Última atualização: 17/06/2018
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Prólogo

Nem mesmo o vento gelado do inverno constante foi capaz de conter o grupo que se aproximava do bosque. Era uma noite fria em Omelas, a nevasca era forte, seus pés afundavam conforme pisavam na neve, mas isso apenas os incentivava a seguir em frente com mais determinação, afinal, era a prova de que o tempo estava acabando e que o ritual precisava ser novamente iniciado para por fim no inverno rigoroso que tomava a cidade nos últimos anos. Era essa, afinal, a maldição da cidade. Todos sabiam a única forma de pará-la, mesmo que evitassem tocar no assunto.
Era a vida de um por todos os outros, sempre foi assim. Um sacrifício necessário, mas não fazia com que se sentissem menos culpados por entregar uma de suas crianças. Um de seus filhos, e de mãos dadas seguiram apoiando um ao outro. Saber que era necessário não fazia com que fosse mais fácil. Tentaram evitar que o ritual fosse iniciado, tentaram ter esperança de que fosse apenas uma lenda, mas a cada dia ficava mais óbvio de que se aquilo não fosse feito, ninguém se salvaria no final.
O grupo visualizou as luzes ao longe, ao redor da maior árvore da cidade, e algumas lágrimas foram derrubadas. Era fácil reconhecê-la, era fácil saber que havia algo místico sobre ela. Apenas aquela árvore ainda vivia com o inverno interminável de Omelas e o ancião da cidade, o único que havia presenciado mais de um ritual e sabia como fazê-lo, já os aguardava ali.
— Boa noite. — o senhor falou por educação assim que se aproximaram, mas ninguém respondeu. Ele não esperava também que respondessem de fato. Não era uma boa noite e para um dos casais ali, jamais seria.
— O… o que vai acontecer depois? — uma das mulheres gaguejou, com lágrimas presas na garganta. Eram sete ao total. Sete mães para sete filhos. — Quando terminarmos, o que vai acontecer com o… Escolhido?
O homem a encarou com pesar. Estava tão bem com aquilo quanto qualquer um no grupo. Queria não ser o responsável por iniciar aquela tragédia, mas era o que mais conhecia a real necessidade daquilo.
— Não precisamos falar sobre isso. — respondeu com calma, mas a mulher negou a cabeça.
— Precisamos saber. — falou agora um dos pais, não dando oportunidade para que a mulher o fizesse. — Antes… Antes que aconteça, nós vamos saber quem é?
— Não é bonito. — o senhor respondeu com tristeza e sentiu as próprias lágrimas prestes a darem indícios de escorrer. Na sua época, perdeu o melhor amigo para a cidade. — Em algum momento ele vai saber que é ele. — explicou, quando notou que ninguém cederia. — E raramente eles entendem, é normal que tentem lutar contra isso, contra o chamado, mas não há nada que possa ser feito.
O som do choro ficou mais forte, alguns casais se abraçaram e outros seguraram com mais intensidade suas mãos juntas. Todos compartilhavam da mesma dor.
— Então… É isso? Ele vai tirar a própria vida? — perguntou novamente um dos pais, o único que teve coragem o suficiente para fazê-lo. — Ele vai literalmente se sacrificar pela cidade?
— Eu temo que sim. — o ancião respondeu, e ninguém perguntou mais nada, ou o que aconteceria se não fosse feito daquela forma. Estava evidente afinal e se um não se entregasse por todos, o lugar em que estavam presos simplesmente ruiria. Não sobraria pedra sobre pedra para contar a história de Omelas.


Capítulo 1

ATUALMENTE


— CARAMBA, EU DISSE! — berrou, exausto de tanto correr em meio a penumbra. O tempo estava acabando, afinal, era a madrugada mais fria daquela semana e antes de mover as pernas mais rápido pelos trilhos, observou em volta a respiração pesada de e , que também estavam com dificuldade para acompanhar a velocidade dos outros quatro.
— ANDA, ! — ofegou, levantando uma das mãos para o alto a fim de mostrar o trem que diminuía a velocidade gradativamente. — , . — gritou desesperado para os outros dois, notando que mal conseguiam acompanhar o ritmo dos outros. Eles estavam bem mais à frente.
O barulho dos freios do trem começaram a ficar mais forte e estremeceu com o pensamento de deixá-lo para trás.
Não podia deixá-los para trás.
A promessa feita entre eles era de fugirem todos juntos, nem que isso os levasse até seu último suspiro. Não cogitaram nenhuma outra possibilidade. Não deixaram completar a frase quando ele tentou impor que era tudo ou nada. No caso, todos ou ninguém. Sabia o real motivo por terem feito isso. Era ele o amaldiçoado. Se ficasse, estava fadado a morte, mas ele não poderia deixar um para trás correndo o risco deste ter que tomar o seu lugar para salvar Omelas com sua vida, e contra a sua vontade.
Era tudo ou nada, mas aquela pequena frase que por meses lhe trouxe esperança, agora lhe trazia apenas o mais profundo desespero ao perceber que , e não estavam conseguindo alcançá-los para tomarem o trem. O único trem, a única chance antes do sacrifício final. O trem fantasma que apenas era capaz de ver e ouvir.
Era só uma lenda a princípio, descoberta após muito custo. Era o fio de esperança. Um possível expresso que apareceria às 23:00 horas da noite mais fria do mês de julho, nos trilhos da cidade. Uma chance única para os condenados. Ninguém sabia o que acontecia com a cidade se este fosse embora. Ninguém sabia como tomava o trem se ninguém podia vê-lo ou ouví-lo. Ninguém nunca havia fugido de Omelas antes, era impossível, mas então lá estavam eles, diante da oportunidade única que estavam prestes a perder.
— Eu estou no meu limite… — respirou entrecortado, diminuindo o ritmo enquanto as passadas de e começaram a ficar mais rápidas. — Não… aguento…
! — , cansado, fez uma pausa, segurando na mão do amigo e ajudando-o a aumentar o ritmo dos passos. Ele também estava prestes a desistir, mas sabia que não podia fazê-lo, por . O garoto não iria sem eles e ali, em Omelas, morreria. Jamais se perdoaria por não ser forte o suficiente para salvar o melhor amigo. Jamais suportaria perder o melhor amigo. Tanto quanto suportava a ideia de deixar qualquer um para trás. — Vem, amigo. Eu te ajudo. — ele o impulsionou para frente com toda a força do corpo. — Corre, ! Corre.
— Eu não consigo. — choramingou em desespero por não aguentar mais correr e pior, por atrapalhar a conseguir alcançar a única oportunidade que tinham de fugir daquela cidade. — Vão! — Ele ordenou, se libertando das mãos de . — Saiam dessa cidade e não fiquem presos por minha causa. — seu coração começou a bater mais rápido que o normal em seu peito e aquelas palavras foram tão libertadoras que ele soube que estava fazendo o certo. Os amigos precisavam seguir em frente e lutar pela liberdade. Pela vida longe de Omelas.
— Ninguém vai ficar para trás! — gritou, parando de correr para se voltar para o grupo.
, você precisa ir! — devolveu no mesmo tom, xingando ao olhar para os trilhos e não ver a droga do trem para saber se estava ali ainda ou não. — ! Que droga, você precisa continuar.
— Eu não vou se não forem todos!
— Você tem que ir, ! Corre de uma vez! - , no meio do caminho entre os dois grupos, gritou também.
— Não! Eu não vou me salvar enquanto vocês ficam para trás! Nós não sabemos o que vai acontecer se alguém ficar!
, nós não temos tempo para discutir sobre isso! - gritou também. - Vem logo! Você precisa vir!
O trem apitou e sem conseguir se conter, o garoto olhou para a plataforma de forma automática, o que foi suficiente para que os amigos, que o conheciam desde o nascimento, saberem o que havia acontecido. Era aquela a hora.
— Arraste ele se for preciso, ! — gritou, mas enquanto o garoto voltava para alcançá-lo, negou com a cabeça. Se não poderiam ir todos, então ele preferia que tudo acabasse ali.
— Me desculpa. — sussurrou, deixando que uma lágrima escorresse de seus olhos. Era medo do pensamento que surgiu em sua cabeça, medo de morrer, mas ele nunca antes achou aquilo tão certo.
, não! — gritou, sua voz sendo ofuscada pelo grito dos outros.
Era triste que depois de terem chegado tão longe, precisasse acabar daquela forma, mas se fosse pelos amigos, então podia fazer com satisfação.
Era mais do que uma vida pelo bem de Omelas. Era a sua vida pela vida dos amigos. Um preço baixo a pagar pelo bem dos outros seis.

