Salvami
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Última atualização: 13/06/2020

Prefácio


Salvami
Significado em português: salve-me; que vem de salvar.

Sal.var
(lat salvare) vtd e vpr 1 Pôr-se a salvo; escapar-se, livrar-se de perigo iminente; vtd 2 Livrar da perda ,vtd 3 Evitar a derrota ; vtd e vpr 4 Conservar(-se) salvo ou intacto; vpr 5 Abrigar-se, refugiar-se; vpr 6 Tirar-se de embaraços; vtd 7 Dar saudação a; saudar, cumprimentar; vint 8 Saudar com salvas de artilharia; vtd 9 Defender, livrar, poupar, preservar; vpr 10 Escapar da morte; curar-se; vtd 11 Passar por cima de; vtd 12 Vencer;

Guardami! Sentimi!
Sono qui! Toccami!
Sento il freddo! Dell'asfalto!
Salvami! Salvami!
Parlami! Ascoltami!
Sono qui! Aspettami!
Pioggia e neve! Sulle ali!
Salvami! Salvami!



Capítulo 1

“Quando Deus tira algo de você, Ele não está punindo-o, mas apenas abrindo suas mãos para receber algo melhor.” – Francisco Cândido Xavier.

’s POV.

- Me larga Ethan. – Eu pedia a ele que me esmagava naquele canto escuro, quando um calafrio percorreu meu corpo. Sua força sobre mim era enorme apesar dele estar, - ou eu pensava que estava - parcialmente bêbado. Tentei várias vezes afastá-lo, mas era impressionante como sua força parecia triplicar conforme eu tentava me separar do mesmo; roçando inutilmente seus lábios em minha boca, neguei seu acesso aos meus, é claro que eu não o beijaria no estado deplorável em que ele se encontrava, chegava a ser ridículo. Eu estava ofegante devida à força que fazia para me livrar de seus braços que estavam em minha volta, porém, ele talvez tenha assemelhado minha ofegação com outra coisa já que da parede, seus braços passaram-se instantaneamente para minha cintura. Ele desistirá da minha boca há um tempo e agora ia direto ao meu pescoço; eu sentia a repugnância se alastrando por cada centímetro em que seus lábios ou suas mãos me tocavam, eu me debatia, mas não conseguia escapar.
- Se você não parar agora Ethan, vou gritar. - Falei baixo, entre os dentes, com a raiva pulsando em meu corpo, ele ria achando uma enorme graça nas minhas palavras, e disse:
- Jura que você vai gritar? - A ironia estampada em sua voz. - Você acha que alguém vai te escutar ? - Senti sua mão apertando minha cintura me prensando ainda mais contra a parede fria, enquanto ouvia sua risada cínica e rouca escapando de seus lábios. Uma fúria enorme passou por mim justamente quando ele colocou uma de suas pernas no meio das minhas tentando encaixar-se entre elas. Tudo estava abafado e eu precisava respirar, parecia que a qualquer momento eu pudesse me sufocar ali dentro; sua mão agora estava em minha coxa alisando-a enquanto eu sentia a amargura se formando em um bolo em minha garganta, sua mão foi subindo, chegando lentamente à barra do meu vestido, fazendo-me contrair meu corpo revoltada, mas ele estava certo, o que eu poderia fazer? Gritar? Ninguém me ouviria. Sua mão continuou adentrando e eu tentei mais uma vez inutilmente pedir-lhe para parar com aquilo, porém, ele não me ouviu, ou fingiu não ouvir já que o som naquele lugar estava ensurdecedor. Ele alisava calmamente a parte inferior da minha coxa enquanto a outra ainda repousava em minha cintura, eu me senti tremer, não um tremor de excitação e sim um tremor de medo, que inclusive se apoderava mais de mim a cada segundo que se passava. O meu nervosismo era evidente e, na verdade, se tivesse alguma pessoa consciente de seus atos, passando em minha frente, provavelmente me ajudaria vendo o desespero estampado em meus olhos, mas ali, naquela boate estupidamente lotada, só tinham pessoas bêbadas demais para conseguirem equilibrar-se em seus próprios pés, imagine quanto mais ajudar alguém, ridículo; Ainda alterado pelo álcool, Ethan entendeu meu nervosismo de forma errada, já que senti seu sorriso contra a pele do meu pescoço, causando-me uma sensação horrível; aquilo não podia estar acontecendo comigo, não agora... Então, como uma espécie de transe divino, as nuvens cheias de negatividade que nublavam minha cabeça afastaram-se me dando uma única alternativa perspicaz de fuga. Minhas mãos trêmulas subiram lentamente até seus cabelos e, enquanto eu sussurrava em seu ouvido algumas palavras fáceis de entender e que eram extremamente estimulativas para o mesmo, - fazendo com que eu sentisse todo o vigor da sua masculinidade devido a sua proximidade - eu bagunçava seus fios de cabelo às vezes os puxando lentamente fazendo-o soltar alguns gemidos abafados devido a sua boca que continuava prensada em minha pele. Eu sentia nojo daquilo, principalmente das palavras que ele me dizia ao pé do ouvido. Mas aquele era o jeito, aquilo era a minha única escapatória. Lentamente eu fui até seu ouvido e soprei o mesmo, eu sabia que ali, era um dos seus pontos fracos, afinal, seis meses de namoro tinham que servir para alguma coisa. Ele estremeceu em meus braços, e eu sorri, apesar de todo o inferno que estava acontecendo no momento, eu gostava de Ethan, principalmente de saber que eu ainda causava efeitos sobre ele. De certo modo isso chegava a ser gratificante, principalmente porque me dava esperanças de que talvez, meu plano seria bem sucedido. Eu beijei levemente o lóbulo de sua orelha fazendo-o arrepiar. Minhas mãos agora estavam em seus braços apertando-os levemente, enquanto eu descia meus beijos por sua mandíbula sentindo o mesmo se contrair e descolar sua boca de meu pescoço para soltar um gemido rouco. Sorri sob seu rosto e senti que agora sua brutalidade tinha esvaído, pois seus braços me envolviam em um abraço extremamente quente e gentil. Ele sussurrou meu nome de uma maneira carinhosa fazendo meu coração apertar assim como meus olhos se encheram de água, apesar de tudo eu gostava de Ethan, eu só não estava pronta para avançar com ele, queria que ele entendesse isso; no começo ele entendeu perfeitamente, mas conforme iam se passando os dias, eu via em seus olhos que ele precisava daquilo, afinal, ele era homem. E mesmo assim, depois de toda a angústia que eu o causava, o mesmo nunca tinha me traído, ou não que eu soubesse, claro. Mas o tempo foi passando e sempre que saíamos nos agarrávamos e, no momento final eu pedia para parar, ele ficava extremamente puto comigo, assim ele enchia a cara, e eu começava a perceber como ele ficava meio fora de si quando bebia. Consequentemente, assim, ele me agarrava fazendo com que eu o achasse repulsivo nesses momentos. Brigamos várias vezes por causa disso. Porém, sabia que se eu não escapasse hoje, provavelmente aquilo iria acontecer, queira eu gostando ou não.
Eu não era virgem, muito menos santa, minhas amigas me achavam um tanto maligna por fazer isso com ele; eu sabia, também, que homens têm um tipo de necessidade que as mulheres conseguem segurar por mais tempo; mas eu não queria agora, o problema não era com ele, era comigo. Às vezes eu me prendia a sentimentos que nem eu mesma sabia quais eram. Talvez fossem momentos nostálgicos ou só algum tipo de depressão passageira, e Ethan era o único que me abraçava e me compreendia no atual presente, mas eu entendia que uma hora sua paciência iria acabar, e eu até estava disposta a dar o que ele queria, cheguei a várias vezes pensar em ceder; mas no exato momento eu não lhe daria nada, não bêbado e fora de controle como ele estava esta noite. De rude para carinhoso, ele não estava bem, eu via isso, e também apostaria com qualquer um que eu conseguiria sair dali tranquilamente, assim como esperava que ele estivesse em minha porta no dia seguinte com um enorme buquê de flores me pedindo desculpas, dizendo que me amava e que não fazia aquilo por querer, e que às vezes era difícil se controlar quando eu o provocava daquele jeito, enquanto isso, ele se lembraria propositalmente das minhas reações sobre a noite que teria se passado, e eu riria das suas caras e bocas, beijando-o docemente. O conforto se espalhando. Aquela sensação que só ele proporcionava a minha instabilidade emocional e, então, eu sentiria o calor do seu corpo emanando, esquentando-me, inebriando-me. Ai sim, provavelmente nós faríamos o que ele tanto desejava. Porque eu não estava disposta a perdê-lo, querendo ou não ele era a minha distração no meu presente, podia-se dizer que Ethan era meu porto-seguro. E eu precisava dele, principalmente para não voltar a me prender a esses sentimentos estúpidos que sempre me davam à sensação de que algo me faltava.
Subi minhas mãos entrelaçando meus braços em seu pescoço, senti sua respiração entrecortada e sorri olhando para ele, que no momento estava com os olhos fechados com uma expressão de prazer estampada na cara. Ele era lindo, incrivelmente lindo para falar a verdade. Seu cabelo castanho escuro contrastava incrivelmente com sua pele branca. Seus traços eram finos e elegantes, porém fortes, digno de um nobre na verdade. Seu rosto perfeito alinhava-se divinamente com seu corpo, que, por sinal, era uma das grandes obras da natureza, deixando à maioria das mulheres encantadas pelo o mesmo. Perdi-me brevemente em minha análise quando Ethan abriu seus olhos verde-oliva, encarando-me com uma expressão ilegível no rosto, eu sorri inocentemente para o mesmo, que me deu um sorriso enviesado um tanto malicioso, então, eu vi seus olhos, que por muitas vezes me hipnotizaram, ofuscarem, transformando-o em um verde escuro - de um puro prazer maligno em minha opinião - e uma mudança súbita de humor o atacou, aquele Ethan que eu tanto desprezava voltou com força total. Seus braços que antes eram carinhosos e gentis, no entanto, agora me apertavam com uma força brutal que me machucava. Então, como uma tempestade mental, meu plano se formou novamente em minha cabeça, dessa vez junto com um pouco de raiva e fúria, já que eu estava extremamente revoltada com a sua mudança de humor repentina. Cravei minhas unhas em sua nuca assim que o senti me prensando na parede fria novamente, e o puxei mais pra perto enquanto o mesmo colou nossos lábios com um impacto enorme, provavelmente amanhã sofrendo as consequências quando acordasse, já que meus lábios provavelmente estariam doloridos devido à força que nos beijávamos. Minhas mãos subiram para seu cabelo, e pondo em prática meu plano, agarrei seus fios em minhas mãos, e mordi fortemente seu lábio inferior puxando brutalmente seu cabelo para trás. Eu contava mentalmente os segundos em que ele notaria a dor, eu olhava para o rosto dele, esperando uma reação, qualquer reação, aquilo estava me agoniando, será que ele não sentira dor? Eu mordera tão forte o seu lábio, eu quase podia sentir a dor em mim mesma, então, em um gesto totalmente inesperado, ele conseguiu retomar o beijo, já que eu tinha ficado estática e sem reação pensando no meu próprio fracasso; meu plano não dera certo? Ele não tinha sentido dor alguma? Mas como aquilo era possível? Eu podia sentir alguns fios de cabelo em minha mão devido à força que eu puxei seus cabelos, mas cheguei à conclusão de que meu plano era tolo, assim como eu... E quando eu estava desistindo, tudo aconteceu em fração de segundos. Senti aquele gosto enferrujado em minha boca e, suas mãos que antes estavam dançando por meu corpo pararam. Como uma espécie de câmera lenta eu pude ver que Ethan abria os olhos com uma expressão confusa, ele olhava intensamente para mim... Cinco segundos passaram-se para que ele tomasse uma atitude plausível, sua mão agora estava em sua boca, e ele passava seus dedos lentamente por seu lábio. Assim que os desencostou e olhou para sua mão ele parecia chocado, eu, ainda estática, fiquei observando todos os seus movimentos, e então como se tudo fizesse sentido novamente, ele sorriu e o barulho ensurdecedor me voltou aos ouvidos, assim como eu senti o ar esvair dos meus pulmões novamente. Ele se aproximou lentamente em direção de meu ouvido, eu podia sentir sua bochecha roçar na minha, e disse:
-Minha boca está sangrando. - Travei, eu não sabia o que falar, e então ele continuou. - Você está tão feroz hoje amor, me fez até sangrar. - Ouvi sua risada cínica e rouca ecoar. Ri espalmando minha mão em seu peito, achando graça em suas palavras, mas meu riso estava mais forçado do que era para estar. Por minha sorte ele estava realmente em outro tipo de dimensão já que ele não percebera nada de errado com o timbre de minha voz. Pus minha mão em seu rosto e praticamente sussurrei:
- Desculpa, não foi de propósito. – Menti, olhando o ferimento, aquilo iria doer quando ele acordasse amanhã, eu conseguia ver a marca dos meus dentes ali, cravados em seu lábio inferior em um vermelho intenso de sangue, um calafrio agoniante passou por mim quando ele tocou os lábios novamente dizendo:
- Não se preocupe amor, vai ficar tudo bem. - Estava me sentindo mal, sabia que eu estava fazendo tudo novamente, mas não conseguia impedir, aquilo era mais forte do que eu; eu não dormiria com ele naquele estado de humor totalmente bipolar. Então, sorri e disse: -Vá lavar sua boca, eu vou ali ao bar pegar alguma coisa para beber. - Sorri para ele enquanto acariciava sua bochecha levemente corada e continuei – Sangue realmente tem um gosto ruim. - Fiz uma careta e ele riu acenando levemente com a cabeça, quando o mesmo já se retirava indo em direção do banheiro, eu, em um impulso, segurei seu braço e o beijei tocando levemente seus lábios com medo de machucá-lo. Um misto de sentimentos passou por mim, deixando somente uma sensação terrível que se fixou em meu corpo. Desencostei meus lábios dos seus e acenei com a cabeça levemente para a direção do banheiro como quem dizia que agora ele podia ir, ele me deu um sorriso, aquele o qual eu adorava e, sumiu diante a multidão. A tristeza e a culpa agora assombravam cada poro do meu corpo, palavras acusatórias como idiota, estúpida, mentirosa e burra ecoavam em minha cabeça me trazendo uma incrível sensação de podridão. É provavelmente eu era isso, podre, por fazer isso com o cara que dizia me amar, aquele o qual eu precisava, entretanto insistia em negar as coisas e, que mesmo assim continuava ao meu lado. Eu era uma pessoa horrível e sabia disso. Como se eu não pudesse conviver com a verdade por muito tempo sacudi minha cabeça tentando esquecer os pensamentos que a rodeava. Olhei para a saída daquela boate e comecei a andar a passos largos esbarrando nas pessoas sem ao menos pedir desculpas, afinal o que adiantaria ser educada se elas nem ao menos prestavam atenção em quem esbarravam?! Fui à direção de uma mulher que estava próxima a uma porta e um balcão e disse:
- Oi Suzan, - sorri para ela - eu vim pegar meus pertences, 501. - Eu disse-lhe a numeração que tinham me passado no começo da festa quando deixei minhas coisas ali, Suzan sorriu agradavelmente enquanto eu a olhava. Ela estava com uma aparência muito boa apesar de eu conseguir enxergar perfeitamente os traços que confessavam o seu cansaço. Assim que lhe disse, ela passou por trás de um balcão, riscou o meu nome em uma folha com uma caneta e se certificou da numeração, entrou na porta e passado alguns segundos ela voltou com o meu casaco e minha bolsa. Eu a perguntei:
- Cansada, huh? – Ela sorriu amavelmente para mim e disse.
- Ossos do ofício. – Sorri com ela. Enquanto passava minhas coisas pelo balcão, ela perguntou.
- Aproveitou a noite?
- Até que sim. – Respondi sentindo meu sorriso se desfazer.
- E o namorado, está bem? – Gelei quando ouvi sua pergunta, confirmei com a cabeça duramente, engolindo a culpa e pensando se o mesmo ficaria bem ali sozinho.
- Aqui está senhorita , - Ela disse passando meus pertences e, sorrindo continuou. – volte sempre. - Retribuí com o melhor sorriso que pude, já que estava um pouco aflita com a situação e com medo de que Ethan me visse escapulindo dali. Vesti meu casaco enquanto pegava minha pequena bolsa que estava no balcão, acenei levemente para Suzan e sai andando o mais rápido que pude da ala vip para saída, chegando à porta, sorri para o segurança que retribuiu o sorriso abrindo a porta para que eu pudesse sair. Assim que o mesmo o fez, eu saí daquela boate, chocando-me com a noite gélida das ruas de Londres.

Preocupada. Essa palavra resumia como eu estava me sentindo. Inalando nervosamente o ar e admirando a fumaça que surgia graças a minha respiração, pensei em como o frio estava cortante. Passei os braços em volta do meu casaco como se pudesse fechá-lo ainda mais na tentativa de me esquentar, enquanto observava o vapor que saia do bueiro do outro lado da rua, essa noite estava particularmente fria; Eu pensava no que fazer afinal, já que eu estava a uma quadra de distância da boate e, a rua estava vazia, a não ser por alguns carros que estavam estacionados por ali, pensei em voltar.
Parei na calçada e por alguns segundos essa ideia realmente me pareceu tentadora, mas então me lembrei de como seus olhos mudaram expressivamente de uma hora para outra. Passei as mãos pelo cabelo, puxando-o levemente para trás, odiava essa incerteza, era agoniante, precisava achar um jeito de deixá-lo seguro, mas como? Bom, a chave do carro estava na minha bolsa, afinal, ele tinha deixado comigo por medo de perder na boate, mas quem me asseguraria que ele ficaria seguro quando fosse embora? Como ele iria embora? Droga, sabia que não tinha que ter saído de lá. Virei-me andando lentamente e analisando todas as possibilidades, inclusive a de voltar e pegá-lo para irmos embora, seria fácil, certo? Eu o deixaria em casa com o seu irmão e depois iria para casa. Era fácil, e um bom plano. Parei bruscamente de andar e olhei para o céu - onde começava a surgir alguns flocos perdidos de neve - sorrindo com a ideia, como eu não pude pensar naquilo antes? Abri minha bolsa e peguei o celular o mais rápido que pude, disquei os números; começou a tocar, e quando já estava no quinto toque, pensei em desligar, provavelmente ninguém iria atender. Estava prestes a desistir quando atenderam e, antes mesmo da pessoa do outro lado se pronunciar, comecei:
- Alô? Brian? – perguntei afobada.
- Ahn, alô, quem ta falando? – Ele perguntou com a voz sonolenta.
- Brian, sou eu, a , você tava dormindo? Desculpa, eu, sabe, não era minha intenção, acordá-lo. – Respondi rápido me atropelando um pouco nas palavras, em um tom de voz baixo.
- Ah, oi , não, quer dizer, sim eu estava dormindo, mas não, não precisa se desculpar... Sem contar que nada é melhor do que acordar ouvindo sua voz. – Ele disse abobadamente, logo em seguida bocejando. Sorri e mentalmente me perguntei se ele tinha alguma noção do que tinha dito. – Mas então, aconteceu alguma coisa? Por que você está me ligando tão tarde? – Agora sua voz estava um tanto preocupada. Eu não sabia como começar a dizer aquilo, eu fiquei em silêncio por alguns segundos, analisando se eu realmente devia tê-lo acordado para pedir aquilo. Sentindo o desconforto de minha parte Brian foi mais rápido e perguntou, agora parecendo atento e cauteloso com as palavras.
- O que o Ethan fez ? O quê ele aprontou dessa vez? - Sua voz parecia cansada, e eu não o culpava por isso, ao contrário de Ethan. Brian, apesar de ser o mais novo, carregava bem mais responsabilidades, ele era o exemplo da família Carter. Ótimo filho, ótimo aluno, ótimo pretendente, ótimo herdeiro, tudo o que Ethan julgava-se que não era. E acredite, isso não era coisa de sua imaginação, e sim de seus pais, já que nos olhos dos mesmos ele sempre fora o irresponsável, talvez fosse esse um dos motivos os quais Ethan fazia o que fazia não se importando com nada a sua volta, ou talvez ele fosse um mimadinho magoado com a família como eu sempre desconfiara, assim fazendo com que o mesmo ao invés de melhorar suas atitudes, só as piorasse. Obviamente minhas amigas viviam dizendo que eu escolhera o irmão errado, sim, elas sabiam ser venenosas quando queriam, principalmente para me irritarem e rirem comigo depois, mas no momento eu não me preocupava com isso, somente me preocupava com o fato de safar Ethan de qualquer coisa que seu irmão pudesse jogar em sua cara depois. Eu tinha vários fatos comprovados de como aqueles dois não se bicavam. O motivo do ódio eu não sabia qual era, mas os dois pareciam estar sempre em duelos intermináveis. Brigas e mais brigas, isso era única coisa que eu escutava ou os via fazendo.
Ás vezes eu percebia que uma das coisas que Ethan mais se orgulhava era o fato de que eu o escolhera para ficar comigo e não o seu irmão perfeito como todos julgavam que ele era. Na verdade era quase impossível não perceber quando ele gritava para todos ouvirem em alto e bom som; Mas enfim, sabia que Ethan tinha feito coisas erradas, como tentar me agarrar em plena boate, e não fora a primeira vez que aquilo tinha acontecido, e eu também sabia que isso era errado tanto da sua parte quanto da minha, já que eu estava o encobrindo, mas realmente tinha um enorme afeto por ele, e não queria que ele arranjasse mais desordem em sua família, principalmente por minha causa, então, eu somente disse:
- Ah Brian, não foi nada demais... - respondi, continuando – Eu só precisei sair mais cedo porque uma das meninas me ligou desesperada por ajuda, acho que aconteceu alguma coisa grave, então, eu tive que sair o mais rápido que pude. Mas não achei o seu irmão, e quando eu dei por mim, percebi que tinha saído e o deixado, além de bêbado, sem a carteira e as chaves. - Menti descaradamente sobre a carteira, mas não sobre as chaves. Ele não pareceu perceber, então, delicadamente e com aquela voz que eu sabia que o deixava louco pela minha pessoa, perguntei. - Teria como você ir buscá-lo Brian? Porque se você fizesse isso, você estaria me fazendo um enorme favor... - Terminei ouvindo somente sua respiração do outro lado da linha. Alguns segundos em silêncio se passaram e, quando eu estava quase perguntando se ele ainda estava ali, ele respondeu-me:
- Tudo bem , eu não sei como o meu irmão faz isso com você, mas... – o silêncio repousou por alguns segundos sob linha como se ele quisesse causar um suspense, e continuou - eu vou cobrar, viu?! Tenha certeza disso. - ele disse dando aquela risada sexy e infantil que às vezes me deixava incomodada, mas que sempre me fazia sorrir junto dele.
- Obrigada Brian, de verdade, e da próxima vez que nos encontrarmos me peça qualquer coisa que eu lhe farei com prazer... - eu disse alegre voltando a andar, meu plano tinha sido bem-sucedido afinal.
- Cuidado com o que você diz . - Ele respondeu brincalhão. Senti uma sensação estranha passando por mim, olhei para os lados e não avistei ninguém na rua, voltei o rumo de minha atenção à conversa. Brian tinha que parar com essas coisas, de vez em quando ele me deixava constrangida e com uma sensação da qual eu não gostava. Quer dizer, eu estava com o seu irmão, ele não devia fazer essas brincadeiras comigo, não mesmo. Assim como eu não devia reparar em como sua risada era sexy e infantil, e muito menos em como suas frases tinham duplos sentidos, afinal, ele era o irmão mais novo, o pequeno Brian.
-Você é que anda um tanto maléfico ultimamente, pequeno Brian. - É ele odiava quando eu o chamava assim.
- Eu cresci , e às vezes eu acho que só você não percebeu isso... - Ele respondeu e um silêncio quase tocável se instalou entre nós, ri nervosa e disse:
- Obrigada de novo Brian, a gente se fala, ok? Beijos e boa noite pra você. Ah e peça ao Ethan me ligar amanhã, sabe como é, para me dar notícias, senão eu ficarei preocupada. - Sorri me despedindo do mesmo que respondeu um tanto amargurado...
- Boa Noite . - E assim desliguei o celular ficando perdida em pensamentos.
Retornei a andar, ouvindo meu salto batendo contra o asfalto molhado. O Ethan ia me matar no dia seguinte. Provavelmente ele não iria aparecer mais amanhã em minha casa com o buquê de flores como eu imaginara, e muito menos riria dos fatos da noite anterior. Mas tudo bem, porque eu o faria esquecer de todas as coisas ‘ruins’ que eu tinha o feito passar durante aquela noite, certo? Afinal cederia e ele teria finalmente o que queria. E definitivamente ele esqueceria de tudo o que aconteceu nesta péssima noite, inclusive eu ter chamado o seu irmão para ir buscá-lo bêbado na boate. É. Claro, isso ia funcionar, mas uma coisa era certa, eu tinha que me manter afastada do pequeno Brian, e como tinha.

Eu olhava atentamente a calçada perdida em pensamentos ao mesmo tempo em que tomava cuidado para não cair, eu era um desastre na rua, todo mundo sabia disso, principalmente em cima de sapatos de salto agulha. Pensei há quanto tempo não via minhas amigas, amanhã faria cerca de uma semana, e sim, nós nos falávamos todos os dias, mas necessitava vê-las, definitivamente amanhã ligaria para elas e marcaria de nos encontrarmos. Olhei a rua deserta e senti-me mal, por que táxis nunca apareciam na hora em que precisávamos? Bufei pensando que estava na hora de aprender a dirigir, afinal, meu medo bobo de sair por ai atropelando velhinhas e crianças só realmente aconteceria se eu tivesse essa vontade insana, o que não era o caso. Ri dos meus pensamentos inúteis sentindo a noite esfriando depressa demais. Apertei o passo olhando para frente, apenas mais alguns quarteirões e eu estaria quente, sã e salva em meu apartamento. Olhei ao longe avistando uma casa que continha uma movimentação intensa, pessoas saiam e entravam do mesmo enquanto o som alto irrompia a rua; à medida que ia me aproximando, senti uma sensação familiar tomar conta de meu corpo; instantaneamente, uma nostalgia alastrou-se em mim, fazendo com que eu já sentisse falta da adolescência, que ainda não tinha nem terminado ao todo. Sorri levemente quando passei em frente a um carro onde alguns casais fumavam e conversavam animadamente, encarei um dos casais que se beijavam com uma intensidade avassaladora, eles se separaram e olharam-se amorosamente. Senti um aperto no peito enquanto uma pequena inveja tomava conta de mim. Eu nunca tive aquilo, não estava falando do beijo, mas sim do amor que os dois emanavam. Aquilo me incomodava de um modo o qual não conseguia compreender. Parei de olhá-los obrigando-me a parar de sentir aquelas emoções estúpidas. Eu não podia acreditar que estava com inveja de dois estranhos, pessoas as quais eu nem ao menos conhecia. Voltei a olhar para frente prestando atenção na rua, logo ouvindo o barulho de festa sumir atrás de mim. Agora eu não ouvia mais nada. Meus passos diminuíram gradativamente conforme a imagem daquele casal insistia em aparecer em minha cabeça. Chacoalhei meu rosto incrivelmente irritada. Eu não queria sentir aquilo, não fazia bem a mim. Pisquei os olhos voltando minha atenção à rua, eu tinha que parar de pensar naquilo, eu não estava só, nunca estive só em toda a minha vida, então, porque me sentia sozinha?

