Do You Know Who You Are?

Última atualização: 01/01/2020

Prólogo

Alguém
pronominal indefinido
1. uma pessoa ou alguma pessoa cuja identidade não é especificada ou definida.
"enfeitou-se para a."
2. pessoa importante, digna de consideração; pessoa de condição.
"lutava para ser a."


Em algum momento da vida, todos nós chegamos – ou, pelo menos, achamos que sim – no ápice da exaustão. Vivemos em constante afã, nos autopressionando simplesmente para termos a certeza de que seremos alguém nessa vida. Um “alguém” relevante, que faça a diferença. Ou, pelo menos um “alguém” bem sucedido o suficiente para que, de alguma forma, a sobrevivência seja garantida. Alguém.
Antes de escolhermos o que vamos ser, o que vamos fazer ou quem nós seremos, passamos por altos níveis de stress, mesmo tão jovens. Quem nunca, no ensino médio, viu todos os colegas decidirem o que fariam, mas sempre se sentiu tão perdido que, por mais que se esforçasse, nunca pensou que, de fato, escolheria algo que lhe faria deveras feliz? Ou então aquela cobrança de familiares e intrometidos, que às vezes passam dos limites e acabam nos incomodando muito mais do que deveriam?

“Amar alguém é ser o único a ver um milagre invisível aos outros.” – François Mauriac


Não basta descobrirmos que tipo de “alguém” somos. Também queremos amar alguém. Alguém com uma voz tão mansa que, nos piores tipos de tempestades, seu sotaque consiga inibir os mais altos trovões. Alguém com tanta delicadeza que, com apenas um toque, traga o céu para a terra. Alguém que, com apenas uma piscada bem humorada e seus comunicantes olhos verdes, consiga confortar a mais desagradável das situações. Que, com leveza e gentileza, me ensinou aos poucos o alguém que eu quero ser.

– Caralho! Que homem gostoso. – Disse baixo, segurando o microfone em meus lábios, e fechei os meus olhos com força, tentando ao máximo não rir.
Harry, por outro lado, arregalou os olhos no meio da música, tentando entender o que tinha acabado de escutar no ponto em sua orelha. Seus dedos deslizavam pelas cordas do violão enquanto olhava para os lados procurando por Mitch, que balançava a cabeça enquanto ria.
I’ve had a few got drunk on you and now I’m wasted... And when I dream I’m gonna dream of how you... Tasted!
– Saudades do seu gostinho. – Disse novamente no microfone e tampei os meus lábios, gargalhando contra a minha própria mão.
Clare que, até então, estava segurando o riso, gargalhou contra o microfone, deixando claro para Harry que todos estavam recebendo em seus pontos as mesmas “mensagens provocantes” que ele.


Capítulo 01

FLASHBACK – LONDRES, 10 DE JULHO DE 2019

– Hein? – Abri apenas um dos meus olhos, tentando me recuperar do pequeno susto que o barulho alto do despertador me dera.
Rolei na cama de forma preguiçosa, tentando voltar a cochilar, nem que fosse por, pelo menos, mais cinco minutinhos. Afinal... Era o meu aniversário! Eu poderia usar essa “desculpa” na clínica, caso me atrasasse.
Passaram-se apenas dois meses desde que terminei de desempacotar todas as minhas caixas, organizar as minhas coisas no novo apartamento e convencer a minha família – principalmente o meu pai – de que estava certa do que estava fazendo. Tempo o suficiente para que descobrisse que minha colega de quarto era tão doidinha quanto eu, o que nos fez amigas e confidentes nesse curto espaço de tempo.
– Parabéns... Pra... Você! – entrou no quarto nas pontinhas dos pés, arriscando um parabéns em português, o que me fez abrir os olhos imediatamente e começar a rir. – Nessa... dauta... – Eu me sentei na cama para observar minha colega de quarto, que entrava em meu quarto com um pequeno cupcake de cobertura rosa em suas mãos, franzindo o cenho para tentar lembrar a continuação da música.
Lá se foram meus cinco minutinhos extras de cochilo, mas estava tudo bem, visto que minha mais nova amiga estava se esforçando para que eu me sentisse no Brasil novamente, e claro, garantindo que eu fosse muito mimada antes de começar o dia.
Assim que me formei em Medicina Veterinária no Brasil, corri para encontrar empregos, ou pelo menos algumas clínicas que me dessem um pouco mais de experiência antes que eu me arriscasse a pegar casos sozinha e pudesse cuidar dos meus pacientes com precisão e certeza. Afinal, estávamos falando sobre vidas e pacientes que não possuem consciência e também não podem falar por si mesmos o que estão sentindo. No máximo, ocorre uma mudança drástica de comportamento e, quando percebida pelos donos, às vezes pode ser tarde demais. Infelizmente, nós, veterinários, ainda não éramos reconhecidos por muitos como médicos de verdade. Fazemos cirurgias, plantões... Trabalho duro. Cuidamos de feridas, machucados, doenças... Nós nos esgotamos ao máximo porque amamos os animais – sim, isso é verdade –, mas nem sempre os tutores nos reconhecem. Às vezes, se recusam a pagar consultas e nos questionam se realmente amamos os animais. Por essas e outras, decidi que me mudaria para Londres que, além de sempre ter sido minha cidade dos sonhos, também me daria oportunidades de trabalho incríveis e um pouco mais valorizadas do que no Brasil. Eu me inscrevi para algumas bolsas de pós graduação e, assim que descobri que Londres possuía a maior faculdade de Medicina Veterinária da Europa, soube que meu próximo objetivo seria uma aplicação para a Royal Veterinary College.
De primeira, não consegui bolsa alguma para a pós graduação, o que me deixou um pouco frustrada no início e diminuiu a minha força de vontade para mudar de país. Por sempre ter sido muito próxima do meu pai em grandes desabafos e conversas únicas, concordamos que eu seria sim muito mais feliz se saísse da zona de conforto e fosse procurar outros meios de exercer a minha profissão. Desde nova, tive muita dificuldade em descobrir quem eu era, do que eu gostava. Conforme fui amadurecendo, meus gostos também foram se modificando, às vezes me causando crises de identidade nas quais me questionavam qual era meu livro ou minha banda favorita. Demorei um pouco para descobrir que curso faria e, depois que finalmente comecei a frequentar a faculdade, comecei a criar o meu próprio padrão sobre quem eu queria ser. Fiz amigos que esbanjaram diversidade, alguns que apenas seguiam padrões impostos pela família e outros que não se importavam com quem eram, contando que tivessem um futuro estável pela frente. Fui um desses “milagres”, que se identificaram com o curso escolhido do início ao fim, mesmo com todas as dificuldades e todos os autoquestionamentos, como nos momentos em que eu me perguntava se era boa o suficiente para cuidar da vida de um animal. Quando adolescente e em meio de crises emocionais, tinha o costume de pintar o meu cabelo das cores que gostava, assim como também fazia piercings novos quando quis tentar ser “diferente”. Não que mudasse muito, mas ajudou a construir toda a minha personalidade. Ao completar a maioridade, fiz algumas tatuagens em meu corpo homenageando o que mais amava, incluindo meu cachorro, Angus, que sempre esteve do meu lado nos momentos mais difíceis. Ele, com certeza, teria auxiliado na minha escolha de profissão, visto que sempre procurei fazer o que era melhor para ele e tentar ajudar quando ele não estava se sentindo tão bem ou tão disposto.
Um pequeno filme passou pela minha cabeça enquanto me levantava para abraçar e agradecer a minha colega de quarto por ter acordado cedinho de manhã para que eu me sentisse amada e lembrada em meu aniversário.
! – Soltei uma risada baixa ao pronunciar o apelido da minha amiga, que me olhava na expectativa de receber um feedback sobre seu português. – Obrigada! Quem te ensinou a cantar ‘parabéns’? – Abracei a mesma com força, que deixou o pequeno cupcake em cima da cama ao me ver levantar, e retribuiu o abraço com toda força possível.
– Por nada! Eu pesquisei no Google, sabe? Tem a opção de ouvir como se pronuncia… Passei a noite ouvindo, não quero ouvir essa voz de robô nunca mais na vida. – Ela riu, fazendo um carinho leve nas minhas costas, soltando um suspiro no final. – Eu que agradeço, por ter me escolhido para ser a sua colega de quarto. Obrigada por me inspirar a ser uma pessoa melhor todos os dias, por me incentivar a levar a vida com leveza! Nos conhecemos a tão pouco tempo e você teve a proeza de se tornar uma das pessoas mais importantes da vida! Isso é um pouco estranho, inclusive. Acho que você me “abrasileirou”.
– Abrasilerei? Isso existe? – Ri, me afastando um pouco da mesma, que abriu um sorrisão ao pegar novamente o bolinho rosa. – Obrigada por isso tudo. Eu não sei o que di...
De repente, fui interrompida pelo pequeno bolo, que foi enfiado na minha boca por , rindo sozinha ao ver o glacê rosa sujar o meu rosto do nariz até meu queixo.
– Vai trabalhar, você está atrasada! – Ela disse rindo, tirando algumas fotos minhas retirando o bolinho da boca para provavelmente colocar em seus stories do Instagram.
– Meu turno! – Gritei, mastigando o pedacinho do bolo que tinha ficado na minha boca.
Corri para o banheiro e me troquei para completar mais um turno no Centro Médico Veterinário da Royal Veterinary College. Não recebi bolsa de pós graduação mas, com algumas cartas de recomendações dos meus antigos professores, pude dar início à minha residência. Quando completasse os dois anos, talvez eu conseguisse iniciar a pós graduação na universidade em seguida.

