Última atualização: 10/08/2020
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Prólogo

Ele estava apontando para mim? Ele estava mesmo apontando para mim?
– Vamos, suba aqui. Alguém a ajude, por favor.
Um segurança próximo fez sinal para que o público se afastasse e abrisse caminho. Ele esticou a mão para mim e dois homens próximos à grade me ajudaram a pegar impulso para pular por cima dela. Logo depois, o mesmo segurança se juntou a um colega para me dar impulso suficiente para subir no palco. John Bongiovi estava logo acima, estendendo a mão para me ajudar e com um sorriso no rosto. Ele me puxou para um abraço e praticamente me empurrou até onde estava o pedestal com o seu microfone.
– Seu nome e de onde você é.
, e eu sou da Filadélfia. – Respondi e o público ovacionou, fazendo as palpitações no meu coração aumentarem cada vez mais.
– Tá brincando? – Ele disse, do outro lado do microfone. – Eu deveria ter reconhecido, só as mulheres da Filadélfia são tão maravilhosas assim.
Minhas bochechas coraram. John Bongiovi era galanteador, ainda mais depois de se divorciar, isso era de conhecimento público. Seria idiotice minha dizer também que nunca tinha imaginado aquele momento. Mas, mesmo nos meus melhores sonhos, ele não era tão receptivo assim.
– Vamos lá, vou fazer algo que nunca fiz antes. Me diga a sua música favorita.
Nem precisei pensar muito.
Bad medicine.
– Mas essa nós já vamos tocar. Vai facilitar pra gente?
Eu dei de ombros, completamente sem jeito.
– Pode ser. – Respondi, fora do microfone.
– Então tá. – Ele fez sinal para Tico, na bateria.
A banda começou a música enquanto eu ainda estava no meio do palco, completamente perdida. Parecia a menininha que era, dez anos atrás, no meu primeiro show do Bon Jovi. Meus pais eram extremamente religiosos, não gostavam nada da filha desgarrada que tinham. Eu tinha acabado de fazer vinte e um anos, estava do outro lado do estado para cursar meu bacharel em Gastronomia pela The International Culinary School no Art Institute of Pittsburgh. Longe de casa, eles não tinham controle nenhum sobre mim. Então juntei os trocados que conseguia com os meus serviços de fotografia e encomenda de pratos diversos, comprei um ingresso e lá fui eu, no dia 6 de dezembro de 2005, para uma das melhores noites da minha vida.
De repente, John Bongiovi me tirou dos meus devaneios ao me puxar pela mão, já no terceiro refrão. Olhava fundo nos meus olhos e carregava consigo um enorme sorriso simpático.
Your love is like...
... bad medicine! – Completei quando ele me ofereceu o microfone, concluindo que devia ter bebido mais cerveja do que deveria para fazer aquilo na frente de aproximadamente vinte mil pessoas que lotavam o Wells Fargo Center naquela noite.
Bad medicine is what I need. – Ele continuou e deu a volta em mim, me girando com a mão sobre a minha cabeça.
John – eu poderia chamá-lo apenas de John? – então deixou que a banda terminasse o refrão e me puxou para o exato centro do palco novamente. Não levou muito tempo para que o solo de guitarra de Phil X começasse. John então me puxou pela cintura e colou meu corpo ao seu, mantendo uma postura de dança de salão e me conduzindo com incrível habilidade pelo espaço aberto no palco, sob a observação atenta de seus companheiros de banda.
– Vou deixar essa parte pra você. – Ele gritou por cima da música no meu ouvido.
– Eu não sei cantar. – Devolvi.
– Não tem problema.
Ele praticamente jogou o microfone na minha mão. Instantaneamente, o álcool todo foi sequestrado para o meu tecido nervoso e eu comecei a me animar. Até demais. Eu só torcia para todos os anos de treino no chuveiro e atrás do volante valessem a pena.
I need a respirator, cause I’m running out of breath. But you’re an all night generator wrapped in stockings and a dress.
John saiu de perto da bateria com um outro microfone na mão e se juntou a mim na minha cantoria atrapalhada.
When you find your medicine, you take what you can get, – Nós cantamos juntos, seu rosto bem próximo ao meu, o nível de extâse subindo vertiginosamente. – cause if there’s something better, baby, well, they haven’t found yet.
Eu tinha morrido e ido pro céu? Se não era isso, parecia muito. Eu estava no paraíso. Estava dançando com John Bongiovi em cima de um palco ao som de Bad medicine. Parecia inacreditável para uma mesma de dez minutos antes. Mais inacreditável ainda quando ele tomou o microfone da minha mão – em um primeiro momento, cheguei a pensar que fosse arrogância dele – e me puxou para um beijo. Não era novidade John Bongiovi beijar fãs, mesmo antes de se divorciar da mãe dos seus filhos, mas... Puta que pariu! Era daquele jeito mesmo?
– Vão te levar pro backstage agora. – Ele disse bem próximo ao meu ouvido, o hálito dele deixando claro que eu não era a única a encher a cara naquela noite. – Pergunta pelo Andy Miller. Ele vai saber o que fazer.
Oi?!
Antes que eu pudesse dar conta de raciocinar e perguntar o que ele queria dizer com aquilo, um dos seguranças veio até o palco e me conduziu educadamente até a lateral do mesmo. We got it going on começou a tocar logo depois, o riffle de baixo do qual eu tanto gostava de ouvir nos meus melhores dias.
– A senhorita pode permanecer aqui ou descer novamente para a plateia, se for da sua vontade. – O mesmo segurança que me buscou disse a mim.
Então as palavras de John Bongiovi ecoaram na minha cabeça, a curiosidade já estava instaurada e minha língua foi, novamente, mais rápida que o meu cérebro.
– Andy Miller. – Eu falei. – Ele me pediu pra procurar um tal de Andy Miller.
– Vou trazê-lo até você, um instante.
Assenti enquanto o observava se afastar e, logo depois, voltava minha atenção para o palco, onde a banda continuava com uma performance incrível. Em torno de quarenta minutos depois, eu estava me atracando com John Bongiovi em seu camarim.
Não dissemos nenhuma palavra. O tal Andy apenas me levou até um corredor quando o show terminou. Ele veio andando até mim com passos apressados e praticamente me empurrou para dentro da sala escura. Não vi como ele conseguiu trancar a porta sem descolar de mim. Parecia voraz em cada movimento, desde o jeito como ele me prensou contra a parede até a forma como suas mãos pressionavam cada centímetro do meu corpo. Tinha lábios experientes, isso era inegável, e sabia usá-los com maestria. Cada pegada me levava para um lugar diferente e eu estava a ponto de enlouquecer nas mãos dele. Queria acreditar que aquilo era verdade em cada segundo enquanto o álcool ia embora lentamente do meu corpo.
Menos de uma hora depois, ele me levou até um SUV de vidros totalmente pretos, dispensou os seguranças e dirigiu comigo até o motel mais próximo. Fez questão de me tratar com o máximo de educação possível, ao mesmo em que não tinha o menor pudor de me explorar o tanto que eu permitia. Eu não tinha a mínima ideia do que estava fazendo e, com os lábios de John Bongiovi colados na minha pele, eu só conseguia pensar no quão insano estava sendo aquilo tudo.
Na manhã do outro dia, eu acordei com um braço pesado sobre a minha barriga e um barulho grave e baixo de um ronco em meu ouvido. Olhei para a cena, para o quarto, e as memórias deram um soco na boca do meu estômago. Tentei fazer o mínimo de movimento brusco possível enquanto me desvencilhava dele. Busquei as roupas pelo chão, vesti tudo prezando pelo silêncio. Juntei tudo o que tinha meu ali e, mexendo na porta com muito cuidado, saí quase correndo pelo estacionamento externo. Por sorte, um táxi estava passando na frente. Não ia pensar muita boa coisa de mim mas, de qualquer forma, eu ainda estava tão atordoada pelo que tinha acabado de acontecer que nem estava ligando.


01

– Bom dia! – Entrei gritando no restaurante.
– Bom dia, chef. – Meus funcionários responderam, mas eu fui mais rápida e captei a diferença no olhar.
– Onde tá a Mercedes?
– Atrasada, chef. – Jake me respondeu. – Um ônibus bateu no carro dela.
– Meu Deus! Ela tá bem?
– Tá sim. Ela disse que, assim que resolver com a seguradora, vem pra cá de qualquer forma.
– Ok, tudo bem por hoje, até eu estou atrasada com esse tempo louco aqui. Alguma coisa que eu deveria saber?
– A lavanderia atrasou a entrega das nossas toalhas. – Randall disse.
– Os Smith falharam com a entrega dos peixes mais uma vez. – Leonard tomou a frente. – Eu já cuidei disso e providenciei peças frescas pra hoje, mas sugiro que a senhora mude de fornecedor nesse caso.
– Obrigada, vou sentar com Alice e conversar sobre isso mais tarde. Mais alguma coisa?
Todos se entreolharam e o silêncio reinou na cozinha por longos segundos.
– Ótimo então. Vamos começar a preparar as coisas para o serviço. Donna, Julie e Stacey, quero as três cuidando do mise en place hoje, por favor.
– Sim, chef. – As três responderam.
– De resto, todos seguem suas funções normais, ok? – Todos assentiram com a cabeça. – Vamos começar e bom serviço.
Coloquei minha dólmã e fui, imediatamente, verificar se o movimento no salão seguia o mesmo padrão de organização que eu começara na cozinha. Shannon, Omar, Monty e Linda já estavam devidamente uniformizados, mesmo que ainda fosse um pouco cedo para isso. Gilbert estava passando um pano no púlpito do maître e William e Howard limpavam a bancada do bar.
– Bom dia, chef. – Eugene, vindo do banheiro, me cumprimentou, chamando a atenção de todos.
– Bom dia. Onde estão Paul e Heather?
– Foram ajudar a Mercedes, ela...
– Ah, sim, já estou sabendo. Preciso chamar Ross ou vocês dão conta?
– Eles já estão vindo. – William respondeu. – Acabaram de mandar mensagem.
– Sem problemas por aqui então?
– Sem problemas. – Ele repetiu.
– Ótimo. Se precisarem, sabem onde me encontrar.
Minha equipe de limpeza, composta por Jason, Gina e Stanton, estava se aprontando na parte do vestiário dos funcionários. Eu fui para a cozinha e Peter praticamente colou em mim no mesmo instante.
Chef, nós vamos seguir com o corte julienne pra salada que acompanha as panquecas?
– Sim, vamos. Testei em casa o allumette, ficou uma porcaria.
– Tudo bem, obrigado.
!
Revirei os olhos e me virei para dar de cara com Jessie, a mochila ainda pendurada nas suas costas.
– Fica feio a minha sous chef chegar atrasada como eu.
– Ontem à noite foi bom, , não negue.
– Mas trabalho é trabalho. Vamos, preciso de você na linha hoje.
– Pode deixar, chef.
Dei uma boa olhada em volta e, após ter certeza de que tudo estava perfeito, fui para a minha bancada particular.
– Dan! – Gritei para um de meus chefs de partie. – Pede pro seu demi chef colocar cinco quilos de batata inglesa para cozinhar, por favor.
– Já vi que eu vou ter que calejar meus dedos de tanto descascar. – Misty, uma de meus commis, comentou, brincando.
– Vamos, que já é hora.
A cozinha, tirando os citados, era composta por mais dois chefs de partie, Lela e Edward, com seus respectivos demi chefs, Randall e Glen, além de Leonard, que era demi chef de Dan. Jake era um de meus cinco commis, junto de Misty, Rosa, Robert, Kimberly e Ellis. Guy era meu tournant, Peter era meu entremetier, Chery era minha saucier. Além deles, outras duas duplas compunham a equipe: Brianna e David, na função de patissier, e Arturo e Jamie, que eram communards. Juntos, nós éramos uma grande equipe de quarenta pessoas que faziam a realização do meu sonho funcionar.
A ideia de montar o L’uragano começou com um sonho de estudante e se transformou na aposta de uma vida. Vendi o carro, comecei a trabalhar em três lugares diferentes, deixava de dormir para dar aulas particulares... Foi assim que juntei um dinheiro e comprei o primeiro terreno do restaurante. Começamos em quatro na cozinha e três no salão. Então o movimento ficou muito bom e eu comprei o terreno ao lado, que por acaso estava à venda, e aumentei a equipe. Conforme ia crescendo, eu reinvestia o dinheiro do restaurante nele mesmo e, em sete anos de funcionamento, nós nos tornamos o restaurante italiano referência na Filadélfia. Se nós tínhamos algum italiano? Nenhum!
A coisa que eu mais gostava era ver a cozinha funcionando a pleno vapor com tanta gente dentro dela. Eu gostava da sensação de dever cumprido. Ali, entre aquelas paredes, nada podia faltar. Caso contrário, uma peça mínima poderia causar um transtorno enorme a todos nós. Mesmo assim, mesmo ali por sete anos, eu ainda não deixava de sentir o frio na barriga quando alguém avisava que o primeiro cliente do dia havia entrado.
– Acabaram de pedir um filé mignon muito bem passado. Meu Deus, estão estragando a carne. – Jessie resmungou.
– Já vi pedirem camarão bem passado, Jess, isso é o de menos.
– Não dá pra acreditar.
– Saindo um tiramisu. – David disse, perto da bancada.
– Nós precisamos botar caixas de música aqui. – Lela chegou perto de nós duas. – O que acham? Cozinhar escutando a voz maravilhosa de Bruce Springsteen cantando Dancing in the Dark? Olha... Eu mal imaginei, mas já estou toda arrepiada. Garanto que eu produziria bem mais dessa forma.
– Sossega, Lela.
Ela riu e voltou à sua bancada.
, pode preparar uma sobrecoxa pra mim? – Jake me chamou.
– Pra um educato?
– Isso.
– Pode deixar, vou começar.
... – Jessie apareceu de novo por perto e eu revirei os olhos. – Quando você e o Peter vão sair?
– Vai demorar. Provavelmente, no dia trinta de fevereiro.
– Você é tão grossa...
– Você que é cismada com coisas sem sentido.
– Sem sentido?! Já viu a forma como ele olha pra você? Tá caidinho de amores. Às vezes, não somos só nós, mulheres, que temos fantasia com patrões.
– Você precisa andar mais com a Alice, Jessie.
– Eu preciso nada. Ela tem todo o pudor que eu não tenho.
– Justamente.
– E eu sou feliz assim!
, o molho de maracujá... Tem um cliente diabético que pediu o salmão. Como eu faço?
– Jura?! – Perguntei a Chery.
– Foi o que Eugene escreveu na comanda.
– Surreal... Faz a redução só com o maracujá mesmo.
– Amido de milho?!
– Vai ficar horrível, Chery.
– Ok então, vou trabalhar nisso.
– Me chama se precisar de ajuda.
!
Que dia maravilhoso para se estar na TPM.
– Oi, Arturo.
– O que você acha que trocar o chocolate em pó por açúcar de confeiteiro em pó no cannolli?
– Todo mundo coloca açúcar de confeiteiro, é por isso que nós fazemos diferente aqui.
– Mas o gosto não fica ruim?
– Alguém já reclamou?
– Alerta vermelho! – Dan gritou. – , por favor, preciso de ajuda com os peixes.
– To indo.
Peguei a peça de atum mais fresca que tinha e comecei a preparar os cortes para que Dan tivesse um pouco de menos trabalho. Ao meu lado, a panela com os ovos que eu estava cozinhando para inventar uma salada nova começavam a ferver. Tentei cortar os atuns com a maior velocidade possível sem perder qualidade, mas nós estávamos a mil por hora e a possibilidade de sair dos trilhos começava a me parecer palpável.
– Aqui, Dan.
– Obrigado, você é um anjo.
– Todo mundo fala isso, mas ninguém me trata como se eu fosse um.
– Trata sim, você que não vê.
! – Jamie me gritou. – Heather pediu pra avisar que o cliente da mesa 57 quer conhecer a chef.
– Logo agora?! – Resmunguei. – Peça que aguarde um instante, eu já vou até lá.
– Vou repassar o recado.
– Alguém pode me arrumar três suportes para copos, por favor? – William gritou da porta da cozinha. – Por favor, eu estou atolado.
A resposta dele foi um completo silêncio.
– Gente, alguém podia ajudar! – Eu reclamei. – Jessie, assume o meu fogo. Vou levar os suportes pro William, me ajeitar e ir atender o cliente.
– Pode deixar, corre lá.
Eu saí correndo da dispensa com os suportes nas mãos e acabei nem vendo, desastrada que era, que tinha alguém no caminho. A trombada foi forte e eu caí para trás.
– Mil perdões, eu...
Quando nossos olhares se cruzaram, eu senti como se pudesse sair da terra. Eu estava sonhando?
– Meu Deus! – Coloquei as mãos na boca. – John! Quer dizer... Senhor Bongiovi!
– Tudo bem ficar só no John. Você tá bem? O tombo foi feio.
– E-eu... Eu to bem.
Minhas bochechas queimavam enquanto eu recolhia os suportes. Os olhos dele ainda estava travados em mim quando um homem de terno e gravata se aproximou.
– John, por favor, o Kirby precisa ir embora e tem que levar o contrato assinado.
Ele quase se despediu, o que me fez pensar: aquela reação toda era porque ele se lembrava de mim?
– Will, seus suportes.
– Muito obrigado, , você é um anjo na terra.
– De nada. – Respondi com um sorriso.
Fui até o vestiário e me chequei no espelho. A dólmã tinha ficado suja com um respingo de gordura que não consegui evitar, então eu a troquei rapidamente. Ajeitei os cabelos e a toque blanche. Respirei fundo, olhando para o meu reflexo. Odiava aquela parte, mas era por conta daquilo que eu estava com o restaurante em perfeito funcionamento.
– Heather, – Eu chamei uma de minhas atendentes. – mesa 57?
– Isso, chef. Eu te acompanho até lá.
Deixei que ela seguisse na frente, mesmo que eu conhecesse o caminho de cor. Quando estávamos bem próximas da mesa, Paul passou por mim e eu notei sua gravata deslocada. Eu o puxei por um segundo, em silêncio, ajeitei e deixei que ele seguisse seu caminho.
– Senhores, com licença. Como solicitado, essa é a nossa chef... – Heather começou a me apresentar.
. – A voz de mais cedo completou.
Ai, caralho.
– Vocês se conhecem? – Um terceiro homem na mesa perguntou.
– Não. – Eu murmurei, respondendo rápido demais.
– Na verdade, nos conhecemos naquele show do mês passado em Nova Iorque. Como vai, ? Bom te rever.
– Igualmente. – Disse, torcendo para minhas bochechas não estarem tão vermelhas quanto eu sentia que estavam e correndo para a minha postura profissional como um refúgio. – Mandaram me chamar. No que posso ajudar?
– John estava se declarando para a sua mozarella. – O engravatado disse.
– É muito bom, na verdade. – Ele completou. – Se você não se importar, gostaria de saber qual o seu fornecedor.
– Vou pedir pra minha gerente fazer a anotação e entregar a vocês.
– Além disso, quem faz o gnocchi?
– Eu faço a massa e meu chef de partie de gratinados faz, com seu assistente, a finalização. O molho é uma receita que eu inventei, na verdade, para quebrar o molho de tomate padrão.
– É a melhor massa que eu já comi na vida. Me lembra a comida que meu pai fazia quando eu era pequeno. – John disse. – E essa vitela... Não tenho palavras.
– Obrigada, muito obrigada.
– Bem, John, – O terceiro homem na mesa se pronunciou. – vamos liberar a senhorita que ela precisa trabalhar e não podemos atrapalhá-la. Obrigado por ter vindo até aqui, senhorita .
Eu acenei com a cabeça e virei para ir embora, sentindo um olhar queimando nas minhas costas, tanto quanto minhas bochechas queimavam. Em vez de seguir para a cozinha, fui direto para o escritório. Alice tomou um susto quando eu entrei de supetão e tranquei a porta imediatamente em seguida.
– Você não vai acreditar. – Eu murmurei.
– O que houve?
– Não sabe quem tá na 57.
– Se você não me contar, eu nunca vou saber.
– John Bongiovi.
– O quê?! – Alice gritou. – O John Bongiovi?!
– Sim. Ele.
Alice fechou o notebook, levantou da cadeira e deu a volta na mesa.
– Caralho, . Eu preciso ver com meus próprios olhos.
– Precisa nada. – Protestei. – Você pode ser minha melhor amiga, mas não é nada discreta e já basta o meu nervosismo de mico por hoje.
– Mas e ele? Olhou pra você, pelo menos?
– Alice, ele disse que meu gnocchi faz ele lembrar do pai cozinhando. E não tirou os olhos de mim. Inclusive, quando Heather ia me apresentar, ele falou meu nome.
– Então ele lembra de você.
– Eu pensei o mesmo. – Voltei a baixar o volume da minha voz. – Mas, mesmo que pareça loucura, preferi acreditar que não.


