Paradise City

Última atualização: 01/06/2020

Capítulo 1

1 ano antes.

Entre as nuvens, o avião cortava o céu do dia. Dougie tirou a perna em cima da dele para poder se levantar. O homem estava com uma dor de cabeça forte, mas não chegava a incomodar depois de tantos anos acordando daquele jeito. Ressaca era parte da vida de Dougie Poynter. Mesmo parando de beber havia 7 anos, ela sempre vinha de outra maneira. A vibração vinda do chão o enjoava levemente por ter acabado de acordar. O homem sempre preferiu viajar pelas estradas com o ônibus da turnê. Tinha muito sobre a experiência – conhecer pessoas no caminho, ver as paisagens mudarem, as aventuras de quando eram jovens – mas, depois de décadas em grupo, a banda só queria chegar logo ao próximo ponto. A questão não era ter passado da idade de percorrer meses na estrada, e sim a paciência que faltava de olhar uns para cara dos outros durante o tempo. O clima pesava de um modo quase insustentável na convivência.
Passando das poltronas inclinadas, Dougie sentou à mesa com os três outros membros da banda. Harry e Tom, com rostos cansados, dividiam um sofá, trocando palavras de vez em quando. Danny, por outro lado, nem parecia acordado. Na verdade, era difícil até dizer se estava vivo. Sem sinal de respiração, o roqueiro mantinha o corpo estático, um chapéu de caubói cobrindo o rosto e um óculos escuro feminino completando. Poynter encarou o outro sem piscar, esperando ver o sinal de vida. Ao seu lado, Harry Judd tomava vodka pura para acompanhar os ovos mexidos. Tom optou por café, uma necessidade sobre a qual relutava a um tempo a se entregar. Nesse momento, perdeu outra batalha interna.
– Foda-se. – O guitarrista pegou a garrafa de vodka e completou a xícara com o líquido.
Enquanto o som da dupla alimentando-se preenchia o ambiente, as palavras de Danny ecoaram sem ele mal mexer a boca.
– Para de me encarar, Dougie. Estou vendo você fazer.
Dougie negou por efeito da surpresa.
Logo depois, voltou a atenção para a comida sobrando em cima da mesa. Serviu-se de café e agradeceu a energia crescendo embaixo de sua pele. Estavam tão cansados daquelas turnês emendadas que mandou de volta o seu lagarto pra casa. Dougie quase nem tinha tempo de dar atenção ao animal.
– Sinto falta do Jerry. – O loiro suspirou.
Harry fez uma careta com a menção do bicho mas, no fundo, sentia falta do clima que ele trazia.
– Também sinto. Falando nisso, você está tentando suprir a falta dele usando groupies? Ultimamente, você nem respeita o combinado de não trazer elas pra cá.
Novamente, aquele era o assunto que mais criava faísca. Cada um adotou hábitos longe de serem saudáveis para lidar com o esgotamento. Era difícil relevar as groupies que Dougie levava a todo canto, invadindo assuntos importantes, as novas manias excêntricas do Danny atrapalhando ensaios... Eram algum dos exemplos, e o problema principal era o resto da banda ter que conviver com isso.
– Você continua fazendo a gente ser preso e a gente não se incomoda, Harry.
– De novo isso. Se você fica repetindo, é porque se incomoda. – O baterista respondeu a Tom.
Difícil negar que as coisas não eram como antes. Os melhores amigos para a vida usavam um ao outro de saco de pancada para aliviar o estresse. A frustração do jogo de conquistar e manter fama desgastava a amizade dos quatro de uma forma que era visível a quem quisesse enxergar. Mas o McFLY não conseguia parar o vício daquele ciclo.
Era palpável a inflamação no ar. Ficaram em silêncio, mantendo a irritação para si mesmos. Um passo em falso iniciaria outra guerra civil, colocando em risco semanas de trabalho. Em consequência dos incidentes causados pelos embates, shows eram prejudicados, além de turnês encurtadas. Os membros da banda não se importavam o suficiente sobre o assunto. Ainda assim, não sabiam viver sem estar na estrada, então faziam um esforço para continuarem juntos.
– O que me incomoda é estar tentando escrever uma música para o sexto disco e o Danny passar o tempo todo chapado. Antes, ajudava a gente a escrever, mas acho que a heroína dissolveu o cérebro dele.
Essa parte finalmente causou uma reação por parte de Danny. Com uma expressão indecifrável por causa do óculos de sol, Danny Jones virou o rosto em direção a discussão atual.
– Por que você ainda se esforça? Ninguém quer escutar música nova nossa.
