Última atualização: 30/11/2019
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Prólogo

– A senhorita tem certeza?
– Sim. – Respondi, gastando todas as forças que eu tinha parar falar e ignorar a dor nos músculos do meu pescoço. – Não tem nada mais vergonhoso à essa altura.
A perita levantou a câmara até a altura dos meus seios e bateu a foto. Enquanto isso, a médica do Spire Manchester Hospital cortava as minhas unhas. O uniforme do hospital parecia pesar sobre meu corpo e fazer com que eu não conseguisse respirar muito bem.
– Senhorita , tem alguém com quem possa ficar? Amigos, família...
– Tenho uma amiga. Minha família mora longe, não quero que os comuniquem sobre isso.
– Quer que eu ligue pra sua amiga?
– A já está a caminho. – Murmurei.
Um calafrio percorreu o meu corpo e eu não consegui evitar um brusco balançar. Não passou despercebido, nem pela médica nem pela perita.
– Está com frio? Podemos arrumar um cobertor, se desejar.
– Vou ficar bem. – Disse pela milésima vez no dia, mas nem eu mesma acreditava em minhas próprias palavras.
Sentia cada músculo do meu corpo doer. Sentia a vergonha, a sensação de impotência, o desaparecer da minha credibilidade se esvaindo de mim, escorregando por entre meus dedos. Enquanto o exame de corpo delito seguia, eu segurava uma vontade imensa de me desmanchar em lágrimas. Queria voltar no passado e fazer algo para evitar que tudo aquilo acontecesse.
– Terminamos por aqui. Gostaria de mantê-la no hospital por mais um ou dois dias, se possível, para que tenhamos uma equipe apropriada monitorando esses primeiros momentos. Isso, é claro, se a senhorita concordar. – Eu apenas assenti. – Claire, pode pedir que deixem policiais de vigília por aqui?
– Acredito que meus superiores não vão se opor a isso.
– Ótimo. Enquanto isso, vou pedir que a equipe de segurança do hospital permaneça alerta.
– Seria bom mesmo. – A perita disse e começou a desmontar a câmera. – Senhorita , sei que passou por um momento terrível e eu não posso expressar o quanto sinto muito por vê-la nessa situação, mas preciso informá-la que, quanto mais cedo a senhorita falar com nossos detetives, maior será a chance de pegar seu agressor.
Mais uma vez, eu apenas assenti. Não queria falar, não queria pensar. A dor se sobrepunha a tudo. Minha cabeça, pela milésima vez naquele dia, parecia poder explodir a qualquer instante.
– Posso pedir uma coisa? – Perguntei à médica quando a perita deixou o quarto onde eu estava.
– Claro. No que posso ajudar?
– Pode me dar algo pra dormir? De verdade. Eu preciso dormir.
A senhora abriu um sorriso que passava conforto e, instintivamente, acariciou o topo da minha cabeça.
– Querida, infelizmente, não é a primeira que atendo uma jovem como você nesta situação. E eu sei bem que o você precisa de umas boas horas de descanso, então já administrei esse medicamento. No mais, saiba que isso vai passar e o que mais importa é que você se recupere. Você deve se sentir sonolenta em alguns minutos. Se sua amiga chegar depois disso, trarei ela para cá.
Eu assenti, a médica sorriu novamente e se virou em direção à porta.
– Doutora Evans? – Chamei, ao que ela respondeu imediatamente. – Obrigada.
O sono, de fato, veio. Mas isso não me impedia de reviver as cenas na minha mente. Os socos deferidos contra meu corpo, os gritos com palavras detestáveis, o olhar pesado e inquisidor. Tudo por causa de uma palavra fora do lugar. Jack nunca havia se mostrado capaz de tal violência contra mim, o que fazia doer mais ainda cada golpe com o qual ele me vitimava. Havia confiado minha vida a alguém que jamais a protegeria. Enquanto eu apanhava, achava que iria morrer. Até que um anjo apareceu e salvou a minha vida.


Capítulo 01

– Você sabe que esse lugar é uma merda, né?
– Menos, .
– Mas você sabe!
– Pode me ajudar aqui ou vai ficar falando besteira aos quatro ventos?
me deu a mão e eu segurei, usando de seu apoio para passar por baixo dos poleiros improvisados colocados para as galinhas recém adquiridas. Coloquei os ovos na caixa de transporte e a depositei em cima de uma prateleira, logo ao lado do portão do galinheiro.
, isso não é vida.
– Pra quem?
– Pra qualquer um!
– É vida pra mim, oras.
!
– Meu nome. – Respondi, revirando os olhos e pegando a caixa de ovos.
Não por opção e sim por pressão do vento frio que invadia a propriedade, me pus a andar logo em direção à casa principal. bufou, pude ouvir, mas logo correu na minha direção. Parou bem na minha frente, bloqueando meu caminho. Eu respirei fundo e levantei o olhar para ela.
– Eu te conheço desde sempre. Você, , não é mulher pra isso. Um distrito de dez mil habitantes, numa vila com menos de cinquenta habitantes...
– São mais de cinquenta mil, na verdade, no distrito. E Aysgarth tem cento e oitenta habitantes. – Corrigi.
– Foda-se, ! Cacete! Não vê o que to tentando te dizer aqui?
Revirei os olhos, mais uma vez. Respirei fundo, mais uma vez. Então contornei seu corpo e continuei meu caminho, sendo seguida lado a lado por .
, eu não vou voltar.
– Você não pode ficar aqui pra sempre.
– Por quê não?
– Como a empresa vai ficar sem você?
– Posso trabalhar daqui.
– Esse fim de mundo nem tem internet.
– Se não tivesse, você não teria conseguido me contactar até então.
, nós precisamos de você de volta em Manchester.
– Estarei em Manchester semana que vem, pra depor, novamente.
– Você sabe que não to falando disso.
– Tá falando do quê então?
– Não se faça de desentendida.
Então eu parei, subitamente.
