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Última atualização: 10/08/2020

I don't know how to sum it up because words ain't good enough.

O ano era 2012. Eu tinha viajado com meus pais para as festas de fim de ano, mesmo sabendo que – com sorte – o evento mais importante de nossas vidas estava para acontecer. Não fazia ideia de que dia era. Estava apenas me importando com aproveitar a presença dos meus pais sem preocupações, algo que tinha se tornado raro nos últimos meses. Eu não queria me lembrar da faculdade que começaria no outro ano, não queria me lembrar de que, em semanas, teríamos que voltar para a triste realidade da vida em Nova Iorque. Apenas queria me focar no sorriso que estava nos rostos dos meus pais e de como eles pareciam pessoas perfeitas naquele momento.
A praia estava praticamente vazia. Todos deviam estar se preparando para a festa da noite, mas eu e meus pais ainda estávamos sentados na areia da praia do hotel, conversando sobre o cotidiano e meus planos para o futuro, quando o telefone dele tocou.
– Que ótimo, trabalho... – Falei baixo, achando que ninguém me escutaria, mas minha mãe me deu um tapa com a mão esquerda.
Meu pai escutava o que falavam do outro lado da linha com atenção. Eu e minha mãe o observávamos. O evento mais importante de nossas vidas, eu repetia na minha mente. Alguns segundos bastaram para que ele se despedisse de quem quer que fosse.
– Quem era? – Eu disse.
– Era o Fletcher.
– E então? – Minha mãe perguntou ansiosa, com os olhos brilhando. – Qual foi o resultado?
Meu pai olhou para o mar que se estendia na nossa frente. O sol estava se pondo, tingindo a água com uma cor alaranjada digna de cena cinematográfica. Ele passou a mão nos cabelos e olhou para nós duas, que esperávamos impacientes por uma resposta.
– Vocês estão olhando para o novo presidente dos Estados Unidos da América.


Another night stopped, will it never end?

As pessoas costumavam falar que eu reclamava de boca cheia. Bem, talvez sim, mas não era bem esse o meu ponto de vista. Minha vida, vista pelo resto do mundo, era boa. Para os Estados Unidos, eu era a filha do candidato à presidência que simplesmente não queria nada com nada. Será que ninguém sabia que eu estava lutando para ser aprovada na Texas A&M University? Ninguém estava percebendo que eu queria minha família de volta?
O último ano tinha afastado meu pai de casa. A campanha para a presidência do país mais importante do mundo – embora eu mesma não concordasse com essa classificação – estava tomando todo o seu tempo. Até eu e minha mãe tínhamos nos envolvido no trabalho pesado para poder ajudá-lo e, de certa forma, ficar mais perto dele. Mesmo assim, estar consciente de toda a tensão que nos cercava era preocupante. Mas o que importava naquele momento era que todo esforço, todo problema, tudo havia sido recompensado.
A universidade me chamou assim que soube que meu pai havia vencido as eleições presidenciais, é claro, mas talvez eu quisesse esperar naquele momento. Não queria olhar para mim, queria olhar para os meus pais, principalmente para o meu pai. Ele estava completamente realizado, nunca tinha visto o “homem da minha vida” tão feliz, e a felicidade dele fazia a minha. Eu ia primeiro me mudar para Washington e então, quando as coisas se estabilizassem por lá, iria para a faculdade. Queria acompanhar de perto cada um dos novos sorrisos do senhor Andrew – conhecido pelos demais simplesmente como presidente.
Minha mãe, Ava Robert – eu invejava secretamente seu nome –, era a mulher mais guerreira que eu já havia conhecido. Meu pai sempre havia sido envolvido com política. Eles, inclusive, se conheceram quando ela era secretária de um senador com quem meu pai trabalharia. Um caso de uma noite acabou se tornando a garota de então 18 anos na qual eu me transformara: .
Se ser a filha do presidente dos Estados Unidos era legal? Bem, para mim, eu não era a filha dele. Era a filha do Andy, o cara de quem todo mundo se orgulhava por amar a todos incondicionalmente. Eu nunca pude reclamar de nada dele. Mesmo nos tempos difíceis, eu tinha tudo o que podia querer. Estudei nos melhores colégios, usava as melhores roupas, frequentava os melhores lugares. Tudo porque ele sempre se esforçou para que eu fosse a melhor pessoa do mundo.
Eu tinha tudo a meu favor. Dinheiro, energia e tempo eram coisas que eu tinha de sobra, felizmente. Eu só queria me acostumar com a situação e então ir curtir o mundo do meu jeito.