Tom colocou os dedos nas têmporas, sentindo a dor de cabeça voltar.
– Eu sei que o disco passado foi um desastre, mas nós podemos fazer melhor.
– Podemos? – Ele vocalizou o questionamento de cada um deles.
Cínico, Danny riu, bebendo do resto da garrafa na mesa. O caos instaurado não o atingia mais, fazia tempo que faltava conexão com as coisas em volta.
A pressão para lançarem músicas depois de quase dez anos sem nada novo era totalmente compreensível. No começo, era por preguiça e desmotivação. Depois, veio o conforto de tocar músicas das quais todos gostavam. Assim, foram juntando uma turnê atrás da outra para adiar a verdade de que o McFLY tinha perdido a inspiração.
– E o que você sugere? Concordo com você, mas nós não podemos continuar assim pra sempre. Estou cansado dessa vida de merda que a gente tá levando na estrada. Quer saber de uma coisa? Eu quero o meu lagarto de volta!
Os quatro de repente perceberam que estavam em pé, a mesa ditando a distância entre eles. O silêncio reinou novamente, sentiam a proximidade com a beira do precipício.
– Olha só, – Harry disse em tom conciliatório. – também não aguento mais trocar de namoradas porque nunca as vejo. Mesmo assim, ainda acho acabar com a banda uma atitude radical demais. Nós vamos fazer o quê da vida?
Em menos de um minuto, foram ditos uns vinte protestos vindo de outros membros.
O quê?! Não foi o que eu disse.
– De novo essa história?!
– Não acredito que falou isso!
– Ninguém aqui vai deixar o rock morrer! Olha só, seus merdinhas, vocês não vão pular desse barco.
Uma rodada nova de insultos foi trocada. Momentos antes de entrarem numa briga mais intensa, algum deles interrompeu.
– O barco está afundado, caras. Talvez o Harry esteja certo.

Um mês depois, McFLY anuncia fim da banda foi manchete em todos os jornais.


Capítulo 2

desceu do ônibus. Depois de dias na estrada, ver o céu da noite sem ser através de um vidro era um alívio. A rodoviária agitada a fazia desviar das pessoas, empurrando umas nas outras, enquanto a música embalava seus passos para buscar um local seguro e respirar um pouco. Ela olhou os letreiros anunciando o destino final daquelas frotas. Los Angeles, finalmente. Depois de anos sonhando com aquilo, tomou o primeiro passo de sair de Tulsa. E a mulher estava orgulhosa com a própria coragem de ir atrás dos seus sonhos, mesmo que bem longe de casa. Apesar de não poder mentir que estava, no fundo, assustada, ainda assim, tinha este sentimento de vitória.
Ao alcançar a saída da rodoviária, viu os seus devaneios ganharem forma. As placas neon banhavam as calçadas – sendo a única iluminação em alguns pontos, sacos de lixo se acumulavam nas esquinas escuras, com promessas de mais ameaças que alguns ratos famintos, uma viatura em uma perseguição a toda velocidade. Uma cidade enorme no auge de decadência. Nada disso importava realmente para , porque ali era onde morava a oportunidade dela de poder viver de música. A loira ajustou mais uma vez a bolsa carteiro que insistia em escorregar de seus ombros. O peso acumulado dessa bolsa com sua mochila nem chegava a machucá-la, mas o couro de sua jaqueta vermelha fazia deslizar o tempo todo. Ela aumentou o volume de seu walkman e partiu para conhecer a cidade nova.
Ao procurar um local pra ficar, viu, no topo dos prédios, enquanto passava, nomes de gravadoras que fizeram seus discos preferidos. Ela mal esperava poder ver show de suas bandas preferidas ao vivo. Scorpions, McFLY e Foreigner eram as que mais amava. Ela se lamentou mentalmente por nunca ter tido a oportunidade de ir em um show do McFLY antes de anunciarem o fim, mesmo sabendo das péssimas apresentações ao vivo que eles estavam fazendo perto do anúncio. Dougie, Tom, Danny e Harry foram inspiração para sua primeira banda. A falta de conexão entre eles, além de vezes em que alguém abandonava o palco, a consolava em sua situação. Percebendo estar agora andando sem rumo, encostou na vitrine de uma loja para descansar um pouco. Deu pausa na música, tirou da bolsa um cigarro.
Ela fumava quando um homem mais ou menos da idade dela, cabelo longo, perguntou se podia acender o dele. encostou os dois cigarros juntos e ele encostou próximo a ela, tragando enquanto observava a rua.
