Última atualização: 20/03/2020
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Prólogo

Ele estava apontando para mim? Ele estava mesmo apontando para mim?
– Vamos, suba aqui. Alguém a ajude, por favor.
Um segurança próximo fez sinal para que o público se afastasse e abrisse caminho. Ele esticou a mão para mim e dois homens próximos à grade me ajudaram a pegar impulso para pular por cima dela. Logo depois, o mesmo segurança se juntou a um colega para me dar impulso suficiente para subir no palco. John Bongiovi estava logo acima, estendendo a mão para me ajudar e com um sorriso no rosto. Ele me puxou para um abraço e praticamente me empurrou até onde estava o pedestal com o seu microfone.
– Seu nome e de onde você é.
, e eu sou da Filadélfia. – Respondi e o público ovacionou, fazendo as palpitações no meu coração aumentarem cada vez mais.
– Tá brincando? – Ele disse, do outro lado do microfone. – Eu deveria ter reconhecido, só as mulheres da Filadélfia são tão maravilhosas assim.
Minhas bochechas coraram. John Bongiovi era galanteador, ainda mais depois de se divorciar, isso era de conhecimento público. Seria idiotice minha dizer também que nunca tinha imaginado aquele momento. Mas, mesmo nos meus melhores sonhos, ele não era tão receptivo assim.
– Vamos lá, vou fazer algo que nunca fiz antes. Me diga a sua música favorita.
Nem precisei pensar muito.
Bad medicine.
– Mas essa nós já vamos tocar. Vai facilitar pra gente?
Eu dei de ombros, completamente sem jeito.
– Pode ser. – Respondi, fora do microfone.
– Então tá. – Ele fez sinal para Tico, na bateria.
A banda começou a música enquanto eu ainda estava no meio do palco, completamente perdida. Parecia a menininha que era, dez anos atrás, no meu primeiro show do Bon Jovi. Meus pais eram extremamente religiosos, não gostavam nada da filha desgarrada que tinham. Eu tinha acabado de fazer vinte e um anos, estava do outro lado do estado para cursar meu bacharel em Gastronomia pela The International Culinary School no Art Institute of Pittsburgh. Longe de casa, eles não tinham controle nenhum sobre mim. Então juntei os trocados que conseguia com os meus serviços de fotografia e encomenda de pratos diversos, comprei um ingresso e lá fui eu, no dia 6 de dezembro de 2005, para uma das melhores noites da minha vida.
De repente, John Bongiovi me tirou dos meus devaneios ao me puxar pela mão, já no terceiro refrão. Olhava fundo nos meus olhos e carregava consigo um enorme sorriso simpático.
Your love is like...
... bad medicine! – Completei quando ele me ofereceu o microfone, concluindo que devia ter bebido mais cerveja do que deveria para fazer aquilo na frente de aproximadamente vinte mil pessoas que lotavam o Wells Fargo Center naquela noite.
Bad medicine is what I need. – Ele continuou e deu a volta em mim, me girando com a mão sobre a minha cabeça.
John – eu poderia chamá-lo apenas de John? – então deixou que a banda terminasse o refrão e me puxou para o exato centro do palco novamente. Não levou muito tempo para que o solo de guitarra de Phil X começasse. John então me puxou pela cintura e colou meu corpo ao seu, mantendo uma postura de dança de salão e me conduzindo com incrível habilidade pelo espaço aberto no palco, sob a observação atenta de seus companheiros de banda.
– Vou deixar essa parte pra você. – Ele gritou por cima da música no meu ouvido.
– Eu não sei cantar. – Devolvi.
– Não tem problema.
Ele praticamente jogou o microfone na minha mão. Instantaneamente, o álcool todo foi sequestrado para o meu tecido nervoso e eu comecei a me animar. Até demais. Eu só torcia para todos os anos de treino no chuveiro e atrás do volante valessem a pena.
I need a respirator, cause I’m running out of breath. But you’re an all night generator wrapped in stockings and a dress.
John saiu de perto da bateria com um outro microfone na mão e se juntou a mim na minha cantoria atrapalhada.
When you find your medicine, you take what you can get, – Nós cantamos juntos, seu rosto bem próximo ao meu, o nível de extâse subindo vertiginosamente. – cause if there’s something better, baby, well, they haven’t found yet.
Eu tinha morrido e ido pro céu? Se não era isso, parecia muito. Eu estava no paraíso. Estava dançando com John Bongiovi em cima de um palco ao som de Bad medicine. Parecia inacreditável para uma mesma de dez minutos antes. Mais inacreditável ainda quando ele tomou o microfone da minha mão – em um primeiro momento, cheguei a pensar que fosse arrogância dele – e me puxou para um beijo. Não era novidade John Bongiovi beijar fãs, mesmo antes de se divorciar da mãe dos seus filhos, mas... Puta que pariu! Era daquele jeito mesmo?
– Vão te levar pro backstage agora. – Ele disse bem próximo ao meu ouvido, o hálito dele deixando claro que eu não era a única a encher a cara naquela noite. – Pergunta pelo Andy Miller. Ele vai saber o que fazer.
Oi?!
Antes que eu pudesse dar conta de raciocinar e perguntar o que ele queria dizer com aquilo, um dos seguranças veio até o palco e me conduziu educadamente até a lateral do mesmo. We got it going on começou a tocar logo depois, o riffle de baixo do qual eu tanto gostava de ouvir nos meus melhores dias.
– A senhorita pode permanecer aqui ou descer novamente para a plateia, se for da sua vontade. – O mesmo segurança que me buscou disse a mim.
Então as palavras de John Bongiovi ecoaram na minha cabeça, a curiosidade já estava instaurada e minha língua foi, novamente, mais rápida que o meu cérebro.
– Andy Miller. – Eu falei. – Ele me pediu pra procurar um tal de Andy Miller.
– Vou trazê-lo até você, um instante.
Assenti enquanto o observava se afastar e, logo depois, voltava minha atenção para o palco, onde a banda continuava com uma performance incrível. Em torno de quarenta minutos depois, eu estava me atracando com John Bongiovi em seu camarim.
Não dissemos nenhuma palavra. O tal Andy apenas me levou até um corredor quando o show terminou. Ele veio andando até mim com passos apressados e praticamente me empurrou para dentro da sala escura. Não vi como ele conseguiu trancar a porta sem descolar de mim. Parecia voraz em cada movimento, desde o jeito como ele me prensou contra a parede até a forma como suas mãos pressionavam cada centímetro do meu corpo. Tinha lábios experientes, isso era inegável, e sabia usá-los com maestria. Cada pegada me levava para um lugar diferente e eu estava a ponto de enlouquecer nas mãos dele. Queria acreditar que aquilo era verdade em cada segundo enquanto o álcool ia embora lentamente do meu corpo.
Menos de uma hora depois, ele me levou até um SUV de vidros totalmente pretos, dispensou os seguranças e dirigiu comigo até o motel mais próximo. Fez questão de me tratar com o máximo de educação possível, ao mesmo em que não tinha o menor pudor de me explorar o tanto que eu permitia. Eu não tinha a mínima ideia do que estava fazendo e, com os lábios de John Bongiovi colados na minha pele, eu só conseguia pensar no quão insano estava sendo aquilo tudo.
Na manhã do outro dia, eu acordei com um braço pesado sobre a minha barriga e um barulho grave e baixo de um ronco em meu ouvido. Olhei para a cena, para o quarto, e as memórias deram um soco na boca do meu estômago. Tentei fazer o mínimo de movimento brusco possível enquanto me desvencilhava dele. Busquei as roupas pelo chão, vesti tudo prezando pelo silêncio. Juntei tudo o que tinha meu ali e, mexendo na porta com muito cuidado, saí quase correndo pelo estacionamento externo. Por sorte, um táxi estava passando na frente. Não ia pensar muita boa coisa de mim mas, de qualquer forma, eu ainda estava tão atordoada pelo que tinha acabado de acontecer que nem estava ligando.