, me escuta. Eu não tenho a mínima intenção de voltar a Manchester.
– Eu não acredito.
– Não precisa acreditar, não depende de você.
– Vai fazer isso comigo?
– Estou fazendo isso comigo mesma, , e você entenderia se fosse tão minha amiga quanto diz que é.
– Eu não sou sua amiga. – Ela protestou. – Sou sua irmã.
– Que seja! – Resmunguei e voltei a andar.
– Sinto sua falta, !
– E eu só quero me sentir em segurança. Agora, se me permite, eu gostaria de dar o assunto por encerrado. Pode ser assim?
Ela fechou a cara mas concordou. Jake, meu Setter inglês, veio correndo do bosque atrás do galinheiro quando viu que nós já estávamos nos distanciando. Passou arrastando na minha perna e seguiu na frente. Ao ouvir um barulho por trás das árvores que ladeavam o caminho de volta, saiu correndo. Levou alguns breves segundos para que voltasse com um filhote de marta entre os dentes.
– De novo, não... – Murmurei antes de elevar a voz. – Jake, sentado!
Ele me obedeceu e permitiu que eu me aproximasse, mesmo que receoso. Deixei a caixa de ovos no chão e tirei o pequeno animal da boca dele. Vivo, ainda, graças a Deus. Encaixei a bola de pelos no bolso do meu casaco canguru e, sob a atenta observação de Jake, retomei o rumo.
– Você precisa arrumar uma companhia pra ele.
– Vou pensar nisso. – Respondi.
– To falando sério.
– Eu também estou.
Abri a porta principal da cabana, que dava para um extenso espaço em conceito aberto, mesclando sala de estar, sala de jantar, cozinha e uma mesa de sinuca nas exatas proporções. Deixei a caixa de ovos em cima da mesa. Peguei uma caixa de papelão na despensa, enchi com alguns panos de chão e coloquei o filhotinho lá. Estava imóvel mas, aparentemente, não havia nenhum ferimento grave. A caixa era profunda, então concluí que não seria possível que o pequeno escalasse. No outro dia, iria até o local para verificar se encontrava outros filhotes por ali e o deixaria de volta. Dessa vez, sem Jake. Mas pela noite, talvez fosse o ideal que ele ficasse ali conosco, ainda mais pelos 37,4ºF previstos para a madrugada.
– Sua vó estaria fazendo piada se te visse aqui hoje.
– Por quê?
– A garota “nunca vou sair de Manchester”, “eu adoro cidade grande”, “morar no interior é pra fracos”... A grande virou uma fazendeira.
– Se minha vó deixou isso aqui pra mim, ela queria que eu fizesse algo a respeito, provavelmente.
– Concordo com isso.
Eu liguei a cafeteira e coloquei a água para esquentar.
– Como você tá?
– Bem. – Respondi.
– Mentira.
– Não é mentira.
– Me poupe dessa sua tentativa fajuta de me enganar. – disse, apoiando as costas no balcão entre cozinha e sala de jantar. – Como você tá, ?
Respirei fundo, tirei o cachecol e abri o casaco.
– Eu vou ficar bem.
– Tem tudo o que precisa aqui?
– Vou à mercearia uma vez por semana e me abasteço. Você sabe bem que eu consigo me virar fácil e montar uma receita divina com qualquer coisa que tenha na geladeira.
– Disso eu sei. – Ela deixou um breve riso escapar. – E o braço?
– Novo em folha.
– Alguma notícia sobre o Jack?
– O detetive falou que estão procurando, mas parece que ele sumiu do mapa.
– Ah, o detetive ...
– Para, .
Ela soltou um risinho, dessa vez mais longo e mais despreocupado.
– Desculpa. É que não dá pra evitar. Ele e aquele parceiro dele. O... Qual é o nome dele mesmo?
.
– Isso. Um belo pedaço de mau caminho.
– Quero distância de homem por um bom tempo, . Você parece ignorar por completo o que eu passei.
– Só acho que seria melhor do que ficar falando nisso toda hora. Afinal de contas, a gente tem que celebrar que você tá viva e se recuperando. E de que adianta relembrar? – Ela desencostou do balcão e foi até a cristaleira pegar um copo. – Vou fazer você ficar bem, custe o que custar. Aquele filho da puta do Jack nunca mais vai chegar perto de você.
Respirei fundo e conti um tanto do nervosismo que crescia dentro de mim. Mudar aquele assunto seria a melhor coisa a se fazer dali em diante. Não queria tratar de Jack. Cada vez que pensava nele, a memória se tornava vívida na minha mente. Eu sentia novamente os socos, os chutes, os gritos... Só queria deixar aquilo tudo para trás.
– Você levou quanto tempo de Manchester até aqui hoje? – Perguntei, pronta para deixar o que sofri para trás, ao menos naquele instante. – Preciso me planejar para ir até a delegacia.
sorriu e começou a tagarelar, como sempre era previsível. Nós nos conhecíamos desde o berçário – literalmente. Nossas mães ficaram em quartos vizinhos na maternidade. As duas, boas mulheres que se desafiaram a abandonar um marido babaca durante a gravidez.
A mãe de , Dianne, tinha o apoio dos irmãos e familiares, no geral, porém todos moravam em Londres e nem ficaram sabendo de que ela havia entrado em trabalho de parto. Minha mãe, Rose, era proveniente de uma família extremamente religiosa e foi duramente julgada quando pediu o divórcio, ainda mais por carregar um filho na barriga. As duas saíram de Londres rumo a Manchester para tentarem despistar qualquer tentativa de perseguição do ex marido. Minha avó, , de quem herdei o nome, foi a única a acompanhar e se dividiu, na maternidade, entre ajudar as duas a receberem bem os novos bebês. A primeira era nutricionista. A segunda, engenheira de computação. O que nos levava à pergunta mais óbvia: como eu e havíamos parado no mercado editorial?