02

Nós só abríamos para almoço aos sábados e domingos. Eu, particularmente, estava vindo de uma semana cansativa. Na quarta, tinha ido visitar meus pais no distrito onde eles moravam, Conshohocken, uma viagem de oito horas, ida e volta, dirigindo. Quinta, participei de um workshop que durou quase o dia inteiro. Às sextas, nós passávamos bastante tempo no restaurante para preparar tudo para a chegada do fim de semana, até porque o movimento alto começava logo na noite desse dia. Graças a Deus, a prevalência de clientes no sábado foi altíssima e fizemos um bom serviço. Infelizmente – e não tinha jeito –, eu cheguei no domingo exausta.
– Tá de ressaca?
– Antes fosse. – Respondi Alice. – Os vizinhos tão com um bebê recém-nascido. Ele chorou a noite inteira, parecia que tava dentro do meu quarto.
– Que inferno, hein!
– Alguma coisa que eu precise saber?
– Não, nada. Eu queria saber se aquela questão da semana com o restaurante fechado pra reformular o cardápio vai acontecer mesmo.
– Vou sentar pra conversar com o pessoal depois do expediente pra ver o que eles acham.
– Tudo bem então. Acho que é só isso. – Alice deu as costas para mim, mas voltou. – Ah, a conta de luz chegou. Já tá paga e arquivada.
– Obrigada. – Sorri para ela e fui para a cozinha.
Todo mundo já tinha começado sem mim. Não era um bom exemplo que eu chegasse atrasada, mas meus funcionários me respeitavam. Todos me cumprimentaram brevemente enquanto eu me apressava para ficar por dentro de tudo o que já estava acontecendo. Parecia, em um primeiro momento, que eu era bem inútil, então dei a meia volta e fui verificar o salão.
– Gilbert! – Chamei meu maître. – Como estamos de reservas hoje?
– Para o almoço? – Ele perguntou e eu assenti. – Vinte e duas pessoas, no total. A noite está mais movimentada, teremos trinta e oito. Ah, e um aniversariante.
– Vou mandar prepararem o bolo.
– Na verdade, nós temos um problema. A caixa de som em cima da janela sul parou de funcionar.
– Tentaram consertar?
– Mexemos nos fios só, era o que sabíamos fazer. Mas com certeza não é falta de energia, eu acabei levando um choque.
– Tá tudo bem?
– Tá sim, sem problemas.
– Ok então, vou pedir pra Alice ver se um técnico consegue vir aqui ainda hoje. Mais algum problema?
– Não, chef.
– Se precisar, me procure na cozinha.
! – Paul me chamou e veio correndo até mim. – Queria saber se tá certa a minha folga na quarta.
– Tá, com certeza.
– E queria saber também se eu poderia faltar na terça.
– Problemas?
– Aniversário de casamento.
– Ah, claro. Sendo assim, sem problemas. Bom que eu economizo um pouco com o seu salário. – Brinquei e voltei para a cozinha, indo direto para a minha bancada.
Todo dia era como se fosse o primeiro. Quando comecei, fazia quase de tudo. Era surreal, pensando nos dias atuais, como eu tinha conseguido lidar com o começo do restaurante. Em alguns minutos, iríamos abrir as portas. E tudo seria perfeito, como sempre era no L’uragano.
– Primeiro pedido! – Robert gritou de perto da porta. – Edward, três filés de linguado. Dan, um gnocchi de mandioca com molho rosé. Peter, uma sopa de legumes.
– Vamos ao trabalho, galera! – Eu falei para estimular. – Arturo, pode preparar uma lasanha geral pra gente hoje?
– Claro, chef, já vou começar.
Com os meus chefs começando a ficarem ocupados, dei início à minha inspeção sobre os commis. Dos dez, trabalhavam só seis a cada turno e apenas cinco continuariam no mês seguinte, quando o período de experiência acabasse. E então eles poderiam ficar fixos por mais cinco meses e aprenderem o que conseguissem. Era uma parceria que eu tinha com a faculdade que eu havia frequentado: eles tinham para onde mandar os melhores alunos e eu tinha funcionários tão bem qualificados quanto eu tinha sido.
Já à noite, por conta própria, decidi preparar um gratinado de couve-flor. Era um prato que saía com frequência e Dan sempre ficava muito ocupado, então seria um favor que eu tomasse conta disso para ele. Fui até o nosso armário principal e puxei três dos menores refratários que eu tinha, para porções individuais. O problema é que minha pressão estava bem baixa, muito embora eu já estivesse começando a esquentar meu motor com o trabalho. Nem assim, eu fui suficiente para manter o peso nas minhas mãos e deixei as louças caírem. O barulho pareceu me acordar e eu arregalei os olhos.
– Ai, cacete.
– Tá tudo bem aí? – Lela surgiu.
– Tá, tá, eu só...
– Pode deixar, chef, eu limpo. – Gina veio correndo ao ouvir o barulho.
– Não, quê isso. Não foi culpa sua.
– Mas é minha função, não tem problema.
Ela praticamente me empurrou para longe. Estava sendo bloqueada na minha própria cozinha. Mas ok, vida que segue. O movimento no restaurante não ia parar só porque eu estava sendo um pouco desastrada. Então eu respirei fundo e decidi correr menos riscos.
– Stacey, traz três refratários para gratinados de pequena porção até aqui, por favor. – Pedi da minha bancada, sendo prontamente atendida.
Chef! – Shannon me chamou da bancada. – Tem uma cliente com um bebê bem pequeno, pediu pra perguntar se tem algo que possa ser feito pra ele comer que não tenha muito tempero, gordura ou qualquer outra coisa que não seja ideal para um bebê.
– Veja se ela aceita um purê de batatas.
– Ok, volto em um segundo.
– Ellis, por favor, já vá adiantando e descasque uma batata inglesa grande e corte em três.
– Sim, chef.
– Rosa, coloque em uma panela pequena duzentos e cinquenta mililitros de água e a mesma quantidade de leite.
– Sim, chef.
– Ah, e coloque um dente de alho com uma folha de louro também. – Falei. – Ellis, quando terminar, pode colocar a batata nessa panela. Fogo baixo, por favor. Alguém está precisando de alguma coisa?
Chef, – Randall me chamou. – sua panela tá queimando.
– Merda...
Era uma estupideza em mil níveis diferentes, a chef principal da casa estava fazendo a maior cagada possível a se fazer em uma cozinha. Corri para o meu destino, o que tinha deixado de lado por um momento e havia sido um desastre. Tirei o camarão de lá e derramei o conteúdo da panela em uma vasilha que Guy rapidamente trouxe para perto.
– Obrigada. – Disse a ele após sorrir.
Olhei o camarão por um segundo. Tirei a toque blance e passei a mão no cabelo por cima da rede. O ar estava funcionando muito bem, mas eu estava suando. Não era a minha primeira falta grave do dia. Pelo canto do olho, pude ver Jessie se aproximando.
, você precisa descansar. Deixa que eu vejo se dá pra salvar isso aí.
– Eu to bem!
– Vai pra casa. – Jessie insistiu. – Nós damos conta do serviço. O restaurante já tá começando a esvaziar, o movimento não tá muito grande...
– Tem certeza?
– É claro, chef, estamos aqui pra isso. – Dan disse.
Eu olhei em volta, a cozinha parcialmente parada enquanto eu decidia algo simples que estava tomando tempo demais.
– Ok então, nós nos vemos amanhã. Jessie, finaliza o purê. Quando as batatas cozinharem, esquenta creme de leite, joga elas lá e completa com manteiga de garrafa.
– Vou fazer isso.
– Se cuida, chef. – Leonard disse de sua bancada.
– E mande notícias. – Peter completou.
– Pode deixar, meninos. Boa noite pra vocês, obrigada pelo serviço.
– Boa noite, chef. – Eles responderam em coro.
Deixei a cozinha sorrindo. Fui até o vestiário rapidamente e troquei meu uniforme por uma calça jeans e regata simples. Peguei o casaco e joguei por cima do ombro, trancando meu armário logo em seguida. Ainda dei uma olhada para a cozinha. Estava realmente cansada, isso era fato, mas eu amava o que eu fazia. Ir para casa descansar, na minha linguagem, parecia até ofensivo.
Saí pela porta dos fundos, direto para o meu carro. Estava colocando minha mala com uniforme no banco de trás quando tive a estranha sensação de estar sendo observada. Senti a espinha gelar e puxei o ar, começando a pensar em como faria para me defender de seja lá quem estivesse por ali. O poste mais próximo tinha queimado na noite anterior e eu não sabia que ia ser tão prejudicial adiar a troca da lâmpada. Então eu recorri à minha última alternativa: rezar e continuar o que estava fazendo, ficar ali é que eu não podia. Mas quando eu me virei para ir até a porta do motorista, foi inevitável não pular de susto.
– Perdão, não queria te assustar. – Ele se aproximou a passos largos de uma que tentava recuperar o fôlego. – Você tá bem?
– Eu... Senhor...
– Juro que vamos ficar em maus termos se você achar que precisa me chamar de senhor Bongiovi de novo. – Ele brincou. – Eu realmente sinto muito pelo susto.
Respirei fundo, tentando encaixar as coisas nos devidos lugares.
– Tá tudo bem.
– Eu ia entrar, mas achei melhor esperar por você aqui fora, pra não atrapalhar o seu serviço.
– Aconteceu alguma coisa?
– Não, mas eu gostaria que acontecesse.
– O que houve? – Perguntei.
– Se não for muito incômodo... Seria muito presunçoso da minha parte chamar uma chef para um jantar?
O quê?! O meu cérebro entrou em parafuso nesse momento. Segundo susto da noite, confere.
– Eu... Eu acho... Eu não...
– Me desculpa pelo susto, eu realmente não quis te fazer mal.
– Tá tudo bem. – Repeti. – Desculpa, é que...
– Você tem alguém. – Ele concluiu.
– Não, não. É que... É que...
Eu não consegui terminar a frase. Estava suando frio. Tomei fôlego, trinta anos na cara e estava agindo como uma criancinha.
, pera aí! – Jessie saiu correndo pela porta dos fundos.
Quando viu o que estava acontecendo, paralisou no meio do caminho.
– Senhor Bongiovi! – Ela soltou, os olhos arregalados.
– Pode chamar de John, por favor. – Ele respondeu à minha frente.
– Claro. , desculpa, é que você... Você esqueceu o seu celular. – Ela falou e me esticou o aparelho.
– Obrigada, Jessie.
– Jessie?! – John, senhor Bongiovi, sei lá quem falou. – Jessie, posso te pedir um favor?
– Claro!
– Poderia convencer sua chefe a aceitar ir a um encontro comigo?
Jessie, então, arregalou os olhos. Abriu os lábios em um sorriso enorme e olhou para mim. Arregalou mais ainda os olhos e se virou para ele, finalmente.
– Ninguém convence a a fazer nada se ela não quiser, eu sinto muito.
E, com um sorriso educado, ela nos deixou sozinhos de novo, correndo de volta para dentro do restaurante. Eu estava completamente sem jeito, apertando o celular na minha mão e olhando para o chão.
– Por favor. – Ele murmurou para mim.
– Olha... – Minha voz saiu fraca, nem eu mesma reconheci. – Eu nem esperava que você se lembrasse de mim. Não devo ser a primeira que... Você sabe.
– É a primeira de quem eu corro atrás, eu juro.
Mais uma vez, inspirei com força, completamente aérea e sem entender o que estava, de fato, acontecendo.
– Eu vou estar fora da cidade por uns dias pra resolver umas pendências com um fornecedor em Nova Iorque, mas gostaria muito de te ver de novo.
– Eu trabalho à noite.
– Mas você tem que folgar de vez em quando, tenho certeza. – Ele insistiu. – Vamos, me passa seu número e a gente pode acertar uma noite em que nós dois estejamos livres. Por favor.
Meus ombros caíram e eu levantei o olhar para ele. Não estava acreditando. A vontade que eu tinha era de bater no meu próprio rosto para tentar ver se acordava. Quando aceitei sua proposta e comecei a digitar meu número em seu celular, só conseguia pensar no quão absurdo aquilo tudo parecia.
Antes de ir, ele deixou um beijo no meu rosto, demorado. Eu respirei fundo uma última vez, sentindo um perfume gostoso que com certeza vinha dele. John sorriu para mim e, então, se afastou, indo na direção do estacionamento dos clientes. Entrei no carro sem acreditar, e continuaria assim por um bom tempo. Então peguei no celular e abri o grupo de conversa que tinha com Alice e Jessie.


John Bongiovi pegou meu número
Ele quer sair comigo

J: Isso!

A: O quê???
A: Como assim?!
A: Jessie, do que você tá sabendo?

J: Diz que vocês se beijaram naquela hora
J: Por favor
J: Seria tão fofo...



Olhei para as mensagens, rindo de mim mesma. Sem responder, dei partida no carro e fui para casa.


03

John: Bom dia, como está?
John: Só queria te dizer que estarei de volta à Filadélfia no fim de semana
John: Devo ficar por uns vinte dias
John: Diga a data e eu escolho o lugar
John: O que acha?

