Última atualização: 10/11/2019
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Capítulo 1

– E então? Qual vai ser? – Maitê me perguntou.
Era o meu primeiro dia oficial como detetive da polícia de Massachusetts. Eu havia batalhado bastante para chegar até lá, mesmo que tivesse feito algumas coisas erradas para acelerar o processo. Eu era francesa, órfã de mãe e, na maioria das vezes, de pai também. Quando minha mãe se foi, acho que meu pai esqueceu que tinha uma filha. Passou a pagar por tudo para que nada da minha vida desse errado, assim eu não teria motivo para incomodá-lo na sede de sua empresa, em Paris. Acabei não tendo muita educação e me tornei alguém não muito legal do ponto de vista de uma sociedade moralmente chata.
Harvard foi uma dessas coisas que meu pai pagou para me tirar de perto. Não facilitou muito as coisas, na verdade, só abriu as portas para mais erros. O problema todo era que eu sentia muita falta de uma figura masculina presente na minha vida. Isso acabou refletindo de forma muito errada.
Eu era uma adolescente carente e ingênua quando conheci Zayn. Foi ele que, durante meu ensino médio, me ensinou todas as coisas que eu não deveria saber com aquela idade, mesmo ele sendo mais novo que eu. Eu me apaixonei, claro. Ele era minha primeira experiência, meu primeiro tudo. Nós dois éramos bobos no começo, para falar a verdade. Seu pai era igual ao meu e também o enviara para longe para se livrar dele – ele viera de Londres com uns amigos. Mas nós crescemos juntos e acabamos caminhando para polos opostos. No final de 2010, em uma festa em que estávamos, descobri que Zayn estava usando drogas. Eu sempre fui completamente contra esse hábito e, de forma dolorosa, nos separamos.
Louis era amigo dele e sempre estava junto quando saíamos. Ele acabou se tornando meu amigo também nesse meio tempo. Quando eu e Zayn terminamos, nós ficamos próximos demais e acabou acontecendo o inevitável. Tivemos uma agradável experiência juntos em 2012, depois de ele muito insistir. A experiência acabou de forma amigável, porque nós dois entendíamos que não era o momento certo. Continuamos amigos e fomos para Harvard juntos, eu para fazer Direito e ele, Medicina.
Eu estava no começo da faculdade quando me encantei por Richard, professor de Direito Administrativo. Ele não era exatamente lindo mas era charmoso. Muito mais velho que eu, é claro, mas isso não importava para mim na época. Richard se separou da mulher, com quem tinha duas filhas pequenas, para ter um caso rápido comigo. Foi condição minha, porque não me deitaria com um homem casado jamais. Ficamos juntos por um bom tempo, sem interesse, porque não era nem ele quem me dava aula. Com certeza, foi divertido. Aprendi muito com ele, que teve uma enorme paciência para me ensinar muito mais que Direito. Então, durante as férias de primavera, viajei com o pessoal para Miami e conheci outra pessoa.
Seu nome era Henry. Ele tinha um corpo escultural. Achei que era de Miami mesmo, mas ele tinha viajado com o pessoal de Direito de Columbia. Ele estava se especializando lá e se preparando para ser juiz. Ficamos algumas vezes enquanto estivemos no outro extremo do país. Na volta, trocamos números e ele disse que não via problema em ir me visitar esporadicamente, e que a viagem de pouco mais que três horas seria fácil em sua moto. Ficamos juntos por um ano e meio, até ele ter que viajar para a Inglaterra – ele era de lá e iria ficar na casa dos pais por um bom tempo antes de ir para Boston, perto de mim, onde finalmente conseguiria o emprego dos seus sonhos. Eu não tive coragem de esperar por ele e, covardemente, o deixei ir.
Jurei para mim, por meses, que não teria ninguém, mas Dougie apareceu em uma festa. Ele era promotor e estava de olho nas alunas novas de Direito de Harvard. Eu não era exatamente nova, mas ficamos aquela noite e em outras. Foi bom o suficiente para que mantivéssemos contato como velhos amigos. Infelizmente, nem assim eu deixei de me apegar.
Quando me formei, Richard me recomendou para um conhecido, tenente da polícia, que me colocaria onde eu queria rapidamente, sem pedir nada em troca. Comecei a treinar com os melhores da área e decidi que seria bom frequentar uma academia para melhorar meu condicionamento físico. Max era meu personal trainer. Simplesmente um dos caras mais gostosos do mundo. Ficamos juntos por seis meses, até eu ter um ataque de ciúmes e mudar de academia, pedindo a ele que me deixasse em paz. Eu estava ainda me recuperando quando Daniel, tenente da polícia e amigo de Richard, disse que descobriu sobre o que eu e meu ex-professor tivemos quando entrei em Harvard e me fez uma proposta indecente. Ele me promoveria a detetive imediatamente se eu dormisse com ele. Não podia negar que ele era um homem bonito. Não precisei me esforçar para ir para cama com meu chefe. Foi extremamente prazeroso e eu quis mais. Ficamos outras vezes, mas ele ficou com medo de levantarmos suspeitas no departamento. Pedi, então, que ele ajudasse Louis, que ainda era meu amigo, e o colocasse como legista. Perdi Daniel também.
Eu estava sossegada, desde então, mas havia um novo técnico de laboratório trabalhando conosco que deixava todas as mulheres loucas. Ele tinha um corpo incrivelmente mais definido que o de Max. Era mexicano, como Maitê, minha amiga dentro da corporação. Ela era amiga dele e estava praticamente me jogando para cima de William. Eu queria, claro, mas já tinha 25 anos e estava começando a amadurecer e resisti.
Olhei para os lados e revirei os olhos.
– Não inventa besteira. – Reclamei. – Você não tem que trabalhar?
– Na verdade, não. A corregedoria tá aí. Tão investigando o laboratório, suspeita de alteração de evidência.
– Você vai se dar mal? – Perguntei, preocupada.
– Não, mas você vai. – Ela disse, apontando para frente.
Daniel estava caminhando em nossa direção. Não parecia muito feliz. Engoli em seco.
– Tenente Craig. – Maitê o cumprimentou e se afastou.
Olhei para ele, parecia tenso.
– Acha o Jones. Quero os dois na minha sala. – Ele disse e me deu as costas.
Danny era o apelido do outro Daniel. Eu o chamava gentilmente de Danny, e talvez ele fosse o único homem por quem eu não nutria sentimentos impróprios. Ele era amigo de Dougie, o promotor com quem eu tinha ficado em 2015. Era o único homem que me tratava com carinho sem segundas intenções, e isso resultou em um sentimento puramente fraternal. Encontrei-o em sua mesa, ao lado da minha, que estava completamente vazia e pronta para que eu a estreasse.
– Jones. – Chamei.
Ele levou um susto e eu ri.
– Craig quer ver a gente.
Ele se levantou com um pulo.
– Caso novo a essa hora da manhã? – Ele me perguntou enquanto caminhávamos para a sala do tenente.
Dei de ombros. Mal entramos e Craig já nos deu duas pastas.
– O corpo de uma prostituta foi encontrado no parque público de Boston hoje de manhã. Choveu à noite, então acho melhor vocês se encaminharem pra lá o mais rápido possível porque a água pode ter levado boa parte das provas.
Danny assentiu e saiu na minha frente.
– Juliette, espera. – O tenente me chamou quando eu dei as costas para ele a fim de acompanhar meu parceiro, me virando de volta imediatamente. – Tá tudo bem? Precisa de alguma coisa?
Revirei os olhos.
– Tenente…
– Pode me chamar de Daniel, você sabe. – Ele me interrompeu.
Tenente, – Eu insisti. – com todo respeito, só fui pra cama com o senhor porque eu queria, não pra conseguir favores. Isso foi só um bônus.
– Eu gostaria que tivéssemos uma conversa quando você e o Jones voltassem da rua.
– Acho melhor não. “O departamento vai desconfiar”. – Disse, ironicamente abrindo aspas no ar com os dedos.
Dei as costas novamente para ele e corri para a minha mesa. Coloquei minha arma no coldre e o distintivo no bolso do casaco. Danny já me esperava em nosso carro. Partimos logo para a cena do crime, que não ficava muito longe da delegacia. O lugar estava uma bagunça, parecia que um furacão havia passado por ali. O corpo da mulher, coberto já por uma lona preta, jazia em volta de um jornal amassado, uma placa de trânsito – o que diabos aquela placa estava fazendo ali? – e um saco de lixo revirado.
– Detetives, – Um dos policiais nos chamou. – encontramos uma bolsa junto à moça, recebemos ordens de esperar que vocês viessem analisar.
– Ótimo, soldado. – Eu disse, já vestindo as luvas.
Ele me entregou a bolsa.
– Tem uma senhora muito estranha dizendo que viu o assassino desovando o corpo. – O soldado completou.
– Leva ela pra delegacia. – Danny ordenou.
Puxei uma carteira de motorista de dentro da bolsa.
– Patty Millman, 31 anos. Sabe mais alguma coisa sobre ela, soldado?
– Nada.
– Eu a conheço do clube de strip-tease do Bongiovi, acho que era chamada de Diamond.
Todos os olhares se voltaram para Danny.
– Q-que foi? – Ele gaguejou.
Balancei a cabeça, tentando me livrar da ideia de Danny em um puteiro.
– Ramirez, obrigada pelo serviço, acho que acabamos por aqui.
Fiquei em pé perto da faixa de contenção, tentando observar cada mínimo detalhe. Danny parou ao meu lado.
– To cansado dessa história do Bongiovi ficar no meu pé.
– Esse é quem? O mafioso daquele assassinato na pizzaria?
– Ele mesmo. Mas vou ligar pra um conhecido que é segurança no clube dele e pedir que ele encontre a gente extraoficialmente.
Assenti. Ficamos mais um pouco, até Louis chegar com sua equipe para fazer a retirada do corpo. Nós nos cumprimentamos à distância enquanto eu voltava para a delegacia. A senhora Leonor Price nos aguardava em uma das salas de interrogatório. Do lado de fora, ela não parecia nada calma. Respirei fundo e entrei na sala sozinha. Devia me lembrar de que ela era uma testemunha mas, na falta de qualquer informação inicial, poderia ser tratada como suspeita.
– Senhora Price, – Disse, me sentando do outro lado da mesa. – eu sou a detetive Danté. A senhora disse aos nossos policiais que viu o assassino fugindo da cena do crime.
– Sim. Ouvi gritos e, quando fui olhar, vi uma pessoa fugindo.
– Poderia descrever a pessoa?
– Eu bem que tentei, mas não vi o rosto. Só sei que era bem magro, pálido como um vampiro e devia pesar menos de 60 kg.
Eu me surpreendi com as respostas. Fiquei sem palavras por alguns instantes.
– Bem… eu agradeço. E por favor, como esse é um interrogatório preliminar, não saia da cidade, podemos ter que procurar a senhora novamente pro caso de precisarmos de mais detalhes.
– Vou ser acusada de alguma coisa?
– Não, senhora Price, é apenas procedimento de rotina.
Ela pegou a bolsa, colocou em seu ombro e partiu. Mal ela saiu da sala, Danny entrou com um homem negro e corpulento.
– Esse aqui é o meu amigo de quem te falei.
– Você me falou que era um conhecido. – Corrigi Danny, esticando a mão para cumprimentar o homem. – Juliette Danté.
– Sebástian Moore. Francesa?
– Sim. Gostaria de se sentar?
Danny sentou na mesa enquanto eu e Sebástian nos encarávamos, esperando em silêncio.
– Diamond era como uma irmã pra mim. – Ele começou, segurando lágrimas.
– Bongiovi não tem nada a ver com isso? – Perguntei.
– Não faz o estilo dele.
– Eu diria o contrário. – Danny disse, revirando os olhos. – Você acha que vale a pena olhar o clube por dentro?
– Tenho certeza de que sim. – Sebástian disse. – Mas o Bongiovi não vai deixar você entrar sem um mandado.
– Com que juiz eu vou conseguir falar a essa hora?
Uma luz acendeu sobre a minha cabeça. Não ia gostar muito, mas tempo era precioso demais na minha profissão. Fui até o técnico de informática gato. Bati na porta da sua sala. Ele me atendeu rapidamente com um sorriso. Respira, Juliette, você não veio aqui dar pra esse cara.
– Oi, William, será que você consegue um endereço pra mim?
– Posso tentar. Entra aí.
Maitê estava no laboratório do lado e fez graça para mim quando me viu.
– Qual o nome?
– Henry Cavill.
– O juiz?
– Exatamente.


Capítulo 2

Ele definitivamente estava muito surpreso por me ver ali, me atendendo de moletom.
– Preciso da sua ajuda. – Disse, antes de mais nada.
– Entra, por favor. – Ele disse, me dando passagem de forma educada.
– Vou ser rápida. Só preciso que você assine um mandado pra mim.
Mandado?! Então quer dizer que a grande Juliette Danté conseguiu virar uma detetive.
– Hoje foi meu primeiro dia. – Sussurrei.
Henry sorriu.
– Entra. – Ele insistiu.
– Preciso ser rápida. Tão me esperando na delegacia.
– De qualquer forma, eu preciso ler os papéis, mesmo que rápido. Então…
Passei pela porta, olhando para os pequenos detalhes. Era uma casa aconchegante. A lareira estava acesa, logo recuei.
– Se eu estiver atrapalhando alguma coisa, não precisa me atender.
– Por que você acha que tá atrapalhando?
– To ouvindo o barulho da lenha crepitando. Ninguém acende lareira pra si só.
– Bem… talvez eu acenda.
Ele deu um meio sorriso e me convidou, com um gesto, a me juntar a ele em sua mesa de jantar. Aguardei silenciosamente enquanto ele lia a papelada. Sem mais nem menos, ele simplesmente assinou.
– Quando precisar de outro, é só me consultar.
Assenti e me levantei. Repentinamente, ele puxou meu braço.
– Sinto sua falta, sabia?
Meu coração acelerou. Já estava afastada dele por dois longos anos, mas ele ainda tinha poder sobre mim. Olhei fundo em seus olhos e sorri, mesmo triste.
– Desculpa, Henry.
– Tem certeza de que não pode ficar um pouco?
– Preciso ir. O dono do lugar não é flor que se cheire. Pode ser que ele esteja, de alguma forma, envolvido no assassinato e esconda provas. Quanto mais cedo…
– … melhor. – Ele completou, me interrompendo. – Me procura, por favor. Vamos sair pra jantar, conversar.
Eu voltei a assentir e lhe dar as costas. Dirigi rápido, pois realmente tínhamos pressa. Chegamos ao Red Roses por volta das duas da madrugada. O lugar estava lotado. Rapidamente, Danny tratou de se identificar e mandar esvaziar o local. Dei ordem para que alguns policiais coletassem curtos depoimentos sobre a vítima com as meninas que trabalhavam lá. Enquanto isso, eu vasculhava o lugar com olhos minuciosos, procurando por algo que pudesse nos ajudar.
É claro que Bongiovi não deixaria essa passar em branco. Logo, o italiano apareceu e tentou nos intimidar. Danny, com o sangue esquentado, como sempre, foi direto até ele com o mandado em mãos, quase o fazendo engolir o papel. Os dois gritavam entre si quando eu avistei, em uma lixeira pequena no balcão do bar, vários pedaços de papel. Vesti a luva e peguei o saco.
– Jones. – Gritei com Danny, à distância, mostrando o saco.
Ele se aproximou de mim.
– Parece que tem um papel rasgado aqui. Pode não ser nada, mas pode ser alguma coisa. Leva isso pra Maitê, pede pra ela analisar e ver o que consegue.
– Mas…
– Eu me viro com o Bongiovi. Sabe que mulher é o ponto fraco dele.
Danny hesitou, mas acabou consentindo, não sem antes fuzilar Bongiovi com o olhar. Eu me aproximei, devagar mas firme. Já havia visto aquele procedimento várias vezes e estava na hora de colocar em prática.
– Acho que eu conheço você. – Ele disse, com a cabeça pendendo para um lado e um sorriso sacana no rosto.
Deus, como eu queria atirar naquele filho da puta.
– Pena que suas gracinhas não vão funcionar comigo. – Eu disse. – Vai me contar o que aconteceu com a Patty? Ela não quis trabalhar com você no seu escritório?
– Acha que eu matei a puta que me dava mais lucro aqui?
– Acho. Você tem aparecido de surpresa em casos de mais. Sabemos que você tá metido em alguma coisa, Bongiovi.
– Deveriam se preocupar com verdadeiros criminosos que andam assombrando essa cidade ao invés de ficarem criando teorias sobre mim.
Poucos segundos com o cara e eu entendia porque Danny o odiava tanto. Naquela hora, o treinamento psicológico ajudava muito. Eu estava mais consciente do que nunca de que tinha uma arma no coldre e de que nada me impedia de usá-la.
– Você já deve saber que não pode sair da cidade, então…
Na delegacia, Maitê já havia montado os pedaços e formado uma carta que Patty havia recebido. Ela conseguiu identificar algumas substâncias e estava analisando as amostras quando eu entrei em seu laboratório.
– Tem o quê pra mim?
– É um perfume. – Ela disse. – O cheiro tá forte, mesmo depois de estar no lixo.
– Francês? – Brinquei.
– Talvez. – Ela respondeu, rindo e me ofereceu o papel. – Cheira.
– Não, obrigada. Sabe se o Louis já terminou a autópsia?
– Acho que não. William me contou que você procurou ele pra saber o endereço do seu namoradinho da faculdade.
– Pra fins profissionais.
– Sei bem que fins são esses.
Revirei os olhos e deixei o laboratório. Desci até o porão, onde esperava encontrar Louis. Por sorte, ele estava fechando o corpo de Patty quando eu bati na porta. Ele sorriu ao me ver.
– E então? Como foi o primeiro dia? – Ele perguntou, animado por minha conquista.
– Depende do que você vai me contar sobre o corpo.
Louis riu e me convidou para entrar.
– Causa da morte: hemorragia interna. Ela foi acertada com um objeto grande múltiplas vezes. Pelo ângulo, acho possível que seja algo parecido com um martelo. Ossos quebrados, vasos sanguíneos partidos… sabe como é, né?
– Algo que nos ajude a identificar o assassino?
– Bem, a roupa da vítima estava cheia de pelos de cachorro. Um poodle, pra ser mais específico. E definitivamente não foi por contato direto.
– Como você sabe?
– Por causa de como os pelos foram encontrados na roupa dela.
Assenti enquanto pensava por um breve instante.
– Mais alguma coisa?
– Por enquanto, não. – Ele disse. – Te procuro se tiver novidades.
– Obrigada.
Corri para cima, já pegando as chaves do carro e meu casaco.
– Onde você vai? – Craig perguntou.
– Vou voltar ao parque. Algo me diz que a arma do crime ainda pode estar lá.
– Vou com você então.
Respirei fundo. Estar sozinha em um carro com Daniel Craig não era exatamente a minha meta. Lá fora, o céu ainda estava negro. A escuridão era total. Estacionei a viatura bem próxima do local do crime. Quando desliguei, Craig colocou a mão na minha perna. Meu coração batia descontroladamente.
– Ainda não tivemos a chance de ter aquela conversa.
– E talvez nunca tenhamos.
– Eu queria que você soubesse…
– O quê? Que o departamento pode descobrir?
– Sei que tivemos um envolvimento muito além de simplesmente transarmos pra você conseguir o cargo que queria.
– Sim, tivemos, mas você não pode me dar o que eu quero em um homem. Então, infelizmente, acho que seria melhor se você não me fizesse criar esperanças.
– Você não quer, então?
– Tenente, quero resolver meu primeiro crime e ser bem sucedida no que faço.
Ele ponderou por alguns instantes e, então, saiu do carro. Com lanternas, vasculhamos o local. Olhei cada canto, mas nada parecia certo. Tracei linhas imaginárias ao redor da área onde o corpo havia sido encontrado. Passamos um bom tempo lá. O céu começou a clarear e Craig olhou para mim, cansado.
– Não vamos achar nada aqui. – Ele disse.
Puxei meu celular imediatamente e liguei para Danny, ordenando que ele achasse a senhora Price e questionasse sobre qual direção o assassino teria seguido quando ela o viu correndo. No final do dia, a lagoa do parque estava sendo drenada. Não demorou muito até os mergulhadores acharem uma marreta com traços de sangue. Imediatamente, o objeto foi levado para o laboratório. Foi a primeira noite que passei em casa.
A secretária eletrônica piscava, indicando a chegada de duas novas mensagens. Apertei o play sentada já no sofá, começando a me despir.
Oi, Juliette, aqui é o Henry. Fiquei esperando você entrar e contato, mas você me conhece e sabe como eu sou ansioso. Meu número é 829-7729. Me liga, por favor.
Revirei os olhos, um hábito que eu precisava conter. Apertei para ouvir o próximo.
Fui até a delegacia hoje e você não estava. Disseram que você tava no parque público, não quis atrapalhar seu serviço, mas queria muito te ver. Por favor, passa aqui em casa hoje à noite.
Sentei, tensa. Henry estava me perseguindo. Deixei as mensagens de lado e continuei tirando a roupa, caminhando para o banheiro. Quando abri o sutiã, ouvi a campainha tocar. Puxei minha toalha e rapidamente me enrolei nela. Olhei pelo olho mágico, era ele. Merda.
– Sei que você tá aí, te vi chegando. – Ele disse quando eu hesitei.
Demorei a me decidir por abrir a porta. Quando eu destranquei a última trava, ele veio para cima de mim com toda vontade do mundo, me beijando de surpresa. Eu precisei afastá-lo, não conseguia respirar.
– O que você acha que tá fazendo? – Gritei.
– Não consegui mais parar de pensar em você depois que você foi lá em casa e…
– Henry, você é um juiz e eu, uma detetive. Você tá me seguindo?
– Eu só precisava te ver.
Meus ombros caíram. Queria ser durona, mas não sabia lidar com homens. Olhei nos olhos dele, os mesmos olhos azuis que me aqueceram no inverno de 2014. Senti falta, saudade, mas uma pontada de dor. Não tinha sido perfeita para ele, não tinha aguardado por sua volta da Inglaterra. Assumi uma distância segura e baixei a cabeça.
– Tive outros depois de você, Henry.
– Mas você me amou, não amou?
– Sabe que sim.
– E poderia me amar de novo?
Voltei a fitar seus olhos e, consequentemente, a ficar fraca.
– Meus últimos dias foram cansativos. Me deixa descansar, só essa noite. Prometo que vou te procurar e escutar tudo o que você tem pra falar, mas peço pra deixar isso pra lá, só por hoje.
Henry se aproximou e ergueu meu rosto com seus dedos, de forma delicada. Ele sorriu e, então, beijou minha testa.
– Promete? – Ele perguntou, cheio de esperança na voz.
Apenas assenti. Vi ele indo embora em seu carro pela janela. Deitei, não sem antes tomar um calmante. Sonhei com Henry. Estávamos em uma casa antiga, no campo, e ele estava cozinhando para mim. Nós nos beijávamos e ele me abraçava com carinho, como sempre tinha feito.
– Henry é o homem perfeito: bonitão, gentil, amoroso…
– Mas será que vai dar certo? – Perguntei a Maitê, logo após ela me confirmar que o sangue na marreta encontrada era, sim, da nossa vítima.
– Por que você não tenta?
Uma sombra surgiu atrás de nós. Era William. Eu levei um susto e deixei um gritinho escapar. Ele gargalhou, as veias em seu pescoço mais saltadas do que nunca.
– O Jones tá procurando por você, Juliette. – Ele disse, rindo.
Maitê revirou os olhos e voltou à sua bancada de trabalho. Eu ia saindo quando senti que William estava na minha cola. Olhei para trás e ele sorriu.
– Você vai no bar hoje à noite?
– Bar?! – Perguntei.
– É. Toda sexta, depois do expediente, o pessoal se reúne no bar aqui da esquina pra beber um pouco e jogar conversa fora.
– Ah sim… essa informação não tinha chegado até mim ainda. Deve ser porque eu era novata.
Paramos em frente à porta do seu laboratório. Ele coçou a cabeça.
– Então… você e o Jones parecem bem íntimos.
– Garanto que somos apenas ótimos amigos.
William olhou para mim.
– Então você não se importaria de ir comigo ao bar?
Olhei para trás, para Maitê. Ela estava rindo. Com certeza, havia falado com ele.
– Não tenho roupa.
– Essa que você tá usando tá perfeita.
Fiquei sem palavras. Fitei meus próprios pés por longos instantes, com medo de estar corada e ele ver. Craig passou por nós naquele exato momento e eu decidi que seria um bom jeito de me livrar de quaisquer possibilidades de ter outro caso com ele. Então sorri, arqueando as sobrancelhas.
– Pode ser.
Ele mordeu o lábio inferior e entrou de volta no laboratório. Danny estava me observando de longe.
– Eu vi aquilo. – Ele comentou.
– Ainda bem, significa que você não é cego.
– Vai sair com ele?
– Vamos juntos ao bar hoje à noite. E você? O que queria comigo?
– Sebástian me ligou, disse que uma das garçonetes do clube era muito amiga da Patty e eu a trouxe pra interrogar. Quer me acompanhar?
Peguei a pasta da mão dele e dei uma olhada. Não disse nada, só assenti. Como sempre.


