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Última atualização: 10/08/2017

Capítulo 1.


- Ah, droga, droga, droga, merda! - gritei alto.
Isso tinha que estar acontecendo comigo e justo hoje.
Hoje eu tinha um super seminário pra apresentar na escola valendo 1/3 da minha nota. Segundo o professor, apresentar seminários nos prepara para o TCC, coisa que não me preocupa muito ainda, já que faltam dois anos pra acabar essa faculdade. Eu só vejo isso como uma forma de antecipar o sofrimento. Como se já não bastasse a porra desse seminário, eu começaria um estágio hoje. Começaria, coisa que eu não acho que vá mais acontecer já que a camisa da empresa antes branca agora está vermelha, graças a uma bendita meia e eu estou completamente atrasada pra faculdade. Como eu ia dizendo:
DROGA!.

(...)

- Caramba, ! - cochichou raivosa enquanto eu me sentava na cadeira ao lado dela.
- Eu sei, eu sei, eu me atrasei, mas eu estou aqui não estou?
- As duas senhoritas gostariam de compartilhar alguma coisa com a turma? - O professor olhou diretamente pra gente, Jesus, aquele homem era o cão.
Depois do pequeno sermão, o meu grupo apresentou e foi um total desastre, eu esqueci algumas partes e a fez o mesmo, os slides começaram a travar e a gente teve que terminar o seminário sem fotos ou vídeos. Recuperação em Economia era tudo o que eu precisava na minha vida, obrigado, Deus.
O sinal pra ir embora depois de 6 aulas soavam como um coral de anjos para os meus ouvidos, um coral de anjos e a porra de um aviso pra que eu não me atrasasse pro estágio.
- , vem almoçar com a gente. - Mark, A.K.A o namorado da , estava me chamando.
- Mark, eu realmente não posso, eu tenho esse estágio pra ir e eu já comecei ferrando o uniforme deles. Foi mal.
- Deixa a , amor, outro dia ela vai.- entrelaçou os dedos nos dele e eu automaticamente revirei os olhos, não que eu não goste dele, pelo o contrário, Mark é tudo que a sempre quis: ele é estudioso, carinhoso, tem paciência com as crises de ciúmes dela e compra tudo que ela pede, tudo até 20 dólares, mas compra.
O ônibus demorou, como de costume, mas não a ponto de me atrasar, eu estava confiante, com fome, mas confiante. Chegaria no horário certo, meu cabelo estava arrumado, dentes limpos, tudo em ordem, exceto a blusa do uniforme, mas eu daria um jeito, eu explicaria a minha supervisora o que aconteceu e dentro de poucos minutos eu estaria estagiando na maior empresa de publicidade de New York. . Entertaining.
Cumprimentei a recepcionista e apresentei meu crachá, que ela insistiu em conferir duas vezes devido a cor do meu uniforme ser duvidosa.
- Segura a porta pra mim! - Gritei para o menino aparentemente da minha idade que estava dentro do elevador. Ele me olhou correr para o elevador, mas não moveu um dedo para segurar a porta, por sorte cheguei a tempo de entrar. - Obrigado. - Disse sarcástica e de rabo de olho vi ele apenas erguer a sobrancelha, o ignorei e apertei o andar de número 7, mas no instante em que o fiz o elevador deu uma chacoalhada e parou.
- O que você fez? - O menino agora não tão desconhecido, me perguntou olhando pra mim, o que me permitiu reconhecê-lo.
- Eu não fiz nada.
- Mas é claro que fez! A gente estava subindo e você parou o elevador!
- Eu não parei nada! - Revidei no mesmo tom de voz nada baixo que ele usou comigo. - Deve ter acabado a energia ou sei lá o que.
- Ah que ótimo, mais clichê impossível.
- Nossa, você realmente é mal humorado como dizem.
- Como dizem quem, menina? Que merda você tá falando?
- Ah, cala a boca.
- Por que não cala você já que está falando desde que chegou aqui?
Nem me dei o trabalho de responder àquele garoto que, a propósito, estudava na minha faculdade. Pude reconhecê-lo depois que ergueu a cabeça para gritar comigo.
, eu conheço o indivíduo desde a 5° Série e o vejo sempre na mesma faculdade que eu. Nunca trocamos uma palavra durante todo esse tempo, ele era lindo, fato.
Era alto na medida certa, possuía cabelos e olhos , uma combinação que se encaixa perfeitamente misturada com uma personalidade de lixo. diz que ele foi tão babaca a ponto de terminar com a ex e fuder com a melhor amiga dela no mesmo dia, Mark diz que o cara é mal interpretado, eu não dava opiniões, até agora. Ele é um completo imbecil.
Já estávamos parados há mais ou menos 20 minutos quando escutei um barulho estranho vindo de .
Não me permiti virar e olhar, mas foi aí que ouvi o som pela segunda vez e parecia que ele estava… sufocando? Pela minha curiosidade não consegui me aguentar e virei pra ver o que estava acontecendo, foi quando me deparei com ele roxo em busca de ar.
- Ai, meu Deus! - A primeira reação que tive foi bater na porta do elevador.
- Socorro! Tem um rapaz passando mal aqui! Droga! - Em um gesto desesperado larguei minha pasta e a bolsa no chão e me agachei ao seu lado, batendo nas costas dele, esperando que ele cuspisse a droga de um chiclete entalado, ou algo assim, mas tudo que ele fazia era buscar incansavelmente por ar. Foi ai que eu reparei que ele não tirava o olho da porta, ele não estava engasgando, ele tinha claustrofobia.
- Você é claustrofóbico, ? - E no meio da falta de ar ele achou tempo para me martirizar só com um olhar, querendo dizer “Não é obvio?”
- Tá bom, foi mal. - Me coloquei na frente dele e segurei o seu rosto o colocando pra olhar diretamente pra mim. - Está tudo bem, meu pai tem isso às vezes, só olha pra mim, okay? Presta atenção na minha voz - consigo ver os olhos dele olharem os meus. - Respira fundo, solta o ar devagar, inspira, expira. - após fazer isso umas 3 vezes ele consegue se estabilizar e a cor volta pro seu rosto. - Você está melhor? - ele assente de olhos fechados.
- Hm, obrigado - Ele dirige a palavra a mim e eu percebo que ainda estou segurando o rosto dele e solto repentinamente.
- De nada. Ajuda se você tentar pensar em outra coisa e esquecer que está sem ventilação. - ele não parava de me encarar desde que recuperou o fôlego, totalmente sem graça me levantei pegando minha pasta e minha bolsa, me afastando o máximo dele que aquele cubículo permitia.
Eu estava nervosa, hoje era pra tudo ter corrido bem e está dando errado desde a hora em que acordei, e a porra desse calor insuportável aqui dentro não ajuda nem um pouco. Parece que não sou a única com calor, já que o cidadão que a pouco estava morrendo, agora está tirando a camisa.
- O que você está fazendo?
- Tirando a camisa, se eu fosse você eu fazia ou mesmo, ou vai morrer de calor. - Ele respondeu e suspirou fundo, eu queria olhar a barriga dele, mas eu não iria, não, não, droga, meu olhar abaixou rapidamente, porém foi o suficiente pra pensar Uau.
- Eu não vou ficar pelada na sua frente, .
- Você sabe o meu sobrenome e eu não sei nem o seu nome.
- Você nunca perguntou.
- Nem você e, mesmo assim, sabe. - Revirei os olhos pra resposta estupidamente perspicaz dele.
- .
- É o nome da minha gata. - Ele admitiu.
- Sério?
- Não. Qual gata se chamaria ? - ele deu um sorriso de lado e eu me permite sorrir daquela piada sem graça também.
- Pra uma empresa tão grande como essa eles estão demorando demais pra consertar esse elevador.
- Já ficou quebrado por mais de uma hora.
- Você costuma ficar preso no elevador daqui todo dia?
- Sempre que posso. - Sorri. - E você?
- Ah, essa é minha primeira vez. - Disse em um tom de brincadeira, me sentando também.
- Seja bem vinda, então.
Outro chacoalhado e as luzes do elevador se acendem e em poucos segundos ele começa a subir.
- Graças a Deus. - Plin. O barulhinho da porta se abrindo soa e desce no mesmo andar que o meu. Uma mulher extremamente elétrica com um celular no ouvido surge gritando.
- Vocês estão atrasados.
- É porque... - Tento argumentar, mas ela me interrompe.
- Sem desculpas, mocinha, me acompanhe. Senhor , também, seu pai não quer tratamento privilegiado. E veste essa camisa.
- Seu pai? - Me viro pra ele enquanto praticamente corremos pelo corredor seguindo aquela moça.
- Ah, ele é o dono disso aqui.
Ótimo.


Capítulo 2.


POV

- Então, aqui tem uma pilha de papéis de contratos e do limite máximo da data de entrega do que eles pediram, seja comercial, design de panfleto, exibição na timesquare, publicidades feita por artistas, etc. Tem tudo aqui nesses papéis, preciso que coloquem pra mim do mais atrasado ao que resta mais tempo. Conseguem fazer isso?
- Mas é claro, Sr. Sinclair. Te entregaremos tudo até às 18h.
- Eu espero que sim. Aqui nessa sala vocês tem café, doces, computador, pastas, impressora e meu telefone, só usem em caso de extrema importância, pois sou muito ocupada e odiaria dispensá-los por uma ligação. Estamos entendidos?
- Sim. - Respondi prontamente enquanto enchia a mão de amendoins. Recebeu um olhar de reprovação meu e da supervisora, mas pareceu não ligar.
Após ela deixar a sala me dei conta do trabalhão que tínhamos, separar documentos por data é a pior coisa que já inventaram, passaria a tarde lendo e separando papéis.
- Acho que a gente podia dividir essa pilha, assim você fica com a metade e eu também, o que acha? - Perguntei direcionando o olhar para o que não estava tão longe de mim.
- Tanto faz. - bufou pegando mais amendoim da mesinha. Dividi em partes iguais a pilha, ou pelo menos eu acho que sim e entreguei pra ele.
- Okay. Vamos nos concentrar e terminar o mais rápido possível. - Fui ignorada de novo, ignorada e substituída por uma música muito alta.
When you feel my heat, look into my eyes
Foco, . Ele escuta música na mesa dele e você trabalha em silêncio aqui.
It’s where my demons hide It’s where my demons hide
A Melodia cada vez mais alta se misturava com ele batucando na mesa.
Don’t get too close, It’s dark inside
Já tinha separado duas fichas que venciam dia 12/11. Ou era 12/12? O refrão vem mais alto.
It’s where my demons hide It’s where my demons hide
- ! - Gritei chamando sua atenção pra mim. - Eu sei que você deve amar Imagine Dragons e o caralho a quatro, eu não me importo se é sua banda favorita, os caras são bons, eu amo eles, mas eu não quero saber onde seus demônios se escondem e muito menos ouvir essa música alta agora. Então se você puder, por favor. Abaixa essa porra! - Disse tudo num fôlego só e ao terminar estava completamente vermelha de raiva e fiquei com mais raiva ainda quando ele riu. - Do que você está rindo?! - Perguntei com o fogo no olho de quem mataria ele agora se pudesse.
- Você fica muito engraçada brava. - Ele deu uma pequena gargalhada. - Tudo bem, eu abaixo, mas era só pedir não precisava ficar brava.
- Eu não estou brava.
- Você está sim. - Sorriu mais uma vez porém levantou as mãos em rendição- Foi mal, por mais cedo, sei que fui babaca lá no elevador. Eu vou abaixar.
Me surpreendi com a atitude dele. Fiquei sem saber o que falar. O que você fala numa hora dessas? “É você realmente foi um babaca” ou “Cala a boca, não finge ser bonzinho quando eu sei que não é” dentre as opções achei melhor dizer:
- Hmm, okay. Sem problemas.
O resto do dia correu bem, o elevador funcionou normalmente e não me irritou mais. Ganhei uma blusa de uniforme nova e meu ônibus passou na hora certinha. Exatamente às 18:33.
Cheguei em casa morta de cansaço, porém ainda tive disposição de ligar pra e contar como foi o dia, não tenho muita certeza de como a conversa acabou, a última coisa que me lembro é que estávamos falando sobre comida mexicana quando cai degradadamente no sono.



Capítulo 3.


Um mês se passou desde que comecei o estágio e reprovei em economia. A parte de reprovar ainda não aconteceu, mas eu sinto que vai.
Graças ao meu bom trabalho fui transferida para o setor criativo. também, mas graças ao pai. Nosso relacionamento era estável, eu não incomodava ele e ele não me incomodava, era o nosso trato. E apesar de passar praticamente 6h com ele em uma sala de escritório, na faculdade era como se nem nos conhecêssemos, o que não deixa de ser verdade. A gente não se conhece.
- Agora você vai ver isso aqui virar um verdadeiro caos. - Camila me disse jogando uma enorme caixa na minha mesa.
Camila também trabalhava no setor criativo e ficava na sala do lado da minha, ela não era tão mais velha, considerando que eu tinha 20 e ela 27.
- Caos? Por que caos?
- Ai , o Natal tá chegando. É agora que a gente fica cheio de trabalho pra entregar. Você vai ouvir tantas músicas de Natal e escolher entre tantas decorações pra essas empresas que não vivem sem a gente, que você vai desejar que o Natal não existisse.
- Eu amo o Natal.
- Vamos ver se até o final desse mês você continua pensando desse jeito. - Ela suspirou. - Última semana de novembro começa hoje. O que significa que estamos atrasados. A Sinclair mandou você se juntar com o e criar uma arte pra essas empresas da caixa, com frases marcantes e essas coisas. Anyway. Se precisar de mim sabe onde me encontrar. - Sorri desanimada.
Me juntar com o . Eu ia precisar de um milagre de Natal pra isso dar certo. Começando agora.
- . - Sacudi ele que estava dormindo deitado na mesa. – , acorda. A gente tá no meio do expediente.
- Hmm.
- , eu tô falando com você porra.
- Saco. - ele levantou. - O que você quer, ? - Ele gritou e na mesma hora eu me afastei e fui pra minha mesa.
- Nada, . Pode deixar que eu me viro sozinha.
- Mas que porra, vai ficar com raivinha agora? - Preferi não responder.
Tirei os papéis da caixa e liguei meu computador.
- Ah, droga. Foi mal ok? É porque eu estava dormindo e acordei nervoso.
- Você não pode gritar comigo sempre que quiser e achar que está tudo bem. Te acordei porque a Sinclair passou um trabalho pra gente, mas foi a última vez, da próxima você se explica com ela, com seu pai, ou pro caralho a quatro que você responde, se é que você responde pra alguém.
Ele suspirou.
- Desculpa. Eu…eu não vou mais gritar com você. - Arqueei a sobrancelhas e continuei tirando os papéis da caixa. - . - Me virei e olhei pra ele. - Foi mal.
- Whatever, pega um papel aí e monta uma campanha de Natal.
- Eu odeio o Natal.
- Entra na fila.

(...)

- O que você acha de “A manteiga de amendoim aprovada pelas renas” ?
Estávamos sentados na mesma mesa compartilhando ideias pra agilizar o serviço, quando ele disse a proposta e eu involuntariamente dei uma gargalhada.
- Foi mal. - Censurei o riso.
- Ah, , isso não vai dar não, eu não sou criativo.
- , esse é o setor criativo, como você chegou aqui se não é criativo?
- O velho me mandou pra cá. Você acha que eu pedi pra ficar na mesma sala que você de novo?
- Haha, muito engraçadinho. Usa a sua ironia pra manteiga de amendoim.
- Isso não faz sentido. Manteiga de amendoim não precisa de propaganda de Natal. Continua sendo o mesmo produto desde o começo do ano.
- Good Butter, a única manteiga de amendoim que o Papai Noel traz no saco de presentes. - Disse orgulhosa.
- Ah, que baita presente!
- Cala a boca e anota. - Dei um tapa no braço dele e ele sorriu.
- Eles não vão escolher essas ideias, né?
- Provavelmente não. - Gargalhamos juntos.
- Mas não é nossa culpa, a gente é só estagiário.
- Estagiários da parte criativa, a gente devia conseguir criar alguma coisa.
- Sinclair disse que você é bom no computador. Podia fazer uma arte sensacional pra cada marca, daquelas que não precisa nem de descrição.
- A Sinclair disse, foi? Hm, então estavam falando sobre mim.
- Não. Eu disse que ela precisava contratar mais um estagiário, um que soubesse mexer no photoshop e ela disse que não precisava, já que você tem vários cursos.
- Sei.
- Você não é tudo isso, . Pare de se achar. - Sorri colocando os pés pra cima da cadeira. Eu estava mentindo, ele era sim tudo isso, pelo menos de aparência. Mas ele não ia ouvir isso da minha boca nunca.
- Nunca diga "dessa agua não bebereis". - A voz dele dizendo isso me assusta considerando que acabei de pensar em nunca dizer que ele era boa pinta. Mas eu estava pensando então não tem a mínima chance dele ter ouvido mas mesmo assim me deixou pálida. - Você ficou pálida. A ideia pra marca de cerveja foi tão ruim assim?
- , essa ideia é péssima.
- Ah é oficial, eu desisto. Eu não nasci pra fazer slogan.
- E nasceu pra fazer o quê?
- Ficar bêbado.
- Parece um bom plano. - ele deu um sorriso de lado safado insinuando que eu concordava com ele. - Quer dizer, um bom plano pra você. Eu não bebo.
- Não bebe? Ah conta outra, .
- Não. Não bebo.
- Nadinha? - ele se espantou.
- Nadinha. - Respondi orgulhosa.
- Mas como? Não tem como ter 21 anos e nunca ter bebido um golinho sequer.
- 20. Até aqui nos ajudou o senhor.
- Wow. E por que ele não me ajudou? Porque, assim, eu já nasci bebendo.
- Escolha sua.
- Não tive muita escolha a não ser me embriagar, . - O tom de alegria na voz dele pareceu murchar. E os olhos foram do verde para o cinza.
- Não fala assim, , você tem tudo.
- “Tudo” - Ironizou e preferi não mergulhar no assunto.
- Eu acho que a gente podia falar com a Camila e ficar só com a parte de decorar o escritório e essas coisas.
- Ah, , decorar o escritório também é péssimo. - Choramingou
- Para de ser um bebezão, . - Sorri. - Se você quiser continuar fazendo dingles e slogans vai em frente.
- Eu conheço uma loja ótima que vende decoração de Natal aqui no centro. - Revirei os olhos e fui tentar amansar a Camila pra nos mudar de posto.

(...)

3 Semanas para o Natal
O final de novembro e a primeira semana de dezembro passaram voando, foi semana de testes na faculdade e eu tive que estudar feito louca pra recuperar economia. Minha vida estava meio entediante ultimamente, minha rotina era a seguinte:
- Acordar
- Faculdade
- Almoço (quando dava)
- Trabalho
- Casa
- Dormir
Sem nenhum desvio de rota e sem fugir um dia sequer à qualquer uma das obrigações. já sabia que só conseguia falar comigo na faculdade, ela descobriu isso depois de me chamar pras festinhas dela por um mês consecutivo e eu ir no total de 0/10. Ela desistiu e parou de me chamar. Não a culpo, eu ainda não iria mesmo se ela continuasse a chamar.
Camila tinha razão. O clima Natalino naquela empresa tinha cheiro e gosto de inferno. Já não bastasse os 200 dingles que eu e tivemos que fazer pra trocar de função com Jofrey, o cara da decoração.
- , como você vai levar isso tudo pra empresa? - perguntou apontando pra enorme montanha de sacolas com todo o tipo de decoração de Natal que estava estacionada na minha sala.
- Isso é problema do . A gente fez um trato: eu comprava e ele levava.
- Ultimamente a única palavra que você sabe falar é .
- Não viaja, . - Revirei os olhos e ela me deu língua.
- Essa histórinha de amor e ódio eu conheço.
- Não tem história, . A gente trabalha junto e só.
- Seeeei. Então por que tudo você menciona ele?
- Eu não menciono ninguém. Agora vai pra sua casa que seu namoradinho deve estar te esperando. - Empurrei ela até a porta que foi gargalhando.
- O meu está me esperando e o seu já está passando pra te pegar.
- Tchau, . - Bati a porta na cara dela e ouvi ela rir.
Ela estava errada, eu não mencionava tanto assim, mas é que involuntariamente a gente virou amigos de escritório.
De escritório, como o próprio nome dizia.
A gente não se via fora dele. E fora saber que ele não tivera uma gata com meu nome e que o pai dele era dono da empresa que a gente trabalhava eu não sabia mais nada sobre ele.
Então, não, não tinha o menor sentido ou cabimento a achar que tinha no mínimo uma atração ali.
Meu celular vibrou e era mensagem de um número não salvo, mas que eu conhecia.
Speaking of the devil…
- Tô aqui fora
- Então entra. O portão tá aberto.
Ouvi o rangido do portão e como ainda estava praticamente do lado da porta, abri antes dele bater.
- E ai. - Ele disse sorrindo .
- E ai. - Imitei seu tom de voz.
- Cadê as coisas? - Sai da frente e deixei ele ver a sacolada e as caixas que se amontoavam atrás de mim. – Porra, . Você sabe que a gente tem que arrumar tudo ainda hoje, né?
- Então você tem que se apressar. - Ele sacudiu a cabeça em negação e foi entrando.
- Se eu soubesse que era tanta coisa assim tinha vindo com uma van.
- Para de reclamar. - Disse enquanto segurava a porta pra ele passar com as coisas.
Acontece que não parou e reclamou até pegar última sacolinha do chão.
Me martirizou com o olhar.
- O que foi? Comprei o que tinha que comprar.
- Cimprei uqui tinhi di cimprir - fez uma voz de estupidamente infantil.
- Ah, cala a boca.
- Vamos?
- Espera só eu pegar minha bolsa lá em cima?
- Hm, okay. Posso beber agua?
- Claro. É só ir reto, a cozinha é no final do corredor.
Subi as escadas correndo a procura da minha bolsa que eu tinha certeza ter deixado no criado mudo do meu quarto, mas aparentemente não deixei lá. Merda. Já estava atrasada. Ia desistir dessa bolsa quando avistei a alça na gaveta semi aberta. Peguei e dei uma olhada no espelho rapidamente só pra checar.
Vestia uma calça jeans e uma blusa de manga comprida estampada com mini elefantes que eu amava.
Desci as escadas correndo e me deparei com na sala de estar olhando a centena de porta-retratos que eu tinha em cima da lareira, na mesinha de centro e na parede.
- Você tem uma família enorme. - Ele concluiu e sim eu tinha. - Moram todos aqui?
- Na verdade, não. Boa parte mora no Brasil, nessa casa é só eu e minha irmã. Mas meus pais moram na rua de baixo, eles estavam precisando de um tempo de drama adolescente.
- Eles não te aguentavam mais, né. Nem eu. - Revirei os olhos.
- E você tem irmão?
- Tenho um.
- Qual é o nome dele?
- Sam e ele não está disponível. Agora anda logo que a gente vai passar a tarde inteira decorando um prédio. - Ele caminhou rápido até a porta e eu tive que dar uma corridinha pra alcançálo.
- Relaxa. - Pensei. - O máximo de tempo que vamos passar arrumando vai ser…

(...)

