Última atualização: 20/10/2019
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Capítulo 1 - Back

 

Os paramédicos estavam tentando de tudo. Nada trazia Rian de volta, eles já estavam há quinze minutos fazendo RCP para reanima-lo. Eu cresci rodeada por isso, meu pai era médico e a essa altura, eu já sabia, que mesmo que o trouxessem de volta. Ele jamais acordaria — morte cerebral — é isso que seria declarado depois de algumas horas.
Eu já o tinha perdido, não agora, mas há muito tempo. Muito antes de toda essa merda acontecer, muito antes de os paramédicos chegaram aqui.
— Hora da morte, 23h! — O paramédico que tentou de tudo, declarou a morte de Rian.
— NÃO! — Gritei, finalmente. Eu nem percebi como o desesperado estava entalado, bem na minha garganta. E eu conseguia ouvir de novo as pessoas a nossa volta, o choro desesperado da minha mãe abraçada ao meu pai, que nem sequer chorava, precisava ser forte, por nós.

Dei um pulo na cama. Meu corpo estava todo suado e meu coração completamente acelerado. Joguei minha cabeça para trás, tentando não pensar muito no sonho que tinha acabado de ter. Eu sabia que não deveria ter bebido tanto, mas é uma pena que eu sempre me lembre disso só quando bate a ressaca, ou quanto tenho esses sonhos. Tentei levantar da cama, mas a minha cabeça latejou tanto, que me obriguei a ficar deitada por mais alguns minutos. Eu estava exausta, não só fisicamente, mas mentalmente também. Não tinha nem doze horas que eu estava em Nova York de novo e já tinha tomando as piores decisões.
Para ser sincera, eu nunca achei que voltaria. Ir embora, depois da morte de uma das pessoas que eu mais amava no mundo, foi uma decisão muito difícil, mas estar aqui de novo, foi ainda mais. Mas, já era hora de voltar, pela minha família, meus amigos e por mim também.
No banheiro, agradeci mentalmente, quando senti a água quente cair sobre meu corpo dolorido. Fechei meus olhos e encostei a testa na parede, alguns fleches do sonho vieram a minha mente, o que fez com que cada parte do meu corpo estremecesse.
Desliguei o chuveiro, não queria pensar demais, não ainda.
Depois de me trocar, peguei minhas coisas e desci as escadas — com um pouco de dificuldade — devido a bebedeira de ontem. Para variar, não tinha nada para eu tomar café, nem sequer fiz compra de mercado. Só cheguei em casa e sai para uma festa, com alguns antigos “conhecidos”.
O clima em Nova York estava ainda mais gelado, do que eu me lembrava, e ele me envolveu completamente, me fazendo bater os dentes. Revirei os olhos e me repreendi por estar usando um vestido curto, mas soltinho, que chegava apenas até metade das minhas coxas. O frio me fez sentir ainda mais saudade da Califórnia. Calor, pessoas que não preciso dar explicações sobre como estou me sentindo, um sentimento de conforto me envolveu, mas já era hora de voltar para casa.
Ao menos, eu estava usando uma jaqueta.
A cidade não tinha mudado nada, desde que fui embora. Ainda cheia de prédios enormes e pessoas apressadas andando para todo lado. Enquanto caminhava, decidi passar em algum lugar para comer alguma coisa, afinal, só tomei uma xícara de café antes de sair e já conseguia sentir meu estômago pedindo por comida.
? — Escutei alguém chamar meu sobrenome, enquanto esperava pelo meu café da manhã na fila de uma cafeteria qualquer, mas ignorei, na tentativa de que a pessoa desistisse e pensasse que tinha se enganado. — , é você?
Suspirei, antes de me virar, o mais devagar que consegui, desejando que não fosse ninguém que eu não estivesse pronta para reencontrar. Ensaiei este momento várias vezes, na minha cabeça, e achei que estaria pronta, mas enquanto me virava, percebi que não estava e que gostaria de ter uma máquina do tempo para sair dali.
—  Hughes! — Soltei um suspiro, pois foi única reação de consegui ter. Ao ver a garota loira, de olhar bem azuis me encarando.
— Eu não sabia que você tinha voltado! — Ela sorriu calorosamente.
Antes que eu conseguisse ter qualquer reação a garota se jogou em mim e me abraçou forte.
— Não tem nem vinte e quatro horas, que eu voltei. Ainda estou me adaptando a está cidade, fria! — deu uma risadinha leve, acho que por causa da minha resposta, e me soltou rapidamente, devido ao abraço mal correspondido. — O que foi? — perguntei abruptamente e sem nem um pouco de simpatia.
— Nada. — A garota soltou um suspiro. — É só que você...amava está cidade! — A loira movimentou os braços, como se quisesse apontar para a cidade em si.
— Ah. Não sou mais a mesma pessoa. — Sorri fraco antes de continuar meu raciocínio. — Me acostumei com o calor da Califórnia, as pessoas, o lugar...enfim! — Olhei para ela, que parecia tão desconfortável quanto eu, nesta situação. 
que é como eu costumava chamá-la — era minha melhor amiga de infância, antes de nossas vidas tomarem rumos completamente diferentes. Éramos, muito próximas. Nos conhecemos na terceira série, duas crianças inocentes, mal tínhamos ideia de tudo que ainda passaríamos juntas. Ela sempre foi a minha maior confidente, a pessoa para quem contava meus maiores segredos e que esteve ao meu lado nos piores momentos.
Os últimos dois anos em que estive fora, ela me fez uma falta que não consigo nem expressar em palavras. sempre foi uma pessoa incrível, engraçada, inteligente e que colocava todo mundo para cima. Jamais poderíamos imaginar que o que começou com um trabalho de escola, terminaria com duas amigas sendo separadas, por um amor em comum.
Não posso negar, estava feliz por reencontra-la, mas também apreensiva. Por mais que eu sentisse vontade —de retomar nossa amizade — não sabia até onde era uma boa ideia. Voltei para recomeçar, não para cometer erros do passado.
— Você, fez uma tatuagem. UAU! — disse apontando para uma parte do desenho, que cobria praticamente toda a minha coxa esquerda e sorriu maravilhada, mas surpresa ao mesmo tempo. — Você mudou muito, . — A garota sorriu para mim, como se eu fosse um tipo de robô, ou sei lá o quê. 
Por um momento, agradeci por estar de jaqueta, evitando que ela conseguisse ver o resto das tatuagens que tenho em ambos os braços. Ai sim, ela teria uma reação muito mais exagerada.
— Você também, ! — rebati, tentando disfarçar meu desconforto. — Bom, eu preciso ir, ainda tenho que passar na NYU para fazer minha matrícula de transferência...enfim eu preciso ir! — respondi e peguei meu pedido, que parecia já ter saído, há algum tempo. Queria sair correndo, nunca tinha me sentido tão desconfortável em toda minha vida, ainda mais com alguém que me conhecia tão bem.
— Foi bom te ver, ! — disse enquanto procurava algo na bolsa e alguns segundos depois retirou um cartaz, que parecia ser de alguma festa.
Fiquei observando enquanto ela pegava uma caneta e escrevia algo no papel.
— Vai ter uma festa, em uma das fraternidades da NYU...como você disse que vai se transferir, achei que seria legal você ir...conhecer o pessoal, que meio que você já conhece, a maioria. — Ela riu. — Coloquei meu número, qualquer coisa me liga...Bom, nos vemos por aí! — Sugeriu e estendeu o papel na minha direção, que peguei e sai andando antes que ela falasse mais alguma coisa.
Caralho!
Aquele sem dúvida foi o momento mais estranho e constrangedor, desde que voltei. Eu sabia que uma hora ou outra encontraria algumas pessoas, mas eu nunca achei que seria tão rápido, embaraçoso e estranho. Meu coração estava disparado e por um momento senti uma sensação de conforto, um sentimento que não saberia explicar, algo que já não sentia mais — não na Califórnia.
Quando cheguei ao lado de fora da cafeteria, parecia que a cidade estava ainda mais gelada, e me odiei pela roupa que estava vestindo, ainda mais. Senti meu celular vibrar enquanto tentava chamar um táxi, que finalmente se aproximava. Assim que adentrei o mesmo, vi uma mensagem na tela do meu celular, da minha mãe, dizendo nada menos que: “Não se esqueça de passar aqui, !”. 
Bufei irritada, falei para o motorista onde ele deveria ir e me recostei no banco do carro.
O caminho até a minha antiga casa foi tranquilo. Enquanto o motorista dirigia calmamente, sem trânsito algum, pensei sobre o que acabou de acontecer, o que me levou a concluir que precisaria estar mais bem preparada caso reencontrasse mais alguém.
Eu estava me sentindo estranha, como se eu não pertencesse mais aquele lugar de alguma forma. Reencontrar , me fez perceber, que eu esperava que as coisas ainda estariam iguais, nossas conversas, intimidades. Mas, obviamente, eu estava enganada. Foi a maior estupidez, achar que tudo ainda estaria igual.
A casa ainda era a mesma, não tinha mudado nada, por fora. Com uma piscina imensa cobrindo a frente, um jardim perfeitamente arrumado em volta, com cadeiras de descanso e um quiosque todo bem mobiliado e com uma cozinha perfeitamente planejada. Passei pela mesma, ainda tentando não me sentir arrepiada a cada passo que dava, literalmente.
Sem conseguir evitar, acabei indo parar no espaço de jogos da casa, empurrei a porta pesada para ter acesso a parte interna. Como eu podia imaginar, nada mudou, estava tudo exatamente como eu deixei antes de ir embora.

Escutei todos rirem. Estávamos “brincando” de mimica, Rian fazia movimentos estranhos e ninguém conseguia adivinhar o que ele estava imitando. Enquanto ele continuava sua encenação — que pareia mais um mico — observei todas as pessoas a minha volta. Um grupo de sete amigos, praticamente inseparáveis. Eu tinha acabado de voltar da minha audiência para a Juliard, como sempre, eles estavam aqui para me dar apoio moral — eles gostavam de chamar assim.
Eu ainda conseguia sentir meus dedos doerem, nunca foi tão difícil me apresentar na frente de tanta gente. Meu corpo estremeceu, só de lembrar a multidão que me observava, enquanto eu tocava o piano com maestria. Foi emocionante, mas assustador, ao mesmo tempo.
— Esquilo! — gritou, comemorando. Tirando-me dos meus
pensamentos. — Acertei, certo? — A garota perguntou, completamente exaltada.
— Não vale! — Seth protestou. — Ele sussurrou para ela, não vale!
— Eu, não vi nada — falei finalmente, tentando segurar a risada.
— Ah, claro que vai defende-lo, é seu irmão. — O garoto protestou e cruzou os braços, tentando fingir que estava bravo.
— Dude, quem faz um esquilo? — fez uma cara de “interrogação” e riu logo em seguida.
— Acho, que deveríamos ver um filme — sugeri com cara de quem não sabia do que eles estavam falando e apontei para a enorme televisão que tinha na sala de jogos.
— Concordo amor. — Adam beijou minha cabeça com delicadeza.
— O amor é lindo. — Eleanor sorriu para nós, fazendo uma cara de quem estava apaixonado.
— Ah, o amor jovem — Rian, meu irmão, riu de maneira engraçada.
— Calem a boca, vamos ver o filme logo.
Todos riram, eles adoravam tirar uma com a minha cara e do Adam. Porque estávamos sempre grudados e não tínhamos vergonha de demonstrações de afeto em público, ainda mais com nossos melhores amigos.

Sete amigos inseparáveis, que nos últimos dois anos não trocaram nem sequer uma mensagem — não comigo. naquela época, era um dos meus melhores amigos, mas depois que fui para a Califórnia e com tudo o que aconteceu, envolvendo não só ele, mas também, achei que o melhor era nos afastarmos.
Com as coisas não foram diferentes, eu não tinha mais como olhar para ela, não depois de todas as minhas atitudes. Eu fui egoísta, em todas as vezes em que achei que eu merecia ficar com , pelo simples fato de termos crescido juntos. Nada daquilo foi justo, para nenhuma de nós.
Seth sabia de todos os meus segredos, tínhamos um dia da semana — toda quarta-feira — onde nos encontrávamos no Sams Coffe para que eu me abrisse com ele, e ele comigo. Consigo lembrar visivelmente, de nós dois deitados na minha cama, com um monte de besteiras espalhadas pela cama, a tv ligada na Netflix em Greys Anatomy — nossa série favorita — e ambos rindo igual dois idiotas. Eu nunca, jamais, consegui uma amizade como a dele de novo.
A única com quem mantive contato, por um tempo, foi Eleanor. Ela me ligava todos os dias, para me contar sobre Trevor, que espero ser ex-namorado, mas que na época era extremamente agressivo e ciumento. Não demorou muito, para que perdêssemos contato também.
No final, o único que me restou foi Adam, que desistiu de tudo o que tinha em Nova York para se mudar para Califórnia comigo, mesmo depois da minha traição, apesar de tudo que eu fiz ele passar.
Uma lagrima escorreu pelo meu rosto, a lembrança me consumiu. Passamos por tanta coisa juntos, foi uma época maravilhosa, eu daria tudo para voltar naquele tempo, mas era tarde demais.
Bati a porta com força.
Assim que entrei na casa, notei que algumas coisas tinham mudado. A mesa que ficava no canto direito da entrada para se deixar chaves, celulares e outras coisas foi trocada por um tipo de prateleira sofisticada, grudada na parede. A enorme escada, que leva até o outro andar da casa, agora estava coberta por um tapete vermelho.
Meu coração se acelerou, a cada passo que eu dava. Depois da morte de Rian eu decidi que não queria mais pisar nesta casa, não para morar. Estar de volta, era algo estranho para mim, ainda conseguia ouvir o barulho das sirenes daquela noite.

A chuva caia incessantemente, do lado de fora do consultório. Eu odiava essas consultas semanais com a Dra. Sullivan, mas meu pai achava necessário, depois que que Rian morreu e eu passei a acorda-lo aos berros, por conta dos meus pesadelos.
Também era importante, porque segundo ele, eu estava com: estresse pós-traumático.
O que ele esperava? Depois do que eu presenciei, passar quase cinco dias sem dizer sequer uma palavra, pareceu algo bem sensato para mim. Mas, para ele e a minha mãe, eu estava doente.
Mas, nenhum deles — nem mesmo meus amigos — conseguiam enxergar, que eu só precisava de um tempo, para processar as coisas. Quando se perde alguém que ama, mais do que qualquer coisa, é natural que o seu modo de lidar com o mundo fique um pouco confuso.
— No que você está pensando, ? — Dra. Sullivan, interrompeu meus pensamentos sutilmente.
Um riso saiu inesperadamente. Coisas assim aconteciam o tempo todo, meus sentimentos estavam confusos e eu nem sempre conseguia controlar o que sentia.
— Aconteceu alguma coisa?
— Eu estou cansada, só isso — menti, depois de três meses, eu estava cansada demais de ter que me explicar.
Eu ainda olhava a chuva, de alguma forma, me acalmava.
— Na última consulta, você se abriu comigo, me disse que Rian era não só um irmão, mas seu melhor amigo também.
Mesmo sem olha-la, eu sabia que estava escrevendo algo no meu prontuário. Odiava a maneira como me analisava. — É, eu disse.
— Mas, você disse que não sentia mais isso. Que agora, sentia vergonha do que estava sentido. Você acha que não a conheço bem, mas depois de três meses, tendo você como minha paciente, posso dizer que sente ódio.
Segurei as lágrimas, serrei os punhos e respirei fundo. Conforme minha respiração — que não notei estar acelerada — foi se estabilizando, me virei para olha-la. Como sempre, estava com seu olhar impassível e meu prontuário em mãos, escrevendo algo.
Caminhei para longe da janela e para mais perto dela. Pela primeira vez, minha médica tinha razão, de fato, ela me conhecia sim e eu estava errada o tempo todo.
Ódio era a única coisa, que eu conseguia sentir nos últimos meses. Não tinha amor, nem felicidade e nem nada do tipo dentro de mim. Eu odiava a pessoa que um dia amei tanto e isso me consumia, mais do que qualquer coisa.
, você odeia seu irmão? — Ela perguntou sem fazer rodeios.
Assim que as lágrimas caíram, voltei para a janela. Aquilo era muito difícil de se admitir — ainda mais para mim — que tinha feito uma promessa e não estava conseguindo cumprir. Eu estava falhando, assim como falhei miseravelmente em manter Rian vivo.
— Sim, eu odeio.

Meus joelhos falharam por um momento.
Só me dou conta da quantidade de lembrança que tenho, guardada em mim, quando elas surgem e desde que voltei para Nova York, tenho me recordado de coisas, que eu já tinha esquecido há muito tempo.
? — Escutei a voz da minha mãe me chamar, e não demorou muito para que ela saísse da cozinha, usando um vestido bege, que ia até um pouco abaixo dos seus joelhos, sapatos pretos de um salto de mais um menos dez centímetros, cabelos perfeitamente arrumados e sua maquiagem impecável.
— Achou, que eu não viria mais? — Abri um sorriso amarelo. — Eu ia passar na NYU, para finalizar minha transferência, mas achei mais fácil passar aqui primeiro.
— Não é nada disso — se explicou, aparentemente irritada. — O que é isso? — perguntou apontando para minha coxa esquerda.
Bufei.
Mais uma vez, feliz por estar de jaqueta.
— Uma tatuagem, fiz já tem um tempo. — Sorri, tentando não demonstrar minha irritação por causa da sua pergunta idiota. — Então, o que você queria falar comigo? — perguntei, mudando de assunto antes que eu me irritasse ainda mais com ela.
Ainda consigo lembrar, das duzentas vezes que ela me ligou na noite anterior, dizendo que eu deveria ficar aqui em casa. Minha mãe, é o tipo de pessoa que você pode explicar mil vezes o porquê da sua decisão, que ela ainda assim, vai tentar te convencer do contrário.
— Mike iria gostar, de te ver — disse, fazendo com que eu me lembrasse de Michael, meu irmão mais novo. — O seu carro, já está pronto. O Robert foi buscar, hoje de manhã.
— Mãe. — Suspirei. — Eu disse que não precisava do carro, falei que ia comprar um assim que desse. Você já me deixou ficar no apartamento...a mesada que você me dá, é o suficiente, para eu me virar e tentar comprar um carro — respondi, visivelmente irritada. — E você sabe, que ele não fala comigo — acrescentei, me referido ao Mike.
! — me repreendeu — Será, que você pode deixar eu te ajudar? Participar da sua vida? Você já me afastou o suficiente desde que foi para Califórnia. Talvez seja por isso, que nem seu irmão fala com você.
Ela sabe como machucar alguém.
— Ok. — Foi única consegui dizer, não estava com paciência para discutir com ela. Nem mesmo falar, sobre o Mike. — Vou pegar o carro, então.
— Ótimo, as chaves estão dentro do carro.
— Ok mãe — sorri fraco. — Obrigada. Assim que der eu apareço e trago o Adam! — beijei a testa da minha mãe, que me olhou surpresa com a minha demonstração de afeto, algo que ignorei com prazer.
— É o carro verde escuro, ligue para o seu irmão! — Minha mãe gritou, antes que saísse da casa.
Depois de muitas voltas, finalmente consegui encontrar uma vaga no estacionamento da NYU. O campus era absurdamente maior do que o da UCLA, com pelo menos uns seis prédios, parecia mais uma cidade, do que uma universidade, o que me dava um certo nervosismo. Os corredores eram enormes, todos deviam ter mais de dez salas, com armários grandes, para que os alunos conseguissem guardar suas coisas e não precisassem ficar carregando livros durante as trocas de aula.
Enquanto aguardava na salinha de espera, observei um pouco o ambiente. Pensei em quantos planos fiz. Que há dois anos, eu teria horror de estar matriculada nesta universidade, mas obviamente as coisas tinham mudado. Não que fosse ruim, é só que meus panos não se encaixavam para estudar na Universidade de Nova York. Juliard era o meu maior sonho, mas as coisas mudaram tanto, que hoje mal consigo me reconhecer. As vezes nós fazemos planos e parece que eles simplesmente fogem do nosso controle.
Mas, até aí, fazer Medicina também não estava nos meus planos. E lá estava eu, fazendo a minha transferência para iniciar o fim do meu segundo ano.
! — escutei uma voz masculina me chamar e levantei. Caminhei em direção ao balcão, mas ao ver quem era o dono daquela voz que acabara de me chamar, não consegui sequer sair do lugar. — Não é possível. Eu li o nome, mas nunca pensei que pudesse ser você.
— Sou eu, Seth — falei abrindo um sorriso, tentando não demonstrar meu nervosismo. — Parece que hoje é o dia dos reencontros, hum? — Peguei meus documentos na bolsa.
, quando foi que você voltou? Por que não ligou? — Seth perguntou ainda com os olhos fixados em mim, cheio de confusão em sua expressão. Eu sabia que reencontrar as pessoas, ia gerar um monte de perguntas.
Ainda mais com Seth, a maneira como me afastei dele, não foi justo. Nossa última conversa, foi uma briga muito feia. Porque ele achava que eu estava sendo egoísta, no fundo, ele estava certo.
— Desculpa, eu não sabia como...aparecer. Muita coisa mudou — respondi enquanto assinava os papéis, que ele colocou sob o balcão a minha frente. — É só isso?
— Meu deus! — Seth estava muito surpreso em me ver.
Abri o meu melhor sorriso, involuntariamente.
Seth me pegou completamente de surpresa, quando senti os braços dele me envolverem e me levantarem no ar. Ele me rodou e depois me colocou no chão, ainda me envolvendo em um abraço. — Você está de volta garota, finalmente !
Sua felicidade era contagiante.
— Que exagero — respondi rindo. Não conseguia me conter, Seth conseguiu despertar em mim um sentimento tão bom, que todo aquele nervosismo que senti no momento que o vi, simplesmente desapareceu e o abracei forte, envolvendo meus braços em seu pescoço. — Desculpa. — O soltei finalmente, depois de longos minutos abraçando-o.
— Ei , está tudo bem! — Sorriu calorosamente para mim. — Olha, eu tenho que trabalhar. Mas, vai ter uma festa hoje, na fraternidade. Você tem que ir. — Ele já tinha voltado para o lado de dentro do balcão e alguns jovens começaram a chegar.
— Eu sei, esbarrei com a , ela me passou o endereço. Com certeza, estarei lá. Foi, muito bom te ver, Seth!