Capítulo 3

O corpo de William no meu aquela noite era tudo o que eu precisava para esquecer os problemas. Saímos do bar mais cedo, após ele sussurrar várias besteiras no meu ouvido. Na semana seguinte, após resolvermos o caso do assassinato de Patty Millman, ele voltou ao meu apartamento para comemorar. E na noite seguinte também. Estava começando a achar que poderia investir nele. O departamento já estava fofocando, principalmente depois de ele deixar um bombom em minha mesa numa segunda de manhã. Mas a farsa acabou rápido.
Eu estava saindo do laboratório com Maitê. Nós havíamos combinado de almoçar juntas quando uma jovem com feições diferentes nos abordou.
– Com licença, meu nome é Angélique Boyer…
Quando eu ouvi o sotaque, já previ a merda que ia acontecer.
– Eu to procurando meu noivo, o nome dele é William…
– Noivo?! – Eu e Maitê perguntamos ao mesmo tempo.
– É, ele trabalha com alguma coisa aqui dentro…
– Espera. – Pedi.
Peguei meu celular e procurei na galeria uma foto que William tinha me enviado dele. Virei o celular para ela.
Esse William?
– É, – Ela respondeu com um sorriso. – esse mesmo.
Olhei para Maitê e, sem dizer nada, saí em disparada na direção do laboratório dele. Quando entrei, ele nem teve tempo de reagir. Simplesmente cerrei o punho e enfiei ele com tudo na cara daquele filho da puta. Só não tinha visto que a menina havia me seguido. Ela olhou assustada para a cena e eu lhe dei um sorriso puramente sarcástico.
– Melhor dar sexo pra ele. Caso contrário, ele vai voltar a procurar por isso com outra mulher ingênua o suficiente pra cair na lábia dele. – Ralhei.
Saí de lá sem pensar duas vezes. As paredes de vidro permitiram que boa parte do pessoal do andar visse a cena, incluindo Craig, mas eu não me importava. Afinal de contas, estava na reta final de um caso e o promotor queria me ver.
Desci de escada até o segundo andar, onde ficavam as salas de reunião. Abri a porta um tanto quanto agressiva. Olhei para a mesa e não pude acreditar no que eu estava vendo.
– Poynter? – Perguntei.
Ele levantou a cabeça e, ao me ver, sorriu.
– Juliette! É você?
Pisquei os olhos, confusa.
– Acho que entrei na sala errada, eu devia estar procurando o promotor.
Eu sou o promotor.
Fiquei boquiaberta, sem reação por alguns instantes. Hesitei em me sentar de frente para ele.
– Faz o quê? Dois anos?
– Um ano e meio, Poynter. Viemos aqui falar do caso ou não?
– Você parece bem mais bonita.
– E você, mais sujo ainda. O que quer de mim?
– No momento, saber se você tá solteira.
– Poynter, se você veio aqui pra ficar de sacanagem, eu preciso trabalhar.
– É Dougie pra você, não Poynter.
– Ou você vai direto ao ponto ou eu vou embora.
Ele riu e colocou a maleta em cima da mesa, abrindo-a e procurando alguma coisa lá dentro.
– Sabe que esse charme já te conquistou uma vez.
– Pra uma noite. Não sou esse tipo de mulher mais.
– Quem disse que é só pra uma noite?
Levantei da cadeira.
– Não, Dougie, não.
– Senta aí, preciso te fazer umas perguntas sobre o acusado.
– Vou ficar em pé.
– Ok então, como você preferir. Preciso convencer o Cavill de que o cara é culpado.
– Cavill?!
– É, o mesmo cara que assinou seus mandados.
– Eu sei quem é. O que você quer saber?
– Por que você prendeu ele com tanta certeza?
– O perfil é perfeito. Anthony tem a altura determinada pelo ângulo dos tiros. A mesma substância, um enxaguante bucal, foi encontrado tanto no corpo quanto nas roupas do suspeito. O relógio encontrado próximo à cena do crime tinha as digitais dele. Anthony tinha motivos perfeitos…
– … mas era filho do morto. O advogado de defesa vai atacar nesse ponto e não gosto de perder casos. Vou te chamar pra testemunhar.
– Ótimo. Já to acostumada.
– Você vai ser capaz de convencer eles?
– Vou fazer o que posso.
Dougie se levantou e ajeitou as coisas dentro de sua maleta.
– Vai ter que me passar seu número. – Ele provocou.
– Liga pra delegacia. – Retruquei.
Observei, em silêncio, enquanto ele deixava a sala. Foi então que fitei os papéis que ele havia me entregado e meu coração disparou. Subi as escadas, correndo para o laboratório de Maitê. Ela se assustou quando eu entrei esbaforida.
– Preciso de ajuda.
– O que houve?
– To sendo rodeada por todos os homens com quem já dormi.
– Como assim?!
– Sério. Além do Craig e do Louis, que eu vejo todo dia, Cavill vai ser o juiz do meu caso. Lembra que eu te contei de um britânico com quem eu dormi uma vez em uma festa da faculdade?
– Você dormiu com muitos britânicos, Juliette.
– Maitê! – Ralhei.
– Ok, eu me lembro. O que tem ele?
– É o promotor. Veio me entregar alguns papéis sobre o julgamento. Meu primeiro namorado é o advogado de defesa.
– Aquele estranho?
– Ele mesmo.
– Você ainda tem interesse nele? Poderia passar meu número, sabe…
– Que grande amiga você é. – Reclamei, revirei os olhos e deixei o laboratório dela.
Com passos largos, fui até o laboratório de William. Não estava querendo olhar na cara dele, mas não tinha escolha. Abri sem bater na porta. Ele se assustou.
– Você tá na negativa comigo. – Disse, antes de qualquer coisa. – Vim cobrar.
William parecia inquieto e, acima de tudo, arrependido. Respirei fundo e fiz o possível para me concentrar e não deixar aqueles malditos olhos castanhos me enlouquecerem. Peguei um bloco de papel que estava em sua mesa e comecei a escrever os nomes.
Zayn havia sido o primeiro, logo depois Louis, que era seu amigo, mas que não precisava ser investigado. Depois de Louis, entrei para a faculdade e estive com Richard, Henry e Dougie. Quando me formei, Max, durante o ano em que estava em treinamento. Eu sabia de Daniel e William porque os via todo dia no trabalho, então também não precisava deles na lista.
Joguei o bloco de volta na mesa, bem na frente de William.
– Preciso de tudo o que você conseguir sobre esses caras, o mais rápido possível. – Ordenei. – E sem que ninguém saiba.
– Juliette, to ocupado com o caso daquele empresário sequestrado. Preciso tentar recuperar o HD do computador dele e…
– Eu juro, Levy, que eu faço você ser demitido se não arrumar isso pra mim. – Rosnei. – Quero isso pronto amanhã de manhã, antes de eu chegar na delegacia.
Saí de lá confiante de que meus problemas acabariam, mas mal sabia eu que, na vida de detetive, problemas eram a coisa mais comum de se ter. Cheguei mais cedo no outro dia e Craig notou. Fui direto para minha mesa. Havia uma pasta com meu nome e a palavra “CONFIDENCIAL” grafada em vermelho. Daniel estava me olhando da porta de sua sala. Precisava de espaço e nada melhor do que o necrotério para ficar sozinha.
Desci as escadas rapidamente. Louis estava abrindo um corpo quando eu entrei. Ele e seu assistente me olharam assustados.
– O que houve? – Ele perguntou.
– Segredo. Posso usar sua sala?
Ele olhou para a porta e assentiu. Entrei lá e me tranquei. Sentei à mesa e abri a pasta. Dezenas de folhas, grampeadas em pastas, me aguardavam. Comecei por Zayn.
Ele havia voltado para a Inglaterra após terminarmos e cursara Direito em Oxford. Atualmente, morava em um apartamento na Beacon Street, em Boston. Tinha acabado de se formar e seus casos ainda eram pequenos. Derrotas, em sua maioria. Tinha sido preso por posse de drogas e desordem, mas foi liberado por ser seu primeiro delito.
Richard ainda era o mesmo. Professor de Direito Administrativo e um advogado honrado em seu tempo livre. Havia se casado de novo após nosso breve relacionamento e sua atual mulher estava grávida, de gêmeos.
Dougie havia assumido a vaga de Leo Hughes, antigo promotor que trabalhava conosco, e o caso do sequestro e assassinato do empresário Alfie Phillips era o seu primeiro. Como advogado, tinha sido competente, tendo bem mais vitórias do que derrotas, e era famoso por sempre conseguir bons acordos. Solteiro, residente em um condomínio próximo do centro de Boston. Havia se internado em uma clínica de reabilitação logo após termos dormido juntos em 2015. Tinha ficha limpa.
Henry, quem eu já havia visitado algumas vezes a fim de conseguir mandados rapidamente, estava solteiro. Chegou ao posto de juiz rápido demais, provavelmente tendo a ajuda do pai – quem eu tinha visto algumas vezes – que era um CEO influente no país.
O mais contrastante era Max que, para o meu assombro, havia saído da academia e estava treinando para ser policial. Ficha limpa, pouquíssimas informações, muitas multas de trânsito. Ele estava destinado a trabalhar na Narcóticos, o que o deixaria um pouco afastado de mim, mas isso continuava sendo assustador.
Daniel entrou na porta quando eu estava guardando o último papel dentro do envelope. Pulei na cadeira e ele notou.
– Posso saber o que tá acontecendo aqui?
– Caso extraoficial. – Eu respondi, levantando o envelope no ar. – É confidencial.
Quando eu estava me preparando para sair da sala, ele agarrou o braço que segurava a pasta.
– Sou seu chefe, não deveria ser confidencial pra mim. – Ele sussurrou agressivamente no meu ouvido.
– Não é crime e é pessoal. Agora, se me dá licença…
Olhei sugestivamente para o braço. Ele me soltou imediatamente. Não demorou muito para eu ter que deixar a delegacia com Danny. Aproveitei para passar em casa e colocar fogo nos papéis. Comecei a me questionar a razão de eu estar fazendo aquilo, já que não era ilegal e não teria problema se alguém soubesse, mas estava atrasada para encontrar um corpo no estacionamento do Copley Place.
– Já tem identificação? – Perguntei a Danny.
– Sim, e o assassino foi detido pela segurança.
– Então o que nós estamos fazendo aqui se o caso já tá resolvido?
– O assassino jura que recebeu ordens de policiais da Narcóticos. Ou ele matava esse cara, ou ele ia pra cadeia.
– Usuário de drogas?
– Sim. E tá completamente alterado.
Pensei por uns instantes.
– Ok, mandem ele pra delegacia. Eu vou interrogá-lo assim que o efeito passar. Antes disso, façam um exame toxicológico, quero saber o que ele usou.
Danny olhou para mim com as sobrancelhas arqueadas.
– Achava que éramos parceiros e não patrão e empregado.
– Desculpa. – Eu sussurrei.
– Tá tudo bem?
Olhei para ele, séria.
– To com a cabeça cheia.
– Vai pra casa, Juliette, eu tomo conta disso.
– Eu posso ficar.
– Tem certeza?
Assenti. Eu me aproximei do corpo e levantei a lona. Arregalei os olhos.
– Isso foi pessoal.
– Ele atirou com uma espingarda.
Devolvi a lona para o lugar. Quando eu olhei para trás, Danny estava vomitando.
– Qual é, Jones? Depois de tanto tempo, vai ficar com nojinho de morto? – Louis, que estava removendo o corpo, brincou com ele.
– Não é isso. – Danny gemeu. – Acho que meu estômago não tá legal.
Revirei os olhos. Fui até o carro e levei até ele uma garrafa de água e lenços de papel. Esperei que ele se limpasse.
– Vamos, vou te levar pra casa.
– Tá tudo bem.
– Não tá não. Eu posso conduzir o caso sozinha.
– Não, Juliette…
– Danny, você já ganhou uma discussão comigo?
– Não, mas…
– Pronto. – Eu o interrompi uma última vez. – Entra no carro, vou só avisar os policiais pra levarem o suspeito pra delegacia.
O nome do cara era Jacob Ward. Morador de rua, havia sido abandonado pela mulher e, desde então, vagava pelas ruas de Boston procurando por comida. Era usuário há mais de dez anos, inclusive este foi o motivo de sua mulher o colocar para fora de casa. Estava recebendo soro para limpar o organismo na própria sala de interrogatório. Eu esperei calmamente até que ele estivesse consciente o suficiente para responder minhas perguntas.
– Sei que você tá fraco mas precisamos conversar. – Eu disse ao entrar na sala e colocar papeis em cima da mesa. – Se você me ajudar, vou ajudar você e vamos ser rápidos, ok?
Ele assentiu.
– Que história é essa de que policiais da Narcóticos mandaram você matar o cara?
Jacob respirou fundo, parecia sentir dores.
– Eles podiam me incriminar e me mandar pra cadeira elétrica.
– Te falaram isso?
– Eles me mostraram as provas que eles fabricaram.
– Jacob, não tem pena de morte em Massachusetts.
Ele pareceu abismado com a notícia.
– Jacob, quem te ameaçou?
– Não sei os nomes deles.
– Mas poderia descrevê-los a um desenhista?
– De que isso importa? – Ele gritou, começando a chorar. – Eu matei um homem a troco de nada. Vou pra prisão de qualquer jeito.
– O promotor é meu amigo. Vou conversar com ele e conseguir um acordo bom pra você. Mas isso só se me ajudar.
– Não tem como fazer acordo bom pra mim.
– Posso te colocar internado em uma clínica de reabilitação e, só depois de você estar bem, vai pra cadeira. Você vai cumprir uma pena curta e, se tiver bom comportamento, vai receber a condicional cedo. Não posso fazer nada disso se você não me der nada em troca.
Jacob voltou a respirar fundo.
– Ok. O que eu preciso fazer?
Ele ficou lá por um bom tempo com o desenhista enquanto eu tentava receber notícias de Danny. Craig estava no meu pé, ainda pelo que tinha acontecido naquele dia mais cedo. Eu estava incomodada. Assim que eles terminaram, entrei na sala. Os desenhos estavam em cima da mesa.
– Ele é todo seu. – Ryan, nosso desenhista, me disse.
Peguei as folhas e passei o olho por elas rapidamente. Senti uma arritmia forte quando vi que um dos desenhos era exatamente igual ao rosto de Max. Peguei os desenhos e os coloquei por dentro da minha jaqueta antes de sair da sala.
– Ryan! – Gritei ao ver que ele estava descendo as escadas.
O desenhista se virou e ficou em encarando enquanto eu corria em sua direção.
– Você tem cópias daqueles desenhos?
– Não. Como são policiais, esperava que você fosse resolver isso fácil com o pessoal da Narcóticos.
Eu me concentrei em não reagir de forma que ele suspeitasse.
– Perfeito então, to indo pra delegacia agora.


Capítulo 4


Max ainda vivia no mesmo lugar, por sorte. Já estava tarde da noite quando eu bati à porta de seu apartamento, não muito longe do meu. Assim que ele olhou pelo olho mágico e começou a destrancar a porta, eu empurrei e entrei de supetão.
– Você ficou louco?! – Eu gritei, jogando o retrato falado na direção dele.
– Do que você tá falando?
– Um drogado que matou um zé-ninguém no shopping descreveu você pro desenhista.
– Como assim, Juliette?!
– Vocês ameaçaram o cara pra ele cometer um assassinato. Ele tá na delegacia e vai identificar você.
– Juliette, eu não to entendendo nada.
Olhei para ele, cheia de deboche.
– Quer saber? Se você não vai me contar a verdade, eu quero que se foda.
Estava saindo quando ele entrou no meu caminho.
– Espera. Senta, por favor.
– Não, Max, quero explicações. Agora.
– O cara tava perseguindo um dos nossos.
– Quem?
– Parker. Thomas Parker. Um amigo meu. Ele tava disfarçado e revelaram a identidade dele. O cara tava indo contar, mas a gente não podia se meter porque aí a corregedoria…
– Você acha mesmo que a corregedoria não vai cair em cima de você, Max? Ele te descreveu!
Max colocou as mãos na cabeça desprovida de qualquer fio de cabelo. Observei em silêncio enquanto ele andava de um lado para o outro.
– O que você fez, Max?
Meu celular tocou enquanto ele continuava desnorteado. Era Craig.
– O que foi, tenente?
– Seu homem se matou.
– Quem?!
– O cara do assassinato no estacionamento do shopping. Ele bateu com a cabeça na parede várias vezes, mas ninguém viu. Quando um policial notou que tinha algo errado, já era tarde demais. O que ele te contou?
Fiquei em silêncio. Eu tinha que pensar rápido, então desliguei. Olhei para meu celular assustada com o que estava fazendo. Liguei de volta para Craig imediatamente,
– Perdão, tenente, a ligação caiu. Ele me disse que foi encomendado, que ameaçaram incriminar ele. Não ouvi muitos detalhes. Ele fez uns retratos falados com o Ryan e só. Eu estou com eles inclusive.
– Traga-os pra delegacia. Agora, Danté.
– Sim, senhor.
Desliguei o celular e conferi para ter certeza de que ele não ouviria.
– Max, eu preciso prender os outros caras.
– Vão contar que eu também tava no meio.
– Eu não posso fazer nada, Max!
– Por favor. – Ele implorou.
Fiquei olhando para o chão por longos instantes.
– Tem algum jeito de, se for investigado, provar que vocês estavam no meio? É só a palavra dele contra a de vocês?
– Tenho certeza de que sim.
Olhei bem para ele.
– Não vou te ajudar além disso, Max. Você pode ser exonerado. Acho melhor ligar pro dono da academia e pedir o emprego de volta.
A corregedoria, é claro, foi atrás de mim rapidamente. Em meu depoimento, disse apenas o necessário para me manter na legalidade. Como previ, Max e os outros colegas foram suspensos por tempo indeterminado enquanto a investigação corria. Enquanto isso, havia o julgamento de Anthony Phillips. Depor lá, na frente de Cavill, Poynter e Malik foi simplesmente estressante. Fui rápida e tentei ser o mais objetiva possível, como sempre. Assim que fui dispensada, praticamente corri para fora do tribunal. Estava no corredor, a caminho da saída, quando esbarrei em Max.
– O que você tá fazendo aqui?!
– Queria te agradecer.
– Max, não posso ser vista com você. Vão desconfiar.
– Jantar, na minha casa, hoje.
– Você tá maluco. – Disse, rindo de nervoso.
– Juliette, por favor. – Ele disse, me segurando e me impedindo de seguir em frente. – Não vou aceitar “não” como resposta.
– Tem um monte de policial aqui. Se eu gritar, vão te pegar.
– Não me importo. Só diz que sim, por favor.
– Max, me solta.
– Por favor, Julie.
– Ninguém mais me chama assim. – Reclamei.
– Eu volto a te chamar assim, se você quiser. Mas, por favor, janta comigo hoje.
– Max, a resposta é não e é definitiva. Eu poderia dizer que vou e simplesmente não ir, mas prefiro ser sincera. Agora larga do meu pé ou eu vou te prender.
Ele respirou fundo e, depois de se acalmar, me deu as costas e foi embora. Estava me preparando para retomar meu caminho quando ouvi meu nome ser chamado. Olhei para trás e Zayn estava correndo na minha direção. Revirei os olhos, meus ombros caíram.
– O que você quer?
– Não sabia que você ia depor no julgamento do meu caso.
– Vou fingir que acredito nisso. – Eu disse e dei as costas para ele, tentando ir embora. – Se bem que você certamente é burro o suficiente pra não olhar a lista de testemunhas.
– Juliette, espera. Você… Você tem outro?
Bufei.
– Zayn, o que tivemos foi legal, bonito, mas você estragou tudo, ok? Não vou ter um relacionamento com um drogado, não sirvo pra isso e não quero isso na minha vida.
– Só que eu melhorei e não vou voltar pra lá.
– E por causa disso eu deveria pular no seu colo?
– Não, Juliette, eu só pensei que talvez pudéssemos recomeçar. Eu realmente gostei de você. E sinto que ainda temos alguma coisa.
– Eu nem parei pra te procurar durante o julgamento. Já sabia que você seria o advogado. Se eu quisesse qualquer coisa, teria te procurado.
– Deixa eu te pagar um café pelo menos, como amigos.
– Da última vez que você falou isso, nós transamos.
– Juliette…
– Zayn, por favor, eu tenho que trabalhar.
Ele fez cara de desânimo.
– Eu passo na delegacia então.
Olhei em volta quando ele se afastou para ter certeza de que não havia mais nenhum ser inconveniente. Voltei para meu caminho quase orando para ter paz mas, assim que levantei os olhos, vi Dougie encostado na minha viatura.
– Deixa eu adivinhar… Seu carro quebrou e você precisa de uma carona, convenientemente, pra delegacia.
– Só queria agradecer seu depoimento.
– Não fiz nada demais, só cumpri com o meu trabalho.
– Notei que você não me olhou nos olhos enquanto eu te fazia as perguntas.
– Tive motivos pra isso. Não ia ficar legal se o advogado de defesa desconfiasse de algo entre o promotor e a detetive responsável pelo caso.
– Por quê? Ele teria ciúmes de você?
Arqueei as sobrancelhas.
– Como você sabe?
– Você me disse quando ficamos. É um nome diferente. Quando li, soube de imediato.
Abri o carro com o controle remoto da chave.
– Se você não for mais um que vai me chamar pra comer, eu preciso ir.
– Como você sabia?!
Olhei para ele.
– Dougie, não vai acontecer, já tenho um compromisso.
– Comigo, eu espero. – Ouvi a inconfundível voz de Zayn atrás de mim.
Isso não pode estar acontecendo. Dougie olhou para mim e se despediu com um sorriso travesso cujo significado eu não entendi.
– Não vai olhar pra mim? – Zayn insistiu.
– Eu já mandei você ir embora mais cedo. A minha paciência tá se esgotando. – Eu disse, sem hesitar, colocando imediatamente a mão na arma que estava na minha cintura.
– Vai atirar em mim?
– Se precisar, vou.
– Eu só queria te dizer que eu sou um homem mudado e queria que você…
Entrei no carro e fechei a porta na cara dele. Praticamente arranquei. Se tivesse passado por cima do pé dele, foda-se. Eu havia recebido o dia de folga para estar à disposição do tribunal mas, como tudo acabou mais cedo do que o planejado, aproveitei e fui para casa descansar. Subi as escadas praticamente me arrastando. Ao chegar ao meu andar, me surpreendi com Henry me esperando na minha porta com um buquê de flores e uma barra de chocolate. Meus ombros caíram pela milésima vez naquele dia.
– Parece que não foi uma boa ideia.
– Eu to cansada, Henry.
– E se eu tivesse cansado nas vezes que você apareceu de supetão na minha casa pra pegar assinatura pra um mandado?
Arregalei os olhos.
– Ei. – Ele disse docemente. – Desculpa, não quis parecer agressivo.
– Tá tudo bem.
Eu estava destrancando minha porta enquanto decidia se seria educada ou não com ele. Assim que a porta se abriu, me virei para Henry e, sem jeito, tomei o chocolate e as flores em minhas mãos.
– Como você conseguiu narcisos em Boston?
– Tenho meus contatos. – Ele respondeu, com um sorriso torto.
Olhei para as flores outra vez.
– Obrigada. – Disse.
– Não vai me convidar pra entrar?
– Não acho uma boa ideia, Henry.
– Eu posso fazer aquele cannelloni que você gosta.
– É uma ótima oferta mas, Henry, por favor…
– Tudo bem, Juliette. Se eu puder ajudar de alguma forma, me avisa.
– Só de respeitar minha vontade de ficar sozinha, já tá sendo ótimo.
Ele meio que deu um sorriso, então deu alguns passos na minha direção e, lentamente, aproximou sua cabeça da minha, beijando de forma demorada a minha testa. A mão dele estava na minha nuca e eu senti o corpo inteiro arrepiar. Por que ele sempre tinha que me pegar vulnerável?
Henry manteve o rosto bem próximo do meu e desceu a boca até a minha. Por segundos, não retribui o beijo. Minha única reação foi colocar a mão em seu peito e fazer menção de afastá-lo. Quando olhei para seu rosto, ele estava sorrindo.
– Você não negou. – Ele disse, o tom de voz feliz, e foi embora.
Demorei para me recuperar do transe. Quando finalmente voltei a mim, fechei a porta e liguei para Maitê. Precisávamos beber. Ela me encontrou na minha própria casa e, depois de nos perguntarmos muito se deveríamos fazer aquilo, saímos em direção ao Royale. Bebemos mais do que deveríamos e todos notaram nossa ressaca ao chegarmos juntas no outro dia na delegacia. Ela ficou em seu laboratório, que era no caminho para a minha mesa. Notei o buquê de narcisos depois de me sentar. Imediatamente, tomei o telefone e liguei para Henry.
– Cavill. – Ele atendeu.
– Você não pode ficar mandando flores pro meu trabalho.
– Mas eu não mandei flores praí.
– Você não mandou outro buquê de narcisos pra minha mesa na delegacia?
– Não, Juliette. O que tá acontecendo?
Olhei em volta, Danny estava se aproximando.
– Eu te ligo depois. – Falei e desliguei na cara dele. – E então, Jones? O que você tem de novo pra mim?
– Craig quer te ver na sala dele. – Danny respondeu, não parecendo muito satisfeito.
– O que houve?
Danny olhou para os lados.
– Eu vi você na casa de um dos acusados no caso do Ward.
Engoli em seco.
– Max e eu fomos namorados.
– E estão tentando reatar?
– Sim. – Respondi antes mesmo de perceber o que estava falando. – Essas flores são dele.
– Conveniente, não?
– Não, Danny, é só minha vida pessoal.
– Então vocês não vão se importar de se juntarem a mim e Georgia no Mitral hoje à noite, vai?
Manter a discrição estava começando a ficar mais difícil. Eu hesitei, e estava consciente de que, quanto mais demorasse, mais Danny duvidaria de mim.
– Claro que não, vou ligar pra ele assim que sair da sala do Craig. É só me dizer o horário.
Levantei depressa. Lidava com aquilo depois. O chefe me chamar para uma conversa em particular era mais preocupante. Bati na porta, receosa. Ele me mandou entrar. Estava compenetrado, lendo alguns papéis, quando simplesmente parou tudo e olhou firme para mim.
– De quem são essas flores na sua mesa?
Arqueei a sobrancelha.
– Não sei, por quê?
– Tenho visto que quase todos os mandados que você precisa são assinados pelo juiz Cavill.
– Eu e ele somos amigos.
– Não é o que o Facebook dele diz.
– O quê?!
– De acordo com a página dele, vocês foram namorados e chegaram a noivar enquanto você estava na faculdade.
– Peço perdão pela palavra, mas isso não te interessa.
– Me interessa sim.
– Por quê? Vai dizer que tá apaixonado por mim?
– Eu tenho te dado muitas vantagens esperando que você reconhecesse meu afeto.
– Afeto reconhecido. Muito obrigada. Mas não to a venda.
– Você tava quando queria o cargo de detetive.
– E foi conveniente, porque eu tava cheia de tesão e lá estava você. Um homem alto, forte, bonito, de olhos claros, com sotaque britânico. E, ainda por cima, era meu chefe. Que mulher nunca sonhou com isso?
– Juliette, eu não sei como dizer isso, mas me incomodou você ter recebido flores de outro homem.
– Aqui dentro, eu sou Danté. Sinto muito desagradá-lo, mas não existe nada entre nós.
– Você podia me dar uma chance.
– Até você decidir me dizer que é melhor nos separarmos porque o departamento pode desconfiar? Como se existisse uma regra quanto a isso!
– To tentando me redimir. – Ele quase gritou e se aproximou de mim, ficando a centímetros do meu corpo. – Por favor, podemos tentar de novo?
O hálito dele era de menta. Daniel ainda tinha o costume de estar sempre com uma bala na boca. Por um segundo, lembrei dos momentos inebriantes que tivemos juntos. Ele colocou sua mão de forma suave na lateral do meu rosto e aproximou sua boca da minha. Dei um passo para trás, negando com a cabeça.
– É melhor não.
Saí da sala recomposta e logo convidei Maitê para ir à minha casa no final do expediente. Precisávamos conversar. Ela levou um quadro branco. Encarei-a enquanto ela montava o cavalete na minha sala e, depois, desenhava uma tabela.
– O que é isso? – Perguntei.
– Você já vai ver.