POV
- 10 fucking horas decorando está merda, .
- Não me culpa! Eu não sabia que a gente ia ter que enfeitar todos os andares! - Ela rebateu me fazendo bufar de nervoso e levantar.
- Olha bem pra minha cara de ajudante do Papai Noel. Eu tô caindo fora. Tenho uma festa pra ir.
- , não. Falta a árvore.
- Eu tô pouco me fudendo pra porra de uma árvore de Natal. Se vira ai.
- Por favor. Está tarde. Não me deixa terminar sozinha. - Ela insistiu.
Realmente estava tarde, era 00h e só restava a gente naquele edifício. A gente e o segurança.
- Tchau, . - Dei as costas já com a chave da moto na mão.
- Por favor. - Ouvi ela pedir mais uma vez sem levantar o tom de voz e hesitei.
Eu só podia estar com merda na cabeça. Cogitar a ideia de largar uma foda marcada na festa da pra passar a noite decorando uma árvore de Natal com uma menina que eu não conheço nem há 5 meses. Merda na cabeça como disse.
Droga, .
Me virei de volta respirando fundo e soltei as chaves na mesinha.
- Vamos acabar logo com isso.
Enquanto eu segurava a escadinha pra conseguir colocar as bolinhas na parte mais alta ela cantarolava uma música em outro idioma mas no ritmo de Natal. Como ela podia ficar feliz uma hora dessas?
- , não dá pra ficar feliz agora não. Para de fingir.
- Eu não tô fingindo. É porque eu sempre decorava a árvore com a minha família toda reunida, quando era criança, ai a gente cantava músicas de Natal enquanto minhas tias cozinhavam alguma coisa gostosa, me deu saudades. - Levantei as sobrancelhas e ela desceu da escada. - Você nunca decorou uma árvore com sua família? - Ela pergunta olhando nos meus olhos e eu desvio abaixando e pegando alguns frufrus lá que eu não faço ideia da porra do nome.
- Eu não tenho família. - Disse simplesmente.
- Mas e o seu pai?
- Ele não é meu pai só porque gozou na minha mãe.
- Sua mãe, ela… - Não a deixei terminar e respondi de uma vez o que ela queria saber. Eu odiava falar da minha mãe.
- Ela morreu. - Me sentei no chão e comecei a colocar as cordinhas naquelas bolinhas estúpidas de Natal.
Parece que teve a mesma a ideia e se sentou nos pés da árvore de frente pra mim.
- Desculpa. Eu não sabia. Não precisa falar sobre se você não quiser. - E eu não queria falar sobre. Eu não falava sobre com ninguém. Eu odiava reviver que ela não estava mais aqui. Principalmente a tão pouco tempo do Natal, a época que ela amava.
- Ela fazia biscoitos de gengibre todo Natal. E deixava a gente decorar. - Me permiti falar a lembrança que veio na minha cabeça segurando pra não embargar a voz. Não aqui. Não agora. Não na frente dela. - Eu sempre estragava todos. - Sorri de lado e vi de canto fazer o mesmo. - Ela nem se importava. Só falava que eram os biscoitos mais lindos que ela já tinha visto. Era mentira claro, mas… eu gostava de ouvir ela falar.
- Você tinha quantos anos quando ela morreu? - hesitou ao perguntar.
- Eu tinha 9.
- Que droga, .
–É. Uma droga. - Concordei com a voz pesada.
- Seu pai… - Sacudi a cabeça com ódio.
- Ele é um merda. Sempre foi. - Me levantei e fui colocando umas bolinhas aleatórias na árvore. Já conseguia ver meus olhos marejarem não queria que ela também visse. Mas por algum motivo não conseguia parar de contar. - Só se importava com essa merda de empresa. Fui criado por babás, porque o babaca que deveria ser meu pai se importava mais com ações do que com os filhos que perderam a mãe. Eu odeio ter que vir aqui todo dia e trabalhar pra ele.
- Por que você vem? - Fiquei calado.
O motivo era um assunto particular não queria compartilhar minha vida toda com ela.
- Vários motivos, . Um dia eu te conto.
- Eu não sabia que seu pai era ruim com você. Porque não avisou antes? Nós podiamos ter feito dingles horríveis de presente pra ele, e olha que pra isso a gente tem talento. - O tom de voz dela e a cara super engraçada que fez me tirou um riso.
- , os dingles já saíram horríveis. - Ela abriu a boca espantada.
- aqueles dingles estavam incríveis. - Gargalhei concordando ironicamente e ela me acompanhou.
Depois de 40 minutos ouvindo ela contar histórias sem nexo que ela julgava de total importância e eu sorrir de todas a deixando emputecida por alguns segundos terminamos de decorar a árvore de Natal.
- Você me fez perder a festa da , .
- Ah aposto que você se divertiu muito mais desenrolando pisca- pisca comigo. - Ela concluiu convencida e orgulhosa da árvore de Natal toda decorada com cores aleatorias. - E ficou linda.
- Uhum. Vem eu te dou carona.
- Não. Não precisa, eu pego um ônibus.
- , é praticamente 1h da manhã você não vai conseguir pegar um ônibus.
- Ta bom. Vamos. Mas me chama de , acho muito cafona. - Revirei os olhos.
- Então vamos logo, ou eu vou deixar você ai. - Vesti a jaqueta e peguei as chaves da moto e ouvia ela ao meu encalço, passamos pelo segurança que nos desejou boa noite, provavelmente aliviado pra ficar livre e sentar e assistir um pornô na televisão.
- Ahn, , cadê o seu carro?
- Que carro? A gente vai de moto. - Apontei pra minha bebê estacionada na porta e senti enrijecer atrás de mim.
- Mas eu não sei andar de moto.
- E daí? Não é você que vai pilotar. - Peguei um dos capacetes e dei pra ela que ficou me olhando parada.
- , eu tenho medo. - Comecei a rir mas percebei que ela estava falando sério.
- Você tá brincando, né? - Ela trocou o peso pra outra perna e olhou pra baixo, além de estar com medo ela estava com vergonha de estar com medo. Eu com toda certeza zoaria ela sobre isso amanhã.
- . Você não vai morrer. Eu piloto essa Harley muito bem. Relaxa e coloca o capacete. Ainda hesitando ela colocou na cabeça. - Tem que apertar né, . - Me aproximei e apertei o capacete na cabeça dela. E subi na moto. - Agora sua vez. Monta na moto.
De longe foi uma das cenas mais engraçadas e de dar dó que eu ja presenciei.
- Você tá tremendo e eu nem liguei a moto. - Gargalhei.
- Para de rir . Eu te disse que tinha medo.
- Ta bom. Foi mal. Segura na minha cintura você vai se sentir mais segura.
Do espelho da moto vi ela hesitar, mas vendo que não tinha outra opção colocou as mãos na beirinha da minha cintura. Mas quando liguei a moto, ainda sem sair do lugar ela me agarrou e fechou os olhos e eu achei aquilo a coisa mais fofa que eu já tinha visto. Não me permiti pensar muito nisso e acelerei sentindo a respiração ofegante dela nas minhas costas.


Capítulo 4.


Segunda Feira. 12:37
POV
- Calma, , fala devagar. Você veio com ele de moto?
- Foi, . Era 1h da manhã e ele me trouxe em casa.
- E você quer que eu acredite que não rolou nenhum beijo? Nem umzinho?
- Não, . Eu já falei não rolou nada.
- E o que vocês ficaram fazendo até 1h da manhã, ?
- Conversando e decorando a árvore de Natal.
- Ouviu isso, Mark? Só tinha os dois e eles ficaram “Decorando a árvore de Natal”.
- Ah, eu ouvi bem. - Mark concordou, mas estava mais distraído que tudo jogando no celular.
- , escuta sua amiga que nunca ficou solteira. Dá em cima dele. Meninos são muito lerdos pra perceber qualquer sinal, o segredo é partir pra cima. - Revirei os olhos.
- Não é assim, . A gente só tava conversando e ele… ele me contou coisas.
- Quais coisas? Fetiches? - Ignorei o fato da minha amiga ser uma pervertida.
- Coisas da vida dele. Ele é um cara legal, mas não vou forçar nada, além disso ele não tinha uma namoradinha?
- Peguete, . Aquela bruxa. Odeio ela!
- Ela nunca te fez nada, . Ódio gratuito isso ai.
- Ódio gratuito nada! Ela vivia dando em cima do Mark.
- É , mas ela é solteira. Comprometido é o Mark.
- Mesmo assim, . Não gosto dela. - Preferi não discutir, a quando coloca coisa na cabeça… - Você vai trabalhar hoje de novo?
- Vou. E já tô atrasada.
- Saudades de ir no shopping com você, .
- A gente vai. Eu prometo. Sábado.
- Por que sábado? - Ela perguntou intrigada.
- Ah é porque o pessoal lá do escritório tá planejando uma festinha com amigo oculto e essas coisas. Uma festinha antes do Natal.
- Ah, tipo happy hour dos +35.
- Tchau, ! Tchau, Mark.
- Uh, tchau, . - ele ainda estava no maldito joguinho e enquanto ia me afastando ouvi a gritar que se ele não largasse o jogo ela ia quebrar.

- , me ajuda a distribuir os papeizinhos! - Camila gritava o meu nome no escritório.
Era nosso “break”. 15 minutos pra comer, relaxar e etc, geralmente às 16:00. O pessoal do nosso andar estava usando esse tempo pra organizar a festa de fim de ano e o amigo oculto.
- Tá o nome de todo mundo aqui? - perguntei derramando os papéis no saquinho antes mesmo de conferir.
- Sim. - Camila respondeu. - Só distribuir.
Fui passando por toda a ala criativa entregando papelzinho por papelzinho.
Eu gostava de trabalhar lá, apesar dos pesares, todo mundo era muito engraçado e colorido, era o andar mais animado, até o cara das correspondências dava uma enroladinha lá.
- , sua vez. Pega um papel. - cutuquei ele que estava batucando na mesa com um fone.
- Pegar o que? - Me respondeu totalmente confuso.
- O papel do amigo oculto. Duuuh!
- Ah, mas eu não vou participar. - Ele ja ia colocando os fones de novo mas segurei a mão dele antes dele conseguir recolocar.
- Como assim não vai participar? Seu nome tava aqui no saquinho.
- Eu não coloquei.
- , pega um papel agora! Não vou redistribuir pra todo mundo outro papel porque você não quer.
- Ah não, . Isso é coisa de gente velha. - Choramingou e eu revirei os olhos.
Ah que ridículo! Ele ia estragar a brincadeira toda!
- . Por favor. Sabe o trabalho que dá escrever o nome de 50 pessoas em mini papéis, colocar num saquinho e distribuir depois? - ele continuou me olhando com aquela cara de “não, não sei.” - Ta. Então não participa, merda.
- Não fica brava. - ele gargalhou. - Desmancha esse bico que eu pego um nome.
- Eu não tô fazendo bico. - elevei a voz um pouquinho e ele sorriu.
- Ai, . - Mergulhou a mão no pacotinho que restavam poucos papéis. - Se eu tirar você eu quero trocar. - avisou.
- Com todo prazer. - Sorri cinicamente. Apesar da gente não se odiar mais, o clima de cão e gato continuava. E mesmo não querendo admitir, eu gostava dele.
- Pronto. Agora vai. Sai daqui. Se não vou gritar que você tava tentando ler meu papel e boicotar o jogo.
- Grita. Grita que eu deixo sem saco. Ai você vai ficar sem seu brinquedo como presente de Natal. Ele abriu a boca e colocou a mão no membro.
- Você, você é uma pessoa maluca.
Dei dedo pra ele e terminei o corredor.
Sobrou um único papelzinho no fundo do saco. O meu. Tirei o Mason. Mason era muito tímido, tinha mais ou menos a minha idade, Camila já quis me juntar com ele uma vez mas, eu não queria um namorado, e mesmo se eu quisesse um Mason era muito tímido pra isso.

Flashback on
- Ah, , ele é uma graça
- Eu e a Camila estávamos bebendo milkshakes na lanchonete do prédio e observando Mason que comia um sanduíche sozinho na mesa da frente.
- Camila, para de querer me arrumar namorado!
- Você parece que está dormente, . Se eu tivesse a sua idade eu ficaria com o Mason. Mas tudo bem, eu entendo que você esteja enrabichada com o .
- Repete? Não entendi.
- Envolvida com o . Eu entendo.
Eu parei de chupar o canudinho e fiquei olhando pra ela. Envolvida? Enrabichada? Qual parte da minha vida eu estava perdendo?
- Camila, eu não estou envolvida com o . Quem te disse isso? - Indaguei e ela deu de ombros.
- Não importa. Se não está com ele, fica com o Mason na festa de Natal.
- Eu não vou ficar com ele!
- Então você está com o . - Camila levantou e foi andando, eu boquiaberta com toda a situação levantei e apressei o passo para alcançá-la e desmentir essa historinha boba.
- Eu não estou com ele!
- Então prova. Só um beijinho no Mason. Não é como se eu estivesse te pedindo pra casar com ele.
- Mas eu não preciso provar.
- Então está com ele.
- Não! E chega desse assunto!

Flashback off
Eu ainda não tinha mudado de ideia, eu não ficaria com o menino só pra me afirmar. Ele é lindo, mas independente disso, eu ficaria com ele se o conhecesse e não por beleza.
- Gente! Faz silêncio! Me escuta! A festa vai começar 23h! Cada um traz um prato de comida e o presente!
- Prato de comida? Desse jeito eu vou acabar desistindo. - encostou do meu lado rasgando o papelzinho com o nome do felizardo que ganharia no máximo um pote de maionese ou qualquer coisa aleatória que ele achasse no AP antes de sair de casa. Isso se ele viesse.
- Faz gelatina.
- Eu não sei fazer.
- Pelo amor de Deus. É agua e pózinho colorido. Minha prima de 6 anos sabe fazer.
- Então ela é uma menina muito esperta.
- Mais do que você, com certeza.
- Me surpreende o tanto que você confia em mim, . Obrigado.
- De nada, meu amorzinho. - Apertei as bochechas dele sabendo que ele odeia só pra vê-lo esbravejar comigo. Mas só percebi a proximidade que estávamos depois de estar com as duas mãos no rosto dele. Ele não esbravejou como pensei que fosse fazer, ou gritou. Ao invés disso continuou lá parado olhando pra mim.
Ele tinha aqueles olhos de menino carente, tristes, do tipo que dá vontade de levar pra casa e cuidar.
Passei algum tempo me perguntando por que meu coração acelerava tanto quando aqueles olhos me encaravam e não consegui chegar a nenhuma conclusão lógica.
Tirei as mãos do rosto dele repentinamente, com medo de que se eu ficasse mais um segundo ali naquela posição, um desastre ambiental pudesse acontecer. Seria o motivo exato pelo qual um meteoro colidiria com a terra naquele mesmo instante e todos ali virariam pó. Pigarrei roxa de vergonha por aquele momento eterno que na prática provavelmente foi 5 segundos.
- Aahn, então…quem você tirou? - disfarcei chegando um pouco pro lado oposto em que ele estava.
- Se eu falar estraga o jogo.
- Você nem quer participar do jogo, . Conta.
- Conta você primeiro.
- Eu não, você vai me enganar.
- Aaah, então vai ficar sem saber.

(...)

Era fim de expediente e acabei de ouvir duas meninas comentando no elevador que os ônibus estão de greve até Deus sabe quando.
Praticamente todo mundo que eu conheço já foi embora, agora quero ver como que eu vou voltar pra casa. Talvez se eu correr alcanço o . Bati ponto o mais rápido que pude e avancei pra porta da garagem e graças a Deus ele estava saindo com a moto naquele mesmo instante.
Parei ofegante na frente dele que levantou o visor do capacete pra poder me ver.
- Você acha que pode me dar carona hoje? Se não puder, tudo bem, eu peço um taxi. - Disse em um só fôlego ainda com a respiração descompensada. Ele me olhou sorrindo.
- Não era você que tinha medo de moto?
- Eu tenho. Mas os ônibus estão em greve.
- Ta legal. Eu te dou carona. Mas você fica me devendo uma.
- Ai ai ai. , eu já te falei, não posso entregar droga pra você. - Ironizei com a voz alta fazendo ele rir enquanto a senhorinha da limpeza passou assustada me fazendo arregalar os olhos de vergonha.
- Não é nada disso, eu só quero saber quanto que tá o seu programa e se você faz direito. - retrucou bem mais alto me fazendo corar e meter um tapão nas costas dele. - Eu já posso chegar metendo ou como que é?
- Cala a Boca, ! - Não consegui ficar séria por muito tempo acabei sorrindo.
- Sobe na moto e coloca o capacete.