+++
TRÊS MESES ANTES

Fazia tanto tempo que não via o sol, que sequer lembrava da sensação. Do que era ter luz contra a sua pele, ou o calor. A maldição da cidade fazia com que cada dia fosse mais frio que o anterior, mais triste também. As vezes ele se perguntava o motivo da tristeza, o porquê de todos andarem de cabeça baixa das ruas, falarem tão baixo. Questionava se era a maldição, ou apenas uma consequência dela e dos dias frios que trazia.
Era de se esperar afinal, que uma hora todos se acostumassem com o frio, mas parecia ser o contrário. só não sabia dizer se era como se a falta do calor sugasse também a vida das pessoas ou se era apenas a culpa por saber que que aquilo só passaria quando alguém se sacrificasse por todos. Pior, desejar que isso acontecesse para que pudessem ver o sol novamente.
Mas preferia viver no inverno eterno de uma cidade triste do que ver o sol de novo sob aquelas circunstâncias. Sob a pena da vida de um de seus amigos, porque sabia que seria um dos sete.
Sentado do lado de fora da janela do seu quarto, o garoto suspirou, aproveitando a altura para olhar os muros da cidade. Era engraçado, nada de fato os impedia de sair, mas ninguém jamais havia saído de Omelas. Por curiosidade, ele e seus amigos já haviam tentado, mais de uma vez, mas sempre acabavam voltando para a igreja da cidade, no relógio da torre. Independente de onde pelo muro tentavam sair, era lá que apareciam sempre que atravessavam.
Não que houvesse alguma coisa do outro lado de qualquer forma. No verão, tudo que viam do outro lado era areia, como a de praia, e escuridão. No caso, graças ao inverno, só se via o chão coberto de neve e um vazio assustador gritando que mesmo que houvesse como sair, não teria nada para ser visto.
pensou se não seria mais fácil então, simplesmente pular dali. Ele sempre desejou tanto se libertar. Se pulasse, se libertaria e pouparia um dos amigos de ter que fazer isso. Poderia trazer a alegria de volta para a cidade com seu sacrifício, e o verão. O parque que costumavam frequentar podia voltar a funcionar e todos teriam seu final feliz.
Satisfeito com aquela idéia, levantou. Era o mais perto que chegaria da liberdade, ou de fazer algo por si mesmo, mas então, ao ouvir risos de algum lugar mais abaixo, congelou onde estava.
Mas o que diabos ele estava pensando?
não era suicida. Ele queria se libertar para poder viver, para ser feliz longe dali. Ele não queria que tudo acabasse, ele queria viver de verdade e arregalou os olhos ao se dar conta do que ele esteve prestes a fazer.
Ele ia se jogar? Ele realmente cogitou se jogar?
E então o pânico cresceu em seu peito. Passou tanto tempo preocupado com a possibilidade de um dos amigos ser a oferenda que nem passou por sua cabeça que pudesse ser ele. E se fosse ele?
! — gritou lá de baixo e ainda assustado, o garoto desceu o olhar para encará-lo. — O que está fazendo de pé ai, ficou idiota?
— Mais do que o normal, no caso. — acrescentou aos risos e riu também.
— Ficou mais idiota do que o normal? — reformulou a pergunta, mas não soube o que responder.
— Estamos subindo. — avisou, mas se virou para a janela quando ouviu passos já dentro de seu quarto.
— Eles estão subindo. — respondeu, jogando-se sobre a cama do garoto sem qualquer convite. Já tinham passado desse nível de intimidade há alguns anos. — E deixa de ser idiota, sai logo dai antes que caia. — revisou os olhos antes de estremecer. — Mas que frio faz no inferno desse lugar!
— Esse é o objetivo. — respondeu, jogando-se sobre o puff azul em um dos cantos do quarto. - Agora a tendência é ficar mais frio até que…
— Cala a boca, não fale disso. — o repreendeu, jogando nele o travesseiro de .
— Vamos ter que falar uma hora. — o respondeu, sentando-se no chão ao lado de que já havia se acomodado. - E eu acho que… Eu acho que foi ontem.
— O quê? O ritual? — perguntou, sentando-se ereto sobre o puff enquanto dobrava a atenção que prestava no assunto. , por sua vez, sentiu sua temperatura corporal ir a zero mesmo sob as roupas grossas de inverno e tenebroso, colocou a cabeça para dentro do quarto, não entrando por temer denunciar seu interesse repentino e exagerado no assunto. E se fosse ele? E se ele já estivesse sofrendo as consequências da maldição? — Por que você acha isso?
— Estava fazendo menos sei lá quantos graus na madrugada de ontem, mas de repente meus pais acharam uma ideia excelente dar uma volta no meio da noite. — justificou e bufou, como se demonstrasse insatisfação por ter ficado preocupado por besteira. Como se aquilo não significasse nada além de um alarme falso.
— Eu tenho certeza que existem outros motivos para fazer um casal sair sozinho no meio da noite, especialmente quando eles tem um filho. — respondeu, entrando no quarto e esperando passar para fechar a porta.
fez uma careta, como se só então pensasse sobre isso.
— Obrigado, eu realmente queria adquirir um trauma. — ele falou e deu de ombros enquanto puxava as pernas de para se sentar ao lado dele na cama do mais novo.
— Exatamente por isso eles sairiam, bebezão. — debochou despreocupado.
— Eu acho… — falou, de repente sentindo-se prestes a chorar. Aquele assunto lhe trouxe de volta memórias da noite anterior. Memórias das quais não se lembraria se aquele assunto entrasse em pauta dali há alguns dias, por exemplo. — Eu acordei no meio da noite, ouvindo vozes. Parecia um choro e achei que tivesse acontecido alguma coisa. — continuou, odiando dizer aquilo em voz alta. Fazia com que tudo parecesse mais real e ele odiava aquela realidade, aquela maldição e aquela cidade. — Eu levantei apressado e tudo voltou a ficar em silêncio quando eu tropecei para sair da cama. Achei que tinha sonhado, ou que tinha vindo da rua. Esperei um pouco, mas não ouvi mais nada então voltei a dormir. E se…?
, para. — se sentou, tentando esconder a preocupação com algumas palavras rudes. — Você pode mesmo ter sonhado. Não precisa ter começado.
