Última atualização: 30/11/2019
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Prólogo


Dean.

A guerra estava vencida. Ao menos, por enquanto. Miguel estava fora de mim, de uma vez por todas. O problema é que, agora, tínhamos que lidar com as consequências. Tivemos baixas, infelizmente, mas não havia tempo para pensar nelas.
Não fazíamos ideia do estrago que Anael havia feito na mente da garota. Nem imaginávamos que fosse possível que ela ainda estivesse viva, mas teríamos que tentar. Não havia motivos para que ele fosse um anjo diferente. Os fatos eram bem claros: não se matava um anjo sem matar o hospedeiro. Mas seu coração ainda batia, o que deveria significar algo. Seja lá quem ela fosse, ela merecia viver, e nós três – eu, meu irmão e Castiel – iríamos lutar por isso. Afinal de contas, era o negócio da família, não era?
O problema é que já haviam se passado duas semanas e meia, e nada. Levá-la a um hospital? Por quê não? Bem, talvez porque o estrago que fizemos da última vez deixou rastros demais e estava muito cedo para correr alguns riscos. Então mantivemos ela no bunker. Castiel e Rowena fizeram uma leitura nela. Estava tudo bem, até então, mas o corpo dela simplesmente não respondia a nada. Não estava se alimentando, não estava bebendo água, mas nem por isso ficava desnutrida ou desidratada. O coração, no entanto, continuava batendo.
Éramos três, revezando constantemente para que a desconhecida nunca ficasse sozinha, e eu acabei sendo o sorteado. Passava das duas da manhã quando eu, sentado na poltrona, estava quase pegando no sono. Escutei um barulho fora do normal e entrei em alerta.
– Sam?
Ninguém respondeu.
– Cas?! – Tentei de novo.
Foi então que eu me virei para a garota. Esta, com os maiores olhos que já vi, se encolheu na cama rapidamente, como se para ficar o mais distante de mim possível. Não saberia dizer quem de nós dois estava mais assustado, mas seu olhar me lembrava uma coisa muito importante: ela havia estado, esse tempo todo, presa em sua própria mente enquanto Anael fazia suas farras com Miguel – dentro de mim ou não. Ela havia visto tudo e ela certamente, naquele instante, achava que eu era ele. Tratei rapidamente de me aproximar, mas foi rápido demais.
– Relaxe, não sou quem você pensa que eu sou. – Tentei dizer, com calma, levantando as mãos quase que em rendição. – Você está num lugar seguro agora, ok? Tá tudo bem, você tá bem. E tá livre.
A garota respirava com muita intensidade, ainda completamente assustada.
– Pode me dizer o seu nome?
E não veio nada. Ela moveu a boca, depois de muito tempo, mas não saía som dela. Foi quando ela percebeu duas coisas. A primeira era que eu realmente não estava ali para maltratá-la. A segunda era que sua voz havia sumido por completo.


Capítulo 1



Eu sufocava enquanto conseguia respirar perfeitamente. As perguntas em minha mente eram tantas que se tornaram impossíveis de contabilizar. Aquele era Miguel, mas não era. Havia passado tempo o suficiente para temer aqueles olhos, mas agora Miguel, ou seja lá quem fosse, me trazia comida na cama. Ele dizia que seu nome era Dean e eu teimava em não acreditar – se bem que acreditar em qualquer coisa, àquela altura, era completamente plausível.
Anjos existiam. Demônios existiam. Tudo o que eu havia visto na minha infância em filmes de terror que minha mãe me proibia de ver... Tudo aquilo existia. Lobisomens, vampiros, bruxas, e mil outras criaturas que eu nem fazia ideia do que eram. Um anjo havia estado em minha mente, conversando internamente comigo enquanto tomava conta do meu corpo e eu assistia em silêncio, sem poder fazer nada. Eu briguei, é claro, mas foi tão inútil quanto tentar tapar o sol com uma peneira. Anael, de longe, era o ser mais doentio e desprezível que tivera o desprazer de imaginar.
Sam e Castiel eram o nome dos outros. Desses, eu tinha menos medo. Lembrava vagamente da imagem dos dois, junto a outro homem, mais novo, entrando em um dos galpões de Miguel. Lembrava, também, dos olhos fixos em Miguel com um certo tom de carinho que, na época, eu não entendia. Talvez agora tudo fizesse sentido, mas eu ainda temia pela minha vida. Podia sentir meus batimentos cardíacos aumentando quando ele se aproximava. Na verdade, eu podia sentir tudo, desde a mínima brisa que passava pela fresta da porta até a vibração dos passos fora do estranho cômodo onde eu me encontrava.
Podia me mexer também, mesmo que minimamente. Meus braços e pernas estavam completamente inúteis e, embora minha voz tivesse tomado chá de sumiço, os músculos da face me deixavam fazer alguma coisa, incluindo mastigar. E Dean – ou Miguel, eu ainda não estava certa sobre isso – me ajudava com isso frequentemente. Toda vez que ele aparecia, minha expressão era provavelmente de terror, e ele tentava ser o mais delicado possível com tudo, mas não diminuía meu pavor. Os pensamentos em minha mente eram aos milhares e não poder exteriorizá-los agravava toda a situação.
– Vamos, não faça cara feia. Eu sei que não é o melhor rosbife do mundo, mas eu comi e ficou muito bom. – Dean quebrou o silêncio entre nós.
Era humilhante. Minha careta não era resultante do gosto. Estava, na verdade, uma delícia. Dean estava errado, talvez fosse o melhor rosbife do mundo. Mas eu, uma mulher de quase trinta anos, estava sendo alimentada, na boca, por um homem de... Trinta e cinco?! Eu não sabia. E nem podia perguntar, o que me levava a outro problema, um bem maior: necessidades fisiológicas. Era o que eu mais tentava esquecer, mais do que a época de Anael em minha cabeça.
– Tá ruim?
Eu pisquei duas vezes, um indicador negativo combinado em um monólogo entre eu e Sam. Não, cara, não é nada disso. Eu não consigo falar e, caralho, eu acho que preferia morrer a ser alimentada na boca desse jeito. Afinal de contas, por que diabos vocês estão me mantendo aqui e não me levaram pra porra de um hospital?
– Foi Sam que fez. Ele gosta de cozinhar mas não assume. Eu acho que ele cozinha bem.
Ok, eu já estou cansada disso. Me leve pra um hospital, onde médicos de verdade vão poder investigar o que eu tenho e, quem sabe, me tirar desse limbo. Onde enfermeiras vão fazer esse maldito trabalho que você insiste em fazer. Eu ouvi batidas na porta e, logo, Sam entrou.
– Dean, Rowena chegou.
– Pode trazer ela pra cá.
– Que história eu conto?
– A verdadeira, Sam.
Havia tristeza e derrota em seus semblantes. Talvez eu percebesse isso porque havia tempo demais para meus pensamentos aleatórios, mas não sabia dizer se eles percebiam isso uns nos outros ou, então, percebiam e simplesmente ignoravam. Se fosse a segunda opção, fingiam muito bem. Ou apenas estavam fazendo cena para mim. As possibilidades, como sempre, eram mil e as respostas, zero. E, enquanto eu devaneava, uma mulher entrou. Era baixa, muito baixa, ruiva, extremamente magra e com uma maquiagem pesada que destoava de sua figura. As roupas também eram contrastantes, mas eu não podia ver muito de onde estava.
– Bem, jovem Winchester, o que temos aqui?
– É basicamente isso que você tá vendo.
– Preciso de boas informações para fazer o meu trabalho bem feito.
– Chamamos você justamente porque precisamos de informações.
Ela limpou a garganta.
– Ok, vou ver o que posso fazer.
– Rowena, – Dean disse, firme, segurando em seu braço ameaçadoramente. – pega leve com ela. Não sabemos como tá a mente dessa garota e, seja lá o que tiver acontecido, o objetivo vai ser sempre garantir que ela se recupere o máximo possível.
“O máximo possível”? Que diabos isso significa?
– Eu entendi, querido. Vou tomar cuidado.
Ele se afastou e talvez, na primeira vez desde que acordei, eu queria que ele estivesse mais próximo. Não me sentia segura ali mas, na presença e proximidade daquela mulher, me sentia menos segura ainda. Ela deixou a bolsa em uma mesa próxima da cabeceira da cama e se aproximou. Suas mãos tinham um halo brilhante verde neon.
– Não se preocupe, minha cara, não vai doer. – Ela disse a mim.
A sensação foi parecida com quando Anael se apossou do meu corpo, mas em uma escala muito menor. Senti a temperatura do meu corpo cair e, pela primeira vez, eu senti algo em minhas pernas e braços. Era suor, definitivamente. Por um minuto, eu achei que pudesse ser sinal de que eu podia ter esperança. Estava consciente, em algum lugar da minha mente, de que havia levado alguns minutos, mas tempo era algo relativo na minha mente nos últimos dias. Podiam ter sido segundos que, para mim, não haveria diferença.
– E então? – Dean a abordou, conotando ansiedade.
Ela deu de ombros.
– Parece que está tudo bem com ela, Dean, não há nada fora do normal.
– Claramente, há algo muito fora do normal aqui.
– Dean, vocês deveriam levar essa garota para um médico, não para uma bruxa.
Isso! Isso mesmo! Um médico, por favor! É isso mesmo que eu quero! Comecei a piscar os olhos freneticamente, esperando que Dean visse e entendesse o recado.
– E dizer o quê, Rowena?! Que ela foi abusada por um anjo? Vão me internar junto! – Foda-se! – Além disso, não temos como saber se um médico seria capaz de curar ela pra valer. Você sabe muito bem que a gente não tem um histórico bom com pessoas que deixamos para médicos tomarem conta.
Opa! O quê?! Ok, talvez a ideia do hospital não seja tão boa.
– Você fala de Jack. – Ela sussurrou, mas minha audição estava boa além do normal. – Dean, não foi culpa sua.
– É claro que foi! – Ele gritou mas, logo depois, olhou para mim, assustado consigo mesmo. – Me desculpe, eu não quis te assustar. Rowena, acho melhor tratarmos desse assunto lá fora.
Não! Eu quero saber o que tá acontecendo comigo. Ou melhor... Eu preciso. Mas os dois deixaram o ambiente e Sam veio logo depois.
– Oi. – Ele murmurou, a voz suave como sempre. – A comida estava boa? – Pisquei uma vez e ele abriu um sorriso de ponta a ponta do rosto. – Você se importa se eu ler?
Pisquei duas vezes enquanto o assistia buscar um livro cujo nome não consegui ver. Eu sabia, no fundo, que não podia me mexer mas, mesmo assim, tentei esticar o pescoço. A insistência provocou uma pequena dor, e eu desisti. Eles haviam colocado uma televisão de led pendurada na parede para que eu pudesse me distrair. Foram longos minutos de tortura enquanto eles passavam de canal em canal para que eu finalmente desse uma piscada única, consentindo com a escolha. Mas eu já estava de saco cheio do National Geographic e não podia pedir para ninguém que mudassem o canal por mim.
Sam adormeceu na cadeira ao meu lado e eu também me deixei levar pelo sono inevitável um tempo depois.
Era uma das raras noites – será que era noite mesmo? – em que eu sonhava. Havia sempre um homem neles. Era alto, de cabelos negros e feições másculas como eu jamais havia visto. Naturalmente lindo. Eu não fazia ideia de quem era, mas me tratava como se eu fosse uma rainha. Sempre carinhoso, ele nunca personificava alguém que me faria mal. Ainda assim, eu tinha um pé atrás com aqueles delírios.
Sim, delírios, porque eu só imaginava que um delírio pudesse me levar àquilo. Se bem que demônios existiam, então que mal teria em achar que um homem daqueles gastaria seu tempo com uma mulher como eu? Não importava, porque ele estava me trazendo café da manhã na cama. Em certos momentos, seu rosto se confundia com o de Dean, e eu julgava que era minha mente confundindo a irrealidade com lembranças recentes. Lembranças... Eu queria saber das minhas últimas, mas era só outro item do meu pobre corpo que não estava em seu pleno funcionamento.
Então, em algum momento, eu acordei com o barulho da porta se abrindo. Dean e Castiel deram uma boa olhada em mim, os dois se mantendo em silêncio. O anjo se aproximou de mim sorrindo e deu um leve toque no ombro de Sam, ainda adormecido ao meu lado.
– Sam, vocês tem um caso. – Ele murmurou. – Uma lanchonete, na beira da estrada que vai daqui para Burr Oak. Dezenas exterminados.
Do que vocês estão falando?
– Os olhos... – Sam não terminou a pergunta e Castiel apenas assentiu. – Vai ficar com ela?
Eu vi, pelo canto dos olhos, que Sam apontou com a cabeça para mim. Ei, eu ainda estou aqui, eu ainda consigo ouvir e vocês sabem disso. Me coloquem no meio da conversa, pelo amor de Deus! Castiel, novamente, assentiu e Sam se levantou. Direcionou um olhar para mim, seguido de um de seus sorrisos forçados que tentavam passar, com certeza, uma sensação de conforto, mesmo que mínima. Ele deixou o recinto e eu observei atentamente enquanto Castiel mantinha sua atenção em outro lugar que não fosse na cama onde eu repousava.
De Castiel, eu tinha um medo particular. Ele era anjo, isso eu tinha processado. Minha mente ainda não tinha aceitado totalmente os fatos, e o processo não estava sendo muito tranquilo, mas ok. Eu acreditava que ele era um anjo, no fundo. E era justamente isso que tirava o meu sono. Um anjo havia estado em meu corpo, em minha mente. Um anjo matou dezenas e dezenas de inocentes com as minhas próprias mãos – que, naquele instante, nem eram capazes de realizar qualquer movimento –, se não foram centenas, ou até milhares. Um anjo havia destruído famílias, desolado vilarejos, atormentado a população de bem.
Mas anjos não eram bons? Não. Agora eu sabia que não. E Castiel era um anjo. Mas Miguel... Não, Miguel não. É Dean. Dean havia dito que Castiel era bom. Mas Castiel era anjo. E anjos não eram bons. Meu Deus, eu estou enlouquecendo mais ainda, se é que isso ainda era possível. Tirem esse homem, anjo ou sei lá o que de perto de mim, por favor! Ou os dois irmãos, se é que são irmãos mesmo, não fazem ideia do quanto Castiel me aterroriza ou simplesmente sabem e ignoram. Parece com tudo que acontece nesse inferno de lugar é assim, seguindo sempre a mesma merda de métrica.
– Ei. – A voz grossa soou pelo cômodo. – Enquanto os meninos estão fora, queria testar uma coisa que pode te ajudar a sair desse estado catatônico. Você gostaria de tentar?
Pisquei duas vezes, firme. Não, cacete, de jeito nenhum! Você ficou maluco?! Aquele filho da puta do Anael não conseguiu e agora você vai terminar o trabalhinho sujo dele? Vá se foder! Não direi ‘sim’ a um anjo nunca mais em minha vida. Se você é tão do bem assim, não consegue ver o terror em meus olhos?
– Eu entendo que esteja com medo, – Entende porra nenhuma. – mas eu juro que não vai doer. Não importa o quanto eu repita, vou insistir: não sou nada do que você viu em Anael.
Ah, tá, eu acredito. E o papai noel? Chega quando? Se bem que, nessa altura do campeonado... Será que o papai noel existe?
– Por favor, eu só vou tocar em você. Sam e Dean disseram que era melhor que eu não fizesse isso porque você já sofreu muito nas mãos de um ser celestial, mas eu realmente acho que posso te ajudar. Eu só vou tocar em você, não vai doer.
Pisquei duas vezes novamente. Que caralho de homem difícil de entender as coisas! Será que Sam não explicou o procedimento pra ele?
– Sei que vai parecer uma violação porque não pode se mexer e lutar contra. Por favor, não pense assim. Enxergue como uma prova de que eu valho a pena a confiança ou, ao menos, a tentativa. Mas, por favor...
Ele, claramente, estava procurando palavras para continuar, mas pausou ali mesmo e deu um passo na direção da cama. Eu tentei me debater, é claro, por instinto, mas nada resultou do esforço em vão. Ele deu outro passo e eu tinha certeza de que tudo ia começar de novo quando ele tocou em meu braço. Uma luz forte emanou do lugar e eu precisei fechar os olhos. Não houve dor, não houve pausa no tempo, não houve nada de anormal, a não ser pelo formigamento. Eu senti o toque, senti meu braço pela primeira vez em dias. E então Castiel olhou pra mim.
Seus olhos brilhavam um azul quase branco, luminoso. Esperei que se apagassem lentamente, ainda assustada.
?
Isso! ! Isso, sou eu!