Capítulo 5

Ela listou, um por um e em ordem cronológica, todos os homens com quem eu tinha me relacionado na vida.
– Vamos fazer um jogo e aí você decide quem você vai deixar se aproximar.
– Vamos decidir meu destino com um jogo?
– Tem ideia melhor?
Eu ri.
– Tira o Louis e o Richard.
– Por quê?
– Casados e com filhos.
Ela riu e refez a tabela, agora com sete nomes.
– O Max e o William também.
– Por que tirar eles? – Ela perguntou enquanto reformulava, novamente, a tabela.
– Porque nunca vai acontecer de novo.
– Ok, então temos Zayn, Henry, Dougie e o Craig. Vamos colocar um ponto já pro Henry e pro chefe porque eles são gostosos.
– Isso tá ajudando muito.
– Ou você decide com qual deles você vai voltar, já que todos misteriosamente estão por perto, ou você arruma outro cara corpulento e gostoso pra fazer você esquecer deles e meter a porrada em um dos ex. Caso seja necessário, é claro.
É claro. – Repeti, revirei os olhos e dei um outro gole na minha taça de vinho.
Depois do porre, Maitê acabou ficando no meu apartamento pela noite. No outro dia, já nem estranharam que chegássemos juntas à delegacia. Inclusive, havia alguns rumores de coisas estranhas estavam acontecendo entre nós. Para a gente, era motivo de piada.
Notei de longe o envelope pardo em cima da minha mesa. Também notei Danny, sentado em sua mesa, olhando para a minha de cara fechada. Lembrei na hora que havia esquecido da noite passada. Por sorte, o banheiro feminino ficava no caminho. Entrei rapidamente e puxei o celular do bolso. Enquanto Max não atendia, chequei todas as cabines para ter certeza de que estavam vazias.
– Preciso que você venha aqui na delegacia e simplesmente me dê um beijo. – Fui objetiva, sussurrando o mais baixo possível.
– O quê?! – Max perguntou, assustado do outro lado.
– Isso que você ouviu. Pra nos proteger, eu inventei que eu e você estávamos tentando reatar nosso relacionamento e agora estão duvidando. Preciso provar isso ou vão procurar saber qual a razão por trás da minha visita à sua casa na noite do suicídio do Ward.
– Chegar e te beijar? – Ele repetiu.
– Sim, simplesmente isso. Haja como se fosse normal, vou fazer o mesmo.
– Perfeito.
Desliguei e, logo depois, liguei para Maitê.
– O que você esqueceu? – Ela atendeu.
– Se o Jones perguntar, ontem você passou mal de noite e eu fui te socorrer, ok?
– Ok, mas…
– Eu conto depois. Prometo.
Desliguei sem me despedir também e saí correndo do banheiro, não sem antes deletar as duas últimas ligações do registro.
– Danny! Me desculpa, a Maitê passou mal ontem e ela acabou ficando lá em casa.
– Você tá mentindo pra mim, Danté.
O sobrenome foi quase como uma facada. Ele nunca me chamava pelo sobrenome.
– Danny, eu juro que não to mentindo.
– Eu não acredito.
– Ótimo! De qualquer forma, você vai ver o Max hoje e tirar suas próprias conclusões.
Ele olhou para mim surpreso.
– Se quiser, tira meu celular, meu computador, qualquer forma de comunicação. Vai ver que não combinei com ele isso em cima da hora e vai parar de duvidar de mim.
Danny parecia surpreso. Então ele se levantou e empurrou sua cadeira até a minha mesa.
– Você conhece algum jogo pra dois na internet?
Ficamos jogando xadrez até que eu, simplesmente, senti uma mão tapando meu olho. Segurei a mão e me levantei. Mal pude abrir os olhos, Max já colou sua boca na minha, exagerando. Ele não parava mais de me beijar e eu estava quase o empurrando para longe. Quando terminou, me olhou com um sorriso de orelha a orelha e um brilho nos olhos. Sua outra mão continha um buquê de narcisos. Outro.
– Então você foi o cara do buquê do outro dia? – Danny perguntou, estendendo a mão. – Eu sou o Jones, parceiro da Juliette.
– Ouvi falar de você. Eu sou o Max. – Ele disse enquanto os dois se cumprimentavam. – Meu amor, será que a gente poderia ir na cafeteria lá embaixo pra falar sobre a história de ir visitar meus pais?
Olhei para Danny, que parecia aliviado, e ele assentiu. Descemos de elevador, sozinhos.
– Vai me explicar?
– Já te expliquei tudo o que você precisava saber na ligação. E você podia ter sido menos intenso.
– Aí perderia a graça.
O elevador chegou ao térreo e ele saiu. Quando percebeu que eu não seguia ao seu lado, virou-se para mim.
– Nunca vai acontecer nada entre a gente, Max.
– A chance é zero?
– É menor que zero.
Ele parecia decepcionado.
– Bem… Se precisar de alguém pra te beijar de novo, estarei à sua disposição.
Assenti, com um leve sorriso, e voltei para meu andar após me demorar um pouco. Depois daquele susto, minha mente estava no envelope em cima da minha mesa. Passei pelo laboratório de William no caminho, mas não era nada dele. Cheguei à mesa e Danny estava se arrumando para sair.
– Tá mais tranquilo?
– Você sabe que eu to.
– Onde você vai?
– Interrogar de novo aquele mecânico suspeito de ter assassinado a senhora Griffiths. Quer me acompanhar?
– Esse envelope é seu? – Perguntei, apontando pra minha mesa.
– Não, já tava aí quando você chegou.
– Pode ir indo. Vou ver do que se trata e já te procuro.
Sentei à mesa e assisti enquanto ele se afastava. Quando perdi Danny de vista, peguei o envelope e abri. Havia uma boa quantidade de folhas lá dentro, mas a primeira chamou logo a atenção. Em letras pequenas, logo na parte de cima, havia o único texto da página: “abra em lugar seguro e longe de qualquer pessoa”. Pensei, logo, que não havia lugar mais seguro que a delegacia. Puxei o resto dos papéis para fora do envelope. Assim que virei a primeira página, senti uma pontada no coração.
Havia uma ficha contendo dados da minha mãe. A foto era antiga, provavelmente da época que eu tinha uns cinco anos. Os dados eram simples, fáceis de se conseguir com um histórico médico. Eu já conhecia aquilo tudo, então virei a página. Havia um detetive francês que atendeu o chamado quando meu pai ligou para a emergência, informando que havia encontrado o corpo da minha mãe, desacordado, em cima da cama, e ele havia investigado, tanto quanto conseguiu e extraoficialmente, a morte da minha mãe. Li rapidamente, e as palavras “suicídio forjado” e “marido infiel” praticamente pularam da folha na minha direção.
Devolvi logo os papéis para dentro do envelope e os coloquei dentro da minha bolsa, prendendo ela junto ao meu corpo imediatamente. Corri na direção da sala de Craig, de quem eu não podia fugir. Decidi usar seu afeto por mim como vantagem e pedi para tirar o resto do dia de folga. De lá, corri para o escritório de William, pedindo que ele desse uma olhada nas câmeras de segurança da delegacia e detectasse quem havia deixado o envelope na minha mesa. Desci para meu carro nervosa. Coloquei a bolsa lá dentro quando escutei uma gritaria.
Quando o tal mecânico que Danny estava entrevistando saiu de dentro da delegacia correndo, não precisei pensar duas vezes. Puxei a arma do coldre e explodi na direção dele. Gritava incessantemente para que as pessoas na calçada saíssem da frente. Em certo ponto, o suspeito tropeçou e caiu. Sem ter tempo para pensar, caí em cima dele, imobilizando-o. Olhei para trás e Danny, exausto, estava chegando. Meu coração palpitava.
– Que porra foi essa? – Perguntei a Danny, que me passou as algemas.
– Problemas. – Ele respondeu, as mãos no joelho.
O homem ainda tentou resistir mas Danny, que era mais forte que eu, conseguiu segurá-lo.
– Foi sorte ter você aqui.
– Eu to saindo. Pedi ao Craig o dia de folga.
– Tá tudo bem?
Olhei para ele, esperando não ter que dar explicações.
– Eu te respondo amanhã, ok?
Ele assentiu.
– Foi uma boa prisão.
– Foi sorte. – Brinquei.
Tive que esperar um pouco para que meu coração se recuperasse do susto. Assim que fiquei bem, praticamente voei para minha casa. Entrei sem olhar para os lados e tranquei a porta. Não esperei para sentar no sofá e reabrir o envelope. Deixei de lado novamente as duas primeiras páginas e me preparei para verificar mais a fundo o texto.
O detetive Pierre Dousseau era da polícia parisiense quando minha mãe morreu. Ele acabou em nossa casa no dia da morte de minha mãe porque estava por perto. Seu irmão, René, era o legista que examinou minha mãe. Ele afirmou, em seu relatório, que a autópsia indicava que ela havia sido sufocada e que havia sido violentada após sua morte. Além disso, possuía níveis consideráveis de calmante no sangue, além de antidepressivos. Dentro de seu corpo, foi encontrado o DNA do meu pai, mas ele foi descartado como suspeito. Algum superior deu ordens para que tudo fosse descartado e que o assunto nunca mais fosse trago à tona.
Meu coração estava acelerado. Meu pai sabia daquilo tudo e não havia me contado antes. Pensei logo em ligar para ele e tirar satisfações, mas passei para a próxima página. Havia, junto com os relatórios dos irmãos Dousseau, fotos de meu pai em momentos íntimos com várias mulheres. Nenhuma delas era minha mãe. Eu senti meu peito sendo esmagado por uma dor indescritível. Mesmo assim, não conseguia derramar uma lágrima.
Li um pouco mais, até aguentar. Os fatos eram terríveis. Ao terminar, fui até a cozinha e tomei uma taça de vinho. Depois de anos, eu descobrira que minha mãe havia sido assassinada e não tinha tido um ataque cardíaco, como meu pai me contara na época. Mas eu não havia garantias de que aquilo fosse verdade, então coloquei meu lado detetive para funcionar. Liguei para William na mesma hora.
– Conseguiu alguma coisa nas filmagens?
– Nada, Juliette. Houve uma falha no sistema de segurança. Quando as câmeras voltaram a funcionar, a pasta simplesmente estava lá.
– Como assim, William?!
– Eu não sei o que aconteceu. A equipe da segurança tá tentando resolver.
Bufei.
– Olha só, preciso que você investigue duas pessoas pra mim e consiga o máximo de informação possível. Como sempre, em segredo.
– Me dá os nomes.
– Pierre e René Dousseau. Se essas pessoas existirem mesmo, são irmãos.
– Franceses?
– Sim.
– Não sei se vou conseguir muita coisa, mas eu te ligo.
Esperei ansiosamente até que, bem tarde da noite, William me ligou e pediu para que eu fosse até a delegacia. Dirigi sem muita paciência até lá. O lugar estava vazio e, o mais importante, sem Craig no meu pé. Entrei no laboratório dele em silêncio.
– Os dois nasceram na capital. Trabalharam pra polícia lá. Um era detetive, como você, e o outro, legista. Nos dias atuais, moram em Paris e Versalhes, respectivamente. Ambos foram exonerados em dezembro de 2007 e…
Enquanto ele falava, minha mente trabalhava sozinha. Dezembro de 2007, um mês depois de minha mãe morrer. Definitivamente, as coisas batiam.
– Deixa isso tudo pra lá. Você me consegue o contato deles?
– Já tá tudo aqui. – William disse, me passando alguns papéis.
Assenti e corri de volta para casa. Não me importava quanto custaria a ligação internacional. Falei sozinha durante o caminho, treinando um pouco meu francês enferrujado. Assim que entrei, busquei pelo telefone. A voz de um homem atendeu.
– Olá, poderia falar com o senhor Dousseau?
– Você está falando com ele, senhorita. Em que posso ajudá-la?
– Senhor Dousseau, meu nome é Juliette Danté. Sou detetive da polícia de Boston, em Massachusetts, nos Estados Unidos, mas sou parisiense. O senhor investigou a morte da minha mãe no passado e chegou ao meu conhecimento que o senhor e seu irmão tinham provas de que ela não sofreu um infarto como consta na certidão de óbito.
Ouvi a respiração dele do outro lado da linha por um bom tempo, parecia tenso.
– A senhorita não deveria ter tomado conhecimento disso.
– Mas, senhor, por favor, é a minha mãe. O senhor foi detetive como eu sou agora. Tenho certeza de que, se o caso estivesse acontecendo com o senhor, também procuraria por respostas.
Ele respirou fundo mais algumas vezes.
– A senhorita disse Boston, certo?
– Sim, Boston. Por quê?
– Se há alguém disposto a fazer a justiça que eu não fiz quando deveria ter feito, não me importo de gastar um pouco do meu dinheiro com uma visita breve aos Estados Unidos.


Capítulo 6


Cheguei à delegacia no outro dia tensa. Não havia dormido direito. A bomba de novidades tinha me feito muito mal. Para o meu coração, a corrida do outro dia não era nada comparado a descobrir que minha mãe tinha sido assassinada dentro de nossa própria casa enquanto eu dormia no quarto ao lado.
Ela havia me dado um beijo de boa noite, como sempre fazia. Não lhe importava que eu já tivesse meus 16 anos, ainda era o bebezinho dela. Fui dormir normalmente e acordei com as sirenes. Meu pai parecia calmo, mas imaginei que fosse o choque. Não vi o corpo de minha mãe morta em nossa casa porque não permitiram. Imaginei que ela estava horrível, mas tudo estava normal no velório. Eu era criança ainda, praticamente, e não sabia como me sentir. Meu pai sempre estava viajando e minha mãe, desde que engravidou de mim, largara tudo para ficar em casa cuidando da única filha. Tudo o que eu me perguntava era o que seria de mim agora que tinha perdido minha mãe. Dois anos depois, minha vó, a única parente com quem eu ainda tinha contato, também morreu, mas de causas naturais. Nessa época, ela estava morando em Nova Iorque comigo. Eu e Zayn já estávamos juntos.
Danny já havia me chamado várias vezes, mas eu estava aérea. A delegacia estava lotada e nós precisávamos trabalhar, mas eu estava inútil. Já havia respondido que estava bem para mais pessoas do que saberia dizer, mas tudo o que ocupava minha mente era que, no dia seguinte, eu me encontraria com o homem que sabia a verdade sobre a morte da minha mãe.
Era bem cedo quando a campainha tocou. Levantei com um pulo. Recebi os dois irmãos Dousseau com um grande sorriso nos lábios, mas tensa por dentro. Eles traziam consigo uma mala de rodinhas grande. Ofereci um café. Quando eles terminaram, levei as xícaras para a cozinha e voltei para a sala. Nós três nos encaramos brevemente, então Pierre abriu a sua mala. Estava cheia de papéis.
– Isso é tudo que temos referente ao caso da sua mãe.
– O que aconteceu?
Os irmãos se entreolharam.
– Fomos ameaçados. – René disse. – Um belo dia, cheguei em casa e tudo tinha sido revirado. Por sorte, minha mulher estava com nossos filhos na casa da mãe.
– O que vocês descobriram na investigação?
– Minha cara, você deve imaginar que foi curta, então não temos muitos dados. O que posso afirmar é que as lesões encontradas… Hm… Me perdoe, sei que se trata de sua mãe…
– Não precisa se preocupar. Depois de descobrir que ela foi assassinada, nada mais me surpreenderia.
René respirou fundo.
– As lesões encontradas na vagina da sua mãe foram feitas após sua morte.
– Ela foi violentada depois de morrer? – Perguntei, mais assombrada do que gostaria de estar.
– Com certeza. E foi sufocada, com um travesseiro. Encontrei fibras na garganta dela compatíveis com uma fronha que estava no cesto de roupa suja.
– Meu pai matou ela. – Constatei.
– Acreditamos que sim. – Pierre disse, o tom de voz suave, como se quisesse me consolar. – Não pudemos nos aprofundar muito na investigação, como já dissemos.
– E o que seria necessário para reabrir essa investigação?
– Não é possível. Já houve tentativas, por parte de diferentes pessoas, mas sempre há algum problema.
– O dinheiro do meu pai. Comprou tudo, por que não compraria isso? – Eu gritei, me levantando do sofá, completamente instável.
– Senhorita Danté, sentimos muito que tenha que descobrir isso dessa maneira. Viemos aqui porque acreditamos que a justiça deveria ser feita.
Olhei para os dois irmãos.
– Se eu investigar extraoficialmente daqui, teria como isso ser rastreado de Paris?
– Não sabemos. – René respondeu.
– Acredito que não.
Assenti, olhando para além da minha janela. No prédio vizinho, uma mulher ninava a filha que, pelo que eu tinha notado, nascera a pouco tempo. Tomei a decisão pensando em quantas vezes minha mãe me ninara daquela mesma forma.
– Vou voltar a investigar em segredo. Se as coisas ocorreram do jeito que os senhores me contaram, acho vantagem que não voltem a entrar em contato comigo e esqueçam que eu existo. Não contarei a ninguém sobre o nosso encontro.
– Não temos nada a temer. Somos dois velhos esperando pela morte.
Olhei nos olhos dos dois uma última vez.
– Não se mudem. Se eu precisar ir à França, sei onde encontrá-los.
Voltar para a delegacia depois daquela enxurrada de informações e fingir que estava tudo bem não foi exatamente uma das coisas mais fáceis que eu já fiz na vida, mas era necessário. No fundo, eu esperava que o trabalho pudesse me distrair de todas as minhas descobertas recentes. Ao sentar à minha mesa na manhã daquele dia, eu tive mais certeza do que nunca que tudo podia sempre piorar.
Zayn estava sério, com o mesmo ar de mistério que me conquistara anos atrás. Todas as meninas do colégio me invejavam porque, no final do dia, era a mim que ele visitava. Eu sempre havia sido muito antissocial, gostava de poucas pessoas e, geralmente, era a pessoa mais filha da puta que eu conhecia. Ao contrário do que muitos achavam, eu não era revoltada por meu pai ter me abandonado em um colégio em outro continente. Eu apenas era antissocial.
Um certo dia, eu estava indo a uma loja de ração próxima da casa onde eu morava – meu pai, é claro, pagava todo conforto possível para que eu não precisasse entrar em contato com ele para nada. Eu tinha comprado um aquário grande para a minha casa e queria comprar os peixes. Saí animada, sem ligar para a longa caminhada até meu destino. Quando cheguei à frente da loja, estava distraída olhando para a vitrine e esbarrei em alguém. Olhei para cima e o vi sorrindo.
– Desculpa. – Eu disse, completamente envergonhada.
Dei um passo para o lado e segui meu caminho até a porta da loja, que estava a uns três metros de onde o meu pequeno acidente ocorreu. Meu mal foi ter olhado para trás antes de entrar. Ele também estava olhando para mim. Mais envergonhada ainda, entrei na loja correndo. Só não corria mais que Zayn, que entrou todo esbaforido.
– Eu sei que vai parecer estranho, – Ele disse, parando para respirar. – mas seria muito ruim saber quem é você?
Eu ri.
– Juliette.
– Zayn. – Ele disse, apertando minha mão.
Acabamos escolhendo os peixes juntos e ele me ajudou a levá-los até em casa. Na manhã do outro dia, Zayn estava lá na minha porta, apertando a campainha insistentemente.
Nós não éramos nem um pouco diferentes. Zayn também era bem filho da puta e gostava menos de pessoas do que eu. Isso nos uniu de uma forma incrível. Quando não estávamos em aula, estávamos juntos, na minha casa ou na casa dele. Descobríamos, aos poucos, que éramos mais parecidos do que imaginávamos. Seu pai também tinha vontade de se livrar dele. Ele também era europeu, nascido em Bradford, no norte da Inglaterra. Infelizmente, Zayn também havia perdido a mãe.
Minha primeira vez – e a dele também – foi seis meses depois de começarmos a namorar. Era surpreendente, olhando com os olhos de uma mulher madura, que tivéssemos demorado tanto para irmos para a cama, mas sempre houve muito respeito dele por mim, então tinha certeza que isso causou o atraso. Também, depois de começarmos, não paramos mais. Nossas notas na escola caíram lentamente. Chamaram a atenção dos nossos pais, mas nenhum dos dois se importou.
O problema começou quando Zayn deixou de ser o antissocial que eu conhecia e começou a se relacionar com outras pessoas. Não era ciúmes, era meu senso de “certo e errado” gritando. Harry, Liam, Louis e Niall eram as únicas pessoas com quem ele falava além de mim até que algo aconteceu. Harry saiu do colégio e voltou para a Inglaterra, de onde também era. Liam tentou manter contato quando se mudou por causa do trabalho dos pais, mas não deu certo. Niall, irlandês, também voltou para casa. Ficamos eu, Zayn e Louis. Aí Zayn começou a procurar outros caras, mas esses caras eram barra pesada.
Nessa época, eu e Louis ficamos próximos, nos unindo para tentar tirar Zayn da furada. Nunca pensamos em nos envolver antes de eu e Zayn estarmos definitivamente separados. Ele tentou muito me fazer voltar atrás na minha decisão de deixá-lo, mas eu mantive o pé no chão. Senti muita dor quando tive que me afastar dele. Eu sabia que ia me meter em furada se continuasse por perto e sabia, acima de tudo, que os pequenos delitos que ele estava cometendo poderiam me atrapalhar na faculdade de Direito.
Vê-lo ali, na minha frente, não era muito fácil. A menininha que tinha se entregado de corpo e alma para ele, anos atrás, ainda estava dentro de mim, em algum lugar. Respirei fundo e tentei focar minha mente. Precisava ser profissional. Se deixasse meus hormônios tomarem conta de mim, ia pular no colo dele, tirar suas calças e fazer tudo ali, em cima da minha mesa, na delegacia. Não que a ideia fosse muito ruim, mas…
– O que você quer?
– Vim ver meu cliente que vocês estão interrogando sem a minha permissão.
– Seu cliente?!
– Sim, Oliver Edwards.
– Desde quando você pega casos de homicídio?
– Desde quando descobri que minha ex é detetive da Homicídios.
Olhei para ele de cima a baixo.
– Oliver não é meu suspeito. É do Wright.
– Não de acordo com esse documento aqui.
Zayn estendeu uma folha de papel na minha direção. Era um documento, assinado por Craig, afastando Wright e seu parceiro do caso. Eu e Danny éramos os próximos na linha de sucessão. Por sorte, Danny estava passando por nós na hora. Assoviei e ele soube que era eu. Olhou para mim e fez, com a mão, um sinal para que eu esperasse. Merda.
– Se quiser ver seu cliente, ele tá na sala de interrogatório 3.
– Não sei onde fica. Você poderia me mostrar?
Revirei os olhos. Levantei de má vontade da cadeira para que ele me seguisse. Os olhos de Craig, na porta de sua sala, estavam fixados em mim. Ele provavelmente estava ligando os pontos e visto que havia feito algo contra sua louca vontade de me conseguir de volta. Parei à frente da porta da sala de interrogatório.
– Não vai entrar comigo?
– Pra quê? – Questionei. – Acabei de descobrir que peguei o caso.
– Você pode aproveitar pra conseguir informações privilegiadas, já que o advogado de defesa pode simpatizar com você.
– Não sou antiética.
– Não foi o que eu ouvi sobre o caso do suicídio que ocorreu aqui dentro recentemente.
As palavras de Zayn me atingiram como bala.
– O Danny vai interrogar seu cliente. Eu to fora do caso.
– Com qual justificativa?
– Estou emocionalmente comprometida. Sou ex do advogado do investigado. Sei jogar também, Zayn. Não me provoca. Você não vai querer ver uma mulher armada irritada.
– Eu tava interessado, na verdade, nas algemas.
Não pensei duas vezes. O tapa na cara dele ardeu na minha mão.
– Vou te denunciar à ordem.
– E você acha que a ordem não vai estranhar o suicídio de um cara que tinha acusado seu ex?
– Eu não tenho nada a ver com isso.
– Seria coincidência demais.
– Zayn, eu não estava aqui e todo contato meu com o Ward foi gravado pela câmera da sala de interrogatório. E tomara que você seja um ótimo advogado, o que eu sei que não é pelo seu histórico. Vou te processar por calúnia. E pode dizer que o juiz que, sem querer, vai pegar meu caso é meu ex também. Aliás, esse caso vai ser devolvido ao seu detetive original mais rápido do que você pensa.
– Juliette…
– Eu disse pra não me provocar. – Falei e lhe dei as costas.
Andei firma até a sala de Craig, os punhos cerrados. Minha vontade era de socar a parede, mas minha sanidade não permitiu.
– Quem é aquele? – Ele perguntou, sem esperar que eu dissesse alguma coisa.
– Meu ex. Já tá pronto pra devolver o caso pro Wright?
– Foi por isso que ele veio me pedir pra mudar o detetive do caso?
– Provavelmente.
Daniel puxou um papel de uma de suas gavetas, preencheu e o assinou.
– Obrigada. – Eu disse, tomando o papel em minhas mãos.
Voltei para Zayn, que estava ainda no mesmo lugar. Sem dizer nada, joguei o papel na direção dele.
– Juliette, espera! – Ele gritou.
Eu ignorei. Zayn era charmoso, sim, e poderia me seduzir facilmente de novo, mas ele havia acabado com as chances dele depois de usar as palavras que havia me dito. Passei na minha mesa e peguei a arma e o distintivo. O casaco estava na cadeira, pendurado. Não estava frio, mas eu gostava de poder usá-lo. Saí da delegacia de mau humor e sem olhar para trás.