Parei bruscamente de andar como se tivesse chocando-me com alguma parede invisível. Senti um formigamento em minhas costas como se alguém me observava. Eu sabia que precisava andar e não parar e olhar para trás, aquela era a regra, porém, como sempre, meus instintos fizeram exatamente o que eu esperava. E em uma espécie de câmera lenta, olhei pra trás e vi uma sombra naquela rua escura vindo em minha direção. Meu corpo gelou, minhas mãos suaram, minhas pernas falharam por um momento e o grito ficou entalado em minha garganta. Talvez fosse apenas uma má impressão, algum tipo de paranoia estranha, mas eu não estava preparada para saber se aquilo era realidade ou apenas um fruto de minha imaginação fértil. Virei-me rapidamente para frente e voltei a andar o mais rápido que meus pés conseguiam caminhar. E conforme aumentava meus passos, o desespero apossava-se de mim, eu ouvia passos além dos meus. Olhei para trás mais uma vez e vi novamente a sombra, agora formando um leve contorno no meio da escuridão, era uma pessoa, e agora eu tinha certeza disso, pois tudo era muito simples e claro dentro na minha cabeça, meu instinto me alertara e agora eu enxergava isso, alguém estava me seguindo.
Olhei para frente sentindo calafrios horrendos percorrendo cada milímetro de meu corpo, a angústia e o medo embolavam-se dentro de mim como uma bola de lã emaranhada, eu estava desesperada. Meus pés aceleram. Eu tremia dos pés a cabeça. Sentia meu corpo mole e meu estômago embrulhado. Eu olhava a rua a procura de qualquer movimentação, mas a única coisa que via em minha frente eram as luzes falhas de alguns postes que insistiam em piscar dando um clima mais tenebroso do que desejado. Nenhuma alma viva estava presente ali, nenhum carro, nenhum lugar aberto, ninguém além de mim e aquela pessoa que ainda me seguia; sentia meu corpo arder em chamas ao mesmo tempo em que sentia minhas mãos gélidas, era impressionante o quanto eu podia sentir seu olhar queimando minhas costas.
Eu não me permitia virar porque sabia, um passo em falso e eu me ferraria, porém, a cada passo que dava, o sentia mais próximo a mim, o meu autocontrole? Já tinha ido por água abaixo há algum tempo. Eu queria correr, e acredite, eu tentei, e no exato momento em que o fiz, ouvi um berro, o seu grito na verdade, e era de um homem, eu pude perceber isso graças a sua voz que ecoou um tanto sombriamente na rua vazia, deserta. Meus pés falharam rapidamente, assim como os meus joelhos, fazendo-me tropeçar no nada na calçada quase caindo. Eu ouvia sua voz ao longe, entretanto, suas palavras eram um tanto desconexas pra mim, eu não entendia nada do que ele gritava, sua voz arrastada era cortante em meus ouvidos, e sem que eu percebesse lágrimas já escorriam por meu rosto. Uma rajada de vento frio passou por mim levantando meu casaco, e eu olhei novamente para trás vendo que agora aquele homem estava a poucos metros de mim. Uma de suas mãos estava esticada em minha direção como se ele quisesse me alcançar... Me pegar. Isso não podia estar acontecendo comigo.
Olhei para frente e avistei o que seria uma curva naquela rua imensa. Minha mente formou rapidamente uma estratégia, eu entraria ali, despistaria o homem e iria para minha casa. Prendi a bolsa em minhas mãos com uma força desnecessária já que minhas mãos suavam e meu corpo inteiro tremia de pânico. A voz ainda estava presente e mais real a cada passo em que dava, gritava mentalmente comigo mesma não permitindo olhar para trás novamente. Eu estava chegando à rua, estava quase lá. As lágrimas rolavam por minha face embaçando minha visão fazendo-me grunhir de raiva, justo agora eu tinha que estar sozinha e chorando ainda por cima?!
As luzes se apagaram justo na hora em que me virei. Continuei andando pela rua extensa apoiando-me na parede. Eu não corria mais. E não enxergava também. O medo me possuía de uma forma inexplicável, fazendo-me diminuir os passos e continuar a andar silenciosamente. Se eu corresse iria cair, e um tombo era tudo o que eu menos precisava no momento. A parede estava molhada assim como o chão. Meus pés se arrastavam no asfalto molhando enquanto a neve pousava calmamente em meu cabelo o molhando. Implorei para o nada pedindo para que a luz voltasse. Minhas lágrimas agora desciam furiosamente, talvez, como em cascata por meu rosto. Eu podia ouvir a voz daquele homem, arrastada, confusa, embaralhada, chamando um nome qualquer. Tentei identificar aleatoriamente, mas não consegui identificar muito bem o que falava, presumi que fosse um nome feminino já que ele me seguiu até aqui; sem contar que eu estava muito nervosa tentando fugir do mesmo para entender qualquer coisa que ele dissesse. Outra rajada forte de vento chocou-se contra mim quando bati na parede em minha frente. As luzes piscaram novamente e logo se apagaram por completo, e nesse meio tempo eu vi, no momento em que a luz piscou, eu pude enxergar... Eu estava presa.
Amaldiçoando-me mentalmente por ter virado em um beco sem saída, passei minhas mãos desesperada pela parede, dedilhando, tateando, como se algum portal fosse se abrir ali, bem no meio, salvando-me do que estaria por vir. Minha bolsa caiu aos meus pés e os soluços começaram a sair desesperados, demonstrando o choro antes preso. Agachei-me. Encolhida, passei meus braços por minhas pernas, e lá fiquei tentando abafar o choro. Comecei a rezar, coisa que não fazia a algum tempo, pedindo, implorando por qualquer tipo de milagre divino que pudesse me tirar daquele inferno particular o qual eu me encontrava. Isso devia ser algum tipo de castigo; castigo, é isso, só podia ser. O pessoal lá em cima estava me castigando por ter deixado Ethan sozinho e machucado. Era óbvio, eu não prestava e agora pagaria por isso da pior maneira possível, porém, mesmo assim, isso não era justo. Minha garganta doía enquanto eu chorava e soluçava; Minhas unhas estavam cravadas em meus braços como se nada pudesse me separar do meu próprio abraço. O vento cortante passava por mim em uma espécie de fúria, como se estivesse me acalentando, me protegendo, me alertando de algo. Eu quase podia ouvir minha mente gritando junto com o vento, 'Levante, corra! Ficar parada não vai adiantar nada' Mas não conseguia, eu estava congelada, petrificada de medo. Ouvi seus passos, e meu corpo inteiro se retesou, era isso, meu fim estava próximo, morreria ali, tinha certeza disso. Apertei mais meus braços em volta de meus joelhos. O escuro agora me parecia mais penetrante do que nunca, a reza desaparecera de minha cabeça como um algodão-doce se dissolve na boca de uma criança, e a única coisa que eu fazia era chorar e chorar. Meu corpo tremia junto do choro sofrido, e sentia que se me mexesse cairia num buraco sem fundo. Seus passos cessaram quando senti seu olhar sobre mim. Não me atrevi a olhar para o mesmo, continuei ali, parada, encolhida, com frio e desprotegida; o vento aumentava a cada minuto que se passava, enquanto eu sentia os flocos de neve derretendo em meu casaco. Então, o vento interrompeu-se bruscamente me assustando. Parei de soluçar com medo que ele me ouvisse e se revoltasse, porém, me surpreendi quando ouvi que os soluços continuavam, aqueles soluços não eram meus. Levantei a cabeça e me deparei com o que provavelmente eram seus sapatos. O homem estava em minha frente. Tremi com o susto que levei, estava prestes a cair para trás, no chão sujo e molhado quando fui surpreendida e amparada por suas mãos que me agarraram. Minha respiração falhou quando ele me puxou pra cima. Suas duas mãos, cada uma em um lado de meus braços, apertavam-me com uma força descomunal, eu queria gritar, pedi-lhe para parar, porque aquilo estava me machucando, mas conforme abria a boca, eu me sufocava. O ar invés de sair parecia comprimir dentro dos meus pulmões. Ele me levantou por completo, mas não ousei levantar meus olhos para seu rosto. Arrepios intensos atravessavam meu corpo fazendo com que meus pelos eriçassem como em um choque elétrico. Eu tremia e soluçava piedosamente em suas mãos. Eu sabia que se ele me soltasse, eu despencaria. Entretanto, suas mãos quentes me seguravam firmemente. Eu queria me balançar para me soltar, mas nem isso era capaz de fazer, sua força me machucava e me sentia impotente. Ele chorava junto comigo me desalentando de qualquer ato. Aquele homem me segurava, dando-me um apoio incompreensível, como se ao mesmo tempo em que ele quisesse me proteger, ele quisesse me jogar em alguma masmorra. Mas eu sabia que o motivo do seu choro não era o mesmo que o meu. O meu era de medo, terror, pavor, já o dele não. Talvez ele estivesse arrependido de ter me seguido e estava em alguma batalha interna, tentando decidir se me atacaria ou não. Será que ele me conhecia? Levantei o rosto e, tomando coragem o fitei em minha frente, porém, não consegui enxergar nada, tudo estava escuro demais. Como as trevas, meu cérebro gritou. O pânico afligia-me. Incapacitada, desnorteada, desesperançosa, amedrontada, era assim que eu me sentia, eu chorava alto agora, e a cada soluço que escapava de minha garganta, o ar me faltava mais ainda. Então, como se tivesse levado um murro na boca do estômago sua voz saiu em um sussurro, cortada, falhada, era apenas isso que eu ouvia. Um sussurro falho, como o vento entrecortando nas curvas das esquinas perigosas, um projeto de voz, com o hálito quente e o bafo de bebida...
- Não chore, não gosto de ver mulher chorando. - Estremeci em suas mãos e senti o sarcasmo me invadir, como ele podia falar uma coisa dessas? Ele nem ao menos me via. O choque percorreu meu corpo e, antes que eu pudesse absorver toda a informação para retrucar suas palavras, ele continuou - Mas agora você vai ser minha, pela última vez, tá bom? Afinal, você me deve isso.
O vento surgiu entrecortando novamente, passando rapidamente por nossos corpos. Senti minhas costas na parede fria e arregalei meus olhos assustada. O escuro só parecia-me maior e o seu corpo agora encostava lentamente no meu. O pânico tomava conta de meus atos fazendo com que meus músculos não se movessem, assim como todo o meu corpo também não. Porém, ele se movia, lentamente, se esgueirando, se escorando, aproximando-se mais rápido do que eu queria que fosse. Ele sim tinha força e insistência por nós dois. Colando-se totalmente em mim, retesei meu corpo na parede, me retraindo ao máximo tentando estender o tempo em que ele não me tocaria. Soluços baixos escapavam de meus lábios juntamente com as lágrimas que escorriam por meu rosto. Estava escuro, e tinha um homem estranho me prensando numa parede em uma rua qualquer e eu não conseguia enxergar nada além do seu contorno. Fechei os olhos desesperadamente prevendo o meu fim, seu rosto foi chegando perto e eu ouvi sua voz vacilante, sussurrante, dizendo-me:
-Vai ser rápido. Eu prometo pra você, eu não vou te machucar, será nossa última vez, vai ser inesquecível e você nunca mais se esquecerá de mim. - Respirei profundamente assustada com sua voz que soara assustadoramente horripilante em meus ouvidos. Provavelmente ele estava certo, eu nunca mais esqueceria aquela noite se eu saísse viva dela. Ele falava como se me conhecesse, e isso era impossível certo?! Apertei meus olhos com mais força, aquilo devia ser apenas minha imaginação, claro, aquelas mãos quentes em meus braços era minha imaginação, assim como seu corpo colado ao meu também era a minha imaginação, inclusive seus lábios que agora se chocavam com os meus fechados, era fruto de minha mente fértil. Aquilo tudo era uma grande peça da minha cabeça. E logo mais tudo acabaria porque eu acordaria vendo que tudo não passara de um grande sonho assustador.
Triste ilusão a minha.
Sua língua pediu passagem em minha boca furiosamente, porém, eu não cedi, e nem cederia, eu não queria aquilo, na verdade, a única coisa que eu queria era sumir dali. Mas ele não deixou que minha mente trabalhasse como se aquilo fosse minha imaginação ou um sonho surreal, ele tentou, uma, duas, três vezes, e vendo que eu não cederia facilmente a seu beijo, sua mão direita largou meu braço esquerdo e apertou meu queixo fortemente. Ele sussurrou alguma coisa da qual era para eu colaborar com ele, mas não quis ouvir. Subi meus braços e com o reflexo - ou talvez instinto - coloquei minhas mãos em seu tronco e tentei empurrá-lo. Eu não conseguia afastá-lo, sua força era muita comparada a minha. A mão que ainda estava em meu braço, apertou-me mais ainda e eu gemi de dor, com minha boca entreaberta ele conseguiu finalmente o que queria, e o fazia com uma ferocidade espantosa enquanto eu me debatia na parede fria sentindo nojo de tudo aquilo. Aquele beijo machucava o fundo de minha alma e a repulsa tomava conta de mim de uma forma avassaladora, quase milimetricamente, dando-me a sensação de que minhas entranhas de reviravam, rejeitando tudo a minha volta.
Eu me debati pelo o que pareceu horas, mas creio que tenham sido minutos, já que o tempo parecia não passar conforme meu desespero aumentava. Suas mãos seguravam fortemente minha cintura. Eu gritava. Debatia-me. O escuro causava-me calafrios horrendos, se ao menos houvesse qualquer luz, eu conseguiria achar um jeito de sair. Suspiros pesados escaparam de seus lábios junto do bafo de bebida que me dava enjoo, a ânsia predominava todo o caminho de minha garganta e eu quase sentia a ardência. Minha vontade de vomitar era absurda, quando eu sentia sua língua roçando-se na minha, explorando todos os lados de minha boca. Conforme me mexia sua força sobre mim tornava-se maior e, sabia que se eu 'acordasse' viva desse pesadelo no dia seguinte eu provavelmente estaria cheia de marcas e arranhões. Seu corpo apertava-me na parede enquanto ele mordia fortemente meu lábio inferior fazendo-me gritar e chorar de dor ao mesmo tempo. Meu grito deve tê-lo perturbado já que na mesma hora ele jogou seu corpo contra o meu fazendo com que minhas costelas batessem fortemente na parede dura. O grito que antes se formara foi interrompido pela a falta de ar que se espalhava pelos meus pulmões. De minha boca já não saiam mais gritos, agora a única coisa que eu sentia era dor preenchendo cada lacuna de meu corpo. Sentindo-me mole, o ar faltava-me, enquanto o meu peito queimava, porém, o choro continuava mesmo que dolorosamente. Seus braços pousaram-se em minha cintura enquanto eu me escorava em seu corpo. O impacto na parede me machucara de uma tal forma que somente percebi que estava meio desfalecida em seus braços quando ouvi seu projeto de voz em meu campo auditivo outra vez:
-Você está bem? - meus pelos eriçaram novamente. - Eu não te machuquei certo? - várias respostas passaram ironicamente por minha cabeça. Seus dedos percorriam delicadamente minhas costas, em uma espécie de carinho, como se ele pudesse acalentar a dor que ele acabara de me provocar. Estremeci de medo. Porém, não tinha mais forças, o ar me faltava, minha cabeça latejava, meus olhos mal se abriam de tão inchados, eu não sentia mais as lágrimas - mesmo tendo a certeza de que elas caiam - e minha garganta estava arranhada pelo o tanto que eu gritara e chorara. Eu estava fraca, humilhada, com medo, apavorada e machucada, não me sustentava mais em minhas próprias pernas e sentia meu peito flamejar de dor. Eu não estava mais aguentando aquilo tudo. Tudo em minha cabeça girava, o pânico me assombrava, o escuro parecia me engolir e eu só pedia para que aquilo acabasse logo, se fosse para morrer, que eu morresse de uma vez, pelo menos a dor passaria. Sem qualquer resistência de minha parte, apenas sentindo o terror se apossando apressadamente de mim o ouvi sussurrar perto de meu ouvido...
- Que bom que você está bem meu amor. - E assim encostou nossos lábios, apenas os selando.

Tremi. Chorei. Lutei.
Dores. Agonias. Relutâncias.
Pavor. Desespero. Medo.
Abdicação. Abandono. Desistência.

Meu vestido estava levantado praticamente até a cintura deixando minhas pernas totalmente a mostra. Eu não me aguentava mais em meus pés. Eu estava dopada pela dor, pela falta de ar, pelo escuro, pelo medo. Eu desistira. Não conseguia mais lutar. Tem uma hora, na sua vida, em que você simplesmente sabe o que vai acontecer, e por mais que você tenha lutado ou se esforçado ao extremo, você sabe que vai perder. E eu sabia que minha hora tinha chego. Não tinha mais forças, não mais do que ele para conseguir sair dali inteira ou somente com o ego ferido. Minha respiração lutava para se manter. Eu quase me afogava na dor latente, no fogo, na agonia que se apossava mais e mais de meu peito. Fechei os olhos, desistindo, respirando. Não aguentava mais. Eu não podia mais. Não conseguia mais lutar. Tentei por uma última vez, com a voz falha, arranhada, desgastada, lhe implorando:
-Por favor, me solte... Deixe-me ir... - Eu não sentia mais os soluços, nem as lágrimas, o frio se apossava de mim, conforme a queimação em meu peito se espalhava. Ele parou por alguns segundos parecendo pensar, me dando uma pequena, uma minúscula esperança de que talvez me soltasse. Mas tudo foi deixado de lado quando senti suas mãos de baixo do meu vestido, em meu quadril, alisando-o. Sentindo seu dedo passando pela barra da minha calcinha de renda fina, acariciando e fazendo-me estremecer. O pavor fundia-se com o medo me causando um terror alucinante. E então ele sussurrou:
- Desculpe meu amor, mas eu não posso. Você prometeu pra mim lembra? Uma última vez... - E assim seus dedos ultrapassaram a fina camada de renda fina, que os separava de meu corpo, arrancando fortemente minha roupa íntima e provocando-me um enorme grito estrondoso de dor.

Seu corpo colou-se fortemente no meu, enquanto seus lábios iam diretamente ao meu pescoço, e suas mãos em suas próprias calças. Soluços engasgados, afogados, saíram de minha garganta quando o senti dentro de mim. Seus gemidos eram abafados por seus lábios que se encontravam em minha pele. Seus lábios prensados em meu pescoço, que o mesmo lambia, chupava e mordia. Saboreando como se aquilo fosse algum tipo de prazer insano e maligno que me dava sensações aterrorizantes. A dor parecia espalhar-se conforme ele se movia dentro de mim. Minhas costas batiam fortemente na parede fria fazendo-me urrar de dor. Parecia que meus gritos o estimulavam a ir mais rápido, mais forte, mais fundo, como se apreciasse minha dor sufocante. Eu chorava, tremia, gemia de dor... Eu me rendi. Seu prazer era minha dor. E eu estava extremamente cansada e esgotada, agora só pedindo para que tudo terminasse logo. E foi assim, que eu passei a primeira noite na minha vida sozinha. Sendo abusada, esfolada e machucada. Obtendo momentos dos quais eu nunca mais esqueceria em toda a minha vida, e eles não eram bons.
Depois de um tempo, ele chegou finalmente ao seu ápice, amolecendo em meus braços como se tivesse se divertido tanto ao ponto da exaustão. Diversão sádica a dele, não?! No caso eu fora o seu brinquedinho durante a sua noite prazerosa. Sem nenhum tipo de protesto ele saiu lentamente de mim me provocando uma sensação de nojo e repulsa. Ele acariciou minha cintura e beijou minha mandíbula fazendo-me recuar o mais longe que podia do mesmo. Minhas pernas doloridas tremeram, mas não me deixaram na mão. Me sentia horrível e estava doída, tanto fisicamente como psicologicamente, mas me mantive em pé. Dando um passo para o lado, somente ouvindo minha respiração ofegante de medo, ele veio para cima de mim novamente, porém, dessa vez pareceu mais lerdo ou mais entorpecido pelo momento. E em um movimento rápido, eu o empurrei com todo o resto de força que me tinha sobrado, sentindo ao mesmo tempo tudo queimar e doer dentro de mim. Foi ai, então, que ouvi um barulho de algo desmoronando. Dei o primeiro passo para frente sentindo minhas pernas vacilarem em cima do salto. Fazia um bom tempo naquela noite em que eu mesma não me sustentava em minhas próprias pernas, vacilei por mais alguns passos naquela rua molhada, fria e escorregadia, apenas sentindo minha respiração e mais nada. Nenhum barulho, nenhum gemido, nada. Por um momento senti-me imensamente culpada, será que eu tinha matado o cara? Não era possível. Mas por outro minha cabeça gritava, 'Corra, isso pode ser apenas uma armadilha, se você não for pode morrer. '. E durante a esse pequeno conflito interno, tomei a decisão mais prudente. Agarrando-me fortemente a parede e ainda percorrendo todo o caminho no escuro, senti meu peito arder em chamas devido ao esforço, como se vários cacos de vidro estivessem ali, cravados, me torturando lentamente em uma agonia latejante, fazendo a dor possuir-me de uma forma quase exagerada. Consegui sair do beco observando que a neve caia rapidamente agora. E em alguns pontos da calçada eu já podia ver os flocos se amontoando. Parei no meio da rua. Olhando atordoada para os lados imaginando que enquanto as pessoas dormiam, eu passara o pior momento da minha vida. Ainda em alerta comecei a andar tirando meus sapatos e os segurando em meus dedos trêmulos. Eu estava sem bolsa, sem nada e teria que voltar para casa sozinha. A neve caia rapidamente. Estava frio. Mas isso não importava, não agora. Porque eu tinha conseguido. Finalmente, eu tinha saído de lá. Eu fora ao inferno e voltei. Ia pra casa e não pra debaixo da terra como esperava. E assim fui caminhando pela rua, sozinha, pensando que eu não morrera no final das contas.
Não completamente.


Capítulo 2

“É erro vulgar confundir o desejar com o querer. O desejo mede os obstáculos; a vontade vence-os.” - Alexandre Herculano.



’s POV.


Definitivamente esse é um daqueles dias que ficam marcados na história. Quer dizer, pelo menos é um dos dias que vai ficar marcado na minha história; e não vai sair da minha memória por um tempo, provavelmente irá permanecer na mesma até o final de minha vida. Pois é. Hoje eu estava saindo daquele lugar, é, isso mesmo, eu estava saindo dali e indo para minha casa novamente. De volta para o meu lar, para os meus antigos hábitos, prazeres e rotinas. Soltei pesadamente o ar enquanto abria os olhos e levantava cansado de minha cama que já estava arrumada há algum tempo; pensamentos conflitavam em minha mente com uma intensidade absurda. Eu ia ter minha vida de volta, estava indo embora dali. Tremi com aquilo.
Andava a passos lentos pelo quarto apenas observando o movimento do relógio pendurado na parede. Aquele tic tac me incomodava de um modo ensurdecedor. É incrível como o tempo passa arrastado quando você precisa que ele passe o mais rápido possível. Olhei mais uma vez para aquele quarto e suspirei, tantas coisas aconteceram ali, e no fundo, por mais insano que pareça, eu ia sentir falta desse lugar. Não que fosse ruim, ao contrário disso, era bom até demais. Mas digamos que eu não tive meus melhores dias e momentos durante minha estadia no local.
Parei no parapeito da sacada observando a paisagem a minha frente, o sol raiava fraco no céu azul, o que era uma coisa estranhamente bizarra, já que estávamos falando de Londres. Eu admirava quase abismado a beleza do lugar ao qual me encontrava. Era meio impressionante pensar que um lugar daqueles realmente existia naquela capital nublada, imagine estar nele. Lógico que não estou falando do fato de não ter outros lugares como este por aqui, mas sim pela vista deslumbrante do mesmo. Aquele jardim tão perfeito, parecia vivo e real, tão esplendoroso que aparentava ter sido moldado divinamente para o lugar. A grama tremeluzia com os raios brilhantes e amarelos do amanhecer. Era uma paisagem bem incomum, eu diria quase sobrenatural, porém muitíssimo belo, admiti; Remexi-me inquieto sentindo o silêncio, quase tocável, alguns podiam dizer que era um tanto relaxante, mas eu estava ansioso demais. No começo, logo nos primeiros dias que passei ali, e mandavam-me ir dar uma volta no jardim para espairecer, eu caminhava no mesmo com medo de tocar achando que tudo poderia se diluir em minhas mãos, talvez associando como a minha vida que um dia quase tinha escapado entre meus dedos. Eu sei; confuso, óbvio. Mas preferi não pensar no começo, de quando entrei ali. O começo era um pouco alucinante e perturbador em minha opinião; e eu definitivamente não gostava de recordar, não agora. Fiquei absorto em meus pensamentos, olhando tudo maravilhado, e confesso, esperando desejoso que essa fosse à última vez.
Aspirei o ar profundamente, pensando que provavelmente eu não respiraria um ar menos poluído como aquele há um bom tempo. Eu sei, eu sei, estávamos em Londres, já sabia disso, mas aquelas árvores, plantas e flores espalhadas pelo jardim extenso davam um ar tão tranquilo e saudável que preferi agregar a possibilidade de que aquele ar iria me fazer bem e não o contrário. Encostei-me na parede ao meu lado encarando o sol, sorri fraco sentindo o mesmo me banhar lentamente, a quentura agradável dava-me uma sensação prazerosa, que me lembrava a infância, felicidade, passeios, viagens, férias, lembranças sublimes para falar a verdade. Eu quase podia sentir meu corpo protestar relaxando de alívio finalmente. Estava tão tranquilo, que eu mesmo estranhava em como aquela paz e aquele silêncio finalmente não me atormentavam mais, ou eu achava que não.
Mas também sabia que se eu me mexesse aquela paz iria evaporar, quer dizer, era sempre assim, aquelas coisas sempre reapareciam pra mim quando eu menos esperava. Balancei a cabeça e abri os olhos enxergando tudo em preto e branco devido ao sol. Encarei a vista pela última vez sorrindo leve, analisando o sol, talvez as coisas fossem mais simples se fosse tudo cara-a-cara, um jogo limpo e claro, sem mentiras, sem intrigas, sem interesses, tudo em preto-e-branco. Dei as costas rindo baixo, sarcástico, deixando a bela vista para trás e me perdendo em pensamentos sombrios, mesmo depois de tudo o que tinha acontecido comigo eu ainda tinha esperanças de que todas as pessoas fossem boas. Claro, suspirei. Afinal, fora isso que tentavam me ensinar ali, a famosa segunda chance, o recomeço. Parei no meio do quarto e respirei. Eu era um idiota. Balancei a cabeça freneticamente tentando esquecer aquelas coisas. Sentei-me na cadeira da escrivaninha mediana, - um pouco surrada, nem velha, nem nova, eu diria aconchegante - de costas para o relógio. Eu não me permitiria mais contar os minutos que me restavam ali.
Peguei o bloco de papel e a caneta que estavam em cima da mesa surrada e comecei a rabiscar coisas sem sentidos. Riscos e mais riscos fundiam o papel, eu rabiscava levemente a folha; virei à página e outra folha em branco apareceu, ali, pronta para ser usada, irônico não? Pensando um pouco alto, ouvi minha voz baixa ressoando no recinto sem minha autorização, como se aquilo fosse um mecanismo automático de meu corpo, de minha mente, minha voz expressando-se sem ao menos eu ter permitido, as palavras saíam baixas, rasas, ríspidas, como se fosse um desabafo íntimo demais para ser exposto.
- Talvez eu realmente seja como uma folha, pronto para ser usado novamente. - Sarcástico, huh?! Pensei. Encarei a folha em branco momentaneamente; enquanto vários sentimentos queimavam em meu peito pedindo, quase implorando para saírem de dentro de mim, as palavras surgiam aleatoriamente em minha cabeça. Escrevi, escrevi e escrevi. E quando me dei conta, já não tinha mais um pedaço em branco disponível. Vi também o quão doloroso era aquela imagem para mim. Olhando atentamente para o redemoinho de palavras, algumas marcadas com mais forças do que as outras, senti minhas entranhas revirarem. As palavras que demonstravam meus tormentos, amarguras, dores, ressentimentos, fracassos, desapontamentos, essas sim, estavam marcadas em pleno destaque. Arranquei a folha brutalmente. Era isso que eu tinha me tornado? Uma pessoa ridiculamente patética?! Não, talvez somente uma pessoa drasticamente magoada.
Amassei a folha tentando amassar juntamente aquelas palavras, tentando-as esquecer com todo o meu fervor. Bati fortemente na mesa com raiva, segurando aquela bola de amargura formada em minha garganta, eu não iria chorar, não agora. Sabia que não conseguia perdoar tudo o que acontecera, não ainda, e se fosse necessário, eu conviveria com tudo isso em mim, para mim, com todos esses sentimentos embolados como um furacão, que me afligiam e agoniavam, pois eu prometera que não iria magoar mais ninguém, eu não podia mais magoar as pessoas que amava. Porém precisava ter minha vida de volta. Eu necessitava disso. Tinha de sair dali. Precisava provar pra mim e para todos os outros que eu podia ter tudo de novo; que nunca saíra daquele mundo, do meu mundo. Precisava acreditar que eu podia novamente. Joguei a bolinha de papel de minha mão em direção do lixo, errei. Típico. Erros, erros e mais erros. Apoiei meus cotovelos em minhas pernas, enquanto minha cabeça tombava em minhas mãos, olhei fixamente o carpete no chão e minha cabeça começou a trabalhar em possibilidades, eu precisava cessar aqueles pensamentos sabotadores, resolvi pensar nesse momento, no presente e, por exemplo, em quem estaria vindo me buscar. Sorri com as incríveis teorias que passavam rapidamente por minha cabeça, seria um dos meus amigos? Todos eles? Nenhum deles? Confesso que essa última possibilidade me assustou. Fechei os olhos com força expulsando à mesma com todas as minhas forças. Eu não podia pensar nessa possibilidade, a possibilidade de ter arruinado com tudo. Eu tinha uma pequena noção do que tinha causado lá fora enquanto estive por lá, porém não sabia o que tinha acontecido depois de meu ‘sumiço’. Eu podia enfrentar qualquer coisa, menos ter acabado com o sonho deles. O nosso sonho. Eles que sempre estiveram do meu lado. Eu não me perdoaria se descobrisse que tinha acabado com tudo. Bufei. Agora sentindo que a raiva preenchia-me, levantei rudemente praguejando. Eu não podia ter feito nem dito àquelas coisas. Na verdade, meu maior erro foi ter começado alguma coisa com ela. Se eu os tivesse dado ouvido... Eles me disseram que ela não era confiável, mas não acreditei. Não acreditei em nenhum dos meus amigos e nem em minha família. Sentindo a frustração tomando conta de meu corpo, agora me arrependia amargamente por tal ato. Confiança. Será que eles me perdoariam por todas as coisas que eu fiz? Será que eles confiariam novamente em mim depois de tudo? Essa era a única e exclusiva pergunta que ecoava em minha cabeça desde o dia em que pus meus pés ali dentro e realmente vi quantos problemas eu tinha causado do lado de fora. Porém não obter seus perdões, não ser digno de suas confianças novamente era o que mais me assustava e atormentava, na verdade essa era a única coisa que eu não poderia suportar. Sabia que se eu os tivesse ali ao meu lado eu conseguiria voltar e agir como se nada tivesse acontecido. Era isso. Eu precisava disso, perdões e confianças; Depois de algum tempo vagando lentamente nas possibilidades, parei radicalmente quando pensei em minha mãe e em como eu sentia a falta dela. Eu sabia que eu tinha a decepcionado. Meu único alento era imaginar que pelo menos uma vez na vida os filhos desapontavam seus pais; não me importando com o tamanho dos erros e nem nas gravidades dos atos, eu fizera minha mãe sofrer de uma forma descomunal. Sabia disso, ela vira tudo de longe por um bom tempo, de mãos atadas, sem poder fazer nada, ela se desesperava em sua cidade que era um pouco distante da qual eu morava, me ligando todos os dias depois do que tinha acontecido, e sempre tentava conversar comigo, eu deveras vezes fui grosso além do necessário, somente agora me arrependia de meus atos. Porque só agora eu entendia, pois eu sentia na pele o quanto ela me fazia falta, suas broncas, seus conselhos, suas palavras de amor e carinho. Senti-me iluminar em pensar que talvez ela viesse me pegar hoje, se não estivesse trabalhando, claro. Mas provavelmente ela estava muito brava comigo, quer dizer, eu a magoei demais. Afinal ela pensou que me perderia para sempre vendo que a cada dia que se passava eu me enterrava mais e mais em minha própria escuridão.
Me assustei quando vi um funcionário batendo levemente em minha porta. Levantei minha cabeça e encarei a mulher em minha frente.
- A Dra. Stewart quer lhe ver agora. – Ela disse serena. Levantei rápido quase caindo e a moça me olhou dando um risinho e logo depois saiu. Fiquei atordoado por alguns segundos, a afobação me impedia de raciocinar claramente. Respirei bem fundo. Três vezes seguidas para ser mais preciso, acalmando-me os nervos que estavam à flor da pele. Então, caminhei até a porta, e segurando a maçaneta olhei para trás dando uma última visualizada no quarto. As lembranças fizeram o seu trabalho, recordando-me de cenas rápidas, mas marcantes que vivi ali, sorri acalentador enquanto fechava a porta atrás de mim, pensando que talvez, agora, eu estivesse bem.

- Então, podemos começar? – Ela perguntou-me olhando diretamente em meus olhos. Um pouco desconfortável, acenei levemente minha cabeça em afirmação; Sem hesitar, ela apertou o botão do controle remoto, o CD entrou no pequeno DVD portátil e ela aumentou o volume. Mexi-me no pequeno sofá, tentando achar uma posição mais confortável, porém nada me agradava no momento. Enquanto o aparelho lia o CD ela me observava calmamente. Com receio, resolvi parar de me mexer, talvez com o meu pequeno desconforto ela resolvesse me deixar lá, preso, por mais um tempo, senti calafrios só de pensar nisso. Fiquei encarando-a por mais um momento, eu estava sem graça, sempre ficava quando as pessoas me encaravam por muito tempo, mas nem todas percebiam isso. Ela não expressava nenhuma emoção, não sabia se isso era preocupante ou não. Mas antes que eu pudesse iniciar qualquer tipo de análise, o som da TV começou a soar alto no recinto e minhas lembranças límpidas começaram a se fundir com as imagens ríspidas que passavam na tela.