POV
A subia na moto de um jeito muito engraçadinho, juro que se eu pudesse eu filmava.
- Ta se segurando?
- Mete bronca.
- Ninguém fala mete bronca, - gargalhei e ouvi ela sorrir também.
- Eu falo. - Acelerei com a moto.
- Ah esqueci de te falar. Tem algum problema se a gente passar la no meu irmão antes? Só vou pegar uma chave.
- Sem problemas. Só estou morrendo aqui. Posso esperar uns minutos. - Fiz uma curva fechada fazendo ela gritar.
- , não é uma montanha russa.
- Mas parece. Depois de uns minutos chegamos no AP do Sam. Encosto a moto na calçada e desligo o motor.
- Pode esperar aqui se você quiser, eu vou lá rapidinho. - Tiro o capacete e arrumo o cabelo com as mãos.
- Uh, okay.
Ando em direção ao interfone e aperto o número do apartamento dele.
- Sam, é o , traz as chaves aqui, não posso deixar a moto sozinha.
Aguardo uns minutinhos me olhando no reflexo da porta. Cara, eu estava acabado. Tinha emendando na farra desde sexta- feira, se dormi 4 horas essa noite foi muito. As olheiras estavam enormes, nem sei como dei conta de ficar lá naquele lugar o dia todo.
Sam abre a porta com as chaves e uma sacolinha.
- E ai?
- "E ai" nada, me dá um abraço. - Ele retruca e me abraça. - Tava achando que ia fugir de mim?
- Ta bom, chega. - Empurrei ele de leve e ouvi a risadinha da que tentou disfarçar quando nós dois olhamos pra ela.
- Hum, quem é essa?
- Ninguém, Sam. Me dá logo a chave que eu tô atrasado.
- Atrasado pra que? Me apresenta a moça. - Ele deu a volta por mim e foi andando rápido na direção da .
- Ah merda. - Apertei o passo e cheguei praticamente junto com ele.
- O sem educação aqui não quis apresentar a gente. Sam. - Esticou a mão pra que sorriu e o cumprimentou.
- Prazer, Sam. Me chamo , mas pode me chamar de . -
- Tá bom. Tá bom. Já são amiguinhos, agora me da a chave logo, Sam. Por isso que eu não venho aqui, você fica enrolando.
- Ai que menino chato, toma logo essa chave. Precisa ficar com ciúme da moça não, tá? Você sabe muito bem que eu gosto da mesma fruta que ela.
- Eu não tô com ciúme dela. - Exclamei.
- Ele não tem ciúme de mim não. A gente nem é nada um do outro, é só por que ele é insuportável mesmo.
- Insuportável é o segundo nome dele.
- Ha ha, como como os dois são engraçados.
- Eu até ia dar isso aqui pra ele, mas como ele ta todo engraçadinho, pega pra você, . É kibe.
- Ai que delícia. Obrigado.
- Você deu o meu kibe pra ela? - Perguntei indignado, ele sabe que eu sou louco por kibe, principalmente os que ele faz.
- Dei. - Disse simplesmente.
- Ai, para de fazer bico, eu divido com você. Parece um bebê chorão.
- Parece? - Sam retrucou.
- Vamos embora, . Você e o Sam juntos não dá certo.
O capacete deixava apenas os olhos dela à mostra e mesmo assim conseguia ver ela sorrindo, os seus olhos estreitavam e ficavam bem pequenos, brilhantes e alegres como sempre - Incríveis na minha opinião - Queria saber o que mantinha tão acesa.
- Foi legal te conhecer, Sam. - Montei na moto. - Obrigado pelo kibe.
- Meu kibe - Coloquei o capacete. - Te vejo depois.
- Tchau, - Deu ênfase no apelido dela. – , passa aqui no Natal? Só vai estar eu e o Kelvin.
- Se der eu passo. - Respondi ligando o motor e partindo dali.
A casa da não era tão longe então rapidinho a gente chegou lá. Eu não via a hora de chegar em casa e capotar na cama.
- Aqui seu kibe. - Ela estendeu uma mão com a sacolinha e com a outra puxou o capacete.
- Ah não precisa. O Sam deu pra você.
Se eu estava fazendo cú doce? Óbvio que eu estava, eu estava morto de fome, é claro que queria pegar o kibe e vazar.
- Como eu sei que você quer o kibe, mas por algum motivo está sendo gentil e dizendo pra mim ficar com essa coisinha árabe deliciosa, vou dividir pra nos dois.
Ela abriu o saco e encontrou dois kibes uma “divisão exata” segundo ela.
- Ai eu tô morto de fome. - sentei no meio fio que ficava de frente a casa dela e comecei a comer o kibe; aparentemente isso soou como um convite já que ela fez o mesmo, e quando eu me toquei, estávamos conversando na calçada sobre assuntos aleatórios e comendo um kibe enorme sem nenhum refrigerante, mas o último tópico se tornou irrelevante depois de 5 minutos ali.
- Fala sério que você nunca teve vontade de ir ao planetário.
- O que se faz de bom em um planetário? - Perguntei ansioso pelo argumento que arranjaria para me convencer a gostar tanto quanto ela, ela fazia isso sempre.
Me lembro de um dia no escritório em que ela levou muito pão de queijo e me fez comer com ela. “Se você comer o segundo você vai gostar. Por favor, . Você não está dando nem uma chance!” Ela me convenceu, e do segundo pão de queijo foi pro terceiro, quarto, quinto, até que tínhamos comido o saco todo.
- Olhar as estrelas? O céu? Tirar dúvida sobre o planeta terra, outros planetas, astros, cometas. A galáxia não soa interessante pra você?
- Na verdade, não. Prefiro gastar esse tempo indo em um show, bebendo ou sei lá.
- Eu gosto de tudo que envolva o céu. Uma profundidade tão grande vem de lá, é como se as estrelas estivessem nos mandando sinas sempre, basta prestar atenção.
- Ah é? E o que aquela estrela bem ali está te dizendo, ? - Apontei pra estrela mais pequeninha que vi.
- O tamanho do seu pinto. E aquela bem grande ali, o quanto você é babaca.
- Ah é assim? Pois bem, aquelas duas estrelas bem baixas e juntinhas ali. - Apontei e ela franziu os olhos pra enxergar. - São os seus peitos, é preciso muito esforço pra enxergar.
- Todo cheio das gracinhas né, pelo menos eu posso colocar silicone e seu piu piu vai ser pequeno pra sempre.
- Piu piu?? Francamente , e já que você ta achando minha piroca tão pequena assim, não vai achar ruim de ver ela né? - Ia abaixando as calças mas parei porque ela gritou.
- Ai meu deus! , não!
Comecei a rir vendo ela cobrir os olhos com a mão.
- Ja tá pra fora, , pode olhar. - Era mentira, o George tava bem seguro dentro das minhas calças, só queria pregar uma peça nela.
- , coloca…isso…esse pau… pra dentro!
- Vai me dizer que não gosta?
- Não! Eca!
- Então você é lésbica?
- O que? Não! ! Ai só coloca pra dentro!
Gargalhei mais ainda.
- Tudo bem, princesinha da frescolândia, pode olhar.
- Você não tá me enganando, né?
- Não, . Eu não estou.
- Jura?
- Juro.
Receosa ela tirou as mãos que cobriam o rosto, uma por vez, verificando se era seguro olhar.
- Você é um babaca, sabia? - a cara amarrada dela dizia uma coisa mas o canto da boca sorrindo queria dizer outra.
- Sabia. Mas você também. - Sorriu deixando os olhos bem pequenos, e Deus sabe que eu tentei segurar, mas merda!
Com ela eu não conseguia segurar nada, nem a porra de uma ereção nem a vontade que eu tinha de beija-la toda vez que a gente ficava juntos.
Eu não consigo interpretar muito bem ninguém, mas eu tinha a sensação de conhecer ela, mesmo com tanto pouco tempo. E talvez foi a quantidade de noites sem dormir, ou o efeito do kibe sem refri ou todas aquelas estrelas brilhando sob nossas cabeças como um sinal que me fez beija-la ali, naquele instante.
E por incrível que pareça ela retribuiu.
Minha mão na nuca dela e as dela no meu rosto, trocando uma corrente de energia acumulada.
Porra. O beijo dela tinha acendido cada estímulo do meu corpo. Se eu pretendia tirar essa noite pra relaxar, os planos tinham se auto-cancelado.
Como numa queda de energia repentina separamos os lábios.
Ela deve ter percebido a bobagem que estávamos fazendo. Coisa que eu deveria ter percebido antes.
- Droga. Desculpa, . Eu não…eu não quis.
- Não. - sorriu tímida. - Tudo bem… é só que a gente não devia ter feito isso. A gente só é amigo entende?
- , foi só um beijo. - dei uma risada curta e completamente sem graça.
- Eu sei. Só quero que você entenda que eu não posso me relacionar com alguém agora. Principalmente com alguém que… - Ela respirou fundo mas não terminou de falar.
- Alguém que o que? - Cravei meus olhos nos olhos dela. Estava temeroso pela resposta mas insisti com a voz firme. – Fala, .
- Alguém que fica com todo mundo. Eu gosto de você, mas você é inconstante, . Não posso me envolver com alguém assim. Principalmente agora que estou tão focada em estudar e trabalhar. Minha vida não foi fácil igual a sua.
Senti um impacto assim que ela terminou de falar. Gelei na hora.
O que ela estava pensando? Ela não sabia nada sobre a minha vida pra determinar se foi mais fácil que a dela. Que merda de menininha mimada. O que ela estava pensando não, o que eu estava pensando?
- Você tem razão, . A gente não devia ter feito isso. - Levantei abruptamente pegando os dois capacetes e montando na moto.
- . Calma, espera ai. Eu não quis... - se levantou rápido e foi até a moto. -
Esperei por uma justificativa, mas ela não veio. Sua voz estava carregada de arrependimento, talvez pelo beijo ou pelo jeito que falou, sinceramente eu não sei, mas também não ficaria lá para descobrir.
- Relaxa. Foi um erro. - Disse com a voz seca e liguei a moto. - Boa noite, .
Arranquei com a moto deixando ela lá. Duas esquinas depois da casa dela estacionei a moto no escanteio e disquei no telefone o número que já era acostumado a ligar quando estava pra explodir e precisava relaxar.
- Alô, ? Ta em casa? Se arruma que eu tô indo pra ai.



Capítulo 5


"I messed up this time.
Late last night "

POV NARRADOR.

não sabia o porquê, mas chorou a noite toda depois que foi embora. Ela havia estragado tudo dessa vez.
O que foi aquilo? "Isso é errado", "Nós somos só amigos". A quem ela estava tentando enganar? Ela mesmo quase o beijou mais cedo! Pra falar a verdade, ela vem fantasiando isso desde que montaram aquela estúpida árvore de Natal juntos. sabia perfeitamente o motivo pelo qual se comportava daquele jeito, se fechava pra todo mundo, ele mesmo havia contado pra ela a razão de não se apegar à ninguém.
"Dói demais perder alguém que você ama, . Uma vez que você passa por isso, você não quer mais que aconteça. Você não pode mais deixar acontecer."
Ele havia se decepcionado de novo. E dessa vez a culpa era todinha dela.

No dia seguinte não apareceu no trabalho, e nem no dia posterior à esse. No quarto dia sem aparecer, decidiu fazer algo mais efetivo do que mandar mensagens e ligar pra ele. estava a ignorando totalmente.
- , desencana desse menino! - Ouvia Camila dizer toda vez que a amiga a pegava olhando pra mesa vazia ao seu lado.
- E se aconteceu alguma coisa, Camila?
- , o pai dele é dono dessa empresa, se alguma coisa tivesse acontecido com ele, a gente saberia.
- Ele não me atende...não me responde.
- Ele não quer te ver agora, supera.
- Eu preciso me desculpar com ele, e tem que ser antes da festa de Natal.
- Ahn... , desculpa te desapontar, mas a festa é daqui dois dias.
- Então eu preciso falar com ele ainda hoje.
correu na recepção em sua hora de almoço e pediu gentilmente para secretária o endereço do . Dizendo ter uma correspondência que precisava ser entregue em mãos, acabou por conseguir o que queria.

18:40 do dia 23 de dezembro. Sexta- feira.

Estava extremamente frio naquela noite. A cidade de New York estava coberta de neve e o trânsito totalmente caótico a lembrava que se ela não tivesse feito burrada poderia estar em casa tomando chocolate quente, e escolhendo uma roupa pra amanhã.
Apesar da correria das pessoas, a cidade estava linda. Toda acesa e decorada para o Natal, o clima natalino deixava tudo mais bonito.
Com passos largos e braços cruzados, caminhou ao seu destino não tão longe dali, não tinha pressa, hoje voltaria de taxi.
O endereço dizia:
Prédio Boulevard - Andar número 12, Ap 123.
Demorou alguns segundos para entrar naquele edifício todo decorado com coisas de Natal e com um porteiro simpático.
Adentrou o elevador junto com uma mulher grávida e torceu silenciosamente pra que ele estivesse em casa.
Ap 123. O último do corredor.
Com passos firmes e respiração ofegante, alcançou a porta dele. Sem um texto decorado ou uma mínima ideia do que queria dizer, hesitou ao bater na porta, mas mesmo assim o fez.
A resposta a sua primeira batida foi o silêncio, por isso resolveu bater de novo e de novo, até que ouviu uma voz arrastada gritar "Já vou".
Involuntariamente corou e passou as mãos sobre os cabelos, arrumando os fios bagunçados pelo frio e pelo capuz.
Um click se fez na porta e em poucos segundos ela se abriu, revelando um de cabelo bagunçado e moletom.
Um silêncio se instalou no momento em que os dois se viram.
- Nhmr – Pigarreou – Oi, .
- Oi, . - disse sem mais. - Como conseguiu meu endereço?
- A moça da recepção me passou.
- Hm.
Silêncio de novo.
- Eu vim falar com você, fiquei preocupada. Você não foi trabalhar ontem...nem hoje.
- Não estava muito afim. - a voz seca de e o jeito como a olhava deixava toda a situação pior, seus olhos antes e carentes, estavam vermelhos e elétricos, arregalados, fazendo as mãos dela suarem por dentro das luvas. Ele não estava sóbrio.
não mostraria muito interesse nessa conversa, fato. Ele até agora não tinha entendido o motivo de ter procurado seu endereço e ir lá falar com ele. Ele estava bem, não estava com raiva dela. Era normal as pessoas não esperarem as coisas dele, por isso não ficou com raiva dela. Chateado? Sim. Ela era a única pessoa que ele via todos os dias e não enjoava. tinha se tornado sua companhia diária. 4 dias sem ir no trabalho ou faculdade significava 4 dias sem vê-la. Ele não estava dando um gelo nela como a menina deveria estar imaginando, mas a razão por ele estar lá naquela merda de empresa todos os dias batendo ponto, era ela.
Obviamente tinha o lance do trato que ele fizera com o pai dele, mas a segunda razão era ela. Mesmo quando não estava em um dia bom, se distraia na presença dela. gostava de ter por perto, fazia parte da vida tanto quanto pentear os cabelos. Ela não era igual às meninas que ele fodia todos os dias por ai, ele a beijou não por ela ser gostosa, mas porque gostava dela, mas depois do que aconteceu segunda feira, sabia que ambos estariam constrangidos demais pelo acontecido para deixar pra trás e fingir que não aconteceu. E lidar com a saudades era melhor do que lidar com a indiferença.
- Eu só vim ver se você está bem. - engoliu seco antes e depois de falar.
- Como você pode ver, eu estou vivo.
- Ah então...ok.
Estúpida! Xingou a si mesma dando meia volta e se afastando dali. Mas antes que ouvisse o barulho da porta se fechar, virou novamente.
- , me desculpa ok? Eu não quis dizer o que eu disse naquele dia. Eu estraguei tudo e disse tudo errado. Eu sei que você tem seus motivos pra não se abrir com ninguém. Eu sei. E mesmo que não soubesse, não tenho o direito de determinar o que você faz e deixa fazer. Por isso eu vim aqui te pedir desculpas. Por saber de tudo isso e ainda assim ter sido uma completa babaca com você. Eu...eu não sei o que eu estava pensando, na verdade eu não estava. O que eu te falei foi da boca pra fora, e não sei se você vai acreditar no que eu estou falando, ou se vai ficar com raiva de mim, mas é verdade. Eu sinto muito, . Eu não queria ter te magoado.
Após dizer tudo num fôlego só, respirou fundo deixando as palavras no ar. ouvia tudo com atenção, porém sem demonstrar reação. Um silêncio de 2 minutos pairou ali e estava prestes a virar e ir embora, quando escutou a voz dele dizer.
- Eu não estou com raiva de você, .
- Não? - levantou o olhar e cravou nos dele.
- Não. Chateado sim. Com raiva, não.
- Você me perdoa por ter dito aquelas coisas?
- Eu te perdoo, , mas você não sabe de tudo pra tirar conclusões de tudo e jogar na minha cara, caralho.
- Eu sei que não...
- Você não sabe uma virgula da minha vida pra dizer merda. Eu sei que você devia estar pensando no momento, que eu não sou bom o suficiente pra você. - admitiu. Mesmo que doesse, isso era exatamente o que ela pensou quando disse.
- , não...
- E você tem razão. Eu não sou bom pra você. Por isso a partir de hoje, eu prometo não tentar mais nada. Até porque eu não preciso. Eu posso sair com qualquer garota que eu quiser, seu fora não me abala, . Você é só mais uma. – isso não era o que queria ouvir. Definitivamente não. Uma vontade instantânea de chorar veio e já podia sentir os olhos marejando.
- Me desculpas mais uma vez, eu não tive intenção. - Foi a única coisa que conseguiu dizer. Saiu dali às pressas. Elevador estúpido que não abria! Ouviu de longe a porta do apartamento se fechar e deu lugar às lágrimas. Apertava o botão com mais força à cada vez, como se isso o fosse fazer chegar mais rápido.
Finalmente ele abriu. Sem prestar muita atenção, topou com uma menina que saia do mesmo.
- Desculpa eu...eu não te vi. - Levantou os olhos e viu de quem se tratava.
- Sem problemas. - A menina saiu do elevador e foi diretamente aonde sabia que ela iria.
O elevador ficou aberto até que ela pudesse ver bater na porta e a abrir pra ela. E as lágrimas agora tinham mais um motivo pra cair.

22:00 PM.

Depois de sair do apartamento de completamente chorosa, foi direto pra casa. Sorte estar sozinha, precisava disso. Fez um chocolate quente e sentou-se no sofá de frente à televisão, não que prestasse alguma atenção no que estava passando, seus pensamentos estavam turbulentos demais pra isso.
As luzes da árvore de Natal piscavam sem parar, a deixando cada vez mais triste e nostálgica, e de repente toda aquela decoração pareceu ridícula e fútil, e o chocolate quente não estava aquecendo seu coração como dizia na caneca, estava tudo dando errado! Enquanto mudava freneticamente os canais da televisão em busca de alguma coisa menos festiva, lembrou-se do que Camila disse há um mês atrás:
"Até o fim do mês você vai estar odiando o Natal." E ela estava. Feriado estúpido, que nos faz acreditar que vai dar tudo certo como nos filmes, esse estava sendo o pior Natal de todos, e ele ainda nem tinha começado oficialmente.


Capítulo 6


"Santa, tell me if you really care"


POV .
Véspera de Natal. 12:00 AM

- ! ! , acorda!
Uma gritaria zumbia no meu ouvido me fazendo pigarrear de raiva.
Minha cabeça latejava, o que ocasionou na demora pra recobrar os sentidos e responder a quem quer que seja que estava a acordando àquela hora da manhã.
- Aaarrrg. O que foi?
- Calma, meu amor, está nervosa? Não estava nem com um pouquinho de saudade da sua irmã preferida? - A voz era de Hailey. Merda. Eu deveria ter ido buscar ela no aeroporto.
- Aaah Hailey! Eu esqueci que você chegava hoje. Eu tomei um remédio pra insônia ontem, e acho que dormi demais.
Hailey era a pessoa mais independente que eu conhecia, e não estava falando isso só por ser minha irmã. Hailey era 5 anos mais velha que eu, e mesmo assim sempre nos demos muito bem. Éramos grudadas desde pequenas, tanto que nos mudamos pra essa casa juntas.
Hailey havia viajado pra Paris há 5 meses devido ao seu trabalho como estilista.
- Oh, meu Deus. O que foi que você está com essa carinha toda inchada? - Mesmo estando um tempo fora, Hailey me conhecia muito bem pra saber que eu não estava legal.
- Não é nada. É só um resfriado.
- Resfriado? Pra cima de mim, ? - Preferi ficar calada. - Eu não acredito que você vai ficar toda moroxoxo justo no dia do Natal! Você ama esse feriado!
- Eu sei. Eu sei.
- Então me conta, o que aconteceu?
- Eu não quero falar sobre isso agora. Já passou.
- Mas...
- Hailey, por favor.
- Okay. Eu paro de insistir se você for lavar essa cara de morta e ir comprar uns presentes comigo. - involuntariamente sorri, era disso que eu precisava, uma distração. Qualquer coisa que me fizesse parar de pensar em .

(...)


- Eu não acredito que você encontrou esse tanto de gente famosa! - Praticamente berrei. Tínhamos passado no centro pra comprar os presentes da nossa mãe e do nosso pai, e pro namorado novo da Hails que estava hospedado no hotel. Acabei por gostar do relógio que minha irmã escolheu e peguei um igual para o amigo oculto da empresa.
Definitivamente não ficaria pra festa. Todo o pique natalino tinha sido enterrado ontem.
- Benefícios do ramo, irmãzinha. - Hailey mostrava as fotos com os famosos que encontrou em Paris. - O que eu não dava pra ser essa Kendall Jenner viu...
- O que eu não dava pra continuar sendo eu só que com o dinheiro dela.
- Eu estava com saudades de você, anãzinha. - Hails me abraçou de lado.
- Eu também. Você volta pra Paris depois do Natal ou a temporada já acabou? - Perguntei parando um segundo pra arrumar o meu cachecol.
- Hummm... Na verdade tem uma coisa que eu preciso te contar, mas deixa pra quando estivermos todos juntos, na casa da mamãe e do papai.
- Ai ai ai ai ai, Hailey. Olha lá o que você vai contar em! Não quero ver o papai dando um ataque cardíaco justo no dia do Natal!
- Acredite. Eu também não. - Mas me conta mais sobre esse tal de Mathias. Como ele é? - Perguntei curiosa. Hailey sempre arrumava namorados...digamos assim... diferentes.
- Aaaah, , ele é maravilhoso. No momento em que eu vi ele, eu soube. - A franjinha dela balançava junto com a cabeça enquanto falava com tanta felicidade. E eu ficava feliz por ela. De verdade.
- Como vocês se conheceram? - Perguntei. Eu queria saber de todos os detalhes. Aproveitei que tínhamos parado em uma cafeteria pra questionar tudo o que queria saber sobre esses 5 meses que ela passou fora.
- Meu carro estragou no meio do nada acredita? E ele vinha passado na moto dele e me ofereceu ajuda. Ele tem uma Harley ! Toda preta! Uma daquelas custa o olho da cara!
Murchei de repente e Hailey percebeu.
- Iiih. O que foi? O que está afligindo essa cabecinha?
- Nada...
- , você sabe que pode me contar. - Hesitei, bebericando outro gole de café. - Qualquer coisa.
Decidi contar pra ela o que de fato afligia minha cabeça, dois dias depois de ter sido completamente humilhada por e senti um alívio ao fazer isso. Acho que eu precisava de alguém pra desabafar.
- E o pior de tudo, Hailey, é que eu gosto dele! Eu me dei conta disso antes de dizer todas aquelas bobeiras, mas eu não sei lidar com essas coisas! Eu nunca soube! Criei uma barreira pra esse sentimento imediatamente, sem nem mesmo dar uma chance de acontecer. Ai eu vou na casa dele pra me desculpar, e ele vem falar merda!
- Você tem que parar com essa insegurança, ! Você é linda! E não só por fora, eu digo linda de verdade, aquelas pessoas que entram na vida da gente pra alegrar, nos fazer ver o lado bom das coisas. Você é um raio de sol!
- Hailey, raio de Sol? - Sorri da expressão que ela usou.
- Me deixa terminar ok? Você é! Você é maravilhosa! E eu amo você, e se esse garoto não for capaz de te amar, , e ver o quão maravilhosa você é, talvez ele esteja certo. Ele não é bom o suficiente.
- Como você pode ficar tanto tempo fora? - Sorri com os olhos marejados e apertei ela em um abraço.
- Agora, a gente vai entrar nessa loja, você vai parar de chorar e vai escolher o vestido mais bonito e sexy que você encontrar. Vai entrar naquela festa deslumbrante e se ele não estiver lá azar o dele.
- Vestido sexy? Ah, eu não sei não...
- Vestido sexy! Não discute comigo, ! - Gargalhamos e concordei com ela. Se não estivesse naquela festa hoje, azar o dele.
Chega de chorar pelo leite derramado.

(...)