Capítulo 7


Acordei cedo no sábado e saí para correr. Era o meu primeiro dia de folga depois daquela semana turbulenta e eu precisava esvaziar minha mente mesmo sabendo que, a qualquer momento, meu telefone poderia tocar e eu teria que voltar para a delegacia. Por isso mesmo, deixei o celular em casa. Pelo menos teria uma hora de tranquilidade. Mas o telefone não tocou e, quando cheguei em casa e chequei o celular, consegui respirar tranquila. No canto do meu quarto, a mala que Pierre e René haviam deixado para mim me esperava. Tomei um banho e vesti um moletom confortável. Só depois me sentei na cama para estudar aqueles papéis.
Tudo estava muito vago, na verdade. A autópsia era o que mais me interessava. Tudo que René havia descrito era completamente contrário ao que eu havia escutado na época. Os relatórios de Pierre também eram contrastantes com a estória que meu pai tinha contado. Não havia nenhum indício de que qualquer outra pessoa pudesse ter entrado em nossa casa e, se não havia nenhum indício, é porque não havia outra pessoa lá.
Meu pai era safado, não havia outra palavra para descrevê-lo. Até mesmo eu, que ainda era nova, sabia que ele traía minha mãe. Costumava me perguntar a razão pela qual minha mãe não pedia o divórcio. Eles tinham um acordo pré-nupcial e, comprovando a traição, ela ficaria bem depois de se separar do meu pai. Meu problema de relacionamento com ele já vinha daquela época. Minha mãe morrer foi só a gota final.
Mesmo assim, era difícil acreditar que meu pai pudesse estar envolvido no assassinato de minha mãe. Era difícil acreditar que ela havia sido assassinada, para começo de conversa. Na minha mente, tudo aquilo estava confrontando com o que eu achava que era verdade. Não dava mais para desistir. Eu só teria paz quando descobrisse a verdade. Mas eu ainda tinha que trabalhar.
Se a corregedoria soubesse que eu estava investigando um caso fechado de outro país, provavelmente eu ia me ferrar – e levar Danny junto comigo. Mais do que nunca, eu precisava manter a discrição. Foi aí que eu decidi esconder dele e de Maitê, as pessoas mais próximas de mim, que eu estava quebrando algumas leis. Eu, é claro, tinha aquele senso de justiça que qualquer detetive teria, mas meu amor por minha mãe foi mais forte do que eu.
– Tem alguma coisa errada. – Danny observou quando eu me sentei à sua frente.
– O quê?!
– Você tá toda tensa. E nem foi falar com a Maitê hoje.
– Não sou mulher dela.
– Não é o que parece… Aliás, seu ex esteve aqui antes de você chegar…
– Zayn?
– Pelo nome, acho que é ele sim. Mandou eu ficar de olho em você.
Revirei os olhos e baixei minha cabeça até o tampo da mesa, resmungando algo que nem eu entendi.
– Craig tá vindo aí. – Danny sussurrou. – Ele vai matar a gente.
Eu me ajeitei rapidamente na cadeira. Nosso chefe jogou uma pasta em cima da divisória entre nossas mesas. Podia ouvir o pé dele batendo no chão.
– Eu quero saber porque tem uma mulher na minha sala que ainda não tá vendo o assassino do irmão dela atrás das grades.
– Nós estamos trabalhando, tenente. – Danny disse.
– Não o suficiente, pelo jeito. Já mandei darem prioridade a esse caso.
Tenente, – Eu disse, forçando um tom de voz diferente. – podemos conversar em particular?
Ele olhou firme para Danny, que se afastou imediatamente.
– Diz tanto que se importa e quer ter um relacionamento comigo que colocou meu caso nas mãos de um ex que anda me ameaçando, e agora tem interesse repentino em uma mulher, imigrante ilegal, que não tem ligação nenhuma com você.
– Não é isso que você tá pensando, Juliette. – Ele disse com o tom de voz preocupado.
Eu ri.
– Não me importa se é ou não. Me importa que você venha aqui gritar comigo e com meu parceiro por causa de um capricho seu.
– Você e o Danny estão tendo um caso?
– Claro que não, Danny é casado. E eu não sou mais a mulher que você comeu no ano passado.
– E o que eu posso fazer pra conquistar essa mulher?
– Não ser você. – Eu disse.
– Danté. – Wright me chamou na hora. – Vamos fazer uma batida e precisamos de reforços.
Dei uma última olhada em Craig antes de ir para o vestiário me preparar.
Ser detetive era muito legal. Toda a ação eliminava qualquer possibilidade de tédio. Sempre tinha novidade e você sempre podia ter a chance de atirar em alguém. Era bom, principalmente no período do mês em que eu estava de TPM. Não tinha colegas para me entenderem quanto isso, pois era a única mulher, mas os homens da delegacia viam isso como uma coisa a se temer. Só tinha um grande problema nisso tudo: a burocracia.
Foram efetuadas dezessete prisões no porão de um hotel antigo, relativas a uma quadrilha investigada por tráfico humano. Poder meter a porrada em uns filhos da puta como aqueles homens era satisfatório. Chegar na delegacia e ter que preencher uma pilha de papéis sem sentido, nem tanto. Eu estava exausta, com os braços doloridos, e tinha que escrever mais coisa do que escreveria em um ano letivo na escola. A pior parte é que isso sempre acarretava em ficar depois da hora na delegacia, ainda mais se você desse um tiro. Cada bala cobrava seu preço, e era um preço muito caro.
Corri para me livrar de ficar com Craig lá, mas uma lesão antiga no pulso da minha época de criança não permitiu que eu escrevesse tão rápido quanto gostaria. Um por um, meus colegas foram deixando a delegacia enquanto eu ficava lá, cada vez mais desesperada e sem vontade de aturar Craig e suas investidas.
Assinei a última folha com uma forte dor de cabeça. De olhos fechados, praticamente me arrastei até a sala de Craig para entregar os papéis. Entrei na sala sem bater, como costumava, já que eu o tinha em minhas mãos. Quando olhei finalmente para ele, seu olhar não parecia um dos melhores. Então, em silêncio, ele apontou para o lado oposto da sala. Zayn estava sentado em seu sofá.
– O que você tá fazendo aqui?!
– Também gostaria de saber. – Craig disse, mais sério do que deveria.
– Bem, eu estou redigindo um artigo com um amigo psiquiatra sobre estereotipias em homicidas.
– Aí você vai fazer isso justamente na minha delegacia?
– Sua delegacia tem os melhores números em um raio de quilômetros. – Zayn disse, seguro de si e com aquele sotaque arrogante de britânico metido à merda.
– Nova Iorque tem mais crimes do que Massachusetts, Zayn. – Eu falei.
– Mas Massachusetts fica mais perto da Inglaterra.
– Quinze minutos a mais dentro de um avião realmente fazem muita diferença.
– Eu tenho família em Boston.
– Se vocês dois namoraram, você deveria saber disso, Danté.
Olhei imediatamente para Craig.
– Como você sabe que nós dois namoramos? Você falou, Zayn?
Ele negou.
– Andou me investigando, Craig?! – Perguntei, praticamente gritando. – Quem te deu esse direito?
– Juliette, se acalma…
– Me acalmar o cacete! Você tá fodido na minha mão, Craig, fodido.
Deixei a sala pisando forte. Sem paciência para esperar o elevador, desci as escadas bem mais rápido do que de costume. Estava abrindo a porta do meu carro quando senti uma mão no meu braço. Estava pronta para reagir quando dei de cara com os olhos profundos de Zayn.
– Por que você tá fugindo de mim?
– Não to fugindo de você.
– Não quer que eu fique perto de você de novo.
– Porque eu não sou mais boba e inocente de cair nos seus encantos. Além do mais, você acabou de ser advogado de defesa num caso onde eu fui a detetive que achou o culpado. A corregedoria poderia ligar os pontos. Eles são filhos da puta, inventam problema até onde não tem.
– Tá negando a oportunidade de voltar comigo com medo de perder sua carreira?
– Você acha que foi meu único, Zayn? Nem o último você foi!
– Eu só fiquei em Boston por você.
– Perdeu seu tempo. – Eu disse, tentando entrar no carro.
– Por que não podemos tentar? Você perderia tanto assim me dando uma nova chance?
– Não quero ficar com ninguém agora, Zayn. Cada homem que surgiu na minha vida acabou sendo uma decepção, de uma forma ou de outra. Eu não to pronta pra me foder de novo.
Seu olhar parecia um pedido de desculpas. Ele realmente sentia muito, isso era claro, mas não era suficiente. Olhei para sua mão, segurando a porta do meu carro, e ele entendeu. Dirigi até em casa com o coração partido. Parecia que as dores que eu senti com cada término tinham voltado, todas de uma vez. Provavelmente, era o caso da minha mãe que estava me sensibilizando. Era horrível.
Eu me sentia desolada enquanto estacionava na frente do meu prédio. Todo o mundo parecia muito mais lento. Tirei minha bolsa do banco do passageiro. Eu observei as pessoas que passavam na calçada por um bom tempo antes de subir as escadas. Quando cheguei ao corredor do meu apartamento, Henry estava batendo na minha porta. Não pensei duas vezes. Eu estava me sentindo sozinha e com o coração quebrado e ele estava lá – coincidência demais para não ser o destino me dando um sinal.
Olhei para ele e, com passos firmes, caminhei até chegar perto o suficiente para beijá-lo. De início, Henry não entendeu muito, claro, mas logo passou a retribuir o beijo. Abri a porta de casa às cegas, não estava vendo nada. Sem palavras, nós nos arrastamos até meu quarto, Henry o conhecia bem. Eu parecia delirar enquanto ele tirava minha roupa e beijava a minha pele. Ele tirou a camisa. Seu corpo quente no meu parecia mais certo do que nunca, mas isso me fez voltar a mim. Com dor, eu o afastei. Henry olhou, curioso, para mim.
– O que houve?
– Não posso. – Sussurei, ofegante. – Não é justo com você.
– O que não é justo comigo?
Aquela voz era demais para mim. Ele era diferente de todos os outros por causa disso. Geralmente, minha coisa com homens era motivada por um pequeno espaço entre minhas pernas. Henry tinha tudo o que era necessário para me fazer querer viver aquilo com ele também, principalmente o corpo. Sem medir palavras, Henry era muito gostoso. Mas ele tinha um tempero tão mais importante que seus músculos bem definidos – músculos esses dos quais eu bem me lembrava – que acabava fazendo com que eu me apaixonasse mais facilmente do que deveria.
– Eu não to bem. Não posso descarregar minhas frustrações em você.
– Que frustrações?
Pensei mil vezes antes de abrir a boca.
– Encontrei um ex hoje. Ele me perguntou qual o motivo de eu não dar uma segunda chance a ele.
Henry sorriu, delicadamente, parecendo frustrado – e deveria estar. Então se deitou ao meu lado e puxou meu corpo para perto do seu.
– E o que você respondeu?
– Que todo homem que entrou na minha vida quebrou meu coração.
– Todo?
Eu assenti.
– Inclusive eu?
Olhei nos olhos dele. Sentia vontade de chorar.
– Por que eu quebrei o seu coração?
– Você foi embora, Henry.
– Mas você sabia que eu ia voltar.
– Eu te esperei, mas você não me procurou quando voltou.
– Achei que você não quisesse que eu te procurasse! – Ele gritou.
Eu me encolhi. Estava me sentindo um pedaço de merda, na falta de palavras melhores.
– Me desculpa. – Henry disse, mas suavemente dessa vez. – Eu só não sabia o que fazer.
Ele me puxou pra mais perto ainda e me aninhou em seus braços. Eu dormi por exaustão depois de ouvir, por longos minutos, seu coração bater.
Quando acordei, estava sozinha na cama. Considerei que pudesse ter sido um sonho, mas o lençol estava muito desarrumado para ser só eu. Respirei fundo, me espreguiçando. Um aroma de manga invadiu minhas narinas. Olhei para o lado da cama e, na minha mesa de cabeceira, estava um copo de suco e um croassaint. Embaixo do prato, um guardanapo com algo escrito nele. Estendi minha mão e o peguei.

“Se for dar uma segunda chance a alguém, dê pra mim.
Bom apetite.”


Sorri. No fundo, me sentia culpada por estar gostando daquilo. Só então olhei para o relógio na parede do meu quarto e notei que não havia escutado o despertador. Eu estava muito atrasada para o trabalho. Comi o café da manhã que Henry deixara para mim praticamente sem mastigar. Quando cheguei no trabalho, Craig estava de cara feia. Lembrei da noite anterior. Se ele estava me investigando, saberia sobre Henry. E, quem sabe, ele não fosse o motivo daquela carranca.


Capítulo 8


Se tudo desse certo, Henry não entenderia aquela noite como um retorno para nós. Primeiro, eu precisava controlar Craig no trabalho. Dei uma desculpa de que precisava visitar uma testemunha e saí da delegacia, com um Danny desconfiado no banco do carona.
– Por que você precisa ver o Poynter? – Ele perguntou.
– Segredo de justiça.
Meus passos eram largos e rápidos nos corredores do prédio onde o escritório de Dougie ficava. Henry, como juiz, poderia passar por ali a qualquer hora. Estava tão desconfiada que, quando cheguei à sua porta, simplesmente entrei sem bater. Dougie pulou na cadeira.
– O que houve?!
– Preciso da sua ajuda.
Ele ajeitou uns papéis que estavam em cima da mesa e se levantou.
– Achei que ainda não tínhamos um caso novo.
– Não tenho. Isso é pessoal.
Dougie arqueou as sobrancelhas.
– Do que você precisa?
– Preciso tirar o Craig da chefia da delegacia, de alguma forma.
– O que tá acontecendo?
– Craig tá afim de mim. Tá me investigando e não parece que isso vai terminar bem.
– Como assim, Juliette?! Que história é essa?
Eu dei de ombros, sem saber o que mais dizer.
– Trabalho caçando psicopatas e ele tá parecendo um. Você sabe que já peguei casos de crimes passionais.
– Acha mesmo isso?
– Tenho quase certeza. E tenho medo de acabar acontecendo alguma coisa ruim.
– Você tem alguém no momento?
A pergunta me pegou com a guarda baixa e eu hesitei. Depois daquilo, não precisava responder. Dougie se mostrou notoriamente desconfortável com a nova descoberta.
– Por favor. – Implorei. – Você sabe que isso tem que ser por baixo dos panos.
Ele olhou para mim por alguns segundos e, depois, balançou a cabeça afirmativamente.
– Eu vou ver o que posso fazer e entro em contato com você.
– Obrigada. – Eu disse e saí de seu escritório.
Estava realmente com medo de voltar para a delegacia. Não havia nada mais assustador do que aquela sensação. Ser um policial e ter medo do seu local de trabalho era praticamente um paradoxo, mas estava acontecendo comigo e eu tinha que lidar com isso. Ficar sozinha não era uma opção e, já que Danny era meu parceiro e me provara várias vezes que possuía uma fidelidade inquestionável, precisava contar para ele.
– Você nunca considerou denunciar o Craig por assédio?
– Nós dois sabemos muito bem que esse crime raramente é levado à sério, principalmente dentro da corporação. Vão falar que eu sou frouxa e que acho que tudo que vejo é homem dando em cima de mim, aquele blá blá blá todo…
– Tá, mas você tem testemunhas.
– Outras mulheres também tinham e não sobrou nada além de mais humilhação pra elas.
Danny respirou fundo e olhou para a frente. Estávamos dentro de nossa viatura, do lado de fora da delegacia. Eu estava consciente de que Craig poderia nos ver facilmente da janela de sua sala, mas pouco me importava.
– Por que você não fez isso parar quando começou? Seria mais fácil, não?
– Porque consegui esse emprego assim, Danny. Ele acha que eu transei com ele pra conseguir o cargo de detetive. E foi por isso, no fundo, que eu me tornei uma. Transei com ele porque eu queria. Que mulher não ia querer transar com o Craig?
Danny fez careta.
– Tira essa imagem da minha mente.
– É sério, Jones. Eu queria. Mas começou a ficar doentio e eu caí fora. Meio forçada, mas caí.
– Não to dizendo que você tá errada, pelo contrário, mas você sabe que vai ser foda, não sabe?
Assenti.
– Acho que vamos ter que descobrir algum podre dele.
– Um só não vai ser suficiente pra foder o Craig.
Ele olhou para mim, solidário.
– Ok, seis.
Nós rimos e entramos na delegacia. Louis me esperava, impaciente e batendo pé, na minha mesa. Quando me viu, fez cara de indignação e caminhou rapidamente até mim.
– Onde você tava esse tempo todo?! – Ele gritou.
Arregalei os olhos e dei um passo para trás.
– Resolvendo coisas. E abaixa esse tom de voz.
– Você sabe como a cobrança aqui tá alta some sabendo que eu ia te entregar o resultado da autópsia.
Olhei para Louis com os ombros caídos.
– Desculpa. O que você descobriu?
Caminhamos em silêncio – estava mais para uma corrida – até o necrotério, no porão. Ele simplesmente puxou o corpo da vítima para fora da geladeira e retirou a lona que a cobria.
– Ela tentou forjar um homicídio.
Revirei os olhos e bufei.
– Sério?
– Estudei o ângulo do corte. Só pode ter sido feito por ela mesma.
– Se todos os casos se resolvessem assim tão facilmente… – Ponderei.
– Você tem um inocente em custódia. Vai lá liberar o cara.
Assenti. Craig estava me esperando na saída do laboratório.
– Cada vez que eu encontro com você, sua cara tá pior que no dia anterior. O que será que tá acontecendo? – Disse, sarcástica.
– Não to de bom humor pra você vir pra cima de mim com brincadeiras.
– Ótimo, porque eu não vou pra cima de você de qualquer jeito.
– Você tem algo a ver com a corregedoria estar aqui?
– Nem tinha visto os caras.
Craig me puxou pelo braço. No mesmo movimento, eu puxei minha arma do coldre e encostei na barriga dele. Ele olhou para baixo, praticamente não acreditando no que estava acontecendo.
– Me solta. – Eu ordenei. – Você é um dos maiores símbolos de proteção às pessoas e tem me feito suspeitar profundamente de suas intenções comigo. Então me solta e me deixa em paz pra isso não voltar a acontecer.
Provavelmente, a corregedoria estava lá por conta de Dougie ou de Danny, mas pouco me importava. Desde que não estivessem no meu pé, ou no pé de alguém com quem eu me importasse, tudo bem por mim. Subi, sem olhar para os lados, para a minha mesa. Estava preenchendo a papelada quando Danny se juntou a mim.
– Deixa na minha mesa quando terminar. – Ele disse, apontando para os papéis. – Eu deixo com o Craig. Só não diz pra ele que eu sei sobre o problema que tá rolando entre vocês dois.
Assenti e, em silêncio, agradeci. Quando dirigi para casa naquela noite, passei propositalmente em frente à casa de Henry, mas estava tudo apagado. Fui para a minha. Para a minha decepção, ele não estava me esperando lá. Entrei em casa e tomei um banho bem demorado. Deitei na cama, então olhei para a mala de Pierre e René.
– Ainda tem isso… – Disse a mim mesma.
Lembrei automaticamente de que Henry estivera ali na noite passada e que, talvez, tivesse mexido na mala. Pulei da cama rapidamente. A mala estava do jeito que eu havia deixado. Queria muito resolver a história da minha mãe, mas eu precisava descansar para ter a execução perfeita. Então dormi, baseada em um versículo da Bíblia que minha mãe me dizia muito: bastava a cada dia o seu próprio mal.
Eu prezava muito por meus dias de folga. Com o tempo, me acostumei com a vida agitada e cheia de fatos horripilantes que eu levava no trabalho. Conseguia dormir sem pesadelos – claro, depois de acompanhamento psicológico obrigatório designado pelo departamento, mas isso ninguém precisava fazer. Eu estava em uma daquelas manhãs onde você simplesmente dorme até não poder mais quando o celular tocou. Resmunguei e silenciei a ligação sem ao menos olhar para o visor. Virei para o lado e voltei a dormir. O celular tocou de novo. Era Louis.
– Que é, porra?
– Preciso de ajuda e você é a pessoa que mora mais perto.
– O que houve? – Perguntei.
– Tenho que levar Briana ao hospital e não tenho com quem deixar o Freddie.
Eu fiquei olhando aquela criança de quase dois anos correndo pelo meu pequeno e minimalista apartamento até não poder mais. Quantas horas será que essa criança dormiu antes de Louis abandoná-la comigo? Olhava o celular incessantemente, esperando que Louis me ligasse dizendo que estava indo buscar o filho, mas essa hora nunca chegava.
Não visitei Freddie quando ele nasceu. Usei como desculpa o trabalho, e Louis caiu como um patinho. Mas a verdade é que Briana e eu nunca nos daríamos bem. Ficava pensando, enquanto tomava conta dele, no que teria sido de mim se eles dois não tivessem ficado juntos. Talvez, eventualmente, eu e Louis teríamos nos unido de novo da mesma forma que tínhamos nos unido antes, por força da nossa amizade. Freddie, Briana e muitos outros fatores não existiriam na minha vida.
Enquanto isso, eu precisava manter Henry distante. Tudo em mim pedia para que meus dedos digitassem o número dele no telefone, ou simplesmente dirigisse até seu escritório ou até sua casa. Mas Henry era muito compreensivo e, com certeza, estava esperando que eu, fresca que era, tivesse o espaço necessário para começarmos de novo. Ele me deixar decidir sozinha, sem forçar a barra, era o ato mais generoso que ele podia fazer por mim.
A pior parte era ter que ficar em cima de Poynter, já que ele havia se comprometido com me ajudar com Craig. Ainda não contara para ninguém que havia o ameaçado com minha arma, mas não achei necessário. O importante era que Daniel percebesse que eu não estava de brincadeira. Isso e descobrir quem tinha assassinado Toby Thompson, um caso que tinha sido reaberto, o que me colocava necessariamente de volta à delegacia.
– Fiquei sabendo que alguém ficou com o filhinho do ex esses dias… – Danny provocou assim que eu cheguei e me sentei à sua frente.
– Não começa, Jones.
Olhei, pelo canto do olho, para a sala de Craig.
– Ele não tá aí, fica tranquila.
– Foi pra onde?
– Uma cerimônia de condecoração de alguém importante.
– Parece que você tá com inveja.
– Demais… – Ele disse, revirando os olhos. – Louis já terminou a exumação?
– Não, o auxiliar dele que tava fazendo, então…
– Então o quê? – Louis perguntou, de braços cruzados, com aquele sorriso filho da puta que ele fazia de propósito. – Laudo inconclusivo.
Joguei a cabeça para trás. Não havia nada mais frustrante que gastar tempo com uma investigação que não levava a lugar nenhum, ainda mais quando eu tinha uma pessoal em casa para fazer. Eu precisava de férias, mas o trabalho só aumentava. E à toa.
– Tá, e agora? – Perguntei.
– Quem recebeu a investigação foi o chefe. Vê com ele.
Olhei para Danny e ele apenas assentiu. Enquanto conversávamos, o garoto dos recados, Finley, se aproximou. Em silêncio, como sempre, ele esticou um envelope para mim. Agradeci apenas com um olhar.
– Intimação? – Louis perguntou.
– É o que parece.
Abri o envelope. Minha surpresa foi grande – não tão grande assim – quando vi que Henry seria o juiz que me ouviria.
– Caso Johnson. – Falei, balançando o papel acima da minha cabeça.
– Vai precisar de alguma ajuda com isso. – Dougie disse, chegando em seu terno chique e caro.
– Não, não vou. – Respondi.
– Não foi uma pergunta, foi uma afirmação.
Ele apertou a mão de Louis e abraçou Danny. Fiquei olhando.
– Qual é a da intimidade dos dois?
– Fizemos faculdade juntos. Você não sabia?
Quase fuzilei Danny.
– Eu já havia contado, – Ele deu de ombros. – então não sei o porquê da surpresa.
Levantei da mesa direto para o bebedouro. O dia estava tranquilo na delegacia, algo um tanto raro, mas bom o suficiente para que eu estivesse curtindo cada segundo. Então constatei que estava sendo seguida.
– Ainda não consegui nada no Craig.
– Vou ficar segura por um tempo, Poynter.
– Como você sabe?
– Ele tentou me segurar e eu ameacei dele.
– Você ameaçou ele?
– Com minha arma.
– Apontou sua arma pro seu tenente?! – Ele parecia mais assustado.
– Fala mais alto! – Chamei a atenção dele.
Dougie revirou os olhos e encostou na parede ao lado do bebedouro.
– Eu to só tentando entender como você quer que eu te ajude assim.
– E eu to tentando manter pessoas próximas a mim longe de perigo.
Ele abriu a boca algumas vezes, como se fosse falar algo, mas voltou a ficar imóvel.
– O que é?
– Nada.
– Fala, Poynter.
Ele suspirou.
– Pode ficar lá em casa, se precisar… Ou quiser.
Olhei para Dougie, quase preocupada.
– Olha, não quero te passar a impressão errada. Não to fazendo isso com segundas intenções. Realmente preciso de você, mas não quero me envolver com ninguém no momento.
– Você tem outro, sei…
Craig estava entrando na delegacia na hora. Olhou para nós dois, conversando baixinho, bem perto um do outro. Fechou a cara, como sempre, e foi direto, com passos pesados e largos, para sua sala.
– Tá vendo do que eu tava falando?


Capítulo 9

Cheguei para depor bem mais cedo do que precisava, como sempre. Tirando ter que enfrentar Henry face a face, não havia problema nenhum naquele dia. Craig estava longe, palestrando para a semana de Direito Penal da UCLA. A espera que eu estava fazendo naquele instante era por causa dele. Dougie havia pedido que eu o encontrasse do lado de fora da sala onde seria a audiência.
– Desculpa a demora, esqueci uns papéis no escritório que eu precisava trazer. – Ele finalmente me encontrou, uma mulher impaciente batendo pé no meio dos corredores do fórum.
– Irônico usarem britânicos como parâmetro pra pontualidade quando todos os que eu conheço costumam se atrasar. – Comentei. – O que você tem pra mim?
– Nada.
– Nada?! – Repeti. – Então o que eu to fazendo aqui?
– Juliette, você não tá me entendendo. Esse é o X da questão. O Craig tá limpo. Mais limpo, impossível. Ele é o cara. Tem um histórico incrível, tanto na faculdade quanto na corporação. Nunca cometeu um deslize e foi, pessoalmente, responsável por mais prisões do que você vai fazer na sua vida.
Balancei a cabeça.
– Tem que ter alguma coisa.
– Eu tentei, bebê, mas…
– Não me chama assim. – Eu o repreendi.
– Detetive Danté! – Alguém me chamou.
Eu me encolhi. Merda.
– Juiz Cavill. – Dougie o cumprimentou com um aperto de mão caloroso.
Henry sorria largamente para mim enquanto estendia a mão na minha direção.
– Doutor Poynter, vamos começar já. – Ele disse.
– Ok. Juliette, com licença, tenho que me preparar. Nos falamos depois.
Assenti. Olhei então para Henry, ainda com o mesmo sorriso.
– Disse isso só pra afastar ele, não disse?
– E acho que fiz a coisa certa, Juliette.
– Qual é o problema com meu nome?
– As pessoas geralmente te chamam de Danté.
– Dougie é o promotor, impossível não conhecer.
Henry olhou fundo nos meus olhos. Sabia que eu estava mentindo.
– Será que sair pra jantar mais tarde tá fora de cogitação? – Ele perguntou.
– Já tenho compromisso.
– Posso saber com quem?
– Uma amiga da delegacia.
– Hm… Amanhã, quem sabe?
– A corregedoria pode pensar que tem algo errado rolando entre a gente. Você pega boa parte dos casos que eu investigo, Henry.
– Mas nós precisamos conversar.
Olhei para ele, triste.
– Eu sei. – Disse. – Me desculpa.
– Só quero saber se você tá bem. – Ele falou, segurando meu rosto com uma das mãos, fazendo leves carícias com a ponta do dedão.
Fechei os olhos e sorri. Coloquei minha mão por cima da dele e a afastei do meu rosto.
– Vou depor, Henry.
Ele riu.
– Te ligo.
Assisti enquanto ele se afastava. Depor para uma corte já era rotina. Fiz tudo o mais profissionalmente possível e praticamente corri para fora de lá quando terminei. Eu podia pedir o resto do dia de folga, mas dirigi para a delegacia. Não havia motivo para ir ficar sozinha em casa. Aliás, eu tinha prometido a Maitê que iríamos sair para beber. Ela havia notado que eu estava afastada, na falta de uma palavra melhor, e me fez prometer que nós duas teríamos uma noite só nossa.
Eu provavelmente não deveria estar bebendo o tanto que estava. Trabalhava no outro dia e ficava completamente inútil de ressaca. Mas Maitê estava certa. Eu precisava dali. Então pedi outra cerveja para o barman.
– Eu tenho uma péssima notícia. – Maitê gritou no meu ouvido, por cima da música. – Seu ex tá aqui.
– Qual deles?
– O do nome estranho.
Zayn. Olhei em volta. Não foi difícil achar, no meio da multidão, o único rosto que estava me encarando de forma doentia. Coloquei a mão na cintura, minha arma não estava lá. De repente, ela significava muito para mim, principalmente quanto à minha segurança.
– Podia ser pior. – Observei. – Podia ser o Craig.
– Você tá bem? – Ela perguntou.
– Minha arma não tá aqui.
Maitê entrou na minha frente e colocou as mãos nos meus ombros.
– Olha só, você vai relaxar. Nada de confusão aqui, ok?
Ela não ia ceder. Para negociar, sugeri irmos para o meu apartamento. Tinha cerveja o suficiente lá para terminarmos a noite. Pegamos um táxi com um dos motoristas mais gentis que eu já havia visto. Conversou conosco, animado, até meu endereço. Maitê o convidou para subir conosco, como se nós fossemos mulheres que dividiriam o mesmo homem simultaneamente. Ele riu, recusou educadamente e se despediu de nós duas.
– E agora? – Maitê perguntou.
Olhei para minha janela e respirei fundo, precisava tomar coragem antes de subir a escadaria.
– Agora nós deveríamos parar de beber. – Eu disse enquanto abria a porta do prédio. – Amanhã tem expediente.
– Você parece a irmã do meio que fica aconselhando a mais velha a não fazer merda.
– Dizem que detetives tem esse dom.
– Só por que você fez direito, tem que andar certinha?
– A ordem não pega leve com a gente. – Comentei, abrindo minha porta.
– Juliette, o que é isso?!
O álcool sumiu do meu corpo de uma hora para a outra. Eu tinha lido um pouco sobre o caso da minha mãe na noite anterior e as coisas estavam espalhadas em cima da minha mesa de jantar, que ficava de cara com a porta de entrada.
– N-nada. C-caso confidencial. – Gaguejei.
– Como você pegou um caso confidencial e eu não fiquei sabendo?
– O C-Craig pediu sigilo.
Maitê deu passos firmes na direção da mesa, não tinha como impedí-la.
– Ei! Você não pode… – Gritei, a única reação que parecia matura.
Já era tarde demais. Os papéis eram antigos, dava para notar de longe. Ela já tinha uma folha em mãos e, pela sua expressão, estava mais assombrada do que deveria.
– Juliette… – Ela sussurrou, sem reação.
– Eu posso explicar.
– Você tinha contado que sua mãe tinha morrido por causa de um ataque cardíaco!
– E eu realmente achava isso, Maitê, mas não foi bem assim.
– Do que você tá falando?
Aparentemente, o álcool também havia sumido do corpo dela. Eu me sentei na ponta da mesa e respirei fundo algumas vezes.
– Alguns meses atrás, um envelope chegou à minha mesa, na delegacia. Eu pedi que William checasse as filmagens pra saber quem tinha deixado ele lá, mas ele não conseguiu nada. Nesse envelope, existiam algumas informações vagas que falavam sobre minha mãe ter sido assassinada. Levei um susto e acabei procurando comprovar algumas informações. Acontece que é verdade, eu falei inclusive com o detetive e o legista responsáveis pelo caso da minha mãe.
Fiz uma pausa, incerta sobre estar contando aquilo tudo para ela.
– Eu sinto muito. – Maitê disse, demonstrando-se tão solidária quanto possível. – Por que você não me contou sobre isso antes?
– Porque não podia.
– Por quê?
– De alguma forma, a investigação foi misteriosamente suspendida e foi terminantemente vetada a possibilidade de reabrir o caso.
– Não tem nenhuma pista sobre nada?
Apontei para a mesa.
– Tudo aponta pro meu pai. – Declarei.
Ela devolveu a folha para o lugar e olhou, por cima, para o resto dos documentos.
– Quem mais sabe? – Ela perguntou.
– Ninguém.
– Você precisa contar pra alguém que possa te ajudar.
– O problema é esse, Maitê, não posso ter ajuda. Isso tem que ficar por baixo dos panos.
– Por quê?
– Não sei o porquê de ter sido escondido anos atrás. Pode ser sério.
Maitê balançava a cabeça de um lado para o outro.
– Isso pode dar muita merda.
– Por isso, eu gostaria muito que você esquecesse isso tudo e fingisse que nunca soube nada sobre eu estar investigando o que aconteceu.
– Juliette…
– Por favor. – Eu insisti, interrompendo-a.
Ela era teimosa. Ao invés de obedecer a meu pedido, Maitê puxou uma cadeira e se sentou. Passamos a noite relendo todos os relatórios – bem, eu relia e traduzia para que ela entendesse. Criamos teorias e, logo depois, derrubamos as mesmas. Quando tudo parecia se encaixar, descobríamos um detalhe esquecido que nos levava de volta ao começo.
– Precisamos chamar o William. – Ela declarou.
– Não, de jeito nenhum.
– Mas... Juliette, não tem jeito. Ele é o cara que tem acesso às informações mais fáceis. Ele pode ter acesso ao que você precisar.
– Sim, pode, mas ilegalmente.
– E isso tudo não é ilegal?
– É, mas não posso confiar nele pra uma coisa tão grande.
Ela levantou as sobrancelhas.
– Precisamos dormir. Temos que trabalhar amanhã. – Ela disse, puxando o telefone do bolso. – Vou pedir um táxi.
– Vou ter que insistir em te pedir pra esquecer isso tudo.
– Juliette, você é minha amiga. Não vou esquecer.
Minha respiração estava pesada enquanto eu via minha melhor amiga indo embora. No outro dia, ao chegar à delegacia, me sentia amedrontada. Passei por William logo na entrada e congelei.
– Tá tudo bem? – Ele perguntou, as sobrancelhas arqueadas.
Eu me limitei a assentir. Sentei à frente do meu computador, quase deitando na mesa para dormir. O telefone de Danny tocou na hora.
– Vamos, Danté, temos um caso.
Revirei os olhos. A ressaca não tinha nada a ver com o álcool, mas eu não estava bem. Não dirigi até a cena do crime. Nada de corpos dessa vez, e isso indicava mais trabalho. Só havia uma boa quantidade de sangue – o cheiro de açougue estava me deixando enojada. Danny me olhava pelo canto do olho toda hora, notando que algo estava errado. Fiquei observando, apática, enquanto ele tomava as notas necessárias.
– Você não tá bem. – Danny observou quando entramos de volta na viatura.
– Não quero falar sobre isso.
– É sobre o Craig?
– Não.
– Tem certeza?
Virei a cara para o lado e fiquei observando as construções enquanto voltávamos para a delegacia. Pela primeira vez, estava questionando se tinha escolhido a profissão certa. Provavelmente, se eu não fosse detetive, o fato de minha mãe ter sido assassinada não chegaria até mim. Mas ok, eu era detetive e minha mãe tinha sido assassinada. Eu precisava lidar com isso, de um jeito ou de outro.
Estava na porta do laboratório de Maitê quando senti uma mão desconhecida em meu ombro. Dei um pulo e me virei.
– O que você tá fazendo aqui?
– Vim cobrar minha resposta.
– Não há nada que eu tenha que te responder, Zayn.
– Deve sim.
– Quer o quê? Que eu diga que te amo e que sou louca por você? – Perguntei, sem manter contato visual com Zayn.
– Não seria má ideia. – Ele disse, sorrindo e dando de ombros.
– To ocupada, não tá vendo?
– To sim, claro, mas acho que você já sabe que eu vou ficar por perto nos próximos dias.
– Tem detetives melhores que eu nessa delegacia.
– Eu não diria isso.
Revirei os olhos.
– Sério, cara, me deixa sozinha.
Maité olhou para mim e acenou, com um papel em mãos. Abri a porta e fui entrando, quando percebi que Zayn estava me seguindo.
– Caso confidencial, você não pode entrar.
– Mas…
– Vai embora daqui agora, Zayn. – Disse, firme, olhando para ele tão séria quanto podia.
Ele hesitou, mas logo saiu pela mesma porta que entrara. Andei, então, até a mesa de Maitê.
– Tem alguma coisa pra mim?
– Olha, eu sofri pra tirar alguma coisa daquele envelope. Parece que alguém tentou limpar cada milímetro quadrado dele. Tentei quase todas as técnicas pra tentar obter alguma coisa de lá e…
– Maitê, você tem alguma coisa de útil ou não?
Ela suspirou.
– Se eu fosse você, se sentava.
– O que você conseguiu, Perroni?
– Consegui um pedaço mínimo de pelo.
– E então?
– O DNA bate com o do Bongiovi.
– O cara que o Danny odeia?
– Ele mesmo.
– Será que não poderia ter sido transferido de alguma forma? Quer dizer, volta e meia esse cara surge no meio dos nossos casos…
– Estava do lado de dentro. Foi só você que mexeu no envelope?
– Foi, claro.
– Eu duvido muito de que tenha sido simplesmente transferido.
Respirei fundo. Olhei para os lados, inquieta.
– Vou atrás dele.
– Juliette! – Maitê protestou, me segurando pelo braço. – Você não pode ir encontrar o cara sozinha. Você é policial. Sabe que o pessoal dele não tolera muito a nossa espécie. Além do mais, o cara lida com prostitutas o dia inteiro, sete dias por semana. Você, pra ele, vai ser só mais uma funcionária em potencial.
– Eu preciso saber se ele tem alguma informação.
– Juliette, por favor.
– Eu tenho que ir lá, Maitê.
– Então vai com alguém. Mas não chama o Danny. Ele tem um caso sério com aquele cara e tá doido pra colocar ele atrás das grades.
– Sei disso…
– Um homem forte, Juliette. – Ela insistiu.