01

– Bom dia! – Entrei gritando no restaurante.
– Bom dia, chef. – Meus funcionários responderam, mas eu fui mais rápida e captei a diferença no olhar.
– Onde tá a Mercedes?
– Atrasada, chef. – Jake me respondeu. – Um ônibus bateu no carro dela.
– Meu Deus! Ela tá bem?
– Tá sim. Ela disse que, assim que resolver com a seguradora, vem pra cá de qualquer forma.
– Ok, tudo bem por hoje, até eu estou atrasada com esse tempo louco aqui. Alguma coisa que eu deveria saber?
– A lavanderia atrasou a entrega das nossas toalhas. – Randall disse.
– Os Smith falharam com a entrega dos peixes mais uma vez. – Leonard tomou a frente. – Eu já cuidei disso e providenciei peças frescas pra hoje, mas sugiro que a senhora mude de fornecedor nesse caso.
– Obrigada, vou sentar com Alice e conversar sobre isso mais tarde. Mais alguma coisa?
Todos se entreolharam e o silêncio reinou na cozinha por longos segundos.
– Ótimo então. Vamos começar a preparar as coisas para o serviço. Donna, Julie e Stacey, quero as três cuidando do mise en place hoje, por favor.
– Sim, chef. – As três responderam.
– De resto, todos seguem suas funções normais, ok? – Todos assentiram com a cabeça. – Vamos começar e bom serviço.
Coloquei minha dólmã e fui, imediatamente, verificar se o movimento no salão seguia o mesmo padrão de organização que eu começara na cozinha. Shannon, Omar, Monty e Linda já estavam devidamente uniformizados, mesmo que ainda fosse um pouco cedo para isso. Gilbert estava passando um pano no púlpito do maître e William e Howard limpavam a bancada do bar.
– Bom dia, chef. – Eugene, vindo do banheiro, me cumprimentou, chamando a atenção de todos.
– Bom dia. Onde estão Paul e Heather?
– Foram ajudar a Mercedes, ela...
– Ah, sim, já estou sabendo. Preciso chamar Ross ou vocês dão conta?
– Eles já estão vindo. – William respondeu. – Acabaram de mandar mensagem.
– Sem problemas por aqui então?
– Sem problemas. – Ele repetiu.
– Ótimo. Se precisarem, sabem onde me encontrar.
Minha equipe de limpeza, composta por Jason, Gina e Stanton, estava se aprontando na parte do vestiário dos funcionários. Eu fui para a cozinha e Peter praticamente colou em mim no mesmo instante.
Chef, nós vamos seguir com o corte julienne pra salada que acompanha as panquecas?
– Sim, vamos. Testei em casa o allumette, ficou uma porcaria.
– Tudo bem, obrigado.
!
Revirei os olhos e me virei para dar de cara com Jessie, a mochila ainda pendurada nas suas costas.
– Fica feio a minha sous chef chegar atrasada como eu.
– Ontem à noite foi bom, , não negue.
– Mas trabalho é trabalho. Vamos, preciso de você na linha hoje.
– Pode deixar, chef.
Dei uma boa olhada em volta e, após ter certeza de que tudo estava perfeito, fui para a minha bancada particular.
– Dan! – Gritei para um de meus chefs de partie. – Pede pro seu demi chef colocar cinco quilos de batata inglesa para cozinhar, por favor.
– Já vi que eu vou ter que calejar meus dedos de tanto descascar. – Misty, uma de meus commis, comentou, brincando.
– Vamos, que já é hora.
A cozinha, tirando os citados, era composta por mais dois chefs de partie, Lela e Edward, com seus respectivos demi chefs, Randall e Glen, além de Leonard, que era demi chef de Dan. Jake era um de meus cinco commis, junto de Misty, Rosa, Robert, Kimberly e Ellis. Guy era meu tournant, Peter era meu entremetier, Chery era minha saucier. Além deles, outras duas duplas compunham a equipe: Brianna e David, na função de patissier, e Arturo e Jamie, que eram communards. Juntos, nós éramos uma grande equipe de quarenta pessoas que faziam a realização do meu sonho funcionar.
A ideia de montar o L’uragano começou com um sonho de estudante e se transformou na aposta de uma vida. Vendi o carro, comecei a trabalhar em três lugares diferentes, deixava de dormir para dar aulas particulares... Foi assim que juntei um dinheiro e comprei o primeiro terreno do restaurante. Começamos em quatro na cozinha e três no salão. Então o movimento ficou muito bom e eu comprei o terreno ao lado, que por acaso estava à venda, e aumentei a equipe. Conforme ia crescendo, eu reinvestia o dinheiro do restaurante nele mesmo e, em sete anos de funcionamento, nós nos tornamos o restaurante italiano referência na Filadélfia. Se nós tínhamos algum italiano? Nenhum!
A coisa que eu mais gostava era ver a cozinha funcionando a pleno vapor com tanta gente dentro dela. Eu gostava da sensação de dever cumprido. Ali, entre aquelas paredes, nada podia faltar. Caso contrário, uma peça mínima poderia causar um transtorno enorme a todos nós. Mesmo assim, mesmo ali por sete anos, eu ainda não deixava de sentir o frio na barriga quando alguém avisava que o primeiro cliente do dia havia entrado.
– Acabaram de pedir um filé mignon muito bem passado. Meu Deus, estão estragando a carne. – Jessie resmungou.
– Já vi pedirem camarão bem passado, Jess, isso é o de menos.
– Não dá pra acreditar.
– Saindo um tiramisu. – David disse, perto da bancada.
– Nós precisamos botar caixas de música aqui. – Lela chegou perto de nós duas. – O que acham? Cozinhar escutando a voz maravilhosa de Bruce Springsteen cantando Dancing in the Dark? Olha... Eu mal imaginei, mas já estou toda arrepiada. Garanto que eu produziria bem mais dessa forma.
– Sossega, Lela.
Ela riu e voltou à sua bancada.
, pode preparar uma sobrecoxa pra mim? – Jake me chamou.
– Pra um educato?
– Isso.
– Pode deixar, vou começar.
... – Jessie apareceu de novo por perto e eu revirei os olhos. – Quando você e o Peter vão sair?
– Vai demorar. Provavelmente, no dia trinta de fevereiro.
– Você é tão grossa...
– Você que é cismada com coisas sem sentido.
– Sem sentido?! Já viu a forma como ele olha pra você? Tá caidinho de amores. Às vezes, não somos só nós, mulheres, que temos fantasia com patrões.
– Você precisa andar mais com a Alice, Jessie.
– Eu preciso nada. Ela tem todo o pudor que eu não tenho.
– Justamente.
– E eu sou feliz assim!