Era sábado à noite, meio de janeiro. Estávamos na festa da posse do meu pai. A banda 30 Seconds To Mars tinha acabado de se apresentar. Eu havia visto na internet que eles estavam fazendo uma campanha de apoio à candidatura do meu pai, mas me surpreendi quando eles apareceram para parabenizá-lo pessoalmente em uma cerimônia que estava sendo transmitida para o mundo inteiro. Meu pai fez um discurso lindo enquanto era consolidado como novo presidente. Estava na hora da festa. Eu não achei ninguém para dançar comigo, então pedi a um dos seguranças, – um britânico alto e corpulento –, que me acompanhasse para que eu não dançasse sozinha.
– Você fala? – Eu o provocava.
– Só quando permitido. – Ele disse, sério.
– Bem, eu estou lhe permitindo ter uma conversa agradável e saudável comigo. E então?
– Senhorita, não acho que essa seja uma decisão muito sábia.
– Que decisão?
– A senhorita está flertando comigo.
E estava mesmo. Eu não me dava muito bem com os garotos. Também não me dava mal, só tinha o péssimo hábito de atirar para todos os lados na tentativa de conseguir entrar em um relacionamento sério. Se eu não achava que flertar com meu segurança era exagero? A resposta era não.
– E alguém disse que eu não posso?
Com um movimento ágil, me girou, executando perfeitamente movimentos no ritmo da dança.
– Onde você aprendeu a dançar, ? Posso te chamar de , não posso?
– Prefiro que continue me chamando de , senhorita.
– E eu prefiro que me chame de , ou , quem sabe. Mas “senhorita”... Sei lá! Você tem quantos anos? Vinte?
– Vinte e um, senho...
Ele ia falar aquela palavra, eu sabia, mas achei fofo quando ele se conteve.
– Você só é três anos mais velho que eu, novo demais pra esse serviço. Não acha que tá na hora de curtir a vida um pouquinho?
Uma mão apareceu em seu ombro. Qualquer um que estivesse atrás dele se esconderia facilmente, mas não era qualquer um. Era meu pai.
– Com licença, . Posso dançar com minha filha?
– Claro, senhor.
assumiu sua posição ao lado da pista de dança. Meu pai me tomou nas mãos e dançava graciosamente comigo pelo salão.
– Você estava flertando com seu segurança.
– Sim, eu tava.
Todos os olhos da festa estavam em mim ou era impressão minha?
– Não acha ele velho demais para você?
– Ele é três anos mais velho que eu.
– O quê?! – Meu pai disse, demonstrando assombro. – ? Ele tem vinte e um?
– Não parece, né?
Meu pai se virou para dar uma checada rápida nele.
– Não acredito. Mas seja o que for... Eu só quero que você ache alguém que goste realmente de você. – Ele disse e deu um beijo na ponta do meu nariz, o que me fez lhe dar um sorriso largo. – , pode retomar seu lugar.
Eles se cumprimentaram com um aceno de cabeça e eu voltei a dançar com . É claro que, no final da festa, eu estava com a perna doendo porque só dancei. Parava para cumprimentar algumas pessoas, é claro, e isso também causou uma forte dor na minha bochecha. Era desconfortável aquele ambiente, mas meu pai estava radiante. Ele e minha mãe nunca pareceram tão felizes em toda a vida deles. Por qual motivo eu deveria deixar que eles soubessem que eu não estava bem e estragar a noite?
Depois daquele dia, minha vida era resumida a isso: encontros importantes com bochechas e pernas doloridas. Nós viajamos o país inteiro fazendo inaugurações de instituições, visitas em comunidades, festas importantes... E é claro, com uma equipe de segurança absurdamente exagerada. Eu não podia ir ao banheiro sem que antes um grupo de três homens o revistasse e estava começando a me sentir incomodada. Foi quando eu decidi que estava na hora de mudar e ir para a faculdade.
Meus pais já tinham aprendido a viver sem mim. Liguei para o Texas e perguntei quando poderia começar. Ficaria instalada numa casa próxima ao campus – com seguranças de sobra, é claro – e teria todo o apoio necessário da faculdade. Era muita gentileza deles, não era?
Aquele foi um final de semana triste. Os últimos abraços que recebi de meus pais cortaram meu coração. Eu fiz o possível para explicar para eles que aquela vida de filha do presidente não era o que eu queria para mim e eu estava dolorosamente consciente de que isso não era satisfatório para eles.