– Você é nova aqui, não é?
– Sou.
O homem desconhecido virou o corpo inteiro para olhar para ela, devolveu o sorriso e, quando pensou que ia dar uma resposta, pegou as coisas dela, se pondo a correr.
– Ei!
jogou o cigarro aceso de qualquer jeito no chão e tentou correr entre os carros. Uma moto quase a atropelou no caminho. O cara dobrou a esquina antes que ela pudesse fazer alguma coisa.
– Que merda.
A mulher lamentou ser tão ingênua. O espírito de cidade pequena ainda estava grudado embaixo da pele. queria se jogar no chão e ficar sentada lá, somente pela frustração que sentia, além de raiva também, que impediria o constrangimento de fazer isso enquanto várias pessoas passavam de carro por perto. Foi o que ela fez por um tempo, até ouvir o barulho de movimentação em um beco ao seu lado. Dava para ver uma sombra se movendo em meio as lixeiras, mexendo nos sacos. percebeu a presença chegando perto cada vez mais. As pessoas nem pareciam notar o que estava acontecendo no canto escuro. Ainda assim, os instintos da mulher mandavam alertas para ela sair dali, mesmo que seu corpo não conseguisse mexer, esperando o pior. Seu corpo continuou tenso, mesmo com o homem saindo na luz da rua.
– Você tá bem? – O cara de mullet perguntou a , mais curioso do que realmente preocupado com o estado dela.
O sotaque do meio oeste nele era bem mais evidente do natural dela.
– Estava colocando o lixo pra fora. – O homem se explicou ao ver a expressão da desconhecida.
Depois de um tempo sem receber nenhuma resposta de volta, pronto para voltar de onde tinha vindo, completou com um tom desinteressado.
– Se eu fosse você, não ficava sentada aí no chão por muito tempo, os ratos daqui a pouco te alcançam.
se levantou imediatamente, tirando a sujeira grudada da sua calça. Agora tinha uma porta aberta iluminando parte do beco a frente deles. o seguiu, hipnotizada por duas palavras escritas nas costas da camisa do homem.
– Obrigada por me avisar, eu acho. Na verdade, fui roubada. Por isso que estava jogada na calçada.
Atravessando a porta dos fundos e pegando no caminho umas caixas, ele respondeu que havia visto.
– Vi você correndo atrás de um cara, então imaginei ser roubo. E eu estava certo. Bem-vinda a Los Angeles.
A criminalidade da cidade era altíssima, ela deveria saber. Voltando com uma pilha de caixas, o moreno as empilhou junto a uma caçamba de lixo. Dois ratos esguicharam e correram para longe. Dando as costas a ela novamente, falou antes que o cara fosse embora.
– Third Room? O bar Third Room?
Esse bar era um dos principais lugares para beber e assistir shows da cidade, um fator importante para ela ter escolhido ir. Havia sido onde começaram muitas bandas de sucesso da época. McFLY, Bad Religion... Vários discos ao vivo de rock tinham sido gravados lá. Apesar de boatos dizerem que o lugar não era mais o mesmo, que estava tão decadente quanto aquela cidade.
– É, é onde eu trabalho.
Os olhos de brilharam. Esses lugares eram lendários para ela e, antes, só podia conhecer pelas palavras de outras pessoas. Estava muito feliz de estar em Los Angeles.
Entrando novamente na luz, o acompanhando, ela perguntou onde ficava, porque era um dos primeiros lugares em que queria ir.
– Tem certeza? Porque já está nele.
Terminaram de passar pelo corredor escuro, chegando a um salão aberto. No canto esquerdo, tinha um palco enorme e, no direito, um bar lotado de garrafas pela metade. Não havia ninguém ainda, provavelmente estava fechado o lugar, o chão sendo varrido provando o ponto. As paredes eram pretas e, nelas, havia, emolduradas, capas dos discos gravados lá. tentou absorver o máximo que podia do ambiente. Em uma parte especial, tinha um quadro com cartazes colados dos próximos shows. Atrás do bar, tinha o nome do Third Room, brilhando em vermelho como a placa do exterior que ela viu somente em fotos.
– Ei, cara, – A voz do lado dela a trouxe de volta para a realidade. – da próxima vez, você fica com a parte de carregar as coisas para fora. Qual o meu privilégio aqui, afinal de contas?
A pessoa limpando o balcão do bar riu. Ele também usava a camisa preta do Third Room como todos os outros presentes e, como eles, tinha sua camisa cortada ou dobrada de alguma forma.
– Como se eu tivesse algum também. E eu mereço mais do que você, Lonny.