Olhei as mensagens pela milésima vez no dia e guardei o celular no bolso rapidamente. Rosa vinha se aproximando com um ramequim em uma mão e uma colher de chá na outra.
Chef, pode dar uma olhada? É o molho pesto que a senhora havia pedido.
Peguei a colher e, enchendo-a razoavelmente, levei o conteúdo até a boca.
– Ficou ótimo, Rosa, pode colocar pra servir.
– Obrigada, chef.
– E esses sorrisinhos pro celular aí? – Jessie disse ao passar por mim, caminhando para a mesma bancada que eu. – Nem adianta negar que eu estou vendo desde que você chegou.
Olhei para os lados, checando se havia alguém nos vendo. Puxei o celular do bolso, abri o aplicativo e mostrei as mensagens para ela, que abriu um perfeito ‘O’ com a boca.
– Puta que pariu, .
– Que boca suja!
– É ele mesmo?
– Eu digitei meu número no celular dele naquela noite.
– Caralho...
– A boca, Jessie! – Ralhei.
– Ok, desculpa, mas você tem que me entender. Você é a mulher mais sortuda da porra... Eita, desculpa de novo. Você é a mulher mais sortuda da face da terra.
– Não sei se sou.
– E a mais chata também, porque veio agora com essa gracinha de não falar palavrão sendo que a sua boca é mais suja que a minha.
– Eu ainda sou a sua patroa e ainda posso te demitir.
– Duvido, você me ama e depende de mim.
Revirei os olhos com a amostra grátis de autoestima elevada. Peguei uma caçarola e joguei um pouco de azeite, adicionando cebola e alho moídos.
– Julie, pode me trazer os frangos que estão na bancada de descongelamento? – Pedi.
Chef, – Leonard me chamou. – queria saber se vamos abrir pro Natal.
– Tem planos, Leo?
– Na verdade, sim, mas vou ficar se precisarem.
– Você tem férias na casa. Se quiser, não posso impedí-lo. Mas vamos abrir sim, até que se prove o contrário, e sua ajuda seria de grande importância.
– Vou ficar então.
– Não leve isso como uma ordem, Leo.
– Não levarei. – Ele respondeu com um sorriso ao que Julie se aproximava com o que eu havia pedido.
– Obrigada, Julie. Você viu o que o Arturo e o Jamie estão fazendo pra gente hoje?
– Espaguete à bolonhesa, chef.
– Tá ok, obrigada, pode voltar pro que você tava fazendo.
Joguei o frango dentro da panela e mexi o suficiente para misturar bem o tempero. Adicionei duas flores de sal, meio litro de água e, abaixando o fogo, tampei a panela. Configurei meu timer para quinze minutos e passei as mãos nas laterais do meu avental.
– Robert, pode ficar de olho nessa panela aqui pra mim?
– Sim, chef.
– Eu vou dar uma olhada no salão e tirar meu tempo de janta. – Expliquei. – Quando o timer apitar, coloca em fogo alto e deixa fritar por dois minutos, mexendo bem. Só cuidado pra não desmanchar. Aí você tira do osso, daquele jeito que eu te ensinei na semana passada. Dá conta?
– Sim, chef, pode deixar.
– Jessie, você fica de olho no restante enquanto isso?
– Sem problemas, .
– Ok então, já volto.
Fui até a saída da cozinha para o salão e dei uma checada em todos. Parecia tudo em ordem, então deixei minhas coisas no vestiário e fui pegar meu prato na cozinha. Nós tínhamos uma saleta para refeições agradável, mas acabei pegando duas porções e fui para o escritório, acima do salão.
– Alice, abre aqui, por favor. – Chamei da porta, ao que fui prontamente respondida.
– Olha só, servida pela própria chef...
– Considere isso como um favor pessoal.
– Só pra eu ficar te devendo?
– Exatamente. – Brinquei e deixei os pratos em cima do aparador instalado especificamente para refeições no escritório. – Preciso de um conselho seu.
– Sabia que você não viria aqui de graça. – Ela riu e puxou a cadeira giratória para perto do aparador.
– Sobre aquilo que rolou... – Comecei, polvilhando o parmesão ralado por cima dos dois pratos. – Ele quer sair comigo pra valer. Não foi uma pegadinha.
– Você tá falando do John Bongiovi?
– Não é como se eu estivesse com vários caras de olho em mim ao mesmo tempo, né?
– Bem, você tá com o cara de olho em você. É suficiente por vários.
– Alice, você não está ajudando.
– Desculpa, desculpa... – Ela enrolou um pouco de macarrão no seu garfo e levou à boca. – Nossa, Arturo realmente caprichou hoje. Mas fala... O que você quer saber?
Dei de ombros e peguei um pouco do macarrão para mim.
– Ah, sei lá... Quero dizer, é John Bongiovi. O cara tem ex-mulher, filhos, todas as mulheres do mundo, de todas idades, são afim dele...
– Mas ele tá afim de você, por algum motivo. Ele podia estar indo atrás de qualquer uma, mas ele ficou esperando você sair do trabalho aquele dia, sabe-se lá por quanto tempo.
– Quem me garante que ele já não fez isso outras vezes?
– Eu não disse que ele não fez, – Alice argumentou. – até porque ele deve ter feito sim, mas o que eu quero dizer é que é em você que ele colocou o olho. Se fosse só pelo sexo, ele não se esforçaria tanto. Um homem do naipe dele consegue transar com quem bem entender.
– Justamente!
– Ou seja, ele tá afim de você mesmo.
– Não sei, Ali... – Murmurei, passando uma mão nos cabelos.
– Qual o motivo desse repentino surto? Achei que você tinha deixado esse assunto pra lá por enquanto.
– Ele me mandou mensagem hoje cedo, antes de eu vir pra cá.
– Falando o quê?
Poupei meu trabalho e desbloqueei o celular para que ela mesma visse.
– E você não respondeu?! – Alice arregalou os olhos. – , você tá louca?
– Você lembra que é sobre John Bongiovi que estamos falando, não lembra?
... – Ela se levantou, exasperada, e andou de um lado para o outro, dentro do limite do escritório. – Cara, se você não responder essa mensagem, eu vou. Dane-se quem ele é. Você tem noção do homem que está interessado em você?
De repente, a minha fome acabou. Eu me peguei olhando as mensagens de mais cedo e fiquei perdida lá, as encarando por um bom tempo. Comecei a digitar mil respostas diferentes, mas nenhuma delas pareceu boa. Enquanto minha comida esfriava, eu fiquei pensando no que falar.

Boa noite

Finalmente comecei a digitar.

Estou bem, obrigada por perguntar
O restaurante não abre às segundas

Seja mais simpática,
, pensei imediatamente.

E você, como está?

– Mensagem enviada? – Alice perguntou.
– É... – Murmurei. – Acho que sim.
– Agora nós podemos comer? Porque eu estou faminta.
Meu celular vibrou em cima da mesa, fazendo um barulho relativamente alto. Alice tentou pegar o aparelho antes de mim, mas eu fui mais rápida e puxei ele para longe de suas mãos curiosas.
– Você nem sabe quem é!
– Tenho certeza de que é ele.
– Tá falando besteira.
– Aposto dez pratas que é ele, esperando ansiosamente pela resposta da sua amada. E olha que ele respondeu bem rápido!
– Aí eu abro e é minha mãe mandando aqueles vídeos de igreja que eu não aguento mais fingir que vejo.
– Sua mãe tá dormindo a essa hora.
– É bem provável mesmo.
– Você tá enrolando e não tá abrindo a mensagem.
– Privacidade, por favor? – Pedi, me levantando e indo para um canto, ficando contra a parede.

John: Estou bem também, ansioso para voltar
John: Segunda está ótimo para mim
John: Posso te pegar às sete?
John: Me passa seu endereço
John: Tenho um bom lugar em mente
John: Prometo que você vai gostar

Metade do meu coração estava derretido, a outra metade estava revirando os olhos, incrédula.
– Falei que era ele! – Alice gritou. – Dez dólares!
– Eu não apostei nada. – Respondi, contendo uma risada, e peguei o celular para digitar uma reposta.

Às sete está ótimo
Moro na esquina da Chestnut com a S Front
O que devo vestir?

– Acho que tenho um encontro na segunda com John Bongiovi.
– Segunda agora? – Ela perguntou e confirmei com a cabeça. – Caralho!
– Meu Deus, pra você xingar, deve ser algo de altíssima importância.
– Claro que é, minha melhor amiga vai sair com John Bongiovi! Tenho que ir contar para a Jessie.
– Não vai contar nada pra Jessie agora. – Ralhei. – Do jeito que ela é, vai fazer um estardalhaço na cozinha e aí todo mundo vai ficar sabendo. Não preciso desse tipo de atenção agora, obrigada.
O celular vibrou de novo e eu me peguei olhando para ele mais rápido do que o normal.

John: Algo caseiro, não se preocupe com detalhes
John: Vista algo que te faça sentir confortável

Poderia ser mais específico?

John: Me permite fazer surpresa?

Sim, só quero estar preparada

John: Jeans e camiseta serão suficientes

Você tem certeza?

John: Tenho
John: Não se preocupe
John: Tenho certeza de que você ficará bem vestida para o que tenho em mente

– Eu não teria tanta certeza... – Murmurei para mim mesma.
– O que houve?
– Ele tá sendo todo misterioso sobre o lugar onde vai me levar. To com medo de não me vestir direito.
– O que ele disse?
– Jeans e camiseta.
– Então vista jeans e camiseta, .
– Deus... Eu não deveria estar me metendo nessa.
– Ele tá respondendo rápido, tá sendo misterioso sobre o primeiro encontro de vocês... Puro romantismo!
– Nós já tivemos um primeiro encontro, Ali, e ele me comeu nele.
– Olha a boca!
Revirei os olhos.
– Era só o que me faltava, você chamando a minha atenção!
Terminei de comer quase em pé, já que tinha perdido metade do meu intervalo trocando mensagens com John Bongiovi. Eu ficava repetindo o nome na minha mente, como se aquilo fosse tornar a situação menos difícil de se acreditar. Desci para a cozinha às pressas também, mais pela necessidade de ocupar a minha mente do que, de fato, pela necessidade da minha presença lá.
O resto do expediente ocorreu de forma tranquila, não costumávamos ter muito movimento às quartas. Só de não sairmos no prejuízo por abrirmos já era muito bom. Não que isso fosse frequente. Podia contar nos dedos as vezes em que abrimos e os clientes foram suficientes apenas para ficamos no 0 a 0 entre gastos e ganhos. Fechamos a conta diária no negativo duas vezes desde a abertura, ambas por conta de condições climáticas desfavoráveis. Em uma delas, nós tivemos que ficar esperando a noite inteira até que fosse seguro sair. Por sorte, naquele dia, a lavanderia tinha feito entrega e estávamos lotador de toalhas limpas, então dobramos algumas e organizamos travesseiros com elas. Na época, nossa equipe tinha vinte pessoas. E éramos os vinte espalhados pelo salão, dormindo aleatoriamente, enquanto eu agradecia a Deus por ter feito o restaurante no alto, impedindo, dessa forma, a água da enchente lá fora de entrar no meu estabelecimento e arruinar mais do que simplesmente um expediente.
A parte mais legal de ser dona e chef era observar a cozinha em funcionamento quando eu não estava lá. Costumava fazer isso com frequência, quando queria espairecer um pouco. Ver o funcionamento em perfeita ordem, ainda mais quando o ritmo estava acelerado, era divertido.
Chef, – Ouvi me chamarem da porta da cozinha, era Omar. – Gilbert pediu pra avisar que o prefeito fez reserva pra ele e a esposa na sexta à noite, aniversário de casamento.
– Ok, Omar, obrigada. Todos ouviram?
– Sim, chef. – O coro ressoou pela cozinha.
– Ótimo. Quem vier sexta, traga o seu melhor de casa então.
Fui para a minha bancada e comecei a preparar três costelas de cordeiro para marinar e servir no dia seguinte. Havia um tempero que eu aprendera com um dos meus professores favoritos sobre o qual jurei guardar segredo, e o tempero da costela era o caso. Exigia um bom tempo marinando e só eu podia fazer aquela receita, então me ocupava um bom tanto. No mais, eu simplesmente terminei o que tinha que fazer e assisti, satisfeita, enquanto o restaurante ia esvaziando. Já era quase uma hora da manhã quando o último cliente saiu e eu me troquei correndo.
– Jason, pode carregar a máquina de lavar louça, não precisa ser na mão.
– Mas, chef, os pratos vão ficar foscos.
– Não tem problema. Um dia só, ninguém vai notar. Falta alguém finalizar?
– Eu vou só terminar de checar a planilha do caixa, , acho que deu algum problema no software. – Alice anunciou. – Pode ir que eu fecho o restaurante.
– Tem certeza?
– Tenho sim.
– Ok então.
Joguei minha bolsa por cima do ombro e fui me encaminhando para o meu carro.
! – Alice me gritou quando eu já estava perto da porta de saída.
– O que houve?
– Meus dez dólares!


04

Estacionei o carro em uma vaga perfeita. Alice desceu do banco do passageiro, Bruce, seu irmão, do banco e trás e eu, do banco do motorista. Bruce era designer de interiores e estava nos acompanhando para uma breve pesquisa. Eu estava querendo mudar algumas coisas no restaurante mas, primeiro, deveríamos analisar os prós e os contras. E o maior contra era, definitivamente, o preço a ser pago por aquela mudança. Bruce, por sorte, estava ali como amigo, sem cobrar nada, por enquanto.
– Sabe o que eu adoro na Macy’s? – Bruce começou a falar. – Os aparelhos de jantar!
– Os utensílios de cozinha da Martha Stewart são muito bons também, e são bem mais baratos dos que os de marcas mais conhecidas.
– Você já tem utensílios de cozinha suficientes para três vidas! – Alice protestou. – Não viemos para ver tons de toalha que possam inspirar o Bruce?
– Talvez eu compre algumas coisas lá pra casa... – Observei.
– Ah, então tudo bem, porque não é problema meu se não sair do caixa do restaurante.
Estava olhando a vitrine de carteiras e, por mais que estivesse ciente de que Alice e Bruce haviam seguido para o setor desejado, fiquei checando os modelos disponíveis, porque realmente estava querendo comprar uma nova para mim. Enquanto isso, o telefone vibrou no bolso. Meu primeiro palpite seria alguém do restaurante, mas fui surpreendida e, como resultado, acabei abrindo um sorriso espontâneo.

John: Oi
John: Acabei de chegar em Philly
John: Sei que estamos de compromisso marcado para segunda
John: Mas seria muita presunção minha pensar que poderíamos adiantar para hoje mesmo e, então, fazer algo diferente segunda?

Olhei para os lados, estranhamente com medo de que houvesse alguém por perto que pudesse ler a resposta que eu digitaria.

Oi!
Obrigada pelo convite, mas não posso
É sexta
Preciso tomar conta do restaurante

! – Alice voltou até onde eu estava e começou a me puxar pelo braço. – Você tem essa péssima mania de parar no meio do caminho quando quer ficar no celular. Vou começar a te tirar o aparelho quando viermos na rua.
Eu apenas ri.
– Não reagiria assim se soubesse com quem eu estava falando.
Ele?!
– O próprio.
Alice suspirou, diminuindo o passo.
– Estamos parecendo adolescentes de novo, e eu gosto da sensação!
– Não sei se gosto esse mesmo tanto.
– Ah, ! – Ela resmungou. – De novo com esse papo? Você tá solteira, mulher, vá se divertir! O pior que pode acontecer é dar errado e o melhor... Bem, depois você descobre. Só não fala isso pro meu irmão porque você sabe que ele tem uma quedinha por você e...
– Bruce sabe que nunca vai rolar alguma coisa entre a gente, Ali.
– Será que sabe mesmo? Porque ele não faz consultoria gratuita nem pra nossa prima, mas faz pra você.
Revirei os olhos e decidi não prolongar mais o assunto, já que estávamos chegando perto do seu irmão. Ele estava perto de uma prateleira com diversos pratos e apontou para uma com desenhos azuis nas laterais.
– Com tons de cinza variáveis para as toalhas, ficaria um bom conjunto. Imagina trocar aquele papel de parede por um branco gelo. – Bruce sugeriu.
– Pode até ficar bonito, mas é muito dinheiro de uma vez.
– Bem, o dinheiro seria gasto com as toalhas e os pratos, do meu ponto de vista. Podemos reaproveitar os lustres e só pintar de preto com uma tinta em spray fosca. Ficaria bom, não ficaria, ?
– É, talvez. – Alisei um dos pratos. – Quanto aquele seu amigo cobraria pra fazer as artes nos pratos que já temos?
– É desse tipo de economia porca que eu gosto! – Alice brincou.
Bruce puxou o celular do bolso e tirou uma foto no exato instante em que eu senti meu celular vibrar também.
– Vou enviar para ele e pedir um orçamento. Vamos ver se conseguimos inspiração pras toalhas?
Eu assenti e fui caminhando atrás deles. Puxei o aparelho do bolso e fui checar o que havia chegado.

John: Um almoço hoje então

Já tenho compromisso para almoço hoje, mas obrigada pelo convite

Como ele estava online, fiquei esperando a resposta.

John: Bem, sinto muito por incomodá-la então
John: Pelo menos, segunda está confirmado?

Eu sorri com as mensagens.

Não está incomodando
Eu já estou na rua, na verdade
Com uma amiga
Vamos almoçar juntas e, depois, nós já vamos para o restaurante

John: É aquela amiga do outro dia?

Não
Essa é outra

Eu estava consciente de que, em algum lugar, meu nome estava sendo chamado.

John: Posso passar no restaurante quando você estiver saindo

Meu Deus, esse homem realmente quer me ver
, pensei imediatamente.

Vou sair bem tarde
Não precisa se incomodar
Eu realmente acho melhor esperarmos pela segunda
Assim, teremos tranquilidade
Eu vou...

Minha digitação foi interrompida por uma pancada forte em uma das colunas gigantescas da loja. Alice estava metade rindo e metade furiosa. Mais uma vez, fui puxada pelo braço.
– Se John Bongiovi continuar atrapalhando assim, vou ser forçada a tomar uma atitude drástica!
Nós terminamos a visita à loja, almoçamos em um restaurante self service ao lado, deixamos Bruce em sua casa e fomos para o restaurante. Jessie tinha chegado mais cedo e já começara o serviço. Eu joguei uma ducha no corpo no vestiário para funcionários, me vesti e fui checar o celular antes de deixá-lo no meu armário para não correr o risco de me distrair.