(...)


– Emergência! Emergência!
Arregalei os meus olhos ao ouvir os gritos do recepcionista da clínica e larguei o meu café na mesa do consultório em que eu, Finn e Lisa estávamos papeando sobre os planos do meu aniversário que, por sinal, eles dois e vinham planejando fazia semanas. Nós nos levantamos rapidamente e corremos de encontro ao nosso mais novo paciente, que estava acompanhado.
Finn Dandridge se formou na própria Royal, em 2017. Por já ter sido estagiário do Centro Médico Veterinário, foi convidado a se tornar residente pela própria universidade. De beleza claramente notável, Finn era carinhosamente apelidado de “McVet” por , que tinha uma queda imensurável pelo mesmo. Dandridge sempre fora receptivo e muito educado, inclusive foi o primeiro que conheci quando cheguei na clínica. Com seus cabelos loiros escuros, barba levemente rala e olhos azuis, Finn, com toda certeza, era um dos homens mais bonitos que já havia conhecido. Segundo Lisa Avery, sua inteligência era “de outro planeta”. Lisa sempre foi mais tímida, por outro lado. Costumava conversar mais com Henry por terem frequentado a mesma faculdade juntos e se conhecerem de vista. Avery e eu, além de termos a mesma idade, nos formamos em 2018, um ano após Finn. De olhos claros, cabelos loiros e sempre com um pequeno caderno e caneta em mãos, Lisa vivia correndo pelo hospital, tentando dar o seu máximo para ensinar aos estagiários procedimentos simples, porém nunca teve muita paciência para ensinar e sempre passava a bola para Finn que, por sua vez, amava se exibir e demonstrar todos seus conhecimentos para quem tivesse o interesse de lhe ouvir. Apesar de não ter muita paciência para os estagiários, sempre me tratou com muita delicadeza, sempre fora atenciosa e, por termos amizade em comum com Finn, eventualmente nos tornamos um trio.
Peguei meu estetoscópio e a caixa de emergência que estava localizada estrategicamente na sala de pós-operatório e corri até a recepção, podendo auxiliar meus colegas de residência com o que tivesse em mãos. Toda vez que uma emergência chegava ao Centro Médico, meu coração disparava de ansiedade, pensando em dezenas de situações que poderiam ter acontecido para que o animal chegasse às minhas mãos.
– Sem movimentos respiratórios e sem saída de ar. – Disse Finn ao examinar o grande Golden Retriever em nossa frente e, em seguida, abriu a boca do animal para checar se podia ter algo dificultando a passagem aérea.
Corri com a caixa emergencial e larguei a mesma ao lado de Finn, me aproximando com o estetoscópio para examinar qualquer atividade cardíaca. Assim que me abaixei, pude observar um enorme pedaço de carne ser retirado da boca do cão.
– Obstruções? – Encarei Finn, que balançou a cabeça negativamente e se prontificou a entubar o cachorro e começar com a oxigenação manual, ao mesmo tempo em que impulsionei meu corpo para frente, comprimindo a parede torácica do animal, começando a massagem cardíaca enquanto Lisa que, até então, conversava com os tutores para entender o que tinha acontecido, preparou todas as medicações e uma bolsa de soro para aplicar no animal.
– Sem alergias. Tutores relataram que estavam fazendo o almoço com amigos em casa, ele roubou a carne crua de cima do balcão e correu. Por já ter feito isso algumas outras vezes, não acharam que ele passaria mal e, por isso, demoraram uns minutinhos para entenderem que ele havia engasgado. – Lisa disse calmamente, aplicando todas as medicações.
Após longos e cansativos minutos, nossa RCP finalmente obteve efeito, fazendo com que Finn suspirasse de alívio. Eu me afastei do paciente, sentindo meus braços tremerem por conta do cansaço causado pelas compressões, e ajudei meus colegas a tirarem o paciente do chão. Assim que o mesmo acordou, o colocamos imediatamente na mesa do consultório, revestida por uma grande compressa verde e um colchão térmico para que o animal pudesse recuperar sua temperatura normal sem deitar no metal frio.
– Que susto, amigão! – Acariciei as orelhinhas do mesmo enquanto respirava ofegantemente. – Você vai ficar bem, vamos ajudar você. Nada de roubar comida dos seus papais! – Falei baixinho enquanto o mesmo voltava a dormir por conta das medicações dadas por Lisa.
Ao notarem a minha tranquilidade, os tutores começaram a se acalmar um pouco mais, assimilando, aos poucos, tudo que tinha acontecido e acostumando com a ideia de que tudo iria ficar bem.
– Eu sempre estou de olho nele! Sempre! Marley, você apronta demais! – A dona se desvencilhou do marido e se aproximou de nós, fazendo um leve carinho na barriga de Marley.
– Eu tenho um, também. No Brasil! Eles são assim mesmo, mas não podemos deixar os alimentos em cima de bancadas ou qualquer coisa do tipo. Eles são rápidos.– Parei o carinho por alguns segundos e peguei o termômetro, medindo a temperatura de Marley antes de voltar a conversar com a tutora, tentando mantê-la calma para que eu, Finn e Lisa pudéssemos terminar nossa consulta sem estresse adicional. – Vai ficar tudo bem com o Marley. Vamos observá-lo enquanto o soro não acaba e, como não houve nenhuma obstrução, vocês poderão voltar logo para casa. Pode ser que ele fique um pouco mais cansado que o normal, o que é considerável se pensarmos nas medicações que ele tomou hoje. Agora é só ter cuidado com o que ele pega, porque isso não vai fazer com que ele pare de roubar comida! – Soltei uma risada baixa, fazendo com que o casal desse uma pequena risada também.
Notei Finn e Lisa terminando a ficha de Marley. Questionavam o tutor do mesmo enquanto eu conversava com sua esposa. Abri um leve sorriso para os meus companheiros de residência, que sorriram de volta enquanto guardavam as medicações e preparavam tudo para que Marley recebesse alta.