Lonny limpou as mãos na calça, seguindo para o bar. foi andando para ver a lista de bandas que tocariam naquela noite.
– Pode ser um astro do rock. Ainda assim, quem fode o chefe sou eu, por isso deveria ter prioridade na hierarquia dos privilégios.
– Estoque é a sua área. A minha continua sendo o bar.
– Daqui a pouco, vai abrir. Se você quiser ficar direto, não tem problema.
A loira se aproximou de Lonny.
– Talvez eu vá, mas não quer dizer que tenha alguma coisa pra gastar hoje.
soltou uma risada amarga, ele deu de ombros. Pela primeira vez, parou pra prestar atenção no amigo de Lonny. O loiro tinha uma das sobrancelhas levantada sem entender nada.
Queria ter tido mais dignidade. Entretanto, a confiante foi pega de surpresa. O pensamento escapou de sua boca quando percebeu.
– Tom Fletcher?!
O vermelho do ambiente disfarçou o constrangimento dela, a voz havia saído mais alta do que esperava e foi impossível deixar de notar sua reação. Tom suspirou, sabendo o que aconteceria a seguir.
As mãos de tremiam ao lado do corpo. Era totalmente involuntário, já que havia imaginado aquela cena acontecendo inúmeras vezes. A mulher engoliu o "Tom Fletcher, sou muito sua fã, cresci escutando McFLY, minha primeira banda foi inspirada em vocês, I've Got You é tudo para mim, tenho uma frase dela tatuada, McFLY é a minha banda preferida, chorei quando vocês acabaram, você nem faz ideia de como é incrível te conhecer..." que seria dito provavelmente sem respirar. Então respondeu o sorriso dele sem jeito com um do mesmo modo.
– Lá vamos nós. – Lonny interrompeu. – Nunca imaginei que alguém podia dizer tantas frases nessa velocidade.
Os olhos da loira cresceram. Ela falou em voz alta de novo? A animação a fazia dizer as coisas sem pensar. Dessa vez, nem conseguiu disfarçar a vergonha.
– Essa não desmaiou, já é grande coisa. – Tom disse sorrindo para
Sentindo-se mais segura com a falta de deboche nas palavras, ela se apresentou.
, né? O que você toca na sua banda?
Enquanto ele voltou a trabalhar, colocando garrafas cheias nas estantes, a mulher falou sobre si mesma, tentando continuar o fluxo da conversa e restaurar a moral perdida.
– Sou baterista. Vim pra Los Angeles sozinha. Por isso, agora estou sem banda.
– Temos isso em comum. – O tom de voz dele veio divertido.
Trocaram olhares através do bar.
não esperava que fosse uma ferida tão bem cicatrizada por parte do ex-McFLY. Diziam que Tom era rancoroso, mas parecia que não. A mulher, como fã, estava feliz pelo sentimento.
– Ouvi falar que você está sem dinheiro. Sorte sua que mulheres não pagam aqui desde 1978.
Mesmo querendo, a recém-chegada ainda precisava achar um local para passar a noite. Era uma pena de verdade, porque seria um sonho terminar o primeiro dia na Califórnia ali, além de se arrepender para sempre em deixar passar Tom Fletcher flertando com ela.
– Se eu for te encontrar aqui mais tarde, até fico.
Mesmo enxergando um pouco, sentiu os olhos dele a queimarem com a promessa.
– Vou te esperar.
Dessa forma, começou a se misturar com o público do Third Room que acabava de chegar. A energia caótica que o lugar ganhou ao encher era algo que nunca ia esquecer na vida. Depois de algumas bebidas, a mulher sentia que tinha crescido ali, junto a todas aquelas pessoas. E no fundo, desejava que fosse a realidade. A iluminação era fraca, mas seus outros sentidos se aguçaram. A banda de abertura tocava algo bem agitado, conseguindo sentir a vibração nos ossos. O cheiro predominante era o de suor – dela mesma e dos outros -, couro e cerveja, além da fumaça de cigarro, que era quase inseparável do ar que eles respiravam. Conheceu algumas pessoas lá, provavelmente seriam irreconhecíveis para ela com a luz ligada. Uma lembrava muito sua melhor amiga em Tulsa. Dançou, gritou por horas, ficou hipnotizada com a banda. No final do show, tinha decido que adorara as músicas e perdeu a atenção de qualquer coisa ao redor quando tocaram um cover de Paradise City.
– Você está aí. – Tom se inclinou para falar ao seu ouvido, horas ou minutos depois.