, o molho de maracujá... Tem um cliente diabético que pediu o salmão. Como eu faço?
– Jura?! – Perguntei a Chery.
– Foi o que Eugene escreveu na comanda.
– Surreal... Faz a redução só com o maracujá mesmo.
– Amido de milho?!
– Vai ficar horrível, Chery.
– Ok então, vou trabalhar nisso.
– Me chama se precisar de ajuda.
!
Que dia maravilhoso para se estar na TPM.
– Oi, Arturo.
– O que você acha que trocar o chocolate em pó por açúcar de confeiteiro em pó no cannolli?
– Todo mundo coloca açúcar de confeiteiro, é por isso que nós fazemos diferente aqui.
– Mas o gosto não fica ruim?
– Alguém já reclamou?
– Alerta vermelho! – Dan gritou. – , por favor, preciso de ajuda com os peixes.
– To indo.
Peguei a peça de atum mais fresca que tinha e comecei a preparar os cortes para que Dan tivesse um pouco de menos trabalho. Ao meu lado, a panela com os ovos que eu estava cozinhando para inventar uma salada nova começavam a ferver. Tentei cortar os atuns com a maior velocidade possível sem perder qualidade, mas nós estávamos a mil por hora e a possibilidade de sair dos trilhos começava a me parecer palpável.
– Aqui, Dan.
– Obrigado, você é um anjo.
– Todo mundo fala isso, mas ninguém me trata como se eu fosse um.
– Trata sim, você que não vê.
! – Jamie me gritou. – Heather pediu pra avisar que o cliente da mesa 57 quer conhecer a chef.
– Logo agora?! – Resmunguei. – Peça que aguarde um instante, eu já vou até lá.
– Vou repassar o recado.
– Alguém pode me arrumar três suportes para copos, por favor? – William gritou da porta da cozinha. – Por favor, eu estou atolado.
A resposta dele foi um completo silêncio.
– Gente, alguém podia ajudar! – Eu reclamei. – Jessie, assume o meu fogo. Vou levar os suportes pro William, me ajeitar e ir atender o cliente.
– Pode deixar, corre lá.
Eu saí correndo da dispensa com os suportes nas mãos e acabei nem vendo, desastrada que era, que tinha alguém no caminho. A trombada foi forte e eu caí para trás.
– Mil perdões, eu...
Quando nossos olhares se cruzaram, eu senti como se pudesse sair da terra. Eu estava sonhando?
– Meu Deus! – Coloquei as mãos na boca. – John! Quer dizer... Senhor Bongiovi!
– Tudo bem ficar só no John. Você tá bem? O tombo foi feio.
– E-eu... Eu to bem.
Minhas bochechas queimavam enquanto eu recolhia os suportes. Os olhos dele ainda estava travados em mim quando um homem de terno e gravata se aproximou.
– John, por favor, o Kirby precisa ir embora e tem que levar o contrato assinado.
Ele quase se despediu, o que me fez pensar: aquela reação toda era porque ele se lembrava de mim?
– Will, seus suportes.
– Muito obrigado, , você é um anjo na terra.
– De nada. – Respondi com um sorriso.
Fui até o vestiário e me chequei no espelho. A dólmã tinha ficado suja com um respingo de gordura que não consegui evitar, então eu a troquei rapidamente. Ajeitei os cabelos e a toque blanche. Respirei fundo, olhando para o meu reflexo. Odiava aquela parte, mas era por conta daquilo que eu estava com o restaurante em perfeito funcionamento.
– Heather, – Eu chamei uma de minhas atendentes. – mesa 57?
– Isso, chef. Eu te acompanho até lá.
Deixei que ela seguisse na frente, mesmo que eu conhecesse o caminho de cor. Quando estávamos bem próximas da mesa, Paul passou por mim e eu notei sua gravata deslocada. Eu o puxei por um segundo, em silêncio, ajeitei e deixei que ele seguisse seu caminho.
– Senhores, com licença. Como solicitado, essa é a nossa chef... – Heather começou a me apresentar.
. – A voz de mais cedo completou.
Ai, caralho.
– Vocês se conhecem? – Um terceiro homem na mesa perguntou.
– Não. – Eu murmurei, respondendo rápido demais.
– Na verdade, nos conhecemos naquele show do mês passado em Nova Iorque. Como vai, ? Bom te rever.
– Igualmente. – Disse, torcendo para minhas bochechas não estarem tão vermelhas quanto eu sentia que estavam e correndo para a minha postura profissional como um refúgio. – Mandaram me chamar. No que posso ajudar?
– John estava se declarando para a sua mozarella. – O engravatado disse.
– É muito bom, na verdade. – Ele completou. – Se você não se importar, gostaria de saber qual o seu fornecedor.
– Vou pedir pra minha gerente fazer a anotação e entregar a vocês.
– Além disso, quem faz o gnocchi?
– Eu faço a massa e meu chef de partie de gratinados faz, com seu assistente, a finalização. O molho é uma receita que eu inventei, na verdade, para quebrar o molho de tomate padrão.
– É a melhor massa que eu já comi na vida. Me lembra a comida que meu pai fazia quando eu era pequeno. – John disse. – E essa vitela... Não tenho palavras.
– Obrigada, muito obrigada.
– Bem, John, – O terceiro homem na mesa se pronunciou. – vamos liberar a senhorita que ela precisa trabalhar e não podemos atrapalhá-la. Obrigado por ter vindo até aqui, senhorita .
Eu acenei com a cabeça e virei para ir embora, sentindo um olhar queimando nas minhas costas, tanto quanto minhas bochechas queimavam. Em vez de seguir para a cozinha, fui direto para o escritório. Alice tomou um susto quando eu entrei de supetão e tranquei a porta imediatamente em seguida.
– Você não vai acreditar. – Eu murmurei.
– O que houve?
– Não sabe quem tá na 57.
– Se você não me contar, eu nunca vou saber.
– John Bongiovi.
– O quê?! – Alice gritou. – O John Bongiovi?!
– Sim. Ele.
Alice fechou o notebook, levantou da cadeira e deu a volta na mesa.
– Caralho, . Eu preciso ver com meus próprios olhos.
– Precisa nada. – Protestei. – Você pode ser minha melhor amiga, mas não é nada discreta e já basta o meu nervosismo de mico por hoje.
– Mas e ele? Olhou pra você, pelo menos?
– Alice, ele disse que meu gnocchi faz ele lembrar do pai cozinhando. E não tirou os olhos de mim. Inclusive, quando Heather ia me apresentar, ele falou meu nome.
– Então ele lembra de você.
– Eu pensei o mesmo. – Voltei a baixar o volume da minha voz. – Mas, mesmo que pareça loucura, preferi acreditar que não.


