Última atualização: 01/02/2020

Capítulo 1

PoV

- ... ... , acorda. – Senti uma mão me sacudindo de leve.
Levantei a cabeça, percebendo que eu ainda estava na sala de aula e provavelmente caíra no sono sem perceber. Notando que só tinha eu e minha melhor amiga, Zoe, naquele ambiente chato, imaginei que provavelmente todos haviam saído. Deveria ser o intervalo.
- Não acredito que dormi no meio da explicação de física. – Disse, meio sonolenta.
Olhei para frente, vendo alguns rabiscos no quadro. Deduzi que fosse alguma coisa a ver com eletricidade.
- Sim, você dormiu de novo, . Você prometeu que ia se esforçar. – Zoe disse, brava.
E tinha motivo. Tinha tentado estudar mais, o que me deixava um pouco cansada, fazer o quê. Era meu último ano naquela escola e meu maior problema era a tal da física. Eu tentava entender, tentava mesmo, mas sempre acabava dormindo na explicação.
- Me desculpe, Zoe. Sei que prometi, estou me esforçando bastante. Tanto que caí no sono por conta de ter ficado até tarde estudando. - Fiz bico pra ver se ela aliviava a bronca e levantei da minha cadeira, indo em direção à porta da sala.
Eu entendia o porquê de ela estar com raiva. Zoe era minha melhor amiga desde os meus 10 anos. Tudo nós fazíamos juntas. Ir para faculdade estava nos nossos planos. Eu queria me especializar em Marketing. Já a Zoe, em Psicologia, o que realmente era a cara dela.
- Ai, tá, . - Disse Zoe, me acompanhando lado a lado.
Fomos para o refeitório, pegando o lanche do dia – torta de frango e suco de uva –, me sentando logo depois em qualquer uma das mesas vazias dali. Dei uma olhada ao redor, vendo como era a Hish School Seattle, como os famosos separatistas por classes sociais ou estilos estavam divididos nos principais grupos. No centro, como sempre, os populares. De um lado, o clube de música. Do outro, o clube de teatro. Sem contar os arredores que tinha gente comum, como eu e Zoe.
Eu não fazia parte de nem um desses três grupos, até porque não me importava nem um pouco. Para falar a verdade, eu não era popular e muito menos a clássica menina nerd, esquisita e isolada do mundo. Não, definitivamente não era assim. Podia ter dinheiro, pois era herdeira de uma das mais famosas empresas de cosméticos de Seattle, mas não me exibia e muito menos exibia minha classe social.
- , você viu o ? - Zoe me perguntou enquanto procurava o seu crush.
, o sub capitão do time de beisebol, o crush mais que querido da minha melhor amiga. tinha 1,78m de altura, os cabelos cacheados da cor castanho e olhos verdes. Um verdadeiro príncipe. E Zoe tinha sorte com isso. Ela era amiga e vizinha dele desde os 11 anos e apaixonada desde os 12. O sentia a mesma coisa por ela, mas os dois eram tímidos e não se resolviam. Eu não entendia.
- Deve estar por aí, Zoe. Se acalma. – Disse, levando meu grafo cheio de torta de frango à boca.
Senti uma mão em minhas costas e escutei uma voz rouca dizendo um "oi, meninas". Era ele. Zoe tratou logo de abrir um sorriso de orelha a orelha. No mínimo, deveria disfarçar, já que não queria falar que gostava dele.
– Viu? Eu disse que ele tava por aí, não precisava ficar preocupada.
- Cala a boca, . - Disse Zoe, chutando minha canela por debaixo da mesa. - Não liga pra ela, . A não dormiu muito bem e não tá falando coisa com coisa. - Ele riu, sentando logo perto dela.
- Calei a boca então. Estou nem aqui mais, até fui excluída. - Cruzei meus braços, fingindo estar brava, o que não adiantou muito pois o sino tocou. – Nossa, o intervalo foi pequeno hoje. O que será que aconteceu?
- Não foi pequeno, o que aconteceu foi que fiquei 10 minutos tentando acordar você, que parecia que não ia acordar. - Revirei os olhos, sabendo que, às vezes, Zoe exagerava.
- Ok, vou fingir que é verdade. O próximo tempo é de história, o que significa que não vou dormir. Viu, Zoe? – Eu me levantei da mesa, olhando para os dois que ainda estavam sentados, só faltando se abraçar.
- Pelo menos, isso, né?! - Fiz bico, Zoe tinha tecnicamente me chamado de burra. Não era burra, só tinha dificuldade em física e matemática.
- Vamos logo, né, minha gente. O sinal tocou já faz 5 minutos. - Zoe se levantou e se virou pro . - Ah... , que tempo você tem agora?
- É de história também, vou ficar perto de vocês duas. - O cacheado disse, abrindo um sorriso lindo com covinhas que, particularmente, eram seu charme, fazendo minha amiga ficar vermelha.
Paramos de bobeira e entramos dentro da nossa sala junto com a professora de história. A hora da saída chegou mais rápido do que o esperado, graças à Deus. Não que eu não gostasse de estudar. Eu gostava muito mas, naquele dia, estava difícil e chato.
Eu me despedi de Zoe e , indo pra garagem pegar meu carro. Entrei no mesmo e fui direto pra casa. Não demorou muito até eu chegasse em casa. Estacionei na minha vaga, desci e olhei para lado, notando um movimento diferente na casa do vizinho. Um caminhão e uma BMW preta estacionados na frente, acho que alguém devia estar se mudando. Dei de ombros, entrei em casa e, pelo visto, não tinha ninguém.
- Menina , que bom que chegou. Preparei uma deliciosa comida pra você. - A voz doce de Martha preencheu a casa silenciosa.
Martha era a governanta da casa, uma mulher de 53 anos, uma pessoa maravilhosa e era como se fosse minha segunda mãe. Cuidava de mim enquanto meus pais trabalhavam mas, pra falar a verdade, ela fazia aquilo até aqueles dias. Amava muito a Martha e eu não sabia o que eu seria sem ela.
- O que você preparou? – Perguntei, chegando mais perto dela e lhe abraçando. Já disse que Martha tem o melhor abraço?
- Preparei Ori los¹ e Jeon². Ouvi dizer que você queria comer, resolvi fazer pra você com todo meu amor. Espero que goste, menina. – Disse, trazendo o prato com minha comida coreana favorita.
Sim, isso podia ser estranho, mas eu amava comida coreana. Quando eu tinha 13 anos, me mudei para a Coréia do Sul por conta do meu pai abrir uma filial lá. Aproveitamos que ele estava fazendo negócios e resolvemos morar lá. E foi uma das melhores fases da minha vida.
- Obrigada, Martha, deve estar delicioso, como tudo o que faz. - Experimentei o Jeon primeiro, vendo que realmente estava ótimo.
Enquanto comia, me lembrei da casa do lado, o caminhão e a BMW. Quem seria que estava se mudando pra nossa vizinhança? Seria uma família grande? Mas não tinha cara de ser pois tinham uma BMW. Isso não era um carro pra uma família normal ter, devia ser um adolescente qualquer que acabara de sair da casa dos pais. A curiosidade foi maior e acabei chamando Martha pra perguntar se ela sabia quem era o novo vizinho ou vizinha. Recolhi o prato de comida que já tinha terminado e coloquei na pia.
- Menina, deixe que eu limpo, esse é meu trabalho. – Disse, vindo atrás de mim e tentando me impedir de tirar a mesa. - E não, eu não sei quem é. Por quê, menina? - Martha me olhou com os olhos semicerrados, já até sabia o que ela estava pensando.
- Curiosidade, só isso. – Disse, sorrindo levemente. - Só curiosidade. - Sussurrei, subindo as escadas, indo direto para meu quarto, onde tratei logo de me deitar e cair no sono.

+++


O jantar estava pronto e meus pais estavam à mesa junto comigo. De pouco em pouco, Martha foi colocando a comida na mesa. Eu me servi primeiro e, em seguida, meus pais.
- , como foi a escola hoje? - Perguntou-me papai.
Era sempre a mesma coisa: nós sentávamos na mesa, comíamos e falávamos sobre escola e qualquer outra coisa voluntária. Por mais que não tivéssemos um vínculo muito grande, eu amava a hora do jantar.
- Foi boa, como sempre, papai. - Respondi, cortando a carne que estava no meu prato e colocando em minha boca. - Assim que eu acabar de jantar, irei estudar.
- Ótimo, , assim que deve ser. Temos muito orgulho de você. - Mamãe resolveu se pronunciar.
E assim se passou a hora do jantar, com conversas paralelas e elogios.
Subi para meu quarto para estudar. Peguei meu caderno e meu livro, começando a rever o conteúdo sobre eletricidade. Além de disso, estudei matemática também. Peguei meu celular pra checar se continha alguma mensagem, mas não havia nada. Olhei no visor, que marcava 23:00. Comecei a pensar em como um sorvete cairia bem naquele instante. Desci as escadas devagar pra não fazer barulho. Àquela hora, meus pais deveriam estar dormindo então, quanto menos barulho, melhor. Fui para a cozinha, abri a geladeira e comecei a procurar pelo bendito, não o encontrando. Isso era meio estranho, já que em casa tinha tudo.
Quer saber? Eu quero sorvete e eu vou ter! Vou no mercado 24 horas, pego meu carro e volto sem meus pais perceberem. Isso, vou fazer isso.
Olhei para baixo, vendo minha vestimenta, um pijama curto do meu desenho favorito: Hora de aventura. Ah, que se dane, não vai ter ninguém lá, só o atendente. Peguei minhas chaves e tentei fazer o mínimo de barulho possível para não acordar ninguém.
Cheguei no mercado e fui logo procurando a sessão dos frios e gelados. Parecia mais uma criança buscando um doce do que uma pessoa normal. Olhei mais adiante e vi a sessão. Tentei achar os sorvetes e peguei o de napolitano que eu tanto queria, então eu podia voltar pra casa. Mas algo me impediu de ir até o caixa e realizar minha compra, algo forte e duro que me fez cair no chão, levando meu sorvete junto. Olhei pra cima, me deparando com um ser maravilhoso, era o cara mais lindo que vi em toda minha vida.


¹ Pato cru em fatias com salada. Culinária coreana.
² Massa frita, á base de farinha e ovo, lembra uma panqueca: macia e de boa consistência. Culinária Coreana.


Capítulo 2


A vergonha era evidente em meu rosto e minhas bochechas estavam esquentando. Ele estendeu sua mão para que eu me levantasse e não hesitei em pegar. Após me levantar, limpei o short do pijama. Olhei demoradamente para ele. Vestia uma bermuda preta, camiseta branca e sandálias. Por mais que ele estivesse simples, ele estava bonito. Era branco, dos lábios grossos. Os olhos, castanhos. O rapaz tinha uma beleza diferente.
— Tudo bem contigo? Se machucou? — Perguntou-me o desconhecido.
Ele tinha uma voz grossa que me causou arrepios. Assenti em resposta. Já estava observando-o demais.
— Que bom! Desculpe-me, pois não vi você. Acho que preciso te comprar um sorvete. — Ele olhou um pouco adiante e segui seu olhar.
Meu sorvete estava todo derramado no chão.
— Hm… Não precisa. Essas coisas acontecem. — Tentei soar o mais confiante possível.
Ficar perto dele com aquela beleza toda não estava sendo fácil.
— Nada disso! Eu faço questão. — Novamente assenti, até porque ele iria não me deixar ir embora e eu precisava voltar pra casa.
Casa. Eu precisava voltar para casa. Corri o mais rápido possível e peguei o sorvete, dessa vez indo para o caixa sem ninguém para me atrapalhar. Pelo menos, era isso o que eu achava.
— Ei... Calma. — Disse o desconhecido, rindo e se colocando do meu lado.
— Olha, moço, eu tenho que ir embora. Acabei saindo meio que escondida só por causa desse sorvete, mas não posso ficar enrolando muito. — O atendente com cara de nerd olhava pra nós com um olhar entediado.
— É... Eu percebi pelo seu belo traje. — Seu olhar caiu sobre mim, o que me fez corar.
Tinha que me lembrar de nunca mais ir de pijama para um supermercado.
- Olha, eu disse que iria pagar e vou.
O desconhecido pegou sua carteira e depositou o dinheiro no balcão do caixa, o nerd logo pegou. Ele colocou na sacola e, em seguida, me entregou o sorvete.
— Pronto, apressada. Espero que aproveite bastante o sorvete. — Ele passou a língua nos lábios.
Por um momento achei que ele estava tentando me seduzir. Se não estava, conseguiu do mesmo jeito.
— Obrigada. — Olhei uma última vez para o desconhecido e fui embora.
Cheguei em casa do mesmo jeito que saí: em silêncio. Entrei em casa, indo direto até a cozinha pra pegar uma colher e comer aquele bendito sorvete. Sentei em cima do balcão e, enquanto comia o sorvete, meus pensamentos me levaram direto para aquele homem. Aquele gostoso! Era para ele ter ao menos me beijado. Balancei a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos malucos. Eu nem sabia o nome dele.
Desci do balcão e deixei o sorvete na pia. Eu já nem queria mais aquilo ali. Subi as escadas, indo direto para meu quarto. Precisava tentar dormir, pois eu tinha aula no outro dia.
Deitei-me na cama de lado, mas os pensamentos sobre ele vieram à tona de novo. Mas que droga! Eu quero dormir! , esquece isso! Você nunca mais vai ver o tal desconhecido bonitão e educadinho.

