegasus. – sorriu se aproximando com cuidado, eu tinha minhas duas mãos no animal dando leves batidinhas. – Pode colocar a mão se quiser.
Ela me olhou como se precisava de uma segunda afirmação de que podia fazer isso e eu assenti, esticou um pouco a mão e o cavalo deu pra trás.
– Shhh. – Segurei sua cabeça o acalmando e dando um sinal com a cabeça para que ela tentasse de novo, dessa vez ele não recuou e ela abriu o maior sorriso pra mim. Deus, ela era linda pra cacete.
– Ele é tão bonitinhoooo. – Alegou animada me arrancando um riso. – Por que não me contou que tinha um cavalo?
– Eu não sei. – Cocei a cabeça. – Nunca me ocorreu em mencionar, também não parece o tipo de coisa que você gosta.
– Ta brincando? Eu sou apaixonada por animais!
– Eu vi sua reação com o porco mais cedo.
– Era uma situação diferente, o porco estava sofrendo. Não estava com nojo, estava com dó. – Falou convencida. Achei justo, eu não era nada dessas coisas, vegetariano, vegano, ou sei lá como chamam hoje em dia. Gostava de carne, pra caralho, mas também não era fã de assisti-los sendo mortos. Uma eterna controvérsia entre comer meu bacon ou manter um porco vivo. Me sinto melhor ao imaginar que eu comendo ou não eles vão continuar sendo mortos, então não é minha culpa, eu só vou estar…comendo, né?
– Será que ele me deixa montar? – perguntou me tirando do transe mental o qual me encontrava.
– Hm…Não sei. Podemos tentar. – Fui até o canto do celeiro e peguei uma das celas penduradas na parede de madeira. Joguei sobre minhas costas e ouvi um risinho vindo de .– O que foi? – Perguntei curioso deitando a cabeça para o lado.
– Nada, só nunca te imaginei assim . – Disse simplesmente, voltando a atenção para o cavalo que fechava os olhos ao seu toque. Que cara safado!
– Assim como? – Insisti na pergunta. Puxava Pegasus levemente para fora do celeiro que meu avô havia construído.
– Assim. Com cavalos, no meio do nada e com uma cela nas costas.
– Bom eu também não imaginava que você seria do tipo que da um chilique quando afunda o pé na lama.
– Para. – Empurrou meu ombro gargalhando leve e eu a acompanhei, nem reparei que ja estávamos distantes o suficiente do celeiro. Me forcei a parar.
– Mas então, o que você pensou de mim quando me viu? – Tentei não mostrar um interesse explícito ao fazer aquela pergunta. Embora duvidasse que não havia conseguido.
Desviei os olhos para a cela do cavalo e coloquei sobre Pegasus. Desde quando oque alguém pensa de mim me interessa pelo amor de Deus?
– Te achei metido. Arrogante, sem educação e principalmente, acima de todas coisas, um grande babaca. – Tudo bem garotinha, não precisa humilhar.
– Nossa. – Ergui a sobrancelha com o queixo caído. – Tudo isso quando começou a trabalhar comigo?
– Não, não precisou tanto tempo. No elevador mesmo. – Cruzou os braços suavemente.
– Então por que você sequer fala comigo? – Perguntei curioso. Novamente tentando não demonstrar interesse, apesar de estar 101% interessado.
Fingi estar muito concentrado ajustando as fivelas e os freios no Pegasus, até franzi o cenho para parecer mais convincente.
– Porque você perguntou o que eu achei de você quando te vi, não de quando te conheci. – deu alguns passos parando ao meu lado à poucos centímetros de mim. – Quer dizer, eu não te conheço muito ainda. Você não é dos mais falantes. – Me olhou atravessado sorrindo e eu repeti o gesto. – Mas pelo que eu conheço você é até um cara legal. Você é cavalheiro, às vezes, não fique muito convencido. É gentil com sua família. Tem um cavalo incrível, e traz meninas para o Tenesse só para fingirem ser sua namorada, mas o que mais me chama atenção em você é, sem dúvida, te ver segurar tudo sozinho. Você tem os colhões, e eu o admiro por isso.
Fiquei parado em silêncio encarando ela por um tempo. Ninguém nunca achava qualidades em mim, isso era algo totalmente novo e ver falar isso, falar que me admira em alguma coisa, em qualquer que seja, me colocou em um transe de felicidade que eu seria capaz até de beija-la agora. Céus, eu queria muito beijar ela agora.
– Vem. – encaixei finalmente a última fivela no cavalo e pulei sobre ele, pelo visto ainda sabia como montar. – Vou te levar num lugar.
Estendi uma mão para que ela se apoiasse e pudesse subir no cavalo.
sacudiu a cabeça sorrindo. Deu um pequeno impulso na cela e num pulo conseguiu montar.
– Sabe, você não é o único que já teve um cavalo. – Exclamou em um tom leve que pude escutar graças a nossa proximidade.
– Se segura, esse carinha aqui corre bem rápido. – passou as mãos pela minha cintura e seu toque me excitou até o último fio de cabelo da minha cabeça, sorte que eu estava na frente. Bati os pés com cuidado na barriga do cavalo em um ritmo que pegasus já era acostumado. Ele sabia que era hora de correr.

Pov

O vento batia no meu cabelo com força. Eu estava montada no cavalo com as mãos fortemente agarradas a cintura de . Que cena inédita, não? cavalgando comigo na garupa, me permiti sorrir ao repassar a cena na minha cabeça. O cheiro predominante era de grama molhada e eu estava ok com isso. O verde tão verde estava me trazendo mais paz do que os prédios de New York que eu tanto amava, é eu sei, eu odeio mato, e fazendas, e sítios, mas eu estou aproveitando meu tempo aqui, de verdade. A proposta de caiu como uma luva e não somente porque eu precisava do dinheiro. Bom, em grande parte sim, mas eu estava em constante tensão lá em casa e eu precisava relaxar, dar um tempo de tudo. não fazia ideia do que estava em jogo e em partes eu me sentia mal por não contar a ele já que o mesmo já me contou tantas coisas, sinto como se não estivesse retribuindo na mesma intensidade, por outro lado eu não ligava muito, quer dizer, não temos um relacionamento, não tenho a obrigação de confessar todas as minhas angústias e problemas pra ele, certo?
Certo.
– Pra onde você está me levando, ? – Indaguei, a casinha de sua avó estava cada vez mais distante.
– Pro meu lugar preferido.
– Que seria…?
– Você pergunta demais, aproveite a viagem, nem tudo é sobre o destino. – Fiquei calada. Ele provavelmente tinha razão quanto essa afirmação.
desacelerou e entrou em um emanharado de mato alto e algumas árvores e começou a descer ladeira abaixo. Parecia conhecer bem o caminho, virava à direita, vezes a esquerda e eu já não podia ver mais a casa da dona Lily, apenas uma vegetação de tom verde mais escura e pedrinhas cinzas por todo o chão. Também era perceptível um barulho, que ia se intensificando e ficando mais claro ao passo em que nos aproximávamos, o frescor do lugar era delicioso.
Pegasus relinchou quando paramos.
– Bem vinda ao meu lugar, ou como gosto de chamar, a lagoa azul.
Eu estava encantada, estonteada. A beleza do lugar era tamanha que nem mesmo eu, falante como sou, quis dizer alguma coisa. nos trouxe para uma espécie de bosque e no seu centro havia um lago todo rodeado de arvores baixinhas, árvores altas e formações rochosas formando pequenas cavernas. Uma controvérsia surpreendentemente mágica. A água reluzia na cor azul com os poucos raios de sol que entravam através de algumas brechas.
Era simplesmente…maravilhoso.
… isso daqui é o paraíso! – Esbanjei um sorriso enorme.
– Eu sei. – saltou do cavalo e eu fiz o mesmo.
Enquanto ele amarrava Pegasus em uma arvore eu admirava o lugar, sorte que eu trouxe meu celular, aquele lugar merecia quantas fotos eu conseguisse tirar.
– Aqui é proibido o uso de celulares. – parou ao meu lado e me olhou de rabo de olho.
– Para de ser assim. – Sorri. – Vamos tirar uma foto. – Propus mudando para a câmera frontal.
– Nem fodendo. – desviou.
– Uma só, por favor!
– Eu não quero ser vista com você, vai acabar com toda minha popularidade. – Debochou sorrindo. Revirei os olhos – E além do mais, você não sabe tirar foto. – Pegou o celular da minha mão e se posicionou pouco à frente de mim. Esticou o braço e quando eu estava me preparando pra fazer pose me surpreendeu com um beijo. – Isso sim é uma foto. Agora vem, vamos nadar.
me devolveu o celular e puxou sua camisa pra cima jogando de qualquer jeito na terra, fez o mesmo com sua calça e simplesmente pulou.
– Você vem? – voltou do mergulho sacudindo os cabelos me fazendo gargalhar ainda surpresa com o ato dele.
Puxei meus jeans e tirei a blusa ainda sorrindo e pulei com tudo na água, sentindo toda aquela energia boa em mim durante o mergulho.
Subi sorrindo.
começou a bater incessantemente na agua fazendo espirrar por todo meu rosto.
– Para! – Exclamei entre gargalhadas virando o rosto na tentativa falha de desviar do ataque.
– Pede arrego!
– Não! – Comecei a retribuir com os olhos fechados em meio a gargalhada de nós dois, mas logo fui perdendo as forças, acontece que bater na agua cansa as mãos. – Desisto, eu aceito a punição.
Fui surpreendida novamente por um beijo. O segundo só hoje. Não sabia se achava essa proximidade boa ou ruim, mas no momento não abriria a boca pra reclamar.
Retribui o beijo o mais intensamente que pude, encerrando com vários selinhos.
? – Chamou. Ele ainda tinha seus braços envoltos em mim.
– Hm?
– O que é namoro pra você? – Perguntou.
Senti a insegurança em sua voz, provavelmente envergonhado pela pergunta.
– Namoro pra mim é…Não sei. – Sorrimos fraco. – Acho que é estar lá quando um precisa, sabe? – Enroscava nossos pés devagar. – Ter alguém que você possa contar, alguém pra dividir uma pizza, pra viajar, ter alguém que chore com você…ou só estar lá. Sei lá. – Coloquei os cabelos pra trás e suspirei fundo. – Cada um pensa uma coisa…– Mudei de assunto e assentiu. – Mas por que a pergunta?
– Por nada, só pra saber. – Se afundou na água, deixando de fora somente o pescoço.
– Mas você deve saber, você namorava aquela menina lá no ensino médio… Amber o nome dela, não é?
Disfarcei minha curiosidade nadando pra um pouquinho mais longe dele.
– Amber achava que eu namorava com ela. – Enfatizou a palavra “achava”. – Eu nunca a pedi em namoro, então não vale.
– E a ? – Fez barulho de deboche com a boca.
– A era só a amiga da Amber, aí um dia ela tava a fim de fazer sexo, eu também…nada demais. Era só sexo.
Não pude deixar de sorrir mentalmente quando ele disse “era”.
– Então você nunca teve namorada? – Arqueei a sobrancelha surpresa e ele negou.
– O mais perto que eu tive de uma namorada, foi você. – Corei, mas não acho que tenha notado. – E você, já teve algum namorado sério? – Perguntou nadando para longe dali. Fui seguindo.
– Ah, eu já tive vários. – Revirei os olhos lembrando das decepções amorosas pelo qual passei e o fez uma cara de surpresa. – Quer dizer, não vários, mas uns 5? Eu acho…
– E por que não deu certo com nenhum?
– Eu não sei, um deles era meu vizinho no Brasil, então não conta porque eu devia ter uns 8 anos. Os outros foram todos namorados do colégio, imaturos demais eu acho, ou eu que sou estranha, não sei.
– Você não é estranha. – disse rindo baixinho como se eu tivesse dito um absurdo. – Então você não namora desde o high school?
– Desde a época em que eu era cheerleader. – Confessei gargalhando. – Sim, desde o high school.
– Cheerleader? Corta essa , eu não me lembro de você e pelo que sei éramos do mesmo colégio.
– Bom, eu era, e uma das melhores.
– Isso não é possível. – Balançou a cabeça em negação. – Eu já… – Interrompi a frase.
– Ficou com todas as meninas da equipe? É, eu me lembro delas comentando. – Suspirou fundo ainda confuso.
– Como eu não te vi?
– Talvez você não quisesse ver.
Senti o seu corpo se aproximando e não recuei. Eu estava dando um descanso mental pra mim essa semana, eu ia me permitir.
– Fico feliz que essa cegueira não tenha durado muito, e acho que você pode dizer que teve 6 namorados, porque assim, é uma vergonha você não me considerar depois de te comprar uma aliança e te trazer pra minha lagoa. – Gargalhei ganhando selinhos.
– Sua lagoa é? – Passei meus braços ao redor do seu pescoço e eu tinha um sorriso bobo na cara que não sumia por nada.
Talvez ser a namorada falsa do não seja tão ruim assim.