02

Nós só abríamos para almoço aos sábados e domingos. Eu, particularmente, estava vindo de uma semana cansativa. Na quarta, tinha ido visitar meus pais no distrito onde eles moravam, Conshohocken, uma viagem de oito horas, ida e volta, dirigindo. Quinta, participei de um workshop que durou quase o dia inteiro. Às sextas, nós passávamos bastante tempo no restaurante para preparar tudo para a chegada do fim de semana, até porque o movimento alto começava logo na noite desse dia. Graças a Deus, a prevalência de clientes no sábado foi altíssima e fizemos um bom serviço. Infelizmente – e não tinha jeito –, eu cheguei no domingo exausta.
– Tá de ressaca?
– Antes fosse. – Respondi Alice. – Os vizinhos tão com um bebê recém-nascido. Ele chorou a noite inteira, parecia que tava dentro do meu quarto.
– Que inferno, hein!
– Alguma coisa que eu precise saber?
– Não, nada. Eu queria saber se aquela questão da semana com o restaurante fechado pra reformular o cardápio vai acontecer mesmo.
– Vou sentar pra conversar com o pessoal depois do expediente pra ver o que eles acham.
– Tudo bem então. Acho que é só isso. – Alice deu as costas para mim, mas voltou. – Ah, a conta de luz chegou. Já tá paga e arquivada.
– Obrigada. – Sorri para ela e fui para a cozinha.
Todo mundo já tinha começado sem mim. Não era um bom exemplo que eu chegasse atrasada, mas meus funcionários me respeitavam. Todos me cumprimentaram brevemente enquanto eu me apressava para ficar por dentro de tudo o que já estava acontecendo. Parecia, em um primeiro momento, que eu era bem inútil, então dei a meia volta e fui verificar o salão.
– Gilbert! – Chamei meu maître. – Como estamos de reservas hoje?
– Para o almoço? – Ele perguntou e eu assenti. – Vinte e duas pessoas, no total. A noite está mais movimentada, teremos trinta e oito. Ah, e um aniversariante.
– Vou mandar prepararem o bolo.
– Na verdade, nós temos um problema. A caixa de som em cima da janela sul parou de funcionar.
– Tentaram consertar?
– Mexemos nos fios só, era o que sabíamos fazer. Mas com certeza não é falta de energia, eu acabei levando um choque.
– Tá tudo bem?
– Tá sim, sem problemas.
– Ok então, vou pedir pra Alice ver se um técnico consegue vir aqui ainda hoje. Mais algum problema?
– Não, chef.
– Se precisar, me procure na cozinha.
! – Paul me chamou e veio correndo até mim. – Queria saber se tá certa a minha folga na quarta.
– Tá, com certeza.
– E queria saber também se eu poderia faltar na terça.
– Problemas?
– Aniversário de casamento.
– Ah, claro. Sendo assim, sem problemas. Bom que eu economizo um pouco com o seu salário. – Brinquei e voltei para a cozinha, indo direto para a minha bancada.
Todo dia era como se fosse o primeiro. Quando comecei, fazia quase de tudo. Era surreal, pensando nos dias atuais, como eu tinha conseguido lidar com o começo do restaurante. Em alguns minutos, iríamos abrir as portas. E tudo seria perfeito, como sempre era no L’uragano.
– Primeiro pedido! – Robert gritou de perto da porta. – Edward, três filés de linguado. Dan, um gnocchi de mandioca com molho rosé. Peter, uma sopa de legumes.
– Vamos ao trabalho, galera! – Eu falei para estimular. – Arturo, pode preparar uma lasanha geral pra gente hoje?
– Claro, chef, já vou começar.
Com os meus chefs começando a ficarem ocupados, dei início à minha inspeção sobre os commis. Dos dez, trabalhavam só seis a cada turno e apenas cinco continuariam no mês seguinte, quando o período de experiência acabasse. E então eles poderiam ficar fixos por mais cinco meses e aprenderem o que conseguissem. Era uma parceria que eu tinha com a faculdade que eu havia frequentado: eles tinham para onde mandar os melhores alunos e eu tinha funcionários tão bem qualificados quanto eu tinha sido.
Já à noite, por conta própria, decidi preparar um gratinado de couve-flor. Era um prato que saía com frequência e Dan sempre ficava muito ocupado, então seria um favor que eu tomasse conta disso para ele. Fui até o nosso armário principal e puxei três dos menores refratários que eu tinha, para porções individuais. O problema é que minha pressão estava bem baixa, muito embora eu já estivesse começando a esquentar meu motor com o trabalho. Nem assim, eu fui suficiente para manter o peso nas minhas mãos e deixei as louças caírem. O barulho pareceu me acordar e eu arregalei os olhos.
– Ai, cacete.
– Tá tudo bem aí? – Lela surgiu.
– Tá, tá, eu só...
– Pode deixar, chef, eu limpo. – Gina veio correndo ao ouvir o barulho.
– Não, quê isso. Não foi culpa sua.
– Mas é minha função, não tem problema.
Ela praticamente me empurrou para longe. Estava sendo bloqueada na minha própria cozinha. Mas ok, vida que segue. O movimento no restaurante não ia parar só porque eu estava sendo um pouco desastrada. Então eu respirei fundo e decidi correr menos riscos.
– Stacey, traz três refratários para gratinados de pequena porção até aqui, por favor. – Pedi da minha bancada, sendo prontamente atendida.
Chef! – Shannon me chamou da bancada. – Tem uma cliente com um bebê bem pequeno, pediu pra perguntar se tem algo que possa ser feito pra ele comer que não tenha muito tempero, gordura ou qualquer outra coisa que não seja ideal para um bebê.
– Veja se ela aceita um purê de batatas.
– Ok, volto em um segundo.
– Ellis, por favor, já vá adiantando e descasque uma batata inglesa grande e corte em três.
– Sim, chef.
– Rosa, coloque em uma panela pequena duzentos e cinquenta mililitros de água e a mesma quantidade de leite.
– Sim, chef.
– Ah, e coloque um dente de alho com uma folha de louro também. – Falei. – Ellis, quando terminar, pode colocar a batata nessa panela. Fogo baixo, por favor. Alguém está precisando de alguma coisa?
Chef, – Randall me chamou. – sua panela tá queimando.
– Merda...
Era uma estupideza em mil níveis diferentes, a chef principal da casa estava fazendo a maior cagada possível a se fazer em uma cozinha. Corri para o meu destino, o que tinha deixado de lado por um momento e havia sido um desastre. Tirei o camarão de lá e derramei o conteúdo da panela em uma vasilha que Guy rapidamente trouxe para perto.
– Obrigada. – Disse a ele após sorrir.
Olhei o camarão por um segundo. Tirei a toque blance e passei a mão no cabelo por cima da rede. O ar estava funcionando muito bem, mas eu estava suando. Não era a minha primeira falta grave do dia. Pelo canto do olho, pude ver Jessie se aproximando.
, você precisa descansar. Deixa que eu vejo se dá pra salvar isso aí.
– Eu to bem!
– Vai pra casa. – Jessie insistiu. – Nós damos conta do serviço. O restaurante já tá começando a esvaziar, o movimento não tá muito grande...
– Tem certeza?
– É claro, chef, estamos aqui pra isso. – Dan disse.
Eu olhei em volta, a cozinha parcialmente parada enquanto eu decidia algo simples que estava tomando tempo demais.
– Ok então, nós nos vemos amanhã. Jessie, finaliza o purê. Quando as batatas cozinharem, esquenta creme de leite, joga elas lá e completa com manteiga de garrafa.
– Vou fazer isso.
– Se cuida, chef. – Leonard disse de sua bancada.
– E mande notícias. – Peter completou.
– Pode deixar, meninos. Boa noite pra vocês, obrigada pelo serviço.
– Boa noite, chef. – Eles responderam em coro.
Deixei a cozinha sorrindo. Fui até o vestiário rapidamente e troquei meu uniforme por uma calça jeans e regata simples. Peguei o casaco e joguei por cima do ombro, trancando meu armário logo em seguida. Ainda dei uma olhada para a cozinha. Estava realmente cansada, isso era fato, mas eu amava o que eu fazia. Ir para casa descansar, na minha linguagem, parecia até ofensivo.
Saí pela porta dos fundos, direto para o meu carro. Estava colocando minha mala com uniforme no banco de trás quando tive a estranha sensação de estar sendo observada. Senti a espinha gelar e puxei o ar, começando a pensar em como faria para me defender de seja lá quem estivesse por ali. O poste mais próximo tinha queimado na noite anterior e eu não sabia que ia ser tão prejudicial adiar a troca da lâmpada. Então eu recorri à minha última alternativa: rezar e continuar o que estava fazendo, ficar ali é que eu não podia. Mas quando eu me virei para ir até a porta do motorista, foi inevitável não pular de susto.
– Perdão, não queria te assustar. – Ele se aproximou a passos largos de uma que tentava recuperar o fôlego. – Você tá bem?
– Eu... Senhor...
– Juro que vamos ficar em maus termos se você achar que precisa me chamar de senhor Bongiovi de novo. – Ele brincou. – Eu realmente sinto muito pelo susto.
Respirei fundo, tentando encaixar as coisas nos devidos lugares.
– Tá tudo bem.
– Eu ia entrar, mas achei melhor esperar por você aqui fora, pra não atrapalhar o seu serviço.
– Aconteceu alguma coisa?
– Não, mas eu gostaria que acontecesse.
– O que houve? – Perguntei.
– Se não for muito incômodo... Seria muito presunçoso da minha parte chamar uma chef para um jantar?
O quê?! O meu cérebro entrou em parafuso nesse momento. Segundo susto da noite, confere.
– Eu... Eu acho... Eu não...
– Me desculpa pelo susto, eu realmente não quis te fazer mal.
– Tá tudo bem. – Repeti. – Desculpa, é que...
– Você tem alguém. – Ele concluiu.
– Não, não. É que... É que...
Eu não consegui terminar a frase. Estava suando frio. Tomei fôlego, trinta anos na cara e estava agindo como uma criancinha.
, pera aí! – Jessie saiu correndo pela porta dos fundos.
Quando viu o que estava acontecendo, paralisou no meio do caminho.
– Senhor Bongiovi! – Ela soltou, os olhos arregalados.
– Pode chamar de John, por favor. – Ele respondeu à minha frente.
– Claro. , desculpa, é que você... Você esqueceu o seu celular. – Ela falou e me esticou o aparelho.
– Obrigada, Jessie.
– Jessie?! – John, senhor Bongiovi, sei lá quem falou. – Jessie, posso te pedir um favor?
– Claro!
– Poderia convencer sua chefe a aceitar ir a um encontro comigo?
Jessie, então, arregalou os olhos. Abriu os lábios em um sorriso enorme e olhou para mim. Arregalou mais ainda os olhos e se virou para ele, finalmente.
– Ninguém convence a a fazer nada se ela não quiser, eu sinto muito.
E, com um sorriso educado, ela nos deixou sozinhos de novo, correndo de volta para dentro do restaurante. Eu estava completamente sem jeito, apertando o celular na minha mão e olhando para o chão.
– Por favor. – Ele murmurou para mim.
– Olha... – Minha voz saiu fraca, nem eu mesma reconheci. – Eu nem esperava que você se lembrasse de mim. Não devo ser a primeira que... Você sabe.
– É a primeira de quem eu corro atrás, eu juro.
Mais uma vez, inspirei com força, completamente aérea e sem entender o que estava, de fato, acontecendo.
– Eu vou estar fora da cidade por uns dias pra resolver umas pendências com um fornecedor em Nova Iorque, mas gostaria muito de te ver de novo.
– Eu trabalho à noite.
– Mas você tem que folgar de vez em quando, tenho certeza. – Ele insistiu. – Vamos, me passa seu número e a gente pode acertar uma noite em que nós dois estejamos livres. Por favor.
Meus ombros caíram e eu levantei o olhar para ele. Não estava acreditando. A vontade que eu tinha era de bater no meu próprio rosto para tentar ver se acordava. Quando aceitei sua proposta e comecei a digitar meu número em seu celular, só conseguia pensar no quão absurdo aquilo tudo parecia.
Antes de ir, ele deixou um beijo no meu rosto, demorado. Eu respirei fundo uma última vez, sentindo um perfume gostoso que com certeza vinha dele. John sorriu para mim e, então, se afastou, indo na direção do estacionamento dos clientes. Entrei no carro sem acreditar, e continuaria assim por um bom tempo. Então peguei no celular e abri o grupo de conversa que tinha com Alice e Jessie.