- Hoje, aqui no Up's & Down's estamos com a ilustríssima presença de nada mais, nada menos do que a banda McFLY.
A voz da mulher ressoava na televisão enquanto no fundo vários aplausos eram ouvidos. Aquele programa de auditório estava lotado de garotas histéricas gritando os nossos nomes a plenos pulmões, várias delas choravam e se descabelavam, era meio impressionante ver aquilo na televisão enquanto em minha mente eu podia jurar que nós estávamos ali atrás no backstage olhando abismados à cena. Meus pensamentos se misturavam rapidamente com as imagens que eu via em minha frente, isso era um pouco estranho, eu sabia disso, mas eu não conseguia evitar, era um mecanismo automático, recordar aquelas lembranças vívidas, enquanto as imagens apareciam naquela tela me dando um calafrio horroroso na espinha.
Sendo ovacionados, fomos anunciados e começamos a entrar lentamente no palco nos posicionando em nossos lugares, lembro-me perfeitamente que isso aconteceu quando nossos nomes foram ditos pela boca daquela loira, que na época, se me lembro bem, achei super gostosa.
-Com vocês, , , , ... McFLY, pessoal!
Nós começamos a tocar, eu me lembro de olhar a plateia um pouco espantado, mas podia sentir a euforia estampada em minha face, todo mundo pulava junto da música, enquanto eu olhava furtivamente para a apresentador gostosa que piscou para mim, sorri e mentalmente pensei que me daria bem aquela noite, talvez. Aquele era um programa novo, é eu me lembro de nosso querido empresário ter me informado sobre o mesmo antes de entrar, sabe como é, pra eu tentar não dar nenhuma gafe durante o programa, mas enfim, aquele programa era uma coisa um pouco aleatória, digamos assim, pois alguns diziam que aquilo era um programa de fofocas, enquanto os outros diziam que era de entrevistas, entretanto eu achava que era uma grande baboseira, mas é lógico que eu não diria aquilo mesmo que fosse o que eu pensava; Como o nome mesmo dizia, o programa falava sobre os Up's & Down's, ou seja, os momentos de altos e baixos dos artistas. E é claro que McFLY estava na lista. Lógico. Não querendo me gabar nem nada, mas nossa banda é realmente incrível, era só perguntar isso para qualquer garota histérica da plateia que elas confirmariam o que eu estava pensando, e agora que eu nos via ali, nas imagens daquela gravação, com meus próprios olhos eu poderia confirmar também; e não, não é modéstia, é orgulho, e esse orgulho inflava meu peito e faziam meus olhos encherem de lágrimas de saudades, mas só eu sabia o que tinha passado longe desses caras e não foi nada fácil. Mesmo eu sabendo o que estava prestes a acontecer, eu não me importava mais, não tanto, porque a saudade queimava em meu peito. Eu estava emocionado, não tinha como negar, eu olhava o rosto de meus amigos e eles me recordavam casa, família, conforto, eu precisa tê-los de volta, eu não os decepcionaria mais, eu prometera e repetia isso em minha cabeça incansavelmente; A música acabou e nós largamos nossos instrumentos no pequeno palco, indo à direção a apresentadora que estava sentada em uma cadeira chique do lado oposto em que estávamos. Sentamos em um sofá grande que estava do lado direito do palco, me dando uma visão privilegiada da apresentadora gostosa. As meninas continuaram gritando por mais algum tempo enquanto nós acenávamos para as mesmas. Depois de uns minutos, os gritos cessaram finalmente, acho que os produtores conseguiram acalma-las e nós conseguimos dar a iniciação daquela entrevista.
Primeiramente ela começou nos cumprimentando:
-Olá meninos, como vão?
-Bem, muito bem e você? - Perguntou .
- Ótima, mas então, comecemos o interrogatório. - Ela disse logo dando uma risadinha, me lembro perfeitamente que na época achei aquilo sexy, mas hoje eu enxergava como maligna. - Vamos lá... Vocês acabaram de chegar de uma turnê internacional, certo? - Ela perguntou.
- Sim. - Eu respondi empertigando-me na cadeira.
- Vocês gostaram da turnê? - Ela perguntou e cruzou suas pernas me fazendo olhar diretamente em suas pernas, droga, eu não sabia que eles tinham filmado isso.
- Na verdade nós amamos. - Respondeu rindo.
- Sim, foi muito legal. - disse e continuou. - O público lá é extremamente cativante e todos nos receberam de braços abertos.
- Não vemos à hora de voltar. - finalizou. E eu somente confirmei com a cabeça sorrindo para as câmeras.
- Maravilha. - Ela disse e logo pulou para outra pergunta. - Então, meninos, eu vejo aqui, - Ela olhava um papel que continha o nome do programa. - Que vocês tiveram muitos Up's esse ano, huh?! - E sorriu olhando diretamente para as câmeras. A câmera focalizou em meu rosto e eu disse meio alheio...
-É? Huh... Espero que sim. - Então a plateia cheia de meninas se rompeu em risinhos; Sorri sem graça e a apresentadora continuou.
- Bom, vejamos os Up's de vocês então... - E assim um telão enorme, embutido em uma parede do programa atrás de nós, começou a passar nossas notícias, todos os nossos momentos mais gloriosos do ano. Nossas aparições em programas, nossos trabalhos, alguns shows marcantes, alguns eventos em que aparecemos. Enquanto na grande televisão em minha frente passavam as coisas que estavam no telão, e eu me lembrava muito bem que, lá no programa, em nossa frente, à apresentadora retocava sua maquiagem, um assistente da produção veio até a minha pessoa arrumar a gola da minha camisa fazendo com que eu me assustasse. Senti um arrepio na espinha. Olhei estranho para o cara que se desculpou e se afastou agora fazendo um sinal positivo para um outro cara. Os fatos anuais de nossa carreira estavam quase acabando, e em menos de cinco segundos estaríamos ao vivo novamente, então, me arrumei olhando para os meus amigos que riam de uns cartazes que as meninas mostravam na plateia, e eu? Bom, me recordo perfeitamente que estava mais interessado na loira em minha frente do que nos cartazes.
- É o McFLY teve grandes Up's esse ano, hein meninas? - O programa tinha voltado e agora ela falava com a plateia; as meninas gritavam e aplaudiam em aprovação, então, a apresentadora continuou. - Se acalmem meninas. - As garotas se aquietaram. - Certo, agora faremos um pequeno intervalo, e no próximo bloco, teremos mais música e algumas perguntinhas para os nossos adoráveis garotos, não saiam daí.
O sentimento infantilizado foi evocado em minha memória, a apresentadora me chamando de garoto fez com que eu me sentisse uma completa criança, mas eu pouco me importava, ela era mais velha, eu sabia disso, mas me sentia atraído por ela de alguma maneira. Pois é, me lembro do calor que estava sentindo, talvez eu estivesse necessitado, era isso, quer dizer, estava namorando e estava em turnê, e pela primeira vez na minha vida, eu não tinha traído a minha namorada e estava imensamente orgulhoso de meu autocontrole, ao contrário de meus amigos que viviam tirando sarro da minha cara; eles me influenciaram a tal ato, afinal todos eles queriam que eu participasse das festas e farras com eles, tudo era sempre muito regado de bebidas, garotas e sexo. Eles não gostavam da minha namorada, eu sabia disso. E eles também pegaram várias mulheres por estarem solteiros, me deixando com uma inveja atormentadora. Mas eu resisti, suportei, e confesso que não foi fácil, tive de expulsar garotas do meu colo a força e cheguei até me trancar no banheiro pra ter uma relaçãozinha íntima com a minha mão. Mas isso valia a pena, quer dizer, era isso que eu pensava na época, e mal sabia o quanto eu estava imensamente errado por ter aqueles pensamentos.
Durante os comerciais a apresentadora totalmente gostosa veio em minha direção, e colocou sua mão em meu joelho subindo sorrateiramente, fazendo um provocativo vai-e-vem, enquanto falava comigo em um tom de voz baixo; safada ela, não? E bem inteligente, pois havia bloqueado com seu corpo toda a visão das meninas da plateia. Na época, pensava que ela estava praticamente se jogando em mim e eu adorava aquilo, mesmo permanecendo fiel, não tinha como negar que aquele flerte fazia bem para o meu ego. E eu somente ria sentindo uma leve quentura se espalhando calmamente por meu corpo. Seu corpo era bem sensual, aquela mulher era de parar o trânsito, e mesmo aparentando ser mais velha do que eu, aposto que ela acabaria comigo se pudesse. Meus amigos chegaram perto da plateia fazendo com que as meninas quase pulassem em cima deles e dos câmeras, algumas pessoas da produção que estavam ali tiveram que apartar a euforia delas por conta da situação, logo mais entraríamos ao vivo novamente, e algumas meninas estavam tentando chegar perto deles a qualquer custo; sorri daquilo conforme me lembrava. Então o programa voltou na televisão e nós estávamos em nossos lugares novamente e a apresentadora estava com um sorriso que na época eu pensava que era pervertido, já que ela tinha dito algumas coisas salientes pra mim durante o breve intervalo, mas agora eu via que seu sorriso era de pura malícia e interesse.
- Voltamos agora com o McFLY! Então, meninos - Ela disse virando-se para nós quatro. - agora que nós passamos por seus Up's & Down's da carreira artística, vamos para os de seus relacionamentos?! Digam-me, vocês estão todos solteiros?! - Ela perguntou, como se já não soubesse.
- Não. - Eu respondi. - Eu estou namorando há mais ou menos um ano, mas eles estão solteiros. - E sorri. Ouvimos alguns muxoxos rápidos da plateia sendo seguido de risos.
- Então, você é o único que está namorando, certo ? - Ela me perguntou, olhando penetrante em meus olhos, me remexi desconfortável na cadeira afirmando, lembro-me que senti um calafrio fazendo com que meu pelos se eriçassem, e assim ela continuou. - Então vamos ver os Up's & Down's dos relacionamentos dos nossos queridos meninos, que cativam todas as adolescentes da Inglaterra e talvez do mundo. – Então, ela riu afetadamente e virou-se em direção do telão. Eu observei meus amigos se virando também, mesmo que antes tenhamos trocado olhares incertos, lembro que quando olhei para a tela e vi que nossos rostos estavam no telão, do lado das imagens dos nossos Up's & Down's, senti que coisas nada boas iriam surgir dali; Tudo começou com uma imagem minha e dela. E depois passou vários locais e festas que tínhamos ido ao longo do ano. Várias reportagens também e alguns prêmios que ganhamos como casal fofo e todas essas babaquices que o público alimentava sobre nós. Eles filmavam meu rosto, e eu podia ver que sorria sem graça e corava lentamente com algumas coisas que a voz do vídeo narrava. Podia não parecer, mas eu não curtia muito ser o centro das atenções. Agora, no vídeo, falavam dos Up's de meus amigos, e eu realmente fiquei impressionado, tipo, apareceu todas as meninas que eles pegaram esse ano, quer dizer, pelo menos as quais eles apareceram publicamente em festas ou em pubs quando eles estavam mega doidões e tudo mais. Os mesmos riam achando graça de tudo isso, e eu claro, os acompanhava. Mas depois de uma longa lista de escândalos patéticos de meus amigos bêbados saindo de alguns lugares, ou seja, seus Down's, eu fiquei olhando abobadamente para um ponto qualquer, seus Down's realmente me deixaram um pouco encabulado, e se eu continuasse olhando por muito tempo eu ia começar a rir, porque venhamos e convenhamos àquilo era tragicamente engraçado. Entretanto, eu sabia que não era prudente, então, resolvi me distrair por um tempo... Contudo, uma musiquinha um tanto medonha começou a tocar, e de repente eu podia sentir os olhares queimando em mim novamente; eu sabia que musiquinha era aquela. Minhas mãos suavam e eu implorava ao meu corpo para não tremer em frente à doutora, porque apesar de toda a intensidade de meus pensamentos, eu tinha a plena consciência de que assistir aquilo era a minha a chave secreta, o meu passe livre para sair daquele lugar. E tudo dependia de mim e das minhas rações no momento. Estava em jogo se eu iria ficar trancado por mais um tempo ou se eu conseguiria sair! Tudo dependia de minhas reações, e minha mente agora me sugava pra dentro da escuridão de uma forma totalmente tortuosa, apelativa, e então, eu quase podia sentir como se eu estivesse ali, na televisão, naquele sofá, no palco novamente, sentindo o ódio preencher meu corpo e não sentado na sala da Dr. Stewart, nervoso e com as mãos molhadas pelo pânico.
O som intenso que saía do telão, parecia de um filme de drama barato, a câmera focava meu rosto, fazendo com que eu ficasse confuso. Por que estavam me filmando?! Eu me perguntava, então, a mão de apertou fortemente meu braço fazendo-me olhar para seu rosto, ele estava branco, quase transparente eu diria, olhei para os meus outros amigos que também estavam do mesmo modo, eu não entendia nada, - porra o que estava acontecendo?! Eu me perguntava mentalmente. - Até o momento em que eu olhei para onde todos olhavam. Ali, naquele programa ridículo, naquele telão escroto, estava ela se agarrando com um cara qualquer, no meio da noite, em frente de uma boate lotada, indo à direção de um carro. Por que DIABOS ela estava se agarrando com um filho da puta qualquer? Por que ela estava beijando e se esfregando nele? Por que ela não estava pedindo socorro? Eu não podia acreditar que ela estava me traindo, eu gritava mentalmente. De repente, os dois encostaram-se no capô, e começaram a se engolir. Eles estavam quase se comendo ali, publicamente. Maldição. Por que ela fez aquilo comigo? Por que ela tinha me traído? Por que ela não me contara? Por que ninguém me avisou dessa merda toda? Por que eu ainda estava aqui, sentado? Por que eu não me mexia?- Recordo que olhei para a plateia novamente e todos estavam petrificados olhando ao telão. - Por que ainda passavam essa desgraça toda? Pedi para pararem aquele VT que passava no telão, mas ninguém me dava ouvidos. Por que estava tudo tão silencioso? Eu estava em choque, não sabia como reagir muito bem. Afinal, na televisão ela continuava se agarrando com o cara, e então, pularam de cena e lá estava ela novamente, só que agora na frente de um motel vagabundo entrando com aquele bosta sem ao menos se importar se alguém fosse ver aquilo. Senti uma sensação ruim começar a se apossar de mim. Talvez uma ânsia de vômito? Eu não sabia ao certo. Percebi que estava tremendo de raiva, finquei minhas mãos em meus joelhos e eu só conseguia pensar que queria muito que parassem de passar aquela porra ao vivo. Eles podiam ter o mínimo de compaixão e pensar que nenhum homem fica feliz de ver a própria traição na televisão, ainda mais quando a isso está prestes a virar uma humilhação internacional. Eu só conseguia pensar o porquê ela estava me traindo justamente quando eu não estava aqui ou será que aquilo já era uma traição de longa data? Ela não era mulher de verdade pra terminar comigo se estava infeliz? Ela teve que ser tão nociva ao ponto de se aproveitar de mim e não ter nem a dignidade de me trair escondido? Vá se foder! Eu a xingava mentalmente de todas as formas possíveis e imagináveis em minha mente, e eu lembrava disso nitidamente. Mas agora que eu via minha imagem vermelha, raivosa e quase explodindo na televisão, pela primeira vez depois de todo aquele tempo, eu me enxerguei de verdade, quer dizer, eu realmente vi o primeiro relapso do que eu tinha me formado, e admito que não fora uma coisa muito agradável, já que minhas entranhas causavam-me náuseas.
As imagens pararam finalmente e a apresentadora sorria, não demais, apenas um sorriso cínico, orgulhoso, do tipo, eu venci, vou ter ibope e vou ser falada por semanas. Todo o meu tesão por ela tinha esvaído por água abaixo, lógico, pois ela simplesmente fodeu comigo, com a minha vida e aquele seu sorriso estampado se alargava, enquanto eu sentia meu corpo queimar de ódio.
E então, como se o que ela fizera comigo fosse super normal, ela virou-se para mim e para os meus amigos, perguntando:
- Então, vocês poderiam tocar para nós um de seus clássicos? Bubble Wrap, talvez?
E aquilo foi a gota d’água. Recordo-me da fúria percorrendo e dominando todo o meu corpo. Tudo aquilo expandiu-se de tal forma, que talvez, eu não conseguisse controlar meus próprios atos. Arrepiei-me quando vi as imagens em minha frente, eu estava me levantando brutalmente e indo a direção dela, e apontando o dedo em sua cara, dizendo:
- Vai se foder, - eu disse entrecortado. - nós não vamos tocar merda nenhuma, nós vamos embora daqui, agora. - Eu disse aquilo baixo, talvez controlado pela raiva, já que eu estava perto de parecer um louco varrido; eu tremia por inteiro, era visível nas imagens. Meu rosto estava avermelhado, e eu também conseguia enxergar a milhares de quilômetros de distância todo o rancor, raiva, ódio e fúria que estampados na minha face, sentimentos se embolavam de uma maneira irracional, eu quase os podia sentir novamente. Mas agora vendo minha própria imagem ali, perguntei-me em como eu não tinha voado em cima daquele projeto de mulher, provavelmente a educação que minha mãe me dera fosse realmente indiscutível Por mais que ela merecesse, eu não era homem de bater em mulher, não mesmo. Mas digamos que se eu fosse uma mulher, eu tinha a enfrentado, e como tinha; Então, veio para cima de mim, me puxando para trás, me arrancando do palco, porque eu me lembro de ter ficado paralisado, como se descargas de ódio passassem por meu corpo me colando ao chão, deixando-me incapacitado de me mover. Ódio, raiva, ódio, raiva. Esses eram os únicos sentimentos que eu sentia do fundo do meu ser, como se tivesse brotando ali, em qualquer lugar, em todos os lugares, me tomando de uma maneira inexplicável e em uma velocidade absurda, a ponto de a qualquer momento eu ter um surto psicótico, e quando estávamos chegando ao final do palco, eu chutei o sofá em que eu e os meus amigos estávamos anteriormente sentados, com toda a força possível. A plateia se irrompeu em gritos assustados enquanto o sofá tombou; a apresentadora se assustou se levantando, mas eu não estava nem aí, estava cego pela fúria, estava revoltado, eu sabia disso, me lembrava disso, as imagens a minha frente provavam isso. Meus três amigos me seguravam com força absurda, gritando para alguém ir ajudar, mas parecia que eu estava encapetado, eu gritava, e comecei a andar esmurrando tudo em minha frente. Precisava descontar minha fúria em alguma coisa, então, eles conseguiram me tirar dali à força e o programa acabou na televisão deixando somente a tela azul aparecer e um barulho irritante em meus ouvidos, porém, eu me lembrava perfeitamente que naquela noite eu destruíra um camarim de um certo estúdio 09.


Eu estava paralisado; a televisão estava apagada, mas eu continuava olhar a tela escura perdido em pensamentos; Por Deus, eu quase fui em cima de uma mulher e indiferente se ela merecia ou não, eu não conseguia processar muito bem o que eu tinha visto. As ideias eram digeridas lentamente em minha cabeça quando ouvi uma voz pigarreando, virei o rosto em direção da mesma e vi a Dra. Stewart me perguntando:
- , você está bem?
- Uhum. - Foi o único grunhido que eu consegui proferir naquele momento.
- Você tem certeza? Você está pálido e meio suado, você quer que eu chame alguma enfermeira? - Ela perguntou se preparando para levantar, mas antes que ela fizesse isso eu levantei meu braço em sua direção e disse:
- Não precisa se incomodar, eu to... – Senti minha garganta seca. - Eu to legal, eu só estava, sabe como é digerindo as coisas novamente. – Ela assentiu e voltou a se ajeitar em sua poltrona, ela me analisava e eu me sentia incomodado com isso, precisava de água, me inclinei para frente, peguei a jarra de água que estava na mesinha de centro, minhas mãos estavam um pouco trêmulas, mas fingi não perceber, e agarrei a jarra com um pouco mais de força, coloquei a água no copo, e assim que senti a mesma refrescando minha boca e minha garganta, senti um alívio percorrer o meu corpo. Então, depois de beber o longo copo de água, eu já estava mais calmo. Eu me sentia verdadeiramente calmo. Sorri com a nova sensação, aquilo finalmente não me afetava mais como antes. Eu tremera, sim, mas fora por desespero, agonia, porque eu finalmente enxerguei o que não queria ver, mas agora eu não seria novamente aquela pessoa, não mesmo. E eu não era mais aquela pessoa.
- Nunca mais. – Sussurrei enquanto arrumava-me no sofá, então, olhei para o rosto da doutora, que continha uma expressão curiosa e sorri para a mesma, me sentindo bem como há muito não sentia. A doutora rabiscou algumas coisas em sua prancheta, e eu fiquei olhando-a atentamente, até que ela me olhou, seus olhos sorriam, e a esperança em meu peito inflou, e assim ouvi sua voz ressoando tranquila enquanto ela dizia:
- Acho que você já está pronto para sair...

Capítulo 3


“O significado das coisas não está nas coisas em si, mas sim em nossa atitude em relação a elas.” – Antoine de Saint-Exupéry (Trecho de O Pequeno Príncipe).

’s POV.

Cheguei ao hall da clínica junto de minhas duas malas. Uma era grande e preta de rodinhas, enquanto a outra era uma vermelha de mão. Eu andei praticamente correndo até aqui, ansioso.
Eu estava saindo, porra! Sorri.
Larguei as malas pesadas no chão quando avistei três figuras paradas em frente à porta. Eles três estavam em pé, meio largados por ali, pareciam perdidos com as mãos nos bolsos, mas acho que só estavam me aguardando olhando tudo em suas voltas. Minhas malas caídas no chão fizeram um barulho estrondoso e foi assim que os três olharam em minha direção.
Senti meu coração se apertar de alívio e emoção quando eles finalmente sorriram. Andando a passos largos, quase correndo, diga-se de passagem, os três vieram até mim. Eu estava paralisado, mas sentia meu sorriso se alargando - quase não cabendo em minha própria boca - a cada momento em que a distância diminuía. E então, em um forte impulso senti os três me abraçando ao mesmo tempo, enquanto as suas vozes misturavam-se pronunciando coisas que eu não entendia devido ao fato de que eles gritavam ao mesmo tempo.
Ri como há muito tempo não ria, eles estavam ali, finalmente comigo, depois de três longos meses.
- Calma, calma, eu não estou entendendo nada do que vocês estão falando. – Eu gritei sentindo-me sufocado. – Vocês vão me matar, porra. – terminei de falar ainda rindo, com o resto de ar que me sobrara.
Lentamente e me largaram, enquanto continuou lá encolhido me abraçando, em minha frente. Meus dois amigos ficaram olhando para o outro, sorridentes. Eu inalava fortemente sentindo meus pulmões clamarem por ar, porém, não me decidia se ria de ou se respirava.
Optei pela opção que eu mais necessitava, e assim, após alguns longos segundos, pude sentir os braços dele se alargarem em meu torso, e quando o mesmo levantou a cabeça e viu que estava sendo observado, se pronunciou dizendo:
- Que foi? – E bastou isso para que eu, e perdêssemos o fôlego novamente, vendo a cara lesada de se emburrando aos poucos, porém com um leve sorriso estampado na cara. – Qual é. Agora não posso matar a saudade?! – Ele perguntou cruzando os braços.
- Claro que pode, amor. – Eu disse chegando perto dele novamente e o abraçando, continuei. – Você sabe que dos três, você foi o que eu mais senti falta, né? – As risadas dos caras continuavam mais altas e fortes.
- Você não me traiu, amor? – perguntou-me com os olhos brilhando.
Engasguei segurando a risada, vendo que também segurava a sua.
- Nunca, eu sou seu, lembra? – Então, pulou em cima de mim dando berrinhos infames, como se fosse uma garota apaixonada, fazendo-me dar vários passos para trás, quase caindo no chão.
- Seus... Ba... bacas... – disse enquanto descia de meu colo.
Ele estava encurvado, apoiando as mãos nos joelhos e rindo muito, enquanto estava deitado no chão, tentando respirar, parecia estar chorando, mas quando cheguei perto dele, vi que estava sorrindo. Ele estava chorando de rir.
Estendi minha mão para o mesmo que aceitou na hora e o levantei. Olhamo-nos rindo por alguns segundos, e então ele me puxou para um abraço. Ficamos assim por alguns segundos, rindo e nos abraçando, merda, pode parecer estranho, mas nós todos sabíamos o quanto foi difícil ficarmos afastados, nós sentimos isso, cada um de um modo, de uma forma. Mas agora, ali, abraçado com , eu sabia que tudo iria voltar ao normal, eu me sacrificaria por isso; Antes que eu pudesse me separar dele, senti alguém me abraçando por trás, e antes que eu pudesse protestar, ouvi um gritinho e depois falando:
- Ah não, vão se foder, agora eu não posso nem sair pra beber água que vocês já roubam o meu ? Seus traidores. – E então, nós todos começamos a rir nos separando.
Olhei para que estava com um copo de água em uma mão, e minha mala vermelha na outra. Vi andando mais adiante pegando minha mala preta de rodinhas, e logo depois senti pegando em minha mão, falando.
- Vem logo porra, se o descobrir que você é meu nos finais de semana ele me mata. - Ele sussurrou me puxando.
- Eu ouvi isso, merda. – gritou desolado, fazendo-me rir alto.
- Tá reclamando do que? Eu sempre fico com ele nas segundas, caralho. – disse dando um tapa na cabeça no mesmo. E foi assim, gritando, brincando e correndo que nós saímos daquela clínica de reabilitação deixando todos os meus pesadelos para trás.

- Então, estamos indo pra onde? – Perguntei quando e entraram no carro.
- Pra casa do Fletch. - respondeu batucando os dedos no volante.
- Pra casa do Fletch?! Fazer o quê? - Perguntei abaixando o quebra-sol e olhando para o que estava no banco de trás.
- Ah, eu não sei, ele quer falar alguma coisa com a gente. - Ele respondeu balançando os ombros e olhando a vista pela janela.
- Acho que ele tá com saudades de você, querido. - falou e continuou. - Só não dê mais em cima de ninguém, ok? Não gosto de te dividir. - Ele terminou com um tom esnobe me fazendo rir mais ainda. Olhei para o lado e vi rolando os olhos com um sorriso de canto, colocando um CD no som.
- Cala a boca . - disse e o mesmo deu-lhe o dedo, assim começando uma longa discussão infantil e, enquanto eu ria, cantava aos berros All My Loving dos Beatles, que tocava calmamente no som do carro, fingindo não prestar atenção, mas às vezes acompanhando minhas risadas.
Chegamos ao prédio do Fletch e entramos com o carro na garagem. Não era por nada, mas nenhum de nós queria paparazzi’s atrás da gente, principalmente hoje, que eu tinha saído da clínica e pelo o que os caras tinham me dito, ninguém sabia onde eu estava.
De verdade, gargalhei no primeiro momento quando eles me contaram isso, quer dizer, eu pensei que eles estavam tirando uma com a minha cara, como assim ninguém sabia do meu paradeiro?! Mas quando eles continuaram sérios olhando em minha direção com expressões confusas nos rostos eu parei.
Ficamos em silêncio até o estacionar o carro e assim que ele o fez começamos um assunto aleatório. Saímos do carro andando pela garagem extensa falando alto e fazendo uma grande zona. Ficamos esperando o elevador enquanto tentava frustrado agarrar o , que não cedia de jeito algum aos carinhos obscenos do mesmo, dizendo-lhe que era somente do e de mais ninguém, e quando tentou protestar falando que ele me tinha nos finais de semana, lhe deu uns tapas e deu uns gritinhos histéricos. Meus amigos eram estranhos e nossas brincadeiras ainda mais estranhas, mas tudo bem, a felicidade reinava e era isso que importava no momento, eles felizes e eu também. Rindo, o elevador chegou e nós entramos, porém, quando a porta estava fechando uma mão segurou a mesma e logo depois um casal entrou, eles estavam abraçados e ofegantes, nós nos entreolhamos segurando um riso estrondoso que estava prestes a sair a qualquer segundo.
Sabe, elevadores não são meus fortes, confesso que sempre que eu entrava em um com pessoas estranhas tinha vontade de rir, mas quando eu entrava em um com pessoas desconhecidas e ofegantes, a minha vontade só aumentava. Eu sei, infantis e bobos, mas fazer o quê? A vontade de rir estava em um nível quase absurdo. E para infelicidade geral na nação, o andar do Fletch era um dos últimos. Nós quatro estávamos espalhados pelo elevador, tampando as bocas e desviando os olhares, enquanto o casal estava ali parado ao meio; o cara abraçava a mulher fortemente demonstrando para nós que ela era somente dele, e ela falava alguma coisa em seu ouvido. Ele ria e ela continuava a dizer-lhe coisas ao pé do ouvido, provavelmente devia estar falando alguma perversão, claro.
Porém, de repente seu olhar parou em mim, olhei para ela com uma cara duvidosa, me segurando fortemente para não rir. Suas pupilas dilataram rapidamente e eu comecei a me sentir incomodado. Ela estava me reconhecendo, droga. Então, sua voz fina e irritante ressoou.
- Você não é o ? - E assim, eu senti uma emoção não muito agradável se espalhando por meu corpo, choque talvez?! Fazia três meses que ninguém questionava quem eu era, ou me paravam na rua pedindo fotos ou autógrafos.
Me senti desconfortável quando aquela menina se soltou dos braços do cara e veio em minha direção. E o pior é que antes mesmo de eu responder ela começou um questionário filho da puta, me deixando mais desconfortável ainda.
- É você mesmo? Ai meu Deus, onde você estava? Sabia que todo mundo ficou preocupado com você durante esses meses? Nós pensamos que você tinha sumido! Está tudo bem com você? Você sumiu por causa daquele programa, né? Eu não sei o que te dizer... Você não merecia aquilo, ter sido corno e ainda saber disso num programa nacional, você não merecia saber daquela forma, de verdade, mas o bom de tudo isso é que você não está mais com aquela lá, porque convenhamos, ela não te merecia, né?! Meus pêsames por isso... - Eu me senti acuado, mas antes que ela pudesse continuar, senti as mãos de envolvendo um de meus pulsos me puxando para fora do elevador. Eu ao menos tinha visto que o elevador tinha parado. E quando eu já estava lá fora pude ouvir a voz grossa e baixa de dizendo:
- Só se diz meus pêsames para uma pessoa quando algum ente querido morre, aprenda o significado das palavras antes de sair interrogando as pessoas. - E quando o apareceu do meu lado, ouvi o barulho do elevador anunciando que ele já tinha se fechado novamente.
Um silêncio constrangedor instalou-se no corredor enquanto nós olhávamos uns para os outros. Mas como sempre – e juro que quase o abracei em agradecimento – quebrou o silêncio dizendo.
- Nossa, essa doeu em mim, cara. - Ele disse olhando para , que deu um sorriso de canto, cínico, e logo respondeu.
- Ah ela mereceu, fala sério.
- E como mereceu... Mulher louca. - disse começando a andar.
- Toca. - disse levantando a mão e os dois fizeram um toquinho ridículo e escroto, e, antes mesmo que eu pudesse perceber, já estava com um de seus braços em meu ombro puxando-me em direção à porta do apartamento, dizendo:
- Sempre vamos estar com você cara, sempre. - Sorri em agradecimento, mas quando fui responder, a porta foi aberta, nos fazendo encarar um tal empresário com uma cara abobalhada na porta.
- Ca-ra-lho. - Ele gritou segurando a maçaneta - Porra, eu pensei que estava alucinando a voz de vocês, nossa... – Ele olhava bobo em nossa direção como se nós realmente fossemos uma alucinação. Pensei por alguns segundos se ele estaria bêbado ou drogado, mas não, ele era o Fletch, esse era o seu normal, coitado.
O silêncio se fez por alguns minutos, causando um suspense vagabundo e então nós o ouvimos falar.
– Nunca pensei que ia dizer isso, mas... Eu senti saudades de vocês, entrem logo seus merdas. – Ele nos deu passagem abraçando um por um conforme entrávamos em seu apartamento reconfortante que sempre nos trazia muitas emoções.

