Última atualização: 30/11/2019
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Capítulo 1

Julho de 2013. Eu já tinha olhado o celular por, pelo menos, trinta vezes nos últimos dez minutos e nada de uma resposta. Liguei para Henry mais vezes do que poderia contar, sem sucesso em todas as minhas tentativas. Não era a primeira vez e, certamente, não seria a última. Esperei até onde meu limite permitiu e liguei para a companhia aérea. Fui redirecionada mil vezes até finalmente parecer ser atendida pelo setor certo.
– Boa noite. Eu queria saber se o passageiro Henry William Dalgliesh Cavill embarcou no voo 1399, de Detroit pra Indianapolis.
– Só um instante, senhora.
Eu encarei meus sapatos por alguns segundos, certa de que aquele scarpin ia me machucar antes que a noite acabasse.
– Senhora, não consta embarque desse passageiro nesse voo.
Eu bufei.
– Tudo bem, obrigada pela ajuda.
Desliguei a chamada, peguei minha bolsa e saí, querendo socar alguém ao mesmo tempo que queria me desmanchar em lágrimas. Parei o carro na frente do Conrad e desci sem aguardar o manobrista abrir a porta para mim.
– A chave tá na ignição.
O rapaz, pelo menos dois anos mais novo que eu, parecia assustado. Eu entrei no hotel e estava indo para a recepção quando reconheci uma silhueta próximo ao elevador.
– Danny! – Gritei.
Meu irmão se voltou para mim e sorriu.
– Onde tá o Henry?
– Você não quer saber. – Declarei, dando passos longos até ele e o cumprimentando com um abraço.
– Problemas no paraíso?
– Não seria novidade. E Georgia?
– Já tá lá dentro, fui no carro buscar uma coisa e queria conversar com você sobre isso.
– O que houve? – Perguntei.
– Vou pedir ela em casamento hoje à noite.
Eu arregalei os olhos, incrédula.
– É sério, Danny?
– Não poderia ser mais sério.
Demorei a ter uma reação e puxei Danny para um abraço apertado.
– To feliz por vocês dois.
– Tem certeza? – Ele perguntou, me dando uma olhada de cima a baixo.
– Vou casar meus dois irmãos mais velhos, por que eu não estaria feliz?
– Porque você tem o padrão de achar que tá sempre ficando pra trás.
O telefone vibrou dentro da minha bolsa e eu busquei, apenas para olhar o identificador de chamadas e ter vontade de tacar o aparelho na parede. Devolvi-o para dentro da bolsa e me voltei ao meu irmão.
– Tenho vinte e dois anos, Danny, não to ficando pra trás de ninguém.
Entramos no salão com eu praticamente ofegando porque me manter em pé naquele maldito salto estava me custando mais esforço do que eu imaginava. Eric, conversando com um grupo que eu não pude identificar, captou meu olhar por cima dos convidados e sorriu, imediatamente começando a andar na minha direção.
– Imagina se você fosse a noiva! – Ele brincou, abrindo os braços da minha direção. – Você tá linda.
– Papai ainda não chegou?
– Teve um problema no aeroporto, mas já tá a caminho.
– Só você pra conseguir colocar nós quatro no mesmo lugar.
– A ideia de uma festa de noivado foi da Alona, não minha.
– E onde a noiva tá?
– Com a mãe. – Ele apontou e acenou para ela, chamando-a com gestos para se juntar a nós. – E onde o Henry tá?
– Em Detroit, provavelmente.
– Ele não vem?
– Não quero falar sobre isso, Eric, a noite é de vocês.
! – Alona praticamente gritou. – Que saudade de ter a sua idade.
– Não tenha! – Brinquei, abraçando-a e tentando colocar o melhor sorriso possível no rosto.
– E o Henry?
Nós apenas trocamos um olhar e ela entendeu tudo, sorrindo de volta para mim.
– Bem, tem uma quantidade saudável de bebidas variadas ali naquele canto do salão e o jantar vai começar a ser servido assim que seus pais chegarem.
– Pais?! – Eu questionei, me virando para Eric novamente. – Você chamou ela?
– É minha mãe, , e sua também.
Eu demorei a ter uma reação.
– Acho que vou precisar mais dessas bebidas do que pensei. – Murmurei antes de me afastar na direção que Alona tinha indicado.
Peguei um copo old fashioned e estiquei para o barman atrás da bancada.
– Com gelo?
– Não, por favor. Aliás, pode encher o copo.
Seus olhos se arregalaram mas ele não negou. Pelo canto do olho, vi que alguém observava o meu copo e se dirigiu ao garçom, pedindo o mesmo. Eu olhava para a porta de entrada, sem saber exatamente o que esperava ver. Meu pai e Jo entraram sorridentes, sendo cumprimentados por todos em seu caminho. Danny estava me procurando e, quando me viu, me convidou para que eu me juntasse a ele. Olhei para o copo e tomei o máximo que aguentava sem ver o mundo girar. De longe, meu pai deu uma boa olhada no meu copo antes de olhar para mim, sem estar muito satisfeito, mas tentando mostrar felicidade em me ver.
– Tenho bons motivos. – Eu me defendi antes de abraçá-lo. – Bom te ver, pai.
– Devo perguntar do seu namorado?
Eu ainda sentia o telefone vibrando ocasionalmente na bolsa.
– Não, pai, agradeço se não fizer isso.
– John! – Alona gritou, se apressando para cumprimenta-lo. – Estávamos esperando você pra começar a servir o jantar.
– Ótimo, eu to cheio de fome.
– Antes, tem alguém que gostaria muito de conhecer você. Se vocês puderem aguardar só um instante, eu já volto. Eric estava longe de nós dois ainda, então achei seguro me aproximar do meu pai e sussurrar.
– Eric chamou ela.
– Ela quem?
Ela. Achei que o senhor gostaria de saber antes.
– Isso explica o copo então. – Ele observou.
– Obrigada por reparar.
Alona estava de volta e eu e meu pai tratamos de recompor nossa postura.
– Jared, Jensen, esses são John e ), pai e irmã do Eric.
Eu os reconheci imediatamente do seriado onde Alona havia atuado alguns anos atrás, no começo do namoro com Eric. Sorri de forma simpática e, assim que bati o olho no copo que Jensen segurava, contive um riso.
– Senhor Bongiovi, é um prazer imensurável conhecê-lo. – Jensen disse, com um sorriso de orelha a orelha.
– Por favor, apenas John.
Eu sorria politicamente, como sempre, à sombra do meu pai. Quando Jensen deu lugar a Jared para que ele cumprimentasse meu pai, ele deu um passo para o meu lado. Foi quando, como eu, notou o copo e riu, esticando a mão para que eu a apertasse.
– Noite difícil? – Ele perguntou.
– Ano difícil. – Corrigi. – É um prazer, ).
– Jensen.
Jo estava de volta, correndo e ajeitando o vestido.
, me desculpa não ter falado com você antes, seu pai não me deixou ir ao banheiro no aeroporto.
– Sem problemas. – Eu sorri e a abracei. – Como estão as crianças?
– Ótimas, sentem sua falta.
– Minha agenda anda apertada com tudo que tá acontecendo com a empresa, mas eu vou tentar tirar um tempo pra fazer uma visita assim que possível.
– Vou te esperar.
Jared terminou de cumprimentar meu pai e se aproximou de mim, oferecendo a mão.
), é um prazer conhecer você. Alona é só elogios a cunhada.
– Igualmente. – Sorri mais uma vez, me perguntando quantas vezes precisaria assumir aquela postura ainda naquela noite.
A banda contratada tocava músicas lentas e Alona foi se afastando, toda sorridente, na direção de Eric. Jared procurou alguém e sorriu.
– Vou procurar a Gen. Se eu não dançar com ela, não chego no hotel vivo.
Eu sorri por educação enquanto via meu pai se encaminhar para a pista de dança, onde outros casais de juntavam ao som de uma banda de amigos do Eric, arrastando Jo com ele. Eu me mantive no mesmo lugar, dando um breve gole no uísque. Quando dei por mim, notei que Jensen também estava ali ainda.
– Sua mulher não gosta de dançar?
– Minha mulher não veio. – Ele respondeu.
– Bem vindo ao clube. – Eu disse, erguendo meu copo na direção dele, com os olhos em meu pai e minha madrasta, e tomando mais um bom gole.
– É a história do seu copo?
Eu quase cuspi o uísque, rindo.
– Você fala como quem entende bem a história de um copo desses.
Ele fez menção de me mostrar o copo.
– Acho que estamos no mesmo barco.
No segundo em que ele fez aquele comentário, uma figura chamou a minha atenção, próxima à porta de entrada. Ainda restava uma quantidade equivalente a uma dose e eu coloquei tudo para dentro de uma vez. Jensen me observava, assustado e surpreso.
– Eu realmente espero que você não esteja no mesmo barco que eu.
Andei na direção do bar sem olhar para trás. Pedi mais um copo – Deus, eu ia precisar – igual ao último e me sentei em uma mesa aleatória de onde eu pudesse ter uma boa visão da pista de dança e, assim, avisar meu pai que a ex mulher dele estava ali. Chamá-la de mãe ainda era complicado para mim e eu nunca tive certeza se, um dia, conseguiria dizer aquela palavra de novo quando estivesse me referindo a ela. De repente, notei uma figura atrás de mim me observando. Olhei e era Jensen. Ele sorriu de forma gentil quando eu o notei.
– Já que estamos ambos sem companhia, aceita um convite pra uma dança?
O celular voltou a vibrar no instante em que Jensen terminou a pergunta. Eu sorri para mim mesmo, dei mais um gole profundo no líquido do copo e me levantei.
– Por quê não? – Disse.
Nós nos aproximamos no momento em que Alan, Chad, Joey e Caleb – amigos de longa data – começavam a tocar uma de suas originais. Dei um aceno acompanhado de um sorriso caloroso para o quarteto, que responderam imediatamente. Jensen me ofereceu sua mão.
– Fiquei sabendo que você tá querendo entrar no mundo do empreendedorismo.
– A gente só ganha muito se arriscar muito.
– Qual o seu negócio? – Ele perguntou.
– O projeto é dar suporte à produção de artistas iniciantes.
– Projeto?! – Jensen arqueou a sobrancelha. – Então ainda não é pra valer.
– Estamos acertando os últimos detalhes. A inauguração da empresa é daqui a dois meses.
– E de que tipo de produção estamos falando?
– Escritores, músicos e atores. Nada muito sofisticado, mas a ideia seria receber inscrições, verificar a viabilidade do retorno financeiro num possível investimento em termos de qualidade, principalmente. Aí, então, agenciar o artista, dar o pontapé inicial, financeiramente falando, e dar todo e qualquer suporte que ele precisar pra começar.
– Sua ideia é ser uma Universal pra novatos então.
– De forma alguma. Minha ideia é ser apenas isso que te disse. Não sonho com coisas grandes, dão trabalho.
– Eu te desejo toda a sorte do mundo então.
Eu sorri.
– Obrigada. E você?
– Quando se está num show por muito tempo, não há muito o que falar. Meus projetos atuais são Supernatural, e os futuros também.
Nós dois rimos.
– Você faz um bom trabalho lá.
– Espero que faça mesmo, obrigado.
Fomos interrompidos por um funcionário do hotel, que carregava em mãos um bilhete e parecia estar com medo de entrar ali.
– Senhorita Bongiovi, com licença. Ligação pra senhorita na recepção do hotel, um senhor Henry Cavill diz ter urgência em falar com a senhora.
Eu revirei os olhos, fechei a cara e senti saudades do copo.
– Diz a ele que eu não posso atender, por favor.
– Mas, senhorita...
– É só isso. ¬– Eu interrompi o rapaz. – Obrigada.
Ele hesitou mas voltou de onde veio. A essa altura, eu e Jensen já não dançávamos mais, o que era extremamente conveniente para mim. Mas ainda estávamos lado a lado, observando os outros casais.
– É a história do copo. – Jensen rompeu o silêncio. – Me perdoe, mas é Henry Cavill não é o ator que tá fazendo...?
– O Superman, é. – Respondi, antes que ele terminasse a pergunta.
– Não fazia ideia de que vocês dois estavam juntos.
– Aparentemente, ele também não, então que diferença faz, não é mesmo?
Eu estava irritada e o deixei falando sozinho. Voltei ao bar, peguei mais bebida. Nem meus irmãos nem meu pai tinham ideia do quão puta eu estava com aquela situação toda. Não estava chateada, estava com raiva. Não era a primeira vez e, possivelmente, não seria a última. Então eu bebi mais um pouco, minha garganta deixando de reclamar da ardência. Procurei pela mesa reservada para a família do noivo – vazia ainda, graças a Deus – e me sentei. Uma sombra me viu e começou a andar até mim. Eu revirei os olhos e bebi mais.
), eu só queria pedir desculpas pelo que disse, parece que te chateou.
– Tá tudo bem. – Eu murmurei, observando o centro de mesa. – Você não entenderia.
– Você não perguntou a história do meu copo e parece ser bem parecida com a sua, na verdade.
– Sua mulher também te sacaneia em todo compromisso que vocês marcam juntos? – Ironizei.
– Não, mas ela não olha na minha cara desde que nossa filha nasceu.
Eu me surpreendi.
– Você tem uma filha?
Jensen buscou pelo celular no bolso, mexeu em algumas coisas e me mostrou a foto. Enquanto eu via a criança de olhos enormes na tela, ele puxou a cadeira do meu lado e se sentou. Devolvi o celular para ele no mesmo instante.
– Ela é linda, parabéns.
– O amor da minha vida. – Ele disse, com um enorme sorriso. – São três meses e meio de pura felicidade por um lado, mas é difícil ver a mulher que você idolatrou por anos se afastar.
– Imagino que seja. – Observei, sem saber muito o que falar.
– Desculpa, eu to atrapalhando a sua noite.
Respirei fundo, sabendo da possibilidade de me arrepender.
– Não! Pode ficar, é que eu só não sei lidar muito com esse tipo de coisa, eu sinto muito.
– Como assim? – Ele me perguntou.
– Pais separados. O Henry é parte da história do copo, certamente, mas não é toda. Eric é o queridinho da mulher que nos colocou no mundo, mas eu e Danny não tivemos essa sorte. Ela nos abandonou faz dez anos. Não que ela tivesse sido muito presente antes, mas...
– Mas você ainda prezava pela imagem de família feliz. – Jensen me interrompeu, como se lesse meus pensamentos, e eu sorri em resposta.
– Nunca deixei de acreditar nisso. Quero dizer, olhe meu pai e a Jo. Eu gostaria de ter algo assim um dia e sei que vão haver momentos ruins, momentos em que você quer deixar tudo pra trás e seguir um novo caminho, mas um relacionamento assim não se conquista com desistências.
Jensen deu de ombros.
– Faz sentido.
– Já tentou conversar com sua mulher a respeito do que tá acontecendo?
– Podemos dizer que ela não tem estado aberta pra conversas ultimamente.
– Às vezes, o problema tá em você e só você que ainda não sabe.
– Como?
– Você quer ficar com ela?
– Quero, claro, nós estamos começando uma família e...
– Então você vai dar um jeito. – Afirmei, colocando um sorriso confortante nos lábios. – Quando um não quer, dois não brigam.
Ele sorriu de volta, em gratidão.
– Você deveria ser uma psicóloga.
– Deus me livre! – Quase gritei, brincando, e dei outro gole na bebida.
– Mas você fala como alguém que entende muito do assunto.
– Bem... Eu sou filha de um casal que não deu certo. Eu sei o quanto doeu pra mim. No meu entendimento, eu não tenho nada a ver com isso e não tinha que ter sofrido nada por causa de uma intriga entre os dois. Parte de mim queria nunca ter experimentado a dor de ser abandonada, mas a outra parte, a parte que cresceu enquanto isso, diz que eu não seria tão forte hoje se não tivesse sofrido.
– Parece um discurso feminista.
Eu ri.
– A única mulher na minha vida botou pra foder comigo, com o perdão da palavra. Fui criada por três homens. Sou tudo, menos feminista, te garanto.
– E, mesmo assim, você ainda defende a família.
Meu pai estava conversando com Tico, que finalmente havia chegado. Os dois sorriam, me fazendo sorrir também. Eu abaixei a cabeça, fitei a bolsa em cima da mesa e queria atirá-la longe.
– A Jo me adotou quando ela e meu pai começaram a se relacionar. Ela é a mãe que eu não tive, que eu gostaria de ter tido desde o começo. Então eu vou sempre achar que um casal que tem a possibilidade de dar certo tem que ficar junto, principalmente se houver uma criança no meio.
Jensen sorriu, bebeu um pouco mais do seu uísque, esvaziando o copo. Logo em seguida, olhou para o meu e estendeu sua mão.
– Vou ao bar, quer que eu traga mais um pouco? – Ele perguntou, extremamente solícito.
Na manhã seguinte, eu me preparava para deixar a casa alugada rumo ao aeroporto de Indianápolis. Reli a lista que fiz em meu celular trinta vezes, me certificando de que não estava esquecendo nada. Coloquei alguns itens essenciais na bolsa de mão, me preparando psicologicamente para quatorze horas entre dois aviões e uma escala até chegar em casa. Dei mais uma olhada em volta, estava tudo certo. Enchi o carro alugado com minhas malas. Estava já sentada ao volante quando meu celular vibrou, anunciando a chegada de uma mensagem. Olhei brevemente o número, não estava gravado na minha agenda. Considerando a possibilidade de ser uma mensagem importante, abri e verifiquei antes de sair com o carro.

‘Espero que não se importe, peguei seu número com sua cunhada.
Só queria agradecer pela conversa de ontem à noite.
Eu e minha mulher conseguimos trocar algumas palavras sem nos ofender, já foi um grande começo.
Devo isso a você.
Muito obrigado, de verdade.
Jensen’

Eu sorri para mim mesma, mesmo que levemente. Minha vida amorosa podia estar fodida mas, pelo menos, eu estava ajudando a de outra pessoa.


