Contador:
Última atualização: 10/08/2020

Capítulo 1

– Me liguem quando chegarem em Londres.
– Pode ser só uma mensagem? Nós vamos sair pra conhecer a cidade rapidinho, mãe. São seis horas lá, esperando o avião pra Joanesburgo... Dá pra ver algumas coisas.
– Se vocês não me ligarem, eu vou até lá e vou trazer vocês de volta pra casa pelo pescoço.
Eu e minha irmã reviramos os olhos.
– Mãe, relaxa, não é a nossa primeira vez.
– É a nossa décima, pra ser exata. – Eu me intrometi na conversa.
– Décima da sorte! – pulou no meu ombro.
– A gente tem que ir, mãe, nosso voo já está embarcando.
– Cuidado com os leões. – Ela se aproximou de nós duas, deixando um último abraço. – E me mandem notícias. De Londres, de Joanesburgo e de Porto Elizabeth.
– Vamos mandar. – Eu sorri para ela, piscando um olho.
e já nos esperavam do outro lado das roletas do embarque. Nós passamos correndo pelas lojas propositalmente. Era quase um ritual que nós chegássemos com tempo curto para justamente não cedermos a tentação de entrar nelas. Mas aquela loja da Maybelline estava me chamando pelo nome, eu juro.
, a Charlotte quer saber se nós vamos alugar um carro de novo ou se vamos precisar que alguém nos busque no aeroporto.
– Não sei, meninas, o que vocês acham?
– Acho melhor o carro. Aí final de semana nós ficamos presas por lá, dependendo de transporte dos outros... Acho melhor não depender disso, né?
– E você, ?
– Eu concordo com a .
– Ok então. – Confirmei. – , dá a notícia pra Charlotte. Enquanto isso, eu vou verificando aqui as possibilidades de aluguel de carro por lá.
Fomos andando até dentro do avião. Localizamos nossos assentos, guardamos nossas bolsas nos compartimentos e eu enfiei a mala da mão embaixo do assento da frente. Como o avião ainda não havia decolado, continuei a minha pesquisa.
– O SUV mais barato pra alugar tá em R$ 145 a diária. Automático, com todos os seguros inclusos e aquelas baboseiras que vocês já conhecem.
– Ano passado foi mais barato. – reclamou.
– Eu sei...
– A gente pode chegar lá sem nada feito e tentar diminuir o preço. – sugeriu. – Ou então a gente pesquisa com calma em Londres pra ver se acha algum cupom de desconto legal.
– Pode ser também. ?
– Tudo certo por mim.
A tela LCD no encosto do banco da frente acendeu e começaram a passar as conhecidas instruções de segurança da British Airways. Nem dei muita atenção, mas tratei de conectar o celular à porta USB do avião para mantê-lo carregado e preparei o fone de ouvido para usá-lo na escolha de seja lá o que eu fosse assistir até Londres.
– Consegue sentir esse cheiro? Meu Deus, a gente tá em Londres!
– Por seis horas. – Resmunguei.
– E eu com isso? – girou em torno do seu próprio eixo, gravando alguma coisa no celular.
– Vamos, antes que a gente perca tempo demais por aqui.
tinha uma tia que morava em Londres e ela arrumou, para nós, um motorista particular que também era um guia turístico. Nós rodamos por alguns dos principais locais de Londres, parando em pontos estratégicos como a London Eye, a abadia de Westminster e o Big Ben, sempre para fotos. Minha câmera estava com a bateria ameaçando descarregar, mas aguentou uma foto de nós quatro juntas com o rio Tâmisa ao fundo. Depois, nós corremos de volta ao Heathrow. Ainda tinha mais onze horas de voo até Joanesburgo e, então, pouco menos de duas horas até Porto Elizabeth.
– Sabe quem tá no meio da fileira de trás? – sussurrou no meu ouvido quando voltou do banheiro.
– Não faço a mínima ideia.
– Hiddleston.
– O quê?! – Mesmo baixa, minha voz saiu enganiçada. – Como assim?
– Eu vi no Instagram da Unicef, acho que ele tá indo pra mais um dos programas de caridade dele.
– Podia ser no mesmo que o nosso. – Eu brinquei.
– Será que seria muito absurdo que eu fosse lá e pedisse uma foto?
– No meio de um voo, ?
, é o Tom Hiddleston. Quando a gente vai ter essa oportunidade de novo?
– Justamente! Não quero receber um fora do Tom Hiddleston na frente de dezenas de pessoas estranhas.
– Ah, qual é! Ele sempre é tão simpático com os fãs...
– Dentro de um avião?!
– Você é muito estraga prazeres, .
– Se quiser, vai lá. Só estou dizendo que eu não quero correr o risco.
Ela sorriu, desafivelou o cinto e se levantou. Eu simplesmente abaixei a cabeça e escondi meu rosto em minhas mãos. Segundos depois, ela voltou para o assento ao meu lado.
– E aí?
– Pedi pra aeromoça falar com ele.
– Ué?! Você não era a toda corajosa? Ele não é sempre tão simpático com os fãs?
– Você falou que não queria tomar um fora dele na frente de todo mundo aqui. Eu também não quero, vou deixar a aeromoça tomar o fora por mim.
Revirei os olhos e voltei a ler Mindhunter, de John Douglas, meu mais novo vício. Estava chegando na parte onde Douglas considera hipóteses sobre os porquês dos criminosos aceitarem cooperar com as autoridades e o quanto aquilo era importante quando notei a sombra que se posicionava entre eu e o corredor.
– Com licença, meninas. – Eu gelei ao reconhecer o sotaque e, posteriormente, a voz. – Não precisavam ter vergonha, podiam ir até mim para pedir a foto.
conteve um grito e eu escondi a cara no livro, sentindo a minha pele ferver. A filha da puta conseguiu...
– Senhor Hiddleston, é um incrível prazer conhecê-lo. Seu papel como Loki é incrível, mas os outros papeis foram extraordinários. Sua atuação em Night Manager é merecedora de prêmio.
De onde essa menina tinha aprendido a falar um inglês tão culto?
– Não precisa ter vergonha, senhorita...?
. – completou. – O nome dela é , mas todo mundo a chama de .
. – Meu Deus, Tom Hiddleston está pronunciando meu apelido. – Parece um pouco com Mary. É muito bonito, na verdade. Vocês são latinas, eu deveria presumir.
– Somos brasileiras.
– Ah, o Brasil! Um país lindo!
Espiei por cima do livro e minha irmã, na poltrona do corredor ao lado, estava com os olhos arregalados e a boca entreaberta. Tom Hiddleston foi extremamente simpático conosco e se esforçou para que eu perdesse a timidez. Tirou foto com todas nós, quis saber mais sobre o trabalho voluntário que estávamos indo fazer e contou sobre o dele, com educação infantil no Congo, para onde pegaria um avião quando chegasse na capital da África do Sul. Assim que as refeições começaram a ser servidas, ele pediu licença, nos parabenizou pela nossa atitude e seguiu de volta para sua poltrona. Eu fiquei estática por longos segundos mesmo após o cheiro dele ter desaparecido.
– Você me paga. – Murmurei para .
– Ele é mais lindo pessoalmente do que pela TV. – Minha irmã falou, do outro lado.
– E olha que, na TV, ele já é bem lindo. – sussurrou ao lado dela.
– Pode me agradecer agora, . Sem foras!
Eu troquei de lugar com para que ela pudesse conversar com as garotas com mais calma. Ainda havia um bom tempo de voo pela frente e eu queria estar descansada para aproveitar a viagem até não poder mais. Joanesburgo, na hora que pousamos, estava com chuva torrencial, o que dificultou um pouco a vida do piloto. Mesmo assim, a temperatura estava ligeiramente alta, por volta dos 26ºC. Para nós, cariocas, era aceitável, mas eu ainda preferia temperaturas mais baixas.
– Vamos esperar pra comer em Porto Elizabeth mesmo? – perguntou. – Nós teríamos jantado não faz muito tempo se estivéssemos no Brasil.
– Podemos procurar pizza por aqui no terminal.
– Ótima ideia, ! – Eu disse em voz alta. – É por isso que eu te amo!
– Ok então, agora vamos ao que interessa... – Minha irmã entrou no meio.
– Lá vem!
– Quem vai fazer o quê dessa vez? Pra valer.
– Eu vou ficar com as crianças na clínica comunitária, como já era de se esperar. – respondeu.
– E eu vou pra escola, como também era de se esperar. Agora que temos diplomas, somos mais úteis nas nossas áreas.
– Eu vou ficar com os grandes felinos dessa vez. – Falei, abusando do tom de voz e colocando um sorriso brincalhão no rosto. – Charlotte disse que tá tendo uma pesquisa de monitoramento com alguns veterinários da reserva e que podem precisar de ajuda. Além disso, dá pra fazer alguma coisa com o turismo. E eu tenho chance de apertar os filhotinhos de leão.
– Ah, que saudade dos babys.
– E você, ?
– Ajudar com a construção da nova escola, até segunda ordem.
– Uau. – murmurou. – Somos quatro amigas bem sucedidas. Uma enfermeira, uma pedagoga, uma engenheira e uma advogada...
– Uma advogada que vai mexer com animais. – a interrompeu.
– Vai entender essa maluca. – Minha irmã deu de ombros. – Nós corremos atrás disso, meninas, nós merecemos isso tudo.
No primeiro silêncio, um barulho ecoou entre nós. Trocamos olhares e constatamos, finalmente, que a fonte era por conta de um sorriso amarelo.
– Desculpa, meu estômago não aguenta mais. A comida do avião tava horrível e pedir um prato diferente ia sair muito caro.
– Nem me fala, eu tenho certeza de que aquele frango foi cozido na mesma panela que um filé de peixe.
Pousamos, finalmente, em Porto Elizabeth, no horário de almoço local. Pegamos nossas bagagens, agradecendo a Deus silenciosamente por, mais uma vez, não ter problemas com elas. O aeroporto já era nosso conhecido, então fomos diretamente para a locadora de veículos que costumávamos contratar.
– Senhoritas, está chegando um carro da categoria que desejam. – O funcionário se explicou. – Se puderem esperar só mais um momento, posso fazer um desconto no valor da diária para vocês. De outra forma, estamos sem carros dessa categoria aqui no momento.
Dei uma olhada para as meninas atrás de mim. Todas deram de ombro em resposta.
– Vamos esperar então.
– Podem me seguir até nossa sala de espera, se quiserem. Temos banheiro, água, alguns sucos e petiscos disponíveis. Além, é claro, de zona climatizada.
– Obrigada. – Respondi.
Seguimos o homem até a tal sala. Eu e minha irmã nos sentamos imediatamente, e foram ao banheiro. Quando saiu do lugar onde estava e sentou precisamente ao meu lado, eu sabia que vinha sermão.
– Tá pensando nele?
– O quê?! – Gritei. – Você ficou louca?
– Não sei. É que tava tudo bem lá no avião, você tava toda risonha por causa do Hiddleston... E aí você se transformou em outra quando saímos de Joanesburgo.
– Eu to bem, , você tá vendo coisa.
– Tem certeza disso?
– Absoluta.
– Olha, – Ela deu uma checada em volta, garantindo que as meninas ainda não estivessem se aproximando. – eu sou sua irmã, eu sinto quando tem parada errada.
– Não tem dessa vez. Sinto informar, mas seu sexto sentido pifou.
– Eu sei que aquele filho da puta do Tomás te magoou, ok? E ele é basicamente o que eu to dizendo que é, um grande filho da puta. Ele é funcionário de um campo de golfe, dirige uma Gran Cherokee 98 caindo aos pedaços e você é uma advogada linda, maravilhosa, com um Virtus zero na garagem e indo passar suas merecidas férias na África do Sul.
– Férias trabalhando, só pra te lembrar.
– Eu sei! – revirou os olhos. – Posta mil fotos no Instagram, deixa seu perfil liberado... Vamos mostrar praquele filho da puta que ele cometeu o maior erro da vida dele.
– Pode deixar. – Respondi com um sorriso.
abriu outro sorriso em resposta e estava pronta para virar as costas para mim quando decidi finalizar de outra forma aquela conversa.
– Ei, eu to bem, ok? Quero mais é que ele se foda. E nada de você e as duas retardadas que vieram com a gente me empurrarem pra qualquer homem que aparecer por aqui.
– Não vou prometer nada. – Ela sussurrou, rindo.
e se aproximaram a passo largos enquanto eu via, de longe, o carro que havia sido prometido para nós. Dali, era pouco menos de uma hora até nosso alojamento. E então, no dia seguinte, eu poderia acordar sabendo que ia passar minhas próximas semanas sem julgamentos tediosos, clientes chatos inconvenientes querendo que eu resolvesse problemas mais rápido do que era possível ou pensamentos aleatórios porque alguma coisa me lembrava de Tomás. Era o poder que a África do Sul tinha sobre mim e ela era simplesmente maravilhosa em todos os aspectos.