– Você sabe que, se não se acostumar, se as coisas não estiverem acontecendo do jeito que você planeja...
– Mãe, eu tenho vocês dois na discagem rápida.
– E cuidado com os garotos. – Meu pai disse, quase gritando que, com “garotos”, ele queria dizer “” porque, em algum lugar dentro da sua mente, ele acreditava que estávamos tendo um caso.
Quem dera...
As aulas começaram e, com elas, as festas universitárias. Recebi meu primeiro convite e é claro que não o recusaria. Coloquei uma das minhas roupas favoritas e fui. Foi lá que fiz meus primeiros amigos. Jacob era nerd e epilético, uma combinação perfeita para alguém com quem eu realmente queria passar um tempo. Michael era da Carolina do Norte, tinha um bronzeado bonito e era óbvio que estava na universidade mais pelas festas do que pelo curso em si, mas era uma ótima pessoa – por mais incrível que parecesse. E Emily era a típica menina do interior, filha de fazendeiro, que estava cursando Medicina Veterinária para dar sequência aos negócios da família. Nós quatro, com a convivência de algumas semanas apenas, nos tornamos inseparáveis. Aquilo sim era o que eu queria.
Eu sentava na janela de casa todo dia para ligar para meus pais, saber como estavam as coisas onde quer que eles estivessem e contar sobre as minhas novas conquistas. Tudo podia acontecer, mas eu não podia ir dormir no dia sem fazer aquilo.
Dois toques depois, minha mãe atendeu.
– Filha! Como você está?
– Eu to ótima. E você?
– Estou bem, como sempre. Como foi o dia hoje?
– Foi tranquilo. Uma aula de anatomia que me deu mais sono que documentários sobre a Ásia. Tirando isso, tive um dia maravilhoso. E vocês?
– Bem, seu pai passou o dia inteiro em reunião com o governador de Massachusetts, então eu e a mulher dele estamos passando esse tempo visitando algumas lojas maravilhosas. Seu pai ficou preocupado, você demorou a ligar hoje.
– Eu tava dormindo.
– Ah, sim. Claro. Mas ligue pro seu pai.
– Mas ele ainda tá em reunião?
– Está, mas você sabe muito bem que ele abre mão de tudo por você. E ele me pediu para lhe dizer isso.
– Tudo bem, mãe. Depois você me liga pra gente conversar melhor?
– Claro! Te amo, filha.
– Também te amo, mãe. Até!
Desliguei e fui para o sofá. Sentei por cima das minhas pernas enquanto discava o número do meu pai. Ele demorou um pouco para atender, quase tempo suficiente para que eu desistisse.
– Filha!
– Oi, pai! Como você tá?
– Estou ótimo agora. E você?
– Bem.
– É bom mesmo. Caso contrário, eu mando irem te pegar no Texas agora. Como vão as coisas por aí?
– Nada demais. Uma vida chata de universitária, mas é isso que eu escolhi.
– Você sabe que, se quiser, pode voltar pra casa na hora.
– Eu sei, pai, mas eu quero ficar. Quero me formar.
– Desde pequena, você falava que queria ser médica veterinária, sabia? Eu falava que ia ser presidente e, bem, olha onde seu velho chegou! Você vai mais longe que eu, minha querida.
– Isso é impossível, pai. Melhor que você, só outro de você. Eu tenho que ir. Os meninos tão chegando aqui em poucos minutos pra gente estudar. Eu te amo.
– Eu te amo mais.
– Nunca! Beijos, pai.
– Beijos, minha querida. Mande notícias. Estou muito orgulhoso de você.
Tive que segurar o choro.
– E eu estou mais orgulhosa ainda do homem que o senhor é!
Desliguei na exata hora em que a campainha tocou. Fui abrir e encontrei Michael sozinho com uma pasta debaixo do braço.
– Dor de barriga por causa do almoço de hoje, foi isso que ele me disse. – Ele, obviamente, estava falando de Jacob.
– Então vamos lá nós dois mesmo. Eu preciso entender todos os detalhes da boca dos ruminantes e de hoje não passa. Espero que você esteja confortável, porque vamos demorar aqui.
Ele riu e ajeitou o cabelo comprido atrás da orelha.
– Digamos que eu vim preparado.


And you'll follow your heart even though it'll break sometimes.

O mundo à minha volta estava girando. Fui visitar o hospital da faculdade e um cavalo tinha acabado de morrer. Lembrei-me das palavras da minha mãe.