Capítulo 2

Caminhava com passos firmes ao longo do grande corredor. Chequei o relógio mil vezes, como quem não acreditava que estava dentro do horário. O vestido tubinho, para manter a aparência de mulher de negócios, me incomodava profundamente, mas era o que eu tinha. Pegar um carro executivo e chegar ao Langham era tudo o que eu precisava fazer ainda. Por mais que eu estivesse com os nervos à flor da pele, parecia a pessoa mais calma do mundo. As palavras estavam na ponta da língua e eu teria Harvey ao meu lado, caso ficasse confusa. Eu já estava do lado de fora do prédio, me preparando para abrir a porta do carro, quando o telefone tocou.
– Rápido que eu to enrolada. – Atendi.
– Qual é o nome do salão? – Dougie perguntou, do outro lado da linha.
– Roux at the Landau, eu enviei pra você por mensagem hoje cedo.
– Relaxa, gatinha, já estou chegando.
– Ótimo. – Disse e desliguei.
Corey olhou para mim pelo retrovisor.
– Grande dia, senhorita.
– Já disse que é . – Resmunguei, olhando pela janela. – Qual o trajeto?
– Vamos pela A1203, previsão de quarenta minutos. O trânsito não está muito favorável hoje. Mas, se a senhorita preferir, podemos ir pela A40.
– A primeira opção, por favor, e já disse que não precisa dessa formalidade comigo.
– Sou motorista de empresários, senhorita, a formalidade está no meu sangue.
Revirei os olhos e chequei, mais uma vez, o discurso inicial. O resto da viagem foi em silêncio. Na porta do hotel, a imprensa aguardava curiosa, embora eu tivesse deixado bem claro que, a princípio, os comunicados seriam dados durante a coletiva dentro do hotel e apenas lá. Corey me ajudou a desviar deles e eu finalmente entrei no saguão do hotel. Meu esquadrão de proteção – meu irmão, Dougie, Harry e Tom – me esperava de forma rigorosa.
– Todos em roupas formais, só Deus sabe quando essa cena vai se repetir de novo. – Comentei antes de abraçar Danny. – A que devo a presença dos quatro aqui, me aguardando?
– Só queríamos checar você antes de tudo começar. – Harry disse, me abraçando com um dos braços e dando um beijo no topo da minha cabeça. – Nervosa?
– Nunca to nervosa.
Dougie forçou uma tosse, fingindo muito mal.
– Parece que você tem treze minutos de folga ainda e o uísque que tá sendo servido lá dentro tá...
– Sem bebidas! – Eu o interrompi. – Vou terminar essa merda sóbria.
, nós podemos ter um momento a sós antes? – Danny perguntou.
Um olhar foi o suficiente para que os meninos se afastassem. Danny deu uma olhada em volta ainda, checando se havia mais alguém por perto.
– Henry não vem.
Meus ombros caíram e eu engoli em seco.
– Não seria novidade, não é mesmo? – Murmurei.
– Desculpa jogar a bomba em você agora. Só achei que seria melhor você ter tempo pra processar.
– Você fez o certo. – Disse. – Tenho que abrir uma empresa agora, deixo pra lidar com ele depois.
– Precisa de alguma ajuda com isso?
Bati no vestido, onde achei que estava sujo, e voltei a erguer os ombros.
– Vamos terminar isso. – Falei.
Harvey, meu advogado, me aguardava dentro do salão. Ele sorriu ao me ver e, com um firme aperto de mão, me cumprimentou. Eu me sentei ao seu lado, sob o olhar curioso de todos. Meu pai e Eric não poderiam estar presentes, e eu já estava ciente daquilo previamente. Danny assumiu o lugar ao meu lado e aguardamos mais um pouco. Os jornalistas à nossa frente estavam ansiosos, mas não mais que eu. Fiquei olhando para meu relógio, fiel ao horário. Quando ele anunciou que eram exatamente dez horas da manhã, eu me levantei e andei na direção do púlpito.
– Podemos começar? – Disse, ao microfone.
O silêncio tomou conta do lugar. De onde estava, conseguia ver alguns rostos conhecidos. Coloquei o celular em cima do púlpito e deixei o arquivo com meu discurso aberto.
– Bem, primeiramente, bom dia a todos e obrigado por estarem todos aqui.
Depois dessa frase, eu congelei. Estava muito mais nervosa do que pensava. De trás, eu conseguia ouvir Danny tentando me incentivar, mas eu simplesmente não conseguia processar as palavras. Baixei os olhos para o meu discurso mais de uma vez. Foi quando, na aba de notificação, chegou uma mensagem.
‘Boa sorte hoje! Não posso ir, mas estou na torcida por você 😊’
Uma mensagem. Jensen tinha me mandado uma mensagem e eu era apenas a conselheira amorosa bêbada que ele havia conhecido algumas semanas atrás. Meu próprio namorado, ao meu lado por mais de um ano, não era capaz de me ligar e contar que não estaria presente no dia mais importante na minha vida. Foi quando tomei a decisão de deixar de ser otária. Fechei o arquivo no celular e voltei a levantar a cabeça. Que se fodam as palavras prontas, era a minha empresa e ninguém melhor que eu para anunciá-la originalmente.
– A Jones4ALL é uma empresa que nasce do conceito de que todo artista merece ter seu trabalho reconhecido. – Comecei. – Eu me sinto honrada em apresentar um projeto que, ao mesmo tempo que traz um negócio interessante, abriga um propósito social. Artistas novos tem uma certa dificuldade de entrar para competir no mercado, seja ele musical, literário ou filmográfico. Qualquer inserção no mercado custa caro e é extremamente monopolizada. Como anunciado previamente, nossa missão é encontrar artistas desconhecidos em quem valha a pena investir, dando todo o apoio necessário para que ele se desenvolva por um preço que não seja abusivo. Eu e meu irmão, Danny, escolhemos começar esse caminho pois, mesmo tendo um pai com um grande nome, também enfrentamos o começo árduo na vida artística e acreditamos no surgimento de grandes artistas se houver uma descomplicação do processo. Eu não tenho dúvidas de que tenho, ao meu lado, uma equipe capacitada, que vai poder atender a todas as demandas possíveis estimadas para esses primeiros meses. E pretendemos, com o tempo, expandir em capacidade. Estamos falando de uma cadeia que movimenta muito dinheiro, não só na Inglaterra como no mundo inteiro, e deixamos claro que não é apenas um projeto social como uma forma de trabalho. Convoquei essa coletiva para que a informação se espalhe pelo máximo de meios de comunicação possíveis, para que as pessoas possam vir até nós quando tomarem conhecimento do serviço. No mais, estou à disposição para responder quaisquer perguntas que vocês possam ter. Pra isso, tenho ao meu lado meu irmão e também sócio nominal na empresa, Danny Jones, e meu advogado, Harvey Spectre, um dos maiores no seu ramo. Espero poder atender a expectativa de todos e os agradar dentro do possível.
Houve um silêncio que fez meu coração gelar. Será que eu não tinha deixado óbvio que tinha terminado? Os meninos me olhavam, do canto da sala, e pareciam ter aprovado. De repente, um jornalista levantou a mão.
– Por favor, pode falar. – Eu disse.
– Senhorita Bongiovi, David Pierce, do The Sun. A senhorita poderia nos informar, com mais detalhes, o que ocorre desde o momento da inscrição do artista até o momento do retorno do investimento?
– Certamente. – Respondi com um sorriso. – Cada área tem profissionais da minha confiança que filtrarão todos os conteúdos que nós iremos receber, sejam manuscritos, músicas ou videoclipes. O que acharem que tem potencial, passa necessariamente por mim ou por meu irmão para aprovação final. Nós montamos um contrato, considerando o tanto que o artista pode ser explorado, e mediamos o contrato com gráficas e estúdios, embora tenhamos a intenção de termos nossa própria estrutura em breve. No caso de livros, por exemplo. Podemos receber algo que pensamos ser digno de um filme. Usaremos nossos próprios, atores e músicos, para a produção do mesmo. Claro, mediante a rentabilidade possível do processo todo e o desejo dos artistas envolvidos.
Quando terminei de falar, um monte de braços se levantaram no meio dos jornalistas. Eu estava em um misto de êxtase e nervoso, mas completamente feliz. Olhei para trás, para Danny, sorrindo.
– Você, por favor. – Eu disse, apontando para uma mulher que estava próxima.
Nós cinco – eu, Danny, Dougie, Harry e Tom – deixamos o hotel rumo a um restaurante no centro. Georgia, Giovanna e Izzy nos encontraram lá logo em seguida e dividimos mais drinks do que seria saudável. Em certo momento da tarde, bem depois do almoço, eu me peguei próxima ao guarda corpo do terraço do restaurante, observando o Tâmisa em silêncio enquanto deixava minha mente vagar por lugares que eu nem mesmo conhecia. Senti que havia alguém se aproximando, e certamente sabia pelo cheiro de quem se tratava, mas me mantive imóvel. Talvez fosse a bebida e meu estado mental formando uma combinação nada agradável, mas era o que eu tinha.
– Você deveria estar comemorando, mas não parece exatamente feliz.
– Acho que eu acreditei em contos de fadas por tempo demais.
– Ah, todos nós temos que acreditar um pouco nisso. – Giovanna disse. – Caso contrário, o mundo não teria graça.
Eu respirei fundo e desviei o olhar do rio.
– Você já pensou que talvez estivesse melhor sem o Tom?
Ela sorriu.
– Mais vezes do que eu gostaria de assumir mas, no final das contas, ele ainda tá lá por mim quando eu chego em casa cansada. Quando ele cozinha, fica uma merda, e não diga a ele que eu disse isso, mas eu sei que ele se esforça. Então, por mais que eu pense em desistir...
– Você sempre fica. – Completei.
– É, basicamente isso. Pergunta por quê? Problemas no paraíso?
– Nem existe um paraíso, pra começo de conversa.
– Você namora um dos caras mais lindos do mundo, , a pressão é normal.
– Não to falando de fora, to falando da gente. Ou melhor, dele.
Giovanna voltou a dar um sorriso leve, sábia em todos os movimentos. De onde estávamos, podíamos ver que os rapazes conversavam animadamente, sem se importar com nossa ausência. Georgia me lançou um olhar carinhoso, como se pudesse ler minha mente.
– Eu to grávida, .
Minha atenção, de repente, era toda dela. Meus olhos se arregalaram e minha garganta secou.
– O quê?!
O sorriso de Giovanna ia de orelha a orelha e eu não pude evitar sorrir de volta. Eu a puxei para um abraço apertado, o coração saltando no peito e a felicidade impossível de se conter me fazendo sentir como se fosse explodir.
– Quando você ficou sabendo?
– Semana passada. Eu e Tom decidimos não roubar o seu momento e esperamos pra contar hoje.
– Gi, eu... Eu nem sei o que dizer.
– Fico feliz que meu bebê possa te tirar desse estado catatônico, de qualquer forma.
– Não poderia ser melhor!
Meu telefone começou a vibrar na mesma hora. Olhei o identificador, era Alona. Danny estava descontraído, então certamente não era um assunto entre irmãos. Caso contrário, ele provavelmente saberia antes de mim. Ainda afetada, dei dois passos para longe de Giovanna e atendi.
– Oi! Aconteceu alguma coisa?
– Sim, aconteceu. – Alona respondeu do outro lado da linha. – Desculpa te interromper, eu sei que você deve estar ocupada depois da coletiva, mas eu precisava que você fosse a primeira a saber.
– O que houve?
– Você vai ser titia!
Meus ombros caíram. A reação que tive ao receber a notícia de Giovanna se intensificou dez vezes mais. Eu literalmente não conseguia respirar e foi naquele exato instante que eu tive a maior epifania da minha vida. Não precisava ter alguém de fora comigo. Eu tinha o que precisava para ser feliz bem ali, com um laço de sangue, me suprindo de todas as formas possíveis. Eric ia casar e ser pai, Danny estava esperando para marcar a data. A felicidade dos meus irmãos me nutria. E ainda tinha o McFLY que, por tabela, me enchia de felicidade a todo instante. Os shows do aniversário de dez anos da banda estavam chegando e Giovanna estava grávida também. Henry não fazia a diferença para mim naquele universo, e jamais conseguiria, porque ele não me proporcionava nem um décimo do que eles me proporcionavam.
Eu esperei, fui paciente. Fingi que nada tinha acontecido por dias até que, na tarde de uma segunda, eu estava voltando para casa após uma manhã de reuniões quando eu o vi, tocando a campainha do meu apartamento. Sua postura mudou ao me ver, e ele abriu um sorriso que eu já não mais conseguia corresponder. Henry notou. Eu o convidei para entrar, enchi um copo do melhor uísque que tinha em casa e tomei tudo de uma vez. Só assim tive coragem de me sentar junto a ele na sala de estar.
Minhas palavras pareciam machucá-lo, mas ele não entendia o quanto eu já tinha sentido antes por causa das ações dele. Seu comportamento de colocar o trabalho acima de tudo – acima, também, de mim – era intolerável àquela altura. Eu vi meu sentimento por ele sendo repetidamente nocauteado por ele mesmo, e não havia ninguém que pudesse intervir. Henry chorou, e era a primeira vez que eu o via naquela situação, um homem de quase dois metros se desmanchando em lágrimas. Pediu desculpas, me abraçou e beijou o topo da minha cabeça no gesto mais singelo que demonstrava o tanto que ele sentia por mim. Nunca duvidei de seus sentimentos, mas sabia que ele amava mais o trabalho do que jamais me amaria, e eu não podia lidar com aquilo. Foi assim que o vi partir uma última vez, com o coração partido, mas já sendo remendado.


Capítulo 3

– Ok, e por que ninguém trouxe a porra de um conjunto reserva? – Eu esbravejei. – Quantas vezes eu precisei falar que todo e qualquer imprevisto deveria ter sido coberto, não importasse o custo?
, – David me chamou, baixinho, contrastando gigantescamente com a minha voz elevada. – eu fiz uma pesquisa online e tem uma loja...
– Eu sei que deve ter, David, – Eu o interrompi. – mas nós estamos pagando uma diária pro parque, pra liberarem tudo que a gente precisar. Além do mais...
– Além do mais, você tá se cobrando demais. – Também fui interrompida, dessa vez pelo meu pai. – Clipes musicais dão trabalho mesmo, . Nós estamos na estrada tem trinta anos, bebê. Faz ideia de quantos clipes nós fizemos?
– Dezenas. – Resmunguei. – Mas esse é o primeiro que eu estou produzindo.
– Você tem vinte e dois anos, meu amor. – Meu pai disse, com carinho, e me abraçou. – Estar produzindo seu primeiro vídeo, com o tempo de vida que você tem, é suficientemente grandioso. Com a sua idade, eu ainda tava começando. Seria a mesma coisa que eu produzir um clipe do Scorpions logo assim que fundamos a banda.
– Se eu posso ser melhor, por que eu não deveria ser?
– Você tá de TPM. – Ele declarou ao revirar os olhos. – Você tem duas escolhas, ir na loja comprar os parafusos pro trilho da câmera ou dar o resto do dia de folga da equipe, mandar alguém pra loja e curtir um bom almoço com o seu velho pai no restaurante do hotel, já que a senhorita dispensa uma volta na montanha russa do parque.
– O senhor bem sabe que eu passo mal.
Ele riu e depositou um beijo no topo da minha cabeça. Não estávamos prontos para filmar a próxima cena porque eu tinha uma mania irritante de seguir uma sequência de planejamento ao pé da letra. Roller Coaster era uma das novas músicas do meu pai, e era incrível. Conseguir que o Pacific National Exhibition nos cedesse, parcialmente, o parque foi uma aventura à parte. Desde que meu pai rompera com a Island Records para usar os serviços da minha empresa, eu tinha me comprometido com ser melhor que a antiga gravadora. E aí eu ia contra todos os princípios iniciais de setembro, quando eu comecei de fato as atividades na Jones4ALL. Mas negar meu pai, negar o Bon Jovi? Não dava.
Vancouver, em dezembro, era quase um inferno reverso. Londres ficava frio mas, meu Deus!, Vancouver estava um gelo. O vento que vinha do mar não ajudava em nada. “Vamos ficar no The Westin Bayshore. Tem vista pro mar." Quando mesmo que meu pai tinha me dado uma ideia certeira?
A vista estava cobrando caro demais no espaço entre a calçada e a porta de entrada do hotel. Eu me encolhi ao descer do táxi e corri para dentro. A cama king size era divina e a vista, na verdade, era realmente de outro mundo. A vista da minha mesa de trabalho, por sua vez, não parecia muito bonita, e ficava pior quando eu me lembrava que precisava sentar ali e resolver algumas coisas, mas o aquecedor estava ligado e aqueles travesseiros eram realmente deliciosos.
Levantei a coberta e me encaixei no quentinho da cama, essa me recebendo quase com um abraço. Poderia e deveria ter fechado a cortina, porque uns instantes de sono não me fariam nenhum mal – muito pelo contrário –, mas eu observava o mar. O celular, ainda no bolso, foi capturado rapidamente. Abri o aplicativo da câmera, estiquei o aparelho, bati uma boa foto e postei no Instagram com uma legenda com emojis de floco de neve. Ainda tinha isso, a neve podia chegar a qualquer momento. Deus, me ajuda!
Na hora marcada, eu deixei o quarto para me encontrar com meu pai. Não precisei bater na porta pois ele sabia que, quando o relógio marcasse 1PM em ponto, eu sairia para o corredor. Trocamos um sorriso caloroso e nos encaminhamos para o restaurante do hotel. Ele carregava consigo seu melhor amigo, um sketchbook. Cada assunto tinha um sketchbook diferente. Para o clipe de Roller Coaster, ele também separou um, nosso terceiro companheiro no almoço de meio de semana.
– Hm, esse molho tá uma delícia. – Ele observou ao abocanhar um bom pedaço de lasanha.
– Vovó faz um mais gostoso.
– Tudo o que sua avó faz é mais gostoso.
– Não parece. Você só não é mais magro porque, se fosse, seria doença.
– Eu pratico exercícios físicos!
Preparei uma risada, mas o telefone começou a ligar. Era o número de Donna, minha secretária e a pessoa mais incrível do planeta, então eu deveria atender.
– Se importa? – Perguntei, mostrando o aparelho a meu pai.
Ele deu de ombros e fez sinal para um dos garçons mais próximos. Atendi imediatamente.
– Oi, Donna!
– Oi, querida. Temos um problema.
– O que houve?
– Seu padrinho está aqui e exige falar com você.
– Padrinho?! – Questionei, chamando a atenção de meu pai de volta para mim. – Axl?!
– Você tem mais algum que eu não saiba?
Revirei os olhos.
– Passa o telefone pra ele. – Declarei.
– Um instante.
Escutei os saltos ricochetearem no chão pacientemente. Meu pai sustentava um olhar curioso.
?!
– Axl, aconteceu alguma coisa?
– Preciso me reunir com você a respeito de um possível novo álbum. Onde você está?
– Vancouver. – Disse, contendo uma risada. – Eu sinto informar, mas só volto semana que vem. Papai está filmando um clipe e tem show no sábado.
– Jesus! Preciso de você agora.
– Mas agora não tem como. O senhor vai estar em Londres até quando?
– Amanhã.
– Volte pra casa que eu dou um jeito de fazer uma escala em Los Angeles. Mas preciso perguntar... O que eu tenho a ver com um novo álbum?
Meu pai remexeu na cadeira.
– Soube que você está produzindo o novo do seu pai.
– Sim, mas é justamente porque ele é meu pai.
– E não pode fazer isso pro seu padrinho aqui?
Suspirei.
– Axl, isso era pra ser pequeno.
– Então é uma pena você não ter me contado, porque conversei com o pessoal do Foo Fighters e o Grohl pediu, inclusive, que eu repassasse minha opinião sobre sua gerenciabilidade.
– O quê?!
– Posso voltar pra casa então e você me encontra?
– Axl... Isso é... – Eu respirei fundo algumas vezes. – Precisamos conversar com Danny. Ele está em Londres.
– Se eu quisesse olhar na cara feia do seu irmão, não pediria por você.
Nós ficamos em silêncio por alguns segundos. Meu pai estava quase tendo um ataque cardíaco de curiosidade à minha frente.
– Eu te encontro.
– Ótimo então.
Ele disse e desligou, com toda a sua excentricidade aflorando. Levantei os olhos até meu pai, as bochechas vermelhas.
– Não fui eu!
– Tenho que falar com meu irmão.
– Faça o que tiver que fazer, vou ao banheiro.
Assenti e o vi se afastar. Quando me virei para o telefone, antes de ligar para Danny, passei o olho por todas as mensagens recebidas. Uma, em específico, me chamou a atenção. Jensen havia mandado o print da foto que postei no Instagram, seguido do texto “Está em Vancouver???". Respondi que sim e troquei de tela. Enquanto selecionava o contato de Danny, chegou mais uma mensagem e eu desisti do meu irmão.
“Fica até quando?"
“Segunda, papai tem um show no final de semana."

“Sei disso, comprei o ingresso.
Tá livre amanhã?"
“Estamos filmando um clipe.
Passo o dia inteiro ocupada amanhã."

“Que tal quinta então?"
Respirei fundo. Meu pai estava voltando do banheiro e eu ainda não tinha falado com Danny, então teria que ser por mensagem mesmo.
“Que tal o quê?!"

– Conseguiu falar com Danny?
– Acabei não ligando. Estou tratando de alguns assuntos por mensagem.
– A equipe quer saber se nós voltamos para o parque ainda hoje.
Desci os ombros.
– O que o senhor acha?
Ele olhou pela janela atrás de mim.
– Vai começar a nevar em breve. Quanto mais rápido nós terminarmos...
–... melhor. – Completei a frase inacabada. – Avise que estamos indo em dez minutos então.
Uma nova mensagem chegou.
“Almoço.
Tem um lugar legal aqui perto e estou sem desculpas para ir."
– Alguém importante? – Meu pai perguntou.
– Amigo da Alona, da festa de noivado. Postei uma foto, ele viu e tá aqui também, aparentemente.
– Vão sair?
Levantamos e deixamos uma gorjeta sobre o saleiro.
– Ele me chamou pra um almoço na quinta, mas nós...
– Vá, querida, eu consigo tocar isso sozinho e você precisa fazer uma pausa do trabalho.
Ele saiu andando e eu fiquei para trás. Olhei para o celular uma última vez.
“Me diga horário e que tipo de roupa devo vestir."