Capítulo 2

– Gena! – Eu gritei e fui direto, com passos largos, abraçar a senhora que era a líder da cozinha.
– Vocês chegaram! – Ela me apertou. – Achei que vocês fossem vir mais tarde esse ano.
– Adiantamos as férias.
– E ficam até quando?
– Final de janeiro.
– Isso é ótimo, vai ser maravilhoso ter vocês por aqui. Mas onde estão sua irmã e suas amigas?
– Estão por aí, cumprimentando o resto do pessoal, desmontando as malas... Vamos sair daqui a pouco, recarregar as energias pós-viagem pra começar o trabalho pesado.
– Façam isso, será muito bom.
– Oi, Gena! – Minha irmã entrou gritando no refeitório. – Gena, vamos mergulhar com tubarões. Você vem com a gente?
Gena rapidamente fez o sinal da cruz e nós duas rimos.
– Vocês deveriam tomar mais conta de vocês mesmas. Não é porque são novas que são imortais.
– Mas é claro que somos, Gena. Não vê? Somos do Rio de Janeiro. O que são alguns tubarões brancos perto dos bandidos de lá?
– São animais com dentes. – Gena completou. – Teremos boerewors no menu hoje.
Boerewors?! – gritou de novo. – Como eu quis ouvir isso durante esses meses todos!
– Vai ficar uma delícia, como fica qualquer comida sua, Gena. – Eu disse. – Agora eu vou tirar a ‘senhorita histeria’ de perto pra te deixar trabalhar.
– Voltam pro almoço?
– Claro, só vamos sair depois de comermos.
– Ótimo! Vou preparar algo especial pra vocês de sobremesa.
– Não diga que seria koeksister?
Ela deu um risinho tímido e eu e batemos as mãos, comemorando. Deixamos, cada, um beijo no rosto de Gena e fomos para nosso quarto. A empresa era conhecida mundialmente e, portanto, tinha um grande porte. Charlotte era a gerente da unidade em Porto Elizabeth. Uma estrutura semelhante à de um hotel abrigava o alojamento de alguns dos trabalhadores e dos voluntários, tal como também abrigava três pequenos galpões munidos de todo o necessário para o trabalho que realizávamos por ali, desde carros até ferramentas ou medicamentos.
Nós gostávamos muito de tudo aquilo, isso era fato, mas a viagem do Rio de Janeiro para Porto Elizabeth era extremamente longa e cansativa, principalmente devido às diversas horas perdidas em, no mínimo, três escalas diferentes. Então não era novidade – nem para nós nem para a equipe do local – que as quatro cariocas saíssem para curtir qualquer outra coisa sem pressão no primeiro dia. O passeio escolhido do ano era uma visita aos cânions do rio Storms.
Os locais o chamavam de Stormsrivier e ele ficava localizado dentro do Parque Nacional Tsitsikamma, que se tratava de uma reserva junto à costa com cerca de oitenta quilômetros de comprimento. Não era, nem de longe, perto de ser grande se comparada a outras reservas, inclusive às mais próximas, mas tinha atrativos. Dois anos antes, nós tínhamos ido até a ponte Bloukrans, de onde pulavam de bungee jump. Na verdade, até fomos com intenção de pular, mas o medo e o terror ao ver outros pularem acabaram nos afastando do desafio. Mesmo assim, foi um passeio que resultou em ótimas fotos.
Eu era advogada em tempo integral no Rio de Janeiro. O estado não era um lugar fácil de se trabalhar na minha área, mas pagava as contas muito bem. Meu serviço era, muitas vezes, gratificante. Trabalhava como assistente de acusação, majoritariamente. Era irônico falar, mas a verdade é que o Rio de Janeiro, violento como estava, era favorável ao meu negócio. Os clientes apareciam aos montes porque sempre tinha motivo para isso. Se eu era boa? Acho que seria mais justo dizer que o custo benefício entre minha qualidade e meu preço eram justos. E não me entenda mal, eu me apaixonei pelo Direito facilmente, mas ter uma folga daquelas era de outro mundo.
Sobre a ponte por cima do rio Storms, puxei o celular do bolso, ajustei as configurações e bati uma foto, abrindo o Instagram logo em seguida e postando. Na legenda, após ponderar por breves segundos, deixei apenas um emoji de óculos escuros. Marquei o local na foto e postei. Três minutos depois, abriu o celular dela para alguma coisa e deu um grito histérico.
– O que houve? – perguntou.
, você viu quem acabou de curtir sua foto?
– Que foto? – Perguntei.
– A foto que você acabou de postar.
– Não faço a mínima ideia.
– Começa com ‘to’ e termina com ‘más’.
– O problema é dele. Meu perfil no Instagram é aberto.
– E por que caralho ele te segue ainda?
– Eu sei lá! Deve ser remorso, não sei... Vai ver ele se arrependeu e viu que fez merda.
– A senhorita não está considerando voltar atrás, né? – chegou mais perto de mim.
– Mas nem fodendo! – Eu gritei. – A experiência valeu o aprendizado, mas figurinha repetida é coisa de otário.
– Assim que seja fala! – Minha irmã elevou a voz.
– Eu trancaria o Instagram, ou bloquearia ele.
– Pra quê, ? Deixa ele ver. Deixa ele ver que eu to muito melhor sem ele e que ele fez uma grande cagada quando me traiu.
– Isso aí! – concordou comigo. – Agora a gente vai ficar tratando de homem que não presta ou vamos continuar nosso passeio e nos concentrarmos em homens que possivelmente nunca mais vamos ver na vida?
Nós quatro abrimos um sorriso sacana e começamos a gargalhar logo em seguida. Fizemos uma pequena trilha, depois, até a foz do rio, junto à divisão entre oceano Atlântico e Índico. Tiramos várias fotos, aproveitei para usar a máquina profissional que havia levado e, logo, estávamos voltando para o alojamento. Estava na minha suíte, arrumando algumas coisas enquanto tomava banho, quando o telefone tocou.
– Oi, mãe.
Oi, filha! Como foi o primeiro dia?
– Tudo certo. Fomos naquele lugar que a senhora indicou.
Sim, eu vi as fotos. A temperatura estava agradável?
– Não exatamente. A senhora sabe que eu gosto de frio, mas aqui tá abaixo de 20ºC.
Eu vi que a previsão do tempo pra semana vai ser de chuva.
– Eu vi também, mas os volumes previstos não estão muito altos.
Vocês vão sair mesmo assim?
– Vamos, mãe, por quê?
Ah, não é nada. Mau pressentimento de mãe, só isso.
– Tem certeza?
Claro. Sua irmã está com você?
– Não, ficamos em suítes separadas.
Tentei ligar, mas ela não atendeu.
– Nós chegamos tem pouco tempo, acredito que ela possa estar tomando banho ou se arrumando.
Vão sair ainda hoje?
– Vamos sim. A gente vai no Baywest Mall com uma galera daqui. Vamos jogar boliche, comer alguma coisa...
Nada de garotos, hein?
– Não está nos meus planos, mãe. Já nos planos da sua outra filha...
Nem brinque com isso, . Não tenho a mínima intenção de ser avó tão cedo.
Eu ri.
– A senhora diz isso agora, mas a gente sabe o que se passa nesse seu coraçãozinho.
Ai, ai, ...
saiu do banheiro, a sobrancelha arqueada ao me ouvir falando sozinha. Quando ela viu o telefone no meu ouvido, fez sinal de que tinha entendido e, enrolada na toalha, começou a mexer nas suas coisas.
– Mãe, eu preciso começar a me arrumar.
Peça pra me ligar assim que estiver com ela.
– Pode deixar. Mais alguma coisa?
Tomem cuidado por aí.
– Ah, fique tranquila. No pior dos casos, um leão vai me matar rápido.
!
Eu caí na gargalhada.
– Tchau, mãe. – Falei e desliguei.
– Nossa estimada senhora está preocupada com as filhinhas dela?
– Ah, deixa minha mãe, ela já teve que lidar com muita coisa.
– Se ela, ao menos, soubesse quem vocês são de verdade...
Eu ri com o comentário de .
– E você acha que ela não sabe que as duas filhas são loucas? Ela é mãe, mães sabem de tudo.
– Bem, faz sentido. – Ela brincou. – Que roupa você vai usar?
– Não sei, . – Eu murmurei e fui até a parte do armário reservada para mim. – Pensei em uma calça jeans, ankle boot, camisa e jaqueta, já que tá frio pra caralho lá fora.
– Eu queria ir de vestido, mas vou ficar contrastando.
– Tá frio, né, . Frio e vestido não combinam.
– Mas você viu esse longo que eu comprei? É lindo!
Revirei os olhos, rindo dela e tomando minha toalha, seguindo para o banheiro.
– Vai usar aqui ainda?
– Não, pode tomar banho.
Tranquei a porta, tirei a roupa e liguei a água. Um banho bem quente em um dia bem frio era tudo o que eu podia querer para aquele começo de viagem. Estava em uma fase da minha vida em que eu colocara na cabeça que ia mudar, deixar pra trás os hábitos antigos que estavam me fazendo mal e trocar todo e qualquer costume. Aproveitar com detalhe coisas mínimas como o prazer daquele banho era uma das novas práticas que eu estava adotando.
– Esfumado preto e boca nude ou delineado e boca vermelha?
– Por que você não usa o esfumado e o vermelho?
– Não estamos no Brasil, vai ficar muito chamativo.
– E desde quando a senhorita tem pudor?
– Desde quando...
Meu celular vibrou em cima da pequena escrivaninha, onde estava carregando, e eu fui checar. Revirei os olhos assim que li a notificação.
– Tomás? – perguntou.
– Ele mesmo.
– Esse filho da puta não cansa?
– Aparentemente, não.
– O que ele quer dessa vez?
– Mesma coisa de sempre. – Eu suspirei, deixei o celular de volta no lugar de antes e me joguei na pequena cama de solteiro que correspondia a mim. – “Mimimi, eu sinto muito, blá blá blá, não posso viver sem você”... Me poupe, né?
– Já falei pra você. Se quiser que ele saia do seu pé, eu posso falar com meu primo e ele dá um jeito de assustar o Tomás.
– A gente tá mesmo falando de pedir a um policial pra fazer graça a troco de nada por causa de um babaca qualquer?
– Esse babaca qualquer mexeu com a minha amiga. E se mexeu com a minha amiga, mexeu comigo. E se mexeu comigo, tá fodido.
, eu só não quero mais falar nisso. – Disse, fechando os olhos. – Sabe, eu to bem. Ninguém acredita, aparentemente, mas eu to bem. Inclusive foi pra garantir isso que a gente decidiu passar mais tempo aqui do que a gente normalmente passa, não foi? Eu só não quero falar no assunto, não tem motivo pra isso. Já me basta ele me lembrando da própria existência com essas mensagens sem noção.
– Troca de número.
– Eu pensei nisso, mas ele tem o número que eu uso pro trabalho e eu não tenho como mudar aquele número.
– Você é advogada, processe ele por assédio.
– E gastar meu tempo com ele? Ah, , deixa ele pra lá. Uma hora, ele cansa.
– Ei! – Ela gritou e eu arregalei os olhos, sentando na cama rapidamente.
– O que houve?
– Vai amassar o cabelo se ficar deitada assim. Eu não posso ficar bonita demais, não posso me destacar. Não hoje.
Revirei os olhos e, rindo, levantei para começar a calçar minha bota. Enquanto terminava, ouvimos duas batidas na porta.
? – Chamei.
– E . – disse do outro lado.
levantou para destravar a fechadura e elas entraram.
– Estão atrasadas. – Minha irmã resmungou.
– Não estamos, se considerar o fuso do Rio. – Brinquei e, rindo, nós quatro saímos do hotel, rumo ao único shopping center da cidade.
O shopping abrigava um estande de entretenimento chamado Nitro Park. Tinha todos os tipos de jogos imagináveis de fliperama, uma pista de boliche de luxo, algo que era chamado – em uma tradução livre – de montanha-russa indoor 4D, pista de bate-bate e, para fechar com chave de ouro, um bar completo para adultos que passassem por ali, com dezenas de drinks diferentes e um ambiente agradável com boxes e mesas de sinuca.
A mais nova entre nós era eu, com vinte e cinco, mas não era impedimento para que, naquela noite, nós agíssemos como crianças. Entre nós, o filho de Charlotte, Damian, e seus primos, que também trabalhavam lá, Claire e Peter, se faziam de intrusos, mas eram apenas jovens procurando companhia para fazerem coisas que jovens faziam. Eu sabia que, no outro dia, eu teria que acordar cedo, resistir ao frio da África do Sul – e bota sul nisso! – e trabalhar como se não houvesse um amanhã por dias seguidos. Por isso, havia a premissa de que eu deveria estar descansada. Mas aí perder o que Porto Elizabeth tinha a oferecer? Por quê?