, ninguém mais aguenta esse frio. Os aquecedores não dão mais conta. — justificou.
— Está frio porque esse idiota está com a janela aberta. — apontou para . — Dá pra entrar e fechar isso? — falou autoritário e obedeceu sem dizer nada. estava tão assustado quanto todos os outros, e aquela era sua forma de demonstrar isso. , aliás, sempre teve uma forma um tanto quanto peculiar de demonstrar afeto, mas ele não precisava dizer o que sentia para que os outros soubessem. Estava ali, sempre que ele olhava para os mais novos como um pai orgulhoso, mesmo quanto estavam sendo idiotas. Ou quando brigava para que comessem, que colocassem a blusa, ou que saíssem do telhado porque podiam morrer, como há pouco.
— Você sabe que não é só isso. Está finalmente acontecendo. — falou, com uma seriedade que raramente demonstrava apesar de ser o mais velho. — Ia acontecer mais cedo ou mais tarde e aconteceu.
— Não. — negou com a cabeça, recusando-se a aceitar que um deles estava fadado a morte. — Ninguém está sentindo nada de diferente, está? Estamos todos bem.
— Não sabemos como funciona a maldição, . — o respondeu com calma. Uma que ele definitivamente não sentia diante da situação, mas que fingiu sentir. — Não sabemos se vai mudar alguma coisa ou se vai simplesmente acontecer.
— Então precisamos saber. — devolveu inabalável. — Sondamos nossos pais e se isso não resolver, invadimos a casa do ancião.
— Invadir, ficou louco? — respondeu, perplexo, de onde estava, sentando ao lado de enquanto dividiam um espaço que certamente não fora feito para suportar duas pessoas.
— Eu não vou deixar ninguém ser o sacrifício de nada! — retrucou, aumentando o tom de voz inconformado que tivessem realmente debatendo o assunto.
— Não funciona assim, . — respondeu com pesar e todos se voltaram para ele, atentos ao que tinha a dizer. Especialmente , que sentia seu coração prestes a sair pela boca. — Não vão escolher um para matar. É espontâneo. — explicou, e sentiu o medo crescer em seu peito com a fala.
— Espontâneo? — o garoto perguntou, surpreendendo-se consigo mesmo por soar tão firme. — O quê? Alguém vai simplesmente sentir uma necessidade maluca de se matar?
— Pelo que eu entendi, é. — respondeu e apenas concordou com a cabeça.
— Isso… — negou, recusando-se a aceitar aquela possibilidade. — Tem que ter alguma coisa que possa ser feita e só vamos descobrir se procurarmos. Se fizermos o que for necessário para encontrar. — disse com convicção. — Não vamos perder ninguém. Não podemos. E se qualquer coisa mudar, se alguém sentir qualquer coisa diferente, vai contar porque precisamos impedir o que quer que seja isso.
— E se não tiver o que fazer? — perguntou receoso. Ele cresceu sonhando em fugir de Omelas e ao mesmo tempo, ciente de que era impossível. Ele cresceu temendo o dia em que aquele momento chegaria, o de perder um membro do grupo, e saber que a pessoa poderia ser ele, o assustava tanto quanto.
Não sabia dizer se tinha mais medo de morrer, ou de perder alguém que amava.
— Você vai se perdoar por nunca ter tentado? — devolveu, e apenas o encarou. Se fosse um deles, não. Mas e se tentar apenas fizesse tudo ficar pior para ele? Ter esperanças de que poderia ter salvação quando não tinha.
— Nunca vou me perdoar se um de nós precisar morrer pelos outros. — respondeu por e o mais novo lutou para controlar o misto de sentimentos conflituosos em sua mente. Deveria ficar satisfeito por ser ele e não os outros, mas estava tão assustado com a possibilidade de perder a própria vida que simplesmente não conseguia. Isso, claro, trazia também a culpa. Ele podia ouvir aquela vozinha no fundo de sua mente dizendo que talvez o momento no telhado não fosse nada. Estavam apenas no segundo andar, ele não morreria se caísse.
Mas se não fosse ele, seria um dos outros.
só queria que todos pudessem ficar bem.
— Não vamos deixar que aconteça. — levantou da cama, e fez sinal para que fizessem o mesmo.
— O quê? — perguntou, confuso, mas apenas repetiu o gesto.
— Vem logo. — insistiu, e quando todos pararam em um círculo, ele olhou para o rosto de todos, um a um, antes de continuar. — Se qualquer um de nós sentir qualquer coisa fora do normal, vai contar. Isso é uma promessa. Se qualquer coisa mudar, vai contar. Precisamos saber, precisamos nos prevenir enquanto buscamos uma forma de fugir disso, sair de Omelas, e vamos conseguir.
— Ninguém jamais saiu de Omelas antes, . - respondeu cabisbaixo, mas o outro não se abateu por isso.
— Como você sabe? Quem saiu não pode contar, pode? Não está mais aqui. — retrucou antes de suspirar. — Eu sei que ter esperança só vai fazer doer mais se tudo der errado, mas não podemos só ficar parados, esperando que aconteça. Maldições começam por um motivo e sempre têm uma forma de serem quebradas. Precisamos descobrir a nossa, lutar por isso e postergar o sacrifício pelo máximo de tempo que pudermos assim que descobrimos o escolhido.
estendeu uma das mãos para frente, em sinal de punho.
— Então a promessa é fazer tudo que for possível. — falou e concordou, estendendo sua mão também.
— Fazer tudo que for possível e lutar. — repetiu, acompanhando com o olhar quando ergueu seu próprio punho, seguido de com um sorriso no rosto e . foi o próximo, com um olhar de satisfação no rosto. Um que não era comum naquela cidade, nos tempos difíceis que se faziam e apenas vacilou ao entrar ali.
? — chamou, a preocupação evidente em seu tom de voz. — Está tudo bem? — perguntou e o garoto lutou para esconder seu olhar amedrontado antes de encará-lo.
— Sim. — respondeu, erguendo seu punho para se juntar aos outros.
— Se tiver algo errado, precisa nos dizer.
— Não tem nada de errado. — garantiu, suspirando antes de desviar o olhar para suas mãos juntas no meio da roda.
— Faremos o que for possível. — disse também, mesmo sem ter a certeza de que isso era o melhor, ou do quanto daquele pensamento de desistir, era apenas a maldição falando por si.