O barulho em volta era ensurdecedor e as vozes cantando a impediam de escutar seus próprios pensamentos.
– Estou.
tentou não se emocionar com a proximidade dos dois, mas não conseguiu evitar a risadinha besta. Os dois assistiram o resto do show junto. Apesar de desejar continuar flertando com Tom sua primeira noite em Los Angeles, era dedicada àquilo em sua frente. Tom entendia tanto que deu o número fixo de onde ele morava, para ter certeza de que teria outras oportunidades de se encontrarem.
– Poxa, tinha me esquecido de que existia um mundo lá fora, que eu tinha sido roubada e que não tenho lugar para dormir.
O sorriso dele e a voz próxima ofertando que "sempre teria lugar para dormir se ela quisesse" fez as pernas dela bambearem. Poderia desmaiar.
– Se quiser outra opção também, tem essa conhecida que tá procurando alguém para dividir apartamento.
No mesmo papel em sua mão, Tom escreveu: 555-6381.


Capítulo 3

No frio da madrugada, apertou sua jaqueta contra o corpo esperando o táxi chegar. A mulher tinha feito a ligação para o número que Tom Fletcher deu, uma conhecida dele oferecia um quarto em seu apartamento para alugar. , depois do roubo de mais cedo, não tinha muito dinheiro sobrando, mas teria que dar. No dia seguinte mesmo, iria urgente atrás de um emprego em Los Angeles.
Um cliente do Third Room vomitava na calçada onde ela permanecia parada. Tirando ele, havia todo um universo acontecendo à sua volta. Em Tulsa, não teria uma alma viva na rua àquela hora da noite. , mesmo com somente vinte dólares no bolso e nenhum pertence a mais, continuava confiante sobre sua sorte na nova cidade. A dona do apartamento estava perto da Strip e disse que podia buscá-la se ela estivesse disposta. prontamente aceitou porque, senão, iria ter que andar até o endereço que desconhecia.
Um carro amarelo parou próximo a ela, uma mulher de cabelos longos negros perguntou da janela de trás.
– Você é a caipira que foi roubada?
, delinquente juvenil de sua cidade natal, ficava surpresa a cada lembrança da sua inexperiência de vida que Los Angeles proporcionava. A jovem adulta afastou o sentimento de revolta por se sentir ingênua, respondeu que sim depois de revirar os olhos. Já superada disso, abriu um sorriso, entrou no carro, iniciando uma conversa com a possível nova colega de apartamento.
– Obrigada por vir me buscar. Provavelmente, dormiria na calçada daqui mesmo se precisasse achar, sozinha, o endereço a essa hora da madrugada.
– Ah, sem problema. Onde eu estava aqui era caminho. Então... O que te leva a Los Angeles? Sou repórter e nasci aqui, então sempre tenho essa curiosidade quando as pessoas falam que acabaram de chegar.
– Sou baterista, quero formar uma banda. A intenção é viver disso.
As luzes entrando no carro em movimento iluminaram o sorriso de . Era difícil interpretar se havia deboche ou o que viria a seguir mas, com certeza, não era o que esperava da resposta.
– Então totalmente te desejo boa sorte. E espero escrever um dia sobre você, faço parte da Rolling stone.
balançou a cabeça com ela já nas nuvens. Se aquilo não era um sinal de boa sorte, ela não sabia o que era então.
Vinte minutos passaram e as duas mulheres desceram do táxi. O céu continuava escuro, mas dava sinais do sol surgir em poucas horas.
O apartamento era no segundo andar e era bem compacto. As janelas da sala eram grandes e altas. À noite, entrava luz de um outdoor anunciando um shopping novo. A sala comportava pouco mais que os outros espaços do apartamento, mas também não era grande coisa.
colocou a sua bolsa na mesa de entrada, pronta para apontar onde cada cômodo ficava.
– A cozinha, como dá pra ver, é a primeira porta perto da entrada. Na frente dela, no outro lado da sala, vai ser o seu quarto. No corredor, tem o meu, um banheiro, o único da casa que funciona, e um armário de tranqueiras. A sua bateria fica muito grande pra ela, você vai ter que guardar no seu quarto ou na sala. Perguntas?
Para quem morava com os pais, sentia não ter nada a reclamar. Sinceramente, se fosse um lugar no meio do lixão, só por ser em Los Angeles, ela iria amar.
– Não, nenhuma! Bem, na verdade, uma só. Você sabe que não tenho dinheiro agora pra te ajudar a pagar o aluguel, né? Por enquanto, tenho vinte dólares para sobreviver.