John Bongiovi pegou meu número
Ele quer sair comigo

J: Isso!

A: O quê???
A: Como assim?!
A: Jessie, do que você tá sabendo?

J: Diz que vocês se beijaram naquela hora
J: Por favor
J: Seria tão fofo...



Olhei para as mensagens, rindo de mim mesma. Sem responder, dei partida no carro e fui para casa.


03

John: Bom dia, como está?
John: Só queria te dizer que estarei de volta à Filadélfia no fim de semana
John: Devo ficar por uns vinte dias
John: Diga a data e eu escolho o lugar
John: O que acha?

Olhei as mensagens pela milésima vez no dia e guardei o celular no bolso rapidamente. Rosa vinha se aproximando com um ramequim em uma mão e uma colher de chá na outra.
Chef, pode dar uma olhada? É o molho pesto que a senhora havia pedido.
Peguei a colher e, enchendo-a razoavelmente, levei o conteúdo até a boca.
– Ficou ótimo, Rosa, pode colocar pra servir.
– Obrigada, chef.
– E esses sorrisinhos pro celular aí? – Jessie disse ao passar por mim, caminhando para a mesma bancada que eu. – Nem adianta negar que eu estou vendo desde que você chegou.
Olhei para os lados, checando se havia alguém nos vendo. Puxei o celular do bolso, abri o aplicativo e mostrei as mensagens para ela, que abriu um perfeito ‘O’ com a boca.
– Puta que pariu, .
– Que boca suja!
– É ele mesmo?
– Eu digitei meu número no celular dele naquela noite.
– Caralho...
– A boca, Jessie! – Ralhei.
– Ok, desculpa, mas você tem que me entender. Você é a mulher mais sortuda da porra... Eita, desculpa de novo. Você é a mulher mais sortuda da face da terra.
– Não sei se sou.
– E a mais chata também, porque veio agora com essa gracinha de não falar palavrão sendo que a sua boca é mais suja que a minha.
– Eu ainda sou a sua patroa e ainda posso te demitir.
– Duvido, você me ama e depende de mim.
Revirei os olhos com a amostra grátis de autoestima elevada. Peguei uma caçarola e joguei um pouco de azeite, adicionando cebola e alho moídos.
– Julie, pode me trazer os frangos que estão na bancada de descongelamento? – Pedi.
Chef, – Leonard me chamou. – queria saber se vamos abrir pro Natal.
– Tem planos, Leo?
– Na verdade, sim, mas vou ficar se precisarem.
– Você tem férias na casa. Se quiser, não posso impedí-lo. Mas vamos abrir sim, até que se prove o contrário, e sua ajuda seria de grande importância.
– Vou ficar então.
– Não leve isso como uma ordem, Leo.
– Não levarei. – Ele respondeu com um sorriso ao que Julie se aproximava com o que eu havia pedido.
– Obrigada, Julie. Você viu o que o Arturo e o Jamie estão fazendo pra gente hoje?
– Espaguete à bolonhesa, chef.
– Tá ok, obrigada, pode voltar pro que você tava fazendo.
Joguei o frango dentro da panela e mexi o suficiente para misturar bem o tempero. Adicionei duas flores de sal, meio litro de água e, abaixando o fogo, tampei a panela. Configurei meu timer para quinze minutos e passei as mãos nas laterais do meu avental.
– Robert, pode ficar de olho nessa panela aqui pra mim?
– Sim, chef.
– Eu vou dar uma olhada no salão e tirar meu tempo de janta. – Expliquei. – Quando o timer apitar, coloca em fogo alto e deixa fritar por dois minutos, mexendo bem. Só cuidado pra não desmanchar. Aí você tira do osso, daquele jeito que eu te ensinei na semana passada. Dá conta?
– Sim, chef, pode deixar.
– Jessie, você fica de olho no restante enquanto isso?
– Sem problemas, .
– Ok então, já volto.
Fui até a saída da cozinha para o salão e dei uma checada em todos. Parecia tudo em ordem, então deixei minhas coisas no vestiário e fui pegar meu prato na cozinha. Nós tínhamos uma saleta para refeições agradável, mas acabei pegando duas porções e fui para o escritório, acima do salão.
– Alice, abre aqui, por favor. – Chamei da porta, ao que fui prontamente respondida.
– Olha só, servida pela própria chef...
– Considere isso como um favor pessoal.
– Só pra eu ficar te devendo?
– Exatamente. – Brinquei e deixei os pratos em cima do aparador instalado especificamente para refeições no escritório. – Preciso de um conselho seu.
– Sabia que você não viria aqui de graça. – Ela riu e puxou a cadeira giratória para perto do aparador.
– Sobre aquilo que rolou... – Comecei, polvilhando o parmesão ralado por cima dos dois pratos. – Ele quer sair comigo pra valer. Não foi uma pegadinha.
– Você tá falando do John Bongiovi?
– Não é como se eu estivesse com vários caras de olho em mim ao mesmo tempo, né?
– Bem, você tá com o cara de olho em você. É suficiente por vários.
– Alice, você não está ajudando.
– Desculpa, desculpa... – Ela enrolou um pouco de macarrão no seu garfo e levou à boca. – Nossa, Arturo realmente caprichou hoje. Mas fala... O que você quer saber?
Dei de ombros e peguei um pouco do macarrão para mim.
– Ah, sei lá... Quero dizer, é John Bongiovi. O cara tem ex-mulher, filhos, todas as mulheres do mundo, de todas idades, são afim dele...
– Mas ele tá afim de você, por algum motivo. Ele podia estar indo atrás de qualquer uma, mas ele ficou esperando você sair do trabalho aquele dia, sabe-se lá por quanto tempo.
– Quem me garante que ele já não fez isso outras vezes?
– Eu não disse que ele não fez, – Alice argumentou. – até porque ele deve ter feito sim, mas o que eu quero dizer é que é em você que ele colocou o olho. Se fosse só pelo sexo, ele não se esforçaria tanto. Um homem do naipe dele consegue transar com quem bem entender.
– Justamente!
– Ou seja, ele tá afim de você mesmo.
– Não sei, Ali... – Murmurei, passando uma mão nos cabelos.
– Qual o motivo desse repentino surto? Achei que você tinha deixado esse assunto pra lá por enquanto.
– Ele me mandou mensagem hoje cedo, antes de eu vir pra cá.
– Falando o quê?
Poupei meu trabalho e desbloqueei o celular para que ela mesma visse.
– E você não respondeu?! – Alice arregalou os olhos. – , você tá louca?
– Você lembra que é sobre John Bongiovi que estamos falando, não lembra?
... – Ela se levantou, exasperada, e andou de um lado para o outro, dentro do limite do escritório. – Cara, se você não responder essa mensagem, eu vou. Dane-se quem ele é. Você tem noção do homem que está interessado em você?
De repente, a minha fome acabou. Eu me peguei olhando as mensagens de mais cedo e fiquei perdida lá, as encarando por um bom tempo. Comecei a digitar mil respostas diferentes, mas nenhuma delas pareceu boa. Enquanto minha comida esfriava, eu fiquei pensando no que falar.