- Então, eles disseram que você queria falar alguma coisa... - Eu disse me sentando e o vendo voltar da cozinha com um cachorro pequeno lhe seguindo.
- Sim, eu quero falar uma coisa com vocês, mas antes, vocês querem beber alguma coisa? - Ele perguntou.
- Cerveja. - Meus três amigos responderam, mas quase que automaticamente os mesmos olharam em minha direção com os olhos aflitos, como se me pedissem desculpas.
Parei por alguns segundos analisando o porquê daquilo, até que me lembrei do porquê. Eu tinha acabado de sair da clínica e estava em um longo processo de reabilitação. Fazia três longos meses que eu não colocava um pingo de álcool em minha boca, estava num cansativo processo de abstinência; parei por alguns segundos curtindo a ideia. Não por nada, mas meus pensamentos viajaram na época em que eu pensara que nunca negaria uma gota de álcool na minha vida.
Eu sempre gostei de beber umas cervejas com os amigos e tudo mais, mas eu tinha plena noção de que aquilo era apenas um hobby, o qual eu fazia de vez em quando, sempre me divertindo. Porém, aquilo se tornou um vício, o qual quase acabou com minha vida, tendo em vista que tive de ser internado para entender as consequências de meus atos. Eu tinha total convicção de que não queria voltar de onde eu tinha saído. Uma certeza absoluta de que eu não cometeria mais nenhum erro pra acabar voltando para lá, não mesmo, não seria agora que colocaria álcool em minha boca, tendo a plena noção de que estaria correndo o risco de perder minha liberdade, meus amigos, minha família... Minha vida novamente.
- Eu fico com o refrigerante. - Respondi sorrindo para todos os presentes na sala, vendo que lentamente os mesmos iam relaxando.
Eu sabia que eles ainda estavam receosos com suas escolhas devido a minha presença ali. Eles não deviam mais fazer isso, mas dava para ver em seus olhos que os mesmos ainda tinham medo. Meu peito doeu com isso, principalmente porque conseguia me lembrar perfeitamente da época em que eles deixavam de ir a festas, eventos e até mesmo os pubs que nós sempre íamos para relaxar e conversar, com medo de que eu enchesse a cara. Tivemos várias discussões e brigas feias devido ao fato de que eu gritava para quem quisesse ouvir que iria me embebedar com ou sem eles. Não queria mais isso para eles e os magoara demais, entretanto, agora não os magoaria mais. Eles iam sentir orgulho de mim novamente e não medo, eu os devia isso; Fletch também ao menos os deu chance de cancelar seus 'pedidos' porque assim que o respondi ele saiu, voltando para cozinha, com o que parecia um yorkshire muito, mas muito pequeno aos seus pés.
Sorri mais abertamente para eles e relaxei no sofá, abrindo os braços, como se estivesse me espreguiçando, dizendo em seguida:
- Não sabia que você tinha um cachorro, Fletch.
- Ah, eu não tenho. – Ele respondeu gritando da cozinha.
- Então estou ficando louco, porque acho que vi um cachorro te seguindo. – respondeu e todos nós demos risadas irônicas.
Fletch chegou à sala com o cachorro em seus pés, me jogando uma latinha e estendendo um copo, nós ficamos olhando do cachorro para ele, que sorriu sem graça, saiu da sala e novamente voltou com quatro long-neck’s dando cada uma para meus amigos e abrindo uma para ele.
Bebi um gole do refrigerante gelado bloqueando mentalmente algumas imagens e gostos que percorriam o fundo mais sombrio de minha mente... Refrigerante é bom, lembre-se, refrigerante é bem melhor.
- Esse cachorro não é meu... – Fletch disse sentando-se e me despertando de meus pensamentos.
- É de quem então, cara? – perguntou vendo o cachorro hiperativo subindo no colo do possível dono.
- É da Aléxis. – Fletch respondeu fazendo um afago do cachorro.
- De quem? – perguntou atraindo a atenção de todos nós.
- Aléxis ué. – Fletch disse como se fosse óbvio, mas logo continuou. – Vocês não conhecem.
- Aléxis é um nome excêntrico... – sussurrou enquanto eu bebericava meu refrigerante rindo e engasgando quase o soltando pelo nariz. Tossi, engasgando enquanto ria ao mesmo tempo em que tentava respirar, e batia em minhas costas, também rindo, quando ouvi a voz de Fletch dizendo:
- Vai se foder , ela é uma mulher muito bonita, porra.
- Tem certeza? – perguntou, entrando na brincadeira, apenas para irritar o Fletch.
- Lógico... Vão se foder vocês. – E então todos nós rimos.
- Que decadência hein Fletch, tomando conta do cachorro da namorada. – disse no justo momento em que o mini-projeto de cachorro pulou do colo do ‘dono’ para o dele, que começou a brincar com o mesmo.
- Eu não namoro a Aléxis. – Fletch respondeu esticando as pernas apoiando-as na mesinha de centro.
- Uh, piorou então, tomando conta do cachorro da amiga? – respondeu mordaz bebendo um gole de sua cerveja.
- Nós... Bem, nós estamos de rolo... – Fletch respondeu se remexendo desconfortável na poltrona enquanto nós riamos mais e mais da sua cara.
- Esse cachorro é desse tamanho mesmo ou ele é anão? – perguntou mudando drasticamente de assunto.
- Isso é um micro-yorkshire, ele não é anão, é desse tamanho mesmo, seu idiota. – E assim continuamos por um longo tempo, só jogando conversa fora, curtindo. Os homens têm um jeito estranho de se comunicarem, quanto mais xingamentos mais confortável o ambiente ficava, e assim fui me sentindo mais em casa do que nunca.
Meus amigos continuaram bebendo e eu tomando minhas várias latas de refrigerante. Então, em determinado momento, o famoso silêncio recaiu sobre a sala, fazendo com que todos ficassem olhando um para cara do outro. Olhei para Fletch e ficamos nos encarando por alguns segundos. O mesmo desviou seu olhar do meu, e estranhei, mas então ele começou.
- Então, eu os chamei aqui porque queria falar uma coisa meio urgente com vocês... - Nós todos nos entreolhamos confusos, nós estávamos ali há algum tempo e só agora ele dava a notícia de que queria falar sobre algo urgente?! Nós nos empertigamos no sofá e olhamos atenciosamente em direção do mesmo.
- Eu preciso falar com vocês sobre a banda... - Creio que no mesmo momento em que ele pronunciou a última palavra todos os meus amigos enrijeceram seus corpos causando um clima de tensão no ar.
Olhei aturdido para os mesmos sem entender nada, eu não notara antes, mas agora, analisando rapidamente, desde o momento em que eles foram me buscar, não falaram uma vez da banda. Senti a preocupação me atingindo em uma enxurrada, então pedi:
- Fala logo Fletch.
- Eu, bem, eu não... - Respirou pesadamente e continuou – Eu não queria estar falando isso hoje com vocês, mas preciso... - A tensão ficou mais evidente, conforme analisava os rostos e movimentos tensos de meus amigos. - Eu não sei se você sabe , mas durante todo esse tempo em que você esteve fora, a mídia não teve nenhum acesso a informações sobre sua pessoa...
- Sim, eu fiquei sabendo disso por alto... Eles comentaram fracamente o assunto comigo, mas como vocês conseguiram realizar essa proeza? - Respondi o cortando e perguntando curioso, apoiando meus cotovelos em meu joelho e entrelaçando minhas mãos, olhando diretamente para Fletch.
- Bom, isso, bem... - Ele olhou pausadamente para meus três amigos que lhe deram um olhar quase mortal e continuou – Nós conseguimos isso com muita ajuda, esforço e sigilo da parte da clínica, acredite. - Ele terminou e eu quase pude ouvir os caras respirando novamente.
Eu sabia muito bem o que estava relacionado às palavras ajuda, esforço e sigilo, elas me soaram muito mais como silêncio, suborno e muito dinheiro; senti-me mal novamente, vendo que até a isso meus amigos tiveram que se submeter por minha causa. Respirei fundo, balancei a cabeça em afirmação, sorrindo fraco como se dissesse para Fletch continuar o que ele tinha de dizer.
- Porém, foi bem difícil manter isso longe da mídia, e agora que você saiu, nós vamos ter que tomar algumas providências. - Ele disse respirando longamente, meus amigos se remexeram inquietos olhando-o em dúvida e ele continuou. - , a mídia não sabe onde você esteve esse tempo todo, e eu não sei se os seus amigos lhe contaram, mas durante os dois primeiros meses, eu os aconselhei a dizerem para mídia que não sabiam do seu paradeiro, para onde você tinha ido mais especificamente. Que eles só sabiam que você estava viajando a lazer, já que você sempre entrava em contato com eles dizendo que estava bem, mas não os contava onde estava. - Ele disse e logo se levantou. - Fiz isso pra não difamar a banda e nem nenhum de vocês, eu não queria destruir suas carreiras...
- E nem a sua, é claro. - respondeu baixo e ríspido, olhei para ele que olhava furioso para Fletch, o mesmo ignorou as palavras e o olhar de meu amigo, e continuou.
- Mas agora que você saiu de lá, nós vamos ter que dar algumas explicações para a mídia e você vai ser muitíssimo assediado pela imprensa e o público em geral, então, eu pensei em lhe fazer uma proposta... - Ele respondeu e meus amigos se remexeram bruscamente, gritando todos ao mesmo tempo.
- Como é que é? - perguntou.
- Que proposta, porra? - perguntou com um tom de indignação na voz.
- Sabia que você estava tramando alguma coisa, você não ia nos chamar em vão logo hoje! - respondeu furioso levantando e andando até o outro lado da sala, o cachorrinho pulou em meu colo, assustado com a gritaria. Acariciei seu pelo macio e disse:
- Continue Fletch, por favor. - Eu olhava atentamente o cachorro que tremia em meu colo, ele estava ali, tão pequeno e frágil. Tão por fora do assunto. No momento, acho que me sentia assim, mas não disse nada, somente escutei as palavras que saiam da boca de nosso empresário.
- A proposta é na verdade um plano infalível, se você a aceitar, não vai prejudicar em nada a carreira de vocês e...
- Você tá chantageando ele? É isso? - gritou dando um murro da parede em que estava encostado do outro lado da sala. Segurei o cachorro em minhas mãos tampando suas orelhas como se pudesse o livrar de todo o caos instalado naquela sala. - Ele não precisa aceitar nada se ele não quiser. - terminou e se levantou indo em direção do mesmo. continuou sentado olhando confuso para Fletch.
- A proposta não é nada mais, nada menos, do que uma jogada de marketing, vocês têm que entender que nós precisamos de uma saída flexível e essa foi a mais favorável em minha opinião... - Ele disse olhando atentamente para cada um de nós e repousou seu olhar em mim, continuando - A qual você, no caso, durante esses três meses de ‘viagem’, conheceu uma bela garota, vocês se apaixonaram, e, bem, resolveram se casar escondido de tudo e de todos. E agora que vocês dois estão de volta, vão assumir para todo mundo... E esse será o motivo pelo qual você sumiu durante três meses, você resolveu estender sua viagem como uma lua de mel... - E então ele sentou, parecendo meio desolado, porém com um olhar confiante. – É uma jogada de marketing escrota, eu sei, mas é infalível, você será assediado pela mídia, isso é verdade, mas não com o propósito de antes e sim sobre seu novo relacionamento. E assim todos esqueceriam os episódios passados... Vocês não seriam prejudicados e ninguém saberia que você esteve em uma clínica de reabilitação. – Ele terminou e o silêncio tomou o local.
Eu ainda estava absorvendo as palavras que tinham acabado de sair de sua boca. Como assim, eu viajei, me apaixonei e casei? Ele só podia estar louco, só isso... Olhei para frente avistando um de olhos arregalados com a boca aberta, ele parecia estar mais em choque do que eu. Comecei a ouvir um murmurinho e quando olhei na direção do mesmo, vi que parecia fragilizado, mas ele conversava baixo com o – tentando acalmá-lo, creio eu - que parecia mais estressado do que nunca.
Após alguns minutos de silêncio, o mesmo se manifestou rudemente, perguntando:
- E você acha que a notícia do ‘casando escondido’ não seria polêmico o bastante? Nós não perderíamos várias fãs, assim como a mídia diria várias asneiras do tipo, como ele ainda estava fragilizado pelo o que aconteceu, por isso ele fez o que fez e que isso é uma total falta de responsabilidade?
- Sim, seria polêmico , mas é por isso que nós manipularíamos a mídia, ou pelo menos tentaríamos. Essa é a nossa única saída...
- Não! Sempre tem uma outra saída, por exemplo, a verdade... - respondeu desencostando da parede.
- Se você quer acabar com sua carreira que mal começou, tudo bem, conte a verdade... - Fletch respondeu se levantando da poltrona.
- Mas você tá obrigando o cara a se casar? Você está louco? - perguntou passando as mãos pelo rosto.
- Eu não estou obrigando ninguém. E isso é uma jogada de marketing, pelo amor de Deus, entendam isso...
- É realmente fácil entender uma jogada de marketing dessas, claro. - respondeu irônico fazendo com que eu o olhasse. Nossos olhares se cruzaram por alguns milésimos e sorri vendo a preocupação e a angústia em seus olhos.
- Entendam que esse casamento é uma farsa. Nós arranjaríamos uma garota e eles se casariam apenas no cartório, então, morariam juntos por um tempo, um ano no máximo, e depois vocês se separariam... Nós contrataríamos uma garota, uma atriz, sei lá... E ela seria uma boa moça, ela cativaria a todos e vocês seguiriam normalmente com suas vidas e suas carreiras, é um casamento só de fachada, ele vai acabar logo, e você, – Ele disse virando em minha direção – continuará sua vida normalmente, só terá de lidar com uma farsa por um tempo, só isso... Você estaria disposto a fazer isso pela banda? - Fletch perguntou-me e ouvi várias respirações abafadas e uma longa discussão sendo criada em minha volta.
Eu estava confuso, confesso, e tudo à minha volta parecia distante, ali, agora, sentado naquele sofá, estava em um mundo parcial, onde só eu e minha consciência habitávamos e discutíamos; e no momento eu tentava pensar no certo a se fazer. Pude ouvir ao longe meus amigos gritando com nosso empresário, e no fundo, não queria que eles fizessem isso, Fletch não tinha culpa de nada. Eu tinha. Eu fora o culpado por tudo que tinha acontecido, por tudo que estávamos passando. Não era certo e muito menos justo gritar com ele, mas não conseguia me mexer, estava tenso, pensando em suas palavras... Eu estaria disposto a fazer isso pela banda?
Eu tinha a plena consciência de que não queria fazer isso, não queria me casar, e também não queria mentir, mas eu não podia acabar com as nossas carreiras, nossos sonhos, nosso futuro... Não me perdoaria se acabasse com tudo. Mas se eu não fizesse aquilo também estaria sendo egoísta de novo, porém agora com a plena consciência do tamanho de meus atos; eu sabia que não iria somente me prejudicar se não aceitasse aquilo. Iria prejudicar meus amigos, meus irmãos. E não podia pensar na nova possibilidade de fazê-los passar por um inferno maior do que já tinham passado em minha ausência. Mesmo eles não falando sobre o assunto, eu enxergava em minha frente como eles estavam exaustos, cansados e irritados, eles gritavam e discutiam, tomando minhas dores, me defendendo não importando o custo de seus atos ou o impacto de suas palavras, atacando um cara que sempre nos apoiou e nos deu força para chegarmos onde estávamos, no caminho certo, nos incentivando a sempre fazer o que era melhor, para darmos sempre o melhor de nós mesmos.
Senti minha garganta se apertar e meu peito doer, eu sabia o que eu iria fazer, tinha certeza absoluta e por mais que aquilo me doesse o estômago só de pensar, eu faria aquilo. Não iria causar mais tormentos a ninguém, iria assumir meu papel e arcar com minhas consequências, estava pronto e decido. Antes tarde do que nunca, pensei. Então me pronunciei...
- Sim, eu estou disposto a fazer isso. - Respondi baixo e firme olhando em um ponto qualquer da televisão desligada em minha frente.
Como se tivesse saído de uma bolha complexa, os barulhos de vozes gritando voltaram em meu campo auditivo causando-me um ridículo nervoso. Eles não me ouviram. Eu sabia disso, mas não foi por isso que fiquei irritado, fora por causa de minha visão que não foi nada agradável. Meus três amigos estavam em volta de Fletch, gritando, falando ao mesmo tempo, gesticulando coisas que eu ao menos entendia devido ao barulho. E vendo nosso empresário, acuado, falei chegando perto e tocando o ombro de .
- Parem com isso, por favor. - os quatro olharam em minha direção e eu disse. - O Fletch não tem culpa de nada, relaxem, eu sei o quanto tá sendo difícil pra vocês e agora está na hora de vocês compartilharem essa coisa toda comigo. - Respondi sorrindo fraco para os rostos aturdidos em minha frente.
- O... O que, você...? - respondeu gaguejando.
- Sentem-se, por favor, eu quero falar com vocês quatro agora, e quero que vocês me ouçam. - Disse frisando a última parte e empurrando-os para seus antigos lugares. E em pé, comecei a dizer...
- Eu vou fazer isso. – Falei e se pronunciou dizendo.
- , você não precisa fazer isso, ninguém vai te obrigar a nada, nós estamos do seu lado e... - Eu o interrompi dizendo.
- , vou fazer isso porque eu quero. Porque é preciso fazer. - Ele ia me interromper de novo, porém, continuei. - Durante esse tempo que fiquei fora, deve ter sido muito difícil para vocês. Se eu bem entendi, vocês arcaram com todos os pesos dos meus atos, vocês aguentaram tudo sozinhos. Vocês arcaram com as minhas consequências e isso não foi certo. Mas agora eu voltei e estou aqui. Vou fazer de tudo para que nós não nos prejudiquemos mais. Nem que para isso eu tenha de fazer essa tal jogada de marketing. – Falei, tomando fôlego e continuei. - Vou fazer isso por vocês e pela banda e exijo que vocês não fiquem ressentidos com o Fletch, e muito menos comigo, mas essa é a minha decisão. - Completei olhando atentamente para todos eles. O silêncio tomou a sala por alguns longos segundos até se pronunciar.
- Eu ainda acho isso um erro. - Ele disse baixo, parecendo magoado.
- , isso é a única solução, quer dizer, é a solução que vai nos prejudicar menos, sem contar que é como o Fletch disse, depois de um ano, é só acabar com tudo. - Respondi sentando-me ao seu lado, no sofá.
Ele olhou para mim e o encarei por alguns segundos. O cansaço e a dor estavam estampados em seus olhos. Eu disse-lhe baixo:
- , vai ser melhor assim, nós vamos conseguir passar por isso, vai ser fácil e rápido, você vai ver. - O olhei e sorri. Ele me encarou por mais uns segundos e logo desviou seu olhar do meu.
Olhei para frente, encarando , quando o mesmo me perguntou:
- Você tem mesmo certeza disso ?
- Sim, eu tenho . - O respondi sorrindo mais abertamente e disse. – Porém, eu tenho uma exigência. - Olhei para Fletch que estava boquiaberto, olhando para todos nós. - Eu vou escolher quem vai ser minha querida esposa. - E encostei minhas costas no sofá, abrindo os braços.
- Como assim? - Fletch perguntou.
- Ué, eu quero escolher quem vai ser a mulher que vai passar um ano comigo. Nada mais justo, já que vou ter que passar um ano inteirinho com ela, certo? - Perguntei-lhe esticando minhas pernas até a mesinha de centro.
- Então, você aceitou isso mesmo? - Ele perguntou olhando-me abismado.
- Eu sabia que você tinha algum tipo de problema Fletch, mas não sabia que era um déficit de atenção. - Ri sendo acompanhado por uma risada fraca de e continuei. - É, eu aceito essa porra, mas só se você deixar eu escolher minha mulher. - E assim eu pude vê-lo respirar aliviado.
- Claro, claro, faça o que achar melhor, escolha sua mulher, só arrume uma garota de confiança e faça ela assinar alguns papéis, eu vou pegar... - Ele respondeu ainda meio em choque e entrou no corredor de seu apartamento. O silêncio se estabeleceu no recinto e eu disse:
- Vocês não precisam ficar com essas caras de enterro, ninguém morreu, eu só vou me casar de mentira. - Respondi para os mesmos que me olharam com uma duvidosa curiosidade.
- Você vai fazer isso mesmo, não é?! - perguntou confirmando mais para ele mesmo do que para mim. Mesmo assim, respondi.
- Vou.
- Cara, você é louco. - disse rindo meio nervoso.
- É, talvez eu seja mesmo. Mas vocês vão ter que me ajudar a escolher uma mulher, já que não pode ser um homem, desculpa . - Eu disse com uma expressão sofrida olhando para e que agora riam fraco também.
- Você sabe onde está se metendo, certo? - perguntou sem me olhar, sério, fazendo com que nossas risadas cessassem no mesmo momento, e eu o respondi.
- Sim, eu sei . - Respondi olhando-o confuso. E então, ele se virou para mim, e com um pequeno sorriso, disse:
- Nós vamos sempre te apoiar, merda. Mesmo que sejam em ideias insanas como essa. - E assim eu pude sentir meu corpo relaxando de alívio. - Mas não pense que eu concordo com isso, porque não concordo. Você sabe disso, não sabe? - Ele perguntou-me.
- Sim, eu sei . Céus, às vezes você é pior do que a minha mãe. - Respondi sentindo logo um aperto no peito. Eu ainda não vira a minha mãe e quando a visse, sabia que tinha de lhe contar isso. Eu iria informar a ela e minha irmã, não iria mentir para elas. Elas iam ficar a par do assunto, mas sabia que ouviria horrores da mesma. Ela provavelmente tinha a mesma opinião de . Eu estava fodido e sabia disso. Estremeci com o pensamento e ouvi dizendo:
- Falando na sua mãe, nós temos de chegar lá em casa em aproximadamente... - Ele olhou para o relógio e disse. - Trinta e três minutos.
- Ahn? - Perguntei tombando minhas pernas para o chão e sentindo um frio assustador na boca do estômago.
- É, acho que esquecemos de contar, sua mãe vai te pegar lá na casa do , às cinco. - respondeu sorrindo. - Vai matar a saudade da mamãe, hein cara. - E riu quando disse:
- Vai é levar uns cascudos da mamãe quando ela descobrir os seus planos mirabolantes. - E foi assim, tirando sarro da minha cara que o clima tenso foi esvaindo pelos ares.
Fletch voltou à sala e explicou por cima o que eram aqueles papéis que ele me dera, um contrato onde diria que a mulher, que no caso eu escolhesse, teria de permanecer ao meu lado durante um ano, fazendo-lhe o que fosse pedido, resumindo, sendo a perfeita esposa.
Peguei as coisas e me despedindo normalmente, saí de sua casa com meus amigos, sentindo as responsabilidades pesando em minhas costas. Contudo, quando olhei para meus amigos apostando corrida pra ver quem chegava primeiro ao carro, apenas dei de ombros pensando que estar ao lado deles, os protegendo de qualquer erro que eu pudesse cometer novamente, valia a pena qualquer tipo de esforço. Fomos conversando durante todo o caminho, desde coisas bizarras até sobre meu plano mirabolante e infalível de Como arrumar uma esposa em 10 dias, como dizia , fazendo uma sátira ao filme. , claro, disse que: já que iria ser trocado, queria participar da busca da mulher perfeita, e ficou dando ideias idiotas do tipo, montarmos uma audição para achar uma esposa. Pois é. Rindo assim, chegamos a casa dele e antes mesmo que eu pudesse sentar em seu sofá, o interfone tocou anunciando que minha mãe estava embaixo me esperando. Esfreguei minhas mãos suadas quando estava de pé em frente à porta, os três dentro do apartamento me empurram pra fora dizendo que levariam as malas no dia seguinte já que estariam em minha casa, me acordando às seis da manhã. Mostrei o dedo para eles que gritaram fazendo-me rir e entrar logo no elevador. Sozinho, descendo ao encontro de minha mãe, senti meu coração acelerar, o estômago embrulhar e um frio absurdo tomar conta de meu corpo. O elevador parou e eu saí quase correndo.
Era engraçado dizer isso, mas ao mesmo tempo em que estava nervoso com sua reação e queria fugir ao invés de dar qualquer notícia, eu também queria correr até aos seus braços, apertando-a e matando toda a saudade e a falta que ela me fizera nesses longos meses. Assim que cheguei à porta e vi minha mãe encostada no lado de fora do carro olhando para o chão, notei que tinha algo de errado, mas não falei nada, somente pensei que queria chegar mais e mais perto, e quando dei por mim eu já estava em sua frente ouvindo sua voz dizendo algumas palavras, fazendo-me pensar que eu podia cair no choro de tanta felicidade.
- ? Meu filho, eu fiquei tão preocupada... - E assim ela me tomou em seus braços como se eu fosse uma criança de cinco anos e não um adulto de vinte e três. Ela me apertou como se a qualquer momento eu pudesse não existir mais e ficamos assim por um longo tempo, até que ela se afastou lentamente de mim, e colocando as mãos em meu rosto, perguntou. - Você está bem?
- Sim mamãe, eu estou bem. - Respondi sorrindo e abraçando mais uma vez. Ela encostou sua cabeça em meu torço e disse abafadamente.
- Nunca mais faça isso comigo , você me ouviu?!
- Não vou fazer, prometo. - E assim ela desencostou.
- Então, vamos? - Ela perguntou se mexendo inquieta na calçada.
Eu a olhei atentamente vendo que ao mesmo tempo em que me olhava, ela desviava o olhar quando eu permanecia muito tempo lhe encarando.
O que estava acontecendo?
Sem ao menos dizer algo, ela deu a volta e quando chegou ao carro, no lado do motorista, adentrou. Deixando um filho estático no meio da calçada perguntando-se o que havia de errado.
Pensamentos percorreram minha mente, 'Será que ela ainda estava brava comigo?' Tremi em pensar nessa possibilidade, mas logo fui tirado dos mesmos quando ouvi o barulho do motor do carro, fazendo-me entrar no mesmo rapidamente e me acomodar.
Ela sorriu para mim assim que entrei; senti seu olhar sobre mim enquanto eu me ajeitava em seu carro, colocando o cinto de segurança.
Me arrumei e olhei para a mesma que continha os olhos cheios de lágrimas e um sorriso fraco e maternal nos lábios. Antes que as lágrimas pudessem cair de seus olhos ela respirou fundo e, pigarreando, colocou as mãos no volante e pisou no acelerador, fazendo com que o carro começasse a andar. Percorremos o trajeto, andando pela grande cidade em silêncio, e quando o mesmo começou a me incomodar, perguntei-lhe:
- Mamãe, está tudo bem com a senhora? - Assim que minha voz saiu, eu percebi que seus dedos apertaram o volante com mais força e seu corpo ficara rígido. O desespero tomou conta de mim, então continuei. - Foi alguma coisa que eu fiz, certo? Desculpe mamãe, eu não sei o motivo de a senhora está brava e magoada comigo, mas se foi por aquelas coisas que lhe falei, me perdoe. Te magoar nunca foi minha intenção e... - Mas ela não me deixou continuar, me interrompendo, disse baixo.
- Não meu filho, se acalme, não foi nada do que disse. - A olhei preocupado, sua voz parecia estrangulada de dor, a preocupação evidente em seu rosto. Me sentindo inquieto olhei para o caminho que minha mãe fazia e perguntei.
- Você não quer me contar? De repente com isso a senhora pode se sentir melhor...
- Eu vou lhe contar, só... Vamos esperar chegar até o local, ok? - Ela disse e olhou brevemente em minha direção com os olhos cheios de lágrimas novamente. Meu coração se apertou em meu peito e senti que não eram notícias boas que estavam por vir. Com um medo absurdo, fiquei olhando a paisagem na janela - antes bela - que desaparecia rapidamente conforme nuvens cinzas e carregadas pairavam no céu.
Alguns longos minutos passaram. Continuei em silêncio apenas ouvindo os barulhos da rua lá fora e da chuva batendo na lataria do carro. Franzi o cenho conforme fui estranhando o caminho.
Aquela não era a direção de minha casa.
Me remexi inquieto pensando que a mesma tinha pego o caminho errado, e perguntei:
- Mãe, acho que você pegou o caminho errado, não?
- Não, nós estamos no caminho certo. - Ela respondeu baixo. Olhei-a e ela disse. - Lembre-se, fique calmo, certo? - Um sentimento ruim se apossou de meu corpo.
Continuei olhando para a rua e assim que ela passou um cruzamento e adentrou uma longa rua, se distanciando minimamente da cidade, senti meu coração bater acelerado dentro do peito.
- Mamãe... - Disse-lhe sussurrando. - O que nós estamos fazendo aqui? - Ela não me respondeu. Olhei-a e vi seu rosto duro, rígido, com uma expressão de dor estampada em sua face fazendo-me sentir estrangulado, o que estava acontecendo? - Mãe, por que a senhora está me trazendo aqui? Eu, eu não posso... Eu, nós... Nós não nos falamos há muito tempo, eu não sei se consigo... - Meu coração doía em meu peito, e parecia inflar mais e mais a cada palavra que saía de minha boca.
Os metros iam sendo percorridos rapidamente, enquanto em minha garganta um bolo de sentimentos ia entalando-se.
Quando mamãe parou na porta do condomínio e saiu do carro para anunciar nossa chegada, eu pensei que podia chorar, por que justo hoje? Por que estávamos ali? Eu não queria lidar com aquilo agora, não podia. Depois de tantos anos...
Meu corpo queimava. Sentimentos como agonia, saudade e dor, mesclavam-se me causando uma aflição absurda. Mamãe entrou com o carro justamente quando o portão fora aberto. Assim que a mesma tocou no volante novamente, vi que suas mãos tremiam. Olhei para ela com medo, porém atento, e perguntei-lhe quando já conseguia avistar ao longe aquela casa um tanto conhecida para mim.
- Por que você me trouxe até aqui? - Minha voz falhava e uma mistura de raiva, tristeza e mágoa demonstravam meus sentimentos verdadeiros por tal ato, eu mesmo pude ouvir.
- Porque ela precisa de você. - Ela disse calmamente conforme estacionava o carro em frente a enorme casa branca, de dois andares, que eu passei uma boa parte de minha infância e adolescência. Assim que paramos, tirei o cinto e me virei em sua direção meio cauteloso e um tanto pasmo por sua resposta.
- Como... Como assim? Ela precisa de mim?! O que aconteceu? - Perguntei olhando minha mãe tombar os braços para o lado.
Após alguns segundos ela virou a cabeça lentamente em minha direção. Olhou profundamente em meus olhos e disse:
- Eu preciso que você me deixe falar. E você tem que me prometer que vai se manter calmo. - Ela pediu e senti o desespero tomando conta de meu corpo.
- Mamãe, o que aconteceu? A senhora está me deixando assustado. - Perguntei-lhe vendo-a tirar o cinto. Ela se ajeitou no banco e suas mãos vieram até meu rosto. Acariciando-me, ela começou.
- Filho, eu vou lhe contar uma coisa muito grave e preciso que você me ouça até o final, ok? - Ela perguntou-me e acenei positivamente com a cabeça, então, ela continuou. - Sua tia me ligou mês passado pedindo para que eu viesse lhe ajudar. Aconteceram algumas coisas durante esse tempo que você esteve fora, e não foram coisas boas. - Ela respirou fundo, e piscando os olhos algumas lágrimas caíram por sua face. Um frio assustador percorreu o meu corpo e eu senti-me tremer em suas mãos. - A nossa menina, ela... - Ela respirou fortemente desviando seu olhar do meu, e quando nossos olhares se cruzaram novamente ela despejou tudo o que eu menos esperava. - Ela foi vítima de abuso sexual há um tempo e, desde então, ela não é mais a mesma. Sua tia me ligou desesperada por ajuda, e hoje faz exatamente um mês que estou aqui tentando lhe passar força, apoio e tentando ajudar de todas as maneiras possíveis. A nossa menina não está muito bem filho, ela pouco fala, quase nunca come, mas sua tia me disse que ela já esteve pior. Ela não sai de casa desde o dia em que aconteceu aquilo e por isso ninguém sabe disso, a não ser os mais íntimos como alguns amigos dela que sempre vêm lhe visitar e sua tia. - Ela limpou algumas lágrimas que escorriam fortemente em meu rosto e continuou. - O seu tio não sabe, porque ela não quis que contassem para o mesmo, fazendo-lhe voltar do Canadá, onde ele está a trabalho. E eu pensei que era melhor você estar sabendo pela minha boca agora, do que futuramente pela boca dos outros. Então, eu quero que você se acalme para nós entrarmos e... - Eu não ouvia mais nada, o choque percorria o meu corpo causando-me calafrios dolorosos que pinicavam o mesmo.
Pareciam que adagas de gelo atravessavam minha alma, fazendo-me sentir uma dor latejante. Eu me sentia ruim... Muito ruim.
Era como se minha vida estivesse esvaída, de repente, deixando-me oco. Como assim a minha menina tinha sido vítima de abuso? O que isso queria dizer?
Eu não podia acreditar no que minha mãe falara, ela não podia estar em sã consciência, só podia ser isso.
Peguei, desacreditado, em suas mãos e as afastando delicadamente de meu rosto, mas ainda as segurando, perguntei-lhe:
- Você... – Solucei. Eu já estava chorando dolorosamente e ao menos tinha percebido.
Meu peito doía assim como a minha garganta tremia e as lágrimas rolavam, molhando todo o meu rosto... - Você quer dizer que ela foi estuprada, é isso? - Perguntei-lhe sem fé segurando suas mãos e as apertando levemente, enquanto uma raiva absurda começava a surgir, espalhando-se por todo o meu corpo. - É isso mesmo, mamãe? - Perguntei-lhe novamente, querendo que tudo aquilo fosse mentira, que não passasse de mais um de meus pesadelos perturbadores; A culpa e o desespero me puxavam, afogando-me em um mar negro de escuridão, porém, quando eu vi minha mãe acenando positivamente em minha frente com uma careta de dor, eu fiz a única coisa que poderia fazer.
Soltando suas mãos, me virei para frente batendo fortemente minhas mãos fechadas em punhos, no console do carro, gritei sons guturais que demonstravam minha ira a plenos pulmões. O barulho estridente do soco se misturou bravamente com o meu grito de dor. Lágrimas de suplício escorriam por minha face assim como meu coração batia descompassado, quase desfalecendo por si só.
Saí do carro desesperado, aquilo não podia estar acontecendo. O terror queimava minha alma, causando-me pontadas terríveis. A dor que sentia agora não era nenhuma comparada às quais eu tive durante toda a minha vida.
Ouvi minha mãe gritar meu nome ao longe pedindo para eu voltar, mas eu já estava atravessando o jardim, sendo banhado pela chuva gélida que ardia em meu corpo, enquanto andava em direção à porta.
Eu não conseguia pensar em mais nada. Pensamentos e ações eram bloqueados em meu cérebro e a única certeza que tinha certeza era a de que eu queria vê-la agora.
Eu precisava vê-la.
Eu necessitava tocá-la e senti-la viva em meus braços.
Todos os sentimentos ruins que sentira antes, agora se transformavam em culpa e remorso ou uma mistura dos dois. Eu nunca deveria tê-la abandonado. Nunca.
Parei na porta e girei a maçaneta, estava trancada.
Andei rapidamente até um vaso de planta, branco, do jardim bem cuidado e torci para que aquele ainda fosse seu esconderijo secreto, aquele o qual ela escondia suas chaves.
Um soluço escapou dentre meus lábios quando senti a chave fria em meus dedos, tentei afastar tanto as lembranças que me invadiam a mente quanto os pensamentos obscuros que penetravam minha cabeça, imaginando o que ela tinha passado na minha ausência.
Tremendo de sofreguidão, corri até a porta; abri a mesma ofegante e sem ao menos pedir licença adentrei a sala.
Subi correndo as escadas, quase caindo na mesma graças à água que pingava de minha roupa e, assim que adentrei o corredor escuro, corri em direção àquele quarto que eu já conhecia de cor e salteado.
Quando abri a porta bruscamente, pude vê-la, ali, em pé, olhando a janela calmamente como se houvesse algo interessante e não só a chuva.
Andei a passos largos em sua direção, em um choro cansativo, torturante, de um desespero alucinador.
Os soluços já me causavam dores na garganta assim como a culpa, o arrependimento, o remorso. E todos os outros sentimentos que afligiam o meu todo, rasgando minhas entranhas, fazendo-me sentir como se eu fosse a pior pessoa do mundo. E eu era, pelo menos em minha concepção, já que no final das contas eu a abandonara.
Segurei a minha respiração, assim como o choro estava entalado em minha garganta, estava tão próximo a ela, depois de tantos anos.
Sem poder mais me conter, dei os últimos passos que me separavam dela. E quando lhe abracei, pousando meus lábios em sua cabeça e sentindo seu corpo se retesar em meus braços, os únicos sentimentos que se apossaram de mim, foram aqueles que ela sempre me proporcionava. Aqueles que faziam meu corpo esquentar, minha alma se acalmar e meu coração disparar.
Ela estava ali, em meus braços, finalmente.
E quando eu fechei meus olhos, aspirando seu perfume intoxicante como sempre e envolvendo-a mais forte em meus braços, ouvi sua voz baixa e surpresa sair como um sussurro por entre seus lábios...
- ?