Soltei um suspiro de alívio ao entrar no apartamento e perceber que estava sozinha, sem Adam, sem ninguém para discutir. Depois de jogar minhas coisas na mesinha de centro, me joguei no sofá enquanto olhava o cartaz da tal festa de hoje, que me entregou mais cedo. Nem conseguia me lembrar a última vez em que estive em uma festa com ela.
Virei o cartaz e encarei o número atrás, uma parte de mim queria ligar, chama-la para irmos juntas escolher alguma roupa, como sempre fazíamos. Mas, o outro não sabia se era uma boa ideia. Reencontrar Seth, ver a maneira como ela me tratou foi ótimo, mas ao mesmo tudo parecia um pouco estranho.
Por fim, depois de algum tempo encarando o papel, decidi ir pegar algo para beber na cozinha. Enquanto pegava a jarra de água na geladeira, reuni toda a coragem que tinha dentro de mim e peguei meu celular, digitei o número dela e esperei que atendesse o mais rápido possível, me poupando a tortura de esperar.
— Alô? — Uma voz saiu suave do outro lado da linha.
— Oi ... — Soltei um suspiro antes de continuar, estava nervosa. — É a .
! — ela respondeu animada. — Está tudo bem?
— Sim, está. Eu...bom vou sair para comprar uma roupa para hoje. Gostaria de saber se quer ir comigo.
— Claro. Te encontro na Time Square, nona com a sexta, em quarenta minutos. Pode ser? — sugeriu .
— Ótimo! — respondi e desliguei, antes que eu desistisse.

Assim que estacionei carro, pude ver que já estava na esquina à frente me esperando.
Ao me aproximar, reparei na roupa que ela estava usando, uma saia preta de couro que chegava um pouco acima do meio de suas coxas, regatinha branca básica colocada por dentro da saia, jaqueta jeans escura e uma botinha preta cano curto, com o cabelo solto e uma maquiagem em tons de preto, que realçavam muito sua beleza. Muito diferente de como ela costumava se vestir há alguns anos.
Parece que não fui só que eu mudei, nesses últimos tempos. — O pensamento me ocorreu.
Depois de nos cumprimentarmos, concordamos em começar a procurar as roupas. Enquanto caminhávamos, contou um pouco sobre como foi nos últimos tempos, entre suas confissões, ela me disse que entrou para o curso de Psicologia na NYU — o qual sempre foi o seu sonho.
— Então, como se sente voltando para Nova York? — perguntou, enquanto procurávamos roupas em uma loja que tínhamos acabado de entrar.
— Estou me acostumando ainda — respondi. — Principalmente com o frio, ja movimentação é a mesma, Los Angeles é uma loucura.
— Eu nunca imaginei que você fosse voltar, depois de tudo... — Minha amiga me lançou um olhar compreensivo. — Então, você falou com mais alguém além de mim?
— Não. Eu e o Adam, andamos meio ocupados. — Dei meia volta enquanto procurava um cropped branco para combinar com a calça preta de cintura alta que eu escolhi. — Só encontrei o Seth hoje, ele está diferente.
— Você e o Adam ainda estão juntos? — não se preocupouv em esconder a surpresa. — Ah sim, ele mudou muito.
— Hm — resmunguei pensando em uma explicação. — Sim, é... mais ou menos... tivemos alguns problemas, mas nada que não conseguimos resolver.
— Legal, sempre gostei de vocês juntos. — Me retrai ao perceber que ela pegou minha mão. — Senti sua falta, .
— Eu também,  — retribui o sorriso e logo desviei meu olhar. — Bom, eu já achei tudo que queria, inclusive os sapatos. Podemos pagar e depois ir tomar um café, o que acha?
— Ótimo!
Não conseguia parar de rir, enquanto lembrava com a  de todas as loucuras que fizemos no passado. Para mim, era como se eu tivesse entrado em uma máquina do tempo, causando-me uma sensação de conforto e saudade. Apesar de termos passado estes dois últimos anos sem trocarmos nem mesmo mensagens, parece que nada mudou entre nós. Que o nosso vínculo continuava o mesmo, como se a gente só tivesse se separado por causa das férias de verão.
— Bom, acho melhor nós irmos. Já são mais de seis horas — falei já me levantando.
— Claro, você pode me deixar em casa?
— Posso sim — respondi já indo em direção a saída. — , posso perguntar uma coisa antes? — Parei, encarando-a.
— Claro, o que quiser — respondeu, parecendo um pouco nervosa ao me encarar.
— Como está o Mike? — Sei que a minha pergunta era muito idiota, ele é meu irmão, eu deveria saber dele, mas as coisas andam muito difíceis entre nós, desde Rian.
— O quê? — parecia confusa. — Aconteceu alguma coisa, com ele?
Respirei fundo. Desde que voltei, não falei com ninguém sobre meus problemas e como estou me sentindo com tudo isso. E não queria chorar, ou sei lá o quê. — Olha, as coisas ficaram um pouco difíceis entre nós, depois do Rian. Só queria saber, se ele está bem.
— Ah, claro. — suspirou. — Bom, você sabe...o Mike sempre foi bem temperamental, ele acabou de terminar o ensino médio. As brigas eram constantes, mas ele está bem .
— Obrigada! — respondi, mesmo querendo perguntar sobre as brigas. Eu soube de algumas, mas não achei que fossem constantes, mas não era o momento para falar desse assunto.
Já eram quase sete horas quando deixei na casa dela. O caminho até o prédio foi rápido, e só quando entrei no estacionamento percebi que Adam já tinha me mandado diversas mensagens.
O apartamento estava completamente vazio, o que indicava que eu ainda ficaria sozinha por mais algumas horas. Algo, que eu nunca reclamaria, gosto da solidão, ter um tempo só para mim é bom as vezes.
Tomei um banho rápido, já que não estava com muito tempo. Enrolei as pontas do meu cabelo em cachos bem soltos, fiz uma maquiagem com tons de marrom claro e passei um batom de cor vermelho mate, algo que gastei quase três horas para fazer. Então, coloquei minha calça preta, com rasgos na região da coxa, dobrada na barra um pouco acima do meu tornozelo e meu cropped branco. Terminei de colocar minha bota quando escutei a porta da frente bater, soltei um suspiro já me levantando, peguei minha bolsa e minha jaqueta.
Assim que cheguei no topo da escada dei de cara com Adam, parado na ponta de baixo, ele provavelmente escutou o barulho dos meus saltos enquanto eu andava até o topo da escada.
— Sinto muito, pela briga de ontem. — Adam se manifestou primeiro, assim que terminei de descer as escadas.
— Tudo bem. — Sorri. — Então, eu encontrei a  hoje. Ela me chamou para uma festa de uma das fraternidades da NYU. Você quer ir?
— Ok... — Adam pareceu confuso, com a minha informação.
— Fala logo — falei, esperando que ele fosse dizer algo sobre . — Diz que estou errada, que eu não deveria ir...que não paro de ir em festas.
— Eu só ia perguntar, se você quer que eu te leve — Adam respondeu calmamente.
O encarei por um momento.
Já tem algum tempo que venho tendo reações assim com Adam, que a minha paciência com ele já não é a mesma. Não porque voltamos, afinal, só faz vinte quatro horas que isso aconteceu. Mas, não me sinto mais a mesma pessoa com ele há muito tempo e isso se intensifico nos últimos meses.
Nós namoramos desde o ensino médio, tudo começou com uma amizade de laboratório e terminou com um namoro entre dois adolescentes apaixonados — foi o que pensamos — naquela época. Agora, parecemos dois estranhos. Por um lado, sabemos que somos apenas bons amigos agora, que tem momentos “românticos” quando se sentem carentes, mas que no fundo, a gente sabe que não existe mais aquele amor entre nós, pelo menos não dá minha parte.
— Não precisa, peguei meu carro hoje com a minha mãe — respondi finalmente.
— Tudo bem, então.
— Ok. Eu já preciso ir, falei para  que ia buscar ela às dez horas e já são dez e quinze! — expliquei e ele assentiu concordando. — Bom, eu vou nessa! — Dei um beijo o rosto dele e sai.

Depois de longos trinta minutos, em um clima tenso dentro do carro enquanto tocava uma música agitada do David Guetta, finalmente cheguei à fraternidade. Encostei o carro e disse para a  que ela poderia ir na frente, que eu ia só fazer uma ligação e a encontraria lá dentro.
Minha tentativa de ligação foi frustrada, já que só chamou e ninguém atendeu.
Droga. Sempre que eu preciso, ela some.
No fundo, dizer para a que eu tinha uma ligação para fazer, foi só uma desculpa. Sabia que muitas coisas poderiam acontecer dentro da casa, nesta festa eu não estava preparada para elas. Voltar para Nova York foi uma decisão minha, eu sabia que teria que me adaptar novamente e reencontrar pessoas que talvez eu não saberia mais como reagir ao lado delas, o que está sendo mais difícil do que eu esperava.
Por fim, liguei o rádio e permaneci mais alguns minutos dentro do carro, aproveitando que os vidros são bem escuros e ninguém iria me ver, parada igual uma idiota, enquanto poderia já estar lá dentro bebendo e me divertindo.
Qual seu problema, ? É passado, certo? — Minha mente gritou, tentando me convencer que estava tudo bem, se algo desse errado hoje.
Ignorei meus pensamentos e sai do carro. Eu não poderia fugir para sempre, logo as aulas iriam começar e a maioria das pessoas que conheço, estudam na NYU.
Coloquei meu celular no bolso de trás da calça, enquanto caminhava em direção a entrada da casa, subi um dos degraus e parei ao notar que um grupo de garotos estavam me encarando e logo ouvi um deles gritar: “Gostosa, em. Que isso!”.
Suspirei contendo o riso de deboche, mostrei o dedo do meio na direção deles e entrei na casa.
Por dentro ela era perfeitamente decorada, com móveis em um estilo que não consegui identificar muito bem, devido a minha falta de entendimento sobre móveis, mas pude notar que era de um estilo antigo clássico e com certeza devia custar o olho da cara. Tudo em um tom de madeira escura.
Enquanto observava todo o ambiente, desde a decoração até os estilos de jovens bêbados que passavam ao meu lado, senti alguém me dar um copo vermelho que continha uma bebida de cor rosa claro. No mesmo instante avistei , sentada entre um grupo de amigos, ninguém que eu conhecia.
— Fui eu que te dei a bebida. — Um garoto de cabelos loiros sorriu para mim. — Foi mal, não me apresentar. Sou Jake!
— Oi Jake. — Sorri para ele, ainda meio confusa. — Sou , mas pode me chamar de .
— Ah sim, a amiga da . Ela falou muito sobre você. Na verdade, todo mundo fala.
Sorri sem graça, apenas concordando.
! Você veio! —  sorriu para mim, falando um pouco enrolado, ao mesmo tempo em que levantava o copo de bebida em sua mão, para fazer uma saudação devido a minha chegada. Demonstrando que ela já estava alegre.
Enquanto falava alguma coisa, observei a “galera” a sua volta. No momento não tinha nenhum dos nossos antigos amigos, tinham dois sofás um de frente para o outro e na lateral de ambos uma poltrona. No sofá em que eu estava próxima, tinham duas garotas e três garotos, e um deles não parava de me encarar.
Meus olhos pararam nele, notei que ele ainda estava me encarando, mas não me importei. Seus olhos firmes permaneceram mim, ele desviou o olhar e abriu um sorriso — lindo a propósito — por causa de algo que o pessoal estaria discutindo. Seu cabelo parecia recém cortado, minha visão desceu pelo seu corpo e consegui ver algumas tatuagens coloridas em seu braço. Claramente eu também não o conhecia, acredito não ter visto ele nem mesmo em algumas festas em que estive aqui, antes de me mudar.
Era um completo desconhecido para mim e percebi que já o encarava há um bom tempo, então desviei meu olhar e por fim dei um longo gole na minha bebida.
— Você, quer mais bebida? — Escutei Jake perguntar e olhei para o meu copo, que já passava da metade.
Meu gole tinha sido mais longo do que o pretendido.
— Sim. Por favor! — O garoto levantou e pegou o copo da minha mão. — Eu vou com você! 
— Então, você é daqui? — Jake gritou, por entre a música extremamente alta.
— Sim, mas eu estava morando na Califórnia!
Enquanto o acompanhava, aproveite para dar uma olhada nas pessoas a nossa volta. Cheio de jovens com muita testosterona para agastar, dançando e se pegando sem, nem se importar com a plateia a volta deles. Festas em fraternidade, nunca foram a “minha”, mas eu fiquei sem jeito de recusar o convite não só da , mas do Seth, que foi um amor em me convidar.
— Legal, sério, muito legal! — disse abrindo um sorriso, assim que chegamos à cozinha. — Sempre quis ir para Califórnia, dizem que as baladas de lá são muito maneiras.
— Você não faz ideia! — respondi e peguei o copo, que ele encheu com a bebida rosa novamente e dei um gole — E você? É de onde...você não tem o sotaque daqui.
— Sou do Texas! — ele sorriu.
Além de um sorriso muito bonito, Jake também era lindo. Com cabelos loiros, corpo bem definido, sem dúvidas foi atleta a vida inteira e usou seu talento para conseguir entrar em uma boa faculdade.
— Legal!
Depois de tomar mais um pouco de bebida e dar muita risada com Jake, resolvi que finalmente precisava ir ao banheiro para ficar um pouco sozinha, porque já tinha bebido mais do que o planejado para a noite. Falei para o Jake que já voltava e sai rápido da cozinha, antes que ele percebesse que eu estava alterada.
Parei abruptamente devido ao que tinha acabado de avistar, sabia o que — ou melhor — quem eu estava vendo, mas uma parte de mim não queria acreditar. Cada músculo do meu corpo se enrijeceu, assim que nossos olhares se cruzaram, assim como eu, ele estava parado encarando, provavelmente tão surpreso quanto eu. Eu ensaiei como seria encontrar , Seth e todas as outras pessoas de quem senti tanta falta. Mas, nunca ensaiei como seria reencontrar, .
Nunca pensei que precisasse, todas as vezes em que pensei nele, imaginei que algum dia ele me ligaria e diria que eu ter ido embora foi loucura. Mas, os meses foram se arrastaram e meu celular nunca tocou. Então, um certo dia, reuni todas as coisas que tinha sobre nós e mandei de volta para minha mãe, para que ela as guardasse de modo que eu nunca mais teria que vê-las. Nunca mais pensei sobre ele, sobre nós ou nossa amizade.
sorriu, ele ainda se encontrava parado e me encarando. Um turbilhão de sentimentos tomou conta de mim, senti meu estômago embrulhar.

O lugar estava lotado, eu mal conseguia me mexer. Pessoas bêbadas esbarravam em mim à toda hora, enquanto eu tentava desesperadamente chegar até a escada para poder encontrar . Era impressionante como ele sempre tinha ideias idiotas, como me atrair para lugares assim. Ele sabia muito bem que eu odiava. Mas, que quando se trata dele, eu simplesmente não sei dizer não.
! — escutei uma voz grossa gritar meu nome. — , não finja que não está me ouvindo — reconheci a voz de Hunt.
Como poderia não reconhecer?
Eu mal conseguia acreditar que estava ouvindo a voz dele. Foram longos seis meses. Nos falávamos todos os dias, desde que eu tive que ir para o maldito concerto de música. Mas, não era como ouvi-lo bem ao meu lado.
Me virei assim que consegui me desvencilhar das pessoas a minha volta. Nossos olhares se cruzaram quase que instantaneamente e um sorriso se formou em meu rosto ao olhar para ele, quase do outro lado dá sala.
— Finalmente! — Me joguei em seus braços, assim que consegui chegar até ele.
. — pronunciou meu sobrenome de forma calma, de modo que só eu pude escutar. — Senti tanto sua falta — disse e me soltou, mas permaneceu me encarando.
— Nunca mais, vamos nos separar assim! — O abracei novamente, não conseguia conter felicidade.