Capítulo 2


Sam

– E nós repetimos quantas vezes que não era pra fazer nada disso?
– Dean, não precisa disso tudo...
– Caralho, Sam, é claro que precisa! – Ele gritou e deu um soco no tampo na mesa.
Eu estava farto daquilo e me retirei da biblioteca, indo imediatamente em direção ao quarto onde dormia. Parecia até, por alguns instantes, que a ideia de deixá-la em um hospital e ponto final era justa. Ela diria o quê? Que havia sido sequestrada pelos irmãos Winchester? E diria isso antes ou depois de confessar que um anjo havia estado na mente dela? Ou melhor, o que falaria sobre Miguel? Estava na companhia de um dos arcanjos mais poderosos do céu em pleno planeta terra? Nós constávamos como mortos, ela constaria como maluca. Isso se recuperasse a voz, ainda tinha esse detalhe.
– Sam, – Eu ouvi o sussurro preencher o ambiente. – eu sinto muito.
– Não precisa sentir, Cas. Você sabe bem como o meu irmão é. Dê tempo a ele. Algumas horas sozinho, refletindo, e ele vai perceber que tá fazendo merda. Como sempre.
– Juro que não fiz mal nenhum a ela, pode questioná-la sobre isso.
– Eu acredito em você. – Suspirei, observando-a. – E nós já perguntamos. Agora é melhor você ir. Dean vai pirar se te encontrar por aqui.
Castiel já estava se virando, não sem antes dar uma última olhada em , quando uma lâmpada acendeu sobre a minha cabeça. Não era boa ideia, nada nunca era se partisse de mim, mas precisava arriscar.
– Na verdade, acho o contrário.
– O quê?
– Fica aqui, por favor. Tenta não... Você sabe... Não interagir com ela.
– Acho que não estou entendendo.
– Só mantenha ela viva pra nós, ok? Voltamos logo.
Eu disparei em direção à biblioteca, de volta para onde estava. Dean não estava lá, mas a chave do Impala sim. Peguei e fui para a cozinha, minha segunda e correta opção. Puto da vida que estava, não era surpreendente que ele fosse tomar uma ou outra garrafa de cerveja. Joguei a chave da direção dele e torci para que sua suposta inteligência o ajudasse a capturar antes que caísse no chão. Aposta confirmada, Dean tornou a olhar para mim, um tanto confuso mas já entendendo onde eu queria chegar.
– Você dirige.
– Não podemos deixar a garota sozinha, e não me invente de dizer que você teve a brilhante ideia de deixar aquele filho da puta do Castiel com ela.
Você dirige. Não foi um pedido.
Dei a costas para ele e fui para a garagem. Minutos depois, a teimosia em pessoa apareceu, bufando. Entrou no carro e bateu a porta com mais força do que o necessário, mostrando arrependimento logo depois.
– Pra onde?
– Pro lugar de sempre.
Ele estava pronto para iniciar um protesto mas permaneceu calado. Chegamos ao túmulo improvisado em menos de meia hora, talvez o maior tempo que levamos até lá. Não havia bebidas entre nós, e isso era novidade. Eu sentia falta dela, tanto quanto ou mais que Dean. De certa forma, ficava chateado por ele achar que tinha direto de ter mais saudades do que eu. Dean tinha seis anos a mais com ela, mais do que eu jamais teria, graças àquele acidente fatídico. Eu tentava culpar Jack, mas não conseguia. Só conseguia culpar a mim mesmo por não ter passado mais tempo ainda com ela.
– Qual era o ponto em me trazer aqui?
– O que a mamãe faria se estivesse viva?
– Não deixaria Castiel chegar perto da garota de novo.
– É o nome. Foi o mesmo Castiel que você tanto recrimina que descobriu. E, só pra completar, mamãe nunca foi tão babaca com ninguém como você tá sendo com ele.
– Se estivesse fazendo uma coisa certa, não teria escondido.
– Talvez ele tenha escondido porque sabia que você seria um babaca.
– Eu não estou sendo um babaca.
Soltei um riso irônico.
– Não, claro que não, eu que estou... – Murmurei.
A vista era bonita. Mamãe, quando viva, havia passado pela US-24 e não parava de dizer que, quando a hora dela chegasse, queria que suas cinzas fossem despachadas no Glen Elder State Park, precisamente no ponto com a melhor vista para o lago Waconda. De acordo com suas palavras, aquilo a lembrava de sua juventude e sua época de caçadora com seus pais e, além do mais, ali ficaria confortável para que ela descansasse após a morte e estaria a trinta minutos do bunker, caso quiséssemos fazer uma visita. Eu ia ali escondido de Dean. Éramos os únicos que sabiam que ali, embaixo daquela pedra teoricamente impossível de levantar – mas era só destravar o apetrecho que inventamos –, estavam as cinzas de nossa mãe e do irmão adotado que recebemos.
– Você quis vir aqui pra quê? Pra me dizer que ela ia me dar uma bronca? Novidade, nerd, ela não está mais aqui.
– Mas não custa nada fazer a memória dela valer a pena.
– Olha, Sammy, entendo todo o seu bom coração com relação a isso, mas ainda salvamos vidas. É esse o negócio da família, certo? – Eu assenti mediante a fala do meu irmão. – Sabe lá Deus o que essa menina passou e ainda vai passar então, por favor, não ache que estou errado quando digo algo para protegê-la.
– Castiel poderia descobrir mais coisas e, assim, nós teríamos mais o que fazer por ela.
– Por favor, a garota claramente tem algo contra o Castiel, e não é pra menos depois de tudo que aconteceu.
.
– O quê?!
. É o nome dela. É a quarta vez no dia que eu chamo a sua atenção pra isso, mas você se recusa a usar. É por que foi Castiel que descobriu e você não quer dar o braço a torcer e dizer que ele acertou em cheio ao transgredir uma regra que você impôs?
Ele bufou e desviou o olhar. Eu tinha uma discreta vontade de sorrir nesses momentos, pois era o jeito secreto dele esconder e não assumir que eu estava certo.
– Não sei quanto tempo você acha que tem, – Resmunguei, colocando ênfase no nome. – mas eu vou sempre considerar o mínimo possível. E, sim, a mamãe te daria uma bronca e estaria agradecendo Castiel agora pelo que ele fez, como até mesmo deve estar.
Eu levantei e segui em direção ao carro, sem a real intenção de entrar no Impala. Caminhei a pé pela estrada, na direção de casa, até escutar o barulho do V8 se aproximando.
– Agora você deu pra fazer pirraça?
– Me poupe desse papo.
– Vai, entra logo no carro.
Revirei os olhos, obedeci e seguimos de volta para casa. Com os humores menos exaltados, nos preparamos para mais uma refeição. Era meu dia de alimentar , e eu podia ver o quanto ela detestava aquilo quando olhava para seu rosto. Terminei o que tinha que fazer, deixando uma teoricamente satisfeita assistindo TV sob a supervisão, dessa vez, de Dean. Castiel olhava alguns livros quando cheguei à biblioteca.
– Você fez mais alguma coisa?
– Depois das consequências da última tentativa, achei melhor não.
– Fez bem.
A conversa teve uma pausa relativamente grande, então tomei a liberdade de me sentar junto a ele.
– Procurando algo específico?
sobreviveu a uma possessão angelical, e nós sabemos muito bem que isso é a coisa mais estranha que já vimos.
– Achou alguma coisa útil?
– Por enquanto, não, mas desistir não está nos meus planos.
– Bom. Você descobriu mais alguma coisa além do nome dela?
Castiel deixou o livro de lado, finalmente, demonstrando o quanto estava incomodado com minhas perguntas. No fundo, eu não ligava. Estava mesmo era interessado em descobrir tudo o que pudesse a respeito dela.
– Não, Sam, não descobri. As coisas estão bem confusas e a mente dela está completamente embaralhada. Às vezes, precisamos dar tempo ao tempo. Pra valer.
– Mas você acha que seria seguro repetir?
– Repetir o quê?
– Sua... Exploração?! Não sei como definir isso.
– Podemos conversar a respeito, muito embora Dean tenha demonstrado suas ressalvas de um jeito... Digamos... Peculiar, e eu não esteja certo sobre a vontade de nisso. Por enquanto, eu prefiro me manter nos estudos. Acho que será mais produtivo.
– Certo... – Murmurei, quase sem conseguir escutar minha própria voz. – Então tá. Me chama se encontrar alguma coisa.
Castiel resmungou alguma coisa desconexa e eu desisti, indo em passos lentos para o cômodo que chamava de quarto. Dei uma bela arrumada na pilha de livros e anotações por cima de minha escrivaninha pessoal, passando o olho por cima das palavras e torcendo para que, assim, eu captasse algo despercebido antes. Depois foi a vez das roupas na pequena cômoda, que era mais do que suficiente para as poucas peças mas, mesmo assim, eu conseguia manter desarrumada. Por fim, me joguei na cama, certo de que esfriar a cabeça talvez fosse aproveitável para um bom desempenho posterior no caso de , mas o telefone tocou. Afinal de contas, não era a única pessoa a sofrer nas mãos do sobrenatural.
Aparentemente, não era única nem no estado. Deixando-a sob os cuidados de Castiel – com uma lista infinita de observações e ordens criadas por Dean –, começamos a arrumar as bolsas para a saída. Algumas roupas seriam suficientes. O relato nos fazia desconfiar de alguma coisa ligada a fantasmas, o que poderia remeter a resoluções simples. Muito embora nós tivéssemos um grande problema nas mãos, Kobe Horsley era um grande contato e nós éramos, de longe, os caçadores mais próximos do local. Negar seria estranho e, àquela altura do campeonato, precisávamos manter os olhares curiosos bem longes do bunker.
Dodge City. População? Vinte e oito mil habitantes. Três horas e meia em duzentas milhas de estrada, passando por Osborne, Russell, Great Bend e Kinsley, todas com metade ou menos dos habitantes de Dodge City. Isso nos garantia uma maior segurança, mas nada perto dos menos de trezentos habitantes do Lebanon. Ainda assim, era em torno de vinte por cento da quinta maior cidade do estado. E cá entre nós, o Kansas era o trigésimo quarto em cinquenta a nível de população, então nós realmente nos preocupávamos um pouco menos do que o normal sobre encontros com os locais, o que tornava o lugar bom para nossa base. Além disso, estávamos no ponto mais ao centro do país possível, e isso permitia que não houvesse prejuízo entre as cidades mais distantes que pudessem precisar do nosso auxílio.
Eu e meu irmão nos hospedamos no motel Do Drop Inn, entre o centro de Kinsley e o condado de Ardell, outra área desprovida de população. Não era exatamente em Dodge City, mas ficar longe de um lugar sob investigação às vezes era estratégico. Meu serviço era simples, instalar nossa base na pequena mesinha reservada para refeições dentro do quarto. A televisão era dispensável, então a mesa destinada a ela também serviria de grande ajuda. Notebooks colocados nos lugares, livros bem ao lado, trocamos de roupa, colocando nossos melhores ternos e gravatas, e seguimos para Dodge City. Vinte incrivelmente rápidos minutos depois, estávamos entrando no departamento de polícia da cidade.
– Agentes John e Bowie, FBI. Viemos tratar sobre o assassinato da família Stipe.
– Segundo andar. – O rapaz novo nos respondeu. – Saindo do elevador, virem à direita. A sala do delegado é a terceira porta.
Dean assentiu, com um sorriso debochado no rosto que tentei repreender sem ser visto. Nós nos encaminhamos para o elevador mantendo a postura. A primeira coisa que notei foi que não havia câmeras, o que era ótimo.
– John e Bowie?! – Dean perguntou.
– Sim. Elton John e David Bowie.
– Sério?! Tá de sacanagem, né?
– Você sempre faz a escolha, dá um tempo.
– Só que eu não...
O barulho anunciou nossa chegada ao andar desejado. Caminhamos até a tal porta, atraindo alguns olhares. Três batidas e ouvimos um singelo “entre”. O senhor do outro lado da mesa já devia ter quase sessenta anos e tinha o porte físico que eu gostaria de ter quando chegasse naquela idade. Só me faltava a cara de mau. .
– Agentes...?
– John e Bowie. – Eu me apressei em responder, oferecendo logo a mão para um rápido cumprimento, e meu irmão tratou de me seguir.
– Vieram aqui por causa de Clairy, Armie e Hope Stipe.
– Sim. – Dean respondeu a afirmação. – Gostaríamos de saber se o senhor se incomodaria de nos ceder um pouco de espaço na investigação.
– Devo dizer que é uma consideração estranha, já que vocês devem saber que geralmente não queremos vocês por perto.
Eu dei de ombros e abri o meu melhor sorriso.
– Só seguimos ordens e, infelizmente, incomodá-lo nesse momento faz parte delas.
– Bem, sentem-se. – Ele nos ofereceu as cadeiras em sua frente. – Sou o Capitão Meyers. Em que posso ser útil aos federais hoje?