Capítulo 4


“A verdadeira afeição na longa ausência se prova.” - Luís de Camões.


’s POV.


O sentimento de surpresa inundava todos os poros de meu corpo, deixando-me arrepiada dos pés à cabeça. Seus braços envoltos em meu torso prendiam-me com uma força abismal. Meus olhos piscavam alertas e meu cérebro trabalhava fervorosamente pensando que aquilo só podia ser um sonho e não realidade.
Senti meu pijama molhando-se lentamente e meu corpo frio acordando, começando a responder aos toques. Fechei os olhos perdendo-me em pensamentos; remexi-me levemente em seus braços grandes e fortes, e o senti se ajeitando em mim, ele estava todo molhado e chorava de soluçar.
Respirei sentindo seu aroma maravilhoso espalhando-se pelo quarto lentamente, o cheiro dele me trazia a sensação de conforto, o qual há muito não sentia.
Seu rosto afundou-se em meu pescoço, enquanto suas mãos desciam e se entrelaçavam firmemente em minha cintura. Ele parecia uma criança, ali, em meus braços, chorando fortemente, como se o mundo fosse acabar amanhã.
Abri os olhos novamente percebendo que aquele não era um de meus sonhos, era a mais nua e crua realidade.
Estremeci sentindo a água fria encharcando o tecido de meu pijama, me molhando.
Assustada e surpresa. Era assim que me sentia, e meu corpo demonstrava isso com toda a certeza, já que me senti gelar, e minhas mãos suavam frio.
me abraçava com uma intensidade absurda, como se eu pudesse me desmanchar em suas mãos a qualquer momento, fazendo-me ficar mais e mais assustada com a situação e vendo como aquilo tudo era de verdade; A realidade abateu-me, derrubando as barreiras que existiam em torno de mim, deixando-me em choque, fragilizada e sem conseguir pronunciar uma palavra sequer.
Em minha mente, frases confusas formavam-se, fazendo com que eu me questionasse totalmente atordoada. Aquilo estava acontecendo mesmo? Depois de anos ele estava ali, novamente em meus braços?! Seu hálito quente bateu em meu pescoço, fazendo com que meu corpo tremesse de ansiedade, saudade e medo.
Sentimentos confusos - tanto de adorações passadas, das quais ele se encaixava em todas as minhas memórias, como recordações medonhas, - ainda - muitíssimo presentes, das quais somente eu me lembrava nublaram minha mente, trazendo à tona o passado, por uma parte um tanto antigo e por outra, um muito recente, em minha mente. E quando eu tentei afastá-lo de mim, para não provocar qualquer desconforto em ambas às partes, com qualquer atitude futura que eu pudesse tomar, ele se pronunciou dizendo fracamente...
- Me perdoa? - Sua voz baixa e um tanto melancólica me surpreendeu. - Me perdoa, diz que me perdoa... - Ele repetia de novo, suplicante, com os lábios muito próximos de meu ouvido.
Pisquei inúmeras vezes tentando assimilar suas palavras. Minha respiração ficou rápida, ofegante, meu coração batia acelerado dentro do peito e minha mente trabalhava quase se arrastando. Me perdoa, perdoar, perdão... Perdão pelo o quê afinal? Suas palavras soavam-me confusas e assim obriguei meus braços a se moverem.
Lentamente minhas mãos subiram. Sentindo toda a tensão e o receio acumulados dentro de mim, o abracei de leve, quase que imperceptivelmente, antes que eu pudesse me arrepender de não fazer tal ato; meus braços acanhados o envolveram fortemente sentindo-o retribuir tal ato.
Alguns segundos – ou talvez minutos - se passaram, enquanto continuávamos abraçados desajeitados. E nesse meio tempo, tive a coragem necessária para dar o próximo passo. Subindo minhas mãos, toquei levemente até seu rosto frio e molhado - uma mistura de lágrimas e chuva - e o acariciei, sentindo meu coração se contorcer, ele estava ali sim, em minha frente, abraçado comigo. Eu podia senti-lo afinal, depois de tanto tempo...
Com as pontas de meus dedos tracei seu rosto, admirando-o mais uma vez, sentindo uma plenitude acolher todo o meu corpo.
Pousei uma de minhas mãos em sua bochecha quando o mesmo deitou sua cabeça em meu ombro. Ele parecia se acalmar com minhas carícias leves, porém, quando sua respiração cálida bateu em meu pescoço provocando-me sensações diferentes, as quais eu não conseguia identificar, mas que me causaram uma leve sensação de deleite, eu perguntei-lhe com a voz baixa...
- Por que você está me pedindo perdão, ? - Ele não respondeu.
No momento em que minha voz saiu preenchendo todo o silêncio do quarto, seu choro aumentou assim como seus soluços o impediram de falar qualquer coisa.
Eu tentei acalmá-lo outra vez, mas antes que eu conseguisse fazer algo realmente prudente, seus braços enlaçaram-me mais forte fazendo com que nossos corpos se colassem; E infelizmente o instinto que adquiri durante os últimos meses, foi mais veloz fazendo com que a minha reação a isso fosse a qual eu e ele menos esperávamos. Em um movimento rápido, segurei seus braços com força, o impedindo de se aproximar de mim. Aquilo não adiantou muita coisa, confesso. Já que em um ímpeto de pavor, juntei toda a força que continha em meu corpo e o empurrei. Ele deu alguns passos para trás, mas não me soltou; levantando a cabeça bruscamente olhou-me assustado. Eu sentia meu corpo se desesperando mais e mais conforme seus braços continuavam em torno de mim. Apoiando meus braços em seu tronco, tentei me defender do mal que minha mente indiciava; eu sabia que nunca me faria mal. Ele era meu amigo e eu o conhecia muito bem para saber que ele nunca avançaria em mim, mas não era assim que meu cérebro raciocinava. Já que a única coisa que preenchia minha mente no atual momento, - como se fossem alertas vermelhos - era de que eu precisava me soltar.
E quando estava pronta para empurrá-lo mais uma vez desprendendo mais um grito de horror, vi seus olhos claros, límpidos - como a muito não os via – e eles demonstravam tanta confusão, apreensão e aflição, que, na mesma hora senti-me paralisar. Principalmente quando enxerguei a única coisa que não esperava: Sinceridade. Um sentimento que há muito tempo eu não via refletido no olhar das pessoas.
Ultimamente todos os olhares que eu recebia eram os de pena, preocupação, compaixão e dó pelo o que eu sofrera. Eu não gostava desse tipo de sentimento, não mesmo. Sempre ficava constrangida e me sentia um fardo na vida das pessoas à minha volta, um fardo para o mundo. Eu não queria ser digna de pena, nunca quis.
As pessoas olhavam-me como se eu fosse um bichinho indefeso, como se pudessem compreender as minhas dores, meus anseios... Como eram tolos. Mal sabiam eles as coisas que passei naquela noite monstruosa. Só eu sabia. Só eu sentia... Aquilo reverberava por todo o meu ser.
Estremecendo, perdida em pensamentos furtivos, senti quando ele segurou-me mais forte em um de seus braços, entrelaçando-o em minha cintura, dando-me apoio, enquanto o outro subiu, segurando o meu rosto em sua mão. Como se um choque percorresse meu corpo, seu toque fez-me acordar para realidade outra vez. Sua voz rouca e soluçante perguntava-me...
- , você está bem? O que foi? O que está acontecendo? - Mãos firmes, toques precisos, voz assustada. se resumia praticamente nisso, mas ele me passava o auxílio e a confiança necessária no momento para fazer com que meu corpo e minha alma se aquietassem quase que milagrosamente. Sua respiração estava forte e suas mãos frias acariciavam calmamente meu rosto. - Fale comigo, ... - Ele implorou com a evidente preocupação refletida em seu semblante sério.
Pude ver meu peito subindo e descendo, minha respiração amenizando, o grito em minha garganta sendo desfeito, engolido... Passado algum tempo olhando atentamente a simples e pura sinceridade de seus olhos, que me acolhiam protetores como sempre, consegui me acalmar em seus braços.
- ... - sussurrei sentindo um leve torpor tomando conta de meu corpo. O senti sustentando-me conforme eu ia amolecendo.
- Você está bem? - Ele perguntou passando os olhos por meu rosto. - Você parece meio pálida, não se esforce. Só me responda. Você consegue falar?
- Uhum. - Eu disse balançando a cabeça afirmando.
- Você me assustou. - Ele respondeu abraçando-me novamente, fazendo com que minha cabeça encostasse em seu peito. - Não faça mais isso comigo. - Ele pediu com a voz baixa.
E antes que pudesse lhe responder ele me pegou no colo e me carregou até a cama. Aconchegando-me em seu peito. Durante o pequeno trajeto, senti-me protegida e acolhida em seus braços. Por mais estranho que aquilo parecesse, conseguira um feito que nenhum de meus amigos, nem mesmo minha mãe tinha conseguido ao longo desse tempo. Ele me acalmara no início de uma de minhas crises.
Eu me sentia desgastada, cansada, como se tivesse passado dias e dias acordada em claro; Minha mente estava confusa, nublada, um pouco atordoada, talvez. E sentia uma pontada de dor querendo se espalhar por todo o meu peito. Era incrível como aquela sensação de vulnerabilidade tomava conta de mim, deixando-me depressiva e fraca em momentos como aquele.
Senti o colchão afundando-se embaixo de meu corpo. Meus olhos estavam fechados fortemente e eu me agarrava na blusa molhada de meu amigo. deitou-se ao meu lado e ficou sussurrando algumas palavras incompreensíveis na intenção de me acalmar. Ele apoiou o queixo em minha cabeça e me abraçou, como se pudesse me ninar em seus braços. Eu me aconcheguei mais neles, afundando-me na curva de seu pescoço, apreciando o seu cheiro que sempre fora um calmante para mim durante nossa infância e que parecia ainda funcionar, já que após um tempo agarrada a ele eu senti meu corpo cedendo finalmente.
Minhas mãos afrouxaram-se de seu peito e minha mente anuviou-se, ficando quase leve, sem nenhum pensamento, num silêncio profundo; respirei fundo, sentindo suas mãos apertando levemente os meus braços, como se ele estivesse avisando-me que eu não estava sozinha. Abri os olhos lentamente e o encarei.
Seu cabelo molhado e desgrenhado grudava-se levemente em seu rosto, seus olhos, apesar de um pouco vermelhos por causa do choro, estavam mais azuis do que nunca. Suas bochechas estavam levemente coradas, dando-lhe um ar quase angelical, mas seus lábios estavam levemente roxos, como se ele estivesse com muito, mas muito frio. Lembrando-me que o mesmo estava molhado, levantei sentando-me rapidamente na cama, e confesso que aquilo não foi uma decisão muito prudente, já eu senti uma leve tontura apossando-se de meu corpo. pousou uma de suas mãos em minhas costas e disse:
- , deita, por favor.
- Não, - respondi – você está todo molhado. Você tem que se secar, senão vai pegar um resfriado. - Levantei da cama dando dois passos adiante, mas paralisei, vacilando em meus pés.
Tudo se moveu rapidamente em minha volta e eu senti minhas pernas ficando fracas. E quando eu pensei que despencaria no chão, duas mãos pousaram em minha cintura e ele me arrastou para cama outra vez.
- , o que você tem? Fique deitada. - Perguntou-me, pedindo autoritário e continuou. - Eu acho melhor chamar sua mãe. – Ele disse mais consigo mesmo do que comigo. E quando ele estava se levantando da cama eu disse:
- Não... Não precisa aborrecer ela com isso, só me dê o copo de água que está ali na mesinha. - Pedi, apontando para o móvel do outro lado da minha extensa cama de casal.
Ele andou rapidamente até o outro lado e logo voltou com o copo, mas antes de me entregar, pude reparar em como suas mãos tremiam. Peguei o copo que o mesmo me estendia, tomando alguns goles. Senti minha garganta refrescar, mas logo deixei o copo na mesa de cabeceira, focando minha atenção em uma única coisa. Quando voltei a encará-lo, eu repousei minha mão em cima da sua e lhe disse com a voz baixa.
- Você está tremendo, ...
- É, eu sei. - Ele respondeu encarando-me, sorrindo fraco.
Mantemos os olhares fixos um no outro por um tempo, mas eu logo o desfiz, não conseguindo sustentar seu olhar cheio de dúvidas. Recolhendo minha mão, olhei para o teto. Encarando o branco sem fim e senti seu olhar sob mim. Mantendo meu olhar para cima, eu perguntei:
- Por quê?
- Por que o que, ? - Ele perguntou-me. E então, antes que eu me desse conta, um pequeno questionário fluiu por meus lábios.
- Por que você está tremendo?
- Eu, hum, acho que de nervoso, talvez... - Ele respondeu inseguro e um leve sorriso brotou nos cantos de meus lábios.
- Por que está aqui? - Perguntei retomando a voz e o semblante sério de antes.
- Minha mãe me trouxe aqui. - Ele respondeu e senti o colchão se movendo, presumindo que ele agora sentava aos pés da cama, já que o peso se acumulava por ali.
- Por que você voltou depois de tanto tempo? - Perguntei-lhe esperando uma resposta no mínimo convincente.
- Eu não ia voltar... – Ele respondeu com a voz baixa e ressentida. - Como eu já te disse, minha mãe me trouxe aqui. - Suas palavras atingiram-me como uma bofetada, provocando-me um grande desconforto de minha parte.
Fiquei quieta e estática por um momento, somente absorvendo suas palavras. Eu não esperava uma resposta tão sincera como aquela, não mesmo. Afinal, ultimamente eu vivia em uma bolha camuflada de omissões e mentiras. A sinceridade era um dos sentimentos mais longínquos nesses últimos meses, e eu não esperava que ela me doesse tanto assim.
- Entendo. - Sussurrei falhamente terminando o questionário rápido e ouvindo meu coração bater apreensivo dentro do peito.
O silêncio repousou ali e o único barulho que ouvíamos era o da chuva do lado de fora. Raciocínios medíocres invadiam-me com uma intensidade atípica. Por um lado eu não queria acreditar, mas por outro eu tinha a plena certeza: Eu sabia o real motivo pelo o qual ele tinha vindo. Minha mente calculista gritava ironicamente ‘Não seja tola, ele está aqui como todos os outros... Somente por pena!', e em um súbito desespero, perguntei-lhe friamente:
- Você já sabe, não é? – Um silêncio ensurdecedor pousou por ali me deixando cabisbaixa, aflita. Ele sabia.
- Sim, eu fiquei sabendo. - Ele respondeu em um sussurro rouco, fraco.
Baixei meus olhos até pousá-los em cima dele. O mesmo abaixou a cabeça rapidamente e apoiou seus cotovelos em seus joelhos. Suas mãos foram ao seu cabelo molhado, seus dedos perderam-se por entre os fios. Ele se contraía firmemente, como se tivesse espasmos de dor; eu quase pude sentir o seu choro retomando.
Ele estava ali, desolado aos pés de minha cama, como um bichinho assustado, assombrado. Ouvi sua respiração forte, ele estava tentando se controlar para não chorar, eu sabia disso, ele não gostava de chorar na minha frente. Afinal, ele sempre dissera que tinha que segurar a barra por nós dois.
Ri fraco lembrando-me de quando ele falou isso pela primeira vez. Foi logo que seu primeiro cachorro tinha falecido e ele chorou o dia inteiro deitado em minhas pernas. A única vez, diga-se por sinal. E no final daquele longo dia, ele levantou-se de meu colo, enxugou seus olhos vermelhos e secou as minhas próprias lágrimas também, dizendo que ele sempre seria forte por nós dois, não importando qual fosse a situação; virou a cabeça em minha direção, olhando-me estranho.
- Do que você está rindo? - Perguntou em um tom indignado.
- Nada importante. - respondi me ajeitando na cama.
- Me conta. - Ele pediu se aproximando de mim, pousando sua mão direita em minha perna esquerda.
Meu corpo enrijeceu-se na mesma hora com o seu movimento não esperado. Fechei os olhos pensando no tamanho do erro que ele tinha cometido, mas logo que senti sua mão mudando de lugar e que agora seus dedos se entrelaçavam aos meus, abri os olhos vendo um curioso e meio sorridente a palmos de distância, alheio a todo e qualquer pensamento perturbado de minha mente. E o vendo ali em minha frente, daquele jeitinho doce, meigo, todo dele, a nostalgia da infância percorreu minha alma de uma forma quase eletrizante, e, quando me dei conta, eu já lhe contava o motivo de meu riso.
- Eu só estava me lembrando de quando você passou o dia inteiro chorando no meu colo. - Disse-lhe sorrindo fraco encarando nossas mãos juntas.
- Ah... - Ele respondeu parecendo se lembrar. - Quando o meu cachorro morreu, não foi? - Ele perguntou, coçando a cabeça e fazendo uma leve careta de reprovação, como se não gostasse de se lembrar daquilo.
- Sim... - Eu respondi. - Você chorou tanto aquele dia, e nós não saímos do chão da cozinha da sua mãe, lembra? - Perguntei apertando levemente sua mão.
- Uhum... - Ele respondeu. - Mas em minha defesa, eu era apenas uma criança.
- Pré-adolescente. - Respondi rindo fraco.
- Ah... - Ele exclamou indignado. - Mas eu gostava mesmo daquele cachorro, foi o meu primeiro bichinho de estimação, você sabe... - Ele falou olhando sério em minha direção, como se eu pudesse cair em um riso estrondoso a qualquer momento.
- Eu sei, - balancei a cabeça afirmando. – me lembro de como você era grudado com o Donatello. - Falamos juntos a última palavra, ou melhor, nome. Nós nos encaramos por alguns segundos e começamos a rir.
- Sua tartaruga preferida. - Eu disse.
- Sim! E você sempre me perguntava por que eu não tinha uma tartaruga invés de um cachorro. - Ele disse, rindo alto.
- Mas é claro, quer dizer, se eram As Tartarugas Ninjas, nada mais normal ter uma tartaruga e não um cachorro com o nome de um desenho de tartarugas. - Respondi sentando na cama como se a minha explicação fosse óbvia.
Ele agora gargalhava em minha frente, tentei ficar séria por um tempo, demonstrando que estava sentida por ele estar rindo de mim e não comigo. Mas como sempre, sua risada contagiou-me e quando eu vi, eu já ria baixinho, junto dele. Ficamos assim até que nossos risos cessassem.
- Só você pra me fazer rir em momentos como esses. - Ele comentou baixo, entrelaçando firmemente nossos dedos e abaixando a cabeça observando os mesmos. Ele sorriu fraco e colocou minha mão em sua perna a apertando levemente. Acariciando-a, o mesmo continuou com a cabeça baixa, sem se pronunciar, perdido em pensamentos.
Suas palavras inesperadas fizeram com que meu corpo se enrijecesse de pura tensão. Eu sabia que ele não iria tocar no assunto. Ele vira que eu não estava pronta para falar sobre aquilo, e me conhecia muitíssimo bem ao ponto de não tocar no assunto novamente, pelo menos não agora. Um frio começou a passear por meu corpo fazendo com que eu estremecesse em cima do edredom fofo de minha cama. Relembrando sua pergunta de momentos atrás, e então eu me pronunciei temerosa.
- Por que você estava me pedindo perdão, ? - Perguntei-lhe baixo, em dúvida, receando que sua resposta pudesse me magoar novamente.
Ele olhou-me nos olhos e suspirou. Seus olhos eram tão límpidos, verdadeiros, e, pela primeira vez em muito tempo pude entender o que se passava por sua mente somente com o olhar. Ele se sentia culpado! Pensei.
Ele não tinha nenhuma culpa, mas pelo visto não era isso o que o mesmo pensava, já que todo o remorso e culpa o envolviam quase em uma aura de negatividade. Apertei seus dedos lançando-lhe um olhar aflito, ele não podia pensar daquele modo, o que acontecera não fora culpa dele.
Ele desviou o seu olhar do meu rapidamente, e vacilante, puxei seu rosto de volta, tocando-lhe o queixo e o obrigando a me encarar. Quando nossos olhares se cruzaram novamente eu pude ver um tipo de compreensão inexplicável refletida em seu rosto. Sentindo-me um tanto confusa, enxuguei a única lágrima solitária que escorria em sua bochecha e balancei a cabeça negativamente dizendo-lhe com minhas expressões faciais que não era para ele se sentir assim.
Ele apertou os olhos e encarou-me por um tempo. Sua expressão tornou-se dolorosamente sábia. Seus olhos, antes claros, nublaram-se por um momento, como se ele pudesse compreender toda a dor que eu sentia dentro de mim. Como se ele estivesse sentindo-a também. Porém, antes que eu pudesse decifrar algo, ou mesmo encará-lo por mais algum tempo, tentando entender o que se passava de verdade em sua cabeça, ele soltou nossas mãos e se levantou.
O olhei confusa. Para onde ele ia? Desesperei-me por um momento pensando que, talvez, ele fosse embora novamente. Mas antes que eu pudesse me pronunciar ele perguntou.
- Você ainda guarda as toalhas no mesmo lugar de antes? - O encarei processando sua pergunta.
Instantaneamente, um alívio percorreu meu corpo e logo me senti quente e tola, ele não ia embora. Sorrindo envergonhada bati a mão em minha testa e disse:
- Droga, a tolha. – Já estava me levantando, mas o ouvi dizer.
- , não precisa se levantar só me diga se as toalhas ainda continuam no mesmo lugar. - E sorriu em minha direção. Aquele sorriso, o qual eu adorava e me sentia atraída desde a infância. Estreitei o olhar analisando-o, vendo o quanto ele se sentia à vontade em meu quarto, e ele parecia ter quase os mesmos pensamentos, já que um sorriso sapeca surgiu em seus lábios alargando-se cada vez mais. - Vamos , eu ainda estou pingando, apesar do seu colchão ter absorvido uma boa parte da água. - Ele respondeu risonho tirando os sapatos e os largando no piso do banheiro.
- Sim. Continuam no mesmo lugar de sempre . - Respondi por fim o vendo adentrar em meu closet e saindo logo depois com uma toalha branca e felpuda nas mãos. Ele passou em frente à cama, sorrindo para mim e seguiu em direção ao banheiro. Lá dentro, com a voz abafada, ele disse...
- Eu vou tirar a roupa, ok? - E logo ouvi uma risada nasalada.
- O quê? - Eu perguntei pasma sentando-me na borda da cama e olhando para a porta entreaberta do banheiro, com a luz acesa.
- Eu disse que vou tirar a roupa ué... - Ele respondeu novamente e um barulho de coisas sendo derrubadas ressoou.
- , você está destruindo o meu banheiro? - Perguntei indo em direção ao banheiro, e assim que eu escancarei a porta, eu o vi parado, de costas para mim, sorrindo através do espelho, com o rosto molhado falando...
- Desculpa, eu só me desequilibrei enquanto tirava a camisa e lavava o rosto. - Ele respondeu segurando a toalha em volta de seu pescoço, secando parcialmente seu rosto. Fiquei encarando-o encabulada. tinha crescido, definitivamente.
Ele estava sem camisa – porém com as calças em seu devido lugar, graças a Deus - e sorria para mim, sua boca antes roxa agora possuía uma coloração rosada, contrastando com seu sorriso branco. Seu cabelo estava bagunçado e suas bochechas coradas pelo frio. Ele dava leves pulinhos como se pudesse esquentar seu torso nu e seus ombros largos sem que algum pano lhe cobrisse.
Respirei forte, tomada pelo êxtase e assustada pela intimidade. Atordoada, fechei os olhos bruscamente. Eu não devia ter levantado da cama, não mesmo. Eu já estava me virando, me retirando e prestes a pedir desculpas pela invasão súbita, sem motivos, quando ele me segurou pelo braço, dizendo.
- Calma, eu não mordo. - Abri os olhos, surpresas por suas palavras, e o encarei profundamente, afastando a névoa sombria que percorria os quatro cantos de minha mente.
Tentei recobrar a minha parte racional. Mas como tudo de bom na vida, um dia, sempre acaba, minha lucidez foi se afastando rapidamente. Eu não estava acostumada com aquilo tudo, não mesmo. Aquela reaproximação estava errada, tudo estava errado. Minha mente me alertava disso. Fiquei olhando-o profundamente estática. Ele agora já me olhava de lado, confuso, quando balancei a cabeça, pronunciando-me.
- Me desculpa, eu não devia ter entrado desse jeito. - Respondi um tanto fria, desvencilhando meu braço de sua mão, voltando a minha cama.
Suas palavras inocentes causaram um enorme abismo na boca de meu estômago, e eu me sentia tremer levemente conforme dava cada passo, tentando não ser abduzida por minha mente fértil. Era sempre assim, quando eu menos esperava palavras aleatórias eram ouvidas e antes mesmo que eu pudesse controlar, uma terrível onda de medo tomava conta de meu corpo.
Meu coração disparou e minhas pernas bambearam. Com as pálpebras fechadas, a escuridão engolia-me mais e mais. Caí na cama, enquanto em minha mente pensamentos irracionais pulsavam 'Ele vai te machucar, corra!' Meus punhos fechados com força contra os travesseiros me faziam lembrar que aquilo nada mais era do que mais uma peça pregada por minha mente. Mais uma travessura que me absorvia para os meus próprios pesadelos. Porém, eu não conseguia evitar. As lembranças eram mais fortes do que eu, e, a dor se apossou fortemente de meu peito.
Com dificuldade para respirar, eu puxava o ar de meus pulmões, os obrigando a trabalhar. No escuro profundo e entorpecedor de minha mente eu ouvia passos se aproximando, passos frívolos, gélidos e ecoantes. O desespero tomava conta de meu corpo rapidamente.
Senti minhas pernas movendo-se para trás, e minhas costas batendo contra a cabeceira da cama. Mas em minha cabeça, aquilo não era apenas uma cabeceira, e sim uma parede fria, sem saída, de uma noite sombria e sem luz; Eu pensei que fosse morrer. Outra vez não! Minha mente gritava.
Eu sabia que estava acordada, mas era irremissível. Era como se estivesse presa em um labirinto, presa em todos os cantos de minha mente, e conforme eu tentava sair daquela escuridão, me debatia nas paredes, como um bumerangue, sempre voltando para o mesmo lugar, sem foco, fragilizada pelo dor e medo novamente, e, quando a névoa escura, aterrorizante, ia me tocar, eu ouvi vozes em minha volta.
Despertando rapidamente de minhas assombrações quase reais, abri os olhos, a claridade invadindo, quase me cegando. Pisquei lenta e dolorosamente, sentindo o ar sair finalmente de meus pulmões. E em minha frente, vi mamãe chorosa segurando meu rosto fortemente sussurrando que agora estava tudo bem.
Que o pior já tinha passado, mais uma vez.

Capítulo 5



“A distância não é nada. O importante é o primeiro passo.” - Marqueza de Deffand.


's Pov.


Sentado no balcão da cozinha, enrolado em uma espessa manta vermelha, sentindo o frio difundir por meu corpo, lembrei detalhadamente do momento que há pouco tinha passado.
Amolecido pela dor constante que perfurava meu peito a cada segundo que se passava; a imagem de contorcida em sua cama, com um aspecto de dor notável em seu rosto delicado, enroscada nos lençóis brancos, contorcida, gritando e com um horror evidente em sua voz, aquela imagem não saía de minha cabeça.
Olhei para frente preocupado, avistando mamãe preparando algumas xícaras de chá, à mercê de seus próprios pensamentos.
O rosto lívido dela demonstrava a tranquilidade e a serenidade que ela sempre possuíra quando se tratavam de assuntos imensamente sérios. Apesar de sua fisionomia provocar uma sensação acolhedora em mim, a casa agora era silenciosa, contendo um ambiente quase fúnebre devido à situação que há pouco passara.
Olhando em um ponto qualquer daquela cozinha branca e extremamente bem equipada, fui lembrando-me dos sentimentos que ainda faziam meu coração bater atormentado.