22:00 PM

- Uh...Hails? Você não acha que esse vestido não estava maior lá na loja? - Eu estava pronta. Tinha deixado o vestido por último, ou melhor, o pedaço de pano, porque aquele vestido estava curtíssimo.
- É, realmente. Olhando agora ele parece estar bem curtinho, mas não é essa a intenção?
- Aahnnnn, não? - Disse como se não fosse óbvio.
- , você reclama demais! Menos falatório e mais ação!
- Ta bom! O relógio do Mason já está na bolsa, e o Pudim?
- Ta na geladeira, ficou muito gostoso.
- Okay. Pera, você comeu?
- Não. - Encarei ela. - Só um pouquinho, mas nem dá pra ver, eu juro!
- Tudo bem, só porque você chegou hoje. Já mandei uma mensagem pro cara do taxi, ele já está vindo.
- Vai e arrasa, mana. E não se preocupe, já avisei pra mamãe e pro papai que você não vai poder ir na ceia.
- Obrigado, Hails, de verdade.
- Por nada, amore mio. - Ouço o barulho do taxi chegar e abraço ela forte, abaixo o vestido uma última vez antes de sair de casa e com ajuda da Hailey entro dentro do taxi e pego o pudim.
Hoje a noite promete, e se não for com o , vai ser com outra pessoa.
O edifício estava lo-ta-do. Tinha praticamente uma festa em cada andar.
Cumprimentei a moça da recepção que estava irreconhecível beijando o cara do correio, sorri. Entrei no elevador com mais umas 10 pessoas.
Estava todo mundo tão alegre.
Senti muitos olhares em cima de mim quando pisei no meu andar, porém meus olhos só fixaram em uma pessoa, um par de olhos era o único que eu queria.
As mãos já suavam de novo, tornando cada vez mais difícil segurar aquela bandeja. O resto das pessoas continuavam a festejar normalmente, mas eu mantinha os meus olhos no dele e ele não tirava os seus dos meus.
Caminhei reto sem desviar o olhar. Pretendia seguir outro caminho mas não consegui.
Estímulos e mais estímulos passavam pelo meu corpo, e eu não sei o que diabos tinha naquele olhar pra me deixar perdida e sem ação.
- Você veio. - Sorriu, e eu preferi não responder nada além de um sorriso fraco. - Eu não tinha mais nada pra fazer hoje e alguém me convenceu a participar do amigo oculto, então... - sorriu e meu coração saltou.
- Fico feliz.
- Você está linda. - sorriu ao dizer e eu tive que me segurar pra não beijá-lo ali mesmo.
- Obrigado. Você também se arrumou direitinho. - Direitinho... ele estava lindo! Os fios de cabelo jogado meio bagunçado como sempre, extremamente e conseguia sentir o perfume dele de longe. Vestia uma jaqueta de couro e uma blusa branca. Tudo colaborava pra deixar ele 100 mil vezes mais excitante.
- , eu queria te pedir desculpas por aquele dia, eu estava meio alto, e... - Antes que tivesse a chance de continuar se desculpando fomos interrompidos.
- ! - Ouvi gritarem meu nome e foi o que me fez tirar as atenções dele.
- Uh, oi, Camila.
- Vem, quero te apresentar pra uns amigos meus. - sorriu e fez um sinal com a cabeça indicando que eu fosse. Mas o problema é que eu não queria ir, eu queria ouvir o que ele tinha a dizer.
- Eu já volto. - Consegui dizer antes de ser arrastada pela Camila, que já estava um pouco bêbada, e mal conseguir colocar minha bandeja na mesa.
- Pessoal, essa é a , mas podem chamar ela de . - Quando a Camila disse "uns amigos meus" ela realmente quis dizer amigos. Estava em uma rodinha formada por 5 meninos, eles me encaravam de cima a baixo, e eu estava extremamente desconfortável com os olhares para as minhas pernas que recebia a cada 3 segundos. Mais um rapaz chegou na roda com vários copos na mão e me entregou um.
- Ah não, eu não bebo. - Exclamei, devolvendo o copo, mas ele fingiu que não viu.
- Então, , você está namorando? - O mais alto deles perguntou e eu mal consegui entender pelo bafo de álcool que me deixou tonta.
- Não...não... - Disfarcei bebendo um gole do que quer seja aquilo na minha mão, que inclusive tinha um gosto péssimo.
- A gente podia ficar mais tarde né, princesa, o que você acha? - O olhar de bêbado me assustava, e eu preferi me fazer de desentendida e fugir dali o mais rápido que pude.
Não consegui mais achar o no entanto, acabei por ficar sentada em uma mesa improvisada comendo algumas coisas e bebericando entre refrigerantes, e um coquetel rosinha que estavam servindo.
Mason estava totalmente perdido na festa também e o chamei para sentar comigo.
Não, eu ainda não queria nada com ele, e tenho 100% de certeza que era recíproco. Ele era muito educado, e parecia um bom rapaz, estávamos apenas aproveitando a companhia um do outro naquela festa e desviando de algumas pessoas que haviam bebido demais e queriam vomitar.
- Então, só vão revelar o amigo oculto 00h? - Ele perguntou no meu ouvido.
- Infelizmente, sim.
- Ah cara, essa festa está uma droga. Eu quero ir embora.
- Eu concordo totalmente com você.
Ficamos conversando a festa inteira e ele que era tão tímido se demonstrou um grande palhaço, me fazendo rir muito.
Já era 00h. E graças a Deus tinham decidido começar a revelar o amigo oculto.
- A pessoa que eu tirei é a pessoa mais chata desse prédio inteirooo. - Camila gritava totalmente bêbada, tirando um riso fácil meu, que por sinal representava que eu não estava muito legal também, o que é estranho já que a única coisa alcoólica que bebi foi um gole daquela coisa horrível que entregaram na minha mão. Fora isso, só alguns drinks rosas inofensivos.
- Sinclair, meu amooooor, vem pegar seu presente!
Todo mundo na sala gargalhou e eu mais uma vez busquei por na multidão. Sem sucesso. Pra onde será que ele foi?
5, 10, 15, 20 minutos depois, e só faltava eu pra entregar o presente.
- A pessoa que eu tirei, parece ser gente boa, apesar de ter conversado com ela só hoje. - Ouvi umas risadinhas e não pude deixar de rir junto. - Eu tirei o Mason. - Ele completamente tímido veio ao centro da roda pegar o presente que eu cuidadosamente embrulhei.
- Obrigado, . - Sorriu. E Deus, ele também não era de se jogar fora, o que eu bebi estava começando a fazer efeito porque eu já estava pensando besteira.
- Beija logoooooo! - Ouvi a voz de Camila gritar de longe e eu estava disposta a realmente fazer isso, não estava mais aqui, eu coloquei a merda desse vestido pra ele e ele não estava aqui. Eu queria descontar, fazer ele sentir muito, ou sei lá, eu só queria fazer alguma coisa! Eu ia agarrar o Mason e beijar ele ali agora, mas foi quando olhei as bochechas dele, totalmente coradas de vergonha, que um minuto de consciência bateu em mim. Eu não ia usar ele, ele não merecia, não tinha culpa de nada. Sorri pra ele mostrando todos os dentes, e o abracei.
- SEM BEIJO HOJE GALERA! DESCULPA, O SHOW ACABOU. - Aproveitei o embalo que estava para gritar. Quando todas as atenções saíram de nós eu me desvencilhei do abraço.
- Obrigado, . Não que eu não queira te beijar, mas é porque eu... - Sorri ao ver ele se atrapalhar com as palavras e o interrompi.
- Eu entendo, mais do que você imagina.
- Obrigado. - Sorriu tímido com a mão por trás da nuca e foi a minha deixa de ir embora.

(Gostaria que vocês colocassem essa música pra tocar agora, por favor. Faz muita diferença)
[Everyone's Got Something – Perrin Lamb]

O barulho da música misturado com toda aquela gritaria turravam a minha cabeça, então decidi subir pro telhado, pelo menos veria os fogos e a noite não teria sido em vão.
Subi pelas escadas e empurrei a porta que dava acesso ao telhado, imediatamente uma corrente de vento frio veio contra mim, mas de certa forma era bom. Encostei no parapeito e desci do salto que machucava meu pé há horas.
A cidade ficava tão mais bonita aqui de cima, luzes das casas, luzes dos fogos que explodiam no céu, luzes das estrelas. Não consegui segurar e deixei as lágrimas correrem livres pelo meu rosto. Com os olhos ainda fechados senti alguém parar do meu lado.
Demorei para secar os olhos e abri-los, encontrando com a mesma jaqueta de couro que estava há horas quando o encontrei, no começo da festa.
- Eu não vi que você estava ai, . - Enxuguei as lagrimas que corriam. - Não era pra você me ver assim.
- Por que não? Continua você.
- Agora no final do festa? Com o rosto todo inchado, maquiagem borrada...
- Continua você, . - Me permiti virar e encarar os seus olhos.
parecia tão bonito quando ficava vulnerável daquele jeito, quando éramos só nós dois.
- Anyway, eu acho que bebi demais. - Funguei. - Parece que o drink rosa tinha álcool afinal. - Ele sorriu pra mim, e eu não pude evitar de retribuir.
- Eu passei a festa toda aqui, olhando o céu, vendo as pessoas aqui de cima...
- Pensei que não gostasse de olhar o céu.
- Pensei que não bebesse. - Revirei os olhos sem tirar o sorriso do rosto. – Eu nem ia vir, , mas todos os sinais apontaram pra você hoje.
- Eu não acredito mais em sinais, . - Tirei uma mecha de cabelo do meu rosto e cruzei os braços por conta do frio.
- Eu quero me desculpar com você, . Me desculpar imensamente. E sei que desculpas não apagam atos, ou palavras, mas é uma das formas que encontro pra tentar reparar minhas merdas e elas são muitas. E você me deve um favor, da vez que te dei carona. Lembra? - Forçou um riso antes de prosseguir. - E eu quero que use ele perdoando esse tremendo panaca, que fuma um as vezes e não sabe o que está dizendo. - Sorri. Ele chegou um pouco mais perto, me fazendo arrepiar mais do que eu já estava.
tirou uma caixinha branca do bolso da jaqueta, ela tinha um laço prateado e era retangular.
- Pra você. Feliz Natal, - Só agora percebi que não havia ganhado presente no amigo oculto, me tirou então. Peguei a caixinha tão delicada e sorri ao puxar o laço, abrindo com cuidado para não cair. Assim que tirei a tampa pude perceber que dentro dela tinha um papelzinho branco dobrado, com uma mão segurei a caixinha e com a outra tentava desdobrar o papel o fazendo gargalhar e me ajudar.
- " ,.." - Comecei lendo em voz alta com um tom de brincadeira. - "...você acaba de adquirir a escritura de uma estrela,... - Sorri desconfiada, e o tom de brincadeira parou na hora. Olhei para que me encorajou a continuar lendo. - "... a estrela de número A66497.23 está agora em seu nome, sendo renomeada de A66497.23 para no dia 24.12.2016 às 16:00..." - Meus olhos já estavam cheios de lagrimas de novo. - ...
- Olha dentro da caixinha.
Obedeci, e encontrei lá dentro um lindo colar de prata com uma estrela balançando, a estrela tinha uma frase bem pequena gravada no seu verso.
"Christmas star"
Apertei o colar na minha mão com toda força possível e pulei no pescoço de , dando um abraço de urso que a muito tempo eu queria dar. Aquele colar, a estrela, os sinais, os 5 tipos de sorrisos que ele tinha, o coquetel rosa, o frio, a saudade, o amor, o Natal, tudo isso acumulado me fez segurar o rosto dele e beija-lo com urgência, e dessa vez não tinha pensamentos pra me atrapalhar, barreiras imaginárias, medo ou o caralho a quatro. Eu queria ele e eu queria agora.
- Eu não vou estragar tudo dessa vez. - Parei o beijo pra dizer e o vi gargalhar.
- Nem eu. - Piscou duas vezes, como se assimilasse o que estava acontecendo.
- Nós dois já começamos fazendo merda. Nem quero ver o que vai acontecer...
- Então não vamos uh? Vamos relaxar, já causamos danos demais um ao outro em menos de uma semana. - Gargalhei o abraçando novamente. – Sabe, , tô começando a achar que eu gosto muito mais de você bêbada.
- Eu também, . - Sorri tirando a jaqueta dele. - Eu também.
Ficamos ali o resto da noite e eu não poderia ter pedido desfecho melhor pra aquele dia, milagres de Natal acontecem afinal.



Capítulo 7


Depois de ficarmos até umas 4h da manhã no telhado da empresa, decidimos ir pra casa dele.
A sua moto não me incomodava mais, aquele friozinho na barriga era compensado pelo cheiro dele na minha frente.
- Seu apartamento é bem arrumadinho. - Disse, soltando os saltos que carregava na minha mão ao lado da porta.
- Ah, obrigado. - Coçou a nuca. - É bem simples na verdade.
- Eu gosto. - Sorri mostrando os dentes. Eu estava desacelerando, o efeito do álcool já estava quase no fim.
- Ahnn...Então, você pode ficar à vontade... se quiser tomar um banho ou comer...
- Ai, cala a boca. - Sorri indo ao seu encontro, a gente já tinha demorado demais pra deixar aquilo acontecer, sabe lá o que ia se passar na nossa cabeça amanhã, eu precisava fazer o que queria fazer hoje. Beijei ele novamente, com uma urgência ainda maior, acariciava a sua nuca enquanto as mãos dele desceram para a minha bunda. Antes de fazer qualquer coisa ele parou o beijo e me olhou, como se pedisse permissão para prosseguir, eu acenei com a cabeça dando passe livre para que ele continuasse.
Suas mãos apalpavam minha coxa, e eu pulei no colo dele o fazendo encostar na parede, arranhei suas costas o fazendo arrepiar, e em compensação recebia chupões pelo pescoço me fazendo gemer.
- Acho melhor a gente ir...pro quarto - Disse ofegante, ainda sem descer do seu colo viramos na primeira porta à direita.
me jogou na cama e parou de quatro em cima de mim.
Ele tirava sua camisa e eu desabotoava sua calça o mais rápido que minhas mãos trêmulas permitiam, rapidamente sentei e puxei meu vestido para cima, o jogando de qualquer jeito no chão. Graças à Deus eu estava com uma lingerie bonita naquele dia.
- Você é linda sabia, ? - questionou retoricamente, me fazendo rir. - Linda. - Subiu desde a minha virilha até o meu pescoço com beijos, mas foi quando ele colocou seu membro pra fora que a diversão começou.

(...)


Acordei com um feixe de luz na minha cara misturado com uma puta dor de cabeça, permaneci com os olhos fechados um tempo pra poder me localizar. O que aconteceu ontem? Eu estava na festa de Natal, fui para o telhado... encontrei ? Que me comprou uma estrela? Ainda de olhos fechados coloquei a mão no meu peito sentindo o colar, ok, então não foi um sonho. Eu realmente tinha ficado com ontem, e pelas minhas contas eu deveria estar na cama dele.
Dito e feito.
Abri os olhos devagar pra me acostumar com a claridade e senti a respiração de nas minhas costas. Me virei de frente pra ele com muito cuidado pra não acorda-lo, e apesar da dor de cabeça incessante, me permiti ficar ali olhando ele por alguns minutos, absorvendo alguns detalhes. tinha a respiração pesada e também tinha sardinhas que vinham das costas até os ombros, sorri ao vê-las. Sua raiz do cabelo estava suada e não deixei de notar o tamanho dos seus cílios, eram de dar inveja, suspirei e abaixei o olhar um pouco na tentativa de fugir da atração eminente, o que não funcionou muito, já que meus olhos pousaram bem na bundinha empinada em baixo do lençol. Ai, me deu até um calor. respirou fundo e abriu um olho ainda com sono. Fui pega.
- Hmmm. - resmungou com a voz embargada de sono. - Você estava me olhando dormir, ?
- Não. - abriu os olhos e me encarou. - Só um pouquinho. - Fiz sinal com os dedos e ele sorriu.
- Qual é o seu relatório?
- Nenhum.
- Nenhuma piadinha do tipo "Você baba enquanto dorme?"
- Você baba enquanto dorme. - Retruquei e me sentei, percebi que estava nua e peguei meu sutiã na cabeceira o mais rápido que pude, mais embaraçoso que isso? Impossível.
- Mentirosa. Você ronca sabia? - Me implicou, relevando totalmente o fato dos meus peitos estarem pra fora há 3 segundos atrás. "Talvez ele nem tenha percebido." - Torci mentalmente e joguei o travesseiro na cara dele por ter dito que eu ronco. - Ai ai! É brava também.
- Estou com dor de cabeça. - Fechei os olhos pra ver se a pressão passava um pouco.
- Primeira vez que você bebe e bebe daquele tanto. Não sei como não deu PT.
- PT? - Perguntei curiosa.
- É. PT: Perda Total. Quando você bebe além da conta e passa mal. Onde que você vive garota?
- Eu não achei que aqueles drinks rosa iriam ter álcool, parecia tão inofensivo. - deu uma risada gostosa e espontânea.
- Ai , a gente não mede o nível de álcool pela cor. - Dei de ombros, vestindo a calcinha por baixo do lençol. - Vem vou te dar um remedinho ótimo.
- E um café da manhã também? - Insisti ganhando um sorrisinho enquanto ele vestia uma cueca samba canção. Meu Deus que corpo era aquele? Eu já ia passar mal antes de levantar direito? É isso mesmo produção? Papai Noel demorou atender as cartinhas, mas quando atendeu também...
- Você vem? - chamou me tirando do transe.
- Anh, claro. - Respondi.
A cozinha dele era bem espaçosa e extremamente organizada. Se minha mãe entrasse aqui, a primeira coisa que ela diria seria "Está vendo, ? Isso sim é uma casa organizada, não a sua."
procurava por um remédio no armário e eu procurava olhar todos os lugares em busca de fotografias, mas não encontrei nenhuma.
- Achei, bebe isso. - Me entregou um frasco pequeno com um líquido amarelo.
- Tem certeza que é uma boa ideia?
- Relaxa, eu bebo um desses todo dia. - lancei um olhar de reprovação pra ele. - O que foi? Estou sendo honesto. - Prendi a respiração e engoli o conteúdo amargo, e tenho quase certeza que fiz uma careta daquelas.
- Eca.
- Estou com fome. - abriu a geladeira procurando por alguma coisa.
- O que você tem aqui? - Espiei por trás dele.
- Cerveja.
- Que legal! - disse ironicamente e o empurrei de lado. - Você só tem petisco aqui. Azeitona, queijo, presunto, salaminho.
- É pra comer com a cerveja. - revirei os olhos, o que ele era? Um alcoólatra?
- Você pelo menos tem pão? - Me virei indignada
- Acabou semana passada.
- Deus, você passa fome, vamos sair pra comprar uma coisa.
- Ah não, , tô com preguiça. - Ele fez uma cara manhosa e eu ri da expressão dele.
- Para de fazer essa cara de gato de botas e me arruma uma toalha pra eu tomar banho.
- Mas eu estou com fome.
- Quanto mais rápido você trouxer a toalha criança, mais rápido a gente come. - Foi pro quarto bufando e voltou com uma toalha e uma escova de dentes embalada. - Obrigado.
- Vai logo, fêdozinho.
- Ei, eu estou sempre cheirosa!
- Você está é me deixando doido andando só de calcinha e sutiã pra lá e pra cá.
Olhei pra baixo e corei. Joguei a toalha de qualquer jeito e corri para o que eu pensava ser o banheiro.
- Você sabe que eu ainda posso ver sua bunda né? - Ele gargalhava e eu só queria achar o banheiro. Quantas portas tinham naquele apartamento?
- Vai se foder! - Gritei de volta, finalmente achando o banheiro.

(...)


Passamos em um restaurante ali perto e sentamos para almoçar, acontece que não era mais hora do café da manhã como havíamos pensado.
Pedi peito de frango com purê de batatas e acompanhamento de batata frita, pediu uma macarronada com almôndegas.
- Eu tô muito desconfortável com esse vestido. - Disse.
- Relaxa, ninguém tá te vendo. - Respondeu, antes de enfiar uma garfada de macarrão na boca. - Cara, eu realmente estava com fome.
- Eu também. - Nossa eu estava muito esfomeada, já estava praticamente terminando o meu prato e pensando em pedir outro.
Comemos a porção de batatas e bebemos muito, muito refrigerante. deu um sinal pra eu prestar atenção que ele ia fazer alguma coisa, mas eu não imaginei que essa coisa fosse um arroto.
Uma senhora que estava atrás se assustou e nos olhou com olhar de reprovação, tentei segurar o riso, mas acabei gargalhando na cara dela, achei melhor sairmos dali antes que ela mandasse os gerentes retirar a gente do estabelecimento.
- Então, vamos comprar um sorvete?
- Por Deus, . Ainda cabe coisa ai na sua barriga? - sorrimos juntos desviando das pessoas aleatórias na calçada.
- Cabe.
- Vai ficar muito cheia e vai querer vomitar, depois não diga que eu não avisei.
- Ah cala a boca. - Encostei na mão dele pra puxa-lo para dentro da sorveteria e gelei imediatamente ao seu toque. achou graça e pôs os braços ao redor do meu pescoço, me guiando para sorveteria.
- Eu quero uma bola de sorvete de açaí, uma de chocomenta, uma de limão, e uma de creme. - Pedi. - Por favor. - Acrescentei ao vendedor.
- Credo, , eu vou querer 2 bolas de sorvete de chocolate.
- Ah, , chocolate? Que sem graça. Pede uma de açaí.
- Açalee? Que diabos é um Açalee?
- Não é Açalee. É açaí. É do Brasil. É gostoso
- Não parece bom não, .
- Você vai gostar, por favor! - Insisti.
- Uma bola de Acali também. - se referiu ao vendedor.
- Açaí. - Corrigi.
- Açaí.
O nosso sorvete veio em um potinho vermelho de Natal, e ai que me toquei. Hoje era 25, ainda era Natal e eu não passei nos meus pais. "Quando acabar o sorvete eu vou." Estabeleci uma meta mentalmente comigo mesmo. Acabamos por sentar em um banquinho do lado de fora.
- Tem um gosto estranho.
- O que?
- Esse sorvete roxo. Mas tipo, é bom.
- Lógico que é bom. - revirou os olhos e se aproximou pra me beijar. "Só depois desse beijo." Acrescentei na meta.
- Fica melhor ainda na sua boca. - Sorri.
- Ai você é tão brega, , essa cantada já funcionou com você alguma vez?
- Não sei, me diz você.
Ficamos beijando por um tempo e parávamos para observar as pessoas na rua de vez em quando. Eu estava encostada no peito dele, e seus braços passavam pelas minhas costas me esquentando do frio nova-iorquino. Seria uma pena se eu tivesse que sair daquele abraço, mas eu tinha que sair, minha irmã chegou de viajem, era Natal, minha família não tinha notícias minhas, eu precisava passar lá.
- Eu tenho que ir. - Respirei fundo.
- Mas já?
- Eu sei que você me ama e não pode viver sem mim - Brinquei. - Mas eu tenho que passar lá em casa.
- Ah.
- Mas a gente se vê amanhã, quer dizer, se você quiser e tal...
- Eu quero. - Sorri ao ouvir aquilo. - Eu te deixo em casa.
O caminho de volta pra casa me fez questionar o que havia feito mudar de ideia, quanto ao fato de não tentar mais nada comigo, ele havia sido bem claro no dia anterior a festa. Aceitei o fato de que ele nem iria, mas ele foi, e a gente tá aqui juntos agora, o quão rápido a situação pode mudar? Ok, eu confesso, eu estava louca para perguntar, mas toda hora que ia abrir a boca pra dizer "hey, o que fez você ficar comigo mesmo depois de ter me dispensado naquele dia?", eu recuava. O que aconteceu antes parecia tão irrelevante, quer dizer, a gente estava ali agora né? Como não deveria ter importância, mas minha cabeça paranoica precisava de uma base, de uma estabilidade. Eu precisava saber quais foram e quais são as intenções dele, mas não hoje, hoje foi muito bom pra no fim do dia eu apertar o botão de autodestruição. E também não é como se ele fosse meu namorado, whatever.
- Tá entregue. - estacionou na porta da minha casa e tirou o capacete.
- Obrigada, .
- Por nada, . - Enfatizou o e eu sorri ao descer da moto. - O motorista não ganha nem um beijo de agradecimento?
- O motorista não ganha nada. - Fez bico. - A passageira, por outro lado, deveria ganhar uma recompensa por bom comportamento e tal.
- É, ela deveria. - Me aproximei e o beijei, e dei vários selinhos após.
- Se a vizinha grega ver a gente beijando aqui...
- Ela vai querer participar também.
- Para de fazer esse sorriso safado! - sorri, as mãos dele iam na minha cintura e as minhas batucavam de leve o seu pescoço.
- O que? Eu não tenho um sorriso safado! - gargalhou.
- Tem sim! Tem o sorriso safado, tem o de deboche... - Comecei a listar nos dedos. E ele assentia me interrompendo com beijos.
- Tenho muitos tipos de sorrisos então em.
- Tem, agora eu vou. Tchau, . - Me soltei dos braços dele.
- Nem um beijo de despedida, gatinha? - Insistiu.
- Esses foram os beijos de despedida, passar bem. - Entreguei o capacete na mão dele e peguei meus saltos que estavam numa espécie de bolsinha ao lado da moto.
- Inacreditável, . - gritou e eu mandei um tchauzinho no ar.
Cheguei em casa exausta, morta de sono e ainda tive que arrumar disposição para entrar no chuveiro, tomar um banho descente e ir na casa dos meus pais.
Coloquei colírio nos meus olhos pra tirar um pouco da vermelhidão do sono e cansaço, vesti um vestido florido e um sobretudo.
Eram 18:00 em ponto, em aproximadamente 15 minutos chegaria lá a pé. Parei para cogitar a ideia de ir de taxi, mas não fazia muito sentido, era uma rua abaixo, me certifiquei que as portas estavam trancadas e fui.