Xxx


Voltamos pra casa da avó de bem na hora certa do almoço, ficamos um bom tempo sentados nas pedras da lagoa conversando sobre coisas aleatórias e rindo das fotos zuadas que tiramos. Meu cabelo estava uma bagunça de nós, depois de secar ao ar livre sem nenhum pente ou creme pra pentear, e não estava bagunçado de um jeito sexy como fica os das atrizes de cinema, vai por mim. Passamos pela casinha de Pegasus e o deixamos lá, até apostamos uma corrida de volta pra casa e é claro que eu perdi, o que não foi totalmente justo, já que um passo de são quatro meus, mas foi divertido. Pra falar a verdade, eu não me divertia assim há muito tempo. Ah, e eu já disse que a avó do cozinhava muito bem? Pois bem, ela era divina na cozinha! Eu estava tão cheia que mal podia respirar, e olha que eu nem comi a carne de porco!
Estávamos sentados conversando quando descobrimos que teríamos um “convidado especial” logo após a refeição. Henrico, o primo que aparentemente odeia, apareceu por aqui.
– Suponho que você seja a nova namorada de . – Se introduziu no momento que pisou na varanda e me viu sentada com o . Ele era alto e tinha olhos claros. Sobrancelhas grossas, cabelo bem preto e ondulado. Era bonito, me arriscava dizer que tão bonito quanto . – Prazer, sou o Henrico.
Mesmo sem virar posso perceber que está com a cara amarrada, mas estendi a mão, o cumprimentando mesmo assim.
– Prazer, . – Abri um sorriso discreto.
– E como vão as coisas em New York, ? Ganhou quantos carros do papai esse mês? – Cutucou.
– Esse mês foram 5, talvez eu possa pegar um que eu não use mais e te dar. – Meu Deus do céu, ! Quis me enfiar no buraco de tanta vergonha que fiquei.
– Sempre um prazer revê-lo. – Henrico sorriu forçadamente, deu um tapinha nas costas de e adentrou a casa.
Arregalei os olhos no momento em que ele nos deixou a sós
– Oque? – perguntou como se nada tivesse acontecido.
– O que foi toda essa cena?
– Longa história … – Desconversou.
– Que bom que estamos em pleno Tennessee sem fazer nada então. – Insisti ironicamente.
– Não é grande coisa, é só que… – Suspirou fundo. – Resumidamente é uma briga besta, o pai do Henrico sempre julgou minha mãe por ter casado e se mudado pra longe, e eles tiveram uma briga muito muito feia porque minha comprou essa fazenda para a minha avó.
– Mas por que isso seria algo ruim? – Questionei sem entender.
– Não era pra ser, mas ele achou que minha mãe tava querendo se “mostrar”, porque ganhava mais do que eles, enfim, ele ficou com raiva da minha mãe, e o babaca filho ficou com raiva de mim.
– Só por isso?
– Aham, tipo eu nem ligava, mas ele mal podia esperar pra me fazendo algo e dedurar, teve uma vez que a filha da vizinha, a Nancy, me chamou pra sair com ela, você acredita que ele disse que eu não gostava dela? – Confessou indignado e eu sorri.
– Você deve ter ficado bravo. – Exclamei mexendo as sobrancelhas enquanto sorria.
– Lógico, ela era uma gatinha, e esse imbecil ainda saiu com ela depois.
, você precisa aprender algo chamado, perdão, está familiarizado com a palavra? Ou é a primeira vez que escuta? – Revirou os olhos.
– Nem vem, você viu o jeito que ele falou comigo agora pouco? “Quantos carros ganhou esse mês?” Otário, não sabe de porra nenhuma. – Fechou a cara com raiva e eu segurava o riso, cheguei um pouco pro lado ficando mais perto dele.
– Não acredito que você vai ficar emburrado por isso. – apertei sua bochecha e ele virou a cara. – Vamos… – passei os dedos no seu cabelo próximo a nuca e fiz cosquinhas nele, o fazendo sorrir de lado.
– Essa foi uma jogada injusta, apelar pra cosquinhas não vale.
– Bom, você não me deu outra escolha. – O sol estava se pondo, e do batente que estávamos sentados podia-se ver tudo claramente, deitei em seu ombro e aguardamos até que Henrico fosse embora para podermos entrar.
– Seu primo veio nos convidar para jantar na casa dele amanhã. – A avó de começou. – Ele tem uma notícia pra dar.
– E por que não deu logo? – perguntou mal humorado.
– Não sei, querido, deve ser algo importante. Você e a vão conosco, não é mesmo?
– Claro! – Disse entusiasmada.
– Nem pensar. – Disse ao mesmo tempo.
– E por que não iria, ? – Lily perguntou séria.
– Porque ele não quer que eu vá.
– Bom, ele veio nos convidar pessoalmente, seria uma desfeita não ir.
– E a também ta passando mal. – Mentiu descaradamente e eu o encarei com os olhos cerrados.
– Tenho certeza que é só um mal-estar. Vocês vão conosco, e voltamos mais cedo qualquer coisa, estamos combinados? – Dona Lily falou com firmeza na voz, e tenho quase certeza que era uma ordem, ainda relutante e com o maxilar firme assentiu com cara de deboche. – Ótimo, vão tomar banho, chamei alguns amigos para uma fogueira.
– Agora? – lamentou.
– Agora, ! – Ele assentiu revirando os olhos e foi para o quarto, e quando saiu da cozinha bastou eu olhar para a avó dele para soltarmos uma gargalhada conjunta.
– Você consegue realmente domar a fera. – Sorria.
– Desde pequeno sempre foi assim, só vai no grito, mas é um bom rapaz apesar da manhã. – Brincou.
– É sim. – Concordei. – Vou me arrumar também dona Lily, se precisar de ajuda me fala. – Abri um sorrisão pra ela, ela era um amor de pessoa me sentia mal por toda a mentira. Entrei no quarto e estava só de cueca box branca mexendo no celular, a tentação me rondava, e estava ficando cada vez mais difícil dizer não.
– Cara, isso tem que parar. – Encostei a porta. – Você, por acaso, ia gostar se eu ficasse de sutiã e calcinha na sua frente o tempo todo? – Ele deu um sorriso safado mordendo o canto da boca e percebi que o meu argumento não fazia sentido.
– Quer mesmo que eu responda?
– Quer saber…Só vai logo tomar banho, é melhor assim. – Peguei a toalha pendurada na cabeceira e joguei pra ele. gargalhou e seguiu para o banheiro despreocupadamente, e a única coisa que eu pensava era que aquela bunda não podia ser real, como? Deus deu o kit completo pra ele, isso era muito injusto com os outros garotos por aí. Vasculhei minhas coisas na mala em busca de uma roupa agradável, escolhi uma calça jeans e uma blusinha de manga. Enquanto tomava banho, chequei minhas mensagens e vi um snap da Hailey mostrando a barriguinha. Sorri, era pra família toda estar contente com isso, não pensando em ir embora. Suspirei fundo, bloqueei o celular, o que eu menos queria era pensar nisso agora. Deitei na cama e fiquei esperando o tempo passar até o sair do banheiro.

xxx


Pov .