Eu olhava aturdido em seus olhos, segurando seu braço, não entendendo prontamente sua reação exagerada ao fato de ter entrado no banheiro. Várias hipóteses passaram por minha cabeça conforme seu corpo se retesou com o meu toque e seus olhos escureceram rapidamente.
Preocupado com o que via em minha frente, tentei me pronunciar, mas sua feição fria, frígida, me assombrava demais para tentar pronunciar qualquer coisa, e assim, fiquei quieto por mais alguns segundos com medo de falar algo que pudesse a magoar.
Após pronunciar algumas palavras baixas, fazendo com que eu não tivesse completo entendimento delas e, a vendo se virar, soltando seu braço bruscamente de minha mão, gelei por alguns segundos.
Parado, observando-a indo para longe de mim novamente, eu temi.
Vendo-a fraquejar em minha frente, a poucos centímetros de distância, meu corpo dispersou todo o torpor que existia em minha mente fazendo-me correr em sua direção. Sentimentos ruins pareciam fluir fazendo com que meu corpo pesasse mais a cada passo em que eu dava em sua direção, e, antes que eu pudesse tocá-la, ela mesma despencou, colidindo seu corpo fortemente com o colchão, desprendendo de sua garganta um gemido abafado de dor.
Assustado e alerta, cheguei à cama milésimos de segundos depois. Vendo-a se contorcer em minha frente, como se alguém estivesse a machucando fortemente, aquilo me doeu.
Eu paralisei.
O choque percorria o meu corpo com uma intensidade absurda. Desesperado e aturdido, eu tentei tocar-lhe, mas assim que o fiz, seus berros aumentaram gradativamente, chegando a quase urros de dor, como seu eu estivesse a machucando dolorosamente.
Perplexo pela surpresa desagradável, desisti de tal ato, vendo-a se afastar habilmente de mim com suas pernas rápidas, batendo logo as costas contra a cabeceira da cama, continuando a se mexer como se estivesse cercada.
Sentindo a dor sufocante invadindo-me com toda a intensidade possível e, com lágrimas traidoras rolando por meu rosto mais uma vez, sai correndo alucinado pelo pânico.
Descendo os degraus da enorme da escada, cheguei rapidamente ao andar debaixo, passei os olhos por todos os cômodos, à procura de alguém que pudesse me ajudar. Corri em direção às vozes, sentindo meu coração indo à boca conforme ouvia seus gritos histéricos de medo ecoando cada vez mais alto, pela casa.
Afobado, abri a porta da cozinha com força, e assim que as duas mulheres colocaram seus olhos em mim, suas expressões mudaram.
Seus semblantes antes calmos, agora eram duros, tensos, como se soubessem o que estava por vir, e, antes que eu conseguisse respirar, para tentar me pronunciar, um grito fino, histérico adentrou a cozinha a todo vapor.
Aflito, olhei para cima como se pudesse enxergar os gritos de pavor. Senti minha garganta fechando-se e meu peito sufocando-me. Eu estava quase assombrado. gritava a plenos pulmões e eu precisava ajuda-la.
Abaixando o olhar, vi que minha tia andava em minha direção. Chegando a minha frente ela segurou em meu rosto e limpou as lágrimas que ainda escorriam, depositou um beijo em meu rosto e me abraçou com uma força incompreensível. Eu estava alheio a tudo em minha volta, sendo preenchido dolorosamente pelos gritos de horror de . Peguei a mão de minha tia e tentei me pronunciar.
Gaguejando, tentei lhe falar o que se passava, não obtive muito sucesso. E antes que eu conseguisse terminar alguma frase completa, ela apenas assentiu, como se compreendesse toda a minha aflição e me soltou. Com seus olhos marejados, ela pegou minha mão, a apertou levemente e me deu as costas, agora correndo em direção à escada.
Olhando aturdido para onde minha tia ia, senti uma mão se enroscando na minha e quando eu vi, eu já me encontrava atrás de mamãe, subindo as escadas.
A sinfonia melancólica de seus gritos continuava ressoando cada vez mais eminente, assim que cheguei à porta, avistei minha tia sentada na cama, segurando fortemente o rosto de sua filha, falando com a mesma, pedindo que abrisse os olhos para ver que não havia nada de ruim em sua volta, suplicando para que ela ouvisse sua voz.
Tudo se passava em minha volta como uma espécie de câmera lenta. Minha tia, segurando o rosto de , implorando para que sua filha acordasse de seu transe. Já , tinha seus olhos comprimidos, seu rosto tenso, seus músculos rígidos e mexia-se inquietamente nos braços da mãe; Como se a bolha que me envolvia nessas imagens dolorosas estourasse, eu desabei. Não que eu tivesse caído no chão ou algo do tipo, não.
Tinha sido mais forte do que isso. Para mim, aquela cena era como um desmoronamento monstruoso de uma parte essencial de minha vida. Foi como se as cores tivessem sumido de minha frente, como se os sentimentos que antes preenchiam meu corpo tivessem apagado todo o meu ser, como se tudo estivesse somente em tons de cinza, como uma vertigem horrorosa... Como se a vida estivesse esvaindo por meus dedos lentamente.
Meu sangue gelava a cada segundo que seus gritos adentravam em meu campo auditivo fazendo-me enfraquecer, deixando-me debilitado. Meu coração parecia se quebrar dentro de meu peito.
Aquela cena estava acabando comigo.
Lágrimas quentes e grossas desciam ágeis, mais uma vez, com facilidade por meu rosto. E quando eu dei alguns passos, cambaleando, querendo tocá-la, senti dois braços prendendo-me em um abraço, quase que sufocante. Minha mãe abraçava-me com toda a força necessária pare me manter em pé, ali, em choque;
Eu a envolvi em meus braços moles pela fraqueza que o momento proporcionava, e, olhando aquela cama imensa, ouvi os gritos cessarem.
abriu os olhos, estática em sua cama novamente, e eu senti o alívio percorrer meu corpo. Minha tia acariciava o rosto da filha dizendo-lhe que agora estava tudo bem, que aquilo tudo tinha acabado e eu me senti confuso.
Ela estava bem novamente.
Sentindo minha mãe puxar meus braços, movendo-me em direção a porta, eu não me mexi, não mesmo. Eu queria ficar ali, queria tocá-la, abraça-la, e precisava saber se ela estava bem. Mamãe sussurrava em meu ouvido, pedindo para que eu saísse de lá, prometendo-me que depois eu voltaria, mas que ela tinha de me explicar algumas coisas.
Relutante, aceitei sua proposta. Saí do quarto, mas não sem antes dar mais uma olhada em , para ver se estava realmente tudo bem.
E quando eu cheguei próximo à cama, vendo minha tia sussurrar algumas palavras alisando seu rosto, nossos olhares se cruzaram, e, mesmo vendo-a ali frágil, desnorteada, confusa e pálida, pude sentir meu peito inflar, as cores retornarem aos poucos em minha visão e meu coração bater fortemente dentro do peito...
Ela estava bem.
Saindo daquele quarto, sendo puxado, vendo o seu olhar me seguir até que eu estivesse fora do seu campo de visão, eu relaxei; Descendo tropegamente os degraus da escada, tive uma certeza em minha vida, e essa certeza era tão forte, tão invicta em minha cabeça que eu mal conseguia pensar em outra coisa. Somente uma ideia fixa persistia martelando em minha cabeça. Eu não a deixaria novamente... Nunca mais.


- Filho? – Levantei meus olhos vendo que mamãe me estendia uma xícara de chá. Sorri fracamente para ela em resposta logo aceitando a bebida quente na caneca amarela. Em uma troca de olhares singelos eu a agradeci mentalmente por ter me acordado de meus devaneios.
Mamãe chegou perto, séria, e ajeitou a manta em meu corpo enquanto eu entornava o líquido quente, aliviando minha garganta seca. Com as pernas balançando no ar, segurando a caneca firmemente em meus dedos aquecendo-os com a quentura que emanava do chá, olhei novamente para ela que agora passava seus dedos pelos meus fios, como se estivesse arrumando meu cabelo.
Quieto, continuei a observar seus movimentos inseguros. Eu sabia que ela estava me enrolando, tentando fugir das explicações que teria de me dar, mas não me incomodei, não agora, já que ela parecia aflita e mergulhada em suas próprias interrogações e teorias. Escolhendo sabiamente as palavras que me explicariam da for mais sutil o que tinha acontecido.
Passado algum tempo aproveitando os carinhos de minha mãe, fechei os olhos, relaxando, largando a caneca, agora fria e sem resquício de líquido algum e a abracei apoiando meu queixo em seu ombro. Ela retribuiu daquele jeito que me fazia sentir querido, amado. Como era bom e reconfortante um abraço de mãe.
Sentido-a se afastar e colocar as mãos em meus ombros, ela perguntou:
- Está tudo bem com você, filho?
- Sim, e com a senhora? - Perguntei sorrindo fraco, ainda com os braços ao redor de seu corpo.
- Também. - Ela respondeu sorrindo, passando seus dedos por meu rosto.
- Então... - Eu disse sem saber como começar o assunto. - Você disse que tinha algumas coisas pra me contar.
- Sim, eu tenho. - Ela respondeu, respirou fundo e soltou meu rosto, suas mãos se firmaram em meu ombro, e continuou. - Mas você tem que me jurar de pé juntos que dessa vez vai permanecer aqui, ok?
- Prometo. - Disse cruzando os dedos em frente à boca. Ela sorriu e pegou minha caneca indo na direção da pia.
- , o que você viu hoje não é nada do que eu vi durante o tempo em que passei aqui, na verdade, não é nada do que sua tia e nossa menina passaram. - Ela ligou a torneira e começou a lavar a caneca. - A adquiriu um trauma fortíssimo depois do... - Ela ficou quieta, talvez escolhendo a palavra exata para dizer. - Acidente que aconteceu. E bom, ela normalmente tem ataques como esse todos os dias.
- Todos os dias? - Eu perguntei apoiando as mãos no joelho, sentindo minha testa enrugar de preocupação.
- Sim, todos os dias, meu filho. - Mamãe respondeu fechando a torneira, enxugando as mãos no pano de prato. - E essas crises são fracas. O pior já passou, tenha certeza disso.
- Pior? - Perguntei baixo, pensando com os meus próprios botões, como assim pior? Havia coisa pior do que eu tinha visto há pouco?
- Isso mesmo . - Mamãe respondeu aparecendo em minha frente de novo. - Seus ataques de pânico eram bem piores do que os de hoje. – Ela pausou e andou lentamente pela cozinha. - Sua tia convenceu a a tomar um calmante que o médico receitou para ela tentar dormir à noite, e parece que depois disso, ela melhorou bastante, mas nem todas as noites são bem sucedidas, já que às vezes nós temos de ir ao seu quarto para ampará-la. - As palavras que minha mãe dizia eram novas, mas não me surpreenderam tanto como pensava.
Eu via em seu rosto expressões nubladas, como se tivesse visto coisas bem piores, coisas as quais, talvez, eu devesse temer. Mas para mim, no momento, aquilo era incompreensível, já que a ideia fixa permanecia em minha mente com todo o vapor.
Curioso, fiz algumas perguntas.
- Então ela tem essas crises diariamente?
- Sim, no mínimo uma vez ao dia, mas às vezes ela mesma consegue se controlar.
- Como assim? – Perguntei não entendendo muito bem a sua resposta.
- A durante essas crises, vive em uma espécie de bolha. É como se a mente dela lhe sugasse para um mundo parcial, um mundo só dela, só que esse mundo não existe. E ele é como o seu pior pesadelo, porque o que aconteceu com ela, lhe vem à tona. - Mamãe pausou e continuou. - Ela tentou me explicar uma vez, ela me disse que sabe que aquilo é só uma alucinação, mas que é muito difícil controlar, ela disse que chega a ser quase real demais. – Estremeci vendo minha mãe olhando um ponto qualquer da cozinha, perdida em lembranças.
- E o que ela tem mais precisamente?
- Os médicos diagnosticaram como síndrome do pânico. – Ela retomou a falar olhando para mim. - Ela tem consulta com o psicólogo, três vezes por semana, mas rejeitou todos os tipos de tratamento e medicação que eles passaram a não ser o calmante que sua tia a convenceu de tomar recentemente.
- Por quê? – Perguntei não entendendo sua rejeição.
- Eu tentei conversar com ela, sua tia me pediu. E quando o fiz, eu entendi o seu ponto de vista sobre a situação. Ela disse que não queria permanecer dopada a maior parte do tempo por remédios, vendo a vida passar por ela rapidamente, e analisando por esse lado, ela não deixa de ter razão.
- Mas mãe, ela está vivendo ao menos? – Perguntei-lhe sentindo meu coração estraçalhar por dentro.
Os olhos de minha mãe ficaram tão escuros quanto um céu em tempestade. Por mais que doesse admitir, eu vi nos olhos de minha mãe que a minha pergunta se confirmava por si só. não tinha vida, não mais.
O silêncio ficou desconfortável e eu voltei a tirar minhas dúvidas.
- Os medicamentos são fortes, certo?
- Sim filho, muitíssimo fortes. Por isso ela não quis tomar e sua tia, mesmo querendo que ela se trate, não a obrigou. - Uma pausa surgiu entre nós, eu estava pensativo, analisando tudo calmamente e guardando todas as informações em minha cabeça. - Mas parece que agora ela está melhorando. – Mamãe disse surpreendendo-me. - Ela vem trabalhando arduamente com o psicólogo, e ele disse que ela já teve uma boa melhora.
- Jura? – Perguntei com um tom entusiasmado na voz.
- Sim. – Ela respondeu sorrindo fracamente.
- Mas os médicos não a obrigaram a tomar nada?
- Não, - mamãe respondeu e continuou. - porque o caso dela em grande parte é psicológico.
Eu levantei o meu olhar franzido e encarei-a com uma grande curiosidade evidente.
- Como assim?
- Filho, a síndrome da não é uma fobia qualquer. - Ela respondeu chegando perto, ficando ao meu lado. – tem um trauma, ela passou por isso. E sua fobia é por um ato o qual ela vivenciou. Suas crises são mais como, hum, uma experiência pós-traumática, entende? – Ela perguntou-me e eu assenti aterrorizado. Cada vez que eu tentava imaginar toda a dor que a minha menina passou... - Ela não falou, não comeu, e mal se mexeu por dias, filho... Se você tivesse visto. – Ela parou e suas mãos foram para a boca. Sua respiração parou e senti meu coração se apertando mais e mais. Passei meu braço em seu ombro trazendo minha mãe para perto. Nós dois sofríamos em silêncio, nós sabíamos disso. Após alguns minutos, ela retomou o fôlego, sua voz trêmula, porém terna, continuou.
- Sua tia ficava desesperada quando isso acontecia, suas crises... Porque ela parecia se trancafiar em seus pensamentos. - Mamãe parou recuperando a calmaria. - A sua dor era tão notável que talvez machucasse até o mais frio dos homens. – Ela disse se soltando de meus braços andando até o filtro, pegando um copo de água. - Não foi fácil filho, mas aquela época já passou. Agora tudo está razoavelmente fácil. – Ela terminou, agora tomando o seu copo d'água.
Fácil?! Isso não parecia fácil para mim, não mesmo. Nada simples. Tudo parecia – e era - muitíssimo complicado.
Em minha cabeça as informações eram digeridas em tempo recorde, como se meu cérebro trabalhasse fortemente em algo cansativo e eu ia ficando esgotado gradativamente.
Aquilo tudo era tão... Incompleto.
Era como se a história toda estivesse inacabada, como se faltasse um pedaço de algo importante, uma peça essencial de um quebra-cabeça exaustivo. Eu não sabia o que era, mas eu ainda iria encontrar.
Olhando minha mãe suspirando, perguntei-lhe receoso:
- E agora mamãe? Depois das crises, o que acontece com ela? - meu coração apertou-se em peito quando a imagem dela tão pálida e frágil apareceu em minha mente.
- Depois que ela recobra a consciência ela age normalmente, o que mais ela poderia fazer? - Mamãe perguntou-me com um sorriso triste estampado em seu rosto.
- Será que posso ir falar com ela? - Perguntei-lhe aflito, eu queria tanto tê-la em meus braços outra vez.
- Infelizmente não agora, querido. - Minha tia entrou na cozinha com as mãos no rosto.
Olhando-me com um brilho brincalhão nos olhos, ela continuou. - Ela está no banho, e assim que acabar irá descer, pode ficar tranquilo. - Sorri em consentimento e ela deu alguns passos em minha direção, segurou em meus braços sob a manta, e me abraçou dizendo – Como você cresceu... Você está um homem. – E riu alto, junto de minha mãe, deixando-me desconcertado. – Ah essas crianças estão crescendo tão rápido. – E suspirou dando-me um beijo na bochecha.
- Concordo plenamente com você. – Mamãe disse divertida. – Você lembra quando os dois viviam correndo pela casa? – Ela perguntou para minha tia que se sentou em uma cadeira ao lado da mesa, onde mamãe se encontrava, e disse:
- Mas é claro que eu lembro, eles eram tão sapecas. – E assim elas começaram uma conversa longa e cheia de gírias idosas.
Eu ria às vezes prestando atenção no que elas falavam, até porque às vezes elas me incluíam dentro de suas lembranças antigas. Mas eu estava mais focado em outra parte. Naquela parte que acolhia todos os meus problemas e preocupações, o âmago de meu ser. Ali, meus pensamentos eram confusos e rápidos, meus problemas se amontoavam mais e mais, como uma pilha de livros que a qualquer momento pudesse desmoronar. Mas aquilo não podia acontecer de nenhuma forma.
Para ser mais claro, eu teria de achar um jeito para que os livros se endireitassem na estante, ou seja, eu precisava arranjar algumas soluções, tanto para os meus problemas, quanto os problemas dela que me afligiam a alma. Eu precisava simplificar, era isso. Simplificar e ajustar a minha vida, pois agora ela não seria mais a mesma.

Perdido em ideias e possíveis soluções, me mexi sentindo todos os meus músculos reclamarem. Eu ficara tão... Estático e tenso que agora as dores refletiam-se pulsante por meu corpo.
Meus pés começaram a formigar causando-me muita aflição e, permitindo-me voltar para o atual presente, ouvindo as vozes agora baixas de minha mãe e minha tia, me levantei da bancada de mármore da cozinha, sentindo tanto minhas nádegas quanto minhas pernas agradecerem. Espreguiçando-me e segurando a manta quente em torno de meu corpo, virei em direção das mais velhas sorrindo, e ouvi a voz de minha tia dizendo-me:
- Por que você não pega alguma coisa pra beber no refrigerador? Sinta-se à vontade, querido. - E sorriu.
Olhei para o seu lado e avistei um olhar cauteloso e preocupado de minha mãe. Dei uma piscadela para a mesma fazendo surgir um leve sorriso de canto em seu rosto. Com a cabeça latejando de preocupação, fui em direção da enorme geladeira de inox. Como eu queria que aquela dor passasse. Como eu queria que meus problemas tivessem uma solução rápida.
Segurando a alça do refrigerador eu abri, vendo o local recheado de coisas, desde besteiras das quais adorava até coisas saudáveis. Olhando prateleira por prateleira, eu pausei em uma a qual me chamou muita atenção.
As garrafas suadas brilhavam aos meus olhos. Ali, enfileiradas com a maior perfeição estava o meu pior pecado. As garrafas reluzentes à luz amarela clara pareciam me chamar em suas direções, minha cabeça latejava mais forte, pulsava com toda intensidade possível. Minha mente me traía, eu sabia o que ela queria.
Álcool! Minha mente sussurrava, Isso pode resolver seus problemas.
Vacilando, um pensamento obscuro, passou-se por minha mente, 'Que mal poderia fazer?’
Muito mal! A parte racional de minha mente me alertou.
Confesso que por um minuto incontável, levantei minha mão e cheguei perto, muito perto, quase me rendendo ao meu antigo vício.
Quase.
Porque antes que eu completasse o ato, senti um aperto no meu peito, uma angústia que tocava a essência de minha vida, e quando fechei meus olhos, apertando-os para tentar aliviar a dor de minha consciência eu avistei as coisas mais preciosas de minha vida: Minha mãe em pé com minha irmã a abraçando, chorando em minha frente junto de meus amigos. Essa imagem passou como um flash em minha cabeça, e logo a imagem de inconsciente gritando de horror e depois quase desfalecida em sua cama chocaram-se contra o meu corpo fazendo o mesmo se retesar por inteiro e minha mão se afastar com uma certa brutalidade das garrafas estupidamente geladas.
Por um segundo fiquei atordoado, e me levantei dando alguns passos para trás, sentindo minha cabeça doer mais a cada passo que eu dava. E antes que eu me desse conta, ouvi a voz de mamãe me chamando.
- Filho? Está tudo bem? - Olhei para trás com medo. Será que mamãe tinha percebido? Mas vendo seus olhos aflitos eu sorri, forçando minhas mãos trêmulas em punhos rígidos e respondi normalmente.
- Sim, é que não tem suco, mas vou pegar um refrigerante mesmo. - E sorri para as duas sentadas da mesa logo colocando a mão dentro do refrigerador e pegando uma latinha de Coca-Cola.
Era disso que eu precisava. Cafeína, e não álcool.
Andando em direção do armário, sentindo olhares sob minhas costas, peguei um copo e despejei o líquido gelado vendo o gás resplandecer pelo mesmo. Me atrevi a olhar timidamente para trás, e vi que as duas mais velhas continuavam suas conversas como antes.
Aquele sentimento de perseguição era pura paranoia minha. Eu sabia disso. Eu tivera um pensamento proibido e o medo de ser pego era tanto que minha mente criara essa insegurança. Eu desconfiava de mim mesmo, que decadência.
Observei por uns longos segundos as bolhinhas de gás subindo copo acima, logo sumindo. Eu não tinha feito nada de errado, somente um pensamento ruim fez prover minha hesitação, mas no final das contas eu tinha feito a coisa certa, eu não tomei a decisão errada. Não havia o porquê eu estar me sentindo tão mal daquele jeito.
Pegando o copo, caminhei em direção da bancada, mas agora me apoiando em um dos meus braços, ficando em pé, observando o piso da cozinha. Minha cabeça ia parando de doer calmamente, talvez fosse falta de açúcar no sangue. Bebericando o refrigerante, comecei a pensar na demora de . Ela estava tomando banho ou acabando com a água do planeta? Por Deus! E quando eu estava saindo sorrateiramente da cozinha pude ouvir a voz angustiada de minha tia.
- Eu não sei o que fazer, ela nega todos os dias. Diz e grita pra qualquer um ouvir que não vai embora comigo, mas eu não sei como lidar com isso. Eu preciso voltar para o Canadá, já disse que o pai dela está desconfiando, mas ela diz 'Pode ir, eu fico bem aqui sozinha.’ Como ela vai ficar bem aqui sozinha, minha amiga? - E pôs as mãos no rosto, respirando fundo, tomando fôlego.
Minha mãe esticou suas mãos afagando os cabelos de minha tia.
- Calma, tudo vai se resolver, pra tudo tem um jeito.
- Eu não posso deixá-la só, não mesmo. Ou ela vai comigo, ou vai. Não tem opção, ela não está bem por completo, não vai ficar sozinha de jeito nenhum. - Minha tia respondeu levantando a cabeça, lançando um olhar muito significativo para minha mãe.
- Eu concordo com você, ela realmente não tem condições de ficar sozinha, não ainda. - Mamãe afirmou balançando a cabeça pensativa.
Será que eu estava entendendo certo? Minha tia tinha de ir embora e ia levar consigo?
Não, não, não! Aquilo não podia estar acontecendo, não agora. Eu não podia a perder, eu mal a vi, mal a toquei, ela não podia ir embora, não podia se afastar de mim novamente.
Minha tia já chorava baixo e mamãe a consolava. Meu coração estava apertado. Mamãe dizia coisas positivas, que raramente as pessoas acreditavam, porque as coisas nunca se resolviam, e minha tia dizia o quão relutante a estava, dizendo que não sairia nem à força de Londres, que ali ela tinha uma vida, mesmo que remotamente distante no momento. Mas que agora ela estava se recuperando e em breve retornaria para a mesma. Tudo rodou por um instante em quanto minhas pernas se moveram automaticamente. Em minha cabeça tudo se iluminava, como uma manhã ensolarada. Era isso. Eu tinha certeza, ela não escaparia de mim novamente. Eu não podia perder mais uma vez. Só de pensar naquilo, minhas entranhas se reviravam, e uma dor quase dilacerava meu coração. Eu não a suportaria perdê-la novamente e tinha uma solução. Não era simples, mas era aceitável.
Aquilo resolveria tanto os seus problemas como os meus, e ela não ficaria sozinha. Não, ela teria a mim, como sempre teve. Como antigamente, pensei radiante. E quando eu estava parado em frente as duas, eu soltei empolgado e sorridente.
- Eu tenho a solução. - Minha mãe e minha tia levantaram seus olhares pousando-os em mim, a curiosidade evidente estampada em suas faces contrastava com a dúvida em seus olhos.
Eu entendia o que elas sentiam. Como ele poderia ter a solução? Mas eu tinha. E eu tinha certeza de que era aquilo que queria.
Sorrindo mais do que minha própria boca, continuei analisando os rostos a minha frente e disse por fim.
- Eu vou cuidar da , tia. Vou me casar com ela e tomar conta dela.

Capítulo 6



“A morte não é nossa perda maior. Nossa perda maior é o que morre dentro de nós enquanto vivemos.” - Norman Cousins.


's Pov.


A água morna escorria por meu corpo levando consigo todo o resquício de pânico ou medo que ainda me faziam tremer.
Os vergões vermelhos permaneciam em minha pele como uma tatuagem mal elaborada graças à bucha vegetal com a qual quase esfolei meu corpo, esfregando-me continuamente, como uma linda melodia sofrida.
Alguns podiam achar o meu método um tanto anômalo, mas aquilo se tornara tão normal para mim quanto respirar. A dor de ser arranhada constantemente já não era sentida e aquele era o único jeito que encontrara de tirar as impurezas de meu corpo, de expulsar meus pesadelos de minha cabeça, de extrair aquele toque da minha pele, de me sentir limpa, quase pura.
Como se quase me esfolando em carne viva eu pudesse fazer aquelas assombrações sumirem.
Logicamente não, eu sabia disso também, mas eu preferia aderir ao meu método a ficar sem total controle de minha mente. Pelo menos aquilo era uma distração, mesmo que dolorosa; Sem forças para mais nada, sentindo minha pele pulsar contra a água, larguei a bucha, desatando num choro profundo.
Eu estava tão cansada de tudo. Desesperada por uma solução. Era assim que me encontrava, aflita e exausta.
Com as mãos no rosto, suspirei chorosa. Eu precisava encontrar uma saída, como precisava. Passando minhas mãos trêmulas pelo corpo, pude sentir uma leve ardência preenchendo-o.
Meu corpo não era mais o mesmo, eu não o via mais como o mesmo. Sempre que pensava nele me sentia mal, eu não gostava mais do meu próprio corpo e estava tudo bem. Para mim, meu corpo não era nada mais do que um objeto, o qual eu tinha me privado do uso e sofrera as consequências; uma das coisas que mais valorizava fora arrancada de mim sem dó nem piedade, mas eu não me importava, não mais, afinal, ele agora não tinha mais importância, meu corpo não significava mais nada para mim, nem ao menos as emoções expressavam-se corretamente.
Às vezes pensamentos conflitantes perturbavam minha mente, por exemplo, em como as pessoas conseguiam me tocar quando eu me sentia tão impura, suja e triste. A repugnância sempre se alastrava e a tristeza inflamava todos os meus poros quando percebia – em momentos como aquele - que eu nunca mais seria a mesma. Respirando profundamente, calando o choro de vez, passei as mãos pelo cabelo tentando expulsar todos aqueles sentimentos embolados.
Levantei a cabeça, sentindo a água bater em meu rosto; Eu odiava me sentir vulnerável, mas ultimamente esse era um dos sentimentos persistentes em minha vida. Se ao menos soubessem como eu odiava essas crises, esses sentimentos, minha cabeça por ser tão fraca ao ponto de me causar aquelas recordações estúpidas e doídas, assim como eu também odiava discutir com minha mãe e por fim me sentir muito, mas muito mau pelas palavras ditas.
Abri os olhos quando minha cabeça tombou para frente, sentindo o resto de lágrimas se misturar com a água, e estendi os braços, cansada.
Nossa leve discussão retornava aos poucos em minha mente.
Sua insistência me incomodava ao ponto de discutir com ela, mas no final das contas, apenas assentia quieta e engolia a seco.
Eu nunca fora uma filha exatamente normal, não era um exemplo de garota perfeita, mas nunca causei nenhum problema para os meus pais.
Sempre fui vista como a mais bela e comportada filha, mas nunca comparada como um exemplo de cidadã, afinal, sempre tive minhas opiniões e as expressavas sem pudor algum, meus pais me ensinaram a nunca abaixar a cabeça enquanto estivesse certa e sempre me manter fiel ao meu caráter, minha cultura, minha criação. A nunca desviar-se do caminho certo.
Confesso que não fui criada com os mimos das quais as garotas do meu círculo social foram criadas. Meus pais sempre me ensinaram a dar valor ao que eu tinha, assim como dar valor às coisas que eu não tinha também.
Sendo uma criança extremamente ativa, muitos diziam – e ainda dizem - que eu era simpática e divinamente bela, como um exuberante quadro que cativava todos os olhares. Conforme a maturidade foi chegando, fui aprendendo com a vida, sobre as pessoas das quais eu me relacionava e até mesmo a escolher a dedo em quem podia confiar ou não.
A carreira de meus pais me trouxe muitos infortúnios nos relacionamentos pessoais, mas eu sempre preferi ver o lado bom das coisas, como as festas nas quais eu ia, assim como o luxo que admirei e usufrui conforme fui crescendo. Entretanto, meu orgulho sempre foi um dos defeitos mais evidentes de minha personalidade, assim dizia minha mãe.
E aprendendo duramente com isto, meu orgulho me fez perder uma vez uma das pessoas mais importante de minha vida...
Mamãe me dizia todos dos dias que uma hora nós teríamos de ir, não embora para sempre, somente durante alguns meses, o tempo para papai terminar seus negócios e voltarmos para casa, mas assim como ela me avisava todos os dias, eu a negava todos os dias também.
Ela não quis gritar hoje, não como normalmente fazia quando estávamos sozinhas, porque hoje nós tínhamos convidados, e um dos era o qual eu perdera contato, uma vez, algum tempo atrás. E por mais alucinante que fosse aquela ideia, ele estava lá embaixo me esperando.
Porém, as palavras de mamãe ressoavam em minha mente, como uma campainha insistente, a qual nunca parava de latejar em minha cabeça.
Eu não podia ir embora.
Por mais bizarro que fosse, eu não queria partir de Londres.
Eu sabia que minha mãe não tinha culpa de nada, não a culpava por nada também, nunca. Eu agradecia todos os dias por tê-la ao meu lado, pois sabia como aquilo devia ser exaustivamente doloroso para ela, tanto quanto era para mim. Todavia, aquilo precisava parar, ela não poderia ficar comigo para sempre, não mesmo, eu não ia embora porque eu quero ficar; Cansada de tudo, de minhas fraquezas, das insistências de mamãe, de suas opções, ou melhor, não-opções, já que ela queria me arrastar para o Canadá de qualquer jeito, bufei.
Com a mão no registro do chuveiro o girei calmamente, sentindo tanto as lágrimas quanto a água cessarem.
Peguei a toalha felpuda e sequei meu rosto, meu corpo, meu cabelo. Os movimentos eram automáticos, assim como os meus braços que passavam a toalha por meu corpo e, meus passos que agora percorriam o caminho do banheiro, abrindo a porta, indo diretamente de encontro a minhas roupas. Minha vista pesou sonolenta; o choro sempre me deixava exausta. Os passos moles continuaram até que eu encarei o escuro do closet, receando entrar sem antes acender a luz.
Medo de escuro.
Esse era um dos presentes que adquiri naquela noite medonha.
Ri sarcasticamente de meu infortúnio, segurando firme a toalha em minha volta com uma mão e, estendendo a outra até o interruptor, iluminando o cômodo por completo. Quando assim o fiz, adentrei o lugar, olhando o mesmo atulhado de coisas. Roupas, sapatos e acessórios glamourosamente caros. Todos arrumados e enfileirados, com uma cordialidade quase anormal se não conhecesse minha mãe e sua mania de querer tudo em seu devido lugar.
Desviei o olhar sentindo um aperto no peito por compreender que eu não tinha mais a necessidade de usá-los, já que não saia de casa para absolutamente nada. Focando-me no atual presente, fui diretamente aos meus pertences cotidianos, vasculhando as gavetas a procura das peças necessárias para me cobrir. Logo achando o que queria, peguei a pilha de peças leves e as ajeitei no móvel, me virando de costas para o longo espelho, que ia desde o teto até o chão. E foquei meu olhar em um ponto qualquer do cômodo extenso, deixando a toalha cair aos meus pés, vestindo minha roupa usualmente como sempre.
Ereta novamente, suspirei encarando as roupas em minha volta. Talvez eu devesse me desfazer delas. Esse era um dos pensamentos diários que rodeavam minha cabeça e me deixavam imensamente mal porque a esperança de usá-las novamente não me permitia dá-las para alguém. Abaixei-me rapidamente, desviando meus pensamentos desse assunto em particular, peguei a toalha no chão e fui à direção da porta.
Parei brevemente ao ver meu reflexo no espelho. Minha aparência chamou-me atenção. A calça de moletom preta contrastava com meu casaco azul debilmente. De pés descalços e olhos incrivelmente vermelhos, inchados, passei minhas mãos em meu rosto, tentando inutilmente atenuar as expressões cansadas do meu rosto. Pesarosa, passei os dedos pelo cabelo molhado, olhando-me mais uma vez, vestida. Coberta, dos pés a cabeça. Frágil e quase inexistente, era assim que eu me sentia.
Não gostando do que via, saí do quarto resfolegando e apagando a luz, sem ao menos olhar para trás.