Capítulo 3

Dean.

Meu corpo pedia por cinco horas de sono sem interrupção. Cinco não! Seis! Isso! Seis horas de sono, direto. Meu Deus, seria sensacional. Mas não tinha tempo para aquilo. Castiel era o certo para ficar com a garota, sim, definitivamente, porque era o único que podia estar o tempo inteiro com ela, com exceções para necessidades fisiológicas, coisa que estava por conta da Charlie do outro universo, que nos fazia visitas diárias. Além do mais, seria menos estranho na mente dele cuidar de tudo o que fazíamos e... Bem, aquilo me incomodava tanto que eu nem gostava de pensar no assunto. Infelizmente, fazia parte do negócio. E eu seguia com algo em mente me dizendo que, embora fosse tudo muito estranho, eu estava no caminho certo.
– Eu vou na rua comprar comida. Você quer alguma coisa?
– Cerveja. – Resmunguei para Sam.
– Isso eu já previa. To falando de algo fora do óbvio.
Pensei por alguns instantes.
– Não, to de boa.
– Ok então, volto em vinte minutos.
Eu apenas assenti, em silêncio. Voltei minha atenção momentaneamente para , que estava dormindo em paz, incrivelmente, como se o mundo não estivesse caindo à nossa volta. Percebi, enquanto deixava minha mente esvaziar, que estava morrendo de fome e que foi idiotice não pedir para Sam trazer, pelo menos, dois pedaços de torta. Mas agora era tarde demais e eu não ia ligar só pra isso.
– Dean, pode ir descansar, eu fico por agora.
– Pode deixar, Cas, eu te chamo quando precisar.
– Você tá acabado.
– Eu sei.
Castiel a observou por alguns instantes quando terminou de se aproximar de mim.
– Não é culpa sua.
– Claro que é.
– Você tá exagerando. – Ele disse e ficou de frente para mim, entrando no caminho entre meus olhos e . – E eu sei bem que você tá pensando agora que não devia ter feito uma porção de coisas, mas você não se lembra de quantas vidas salvou com suas escolhas?
– Mas perdemos muitas também e ela... – Tomei fôlego para continuar. – Ela é mais uma vítima.
– Nisso eu concordo, mas ela é vítima do Anael, não sua.
– Cas, eu vi o que ela viu. Caso você não se lembre, tudo isso começou porque eu disse ‘sim’ a Miguel em um primeiro momento.
– Você só disse ‘sim’ porque a vida do seu irmão tava na reta.
– E não é isso que temos feito durante anos? Ferrar com a vida dos outros a troco de salvar a nós mesmos?
Não percebi que tinha elevado a voz mais do que deveria. Eu olhei, na mesma hora, por cima do ombro dele. estava de olhos abertos agora. Deixei Castiel para lá e me aproximei da cama improvisada.
– Desculpa. – Falei. – Você quer comer agora?
piscou duas vezes.
– Prefere continuar dormindo?
Ela piscou duas vezes de novo. Caralho, o que ela quer então?
– Está com algum problema?
Uma terceira negativa e eu estava irritado, principalmente pelo fato de que tinha alguém ali que havia perdido a voz e não merecia nada daquilo. Então percebi seu olhar indo na direção da TV repetidas vezes. Ufa.
– Um filme?
Finalmente, um aceno positivo. Ótimo, tínhamos um tanto de avanço, e era suficiente para me deixar um pouco menos com raiva. Coloquei em um canal qualquer e perguntei se estava bom. Mais um aceno positivo e eu pedi licença para ir até a cozinha pegar um pouco de café. Sam estava chegando de volta na hora em que entrei.
– Ela ainda tá dormindo?
– Não, fiz o favor de subir a voz enquanto estava lá. Agora ela tá vendo TV.
– Bom... Vou fazer lasanha, tudo bem?
– Ótimo, e a cerveja?
– Café e cerveja?! – Ele observou, notando a cafeteira ligada. – Você deve estar mesmo desesperado.
– Eu estou.
– A cerveja ainda tá no carro, em resposta à sua pergunta. Vou lá buscar, só deixa eu colocar um pouco de água pra ferver.
– Pode deixar, eu vou. – Disse e deixei ele lá.
Subi a escadaria aos pulos, não foi exatamente uma boa ideia. Assim que meus olhos acharam o brilho do céu, senti a vista escurecer e fiquei tonto. Pensei, em primeiro, na possibilidade de ter tido uma queda de pressão, mas parecia muito com os episódios de mau estar que tive quando Miguel saiu mas deixou uma porta aberta. Mas Miguel estava morto, então não havia motivo para me preocupar, certo? Bem, eu esperava que estivesse. Então peguei a cerveja e entrei para o bunker de volta, o mais rápido possível.
– Cas? – Gritei. – Cas!
– O que foi? – Ele surgiu.
– Sai daqui.
– O quê?!
– Volta em quinze minutos.
– Mas, Dean...
– Vai, Cas!
Ele desapareceu ao mesmo tempo em que Sam veio, da cozinha. Eu peguei um punhal que estava no meio dos equipamentos e cortei a palma da minha mão esquerda. Comecei a desenhar o sigilo na madeira enquanto meu irmão me observava, sem entender nada.
– Se eu sumir, – Comecei a falar antes de terminar o desenho. – não confia em me deixar voltar.
– Do que você tá falando?
Eu terminei o que estava fazendo, tenso ao extremo. Fechei os olhos, esperando o pior, mas nada aconteceu. Abri os olhos e Sam ainda me encarava como se eu fosse maluco.
– O que tá acontecendo?
Ainda desconfiado, chequei o entorno.
– Tive um mau pressentimento.
– E precisava disso tudo?
De repente, uma lâmpada se acendeu sob a minha cabeça. Corri até onde estava e, para a minha felicidade – se assim eu poderia dizer –, ela continuava no mesmo lugar onde eu havia a deixado. Sam estava logo atrás de mim.
– Você vai me contar do que isso se trata?
– Lembra de quando eu passava mal, antes da gente descobrir que Miguel não tinha ido embora de vez?
– Claro, lembro, mas...
– Aconteceu de novo.
Sam, agora, parecia entender a gravidade do problema.
– Vamos esperar o Castiel voltar, e aí ele dá uma boa checada em você.
– Boa ideia. – Murmurei.
– Agora seria uma boa você ir lá limpar aquele sangue todo de cima da mesa.
– Você não pode me ajudar nessa?
– Tá de brincadeira, né?
Mais tranquilo, abri um sorriso amarelo e Sam revirou os olhos, me deixando sozinho. Fui para o quarto, limpar o corte e colocar algo para ajudar na cicatrização. Estava focado no que estava fazendo quando ouvi uma voz feminina chamar meu nome. Olhei em volta, preocupado com ter alguma ligação com o episódio recente, mas estava certo sobre estar ficando um pouco paranoico demais com aquilo tudo. Terminei o que comecei e voltei para .
– Dean, a mesa! – Sam gritou, provavelmente da cozinha.
percebeu minha presença, mas escolheu ignorar e continuar olhando para a tela. Peguei um pouco de sabão líquido na lavanderia, um pano de chão velho e um balde com água. Estava começando a esfregar quando Sam apareceu com uma garrafa de refrigerante na mão.
– Depois você pode ir limpar o meu quarto.
– Vai se foder. – Resmunguei.
– Dean, eu liguei pra Rowena e ela... Ela disse que teve uma ideia e que poderíamos colocar uma enfermeira aqui.
– Não temos provas de que Anael foi morto. E se ele estiver por aí, caçando a garota, da mesma forma que Miguel me caçou pra voltar pro meu corpo? Não podemos confiar em ninguém pra isso.
– Ela falou algo sobre hipnose.
– Não tá melhorando.
– Olha, nem eu, nem você e muito menos o Cas estamos satisfeitos com tudo isso. Estamos desconfortáveis, e ela também, com certeza. Provavelmente, ela tá mais desconfortável que a gente. Ter uma enfermeira aqui facilitaria tudo. Seríamos quatro com menos desconforto.
– Sam, não tem necessidade.
– Tem certeza?
– Absoluta.
Ele ficou em silêncio por uns segundos, e eu realmente esperei que aquilo fosse o fim do assunto, mas eu conhecia bem meu irmão para saber que ele não havia parado por ali.
– Seria bom pra todos nós, Dean.
– Sam, é arriscado.
– Eu sei.
Torci o pano dentro do balde e passei na madeira uma última vez, para ter certeza de que havia ficado realmente limpo.
– Você acha mesmo que vale colocar a gente em risco?
– Dean, nós temos que tentar.
– E como vamos fazer isso, mente brilhante?
– O aparelho que você usou pra entrar na cabeça da...
Ele não terminou a frase e eu senti, imediatamente, o aperto crescente no meu peito. Tinha vontade de gritar toda vez que pensava nela.
– Da mesma forma que os Homens de Letra britânicos usaram pra fazer lavagem cerebral na mamãe, nós podemos usar com ela.
– Não tem garantias de que realmente funcione.
– Você viu a mãe, ela ia matar a Jody. E é só ligar pro Ketch que...
– Que a gente espalha essa informação muito além do necessário, Sam.
– A Rowena disse que pode tentar hipnose, mas acho que você tá esquecendo da pessoa mais importante nesse círculo de decisões.
– Quem? Castiel?!
– Não, Dean, a .
Ela estava ainda acordada. Não era novidade, já que tinha dormido por bastante tempo antes de eu fazer a merda de acordá-la. Eu me aproximei com um sorriso no rosto, muito embora meu humor não fosse, nem de longe, aquele. Parei na cabeceira da cama e apoiei as costas na parede. Fiquei ali, fingindo estar interessado no filme horrível que estava passando, mas estava só meu corpo no local. A mente divagava entre as mil coisas que estavam acontecendo, dentre elas as possíveis consequências de ações que estávamos tomando.
– Ei, – Eu hesitei. – ... Podemos conversar?
Conversar, Dean? Sério que você perguntou isso pra uma pessoa que não pode falar? Você é um idiota mesmo. Uma piscada, positivo. Ótimo, bom começo, eu me achava um idiota mas ela, aparentemente, não.
– Você se sentiria melhor se mantivéssemos uma mulher aqui permanentemente pra lidar com as suas questões... Bem... Questões sanitárias? A Charlie não pode ficar o tempo inteiro, tem sua própria vida para manter sob disfarce e não podemos pedir uma coisa dessas a ela.
Positivo de novo, mas eu ainda tinha certeza de que estava sendo simples demais para a situação.
– Preciso que seja sincera comigo. Você entende o que está acontecendo?
Negativo. Era o que eu temia, mas era bom sinal – ou eu achava que era.
– Ok. Eu sei que você não pode fazer perguntas pra mim, e isso provavelmente é a pior parte. O anjo que esteve em você não é tão poderoso quanto o anjo que esteve em mim mas, ainda assim, nós precisamos ter medo da possibilidade disso se repetir. Você entende isso?
Positivo, mais uma vez, e eu podia ver um misto de medo e confusão no seu olhar.
– Trazer alguém pra cá é te colocar em risco. Nós nunca temos cem por centro de certeza sobre algo ou alguém, e poderia ser uma pessoa conectada, de alguma forma, a Anael. Miguel morreu, mas não sabemos se Anael realmente morreu. Quando Miguel me deixou da primeira vez, eu achei que tinha acabado, mas ele voltou, e voltou pior. Se não fosse por um milagre, ele teria me matado. Você esteve presa dentro da sua mente com Anael. Acha que ele apresenta um perigo tão grande assim pra você?
Positivo. Merda.
– Eu não sou a favor de botar mais alguém aqui dentro. Você entende o porquê? Entende o risco que existe nisso? Entende que queremos, a princípio, estabilizar essa questão quanto a Anael pra, então, tomarmos uma decisão secundária e que, por isso, estamos andando em ovos com você?
Mais um positivo e eu comecei a me questionar se aquela garota estava com sua sanidade em perfeita ordem. Mas quem de nós ali estava falando palavras e mais palavras sozinho mesmo? Eu odiava aquele monólogo com todas as minhas forças.
– Ainda assim, você se mantém na primeira opinião de que se sentiria melhor com uma mulher de fora aqui?
Ela confirmou e eu respirei fundo. Desviei o olhar do dela, outra coisa que me incomodava demais. Ter que ficar olhando em seus olhos me deixava desesperado, irritadiço e confuso. As memórias que tinha da época em que ambos éramos dominados por aqueles parasitas filhos da puta pioravam a situação, me fazendo ter flashes de momentos em que – na verdade, Anael – estava fazendo coisas desumanas. Eu preferia, realmente, acreditar que ele estava morto a pensar que havia a possibilidade de ele estar em outra pessoa, vitimando outro inocente.
Deixei a lateral da cama para começar a preparar o carrinho-barra-mesa improvisado que usávamos para dar de comer a . Limpei os talheres com o guardanapo que havia ali e peguei um pouco de água da torneira. Separei um guardanapo novo e limpo. Deixei tudo em ordem para que só faltasse o serviço de Sam. Foi quando ouvi a voz de novo, mais clara dessa vez. Era uma voz feminina, nem tão grave nem tão suave. Não era firme, nem um pouco, mas chamava meu nome e eu tinha certeza de que não era coisa da minha cabeça. Arqueei uma sobrancelha e segurei a respiração, como se aquilo fosse me ajudar em alguma coisa.
Olhei de volta para . Ela, por sua vez, tinha os olhos arregalados. Assustado, olhei em volta, rodando em meu próprio eixo e tirando a arma do cós da calça. Empunhei o revólver e ouvi, mais uma vez, a voz. Estava prestes a gritar alguma coisa quando me dei conta da direção de onde vinha a voz. Meu coração estava disparado.
– Foi você?
piscou uma vez. Positivo.