Capítulo 2

tremia de frio quando olhou para a neve sob seus pés descalços. Àquela altura, cada noite era mais fria que a anterior e não fazia qualquer sentido que ele estivesse descalço naquele frio, no meio da cidade. Foi pensando sobre isso que ele se deu conta de outro detalhe, como o fato de não ter ideia de como havia chegado ali. Estava na praça, embaixo de um das maiores nevascas que já havia presenciado e vestia apenas uma calça de moletom e uma camisa fina de mangas compridas. Definitivamente finas demais para o frio que fazia.
O garoto cruzou os braços em frente ao peito e confuso, olhou ao redor. Não havia uma única pessoa na rua, e nem era de se estranhar. O frio era tanto que até mesmo seus ossos chegavam a doer. Louco era ele de ter saído de casa.
Foi então que se perguntou se aquilo também era uma consequência do ritual. Talvez ele também levasse sua sanidade e o garoto tinha caminhado até a praça no meio da noite em uma forma de se matar inconscientemente. Era assim que funcionava, não era? Suicídio inconsciente? Caminhar pela rua com uma blusa tão fina no meio de uma noite em Omelas só podia ser mais uma tendência suicida. Morte por hipotermia, quem sabe. Não podia negar que fazia sentido.
Decidido a não deixar que as coisas terminassem daquela forma, não tão rápido e sem luta, deu o primeiro passo para frente, mesmo que ainda não tivesse um plano ou mesmo um lugar para onde ir. Podia, quem sabe, quebrar a janela de um carro para se proteger do frio ou invadir uma casa. Seria péssimo, é claro, explicar para as pessoas o motivo disso, mas não era como se ele tivesse muitas opções. Era isso ou a morte, e ele não queria morrer. Não estava pronto independente de soar como egoísmo e tampouco deveria ser julgado por querer viver.
No final, era uma situação cruel. Não só pelo sacrifício, mas pela forma como aquilo abalava seu psicológico. Fazia você culpar a se mesmo por ter medo, se condenar por escolher lutar, escolher viver e o ódio que sentiu foi o combustível necessário para que ele conseguisse dar mais um passo, sem olhar para o chão.
Seus dedos doíam tanto em contato com a neve que ele teve medo de olhar e descobrir que estavam roxos. Apenas torceu para que a dor fosse um sinal de que ainda não haviam congelado.
Por quanto tempo, afinal, estava ali? Por quanto tempo havia andado até chegar ali? A praça ficava há uns cinco minutos de caminhada de sua casa. Fazia cinco minutos que ele andava inconsciente naquele frio? Isso era possível?
sentiu sua garganta se fechar, mas lutou para se manter firme. Ele e os garotos haviam feito uma promessa. Conseguiriam dar um jeito naquilo, mas para isso ele tinha que ficar vivo e chorar não ia adiantar.
Os outros podiam não estar ali, mas sabia que não estava sozinho e tinha que fazer isso por eles. Sabia que se estivessem ali, pediriam para continuar e foi por isso que ele ergueu a cabeça e deu mais um passo, mesmo que todas as juntas de seu corpo doessem como se cada passo exigisse um esforço ainda maior.
Mas foi então que ele se deu conta de algo. Apenas uma porta aberta de início, mas que no meio da noite era de se estranhar. não sabia que horas eram, mas não havia uma única luz acessa nas casas, o que o fazia imaginar ser de madrugada.
Se era tão tarde, por que haveria uma porta aberta?
Mas do outro lado da rua, notou também uma janela quebrada. Do outro, um carro batido no poste e mais portas abertas. Comércios com fachadas derrubadas, paredes pichadas, lixo na rua e nada que indicasse qualquer espécie de civilização.
sentiu seu corpo todo se arrepiar, mas o motivo agora não era apenas frio.
Não tinha como seu tempo ter acabado quando mal havia começado, tinha? Sequer havia tido a certeza de ser ele, então não podia ser isso. Não ainda. Se recusava a aceitar que fosse, que tinha acabado e só ele havia sobrevivido porque se recusou a morrer. A morte de todos os outros não podia ser consequência. Ele queria acreditar nisso, mas o medo que tomou conta de todo o seu corpo dizia o contrário.
”A culpa é sua.” ouviu de um ponto qualquer atrás dele e pulou de susto, virando-se imediatamente. Ele procurou o dono daquela voz, sabia que era familiar embora soasse longe demais para que ele fosse capaz de reconhecer ou encontrar a fonte.
”Essa é a consequência de ser um covarde” — ouviu novamente, do outro lado, e também se virou para procurar quem falava. Mais uma vez, no entanto, não encontrou nada.
”Se desde o início tivesse feito o que precisava, isso não teria acontecido” — ouviu novamente, agora a sua frente, mas não adiantava procurar a fonte, não havia ninguém além dele ali.
— Queria viver, ? — voltou a arregalar os olhos ao reconhecer a voz como sendo a de . Era igual a primeira que falara, mas agora estava próxima o suficiente para que ele ligasse a pessoa. Seguiu o som, e agora pôde encontrar o amigo. estava na sacada de uma das casas, mas diferente do que esperava, não se sentiu aliviado por ter o amigo com ele, muito pelo contrário. tinha olheiras fundas ao redor dos olhos, como se estivesse doente, e uma corda ao redor de seu pescoço que fez o coração de vacilar.
, o que você… — o garoto gaguejou, dando alguns passos dolorosos em sua direção, mas tudo o que o amigo fez foi sorrir, de forma completamente diferente do seu habitual. O que ele conhecia era sempre alegre e divertido, mas aquele sorriso não tinha nada de alegre. Era um sorriso perverso e quase doentio. diabólico, como se estivesse se divertindo com a situação e principalmente, com o medo de .
— Agora viva sozinho. — falou apenas antes de pular e horrorizado, nem ao menos teve tempo de gritar, sentindo o coração parar completamente com a cena. Não levou nem mesmo um minuto. Foi imediato. A cabeça de simplesmente pendeu para o lado e o som que seu corpo fez ao cortar o ar quando desabou foi algo que soube, ficaria para sempre em sua memória, assombrando-o por toda eternidade.
O corpo sem vida de balançou na corda suspensa na sacada e sentiu as lágrimas quentes rolarem por seu rosto, queimando a pele tão fria com o vento do inverno.
não sabia o que pensar, não sabia o que fazer e sequer foi capaz de emitir qualquer som. Apenas ficou ali, parado, encarando o corpo de J- pendurado logo mais a frente enquanto era consumido pelas lágrimas e pela dor de perder um amigo. Seu melhor amigo. Dor o suficiente para anestesiá-lo e privá-lo de qualquer outra reação além daquela, de ficar ali repetindo a cena mentalmente por vezes demais.
— Preferiu lutar, ? — reconheceu a voz de , atrás de si, mas de alguma forma ele soube o que lhe esperava. Perderia mais um, sentiu aquilo em sua alma e apenas fungou antes de se virar para ele, muito mais lentamente do que faria em qualquer outra situação. Tinha medo do que viria a seguir e precisou prolongar aquilo, mesmo ciente de que era inevitável.
Quando seus olhos se encontraram com os de , de pé sobre o telhado de um comércio próximo, sentiu um soluço se formar em sua garganta, mas não conseguiu fazer nada além de negar com a cabeça e implorar para que não pulasse com um sussurro inaudível que foi totalmente ignorado.
— Agora lute sozinho. — completou a frase antes de pular como J- havia feito há pouco.
levou uma das mãos até a boca, aterrorizado com o que quer que fosse aquilo. Seu corpo foi tomado por tremores, pelo menos duas vezes mais forte do que os que já o tomavam devido ao frio. Ele sabia que esse não era mais o motivo. Nem ao menos conseguia sentir o frio com a visão a sua frente, o corpo de tão sem vida quanto o de J-.
Mas foi com um estalo que se deu conta, aquilo podia ser apenas um sonho. Tinha que ser um sonho.
— Por favor, acorde. — implorou com os olhos fechados. — Acorde, por favor, acorde. — pediu, sentindo sua respiração falhar em meio às lágrimas intensas que já derrubava, prestes a sucumbir ao terror de perder duas das pessoas que mais amava.
— Preferiu ser forte, ? — ouviu agora, e suas pernas vacilaram, fazendo-o cair de joelhos na neve. O garoto não abriu os olhos agora. Mesmo que aquilo fosse um sonho, perder os amigos doía demais, vê-los daquela forma doía demais e ele negou com a cabeça enquanto continuava, mentalmente, implorando para que fosse tudo um sonho. Jamais poderia suportar se não fosse. — Seja forte… Sozinho. — completou e de olhos fechados apenas ouviu o som de seu pescoço quebrando quando pulou, com a corda amarrada no mesmo lugar que os outros dois haviam amarrado.
O garoto tapou os ouvidos enquanto abaixava a cabeça para não ver quem era o próximo, mas ainda assim ouviu a voz de com a próxima frase.
— É só um sonho. — repetiu em voz alta para abafar o som proveniente da morte de , e de depois dele, seguido por . — É só um sonho. — falou mais uma vez, quase não podendo reconhecer a própria voz em meio às lágrimas.
Mas o som de passos finalmente o fizeram abrir os olhos e o garoto ergueu a cabeça assustado apenas para ver os seis amigos ali, parados bem a sua frente.
Em choque, ele caiu para trás, olhando ao redor. O corpo sem vida de cada um deles ainda prendia nos lugares de onde haviam pulado e ele engoliu em seco, sentindo todo o pouco calor que restava em seu corpo se esvair de uma só vez.
— A culpa é sua. — falaram em coro, dando um passo em sua direção e imediatamente se arrastou para trás, apavorado.
Nenhum dos amigos se parecia com seus amigos. Os olhos mais escuros que o normal, pupilas dilatadas demais para ser normal. Olheiras tão fundas quanto as de J-, a pele tão pálida quanto a própria neve e expressões secas, totalmente sem vida.
— A culpa é sua, . — repetiram, se aproximando mais um passo e, dessa vez, tudo o que o garoto conseguiu fazer foi encará-los enquanto mais um passo os colocavam próximos o suficiente para tocar seus pés.
— A culpa é toda sua! — aumentaram a voz, que refletiu por toda a praça em um eco apavorante. olhou brevemente para trás, sentindo um arrepio intenso tomar conta de seu corpo e quanto se voltou para frente, já era tarde demais. Seus amigos, todos os seis, se jogavam sobre ele e com um grito tudo o que fez foi cair para trás, sendo consumido pela escuridão.