Fogueira com alguns amigos. Puf, alguns amigos são 5 pessoas, não 25. Sinceramente, eu queria saber da onde saiu aquela galera toda que minha avó conhecia, pois se você olhasse a direita, mato, se olhasse a esquerda, mato, não tinha condições. Estávamos sentados em frente à casa onde Jason montou uma fogueira gigante. Qual o ponto de tomar banho antes se íamos ficar fedendo fumaça depois? Anyway, estávamos sentados em alguns banquinhos aleatórios, cadeiras, e Savannah arranjou um tronco comprido em algum lugar, o que foi ótimo, já que coube umas quatro pessoas. estava conversando com Leighton e um pouquinho distante delas eu brincava com Anne.
– Boo, você vai casar com essa moça? – Perguntou baixinho com os cabelos bagunçados na cara, deixando a vista só um olho. Sorri.
– Eu não sei, princesa, por que? Você não gostou dela? – Perguntei curioso enquanto tentava amarrar seu cabelo, não que estivesse dando certo.
– Não é isso, é só que…se você casar com ela, você não vai mais vir me ver, porque ai você vai ter outra princesa. – Gargalhei.
– Olha, eu prometo pra você que ninguém, nunca, vai pegar seu lugar, ta bom? Juro juradinho. – Estiquei o mindinho pra ela a fazendo gargalhar e aceitar meu juramento com o mini dedinho dela.
– Mas você gosta dela, né boo? – Olhei automaticamente para onde estava e nossos olhares se cruzaram por um momento, foi o suficiente pra fazê-la sorrir de lado pra mim.
– Gosto. – Admiti mais pra mim do que pra qualquer pessoa sem tirar meus olhos dela. – Pior que eu gosto.

xxx


POV

Já era tarde, diria que umas 00:00 e eu estava morrendo de sono. Estava sentada ao lado de , deitada em seu ombro e com os braços cruzados devido ao frio.
, vamos tocar uma? – Jason perguntou.
– Ah, não, acho melhor não.
– Hey, , eu trouxe minha gaita comigo. – Um senhor disse prontamente tirando a tal gaita do bolso, me fazendo sorrir leve.
– Eu também trouxe. – Savannah cutucou , animada, arrancando um sorriso aberto dele. Jason entrou na casa e voltou de lá com dois violões, entregando um para , me fazendo desencostar a cabeça de seu ombro, infelizmente. Quer dizer, infelizmente por causa do frio…e porque estava cansada, nada demais.
– Sempre foi minha parte preferida da fogueira, ver vocês tocando. – Dona Lily se sentou no banquinho cruzando as pernas, ansiosa para ouvir a cantoria, e confesso que eu também estava, não sabia que tocava violão e muito menos que cantava.
– Vamos aquela que sua mãe adorava. – O senhor sorriu para e senti um aperto no coração, mas os olhos seus olhos estavam tão alegres, que fui sendo contagiada aos pouquinhos, devia trazer muitas lembranças boas, e não tristes.

(Coloquem essa música para tocar: Today – If I Stay )

O homem começou com um sopro na gaita e Savannah o acompanhou poucos segundos depois. começou a tocar de acordo com a melodia, juntamente com Jason que estava um pouquinho longe da gente, visto que estávamos sentados em forma de roda em volta da fogueira. O som era agradável, e reparei que Leighton voltou lá de dentro com um banjo pequeno e entrou na música. Era incrível a harmonia deles, era como se já tivessem tocado juntos muitas e muitas vezes, e cada um conhecia o ritmo do outro, comecei entrar na sintonia e no clima e já apreciava a música tanto quanto todos ali.
começou a cantar a canção e a voz dele era simplesmente…maravilhosa.

Today is the greatest day I’ve ever known Can’t live for tomorrow Tomorrow’s much too long I blurred my eyes out Before I get out.

E ali com aquelas pessoas eu me sentia acolhida, me sentia em casa.

I wanted more Than life could ever bring me Bored by the chore of saving face.

Observava seus dedos mexerem nas cordas com uma facilidade, e os olhos tão brilhantes, tão intensos, tão .

Today is the greatest day I’ve ever know Can’t wait for tomorrow I might not have that long.

Fui pega por ele ao encará-lo, mas ele não fez nada além de me olhar nos olhos, e continuar a música.

I’ll tear my heart out Before I get out.

Me lançou um sorriso com uma risadinha curta e eu me deixei sorrir de volta. Logo todos os amigos da avó do também estavam cantando, a letra era fácil e fui encorajada por todos a cantar junto.

Today is the greatest Today is the greatest… Day.

Acabei por entrar no coro, batia as mãos na perna no ritmo da música distraidamente e até Anne participava, fazendo uma coreografia engraçada arrancando risadas de todos.

Today is the greatest… Day That I… Have Ever Known.

– Uuuuuhl! – Gritou dona Lily feliz quando a música acabou, todo mundo fez uma pequena “zuada” batendo os pés no chão. Gargalhei e os acompanhei, melhor dia com toda certeza.
Depois de mais algumas músicas, eu me dei por vencida e notifiquei que ia dormir, minhas costas estavam doendo, provavelmente da cavalgada mais cedo. me acompanhou com a desculpinha “Não vou deixar ela sozinha”, o maior mentiroso, dava pra ver nos olhos dele que ele estava com mais sono que eu, só estreitei os olhos em sua direção e ele desviou o olhar entrando. Me joguei na cama no momento que entrei no quarto e fechei os olhos, meus pensamentos voaram pra casa no ato. Estava um clima tão ruim, e eu não gostava disso, queria poder estar contando pra minha mãe o que fiz nessa viagem, a verdade, pra gente sentar e comentar sobre os detalhes enquanto tomávamos sorvete. Sorri involuntariamente imaginando o que ela diria de .
– Esse lado da cama é o meu. – Exclamou, me fazendo abrir os olhos contra minha vontade.
– Porra, mas você é chato em.
– Faz parte do meu charme, e além do mais, você gosta. – Se gabou tirando a jaqueta e jogando de qualquer jeito na cadeira.
– Nem gostar de você eu gosto, ainda mais gostar do seu… charme. Isso que estamos fazendo são negócios, que fique bem claro.
– Certo. – se aproximou. – Somente negócios. – Se sentou na cama e eu me ergui, ficando assim, sentada lado a lado com ele. – Você se importaria de dizer o que o pacote negociado inclui?
Percebi que olhava pra sua boca enquanto o mesmo perguntava.
– Ahn. – Voltei ao estado de pessoa normal, e olhei nos olhos, não sabia qual era pior. – Inclui um emprego, uma namorada falsa, uma viagem de ida e volta, e alguns beijos, eventualmente.
– Eventualmente, agora seria um momento propício para isso?
– Provavelmente. – Dei de ombros e esperei que ele me beijasse, e sem demora ele o fez.
Não queria imaginar no que isso ia dar, não queria voltar pra realidade. Só queria eternizar essas férias, onde nenhuma viagem para o Brasil me alcançaria e onde o medo de ter uma relação com o não existiria.

Capítulo 13.

Pov Narrador.

Acreditem ou não, mas a reunião de dona Lily, avó de , foi até bem tarde. e foram dormir antes de todo mundo, e olhe que dormindo antes das 2h era um milagre. Acordaram quase que juntos, as 8:00, mas incrivelmente sempre era a primeira a despertar. Estava dormindo com há 3 dias seguidos agora, e estava ciente de que sentiria falta quando voltasse pra New York, não falta de literalmente, pensou se virando na cama, mas falta da proximidade. Veja bem; ela estava deitada de shortinho no lado esquerdo da cama, mas as pernas de encontravam com as suas no final da cama, isso dava uma sensação gostosa, claro que ela nunca admitiria. Além do mais, era engraçado observar dormindo, primeiro porquê ele dormia todo esfarrapado na cama, com cada membro do corpo em um lugar diferente e ocupava quase a cama toda. “Okay, essa parte não é nem um pouco legal, e muito menos engraçada” acrescentou mentalmente; Segundo, porque ele conversava enquanto dormia, sobre os assuntos mais aleatórios possíveis, e ela despertava de madrugada com sua voz e faltava explodir todas as vezes de tanto segurar o riso.