Acordei com o mesmo sentimento de todos os dias: preguiça e sono. Saí da cama apressada e fui em direção ao banheiro, fazendo assim minha higiene pessoal. Peguei qualquer roupa que tinha no guarda roupa, vestindo-a logo em seguida. Peguei minha mochila e desci as escadas da minha casa.
— Menina, você está bem? — Perguntou-me Martha.
— Sim, Martha. É só sono mesmo. — Sorri.
Ela pegou nosso café da manhã e colocou na mesa. Convidou-me para sentar e comer.
— Não, Martha. Não vou comer isso tudo! Eu preciso ir. Vou comer só uma maçã. Poderia pegar pra mim? — Apontei pra fruta que estava em cima da mesa, em uma bandeja, então ela pegou e me deu. — Obrigada.
Levantei-me da mesa e saí de casa. Eu não queria ir para escola naquele dia – como sempre –, mas eu sabia que não podia faltar. Prometi pra Zoe, maldita promessa. Eu só queria ficar sonhando com o senhor bonitão e saradão que eu tinha visto de madrugada. Que homem que gruda na cabeça!
Cheguei na escola e logo vi Zoe e conversando. Andei em direção a eles.
— Oi, pessoal. — Cumprimentei os dois que estavam à minha frente.
— Nossa, que animação, . Meu Deus, me animou bastante! — Ironizou a loira.
Minha voz não enganava mesmo.
— Ei, se anima, ! Você tem um motivo pra ficar alegre. — disse rindo, tentando me encorajar.
— Qual é o motivo? — Quis saber porque, já que ele estava falando, deveria ter mesmo.
— Amanhã é sábado. — Ele disse, batendo palmas e parecendo uma criança quando ganha doce.
Na verdade, eu sempre pensava isso, porque não parecia que era o vice capitão do time de beisebol e, sim, uma criança. Até cara ele tinha!
! — Alguém gritou meu nome, o que me fez dar um pulo, assustada. — Odeio quando você ignora a gente. Odeio. — Disse Zoe.
Eu deveria saber que era ela que tinha gritado.
— Desculpe-me.
— Está tudo bem.
O sino bateu logo em seguida. Caminhei junto com meus amigos para dentro da sala de aula. A primeira aula seria de biologia. Pelo menos uma matéria que eu gostava.

+++


Todas as aulas tinham acabado e eu estava voltando pra casa. Para falar a verdade, não foram tão chatas assim. Talvez era só por conta de ter dormido tarde por culpa daquela maldita vontade de tomar sorvete. Só de pensar em sorvete, me veio à cabeça aquele homem belo dos olhos castanhos. Aquele sorriso lindo e mãos grandes poderiam fazer um estrago... Balancei a cabeça e me recompus. Estava dirigindo e pensando nas mãos de um desconhecido em mim. Qual era o meu problema?
Estacionei meu carro em frente à minha casa, saindo do mesmo. Olhei para o lado, diretamente para casa dos vizinhos novos que eu não conhecia e que nem davam as caras. Meio estranho, já que geralmente todos que se mudam apresentam-se. Podiam ser pessoas solitárias que não tinham tempo ou não gostavam de apresentações.
— Ah, quer saber? Vou dar uma olhada. — Disse baixo.
Pisei no gramado do vizinho, indo em direção à porta da frente. Pensei em bater, mas não era uma boa ideia. Dei uma rodada em torno da casa. Era uma típica casa americana. Cheguei no quintal, rezando para que não tivesse cachorro, pois não queria ser mordida. E eles podiam me entregar. Dei mais uma olhada, não encontrando nada. Estava tudo em perfeito estado. Voltei pra casa como se não tivesse acontecido nada.
A comida já estava pronta quando entrei em casa. Peguei um prato, um garfo, coloquei a comida e comecei a comer. Comi e subi pro meu quarto. Queria muito conhecer o vizinho novo. Por que ele não aparecia? O mais estranho era que ele possuía um carro chique. Devia ser jovem, achava que pessoas mais velhas não se interessavam por carros da moda ou coisas desse tipo. Meus pensamentos foram cortados pelo toque do meu celular.
Tateei o bolso de trás da minha calça, achando o aparelho. Olhei o visor e era Zoe. Atendi no mesmo momento.
— Fala, loira! A que devo a honra? — Disse, rindo e também arrancando uma risada dela.
— Quero que você venha aqui em casa. Estou sozinha e sei que você não vai fazer nada. — Disse, mandona.
— Quem disse que não? Tenho um encontro mais tarde e preciso me preparar. — Segurei um riso com a pequena mentirinha.
— Encontro? Aham... Sei. Vem logo, vagabunda. — Disse, descobrindo minha brincadeira.
Nem sabia o porquê de ainda fazer aquelas brincadeiras, já que ela sempre sabia. Odiava como ela me conhecia bem.
— Quanto amor. — Falei, fingindo estar ofendida.
— Cala a boca, . Vem logo.
— Está bem. Estou indo, agressiva! — Disse, procurando minha chave.
— Sei que você me ama. Tchau. Venha logo. — E desligou a ligação sem me deixar responder um "tchau".
Nossa, que pressa! Tinha algo errado e tinha quase certeza de que o causador de tudo era .
Lembrei que a chave estava na mesinha de centro da sala. Desci as escadas, pegando as chaves logo em seguida.
— Martha! Martha! — Chamei a governanta, que veio rápido.
— Sim, menina. — Disse com uma expressão preocupada.
Acho que exagerei na gritaria.
— Vou passar a tarde na casa da Zoe. Se eu demorar para o jantar ou algo assim, sabe onde estou. — Ela balançou a cabeça em concordância.
— Tome cuidado, menina. — Martha me deu um abraço, se despedindo de mim.
Saí de casa, pegando meu carro e indo pra casa da minha amiga. Em 8 minutos, cheguei em frente à casa de Zoe. Estacionei ali mesmo. Entrei direto, até porque eu já era de casa. Encontrei minha amiga esparramada no sofá.
— Cheguei, monamour. Qual é a urgência? — Perguntei, tentando tirar os pés da Zoe do sofá para poder sentar.
— Não é urgência, é só… Sei lá. Queria passar a tarde com você, conversar... — Disse meio triste.
— Ah, eu sabia que tinha alguma coisa errada. Desembucha.
— É o , . — Disse, endireitando-se e abaixando a cabeça.
— O que esse filho de quenga fez? Quebro a cara dele. — Disse, exaltando-me logo.
Mesmo ele sendo meu amigo, eu defenderia minha amiga com unhas e dentes.
— Ah, ... Ele está diferente. Não conversa mais comigo e, depois que você foi embora, a Mandy chegou e convidou ele para um encontro. ficou todo animado. — Se as lágrimas nos olhos dela ainda não tinham caído, estavam prestes a cair.
— Zoe, não fique assim. — Abracei a loira, fazendo um cafuné. — A Mandy pode ser, sim, uma vagabunda, mas o não seria capaz de pegar aquela oxigenada. — Ela riu com meu comentário sobre Mandy.
O que é? É verdade.
— Acho que você deveria desprezá-lo. Quem sabe ele não te note mais e sinta sua falta?
— É, pode ser. Obrigada pelos conselhos. — Disse, com um sorriso brotando entre seus lábios.
— De nada, mas vamos parar de ficar nessa depressão e vamos fazer algo útil. — Falei, levantando e indo pra cozinha, sendo seguida por ela.
— O quê, por exemplo?
— Assistir nossas séries favoritas. Que tal? — Disse, chegando perto dela e apertando sua barriga, o que a fez rir por conta das cócegas que ela sentia.
— Ótima ideia. Vou ligar a TV e vamos ver Beauty And The Beast. — Disse, mais calma.
— Eu fico com a parte de fazer a comida.
Zoe ajeitou tudo e começamos a assistir a série. E passamos a tarde toda assim: comendo besteira e assistindo nossa série favorita.
Acordei com barulho de porta batendo. Levantei e notei que era a mãe de Zoe.
— Ah, meu Deus! Desculpe-me, . Não sabia que vocês estavam dormindo. Não queria acordar você. — Tentou se desculpar.
Olhei para o lado e minha melhor amiga estava mesmo dormindo.
— Tudo bem, senhora Thopsom. — Sorri. — Acho que está na hora de ir embora.
— Tudo bem, querida.
Acenei em resposta e saí da casa de Zoe, voltando para minha. Peguei meu celular e olhei o visor. Eram 23 horas, fiquei muito tempo na casa de Zoe. Entrei em casa e, pelo visto, todo mundo já estava dormindo, já que a casa estava em silêncio.
Subi as escadas. Queria tomar um banho para relaxar e dormir. Entrei no banheiro do meu quarto, tirei toda a minha roupa e liguei o chuveiro. Logo, estava me deliciando com aquela água maravilhosa. Não sei quanto tempo fique no banho, mas sabia que seria hora de sair, já que minhas mãos começaram a enrugar.
Peguei um pijama e comecei a me vestir. Um flash de luz invadiu todo meu quarto. Olhei para trás, vendo um vulto em minha janela. Corri em direção a ela, mas acabei não encontrando nada. Jurava que tinha visto algo. Acho que era coisa da minha cabeça. Devia ser sono. Terminei de me vestir e me joguei na cama. O sono profundo veio logo em seguida.


Capítulo 3

Eu quero você todo pra mim
Você é um gim e suco metafórico
Então vamos lá, me deixe experimentar o gosto
Do que é estar perto de você


Hands to Myself, Selena Gomez



Acordei e era aproximadamente 8h da manhã. O que eu fazia às 8 horas da manhã de sábado acordada? Pois bem, era um caso a se pensar.
Levantei da cama e fui fazer minha higiene matinal. Poderia muito bem dar uma caminhada, pensei. E foi isso mesmo que eu fiz.
Coloquei uma roupa adequada e desci as escadas, procurando alguma coisa pra comer. Sair com o estômago vazio era um horrível. Encontrei uma maçã na fruteira e a peguei.
Saí de casa e, enquanto caminhava, eu comia. Nada melhor que comer e andar.

+++


A caminhada e a maçã estavam boas, mas optei por só andar alguns quarteirões mesmo. A preguiça reinava e não queria ser tão fitness assim.
Voltei pra casa e vi aquela maldita casa do vizinho que parecia que não ter ninguém. O que custava dar mais uma olhada? Talvez sua vida, você pode ser pega, , pensei.
Adentrei a área da casa do vizinho “misterioso”, olhando pros lados pra ver se não tinha ninguém me vigiando, e não tinha mesmo. Dessa vez, tinha o mesmo carro que eu vi no dia da mudança em frente à casa, talvez ele estivesse dormindo. Ou não. Rezava pra que a segunda opção permanecesse.
Andei até uma janela mais próxima, dando uma bela olhada no que tinha dentro daquela casa. A janela onde eu estava era da sala. Era bem limpa, sem bagunça, com móveis todos alinhados. As paredes eram brancas e tinha um tapete vermelho no centro da sala.
— Posso ajudar em alguma coisa? — Uma voz falou e eu pulei no mesmo instante pelo susto que tomei. — Posso ajudar em alguma coisa? — A pessoa perguntou novamente.
Virei-me pra frente, me deparando com ele. O desconhecido.
Minhas bochechas coraram em questão de segundos. Já ele, olhava seriamente pra mim, com os braços cruzados em cima no peito. Ele vestia uma bermuda e uma camiseta cinza. Suor impregnava em sua camisa e em sua testa e o faziam brilhar um pouco, talvez poderia estar fazendo uma caminhada também. Olhei em seus pés e os tênis estavam neles, concretizando minha teoria.
— Moça, só vai ficar me olhando aí? Quero saber o que você fazia perto da janela da minha casa. — Pisquei duas vezes pra voltar ao normal.
A carranca na face dele era bem visível. O que deveria falar?
Vim ver se meu vizinho que nunca aparece estava em casa porque, como eu disse, nunca aparece, pensei. Mas óbvio que não iria falar aquilo.
— Ah... E-eu estava caminhando e sempre quis ver c-como era essa casa por dentro. — Disse com a voz vacilando. — Aliás, eu sou sua vizinha. — Estendi minha mão para cumprimentá-lo.
— Acho que você já viu tudo, né?! Está na hora de ir embora para sua casa. — Baixei minha mão, vendo que ele não ia tocá-la, já que não fez nem menção de olhar.
Onde estava o cara que eu tinha conhecido? Ele era mais educado! Sumiu, era fachada, pensei.
— É, realmente. Desculpe-me. — Baixei a cabeça, pronta pra ir embora.
Senti uma mão em meu braço e olhei pra cima, vendo ele ali, na minha frente, tocando-me. Ele abriu um sorriso em seguida.
— Você acreditou nisso? — Perguntou ele, ainda rindo. — Foi uma brincadeira, apressadinha.
Esse cara é doido, só pode, pensei.
— Olha, eu não gostei nada dessa brincadeira. — Resolvi me pronunciar.
Olhei meu braço, onde ele pressionava a mão. Meu movimento fez com que ele tirasse logo em seguida.
— Não foi nada engraçado. — Cruzei os braços com raiva, olhando diretamente pra ele.
— Desculpe-me, meu nome é . . — Estendeu a mão em minha direção, agora ele queria cumprimentar. — Posso saber seu nome? — Perguntou.
— Me chamo . . — Disse fracamente.
— Bonito nome, . Você não quer entrar e conhecer minha casa, já que estava tão curiosa assim para conhecê-la? — Apontou o dedo para a residência.
Minha bochechas coraram.
— Não, obrigada. Preciso ir para minha casa. — Girei meu corpo em direção a onde morava.
— Fico muito feliz em saber que sou seu vizinho, . — Parei por um instante.
Ele era realmente meu vizinho. Eu estava ali, morando do lado dele. Voltei a andar sem olhar pra trás e sem dar a mínima para ele estar ali ou não.

+++


A noite chegou rápido. Usei meu dia todo para colocar algumas séries em dia e parar de pensar que era meu novo vizinho.
.
Pensar em me trazia um sorriso ao rosto que não saberia explicar. Por mais que tivesse me deixado brava pela brincadeira idiota, ainda gostava dele.
Desci as escadas de minha casa, indo para cozinha. Estava com fome. Cheguei na cozinha, me deparando com a mesa sendo arrumada de um jeito especial pela Martha.
— Menina, por que ainda está vestida desse jeito? — Perguntou-me ela.
—Ué, Martha, por que eu me vestiria de outra forma? Tem alguma coisa de especial? — Perguntei a ela.
— Pensei que seus pais haviam lhe contado. — Balancei a cabeça negativamente. — Eles vão dar um jantar de boas vindas ao vizinho novo.
Meu coração tinha parado ali mesmo, naquele momento. iria jantar em minha casa? Sério?
Corri imediatamente para meu quarto. Martha gritou alguma coisa do tipo “menina, não corra”, mas nem dei ouvidos, pois precisava me arrumar. estava prestes a chegar e não poderia me ver do jeito que eu estava. Não queria que me visse de pijama ou roupas velhas pela segunda vez.
E sim, iria haver algo especial naquela noite.
Procurei em meu guarda-roupa o vestido que mais favorecia meu corpo. Acabei achando um azul escuro, médio e com lacinhos na bainha. Vesti aquele mesmo.
Olhei-me no espelho, gostando do resultado. Meus cabelos, por um motivo não aparente, estavam bons. Optei por deixá-los soltos mesmo.
. — Papai me chamou, abrindo a porta do meu quarto. — Pensei que estava com suas roupas normais mas, pelo visto, ficou sabendo que íamos ter visita.
— Sim, papai, Martha me contou. — Respondi.
— Então vamos, nosso convidado já chegou. — Papai saiu do quarto e o segui.
Entrei na cozinha junto com papai e cumprimentava minha mãe. Ele virou o rosto, fazendo com que nossos olhos se encontrassem. sorriu e respondi com um sorriso fraco, abaixando a cabeça.
Sentamos à mesa, mamãe e papai um do lado do outro e ao meu lado. Martha veio da cozinha e serviu a todos nós.
— Muito obrigado pelo convite, senhor .— Disse ao meu pai.
— Que isso, eu que devo agradecer. É uma honra ter você aqui. — Estava claro que ele estava feliz por estar conosco. - E não me chame de , me chame de Henri. Somos amigos agora.
Amigos.