Era 11:37AM, sete minutos de atraso. Eu odiava atrasos, mas dizia o ditado que quem está na chuva é para se molhar. Olhei no relógio dois minutos depois, mais atraso ainda. Onde estava aquele maldito ser humano sem relógio? Um Accord encostou bem próximo à mim e abaixou o vidro dianteiro.
– Entra aí, mocinha! – Jensen disse, do banco do motorista.
Eu sorri, mentalizando pela milésima vez que apenas eu era a neurótica obsessiva com horário e que ninguém precisava, necessariamente, ser igual. Entrei no banco de trás e me deparei com um homem sorridente no banco do motorista. Ele se virou para trás, esticando a mão na minha direção, e eu reconheci o rosto.
– Misha Collins.
Apertei sua mão em resposta.
Jones. – Respondi.
– Eu sei. – Ele brincou. – É um prazer.
– Desculpa não ter avisado sobre o convidado extra. – Jensen entrou na conversa quando partimos.
– Sem problemas. – Disse enquanto ajeitava o sobretudo. – Vai no show também, Misha?
– Não, as crianças estão vindo pra cá com minha mulher.
A voz dele, ao contrário do que eu havia visto no seriado – por Deus, eu vi Supernatural e gostei –, era arrastada. Ele fazia piadas o tempo todo, mantendo nós três extremamente descontraídos. Jensen nos levou para o Coast Restaurant. Não tinha nada de exuberante, principalmente se comparado ao padrão de vida de Vancouver. Era especializado em frutos do mar e comida japonesa. Eu poderia matar alguém pela lagosta que passou em direção à mesa do nosso lado.
– Precisa de um lençol? – Misha falou, me trazendo de volta à terra.
– Não, por quê?
– Porque você tá derrubando saliva aí.
Eu ri.
– Ele é sempre assim? – Perguntei a Jensen, que revirou os olhos em resposta.
– Às vezes, preciso me lembrar de não segurar esse belo pescocinho.
– Ah, querido, você bem que gostaria! – Misha brincou, mais uma vez, e fez sinal para um garçom. – Duas cervejas e o cardápio, por favor.
– Três cervejas. – Corrigi, recebendo olhares imediatamente. – O que foi?! Não to nem dirigindo!
Misha deu de ombros e sorriu.
– Três cervejas e o cardápio, então.
O rapaz se afastou mas voltou rapidamente com os pedidos em mãos. Depois de muita discussão, optamos por uma sopa de entrada, a saborosa lagosta como prato principal e um creme brûlée de laranja, muito bem recomendado por quem estava nos atendendo, para fechar. Já estávamos na metade da sobremesa, com uma conversa distribuída entre algumas gargalhadas, umas mais altas que outras, quando o telefone de Misha tocou e ele se retirou para atender a ligação. Eu e Jensen ficamos ainda um pouco absortos na última piada, envolvendo um cara da produção da série que eu nem conhecia. De repente, percebemos que ainda estávamos em silêncio.
– E então... – Jensen falou. – A empresa, anda bem?
– Bem até demais! – Respondi.
– Parece ruim.
Hesitei.
– É, um pouco, porque a demanda tá altíssima. Não esperava isso.
– Um serviço bom e barato, claro que a demanda ia ser alta.
– Não é isso.
– É o quê então? – Ele insistiu, interessado na pergunta.
– Os grandões querem pagar bem. Meu pai tem uma puta influência em qualquer banda da geração dele, e eu to produzindo o Bon Jovi agora. Mas, aparentemente, o Guns e o Foo Fighters estão querendo entrar. Isso sem contar com alguns amigos pessoais que querem entrar junto. Então eu to recebendo um monte...
Jensen estava me olhando, contendo um sorriso, e eu não consegui mais dizer uma palavra sequer. Foi a primeira vez que reparei no seu rosto. Os olhos verdes lembravam os tons que os meus atingiam em um dia de muito sol. Eu nunca havia reparado, mas Jensen era um homem bonito, com feições e contornos másculos que faziam os lindos olhos se tornarem apenas um mero detalhe. Infelizmente, aquilo colocou nós dois trocando um olhar estranho, cara a cara, nos encarando sem sentido algum. Eu fui a primeira a desviar o olhar.
– Desculpa, eu comecei a tagarelar. – Balbuceei.
– Sem problemas, gosto de ouvir você falar. É engraçado.
– Engraçado?!
– O sotaque britânico. Mas você é americana, não é?
– Quem é americana? – Misha perguntou, de volta à mesa.
– Eu sou. – Afirmei. – Mas fui pra lá aos dez anos de idade, ganhar o sotaque foi a coisa mais fácil do mundo.
– Ah, o Jensen sempre fala que é apaixonado pelo sotaque britânico.
Peguei ele me olhando de soslaio.
– Não era engraçado?
– Um pouco dos dois, não nego. – Ele brincou.
Ficamos mais um pouco, Jensen e eu degustando um vinho que Misha não podia aproveitar pois já estava perto de estourar sua cota de álcool no sangue. Alguém, afinal, precisava nos levar de volta. Estava mais frio ainda quando eu cheguei de volta ao hotel, e eu sentia necessidade de me trancar debaixo de um chuveiro bem quente. Contrariando a minha imaginação, Jensen fez questão de sair do carro e abrir a porta para mim. Seu sorriso denunciava o começo do que poderia ser o efeito do álcool.
– Foi um prazer, senhorita Bongiovi.
– Eu uso o Jones, mas ok.
– Seu pai é o cara mais foda do mundo do rock, você não deveria ter vergonha do sobrenome.
– Eu não tenho, só prefiro conquistar as coisas pelo meu próprio mérito.
Ele revirou os olhos e me esticou a mão, oferecendo um cumprimento formal que aceitei de bom grado.
– Foi um prazer também, Jensen. Nos vemos na Rogers Arena?
– Acho meio difícil, mas podemos tentar. Eu entro em contato.
Sorri em resposta.
– Tchau, Misha. – Acenei, abaixando para que ele pudesse me ver. – Foi um prazer te conhecer. Obrigada pela companhia.
– Não há de quê, bela moça. Nos vemos qualquer dia.
– Seria adorável!
Olhei uma última vez para Jensen e entrei de vez no hotel. Levou alguns segundos para que Donna atendesse o telefone.
– Diga o que precisa e eu buscarei pelo mundo inteiro.
– Fale com os organizadores do show do meu pai aqui em Vancouver. Preciso que localizem o ingresso comprado em nome de Jensen Ackles. Faça chegar a quem for necessário que, quando esse ingresso for registrado dando entrada no estádio, ele deve ser redirecionado para o backstage.
– Mais alguma coisa?
– Não.
– Considere feito.
– Obrigada, Donna.
– Não precisa agradecer, só pagar o meu salário em dia.


Capítulo 4

Todos nos aproximamos rapidamente. Meu pai me abraçava pela cintura e lascava um belo beijo na minha bochecha direita enquanto Tico o imitava do outro lado. O barulho do clique da câmera soou no mesmo instante.
– Obrigada, Phil. – Eu disse ao pegar meu equipamento de volta, dando uma checada na imagem. – Quanto tempo?
– Vinte e cinco minutos.
Olhei novamente no relógio.
– Ótimo... – Sussurrei.
– John, você precisa se sentar e me deixar fazer o meu trabalho. – Clair, a maquiadora, reclamou.
– Eu não preciso disso. , pode me dar uma ajudinha aqui?
– O que houve, pai?
– Confirma a afinação desses três violões pro seu velho pai, por favor.
– Sim, senhor. Mais alguma coisa?
– Tá esperando o rapaz do almoço?
– O quê?! – Eu quase deixei o violão cair no chão.
– Você checa as horas de dez em dez segundos, está nervosa com horário.
– Bem, temos um show pra começar e horário é o que vendemos, em parte.
– Você não me engana. E você tem visita.
Meu pai olhou para mim com um sorriso de canto. Não precisei me virar para saber que Jensen estava vindo em nossa direção.
– Senhor Bongiovi, é um prazer revê-lo.
– Já disse que pode me chamar de John. – Meu pai insistiu, recebendo Jensen com um caloroso aperto de mãos. – Eu acredito que não veio ao Canadá apenas para nos ver.
– A maior parte da filmagem da série em que trabalho se passa aqui. Quando soube do show, imaginei que seria a melhor ideia possível pra uma pausa.
– Fico feliz que tenha nos agraciado com a sua presença então. Agora, se vocês me dão licença, preciso resolver alguns detalhes finais. Você nos acompanha depois do show, Jensen?
– Depois do show?!
– Tenho certeza de que minha linda filha te explica!
Ele piscou o olho e se afastou. Eu, por minha vez, mantinha a atenção focada no violão em meu colo. A terceira corda não soava perfeitamente e eu ajustava de ouvido. Jensen não tirava os olhos de mim.
– Foi você?
– O quê? – Respondi.
– Eu comprei ingresso pro camarote, mas isso é um pouco mais.
Dei um leve sorriso para ele.
– Pode ser que sim.
– Deveria ser cobrado a mais por isso?
– A essa altura, Donna já reembolsou o valor no seu cartão de crédito de final 7841. – Eu disse e ele arregalou os olhos. – Tenho a melhor secretária do mundo.
– É sério isso?
– Claro que é.
, não precisa...
– Por favor, não venha com essa. Além do mais, está feito, então aproveite a surpresa.
– Você é uma mocinha muito teimosa.
– E você é um velho muito rabugento. – Disse e deixei o último violão de lado. – Trabalhou hoje?
– Fizemos apenas uma leitura de roteiro.
– Entendi. – Respondi, percebendo imediatamente que não tinha dado sequência a nenhum assunto e raciocinando que o silêncio podia e tendia a ficar constrangedor. – Quer conhecer o entorno?
– Se não for um problema pra você, é claro.
Nós caminhamos por entre toda a estrutura da Rogers Arena, desde os banheiros, camarins, até o próprio palco – de longe, é claro. A cada movimentação minimamente visível lá na frente, a plateia explodia. Meu pai e sua trupe já estavam em 99% de seu preparo e Steve, um dos membros da equipe de maior confiança, checava a bateria de Tico uma última vez. Nós nos separamos brevemente enquanto eu pegava o sketchbook daquele show, me preparando para gerenciar a equipe caso qualquer mínimo detalhe saísse fora do planejado. Não seria a primeira vez e eu estava certa de que também não seria a última.
– Precisa de uma cadeira? – Perguntei a Jensen ao voltar para o seu lado, já na beira do palco.
– Não, eu aviso se precisar de alguma coisa.
O murmurinho atrás de mim deixava claro que o show estava pronto para começar. A arena se apagou por completo e os integrantes, um por um, passaram por mim, deixando um breve cumprimento sempre. O show de luzes estroboscópicas milimetricamente planejadas começou, deixando à mostra a enorme plateia ansiosa. Vários segundos depois, Tico deu o sinal para que That’s What The Water Made Me começasse a ser tocada. Meu pai, com o violão pendurado no pescoço, simplesmente se materializou ao meu lado.
– Um beijo de boa sorte?
Estalei meus lábios em sua bochecha e ele abriu um sorriso enorme, seguindo correndo para a posição central no palco. Percebi que ainda mantinha, eu mesma, um sorriso bobo e singelo em resposta ao do meu pai quando peguei Jensen me encarando. Tratei de recuperar minha expressão o mais rápido possível, mas não a tempo de impedir Jensen de rir de mim.
– Vocês dois são bem unidos.
– Meu pai é tudo pra mim. – Declarei.
– Tem alguma coisa a ver com a história da sua mãe?
– Minha mãe?!
– A história do copo. – Ele insistiu.
– Ah sim! – Hesitei, encaixando uma mecha de cabelo atrás da orelha. – Ele fez mais do que podia por mim e por meus irmãos, e eu sei reconhecer isso. Enquanto isso, a mulher que colocou a gente no mundo tava dando pra qualquer cara por aí a troco de nada.
Jensen arregalou os olhos com meu comentário.
– Não fique surpreso, isso é o mais suave que vai escutar sair da minha boca quando se trata dela.
– Parece muita raiva pra uma pessoa como você.
– Você não faz ideia do que é uma pessoa como ela. Se soubesse, entenderia, eu garanto.
– Acredito em você. – Ele respondeu, sorrindo e voltando a atenção para o palco.
Dezesseis músicas e muitos comentários pertinentes ao espetáculo depois, meu pai iniciou um longo discurso envolvendo assuntos como amor e família. Eu deveria ter previsto. Conhecia aquele homem melhor do que conhecia a mim mesma e, quando ele se virou na minha direção e começou a caminhar firmemente com o violão na mão – eu já sabia, é claro, que Who Says You Can’t Go Home era a próxima –, eu retesei. Negava com um sinal de cabeça veementemente, mas parecia ser totalmente ignorada. Todos ao meu lado, sem exceção, estavam mais que curiosos. Meu pai, ao finalmente chegar em mim, segurou em meu braço.
– Nem vem.
– Por favor, filha. Por mim.
– Não, pai!
– E quem disse que eu aceito essa resposta? Vamos, pare de graça. Você coloca a Jennifer Nettles no chinelo quando canta essa música comigo.
– Pai!
Phil começou a vir na minha direção também e eu sabia que ia ser empurrada na marra. Respirei fundo e, em um esforço em vão, olhei em volta para ver se alguém poderia me ajudar. Jensen estava ali, ainda ao meu lado, e sorria largamente.
– Eu adoraria ver você tocar.
– Dois contra um. – Meu pai declarou.
Três contra um. – Phil chegou até nós. – Vamos logo, .
– Não!
Ele foi para trás de mim e começou a me empurrar. A plateia aplaudiu enquanto eu via, pelo canto do olho, que Jensen estava gargalhando às minhas custas. Respirei fundo, ajeitei a postura e acenei para o público. Rapidamente, alguém fez um microfone parar na minha mão e meu pai fez sinal para que Tico começasse a música. Eu estava sem aquecer a voz, não tinha certeza do quanto aguentaria manter o equilíbrio naquele dueto. Não tinha retorno para mim, o que tornava puramente mágico que eu conseguisse acompanhar meu pai. Três frases depois, eu já estava mais solta e disposta a curtir o palco, como costumava fazer antes da Jones4ALL.
Para mim, cantar com meu pai, com Danny ou até mesmo com Eric, o que era a coisa mais rara do mundo, podia parar o universo. Nós estávamos no palco, eu e meu pai. A música tocava, mas não havia mais ninguém além de nós e nossos sorrisos. Só Deus sabia as cicatrizes que aqueles dentes à mostra escondiam. As noites chorando porque papai estava em algum lugar na Ásia e eu, em Jersey, sendo criada pela minha avó. As despedidas dolorosas na calada da noite, quando ele cancelava algum show para uma visita rápida, não importasse o quanto aquilo irritaria seus companheiros de banda. As noites dentro de um ônibus de turnê, o último lugar que uma criança de seis anos deveria frequentar. O divórcio. Os aniversários com a cadeira da nossa dita progenitora vazia. O clima estranho quando nós perguntávamos sobre ela.
Papai tinha rugas. Meu Deus, meu pai estava envelhecendo. O cabelo ainda estava loiro, mas eu sabia bem que era culpa de uma tinta sagrada. Ele já não tinha tanto fôlego quanto antes, quando brincava de fazer shows com uma menininha de cabelos lisos que mal aguentava um violão no colo na sala da casa da avó. Era para ser um puta solo de guitarra muito bem executado, mas eu estava me encantando, pela milésima vez, pelo meu próprio pai. E não era novidade nem para mim e muito menos para ele que eu estivesse segurando as lágrimas, o que fez com que meu pai se aproximasse de mim e me desse um forte abraço antes de terminarmos a música.
Quando voltei para o lado de Jensen, eu era outra. O sorriso, agora, não iria embora do meu rosto por nada, não importasse o quanto ele me encarasse. Não era mais desconfortável. Eu tinha acabado de cantar uma puta música com meu pai e estava transbordando felicidade por isso.
– Se um dia eu tiver um décimo da conexão que vocês tem com a minha filha, eu vou ser o homem mais feliz do mundo. – Eu ouvi Jensen comentar quando Hugh começou a introdução de Keep the Faith. – Eu sabia que você cantava, mas não fazia ideia de que era tão boa.
– Você está exagerando. – Resmunguei, pegando uma garrafa de água disposta próxima a nós. – É a primeira vez em que você fala da sua filha desde que nos encontramos aqui.
– Eu tento me controlar pra não falar dela.
O comentário me fez sorrir.
– E como estão as coisas?
– Ela está ótima. Aprendeu a engatinhar e explora todos os cantos que estejam ao alcance dela. Está ficando perigoso, inclusive.
– E sua mulher?
Eu me virei para ele, sem nenhuma intenção inicialmente. Foi a segunda vez em que eu prestei atenção naqueles olhos. Não sabia exatamente o que estava acontecendo entre nós naquele instante. Meu ouvido captava os acordes da música como se estivesse de fundo e não ensurdecedora, bem ao nosso lado. Percebi, em algum lugar da minha mente, que havia um reflexo de sorriso em seus lábios, o que me fez encolher por dentro sem ao menos entender o motivo. Jensen tinha os lábios entreabertos enquanto me encarava de volta.
– Nos divorciamos, . – Ele gritou por sobre a música.
Que merda que estava acontecendo? Por que eu estava feliz com aquela notícia? As perguntas interiores começaram a surgir, me deixando confusa comigo mesma. Antes que ele percebesse que havia algo errado, eu me virei para a frente, de volta para o show, para o meu pai.
– Achei que vocês estavam em processo de recuperação.
– Às vezes, desistir é a melhor opção.
– Desistir nunca é a melhor opção.
– Pode ser que sim se isso significar que há outra pessoa, uma muito melhor, por aí.
Bad Medicine acabou e meu pai veio em nossa direção para a breve pausa antes das três músicas finais. Estava banhado em suor e fedendo, e eu agradeci a Deus por ter uma distração. Ele carregava um sorriso no rosto.
– Que performance a sua!
Eu sorri enquanto o via passar, sendo acompanhado por outros elogios vindo de quase todos que estavam no palco. O meu cérebro raciocinou que minha bexiga já estava distendida o suficiente e eu me virei para ir ao banheiro. Jensen, no entanto, segurou meu braço por reflexo. Nossos olhos se encontraram mais uma vez.
– Acho melhor eu ir embora.
– O que houve?! – Perguntei, as sobrancelhas arqueadas. – Você confirmou com meu pai que ficaria pra depois do show.
– Parece que te deixei desconfortável nos últimos minutos.
– O quê?! Não, não foi isso. Você, com certeza, tá vendo errado.
– Tem certeza?
– Por favor, fica. – Pedi. – Eu preciso ao banheiro mas, por favor, esteja aqui quando eu voltar.
O show acabou com glória, nada menos do que o Bon Jovi merecia. Nós fomos para o hotel, para uma festa organizada pela gerência como forma de agradecer a escolha. Jensen e eu não trocamos muitas mais palavras. Olhares, por outro lado, não faltaram. De nenhuma das partes.
– O cara é um bonitão. – Meu pai me surpreendeu, chegando de supetão enquanto eu pedia um drink no bar. – Ele não é casado?
– Divorciado.
– Ui. – Ele bebericou a própria cerveja e me ofereceu um gole enquanto eu esperava. – Sua madrasta gostou disso também.
– Não fala assim da Jo.
O barman voltava com o pedido durante o meu protesto.
– Foi só uma piada e você sabe.
Nós brindamos brevemente e ele abriu um sorriso.
Carpe diem, filha.
– Mas tá de noite.
– Você entendeu. – Ele resmungou e me deu as costas, desaparecendo na multidão.