Capítulo 10

– Achei que você não me procuraria tão cedo. Na verdade, achei que você não me procuraria nunca mais.
– Não vamos voltar, Max.
– Então o que você veio fazer aqui?
– Vim cobrar o favor que você tá me devendo desde a vez em que eu não disse o que sabia sobre o Ward.
– Você ainda não esqueceu isso, hein?
– Nem vou esquecer.
Max revirou os olhos e me apontou o sofá. Eu me sentei bem no meio, sem deixar espaço para que ele ficasse ao meu lado.
– Eu pensei muito antes de vir aqui hoje, Max, juro que pensei. Só to aqui porque não tenho muito escolha.
– Fala logo, Juliette, você sabe que eu gosto de objetividade.
Respirei fundo.
– Minha mãe foi assassinada.
Sua expressão facial foi de ansioso para assustado. Eu quase ri.
– Que história é essa?!
– Você não queria objetividade?
– Isso beira a insanidade.
– Eu também pensei muito, até começar a investigar e chegar até onde eu cheguei.
– Como assim?
– Alguém deixou um envelope na minha mesa, na delegacia, alguns meses atrás. Minha mãe foi assassinada. Conversei com o detetive e o legista responsáveis pelo caso e eles me confirmaram isso, ainda complementando que foram impedidos de prosseguir com a investigação de forma misteriosa na época. E ontem descobri que foi um mafioso italiano de quem meu parceiro não gosta muito que deixou o envelope pra mim.
– Onde eu me encaixo nisso?
– Preciso que você vá comigo ver o cara.
– Por quê?
– Pra me proteger. Não consegui pensar em alguém melhor do que você.
– Dois policiais e um mafioso. Isso não parece que vai dar certo.
– Uma policial, um ex policial e um mafioso. – Corrigi. – A questão é que ele não tem um histórico bom com mulheres e eu precisava de uma proteção.
Max coçou a cabeça.
– Pelo menos, pra isso, eu sirvo, né?
– Max, eu to confiando em você ao te contar isso. Ninguém pode saber.
Ele olhou para mim, confuso.
– Ok, só me dizer quando.
Assenti, me levantei e saí, sem dizer mais nada.
O Red Roses não era um lugar bonito de se ver. Suas instalações eram luxuosas, de fato, mas o luxo parava aí. Não estava ansiosa para passar um tempo ao lado de Max, mas aquele foi o primeiro dia de folga que consegui. Deixei o telefone em casa propositalmente, a fim de que não pudesse ser localizada de forma alguma. Estar à paisana não parecia desconfortável, já que minha arma pessoal estava presa ao cós da minha calça. Já os olhares, aqueles sim me tiravam da minha zona de conforto. Tentei me vestir de forma que gritasse que eu não trabalhava lá, mas acho que não tinha jeito.
– Vim ver o Bongiovi. – Disse a um segurança na porta da escada que dava no andar de cima do clube, onde ficavam os escritórios.
– Com a ordem de quem?
– Dele mesmo.
– Não fui informado sobre nada.
– Entra em contato com ele, por favor. Posso garantir que ele vai ter interesse em falar comigo.
O homem alto e corpulento disse alguma coisa no rádio pendurado em seu ombro. Pelo sotaque, apostaria que a língua que falavam era italiano. Alguém respondeu do outro lado e o homem nos deu passagem.
– Vire à esquerda, é a última porta do corredor.
Assenti. Eu e Max passamos direto, subindo os degraus em ritmo acelerado. Bati à porta que me foi indicada e ouvi uma voz ligeiramente conhecida me mandando entrar. Bongiovi estava sentado atrás de uma mesa, completamente sozinho.
– Deve ter alguma passagem secreta que permita uma porção dos seus homens entrar aqui a qualquer momento.
– É apenas um escritório, sem detalhes a mais.
– Quando estive aqui como policial pra saber sobre algumas investigações, quiseram tirar minha arma. E hoje ainda permitiram que eu entrasse acompanhada.
– Juliette, nós dois sabemos que você não vai fazer nada contra mim. Aliás, seu amiguinho sabe o real motivo se você estar aqui? – Ele disse, apontando para Max.
– Bongiovi, eu quero informações.
– Por favor, me chame de John.
– Vai ser Bongiovi e ponto final. – Insisti. – Não to aqui pra brincadeira e, como você disse, sabemos bem disso.
Ele apontou para as duas cadeiras à frente de sua mesa com uma mesura exagerada. Olhei para Max antes de me certificar sobre ele achar seguro que nos aproximássemos.
– Bem, minha cara Danté, o que você quer de mim?
– Saber o que te levou a colocar aquele envelope na minha mesa. Minha vida tava bem antes de saber que minha mãe foi assassinada.
– Achei que você gostaria de saber.
– Algo me diz que você tá mentindo, Bongiovi. Sou parceira de alguém que te conhece muito bem, não se esqueça disso.
Ele riu.
– Não me esqueci, querida.
– E então? Qual vai ser?
Bongiovi suspirou e ajeitou sua postura na cadeira.
– Quero ajudar uma detetive injustiçada.
– Bongiovi!
– Por que essa não pode ser a verdade?
– Porque eu te conheço.
– Bem, você pode aceitar isso e me perguntar o que mais eu sei sobre o caso ou não aceitar e ir embora.
Olhei para ele de cara feia, dando-lhe aval para continuar.
– Você conhece Chamonix?
– Meus avós nasceram lá. – Respondi, arqueando as sobrancelhas.
– E Courmayeur?
– Território italiano. – Sussurrei.
– Foi onde minha mãe nasceu.
– E no que isso é importante pra mim?
– Léna era minha meia-irmã, Juliette. Vim parar em Boston por sua causa, pra manter você a salvo. Foi a promessa que eu fiz pra ela quando você nasceu e eu garanto que vou cumprí-la.
Meu coração estava acelerado com a nova notícia, mas eu tentava me manter calma. Minha respiração era minha forma de fazer meu semblante permanecer indiferente, mas não foi o suficiente para que Bongiovi deixasse de notar que meu silêncio significava algo.
– Só quero que o filho da puta que fez aquilo com ela pague pelo seu erro, Juliette, e tenho certeza de que você quer o mesmo. Caso contrário, não deixaria você entrar aqui armada. Isso não é prova suficiente?
Olhei para Max mais uma vez, secretamente pedindo sua opinião. Ele assentiu e voltou a olhar para Bongiovi.
– Seu tom de voz sugere que isso vai ter um preço. – Max disse, ao que Bongiovi reagiu com um largo sorriso.
– Isso discutiremos depois. Vamos discutir o caso agora, que é o mais importante.
Peguei, em minha bolsa, algumas folhas e joguei em cima da mesa.
– Se você tem tanta certeza de que foi meu pai quem fez, por que não fez algo a respeito ainda?
– Porque, minha cara sobrinha, sou um homem justo no final das contas e gosto de ter certeza absoluta, sem nenhuma margem de erro, das coisas que faço.
– E o que você quer de mim?
– Quero saber o que impediu a investigação de seguir seu curso.
– Como é que eu vou descobrir isso?
Ele levantou as mãos como se estivesse em rendição.
– A detetive aqui é você.
– Não to aqui pra brincadeiras, Bongiovi.
– Muito menos eu. – Ele disse, repentinamente ficando sério. – As informações que eu tenho é de que a ordem partiu do poder judiciário, então preciso que você descubra o que aconteceu até chegar lá.
– Por que você mesmo não fez isso?
– Porque estou sendo monitorado vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, graças ao seu amiguinho.
– Você é John Bongiovi, sempre dá um jeito quando quer algo e nós sabemos disso.
– Prostituição, que é o que você acha que acontece aqui, é muito mais fácil que hackear computadores alheios, sabia?
– Então eu que tenho que correr riscos?
– Ela era sua mãe.
– E, alguns segundos atrás, também era sua irmã.
– Você tem um senso de justiça melhor que o meu.
– E você tem muito menos pra perder.
– Juliette, você acha que eu já não andei procurando informações depois de tudo o que eu dei na sua mão? Per l'amor di Dio! – Ele gritou e bateu na mesa. – Eu já estou correndo riscos e só levei isso até você porque atraí alguns olhares indesejáveis. Minha equipe sabe que alguém tem acesso remoto ao meu computador. Não arrumei outro pra deixar que eles pensem que me enganam. Todos com quem tenho contato estão sendo, de alguma forma, vigiados, e você é a única que não vigiariam simplesmente porque você é tira.
– E como eu vou justificar minha vinda ao seu escritório?
Ele riu e apontou para Max.
– Você veio se divertir com seu namoradinho.
Revirei os olhos. Aquela história de fingir que eu estava com Max estava me preocupando.
– E se pedirem as filmagens?
– Acidentalmente, um dos meus supervisores de segurança derrubou café no equipamento e não há registro da hora em que vocês entraram ou da hora em que vocês saíram. Agora me façam o favor de passarem o cartão de crédito aqui e irem para casa. Encerramos por hoje. – Ele terminou, se levantando e ajeitando o paletó.
Um segurança, com o mesmo uniforme do que havia tentado bloquear nossa passagem antes, abriu a porta e a manteve aberta, deixando claro que deveríamos sair. Eu e Max nos levantamos ao mesmo tempo. Passei o cartão de crédito para pagar duas doses de uísque. Pouco me importava que eu fosse dirigir depois, eu precisava beber.
Deixei Max em casa e dirigi para meu solitário apartamento. A secretária eletrônica piscava nervosa quando entrei. Apertei o play e comecei a tirar minha roupa.
Oi, Juliette… É… Sou eu… Henry… É que… Sei lá, você sumiu. To preocupado. Me liga.
Revirei os olhos e fui para meu banho. Dormir não foi exatamente o que eu fiz, mas parecia – e estava, de fato – melhor no outro dia, quando levantei para ir trabalhar. As coisas estavam andando calmas, o que nos deixava com tempo de sobra para pegar crimes mais leves. Esvaziar a cabeça de tantos assassinatos nem se mostrava tão necessário, mas era algo a se aproveitar. Infelizmente, Boston ainda havia outros monstros além dos assassinos.
Como era a única mulher da unidade, tinha que lidar com Evie Craig. Sim, Craig. Daniel havia tirado carinho do fundo de seu coração de pedra para me implorar que ficasse com ela. Evie era sua sobrinha e havia sido estuprada. Daniel, é claro – e eu não o julgaria por isso –, estava colocando todos atrás do cara que havia feito isso com a filha de sua irmã, Lea.
Para ele, uma psicóloga não era o suficiente. Craig estava naquele meio por muito mais tempo do que eu e sabia como as coisas funcionavam. De alguma forma, ele ainda insistia em que eu ficasse com Evie na delegacia até que ele estivesse de volta.
– Tenente, isso pode atrapalhar no julgamento do cara que fez isso. O senhor sabe muito bem que o advogado de defesa vai falar que, por estar comigo, eu a induzi a falar coisas que não são a verdade. E isso colocaria a minha carreira em risco.
– O risco é meu, Danté, a ordem partiu de mim.
– Mas, tenente…
– Juliette, por favor. Você é a única em quem eu posso confiar.
Craig estava vulnerável, como eu nunca havia visto antes. E eu, por uma maldição do destino, havia esquecido completamente tudo o que tinha acontecido nos últimos meses. Respirei fundo, enquanto hesitava em silêncio.
– Juliette, – Henry, de terno, me chamava próximo de minha mesa. – vamos?
Eu havia dito para ele que nunca fosse até a delegacia me ver, mas aparentemente um jantar no meio da semana era emergência para Henry.
Olhei para Henry, então para Daniel. Meu coração tomou a decisão antes que meu cérebro pudesse constatar. Respirei fundo e revirei os olhos. Sabia que estava fazendo alguma coisa errada.
Andei até Henry, com um sorriso triste nos lábios. Ajeitei a gola e sua camisa.
– A sobrinha do Craig foi estuprada. – Sussurrei. – Ele pediu que eu ficasse com ela durante as buscas ao cara que fez isso.
Henry levantou o olhar para Daniel.
– Meu Deus… Eu… Eu posso ajudar em alguma coisa?
– Acredito que não, juiz Cavill, mas agradeço mesmo assim. Eu e minha equipe estamos cuidando do caso.
Daniel estava calmo – verdadeiramente calmo. Ele estava fora da atmosfera de ciúmes que o envolvia sempre que me via perto de qualquer outro homem que não fosse ele. Eu não me permitiria decepcioná-lo simplesmente porque ele estava sendo humano naquele instante. Talvez, se eu provasse a ele que minha fidelidade como detetive não dependia de meus relacionamentos pessoais, Craig e eu pudéssemos voltar a ter uma convivência agradável.
– Podemos deixar pra amanhã? – Perguntei a Henry. – Sem falta.
– Claro, sem problemas. Tenente Craig, se precisarem de qualquer mandado, estarei em casa, pronto para atendê-lo, seja a hora que for.
Craig assentiu.
– Mais uma vez, obrigada, juiz.


Capítulo 11

Inevitavelmente, tivemos que envolver William naquele processo. O plano era contar o mínimo possível: eu apenas precisava daquele favor e ponto final. Prometi a ele que assumiria total responsabilidade caso nossa ação fosse descoberta. No fundo, ele sabia que não tinha motivos para duvidar de mim. Então, depois de algumas informações que Bongiovi conseguiu me passar, William acessou – ilegalmente, mas isso não era necessário dizer – computadores da justiça parisiense. É claro que ele sabia como fazer tudo aquilo sem ser notado, foi o que me deixou menos nervosa.
Enquanto isso, do lado de fora do problema com o caso da minha mãe, eu estava intrigada com o comportamento de Craig. Três dias depois do ocorrido com sua sobrinha, ele passou por minha mesa sem ao menos olhar para mim. Larguei o que estava fazendo e saí correndo na sua direção, não sem chamar a atenção de Danny.
– Tenente! – Gritei, chamando a atenção de alguns policiais.
Craig me esperou, parando elegantemente.
– Só queria saber se Evie está melhor.
– Está sim, obrigado por perguntar.
Ele não se moveu e eu me vi sem jeito. Ajeitei uma mecha de cabelo atrás da orelha.
– Ela tá precisando de alguma coisa? Tem algo que eu possa fazer pra ajudar?
– O juiz Cavill já fez bastante pela minha família. Agora é só esperar o julgamento.
Voltamos a ficar em silêncio. Eu não sabia o que mais dizer – nem sabia se deveria dizer alguma coisa –, mas simplesmente não saía do lugar. Então Craig apontou com sua cabeça para a sua sala. Assenti sem nem perceber e caminhei ao seu lado. Ele me deu passagem e eu entrei primeiro. Logo, ele fechou a porta, olhando para mim com o olhar triste. Seus últimos dias não estavam sendo fáceis e isso estava sendo refletido em seu semblante.
– Juliette, eu gostaria de pedir desculpas pelo que aconteceu antes. Eu fui completamente idiota. E só de pensar que o cara que fez isso com a minha sobrinha fez a mesma coisa com ela…
– Você não me estuprou, Daniel. – Eu o interrompi.
– Mas tentei te controlar de todas as formas possíveis.
Engoli em seco.
– Evie é nova. Ela não passou pelo que eu passei. Se eu fui capaz de me impor, é porque vivi situações que me fizeram aprender esse comportamento.
– Sei que você é a única mulher aqui e que…
– Não, Craig, não faz isso. Sério. Por favor. Não sou feminista. Você me conhece bem, sabe que eu acho esse papo de mulher trabalhando com uma porção de homem besteira e acredito no poder da minha arma.
Daniel suspirou, deixando os ombros caídos.
– Eu sinto muito ter feito você me ameaçar.
Tentei sorrir.
– Se você realmente sente muito, o melhor a fazer é simplesmente impedir que aconteça novamente.
Ele pensou por alguns instantes e balançou levemente a cabeça, em afirmação. Entendi aquilo como uma ordem para deixá-lo sozinho, então corri para fora de sua sala. Danny me olhava sério quando voltei ao meu lugar.
– O que foi? – Perguntei.
– Preciso dizer?
– A Georgia sabe que você me trata como se eu fosse sua mulher? Ela sentiria ciúmes. – Eu comentei, indiferente, mexendo no computador como se não estivesse prestando atenção nele.
– Qual é a sua, Danté?
– Ele me pediu desculpas, Danny. – Eu sussurrei de forma agressiva.
– E você vai acreditar nele? Quer fazer eu e o Poynter de palhaços?
Merda, o Poynter.
Dougie estava ainda tentando achar algo de errado na vida de Daniel. Levantei de lá, sem nenhuma explicação, e saí correndo da delegacia. Fui direto para o escritório da promotoria. Encontrei Dougie quase saindo.
– Seja rápida. – Ele me ordenou, sem mais nem menos. – Tenho que ir resolver uma urgência.
– Preciso que você suspensa a investigação sobre o Craig.
Dougie arqueou as sobrancelhas.
– Por quê?
– Só preciso que você faça isso, Dougie, por favor.
Ele riu.
– Não tá mais nas minhas mãos, Juliette, isso agora é com a corregedoria.
– Mas você pode fazer alguma coisa a respeito disso, não pode?
– Não, não é mais minha área. Eu só coloquei nas mãos de alguém que faria o serviço.
Dougie me deu as costas, mas hesitou e logo voltou para perto de mim.
– Lembra da frase que eu te disse naquela noite, a que te convenceu a ficar comigo? “Você tem que fazer as coisas com a certeza de que não vai se arrepender.” Mas parece que você não aprendeu isso, não é?
– O que você quer dizer, Poynter?
– Só que é tarde demais. Talvez seu namoradinho saiba de alguma coisa.
– Namoradinho?!
– É, um tal de Zack.
– Zayn. – Corrigi.
– Tanto faz. Ele veio me procurar, pouco tempo depois de você, pra saber sobre o caso do Craig.
– E o que você disse? – Perguntei, preocupada.
– Nada, Danté, só disse que o caso estava nas mãos da corregedoria e que eu não sabia de nada mais do que isso.
Meu telefone começou a tocar, interrompendo a conversa. O tempo em que desviei o olhar de Dougie para meu celular foi o suficiente para que ele me deixasse ali sozinha. O identificador era do celular pessoal de William.
– Diz que você tem uma boa notícia. – Atendi.
– Você vai ter que me pagar o drive que usei. Precisei comprar um.
– Ok, chego na delegacia em quinze minutos.
O trânsito em Boston não costumava ser dos melhores, o que me tirava do sério, mas lembrar dos dias que estive em Nova Iorque eram suficientes para eu me manter de boca fechada e achar que Boston era o melhor lugar do mundo para se dirigir. Maitê me acompanhou até em casa no final daquela noite. Sentei em meu escritório, o segundo quarto que tinha em meu apartamento, e pluguei o drive em meu computador. O sistema logo ficou lento, demorando para abrir a página principal. Imediatamente, busquei por arquivos com origem em novembro e dezembro de 2007. Os nomes eram variados. Deixei Maitê na frente do computador enquanto ia pegar uma cerveja. Quando voltei, ela tinha alguns arquivos abertos.
– Achou alguma coisa?
– Pesquisei por seu sobrenome e achei um registro de visita ao juiz Neville Chermont no nome do seu pai. Na verdade, três.
– E como você leu se todos os arquivos estão em francês?
Ela trocou a janela e deixou à mostra a ferramenta de tradução online.
– Quais são as datas? – Perguntei, me aproximando da tela.
– 14 de novembro, 16 de novembro e 21 de dezembro.
– Merda! – Eu gritei, batendo na mesa com força.
– O que houve?!
– Minha mãe morreu na noite do dia 15. O caso foi encerrado no dia 22.
– Então partiu desse cara?
– Provavelmente. Pesquisa o sobrenome dele. Vê se acha alguma coisa.
Maitê digitava enquanto eu aguardava ansiosamente. Apareceu uma lista, não muito pequena, de vários arquivos. Tomei o mouse do poder de Maitê e digitei “Dousseau”. A lista se reduziu a dois arquivos apenas, um para cada irmão: ele havia sido responsável pelo processo de exoneração dos irmãos Dousseau, acusados de alteração de provas. Eu passei a mão no rosto e respirei fundo.
– Foi esse cara, sem sombra de dúvidas.
– E agora?
Ponderei por uns instantes e coloquei algumas páginas para imprimir. Liguei para Max imediatamente, pedindo que ele me encontrasse em casa. Quando chegamos ao Red Roses, Bongiovi estava entrando em um elegante Bentley Continental GT, mas interrompeu seu movimento quando viu meu humilde IX35 chegar. Ele sinalizou alguma coisa para seus seguranças, que aguardaram imóveis enquanto ele se aproximava da minha janela.
– Boa noite, minha cara. Achei que não voltaria tão cedo.
Puxei as folhas do banco de trás e, passando-as pela janela, entreguei em suas mãos.
– Neville Chermont.
– Quem é esse?
– O cara é juiz. Recebeu visitas do meu pai em datas sugestivas e foi o responsável pela exoneração do detetive e legista responsáveis pelo caso.
– Bem, de onde você tirou isso, talvez tire o número do telefone dele também, certo?
– Talvez. É possível.
– Poderia tentar conversar com ele?
– Conversar sobre o quê? – Perguntei, sem saber qual ideia Bongiovi tinha em mente.
– Ofereça dinheiro em troca de informações. Se ele foi corrupto no passado, por que deixaria de ser corrupto agora?
– Eu não tenho dinheiro.
– Mas eu tenho.
Engoli em seco.
– Quanto devo oferecer?
– Pergunte qual o preço dele. E, por favor, da próxima vez que precisar falar comigo, arrume um telefone descartável e ligue a cobrar pro meu escritório. – Ele disse, me passando um cartão de visita. – Se precisarmos nos encontrar, marcamos em algum lugar discreto. Você se importa se eu ficar com os papéis?
Dei de ombros.
– Trouxe pra você.
– Ótimo então. Aguardo sua ligação com o valor que precisa.
Assenti e comecei a manobrar o carro. Max estava quieto demais no banco, ao meu lado. Percebi, então, que eu estava mais tensa do que ele.
– Você tem certeza do que tá fazendo, Juliette?
Olhei para Max por alguns segundos, o suficiente para que eu não deixasse de prestar atenção na pista por muito tempo.
– Não, mas quero descobrir o que aconteceu com a minha mãe.
Puxei o telefone e liguei para Maitê. Ela ainda estava no meu apartamento e, a meu pedido, pesquisaria uma forma de contato do juiz. No caminho, passei na casa de Max para deixá-lo e, então, voar para meu endereço.
Estava descendo do carro quando senti que tinha alguém por perto. Um calafrio percorreu a minha espinha, me fazendo colocar a mão na arma mais rápido do que deveria. Olhei pelo reflexo da lataria do carro e pude reconhecer imediatamente as feições de Zayn. Relaxei os músculos e coloquei a arma de volta no cós da minha calça.
– O que você tá fazendo aqui? – Perguntei.
– Fiquei sabendo que você anda vendo o John Bongiovi.
Eu me virei para ele com uma lentidão exagerada.
– Você anda me investigando, Zayn?
– Tem sido necessário pra te proteger de si mesma, você não acha?
– Necessário ir procurar um amigo promotor e fofocar sobre o meu chefe?
– Bem, – Zayn sussurrou, passando a mão pelos cabelos. – o Poynter pareceu ser bem mais que seu amigo.
– Você vai me obrigar a te denunciar por assédio?
– Se você não denunciou seu chefe, por que me denunciaria?
Revirei os olhos.
– Zayn, me diz de uma vez... O que você quer comigo?
– Eu quero você de volta, Julie.
– E acha que vai me ter de volta fazendo esse jogo psicopata comigo?
– Preciso te mostrar que eu sou o melhor pra você, já que você não vê com os próprios olhos.
Deixei escapar uma risada.
– Zayn, nós não somos mais adolescentes.
– Justamente! – Ele gritou, me segurando pelo braço. – Eu não sou mais aquele rapaz burro que desperdiçaria uma mulher incrível como você.
Olhei firme em seus olhos por longos segundos, quase tentada a me comover.
Se existisse alguma remota chance de ficarmos juntos novamente, Zayn, não seria assim que você conseguiria me convencer.
– Então me diz como te convencer.
– Pra começo de conversa, soltando meu braço. – Eu disse, olhando sugestivamente para o lugar onde sua mão insistia em permanecer.
Zayn me obedeceu velozmente. Balancei a cabeça, sentindo pena dele.
– É tarde, Zayn. Vai pra casa, me deixa sozinha. Para de fazer essas coisas, agir desse jeito estranho… Foi exatamente por isso que eu me separei de você antes.
– Se eu fizer isso, você me dá a chance de conversarmos, ao menos?
Olhei para a janela do meu apartamento.
– Sou uma detetive, Zayn. Vou saber se você estiver mentindo pra mim.
Ele ponderou por alguns segundos e, depois de se despedir com um olhar, caminhou na direção da esquina mais próxima. A rua estava vazia. Examinei boa parte da área antes de entrar em casa. Assim que passei pela porta, Maitê me entregou um papel.
– É o número da casa dele. Ele é aposentado, mas ainda faz consultoria jurídica.
– Você foi rápida. – Comentei, surpresa.
– O tradutor me ajudou.
Deixei a bolsa em cima da mesa, olhei para o relógio e fiz as contas mentalmente, concluindo que já eram mais de dez horas da manhã em Paris. Peguei meu telefone e disquei o número. Da primeira vez, não funcionou, então tentei novamente.
– Alô? – Uma voz feminina, chorosa, atendeu em francês.
– É da residência do ex-juiz Neville Chermont?
– Sim, mas… – A voz, do outro lado, soluçou. – Sinto informar que ele acabou de ser vítima de um latrocínio.
Respirei fundo e joguei minha cabeça para trás, boquiaberta e incrédula. Por um instante, quis socar a mesa de jantar, mas provavelmente iria quebrar o vidro e eu não queria ter que limpar sujeita às duas horas da madrugada.
– B-Bem… E-eu sinto muito. Perdão.
Desliguei antes de ouvir qualquer outra coisa que fizesse com que eu me sentisse pior. Maitê, ao meu lado, aguardava ansiosa.
– E então? O que houve?!
Levantei da cadeira sentindo um grande peso nas minhas costas.
– O cara acabou de morrer.