Sai andando abruptamente, assim que o vi dar um passo em minha direção. Ainda não estava preparada para me encontrar com ele, por mais que uma parte de mim quisesse muito.
Quando finalmente cheguei ao andar de cima, andei o mais rápido que consegui em direção a porta no final do corredor, entrei rapidamente e liguei a luz. Fechei a porta atrás de mim e me recostei nela, meu coração estava tão disparado que eu mal conseguia respirar, minhas mãos estavam suando e uma crise de risos tomou conta de mim.
Por sorte, eu achei o banheiro rapidamente, afinal já estive em fraternidades. São quase todas iguais.
— Droga , sempre me causando essas sensações — falei em voz alta, enquanto tentava parar de rir.
É horrível ser alguém que da risada quando se está nervosa.
Depois de alguns minutos, me virei para o enorme espelho do banheiro. Enquanto arrumava minha maquiagem, tentei me lembrar qual foi a última vez que o vi, ou que escutei a voz dele. Todos meus músculos se enrijeceram ao pensar nisso. Joguei os pensamentos para longe, quando percebi que meu celular estava tocando e vi o nome de Adam na minha tela. Respirei fundo por um momento e atendi tentando não parecer alterada.
— Alô? — Foi a única coisa que consegui dizer e me sentei no vaso.
? — Adam me chamou com uma voz suave, e fiquei aliviada por ele não ter notado minha embriaguez. — Eu, só queria saber se você chegou bem...você não me mandou mensagem nem nada.
— Ah.
— Tudo bem? — perguntou, como se estivesse lendo meus pensamentos.
— Sim, estou bem — respondi calmamente, enquanto tentava tirar algo que grudou no meu sapato. Eu estava pronta para dizer a ele que ia desligar e que ligaria mais tarde, quando a porta do banheiro se abriu e eu levantei abruptamente, derrubando meu celular com tudo no chão.
Eu achei que a minha noite não podia piorar, até agora.
O garoto que estava sentado ao lado da , agora se encontrava parado na porta do banheiro, ele parecia bêbado. Como podia ser tão folgado? Tudo bem que eu não tranquei a porta, mas o que custa bater antes de entrar? Por isso, eu odeio fraternidades.
Ele estava com um olhar sério, mas não parecia irritado. Para falar a verdade, aparentava estar bem calmo, apesar de ter entrado em um banheiro ocupado e pareceu não se importar, de nem sequer bater na porta antes de entrar.
— Mas, que porra é essa? — gritei finalmente.
Estava irritada, mas feliz por não ser .
— Você que deixou a merda da porta destrancada. — Escutei ele dizer, com uma voz calma e cheia de controle, ainda mais irritante do que em silêncio.
— Ah, claro — falei enquanto pegava meu celular no chão. — Você, não sabe bater porra? — dessa vez eu gritei.
— Da para parar de gritar comigo, porra? — Agora ele estava com a voz um pouco mais exaltada e seus olhos estavam vermelhos, mostrando que eu consegui irrita-lo com a minha maneira de falar. — Isto aqui é uma fraternidade. Você acha que alguém se importa em bater nessa merda de porta? Está todo mundo chapado.
Ele entrou no banheiro. 
— Claro, pode usar o banheiro. Eu já terminei! — respondi e sai.
— Foi mal. Tá bom? — ele me olhou fixamente e segurou meu braço.
O encarei por alguns instantes, tinha algo familiar nele, mas eu não saberia dizer o que era.
— Tanto faz — respondi e sai andando.
Antes de ir procurar pelo pessoal, decidi passar na cozinha e pegar mais uma bebida, já que com o rumo que as coisas estavam tomando, não achei que conseguiria aguentar até o final da noite, estando sóbria.
Me recostei na bancada enquanto dava um gole na minha bebida. Vez ou outra, apareciam algumas pessoas na cozinha, até conhecidos. Eles diziam o de sempre: que sentiam muito pela minha perda e que estavam felizes que eu finalmente tivesse voltado.
Resolvi sair de lá, respirar outros ares.
— Ei, estava te procurando. — apareceu do nada. Ela estava com um sorriso no rosto e parecia mais bêbada do que antes.
— Eu precisei ir ao banheiro. — Olhei a minha volta, esperando que não estivesse por perto, era muito cedo para me enfiar em uma situação onde eu tivesse que encarar os dois ao mesmo tempo.
Minha amiga me puxou, antes que eu conseguisse dizer alguma coisa. Ouvi ela falar algo sobre pista de dança, mas não consegui ter certeza se era isso mesmo, porque o barulho estava muito alto dentro da casa. Mal conseguia ouvir meus pensamentos, quem dirá outra pessoa.
Ela empurrou as pessoas a nossa frente, como se estivesse procurando por algo ou alguém. parecia conhecer muita gente aqui, porque ela cumprimentava todo mundo. Minha cabeça estava rodando, já tinha tomado a bebida do copo que estava na minha mão e, a essa altura, uma das pessoas por quem passamos, já tinha me oferecido um novo copo de bebida. Que eu tomei, sem questionar.
A pista de dança era melhor do que eu esperava, por ser dentro de uma casa. O lugar estava lotado e era decorado por enormes bolas de disco no teto, espelhos que cobriam o ambiente todo e iluminava-o com cores variadas.
Exagerado, mas muito bonito.
me puxou para o centro da sala, fazendo sinal para que eu começasse a dançar. Estava tocando Blow That Smoke, da Major Lazer e ela dançava animada ao ritmo da música, e me puxava para fazer o mesmo. Exatamente como fazíamos nos velhos tempos.
Decidi me soltar e comecei a dançar. A sala a minha volta estava rodando e as luzes coloridas, que invadiam o ambiente, faziam com que eu me sentisse ainda mais zonza e bêbada. A sensação era indescritível, é como se eu fosse totalmente livre.
— É disso que eu estava falando, Dude. — Jake apareceu ao meu lado, acompanhado de Seth.
, você veio. — Seth envolveu o braço na minha cintura, me puxando para um abraço, que eu retribui.
Sorri para eles e puxei os dois para se juntarem a nós. Jake puxou , para mais perto, que ainda dançava animada ao som da música. A maneira como lidamos, uns com os outros, quando estamos juntos, me fazia sentir que nunca ficamos tanto tempo separados, que a última festa em que estive com eles foi no final de semana passado e não há dois anos.
A música entrou em um ritmo mais lento e Seth segurou minha cintura. Encaixou minha perna entre a dele e começamos um ritmo sincronizado, quando a música começou a aumentar gradativamente.
— Love that fire! — cantei, junto com a música.
— Memories! — Seth me acompanhou, enquanto dançávamos.
Eu estou morta e ofegante quando a música termina. Concordamos que precisávamos descansar e tomar um ar, eu estava me sentindo acabada depois de toda a dança e agitação.
Seth me puxava pela mão, enquanto seguíamos Jake e , que pareciam saber onde estavam indo. No fundo, eu estava torcendo para que eles nos levassem para um lugar calmo e que tivesse um sofá bem confortável, para eu me jogar. Porque os meus pés e minhas pernas, estavam me matando.
A casa estava muito mais vazia do que antes. O que me fez pensar no horário, eu não olhei o relógio nenhuma vez, desde que cheguei, nem mesmo na hora em que eu estava no banheiro e aquele estúpido entrou.
— Uau, o que foi aquilo, meninas? — Jake disse, enquanto se jogava no sofá enorme, da sala que ele e encontraram.
— A aqui, não perdeu o jeito. — Seth sorriu para mim, enquanto apertava minha coxa.
— Ah, qual é. — Soltei um riso. — Foi você que dançou todo sensual, lá dentro.
— De fato, você estava todo sensual, dançando com a . — , que estava sentada ao lado de Jake, comentou e soltou uma gargalhada.
Claramente, ela estava bêbada e o resto de nós também. A maneira que dancei com Seth, não é algo que eu faria com qualquer cara, nem mesmo com Adam. Nós somos amigos de longa data e sei que não tem nenhuma segunda intenção entre nós, apesar de eu saber que é isso que nossos amigos estavam querendo insinuar.
— Somos ótimos, parceiros de dança. — Pisquei para Seth, que sorriu como retribuição.
O silêncio tomou conta da sala, então aproveitei para dar uma olhada no meu celular. Tinham algumas chamadas perdidas de Adam, que eu não fiz questão nenhuma de me preocupar, mas o que me pegou de surpresa, é que já eram quase quatro horas da manhã.
Eu tinha perdido totalmente a noção da hora, meu plano era ficar apenas umas duas horas na festa, rever alguns velhos amigos e fazer uma social com a . Já que ela foi tão legal comigo mais cedo e eu não queria fazer essa desfeita.
Minha vontade era de ficar pra sempre jogada no sofá. Mas, eu precisava ir embora, ainda hoje teria muitas coisas para fazer e resolver. Sem contar, a briga que eu teria que comprar ao chegar em casa.
As vezes me pergunto, porque eu nunca tomo coragem de simplesmente terminar com Adam e dizer para ele que deveríamos ser somente bons amigos. Sei que por parte é porque ele é praticamente tudo que eu tenho agora e não quero perder isso. De uma coisa, Dra. Sullivan — minha antiga terapeuta — estava certa, eu tenho medo de mudanças.
Voltei para a realidade.
— Bom, eu preciso ir — falei já me levantando. — Vocês precisam de carona?
Seth engasgou, me deixando confusa.
— Tá maluca?
— O quê? — perguntei, ainda confusa, com a reação dele.
— Você não vai dirigir assim, bêbada — advertiu. Por um momento, eu tinha mesmo me esquecido que não deveria dirigir, depois de toda a bebida que ingeri.
— Eu me esqueci — soltei um riso. — Mas, não posso deixar meu carro aqui né...
— Ué, amanhã você busca, vamos de táxi.
— Vocês vão com a gente? — falei me referindo aos nossos dois amigos, jogados no sofá.
— Acho melhor eu ficar com eles — Seth disse, se referido aos dois bêbados, que não pareciam nem um pouco animados em sair do sofá confortável que se encontravam.
— Tudo bem, cuida dela também, foi ótimo — dei um beijo no rosto de Seth e sai da sala.
Quando cheguei ao lado de fora, o ar estava gelado e me causou uma sensação de alívio. Soltei e puxei a respiração várias vezes, enquanto caminhava para longe da casa. O lugar estava deserto, levemente iluminado por aquelas lâmpadas de chão e fez com que eu me sentisse um pouco menos zonza.
Peguei meu celular no bolso da calça, para poder olhar que horas eram e caminhei em direção a um muro que tinha mais para o canto. A sensação que eu tinha é que minhas pernas iam quebrar a qualquer momento de tanta dor, provavelmente porque o efeito do algo estava começando a passar.
Mais um pouco e eu não precisaria deixar meu carro aqui.
Assim que sentei no muro, desbloqueei meu celular, que me revelou ser cinco horas da manhã. Passei uma hora naquela sala, o que para mim, pareceu ser quinze minutos..
Foram muitas emoções para um dia só. Rever , depois de eu ter ido embora com tantos assuntos inacabados entre nós. Ver , ridiculamente igual, da mesma forma que ele sempre olhou para mim, desde a primeira vez que nos demos conta de que estávamos apaixonados e, ainda ter que fingir, que estava tudo bem, que nada disso estava me trazendo um milhão de lembranças.
Sinto falta de Rian, muita falta.
Fechei meus olhos, e quase conseguia sentir a presença dele. Me dizendo, sempre a mesma coisa.
— Você se cobra demais, . — Rian abriu um sorriso brincalhão.
— Rian? — Chamei pelo seu nome, enquanto permanecia de olhos fechados.
— Eu sei que está com medo, mas está tudo bem. — Rian pegou minha mão, um arrepio me consumiu.
— E se eu for, alguém diferente agora? — Perguntei, porque sabia que era só com ele que eu poderia me abrir assim.
, você pode ser duas pessoas, não significa que está diferente! — Rian se virou para mim, apesar de estar com os olhos fechados, sabia que estava com a cabeça apoiada sobre a mão, enquanto me encarava.
— O quê? — Soltei uma risada, porque nada do que ele estava dizendo, fazia sentido.
— Você pode ouvir Bethoven, ler Jane Austin e mesmo assim curtir umas baladas de vez em quando, é estranho, mas você pode — disse com sinceridade.
— Não é só sobre isso, que estou falando — expliquei.
— Você pode amar Adam e , também. — Senti ele se aproximar. — Mas, lembre-se, você não pode estar apaixonada pelos dois.
Pensei no que ele acabou de dizer, mas meu telefone tocou, interrompendo nossa conversa e os meus pensamentos.
Meu celular tocou e o nome do Adam apareceu na tela. Cliquei em recusar, sem pensar duas vezes, porque já perdi incontáveis ligações dele e sabia que se eu atendesse, começaríamos uma briga, que eu não estava no melhor momento para encarar.
Mas, lembre-se, você não pode estar apaixonada pelos dois.
Rian me disse isso só uma vez, mas eu sempre pensei muito sobre. Acho que nunca estive apaixonada por Adam, mas também nunca amei , meus sentimentos em relação aos dois sempre foram difíceis de explicar.
revelava um lado meu, que eu nem sabia que existia. Eu sabia que com ele eu poderia ser a que lia Jane Austin e aprendia notas de Bethoven, mas eu também poderia ir para festas e tomar uns porres, que ele ainda assim me olharia da mesma forma, de alguma maneira, isso sempre mexeu comigo.
Sempre achei, as coisas entre nós, sempre foram mais carnais.
Já com Adam, eu sabia que ele sempre gostou mais da que lia e tocava piano, que estava sempre preocupada com o que as outras pessoas diriam. Ainda conseguia lembrar qual foi a reação dele quando fiz minha primeira tatuagem, ou a primeira vez que ele precisou me carregar embriagada de uma festa. Não falou comigo por uma semana.
Nossa relação, sempre foi de muito carinho.
De certa forma, eu sempre quis ter os dois por perto. Não só por ter sentimentos, mas por me sentir tão sozinha, sempre que Rian chegava chapado em casa. Depois que meu irmão foi ficando cada vez pior, eles eram tudo que eu tinha e deixei as coisas saírem do controle com o passar do tempo.
? — A voz de , me tirou completamente dos meus pensamentos mais profundos.
Ele estava com a mão nos bolsos da calça preta, com um casaco preto e seus cabelos estavam levemente bagunçados. Sua expressão era neutra, com um leve sorriso aberto, dando espaço para suas covinhas. Foi exatamente assim, que o imaginei, toda vez que eu pensava como seria revê-lo.
Seus olhos verdes brilhavam. Ele sempre foi muito bonito, um metro e oitenta, nem malhado, mas também nem muito magro. Sempre com seu estilo reservado, usando roubas pretas e brancas. Sem falar no cabelo, levemente ondulado e as diversas tatuagens que o deixavam ainda mais atraente.
— Oi — foi tudo o que consegui dizer.
Meu coração se acelerou aos poucos, não saberia dizer se era pelo álcool, ou por ele.
— Está tudo bem?
— Sim.
— Tem certeza?
Hunt deu um passo a frente, mas fiz sinal para que ele ficasse onde estava.
— Sim, eu já estou indo embora.
Passei direto por ele, que permaneceu no mesmo lugar.
Uma parte de mim, queria que ele viesse atrás de mim, mas a outra, sabia que a melhor coisa a fazer, era continuarmos bem longe um do outro. Nos tratando como se fossemos apenas velhos amigos, que o tempo afastou com o tempo.
Isso acontece com todo mundo, certo? Uma hora aconteceria conosco.
Sei que disse para o Seth, que iria embora de táxi. Mas, eu estava longe do centro do Nova York e não queria passar mais nenhum minuto, na presença do , queria evitar te tomar qualquer atitude estúpida.
Também não estava mais bêbada.
Eu sabia que tinha muitas coisas a dizer, e que de novo, eu o estava privando de falar. Mas, o que estava feito não iria mudar. Nada traria de volta o que já fomos um dia — ao menos é o que eu achava.
Enquanto caminhei até meu carro, que estava estacionado do outro lado da rua, escutei passos atrás de mim. Sabia que ele estava andando na minha direção, então apressei meus passos o máximo que consegui, mas minhas pernas estavam muito doloridas e meus pés estavam me matando.
, qual é — ele gritou.
Entrei no carro o mais rápido que consegui, travei as portas e arranquei com o carro, vendo a imagem de com os braços para cima, desaparecer no retrovisor.



Capítulo 2 - Mike's Party I

Já fazia duas semanas que eu estava em Nova Iorque, quinze dias desde aquela festa. O tempo passou rápido, e desde então, tenho me concentrado em atualizar as matérias, afinal estava trocando de faculdade e não sabia como seriam as coisas na NYU.
me mandou mensagem algumas vezes, perguntando se eu gostaria de ir em alguma festa, mas recusei em todas elas. Depois do meu “reencontro” com , não sabia como conversar ou olhar para ela, explicar que ainda tenho sentimentos por um cara que talvez ela talvez seja apaixonada ainda.
Já eram oito horas da manhã quando entrei no campus acompanhada de Adam. Depois de rodar pelo menos uns quinze minutos, finalmente consegui encontrar uma vaga para estacionar o carro.
— Bom, te encontro no almoço? — Adam falou enquanto caminhávamos.
Ele também estava no segundo ano — assim como eu — mas do curso de arquitetura. O pai dele tinha uma empresa e ele queria seguir seus passos.
— Claro, se as nossas aulas baterem, eu envio uma mensagem. Pode ser?
Coloquei minha jaqueta.
, você não precisa se importar com isso. Ninguém liga, se você tem tatuagens, as pessoas mudam. — Adam disse, sem responder o que eu tinha acabado de dizer.
— Você se importou — rebati, saiu antes que eu conseguisse pensar.
— Ok, até mais tarde — selou nossos lábios e seguiu para seu prédio, ignorando meu comentário. — Não esquece, temos a festa do seu irmão hoje a noite — Adam gritou.
Mal sabia ele como eu gostaria de esquecer.
Assim que entrei no prédio, fui em direção ao laboratório 265 A que segundo a minha grade era onde eu teria a minha primeira aula deste semestre: Emergências II.
Estava finalizando o meu segundo ano em Medicina, passou tão rápido que mal conseguia me lembrar como foi a sensação de entrar pela primeira vez em uma universidade. Depois de andar por um tempo, encontrei minha sala, entrei na mesma e fiquei um pouco impressionada com o tamanho, mas feliz por ter apenas algumas pessoas, então aproveitei para observar um pouco o ambiente e me familiarizar.
Com toda certeza o laboratório era cinco vezes maior do que o que eu estava acostumada. Por um lado, não tinha sido uma decisão ruim voltar para Nova Iorque, está faculdade tinha muito mais recursos — ao menos no meu curso.
Coloquei minhas bolsas em uma cadeira no fundo da sala e me sentei ao lado da mesma. Percebi algumas mensagens em meu celular, de ...algumas de amigos que deixei para trás na Califórnia. Mas, travei o celular, me preocuparia com isso depois.
? — escutei uma voz levemente grossa falar atrás de mim e logo Seth apareceu na minha frente.
Uau!
Acho que eu estava meio aérea no dia que encontrei ele na faculdade e definitivamente bêbada, quando o encontrei na festa. Para não notar como ele é bonito, com seu cabelo castanho levemente raspado e seus olhos cor de mel. Sem falar em seus traços do rosto, bem marcados.
E de bônus, um corpo malhado. De quem gasta algumas horas da sua semana na academia.
— Seth! — Me levantei para abraça-lo, depois de quase come-lo com os olhos. — O que está fazendo aqui? — Bom, parece que estamos na mesma sala — riu.
— Claro — concordei. — Mas, o que você estava fazendo na diretoria aquele dia?
— Bom, eu sou bolsista, fiquei com uns pontos faltando no semestre passado e para não perder a bolsa, a faculdade concordou que eu poderia fazer algumas horas de trabalho na secretaria.
Eu quase tinha me esquecido que Seth não era só um rostinho bonito, mas também um cara muito focado no que quer. Desde que estávamos no ensino médio ele sempre precisou se esforçar muito, depois que seu pai foi embora de casa deixando sua mãe não só com ele, mas com mais três filhos para criar.
Pensei em dizer algo sobre o seu comentário, mas fui interrompida pelo professor que acabara de entrar na sala.
A primeira aula e as seguintes foram como sempre são nos primeiros dias, apenas apresentação da disciplina e do professor. Mas, a última aula com toda certeza foi de longe a pior, porque o professor decidiu que todos deveriam se conhecer, fazendo com que todos os alunos se apresentassem. 
Depois da humilhação, mandei uma mensagem para o Adam que me respondeu dizendo que não seria possível me encontrar no almoço, já que ele teria mais meia hora de aula até ser liberado. Por um lado, me senti um pouco aliviada, ele andava estranho comigo e ficava me pressionando para saber como foi a festa em que estive no nosso primeiro dia aqui, algo que eu desconversei várias vezes.
O caminho até o refeitório foi tranquilo e, apesar de eu cruzar algumas pessoas que não via há um bom tempo, foi bom para me acostumar que agora essa seria minha vida. Que parte de algumas pessoas ainda falarem sobre Rian comigo é porque eu simplesmente sumi depois da morte dele.
O lugar era enorme, com uma quantidade significativa de mesas redondas com várias cadeiras ao redor e algumas mesas mais isoladas, para pessoas que gostam de privacidade, como eu. Coloquei minhas coisas em uma mesa no canto e me encaminhei em direção a bancada das comidas, tinha tanta coisa que mal conseguia decidir o que comer. Quando finalmente consegui escolher me virei para voltar à mesa que estava ocupada pelo cara que entrou no banheiro, onde eu estava, naquela festa da fraternidade
Respirei fundo, era meu primeiro dia e não queria ter que me indispor com ninguém.
— O que você quer?
Coloquei minha bandeja na mesa e me sentei.
— Só vim ver como você está, você sumiu das festas. está preocupada com você — explicou.
— Sim, estou bem — respondi tentando parecer mais simpática do que quando cheguei. — Aliás, o que você sabe sobre a aminha amizade com a ?
— Nada, só que ela gosta muito de você.
— Também gosto muito dela, não se preocupe, vou ligar para ela.
Não sei porque estava dando satisfação para ele, era um estranho.
—E estou surpreso que você está sendo educada. — Riu de maneira sarcástica. 
— Pronto, começou.
Revirei os olhos irritada.
— Se já vai começar a agir como um escroto, pode ir embora.
Fiz sinal para que ele levantasse e fosse embora.
— Desculpa, as vezes eu não consigo evitar — respondeu e colocou suas coisas na cadeira vazia bem ao seu lado. — Será que posso almoçar aqui com você?
Ele me encarou.
— Claro, o refeitório é público — respondi e abri um sorrisinho irônico.
Para minha alegria ele permaneceu em silêncio, mas por outro lado eu gostaria que ele estivesse falando. Porque se quando falamos já é intimidador, quando ele não diz sequer uma palavra, me sinto ainda mais nervosa em sua presença. Enquanto comia consegui notar algumas marcas em seus braços e notei suas olheiras fundas.
Fiquei observando-o por um momento, o que me fez lembrar bastante de Rian, que ficava exatamente da mesma maneira depois de ingerir algumas drogas. Será? Estava sendo paranoica, nem todo mundo que tem marcas nos braços, é por causa de agulhas.
Você precisa relaxar. — Minha mente tentou me convencer, de ficar mais calma.
Desviei meu olhar assim que ele me olhou, fiquei sem jeito, então me concentrei na minha comida para terminar de almoçar e sair o mais rápido possível de perto dele e da situação embaraçosa que tinha me colocado.
— Bom, eu terminei. Te vejo na festa hoje à noite. — Ele abriu um sorriso enorme enquanto se levantava.
Festa? Ele não podia estar falando da festa de hoje a noite, do Mike. Não teria razão alguma para ir.
— O quê?
O encarei.
— A festa de aniversário do seu irmão, é hoje, certo?
Minha cabeça estava muito confusa.
— Sim, isso eu entendi — respirei fundo. — De onde você conhece meu irmão? Como sabe que eu e o Mike somos irmãos?
Minha pergunta poderia parecer idiota para ele, mas não para mim, porque sei que Mike jamais falaria sobre mim.
— Te vejo a noite, .
Para variar eu não sabia nada sobre a vida do meu irmão. O cara que tinha acabado de me “informar” que iria na festa de Mike, não parecia o tipo de amigo que ele gostaria de ter — ao menos era o que eu achava.
Revirei os olhos quando já estava longe e afastei meus pensamentos dele. Seja lá porque ele decidiu ser legal comigo, não me importava. Não estou aqui para fazer novos amigos e nem para arrumar mais problemas, porque é isso que ele parecia ser.
Depois de andar por quase cinco minutos, finalmente consegui chegar ao prédio onde ficava a quadra de futebol e a área de musculação. Saber que tinha uma área para treinar e um time de futebol da faculdade me deixou muito animada. Afinal, na UCLA não tinha e senti muita falta, porque eu era parte de um time no ensino médio e amava. Sem contar, que depois do que aconteceu. Minha antiga terapeuta recomendou que eu fizesse atividades físicas para extravasar, talvez, porque eu tenha diminuído o ritmo, tinha voltado a ter algumas “crises”.
O vestiário era enorme, muito maior do que o que eu usava — na outra universidade —, com armários enormes, cabines de ducha em um tamanho razoavelmente grande com portas de vidro ladrilhada e um espaço reservado para que a pessoa conseguisse se trocar com privacidade.
Assim que terminei de colocar meu uniforme de treino, guardei todas as minhas coisas no meu armário. Eu conseguia ouvir as vozes e o barulho da academia enquanto enchia a minha garrafa de água no corredor, comecei a ficar ainda mais ansiosa pois não conseguia nem lembrar qual foi a última vez que fiz uma atividade física. A quadra estava lotada quando entrei, uma mistura de garotas e garotos vestindo um uniforme nas cores preto, vermelho e branco ocupavam o lugar.
Coloquei minha garrafa de água no banco junto com a minha toalha e caminhei em direção ao meio da quadra onde todos estavam se aquecendo. 
— O bom filho a casa torna.
Sai da posição que eu estava e olhei para cima, o que me deu a visão de uma garota que devia ter cerca de um metro e setenta, com seus cabelos loiros presos em um rabo de cavalo. Eleanor Carter, não tinha mudado nada desde a última vez que a vi, com o mesmo sorriso brincalhão no rosto e seu corpo perfeitamente malhado por conta dos treinos.
— É, eu não consigo evitar — falei olhando-a fixamente e abri um sorriso logo em seguida.
Fazia tanto tempo que não nos víamos. Estava realmente feliz em reencontra-la, ela foi uma das poucas que ainda manteve contato comigo por algum tempo, ou pelo menos tentou manter. Eu não a culpo. 
— Vai ficar me paquerando ou vai me abraçar?
Ela caminhou na minha direção, já estendendo os braços para me abraçar. Retribui o abraço instantaneamente, era reconfortante saber que ela sentiu minha falta, tanto quanto eu senti a dela.
— Você não mudou nada — falei já soltando-a. 
— Já não posso dizer o mesmo de você né, . Adorei as tatuagens a propósito. — El abriu um sorriso largo.
Era a primeira vez na semana que usa algo na faculdade, que desse para vê-las.
— Bom, está tudo muito lindo. Mas, nós estamos em temporada temos que começar os treinos. 
— Eu estou um pouco enferrujada, não jogo desde o ensino médio.
Fiz uma careta.
— Eu sei, mas eu sou a capitã. Quero você no time! — El sorriu.
Apenas concordei, sabia que não tinha como dizer não para ela e eu não estava em posição de negar nada.
Porra, eu estava exausta quando o treino terminou. Não tínhamos jogado nem nada, apenas fizemos alguns treinos de resistência. Mas, eu estava me sentindo como se tivesse jogado noventa minutos sem parar. Nunca pensei que ficar tanto tempo parada me causaria tanto cansaço, mas estar de volta a rotina era maravilhoso e não pretendia parar mais.
, mandou bem — uma das garotas do time falou, enquanto andávamos até o vestiário.
Entrei no vestiário seguida de El que me dizia o quanto estava empolgada com a minha volta e que mal tinha acreditado quando Seth contou para ela.
— Sério, eu fiquei, ah meu deus — El riu e me encarou por alguns momentos.
Andei até o meu armário e ri junto com ela. Eleanor sempre foi assim, toda empolgada e cheia de energia. Com ela, nunca tinha tempo ruim, o tipo de amiga que qualquer pessoa teria muita sorte de ter. Eu era muito sortuda e, apesar do meu sumiço, ela estava me tratando como se nunca tivéssemos parado de nos falar.
Estava quase dormindo embaixo da água quando escutei a Eleanor me chamar, dizendo que já estava a quase vinte minutos tomando banho. Desliguei o chuveiro, me enrolei na toalha, sai do box, passei por ela sem dizer nada e entrei em um vestiário seco para poder me trocar. 
Assim que terminei percebi que restava só nós duas.
— Já podemos ir, desculpa pela demora. Me distrai!
Fui em direção a saída.
Enquanto andávamos, El me contou sobre algumas coisas que aconteceram por aqui. Falou sobre , perguntou se já tínhamos nos falado, mas eu desviei o assunto. Não acho que ela notou porque continuou toda animada, dizendo o quanto estava feliz por eu estar de volta e ter aceitado fazer parte do time.
El era aquela que unia o grupo. Pelo que ela estava dizendo, não parecia que todos tinham se afastado. Ela e o resto do pessoal ainda pareciam ser bem próximos, o que me deixou aliviada, odiaria saber que além de deixar todos para trás, ainda fui responsável pelo rompimento da amizade de todo mundo.
— Bom, acho que nos vemos na festa do Mike, certo? — El disse, assim que chegamos ao estacionamento.
Só podia ser brincadeira.
— El, você também foi convidada?
Fingi surpresa, sabia que era o tipo de coisa que meu irmão faria.
— Claro, seu irmãozinho é parte do grupo agora — respondeu na maior naturalidade, enquanto procurava por algo em sua bolsa.
— Parte do grupo?
Naquela época Mike tinha apenas dezesseis anos e, não passava muito tempo com os meus amigos. Exceto quando tinha alguma festa, ou quando fazíamos uma social em casa, mas tirando isso, nunca convidamos ele para as nossas reuniões semanais. Afinal, nem beber ele podia.
Tecnicamente, nós também não, já que a maior idade é 21 anos. Mas, ele ainda era muito novinho.
— É , muita coisa mudou, desde que você foi embora — El sorriu para mim.
Mantive minha expressão séria.
— Amiga, isso não é nada demais. Mike sempre foi muito legal, além de estar um gato.
— Fala sério, te vejo na festa Eleanor — respondi e sai andando.
Minha irritação foi mais forte do que o bom senso. Acabei sendo grossa com a El que não tem culpa nenhuma se a minha relação com meu irmão é uma merda. Mas, ele se tornar amigo dos meus amigos, era mais do que eu poderia suportar.
Entrei no carro e arranquei com ele, só queria chegar em casa e ficar sozinha em completo silêncio para esfriar a cabeça. Michael nunca demonstro nenhum interesse pelos meus amigos, não via razão para ele ser parte do grupo agora.
Talvez ele já tenha me perdoado.
Me estiquei para atender meu celular que tocava incessantemente e selecionei para que a ligação fosse transmitida no autofalante do carro.
— Oi mãe. Está tudo bem? — perguntei preocupada, ela não era de me ligar.
— Oi filha. Está sim, eu só estou ligando para confirmar se você virá a festa.
Claro. Por que mais ela me ligaria?
— Ah, claro — bufei.
, por favor, seu irmão fez o esforço de te convidar — tinha começado com o drama. — Ao menos, tenha a decência de aparecer.
— Tá bom mãe, estarei lá.
Desliguei o telefone, antes que eu perdesse a minha paciência com ela também.
Ainda eram quatro horas da tarde, a primeira semana de aula passou tão rápido, a partir da segunda semana — a próxima no caso — eu já passaria a ficar das O8h da manhã até as 6h da tarde na faculdade, minhas férias estavam oficialmente acabadas.