Capítulo 3

Acordei com o som nojento de um mosquito sobrevoando a minha cabeça. Irritada, enfiei a cara no travesseiro. Não tinha como me cobrir por completo porque eu tinha uma claustrofobia que, mesmo em nível leve, me faria sufocar debaixo da coberta. Nós tínhamos tela na janela, nós passávamos inseticida no quarto mas, aparentemente, os mosquitos da África do Sul eram mutantes. Não era a primeira vez – e não seria a última.
Não entendia como conseguia dormir tão em paz. Eu acabei desistindo e fui logo tomar banho. Para mim, não tinha opção: ou era tomar um bom banho demorado ou eu nem começava o dia. Lavei o cabelo, sabendo que ia precisar lavar à noite também porque, independente da baixa temperatura em Porto Elizabeth, trabalhar me faria suar e a oleosidade e eu éramos melhores amigas, infelizmente.
– Nem vi você acordar. – resmungou sem nem sair da cama quando eu já estava terminando de me trocar. – Bom dia.
– Bom dia, . Animação, vamos todas ralar hoje.
– Não é possível uma pessoa estar feliz a essa hora da madrugada.
– Já deu tempo suficiente pra gente se acostumar com o fuso horário.
– Não deu nada!
– Vou te deixar pra trás, meu carro sai em uma hora e eu tenho que tomar café da manhã ainda.
– Toda vez, eu me pergunto como eu te deixei me convencer a vir pra cá... Jesus, era pra ser um tempo de descanso.
– Você sabia no que estava se metendo! – Eu argumentei quando terminei de vestir meu casaco. – Não vai mais pra clínica? Vou precisar usar o papinho das crianças coitadinhas que precisam dos seus serviços?
– Sua chata! – gritou e se levantou de uma vez.
Nós encontramos minha irmã e no restaurante para tomarmos café da manhã. De lá, partimos para nossos destinos. Eu entrei no carro que ia para Limpopo e, em menos de uma hora, estávamos no meio da reserva Shamwari. Charlotte era médica veterinária e, portanto, nos acompanhava eventualmente naquele tipo de situação. Tínhamos a ajuda de Elmer dessa vez, para a sedação e contenção dos animais. Como auxiliares, Marion e Lewis se faziam úteis. E eu era o trunfo, registrando todos os dados da forma mais organizada possível e participando de quaisquer outras coisas que fossem necessárias.
O primeiro animal que pegamos foi um leopardo. Esperamos que o dardo tranquilizante fizesse efeito e fomos até ele – ela, na verdade. A primeira coisa a ser feita foi tampar os olhos, para promover um pouco menos de estresse, e eu cuidei dessa parte. Lewis prendeu uma coleira rastreadora imediatamente no pescoço da fêmea e, logo após, Charlotte passou para o exame físico. Enquanto apalpava o abdômen, abriu um largo sorriso.
– Temos filhotinhos! – Ela murmurou. – Acho que consigo sentir três.
– Isso é bom, já faz um tempo que não registramos nascimentos ao acaso por aqui.
– E como tá na sede da reserva? – Perguntei, colocando o número de série da coleira no aplicativo que eu mesma tinha ajudado a desenvolver.
– Ah, , você vai adorar. Temos duas leoazinhas de um mês, a mãe foi morta por um macho maior e elas se salvaram por pouco. Também tem um jovem, quase adolescente. Tá difícil lidar com ele, temperamento bem agressivo, então os planos são devolvê-lo para o seu habitat natural o mais rápido possível.
– E aquela elefanta que vocês capturaram?
– Não te contei? – Ela falou e, após retirar o estetoscópio do ouvido, se levantou. – Deu à luz a uma menininha linda e saudável. Acho que é o filhote de elefante mais carente e gostoso que já recebemos. E estamos pra receber um filhote de rinoceronte. A mãe foi atacada por caçadores e está à beira da morte. Provavelmente, vai precisar de cuidados. Foi bom você ter vindo.
– Eu não ia ficar só com os felinos? – Brinquei.
– Meninas, cuidado. – Elmer alertou.
Olhamos para a nossa direita e, entre os arbustos, outro leopardo nos espreitava. Estava relativamente distante, mas conseguia alcançar incríveis cinquenta quilômetros por hora em poucos segundos, o que não era vantajoso pra gente.
– Ok, meninos, vamos terminar isso logo. – Charlotte disse. – Está tudo bem por aqui, não há nada digno de nota. , pegou o número de série?
– Peguei sim.
– Elmer, abaixa a arma, ele sabe que é uma ameaça.
Ele? – Perguntei.
– Já vi esse macho por aqui. Nunca causou problemas, mas arriscar não é exatamente o que gostamos de fazer. Agora todo mundo, devagar, de volta para o carro, como sempre fazemos.
Nós voltamos para o veículo com passos de bebê após deixar a fêmea livre para se recuperar. Ficamos observando com a ajuda de binóculos a distância até que ela, lentamente, se levantou e começou a caminhar para longe de nós. Ter medo de humanos era um dos principais objetivos na lida com os grandes felinos por ali e esse medo era, de certa forma, celebrado sempre que havia uma abordagem bem sucedida.
– Pra onde agora?
– Você veio animada esse ano, hein? – Charlotte brincou. – Elmer, vamos rodar mais um pouco por aqui. Se não acharmos nenhuma novidade, vocês me deixam no alojamento e seguem pra sede. O Julian tá por lá, , ele vai saber te ajudar.
Passamos por um macho de guepardo, mas acabamos não abordando porque as situações não pareciam favoráveis, nem para nós e nem para ele. Nenhum outro animal de significante importância foi avistado. Ah! Isso sem falar das cobras! Eram muitas, às dezenas, como sempre, e eu pedia a Deus para que não cruzássemos com uma mamba negra no caminho, mesmo que houvesse soro antiofídico no nosso kit de primeiros socorros.
Em decorrência da baixa exposição de animais, acabamos fazendo o que Charlotte havia sugerido e eu, em seguida, fui levada até a sede de tratamento da reserva. Julian, médico veterinário responsável da reserva, me recebeu de braços abertos logo na entrada.
– Olha a nossa brasileira favorita aí!
– Como se você recebesse muitas brasileiras por aqui. – Eu ri enquanto Julian me abraçava. – E aí, como estão as coisas por aqui?
– Bem melhor agora que a vista está mais bonita. – Ele sorriu para mim.
– Os meses passam e você não desiste de ser um galanteador, não é mesmo?
Julian riu e me levou para dentro.
– Berçário? – Ele me sugeriu.
– Sabe que eu adoraria!
– É a fantasia de toda mulher. – Ele brincou e empurrou uma porta já conhecida para que eu passasse na frente dele. – Essa aqui é a Tenisha, nossa estagiária. Está quase formando e deve vir pra cá oficialmente depois que conseguir o diploma. Tenisha, essa aqui é a , de quem te falei ontem.
– Oi, é um prazer. – Ela disse com um sorriso, dando mamadeira para um filhote de chimpanzé em seus braços.
– Pode ir até a cozinha pegar uma mamadeira que você chegou na hora certa.
– Oba! – Comemorei e fui até o cômodo anexo.
As mamadeiras estavam devidamente identificadas com espécie, nome e data de nascimento. Eu procurei pelas irmãs das quais Charlotte havia falado e, com as duas mamadeiras nas mãos, caminhei para fora.
– Você não está muito apressada? – Julian perguntou.
– Charlotte falou delas. Onde estão?
– As leoas? – Ele questionou e eu fiz que sim. – Ah, vem comigo.
Nós caminhamos até os recintos para filhotes de grandes felinos e as duas estavam lindamente deitadas, quase adormecidas, juntinhas. Assim que notaram a movimentação, pularam alertas e foram correndo até a divisória de vidro.
– Vai saber lidar com isso? Digo... O ataque em dobro. Elas estão com os dentes bem pequenos, não param de morder, isso sem falar nas garras.
– Julian, não é a minha primeira vez.
– Eu sei. – Ele riu e destravou a porta. – Vai querer fotos? Você sempre quer...
– Quero sim, obrigada. O celular tá no meu bolso direito.
Eu entrei no primeiro recinto, entre duas portas, com Julian no meu encalço. Ao fecharmos a primeira porta e abrirmos a segunda, as duas pequenas grudaram na minha bota vorazmente, quase pedindo colo. Desatei a rir e abaixei na altura das duas.
– Olá, bonequinhas. – Ajeitei as mamadeiras para que cada bico ficasse a uma distância considerável do outro enquanto sentava com as pernas cruzadas, e as duas avançaram com tudo na direção deles. – Meu Deus! É assim todo dia?
– Graças a Deus, elas são bem tranquilas para comerem. – Julian comentou e só então que notei que ele já mantinha a câmera do meu celular apontada para mim. – Você é tão fotogênica que deveria ser pecado.
– Que exagerado... – Sussurrei e, posando para a foto, abri um sorriso.
– Sabia que você é a única voluntária que pede para tirarem as fotos e só vê como ficaram depois de terminar seu serviço? No meio do ano, tive que chamar a atenção de um cara que apareceu por aqui. Eu juro, ele estava dando mamadeira pra um filhote de gorila e literalmente deixou a mamadeira nas mãos do filhote pra checar as fotos. A tampa coincidentemente abriu e nós perdemos o leite.
– Um grande babaca.
– Concordo. – Ele apoiou na parede do recinto, tirando mais algumas fotos. – Você também é a única que volta.
– Minha mãe me ensinou a gostar disso aqui. Sinto falta quando estou longe.
– Ela veio?
– Não, ela ia ficar enrolada com algumas coisas se viesse.
– Diga a ela que sinto falta da sua energia.
– Pode deixar, eu falo quando ela ligar da próxima vez.
Eu olhei para uma das filhotes e abri um pequeno sorriso.
– Charlotte disse que vocês vão ficar por dois meses dessa vez.
– É, eu to precisando de uma desintoxicação.
– De quê? Se me permite a pergunta, é claro.
Respirei fundo, as mamadeiras estavam quase no final.
– Estou solteira.
A expressão de Julian se fechou em choque e ele finalmente parou de tirar fotos.
– Eu sempre torci por isso, mas... – Julian fez uma pausa quase dramática. – É difícil de acreditar. Eu nem sei o que... Quero dizer... Você está bem?
– Estou. Melhor ainda por estar aqui.
– Por estar aqui aqui ou por estar aqui comigo?
O melhor de Julian era seu senso de humor sem limites. Nós terminamos com as leoas e partimos para que eu conhecesse a filhote de elefante. Era o primeiro que eu via cara a cara. Todo o programa de proteção aos elefantes africanos era seguido à risca e era, provavelmente, a segunda política mais importante dentro do mundo animal do continente, perdendo apenas para os rinocerontes. Isso implicava em um esquema de segurança fortíssimo, incluindo uma regra imutável: fotos não permitidas. Para qualquer um, aquilo seria um problema, mas eu estava ali muito mais pela experiência, então tudo bem por mim.
– Sabe quem eu encontrei hoje? – Cutuquei quando nos encontramos no alojamento no final do dia.
– Por favor, não diga que foi o Julian.
– Ele mesmo.
– E continua tão gostoso como antes?
Não consegui segurar a gargalhada. e estavam por perto, acabaram ouvindo e me acompanharam no escândalo. Nem nos importamos, naquele instante, se as pessoas estavam olhando atravessadas para nós.
– Na verdade, não.
– Que decepção...
– Ele tá mais!
– Senhor! – fingiu estar com calor e se abanou, apoiando exageradamente em , como se fosse desmaiar. – Precisamos chamar aquele pedaço de mau caminho pra sair.
– Acalma o que você tem entre as pernas, .
– Não tem como! Você já olhou para aqueles olhos? Ele é divino! – Minha irmã se derreteu. – Espera! Você disse a ele que tá solteira?
– Posso ter feito um comentário... – Murmurei com um sorriso ardiloso.
Minhas três acompanhantes deram um gritinho para comemorar e se abraçaram, me puxando para o grupo logo em seguida. Nós quatro rimos como se fossemos crianças.
– Mas gente... Vocês também podem contar como foi o dia de vocês, não tem problema, não preciso ser o centro das atenções.
– Meu dia não teve nenhum gostosão. – resmungou em um muxoxo.
– Nem o meu. – acompanhou minha irmã.
– Não posso dizer o mesmo. – comentou, disfarçando a intenção em fofocar. – Tem um médico voluntário aqui, ele é alemão. Meu Deus do céu! A personificação da perdição e...
Enquanto nós conversávamos, procurando não chamar atenção com nossos assuntos sórdidos, começamos a ouvir uma certa movimentação ao longe. Charlotte estava junto, dava para ouvir. De repente, pela porta principal, atravessaram algumas pessoas. Conforme Charlotte ia na frente, era visível que ela se direcionava a um casal em específico, carregando malas demais. O homem e a mulher possuíam vestes que remetiam ao estilo sulamericano, então meu primeiro questionamento foi se eram brasileiros. Nesse instante, Emery, um dos assistentes de Charlotte, passou por nós. Quando nos viu paradas, decidiu responder nossa dúvida silenciosa sem ao menos pedirmos.
– O rapaz é uruguaio, mas é jogador de futebol do país de vocês.
– Uruguaio jogando entre a gente? – arqueou uma sobrancelha.
– É, ele joga em um time preto e vermelho, eu acho.
– Flamengo? – Foi a vez de .
– Meu Deus, é o Arrascaeta!
– Acho que é esse mesmo o nome. – Emery disse e rumou para onde já estava indo antes de parar.
– Você já viu esse cara jogar, ? Ele é lindo!
– Não curto futebol, , você sabe. – Respondi. – Não tenho tempo pra esse tipo de coisa.
Eu fiquei ali, encarando a movimentação e estranhando o tipo de recepção diferenciado para os dois.