Flashback on
– …É, mas ai não vai dar, né cara, você já levou eles. E agora? – A voz do garoto soava pelo quarto. – Isso não é certo. – se pronunciou um pouquinho mais alto acordando a menina ao seu lado.
“– Com quem será que está falando uma hora dessas? Arg” – Pensou rabugenta por ter sido acordada e tentava voltar a dormir mas a conversa continuava.
– Mas que porra, . – Virou se na cama para poder olhar o que estava acontecendo.
Estava ele, com os olhos fechados, uma mão jogada para trás, uma no peito, dormindo e conversando sozinho como um perturbado. A princípio, quis rir, mas se segurou para poder ouvir o resto da história.
– Eles não podem…levar eles?…Não…
– Levar quem, ? – Arriscou
– Meus amigos. – Respondeu como se fosse óbvio fazendo a garota gargalhar por dentro.
, você está sonhando.
– Ai, você não entende, não to sonhando, olha! Estão indo! – Suspirou triste após a fala, e só ficava cada vez mais engraçado. Agora que havia descoberto que além de falar sozinho ele também respondia, iria zoar ele toda vez.
– Estão indo pra onde? – Questionou em meio a risos baixos para não acordá-lo.
– Para marte. – Não conseguiu segurar. Gargalhou muito, em alto e bom som, fazendo o mesmo despertar confuso.
– O que foi? – Perguntou, só que dessa vez estava acordado.
– Nada. – Mentiu, deixando pouco desconfiado, mas estava com muito sono pra rebater, então simplesmente voltou a dormir. Ele não se lembraria, mas lembrava muito bem, e caia na risada toda vez que se recordava da cena.

Flashback off.

Sorriu ao relembrar desse momento icônico. Continuando sua linha de pensamento; não era lá essas coisas, mas ainda assim era melhor do que dormir sozinha. acordou pouco depois que a menina teve seus pensamentos reflexivos sobre dormir com ele, e o coitado nem sabia do mico que havia passado, não só nessa vez mas nas outras várias. O primeiro pensamento que veio a sua mente foi em como estava com fome, então não demorou muito para levantar da cama.
– Bom dia, Vó. – Caminhou ate a cozinha e deu um beijo na bochecha da mesma.
– Bom dia amor, fiz panquecas pra vocês. – Apontou a colher que segurava para um prato com uma torre de panquecas em cima da mesa, que a propósito fora a primeira coisa que viu quando entrou na cozinha, não era bem uma coisa que seus olhos ignoravam.
– Obrigado. – Pegou uma panqueca da torre. – E a propósito dona Lily, a senhora anda muito festeira, foi dormir depois de mim. – Semicerrou os olhos ao encarar a senhora que achou graça.
– Eu estou velha, mas não estou morta.
– Concordo. – Espirrava calda de caramelo, atrapalhadamente na massa em sua mão. – Vai dar outra festa hoje? – Cutucou a vó com o cotovelo já que as mãos estavam mais cheias de caramelo que a própria panqueca.
– Não seja tolo, iremos para o jantar de Henrico hoje, não se lembra? – Droga.
– Hm. – Foi tudo que disse.
– E onde está a sua namorada? – Perguntou casualmente.
– Ela não está se sentindo muito bem. – Mentiu na esperança de que a avó os liberassem das “obrigações familiares”, e talvez tivesse funcionado se não tivesse saído do quarto toda sorridente.
– Bom dia, dona Lily! – Cumprimentou a senhora com um abraço.
– Bom dia, querida, que bom que está se sentindo melhor. – franziu as sobrancelhas não entendo muito bem a última parte mas ignorou sorrindo.
– Já está comendo, amor? – Usou um tom de provocação na última palavra fazendo sorrir.
– Você sabe que eu sinto muita fome pela manhã, namorada. – Provocou de volta, e quando a mesma passou na sua frente pra pegar uma das panquecas, ele discretamente apertou sua bunda, fazendo a garota enrijecer de vergonha e olhar para a matriarca no ato, que graças a Deus, estava distraída demais procurando algo no armário.
– Babaca! – Resmungou ao seu ouvido, saindo de perto e indo até a cafeteira pegar um pouco de café.
– Pega pra mim também. – exclamou e viu a menina fechar a cara. – Por favor. – Acrescentou viu a mesma suavizar a expressão. Era engraçado conviver com , ela mudava de humor mais rápido do que ele mudava de ideia, e ele fazia isso muito. estava quase certo que se contasse suas personalidades dariam em média 7 tipos de . Se considerava um guerreiro por arriscar interpretá-la sem um manual, não que fosse fácil, ainda mais pra ele que não entendia nada de garotas. entregou a sua xícara enquanto bocejava e ele não perdeu a oportunidade de deixa-la com raiva, adorava fazer isso.
– Vai cuspir no meu café todinho. – Provocou sabendo que ela se irritaria.
– Então vai se…– Se segurou ao lembrar que Lily estava no cômodo, respirou fundo e guardou o “vai se fuder” para mais tarde, que com certeza usaria. Respirou fundo novamente e completou calmamente com a cara mais falsa que pode fazer. – …se servir. Então vai se servir, querido. – Pisou em seu pé de propósito.
– Ai!
– Desculpe, sou muito desastrada. – Deu uma risada pela cara do menino e se sentou na mesa comendo as deliciosas panquecas ali postas.