(...)


– Vamos, ! Vai ser divertido! Passamos a semana inteirinha combinando isso! – resmungou, me vendo sentada em nosso sofá de toalha na cabeça e braços cruzados enquanto assistia ao jornal. – Está parecendo a minha vó. Cruzes.
– Sua avó é mais bonita! – Comentei baixinho e comecei a rir sozinha, descruzando os meus braços enquanto resmungava e se jogava ao meu lado, me encarando de expressão fechada. – Eu estou tão cansada… Hoje um Golden se entalou com um pedaço enorme de carne! Sabia? Meus braços estão tremendo até agora porque tivemos que fazer uma...
– Ai, . Pelo amor de Deus! Você precisa se movimentar. Hoje é seu aniversário, amanhã é o seu dia de folga! A partir da semana que vem, você vai ter, pelo menos, duas semanas de férias! Vamos comemorar seu aniversário sim! Agora levanta e vai se arrumar, porque o McVet já chega aqui.
– Lisa também vem! Eu tenho quase certeza de que eles dois já ficaram, sabia? Ou que ela sabe um podre daqueles sobre ele. – Fiz a minha melhor cara pensativa e me levantei, correndo até a cozinha para preparar um café forte de máquina.
– Eu já descobri tudo! Pensa comigo! – veio atrás de mim enquanto levantava o indicador antes de seguir com a sua “descoberta”. – Ele tem o pinto pequeno.
Soltei uma daquelas minhas gargalhadas estrondosas, com direito a um grito fino no final. Tampei a minha boca imediatamente e peguei a caneca lotada de café, fechando os meus olhos para tentar parar de rir.
– É sério! O cara é lindo, inteligente pra caramba… Às vezes, sério, às vezes, bem humorado... Sempre conversa numa boa e todas as conversas conseguem ser agradáveis… Ou ele tem pinto pequeno, ou... Tem pinto pequeno. Meu Deus, ele tem o pinto muito pequeno. – disse completamente séria enquanto cruzava os braços e balançava a cabeça – É hoje que eu descubro.
! Sem condições. Eu vou me arrumar. Você devia fazer o mesmo! – Terminei todo o café e coloquei a caneca na pia. – Vai tomar um banho e tirar toda essa sujeira. Passou o dia na faculdade e não tomou nenhum banho!
– Eu passei o dia lendo artigos, meu amor. Nem suei. Sujeira não existe por aqui!
fazia Direito em um campus pertinho do CMV da Royal Veterinary College e, geralmente, nossos horários batiam. Como apenas possui carta, me levava de carona quando podia para os lugares.
Após tomar meu banho, resolvi escolher minha roupa. Coloquei uma pantalona preta com uma camiseta branca por baixo e um tênis também preto. Vesti a minha jaqueta e corri para o quarto de , esperando que a mesma me maquiasse para que pudéssemos sair.
– Que mulherão, porra! É hoje, Londres! É hoje que nossa brasileirinha acaba com os corações da cidade! – Ri ao ouvir a me elogiar e balancei a minha cabeça, dando uma voltinha pequena para mostrar todo o look. – Não vou de salto. Finn disse que gostaria de nos levar para uma balada diferente... Cirque Le Soir.
– O que ele quer fazer lá? – arregalou os olhos e deu de ombros, soltando uma risadinha baixa. – Hoje é... Noite de drags! Sempre quis! Mas sempre que fui, eram apresentações de mágicos. Acabei enjoando.
– Drags? Eu não acredito. Essa noite vai ser do caralho. Esse lugar é temático, então?
– Sim! É incrível, ! Vamos beber horrores.
Começamos as nossas maquiagens e, para combinarmos com a noite, colocamos algumas pedrinhas brilhantes no canto dos olhos. Alguns minutos depois, a campainha tocou, indicando que Finn e Lisa haviam chegado e estavam prontos para a noite. Assim que ouvimos o barulho estridente, e eu corremos do quarto para a sala, em seguida abrindo a porta para que Finn e Lisa pudessem entrar em casa.
– Mulheres! Hoje é dia de levar a para a noite. – Finn disse bem humorado após abrirmos a porta e todos nos cumprimentarmos.
Nem parecia o mesmo rapaz sério retirando um pedaço enorme de carne crua da garganta de um cachorro. e Lisa gritaram em resposta ao mesmo tempo enquanto eu fazia pequenos movimentos no estilo bregafunk. Foi quando todos pararam para me encarar e, assim que eu parei os passos envergonhada e cruzei meus braços, meus amigos começaram a gargalhar.