Capítulo 5


A memória era bem vívida em minha mente. A noite não estava sendo fácil, e não era só para mim. Antes de Henry, eu havia namorado Zayn Malik. Pois é, eu tive minhas falhas. Mais cedo, eu estava descobrindo que ele havia, sem querer, beijado Perrie Edwards. E, por Deus, ele sabia o quanto eu odiava aquela garota, ainda mais por ser obrigada a assistir seu relacionamento de mentira para encobrir o nosso. Até então, isso era tolerável, mas beijá-la? Ele tentou justificar, mas Louis, que era meu melhor amigo desde então, foi bem enfático em defender a minha posição e reafirmar o quanto tinha sido desnecessário.
Peguei o primeiro voo de volta para Londres. Quando pousei e voltei a ligar o celular, as ligações e mensagens eram várias. Todas de meu irmão, Tom ou Harry, e com o mesmo assunto: Dougie tinha desaparecido do hotel em que eles estavam e não estava atendendo nenhum telefonema. Eu peguei um táxi até em casa, deixei as malas e saí com meu carro, direto para a casa dele. Sabia que as coisas não estavam exatamente bem em sua mente e não pensei duas vezes. Quando cheguei, as luzes estavam ligadas e, por um momento, me permiti sentir alívio. Bati na porta, toquei a campainha. Nada. Liguei o celular e, muito embora o toque ridículo fosse bem audível para mim, Dougie não respondia. Dei a volta por fora apenas para verificar que ele não estava no banheiro. Foi então que ouvi o carro ligado dentro da garagem.
Eu chamei seu nome mais algumas vezes, mas meu coração parecia pressentir o que estava por vir. Gritei mais alto. Nada. O carro continuava ligado, não havia movimento dentro da casa. Nas janelas da garagem, havia silver tape. Eu enlouqueci, voltei ao meu carro e joguei ele com tudo contra o portão. Dougie estava caído ao lado do carro. Corri e chequei seu pulso. Nada. Comecei a gritar, pedindo a Deus que me ouvisse e que a ambulância, cujo socorro eu já estava solicitando, chegasse rápido. Deitei seu corpo no chão e comecei a fazer o pouco de manobra de ressuscitação que conhecia. Dougie não respondia e eu ficava cada vez mais desesperada.
Eu me descobri cardíaca naquela noite de 2011 e quase tive um infarto, de acordo com os médicos do hospital onde Dougie ficou internado por alguns dias. Enquanto ajeitava sua gravata naquele começo de tarde, era tudo o que eu conseguia pensar.
– O casamento nem começou e você já tá começando a querer chorar? – Ele brincou.
– Não é nada disso.
– Eu poderia ser seu par, sabe disso, né? Você não precisava de nada...
– Prontinho. – Eu disse, dando um tapa de leve na gravata borboleta finalmente colocada. – E você não foi chamado para ser padrinho do meu irmão, ele sim. Além disso, ele chamaria o Tom pra me acompanhar antes de considerar você mas, como sabemos, ele está no hospital com Giovanna e o Buzz.
– Não é possível seu irmão me odiar tanto assim.
– Quando um cara só fica com a irmã mais nova dele sem firmar compromisso, é bem possível de ser odiado.
– Danny não me odeia.
– Danny é um bobão e eu estou falando do Eric. – Eu disse enquanto colocava os brincos e me observava uma última vez no reflexo do grande espelho do quarto. – São que horas?
– Faltam trinta minutos. Seu príncipe encantado tá atrasado.
Imediatamente, duas batidas na porta ecoaram pelo quarto. Eu abri um sorriso debochado para Dougie e fui até a porta, dando uma checada no olho mágico antes de destrancar as travas.
– Comporte-se. – Murmurei antes de abrir.
Jensen estava com um sorriso de orelha a orelha e o conjunto azul escuro, da mesma cor do meu vestido, caía muito bem nele. Retribuí o sorriso.
– Você nunca esteve mais linda. – Ele disse, quase inaudível.
– Você também não está nada mal.
– Espero não estar atrapalhando.
– Ah, não é nada. Jensen, este é Dougie, – Eu disse, dando espaço para que os dois fizessem contato visual. – companheiro de banda do meu irmão.
– Claro, é um prazer. – Ele disse, esticando a mão para cumprimentá-lo. – Seu trabalho é incrível.
– Eu me esforço. – Dougie resmungou.
– Bem... Vamos?
– Claro. – Ele sorriu novamente e me ofereceu o braço.
– Te encontro lá embaixo, Dougie? – Perguntei, olhando para trás com um sorriso mais debochado ainda e o deixando puto.
Recebemos mensagens dos noivos alguns dias – precisamente, um mês – antes da cerimônia. Jensen estava divorciado, eu estava sem Henry, o que colocava nós dois, previamente escolhidos para apadrinharem o casal, sem par. Alona rapidamente processou tudo e nos colocou juntos. Ele me mandou uma mensagem depois de eu confirmar que não haveria problema, fez uma graça e perguntou se eu estava certa sobre o azul escuro. Dar os braços a ele no corredor do hotel pareceu tão natural que senti como se fossemos amigos a tempos.
A cerimônia foi linda e, muito embora a barriga de 8 meses de Alona não fosse o planejado inicialmente, ela estava deslumbrante em um vestido de manga cumprida rendado. Eu e Danny cantamos All About You enquanto eles trocaram as alianças e eu dei graças a Deus mil vezes por ter feito questão de usar os melhores produtos à prova d’água para a maquiagem. Noivos casados, cerimônia encerrada, partimos para o Holomb Garden.
A decoração montada no gramado principal era de encantar os olhos de qualquer um. Estava tão maravilhada que nem percebi que a mulher que colocara eu e meus irmãos no mundo estava por perto. Papai muito menos percebeu, pois estava alegre e em sua milésima taça de champanhe. O sorriso estampado em seus lábios denunciava o quanto ele precisava pegar um pouco mais leve. Ele já havia feito seu discurso, os pais de Alona também. Danny estava perdido em algum canto da festa com Georgia e isso me colocava na linha de sucessão dos oradores. Então respirei fundo, me coloquei de pé e toquei levemente a minha taça com o garfo algumas vezes.
– Poderiam me dar um minuto da atenção de vocês, por favor? – Eu disse em alto e bom tom.
Naquele instante, o olhar de Danny se conectou ao meu. Filho da puta fujão.
– Como irmã do noivo...
– ... e melhor amiga da noiva! – Alona me interrompeu, o que arrancou algumas risadas dos convidados e de mim mesma.
– Bem, eu só queria fazer a minha parte e deixar claro o quanto eu estou feliz com vocês dois aqui, nessa noite. Eric é a prova viva de que eu não coloquei fé nele em momento algum, e que eu achava você areia demais pro caminhão dele, mas fico feliz que vocês tenham superado as adversidades e chegado até aqui.
Os dois sorriram para mim, Eric passando um braço por cima dos ombros da agora esposa e descansando a mão livre em seu ventre.
– Dois dias atrás, meu irmão de consideração, Tom Fletcher, foi agraciado com o nascimento do seu primeiro filho e eu não poderia estar mais feliz no que diz respeito aos meus protetores criando suas raízes, principalmente no que diz respeito a Anne. Meu pai e meus irmãos são prova do quanto adoro crianças e podem imaginar como estou ansiosa por segurar essa menina que você, Alona, ainda carrega dentro de si. Eu espero que ela venha pra fortificar a união de vocês e que vocês dois, e eu estou falando com você, Eric, – Meu irmão sorriu para mim. – se dediquem ao máximo pra que a família que vocês estão construindo tenha um futuro próspero e duradouro. Eu espero, de verdade, que o amor de vocês seja tão forte quando o amor que eu sinto por você, Eric, por você, Alona, e o que já sinto pela Anne.
Alona levantou, derramando algumas lágrimas exageradas, e me tomou por um abraço.
– Eu amo vocês três. – Disse por fim e me abaixei, tentando me equilibrar no salto. – Principalmente você, pequena.
Dei um beijo na barriga de Alona. Pela mão, senti o movimento e abri um sorriso de orelha a orelha. Eric pareceu ler meus pensamentos apenas pelo olhar.
– Agora, com a benção da filha de vocês, eu espero realmente que essa felicidade acompanhe todos nós pra sempre. E Alona... Bem vinda, oficialmente, à família Bongiovi. É uma grande honra dividir esse sobrenome poderosíssimo com você.
A salva de palmas ecoou pelo lugar. Danny estava rindo de mim. Sabia que, embora meu trabalho fosse extremamente público, eu odiava falar para uma plateia. Então terminei logo o que tinha que fazer, e sabia que não tinha feito muito bem. Tomei um belo gole de uísque, meu fiel companheiro, e saí de perto da mesa para me juntar a Danny, Harry e Dougie, improvisando algumas músicas na ausência de Tom. Eles tiveram sua primeira dança ao som de uma bela versão acústica de The Heart Never Lies. Tocamos, pelo menos, cinco músicas. Eric ousou nos acompanhar em uma performance rara de uma das suas, I’d Follow You, a minha favorita. E então demos lugar aos músicos.
Parecia cena repetida. Meu pai tomou Jo pela mão em um ato extremamente romântico e a levou até a pista de dança. Danny e Georgia, Harry e Izzy, Eric e Alona... Todos já estavam lá. Próximo a mim, na mesa dos padrinhos e madrinhas, Jensen descansava o olhar sobre mim. Eu podia sentir, também, que Dougie me observava a todo instante. Eu amava Dougie de um jeito que eu nem sabia descrever, mas era frustrada por ele nunca ter assumido um relacionamento sério comigo, então não foi surpresa que eu não hesitasse em aceitar quando Jensen me ofereceu a mão.
– Sua voz é linda, alguém já te disse isso? – Ele comentou enquanto dançávamos ao som de um cover de All Of Me, do John Legend.
– Você tá bêbado, Jensen.
– Bêbado ou não, é a verdade.
Deixei uma risada escapar pelo nariz e abaixei a cabeça. Ele, então, segurou em meu queixo com uma das mãos e, suavemente, me fez olhar em seus olhos. Aquele tom de verde estava mexendo com a minha cabeça, embora eu não quisesse assumir. Meu pai estava forçando a barra com sucesso, desejoso desde sempre em ter a filha ao lado de um homem que ele aprovasse, ao contrário do que qualquer pai normal iria querer. Não sentia que estava em minhas plenas faculdades mentais e não foi planejado quando me desvencilhei de seus braços e, sem olhar para trás, caminhei para longe da festa.
A lua estava cheia, iluminando o caminho que não era suficientemente abastecido pela iluminação artificial. A música foi ficando mais baixa, alheia à minha ausência, e eu me encontrei junto a uma ponte por cima do riacho. Na água, um peixe pulou. Não sei quanto tempo fiquei ali, não ouvi as músicas mudarem e também não saberia dizer quando exatamente comecei a ter companhia. Ele parecia com meus irmãos ou meu pai, que sempre aguardavam que eu fosse a primeira a falar em momentos como aquele, mas eu sabia que não era nenhum dos três, muito embora estivesse evitando contato visual a todo custo. De repente, toda a bebida alcoólica que eu havia tomado sumira do meu corpo.
– Nós podemos conversar?
– É claro. – Respondi, quase sem ouvir minha própria voz. – O que você quer falar?
– O que tá acontecendo entre a gente? E, por favor, não me diga que é nada, porque sei que você sentiu também.
Eu olhei para Jensen. Sob o luar, à fraca iluminação, ele ficava mais lindo... E inalcançável. Tudo bem que Henry era tão inalcançável quanto ele quando começamos a namorar. Mas Jensen havia sido casado, tinha uma filha pequena no pacote e era muito mais do que simplesmente estar com o Homem de Aço.
– Eu não sei o que é, Jensen.
– Por que veio pra cá sozinha?
– Queria pensar. Gosto de ficar sozinha.
– Então acho que devo te deixar em paz.
– Jensen, por favor...
– O quê?
Odiava aqueles olhos, odiava o efeito que eles tinham sobre mim, me deixando quase sem fôlego.
– Seja lá o que tá acontecendo, eu não mereço alguém como você.
– Ninguém falou em merecimento aqui.
– Eu falei. Estou tomando a responsabilidade para mim. E eu nem deveria me sentir assim por você, com tudo o que você tem de bagagem...
– Justice, você quer dizer.
– Sim, Justice! E Daneel também, é claro, porque ela ainda é mãe da sua filha, não importa o que tenha acontecido entre vocês, e tudo isso pode parecer...
Jensen deu os dois passos que nos separavam e me beijou, interrompendo meu falatório e me tirando de órbita. Demorei até me conscientizar de que podia e devia começar a retribuir e, até então, ele já estava me prendendo junto ao seu corpo com uma mão no meu pescoço e a outra em minha cintura. Quando dei por mim, estava com uma mão de cada lado do seu rosto, a barba bem feita fazendo cócegas nas palmas das minhas mãos. O ar me faltou, mas eu não sentia a mínima vontade de me separar dele. Queria mais daquilo. Era diferente e eu não acreditava que passara uma vida inteira sem sentir seu gosto, seus lábios nos meus, suas mãos me segurando com firmeza.
Jensen, por fim, me abraçou, encaixando minha cabeça próxima ao seu peito e permitindo que eu começasse a recobrar a respiração. Abri os olhos e meu pai, Jo, Danny, Georgia, Eric, Alona e até Jared e Genevieve – casal que eu ainda não tinha cumprimentado devidamente – nos observavam com sorrisos no rosto, meu pai fazendo uma dancinha ridícula que me fez ruborizar na hora.
– Temos plateia. – Murmurei para Jensen.
– Deixe que vejam. – Ele disse e tomou meus lábios nos seus mais uma vez naquela noite.
Anne nasceu, curiosamente, dezessete dias depois do casamento. Era a bebê mais linda daquele hospital. Eu estava em Londres quando recebi a notícia e o aluguel do jato particular para me levar diretamente para Indianapolis talvez tenha sido o mais caro que paguei na vida. Se me importei com o custo? Jamais! Nunca chorei tanto como naquele dia e Anne era tudo o que eu precisava para sentir minha vida completa. Porém nada era perfeito. Anne, linda como era, não foi suficiente. Eric e Alona se divorciaram três meses depois da festa. Minha fé no amor estava totalmente zerada. Novamente.

