Última atualização: 15/07/2020

Capítulo 1

– Eu vou servir de babá?
– Seria babá se eles fossem 100% mais novos que você. E não, você estaria mais para alguém que vai coordenar a equipe.
– Então eu vou ser babá das babás? – Revirei os olhos. – Ótimo.
, tenta me ajudar. Eu arrumei isso pra você, o salário é ótimo, as condições são boas...
– Você chama vinte quatro horas por dia, sete dias por semana, de “condições boas”?
– Não é assim.
– Ah, Cleo, ficou claro que é assim sim!
, é o seguinte... – Cleo se esticou por cima da mesa na minha direção. – Eles precisavam de alguém que falasse coreano, você fala. Eles queriam a casa, você praticamente foi criada aqui e conhece tudo das redondezas. Agora é só garantir que todo o resto da equipe vai estar trabalhando perfeitamente. Você é a intermediária entre eles e os funcionários e, de quebra, vai poder passear um pouco com eles.
– Eu sou a babá de um grupo musical coreano, entendido.
!
– Eu quero o emprego, tá bem? – Bufei e levantei, abaixando os ombros logo depois. – Eu preciso do emprego.
Vi Cleo sorrir. Ela se levantou e pegou sua bolsa em cima da mesa.
– Ótimo, vou fazer o aviso aos executivos que falaram comigo. Eles provavelmente irão querer uma reunião por videoconferência com você, no mínimo. Isso se não vierem até aqui pessoalmente.
– Ok, me avise.
– Posso passar seus contatos pra eles?
– Claro.
Achei que Cleo fosse oferecer a mão para mim, mas ela desistiu no meio do caminho.
– As coisas vão se resolver, .
– Com a grana que tão oferecendo, só se for.
– Otimismo, menina, otimismo.
Ela sorriu mais uma vez para mim e foi embora. Cleo era legal, tinha sido amiga da minha mãe enquanto ela ainda estava viva, e eu podia jurar que ela achava que eu tinha mais sentimentos por ela do que um simples apreço. Todo mundo naquela maldita ilha esperava isso, na verdade. O conceito do aloha não era meu por natureza, e eles não entendiam isso. Eu não era havaiana e nunca iria ser, não importava o quanto todos ali fossem hospitaleiros comigo.
É aqui que você quer saber mais sobre a minha história? Então comece sabendo o seguinte: eu não sou dessas. Eu não sigo as regras. Não era de propósito, parecia mesmo que as pessoas simplesmente queriam que eu fosse rotulada como a estrangeira renegada e rebelde porque os pais morreram. Eu nem queria estar ali! A mudança para o Havaí só me trouxe problemas – de diversas naturezas. Por mim, já tinha voltado para a Austrália, de onde obviamente nunca deveria ter saído. Mas aí tinha o problema maior... Dinheiro.
Tudo o que eu estava fazendo nos últimas dias se resumia a dinheiro. “Ah, , mas você tá sendo muito materialista.” Mas como diabos eu iria pagar a conta de luz e as compras do mês se eu não tivesse dinheiro, caralho? Eu odiava mil vezes a necessidade que eles tinham de serem otimistas até quando o próprio chão sobre seus pés estava pegando fogo. Não, vulcão Kilauea, não era sobre você. Se houvesse uma erupção catastrófica, aí que eu estaria fodida mesmo. Antes fosse sobre o vulcão...
As pessoas ali achavam que meus pais eram pessoas boas. Bem, na face que elas conheciam, talvez até fossem mesmo. Meu pai era o biólogo herói que trabalhava incessantemente e fazia milagres na preservação de diversos animais marinhos característicos dali. Minha mãe era a linda professora do jardim de infância que encantava a qualquer criança. Quando eles morreram em um acidente de lancha, eu fiquei devastada, até o dia em que descobri que aqueles papeis eram fachada para algo muito sombrio.
Meus pais eram traficantes de animais. Raciocínio simples: uma pessoa criada por um “biólogo” que diz ser o melhor e maior protetor da vida marinha havaiana tende a amar animais, certo? Certíssimo! Então pense... Como eu devo ter me sentido quando descobri que tudo aquilo era uma farsa mentirosa? E fica pior! Como eu devo ter me sentido quando um dos negociadores entrou em contato comigo e disse que meus pais deviam muito dinheiro a ele? Olha que eu nem entrei em detalhes com as ameaças... Pois é, não foi fácil de nenhum jeito, e nem poderia.