Capítulo 4

A manhã começou tranquila, com um banho demorado e revigorante. havia se metido sabe Deus onde, depois de marcar de sair com o tal médico alemão – que, curiosamente, estava em um quarto solitário no alojamento. Eu aproveitei a suíte só para mim para acordar cedo e me demorar em colocar tudo em ordem. Já cansada de lembrar da existência do filho da puta do Tomás, decidi ceder aos encantos insistentes de Julian, que estavam presentes entre nós desde a primeira vez em que eu coloquei os pés no Tsitsikamma, anos atrás.
Na noite anterior, havia tratado o cabelo e preparado para que ele estivesse do jeito que eu queria. Fiz um penteado que não parecesse proposital e hidratei minha pele com um creme de romã. O cheiro, ao menos, chamaria a atenção. Passei uma base bem leve no rosto, que resistiria se eu transpirasse. Até cílios postiços bem delicados eu coloquei, tudo para que não parecesse proposital. Fiz um delineado pequeno e simples, passei um batom quase da cor dos meus lábios e chequei tudo no espelho. Vesti uma blusa solta de linho com uma segunda pele por baixo, bem acinturada e com um laço na barra. Junto, uma calça jeans caprichada no stretch verde musgo e uma ankle boot preta. Quando terminei, mandei mensagem no grupo das meninas e, após pegar meu óculos escuro, saí do quarto.
– Bom dia, senhorita . – Fui cumprimentada ao sair para o corredor.
Caminhando de lá até o refeitório, cruzei com dezenas de outros rostos que eu conhecia por alto e fui novamente cumprimentada, respondendo a todos com educação. Ainda estava cedo, o que explicava a presença apenas de funcionários, em sua maior parte, pelas dependências do alojamento. Mesmo assim, o café já estava servido, então tratei de começar a colocar meu prato, focando em sosaties de cordeiro.
Sentei em uma das mesas e peguei o celular. Chequei o grupo, ninguém havia visualizado minhas mensagens ainda. Como eu realmente queria ir logo para a rua, não estava afim de esperar. As meninas compreenderiam, não era algo novo entre nós, então estiquei um guardanapo por cima da minha blusa – não seria novidade alguma não saber se portar usando branco – e comecei a comer.
Enquanto isso, verifiquei minhas redes sociais, respondi algumas mensagens e comentários aleatórios, mandei notícias para minha mãe por mensagem de texto e, por fim, fui dar uma olhada nas notícias do mundo. Havia um ícone na parte superior da tela do celular, indicando o recebimento de e-mails. Ignorei o número que apareceu de mensagens não lidas e fiz a notificação desaparecer, bloqueando-a por alguns dias.
– Bom dia, Mari. – Felix, um velho conhecido, apareceu por trás de mim. – Charlotte está querendo falar com você.
– Onde ela está? – Perguntei.
– Ela acabou de me passar o recado, estava na recepção.
Eu assenti, limpei minha boca ao terminar de comer o resto que faltava do meu prato, levei a louça suja até a bancada destinada a ela e saí em direção à recepção. Chegando lá, apenas Mark e Pansy estavam, atrás de suas respectivas mesas.
– Bom dia. – Eu os cumprimentei. – Vocês viram a Charlotte?
– Saiu daqui agora a pouco, acho que foi na direção do galpão da garagem.
– Ok, Pansy, obrigada!
Saí marchando em direção ao local dos carros. No caminho, chegou mensagem no grupo. Era avisando que nem tomaria café porque preferia dormir mais e que ainda estava dormindo. Até aquele instante, nada de dar as caras, mas eu preferiria aguardar e perguntar para alguém se ela havia sido vista com o tal médico antes de sair como ‘empata foda’.
– Bom dia, gente! – Eu me anunciei quando cheguei à garagem. – Alguém viu a Charlotte?
– Tá no almoxarifado, Mari!
– Obrigada.
Aquilo já estava parecendo conspiração. Fiz todo o caminho ao local determinado e também não a encontrei. Fui até seu escritório, mas estava vazio. De lá, chequei a cozinha, mas Gena informou que Charlotte ainda não havia estado lá naquela manhã. Estava prestes a desistir de encontrá-la quando, saindo do refeitório pela segunda vez, acabei dando um esbarrão em alguém. Olhei para cima e o homem me encarou. Parecia quase zangado.
– Mari! – Charlotte saiu de trás do homem e me chamou antes mesmo que eu tivesse tempo de pedir desculpa. – Estava te procurando!
– Fiquei sabendo, também estava procurando por você. E sinto muito pelo... Pelo esbarrão.
O homem assentiu.
– Sem problemas. – Ele respondeu, mas o inglês dele deixou claro um sotaque latino.
– Esse aqui é o Giorgian de Arrascaeta, – O nome não me soava estranho. – ele é uruguaio, é novo aqui e se inscreveu pro programa com animais aqui. Ele é jogador de futebol profissional no Brasil, talvez você até o conheça. Pensei de te pedir pra guiar ele por enquanto, até ele se acostumar com a nossa rotina, já que vocês podem se entender melhor pelo idioma e como você já conhece o que fazemos aqui.
– Tudo bem. – Eu disse e Charlotte sorriu em resposta.
– Ótimo então. Giorgian, a é ótima, sabe tudo o que fazemos por aqui e você não vai se arrepender, tá?
– Eu agradeço. – Ele respondeu.
– Além disso, você pode levar o carro hoje, Mari. O Skye vai com outro mais tarde. Julian está precisando de ajuda extra e acho melhor te enviar mais cedo. Pode ser? – Charlotte disse, eu assenti e ela foi embora.
Nós dois ficamos em silêncio no corredor principal do alojamento por alguns segundos ainda.
– Desculpa por ter esbarrado em você, eu devia ter olhado antes de sair correndo daqui.
– Tudo bem. – Ele disse e abriu um pequeno sorriso, me oferecendo a mão em seguida. – Giorgian.
, – Eu apertei a mão dele. – mas todo mundo me chama de Mari. Você já conhece onde ficam os carros?
– Não, só ouvi falar por alto.
– É por aqui.
Andei na frente enquanto ele me seguia. Eu me lembrava, vagamente, de ele ter chegado com uma mulher em seu encalço. Fofoqueira que era, queria saber mais a seu respeito, mas não queria soar invasiva.
– Então, Giorgian... Você está no Brasil, certo?
– Sim, estou morando no Rio de Janeiro por enquanto.
– Que legal, eu sou de lá! – Tentei parecer simpática. – Você mora em que parte do Rio?
– Na Barra da Tijuca.
– Sério?! – Fingi surpresa, mas já havia dito que ele era jogador de futebol e não tinha novidade nenhuma naquilo. – Minha irmã mora no Recreio, bem pertinho.
– Legal. – Ele comentou.
– E veio pra cá sozinho?
– Vim com minha noiva.
– Ela não vai fazer o programa também?
– Vai, mas não com animais. Ela não é muito fã de natureza.
– Ah, a maior parte das mulheres não são, eu que sou meio doidinha. – Brinquei ao chegarmos à garagem. – Você já teve alguma experiência desse tipo antes?
O homem negou com a cabeça. Fui até o quadro de chaves e tomei na mão o chaveiro de uma das pick-ups.
– Então seja muito bem-vindo à África do Sul e aperte os cintos porque o passeio não é pra iniciantes!
Ele era tímido, muito tímido, mas reagia bem às minhas tentativas de não deixar o clima estranho depois de eu o conhecer através de um esbarrão. Chegamos ao nosso destino rapidamente. Giorgian deu uma boa olhada assim que saiu do carro, parecia intrigado e, ao mesmo tempo, surpreso.
– Vem. – Eu o chamei, já andando na direção da porta. – É por aqui.
Fui recebida por alguns funcionários já conhecidos e cumprimentei a todos, apresentando Giorgian conforme entrávamos mais na sede do parque. Ia indicando os setores, mesmo que eu soubesse que ele provavelmente não se lembraria, só por educação. Chegamos a uma porta em especial, com as iniciais “J.D.” na altura dos meus olhos. Dei dois toques e, segundos depois, a maçaneta girou, revelando o par de íris azuis que eu queria ver. Julian começou a formar um sorriso mal intencionado nos lábios, mas parou no meio do caminho ao perceber que eu tinha companhia.
– Meu Deus, você é o Arrascaeta! – Julian exclamou e rapidamente foi cumprimentar o convidado.
– O quê?!
– Arrascaeta, Flamengo... Você deveria conhecer, ele é de perto de você. Cara, seu último ano foi espetacular, você só fez jogadas incríveis.
– Obrigado. – Ele respondeu, ainda tímido.
Nesse momento, Julian se virou finalmente para mim. Deu uma olhada de cima a baixo e eu fingi muito bem que não estava satisfeita com ter sido notada.
– Então... – Eu encaixei uma mecha de cabelo atrás da orelha. – Charlotte disse que você estava precisando de ajuda hoje.
– Ah, sim, claro... É... Os recintos! Sim, os recintos. – Ele se atrapalhou e eu segurei a risada. – Nós estamos com uns problemas elétricos e tivemos que remanejar alguns funcionários pra ajudarem os técnicos.
– Em qual recinto que é o problema?
– No corredor dos recintos dos grandões.
– Eita... – Murmurei.
– É, os técnicos não estão muito felizes. Os animais também não, já que a rodada de alimentação da manhã ainda não foi servida.
– Oba! Você vai gostar, Giorgian. – Eu me dirigi ao novato.
Nós fomos colocar jalecos e luvas apropriadas para o serviço.
– Você tem nojo de sangue ou coisa do tipo?
Giorgian fez que não e eu assenti.
– Então vamos começar pelos grandões, ok? Se tiver alguma dúvida, me interrompa. – Eu disse e sentei na bancada da cozinha dos animais. – Sempre que alguém falar dos ‘grandões’ aqui, estamos falando dos grandes felinos. Leões, guepardos, leopardos... Eles ficam em recintos lá fora, é onde está o problema elétrico. Alguns já são crescidinhos e, por isso, não estão sozinhos. Quando é assim, a gente tem que garantir que todos vão comer, por mais que exista dominância entre eles.
– Você é veterinária? – Ele perguntou.
– Advogada, na verdade, mas venho aqui há anos, então eu já aprendi muita coisa.
– Não é sua primeira vez?
– É a décima, na verdade.
– Uau, você gosta mesmo disso.
– Eu adoro. – Disse com um sorriso no rosto. – Então... Podemos ir? Nós vamos levar as carnes pra eles agora. Se um dia você vier aqui sozinho e os tapados esquecerem de te ajudar, é só procurar pelas etiquetas. Sempre tem o nome, espécie, número do recinto, data e horário da alimentação.
– Pode deixar.
– Vamos lá então? – Perguntei, descendo da bancada e pegando o carrinho de mão. – Me ajuda a carregar?
Ele se aproximou e foi colocando, dentro do carrinho, os sacos que eu indicava. Nós terminamos o serviço completo de alimentação de todos os animais internados na sede cerca de duas horas depois. Julian estava em atendimento e checando constantemente o andamento do progresso na manutenção elétrica dos recintos, então eu só segui os protocolos que já conhecia enquanto recebia ordens esporádicas dele. No fim do serviço, faltava apenas um animal para ser alimentado.
Expliquei para Giorgian toda a razão por trás da proteção exagerada da pequena elefanta. Fizemos todo o necessário e entramos no recinto. Ela estava deitada em uma das sombras, perto da parte coberta, e espiou quando nos viu. Assim que verificou o conteúdo em nossas mãos, levantou-se desajeitada e começou a correr na nossa direção.
– Firma os pés. – Aconselhei Giorgian. – Ela é meio bruta.
Silver, como tinha sido apelidada pelos tratadores, recebeu a refeição do dia com prazer. Mas mais do que a refeição era esperada, a companhia humana também era. Isso nunca seria o objetivo mas, por perder a mãe tão cedo, provavelmente ela havia se afeiçoado à figura humana de maneira muito fácil, o que significava que Silver tinha pouquíssimas chances de voltar à natureza. De qualquer forma, mantê-la viva era, acima de tudo, importante. Foi com Silver que eu vi Giorgian, pela primeira vez, deixar a timidez de lado e abrir um sorriso enquanto ela lhe investigava com a ponta da tromba. Eu a empurrei de leve para trás e ela demorou a responder ao estímulo.
– Desculpa, é um bebê ainda.
– Os empurrões são normais aqui? – Ele brincou.
– Só para os novatos. – Caí dentro da brincadeira também.
! – Tenisha, a estagiária de Julian, me chamou do portão. – Julian pediu pra eu levar seu parceiro pra conhecer o berçário enquanto ele quer acertar a agenda dos próximos dias com você.
Olhei para Giorgian, que parecia ok com a proposta. Eu os apresentei e nos separamos, já dentro da sede. Deixei o jaleco no armário que estava usando e segui meu caminho. Fui para a sala de Julian e, como sempre, bati na porta. Esperei por uma resposta e, como não houve, bati novamente.
– Julian? – Chamei.
Ia bater de novo quando escutei passos no corredor. Virei para trás e Julian estava se aproximando.
– Oi, Tenisha me disse que...
Não consegui terminar de falar. Julian abriu a porta de sua sala, me empurrou para dentro e fechou meus lábios com os seus.