 

Todo meu corpo doeu quando me joguei na cama. Encarei o teto pensando sobre a festa de hoje à noite, mas também pensei sobre meu irmão ter me convidado para ela, o que era bem estranho. Rolei na cama e peguei meu Ipod na escrivaninha ao lado da cama, apertei o play e começou a tocar Bethoven. É impressionante, como sempre me acalma.
Cai no sono.
Meus olhos se abriram com dificuldade por causa da claridade. Pisquei algumas vezes, e tive a impressão de ver alguém sentado na cadeira da escrivaninha. Dei um pulo ficando sentada ao ver que não estava imaginando coisas, tinha alguém sentado na cadeira, me encarando.
, sou eu.
Cocei meus olhos, minha visão ainda estava embaçada. É isso que acontece, quando eu caio no sono sem usar minha máscara de dormir. Pisquei mais algumas vezes e percebi que era Hannah.
— Ah, meu Deus! — Dei um pulo da cama. — O que você está fazendo aqui?
— Bom, você me convidou para morar com você. Lembra? — A garota riu e se levantou. — Fez todo aquele discurso, sobre não vive...
— Eu estou tão feliz, que esteja aqui! — A puxei para um abraço, sem deixar que ela terminasse o que estava dizendo. — Quando foi que chegou? Por que não me ligou? — Bombardeei Han, com todos as minhas perguntas.
Hannah é a minha melhor amiga no momento, a pessoa que me mantive mais próxima nestes últimos dois anos — exceto Adam. Nos conhecemos no primeiro ano da faculdade, era uma cidade nova para mim, porém não tão nova para ela. Apesar de não fazermos o mesmo curso, ficamos próximas bem rápido e agora somos praticamente inseparáveis.
— Terra chamando, . — Han soltou uma risada.
Eu estava viajando nos meus pensamentos e nem tinha me dado conta.
— Como eu estava dizendo, o voo atrasou e aí eu liguei para o Adam e ele disse que tinha uma chave reserva, embaixo do tapete. E aqui estou eu!
Adam...me esqueci completamente de mandar a mensagem que eu disse que mandaria.
— Você quase me matou do coração!
Coloquei a mão no peito, para fazer um drama e ela riu.
— Então. Por que o Adam não está aqui?
Minha amiga se jogou na cama, folgada como sempre.
— Vocês terminaram? Finalmente.
— HAHAHA, muito engraçadinha — a repreendi. — Ele deve estar na faculdade ainda, eu vim direto de lá, não nos falamos durante o dia.
— Bom, parece que minha felicidade durou pouco.
Revirei os olhos. Ela sabia bem como irritar alguém com toda sua sinceridade.
— Qual é, você sabe o que eu penso. Não é agora que vou começar a mentir para você, . — Han usou meu apelido, enquanto soltava uma gargalhada.
— Tá, tanto faz. — Dei de ombros. — Como estão as coisas?
— Ah, não começa com isso . Eu estou bem, está tudo ótimo. Se algo tivesse acontecido, eu estaria no hospital e você receberia uma ligação, sabe que é meu número de emergência. — Piscou.
Por um lado, ela tinha razão, notícias ruins sempre chegam logo.
— Mudando o assunto mórbido, o que vamos fazer hoje? Acabei de chegar, quero conhecer seus amigos, a cidade...
— Desculpa, mas hoje é a festa de aniversário do Mike.
— Quem é Mike?
— Meu irmão, mais novo.
— Ah tá, aquela coisinha fofa que eu conheci quando fui te visitar? Sei.
Han riu com o comentário dela.
— Sim, exceto pela parte da coisa fofa.
De fato, ela não tinha conhecido Mike em seus melhores momentos. Quando ele foi me visitar na Califórnia no ano passado, as coisas não saíram exatamente como o planejado, eu achei que finalmente iríamos nos reconciliar. Mas, tudo mudou, quando ele descobriu que eu não tinha planos de voltar para casa.
— Bom é uma festa a fantasia, me diz que você trouxe as minhas coisas da Califórnia, por favor — fiz bico.
Eu tinha muitas fantasias que deixei lá, eu e Hannah vivíamos em festas da fraternidade. Estava torcendo para que a resposta dela fosse sim, pois não estava nem um pouco a fim de ter que sair para comprar.
— Mas, é claro.
— Já disse, que te amo?
— Todos os dias — riu.
Adam chegou em casa um pouco depois de começarmos a nos arrumar. Apesar de Hannah sempre demonstrar, ou melhor, dizer nitidamente na minha cara que eu deveria terminar com ele. Os dois se davam muito bem, sempre passavam um tempão conversando e falando das séries que os dois gostavam.
Han decidiu que iria de Arlequina e Adam de marinheiro.
Eu tinha três opções: mulher-maravilha, policial ou pirata. Depois de algum tempo, por fim, eu decidi que iria de policial. Não só por ser preta — praticamente minha cor oficial — mas por ser a mais discreta também, chamar atenção na festa do Mike era a última coisa que eu queria.
— Nem pense em esconder essas tatuagens — Han gritou do banheiro.
Não sei como, mas ela parecia ver que eu estava escolhendo um casaco colocar. Encarei minha imagem diante do espelho, eu estava pronta, a fantasia era composta por um tipo de colete bem colado e um short bem grudado no corpo, além de um chapéu. Era possível ver a tatuagem enorme da minha coxa e as diversas tatuagens que fechavam o meu braço direito.
Puxei um casco só para o caso de esfriar, fechei o guarda roupa e decidi que iria como estava. Já era mais do que hora de as pessoas começaram a aceitar essa nova versão de mim, ou não poderiam mais fazer parte da minha vida.
— Vamos?
Adam me encarou, enquanto eu descia as escadas.
— Só se for agora — Han respondeu animada.
Eu não queria estragar a noite de ninguém, mas não estava tão animada quando eles — por motivos óbvios — então apenas assenti dando a entender que já poderíamos ir.
A festa iria começar as nove horas e o relógio estava marcando dez para as nove quando saímos da garagem. Ou seja, nós iriamos ser os primeiros a chegar muito provavelmente. Deixei que Adam dirigisse, estava muito nervosa para pegar no volante. Vasculhei minha bolsa e peguei alguns comprimidos receitados pelo meu terapeuta da Califórnia, eles estavam acabando e eu sabia que isso significava ou voltar a me consultar com a Dra. Sullivan ou procurar um novo terapeuta, mas isso era preocupação para outra hora.
Os encarei e desisti de tomar. Aumentei o som do carro que estava tocando uma musica qualquer, me recostei na janela e observei a cidade.
Quando Adam imbicou o carro na frente da garagem meu coração disparou. Pela primeira vez em dois anos eu passaria mais de cinco minutos nesta casa e também estaria presente no aniversário do meu irmão mais novo, era tudo muito estranho, afinal meu plano nunca foi voltar até a manhã na Califórnia em que recebi uma ligação da minha mãe praticamente implorando.
Meu namorado e minha amiga entraram primeiro, depois de eu arrumar a desculpa que precisava ligar para uma pessoa. Minha sorte é que os dois não me questionaram, me conheciam mais do que ninguém para saber que eu precisava de um tempo sozinha para digerir o que estava prestes a fazer ou lidar. Claramente eles eram as melhores pessoas na minha vida, muitas vezes eu não saberia o que fazer sem eles, me entendiam acima de tudo, até nos meus piores momentos.
Liguei o rádio e apertei o botão até parar em nada menos que: Nobody’s Home da Avril Lavigne.
Fechei meus olhos e recostei a cabeça no banco do carro.

A chuva caia forte e insistentemente lá fora. Já eram quase quatro horas da manhã e eu não conseguia dormir, Rian me prometeu que estaria em casa no máximo meia noite e mais uma vez eu fui estúpida o suficiente para acreditar na palavra dele.
Me revirei na cama mais algumas vezes e decidi levantar para ir atrás dele. Andei até o closet e enquanto escolhia uma roupa quente para sair no tempo horrível, deixei que as lágrimas caíssem descontroladamente, eu estava tão cansada emocionalmente, fisicamente...era um cansaço insuportável.
Desci as escadas rapidamente enquanto tentava limpar meu rosto, mas as lágrimas não paravam de cair. Caminhei até a mesinha da sala de entrada para pegar as chaves do meu carro, quando escutei a porta de entrada bater com força, fazendo com que eu me virasse bruscamente para olhar. estava carregando Rian que parecia visivelmente sem condições de se segurar em pé.
— Droga , você deveria estar dormindo. — disse enquanto tentava se equilibrar para manter meu irmão em pé.
Meus olhos se fixaram em Rian, eu estava gritando por dentro. Mais lágrimas caíram. Ele estava com as roupas sujas e o cheiro de bebida que exalava dele era muito forte. Engoli em seco e fiz sinal para que o levasse para sala e caminhei em direção a cozinha. Como sempre fazia todas as noites em que ele chegava assim, aqueci um pouco de água e procurei alguns panos no armário da dispensa.
Enquanto esperava a água esquentar peguei um pouco de açúcar e água, estava muito nervosa e não poderia perder o pouco de controle que ainda tinha. Eu prometi que ficaria ao lado dele acima de tudo, não poderia quebrar minha palavra. Coloquei um pouco de água e açúcar no copo.
Tomei um gole e escutei Rian soltar uma gargalhada. Como se toda a situação tivesse alguma graça.
Me desabei a chorar, simplesmente não aguentei mais. Antes que eu notasse, estava sentada no chão chorando descontroladamente, o copo que eu estava segurando se estilhaçou no chão e eu não tinha estrutura nenhuma para sair dali sem que alguém me ajudasse.
! — Escutei gritar.
Ele desligou o fogo e andou na minha direção.
... — sussurrei entre soluço.
— Eu sinto muito. — abaixou e me pegou pelos cotovelos, fazendo impulso para que eu me levantasse. — Eu devia ter levado ele para outro lugar.
Me abraçou.
— Tudo bem... — falei e o soltei. — Vamos, tenho que limpar ele.
O caminho até a sala foi em completo silêncio, enquanto eu andava pedi mentalmente para que Rian permanecesse quieto quando eu fosse limpar ele, porque estava tão descontrolada que não fazia ideia de qual poderia ser minha reação. Talvez eu simplesmente ignorasse — como costumava fazer — ou talvez eu perdesse completamente a cabeça.
Não tinha certeza.
Ele estava jogado no sofá com a cabeça inclinada para trás e com um sorriso no rosto. Sua expressão era de pura felicidade e isso era como uma ofensa para mim. Respirei fundo e caminhei em direção a ele que saiu da posição em que estava e lançou seu olhar para mim, ignorei totalmente e fiz sinal para que ficasse próximo de nós caso ele fizesse algum momento brusco. Afinal, quando ele estava drogado, não sabíamos qual reação poderia ter.
— Rian, por favor. Fica quieto — falei enquanto passava o pano em sua testa.
Ele estava se mexendo para dificultar que eu o limpasse. Seu senso de humor quando estava sob efeito de drogas era algo irritante.
— Você parece triste, — disse calmamente.
Não respondi nada e continuei o que estava fazendo.
— Pare — pediu.
— Você está sujo.
— Pare, por favor — implorou, dessa vez.
— Não, você está sujo e drogado. Não tem nem noção do que está acontecendo — falei irritada, mas ele segurou meu braço com força.
No mesmo instante interviu segurando a mão dele e me puxou para longe. Os dois se encararam, Rian estava com uma expressão péssima, daquelas que ele tem quando não gosta de alguma coisa e sempre que ele olha para nós assim logo em seguida tem algum tipo de surto ou age de maneira agressiva.
, sempre defendendo a . — Ele riu debochado.
— Rian, não começa. A só quer te ajudar, não piore as coisas — pediu.
— O que um par de pernas não faz, não é mesmo? — Meu irmão gritou e levantou bruscamente do sofá andando na minha direção.
Ele pegou meu braço com tanta força que soltei um gemido de dor na mesma hora. Olhei para o meu melhor amigo, dando a entender que não queria que ele fizesse algo. Rian estava agindo assim por não estar sóbrio, mas sabia que ele jamais me machucaria.
— Ri, para de dizer essas coisas — pedi com calma.
— O que? Você acha que eu não sei das transas de vocês? — gritou bem alto e na minha cara.
Tudo aconteceu muito rápido, de repente eu fui jogada contra a parede e ele estava apertando meus ombros e me encarando. Minha reação foi rápida e não intencional, minha mão acertou contra o rosto dele com tanta força que fez com que meu irmão se afastasse. Eu nunca, jamais tinha encostado a mão nele.
Rian me olhou assustado.
como sempre fez as coisas como eu pedi e não moveu nem um dedo para encostar em Rian. Olhei a minha volta, a sala toda decorada com móveis perfeitos, enfeites de cristal. Seria o sonho de qualquer pessoa viver neste “paraíso”, pois eles não sabem que aqui se tornou o verdadeiro inferno.
Eu estava vivendo um inferno acordada.
Peguei uma peça de cristal em formato de elefante que estava na mesa de centro e joguei longe. Ela se chocou com a parede e quebrou em vários pedaços, fazendo um estrondo enorme, provavelmente a esta altura meus pais já estariam acordados se estivessem em casa. A sensação era tão libertadora que peguei mais algumas coisas e comecei a jogar em direção a parede, arranquei os quadros dela e joguei no chão, derrubei os porta-retratos em cima da mesa no chão e puxei as cortinas para que elas se desprendessem.
Eu estava completamente descontrolada. Explodindo de raiva ao mesmo tempo em que me sentia aliviada, tinha acabado de atingir meu limite. Comecei a quebrar tudo que encontrava na minha frente, apesar de saber que o que estava fazendo era completamente irracional e errado eu não conseguia parar, eu era uma bomba e ela estava prestes a explodir por completo.
Rian era responsável por isso, ele precisava ver o que estava fazendo comigo. Que estava me destruindo a cada atitude sem pensar que tomava. Eu não me importava, só queria causar nele a mesma dor que vinha sentindo todos os dias que precisava passar ao lado dele.
, PARA!
Senti os braços de a minha volta enquanto ele gritava.
— Me solta! — implorei.
Gritei tão alto, que minha garganta doeu.
Ele me virou para ele, seus olhos estavam confusos e chocados com o que acabara de presenciar.
— Para, por favor. Eu estou aqui, está tudo bem. — disse calmamente enquanto segurava meu rosto.
Era tarde, eu estava completamente destruída, não tinha sobrado nada dentro de mim além de dor e ódio.
— Tudo bem, eu estou bem. Pode me soltar — falei calmamente, mesmo estando furiosa por dentro.
Rian me encarava perplexo.
— O que foi? Você achou que só você poderia destruir onde pisa? — gritei.
Estava descontrolada novamente. Era incrível como a presença dele estava acabando com quem eu realmente era.
— Não é de caos que você gosta, Rian? É caos que você vai ter, porra!
, para com isso!
me segurou, eu queria partir para cima do meu irmão. Dar umas porradas nele, que meus pais já deviam ter dado há muito tempo.
— Eu sinto muito — escutei Rian falar baixinho.
— Não, não sente porra nenhuma! — gritei.
Os braços de impediam que eu chegasse perto do meu irmão.
— RESPIRA! — gritou tão alto que fez com que eu tomasse um susto.
Finalmente me dei conta do que tinha acabado de acontecer. Eu não tinha mais condições de sustentar aquilo, meu irmão precisava ir para uma clínica, era eu ou ele nesta casa. Um de nós precisava ir embora. Minha cabeça estava doendo como se alguém tivesse me dado uma porrada, eu me sentia tonta e com vontade de vomitar. Um sentimento horrível tomou conta de mim, eu só queria sentar e chorar até não poder mais.
Mas, não foi isso que eu fiz.
Virei de costas para os dois, respirei fundo e limpei as lágrimas que ainda estavam caindo. Meu corpo doía, minha respiração estava acelerada e o aperto no peito era incontrolável, eu não tinha mais forças para nada.
— Tira ele daqui — falei finalmente.
— O que? — Rian perguntou confuso.
Ele só podia estar de brincadeira comigo, porra.
... — sussurrou meu nome.
— Tira ele daqui, agora — pedi e me virei.
Minha expressão era de ódio e eu não me importei.
— Tira ele da minha frente, não quero vê-lo nunca mais. Estou cansada de ser atropelada pelos problemas dele. O que acontecer, não é mais problema meu.
Sai andando, sem me importar com o que acabara de dizer.