– Você tem que saber que é isso o que você quer, que você tem um dom natural pra isso. Sem esse sentimento, de nada vai valer você perder anos na faculdade. – Ela disse durante uma das nossas ligações diárias.
Eu queria Medicina Veterinária. Era meu sonho. Na verdade, eu acreditava que toda criança dizia – pelo menos, uma vez na vida – que queria ser veterinária. No meu caso, eu fui um pouco mais teimosa e levei isso para frente. Mas ali, ao ver aquele cavalo morto, na minha frente... Meu mundo caiu. Eu era sensível. Não importava o quanto me dissessem que eu tinha que ficar habituada, eu nunca ia me sentir “normal” vendo um animal sem vida.
– A senhorita está bem? – Scott, outro dos meus seguranças particulares, perguntou.
– Óbvio que não.
– Quer ir embora?
– Também não. “Tenho que me acostumar.” – Disse, abrindo as aspas no ar com os dedos e revirando os olhos.
Scott retomou seu lugar atrás de mim, com cara de mau e braços cruzados. Quem o via, nem imaginava o quanto nós nos divertíamos dentro de um salão de jogos. Esse era um estereótipo que chegava até a ser engraçado. As pessoas de fora olhavam para nossos seguranças como se eles fossem robôs cuja função era atirar nos outros e incomodar. Claro que não era a melhor coisa do mundo ter pelo menos dois homens atrás de você o dia inteiro, mas eu sabia que era necessário. E ter eles por perto fazia com que nós os considerássemos – querendo ou não – membros da nossa família.
e Scott tinham ficado responsáveis por ficarem comigo durante o dia. Em casa, outra equipe com quatro seguranças – Benjamin, Freddie, Daniel e Joe – era encarregada de fazer da casa, onde eu passava a maior parte do tempo, o lugar mais seguro do mundo. Eu me dava muito bem com eles e achava incrível ninguém perceber que eu mal saíra da adolescência e estava dividindo minha casa com seis homens, mas não podia reclamar. Todos eles eram simpáticos, ótimos amigos e respeitosos acima de tudo. Afinal de contas, quem, em sã consciência, não respeitaria a filha do presidente? Bem, a resposta para essa pergunta era “muita gente”.
O pessoal da faculdade olhava para mim com desgosto.
– Não é só porque você é a filha do presidente que tem poder aqui dentro. Você não é melhor do que ninguém. – Uma menina disse uma vez quando eu pedi para o professor tentar falar um pouco mais devagar para que eu entendesse.
É claro que levantou seu corpão e colocou-se entre eu e a menina. O professor atendeu o meu pedido, felizmente, mas depois daquele dia, minha vida na faculdade nunca mais foi a mesma. Em outra ocasião, fizeram um desenho no quadro desdenhando de um menino do quinto período que era gay. Tirei uma foto e enviei para ele, denunciando o ato. No outro dia, a faculdade inteira espalhava boatos sobre eu ter feito aquela “obra de arte”, e eu comecei a ser ridicularizada por onde quer que eu andasse. Mas eu estava lá pela faculdade, não por eles.
A imagem do corpo do cavalo estava tirando o meu sono. Já estava deitada na minha cama e a cena se repetia na minha mente. Eu estava escutando um cavalo relinchando e tudo. Fiquei rolando durante incontáveis minutos, sem conseguir dormir, fazendo uma pergunta crucial na minha cabeça: será que era aquilo mesmo que eu queria?
Três batidas na porta me tiraram do transe.
– Senhorita , está tudo bem?
– Quem é?
– Daniel, senhorita.
– Ah, ok. Tá tudo bem. Por quê?
– Estamos escutando um cavalo relinchando e parece que vem daqui o barulho.
Eu levantei da cama assustada, esquecendo-me de que estava trajando roupas não muito apropriadas para se usar na presença de um homem. Mas que porra estava acontecendo?
– Você tá louco? Eu to ouvindo isso na minha mente, mas é por causa de...
Outra vez, um cavalo relinchando. Merda. O rádio pendurado no ombro de Daniel apitou.
– Tem um cavalo no quintal. Dá pra alguém me explicar isso?
Meu olhar se encontrou com o de Daniel.
– Um cavalo? No quintal? – Falamos ao mesmo tempo.
Nem tive tempo de vestir um roupão. Desci as escadas correndo na frente de Daniel, que seguiu meu ritmo. Quando saí pela porta, um vento frio me recebeu violentamente. Tentei proteger meu corpo, cruzando os braços enquanto fitava o animal gigante que alimentava-se da cerca viva dividindo o meu lote do terreno vizinho. estava do lado dele, tentando enlaçá-lo com o que devia ser uma corda. Andei lentamente na direção deles.