Encontrei na porta da casa dos meus pais a suposta moto do namorado da Hailey, Mathias.
Esfreguei os pés no tapete que ficava na porta e empurrei a mesma.
- Mãe? - Chamei por ela fechando a porta o mais rápido possível estava, muito frio.
- , estamos aqui! - O cheirinho delicioso da comida da minha mãe vindo da sala de jantar invadia minhas narinas.
Ao chegar lá me deparo com a mesa cheia de comidas deliciosas que me davam agua na boca.
- , Vem aqui conhecer o Mathias! - Minha irmã ficava muito animada com tudo, principalmente reuniões de família. – Mathias, voici ma soeur, .
- Ces't un plaisir de vous rencontrer, . - Mathias estendeu a mão para me cumprimentar. Ele era lindo, tinha o cabelo grande jogado pra trás e um olhar marcante.
- Non, tout le plaisir est por moi. - Apertei sua mão respondendo que o prazer em conhece-lo era todo meu.
Benditas aulas de francês que mamãe pagou.
- Eu vou falar com a mamãe, já volto pra falar mais com vocês. Je reviens tout de suite. - Traduzi pra ele que sorriu largo assentindo.
Caminhei em direção a cozinha. E vi minha mãe de costas mexendo alguma coisa no fogo.
- Mãe. - Chamei.
- , vem cá me dar um beijo. - Sorri. Minha relação com minha mãe era a melhor, nós somos tipo melhores amigas. - Como está linda!
- Mãe, eu passei aqui antes de ontem, parece que não me vê desde o Natal passado. - Sorrimos juntas.
- Você parece cansada, filhinha.
- Só um pouquinho, fiquei até tarde na festa de Natal ontem.
- E foi bom?
- Foi. - Sorri de lado. - Cadê o papai?
- Tá lá na sala vendo jogo, só sabe fazer isso da vida dele, não me ajuda com nada. - gargalhei e caminhei pra sala. Meu pai e minha mãe se arranhavam desde sempre, mas nunca se separaram, juntos há mais 28 anos, e isso de casados.
- Pai? - Chamei-o antes de adentrar no cômodo.
- Filha! Senta aqui comigo. - Meu pai me chamou batendo no estofado do sofá ao seu lado. - Como você tá?
- Eu estou bem. Só um pouquinho cansada.
- Mas fico feliz que veio ceiar com a gente hoje. - Ele me abraçou de lado e eu sorri. Em casa eu só falava português, mas por morar tantos anos aqui, eu acabava me enrolando com algumas palavras e expressões e emendava com o inglês, mas meu pai não gostava disso de jeito nenhum, ele falava inglês só quando precisava e ainda assim odiava.
- Você já viu o namorado da Hailey?
- Hmm. - Resmungou. - Francês. Agora vamos ter que falar em três idiomas nessa casa. - Gargalhei.
- Não fique tão mad
- Você mesmo mistura as coisas o tempo todo. Mad. Diga "bravo", "nervoso".
- Ai pai, desculpas, mas é porque a gente já está aqui há tanto tempo que eu me esqueço algumas palavras. Eu falo inglês desde os 9 anos, você não pode ficar com raiva toda vez que eu falar inglês aqui em casa. - Suspirei.
- Estamos aqui há tempo demais na verdade, no começo foi bom, mas agora eu e sua mãe estamos...
- Estamos o que? - O interrompi. - Vocês não querem back to Brazil, né?
- Sim. Nós estamos pensando em voltar para o Brasil. E queremos que você volte com a gente.
Enrijeci o corpo na hora. Ele não podia estar falando sério, não justo agora. Minha vida era nos EUA. Minha faculdade, meus amigos, meu emprego... . Logo agora que estava tudo indo tão bem.
- Pai, isso não é justo! Vocês não podem tomar essa decisão por mim!
- Filha, não tomamos uma decisão ainda, só achamos que seria melhor para todos nós, sua irmã já não para em casa há muito tempo, ainda mais agora que ela diz estar de mudança para França, só temos você. No fundo você sempre soube que voltaríamos.
- Não sabia que seria agora. - Me levantei do braço do sofá em que estava sentada e caminhei para o lado de fora, precisava respirar um pouco. Ele não podia me obrigar a ir embora com eles, não era justo, não era... o que eu queria.
- ? - A voz de Hailey me tirou do transe. - Está tudo bem? Mamãe disse que o jantar está pronto.
- Está, é só que o papai me tira do sério as vezes.
- Ele te contou que está querendo se mudar, né? - Ela respirou fundo parando ao meu lado, e eu me virei ficando de frente ela.
- Você sabia? - Perguntei e ela olhou pra baixo.
- Eu fiquei sabendo ontem, no jantar.
- E por que não me contou nada?! - Exclamei em um tom mais alto do que queria.
- Porque você estava em um encontro, , eu não ia te ligar pra contar uma coisa que nem ao menos está decidida.
- Meu pai parece bem decidido.
- Mas a mamãe não, ela gosta daqui. - Seus olhos se voltaram para os meus. – Calma, , vai dar tudo certo, e além do mais eu tenho uma notícia que vai te animar muito.
- O que? - Perguntei curiosa.
- Vem, vamos contar com todo mundo junto.
Hailey pegou na minha mão e foi me puxando até a sala de jantar, todos os outros já estavam na mesa quando chegamos.
Minha mãe estava na ponta da mesa, a sua esquerda Mathias que sorria ao brincar com a cachorrinha que se escondia embaixo da mesa, a sua direita estava meu pai, que me olhou assim que chegamos no cômodo, porém desviei o olhar.
O jantar correu bem, na medida do possível. Minha mãe queria conversar tantas coisas com o Mathias, Hailey e eu tivemos que ficar traduzindo a conversa o jantar inteiro.
No fim do jantar fui à cozinha buscar o Pudim para servir como sobremesa, e assim que todos tinham se servido, Hailey cochichou alguma coisa no ouvido do seu namorado e ambos levantaram.
- Eu queria contar uma coisa pra vocês. - Ela começou. - Pensei em contar ontem, mas a não estava presente, não seria a mesma coisa. - Mathias assentia com a cabeça e sorria sem parar, embora eu tenha certeza que ele não estava entendo nada, mas sabia do que se tratava.
- Eu e Mathias já estamos juntos há algum tempo, não há apenas 3 meses, eu o conheci ainda aqui, em Nova Iorque. - Tudo bem, quem não estava entendo absolutamente nada agora era eu. - E bom, acho melhor falar logo, né, amor? Eu...eu estou gravida.
A cara de choque da minha mãe foi instantânea. A minha boca e a dela se abriram na mesma hora em que a cara do meu pai se fechou.
- Hailey...eu... - Minha mãe tentou começar mas parou antes de concluir o que queria falar.
- Bom, eu sempre quis ter um sobrinho. - Quebrei o gelo. - Parabéns!
- E a gente decidiu se casar. - Falou rapidamente e de rabo de olho pude ver meu pai fechar os olhos e sacudir a cabeça em negação.
- Hailey, minha filha, você não acha que está se precipitando? Essa é uma decisão muito séria.
- Mãe, eu estou grávida, isso também é sério, e o Mathias está disposto a se casar comigo e ter esse bebê do meu lado.
- Querida, mas não há pressa em se casar! Eu não vejo motivo!
- Eu sabia que ia ser um problema, por isso eu já marquei a data do casamento.
- Já marcou? - Eu e minha mãe exclamamos ao mesmo tempo, meu pai apenas observava a cena e tive medo de quando ele resolvesse abrir a boca.
- 18 de janeiro. - Tive dó do Mathias que estava suando há tanto tempo e nem sabia em que parte estávamos.
- Muito bem, então. Você é uma mulher adulta e sabe o que faz. - Minha mãe decidiu encerrar a discussão se dando por vencida.
- Pai?
- Me mande o convite. - ele se levantou deixando a sobremesa intacta sob a mesa.
Sorri sem graça. Ótimo. Teremos uma longa guerra até dia 18 de janeiro.
Preferi ir embora antes de presenciar mais uma cena, fui pra casa sozinha. Hailey dormiria com Mathias aquela noite, e todas daqui pra frente. Eu estava sozinha de novo, pra variar. Estava tão cansada que desmaiei na cama sem ao menos trocar de roupa.



Capítulo 8


Segunda- Feira. 26 de dezembro.
- Aaaah, eu não acredito que a gente veio trabalhar hoje! Um dia após o Natal! - Eu caminhava junto com Camila até a entrada do prédio, realmente era uma droga.
- Welcome to the real world! - Cantarolei.
- Não é justo! Mas pelo menos a festa foi boa, quer dizer, eu acho que foi, não me lembro de muita coisa.
- Ah, a festa foi ótima. - Concordei.
- Hmmmm, essa carinha aí eu conheço.
- Que cara? - Apertei o botão do elevador.
- Pra cima de mim, ? Você ficou com alguém! E se me lembro você passou a festa inteira com o Mason.
- O que? Camila, nada a ver!
- , se você precisa de um incentivo, eu dormi com o chefe da nossa seção.
- O que?! - Gritei.
- Shiiiu. - Camila tapou minha boca, mas a cara de surpresa continuou a mesma.
- O Brandom? - Perguntei mais baixo dessa vez. Brandom era chefe da área criativa, ele estava acima da Sinclair. Eu só vi ele uma única vez, tremendamente lindo. Moreno dos olhos azuis. Parecia uma perdição latina.
- Sim, mas isso não pode sair daqui. - Sorriu orgulhosa.
- Sou um túmulo. - Passei um zíper imaginário na minha boca e ela sorriu. - Boa jogada, pegando o chefe. - Camila revirou os olhos.
- Agora sua vez, com quem você ficou mocinha? - Respirei fundo sem saber se devia falar, mas não me segurei.
- O . - Os olhos dela se arregalaram e ela deu uma risada.
- Eu sabia que nesse mato tinha coelho!
- É, mas você não pode falar pra ninguém. - Ela fez o mesmo sinal de zíper. - Pra ninguém!
As portas do elevador se abriram e saímos dele.
- Bom trabalho, pegando o dono. - Camila soltou a mesma piadinha que fiz com ela e foi para sua mesa, achei graça e sentei no meu lugar. Eu havia me esquecido que seria dono de tudo aquilo ali um dia, ele parecia tão tranquilo, ele não dava a mínima. Eu como estagiária faltava ficar louca, querendo entregar tudo certinho e perfeito, se essa empresa fosse minha, eu já estaria internada há muito tempo.
- Gatinha. - A voz de despertou meus pensamentos. - Pensando em mim?
- Ugh, não me chama de gatinha.
- Por que não, gatinha? - Persistiu tirando os óculos escuros e sentando do meu lado como sempre fazia.
- Porquê é nojento e brega.
- Ai, eu tô com sono. - Debruçou sobre a mesa. - Faz a minha parte hoje.
- O que? Não!
- Por favor, . - Choramingou.
- Não.
- Ah então a... - levantou a cabeça e olhou no seu relatório em cima da mesa. - Coca cola. - Leu o nome da empresa que foi direcionada pra ele e eu fiquei de boca aberta. - Vai ficar sem aprovação do novo design.
- Cala a boca! Por que você fica com a Coca Cola e eu fico com enlatados?
- Isso é coisa do meu pai. - Deu de ombros. - Pode fazer se você quiser, ele nem vai ler de qualquer jeito.
A voz do se carregava de raiva misturada com tristeza toda vez que falava do pai, e isso me deixava igualmente triste apesar de o conhecer tão pouco, ninguém deveria ter esse tipo de relacionamento com o pai.
- Mas se ele não lê suas avaliações, como ele sabe que você é bom pra comandar a corporativa? - Perguntei.
- Ele não sabe, ele espera que eu seja. É melhor a empresa ficar no meu nome do que no nome de um filho gay. - revirou os olhos. - Ele é ridículo.
- Ele te colocou aqui só pra não deixar o Sam tomar conta?
- Sim, ele seria tão mais útil aqui.
- Mas ele não pode fazer isso! Vocês dois tem direito por serem filhos dele.
- Ele emancipou a gente, ele pode fazer o que ele quiser.
- Merda, .
- Merda. - Concordou.
- Mas relaxa, quando ele morrer você vende. - Sorri de lado e ele me acompanhou.
- Pode apostar que sim. - Se ajeitou na cadeira. - E como foi o Natal com sua família?
- O resto de Natal você quer dizer. Foi bom. - Disse. - Na verdade foi horrível, minha irmã descobriu que está grávida e vai se casar com um francês daqui o que? - Fiz uma conta mentalmente provavelmente errada. - 20 dias, e vai se mudar para a França, e pra completar meu pai está com umas ideias malucas que eu nem quero lembrar.
- White girl problems.
- White girl vai tomar no cu, o riquinho aqui é você.
- Calma, gatinha, estou só te implicando.
- Arg! Não me chama de gatinha!
- Gatinha.
- Que nojo de você, . - Sacudi a cabeça em negação e virei minha cadeira ficando de costas pra ele.
- Ah não sei não, você não estava com nojo ontem quando nós dois... - Arregalei os olhos quando percebi que ele ia soltar a bomba ali no escritório rodeado de gente fofoqueira, rapidamente pulei e tapei a boca dele.
- Por Deus, ! Quer que eu seja demitida? - Cochichei brava no ouvido dele e tirei minhas mãos da sua boca devagar me certificando que ele não ia fazer outra cena.
- Sai comigo amanhã. - Encarou perguntando.
- Não posso. - Respondi, me voltando para o computador.
- Por que não?
- Porque não é certo, somos colegas de trabalho.
- Aaah, deixa disso, .
A verdade é que eu não podia sair com ele, não correndo risco de ir embora para o Brasil a qualquer momento, não era justo comigo e nem com ele, mas o problema é que a porra daqueles olhos tinham o mesmo efeito de droga.
- Se eu disser que sim, você me levaria aonde?
- Pra minha casa ué. - Revirei os olhos e voltei pro computador. - Ou um bar?
- , eu tenho cara de quem frequenta bares? - ele ponderou por alguns segundos e ia abrir a boca mas o impedi. - Não responde.
- Uma boate então, nada tão pervertido e nada tão santo, o que me diz?
- Amanhã é terça-feira...quarta-feira a gente trabalha...
- Nah, eu dou folga pra gente.
- Você pode fazer isso? - perguntei e ele apontou pra placa luminosa no teto.
- Aquele ali, é de . - Inacreditável, dei de ombros e ele sorriu.
- Me pega em casa. - Acabei por concordar.
- Sim senhora.