Capítulo 12

Enquanto Louis balbuciava algumas palavras sobre o estado do corpo do pequeno Theo Patel, eu estava focada no celular. De um lado, Henry mandava mensagens insistentes, tentando me convencer – e sendo bem sucedido nisso – a visitá-lo à noite. Por outro, Maitê estava tentando, em seu tempo livre, ler mais alguma coisa dos arquivos que William havia conseguido para nós.
– Sério que uma criança tá na minha mesa de autópsia e você tá mais interessada nas mensagens pornográficas que seu namoradinho tá mandando pra você? – Louis gritou comigo.
Levei um susto e acabei deixando o celular cair no chão. Danny revirou os olhos.
– Desculpa, você ia dizendo…?
Louis bufou.
– A trajetória da facada indica que o assassino devia ter entre 1,50m e 1,60m.
– Isso é pequeno demais. – Observei.
– É, conta algo que nós não saibamos ainda.
– Sério, Danté, precisamos de foco nisso aqui. – Louis gritou.
Danny balançou a cabeça negativamente e deixou a sala. Louis então se virou e começou a mexer em suas ferramentas. Olhei bem para ele e notei que algo estava estranho em sua postura.
– Aconteceu alguma coisa, Lou? – Perguntei.
Ele apoiou as mãos na mesa, de costas para mim. Pude ouvir enquanto ele respirava fundo.
– A Briana foi embora e levou o meu filho junto.
Suspirei, me perguntando secretamente o que eu deveria dizer. Aproximei-me dele e coloquei minhas mãos em seus ombros. Abri a boca repetidas vezes, sem emitir nenhum som.
– Você sabe pra onde eles foram?
– Pra Califórnia, onde a mãe dela mora.
– E ela disse o motivo?
Ele balançou a cabeça negativamente.
– Por que você não tenta ligar pra ela e conversar?
– Porque eu já entrei com uma ação pedindo a guarda do Freddie. Zayn disse que me ajudaria sem cobrar um centavo.
Deixei escapar um sorriso triste e me apoiei na parede mais próxima. Louis notou minha reação.
– O que houve?
– Ele vai te ajudar pra chegar até mim.
– Como assim?!
Suspirei antes de responder.
– Nos encontramos esses dias e ele disse que quer me provar que ele é a melhor coisa que existe pra mim. Então eu disse que, se houvesse uma chance, ele teria que me fazer as coisas certas e… Bem, acho que ele não entendeu que não vou dar outra chance pra ele.
– E você já foi direta sobre o assunto?
Neguei, depois de hesitar. Louis me entregou a pasta com o relatório da autópsia e, com o olhar, me indicou que nossa conversa tinha acabado.
Na noite daquele mesmo dia, eu estava deitada nos braços de Henry. Por mais que o dia tivesse calmo, me sentia mentalmente cansada. Procurei Henry em sua casa para recarregar minhas energias – ou seria mais correto dizer que eu as havia gastado?
– Eu queria saber se posso te pegar pra almoçar amanhã. – Ele sussurrou contra o meu cabelo.
– Você lembra do que eu falei sobre misturar vida pessoal e trabalho, não lembra?
– Parece que você tem vergonha de que os outros te vejam comigo.
Eu me virei para ele.
– Henry…
– Quando você me chama assim, – Ele me interrompeu. – sempre vai dizer algo pra amenizar as coisas.
– Mas eu juro que…
– Por que não posso assumir um relacionamento com você, Julie? – Ele perguntou, levantando a voz.
Passei as mãos no meu cabelo enquanto olhava firme em seus olhos. Meu corpo decidiu antes da minha mente que o melhor era ir embora. Quando percebi, já estava me vestindo. Henry olhava para mim com os olhos chorosos enquanto eu terminava de me arrumar.
– Julie, eu não quis dizer isso…
– Eu pedi pra você respeitar meu espaço por um tempo.
– Eu só quero ter uma vida normal contigo! Passear, ser um casal! Eu amo você, Julie!
Aquelas palavras me pegaram com a guarda baixa.
– Quantas vezes vou ter que dizer que eu não mereço alguém como você?
– Se eu to aqui depois de tudo, é porque eu realmente quero algo com você.
– Será que quer mesmo?
– Eu não fui embora da primeira vez! Você que não me esperou! Eu voltei por você, Julie. Caso contrário, estaria fazendo muito mais dinheiro na Inglaterra.
– Acho melhor não nos vermos mais. – Eu disse de uma vez.
Não estava acreditando no desfecho que aquela noite estava tendo. Dirigi para casa com lágrimas nos olhos. Não eram lágrimas de tristeza, eram de raiva. A rua estava deserta e eu estava começando a me acostumar com aquele cenário, o que não era necessariamente bom. Um carro encostou logo atrás do meu, assim que eu estava para entra no prédio. Henry saiu correndo, deixando o carro ainda ligado.
– Eu não deveria ter deixado você ir embora! – Ele gritou.
Revirei os olhos.
– Você vai acordar os vizinhos, Cavill.
– Pelo amor de Deus, Juliette! Eu não posso perder você de novo!
– Cavill, não, por favor.
– Me chama de Henry. – Ele finalmente abaixou o tom de voz. – Sabe que só gosto quando me chama assim na cama.
– Mas não estamos na cama aqui.
– Justamente.
Henry olhava nos meus olhos de forma profunda. Ele estava chorando.
– Não sai da minha vida assim.
– Henry…
– Sério, Juliette. Fica na minha vida, por favor. Eu abro mão de todo aquele ritual de relacionamento comum, só não vai embora.
– Mas até quando você vai aguentar isso?
Ele suspirou.
– Então deixa eu continuar te vendo. – Henry suplicou. – Vamos sair pra beber às vezes, conversar… Só fica por perto, Julie, por favor.
– Não sei se você é maturo o suficiente pra isso.
– Eu juro que sou. – Ele insistiu. – Me dá um tempo, eu vou provar.
Cruzei os braços e pensei por uns instantes. Balancei a cabeça negativamente sem saber o motivo.
– Nós dois trabalhamos amanhã. Podemos conversar em outro instante?
Ele assentiu.
– Aguardo sua ligação. – Henry se despediu, antes de entrar correndo em seu carro.
Não havia notado que estava tão frio do lado de fora. Na manhã seguinte, tive que reforçar o agasalho na hora de sair para trabalhar. Cheguei à delegacia e Danny já me aguardava com uma pasta nas mãos. Sorri, simpaticamente, feliz porque aquilo significava que tinha trabalho.
Decidi não ligar para Henry, o que facilitou – em parte – a chegada daquele inverno. Enquanto isso, a delegacia ficava mais vazia, já que nem os criminosos queriam ir para a rua com tanta neve espalhada pela cidade. Nós estávamos parecendo aqueles policiais que realmente não faziam nada. Boa parte do dia se tratava de sentar, jogar buraco e tomar mais copos de café do que o necessário.
– Craig tem um servicinho sujo pra você. – Danny disse, colocando a pasta no meu lado da mesa quando cheguei para trabalhar após um final de semana de folga.
Arqueei as sobrancelhas em resposta.
– Como assim?
– Intimidar James Lee e arrancar uma confissão dele.
Fiquei mais surpresa ainda.
– Então ele matou aquele cara? Mas o Tomlinson não disse que o assassino provavelmente era uma mulher?
– Hoje em dia, as coisas estão diferentes. Quem sabe ele seja mulher… – Danny brincou.
– Jura que você vai fazer piadinha sobre isso a essa hora da manhã, Jones?!
Ele riu e apontou, com a cabeça, para a pasta.
– Acharam o carro da vítima.
– Onde?
– Dentro do Charles.
– O quê?! – Eu gritei. – Como vocês chegaram à conclusão de que o carro tava dentro do rio?
– Por mais incrível que pareça, – William disse, com sua voz sedutora, se aproximando. – o rastreador não parou de funcionar. Aliás… Bom dia, Danté.
Olhei séria para ele, que riu da minha expressão.
– Vão me dar a honra de arrancar uma confissão dele por quê? Pelo jeito, já tá tudo concluído, não?
– Não. – William disse, sentando na minha mesa, o que me deixou um pouco incomodada. – Nós achamos sangue dele dentro do carro e a arma do crime, com as digitais dele. Não significa que ele necessariamente matou, mas…
– Perfeito, já entendi. – Disse. – Agora desce da minha mesa.
Dei uma olhada rápida nos arquivos, me preparando para o interrogatório, antes de levantar. Meus saltos ecoavam pela delegacia naquele dia. Estava chegando uma nevasca mas, mesmo assim, algo me disse para colocar o scarpin preto que eu guardava para ocasiões especiais. Craig estava do lado de fora da sala, olhando pelo vidro. Eu parei brevemente e o cumprimentei com o olhar. Passei pela porta sem perceber que ele estava me seguindo. James Lee estava com as mãos algemadas, tamborilando com os dedos na mesa de metal. Coloquei as pastas que tinha recebido em cima da mesa e encostei na parede, ao lado da porta.
– Já fez sua ligação? – Craig perguntou.
– Não preciso de advogado, se é isso que você quer dizer.
– Tem certeza? – Foi minha vez de tomar a palavra.
Eu havia interrogado James da primeira vez e tinha sido um tanto quando agressiva. Ele levantou o olhar até onde eu estava.
– Da primeira vez que nós conversamos, você pareceu um pouquinho assustado. – Continuei.
– Da primeira vez, nós estávamos sozinhos e você não se comportou como uma policial decente.
Ri.
– Ok. Então dê uma olhada nessas pastas e vai ver o quanto eu posso ser uma policial decente… Mas espera! Você não pode. Tá algemado, né?
O olhar de James agora se concentrava nas pastas que eu havia mencionado. Caminhei lentamente em sua direção e me sentei na mesa, ao seu lado.
– Da próxima vez que for esconder um carro, lembre-se de tirar o rastreador.
– Ou então de limpar melhor as evidências, se é que você tentou limpar. – Craig completou. – E eu to falando sobre aquele pé de cabra que, além de ter as suas digitais, encaixa perfeitamente no ferimento do seu amiguinho. Estamos aguardando o exame de DNA, mas acho que você já sabe qual vai ser o resultado, não sabe?
– Eu quero um advogado.
Craig sorriu. Por um segundo, me vi prestando mais atenção no sorriso dele do que no caso em si.
– Ok então. Eu ia conversar com o promotor, que é um grande amigo dessa grande policial aí do seu ladinho, mas já que você não quer falar…
– Espera!
Revirei os olhos, levantei da mesa e sorri para Craig.
– Achei que o joguinho fosse ser mais divertido. – Disse.
Ele riu e se levantou.
– To pronto pra ouvir o que aconteceu. E quero a verdade dessa vez, Lee.
De repente, Danny irrompeu pela sala. Todos nos viramos para ele, um tanto quanto assustados.
– A Maitê disse que precisa falar com você, com urgência.
Olhei para Craig, que assentiu em um silencioso “pode deixar que eu termino isso por você”.
– Ela disse do que se trata? – Perguntei assim que deixei a sala de interrogatório.
– Não, só pediu pra te chamar com extrema urgência.
Arqueei as sobrancelhas, sem entender muito, mas segui com meus passos largos e pesados até o laboratório onde minha melhor amiga – ou seria a única? – trabalhava. Ela estava tensa, respirando pesado e me ver não pareceu aliviá-la. Seus olhos estavam arregalados enquanto ela se aproximava.
– O que houve? – Perguntei imediatamente.
– Seu pai matou sua mãe.
– E você tá dizendo isso…
– A DGSE, a agência de inteligência…
– Tá, Maitê! Sou francesa, não precisa me explicar o que a DGSE é.
– Eles iam ouvir sua mãe no dia depois da morte dela. Seu pai estava sendo espionado.
– Você tem certeza?
Ela assentiu e me entregou uma pasta. Saí da delegacia correndo, sem deixar que ninguém questionasse meus motivos. Dirigi velozmente até a casa de Max, ele não estava. Então voltei para a rua e fui até a academia onde ele havia voltado a trabalhar depois que deixou a corporação. Ele estava ajudando uma senhora de idade a fazer um exercício quando me viu. Max chamou outro professor para tomar o seu lugar e correu até mim.
– Preciso de você.
– To no meio do meu turno, não pode esperar até a hora do almoço?
– Eu tenho que ir ver o Bongiovi e você sabe que eu não quero ir sozinha.
Ele ponderou por alguns instantes.
– Vou trocar de roupa.
No caminho para o Red Roses, eu expliquei a Max o que tinha descoberto e deixei que ele olhasse os papeis que Maitê havia me entregado. Os seguranças da casa noturna não interromperam minha passagem. Estava cedo e havia poucas pessoas no local. Eu entrei correndo, direto para o escritório de Bongiovi. Ele estava sozinho, degustando um uísque, e se assustou com a minha chegada.
– Achei que deixei claro que você não deveria vir me procurar aqui.
Mostrei a pasta para ele.
– Foi meu pai. – Afirmei.
Enquanto ele analisava os papeis, eu andava de um lado para o outro. Max, com uma de minhas armas no cós da sua calça, estava encostado na parede. Bongiovi então fechou a pasta e discou um número em seu celular. Eu não entendi as palavras que ele disse, provavelmente em italiano. Fiquei olhando para Max enquanto tentava absorver alguma coisa da conversa. Quando ele desligou, olhou para mim com o olhar mais sereno que eu já havia visto.
– Está resolvido.
– Você ligou pra polícia francesa? – Perguntei.
Bongiovi riu.
– Eu falei que seu pai ia pagar pelo que fez, mas não disse como, disse?


Capítulo 13

Peguei o primeiro voo para Paris no Logan. Eu não sabia muito bem o que estava sentindo, só sabia que precisava ir para casa. Não avisei Danny, Maitê, Craig ou qualquer um com quem eu mantivesse contato. Eu não tinha procurado fazer muitos amigos nos Estados Unidos, então as pessoas do meu trabalho provavelmente eram as únicas que sentiriam minha falta. Mesmo assim, mesmo sabendo que só um telefonema rápido seria suficiente, eu não alertei ninguém sobre o meu sumiço repentino.
Meu tio Warrane foi me buscar no Charles de Gaulle. Anos haviam passado desde que eu colocara meus pés na capital francesa pela última vez, e mais ainda se passaram desde que eu tive contato com algum parente. Warrane era o irmão mais velho de meu pai. Havia se mudado para o interior quando eu ainda era pequena. Ele tinha uma pequena fazenda em que criava cavalos. Eu havia me afastado porque meu pai me proibiu de visitá-lo, sem nenhuma explicação. Como era criança, não questionei a razão.
Ele olhou para mim, de cima a baixo. Pude ler em seus olhos que estava surpreso por termos nos reconhecido. Meu tio me abraçou apenas, em silêncio. Seguimos assim até o carro dele. Fiquei tonta na viagem até a delegacia da polícia parisiense, talvez por não ter mais costume de andar no lado esquerdo da via. Sua irmã – e, consequentemente, minha tia Maxime – estava sentada próxima a uma porta com a palavra “delegado” adesivada nela. Seu semblante estava acabado. Mesmo assim, eu estava surpresa por alguém estar sofrendo por causa da morte do meu pai.
Loring Danté. O nome fazia alguns pequenos empreendedores tremerem na base. Ele tinha fama de caçar pequenos negócios e os destruir. Não era o trabalho mais nobre, mas ele era bem conhecido em boa parte da França por ter construído sua fortuna em cima das ruínas de pessoas que tentavam se dar bem na vida pelo menos uma vez. Claro que isso traria muitos inimigos, então os investigadores – era essa palavra que os policiais de lá usavam – acharam que teriam tantos suspeitos para procurar que talvez nunca fossem achar o verdadeiro culpado. Bem, pelo menos foi isso que disseram para mim naquela tarde.
Como parente mais próxima, eu precisava afirmar que o corpo era do meu pai. Quando levantaram o lençol, senti uma forte ânsia tomando conta de mim.
– Usaram uma G36 pra isso? – Perguntei ao legista.
– Você é boa nisso, mas foi uma M4.
– Ela é detetive em Boston, na América. – O delegado, que me acompanhava, acrescentou.
O rosto do meu pai estava completamente irreconhecível, graças ao estrago que a bala havia feito. Provavelmente, ele não tinha sofrido muito. Minha tia ainda estava inconsolável e eu, ainda sem entender por qual motivo sofrer pela morte de alguém que só te fez mal. Seu marido havia chegado e nem me reconhecera. O delegado pediu que, como eu era da área, conversasse com ele a sós a fim de ser sucinto em suas palavras.
A sala dele não era tão bonita quanto a de Craig em Boston, era tudo o que eu podia notar enquanto brevemente olhava em volta.
– Bem, senhorita Danté…
– Juliette, por favor.
Ele sorriu.
– Juliette, – O delegado retomou o raciocínio. – eu sinto muito por sua perda, mas você, mais do que ninguém, sabe que existem alguns assuntos que devem ser tratados, dadas as circunstâncias.
– Claro. – Eu assenti. – Como vocês vão proceder aqui?
– Primeiramente, gostaria de informar que precisamos atrasar um pouco o enterro do seu pai. O corpo fresco pode ser importante pra determinar fatores que possam apontar para uma resolução.
– Mas a análise da cena do crime não deixa claro que foi um tiro à distância, com precisão, sem luta corporal e toda aquela falação?
– Bem, não sei se podemos descartar todas opções.
Eu pensei por uns instantes e assenti novamente.
– E a papelada que eu preciso assinar?
– Por enquanto, nenhuma. Só precisamos que autorize a liberação do corpo, quando necessário.
– Tudo bem. Mais alguma coisa?
Ele olhou sério para mim.
– Você parece não estar muito abalada.
– É o costume.
– Mas ele é seu pai. – O delegado insistiu.
– Se ele estivesse vivo, o senhor entenderia, pelo comportamento dele, o motivo pelo qual não estou abalada. – Expliquei. – Além disso, não nos falamos desde 2007.
– Li que sua mãe faleceu também. Eu sinto muito.
– Não precisa.
Ele se levantou e ajeitou o paletó.
– De qualquer forma, gostaria de garantir que eu e minha equipe estaremos dando o nosso melhor pra encontrar quem fez isso com seu pai e…
– Delegado, – Eu o interrompi. – já fiz isso com muitas famílias. Acredite, eu vou ficar bem.
– Leva um cartão. – Ele disse, entregando um pequeno pedaço de papel para mim. – Se precisar, estarei à disposição.
Sorri, em agradecimento, e deixei a sala me perguntando se deveria ter comentado algo sobre minha investigação extraoficial nos Estados Unidos ou se estava certo manter aquilo em segredo. O marido de tia Maxime, Garon, era advogado e gostava de se gabar por isso. Nunca tinha ido com a cara dele – não ir com a cara das pessoas era um hábito que eu tinha – e, naquele instante, mais que nunca, eu ia reagir mal a qualquer contato. Isso era óbvio para qualquer um, mas parecia que ele estava decidido a ignorar tudo que já sabia sobre mim.
Quando o vi se aproximando, meu peito inflou de um sentimento não muito saudável. Revirei os olhos antes mesmo de ouvir sua voz.
– Juliette, eu queria que aceitasse minhas sinceras condolências pelo que aconteceu com seu pai.
Dei o meu melhor sorriso fingido, esperando que ele se afastasse com minha reação.
– Se você quiser, posso começar a ver a documentação do testamento do seu pai…
– Você quer mesmo disputar a capacidade de advogar de uma graduada em Harvard e um graduado na Pantheón-Assas?
Ele engoliu em seco enquanto minha tia, que havia notado o clima esquentando, se aproximava lentamente.
– Juliette, eu entendo que você esteja afetada com…
– Não. – Eu o interrompi. – Não estou. Vocês todos sabem disso. E também sabem que já era hora de alguém te dizer que não adianta de nada se formar na melhor faculdade de Direito da França pra ser um advogado de quinta categoria.
– Juliette! – Minha tia me chamou a atenção com um grito agudo.
Revirei os olhos para ela também.
– Já ligaram pra funerária? – Perguntei de forma agressiva, ao que os dois responderam com uma negativa. – Alguém tem que parar de fingir pena e fazer o trabalho sujo, né?
Por sorte, meu pai tinha um plano funerário que permitiria que ele tivesse um enterro à sua altura. Se dependesse dos meus recursos financeiros, ele provavelmente seria enterrado em uma cova comum no lugar mais barato da cidade. Em vida, meu pai havia expressado várias vezes o desejo de ser cremado, mas eu não era uma filha boazinha. Em minha última lembrança de meu pai, pelo menos, queria que ele parecesse o marido e pai ideal que nunca foi.
Minha mãe descansava, desde 2007, num dos maiores mausoléus do Cimetiere du Pere Lachaise. O aluguel do espaço estava sendo pago pelo meu pai até então – seria remorso? – e depois eu descobriria como manter o pagamento do local para que minha mãe continuasse em paz.
Nós nunca tivemos uma religião que pudéssemos chamar de nossa, mas alguém chamou um padre, mesmo sem minha autorização. Por mais que meu cérebro estivesse queimando de ódio pelas recentes descobertas, eu ainda sentia, no fundo do meu coração, um bocado de luto. Permaneci em silêncio enquanto o padre ainda falava. Os óculos escuros não escondiam lágrimas mas sim olheiras, das últimas três noites mal dormidas em um hotel barato. Eu me recusei terminantemente a passar qualquer instante dentro da casa em que meu pai – e, anteriormente, eu também – morava, embora o delegado Durango tivesse acelerado as investigações para que o espaço pudesse ficar livre para meu uso.
Continuei imóvel, na porta do mausoléu, mesmo depois dos funcionários do cemitério terem pedido que eu saísse em prol de que eles pudessem fechar o portão. O caixão de minha mãe estava exatamente do mesmo jeito que eu me lembrava. Ainda não estava pronta para deixar o local quando senti uma mão em meu braço. Virei para trás um tanto quanto assustada. Henry tentou sorrir.
– Você deveria ter me ligado. – Ele disse.
– E você não deveria ter vindo até aqui por algo tão insignificante.
– Não é insignificante, Julie. Seu pai morreu.
Respirei fundo, uma última vez. Dei as costas para o mausoléu com passos curtos enquanto Henry me seguia.
– Foi um local bonito o que escolheram. – Henry comentou.
– Minha mãe também tá lá. – Sussurrei com a cabeça baixa.
As memórias de 2007 ainda estavam bem vívidas em minha mente. Ao contrário daquele dia, o céu estava negro e a neve caía com força. Eu era uma criança desamparada, ainda inocente demais para lidar com a morte prematura de minha mãe. Várias pessoas – a maioria, eu desconhecia – me abraçavam e desejavam minha melhora. Nisso, o enterro de meu pai não foi muito diferente. Seus colegas, executivos tão sujos quanto ele, nunca haviam me visto, mas acreditavam que suas condolências significariam alguma coisa para mim.
Naquele dia, enquanto eu e Henry caminhávamos lentamente até a saída do cemitério, o Sol estava brilhando em um céu sem nuvens. Era caótico para minha mente já que, por dentro, eu me encontrava tão em choque quanto estava na última vez que pusera meus pés naquele cemitério.
– Sei que você disse pra não nos voltarmos a nos ver, mas não pude evitar…
– Henry, não é a hora pra isso. – Tratei de o interromper.
– Eu só não podia te deixar na mão numa hora dessas.
– Vou ficar bem.
Ele sorriu e se apoiou em um carro, provavelmente alugado.
– Onde você tá ficando? – Ele perguntou.
– Num hotelzinho no nono distrito. Foi o mais barato que encontrei.
– Eu to no Pullman. É perto do aeroporto. Não sei o que você pretende fazer, mas me permiti reservar um quarto bom pra duas pessoas.
Sem palavras, minha única reação foi morder meu lábio.
– Eu juro que são camas de solteiro. – Ele insistiu com um sorriso doce no rosto, o que me fez devolver o gesto involuntariamente. – Se eu estiver sendo chato, não precisa, mas saiba que, se precisar, se simplesmente não quiser estar sozinha durante o dia de hoje… Eu vou estar aqui.
Pensei por um breve instante, olhando o pórtico do cemitério.
– É seu? – Apontei para a BMW.
– Alugado, pra falar a verdade.
Ponderei mais um pouco, hesitando tanto que até eu estava ficando nervosa com a demora.
– Eu entro nele, desde que você possa me garantir que vai saber dirigir do outro lado da pista.
Henry riu.
– Também sou europeu, Julie.
Revirei os olhos enquanto ele abria a porta do carro para mim. Renier Margueríte, um dos advogados e melhor amigo de meu pai, me ligou enquanto nos encaminhávamos para o hotel de Henry, pedindo que eu o encontrasse com urgência. Nós dois nos guiamos por Paris graças ao GPS integrado no carro até chegarmos ao seu escritório. Quando bati na porta, rapidamente uma mulher veio me atender.
– Senhorita Danté, por favor, o senhor Margueríte lhe aguarda em sua sala.
Assenti e segui o caminho até a porta que conheci quando ainda era criança. A mulher logo nos gritou.
– Precisa entrar sozinha, por favor.
Henry olhou para mim, confuso.
– Você precisa ficar. – Traduzi.
– Tem certeza?
Olhei para a mulher, que claramente não entendia o inglês que estávamos conversando.
– Ele é meu advogado. – Eu disse, em francês.
Ela, então, cedeu. O homem que eu conhecera no passado havia envelhecido, e muito. Ele esticou a mão para mim, por cima da mesa de madeira bruta.
– Faz um bom tempo que não nos vemos, Juliette.
– Renier. – Eu o cumprimentei e decidi manter a conversa em inglês, já que sabia que ele era fluente. – Esse é Henry Cavill. Ele é juiz em Boston, onde eu moro, e veio aqui como meu advogado.
– Sentem-se, por favor. – Ele disse, após cumprimentar Henry.
– E então? Por que me trouxe aqui?
– Imaginei que você soubesse. – Renier falou.
– Não faço ideia.
Ele jogou uma pasta para mim por cima da mesa.
– Se bem me lembro, você é bem parecida com seu pai e gosta das coisas de forma objetiva. Então o que tenho é que seu pai deixou tudo o que tem pra você e a empresa tá me cobrando uma resposta.
Arqueei as sobrancelhas imediatamente, mais assustada do que jamais estivera na vida.
– Meu pai deixou o quê?!