Boa noite

Finalmente comecei a digitar.

Estou bem, obrigada por perguntar
O restaurante não abre às segundas

Seja mais simpática,
, pensei imediatamente.

E você, como está?

– Mensagem enviada? – Alice perguntou.
– É... – Murmurei. – Acho que sim.
– Agora nós podemos comer? Porque eu estou faminta.
Meu celular vibrou em cima da mesa, fazendo um barulho relativamente alto. Alice tentou pegar o aparelho antes de mim, mas eu fui mais rápida e puxei ele para longe de suas mãos curiosas.
– Você nem sabe quem é!
– Tenho certeza de que é ele.
– Tá falando besteira.
– Aposto dez pratas que é ele, esperando ansiosamente pela resposta da sua amada. E olha que ele respondeu bem rápido!
– Aí eu abro e é minha mãe mandando aqueles vídeos de igreja que eu não aguento mais fingir que vejo.
– Sua mãe tá dormindo a essa hora.
– É bem provável mesmo.
– Você tá enrolando e não tá abrindo a mensagem.
– Privacidade, por favor? – Pedi, me levantando e indo para um canto, ficando contra a parede.

John: Estou bem também, ansioso para voltar
John: Segunda está ótimo para mim
John: Posso te pegar às sete?
John: Me passa seu endereço
John: Tenho um bom lugar em mente
John: Prometo que você vai gostar

Metade do meu coração estava derretido, a outra metade estava revirando os olhos, incrédula.
– Falei que era ele! – Alice gritou. – Dez dólares!
– Eu não apostei nada. – Respondi, contendo uma risada, e peguei o celular para digitar uma reposta.

Às sete está ótimo
Moro na esquina da Chestnut com a S Front
O que devo vestir?

– Acho que tenho um encontro na segunda com John Bongiovi.
– Segunda agora? – Ela perguntou e confirmei com a cabeça. – Caralho!
– Meu Deus, pra você xingar, deve ser algo de altíssima importância.
– Claro que é, minha melhor amiga vai sair com John Bongiovi! Tenho que ir contar para a Jessie.
– Não vai contar nada pra Jessie agora. – Ralhei. – Do jeito que ela é, vai fazer um estardalhaço na cozinha e aí todo mundo vai ficar sabendo. Não preciso desse tipo de atenção agora, obrigada.
O celular vibrou de novo e eu me peguei olhando para ele mais rápido do que o normal.

John: Algo caseiro, não se preocupe com detalhes
John: Vista algo que te faça sentir confortável

Poderia ser mais específico?

John: Me permite fazer surpresa?

Sim, só quero estar preparada

John: Jeans e camiseta serão suficientes

Você tem certeza?

John: Tenho
John: Não se preocupe
John: Tenho certeza de que você ficará bem vestida para o que tenho em mente

– Eu não teria tanta certeza... – Murmurei para mim mesma.
– O que houve?
– Ele tá sendo todo misterioso sobre o lugar onde vai me levar. To com medo de não me vestir direito.
– O que ele disse?
– Jeans e camiseta.
– Então vista jeans e camiseta, .
– Deus... Eu não deveria estar me metendo nessa.
– Ele tá respondendo rápido, tá sendo misterioso sobre o primeiro encontro de vocês... Puro romantismo!
– Nós já tivemos um primeiro encontro, Ali, e ele me comeu nele.
– Olha a boca!
Revirei os olhos.
– Era só o que me faltava, você chamando a minha atenção!
Terminei de comer quase em pé, já que tinha perdido metade do meu intervalo trocando mensagens com John Bongiovi. Eu ficava repetindo o nome na minha mente, como se aquilo fosse tornar a situação menos difícil de se acreditar. Desci para a cozinha às pressas também, mais pela necessidade de ocupar a minha mente do que, de fato, pela necessidade da minha presença lá.
O resto do expediente ocorreu de forma tranquila, não costumávamos ter muito movimento às quartas. Só de não sairmos no prejuízo por abrirmos já era muito bom. Não que isso fosse frequente. Podia contar nos dedos as vezes em que abrimos e os clientes foram suficientes apenas para ficamos no 0 a 0 entre gastos e ganhos. Fechamos a conta diária no negativo duas vezes desde a abertura, ambas por conta de condições climáticas desfavoráveis. Em uma delas, nós tivemos que ficar esperando a noite inteira até que fosse seguro sair. Por sorte, naquele dia, a lavanderia tinha feito entrega e estávamos lotador de toalhas limpas, então dobramos algumas e organizamos travesseiros com elas. Na época, nossa equipe tinha vinte pessoas. E éramos os vinte espalhados pelo salão, dormindo aleatoriamente, enquanto eu agradecia a Deus por ter feito o restaurante no alto, impedindo, dessa forma, a água da enchente lá fora de entrar no meu estabelecimento e arruinar mais do que simplesmente um expediente.
A parte mais legal de ser dona e chef era observar a cozinha em funcionamento quando eu não estava lá. Costumava fazer isso com frequência, quando queria espairecer um pouco. Ver o funcionamento em perfeita ordem, ainda mais quando o ritmo estava acelerado, era divertido.
Chef, – Ouvi me chamarem da porta da cozinha, era Omar. – Gilbert pediu pra avisar que o prefeito fez reserva pra ele e a esposa na sexta à noite, aniversário de casamento.
– Ok, Omar, obrigada. Todos ouviram?
– Sim, chef. – O coro ressoou pela cozinha.
– Ótimo. Quem vier sexta, traga o seu melhor de casa então.
Fui para a minha bancada e comecei a preparar três costelas de cordeiro para marinar e servir no dia seguinte. Havia um tempero que eu aprendera com um dos meus professores favoritos sobre o qual jurei guardar segredo, e o tempero da costela era o caso. Exigia um bom tempo marinando e só eu podia fazer aquela receita, então me ocupava um bom tanto. No mais, eu simplesmente terminei o que tinha que fazer e assisti, satisfeita, enquanto o restaurante ia esvaziando. Já era quase uma hora da manhã quando o último cliente saiu e eu me troquei correndo.
– Jason, pode carregar a máquina de lavar louça, não precisa ser na mão.
– Mas, chef, os pratos vão ficar foscos.
– Não tem problema. Um dia só, ninguém vai notar. Falta alguém finalizar?
– Eu vou só terminar de checar a planilha do caixa, , acho que deu algum problema no software. – Alice anunciou. – Pode ir que eu fecho o restaurante.
– Tem certeza?
– Tenho sim.
– Ok então.
Joguei minha bolsa por cima do ombro e fui me encaminhando para o meu carro.
! – Alice me gritou quando eu já estava perto da porta de saída.
– O que houve?
– Meus dez dólares!