Terça- Feira. 27 de dezembro. 21:30

- Ah, mas que merda! - Gritei comigo mesmo. Tinha inventado de fazer um babyliss no cabelo pra diferenciar, mas agora não sei se vai dar tempo de fazer no cabelo todo.
Tinha concordado em ir com na boate às 22h, ele ia passar aqui em casa e iríamos juntos. Isso não era um encontro, que fique bem claro, éramos apenas dois colegas de trabalho saindo pra uma happy hour na terça- feira. - "Nada demais." - Convencia a mim mesma.
Acabei por vestir um vestido vinho que tinha guardado, ele era curto e tinha um decote ajustável na frente, presente da Hailey. Nos pés calçava um salto bege torcendo para que eu não ficasse muito tempo em pé. Batucava os dedos na pia ansiosa para finalizar o cabelo.
- já deve estar chegando... - Pensei novamente em voz alta.
Decidi bagunçar um pouco os cachos que já havia feito pra ficar mais natural e prático, sem condições de eu terminar todo esse cabelo até as 22h. Desliguei o babyliss bufando e fui checar a bolsa.
Celular, chaves, carteira de identidade, carteira convencional com dinheiro, batom, espelho.... acho que é só isso.
"Camisinha" - Me lembrei. Corri para o banheiro na esperança de achar nem que seja uma, mas elas tinham acabado, PORRA! Procurei nas coisas da Hailey e não encontrei uma sequer.
"Talvez se eu for na farmácia agora, dê tempo de voltar antes que o chegue." Ponderei. Mas antes que colocasse a mão na chave para sair, ouvi uma buzina, já era. Tranquei a porta pensando "É melhor ele ter uma"
- Gatinha! - Gritou de longe e eu quis morrer com esse apelido que ele tinha me arrumado.
- Para de me chamar de gatinha! Pelo amor de Deus! De onde você tirou isso? - Deu de ombros.
- Já chega reclamando. - ele sorriu por trás do capacete, pude ver pelos canto dos seus olhos que se franziram.
- Cala a boca, gatinho. - Montei na moto enfatizando o 'gatinho' com voz de desdém, o capacete estava amarrado na parte de trás, então só desamarrei e ajustei na minha cabeça.
- Olha só, aprendeu direitinho, te daria um beijo mas estou de capacete.
- Então vamos logo pra você tirar ele o mais rápido possível. - Corei minutos depois ao perceber o que tinha dito, eu não sabia exatamente como agir com . Nunca soube, mas menos ainda agora, depois que a gente transou. Eu devo agir como ficante? Como amiga? Fingir que nada aconteceu e deixar ele determinar o que a gente era? De qualquer forma eu estava me esforçando pra ser o mais natural possível, e se eu não conseguisse, bom, ao menos seria engraçado.
A boate que estávamos indo não era aonde eu pensava, pensei que iríamos para um pub no subúrbio ou coisa assim, mas foi só quando chegamos que percebi que estávamos no Upper East Side, merda, eu não tenho dinheiro pra isso não.
estacionou junto das outras motos, nos possibilitando descer, tirei o capacete e dei uma ajeitada no cabelo usando as mãos. Essa era a parte ruim de andar de moto, seu cabelo se embaraça todinho. Puxei o vestido um pouco mais pra baixo e aguardei ele entregar a chave para o manobrista.
- Manobrista de moto. - Conclui. - Uau.
- É, prefiro que ela fique segura.
- Se você está dizendo, né... - Me permiti olhar o que ele estava vestindo pela primeira vez essa noite. vestia uma calça jeans escura acompanhada de uma camisa manga longa preta com um capuz cinza, a camisa era grande, pegava na metade da bunda dele. Sim, eu olhei.
- Você está linda, vamos? - O elogio me surpreendeu.
- Vamos.
Passamos na frente da enorme fila do lado de fora da boate e quis me desculpar por estarmos furando fila, mas disse que isso acontecia o tempo todo, que o nome dele estava na lista, preferi não discordar. Adentramos no local e o som da música já estrondava meus ouvidos, a boate estava lotada. Era dívida entre a pista, lá em baixo, e o que eu defini por camarote, no andar de cima; mesas acompanhadas de sofás, e era lá que tinha reservado, claro.
- Nossa, aqui está muito cheio.
- Eu disse ao Joe que seria um ótimo negócio comprar isso aqui.
- Joe? - Me sentei no sofá e ele me acompanhou.
- Um amigo meu, ele deve estar aqui hoje. - deu uma olhadinha para os lados o procurando, mas creio que não o encontrou.
- Hum.
- Se você quiser dançar...
- Dançar? Eu? Ah, não obrigado. Tenho vergonha.
- Vergonha? Você? - Ele estreitou os olhos pra mim.
- É sério. - tentei o convencer, mas só fiz ele rir.
- Tudo bem, , eu acredito. - Sorri e me aproximei um pouco mais dele, eu vou beijar essa boca e vai ser agora, como o esperado, não recusou o beijo, só intensificou me fazendo arrepiar, infelizmente, paramos de nos beijar quando faltou o ar.
- Se você parar pra pensar, isso é melhor do que dançar. - deu um sorriso safado e colocou a mão na minha coxa, apertando, eu retribuía o beijando de leve e arranhando devagar seu pescoço só pra sentir ele arrepiar.
- . - Uma voz chamou e parei o que estava fazendo para me virar e ver quem estava chamando.
- , oi. - a cumprimentou sem se levantar.
- Fazia um tempo que não vinha aqui. - completou, a palavra se dirigia a ele, mas os olhos não paravam de me encarar, me deixando completamente sem graça, pareceu perceber.
- , essa é a .
- Oi. - Disse sem muita emoção e ela retribuiu com um sorrisinho forçado.
- A gente se ver por ai, . - Ela passou por nós e foi pra alguma mesa bem depois da nossa graças a Deus.
- Simpática né. - Alfinetei e ele fez um barulho de desdém com a boca.
- Nah, isso é coisa de .
- Hm. Ela é alguma coisa sua? - Perguntei.
- Sério? - Me retrucou sorrindo, mas como não respondi nada ele entendeu que a minha resposta era um 'sim'. - A gente só fica as vezes, nada sério.
- Naquele dia que fui na sua casa, encontrei com ela.
- Ah. - Ergueu as sobrancelhas.
- E dois dias depois você foi na festa do escritório e me deu um colar e tudo mais... - Joguei no ar. Não estava com ciúmes, mas eu tinha que saber se o rolo dele com ela continuava.
- Ah, , você quer mesmo falar disso agora? - Dei de ombros e ele bufou. - Ela foi lá em casa sim, mas não fizemos sexo, se é isso que quer saber, você me deixou com a cabeça bem fodida.
- E por que você decidiu ir na festa aquele dia? - Ele jogou um braço no banco por trás de mim.
- Porque você aparecia na porra de qualquer lugar que eu fosse. Eu saí de moto aquela noite e passei no Sam para deixar um presente de Natal pra ele e acredita que ele me mandou dois quibes? Um para a minha amiga secreta e um pra mim. - Sorri.- Parei pra lanchar e ganhei um biscoitinho da sorte escrito: Os sinais estão em todos os lugares. - Gargalhei e ele me acompanhou. - É sério, , e pra completar eu olhei pro céu e vi as estrelas e a primeira coisa que me veio na cabeça foi você, até ser chamado de pela moça da Starbucks me lembrou você e sua implicância, e eu... eu não podia deixar de ir e tentar de novo, te pedir desculpas por tudo que aconteceu.
- Você pensou "Ai meu Deus. Eu preciso beijar ela de novo" - Brinquei.
- Não, eu pensei: "Caralho, eu preciso beijar ela de novo." - deu aquele sorriso e eu não pude deixar de acompanhá-lo.
- Então beija.
Depois de ficarmos um pouco lá em cima, decidiu ir buscar umas bebidas pra gente, mas que merda esse garoto estava fazendo que me deixava boba? Estava perdida nos meus pensamentos quando percebi um rapaz mais velho se aproximar.
- Oi. - Dirigiu- se a mim e eu sorri sem mostrar os dentes. - Sou John.
- . - respondi seca.
- Ta afim de sair daqui? - gritou no meu ouvido devido a música alta.
- Não, obrigada. - Respondi de volta.
- Qual é? É até um pecado você ficar aqui sem ninguém.
- Eu não estou sem ninguém. - Gritei de volta, já estava ficando constrangida com a situação e confesso que com um pouco de medo, estava sozinha com aquele cara, se ele tentasse fazer alguma coisa eu poderia gritar o tanto que fosse que ninguém escutaria. Me afastei dele máximo que pude no estofado, mas ele se aproximou de novo.
- Por favor, vai embora. - Disse já sem paciência e ele pousou a mão na minha coxa. Levantei abruptamente e comecei a sair dali, mas vi que ele me seguia, e no meio da multidão, mesmo que no camarote, não consegui ir muito longe, ele agarrou o meu braço.
- Calma, gostosinha, eu sei que você também quer. - Os braços dele apertavam os meus.
- Me solta! - Gritei em vão. Ele já segurava meu rosto a força pra me beijar.
- ? - Ouvi de longe a voz do se aproximar. - O que está acontecendo aqui? Solta ela!
- ! - Exclamei aliviada.
- Soltar ela por que parceiro? Ela já estava bem soltinha quando encontrei ela.
- Cara, eu não quero criar confusão, solta a moça. - A pressão nos meus braços aumentava ao invés de diminuir, soltou os copos numa mesa que estava ali do lado.
- Se você quiser a gatinha vai ter que vir pegar. - Tudo aconteceu muito rápido, eu só vi o se aproximar e dar um soco na cara do homem, com o impacto do soco ele me soltou e ficou meio zonzo, aproveitei o meio tempo e sai dali indo para trás do .
- Só eu chamo ela de gatinha. - Exclamou, deixando o cara com mais raiva, que partiu pra cima do retribuindo o soco.
- ! - Gritei assustada.
- Se você não tivesse chegado eu ia foder com ela gostoso! A vadia querendo ou não!
- Arrombado do caralho! - limpou o sangue da boca de qualquer jeito com a manga e revidou com dois socos na cara do tal John, que caiu no chão. Mas mesmo assim não parou, deu vários chutes nele enquanto estava no chão embora eu implorasse pra que ele parasse várias vezes, todos antes distraídos em seu próprio mundinho agora observam o cara desacordado babar sangue no chão. Eu estava apavorada, nervosa, e nesse momento já chorava há muito tempo.
- ! Por favor, para! - Gritei com a voz embargada atrás dele. Ele se virou e me olhou, seus olhos estavam vermelhos de raiva, mas ao notar que eu chorava desesperadamente ele percebeu o que estava fazendo, parece que ele estava numa espécie de transe de raiva, sem ver o que estava acontecendo.
- Eu....eu...vamos embora daqui, . - Falou atordoado olhando pra vários lugares e ofegante. E eu só sabia chorar desesperadamente. - Por favor. - Acrescentou, assenti ainda chorando, segurei na mão dele e fomos para fora da boate. Sentamos no meio fio da calçada, nós dois precisávamos nos recuperar antes de falar qualquer coisa.
Depois de uns minutos calada tomei coragem pra iniciar a conversa.
- , o que aconteceu lá dentro...- Olhei pro lado e vi que ele também chorava. estava com a boca toda arrebentada e chorando.
Me aproximei até que não sobrasse nenhum espaço entre nós e o abracei, as perguntas esperariam. O abracei e deixei que ele chorasse, ele chorava em silêncio, soluçava, porém não fazia barulho algum. Vê-lo daquele jeito partiu meu coração, e meus olhos já estavam marejados de novo.
- ... - Chamei baixinho.
- Ele quase te fez a mesma coisa que fez com ela... - Falou sem parar de chorar e eu não entendi o que quis dizer.
- Ela quem, ?
- Com ela, com a minha mãe. Ele ia te estuprar, . - Se voltou pra mim. - Igual fizeram com a minha mãe. - Aquilo me atingiu como bala no peito. A mãe dele foi estuprada, isso explica a reação dele, o transe de raiva, a crise de choro... Ainda chocada com a revelação e sem saber o que dizer preferi tentar acalmá-lo.
- Eu estou bem, okay? Ele não fez nada comigo, ele não teve a chance, porque você chegou. Olha pra mim. - Segurei o rosto dele o fazendo me olhar. - Você me salvou. - Aos poucos ele foi parando de chorar e se acalmou. - Vamos pra casa uh? Vamos de táxi.
- Mas a minha moto... - Começou a falar e eu o interrompi.
- Tenho certeza que vai estar bem guardada. - Eu não estava bem. Eu realmente seria estuprada se o não tivesse chegado e pensar naquilo me dava arrepios, meu coração ainda batia acelerado e receoso. Recuei até do porteiro da boate que veio abrir a porta do taxi pra gente. Eu não estava nada bem. Optei por irmos para o apartamento dele, subimos em silêncio e ele abriu a porta com a chave que estava no bolso.
- Eu vou fazer uma compressa de gelo pra você.
- , não precisa.
- Precisa sim, sua boca está muito inchada. - atordoada com meus pensamentos eu precisava fazer alguma coisa para me distrair, sei que se eu parasse e ficasse quieta entraria em pânico e começaria a chorar pelo que quase aconteceu comigo hoje, eu não queria pensar.
- Aqui. - Me sentei do lado dele com um pano de prato que achei na gaveta da cozinha e alguns gelos. - Deixa que eu seguro pra você. - Ele suspirou.
- Desculpas.
- Não foi sua culpa.
- Por ter te deixado sozinha, foi minha culpa. - Suspirei fundo.
- Você está dizendo isso por causa da sua mãe? - Receei ao perguntar, mas ele não se importou.
- Ela saiu e me chamou pra ir. Eu nem dei atenção, eu era criança, queria ficar vendo tv. Eu me despedi e ela perguntou se eu queria que ela trouxesse alguma coisa, eu pedi chocolate, ela concordou sorrindo, como sempre. - fechou os olhos para contar. - Ela bagunçou meu cabelo com as mãos e saiu. Veio a tarde e ela não voltou, a noite, o outro dia, 24h. Meu pai prestou queixa de desaparecimento, acharam ela, mas já era tarde, só acharam o corpo. Ela foi estuprada e morta logo depois. O que mais me doeu, , foi quando devolveram os pertences que estavam com ela, na bolsa estavam dois bombons, ela não esqueceu, se eu tivesse ido com ela, talvez... talvez não teria acontecido, ela ainda ia estar aqui.
O abracei forte, criança nenhuma devia passar por isso, nenhuma pessoa devia passar por isso.
- Prenderam quem fez isso com ela? - ele assentiu.
- Mas não foi o suficiente, o trauma que ele me causou, a maneira como ele acabou com a vida da minha mãe, da minha família. Nem pena de morte seria o suficiente.
- Eu sinto muito. - Foi a única coisa que coisa que consegui dizer, não tinha palavras, não tinha o que falar, nada que eu dissesse mudaria o fato que aconteceu, a dor e a culpa que ele sentia todos os dias, não havia nada a ser dito, embora eu queria que houvesse.
- Acho que já desinchou um pouco. - Mudei de assunto depois de alguns minutos em silêncio. Tirei a compressa de gelo da boca dele e coloquei a mão de leve o fazendo retrair. - Você levou um soco e tanto.
- É, mas ele ficou pior. - Disse sem um pingo de dó.
- Ele deu soco no pior lugar.
- Por quê? - Indagou.
- Porque não posso te beijar.
- Desgraçado. - Sorriu de leve. - Pior encontro de todos.
- A gente não tem muita sorte. - Sorri e ele me acompanhou.
- Dorme aqui hoje? - Pediu e eu hesitei por uns instantes, mas ao lembrar que Hailey não estava lá, decidi ficar, melhor do que ir pra casa e ficar sozinha.
- Okay. - concordei sorrindo.
Não aconteceu nada entre a gente naquela noite, peguei no sono sentindo o calor do seu corpo me abraçar.


Capítulo 9


POV

Amanheci sentindo um vazio do lado da cama. Joguei os braços para checar e comprovei. Suspirei fundo, pra onde ela foi?
Levantei da cama meio zonzo procurando os chinelos, mas como não os encontrei de primeira deixei pra lá e fui direto pro banheiro.
Joguei uma água no rosto, escovei os dentes e baguncei os cabelos com a mão.
Caminhei ainda descalço, bocejando até a cozinha.
- Hey. - Ouço uma voz me chamar da sala.
- Ué, você ainda está aqui? - Me assustei.
- Nossa, bom dia pra você também. - exclamou indignada.
- Foi mal. - cocei o olho. - É porque eu achei que você já tinha ido embora.
- Eu acordei e não consegui mais dormir, não quis te acordar então sentei aqui pra ver televisão.
- Hm. - sentei do lado dela no sofá. - Que isso que você tá vendo?
- Ru Paul Drag Race! - Ela disse mega animada e eu gargalhei.
- É sobre oque? - perguntei.
- É um reality show de Drag Queens, é o melhor programa da TV depois de Keeping up With the Kardashians.
- Ah, , pelo amor de Deus, os dois são horríveis.
- Você nunca assistiu.
- Aham, e nem quero. - Ela me olhou com uma cara perversa e eu rapidamente entendi o que ela queria. - Não. Não. Não. Nem pensar.
- Por favoooor, você vai gostar! - Insistiu.
- Não vou não! - Exclamei.
- Eu te faço café. - Propôs e eu cocei o queixo, eu estava com fome, o quão ruim esse seriado podia ser?
- Um episódio. - deu um pulinho no sofá e eu achei graça, depois de ontem não custava nada assistir um seriado bobo com ela.
- Sua boca está melhor? - Perguntou e eu assenti, eu tinha até esquecido que aquele babaca tinha arrebentado a minha boca. - Só doí quando encosta. E você, está bem?
- Uhum. - Assentiu sem graça tocando o braço involuntariamente, foi quando reparei que as marcas da mão do cara ainda estavam nela.
- O seu braço... - Comecei e ela ficou totalmente sem graça.
- Não foi nada, já estou bem. - Retrucou se levantando mas segurei a mão dela.
- Deixa eu ver. - ela hesitou, mas voltou a se sentar, puxando um pouco mais a manga do vestido que vestia, a mão do desgraçado tinha deixado uma marca roxa no braço dela e isso por algum motivo me deixou com muita raiva. - Olha o que ele te fez! Seu braço tá roxo!
- Não...Não tem problema. - tentou parecer mais tranquila possível em relação a toda a situação, mas os olhos delas diziam ao contrário.
- Lógico que tem problema, ! Isso é minha culpa, agora você está com a marca desse filho da puta no seu braço. - Passei a mão na cabeça nervoso.
- , já passou, de verdade, está tudo bem. - Demorei a engolir o que ela falava. - Agora se você me dá licença, eu vou fazer um café porque eu tô morreeeeeendo de fome, desmancha essa cara emburrada. - apertou de leve a minha bochecha.
Ver ela machucada, me deixou mais puto do que eu esperava, essa menina é encrenca, e mesmo sabendo que eu estava me enrolando cada vez mais, não queria sair.

POV

Mal dormi essa noite, não sei como o não acordou comigo mexendo na cama, aquele ali dorme igual uma pedra. Levantei cedo e fui sentar no sofá, sabia que não ia conseguir dormir, os acontecimentos que aconteceram e os que quase aconteceram ontem a noite, martelavam na minha cabeça por mais que eu quisesse esquecer. As mãos daquele homem marcadas no meu braço me davam arrepios só de olhar, se o não tivesse chegado.... A crise de raiva, a forma como ele teria continuado batendo naquele homem se eu não tivesse o parado, o choro depois de tudo, o que ele me contou sobre a mãe dele, o fato de que ele não hesitou ao me defender mesmo nós não sendo nada, tudo pulsava na minha mente sem parar. Quando ele acordou disfarcei o máximo que pude, já bastava eu ficar mal, ele não precisava ficar também. Mas má mentirosa como sou, não consegui fingir por muito tempo, logo ele percebeu as marcas no meu braço e aí não teve como desviar do assunto. Tentei mudar de assunto novamente, fiz até um café e torradas pra gente, mas não consegui escapar por muito tempo. Tivemos uma conversa honesta sobre tudo. Contei que ainda me sentia mal e não estava tão no clima como demonstrava.
- Não gosto de te ver triste. - Finalizou e eu corei. - Se eu te comprasse um sorvete mais tarde, você ficaria mais feliz?
- De qual sabor? - Disse ainda envergonhada. Não tinha me acostumado com as demonstrações de carinho vindas dele.
- De Açali, aquele roxo. - Gargalhei.
- De açaí você quer dizer.
- Sim, é um nome difícil. - Sorriu e eu o acompanhei.
- Okay.
- Seu café é muito bom a propósito.
- É, eu sei. - Ele bagunçou meu cabelo - Ah não, ! Você não sossega nem quando eu tô triste. - Fiz drama.
- Você ainda tá triste? - Se sentou de frente pra mim com uma cara preocupada e eu sorri por trás do cabelo espalhado na minha cara. - , isso não se faz, fiquei preocupado.
- E você ia fazer o quê?
- Isso. - Se aproximou e me beijou. - Mas vai devagar, gatinha, que eu tô ferido.
- Achei que tinha esquecido desse nome ridículo.
- Você não me deixa esquecer. - Voltou a me beijar e no momento era tudo com que eu queria me preocupar...


Capítulo 10


Dia 30 de dezembro.

- , eu não te vejo mais!
- Para de drama, , a gente se vê todo dia na faculdade. - Respondi revirando os olhos.
tinha vindo na minha casa fazer uma visita "surpresa"
- É, mas não é igual antes, você me contava tudo, e agora não quer me dizer nem onde passou o Natal!
- Eu já disse, na festa do escritório.
- E com quem você está saindo?
- Com ninguém, , deixa de paranoia.
- Ah é? E esse chupão no seu pescoço? Quem fez? A Hailey? - Respirei fundo. Eu não queria mencionar por dois motivos: 1- A ia pirar por ela odiar o . 2- Eu não sabia o que a gente era exatamente pra contar pra alguém, mas não era como se eu estivesse resistindo bem a tentação de contar pra alguém, quero poder comentar com ela.
- Eu te conto com uma condição.
- Qual? - Perguntou ansiosa.
- Se você prometer ficar fora disso. Eu não quero opiniões ou piadinhas. Okay?
- Okay. - Respirei fundo antes de contar.
- Eu meio que estou saindo com o . - Os olhos da se arregalar imediatamente.
- O , ? Eu te criei pra isso, ?
- , para de fazer drama - Gargalhei. - Não é como se eu estivesse namorando Hitler.
- É sim!
- Agora você está exagerando, e além do mais você me prometeu que não ia dar pitaco.
- Mas... - Começou e eu a interrompi.
- Viu?! Era por isso que não queria te contar.
- Ta legal, faz o que você quiser, mas não venha chorar na minha porta depois.
- Eu não vou, , sabe por quê? Porque eu sei muito bem cuidar de mim mesma.
- , foi ele que machucou seu braço? Porque se ele te bateu eu sinto muito, mas eu vou lá na delegacia denunciar ele.
- Não foi ele, , e eu não quero falar sobre isso. - Bufei.
- Tem certeza? - Insitiu e eu explodi.
- Sim, eu tenho certeza caralho. Desembucha, o que você veio fazer aqui?
- Eu vim te chamar pra uma festa de ano novo maravilhosaaa! Tenho 4 ingressos, Mark e eu pegamos dois. Se o seu namoradinho quiser eu posso vender um pra ele.
- E o meu? - Perguntei.
- O seu eu te dou, mas nem a pau que eu vou dar um pro . Se ele quiser ser seu beijo de ano novo, avisa que ele vai ter que mover aquele traseiro de ouro até aqui e me pagar 200 dólares, e eu só recebo em dinheiro.
- E se ele não quiser?
- Então vocês vão passar o ano novo separados porque eu não aceito passar longe de você, . - Respirei fundo pensando no que faria para convencer o a ir comigo, esperei a ir embora e tomei coragem para ligar pra ele. No momento em que começou a chamar eu me dei conta que era uma péssima ideia, mas quando ia desligar ele atendeu.

- Alô?
- Ahn, Oi . É a .
- Oi , aconteceu alguma coisa?
- Não...nada não. Só queria perguntar uma coisa.
- Apertei a mão na minha perna, morrendo de vergonha. Eu provavelmente estava parecendo uma desesperada, afinal a gente se viu ontem.
- Pode falar.
- Aahn, então.... eu só queria saber onde você vai passar o ano novo.
- Não decidi ainda, por quê?
- Por nada.
- Sorri sem graça e me martirizei, eu não ia convidar ele. - Então tá bom, te vejo depois. - Minha barriga estava rodopiando, ia desligar antes que eu vomitasse.
- Espera. - O ouvi chamar do outro lado da linha, me impedindo de desligar. - Você quer ir em algum lugar?
- Não...não. É só que a , minha amiga, me chamou pra uma festa besta de ano novo ai eu pensei...mas deixa pra lá.
- Você ia me chamar pra ir com você?
- Gargalhou de leve do outro lado da linha e eu o acompanhei. - , você é um desastre para marcar encontros, mas quem sabe com o tempo você aprenda com o melhor.
- Ah cala a boca.
- Vou facilitar pra você. Ok, vamos. Tem que comprar ingressos?
- Sim.
- Disse me lembrando da bobagem que a estava fazendo só porque o ingresso era para o .
- Tudo bem, fala pra sua amiga, , certo? Que eu pago o seu e o meu na entrada.
- Ah, não precisa se preocupar comigo, eu ganhei um no sorteio que teve.
- Menti descaradamente e fechei os olhos de vergonha, mesmo sabendo que ele não podia me ver.
- Hm...okay.
- Então, combinado?
- Combinado. Te pego às 22h?
- Às 22h.
- Vejo você sábado gatinha. Não morra de saudades.
- Nem nos seus sonhos .
- Sorri pelo nariz. - Agora desliga logo esse telefone que você está tomando meu tempo.- ouvi o mesmo gargalhar leve e encerrar a ligação

Depois de recapitular que a gente ia sim passar o ano novo juntos, liguei pra e confirmei com ela, que pareceu surpresa dele ter concordado em ir, mais tarde decidi passar nos meus pais para pegar algumas correspondências minhas que ainda tinham lá por endereço.
Empurrei o portãozinho baixo e passei na caixa de correio recolhendo 3 envelopes, um deles sendo da minha faculdade; estranhei, porém resolvi abrir em casa, só ia passar e dar um oi pra minha mãe antes.
A porta estava aberta, então nem me importei em chamar antes de entrar, logo dei de cara com meu pai e minha mãe conversando, sentados na mesa da sala de estar. Não demorou muito para eles perceberem que eu estava ali.
- ! - Minha mãe exclamou com uma voz nervosa e eu arquei a sobrancelha. - O que faz aqui? - perguntou ainda apreensiva.
- Ahn, eu só vim pegar umas correspondências minhas e resolvi dar um oi. Está tudo bem?
Minha mãe trocou olhares com meu pai antes de responder.
- Por que não estaria?
- Não sei, você está estranha. - Meu pai suspirou fundo.
- Conta logo pra ela, Miranda...sobre a faculdade.
- Me contar o que? O que tem minha faculdade? - Pelo olhar deles de nervosismo associei a carta que tinha em mãos e resolvi abri-la.
- , espera... - Minha mãe disse calma, mas eu já havia aberto a correspondência.
"Srta ,
Seu pedido de transferência foi bem-sucedido..."