Capítulo 4

.

– Achei que isso fosse ser gradual.
– Eu também. – Respondi.
Dean havia me colocado sentada, em noventa graus, na cama pela primeira vez. Eu ainda não podia mexer pernas e braços, mas sentia tudo superficialmente, e meu corpo agradeceu a postura.
– Bem... Eu não sei... Como você se sente?
– Estranha.
– Bem, acho que você deveria se sentir assim mesmo.
– Dean, não é? – Ele confirmou. – Dean, por que não me levaram para um hospital? – Fiz a pergunta de um milhão de dólares.
Ele desviou o olhar do meu e coçou o cabelo antes de responder.
– Nós estamos nisso faz muito tempo, . Já levamos muitos a um hospital, acredite em mim. E sabe quantos sucessos nós tivemos? Zero. Então nós simplesmente paramos de contar com médicos e passamos a nos garantir por conta própria.
– A bruxa, você quer dizer?
– Rowena é só uma parte da história.
– Entendi...
– Eu posso fazer algo por você? Não sabe o ódio que eu estava de ter que fazer perguntas de sim ou não.
– Não estava exatamente satisfeita com isso também, acho que você deve saber. – Respondi. – Acho que gostaria de um copo de água.
– Claro, vou buscar.
– Dean. – Eu o chamei quando ele se virou. – Por quê eu?
Passamos a melhor tarde – eu sabia que era tarde pois podia perguntar, agora, sobre as horas – em dias conversando sobre dezenas de coisas diversas. Sam e Castiel se aproximaram quando Dean foi contar a eles sobre minha voz ter voltado. Eu tinha milhares de perguntas mas, aparentemente, eles também, e eu precisei destrinchar sobre como estava me sentindo, pedaço por pedaço. No geral, eu até me sentia bem, se fosse levar em conta o contexto todo. E mesmo que eu repetisse isso mil vezes, eles ainda me sufocavam com perguntas demais.
– Temos uma surpresa! – Sam disse, entrando no quarto depois de me deixarem sozinha por alguns minutos. – É algo bobo, mas você vai adorar. Dean, pode trazer.
A cadeira de rodas era de um modelo bem simples, mas o sorriso no rosto de Sam me fez rir também. Era quase tocável a pureza nas suas intenções. Com o tempo ali, eu havia aprendido mais do que pensei ser possível sobre como ler uma pessoa, e Sam era incrível para se fazer isso. Castiel era inocência pura mas eu ainda não o julgava confiável por se tratar de um anjo. Dean tinha boas intenções como o irmão, mas se podia ver as cicatrizes do passado no cansado olhar que ele carregava mesmo quando abria um sorriso. Talvez, eu pensava, fosse consequência do que Miguel havia feito nele, porque eu entendia bem como era se sentir despedaçado por dentro nesse caso.
E então tinha Sam, que era todo sorrisos bobos arrancados por motivo nenhum, às vezes por ele mesmo. Parecia uma criança ganhando doce a todo momento. As cicatrizes do passado ainda estavam ali – uma, literalmente, em seu rosto –, mas ele parecia ter maior poder de resiliência que o irmão. Ver todo o esforço que ele colocava nas suas ações para comigo me faziam querer sorrir em resposta, mesmo que eu estivesse com o humor terrivelmente azedo. Sentia como se ele fosse o irmão mais velho que eu não havia tido.
– Não precisava.
– Claro que precisava. E temos mais uma novidade. Vamos te levar pra tomar um banho de sol amanhã cedo.
– Isso não é arriscado?
– Não vamos sair do perímetro do bunker, – Dean respondeu. – fique tranquila quanto a isso. Além do mais, o Cas tá cuidando da segurança da área por enquanto. Nós falamos sobre trazer alguém pra ficar aqui o tempo inteiro, mas acho que talvez não seja necessário. Se sua voz voltou, não deve demorar pros seus movimentos voltarem também.
– Eu não teria tanta certeza. – Murchei. – E se não voltarem? Seria plausível, eu acho.
– É claro que vão voltar. Não estou nem considerando outra opção.
– Dean, eu acho melhor...
– Não, Sammy, ela precisa ver esperança em nós. Tudo vai ficar bem, entendeu, ? Eu e meu irmão vamos fazer ficar bem.
Eu sentia uma pressão no tom de voz que ele usava que me deixava um tanto desconfortável, eu deveria assumir, mas abaixei a cabeça e concordei com ele. Então deixei o assunto de canto e foquei na nova notícia. Sair do quarto seria sensacional, e eu estava morrendo de ansiedade por aquilo. A outra parte de mim também estava com medo, mas o cansaço e tédio superavam e se faziam maioria.
Dean colocou um relógio no quarto, foi um dos meus primeiros pedidos. Logo depois, ele trouxe a cadeira para perto da minha cama. Ficou meia hora procurando como travar as rodas enquanto eu observava tanto quanto podia, achando um tanto de graça da situação.
– Posso?
– O quê?
– Te colocar na cadeira.
– É a primeira vez que você pede pra fazer alguma coisa.
– Desculpa, , eu não faço a mínima ideia do que eu to fazendo.
– Pode chamar de . – Respondi. – Não sei o porquê, mas acho que gostava desse apelido.
– Você não se lembra?
– Bem, disso vocês esqueceram de perguntar, não é mesmo? – Brinquei. – Eu lembro de coisas de um passado antigo. Lembro que cresci em uma fazenda, no interior da Carolina do Sul. Meus pais se chamavam Hugh e Nicole, mas eles faleceram em um acidente em 2017.
– Eu sinto muito por isso. – Dean falou e começou a forrar a cadeira com um cobertor grosso. – Perdi meus pais também. Minha mãe, duas vezes.
– Duas vezes?!
– Uma quando eu tinha seis anos. Um demônio chamado Azazel a matou como forma de cobrar por um pacto que ela havia feito anos antes. Recentemente, pouco antes de encontramos você, ela...
A pausa me fez perceber que prolongar o assunto seria muito idiota da minha parte.
– Acho que eu superei a perda dos meus pais. É a lembrança mais recente que eu tenho.
– Família?
– Não tínhamos por perto, pais australianos.
– Você era uma menina aventureira então? – Ele perguntou quando começou a tirar o cobertor de cima das minhas pernas.
– Eu era. – Sorri com a lembrança. – Mas perdi essa menina em algum lugar antes de entrar pra faculdade.
– O que você ia cursar?
– Direito. Tinha um senso de justiça sonhador, mas descobri que o mundo é uma verdadeira merda.
– Pronta? – Ele cortou o assunto rapidamente.
Eu assenti e Dean tirou meu corpo da cama com uma facilidade exagerada. No caminho entre a cama e a cadeira, nossos olhares se cruzaram e Dean deixou escapar um sorriso que considerei ser nada além de educação e falta de jeito, o que encaixava perfeitamente com a personalidade dele. Então, devidamente alocada em meu lugar, Dean começou a me empurrar pelo cômodo. De primeira, enfrentamos um belo obstáculo: um degrau na porta do quarto.
– Tem certeza de que isso é uma boa escolha? Já estou dando trabalho demais pra vocês.
– Fica tranquila. – Ele repetiu pela milésima vez no dia e suspendeu a cadeira comigo. – Você é o trabalho mais fácil que eu e meu irmão já tivemos.
– Que merda, hein!
– Pois é...
O sol não estava exatamente à todo vapor, mas sentir o calor proveniente de seus raios na minha pele provocou em mim uma sensação maravilhosa. A quantidade de armas que Sam e Dean portavam, no entanto, me deixava tensa constantemente, como se algo muito ruim fosse acontecer a qualquer momento. Por sorte e para a felicidade geral, as armas serviram apenas por precaução e, logo, eu estava sendo carregada de volta para dentro do bunker.
– Ei. – Falei quando Sam estava me levando na direção do corredor que reconheci como sendo onde meu quarto ficava. – Posso ficar em outro lugar?
Ele estranhou a pergunta e precisou de uns segundos para se recompor.
– Claro. Onde quer ir?
– Qualquer lugar que não seja o quarto.
– Eu vou fazer o café da manhã. Você quer acompanhar?
Qualquer lugar que não seja o quarto. – Repeti.
Sam era tagarela quando eu não falava. Agora que eu podia responder suas perguntas com clareza e fazer ocasionais observações quanto a um comentário ou outro, ele parecia uma metralhadora de palavras. Algumas vezes entre o bacon e os ovos, me perdi na velocidade, mas acabei retomando o enredo afinal. Sua animação me provocava sorrisos aleatórios. Eles não deviam ter muita companhia ali.
– Você quer pimenta no seu?
– Sim, por favor.
– Orégano?
– Sam, eu... – Castiel parou subitamente ao me ver ali, ficando quase em estado de choque. – Ah! Olá, , como vai?
– Bem. – Respondi em um tom mais baixo do que usei para manter a conversa, ou seria mais um quase monólogo?, com Sam. – Poderia ir para o quarto agora?
– Claro, deixa só eu...
– O problema sou eu? – Castiel perguntou, interrompendo a fala de Sam. – Se for, eu posso sair.
– Você estava aqui antes de mim. – Respondi.
– Mas quem precisa de cuidados agora é você, e eu entendo perfeitamente que tenha receios quanto a mim.
– Vou ficar bem, o Dean mesmo bateu nessa tecla com bastante entusiasmo. Além disso, você mesmo me disse que queria me provar que era de confiança. De uma forma ou de outra, acho que vocês estão me ajudando, então talvez dar tempo ao tempo seja a solução.
Castiel arregalou os olhos e fez menção de concordar com a minha fala. Mesmo assim, eu preferia manter uma certa distância enquanto deixava minha mente processar algumas coisas. Pelo menos, o orégano que Sam ofereceu ficou de fora do prato, mesmo eu não tendo respondido se queria ou não.
– Tá bom?
– Geralmente, tá. Vocês me perguntavam isso todo dia e era um saco.
– Era um saco também nunca ter resposta.
– Desculpa.
– Não é sua culpa. – Sam disse. – Meu irmão tava à beira de enlouquecer.
– Por minha culpa?
– Por sua causa. Ele vivia gritando pras paredes que queria uma resposta pra sua perda de voz.
– E eu queria uma resposta pra tudo. – Murmurei.
– Acho que é a minha vez de pedir desculpas.
Sam deixou o pote de lado e limpou o canto da minha boca. Logo depois, ele ajeitou o travesseiro nas minhas costas.
– Como vocês aguentam isso tudo? – Perguntei.
– Isso o quê?
Tudo. Anjos, demônios, vampiros, lobisomens... Cara, eu nem sei do que chamar algumas coisas que eu vi.
– Nós fomos criados com isso. Azazel...
– O demônio que matou sua mãe? – Eu o interrompi rápido demais. – Desculpa, Dean comentou sobre isso.
Ele tentou abrir um de seus sorrisos educados.
– Tudo bem. Mas é ele sim. Em grande parte, quero dizer. Eu tinha seis meses, dá pra imaginar que eu não vivi outro mundo além desse. Até tentei, mas...
– Mas o quê?
Sam fez uma pausa e eu percebi que não deveria ter instigado ele a continuar.
– Mas a vida acontece. – Ele disse, forçando um sorriso que eu sabia que era longe de como ele se sentia por dentro. – E agora eu e Dean estamos por aí. É como ele fala... Caçar coisas, salvar pessoas... É o negócio da família.
– Quantos anos vocês tem?
– Eu tenho trinta e seis, o Dean tem quarenta.
– Estão bem cuidados pra idade.
Ele riu pele nariz do meu comentário.
– Não diga isso pro meu irmão. O ego dele pode encher em proporções assustadoras.
Eu sorri em resposta.
– Vou tentar me lembrar.
– Precisa de alguma coisa? Vou tomar o meu café e limpar a bagunça que deixei na cozinha.
– Acho que to bem, pode ficar tranquilo.
– Vou pedir pro Dean vir pra cá assim que ele estiver livre.
– Não precisa. – Sussurrei, mas era tarde de mais e Sam havia partido.
Provavelmente pela quebra na rotina que o retorno da minha voz causou, eu acabei ficando literalmente solitária. Não havia a TV ligada, mesmo que eu estivesse odiando o aparelho nos últimos dias. O silêncio era perturbador também e, sentada como haviam me deixado, eu podia observar melhor o cômodo em que me alojava. Alguns barulhos aleatórios e impossíveis de se identificar podiam ser ouvidos enquanto eu notava que eles haviam colocado certo esforço em fazer ali parecer menos macabro, mas ainda era bem insalubre. É claro que eu não diria a eles. Afinal de contas, eles realmente estavam se esforçando em fazer tudo muito bem feito por mim. O problema é que eu não sabia se isso era bom ou ruim.