Xxx


? ?! Vamos, ou nos atrasaremos. – Lily gritou do lado de fora e bufou. Ninguém merece, além de ter que ir nesse jantar ridículo, ainda chegariam pouco mais cedo pois sua vó queria ajudar. Ajudar no que? Não era um comício político, por Deus! Calçou os sapatos de qualquer jeito e ajeitou o colarinho da camisa. estava no banheiro há 3 horas e contando, não fazia ideia do que diabos ela estava fazendo lá, provavelmente fugiu pela janela. “Bom pra ela”, pensou na hipótese.
– Droga, , se minha vó tiver que chamar a gente mais uma vez tenho quase certeza que ela nos larga aqui. – Exclamou pouco alto para que a menina escutasse. Ela já tinha escutado os 3 chamados de Lily, estava indo o mais rápido que podia, mas nunca entenderia o estrago que excesso de blush pode causar, estava quase pronta quando pesou na mão com o pincel e ficou parecendo o cosplay do Robert Mcdonald, se não o próprio. E o caralho daquela maquiagem não saia por nada! Teve que lavar o rosto e fazer a maquiagem tudo de novo, e ainda sentia as bochechas vermelhas demais para o seu gosto, mas infelizmente não havia mais nada que ela pudesse fazer. Só aceitou a derrota e saiu do banheiro emburrada.
– Não estou mais contente que você. – Exclamou o menino ao ver o bico da moça. – Vamos?
– Você acha que minha bochecha está muito marcada? Tipo, muito vermelha? – Perguntou insegura enquanto pegava a bolsa.
olhou para a cara dela e semicerrou os olhos tentando enxergar alguma coisa mas estava a mesma coisa de sempre.
– Parece igual pra mim. – Aparentemente o argumento não convenceu a menina. – Está ótimo de verdade, juro.
duvidava que tivesse alguma noção de uma boa maquiagem, mas escolheu acreditar na sua palavra, não era como se tivesse mais gente para perguntar. Encostaram a porta da casa descuidadamente e entraram no carro. e iriam na caminhonete com Leighton, Anne e a avó de . Lily foi dirigindo, Leighton ao seu lado com Anne no colo e o casal 20 atrás.
Parecia até uma excursão, a casa desse tal primo não chegava nunca.
– Nossa, o Henrico não mora, né, ele se esconde. – Alfinetou .
– Já estamos chegando, é no próximo retorno. – Lily retrucou distraída com a estrada.
Pouco depois disso chegaram a uma casa razoavelmente grande; bonita, diga– se de passagem. Tinham alguns carros estacionados na frente, reconheceu o carro de Jason, provavelmente ja estava aqui com Savannah.
– As pessoas já chegaram, coitado do Henrico, deve ter arrumado tudo sozinho.
– Coitado por que? Foi ele que inventou essa palhaçada. – exclamou e fechou a cara pra ele, sabia que os dois não se suportavam, mas precisava desse comportamento de criança a cada 10 minutos na frente da próprio avó? Por sorte Lily parecia estar mais acostumada com o jeito do garoto que ela mesma, por isso só ignorou o neto e subiu os degraus da entrada apertando a campainha.
– Hey, dona Lily! Estavamos esperando por você! – Surgiu uma loira de 1,80 na porta. franziu o cenho, se perguntando como era possível ser tão bonita. – Entrem todos, entrem. – Abriu a porta no seu máximo. – ! eu não sabia que você vinha! – Gargalhou e abraçou o garoto. – Da última vez que te vi, você não era desse tamanho. – retrucou sorrindo largo e isso por algum motivo deu uma pontadinha de ciúmes em , mas ela jamais admitiria.
– Bom te ver, Nancy. – Disse o garoto.
– Leighton! – Abraçou a moça que retribuiu com um sorriso aberto. Quando a loira se abaixou para falar com Anne, nem precisou de insistência, a mesma pulou em seu pescoço.
– Tia Nancy! – a garotinha gargalhou e deu um beijo molhado na bochecha da Gisele Bundchen edição do Tenesse.
– Você eu não conheço. – Disse amigavelmente se soltando do pequeno abraço apertado dado por Anne, o que deixou muito puta, ela já era bonita, não devia ser tão legal. Isso é injusto.
– Ah, me chamo , sou a namorada do . – Estendeu a mão e a loira logo recusou, a abraçando.
– Você deve ser uma mulher e tanto pra conseguir lidar com esse daí. – Deu os braços pra , que logo arregalou os olhos pedindo a socorro visual. – Vem! Venham conhecer meus convidados. – foi praticamente arrastada pela casa até a sala de jantar onde algumas pessoas já estavam. Foi apresentada a uma amiga de Nancy, seus pais, primos e irmãos, depois da longa seção de apresentações a tal Nancy grudou em , aparentemente os dois tinham muito o que conversar visto que o assunto deles simplesmente não acabava. teve vontade de disparar um “Não era você que não gostava de socializar ?” mas preferiu continuar calada apenas observando as risadinhas. Qual o sentido de ficar conversando e tocando na outra pessoa? Cada palavra que Nancy dizia era um toque em , o que a deixava extremamente incomodada.
– Ai, lembra daquela vez que você ficou preso no poço? , você devia ter visto a cena! – A loira gargalhou mais ainda e a acompanhava, nem disfarçou ao revirar os olhos, já estava cansada de ouvir tantas histórias da infância perdida dos dois, e quem deixou essa menina a chamar de , afinal? Bufou. E cadê o Henrico para começar logo esse jantar?
– Amor? – Ouviu uma voz masculina atrás de si e se virou para identificar quem era, graças a Deus era o Henrico, mas pera, quem ele estava chamando de amor? – Vem, vamos iniciar o jantar.
– Claro. – Nancy respondeu dando um beijo estalado na bochecha de . No Way. – Depois a gente conversa mais. – Se levantou pegando na mão de Henrico e o seguiu para a mesa, estava boquiaberto e sorria satisfeita.
– Você não sabia que os dois eram namorados? – Questionou afim de ter a certeza e negou com a cabeça. – Wow, isso aqui acaba de ficar mais interessante.
caminhou sorrindo até a mesa com em seu encalço.
Como assim a Nancy estava namorando aquele babaca? – o menino pensava sem entender – E desde quando? Bufou e se sentou, e ficou sentado por horas. O jantar não acabava, parecia eterno, já tinham servido tudo que poderia ser servido. Por que Henrico não desembuchava logo o que queria pra ele poder ir para casa e dormir? também estranhava a demora, já era tarde e ainda estavam todos reunidos em volta da mesa, Anne já estava inclusive dormindo no sofá.
– Bom, acho que já seguramos vocês demais aqui. – Henrico sorriu sem graça e se colocou de pé e puxando Nancy para acompanha-lo, a menina se ergueu rindo e fez uma careta divertida, arrancando risadas de suas amigas. – Eu os chamei aqui por que eu queria pedir a mão dessa mulher maravilhosa na frente de todos vocês. – A boca da loira se abriu em um perfeito “O” assim como a de todos os outros presentes, Henrico não perdeu tempo e se ajoelhou na hora. – Nancy Pelosi, você aceita ser minha esposa? – olhava a cena ainda confuso, recapitulando o que estava acontecendo, foi surpreendido quando a barbie de repente deu um grito.
– Sim! Ai meu Deus, sim! – O rapaz colocou a aliança no seu dedo e ela começou a dar uns pulinhos. observou de lado revirar os olhos com a cena e se perguntou o que se passava na cabeça dele. na verdade não se importava muito, só achava desnecessário toda aquela cena, pra que fazer um jantar pra essa baboseira? E por Deus, o que Nancy estava pensando quando começou a namorar esse babaca, e o pior aceitar se casar com ele, simplesmente não entrava na sua cabeça.
– Querido isso é maravilhoso! Eu estou muito feliz. – Lily correu e abraçou o neto e sua nova “nora.” – Estou sem palavras.
– Sempre bom te ver feliz vovó. – Henrico sorrio presunçoso lançando um olhar para .
– Essa semana está sendo tão perfeita, mais membros pra minha família, matei a saudade do meu neto que não via há um tempo…– Dona Lily dizia extasiada, falando mil palavras por segundo.
– Não consigo nem imaginar como conseguiu ficar tanto tempo longe da senhora, sei que trabalho é importante, mas acredito que família é mais, certo? – fechou os punhos e revirou os olhos, já não aguentava mais alfinetadas entre os dois.
– Ora, vocês dois, parem de brigar! Sei que teve seus motivos para demorar vir nos visitar, isso não quer dizer que ele me ama menos ou mais Henrico. – Lily disse com a voz cansada.
– Eu estava sem tempo. – disse entredentes. – Minha avó sabe muito bem que não tem nada a ver com querer ficar longe dela.
– Só de ficar longe do resto da família né. – Henrico cutucou mais uma vez com a cara fechada, deixando cada vez mais nervoso.
– De familiares como você eu realmente prefiro distância.
! – o censurou.
– Já chega vocês dois! – Nancy esticou as mãos no ar. – Será que não conseguem conviver em paz pelo menos em um jantar? O jantar que eu fiquei noiva? Céus, a gente se conhece desde crianças e olha o show que vocês estão fazendo na frente dos meus pais e das minhas amigas!
– Talvez você devesse falar com seu noivo, ele é o único que faz questão de arrumar intriga. – ficou de pé, pronto para ir embora a qualquer momento e estava roxa de vergonha, assim como Lily que tinha as mãos cobrindo o rosto.
– Eu sou o único? – Henrico riu forçado. – Você quer chamar atenção , tudo que você faz é com o único objetivo de ser o centro das atenções, por que você é mimado, e se acha perfeito demais pra conviver com as outra pessoas. – Henrico tinha sangue no olhos e suas palavras cortavam o ar como lâmina.
– Antes mimado do que ser um filho da puta fracassado e invejoso como você, que tem a necessidade de mostrar que está feliz, se é que você está. Não quero ouvir mais sua voz, Henrico, eu nem deveria ter vindo, com licença. – jogou o guardanapo na mesa de qualquer jeito e saiu pisando forte para fora da casa.
Esse foi talvez o momento mais constrangedor da vida de , todo mundo estava em silêncio, e ela não sabia se ficava ou se ia atrás de .
Depois de alguns minutos parada olhando o nada, decidiu ir atrás dele.
– Eu…eu vou ver onde ele ta. – Se pronunciou um pouco confusa do que estava dizendo e rumou porta afora.
Chegando do lado de fora olhou para o horizonte para ver se localizava o garoto, demorou um pouco mas viu uma sombra caminhando rápido para a direção oposta da que vieram.
! – gritou tentando correr o mais rápido que podia. – Volta aqui!
– Me deixa, , eu não vou voltar pra lá. – gritou de volta enquanto seguia seu caminho cortando o vento com a menina a seu encalço.
– Da pra parar?! – Exclamou alto. respirou fundo e parou subitamente, só agora notando o quanto estava indo rápido.
– Se você veio pedir pra eu voltar lá e pedir desculpas pra aquele…– começou mas o interrompeu.
– Eu não vim te pedir nada, Jesus! – Suspirou pondo os cabelos atrás da orelha. – Só vim… não sei, quer conversar?
– Não estou no clima para julgamentos, obrigado.
– Eu não ia te julgar! – Retrucou indignada recebendo em troca uma risadinha sarcástica de . – Claro que eu achei uma cena desnecessária e…
– E ela começou… – sacudiu a cabeça em negação e voltou a caminhar.
– Pare de agir como um bebê! Eu estou tentando falar com você cacete, não vira as costas pra mim! – Esbravejou.
Agora ele tinha conseguido aborrecer ela, simplesmente odiava quando as pessoas viravam as costas pra ela, odiava ser ignorada, sentia vontade de gritar.
– Saco, ! Oque você quer de mim? – O menino passou as mãos no rosto com força nervoso. – Hum? – Cruzou os braços. – Eu não sei participar disso que você tá tentando fazer, essas terapias de casal, conversinhas e confissões tá legal? Eu não sei. Então me diz, o que você quer de mim?
– Eu não quero nada de você , na verdade a pessoa que precisa de alguém no momento é você. – Riu debochada. – Mas você é muito orgulhoso pra admitir, pra ceder, e conversar com alguém que não está fazendo nada senão querendo te ajudar, respondendo a sua pergunta, no momento eu só quero que você se foda. – Dessa vez quem virou as costas foi ela, caminhando de volta para a casa de Henrico.
bufou de raiva no momento que percebeu que estava a uma distância segura de escuta-la. Ai que menino imbecil! Estava com tanta raiva, tão puta, não sabia nem pra onde ir. Maldita hora que aceitou vir a essa viagem sem nenhum dinheiro para voltar, agora teria que entrar lá com a maior cara de pau e interagir com a família de seu falso namorado, depois que o dito cujo estragou o clima pra todos. Queria MATAR ele.
Adentrou a casa passo por passo, mas foi notada por todas no momento que abriu a porta principal.
– Ele está mais calmo, querida? – Lily perguntou, a mesma estava sentada no sofá ao lado de Henrico e Nancy.
– Um pouco. – Mentiu. – Deixei ele sozinho para que pudesse espairecer um pouco la fora.
– Bom, ele pode voltar pra dentro, não vou mais discutir. – Henrico estava com o rosto vermelho, provavelmente de raiva ou de vergonha. não sabia o porque mas não o conseguia odiar, olhava nele e via o mesmo que via em , apenas um garoto, um garoto imbecil, mas um garoto.
– Na verdade, nós já estamos indo, querido. – Lily se prostrou abraçando o neto com força. – Mas eu estou muito feliz por vocês, muito, você é um rapaz incrível e eu te amo, ouviu bem? – Sorriu acolhedora e podia jurar que viu uma lágrima no olho do rapaz, mas que ele rapidamente secou. – Até qualquer dia minha linda. – Abraçou Nancy gargalhando e se levantou com um pouco de dificuldade, foi até Henrico e se despediu educadamente, fez o mesmo com Nancy e acenou para os convidados dela de longe. Jason e Savanah não iriam embora agora então se despediu dos mesmos também. Caminhou de braços dados com Lily até a saída, com Leighton logo atrás dela levando Anne já adormecida nos braços. Se surpreendeu ao encontrar encostado na caminhonete mexendo no celular, ele acenou com a cabeça para ela mas a menina preferiu fingir que ele não estava ali.
– Deixa que eu dirijo vó. – pegou as chaves das mãos da matriarca que entregou ainda relutante, devido ao episódio de agora pouco. – Quer vir na frente ? – Perguntou descaradamente, só porque sabia que ela não faria nada na frente de sua avó e sua prima e isso a deixou com mais raiva que já estava. Não disse nada, apenas esperou Dona Lily estar sentada no banco de trás e entrou na porta esquerda ao lado do motorista ainda mal-humorada. Não dirigiu nem ao menos o olhar ao , foi o caminho todo até em casa sem sequer mudar de posição. Chegaram pouco tempo depois e quando todos haviam entrado estava prestes a fazer o mesmo, quando segurou o braço dela.
– Espera. – Suspirou fundo. – Você está brava?
– O que você acha? – Abriu o sorriso mais falso que conseguiu.
– Bom, eu não sei o que eu fiz de errado, mas desculpas.
– Você nunca sabe não é mesmo? – Balançou a cabeça negativamente, impressionada com a falta de sensibilidade dele. Se Hermione achava Rony Weasley um legume, certamente não conhecia o .
– Não sei na verdade, porque eu até gritei com o Henrico, mas com você eu não fiz nada! – gesticulava.
– Não é o que você fez comigo. A questão é que eu estava conversando com você civilizadamente e você começou com suas gracinhas e tiradas, e você faz isso sempre. E eu sei que é questão de tempo até você me responder mal na frente de alguém, e eu juro por Deus se algum dia isso acontecer você pode se esquecer que me conheceu.
– Não vai acontecer. – Fechou os punhos por força do hábito. – Não quero ficar brigado com você. – Suspirou e tentava desviar o olhar, não queria ceder tão fácil. – Me desculpa?
– Tanto faz. – Agiu indiferente com a cara fechada. – Mas eu não sou a única que você deve desculpas. – Caminhou entrando na casa e soube que ela estava certa, ainda que estivesse com raiva de Henrico, sua vó não precisava presenciar uma discussão e muito menos uma briga de família tão perto do seu aniversário, iria se desculpar com ela.