Passei o olho rápido nos parágrafos seguintes até encontrar o que mais temia.
"...a academia de Relações Internacionais assegura também a continuação da vaga de estágio para o local de transferência localizado em: Rio de Janeiro-Brazil"
- Será que alguém pode me explicar isso? Será que algum de vocês pode me lembrar de quando eu pedi transferência? - Ambos ficaram calados o que me deixou muito nervosa. - MÃE?
- Filha a gente ia te contar, só estávamos esperando o momento certo. - Disse receosa com as mãos no rosto. - A gente vai voltar para o Brasil.
Paralisei no mesmo instante. Acho que eu já esperava que isso fosse acontecer um dia, mas não agora.
- Vocês não têm o direito de fazerem isso comigo! Pedir transferências da minha faculdade? Sem ao menos me avisar?
- ... - Minha mãe começou e eu a interrompi
- Não venha com agora! A minha vida toda é aqui! Eu cresci aqui! Eu não me lembro de praticamente nada do Brasil! Não espere que eu fique feliz com essa porra de notícia!
- Olha o respeito com sua mãe! - Meu pai levantou a voz, e eu dei uma risada sarcástica.
- Não me venha falar de respeito agora, pai. Pois muito bem, eu estou indo na faculdade explicar que isso foi um tremendo mal-entendido. - Me levantei nervosa.
- Você não vai fazer isso, ! Nós vamos voltar para o Brasil, queira você ou não! - Meu pai esbravejou batendo na mesa.
- Então boa sorte em tentar me dopar e me colocar dentro do avião.
- Você não me deixa outra escolha à não ser deixar você por conta própria.
- Você não pode fazer isso!
- Não só posso, como vou. Se você quiser ficar aqui tudo bem. Mas vai ter que se manter.
- Eu trabalho! Eu vou dar um jeito.
- Seu estágio não paga nem a metade da faculdade, . - Eu já estava chorando de raiva nesse momento, como ele pode fazer isso comigo? - E se você acha que vai continuar morando naquela casa sozinha, você está enganada, já coloquei as duas casas para venda.
- E se eu arrumar um emprego e conseguir me manter aqui?
- Um emprego com um salário alto sem ao menos ter terminado a faculdade? Duvido. A escolha é sua, se ficar aqui não conte com nenhuma ajuda minha.
- Mãe? - Clamei por ela ainda chorando, esperando que ela ao menos intervisse, ou fosse contra.
- Filha, tenta entender a gente. Sua irmã está se mudando para a França, não podemos ficar tão longe assim das duas. - Suspirou fundo. - Você é minha caçula.
Eu estava tentando entender o lado deles, eu realmente estava. Mas nada fazia sentido na minha cabeça. Por que ir agora? Logo agora?
Assenti ainda com lágrimas nos olhos, precisava sair dali, peguei minha chave em cima da mesa e sai batendo porta.
O vento cortava forte na minha frente bagunçando meu cabelo e os pensamentos surgiam embaralhados na minha mente. Motivos para ficar. Motivos para ir.
Não queria brigar com meus pais, nem me rebelar, nunca fui essa filha, esse cargo deixei pra Hailey e ela já o exerce muito bem. Porém ter que ir embora assim de uma hora pra outra me deixava muito puta, mas o que eu poderia fazer?
Ficar sem casa, sem faculdade e sem emprego em plena New York não parecia um bom plano. Bufei alto frustrada, eu tinha que descobrir algum jeito de permanecer aqui, e tinha que ser rápido, eu tinha duas semanas até o casamento da Hailey, que conhecendo meu pai essa é provavelmente a data que iremos embora. Ele não perderia o casamento da filha, mas também não ficaria pra ver muito mais.
Eu tenho duas semanas pra dizer adeus a New York ou bolar um plano muito bom que me faça ficar.

31 de dezembro. 22:10 PM.

Não consegui dormir muito bem essa noite tentando bolar alguma coisa que me fizesse ficar, mas infelizmente não consegui nada. Estava cansada e indisposta, e se eu já não tivesse combinado com a e o , que por sinal estava atrasado, nem iria pra essa festa de ano novo.
Estava pronta há quase 20 minutos agora, sentada no sofá esperando o , onde esse menino se meteu? já havia me ligado 15 vezes perguntando onde eu estava. "Em casa" respondia todas as vezes " você percebe que eu estou com os ingressos de vocês? Eu e o Mark estamos plantados aqui na porta esperando vocês sem poder entrar!"
"Ele já deve estar chegando" afirmei, sem nem ao menos saber se era verdade. Ele poderia ter esquecido, ou ter arrumado coisa melhor, ou ter decidido não ir, mas de jeito nenhum eu ia ligar pra ele confirmando o bolo. Se ele não aparecesse, eu agradeceria, não estava no clima.
A Tv mostrava a Times Square lotada de gente e claro, toda iluminada, aguardando a descida da bola que aconteceria à 00h. Eu amava ver a disposição de todas essas pessoas que passavam o dia em pé pra ver o fim de ano mais famoso do mundo, mas tenho que admitir, é realmente uma sensação muito gostosa, a euforia é transmitida pelo ar, não tem como ficar triste ali.
Ouço uma buzina do lado de fora e deduzo ser o , desligo a tv e desamasso meu vestido com as mãos, pego minha bolsa e dou uma última checada no relógio antes de sair de casa. 22:30.
A vai me matar no momento em que pisarmos lá.
- Você está atrasado. - Disse para o assim que o vi.
- Eu sei, dormi demais. - Fechei a cara pra ele e ele sorriu de lado. - Mas eu cheguei, não é isso que importa?
- Não. - falei mal humorada tirando o capacete das mãos dele. Meu telefone tocou de novo. - Ai é a pra falar que estamos atrasados, de novo. - Bufei montando na moto, sem me apoiar em nada pois estava com as mãos cheias.
- Deixa eu falar com ela. - pediu e eu o olhei desconfiada. - Eu não vou fazer nada! Só vou falar que já estamos chegando. -
Ainda receosa entreguei o celular, desocupando minha mão, passei a alça da bolsa pelos meus ombros e me certifiquei que ela estava segura.
"- Oi, amiga da , tudo bem? Já estamos chegando" - dizia, mas não conseguia ouvir o que a estava dizendo do outro lado da linha. "- Certo, eu entendo, mas já estamos chegando, agora vou desligar aqui porque você sabe né, se continuarmos nos falando eu não posso dirigir a moto."- Sorri involuntariamente. "- Nos vemos em 10 minutos."
- Aqui. - Me entregou o celular. - Insistente sua amiga né? - sorriu.
- Muito, acha que pode chegar lá em 10 minutos?
- Certeza. - colocou o capacete e eu imediatamente o segurei, ele teria que ir muito rápido pra cumprir esse prazo.
Dito e feito, a moto acelerou como uma bala. Apesar de estar "acostumada" com essa moto, ainda me cagava de medo toda vez que tinha uma curva ou quando ele decidia ir cortando caminho entre os carros, apertava ele mais que tudo. Em pouco tempo estávamos de frente o salão de festas e logo avistamos a e o Mark parados no jardim ao lado da recepção.
- São eles. - Apontei.
- Vamos lá então, a moto já está estacionada.
Caminhamos separados em direção aos dois e essa parte era sempre a mais constrangedora, não saber se devo ou não pegar na mão dele.
- Meu Deus! Até que enfim! - gritou de longe e eu e o trocamos olhares.
- Oi pra você também . Oi Mark. - Acenei achando graça da forma como vinha andando na frente dele e ele me acompanhou nas risadas.
- Não tem oi pra você . Pega os ingressos e vamos entrar logo.
- Ahnn, oi. Você quer que eu te pague agora? - decidiu participar do diálogo fazendo a notar sua presença pela primeira vez em que chegamos. Ela o analisou da cabeça aos pés, tenho certeza que reparou até no amassado da camisa social branca que ele vestia e principalmente nos olhos. Não a culpo, meu olhar sempre parava lá também.
- Não precisa, depois a me entrega.
- Vamos? - Mark perguntou pegando na mão da e indo na nossa frente. Eu já tinha dado o primeiro passo para segui-los quando me puxa e me dá um beijo. Apesar de ser pega de surpresa demoro menos de 1 segundo para retribuir. Quando a falta de ar nos separou ele encerrou com um selinho, mordiscando o canto da minha boca e me lançou um sorriso safado, me fazendo revirar os olhos.
- Vem logo . - O puxei pela mão e pela primeira vez senti que estava tudo bem em fazer isso, e respirei tranquila por estar suficientemente distraída pra esquecer dos problemas que me esperavam em casa.
A festa corria bem e animada, confesso que tinha muita gente bonita e tão bem vestida que me sentiria mal, mas sorri satisfeita ao lembrar que tinha escolhido o meu melhor vestido, um preto justo com algumas lantejoulas também da cor preta.
- A gente veio combinando. - cochichou no meu ouvido. - Preto e branco.
- São duas cores completamente diferentes, . - sorri.
- Mas combinam. - me olhou nos olhos.
- É verdade. - Admiti, o olhando de volta. - Combinam. - Ele coçou a orelha e devido a convivência percebi que ele estava nervoso.
- O que foi? - Perguntei.
- Eu preciso falar com você.
- Você ta ficando com outra? - Me adiantei tão depressa que até eu me surpreendi. - Porque se estiver, tudo bem a gente nunca estabeleceu nada.
- O que? - gargalhou. - Não é nada disso, gatinha. - Passou a mão no meu cabelo o bagunçando.
- Então o que foi?
- Eu queria te fazer uma proposta. - Semicerrei os olhos preocupada pra que rumo essa conversa estava tomando.
- , se for uma coisa muito séria acho melhor você esperar um pouco, porquê já vão fazer a contagem regressiva.
- Vou ser rápido. - Prometeu.
- Diz.
- Eu nem sei como te pedir isso, na verdade só tomei coragem porque nós dois bebemos os 12 drinks que ofereciam no bar. - Sorri juntamente com ele. Já tínhamos perdido a e o Mark há muito tempo, estava sentada numa parte alta de um murinho que tinha no final do salão, e ele estava em pé no meio das minhas pernas e suas mãos passavam pela minha cintura. - Certo. Bom, eu preciso ir ver minha avó, essa semana pra ser mais exato. Faz tipo uns 5 anos que não vou lá porque sempre invento uma desculpa e ela acaba engolindo. Ela me ligou e me convidou pra ir lá ver ela, eu disse que não podia, pois iria acompanhar minha namorada em uma cirurgia...
- , os doze drinks já estão fazendo efeito.
- Espera, deixa eu terminar. - Ergui uma sobrancelha o mandando prosseguir e com as mãos prendia meu cabelo em um coque.
- Ela disse que era uma pena, pois ela estaria comemorando 70 anos e queria muito me ver, disse que estava muito doente e que tinha medo de morrer sem me ver mais uma vez - comecei a prestar mais atenção na história.
- Você devia ir visita-la . - Disse sincera e ele assentiu.
- Eu sei. Eu sei. Eu vou. - Sorri.- Mas eu preciso que você vá comigo. - Minha serenidade se transformou em confusão, eu não estava entendendo mais nada.
- É o que?
- Eu preciso que você vá comigo. - Repetiu.
- Por quê? - Questionei.
- Porque eu disse que tinha uma namorada, droga. E agora se eu aparecer lá sem nenhuma namorada ela vai achar que eu sou um mentiroso.
- E você é. - Falei levantando a sobrancelha para deixar bem claro.
- Eu sei disso e você também sabe, mas ela não.
- Ta, deixa eu ver se eu entendi direito, você quer que eu finja ser sua namorada por um dia?
- Na verdade são 5 dias, mas sim.
- Você está bêbado. - Deduzi e desci de onde estava sentada.
- Arg! Não estou. - Bufou nervoso- E além do mais qual o problema? A gente já se conhece e estamos ficando há um tempão. - "Tempão" ironizei mentalmente.
- O problema, , é que eu não vou mentir pra sua avó.
- Mas você nem conhece ela. - Disse com uma cara confusa e eu gargalhei seca - Eu fico te devendo uma, por favor, .
- Não. Não. E não. Eu não ganho nada com isso.
- Você ganha uma viagem de férias com tudo pago pro Tenessee.
Eu estava pronta pra virar as costas quando tive uma ideia, eu poderia usar isso ao meu favor. Meu pai disse que eu poderia ficar em New York com uma condição, se eu me mantesse.
Eu posso me virar, só preciso conseguir um cargo melhor, então vou ganhar meu próprio dinheiro e não vou precisar depender do meu pai.
- Com uma condição, você vai me conseguir uma das vagas de superior assistente que estão abertas.
- Só isso? Feito. - Estendeu a mão pra mim e eu apertei.
Eu ia triplicar meu salário apenas fingindo ser a namorada do por uma semana, o que poderia dar errado?
- Mas temos que combinar isso direito, e além do mais eu tenho que estar aqui dia 17 pro casamento da minha irmã.
- Relaxa, até lá a gente já voltou.
- Uma semana certo? E nem tente se aproveitar de mim.
- Como se eu quisesse, sabia que minhas primas são uma mais gostosa que a outra? - Brincou me abraçando por trás.
- Os primos também? Porque eu estou totalmente disponível.
- Todos primos são feios. - Gargalhei.
- Aham, . - Revirei os olhos enquanto tentava identificar o porquê de a música ter parado. - Vão fazer a contagem. - Disse baixinho, mas como tinha sua cabeça apoiada em meus ombros, não foi difícil para ele escutar.
- Sim. - Respondeu.
Era engraçado observar algumas meninas olhando de um lado pro outro na esperança de achar alguém para beijar de última hora.
- 10! 9!
O DJ começou a contar e todos correram para o lado de fora onde explodiriam os fogos.
Nem precisamos fazer muito esforço para isso, apenas viramos de frente permanecendo no mesmo lugar.
- 8! 7!
Vi de relance puxar Mark lá pra fora o mais rápido que seu salto permitia e involuntariamente sorri.
- 6! 5! - Gritavam forte
- Você não acredita nessa besteira de beijo ano novo né? - perguntou sorrindo baixo no meu ouvido me dando cosquinhas.
- Não. - Me virei ficando frente à frente com ele.
- 4!
- Mas nós vamos fazer mesmo assim não vamos? - Passou a mão tirando um fio de cabelo que estava no meu rosto.
- 3!
- Com certeza. - Sorri e me acompanhou. Naquele momento eu estava tão calma, ali e agora eu tinha quase certeza que tudo ia ficar bem.
- 2!
Involuntariamente fechei os olhos e desejei que aquela tranquilidade e esse momento durassem para sempre.
- 1!
Senti os lábios do junto aos meus e nossas línguas se encontraram, dançando e se envolvendo numa sintonia incrível como sempre faziam. Conseguia ouvir o barulho ensurdecedor de fogos explodindo um atrás do outro e um coro de pessoas gritando; "Happy New Year!" Nos separamos devagar.
- Feliz ano novo, .
- Pra você também, gatinho. - Bati a ponta do dedo no nariz ele e ele revirou os olhos.
Após a queima de fogos encontramos Mark e a .
- Hey onde vocês estavam? - Mark perguntou, sorri ao notar que ele estava com a cara toda cheia de batom vermelho.
- A gente veio dar um tempinho aqui, mas com certeza não nos divertimos igual vocês. - Fiz um sinal com o dedo ao redor da minha boca e ele entendeu de cara, esfregando a mão no seu rosto.
- Ah, , já falei pra você não usar esse batom! Minha avó vai encher o saco.
- Até parece que eu não vou usar esse é batom. É Nars, querido. Nars não se guarda.
- Tem no seu Blazer também, cara. - apontou segurando o riso.
- É alugado, droga. - Reclamou dando batidinhas e olhando feio pra que se fingia de desentendida.
- Vocês beberam? - perguntou me cheirando.
- Um pouquinho.
- Tô vendo, eu bebi só o vermelhinho. - Como estava escuro não dava pra ver muito bem o que estava acontecendo e estava aproveitando para passar a mão na minha bunda.
- Para. - Cochichei.
- Que? - perguntou
- Nada não, tava só pensando em voz alta. - segurou o riso e descia de novo a mão das costas para o meu bumbum.
- Meu Deus, agora não. - Tentei manter a voz baixa.
- Agora não o que? - Foi a vez de Mark perguntar e estava achando graça da vergonha que eu estava passando.
- É só que o está ficando excitado aqui e eu estou dizendo para ele que agora não. - Provoquei e foi a vez de Mark segurar o riso, pelo contrário me lançou um olhar indignado.
- Ta com vergonha de gritar de prazer em público, donzela? - Revidou.
- Meu Deus, arranjem um quarto. - revirou os olhos, terminando o drink que tinha em mãos
- Eu não vou arranjar quarto nenhum, porque não vai acontecer nada hoje.
- Soldado ferido. - Mark exclamou com a mão no peito fazendo graça. - Quando eu e a começamos a namorar ela também era muito difícil.
- Ah, não. - Começamos juntos e troquei olhares com ele. - Não estamos namorando. - Dissemos ao mesmo tempo e o empurrei para o lado oposto.
- Ah, é que eu achei que estavam. - Mark se desculpou.
- Eca! Não. - Afirmei.
- Só se eu tivesse muito chapado.
- Nem assim você me teria, bebê, nem assim. - Apertei a bochecha dele e dei um risinho falso. - Vamos no banheiro comigo, ?
- Vamos. - Concordou.
- Por que elas sempre vão no banheiro juntas? - ouvi Mark resmungar enquanto íamos nos afastando
Caminhamos em silêncio até o banheiro, não era tão longe. No minuto que entramos no banheiro quebrou o silêncio.
- Você e o hein...
- Não começa, é casual. - Respondi.
- Casual, certo.
- Certo.
- Mas...ele beija bem? - Disse retocando o batom e acabamos por gargalhar.
- Pior que sim. - Concordei ainda rindo. - A barriga dele , é tão definida quanto de um jogador de futebol americano.
- Cuidado pra não se apaixonar.
- Ore por mim.
- Eu vou. - Fechou os olhos e ergueu as mãos arrancando uma risada minha e ela também não se segurou.
- Ele me fez uma proposta. - Comentei.
- De namoro?
- Deus, não. Ele quer que eu finja ser a namorada dele por uma semana.
- Mas todo mundo sabe que vocês não são "namorados". - Fez aspas com as mãos ao dizer a última a palavra.
- No Tenessee.
- Tenessee?
- Sim, pra família dele, mas tipo é só uma semana.
- E você aceitou? - Arregalou os olhos.
- Aceitei, mas ele disse que vai me conseguir outro cargo lá na empresa e você sabe que eu preciso.
- Pelo lance do seu pai né.
- Sim. - Me apoiei na pia desanimada. - Se eu conseguir essa vaga, eu consigo ficar, e se pra isso eu preciso pegar na mão do e chamar ele de meu amor, eu faço.
- Que dia vocês vão?
- Antes do casamento da Hailey, não sei a data exatamente.
- , não esquece que não é de verdade, não quero te ver machucada depois.
- Nem eu , mas vale o risco.

Dia 10 de janeiro. Dia da viagem

Depois da festa de ano novo foi um pulo pro dia da viagem. 10 dias se passaram e eu tínhamos conversado o mínimo possível nessa semana, e o pouco que conversamos era sobre a bendita viagem. Poucos dias após a festa de ano novo compramos as passagens e disse que pagaria pelas duas, tentei dizer que não precisava, mas ele não me deu ouvidos.
Pedi a Hailey que avisasse meus pais casualmente que iria viajar, não tinha falado com eles desde aquele dia em que praticamente fui deserdada, mas não queria que ficassem preocupados apesar de tudo. Eu precisava desse emprego, o rumo continuo da minha vida neste momento estava baseado em uma coisa que nem ao menos estava garantida.

Flashback ON
- . - me chamou baixinho, estávamos no escritório. - Eu consegui te colocar na entrevista, mas é o máximo que posso fazer. - Cochichou no meu ouvido.
- Mas eu não vou conseguir passar! Achei que você fosse me dar uma vaga! - Cochichei de volta nervosa, olhando para os lados para me certificar que ninguém estava olhando.
- Olha, eu posso ser o herdeiro disso aqui, mas enquanto não estiver no meu nome, eu não posso fazer muito.
- Ta. Ta! Eu vou dar um jeito.
- Também não entendi o porquê você quer subir de cargo, nem se formou ainda.
- Eu preciso da grana pra umas coisas ai. - semicerrou os olhos para mim me analisando, mas não questionou.
- As passagens estão marcadas para o dia 10/01. Às 11:40. A entrevista vai ser pouco antes do vôo, as 09:00h.
- Não vai dar tempo , temos que fazer o check-in e tudo.
- Aaaah, eu vou fazer dar tempo.
Flashback OFF

- , você vai hoje? - perguntou pelo telefone, tinha acabado de me ligar. Estava no meu quarto organizando o que faltava.
- Sim. - Respondi segurando o telefone entre o ombro e meu ouvido. - Estou terminando de fechar as malas.
- Nem deu pra gente se despedir. - Afirmou tristonha e eu sorri de lado.
- É só uma semana , e se tudo der certo, a gente vai continuar se vendo todos os dias na faculdade.
- Torço por isso, me liga quando chegar lá?
- Pode apostar, estarei com as galinhas na Tenessee enquanto você curte o friozinho de New York.
- Não me faça pegar esse vôo pra poder ir ver você interagindo com as galinhas e filmar para um momento futuro. - Gargalhou do outro lado da linha.
- Na verdade, isso seria um grande favor, assim não precisaria passar uma semana inteira confinada com o . - Suspirei fundo, colocando o passaporte e documentos na bolsa de mão.
- Até parece que você não está adorando, , ficou toda derretida quando ele te deu esse colar, que você não tira do pescoço por sinal. - Olhei involuntariamente pro colar e coloquei uma das mãos sobre ele
- Você não estava lá pra comprovar isso.
- E nem preciso, só de ouvir você contando deu pra perceber. - sabia de tudo, depois do ano novo sentamos pra conversar e acabei falando demais, mas preferi não comentar o evento que aconteceu na boate, e muito menos o que havia me contado sobre sua mãe.
- E além do mais que a gente estava indo bem nesse lance casual, olha, ele não é um anjo, e muito menos eu sou santa pra ficar aguentando gracinhas e atitudes que eu sei que ele tem.
- É o signo dele...já te disse. - Me cortou mas ignorei e continuei falando.
- A gente só dá certo porque sabemos o mínimo um do outro, e eu gostaria que continuasse assim. Simples.
- Você está exagerando de um tanto que parece que está indo viajar de férias com ex. - Bufei com a piadinha ridícula - Relaxa, se apesar da personalidade difícil que ele tem, você consegue aguenta-lo todos os dias tendo que trabalhar, de férias vai ser moleza.
- Você tem razão, é só , e é por um bem maior.
- Por NY baby, vale qualquer coisa. - sorri.
- Tenho que ir, ainda tenho a entrevista.
- Boa sorte então, e boa viagem.
- Obrigado. - Suspirei aliviada, fechando a última mala. - Até mais.
Conferi meus documentos pela centésima vez, e me certifiquei de que estava pronta antes de ligar pro taxi. Mandei uma mensagem de texto ao avisando que estava saindo de casa agora pra entrevista.