Desde pequena, eu era fascinada por escrever. Fui uma criança prodígio e, com boa educação caseira e muito esforço da parte da minha mãe, comecei a identificar minhas primeiras palavras antes mesmo dos três anos de idade. Nós, ingleses, tínhamos muito do que nos orgulhar a nível de escritores. Shakespeare, Jane Austen, J. R. R. Tolkien eram apenas três dos grandes nomes da literatura inglesa que poderíamos exaltar. Próxima da nossa geração, tínhamos J. K. Rowling, que tinha estourado no mundo com o sucesso estrondoso da saga Harry Potter.
Eu, pessoalmente, escrevi meu primeiro romance aos dez anos de idade, chamado Never Stop Dreaming, que era sobre uma menina que se apaixonava pelo amigo do irmão mais velho. Depois de alguns anos e bem mais matura, escrevi A Little Party Girl, No Destiny, Days Of My Life, My Strengh, Unexpected, Right Next Door to Hell, Innocent Seduction¸ Choices, The Wanted, além de contos com enredos baseados em músicas que eu gostava e vários outros títulos que acabaram se perdendo pelo caminho. Obras que não terminei? Eu colecionava. Publicadas? Uma. Unexpected. Escrita no auge dos meus vinte e um anos. Mas eu passei tanta raiva com a editora que escolhi que acabei trocando de curso repentinamente na faculdade e, quatro anos depois, estava abrindo meu negócio. só foi no embalo comigo.
Minha motivação para abrir a editora com , a princípio, foi não deixar alguém passar pelo que eu passei, ter o sonho do primeiro livro publicado ser pisoteado como se fosse uma piada. Com a experiência da minha mãe e da tia Dianne, eu tinha um ideal mais ou menos similar. Prometi a mim mesma que jamais aceitaria viver nas condições que elas viveram, nem passaria perto disso. Mas era até engraçado que eu me encontrasse na situação em que estava, fugindo de um homem que não era bom o suficiente para mim.
Conhecemos Jack na festa de lançamento de um dos nossos livros. O autor, Leo Rice, era dono de uma empresa de logística e escritor no tempo vago. Havia escrito um terror sobre um homem que assombrava um vilarejo na Finlândia e fazia pessoas infames morrerem repentinamente. Jack era amigo de Leo e este nos apresentou. À primeira vista, pareceu um cara normal de Manchester, que talvez me daria o lugar na fila do supermercado por educação. Dois dias depois, ele foi até a editora e me chamou para sair.
Jack parecia o cara perfeito. Era cavalheiro, gentil, carinhoso, não tinha medo de demonstrar afeto e respeitava minha mãe como ninguém. Bonito? É, até que sim, eu achava. Não era nada próximo dos caras de quem eu era fã, como o inalcançável Jensen Ackles, o meu sonho de consumo Daniel Craig ou o galã supremo Brad Pitt, mas Jack era muito agradável aos olhos. Não me deixou pagar uma conta sequer, nunca, e jamais deixou uma porta para que eu a abrisse. Era tudo perfeito, até a noite em que conheci William Forster.
O cara podia ser novo, mas havia conquistado muito mais que eu na indústria. Tinha bastante dinheiro, contrato com escritores famosos. Quando recebi em meu escritório um convite para jantar com ele e conversarmos a respeito da possibilidade de eu me tornar uma parceira, não pensei duas vezes em aceitar. William me levou ao Peter Street Kitchen, um dos restaurantes mais caros da cidade. Estava tão animada com a possibilidade de crescer a níveis desconhecidos até então que esqueci de avisar Jack que chegaria atrasada para sua saída semanal com os amigos do escritório de advocacia onde ele trabalhava.
Trinta ligações perdidas dele no meu celular quando peguei o táxi rumo à minha casa, saindo do restaurante. A minha primeira reação foi imaginar que algo de ruim tinha acontecido a ele e, logo, fiquei preocupada. Tentei retornar diversas vezes, sem sucesso. Mandei mensagem, elas nem foram recebidas pelo celular ele. Fiz o trajeto todo para casa já preparada para trocar de roupa e seguir para seu apartamento. Já estava mandando mensagens para , pedindo apoio, quando vi seu carro estacionado em frente à minha casa assim que o táxi virou a esquina.
Paguei correndo e desci com mais pressa ainda, ansiosa para me certificar que ele estava bem. Fui recebida logo no hall de entrada por um soco na cara. Caí desacordada e, quando voltei a mim, Jack estava me violentando. Dei um grito, que foi o suficiente para que ele parasse o que estava fazendo, mas então sua atenção se direcionou para desferir socos e chutes em meu corpo. Isso e os xingamentos mais pesados possíveis. Ok, que fosse, eu preferia isso do que ser violentada. Mas já estava ciente e estava indo para a minha casa. Deitada no carpete da minha sala, eu me encolhia com cada golpe e concentrava minhas forças em permanecer consciente e guardar fôlego para que, quando minha melhor amiga chegasse, eu pudesse alertá-la. A última coisa que me lembro daquela noite é de pedir a Deus para que eu não morresse ali.
– Vamos fazer o quê amanhã?
– Eu tenho que acordar cedo para colocar comida para as galinhas. – Respondi, tentando despistar meus pensamentos de focarem naquilo.
– Só falta você me dizer que tem que ordenhar uma vaca.
– Na verdade, eu...
– Não. – me interrompeu, levantando a mão aberta na minha direção. – Não precisa falar mais nada, por favor. Se continuar, eu vou pegar meu carro e voltar pra Manchester.
Eu ri. Não era real. Ainda doía em mim, mas eu me agarrava no que havia dito. Eu ia ficar bem, custasse o que custasse.


Capítulo 02

A minha mente viajava longe enquanto eu sentia que estava sendo chamada.
– Senhorita , precisa de ajuda?
– Oi?!
– Perguntei se precisa de ajuda. – O detetive me encarou do outro lado da mesa. – Se quiser, se não estiver se sentindo bem, podemos remarcar.