Desliguei o som e sai do carro.
Eu precisava muito de uma bebida depois da lembrança que tinha acabado de ter. Aquela noite foi uma das piores que tive com Rian, eu me sentia mais culpada do que nunca sempre que me lembrava, no momento em que explodi com ele senti que aquilo era justo, porque eu já tinha aceitado muita coisa por parte dele. Mas, hoje eu sentia que fui egoísta por um lado, apesar de minha terapeuta sempre me dizer que foi uma reação completamente aceitável considerando todas as coisas que eu estava passando. Nunca concordei.
Espantei qualquer pensamento sobre meu falecido irmão para longe e entrei na casa.
Mike não estava contente só em usar o enorme salão e a área aberta da casa, ele também decidiu usar toda a parte de dentro para receber os convidados e fazer sua festa. O lugar estava todo decorando com diversos temas para uma festa a fantasias, desde coisas que lembravam uma festa de Hallowen até enfeites de personagens da Marvel e DC, além de toda a decoração, a entrada também tinha algumas luzes que deixavam o ambiente com uma iluminação mais amena.
Entrei no salão central.
Já tinham alguns amigos de Mike — nenhum conhecido por mim — e fiquei feliz por ninguém ficar me encarando. O lugar estava cheio de luzes piscando e tinha uma enorme mesa de DJ, a música que estava tocando não era nenhuma conhecida por mim, mas era bem agitada e as poucas pessoas que se encontravam ali já estavam dançando. Tudo estava realmente bonito e bem planejando, eu não poderia negar, meu irmão tinha bom gosto para fazer festas desde que éramos mais novos, de fato, os aniversários dele sempre foram mais bem elaborados que os meus.
Vi que do lado de fora estavam servindo bebidas — eu estava implorando por uma — e atravessei o enorme salão me dirigindo para o enorme espaço aberto onde tinha a piscina. La tinham diversas mesas para que os convidados pudessem ficar à vontade, a piscina estava aberta para quem quisesse usar e também já tinham algumas pessoas ali, e pelo jeito, eu, Hannah e Adam não tínhamos sido os únicos a chegar cedo na festa. Avistei os dois conversando um pouco mais próximo da piscina.
Enquanto andava até eles um dos garçons me ofereceu um copo de champagne — algo estranho para uma festa dessas — mas, que aceitei de bom grado. Sem dúvidas a bebida sofisticada tinha sido ideia da minha mãe, algo que meu irmão com certeza tentou dissuadi-la, mas não funcionou.
Dei um longo gole na minha bebida.
— Ei — Adam falou assim que me aproximei e envolveu um braço na minha cintura, beijando minha testa. — Tudo bem?
— Tudo ótimo — abri um meio sorriso.
Eu estava mentindo, mas era melhor assim.
— Uau , sua casa é maravilhosa! — Han falou observando todo o lugar.
Sorri para ela.
— A casa dos meus pais — a corrigi, aqui de fato não era minha casa.
— Você acha que o resto do pessoal vai vir?
— Ah sim, eu acredito que todo mundo deve vir, segundo a Eleanor meu irmão faz “parte do grupo” agora.
Dei outro longo gole na minha bebida, o que esvaziou minha taça.
— O quê?
Adam me olhou confuso.
— Pois é — revirei os olhos. — Eu vou pegar mais bebida, já volto.
Deixei os dois onde estavam e fui atrás da minha bebida, que também era uma desculpa para ter um pouco mais de espaço para mim.
Não demorou muito para que a casa começasse a ficar lotada e eu já estar na quarta, ou quinta taça de champagne. Pensei em voltar para onde Adam e Han estavam, mas decidi aproveitar um pouco mais o ambiente e o espaço da festa, os dois ficariam me perguntando como eu estava me sentindo e isso não era o que eu precisava agora.
Caminhei até o bar onde vi que Elanor estava sentada conversando — ou dando em cima — de algum barmen desconhecido. Assim que me aproximei ela abriu um sorriso largo e envolveu seus braços magros em volta do meu pescoço, retribui o abraço e pedi ao moço que me desse uma dose de tequila e me preparasse uma caipirinha. El estava linda, usando uma fantasia de Alice, com seus cabelos loiros e longos soltos e uma maquiagem preta levemente esfumaçada.
Assim que meu shot de tequila chegou o virei sem fazer cerimônia e peguei minha caipirinha. Ouvi minha velha amiga dizer algo sobre “vai com calma ”, mas ignorei e me dirigi até a pista de dança, eu já devia estar rodando pela casa a alguns minutos e ainda não tinha visto o dono da festa — meu irmão. Olhei em volta e procurei por ele, mas não o vi, o que meus olhos encontraram foi outra pessoa que eu desejei desde o inicio do dia que não tivesse sido convidado. me avistou, abriu um sorriso largo e começou andar na minha direção. A cada passo dele, meu coração acelerava e eu sentia que minhas bochechas estavam pegando fogo.
disse meu nome calmamente.
Dei um gole na minha bebida e continuei me movimentando na pista.
, sério, já está ridículo esse negócio de ficar me ignorando.
— O que você quer, ?
Eu nem deveria me dar o trabalho de entrar no jogo dele, mas sabia que ele era insistente o suficiente para não desistir.
— Conversar, talvez?
Ele me encarou, fazendo com que meu coração disparasse ainda mais.
— Não temos nada, para conversar — respondi com sinceridade.
— Deixa-me adivinhar, seu namoradinho frouxo deve estar por aí, acertei?
Ele abriu um sorriso largo.
— Vai se foder e me deixa em paz, .
O deixei falando sozinho e sai o mais rápido possível de lá. Continuar a evita-lo era o meu plano e era isso que eu ia fazer antes de tomar qualquer decisão estupida como acabar beijando-o ou até transando com ele. Terminei de tomar o último gole da minha bebida, deixei o copo no bar e voltei para a pista de dança bem na hora que começou a tocar I don’t disapoint do Jay Park em uma versão mixada e senti alguém envolver os braços na minha cintura.
Era Seth. Ele estava fantasiado do que parecia ser um agente secreto do filme Sherlock Homes, com uma camisa branca bem apertada que mostrava bem seus músculos, calça preta colada, um suspensório e um chapéu que o deixava ainda mais bonito. Ele sorriu para mim e me puxou para que dançássemos juntos, dei risada e me juntei a ele ao ritmo da música bastante sensual.
Não demorou muito para que Eleanor se juntasse a nós, ela nos acompanhou na dança mostrando que não tinha perdido o jeito desde que fui embora. Avistei Adam e Han um pouco mais longe de nós na pista e fiz sinal para que eles se juntassem a nós. Me entreguei a música e puxei Adam para dançar comigo, ele sempre era muito tímido e eu de certa forma achava até engraçado, porque ele era meu namorado não deveria ter vergonha de dançar comigo, nem o Seth que é meu amigo tinha.
A música acabou e começou a tocar uma eletrônica muito boa, todo mundo começou a pular na pista de dança e as luzes que invadiam os espaço estavam me deixando muito zonza — além do álcool — e para completar aquelas fumaças de ambiente começou a invadir o lucal, junto com uma luz branca que tornava a minha visão simplesmente impossível. Segurei a mão de Adam para me equilibrar — pelo menos achei ser a mão dele — mas me dei conta de que não era, quando vi o cara de hoje do refeitório, amigo do meu irmão, me olhar um pouco confuso.
Ele não soltou minha mão, então puxei a minha.
— Desculpa — falei ao ver ele se afastar.
Se eu não conseguia nem reconhecer a mão do meu namorado, com toda certeza eu estava bem alterada para estar na pista de dança e precisava tomar água e um pouco de ar. Sai de lá com um pouco de dificuldade por causa de todas as pessoas que estavam aglomeradas, sempre achei a casa grande, mas naquele momento senti que ela tinha diminuído umas cem vezes de tamanho. Quando finalmente alcancei o Hall de entrada me senti aliviada, não tinha me dado conta do quão estava quente lá dentro.
Senti vontade de ir ao banheiro e olhei para o andar de cima da casa. Tinha banheiro no andar de baixo, mas eu teria que atravessar novamente toda aquela multidão, então minha única escolha — a pior — foi ir ao do andar de cima e ignorar só uma vez a minha aversão a estar no segundo andar da casa. Minhas pernas doíam a cada degrau e foi um alívio chegar lá em cima, olhei um pouco o corredor que para ambos os lados dava acesso para os quartos e um banheiro, a parede ainda tinha a mesma cor areia e ainda possuía quadros de fotos de família presos nela.
Fui para o lado contrário de onde era o meu quarto e do Rian, caminhei lentamente para poder observar melhor o lugar. Passei toda minha infância nessa casa e toda minha adolescência, mas por algum motivo eu me sentia uma completa estranha aqui, como se eu não fizesse mais parte deste lugar. Meu coração se apertou por um instante, vivi muitos momentos ruins, mas tinha vivido muitos momentos bons — os quais muitas vezes senti vontade de reviver.
Cheguei na porta do banheiro e rodei a maçaneta, senti uma força rodar comigo e dei de cara com o cara que eu tinha pego a mão.
Uma risada alta saiu sem querer. Parecia que o jogo tinha virado e quem tinha invadido o banheiro era eu.
— Qual a graça? — o estranho, amigo do meu irmão, perguntou.
Respirei fundo, não era hora para ataque de riso.
— Desculpa é só que...
Procurei as palavras, mas não encontrei.
— Só que, banheiros deve ser o nosso lance — o garoto abriu um sorriso.
Notei que ele estava fantasiado de policial também, o que me fez rir um pouco, sempre que eu o encontrava parecia que tudo era uma coincidência. Analisei um pouco ele, a roupa realçava sem corpo e foi o único momento que percebi que ele era bem mais alto do que eu, com mias de um metro e oitenta. Além dos olhos penetrantes que ele tinha.
Ele me encarou, esperando uma resposta.
— Ah, acho que sim — concordei.
Ele riu.
— Sou — disse e estendeu a mão para mim.
— Sou , irmã do Mike — respondi e apertei a mão dele.



Capítulo 3 - Mike's Party II - Overdose

.
Processei o nome dele e o encarei por um momento. Não tinha mais nada para ser dito e até pareceu que ele conseguia ler meus pensamentos, pois fez um aceno de cabeça e seguiu em direção a escada e eu entrei no banheiro, já estava mais apertada do que nunca. Me sentei no vaso e foi um alívio sentir que a dor na minha barriga estava sendo aliviada, está aí um dos meus piores hábitos, sempre deixar para ir no banheiro quando a bexiga está quase explodindo.
Depois de dar descarga, andei até a pia e encarei minha imagem no espelho bem acima dela. Minha pupila estava um pouco dilatada, minhas bochechas bem vermelhas e meu cabelo parecia um pouco desarrumado, então tirei o boné para poder arrumar o cabelo e refrescar um pouco. Me encarei por alguns instantes, eu tinha mudado muito nos últimos dois anos, minhas feições estavam bem mudadas. Parecia mais séria, meus olhos até pareciam de um azul um pouco mais claro e meus lábios mais carnudos.
Talvez fosse a bebida.
Prendi o boné no cinto do short, passei as mãos pelos cabelos e sai do banheiro. O ar parecia muito mais fresco do lado de fora agora, mas eu ainda me sentia um pouco tonta por causa das taças de champanhe que tinha tomado, além da caipirinha e a dose de tequila. Sei lá, acho que eu não estava na festa nem há duas horas e já tinha bebido mais do que o suficiente, sem passar por nenhum tipo de jogo que costumava ter nessas comemorações, como: beija e passa, verdade ou desafio, ping-pong com bebida...nada, minha bebedeira era só consequência dos meus próprios demônios.
Meus pés me levaram ao meu antigo quarto antes que eu me desse conta. Respirei fundo e observei um pouco o ambiente, tudo parecia estranhamente igual, mas ao mesmo tempo muito diferente. Minha cama ainda ficava entre as duas portas da varanda, minha escrivaninha bem a frente dela fazendo um L com a parede da minha esquerda, mas a pintura estava diferente. Apesar de a luz estar apagada, eu conseguia notar que o quarto tinha sido pintado por uma cor mais neutra, provavelmente obra da minha mãe, ela sempre odiou meu gosto por cores mais pesadas.
Caminhei lentamente até minha escrivaninha e corri meus dedos sobre ela, senti meu corpo todo se arrepiar. Todas as vezes em que pensei neste lugar, nunca foi de uma maneira boa, eu não vinha aqui desde a morte de Rian quando passei a dormir em um quarto que tem no primeiro andar casa da. No dia em que mudei, quem separou minhas coisas foi minha mãe depois de tanto eu implorar e fazê-la entender que ainda não estava pronta para estar no segundo andar da casa. Minhas mãos pararam em um porta-retrato meu e de Mike, estávamos na Disney, nossa primeira viagem juntos e completamente sozinhos. Sem pais, sem irmão mais velho.
Coloquei o porta-retrato de volta.
Na varanda tudo ainda estava perfeitamente igual, com uma mesinha que eu sempre usava para colocar algumas coisas para eu comer, sem ter que sair dali e uma poltrona pra lá de confortável que eu passava muitas horas do dia lendo ou ensaiando minhas notas. As lembranças pareciam tão distantes, mas os sentimentos ainda estavam muito vivos em mim, quase como se cada uma delas fosse quase tangível. Me aproximei da grade e me debrucei sobre ela observando os vários jovens que tinham no jardim e na piscina. Mais lembranças se passaram pela minha cabeça.
Me virei quando escutei passos atrás de mim.
— Desculpa, não quis te assustar. — A voz de invadiu o ambiente silencioso.
O encarei.
— Meu deus — falei em tom de repreensão. — Será que você, não sabe interpretar uma rejeição?
riu, ao menos o senso de humor dele não tinha mudado.
— Você voltou há duas semanas, duas semanas .
Ele estava encostado no batente da porta, com as mãos no bolso da calça de sua fantasia de marinheiro.
— Não acha que eu merecia mais do que você sair andando, naquela festa?
Suspirei.
eu...
Minhas palavras fugiram do meu alcance.
— Não, não . — deu um passo na minha direção. — Nós éramos melhores amigos, antes de toda essa merda, éramos melhores amigos porra. Dane-se esse lance de amor, você era a minha pessoa e só isso importava.
Um sorriso se formou no meu rosto, quase que involuntariamente.
— Éramos? — perguntei rindo.
era meu ponto fraco, não só fisicamente, mas sentimentalmente também. Ele estava comigo nos piores momento que passei com Rian, se eu precisasse chorar, gritar ou simplesmente permanecer por horas em um silencio enlouquecedor, ele estava lá comigo. Sempre esteve, minha pessoa favorita nesse mundo, depois do meu irmão.
— Cala boca — falou e andou até mim.
Meus braços envolveram o pescoço dele tão rápido que foi como se inconscientemente eu estivesse esperando por isso desde a primeira vez que nos reencontramos. E lá estava eu mais uma vez, quebrando outra promessa que fiz comigo, me manter o mais longe possível de Price era o meu maior objetivo desde que voltei para Nova York, mas eu sabia que seria impossível. Ele nunca foi de aceitar um não de cara ou simplesmente deixar as coisas de lado, confesso que eu também não, porém minha relação com ele não envolvia só nos dois, mas também.
me soltou, colocou a mão em meu rosto e me encarou por alguns instantes.
— Eu estou com a — disse com sinceridade.
O encarei, não era o que eu estava esperando ouvir.
— Ah — foi a única coisa que consegui dizer.
— Desculpa, eu não queria falar assim — explicou.
— Não, tudo bem. — Abri um sorriso sincero. — Eu estou feliz que tenha sido sincero comigo e também estou feliz que esteja com ela.
Eu realmente estava feliz por eles. Apesar de ainda me sentir fisicamente atraída por , isso não era o suficiente para me fazer pensar na possibilidade de ter algo com ele além da amizade, eu queria que as coisas entre nós dessa vez fossem diferentes, não podia arriscar perdê-lo como da última vez.
Meus olhos se voltaram para o andar debaixo por um momento e vi Adam olhando para a varanda onde eu estava. Engoli em seco e desviei o olhar rapidamente, as coisas não estavam nada bem entre nós e ele me ver com não era nada bom. Me afastei um pouco de e me sentei no sofá para descansar um pouco, olhei novamente e meu namorado já não estava mais parado nos encarando.
Só esperava que ele não resolvesse subir até o quarto.
, não me contou sobre vocês — comentei. — Achei que as coisas estivessem bem entre nós, mas estou vendo que não.
Soltei a respiração que nem tinha notado estar segurando e lancei meu olhar para ele, que se sentou ao meu lado.
— Eu pedi para ela, para contar.
Olhei surpresa.
— Eu achei que seria melhor, quando você foi embora eu pensei muito sobre tudo que aconteceu. E não queria que você pensasse que íamos cometer os mesmos erros — fez uma pausa e apertou os olhos, como se estivesse procurando as palavras. — Aquele dia na festa, eu ia te contar, mas você saiu correndo igual uma doida, como se eu fosse te atacar, ou sei lá o quê.
Soltei uma gargalhada.
— Você tem que entender, que autocontrole não era muito a nossa — ri de novo. — Ah meu deus, eu senti falta disso.
riu junto comigo.
— Você tem que parar de chamar o Adam de frouxo — acrescentei.
, você ao menos o ama? — me olhou bem nos olhos. — Não estou falando sobre nós, estou falando de você. É isso que você quer? Ele é o cara que você deseja para sua vida?
Meus olhos encaram os de e abri meus lábios para responder, mas parei ao escutar passos vindo do quarto.
? — a voz de Adam invadiu meus ouvidos.
Só podia ser brincadeira, puta que pariu. Agora ele vai seguir cada passo que eu dou?
— Adam? O que você tá fazendo aqui?
— Vi você lá do jardim, aqui com ele.
Ele me encarou sério, esperando por algum tipo de explicação.
— E?
— E, que você me largou na festa sozinho para ficar aqui com esse cara. É sério isso ? É assim que você quer mudar?
Mudar? Caralho.
— Porra — gritei. — Você nem sabe o que está acontecendo aqui, eu não vim aqui para ficar...quer saber? Não tenho que te dar explicação de cada coisa que eu faço. Isso já está ridículo, Adam.
permaneceu em silêncio, enquanto eu e meu namorado tínhamos uma DR bem na frente dele. Seria quase cômico se não fosse trágico. Eu entendo a insegurança dele, mas me tratar como se fosse meu dono é algo bem diferente e que eu nunca vou aceitar.
Meu celular tocou, me impedindo de falar mais alguma coisa. Era uma mensagem de Hannah.
— É a Hannah, ela me chamou pra ir ficar com uma galera lá na sala de jogos — falei e sai andando, a discussão já estava mais do que ridícula e não tinha mais nada para ser dito.