Capítulo 6

Eu dedilhei mais uma vez no violão e olhei para o caderno aberto na minha frente. Depois, olhei de relance para Danny, que parecia alheio a mim.
– Tem uma nota que deveria estar aí e não está.
– É, eu sei... – Murmurei. – Eu ainda acho que nós devíamos fazer a transição com o mi menor.
– Todo mundo faz essa transição.
– Porque é boa!
! – Donna me chamou da porta do meu escritório. – Linha 2, Eric Kripke. E não está de bom humor.
Revirei os olhos, sob observação constante. Deixei o violão de lado, em cima da minha mesa nada organizada, e puxei o telefone para mais perto.
– Jones. – Atendi.
– Você ficou maluca?! – Ele gritou do outro lado e eu me encolhi, já esperando a reação. – Sabe o quanto eu trabalhei pra conseguir que aceitassem as coisas do jeito que são?
– E você sabe quanto a Warner tem desvalorizado nos últimos meses?
– Não estamos falando de financeiro aqui!
– É claro que estamos, e baixe esse tom quando for falar comigo, Kripke. – Danny fez uma careta ao ouvir minhas palavras. – Agora eu vou ser clara, e espero que me ouça bem. A Fox está engolindo a sua emissora tão querida aos poucos. The Vampire Diaries está sendo um total fracasso porque sua equipe não conseguiu segurar a onda com a mimada da Dobrev. Estão investindo em séries da DC, ótimo, mas nós dois sabemos o fracasso que eles estão tendo com esse universo cinematográfico. Além de Supernatural, apenas Two and a Half Man e The Big Bang Theory foram grandes sucessos. Com exceção, é claro, de Friends, mas isso foi na época que a Warner não era comandada por pessoas sem cérebro como está sendo agora.
– Isso vai me render mais processos do que você pode contar. Sua cabeça de adolescente não te permite pensar nisso, não é mesmo?
– Cabeça de adolescente uma ova! – Gritei. – Quero ver você pegar um voo e vir dizer isso na minha cara, porque a adolescente aqui tem pouco mais que a metade da sua idade e mais dinheiro do que você. Então você dê seu jeito de acertar as coisas ou eu vou dar o meu de comprar a série.
– Ninguém vai aceitar isso.
– Pergunte ao elenco mês que vem, quando as renovações começarem a serem cotadas.
Desliguei na cara dele. Dois anos depois de fundar a empresa, os negócios estavam crescendo quase que em uma vertical, o que não necessariamente queria dizer que meu mundo era um mar de rosas. Eu fui tola de acreditar que ia me satisfazer com o básico. Logo eu, que tinha a cabeça nas nuvens! Então não foi surpresa para ninguém que eu estivesse comprando os direitos de uma série ou outra que alguma emissora, por ventura, não estivesse dando conta. E eu sentia o cheiro da falência da Warner de longe. Não só pelas séries, mas também por...
– Posso entrar? – A voz grossa ressoou pela minha sala.
Danny quase saltou da cadeira. Nós dois nos colocamos de pé em um segundo.
– Claro, Henry. – Meu irmão o recebeu. – A que devemos a honra?
– Queria confirmar a presença da sua irmã na sexta.
– Já disse que vou, não disse?
– Bem, eu vim como um bom homem que quer chamar uma velha amiga para almoçar.
– Eu não sou velha. – Resmunguei. – E Danny está comemorando bodas de papel hoje, nós já temos compromisso pro almoço.
– Meus parabéns. – Ele disse com um sorriso no rosto. – Amanhã então?
– Almoço com alguns executivos da Universal.
– Danny, me ajuda!
Nós três rimos.
– Não é mentira, Cavill, ela é uma mulher de negócios agora. Você deveria saber disso, não é? – Meu irmão ofereceu a mão para um aperto entre os dois. – Agora, se me dão licença, vou checar se todos estão em seus horários e te aguardo pra sairmos, .
Eu assenti e, agora sozinhos, ficamos em silêncio. Foi constrangedor.
– Quer se sentar?
– Seria ótimo. – Ele sorriu, educado. – Como vai seu pai?
– Vai bem. Em turnê, nos Estados Unidos, divulgando o novo álbum.
– Fiquei sabendo. We Don’t Run ficou incrível.
– Já viu quem escreveu? É claro que ficou incrível!
Ele riu da minha cara.
– Não sabia que você estava compondo de novo.
– É bom pra me livrar do estresse daqui. Falando em estresse...
– Lá vem. – Henry me interrompeu, revirando os olhos.
– Quem quis ficar com os meus serviços foi você, então não reclame. Estou em guerra com a Warner, no momento, então não sei se vai ser uma boa pra você continuar como nosso agenciado com Batman VS Superman e Justice League vindo por aí.
– Sempre soube que você era fã de confusão.
– Estou falando sério, Henry.
Ele esticou sua mão por cima da mesa, procurando a minha, não sei se involuntariamente ou não. Eu, por reflexo, apenas a repuxei para mais perto do meu corpo. Henry notou.
– Desculpa, eu...
– A primeira coisa que eu te disse quando você entrou em contato pra ser um dos nossos foi que você tinha que me garantir que o nosso relacionamento pessoal ficaria fora das paredes dessa empresa.
– Eu sei, me desculpa.
Uma batida na porta me despertou do transe. Donna abriu um sorriso amarelo.
– Diamante Rosa na linha 1.
Quase gargalhei, mas levantei o telefone do gancho e o levei até a orelha.
– Oi, Diamante Rosa.
– Você precisa controlar essa sua secretária. – Jensen disse. – Ocupada? Liguei pro seu celular mas você não atendeu.
– Estava começando a contar a Henry Cavill sobre a terceira guerra mundial que estou prestes a instaurar.
Ele riu e eu me senti aliviada de estar escutando sua risada de novo.
– Eric tá quase arrancando os próprios cabelos, e acredito que isso seja sua obra prima.
– Provavelmente é, mas fazer o quê se eu tenho esse efeito nas pessoas?
– Prepotente... Eu liguei pra dizer que vamos finalizar as coisas mais cedo do que planejamos e, se você quiser, posso pegar o primeiro voo para Londres pela manhã.
– Seria ótimo, mas não vai te atrapalhar?
– Eu estou com saudades de você, sua boba, não entende isso?
Abri um sorriso, alheia à presença de minha visita.
– Você sabe que a recíproca é verdadeira, não sabe? – Escolhi bem as palavras. – Agora me faça um favor e descanse. Espero notícias suas.
– Me liga quando sair do almoço com seu irmão.
– Pode deixar.
Devolvi o telefone para o lugar. Henry me observava com cautela.
– Donna, liga pro Oliver e vê se ele tem a noite livre pra mim amanhã.
Ela fez um sinal positivo que pude ver pelas paredes de vidro. Sorri e trouxe meu espírito de volta ao ambiente.
– Onde estávamos?
– Quem é Diamante Rosa? – Ele devolveu a pergunta.
– Um amigo.
– Amigo?!
– É, Henry, – Revirei os olhos. – um amigo. Por favor, não precisamos tornar isso mais estranho do que já está sendo.
Seus ombros caíram e seu semblante acompanhou a linguagem corporal, me deixando com um tanto de dó dele.
– Vou na sexta, ouviu bem? Não te dei motivos pra desconfiar da minha palavra uma vez sequer!
– Trouxe isso pra você dar uma olhada. – Ele deixou a pasta que carregava em cima da minha mesa. – Recebi essa proposta diretamente e não queria que você ficasse chateada por não ter vindo parar nas mãos da empresa primeiro. E depois que você tem ótimos olhos pra isso então, se você aprovar, eu confio que seja bom pra mim.
– Não sei quando exatamente vou poder olhar, mas prometo que vou fazer o mais rápido possível. Mais alguma coisa?
– Acho que é isso.
– Então nos vemos sexta?
Ele devolveu um pouco de cor às suas bochechas e o sorriso aos seus lábios.
– Até sexta então.
Acompanhei Henry até a porta e, de lá, fiquei observando-o se afastar. Donna, na mesa ao meu lado, suspirava incansavelmente.
– Sabe que repartir não é má ideia?
– Se controla. – Disse. – Falou com o Oliver?
– Sim, e ele disse que chega na sua casa às 6PM.
– Ótimo então. Tenho uma última ordem pra você.
– Fale, meu bem.
– Tire o resto do dia de folga. Você está fedendo a trabalho.
Donna e eu dividimos uma gargalhada e eu deixei o escritório, rumo ao do meu irmão. Juntos, pegamos um táxi para o The Fat Duck, onde Georgia, Izzy, Harry, Giovanna, Tom e Buzz já nos esperavam. Pedidos feitos, eu e Giovanna estávamos brincando, com Buzz em meu colo, quando eu notei as duas – ela e Izzy – negando o champanhe que o garçom vinha servindo. Arqueei uma sobrancelha. Tom e Harry captaram meu olhar e os dois abriram sorrisos, o de Harry mil vezes mais intenso.
– Não! – Eu gritei.
As duas romperam em gargalhadas enquanto eu estava em choque. Meu irmão e Georgia continuavam sem entender enquanto eu olhava para os quatro, esperando qualquer explicação que me tirasse do transe.
– Vocês... Eu... Não acredito!
– Não foi combinado, eu juro! – Giovanna se defendeu. – Eu percebi sobre Izzy agora, pra falar a verdade.
– O que houve? – Georgia perguntou.
– Essas duas safadas estão grávidas! – Exclamei.
Depois que a ficha caiu, eu me permiti levantar de meu assento e ir dar um abraço apertado nas duas. Sabia o quanto Izzy e Harry estavam lutando por aquilo e ver dois dos meus melhores amigos – talvez irmãos, para ser bem sincera – dando aquele passo juntos era muito importante para mim. Buzz, no meu colo ainda, tentava entender o que estava acontecendo, mas estava quase tão aéreo quanto eu.
– Desculpa roubar a cena de vocês dois. – Izzy disse. – E desculpa deixar vocês dois pra trás nessa corrida.
– Não é uma corrida, estamos tirando nosso tempo. – Meu irmão a respondeu. – Falando em tempo, por que mesmo que Dougie não veio?
– Está com a Ellie, que tá se apresentando na rádio.
Eu revirei os olhos.
– Senti uma pitada de ciúme aí. – Harry brincou.
– Minha irmã não tem que ter ciúmes de ninguém, ainda mais da Ellie. Ótima menina, mas vocês não querem comparar ela à grande Jones, não é mesmo?
O celular começou a tocar na minha bolsa, o que fez todos ficarem em silêncio em um primeiro momento e, depois, partirem para cochichos particulares. Olhei para Danny antes de atender.
– Oi, pai.
– Oi, bebê. Como você tá?
– Almoçando com Danny e os meninos, e o senhor?
– Tentando colocar um pouco de juízo na cabeça desse seu irmão.
– O que houve?
– Já disse que não quero falar com ela! – Ouvi a voz de Eric ao fundo.
– Pai, o senhor tá mexendo em ninho de vespa.
– Ele é tão meu filho quanto vocês.
– E é por isso mesmo que o senhor devia deixar ele quieto. – Eu disse. – Eric já é bem grandinho pra lidar com as consequências dos atos dele, e sozinho.
– O problema é que ele tá colocando a Anne no meio.
– Deixe que ele e Alona discutam isso, pai, por favor.
, só me prometa que você vai falar com seu irmão.
– Sabe que eu e Eric não estamos nos falando direito, não sabe?
...
– Ok, pai, eu prometo. – Revirei os olhos. – Anne está bem?
– Bem elétrica. – Eu podia ouvir o sorriso em sua voz. – Ela compensa esse estresse todo.
– Filho de quem Eric é, não é novidade que aconteça algo assim.
– Mas eu criei vocês bem. Você não acha?
– Não estou falando do senhor, pai.
– Ah... Isso não vem ao caso. Bem, eu e a banda estamos com um show marcado pra noite de amanhã e, depois...
– Vão pegar um voo fretado para Nova Iorque. – Eu o interrompi. – Eu sei, pai, tenho tudo na palma da minha mão.
– Achei que gostaria de ouvir do seu velho.
– Eu também te amo, pai. Se cuida!
Danny mantinha o olhar fixo em mim e eu segurava um riso de nervoso. O almoço correu bem. Tirei a tarde para colocar minhas próprias produções em dia, incluindo a música que eu e Danny tentávamos finalizar em meu escritório, pela manhã. Precisava colocar mais algumas coisas em ordem no computador de casa, incluindo o planejamento para um roteiro que estava escrevendo, quando a campainha tocou. Estranhei, a princípio, não haver ligação da portaria, e Danny tinha a chave da minha casa. Quando olhei pelo olho mágico, ele estava tampado.
– Quem é?
– Surpresa.
Não reconheci a voz, a princípio, e contrariei todos os básicos conhecimentos sobre o que não fazer em uma situação como aquela quando comecei a destravar a porta. Alguém se escondia atrás de um grande buquê de flores do campo. Misha saiu de trás das flores e eu, que já não estava entendendo muita coisa, fiquei mais confusa ainda.
– O que diabos você tá fazendo aqui?
– Oi pra você também. Sentiu saudades minhas?
– Pode me explicar o quê...?
– Me ajudando porque eu não conseguiria carregar as malas e o buquê ao mesmo tempo. – Jensen saiu da escada de incêndio com um sorriso de orelha a orelha, fazendo meu coração palpitar. – Surpresa!
Misha tinha o olhar em nosso abraço fixo enquanto eu sentia meu corpo ser espremido pelos braços dele. Foram exatos três meses sem sentir seu toque, seu cheiro, sua presença, e eu estava à beira de enlouquecer. Queria me enterrar naquele abraço quantas vezes fosse possível.
– Como você chegou aqui tão rápido?
– Tava no aeroporto quando te liguei.
– Madame, – Misha nos interrompeu. – essa é a minha deixa.
– Não quer entrar? – Eu o convidei.
– Minha senhora está no térreo com meus dois mini humanos.
– Chame Victoria pra subir também.
– Ela tá de TPM, . Podemos marcar para outro dia?
– Claro que sim, me liga!
Ele deixou o buquê comigo, depositou um beijo na minha bochecha e, então, pude fechar a porta. Jensen ainda estava em pé, como se estranhasse o ambiente. E então, quando ouviu o elevador chegar e deixar o andar, me tomou com volúpia em seus braços, me prensando contra a parede e me tirando o pouco fôlego que tinha àquela altura. No entanto, eu não estava exatamente preparada para ter Jensen ali comigo. Eu o afastei delicadamente com as palmas da minha mão, sem perder o sorriso.
– Como eu ficaria se acontecesse alguma coisa e eu não soubesse que você estava a caminho?
– Seu irmão sabia.
Revirei os olhos.
– Muito obrigada, Danny... – Sussurrei. – Por que não me disse nada? Eu teria me preparado muito melhor pra sua chegada.
– Queria que fosse surpresa, meu amor. Gostou das flores?
– São lindas, vou arrumar um jarro. Chamei Oliver pra cozinhar amanhã. Se soubesse que você viria hoje, teria tentado a agenda dele.
– Não me incomodo de comer uma pizza.
– Eu sei bem que não... – Murmurei e revirei os olhos, rindo de sua reação.
Ele afrouxou a gravata e começou a tirar o terno que vestia, deixando-o no encosto de uma das banquetas da cozinha.
– Então... Você vai mesmo à première de The Man from UNCLE?
– Já disse mil vezes. Se isso te incomoda, eu não vou. E me incomoda, na verdade, essa total tranquilidade que você tem com o assunto.
– Tenho Daneel no meu pé ainda, e ouso dizer que vou ter pra sempre. Você tem a liberdade que quiser pra ter amizade, inclusive, com seu ex gostosão.
– Você acha o Henry gostosão?
– Quem não acha?
Eu ri da careta que ele fez. Dois minutos depois e estávamos discutindo os sabores para as pizzas. Tê-lo em casa nunca tinha sido tão reconfortante. Cada vez era melhor que a outra, mesmo sempre parecendo impossível de se aperfeiçoar. Estava plena e confiante de que caía de amores por aquele homem majestoso sentado na minha sala, chutando os sapatos sociais por cima da mesa de centro.


Capítulo 7

– Você está, como sempre, linda.
– Vem comigo. – Pedi mais uma vez. – Ainda dá tempo. Não vai ser tão formal, como você pode observar pelas minhas próprias roupas, e eu queria que você estivesse lá.
– Tá falando isso porque tá com medo de eu ter ciúmes.
– To falando isso porque o senhor me deve uma noite ao meu lado.
– E que desculpa teremos que inventar dessa vez? – Ele disse.
– Jensen, por favor, sabe que eu quero esconder isso do público por enquanto justamente porque, além de termos muitas complicações na bagagem, isso envolve também a privacidade da Justice.
Jensen revirou os olhos.
– Vou assistir de casa, deve passar no jornal. Além do mais, você deve acompanhar Henry, não deve?
– Não mesmo. O plano era acompanhar a mim mesma, mas estou tentando convencer meu lindo namorado de me dar a honra de caminhar pelo tapete vermelho comigo.
– Estreando com o namorado no tapete vermelho do ex?
Eu olhei por cima dos ombros, para ele, e pisquei.
– Quem liga?
Tive que insistir mais cinco vezes, pelo menos. Até mesmo fui ao meu closet e arranquei de lá algumas peças que achei que ele poderia usar. Suas desculpas só cresciam – e melhoravam, devo assumir –, mas eu estava determinada. Que especulassem. Eu estava solteira e ele, divorciado. Na teoria, é claro. Nós sabíamos bem do poder que os tabloides tinham. Se tivéssemos que assumir tudo perante o público, assumiríamos. Se não, tudo certo. Afinal de contas, eu estava agenciando tanto a estrela do filme quanto Jensen, não estava?
– Senhorita Jones! – Um dos jornalistas à beira do tapete vermelho me reconheceu. – Boa noite, como vai? Meu nome é Carl Perry, do Times. Pode me responder algumas perguntinhas, por gentileza?
– Claro, – Respondi. – vá em frente.
– Primeiramente, quais as suas expectativas a respeito de The Man from UNCLE? A senhorita já viu o filme?
– Acho que é um filme que tem tudo pra ser incrível, com um grande roteiro e um ótimo elenco. Ainda não vi, a minha primeira vez será hoje, mas confio muito no trabalho da equipe que trabalhou nesse filme.
– As fofocas sobre a Jones4ALL estar em guerra com a Warner são verdadeiras?
– Eles que estão em guerra com a gente, informe-se bem.
– A Warner diz o mesmo da senhorita quando questionada.
– Aí vai ser a minha palavra contra a deles.
– Isso quer dizer que a Jones4ALL vai caminhar junto aos grandes em breve?
– Nós começamos com produções pequenas, aprendemos muito com elas. Não é de se surpreender que nós decidamos entrar no mercado com os grandes tubarões da indústria.
– E vocês tem o que é preciso?
– Apenas assista e aguarde.
– Devemos esperar algo a respeito das séries, já que a senhorita, aparentemente, anda tendo um foco bom em Supernatural, inclusive trazendo consigo um dos protagonistas, pelo que posso ver daqui?
– Abrir os horizontes é sempre bom, e Supernatural está definitivamente na nossa lista de início. Esperamos anunciar o remanejo da série para as nossas mãos até o fim do trimestre.
– Pode nos dar mais detalhes sobre isso?
– Já falei demais, agora repito o “assista e aguarde”.
– E como é estar prestigiando um evento que tem, como figura central, seu ex?
O homem apontou com a cabeça para por cima dos meus ombros. Henry posava com sorrisos largos para os fotógrafos ali presentes. Vestia um smoking qualquer que eu provavelmente já havia visto em seu corpo.
– Cavill é meu agenciado e, sobretudo, um grande amigo. Ficou bem óbvio pra mídia que não houve briga entre a gente, e nós dois somos adultos que sabem se relacionar após um relacionamento romântico. Não há nada de anormal nisso.
O alvoroço dos jornalistas começou a aumentar e, como se houvesse um sexto sentido, eu senti a aproximação de Henry. Ele passou os braços por meus ombros, deixou um beijo no topo da minha cabeça e sorriu.
– Senhor Cavill, o que devemos esperar do filme?
– Vai ser sensacional, as cenas estão incríveis e a pitada de humor está na medida certa. Tenho certeza de que o público vai adorar.
– Teremos uma sequência?
Eu comecei a me incomodar com o singelo abraço e, tirando seu braço de mim, sussurrei um “nos vemos depois” no seu ouvido e segui para dentro do teatro, onde Jensen já me aguardava. O filme foi um sucesso e eu não poderia apontar defeitos significativos, embora um certo toque de informalidade houvesse me deixado incomodada. No escuro, pelo menos, eu e Jensen podíamos ser nós mesmos por alguns minutos e curtir um momento casual de namorados. Até a after party, é claro, e eu não fazia ideia, até então, de que ela aconteceria. Foi só com os discursos finais – os quais eu fiz questão de deixar sem a minha colaboração – que eu notei o direcionamento das palavras.
– Jens, acho melhor nós irmos embora.
– Houve alguma coisa?
– Não quero passar pelo papo de um “fiquem, por favor, vocês não vão se arrepender” que vai ser repetido, ao menos, trinta vezes em meio minuto. Cumpri minha promessa, acho que já está bom para seguirmos pra casa.
– Se é o que você quer, não vejo problema.
– Vamos então?
– Claro. – Ele sorriu e me ofereceu a mão para que levantasse da poltrona.
Assim que dei as costas, um murmurinho se formou atrás de nós e os passos pesados correndo na nossa direção se fizeram audíveis.
– Ei, ! Você já vai?
Respirei fundo, coloquei um sorriso falso no rosto e me virei.
– Tenho compromissos amanhã cedo, preciso me preparar para uma reunião.
Vi que os dois homens se encararam por alguns segundos. Com Jensen, não havia segredos. Já com Henry...
– Ah, sinto muito. Henry, este é Jensen Ackles, um dos protagonistas de Supernatural. E Jensen, este é Henry Cavill, um dos nossos agenciados mais promissores e futuro Geralt of Rivia.
– The Witcher?! – Jensen questionou, apertando a mão dele com um sorriso cordial no rosto. – Adoro o jogo, é incrível. Visualmente, até que parece que você vai dar um bom Geralt.
– Então você leu. – Ele concluiu e sorriu para mim. – O que achou?
– Ótimo, na verdade, parece muito boa a proposta. Não falei nada porque não achei que fosse o momento propício.
– Você sabe que não tem tempo ruim pra mim.
– Mas pra mim tem, e você sabe. – Respondi. – Falando nisso, liga pra Donna e marca um horário. O roteiro é bom, a proposta é boa, mas podemos melhorar pro seu lado e eu gostaria de discutir isso com você no escritório, se possível.
– Claro, vou fazer isso. Mas você não pode ficar mesmo?
– Já disse que tenho compromisso.
Ele hesitou, parecia que ia dizer algo mas, finalmente, se conformou. Levantou o olhar para mim com um novo sorriso.
– Então devo educadamente agradecer que tenha cumprido sua promessa e vindo ver o filme.
– Você sabe que eu sempre faço minha palavra se cumprir.
– E como sei! E, Jensen, foi um prazer conhecê-lo. Quem sabe nos esbarramos por uma produção no futuro?
– Seria ótimo. – Meu acompanhante respondeu com um sorriso e os dois trocaram, novamente, um aperto de mãos.
Estávamos prontos para ir, e eu acreditando que não haveria nada de grave em nosso caminho. Mas estava fácil demais, principalmente para mim.
– Espera. – Ouvi a voz de Henry, mais baixa do que antes. – Você é o diamante rosa, não é?
Quando eu me virei, senti a facada no coração. Brigar com Henry, talvez, seria mais fácil a longo prazo. Eu ainda nutria um carinho imenso pela pessoa que ele era, ainda mais por seu caráter imaculável. Então ver nos olhos dele a dor que eu mesma causei não era nem um pouco confortável, muito embora não houvesse culpado naquela história.
– Henry, eu...
– Tá tudo bem. – Ele disse, forçando um sorriso. – Não vou contar pra ninguém.
– Eu agradeço. Muito. Não sabe o quanto.
– Não há de quê. E Jensen...
Observei o momento de tensão entre os dois enquanto Henry se aproximava dele. Por um segundo, fiquei preocupada com o que poderia acontecer a seguir, mas estava duvidando do que eu mesmo sabia sobre eles.
– Cuida bem dela. Você não faz ideia do quanto essa mulher é incrível.
– Estou tendo uma boa amostra. E pode deixar que vou cuidar.
– Você é um cara de sorte. – Henry sorriu e deu dois tapinhas no ombro dele. – Tem gente que daria tudo pra estar no seu lugar. Até ver a química entre vocês dois, eu também daria. Mas vocês dois merecem dar certo.
– Obrigada, Henry. – Foi minha vez de responder, colocando um sorriso doce no rosto.
– Devíamos marcar de fazer alguma coisa. – Jensen sugeriu e sua simpatia, que ocasionalmente me incomodava, aflorou. – Você poderia me passar algumas dicas sobre exercícios, eu acho as matérias sobre sua rotina fantásticas.
Revirei os olhos para os dois.
– Não vão marcar porra nenhuma que eu já não aguento mais isso. – Ralhei. – Agora vamos, antes que esse papo insuportável se prolongue.
Os dois riram de mim e, dessa vez, deixamos o teatro para valer. Corey nos esperava estrategicamente.
– Ele é um cara legal.
– Pelo amor, Jensen, ele é meu ex e você nem se incomoda com isso.
– O sortudo da vez sou eu, não estou nem um pouco preocupado porque confio em você.
Tentei brigar, mas ele e seu sorriso me encantavam, então eu me contentei com deitar a cabeça em seu ombro, finalmente podendo deixar de me incomodar se estragaria o meu penteado ou não. Poucos minutos depois, o celular vibrou em minha bolsa.
– Oi, pai.
, precisa que você venha pra casa agora.
– O que houve?
Jensen ficou uma pilha de nervos ao meu lado. Foi ele quem teve paciência de correr atrás de pedir um jato para os Estados Unidos o mais rápido possível. Pousamos em Nova Jersey antes da metade do segundo dia, era o aeroporto mais perto com disponibilidade para receber um pouso de uma hora para a outra. Do aeroporto para o Presbyterian Hospital, pegamos um helicóptero. Papai estava em uma sala de espera privativa com Jo. Ele me tomou em um abraço apertado e demorado. Eu sentia meu coração prestes a pular do peito.
– O que houve?
– Caiu da escada e fraturou a coluna. O cirurgião falou que a situação é delicada, principalmente por conta da idade e, por conta disso, decidiram não fazer nenhuma cirurgia.
– Qual o maior risco?
– Se não operar, ela vai perder o movimento das pernas em alguns anos. Operando, podemos perdê-la agora.
– Merda...
– Danny já pegou o avião. Desculpa não ter esperado você chegar, eu achei melhor decidir logo, pelo bem dela.
– O senhor fez o certo, pai. E quando eu vou poder ver minha vó?
– Ela tá fazendo uma bateria de exames complementares. Daqui a pouco, vai pro quarto e vai poder receber visitas.
Eric entrou pela mesma porta por onde eu havia passado. Não estávamos nos falando bem desde seu divórcio, principalmente depois que ele arrumara uma nova suposta namorada que eu sabia bem que não prestava, ainda mais com Anne a todo vapor em seus primeiros anos. Nós trocamos um olhar breve e, a julgar pelo abraço entre ele e meu pai que não aconteceu, o mau estar não era só comigo.
– Ela tá bem?
– Vamos saber daqui a pouco.
– Eu vou ficar com ela. – Disse. – Já pedi pra Donna cancelar tudo o que tinha pela semana.
– Se tudo der certo, não vai ser necessário isso tudo. O médico disse que pode ser que ela receba alta ainda amanhã.
– Então levo ela pra Londres comigo. O jato está no aeroporto de Nova Jersey, não tenho trabalho nenhum em levá-la e posso levar o trabalho pra casa.
– Eu vou ficar de fora da conversa então?
– Não cabe a você decidir. Sua definição de família é uma deturpada. No mais, se não tem tempo pra filha, não vai ter tempo pra avó.
!
– Ah, pai, me poupe de conversa barata agora. É da minha avó que estamos falando. Precisamos parar de pisar em ovos e agir pra resolver.
Meu irmão estava bufando e eu torcia, internamente, para que ele falasse alguma gracinha que me desse o direito de revidar e o colocar de volta em seu lugar.
– Parentes da paciente Mary Bongiovi? – Uma enfermeira entrou na sala sem nós notarmos. – Ela já está no quarto.