+++


O grito de pareceu tão real que o impacto de sua voz fez com que despertasse. Ele olhou para a frente, buscando entender o que estava acontecendo, e notou que seu corpo não respondia mais aos seus comandos. Estava frio, muito frio, e ele soube de imediato que essa parte não havia sido somente fruto de sua imaginação, nem algo inventado por alguma parte de sua mente junto com aquele sonho. Era tudo real. O vento, a neve, a maldição e principalmente o fim de Omelas, cada dia mais próximo.
— Não… — sussurrou, entrando em estado de transe entre a realidade e o que havia visto há pouco tempo. Na morte de cada um dos seus amigos.
Sem que pudesse controlar, deixou que a confusão dominasse todo o seu inconsciente, repassando de novo e de novo toda a dor que havia sentido ao ver os amigos cometerem suicídio bem na sua frente. – Foi só um sonho... – tentou lembrar a si mesmo, mas nem mesmo isso foi o suficiente para que sua mente se desligasse daquele terror.
Aquilo, o sonho, era mais um artifício da maldição para fazer com o que ele desistisse? Ou era um presságio do que aconteceria de verdade se ele não se entregasse?
— Não… — ele voltou a repetir, em estado de choque. Seus amigos jamais o culpariam por ficar vivo. Era um sonho, era a maldição tentando induzi-lo e ficou perturbado ao notar a força que ela tinha. Jamais conseguiria tirar aquele sonho de sua mente e apenas ficou ali, parado, tentando recobrar a consciência enquanto gritava por seu nome de algum lugar que, para ele, parecia muito distante, mesmo que na realidade tivesse parado bem ao seu lado.
? ?! — balançou o corpo dele em desespero e finalmente pôde sentir algo além da inércia. Seus pés ardiam, seus dedos doíam e o frio parecia invadir cada músculo do seu corpo.
— O que está acontecendo? — perguntou desnorteado, como se finalmente se desse conta de ali, ao seu lado. Aos poucos, a realidade a sua volta passou a fazer algum sentido, mas quando notou que vestia apenas o pijama fino no frio de Omelas, já era tarde e suas pernas vacilavam.
— Calma! — imediatamente envolveu seu corpo em um abraço apertado, sustentando seu peso para evitar que caísse. — O que você… — sem fôlego, não conseguiu terminar a frase, apertando o garoto com mais força ao notar o quão gelado estava e o quanto ele tremia. — Que loucura é essa ?! O que você pensou saindo assim?! — rapidamente, ele empurrou o corpo do amigo para dentro da enorme casa e aos gritos, tentou acordar alguém para ajudá-lo a aquecer o garoto.
— E... eu… — não conseguiu falar, batendo os dentes com força uns contra os outros devido aos tremores causados pelo frio. Ele levantou uma das mãos, segurando forte no ombro de tentando não desmaiar quando sentiu sua consciência se esvaindo. Suas mãos pareciam pegar fogo com o frio congelante e em algum momento, notou que já não era capaz de sentir os próprios pés. Até mesmo parte do seu rosto latejava com o contato direto com a neve sem nenhuma proteção. — , não sinto… — tentou dizer, sendo tomado pelo desespero de acordar em meio a neve sem ter ideia de como havia chegado até ali.
! ! — gritou em pânico, vendo os olhos dele ficarem focados em seu rosto e a sua respiração mais lenta. — Cara, não desmaia. Não feche os olhos, por favor. — segurando o peso do amigo com dificuldade, ele caminhou com para o enorme sofá ao lado da lareira. — Você só precisa ficar aquecido…
, está muito frio... — o puxou para perto, com os lábios completamente roxos em busca de qualquer fonte de calor.
? — apareceu e segurou o amigo pelo pulso, reparando na maneira desnorteada que ele cambaleou para o lado e caiu contra o sofá. Só então notou que algo não estava certo e sentiu o pânico lhe dominar ao notar o quão gelado estava. — O que aconteceu? ? O que foi? — desesperado, balançou o amigo para frente e para trás, mas o garoto não respondia mais a nenhum comando.
— Não sei! – gritou afobado, se afastando de para cobrir com a manta do sofá. - Escutei alguns barulhos no andar debaixo, acordei assustado e não encontrei o na cama. — explicou rapidamente, atordoado sem saber o que mais poderia fazer para melhorar a condição do amigo. — DEUS! POR QUE NINGUÉM ACORDA? — ele berrou novamente, tentando fazer com que alguém escutasse.
se encolheu com a coberta ao redor de seu corpo, e jogou-se também no sofá de imediato, trazendo o amigo para seus braços na mínima esperança que com o contato do seu corpo ajudasse com a hipotermia.
! O que aconteceu? — desceu as escadas, pulando alguns degraus muito assustado com a gritaria que havia formado ali. — O que ele tem? O que aconteceu?! — ele levou uma das mãos até os cabelos, olhando desamparado para tremendo nos braços de .
, pega alguma coisa quente na cozinha pra ele! — implorou, não sabendo mais o que fazer com todo o pânico que fazia sua cabeça rodar. — Preciso aumentar esse fogo. — ele buscou o saco de lenhas que sempre ficava ao lado e rapidamente começou a jogar contra a chama da lareira.
, eu estou com você. — aninhou o amigo por entre os braços sem intenção nenhuma de soltá-lo naquele momento. A respiração dele ficou tão curta e lenta que tentou não pensar no pior. Não tinha condições nenhuma de sair naquela madrugada e muito menos chamar a ajuda de algum médico. O centro hospital estava fechado a essa hora e por causa da grande quantidade de gelo, os carros estavam cobertos sem ter como sair dos lugar. — , busca uma bacia de água quente para colocar os pés dele. – ordenou, e deixou de lado o que fazia para obedecer.
— MEU DEUS, O QUE HOUVE?! — surgiu dois minutos depois, descendo as escadas com vários cobertores nas mãos após ser instruído por , que ele encontrou no caminho. Rapidamente, seguiu em direção ao sofá da sala e cobriu o garoto com os cobertores. — ! ! NÃO FECHE OS OLHOS. — gritou em desespero, temendo que o amigo tivesse entrado em colapso com o frio.
— Não sei mais o que fazer. — apareceu, vindo da cozinha com uma enorme caneca cheia de leite quente. – Cadê os pais dele?! – perguntou, notando que nenhum deles havia aparecido ainda, mesmo com a gritaria.
Com as mãos, trêmulas tentou empurrar o líquido quente por entre os lábios de , que girou a cabeça de um lado para o outro parecendo sentir dor naquela região sensível.
— Não deixe-o dormir! — ordenou, envolvendo o amigo com mais cobertas enquanto ainda o segurava contra o corpo. — , tente aquecê-lo! E fique conversando para que ele faça o mesmo. — desesperado, ele a todo custo começou a fazer massagens por toda parte do corpo de , sabendo que de alguma maneira isso ajudaria na circulação do sangue.
O que fazer em caso de hipotermia era a primeira coisa que aprendiam nos cursos de primeiros socorros na escola e por sorte, ele ainda lembrava alguma coisa.
— Ei, ? — pressionou ambas as mãos no rosto dele, chamando a atenção do garoto. — Beba um pouco de leite, por favor? Só um pouco. — pediu, empurrando a caneca novamente contra a boca dele. — ? ? — aflito com a situação e com a falta de reação dele, soltou um longo grito pela garganta, assustando os amigos e despertando do transe que se encontrava.
— Isso! — comemorou ao vê-lo despertar. — Tudo bem, . Nós estamos com você, não vamos a lugar nenhum. — confortando e deixando-o aquecido, trouxe da cozinha uma enorme bacia com água quente, mergulhando os pés dele para ajudar o aquecimento total de todas as partes do corpo dele que tiveram um contato mais direto com o frio.
— Alguém sabe o que aconteceu com o e com o ? — perguntou curioso, não conseguindo encontrá-los em nenhum lugar da sala. — Não é possível que ainda estão dormindo com todo esse escândalo! — ele ficou assustado, não sabendo como os dois tinham um sono tão pesado daquele jeito.
— O que aconteceu com ele? — quis saber finalmente ao ver o amigo recuperando a cor dos lábios. Ele não tremia tanto e o olhar desesperado de ficou mais suave notando que a respiração dele normalizou com a massagem e a bacia com a água que aquecia os pés. — Por que ninguém quer me responder? — ele novamente questionou, recebendo olhares indiretos e vagos sem qualquer explicação.
o encontrou do lado de fora da porta. Ninguém sabe como ele desceu sozinho, ou o motivo. — começou a falar, preocupado com a situação do amigo.
Pensar na maldição era inevitável. Se perguntar se o que havia acontecido não era por isso, mesmo que ainda não entendesse muito bem como havia terminado naquele estado.
Tinha que ser muito louco para sair de casa em um frio daqueles, especialmente de pijama, e vendo o garoto um pouco melhor, sentiu seu coração vacilar com aquela possibilidade.
Não era , era? Aquilo não podia ser a maldição já se manifestando, podia?
— Não, tem que ter uma explicação. — falou, recusando-se a aceitar aquela possibilidade mesmo que ninguém tivesse ao menos verbalizado qual era. — Não é ele, não pode ser ele.
— Vai ser um de nós, . — falou já mais calmo, sem tirar os olhos de que voltava a fechar os olhos. — ? Acorde. — pediu, mas antes que se inclinasse para sacudí-lo, que ainda o segurava nos braços o fez, e mesmo perdido o garoto voltou a abrir os olhos. — , o que está sentindo? — perguntou, levantando-se quando apenas fechou os olhos novamente ao invés de respondê-lo.
— Ele está perdendo a consciência! — se alarmou ao sentir o corpo do garoto amolecer em seus braços. — ?! — gritou, mas o garoto apenas murmurou qualquer coisa inaudível antes de sucumbir de uma vez.