+++

O jantar foi calmo, a comida estava gostosa e também. Acabei descobrindo mais sobre por conta da conversa dos três. Sim: dos três. Não ousei me intrometer. Até porque... Eu iria falar o quê? Optei por ficar calada, mas estava sempre recebendo olhares de , o que me incomodava em certos momentos.
tinha se mudado de Orlando para Seattle por conta do seu emprego de administrador. Não era um cargo tão bom mas, do jeito que ele falava, parecia que realmente gostava do que fazia.
— Você já conheceu a cidade, ? — Perguntaram a ele, que respondeu negativamente. — Mas deveria, é um ótimo lugar. Eu queria lhe mostrar Seattle mas, como trabalho muito, não tenho tempo.
— Tudo bem. Já fico feliz em saber que você quer me ajudar a me adaptar aqui.
— Mas acho que poderia mostrar Seattle. Não é, ? — Perguntou-me mamãe, que estava calada até aquele momento.
Meu estômago revirou. Eu? Mostrar a cidade pro ?
— Você poderia fazer isso, não pode, ? — Insistiu ela.
— Sim, mamãe. — As palavras saíram sem nem mesmo perceber.
Olhei pro lado e notei um pequeno sorriso nascendo no rosto do homem.
— Ótimo.
— Eu acho que está na hora de ir embora, já está ficando tarde. — disse, olhando em seu relógio.
Graças a Deus, pensei.
— Muito obrigado pelo jantar. Senti-me muito satisfeito. — disse já na sala, pronto pra ir embora.
Ele cumprimentou meus pais e veio até mim, abraçando-me.
— Nós vemos amanhã, apressadinha. — Sussurrou em meu ouvido, causando-me arrepios.
Desfez nosso abraço, acenando uma última vez para meus pais e indo, de vez, embora.
Subi para o meu quarto antes que meus pais notassem, e algo me dizia que não seria nada fácil mostrar a cidade a .


Capítulo 4

Levantei-me do chão, olhei para mim. Eu me encontrava com um vestido longo da cor azul e sapatos altos. O que estava acontecendo?
Resolvi andar naquele lugar, que mais parecia uma floresta. Estava escuro e eu não poderia confirmar nada. A única coisa que se ouvia era meus pés pisando nas folhas que estavam no chão.
Olhei para trás, sentindo uma sensação estranha. Um vento forte veio, fazendo com que barulhos de árvores ecoassem por todo aquele lugar, batendo em meu cabelo também.
— Você está perdida? — Uma voz sussurrou em meu ouvido, me causando arrepios.
Tentei ver quem era o dono daquela voz, mas encontrei só o vazio. Fechei meus olhos com força, repetindo várias vezes “deve ser só minha imaginação, eu to sonhando, , acorda, isso é um sonho”.
— Não é sua imaginação. Abra os olhos. Estou aqui, . — Falou novamente.
Era um homem, disso eu tinha certeza. Abri os olhos e ele estava ali, diante de mim. Eu só conseguia ver algumas partes do corpo dele, mas nada do rosto. Não sei o que deu em mim, só senti que estava correndo. Eu, particularmente, não controlava minhas pernas.
Corri o mais rápido que pude. Ao mesmo tempo, olhava pra trás, para ver se ele me perseguia, mas os passos não mentiam, ele me perseguia.
Por um descuido, acabei tropeçando em algo. Caí com tudo no chão sujo, cheio de folhas. Minha bunda e minhas mãos ardiam por conta do impacto. Ele me pegaria. Minha respiração falhada me entregaria.
, , ... Não pode se esconder de mim. Eu sempre irei encontrar você. Sempre. — Ele disse, chegando perto.
— O q-que você quer? — Perguntei-lhe.
O medo me invadia cada vez mais.
— Você, , só você. — Respondeu-me.
Fechei meus olhos, pedindo a Deus que aquilo fosse um sonho maldito.
Menina, menina, acorda. Menina, acorda agora...


Abri meus olhos, estava ofegante. Mas o que diabos tinha acabado de sonhar?
— Menina, você está bem? — Olhei pro lado e Martha estava ali, com seu olhar preocupado.
— Ah, sim… Só foi um sonho estranho, estou bem. — Respondi.
Abracei-a, lhe agradecendo em silêncio por ter me acordado.
— Que horas são? — Perguntei, ainda anestesiada por conta do sonho maluco.
— São 10 horas da manhã. Resolvi vir aqui porque a senhorita tem visita. — Disse ela.
Visita? A essa hora? Quem será? Não é Zoe, ela já teria entrado sem avisar.’, pensei.
— Quem? — Perguntei, curiosa.
— O vizinho novo, o que veio jantar com seus pais ontem. — A resposta me pegou de surpresa. — Está tudo bem, menina?
— Aham. — Sorri falsamente.— Avise que logo descerei.
Martha saiu do meu quarto, me deixando ali sozinha e descabelada. Fui para o banheiro e fiz minha higiene matinal. Mas que droga! A essa hora da manhã, ia me perturbar. Ele não tem nada pra fazer? E eu, como uma idiota, ia me arrumar pra ele.
Já com uma roupa simples, desci as escadas, encontrando em pé, mexendo em algumas fotografias que estavam sobre as prateleiras da sala.
— Qual é o seu problema? — virou-se e me encarou. — Além de me acordar, ainda fica mexendo nas fotografias da minha casa. — Andei em sua direção, tirando a moldura com as fotos de suas mãos, colocando em seu devido lugar.
— Mal educada você, hein, ... —Murmurou .
— O que você quer? — Perguntei-lhe, com mais raiva.
— Então... Digamos que vim cobrar o... Passeio, sobre conhecer a cidade, que você me prometeu. Você não lembra?
A cada pausa um passo em minha direção. já se encontrava ali, bem na minha frente.
— S-sim, é claro que me lembro, mas não achei que seria hoje. Hoje é domingo, não é dia de passeios, . — Queria soar uma pessoa confiante, mas foi uma grande falha.
Assim que falei minhas primeiras palavras, me afastei. Ele tão perto de mim não me deixava pensar muito bem.
— Ah… Mas vamos. Acredito que, pelo jeito que está vestida, talvez devesse saber que íamos sair. — Ele me analisou dos pés à cabeça, o que me deixou, além de envergonhada, incomodada.
— Hm… Você tem certeza de que quer sair agora? — Tentei desviar do assunto.
— Sim, . — Ele pegou em minha mão e me puxou para fora de casa.
era mais alto e mais forte que eu, o que lhe dava vantagem. A BMW estava em frente à minha casa, facilitando a nossa ida para o tal passeio. Entrei no carro sem falar nada e, por minha parte, ia continuar daquele jeito.
Mas que droga, nem tive tempo de avisar a Martha, só de pegar meu celular’, pensei.
— Qual é o primeiro lugar que vamos ver? Quero ver se você é uma ótima guia turística. — Riu debochadamente.
Continuei em silêncio. parou o carro e prosseguiu com suas palavras.
— Olha, me desculpa por ter acordado você, ter perturbado você... Eu só queria dá um passeio com você, . Mas se quiser voltar pra sua casa, voltamos e minto para seus pais sobre o quanto o passeio foi legal e como achei a cidade uma maravilha... Sem problemas! — Eu o olhei por um momento, a vergonha por não ter dado uma chance a veio à tona.
— Me desculpa, , você só queria fazer um passeio e eu, idiota, brigando com você. — Tentei soar simpática.
— Tudo bem, . Mas que lugar vamos ver primeiro? — Perguntou-me novamente.
— Que tal o famoso Space Needle*?— Perguntei, sugestiva, e a resposta de veio logo.
Ele voltou a andar com o carro e fomos em direção a um dos meus pontos turístico favoritos.

+++


A vista do Space Needle era incrível, dava pra se ver Seattle toda dali. Sem contar que o elevador que nos levou era mais incrível ainda. Admito sim que, nas vezes que ia àquele lugar, eu sempre ficava rindo quando descia e subia no elevador. Naquele dia, não foi diferente. Passei certa vergonha em frente a .
— Gostei desse lugar, essa comida é muito boa. — Admitiu .
Nós estávamos comendo no restaurante em cima do Space Needle enquanto rodávamos, admirando a vista.
— É, eu sei. Gosto de vir aqui quando quero pensar ou simplesmente ver Seattle. — A empolgação de estar ali era evidente em meu rosto.
Uma ideia passou em minha cabeça e não poderia esquecê-la.
— Precisamos ir a outro lugar, vem. — Puxei pelo braço, fazendo-o se levantar, quase caindo.
— Mas nós nem terminamos de comer, . Espera. — disse, apressado, enquanto deixava o dinheiro na mesa para pagar a comida e corria atrás de mim. — Você corre rápido, hein, apressadinha. Deveria investir. E pensar que nem tenho mais idade pra isso... — Entrou dentro do elevador comigo já dentro.
não havia me falado a idade dele. Será que era velho demais?
— Quantos anos você tem? — Resolvi, por fim, perguntar.
me olhou um pouco assustado com a pergunta.
— Desculpa. Se você não quiser contar, não precisa falar. — Desculpei-me.
Virei um pouco de lado, não querendo falar mais nada. O elevador desceu rápido. Saí do mesmo ainda em silêncio.
— 27. — Murmurou ele.
estava atrás de mim, falou baixo mas alto o suficiente para eu conseguir ouvir.
— O quê? — Virei-me para ele.
— Tenho 27 anos.
Minha boca fez um perfeito “O”. não aparentava ser tão velho assim. Era exatamente 10 anos mais velho que eu. 10 anos.
— Eu sei que você deve estar pensando que sou velho demais, mas tenho espírito de adolescente ainda. — Continuou rindo.
— Que isso. — Disse, caminhando devagar até o carro dele, que estava próximo dali.
— Para onde vamos agora? — Disse, parando em frente ao carro.
— Um lugar do qual você vai gostar bastante. Acredito eu, pelo menos. — Tentei soar engraçada, não deu certo. — Você gosta de chocolate?
— Sim. Quem não gosta? — Respondeu, me tirando a atenção do volante por um instante.
Não demorou muito para chegarmos ao lugar onde as letras que diziam “The Chocolate Box Experience”* brilhassem. Entramos no local e me senti como se fosse uma criança de novo.
— O que é isso? — Perguntou , entrando, curioso com tudo aquilo.
— É um bar com chocolates. — Respondi, procurando um lugar para sentarmos.
Achei, mas no fundo do bar. Puxei em direção ao lugar. Logo, vieram garçons para nos atender.
— Vocês vão querer o quê? — Perguntou o garçom.
— Podem trazer duas porções de chocolates derretidos.
— Ok. Já traremos. — Falou, saindo de perto de nossa mesa.
— Como assim ‘porções de chocolates’? — perguntou, confuso.
— O chocolate aqui é a vontade, , você pode fazer o que quiser com o chocolate. — Ri das expressões que ele fazia cada vez que falava, era divertido.
— Você gosta muito daqui, né?!
— Sim. Eu vinha muito aqui com meus pais quando era pequena. — Sorri.— Gosto do jeito simples e aconchegante que o lugar tem, transmite calma e é, ao mesmo tempo, divertido. — Olhei ao redor, parando o olhar em uma das milhares de prateleiras cheias de vinho que tinha ali. — Às vezes sinto saudade de estar nesse lugar com meus pais, eram ótimos momentos. — Sussurrei pra mim mesma.
— É… Esse lugar é legal. — passou a mão pelos cabelos, sorrindo, tentando desviar daquele assunto.
— Você não quer um vinho? — Perguntei, sugestiva.
— Sim, mas você não vai beber, . — Ele me advertiu e eu ri do seu gesto.
— Não bebo, . Fique tranquilo. — Coloquei minha mão em cima de sua mão mas logo tirei, percebendo o tal ato.
Desviei o olhar, fingindo procurar o garçom com nossos pedidos. Levantei-me para ir ao banheiro, mas segurou meu braço.
— Onde você vai? — Perguntou com a cara fechada.
Mas o que tinha acontecido?
— Eu vou ao banheiro, , vou lavar minhas mãos para comer. – Ele largou meu braço, olhando pra baixo.
Andei até o banheiro, abrindo a porta do mesmo. Liguei a torneira da pia, começando a lavar minhas mãos. Um barulho alto me fez soltar um grito agudo do fundo da minha garganta por conta do susto. Uma mão gelada tampou minha boca, desespero invadiu meu corpo.
— Por que você está gritando, ? — sussurrou em meu ouvido, tirando a mão da minha boca.
— Meu Deus, , você me assustou. — Disse, virando de frente e dando alguns socos leves nele, mas o abraçando em logo em seguida, aliviada.
— Fica calma, só foi eu abrindo a porta. — Disse , passando a mão em meus cabelos ruivos, ainda abraçado a mim. — Vim lavar as mãos também. — Desfez o abraço gostoso.
— Idiota. — Murmurei baixinho, acreditando que ele talvez escutasse.
Lavei minhas mãos rapidamente, querendo sair daquele cubículo. Voltei para mesa junto com o garçom, que estava com os chocolates derretidos em um papel cada, com a espátula junto. Agradeci o garçom, pedindo também um vinho QuilcedaCreek Columbia Valley Cabernet Sauvignon da safra de 2012. Não demorou muito e voltou para nosso lugar.
— Isso é chocolate mesmo? — Perguntou-me.
Dei uma risada alta, atraindo não só os olhares de , como de todos que estavam ali. Eu me contive e respondi.
— Sim, . Você pode fazer o que quiser com ele. — Passei o dedo no chocolate, demonstrando o que eu tinha falado, e coloquei na boca.
Estava quente, queimando meu dedo, mas não quis demonstrar fraqueza.
— Não faça isso, por favor. — Disse calmo, tirando meu dedo da minha boca.
Olhei-o perplexa. Ele pegou o papel toalha que estava na mesa e limpou meus dedos. Eu parecia uma criança daquele jeito. Ele largou minha mão e o garçom voltou com o vinho, deixando-o na mesa com duas taças.
— A mocinha não vai beber, só eu. — Disse autoritário.
O garçom pegou a outra taça, levando consigo mesmo com certo medo.
— Meu Deus, , precisava falar assim com ele? Ele trouxe achando que era pra mim também, mas eu não ia beber e você sabe disso. Que deixasse aqui na mesa e eu não ia pegar, mas talvez eu usaria para beber água. — Adverti.
Nunca tinha visto daquele jeito.
— Tá, desculpe-me. — A carranca em seu rosto continuava ali.
— Não é a mim que deve pedir desculpas, e sim para ele. Esse lugar é o que mais gosto, o atendimento é maravilhoso. Não faça isso. — Continuei.
pegou o vinho, olhando a marca e colocando na taça, degustando logo em seguida. Permaneceu calado, mas começou a “brincar” com o chocolate derretido. Àquela hora, o chocolate já estava quase frio. Peguei a espátula e comecei a comer o chocolate em silêncio, olhando qualquer outro lugar que não fosse o rosto de .
— Você não bebe, mas sabe como escolher um bom vinho. Aliás, por que você sempre me chama de em vez de ? — Perguntou, quebrando o silêncio.
— Eu aprendi vendo meus pais, principalmente meu pai. — Sorri de lado. — Porque seu sobrenome é e você é mais velho que eu, é um sinal de respeito. — Continuei respondendo.
— Você está chateada comigo? — O olhar que ele lançou para mim dizia que ele estava triste.
— Não, . S-só estou pensativa. — Gaguejei junto com a resposta.
O silêncio se estabeleceu de novo. A única coisa que se ouvia eram as risadinhas de quem estava ao nosso redor, se divertindo. E sem perceber, pegou o chocolate e passou em meu rosto. Soltei um grito, atraindo de novo o olhar das pessoas que estavam ao nosso redor. Sem deixar barato, joguei chocolate em sua roupa. As pessoas, percebendo que ia começar uma guerra, se afastaram.
, para, nós vamos nos sujar muito. Vão expulsar nós dois daqui, para. — Adverti , que já estava pronto pra jogar chocolate em mim de novo. — Vou lavar meu rosto no banheiro, não posso ficar com o rosto assim.
Fui no banheiro limpar meu rosto – com muita vergonha, mas fui. Lavei o quanto pude. Voltei pra mesa, vendo limpando sua blusa com o papel toalha.
— Tá difícil aí? — Ri do jeito esquisito com o qual ele estava se limpando. — Deixa eu te ajudar. — Eu me ofereci, pegando o papel toalha e começando a limpar, mas não adiantou de muita coisa. — Acho que só vai sair se lavar com sabão em pó.
sentou, se contentando. Ele olhou pra mim por um instante, começando a rir.
— O que foi? — Perguntei.
— Tem… chocolate no seu nariz. — Apontou para meu nariz, rindo.
Passei a mão em meu nariz com vergonha.
— Saiu?
— Não, deixa eu tirar pra você. — Ele se inclinou um pouco, ficando a centímetros de distância de mim.
olhou dentro dos meus olhos e o meu coração acelerou. Passou o dedo em meu nariz, limpando o tal chocolate.
— Pronto. — Sussurrou.
O hálito de menta bateu em minha boca. pegou em meu rosto, passando as mãos macias em meus cabelos. Fechei os olhos imediatamente. Quando voltei a abrir, ele estava sentado em seu lugar de novo. Soltei o ar que nem sabia que eu estava segurando.
— Seus cabelos são lindos, . São naturais? — Perguntou-me, bebendo o vinho.
Assenti, envergonhada. Nós comemos o chocolate que sobrou. No final, pagou a conta e saímos do The Chocolate Box Experience.