Eu estava com tanta raiva da atitude de Adam que só no caminho até o salão de jogos do lado de fora da casa eu consegui tomar mais duas taças de champagne. Cheguei tão rápido que até fiquei surpresa, meus nervos estavam a flor da pele e eu precisava me acalmar antes que acabasse descontando em alguém. Respirei fundo, rodei a maçaneta da porta, entrei e logo dei de cara com Mike pegando algumas cervejas na geladeira do bar da sala. Fiz menção de me aproximar, mas ele apenas desviou o olhar de mim e andou em direção a uma galera sentada nos puffs espalhados pelo chão.
Além dele e Hannah — que eu conhecia, , Eleanor e Seth também estavam lá, todos próximos uns dos outros. Tinha mais uma galera eu não conhecia ou talvez não o suficiente para me lembrar, todos bebendo e rindo de alguma coisa que eu estava totalmente por fora por ter acabado de chegar. Peguei uma cerveja na geladeira e me dirigi até um puff perto de Han, que abriu um sorriso enorme para mim como resposta de que estava se divertindo.
Ao menos alguém estava achando a festa animada.
Não demorou muito para que e Adam entrassem na sala juntos. Desviei meu olhar rapidamente dos dois e aproveitei para me concentrar em um garoto moreno que estava explicando um pouco sobre o que íamos jogar. Pelo que eu estava entendendo, tinha uma roleta onde eu ia ter uma pergunta e atrás dela um desafio, se eu acertasse a resposta não teria que cumprir o que estava sendo pedido, mas se eu errasse precisaria fazer o que estava sendo mandado ali. Todos ali pareciam já ter jogado aquilo, exceto por mim e talvez Hannah, eu não tinha certeza.
O jogo começou e logo de cara uma garota errou a pergunta e o desafio foi que ela colocasse uma música e fizesse uma dança sensual. Não demorou muito para que já estivesse rolando alguns beijos, amassos e até alguns já estarem bem mais bêbados por ter tomado alguns shots de bebidas, também tinha que beber caso errasse a pergunta. Então, além de você ter que fazer algo impróprio, tinha que fazer bêbado.
Quando chegou a minha vez, fiquei feliz em acertar a pergunta e não precisar tomar nada, ou ter que me enfiar em algum tipo de enrascada.
Meus olhos cruzaram o de Adam que não disfarçava nem por um momento que estava irritado por ter me encontrado com e que também não queria que eu estivesse jogando essa merda, sabe-se lá que tipo de coisa eu teria que fazer. Claro que se caísse algo como beijar ou fazer qualquer coisa íntima com alguém, eu diria que não.
— Não vou fazer isso — escutei Han dizer.
Ela tinha acabado de errar a pergunta e Seth a tinha desafiado a pular na piscina só de calcinha e sutiã, o pior não era ficar com roupas íntimas, mas sim pular naquela água gelada a essa hora da madruga.
Mas, ela fez.
Já estava na minha vez de novo e quem ia rodar a roleta para mim era , enquanto o negócio rodava ficamos nos encarando, só esperando o que poderia vir. A merda da pergunta era difícil e eu errei de cara, teria que fazer o desafio dessa vez, sem chance de dizer não.
— Fala logo — pedi e Han que estava com o desafio na mão, enquanto ria.
— Você só precisa tirar esse colete aí — Han riu apontando para ele.
Meus olhos cruzaram o de Adam, que estava com o maxilar contraído e os olhos fixos em mim. Era só um jogo idiota, todos ali eram amigos e era como estar de biquini, então tirei o colete. Mas, por um momento desejei que tivesse colocado uma blusa por baixo, poderia usar isso ao meu favor agora. Senti olhos curiosos me encararem e ignorei, até parece que os caras que estavam ali nunca tinham visto um par de peitos, talvez não os meus, mas peitos são peitos.
Ri do meu pensamento.
— Boa Hall, os silicones são ótimos nessas horas — Han sussurrou para mim, me fazendo rir.
— Próximo — Adam disse do outro lado.
Uma hora de jogo e todo mundo já estava completamente bêbado. Contando comigo que já tinha entrado no jogo alterada, e já tinha feito algumas coisas — fora o colete — tinha dançado, me jogado na piscina, tomado dois shots de tequila e dançado com Seth que mal conseguia se segurar em pé, não que eu conseguisse também, já tinha bebido demais. A roleta parou em mim de novo e dessa vez eu queria muito acertar, apesar de estar me divertindo demais, me sentia muito cansada para sair do meu puff macio.
Pela cara da Han que rodou a roleta para mim, eu tinha errado a pergunta e vinha desafio por aí. Bufei e fiz sinal para que ela falasse de uma vez o que eu tinha que fazer. Minha amiga resolveu me torturar um pouco e primeiro mostrou para todo mundo qual era o desafio, para só quando ameacei arrancar da mão dela, ela finalmente abrir a boca.
— Você tem que ficar dentro da dispensa, com a pessoa que está na sua frente — Han disse finalmente. — Por dez minutos.
estava na minha frente, sem camisa a propósito.
— O quê? — engoli em seco.
— Quem fez essas regras mesmo? — perguntei rindo e El levantou a mão.
Lancei um olhar de ódio fingido para ela, que riu.
— Não vale não fazer, não é nada demais, é só ficar lá dez minutos — Seth disse rindo.
Às vezes eu odeio ele.
— Tá, tanto faz — respondi finalmente e pareceu surpreso, com a minha decisão.
— Tá bom, então — ele disse e se levantou.
Adam me encarou, mas desviei o olhar.
— Nada de luz acesa hem? — alguém gritou e eu apenas revirei os olhos.
O caminho até a dispensa pareceu uma eternidade para mim e eu estava tentando calcular na minha mente como ficaríamos lá dentro daquele lugar quase minúsculo, cheio de coisas, sem que ficássemos tão grudados. Ao mesmo tempo que eu pensava em Adam, também queria aproveitar a sensação que percorria em mim, era uma mistura de nervosismo e animação. Já fazia muito tempo desde que eu tinha ido em alguma festa onde eu fizesse coisas desse tipo ou sentisse que poderia ser eu mesma.
Era o álcool falando, sem dúvidas.
Entramos na casa e ela já estava praticamente vazia — exceto por alguns bêbados — e comecei a pensar que horas eram, sem dúvidas já tinha passado das duas horas da manhã. permanecia em silêncio enquanto caminhávamos calmamente até a cozinha onde ficava a dispensa e eu resolvi fazer o mesmo, talvez estivesse tão nervoso quanto eu ou só não quisesse conversar mesmo, era difícil saber. Desde que o conheci ele sempre teve uma expressão impassível, como se não fosse capaz de demonstrar o que estava sentindo.
Quase um mistério para mim.
Lembrei sobre alguém ter dito nada de luz acesa e comecei a curtir a ideia, deixar só a luz da lua que passava pelas janelas de vidro pareceu uma boa ideia para mim, considerando que eu ia ficar em um armário extremamente apertado com um cara desconhecido — quase na verdade — e sem blusa. Enquanto eu rodava a chave da porta, comecei a considerar que tinha sido uma má ideia estar ali e que eu tinha um namorado, um que só pensava em querer me mudar, mas que era meu namorado.
Joguei o pensamento para longe.
— Você sabe que não precisamos entrar na dispensa, né? — me encarou.
— O quê?
Olhei um pouco confusa, tínhamos que cumprir o desafio.
, essa galera aqui está pra lá de bêbada, podemos só ficar aqui os dez minutos e eles nem vão saber.
— Por que não me disse isso antes?
O encarei.
— Eu queria sair um pouco de lá e como estavam todos bêbados, incluindo você, e não perceberam que ninguém ia saber se íamos mesmo ficar dentro da dispensa. Eu aproveitei — respondeu quase rindo.
— Ah, valeu.
Ele piscou para mim e soltei uma risada de nervoso, estava tão bêbada e com tantos pensamentos na minha cabeça, que nem tinha me dado conta de que ninguém tinha vindo junto para saber se íamos mesmo cumprir o desafio. Mas, me senti um pouco desanimada por um momento, o fato de estar prestes a entrar em uma dispensa só para cumprir algo de uma brincadeira idiota me trazia lembranças da minha adolescência, além de ficar em um lugar calmo, sem muitas pessoas a minha volta.
— A não ser, que você queira.
parecia estar lendo a minha mente.
— Tenho uma ideia — falei e andei até o frízer.
Se era para ficarmos dez minutos dentro daquela dispensa, ao menos íamos fazer isso com um pouco de prazer. Meus olhos brilharam quando vi que o frízer estava cheio de potes de sorvete da Hagen-dazs, peguei um de sabor baunilha, fechei a porta e peguei duas colheres na gaveta do armário bem a minha direita. Notei que estava me olhando um pouco confuso com o que eu estava fazendo, mas não me incomodei e andei até ele entregando uma colher.
— Se vamos ficar aqui, que seja comendo — falei e entrei na dispensa.
não me disse nada e só entrou atrás de mim, eu me sentei em uma pilha de pacotes de arroz do lado esquerdo e ele em um tipo de baú do lado direito. Abri o pote de sorvete sem demora, peguei um pouco de sorvete e enfiei a colher na boca, assim que senti o gosto da baunilha uma sensação de adrenalina percorreu meu corpo. Para ele, poderia ser algo estranho e talvez até novo, mas para mim era bem comum, costumava fazer muito isso com Rian, nós sempre pegávamos um pote de sorvete na madruga e ficávamos conversando até o sol raiar, era o único lugar da casa onde minha mãe não nos encontrava.
Coloquei outra colher de sorvete na boca e deixei que meus olhos percorressem o corpo do cara distraído a minha frente. Notei que tinha algumas tatuagens no peito, uma em específico chamou a minha atenção, era um tipo de asa com um escrito não muito nítido da palavra angel. Franzi o cenho por curiosidade e continuei minha observação. Meus olhos pararam na marca do abdômen dele, além de bonito tinha um corpo gostoso.
Ah meu Deus, não posso pensar essas coisas.
Desviei meu olhar assim que ele se virou para mim de novo, seus olhos estavam fixados em mim agora e ao contrário das outras vezes, eles não estavam vermelhos. Sua expressão estava calma e ele parecia estar relaxado de estar em uma dispensa tomando sorvete com uma desconhecida. Por um momento, senti como se tivéssemos uma ligação inexplicável e todos os pelos do meu corpo se arrepiarem.
— Você tá bem?
Eu estava encarando-o demais.
— Bêbada, mas bem. — Ri.
Ele deu um gole na garrafa com vodca que estava segurando e permaneceu me encarando.
— Hm, parece que você está bêbado também — comentei enquanto tomava meu sorvete.
— É água.
Soltei uma gargalhada com a resposta dele, só poderia estar de brincadeira comigo.
— É sério, pode tomar se quiser.
Claro que era água, se ele realmente tinha problemas com drogas como eu tinha suspeitado mais cedo ao ver as marcas em seus braços, obviamente não poderia estar bebendo, drogas mais álcool nunca dava certo para pessoas assim.
— Surpresa?
— Não, só que agora estou me sentindo mal, em ser a única bêbada aqui.
começou a me falar sobre a amizade dele com Mike. Eles tinham se conhecido em um trabalho voluntário que meu irmão estava fazendo em um grupo de ajuda para pessoas com dependência química, era o primeiro dia para os dois e eles logo viram que tinham bastante em comum e desde então se tornaram realmente amigos.
O encarei por uns instantes e as semelhanças entre ele e Rian se tornaram ainda maiores, me fez pensar que Mike talvez estivesse tentando suprir a ausência do nosso falecido irmão, eu não poderia culpa-lo. Os dois eram muito próximos também e faziam muitas cosias juntos, jogavam bola, vídeo game, saiam para paquerar algumas garotas e Rian sempre dava conselhos para ele sobre a faculdade e sexo, é claro.
Apesar da minha péssima relação com Mike, me senti feliz por ele. Era bom saber que apesar de toda dor e tudo que ele precisou passar, tinha encontrado alguém com quem pudesse contar e dividir suas coisas. Mas, eu também senti uma pontada de inveja, queria estar no lugar de , poder saber o que acontecia com meu próprio irmão sem precisar perguntar para a minha mãe.
Eu sentia muita falta dele.
— Fico feliz, que Mike tenha você — falei finalmente, para quebrar o silêncio.
— Vocês têm os mesmos olhos — comentou, me pegando completamente de surpresa.
O encarei por alguns instantes.
— Você tem irmãos? — perguntei, tentando desviar o assunto.
Alguma coisa em me deixava desconfortável, talvez fosse o fato de que eu não conseguia decifra-lo como costumava fazer com as pessoas a minha volta.
— Sim, tenho um irmão. — Ele abriu um sorriso largo, de fato, o irmão era bem importante para ele. — Tem oito anos, mora comigo e com a minha mãe.
— Sempre quis ter um irmão bem mais novo.
Baixei meu olhar, meus olhos estavam queimando e por um instante senti vontade de chorar. Ou era pelo fato da minha atual relação de merda com meu irmão, ou era só a bebida mesmo.
— Ei, o Mike ama você, .
Ele colocou a mão em cima da minha e senti todo meu corpo se aquecer.
— Hm, acho que já se passaram muito mais que dez minutos — comentei já me levantando e fazendo menção de sair da dispensa.
O ar do lado de fora estava muito mais gelado e a música que estava tocando antes, á tinha parado, de fato, tínhamos ficado muito mais do que o tempo do desafio dentro da dispensa. Já tinha acabado todo o sorvete e eu nem havia me dado conta disso, acho que me distrai com toda a conversa e o cara tatuado atraente que dividiu o espaço comigo nos últimos minutos, ou horas.
— Ei — disse enquanto eu jogava o pote do sorvete fora.
Me virei para olha-lo.
— Você parece com frio, pode pôr a minha blusa se quiser — disse saltando-a do sinto em sua calça.
Eu realmente estava morrendo de frio, mas não podia aceitar a blusa dele, eu já tinha passado completamente dos limites, estava ficando sobrea e recobrando minha consciência de que hoje enfrentaria uma briga e tanto com Adam por conta de tudo que aconteceu na festa.
— Não, tudo bem, eu vou pegar meu colete.
— É só uma blusa, aquele colete não esquenta nada.
Estendeu a blusa na minha direção e a peguei. Minha mão raspou na dele por um instante e senti ele se retrair.
— Obrigada —agradeci e coloquei a blusa. — Obrigada, por me ouvir lá dentro.
riu.
— O quê?
— Foi uma ótima, primeira vez .
— Primeira vez?
— É, nunca fiquei em uma dispensa com uma garota. — Ele riu.
Por um momento, acreditei nele.
— Claro.
ia me dizer algo, mas desistiu quando ouvimos um raspar de garganta. Adam estava parado na porta da cozinha nos encarando, sua cara demonstrava que tínhamos passado totalmente dos dez minutos de desafio.
? — chamei o amigo do meu irmão, antes que ele saísse.
Ele virou e me encarou, já esperando por uma resposta.
— Desculpa, ter gritado com você aquele dia no banheiro.
Ele apenas piscou e saiu da cozinha.
Adam me encarava como se fosse me matar enquanto eu pegava um pouco de água para tomar e abria os armários igual uma doida. Nós dois sabíamos que eu só estava fazendo isso para evitar a conversa.
— Que porra foi essa, ?
— O quê?
— Você ficou uma hora com esse cara aí dentro, fala sério — Adam estava quase explodindo.
— Era só um desafio.
Dei a volta nele e coloquei o copo na pia.
— Dez minutos, não uma hora.
— Está exagerando.
lá em cima, agora isso, você só pode estar de brincadeira comigo porra!
Revirei os olhos, eu estava cansada e com dor de cabeça.
— Uau, que festa foi essa!
Hannah entrou na cozinha e tudo que senti foi alívio, essa garota sabe bem como me salvar.
— Vou pegar meu colete e aí podemos ir embora.
A festa até que não tinha sido tão ruim e aparentemente nem tudo tinha dado errado. Antes de chegar eu tinha pensando em várias coisas, como ter alguma briga com e , ou até mesmo com meu irmão. Mas, Mike só me ignorou como se eu nem existisse.
Se é que isso não era bem pior, do que brigar.
Atravessei o jardim rapidamente e entrei na sala de jogos, não tinha mais ninguém, além de garrafas espalhadas pelo lugar. Peguei meu colete e estava pronta para sair quando escutei o barulho de passos atrás de mim, dei de cara com Mike recolhendo algumas coisas no chão.
Permanecei parada ali, eu não encontrava as palavras dentro de mim para conseguir falar com ele sobre qualquer coisa ou só fazer alguma pergunta idiota do tipo “você precisa de ajuda?” que ele precisava era óbvio, mas será que ele queria a minha? Eu duvido muito. Sem dúvidas, Mike ia preferir passar horas limpando isso aqui a ter que ficar mais de cinco minutos comigo.
Como foi que deixei nossa relação, chegar a isso? Precisava tomar uma atitude, ao menos uma vez na vida.
— Mike?
Ele permaneceu em silêncio, como se eu nem existisse.
— Mike?
Ele parou o que estava fazendo e olhou na minha direção.
— O que você quer, ?
— Eu só queria agradecer por ter me convidado — falei calmamente. — Nós, nem nos falamos desde que cheguei aqui...
— Não te chamei — respondeu com sinceridade. — E foi intencional, não falar com você.
Andei até ele, que permaneceu estático.
— Mike, foi há dois anos...
Ele bufou.
, vai embora, por favor — pediu.
Tinha sido um erro tentar falar com ele, mas eu precisava tentar. Não só pela obrigação de sermos irmão, mas porque também sentia muita falta dele, do que costumávamos ser.
— Tudo bem — caminhei e me aproximei ainda mais dele. — Feliz aniversário, Mike — falei e o abracei.
Ele não correspondeu ao meu abraço, então apenas o soltei e sai de lá.

Entrei no banheiro e bati a porta, Adam já estava gritando comigo a mais de meia hora desde que chegamos em casa e eu estava cansada demais para discutir com ele. Tirei a blusa de — um dos motivos da nossa briga — e entrei no chuveiro. Assim que a água quente bateu na minha pele soltei um suspiro pesado, eu estava toda dolorida e muito cansada.
Eu me sentia estranhamente bem — fora o cansaço —, apesar de ter ficado sem blusa em um armário com um desconhecido, não conseguia ter nenhum sentimento de culpa por ter feito algo que eu queria. Minha relação com Adam já estava desgastada a muito tempo e isso não tinha nada ver com tudo que aconteceu na festa, a questão era que depois — talvez até antes — de Rian eu não era mais a mesma e ele não conseguia lidar com essa nova versão de mim.
Desliguei o chuveiro e respirei fundo, já eram cinco horas da manhã e eu teria que enfrentar mais algumas horas de discussão, minha sorte é que ainda era sábado, então nada de faculdade. Um pouco de estudo talvez, mas depois de toda essa merda eu poderia dormir metade do dia, antes de ter que acordar para estudar quase o dia todo.
Adam estava encostado na escrivaninha, encarando a porta do banheiro.
— Você não vai dizer, nada? — perguntou, sem sair de onde estava.
Passei por ele e andei até o closet, não queria discutir mais nada, minha vontade era só de deitar na cama e dormir o máximo de horas que eu pudesse, minha cabeça estava latejando e meu corpo pedindo por algumas horas de sono.
, eu estou falando com você — Adam entrou no closet, já me cobrando explicações de novo.
— Adam, eu estou exausta, será que podemos falar sobre isso mais tarde?
Coloquei minha blusa de dormir e o encarei.
— Você ficou em um armário, praticamente pelada com um cara desconhecido e quando eu chego lá, você está cheia de intimidades com ele.
— Ele só me deu a blusa, porque eu estava com frio. Foi só isso!
Passei por ele, já indo de volta ao quarto.
— Quer saber, ? — Esbravejou. — Isso não funciona, nós não funcionamos mais. Você não é mais a mesma pessoa, de quando eu te conheci há quatro anos.
Me virei para encara-lo. Ele estava terminando comigo?
— Nem você é o mesmo, de quatro anos atrás, porém eu não fico tentando te mudar porra! — gritei, aquilo estava entalado. — Mas, ao menos em uma coisa concordamos, nós não funcionamos.
Adam me encarou por alguns instantes, era tarde demais para estar brigando, mas também era para estarmos juntos.
— Você está terminando, comigo?
— Acho que você já fez isso, primeiro — falei com sinceridade. — Boa noite, Adam.
Meu namoro tinha realmente, acabado? Acho que sim.
Deitei na cama e encarei o teto, Hannah já estava dormindo e eu teria que esperar até mais tarde para contar a ela. Apesar de saber que provavelmente ficaria satisfeita com meu termino, também tinha certeza que ela me apoiaria se eu me sentisse triste ou arrependida. Mas, não era assim que eu estava me sentindo, esperei por lágrimas que não vieram, nem mesmo uma pontada de tristeza. Só senti liberdade.
Adormeci em poucos minutos.

 

O relógio marcava meio dia quando eu finalmente decidi que precisava sair da cama e fazer as minhas coisas. Hannah não estava no quarto quando eu acordei e parecia não ter deixado nenhum bilhete me dizendo onde tinha ido ou o que foi fazer.
Fui até o quarto onde eu costumava dormir com Adam, mas ele também não estava lá, ou seja, eu tinha o apartamento só para mim e nada poderia ser melhor do que isso. No andar debaixo estava um silêncio quase enlouquecedor, então liguei as caixas de som ambiente e deixe que tocasse Beethoven em um volume razoável.
Coloquei alguns ovos para fritar, peguei um pote de pasta de amendoim e comi um pouco enquanto esperava os ovos ficarem prontos, não era a refeição mais saudável do mundo para um café da manhã, mas era melhor do que ficar sem comer nada. Assim que ficou pronto, coloquei tudo na bancada e aproveitei para dar uma olhada no meu celular.
Tinham fotos nele que eu nem tinha me lembrado de ter tirando, o Instagram então, estava lotado de fotos da festa do Mike, aproveitei para apagar algumas minha com Adam que estavam no meu perfil, curti algumas fotos e deixei meu celular de lado para tomar café em paz.
Eu estava com uma maldita ressaca.
Bufei, assim que meu celular começou a tocar e um número desconhecido apareceu na tela.
— Alô!
— Oi . — A voz de Seth estava calma do outro lado da linha.
— Seth? — perguntei com comida na boca.
— Bonito, falando de boca cheia. — Ele riu.
Terminei de mastigar e ri junto com ele.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não, eu só queria saber como está indo a matéria de Emergências II.
Nem tinha começado a estudar.
— Ah, eu vou começar a estudar daqui a pouco. Por quê?
— Bom, pensei que poderíamos estudar juntos. O que acha?
— Claro, aqui ou aí?
Terminei de comer, comecei a guardar as cosias e coloquei os pratos na lavadora.
— Pode ser aí, me fala o endereço.
— Não precisa, eu estou no apartamento dos meus pais, você sabe onde é.
— Tá, em uma hora estou aí.
Ia ser bom passar um tempo com Seth, costumávamos estudar juntos na época da escola também.
— Seth? — chamei antes que ele desligasse.
— O quê?
— Onde conseguiu meu número? — perguntei por curiosidade.
— Com a .
— Ah, ok. Até daqui a pouco.