John: Se estou dizendo que passaria no restaurante, é porque eu gostaria e não me incomodaria, não acha?
John: Me diga que horas vocês devem fechar
John: Por favor
John: A não ser, é claro, que não queira me ver

Eu sorri sozinha e fui até o banco próximo dos armários, me sentando e encarando o celular enquanto decidia o que iria responder.

Fechamos entre uma e duas da manhã

Por dentro, eu estava me tremendo de felicidade como se fosse uma menininha. Meu próprio subconsciente tentava me sabotar e me convencer de que aquilo era um sonho ou um farsante. Mas eu havia vivido aquilo! Eu havia estado com ele na noite após o show, eu havia recebido elogios seus no restaurante, eu havia sido aguardada por ele no estacionamento após o expediente... Parecia retardada mental só de pensar em me fazer de difícil. Não era como se eu quisesse estar em um relacionamento também, mas... Era John Bongiovi!

John: Espere por mim

Sorri mais uma vez e fiquei olhando para o celular. De repente, percebi que não estava mais sozinha.
– Boa tarde, chef. – Edward falou baixinho, quase incerto sobre interromper meu momento.
Tratei de disfarçar e acabei enfiando o celular no bolso da minha calça, sob o avental.
– Boa tarde, Ed. – Eu o cumprimentei e saí do vestiário.
Prendi o cabelo com o elástico, depois com a touca e, por fim, com a toque blanche. Como padrão, chequei o salão antes de ir para a cozinha. Gina e Stanton estavam limpando uma das maiores janelas. Acabei optando por não os interromper e segui meu caminho.
– Boa tarde, mademoiselle.
– Boa tarde, Jessie. – Respondi e fui direto para a minha bancada.
– Será que hoje você consegue se concentrar em mais cozinha e menos Bon Jovi?
– Você vai usar isso contra mim até que dia?
– Até o século acabar! – Jessie abriu uma gargalhada. – E olha que o Ellis ainda levou a sério os seus quinze segundos. Deve estar se perguntando o que fez de errado até agora, coitado.
– Foi uma troca simples de palavras, Jessie, não é nada demais.
– Quinze segundos pra quinze minutos tem quatorze minutos e quarenta e cinco segundos de nada demais. Além disso, quer que eu comece a enumerar as falhas que você anda cometendo? Você errou o sal do arroz negro! Eu nunca te vi errar o sal de nada, mas o do arroz...
– Você não está ajudando, Jessica! – Ralhei.
– Vou te pentelhar até saber todos os detalhes sórdidos do que você e o senhor Bongiovi-pode-chamar-de-John-por-favor andam conversando.
– Não estamos conversando nada.
– Ali disse que você trombou em uma das colunas da loja mais cedo. – Jessie voltou a rir. – Eu realmente estou perdendo toda a diversão.
– Eu ainda posso te demitir.
– Mas não vai porque você não vive sem mim, já te disse isso.
Lela e Edward entraram na cozinha, seguidos por Peter, Guy e David. Todos me cumprimentaram e seguiram para suas respectivas bancadas para começar a preparar parte do mise em place enquanto os commis não chegavam. Foi quando me lembrei de um detalhe importante.
– Jessie... – Voltei a chamar minha amiga, que se aproximou. – Você viu, por acaso, a escala de quem tá escalado pra trabalhar hoje? Passei direto pelo quadro e acabei nem reparando.
– Dos iniciantes? – Ela perguntou e eu assenti. – Jake, Mercedes, Kimberly, Misty, Ellis e Robert. Eu acho. Mas é novidade você não olhar, já que você gosta de ter eles sobre controle.
– Eu realmente to com problemas, Jessie.
– E seu problema é uma delícia, devo acrescentar.
– Não estou falando disso e você sabe bem!
– Ah, sim. Esqueci da desculpinha esfarrapada do “meus pais estão sofrendo da síndrome do ninho vazio".
– Jessie!
– Ah, , qual é! Seus pais já são bem crescidinhos, e você também, então essa história de só estarem sentindo saudade de você agora, anos depois de sair de casa, não cola. E depois você vem com papinho de “é impossível que John Bongiovi esteja realmente afim de mim". Foda-se. Impossível ou não, ele vai sair com você na segunda.
– Com tempo suficiente para cancelamentos até lá.
– Você é tão negativa que me dá nojo.
– Estou sendo apenas...
– Se você falar ‘realista’, eu te bato, .
Chef, com licença. – Omar se aproximou sem que nós duas víssemos. – Eu sinto muito, mas a senhora pode me liberar por hoje? A irmã mais velha da minha esposa está sumida há mais de trinta e seis horas e as coisas em casa estão... Bem, não estão boas.
– Meu Deus, Omar... – Murmurei. – Claro, pode ir. Negociamos quando você vai repor esse dia quando tudo se resolver. Boa sorte!
Ele assentiu e se afastou correndo para fora da cozinha.
– Ótimo, menos um. Vou ligar pro Eugene e ver se ele pode vir hoje. Logo na sexta à noite...
! – Jessie me chamou mais uma vez, já na parte da bancada que dizia respeito a ela.
– Olha, se você for fazer mais brincadeiras, eu juro que...
– Só ia dizer pra você ficar tranquila. – Ela deu de ombros. – Você tá nessa há anos, vai dar conta.
Fiquei ali, estática, por alguns segundos. Respirei fundo e, enquanto o restante da equipe ia chegando, me recompus. Olhei para o belo corte de filet mignon de carne de bufálo que Mercedes havia levado para mim e me conscientizei de que o serviço precisava começar. Cerca de quatro horas depois, o restaurante recebeu o seu primeiro cliente e, como era de se esperar em uma sexta à noite, o movimento se intensificou antes mesmo de nós percebemos.
– Uma bruschetta al pomodoro, dois tortellini de Bologna e um carpaccio de linguado. Mesa dez. Essa é importante, galera. – Linda anunciou.
– É a do representante da Porshe? – Perguntei.
– Não, esse é da mesa 26 e ainda não fez o pedido, só drinks por enquanto. E a mesa é do Monty.
– Pede pra ele especificar, por favor, quando vier trazer o pedido.
– Sim, chef.
– O carpaccio da dez é meu. – Anunciei. – Estamos tranquilos com o resto?
– Sim, chef. – O coro que eu mais amava ouvir na cozinha ressoou.
Como tudo esquentou muito rápido, eu nem percebi o tempo passando. Só fui notar que o movimento estava diminuindo quando tive uma pausa longe e pude olhar o relógio. Já passava de uma hora da madrugada. Fui até a divisão da cozinha e esperei até que a primeira pessoa vinda do salão de aproximasse.
– Ei, Paul! – Chamei-o. – Como estamos de clientes?
– Faltam quatro mesas, chef. Uma ainda não pediu.
– Que merda...
– Estou fazendo o possível para não pressioná-los, mas a senhora sabe como é.
– Sei sim. Gilbert já fechou a entrada?
– Já.
– Então perfeito. Se vocês chegarem a um acordo, pode mandar dois pra casa já. Vou começar a dispensar o pessoal da cozinha aos poucos também.
– Sim, chef. Ah... – Ele parou e tirou algo do bolso. – Quase me esqueci. Gilbert pediu pra entregar, parece que deixaram aqui especialmente para a senhora.
Arqueei a sobrancelha enquanto recebia o pequeno papel em minha mão. Paul se afastou e eu abri, desdobrando-o. A caligrafia era uma bagunça, mas a mensagem era clara.

Tive problemas e não pude ficar.
Espero que compreenda e me perdoe.
Achei melhor não mandar uma mensagem.
Quem sabe um texto escrito à mão me ajude a te conquistar?
Deixe de ser difícil =D

J.


Eu voltei para dentro da cozinha tentando conter minha excitação, mas estava certa de que um sorriso bobo habitava meu rosto. Quanto mais eu tentava crescer barreiras à minha volta e me agarrar na teoria de que aquilo era algo estúpido no qual eu não deveria botar esperanças, mais John Bongiovi as derrubava.
– Jamie, Arturo... – Chamei meus dois communards. – Philly Cheesesteak pra todo mundo amanhã no almoço. Dois pra cada!
O pessoal comemorou na cozinha. Era o prato favorito quase em unanimidade dentre os quais nossa dupla preferida costumava fazer. Se eu estava feliz, queria que minha equipe também estivesse.


05

Jeans e camiseta, ok. Eu não estava nada confortável com aquilo. Estava me sentindo uma menininha adolescente, o que eu tinha lutado muito para deixar para trás. Não queria me sentir imatura de novo, os traumas da infância já eram o suficiente para me dizer que não era uma boa imagem. Meus nervos estavam à flor da pele, e receber uma ligação dele pela manhã pedindo para adiantar nosso encontro não estava exatamente facilitando as coisas.
Faltava quinze minutos para que eu encontrasse com John no estacionamento da esquina e eu estava tremendo. Não conseguia finalizar minha maquiagem de jeito nenhum porque não tinha coordenação motora para tal. Precisei segurar na borda da bancada do meu banheiro e me encarar no espelho parar respirar fundo e me colocar no meu lugar. Eu tinha duas escolhas: sair sem ter acabado ou me acalmar e finalizar aquela porcaria.
Enquanto eu tentava colocar delineados que parecessem minimamente iguais entre si, sentia o celular vibrando. Checava pelo canto do olho, sabia que eram Jessie e Alice procurando incessantemente por notícias. Estava quase perdendo a paciência e bloqueando o número delas por um tempo. Desligar o celular eu não podia, pois era como John conseguiria entrar em contato comigo se precisasse. Eu ainda não estava acreditando naquilo tudo.
Desci às três horas em ponto. Estava até agradecendo pelo “algo caseiro", porque não conseguiria andar naquela velocidade se estivesse usando um salto. Aí John me pagaria caro se a ocasião pedisse mais do que eu estava vestindo. Iria embora do jeito que fosse, ele sendo John Bongiovi ou não.
Quando o meu relógio de pulso marcou três e dez, eu estava entrando pela passagem para pedestres e um Chevelle antigo – não sabia dizer de qual ano, conhecia de carros mas nem tanto – entrou no estacionamento. John não havia dito qual carro estaria usando, mas eu sabia pelas minhas pesquisas de fã que ele tinha um daquele. O farol piscou e, através do vidro escuro, eu o vi acenando. Minhas pernas tremeram. Eu ainda não conseguia acreditar.
Ele parou o carro atrás dos outros, estacionados corretamente. Saiu com um sorriso enorme no rosto e veio até mim. Quando chegamos bem perto um do outro que percebemos que nenhum dos dois sabia como tratar aquela situação.
Signora. – John falou ao tomar minha mão na sua e depositar um beijo nos nós dos meus dedos.
– Oi. – Eu disse, tentando conter a excitação.
– Vim com o conversível mas prometo só abrir a capota se você quiser.
– Sem problemas.
– Espero que você não se incomode com o barulho do motor. – Ele disse enquanto caminhava para abrir a porta do passageiro para mim. – E eu juro que não estou fazendo nada disso para impressionar você.
– Tudo bem então. – Respondi e entrei no carro.
– Não o carro. Mas o passeio... – John sorriu, misterioso, e fechou a minha porta, dando a volta no carro imediatamente depois para sentar ao meu lado.
Pegamos a I-95 e, pelas ações dele ao volante, não parecia haver um destino próximo. John se mantinha enigmático ao volante, mas tentava me deixar o mais confortável possível. Perguntou sobre a temperatura do ar condicionado – que definitivamente não era original –, se eu preferia vidros abertos, se o volume do som estava bom, se eu queria escutar alguma coisa em particular... Não houve um só segundo em que ele me deixou sequer observar a paisagem da viagem, e até pareceu um pouco sufocante. Brincadeiras à parte, eu conseguia sentir que John estava nervoso também, o que me soou absurdo. Quando notei, estávamos cruzando a fronteira entre a Pensilvânia e Nova Jersey, por cima do rio Delaware.
Eu já estava transbordando curiosidade quando entramos por uma estrada erma, cerca de cinquenta minutos depois de passarmos a estar em Nova Jersey. A paisagem era agradável e a temperatura tinha, definitivamente, caído. John viu quando eu me encolhi um pouco e, agilmente, tirou um casaco do banco de trás. Tinha cheiro de homem e eu poderia estar até maravilhada se não estivesse tão focada no pórtico que estávamos atravessando.
A propriedade já começava com pompa estampada em cada detalhe, fosse na luxuosa simplicidade do portão ou nas árvores ladeando o caminho de entrada. A pavimentação dava de frente para uma enorme e linda casa, com incontáveis janelas e varandas. Ele estacionou bem na frente do que devia ser a porta principal e sorriu para mim. Eu ia abrir a porta por conta própria mas, quando dei por mim, John já estava ao meu lado.
– Você mora aqui? – Perguntei sem olhar em seus olhos, boquiaberta com o entorno.
– Quando não estou em turnê, sim. – Ele respondeu. – O que achou?
– É lindo. E silencioso.
John riu da minha resposta.
– Bem, o silêncio realmente é uma dádiva celestial desse lugar. Quer entrar?
Eu assenti e ele me conduziu pela porta principal. O hall de entrada era preenchido por uma escada grandiosa circular. Após ela, um corredor com aparadores e um longo sofá azul com almofadas coloridas. John me mostrou uma sala de jantar enorme, com uma mesa redonda que comportava confortavelmente doze pessoas e cristaleiras preenchidas com belas louças. Anexa à sala de jantar, depois de um pequeno porém repleto bar, havia uma sala de estar, com tons mais escuros entre azul e mostarda, com diversos sofás e poltronas. Nas paredes e em aparadores, vasos e quadros estavam compondo a decoração. John ainda fez questão de me mostrar que, de uma área do assoalho à frente da lareira, subia um grande telão.
Ele também tinha uma sala de televisão com sofá enorme em L, uma mesa de xadrez gigante, lareira e uma enorme pintura que John disse ser daquela propriedade. Havia uma segunda sala de jantar, mais íntima, com apenas seis lugares à mesa e estantes com livros e decorações, além de enormes portas do teto ao chão que levavam ao exterior. Por elas, John me levou para uma área de convivência externa, com sofás e poltronas azuis, uma das maiores churrasqueiras que eu já tinha observado e vista para uma grande piscina e para o rio Navesink.
– Ali é propriedade do vizinho? – Apontei para uma construção à esquerda.
– Casa de hóspedes, na verdade. – Ele informou. – Tenho quinze acres aqui. A casa principal tem seis quartos, todos eles são suítes. Um outro banheiro para visitas e dois lavabos no andar de baixo. Tenho quatro filhos, espaço é necessário se não quiser vê-los brigando por tudo a todo tempo. Você tem irmãos?
– Filha única.
– Então perdeu essa experiência maravilhosa. – Ele revirou os olhos, irônico, e se virou para mim. – Gostaria de te mostrar o rio mais de perto mas, antes, quero te mostrar um lugar que espero que te agrade.
Eu tinha tentado manter a pose até aquele instante, mas foi inevitável. Quando entramos na cozinha, meu queixo caiu. A cozinha era imensa. O teto era de tijolos de barro expostos, com as vigas decoradas com ladrilhos da cor do mesmo tom de azul que estava presente em quase todo o resto da casa. Havia uma ilha enorme central, que devia ser da largura da cozinha do meu apartamento – que já era bem grande. O fogão era o meu objeto de consumo para a casa, com oito bocas, chapa e dois fornos, do tipo industrial. A geladeira era imensa, embutida na parede. A minha, mais uma vez, era enorme, mas ocupava apenas metade do espaço da geladeira dele. Quanto mais detalhes observava, mais embasbacada ficava.
– E então? – John me tirou de meus devaneios. – Está à sua altura?
– Acho que eu nunca quis tanto morar em uma casa pra poder ter uma cozinha desse tamanho. – Murmurei.
John riu da minha resposta.
– A minha proposta é que eu te leve até a beira do lago para o por do sol e, então voltamos para cá.
Meu sorriso foi involuntário. Aos poucos, eu consegui me soltar. Eu insisti em ajudar John a carregar uma cesta e uma toalha para onde quer que ele estivesse me levando. Caminhamos na direção do rio, passando por uma ponte sobre um pequeno córrego. Nós fomos até um gramado cercado por árvores e John estendeu a toalha. Falava muito sobre os filhos, principalmente, e dava para notar o quanto de amor tinha nas palavras dele. Não havia muita conversa sobre a banda, mas ele queria saber tudo sobre mim.
Perguntou sobre minha adolescência, onde eu havia sido criada, minha faculdade, a criação do restaurante, minhas amizades e meus hobbies. Como eu, ele também não tinha muito tempo livre. Muitas das minhas limitações, ele entendia, o que era interessante. E conforme o sol ia se pondo, tingindo o céu e a água do rio Navesink de um azul alaranjado, a lua cheia nascia entre nossas conversas animadas – regadas a algumas frutas e vinho branco –, nós percebemos que estava ficando escuro demais para voltar para casa. Então John nos guiou de volta para a cozinha. Foi quando notei um detalhe especial.
– O vinho não tem rótulo? – Perguntei.
– Ah... – Ele olhou para a garrafa e sorriu. – Tenho uma vinícola na Califórnia. Vou lá raramente, mas produzo bons vinhos e sempre peço para mandarem alguns para cá.
– Isso eu não sabia. Você vende em escala?
– Sim, para alguns distribuidores na própria Califórnia. Meu menino mais velho, inclusive, tem interesse em tomar a frente dos negócios. Vou fazer uma experiência e, se der certo, vou deixar nas mãos dele e administrar apenas os detalhes extremamente necessários.
– É uma boa atitude vinda de você, como pai. – Eu disse a ele, que sorriu.
– Obrigado. Poderíamos fazer uma parceria... O L’uragano teria espaço para os meus vinhos?
– Com certeza, podemos falar sobre isso. – Eu estava transpirando felicidade naquele ponto da conversa.
– Falando nele... – John deu a volta na ilha da cozinha e puxou uma cadeira para mim. – Você cozinha para as pessoas todo o dia, e cozinha perfeitamente, devo acrescentar. Hoje, eu gostaria que você me permitisse lhe fazer uma surpresa e cozinhar pra você.
– É sério? – Eu arqueei uma sobrancelha, um pouco do álcool em mim fazendo efeito.
John tirou ingredientes dos armários e da geladeira, colocando-os em cima da mesa. Eventualmente, eu fazia algo para ajudá-lo, como cortar cebolas e tomates ou descascar alhos. Inevitavelmente, eu fui observando que ele tinha muito talento. Fazer o próprio molho de tomate era um dom, mas fazer a própria massa... Isso sim era respeitável para alguém que não era um cozinheiro profissional.
Eu me surpreendi quando vi a refeição ficando pronta em poucos minutos. John tinha toda a aparelhagem, e isso ajudava muito, mas era surpreendente ver um astro do rock fazer o próprio fettucine, o próprio molho de tomate e o próprio polpetone em menos de uma hora. Nós comemos na ilha da cozinha mesmo, conversando mais sobre detalhes pessoais da vida um do outro. Quando dei por mim, o horário já estava bem avançado. John notou quando eu olhei, nervosa, para o relógio.
– A conversa está desagradável? – Ele perguntou.
– Não, é que... Escute, você levaria mais de duas horas para me levar em casa e voltar para a sua, eu realmente não posso exigir isso.
– Você pode ficar, se quiser. Os funcionários foram dispensados até amanhã à tarde, posso te levar em casa pela manhã. Há um quarto de hóspedes arrumado.
– Não quero atrapalhar, John.
– Eu garanto que não vai atrapalhar. – Ele sorriu para mim.
Ele era um galanteador. Um filho da puta galanteador. Eu não conseguia entender como mas, cada vez que ele sorria, parecia que ia cativando irreversivelmente um pedaço de mim. Não consegui sentir aquele momento chegando. Só senti quando seus lábios já estavam nos meus, seu corpo me prensando contra a ilha, as mãos cuidadosamente colocadas uma na lateral do meu pescoço e uma na minha cintura. Eu estava perdida. Perdida e sem fôlego.
– O que houve?
Respirei fundo, olhando nos seus olhos azuis que tirariam qualquer um do seu estado normal. Não consegui formular uma palavra sequer.
– Se eu estou fazendo algo errado, me perdoe. Faz tempo que eu não tenho um encontro com alguém, acho que esqueci como passar por esse processo.
– Eu... – Tentei formular uma frase, mas estava um pouco bêbada e nervosa, uma combinação nada agradável para uma mulher com tendência a dizer o que pensava sem se importar com o que diriam a respeito. – Eu preciso saber se isso é real, John.
– Você quer saber se há sentimento nisso que nós dois estamos fazendo?
Eu apenas assenti. Não sei se John teve a intenção de me responder em algum momento, mas ele voltou a me beijar, aprofundando a tensão eventualmente. Eu precisei afastá-lo delicadamente para respirar um pouco antes que sufocasse.
– Não tenho roupa pra passar a noite. – Murmurei, fechando os olhos para não ter que encarar os seus e me perder novamente.
– Não vamos precisar de roupas, . – Ele disse, a voz grossa e baixa próxima a mim, e terminou de me arrebatar para si.