+++


Ainda fomos no jardim zoológico, no museu e, por fim, no aquário de Seattle, onde passamos um bom tempo admirando os peixes em geral. Era noite e estava estacionado em frente à minha casa.
— Acho que está na hora de ir entrando. — Disse, me virando pra .
Saí do carro, sendo seguida por ele.
— Tudo bem. Desculpe-me por aquilo no restaurante do chocolate, não era a minha intenção. — Disse já do meu lado, abaixando a cabeça.
— Esquece isso. Eu amei o passeio, amei ser sua “guia turística”. — Fiz aspas com as mãos, rindo.
— E eu amei você sendo minha guia turística.
— Obrigada pelo passeio. — Eu o abracei, pegando o mesmo de surpresa, mas ele logo correspondeu meu abraço.
me abraçou tão forte que eu não queria sair daquele abraço. Recebi o sorriso de em resposta quando o fiz. Trocamos números de celular e depois acenei para , já entrando em casa e recebendo seu aceno de volta. Martha, que estava na sala, veio correndo me abraçar.
— Menina, onde você estava? Aquele moço veio aqui e sabe Deus onde ele levou você. — Martha disse com pressa, me abraçando mais uma vez.
— Fui mostrar a cidade para ele, como eu tinha prometido. Estou bem, desculpe-me não ter te avisado. — Beijei seu rosto e, depois, subi direto para meu quarto.
Estava do mesmo jeito que deixei quando eu saí: arrumado. Parei por um instante e peguei meu celular, abrindo na pasta de “novas fotos”, vendo minhas fotos tiradas recentemente com no Space Needle, no Jardim Zoológico e no Aquário. Dei zoom em uma foto um tanto especial em que estava sorrindo e dando uma piscadela e eu, do lado dele. Cortei a imagem só com o , deixando ela ali bonitinha para ver quando eu quisesse.
Naquela noite, eu dormiria diferente, dormiria mais feliz.


Space Needle* em português: Obelisco Espacial. O Space Needle é uma torre constituída por 4 alicerces, enterrados a 9 metros de profundidade; pesam mais de 5850 toneladas, colocando o centro de gravidade da torre a apenas 1 metro e meio do nível do chão. No topo do Space Needle, a um nível de 152 metros de altura, há um restaurante giratório que acomoda 300 pessoas e gira 360 graus em uma hora.

The Chocolate Box Experience* em português: A Experiência da Caixa de Chocolate. É como se fosse um bar que contém vários vinhos e sobremesas de chocolate, inclusive chocolate à vontade para fazer o que quiser.


Capítulo 5

Dois meses tinham se passado e eu e viramos grandes amigos, sem contar que já tínhamos saído mais algumas vezes. Uma vez, fomos à sorveteria, outras ao shopping…
Trocávamos sempre mensagens de texto, querendo saber coisas um do outro, eu enviava de dentro da sala ou em qualquer lugar que era possível. O visor do meu celular brilhava, dizendo que mais uma mensagem havia chegado, e as letras bem grandes mostravam que era .

“Você pode sair comigo amanhã? Ou você já tem algo programado?”

“Não, nada programado. Seria um prazer sair com você de novo. :)“, respondi sua mensagem em baixo da mesa do almoço, mas logo batendo em minha testa por demonstrar facilidade.
— Qual é o problema, ? — Perguntou Zoe, assustando-me, quase deixando meu celular cair no chão. — Você tem andado tão estranha...
— O quê?! Como assim? — Eu me fiz de desentendida, tendo em mente o que ela estava falando.
Mas eu julgava estar sendo uma boa causa mentir para Zoe. tinha me pedido que eu não contasse sobre ele por enquanto. Eu o prometi que não contaria e estava tentando cumprir, mesmo que me doesse profundamente.
, você está agindo estranho e não é de agora. Já faz 2 meses, . 2 meses! Não fala mais comigo e, além do mais, só fica nessa droga desse celular… Quer saber, me dê ele aqui. — Ela se debruçou sobre a mesa tentando alcançar meu celular, que logo tratei de guardar. — , o que você está escondendo de mim?
— Nada. E não está acontecendo nada. — Menti na cara dura para minha melhor amiga.
— Tudo bem, . Quando você quiser falar a verdade, você venha falar comigo mas, enquanto isso… — Disse Zoe, sem completar sua frase.
— Espera, como assim? Você vai ficar sem falar comigo por causa de um celular? — Perguntei, achando injusto aquilo.
— Não, , não é só por causa disso e você sabe do que estou falando. Some repentidamente, não conversa tanto comigo... — Disse um pouco mais alto, mas continuou. — Você não está parecendo a que eu conheço, essa não é a minha amiga. — Zoe se levantou da mesa, pronta para ir embora.
— Espera, Zoe… Eu… — Tentei dizer, mas me contive.
— Você o quê, ? — Perguntou-me minha amiga, parando em minha frente, com os braços cruzados na altura do peito.
Fiquei calada, eu não podia, eu prometi.
— Ah… Foi o que eu pensei. — Minha amiga virou as costas para mim, me deixando sozinha ali com extrema culpa por ela estar certa.

Então espero ansiosamente. Nos vemos amanhã.”.

Mais uma vez, tinha me enviado uma mensagem. Um sorriso invadia meu rosto.
“Onde iremos dessa vez? Posso saber?”, tratei logo de responder. Adorava quando saía comigo, eu me divertia bastante. Eu gostava muito de sua companhia.
Não, a senhorita não pode, é surpresa. Sem perguntas!”, também me respondeu rapidamente. Não o contestei e o deixei em paz, até porque ele deveria estar trabalhando.
O sinal tocou, era hora de voltar para sala, teria biologia. Levantei-me da mesa e caminhei em busca do bebedouro mais próximo para beber água antes de entrar na sala de aula. Depois acelerei o passo, vendo que não tinham muitas pessoas andando pelos corredores.
A professora estava dentro da sala quando eu cheguei. Ela tinha se adiantado, o que me pegou de surpresa.
— Posso entrar? — Perguntei, tentando soar bem.
Ela olhou para o seu relógio.
— Chegou na hora, senhorita . Entre e sente. — Ela me apontou a carteira que estava do lado de Zoe.
Olhei em sua direção, ganhando uma bufada de Zoe. Procurei uma outra carteira - para não causar briga e dar espaço para ela -, encontrando uma mais afastada do quadro e propriamente de Zoe. Caminhei em direção à carteira. Inicialmente, todos ficaram olhando para mim, até mesmo cochichavam sobre mim e Zoe não estarmos juntas. Virei meu rosto em direção à professora, que estava explicando sobre genética, um assunto no qual eu estava realmente interessada.


+++

Passaram rápido as duas aulas de biologia, muito rápido mesmo, algumas explicações e exercícios. Tentei ao máximo não olhar para Zoe mas, de vez em quando, eu me pegava olhando para ela. Nem se movia. Ela realmente não ia falar comigo.
A última aula havia chegado, matemática. Saí da sala, entrando na próxima, então me sentei no fundo, vendo alguns outros alunos entrando. Peguei meu celular, o checando. Nenhuma mensagem de .
— Vamos, Zoe, a está ali. — Escutei a voz de .
Levantei minha cabeça, recebendo um sorriso de . Sorri falsamente.
— Não, eu não vou sentar com ela. — Disse Zoe, puxando o braço de antes que ele viesse para perto de mim.
A cara de se transformou em surpresa. E antes que ele pudesse fazer alguma pergunta, o professor entrou na sala, iniciando a aula.
Peguei olhando para mim várias vezes com cara de pergunta e eu simplesmente abaixava a cabeça ou voltava a copiar os exercícios. Foi assim até a aula acabar. Peguei minhas coisas, pronta para sair da sala, mas um braço tocou o meu.
— Dá para vocês duas me contarem o que está acontecendo com vocês? — perguntou-me, soltando meu braço.
— Ela não quer falar comigo, por besteira. — Disse, querendo sair rápido dali, sabia onde aquilo ia chegar.
— Mas por quê? Ela não me contou, disse que era para falar com você. Estou esperando uma explicação. — Ele fazia uma cara óbvia.
Virei minhas costas para , saindo da sala e me sentindo um pouco mal, afinal de contas, ele era meu amigo.
, não vire as costas para mim.
— Já deveria estar acostumado, , é isso que ela está fazendo ultimamente. — Escutei a voz de Zoe atrás de mim.
Virei-me, vendo Zoe com os braços cruzados.
— Deixe ela, , ela deve ter coisa muito melhor para fazer. — Disse.
Zoe sabia ser irônica e eu odiava aquilo.
— Zo… — Tentei chamá-la mas sem sucesso, minha voz falhou.
— Que foi? Não estou escutando. — Ela disse, colocando a mão direita na orelha.
Mais uma vez, a ironia era presente em sua voz. E aquilo já estava me irritando. Virei-me para frente e saí andando como nada estivesse acontecido. Naquele momento, eu nem queria saber se os dois ficariam com mais raiva ou não de mim.
Fui direto para o estacionamento, entrando logo no meu carro assim que o achei. Minha cabeça estava explodindo de dor e pensamentos em relação aos meus amigos. Cheguei em casa rapidamente e me tranquei no meu quarto. Naquele dia, eu não quis saber de nada, nem de comida e nem mesmo dos meus pais.


+++

Abri os olhos, o quarto estava todo escuro. Olhei para meu criado mudo e meu relógio marcava 05:45 da manhã. O que diabos eu estava fazendo acordada àquela hora?
Tateei minha cama, à procura do meu celular. Olhei o visor, nenhuma mensagem ou ligação. Nem mesmo de , de ou até mesmo… De Zoe. Levantei-me da cama, desci as escadas, indo para a cozinha para beber um copo de água. Cambaleei algumas vezes por conta do sono. Abri a geladeira, pegando uma jarra de água e, em seguida, um copo na pia, colocando o líquido no copo e o bebendo. Deixei a jarra na pia mesmo. Um flash invadiu a cozinha. Virei para ver se via alguma coisa, mas não encontrei nada além do escuro.
, você está ficando doida, querida.
Voltei para cima, pronta para dormir de novo se não fosse pelo sono que eu tinha perdido. Fiquei assim até um possível sono vir, sendo tomada por ele e acabando sonhando.

