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Última atualização: 06/06/2017


"Acima da TERRA, existem seres vivendo em torno do ar, tal como nós vivemos em torno do mar. Alguns em ilhas que o AR forma junto com o Continente. E, numa palavra, o AR é usado por Eles, tal qual a ÁGUA e o mar são por nós e o Éter é para nós.
Mais ainda, o temperamento das suas estações é tal que Eles não têm doenças e vivem muito mais tempo do que nós, e têm visão e audição e todos os outros sentidos muito mais aguçados do que os nossos, no mesmo sentido que o AR é mais puro que a ÁGUA e o Éter que o Ar."

- Sócrates.


Capítulo 1


Dezoito anos atrás.

– ABSURDO! TRAIÇÃO! Esse erro deve ser corrigido imediatamente! – gritava a Rainha Semíramis.
– Semíramis, acalme-se e nos conte para que convocou essa reunião – disse a Rainha Aine com seu esplendor e sua voz pacífica.
Todos naquela sala não entendiam o porquê de tanto escândalo e tantas palavras de raiva que saíam da boca de Semíramis.
– Athos quebrou uma de nossas regras e, por pior que isso seja bem constante, dessa vez isso causa uma consequência ao meu povo e diretamente em mim – disse a Rainha que não conseguia manter sua cauda parada e continuava a esguichar água para todos os lados.
– Não aguento mais as brincadeiras do Athos. Ele pensa que é apenas um adolescente? Que as suas ações não trazem consequências ao seu povo e ao equilíbrio do mundo? – disse Ghob, o Rei dos Gnomos, batendo na mesa de ouro puro com raiva.
E um grande fuzuê foi instalado naquele recinto. Uns gritavam, outros proclamavam palavras amaldiçoando o Rei Athos.
– Silêncio! Todos se acalmem. Ainda não sabemos o que aconteceu – disse Aine, olhando diretamente para Semíramis. – Semíramis, sem rodeios, por favor. Conte-nos logo o que Athos fez. Preciso voltar ao Palácio.
– Athos teve relações com uma humana! – revelou a Rainha.
Assim que contou a notícia, o Rei Athos submergiu do mar e se sentou na grande rocha ao lado de Semíramis.
– Semíramis, minha querida, poderíamos resolver esse pequeno problema juntos. Isso não convém a ele – disse com sua melhor cara de prepotente.
Todos os Reis e as Rainhas estavam ainda indignados com a grande revelação. Apesar de Athos ser impulsivo e rebelde, nunca imaginaram que quebraria uma das suas principais regras.
– Então é verdade, Athos? Você teve relações com uma humana? – perguntou Necksa, Rainha das Ondinas.
– Sim, minha cara Necksa, mas está tudo bem. É coisa de apenas uma noite – respondeu com um sorriso astuto no rosto.
Após a confirmação, burburinhos começaram no local.
– Como pôde, Athos? Você quebrou uma das principais regras. Nunca pensei que chegaria a esse ponto... Uma humana? Você passou de todos os limites – disse o Paralda, Rei dos Elfos.
– Paralda, meu caro amigo, você não conhece o lado bom dos humanos e os prazeres que eles podem nos fornecer. Se conhecesse, certamente me entenderia – retrucou Athos com um rosto passivo demais para a situação.
– Eu exigo exílio! – gritou Semíramis. – E exijo que a humana seja morta. Ela pode nos causar muitos problemas se vier a procriar.
Diante da sugestão de exílio e de morte à sua humana, Athos se enfureceu e toda sua passividade chegou ao fim.
– Chega, Semíramis. Pare com seus gritos e dramas. Não sou obrigado a ouvir isso – disse furioso. – A humana não está grávida. Garanto a todos vocês. Foi apenas uma noite, um divertimento. Não são como nós, que procriam rápido.
– Vejo que seus conhecimentos são diversos sobre eles, Athos – disse a Rainha Lâmia. – Mas como pode nos garantir total certeza de sua afirmação?
E, com esse questionamento da Rainha dos Duendes, os burburinhos voltaram cada vez mais altos e sugestões sobre o que fazer como castigo ao Rei Athos eram sugeridas por todos os Reis e Rainhas.
– Silêncio, por favor! Athos, como pode nos confirmar o que disse? – perguntou a Rainha das Fadas.
– Aine, você mesma pode ir ao mundo dos humanos e confirmar o que lhe digo. Sabemos que tem vários modos de passar para o mundo deles, além dos mares – Athos afirmou prontamente.
E a afirmação era verdade. Todos os reinos tinham suas passagens para o mundo dos humanos, pois eram eles que mantinham o equilíbrio do mundo. Os treze Reis e Rainhas governando juntos para o equilíbrio do mundo permanecer: os Elementais. Cada ser Elemental tinha seu reino: Fadas, Silfos, Dríades e Hamadríades, Duendes, Sereias, Ondinas, Elfos, Gnomos, Trolls, Tritões, Nereidas, Náiades, Dragões e outros seres místicos. Todos eles faziam parte de Alagazia.
– Mesmo que a humana não venha a procriar, o Athos quebrou uma de nossas regras – relembrou a Rainha Cilene.
– Concordo, Cilene. Athos foi mais uma vez irresponsável com as nossas leis – disse Asopos, Rei das Náiades.
– Acredito que a união de seu reino com o reino da Rainha Semíramis e a perda de seu total poder sobre algumas porções de água pode ser o suficiente – sugeriu Holda, Rainha dos Silfos.
– COMO?! – esbravejou Athos. – Limitar os meus poderes e diminuir o território do meu povo? Isso é ridículo! Somos o equilíbrio. Semíramis não pode controlar os Tritões.
– Pensasse nisso antes, querido – falou a Rainha das Sereias ironicamente.
– Apesar de não concordar com a ação de Athos, afirmo que é verdade. Semíramis não pode controlar os Tritões. O equilíbrio pode ser abalado – falou Phortos, pronunciando-se pela primeira vez naquele recinto. – Athos pode ser punido com pena de dezoito anos sem poder procriar mais nenhum Tritão. Apenas Sereias. Tenho certeza de que ele tem Tritões suficientes para durar dezoito anos sem abalar o equilíbrio.
– Sábio, o senhor acha que essa pena é suficiente? – argumentou Semíramis.
– Querida, está claro que é suficiente. Athos é um ser criador. Passar dezoito anos sem poder criar mais nenhum ser de sua espécie é uma dor muito maior do que a de traição que você, minha querida Rainha, sente – disse o Rei dos Dragões.
– Então que assim seja feito. Você, Rei Athos, está temporariamente proibido de procriar Tritões por dezoito anos – sentenciou Aine.