A nova colega de apartamento não se impressionou e respondeu que estava tudo bem.
– Mas amanhã cedo comece a procurar emprego. O metro quadrado nessa cidade é um roubo de caro.
nem tentou discordar, parecia justo. , sentindo o cansaço do dia a atingir, estava se encaminhando para o seu quarto enquanto passava as regras da casa.
– É tranquilo fumar aqui dentro, pode trazer homens ou mulheres, se você preferir, pra cá. Vamos deixar combinado de deixar uma meia na porta se quiser ficar sozinha pra essas coisas. Não fale com os vizinho. Nem vale como regra, fica mais como conselho. Eles são bem questionáveis.
Depois de ser roubada, resolveu aceitar a dica pelo menos pelos primeiros meses, porque odiava ser passada pra trás. Ela abriu um sorriso brincalhão no rosto.
– Você deve ter algum defeito, sabe.
era alta e linda, aparentemente uma ótima pessoa pra se dividir apartamento por ser liberal, além de ficar muito tempo fora. Permitia fumar, não se importava o suficiente para se meter na vida pessoal sobre com quem você se relacionava, soava como ter vergonha de nada e bem resolvida. Deveria ter algum.
– Vai descobrir mais cedo do que você espera. – Recebeu um sorriso misterioso de volta, a porta do quarto dela fechou.
Não tinha certeza se era um bom sinal.

Na hora certa do dia seguinte, parou na frente do endereço dado. disse que, enquanto estivesse desempregada, iria dar carona a colega de apartamento para qualquer lugar. Entretanto, sua bateria e moto somente seriam entregues na nova casa dali a alguns dias. Assim, pegou um táxi para chegar ali. Chegar com as roupas amassadas naquele compromisso também não parecia ser boa ideia.
A mulher estava em um bairro particular onde as palmeiras se estendiam e as casas todas tinham piscinas luxuosas nos quintais. Era incomum fazer aqueles tipos de entrevistas dentro das casas dos músicos. Ainda assim, o lugar foi insistido, de acordo com o redator de .
Paul Gill, empresário de Danny Jones, a esperava no portão. Com um telefone portátil no ouvido, acenou a chegada dela. Ocupado demais para lhe dar atenção total, ele afastou o objeto gigante do seu rosto e cumprimentou-a. Logo depois, voltou à sua conversa. Ela olhou a subida que percorriam. O gramado era perfeitamente aparado. Por outro lado, era possível ver os primeiros sinais de habitação da estrela do rock. Perdida, existia uma parte superior de um biquíni, além de um crocodilo dormindo ao sol.
– Isso é normal aqui?!
Seguindo o olhar de sem parecer impressionado, Paul Gill respondeu.
– É.
Ela imaginou se as propriedades vizinhas vazias faziam parte daqueles sinais.
Gill terminou a ligação e pediu a ela para esperar na porta por alguns minutos para poder avisar a chegada da repórter da Rolling Stone. Assim, ele desapareceu para dentro da casa.
Vinte minutos depois, sentia sua irritação consumir a paciência restante. Quem Danny Jones pensava que era? Ela não tinha a vida inteira para esperar. Sentada no banco embutido à parede, a mulher pegou o seu telefone portátil. Por aqueles momentos que valia ter gastado o seu salário quase inteiro nesse único objeto. Ajeitando seu cabelo rebelde jogado para o lado, esperou o telefone chamar.
– Alô, mesa de .
– Leah! Sou eu.
. Você não deveria estar em um compromisso fora agora?
– Na verdade, estou. Mas o meu compromisso me deixou esperando. Você sabe se confirmou?
Aos poucos, naquele esforço de ser a primeira chegar e a última a sair, estavam direcionando-a a notas menores para escrever sobre política, o assunto em que realmente queria trabalhar. A agenda, por enquanto, marcava, para a quinzena eventos sociais, perfis de esposas de candidatos a prefeito e algumas histórias maiores na parte de música, mas ela chegaria lá.
– Sim, a secretária dela ligou pouco depois que você saiu. Então... – Disse Leah com bem mais interesse. – Você já encontrou com Danny Jones aí?
O ex-vocalista do McFLY provocava toda aquela obsessão vinda das mulheres que acompanhavam, nem que fosse minimamente, bandas de rock. Era difícil explicar. Não se dedicava a manter sua fama de mulherengo como Dougie, mas era difícil negar a fila de mulheres em qualquer lugar que ele fosse. Ou os desmaios quando uma delas era chamada para cima do palco na música em que ele as beijava. Algumas pessoas podiam apontar ser a voz e o sotaque dele de Bolton que atraía as americanas. Outros, o poder do palco que ele exalava até fora deles. assistiu uma vez ao show do McFLY e podia chutar que era a energia de decadência que fazia muito bem pro charme de Danny. Ainda assim, não duvidaria que qualquer outra energia o valorizasse também.