Penteando meus cabelos, sentada na cama, eu apenas me concentrava naquilo que fazia, anuviando minha mente de quaisquer tipos de pensamentos que pudesse me perturbar, olhei em um ponto qualquer, somente ouvindo e sentindo minha respiração ressoando no quarto, inspirar e expirar, nada mais, era um exercício que aprendi na psicoterapia e sempre que me sentia incômoda tentava realizar para me tranquilizar.
Todavia, assim que terminei de fazer o mesmo, deixando o pente em cima da pia, pareceu que meu cérebro, assim como meus sentimentos, vira um tipo de sinal verde, grande e lustroso, anunciando que eles podiam finalmente se libertar e correrem soltos ao seu destino fazendo com que minha cólera e meus problemas voltassem dubiamente irritadiços em minha mente inundando-me como sempre.
Olhando atordoada para os meus chinelos, resolvi que queria ficar com os pés plantados no chão, sentindo o frio do piso em minha sola; Sendo tomada por essa sensação de firmeza que era rara em minha vida, lembrei-me sutilmente da infância e sorri fraco.
A infância era um lugar parcialmente bom e feliz em minha memória.
Toquei a maçaneta hesitante quando um calafrio percorreu meu corpo relembrando que uma parte da minha infância, assim como de minha vida, permanecia lá embaixo, provavelmente a minha espera. Lamentei fervorosa, fechando os olhos abruptamente quando a cena ocorrida há pouco invadiu minha mente em um espasmo de cores...

choroso, ofegante e ansiosamente dolorido em minha frente me confundiu, onde eu estava mesmo? Rolei os olhos avistando mamãe sorrindo aliviada. Suas mãos gélidas acariciando meu rosto.
Sorri, ou ao menos tentei isso, tentando acalmá-la. Entretanto, meus olhos logo voltaram ao individuo que os atraía, e eles logo se dilataram quando viram a figura do mesmo.
Seu corpo amolecido e lágrimas infinitas escorrendo pelo seu rosto.
Um rosto o qual eu nunca gostara de ver dor; Uma vontade absurda de tocá-lo e acalentá-lo tomou meu peito quando o vi naquele estado, mas tudo no momento parecia lento, e minhas forças não eram nada.
Minha cabeça rodava tanto...
Senti meus músculos retesarem quando a única coisa que pude enxergar era ele. E ele estava indo embora. Imaginei mais uma vez que fosse por minha culpa. Presa em um espécime de transe, eu não conseguia me mexer, nem gritar, mesmo que quisesse aquilo com todas as minhas forças, como por exemplo, implorar para que ele ficasse, eu não conseguia. Contudo, ele sorria. Um sorriso encantador e triste, cansado, mas consolado, de certa forma.
Um sorriso que fazia meu coração acelerar apesar da melancolia evidente que transpassavam seus olhos, e os mesmos estavam calmos, eu conseguia enxergar o quão fervorosos e esperançosos, estavam. Como uma brisa quente de verão que inunda o mais profundo dos ares; Assim que nossos olhos se desencontraram, lembrei-me que respirei pesadamente, como se tivesse acabado de ser resgatada de um afogamento, talvez, um afogamento de memórias ou somente fosse o medo de perdê-lo novamente já que a primeira coisa que eu fizera quando consegui me pronunciar foi:
- Mamãe, pra onde... Pra onde ele... O ... - Eu dizia sem sentido algum.
- Calma filha, se acalme, por favor. - Ela disse afagando meu rosto.
- Não! – Resfoleguei, aturdida. - Ele não pode ir embora, não de novo. - Respondi num sussurro falho, sentindo o meu peito subir e descer, meu corpo tremer.
- Ele não vai filha, relaxe, ele não vai embora.
- Mas...
- Eu lhe prometo, por favor, fique calma. Ele não vai fugir de você. - Ela disse, acalmando-me, e meu corpo contraiu um tremor.
Fechei meus olhos turvos, sentindo o impacto de suas palavras. É claro que ele não iria embora, ele nunca fugia de seus problemas, eu fugia.


Pisquei.
Minha visão turva com lágrimas se preparando para escapar de meus olhos, meus braços estavam moles, quase flácidos tomados pela tristeza.
A coragem tinha esvaído de meu corpo assim como a vergonha me tomava com uma vastidão. Entretanto, eu necessitava vê-lo, mesmo que um novo conflito embalasse minha cabeça como uma canção de ninar repetitiva, eu tinha a plena certeza do que queria e iria atrás disso, não fugiria novamente.
Sentindo a incerteza irradiar por meu corpo, respirei longa e profundamente. A calma que eu procurara veio com uma tranquilidade inabalável dentro de mim. E era essa tranquilidade que me faria ter a coragem suficiente para descer e encarar os fatos e consequências de minhas escolhas.
Só de pensar que ele estava ali, tão perto, minha vontade era de sair correndo, passar os braços por seu tronco e abraçá-lo com toda a minha força. Contudo, mesmo sabendo que isso não iria acontecer, reuni todas as forças dentro de mim, girando a maçaneta de uma vez, chocando-se com a mais nova realidade em minha porta.

Descendo os últimos degraus da escada, pude reparar em como aquela casa antes feliz e agitada estava quase morbidamente silenciosa a não ser por um murmurinho que vinha da cozinha.
Analisando amavelmente todos os detalhes que minha visão podia observar, senti quase que uma nostalgia apossando-se de mim. Uma sensação nova e muitíssimo estranha. Andei silenciosamente pela sala de estar, passando as mãos pelos móveis, dedilhando tudo o que estava ao meu alcance como se pudesse memorizar o cômodo em minha mente.
Parando no centro da sala de estar eu abri meus braços respirando profundamente, sentindo um aperto estranho no peito. Fechei os olhos e lembranças memoráveis fundiram minha mente. Tantas recordações. Girei lentamente, uma volta, 360 graus. E quando abri os olhos eu tive a certeza que tinha parado no mesmo lugar.
Um calafrio percorreu meu corpo e eu me senti confusa. Aquilo tudo estava tão... Errado.
Aqueles sentimentos, essa nostalgia. Não tinha o porquê de eu sentir aquilo, eu não estava indo embora. Uma leve tontura se apossou do meu corpo fazendo-me vacilar por um momento. Sentei no braço do sofá bege e fofo de mamãe, eu relaxei os ombros, sentindo um frio estranho na barriga, seria tensão? Um nervosismo eufórico?
Não me parecia ansiedade e muito menos nervosismo, era algo diferente, um tanto inovador.
Ri com o pensamento. Para uma pessoa que ultimamente não possuía grandes sentimentos, eu estava tendo novas e estranhíssimas sensações, talvez inovador fosse uma palavra realmente adequada para a situação. Suspirei, espantando as dúvidas. Eu não tinha nada a temer. Aqueles sentimentos estúpidos deviam ser minhas inseguranças aflorando-se com a minha indecisão.
Birrenta, ergui meu corpo quase contra minha própria vontade, colocando as mãos nos bolsos frontais do casaco, andando silenciosamente em direção ao corredor que me levava a cozinha. Apreciei o caminho olhando as fotografias espalhadas pelo corredor extenso, mas no meio do caminho parei em frente ao aparador pegando um porta-retratos em minhas mãos.
Sorri fraco. Eu me lembrava perfeitamente daquela foto, foi em um aniversário de mamãe, nós estávamos sentados nas mesas do jardim, fim de festa, só amigos íntimos tinham permanecido no local, todos conversando, brincando.

Papai levantou da mesa avisando que estava indo pegar a máquina.
- Vá logo que vou retirar as coisas da mesa. - Mamãe disse risonha, enquanto recebia um beijo estalado de papai.
Ela ria. Aquela risada gostosa. Eu adorava ver esses momentos ternos de meus pais, eles me davam esperanças de que algum dia, talvez, conseguisse alguém que me fizesse rir e ser feliz tanto quanto eles.
Balancei minhas pernas, sentada no fim da mesa, no lugar mais distante, observando as pessoas. O fim de tarde ensolarado, todos rindo, bebendo e conversando. Senti uma quentura agradável na boca do estômago. Felicidade. Momentos como aquele eram ótimos de se apreciar.
Papai voltou com sua câmera pendurada no pescoço, como se fosse um turista entusiasmado por registrar momentos. Ri baixo, meu pai era único.
A primeira foto que ele bateu foi dos dois. Papai enlaçou mamãe dando-lhe um beijo de desentupir qualquer pia.
Grunhi um barulho enjoado, e logo em seguida ri pasma, quando vi que mamãe afastava papai com toda a delicadeza possível dizendo que mais tarde seria a hora de comemorar.
Pais, sempre envergonhando os filhos.
Cruzei as pernas rindo baixo e observando papai andando futilmente pelo jardim, com um sorriso bobo nos lábios, escolhendo sua próxima vítima. Quando menos esperei, senti algo sorrateiramente perto, em minhas costas. E antes que eu pudesse me virar, duas mãos pousaram em meu ombro junto de um sussurro alto que ecoava em meu ouvido:
- Buh! - Pulei assustada. Mesmo reconhecendo o dono da voz, foi inevitável não tremer com sua brincadeira.
- , seu idiota, não faça mais isso. - Pedi-lhe, virando em sua direção, minha mão em cima de meu peito.
- Eu te assustei, ? - Ele perguntou-me, em seu rosto pousava uma expressão inocente. - Desculpe. - Disse se esparramando tanto quanto possível pelo banco de madeira.
Como se suas desculpas fossem realmente válidas. O sorriso torto que agora se moldava em seus lábios entregava sua mentira.
- Seu mentiroso. - Ri, puxando minhas pernas, contra o meu peito, passando meus braços por elas.
- Eu? Mentiroso? - Ele perguntou, encarando-me, levantando uma de suas sobrancelhas.
- É, você. - Respondi distraidamente, voltando a reparar em papai batendo foto de minha tia levando uma colherada da torta de chocolate à boca.
- Então, o que você estava fazendo? - perguntou-me mudando bruscamente de assunto. Ri pelo nariz, recebendo uma olhadela estranha.
- Observando. - Eu disse fechando os olhos, sentindo o sol banhando meu rosto, o vento em meu cabelo.
O silêncio permaneceu por um tempo. A única coisa que era capaz de se ouvir dali eram os risos, murmurinhos de vozes, alguns gritos agudos quando alguém era pego de surpresa pelos flashes de papai e a respiração de meu amigo, lenta e ritmada, ao meu lado.
- Essa é nova, - Ele resmungou. - nunca vi as pessoas observarem de olhos fechados.
Abri os olhos imediatamente o encarando. Seu rosto levemente emburrado, como uma criança que não ganhara o presente esperado. Ri sozinha.
- Você está cobrando minha atenção? - Perguntei-lhe surpresa.
- Sempre. - Ele respondeu risonho. - Ou você acha que eu larguei o seu vídeo game à toa?
- Babaca. - Eu disse rindo, dando-lhe um tapa no braço.
- O seu babaca. - Ele respondeu, encarando-me de um jeito que o mesmo devia achar sexy, mas em mim provocou o efeito contrário, fazendo-me gargalhar de sua cara. - Droga! - Ele reclamou. - Meus encantos nunca funcionam com você. - E aquilo me fez rir mais ainda dele.
Mas quando olhei verdadeiramente em sua direção, me encarava. Ele sorria. Um sorriso sorrateiro, preguiçoso, suas mãos bagunçaram seu cabelo. E nesse exato momento um flash surgiu entre nós, fazendo-me piscar, aturdida, segundos depois, e virar a cabeça na direção do culpado.
- Papai! - Exclamei alto. - Por que o senhor fez isso? - Perguntei-lhe na defensiva.
- Você sabe que eu não resisto a momentos descontraídos filha. - Ele respondeu sorrindo, apontando sua câmera em nossa direção mais uma vez.
- Não pai, chega de fotos. - Reclamei alto, ouvindo algumas risadinhas. - Eu devo ter saído horrível nessa foto que você tirou.
- Você sempre fica linda filhota, em todas as fotos, por sinal. - Ele respondeu sorrindo, gentil.
Cruzei os braços, ficando levemente enfezada, e, antes que eu pudesse respondê-lo negando novamente qualquer tipo de flash em minha direção, senti um par de braços contornando minha cintura, mãos firmes entrelaçando-se em minha barriga puxando-me para perto de seu corpo o colando rente ao meu, suas pernas em torno das minhas. Com sua respiração batendo em meu ouvido, disse:
- Concordo em gênero, número e grau com o seu pai. - Arrepiei-me assustada com seus gestos inesperados. E antes mesmo que eu pudesse virar para contestar ou ao menos enxergá-lo, o mesmo continuou. - E desemburre esse bico, porque eu quero uma foto com você. Hoje e agora, então faça o favor de sorrir pra mim, ok?! - E sutilmente, seus lábios tocaram em meu pescoço, enquanto seus braços apertaram-se mais forte minha cintura. Sentindo uma leve cócega junto de arrepios catastróficos pelo corpo, me senti queimar por alguns segundos.
Virei o rosto lentamente quando seus lábios abandonaram minha pele, e quando meus olhos encontraram os seus, mais límpidos e brilhantes do que nunca, vi uma luz branca e, segundos depois papai ria se afastando de nós dois. Ainda o encarando, pude sentir meu sorriso se desfazer calmamente. E quando tentei me desprender de seus braços, ele gentilmente me puxou para mais perto, apoiando seu queixo em meu ombro, conversando comigo, - às vezes me fazendo rir, às vezes fazendo-me suspirar - até o anoitecer.


Larguei a foto fechando os olhos, apertando a fotografia em meu peito, aquele dia fora um ótimo dia.
Olhei a procura da segunda foto no aparador, entretanto não achei.
Estranho. Pensei. Já que eu tinha certeza de ter visto uma vez aquela foto, há muito tempo.
As lembranças rodavam em minha mente, e quando dei por mim, pensava em e em como era incrível o poder que ele exercia sobre mim. Como ele me fazia sorrir antes mesmo que eu percebesse. Fechando os olhos abruptamente, expulsei as recordações de minha cabeça. Aquele passado não me pertencia mais, e eu precisava focar-me no presente, mesmo sabendo que não queria encará-lo.
Continuei andando pelo corredor, devagar, porém me assustei quando ouvi um grito agudo vindo da cozinha. Parei assustada, mas logo retomei meus passos, agora correndo pelo corredor.
A cada passada, os murmurinhos ficavam mais altos.
Meu coração batia acelerado dentro do peito.
Cheguei próxima ao cômodo. As vozes eram de uma confusão que atordoava minha mente. A gritaria evidente me deixou perplexa, por que diabos eles estariam brigando? Seria por minha causa? Tremi com essa possibilidade, se fosse por isso eu iria entrar agora mesmo para resolver a situação. E estava a passos da porta, mas parei bruscamente sentindo minhas mãos suarem, assim como o meu corpo gelar e meu coração se despedaçar em meu peito quando o grito de minha tia ecoou pela cozinha, me fazendo vacilar.
- Como assim você vai ter que se casar?

Capítulo 7


“A vida não consiste em ter boas cartas na mão e sim em jogar bem as que se tem.” - Josh Billings.


's Pov.

- Mamãe, se acalme, por favor. - Eu pedia desesperadamente.
- Como me acalmar? Como? - Ela parou, colocando as mãos em frente ao rosto. - Isso o que você está me dizendo é um absurdo. - Andando em sua direção parei a poucos centímetros da mesma, receoso. Odiava vê-la naquele estado.
Quando abri minha boca pensando na excelente ideia que tive havia esquecido de um pequeno, quase mínimo detalhe.
No momento em que pus os pés fora do apartamento de Fletch e olhara mamãe nos olhos vendo seu semblante triste e emocionado, eu simplesmente recuei pensando que ela, talvez, estivesse chateada comigo. Assim resolvi omitir os fatos durante aquele longo caminho de volta para casa, colocando em minha cabeça que assim que nós chegássemos ao meu apartamento, eu a chamaria para conversar e lhe contaria tudo o que era necessário, explicando-a o porquê de minhas decisões e como elas eram importante, devida a atual situação da minha vida e carreira. E a pediria para compreender e me ajudar porque não queria mais decepcioná-la, muito menos os meus amigos, os quais suportaram todo o peso dos meus atos enquanto estive fora; Respirando nervosamente, eu somente colocava em minha cabeça que tudo acabaria bem.
Mas certamente não foi isso o que aconteceu.
Porque no exato momento em que a minha casa foi ficando distante do caminho que pegávamos, eu sabia que alguma coisa estava errada, algo na expressão de mamãe a denunciava. E, quando ela parou em frente a enorme casa branca - a qual me trazia um misto de lembranças que me deixavam inconsolado - tive a certeza de que algo bom não estaria por vir.
Entretanto, quando aquelas palavras fluíram de sua boca, perfurando meu peito, quase arrancando o meu coração - como se mãos perversas tivessem o atirado para longe com toda a força existente na face da terra - os meus problemas não eram nada mais do que pó.
Os meus problemas eram insignificantes e tolos, se comparados ao que eu ouvira naquele momento.
E os meus atos eram apenas reflexos de um coração totalmente horrorizado. Só de pensar que poderia ter evitado qualquer mal contra , minha alma se contorcia.
Se eu tivesse insistido, se não tivesse sido tão fraco, ela não teria passado por isso. Porque eu a teria protegido, com todas as minhas forças, com toda minha gana. Afinal, meu amor por ela era algo fora do normal, algo imenso – que muitos ao longo das suas vidas pensam ser inexistente. Mas só eu sabia o quanto ela me fizera falta durante todos aqueles anos.
E agora que pensara em uma solução para todos os problemas, tantos os meus quantos os de minha tia e de , mamãe estava estupefata.
Claro que eu estava sendo um tanto egoísta. Afinal, não conseguia enxergar o ponto de vista de minha mãe e só conseguia pensar que minha vida precisava de constância que somente a presença de proporcionaria. Eu não a perderia mais de minhas vistas outra vez e não deixaria que qualquer mal a atingisse. Só de pensar em ficar longe dela, minhas entranhas se reviravam. Agora que eu estava presente em sua vida novamente, não deixaria mais nada acontecer, nunca mais; Mamãe tinha que aceitar. Por fim, eu teria que fazer aquilo de uma forma ou de outra, e a proposta que fizera, era a que mais me agradava e provavelmente a qual agradaria a todos também.
- Você... Ai meu Deus! - Mamãe exclamou se apoiando na bancada. Exterminando os poucos centímetros que me impediam de lhe tocar, eu a sentei na cadeira que minha tia trouxera para perto.
- Mãe, você está legal? - Perguntei agachando, ficando na altura necessária para enxergar seu rosto pálido.
- Legal? Você quer saber se eu estou legal? Hum... - Ela pausou momentaneamente olhando para o teto logo continuando. - Se você acha legal saber que seu filho terá de se casar daqui alguns dias é algo estupendo, então sinta-se à vontade para ter a certeza de que estou ótima - Ela riu debochada colocando as mãos no joelho.
- Acho melhor você se acalmar querida, você está branca e...
- Me acalmar? Como? Diga-me como e farei com todo o prazer. - Mamãe implorou olhando aflita para minha tia que aparecera com um copo – de água com açúcar, parecia. - em suas mãos, como em um passe de mágica, entregando calmamente para mamãe que aceitou o mesmo bebendo um longo gole.
Eu nem a vira sair dali... Como ela fizera aquilo?
Fui repelido de meus pensamentos infames pela minha consciência alarmada quando ouvira a voz calma e suave de minha tia ressoar pela cozinha.
- Querida, - ela sentou-se ao lado de mamãe. - você ouviu o que ele disse, não ouviu? - Mamãe assentiu como uma criança chorosa. - Você também sabe que ele está fazendo isso pelo bem da banda e de seus amigos, mesmo você achando que isso é um absurdo, mas não totalmente errado, certo? - Mamãe olhou-me apreensiva desviando logo seu olhar do meu quando os mesmos se encontraram.
- Sim. - Ela disse em um sussurro fraco.
- Então você precisa se acalmar, todo esse nervoso não vai adiantar coisa alguma, seu filho irá se casar e não há nada que você possa fazer para impedi-lo. Você o ouviu, ele quer isso. - Minha tia disse, afagando as costas de mamãe quando suas mãos trêmulas envolveram as minhas, as apertando gentilmente.
Ela se levantou, pegando o copo de minha mãe, e se afastou, deixando o lugar livre para mim. Levantei e silenciosamente me sentei ao lado de minha mãe a abraçando. Alguns segundos se passaram até que ela fosse capaz de retribuir o abraço com o triplo de força com que eu a abraçava. Assim que senti um suspiro sôfrego de seus lábios, senti meu corpo amolecer de alívio.
Suas ações demonstravam sua decisão. A apertei mais forte e por alguns minutos nós ficamos ali, somente abraçados, como mãe e filho que apenas matavam a saudade, mas que naquela situação trocavam palavras silenciosas de compreensão.
- Você sabe que eu não concordo com essa ideia ridícula do Fletch, não sabe? - Ela perguntou afastando meu rosto com suas mãos, olhando-me nos olhos. Eu sorri assentindo. - E você também sabe que eu acho que essa coisa de casamento é tão ridícula quanto você ter crescido tão rápido, certo? - Ela perguntou-me enfezada, como se estivesse reclamando em voz alta para alguém lá de cima o quanto era injusto ter filhos e eles se desprenderem tão rápido de você, encarando o mundo.
- Sim mamãe, eu sei. - Eu respondi revirando os olhos. Ela suspirou. Uma, duas, três vezes antes de soltar meu rosto e se levantar, andando pela cozinha.
Ela parou ao lado de minha tia que guardava o copo já lavado no armário. Elas se olharam por um longo tempo e começaram a sussurrar algo muitíssimo baixo, algo que era inaudível de onde eu estava. Minha tia riu, gargalhou, e mamãe sorriu. Uma expressão divertida esboçava em suas faces. As duas ali, fofocando algo sobre mim, deixavam-me indignado.
Será que elas não viam a minha angústia?
Não aguentando aqueles murmurinhos risonhos virei-me de costas, colocando as mãos na cintura, sentindo uma ânsia crescer na boca do estômago. E se elas estivessem rindo de mim, rindo da minha ideia, achando-a incrivelmente estúpida? Elas não seriam tão más, seriam? Confuso, apertei minhas mãos em punhos, pensando que minha ideia, talvez, não fosse bem vista aos olhos de minha tia.
Senti a frustração tomando-me com uma intensidade absurda.
Como eu não tinha visto antes? Minha tia estava tranquila porque ela nunca aceitaria a minha proposta.
Olhei para trás vendo que agora as duas estavam sérias. Conversando como se resolvessem uma fórmula matemática complicada. Elas gesticulavam e negavam. Minha mãe falava e minha tia rebatia. Seus diálogos inaudíveis começaram a me dar calafrios. O medo e a insegurança percorriam-me como a eletricidade corre pelos fios. Minha percepção no momento não era aguçada, assim como meu nervosismo não me dava à calma necessária para ouvir qualquer palavra que as mesmas dialogavam.
Uma dor estranha percorreu meu corpo quando a ideia simples de negação passou por minha cabeça. Elas tinham de aceitar, elas precisavam aceitar. Eu não poderia correr o risco de perdê-la, eu não permitiria que qualquer pessoa a tirasse de mim novamente. Aquela menina era tão essencial para mim quanto uma parte vital de meu corpo. Todos esses anos em que estive longe dela foi horrível, era como se uma parte de mim ficara ausente, estagnado.
Suspirei aflito.
Não que eu não tivesse vivido, eu vivi, claro. Mas tinha a plena consciência de que tinha sempre alguma coisa faltando e eu sabia exatamente o que era essa lacuna em minha vida. Eu pensava em procurá-la, quase sempre para falar a verdade.
Quando eu a via em colunas sociais ou programas televisivos eu a olhava, admirado. Meus olhos brilhavam e se enchiam d'água. A saudade inflamava em meu peito, assim como o orgulho expandia-se por meu corpo. Ela crescera tanto em minha ausência. Ela ficara mais inteligente, mais bela. Tão mulher. Porém aos meus olhos ela sempre seria minha - a minha pequena, a minha menina. Mas isso não importava, pelo menos não mais para ela.
Confesso que por muitas noites, deitado na escuridão, eu lembrava-me de sua risada gostosa, de seu toque em minha face, das suas palavras ao pé do ouvido quando sussurrava segredos; Eu sofrera calado por todo esse tempo enquanto a solidão me sugava para uma outra dimensão, com uma rapidez capaz de amargurar milhares de corações. Entretanto, resisti. Resisti aos mais doloridos golpes, pois quando eu a via feliz, sem a minha pessoa, eu segurava toda a minha amargura e ficava feliz por ela.
Aquilo era tão doloroso, vê-la sem tocá-la, senti-la sem sua presença.
Eu não fazia mais parte de sua vida, mesmo querendo com todas as minhas forças. E isso me deixava infeliz na maior parte do tempo.
Mas se isso fazia de mim um grande egoísta por ver sua felicidade e não me sentir feliz o tempo todo, pois bem, eu era; Por muitas noites, me sentindo sufocado pelo buraco vazio de meu peito, - o qual não conseguia ser preenchido por ninguém, o qual ela causara. - eu ficava tentado a procurá-la novamente, ou ao menos ligar para a mesma.
Ligar e ficar em silêncio, somente para ouvir sua voz mais uma vez, mesmo que aquilo machucasse mais a eu mesmo do que qualquer pessoa. Contudo, quando pegava o celular em minhas mãos, discando aquele número que eu sabia de cor, suas palavras soavam insistentes em minha cabeça, como um disco arranhado.
Um disco que arranhava insistentemente o mesmo lugar, cada vez mais e mais, em um looping aterrorizante, até perfurar - deixando meu coração somente em frangalhos, magoado e iludido pela solidão sem fim. E era assim que eu me restringia de volta para o meu mundo parcialmente feliz, o mundo onde eu tinha minha banda e meus amigos, o meu mundo, o qual ela optara por não pertencer.
Eu não queria estragar sua felicidade e também não queria ser um fantasma do seu passado amargo e sombrio. Um passado o qual ela escolhera esquecer.
Então, preferi vê-la de longe, analisá-la, observar ela amadurecer e se tornar uma mulher incrível. Sofrendo sozinho por não tê-la mais em meus braços.
A distância não era o melhor dos remédios, mas só por saber pela boca dos outros e por meus próprios olhos o quanto ela estava bem e aparentemente feliz, era o grande prêmio que me consolava e me despedaçava ao mesmo tempo.
As informações eram o meu único alento, já que só assim eu via que fiz o melhor quando me afastei de sua vida. Ou eu pensava que sim. Já que ninguém preveria que o destino fosse tão desdenhoso a ponto de me colocar em sua vida novamente em uma situação irremediável como aquela. Uma situação a qual eu não me perdoava e me sentia martirizado por ter deixado acontecer. Por não ter estado ao seu lado. Por não ter insistido ou negado seus pedidos fúteis de distância.
Grunhi alto, abrindo os olhos e vendo as duas mais velhas me encarando.
Me assustei dando alguns passos vacilantes para trás quando as mesmas seguraram em meu braço dando-me o suporte necessário para não cair.
- Está tudo bem com você, meu filho? - Mamãe perguntou olhando-me preocupada.
- Não é melhor você se sentar? - Minha tia me perguntou já me sentando em uma cadeira.
A aflição possuiu o meu corpo como um choque. Eu não poderia ficar sentado, não. Eu tinha de convencê-las, precisava fazê-las acreditar que eu não podia ficar mais sem . Meu tempo era curto, eu precisava incutir em suas mentes que eu necessitava dela tanto quanto uma alma precisa de um corpo, tanto quanto um corpo carece de ar; e eu precisava respirar novamente.
era meu ar.
Eu não queria mais esse vazio dentro de mim; e só ela era capaz de suprir o mesmo.
Me levantei em um supetão, e próxima coisa que ouvi além das respirações assustadas com meu movimento repentino, foi minha voz angustiada, pedindo-lhes:
- Tia... Mãe, vocês... Vocês precisam entender. Eu... Eu não planejava isso, não mesmo. Eu não ia me casar, apenas ia continuar a minha vida e minha rotina. Só que ai aconteceu tudo isso, por erros meus. E juro, não achei outra alternativa, essa era a mais plausível e sensata naquele momento. Vocês podem estar pensando: Como ele vai cuidar dela? Eles são apenas crianças! Mas nós não somos mais crianças, eu saí de casa há tanto tempo, tenho dinheiro, posso sustentá-la com certa facilidade graças a banda, também tenho responsabilidade e maturidade o suficiente para tomar minhas próprias decisões. - Respirei profundamente, recuperando o fôlego olhando agora nos olhos de mamãe. - Eu sei que a desapontei, e sei que não merecia mais a sua confiança nem a sua compreensão, mas preciso disso, mãe. Eu quero me casar com ela. Ela é tão importante pra mim, vocês sabem disso. - Eu fiquei em silêncio observando suas expressões conflituosas.
Ouvi um barulho e virei na direção da porta, será que ela estava ali? Andei rápido em direção a mesma e quando avistei o corredor ele estava tão vazio quanto antes. Balancei a cabeça vendo que eu estava tão pilhado que já estava ouvindo coisas.
Voltei à cozinha voltando a encará-las, mas as mesmas continuavam a olhar atentamente para um ponto qualquer, como se estivessem absorvendo todo o conteúdo despejado.
Apreensivo, agachei no meio das duas, pegando suas mãos e fechei os olhos.
- É tão difícil de explicar... – Disse, sentindo meu coração retumbar em meu peito. - Ela, pra mim, é algo inexplicável, indispensável. É tão imensurável que chega a doer meu peito. Ela esteve presente em todos os momentos da minha vida. é uma parte de mim, uma parte imprescindível. Aquela parte que eu vivi sem por um tempo que pareceu extenso demais e tive de suportar sozinho a falta que ela me fazia. Eu pensava que ela estava feliz, ela estava tão bem, tão linda e distante de mim. Vocês não sabem como me doía vê-la sem poder tocá-la. Esses anos sem ela foram os mais dolorosos em toda a minha vida. - Suspirei sentindo minha voz tremer. As duas apertaram minhas mãos no mesmo momento, e continuei. - Ela me preenche, me nutri. Ela é minha menina, minha melhor amiga, uma parte de mim. E quero muito que ela se torne minha mulher. Eu sei que sou capaz, vou tomar conta dela e nunca mais vai passar por nada de ruim na vida, tia. - Eu disse abrindo os olhos. - Ela vai se casar comigo, e vou fazê-la sorrir novamente, vou fazê-la voltar a ser a nossa . Aquela que eu nunca deveria ter abandonado, aquela que nunca deveria ter partido. - Sussurrei as últimas palavras, convicto. Encarando as duas, senti um aperto na garganta e logo uma lágrima rolava por meu rosto. Por fim, terminei dizendo: - Eu preciso dela, tia. Eu preciso dela tanto quanto ela precisa de mim. Preciso me sentir vivo outra vez e eu só vou me sentir assim quando vê-la vivendo novamente. Me sinto tão culpado, se eu estivesse aqui... - murmurei baixo, sentindo o dedo de minha tia em minha boca, pedindo uma espécie de silêncio, mas logo continuei pedindo. - Então, será que ela pode casar comigo? Por favor? – Perguntei, acabando, completamente exasperado.
Minha tia levantou sua mão secando minhas lágrimas que escorriam calmamente por meu rosto. Era incrível o quanto a dor e a amargura se apossavam rápido de meu peito fazendo com que meu estoque de lágrimas esvaziasse rapidamente. Minhas emoções extravasavam sem fim.
Levantando cuidadosamente, apenas abaixei a cabeça, encarando as duas. As mesmas se olharam, como se trocassem um olhar cúmplice, o qual somente aumentava minha angústia. Elas se levantaram e assentiram para si mesmas, logo voltando suas atenções para mim.
Senti-me como se esperasse a resposta de minha vida. Meu estômago agora parecia um buraco oco e vazio. E ali dentro, várias coisas pareciam se mover. Voar. Uma sensação estranha, que eu somente tinha sentido uma vez em minha vida. A ansiedade prevalecia durante os segundos que se passavam lentamente.
- Filho, - mamãe começou. - Nós entendemos o quanto você deve ter sofrido, talvez, muito mais do que a gente, já que tivemos contato com ela durante o tempo em que vocês ficaram... Você sabe, sem se falar. - Ela disse a última frase em um sussurro falho. Esperando-a continuar, balancei-me em meus próprios pés, eu estava inquieto e aquele silêncio só me agoniava ainda mais. - Mas você sabe que isso não depende da gente, certo? - Ela me olhou, encarando-me.
Como assim isso não dependia delas? Olhando-as confuso, fiquei assim, enquanto várias perguntas corriam soltas por minha mente. Vendo minha confusão expressa nas feições curvadas de meu rosto, minha tia puxou o mesmo em sua direção, fazendo com que eu a encarasse.
- , isso não depende de nós. - Ela suspirou sorrindo levemente. - Esse pedido só ela pode responder pra você.
Permaneci quieto por alguns minutos, absorvendo a informação lentamente. Então, elas tinham deixado? Quer dizer, elas tinham realmente aprovado minha ideia?! Um sorriso foi surgindo rapidamente em minha boca assim como as lágrimas agora pareciam cessar, deixando uma leve ardência em meus olhos. Mas aquilo mal era notado devido a minha felicidade que parecia irradiar por meu corpo.
Ri alto e em bom som fazendo as duas rirem comigo, estupefatas.
Elas tinham concordado.
- Se isso tem de acontecer, que aconteça de uma forma que ajude a todos. - Mamãe disse, me abraçando. E puxei minha tia, a abraçando também. Aquela sensação era tão boa.
- Eu prometo que não vou decepcioná-las. - Respondi beijando o topo de suas cabeças.
- Você não vai, nós sabemos. - Minha tia respondeu e eu sabia que um sorriso gentil estava estampado em seus lábios.
- Então, vá logo antes que eu me arrependa, . - Mamãe disse risonha. - Vá pedir a nossa menina em casamento. - E riu logo continuando. - Só vamos ver se ela vai aceitar, né?!
Olhei para mamãe de um jeito desafiador, então, lá estava sua verdadeira face, ela pensava ou tinha uma leve e pequeníssima esperança de que negasse ao meu pedido.
- Mamãe! - Eu exclamei. - Que feio da sua parte. - Concluí já andando em direção da porta.
- Feio o quê, menino? - Ela me perguntou cruzando os braços, uma expressão inocente rolando por seu rosto. Gargalhei e disparei.
- Você podia dar as mãos para o . – Ri e fui em direção à porta dizendo. - Torçam por mim. - E saí correndo em direção à sala, vendo tudo passando por mim como um borrão.
Subindo as escadas de dois em dois degraus, eu estava tomado por um pique fora de controle. Assim que eu parei em frente àquela porta, um nervosismo descontrolado tomou conta de mim.
Porra, eu ia pedir a minha melhor amiga em casamento e não tinha nem uma aliança. Muito cavalheiro de sua parte Sr. . Pensei prevendo as falas de qualquer pessoa que analisasse a situação. Mas eu não tinha tempo, não agora que uma felicidade incontável fluía por meu corpo.
Eu ia pedir a em casamento; Novamente tudo parecia voar dentro de mim. Tomado por um êxtase, bati levemente na porta, sentindo minhas mãos suarem. Eu nunca pedira nenhuma mulher em casamento. Aquilo me apavorava. Era normal ficar nervoso, certo? Questionei-me de maneira tola.
Mesmo que essa mulher fosse sua melhor amiga... Hum, claro, porque não?! Pensei risonho, mas não era só uma mulher, era . Única em todas as maneiras. E ela seria a minha mulher.
Sorri, sentindo meu peito quase explodir. E quando concluí esses pensamentos ouvi sua voz doce aos meus ouvidos, gritando:
- Entra.
Entrei. Vendo a mesma de costas para a porta, em frente à janela. Seus braços estavam cruzados, o quarto já estava parcialmente escuro, e dali de onde eu estava, a claridade do fim de tarde contornava sua silhueta, deixando-me enxergar o quão mulher a minha menina tinha se tornado.
Pigarreei expulsando esses pensamentos, tentando chamar-lhe sua atenção.
Ela virou sua cabeça de lado, seu perfil lindo aos meus olhos e sua voz fria como gelo:
- O que você quer, ? - Ela perguntou fazendo-me recuar levemente pelo seu tom de voz.
Ela não me encarava e pude sentir um leve desespero tomar conta de mim. Aquilo devia ser impressão, claro, tudo impressão do meu medo bobo e de meu nervosismo. Ela virou-se novamente para frente, com os braços cruzados. Sorrindo, andei até sua direção, parando atrás da mesma e perguntei-lhe ao pé do ouvido:
- Eu posso te perguntar uma coisa? - E pousei minhas mãos calmamente em seu ombro sentindo-o por um segundo ficar tenso e logo depois relaxar.
- Uhum. - Ela sussurrou sem ao menos abrir a boca.
Sorrindo como nunca, eu passei meus braços em sua cintura, vendo sua pele eriçar com meu toque, me surpreendi. Meus movimentos não foram esperados, e ela não tinha recuado. Isso, talvez, fosse um avanço. Meu sorriso se alargou. Focando-me em minha ida até seu quarto, pousei meu queixo delicadamente em seu ombro, e aproximei meus lábios de seu ouvido. Ela se encolheu um pouco, provavelmente com cócegas de minha respiração batendo em seu pescoço.
Sentindo seu perfume delicioso, aquele que me acalmava e me acalentava, eu perguntei-lhe baixo, de um jeito sexy e tentador, sorrindo de orelha a orelha:
- , você quer casar comigo?