Nunca me imaginei normal. Desde muito pequena, sempre percebi certas anomalias em mim, como a cor dos meus olhos que, apesar de não ser tão explícito, muda constantemente, o meu gosto por certos tipos de alimentos, os meus amigos de sete anos brigando com os pais por certas guloseimas e eu para comer mariscos e peixes nas refeições. Bom, se bem que essa última eu sempre achei que era apenas questão de gosto mesmo. Mas, para uma criança, tudo é considerado pista.
Apesar de perceber essas coisas "estranhas", cresci muito bem. Sou aparentemente agradável, cabelos e olhos, atualmente, , altura mediana e, em questão de peso, posso dizer que meu desejo por peixes me ajudou bastante.
– escutei o grito da minha mãe. – Rápido, filha, ou vai se atrasar de novo.
– Já estou descendo, mãe – respondi.
Minha mãe é uma mulher encantadora. Uma sonhadora nata. Acredita em finais felizes e contos de fadas. Não que eu não acredite, mas é quase como se ela já tivesse conhecido um mundo mágico, mesmo que nunca tenha saído do Kansas.
– Dona , estou saindo. Chego umas 20h. Não me espere para jantar – falei, descendo as escadas correndo.
– Tudo bem, filha. Cuidado e me ligue assim que chegar – disse, beijando-me.
O colégio não fica muito distante – uns três quarteirões apenas. Sempre gostei de ir caminhando para o colégio sentindo o vento e uns poucos raios de sol.
! ! – ouvi o grito de . – , espere!
Parei, olhando para trás.
– Ei, . Como você está? – perguntei, dando-lhe um abraço.
– Bem, e você? – falou animada. – Fiquei sabendo que o treino hoje vai ser com a senhora Parker.
– É, estou sabendo. Venho até me preparando psicologicamente. Os treinos dela são os mais pesados – falei suspirando, já imaginando como seria cansativo. Sou uma líder de torcida e a senhora Parker é treinadora física dos jogadores de futebol. Por isso, assume uma vez na semana o nosso treino físico.
– Qual a sua primeira aula de hoje? – perguntou, mudando totalmente de assunto. A é assim desde pequena. Ela é super elétrica, fala super rápido. Às vezes até penso que fala outra língua.
– História, e você? – perguntei curiosa.
– Botânica! Uhul!– comemorou.
– Sabe, não entendo esse seu amor por plantas – falei, rindo carinhosamente.
– Você também gosta tanto quanto eu. Não esconda – argumentou.
– Tudo bem, tudo bem. Touché! – respondi. – Encontramo-nos no almoço? Tenho que ir à biblioteca pegar uns livros antes da aula – falei quando chegamos e já me dirigindo à escadaria da biblioteca.
– Certo! Boa aula, – e saiu quase que dando pulinhos para a estufa do colégio.
é minha amiga desde quando me entendo por gente. Ela é incrivelmente bela. Tem cabelos longos e pretos, como um céu noturno, a pele tão clara que quase vejo cintilar e olhos tão pretos quanto a cor do seu cabelo. Alta e com um corpo completamente proporcional, nada de mais ou de menos, ou seja, aos meus olhos é incrivelmente perfeita.
– Atrasada, ! – falou o professor assim que fiz menção de entrar na sala.
– Desculpe, professor. Passei na biblioteca antes de vir e não estava encontrando o livro – expliquei.
– Tudo bem. Sente-se.
As aulas passaram tão rápido que, quando me dei conta, já tinha tocado o sinal para o almoço. Acho que você deve se perguntar como uma líder de torcida entra na sala e não conversa com nenhum amigo, chega ao colégio e ninguém fala com ela. Bom, eu tenho um pequeno déficit de atenção para focar em leitura e cálculo, então por isso pedi para o coordenador me pôr numa sala afastada dos meus amigos, pelo menos nas aulas teóricas, e ele atendeu meu pedido.
Quando cheguei ao refeitório, vi a na mesa das líderes e me dirigi até lá.
– Bom dia, meninas! Preparadas para o treino? – perguntei, sentando-me e roubando a maçã da bandeja de .
– Hoje vai ser puxado. Fiquei sabendo que a senhora Parker está preparando algo novo para nós – Rena disse. – Por isso as outras estão assistindo ao treino masculino: para saber o que vem aí para nós.
– Relaxe. É só mais um treino físico – disse, terminando minha maçã.
– Acho que vai chover – disse , mudando de assunto de novo.
– Ih, quando você diz que vai chover, é porque vai. Vamos indo para o vestiário logo – Rena se levantou, dizendo.
e suas previsões do tempo. Ela sempre acerta. Já até comentei que ela deve ser igual àquela menina do filme “Meninas Malvadas”, que sente pelos seios, mas diz que é um dom e que não devo fazer piadas. Quando chegamos ao vestiário, começou a chover. Entramos e começamos a nos trocar.
– Caraca, que chuva pesada – falou Mila, entrando no vestiário. – O treino vai ser na quadra fechada.
– Essas mudanças de clima está acabando comigo – chegou Roxie ensopada. – Por que vocês não estão molhadas?
– A disse que ia chover, então corremos logo para cá – Rena disse.
– Meninas, vamos logo ou vamos nos atrasar – disse.
– Vão indo na frente. As meninas ainda estão voltando do treino masculino e vocês vão distraindo a senhora Parker – Roxie falou, tirando a roupa molhada.
Saímos do vestiário e corremos para a quadra.
– Alongamento! – ouvimos o grito da senhora Parker do outro lado. – Hoje vamos ter treino de resistência sem pausas ou descanso para beber água.
– Mas, senhora Parker, não pode ficar sem beber água por muito tempo quando prática exercícios – questionou.
– Como eu disse, senhorita , treino de resistência.
– Mas ela... – tentou falar novamente.
– Tudo bem, – falei, tranquilizando-a. – Eu consigo.
Ouvimos os gritinhos agudos das outras meninas se aproximando e começamos a treinar. Sabe, entendi o medo da . Quando éramos crianças, brincávamos de percorrer os quarteirões e ver quem aguentava mais tempo correndo. Num dia qualquer, brincávamos sem parar e o sol estava escaldante. Resumindo, acabei desmaiando por desidratação. Fui levada ao hospital, mas a única coisa que o médico disse era que eu deveria beber mais água do que as outras pessoas porque meu corpo drenava muito rápido a quantidade normal.
– Correndo! Duzentas voltas na quadra já! – gritou com voz autoritária. – E, quando acabar, mais duzentos abdominais.
Quando acabamos esses primeiros exercícios, começamos com saltos e formação da pirâmide.
– Quero essa pirâmide perfeita – falou séria.
Depois de ensaiar todos os saltos e formar mais de cinquenta vezes a pirâmide perfeita, voltamos à corrida.
– Mais cem voltas. Vamos, meninas!
Água, água , água. A única palavra que surgia na minha mente era água! Minha visão já estava ficando turva e os meus batimentos estavam tão acelerados que parecia uma bateria num show de rock. Já estava começando a sentir uma sensação familiar, já não controlava mais o corpo, e só ouvi um grito vindo de .
!


Capítulo 2


Acordei numa sala tão branca que doía a vista. Fui me levantando devagar e senti tudo girar. Minha cabeça latejava.
! Graças aos deuses. Fiquei tão preocupada. Como se sente? – perguntou tudo tão rápido que me fez me sentir mais tonta.
, calma! Assim fico mais tonta – falei rindo.
– Ai, desculpe, , mas fiquei megapreocupada – falou, sentando-se na maca da enfermaria.
– Eu estou bem. Você sabe, é só esforço físico e fiquei desidratada – falei, sentindo outra pontada na cabeça.
– Você precisa beber mais água, . Sabe disso – falou, reclamando.
– Eu sei, , mas não podia parar o treino – falei, sentando-me na maca.
– A enfermeira aplicou soro em você e pediu para tomar essa garrafa de água antes de sair – disse, entregando-me a garrafa.
Ouvimos umas batidas na porta e, quando olhamos, as meninas estavam entrando.
– Como você está? – Rena perguntou, abraçando-me.
– Estou bem. Foi apenas falta de água no organismo – menti.
Não me sentia bem. Sentia-me fraca, como se meu corpo estivesse aponto de se desligar a qualquer momento.
– Bom, já que seu problema é falta de água, que tal irmos à praia amanhã? – Roxie sugeriu. – Podemos convidar os meninos do futebol também.
– Hum, é uma boa.
– Uhul, praia amanhã! – gritou animada.
, shiu. Estamos numa enfermaria – Mila disse, brincando.
– Mas não tem ninguém aqui, sua chata – lhe mostrou a língua.
– Mas está uma chuva do caralho lá fora – Rena falou.
– Vai parar logo – afirmou.
e suas previsões. Você deve ser uma bruxa, garota – Mila falou, implicando com ela.
– Não é bruxaria. É um dom.
– Bruxaria – reafirmou.
– Dom.
– Está bom. Chega, suas pirralhas – falei, calando as duas.
– Bom, então tudo certo. Amanhã, praia. Temos que ir agora, – Roxie disse, despedindo-se.
– Tudo bem. Beijos, meninas.
foi a única que ficou comigo e retornamos para casa juntas. A chuva ainda não tinha cessado e continuava forte. Tínhamos aula de dança depois do treino, mas a me proibiu de ir. Abri a janela do táxi e senti os pingos de chuva no meu rosto, fechando os olhos para aproveitar a sensação das pequenas gotículas. Senti a chuva aliviar as fortes pancadas na minha cabeça. Era como se eu estivesse quase numa inércia, completamente dopada.
– ouvi meu nome ser chamado, mas não queria abandonar aquela sensação. – , está tudo bem? , abra os olhos imediatamente! – apenas ignorei e abri a porta do carro. Quando saí e a chuva me tocou por inteiro, era como se estivesse sugando toda minha dor, drenando-me, e fui perdendo a consciência.