– Não, tá tudo bem. Pode repetir a pergunta, por favor?
Ele me observou por uns segundos, parecendo não acreditar em mim.
– Ok então. – ajeitou os papeis à sua frente e deu um clique na caneta. – A senhorita tem o contato de alguém da família dele?
– Nós não chegamos a esse ponto, estávamos considerando ainda essa questão de envolver a família. Mas ele disse que os pais moravam na capital, acho que no distrito de Smithfield.
– Você chegou a ver algum documento dele?
Pensei por um instante.
– Acho que não. Por quê?
– Não consta nenhum Jack Avery no banco de dados britânico que bata com ele.
– Merda...
– Mas não se preocupe. – retornou a conversa. – Isso não quer dizer nada, vamos encontrá-lo.
Assenti e abaixei a cabeça, olhando para meu próprio colo.
– Ei. – Ele esticou o braço por cima da mesa e me ofereceu a mão. – Você está bem?
Estava pronta para assentir novamente, mas o detetive irrompeu pela porta, carregando uma bandeja com quatro copos de café nas mãos e um sorriso no rosto.
– Bom dia, madame! – praticamente gritou. – Como vai? Trouxe um café pra senhorita, espero que goste.
E depositou um dos copos à minha frente.
, menos. – ralhou.
– O que foi? – O moreno deu de ombros e se sentou na cadeira restante da sala. – É pra gente ficar aqui com essa cara de bicho morto? De ruim, basta o que ela passou. Agora temos que animá-la. Você concorda ou não, ?
Não consegui evitar um riso rápido.
– Senhorita , perdoe o meu parceiro, por gentileza.
– Não tem problema.
já te contou a novidade?
– Que novidade?
, não.
– Talvez tenhamos rastreado o Avery. Ou sabe lá qual seja o nome verdadeiro dele. Na Cornualha.
– Isso é verdade? – Perguntei a .
– É, mas...
– Por que não me contou?
– Não queria criar falsas esperanças.
Eu respirei fundo de novo, sentindo o peso nas minhas costas.
– Bem... – Comecei. – Ao menos é bem longe de onde estou.
– Que bom que temos um ponto positivo aqui!
, por favor, se comporta...
– Tá tudo bem. – Disse a . – Obrigada por tentar me distrair, detetive. E pelo café.
– Disponha.
Um silêncio constrangedor se instaurou entre nós. Levou um belo minuto até que tomasse a frente da conversa novamente.
– Avery alguma vez cedeu senha de alguma rede social à senhora?
– Não, nunca. Não era algo com o que eu me importava muito.
– E amigos?
– Ninguém além dos colegas de trabalho.
– Em algum momento, ele falou muito insistentemente sobre ir a um local, alguma cidade, qualquer coisa que pudesse servir como refúgio?
– Não que eu me lembre.
– Antes do que aconteceu... – adotou uma voz mais branda. – Lembra se ele disse o que estava fazendo, onde estava, por onde passaria durante o dia...?
– Foi um dia muito cheio pra mim. Ele mandou algumas mensagens, acho que a cópia do histórico de mensagens já está com vocês.
– Tá sim, eu perguntei mesmo a respeito de possíveis ligações ou qualquer coisa fora disso.
– Se teve, eu não me lembro. Posso checar o celular agora e...
– Não será necessário. – me interrompeu. – Tem alguma coisa sua na casa onde ele morava? Vamos fazer uma busca lá ainda hoje. Posso pegar, se quiser.
– Acho que não mas, mesmo que tivesse, não estou precisando e nem quero. Mas obrigada.
– E como andam as coisas em Aysgarth? Você precisa de alguma coisa por lá?
– To levando numa boa.
– Se precisar de qualquer coisa, você tem meu número pessoal. Pode ligar, a hora que for, ok?
– Tudo bem.
– Acho que acabamos por aqui então. – Ele fechou a pasta à sua frente e se levantou, junto com o detetive . – Só preciso que você assine uns papeis pra mim, pode ser?
– Claro. – Forcei um sorriso ao responder.
Peguei meu café e , que tinha ficado quieta até então, pegou o seu. e saíram da sala de interrogatório e nós duas fomos logo atrás. Eles se afastaram e nós seguimos até perto da janela do andar.
– “Você tem meu número pessoal”...
, não começa. Não esquece que você tá aqui como minha advogada.
– Uma advogada bem divertida, você deve assumir.
– Onde eu fui amarrar meu burro? – Bati com a palma da mão na testa.
Meu telefone começou a tocar logo depois. Peguei o aparelho no bolso correndo, ansiosa para cessar o som o mais rápido possível.
– Oi, mãe.
– Querida, quanto tempo vocês ainda levam?
– Acho que uns vinte minutos, no máximo, dependendo do trânsito.
– Bem, Di já chegou e o almoço está pronto. Estamos apenas aguardando vocês.
– Estou só esperando um documento aqui, mãe, já vamos sair. – Eu disse enquanto via se aproximar de nós duas novamente. – Eu ligo pra senhora já.
O detetive esticou uma prancheta com três folhas para mim.
– Você já conhece o procedimento, então...
Abri um sorriso mínimo por educação, tomei a prancheta e a caneta da mão dele e assinei no final das páginas. Devolvi o material logo em seguida.
– Mais alguma coisa, detetive?
– Bem, eu gostaria de te passar as notícias que possamos ter a respeito do seu caso, se essa for a sua vontade.
– É a vontade da minha cliente sim.
...
– Ótimo então. – Ele abriu um sorriso. – No mais, nós podemos remarcar...
! – Alguém gritou, com um tom de urgência na voz.
Ele revirou os olhos antes de tornar a atenção novamente para nós duas.
– Me dá só um segundo?
Nós duas assentimos e observamos ele se afastar novamente, indo direto para a sala do seu superior, cuja porta era visível do nosso ponto. Tomei um pouco do café – que ainda estava incrivelmente quente. olhava para mim com um sorriso travesso.