06

De repente, eu havia saído dos meus trinta e dois anos e ido direto para os quinze novamente. O coração batia rápido, meu sorriso estava mais fácil de ser provocado e tudo era motivo de festa. Incrivelmente, até o restaurante estava fluindo melhor, não só a nível do meu desempenho, mas a nível do desempenho de todos os outros também. Eu deveria ter jogado na loteria, na verdade, porque até o preço dos insumos que eu comprava para o restaurante havia caído significativamente. Aquela semana era a minha semana, isso era inegável. Mas eu mal podia esperar pela outra segunda para, então, ver John de novo.
Quando saí da casa dele, na manhã da terça seguinte ao nosso encontro, John disse que adiantaria as coisas durante a semana para estar livre quando eu estivesse. Veria os filhos, iria até as unidades de seu próprio restaurante verificar como estava o andamento das coisas e adiantaria algumas burocracias ligadas à banda. Tinha uma entrevista marcada para a própria segunda, que remarcou antes mesmo de me levar embora. Quando parou no mesmo estacionamento onde tinha me buscado no dia anterior – não estávamos mais de Chevelle, ele escolheu um Dodge Viper vermelho, tudo isso jurando que não era para me impressionar –, fez questão de se despedir com um beijo caloroso e um sorriso que quase derreteu as minhas pernas de novo. Eu saí daquele carro querendo entrar novamente no mesmo instante e esquecer das minhas responsabilidades.
Quando o expediente no restaurante acabou no domingo, eu estava sem conseguir me conter. Quase todos já tinham ido embora e eu estava no banheiro, ainda me arrumando. Alice, é claro, não poderia deixar passar, já que ela geralmente fechava o restaurante e eu ainda estava por ali, me preparando para ir a qualquer lugar que não fosse minha casa.
– Vai sair com ele ainda hoje? – Ela perguntou, falando baixo. – Haja disposição.
– Ele acabou de chegar, vou passar a noite na casa dele. – Disse com um sorriso no rosto enquanto espirrava um pouco de perfume no pescoço.
– De novo? Então ele gostou...
– Ainda bem, né? – Ri para ela. – Mas vou estar de volta na terça, normalmente. Nada mudou por aqui.
– Eu sei, querida, você teria me avisado se mudasse.
– Pode ir. Eu já vou fechar o restaurante.
– Tem certeza?
– Tenho sim, deixa comigo.
– Então tá, até terça. – Ela disse e se encaminhou para a saída, gritando a frase mais vergonhosa possível em seguida. – Protejam-se!
Vi minhas bochechas ficarem vermelhas através do espelho. A maquiagem não era nada demais, apenas algo além do que eu já usava no restaurante. Conferi tudo, joguei o que estava usando na bolsa de viagem pequena tiracolo e fechei a porta do banheiro do vestiário. Verifiquei se todas as luzes tinham sido apagadas, até mesmo as do escritório, e também se a porta da frente e as janelas estavam trancadas. Após me dar por satisfeita, saí pela porta dos fundos e passei a chave na última fechadura.
– Uma mulher como você não deveria sair por aí sozinha a essa hora. – Eu sorri ao ouvir a voz que vinha da direção do estacionamento.
Não sabia exatamente o que esperar quando o visse novamente após o beijo no estacionamento, mas ele tomou a dianteira, desencostou do carro onde estava apoiado e, me puxando pela cintura, beijou os meus lábios. Eu poderia ir ao céu só com o gosto da boca dele na minha.
– Oi. – Ele disse com um sorriso tímido ao terminar de me beijar.
– Não é pra me impressionar? – Apontei para o carro, um Nissan 280z branco que reconheci como sendo parte da sua coleção.
– Dessa vez, não, de verdade. – John riu. – Ele estava em uma oficina de confiança aqui perto.
– Estava em uma oficina até agora?
– Não. Eu havia recebido um convite para jantar na casa de um amigo de longa data, da época da escola. Ele mora aqui perto, eu precisaria te esperar... Uni o útil ao agradável.
– Não precisava, John.
– Precisava sim. – Ele abriu a porta do passageiro para mim e fez sinal para que eu entrasse.
Agradeci com um sorriso enquanto ajeitava a bolsa no meu colo e colocava o cinto de segurança, esperando enquanto John entrava em seu lugar. Eu bem que tentei segurar a conversa, mas adormeci antes de cruzar a fronteira entre os dois estados. Quando voltei a ter consciência, o carro já estava parado na frente da casa dele, luzes fracas iluminando o exterior, mas ele não estava ali. Peguei minha bolsa e saí do carro, entrando pela porta aberta. Não estava exatamente confortável, me sentindo quase uma invasora, quando ele surgiu no topo da escada.
– Ei, você acordou!
– Desculpa. – Disse, esfregando os olhos. – Eu estava cansada.
– São mais de três horas da manhã, , é totalmente aceitável. – Ele sorriu para mim e fez sinal com a cabeça.
Eu apontei para a porta atrás de mim.
– Não precisa trancar?
– Eu vou descer já. Só subi pra conferir se arrumaram a cama pra você.
– Não precisava disso. – Falei, começando a subir as escadas lentamente, parando no meio do caminho por um pensamento que insistia em perturbar os meus pensamentos. – John...
– Sim?
– Não estamos indo muito rápido? Quero dizer... É a terceira vez em que nos encontramos e a segunda em que vou passar a noite na sua casa.
– Podemos passar a noite na sua, se você quiser. – Ele brincou, sorriu e desceu até o ponto onde eu estava. – Haverá sempre um quarto de hóspedes preparado pra você, sempre. E é como eu te disse... – John fez outra pausa para um riso. – Também não sei como vocês fazem isso agora. A última vez em que cortejei alguém foi a mais de duas décadas atrás. E, no final das contas, devo dizer que nós nos conhecemos de uma forma bem atípica.
Eu estava nervosa. Era a pergunta que eu me fazia o tempo inteiro, se aquilo estava sendo feito da forma correta. Mas a mão dele afagando meu ombro parecia fazer com que tudo aquilo se tornasse certo, de algum jeito. Ele, então, se aproximou de mim e deixou um beijo na minha testa.
– Vou trancar o carro e a casa. Te encontro lá em cima, tá ok?
Assenti e terminei de subir os degraus enquanto ele terminava de descer. Fui até seu quarto, coloquei a bolsa em cima de uma das poltronas que havia ali. Tirei o tênis, deixando o par de calçados logo embaixo da poltrona. Desabotoei o sutiã mesmo sem tirar a blusa, o ato mais maravilhoso do mundo. Escutei um celular tocar no andar debaixo, mas já seria abuso demais ouvir a conversa dos outros. Peguei um pijama confortável e fui ao banheiro me trocar. Quando voltei, John estava já sem camisa no quarto. E mesmo que não fosse nada demais e eu só tivesse soltado o cabelo, ele me olhou de cima a baixo.
– Que bom que você não escolheu o quarto de hóspedes. – Ele abriu um sorriso enorme para mim, me contagiando imediatamente.
– Eu posso fazer uma pergunta?
– Quantas você quiser.
Caminhei até a cama e sentei na ponta dela. Com um sorriso, relembrei rapidamente o que tinha acontecido ali seis dias atrás.
– Por que você voltou por mim?
– Você quer a resposta real, curta e direta ou quer a resposta poética?
– A primeira, por favor.
Ele sorriu, parecia já saber qual seria a minha resposta. Sentou-se ao meu lado logo em seguida.
– O que aconteceu no show... Não vou mentir, você não foi a primeira. Mas sim, você foi a última. Me deixou com uma pulga atrás da orelha. Aí eu te vi de novo no seu restaurante, comentei com o David e com o Tico em um jantar que fizemos aqui em casa e os dois falaram algo que me deu um estalo.
– E o que foi?
– Eles disseram que sentiram alguma coisa quando viram você. Aí eu soube que não era só eu que estava com um feeling.
– E aí você decidiu apostar tudo numa garota da Filadélfia que você nunca viu na vida?
– Vi você no show e no restaurante.
– Ah, tá. Explicado... – Abaixei a cabeça e fitei meus pés descalços balançando no ar. – Acho que eu também não sei cortejar.
– Vamos fazer o seguinte então... Você não quer ir tomar banho?
– Não, tomei no restaurante, obrigada.
– Então eis a minha sugestão. – John levantou da cama e começou a propor. – Eu vou tomar banho, nós dormimos, porque estamos os dois cansados, e amanhã seguimos tentando fazer dar certo esse cortejo. Podemos diminuir o ritmo, se você quiser, ou então...
O sorriso dele era galante e tentador, mas eu desviei das suas intenções com um sorriso educado de resposta. Não precisamos dizer mais nada. Ele foi para o banheiro, terminando de tirar a calça no caminho. Eu deitei na cama que eu não lembrava ser tão confortável. Antes que John voltasse do seu banho, eu dormi.
Acordei na manhã seguinte com a sensação de que havia passado tempo demais. Havia um relógio na parede que indicava que eram nove horas da manhã. O quarto ainda estava parcialmente escuro devido a pesadas cortinas na janela. Olhei para o lado e John não estava ali. Levantei da cama e fui até a janela mais próxima, abrindo a cortina e observando a vista privilegiada do lago Navesink. Sorri com a possibilidade de me acostumar com aquilo. Fui ao banheiro rapidamente e, de lá, escutei vozes vindas do andar debaixo. Eram baixas mas eram masculinas, com certeza. Como não sabia de quem se tratava, escolhi emendar minha preparação em um banho ao invés de interromper qualquer que fosse a visita. Minutos depois, estava colocando uma calça de malha e uma blusa de algodão. Enquanto estava mandando notícias por mensagem para meus pais, ouvi uma batida na porta.
– Pode entrar. – Anunciei.
– Bom dia, senhorita . – A voz não era de John e me deu um susto, fazendo com que eu virasse imediatamente, dando de cara com uma senhora com cerca de sessenta anos de idade. – Desculpe-me, eu não queria assustar.
– Sem problemas, eu só não esperava.
– Eu sou a governanta da casa, Lilia. John pediu que eu a chamasse para acompanhar ele e os amigos no café da manhã, na área próxima à piscina.
– Tudo bem, obrigada.
Peguei o casaco que havia usado na noite anterior e me vesti também, calçando o tênis em seguida. Se John tinha visitas e queria que eu estivesse com ele, precisava estar minimamente apresentável. Desci as escadas devagar, tentando associar as vozes conforme o volume aumentava. A casa estava aberta como eu não havia visto antes e tudo estava muito iluminado. Pela porta frontal, eu pude notar outros três carros estacionados ali. Eu me virei para ir até o outro lado da casa e encaixei o celular no bolso. John me viu pela janela antes que eu chegasse, de fato, à porta que dava para o exterior. Sorriu e se levantou imediatamente, indo para dentro da casa.
– Bom dia. – Ele disse a mim quando me encontrou, me dando um beijo rápido.
– Bom dia. – Respondi com um sorriso. – Sua governanta pediu que eu descesse.
– Ah, sim. Quero que conheça algumas pessoas.
Ao passarmos pela porta, tentei impedir meu queixo de cair. John me apresentou formalmente a David Bryan e Tico Torres. Eu estava sendo recebida calorosamente pelos dois, ganhando abraços apertados e sorrisos mais que simpáticos. John ofereceu o lugar ao seu lado para que eu sentasse, entregando uma bandeja com pães sortidos para mim, e começou a me inserir na conversa, onde os três estavam discutindo ideias para um próximo videoclipe. David e Tico eram tudo o que eu imaginara, as duas pessoas mais simpáticas do mundo.
Não houve, em nenhum momento, indelicadeza ou necessidade de explicações, eles deixaram que tudo fluísse com naturalidade e eram tão preocupados em me manter confortável quanto John. Foram embora logo após o almoço, permitindo que passássemos um tempo confortável na piscina – o que só foi possível porque John ligou o aquecedor. Antes do sol se pôr, nós entramos e começamos a nos preparar para os planos dele para nosso segundo encontro. Ao menos, eu recebera instruções bem dadas sobre o código de vestimenta e levei comigo um stiletto e um vestido longo, ambos pretos. Quando John saiu de seu closet vestindo uma blusa social também preta, de alguma forma, eu senti que estávamos indo pelo caminho certo pelo simples fato de estarmos combinando muito bem. Pouco mais de uma hora depois, nós estávamos chegando ao Daniel, um restaurante de culinária francesa em Nova Iorque, e realizando os devidos pedidos.
– Se eu soubesse que você não gostava de culinária francesa... – John comentou quando empurrou a cadeira após eu me sentar.
– Não é normal que uma chef dispense uma das culinárias mais apreciadas do mundo. – Eu ri enquanto ajeitava o guardanapo em meu colo. – Eu não nego a oportunidade de comer um coq au vin. E de fato prefiro as sobremesas francesas às italianas. Gosto de tiramisu, mas não tanto quando gosto de um petit gateau ou um profiterole. Além de amar, incondicionalmente, todos as possíveis versões de um croque monsieur. Então não é que eu não goste, eu só tenho outras preferências.
– Achei que seria uma audácia te levar pra jantar em um restaurante italiano, além de você comer comida italiana com frequência.
– Você cozinhou comida italiana para mim na semana passada e eu não reclamei. – Sorri e agradeci ao garçom enquanto ele servia um dos vinhos da casa para nós dois. – Você já conhecia o lugar?
– O chef é meu amigo.
– Eu fui a um workshop dele enquanto estava na faculdade.
– E gostou?
– Ele é sensacional, devo dizer.
– Posso te apresentar a ele quando terminarmos. Disse antes que ia trazer alguém especial aqui.
– Você já trouxe alguém especial aqui antes? – A pergunta escapuliu da minha garganta e eu me arrependi das palavras imediatamente, mas John não pareceu notar, muito menos se deixar abalar por qualquer intenção errada na conversa.
– Minha família apenas. – Ele respondeu tranquilamente. – Minha menina mais velha é muito amiga da filha do Daniel.
Conforme íamos conversando, eu notava que uma coisa estava ficando clara: John Bongiovi não tinha a mínima intenção de me “esconder" de quem quer que fosse. Não saiu gritando pelos quatro ventos que eu estava fazendo sexo com ele, aparentemente, em toda segunda-feira – porque, até então, era aquilo que parecia. Minha experiência escassa com homens talvez fosse uma boa explicação para tudo. Eu não estava sabendo reconhecer que estava sendo, finalmente, bem tratada. Mas ser bem tratada por John Bongiovi sem ter vergonha de dizer ao mundo que estava tendo um relacionamento com uma mulher bem mais nova não muito tempo após se divorciar era demais para a minha cabeça. Mesmo assim, eu me culpava por estar gostando de estar ao lado dele.