Capítulo 8

!
– To indo, vó. – Gritei de volta e empurrei a cadeira para trás, correndo imediatamente para o quarto de hóspedes. – O que hove?
– Preciso ir no banheiro.
Arregacei as mangas do cardigã que usava e fui até a beira da poltrona, segurando em seus braços para que ela pudesse se firmar e levantar. Demos alguns poucos passos até o banheiro e eu me certifiquei de que ela se sentasse na louça sem movimentos bruscos. Podia ver a dor em seus olhos.
– Você não precisa fazer isso, posso ficar em casa.
– A senhora não aguenta nem levantar do sofá sozinha, não sei quem vai ficar com a senhora.
– Eu pago uma enfermeira.
– Me poupe, vó. Sou sua neta, não uma estranha.
– Mas você tem um trabalho cansativo e eu estou atrapalhando sua rotina. Além disso, seu namorado está aqui e estou atrapalhando isso também.
– Não está. – Insisti. – Se Jensen achar ruim que eu esteja cuidando da senhora, a porta da rua é serventia da casa pra ele. E eu digo isso porque sei bem o homem que tenho ao meu lado.
– Ele é lindo.
– É sim. – Respondi, com um sorriso bobo no rosto. – Quer ir pra sala?
– Prefiro voltar pra poltrona. Pode trazer minha Bíblia, por favor?
Obedeci imediatamente e voltei ao trabalho. Jensen estava vindo da cozinha quando eu entrei no escritório, carregando uma bandeja com uma suculenta porção de penne ao molho pesto.
– Desculpa, Jens, acho que to sem fome.
– Você não comeu o dia todo. – Ele disse, mantendo a voz em um tom mais baixo do que o meu. – Precisa se alimentar, .
– Eu to bem.
– Ah, claro, tá bem visível. Vai ficar postergando até quando? Até ter outro daqueles ataques?
– Já disse que estou bem.
, eu realmente preciso te salvar de si mesma. – Jensen disse, deixou a bandeja na mesa e puxou a tomada do meu computador.
– Ei!
– Sem “ei”. E não me faça ligar para o seu pai. Tudo na empresa tá na mais perfeita condição, você tá inventando coisa pra fazer nesse escritório. Relaxa!
– Jensen, eu não posso...
– Vai poder agora. Vamos. Vai tomar um banho, coloca uma roupa fresca e confortável e vamos dar uma volta.
– Eu não posso sair, minha vó tá aqui e...
A campainha tocou e eu arqueei uma das sobrancelhas, não estava esperando nenhuma visita. Jensen, no entanto, sorriu astuto e deu uma checada no relógio.
– Treze minutos adiantado mas tá valendo.
– Quem é?
– Danny. E não me venha dizer que não precisava.
Foi o primeiro dia em duas semanas em que pus os pés para fora do prédio. Minha avó nem demandava tantos cuidados assim, mas eu tinha medo de dar as costas e, no momento seguinte, acontecer o pior, teimosa que a mulher que me criara era. Nossa infância não foi exatamente fácil, por mais que tivéssemos todos os recursos ao nosso alcance. Eric era o filho sortudo simplesmente por ser o único que nossa progenitora em comum não havia rejeitado por completo. Enquanto isso, eu e Danny, os considerados ‘bastardos’, ficamos com nossa avó paterna. Era a minha mãe, em outras palavras. Danny foi para lá com dois anos de idade, eu fui no dia seguinte ao meu nascimento.
Vovó era terrível. Tinha o pulso mais firme que meu pai, mas isso talvez fosse porque ele queria sempre curtir ao máximo os filhos quando tinha suas folgas e vovó estava lá o tempo todo, então havia tempo de sobra para diversão mas também para educação. A história de “a avó sempre estraga os netos” era uma completa inverdade para nós. As regras a seguir eram irredutíveis, sempre. E por mais que isso a faça parecer o terror, nós a amávamos com todas as nossas forças. Sim, amávamos.

Muito tempo depois, ano de 2019

Bem... Eu ainda amo. No presente. Enquanto conto essa história, rio comigo mesma, me lembrando das diversas cenas em que dividimos boas risadas, mesmo na reta final. Ela morreu três anos depois de ir para Londres, morar definitivamente comigo para que eu pudesse devolver tudo o que ela havia feito por mim no passado. Não foi fácil de mil maneiras diferentes, mas era a hora dela e eu estava orgulhosa. De mim mesma, de meu pai e de meu irmão, por termos ficado ao lado dela sem pestanejar até o fim. Dela mesma, por ter lutado bravamente por sua vida até o último segundo. E de Jensen, por ter ficado ao meu lado, me fornecendo todo o apoio que eu precisava, abdicando de me ter como sua namorada full time para que eu pudesse me dedicar à minha família.
Foram anos muitos produtivos, por mais que possa parecer surreal. Minha avó era a maior influência e inspiração para que eu corresse atrás do sucesso. A Jones4ALL cresceu e fez surgir a Jones Entertainment, um ramo extremamente frutífero da empresa original, uma produtora de excelência. Nós ainda tínhamos o lindo projeto inicial funcionando a pleno vapor, mas tínhamos tudo para crescer e nos tornarmos muito maiores do que éramos antes. E é claro, o dinheiro.
A Jones Entertainment era completa em tudo. Além do agenciamento de artistas, estávamos com algumas séries rodando – Supernatural entre elas, finalmente –, uns filmes estreando com ótimas críticas em respostas, uma seção editora na qual eu trabalhava mais intensamente e o estúdio. Eu nasci em uma família de músicos e adorava fazer aquilo. Pouco antes da minha avó morrer, eu usei o tempo que passei no hospital, ao seu lado, escrevendo. Tinha a ajuda de alguns amigos talentosos para tal. Finalizei a última música na noite antes do seu falecimento, era uma música para ela. Nunca achei que seria tão fácil e tão difícil ao mesmo tempo perder alguém incrível como Mary Bongiovi.
Ela era fã do meu pai, mas também era fã de Bryan Adams. Coincidência ou não, estavam preparando uma especial surpresa em sua homenagem e eu, como diretora da empresa que o agenciava, estava intimamente ligada àquela cerimônia. Planejava algo sensacional, extraordinário ao que se estava esperando. Eu iria cantar. Havia perdido meu medo de palco definitivamente, para a alegria imensa tanto do meu pai quanto do meu irmão, e agora estava com uma puta responsabilidade nas costas. Jensen era parte essencial nesse processo. E onde ele entrava nisso tudo? Bem... É aí que a história fica interessante.
– Os fones foram checados?
– Sim, senhora.
– Os tons das músicas foram confirmados com os músicos?
– Sim, senhora. – Danny respondeu de novo, debochando. – Mais alguma coisa, senhora?
– Vai tomar no seu cu. – Resmunguei, ajeitando o vestido longo e pesado antes de subir ao palco. – Me deseje sorte.
– Você acabou de me mandar tomar no cu, não vou te desejar sorte.
– Eu só não te mato porque meu sobrinho precisa de um pai para criá-lo.
Danny riu, entregou o microfone em minha mão e sorriu bobo, jogando o deboche para o lado e me deixando sem jeito.
– O que houve?
– Você tá linda.
Quando fixei meu olhar no dele, notei que estava prestes a chorar. Então me aproximei, deixei toda a produção do backstage de lado e abaixei o volume da minha voz.
– O que houve, Danny?
Ele acariciou a lateral do meu rosto e me puxou para um abraço apertado. Odiava que meu irmão ficasse emocional, principalmente porque ele conseguia me fazer derramar lágrimas sem o mínimo esforço. E ele fazia questão de levar as coisas pra esse lado justamente quando eu menos podia chorar.
– Jensen é um cara de sorte. – Meu irmão disse, contendo o choro.
– Aconteceu alguma coisa?
– Não. – Ele me soltou, limpou as bochechas e sorriu novamente para mim. – Só estou feliz de você estar onde você está.
Eu sorri de volta para ele.
– Trinta segundos. – Duncan, minha assistente, anunciou para nós dois.
– Vai lá e arrasa.
Respirei fundo. Vamos lá, , não é como se fosse a sua primeira vez. Só que agora vão ter mil pessoas, a maioria famosos, alguns mais talentosos que você, e nem tudo... Não deu tempo de finalizar meu pensamento neurótico, porque a música já havia começado e Danny me empurrou na direção do palco. Tomei a frente e cantei a versão de Here I Am composta para fazer parte da trilha sonora de Spirit – Stallion of the Cimarron. Bryan me considerava como uma sobrinha, e eu tinha a incrível sorte de ter alguém do naipe dele para me dar conselhos profissionais maravilhosos. Mesmo assim, mesmo que ele devesse ser o centro das atenções da noite, eu tinha outros planos.
– Eu sei que a equipe, em sua maior parte, – Comecei a falar entre uma música e outra. – vai estar preocupada agora porque estou desandando do planejamento e não era para falar nada nesse exato momento. Então eu vou pedir, por gentileza, que o nosso querido ‘homem das luzes’, Jeff, centralize a iluminação em mim.
O que pedi foi feito. Olhei para uma das primeiras mesas à frente do palco, onde minha família estava. Danny, que já havia voltado para a mesa, fez sinal positivo com as duas mãos e abriu um sorriso gigante.
– Todos aqui sabem da minha história com a música, que não é nada pequena. Chegar até aqui foi um desafio, e meu excelentíssimo pai e glorioso irmão são partes fundamentais na minha história. – Fiz uma pausa para tomar um gole da água disponibilizada para mim no palco e a plateia aplaudiu. – Também tem três outros homens sensacionais que estiveram ao meu lado, me ensinando muito do que eu não sabia e me mostrando o que é encarar a vida adulta.
Ergui a garrafa de água na direção da mesa onde Tom, Giovanna, Harry, Izzy e Dougie estavam, fazendo menção a um brinde. Os que estavam perto da mesa e puderam entender a mensagem também aplaudiram, mais fraco dessa vez.
– Bryan Adams é um dos maiores músicos com quem eu tive o prazer de trabalhar, dentre muitos outros músicos incríveis, que me prestaram todo o apoio possível e me levaram à excelência. Mas tem uma pessoa que sempre fica de fora desses meus discursos de agradecimento, só que hoje eu estou colocando um ponto final nisso.
A mesa dos meus convidados estava inquieta, pareciam pressentir. Eu observei a crescente ansiedade tomar conta de Jared, Genevieve, Misha, Victoria e, por fim, Jensen, todos os cinco parecendo prever o que estava por vir.
– O nome da próxima música é Nothing I’ve Ever Know. – O público, localizado na parte de cima do teatro, reagiu sussintamente ao anúncio. – Eu não sei do que se trata exatamente, não sei qual foi a sua intenção precisa quando escreveu essa maravilha, Bryan, – Sorri, eu direção a ele. – mas eu gostaria de recitar uma pequena parte dela, que diz you’re the one I’m looking for, you’re the one I need, you’re the one that gives me a reason to believe (você é quem eu estou procurando, você é quem eu preciso, você é quem me dá razão para acreditar). Há outro trecho interessante que fala nothing i’ve ever know has made me feel this way, nothing i’ve ever seen has made me wanna stay (nada do que eu já conheci me fez sentir desse jeito, nada do que eu já vi me fez querer ficar), e a estrofe tem como penúltima a frase i’ve never felt something so strong (eu nunca senti nada tão forte). Essas palavras, Bryan, podem ter tido um significado totalmente diferente pra você quando surgiram na sua mente, como eu disse agora a pouco, mas elas me trazem a necessidade de expressar um sentimento que tenho guardado comigo por muito tempo, e peço sua licença para quebrar o protocolo e trazer a atenção do espetáculo um pouquinho para longe de você e mais perto de mim. Pode ser?
Ele fez sinal positivo da cadeira posta à mesa bem centralizada ao palco. Eu sorri em resposta e fiz um sinal breve de agradecimento, me virando imediatamente para a mesa do meu interesse. Respirei fundo. Agora ou nunca, .
– Jensen, pode subir aqui um momentinho, por favor?
Havia sido uma decisão mútua esconder o relacionamento do público. Começou com algo sobre a privacidade de Justice, sua filha, quem eu respeitaria acima de mim mesma, nem que fosse a última coisa que eu fizesse em vida. Depois, nós simplesmente percebemos que estava dando certo demais, e que estávamos nos curtindo tanto que esconder da mídia o relacionamento nos dava brecha para uma privacidade que jamais imaginamos ser possível. No final das contas, era natural já que tomássemos caminhos que escondessem nossos passos. Quase cinco anos depois do primeiro beijo e na véspera do seu aniversário, parecia a decisão certa a se tomar.
Eu cantei Nothing I’ve Ever Know aquela noite exclusivamente para Jensen, alheia ao resto do espetáculo, ao público, até mesmo à banda. O falatório era crescente e eu sorria por dentro. Mas aquele momento era só nosso, e eu podia olhar nos olhos dele finalmente e perceber que havia acertado em cheio na escolha. Danny sabia daquilo há dias, meu pai também, e ambos haviam me apoiado com tudo. A questão é que Danny sabia de outra coisa também, eu descobri em cima da hora que deveria ter reparado mais no seu estado emocional tão instável antes do show. Foi então que eu terminei a música e, antes mesmo que pudesse concluir minhas hipóteses, Jensen se ajoelhou e esticou uma caixa pequena de veludo na minha direção.
– Desculpa, eu...
– O que tá havendo?
Por um segundo, voltei o olhar para a mesa da minha família. Os filhos da mãe estavam gargalhando. Enquanto eu observava isso, Jensen tomou a minha mão para si.
– Danny me contou.
– Estou no meio de um show.
– Foda-se. – Ele disse, em alto e bom tom. – Jones Bongiovi, você me daria a honra de se casar comigo?
O chão não estava mais sob os meus pés. Literalmente. Em choque, eu fiz um sinal afirmativo com a cabeça. Ele me deu o sorriso mais lindo que eu já havia visto na vida e, com cuidado, abriu a caixa, retirou o anel de lá e o encaixou em meu dedo anelar. Em seguida, me tomou nos braços, girando comigo em torno do próprio eixo. Jensen me tomou para um beijo profundo, mesmo que estivéssemos na frente de muita gente, na frente de muitas câmeras. Pela primeira vez na vida, nada importava. Nada até que bati o olho em Dougie.
Tentei manter o sorriso no rosto, mas ele estava desolado e aquilo me atingiu em cheio. Um segurou o olhar do outro por segundos que pareceram eternidades. Acho que foi Danny quem percebeu e, prontamente, como o irmão sensacional que era, se colocou em ação para disfarçar o acontecimento. Subiu ao palco de qualquer jeito, sendo seguido pelo meu pai e, posteriormente, pelo homenageado da cerimônia. Em meio aos abraços, perdi Dougie de vista e, quando pude voltar a olhar para a mesa, o assento estava vazio.
Minha vó morreu aos noventa e quatro anos. Era muito idosa, havia vivido mais do que eu jamais iria viver. Nada foi rápido, estávamos preparados quando aconteceu e entendíamos que era o melhor para ela e que nós seríamos puramente egoístas de esperar que ela ficasse mais tempo conosco. Por isso e por outros motivos, eu soube que o olhar que encontrei em Dougie indicava que o pesadelo estava para começar e que nem minha avó havia me preparado para aquilo. Se ela estivesse ali, pelo menos poderia me aconselhar a como fazer correr aquela situação.