XxX

O dia amanheceu rápido demais para o gosto de . Não estava descansada o suficiente, não havia dormido nada preocupada com o que faria em relação a sua vida daqui pra frente. também não ajudava, cada vez que ela pegava no sono acordava com ele se mexendo, se deu por vencida as 6h, não conseguiria mais dormir. Bufou irada, e caminhou em direção ao banheiro. Tentaria tomar um banho afim de relaxar, coisa que percebera alguns minutos depois que não funcionaria. Alcançou o notebook de na mala dela e sentou do seu lado da cama com cuidado, o mesmo ainda dormia igual uma pedra. – inacreditável. – Por sorte, sabia que a senha de era a mesma pra qualquer coisa, 987654321. – Idiota – pensou. O papel de parede dele era a coisa mais óbvia do mundo, uma foto da moto dele, mas não se atentou aos detalhes, não tinha nenhum interesse em mexer nas coisas pessoais dele, só queria distrair sua mente um pouco. Abriu a página do Google e digitou “apartamentos para alugar em Nova York”. Prendeu o cabelo em um coque e começou a busca. A primeira coisa que fez foi ativar no filtro do menor– para o maior preço, e ainda assim os preços eram absurdos, precisava de uma ajuda divina, pediu mentalmente que o Senhor exaltasse os humilhados ainda esse mês porque sem chance dela continuar vivendo no padrão de vida que vivia. Teve vontade de chorar, de raiva, de tristeza, e de frustração. Imaginou o pior dos cenários imediatamente, voltaria para NY, receberia a notícia que não conseguiria a vaga de superior assistente, começaria a trabalhar em dois turnos de garçonete e conseguiria alugar um quarto no Brooklyn por um mês até que fosse demitida dos dois empregos por chegar atrasada e não poder mais pagar o aluguel, seria despejada no dia seguinte e ai estaria sem dinheiro pra comer, e até mesmo sem ter como para voltar para o Brasil. Espantou esses pensamentos ridículos da sua cabeça e continuou rolando a página em busca de algo. Viu esse estúdio de $1,200 dólares para alugar, olhando pelas fotos não era grande coisa e tinha certeza que alguns ratos viviam ali também, mas pra ela estava bom, um toque de criatividade e ficaria um lugar agradável. Deu fav no post para entrar no chat com o dono, só iria procurar mais uma opção para comparar…
– O que você ta fazendo com meu computador? – Ouviu a voz arrastada e rouca de do seu lado e fechou tudo rapidamente.
– Nada. – Se pronunciou. – Só estava olhando meus e-mails. – Mentiu e mesmo que inda estivesse um pouco grogue de sono não engoliu a história, mas fingiu que acreditava. – Não mexi em nada seu se é isso que quer saber. – Fechou o notebook e estendeu em direção a ele.
– Deixa de besteira, pode mexer o quanto você quiser. – Empurrou de volta. – De verdade, eu não me importo. – ainda relutante pegou de volta o notebook, de qualquer forma não poderia mais olhar oque estava vendo, não na frente dele.
– Nesse caso eu vou assistir Netflix. – sorriu se sentando mais perto dela. – Vou ver Friends.
– Nós vamos. – Se auto– convidou.
– Você é tãooo força barra. – fez uma careta pra que revirou os olhos, ela deu play em um episódio aleatório da 3º temporada e o ele se encaixou na menina para assistir melhor e sorriu com a cena, se alguém perguntasse isso nunca aconteceu, negaria até a morte.
Os dois perderam as contas de quantos episódios assistiram, mas tinham certeza que foram muitos deles, só pararam quando Lily veio convidá-los para o café da manhã.
– Cara, você deu um chute na minha bunda de noite que caralho, tô sentindo até agora. – cochichou no ouvido dele enquanto se sentavam na mesa.
– Acho muito engraçado quando você fala igual um dude. – Derramou café na xícara. – E em minha defesa eu tenho sono agitado.
– Eu nunca falo igual um dude, me respeita. – Pegou um punhado de biscoitinhos e colocou sobre um guardanapo ao seu lado. – Sono agitado tenho eu, você vai pra marte enquanto ta dormindo. Eu já vi gente doida enquanto dorme, mas bicho, você supera todos eles. – gargalhou, se recusava a acreditar que chegava a tanto mas acredite, chegava.
Anne veio do outro quarto de pijamas e com o cabelo bagunçado segurando um paninho.
– Oi boo. – Deitou a cabeça no colo de . – Oi . – até se espantou e arregalou os olhos para , era a primeira vez que a menina dirigia a palavra a ela sem ser obrigada desde que chegaram.
– Oi Anne. – Sorriu leve e a menina se levantou e foi atrás da avó. – Você viu só? Ela me adora. – Sorriu convencida e fez uma dancinha da vitória.
– Menos né querida, por favor, bem menos.
– Qual vai ser a programação do dia? – Questionou no exato momento que Lily voltou a cozinha com Anne a seguindo.
– Netflix and Chill. – se pronunciou e ela revirou os olhos.
amor, está tendo uma festa do morango no centro da cidade, porque não leva a ? – Lily deu a ideia que adorou, amava morangos.
– É , por que você não vai com a ? – A garota falou de si mesma na 3º pessoa e ele balançou a cabeça negativamente olhando a situação.
– Porque o não frequenta esse tipo de lugar. – Disse implicante entrando na deixa e falando de si em terceira pessoa também.
– Ah, mas não tem problema. – Sua avó disse simplesmente. – Henrico vai levar Leighton você também pode ir . – que estava prestes a colocar um biscoito na boca parou com a mesma ainda aberta encarando a cena, revezando os olhares entre e Lily. Anne soltou um risadinha.
– Acho que seria uma ótima ideia, Dona Lily. – se pronunciou bem séria com a situação afim de irritar . – Você não faria isso. – Ele negou com a cabeça, colocando o biscoito na boca.
– Paga pra ver. – Disse convencida. – A que horas eles vão?
– Acredito que ele passe por aqui por volta das…
– Tá legal, tá legal. – Interrompeu sua avó que sorriu satisfeita. – Eu vou nessa festinha estúpida com você, mas só porque eu quero.
– Claaaro. – Franziu as sobrancelhas assentindo sarcástica e soltou uma gargalhada acompanhada da avó e da menininha. só olhava a cena com os olhos semicerrados sem acreditar no complô contra ele, perdera o reinado realmente.
Encerrou-se o café da manhã e decidiu ficar conversando com Dona Lily sobre algumas coisas que não fazia ideia mas envolvia “Bom Jovi” e “Brasil”. Desistiu de entender o assunto e foi para o quarto buscar o seu celular. Reparou que o notebook já estava em cima da cama e o abriu como quem não queria nada e realmente não queria, só estava se distraindo quando uma caixinha de texto pulou na tela.
“Você tem um novo favorito, não deixe de checá-lo”
Estranho. Não se lembrava de adicionar nenhum favorito recentemente, clicou na estrelinha e abriu o site ali exposto.
– Houseandap.com? – Perguntou a si mesmo ainda contrariado vendo a página carregar, nem sabia que esse site existia. Subitamente lembrou de mais cedo “Só estava chegando meus e-mails” ela dissera, mas não sabia se acreditava porque estava olhando para uma página que anunciava um estúdio antigo para aluguel. Será que ela iria se mudar? Passou as fotos do lugar tentando analisar o que estava acontecendo quando entrou no quarto e ele fechou tudo rapidamente. Seja o que for, se ela quiser me contar, ela vai me contar.
– Você está com uma cara estranha. – comentou sorrindo indo direto para o banheiro, ele provavelmente estava mesmo com uma cara estranha, sabia que ninguém alugava um lugar como aquele a não ser que por muita necessidade, e relacionar isso como sendo um problema real de o deixou mais pensativo do que queria.