Capítulo 5

– Bom dia, ! – Giorgian passou com a mulher, carrancuda, pela nossa mesa e me cumprimentou.
No mesmo instante, todas as meninas pararam de comer e arregalaram os olhos na minha direção. Se curiosidade matasse, teríamos três cadáveres ali.
Bom dia, ... brincou. – Cheia de intimidade com o jogador.
– Charlotte pediu pra eu ajudar o cara com as coisas por aqui, ué.
– Ah, sim, claro. Foi ele quem você ajudou semana passada em cima da mesa de atendimento veterinário, né? – provocou.
– Foi só uma vez.
– Quando vocês vão se ver de novo?
– Quando ele voltar, ué. – Dei de ombros e passei um guardanapo na boca. – A culpa não é minha se tiveram emergência grave em outra reserva e levaram o meu veterinário.
Meu veterinário... voltou a brincar, tentando imitar a minha voz.
– Eu ainda acho que você devia chamar o Julian pro nosso passeio do fim de semana. – sugeriu. – A já vai levar o doutor sexy dela mesmo...
– Sem apego! – Protestei.
– Não é apego, é diversão.
– Bem, se tratando da minha irmã, – se colocou por cima da mesa para pegar o pedaço de manga que eu não ia mais comer. – eu posso dizer que sempre existe a chance de apego.
– Sem graça, .
– É a verdade. – Ela deu de ombros, rindo, e se levantou.
– Vamos começar o dia então?
animada pra alguma coisa, essa é novidade.
Sem graça, . – Minha amiga repetiu minha fala e se levantou também, provocando uma risada em todas nós. – Que tal um hambúrguer mais tarde?
– Tudo bem por mim. – Falei. – Mas podem ir na frente, tenho que esperar o jogador.
– Olha só ela!
– Vocês se decidam! É pra eu dar pro jogador ou pro veterinário? – Brinquei, falando entredentes.
– Pros dois. – respondeu.
– Ao mesmo tempo. – completou.
revirou os olhos e saiu da mesa também.
– Vamos que vocês duas estão importunando muito a vida da nossa pobre . – Ela disse, empurrando minha irmã e minha melhor amiga na direção da saída do refeitório. – Nos vemos mais tarde!
Deixei um ‘tchau’ no ar com a mão direita para as três, que estavam saindo. Olhei meu celular apenas para um desgosto profundo. Havia uma mensagem no Instagram que Tomás enviara. Datava daquela manhã e, pelo horário, deveria ser resposta à foto que eu tinha postado, tirada em frente ao espelho do quarto que eu estava dividindo com . Respirei fundo. Era um texto grande, mas só abri para que aparecesse para ele que eu havia visualizado e ignorei tudo. As meninas estavam certas, afinal. Era bom que ele visse o que tinha perdido e, principalmente, que se arrependesse. Não tinha melhor vingança que aquela, superá-lo e ser feliz.
? – Ouvi meu nome ser chamado e estranhei o sotaque não ter enrolado.
Quando olhei para cima, Giorgian estava tentando forçar um sorriso. Tentando.
– Estou pronto. Podemos ir quando você quiser.
Vi atrás dele. Sua mulher estava sentada a uma mesa com a cara de sempre, a de poucos amigos. Talvez fosse por esse motivo que ele tinha falhado miseravelmente em abrir um sorriso para mim. Então respirei fundo, segurei a piadinha do ‘sua mulher dormiu de calça’ e levantei da mesa.
– Vamos, claro. – Disse e saí do refeitório, com ele me seguindo logo atrás.
O trajeto até a reserva ocorreu sem mais problemas, com poucas palavras trocadas entre nós. Nós estávamos sozinhos no banco de trás e ele não tirava os olhos do celular. Não que Giorgian fosse de falar muito, mas estava mais quieto do que sempre. No meio do caminho, o rádio intercomunicador tocou, trazendo um alerta de caçadores em grande número no parque nacional de elefantes. Duas mães abatidas, dois filhotes órfãos. Tinha acabado de acontecer. Precisavam de alguém com experiência mínima com filhotes de elefantes o mais rápido possível e eu estava mais perto. Assim que paramos, saí do carro pulando e me virei para Giorgian.
– Não é a sua primeira vez aqui, eu sugiro ficar no carro. – Disse a ele.
– O que houve?
– Nada é simples quando se lidam com caçadores e você é novo aqui. Fica no carro, é o melhor que você pode fazer.
Saí em disparada na direção da movimentação. Tínhamos guardas, policiais, gente presa e gente desconhecida. No meio da confusão, um rosto familiar se virou para mim.
! – Bailey, um funcionário do Shamwari, me gritou. – Vem aqui, por favor!
Eu corri até ele e me ajoelhei ao seu lado, havia um filhote ferido.
– Onde estão os veterinários?
– A caminho. Foram dois incidentes com caçadores, a situação não está muito bonita do outro lado do parque.
– O quê? – Minha voz saiu esganiçada enquanto, quase que de forma automática, eu peguei o tecido que Bailey me passou e usei para pressionar a ferida, provavelmente oriunda de uma arma de fogo.
– Houve um ataque ontem à noite a outra manada, no extremo da reserva. Estávamos todos indo para o norte quando chegou o aviso desse aqui.
– Foram os mesmos caras?
– Muito improvável, não houve movimentação de veículos motorizados aqui dentro e seria impossível chegarem aqui a pé em tão pouco tempo.
– Pode ter sido planejado. – Concluí. – Fizeram algo lá para mover a atenção toda para um ponto e, então, atacaram de novo quando parecia ser seguro.
– Parece plausível. – Ele disse e encharcou uma gaze com líquido antisséptico. – Eu ainda não...
– Preciso de espaço! – A voz firme de Julian, de repente, se fez presente.
Antes que eu percebesse, ele estava ajoelhado ao meu lado. Tomou a gaze da mão de Bailey e começou a trabalhar agilmente, limpando a área do ferimento. Por um momento, notou minha presença e tentou abrir um sorriso gentil na minha direção, mas Julian era, sobretudo, extremamente profissional. Tinha um foco e nada o tiraria daquela concentração enquanto o problema não fosse resolvido mas, quando ele arqueou uma sobrancelha e começou a respirar pesado, eu soube que tinha algo de errado.
– Tá sentindo esse cheiro? – Ele me perguntou.
Eu cheguei a respirar fundo, mesmo quando Julian se virou para o animal novamente, saindo de perto da perna, onde estava a ferida, e indo em direção à boca dele.
– Merda, merda, merda, merda, merda... Preciso de água e soro! Muito soro! – Julian gritou.
– O que houve?
– Lavanda. – Ele enfiou a mão na boca do animal e tirou de lá um botão da flor. – Não é comestível, tem cumarina. Mas só tem no norte do continente... Isso foi proposital. Já usaram antes. Eles se aproximam furtivamente do filhote no momento perfeito, colocam a lavanda na reta de alimentação deles, o filhote cai em poucos minutos, a manada vai acudir, os elefantes estão preocupados com algo mais importante que os caçadores... Puta merda! Ele vai sangrar até a morte.
– Julian, calma! – Eu disse, colocando uma mão no seu ombro.
– Eu preciso de fitomenadiona, urgente!
– Você não tem fitomenadiona? – Um outro homem se aproximou e perguntou. – Acho que tem na sede...
– O que eu tenho não vai ser suficiente. – Julian respondeu, mexendo freneticamente na maleta de medicamentos que ele havia carregado consigo mesmo.
– Julian, o que eu faço? – Perguntei, insistente.
– Pressiona bem a ferida. Você vai precisar de mais tecido.
Um dos guardas, que estavam por perto, tirou a própria jaqueta para ajudar na contenção do sangramento. Eu estava me sentindo já sem força nos braços de tanto pressionar quando notei que alguém se aproximava de mim.
– Precisa de ajuda? – Giorgian perguntou.
Respirei aliviada por um segundo.
– Você tem nojo de sangue? – Respondi e ele negou em resposta. – Pressiona pra mim, com toda a força que você tiver.
Ele trocou de lugar comigo enquanto eu levantei do chão. Bati as mãos, sujas de sangue, nas laterais da calça e tirei meu próprio casaco. Abaixei novamente, colocando-o junto aos outros tecidos. Giorgian se levantou também e começou a tirar o próprio casaco.
– Merda! – Julian gritou de uma só vez e jogou o frasco de soro no chão com força, que espatifou e jorrou soro para todos os lados.
Eu observei Julian se afastando com as mãos na cabeça. Olhei de volta para o filhote e notei que seu tronco não se movimentava mais. O pequeno elefante não estava respirando. Dez anos fazendo intercâmbio para a África, vendo de tudo, e eu nunca tinha visto o momento exato em que um animal morria na minha frente, ainda mais daquele jeito. Participar, de fato, fazia tudo ficar pior.
Eu parei de pressionar o ferimento e sentei de uma vez no chão, dobrando os joelhos. Apoiei os cotovelos neles e minha testa nas palmas das minhas mãos. Eu senti a morte, a desolação e a impotência. Estava um lixo emocionalmente. A variação de um estado de espírito tranquilo para o total caos estava cobrando o seu preço, e ele era caro demais. Aquilo não era situação para eu viver.
Giorgian e Julian, de repente, estavam ao meu lado, tentando me erguer. Eu via as bocas se mexendo mas não escutava som algum. Em certo ponto, percebi que os dois não estavam falando comigo – estavam falando entre si. Praticamente carregaram o meu corpo inútil até o carro, me colocando no banco de trás, onde eu estava antes.
– Você tá bem? – Giorgian me perguntou.
– Eu preciso checar se o outro filhote não foi envenenado também. – Ouvi a voz de Julian. – Você fica com ela?
– Sim, eu fico.
Os passos, mesmo externos, foram altos e pesados. Tentei abrir os olhos novamente, mas o mundo girou.
– Você precisa de um lugar para vomitar? – Giorgian perguntou em português.
Eu me limitei a negar com a cabeça, mas o próprio gesto me deu mais enjoo ainda. Respirei fundo e soltei o ar pela boca, apoiando a testa no banco da frente. Entrava um ar frio pela porta aberta mas, logo, senti um tecido sendo colocado sobre os meus ombros.
– Eu devo ligar pra alguém? – Ele insistiu. – Sei que você não está aqui sozinha...
– Deixa... – Respirei fundo novamente, encontrando mais dificuldade do que imaginei que teria para falar. – Deixa quieto.
– Você não parece bem.
– Eu... – Tinha certeza de que, se tomasse mais um bom punhado de ar, melhoraria. – Eu to bem.
– Vou chamar alguém.
– Não...
Eu simplesmente não consegui mais protestar. Em um segundo, estava tudo escuro e, no outro, eu estava deitada na minha cama.
– Ela tá acordando. – A voz da minha irmã preencheu o lugar.
– Será que não seria melhor a gente liberar o quarto? – disse.
Abri os olhos devagar. Havia luz, mas não diretamente em mim, o que era bom. Primeiro, olhei para a janela. Ainda estava claro do lado de fora, mas o black out continha a luminosidade lá. Engoli em seco e fiz força para ficar sentada.
– Ei, mocinha, você tá bem?
Pisquei os olhos e respirei fundo mais uma vez.
– To, eu... O que aconteceu?
– Você desmaiou na reserva Aldo. – respondeu. – Sua pressão deve ter despencado.
– Como eu cheguei aqui?
fez um gesto para que eu olhasse por cima do ombro dela. Giorgian estava encostado no batente da porta do quarto, sem entrar mas também sem estar definitivamente do lado de fora. Forçou um sorriso – um de seus hábitos mais repetitivos – e levantou a mão em um breve aceno.
– Foi um susto, hein, . – falou, estava perto da porta do banheiro.
– Você tá bem agora? – Giorgian disse da porta.
– To.
– Acho que eu vou indo então. – Ele disse, as mãos enfiadas nos bolsos da calça, completamente sem jeito, e olhou para mim uma última vez antes de se virar e ir embora de vez. – Se precisar de mim, to no terceiro quarto depois do elevador, no quarto andar.
O quarto ficou em silêncio depois que ele saiu. foi fechar a porta enquanto e não tiravam o olho de mim.
– Por quanto tempo eu fiquei apagada?
– Pelas contas do jogador, cerca de cinquenta minutos.
– O que houve? – perguntou.
Meu coração se apertou assim que flashes da memória atingiram a minha mente como um raio.
– Caçadores na reserva... Animais mortos. Não foi um cenário legal.
Não quis dar muito mais explicação, mas ainda estava desconfiada do que tinha acabado de acontecer. Giorgian de Arrascaeta era misterioso, isso eu sabia, mas o que ele fez de me levar de volta para o alojamento e conseguir levar minha irmã e minhas amigas para lá era uma das últimas coisas que eu esperaria dele. Quando eu reparei nele, encostado na porta, o estranhamento só começou.