– De onde surgiu esse cavalo? – Fiz a pergunta óbvia.
– Não sabemos, senhorita.
– Para com isso, .
– Não dá.
Olhei para o bicho. Não era um cavalo qualquer. Ele era enorme, bem tratado, com um porte físico de dar inveja. O cavalo, com certeza, tinha um dono e um valor financeiro alto.
– Podemos amarrá-lo na árvore por hoje, não podemos? – Sugeri, apontando para a nogueira-pecã no meio do quintal dos fundos. – Se ninguém vier regastá-lo, quem sabe eu possa...
Eu estava apenas imaginando, como sempre. O dono veio buscá-lo e desmanchou-se em pedidos de desculpas ao ver quem eu era. Ele tinha fugido de uma fazenda muito importante da área, pelo que pude entender, e os proprietários já tinham colocado até a polícia atrás do animal. O cavalo, como todos os sonhos que eu tinha e queria realizar sem ter que colocar o trabalho do meu pai no meio, foi embora com a chegada da manhã.
Depois de um longo período de provas, o fim de semana finalmente chegou. Nós tínhamos um voo marcado para Washington. Meu pai receberia alguns líderes de Estados mas, mesmo assim, fazia tempo que não nos víamos pessoalmente e aquela seria a minha primeira oportunidade de ir para a capital visitá-lo com calma. Fomos até o aeroporto em um jato e, de lá, fui levada para a Casa Branca.
Quando entrei, senti como se estivesse em um hotel. Embora as pessoas que olhassem de fora imaginassem que aquele prédio seria um palácio, a planta baixa da casa em si não era algo tão extraordinário. A residência oficial, a parte central do prédio, era algo mais simples do que parecia. O primeiro andar tinha, de importante, o salão de recepção e a biblioteca, onde eu passava a maior parte do tempo quando estava em casa. O segundo andar era o andar das festas, onde tinha os salões verde, vermelho e azul. Lá, também estava localizada a sala de jantar onde meu pai fazia refeições com pessoas importantes. Era um cômodo bonito, porém não o meu preferido. O salão leste sim era um lugar magnífico, onde ocorriam todas as festas importantes que meu pai realizava e onde, geralmente, eu me sentava ao piano para dedilhar algumas notas.
Então havia o terceiro andar.
Todos os outros eram um exagero. O terceiro andar era o que realmente importava. Era a nossa casa. Lá, nós tínhamos os quartos leste e oeste, que serviam para convidados especiais, o quarto do meu pai, junto com seu escritório. O quarto da rainha, que tinha esse nome devido aos convidados que se instalaram lá – na sua maioria, rainhas, o que é bem óbvio. Uma sala de convivência de cada lado servia para momentos descontraídos que quase nunca existiam lá dentro por falta de tempo. A nossa cozinha pessoal talvez fosse a parte mais divertida da casa para mim. Eu poderia ter o que quisesse, na hora que quisesse, e essa era uma parte boa do “poder” que eu tinha. Ao lado do meu quarto, tínhamos um teatro particular, para onde eu geralmente ia nas noites frias de Washington – quase toda noite. E era lá também que ficava o famoso Salão Oval. Era outro exagero, das pessoas que não viviam lá dentro, falar dele como se fosse o lugar mais importante do mundo.
Assim que cheguei ao andar, corri para o meu quarto. Oficialmente, as pessoas o conheciam como quarto de Lincoln. Sim, Abraham Lincoln. Durante o seu período no poder, foi ali que ele ficou. E então, anos depois, ele era todinho meu.
Deixei minha mala em cima da cama e corri para o quarto do presidente, que ficava na posição oposta. Abri a porta e dei de cara com o vazio. Corri até a cozinha e nada. No corredor, sempre encontrava alguns seguranças. Fui até Archie, um baixinho de aparência franzina mas que faria até mesmo , que era do tamanho de um armário, correr como uma menininha.
– Archie, onde estão meus...?
– Sua mãe está participando de um programa televisivo no momento e só volta depois do horário do almoço. Seu pai está no salão verde conversando com os líderes da ONU para resolver a questão da Guerra Civil Síria. Eu sugiro que a senhorita não os interrompa. É uma reunião muito importante e...
– Obrigado, Archie, era só isso que eu queria saber. – Respondi com um sorriso e uma piscada de olho.