XxX


– Não acredito que você ia me deixar perder a oportunidade de vir aqui! – exclamou com os braços abertos, tinham chegado a festa do morango a pouco tempo e ela já estava morrendo de vontade de provar tudo.
– Você ia vir de todo jeito, com aquele que não deve ser nomeado, lembra? – implicou fingindo desinteresse e revirou os olhos.
– Você é um bebê chorão, sabia? – Saiu puxando o menino pelas mãos. – Vem vamos comprar fondue!
– Já? – Choramingou enquanto era arrastado e desviava das pessoas.
– Você é um velho , credo. – disse indignada parando em um lugar com menos gente. – Então me espera aqui, bebelozinho, é um perigo coisinhas de porcelana como você quebrarem nesse tumulto. – abriu um sorriso falso e gargalhou, adorava como ela colocava tudo em um contexto.
– Eu vou com você chatinha. – Bagunçou o cabelo dela que se afastou passando as mãos nos mesmos.
– Nem vem que eu ainda não te perdoei totalmente por ontem.
– Deixa disso, eu já te pedi desculpas!
– Não foi o suficiente. – deu de ombros com o nariz empinado e segurou o rosto dela delicadamente e arregalou os olhos o maior que conseguiu de forma engraçada
– Desculpas. Eu. Sou. Um. Babaca. – Falou com uma voz engraçada fazendo gracinha, arrancando um riso de .
– Você. É. Uma. Pessoa. Doida. – Foi a vez de arregalar os olhos, ficando na ponta dos pés para encará-lo no olho, deu um selinho surpresa nela e a viu corar, gargalhou com a mudança de expressão facial dela. – Babaca. – segurava o sorriso.
– Agora que estou oficialmente perdoado, podemos seguir em frente donzela.
– Tem certeza? O bebezinho de porcelana pode quebrar. – Avisou bem séria e revirou os olhos arrancando um sorriso de .
– Cala a boca vai, vamos atrás desse maldito fondue. – Entrelaçou as mãos na da menina.
se surpreendeu com o ato, tudo que ele fazia era uma surpresa pra ela na verdade, não cobrava nada dele e saber que gestos como esses, ainda que pequenos, vinham inteiramente dele a deixava com borboletas no estômago. Malditas borboletas.
– Obrigada. – Ela agradeceu ao rapaz da barraquinha e saiu da fila segurando dois potinhos de morangos com chocolate. – Isso aqui está muito gostoso, e eu nem comi ainda. – disse indo com passos lentos em direção a que balançava a cabeça confuso tentando entender o sentido do que ela dissera.
– Como sabe se está bom? – pegou um dos recipientes. – Ai, isso está quente pra caralho. – Ficou trocando de mãos para segurar o pote.
– Pelo cheiro, sente só. – aproximou seu fondue ao rosto de , estava realmente com um cheiro delicioso. – Vamos achar um lugar pra sentar eu quero comer logo.
A menina buscava com os olhos um lugar vazio, mas estava difícil, era como se todos os habitantes da cidade tivessem decidido vir na feirinha do morango. Bufou.
– Não tem lugar pra sentar! – Reclamou e sorria do ataque de nervos que a mesma tinha por uma coisinha boba.
– Vamos sentar na fonte. – Apontou para um chafariz iluminado, não era o melhor lugar, mas tinha um batente de cimento em volta, daria pra sentar. Caminharam até lá em silêncio e inutilmente tentou limpar o lugar com as mãos antes de sentar, sem sucesso claro. – Isso tá bom mesmo. – admitiu com a boca cheia.
– Eu tô vendo como você tá gostando, tá até tentando comer tudo de uma vez. – Riu alto. – Guarda espaço ai pra gente comer torta.
– Lógico que vai ter espaço. – Deu mais uma garfada nos morangos. – Eu sou um buraco negro.
– Sua boca é o buraco negro. – gargalhou. – Você tá todo sujo de chocolate! – arregalou os olhos tentando olhar pra baixo e verificar enquanto gargalhava. – Ai, , você é uma criança, me sinto sua mãe sabe. – Pegou os guardanapos que o vendedor deu e passou um deles para ainda rindo da meleca que ele estava fazendo.
– Ria mesmo da desgraça alheia, quando você se sujar eu nem vou te avisar. – dizia enquanto tentava se limpar com a mão esquerda.
– Não vai acontecer querido, eu sou muito fabulosa para isso. – se gabou colocando um morango na boca.
– Você é uma pessoa péssima. – Balançou a cabeça negativamente.
– Pra te aguentar né bebê, tenho que ser. – Ironizou com um riso baixo.
..? – Arriscou baixinho depois de um tempo.
– O que? – Retrucou distraída.
– Você está bem? Tipo, tá acontecendo algo ou… – parou com o garfo na boca contrariada.
– Por que a pergunta? – Estranhou e franziu as sobrancelhas. deu de ombros pensativo.
– Por nada…mas você sabe que se precisar de alguma coisa pode falar comigo, né? – A olhou nos olhos.
sentiu um arrepio nas costas se perguntando o que o fez pensar que ela não estava bem. Não tinha como ele saber do que se passava na casa dela. Apesar de que querer contar, e acreditar, queria muito, algo a segurava e a impedia de fazer, talvez pelo fato de não querer nada de que não pudesse pagar de volta.
– Não tem nada acontecendo, eu em. – Se pôs de pé num pulo. – Vamos nas outras barriquinhas? – Mudou de assunto disfarçando o máximo que pode e saiu andando forçando a se levantar e segui-la.
. – Segurou o braço da menina a fazendo parar. – Se algo tiver acontecendo você sabe que pode me falar certo?! – Insistiu.
– Eu sei. – Suspirou fundo. – Mas não está acontecendo nada, okay? Deixa de paranoia e vamos se empanturrar de doces. – continuou a encarando. – Por favoooor? – Sorriu largo fazendo manhã e não soube dizer não, ainda que involuntariamente fazia tudo que ela queria, era inevitável se render aquele sorriso.

XxX


– Acho que a gente exagerou nos morangos. – pôs a mão na barriga com uma cara de nojo. – Tô enjoada. – Já era por volta das 22h da noite e a feira estava no final, os dois tinham provado praticamente uma coisa de cada barraca e agora estavam jogados em duas das cadeiras disponíveis perto do gramado.
– Eu também e a culpa é toda sua. – reclamou.
– Aquele creme… – começou e fechou os olhos sentindo o gosto vir na boca.
– Nem termina a frase ou eu vou vomitar.
? – O menino olhou pra ela sem sair do lugar. – Eu acho que realmente vou vomitar.
– Ah não, , você que…– Antes que pudesse terminar a frase, virou a cabeça em direção ao gramado e vomitou por cima das flores. – Ai cacete! Se você não parar eu…– se inclinou novamente vomitando mais e o estômago de revirou o fazendo pôr a mão na boca segurando pra não vomitar também. Respirou fundo, contou até 10 e pode finalmente engolir aquele gosto horrível que estava na boca. se ergueu pálida e com os olhos moles, a primeira coisa que fez foi checar seu cabelo, graças a Deus estava limpo.
– Eu acho melhor a gente voltar pra casa. – Disse baixo ainda sem forças.
– Ainda não. – fechou os olhos se apoiando nos joelhos. – Se eu me mexer, eu também vou vomitar.
– Eu vou comprar água. – A menina se levantou pouco tonta e foi até a barraquinha mais próxima, voltando com duas garrafinhas de água. – Bebe, vai se sentir melhor. – Estendeu uma garrafa para o menino que pegou a contragosto e bebeu alguns goles.
– Acho que a gente pode ir. – Se levantou ainda incerto do seu estômago.
– Tem certeza? Você está verde.
– Tenho. – Pegou as chaves com e dirigiu o mais rápido que pode até em casa, não sabia o quanto mais poderia segurar. Quando chegaram os dois passaram direto para o quarto, não queriam nem sentir o cheiro do jantar.

Pov .

Quando voltamos, eu fui direto para o banheiro escovar os dentes. O que diabos tinha naquele creme afinal? Tinha certeza que foi ele que me fez mal. Sai do banheiro prendendo os cabelos e encontrei jogado na cama com uma das mãos sobre a barriga, parecendo que estava prestes a morrer.
– Você não parece muito legal. – Disse e me sentei na cama ao seu lado. – Quer que eu busque um remédio na cozinha? – Perguntei preocupada, ele estava pálido.
– Eu acho que a gente comeu algo estragado. – Disse simplesmente.
– Com certeza. Nunca mais quero ver morango na minha frente. – Parei em frente a grande janela que tínhamos no quarto e a abri, as estrelas estavam incrivelmente brilhantes essa noite, logo senti a presença de ao meu lado.
– Sabia que você ia gostar do céu visto daqui.
– Realmente é incrível.
– Tão incrível que quase não sinto mais meu estômago revirando. – Riu alto me fazendo rir também. – Quando voltarmos para NY você vai ter que me pagar um lanche por ter ido nessa feirinha venenosa com você. – “Quando voltarmos para NY”, dessa vez o estômago que revirou foi o meu.
Permanecemos olhando o céu por um tempo quando não consegui mais segurar e involuntariamente soltei:
– Minha família está voltando para o Brasil. – Suspirei fundo aliviada por finalmente colocar aquilo pra fora. se virou ficando de frente para mim e me encarou nos olhos, tinha os dois braços ainda apoiados no batente da janela.
– Mas…por que? – Perguntou inseguro porém sereno.
– Eu não sei.
– Você vai voltar com eles? – Questionou em seguida.
– Eu também não sei. – Respirei fundo voltando a encarar o céu. – Meu pai disse que não vai me bancar aqui. – escutava atentamente o que eu dizia.
– Por isso sua condição era aquele emprego? – Voltou a falar depois de um tempo em silêncio, assenti com a cabeça.
– Eu preciso conseguir aquela vaga, entende? Eu preciso! – Tinha gotas de lágrimas nos olhos, mas as segurava com todas as forças. – É muito frustrante você não ter controle da sua vida. – Bufei.
– Você vai conseguir aquela vaga, . – Revirei os olhos sentindo uma das estúpidas lágrimas caírem.
– Eu nem quero me iludir. – Travei o queixo desviando o rosto para o lado oposto em que ele estava.
. – Puxou meu rosto devagar. – Confia em mim, você vai conseguir essa vaga. Eu prometo. – Beijou o canto da minha boca e me puxou para um abraço, que estranhamente me fazia sentir segura.