O cenário tinha mudado, eu não estava mais em meu quarto. Estava no mesmo em que, 2 meses atrás, havia sonhado: a maldita floresta. Eu continuava com meu pijama, o que me deixava um pouco mais tranquila.
— Sentiu saudades, ? — Uma voz grossa falou atrás de mim.
Era aquela voz, aquele mesmo homem sem rosto que eu via no anterior.
E nesse momento, eu havia me lembrado o porquê de odiar tanto aquele lugar. Era por conta daquele maldito homem.
— Nunca… — E corri, a mesma coisa que havia feito no outro.
Poderia estar sendo burra em relação a cometer o mesmo erro, mas eu não ia sonhar com a mesma coisa se não pudesse fazer a diferença.
Diferença... Eu poderia realmente estar ali para mudar alguma coisa, mas o que seria? Parei de imediato. Senti alguém me tocando, supus que fosse ele e estava certa. O toque era frio, um frio estranho, quase de gente morta. Estranhamente, meu corpo se arrepiou só de pensar que ele poderia estar morto.
— Enfim… Você se entregou a mim dessa vez. Foi tão fácil… Senti sua falta. — Ele murmurou atrás de mim, perto o suficiente da minha orelha para me arrepiar.
— Quem é você? — Perguntei, tentando soar segura, talvez funcionasse.
— Alguém por aí. Hm… — Falou pausadamente, passando as mãos em meus braços.
Dei alguns passos para frente, me afastando dele.
— Quem é você? — Repeti a pergunta, esperando honestamente que ele me respondesse.
— Você está muito curiosa, . Meu amor, não fique assim, faz mal. Sabe aquele ditado? — Ele andou enquanto falava, chegando perto de mim outra vez, o que estava me irritando seriamente. — A curiosidade matou o gato. — Ele pegou em meu queixo e levantou minha cabeça que, até então, estava um pouco baixa.
— Você é ridículo. — Disse, tirando a mão dele do meu queixo.
Mas ele me surpreendeu, a única coisa que eu não estava esperando. Sua mão estava no meu pescoço, me enforcando.
— Está na hora de acordar, meu amor. — Ele continuou apertando mais e mais.
Não conseguia mais respirar. Eu me debatia, tentando tirar sua mão de mim, em vão, já que ele era bem mais forte que eu. Minha visão foi ficando fraca, meus olhos estavam se fechando, até que tudo ficou preto.


Acordei de uma vez e a única coisa que eu fazia era tentar respirar de novo, parecia que eu estava me afogando. Tossi para tentar voltar ao normal e fui voltando aos poucos, graças a Deus.
Olhei para o lado e o visor do relógio marcava 11 horas da manhã, eu tinha dormido demais. Algo abaixo de mim vibrou, percebi que era meu celular. Peguei-o, olhando o visor: uma mensagem recebida de .

“Você está ocupada agora? Lembra que nós combinamos de sair hoje?”


Li rapidamente e o susto me invadiu. Eu tinha me esquecido de que sairia com o , mas que droga!
“Não, não estou ocupada. E não, eu não esqueci, eu estava lembrando disso nesse exato momento. Vou me arrumar.” digitei, enviando logo em seguida. Recebi um ”ok” de e deixei meu celular em cima da cama, indo tomar banho para sair.
Entrei no box do banheiro, ligando o chuveiro e tomando um banho. Quando acabei, me enxuguei, escovei os dentes e depois peguei um hidratante para passar em meu corpo. Eu queria que o dia fosse muito especial, e eu tinha certeza de que seria. Escolhi um short jeans, uma regata branca, um colete jeans por cima e, nos pés, uma sapatilha preta, já que eu não sabia onde me levaria Àquela hora, talvez me levaria em um restaurante. Fiz uma maquiagem básica para realçar o que tinha de melhor: meus olhos e meus cabelos ruivos, que fiz questão de deixar soltos. Olhei-me no espelho e estava tudo ok.
Peguei meu celular, enviando uma mensagem para , dizendo que eu estava pronta. Peguei uma bolsa pequena, colocando cartão de crédito, alguns trocados, maquiagem e meu celular, claro, descendo as escadas logo em seguida.
— Martha. — Chamei a governanta, que logo deu as caras.
— Sim! Menina, você vai sair? — Perguntou, me olhando de cima a baixo.
— Sim. Vou sair com . — Respondi sorridente.
— Pelo que eu estou vendo, você não vai almoçar em casa, então pedirei para que não façam tanta comida. — Disse Martha, chegando perto de mim e pegando em minha mão antes de continuar. — Tome cuidado. Você sabe que eu não vejo uma coisa boa quando olho para esse homem.
Martha não gostava de desde do dia em que voltei do passeio com o ele tarde da noite. Ela pegou uma certa paranoia, mas eu não falava nada.
— Pode deixar… — A campainha soou pela sala, era . — Ele chegou, preciso ir. Prometo que eu irei tomar cuidado, vejo você mais tarde, beijo. — Disse, beijando a bochecha de Martha e correndo logo em seguida para atender .
— Oi, ! — Disse assim que abri a porta.
— Oi, . Você está linda. — Disse depois que me abraçou, me olhando.
— Obrigada. — Agradeci baixo com vergonha, mas certa de que ele escutara.
— Então vamos? — Ele me estendeu a mão, que logo peguei, saindo de casa e indo direto para seu carro.
Entrei em sua BMW preta e, depois, entrou também, dando a partida para o tal do lugar misterioso. Estava pronta para perguntar onde iríamos até que ele ligou o som e começou a tocar Dollhouse, da Melanie Martinez. Não perdi tempo, comecei a cantar junto.
Hey, girl, open the walls, play with your dolls (ei, garota, abra as paredes, brinque com suas bonecas), we'll be a perfect family when you walk away, it's when we really play (seremos uma família perfeita quando você for embora, é quando nós realmente brincamos), you don't hear me when I say "Mom, please, wake up, dad's with a slut and your son is smoking cannabis" (você não me ouve quando eu digo "Mãe, por favor, acorde, papai está com uma puta e seu filho está fumando maconha), no one ever listens, this wallpaper glistens, don't let them see what goes down in the kitchen (ninguém nunca escutava, este papel de parede brilha, não deixe eles verem o que se passa na cozinha)...
O refrão chegou e começou a cantar também, o que me deixou surpresa.
— Desde quando você conhece Melanie Martinez? — Perguntei-lhe.
— Eu gosto dela já faz um tempinho. Acho bem legal os cabelos dela repartidos ao meio e pintados de duas cores. — Ele disse, fazendo uma careta, e acabei rindo de seu gesto. — Por que você está rindo de mim? O que eu fiz? — Perguntou-me.
— Essas suas caretas, , são fofas. — Disse, pegando na sua bochecha direita, vendo ele fechar a cara.
— Ei! Não pegue nas minhas bochechas, isso parece muito infantil. Aliás, você nunca deixa essa mania de me chamar pelo sobrenome. Somos próximos, deveria estar me chamando de . — Ri mais ainda.
— Respeito, já disse. Gosto de irritar você também. — Disse por fim.
Chegamos em um restaurante que eu conhecia muito bem, sempre ia ali comer com minha família. estacionou em uma vaga disponível e entramos no restaurante, que tinha uma decoração muita linda. Ele me levou até uma mesa mais reservada, já deveria tê-la reservado para nós.
— Sente-se. — Ele disse, puxando um pouco a cadeira para que eu me sentasse, um verdadeiro gentleman.
E assim eu fiz, vendo depois se sentando à minha frente.
— Então essa era a surpresa? — Perguntei.
— Não, não completamente. — Respondeu, fazendo sinal para que o garçom viesse nos atender. — Tenho mais uma surpresa para você, essa é só uma parte dela. — Disse por fim.
O que ele aprontaria mais? Pelo menos, tinha começado bem. não podia negar.
— Sejam bem-vindos, aqui está o cardápio. — O garçom disse, entregando o cardápio para nós.
— Eu já sei o que eu quero, um frango grelhado com batatas no caramelo. — Disse firme e, do jeito que ele tinha falado, já havia ido até lá várias vezes. — E você, ? — Perguntou-me em seguida.
— Vou pedir o mesmo, obrigada. — Disse, entregando o cardápio de volta para o garçom, que anotou os pedidos em um bloco de notas.
— E para beber, o que vão querer? Vinho? Espumante? Água? — Perguntou o garçom, sugestivo, fazendo seu trabalho.
— Vou querer só um suco de laranja. E você, ? — Ele desviou sua atenção para mim.
— Também, obrigada. — Agradecemos com um aceno de cabeça e o garçom se retirou.
— Gosto desse lugar. — Ele de repente e desviei meu olhar do lustre para . — Ele tem uma comida muito boa e me traz calmaria. — Continuou.
e eu ficamos conversando sobre o seu trabalho e sobre meus estudos enquanto esperávamos a comida, mas o garçom não demorou tanto e a comida chegou logo. Estava deliciosa e, logo, acabei de comer, assim como .
— Obrigado pelo almoço maravilhoso, . — Disse, pegando o guardanapo e limpando minha boca.
— Você sabe que você merece tudo isso e muito mais. — Ele disse, olhando dentro dos meus olhos.
Eu sabia que tinha corado, minhas bochechas ardiam. Abaixei minha cabeça com vergonha.
— Mas ainda não terminei. Como eu disse, eu tenho mais uma surpresa para você. Você irá passar o dia todo comigo. — Ele deu uma piscadela, o que me deixava mais curiosa.
— Legal, mas e seu emprego? Você pode sair assim? — Perguntei.
Isso sempre me deixava curiosa. sempre saía comigo e os horários em que saímos eram os que ele deveria estar ocupando com trabalho.
— Estou de folga, , fique tranquila. — Ele riu de lado, pegando na minha mão que, até então, estava em cima da mesa.
—Ah... Entendi. Chefe legal o seu, , você tem sorte. — Disse, tirando minha mão debaixo da dele.
— Garçom, por favor, aqui. — chamou o garçom, gesticulando com as mãos e indicando nossa mesa.
O garçom olhou para nós e, logo, veio.
— Sim...?
— Fecha a conta, amigo. — disse, despojado.
— Um minuto, eu vou buscar. — Ele assentiu, saindo do nosso alcance.
— Gostou? — me perguntou.
— Sim. Você sabe como agradar uma garota. — Arregalei os olhos, me tocando do que eu tinha acabado de falar.
— Eu sei, é? — Perguntou-me ele, se inclinando na minha direção com um sorriso de lado.
— É... Eu quis dizer… — Tentei me explicar, mas acabei gaguejando mais que tudo.— Deixe para lá. — Disse por fim.
— Sobremesa? É por conta da casa. — O garçom ofereceu, colocando nossa conta em cima da mesa.
Arqueei as sobrancelhas para as taças de pudim e sorri para o homem.
— Sim, obrigado. — Disse, pegando a taça.
— Espere! — tomou a taça das minhas mãos, fazendo-me tomar um susto, e cheirou.
Então passaou o dedo na cobertura do pudim e lambeu.
— O que você está…? — Comecei a murmurar.
— Castanhas. — Ele apontou o indicador para mim e, então, olhou para o garçom. — Ela é alérgica a castanhas. Ah, e ela não gosta de calda de amora. Pode levar isso daqui, mas obrigado mesmo assim. — Então o garçom se retirou e eu fiquei com a boca em um perfeito ‘O’.
— Como você sabe? — Perguntei, assustada.
— O quê?! Sei o quê? — Perguntou .
— Sobre minha alergia e que eu não gosto de cobertura de amora. — Olhei fixamente, para ele esperando a resposta.
— Ah, eu sei porque você disse no dia que fomos na sorveteria. Não se lembra? — Ele me perguntou.
“Estranho, eu nunca falei nada disso para ele, não que eu me lembre”, pensei.
— Claro que sim, tinha esquecido. Desculpa. — Acabei mentindo por fim, sorrindo falsamente.
Eu olhei para a conta na mesa, pronta para pegar e pagar minha comida, mas foi mais rápido, certamente sabia o que estava prestes a fazer. No fim das contas, não me deixou pagar minha conta, então me calei para não causar nenhum transtorno, mas só daquela vez. Saímos do restaurante entrando na BMW preta de e eu permaneci calada.

— Está preparada para ir para o próximo lugar? — Perguntou-me, tirando os olhos do volante por um instante para me olhar.

— Hm... Eu não sei, não sei onde vamos, então não posso falar nada. — Disse, olhando para janela, vendo as ruas de Seattle andarem rápido.
Sentia que, se eu abrisse a boca, falaria mais alguma besteira.

— Mas sabe de uma coisa? — Olhei para , balançando a cabeça em negativo. —Desse lugar, você vai gostar, disso eu tenho certeza. — Sorriu para mim.
Seguimos por mais alguns instantes, parando em frente de um parque de diversões, e a única coisa que fiz foi sorrir. Eu amava parques de diversões e já fazia algum tempo que eu não ia até um.
— Obrigada, . — Disse, o abraçando.
encaixou suas mãos em minha cintura, retribuindo meu abraço. Olhei para cima e ele olhava para mim, estávamos bem perto. Minha barriga começou a revirar, minhas mãos estavam suando.
— Fico feliz que tenha gostado. — disse e, logo, beijou o topo da minha cabeça.
Eu me afastei de , envergonhada. Por um momento, achei que ele me beijaria. A decepção talvez fosse evidente em minha cara.
saiu de perto de mim. Ele com certeza ia comprar os ingressos para podermos entrar no parque. Bati na minha testa. O que diabos eu estava pensando em achar que ele queria me beijar? Ele, com toda a certeza, só me via como amiga, e é por isso que ele sempre saía comigo, porque era a única amiga dele em Seattle. Ai, que burra eu sou!
— De agora em diante, você vai agir como uma verdadeira amiga dele e vai tirar ele da sua cabeça. Amiga, , amiga. — Murmurei para mim mesma.

— Há alguma coisa? — perguntou-me, tocando meu braço e me pegando desprevenida, fazendo-me soltar um gritinho.

, que susto! Você quer me matar? — Coloquei as mãos em meu peito, tentando me acalmar.