’s POV

permanecia inconsciente, mas agora deitada no sofá de sua casa. A transformação dela está acontecendo mais rápido do que imaginávamos. Sua dependência por água está sendo mais necessária. Preciso me comunicar com o Rei o mais rápido possível.
? – ouvi o som da voz dela.
! Como se sente?
– O que aconteceu? – perguntou, tentando se lembrar por que estava deitada no sofá.
– Quando o táxi parou na frente da sua casa, você simplesmente saiu do carro e do nada desmaiou. Você se sente bem? – perguntei preocupada.
– Sim, . Muito bem, por incrível que pareça. Nunca me senti tão bem – falou, levantando-se rapidamente do sofá.
! – ouvimos o grito da sua mãe entrando em casa superpreocupada.
– Oi, mãe. Estou bem. Não se preocupe – disse, dando um abraço nela.
, você me prometeu que iria se manter hidratada – dona reclamou.
– Desculpe, mãe. Foi treino de resistência hoje e bom não sei o que aconteceu agora há pouco – falou confusa.
– Bom, você precisa descansar e também – falou, olhando-me. – Acho que você já deu muito trabalho para ela hoje.
– Não se preocupe, dona . é minha melhor amiga. Não sairia do lado dela nunca.
– Eu sei. Obrigada, – falou, olhando-me com ternura.
Mas, mesmo preocupada com , precisava ir para casa.
– Mas, , se são se importa, preciso realmente ir para casa. Meus pais devem estar preocupadas e acho que não precisa mais de mim hoje – falei, caminhando para próximo dela.
– Tudo bem, . Não me importo. Entendo – abraçou-me apertado. – Boa noite. Ligue quando chegar.
– Claro! Boa noite, . Boa noite, dona – e saí, direcionando-me para casa.

Assim que cheguei, joguei a bolsa em qualquer canto da casa e fui para o jardim. Precisava me comunicar com o Rei.
– Aretusa? – chamei assim que cheguei próxima à fonte. – Aretusa?
E ela apareceu como eu esperava: um feixe de luz branca cintilante bem pequeno que foi ganhando forma e mostrando a bela garota na fonte.
– Oi, – falou sorrindo.
– Aretusa, preciso falar com o Rei Athos imediatamente – falei, suspirando.
– Vou fazer o possível, . Só um instante – disse, desaparecendo novamente.
Aretusa é uma Náiade, ou seja, uma ninfa de água doce. Náiades não têm caudas como sereias. Têm pernas humanas, mas possuem escamas ao redor do rosto e cabelos longos e coloridos. Elas possuem o dom da cura e da profecia, moram em fontes ou lagos. Aretusa, especificamente, mora na fonte da minha casa, que é um portal para o meu mundo: Alagazia.
– Ora, ora, ora. Se não é a Fada – ouvi a voz do Rei Athos.
– Majestade – curvei-me. – Tenho notícias da . Ela desmaiou hoje, senhor, no treino físico, perdeu a consciência quando sentiu a chuva e simplesmente não se lembra.
– E ela está bem, ? – perguntou, aparentemente preocupado.
– Ela está bem, senhor, mas precisa estar mais próxima do mar. Quando sentiu as pequenas gotículas da chuva, simplesmente ficou como se estivesse dopada – falei preocupada. – Seu corpo necessita de muito mais água do que antes.
, ela ainda não pode se aproximar. Pelo menos não ainda. Semíramis pode senti– lá e ainda não estou com meu poder completo – disse-me o Rei. – Espere mais um pouco, . Prometo que será rápido. Falarei com Aine ainda hoje.
– Tentarei, Majestade, mas, como disse, não sou eu. É quem precisa de Alagazia o quanto antes – falei por fim.
– E, , faça-a beber mais água. Ponha sal. Talvez isso ajude – aconselhou-me.
– Sim, senhor – curvei-me novamente. – Senhor, se possível, pode mandar lembranças à minha Rainha. Sinto saudades.
– Farei isso, , e obrigado por tudo. Sei que sente falta do seu povo – falou, desaparecendo na fonte.
Dei a volta e fui para dentro de casa. Precisava ligar para e tomar um banho.
Bom, como sabem agora, sou uma fada. Uma fada das nuvens, para ser mais específica. As fadas das nuvens transferem luz para as plantas e protegemos animais e seres humanos. Por conta disso, fui escolhida para proteger .

’s POV

Não sei explicar o que aconteceu comigo. Tudo que senti em apenas alguns minutos, toda aquela necessidade pela chuva... Eu simplesmente não sei o que foi aquilo.
Passei a noite pensando na sensação de como a chuva me ajudou a ficar bem e como me senti forte ao tocá-la. Nunca tinha sentindo isso em toda minha vida.
Ouvindo o despertador tocar, achei melhor me levantar e ligar para . Eu me sentia superdisposta para ir à praia.

Ligação ON

Alô? ? – falei, já procurando meu biquíni.
Ei, ! Bom dia. Como você está?
Estou bem, . Não se preocupe! Mas e aí, vamos à praia? – estava superansiosa para entrar no mar.
Não acho uma boa ideia, ! Choveu muito ontem. E se chover hoje? – disse com uma voz estranha e relutante.
Mas você mesma disse que hoje não vai chover e você sempre acerta! – argumentei.
É, mas, sabe, talvez eu não acerte hoje. Apenas brinco e dá certo. Não é como se eu pudesse ter sempre certeza – falou nervosa.
, é isso mesmo ou você está inventando desculpas para não sair mais comigo?
Não, não é nada disso, ! Apenas acho que talvez não seja uma boa ideia – uma das melhores características da é que ela não mente e, quando mente, sabemos logo.
, eu sei quando você está mentindo!
Ouvindo apenas um silêncio do outro lado da linha, continuei:
Bom, tudo bem se você não quiser ir, mas eu vou. Quando quiser me falar o que está acontecendo com você, me ligue! Beijo!

Ligação OFF

Não entendi muito bem a atitude da , mas foi bem estranha. Ela nunca nega uma praia ou um contato a mais com a natureza. Estou preocupada. Será que ela não quer ter uma amiga cheia de problemas e que cai por aí do nada?
Senti o celular tocar e era ela. Atendi sem nem pensar.

Ligação ON

? , desculpe-me! Eu não sei onde estava com a cabeça.
Tudo bem, ! Eu entendo. Você está com medo de sair comigo de novo. Isso é supercompreensível – falei angustiada.
Não, ! Não é nada disso. Eu vou à praia com vocês. Desculpe-me – falou arrependida.
Certo. Já passou. Todo mundo acorda de mau-humor às vezes – comentei, aliviada por ela ainda querer andar comigo.
Passo aí em dez minutos e use o biquíni azul! Tchau. Beijo! – falou, respondendo minha próxima pergunta.
Peguei o biquíni azul e fui me trocar.