Capítulo 9

– Olha a nossa estagiária favorita aí! – Nick gritou quando passou pela minha porta.
– Menos. – Respondi, me levantando e indo até ele para um abraço. – Onde estão os outros?
– No hotel, eu acho. Não sou marido deles. – Ele debochou e sentou na cadeira do outro lado da minha mesa, se esticando e colocando os pés pra cima do tampo.
– Pode tirando.
– Qual é?!
– Só porque você é um quinto dos Backstreet Boys não significa que você vai fazer o que quiser por aqui.
– O Bryan pode.
– Não, não pode. – Insisti. – Você tá atacado hoje, puta que pariu.
– Eu to feliz. – Ele disse, com um sorriso cheio de dentes.
– Vou chamar um segurança se você continuar assim.
Cheguei minha cadeira para trás e puxei a segunda gaveta do móvel atrás de mim. Não demorou para que eu achasse a pasta que queria lá dentro. Peguei o conteúdo certo, conferi e me virei de volta para o convidado. Passei a papelada por cima da mesa e Nick pegou a resma.
– Tá tudo aqui?
– De acordo com o meu jurídico, sim.
– E valores?
– Melhores do que os valores que vocês me passaram na nossa primeira reunião.
– Você é boa mesmo, hein.
– Eu tento. – Brinquei, dando de ombros. – Não houve discrepância com as coisas que vocês solicitaram.
– Conseguiu aquilo que eu te pedi?
– Tá tudo em ordem.
– Nick! – Jensen gritou da porta, entrando de uma vez.
Minha visita se levantou e os dois trocaram um abraço apertado, perguntando aleatoriamente sobre algo do outro. Eu esperei que terminassem o que estavam fazendo e me coloquei de pé.
– Alguma coisa faltando, Carter? – Perguntei. – Preciso ir almoçar.
– Vou levar a papelada pro restante e volto ainda hoje pra te entregar isso assinado.
– É bom mesmo.
– Exagerada. – Nick revirou os olhos. – Prazer te ver, Jensen.
– Igualmente. – Ele respondeu.
Nós dois ficamos sozinhos. Eu continuei de pé e, enquanto Jensen estava distraído, saí de trás da mesa e sentei na quina dela, bem próxima a ele.
– O que ele te pediu? – Jensen perguntou sem se virar para mim e eu ri.
– Nick sendo Nick. – Sussurrei para mim mesma. – Nusret Gökçe.
– Quem?!
– O turco que tempera a carne fazendo mão de cisne.
– Ah tá... Mão de cisne?!
Jensen estava rindo quando se virou, o que acabou me contagiando.
– Justice chega amanhã com o Jared e a Gen.
– Tá marcado na minha agenda, fica tranquilo.
– E eu acho que talvez precise voltar mais cedo pra Vancouver.
– Sério?
Ele assentiu e eu o puxei para perto, deitando a cabeça no seu ombro e enlaçando seu corpo com meus braços.
– Sem putaria, eu to vendo! – Donna gritou do lado de fora e nós dois rimos.
Saímos dali para o meu apartamento, aproveitando a lasanha que eu havia montado no dia anterior. Enquanto ela estava no forno, eu tirava a roupa do trabalho e colocava um bom pijama, bem mais confortável. Arrumei a mesa enquanto Jensen checava se o quarto de Justice estava bem preparado, mesmo que não fosse para ser usado de imediato. Era a primeira vez que a receberíamos em Londres com nós dois como um casal, sem a presença de Jared e Gen ou Misha e Victoria full time. Eu estava tensa, é claro, mas tinha tanto trabalho pela frente que mal tinha tempo de me preparar.
– Quanto tempo leva ainda?
– Uns dez minutos. – Respondi.
– Hm... Dez minutos? Dá pra fazer muita coisa em dez minutos.
– Nem tanto! – Brinquei. – Você vai ficar na empresa à tarde?
– Vou sim. Tenho que estudar bem o roteiro do primeiro capítulo e, se eu ficar em casa, vou acabar me distraindo com a cama e dormindo.
– Eu não acredito que vai acabar...
– Ah, , são quinze anos. Chegamos até aqui, já é suficiente.
– Eu assistiria trinta temporadas de Supernatural.
Ninguém assistiria trinta temporadas de Supernatural.
– Eu sim! – Protestei.
– Você só tem interesse em dar uns pegas no protagonista.
– Eu to pegando o protagonista. – Respondi sacana enquanto ele se aproximava de mim. – Nem vem, a lasanha vai queimar. Igual na última vez.
Ele revirou os olhos e riu. Seu telefone começou a vibrar em cima da bancada e ele o buscou rapidamente. O olhar que ele deu na tela não pareceu muito satisfatório, e então revirou os olhos de novo.
– É a Danneel.
– E daí? É a mãe da sua filha, vai atender.
Jensen deu um sorriso amarelo e começou a se afastar para atender. Finalizei a mesa, chequei o forno e tirei a lasanha de lá. Nós comemos com tranquilidade, muito embora houvesse a necessidade de voltar ao escritório o quanto antes para adiantar o trabalho tanto quanto possível. Os próximos dias não seriam calmos, ainda mais com a presença de uma criança de seis anos tomando boa parte do nosso tempo. Seria um dia cheio, mas era a labuta que eu precisava enfrentar.
– Tia ! – Justice gritou e saiu correndo do portão quando eles apontaram na saída do desembarque, na manhã do dia seguinte.
Abaixei à sua altura e abri os braços, recebendo-a de forma calorosa. As outras crianças, Thomas e Austin, a seguiram e vieram me cumprimentar também, com um tanto menos de animação que a menina. Logo depois do abraço, ela se soltou e se virou para Jensen.
– Ah, agora você vai falar com seu pai?
Ela soltou um risinho gostoso e levantou os braços para ele. Mesmo com seis anos, ainda pedia colo e o cuidado que Jensen tinha com ela era de deixar meus olhos brilhando. Jared e Genevieve terminaram de se aproximar, Odette desmaiada nos braços do pai. Tomamos cuidado com os cumprimentos para não acordar a mais nova. Alguns minutos depois, estávamos deixando o casal e seus filhos na área da locadora e seguimos, eu, Jensen e minha futura enteada – Deus, eu precisava me acostumar com aquela palavra – para o estacionamento. Quando destravei o carro, Justive abriu a boca em um perfeito ‘O’ e estacou no meio do caminho.
– Esse carro é nosso?
– É sim. – Respondi, ainda segurando a mão que ela insistia em me oferecer. – Você gostou?
– Papai, nós temos um carro amarelo!
Acabei rindo da reação dela.
– Tia , qual o nome dele?
– Urus. – Respondi.
– Foi caro?
– Trezentos mil euros. – Jensen respondeu.
– Eu acho que isso é caro.
– Sua tia é maluca.
– E seu pai é mais maluco ainda, JJ. – Resmunguei. – Além disso, eu que comprei o carro, não ele.
– A tia é mais rica que você, papai?
Eu olhei para Jensen, ri da cara dele, e Justice me acompanhou em seguida. Ajeitei ela no assento especial alugado enquanto ele ajeitava a bagagem da filha no porta-malas. Em menos de cinco minutos, estávamos saindo do estacionamento do Heathrow.
Aquela semana em particular havia sido ideia de Jensen. Seu casal de melhores amigos, que agora eram meus também, ficariam por Londres para um tempo em família e, posteriormente, se juntariam a nós. Mas Jensen pensava ser importante que eu e Justice ficássemos juntas só com ele, sem influência externa, principalmente de outras crianças e adultos em quem ela confiava. Do seu ponto de vista, era mais essencial do que nunca, visto que a data do casamento estava para chegar em poucos meses. Então alugamos um pequeno rancho no interior, mesmo que me isolar em um lugar daqueles parecesse insano se considerasse o nível de trabalho que eu tinha pela frente.
Eu gostava de crianças. Amava! Buzz, Anne, Lola, Buddy, Kit, Cooper – meu amor para uma vida inteira – e Max, nessa ordem, eram o meu melhor motivo para sorrir. Buzz era um grude comigo, talvez por eu ter estado bem perto nos primeiros momentos. Buddy vinha em seguida, sapeca como era, porque sempre queria ser igual o irmão mais velho. Lola e Kit eram mais contidos, puxando bem a personalidade de Izzy, mas ainda conseguiam colocar um sorriso no meu rosto no pior dia. E então tinha Cooper.
Como eu amava aquele garotinho genioso, cópia do meu irmão. Todos diziam que o nariz era da minha cunhada, mas eu não conseguia encarar aqueles olhos lindos azuis e não ver os mesmos olhos de Danny mais novo. Nós éramos uma equipe. Eu ensinava Cooper a fazer as coisas erradas. Sua primeira careta foi depois de muito esforço – da minha parte, é claro, porque ele se acabou de rir quando descobriu que estava fazendo besteira. Às vezes, eu passava na casa de Danny e o roubava para mim por uma tarde. Nós íamos ao shopping, visitávamos brinquedos que ele adorava, tomávamos um sorvete e, depois, o choro para me despedir quando o deixava de volta em casa. Cooper, por mim, jamais sairia do meu lado.
Ter todos em volta de mim sempre despertava um lado que eu não queria assumir que tinha: a vontade de ser mãe. Eu havia passado tanto tempo cercada dos filhos dos outros, ajudando amigas na criação de suas respectivas crianças, que me perguntava constantemente como ia ser quando fosse o meu bebê. Claro que eu observava o lado delicado da história, quando Jensen já tinha quarenta anos, uma filha linda e saudável babando no banco de trás do meu carro, e não necessariamente ia ter o mesmo desejo que eu. Talvez, para ele, Justice fosse suficiente. Mas, mesmo assim, mesmo tentando me convencer de que Jensen teria razão em se privar disso, eu ainda queria um filho para chamar de meu.
Nós paramos para almoçar na beira da estrada, Jensen olhando bem para a cara da filha sapeca que queria comer um hambúrguer, mesmo sabendo que não era saudável. Justice, felizmente, me via como uma amiga e aliada, e me usava contra o pai para conseguir o que queria. É claro que eu sabia daquilo, e também sabia bem que não deveria deixar, mas eu e Jensen tínhamos uma comunicação impecável apenas com olhares e eu tinha consciência de até onde poderia ir com o seu consentimento. Eu jamais ultrapassaria o poder dele como pai. Nunca.
O lugar era lindo, cheio de animais diversos. Justice mal acordou quando eu comecei a tirá-la do assento especial e saiu correndo quando a coloquei no chão, direto na direção do lago em frente à casa principal, lotado de patinhos e suas mães. Nós observávamos a cena bobos, pai e futura madrasta. Eu odiava aquele termo, mas teria que me acostumar, de um jeito ou de outro.
– Bem, – Jensen disse, entrando no quarto que seria nosso. – conversei com os funcionários e eles chegam amanhã às sete.
– Tão cedo?
Jensen revirou os olhos.
– Estamos na zona rural do país. Você quer mesmo dormir?
Fiz que não brevemente e continuei arrumando a improvisada mesa de trabalho que criei na suíte principal.
– Além disse, JJ acorda cedo.
– Ela puxou o pai.
– Ainda bem, né? Alguma coisa de boa eu tinha que passar pra ela!
– Papai, papai! – A voz dela ecoou pela casa.
Nós dois nos colocamos em alerta e seguimos com passos firmes até a sala, de onde a voz veio. Justice estava concentrada na janela, quase beijando o vidro.
– O que houve, JJ?
– Olha a raposa!
Eu olhei na direção para onde o pequeno dedo apontava. Eram duas, talvez irmãos. Acabei abrindo um sorriso com a cena.
– Quer ver da varanda, JJ? – Eu a chamei.
Ela fez que sim com a cabeça. Nós duas saímos da casa na ponta dos pés. Justice estava para lá de maravilhada com a cena, segurando-se para não rir de pura felicidade, e aquilo me contagiou de uma forma que eu não podia prever. Estava completamente distraída e não percebi a agitação em Jensen do lado de dentro. Assim que notei seu andar compulsório, arqueei uma sobrancelha.
– O que houve?
– Não temos repelente.
– Merda...
– Você se importa de eu ir naquela venda da estrada ver se encontro algum? Justice é alérgica a picada de insetos.
– Tia , nós podemos ficar na varanda pra ver se aparecem mais raposas?
A criança me conquistou e eu acabei aceitando o pedido. Era a primeira vez que eu e Justice ficávamos, de fato, a sós. Na varanda da casa, havia uma extensa namoradeira. Eu busquei duas cobertas, forrei o móvel com uma e, após nos deitarmos, cobri Justice com a segunda. Ela estava vidrada no bosque próximo e eu, idiota que era, checando o celular com medo das coisas não estarem em ordem na minha ausência. Ficamos em silêncio por um longo período enquanto ela deixava o peso do corpo cair sobre as minhas pernas lentamente, depositando por completo a cabeça no meu colo.
– Tia ? – Os olhos castanho claros me encaravam com firmeza, irrompendo na quietude do lugar.
– Fale, querida.
– Você ama o papai?
Jensen estava chegando com a compra. Eu não me continha em acariciar, com todo cuidado do mundo, o topo da sua cabeça. Ele viu a cena de longe e abriu um largo sorriso. Mesmo à distância e com o dia perdendo sua fonte de luz, ainda pude vê-lo piscar para mim.
– É claro que amo, JJ.
– Eu te amo, tia .
Senti meu coração palpitar. Jensen estava chegando perto o suficiente para ouvir a última declaração da filha antes dela se aconchegar mais a mim e fechar os olhos, dormindo rapidamente logo em seguida. Minha respiração era pesada. Eu sentia, cada vez mais, a responsabilidade de estar entrando na vida de uma garotinha que, se não fosse por um beijo roubado em um casamento fadado ao desastre, nunca saberia da minha existência.
Jensen acendeu a lareira enquanto nós estávamos ainda do lado de fora. Fiquei lá por um momento, ainda fazendo carinho em Justice. Alguns minutos depois, fiz questão de eu mesma carregá-la para seu quarto. Por mais que minha experiência com crianças estivesse centrada ultimamente em Cooper, o mais novo Bongiovi, que tinha menos da metade da idade – e peso – dela, eu ainda sentia que a responsabilidade, por mais que fosse pesada, trazia consigo um gostinho delicioso de progresso.
Fiquei minutos esperando Justice pegar no sono profundo, observando em silêncio do batente da porta. Fui tirada do transe quando Jensen se aproximou, me pegando pelos ombros e puxando para um abraço. Amava também aquela garotinha levada e nem tinha tomado consciência daquilo. Eu nunca tinha gostado tanto de escutar ‘tia ’ repetidas vezes em um dia como gostei de ouvir sair da voz dela naquela tarde. E eu odiava assumir que queria mais.


Capítulo 10

O céu estava começando a clarear, podia ver da cama. Jensen estava roncando ao meu lado, nada novo sob o sol, mas decidi levantar mesmo assim. Começar o dia cedo não era exatamente o meu hobbie favorito, mas me poupava alguns atrasos necessários. Então coloquei um conjunto de moletom e, com o celular, deixei o quarto. Jared estava na cozinha com Odette no colo, quase dormindo.
– Bom dia. – Ele sussurrou.
– Bom dia. – Respondi. – Precisa de alguma ajuda?
– É só pirraça.
Odette levantou o rosto, olhou para mim e, logo, escondeu novamente o rosto no peito do pai. Jared deu de ombros.
– Esquentei leite para um café, tem um pouco na chaleira se você quiser.
– Vou pegar um pouco, obrigada.
Jared seguiu para o corredor dos quartos onde ele, Gen e as crianças estavam hospedados. O tanto de leite que ele havia deixado para trás era pouco. Eu coloquei mais um pouco para ferver e aguardei enquanto separava alguns ingredientes para deixar já em ordem o almoço do dia. Assim que o leite ameaçou ferver, desliguei o fogo e o coloquei em uma caneca. Adicionei um pouco de chocolate e um pouco de café. Deixei a cozinha e sentei em uma das poltronas da sala, apreciando os momentos de paz. Em questão de poucas horas, aquela casa estaria um inferno.
– Tia , tia ! – A voz veio gritando lá do lado de fora e três crianças entraram na velocidade da luz pela porta da cozinha. – Olha o que eu achei.
– Que flor bonita, Shep!
– É pra você. – O mais novo dos Padalecki deixou em cima da bancada.
– Obrigada, meu amor, a tia vai guardar assim que ela acabar aqui.
Os três saíram correndo de volta e Jared e Jensen entraram, o primeiro com a caçula no colo – de novo.
, você tá de olho na batata?
– To sim. – Respondi Genevieve. – Se cozinhar demais também, não tem problema.
– O que as madames estão fazendo? – Jared perguntou, colocando Odette sentada em cima da bancada, ao lado da flor de Shep.
Jensen veio por trás de mim e me abraçou, atrapalhando o momento em que eu cortava a cebola.
– A nossa chef italiana aqui vai preparar um gnocchi pra gente. – Gen brincou.
– Parece delicioso. – Jensen disse.
– Você fala como se nunca tivesse comido o meu gnocchi.
Ele riu e se afastou.
– A melhor parte de estar com uma Bongiovi é essa. Eles cozinham de tudo, sem exceções.
– Tive uma boa criação. – Defendi.
– Tá no sangue, meu amor, e eu já sei disso, porque já comi a comida do seu pai e do seu irmão várias vezes e... Meu. Deus.
Revirei os olhos. Genevieve, me observando, riu da minha reação. Eu peguei a cebola e coloquei na panela maior em cima do fogão. Joguei um pouco de azeite e liguei o fogo.
– O que vamos ter de carne hoje? – Jared perguntou.
– Costela de cordeiro. – Sua esposa respondeu. – A disse que tá esperando a oportunidade de fazer essa costela pra gente há meses.
– E to mesmo.
– Espero que seja em grande quantidade então. – Ele brincou. – Acho que vou dar banho nela, Gen, pra já ficar limpa pro almoço.
A esposa assentiu e ele partiu para o quarto dos dois. Nós duas continuávamos concentradas em manter o andamento do almoço perfeito quando o telefone fixo da casa tocou. Jensen se encaminhou para atendê-lo e fez cara feia quando a pessoa do outro lado respondeu. Não conseguimos ouvir mais da cozinha porque ele se afastou para perto da varanda.
– Quer apostar quanto que é a Danneel?
– Nada. – Respondi. – Eu sei que é ela.
– Ela tá com raiva de mim.
Parei por um milésimo de segundo de cortar o alho para olhar para Genevieve.
– Por quê?
– Porque eu e Jared damos apoio a vocês dois.
Eu jogava o alho na cebola que já estava refogando e fingia que estava focada naquilo, mas minha mente começou a raciocinar por fora.
– Eles dois têm sérios problemas. Jensen não encara o fato de que ele tem que conviver com ela minimamente porque a JJ continua sendo filha dele, e ela tem ciúmes de um homem que não tá mais com ela há cinco anos e meio.
– São duas crianças.
Ri com o comentário dela. Nós duas tratamos de encerrar o assunto logo porque Jensen havia terminado no telefone e, após colocá-lo de volta no gancho, voltou até nós.
– As meninas precisam de alguma ajuda?
– Na verdade, sim. – Gen disse, limpando as mãos nas laterais do avental. – Pode ajudar a aqui um instante? Vou lá dentro ver se o Jared precisa de ajuda com a Odette.
– Sem problemas. – Ele deu de ombros.
Genevieve saiu correndo para o corredor.
– E obrigada pelo “meninas”. Não sou menina faz alguns anos.
Nós dois rimos e eu passei a tábua de legumes para Jensen, junto com a faca e o molho de couve.
– Você quer que corte pra refogar?
– Exatamente.
– Pode deixar então. – Ele respondeu e lascou um beijo na minha bochecha.
Jensen largou a faca no balcão e voltou a ficar atrás de mim, encaixando o queixo no meu pescoço dessa vez e puxando o meu corpo para ir de encontro ao dele.
– Jens...
– Sem protesto, por favor.
Eu me virei de frente para ele, que tinha um sorriso enorme de ponta a ponta do rosto.
– A casa tá cheia de crianças.
– Não to vendo criança nenhuma agora.
– E o Jared e a Gen estão logo ali.
– Ocupados com a caçula.
Jensen avançou na minha direção e me beijou. Subiu uma mão para a minha nuca e a outra permaneceu segurando possessivamente a minha cintura. Enquanto ele me prensava entre seu corpo e o balcão da pia, variava a pressão e a carícia com a mão superior. De repente – e bem de repente mesmo –, nós não estávamos sozinhos. As crianças conseguiram ficar quietas por alguns segundos, ou nós simplesmente nos deixamos levar demais pelo momento e acabamos não escutando. E então nós estávamos nos pegando na cozinha com uma criança de sete, uma criança de seis e uma criança de cinco anos no ambiente. Eu sorri sacana para Jensen, com um olhar silencioso que possuía nas entrelinhas um “eu te avisei”.
– Papai, já podemos ir pra piscina? – Justice perguntou.
– Ainda não, só depois do almoço.
– Tia , pede pro papai deixar a gente ir pra piscina.
– Se o papai falou que não, – Falei com a pequena. – é não. Agora quem quer ajudar a fazer a comida?
Alguns gritos e eles estavam do meu lado em rápidos segundos. Entreguei tarefas fáceis para cada um deles. Thomas ficou levando os pratos, talheres e copos para a mesa de jantar. Justice se encarregou por conta própria de misturar a massa do bolo que seria sobremesa. Austin estava concentrado em lavar os legumes que seriam usados para complementar o menu principal.
– Você leva jeito com isso. – Jensen observou enquanto cortava a couve que eu havia pedido.
– Tenho muitas crianças já no meu histórico e você sabe.
– Isso não quer dizer nada. Dougie tem acesso às mesmas crianças que você e é um desastre.
– Dougie é homem. – Justifiquei.
– Ok então... Carrie, a irmã do Tom. Não tem jeito nenhum com crianças.
Larguei a colher na panela e me virei para ele.
– O que você está querendo me dizer com isso, senhor Ackles?
– Nada demais, futura senhora Ackles.
Revirei os olhos, ri e continuei o que estava fazendo. Em duas horas, tínhamos uma mesa posta com gnocchi ao molho branco, costela de cordeiro assada, couve refogada e salada de legumes com ovos, batata doce, beterraba, cenoura, brócolis e couve flor. Sentada, aguardando Genevieve e Jared colocarem os pratos dos filhos, eu me lembrava de como Tom e Gi, Harry e Izzy, meu irmão e Georgia, entre tantos outros, conseguiam colocar os filhos para comerem bem como o nosso casal de convidados conseguia. Eu apreciava e concordava com aquilo, mas só conseguia pensar que eu falharia como mãe naquele quesito.
Eu não tinha memórias dessa coisa de ‘se uma criança não pode, nenhuma das outras pode’. Era a mais nova da turma, com uma distância de cinco anos para meu irmão. Talvez fosse por isso que eu não vivi essa política, porque eu estava na época das proibições quando Danny estava na época das permissões. E não tinha como dar certo, não é? Por isso, talvez, eu não entendesse como aquelas crianças dispararam na direção da piscina assim que Genevieve se deu por satisfeita ao observar os pratos limpos dos três. Os pais foram na frente para ficar de olho nos mais novos e eu aproveitei a privacidade para ir até meu quarto. Fiz as contas mentais. Se eram duas da tarde ali, seria algo por volta de nove horas da manhã na Pensilvânia.
– Oi, filha. – Meu pai atendeu do outro lado da ligação. – Como estão as coisas aí?
– Estão fluindo. E Jo e as crianças, como estão?
– Bem. Jacob e Romeo estão em uma excursão do colégio hoje. Vão até Nova Iorque para ver a Estátua da Liberdade.
– Jo tinha comentado algo sobre isso comigo na última vez em que nos falamos.
– Eles estavam animados, mas vão voltar mortos. Seis horas de estrada, no mínimo, em um dia. Não se fazem mais garotos resistentes como antes.
– São seus enteados, não reclame.
– Não estou reclamando. – Ele escapou. – Ligou por algum motivo especial?
Encolhi os ombros, olhei pela janela. Não podia ver a piscina dali, pois nossa suíte dava vista para a longa planície que se estendia nas propriedades vizinhas.
– Como você consegue, pai?
– O quê?
– Lidar com o Jacob e o Romeo. Não são seus filhos, você não tem autoridade sobre eles e...
– Problemas no paraíso?
– Como?! Não, não é isso! Tudo está bem por aqui.
– Então o que tá te preocupando?
Bufei e sentei no parapeito da janela.
– Tenho medo de estar deixando a JJ se apegar a mim.
– Você será a nova mulher do pai dela, é normal que isso aconteça.
– E se não der certo?
– Não der certo o quê, ? Você e o Jensen? Por favor, me poupe dessa.
– Pai, eu to falando sério.
– E eu também! – Ele quase gritou. – Você não se vê quando tá com ele, ou quando ele tá com você. Vocês dois são o tipo de casal sobre o qual escrevi as músicas românticas que pagaram tudo o que você precisava quando era criança.
– Não tinha uma criança de seis anos implícita nas músicas.
– Isso é o de menos.
– Claro que não é, pai, é o de mais.
– Você tá fazendo tempestade em copo d’água. Já falou com o Jensen sobe isso?
Como se soubesse o que meu pai ia falar, ele apareceu na porta do quarto. Seu olhar era um que eu conhecia bem, e vinha seguido de uma conversa séria.
– Ele acabou de aparecer aqui, na verdade.
– Manda um abraço pra ele.
– Meu pai tá mandando um abraço. – Falei.
– Manda outro. – Jensen respondeu.
– Escutou, pai?
– Escutei sim. Agradeça a ele, por favor. E coloca nessa sua cabecinha dura que você deveria estar tendo essa conversa com ele, não comigo, muito embora eu seja seu pai e você saiba que eu vou sempre estar aqui, pra tudo.
– Eu sei, pai.
– Deus, você é igualzinha à sua avó... – Ele murmurou e eu não evitei abrir um sorriso.
– Deve estar no sangue, né, Bongiovi?
Meu pai riu do outro lado da ligação.
– Bem, eu vou te deixar resolver as suas coisas com seu noivo, ok? Se precisar de uma opinião, pode me ligar, mas você já sabe a minha. Eu tenho que aprontar as coisas por aqui, vou até o restaurante hoje pra ver como estão as coisas por lá.
– Sem problemas, pai. Me ligue se precisar de alguma coisa.
– Você também. Eu te amo.
– Também te amo.
Ele desligou e Jensen aproveitou a deixa para se aproximar de mim. Conhecendo meu ponto fraco, colocou as mãos na minha cintura e pendeu a cabeça para o lado a fim de observar minhas feições faciais melhor.
– Algum problema?
– Nada demais, só conversa de pai e filha.
– Certeza.
Fiz que sim com a cabeça e sorri. Jensen não estava nem um pouco convencido, mas ia deixar para lá.