Desci as escadas correndo e, então, notei o grande número de seguranças na porta do salão verde. Além de Luke, Joshua, Eli, Jake e Harry – com Jack, que devia estar dentro do salão, eles formavam a equipe pessoal de segurança do meu pai –, outro grupo de seguranças, provavelmente equipes dos tais líderes que encontravam-se ali, estava conversando de forma descontraída. Eu me aproximei sem fazer alarde. Apenas caminhei até a porta e levei a mão até a maçaneta. Só então olhei para trás e percebi que e Joe estavam na minha cola.
– A senhorita não pode entrar! – Um dos seguranças que eu não conhecia disse com a voz elevada.
Eu me virei para ele e dei-lhe uma boa olhada de cima a baixo.
– Você acha que tá falando com quem?
– O meu chefe está aí dentro e ele ordenou que impedíssemos quem quer que fosse de adentrar o recinto. Então vou pedir educadamente que a senhorita se retire imediatamente ou terei que retirá-la à força.
– Você vai ter que fazer o quê? – gritou, posicionando-se entre eu e o outro segurança, como sempre fazia quando queria montar um circo para mim.
Eu até podia dizer que havia química entre eu e . Uma química fraca, mas existia alguma coisa. Talvez houvesse muito mais interação física do que química entre nós, mas havia. O jeito como ele me defendia quando precisava era másculo demais, até mesmo para um segurança que trabalha para a filha do presidente dos Estados Unidos. Eu sabia que ele forçava.
Por cima do ombro de , pude olhar a cara de decepcionado do forasteiro. Coloquei minha mão na maçaneta novamente, olhando nos olhos dele, e abri a porta. Meu pai se virou na minha direção e, levantando atrapalhado, correu para me abraçar. Aquele não era mesmo o presidente dos Estados Unidos. Era o meu pai, e eu estava feliz por poder sentir seu abraço depois de tanto tempo longe.
Infelizmente, aquele momento não podia ser só meu e do meu pai. Se eu pedisse, tenho certeza de que ele interromperia qualquer reunião para poder ficar comigo, mas eu não era chata a esse ponto. Quero dizer, eu era, mas estava controlando isso e procurando relembrar que ele seria meu pai por menos tempo do que era antes. Minha mãe chegou depois, quase perdeu o jantar. Ela tinha participado de um programa de TV e, depois, foi conhecer a casa da apresentadora.
No mais, o final de semana foi o esperado. Meu pai lutava contra tudo que pudesse atrapalhar nossos curtos momentos juntos e minha mãe não parava de fazer perguntas sobre como estava sendo a vida no Texas. É claro que eles voltaram a insistir para que eu desistisse de tudo e ficasse em casa de vez, mas não.
No domingo depois do almoço, tive que enfrentar a despedida novamente. Eu tinha que voltar para a vida de responsabilidade que eu tinha escolhido no sul do país. Tinha que abrir mão de toda aquela mordomia disponível para um mundo onde eu tinha que fazer minha própria comida, dirigir meu próprio carro e arrumar minha própria casa. Era isso o que eu queria, não era? Então, como sempre, a filhinha mimada do presidente teria o que pediu. Só que não!


You've got everything you need but you want accesories, got to hold it in your hands.

A semana estava passando lentamente. Ainda era terça-feira. As memórias do final de semana com meus pais estavam vivíssimas na minha mente. Eu me tranquei no salão de jogos e pedi um pouco de privacidade, alegando que queria estudar um pouco, mas o que eu realmente fiz foi sentar em cima da mesa de sinuca e começar a considerar minhas opções. Eu queria mesmo continuar na faculdade? Quer dizer, eu seria bem sucedida no que eu escolhesse fazer devido à posição do meu pai naquele época. Mas era isso mesmo a minha primeira opção? Medicina Veterinária era o meu sonho mesmoi> ou era apenas mais um na lista de coisas que eu imaginei para mim? Eu tinha consciência de que meus pais eram minha prioridade – sempre seriam – e a faculdade estava começando a atrapalhar isso.
bateu duas vezes na porta e, abrindo-a lentamente, colocou a cabeça para dentro do salão.
– Estou atrapalhando, senhorita?
– Eu podia dizer que não, mas você me chamando de senhorita realmente me dá nos nervos, cara.
Ele sorriu, entrou e fechou a porta novamente.
– Estou tentando.
– Todo mundo consegue, menos você!
– Talvez seja porque eu sou novo demais. A senhorita está bem? Ah, desculpa! Você está bem?
Eu sorri.
– Por quê?
– Porque não parece.
Respirei fundo e olhei para o quadro na parede à minha frente.