Ligação OFF

? Filha? – ouvi minha mãe chamar.
– Oi, mãe – respondi, abrindo a porta.
– Você vai sair, filha? Aonde vai? – perguntou, aparentemente preocupada.
– Vou à praia com a .
– Praia? Hum... E a vai? Não acho uma boa ideia, sabe? Você passou mal ontem e acho que deveria ficar em casa hoje – não sei o que está acontecendo com todo mundo hoje. Ninguém quer me deixar ir à praia.
– Mãe, eu estou bem. Estou ótima, na verdade. E a vai comigo. Não se preocupe – falei, ouvindo a buzina do carro da . – Estou saindo. Chego logo.
– Mas, , espere! – falou ela, descendo as escadas atrás de mim.
– Mãe, está tudo bem. Relaxe!
Ela desceu as escadas e parou no último degrau.
– Se eu lhe pedir para tomar cuidado, você vai? – perguntou.
– Claro que sim, mãe, mas não tem com o que se preocupar. Venha cá me dê um abraço.
Aproximei-me dela e a abracei, acalmando-a.
– Tudo bem. Amo você! – disse, beijando-me na testa.
– Também amo você, mãe! Tchau – afastei-me e saí de casa.

ALAGAZIA – Tempo atual
Narrador – Terceira pessoa


– Rainha Aine? – falou uma das fadas do Palácio.
– Sim, Mira. O que deseja? – perguntou a adorável Rainha.
– O Rei Athos deseja falar com a vossa majestade no lago Erfreut – disse a bela fada.
– Obrigada, Mira. Irei imediatamente falar com Athos – falou Aine, já saindo do grande salão principal.
Mesmo depois da sentença do Rei Athos, Aine sempre continuou ao seu lado. A bela Rainha sempre teve uma grande amizade com o Rei dos Tritãos, mas quem não seria amiga do homem que faz seu coração bater mais rápido?
– Athos? Você está aí? – Aine chegou ao lago em pouco tempo com suas grandes e belas asas transparentes e cintilantes.
As asas de uma fada relatam sua personalidade. Cada fada tem uma cor única – apenas uma tonalidade específica existente em cada uma. As asas da bela Rainha Aine eram transparentes. Apenas conseguíamos ver fios de prata cintilantes, como se fossem veias. A transparência significa realeza. É a junção de todas as cores. Ela entende cada personalidade, sente o que cada fada sente e sua força vem do seu povo.
– Athos? – chama novamente a Rainha.
– Estou aqui, Aine – o rei respondeu, saindo do lago.
– Pernas? Há muito tempo você não as utiliza – comentou a rainha, encantada com a postura de Athos em pernas humanas.
– É verdade, Aine, mas esse assunto é sério e preciso conversar com você olho no olho.
– É sobre . Estou certa? – perguntou.
– Sim, Aine. É sobre – falou, aparentemente preocupado. – Você é a única que pode me ajudar. A transformação da está acontecendo mais rápido do que imaginávamos e mais forte.
– Ela é meio humana, Athos. Com certeza a transformação é diferente.
– Sim, sim, mas ainda faltam alguns meses para minha sentença acabar e meus poderes retornarem com força total – Athos mudou muito com o passar dos anos. Sua pose de Rei sem causa e rebelde acabou sendo deixada de lado. – Enquanto minha sentença não acabar, ainda corre risco.
– Athos, acalme-se. está com ela e é uma protetora muito competente. Ela não vai deixar nada de ruim acontecer com nem que Semíramis saiba da existência dela – falou a rainha, consolando o rei com um afago em seu ombro.
– Obrigado, Aine... Por estar ao meu lado esses anos todos. Você é uma verdadeira amiga – disse o charmoso Rei.
Amiga, amiga. Essa era a palavra que ecoava pela mente da Rainha, mas o que ela pensava? Athos era casado. Apesar de suas brigas e traições, ele gostava de Semíramis.
– Você também é um grande amigo, Athos. Agora vou tentar falar com Santii e conseguir algo que retarde a transformação de – disse a rainha, lembrando-se do feiticeiro da floresta das Dríades.
– Não, Aine! Santii é fiel a Cilene e tudo que menos quero agora é arriscar receber mais uma punição. Ninguém pode saber de – falou o rei, nervoso e angustiado.
– Tudo bem. Ninguém vai saber! Vou ver o que posso fazer para ajudá-la, mas não é uma fada, Athos, e você sabe muito bem que Rainha pode ajudá-la antes que o pior aconteça. Não é com Semíramis que me preocupo, porque, apesar de ser um tanto exagerada em suas ações, ela ainda obedece às leis – falou Aine, lembrando-se do verdadeiro mal em Alagazia.
– Aine, não pense em profecias arcaicas agora. não tem nada a ver com isso. E você não conhece o sentimento de uma mulher traída, não é? Afinal, você nunca nem se interessou por alguém – disse o rei, sendo absurdamente grosso. Mas, quando olhou nos olhos da adorada Rainha, percebeu a grande besteira que falou. – Aine, desculpe-me! Eu não queria... Não queria falar isso.
– Tudo bem, Athos – falou, segurando algumas lágrimas. – Eu entendo. Você está nervoso, mas acho que já devo ir. Tenho muito a fazer. Mandarei uma fada avisar se eu descobrir algo que possa ajudar .
O rei percebeu a frieza da doce rainha e se sentiu pior do que já estava. Tinha magoado a última pessoa que gostaria de magoar no mundo.
– Tudo bem, Aine. E me desculpe mais uma vez. Eu não pensei antes de falar essas besteiras.
– Certo. Não se preocupe. Tchau, Athos. Até mais – falou, afastando-se e já batendo suas belas e majestosas asas.
– Aine! – ouviu o Rei falar e segurar sua mão antes de conseguir voar mais alto. – , mandou lembranças. Ela sente muito a sua falta.
– Eu sei. Também sinto muito a dela! – falou, olhando nos belos olhos verdes do Rei. – Agora me solte. Eu realmente preciso ir.
E, falando isso, sentiu o aperto do seu amado, tendo menos pressão e sendo deixada livre para ir embora.


Capítulo 3


Mar! O mar me encantava de um modo que não sabia explicar. Como uma atração de ímãs, eu me sentia completa de um jeito que nunca me senti.
, você trouxe o bronzeador? – Roxie perguntou, quebrando meus pensamentos. Estávamos as cinco deitadas na areia.
– Não. Saí tão apressada que me esqueci de tudo.
– Sabe, estava pensando: fazia tempo que nós não nos encontrávamos assim – falou Mila, sentando-se na toalha estirada no chão.
– Verdade. Estamos sempre ocupadas com coreografias e saltos – falei, pegando o bronzeador da .
– Cadê esses meninos, hein? Estou louca para mostrar meu biquíni novo para o Danny – Mila disse
– Mila, sua safada! – falei rindo.
– Safada? Claro que não! Apenas apaixonada – falou, mordendo os lábios e soltando um longo suspiro.
Caímos no riso. Nunca me senti muito normal no meio de muitas pessoas, mas com essas garotas, principalmente, , sinto que me encaixo em algum lugar.
– E se hoje nós fôssemos pular aquelas pedras? – sugeriu Rena, levantando-se.
– Não, não acho que seja uma boa ideia – falou apreensiva.
– Por que não, ? É uma ótima ideia, uma aventura! – Mila argumentou.
– Bom, primeiro, a não deve se esforçar muito. Ela desmaiou duas vezes ontem. E segundo que não deve ter nada de mais ali – sua expressão era contraditória, como se estivesse louca para ir, mas não devesse.
– Deixe de besteira, . Estou ótima e sei que você está louquinha para saber o que tem lá – falei, levantando-me. – Acho que devemos ir!
– Eu também acho! – disse Roxie, já se levantando.
– Mas eu não acho. Alguma de nós pode se machucar seriamente – negou novamente, mordendo os lábios.