O único legado e propriedade que me deixaram foi o suposto centro de recuperação de animais no meio da floresta nacional de O’ahu. Depois que descobri toda a verdade, fiquei me perguntando para quê serviria aquele amontoado de quartos construídos aos montes. No total, eram doze, uma construção em forma de U cercada por varanda coberta e um salão de sessenta metros quadrados com vista para a floresta a fim de proporcionar boas práticas de ioga, que minha mãe também ensinava. Pareceria lindo se eu não estivesse com uma puta dificuldade para vender a propriedade por questões legais. Então eu alugava eventualmente e pagava Hani como podia enquanto tentava me sustentar com o pouco que sobrava. Sabe o que era mais irônico nisso tudo? Hani era havaiano para “homem que transmite alegria”. Se o que ele transmitia era alegria... Puta que pariu!
Quando Cleo veio falar comigo sobre aquela locação, eu achei que seria a solução dos meus problemas. “Um grupo musical coreano quer passar quatro meses em um retiro no Havaí e eles gostaram muito da sua propriedade, querem alugá-la e vão precisar de alguém para assistí-los, então te recomendei porque você conhece a propriedade melhor que ninguém e o dinheiro seria mais do que só a locação”. Dois – repito, dois – dias depois que eu fiquei sabendo disso, Hani ligou e fez ameaças. Queria comissão em cima daquela locação, alegou saber que eu não estaria tão necessitada naqueles dias. Eu cedi, como sempre, sob a constante ameaça de ser incriminada pelas práticas desonrosas dos meus próprios pais. E, enquanto isso, eu vivia em um apartamentinho merda no centro de Honolulu, ganhando um dinheiro ínfimo como garçonete.
Eu sentei para conversar com os representantes coreanos naquele dia bem puta da vida. A minha mente repetia um mantra que dizia para eu me acalmar a qualquer custo. Estava difícil, ainda mais quando as exigências eram bem estranhas. Só piorou quando me deram uma pasta gigante com folhas e mais folhas.
– São fichas sobre os rapazes. – O mais velho deles informou. – Fotos, nomes completos, como cada um é, do que cada um gosta, particularidades de saúde... Você precisará saber de tudo. Há também o tipo de evento cuja presença deles é permitida, além dos contatos de todos da equipe de segurança e a escala entre eles. Também há os contatos emergenciais de todos da agência para quem você pode ligar caso seja necessário. Todas as outras informações possivelmente necessárias também estão contidas em um dossiê específico nessa pasta.
– Sei que é muita coisa, mas é essencial para que você desempenhe seu papel perfeitamente como esperamos. Eles chegam em duas semanas, na terça. Você terá motorista disponível para qualquer programa aprovado com eles.
Então eu sou babá e guia turística, tudo como eu havia imaginado.
– Perdão, mas eles têm quantos anos mesmo? – Interrompi.
– Entre vinte e três e vinte e oito.
– Ah... – Suspirei. – Ok.
– Você acha que dá conta?
Engoli em seco e torci para nenhum deles perceber.
– Mas é claro! – Disse com o sorriso mais falso do mundo.
Levantamos, trocamos apertos de mão simplórios e cada um foi para o seu canto. Eu, é claro, fui para o apartamento de um cômodo que chamava de casa. Já não tinha ido para a faculdade por não gostar de estudar, aí chegavam os coreanos lá e... Toma, estudo! Ótimo. Até para definir estratégia de estudo eu estava enferrujada, então comecei pelo óbvio e mais importante: meus hóspedes.
As pastas estavam organizadas por data de nascimento. O primeiro deles se chamada Jeon Jungkook. Era o mais novo do grupo, vocalista principal, sua comida favorita era pão e pizza, seu hobby era edição de vídeos, demorava muito para se arrumar... Aí eu parei e me perguntei: por que diabos estava lendo aquilo? Por que diabos tinham me entregado aquilo? Não fazia o mínimo sentido.
Desisti de ler as fichas sem nem terminar a do primeiro. Ao invés disso, espalhei as resmas de cada um pela mesa, colocando em evidência a primeira folha de cada uma delas. Era a folha que, logo no topo, à esquerda, continha uma foto em boa qualidade de cada um dos garotos. Piadas a parte, eu pensei seriamente que poderia ter problema em diferenciá-los, então julguei ser mais sábio aproveitar o tempo para decorar os rostos e nomes deles antes de prato favorito e cor predileta.