[08:33, 10/01/2017] : Tô saindo de casa agora. Cadê você?
[08:35, 10/01/2017] Fuckboy #1: Eu já estou aqui"

7 minutos foi o tempo que o taxi demorou para chegar aqui em casa, e já tinha me martirizado o máximo possível por não tê-lo chamado antes, se a gente perdesse esse voo por minha causa, iria me matar.
- Times Square, por favor. Vai o mais rápido que você puder. - O motorista obedeceu minhas ordens e ao estacionar em frente ao grande edifício da . Entertainment avistei falando ao celular e com algumas malas ao seu redor.
Desci do carro correndo e pedi ao motorista que acertasse o preço da corrida com "o moço bem ali" apontei para o que pareceu acabar de perceber que eu havia chegado, desligou o celular e veio caminhando em passos rápidos ao meu encontro.
- Pode subir, o pessoal da entrevista está te aguardando, vou ficar com suas coisas te esperando aqui em baixo.
- Okay. - Suspirei fundo chacoalhando as mãos no ar de nervoso. - Vou subir lá. - Comecei a andar indo para o prédio quando ouvi a voz de chamar meu nome.
- ! - Me virei. - Boa sorte. - Exclamou sorrindo e eu retribui o gesto.

's POV
Ter feito concordar em viajar comigo foi mais fácil do que eu pensava. Eu estava preparado pra enfrentar um leão muito maior do que uma vaga de emprego, quando ela me disse que essa era sua condição para me acompanhar, confesso que fiquei surpreso. Se fosse eu no lugar dela pediria dinheiro, bem mais efetivo que um emprego, mas ela era diferente, jamais faria isso. Já estava com vergonha o suficiente por ter me pedido um emprego. Alguma coisa definitivamente estava acontecendo, de jeito nenhum ela toparia se não estivesse tramando alguma.
Olhei para o relógio do celular e vi que já eram 9:40, se ela demorasse mais um pouquinho na entrevista, perderíamos o vôo.
Não era pra ter entrevista, eu tentei colocar ela direto na lista de ocupantes das vagas, mas aparentemente meu pai tem políticas muito serias em relação a mérito.
- Vamos logo ... - resmunguei em voz alta.
Boca santa, assim que terminei a frase, pude avista-la saindo da porta giratória.
Bati palmas rápidas com a intenção de chamar a atenção dela para que se apressasse. Porra.
- Vambora, ! - Gritei de longe e a observei apertar o passo, praticamente correu, para ser sincero.
- Ai, cheguei. - Disse ofegante. - Cadê o taxi?
- Mandei embora, não ia caber as minhas coisas e as suas no porta-malas.
- E como vamos para o aeroporto?
- Meu motorista vai levar a gente. - Apontei para a limusine estacionada pouco afastada da entrada principal. - Vem.
- Desde quando você tem um motorista? - Perguntou boquiaberta me seguindo e eu pisquei pra ela.
- Desde sempre, não é mesmo, Ronald? - Dirigi a palavra ao bom e velho Ronald, que estava nos esperando a porta do carro.
- Conheço o senhor desde muito pequeno. - Afirmou sorrindo, em seguida abriu a porta do passageiro para que pudesse entrar e logo depois eu.
- Preciso que vá o mais rápido que puder, Ronald. - Bati a porta.
- Posso pega-lo emprestado depois? - cochichou no meu ouvido me fazendo sorrir e simultaneamente me lembrar de uma coisa que eu tinha que fazer.
Enfiei a mão no bolso da jaqueta e tirei de lá uma caixinha pequena de veludo com dois anéis que comprei mais cedo.
- Se vamos fingir estar namorando precisamos de uma aliança. - Ela sorriu intrigada e franziu as sobrancelhas. - Me dê sua mão. - estendeu a mão esquerda.
Com uma das minhas mãos segurei e com a outra coloquei a aliança que graças a Deus encaixou certinho. - Pronto, agora é uma mulher comprometida. - Peguei a outra aliança e coloquei no meu dedo sem muita cerimônia.
- Como sabia o tamanho do meu anel?
- Eu não sabia. - Confessei. - Peguei o segundo menor, porque sua mão é muito pequena, e torci para que fosse o certo. - Revirou os olhos.
- Pelo menos você tem bom gosto. - Estendeu a mão um pouco a frente para poder ver melhor e um sorriso automático se formou nos meus lábios, mas logo o desfiz.
Minutos depois estávamos no aeroporto e cara, essa porra estava lotada.
- Já são 10h20m, merda. - Exclamei.
- Vamos correr então. - deu a ideia e eu apenas segui disparado em direção ao check-in.
- Eu vou seguindo vocês com a bagagem, Sr.. - Ronald gritou de longe.
A pouco tempo de distância podia sentir tentando acompanhar o meu ritmo, mas não dava pra esperar ela agora, eu precisava chegar no check-in e precisava chegar rápido. Fui torcendo para que a funcionária estivesse de bom humor e nos deixasse passar, mesmo que muito atrasados.
Parei no balcão ofegante e demorei alguns segundos para me recuperar da correria toda, estava realmente sedentário.
- Pois não? - A atendente dirigiu a palavra a mim.
- Gostaria de fazer o check-in para o vôo New York - Maryville. Tenessee
- O senhor se refere ao vôo das 18h?
- Não. - Inspirei buscando ar pois havia corrido muito. - O das 11:40.
- Sinto muito, senhor, mas o tempo limite para embarque já foi excedido, todavia o senhor pode estar pegando o próximo voo para Maryville às 18h.
- O que aconteceu? - chegou cansada e parou apoiada com as mãos nos joelhos. Passei a mão na cara nervoso.
- Não tem nada que você possa fazer pra nos colocar na área de embarque? - Perguntei elevando o tom de voz.
- Não, senhor, mas.... - A interrompi abrindo a carteira.
- Qual seu preço? - Ela me olhou assustada. - Todo mundo tem um preço, me diga, qual é o seu?
- ! - me repreendeu, mas a ignorei.
- Eu não posso aceitar suborno senhor, eu sinto muito. - Assenti, abrindo o talão de cheque que tinha na carteira.
- $3,000 dólares está bom pra você? - Empurrei o cheque pelo o balcão, ela se certificou que ninguém estava olhando e receosa pegou o cheque para si, o dobrando discretamente e colocando no bolso.
- Temos que ser rápidos, ou as bagagens vão ficar de fora do avião, documento em mãos. - peguei meu passaporte, identidade e as passagens. vendo a correria ja estava com tudo pronto nas mãos.
- Pode confirmar seu nome por favor?
- Rosenberg . - respondi com a voz pouco rouca
- Senhorita, pode fazer o mesmo por favor?
- .
A atendente carimbou algumas coisas e com um enorme sorriso no rosto nos devolveu os documentos.
- Podem despachar a bagagem. Obrigado e tenham uma boa viagem.
- Graças a Deus.
- Ela só precisava de um incentivo. - Afirmei.
- Bem ainda assim é errado subornar as pessoas, ela não devia ter aceitado - retrucou.
- Você queria que a gente perdesse o voo? Se você quiser pegar o caminho mais longo e o mais certo, embarque no próximo, mas eu vou agora.
me fitou indignada para não dizer puta e se virou de costas, auxiliando Ronald a passar as malas pelo escaneador. Não acredito que ela ficou brava só por causa disso, ela já devia saber que eu sou um babaca e me ignorar. Claro que ninguém tem que aguentar o cavalo aqui dando patadas sem parar, mas mesmo assim eu não falo as coisas por mal, quando eu vejo eu já disse.
Depois de passar as bagagens pelo raio-x foi a nossa vez.
foi na frente. Ainda sem falar comigo, tirou primeiro o colar que envolvia deu pescoço desde o Natal, depois a aliança que concordamos em usar mais cedo, os sapatos e passou sem maiores problemas.
Quando foi minha vez o negócio foi mais complicado.
Tirei a jaquetas, o cinto, o sapato, o cordão de ouro, a aliança e mesmo assim continuava apitando.
- Se o senhor puder tirar a blusa.
- Fala sério. - Sacudi a cabeça em negação, mas mesmo assim puxei a camisa por cima da cabeça, e mesmo assim ouvi o soar do apito novamente.
O segurança me revistou verificando os bolsos e tudo mais.
- Se continuar detectando algo suspeito ao atravessar, eu sinto muito, mas você não vai poder passar para a sala de embarque.
Não tinha mais nada pra tirar, enfiava as mãos nos bolsos procurando alguma coisa, e vi de lado algumas meninas que estavam atrás da gente piscar pra mim e também vi fechar a cara pra elas. Sorri.
- Aha! Achei. Tinha uma moedinha de 5 centavos presa no fundo do bolso, ao tentar pela enésima vez, pude atravessar o portal em silêncio finalmente.
Fiz um sinal com a cabeça para o segurança o cumprimentando, e fui colocando as coisas que estavam na cesta de volta ao lugar em que pertenciam, comigo.
- Boa viagem, Senhor , e para você também, Senhorita . Quando estiver de volta na cidade, não hesite em me ligar se precisar.
- Muito obrigado, Ronald. - Abriu um sorrisão para o meu motorista.- Você é demais!
Após me despedir rapidamente de Ronald adentrei mais a fundo da sala de embarque a procura de um lugar para sentar, ia na frente com braços cruzados, pisando forte e fazendo barulho a cada vez que seus pés encostavam no chão. Balancei a cabeça em negação, todo esse drama só porque a disse para pegar o próximo voo.
Por fim encontramos duas cadeiras separadas no ultimo corredor de espera, agora era só aguardar o nosso voo ser chamado.

's Pov
Nem saímos de New York e o já começou com as babaquices dele, se ele pensa que vai ficar me dando mal resposta pra qualquer coisa a viagem toda só porque estaremos perto da família dele ele está muito enganado, eu acabo com essa farsa a hora que eu quiser.
- Atenção. - O autofalante anunciava. - Primeira chamada para o Voo 10087. Conexão New York - Maryville, Tenessee.
Peguei minha bolsa de mão que repousava no chão e troquei olhares com .
- É o nosso. - Afirmou.
- É, eu sei.
- Embarque para a primeira classe guichê número 1. - A voz mecânica extremamente irritante voltou a informar. Caminhei em direção ao balcão com um número 1 enorme em cima, é claro que tinha que comprar passagens de primeira classe, claro que tinha.
20 minutos depois e já estávamos acomodados dentro do avião.
tirou do bolso uma caixinha pequena com alguns comprimidos e engoliu dois deles de uma vez, sem ao menos tocar em um copo de água. Me perguntei para o que seriam aqueles remédios, mas definitivamente não queria puxar conversa, já teria que interagir com ele o suficiente no momento em que pisássemos no Tenesse.
Admito, nunca tinha viajado na primeira classe. O cheiro do ambiente era uniforme já que não era tão abafado e apertado. Duas poltronas juntas ao invés de três, de fato era bem mais confortável, mas nem todos podem se dar o luxo.
- Ta demorando muito pra decolar. - mencionou ao meu lado tirando a jaqueta. - Está quente né?!
- Não. - Retruquei, não por implicância, mas porque realmente não estava calor, e olha que eu vestia um sobretudo que aquecia bastante, mas não tinha vontade de tirar.
- Porra, mas que demora. - ainda olhando pra frente pude observar de canto de olho ele tentando espiar o corredor.
- Devem estar embarcando as outras classes. - Disse como quem não quer nada, e realmente não queria, estava morrendo de tédio.
- Vou caminhar até a porta um pouco, já volto. - Tentou dizer, mas no minuto que ia se levantar as portas se fecharam, e as aeromoças começaram a dar as instruções.
- Você ta passando mal? - Perguntei depois da 5° vez que ele bufou passando a mão no rosto.
- Não, tô legal.
- Não parece. - Franzi as sobrancelhas.
O avião avançava pela pista de decolagem, a poucos metros de decolar. Esse friozinho na barriga no momento da decolagem era impagável, senti todas as vezes que viajei, acho que isso é uma das coisas que você não se acostuma nunca. Graças à Deus estávamos oficialmente no voando.
- São quantas horas de voo mesmo? - me questionou.
- 3 horas eu acho.
- Puta merda.
- Ta com medo ? - Cutuquei a costela dele com um sorriso maldoso.
- Só de morrer sufocado a não sei quantos mil pés do chão.
Claro! Como pude me esquecer? Ele tinha claustrofobia, se passou mal no elevador, imagina no avião.
- E agora? - Questionei.
- Esperar que o remédio para dormir faça efeito. - Soltou o ar pela boca. - Me distrai enquanto isso? - Pediu
- Não, mas obrigada pelo convite.
- Vai continuar bolada? Foi mal por mais cedo... Hoje nosso dia não foi dos mais românticos.
- Não mesmo.
- Desde que te vi não ganhei um beijo. - Resmungou e sorri sarcástica.
- E nem vai.
- Greve de beijo? Até quando?
- Greve de você. Pra sempre.
- Gatinha... - Começou e veio chegando no meu pescoço, coloquei a mão na cara dele e o empurrei pra lá.
- Me chamando assim que você não vai ganhar nada.
- Mulher é o diabo parceiro.
- Então arruma um macho. - revirou os olhos e tentava se distrair com o chaveiro de macaquinho.
Eu era orgulhosa, nunca neguei, mas sabia o quanto era ruim sofrer com uma crise, eu mesmo tinha crise de ansiedade. Titubiei ainda avaliando se devia ou não começar algum assunto. Me dei por vencida em poucos segundos.
- Então...- Comecei. - Se vamos fingir estar namorando a gente podia pensar em alguns detalhes. Por exemplo se perguntarem onde a gente se conheceu, temos que saber responder. voltou seu olhar pra mim e me lançou um sorriso suave.
- Na faculdade? - Deu a ideia.
- Pode ser...Você faz faculdade de que mesmo?
- Administração, e você?
- Relações Internacionais. - Ergueu as sobrancelhas assimilando a informação, era quase como se a gente tivesse no nosso primeiro encontro.
- E namoramos há quanto tempo? - Questionou coçando os olhos.
- Há 5 meses?! - falei incerta.
- Justo.
- Tem alguma coisa da sua família que eu deva saber?
- Hmm, não muito. Eles são parentes da minha mãe, morei um tempo com eles após ela falecer. Só eu. - Acrescentou. - O Sam não.
Assenti com a cabeça prestando atenção para que não esquecesse depois. - Eles são...como posso dizer? Humildes. - Assenti. - Eles podem ser um pouco "caipiras", mas não é por mal, é só...a realidade deles.
- Entendi, o contrário de você.
- Ei, eu sou humilde também ok? - se defendeu.
- "Tenho um motorista desde sempre" "Só viajo de primeira classe" "Posso subornar quem eu quiser"
- Para, , você sabe que não sou assim. Eu tenho um motorista, mas ele é funcionário do meu pai, desde que tirei a minha habilitação quase não o vejo, eu quase nunca viajo e a moça ia fazer a gente perder o voo.
- Ta bom, se você diz... continua a história. - Me olhou de rabo de olho sem saber se eu tinha engolido sua justificativa, todavia prosseguiu com as aulas.
- Meu primo e a irmã dele estarão nos esperando no aeroporto. Jason e Savannah.
- Jason e Savannah. - repeti a fim de decorar mais rápido.
- Tenho mais dois primos, mas esses não são irmãos. O Henrico que é filho do meu tio mais velho, Johnson. E a Leighton filha da minha tia que era gêmea com a minha mãe, Merida. Nós dois se parecemos muito você vai ver quando chegar lá.
- Deve ser bom ter uma tia parecida com sua mãe. Assim você nunca vai esquecer o rosto dela. - sorri acolhedora apesar de receosa por ter tocado em algo muito pessoal.
- É bom. - concordou retribuindo o sorriso. Suspirou fundo voltando o assunto. - E tem a minha avó, Lily.
- Então estou completamente apresentada a todos os membros.
- Creio que sim, não me lembro de mais ninguém...
- Mais alguma coisa? - Persisti.
- Só não fica muito perto do Henrico. Ele é invejoso e bem falso.
- Certo. - Afirmei vendo ele bocejar. - O remédio já tá fazendo efeito?
- Eu espero que sim... - Coçou o olho manhoso e não pude conter o risinho brotando no canto da minha boca.
- Tenta dormir, vou pegar uma coberta.
- Não precisa. - Afirmou mas eu já tinha pego a embalagem que disponibilizaram pra gente.
- Deixa de bobagem.
Abri o saquinho e tirei lá dentro uma manta bem fofinha e branquinha, ela era bem maior do que parecia ser.
- Ta cheirosa. - Comentou no momento em que joguei sobre nós dois
- Lógico que tá, você viu o preço da passagem? - revirou os olhos e deitou a poltrona, fiz o mesmo.
- Vou tentar dormir antes que eu pire.
- Eu também vou tentar dormir um pouco, acordei muito cedo.
- Boa noite. - Arregalei os olhos rindo e ele veio se tocar depois. - Bom dia. Ah, , eu tô grogue, da um desconto.
Gargalhei de leve e me apoiei em seu ombro, e tenho quase certeza que adormecemos ao mesmo tempo...

(...)


estava tão cansada, que nem se deu conta que havia dormido a viagem toda, salvo a vez que acordou assustada com o chute na poltrona que recebeu da senhorinha que estava atrás, a mesma se desculpou imensamente. - Muito mais do que o necessário - pensou.
Despertou- se realmente no momento em que a aeromoça passou avisando que o avião iria fazer aterrisagem, para que os passageiros tivessem tempo de se organizar e deixar a aeronave.
dormia em um sono profundo ao seu lado, estava em uma serenidade tão grande durante o sono que teve dó de acorda- lo.
- ? - o chacoalhou devagar. - Acorda, já chegamos. - O rapaz estava tão chapado de calmante vulgo remedinho para dormir, que apenas virou o rosto tentando se afastar do barulho que tentava o despertar.
chacoalhou mais forte dessa vez.
- Vamos logo, , já desceu todo mundo. - Arriscou uma mentirinha pra ver se ele se tocava, mas nada. teve então a ideia de pegar um dos copos com agua que a aeromoça havia entregue antes da decolagem e derramar um pouquinho no rosto do rapaz adormecido.
Aparentemente havia funcionado. esfregou a mão no rosto.
- Arg, o que foi?
- Chegamos, levanta.
- Já já. - Retrucou com a voz arrastada e voltou a dormir. já estava sem paciência, o avião já havia se chocado ao chão e estava quase no final da pista de aterrisagem.
Pegou o que restava de agua no copinho e jogou na cabeça dele. grunhiu de raiva.
- Ah não , tô todo molhado. - Resmungou sem ao menos abrir os olhos.
bufou e puxou a coberta com tudo.
- Levanta. Agora. - Esbravejou. E por um momento sentiu que estava fazendo papel de mãe e isso a deixou com mais raiva ainda.
- Eu não consigo levantar. - Respondeu lentamente. Era verdade, sentia moleza em todos os músculos. Dois comprimidos desse calmante valiam como um mata leão.
- Quanto mais você ficar deitado pior vai ser pra levantar. - se pôs de pé, como a maioria dos demais passageiros, e pegou a sua bolsa colocada anteriormente no bagageiro acima dos assentos.
As comissárias de bordo abriram a porta, liberando a passagem.
O subconsciente de tinha ciência de que precisava levantar, mas não tinha forças, estava dopado. Lutou contra si mesmo e num pulo se pôs de pé, esfregou as mãos no rosto com força para despertar e pegou sua jaqueta jogada no banco ainda meio zonzo.
- Vamos? - o questionou visto que eram praticamente os últimos que não haviam descido.
- Vamos. - seguiu quase caindo pelos cantos, nem quando estava bêbado perdia o senso de equilíbrio assim. - Nunca mais tomo esse remédio. - Afirmou, e subitamente percebeu que teria que fingir ser o amor da vida de em pleno Tenesse, e agora a atuação começaria pra valer.


Continua...



Nota da autora: (10/08/2017) Gente que loucura, que tanto de comentários, quanta gente lendo essa fic!!!!!!! Esperava uns 10 leitores no máximo, e tenho +40 só no grupo do Facebook, vocês são incríveis! Gratidão, só isso que tenho a dizer a vocês. Espero que tenham gostado do capítulo, vou tentar mandar a segunda parte dele o mais rápido possível pra que vocês não se percam na história. Demorei porque estou atolada de coisa na faculdade e ainda peguei ficstape pra fazer, vê se pode? Hauahaha Se você ainda não participa do nosso grupo no facebook, entra lá, só pesquisar por Co-Workers fanfic que você encontra, caso não ache entrr em contato comigo pelo meu Twitter @ahazzagazela e eu te mando o link. É isso, vejo vocês em breve, obrigado a todas que acompanham a fic, e obrigado Gaby, por betar essa história pra gente! ♥ xoxo.


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