– Pode parando.
– O detetive – Ela forçou a voz ao pronunciar aquelas palavras. – está certíssimo, sabia? Temos mesmo que te animar, e nada melhor pra isso que...
– Para, .
– Qual é! Dois mais dois são quatro, quatro é um número par... Entende o que eu quero dizer?
– Não entendo e nem quero entender. – Observei a cidade pela janela.
– Eu realmente acho que...
O jeito que a voz de simplesmente travou denunciava que havia algo errado. Eu a conhecia mais do que conhecia a mim mesma, talvez apenas a proximidade fosse suficiente para estabelecer tal conexão. Voltei meu olhar para ela e, depois, para onde ela olhava. O detetive deixava a sala em que havia acabado de entrar com a expressão aterrorizada. Vinha na nossa direção mais uma vez, mas agora tinha o rosto abaixado e o passo ansioso.
– O que houve? – perguntou.
– N-nada. – A voz do detetive entregou a mentira descarada. – Preciso finalizar aqui com vocês. Posso ligar se precisar, senhorita ?
, rápido. – A mesma voz de antes chamou, dessa vez sendo possível localizar seu locutor, que vestia um colete a prova de balas.
– É sobre mim? – Questionei.
O detetive parecia atordoado com a minha pergunta. Quando seus olhos bateram nos meus, senti o corpo inteiro quase desmanchar. Ele hesitou, ainda sustentando o meu olhar com o seu. Parecendo acordar de um transe, tirou um molho de chaves do bolso e me entregou.
– Esquina da Byrom com a Camp Street. É um prédio pequeno, com várias garagens, lado a lado, no primeiro andar. Meu apartamento é o terceiro, contando a partir da esquina. Essa chave preta é a do portão da garagem. Fique lá até eu aparecer. Tenho uma cópia reserva, não atenda ninguém.
– Mas...
– Tem comida na cozinha, pode usar o que quiser. Mas, por favor, faça o que eu to pedindo.
– Detetive, o que tá acontecendo?
, vamos! – O mesmo homem foi mais urgente, agora seguido pelo detetive , também carregando um colete à prova de balas em seu corpo.
– Promete fazer o que eu te pedi agora?
– Se me contar, sim. – Respondi sem pensar.
– Se perguntarem, você nunca ouviu isso de mim. Acharam um corpo, fresco, e a irmã da vítima disse que foi o namorado dela, cujo nome é...
– Jack Avery. – Completei e olhei para .
– Preciso repetir o endereço? – fechou as chaves na minha mão, ao que eu respondi com uma negação. – Vai.
Ele nos deixou sozinha, eu mais perdida que nunca. Demorou uns bons segundos até que meu corpo reagisse por conta própria e eu me juntasse ao frenesi que invadia a delegacia. Não sabia o que decidir, então optei por apenas obedecer ao que o detetive tinha ordenado. Ele era um policial, e policiais eram confiáveis, certo? Eu esperava que sim. Foi só com aquilo estourando nas nossas caras que cedeu à seriedade que o momento solicitava. Nós duas corremos para o apartamento do detetive imediatamente.
– Entre em silêncio, permaneça em silêncio. – falou quando estacionou seu carro na frente do local indicado.
– O quê?! Você não vem?
– Vou atrás de descobrir o que tá acontecendo.
, você é uma advogada, não uma heroína.
– Eu sou sua advogada. Sua e da sua empresa. Aceite isso como uma ordem minha então e faça o que o detetive falou.
...
Tic tac. – Ela ironizou quando viu que eu ia protestar.
Não tive outra escolha a não ser obedecê-la. O local não era luxuoso e um designer de interiores teria um infarto com algumas combinações. O hall de entrada, para onde dava a escada que subia da garagem, possuía duas portas: conjunto de sala de estar, sala de jantar e cozinha ou o que deduzi ser a suíte. Não me aventuraria a invadir o espaço privado de um policial, então fui direto para o sofá preto de três lugares e revestido por couro sintético. As almofadas de estampas aleatórias não combinavam entre si, mas eram extremamente confortáveis. Embaixo das minhas costelas, meu coração parecia querer saltar literalmente. Estava tremendo de nervoso até que lembrei do calmante na bolsa. Fui até a cozinha, busquei um copo de água e joguei o comprimido para dentro. Então me acomodei no sofá de forma que a pressão baixa que viria a seguir, consequência do remédio, não me fizesse desmaiar de qualquer jeito.
Acordei sabe Deus quanto tempo depois. No entanto, havia algo diferente. Um cobertor marrom estava esticado sobre o meu corpo. Do cômodo ao lado, a suíte, eu podia ouvir alguém falando no telefone. A voz era bem característica e eu havia passado tempo demais sendo interrogada por ele para não a reconhecer de primeira. Eu tentei manter silêncio total e apenas aguardar, mas havia alguma coisa naquela coberta que estava atacando a minha alergia. Tentei evitar a todo custo, mas acabei soltando um espirro. apareceu na porta segundos depois.
– Você acordou.
– Desculpa, eu precisei tomar um remédio...
– Não tem problema. Agora vamos, conversamos na viagem.
Só então notei a pequena mala prateada posta ao lado da porta. Olhei da mala para ele ao menos três vezes.
– Vou te levar até Aysgarth e fazer uma vistoria na vizinhança pra ter certeza de que tá tudo bem com você.
– Não precisa, ninguém lá faz ideia de quem eu sou.
– Senhorita ...
– É . – Eu o interrompi. – Por favor, Jack me chamava assim quando nos conhecemos. Eu simplesmente... – Respirei fundo antes de retomar a fala. – Só, por favor, não me chama assim.
– Tudo bem. – Ele abriu um sorriso e fez sinal com a mão. – De qualquer forma, , precisamos ir. Quanto mais cedo, melhor.
Demorei um pouco para assimilar as informações. Levantei do sofá e comecei a dobrar o cobertor. Fui logo interrompida.