Capítulo 02

Havíamos chegado ao Cirque Le Soir havia, pelo menos, uma hora e, para minha surpresa, tinha tocado todos os tipos de música, incluindo os funks chicletes que tocam o tempo todo no Brasil. Claro, cantarolei e ensinei dancinhas para os meus amigos, que fizeram questão de que eu repetisse o passo que havia feito antes de sairmos de casa. O lugar era extremamente diferente de qualquer outro em Londres. Colorido, com uma temática elegante de circo, jogos de luzes pelo ambiente inteiro e pessoas de todos os tipos conversando e interagindo, inclusive pessoas fantasiadas e produzidas. Por ser em Londres, a casa sempre enchia graças aos turistas curiosos que sempre ouviam falar desses famosos shows. Segundo Lisa, eu era a única do mundo que não conhecia o lugar. O tema da noite era “Rock In Circus”, a minha cara, como boa roqueira clássica. Desde pequena, ouvia rock com o meu pai no carro, então Guns N’ Roses, Bon Jovi, Aerosmith, AC/DC e outras bandas, com toda certeza, definiam meu gosto musical.
– Eu não acredito que pegamos esse tema. , é a sua cara! – Lisa disse extasiada ao olhar em volta enquanto andava para a reserva VIP que Finn havia feito. – Esse dia está ótimo. No meu último aniversário, meu ex me deu um fora... Durante o sexo. Péssimo.
– Lisa? – Arregalei os meus olhos, tentando ao máximo não rir da história da minha colega e, aparentemente, e Finn faziam o mesmo.
– Minha ex jogou as minhas roupas pela janela. – Finn comentou, fazendo com que cessasse as risadas e apoiasse o cotovelo na mesinha, interessada no assunto.
Dandridge, ao perceber a mudança de , riu baixo e balançou negativamente a cabeça.
– Não adianta me olhar assim, não vou contar o resto. – E então deu uma piscadela leve para minha amiga, que entreabriu os lábios, incrédula, arrancando gargalhadas minhas e de Lisa.
– Vou pedir todo tipo de bebida possível. – Comentei e me levantei da mesa, deixando os meus colegas de residência nas mãos de .
Por ser meu aniversário, insistiram na entrada para que eu usasse uma pulseira rosa neon, que me diferenciava dos outros “clientes” do local. Eu me aproximei do bar e pedi alguns shots para o bartender, que me olhou e abriu um sorriso leve assim que reparou a pulseira.
– Você está com Finn, certo? – O rapaz perguntou, me fazendo sorrir educadamente enquanto concordava com a cabeça e folheava a cartela de bebidas.
– Sim! Vocês são amigos? – Perguntei, fechando a cartela e pegando os shots que havia pedido anteriormente – Obrigada.
– Somos irmãos, na verdade. – Confessou e deu uma risada, apontando para os shots em seguida. – Esses shots são por minha conta então. Feliz aniversário! Finn fechou um pacote para vocês. Vou começar a encaminhar as bebidas.
Arregalei levemente os meus olhos e segurei um dos copinhos pequenos, virando todo o líquido de uma vez só. Já que Finn Dandridge havia planejado a noite toda, não iria dividir meus presentinhos de aniversário com ninguém. Voltei para mesa com apenas dois copinhos em mãos, mas virei todo conteúdo antes mesmo de me sentar.
– Seu irmão é gatinho.
– Philip? Ele conseguiu isso tudo pra nós! – Finn comentou feliz e olhou para Lisa. – Depois que comentei que a Lisa estaria conosco.
– Lisa?! Danada pra caramba! – comentou, exaltada, procurando sentada por alguém que lembrasse Finn no bar.
– Não é todo dia que tem um gostoso me querendo. O que posso fazer além de sentar? – Lisa comentou bem humorada e Finn arregalou os olhos, balançando a cabeça.
– Sentar no quê, menina? Sentar no quê?!
– No seu..
Então Lisa foi interrompida por Phillip e alguns personagens da casa que traziam bebidas de vários tipos, inclusive algumas garrafas de champanhe, com faíscas de velas acesas saindo de dentro das mesmas. Todos soltamos gritinhos, extremamente felizes e gratos pela chegada do álcool.

(...)

Is this the real life? Is this just fantasy? Caught in a landslide, no escape from reality...
– Eu não acredito! – Gritei, completamente bêbada ao ver a próxima drag subir pelo palco ao som de Bohemian Rhapsody com o rosto maquiado, com cílios postiços e feição extremamente parecida com a de Freddie Mercury.
O performer estava com uma jaqueta preta brilhante, sem blusa alguma por baixo, exibindo os pelos em seu peitoral. Usava uma calça preta com rasgos no joelho e uma incrível bota de salto, o que me fez levantar o meu sexto copo de bebida ansiosa pelo que viria em seguida.
Open your eyes, look up to the skies and see...
I'm just a poor boy, I need no sympathy… – Cantarolei baixo, sentindo todos os pelos do meu corpo arrepiados.
Olhei para o lado e vi que todos os meus amigos estavam encantados, observando o palco.
– Porra! – Lisa gritou, também levantando seu copo de bebida. – Ai, o calor até bateu.
Because I'm easy come, easy go, little high, little low, anyway the wind blows, doesn't really matter to me... To me...
Mama! Just killed a man! – Fechei os meus olhos e comecei a gritar a letra da música com todas as forças que tinha e da maneira mais sóbria que pude fingir.
Era de arrepiar todos os pelos do corpo as vozez de todas as pessoas do local cantando essa música tão conhecida.
– Harry! Achei que não vinha, porra. Phillip reservou o último camarote para você. – Finn começou a falar com alguém atrás de mim.
Franzi o meu cenho e me virei rapidamente, tentando reconhecer quem estava estragando esse momento tão único.
– Caralho, Finn está falando com Harry Styles. – Uma extremamente bêbada disse, de boca aberta, enquanto observava o rapaz que havia acabado de chegar.– Acho que eu to passando mal.
– Harry Styles? – Comentei baixo, me posicionando ao lado da minha colega de quarto para tentar reconhecer o rapaz que, ao nos ver, abriu um sorriso lindo e estendeu a mão para nos cumprimentar.
– Olá, prazer em conhecer vocês. Sou Harry.
De bocas abertas, eu e retribuímos o aperto de mão de Harry Styles. Harry. Styles.
– Harry. Styles. – Repeti o que vinha pensando sozinha e, quando me dei conta, estava encarando o rosto lindo e bem humorado de Harry.
Ele, percebendo que não estava tão sóbria, deu uma risada alta, balançou a cabeça dizendo algo – não consegui prestar atenção, pois ainda estava perplexa – e saiu andando, aparentemente para o seu próprio espaço VIP. Só então pude notar que havia outras pessoas junto a ele, porém não tão educadas para nos cumprimentarem assim como Harry havia feito.
– Aquele é Harry Styles? – Lisa, um pouco atrasada e tão alcoolizada quanto eu e , se virou por completo, também relaxando o queixo, deixando os lábios entreabertos.
Finn gargalhou, olhando para a tela de seu celular, e foi quando acordamos do transe e notamos que ele havia tirado uma foto de nós três na exata mesma posição e com a mesma feição de choque no rosto. Três idiotas.