Seth demorou muito mais que uma hora para chegar e eu já estava morrendo de fome quando a campainha tocou, sem contar que também já tinha estudado ao menos cinco capítulos da matéria de Emergências II. Como recompensa decidi que ele fizesse algo para comermos enquanto eu passava para ele o que já tinha estudado e anotado sobre a matéria.
Quando éramos mais novos eu imaginei centenas de vezes nós dois assim quando entrássemos para faculdade — mesmo com minha decisão sobre Juliard — estudando e passando algumas horas do final de semana juntos. Afinal, passávamos horas de semana estudando juntos, parecia que uma parte de mim já sabia que eu nunca chegaria a ir para minha faculdade dos sonhos. Seth sempre quis medicina e para mim, sempre foi uma possível segunda opção.
Apesar de tudo, eu estava feliz.
Passei o macarrão para ele, enquanto tentava fazê-lo entender sobre algumas regras da emergência. Odiava muito quando meu amigo questionava coisas que eram regras, só porque ele achava que poderiam ser diferentes.
— Seth, tem que ser assim — falei pela milésima vez.
O encarei, enquanto ele mexia na panela.
— Qual é, só estou dizendo que poderia ser melhor — ele riu.
— Você está fazendo isso, só para me provocar, né? — perguntei enquanto pegava copos, pratos e talheres no armário.
Ele riu.
— Te odeio, sabia?
— Não é culpa minha, se você é uma nerd e compreende tudo de cara — disse debochado. — E você me ama.
O encarei por um momento.
— É, você tem razão.
— Que você me ama?
— Não, que eu sou muito inteligente — respondi debochada.
— Ah, cala boca — Seth disse rindo.
Soltei uma gargalhada.
Enquanto almoçávamos eu não conseguia deixar de pensar na Hannah. Ela não era de sumir e sempre que acontecia quando morávamos na Califórnia, vinha acompanhado de uma notícia ruim depois, ou ela aparecia completamente chapada. Tentei pensar apenas que minha amiga estava conhecendo a cidade e queria um pouco de espaço e meus pensamentos foram parar em Adam.
Tínhamos mesmo terminado?
Era estranho pensar que eu estava solteira, apesar de ter dado um tempo com ele algumas vezes durante toda aquela confusão com meu irmão, e é claro, eu nunca me imaginei completamente sem ninguém. A sensação não era ruim, mas era desconhecida, quatro anos de relacionamento era muita coisa para alguém que tinha namorado a mesma pessoa desde o ensino médio.
— Ei, tá pensando em que ?
Seth me encarou.
— Você me conhece bem, hem?
— Desembucha logo. — Abriu um sorriso.
Mordi o lábio e o encare.
— Acho que eu e o Adam terminamos — falei sem cerimônia.
Seth soltou uma gargalhada.
— Seth, não é engraçado — o repreendi.
Ele continuou rindo, como se eu tivesse contado alguma piada.
— É sério cara — falei dando um soco no braço dele.
, sério — ele riu e me encarou em seguida. — Já estava na hora, né?
— Sério?
Me levantei e peguei nossos pratos vazios para colocar na lavadora.
, qual é, não fica brava comigo — pediu e ficou bem ao lado da lavadora enquanto eu colocava as coisas nela.
— Então para de rir, enquanto eu digo que meu namoro de quatro acabou.
Soltei uma risada em seguida, no fundo, a situação toda era mesmo engraçada.
— O Adam é um cara legal, mas vocês dois? Nada ver. Nem mesmo quando você gostava de Beethoven, vocês tinham alguma coisa em comum.
O encarei.
— Ainda gosto de Beethoven — afirmei.
— Só estou dizendo, que você nunca olhou para ele, como olhava para o .
Meu coração disparou.
— Olhava para o ?
— Sim, talvez tenha uma tensão sexual entre vocês ainda. Mas, você não olha nem para ele, do mesmo jeito.
Desde quando Seth, tinha virado minha terapeuta?
— Ah. — Era tudo que eu tinha para dizer.
Depois da conversa constrangedora o silêncio se formou entre nós. Me ofereci para pegar alguns livros no quarto e sai rapidamente da cozinha, precisava de um pouco de espaço depois de todas as observações do meu amigo sobre os meus relacionamentos.
De fato, meu coração ainda acelerava toda vez que eu via ou conversava com ele, mas de alguma forma eu não o olhava mais da mesma maneira. Existia sim uma tensão sexual entre nós, porém eu não tinha mais aquele sentimento avassalador que eu sentia toda vez que o encontrava, agora era apenas uma sensação de êxtase ou uma busca em sentir de novo tudo aquilo.
Já com Adam eu não sentia absolutamente nada, além de um profundo carinho de amizade. Cada segundo com ele vinha se tornando cada vez mais insuportável, não concordávamos em nada e eu fui cada dia mais deixando de me importar com a opinião dele sobre minhas atitudes e a minha vida, a festa de ontem era a prova disso. Talvez Seth tivesse razão, nós não temos nada ver, na verdade nunca tivemos.
Deixei meus pensamentos no quarto e voltei para sala. Seth já tinha começado a anotar algumas coisa e a quantidade de matérias que tínhamos para estudar parecia não diminuir nunca, o relógio já estava marcando cinco horas da tarde e o sol lá fora já estava bem mais baixo e sugeri que fossemos estudar na varanda para tomar um pouco de ar fresco e sair de dentro do apartamento, sem necessariamente ter que sair dele.
Ah, eu amava aquela vista. Todos aqueles prédios enormes, carros para todo lado e as luzes de Nova York sempre foram um dos motivos de eu amar tanto está cidade. Anotei mais algumas coisas e senti que meus olhos estavam começando a ficar cansados quando olhei a tela do meu celular e já estava marcando exatamente dez horas da noite.
Era hora de parar.
Abri minha boca para dizer ao meu amigo que precisávamos de um descanso ou que devíamos simplesmente deixar o resto para amanhã quando o interfone tocou.
— Já volto — falei e fui em direção a cozinha, onde ficava o interfone.
Não fazia ideia de quem poderia ser, Adam e Hannah tinham a chave e quase ninguém sabia que eu estava morando aqui, talvez eu tenha falado para — não me lembrava — e minha mãe não viria aqui sem me avisar
— Oi Taylor — falei o nome do porteiro, assim que atendi.
— Srta. Hall, tem um rapaz chamado aqui na recepção. Posso deixa-lo subir?
? O que ele estava fazendo aqui? Não lembrava de ter contato a ele onde eu morava, ou talvez eu tenha, estava muito bêbada para conseguir me lembrar agora.
— Srta. Hall?
— Ah, sim, pode deixar — respondi e desliguei.
A roupa que eu estava usando não era bem apropriada para receber um cara que eu mal conhecia, mas considerando que eu tinha ficado ao menos uma hora dentro de um lugar apertado e sem blusa com ele, isso não tinha importância agora.
Prendi meu cabelo, para não parecer tão desleixada e andei até a porta de entrada. Não demorou muito para que a campainha tocasse, apesar de o meu apartamento ser na cobertura.
— Oi — falei ao abrir a porta.
— Oi, . — abriu um sorriso.
Dei espaço para que ele entrasse, ainda processando como eu perguntaria para ele se ontem passei meu endereço ou marquei algo com ele, que não conseguia me lembrar agora. Ao invés de perguntar fiquei encarando-o, ele estava dessa vez com uma calça preta não muito justa, blusa básica branca, meio transparente que dava a visão de suas tatuagens por baixo e uma jaqueta preta.
Bem sexy.
Desviei o olhar.
— E aí cara, muito difícil chegar aqui? — Seth perguntou vindo da sala.
Graças a Deus, eu não estava tão bêbada quanto tinha pensado.
— Bom, vocês dois já se conhecem né? — Meu amigo disse, soltando uma risadinha.
Seth, as vezes eu te odeio.
— É — respondemos juntos.
, nós vamos em uma festa que tá rolando na fraternidade. Vem com a gente — Seth disse animado.
— Não, eu vou tomar um banho e terminar de estudar — falei sem graça, com toda a situação.
riu.
— O quê?
Minha indignação saiu rápido.
— É sábado à noite. E pelo que Seth me disse, vocês estão nisso o dia todo.
— É, mas ainda falta bastante. Quero adiantar, mas se divirtam.
Seth revirou os olhos e me encarou por alguns instantes, esperando que eu fosse concordar, mas não aconteceu. Eu estava determinada a não ir em mais nenhuma festa neste final de semana.
— Tudo bem, então — meu amigo disse finalmente.
— Será, que eu posso usar o banheiro? — perguntou, parecendo um pouco sem jeito.
— Claro, no final do corredor a direita — informei.
Quando saiu e eu repreendi Seth com o olhar, meu amigo claro, soltou uma gargalhada. Mostrei o dedo do meio para ele e estava pronta para começar a xinga-lo de tudo quanto era nome, quando meu celular começou a tocar com um número desconhecido na tela.
Ignorei a chamada.
Não demorou muito para que o número voltasse a ligar, ignorei novamente. Mas, ele voltou a ligar e só quando já estava eu acho que na oitava ligando, eu atendi.
— Alô.
? — A voz de Mike saiu do outro lado da linha.
Mike? Por que ele estava me ligando?
— Mike? — perguntei surpresa.
— É, sou eu — falou parecendo irritado. — Acredite, eu não queria estar te ligando, mas não tive escolha.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei preocupada.
— Sim.
Ai caramba.
— Mike, fala logo! — Praticamente gritei.
Ele sempre me deixava nervosa quando fazia isso.
? O que foi? — Seth perguntou, mas fiz sinal para que ele ficasse quieto e eu pudesse entender o que meu irmão estava dizendo.
— Mike, desculpa, eu não entendi — falei calmamente. — Você pode repetir.
Ele bufou do outro lado da linha.
— Sua amiga, Hannah...
Meu coração disparou, quando ele falou em Hannah.
fala comigo, pelo amor de Deus, você tá pálida — Seth disse, agora mais perto de mim.
— Seth, eu estou tentando escutar o Mike. Aconteceu alguma coisa com a Hannah, por favor, cala boca.
Eu não queria ser grossa com ele, mas Seth estava me deixando ainda mais nervosa.
? Tá aí?
— Sim, estou — respondi. — Mike, fala de uma vez, o que aconteceu?
, eu acho que a Hannah está tendo uma overdose.



Capítulo 4 - Nightmare

Merda.
Eu estava em uma abstinência fodida de Oxy, uma droga nova que tinha acabado de chegar no mercado de Nova York e como se não desse para ficar pior eu me encontrava no banheiro da irmã do meu melhor amigo passando mal e colocando cada parte de mim para fora. Eu não sabia quanto tempo mais aguentaria sem nem sequer uma dose do meu vício ou até mesmo uma gota de álcool.
Dei descarga e me levantei com dificuldade do chão onde eu estava ajoelhado e vomitando no vaso. Caralho, tudo isso é muito nojento e desagradável, mas não é como se eu pudesse ter controle do efeito da substância sobre mim. Depois que você começa, é muito difícil parar e eu venho lutando desde os meus dezesseis anos contra o maldito vício.
Lavei minhas mãos e aproveitei para jogar um pouco de água no rosto, diferente da hora que eu cheguei, agora estava pálido e com os olhos um pouco vermelhos na pele em volta dele e minhas mãos estavam tremendo um pouco. Ignorei o meu reflexo respirando fundo e sai do banheiro ainda um pouco perdido com o tamanho do apartamento.
Puta que pariu, essa família conseguia ficar ainda mais rica.
Só o espaço entre a sala e o banheiro em que eu tinha acabado de ir dava mais do que a minha casa toda, se é que isso era possível. Andei pelo enorme corredor até chegar na sala, o clima estava bem diferente da hora em que eu cheguei e parecia que algo sério tinha acontecido. 
estava sentada no sofá completamente pálida — talvez até mais do que eu — e Seth se encontrava parado como se esperasse por alguma resposta dela.
— Cara, o que tá pegando? — perguntei encarando os dois. — Ela tá passando bem?
Não queria dar um de intrometido, mas aquela porra toda estava esquisita demais.
— Ela está parada assim tem um tempo, não diz nada. Parece que o Mike ligou e disse algo...não sei o que é — Seth explicou, enquanto encarava a garota estática bem na nossa frente.
— Mike? 
Merda, será que ele tinha se enfiado em outra briga?
— É, mas acho que o problema não é com ele — respondeu Seth.
— Ela parece em choque — falei e empurrei meu amigo para o lado — Da licença.
Eu mal a conhecia, mas precisava fazer alguma coisa para ajudar já que Seth só sabia ficar ali parado, ele sempre congelava em momentos assim, não sei como queria ser médico desse jeito.
Me ajoelhei de frente para e apoiei minha mão em seu joelho, ela se retraiu, mas permaneceu em silêncio.
, você precisa dizer o que está acontecendo — falei firme. — Aconteceu alguma cosia com o Mike?
Não queria ser duro com ela, mas eu sabia que em momentos assim ou forçamos a pessoa a ter uma reação ou ela permanece estagnada.
, preciso que você me fale o que está acontecendo — continuei ainda com a voz firme, mas ela só desviou o olhar sem dizer nada. — !
Ela deu um pulo no sofá como quem se assusta com algo e voltou a me encarar.
— Você está maluco, cara? — Seth me repreendeu.
Eu era uma bosta nesse negócio de tentar acalmar as pessoas e o meu amigo lerdo não estava ajudando em nada. Deixar a garota em choque não era a solução e ele sabia disso tanto quanto eu, quando alguém fica dessa maneira precisamos trazê-la de volta para a realidade.
Eu não a conhecia bem pessoalmente, mas sabia muita coisa sobre ela, então era como se a conhecesse. No último um ano desde que conheci Mike ele me falou muito sobre a irmã, defeitos, qualidades, gostos...Enfim, absolutamente tudo e a minha curiosidade em conhecê-la foi se tornando cada dia maior, até a festa da fraternidade, no momento em que a encarei sabia que era ela.
— Não é o Mike — disse finalmente, tirando-me dos meus pensamentos.
— Sam, fala para gente o que aconteceu — Seth sentou ao lado dela e passou a mão por trás, segurando-a sobre os ombros.
Cara...nunca tinha visto meu amigo assim com alguém.
— É a Hannah — Samantha disse e seus olhos ficaram vazios, sem sentimento algum.
Por um momento pensei que ela fosse chorar, mas isso não aconteceu.
— Ela é aquela sua amiga maneira, que estava na festa ontem — Seth comentou e ela deu um meio sorriso. — O que houve?
Samantha respirou fundo e fechou os olhos por um breve momento.
— Uma overdose — ela disse com os olhos fechados, como se estivesse tentando se controlar de alguma coisa.
Meu coração disparou.
Não era possi...
— Hannah sofreu uma overdose — ela disse, agora com os olhos já abertos e ainda mais frios.
Puta que pariu.
Mike nunca me falou muito sobre a morte do seu irmão, tudo que eu sabia era que ele tinha morrido por consequência das drogas. Mas, ali parado olhando para a eu sabia que aqueles olhos já tinham presenciado muita coisa e que talvez já havia visto a morte de perto.
Me retrai por um momento.
Perder alguém assim é algo que eu nunca desejaria para ninguém, é muito difícil se recuperar disso e na minha longa jornada rodeada por pessoas com os mesmos vícios ou até diferentes dos meus, mas também uma dependência química. Eu já tinha visto muitas pessoas perderem a luta assim.
— Vou ligar para o Mike — falei já saindo da sala.
O apartamento tinha uma sacada enorme com uma vista privilegiada para as ruas de Nova York. O ar lá estava muito mais fresco e fazia eu me sentir um pouco menos enjoado do que do lado de dentro com tudo isso que estava acontecendo. Apertei no contato do Mike e esperei que ele atendesse.
— Fala .
— Mike, que história é essa da Hannah, cara?
Ele suspirou pesado do outro lado da linha e percebi que onde ele estava era silencioso.
— Cara, como você sabe disso?
— Eu vim encontrar o Seth, aqui no apartamento da sua irmã e ela só conseguiu dizer que a Hannah teve uma overdose — expliquei.
Ele suspirou de novo, a coisa era séria.
— Cara, não vou conseguir te explicar tudo agora. Eu estou no hospital, vou te mandar o endereço. Vocês precisam vir até aqui!
A preocupação de Mike era evidente.
— Tá, tá bom.
Eu já ia desligar, mas Mike me chamou:
?
— Fala.
— Como tá a ? — ele perguntou visivelmente preocupado.
— Nada bem, daqui a pouco chegamos aí.
Desliguei antes que eu tivesse que dar mais detalhes.

O clima no carro estava pesado e o silêncio tornava o ambiente ainda pior. Seth insistiu para dirigir, mas disse que iria se sentir melhor fazendo alguma coisa, então apenas concordamos. Eu estava no banco de trás e Seth no do passageiro, uma música que parecia ser Betthoven — muito estranho a propósito — tocava no rádio, bem melancólica e só tocada, sem ser cantada.
Eu estava começando a me sentir enjoado de novo e conseguia sentir um pouco de suor se formando na minha testa. Não era uma boa hora para eu começar a me sentir mal por causa da abstinência, mas não estava conseguindo controlar. Eu devia ter arrumado uma desculpa no momento em que chegamos ao estacionamento do prédio.
Mas, com que cara eu iria embora em uma situação dessas?
Meus olhos cruzaram o de no espelho retrovisor do carro assim que ela parou no farol vermelho. Ela ainda continuava com um olhar impassível como de uma pessoa que é capaz de compreender tudo que está acontecendo a sua volta, mas que não consegue demonstrar ou sentir absolutamente nada. me encarou por alguns instantes e de repente me olhou de forma compreensiva e voltou a olhar para frente quando o farol abriu.
Ela sabia.
Naquele momento eu tive certeza que ela sabia sobre mim. Ninguém tinha falado nada para ela e nem a mesma tinha perguntado, só de me olhar conseguia saber quem eu realmente era com toda a minha bagagem de vício. Era compreensível considerando todas as coisas que eu ouvi a respeito de Rian — irmão dela.
Não demorou muito para que ela estacionasse de frente para o hospital. Nem tínhamos entrado e o ambiente ficou imediatamente mais pesado e a sensação era quase tangível. Nós três saltamos do carro e passamos pela porta de entrada em completo silêncio, eu não tinha coragem de tentar puxar nenhum assunto, acho que nenhum de nós ali tinha.
Na recepção fomos informados que tínhamos que ir para o andar da emergência. já parecia conhecer bem o hospital — e o pessoal da recepção — e ela nos guiou até o elevador que iria nos levar ao quarto andar, onde ficavam os casos mais graves. Dentro do elevador permanecemos em completo silêncio e pude ver que a mão de estava trêmula.
Seth segurou a mão dela assim que o elevador chegou ao nosso andar. Eu não saberia dizer se estava surpreso com a atitude ou desconfortável, ele nunca tratou nenhuma garota na minha frente como estava tratando-a.
O lugar estava um caos com pessoas correndo de um lado para o outro e eu conseguia ouvir eles dizerem que tinham uma equipe focada em um caso especial. Nossos olhares se voltaram para os enfermeiros e médicos aglomerados falando do tal "caso importante" e senti uma certa apreensão.
— Cara, finalmente. — Mike apareceu na nossa frente do nada.
Ele estava tão branco quanto as paredes do hospital.
— Mike, cadê a Hannah? — perguntou assim que viu o irmão.
Ele nos encarou por alguns instantes, depois desviou o olhar como se estivesse pensando no que iria responder.
— Mike, por favor — ela pediu.
Ele respirou fundo, meu amigo sempre tinha o costume de fazer isso quando ficava nervoso.
— Pelo amor de Deus, se a notícia for ruim. Fala logo! — Seth pediu.
Eu estava ficando irritado, mas não era hora de gritar com ninguém, então permaneci em silêncio.
— A Hannah realmente sofreu uma overdose — ele disse finalmente.
Porra, ele estava de brincadeira comigo? Isso ele já tinha me falado no telefone.
— Cara, isso a gente já sabe — esbravejei. — A gente quer saber, como ela está.
Mike revirou os olhos.
— A situação dela é bem grave, não vou mentir.
jogou o peso de um pé para o outro e por um momento desviou o olhar para outro lugar que não fosse ali, depois voltou a olhar o irmão esperando que ele continuasse o que tinha para dizer.
— Eu acabei de vir da sala onde ela foi levada, eles estão tentando estabiliza-la. Ela teve uma parada cardiorrespiratória e convulsões também.
Puta merda.
— Eles vão vir nos avisar, quando levarem ela para o centro cirúrgico.
— Droga. — Seth esbravejou.
Eu esperava alguma reação da , mas tudo que saiu foi um "ok" muito baixo e ela se direcionou até as cadeiras que tinham na ala de espera do lugar onde estávamos. De fato, não tinha muito a ser feito naquele momento, a única coisa que podíamos fazer era esperar e pedir que tudo desse certo.
Eu não conseguia conter meu nervoso e muito menos controlar minha perna que não parava de tremer, na verdade, eu estava me tremendo inteiro. Toda aquela situação me trazia lembranças que eu já gostaria de ter apagado da minha memória há muito tempo.
De repente, me vi com dezoito anos em uma festa da fraternidade da NYU. Era a primeira vez que eu ia naquele lugar, mas eu já vinha testando algumas substâncias e já estava até gostando de algumas delas. Aquela noite me marcou o suficiente para me fazer tentar uma reabilitação e conseguir ficar meu tempo recorde de um ano limpo.