– Deixe aí, não tem problema.
– Que isso, é o mínimo que posso fazer.
– Nós realmente precisamos sair de Manchester o mais rápido possível, senhorita... .
Olhei para novamente. Minha cabeça estava banhada em um misto de emoções. Não queria nada de seguranças ou tratamento especial. Gostava do detetive por causa disso. , como era seu primeiro nome, me tratava diretamente quando precisava saber algo sobre o caso mas, fora isso, eu era como qualquer outra ao seu redor. Queria esquecer, queria falar cada vez menos sobre o assunto. Deixar para lá a investigação e correr o risco de Jack se safar? Mas nem fodendo! Só queria minha vida de volta.
– Posso usar seu banheiro, pelo menos? – Pedi. – Por favor.
– Claro. – O detetive apontou para a porta ao seu lado. – É por aqui.
Lavei o rosto e me livrei do pouco de água que tinha na bexiga antes de seguir viagem. Descemos as escadas com ele logo à frente, o suéter contornando as duas armas no cós da sua calça. Eu hesitei antes de dar mais um passo e finalizar os degraus.
– Preciso pegar meu carro. – Murmurei.
– Vou fazer com que levem o carro até você.
– Mas...
Ele abriu o portão da garagem e notei o detetive no meu carro logo atrás. Acenou gentilmente e eu, mesmo tensa, retribuí o cumprimento.
– Posso dirigir, detetive, sei bem o caminho pra casa.
– Pode me chamar de , se for o caso. – Ele disse, caminhando até a porta do passageiro e a abrindo para mim. – Adoraria vê-la mostrar suas habilidades atrás do volante, mas outro dia. Por hoje, precisamos correr. Muito.


Capítulo 03

Levantei com o canto do galo, não era novidade para mim. O sol ainda não havia nascido, mas o céu já estava tomando a coloração alaranjada clássica que previa um dia ensolarado. Decidi que não havia motivo para que eu me prolongasse mais na cama e comecei logo o meu dia. Tomei um banho bem quente, do jeito que eu gostava, até a pele ficar vermelha com a temperatura. Vesti uma calça de malha confortável e uma blusa folgada de algodão. Enquanto as portas e janelas da casa continuassem fechadas, aquilo seria suficiente. Enfiei um belo par de pantufas dos pés e segui para a cozinha.
A rotina já era quase que automática para mim. Ligar a cafeteira era a primeira coisa a se fazer, o que me dava tempo para o resto. Chequei quais frutas eu tinha à minha disposição na geladeira e acabei optando por bananas e um mamão. Sentei na bancada da cozinha enquanto esperava a cafeteira terminar seu ciclo. Coloquei Bon Jovi baixinho no celular para tocar e, enquanto comia um pouco da primeira banana, balançava os pés em falso no ritmo da música.
– Bom dia. – Uma voz grossa ecoou pelo cômodo.
Eu congelei e senti minha alma sair do corpo e voltar. A temperatura – lê-se pressão – baixou de uma vez só. O susto me fez quase cair de onde estava. Havia esquecido completamente de que minha rotina estava sendo quebrada pela inesperada visita. A primeira coisa que fiz foi desligar a música com as mãos trêmulas.
– Perdão, não quis assustar.
– N-não tem problema. – Respondi, procurando disfarçar a falta de fôlego. – Bom dia, detetive. Você toma café?
– Tomo sim, mas não precisa se incomodar.
– É só aumentar a carga da cafeteira, não tem nada demais.
Com isso, desci da bancada e fui até o aparelho. Disfarçadamente, chequei se não havia esquecido de colocar o sutiã como fazia em meus dias de preguiça. Informação confirmada, levantei a tampa da cafeteira, adicionei mais água e coloquei mais café na parte de baixo.
– Eu só tenho açúcar pra adoçar.
– Não tem problema, eu uso açúcar mesmo.
– Que bom então. – Murmurei e me apoiei na bancada, onde anteriormente me sentei. – Podemos conversar agora sobre o que rolou ontem?
– Claro. O que deseja saber?
– Por que a pressa? O que tava acontecendo?
O detetive hesitou. De repente, apontou para a cadeira à sua frente, disposta em volta da grande mesa de jantar da cozinha.
– Posso?
– Claro, vá em frente.
Ele se sentou e colocou as mãos, unidas, sobre a mesa. Devia ser algo como um tique, pois já havia notado fazendo exatamente esse mesmo gesto algumas vezes.
– Se alguém perguntar, você nunca ouviu falar dessas informações, entendeu?
Eu fiz que sim rápido e observei a cafeteira começar a despejar a água no café.
– Temos agentes da Scotland Yard envolvidos, e isso fica só entre a gente, pelo amor de Deus. Eles encontraram um padrão e estão trabalhando com a gente pra tentar cruzar melhor os dados e elaborar uma técnica aprimorada de investigação. Mediante isso, eles concluíram ontem, enquanto você estava no meu apartamento e eu seguia com a minha equipe, que ele estava em um imóvel específico. Encontraram um carro na garagem, tinha GPS. Levamos pra delegacia, nossos técnicos analisaram... Ele esteve na frente do meu prédio enquanto você estava lá.
Eu retesei.
– É, eu sei, é uma merda. Por isso que eu quis tirar você de lá com tanta pressa.
– Você acha que ele pode estar aqui? – Perguntei.
– Contou a ele sobre esse lugar?
– Não que eu me lembre. A morte da minha vó ainda tá bem recente, eu nem pensava muito sobre aqui até... – Eu hesitei na fala. – Bem, só minha mãe e sabem daqui.
– Ele conheceu as duas? Sabe onde elas moram?
– Só a , e não sei se ele tem como saber. Todas as vezes em que eles se viram, estávamos no meu trabalho, na minha casa ou em algum lugar onde marcamos previamente para um encontro casual.
– De qualquer forma, colocamos agentes disfarçados vinte e quatro horas por dia nas residências da sua mãe e dela. Acho que esqueci de te contar isso, com a correria.