04

Estacionei o carro em uma vaga perfeita. Alice desceu do banco do passageiro, Bruce, seu irmão, do banco e trás e eu, do banco do motorista. Bruce era designer de interiores e estava nos acompanhando para uma breve pesquisa. Eu estava querendo mudar algumas coisas no restaurante mas, primeiro, deveríamos analisar os prós e os contras. E o maior contra era, definitivamente, o preço a ser pago por aquela mudança. Bruce, por sorte, estava ali como amigo, sem cobrar nada, por enquanto.
– Sabe o que eu adoro na Macy’s? – Bruce começou a falar. – Os aparelhos de jantar!
– Os utensílios de cozinha da Martha Stewart são muito bons também, e são bem mais baratos dos que os de marcas mais conhecidas.
– Você já tem utensílios de cozinha suficientes para três vidas! – Alice protestou. – Não viemos para ver tons de toalha que possam inspirar o Bruce?
– Talvez eu compre algumas coisas lá pra casa... – Observei.
– Ah, então tudo bem, porque não é problema meu se não sair do caixa do restaurante.
Estava olhando a vitrine de carteiras e, por mais que estivesse ciente de que Alice e Bruce haviam seguido para o setor desejado, fiquei checando os modelos disponíveis, porque realmente estava querendo comprar uma nova para mim. Enquanto isso, o telefone vibrou no bolso. Meu primeiro palpite seria alguém do restaurante, mas fui surpreendida e, como resultado, acabei abrindo um sorriso espontâneo.

John: Oi
John: Acabei de chegar em Philly
John: Sei que estamos de compromisso marcado para segunda
John: Mas seria muita presunção minha pensar que poderíamos adiantar para hoje mesmo e, então, fazer algo diferente segunda?

Olhei para os lados, estranhamente com medo de que houvesse alguém por perto que pudesse ler a resposta que eu digitaria.

Oi!
Obrigada pelo convite, mas não posso
É sexta
Preciso tomar conta do restaurante

! – Alice voltou até onde eu estava e começou a me puxar pelo braço. – Você tem essa péssima mania de parar no meio do caminho quando quer ficar no celular. Vou começar a te tirar o aparelho quando viermos na rua.
Eu apenas ri.
– Não reagiria assim se soubesse com quem eu estava falando.
Ele?!
– O próprio.
Alice suspirou, diminuindo o passo.
– Estamos parecendo adolescentes de novo, e eu gosto da sensação!
– Não sei se gosto esse mesmo tanto.
– Ah, ! – Ela resmungou. – De novo com esse papo? Você tá solteira, mulher, vá se divertir! O pior que pode acontecer é dar errado e o melhor... Bem, depois você descobre. Só não fala isso pro meu irmão porque você sabe que ele tem uma quedinha por você e...
– Bruce sabe que nunca vai rolar alguma coisa entre a gente, Ali.
– Será que sabe mesmo? Porque ele não faz consultoria gratuita nem pra nossa prima, mas faz pra você.
Revirei os olhos e decidi não prolongar mais o assunto, já que estávamos chegando perto do seu irmão. Ele estava perto de uma prateleira com diversos pratos e apontou para uma com desenhos azuis nas laterais.
– Com tons de cinza variáveis para as toalhas, ficaria um bom conjunto. Imagina trocar aquele papel de parede por um branco gelo. – Bruce sugeriu.
– Pode até ficar bonito, mas é muito dinheiro de uma vez.
– Bem, o dinheiro seria gasto com as toalhas e os pratos, do meu ponto de vista. Podemos reaproveitar os lustres e só pintar de preto com uma tinta em spray fosca. Ficaria bom, não ficaria, ?
– É, talvez. – Alisei um dos pratos. – Quanto aquele seu amigo cobraria pra fazer as artes nos pratos que já temos?
– É desse tipo de economia porca que eu gosto! – Alice brincou.
Bruce puxou o celular do bolso e tirou uma foto no exato instante em que eu senti meu celular vibrar também.
– Vou enviar para ele e pedir um orçamento. Vamos ver se conseguimos inspiração pras toalhas?
Eu assenti e fui caminhando atrás deles. Puxei o aparelho do bolso e fui checar o que havia chegado.

John: Um almoço hoje então

Já tenho compromisso para almoço hoje, mas obrigada pelo convite

Como ele estava online, fiquei esperando a resposta.

John: Bem, sinto muito por incomodá-la então
John: Pelo menos, segunda está confirmado?

Eu sorri com as mensagens.

Não está incomodando
Eu já estou na rua, na verdade
Com uma amiga
Vamos almoçar juntas e, depois, nós já vamos para o restaurante

John: É aquela amiga do outro dia?

Não
Essa é outra

Eu estava consciente de que, em algum lugar, meu nome estava sendo chamado.

John: Posso passar no restaurante quando você estiver saindo

Meu Deus, esse homem realmente quer me ver
, pensei imediatamente.

Vou sair bem tarde
Não precisa se incomodar
Eu realmente acho melhor esperarmos pela segunda
Assim, teremos tranquilidade
Eu vou...

Minha digitação foi interrompida por uma pancada forte em uma das colunas gigantescas da loja. Alice estava metade rindo e metade furiosa. Mais uma vez, fui puxada pelo braço.
– Se John Bongiovi continuar atrapalhando assim, vou ser forçada a tomar uma atitude drástica!
Nós terminamos a visita à loja, almoçamos em um restaurante self service ao lado, deixamos Bruce em sua casa e fomos para o restaurante. Jessie tinha chegado mais cedo e já começara o serviço. Eu joguei uma ducha no corpo no vestiário para funcionários, me vesti e fui checar o celular antes de deixá-lo no meu armário para não correr o risco de me distrair.

John: Se estou dizendo que passaria no restaurante, é porque eu gostaria e não me incomodaria, não acha?
John: Me diga que horas vocês devem fechar
John: Por favor
John: A não ser, é claro, que não queira me ver

Eu sorri sozinha e fui até o banco próximo dos armários, me sentando e encarando o celular enquanto decidia o que iria responder.

Fechamos entre uma e duas da manhã

Por dentro, eu estava me tremendo de felicidade como se fosse uma menininha. Meu próprio subconsciente tentava me sabotar e me convencer de que aquilo era um sonho ou um farsante. Mas eu havia vivido aquilo! Eu havia estado com ele na noite após o show, eu havia recebido elogios seus no restaurante, eu havia sido aguardada por ele no estacionamento após o expediente... Parecia retardada mental só de pensar em me fazer de difícil. Não era como se eu quisesse estar em um relacionamento também, mas... Era John Bongiovi!