Capítulo 3

A lareira ainda estava acesa e dormia no sofá, sob uma pilha de cobertores, enquanto os outros andavam de um lado para o outro na sala, exceto por .
Não dava para ver nada do lado de fora, independente das luzes acesas na rua ou a lua no céu. A nevasca caia forte, e ele tinha um péssimo pressentimento sobre isso, como se fosse uma espécie de sinal para o que estava acontecendo.
acordou no meio da noite e saiu para fora, embaixo de um frio de menos sabe-se lá quantos graus, mas definitivamente o suficiente para que qualquer pessoa em seu juízo normal acordasse imediatamente.
Mas ele não acordou. Mesmo enquanto gritava, mesmo enquanto o sacodia, não acordou e enquanto pensava nisso sentia sua entranhas se revirarem em agonia. Era ele, o escolhido era e a nevasca um alerta, como se aquela merda de lugar tentasse jogar na sua cara o que estava fazendo, que apenas levar não era o suficiente, iria torturá-lo de todas as formas até que se entregasse de uma vez.
Pensar em perder qualquer um deles fazia com que seu estômago se embrulhasse. Pensar que não havia nada a ser feito além de ver o garoto sucumbir diante de seus olhos o enlouquecia.
— Não tem ninguém. — falou ao descer correndo as escadas e todos os outros se viraram para ele, inclusive que xingou baixo com aquela afirmação. Só faltava essa, definitivamente.
— Nem os pais dele? — perguntou surpreso e negou com a cabeça.
— Ninguém. — repetiu, voltando-se para o garoto desacordado sobre o sofá em seguida. — Como ele está? — perguntou, e negou com a cabeça enquanto respondia:
— Parece melhor. — disse, olhando para o amigo também.
— “Parece”, isso que me preocupa. — respondeu, suspirando inconformado enquanto se sentava no chão, de costas para a lareira e de frente para o sofá, encarando um adormecido.
— Não é como se tivéssemos outra coisa para fazer agora, no meio da noite e dessa nevasca. — o respondeu novamente, sentando-se ao seu lado e inclinando-se para frente, a fim de tocar a testa do mais novo sobre o sofá. — Ele está mais quente pelo menos. Já não treme mais e tem batimentos. Isso é bom.
— Mas ele não acorda. Por que ele não acorda? — respondeu assustado e abaixou a cabeça quando sentiu as lágrimas encherem seus olhos. Ver aquilo foi ainda pior para , que voltou a dar as costas para o grupo e se focar na janela, pensando em qualquer coisa que pudessem fazer para parar aquilo.
Tinha que haver algo a ser feito. Maldições tinham um ponto final e precisavam descobrir o final daquela. não era capaz de aceitar que não houvesse uma solução.
— Ele vai ficar bem. — respondeu a e, pelo reflexo da janela, pôde ver o mais velho tocar o ombro do garoto com uma das mão em sinal de apoio. — O corpo dele sofreu um trauma, e ele apagou, mas vai ficar bem. Ele só precisa de um tempo para se recuperar.
concordou com a cabeça, mesmo não parecendo levar muita fé naquilo ainda. Ele e olhavam preocupados para o garoto, mas quando pensou em dizer algo sobre aquilo, a porta da frente foi aberta com um estrondo, fazendo com que todos os presentes se assustaram com o ocorrido.
— Onde estavam?! — perguntou duas vezes mais alto do que o necessário, se pondo de pé ao ver e passarem pela porta. Ambos tremiam com o frio, mas de alguma forma pareciam acelerados e agitados demais, alarmando os outros de imediato. — O que vocês têm na cabeça de sair assim?! — continuou, mas interrompeu sua fala com outra coisa em mente:
— Por que saíram assim? — quis saber. — O que houve?
— Os pais do saíram no meio da noite, numa porra de nevasca dessas! — exclamou espantado, esfregando as mãos umas nas outras enquanto se aproximava da lareira. — Quem diabos faz isso?!
— O . — respondeu inocentemente e como se só então se dessem conta do garoto desacordado no sofá, se voltaram para ele, alarmados.
— O que houve aqui? — perguntou, aproximando-se de enquanto atropelada totalmente o assunto. — Por que estão todos acordados?
suspirou, abaixando a cabeça e mordeu o lábio inferior, nervoso com o assunto.
— O encontramos do lado de fora. — foi quem explicou. — Só de pijamas e descanso.
— Ele enlouqueceu?! — perguntou, espantado. — Saímos com roupa até o pescoço e quase congelamos! O que deu dele?! Ele está bem?! — ajoelhou em frente ao garoto, tocando sua testa, mas não se moveu. — Por que ele não acorda?!
— Ele desmaiou. — respondeu. — Nos o aquecemos, mas ele já está assim há algum tempo.
— Precisamos levá-lo ao médico! — exclamou, mas negou com a cabeça.
— Como? Olha o tempo lá fora, . Mal conseguimos sair e voltar. Como ainda vamos levá-lo se não tem nem ao menos como usar os carros?
— E não tem condições de simplesmente o colocarmos exposto a esse frio novamente. — ressaltou. — Aqui ele pelo menos está aquecido.
— Por que ele fez isso? — perguntou, dando-se por vencido, e foi ai que o clima da sala despencou ainda mais. Todos imediatamente se calaram enquanto arregalava os olhos. Os que presenciaram a cena toda já haviam pensado sobre o assunto, mesmo sem se aprofundarem nele ou falarem muito sobre isso em voz alta. Estava evidente a verdade, mas ninguém queria expor, temendo que isso de alguma forma tornasse tudo mais real.
E o maior desejo de todos ali basicamente era aquele: Que nada daquilo fosse real. Que tivesse como fugir daquela cidade, daquela maldição e daquela vida.
— Não… — negou, se recusando a acreditar que já havia chegado a hora. Sequer haviam começado a procurar ainda. Seguindo os pais de tiveram a primeira pista, não aceitava que aquilo tudo seria em vão, que se tornariam seis antes mesmo de ter a oportunidade de tentar. — Tão… rápido? Pode ter sido outra coisa.
— E por qual motivo alguém faria isso? — perguntou, negando com a cabeça enquanto, em seus pensamentos, as imagens de totalmente fora se si voltavam em sua mente. Passou vários minutos sacudindo o garoto, aos berros, antes que ele acordasse. Lembrou-se das palavras desconexas, das lágrimas que escorriam por seu rosto sem que o garoto percebesse o que fazia. Lembrou-se do medo que sentiu quando os tremores tomaram conta de seu corpo e do olhar tão assustado e perdido de quando finalmente voltou a si, sem conseguir entender nada do que havia acontecido ou de como havia terminado ali, no meio da noite. — Você não viu como ele estava quando o encontrei. — falou, sorrindo minimamente para disfarçar a amargura. — Ele estava assustado, apavorado. O que quer que isso seja, está mexendo com ele, o induzindo a fazer mal a si mesmo. Temos que fazer alguma coisa, pra ontem.
— Nós seguimos os pais dele. — falou de uma vez, voltando-se especificamente para . — Eles foram para o bosque. Não conseguimos chegar muito perto e estava nevando demais para que pudéssemos ouvir, mas era definitivamente o ritual e eles usavam um livro para fazê-lo.
— Um livro? — perguntou interessado e ergueu uma sobrancelha sem dizer nada, sentindo uma pontinha de esperança surgir.
concordou com a cabeça.
— Grosso e velho, do tipo perfeito para se passar de geração por geração com os segredos sujos de Omelas. — explicou. — Uma ótima sugestão de lugar por onde começar.
concordou sem dizer nada, e provavelmente teria rido satisfeito se o estado de ainda não o preocupasse tanto.
— O que me deixa mais espantado é que eles estavam fazendo, nossos pais, de todos nós, junto com o ancião. - falou cabisbaixo e negou com a cabeça.
— Como eles podem fazer isso? — perguntou. Desde o início sabiam que seus pais tinham que participar daquilo, mas ainda assim não podia acreditar que estavam envolvidos em algo tão terrível. Era igualmente decepcionado e triste. Não era só um deles que seus pais estavam entregando. Podia ser ele.