– Não, só estou plantada aqui tem quase uma hora.
As duas continuaram a tagarelar sem consciência do que acontecia do outro lado daquelas paredes.
Paul Gill encontrou o seu agenciado deitado em uma espreguiçadeira na área da piscina. O chapéu de caubói estava na cabeça de uma das mulheres no chão em volta dele. Algumas dormiam e outras estavam acordadas com ressaca, ele estava em um estado no meio. A coleira do crocodilo de Danny estava posta em volta de seu pescoço, o fim da corda próximo da mão dele.
O empresário suspirou, cansado de agir como babá. Gill chamou o nome do outro homem algumas vezes, demandando atenção como podia. Mesmo ainda sem mover um músculo, ele percebeu que Danny estava ouvindo, então avisou que a Rolling Stone já estava presente para o encontro marcado. Os olhos azuis de Danny Jones entraram no campo de visão dele e, assim, concordou.
– Tudo bem, pode trazer o Mick.

A bateria de seu telefone tinha morrido havia muito quando atravessou as portas duplas da sala principal. Alisou seu terno estilo Scully, sentindo-se inadequada quando viu Danny de blusa aberta para recebê-la. Paul Gill se desculpou pela demora e deu quinze minutos a ela.
O cômodo era lotado de objetos luxuosos de decoração que não combinavam. Eram visíveis dois discos de ouro do McFLY pendurados, interessante. As janelas do ambiente eram grandes, mas as cortinas se mantinham fechadas, deixando o ambiente refém das luzes artificiais. O empresário permanecia em pé, não muito atrás da cadeira que estava sentada. Encarando-a, Danny brandia duas estátuas de leões dourados no fundo da sua. Ele era uma visão e tanto por aquele ângulo.
tirou a bolsa de seu ombro e colocou no chão, o gravador que estava dentro foi colocado em cima da mesa que os separava.
– Ok, vamos começar. 15 minutos. – Como se Jones esperasse um relógio invisível, deu alguns instantes. – A partir de agora.
– Certo. Danny Jones saiu de Bolton, com 17 anos, veio para os Estados Unidos com os amigos para tentar uma carreira com sua antiga banda. Moraram 8 meses no porão do Third Floor até o McFLY fazer sucesso, quase voltaram para o Reino Unido. O que te levou a essa carreira solo e por quê agora?
As unhas pintadas de preto pegaram o gravador e levaram para perto dos lábios, falando em tom de deboche.
– Por causa da mudança de natureza na indústria musical. Você consegue perceber que, quando você escuta blábláblá, acaba vomitando blábláblá e.....
Uma risada interrompeu o final. tentou evitar revirar os olhos mas, mesmo assim, sua expressão de irritação foi inevitável. Quase uma hora esperando praquele cara não levar a sério, ela fechou seu livro de anotações. Jones esticou o braço para que a repórter pudesse seguir falando para o gravador, se aproximou um pouco mais para poder ser escutada claramente, pela gravação e por ele.
– Algumas pessoas dizem que é difícil trabalhar com você. O que tem a dizer sobre isso?
Satisfeito com o veneno temperando as palavras, respondeu se aquelas pessoas conheciam a si mesmas. Sem tempo para pensar sobre o que porra ele queria dizer com aquilo, o gravador voltou para a boca da mulher.
– São relatos dos seus colegas de banda.
Não se divertindo mais, Danny anunciou que sobrava 8 minutos. Quiseram descobrir quem desviava o olhar primeiro.
, seguindo, fez algumas outras perguntas, dessa vez totalmente profissional e fria. A mudança repentina cansou Danny, quem respondeu de forma tediosa em retaliação. No fim de suas palavras, agradeceu mecânica à entrevista e pôs-se de pé. A caminho de ser escoltada para fora, voltou.
– Quer saber? Você não é um caubói.
Danny, espalhado na cadeira, olhou para cima, voltando a se divertir. Escondeu um sorriso e afastava o cabelo que caía em seus olhos.
– Então o que eu sou?
fixou os dois pés no chão, olhando-o firmemente.
– Você é um adolescente que não cresceu preso em uma rotina.
Adoro quando você é dura comigo.
– Jones, você costumava ser incrível, mas o que fazia você assim não existe mais. Agora você é mais um roqueiro preguiçoso que canta as mesmas músicas de 10 anos atrás.