Capítulo 5

Sam.

– O que você tá fazendo?
– Uma receita nova que eu vi na internet.
– Você sabe que na internet também tem pornô, né? Muito melhor que sites de receita.
Eu revirei os olhos e voltei a cortar as cebolas. Cozinhar estava se mostrando meu novo hobby e me ajudava a relaxar, mesmo que fosse pela necessidade de alimentar alguém além de eu e meu irmão. Falando nele, não percebi quando deixou a cozinha após seu comentário maldoso, e também nem dei trela para isso. Continuei focado no que estava fazendo, curtindo um momento de paz. Em pouco mais que uma hora, minha batata gratinada estava pronta.
– Vamos lá, você consegue. – Ouvi a voz de Dean ao longe. – Mais uma vez.
– Não consigo, Dean.
– Consegue sim, eu acredito em você. Tenta mais uma vez.
– Dean, é sério.
– Eu também to falando sério.
– Deixa a menina em paz, Dean. – Eu me meti na conversa, chegando perto com o prato dela. – O que vocês estão tentando?
– Ele quer que eu segure o controle remoto.
– Apertar o botão não foi o suficiente?
– Temos que evoluir, – Dean disse com um sorriso de orelha a orelha. – então vamos treinar.
– Ele é sempre assim?
– Nem sempre. – Castiel deu as caras. – Mas, quando ele decide ser chato, ultrapassa todos os limites.
Houve um silêncio breve, talvez ligado ao incômodo que sentia a respeito de Castiel, e nós não tentávamos investigar esse ponto porque realmente pensávamos que seria menos pior assim. Mas então tentou esticar o pescoço na direção do prato que eu tinha deixado sobre a mesa da biblioteca. Seu interesse me fez voltar à realidade.
– Que carne é essa?
– Acho que é coxão mole.
– Agora você entende de cortes? – Dean provocou.
– Nem vem. , eu provei, tá gostoso. A batata também, já percebi de você gosta de um carboidrato.
– Gosto mesmo. – Ela riu. – E então, quem vai me alimentar?
Mais um silêncio, mais constrangedor que o último, e Dean trocou de lugar, sentando-se ao lado dela.
– Qual foi a do climão? Estão fazendo isso tem mais de mês e só agora que perceberam que é estranho?
– É que agora você fala.
– Pra caralho. – Dean completou Castiel.
– Olha os modos! – Chamei a atenção. – Vou voltar pra cozinha. Dean, quando você quiser comer, já sabe.
Eu dificilmente saía sozinho. Estava com Dean o tempo inteiro nos últimos meses. Era bom demais ter um tempo para mim sem as piadas sem graças do meu irmão mais velho. Não me entenda mal, eu o amo com todas as forças que tenho, mas Dean consegue ser bem insuportável quando quer. Castiel era chato às vezes também, mas era sem querer.
Teoricamente, o Impala seria meu e dele, já que o carro era uma herança, mas Dean sempre dava um jeito de surtar quando eu saía sem avisar, mesmo que ele soubesse muito bem para onde eu sempre ia. Era estranho pensar que apenas as cinzas dela estavam ali e que não significava merda nenhuma que eu estivesse indo a visitar eventualmente, mas eu gostava de acreditar que minha mãe estava vendo aquilo de algum lugar e se sentindo feliz por ser lembrada.
– Sam Winchester...
– Não começa, Charlie.
– Você costumava ser mais legal.
– E você costumava ser menos invasiva.
Ela deu de ombros e sorriu.
– Invasiva é basicamente o que vocês tem me pedido pra ser. Temos novidades com a hóspede?
– Acho que nada que você não saiba ainda. Ela e Dean estão na biblioteca.
– Vai sair?
Hesitei e acabei deixando-a sozinha sem responder. Na minha cabeça, o trajeto estava todo planejado e não tinha nada que pudesse desviar a minha atenção. Éramos eu, o acelerador e os vidros abaixados. Engano meu, porque o celular tocou alguns minutos depois de eu pegar a estrada.
– O que houve?
– Volta pra casa.
– Tá brincando, né?
que pediu. – Charlie respondeu e repetiu. – Volta pra casa.
– Dean não pode resolver, seja lá sobre o que isso se trata?
– Seu irmão acabou de sair, disse que foi comprar suprimentos, mas eu sei bem que ele vai voltar com um ou dois fardos de cerveja. E um ou dois pedaços de torta.
– Charlie!
– É sério, campeão, não fui eu que escolhi. Só estou ligando porque a hóspede não tem um celular e eu, como uma boa cuidadora de idosos, estou fazendo a vontade dela.
– Você não falou isso perto da , falou?
– Ah, ela está aqui sim, ouvindo tudo o que eu... Claro que não, Sam!
Bufei, revirei os olhos e indiquei com a seta que ia parar no acostamento.
– Ok, estou retornando.
Dean ia reclamar duas vezes. Uma por eu ter saído com o Impala, outra por eu ter saído com o Impala quando ele queria sair. Mas ok, Dean não teria o direito de reclamar dessa vez, eu já estava pagando pelo meu pecado por ter saído e dirigido um bom tanto à toa.
– Eu espero que isso seja bom. – Disse a Charlie, que estava me esperando na base da escada de entrada. – Eu realmente precisava sair.
– Você não precisava nada.
– Às vezes eu odeio o tanto que você parece com a Charlie do nosso mundo.
– Então a Charlie do seu mundo era bem legal. – Ela parou na ponta do corredor e apontou na direção dos quartos. – Vai em frente, vou deixar você curtir esse momento sozinho. Até porque já fiz o que precisava, então eu vou aproveitar pra ir embora antes que o anjo de estimação de vocês volte. Ele me dá arrepios.
– O Cas é gente boa.
Charlie deu de ombros e sorriu.
– Não coloco minha mão no fogo por ninguém.
– Sei disso.
– Então... Até mais, alce, a gente se vê amanhã.
Desgraçada.
– Até mais. – Respondi educadamente, contendo a vontade de soltar pelo menos um palavrão.
Cas não estava em casa, definitivamente, pois estava tudo silencioso demais, com exceção do barulho da televisão do quarto de . Não gostava daquela sensação, de escutar meus próprios passos. Passava a impressão de que eu estava sendo seguido. De acordo com os últimos acontecimentos, nem era muito estranho pensar aquilo, o que me fez dar meia volta imediatamente. O corredor não podia estar mais limpo. Voltei a atenção para o meu destino e também não havia ninguém. Era só o velho Sam sendo bem neurótico, mais que o próprio irmão.
– Pode entrar. – gritou quando eu bati na porta.
Ela estava sentada na poltrona, assistindo um episódio antigo de – acredite se quiser – Tom & Jerry. Olhei rápido para a cena que se passava, o que me fez rir.
– Ei, olha isso.
Sua expressão denunciava o tanto de força que ela estava fazendo mas, pouco a pouco, eu puder ver seu braço levantando.
, isso é... É incrível!
– Eu sei, né? Dean vai ter um surto quando voltar e descobrir que eu consigo fazer isso.
– Acho que você devia ir com calma. Tá tudo voltando rápido demais. Sua voz, os movimentos... Meu irmão é bem persuasivo, não deixa ele te pressionar muito.
– Você acha que eu não quero isso também? É sensacional, Sam! Eu to ficando bem!
Tinha um sorriso enorme, a primeira vez que eu via um daqueles em seu rosto. Imediatamente, a raiva por ter dado meia volta se dissipou. Estava verdadeiramente muito feliz por ela e, muito embora não curtisse ser otimista, achei melhor manter a boca fechada e a deixar curtir sua mais nova conquista.
– Como você conseguiu?
– Não sei, eu só... Só pensei bem forte e... Voilà! Mas tem um problema.
– O que houve?
– Não consegui o mesmo com minhas pernas.
Eu me aproximei de , sentando no braço da poltrona. Ela era um tanto mais nova que nós – não muito, mas era –, porém demonstrava ter mais garra ainda para lutar pela própria vida. Então fiz o que jamais deveria ter feito, mostrar que estava emocionalmente envolvido, e acariciei o topo da sua cabeça.
– Vamos dar tempo ao tempo. Você conseguiu com o braço, vai conseguir com as pernas. Quando Dean chegar, tenho certeza de que ele vai te ajudar.
O sorriso voltou ao seu rosto. Menos intenso, mas voltou. Já era suficiente para mim. E eu também tinha a desculpa perfeita para...
– Seu filho da mãe! – Dean gritou quando entrou na cozinha. – Podia ter me avisado!
– Avisado de quê?!
– Que ia sair com o meu carro.
Nosso carro, você quer dizer?
Dean revirou os olhos com força.
– Se fizer isso de novo, vão saltar da órbita.
– Você é tão infantil.
Você é tão infantil... – Fiz voz de criança para imitá-lo e, inevitavelmente, acabei revirando meus próprios olhos também. – Que tal parar de palhaçada e me escutar? Tenho uma coisa que você vai querer ouvir. Ou melhor, ver.
– Espero que seja bom mesmo, porque eu to considerando seriamente colocar laxante na sua água. – Meu irmão ameaçou.
– Eu que deveria colocar na sua depois dessa.
– Desembucha, moleque!
– Vá falar com a .
Dean perdeu a postura de machão imediatamente e deu um passo para trás.
– Aconteceu alguma coisa?
– Vai lá!
Dava pra ouvir as risadas dos dois por todo o bunker. conseguiu comer sozinha naquela noite. Bem... Ela tentou, para ser mais preciso. Os primeiros movimentos foram bem difíceis e acabaram espalhando molho de tomate por toda a mesa e roupa. Rendeu primeiramente risos, depois uma cara de desapontamento que tratamos de afastar e, então, se rendeu e pegou uma das almondegas com a mão mesmo. Novos risos, felizmente sem desapontamento posterior.
– Sabe o que eu vi na internet hoje? – Dean apareceu na cozinha, me ajudando a arrumar as coisas depois que deixamos tudo pronto para dormir.
– Pornô?
– Também, mas não. E não vou falar sobre pornô com você, irmãozinho.
– Eu realmente gostaria que não.
– Tá me ouvindo?
– É claro que to.
– Nossa hóspede tá se recuperando da paralisia, então é bem provável que seja tudo reversível. Concorda?
– Não exatamente, mas...
– Não importa. – Ele me interrompeu. – Eu vi um vídeo na internet que mostra que, se você estimular a dor no local que tá paralisado, aumenta a chance de voltar.
– Você vai machucar ela?
– Espetar com um alfinete.
– Puta que pariu...
– Me diz se não é uma boa ideia.
– Quando você teve uma boa ideia, Dean?
– Ah, para, não sou tão ruim assim.
– Ei. – A voz de Castiel irrompeu pelo cômodo, e o tom não era nada amigável. – Outro lugar. Três horas ao sul.
Dean e eu fechamos a cara na mesma hora.
Modus operanti igual ao anterior?
Ele se limitou a assentir.
– Deixa que eu vou, não estamos conseguindo muito disse mesmo.
– Nós não vamos em missões sozinhos, Sam.
– Vamos comigo então, Castiel?
– Hm... É... Claro. Podemos ir.
– Resolvido então. Volto assim que possível e, se alguma coisa der errado, eu vou avisar.
Dean revirou os olhos, de novo.
– Tomem cuidado, vocês dois.
Dessa vez, havia sido uma farmácia. Quase dez corpos no chão, todos com os olhos queimados. Não havia sentido aparente naquilo, isso era bem claro para mim. Ainda assim, algum anjo, ou seja lá o que fosse, estava matando vários aleatoriamente. Sentido é claro que devia haver, ninguém mata por matar. Crowley matava, mas até mesmo ele mudou. O primeiro passo era descobrir o sentido que fazia para quem estivesse cometendo aqueles crimes, mas eu não conseguiria nada ali em Pratt, então voltei para casa.
– Dean, cheguei. – Gritei quando entrei.
Não obtive resposta, mas também não procurei falar muito mais. O silêncio clássico do lugar me assustava, como sempre. Fui direto para a cozinha, o cômodo do bunker que eu mais frequentava nas últimas semanas. Não houve surpresa nenhuma em encontrar uma pilha de louça suja desnecessária.
– Podia ter botado de molho. – Resmunguei com meus pensamentos enquanto observava a frigideira engordurada.
– Eu falei! – Dean gritou do outro lado do bunker. – Puta que pariu!
Deixei o que estava fazendo e saí correndo. Achei mesmo que podia ter acontecido alguma coisa. O primeiro lugar que procurei foi seu quarto, nada. Nossa improvisada sala de televisão, nada. Quarto da , menos ainda. Então eu me dirigi para a biblioteca, o último lugar onde ele poderia estar. Em sua frente, estava com um sorriso no rosto que só não era maior que o sorriso do meu irmão. Por mais que estivesse com o peso totalmente suportado pelos braços de Dean, ela estava em pé.
– Olha isso! – Ele gritou. – Cas! Cas, vem aqui! Você precisa ver isso!
– Calma, Dean, não é o fim do mundo. – respondeu. – Eu ainda não consigo me firmar, nem um pouco.
– Mas vai. Eu falei que você ia chegar até aqui, então você vai terminar.
– Dean...
– Você vai terminar. – Ele repetiu, mais enfático dessa vez, usando um tom de voz quase que agressivo, então eu e decidimos deixar pra lá e fingir que não estávamos querendo manter qualquer esperança longe para não correr o risco de dar com os burros n’água.