A cidade valia tanto assim? O suficiente para entregarem uma vida, mesmo que fosse o filho único?
Sua garganta se fechou, e não sabia o que o fazia se sentir pior, a traição dos pais ou a possibilidade de perder o amigo.
Antes que mais alguém pudesse dizer qualquer coisa, a porta foi novamente aberta, agora com mais calma, e novamente os garotos se voltaram para lá, todos juntos. Já se passava das quatro horas da manhã, e os pais de demonstraram surpresa ao ver todos ali, reunidos na sala de estar.
— O que estão fazendo todos aqui, acordados tão tarde? — perguntou a mulher, sorrindo como se tudo estivesse muito bem e sentiu dela o maior ódio que já havia sentido. Era uma mistura de raiva com a mesma dor e decepção de por saber que seus pais estavam fazendo parte daquilo. Todos se sentiam da mesma forma, aliás, mas nada era pior do que a raiva que sentiu dos pais de , porque ele havia sido o escolhido e eles estavam agindo como se não absolutamente fosse nada.
Era cruel, era brutal, e estavam entregando o próprio filho a isso.
— Pelos menos ficamos em casa. — devolveu, não se importando com qualquer espécie de respeito, formalidade ou com o fato de que estava na casa deles. — O que faziam na rua tão tarde? Num tempo desses?
A expressão no olhar do pai do garoto deixou bem óbvio que ele não tinha gostado do tom, mas a mulher apenas riu, para amenizar o clima. Típico dela, alias. Sempre tranquila, acalmando os ânimos, mas não deu certo dessa vez.
— Não são só os adolescentes que podem sair por ai a noite. Adultos também podem fugir um pouco às vezes, especialmente quando temos sete crianças em casa. — brincou, mas permaneceu olhando para ela com a mesma expressão. Sério, irritado, e ainda trincou os dentes.
— Entregar crianças pra morte se encaixa onde nessa fuga? — foi direto ao perguntar e a mulher imediatamente deixou o sorriso morrer.
— O que quer dizer com isso? — ela perguntou, mas o homem ao seu lado já tomava a frente, segurando-a pela mão como se tentasse transmitir forças a ela.
— Onde está ? — ele perguntou, dando pela falta do garoto, e a mulher imediatamente arregalou os olhos, perdendo toda a cor que sua face havia ganhado com o frio cortante do lado de fora. Ela foi a frente, e dois passos foram suficiente para ver que alguém estava no sofá, fazendo com que ela corresse até ali imediatamente.
! — exclamou apavorada. Lágrimas começaram a escorrer de seus olhos e no segundo seguinte o homem já se abaixava ao lado dela em frente ao sofá.
? — ele chamou, sacudindo o garoto enquanto a mulher encarava em busca de respostas.
— O que houve? O que aconteceu com ele?!
— Vocês. — respondeu.
… — o repreendeu em tom de aviso.
— Não me repreenda, você sabe que é verdade. — respondeu ao amigo antes de se voltar aos pais de outra vez. — Essa porra de cidade aconteceu, esse ritual. E vocês participaram disso, entregaram o próprio filho!
Os pais do garoto imediatamente se calaram, arregalando os olhos novamente ao erguer o olhar outra vez para .
— Ele… é ele? — o pai do menino perguntou, mas a mulher já escondia o rosto nas mãos, deixando que as lágrimas se intensificassem.
— É triste saber que é o , mas estaria tudo bem se fosse um de nós? — voltou a dizer e foi quem tomou a frente agora, por mais surpreendente que aquilo fosse. O garoto tocou as costas do amigo com uma das mãos, segurando-o pelo braço em seguida.
, chega. — pediu gentilmente e suspirou, tentando controlar a si mesmo. A situação toda era revoltante, para se dizer o mínimo. Sentia-se traído, mas nem mesmo isso era pior do que saber que eles haviam entregado , o filho, para um sacrifício ridículo.
— Não. — se pronunciou também, desviando o olhar para os pais do garoto. — Eu também quero saber. Fomos criados juntos, como irmãos. Cada dia uma casa era nossa casa, um pai era o nosso pai, e então vocês se juntam e simplesmente decidem entregar um de nós?
— É um pelo bem de todos os outros, . — a mulher respondeu e o garoto jogou os braços para o alto, inconformado.
— Então tudo bem se esse alguém for o ?! Ou vocês tinham esperanças que fosse eu, ou quem sabe o ? Como vocês podem pensar assim?!
— Não foi nossa escolha, ! — a mulher se exaltou também, levantando-se do local onde estava, de frente para o filho. — É assim que as coisas são!
— E alguém fez qualquer coisa para ter certeza disso?! — ele perguntou exaltado, espantando a todos por isso. nunca tinha tido aquele tipo de reação com nada, mas lá estava ele, totalmente inconformado em saber que perderia um dos amigos. — Vocês simplesmente desistiram da gente! — gritou, deixando que uma lágrima escorresse por seu rosto enquanto a mulher soluçava. — Eu nunca vou perdoar nenhum de vocês por isso. Nunca!
… — a mão de tocou a dele e todos pararam imediatamente ao ouvir a voz fraca do garoto pronunciar o nome do amigo. Seu pai também foi às lágrimas agora, encostando o rosto no sofá enquanto sua mãe cobria os olhos, deixando-se consumir pelo choro.
olhou espantado para o amigo, e apertou sua mão de volta antes de se aproximar, abaixando-se ao seu lado para checar se estava tudo bem.
chorou de alívio e foi abraçado por , que acompanhou rindo mais tranquilo apesar de toda a situação. sorriu enquanto soltava o ar pela boca e , vendo todos ao seu redor, lutou para manter os olhos abertos.
— Não é o que estão pensando. — disse ele, mesmo que as palavras parecessem exigir muito esforço. Sua voz tremia, deixando claro que ele ainda sentia frio, mesmo com todas as cobertas e a lareira acesa. — Eu tive um pesadelo, com a maldição. — mentiu, fechando os olhos por alguns segundos enquanto formulava o resto da fala. Pensar doía também, como se até mesmo seu cérebro tivesse sido afetado pelo frio ou, quem sabe, congelado. — Pensei ter escutado um barulho quando acordei, ou ouvi, eu não sei… — piscou novamente, mas contra a sua vontade, dessa vez, teve certa dificuldade em abrí-los novamente.
— Depois você explica, . — pediu, aproximando-se por trás do sofá. — Quer que a gente te ajude a chegar no quarto? Suas roupas devem estar geladas.
concordou de imediato, e desistindo do que quer que tivesse a dizer, ele fez menção de se levantar, mas o garoto negou com a cabeça, segurando sua mão com mais força para que ele não se afastasse.
— Pensei no que conversamos assim que ouvi o barulho. e não estavam no quarto. — continuou o garoto, ignorando o pedido dos amigos. — Só consegui pensar que algo poderia ter acontecido e sai do jeito que estava. — ele olhou para , ciente do quão preocupado ele estava com aquela história e, principalmente, com o próprio . — Não sou eu. Pelo menos não ainda. — negou, sem nem ao menos pensar sobre o que fazia ou na mentira que estava contando horas depois de prometerem um para o outro que diriam a verdade imediatamente.
sabia que assim que eles descobrissem que era ele, tudo mudaria. Achar uma solução ficaria ainda mais urgente, a situação mais desesperadora. Ficariam ansiosos, nervosos, brigariam com as pessoas e quem sabe até entre si. não queria todos preocupados, especialmente com ele. Não queria ser tratado de forma diferente, não queria que nada daquilo interferisse no julgamento de nenhum deles sobre o assunto.
Um pelo outro, sabia que buscariam uma solução para a maldição e sem ao menos pensar sobre o que era ou não melhor, omitiu que o tempo, na verdade, era muito menor do que eles esperavam ser.
— Não sou eu. — repetiu, mas cansado voltou a fechar os olhos e, dessa vez, eles não voltaram a se abrir.