John: Espere por mim

Sorri mais uma vez e fiquei olhando para o celular. De repente, percebi que não estava mais sozinha.
– Boa tarde, chef. – Edward falou baixinho, quase incerto sobre interromper meu momento.
Tratei de disfarçar e acabei enfiando o celular no bolso da minha calça, sob o avental.
– Boa tarde, Ed. – Eu o cumprimentei e saí do vestiário.
Prendi o cabelo com o elástico, depois com a touca e, por fim, com a toque blanche. Como padrão, chequei o salão antes de ir para a cozinha. Gina e Stanton estavam limpando uma das maiores janelas. Acabei optando por não os interromper e segui meu caminho.
– Boa tarde, mademoiselle.
– Boa tarde, Jessie. – Respondi e fui direto para a minha bancada.
– Será que hoje você consegue se concentrar em mais cozinha e menos Bon Jovi?
– Você vai usar isso contra mim até que dia?
– Até o século acabar! – Jessie abriu uma gargalhada. – E olha que o Ellis ainda levou a sério os seus quinze segundos. Deve estar se perguntando o que fez de errado até agora, coitado.
– Foi uma troca simples de palavras, Jessie, não é nada demais.
– Quinze segundos pra quinze minutos tem quatorze minutos e quarenta e cinco segundos de nada demais. Além disso, quer que eu comece a enumerar as falhas que você anda cometendo? Você errou o sal do arroz negro! Eu nunca te vi errar o sal de nada, mas o do arroz...
– Você não está ajudando, Jessica! – Ralhei.
– Vou te pentelhar até saber todos os detalhes sórdidos do que você e o senhor Bongiovi-pode-chamar-de-John-por-favor andam conversando.
– Não estamos conversando nada.
– Ali disse que você trombou em uma das colunas da loja mais cedo. – Jessie voltou a rir. – Eu realmente estou perdendo toda a diversão.
– Eu ainda posso te demitir.
– Mas não vai porque você não vive sem mim, já te disse isso.
Lela e Edward entraram na cozinha, seguidos por Peter, Guy e David. Todos me cumprimentaram e seguiram para suas respectivas bancadas para começar a preparar parte do mise em place enquanto os commis não chegavam. Foi quando me lembrei de um detalhe importante.
– Jessie... – Voltei a chamar minha amiga, que se aproximou. – Você viu, por acaso, a escala de quem tá escalado pra trabalhar hoje? Passei direto pelo quadro e acabei nem reparando.
– Dos iniciantes? – Ela perguntou e eu assenti. – Jake, Mercedes, Kimberly, Misty, Ellis e Robert. Eu acho. Mas é novidade você não olhar, já que você gosta de ter eles sobre controle.
– Eu realmente to com problemas, Jessie.
– E seu problema é uma delícia, devo acrescentar.
– Não estou falando disso e você sabe bem!
– Ah, sim. Esqueci da desculpinha esfarrapada do “meus pais estão sofrendo da síndrome do ninho vazio”.
– Jessie!
– Ah, , qual é! Seus pais já são bem crescidinhos, e você também, então essa história de só estarem sentindo saudade de você agora, anos depois de sair de casa, não cola. E depois você vem com papinho de “é impossível que John Bongiovi esteja realmente afim de mim”. Foda-se. Impossível ou não, ele vai sair com você na segunda.
– Com tempo suficiente para cancelamentos até lá.
– Você é tão negativa que me dá nojo.
– Estou sendo apenas...
– Se você falar ‘realista’, eu te bato, .
Chef, com licença. – Omar se aproximou sem que nós duas víssemos. – Eu sinto muito, mas a senhora pode me liberar por hoje? A irmã mais velha da minha esposa está sumida há mais de trinta e seis horas e as coisas em casa estão... Bem, não estão boas.
– Meu Deus, Omar... – Murmurei. – Claro, pode ir. Negociamos quando você vai repor esse dia quando tudo se resolver. Boa sorte!
Ele assentiu e se afastou correndo para fora da cozinha.
– Ótimo, menos um. Vou ligar pro Eugene e ver se ele pode vir hoje. Logo na sexta à noite...
! – Jessie me chamou mais uma vez, já na parte da bancada que dizia respeito a ela.
– Olha, se você for fazer mais brincadeiras, eu juro que...
– Só ia dizer pra você ficar tranquila. – Ela deu de ombros. – Você tá nessa há anos, vai dar conta.
Fiquei ali, estática, por alguns segundos. Respirei fundo e, enquanto o restante da equipe ia chegando, me recompus. Olhei para o belo corte de filet mignon de carne de bufálo que Mercedes havia levado para mim e me conscientizei de que o serviço precisava começar. Cerca de quatro horas depois, o restaurante recebeu o seu primeiro cliente e, como era de se esperar em uma sexta à noite, o movimento se intensificou antes mesmo de nós percebemos.
– Uma bruschetta al pomodoro, dois tortellini de Bologna e um carpaccio de linguado. Mesa dez. Essa é importante, galera. – Linda anunciou.
– É a do representante da Porshe? – Perguntei.
– Não, esse é da mesa 26 e ainda não fez o pedido, só drinks por enquanto. E a mesa é do Monty.
– Pede pra ele especificar, por favor, quando vier trazer o pedido.
– Sim, chef.
– O carpaccio da dez é meu. – Anunciei. – Estamos tranquilos com o resto?
– Sim, chef. – O coro que eu mais amava ouvir na cozinha ressoou.
Como tudo esquentou muito rápido, eu nem percebi o tempo passando. Só fui notar que o movimento estava diminuindo quando tive uma pausa longe e pude olhar o relógio. Já passava de uma hora da madrugada. Fui até a divisão da cozinha e esperei até que a primeira pessoa vinda do salão de aproximasse.
– Ei, Paul! – Chamei-o. – Como estamos de clientes?
– Faltam quatro mesas, chef. Uma ainda não pediu.
– Que merda...
– Estou fazendo o possível para não pressioná-los, mas a senhora sabe como é.
– Sei sim. Gilbert já fechou a entrada?
– Já.
– Então perfeito. Se vocês chegarem a um acordo, pode mandar dois pra casa já. Vou começar a dispensar o pessoal da cozinha aos poucos também.
– Sim, chef. Ah... – Ele parou e tirou algo do bolso. – Quase me esqueci. Gilbert pediu pra entregar, parece que deixaram aqui especialmente para a senhora.
Arqueei a sobrancelha enquanto recebia o pequeno papel em minha mão. Paul se afastou e eu abri, desdobrando-o. A caligrafia era uma bagunça, mas a mensagem era clara.

Tive problemas e não pude ficar.
Espero que compreenda e me perdoe.
Achei melhor não mandar uma mensagem.
Quem sabe um texto escrito à mão me ajude a te conquistar?
Deixe de ser difícil =D

J.


Eu voltei para dentro da cozinha tentando conter minha excitação, mas estava certa de que um sorriso bobo habitava meu rosto. Quanto mais eu tentava crescer barreiras à minha volta e me agarrar na teoria de que aquilo era algo estúpido no qual eu não deveria botar esperanças, mais John Bongiovi as derrubava.
– Jamie, Arturo... – Chamei meus dois communards. – Philly Cheesesteak pra todo mundo amanhã no almoço. Dois pra cada!
O pessoal comemorou na cozinha. Era o prato favorito quase em unanimidade dentre os quais nossa dupla preferida costumava fazer. Se eu estava feliz, queria que minha equipe também estivesse.


Continua...



Nota da autora: Eu nem sei o que dizer, sinceramente. O retorno que eu to tendo nos comentários dessa fic de uns dias pra cá tem deixado meu coração quentinho e eu sou eternamente grata a quem tá tirando um tempinho pra deixar sua opinião aqui embaixo. Sintam-se livres para continuarem, a autora fica bem feliz assim hahaha E a pedido de algumas leitoras, estou deixando, aqui embaixo, os significados dos termos usados na fic. Se aparecerem termos novos, vou atualizando. Caso vocês notem outros termos que não estão aqui, por favor, avisem nos comentários porque pode ter passado batido. Mais uma vez, muito obrigada e nos vemos em breve!





DICIONÁRIO:

- Chef: cozinheiro superior a todos na cozinha, quem comanda tudo;
- Chef de partie: chefe de estação, cuida de partes específicas (as estações, exemplo: estação de massas, estação de grelhados, etc...);
- Commis: iniciante/aprendiz, ainda não possui função fixa na cozinha;
- Communards: cozinheiros responsáveis por preparar as refeições da equipe;
- Demi chef: assistente de estação, são os assistentes dos chefs de partie;
- Entremetier: faz refeições menos complexas/menos pedidas como sopas, vegetais ou tira gosto;
- Maître: recepcionista do restaurante;
- Patissier: cozinheiro responsável pelas sobremesas;
- Saucier: cozinheiro responsável por preparar molhos;
- Sous chef: subchefe, é o segundo em comando, abaixo apenas do chef;
- Toque blanche: é o chapéu que chefs utilizam no uniforme completo;
- Tournant: é um cozinheiro 'coringa', pode substituir os outros em caso de emergência.





TODAS AS FANFICS DA AUTORA:

All Roads Lead to You [Supernatural - Em Andamento]
Badges and Guns [Henry Cavill - Em Andamento]
Don't Tell My Ex [Henry Cavill - Em Andamento]
I Don't Want Somebody Like You (I Only Want You) [McFLY - Em Andamento]
In the Eye of the Hurricane [Bon Jovi - Em Andamento]
Move If You Dare [McFLY - Shortfic]
No Angels [Supernatural - Em Andamento]
Para Ter Você Nos Meus Braços [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic]
Por um Acaso do Destino [Clube de Regatas do Flamengo - Em Andamento]
Traded Nightmares for Dreaming [McFLY - Em Andamento]
Tudo por um Gol [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic]


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