Capítulo 8


“A vida é como um jogo, o destino dá as cartas, mas é você que decide o que fazer com elas.” – Autor Desconhecido.


's Pov.

Perplexa pelo choque, permaneci quieta ao lado da porta da cozinha.
Minha respiração inexistente pela dor voltara mais baixa do que um sussurro, dolorida - como se arranhasse toda a minha garganta que segurava com todas as forças a mágoa que parecia querer rasgar meu peito.
Então fora para isso que ele viera. Claro. Pensei, atordoada. Aquilo era tão óbvio quanto a acidez que corria por todos os cantos de meu ventre; Ele viera para contar que iria se casar. Contar para minha tia - que no momento estava habitada aqui - que estava compromissado, que encontrara a mulher da sua vida e iria se casar.
Ele não viera para me ver. Nunca. Isso era tão... Lógico.
Sentindo a frustração me atingir com o triplo de força me segurei na parede, mantendo-me em pé como pude. Meu corpo molificava-se a cada batida que meu coração retumbava dentro de meu peito. Parecia que eu tinha levado um golpe no estômago, um golpe forte e pungente. Um golpe certeiro, de um destino certo: Meu coração.
Ele não veio por mim, como fui tola. Os pensamentos invadiam minha cabeça bruscamente e a barreira inexistente que eu criara em meu cérebro para bloqueá-los, rompeu-se com uma intensidade assustadora. Calafrios dançaram por meu corpo, como uma leve irritação, pinicando-o por inteiro. A ânsia subiu por minha garganta, fazendo com que o oco dentro de mim se abrisse mais e mais em um buraco fundo e assustador.
Ouvindo sua voz ainda ecoando, dizendo aquelas palavras tão ridiculamente lindas, eu me senti fraca e raivosa. Eu me sentia mole, me sentia enganada. Era evidente o fato de que eu não fora enganada, eu sabia disso. Mas a esperança – mesmo que remota – dele estar aqui por mim, fora esmagada cruelmente pela as frases incrivelmente belas e enojadas que saíam de sua boca.
- Eu sei que eu a desapontei, eu sei que eu não merecia mais a sua confiança nem a sua compreensão, mas eu preciso disso, mãe. Eu quero me casar com ela. Ela é tão importante pra mim, vocês sabem disso. - Ele disse e eu não aguentei.
Meu estômago se contraiu e em meu peito o ar sumiu. Aquilo tudo era demais para mim. Eu não conseguia ouvir mais. Aquelas palavras me sufocavam com uma intensidade que nem eu sabia que era possível. Equilibrando-me em minhas pernas trêmulas, minhas mãos tomaram um rumo direto ao meu peito, como se pudessem segurar meu coração, o mesmo queimava, ardia. Dilacerava-se aos poucos.
Sentindo os olhos encharcados por lágrimas grossas, eu mal ousei piscar para que elas pudessem cair antes de ordenar que meus pés andassem. Andassem rápidos. Que corressem para o mais longe possível dali. A cada passada que dava a dor tornava-se tangível, latente. Toda a situação me agoniava, e meu coração pulsava em meu peito.
Corri. O mais rápido que pude.
Pernas bambas. Corpo flácido pelo desespero. Minha cabeça somente girava. Como um disco arranhado, enquanto em minha mente suas últimas palavras repercutiam a todo o vapor. Ao meu redor tudo parecia lento demais. E era absurdamente estranho como tudo parecia quieto, tão quieto que aos meus ouvidos eu quase podia ouvir as partículas de ar ecoando ao meu redor, junto do barulho de choro baixo que reprimiam minhas lágrimas esfrangalhadas escapando de meus olhos.
Bati acidentalmente no aparador - o qual antes eu havia estado, olhando as fotos antigas por alguns minutos -, parando assustada pelo barulho. Assim que olhei de relance para o mesmo vendo que todas as fotos continuavam em seus devidos lugares corri outra vez, olhando pela última vez a porta da cozinha, vendo-a tão distante quanto eu realmente queria estar, agora, ouvindo somente o barulho alto e vagaroso de meu coração corroído pela dor.
Com as mãos gélidas e suadas – graças ao pensamento que me sugava freneticamente à direção latente de meus sentimentos confusos - me segurei no corrimão da enorme escada brilhantemente polida de minha casa, dando o suporte necessário para que minhas pernas não desabassem fortemente antes de chegar ao meu refúgio, ou melhor dizendo, meu quarto, o mundo no qual eu não precisava enfrentar a realidade súbita dos atos cruéis da vida, em minha concepção.
Eu sabia que não merecia nenhum tipo de crédito, mérito ou ao menos compaixão pelas coisas que tinham acontecido comigo. Eu, aquela que sempre odiou ter as pessoas ao seu lado por pura pena do que tinha acontecido com si mesma, agora chorava calada por aquele que tentara esquecer pelos longos anos. Aquele que magoara sem ao menos um propósito aceitável. Aquele o qual desejava que eu fosse o único motivo de sua vinda. Entrando em meu quarto, sentindo minhas pernas cederem no momento em que minhas costas encostaram-se à imensa porta branca, um soluço gravemente alto irrompeu por minhas cordas vocais. Meus lábios tremiam junto de meu corpo. Aquela dor me asfixiava tanto quanto eu nunca poderia imaginar.
Encolhida pela sofreguidão; apoiei meus braços ao lado de meu corpo, sustentando meu peso, impedindo-me de chocar meu rosto com o piso frio. As lágrimas escorriam por meu rosto e pescoço. Soluços arranhavam toda a extensão de minha garganta como se cacos de vidros estivessem se encravado ali. Minha respiração inexistente pelo o atordoamento de emoções que se fundiam, faziam-me chorar com todo o ardor de minhas veias.
Barreiras quebradas, sentimentos expostos. Muita, mas muita dor expandindo-se por todo o meu corpo.
Tentando recuperar o ar que me faltava - o qual eu necessitava demasiadamente - me levantei, apoiando minhas mãos frias e aparentemente sem cor na parede, escalando-as com um vigor rígido, tenso. No momento em que meus pés andaram vacilantes e meu cérebro ordenou por ar percebi o quanto eu estava sufocada, já que meus pulmões trabalhavam com esforço, sendo atrapalhado por aquele esmagamento em meu peito. Sentindo uma leve enxaqueca tomar conta de minha cabeça fui andando fugaz até o outro lado do quarto, indo para o meu canto. Meu coração palpitava forte e meus olhos agora se cerravam à luz, vendo o pôr do sol chuvoso atrás da minha grande janela.
Banhada pelo sol que se punha, as cores alaranjadas do fim de tarde tomando o cômodo, cruzei meus braços sentindo minha respiração entrecortando-se sozinha, meus soluços sendo refreados por meus lábios apertados. Apesar do calor que banhava a pele, eu me sentia fria. Extremamente fria. Como se tudo dentro de mim fosse um enorme cubo de gelo. Arrepiei-me com esse pensamento. Eu definitivamente não gostava de frio, não frios como aquele. Frio me trazia lembranças.
Apertei meus olhos com força enxergando a claridade através de meus olhos, expulsando todos os pensamentos sombrios de minha mente exposta. Antes que eu pudesse colocar minha cabeça em ordem, ou ao menos me acalmar, ouvi duas batidas na porta.
Enrijeci.
Não esperava ninguém aqui, não agora. Quem deveria ser?
O desespero de ser pega chorando por alguém me tocou. E se fosse ele? Só podia ser ele, claro. Eu disse para mamãe que logo que terminasse meu banho iria descer, e ele provavelmente estava muitíssimo afobado, já que ao menos me esperou para dar a notícia ridícula de que iria se casar.
Idiota. Como ele podia fazer isso? Ele ainda era um garoto, droga!
Ok, ele não era mais um garoto. E sim, ele já era um homem. Um homem e tanto por sinal, mas ele era muito novo, e bem, ele não estava no auge de sua carreira? Não fora por isso que eu sofri? Para ele ter o que tanto queria? Não era isso que aquele programa ridículo de fofoca tinha dito a última vez que eu vi alguma notícia sobre ele? Merda; Segurando o fôlego, cheguei à conclusão mais orgulhosa e raivosa que me passou pela cabeça: Eu iria enfrentá-lo, claro.
Não que aquela fosse a decisão mais plausível ou sensata, mas era a qual meu orgulho permitia. Eu iria dar os parabéns e logo depois iria esnobá-lo, todavia. Porque uma coisa eu tinha certeza, ele não podia voltar para minha vida novamente. Aquilo tudo era tão insano. Eu precisava dar um fim, e o fim seria agora.
- Entra. - Respondi sem ao menos notar o quanto minha voz saíra fina e gritante.
Sentindo uma lágrima escorrer em meu pescoço, limpei-a, logo retomando a minha antiga posição, o choro sendo engolido por minhas entranhas. Meus braços cruzados novamente, agora demonstravam uma simples linguagem corporal de defesa e não de sustentação. O barulho quase milimétrico da maçaneta sendo virada com cautela ecoou em meus ouvidos e aquilo só me deixou mais paralisada do que antes. Minha respiração parou, meu fôlego sumiu.
Seu perfume adentrou o quarto e eu me apertei, buscando forças para me manter em pé; Seus passos ficavam mais próximos conforme a dor em meu peito se expandia mais. Aquele silêncio era tão cortante e assustador.
Ele pigarreou e eu virei minha cabeça para o lado, somente vendo seu vulto.
- O que você quer, ? - A pergunta saltou de minha boca sem que eu ao menos percebesse.
É lógico que sabia que era ele, eu o conhecia por mais que eu tentasse negar isso todos os dias. Eu conhecia seu jeito de andar e de se aproximar, o seu cheiro, o receio em sua voz, todo o seu nervoso. Eu simplesmente o conhecia.
recuou. Provavelmente atingido pelo meu tom de voz sentindo a notável frieza, enquanto eu só sentia a dor em peito se estendendo por meus músculos. Esperando por algum tipo de milagre divino, contei mentalmente os segundos que o ouviria sair de meu quarto sem indagar qualquer coisa ou se aproximar de mim, mas pelo o que pareceu, minha rispidez não adiantou muita coisa, já que seus passos agora chegavam perto, muito perto.
Seu caminhar acompanhava as batidas de meu coração, lentas e ritmadas, que iam se acelerando conforme eu conseguia sentir o calor de seu corpo emanando pelo meu. Parado atrás de mim, fechei meus olhos, o coração a mil dentro do peito. A dor tangível se dissipando de leve quando suas mãos pousaram em meu ombro. Por um segundo fiquei tensa, por mais que quisesse, eu não esperava pelo seu toque. Mas suas mãos quentes contra meu corpo frio pareciam me relaxar, já que meus ombros cediam mesmo que lentamente.
Seu calor abrigava-me como uma espécie de manta que aquece um bebê. Era incrível em como ele tinha o poder de me acalmar, me acalentar mesmo que o motivo da irritação fosse ele.
Afinal, sempre fora ele.
Sua voz ressoou tranquila e baixa como uma canção de ninar:
- Eu posso te perguntar uma coisa?
- Uhum. - Eu respondi apenas fazendo com que minha voz fosse notada, eu não tinha condições para me pronunciar, eu não queria me pronunciar. Eu só queria que ele me abrigasse ali para sempre, em seus braços e fizesse com que a dor parasse como ele sempre fazia.
Suas mãos moveram-se calmamente para baixo, com receio, mas totalmente firmes. Seus braços enroscaram-se levemente por meu corpo e tudo pareceu se arrepiar dentro de mim; um calafrio gostoso se apossou de minha pele. Fechei os olhos, apenas sentindo. Ele sempre me provocava essa sensação de torpor, como um tipo de calmante, ele me inebriava com sua presença. Ele era o meu efeito paliativo e eu sentia tanta falta dele. Suspirei fraca sentindo aquele calor se apossar de mim.
Sua respiração ficou próxima de meu pescoço e eu sabia que ele estava sorrindo. Eu o conhecia ao ponto de saber que ele provavelmente estava se deliciando com a minha entrega súbita de confiança. Mesmo eu não querendo aquilo, era quase impossível de me refrear. Meu corpo conhecia o seu. Meu olfato conhecia o seu cheiro. Meu tato reconhecia o seu toque. Minha sensibilidade conhecia todas as suas provocações; seu hálito quente chocou-se contra meu pescoço e eu encolhi o mesmo fracamente, - apenas reflexos de partes sensíveis – e então, eu ouvi muito próximo, seus lábios sussurrando em meu ouvido: - , você quer casar comigo?
Paralisada?
Chocada?
Surpresa?
Talvez nenhum adjetivo pudesse explicar o que eu sentia agora. Não mesmo.
Surpreendida por sua última frase, permaneci quieta. Tudo ao meu redor era de um silêncio tão profundo e por um momento eu pensei que pudesse estar sonhando. Fechei os olhos com força. Que tipo de brincadeira insana era aquela? Será que eu estava tão louca ao ponto de sonhar com aquilo? De realmente imaginar batidas em minha porta, pigarros, passos vindo ao meu encontro, braços em minha cintura, uma respiração batendo em meu pescoço? Respiração batendo em meu pescoço...
Cadê a respiração batendo em meu pescoço? Minha mente gritou.
Abri os olhos desesperada pensando que talvez eu realmente estivesse ficando louca, que talvez aquilo tudo não tivesse passado de um mero truque de minha imaginação. Virando meu rosto bruscamente para o lado, o vi tão sério como nunca o tinha visto antes. As batidas de meu coração vacilaram assim como minhas pernas. Seus braços se apertaram mais em minha cintura quando minhas mãos foram de encontro às suas, apoiando-se nas mesmas. Seus olhos límpidos se estreitaram em preocupação e seus lábios encrespados me deram uma sensação estranha. Ele era real, não era? Eu estava o tocando, por Deus, ele era real!
Como se tivesse sido eletrocutada, apertei suas mãos em um reflexo bobo. Sua testa enrugou-se de preocupação. Olhei para onde minhas mãos estavam como se aquilo pudesse ser uma espécie de precaução de que eu estava tocando-o de verdade. Minhas mãos apertando seus braços, minhas unhas cravadas em sua pele. Assustada por minhas ações afrouxei minhas mãos pensando que eu podia estar machucando-o e assim que o fiz seus braços tornaram-se mais fortes e acolhedores em minha volta. E uma voz extremamente preocupada ressoou:
- Você está bem, ? Fale comigo. - Ele pediu. Sua face séria. - , se você não falar comigo eu vou chamar a sua mãe novamente. - Ele me alertou e a realidade brusca me atingiu novamente. Aquilo não era um sonho.
- Eu to... Normal. - Respondi não encontrando uma palavra exata para expressar o que eu sentia.
- Tem certeza? - Ele perguntou novamente. Seus traços faciais aliviando-se tranquilamente.
- Sim. - Eu disse me virando de frente para o mesmo.
O encarei vendo toda a seriedade nos tons aflitos de suas íris.
Permanecemos por um tempo com aquele contato visual estranhamente forte, como se estivéssemos ligados por uma corrente invisível de sisudez. Uma de suas mãos subiu, logo chegando a meu rosto. Sua mão grande em meu rosto, afagava-me com um cuidado fenomenal, como se eu fosse alguma coisa rara ou quebrável.
Respirei forte fechando meus olhos sentindo seu perfume adentrando em minhas narinas. Seu toque e seu cheiro me acalmavam tanto quanto meu peito enchia-se de uma saudade reprimida. Ele era tão real que me provocava dor. Eu podia sentir a tristeza me preenchendo, subindo daquele buraco oco e vazio, espalhando-se por minhas veias.
- Hey, não precisa chorar. - Ele disse baixo, sua voz baixa reprimida, sufocada. Ele estava com dor? Abri os olhos, preocupada, vendo sua expressão triste. Ele não podia ficar com dor, nunca. Por que ele estava com dor? - Se não quiser, não precisa aceitar, eu não devia ter perguntado isso, eu não... Desculpe. – Suas palavras atrapalhadas me fizeram sorrir, mesmo que minimamente.
Nervoso e atrapalhado. Esse era o meu . Sorri fraco tocando sua mão que ainda segurava meu rosto.
- Eu não ia chorar. - Respirei sentindo minha garganta tremer. - Não precisa se desculpar. Eu só estava... - Seus olhos ansiosamente aflitos me encaravam. Senti-me envergonhada por demonstrar aqueles tipos de sentimentos. Fiquei confusa por um momento quando tentei retomar meu plano, afinal, eu não poderia dizer que estava sentindo sua falta se o meu propósito era de expulsá-lo de minha vida novamente já que ele estava prestes a se casar com... Comigo?
Arrancando sua mão da minha, dei alguns passos para trás sentindo uma estranha confusão tomando conta de meu corpo. suspirou e eu o encarei vendo seus olhos fechados e uma leve careta estampada em seu rosto.
- , não faça isso. - ele pediu abrindo os olhos, uma expressão sôfrega em seu rosto. - Se você não quer se casar comigo tudo bem, só não me afaste de você novamente, por favor.
- Como? - Eu pedi sentindo um frio ansioso, como se tudo dentro de mim se mexesse.
- É isso mesmo que você entendeu. - Respondeu na defensiva. Encarando-me, ele deu alguns passos receosos se aproximando. - Não precisa aceitar, mas não coloque em sua cabeça que eu vou me afastar de você de novo porque eu não vou. - Ele cruzou os braços, seus traços curvando-se em rebeldia.
- Repete o que você disse. - Pedi vendo seus olhos ficarem confusos.
- Eu não vou me afastar de você? - Ele perguntou.
- Não, antes. - Fechei os olhos sentindo aquelas coisas que eu não sentia há anos me atingirem em uma avalanche avassaladora.
- Se você não quiser aceitar não tem problema? - Sua voz estava estrangulada e confusa, comecei me remexer inquieta.
- Não, droga! - Exclamei indignada. - Repita o que você disse, o que você veio me perguntar, por favor, repita, porque eu não entendo... Eu...
- , você quer casar comigo? - Ele perguntou agora, um misto de graça e confusão fundidas em sua voz.
Abri os olhos e o vi parado em minha frente com as mãos na cintura e a cabeça um pouco baixa, provavelmente olhando para seu pé ou até mesmo o chão.
- Que tipo de brincadeira estúpida é essa, ? - Perguntei.
Minhas mãos foram para minha barriga como se elas pudessem acalmar toda aquela agitação estranha dentro de mim.
- Wow, você está brava, huh? Você quase nunca me chama de . - Ele riu nervoso, trocando seu peso nos pés.
- Me responde logo, . - Pedi brava. Se ele queria me irritar, ele estava conseguindo, o mesmo suspirou longamente, ainda olhando para baixo e disse:
- Não é brincadeira. - O tom de sua voz era cauteloso.
- Como não é brincadeira? - Perguntei cética. - Você só pode estar tirando sarro da minha cara. - Eu ri, com todo o cinismo permitido. E, totalmente irritada com aqueles sentimentos idiotas que pareciam voar dentro de meu estômago.
- Não , - ele disse e me olhou no fundo dos meus olhos. - eu não estou brincando nem nada do tipo. -
Olhando-o incrédula, perguntei:
- Por quê?
A pergunta ao mesmo tempo em que era para ele, também era retórica, lógico. Por que ele estava me pedindo em casamento? Por que eu estava imensamente aliviada? Por que eu também estava ao mesmo tempo confusa e aflita? Minha vontade era de gritar, afinal, por que eu estava sentindo aquelas coisas novamente? Eu tinha aprendido há ficar tanto tempo sem elas... Aqueles estúpidos sentimentos voadores em meu corpo; Um tanto surpresa por seu olhar angustiado em minha frente ele respondeu como se tirasse um peso de suas costas e o colocasse nas minhas.
- Por que eu preciso me casar, . E quando eu estava lá embaixo, ouvi sua mãe falando com a minha sobre ela ter de ir embora e você não querer ir com ela, e bom, eu falei com elas, e elas não viram problema algum, aí juntei o útil ao agradável. Sem contar que eu não quero me afastar de você novamente. - Ele terminou rápido, respirando fortemente, como se tivesse perdido o fôlego.
Pois bem, eu perdi o meu também. E agora todos aqueles sentimentos davam lugar ao buraco gélido e oco novamente. Sentindo suas palavras atingindo o mais profundo do meu ser, lágrimas brotaram em meus olhos. Me virei de costas para o mesmo, desviando meu olhar do seu. É lógico que tinha um motivo para o seu pedido, claro. Todo mundo têm interesse, e ele tinha o seu. era tão humano quanto os outros, e todos sempre pensavam em si mesmos antes do outro. Eu pensei, oras. E eu continuaria pensando. Afinal, como ele mesmo dissera, ele só juntara o útil e o agradável.
Agradável. Era tão irônico o quanto nada disso era agradável para mim.
Fechei os olhos e quando os abri sua expressão estava imensamente culpada. Será que ele percebera o quanto suas palavras estavam erradas ou como aquilo tinha me machucado? Creio que sim, mas eu não o daria tempo para se explicar. Não o daria tempo algum para ao menos se desculpar.
- , eu...
- Não precisa falar nada, , eu já entendi. - Me pronunciei, minha voz baixa. Não o encarei e nem queria. Talvez se eu o olhasse aqueles sentimentos tolos me fariam fazer a coisa errada. Pensando rapidamente, continuei.
- Eu só não acredito muito bem nisso tudo. Por que você precisa se casar, afinal? - Perguntei curta e grossa.
- Uma jogada de marketing. - Ele disse baixo, sua voz estrangulada. Um silêncio frígido se instalou e logo pude o ouvir engolindo seco. Será que ele estava tão nervoso assim? Porque eu estava realmente mau com tudo aquilo. Aquelas coisas... Então, eu era somente uma jogada de marketing? Uma estúpida e ridícula jogada de marketing.
- E você aceitou isso? - Perguntei com desdém, olhando sol quase se pondo ao horizonte.
- Sim. - Ele disse ainda estático em seu lugar.
- Por que você aceitou? - Perguntei já prevendo a sua resposta.
- Por causa de... Bom, umas coisas que aconteceram, e meus amigos. Eu não posso acabar com a carreira deles por um erro meu. - Ele respondeu e o olhei confusa. Sua cabeça estava baixa e eu quase senti pena dele. Erro, mas que erro? O que será que tinha acontecido?
- Hum, entendo. - Respondi superior como se soubesse ou pudesse compreender o assunto.
Olhando o céu quase escuro de Londres, pensei e refleti com toda amargura daquelas palavras que a partir de agora me assombrariam.
Eu não queria ir embora de Londres. E por mais relutante que eu parecesse, aquela era realmente a ideia mais agradável, tanto para mim quanto para ele. Até para minha tia e para minha mãe. Óbvio. Mas aquilo ainda me magoava e doía. O pensamento sabotador que surgia em minha cabeça era de que ele nunca faria mais nada por mim, claro. Agora ele fazia as coisas por seus amigos e eu não era mais nada sua, nada mais além de uma ex-amiga de infância.
A tristeza transpassou meus olhos, mas a única coisa que eu pensava era que, se eu tinha uma solução plausível em minhas mãos, eu não seria mais um fardo para minha mãe, afinal, ela não merecia tudo isso. Ela não merecia mais todo aquele sofrimento. Ela precisava ser feliz. Eu já podia me cuidar. E se ela achava seguro que eu ficasse com o , se ela confiava nele, eu só tinha uma decisão a tomar. Sentindo aquele ardor em meu peito eu disse por fim:
- Tudo bem. Eu aceito me casar com você.
Uma respiração foi ouvida e antes que ele pudesse pronunciar qualquer coisa eu disse:
- Mas eu tenho algumas exigências a fazer.
Um silêncio curto repercutiu e logo ouvi sua voz:
- Exigências?
- Sim, exigências...


Continua...



Nota da autora: Cheguei maravilhosas!!!

Esses dois capítulos é um misto de tanto sofrimento desses dois né? Tanta coisa mal resolvida. O que vocês acham que aconteceu entre os dois para se afastarem? Alguma teoria mirabolante? Hahahahaha
Não esqueçam de comentar, hein?! Vou deixar aqui o contato das redes sociais e também do grupo de whatsapp que fiz pra quem quiser conversar diretamente comigo, ok?
Um beijo grande e sintam-se muitíssimo abraçadas <3
PS: criei um grupo de WhatsApp, só clicar no link do app aqui embaixo!



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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