– Esqueceu mesmo. – Eu murchei. – Mas se é tão segredo assim que você esteja me contando esses detalhes, por que você tá falando isso tudo?
– Tenho motivos pessoais.
– Como...
A cafeteira interrompeu nossa conversa com o apito que denunciava o fim do seu trabalho. Indiquei ao detetive que vasculhasse a geladeira para ver o que podia e gostaria de comer, sem limitações. Mesmo após eu insistir, ele optou por apenas manter-se com o café. Nós o tomamos em silêncio e, logo depois, partimos para que eu lhe mostrasse o resto da propriedade.
Jake o recebeu com certo entusiasmo quando eu abri a porta do seu canil, onde ele dormia para sua própria segurança. Se eu precisasse de um cão de guarda, Jake com certeza não seria o escolhido. Ele e seu rabinho abanando incansavelmente nos seguiram até o vale onde se encontrava o galinheiro que eu mesma havia, orgulhosamente, ajeitado. Minha vó tinha muito mérito, ela gostava de bater no peito e dizer que ela era responsável por quase tudo o que fazia. Desde que eu me lembrava, ela nunca chamara um profissional de qualquer área. Fosse para colocar pisos, construir móveis ou consertar uma geladeira, minha vó era a mulher maravilha da vida real. E era o exemplo que eu queria seguir, é claro.
– Você vem muito aqui?
– Quatro a cinco vezes por dia. É bom pro Jake, ele caminha um pouco. E eu também tenho que vir mais de uma vez ao dia pra poder retirar os ovos. Não pode ficar muito tempo aqui depois que as galinhas colocam.
– E as ovelhas? – Ele apontou para a porteira atrás do galinheiro.
– Ah, essas são do vizinho.
– Esse vizinho é confiável?
– Bem, minha vó conhece o senhor Giles desde que veio para cá, e isso faz uns vinte e cinco anos. Minha mãe chegou a pensar que eles teriam, depois de tanto tempo sozinhos, um caso. Mas acho que minha vó nem pensava mais nesse tipo de coisa.
– Então você só tem galinhas por aqui?
– Tenho cinco vacas também, com três bezerros e um touro. Tirando os bezerros, todos estavam aqui antes da minha vó falecer, então eu só dei continuidade.
– Alguém vem aqui por causa deles?
– A veterinária vem quando eu preciso, mas foram raras as vezes. Ela também já tinha contato com a minha vó há tempos.
– Mais alguém sabe que você tá aqui, tem acesso à propriedade...? Como é a sua relação com os outros vizinhos?
Eu abri a porta do galinheiro e as galinhas se amontoaram aos meus pés, esperando pela comida que eu trazia na mão.
– A fazenda do outro lado da rua é de gado de corte, ladeia a maior parte da estrada aqui por perto. Tenho esse vizinho que cria ovelhas para lã e um outro que cria cavalos PSI.
– PSI?!
– Puro Sangue Inglês. – Expliquei. – Você realmente não faz ideia de nada disso, não é?
– Não, na verdade.
Eu ri, enchi o comedouro das galinhas e chequei se a água estava fluindo como deveria nos bebedouros automáticos. Peguei alguns ovos nas ninheiras e os separei na prateleira reservada a eles.
– Você faz isso todo dia?
– Desde que eu vim pra cá, sim. – Ele se virou e, com o binóculo que carregava no pescoço, mirou a área além do pequeno celeiro na frente do pequeno galpão para as vacas. – Detetive , o senhor...
– Por favor, me chame de .
Ele olhou para mim uma última vez, tentou forçar um sorriso – que não pareceu nada animador – e voltou a olhar para a área que ele almejava.
– Aquela casinha ali... É de quem?
– É uma casa de hóspedes, mas ficou como a casa do caseiro que minha vó tinha. Quando ela morreu, ele se mudou para New Castle, pra ficar junto da família.
– Desculpa perguntar, mas ela morreu de quê?
– Câncer. No estômago. Mas não foi nada demais. Ela já tinha noventa e um anos, viveu bastante e, quando o câncer decidiu se tornar agressivo, foi bem rápido. Nós sabíamos que torcer pra ela sobreviver era puro egoísmo.
– É bem nobre falar isso.
– Eu gosto de pensar assim.
se aproximou de mim quando eu ameacei sair e me ofereceu a mão para me ajudar com o degrau. Eu aceitei, mesmo que não precisasse, por pura educação.
– Pode me mostrar a área dessa casa de hóspedes?
– Claro. Você pode só esperar eu passar pra checar as vacas?
– Sem problemas. – Ele respondeu.
Eu me encaminhei para o celeiro e comecei a tentar equilibrar quatro fardos de feno entre minhas duas mãos. Já havia tentado antes e insistia, mesmo assim. Bufei e desisti, finalmente.
– Detetive, poderia me ajudar aqui, por favor?
Ele veio se aproximando a passos largos e pesados.
– Do que você precisa?
– Pode levar três desses? É só encaixar o barbante entre os dedos e...
Antes que eu terminasse de falar, ele já havia empilhado os fardos. Ia dizer alguma coisa, mas acabei seguindo mesmo assim, com ele em meu encalço. Fui largando um fardo em cada baia dentro do galpão e, quando os meus terminaram, peguei, aos poucos, os fardos que carregava.
– Tenho que colocar um pouco de ração. – Observei para mim mesma.
– Precisa de ajuda com isso?
– Claro, se o senhor puder...
– Já disse que pode me chamar de . – Ele insistiu.
– É que é difícil. Você é policial e tudo mais, eu sou só...
– Finge que você é minha amiga. – Ele completou quando eu perdi a fala. – Amigos se chamam pelo nome, certo?
– Certo.
– Vamos lá, tenta.
– Tentar o quê?
– Me chama de .
– Você tá falando sério?
– To. – Ele riu.