– Deixe disso, , e se levante logo. A gente dá vários saltos todos os dias e estamos vivas até hoje – falei animada
– Tá! Tudo bem, mas só vamos olhar – falou, levantando-se.
Quando se deu por vencida, já estávamos todas levantadas. Olhei em direção às pedras e vi seu conjunto em forma circular.
– Será que tem água dentro? Notem a formação – falei, apontando para as pedras.
– Bem possível com essas ondas fortes – Rena falou, observando o movimento das ondas.
E me recordei de uma história que a me contou sobre o movimento das ondas. Mas não me recordava quem controlava os movimentos delas na história.
, quem controla o movimento das ondas mesmos naquela história que você me contou? – perguntei, aproximando-me dela que estava mais afastada de nós.
– Ah, hum... Bom, dizem que são os tritões que têm o poder de controlá-las – falou, recordando-me de toda a história.
– Sim, lembrei! – falei alto.
– De que, ? – perguntou Mila curiosa.
– De uma história que a me contou quando éramos menores – falei. – É sobre os tritões.
– Tritões? Aqueles seres meio homem, meio peixe? – questionou Roxie.
– Sim, e na história eles podem controlar os movimentos das ondas e provocar grandes tsunamis, além de serem megassedutores.
– Hum… Sedutores, é? Estou precisando de um na minha vida – Rena falou, suspirando.

E acabámos todas caindo em risadas. Quando chegamos perto da formação rochosa, notamos o quanto eram altas.
– Como vamos subir? – Mila perguntou.
– Hum... Podemos dar o impulso e subimos e a última nós puxamos – Roxie deu a ideia.
– Podemos tentar – falei.

Com isso, acabamos dando uma o impulso para outra e puxamos a , que ainda estava meio receosa de subir. Assim que conseguimos subir e paramos para analisar, havia uma espécie de lago muito belo. A água era tão cristalina que o fundo aparentava ser mais próximo do que deveria ser. Encanto, era isso que eu sentia. Estava completamente encantada por aquele lugar. Parecia uma formação de um vulcão, as rochas em forma de círculo e, no meio, água ao invés de larva.

– Vamos entrar? – perguntei.
– Não! – disse alto. – Não sabemos o que pode ter nesse lago ou se essa água pode estar contaminada de alguma forma.
– Deixe disso, ! Nunca a vi tão apreensiva com algo – falou Rena, estranhando a atitude dela.
– Essa água parece mais limpa que a gente – falou Roxie, brincando.
– Olhe como brilha lá no fundo – falei hipnotizada.
– Brilho? Não vejo brilho nenhum, – falou Mila do meu lado.
– Não vê? – perguntei, sem deixar de olhar para o brilho intenso que havia no fundo.
– Não! – falou, observando mais atentamente.
– Nem eu – falou Roxie.
– Mas como não? É tão intenso – disse surpresa.
– Não há brilho nenhum, falou, puxando-me para mais distante do lago.

Mas, apesar de tentar me puxar, resisti para ficar no mesmo lugar.

, você está bem? – Rena perguntou.
, olhe para mim! – indagou firmemente, virando-me.

Olhei nos seus olhos e consegui pensar normalmente.
– Você está bem? – perguntou.
– Estou. Eu só fiquei encantada com o lago. Não se preocupem – falei sorrindo.
– Você tem que parar de me dar sustos assim. Fiquei preocupada – falou Roxie, aproximando-se mais de mim.
– Acho melhor descermos – sugeriu Rena. – A tinha razão. Acho que você não deve se esforçar tanto.
– Gente, eu estou bem. Só nunca vi um lago tão lindo – falei, afastando-me de que ainda segurava meu braço.
– Melhor voltarmos. Os meninos já devem ter chegado – relembrou Mila.
– É verdade. Vamos voltar! – disse, virando-se para descer.

!
Escutei meu nome ser dito vindo do lago.
– Vocês ouviram? – perguntei, olhando em todas as direções.
– Escutamos o quê? – perguntou Mila.
– Meu nome. Escutei alguém me chamando – falei, dando alguns passos para o lago.
– Não! – me segurou pelo pulso.
!
A voz era simplesmente delicada e suave.
, não é nada. Vamos descer – falou, puxando-me.
– Não! Você ouviu. Sabe que ouviu e sabe que eu ouvi – falei, notando o desconforto no seu rosto.
, não ouvimos nada – falou Roxie apreensiva.
– Mas... , você ouviu. Sei que ouviu – falei, puxando o meu pulso de sua mão e me aproximando do lago.
Quando olhei novamente, todo o lago cintilava e com isso acabei mergulhando nele.
Quando entrei em contato com a água, foi como se todos os meus poros estivessem se dilatando. Sua água tão cristalina permitia que eu visse todo o lago sem dificuldade alguma. O brilho do fundo continuava intenso e convidativo e nadei em sua direção. Sua extensão era absurdamente funda e seu brilho, hipnotizante, mesmo sabendo que, quanto mais eu nadava em sua direção, menos chances de sair viva eu tinha. A sensação de necessidade de toda aquela água em torno do meu corpo era cada vez maior, meu oxigênio quase não existia mais, porém não me importava e não me incomodava. Mesmo sem a certeza de que sairia daqui, eu tinha certeza de que ficaria bem. Se me perguntasse como ou porquê dessa grande alucinação, que seguia sendo afirmada cada segundo estar fixada em minha mente, não saberia responder. Não me importava mais nada. Apenas chegar ao fim daquele lago.

! – ouvi a mesma voz delicada me chamar. – Venha, ! Isso mesmo, querida! – com essas pequenas frases de incentivo, abri a boca para perguntar quem era, mas, apesar do desconforto que esperava sentir nos meus pulmões, senti a pressão diminuir e consegui respirar normalmente.

, escute-me! Pare! – reconheci a voz de se aproximando.

, venha! – e a delicada voz surgiu novamente do fundo do lago e a segui.

Minha curiosidade crescia a cada instante e senti alguém me puxar pelo pé.
– falei, virando-me e ainda estranhando o porquê de conseguir falar embaixo do lago. – , por que estou falando embaixo da água? Você ouviu, não ouviu? Ouviu alguém me chamar? Existe algo de errado comigo?
, acalme-se! Vamos voltar e explicarei tudo para você. Eu prometo! – falou, oferecendo-me a mão.
– Não! Quero saber tudo agora! Tudo que tenho para saber – falei, suplicando.
, escute-me: sua transformação ainda não está completa. Você vai sentir falta do oxigênio em breve. Vamos voltar e eu lhe explicarei tudo – falou preocupada. – , não posso ficar embaixo d’água por muito tempo. Vamos voltar ou não terei tempo suficiente para levá-la de volta.

– Não a escute, ! Venha, venha! – escutei novamente.

Quando pensei no que fazer, senti uma queimação nos meus pulmões, na garganta e em várias outras partes.

– Não! ! – ouvi gritar e me puxar para alguma direção antes de perder os sentidos.



Príncipe, Comandante... Grandes títulos para um mestiço como eu. Cresci superando expectativas e surpreendendo meu pai a cada dia. Não sou um imortal, não tenho grandes poderes. Sou apenas um terço do que meu pai é. Nasci de uma humana fraca e miserável. Hoje em minhas veias corre um sangue não honrado. Por isso busco minha honra, busco superar cada dia os passos do Grande Rei Neid, meu pai.
– Pai, posso falar com o senhor? – entrei no grande castelo, direcionado-me ao trono do grande Rei Neid.
, meu filho, não tenho tempo para suas conversas filosóficas agora – falou, já se levantando de sua grande cadeira.
– Não é nada disso – falei, aumentando o tom de voz. – É sobre o exército.
– O que houve dessa vez? – questionou furioso. – , se não estiver dando conta desses homens, como quer ser Rei?
– Nunca lhe pedi para ser Rei e não cobiço sua grande coroa – afrontei-o.
Ele riu riu ironicamente, uma risada odiosa.
– Esse é seu erro, Sohn: não cobiçar. Todos cobiçam, todos queriam ser você, meu sucessor! – falou, descendo os pequenos degraus que criavam uma certa distância entre nós. – Você deveria ser agradecido por ser o meu filho, Criança!
– Eu sou, pai. Sou agradecido, mas quero chegar ao trono por méritos meus e não por ser o filho do grande Rei Neid – falei, recuando.
– Não existem méritos na monarquia, ! Não precisamos disso, seu töricht – gritou exaltado.
– Não quero ser uma sombra do senhor! Por isso sou o comandante do exército, Pai. Farei grandes coisas – falei com orgulho.
– Sua parte humana o destrói. Sua parte humana, Sohn, o deixa fraco, querendo provar honra. Não existe honra, – falou, olhando para mim com pena. – Você acha que, se não fosse meu filho, seria comandante de algum exército? Não se engane. Você não passaria de um exilado.