(...)


I see a little silhouette of a man, scaramouche, scaramouche, will you do the Fandango? Thunderbolt and lightning very, very frightening me...
Em um momento, eu estava chocada, olhando o homem mais lindo do mundo sorrir e apertar a minha mão e, no outro… Eu estava no palco. Não sei como e não recordo o momento em que cheguei ao lado de Freddie Mercury, mas tinha dois palpites. Primeiro: eu morri com a surra de beleza e gentileza de Harry Styles e fui parar no céu, ao lado de Freddie e ao som de Bohemian Rhapsody. Segundo: Finn planejou isso a noite inteira e me deixou bêbada o suficiente para que eu subisse no palco para cantar eu mesma a própria Bohemian Rhapsody.
Segurando o microfone em mãos, me dei conta de que meu segundo palpite era o correto.
Galileo! Galileo! Galileo! Galileo! Galileo, Figaro! Magnifico!
Quando percebi, eu e o performer travávamos uma batalha de “Galileos”, eu fazendo a voz mais aguda e ele, claro, a mais grave. Ousei olhar para Harry e suas companhias, que obviamente estavam se divertindo às minhas custas.
I'm just a poor boy, nobody loves me. – Cantei sozinha no microfone, piscando os meus olhos rapidamente, me convencendo de que tudo não se passava de um sonho. – He's just a poor boy, from a poor family, spare him his life from this monstruosity.
Várias outras drags invadiram o palco para cantar a parte final e me deixar mais confusa, ao que parece. Senti tudo começar a rodar e comecei a gargalhar enquanto fechava os meus olhos e levantava os braços. Eu estava dançando, completamente entretida, enquanto era girada de um lado pro outro por todas os novos performers que tinham acabado de invadir o palco, assim como eu.

(...)


Peruca batendo aqui, peruca batendo ali, a música finalmente havia acabado e, por sorte, Finn já estava posicionado ao lado do palco para me levar de volta para Harry Styles. Mesa com as minhas amigas, foi o que eu quis dizer.
– Gostosa! – Ouvi Lisa e gritarem em uníssono assim que cheguei.
Notei que tudo estava diferente e franzi meu cenho, confusa, tentando entender o que havia acontecido. Foi quando se prontificou para explicar assim que percebeu minha confusão.
– Finn juntou os camarotes. Estamos juntos com o seu namorado de adolescência.
Percebi Lisa tampar a boca com as mãos e arregalei meus olhos, tentando me certificar de que ninguém tinha escutado o que havia deixado “escapar” .
– Querida… Sua colega de quarto soltou o verbo. Você saiu por cinco minutos e, por cinco minutos, ela falou sobre como você é linda, e especial... E o orgulho que você faz ela passar, mesmo só te conhecendo a dois meses.
Comecei a gargalhar vendo com os olhos marejados, esbanjando emoção. Fiz biquinho, ouvindo todo amor da minha colega de quarto, e abracei a mesma, dando um beijinho leve em sua bochecha como agradecimento. Em dois meses, nos tornamos o mais próximo que tínhamos de família, considerando que a minha estava no Brasil e a dela, em uma cidadezinha no interior do país, visto que ela havia se mudado para Londres justamente pela faculdade.
– Ei, você voltou! – Ao ouvir aquela voz gostosa e inconfundível, me afastei um pouco de para poder observar Harry, que sorria com as pupilas um pouco mais dilatadas por conta do álcool. – Conversamos sobre você, acho que podemos ser amigos. A menos que tente explodir o meu micro-ondas também. – Ele comentou bem humorado e se sentou, beliscando algum petisco que haviam pedido enquanto eu estava fora.
Entreabri os meus lábios incrédula e encarei Lisa e Finn, que aparentemente também tiveram um momento – em cinco minutos – para contar do meu desastre na minha primeira semana de residência.
– O que quer que tenham dito, eu nego. – Arqueei as sobrancelhas, pegando uma garrafa de água para tentar diminuir a tontura causada por toda bebida. – Foi apenas uma vez! Vou contar, já que insiste. – Revirei meus olhos dramaticamente, como se Harry realmente tivesse me pedido para contar o que tinha acontecido.
Lisa e Finn se colocaram prontos para ouvirem a história, certificando-se de que eu não pularia nenhuma parte da mesma.
– Eu havia acabado de chegar do Brasil...
– Ah! Sal-da-djee! Tudo bain? – Harry arriscou as palavras que lembrava em português, o que fez meu coração dar uma leve disparada.
Abri um sorriso leve, concordando com a cabeça enquanto observava a feição feliz do rapaz por ter lembrado como dizer “saudade” e “tudo bem”. Havia esquecido por uns momentos de que sempre fui admiradora de seu trabalho, desde o One Direction, e que inclusive tinha ido tanto no show da banda no Brasil como em seu show solo em 2018.
– Beleza! – Respondi em português, lembrando que “beleza” havia sido uma das palavras que ele aprendeu para falar em seu show junto com as que tinha acabado de pronunciar.
Ao ouvir minha resposta, Harry sorriu largamente e concordou com a cabeça, reconhecendo a palavra.
– Isso está demorando demais. Eu vou contar. – Lisa levantou e se posicionou na frente de Harry, que me encarou divertido e passou a encarar Lisa enquanto tomava alguns goles de bebida. – Nós tinhamos acabado de chegar para o nosso primeiro dia de residência, e havia levado um pacote enorme de pipoca de micro-ondas. Ah, somos veterinárias, por sinal. Foi onde conhecemos o Finn. Mas acho que você já sabia.
– Eu ia usar pra fazer amizades. Todo mundo gosta de pipoca e, depois de um dia cheio, não via porque não...
– Você queria comprar amigos com pipoca! – acusou, se divertindo da situação
– Exato! – Lisa concordou com e balançou a cabeça, já começando a rir enquanto falava. – Começamos a sentir aquele cheiro gostosinho de pipoca invadir o ar. E começaram a gritar que tinha uma emergência chegando. Corremos para atender, menos . Era um filhote de gato que tinha acabado de vomitar uma bola de pêlo, mas a dona não sabia e achou que podia ser algo sério! – Lisa continuou rindo e cobriu o rosto com as mãos, tentando lembrar a continuação da história. – Eu e Finn atendemos a consulta normalmente e nem sequer sentimos falta da no consultório. Até que escutamos estouro, seguido de um grito!
Harry sorria divertido, aproveitando a companhia dos colegas que tinha feito através de Finn enquanto eu estive fora, e cruzou os braços, esperando a parte final da trágica história do meu primeiro dia de residência.
– O que você fez, ? – Ele perguntou, percebendo que Lisa havia parado a história justamente para que eu continuasse.
Suspirei, bêbada, ao ouvir meu nome ser pronunciado por sua voz rouca e sotaque forte e entreabri os meus lábios, notando que, em tão pouco tempo, ele havia se esforçado para aprender nossos nomes.
– Eu abri o saco antes de colocar a pipoca no micro-ondas porque comprei a pipoca errada, sem manteiga! Sem manteiga fica borrachuda. Abri o pacote, coloquei um colherão de manteiga e coloquei no micro-ondas. E foi quando o primeiro milho estourou.
– Estourou junto com a manteiga na portinha do micro-ondas! – Lisa gritou, fazendo todos os acompanhantes de Harry, dos quais, até então, eu havia esquecido, nos encarassem divertidos, querendo também saber da história enquanto todos nós gargalhávamos, inclusive Harry, que não conseguia acreditar em tamanha idiotice.
– Eu nunca mais comi pipoca. Pelo menos, não depois da chamada que levei da diretoria. – Comentei bem humorada e vi balançando o rosto de um lado para o outro, no ritmo da música.
Quando o resto do grupo notou completamente distraída, fazendo um tipo de dança “facial”, voltaram a gargalhar mais alto do que a própria música ambiente.