Fui para a maldita construção no meio da floresta no dia anterior à chegada dos coreanos. Treinei minha dicção na frente do espelho, falando sozinha e revendo alguns doramas sem legenda. Chequei os funcionários que iriam acompanhar a estadia deles, como as arrumadeiras, cozinheiras, motoristas... Conhecia três deles, moravam ali por perto. Enfim, quando me dei por satisfeita, eu deitei e torci para o dinheiro cair o quanto antes na minha conta bancária.
Dia seguinte, onze horas da manhã em ponto. Eles não tinham brincado quando anunciaram que seriam pontuais. Uma van da Mercedez e um helicóptero chegaram simultaneamente. Eu me apressei em ficar na escada da varanda que circundava toda a casa. Afinal de contas, eu tinha que manter o papel de anfitriã perfeitamente se quisesse ganhar aquela bolada de dinheiro. E eu precisava dela, então era o que eu ia fazer.
O motorista do dia era Kailani, velho conhecido, que abriu a porta de trás. O primeiro a sair tinha um casaco verde sobre uma blusa rosa com detalhes roxos, e eu me perguntei se ninguém tinha dito a ele que fazia calor no Havaí. O segundo estava todo de branco e seu cabelo estava claro demais para ser natural. Depois dele, outro todo de branco, com um cinto preto que se destacava no meio de tanta neutralidade. O quarto era o “menos pior”, com uma jaqueta e calça jeans e blusa branca. Quando eu pensei que não tinha como ficar mais absurdo, saiu de dentro da van um deles com sobretudo e calça preta, sendo que o sobretudo tinha lantejoulas – ou seja lá o que fosse aquilo. O penúltimo usava terno rosa claro com uma blusa um pouco mais escura com detalhes pretos. Por fim, o sétimo estava usando uma blusa de seda com detalhes azuis e pretos, desnecessariamente exagerados.
Respirei fundo. Só conseguia concluir que eu ia ser sim babá.
– Oi, você deve ser a , certo? – O primeiro a sair da van perguntou e ofereceu a mão para um cumprimento, o que eu aceitei após forçar um sorriso educado.
– Sou sim. E você é o RM.
– Pode chamar de Namjoon, acho que você vai precisar de intimidade pra aturar a gente nessas próximas semanas.
– Namjoon então. – Eu assenti, citando o nome pessoal que eu achei que seria melhor não usar de primeira e, por isso, optei pelo artístico.
– Esses são Jimin, Hoseok, Jungkook, Seokjin, Yoongi e Taehyung.
– Pode chamar de Hobi. – O segundo a ser apresentado chegou mais para a frente e ofereceu a mão também.
Todos me cumprimentaram brevemente até que notei que um dos executivos com quem eu tinha me encontrado saíra do helicóptero sem que eu nem percebesse. Ele se aproximou de nós e foi recebido com extrema educação pelos meus mais novos visitantes.
– Senhorita , como vai?
– Bem, obrigada. – Respondi.
– Está tudo em ordem? Vim rapidamente apenas para confirmar.
– Sim, está tudo certo.
– Se houver qualquer problema, você tem meu número pessoal.
– Sim, senhor.
– Comportem-se e obedeçam às regras. – Ele disse, virando-se para o grupo. – Se precisarem de alguma coisa, peçam à .
Os sete concordaram em silêncio. Outra van chegou logo depois. A primeira coisa que eu pensei foi que haviam dito que eram apenas sete – e seria uma merda ter mais gente porque tudo estava preparado para sete pessoas e sete pessoas apenas. Mas então eles mesmos foram à van e começaram a retirar algumas malas de lá. Pararam à minha frente na volta, esperando por uma ordem. Eu tentei sorrir do melhor jeito que pude.
Levei os sete para dentro, apresentei cada um a seu respectivo quarto – decorado por profissionais contratados especialmente para atenderem ao gosto de cada um deles. Era um puta exagero para mim, mas se eles iam pagar... O que me surpreendeu foi que, minutos depois, estavam os sete chegando perto de mim. Esperavam algo que eu, com toda a certeza do mundo, não poderia entregar, mas pareciam ser extremamente educados, então eu ia retribuir aquilo ao menos.
– E então... Alguém quer conhecer o entorno da casa? – Perguntei, completamente sem jeito.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.





PARA ACOMPANHAR GRUPOS NO WHATSAPP, NO FACEBOOK E PERFIL NO INSTAGRAM, COM INFORMAÇÕES EXCLUSIVAS E PRIORITÁRIAS, CLIQUE NOS ÍCONES ABAIXO:



Existem dezenas de fanfics minhas, com temas variados, no site. Dentre eles, posso citar Supernatural, Henry Cavill, McFLY, BTS... Confira tudo na minha página de autora, que você acessa clicando aqui.



comments powered by Disqus