Vergonha? Humilhação? Não! Sentia ódio, ódio por ter nascido de uma humana, ódio por ela ter me entregado, ódio por sentir em minhas veias o sangue que o meu povo mais odeia!

– Isso me lembra – tornou a falar. – Eu lhe dei uma tarefa, . Cumpriu?
– Sim. É sobre isso que vim falar sobre o senhor – falei.
– E então? Conseguiu? – falou entusiasmado.
– Sim. Já está no calabouço! – falei calmo.
– Ótimo! Hoje, querido Sohn, saberemos tudo além de nossas fronteiras – disse, soltando um esboço de um pequeno riso. – Acompanhe-me!

Capturar um ser mágico não foi tão difícil. Fadas são tão bondosas e auxiliadoras de humanos que sua captura é fácil. Com meu sangue mestiço, elas sentem presença humana e se tornam uma presa rápida de se capturar.
Adoro ver sua grande resistência sendo esgotada por cada corte e veneno injetado em seu belo corpo. Não pela maldade, mas pela força que exalam, pelo poder. O poder das fadas é interligado com a de sua Rainha. Assim, curam-se rápido de ferimentos artificiais, o que torna mais interessante vê-las sofrer com injeções de veneno que fazem suas asas ficarem impossibilitadas de voar, e o que é um fada sem asas? Nada.

Assim que cheguei às portas do calabouço, senti uma tontura e me encostei em suas grades.

? – ouvi a voz do meu pai.
Mas não conseguia vê-lo. Via um brilho, um brilho intenso no fundo de um lago encantador. Então, em pouco instantes, senti a pressão da água em minha cabeça e não conseguia respirar. Lutei com a falta de ar e ouvi um nome ser dito…

?!

* Tradução do alemão:
– Sohn: Filho.
– Töricht: Tolo.


Capítulo 4


Flashback – Dezoito anos atrás – Alagazia

A fúria do grande Rei dos Tritões nunca tinha sido tão grande. Seu ódio chegava a transparecer nos mares. Fortes ondas e grandes tsunamis estavam sendo criados.

– Como ousa, Aine?! – gritou enfurecido. – Como não me apoiou?!
– Acalme-se, Athos. Eu não podia ser condescendente com isso nunca! – respondeu a doce Rainha.
– Podia, sim! Você não quis. Você, que sempre disse ser minha amiga! Isso é traição! – falou enfurecido, aproximando-se da Fada.
– Traição? Traição? Traição é o que fez com o nosso mundo, nossas leis, nosso povo – falou irritada. – Você nos traiu, Athos!
– NÃO! Eu apenas amei, Aine. Amei – falou, diminuindo o tom da voz.
– Uma humana! Humana, Athos. Existimos para que eles possam existir, mas não podemos nos relacionar com eles. Não devemos – a doce Rainha se aproximou, pondo suas delicadas mãos no rosto do Rei. – Você sempre gostou de quebrar regras, sempre foi espontâneo, mas tudo tem limites, Athos.
Ao olhar nos olhos da bela da Rainha, viu sinceridade e decepção e logo sentiu o peso dos seus atos e as consequências que eles trouxeram. Sentiu vergonha por falhar como Rei, sentiu raiva por botar a vida de sua humana em risco, sentiu ódio por não pensar no seu povo primeiro. O que era um Rei que não pensa em seu povo? Não era nada! Ele não era um homem mau, nunca foi, mas nunca percebeu que suas atitudes eram tão ruins e tão irresponsáveis.
– Como pude ser tão tolo, Aine? Como? – falou por fim.
– Não são só os humanos que erram. Nós também – falou, abraçando-o. – Você vai ficar bem. Vai ficar.

Flashback off



– Como se sente, Sohn? – perguntou meu pai assim que apareci no grande salão.
– Bem. Sinto-me bem – falei simplesmente.
– O que aconteceu, precisamente? – questionou curioso.
– Não sei. Já lhe expliquei várias vezes o que me lembro – falei, sentando-me na mesa para o café da manhã; – Foi como se me faltasse oxigênio, como se o ar não fosse suficiente.
Falei, omitindo que escutei uma voz e tive uma espécie de visão: a delicada voz que falou um nome desconhecido e estranho. Intrigado? Curioso? Talvez até demais.
– Você precisa de um curandeiro. Imagine se o povo souber que o sucessor, meu único sucessor, está doente – falou grosseiramente, quebrando meus pensamentos.
– Não preciso de curandeiro, Pai. Foi apenas um mal-estar – rebati.
– Mal-estar! Hum, essa sua parte humana sempre o enfraquecendo. Você é fraco! – gritou revoltado. – Aquela maldita da sua mãe, com sangue imprestável e fraco!
– E você acha que eu não sei? Acha que eu não sou o maior prejudicado nisso?! – gritei, batendo na mesa. – Como você acha que eu me sinto com esse sangue imundo correndo entre minhas veias, oh, Grande Rei Neid? Eu sei muito bem como é ser fraco.
– Talvez você devesse participar das minhas experiências, Sohn. Quem sabe assim eu o deixo puro? – falou, tentando parecer inocente.
– Suas experiências nunca dão certo, Pai. Não quero acabar morto como um bicho estranho e desconhecido.
– Talvez isso mude, . Talvez isso mude. Você capturou uma jovem e bela Fada, Sohn. Só preciso fazer com que ela fale e assim eu descubro como entrar em Alagazia. Preciso de magia. Há muito tempo não temos magia. Há muito tempo, nosso povo foi banido da magia. Há muito tempo, EU fui banido da magia e não quero mais passar mais tempo – falou, soltando um grito de raiva. – E com a magia, , você se torna puro.
Puro? Eu me tornando puro! E tudo isso com um simples Abracadabra. Agora, sim. Agora eu tinha motivos e objetivo para procurar Alagazia e tudo se torna apenas questão de tempo.
– E o que estamos esperando? Vamos fazer a fadinha falar – falei, direcionando-me para o calabouço.