FIM DO FLASHBACK.


Capítulo 03

– Berinjela? Você... Tem certeza? – encarava o pote em cima do balcão da cozinha, com o antepasto recém preparado. – Parece minhoca... Minhoca estragada, . Isso está um horror. – E com a sua melhor expressão de nojo, minha colega de quarto pegou o pote de vidro, balançando o antepasto de um lado pro outro. – Você é a vergonha da profission! – Disse, me fazendo gargalhar com sua imitação de chef Jacquin, o mais novo meme do Brasil que, obviamente, eu havia mostrado várias vezes para e ela conseguia imitar sem defeito algum.
– É gostoso! Sem preconceitos com a minha berinjela, por favor. Ele vai gostar, eu acho. Finn disse que ele é mais chegado nesse tipo de coisa. – Franzi a ponta do meu nariz, encarando , que mantinha a feição de nojo no rosto. – !
– 5 libras e eu provo.
– Você vai provar de graça.
– 10 libras.
– De graça!
E então retirei o pote de antepasto das mãos de que, no impulso, pegou um garfo de cima da pia e o mergulhou no pote, levando o conteúdo dentro da boca e arregalando os olhos nos segundos seguintes.
– Precisa de mais azeite! Mas... Até que é gostoso. – Ela disse, mastigando devagar para tentar saborear o molho.
– Eu sei! – Arregalei os meus olhos em confirmação e coloquei o vidro novamente em cima do balcão. – Só não é bonito. Não sei o que fazer pra tirar a aparência de minhoca.
– Temos que fazer uma faxina em casa… Sabe, ele é famoso. – disse, mudando de assunto ao terminar de mastigar, e olhou em volta.
– Merda. Não podemos ficar nervosas todas as vezes em que Finn disser que Harry vai sair conosco… Se ele quiser ser nosso amigo, vai nos aceitar do jeitinho que somos.
– Bagunceiras e preguiçosas. – Afirmei, abrindo um sorriso leve ao encarar .
– Bagunceiras e preguiçosas... Porém lindas e educadas. – disse, me fazendo rir enquanto colocava mais azeite no antepasto de berinjela. – Eu acho.
– Você sabe que vamos limpar tudo mesmo assim, né?
– Ah, eu sei.

(…)


– Meu Deus… O que aconteceu aqui?
No momento em que escutamos a porta ser aberta, eu e levantamos nossas cabeças e encaramos Finn, que entrava perplexo com a limpeza do apartamento, trazendo consigo algumas sacolas de mercado.
– Nosso chão… Ele existe!
– E é laminado de madeira! – Pisquei meus olhos rapidamente, fazendo charme para Finn, que riu alto e balançou a cabeça.
– A madrasta má vai ficar encarando as Cinderelas limparem a casa? – colocou as mãos na cintura, deixando um dos panos que usava cair no chão.
Ao ouvir o questionamento, Finn andou até e depositou um beijo leve em sua bochecha, apanhando o pano do chão e começando a ajudar na limpeza de casa após me cumprimentar também.
– Acabei! – Gritei cansada ao terminar de limpar o último cantinho da casa.
Alguns segundos depois, a campainha tocou, indicando que ou Lisa ou Harry haviam chegado.
– Finn, você recebe! Eu to podre! – Joguei a chave de casa para Finn, que pegou a mesma no ar enquanto eu corri para o banheiro.
Demorei pelo menos uns vinte minutos no banho, tentando relaxar após a faxina que fizemos no apartamento. Eu me sentia um pouco incomodada por estar agindo “fora do normal” por Harry, que provavelmente só estava querendo curtir um tempo com os novos amigos que fizera no Cirque Le Soir algumas semanas atrás, no meu aniversário. Sempre tive muita dificuldade de conversar com pessoas “importantes”, isso tudo por conta da ansiedade. É como se meu coração tomasse conta de toda a minha fala com seus rápidos batimentos por minuto. Minhas mãos ficavam trêmulas facilmente e meu apetite se abria de uma forma impressionante.
– Desculpe! Me desculpe... Eu não...
– Harry! – Arregalei os meus olhos ao ver o mesmo, que tampou os olhos com as mãos cheias de anéis nos dedos.
– Eu não vi nada. Juro. ... – E então Harry começou a rir, exibindo suas covinhas perfeitamente marcadas em suas bochechas. – achou que você já tinha terminado, eu não quis…
– Está tudo bem. – E, domada pelo nervoso, comecei a rir, tampando o meu corpo com as mãos. – Eu vou dar uma corrida. Conta até cinco e abre os olhos. Pervertido!
– Ei! – Mesmo com os olhos fechados, pude notar suas sobrancelhas se contraindo, como se não fosse justo o que eu havia acabado de dizer. – Um… Dois...
Dei um beijinho rápido em sua bochecha para cumprimentá-lo e peguei a toalha rapidamente, correndo para fora do banheiro o mais rápido que pude. Disparei pelo corredor até chegar em meu quarto e pude ouvir as gargalhadas de Finn, Lisa e que, com toda certeza, me viram passar mais rápido de carro de Fórmula 1 – e pelada.