Capítulo 6

.

Eu estava sentada em uma poltrona recém adquirida. Olhava para meus pés e não entendia como podia sentir tanto e, ao mesmo tempo, não sentir nada. Tentei esticar a ponta dos dedos, mas só obtive um leve tremor em resposta. Nas duas pernas, pelo menos.
– Você acha que um par de muletas te ajudaria?
– Não sei. – Sussurrei em resposta para a pergunta de Dean.
– Se for o caso, podemos arrumar.
– Você sabe que não precisa fazer de tudo pra mim, né?
– É o mínimo que poderíamos fazer.
– Por quê, Dean? – Questionei, virando tanto quanto podia meu tronco na sua direção. – Por quê? Quero dizer, vocês não tinham que fazer nada. Era só me largar num hospital e o destino que fizesse seu trabalho.
– Destino e hospital não são uma combinação boa pra pessoas que passaram pela nossa mão.
– Mesmo assim, Dean, eu...
– Você não tem culpa do que te aconteceu. – O Winchester mais velho me interrompeu. – Eu sei toda a dor que você sentiu, e talvez você esteja bem pior do que eu, porque já to calejado dessa vida. Vi muita gente inocente sofrer e descobri, mais de uma vez, que deveria manter as pessoas por perto até ter certeza de que elas estavam salvas. Pra valer.
– Seu irmão não pode te ver sentimental assim. – Murmurei.
– O quê?!
Abri um sorriso e fingi que estava ignorando sua presença. Por mais que eu estivesse ali há algum tempo e, no começo, estivesse completamente receosa com suas escolhas, os testemunhos que escutei de ambos os irmãos – ocasionalmente, de Castiel também, mas eu ainda estava nervosa quanto a ele – me faziam querer fugir cada vez menos dali. Tudo o que eu vi foi bem convincente também, porque eu tinha medo do que poderia me ocorrer se colocasse os pés fora do bunker.
Charlie era engraçada de se ver e de ouvir suas histórias, e eu sentia falta dela agora que estava me virando sozinha com as mãos. Eles arrumaram uma cadeira de rodas higiênica para mim. Era só me colocar lá que eu dava um jeito de tirar a roupa, ligar o chuveiro e tomar banho sozinha. Não havia palavras para descrever como eu me sentia bem por ter aquele poder sob mim mesma novamente. E nem vou comentar sobre o controle dos meus esfíncteres naturais, porque eu nunca achei que sentiria tanta saudade de controlá-los.
– No que você tanto pensa?
– Hm?
– Você tá pensativa.
– Não to pensando em nada. – Falei. – O Sam demora a voltar?
– Ele foi atender um caso numa cidade próxima, mas depende mais do que tá acontecendo lá do que dele.
– O caso é sobre o quê?
– Achamos que um espírito atrelado à casa. Vou saber mais tarde, quando ele ligar pra dar notícia.
– Entendi. – Respondi, baixo.
– Quer treinar de novo?
Dei de ombros.
– Que mal pode fazer?
De toda a minha evolução, o que mais me frustrava era não conseguir ficar de pé por conta própria. Dean ainda era meu apoio, majoritariamente. Sem seus braços me sustentando, minhas pernas não se mantinham firmes no lugar. E ele parecia mais determinado que eu para atingir minha completa recuperação, então fazia um certo esforço específico e focal afim de aumentar, como pudesse, a chance de chegarmos à minha “cura” mais rápido.
Dean se posicionou na minha frente e, colocando os braços por baixo dos meus, aguardou que eu me ajeitasse para começar a me levantar. Sustentando o meu corpo, ele me colou de pé. Olhou para o chão, verificou que eu estava na postura correta e deu um passo para trás, ainda me mantendo.
– Alguma coisa diferente?
– A dor diminuiu.
– Ok, um passo. – Ele ordenou.
– Dean, você sabe que eu não consegui dar um passo por conta própria até então.
– Pensa com força.
– Eu to pensando, Dean!
– Bota mais força ainda.
– Não consigo.
– Ei, olha pra mim.
Conhecia aquele tom de voz. Precedia um dos seus belos discursos motivadores com uma pitada sarcástica no final das contas. Sam dizia que o irmão era um babaca transvestido de um homem bem apessoado. Eu só achava que Dean tinha um dos corações mais moles que eu já havia visto mas tinha vergonha disso – ou talvez medo de parecer afetivo quando não queria ser e precisava assumir uma posição de “machão” –, e aquela pitada sarcástica era para disfarçar isso e não se deixar notar.
Tirei minha atenção dos pés, para onde insistia fitar, e levantei o rosto. Já havia acontecido antes, mas eu senti um impacto maior. Quando nossos olhares se conectaram, eu vi Dean ameaçar abrir a boca para começar o tal discurso, mas então ele fechou novamente. Não houve sorrisinho, mas meu coração pulou uma batida. E ao contrário da outra vez em que isso aconteceu, durante a minha primeira transferência da cama para a cadeira de rodas, o momento durou. Nenhum dos dois piscando, as respirações sincronizadas... Não saberia dizer quanto tempo durou. Estava começando a ficar assustada com a situação quando o som de outra pessoa se fez audível no ambiente.
– Dean, Sam pediu pra eu vir avisar que ele vai emendar o caso em outro.
Ele continuou me sustentando, mas abaixou a cabeça. Então veio o sorrisinho. Meu coração palpitou de novo. Cacete, aquele sorriso não era simplesmente por educação. Falta de jeito? Talvez. Mas não tinha nada a ver com educação, disso eu tinha certeza. O pior é que meu corpo estava respondendo. Só conseguia ouvir minha própria consciência gritando, a todo momento: Não, !
– Tudo bem, Cas.
– Você vai ligar pra ele?
– Agora não.
Foi a minha vez de abaixar a cabeça e rir, mas eu sabia bem que meu sorriso era puramente por estar achando graça da situação.
– Eu devo ligar?
Não, Cas.
– Então o que eu devo fazer?
Dean bufou, e eu deixei escapar um riso mais forte.
Que merda... – Ele sussurrou para mim e, logo depois, levantou a voz e a cabeça. – Pode ir comprar cerveja?
– Mas nós temos cerveja.
– Eu quero mais cerveja, Castiel. – Dean usou um tom de voz mais duro.
Parece que dessa vez ele entendeu. De qualquer forma, eu esperei em silêncio e sem me mover por alguns instantes.
– Desculpa por isso.
– Tudo bem. – Respondi baixo, com a certeza de que minhas bochechas estariam da cor de tomates, queimando a minha pele como eu não lembrava de ter acontecido antes. – Acho melhor a gente deixar pra tentar fazer algum tipo de exercício de novo amanhã.
– Como assim?! – Dean elevou a oitava da voz. – Eu fiz alguma coisa de errado?
– Tá tudo bem, Dean, já disse. Pode me colocar de volta na poltrona, por favor?
, eu...
– Tá tudo bem. – Repeti, olhando novamente em seus olhos e tentando abrir um sorriso que parecesse sincero.
Castiel voltou com a cerveja alguns minutos depois. Eu estava adorando a ausência de Sam por um motivo: Dean era um desastre na cozinha. Eventualmente, minha presença lá era necessária, e me sentir útil de qualquer forma era maravilhoso. Naquela noite em particular, estávamos cozinhando almôndegas e Dean não fazia ideia de como se fazia um molho de tomate a partir do zero. Então acabei mandando Castiel de volta à rua, que voltou com ingredientes frescos para que eu pudesse preparar na mesa e direcionar para Dean, no fogão.
– Onde você aprendeu a cozinhar? – Dean perguntou enquanto me via cortando os tomates a ponto de parecerem uma massa homogênea. – Sam nunca fez isso.
– Vocês são homens da caverna. – Resmunguei e entreguei a tábua a ele. – Liga o fogo da panela. Quando começar a caramelizar, joga o tomate e mistura.
– Ainda não respondeu.
– Com a minha avó.
– E onde ela tá agora?
– Na prisão psiquiátrica.
Dean arregalou os olhos e parou o que estava fazendo.
– Não solta a colher! – Eu gritei. – Vai queimar, Dean.
– Você percebe o que acabou de me dizer?
Caí na gargalhada. Castiel, um tanto tenso, sentado no outro extremo da mesa, levantou a sobrancelha.
– Eu to brincando, Dean, minha avó morreu.
– Isso não é brincadeira que se faça.
– No final das contas, você colocou uma desconhecida aqui, não é? – Disse, séria, arqueando uma sobrancelha sugestiva. – Ficou com medo de quem eu poderia ser?
– Na verdade, eu te pesquisei. – Castiel falou e meus ombros se encolheram. – Weir, filha de Hugh e Nicole Weir, nascida em 04 de setembro de 1990 na região de Queesland, na Austrália, e...
– Ok, Cas, nós entendemos. – Dean o interrompeu, e eu agradeci seu gesto com o olhar, mantendo meu silêncio. – Você quer ir na mercearia de novo?
Ainda tensa, não evitei soltar um riso leve quando abaixei a cabeça e voltei aos preparos da janta. Se dependesse de Castiel, íamos ficar a noite inteira falando sobre coisas aleatórias e sem sentido. Dean, por sua vez, deixaria o bunker pegar fogo. Algo naquela noite me dizia que era assim que eu vivia antes, com um sorriso no rosto apesar das adversidades, e eu gostava da pessoa que eu era meses antes de perder a memória. Antes, também, de ser possuída por um maldito anjo.
Sam chegou pouco menos de uma semana depois. Um olho roxo, nariz quebrado, a mão inchada provavelmente por conta de uma outra fratura também, mas vivo. Foi inevitável fazer o link do estado dos dois irmãos com as cicatrizes que se faziam presentes em seus rostos e braços. Por baixo das roupas, elas provavelmente se multiplicavam de forma desordenada. Então eu me colocava para pensar no porquê deles fazerem aquilo. A história da mãe, eu sabia, mas ainda assim... Não me parecia bom. Ou saudável.
Enquanto isso, eu seguia com as pernas quase inúteis. Uma evolução mínima aqui, outro minúsculo progresso ali, mas eu ainda não andava. A não ser com a ajuda de Dean, mas aí era outro caso. E por mais que meu subconsciente estivesse gritando que havia algo errado naquela solicitude, eu ainda me sentia mais segura ali do que do lado de fora. Os irmãos terem adaptado o bunker para que eu pudesse transitar o máximo possível com a cadeira de rodas sem depender deles foi só uma prova disso. O problema que talvez eles não tivessem previsto que eu podia aparecer onde não me desejavam.
Estava distraída por um bom tempo, mas o período que passei completamente acamada me deu certos super poderes, e eu acabei captando algo que talvez não quisesse notar. As vozes estavam alteradas mas distantes, então eu não consegui distinguir quem era quem à de onde eu estava. No entanto, contra todos os meus instintos, eu virei a cadeira de rodas na direção da origem dos sons e comecei a me empurrar para lá. Em certo ponto, constatei que se tratava da biblioteca.
– Você tá fazendo merda, Dean.
– Não to. – Ouvi a voz do mais velho insistir. – Ela vai ficar bem.
– E depois o quê? Vai liberar pro mundo?
– Não era a minha intenção.
– Então vai manter ela aqui, como se estivesse em cárcere privado?
– Sam, você não tá ajudando.
– Você não entende que é arriscado ter alguém de fora aqui! – Sam aumentou um pouco a voz. – Não sabemos como tá a mente dela. A pode muito bem estar esperando o momento perfeito pra fugir daqui e gritar aos quatro ventos sobre nós.
A raiva me subiu no momento. Eu tinha para mim que jamais faria algo como aquilo. Eles haviam me salvado, e cuidaram de mim quando ninguém mais fez. Devia a minha vida a eles. E como Sam ainda ousava pensar sobre mim daquela forma?
Estava pronta para dar meia volta e ir para meu quarto, ficar lá até não poder mais esconder que estava tentando evitar todos eles, quando ouvi uma batida seca, provavelmente no tampo de madeira na mesa.
– Ela não é nada disso!
– Você, de todo mundo, vai defender ela?
– A não é nada disso. – Dean insistiu. – Ela fica.
Então a discussão é sobre eu ir embora?
– Dean...
– Nós salvamos pessoas, Sammy. A fica.
Os dois ficaram em silêncio por um bom tempo. Em certo momento, consegui notar a respiração pesada dos irmãos. E se eu conseguia ouvir a respiração deles, eles provavelmente podiam ouvir a minha também. Comecei a dar meia volta novamente com a cadeira. Dei de cara com Cas, fazendo sinal para que eu ficasse quieta. Ele, sem dizer uma palavra sequer mas parecendo ler a minha mente, tomou a posição atrás de mim e começou a me empurrar de volta para o quarto.
Ok. Talvez eu estivesse começando a dar o braço a torcer pelo anjinho ingênuo.