Assim que acordei, vi-me em volta de um lago. Parecia o mesmo lago em que me joguei, mas não a mesma superfície. Estava deitada em volta de árvores densas e verdes e uma grama muito bem cuidada. Levantei-me devagar com a cabeça pesada e girando, meus pulmões queimando e minha garganta seca. E observei atentamente o lugar: simplesmente belo. Assim que me questionei onde estava, lembrei-me de tudo, de como caí no lago, da entrando comigo, da voz, de falar de baixo d’água e me responder. E depois apenas de ser consumida por toda água. Observei todos os lados daquele bosque e a procurei, mas não a vi. Notei a floresta, vi vários caminhos como trilhas e minha insegurança me consumiu.
– Deus, por que não um só? – falei sozinha, olhando para o céu. – Já estou até falando só nesse lugar.
Fiz um “mamãe mandou” e peguei o primeiro caminho da esquerda.
Percorri o caminho extenso e belo com as árvores que pareciam ter vida – a cor das folhas e flores eram tão vivas e exóticas – atrás da e pensei em gritar seu nome, mas imagine se eu acabo entregando minha localização para um assassino ou até, sei lá, um estuprador? Andei atenta e senti como se estivesse sendo vigiada, mas não vi nada nem ninguém.
E, com essa sensação me perseguindo, andei mais rápido e mais na frente vi uma árvore com um grande buraco no meio e brilhos saindo de lá, como um pisca-pisca de Natal. Assim que cheguei à frente, pensei se devia entrar ou não, mas o que eu teria a perder se não sabia nem onde estava? Ao entrar naquela parte oca da árvore, vi-me em outro lugar: estrelas brilhantes como um céu e me lembrava de estar de dia lá fora e, mesmo que o espaço fosse escasso, senti que podia correr como se estivesse num campo aberto.
– Aproxime-se, querida – falou a velha senhora. – Deixe-me ver o seu futuro.
E, com essa simples frase, me assustei. Notei a mesa no canto da oca e, por trás, uma senhora sentada com cartas em suas mãos. Entendi que queria que eu me consultasse com ela, mas não tinha tempo para isso. Precisava saber onde estava.
– Não tenha medo. Aproxime-se – falou baixo, quebrando meus pensamentos.
– Não tenho medo. Só me assustei um pouco – disse, aproximando-me da mesa.
– O que esperava encontrar aqui? – perguntou, rindo.
– Não sei. Na verdade, eu me perdi por aqui – falei, sentando-me na cadeira na frente da senhora e me esquecendo de lhe perguntar onde eu estava.
– Entendo, querida. Chamo-me Ursol e quero saber se você está disposta a saber o seu futuro – perguntou, enquanto mexia nas cartas que estavam em suas mãos.
– Hum, claro. Por que não? – falei curiosa e esquecendo meu propósito de ter entrado na árvore.
E, assim que falei isso, vi um sorriso sair do rosto da pequena senhora sentada em minha frente.
– Corte o maço e escolha cinco cartas – ouvi-a dizer. – E coloque todas viradas para baixo.
Fiz o que disse e esperei ansiosa o que sairia dali. Assim, ela começou a virar as cartas e a primeira que eu vi tinha escrito “O Louco”, e assim esperei...
– Sua primeira carta, querida, foi O Louco e com ela você pode esperar coisas novas em sua vida. Talvez um novo conhecimento, novas aventuras ou até uma visão diferente sobre as coisas – ela disse, olhando em meus olhos.
E, assim que voltou sua atenção à mesa, virou outra carta e nela estava escrito “A Lua”.
– A Lua, O Louco... Hum – murmurou pensativa. – Você irá ter grandes aventuras, querida, mas elas envolvem segredos. Segredos antigos que conduzem sua vida. Você está confusa e isso lhe traz dúvidas sobre esse novo mundo que vai surgir para você.
E, a cada palavra que ela me dizia, eu tentava me lembrar como cheguei ali, como fui parar em um lugar que nunca vi antes. Lembrava que precisava da , mas não conseguia sair daquela cadeira.
– Continue – disse ansiosa.
E ela riu.
– Lembrou-se de algo, querida? Algo que você precisa saber? Algo que lhe escondem? – questionou curiosa.
– Apenas continue – disse-lhe. E, com isso, virou mais uma carta.
– Os Enamorados – disse-me. – Você terá influências, terá uma grande dualidade, terá que fazer grandes escolhas em sua nova vida. Talvez lhe apareça até um novo amor, mas não se deixe influenciar, querida. Talvez você precise ser aquela que vai influenciar.
E assim virou outra carta.
– A Papisa, como eu disse – falou e riu. – Nunca erro – disse para si. – Você é sábia, meu doce. Não se deixe confundir. Acredite em seus instintos, seja sua própria sabedoria. Talvez pessoas precisem de você.
– Que pessoas? – ouvi-me perguntar.
– Ora, ora, meu doce. Seu povo – falou como se fosse óbvio.
– Meu povo? Mas que povo? – falei, questionando-a pela primeira vez.
– Ora, não seja tola, querida. Não tenho muito tempo. Falta apenas mais uma carta – falou, já virando a última. – A Estrela – falou – Bem óbvia essa – disse-me. – Você não andaria por aí sozinha, não é? Tem uma estrela, uma proteção. Apenas não se engane e confie na proteção errada. Você sentirá a conexão, .
E, assim que disse meu nome, me despertei.
– Como sabe o meu nome? – perguntei, levantando-me.
– Ora, você me disse – respondeu nervosa.
– Não, não disse – falei. – De onde me conhece? Sabe que não sou daqui? Onde estou?
– Não seja tola, kind. Claro que você é daqui. Não entraria aqui se não fosse! – disse-me, exaltando-se com minha falta de informação. – Agora saia. Preciso ir. Seu tempo acabou.
– E para onde vou? Onde estou? Por favor, ajude-me! – pedi desesperada.
– Você não sabe onde está mesmo, ? – falou, olhando-me espantada. – Então isso quer dizer que o Rei...? – falou, arregalando os olhos. – Querida, você precisa sair daqui. Eu, eu... Não posso ajudá-la – falou nervosa, indo para o canto da árvore oca e abrindo uma espécie de baú. – Tome use isso – falou, entregando-me um tipo de manto.
– Mas para quê? E que Rei é esse?– disse, pegando e me vestindo com o manto longo.
– Não temos tempo. Apenas saía. Tente voltar por onde veio. Precisa achar sua protetora – falou, empurrando-me para fora da árvore. – Até mais, – disse-me, tocando em meu cabelo. – Espero ainda vê-la um dia.
E assim me empurrou para fora bruscamente e acabei caindo no meio da vasta floresta. Levantei-me, sem entender nada do que se passou ali, e entrei novamente na árvore, mas não tinha mais brilho. Não tinha mais mesa nem sinal da senhora. Era apenas um lugar vazio e frio.


Capítulo 5


Flashback – Dezessete anos atrás – Alagazia

Nervosa! Assim que se sentia a doce Rainha da Fadas ao voltar do mundo dos humanos. Não acreditava no que tinha visto e não sabia o que fazer. Ele tinha jurado perante ao conselho que isso não tinha chances de acontecer. E, com aquele segredo em mãos, ela precisava que ele soubesse, precisava tomar a decisão certa, precisava falar com Athos.
– Mira? – chamou a Rainha.
– Aqui estou, Aine – ouviu Mira responder rapidamente. – Mande uma mensagem. Preciso encontrar Athos urgente. Diga que esperarei no lugar de sempre.
– Sim, senhora – e saiu tão rápido quanto chegou. Nunca tinha visto sua Rainha tão apreensiva.
E, assim que Mira se retirou, Aine continuava voando de um lado para o outro do salão do trono, perdida em seus pensamentos. Não demorou muito e saiu voando apressadamente para o local de seu encontro: o lago Erfreut.
Antes mesmo de chegar ao chão, conseguiu visualizar o brilho dourado da enorme cauda do Rei dos Tritões.
– Aine, o que é tão urgente que me mandou vim o mais rápido possível? – questionou o Rei assim que a Rainha chegou à beira do lago.
– Ah! Athos, não sei nem o que fazer com essa informação e, assim que você souber, ficará tão perdido quanto eu – falou desolada.
– Prossiga, Aine! Não me deixe nervoso – disse, agitando sua cauda.
– Bom, fui visitar o mundo dos humanos hoje por causa da mudança de estações e tudo mais, e vi sua humana, e ela... – hesitou, sem saber como falar.
– E ela o quê? Está doente? – falou, quase gritando – Fale, por favor!
– E ela está gerando um feto – falou por fim.
Com essa frase, o Rei não soube como reagir, não soube o que pensar nem o que falar.
– Fale algo, Athos! Não me deixe inquieta – pediu a fada.
Depois de mais alguns segundos de silêncio, o Rei decidiu se pronunciar.
– E o que eu tenho a ver com isso, Aine? – disse indiferente. – Essa cria pode não ser minha.
– Eu pensei da mesma forma. Afinal, os hábitos humanos mudaram muito e agora eles não estão mais sendo tão exclusivos com esse tipo de assunto – disparou a Rainha nervosa, falando tudo muito rápido. – Rntão tive que ter certeza de que estava errada.
– O que você fez, Aine? – falou o Rei, mudando sua cauda para pernas e se levantando das margens do lago.
– Eu me aproximei da humana e toquei sua barriga – disse nervosa e um pouco receosa.
– Você o quê?! – exclamou nervosa. – Sabe que isso não pode!
– Ei, eu sei! Mas não fique nervosa. Eles deixam qualquer um tocar na barriga deles. Não são como nós! – disse, explicando-se. – Mas só assim pude saber se estava errada ou não. E descobri que o feto não é totalmente humano! Você tem um filho, Athos!