— Não... — olhou para mim e começou a se desmanchar em gargalhadas bem ali na minha frente e na frente de algumas pessoas que estavam por perto.
, para. Não ria, por favor. Pare… — Disse, me sentindo envergonhada.
— Me desculpe, . — Ele passou a mão em seus cabelos, se recompondo. — Só não sabia que falava sozinha, achei que já tinha passado dessa fase de ter amiguinhos invisíveis. — Ele disse ironicamente com aquele maldito sorriso de lado que eu detestava.
— Eu não tenho e nunca tive, tá legal? — Disse, cruzando meus braços. — Ah, cala a boca, . Vou embora, seu chato. — Dei meia volta, pronta para ir.
— Não, não, não, nada disso. — puxou meu braço, me virando para ele. — Te trouxe aqui para nos Divertirmos, não para brigar. — Disse, soltando meu braço.
— Ah, tá que eu ia embora. Você achou mesmo que eu ia embora em vez de brincar no parque de diversões? — Perguntei risonha. — Não mesmo! Você é burro, . — Peguei os ingressos de , andando vitoriosa e o deixando ali de boca entreaberta.
se recuperou do transe, indo logo atrás de mim e entrando no parque comigo.
, vamos na montanha russa? — Perguntei, já o puxando pelo braço, indo na direção do brinquedo, que tinha a mesma altura que um prédio de 13 andares. — Você tem medo de altura? De montanha-russa, ? — Perguntei, provocativa.
— Óbvio que não, né, ?! — Disse, debochado.
— Ok, corajoso. Então vamos?
Eu o puxei entrando numa pequena fila. O carrinho já vinha, então seríamos os próximos.
— Preparado? — Perguntei a .
— Mais que preparado. Vamos nos divertir! — Sorri com aquela animação de .
O carrinho chegou, as pessoas que estavam brincando anteriormente nele saíram devagar e eu e entramos no carrinho, sentando lado a lado, prontos para enfrentar a montanha-russa. Eu apertei a mão de quando o carrinho começou a andar. Subimos devagar pela elevação. A montanha-russa teve vários loopings e gritar foi inevitável.
— Isso foi incrível, . — Disse, saindo do brinquedo, assim como todos que estavam lá também.
— É verdade, mas espero profundamente que você não vomite, já que estamos andando em brinquedos radicais e acabamos de almoçar. — Disse, andando comigo.
– Não se preocupe, eu aguento. — Falei, fazendo um sinal positivo com a mão.
riu com o gesto.
— Ok, aventureira, vamos no carrinho de bate-bate. — Disse, me puxando, agarrando minha cintura enquanto caminhava comigo até o brinquedo em que ele queria ir.
O parque estava calmo, não tinham muitas pessoas nas filas dos brinquedos e eu agradecia a Deus por isso. Eu não queria ficar horas numa fila enorme, não mesmo. Não demorou muito e fomos brincar no bate-bate, cada um entrando em um carrinho, já que nosso tamanho não permitia dois.
– Isso é legal! — Disse, dirigindo meu carrinho, mas logo ouvi um barulho alto e um impacto atrás de mim.
Olhei para trás e vi em seu carrinho, rindo.
, não bata em meu carrinho! — Falei, olhando para .
, qual é a graça de brincar no carrinho de bate-bate e não bater nos outros, hein?! — Disse, divertido. — Até porque o próprio nome já diz, carrinho de bate… — E foi cortado por um estrondo e um impacto vindo da lateral do seu carrinho, um menino tinha batido nele.
fez uma cara de dúvida e eu comecei a rir. Começamos a brincar de verdade e toda hora nós dois nos batíamos. Uma vez ou outra, uma criança batia na gente e eu sempre ria.
— Onde a gente vai agora? — Perguntou-me .
O tempo tinha acabado e eu e estávamos saindo do brinquedo.
— Podemos ir no barco do pirata, o que você acha? — Perguntei animada, estava disposta a brincar bastante.
— Só se formos atrás.
— Eu amo ir atrás, então vamos! — Disse, pegando em sua mão e correndo para a fila do brinquedo.


+++

Depois que fomos no barco do pirata, quase roucos de tanto gritarmos, fomos em mais alguns, como: Splash, que nos molhou todo, chapéu mexicano, a torre onde quase perdi minha alma, repetimos alguns brinquedos e ainda ganhou um pequeno pinguim no tiro ao alvo que fez questão de me dar. Eu o apelidei de Pinguano, uma graça.
— Vamos no carrossel? — Perguntei para .
— Não estamos muito velhos para andar nesse brinquedo, ? — fez uma careta, parando em minha frente.
— E daí? Nunca ficamos velhos para andar no carrossel. — Disse, indo em direção ao brinquedo.
Sentei no cavalo alto, vendo sentando no cavalo do lado.
, não era você que era velho demais para brincar no carrossel? — Disse, rindo ao mesmo tempo em que ele bufou em protesto.
O carrossel começou a girar. Abri um pouco meus braços. Adorava a sensação que aquele brinquedo me proporcionava, me fazia voltar a ser criança. Olhei para e sua cara era de tédio. Então eu sorri. não era só um cara bonito, era um cara muito legal e, desde que o conheci, só me fazia rir, me fazia muito bem e eu gostava muito daquilo. Inclinei o máximo que eu consegui e acabei chegando onde eu queria. Beijei o rosto de , que se assustou com meu ato. Tentei voltar para o meu lugar, mas quase caí, se não fosse os braços de que me impediram. Assenti em agradecimento. virou o rosto para frente e ficou calado, assim como eu também. Permanecemos assim até o brinquedo parar de girar.
, você está com fome? Quer comer algo? — Perguntou, me ajudando a descer do cavalinho.
— Para falar a verdade, eu estou, mas não é tanto assim. — Disse um pouco constrangida sem saber bem o porquê, mas eu estava.
— O que você deseja comer? — Ele me perguntou e olhei para o lado, estávamos passando por uma barraquinha que estava vendendo cachorro-quente.
— Pode ser um cachorro-quente com refrigerante. — me olhou surpreso, mas foi em direção à barraquinha.
— Me dê dois cachorros-quentes, por favor. — Disse ao dono.
– Completos? — Ele perguntou.
olhou para mim e assenti, respondendo.
— Sim. Me dê duas latas de coca também. — Eu fiquei alheia ao que o homem fazia e não percebi o quanto ele era rápido.
— Pronto, aqui estão seus pedidos. Deu nove dólares. — Disse, entregando nossos lanches.
o pagou.
, vamos na roda gigante? Ainda não fomos nela. — O sol estava se pondo, eu queria ver aquela vista e o lugar perfeito para ir era na roda gigante.
— Mas estamos comendo, . Vai fazer mal. — Murmurou de boca cheia. — Desculpe. — Disse depois de engolir um pedaço do cachorro-quente.
— Tudo bem. E não, não vai, pois a roda gigante é calma e vai dar para nós vermos o pôr do sol enquanto comemos. — Disse, já caminhando para onde a roda gigante estava, logo sendo seguida por .
— Eu nem tinha percebido que o sol estava se pondo. Pensando bem, é uma ideia boa. — Sorriu para mim e sorri de volta. — Vem, estão acabando de sair de lá e estão entrando outras pessoas.
Entramos na roda gigante e, pouco a pouco, eu podia ver o pôr do sol melhor. Ao mesmo tempo, comia. A roda gigante começou a rodar normalmente. Estava tudo perfeito, aquele dia estava perfeito. Abracei meu pinguim, feliz da vida. Um toque estridente soou na nossa cabine e acabou me assustando. Procurei em minha bolsa meu celular e vi que não era o meu. Balancei minha cabeça em negativo, avisando para ele. tateou os bolsos da calça, achando seu celular e atendendo logo em seguida.
. Hm, estou ocupado agora… Não estou transando, mas estou ocupado. — Meu rosto deve ter esquentado, pois era evidente que eu estava envergonhada.
Olhei para o lado, tentando disfarçar.
— O quê?! Você tem certeza? Hm... Eu vou ter que fazer isso? Ok... Eu vou tentar resolver. Ok, obrigado por me avisar. — Disse e deu fim à sua ligação. — , temos que ir, aconteceu alguns problemas com meu trabalho e eu preciso resolver. Me desculpe. — Disse, chegando perto de mim e me abraçando.
— Tudo bem, . Eu entendo, isso vive acontecendo com papai. — Eu disse, saindo de seu abraço, e sorriu para mim.
— Foi divertido, sabia? — Sorri de volta, o calor enchendo meu coração a ponto de explodir.
— Foi mesmo. Um dos melhores dias que passei em muito tempo. Obrigada por me trazer. — Ele sorriu e piscou.
— Te trago sempre que quiser, . — Ele me abraçou novamente.
A roda gigante parou e fomos os segundos a sair. Fomos em direção ao carro de , prontos para voltarmos para casa. abriu a porta de seu carro para mim e eu entrei, colocando o cinto e segurando firmemente meu Piguano.
— Você gostou mesmo do pinguim, hein? — Perguntou, entrando no carro.
— Sim. Ele é muito fofo.
, vamos fazer assim. Eu tenho um lugar que quero que conheça e, quando voltarmos, eu te deixo em casa. Pode ser? — Começou a dirigir.
— Sim, mas e seu trabalho? — Perguntei.
— Eu dou um jeitinho. Não se preocupe, está tudo sob controle. — Disse, sorrindo logo em seguida.
— Tudo bem então. — Falei.
Meus olhos ardiam um pouco, soltei um bocejo.
— Acho melhor você dormir, até porque vamos demorar um pouquinho. Quando chegarmos, eu te acordo. Então durma. — Disse, tocando meus cabelos.
Virei-me minha cabeça e acabei entrando em um sono profundo.


+++

… Acorde. — Ouvi a voz de e senti uma mão passando pelos meu cabelos.
Abri os olhos com um pouco de dificuldade, mas logo me recuperando. Olhei para o lado e vi ainda dirigindo.
— Dormiu bem?
— Hm… Sim. Já chegamos? — Perguntei-lhe ao mesmo tempo em que me ajeitava no banco do passageiro.
— Ainda não, mas é logo ali.
Paramos em frente a uma casa sofisticada. Tinham flores na frente da casa, mas parecia que não viam água havia alguns dias.
— Chegamos.
— Uma casa? — Perguntei, soltando meu cinto de segurança e saindo do carro.
— Ela foi minha casa antes de eu ir para Seattle. — Disse , rodeando o carro e parando ao meu lado.
Achei um pouco estranho. Por que ele me mostraria a casa dele?
— Vamos entrar, quero que conheça minha casa. — Caminhei lado a lado de até a porta, que ele abriu rapidamente.
Entrei na casa e ela era bonita, bonita mesmo, e organizada. Saí com o me mostrando a casa inteira. Era grande, dois andares, quatro quartos, uma cozinha grande, dois banheiros, sala e um quintal com piscina. — Gostei de sua casa, . — Disse por fim, me sentando em seu sofá, na sala.
Olhei mais um pouco ao redor da sala e percebi que a casa era grande, grande demais para . Lá tinha móveis, mas havia levado todas as suas coisas para a casa do lado da minha. Por que teria móveis ali? Será que ele tinha alguém que vivia com ele naquela casa?
Levantei para pegar o controle da TV gigante que tinha ali.
— Aqui. — disse.
Virei, vendo-o atrás de mim com copo na mão. Eu me assustei e bati no copo, fazendo o líquido derramar em antes do copo cair no chão e se espatifar.
— Ai, meu Deus, , me desculpa, molhei sua camisa. Me deixa te ajudar. — Eu me ofereci.
— Não, não tem problema. — Disse, se virando para sair. — Olha, a primeira vez em que me chama de . — Ri com seu comentário.
— Não, . Olha, eu molhei você e ainda quebrei um copo seu. — Eu me recompus e peguei em seu braço, o fazendo se virar.
— Vou pegar a vassoura e a pá para limpar isso, não se mexa. — Então me abaixei próxima aos cacos de vidro e tentei recolher alguns. — Ai, doeu! — Disse, soltando alguns cacos que estavam na minha mão e vi um corte em meu dedo.
Coloquei o dedo na boca para parar de sangrar.
, o que você está fazendo? — veio com a vassoura e a pá para perto de mim. — Você cortou o dedo? Disse para não se mexer! — Largou a vassoura e a pá, puxou meu dedo da minha boca e deu uma olhada. — Não foi tão grave e nem tão fundo. Sua teimosa!
— Não foi nada, vai passar. — Disse e olhei para .
Ele estava mais perto do que eu imaginava. olhou em meus olhos assim que levantou seu olhar. E ele fez o que eu pensei que ele faria. Ele me beijou.
pegou em meus cabelos ruivos e depois em minha cintura, me trazendo para mais perto dele, se é que aquilo era possível. Seu beijo era calmo e sexy ao mesmo tempo e, por algum motivo, tinha gosto de hortelã. A intensidade do beijo aumentou e meu fôlego foi indo embora. Separei o beijo para respirar, abrindo meu olhos e vendo ainda com os olhos fechados. As únicas coisas que se podiam escutar eram minha respiração ofegante e a de .
Voltei a beijá-lo sem me importar se estava em uma casa desconhecida, se ele era meu amigo e amigo de meu pai. O que importava ali simplesmente eram nossas bocas, grudadas uma na outra.
nos separou e me impulsionou para que eu pulasse em seu colo. Assim eu fiz. Depois, voltamos a nos beijar. O beijo de era viciante e até mesmo melhor do que eu achava que era.
andou comigo em seu colo enquanto ainda nos beijávamos e me deitou no lugar que acreditei ser o sofá, ficando por cima de mim. apertou minha cintura e mordeu meu lábio inferior, me excitando. Àquela altura, eu deveria estar com a calcinha encharcada. Nós nos separamos mais uma vez e tentei tirar minha blusa, mas fui impedida pela mão de .
— Não vamos fazer isso ainda. — Disse, se recompondo.
Minhas bochechas esquentaram e virei para o outro lado, tentando disfarçar. Procurei minha bolsa que estava em cima da mesinha da sala, peguei meu celular e olhei o visor.

09:15

Eram 09:15 e eu estava fora de casa. Meus pais me matariam, com toda a certeza.
, preciso ir para casa, já está tarde e meus pais estão preocupados. — Falei, me recompondo e o olhando.
— Ah sim... — Disse ele, se virando na minha direção. — Mas você não vai para casa.
— Como assim, ? Tenho que ir para casa. — Disse, pegando minha bolsa.
Andei até a porta da frente, tentando abrir, mas foi uma tentativa falha, já que ela estava trancada. A chave não estava na porta.
, abre a porta! — O mesmo se manteve imóvel.
— Não. Já disse que você não vai embora daqui. Você vai morar aqui comigo. — Disse sério.
Aquilo definitivamente estava me assustando.
— Que brincadeira é essa? , eu tenho família e amigos. Não posso morar com você, meu pai não deixaria. Olha, para de besteira, abre essa porta e me leva para casa. — Disse, caminhando para perto de .
— Eu já disse que não! — Ele gritou, me assustando.
— Pode parar, eu já entendi. É uma pegadinha? Cadê as câmeras? — Perguntei, procurando as câmeras pela casa, vinha atrás. — Fala, , anda! — Gritei, querendo chorar, pedia praquilo ser um pesadelo, simplesmente uma brincadeira. — Por que você está fazendo isso comigo? Me leva para casa. — Pedi, tentando soar calma, mas falhei.
— Por que você não quer ficar aqui comigo? Poxa, você se divertiu tanto comigo... — passou a mão em meu rosto, fazendo uma lágrima solitária cair. — Não chora, você é tão linda para ficar chorando...
— Fica longe de mim. — Eu me afastei até o mais longe possível daquele homem que eu pensava que era bom.
, não faça assim, por favor. Venha aqui. — Disse ele, se aproximando de mim e me chamando.
Eu me afastei mais ainda. Não queria que ele chegasse perto de mim e muito menos me tocasse, não de novo.
As aparências enganam. me enganou e eu acreditei.