Capítulo 6

Eu sei que o que fiz é praticamente imperdoável e que nada jamais irá apagar isso da sua memória, mas eu estou disposto a tentar, pela minha vida inteira, te tornar a mulher mais feliz do mundo e provar que mereço o seu perdão se você me permitir.” Se eu me importasse, estaria com vontade de vomitar. Sinceramente, quase me arrependi de ter feito a besteira de ler um dos últimos textos de Tomás, só que acabou me fazendo bem, porque eu comecei a rir. Tomás? Escrever daquele jeito? Ele que me poupasse daquilo! Tomás nunca escrevera bem, cometia erros gravíssimos de português constantemente – o que até me irritava, também com frequência. Não me surpreenderia se, caso eu jogasse aquele texto no Google, encontrasse uma página intitulada ‘carta para pedir perdão após uma traição’. Era a cara daquele filho da puta e eu odiava como ele ainda não tinha sido apagado completamente da minha memória.
? – chamou. – Tá tudo bem?
– Tá. Por quê?
– Você tá aérea.
– Não dá pra me culpar. Vocês me botaram num carro e dirigiram por quatro horas pra ver o que eu vejo todo dia lá na reserva.
Você vê todo dia, nós não vemos.
– Se fosse pra ir em zoológico, poderíamos muito bem ter ficado em Porto Elizabeth. Vocês iam ver os animais no Kwantu, no Seaview ou no Bayworld e eu ficava no alojamento, dormindo em paz.
– Nós já fomos tanto no Kwantu quanto no Seaview e no Bayworldvárias vezes.
– Já viemos aqui também várias vezes.
– Faz três anos desde a última vez.
– E cinco desde a penúltima. E seis desde a antepenúltima. – Resmunguei, revirando os olhos.
– Tem coisa estranha aí, senhorita advogada mal humorada.
– Onde?
– Em você. – Ela apontou para mim, debochando, e sentou no banco ao meu lado. – O que tá rolando?
– Nada.
– Tem certeza?
– Tenho.
Mas eu sabia que se tratava de uma mentira. Como me conhecia muito bem, talvez ela também soubesse. Era a nossa primeira folga depois que começamos a trabalhar nas respectivas áreas em que tínhamos escolhido servir como voluntárias na África do Sul e nós havíamos viajado para um dia em George, cidade que ficava a pouco mais que três horas e meia de Porto Elizabeth, onde nosso alojamento ficava. Se uma das minhas amigas ou minha irmã não tivessem notado que eu estava fora de órbita, seria realmente estranho.
A verdade era que eu estava inexplicavelmente afetada com o olhar que Giorgian havia direcionado a mim quando se despediu ao me deixar no quarto depois que eu passei mal no Addo. Eu era advogada, atuava na área criminal. Era minha obrigação saber ler as pessoas. No fundo, eu não entendia perfeitamente o porquê de eu estar tão aficionada com aquele ponto em si. Eu nem deveria estar. Giorgian tinha mulher, estava lá com a noiva. Ok, , mas não é só porque você tá curiosa sobre aquele olhar que isso significa, necessariamente, que é com segundas intenções. Ah, qual é! A quem eu estava querendo enganar?
, tem certeza de que não quer dar uma volta por aí?
– Não, , obrigada pela preocupação. – Abri um sorriso debochado para ela, que revirou os olhos com a minha atitude. – Vocês podem rodar, se quiserem. Eu vou ficar aqui esperando.
– Podemos ir ao museu de transportes de Outeniqua depois daqui.
– Vai ficar tarde. Além disso, eu acho que seria bom a gente comer antes de pegar a estrada de volta.
– Ela só pensa em comer. – brincou, rindo. – Mas eu também, então concordo.
olhou no relógio de pulso.
– Mais trinta minutos e vamos embora?
– Pode ser. – Sorri, satisfeita.
Nós já havíamos almoçado no Salinas Beach, que não era um restaurante muito barato, então precisávamos economizar um pouco no lanche. Tinha um McDonald’s que, embora fosse contramão para quem precisava voltar para Porto Elizabeth, ficava apenas a quatro minutos de onde estávamos e tinha drive thru. Não que eu apoiasse comer dentro do carro alugado – por diversos motivos –, mas eu era minoria ali, mais uma vez, então só fiquei quieta e aproveitei que se ofereceu para pagar o lanche de todas nós antes mesmo de finalizarmos os pedidos.
A estrada de George para Porto Elizabeth era monótona. Lembrava-me um pouco as rodovias federais que passavam por trechos extremamente remotos no Brasil. Em sua maioria, era pouco movimentada, com exceção de alguns trechos específicos perto de algum bairro mais populoso ou centro de cidade. A maior diferença de lá para o Brasil era no asfalto, que parecia fazer o carro flutuar de tão liso que era.
A vista da estrada não era exatamente “uau”. Havia um ponto, sobre o rio Keurbooms que era até apreciável, mas até mesmo quando estávamos passando beirando alguma reserva, como a Kiaruna, não era nada extraordinário. Bem, talvez não fosse para nós, porque estávamos um tanto acostumadas com visitas frequentes à África do Sul. E Porto Elizabeth era longe das grandes cidades. Para irmos à Cidade do Cabo ou a Joanesburgo, por exemplo, levaríamos um dia inteiro de viagem ou seria necessário um voo. Isso nos levava a sempre fazer os mesmos passeios, para os mesmos lugares, com certa frequência.
Eu gostava do longo trecho dentro do parque nacional, precisamente no trecho de cerca de vinte minutos, próximo à divisa entre o Cabo Oriental e o Cabo Ocidental, algo parecido com os estados brasileiros. De lá até Porto Elizabeth, ainda tinha mais da metade do trajeto pela frente. Na ida, era tudo às mil maravilhas. Na volta, estávamos destruídas e cada segundo a mais na estrada parecia nos estrangular lentamente.
– Nós podemos jantar no Suki hoje. – sugeriu.
– O lance é o caminho até lá, né? – começou a dizer. – A Charlotte andou dizendo que a área tá perigosa, que muitos já falaram que foram assaltados por ali.
– Nós já gastamos muito hoje, podemos comer no alojamento mesmo.
– Não sei se vamos chegar lá a tempo de pegar a janta, . – Minha irmã respondeu. – A gente leva ainda uma hora até lá. Mas dá tempo de pedir alguma coisa no San Fernando’s. Eu toparia uma pizza, sem problemas.
– Eu também, ainda mais se for de camarão. Eu mataria por uma agora. – se derreteu.
?
– O quê?
– Você tá quieta.
– Só estou observando a paisagem.
Depois da minha mala, o silêncio preencheu o carro. O som tocava alguma música que eu simplesmente não gostava, então peguei o fone de ouvido na minha bolsa e conectei no meu celular. Eu realmente acho que alguém chegou a falar comigo depois disso, mas desistiu ao ver que eu não estava escutando.
Apertei para tocar no aleatório todas as músicas que eu tinha no aplicativo de reprodução, mas pareceu que não bastava a minha mente tentando me sabotar, o celular tinha que tentar também. A primeira música foi Patience, do Guns N’ Roses. Depois, Still Loving You, dos Scorpions. Veio I Don’t Wanna Miss a Thing, Always, Love of my Life, More than Words... Aí eu tive que intervir e colocar em uma playlist específica porque o meu telefone tinha decidido, repentinamente, me colocar em um clima romântico com clássicos do rock. Ele queria rock? Ele teria. Fui lá e coloquei Slipknot para tocar no máximo.
Mas nem Corey Taylor gritando no meu ouvido conseguia me fazer esquecer daquele olhar. Que porra tinha acontecido comigo? Eu estava com defeito? Não tinha me sentido daquele jeito nem com Tomás, e olha que eu cheguei a pensar diversas vezes que ele era de fato o amor da minha vida. E mesmo depois de Tomás, eu havia estado com dois outros homens e não era aquele olhar que me direcionaram quando estávamos flertando antes mesmo de trocarmos uma palavra.
Havia outro problema: Julian. Ele havia demonstrado interesse em mim desde que nos conhecemos, dois anos antes daquela viagem, na sua estreia como veterinário chefe da reserva. Era sete anos mais velho que eu mas eu não me importava. Desde o primeiro instante, não escondeu suas reais intenções a respeito de mim, mas eu tinha Tomás, firmei meu pé quanto ao meu compromisso com ele – otária, eu sei, deveria ter traído e trairia se soubesse o que ele faria comigo. Julian respeitou. Sua sinceridade e sua consideração me chamaram atenção mais do que as feições bonitas que ele sustentava tanto no rosto quanto no contorno dos músculos. Chegamos até a trocar algumas mensagens entre as minhas idas à África do Sul, mas claro que nunca deixei passar de uma conversa amistosa.
Então Julian estava interessado em mim, nós tínhamos nos envolvido, possuíamos carta branca para fazermos o que quiséssemos porque nenhum dos dois tinha compromisso com outra pessoa. Por que, então, eu insistia em precisar sentir uma conexão mais do que física? Eu e Julian nunca iríamos dar certo como um casal. Visita uma vez ao ano? O Atlântico nos separando? Não, aquela vida não era para mim. Mas tudo bem se eu só quisesse ficar com ele ali e, depois, esquecer. Eu queria tanto que minha mente não tivesse ficado confusa quanto a esse ponto com aquele maldito olhar.
É, talvez Julian fosse a resposta. Aproveitei que tínhamos sinal – bendita a hora em que nossa mãe nos comprou chips de operadoras da África do Sul – e mandei uma mensagem provocativa para ele. Pedi para vê-lo, disse que tinha comprado algo especial e iria usar para ele. Mentira, é claro, eu só ia pegar uma lingerie qualquer na mala. Sua casa não era em Porto Elizabeth, mas eu não me importava de dirigir até lá. Só que minhas esperanças foram por água abaixo quando ele respondeu com uma carinha triste e uma foto do exterior da sede no crepúsculo, explicando que havia acabado de chegar um búfalo que precisaria de cirurgia.
Fiz as contas mentalmente e, como em um passe de mágica, tudo se explicou. Eu estava de TPM. Meus hormônios estariam loucos, minha libido não poderia estar mais alta. Ao menos, eu tinha um remédio para aquilo. Retirei os fones de ouvido repentinamente, ato que não passou despercebido por , que estava ao meu lado.
– Chocolate! – Gritei e ninguém entendeu. – Precisamos passar em um supermercado.
– A essa hora de domingo, ? – questionou.
Eu pensei de novo. Talvez a minha cara tivesse entregado meu desapontamento comigo mesma, porque e , que olharam para mim, riram.
– Eu tenho chocolate no quarto. – disse sem tirar os olhos da estrada.
– Não vai ser suficiente.
– Ih, o que houve que você despertou de repente? – provocou. – Tomou um choque ou bateu com a cabeça no vidro quando tava quase dormindo?
– Babaca. – Resmunguei e mostrei a língua para ela.
– Tem a loja de conveniência daquele posto de gasolina perto do alojamento. Deve ter chocolate lá, e acho que ela é vinte e quatro horas.
, eu te amo! – Declarei em alto volume com um sorriso de orelha a orelha.
Peguei os chocolates que queria, enchi uma cestinha deles com mais do que conseguiria comer naquela noite. Enquanto isso, ia fazendo o pedido junto à pizzaria. O volume de pizza que estávamos considerando também era alto e nós estávamos até apostando quem conseguiria comer mais, como se fossemos um bando de crianças descontroladas. Duas horas depois, eu estava quase considerando abrir o botão da calça e com a bexiga apertada de tanta cerveja que tinha colocado para dentro.
– Eu acho que já deu por hoje.
– Definitivamente, antes que alguém reclame das nossas risadas.
– Da sua risada, você quer dizer, né? – apontou para , que riu mais uma vez.
– Ok, meninas, odeio ser a estraga prazeres... – se levantou. – Eu preciso ir dormir, tenho plantão amanhã cedo.
– Sério? – Minha irmã resmungou.
– Seríssimo.
– Justo irmos embora então. – Eu disse. – Nos encontramos pro café amanhã?
– Pode ser.
– Boa noite, meninas. – já foi se encaminhando para fora do quarto, jogando beijos no ar.
– Nós vemos amanhã. – Dei um tchau com a mão para as duas. – Boa noite e não esqueçam de trancar a porta.
Entramos no elevador e subimos para o quarto. Eu me sentia em uma atmosfera diferente. Sabia que as meninas estavam estranhando minha variação de humor mas, pelo menos, não estavam mais comentando. Então tomei um banho e preparei tudo para dormir. Antes de deitar de vez, eu olhei o calendário. Não sei o que deu na minha cabeça, mas não estávamos no dia que eu pensava. Estávamos antes. Eu não estava de TPM, eu não estava com os hormônios alterados ainda, então não os podia culpar. Respirei fundo e deixei o celular para lá. Merda.