Capítulo 7

Dean.

Quando eu vi o anúncio na internet, mil pensamentos se passaram pela minha cabeça. Como contar a ela era o principal deles. Primeiro porque eu teria que explicar que joguei o nome dela em um site de busca online e eu estava tendo dificuldades em processar como criar uma história que não parecesse absurda, que não me fizesse passar vergonha e que também não a assustasse. Então a lâmpada acendeu sobre a minha cabeça. Castiel! Levou apenas alguns segundos entre eu pensar no nome dele e o sem noção aparecer na garagem.
– O que houve?
– Não é possível que você tenha sentido de longe.
– Senti o quê?
Eu tentava, mas era impossível não revirar os olhos quinhentas vezes quando estava falando com Castiel.
– Preciso da sua ajuda.
Bati na porta do quarto de alguns minutos mais tarde. Não houve resposta imediata, então bati de novo. Comecei a achar que tinha algo errado. Repeti o ato mais uma última vez. Se não tivesse resposta, eu iria entrar de um jeito ou de outro.
– Quem é?
Ufa.
– Sou eu. – Eu quem?, idiota. – Dean.
Houve certo silêncio antes de uma nova resposta.
– Não to me sentindo bem hoje, Dean, acho melhor a gente deixar pra treinar em outro momento.
– Eu vim por outro motivo.
Mais silêncio. Havia definitivamente algo de errado. era tagarela.
– Pode entrar. – Ela finalmente respondeu.
Abri a porta e a encontrei sentada na cama, debaixo da coberta.
– O que houve? – Nós perguntamos um ao outro simultaneamente.
– Você primeiro. – Ela continuou logo.
– Mas você disse que não tá se sentindo bem.
– Vai passar.
– Pode ser importante.
– Eu vou ficar bem. – insistiu. – O que você veio falar?
constava como desaparecida para um determinado site de uma firma de advocacia na Luisiana e o informe havia sido noticiado em alguns jornais locais pequenos e outros não tão pequenos assim. Um pedido com urgência solicitava que qualquer um que soubesse do paradeiro dela entrasse em contato. Depois que Castiel – na teoria, porque era eu na prática – descobriu isso, eu consultei o sistema da polícia por meio de um programa hacker que Sam havia desenvolvido. Não era alerta nacional, mas realmente tinha sido dada como desaparecida não só pela firma de advocacia mas também por um homem chamado Henry Carter, que se dizia noivo dela. Joguei na internet novamente, agora adicionando o nome do homem à busca. Não havia confusão. Era da Weir que estava conosco que todos aqueles resultados falavam.
– Bem... – Ela gaguejou algumas vezes antes de formular qualquer frase quando eu terminei a história. – Nós podemos dizer que eu estava em um repouso espiritual ou qualquer coisa do tipo.
– E como explicamos a questão das suas pernas não estarem funcionando direito?
– É... Tem isso.
– Pois é.
Castiel tentou fazer barulho de propósito ao entrar no quarto.
– Oklahoma. – Ele falou.
– O que tem?
– Um hotel que tenha sala de reunião. Não vamos até a Luisiana mas também não deixamos ninguém vir aqui.
– Ou deixamos morrer o assunto.
– Você quer deixar morrer, ? – Castiel perguntou.
Eu sabia ler as pessoas? Não. Mas estava transparente na minha frente. Sam foi totalmente contra a ideia, e eu nem entendia o porquê, mas nós arrumamos nossas coisas mesmo sem ele e partimos para uma viagem cansativa de cinco horas e meia até a cidade de Norman, na região central do Oklahoma. Havia um hotel chamado Super 8 que possuía uma sala para encontros e eventos. Mesas redondas com seis cadeiras, era só sentar lá e a tirar apenas quando fosse seguro. Para isso, Castiel nos ajudaria.
Quando dei um nome diferente para realizar a hospedagem, arqueou a sobrancelha. Ao menos não perguntou ou disse nada na frente do recepcionista. Fomos nós dois para o quarto. Enquanto eu a colocava na cama, Castiel apareceu.
– Eles vão levar duas horas pra chegar aqui, pelo menos. São dois homens, um bem mais novo que o outro, ousaria dizer que deve ser advogado e estagiário. E a julgar pelo carro que estão usando, não são de um escritório de advocacia qualquer.
– Qual é o carro? – Perguntei.
– Um Mercedes classe E.
– Merda...
– Devo fazer mais alguma coisa?
– Continua de olho neles e me informa quando faltar, ao menos, trinta minutos para eles chegarem.
– Sem problemas.
Ele desapareceu e eu terminei de empurrar a cadeira de rodas para um canto do quarto. estava se esticando para jogar a coberta por cima das pernas.
– Pode deixar, eu te ajudo.
– Não precisa.
– Quê isso, precisa sim.
– Dean, – Ela disse mais firme, segurando a coberta com força. – não precisa.
A incisividade dela me pegou de guarda baixa. Dei um passo para trás e sentei na segunda cama do quarto. Estava começando a me arrepender de ter levado até ali e considerando tentar falar com Castiel para desviar os advogados.
, o que tá acontecendo?
– Não tá acontecendo nada.
Mulheres... Eu revirei os olhos por dentro. Tinha medo do que poderia acontecer se ela me visse, de fato, fazendo aquilo.
– Você quer que eu vá embora? – Perguntei a primeira coisa que passou pela minha cabeça. – Eu posso ir. Se você quiser falar pra eles sobre eu e meu irmão, sobre tudo o que aconteceu... Não tem problema. De verdade. Eu não vou ficar chateado, não vou atrás de você pra me vingar ou qualquer coisa do tipo.
– É isso o que você quer?
– O quê?! – Eu me assustei com o meu próprio tom de voz. – Claro que não!
– Então por que tá sugerindo tanto?
– Eu não estou sugerindo tan... – Respirei fundo, tentei manter a calma. – , nós tivemos que escolher no seu lugar por muito tempo, mas agora você tem liberdade pra fazer muita coisa. No fundo, não precisa da gente pra nada. Nós estamos nos esforçando, é claro, pra te proteger além do padrão pra um humano comum. Mas é claro que você está livre pra ir quando quiser. Não teríamos como te proteger do que aconteceu se você for embora, mas tudo bem se você quiser isso. Nosso objetivo era te salvar e te manter segura. O primeiro passo foi concluído. Você não tem culpa de nada do que aconteceu. Se quiser ficar, vamos continuar nos esforçando pra criar um ambiente seguro pra você até que seu corpo volte completamente ao normal e você possa voltar à sua potência máxima de autodefesa. Mas você sempre teve a escolha, nós jamais iríamos de encontro à sua vontade. Queremos o melhor pra você. Foi só isso que eu quis dizer, .
– Você usa muitos plurais.
– Como?
– “Nós estamos”, “nós vamos”, “nós queremos”, “nós tivemos”... Nós, nós, nós! Vejo muito você e pouco “nós”. Bem, a não ser que você esteja falando do Castiel. Aí eu devo te dar razão na parte do plural.
– O que tá havendo, ?
– Pergunte a seu irmão.
Era por isso que não tínhamos mulheres. Eu deixei sozinha e fui para o banheiro da suíte. Era o banheiro mais bonito de todos os lugares onde já tínhamos nos hospedado – contando com a época em que andávamos, crianças, com o nosso pai. Havia uma pia de granito, a cuba estava sem manchas e o espelho pegava de ponta a ponta da parede. Banheira limpa e cortina sem mancha de mofo? Eu nunca tinha nem sonhado com aquilo.
Olhei meu reflexo no espelho – sem área embaçada, sem rachadura, sem pedaço faltando, sem mancha de procedência duvidosa – e comecei a me perguntar o que eu estava fazendo. Estava à beira de perder a paciência, tentando mantê-la o máximo possível, com alguém que não tinha a mínima culpa do que estava acontecendo. Isso me lembrada da fala de a respeito de Sam. Tinha acontecido alguma coisa e eu não estava sabendo, mas eu estava querendo dar um final feliz para aquela bagunça toda.
, eu...
Saí do banheiro abrindo a boca, mas ela tinha apagado. Sem ter muito o que fazer, eu acabei tirando os calçados dos pés e deitei na cama ao lado. Minha cabeça não aguentava mais pensar tanto e eu estava doido por uma cama confortável. Se eles tinham duas horas para chegar ainda, Castiel não voltaria em menos de uma hora. Isso tudo de cochilo? Para mim? Puta que pariu, era um sonho! No final das contas, ele demorou até mais que isso, me promovendo uma das melhores sonecas que tirei em anos.
Nós dois colocamos na cadeira da sala de reuniões. Fechei a cadeira de rodas e coloquei embaixo da mesa onde eu iria ficar. Ela colocou em si um vestido longo que Castiel parou para comprar, algo que desviasse a atenção de suas pernas. Deixei dois blocos de caderno e uma variedade de canetas e marcadores com ela.
– Você tem certeza de que não quer revisar as coisas?
– Tenho.
– Não quer que eu vá embora?
Não, Dean. – Ela revirou os olhos. – Tá tudo bem.
– Você tá fazendo drama, não tá nada bem.
Ela ameaçou abrir um sorrisinho e olhou para mim, o humor completamente diferente de antes.
– Nós conversamos quando isso acabar. Não vou tomar nenhuma decisão sem descobrir sobre o que isso se trata antes.
Hesitei mas acabei assentido.
– Ok então, vou estar na mesa de trás, cadeira logo atrás de você. Se precisar de qualquer coisa, – Fixei bem a palavra. – é só gritar.
Castiel provavelmente não tinha mentido sobre o carro. Os caras eram elegantes, mas nem um pouco intimidadores. Tentei ignorar as palavras e fingi que não era capaz de ouvir tudo. Na voz dela, no entanto, não tinha como não notar que ela estava bem calma. “Menos pior” para mim. Com tranquila, eu ficaria tranquilo também. Assim que os homens se levantaram e Castiel confirmou que eles tinham saído, eu me mudei de mesa.
– Cas, fica de olho neles até a gente sair.
– Mais alguma coisa?
– Não. – Respondi. – Você quer fazer o quê agora, ?
– Eu não sei. – Ela murmurou.
– Tá tudo bem?
– Não sei também.
Outro humor? Puta que pariu!
– Preciso que você fale comigo, mesmo que seja o mínimo, pra eu poder te ajudar.
Ela hesitou. Muito. Por dentro, eu estava roendo todas as unhas possíveis. Por fora, calmo como um cisne. Cisnes eram calmos, certo?
– Eu lembrei de tudo.
– Como assim?
– Eu lembrei de tudo. – Ela repetiu. – Você... Você... Você me salvou.
, eu não...
– Você tirou ele de mim.
– Não foi nada demais.
– Foi sim! – gritou e me puxou para um abraço.
Não nego que fiquei surpreso, mas deixei que ela me abraçasse por um bom tempo. Se isso era sendo , tudo bem, que fosse. Eu esperava de coração que aquilo significasse uma melhora para ela. Não havia laços entre nós dois, não havia motivos lógicos para eu fazer o que estava fazendo. Era apenas Dean Winchester, na melhor essência dele mesmo, tentando fazer o mundo ser um lugar melhor. Não me importava de me foder toda vez que me metia em uma dessas furadas, mas ver um inocente no meio daquilo tudo quase que me machucava. Só que estava demonstrando emoção pela primeira vez e eu nem sabia como reagir. Então eram duas coisas que eu esperava: que aquilo significasse uma melhora para ela e que eu não estivesse sendo um babaca como normalmente era. Até porque, para mim, não havia problema em ser um babaca. Já para ela...
– Eu também tenho uma fazenda. – Ela murmurou e, quando olhei de volta para ela, seus olhos estavam arregalados.
– O quê?!
Eu queria investigar, perguntar, minha curiosidade estava tento um ataque cardíaco, mas fomos interrompidos.
– Dean! – Castiel apareceu, ofegando. – Eles estão voltando.
foi a primeira a arregalar os olhos. Eu literalmente peguei no colo e fiz sinal para que Castiel levasse a cadeira de rodas. Terminei de colocar no banco de trás quando a Mercedes encostou bem ao lado do Impala. Segurei a respiração, mas ela foi mais rápida que minha mente. Antes que eu visse, ela se cobriu com a manta que havíamos levado e deitou no banco. O homem olhou para o carro. Merda.
– Sessenta e sete? – Ele perguntou para mim, apontando com a mão direita para o carro.
Abri um sorriso amarelo e apoiei o braço no teto.
– Sim. – Respondi. – Bonito, né?