Capítulo 6


Eu sabia que tinha que fazer algo, mas eu não fazia ideia do quê. De repente, minhas pernas tremiam e minhas mãos também. Algo em minha mente falava que o que estava fazendo era apenas uma brincadeira, que logo ia admitir isso. No entando, a outra martelava que aquilo era verdade, ele estava me sequestrando e poderia me matar.
Balancei minha cabeça, tentando me livrar daqueles pensamentos que estavam me deixando mais nervosa, e foquei no homem em minha frente, o meu vizinho.
, por favor, abra a porta. Eu vou gritar. — Disse, apontando em direção à porta.
, fique à vontade, ninguém vai escutá-la. Essas paredes e vidros são revestidas com material que não permite a passagem de som. — andou pela sala, batendo na parede e na janela, mostrando o que ele estava falando. — O único risco que você corre é de ficar rouca. — Disse debochadamente.
— Me deixa ir embora, por favor. — Olhei mais uma vez para ele.
— Já disse que isso não tem possibilidade de acontecer. Você é surda? — Ditou ele, saindo do meu alcance.
Olhei para meu braço, lembrando que, em minha bolsa, estava meu celular. Abri, encontrando o aparelho. Peguei e disquei o número de meu pai, colocando no ouvido e rezando para que ele atendesse. Logo depois, senti que ele foi retirado de mim.
— Mas que porra você está fazendo?! — Gritou com meu celular na mão.
Em seguida, respirou fundo, pegando-me pelo braço e me puxando para as escadas.
— Meu braço, v-você está machucando. — O aperto de sua mão aumentava a cada passo que nós dávamos.
Subi os degraus ainda sendo puxada por ele. Pouco tempo depois, paramos em frente ao quarto que eu tinha visto poucos minutos atrás. Abriu a porta, jogando-me em cima da cama. Passei a mão no local em que antes segurava, que estava ainda dolorido. Pela força que ele usara, aquilo ficaria marcado depois.
— Esse vai ser seu quarto de agora em diante, . — Olhou-me sério, virando para sair.
— Eu já disse que eu não vou ficar aqui. Devolva meu celular. — Falei, levantando-me.
— Ah… Isso aqui? — Perguntou-me, logo em seguida o jogando no chão e pisando.
Ele abaixou para pegá-lo, erguendo-se e vindo até mim.
— Está aqui. — Entregou-me o telefone que nem poderia ser chamado assim mais.
deu uma última olhada, saindo do quarto e trancando a porta.
, não me tranque. Me tira daqui, por favor. — Corri em direção à porta, desferindo chutes e murros contra ela.
Fiquei dessa maneira um bom tempo e acabei desistindo, meus pés e mãos já doíam assim como minha cabeça, que latejava. Vi um cantinho do quarto, meio escuro, e resolvi ficar ali. Eu já nem sabia que horas eram, meus olhos ardiam cada vez mais devido às lágrimas. Encostei-me na parede. Em algum momento do que sobrou daquela noite, acabei adormecendo. Minha mente estava tão esgotada quanto meu corpo e senti como se estivesse literalmente desmaiando. Deixei-me levar pelo sono, rezando para que, na manhã seguinte, tirasse aquela ideia da cabeça e me deixasse ir embora.


A claridade do sol pairava sobre mim. Abri meus olhos com certa dificuldade por conta da luz. Olhei para frente e acabei encontrando a poucos centímetros de mim, o que me fez ir para trás instantaneamente.
— Já disse que não vou machucar você, , é a última coisa que eu quero e vou fazer. — Disse, chegando cada vez mais perto de mim, tentando tocar-me, o que foi em vão, já que continuei me afastando.
— Não se aproxime de mim. — Levantei-me um pouco receosa. — Por que eu acreditaria em você, ? Aliás, o que você ganha com tudo isso? É dinheiro? — Ainda estava sonolenta, a noite mal dormida me fez ficar assim.
— Eu não quero seu dinheiro. — Virou-se, indo em direção a uma escrivaninha que tinha algo que não consegui identificar. — Não preciso disso.
— Então... Por que está fazendo isso? Por quê? — Perguntei-lhe.
Queria que ele olhasse para mim, queria que ele me dissesse o motivo de tudo aquilo.
— Você precisa tomar café, você está ficando fraca. — Desconversou, virando em minha direção, e eu pude ver que o que ele tinha era uma bandeja com frutas, pães e líquidos.
veio até mim e me entregou a peça, mas a única coisa que pude fazer foi jogar tudo em cima da cama e sujar o lençol branco que estava nela.
— Não estou a fim. — Disse em seguida. — Você não respondeu. Eu quero respostas, . Eu preciso disso e você sabe, não pode me negar.
— Para falar a verdade… Eu posso sim. — Disse calmo, em pequenas pausas, enquanto tirava as comida de cima do colchão, estava me irritando e não era pouco. — Sinto muito que você esteja reagindo assim, mas espero que entenda. E você vai, tenho certeza!
— Entender, ? — Soltei uma risada irônica, aquilo não poderia ser real. — Entender o quê? Eu não sei o porquê de você estar fazendo isso e você quer que eu entenda. Qual é seu problema? — Coloquei o dedo na minha cabeça, sinalizando o que eu havia falado.
— Às vezes, a resposta está mais fácil do que você imagina. — Disse por fim.
Abriu a passagem, saindo do quarto e me deixando, mais uma vez, trancada naquele lugar.
— Agora você quer brincar de Mestre dos Magos? Que engraçado, , que engraçado. — Bufei, dando-me por vencida de novo.
Sentei novamente no canto que eu julgava mais confortável. Era engraçado preferir um canto qualquer de um quarto de uma casa que eu nem sabia onde ficava. Ele me trouxe em um lugar que eu não fazia a mínima ideia de onde ficava. Maldita a hora em que eu dormi ou até mesmo saí com ele. Se ao menos eu não tivesse cochilado no meio do caminho, talvez eu teria uma pequena noção de onde era aquele lugar. Algo dentro de mim acreditava que alguém ia vir me buscar, me salvar, mas uma outra parte sabia que isso estava longe de acontecer e que eu ia ficar ali por muito tempo. Eu seria mesmo a prisioneira de .




’s PoV


, você vai mesmo continuar com isso? perguntou-me pelo celular.
— Sim, , eu vou. — Afirmei.
Olha, eu acho que isso não é uma boa ideia mas, como sou seu melhor amigo, estou com você sempre, irmão. era meu melhor amigo mesmo, sabia o porquê de eu estar ali com , e eu esperava que ele me ajudasse com aquilo, eu precisava.
— Obrigado, irmão, muito obrigado. — Agradeci ao loiro.
Subi as escadas, indo em direção ao meu quarto. Passei pelo corredor e não se ouvia nada, estava calada.
E ela? Como está? Como está reagindo a isso tudo? E os pais dela? O que você vai falar para eles? Eles devem estar preocupados. — O loiro me fez mais perguntas do que poderia imaginar.
— Calma, uma pergunta de cada vez. — Ri, irônico.
Ouvi sua frustração do outro lado da linha, ele odiava quando eu era dessa forma com ele.
— Ela está um pouco revoltada, pode-se dizer assim, mas logo ela vai se acostumar e tudo vai ficar bem. — Eu tinha certeza de que aquilo logo ia passar e a ia ser feliz comigo, muito feliz. — E sobre os pais dela, eu vou resolver isso agora.
Muito cuidado, , você sabe muito bem onde se meteu. Só quero que você se cuide e não machuque a garota. — Pediu meu amigo.
Desci as escadas, pegando minhas chaves do carro e indo em sua direção, trancando a casa para que a não saísse de lá.
— Vou tomar cuidado e não vou machucá-la, eu a amo. — E sabia muito bem daquilo. — Eu só não esperava que isso fosse acontecer tão cedo, não foi assim que planejei. — Entrei no veículo, colocando a chamada no viva-voz. — Mas enfim... Compre algumas roupas para ela e para mim. Como isso aconteceu rápido, acabei não comprando nem mesmo comida. Quebra essa para mim, ? Pago depois.
Tudo bem, cara. Mas não vou fazer isso de novo. — Riu.
Sempre poderia contar com ele, eu sabia.
— Valeu, irmão. — Desliguei o celular e fui em direção à casa de .
O caminho foi tranquilo. Enquanto isso, eu pensava em uma desculpa para que a família não suspeitasse de mim. Estacionei na frente da minha casa e não demorou muito para que o pai de viesse até mim. Sua expressão era de extrema raiva, bateu no vidro do meu automóvel com certa força. Respirei fundo e desci dali, batendo a porta logo em seguida.
, cadê a ? O que você fez com a minha filha? Responde, seu desgraçado. Anda! — Perguntou-me, elevando sua voz enquanto pegava em meu colarinho.
— Como assim ‘cadê a ’? Ela não está em casa? — Tentei soar o mais surpreso possível, talvez ele caísse. — Eu a deixei aqui por volta das 19:00. Pensei que ela tinha entrado para casa.
— Não, ela não está em casa. Desde ontem, não a vejo e você foi a última pessoa que esteve com ela. — Ele disse, tirando as mãos de mim. — Eu estou muito preocupado, a minha esposa também. Não sei o que fazer. — Parecia mesmo preocupado, ele poderia muito bem ter um ataque cardíaco ali.
— Olha, eu sei que não devo falar isso pois não sou pai, mas se acalma. Ela não está na casa de alguma amiga ou amigo? — Perguntei-lhe, tentando mostrar que queria ajudá-lo, uma ajuda em vão, pelo menos.
— Já ligamos para todos os amigos que conhecemos, os dois melhores amigos disseram que não viram ela desde anteontem. Você foi a última pessoa que a viu.
— Sua mulher está aí? Eu posso conversar com vocês e contar algo que pode ajudar, eu faço questão. virou minha amiga e tenho um carinho especial por aquela menina. — Disse para o pai de , era quase a mais pura verdade que eu sentia em relação à menina.
— Ok. Eu ajudo vocês. — Era muito visível que ele estava transtornado e que queria ver a filha.
Sinto muito, senhor , mas isso não vai acontecer.

Auxiliei-o a entrar em casa e a esposa estava na sala, abraçada com sua empregada, que se chamava Mara ou algo do tipo.
— Você pegou minha menina! — A funcionária gritou, vindo em minha direção e querendo me agredir.
Desviei daquela senhora e me mantive calmo.
— Devolva! Devolva ela para mim!
— Não peguei a , não sei onde ela está. Sinto muito. — Disse, segurando seu braço. — Depois que saí com ela, por volta das 19:00 da noite, eu a deixei em casa, aqui em frente. Mas recebi uma ligação de um colega de trabalho me pedindo para ajudá-lo. Acabei de chegar em casa, não sabia que ela estava desaparecida. Eu estava com esse colega até agora há pouco, posso ligar e ele vai lhe confirmar isso. Achei que ela tivesse entrado. Sinto muito por ela, quero ajudar vocês a achá-la. — Assim como os pais, a empregada ficou calada enquanto eu contava minha pequena mentira.
Tentei fazer com que minhas expressões fossem de preocupação, para que nada desse errado.
— Nós ligamos para os amigos e até mesmo pra polícia, ninguém a viu. — A senhora resolveu se pronunciar com certa dificuldade, mas conseguiu.
Ela estava descabelada e o rosto todo vermelho, deveria estar chorando por causa da garota. Queria lhe dizer que não precisava se preocupar porque ela estava bem. Eu ia cuidar muito bem dela.
— Eu quero minha filha de volta.
— Eu preciso que você nos ajude a procurar , preciso que você dê seu depoimento à polícia. Pode fazer isso? — Perguntou-me o mais velho.
Engoli em seco. Tinha esquecido que a polícia ia ser chamada para investigar o desaparecimento de .
— Hm… Claro que sim. Eu faço o que for para ajudar a encontrar sua filha. — Tentei sorrir falsamente.
— Obrigado, , muito obrigado. Você precisa ir trabalhar, acho melhor ir para casa, você precisa ir. — O pai de disse, dando-me tapinhas nas costas.
— Tudo bem, espero que tenha ajudado. E ela vai aparecer, vocês vão ver. Boa sorte. — Devolvi os tapinhas nas costas do homem.
Senti um olhar cair sobre mim, era a empregada da família. Talvez a minha história não a tivesse convencido.
Saí da casa falando mais algumas coisas do tipo “vai ficar tudo bem”, “ela vai ficar bem”. O sorriso ficou estampado na minha cara após entrar em casa. Eles tinham acreditando na minha pequena mentirinha. Não a empregada, mas isso não era tão preocupante.
— O jogo começou, , e agora você é minha. Você pertence a .