Capítulo 7

De todas as vezes em que eu fui para a África do Sul prestar trabalho voluntário, eu nunca estive tão desanimada quanto naquele dia. Tinha até acordado de bom humor por conta de uma boa noite de sono. Novamente, nós tínhamos boerewors no café da manhã. Era saudável? Não exatamente, mas era meu prato típico da África do Sul favorito, ganhava com vantagem de qualquer outro que eu já tinha experimentado. E era a terceira vez na semana! Mas meu sorriso morreu quando eu fui para a garagem e lembrei do que me esperava para a semana.
– Bom dia, ! – Giorgian me cumprimentou, um pouco animado demais para o que eu esperava encontrar.
– Bom dia. – Respondi para não passar por mal educada e busquei qualquer outro conhecido com quem eu pudesse interagir ali. – Mandisa! Você viu a Charlotte hoje?
– Acho que ela saiu cedo.
– Senhorita , – Paki, um dos funcionários específicos da garagem, me chamou. – Charlotte pediu que você não aguardasse ninguém e levasse o carro sozinha hoje, se não houvesse problemas.
Respirei fundo e contive a revirada de olhos. Ótimo.
– Sem problemas, Paki, obrigada. – Disse e peguei a chave do carro da mão dele.
O trajeto até a reserva foi em silêncio forçado, porque eu conectei o meu telefone no bluetooth do som e coloquei uma playlist bem inconveniente. Eu estava me sentindo mal, e não era pela presença em si dele. Era pelo olhar daquele dia. Ele estava noivo. De uma mulher mal humorada e carrancuda, eu sabia, mas isso não mudava nada. Eu não queria que um homem comprometido sentisse nada por mim simplesmente pelo fato de ser errado, e eu iria colaborar como pudesse para que o clima ficasse estranho ao ponto de qualquer possível atração ser afastada definitivamente.
– Bom dia, .
– Bom dia, Sotho. – Cumprimentei o segurança na portaria da sede da reserva, olhando para o estacionamento em seguida e notando a falta de um carro. – Julian não chegou?
– Está em campo. O pessoal da segurança notou que um dos animais monitorados não estava se mexendo já havia muito tempo e foram averiguar. Mas Kenyetta está aí.
– Ótimo então. – Forcei um sorriso.
Kenyetta era outra veterinária da reserva. Era mais velha e menos paciente. Como eu já estava acostumada com a rotina, não precisava muito dela, só confirmava o que estava planejado para o dia. Colocar Giorgian com ela seria uma boa.
– Bom dia, Kenyetta.
– Bom dia. – Ela me disse quando eu a cumprimentei, portando apenas um sorriso minimamente educado.
– Kenyetta, esse aqui é o Giorgian. Ele é novo por aqui, não conhece muito do nosso processo. A Charlotte pediu pra eu o deixar com Julian mas, como ele não está aqui...
– Ok, vou assumir.
Por trás de Kenyetta, vi Tenisha se aproximar.
– Oi, Tenisha, bom dia. – Disse a ela com um sorriso. – Nós podemos ver aquele projeto pro qual você me pediu ajuda hoje, que tal?
Ela não estava entendendo muita coisa, mas deu de ombros, fez que sim e foi na frente, liderando o caminho até um corredor mais vazio. Tenisha me observava eventualmente, bem curiosa com a situação.
– Desculpa a mentira, to tentando me livrar de uma confusão. – Sussurrei.
– Tudo bem, eu preciso de ajuda de qualquer forma. – Ela disse. – Vai precisar de um casaco reforçado pra isso.
– Trouxe um, deixei no carro mas posso ir pegar.
– Ótimo então. – Tenisha falou e abriu uma porta à nossa direita. – Você já conhece o Bachopi, certo?
– Conheço sim. – Respondi, acenando para ele. – Como vai?
– Vou bem, senhorita, e você?
– Vou bem também. Qual é o serviço?
– Gosta de peixes, ?
Eu fiquei sem entender, talvez mais do que quando Tenisha me viu mentindo descaradamente sobre a situação para me livrar de Giorgian de uma vez por todas. Mas, minutos depois, nós estávamos pegando o carro de Bachopi e indo em direção ao litoral. Levamos meia hora da reserva até Colchester. De lá, pegamos um barco de médio porte rumo ao mar, acessando-o pelo rio Sundays. Quando nos afastamos um pouco da costa, colamos em um barco bem maior e pulamos para ele em seguida.
– Já havia navegado por aqui, ? – Bachopi perguntou.
– Fui à praia, mas nunca entrei num barco.
– Mas já entrou lá no Brasil?
– Já sim, algumas vezes. – Eu observava o que provavelmente eram golfinhos pulando ao longe.
– Você sente enjoo?
– Nunca senti.
– Você deveria variar um pouco, sair da cola do Julian. – Ele observou, fazendo graça. – Ele é muito bom, mas muito restrito. A aventura está aqui, comigo.
Revirei os olhos e ri da frase dele.
– Vai me colocar pra mergulhar com eles, Bachopi?
– Se você se comportar mal, posso pensar nisso.
Nós nos afastamos da costa por cerca de vinte minutos. Encontramos outro barco, da mesma proporção do nosso, e um menor. Bachopi indicou que era uma equipe do Discovery Channel que estava investindo no programa de proteção à vida marinha sul-africana e que eles ajudariam na captura dos tubarões. Quando ouvi a palavra, não nego que fiquei receosa, mas seria certamente divertido e uma ótima história para contar no futuro. Minha mãe me mataria se soubesse que eu tinha aceitado estar ali. E eu teria me arrumado melhor se me avisassem antes que estaríamos com uma emissora conosco.
– Quanto tempo leva?
– Ah, é pesca, então tem que ter paciência. – O capitão do nosso barco, Zulu, informou. – Mas eles demoram menos pra dar as caras. Vá em busca de baleias que você verá o que é realmente precisar de paciência.
– Você faz isso tem muito tempo? – Perguntei, a parte mais legal de estar ali era conhecer a história das pessoas e eu não perderia nenhuma oportunidade.
– Vinha criança com meu pai, quando as coisas não eram tão tecnológicas quanto hoje em dia. Comecei aos dezesseis, já tenho quase trinta anos navegando por aqui.
– E qual foi a sua maior aventura?
– Eu sou apenas o capitão, então tudo gira em torno de observar os outros. Mas lembro de uma vez em que estávamos com um barco menor, pescando mais ao norte, perto de Moçambique. – Dava para ver que, pelo brilho nos olhos dele, a história seria boa. – Um grupo de turista alugou o barco pra pescar atum. Nosso objetivo era ir atrás de atum, mas um branco pegou a isca de um deles e começou a puxar o barco. Você deve imaginar, o atum é um peixe grande e a linha de pesca não é tão pequena, muito menos o anzol. Pescar um atum leva horas, você tem que cansar o peixe pra conseguir puxar pra superfície. Agora imagine ter equipamento pra pescar um atum e pegar um branco de cerca de três metros. No desespero, nós levamos muito tempo pra pensar em arrebentar a linha. Foi tempo demais e o tubarão acabou arrebentando parte do casco onde a estrutura com a linha estava presa. Se fosse um pouco mais, teria entrado água no barco e nós teríamos que voltar milhas e milhas de volta ao continente em um bote inflável.
– Eles pagaram o estrago, pelo menos?
– Que nada! Um bando de vagabundos britânicos de merda. Falaram um monte, a polícia deixou os caras irem embora. Não tive lucro nenhum, paguei o conserto do barco com o valor do aluguel e um pouquinho a mais que tirei do meu próprio bolso. Foi a última vez em que fiz isso.
– Você é de Moçambique?
– Não, mas minha primeira mulher era. Quando nos divorciamos, voltei para cá.
– Peixe na linha! – Ouvimos alguém gritar do outro extremo do barco.
Aquelas três palavras produziram uma correria generalizada que eu não estava entendendo, e eu tentava encontrar meu lugar naquilo. No entanto, parecia que até a correria era organizada. Entregaram um tablet na minha mão e apontaram para os campos que deviam ser preenchidos. Era a minha função ali e eu estava bem com aquilo. O mais perto que passei de um ataque de animal foi quando um macho elefante no must encarou o carro onde eu estava. Depois daquilo, não queria mais passar perto da situação. Quanto a um tubarão, eu estava satisfeita em assistir de longe.
Longos minutos depois do anúncio, um tubarão foi puxado para perto do barco. Da lateral, desceu um elevador consideravelmente grande que levava algumas pessoas para a água, onde o tubarão estava. Mas eu tinha escutado algo sobre o objetivo ser capturar os brancos quando eu reconhecia claramente que aquele não era um branco.
– Pegamos um tigre. – Tenisha gritou lá debaixo, olhando para mim. – Anote nas observações da ficha.
– O que isso quer dizer? – Perguntei ao capitão Zulu.
– Não quer dizer muita coisa. Não era o objetivo deles, mas vão fazer o procedimento mesmo assim.
– Pra quê serve isso?
– O monitoramento, você quer dizer? – Ele perguntou e eu assenti. – Conhecer o território deles é importante pra definir estratégias de preservação às espécies. Como? Aí não me pergunte, eu só sei essa frase bonita aí porque já escutei algumas vezes do doutor Tswanna.
– Desse eu nunca ouvi falar.
– É gente boa. Só trabalha com animais marinhos, então dificilmente você o teria visto pela reserva.
, dois metros e sessenta e nove centímetros, fêmea. – Tenisha gritou novamente para mim e eu fiz as anotações devidas no tablet enquanto observava, pelo canto do olho, a movimentação com o animal.
– Você saberá mais sobre a serventia desse tipo de monitoramento se perguntar a Bachopi.
– Eu questiono na viagem de volta.
, posso te passar o código do rastreador? – Tenisha gritou de novo.
– Pode! – Respondi.
– 64ASG312AG98KYU. Confere?
– 64AST312...
– É ASG, G de gol, não AST.
– Ok, corrigindo... – Refiz a parte necessária. – 64ASG312AG98KYU.
– Perfeito. Anote nas observações também que a etiqueta foi instalada à direita da barbatana dorsal. Há cicatrizes na barbatana peitoral esquerda, ela perdeu cerca de quinze por cento do seu tamanho, provável mordida de outro tubarão.
– É pra eu anotar isso tudo?
– É! – Tenisha disse como se fosse óbvio.
A meta do grupo com o qual eu tinha saído era capturar cinco tubarões brancos, mas pegaram apenas três – além de mais dois tubarões tigres que deram as caras. Zulu dizia que era por conta de algo na água, talvez a temperatura, pressão atmosférica ou corrente. Eu não questionaria o que pensava ser misticismo, ele certamente entendia muito mais do mar do que eu.
Na volta para a reserva, conversávamos animados sobre alguns detalhes que envolviam o que tínhamos feito. Bachopi me contava de outras vezes, dos planos que tinha para o futuro envolvendo novamente aquele tipo de ação, de acidentes, de perdas. Tudo era contado por ele com felicidade, o que deixava claro o quanto gostava daquilo.
Ao chegarmos de volta à sede da reserva, já ao entardecer, com o céu escurecendo rapidamente, o farol iluminou um Giorgian encostado no carro e de cara fechada. Tentei ignorar e saí do carro com a mesma energia que havia estado comigo durante o passeio. Peguei a chave em cima do pneu dianteiro direito do nosso carro e abri a porta. Giorgian entrou logo em seguida. Eu estava prestes a ligar o som novamente quando ele me interrompeu.
– Por que disse aquilo?
– Aquilo o quê? – Eu me fiz de desentendida.
– Que Charlotte disse pra me deixar com o Julian.
– Ela disse. – Dei de ombros, torcendo para ter tempo de fechar a mentira com Charlotte quando chegássemos de volta ao alojamento, uma das vantagens de ser amiga de todos por ir lá com tanta frequência. – Ela não falou com você?
– Não.
– Bem, sinto muito por isso então. – Falei e liguei o som de uma vez, engatando a marcha para seguir de volta ao alojamento.
Giorgian, no banco ao lado do meu, olhava para seu relógio de pulso nervoso. Enquanto isso, meu telefone vibrou, avisando sobre a chegada de uma mensagem.
– Você tem sinal?
– Tenho. – Respondi monossilábica, esperando que ele não prosseguisse.
– Você pode me emprestar um pouco de internet, por favor? É só pra eu enviar uma mensagem.
Sem olhar para o celular, desbloqueei a tela com a minha digital e ativei o roteador. Informei a senha a Giorgian. Segundos depois, o celular dele fez som de dezenas de mensagens chegando simultaneamente. Ele respirou fundo, ficou nervoso de uma hora para a outra. Não importava, eu não devia me importar. Se eu precisasse dar um palpite de sorte, seria a noiva dele. Nervosa? Com ciúmes? Mais uma vez, eu não devia me importar.