07

, fechamos tudo e o primeiro carregamento chega em duas semanas, na terça.
– Ótimo então. – Sorri para Alice. – Você explicou a ele todo o processo de higiene pra entrar aqui na cozinha?
– Ela falou tudo e repetiu cinco vezes. – John respondeu com um sorriso.
– Foram seis, na verdade. – Alice brincou e começou a sair da cozinha. – Vou voltar pro trabalho. Me chamem se precisarem de mim.
A rotina no restaurante não tinha mudado muito depois de que a notícia de eu estar namorando com John Bongiovi se espalhou por entre os funcionários. O importante era que eu mantinha uma postura rígida e profissional sempre, e isso fazia com que os meus funcionários seguissem. Claro que houve um murmurinho imediato quando souberam que ele estava no restaurante em horário de serviço. Souberam pelos garçons – grandes fofoqueiros, isso era verdade – que ele e seu advogado estavam em reunião com Alice. Para todos, eu não estar presente na reunião também era estranho demais para evitarem os comentários que não tinham como passarem despercebidos.
– Ellis! – Chamei um de meus commis.
– Sim, chef.
– Me faz um favor. Preciso de cebolinha, salsa, manjericão, orégano e pimenta calabresa. Tudo fresco, nada desidratado.
Ele assentiu e afastou-se na direção da geladeira. Eu peguei a peça de carne que tinha sobre a minha bancada e coloquei em cima de uma das tábuas. Em seguida, peguei o cutelo do ímã de facas na parede. John arregalou os olhos e deu dois passos para trás.
– Eu deveria ficar preocupado?
– Você tem medo de mulheres que sabem usar facas? – Perguntei e ele riu. – Estamos cheios delas aqui.
– Aqui, chef. – Ellis colocou as ervas que eu tinha pedido na ponta da bancada.
– Obrigada, Ellis. Pode ficar à disposição de quem precisar por agora.
– As coisas aqui sempre fluem bem assim?
– Do que você tá falando?
– De como todo mundo parece estar sempre encaixado.
– Ah, temos a mesma equipe faz muito tempo.
– Onde você consegue orégano fresco por aqui?
– Tem um fornecedor que tem uma plantação hidropônica gigante no caminho para Nova Jersey.
– Pode me passar o contato dele depois?
– Claro, passo sim. – Juntei as ervas que Ellis tinha levado junto à carne, pegando também alho e cebola que estavam em bowls na minha frente. – Pronto pro show?
– Vá em frente.
Com o cutelo, comecei a cortar tudo. Primeiro, em pedaços grandes, diminuindo o tamanho conforme ia aumentando a quantidade de cortes. Cerca de um minuto e meio a dois minutos depois, tudo estava devidamente moído. John estava surpreso e fingiu aplaudir.
– É um dom que eu queria ter, mas costumo passar tudo no processador.
– Temos um processador ótimo aqui também, mas a textura fica bem melhor na ponta da faca.
– É o segredo do seu polpetone?
– Gosto de pensar que sim. – Sorri para John e juntei o blend todo em uma massa única e bem compactada.
– O orégano não deixa muito gosto nesse caso?
– Eu pensei isso também quando fui arriscar a receita da primeira vez, mas deu tudo certo e eu continuei usando as mesmas ervas desde então. – Disse e o temporizador em cima de uma das minhas prateleiras apitou. – Ótimo, as batatas estão prontas.
– Você disse que ia me deixar fazer o gnocchi. – Ele riu.
– E vou. Pode desligar o fogo das batatas, escorrer a água na outra panela e colocar as batatas nesse bowl limpo que tá na sua frente.
John foi fazer o que eu havia dito enquanto eu moldava os polpetones, acrescentando um pedaço generoso de mozzarella por dentro deles. Coloquei os dois em assadeiras individuais repletas de molho de tomate artesanal, cobri os dois com parmesão em grande quantidade e botei as assadeiras em um tabuleiro maior. No forno atrás de mim, deixei o tabuleiro, configurando uma temperatura mediana para que ficasse pronto ao mesmo tempo que o gnocchi.
– Pronto. Batatas escorridas. Qual o próximo passo?
– Amassá-las. – Falei, pegando o amassador manual e passando para ele antes de ligar o fogo da panela onde a água das batatas estava. – Quando terminar, manteiga e um ovo. Mas o ovo tem que ser misturado bem rápido, porque a temperatura das batatas pode cozinhar partes dele. E não pode deixar pedaços de batata, isso causa problemas na hora de cozinhar a massa pronta.
– Sim, chef.
Revirei os olhos em resposta à graça que ele fez.
– Vou dar uma passada na cozinha, verificar como todos estão, dar uma olhada no salão... Você vai ficar bem sem mim? A quantidade de manteiga é toda a que está nesse bowl aqui.
– Claro, pode ir. – John falou e deixou um beijo na minha bochecha direita.
Quando vi que tudo estava em ordem, voltei para a cozinha e, junto com John, finalizei o gnocchi. Colocamos as porções também individuais para gratinar. Enquanto esperávamos, levei John para fazer um tour pela cozinha. Todos o recebiam muito bem, como era previsível. Alguns até com entusiasmo demais, como David, que quis citar quase que toda a discografia dele e comentar sobre shows da banda que tinha visto a qualquer custo. John era simpático ao extremo com todos, sem perder a pose por um segundo sequer.
Os temporizadores dos fornos tocaram e lá fomos nós retirar os pratos de dentro deles. John me ajudou a colocar tudo em uma bandeja grande e se ofereceu para carregar enquanto íamos para o escritório. Com as mãos vagas, aproveitei para pegar um dos vinhos que ele já tinha levado para nós. Abri a porta para ele e preparei a mesa de refeição. Alice havia ido para o salão – como eu estaria com John e não ficaria tão dedicada à cozinha, deixei que ela aproveitasse uns minutos de folga do computador.
– Você estava certa. – John falou após a primeira mordida.
– Sobre o quê?
– Sobre as ervas. – Ele apontou para o polpetone. – Realmente, o sabor ficou bem dissolvido. E é incrível que você consiga moer a carne a esse ponto sem usar um processador ou qualquer outro eletroportátil.
– Ah, eu participei de um workshop de uma semana inteira só sobre uso de facas em diferentes cortes de carne.
– Isso é o quê, aliás?
– É chuck tender, uma parte da paleta.
– Eu entendo de massas, mas carne não é exatamente o meu forte. Você, pelo contrário, parece entender muito bem.
– Estudar é fundamental nesse ramo.
John parou de comer e apontou para a parede oposta a nós.
– São seus diplomas?
– Sim, o da faculdade é o maior quadro. Os outros são cursos relevantes que eu já fiz.
– Qual foi o melhor deles?
– Uma semana com Gordon Ramsay em Nova Iorque sobre frutos do mar.
– Você não tem muitos frutos do mar no seu cardápio.
– Eu sei. – Dei de ombros e ri. – Mas eu não fui pra trazer conhecimento pro restaurante, eu só queria conhecer o chef.
– Já pensou em se escrever em uma competição de culinária? Você é muito boa, tenho certeza de que se sairia bem.
– Não sou competitiva, tudo daria muito errado. – Respondi e nós dois rimos. – O que você e Alice acertaram, afinal de contas?
– Vou enviar um carregamento de vinte e cinco garrafas de setecentos e cinquenta para cá, preço de custo, para que vocês experimentem com a clientela. Ela vai passar o resultado do consumo e possíveis críticas para a minha equipe, que tem um software especializado em contabilizar qual é a demanda ideal para vocês. Assim, você não vai comprar mais vinho do que precisa.
– Uau, você é muito bom em dividir negócios e vida pessoal.
– Ah, tenho que ser. Trabalho com meu filho, é um pré-requisito. Aliás, falando em vinho... – John limpou a boca com o guardanapo, mesmo que eu não tivesse visto vestígio de sujeira ali, mas a forma como ele colocou os talheres no prato indicavam que tinha algo de importante a ser dito a ponto de precisar de uma pausa dramática. – Queria que você fosse comigo conhecer a vinícola.
Eu pisquei os olhos. Por uns instantes, até me senti lisonjeada. Mas aí a realidade deu dois toques no meu ombro e me lembrou de como as coisas rolavam por ali.
– John, é incrível, mas eu realmente não posso.
– Por quê?
– Tenho o restaurante, não posso deixar tudo aqui e ir até a Califórnia.
– Você tem certeza?
Seus olhos eram pidões, e eu me perguntei se aquilo era sinceridade ou força do hábito. Engoli em seco. Fiquei desconfortável ao extremo naquele instante, sob o olhar dele.
– Eu sinto muito, John. – Foi tudo o que eu consegui dizer.
Era por conta de momentos como aquele que eu não me envolvi com outros homens seriamente antes dele. Seria idiotice e mentira dizer que ele ser quem era não pesava muito na minha decisão positiva em favor de me envolver com alguém, mas era aquele olhar de coração partido que eu tentava tanto evitar, porque sabia que ele me perseguiria até tirar meu sono e me fazer surtar por completo. Eu não queria partir o coração de ninguém, da mesma forma que não queria que partissem o meu.
– Tudo bem, nós podemos ver melhor no futuro quando surgir uma oportunidade.
– Seria ótimo. – Respondi.
Fiquei tentada mesmo a dizer que aquela era uma chance quase nula de surgir, mas não queria acabar com as esperanças dele. No entanto, o que mais me motivou a manter um discurso menos pessimista foi ele usar as palavras ‘no futuro’. Para mim, mera mortal, estava difícil de acreditar que eu estava mesmo em um relacionamento – mesmo que ainda não rotulado – com ele.
– Me diga algo que eu ainda não saiba sobre você. – Ele disse repentinamente, quebrando a tensão que se instaurou no ambiente.
Era uma fala que ele costumava usar sempre que ficávamos sem assunto ou quando o clima ficava estranho. Como locutor, ele era ótimo. Daquela vez, o assunto em que ficamos navegando foi parte da minha infância conservadora e as regras que quebrei ao começar a crescer, incluindo a viagem de fuga para um de seus shows. Eu precisava arrumar algumas coisas na minha bancada depois de comermos, então disse que ia lá enquanto John falou que ia aproveitar para espiar mais o funcionamento do restaurante se eu não me importasse. Cada um de nós foi para seu respectivo lugar e, logo, eu estava começando a limpar a área em que tinha trabalhado antes de sentar à mesa com ele.
... – Ouvi Jessie se aproximar.
– Sim?
– Eu sei que eu não deveria, mas a Alice acabou escutando, falou comigo e...
– Do que você tá falando? – Eu me virei para ela, já querendo ir ao ponto da questão direto.
– Você deveria ir na viagem com ele.
Fiquei surpresa por um momento. Quis reclamar, brigar com ela, ir discutir com Alice, que não deveria ter escutado conversa de ninguém ali atrás da porta, mas eu simplesmente estava tão afetada pelo que havia acontecido antes que não consegui reagir agressivamente. Ao invés disso, optei por seguir o caminho mais cordial possível.
– Jessie, não dá, eu preciso tocar o restaurante.
, você tá há anos sem tirar férias, desde que o restaurante abriu. Você merece isso.
– Mas eu sabia do preço que ter um negócio próprio ia me cobrar.
– Pelo amor de Deus, mulher! – Ela gritou e eu arregalei os olhos, fazendo com que ela abaixasse o tom de voz novamente logo depois. – Você treinou todos nós aqui com perfeição. Os commis permanentes vão ser escolhidos na próxima semana e, além disso, estamos em um mês com movimento naturalmente menor do que nos outros.
– Jessie, eu não posso. – Insisti.
– Pode sim! Lembra quando eu disse pra você que nós tínhamos funcionários demais, que poderíamos ter menos? – Ela perguntou e eu assenti. – E lembra do que você me respondeu? Você disse que eram funcionários demais porque, assim, ninguém nunca ia ficar sobrecarregado se um, dois ou até mesmo três faltassem. E nós ficamos sobrecarregados com alguma coisa em alguma vez na vida desse restaurante?
– Não, mas...
– Sem ‘mas’, . – Ela me interrompeu. – Você vai nessa viagem.
Por cima dos ombros dela, pude ver John voltando para a cozinha. Ele trocou algumas palavras com Leo, que lhe ofereceu uma colher de alguma coisa que estava sendo preparada. Enquanto processava um esporro da minha sous chef, fiquei pensando no quê aquela viagem poderia significar.


08

Levantei quando o sol ainda estava por nascer, às cinco e meia da manhã. John continuava dormindo ao meu lado e não quis acordá-lo, então saí da cama com cuidado. Fui ao banheiro, vesti um robe cumprido de lá que estava pendurado próximo à entrada do pequeno closet e peguei uma manta quente em uma das prateleiras. Então me dirigi à varanda, atravessei as cortinas de voil que eram movimentadas pela leve brisa que corria pelo quarto e sentei no divã de fibra sintética que havia ali.
Se levasse em conta o fuso horário, deveria estar dormindo, mas meu estômago estava revirando de nervoso por mil coisas. O simples fato de estar ali já era suficiente para me tirar dos eixos, mas então eu havia deixado o restaurante sozinho, e nada me preocupava mais do que aquilo. É claro que eu sabia que não estava literalmente sozinho, mas eu sentia como se estivesse. Mesmo que não fosse nem três horas da manhã na Filadélfia, peguei o celular e comecei a digitar uma mensagem no grupo com Jessie e Alice.

Como foram as coisas na noite passada?
Todos estão seguindo as ordens?
Os fornecedores estão em dia?
Como foi o movimento do caixa?
Se precisarem, me digam que eu volto
Por favor, não hesitem em me avisar se precisarem de mim
Vou estar com o celular por perto sempre


Fechei o aplicativo com a ciência de que estava sendo neurótica mas sem pensar que estava errada, mesmo com toda a preocupação exagerada. Observei a vista à minha frente, o vale por onde a vinícola se estendia até o limite com a propriedade vizinha. O céu era, a cada segundo, mais tingindo de laranja. A vista me confortava um pouco.
Os primeiros raios solares me atingiram por volta das seis horas, quando o céu já estava bem mais claro e os detalhes se tornavam cada vez mais visíveis. Dali, naquele instante, a piscina parecia extremamente convidativa. Sob aquela iluminação, a mesa sob o pergolado, logo ao lado da piscina, também era tão perfeitamente encaixada no conjunto que era prazeroso apenas observar.
A casa era toda em um estilo italiano gracioso, que remetia ao estilo encontrado nos filmes que queriam retratar a Itália como um país mais conservador. Era apaixonante, na falta de uma palavra melhor. Mesmo com toda a sua simplicidade – claro, reservada a alguns detalhes, porque a quantidade de quartos ou o luxuoso exterior não tinham nada de simples –, fazia com que eu me sentisse em um sonho.
Perdi a conta do tempo. Quando dei por mim, John estava se aproximando, preguiçoso em sua calça de flanela solitária. Colocou as mãos sobre meus ombros e eu sorri, mesmo sem olhar para ele. Então John se abaixou e deixou um beijo na parte da pele do meu pescoço que não estava coberta pelo robe.
– O que houve? – Ele perguntou baixinho.
– Acho que só fiquei sem sono.
– Algum problema?
Bem... Por onde devo começar a falar sobre a surrealidade disso tudo? Talvez pelo fato de estar viajando com um cara que poderia foder qualquer mulher nesse mundinho todo e escolheu foder a mim em particular?
– Não. – Eu virei para ele após responder, e John aproveitou para me beijar brevemente. – Só queria pensar um pouco.
– Quer conversar sobre algo?
– Não, tá tudo bem. – Segurei a mão dele que ainda estava sobre o meu ombro.
– Você não quer pensar na cama?
A pergunta conseguiu arrancar um sorriso sincero de mim. Eu me permiti ser guiada por ele até deitar novamente, protegida pelo dossel rústico que cercava a cama. John me ofereceu o peito para que eu deitasse minha cabeça sobre ele e eu aceitei, recebendo um abraço logo depois. Fiquei me perguntando se era aquilo que faltava para mim naquela noite de insônia, porque adormeci rapidamente logo depois.

J: Puta que pariu,
J: É sério isso?
J: Se eu receber mais uma mensagem sua nesse sentido, eu juro que vou incendiar o restaurante
J: Sinceramente...