Capítulo 7

Meu telefone tocou, coloquei a mão no bolso e atendi sem ao menos ver quem era.
, acho melhor você vir para cá, o chefe está meio... falou do outro lado da linha, pensando antes de continuar. – De mau humor. E ele está perguntando sobre você.
Eu odiava quando isso acontecia, ele sempre nos enchia de coisas para fazer, e esse “nós” éramos eu e mesmo. Sempre só nós dois.
– Hm… Enrola um pouco. Já estou chegando. – Disse, pegando as chaves do meu carro e indo em direção ao meu trabalho.
Está bem. O que não faço por você, hein?! – Disse, rindo.
Coloquei o celular no viva-voz e continuei escutando meu melhor amigo.
Já comprei as coisas para ). – Sorri ao ouvir o nome dela.
– Obrigado mais uma vez, . – Desliguei a chamada, dirigindo direto para meu destino.
Cheguei em alguns minutos, estacionei meu carro em minha vaga e fui direto pra sala do meu chefe. Bati três vezes e logo ouvi sua voz.
Se for o ), pode entrar.
– Bom dia, chefe. Vim o mais rápido que pude. – Disse, me aproximando de sua mesa. – O disse que o senhor queria falar comigo.
– Sim. Você até sabe do que se trata, não é mesmo? – Perguntou-me.
Ele estava agitado.
– Tem a ver com aquele caso de antes, não é? – Perguntei, já sabendo do que se tratava.
– Ele está por aqui e preciso que cuide dele. Dessa vez, preciso que o pegue. Você pode fazer isso pra mim, não é mesmo?! – Ele disse, revirando pra alguns papéis em sua mesa. – Espero que não me decepcione de novo. – Disse num tom ríspido.
– Claro. Não se preocupe, não vou desapontá-lo, mas posso levar o como meu ajudante?
– Como queira, meu caro ), como queira... – Ele estava suspirando e suando ao mesmo tempo.
– Chefe, o que aconteceu? O senhor está nervoso. Aconteceu algo? – Perguntei, curioso.
– A filha de um grande amigo desapareceu e ele me pediu para ajudá-lo. está extremamente preocupado com ela e eu preciso encontrá-la. Boa hora pra essa garota sumir. – Ele pronunciou o sobrenome de e tive que me segurar para não cair.
Eles tinham contactado a polícia, mas não achei que seria no meu distrito.
– C-como é o nome da desaparecida?
. – Ele disse, me mostrando uma foto da minha ruivinha que nunca tinha visto mas que era linda.
Ela estava numa espécie de grama, deitada e sorrindo, com uma mão em seu queixo. Parecia muito feliz.
– M-muito bonita. – Disse, nervoso.
Uma voz sarcástica ao fundo ecoou em torno da sala do meu chefe, chamando a atenção de todos os que estavam presentes.
– Acho que o tão querido está com algum problema.
De longe, eu reconhecia aquela voz, reconhecia o dono dela, o que me fez revirar os olhos. Sebastian Morton, o ser mais desprezível da face da terra, uma das pessoas que mais eu odiava no mundo.
– Você está mais branco que papel, beba uma água para acalmar. – Disse sugestivo, mas eu sabia bem o que ele queria.
– Não. – Disse firme.
Àquela altura, eu não queria mais nenhum problema, e isso incluía Sebastian.
– O que é isso, meu caro )? Por que esse mau humor agora de manhã? Salvar pessoas do perigo precisa de paciência. – Disse ele, calmo até demais para meu gosto, enquanto me abraçava de lado.
Tratei logo de me afastar dele.
– Paciência eu tenho com as pessoas, mas não posso dizer o mesmo quando se trata de você. – Estreitei os olhos.
– Quando é que as mocinhas pretendem parar de namorar e começar a trabalhar? – Meu chefe disse, atrapalhando uma possível resposta de Sebastian.
Peguei minha arma e meu distintivo na mesa e estava pronto pra sair quando senti um aperto no braço.
– Vou descobrir o que você anda fazendo ultimamente. – Sebastian disse em meu ouvido e, logo depois, saiu de perto de mim.
Algo me dizia que eu deveria ter mais cuidado para que ele não descobrisse nada sobre a ). Ele não teria dó de me entregar para a polícia e acabar com a minha carreira.
– O que ele falou para você, )? Vi quando ele entrou na sala do chefe. – Perguntou assim que saí.
– Disse que ia descobrir o que eu estava aprontando. – Andei em direção ao bebedouro, Sebastian me irritava bastante.
– Você acha que ele sabe alguma coisa sobre a )?
– Não. Acho que não. – Disse preocupado e logo bebendo a água. – Mas o chefe está procurando .
– Como assim? O chefe sabe? – Perguntou-me arregalando os olhos.
– Não. Eu espero que não. O problema é que o pai da é amigo do chefe e pediu ajuda para que procurasse ela e investigasse o porquê dela desaparecer do nada. Preciso ter mais cuidado a partir de agora.
– Ou você poderia deixar essa ideia para lá, deixar a menina em casa, mudar de lugar e fingir que nada aconteceu. – Disse sugestivo e riu ironicamente.
Quase engasguei com a água, o que fez com que o loiro tocasse minhas costas.
– Você está bem?
– Estou. Até parece que isso é fácil e nem parece que trabalha para a lei. Não vou deixar a ir embora, é minha única chance em relação a ela. – Joguei o copo descartável no lixo e caminhei para fora do distrito.
– Falou a pessoa que trabalha para lei e que não está cumprindo muito bem. – Disse, rindo.
– Cale a boca, ninguém pode saber disso. Principalmente o Morton.
– É só um aviso, ), espero que você não seja pego. – Adorava o jeito com que cuidava de mim, mas ele estava exagerando. – Só acho que isso seja um aviso pra você não seguir mais em frente com isso.
– Não vou, pode ter certeza, e não vou desistir tão fácil assim. – Disse, firme.
E aquilo era verdade. Nada ia acontecer, eu tinha tudo o que queria. Eu tinha ela.
Fui para minha sala e logo procurei mais sobre o que foi me destinado. Tirei meu casaco, colocando em volta da minha cadeira e sentando logo em seguida.
Eu já o conhecia de muito tempo. Conhecia seus crimes, sabia o que ele gostava de fazer e o que ele tinha por hábito. Zayn Malik era seu nome.
Digitei seu nome, que logo apareceu com uma foto do lado de três anos atrás: sua cabeça raspada, olhos castanhos e algumas tatuagens ao seu redor. Abaixo, todos crimes que já cometeu, como latrocínio, roubo, homicídio, tráfico de drogas, sequestro e outros. A lista era enorme. Li a palavra ‘sequestro’ e me veio logo à cabeça. Pensei imediatamente que o que eu estava fazendo com ela era sequestro, mas logo tratei de tirar aquilo da minha cabeça. Aquilo não era sequestro. Não tinha sequestrado ninguém, foi por amor.

Eu nem acreditava que o dia estava acabando, ele passava muito devagar. Os minutos não passavam, muito menos as horas corriam, e meu único pensamento naquele momento – e no resto do dia – era e o quão mal ela estava, sem comida e água, já que ela recusou o que eu ofereci.
– Pensando nela de novo? – Pulei de susto com a voz de , que me pegou de surpresa.
– Seu safado, que susto. – Ralhei com ele, que riu e murmurou um pedido de desculpas. – Sim. Não tem como não pensar. Acho que ela está com fome, já que ela não comeu absolutamente nada.
, você não pode sair assim no meio do expediente, vai levantar suspeitas pro seu lado. Sebastian continua na sua cola, lembra? – Disse, colocando a mão em meu ombro. – E outra: você precisa investigar mais sobre Zayn.
– Não tem problema. Ele não é o único que me odeia, não é mesmo? – Disse, dando uma risadinha para tentar descontrair, mesmo sabendo que não iria adiantar muita coisa.
era muito exagerado em relação àquilo, nada poderia dar errado.
– Aliás, nós sabemos dele, sempre sabemos. E não vai ser no meio do expediente, já está quase na hora de eu ir embora. – Pisquei para o mesmo.
– Por isso mesmo. Que mal tem em esperar mais alguns minutos?
Levantei da minha cadeira, peguei meu casaco e o vesti. Logo, peguei a chave do carro, virei para lado e pude ver já indo para sua mesa na sala que eu dividia com ele. me preocupava e não era pouco.

Estava silencioso quando adentrei a casa, o que era suspeito, pois não era de ficar tão calada assim pelo que a conhecia.
Subi, indo em direção ao quarto onde ela estava, destrancando a porta. Olhei com cuidado para dentro do quarto, já esperando ela me atacar, mas nada aconteceu. Adentrei mais a fundo o quarto, vendo ela no mesmo lugar em que estava no dia anterior só que, desta vez, estava olhando para o lado. Parecia pensativa. Eu daria tudo para saber no que ela estava pensando.
– Você quer alguma coisa? – Perguntei, interrompendo seus pensamentos.
Ela virou um pouco a cabeça, me olhando e, logo depois, voltando à posição anterior. Pude notar que estava com o rosto bastante vermelho, eu tinha quase cem por cento de certeza que ela estava chorando.
– Você deveria comer, não comeu nada até agora. – Insisti.
Nada. Absolutamente nada. Ela sequer se mexeu.
– Eu trouxe umas roupas para você. Você não pode ficar com a mesma roupa, tem que se trocar e tomar um banho. – Disse, tentando mostrar as sacolas de roupas e comida para a ruiva que tinha comprado e colocado no porta malas do meu carro mais cedo. – Eu não sei exatamente de que tipos de roupas que você gosta, mas tem umas bem legais.
E, mais uma vez, ela não mexeu nada. Nem um músculo sequer.
– Olha, … Eu vou deixar as roupas aqui, assim como as frutas, se quiser comer. – Eu abaixei um pouco e coloquei as sacolas perto da cama.
– Você é um maldito, .– disse e eu me surpreendi.
Ela me empurrou e começou a me estapear.
– Me leva para casa, , agora. Seu desgraçado! – Ela gritou, muito exaltada.
– Para, ! Você não vai voltar para casa. – Respondi e segurei em seu braço, levantando. – Eu deveria deixar você sem comida e sem roupa, está sendo ingrata comigo. – Joguei ela em cima da cama, abri a porta e a olhei pela última vez, vendo lágrimas escorrerem de seus lindos olhos antes de trancar a porta de vez.
Ela não aceitar aquilo me deixava triste. Queria que ela entendesse que eu estava fazendo aquilo pelo seu bem, por nós.

Fui direto para o banheiro. Tirei minhas roupas, tomei um banho bem quente. Não demorei a dormir para ir ao trabalho no dia seguinte.

Acordei e fui direto para o quarto onde estava. Abri a porta devagar, vendo ela dormindo no mesmo canto. Havia gostado de lá. Eu resolvi nem mexer com ela para que a ruiva não tentasse me atacar ou fugir. Eu queria deixá-la livre pela casa, mas sabia que, qualquer oportunidade, ela usaria para ir embora. Era melhor nem arriscar.
Fechei a porta do quarto, trancando, e fui para o meu a fim de me vestir, como sempre, e peguei minhas coisas. Assim que me arrumei, desci as escadas e entrei no meu carro, o ligando.
O trajeto era tranquilo e quase não tinha carros transitando, já que era em outra cidade. De Newcastle até Seattle, dava mais ou menos uma hora, então eu saía uma hora mais cedo de casa. Esse era meu caminho e não me importava de fazer aquele trajeto todo, valia a pena. Para mim, valia totalmente a pena.
Quando eu entrei na delegacia, notei que havia um pequeno tumulto. Era normal para uma delegacia mas, por algum motivo, eu sabia que algo estava estranho. E quando eu pisei mais a dentro, eu descobri o porquê de estar tão agitada. Estavam sentados nas cadeiras de espera e tinham sobrenomes conhecidos. Eles chegaram mais cedo do que o esperado. Por um momento, tudo girou em câmera lenta e eu achei que ia desmaiar e me esborrachar no chão. Mas tudo voltou ao normal quando escutei a voz do pai de .
, você chegou para nos ajudar. – Ele levantou, estendendo a mão para mim, que tratei logo de apertar. – Que bom que está aqui, fico muito feliz, meu rapaz.
– Ah sim… Eu fico muito feliz de ajudá-los. – Sorri amarelo para ele, sua esposa e a empregada que não gostava de mim.
Eu ia falar algo, mas fui interrompido por uma voz já conhecida por mim, que me chamou, e eu sabia que tinha que resolver aquilo mais rápido possível.
, entre aqui. – Era voz de meu chefe me convocando.
Entrei imediatamente na sala, vendo os olhares daqueles três de dúvida em cima de mim.
– Hoje a delegacia está um caos, como você pode ver. – Assenti e ele continuou. – Meu grande amigo está aqui por conta da filha que desapareceu, aquela que eu lhe mostrei a foto.
– O chefe me pediu para ajudá-lo e eu faço questão de ajudar ele com a investigação do desaparecimento dela. – Disse Sebastian, que tinha entrado na sala e eu nem mesmo tinha visto. – Ela é muito bonita e uma moça bonita deve ser encontrada antes que os monstros por aí a peguem. – Ele estava segurando a foto de que eu havia visto ontem.
Estava falando que minha era bonita e me chamando de monstro? Eu queria matar ele. Eu não sou um monstro, Sebastian. Eu não sou.
– Chefe, eu posso ajudar? – Eu o perguntei.
Não poderia deixar ele investigar sobre o desaparecimento dela. Caso contrário, eu seria descoberto e ela, tirada de mim.
– Eu interrogo as pessoas que estão lá fora. São familiares dela, né?! – Ele assentiu.
Senti duas mãos em meu colarinho, era Sebastian que estava a segurar.
– Esse caso é meu. Por que você sempre quer meus casos, ? – Ele perguntou.
Havia fúria em seus olhos, mas eu nem me importava. Eu o empurrei com força, fazendo com que ele quase caísse, e me recompus.
– Você tem seu caso, não precisa resolver isso. Sebastian é um ótimo profissional, ele vai cuidar disso. – Ele disse e pude notar o sorriso do moreno quando escutou o elogio direcionado a ele.
– Mesmo assim, quero ajudar. Ela é muito bonita e, se for um estuprador ou um maníaco que a pegou, devemos encontrá-la logo. Convenhamos... Quanto mais gente puder ajudar, mais rápido podemos encontrá-la. – Disse, tentando o convencer.
Eu queria muito que ele acreditasse em mim.
– Tudo bem. Por enquanto, só os interrogue. – Ele murmurou enquanto olhava alguns papéis em cima de sua mesa.
Pude ouvir um “que?” do Sebastian, vindo de trás. Saí da sala, contente por tentar dar um jeito em meu lado. Mais uma vez, pude sentir as mãos de Sebastian em mim mas, dessa vez, em meu braço direito, me puxando.
– Por que quer tanto investigar isso? – Perguntou, olhando em meus olhos.
Ele não parecia nem um pouco contente.
– Porque ajudar é meu trabalho. – Tirei suas mãos do meu braço e agradeci a Deus por não ter falhado em minha resposta.


Continua...



Nota da autora: "Eitaa... Acho que nosso PP está começando a se encrencar. O que acham que vai vim pela frente, chutes ou sugestões (mesmo eu tendo a metade do próximo capítulo pronto, o que significa que posso soltar em breve)? O que acharam do novo personagem, o Sebastian? Será que ele vai mesmo descobrir algo?
Para as pessoas que quiserem conversar comigo ou até mesmo me cobrar, me chamem lá no twitter: @kyungsoodokai, que tentarei responder vocês. Juro que sou legal hahahaha."



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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