. – Eu falei. – Não é como se eu não pudesse falar, é só questão de educação.
– Mas a gente fica bom com a prática, né?
Revirei os olhos em segredo.
– Vamos na casa então?
Eu e brincávamos muito de pique esconde naquela casa quando aparecíamos por lá em feriados prolongados escolares. , por mais que tivesse virado uma barbie quando mais velha, já havia se sujado toda diversas vezes nas poças de barro que se formavam próximas a área do galinheiro em dias de chuva. Eu não entrava naquela casa há tanto tempo que eu nem lembrava mais como era.
– Essa aqui é uma das entradas. Tem uma porta na varanda, do outro lado, que dá na cozinha, e outra que dá na sala de jantar.
Abri caminho para que – ou melhor, – passasse. Ele deu uma boa olhada no corredor e foi primeiro até os dois quartos e o banheiro único. Explorou a cozinha em seguida e, por último, a sala de estar e de jantar.
– Acho que seria melhor se você ficasse aqui do que na casa principal.
– Por quê?
– Mais longe das fronteiras e, principalmente, mais longe da rua.
– Bem, eu... – Respirei fundo e deixei os ombros caírem. – Tudo bem, posso fazer a mudança entre hoje e amanhã.
– Pode deixar pra amanhã, eu te ajudo. Hoje, seria bom que eu apenas fizesse reconhecimento da área. Às vezes, eu mudo de opinião.
Eu assenti e deixei que ele observasse tanto mais quanto quisesse. Tive que me retirar para fazer o almoço ou passaríamos fome. Logo à tarde, ele se sentou de frente para seu notebook e começou a pesquisar quem eram, com certeza, os vizinhos. Após identificá-los devidamente, seguiu sua pequena investigação em busca de informações mais detalhadas e específicas. Enquanto isso, eu simplesmente me dividia entre cuidar do necessário na cozinha, ver alguns vídeos no YouTube e ler um livro cujo autor estava tentando contratar os meus, agora precários, serviços.
– Você já notou algo de diferente por aqui à noite? – Ele perguntou enquanto eu recolhia a mesa do jantar.
– Como assim ‘algo de diferente’?
– Barulhos estranhos, sensação de estar sendo observada...
– Ah, isso é o que mais tem por aqui, mas aqui é estranho por conta própria. É uma zona rural extremamente pacata. Nunca dei muita bola por isso.
– É importante notar se tiver algo fora do normal. E não precisa ter medo de me contar algo que você ache infantil ou coisa do tipo, não vou te achar incoerente de forma alguma.
– Pode deixar. – Eu escondi que estava buscando o calmante no bolso do meu cardigã, coloquei um comprimido na boca e tomei um bom tanto de água para conseguir engolir. – Eu vou deixar essa louça pra amanhã. Se você quiser, pode ficar por aqui. Prefiro ir dormir logo, enquanto o meu sono tá fresco.
– Vou tentar dormir logo também.
– Ok então. Boa noite.
– Boa noite. – Ele respondeu.
Eu caminhei até o meu quarto e estava quase fechando a porta de volta quando senti algo de diferente.
?
– Oi?
– Minha irmã. – Ele disse.
– O que tem ela?
– Minha irmã foi morta por um cara com o Avery. A razão pela qual eu estou quebrando as regras e te contando é porque ela... Ela foi atacada, ele escapou. Mas o cara não ia deixar barato e acabou voltando pra terminar o trabalho. Se eu tivesse quebrado as regras, se eu tivesse contado a ela...
– Não é culpa sua, .
Ele levantou o rosto para mim e, por mais que ele escondesse – e Deus, ele fazia isso muito bem –, havia certo sofrimento no fundo dos seus olhos.
– Não quero que outro irmão sinta a dor que eu sinto todos os dias por não ter ela aqui.
– Qual era o nome dela?
– Mollie.
– A Mollie devia ser uma garota de sorte por ter um irmão igual você.
– Gosto de pensar que sim.
– Bem, de qualquer forma, acho que uma irmã não gostaria que seu irmão vivesse sofrendo pelo resto da vida dele. – Eu disse. – Eu sei que parece bem estranho e desumano, mas a gente não pode fazer nada pelo passado. Se eu ficar lembrando de tudo o que aconteceu comigo naquela noite...
– ... não tem mais vida. – O detetive completou a minha fala, ao que eu sorri. – Você está certa, obrigado.
– De nada. – Respondi, sorri mais uma vez e fechei a porta do meu quarto.


Continua...



Nota da autora: Uma att atrás da outra? Caramba, vocês são muito sortudas! Hahahahah Isso é cheiro de férias chegando!!! Só um breve esclarecimento: uma leitora, a Kalyane, deixou uma observação referente ao nome do nosso então vilão e eu só queria explicar a situação. 'Jack Avery' foi um nome aleatório que veio de um site que eu uso para gerar nomes aleatórios de personagens. Se tem outro Jack Avery por aí, sinto muito decepcioná-las (ou não kk), mas não tem nada a ver. No mais, muito obrigada a todo o apoio que vocês tem me demonstrado até aqui!!!





TODAS AS FANFICS DA AUTORA:

All Roads Lead to You [Supernatural - Em Andamento]
Aqueles Malditos Olhos Verdes [Jensen Ackles - Em Andamento]
Badges and Guns [Henry Cavill - Em Andamento]
Don't Tell My Ex [Henry Cavill - Em Andamento]
I Don't Want Somebody Like You (I Only Want You) [McFLY - Em Andamento] (em breve, no especial The Lost Authors)
In the Eye of the Hurricane [Bon Jovi - Em Andamento]
Move If You Dare [McFLY - Shortfic] (em breve, no especial The Lost Authors)
No Angels [Supernatural - Em Andamento]
Traded Nightmares for Dreaming [McFLY - Em Andamento]
Tudo por um Amor [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic] (em breve, no especial The Lost Authors)
Tudo por um Gol [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic]


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