+++


A semana passou de maneira lenta enquanto ainda passava pelo processo de recuperação daquela madrugada intensa. O frio em momento nenhum deu trégua, deixando claro que o tempo estava acabando. A nevasca tampouco, tornando impossível que saíssem de casa para tomar qualquer atitude quanto ao que e haviam descoberto.
Todos ainda se mantinham assustados e com suspeitas de que pudesse ser o escolhido, e por mais que o garoto tivesse disfarçado e inventado uma desculpa qualquer, seus pensamentos ainda estavam naquele pesadelo perturbador e toda aquela angústia de ver seus amigos mortos por todos os cantos da praça de Omelas.
Tentando ficar saudável para voltar a ajudar em busca por uma maneira de fugir daquele sacrifício, ele foi medicado e por sorte nada de errado aconteceu com o seu corpo durante aquela exposição ao frio extremo da madrugada. Ele comemorou a recuperação e também por não sonhar mais ou perambular pela madrugada novamente. O que de fato o deixou bastante feliz e atento à todos os outros amigos e os respectivos comportamentos.
Sentia que era ele, mas a semana se arrastou de forma tão calma para si, que teve receio pelos outros. Maior que o seu medo de morrer, era o de perder qualquer um dos garotos.
Omelas passou a ficar ainda mais fria com o passar dos dias e tudo em que ele e os amigos pensaram durante aquele tempo foi na busca pelo livro velho que o ancião tinha usado durante o último encontro com os pais dos sete garotos. e contaram em detalhes do que viram, mesmo que de uma distância considerável.
E então de repente tinham pelo menos um plano: Invadir a casa do velho durante a missa de domingo, para buscar o livro que mesmo de longe era a melhor chance e ideia do grupo. A próxima envolvia um sequestro com amordaça, tortura e algumas coisas doidas que cabeça lunática de decidiu ser uma boa ideia, mas todos ignoraram tamanha besteira.
— Nós sabemos pelo menos o que estamos procurando? — questionou, atento ao movimento rápido de e que vasculharam uma prateleira do lado esquerdo, jogando no chão alguns livros velhos sem importância. A única parte do plano que ele havia entendido era de ficar na porta da entrada principal, olhando pela janela e gritar para os outros caso o ancião voltasse mais cedo da missa.
! — chamou sua atenção, preocupado caso o ancião voltasse. — Porta! — jogou a mão em direção à porta de entrada. — Qual o problema? É só ficar vigiando!
— O quê? Eu só queria saber o que estamos procurando. Vocês sabem o que estamos procurando? — voltou a perguntar, levantando os braços para o alto e olhando para no chão.
— Claro que sabemos! — , agachado, resmungou sem paciência para perguntas sem noção à essa hora da manhã, principalmente por saber que o velho podia voltar a qualquer momento. — , porque você nunca fica atento ao plano? É só vigiar a porta. Consegue fazer isso? — reclamou, agora de pé na frente do amigo.
, olhe a porta e fique em silêncio, apenas. — pediu, segurando no ombro dele e apontando para o lado da entrada principal da residência novamente. O lado lerdo de as vezes precisava de uma certa compreensão e dedicação, mas nesse momento o que procurou era somente que ele fosse ágil, indo vigiar com cuidado. — Precisamos ficar concentrados nessa busca, não vamos começar a explicar algo novamente. — Também sem paciência para explicação, ele empurrou o amigo para que ele desse espaço naquele escritório que já era pequeno o suficiente para os dois.
— Tudo bem. — concordou com um aceno.
, será que o e tiveram sucesso no quarto dele? — perguntou, preocupado com a possibilidade de nunca encontrarem aquele livro. — É um livro tão raro que duvido que esse ancião tenha deixado em qualquer lugar simples, ou em um lugar tão óbvio quanto um escritório. — Desconfiado, coçou a cabeça, pensando em lugares onde ele teria escondido o livro.
, estamos procurando em todos os lugares. — confiante empurrou mais alguns livros para o lado, tentando enxergar com a pouca claridade algo velho, vermelho e com uma árvore antiga desenhada na capa. — Ele não iria tirar o livro de casa. O risco de alguém encontrar longe daqui é muito maior.
— E por que o está procurando na cozinha?
— Não entendi o que um livro estaria fazendo na cozinha, mas não quis arrumar uma discussão com o nessa altura. — deu de ombros, levantando e indo para o outro lado. — Maldito! Isso aqui parece um labirinto cheio de livros, pergaminhos, folhas soltas e vamos ficar a madrugada toda procurando por um livro vermelho que nem sabemos se realmente existe. — Frustrado e ao mesmo tempo irritado, o garoto jogou-se na cadeira, não querendo perder as esperanças.
, não podemos desistir! — parou com as mãos contra a mesa principal, olhando diretamente dentro dos olhos dele. — Entende? Entende o que eu quero dizer? Não é momento para um surto, já basta as coisas que estão acontecendo. — Ele sustentou o olhar como se quisesse falar alguma coisa que estava passando por sua cabeça, mas desviou imediatamente, não querendo conversar sobre o assunto.
— E se for mentira? E se nunca existiu? — Incerto e ao mesmo tempo com muito medo de acreditar naquelas próprias palavras, buscou em uma esperança que estava deixando de ter com o passar dos dias. — O que acontece se um de nós começar a fazer coisas estranhas?
— Tipo o que você anda fazendo? — A indireta mais direta de semanas foi dada na direção certa, deixando sem reação. — Você não teria motivos para esconder dos seus amigos alguma coisa, certo? — certificando que o olhar estivesse no rosto dele, perguntou com firmeza, querendo de uma vez que ele sentisse confortável para falar sobre a madrugada estranha. podia muito bem aceitar aquela “desculpa” que disse para todos, mas e tinham a certeza que ele escondia algo muito mais grave e urgente.
— Qual é o seu problema? Por que essa pergunta agora? — , nervoso, empurrou a mesa velha para se levantar, mas um enorme barulho de algo caindo no chão bem embaixo dela chamou sua atenção.
— O que você fez? — abriu a boca assustado, temendo ele pudesse ter quebrado algo que os denunciasse.
— Cala a boca! — pediu por silêncio, preocupado que o estrondo causado chamasse atenção dos vizinhos, mesmo que este não tivesse sido assim tão alto para isso.
— Cala a boca você. — respondeu sem entender o motivo da resposta, movendo os pés lentamente com medo de que algo mais começasse a desabar. A mesa era tão velha que só de respirar perto ela parecia ser capaz de desmanchar. — Tudo bem, abaixa e vê o que aconteceu. — ele fez alguns gestos com as mãos, mostrando o chão para o outro que ainda estava parado com as mãos na cintura.
— Abaixa você. — respondeu, como se temesse que a mesa fosse desabar sobre ele. Coragem era o ponto forte de , não deles dois.
— Foi você quem derrubou um pedaço da casa. — devolveu e praguejou, ciente de que o outro estava certo.
— Que droga. — resmungou, abaixando com certo cuidado. Embaixo da mesa agora tinha um enorme saco vermelho e ele sentiu uma pontada de esperança que fez seu coração acelerar. — Será? — perguntou espantado e repentinamente eufórico, pegou o objeto antes de se levantar, deixando-o em cima da mesa.
— Será que é o livro? — perguntou enquanto ambos mantinham-se parados, encarando o saco vermelho e mordeu o lábio inferior.
— Acho que só tem uma forma de descobrir. — respondeu, tomando a frente e desenrolando a boca do saco com todo cuidado.
— Por favor, que seja o livro. — pediu enquanto assistia desfazer o nó e arregalou os olhos junto com quando viu o outro fazer isso ao espiar dentro do saco. — O quê?! — exclamou, inclinando-se sobre a mesa para tentar espiar. — O que é? — insistiu e riu ao erguer a cabeça para ele novamente, feliz e totalmente emocionado.
— É o livro. — respondeu, rindo mais uma vez após ver o conteúdo. Capa vermelha com uma enorme árvore. A descrição exata dada por . — Definitivamente, é o livro. — repetiu, sentindo seu coração prestes a sair pela boca em um misto de euforia e satisfação. — É o livro, , o livro! — exclamou. — Achamos! — gritou para os outros, que vasculhavam outras partes da casa.
Haviam encontrado a possibilidade de esperança para ele e os amigos, provavelmente a única que tinham de encontrar uma solução. Era o único plano que tinham para conseguir qualquer pista que lhes dissesse como parar a maldição, ou, quem sabe, como sair dali.


Continua...



Nota da autora: Esperança? Meio rápido né? Muahahaha
Vou guardar os comentários sádicos pra mim. XD
O que estão achando da fic? Teorias sobre o final? Comentem, gritem ai na caixinha de comentários que a gente responde! Hahaha
Obrigada pelo carinho e todos que estão acompanhando a fic. <3 Até a próxima!


MAYH:


VIVI:



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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