Eu li a mensagem na beira da piscina, deitada na espreguiçadeira mais confortável que eu vi na vida e vestindo um biquini que havia sido um dos presentes para aquela viagem. John chegou por trás de mim e ofereceu uma taça.
– Recém-colhido. – Ele disse com um sorriso. – Claro, não é vinho ainda, mas não deixa de ser uma delícia.
Balancei a taça e cheirei o suco antes de tomar um gole.
– É muito bom, incorporado.
– Sem adição de água, são só as uvas. O segredo é o ponto da colheita.
– Bem, eu sei receber os produtos, provar e dizer se são bons.
– Eu aprendi com alguns dos melhores engenheiros agrônomos do país. – John falou e bebeu mais um pouco do suco. – , tem algo que eu quero te contar.
Desencostei da espreguiçadeira, colocando os pés para fora e encostando as solas no chão.
– O que houve?
– Tenho uma turnê vindo em alguns meses. Vou ficar longe por algum tempo. Conversei com David e Tico, são meus melhores amigos. É algo novo pra mim, não sei como você vai reagir a isso. Eles sugeriram o que eu já tinha em mente.
– E o que você já tinha em mente? – Perguntei.
– Te convidar pra ir junto.
O choque foi grande e imediato. Eu pensei em tudo. Tinha ficado desacostumada com a proximidade, o contato constante. Então tinha a lembrança de como nós nos conhecemos. É claro que eu havia considerado a possibilidade de ele encontrar outra e, por mais que ainda não tivéssemos rotulado nada entre nós – eu nem sabia se um dia rotularíamos –, o medo me atingiu.
– Lembra quando a gente tava conversando, há uns dias, e concordamos que o melhor tipo de relacionamento é aquele onde há reciprocidade de confiança?
Eu não respondi, apenas assenti.
– O que você quer falar?
– O que nós temos é sério?
– Claro que é.
– Um relacionamento sério? Entre duas pessoas? – Fixei a palavra.
John riu. O meu sorriso. Eu gostava de pensar daquele jeito, que aquele sorriso era só meu, muito embora eu soubesse, como fã, que aquele sorriso era a marca registrada do Bon Jovi desde que a banda havia estreado em 1983, e a idade só tinha feito bem a ele.
– Isso é um não então?
– Como assim?
– Ao meu convite pra você me fazer companhia.
Eu suspirei.
– John, me desculpa, mas eu não posso. De verdade. Esses poucos dias aqui já são um exagero pra mim, eu já to fora do restaurante por tempo demais.
– Então a minha resposta também é um não.
– Pra quê?
– Pra sua pergunta silenciosa sobre eu sequer beijar outra mulher enquanto estou com você. Sabe, você não gosta de falar sobre si mesma mas é um livro aberto, e eu nem preciso te perguntar pra saber se você é a favor disso ou não. Eu seria um idiota se não percebesse e duas vezes idiota se ignorasse.
– Não quero te forçar a nada. – Declarei.
– Da mesma forma que eu também não quero te forçar. E você não está me forçando. – John falou e ofereceu a saída de praia que eu havia levado, que aceitei prontamente. – Vamos, quero te mostrar um lugar.
John me guiou pela mão através das videiras mais próximas à casa. Ele me mostrou os estágios diferentes das plantas desde o começo, quando elas nem eram visíveis sobre a terra ainda, até o fim da cadeira de produção, onde seus funcionários já trabalhavam para realizar a colheita. De lá, recebi um tour privativo pela adega sob a casa, que eu jamais imaginaria que existia.
Cada detalhe era explicado com exatidão. Era surpreendente que John soubesse tanto sobre tudo, ou então eu quem não sabia nada e estava caindo no papo dele como um cachorrinho. Mas se John ainda achava que precisava me impressionar, estava muito errado.
– O que você vai querer jantar? – Ele me perguntou à tarde, quando aproveitávamos mais um pouco da piscina.
– Pode ficar a seu critério.
– O que eu quero já está aqui. – Ele falou, malicioso, e aproximou-se, colocando as mãos na minha cintura sob a água. – Mas estou falando sério. O que você quer?
– Não sei, John, me surpreenda. – Provoquei.
– Como vou surpreender uma chef na escolha de um menu para a janta?
– Você quer responsabilizar essa mesma chef, cuja folga você brigou para existir, quase que literalmente, por escolher o menu pra janta?
John revirou os olhos e deu um passo para trás.
– Ok, você me venceu. – Ele confessou e piscou para mim. – O que acha de torradas com ovos mexidos ao final da tarde, sob o pergolado, com o melhor suco de uva do mundo, e baby beef na churrasqueira para a janta com um belíssimo purê de batatas inglesas de acompanhamento? Sei que você adora batatas. Mas aí nós podemos alcoolizar nosso menu.
– Me surpreenda, John Bongiovi. – Falei, sorri para ele e deixei um beijo em seus lábios antes de afundar e criar impulso para nadar até o outro lado da piscina.
Passamos um tempo na jacuzzi anexa à piscina, aproveitando um pouco do relaxamento proporcionado pela hidromassagem para conversarmos um pouco sobre assuntos aleatórios. John estava muito falante sobre, especificamente naquele dia, seu próprio restaurante – que nada tinha a ver com o meu mas, mesmo assim, ele insistia para ter a minha opinião.
Enquanto estávamos lá, ouvimos meu telefone tocar duas vezes. Na terceira, eu só conseguia pensar no restaurante e na possibilidade de estar acontecendo algo errado. Então foi inevitável sair da piscina correndo e atender o telefone mesmo que estivesse com as mãos molhadas.
– Oi, Alice. O que houve?
– Seus pais estão fazendo uma visita surpresa e você não contou a eles que ia viajar?
Bati com a palma da mão na testa como em um reflexo. Não, não era um problema no restaurante. Era pior.
– Puta merda... Você já falou alguma coisa pra eles?
– Na verdade, não. – Eu escutava atentamente enquanto John me observava, ainda dentro da água. – Eu os vi daqui de cima, do escritório. Ninguém sabe o que você foi fazer, só sabem que você tá ausente. A Jessie tá trancada no banheiro pra evitar os dois, me mandando mensagem e pedindo socorro.
– Ok. Diga a eles que eu viajei para me encontrar com um novo fornecedor de bebidas pro restaurante, o que não é mentira. Se eles questionarem qualquer coisa além disso, diga que não sabe de nada a mais. Eles vão me ligar e aí eu resolvo daqui.
– Tudo bem, vou fazer isso e te mando mensagem, contando como foi, pra gente fechar a história direitinho.
– Ah, e não deixe a Jessie fazer isso. Meus pais conhecem vocês duas, confiam mil vezes mais em você do que na Jessie. Ou melhor. Confiam em você e não confiam na Jessie.
– Uau, agora eu me sinto definitivamente lisonjeada. – Alice brincou. – Você deveria voltar para o seu sugar daddy, estamos resolvidas.
Eu desliguei o celular após a frase suja dela e sequei minhas mãos na toalha que estava na minha espreguiçadeira.
– Problemas? – John perguntou, saindo finalmente da piscina também.
– Meus pais. – Respondi. – Eu não avisei a eles que estava viajando.
– E, pelo jeito, nem quer que eles saibam dos detalhes.
– John, não é isso. Meus pais são... Peculiares. Você não entenderia, eles...
– Tá tudo bem. – Ele me segurou pelos ombros e sorriu para mim ao interromper a minha fala. – Acho melhor entrarmos, de qualquer jeito. A previsão não está favorável.
O tempo virou por volta das sete e quarenta e cinco, fazendo com que o dia escurecesse bem mais cedo do que o previsto. Ao longe, podia ver as nuvens chegando com o ecoar dos trovões ainda à distância. Após o banho, fui para a sacada do quarto e fiquei por lá, observando enquanto os raios tocavam a terra em todo o entorno da casa. O nível de adrenalina na minha corrente sanguínea só fazia a pintura à minha frente ficar mais bonita.
John parecia ler meus pensamentos. Ele se aproximou por trás em silêncio, passou um braço pela frente do meu corpo, puxou-me para si e encaixou os lábios no meu pescoço, deslizando a mão livre pelo meu ombro para que a alça da camisola cedesse.
– Não precisa se preocupar, eu sou seu e apenas seu. – Ele sussurrou ao pé do meu ouvido.
Eu me virei para ele imediatamente. Passei os braços pelo seu pescoço e John me pegou pelo quadril, tirando meus pés do chão e indo até a cama me carregando. Deitou delicadamente sobre mim, entre as minhas pernas, enquanto distribuía beijos pelo meu corpo inteiro. A cada toque dos seus lábios na minha pele, eu deixava escapar mais um gemido.
John levantou a minha camisola apenas o suficiente para que ele tivesse livre passagem. Colocou o preservativo em si mesmo e não esperou mais. Ele me colocou sobre seu corpo e ajudou a produzir o encaixe perfeito que estávamos tendo naquelas últimas semanas. Enquanto eu subia e descia em cima dele, John ficava os dedos com cada vez mais força e gemia meu nome baixinho. Aquilo fez todas as minhas preocupações sumirem.


09

– As fotos são incríveis, ! – Jessie comentou, jogada no meu sofá.
Eu fui até o bar e peguei taças para nós três enquanto Alice abria a garrafa de vinho, uma das que eu havia ganhado de John. Na mesma hora, Jessie pulou do sofá e correu para a cozinha, sentando em uma das banquetas da ilha e pegando a taça que eu lhe entregava.
– Você bem que podia convencer seu sugar daddy a nos deixar ir lá. Posso pensar em férias coletivas...
– Não pode não. – Eu servi o vinho para nós três. – Eu nem deveria ter ido, pra começo de conversa.
– Vamos voltar ao assunto? O martelo já não foi batido? – Alice perguntou após tomar um gole do vinho.
– Eu só quero que vocês saibam que eu não vou ficar agindo como uma irresponsável.
– Sobre isso... – Jessie hesitou. – Eu e Alice estávamos conversando enquanto você estava longe e achamos...
– Ei, está quase na hora! – A mais nova de nós praticamente gritou, interrompendo Jessie, e correu para a televisão.
Levamos os petiscos que tínhamos preparado até a mesa de centro. Sentamos as três no sofá, eu estiquei minha perna para cima da poltrona que arrastei para perto. Liguei a televisão com o controle remoto. O canal já estava selecionado e o programa estava no ar. O apresentador falava algo que não tinha exatamente a ver com a banda enquanto eu bebericava o vinho e checava o celular para novas mensagens. Nada. Ele devia estar ocupado e eu precisava ficar tranquila quanto àquilo.
Enquanto ficava preocupada com John, deixei passar despercebido o fato de que Alice e Jessie estavam cochichando entre si ao meu lado. Eu poderia muito bem nem ter notado, não fosse a expressão de seriedade que as duas repentinamente adotaram. Era simples. Éramos amigas havia muito tempo, não havia como esconder alguma coisa. Toda vez que rolava algo daquele tipo, vinha uma conversa não muito agradável. Então finalizei o conteúdo da minha taça de uma vez só e já reabasteci.
– Vocês vão desembuchar logo ou não?
– Como assim?
– A conversa paralela aos murmúrios escondida de mim. – Ironizei. – Vocês duas disfarçam muito mal.
– Ah, não é nada, ! É que...
– Nós achamos que você tem que se desligar mais do restaurante. – Jessie interrompeu Alice de uma vez e nós duas nos assustamos com as palavras.
– O quê?!
– Olha, não é exatamente assim. Nós conversamos e... – Alice fechou os olhos e respirou fundo, estava incorporando a Alice sincera que raramente dava as caras por medo de magoar os sentimentos de alguém. – Você voltou radiante da viagem, , e nós duas sabemos que você nunca viajou desde que abriu o restaurante. Também sabemos que você nunca se deu o direito de sequer ficar doente ou ter uma folga porque a cabeça não estava cem por cento no lugar. Vimos você abrir mão de tudo, se matar para pagar os empréstimos, virar o mundo de cabeça para baixo até estabilizar e deixar o restaurante começar a render lucros. E não nos veja como traíras ou ingratas. Achamos que você é uma chef maravilhosa, sem comparações possíveis. Mas você precisa aprender a relaxar ou vai ter uma vida infeliz por se sentir presa ao restaurante.
– Eu não me sinto presa a ele.
– Mente que eu gosto! – Jessie protestou.
– To falando sério!
– Nós duas sabemos bem que não. Ou melhor... Nós três.
– Gente, eu amo o que eu faço, eu não vou parar de fazer isso e...
– Ninguém tá dizendo que você não ama ou que você tem que parar, .
– Só estamos dizendo que você tem que se permitir ser mais a proprietária do estabelecimento do que uma simples funcionária. – Alice disse com a voz suave. – Essa viagem, esse tipo de distração, qualquer coisa nesse nível... Você deve ter o direito de fazer mais vezes. Todos nós temos, saímos de férias todo ano, você deveria ter também E tudo bem você faltar porque, além de você ser a patroa, você tem uma equipe incrível que supriria a sua ausência perfeitamente em qualquer caso. A Jessie é uma maravilhosa cozinheira, você sabe bem disso. Deveria confiar mais nela pra assumir suas responsabilidades.
– Não estamos falando que você tem que sair da cozinha definitivamente. Só que você pode sair e que o mundo não vai acabar por causa disso. Olha quantas mensagens você ficou enviando pra nós duas enquanto estava viajando!
– Meninas, eu agradeço a preocupação, mas eu estou bem.
– Não está! – As duas disseram em uníssono.
– Era só o que me faltava...
, você precisa ser mais você.
– Você precisa ter uma vida além de folgas nas segundas. – Jessie completou.
– O restaurante vai ser sempre seu, você vai poder aparecer sempre na cozinha, fazer o que bem entender, quando bem entender, como bem entender. Mas confia mais na gente pra tirar um pouco o peso das suas costas. O lucro não vai diminuir, a fama do restaurante não vai sumir. Você ainda vai ser conhecida como uma das melhores chefs da cidade, o restaurante vai continuar sendo recomendado pelas melhores personalidades do estado... Olha quantos grandes chefs possuem restaurantes pelo mundo inteiro e raramente cozinham neles. E nem por isso os restaurantes deixam de ter qualidade.
– Isso sem contar com o marketing perfeito que seu namorado tá fazendo pela gente.
– Ele não é meu namorado.
– Ah, só você não sabe, querida!
– Não tem rótulo, gente.
– Mas você gostaria que tivesse? – Alice perguntou.
– Achei que essa conversa fosse sobre o restaurante. – Eu disse, confusa. – Enfim... Eu agradeço a preocupação, mas eu gostaria mesmo que vocês entendessem que a cozinha é o meu lugar, que eu lutei para ter o restaurante para ficar nele e que...
– Olha, vai começar! – Jessie apontou para a televisão.
Nenhuma das duas gostava de Bon Jovi tanto quanto eu. Meu fanatismo vinha da minha adolescência, tinha mais de uma década idolatrando aquela banda antes de sequer sonhar em conhecer John pessoalmente, quem diria engatar em um romance com ele. Claro que as duas conheciam o Bon Jovi – quem, na nossa idade, não conhecia? –, só não faziam ideia de quais eram as músicas além de Livin’ on a Prayer.
– Ele tá um pedaço de mal caminho com essa jaqueta, hein, . – Jessie comentou.
– É o namorado dela, Jessica, olha a boca.
– Estou falando alguma mentira?
Eu ri do argumento das duas.
– Não, não está. – Olhei para a tela e podia sentir o brilho nos meus olhos.
– Vejam só, está apaixonada...
– Também pudera! Eu estaria igualmente apaixonada se estivesse no lugar dela.
– Vocês duas falam de mais. – Eu falei e nós três rimos.
As poucas músicas foram tocadas com fluidez até certa parte. Eu me sentia estranha, era surreal que o mesmo John na transmissão da TV fosse o que passava quase todas as segundas comigo pelos últimos meses. Quem ele personificava no palco tinha muito dele mesmo, mas eu também conseguia diferenciar o John artista do meu John. Só de pensar que havia algo entre nós, um sorriso espontâneo já nascia nos meus lábios. Mas nem tudo era mil maravilhas.
Em certa altura, a câmera focou no público. Coladas na grade que dividia a plateia do palco, estavam dezenas incontáveis de garotas. Garotas como eu. Garotas como eu no dia em que fui escolhida para ir ao palco e, depois... Bem, vocês já sabem. Toda a leveza foi substituída por um sentimento ruim, uma energia escura que tomou conta da minha sala de estar repentinamente. As garotas, é claro, perceberam. Como em um passe de mágica, Alice desligou a televisão.
– Tá tudo bem? – Jessie me perguntou com o tom de voz cauteloso.
Eu não respondi. Deixei as duas ali e subi para o meu quarto às pressas. Direto para o banheiro, olhei para meu rosto no espelho, minha cara lavada em pleno dia de folga quando eu não planejava sair na rua de qualquer forma. Procurei, por longos segundos, algo que fizesse sentido em como eu e John estávamos começando a formar um casal. Imaginei John ao meu lado e, mesmo com praticamente duas décadas de diferença entre nós, ele ainda parecia muito melhor que eu. E enquanto eu estava devaneando, senti que não estava mais sozinha.
...
– Eu to bem, Jessie. – Disse e respirei fundo. – Eu to bem.
– Você tá falando pra mim ou pra tentar se convencer?
– Não quero falar sobre isso. – Falei, tentando sair do banheiro, mas Jessie entrou no caminho.
– Olha, eu posso ser doidinha, mas eu te conheço faz anos e sei que tem um problema aí dentro, mocinha.
– Jessie, por favor...
– Se você vier com esse papinho de novo de “ai, ele é demais pra mim" ou “não é possível que ele goste de mim", eu juro que mando uma mensagem pra ele e conto tudinho.
– Você não tem o telefone dele.
– Mas eu arrumo.
– Como?
– Agora que ele é fornecedor do restaurante, Alice conseguiria em menos de dez minutos.
– Jessie!
– Eu to falando sério, caramba! – Ela insistiu. – O que você viu lá embaixo deveria te deixar feliz. Porque ele tem milhares de mulheres doidas por ele mas é pra você que ele dá bola, é você quem ele fica esperando sair tarde do trabalho quase todo domingo à noite desde que vocês começaram a sair, é pra você que ele fica mandando mensagem toda bonitinha e é de você que ele arranca sorriso com essas mensagens. Agora você vai descer. Se não quiser assistir mais o show, tudo bem, mas você sabia quem ele era quando entrou nessa e gosta dele mesmo assim, não gosta?
Não consegui responder, só deixei os ombros caírem. Jessie me deu espaço e descemos juntas para o andar principal novamente. Acabamos optando por deixar para lá o show transmitido, depois eu lidava com aquilo ou inventava algum problema para dizer que não tinha conseguido terminar de ver. Bebemos mais um pouco e, quando a comida acabou e nenhuma de nós quis preparar mais nada, pedimos pizza.
Todas as emoções que aquele dia, que era para ser um dia de relaxamento entre amigas, despertou me colocaram em um humor não muito agradável. Foi assim que eu ouvi a campainha tocar. Contrariada, deixei as duas ainda bebendo enquanto desci para receber quem estava à porta. Quando espiei pelo olho mágico, meu coração errou as batidas. Então destranquei a porta correndo.
– John?! O que você...?
Não consegui terminar a pergunta. Ele me puxou pela nuca e, antes que eu processasse tudo, estávamos trocando um beijo caloroso.
– Sei que combinamos de não nos vermos essa semana por causa dos meus compromissos, mas eu fiquei com saudade.
– Eu não... – Estava completamente sem palavras.
– Fiz mal em vir?
– Não, é que...
– Eu só vim direto pra cá, foi tudo tão rápido que acabei não avisando.
– Precisa de ajuda aí, ? – Alice gritou lá de cima.
John arqueou uma sobrancelha e, então, sorriu para mim.
– Estou atrapalhando. – Ele concluiu com um sorriso triste nos lábios. – Sinto muito por interromper seu momento com sua amiga. De qualquer forma, já foi bom te ver, mesmo que rapidinho.
, eu... – A voz veio do topo da escada e eu me virei imediatamente, fingindo sorrir.
– Não é a pizza, Jessie.
– Uau! – Ela ficou sem reação por um minuto. – Senhor Bon... Quer dizer... John! Oi, como vai?
– Vou bem. E você, Jessie?
– Tudo certo também.
– Obrigado por ter ficado no lugar dela pra nós viajarmos, foi muito importante pra mim. – John declarou e eu me encolhi em um sorriso tímido.
– Ah, não há de quê! Se precisar de novo, pode contar comigo. – Ela respondeu educadamente. – , por que não o chama pra comer a pizza com a gente?
Olhei desconfiada para Jessie e, depois, voltei a John. Não queria mandá-lo embora, por mais que estivesse sendo corroída pela insegurança internamente. Também não queria dispensar o raro momento que tinha de distração com minhas melhores amigas. Talvez, no fundo, a ideia de Jessie fizesse mais sentido do que eu imaginava.
Nós já estávamos bebendo desde cedo, mas John não perdeu a oportunidade de fazer companhia a nós três. Conversava alegremente com Alice e Jessie sobre todos os assuntos, desde os mais aleatórios até assuntos femininos. Vez ou outra, olhava para mim com um sorriso. O meu sorriso. Acho que foi ali, na maior simplicidade que John poderia presenciar, que eu percebi que talvez não importasse muito eu me achar suficiente ou não. Ele não estaria ali se não gostasse de verdade de mim. Aturar Jessie, sem sombra de dúvidas, era a maior prova possível disso. O olhar faminto que ele me direcionou quando as duas se despediram e saíram pela porta era a segunda maior prova.