– Vamos, mocinha. – Gill interrompeu, irritado.
Ele esticou a mão para ela se retirar, sem saber muito o que fazer.
– Ah! E enquanto tiver esse empresário que mantém você na estrada, te dopando com garotas, bebidas, contratos milionários, ele vai te manter dormindo e jogar a sua carreira pela janela!
Paul Gill tentou tirá-la da sala, soltou o aperto em seu braço. Ele chamou os seguranças.
– Você costumava escrever ótimas músicas. Onde estão elas agora?
– Tá bom, já chega. Pode ter certeza de que vou ligar para o seu supervisor. – Pegou o celular e digitou o número dele – Mark Evans é grande amigo meu...
Houve alguns momentos de comoção com ameaças de queixas que seriam feitas sobre a repórter.
– Pode sair. -– Danny gesticulou para onde a confusão acontecia.
Paul Gill, satisfeito, fez sinal para ir embora.
– Ela não. Você.
Então os dois, lado a lado, trocaram um olhar, surpresos. O empresário saiu da sala, levando os seguranças provisoriamente. Danny se levantou, o guitarrista não tinha uma expressão amigável. A mulher engoliu em seco.
– Sabe... Essa coisa toda de deus do rock não existe. Não é real.
Àquele ponto, Danny estava na frente dela, os corpos mais próximos que o necessário. O hálito a tocava em cada respiração do homem.
– Não é real. É a projeção de outras pessoas do que elas querem que eu seja. Do que você e os seus leitores querem que eu seja. Sexo.
Os pés delas deram alguns passos para trás em toda frase dita. Tropeçando no sofá que antes estava sentada, caiu nele. Danny, não disposto a deixá-la ir, sentou ao seu lado.
– Nem você nem eles querem saber o que é real em mim. – O tom da voz carregava ressentimento, e a verdade entre aquelas palavras a incomodava.
Mas Danny Jones também disse isso para a desafiar. o encarou de volta com fogo, ela não era de dar pra trás.
– Como eu já disse, eu vivo na minha cabeça e ninguém mais consegue.
tirou a garrafa de uísque que ele aproximava junto à boca e respondeu para ela.
– Eu consigo.
A mulher o desafiou de volta, se poderia deixá-la saber o seu lado da história. Na verdade, não ligava em saber como ele deveria ser, mas queria descobrir como Danny Jones realmente era.
– Depois.
Distraído demais com o olhar de , ele tocou o rosto dela, a mão lentamente descendo para o pescoço e pedindo permissão. O magnetismo era sentido pelos dois desde que entraram na sala, mas o desdém de cada lado empurrou a necessidade para o canto. Com aquela trégua momentânea, era permitido que fizessem alguma coisa a respeito.
suspirou fundo, liberando parte da tensão que sentia. Lentamente, trouxe o corpo dele mais próximo do seu, a pele queimava quente sobre o toque e, hipnotizada, arrastou os lábios no dele. As respirações do casal se misturaram por um instante. Foram alguns minutos mas, para Danny, pareceu uma eternidade para chegarem ali. A mulher iniciou o beijo, as bocas se encontraram, provando sem paciência com formalidades. A antiga raiva alimentava os impulsos, o coração batia alto em seus ouvidos, bloqueando os sons ao redor. E na mesma velocidade que começou, acabou.
– Eu tenho que ir agora.
já estava arrependida do que fez, as possíveis consequências enchiam a sua cabeça. Ela nunca negava suas vontades, mas sabia que aquela era uma péssima hora para atendê-las. Mesmo, no fundo, sentindo que faria tudo de novo, aquele beijo podia acabar um dia com a carreira dela, e o que ela precisava fazer era sair o mais rápido possível dali.
Recolheu suas coisas. Quando pronta para virar a maçaneta, uma voz chamou.
– Por quê a pressa?
Aquilo deu um momento para ela respirar. A mulher percebeu que o seu batom estava borrado. Ela limpou em volta dos lábios, constrangida de não conseguir disfarçar muito mais. Danny, quem esperava uma resposta, recebeu somente um olhar fulminante de volta.
Com os pés em cima dos assentos do sofá e o braço estendido sobre o ombro do estofado,
o sorriso irritado não conseguia esconder-se por trás da sua atitude sarcástica padrão. Ele acreditou, por um instante, que alguém estava verdadeiramente interessado.
– Estou ansioso para ler a sua matéria.
correu das implicações dessa frase e bateu a porta com força ao sair.
– Me mande com dedicatória!


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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