Harry Styles

Ao finalizar meu segundo álbum, tive a oportunidade de tirar uma folga mais longa, aproveitando para encontrar com alguns amigos e familiares antes que eu sequer pensasse em sair em turnê. Cada detalhe do novo álbum fora feito com extrema cautela, tudo do jeito que eu quis, com as minhas próprias letras – assim como o primeiro. Estava dando tudo de mim para expressar as minhas melhores – ou piores, em alguns casos – experiências através das minhas músicas. Era tudo sobre fazer sexo e se sentir triste.
Guardava um carinho inexplicável por tudo que passei pela One Direction. Afinal, foi a minha oportunidade de engatar na vida que tinha, mas não podia negar que era mais feliz com as minhas próprias letras e meus próprios sentimentos envolvidos.
Finn Dandridge fora meu vizinho por muito tempo, em Holmes Chapel. Fomos bons amigos de infância até que, alguns meses antes da minha audiência para o The X Factor, Finn se mudou para Londres com os pais. Em 2013 – auge do sucesso da banda – reencontrei Finn, que estava no segundo ano da faculdade de Medicina Veterinária. Desde então, conversávamos e saíamos sempre que podíamos, e era como se nossa amizade nunca tivesse mudado. Finn fazia com que eu me sentisse em casa e, na maior parte das vezes, colocava os meus pés no chão quando necessário. Era como se fosse um irmão, o que me causava arrepios por lembrar que seu primeiro beijo foi com Gemma, minha irmã mais velha.
– Desculpe! Me desculpe... Eu não... – Despejei as palavras, notando que ainda estava no banheiro quando abri a porta e que, aparentemente, havia esquecido de trancá-la.
– Harry!
– Eu não vi nada. Juro. ... – Comecei a rir e tampei meus olhos com as duas mãos. – achou que você já tinha terminado, eu não quis… – Tentei me explicar, mas logo fui interrompido pela voz doce da garota.
– Está tudo bem. Eu vou dar uma corrida. Conta até cinco e abre os olhos. Pervertido!
– Ei! – Juntei as sobrancelhas, fingindo estar ofendido com que havia acabado de dizer. – Um… Dois… – Comecei a contar devagar, pensando seriamente em tirar as mãos do rosto para dar algum tipo de susto em , mas não queria que ela me levasse a mal.
De repente, senti seus lábios macios em meu rosto e entreabri os meus olhos de leve, movimentando os meus dedos para o lado – como havia pensado em fazer anteriormente –, mas tudo que vi foi um borrão branco causado pela toalha e uma bundinha redonda correndo banheiro afora. Doida! Alguns segundos após fechar a porta, ouvi as gargalhadas de Finn, e Lisa, indicando que acabara de passar correndo pelos mesmos.