Capítulo 11

– O que você acha de deixar pra lá essa reunião e...
– Como assim “deixar pra lá”? O Ashba me mataria!
– Eu posso te matar também, mas de outra forma.
– Jensen, você tá parecendo uma criança.
Ele finalmente se afastou de mim, mas manteve as mãos nas laterais da minha cintura.
– Só uma rapidinha.
– Jensen!
– Ok, eu desisto. – Ele ergueu as mãos. – Preto, branco, mostarda ou vinho?
– Pra quê?
– Camisa polo.
– Hm... Branco.
– Pode deixar, minha senhora.
Jensen me deu as costas e começou a vasculhar suas coisas no closet em meu apartamento. Eu dei uma última checada no espelho, prendi a gargantilha no pescoço e levantei o cabelo em um coque com fios pendendo dele.
– JJ chegou bem?
– Chegou sim, falei com Danneel enquanto você tava no banho.
– Que bom então. – Eu disse e me virei para Jensen, que passava um perfume no pescoço. – Eu achei bom esses últimos dias.
– Achou nada, tava doida pra voltar pro trabalho.
– Nisso, você tem razão. – Brinquei. – Mas eu achei mesmo. Obrigada.
Ele se aproximou de mim novamente, deu uma boa olhada em meu rosto e me beijou.
– Que bom que você gostou. Era o meu objetivo desde o princípio.
– Mentira! Seu objetivo era, por um milagre, a JJ sumir por uns instantes e você fazer sexo selvagem comigo naquela cama maravilhosa.
Jensen riu de mim.
– Pode até ser que sim, mas...
O meu telefone começou a tocar, escandaloso, no bolso da minha calça social. Ao ver o visor, fiz questão de virar a tela para ele.
– Tá vendo? Vou me atrasar e a culpa é toda sua!
Nós dois finalmente terminamos de nos arrumar. Jensen foi com meu carro até o prédio da empresa, me deixou por lá e seguiu para buscar meu irmão e Harry, com quem iria aproveitar a manhã em um campo de golfe. Assim que eu cheguei, Daren Jay Ashba bateu os olhos em mim e tamborilou os dedos em cima do tampo da minha mesa.
– Por favor, você que chegou cedo, eu estou no meu horário.
– Não falei nada. – Ele me respondeu e se levantou para me dar um abraço. – E aí? Como você tá? Já que não vai mais até Los Angeles me ver, preciso vir até aqui, né?
– Sem drama.
! – Donna me gritou da porta, acenando brevemente para Ashba com uma das mãos. – Nicholas Walters quer marcar uma reunião com você pra tratar daquele roteiro pro Chris Evans.
– Pode marcar de acordo com a minha disponibilidade, Donna. Mais alguma coisa?
– Erin Chandler deixou recado, pedindo que você retornasse a ligação dela com urgência. Joel Houghton insiste que o pagamento não caiu, e não se preocupe, eu já chequei tudo e repassei a informação pro Harvey, quem disse que vai cuidar disso. Jayden Pope também ligou, disse que vai mandar as fotos da sua última sessão de fotos pra aprovação da matéria entre hoje e amanhã. E... Ah, Kyle McCarthy! Executivo da Lamborghini. Quer marcar uma reunião com você sobre um projeto publicitário e eu disse que te consultaria antes de dar uma resposta.
– Pode marcar a reunião com ele também.
– Perfeito. Ajudo em mais alguma coisa?
– Se você conseguir contato com a Anna Pugh, seria maravilhoso. Ela tá...
– Te devendo a agenda da O2 Arena, já sei. Considere feito!
– Obrigada, Donna! – Gritei enquanto ela se virava e caminhava para sua mesa.
– Uau. – Daren deixou escapar. – Você realmente tem tudo sob o seu comando aqui.
– Não teria nada disso se eu não me esforçasse e trabalhasse igual a uma condenada. – Dei de ombros. – E Nat, como está?
– Bem. Ficou em casa porque tá com uns compromissos profissionais, mas mandou um abraço.
– Nikki e James...?
– Estão ótimos. Nikki, inclusive, deve te ligar por esses dias, e não vou falar nada pra não estragar a surpresa.
– Ok então! – Disse. – Vamos lá. O que você tem pra mim?
Nós passamos a manhã discutindo possibilidades de logotipos com Ellis Robinson, um de meus designers profissionais. Quando acabamos com Robinson, partimos para a segunda etapa, que era escutar o que Ashba tinha de novo, musicalmente falando. Ele estava em uma nova fase pós-Sixx:AM e queria uma segunda opinião sobre o seu material. Ashba tinha sido guitarrista por anos do Guns N Roses por minha causa. Eu havia visto um show dele com o Sixx:AM e, quando Robin Finck foi demitido pelo Axl, acabei sugerindo DJ Ashba, o guitarrista mais excêntrico que eu já havia conhecido na vida. Axl acatou, em partes, para agradar a afilhada dele.
Nós nos tornamos grandes amigos com o tempo porque ele achava que, de alguma forma, me devia um favor. Mas acabou fluindo tão naturalmente que nós dois nos suportamos muito a nível musical. Quando ele teve sua queda nas drogas, eu caí dentro de dar suporte a ele também. Fazer o quê, eu tinha um coração fraco. Agora tínhamos uma união quase fraternal que reinava, sobretudo, quando o momento era negativo.
– Acho que isso tem pouco de você, DJ.
– Nat também disse isso.
– Ela é sua mulher. Por que você dispensaria a opinião dela pra conversar comigo a respeito?
– Bem, você entende de música e...
– E ela entende de você! Enfim... Você sabe que eu jamais entraria entre você e sua produção, certo?
– Certo! – Ele confirmou.
– Então, se isso tá te fazendo feliz... Eu não vou negar, não gostei, mas você tem que ser feliz, DJ.
– Eu só queria produzir de alguma forma.
– Entendo bem como é o sentimento, mas é justamente por isso que eu sei que a gente precisa parar de forçar a barra, entende? Produzir quando se sente bem pra isso, não só quando quer fazer isso.
– Falou a escritora mais sensacional que eu conheço!
– Você não faz ideia de quantos roteiros eu já joguei fora. O que eu mais queria é poder escrever por mais tempo, Daren, mas veja com seus próprios olhos. Eu estou aqui, tenho três reuniões à tarde, amanhã tenho uma entrevista e uma sessão de fotos... Não tenho inspiração pra escrever quase nunca. Quanto eu tento escrever nesses momentos, sempre fica uma porcaria. Então eu simplesmente me aceitei, com as minhas limitações, e escrevo quando dá.
– Então eu tenho que me aceitar?
– Tem!
, Jensen na linha 1. – Donna chamou da porta.
Olhei para o relógio digital em cima da minha mesa. Meu Deus, onde foi que eu passei tanto tempo assim?
– Oi, amor.
– Manda um abraço pra ele. – DJ fez mímica com os lábios, se aproximou de mim e foi embora após dar um beijo no topo da minha cabeça.
Estou aqui embaixo te esperando pra gente ir almoçar.
– Merda... Desculpa, acabei me perdendo no horário aqui. Você quer subir?
Vai demorar isso tudo?
– Eu não sei, preciso organizar uma papelada referente a... – Que saco! – Quer saber?! Deixa isso quieto. Me dá cinco minutos. Só vou no banheiro e já desço pra te encontrar.
Ótimo então.
– Donna, – Eu a chamei quando saí do meu escritório. – cancela todas as reuniões de hoje.
– Todas?!
– Todas! – Repeti. – Inventa uma desculpa boa, sei que você é foda nisso.
– E remarco?
– Pra essa semana ainda, por favor. Qualquer horário que você conseguir achar na minha agenda. Você que manda.
– Pode deixar. – Ela respondeu, os ombros caídos em sinal de preocupação.
Entrei no carro praticamente devorando Jensen. Ele demorou para cair em si mas, quando foi possível, colocou as mãos gentilmente em meus ombros e, logo, fui capaz de ouvir outra pessoa limpar a garganta. Tentei me recompor rapidamente, mas nem de longe isso impediu que Danny e Harry gargalhassem no banco de trás.
– Como apagar essa cena da minha mente agora?
– Você podia ter me avisado. – Disse a Jensen, minhas bochechas queimando.
– Three Falcons Pub ou Dial Arch? – Harry perguntou.
– Achei que estávamos com reserva no Berkshire Lounge, Jensen.
– E estávamos. – Ele me respondeu. – Mas aí seu irmão e Harry estão sem as esposas e sem os filhos, teriam que comer fora de qualquer jeito, uma coisa levou à outra e...
– Aqui estamos! – Danny gritou do banco de trás. – Você já pareceu mais feliz de me ver, irmãzinha.
– É porque você faltou o trabalho pra jogar golf com o meu noivo hoje.
– Desculpa. E eu voto pelo Dial Arch.
– É claro que você vota pelo Dial Arch... – Resmunguei, observando a paisagem fluir pela janela.
O restaurante estava ligeiramente movimentado, mas o maître nos arrumou uma mesa junto às janelas maiores da casa. Eu e Jensen sentamos lado a lado no sofá estofado que ia pelo comprimento todo da parede e Danny e Harry ficaram de frente para nós. Acabamos pedindo, cada um, a carne do dia acompanhada de batatas rústicas.
– Devo perguntar como foi o golfe? – Iniciei a conversa quando o garçom retirou nossos pedidos.
– Foi muito bom. – Harry me respondeu. – Jensen errou uma tacada inacreditável.
– Não foi bem assim...
– Ah, foi sim! – Danny rebateu. – Era só jogar em linha reta, e você conseguiu ficar mais distante do que estava antes.
– Eu te deixei ganhar de propósito, Jones, porque a podia ficar chateada se eu não deixasse.
– Eu!? Pode apostar que eu não estou nem ligando pra isso.
– Vamos lá, meu amor, você deveria estar do meu lado. – Jensen fingiu murmurar para mim.
Nós três trocamos uma breve gargalhada enquanto eu checava meu celular e recebia o “Feito.” via mensagem de texto de Donna.
– Como foi a reunião com o Ashba, ?
– O Ashba tá na cidade? – Danny se alterou. – E você nem me contou?!
– Achei que você soubesse. Você trabalha na mesma empresa que eu, e as pessoas comentam.
– Meu Deus, eu não acredito que deixei de ir falar com ele pra...
Danny não terminou a frase. Começou a buscar o telefone no bolso e digitava freneticamente algo parecido com um capítulo de livro em seu aparelho. Harry aproveitou para checar o seu também e, aparentemente, responder algumas mensagens.
– Izzy tá te chamando pra ir lá em casa.
– Diz a ela que vou assim que puder.
– Lola chama também, mas eu finjo que ignoro porque ela eu posso enganar e não quero você por lá. Você é muito chata. – Harry piscou para mim. – Mas sério... Como vão os preparativos pro casamento?
Jensen e eu nos entreolhamos.
– Na verdade... – Jensen começou.
– Ai, já sei onde isso termina.
– Nós estamos mais preocupados em curtimos um ao outro do que fazer essa festa. Afinal de contas, nós vamos nos casar, não os convidados. Ou estou errada?
– Está certíssima! – Harry confirmou.
– Me diz você se curtiu seu casamento o tanto que poderia. Izzy é a rainha da organização, eu a venero secretamente por isso, mas consigo imaginar de longe o quanto ela te fez sofrer pra ter cada detalhezinho planejado.
– Está certíssima em dobro. – Ele resmungou, fazendo eu e Jensen soltarmos uma breve risada.
– Tá vendo? – Eu disse. – É isso que estamos querendo evitar.
– O que ela quer dizer, Harry, é que nós estamos realmente felizes agora e estamos tentando prolongar isso o máximo possível.
– É, isso também. – Completei com uma risada. – Quando chegar a hora, a gente senta e resolve isso com bom humor.
– E uma garrafa de vinho. – Jensen falou.
– E uma garrafa de vinho. – Repeti.
– Vou jantar com o Ashba hoje. Vocês vem? – Danny, de repente, estava de volta à conversa.
– Vamos sim.
– Na verdade, – Eu falei por entre os lábios, para ver se Jensen pegava um pouco da minha ideia. – essa noite não podemos. Não tem como deixar pra amanhã?
– Posso ver com ele. – Danny deu de ombros.
– Faz isso então, por favor.
– Enquanto o prato não chega, eu vou lavar as minhas mãos. – Harry disse.
– Boa! – Danny exclamou e se levantou também. – Ao contrário dos senhores, que carregam álcool em gel pra cima e pra baixo, eu sou um homem com H maiúsculo e lavo as mãos com sabão e água.
Revirei os olhos e assisti os dois se afastando. Jensen chegou mais perto de mim logo depois.
– O que você quis dizer?
– Quis dizer pra você não fazer nenhum plano pra hoje à noite.
– Por quê?
Bastou um olhar e Jensen entendeu tudo. Nós comemos conversando sobre diversos assuntos e, de quebra, eu pedi um petit gateu de sobremesa. Os outros três não quiseram me acompanhar, e eu não vi mal algum nisso. Muito embora tanto Danny quanto Harry tivessem deixado claro que podiam pegar um táxi para casa sem problemas, eu fiz questão de que eu e Jensen os levássemos até suas residências. De lá, partimos para o meu endereço em disparada.
Nós entramos no meu apartamento aos beijos. Mal deu tempo de desbloquear a porta de entrada e cair na sala. Jensen foi me levando às cegas até o sofá, sem tempo de achar o caminho do quarto. Suas mãos eram firmes no meu corpo, eu o queria desesperadamente para mim. Nós dois não fazíamos a mínima questão de esconder o quanto a sintonia entre a gente reinava até mesmo nos momentos de mais voluptuosidade. Eu amava cada detalhezinho em Jensen, desde seu jeito de ser até as curvas dos seus músculos abdominais, que se contraíram debaixo do meu toque. Jensen Ackles havia me feito cair de amores por ele mais de cinco anos atrás e eu continuava me apaixonado mais um pouco a cada dia.


Continua...



Nota da autora: Ai, eu amo um casal! Um mês depois, nós voltamos a nos ver e tem novidades!!! Não deixem de checar a sessão que contém todas as minhas fanfics que tem coisa boa por lá :)





TODAS AS FANFICS DA AUTORA:

All Roads Lead to You [Supernatural - Em Andamento]
Aqueles Malditos Olhos Verdes [Jensen Ackles - Em Andamento]
Badges and Guns [Henry Cavill - Em Andamento]
Don't Tell My Ex [Henry Cavill - Em Andamento]
I Don't Want Somebody Like You (I Only Want You) [McFLY - Em Andamento] (em breve, no especial The Lost Authors)
In the Eye of the Hurricane [Bon Jovi - Em Andamento]
Move If You Dare [McFLY - Shortfic] (em breve, no especial The Lost Authors)
No Angels [Supernatural - Em Andamento]
Traded Nightmares for Dreaming [McFLY - Em Andamento]
Tudo por um Amor [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic] (em breve, no especial The Lost Authors)
Tudo por um Gol [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic]


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