– Ser o segurança da filha do presidente é realmente o seu sonho? – Perguntei séria, o que fez com que sua expressão facial mudasse.
– Você está se questionando se fazer a faculdade vale a pena? Não precisa responder, acho que a resposta é bem óbvia.
se aproximou e sentou-se ao meu lado, também em cima da mesa.
– Se não é a sua prioridade, desista. E não, meu sonho não era ser seu segurança, era ser segurança do seu pai, mas a gente vai aceitando o que o destino coloca na nossa frente. Eu não tive escolha. Era pegar ou largar. Mas você tem tudo.
– Já falamos sobre esse lance de “ter tudo”.
Com um pulo, ele desceu da mesa e ficou na minha frente, olhando nos meus olhos.
– O que é ter tudo pra você?
Devolvi o olhar antes de começar a responder.
– Eu vi como você me defendeu sexta quando eu fui encontrar meu pai.
– Não mude de assunto, .
– Você tá me chamando pelo nome, que bonitinho. – Eu disse com um sorriso que ele retribuiu. – É sério, eu vi. Foi... Diferente.
Ele desviou o olhar.
– Ter tudo, meu caro , é ter tempo pra minha família, ter tempo pra viajar pelo mundo, ter tempo pra entrar num relacionamento sério com um garoto que realmente goste de quem eu sou, ter tempo pra ter amigos, ter tempo, sabe...
– Quanto a esse tópico sobre relacionamento sério...
se aproximou, colocando uma mão em cada um dos meus joelhos. Eu estava com as pernas um pouco abertas na posição em que estava sentada, então ele se aproximou mais ainda, abriu um pouco mais minhas pernas e colocou-se entre elas.
– ... Acho que a gente pode começar a tentar resolver.
Seus lábios roçaram nos meus e coloquei minhas mãos na sua nuca. Scott abriu a porta na hora em que ele me beijaria e eu fiquei com raiva instantaneamente. se afastou rápido e Scott limpou a garganta.
– Freddie quer falar com você. – Ele disse para , que imediatamente retirou-se. – O que você estava fazendo?
– Ah, Scott! É sério, para. Você não é meu pai. Ele mesmo sabe que eu sou afim do e não fala nada. Você não vai querer me dar lição de moral, vai?
! Eu não sou seu pai, mas sou o chefe do . E eu não admito isso. Você não precisa seguir minhas regras, mas ele precisa. Eu vou dispensar o por sua causa, porque você não sabe se segurar quando vê um homem.
Desci da mesa de sinuca com uma postura violenta e posicionei-me bem na frente dele, erguendo a cabeça para olhar nos seus olhos.
– Ok. Você quer brincar? Vamos brincar. Foda-se se você é o chefe dele. Eu sou a sua chefe. Não é porque eu tenho 18 anos que você vai me fazer de boba. Você pode dispensar o ? Pode. Mas eu também posso te dispensar e manter ele no trabalho.
– Se eu for embora, a minha equipe inteira vai junto. E eu não vou deixar o aqui com os equipamentos sobre os quais eu tenho responsabilidade. Você vai ser protegida apenas por um cara desarmado?
– Só nos seus sonhos que você vai levar a arma dele embora. Eu já disse. Eu sou a sua chefe. Você faz o que eu digo.
– Sabe qual é o seu problema? Você é apenas uma adolescente mimada que tem tudo o que quer. Você nunca teve que lutar pra conseguir o que quer, nunca teve que se sacrificar pra colocar comida dentro de casa. Você acha que manda em todo mundo, mas em mim você não manda. Você não merece esse mundinho de merda que você tem.
– Esse mundinho de merda me deu um telefone e esse telefone me dá a capacidade de falar com o presidente dos Estados Unidos de graça. Não demora nada pra ele queimar você em todo tipo de lugar pra você nunca mais conseguir um emprego. E, no caso de eu ser realmente tudo isso que você falou... Foda-se! Você continua sendo um merda, não muda a realidade na qual estamos inseridos.
Eu andei para a porta e gritei por .
– Me dá sua arma. – Pedi quando ele chegou.
– O quê?!
– Sua arma! É sério, não to brincando.
Relutante, ele tirou a pistola do coldre na sua cintura e entregou. Verifiquei que tratava-se de uma arma automática, então imediatamente a apontei na direção de Scott.
– Você vai tirar sua arma do coldre e vai colocar ela em cima da mesa de carteado. Depois, você vai andar até a porta da minha casa e nunca mais voltará. Estamos entendidos?