So no one told your life was gonna be this way! – Fechei os meus olhos enquanto berrava a letra de I’ll Be There For You, balançando uma garrafa de vinho vazia no ar.
Finn surgiu ao meu lado, batendo quatro palminhas no ritmo da música, acompanhado por Harry, que estava do outro lado da sala.
Your job's a joke, you're broke, your love life's D.O.A! berrou em resposta, apontando para Lisa em seguida.
It's like you're always stuck in second gear... – Lisa pegou o controle da televisão, fazendo de microfone enquanto subia no sofá e cantava de forma esganiçada.
When it hasn't been your day, your week, your month or even your year, but… – Finn puxou um dos meus braços, me fazendo dar um giro enquanto balançava animadamente de um lado para o outro, me arrancando gargalhadas.
I'll be there for you when the rain starts to pour. I'll be there for you like I've been there before. I'll be there for you 'cause you're there for me too...
Cantamos todos juntos, estalando os dedos e balançando nossos corpos bêbados de um lado para o outro. Finn parou de me girar e balançou a cabeça, olhando para cima por alguns segundos. Havia bebido demais.
– Glicose, glicose! – Comecei a gritar, ainda balançando a garrafa de vinho.
– Vinte libras se ele vomitar. – Lisa estendeu a mão para , que abriu um sorrisinho e retribuiu o aperto, selando a aposta.
– Cara… – Harry prensou os lábios, tentando não rir ao ver a situação do amigo. – Você quer um pouco de água?
Andei rapidamente para a cozinha, sentindo o chão extremamente fofo. Era como se estivesse andando sob as nuvens… Estava bêbada. Procurei por doces nos armários e me dei conta de que eu e precisávamos urgentemente de uma ida ao mercado, visto que tudo que tínhamos comemos no final de semana passado, assistindo filmes na Netflix.
– Isso serve. – Comentei comigo mesma, franzindo os meus lábios ao pegar o pote de vidro de cima do balcão.
Peguei um garfo do escorredor e voltei para a sala, encarando Finn.
– Finn... Você precisa comer.
– O que é… …. Ah não! – gritou em choque e tampou a boca com as mãos, como se também estivesse prestes a vomitar, mas já era tarde demais.
Eu já tinha enfiado uma boa quantidade do antepasto de berinjela na boca de Finn, que arregalou os olhos ao encarar , que berrava. Aos poucos, Finn foi direcionando o seu olhar para o pote em minhas mãos e, assim que o fez, disparou correndo para o banheiro.
– Vinte libras! – Lisa gritou em comemoração enquanto estendia sua mão para .
Harry encarou o pote na minha mão enquanto eu permanecia estática, encarando a porta do banheiro.
– Não é tão ruim. – Harry comentou após passar o indicador no antepasto e enfiar o mesmo na boca. – Eu amo berinjela.
– Fina ou grossa? – perguntou, recebendo uma leve cotovelada de Lisa, que segurava o riso.
– Depende. – Harry respondeu, arqueando as sobrancelhas enquanto sorria e tomava o garfo da minha mão para comer o antepasto puro.
– Vou checar o Finn. – disse assim que entregou uma nota de vinte libras para Lisa, que comemorou por alguns segundos enquanto seguia para o banheiro.
– To rica e vou embora. O Marty está sozinho em casa.
– Marty?! – Harry olhou para Lisa, deixando o antepasto de lado.
– Meu amor! Ele é a coisa mais linda do mundo… – Disse um pouco arrastada e me joguei no sofá, encarando o teto por alguns segundos.
– Meu filho! – Lisa comentou, pegando suas chaves da bolsa enquanto deixava um beijinho em minha bochecha. – Ele é fofo.
– Você tem um filho? Parabéns! – Harry disse um pouco confuso mas sem deixar de parabenizar Lisa.
– É um cachorro. – Sussurrei, soltando uma risadinha baixa.
– Ah...
Lisa se despediu de nós e foi embora saltitante, ainda feliz por ter ganhado a aposta com . Eu e Harry ficamos mexendo em nossos celulares por alguns minutos antes de ele tampar a tela do meu com uma das mãos.
– Ouve. – Ele disse baixinho e colocou o indicador nos lábios, pedindo para que não fizesse barulho.
Em seguida, pude ouvir risadinhas de Finn e ecoarem através da porta do banheiro.
– Eu não acredito! – Disse chocada e Harry arregalou os olhos, tampando a minha boca por alguns segundos.
Finn e tentaram conter as risadas enquanto saíam do banheiro e andavam na pontinha dos pés para o quarto de , que deixou um gemido baixo escapar após um leve estrondo.
– Você mordeu meu lábio!
– Foi sem querer, achei que a porta estivesse aberta.
Arregalei meus olhos encarando Harry, que se divertia ouvindo o casal em sua pré-noite de sexo. Assim que ouvimos a porta bater, Harry retirou a sua mão da minha boca para gargalhar enquanto apoiava a mesma mão na barriga.
– Ele vomitou?! – Eu me levantei, correndo na ponta dos pés até o banheiro.
Tudo estava em perfeito estado a não ser pela calcinha de , que estava jogada ao lado da privada. Catei a calcinha com a ponta dos meus dedos e franzi o nariz, voltando para o corredor enquanto chacoalhava a calcinha no ar.
...
– Não é minha! – Disse ao ver a cara de choque do rapaz a minha frente.
Andei até a porta de e deixei a calcinha pendurada na maçaneta. Logo, Harry veio atrás para checar a situação.
– Lisa nunca ganhou vinte reais justamente… – Suspirei me virando para Harry, que tirou uma foto minha ajeitando a calcinha na maçaneta e enviou para Finn.
– Provas de que não fui eu, nem Lisa. – Ele riu baixo e guardou o celular no bolso. – Obrigada por me receber, a noite foi incrível. Sua berinjela estava maravilhosa.
– Fina ou grossa?
– Grossa.
– Ah! – Arregalei os meus olhos, achando que sua resposta seria misteriosa como da primeira vez. – Você está indo embora?
– Eu acho que sim. – Ele franziu o cenho, pegando as chaves do carro no bolso.
– Você precisa ir?
– Preciso.
E então suspirei, encarando Harry como se eu fosse um cão que havia caído da mudança.
– Você bebeu bastante.
– Tem razão, eu posso esperar um pouco.
– Ufa. – Segurei uma de suas mãos e puxei Harry de volta para o sofá, que apenas me seguiu e se jogou nas almofadas. – Podemos assistir algum filme.
– Deveríamos procurar por alguma comédia romântica no Netflix e ver o que achamos?
– Você usa essa com as suas fãs?
– O quê?!
Woman.
– Geralmente dá certo... – Harry coçou a cabeça, fingindo estar sem graça.
A Place Called Nottin Hill.
– Eu amo esse filme.
– Eu também, mas não é o meu favorito.
– E qual é? – Ele se virou para me observar, passando os dedos longos entre seus fios de cabelo.
Dirty Dancing. Eu tenho a certeza absoluta de que Johnny Castle é o amor da minha vida. – Suspirei dramáticamente, repousando as minhas mãos no peito.
– Eu tenho certeza de que ele é o amor da vida de muita gente. Você já viu o cara dançando? Eu babo.
– Aquele bundão enorme e apertadinho na calça, balançando de um lado pro outro... Os movimentos que ele faz com a Baby... Uma vez, eu chorei.
Harry, que me olhava estático, fez o possível para não rir enquanto prensava os lábios e exibia suas covinhas.
– Você chorou?
– De tesão. Eu não estava em uma época fácil. – Comecei a rir enquanto abraçava o meu corpo e balancei a minha cabeça negativamente, dando play. – Me expus.
– Hein, Johnny Castle... Me chama de Baby e me bota nos ares. – Harry fez o melhor para imitar uma voz feminina e, em seguida, riu sozinho ao sentir uma das almofadas bater em sua cabeça. – Tudo bem, tudo bem...
No início do filme, ouvimos alguns gemidos e o barulho da cama rangendo, vindo do quarto de – o que certamente nos deixou desconfortáveis, porém não parávamos de rir por um minuto sequer. Na metade, os barulhos cessaram, indicando que a “festa” ao lado havia acabado, me fazendo suspirar fundo, distraída ao tentar lembrar da última vez em que fiquei com alguém. Havia sido no Brasil, na minha festa de despedida.
Ver e Finn juntos me deu um extremo sentimento de carência, o que me fez ficar encolhida no canto, observando Harry, que se divertia com o filme. Seus lábios levemente curvados para cima indicavam um sorriso leve, relaxado. Seus olhos vidrados na tela possuíam um brilho diferente, talvez porque estivesse tudo escuro e a única luz ambiente fosse a da televisão. Balancei a minha cabeça por alguns segundos e parei de encarar Harry, que estendeu a mão para mim.
– Pode vir, não mordo. – E sorriu com suas covinhas perfeitamente marcadas e cantinhos de olhos franzidos.
– Eu mordo. – Disse brincando e segurei a sua mão, deixando que ele me puxasse para perto de si.
Encostei a minha cabeça em um de seus ombros, fazendo com que Harry passasse o braço ao redor do meu corpo encolhido e desse um beijo leve na minha testa.
I’m just a girl, standing in front of a boy, asking him to love her.
Dissemos juntos a Julia Roberts, o que nos arrancou risadinhas por sabermos a frase de destaque do filme.
– Deixei a minha calcinha no banheiro! – Ouvimos a voz de vindo do quarto.
Em seguida, a porta se abriu e tampei os lábios com a boca, tentando não gargalhar. Harry se juntou a mim enquanto se encolhia contra o sofá e franzia o nariz.
– Finge que está dormindo.
Fechei os meus olhos por alguns segundos e passei a língua entre os meus lábios, tentando não sorrir ou demonstrar que estava acordada.
– Ué. – Ouvimos a voz confusa de Finn, que soltou uma risada sem graça e voltou para o quarto, balançando a calcinha. – Achei.


Continua...



Nota da autora: "Olá, menineeeees!

Esqueci total de colocar uma notinha no final do primeiro e do segundo capítulo, então aqui estou!!!!

Espero que estejam gostando da história, eu com toda certeza estou AMANDO escrever!! Me divirto bastante e sinto como se os meus dias estivessem mais levinhos toda vez que escrevo!

Queria agradecer a Gabi, que teve uma paciência ENORME para as minhas milhões de perguntas, e que me auxiliou em tudo que precisei!!

Agradecimento especial para as minhas meninas: Yasmin, Isabela e Priscila, que me apoiaram em todo esse processo e também me incentivaram a postar e tudo mais."




Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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