Capítulo 14

Coloquei a .9mm no cós da calça no melhor estilo femme fatale. Meu carro pareceu não gostar muito quando eu arranquei em direção ao Red Roses. Já era tarde. Henry e eu tínhamos acabado de voltar de Paris. Pessoalmente, ainda estava processando todos os dados sobre ter herdado a parte do meu pai na empresa. Renier precisava de uma resposta sobre a possibilidade de eu assumir o cargo. Quando ele me recomendou vender a minha parte, soube que ele falou aquilo pois sabia que era o melhor para mim. Então ele prometeu negociar por mim e me manter informada. Voltei para os Estados Unidos depois de acertar os honorários dele.
Ninguém da delegacia sabia que eu estava de volta, nem Maitê. Sabiam que eu havia perdido meu pai e que, por isso, estava afastada. Boa parte dos meus colegas da delegacia deixaram mensagens solidárias em meu celular. Mas, naquele instante, o que me importava era a arma no cós da calça e a cabeça de Bongiovi na mira dela.
Os seguranças dele não questionaram minha presença, o que me permitiu – não sem antes respirar fundo e fazer cara de quem estava tranquila – entrar no lugar sem interrupções. Fiz o caminho até o escritório de Bongiovi. Ele estava recebendo um homem bem apessoado. Não reagi de forma que desse a entender que eu sentia muito por estar interrompendo seja lá o que estivesse acontecendo ali. Bongiovi levantou o olhar até mim.
– Pode nos dar licença por um instante, Wood? – Ele disse.
O rapaz assentiu e, carregando uma maleta, deixou a sala. Assim que a porta se fechou, eu puxei a arma e apontei para a cara daquele filho da puta.
– Achou que eu viria aqui pra agradecer o favor?
Bongiovi riu.
– Abaixa isso, Juliette, por favor.
Engatilhei a arma e me certifiquei por completo de que a minha mira estava perfeita.
– Que merda você tava pensando, Bongiovi?
– Eu?! Merda?! – Ele disse, sarcástico. – Aparentemente, quem tá pensando em alguma merda é você, minha cara. Aliás… Quando você vai soltar aquela famosa frase do “me dá um bom motivo pra...”? Porque eu tenho vários.
Bongiovi levantou da sua cadeira, mas eu mantive minha mira impecável.
– Por onde você quer começar? Pelas pessoas que vão contar tudo pro seu chefe se você fizer alguma coisa comigo? Ou pelas provas que vão surgir repentinamente na mão do seu parceiro que já tá me enchendo o saco, mostrando o quão fora da lei você esteve nas últimas semanas?
Enquanto falava, Bongiovi se aproximava ainda mais de mim.
– Mas, por último, e não menos importante… Será que você não vai surgir como principal suspeita na investigação da morte do seu pai? Dessa vez, não tem ninguém pra subornar um juiz e acabar com tudo, não é?
Minha mão tremia, notável. Era inadmissível, para mim, que eu mostrasse qualquer sinal de fraqueza. Mas não tinha jeito.
– Agora, Juliette, me faça o favor e pare de graça. Como se você fosse me matar com uma pistola criada na minha terra natal, não é?
Eu reagi mais rápido do que pensei. Acertei a bochecha dele em cheio com a coronha da arma. Ele cambaleou, deu alguns passos para trás mas, mesmo assim, manteve aquele sorriso cínico no rosto. Bongiovi lambeu o lábio inferior, de onde começava a transbordar uma pequena quantidade de sangue.
– Vou te perdoar por essa porque foi merecido. Mas, se você me permite, deixa eu te dar um conselho de amigo: sai daqui antes que você possa se arrepender.
Cuspi na cara dele antes de lhe dar as costas.
– Você ainda vai ouvir falar de mim, sua vagabunda! – Ele gritou.
A arma, que já estava engatilhada, disparou. Acertei em cheio o pé de uma das poltronas do escritório dele.
– A próxima é no meio dos seus olhos.
Seguranças fervilharam com o barulho. Fiz uma anotação mental imediata para arrumar uma arma com silenciador quando fizesse uma nova visita. Ainda desnorteada, tanto pela situação quanto pelo disparo, dirigi para a delegacia. Estava completamente aérea e só lembrei que estava sumida do serviço quando fui recebida por olhares um tanto quanto assombrados.
Craig, o redimido tenente, foi o primeiro a se aproximar de mim.
– Estou bem. – Disse antes que ele pudesse falar alguma coisa. – Vim trabalhar.
– Danté, eu realmente acho que seria ideal você ficar mais um tempo em casa.
Tirei meu casaco e coloquei no encosto da minha cadeira.
– E eu realmente não to afim. O que aconteceu enquanto eu tava fora?
– Não importa o que aconteceu antes. – Danny disse, pegando o casaco na mesa e o vestindo. – Nós recebemos um chamado.
Troquei um olhar intenso com Craig que abalou minhas estruturas. Ele estava, de fato, preocupado comigo. Mas, mesmo assim, eu pendurei meu distintivo no pescoço e coloquei o coldre.
– Alguma objeção, tenente?
Ele se limitou a negar. Depois de poucos segundos, nós estávamos prontos para ir até a esquina da rua do Museu de Belas Artes com a Gainsborough Street. Alguém muito puto havia entrado na Panera Bread e matado sete pessoas. Além disso, o assassino ainda estava no local, mantendo dezenas de civis como reféns. Olhei para Louis, que estava chegando com sua equipe. Ele, primeiramente, se surpreendeu por me ver ali, mas não demorou para me direcionar um sorriso.
– Acho que alguém vai ter trabalho pra cacete nos próximos dias. – Comentei, brincando.
Ele deu de ombros e se colocou de pé, ao meu lado.
– Ossos do ofício. – Louis disse e olhou para mim. – Como você tá?
– Bem, obrigada. – Respondi. – E você? Como vai a briga pela guarda do Freddie?
– Zayn está tentando se desdobrar, mas ainda não sei dizer se tem algum indício de que eu vou ser favorecido. Ele perguntou de você.
– Diz que eu morri. – Ralhei.
Louis riu e me deixou sozinha para terminar seu trabalho. Enquanto isso, de trás da fita que isolava a área, ouvia-se uma mulher gritando histericamente. Danny se virou para mim com sua expressão característica. Eu revirei os olhos, dei meia volta e procurei a origem daqueles gritos. Revirei os olhos mais uma vez mas não surtiu efeito. Quando passei por baixo da fita de isolamento, a mulher praticamente me abraçou.
– Por favor, policial, é meu marido que tá lá. – Ela gritou no meu ouvido, chorando.
– Acalme-se, primeiramente. Agora a senhora poderia me acompanhar até a viatura?
Ela assentiu, embora parecesse não concordar com aquilo. Coloquei a mulher sentada no banco de trás e entreguei para ela o pacote de lenços que guardava no porta-luvas para situações como aquela.
– Primeiramente, me diga seu nome.
– E do que isso importa?
Mentalmente, estava revirando os olhos, mas precisava manter a pose, então respirei fundo sem que ela percebesse minha impaciência.
– Desculpa. – Ela disse antes que eu retomasse a conversa. – É Lily. Lily Young.
– Senhora Young, preciso que a senhora se acalme.
– Como você quer que eu me acalme? Como vou criar as crianças sem ele?
– Não identificamos as vítimas ainda, senhora Young, não podemos afirmar com certeza que, de fato, seu marido se encontra entre os mortos. Então se acalme, por favor, enquanto fazemos nosso trabalho, ok? Vou pedir a um oficial que leve a senhora para a delegacia e nos encontramos lá assim que eu terminar aqui.
Em meio a lágrimas e soluços, ela assentiu. Logo consegui me livrar daquela responsabilidade e voltei para perto de meus colegas de trabalho. Todos estavam apreensivos com a chegada de Craig. Ele só aparecia em campo quando a coisa estava feia – e uma situação com reféns nem sempre era feia o suficiente.
– A SWAT já está a caminho. – Ele disse enquanto terminava de se aproximar. – A suspeita é de que se trate de um ataque terrorista.
– Informações sobre os reféns? – Danny perguntou.
– Por enquanto, nada. Mas quero vocês prontos pra ação e dispostos a ajudarem a SWAT no que…
Craig não terminou sua fala. Antes que qualquer um de nós pudesse reagir, fomos alvejados por tiros vindo de dentro do estabelecimento de onde tínhamos reféns para tirar – ou não tínhamos mais. Senti alguém saltar sobre mim, mas minha mente estava fixada em tirar minha arma do coldre e atirar. Depois que esvaziei o pente que percebi que era Craig quem tinha entrado entre eu e a origem dos tiros. Havia algo esquentando minha pele e, por um instante, achei que meu tenente havia mijado em mim, mas logo entendi que ele havia sido atingido. Corri para colocá-lo em uma posição confortável após verificar que ele havia sido ferido na barriga, em uma área que apresentava pouco risco. Olhei em volta procurando por Louis e Danny, que haviam se protegido atrás de uma viatura.
– Tomlinson! – Gritei assim que os tiros cessaram. – Preciso de você aqui!
Craig riu, um misto de ironia e dor.
– Acho que, afinal de contas, eu que não devia ter trabalhado hoje.
Dei de ombros, tentando não reagir de forma brusca para não o assustar.
– Acontece.
– Fico feliz que esteja aqui.
Revirei os olhos.
– Até parece que você levou um tiro no peito e vai morrer. – Ironizei.
A SWAT, como Craig havia dito, tinha chegado. Talvez os tiros só tivessem parado por causa deles. Os agentes estavam entrando no local sem ao menos fazer uma pergunta sequer, mas todos da nossa delegacia estavam focados em Craig, gemendo de dor, com a cabeça no meu colo, enquanto Louis averiguava a ferida antes dele ser removido para o hospital em uma das ambulâncias que já estavam no local. Os tiros afastaram os curiosos, o que era bom, por um lado, mas acabava liberando passagem para aqueles cujos entes queridos estavam possivelmente envolvidos naquela fatalidade. Quando dei por mim, percebi que Henry era um desses.
Paramédicos retiraram Craig enquanto eu me levantava, sacudia a poeira e ia falar com ele.
– O que você tá fazendo aqui?
– Deixei o tribunal assim que soube do tiroteio. – Ele disse, rápido demais, olhando para a pequena mancha de sangue em minha roupa. – Você tá bem?
– Só um pouco desnorteada ainda por conta da barulheira, mas nada que o tempo não cure.
– Você não devia estar trabalhando. Não agora que voltou de Paris depois de dias complicados.
– Eu to bem. – Afirmei.
– Tenho outra escolha a não ser acreditar?
– Não.
– Então me desculpa, ok? – Ele disse, com os ombros caídos. – Eu vim aqui ver se você tava bem. Agora que eu vi, melhor ir antes de mais grosseria sua.
Eu o assisti caminhando de volta para seu carro, incerta sobre como reagir. Meu lado racional não queria, mas eu corri até ele e me coloquei entre ele e a porta.
– Não faz isso, por favor.
– Não fazer o quê, Juliette?
– Ficar bravo comigo.
Ele revirou os olhos.
– Como eu deveria ficar então?
Foi a vez de meus ombros caírem.
– Só queria que você entendesse que eu to trabalhando, o serviço é estressante e acabamos de passar por um tiroteio que, mesmo pequeno, pode abalar a estrutura emocional de qualquer um.
Henry olhou para mim de forma intensa por longos segundos, quase me abalando mais do que a recém troca de tiros. Então se aproximou, puxou minha cabeça para perto de si e beijou minha testa. Ele ia entrando no carro quando eu o impedi, segurando a porta.
– Tá tudo bem, Henry?
Ele sorriu.
– Eu tenho que correr de volta pro tribunal, to atrasando uma sessão por sua causa.
Balancei a cabeça em negação enquanto ele partia. A ambulância já tinha levado Craig para o Massachussets General Hospital e era hora de eu, Danny, Louis e todos os outros começarmos nosso trabalho.
O lugar estava uma bagunça, havia vidro quebrado por todo lado e beirava o caos, embora houvesse um gostoso cheiro de café fresco pairando no ar. Mesmo o tiro certeiro de um dos agentes da SWAT tendo libertado vários reféns, as vítimas ainda existiam. Louis contava com a ajuda de legistas de outras delegacias para poder dar conta de, ao menos, preparar os corpos para o transporte até o necrotério. Como o local do incidente estava dentro da nossa área, o trabalho pesado seria nosso. De qualquer forma, eu me permiti sentar em um dos poucos bancos que não estava, de alguma forma, destruído.
– O que houve? – Danny perguntou, colocando uma luva em sua mão direita.
Dei uma olhada em volta.
– Será que um dia a gente se acostuma? – Questionei.
Danny quase riu.
– Se acostumando ou não, acho melhor a gente fazer nosso trabalho direito. O Craig tá no hospital mas ainda pode botar a gente no olho da rua.
Eu ri, me levantei, prendi o cabelo em um coque e coloquei luva nas minhas mãos.
– Ao trabalho então.


Capítulo 15

Havia um buquê de flores em cima da minha mesa. Por um momento, achei que fossem de Henry, mas ele sempre me dava narcisos – desde que nos conhecemos, nunca houve uma vez em que ele mudasse sua escolha. Não havia motivo para que ele me desse flores naquele instante, então precisava considerar minhas outras opções. A cor rosa contrastava com o tom amadeirado do tampo da mesa. Danny riu para minha cara fechada.
– Ganhou um admirador secreto?
Olhei em volta.
– Quem foi? – Perguntei.
Ele deu de ombros de um jeito muito suspeito.
– Não sei, ué…
Craig estava saindo de sua sala.
– Ele já voltou pro trabalho?
– Você parece bem interessada nele pra alguém que, até pouco tempo, queria descobrir algo que o tirasse do comando da delegacia. – Danny disse, com um sorriso suspeito no rosto.
Craig estava conversando com alguém do exército. Pelo uniforme, podia notar que era alguém importante. Eu estava sentada, observando-o, tão atenta que não percebi que estava boquiaberta. Enquanto eu notava os contornos de cada músculo do corpo de Craig bem escondidos pelo terno e torcia – inconscientemente – para aquelas flores serem presente dele, Danny estava rindo da minha cara.
– Quer que eu pegue papel higiênico no banheiro?
Eu voltei a mim com um choque.
– Não é nada disso que você tá pensando.
– Se você tivesse um pinto, ele taria levantando o tampo da mesa agora.
– Pinto?! Onde?! – Maitê, que se aproximava de nós com um envelope nas mãos, perguntou.
Eu e Danny nos entreolhamos e caímos na gargalhada.
– O que você tem aí pra gente?
– Resultado da análise da balística. – Ela disse, entregando o envelope para Danny. – Eu to meia enrolada no laboratório, então, se precisarem… Sabem onde me encontrar.
– Detetive Danté! – Ouvi alguém me gritar enquanto Maitê ia embora e olhei para trás, achando um dos novatos ofegando. – O telefone, é uma ligação pra senhora.
Assenti e, enquanto olhava para Danny, coloquei o telefone no ouvido.
– Aqui é a Detetive Danté.
– Faça uma expressão tranquila ou teremos problemas. – Reconheci a voz de Bongiovi do outro lado e sorri, tentando disfarçar.
– Oi! Tudo bem?
– Agora arrume uma desculpa e vá até o InterContinental, a pé. Apresente-se como quem é, você não enfrentará problema algum por conta disso. Só preciso que você esteja lá pra depois me fazer um favor. Você vai dizer que o senhorio do seu apartamento precisa de você.
– Olha, não sei se eu vou conseguir fazer isso por agora. – Falei, olhando para o computador e fingindo digitar alguma coisa.
– Não é problema meu. – Ele disse e desligou.
– Tudo bem, nos vemos já. – Eu disse, mesmo sabendo que ele não ouvia nada.
Enquanto olhava para o chão, revirei os olhos. É claro que Danny estava extremamente atento.
– Onde você vai?
– Encontrar com o dono do meu apartamento. Ele tá com um probleminha e perguntou se eu podia adiantar o aluguel desse mês.
– Precisa de algum dinheiro? – Ele perguntou enquanto eu colocava o casaco.
– Não, tá tranquilo. Já volto.
Meu coração estava na boca. A ousadia de Bongiovi de ligar para a delegacia havia me perturbado. Mesmo assim, não hesitei em obedecer. Algo me dizia que eu devia contestá-lo, mas era tarde demais e eu já estava no hotel. A recepcionista pareceu me reconhecer e deixou o balcão onde estava para vir até mim.
– Detetive Danté?
Eu confirmei.
– Seu convidado está lhe esperando no sétimo andar.
Assenti sem dizer uma palavra sequer e me direcionei para o elevador. O ascensorista olhou assustado para a arma no meu coldre e acabou deixando que eu mesma apertasse o botão do andar, me deixando sozinha no elevador. A porta fechou e, quando voltou a abrir, fez meu coração acelerar repentinamente.
– O que você tá fazendo aqui? – Eu perguntei, deixando o elevador.
– Não foi você quem mandou eu vir aqui? – Zayn rebateu.
– Definitivamente não.
– Então por que um policial foi até o meu escritório pra dizer que você estaria me esperando aqui exatamente agora?
Enquanto minha mente conectava os fatos, as luzes se apagaram e ouvimos um estrondo. Minha mente pensou logo em puxar a arma do coldre, mas o barulho era de uma magnitude muito maior do que a minha simples pistola. Então eu notei que tudo estava tremendo. Imediatamente puxei Zayn para dentro do elevador e apertei, nervosa, o botão para fechar a porta. O elevador tremeu e eu já estava com o celular na mão, hesitando, sem saber para quem ligar.
– O que tá acontecendo? – Zayn perguntou.
Eu olhei para ele, provavelmente mais assustada do que poderia dizer. O elevador tremeu de novo, desta vez de forma mais intensa e demorando até parar,,e a luz do elevador apagou. A lâmpada de emergência era fraca e mal iluminava o pequeno espaço. Minha respiração estava pesada e Zayn logo se aproximou.
– Você tá bem?
– To. – Respondi e apertei o botão de alarme do elevador várias vezes.
Olhei para o celular e senti um grande alívio ao ver que, embora a bateria não estivesse tão boa, ainda havia sinal. Imediatamente, liguei para a delegacia. Em momentos, uma voz conhecida atendeu.
– Craig?!
– Quem é?
– Danté. Aconteceu alguma coisa no InterContinental e eu…
– Você tá no InterContinental?! – Meu chefe perguntou, assustado. – O que você tá fazendo aí?!
Respirei fundo.
– E-eu vim encontrar uma pessoa. – Menti.
– Juliette, onde você tá?
– No elevador. Tá acontecendo alguma coisa, Craig?
– Houve uma explosão na tubulação de gás. – Ele disse, um tanto quanto desesperado. – Parte do hotel desabou.
Olhei para Zayn novamente. Agora o susto havia se transformado em preocupação. Olhei para o painel e, aparentemente, só havia três andares abaixo de onde estávamos. Se o elevador caísse, provavelmente não sofreríamos nenhum dano sério.
– Tem alguém a caminho? – Perguntei.
– Provavelmente já mandaram os bombeiros. Eu to indo praí.
– Você deveria estar em casa de repouso, acabou de receber alta.
– Mas Juliette…
Entrou outra chamada no meu celular na hora. Assim que olhei o visor, verifiquei que era o número do escritório de Henry. Respirei fundo e retomei a ligação com Craig.
– Preciso ir, tem alguém me ligando. – Eu disse e desliguei, sem dar oportunidade para que ele falasse e esperando que, assim, ele desistisse da ideia de ir atrás de mim.
Não precisava ser especialista para saber que vazamento de gás era importante e que devia se manter uma boa distância do local. Além do mais, eu e Zayn estávamos correndo um grande risco, já que não sabíamos se o gás estava ou não entrando no elevador. Enquanto pensava nisso, controlei meus nervos e deixei o telefone tocar até desligar.
– E agora? – Zayn perguntou.
– E agora vamos esperar o resgate.
Zayn revirou os olhos e se sentou no chão.
– Cadê as sirenes?
– Os bombeiros só chegam rápido assim nos filmes. – Zombei.
Sentei no chão do elevador, no extremo oposto ao local em que Zayn estava, e respirei fundo, apoiando minha cabeça na parede e fechando os olhos.
– Eu bem que queria ter um tempo com você, mas não assim.
– Não faz isso, Zayn, por favor. – Resmunguei, ainda de olhos fechados.
– Pelo menos aqui você não pode fugir de mim.
– Você queria o quê? Que eu te adulasse?
– Queria que a gente conversasse.
Abri os olhos e o encarei, não sem bufar.
– Acho um tesão quando você faz isso.
– Mas você achou um tesão também se envolver com um monte de traficantes.
– Você dormiu com meu melhor amigo depois que nos separamos e nem por isso eu fico jogando na sua cara o quanto isso me prejudicou.
– Continua falando assim e suas chances vão aumentar imensamente. – Ironizei.
Ele olhou para o chão.
– Por que você me deixou?
– Por quê não deixaria? Era pra esperar um dos seus fornecedores ir até onde eu morava pra cobrar uma dívida sua?
– Você acha que eu nunca te amei?
– Não, Zayn, não é essa questão. Se você me amava, não importa porque, mesmo que amasse, você amava mais as drogas.
– Eu amava mais você.
– Então por que escolheu viver na merda em vez de me dar a chance de te ajudar?
– Você não faz ideia de como eu estava me sentindo naquela época.
– E eu deixei faltar alguma coisa na sua vida, Zayn? – Exaltei a voz. – Sempre estive ao seu lado, pra tudo, e sempre deixei isso muito claro.
– Eu só me afundei de vez porque fiquei sem você.
– Vai colocar a culpa em mim agora? – Disse, com todo deboche que podia. – Que maturo!
Fui interrompida, finalmente, pelas sirenes. Nós trocamos um breve olhar com uma pitada de esperança. Houve uma leve tremedeira, que perdurou. Voltei a me sentar, sentindo, subitamente, um cansaço inexplicável. Então Zayn, contra a minha vontade, sentou-se ao meu lado.
– Se eu pudesse escolher, ficaria trancado aqui contigo até a gente se acertar.
– Não tem como a gente se acertar.
– Será mesmo? – Ele perguntou, com um sorriso nos lábios. – Busca no seu interior, naquela menina que brigava comigo porque eu não deixava o cabelo do jeito que ela queria e que me fazia aquele frango com queijo maravilhoso…
Deixei escapar um leve sorriso. De fato, a época que estive com Zayn ainda parecia boa, mesmo depois de ter amadurecido. Eu sempre achava que só tinha curtido tanto aqueles meses porque era nova demais e inexperiente. Mas, depois de anos longe dele, Zayn ainda me conhecia perfeitamente e sabia aquela menina ainda estava ali, em algum lugar. Só tinha um problema: aquela menina não gostava mais dele.
– Zayn… Eu…
– Eu sei que você ainda gosta de mim.
– Desculpa, mas não gosto. – Disse, decidida. – Tenho um grandessíssimo apreço por você, por tudo que tivemos juntos. Mas não é o suficiente. Eu conheci outras pessoas e…
– E viu que eles são melhores do que eu? – Ele questionou, desanimado.
– Não se trata de quem é melhor ou não. Se trata de quem seu coração escolheu.
– E quem é o sortudo?
Olhei para o outro lado do elevador, para a parede oposta à nossa.
– O pior de tudo é que eu não sei.
Eu podia jurar que estava ouvindo uma voz me chamando, mas não sabia de quem era. Na verdade, nem sabia se era de alguém, de fato, ou se era minha mente me enganando. Os poucos minutos que eu estava ali com Zayn já tinham se transformado em quase duas horas e ouvir a respiração dele daquele jeito, tão nítida, parecia estar me enlouquecendo.
– Por que você não procurou conhecer outras pessoas? – Perguntei, achando que manter a conversa talvez me ajudaria a ficar mais calma.
– Eu procurei mas, no fundo, queria achar você em cada boca que eu beijava.
– Talvez você deveria ter se esforçado mais. – Eu disse e dei de ombros.
Ele se calou por uns instantes, e eu não sabia dizer se foi por causa da minha resposta ou por causa da barulhada do lado de fora do elevador.
– Não tem mais chance de ficarmos juntos, né?
– Não, Zayn. Desculpa. E não sei se, pra você, há muita vantagem em se tornar meu amigo. Você é um advogado, eu sou uma detetive. Tenho muita gente má no meu pé que, por mais que eu não seja apaixonada por você, ainda me importaria se você corresse algum risco por minha causa.
Zayn pareceu finalmente se dar por vencido.
– Então quem são os sortudos?
– Sortudos?!
– É, os tais caras que estão dominando seu coração.
Eu ri.
– Você não vai querer saber.
– É o Louis?! – Ele perguntou, com os olhos arregalados, o que me fez rir mais ainda.
– Não, Zayn. O que eu tive com o Louis é um capítulo finalizado.
– Então quem?
O barulho do maquinário estava ficando cada vez mais alto e eu podia ouvir uma voz me chamando, a mesma voz de antes, ainda incapaz de identificar. Mas o elevador estava tremendo e eu esperava que aquilo fosse um bom sinal. Fiquei de pé e Zayn me acompanhou, olhando fixamente para a porta. Não demorou muito até que ela finalmente se abriu – com a ajuda de ferramentas. Assim que meus olhos se acostumaram com a luz, fui capaz de enxergar Henry, esticando sua mão para mim. Segurei nele sem pensar duas vezes e ele me puxou para um abraço. Enquanto isso, olhei em volta e notei o estrago. Mas, mais que o estrago, dois rostos chamaram minha atenção.
Danny e Maitê estavam passando por cima de alguns escombros e vindo na minha direção. Ao mesmo tempo, Craig e Zayn me encaravam com uma expressão que conotava desolação. Aquilo mexeu tanto comigo que não consegui reagir. Henry falava comigo, mas eu estava em outro mundo.
Quando cheguei em casa, depois de uma breve visita ao pronto socorro, havia um bilhete digitado colocado por baixo da porta.