Os dois se assustaram com o meu ato. Scott olhava assustado para mim e, depois de alguns segundos percebendo que eu não estava brincando, fez o que eu mandei. Quando ele saiu pela porta, fiz questão de falar com todos os outros para que repetissem o que Scott fez, mas é claro que lhes dei tempo de recolher seus pertences pessoais e não os ameacei com uma arma.
Era fim de noite. Eu e estávamos sentados na sala, um de frente para o outro, ainda imaginando como ligar para meu pai e contar o que eu havia feito. Às vezes, ele fazia menção de esticar a mão na direção do telefone fixo, porém desistia em um segundo. Eu mesma já havia feito o mesmo algumas vezes. Então eu me decidi e peguei logo o telefone. Disquei o número do meu pai com uma coragem que eu desconhecia. Coloquei o aparelho no ouvido sob o olhar curioso de . Depois de dois toques, meu pai atendeu.
– Filha! Eu já estava ficando preocupado! Você não nos ligou hoje ainda!
– Hm... Bem... Pai... Eu preciso te contar uma coisa.
– Está tudo bem com você, não está?
– Sim, está. Eu to perfeitamente bem, só tem um problema.
– Qual?
– Bem... Eu só to com o aqui.
– Como assim? Onde estão os outros?
– Foram embora.
– Como assim “foram embora”, ? Deve haver uma justificativa!
Respirei fundo e olhei para . Ele estendeu sua mão, segurando a minha e passando um pouco de confiança. Então respirei fundo novamente e contei – da forma mais resumida possível – o que havia ocorrido naquela tarde. Meu pai ficou em silêncio quando eu terminei, um silêncio que me deixou preocupadíssima.
– Volte para Washington.
– Mas pai...
– Sem mais, ! Você vai voltar para Washington amanhã. Um carro irá buscar vocês dois e os levará ao aeroporto para virem para cá imediatamente. Tenho que desligar.
Era a primeira vez em dezoito anos de vida que eu ouvia meu pai falar comigo rispidamente. O olhar que eu direcionei para o preocupou.
– Arrume suas coisas. Vamos sair pela manhã. – Eu disse e levantei, indo para o meu quarto.
Enquanto eu jogava as roupas de qualquer jeito dentro das minhas malas, lágrimas escorriam pelo meu rosto. Horas atrás, eu estava ponderando se deveria desistir da faculdade. E então estava sendo forçada a arrumar minhas coisas e ir embora, mas não queria de jeito nenhum abrir mão de tudo aquilo que eu tinha aprendido a gostar. O pior era saber que a culpa era inteiramente minha, por realmente ter agido como uma idiota em um surto sem razão. Durante meus devaneios, ouvi duas batidas na porta.
– Entra, ! – Gritei.
Ele colocou seu corpo enorme para dentro do meu quarto e ficou em pé, colado à parede ao lado da porta. Seu olhar gritava um pedido de desculpas silencioso que eu retribuí. Provavelmente, ele seria punido de alguma forma também. Seu corpo estava mais rígido do que sempre. Eu forcei o zíper da última mala algumas vezes, mas não obtive nenhum sucesso.
– Pode me ajudar? – Falei baixo.
conseguiu fechar a mala com facilidade. Depois disso, endireitou o corpo e ficou em pé na minha frente.
, eu queria...
– Não... Não fala isso, tá? Talvez seja o empurrão que eu precisava pra tomar minha decisão.
– Isso não justifica. O erro foi meu.
– Na verdade... , eu que tenho que te pedir desculpas. Quem se irritou fui eu. Quem provocou o Scott fui eu. Quem mandou todo mundo ir embora fui eu. Eu coloquei você nessa furada. Me perdoa.
Ele sustentava meu olhar com seus olhos claros.
– Pode me chamar de ... Se quiser, é claro.
Forcei um sorriso educado enquanto afastava meu corpo para que ele passasse. Nós dois queríamos um envolvimento mais íntimo, mas o momento não permitia. Meus hormônios gritavam por ele e, enquanto se retirava do meu quarto, sabia que essa reação era correspondida. Mas eram apenas hormônios, não eram?
Mais tarde, eles se aquietaram. A parte racional do meu corpo trabalhou com afinco durante as horas da madrugada, tanto que não me deixaram dormir. E, por algum motivo sem lógica, eu imaginava que também passava pelo mesmo problema.


Continua...



Nota da autora: Apenas um gostinho do que vem por aí! Espero que possa agradar a quem quer que seja e que nos vejamos em breve!







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