10

John: Roupas quentes
John: Casaco reforçado
John: De preferência, jaqueta de couro
John: Calça também, não use nada muito fino ou muito fresco
John: Provavelmente, você vai querer óculos escuros
John: Nada de bolsa, leve apenas o que couber nos bolsos
John: Ah, quase me esqueci
John: Recomendo prender o cabelo em um rabo de cavalo
John: Vou sair de casa agora, te encontro no lugar de sempre

O que diabos você está inventando?

John: I’m a cowboy on this steel horse I ride...
John: 😘

Bufei para o celular, incrédula. Deixei o aparelho carregando, já que John havia também alertado previamente que iríamos demorar na rua. Não sabia exatamente quais eram seus planos, a mania de sempre ter uma surpresa preparada dava nos nervos quando eu era alguém que gostava de ter tudo sempre milimetricamente planejado. Já estava entendendo que John era bem oposto a mim nesse quesito, mas era simultaneamente divertido e irritante passar por aquela situação.
No mais, eu me preparei como ele pediu. Afinal de contas, ele realmente nunca havia dito algo como “prepare-se para X de forma Y" e mentido. Talvez fosse o fato de que ele era pai, então sabia como preparar-se ou instruir alguém para isso em diversas situações. Só de lembrar desse fato, senti calafrios.
Os filhos dele, por mais que já estivéssemos relativamente públicos demais para o meu gosto – sim, eu gostaria de ir mais devagar porque o medo de rachar a cara no final das contas ainda era grande e, quanto menor a velocidade, menor o machucado –, ainda eram um assunto delicado. Sentia que, nesse ponto, John estava sendo extremamente planejado. Não entendia suas razões, mas também não as questionaria de forma alguma.
Chequei o celular pouco tempo depois, já havia passado meia hora desde sua última mensagem, o que indicava que John provavelmente estaria no meio do caminho. Como eu tinha um certo tempo livre, tomei um café da manhã decente com ovos mexidos e um achocolatado qualquer da geladeira. Coloquei tudo na máquina de lavar louça, junto com o que havia usado no dia anterior, e ativei o programa. O celular vibrou nesse exato momento.

John: Estou aqui embaixo
John: Onde você está?

Descendo

Peguei meu celular e a carteira. Vesti o casaco, coloquei os dois itens nos bolsos com zíper. Estava quase descendo as escadas quando dei meia volta e peguei o óculos. Olhei no meu relógio de parede por reflexo e fiz as contas novamente, havia apenas cinquenta minutos desde que John havia dito que estava saindo de casa. Pensei que não peguei alguma coisa, que ele teria falado algo sobre sair mas não tinha citado sua casa especificamente, mas lembrava da palavra estar entre as mensagens. Cinquenta minutos era pouco tempo para o trajeto entre Middletown e a Filadélfia. Mas tudo fez sentido quando o estacionamento onde sempre marcávamos entrou no meu campo de visão.
– Você só pode estar brincando comigo... – Murmurei.
– Se me disser que está com medo, eu não acredito.
– Aonde você vai me levar?
– Do jeito que você falou, achei que o problema fosse o meio de transporte. – Ele desceu da Harley Davidson e tirou o capacete, deixando-me um tanto quanto desconsertada. – Como vai a minha princesa?
– Receosa. – Disse e deixei que ele me beijasse como se eu não quisesse aquilo mais que ele.
– Prometo que vai valer a pena. Peguei dicas com as pessoas certas.
– Que pessoas certas?! – Arqueei automaticamente uma sobrancelha.
– Segredo. – Ele riu, sedutor, e esticou um capacete para mim. – Tem um aparelho conectado ao capacete, vamos poder conversar tranquilamente durante a viagem.
– Não foge da minha pergunta.
– Quem disse que eu estou fugindo?
– Você tá deixando bem claro.
– Vamos logo que o dia vai ser longo.
– John! – Bati o pé e coloquei uma mão na cintura, parecia uma criança de cinco anos.
Ele riu da minha pose e, sem dizer mais nada, colocou novamente seu capacete e subiu na moto. Ofereceu a mão para auxílio, mas não precisei de muita coisa. Imediatamente, John ligou o motor, que roncou alto, e partimos.
Pegamos a I-95 sentido norte logo, e nela seguimos colados à divisa entre os estados da Pensilvânia e de Nova Jersey até convertermos para a I-295 no sentido leste. Eu, particularmente, gostava daquela estrada pela pista dupla e a vista agradável nas laterais. John estava pilotando tranquilamente e passava a sensação de que era mais familiarizado com a moto do que com os carros, na verdade, embora fosse muito bom no volante também.
Nós rodamos por cerca de quarenta minutos até entrarmos por uma estradinha menor através da PA-32. Ele falava, eventualmente, através do tal equipamento no capacete. Parecia que havia instalado um pequeno alto-falante ali dentro e, por sorte, nós conseguíamos conversar com tranquilidade.
A placa na entrada indicava que estávamos adentrando a Bowman’s Hill Wildflower Preserve. Nunca havia escutado falar sobre aquele lugar, muito embora não morasse longe dali. John reduziu a marcha da moto e ficamos bem mais lentos. Andamos ao menos meia milha desde a estrada principal até os primeiros carros aparecerem estacionados. Alguns instantes depois, John deu seta e encaixou a moto atrás de um MDX. A primeira coisa que eu fiz, antes mesmo de descer da moto, foi tirar o capacete.
– Trouxe um presente pra você.
– Outro?
– É, outro. – Ele deu de ombros e abriu uma das bolsas laterais da moto, tirando um casaco mais leve de lá e entregando para mim. – O frio que faz na estrada não faz aqui.
– Obrigada. – Eu peguei.
– Pode deixar a sua jaqueta aí dentro, no lugar do casaco.
– É seguro?
– Claro, tem fechadura à chave.
Eu mexi no casaco e verifiquei a estampa em tom dourado com o emblema do Bon Jovi logo à frente do moletom. Olhei para John rindo.
– É sério isso?
– Identificação. Se perguntarem, você diz que tá com a banda. – Ele falou enquanto pegava, na outra bolsa lateral, um boné e encaixava na sua cabaça.
– E quem vai acreditar em mim?
– Eu vou. – John disse e passou um braço por cima dos meus ombros, ajeitando o óculos escuro que ele também tinha levado.
Nós caminhamos por entre árvores em uma clara trilha com boa manutenção. Em certa altura, John se contentou com entrelaçar seus dedos entre os meus e, de mãos dadas, seguimos por entre a vegetação. Ele fazia um comentário ou outro sobre assuntos aleatórios, discutíamos sobre algumas informações que ele havia pesquisado previamente sobre o lugar. E o mais incrível de tudo é que John Bongiovi estava ao meu lado mas Jon Bon Jovi não, o que garantiu que nenhum fã interrompesse o passeio de forma alguma.
– Vai responder a minha pergunta de mais cedo?
– Que pergunta?
– Não se faça de sonso. – Dei um empurrão leve nele com o ombro.
– Uau, pegue leve, não se esqueça de que eu sou praticamente um idoso.
Revirei os olhos para John e parei no meio do caminho.
– Você se mata antes de aceitar que te chamem de idoso. – Declarei. – E então? Qual é a resposta que eu to procurando?
...
– Quem é a pessoa, John?
– É, sua amiga passou a perna direitinho em você.
– Jessie?! – Arqueei uma sobrancelha.
– Não, Alice. Ela foi muito convincente sobre remarcar os compromissos que você tinha a respeito do restaurante hoje e inventar as supostas desculpas que deram.
– Você marcou isso com ela?!
– Não marquei...
– John! – Gritei em tom de briga. – Isso não pode acontecer, John, nunca. É o meu negócio e...
– Mas você está aqui não está? E está gostando do passeio.
– Quem disse que eu to gostando?
– Esse seu sorrisinho bobo no meio do rosto desde que desceu da moto quando chegou aqui. – Ele falou. – Vai querer mesmo ficar parada aqui no caminho? Temos muita coisa melhor pra fazer com esse tempo.
– Eu só queria saber o que realmente está acontecendo!
Ele bufou, tirou o óculos e olhou para mim.
– Um passarinho verde, loiro e baixinho me contou que você estava com ciúmes por causa da apresentação em Nova Iorque. – Cruzei os braços e estreitei os olhos conforme ele ia falando. – E eu quis te trazer aqui pra tirar essa história a limpo. Acho que eu tenho o direito, não tenho?
– Não precisava me trazer aqui só pra isso, podíamos tratar sobre o assunto em casa.
– Então não posso te fazer um agrado? Ok, anotado.
– Não foi o que eu disse.
– Eu sei que não. – Ele sorriu. – Só quero que saiba que você tem total liberdade pra sentir ciúme, que não vou te julgar por isso porque entendo que você tenha seus motivos. Eu também tenho, você é mais nova que eu e tem opções bem melhores...
– Isso é mentira.
– O quê?
– Que eu tenho opções bem melhores que você. – Argumentei. – Eu não tenho e, mesmo que tivesse, o que é claramente impossível a essa altura, eu não estou disponível.
– Eu também não estou.
– Isso quer dizer então que temos um relacionamento?
– Bem, achei que isso já estava subentendido antes. – Ele cruzou os braços também. – Nós fomos claros um com o outro já, . Não vejo motivo pra você se preocupar com certas coisas. Vou sempre estar disposto a te ouvir, a saber sobre seus sentimentos e a procurar agradá-los dentro do possível. Pode falar comigo, não precisa se limitar a dizer às suas amigas que você não se acha suficiente pra mim porque você é mais suficiente do que imagina. Muito mais.
– Você vê demais em mim, John...
– Então talvez seja hora de você começar a se ver pelos meus olhos. – Ele disse e, pela minha nuca, puxou-me para um beijo breve ali mesmo, entre a vegetação.
Quando ouvimos passos chegando perto, mesmo que não estivéssemos vendo ninguém ainda, nós nos separamos. John colocou o óculos escuro de volta no rosto e, em questão de segundos, um homem passou por nós fazendo uma espécie de cooper. Sem graça, eu acabei rindo enquanto sentia as bochechas praticamente pegando fogo.
– Nós deveríamos ter mais cuidado.
– A adrenalina é um ótimo tempero pra um relacionamento.
– Foi por isso que você me trouxe de moto?
– Deu certo?
– John!
– Tire suas próprias conclusões sobre isso. – Ele sorriu de lado enquanto caminhávamos. – E antes que a senhorita pense besteira sobre o boné e o óculos, acredite em mim quando eu digo que poderia ser infernal se eu fosse reconhecido facilmente. De forma alguma, eu teria vergonha ou sentimento parecido por estar contigo em público. A questão é... Bem, não é que eu não goste de fãs, muito pelo contrário, mas estou dando um passeio com minha namorada e não atendendo os fãs da banda.
– Namorada?!
– Falei algo errado?
– Não, – Eu sorri sozinha, olhando para o caminho que estava à nossa frente. – eu gosto.
John tinha um sorriso tal qual o meu no rosto. Continuamos nosso passeio aleatório seguindo pelas trilhas e trocando a direção quando alguma placa indicava que o nível de dificuldade poderia aumentar porque não estávamos com calçados exatamente bons para isso.
A volta para casa foi feita com o acelerador quase no máximo. A tensão que instaurou-se entre nós junto ao que foi dito e à minha condição hormonal não deu muito certo. John deixou a moto no estacionamento onde eu deixava meu carro, colocando-a logo à frente dele para evitar maiores problemas. Nós subimos para meu apartamento tropeçando pelos degraus enquanto ele me segurava por todas as partes do corpo possíveis.
– Por que você não confia em mim? – John perguntou enquanto eu estava com a cabeça deitada sobre seu peito, encarando o teto do meu quarto e recuperando a energia que tinha acabado de perder.
– Eu nunca disse que não confio.
– Se você se sente tão insegura a respeito da minha relação com fãs, é porque você não confia.
– As coisas estão evoluindo lentamente e eu gosto assim.
– Você vai me falar se houver qualquer dúvida da sua parte?
– Não preciso falar, posso resolver com um conflito interno e não levar o problema até você.
– Mas eu gostaria de saber como você se sente, .
– Pra quê dar trabalho? – Perguntei. – Só pra tirar a sua paz? Melhor um do que os dois sem paz.
– Eu não quero que você fique sem paz.
– Tá tudo bem, John.
– Não tá não, mocinha.
– Por que você insiste tanto? – Eu ergui o rosto para olhar em seus olhos.
– Você não é a primeira pessoa com quem eu fico, mas é a segunda que levo a sério. A única além de você é a mãe dos meus filhos. Eu quero saber como você se sente, quero fazer parte de discussões saudáveis com você porque eu sei o quanto isso pode fazer bem pra nós dois e porque é o que eu gostaria que fizessem comigo se fosse o contrário.
Revirei os olhos e voltei a cabeça à posição original.
– Você não existe, John Bongiovi. – Murmurei antes de fechar os olhos definitivamente.


Continua...





DICIONÁRIO:

- Chef: cozinheiro superior a todos na cozinha, quem comanda tudo;
- Chef de partie: chefe de estação, cuida de partes específicas (as estações, exemplo: estação de massas, estação de grelhados, etc...);
- Commis: iniciante/aprendiz, ainda não possui função fixa na cozinha;
- Communards: cozinheiros responsáveis por preparar as refeições da equipe;
- Demi chef: assistente de estação, são os assistentes dos chefs de partie;
- Entremetier: faz refeições menos complexas/menos pedidas como sopas, vegetais ou tira gosto;
- Maître: recepcionista do restaurante;
- Patissier: cozinheiro responsável pelas sobremesas;
- Saucier: cozinheiro responsável por preparar molhos;
- Sous chef: subchefe, é o segundo em comando, abaixo apenas do chef;
- Toque blanche: é o chapéu que chefs utilizam no uniforme completo;
- Tournant: é um cozinheiro 'coringa', pode substituir os outros em caso de emergência.


Nota da autora: Casal fofinho! Tem que ter casal fofinho!



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