“Isso é suficiente para que você saiba do que sou capaz?”


Eu estava completa e perdidamente fodida, e agora eu tinha certeza daquilo.


Capítulo 16

Eu precisava de creme de leite e requeijão para fazer meu famoso croque monsieur. O creme de leite estava no carrinho, mas o requeijão ficava a cinco corredores dali. Eu deixei o carrinho em um canto específico e fui buscar o requeijão sozinha. De repente, senti alguém me puxando pela cintura. Quando estava pronta para gritar, os olhos de Henry encontraram os meus.
– Oi, gatinha. – Ele disse, sorrindo.
– O que você tá fazendo? – Sussurrei nervosa, olhando em volta.
– Tava com saudades.
– Do que você tá falando?
– Vamos lá pra casa. Eu comprei um vinho…
– Henry! – Dei um gritinho quando ele veio na minha direção, tentando arrancar um beijo de mim.
– Eu sei que você quer. – Ele sussurrou no meu ouvido.
Aquilo me enlouqueceu e eu praticamente derreti na mão dele.
– Henry, não posso.
A mão dele foi escorregando do meio das minhas costas até a minha bunda e apertou – com força. Eu deixei um gemido escapar baixinho e mordi meu lábio inferior.
– Você precisa parar com isso.
– Por quê?
– Porque eu to com o Craig e, você sabe…
Foi nesse ponto que minha mente teve um pequeno colapso. Eu não estava com o Craig. Na verdade, não estava com ninguém. Então meu despertador tocou. Estava na minha cama, com meu pijama listrado preferido, suada e com o coração acelerado. Levantei rindo e corri para debaixo do chuveiro.
Por mais estranho que parecesse, comecei aquele dia com o pé direito. Saltei os degraus da entrada da delegacia. Dei 'bom dia' para meia dúzia de pessoas que me olharam torto e, em vez de pegar o elevador de sempre, subi até meu andar usando a escada. Assim que cheguei, dei de cara com um exército de zumbis andando pelos cantos de cabeça baixa e expressão não muito satisfeita. Danny não estava em nossa mesa, então fui para o escritório de Craig. Ele parecia mais afundado em papel do que nunca mas, mesmo assim, levantou o olhar ao me ver.
– Oi. – Ele disse, tão seco que me incomodou.
– O que tá acontecendo com todo mundo?
Ele se levantou e fechou a porta. Olhou fundo nos meus olhos por longos instantes.
– Você e o juiz Cavill…
Craig deixou a frase no ar, mas eu permaneci em silêncio, esperando. Só quando percebi que ele não terminaria que ajeitei minha postura.
– Não, não.
– É com ele que você sempre consegue assinatura pros mandados e, depois do que rolou no InterContinental, não sei o que dizer.
– Daniel… – Murmurei.
– Tudo bem, eu sei que não é do meu interesse. E sobre a sua pergunta… Os federais tão chegando.
– O que o FBI vai fazer aqui?! – Questionei, grata pela mudança de assunto.
– Você com certeza ouviu falar dos assassinatos em série envolvendo CEOs?
– Claro.
Craig deu a volta e voltou a sentar em sua cadeira.
– Os federais têm uma teoria e estão vindo comprová-la. Não avisei porque não queria incomodar seu sono.
– Seu trabalho tem sido incomodar meu sono por anos. Por que mudar agora?
Ele deu de ombros.
– Não sei.
Eu sentei na cadeira de frente para sua mesa, onde geralmente sentavam-se familiares de vítimas.
– Mais algum detalhe que você pode me passar?
– Haverá uma reunião mais tarde, acho que vai ser melhor assim.
Hesitei, mas assenti e deixei a sala. Danny estava no seu lugar, com as mãos emaranhadas no cabelo. Sentei no braço de sua cadeira.
– Qual o motivo do estresse?
– Já ficou sabendo das visitas?
– Craig acabou de me contar.
– Você nunca recebeu uma visita deles, né?
Ri.
– Ainda não, mas não ouvi boas coisas sobre a presença deles.
– É um saco. Se acham os maiorais por causa do título que têm, mas não aguentariam um dia da nossa rotina.
– Você acha mesmo? – Um homem perguntou atrás da gente. – Agente Connor Turner.
Danny revirou os olhos.
– Desculpa se incomodo, mas só somos chamados pra resolver crimes que vocês não são capazes de resolver.
– O legal nisso tudo é que isso nunca chegou nas nossas mãos. – Eu comentei, me levantando e encarando o rapaz. – Então como você pode afirmar que não somos capazes?
– Ei, ei, ei! – Uma mulher, bem mais velha e acompanhada de Craig, chamou nossa atenção. – Sem atritos, por favor.
Eu dei um passo para trás.
– Pelo comportamento, você deve ser Juliette Danté. – A mesma mulher estendeu a mão na minha direção. – Abigail Thomas. Seu chefe falou muito bem de você.
E de onde você conhece meu chefe?, pensei, me assustando com o repentino ciúme que havia surgido em mim. Mas ao invés de agir como criança, estiquei a mão – não sem antes lançar um olhar para Craig – e a cumprimentei.
– Provavelmente, o que o tenente Craig disse não se aplica a realidade.
– Bem, ele disse que você é a melhor em arrancar confissões. E eu realmente espero que seja realidade.
Olhei uma última vez para Craig, que ameaçava sorrir. Ele não era muito de sorrir – nunca foi. Quando nos envolvemos, provavelmente apenas um décimo do esforço partiu dele. Eu era nova, estava no auge dos meus 24 anos e tinha hormônios que não gostavam de seguir regras. Desde que entrara na delegacia a pedido de Richard, direcionava olhares mal intencionados para meu chefe. Não tinha nada a ver com aquela velha fantasia de se deitar com o chefe, ele era apenas… Charmoso. Muito charmoso. Mesmo já tendo experiências falhas no currículo, eu ainda tinha esperanças de encontrar um homem que me levasse café na cama e trouxesse rosas no jantar. Algo me dizia que ele era um forte candidato. Então eu cedi, em uma fatídica noite de verão.
Daniel foi gentil, cavalheiro e elegante em cada movimento, desde o primeiro toque em minha pele até o beijo de despedida na porta de sua casa. Seus olhares me tiravam facilmente do eixo. Era como se ele tivesse poder sobre mim. Só que eu, como sempre, cometi o erro de permitir que eu começasse a me apaixonar. Quando eu finalmente tive coragem de falar alguma coisa, ele pensou que aquilo pudesse afetá-lo negativamente perante a corporação. E lá fui eu embora para casa chorando.
As coisas com ele eram quase violentas. Não éramos um casal de dar beijinhos e passear de mãos dadas – jamais! –, mas eu gostava. Gostava do jeito que ele me domava e de como ele exercia força sobre mim. Foi uma experiência nova maravilhosa. E quando nos falamos, depois de ele me dispensar, eu disse que ele não tinha o que eu queria em um homem com convicção. Infelizmente, nosso futuro se desenrolou de uma forma tão surpreendente que talvez aquilo não fosse mais uma verdade absoluta.
Mais tarde, naquele mesmo dia, eu me encontrava ainda tensa pelo mesmo motivo quando me sentei ao seu lado na sala de reuniões. Sempre que precisávamos estar lá, era por uma razão não muito saudável. Do meu outro lado, Danny estava com a cabeça jogada para trás em um gesto de puro tédio. Maitê, William, Wright, Moore, Hill e todos os outros policiais que trabalhavam conosco diariamente também estavam lá. O ar condicionado não estava dando conta de manter o lugar com uma temperatura agradável devido ao grande número de pessoas no mesmo ambiente. Enquanto isso, nós e os engomadinhos do FBI ouvíamos a senhora Thomas – com quem eu obviamente não tinha me afeiçoado – falar de todos os detalhes possíveis sobre o que nos esperava.
Todos estavam assombrados com a demora para solucionar os acontecimentos. Começou com dois irmãos que eram diretores de uma empresa de contabilidade em Miami. Não havia muito dinheiro envolvido, então imaginou-se que se tratava de um caso de vingança por algum motivo desconhecido. Mas aí aconteceu algo parecido com um diretor de um escritório de advocacia de Chicago e, daí para a frente, a única conexão era que apenas os computadores das casas eram levados. As polícias estaduais tentaram trabalhar juntas, mas foi necessário a interferência dos federais que todos tanto amavam – só que não.
Boston entrou no trajeto dos caras porque conseguiram pegar um doido qualquer. Ele estava saindo da casa de uma das vítimas, havia assassinado a filha de um diretor de uma rede de supermercados e estava colocando um notebook dentro de sua mochila quando um dos seguranças o surpreendeu e acertou o safado com um tiro na perna. Levaram o cara para um hospital. De lá, alguma coisa – e eu não me assombraria se descobrisse que se tratava de tortura – aconteceu que o fez revelar alguns sérios detalhes. Por exemplo, o responsável por tudo isso.
Através do falho assaltante, chegou-se até Emily Davis. De acordo com o depoimento do cara, era ela quem coordenava tudo. Logo, a mulher foi posta sob investigação sigilosa até que chegaram em, aparemente, quem queriam de verdade. Não prender Emily de cara foi uma manobra arriscada mas, até então, isso não era problema nosso.
Sebastian Harris era um dos magnatas mais importantes de Massachusetts. Era famoso por fazer acordos com outros empresários, omitindo ou manipulando informações para, de alguma forma, se dar bem e lesar o outro. No fundo, me lembrava um pouco meu falecido pai. Mas Sebastian não sujava a mão. Tinha advogados poderosos e mexer com ele podia ser como brincar com fogo, então precisávamos ter tudo para conseguir pegá-lo, e tinha que ser de uma vez só.
O importante, no momento, era conseguir pegar um dos carros dele, um Cadillac Escalade, que foi visto coincidentemente pelas redondezas de onde os crimes aconteceram, praticamente no mesmo horário. Um carro daquele obviamente teria um rastreador. O problema era conseguir pegar o carro, já que não poderíamos chegar com um mandado dizendo exatamente o motivo pelo qual queríamos o brinquedinho dele e nenhum juiz queria se meter com o cara.
A sala foi tomada por um burburinho e olhares tensos entre nós, da delegacia, e os agentes do FBI. Trabalhávamos buscando a mesma coisa, mas queríamos provar que eles eram iguais a nós – ou, se possível, piores. Enquanto eles se preocupavam com o maldito mandado, Danny sorria, relaxado ao meu lado. Naquele instante, me subiu uma vontade de vencer aqueles bastardos de uma forma que eu jamais havia sentido. Era quase como pegar um criminoso.
– Alguma dúvida? – A senhora Thomas perguntou ao fim de seu longo discurso.
Todos negaram com a cabeça e ela nos dispensou. Saí na frente, antes mesmo de qualquer um, só para ter uma grande surpresa. Henry estava em pé, encostado em toda sua glória na parede ao lado da minha mesa, com um sorriso convencido nos lábios e um papel que ele insistia em balançar.
– O que é isso? – Perguntei, me aproximando.
– Seus sonhos virando realidade. – Ele brincou, arqueando as sobrancelhas e olhando para o teto com uma expressão curiosa. – Pode ser que eu tenha aprendido a ler mentes.
Tomei o papel em minhas mãos e o conferi. Era um mandado para o maldito carro que todos queriam apreender na frente do resto, com uma desculpa esfarrapada como justificativa.
– Ouvi dizer que isso virou uma disputa de quem consegue ter melhor desempenho na investigação.
– Talvez. – Brinquei.
Ele sorriu para mim e olhou nos meus olhos.
– To com tanta saudade de você. – Ele disse, atraindo minha atenção. – Vai lá pegar o carro e passa na minha casa no caminho de volta.
Eu ri.
– O quê?! – Ele perguntou.
– Sonhei com isso esses dias.
– Com você na minha casa? Deve ter sido interessante.
Olhei para ele, metade repreendendo sua piada, metade um tanto quanto encantada por finalmente estar na presença de alguém de bom humor naquele dia.
– Como você ficou sabendo tão rápido? – Perguntei.
– Mandei colocar escutas na delegacia inteira. – Ele disse, mas olhou para Danny por cima do meu ombro.
– Você costumava ser fiel a mim, Cavill.
– E você costumava ser minha. – Ele sussurrou, brincalhão, no meu ouvido. – Vai lá e arrasa. Vou te esperar.
Assenti enquanto assistia Henry indo embora. Fiquei um pouco no lugar ainda depois dele sair do meu campo de visão. Então me virei para Danny e sorri, mostrando o papel para ele.
– Tá de bobeira? Pensei de dar uma volta por aí num Escalade...
Ele riu enquanto colocava o casaco. Craig nos viu e, com sua expressão característica de que sabia que nós estávamos aprontando, assentiu, nos dando a permissão silenciosa que queríamos para trapacear e passar por cima dos federais.


Capítulo 17

O envelope, com todos os detalhes que William conseguiu extrair do rastreador do carro de Harris, chegou à minha mesa mais tarde do que eu gostaria, mas chegou, e isso já era o suficiente para fazer aquele metidinho do Turner ficar para trás. Eu sorri quase sedutoramente para William quando ele foi me entregar meu presentinho. Ele reagiu àquilo, mas a possibilidade era menor que zero. Então me levantei na hora e corri para a sala de Craig. Entrei sem bater, até porque era comum esse comportamento, e ele e Abigail estavam rindo quase que histericamente. Fiquei séria enquanto os dois me encaravam.
– Quer alguma coisa, Danté? – Abigail perguntou.
Levantei o envelope no ar.
– As informações sobre o rastreador do carro do Harris.
Ela se levantou de sua cadeira e veio até mim, tomando o envelope de minhas mãos.
– E o que você achou?
– Vocês falaram que estavam certos sobre o carro estar próximo aos locais dos crimes, então não precisa ver, né? – Ironizei.
A vantagem é que os federais não tinham autoridade sobre nós. Éramos órgãos diferentes e eu podia mexer com eles. Na verdade, não podia, mas ninguém queria dor de cabeça burocrática desnecessária àquela altura do campeonato. Ainda assim, deixei a sala com passos largos e Craig no meu encalço.
– Vocês e seus colegas sabem que os federais estão aqui pra ajudar, não sabem?
– São seus colegas também.
– Mas eu sou chefe e é meu dever manter a ordem entre vocês.
Parei repentinamente e Craig quase me atropelou.
– Você era meu chefe quando me comeu, mas isso não interferiu, né? – Rosnei, as palavras saindo por entre meus dentes.
Assombrosamente, a expressão de Craig ficou tranquila e ele sorriu.
– Então é disso que se trata? Ciúmes?
– Ah, Daniel, por favor…
– Ela é minha prima, Juliette. – Ele disse, mais em paz do que eu jamais havia visto.
Engoli em seco enquanto notava que eu, de fato, estava aliviada em saber daquilo. Ele sorriu novamente e aproximou sua boca do meu ouvido.
– Bom trabalho.
Ganhei uns tapinhas nas costas. Para onde Craig ia, Danny estava voltando, e com a cara mais fechada do que eu costumava ver.
– Georgia dormiu de calça? – Brinquei.
– Quem dera… – Ele rosnou, passando direto por mim.
Eu o segui imediatamente.
– O que tá rolando?
– A delegacia não para, e o Bongiovi veio parar na nossa mão de novo.
– Bongiovi?!
Meu coração acelerou imediatamente, me dando até falta de ar.
– É. O cara achado na mala do próprio carro era cliente fiel dele e o último lugar onde ele foi visto foi no Red Roses. – Danny falava enquanto mexia nervoso no computador, sem nem ao menos se sentar.
Minha mente trabalhava rápido enquanto ele ficava mais e mais nervoso. Então coloquei a mão em seu ombro e tentei transmitir tranquilidade com um pequeno sorriso.
– Eu tomo conta dele.
– Mas Juliette…
– Você não quer informações, Danny. Você quer uma desculpa pra botar o cara atrás das grades. Então concentra nisso que eu vou resolver esse pequeno detalhe pra você.
Ele olhou por longos instantes para mim até decidir puxar sua cadeira e se sentar. Eu peguei a pasta em cima da mesa dele e andei até a sala de interrogatório com largos passos, sentindo um vaso sanguíneo pulsando na minha cervical. Não havia ninguém por perto assistindo ao interrogatório – o que, por um lado, era bom, pois não tinha curioso por perto para ouvir seja lá o que eu fosse conversar com Bongiovi –, mas Danny precisava de supervisão perto dele. Eu entrei e ele sorriu.
– A bela detetive Danté… – Bongiovi praticamente cantou.
– Não to aqui pra brincadeiras. – Disse, rápida. – O que você quer comigo?
– Foi seu amigo que me trouxe até aqui. – Ele falou, rindo.
– Como se não conhecesse você e não soubesse que você não viria se não fosse obrigado…
Ele se esticou na cadeira e colocou os pés em cima da mesa.
– Vocês apreenderam uma bolsa numa busca feita na casa de um dos meus funcionários essa manhã e eu preciso que você tire um bloco de notas que tá dentro dela.
Arregalei os olhos.
– Você sabe que não tenho autoridade pra fazer isso.
Ele deu de ombros.
– Você sabe o que vai acontecer se você não fizer o que eu mandei. Aliás… – Ele se levantou e se inclinou sobre a mesa na minha direção. – Avisa pro seu parceiro que o cara saiu de lá em um Lexus. Essa aqui é a placa.
Bongiovi colocou um pequeno papel na minha frente. Eu estava com os dentes trancados e não sabia dizer exatamente o que estava sentindo. Lembrava de ver a tal bolsa em cima da bancada de Maitê, pronta para ser analisada. Subi as escadas correndo e entrei no laboratório, disfarçando que estava ofegando. Graças a Deus, ela estava sozinha. Sorriu para mim com cara de quem estava desconfiando de alguma coisa.
– Danny pediu pra você entregar isso aqui pra ele. – Eu disse, com o papel na mão. – Eu vou ter que correr pra resolver um problema com o caso do FBI.
Ela simplesmente assentiu e deixou o laboratório. Olhei para os lados e, assim que vi que a área estava livre, praticamente corri até a bolsa, peguei o bloco de notas – esperando que fosse aquilo mesmo – e coloquei para dentro do meu casaco. Danny se materializou ao meu lado repentinamente.
– O que foi isso? – Ele perguntou.
Eu podia garantir que, dessa vez, meu coração tinha quase parado. Parei por completo enquanto Danny olhava, pasmo, para mim. Senti lágrimas começando a se formar nos meus olhos enquanto uma dor crescia no meu peito. Silenciosamente, estava tentando pensar em uma boa desculpa mas, àquela altura, depois de Danny ver o quanto eu estava nervosa, não haveria desculpa que o convenceria.
– Danny… – Eu comecei, mas não consegui falar mais nada.
Ele negou e me deu as costas.
– Danny, por favor!
– Não vou contar nada pra ninguém. – Ele disse, a voz baixa e grossa.
Eu o deixei ir, não tinha muita escolha. Olhava para o bloco de notas, sobre a roupa, e não sabia o que fazer. Só queria ir para casa. Não pensei muito, novamente, e simplesmente saí. Fiquei desolada. Tudo que eu havia feito me levou para o último lugar onde eu queria estar.
Estava sentada no sofá quando ouvi a campainha tocar. Quando olhei pelo olho mágico, me arrependi de ter levantado. Era Craig, parecia impaciente. Meu coração estava na boca. Danny certamente tinha ido falar com ele na mesma hora. Àquela altura, não tinha como fugir. Então engoli em seco e abri a porta. A expressão de Craig se tornou, imediatamente, preocupada.
– Tá tudo bem? – Ele perguntou.
Danny não tinha contado e eu senti um alívio.
– Eu to passando mal.
Ele me analisou, olhando para mim de cima a baixo.
– Precisa de alguma coisa?
– Só um pouco de descanso.
– Então isso não tem nada a ver com o Jones ter pedido transferência quase agora?
O alívio me abandonou. Não tinha escapatória, eu precisava falar a verdade.
– Craig, desculpa, é que…
– Olha, – Ele me interrompeu. – eu sei que você são amigos lá dentro. Se aconteceu alguma coisa aqui fora…
– Não aconteceu nada. – Eu disse, aliviada novamente.
– Então por que ele quer ir embora?
Dei de ombros.
– Ele não falou nada comigo.
Craig olhou para mim por longos segundos, parecia saber que eu estava mentindo.
– Pedi pra ele ficar até o caso do FBI acabar.
– E ele?
– Disse que pode ficar umas semanas.
– Pra onde você vai mandar o Danny?
– Ainda vamos conversar sobre isso.
Nós ficamos nos olhando enquanto o silêncio reinava. Então ele se aproximou – mais do que deveria. Não sei porque não recuei, mas ele tocou a lateral do meu rosto e me beijou. Não foi um beijo ardente. Na verdade, não passou de um simples toque dos seus lábios nos meus. Craig foi embora e eu fiquei ali, minha mente mais bagunçada do que jamais estivera na vida.
Depois que entrei, tomei um banho e deitei para dormir após botar um calmante para dentro. Quando o despertador tocou no outro dia, eu simplesmente desliguei e não fui trabalhar. E fiz isso no dia seguinte também. Não queria fazer nada, mas aquele bloco de notas ainda estava em cima da minha mesa de jantar. Então o puxei para perto enquanto comia um yakissoba e comecei a rodar pelas páginas.
Minha mãe sempre me dizia que não deveria reclamar de nada porque, a qualquer momento, tudo podia piorar. Lembrei dessa frase quando virei a décima segunda página. Na mesma hora, levantei da cadeira, vesti uma roupa decente e saí de casa. Dirigi igual louca até finalmente chegar na porta de Henry. Saí do carro enfurecida como um touro e soquei a porta dele até que o mesmo abriu, com a expressão assustada. Saí entrando, sem nem dar tempo para ele falar alguma coisa. Assim que Henry fechou a porta, joguei o bloco nele.
– Que porra é essa? – Gritei.
– Do que você tá falando?
– To falando do seu nome escrito várias vezes na porra da agenda de uma prostituta.
– Juliette, eu não to entendendo nada.
– Ah, vai se foder! Eu tenho cara de otária, por acaso?
– Claro que não, Julie. Se acalma, por favor.
– Me acalmar o caralho!
Ele respirou fundo e olhou para mim, sério mas sem intenção de brigar.
– Vamos até a sala, por favor. – Ele pediu.
– Eu não vou a lugar nenhum até você me dizer o motivo do seu nome aparecer na merda da investigação. – Fui firme.
Henry colocou a mão na cabeça e mexeu, nervoso, nos cabelos.
– Eu estive em um clube com uns amigos no mês passado e perdi minha identidade por lá. Essa mulher esteve me seguindo. Aparentemente, alguém desconfiou de alguma coisa e eu fui seguido nos últimos dias.
– Ah, tá! Como se você não fosse me avisar se ocorresse alguma coisa assim!
– Você tava ocupada demais se dedicando ao seu chefe pra dar atenção pra mim.
– Tava, Henry? – Gritei. – Será que eu tava mesmo? Porque não foi o nome dele que eu achei numa prova de crime.
– Fala baixo, por favor. Daqui a pouco, os vizinhos vão chamar a polícia.
– Foda-se!
Ele olhou para o chão e começou a se sentar, sem voltar a olhar para mim.
– Você sabe que eu nunca menti pra você.
– E o que te impede de mentir agora?
Eu fiz aquela pergunta sem pensar antes. Henry realmente era sincero ao extremo. Às vezes, até desejei que ele me contasse menos detalhes. Parte de mim, a parte que era soberana, estava com raiva por não ter ficado sabendo do que tinha acontecido. A outra parte estava desesperada com a possibilidade de ver Henry metido em um problema com a justiça, mais do que estava com medo de vazar a merda na qual eu tinha me metido. Acabei me sentando ao lado dele.
– Pelo amor de Deus, Henry… O que teria acontecido se esse bloco tivesse sido processado?
Ele deu de ombros.
– No pior do caso, eu perderia a minha licença.
– Você fala como se fosse uma besteirinha.
– Eu não sabia que chegaria a esse ponto, Juliette, me desculpa.
Eu fechei os olhos, tentando respirar fundo e relaxar. Não parecia ser possível, mas eu continuava tentando mesmo assim. Pelo som, percebi que ele estava levantando, mas por perto. Então eu senti seus lábios tocarem os meus. Senti meu coração acelerar enquanto decidia se retribuiria ou não. Quando dei por mim, estava por cima dele, em seu carpete, agarrando seu cabelo. O problema é que minha mente imaginava as mãos de Craig segurando minha cintura e as penas dele sustentando meu quadril.
Praticamente me teletransportei do colo de Henry para a porta da casa dele. Entrei no meu carro correndo e parti antes que ele dissesse qualquer coisa. Precisava limpar a cabeça. Então fui para casa e peguei uma garrafa de cerveja. Depois duas. Depois uma de vinho. Maitê chegou quando eu estava chorando vendo Orgulho e Preconceito. Sentou e me fez companhia em silêncio, como se adivinhasse o que eu precisava.
Voltei para a delegacia, para a investigação, para a confusão hormonal com Craig e para o desespero com Danny. Não era minha vontade, mas era necessário. Embora eu sentisse que todos os olhos estavam em mim, sabia que tudo estava bem. O problema era eu. E eu detestava saber disso.


Continua...



Nota da autora: Gente, eu sei que a galera tem preferência por fics interativas, em geral, mas seria complicado você colocar seu nome como sendo um que não parecesse francês, por exemplo. Acho melhor manter a qualidade ao máximo e, por isso, não deixei essa fic interativa. Espero que compreendam e, mesmo assim, curtam essa história maravilhosa ao máximo!

Com a troca de leva de autoras VIP, era inevitável uma confusão pequena nas atualizações. Mas seguimos firmes e fortes e com a programação normal!





TODAS AS FANFICS DA AUTORA:

All Roads Lead to You [Supernatural - Em Andamento]
Aqueles Malditos Olhos Verdes [Jensen Ackles - Em Andamento]
Badges and Guns [Henry Cavill - Em Andamento]
Don't Tell My Ex [Henry Cavill - Em Andamento]
I Don't Want Somebody Like You (I Only Want You) [McFLY - Em Andamento] (em breve, no especial The Lost Authors)
Move If You Dare [McFLY - Shortfic] (em breve, no especial The Lost Authors)
No Angels [Supernatural - Em Andamento]
Tudo por um Amor [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic] (em breve, no especial The Lost Authors)
Tudo por um Gol [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic]


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