Xxx

– Anne! Não corre por favor! – Leighton exclamava com a menina inutilmente. Era por volta 3h da tarde e estavam todos no jardim aguardando a hora do Parabéns. achava que muitas pessoas tinham vindo a fogueira de sua vó, mas não imaginava que viria mais gente ainda para o seu aniversário. A casa estava um confusão, pessoas passando com pratos de salgadinhos e biscoitos enquanto as crianças corriam com selvageria pela casa, passara a manhã toda organizando a decoração com Nancy, e agradeceu aos céus por estar ocupado demais pendurando as luzes pelo jardim para dar atenção a barbie do Tennessee, mas em compensação queria morrer por ter que aguentar a mesma desde as 7h da manhã tagarelando e o pior foi que mesmo depois da festa ter começado Nancy continuou a arrastando, pra lá e pra cá, como se fossem melhores amigas. estava no jardim parada ao lado dela e da mãe de um garotinho chamado Jack pelos últimos 20 minutos, sentia que sua cabeça ia explodir se continuasse ali por mais 10 segundos que fosse.
– Alguém viu o ? – Leighton surgiu na roda de conversa. – Já vamos cantar o parabéns e não o acho em lugar nenhum.
– Eu vou procurar ele! – estendeu a mão para o alto tão rapidamente que até ela se assustou. Saiu finalmente daquela conversa e começou a andar aleatoriamente procurando por , de fato não o via fazia um tempo, onde será que havia se metido?
estava longe de todo mundo tentando conseguir sinal e um lugar silencioso para falar no telefone, aguardava impacientemente o celular chamar quando a pessoa do outro lado finalmente atendeu.
Alô?
– Finalmente em, tô tentando falar com você desde cedo.
? Você não estava viajando?
– E estou, mas preciso de um favor seu que não pode esperar.
– Manda ai.
– Sei que disse que não daria pra colocar aquela pessoa diretamente na vaga da empresa, mas eu preciso que faça isso mesmo assim.
, eu já te disse se eu fizer isso, o seu pai…
– Dane-se o meu pai!
– interrompeu a pessoa do outro lado da linha. – Em menos de um mês essa empresa vai estar no meu nome, então agora eu vou usar dos meus benefícios, se ele quer que eu administre eu vou administrar.
– Se descobrirem que eu sabotei a seleção de candidatos, eu perco meu emprego, .
– Você escutou a parte em que eu disse que a empresa vai estar no meu nome em menos de um mês? – Esbravejou olhando para os lados se certificando que não tinha ninguém mas avistou vindo em sua direção ainda distante. – Coloque ela no cargo independente de qualquer coisa ok? Eu lido com as consequências depois. Preciso ir agora, vou desligar.

desligou o celular ao passo de que se aproximava.
– O que você está fazendo aqui garoto? Já vão cantar os parabéns. – Bateu palminhas o apressando e deu risada.
– O que VOCÊ está fazendo com esse shortinho curto é a questão principal aqui. – implicou. – Sabe, , um homem tem suas necessidades… – Incitou pretencioso se aproximando da garota com um sorriso travesso.
– Já disse que não vou transar na cama da sua avó, ! – Riu e a segurou pela cintura forçando ela a dar passos para trás em meio aos vários selinhos que recebia.
– Quem disse que precisa ser na cama? – sorriu boba ainda com os braços de envoltos nela.
– Ta todo mundo te procurando. – Disse com dificuldade visto que o menino beijava sua nuca sem parar. –
– Deixa eles, daqui uma hora a gente volta. – Deu de ombros e sorriu entre o beijo que era aprofundado ali.
– ECA TIO VITOR! PARA DE BEIJAR A RUTE! – Anne surgiu do nada gritando e se enfiando no meio dos dois, estavam tão ocupados que nem perceberam a menina chegar. – SAI! Sai! – Empurrava com suas mãozinhas e os dois gargalhavam alto com a cena.
– Então eu vou encher você de beijinhos. – Fez um bico engraçado e correu atrás da menina que gritava entre risadas.
– Socorro! Socorro! – a alcançou e pegou Anne no colo a fazendo gargalhar ainda mais e seguiram em direção a casa. seguiu os dois de volta para a festa sem esconder o sorriso largo de felicidade que tinha no rosto por estar ali agora.
Cantaram enfim o Parabéns para Dona Lily que parecia estar mais radiante que nunca e sentiu um aperto no peito ao ser cutucada por para voltarem para o quarto algumas horas depois, era quase noite e sabia que tinham que terminar de arrumar as malas, voltariam para NY em algumas horas. A menina suspirou fundo e memorizou a cena de todos ali sorrindo e brincando enquanto comiam o resto do bolo, não sabia se veria aquelas pessoas novamente, mas torcia para que sim.
– Eu vou sentir saudades, da sua família. – Se pronunciou enquanto colocava suas roupas na mala. que também organizava suas coisas levantou a cabeça para ouvir melhor. – Principalmente da sua avó.
– Eu também vou. – Suspirou.
– Você vai vir mais vezes, não vai? Digo, com mais frequência?
– Pretendo. – Sorriu de lado. – Prometi pra Anne que viria. – o acompanhou sorrindo também e terminou de fechar sua mala.
– Preparado para voltar a vida real?
– Não muito. – Fez uma careta. – As coisas vão estar diferentes quando a gente voltar.
– Vão? – A menina perguntou suspeita com as sobrancelhas franzidas. terminou sua segunda mala, e bateu as duas mãos juntas como se estivesse se livrando de alguma poeira.
– Vão. – Confirmou seguido de um longo suspiro e entendeu que não cabia a ela perguntar o que era, ele provavelmente mudaria de assunto.
– E a gente? – Se arriscou a questionar, com a única coisa que realmente a interessava. se aproximou dela ficando a um palmo de distância.
– No momento a gente é a única certeza que eu tenho – Sorriu fraco e não conseguia se impedir de sorrir também todas as vezes que via aquela maldita covinha que surgia na bochecha dele. – Se pra você também estiver tudo bem, claro. – Acrescentou passando a mão por sua cintura.
– Eu posso viver com isso. – Gargalhou com as cosquinhas vindas da mão rapaz e deram um beijo demorado. – A gente precisa ir.
– Eu sei. – olhou no relógio. – A gente vai se atrasar de novo. – Gargalhou e se separou de rapidamente pegando duas malas.
– Ah, não. – o seguiu sorrindo com uma mochila nas mãos enquanto arrastava outra mini mala, por sorte a família toda estava na sala o que facilitaria a despedida.
correu e abraçou todos, Leighton, Anne, Samantha, James e até Henrico e esperava sair do abraço de sua avó para se despedir dela também. Ao mesmo tempo que a menina esperava, a avó de cochichava no ouvido dele; “Não a deixe ir embora, é ela, você sabe.” sorriu com o conselho vindo de Lily tentando fingir que não sabia do que se tratava, finalmente se soltou deixando se despedir.
– Foi um prazer conhecer você Dona Lily. – a abraçou apertado com algumas lágrimas nos olhos, a verdade é que era um pé no saco, mas sua família era simplesmente a melhor e não conseguiria evitar sentir saudades.
– O mesmo querida, por favor não me deixe com saudades voltem logo. – pediu e gargalhou.
– Pode deixar. – Sorriu.– Obrigado por me receber. – Finalizou se afastando com uma dor no peito.
Jason os levou até o aeroporto e passou o caminho da volta todo pensando em como tudo seria diferente no momento em que pisassem na empresa. Mas não contaria pra ela, pelo menos não agora, e com sorte, o título de CEO que o esperava afetaria tudo, menos os dois e se agarrava nisso.



Continua...



Nota da autora: Essa att grandinha compensou o tempo que demorei pra postar? Espero que sim ahuahau
Tava com saudades de Co-Workers mas com o tanto de coisa que tinha pra fazer não tava conseguindo encontrar tempo pra finalizar esses capítulos e mandar a att. Fico feliz que consegui mandar ainda em novembro, não quero que seja a última do ano e vou fazer de tudo pra conseguir mandar pelo menos um cap antes de acabar o ano, apesar de ter que entregar um ficstape em dezembro :( aaaaaa queria ter mais tempo pra escrever but okay, that's life.
Ansiosos para ver oque vem por ai na fanfic? O pp vai se tornar CEO, mas sera que ele vai dar conta das responsabilidades? Eita hahahaha, será uma nova fase, e eu estou com várias idéias então relaxem, eu não vou abandonar essa fic amorzinho ahhahua.
Agradeço a paciência de vocês, os comentários e por estarem acompanhando a fiction e não desistirem dela! Gostaria de avisa-los também que a fic a partir dessa att está sendo betada pela Dafne, e desde já agradeço ela também pela atenção e correção da fic. ♥
Espero de verdade que vocês tenham gostado, comentem oque acharam do capítulo vou interagir com vocês, participem do grupo da fic no facebook "Co-workers Fanfic" lá vou postar fotos dos personagens, e vou avisar também sobre as att's, qualquer questão estou disponível pra vocês nas minhas redes sociais;
Rute Ester brasileiro no Facebook e @ahazzagazela no Twitter.
Tenham uma ótima semana, espero ve-los em breve.
Xoxo,
Rute.






Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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