Capítulo 8

Sam.

Eu não sei quem estava mais assustado ao sair do carro, eu ou meu irmão. Talvez eu, porque vê-lo naquela situação já me era incômodo o suficiente de tão fora do normal que ele estava. Dean não era o cara que se deixava guiar por emoção ou qualquer coisa do tipo. Quando queria, era bem direto: sim ou não, nada de talvez. Mas ele estava agindo de forma estranha desde que havia acordado e voltado a falar. Se eu estava desconfiado? Quem não estaria?! Bem... Aparentemente, meu irmão não estaria.
A entrada era escondida em uma das estradas intermunicipais mais pacatas da Louisiana. De lá, seguimos por um caminho de terra que deve ter se estendido por, ao menos, três milhas desde o asfalto. Dean estava se contorcendo por conta do Impala mas não queria demonstrar. Bom, ao menos assim ele via algum ponto negativo naquilo. O problema foi quando nos deparamos com o portal enorme, ladeado por esculturas de cavalos, e praticamente pulou no banco de trás.
– É aqui. – Ela afirmou.
saiu do carro com a ajuda de Castiel, que a carregou no colo, mexeu em alguma coisa na lateral do portão gigante de madeira e ele se abriu. O Impala passou, revelando um terreno totalmente diferente de tudo o que já havíamos visto. Depois do portão, a estrada ainda era de terra, mas em melhor qualidade. Andamos ainda cerca de uma milha até chegarmos à primeira construção, um chalé enorme montado em madeira. Cerca de vinte metros à frente dele, uma área com piscina grande o suficiente para dar uma festa, junto a uma edícula com móveis de madeira e uma cozinha externa. Além da piscina, um lago se estendia até perder de vista, com uma ilha de concreto no meio, acessível por meio de uma extensa ponte de madeira. Do outro lado do lago, havia um casarão de dois andares bem escondido entre diversas árvores diferentes.
Dean parou o carro em uma sombra. Castiel saiu logo e foi até a mala, buscar a cadeira de rodas de . Eu devia assumir, estava surpreso com aquilo tudo. Mas, por mais surpreso que eu estivesse, ainda estava com um péssimo pressentimento.
– Aqui é o salão de festas. – disse enquanto meu irmão a retirava do carro para colocá-la na cadeira. – Tem uma cozinha enorme, mesas de jogos, um sofá maravilhoso no mezanino onde eu gostava de me esconder pra dormir durante o dia...
Notei que os olhos dela brilhavam.
– Era aqui que você morava?
– Até a faculdade, sim.
– E depois? – Dean insistiu.
– Fui pra Baton Rouge.
– Fica o quê?! Umas três horas daqui?
– Três horas e meia, em média. – Ela respondeu e apontou para a direção que o caminho de terra seguia. – Lá pra trás, tem os estábulos, o celeiro e o...
De repente, pareceu ter um surto. Tentou se colocar de pé com pressa e acabou quase caindo ao chão, se não fosse eu e meu irmão reagindo rápido.
– Ei, ei, ei! O que houve?
– Meus animais! – gritou.
– O quê?! Como assim?
– Se eu estava fora esse tempo todo, quem cuidou deles?
Dean olhou para mim como se procurasse uma resposta. Eu simplesmente dei de ombros.
– Dá pra ir de carro até lá? – Meu irmão pegou a ela.
– Dá, a maior parte do caminho sim, eu...
– Ok, então. Calma, vou te levar até lá. – Ele a interrompeu, pegou no colo e a devolveu para dentro do carro.
Ele saiu com tanta pressa que acabou deixando eu e Castiel ali. Nós trocamos um olhar e, logo depois, Castiel virou as costas para mim. Quase sem ter outra opção, fui até a porta da cabana à nossa frente e forcei. Estava destrancada.
– Sam, não somos os donos daqui. – Castiel me repreendeu.
– Ela também não é dona do bunker, mas...
– O que tá acontecendo? – Ele entrou no meu caminho.
– Cas, eu só quero sentar em algum lugar.
– Seu irmão tá te evitando. – Castiel estreitou os olhos. – Você não viajou com a gente pra ver os advogados da . Relutou muito para vir nos encontrar aqui. De uns tempos pra cá, tem saído em caçadas sozinho. Não ajuda mais a cuidar dela como ajudava antes.
pode se cuidar muito bem agora.
– O que tá acontecendo, Sam?
– Nada.
– Eu achava que seu irmão mentia mal, mas você é pior ainda nisso.
– Pode me deixar passar?
– Sam...
– Eu só quero passar, por favor. – Falei e, sem esperar que Castiel reagisse, contornei seu corpo. – Não era nem pra eu estar aqui.
Castiel ignorou meu sussurro e ficou do lado de fora mesmo. O interior da cabana era interessante. O mezanino do qual havia falado realmente existia. Ele era composto por um cômodo só, no qual se misturavam ambientes de sala de estar, sala de jantar, cozinha e salão de jogos. Havia uma porta próxima a mesa de bilhar que eu deduzi ser o banheiro, mas vasculhar era ultrapassar os limites até mesmo do meu mau humor. A escada para o mezanino ficava entre essa e outra porta, mais larga, que também não procurei investigar. Apenas me acomodei no sofá disposto em frente a uma televisão moderna e fechei os olhos.
Acredito que tirei um cochilo, porque me senti sendo acordado pelo barulho da lenta do Impala voltando para perto de nós. Dean tirou do carro mais uma vez, a colocando na cadeira de rodas com a ajuda de Castiel, de novo. Era um trabalho duplo que eu odiava estar vendo e, mesmo que eu não entendesse o tanto que aquilo me incomodava, simplesmente não conseguia parar de sentir que estava me corroendo de dentro para fora.
– Os animais dela estão vivos. – Dean disse, entrando no chalé. – Mas temos um problema.
– Só um? – Ironizei.
– Tem funcionários aqui.
– Então é mais de um.
– Sam, por favor...
– O que foi, Dean? Vai ficar nesse ‘por favor’ até quando?
Meu irmão revirou os olhos.
quer ficar, ela diz que é seguro.
– Claro que ela disse isso...
– Se você tem um problema, é só me falar. Passamos anos brigando entre a gente pra conseguir salvar um ao outro e, logo agora, você vai dar uma de histérico?
– É claro que eu vou! A verdade tá na sua cara e você não vê!
– Não é bem isso que eu to percebendo.
– Gente, – Castiel entrou. – quer ir ver a casa.
Dean foi logo para o lado de fora. Eu hesitei, pensei mil vezes que ia ficar sentado ali mesmo e dane-se o que viesse a partir daquele momento. Cheguei a cogitar pegar o Impala e ir embora, ou então andar até achar o primeiro carro que me servisse para fazer a viagem de volta para casa porque Dean ficaria muito puto se eu mexesse no Impala. Mas, no final das contas, acabei me levantando. Dean estava seguindo com na cadeira de rodas mesmo e eu seguia os dois logo atrás. Castiel estava dando a volta no lago enquanto isso, aparentemente.
Etapa dois da surpresa: não reclamar de nada porque tudo pode ficar pior. O andar debaixo da casa era composto de outro megacômodo, contendo sala de jantar, sala de estar, sala de TV e cozinha. Um corredor levava para um banheiro e a porta central nele mostrava uma larga cama de casal. Eu não fui até lá, mas Dean levou onde ela queria. Por perto, uma escada levava para o segundo andar da casa. Voltei à minha posição inicial, sentado no sofá como quem poderia tirar um cochilo a qualquer instante. Mas o possível cochilo se transformou em algo bem pior que eu só fui descobrir quando abri os olhos de volta e lá fora estava escuro.
Havia uma luz do outro lado do lago, que eu imaginei que vinha de dentro da cabana. Uma neblina densa preenchia a propriedade e dava um clima macabro à minha visão. De dentro da casa, notei que havia algumas lanternas penduradas em algo que provavelmente era destinado a chaves. Testei a primeira, não funcionava. A segunda também estava inútil. Três devia ser meu número da sorte, porque funcionou e era boa o suficiente. Eu ajeitei a arma por dentro da minha calça e saí, caminhando atento a qualquer barulho estranho que pudesse indicar perigo.
– ... porque eu iria arruinar tudo e eles eram certinhos demais pra ter uma filha desse jeito.
– A bela adormecida acordou. – Dean disse quando me viu. – Sirva-se, pizza fresquinha.
– Quem foi comprar?
– Nós fomos de carro até uma cidade aqui perto e compramos.
– Todos os três?
– Não, Castiel ficou de olho em você.
– A casa tava bem vazia quando eu acordei.
– Ah, Sam, come aí. Você fica muito mal humorado quando tá com fome. A até lembrou de pedir uma pizza cheia de palhaçada pra você.
Antes, mal falava o nome. Agora é ‘ isso’, ‘ aquilo’, ‘ tudo’... Eu me aproximei e notei uma pequena caixa com adesivo em cima a identificando como pizza vegana.
– Obrigado, .
– De nada. – Ela respondeu, a voz mais baixa que a minha.
Os três conversavam mais descontraídos e eu percebi que estava me tornando o novo Castiel para . Ao fim da conversa, nós quatro nos dirigimos à casa principal. Era meio trágico, mas ela nos guiou até o quarto do andar térreo, que pertenceu aos pais no passado. Algumas roupas ainda estavam no closet e ela deixou que eu e Dean procurássemos por algo para vestir. Revezamos no banheiro de baixo enquanto ela dava conta de si mesma no banheiro da suíte inferior.
– Sam, – Dean veio falar comigo na sala ao sair do banheiro. – ela disse que tem quarto lá em cima e que você pode usar.
– Você vai ficar onde?
– Aqui na sala, caso ela precise de alguma coisa.
– Eu posso ficar na sala também.
Dean deu de ombros.
– Tudo bem, você que sabe.
Ele jogou a toalha por cima de uma das cadeiras da mesa de jantar e se sentou no sofá oposto ao meu.
– Você não percebe que tudo isso tá muito estranho?
– De novo com essa conversa, Sam?
– Deve ser porque eu não consigo pensar em outra coisa.
– Já disse que você tá imaginando coisa.
– Talvez você ache que tem uma conexão com ela porque os dois passaram por situações parecidas em alguns pontos, mas isso não significa que você possa ler a mente dela e afirmar, com certeza, se isso tem ou não algo de errado.
– Você também não pode fazer isso e tá bem cismado com a garota.
– É esse o ponto em que eu quero chegar! – Gritei. – Antes era “garota”, demorou pra sair um “” e agora é só “”. Você tá se envolvendo emocionalmente.
– Sam, a questão é a seguinte: nós protegemos as pessoas, e ela precisa de muita proteção do meu ponto de vista. Eu vi o que Miguel foi capaz de fazer. Você também, mesmo que não pareça. Não sei você, mas eu só vou deixar a garota em paz quando puder ter certeza de que ela não corre mais risco referente ao que aconteceu.
– E como você vai ter certeza?
Dean recostou a cabeça no sofá e respirou fundo.
– A gente errou quantas vezes?
– Algumas. – Respondi.
– E acertou quantas?
– Várias.
– Então eu fico com as estatísticas nessa e escolho confiar no meu instinto. Pode ser?
Dei de ombros e me levantei.
– Você que sabe. Ela indicou algum quarto que possa ser usado?
– Desistiu?
– Desisti. – Confirmei. – E então? Ela indicou ou não?
– Qualquer um que não seja o que tem um retrato na porta.
– Ótimo então. Se precisar de mim, estarei lá em cima.
Meu irmão assentiu. Foi a última coisa que eu vi antes de subir a escada. A tal porta com um retrato era a imagem de uma mais nova ladeada por um casal. Os três tinham sorrisos deslumbrantes. estava usando uma roupa de equitação e, logo atrás dela, um cavalo parecia estar ciente de que uma foto estava sendo tirada. Por um segundo, deu saudade da minha mãe e até mesmo do meu pai.
Escolhi o quarto ao lado. A cama não era bem de casal, mas também não era uma de solteiro comum. Qualquer coisa era melhor do que a cama que eu tinha no bunker, então tudo bem. Ajeitei os travesseiros e uma coberta que encontrei no baú ao pé da cama. Olhei pela janela uma última vez e, lá fora, parecia tudo tranquilo. Então desisti de seja lá o que eu estivesse tentando imaginar e deitei na cama para dormir.


Continua...



Nota da autora: Eu espero, de coração, que vocês me perdoem pelo capítulo ruim e pela demora na atualização. Tava ocupada ficando nervosa com o Flamengo haha





TODAS AS FANFICS DA AUTORA:

All Roads Lead to You [Supernatural - Em Andamento]
Aqueles Malditos Olhos Verdes [Jensen Ackles - Em Andamento]
Badges and Guns [Henry Cavill - Em Andamento]
Don't Tell My Ex [Henry Cavill - Em Andamento]
I Don't Want Somebody Like You (I Only Want You) [McFLY - Em Andamento] (em breve, no especial The Lost Authors)
In the Eye of the Hurricane [Bon Jovi - Em Andamento]
Move If You Dare [McFLY - Shortfic] (em breve, no especial The Lost Authors)
No Angels [Supernatural - Em Andamento]
Traded Nightmares for Dreaming [McFLY - Em Andamento]
Tudo por um Amor [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic] (em breve, no especial The Lost Authors)
Tudo por um Gol [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic]


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