Flashback off.



Horas... Estamos há horas nesse calabouço e essa maldita fada não fala nada. Pedi ao meu pai para me deixar encarregado de tentar fazer com que ela fale algo, mas, mesmo com ameaças e até alguns cortes, essa fadinha não abre a boca.
– Escute aqui, fadinha! Acho bom você falar comigo, porque, se o meu pai vir que não estou conseguindo fazer você abrir a boca, pode sobrar para nós dois – disse, encarando-a com raiva.
– Blutsverräter! – e, depois de horas, a única coisa que ela gritou para mim foi isso: essa palavra sem sentido.
Quando pensei em questiona-lá sobre do que ela me chamou, meu pai chegou.
– Chega, ! – disse nervoso – Você teve sua chance. Quis manter clemência e mostrar sua honra e veja aonde isso o levou: para lugar nenhum.
Aproximou-se da fada e tocou seus longos cabelos ruivos.
– Irei lhe mostrar, Sohn, como você deve agir – falou, aproximando-se da mesa e pegando seringas com substâncias para mim desconhecidas. – Sei que seu povo tem uma ligação direta com a Rainha Aine, sei que ela sente tudo que vocês sentem, porém ainda não tive o privilégio de comprovar isso. Se me permite… – falou, dirigindo-se à fada e, assim que parou de falar, segurou fortemente o seu queixo, girando-o e deixando à mostra seu pescoço, e injentou ali toda a substância.
Em poucos segundos, aquele belo ser começou a se debater loucamente. Suas asas ganhavam uma cor estranha como fumaça e seu corpo, antes rígido na cadeira, agora estava fraco e sustentado apenas por estar sentada e presa.
– O que fez com ela? – questionei, aproximando-me devagar.
– Apenas fiz o que tinha que fazer – falou, sentando-se na cadeira que estava de frente à fada, separados apenas por uma mesa.
– Não! Não tinha que fazer isso. Ela é um ser como nós, Pai – falei exaltado. – Ela é pura!
– Como nós? , você não é como nós! Você é um bastardo – disse, gargalhando profundamente.
– Posso ser um bastardo, mas procuro minha pureza. Você, pai, não tem nenhuma! – disse com raiva. – Olhe o que fez. Isso deixou de ser um interrogatório ou qualquer coisa que o senhor use para justificar esse ato. Ela é um ser puro. Não merece nada disso!
– E o que você vai fazer, ? – questinou, levantando-se e andando para junto de mim, prensando-me à parede. – Diga, seu bastardo! O que vai fazer?
Os seus gritos foram seguidos por gargalhadas que me traziam ainda mais raiva daquele ser que eu chamava de Pai. Ao estar presente pela primeira vez em uma de suas experiências, senti-me culpado. Tão culpado quanto ele, que injetou aquela substância. Eu que capturei aquele ser que estava sentado quase morto e que sofria por uma decisão egoísta minha.
– Nada, não é, Sohn?! – disse o Rei, quebrando meus pensamentos. – Você nunca faz nada.
Andou em direção à porta e segui em direção à fada.
– Deixe-a aí! Voltaremos após o jantar para as perguntas. O veneno ainda não fez efeito totalmente, Vamos! – falou ríspido, saindo rapidamente.
Olhei novamente para fada e não diria que era a mesma. Suas belas e lindas asas com um cor de castanho mel estavam com um cor de fumaça, seus belos cabelos ruivos perdiam a cor aos poucos, seu corpo sem forças jogado de qualquer maneira. E assim senti. Senti, sem poder explicar o que senti, que não podia deixa-lá ali, não podia deixa-lá sofrer mais, e decidi que não deixaria.



Assim que consegui tirar do lago e leva-lá para superfície, pensei no que iria fazer. Bom, eu estava de volta a Alagazia, melhor dizendo, nós estávamos em Alagazia. Não era nada bom. está Alagazia antes do tempo certo. Que ótima protetora eu sou! Tinha que me comunicar rapidamente com a minha Rainha e o Rei Athos, mas não podia deixar sozinha. Esperei, sacudi e nada dela despertar. Já estava começando a ficar preocupada. Ela com certeza não vai acordar enquanto eu vou e volto né?
Levantei-me rapidamente da grama e segui para o meu castelo, minha casa. Saudades, isso que eu senti. Saudades de voar, saudades do meu povo, saudades da minha Rainha. Assim que saí do lago Erfreut, o feitiço que escondia minhas enormes asas azuis foi quebrado e me senti completa novamente. Avistei o meu lar em poucos minutos de voo e isso me fez avançar mais depressa. Não podia deixar sozinha por muito tempo. Assim que cheguei à porta do palácio, os portões se abriram e logo vi minhas irmãs.
, o que faz aqui? – escutei uma voz me questionar e logo vi Mily.
– Mily! – voei até ela rapidamente e a abracei. – Estava com saudades.
– Eu também, – disse quando a soltei. – Pensei que sua missão no mundo dos humanos ia demorar mais tempo, mas fico feliz que estava enganada.
– Não estava, mas ocorreram certos contratempos. Necessito ver a Rainha Aine imediatamente – falei, recordando-me de desprotegida naquele lago.
– É tão urgente assim? – falou preocupada. – Não me diga que os humanos descobriram que você é uma fada.
– Não, nada disso! Mas não posso explicar agora. Preciso ver a rainha. Nós nos falamos depois – falei, já me afastando e seguindo em direção a salão do trono. Assim que cheguei à porta, vi Mira.
? O que faz aqui? – perguntou-me.
– Não tenho tempo de explicar agora, Mira! Anucie-me, por favor! Preciso falar com Aine – notando meu desespero, ela abriu a porta rapidamente e a segui sem esperar que terminasse seu anúncio.
? O que houve? – voou até mim apressada a Rainha.
Olhei nervosa pra ela, desviei os olhos para Mira e logo ela entendeu.
– Mira, nos deixe a sós e não deixe ninguém entrar, por favor! – pediu gentilmente.
– Claro. Com licença– falou, retirando-se.
– Agora, me diga, … O que houve? – perguntou-me agoniada.
– É , minha Rainha! Ela está em Alagazia – falei rápido. – Está desacordada nas margens do lago Erfreut.
– Como assim? Ela não pode estar em Alagazia, ! – gritou Aine.
– Eu sei, mas foi inevitável. Desculpe-me! – falei chateada. – Tive que deixa-lá para vir até aqui pedir ajuda!
– Claro. Desculpe-me, mas as coisas estão mais complicadas por aqui e, com essa agora, não vejo sinal algum de melhora – disse inquieta, voando de um lado para o outro.
– Eu sei. Explicarei tudo mais tarde de como viemos para cá, mas precisamos buscar – falei nervosa.
– Sim! Claro, claro. E Athos, precisamos avisa-ló. Mandarei uma mensagem para nos encontrarmos no lago Erfreut – falou, já voando em direção à porta.
Segui-a, paramos apenas para mandar Mira enviar a mensagem e seguimos juntas para o lago.



Continua



Nota da autora: ---


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