Porra.
Eu estava deslumbrado com o lugar, a festa da fraternidade era exatamente como nos filmes que eu tinha assistido repetidas vezes e a maneira que eu estava me sentindo era exatamente como toda vez que imaginei a minha primeira vez em uma festa de faculdade.
Gente bêbada para todo lado, muito álcool, sexo e droga rolando. Quando Allyson me disse que íamos a uma festa como essa eu confesso que duvidei um pouco no início, ela sempre me metia em umas furadas e depois de estarmos muito chapados e bêbados acabávamos brigando. Mas, dessa vez, o único plano que eu tinha com ela era de terminar chapado, mas não brigando, e sim na cama.
Peguei um copo com uma bebida qualquer e dei uma volta pela casa enquanto ela não chegava. Passei por algumas pessoas que já estavam mais pra lá do que pra cá e até o lado de fora.
Por um instante me ocorreu o pensamento de que eu deveria ter ficado em casa como minha mãe sugeriu antes que eu saísse, mas joguei o pensamento de lado e peguei outra bebida. Encontrei um lugar escuro e distante para ter um pouco de tranquilidade, peguei um cigarro no bolso que acendi apressado e dei um trago. Estava aí mais um maldito vício, o negócio poderia me causar muitos doenças ou pior, me matar de câncer em alguns anos. Mas, eu gostava da tranquilidade que me causava.
A tranquilidade que acabou assim que vi Josh andando na minha direção.
— Cara, você precisa vir comigo — ele disse um pouco enrolado, parecia assustado.
— Nossa, parece até que você viu um fantasma — comentei rindo, enquanto dava mais um trago em meu cigarro.
Meu amigo — que estava prestes a se tornar ex — andou de um lado para o outro enquanto passava a mão nos cabelos demonstrando nervosismo. Ele estava suando e naquele momento comecei a ficar preocupado, ou ele estava tendo algum efeito colateral do Oxy que tínhamos ingerido há poucas horas ou feito alguma merda. A segunda opção era a mais provável.
— Josh você tá me assustando porra, para de andar e fala o que está pegando — esbravejei.
Ele parou, me encarou e parecia estar pensando no que ia dizer.
— Fala logo porra!
— É a Allyson — disse finalmente e senti meu coração acelerar.
Poderia ser a droga. Mas, não era.
— Quê?
Levantei do muro em que eu estava sentado e caminhei até ele.
— Você precisa vir comigo, ela tá lá em cima — falou enrolando a língua.
Esse porra tinha feito merda.
— Mano, ela disse que estava vindo para cá. Você não está alucinando por causa das merdas que ingeriu mais cedo?
— Não cara, a gente já chegou tem um tempo...ela pediu para não te contar.
Puta que pariu.
— Puta merda, Josh, quantas vezes falei pra você me avisar quando ela fosse fazer alguma coisa sem pensar? Me leva até lá!
Eu era quase capaz de contar as batidas do meu coração enquanto acompanhava Josh até o andar de cima da fraternidade. Parecia que nos poucos minutos que eu fiquei observando o lugar enquanto meu melhor amigo e minha namorada faziam merda, a casa tinha dobrado no número de pessoas.
Toda aquela gente estava me deixando ainda mais nervoso e parecia que a casa tinha aumentando de tamanho. Apertei o passo para seguir Josh e comece a empurrar o máximo de pessoas que eu conseguia enquanto pedia licença.
Subimos a escada correndo já que estava livre. Senti um peso ainda maior quando pisei no andar de cima, tinha uma aglomeração de pessoas em frente ao quarto no final do corredor, gente chorando, ligando para o resgate e dizendo coisas que eu não conseguia entender.
Me senti apavorado.
Escutei alguém dizer algo sobre uma garota estar inconsciente.
Entrei no quarto depois de empurra muita gente.
Allyson era a garota inconsciente.

Essas malditas lembranças vinham sempre nos piores momentos.
— Eu vou tomar um ar e pegar um café — falei e levantei de maneira abrupta da cadeira. — Vocês querem alguma coisa?
Não tinha muito a ser feito e ficar ali sentado não ia ajudar em nada.
levantou e me encarou.
— Posso ir junto? — perguntou da maneira mais calma que já a vi falar, desde que a conheci.
— Claro — concordei.
Não era como se eu pudesse dizer que não, o que mais eu diria?
Porra, eu estava surtando já.
Com apenas meia dúzia de palavras, já no corredor e longe de onde estávamos decidimos que iriamos primeiro a cafeteria pegar um café bem forte e depois ficaríamos um pouco do lado de fora do hospital, para ver se o ar fresco daria uma acalmada nos ânimos.
Nós dois pegamos um café duplo bem forte, eu estava precisando colocar alguma coisa no meu estômago que me livrasse do embrulho que estava sentindo e precisava de qualquer coisa que a fizesse se sentir um pouco anestesiada e um bom café era capaz disso.
O hospital é simplesmente enorme, parece que tem centenas de elevadores para todo lado e os corredores são super extensos. Mas, ela parece conhecer tudo por aqui, pois me guiou para chegarmos até a cafeteria e continuou me guiando até a saída mais tranquila, segundo ela.
Do lado de fora o ar estava fresco, mas bem frio. Por sorte eu estava com duas blusas bem quentes e só quando o pensamento da temperatura me ocorreu percebi que estava vestindo apenas uma calça preta colada e um casaco que estava aberto e dava para ver que ela estava com uma regata decotada por lado.
Ela é gostosa, sem dúvidas. Olha só para esses peitos.
Porra.
Esses pensamentos não deveriam estar me ocorrendo, mas eu estava nervoso com toda a situação e não conseguia raciocinar ao lado de uma garota bonita como ela me encarando com aquela cara de "sofrimento"
— Não está com frio? — perguntei enquanto me sentava em um banco que tínhamos encontrado do lado de fora.
deu um gole na bebida e me encarou.
— Não, eu estou bem — respondeu, como se estivesse falando sobre outra coisa e não da pergunta que eu tinha acabado de fazer.
Eu não sabia ao certo o que conversar com ela e não queria correr o risco de invadir a privacidade dela ou qualquer coisa do tipo. Apesar de termos passado uma hora — ou mais — dentro daquela dispensa na casa dos pais dela e termos conversando sobre muitas coisas, era bem nítido que ela não era muito de se abrir.
A única coisa pessoal que conversamos naquele dia foi sobre Mike e talvez fosse porque ela sabia da minha proximidade com ele e cogitou que ele já havia me contado muitas coisas. Mas, diferente do que talvez ela pensava, eu conhecia muito bem mesmo só a tendo conhecido pessoalmente há algumas semanas.
Mesmo com a relação de merda — como Mike gosta de chamar — que ele tinha com a imã, nós sempre falávamos muito sobre ela. As vezes ele a amava acima de qualquer coisa, porém muitos momentos ele não queria vê-la nunca mais ou sequer ouvir falar no nome dela. Mas, ele a amava, estava magoado e guardava rancor. Contudo, ainda conseguia me lembrar o sorriso que ele me deu quando disse que ela voltaria.
A está voltando, . Ele disse em uma das nossas corridas matinais.
— Parece que vai nevar — ela comentou, tirando-me dos meus pensamentos.
Uma risada saiu sem querer, não fazia sentido estarmos falando sobre o tempo.
não teve nenhuma reação a não ser me encarar e senti minhas mãos tremerem por um momento. Segurei o banco com força e me inclinei para frente como alguém que precisa vomitar porque está passando mal, mas não era isso, eu só estava nervoso.
Me retrai quando senti pegar na minha mão.
— Desculpa, eu... — ela tentou se justificar, mas parou e retirou a mão.
Minha reação de segurar a mão dela de volta foi quase involuntária. Estava quente como de alguém que tem vida dentro de si — diferente de mim — e as unhas estavam pintadas em preto. Nos encaramos por um breve momento e ela virou minha mão de maneira que meu dorso ficou para cima mostrando a tatuagem com sorriso de esqueleto.
passou a unha levemente sobre as linhas do desenho.
Senti todo meu corpo se arrepiar.
Abri meus lábios para dizer algo, mas fui impedido pelo telefone dela que tocou indicando que estava recebendo uma mensagem.  Ela levantou, digitou uma resposta rápida no celular e me encarou.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei preocupado.
— A Hannah acabou de entrar em cirurgia e deve demorar pelo menos dez horas — explicou como se fosse algo completamente usual.
saiu andando antes que eu pudesse responder alguma coisa e me dei conta de que ela não tinha a intenção de voltar para dentro do hospital e esperar horas sentada por uma notícia.
— Ei!
A peguei pelo braço.
— O quê?
Ela se virou para mim e me encarou.
— Você não vai voltar lá para dentro? — perguntei mesmo já sabendo a resposta.
Ela trocou o peso de uma perna para outra, como alguém que está nervoso faz, e desviou o olhar por um instante.
— Não, eu preciso ir em um lugar — disse e pegou as chaves do carro no bolso. — Você vai voltar lá para falar com Mike e Seth, ou quer que eu te leve para casa?
Porra, que conversa louca.
— Eu dirijo — falei e puxei a chave da mão dela com rapidez.
— Tudo bem, se não quer me passar seu endereço.
Soltei um riso.
— Não é isso — respondi com firmeza. — Você não está em condições de dirigir e nós não vamos para minha casa, iremos para seja lá onde você precisa ir.
Ela me encarou com um olhar de surpresa, mas apenas soltou um "ok" e foi em direção ao estacionamento.

No carro a única coisa que tornava o silêncio menos enlouquecedor e irritante era uma música qualquer que estava tocando no rádio. Enquanto eu dirigia, permanecia em completo silêncio no banco do passageiro olhando as ruas que deixávamos para trás à medida que avançávamos em direção a Coney Island Beach.
Eu não sabia muito bem porque ela queria ir para uma praia que ficava em um bairro no Brooklyn, mas também preferi não questionar. O lugar era maneiro para se tomar um ar e esfriar a cabeça e eu não queria piorar a maneira como ela estava se sentindo, além de que tinha me oferecido para ir com ela.
Geralmente levaríamos pelo menos trinta minutos para chegar lá, mas gastamos apenas vinte porque já passava dá uma hora da manhã e não tinha quase nenhum carro na rua. Assim que estacionei o carro no acostamento, praticamente pulou do carro já indo em direção a parte da areia.
Desci e a acompanhei sem dizer nada, estava claro que ela precisava de um pouco de silêncio e privacidade e eu já tinha invadido quando me ofereci para vir com ela.
Mas, o que mais eu poderia fazer? Deixa-la dirigir desse jeito?
Ela se sentou na areia da praia um pouco distante do mar e eu me sentei ao lado dela. parecia triste, mas ao mesmo a sensação que eu tinha é que ela estava extremamente calma com tudo o que estava acontecendo, se ela estivesse surtando por dentro, estava conseguindo esconder bem.
— Eu costumava vir muito aqui, antes de me mudar — disse como que uma confissão.
Permaneci em silêncio.
— Sempre que Rian ficava em abstinência, era um dia difícil e eu vinha aqui — disse e permaneceu encarando o mar. — Eu vinha sozinha, claro. Mas, achei que faria bem para você...
A encarei, eu estava um pouco perplexo.
— Quando falei que precisava vir aqui, eu quis dizer que você precisava.
me encarou, seus olhos estavam me estudando.
Porra.
A amiga dela estava em uma cirurgia e ela estava preocupada com a minha "situação"?
— Sua amiga teve uma overdose, está em cirurgia e você está preocupada com a minha abstinência? — perguntei com sinceridade. — Que estranhamente, você notou, sem eu precisar dizer nada.
Ela riu.
— Porque eu já presenciei muitas vezes — respondeu e mordeu o lábio inferior.
Caralho.
— E eu aprendi a lidar com o que posso controlar, Hannah não é algo que eu possa agora — continuou. — Está fora do meu alcance.
Uma lágrima se formou no canto do olho, mas ela logo limpou.
— Está dizendo que quer me controlar, ?
Ela riu mais uma vez.
— Hm — resmungou e mordeu o lábio inferior de novo.
Ela está fazendo essa merda de propósito?
— Quero dar um mergulho no mar — disse por fim já tirando o casaco.
Ela se levantou e tirou a blusa que estava vestindo, deixando a mostra os seios enormes dentro de um sutiã preto de renda. Não demorou muito para que ela começasse a tirar a calça preta e ficasse completamente de roupas íntimas na minha frente.
Porra, ela não estava facilitando as coisas.
Enquanto ela dobrava as roupas eu a medi por completo. Na festa do Mike, nadou na piscina e eu tinha ficado com ela naquela dispensa minúscula quando estava somente de sutiã, mas outras coisas ocupavam minha cabeça naquele dia que eu nem me ocorreu reparar nas curvas que ela tinha.
Desviei meu olhar assim que ela voltou a me encarar enquanto prendia os cabelos em um rabo de cavalo.
— Não quer, nadar? — perguntou na maior naturalidade do mundo, como se não estivesse praticamente nua na minha frente.
Estava um frio da porra.
— Você não está com frio?
Ela riu.
— Tudo bem, se vai agir como covarde, problema seu — disse e se virou já indo em direção ao mar.
Caralho, que bunda.
— Não vem, mesmo? — perguntou se virando para mim e rindo.
Dei uma risada e tirei minha camiseta, puxei minha calça da maneira mais rápida que já fiz na vida, puxei minhas meias e corri em direção a ela que já estava perto do mar.
A água estava fria pra caralho e ela entrou sem cerimônia alguma, então eu não poderia fazer menos do que isso e me joguei de uma vez só em um mergulho. Uma das únicas coisas boas de estar em uma praia a essa hora, era o fato de não ter absolutamente ninguém além de nós, sem falar que o mar estava calmo como uma piscina.
A expressão de tinha mudado drasticamente, apesar de ela parecer relaxada como antes, a diferença é que agora era um "relaxada" de maneira positiva. Parecia estar tirando um peso das costas e se sentindo profundamente satisfeita de estar ali, no mar que ela tanto gostava.
Ela nadou até mim e me encarou por alguns instantes, joguei um pouco de água na direção dela, que retribuiu com rapidez. Me aproximei mais e a puxei para perto de mim de maneira que ela acabou se encaixando no meu colo, não era a minha intenção.
Ambos ficamos imóveis e nos encarando.
Puxei o rabo de cavalo dela que estava sobre os ombros para trás e levei meus lábios até próximo da orelha dela, fazendo nossos corpos se aproximarem mais.
— Só para constar, não sou covarde.
estremeceu e se afastou um pouco.
— Se você está dizendo — disse e saiu do meu colo, já se afastando rápido.
O clima ficou tenso de repente.
— Ei, tá tudo bem? — perguntei ao ver ela sair do mar.
— Sim, eu só quero ir para casa.
Se eu tinha feito algo de errado não saberia dizer, então sai do mar e andei rápido o suficiente para conseguir alcança-la e a peguei pelo braço.
— O quê?
— Nada, vou te levar para casa — falei e peguei minhas coisas no chão, já indo para o carro.
Chegamos rápido até o apartamento dela e estranhamento me convidou para entrar dizendo que não queria ficar sozinha ainda. Seja lá o que tinha mudado o humor dela na praia não tinha nada a ver comigo, então aceitei.
O lugar estava bem silencioso e calmo como da primeira vez em que estive aqui, todas as luzes se acenderam assim que nós entramos e ela foi até a cozinha dizendo que ia preparar alguma coisa para a gente comer e mesmo eu dizendo que não precisava, ela insistiu.
Dessa vez tive mais tempo para reparar no ambiente, além de grande, era bem decorado. Com um sofá sofisticado na enorme sala e uma TV simplesmente enorme, além de uma parede onde tinha uma fonte com um vidro enorme que jorrava água através dele.
Sai da sala e fui tomar um banho como Samantha disse que eu poderia fazer, assim que entrei no banheiro vi que ela já tinha deixado uma muda de roupa para mim. A água estava quente e foi um alívio, depois de entrar naquela água gelada eu fiquei praticamente congelado.
Assim que sai do banheiro e terminei de me trocar fui até a varanda para tomar um ar, caralho, eu poderia ficar neste lugar por horas se morasse aqui.
— Essa varanda, ganha corações — disse atrás de mim.
Agora ela já tinha se trocado de roupa e tomado banho provavelmente.
— É, imagino.
— Bom, já terminei a comida — ela disse e se voltou para o apartamento.
Ela fez alguns lanches que estavam ótimos — ou eu que estava com fome — e também tinham algumas outras coisas para comer. Comemos em completo silêncio, não sei se porque eu tinha sido um pouco seco com ela antes na sacada ou se ela tinha voltado a ficar estranha sem nenhum motivo aparente.
Além da amiga ter tido uma overdose, seu imbecil.
Assim que terminamos fiz menção de ajudá-la a limpar as coisas, mas ela deu a entender que não precisava fazer nada daquilo e voltei para a sala. Claramente o clima tinha ficado pesado entre nós e estava na hora de eu ir embora, mas eram quatro horas da manhã e eu não teria como pegar metrô essa hora e não teria grana para gastar com táxi ou Uber.
Ou seja, eu tinha me fodido.
Estranhamente o mar tinha me feito bem e eu não estava me sentido tão enjoado como tinha acontecido nas últimas horas, apesar de como acabou, não tinha sido uma má ideia ir até a Coney Island.
— Bom, acho melhor eu ir — falei assim que apareceu na sala.
— É muito tarde, você pode ficar — falou e me encarou.
Soltei um riso.
— O quê?
— Nada, é só que tive a sensação que você não queria que eu ficasse.
Ela mordeu o lábio inferior e me encarou por um momento.
— Não foi isso — falou e saiu da sala.
Porra, garota louca.
Deixei a bipolaridade dela pra lá e me joguei no sofá enorme do jeito que eu estava mesmo — exceto pela calça que tirei —, não ia ficar esquentando minha cabeça com a mudança de humor dela. A situação não era das melhores e considerando tudo que estava acontecendo eu não ia tocar mais no assunto.
Eu já estava rolando naquele sofá a pelo menos duas horas, uma mistura de coisas não estavam me deixando dormir. O dia tinha sido uma loucura imensa e estar deitado na sala da irmã do meu melhor amigo não estava ajudando em nada, eu deveria ter ido para casa ou fingido que poderia ir e encontrado outro lugar para ficar.
Dei um pulo quando escutei gritos vindo do andar de cima. Por um momento achei que estava sonhando, até os gritos se intensificarem e eu perceber que eram da .
Que porra estava acontecendo?
Subi as escadas correndo — deixando para questionar um apartamento com escadas para depois — e procurei em que quarto ela estava. Mais gritos vindos dela me ajudaram a encontrar e assim que entrei dei de cara com uma se debatendo na cama e gritando, como se estivesse lutando contra algo.
Ao menos não estava escuro e tinha a luz de um abajur iluminando levemente o quarto.
— Não, por favor — ela deu um grito desesperado.
Caralho, que merda.
Me aproximei dela e a segurei por um momento. Os gritos pareciam se intensificar cada vez mais, eu não queria acorda-la para não criar uma situação constrangedora. Porém, não tinha escolha, ela não parava de se debater mesmo nos meus braços.
. — Segurei o rosto dela. — Acorda, você está sonhando.
Ela se movimentou mais uma vez e eu a chacoalhei com força. Os gritos cederam e ela abriu os olhos. Eles estavam frios e mostravam uma tristeza profunda, como se ela tivesse sonhado com algo terrível ou até alguma lembrança muito ruim para ela.
Ela levantou da cama e saiu andando.
— Você estava gritando eu...
Um barulho de porta batendo com força me tirou as palavras e permaneci estático na cama.
Ela voltou para o quarto em pouco minutos sem me encarar, pensei em dizer algo, mas não conseguia encontrar nenhuma palavra que pudesse ajuda-la naquele momento.
Merda.
deitou no lado da cama que eu a tinha encontrando e ficou de barriga para cima encarando o teto. Esperei que ela falasse alguma coisa, mas isso não aconteceu, então me levantei e fui até a porta do quarto.
?
Me virei para olha-la. Seus olhos me encaravam.
— Você pode ficar aqui comigo? — pediu e voltou a encarar o teto.
Andei até a cama e me deitei ao lado dela.
— Tudo bem.
ainda encarava o teto e parecia um pouco distante. Era possível notar que o que tinha acabado de acontecer não era a primeira vez, mas ela estava processando que tinha acontecido na minha frente.
— Hoje no parque...
, você não precisa se explicar — a interrompi.
Ela bufou e se virou para me olhar.
— Hoje no parque, você não fez nada — explicou e eu permaneci em silêncio.
Escutei ela respirar fundo.
— Eu só me senti culpada, por estar ali enquanto a Hannah está em cirurgia, por conta de algo grave que aconteceu com ela.
Continuei em silêncio.
— Mas, essa é a única maneira que consigo lidar com isso... — a voz dela estava trêmula, pela primeira vez em horas acho que ela estava chorando. — Eu não posso lidar com outro trauma, outra perda e outros pesadelos. Esses já me deixam apavorada o suficiente.
O silêncio tomou conta do ambiente, eu não sabia o que dizer para ela naquele momento.
Apenas segurei a mão dela que estava bem ao meu lado e apertei com força.

 



Continua...



Nota da autora: Olá meninas, Tudo bem? Primeiro eu quero agradecer pelos comentários de todas. E ai, o que estão achando? Se eu como escritora fiquei morrendo de vontade que esses pp's se pegassem, imagina vocês? Não me matem hahaha Espero que tenha gostado do capítulo. Não esqueçam de entrar no grupo e deixar seu comentário, me ajuda a melhorar sempre. XOXO





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