Capítulo 8

– Mas aí vai sair muito caro, você não acha?
– Se fosse pra sair barato, a gente nem tava aqui, .
– Mas vocês estão exagerando com as sugestões! – Ela respondeu, quase gritando.
Enquanto nós caminhávamos relativamente distraídas na direção do refeitório do alojamento, eu senti um baita esbarrão. Quando olhei para o lado, vi o vulto passando às pressas por mim. Virei para trás e a mulher me encarou com ódio, murmurando alguma coisa em espanhol rápido demais para que eu sequer entendesse e continuando seu caminho quase correndo.
– Que porra foi essa? – perguntou.
– Você sabe quem era, ?
– É a namorada do colega dela. – respondeu as duas curiosas. – Ela tá fazendo o trabalho voluntário lá na escola onde eu to.
– Ela é noiva dele. – Completei.
– Do jogador? – perguntou, elétrica.
– É, do jogador.
– Aliás, o que foi...
– Assunto proibido. – Minha irmã interrompeu antes mesmo que ela terminasse a frase que todas nós sabíamos qual era. – Que tal falarmos sobre algo mais agradável?
Elas desconversaram enquanto nós continuávamos nosso caminho. Sentamos para comer felizes porque, naquele dia em especial, Gena tinha prometido fazer uma receita que havia pedido a nós e era nada mais nada menos que arroz branco e estrogonofe. Eu estava no céu só de me imaginar matando a saudade do gostinho de comida brasileira. Nós não íamos à África do Sul pela comida, nós preferíamos mil vezes a comida brasileira, então era um alívio poder matar essa saudade quando era possível.
– Então a próxima folga vai ser assim? Nós quatro presas no alojamento?
– Não estamos presas, , para de ser dramática. – Resmunguei. – Se tá inquieta, pega o carro e vai dar uma volta.
– Mas nós precisamos fazer planos pra próxima folga! – Ela insistiu.
– Nós podemos ver isso mais tarde, agora temos prioridades.
apontou para a mesa de self servisse e eu faltei babar. Coloquei no prato bem mais do que eu precisava – e mais do que eu ia aguentar comer, só faltava assinar o atestado de retardada. A vontade era de ir pulando com o prato em mão até a mesa onde íamos comer.
– Isso não parece ter sido feito com creme de leite de verdade. – comentou, cutucando o estrogonofe com a ponta do garfo.
– Você reclama demais. – disse, já de boca cheia. – Não é o estrogonofe da minha mãe, mas...
– Ei, meninas, como vão? – Charlotte chegou por trás de mim e , colocando as mãos nos nossos ombros.
– E aí, Lottie! – deu um ‘tchauzinho’ no ar para ela. – Quais são as novidades?
– Domingo, dia de folga... Nós vamos fazer uma tarde de pôquer natalino hoje, igual àquelas que vocês já viram rolar. Apostas reais, dinheiro convertido em presentes pras crianças da nossa escola... Nada que vocês não conheçam. Fichas valendo dez rands cada, aposta mínima de quinhentos rands, premiação pros três primeiros colocados.
– To dentro. – falou, já tirando a carteira do bolso da calça que estava usando, sendo imitada por e .
– Ei, Lottie, posso deixar minha presença como certa e pagar na hora? Minha carteira tá no cofre do quarto.
– Claro. – Ela disse, forçou um sorriso e, logo depois, ficou com uma expressão curiosa. – Ei, , podemos conversar por um segundo? Prometo ser rápida e te devolver já pro seu almoço.
Fiquei surpresa com a pergunta, mas levantei da mesa. Acompanhei Charlotte até um canto menos movimentado do refeitório. Ela olhou em volta antes de virar definitivamente para mim.
, eu não quero ser a chata da história, mas você anda tendo algum problema com o casal que veio do Brasil logo depois de vocês?
– Não, por quê? – Perguntei, curiosa.
– Bem, há poucos dias, você me pediu pra cobrir uma mentira. Hoje, um dos meus funcionários foi destratado pela mulher e, enquanto ela gritava uma porção de coisas em espanhol, ele jura ter entendido o que pode ser uma referência a você.
– Lottie, eu não fiz nada de errado. – Insisti. – Você sabe que eu jamais faria qualquer coisa pra prejudicar vocês.
– Eu sei, , mas eu preciso perguntar de qualquer forma.
– Tudo bem.
– Fique de olho nela, ok? Eu vou pedir que outra pessoa leve o homem pra reserva, já que não posso obrigar ninguém a trocar o programa de voluntariado. Ou então que outra pessoa esteja no carro com vocês pra não haver intercorrências.
– Ótimo, eu agradeço.
– Se tiver qualquer problema nesse sentido, me procura, por favor.
Eu assenti e Charlotte se afastou. Logo depois, eu também segui meu caminho, voltando para a mesa. As três olharam para mim curiosas, quase pulando no meu pescoço para tirar uma resposta à força da minha garganta. Para provocar propositalmente, eu só sentei, como se nada tivesse acontecido, e recomecei meu almoço. Elas pareciam que podiam cuspir fogo a qualquer momento.
Tentei dispersar o assunto da minha cabeça enchendo a barriga de brigadeiro – outra receita brasileira que Gena havia pedido – na sobremesa. Não estava ligando muito para os olhares atravessados por estar comendo mais do que devia. Então fechei minha refeição e subi para o quarto.
Cerca de uma hora e meia depois – com mensagens trocadas com minha mãe, uma rápida passagem pelos e-mails do trabalho que não paravam de chegar, atualização das principais redes sociais e um cochilo rápido –, eu e combinamos com e de nos encontrarmos logo no térreo. Separei o dinheiro e um casaco mais pesado, porque aquelas tardes de pôquer costumavam durar horas e a temperatura estava prevista para cair bastante ao longo do dia.
– Nós estávamos falando em economizar dinheiro mais cedo e, agora, estamos torrando dois mil rands... – comentou ao nos ver chegar.
– É pra caridade. – Eu justifiquei. – Podemos gastar dinheiro se for pra ajudar quem precisa.
Eu preciso de uma folga legal, ué!
– Às vezes, eu me pergunto como você consegue pagar o financiamento do seu apartamento e sua fatura de cartão de crédito sem se endividar toda... – Murmurei.
– Mamãe me dá dinheiro, eu sou a filha favorita.
Revirei os olhos para ela. Charlotte passou por nós e eu tratei logo de pagar a minha parte. Antes que eu me desse conta, estávamos sentadas em diferentes mesas, jogando contra pessoas que estavam ali ou pessoas de fora nas mesas recém-arrumadas do refeitório. De uma forma ou de outra, seria uma ótima distração.
Eu tinha uma mão ruim mas uma cara que não queimava, então blefar não estava sendo difícil. Afinal de contas, mentir na cara limpa fazia parte da minha profissão às vezes, e eu treinava para ser capaz de fazer aquilo muito bem. Também treinava para saber ler os outros, e o cara na minha frente definitivamente não tinha uma mão boa também e estava tentando blefar com tudo. A diferença entre eu e ele era que ele não fazia ideia de quem eu era quando ativava o modo ‘competitiva’ – nem de que eu era advogada. Quando, no final da rodada, eu ganhei, faltou bater na mesa e sair gritando.
– Ei, maninha, como vai o jogo? – chegou perto e sentou ao meu lado quando eu já tinha conseguido multiplicar as fichas razoavelmente bem.
– Bem. E com você?
– Já perdi tudo. – Ela deu de ombros e nós duas rimos. – Você já percebeu?
– Percebi o quê?
– O jeito como aquela psicopata tá te encarando a tarde inteira. – sussurrou.
– De quem você tá falando, ?
– A mulher do jogador!
Eu revirei os olhos e chequei as novas cartas que recebi.
– Eita, acho que você tem visita. – apontou para alguma coisa atrás de mim e praticamente já se retirou antes que eu respondesse.
Virei para trás e dei de cara com a pessoa que eu menos esperava ver.
– To fora. – Anunciei para Paki, que estava fazendo o papel de croupier para a minha mesa.
Saí da mesa após colocar minhas cartas no centro dela. Peguei as fichas que ainda estavam em minha posse e coloquei no bolso. Julian fez sinal com a cabeça para a passagem de saída do refeitório e eu segui para lá.
– O que houve?
– Eu queria me desculpar por ter sumido assim do nada. – Ele começou a dizer. – Estou com problemas pessoais.
– Você não me deve explicações, Julian.
– A partir do momento em que eu não quero que você pense que eu só queria te... – Julian olhou em volta, nervoso, e hesitou em continuar a frase quando uma pessoa passou por nós dois, então baixou o tom de voz. – Eu não queria só te comer e cair fora. Não quero que você pense isso de mim.
– Julian, somos dois adultos. Se você quisesse só “me comer e cair fora” mas fosse honesto sobre isso, tudo bem.
, eu...
– Ei. – Segurei no braço dele. – Você não me deve explicação nenhuma.
Julian respirou fundo e coçou a cabeça.
– Meu pai ficou doente, minha mãe não tá lidando bem com a situação, eu tenho escutado muito e estou de mãos atadas aqui... É difícil não poder fazer nada quando são os seus pais na linha de tiro, você entende?
– Acho que sim. – Falei, cruzei os braços e apoiei a lateral do meu corpo na parede mais próxima.
– Então... Eu basicamente vim dizer que sinto muito por não te tratar devidamente nos últimos dias. Mesmo com toda essa situação, meu comportamento não é justificável.
– Relaxa, Julian!
– Eu to indo embora pra Joanesburgo. – Ele declarou de uma vez, parecia estar aliviado em fazer o anúncio. – Não sei quando volto, não sei se volto... Nós travamos essa batalha, essa brincadeira, faz tanto tempo que eu me senti na obrigação de vir me despedir especialmente de você.
– Posso te fazer uma visita quando parar pra fazer escala na volta pra casa? – Eu brinquei.
– Vai ser um prazer. – Julian respondeu com um sorriso e chegou perto, passando a mão pela minha nunca e deixando um beijo na minha bochecha depois de me encarar de perto por longos segundos. – Vou esperar sua ligação.
Ele sorriu mais uma vez e foi embora. Esperei mais uns segundos até decidir voltar para a mesa, mesmo que não tivesse cabeça para continuar jogando.
! Vi que você tava falando com o Julian... – Charlotte e mais alguns chegaram perto de mim antes que eu chegasse na minha mesa. – Ele deve ter dito que tá indo embora.
– Disse sim.
– Então... Nós estamos organizando uma festa surpresa pra ele, aqui mesmo, depois do horário da janta. Vou dar um jeito de atraí-lo pra cá.
– Uau, parece ótimo! – Eu disse.
– Avisei porque acreditamos que ele gostaria que você estivesse, já que vêm sempre aqui e vocês dois se dão bem.
– Podem contar comigo, vou avisar as meninas também.
Eles estavam já para sair quando eu decidi deixar de lado a jogatina.
– Hm... Lottie, você pode ficar com as minhas fichas? Distribua pra alguém, pode dar pra minha irmã se ela ainda estiver por aí. Eu vou no quarto tomar um banho e descansar pra noite.
– Claro. – Ela pegou as fichas que eu entreguei.
– Tá bem, gente, nós nos vemos mais tarde. – Eu me despedi com um sorriso.
Quando virei para o corredor, após passar pela porta, recebi o segundo encontrão daquele dia. O problema é que, daquela vez, ficou bem óbvio que foi proposital. A mulher, cujo nome eu nem sabia, me encurralou com tudo.
– Olha só, sua filha da puta, eu juro que vou acabar com a sua raça se eu ver você se engraçando com o meu noivo de novo.
– Do quê...?
– Não se finja de desentendida! – Ela disse entredentes, com o dedo na minha cara. – Eu to falando sério. Ele é meu e eu vou fazer o que for necessário pra ele não cair na sua lábia.
Com o sangue esquentando, eu reagi, dando um tapa no braço dela para afastar o dedo que apontava para o meu rosto. Quando ela tentou voltar à posição, eu segurei a mulher pelo braço.
– Você ficou maluca? Faz ideia do que tá fazendo?!
– O que tá acontecendo aqui? – A voz masculina gritou enquanto passos fortes e rápidos ficavam cada vez mais altos e, consequentemente, mais próximos.
– É melhor você controlar sua mulher antes que ela faça mais merda do que já acabou de fazer. – Eu praticamente rosnei para ele e fiz questão de encará-lo bem de perto. – Não se esqueça de que não é a minha primeira vez aqui. Eu conheço as pessoas, conheço a cultura e, sobretudo, conheço as leis. Da próxima vez, ela sai algemada e deportada daqui.
Com isso, eu desviei dele e segui o caminho para o quarto que havia sido interrompido pela psicopata noiva de Giorgian. Mas havia perdido o bom humor da brincadeira e estava bufando como um touro enraivecido.


Capítulo 9

– O que tá acontecendo?
– Pergunta pra sua noiva. – Resmunguei e cruzei os braços, olhando pela janela.
, por favor...
– É pra você.
Giorgian bufou. Ao menos, eu não tinha que explicar a conversa para os outros dois que estavam no carro porque falávamos em português. Desci na sede da reserva mais puta ainda porque nem Julian tinha mais para servir de distração ou o que quer que fosse. Vi que estava à beira da loucura quando cheguei a pesquisar o preço das passagens – aéreas e terrestres – até Joanesburgo para usar no domingo, quando eu teria uma folga. Os empecilhos eram o preço, o tempo, as curiosas que estavam comigo e iriam querer uma explicação para tanto tempo longe e o fato de que eu sabia que estava fora de mim com a súbita necessidade de ter um homem por perto.
– Oi, , bom dia!
– Bom dia, Tenisha. E esse sorriso todo?
– Com a saída do Julian, abriu uma vaga e eu acabei de pegar meu diploma, então...
– Meus parabéns! – Comemorei, abraçando-a. – Não fazia ideia de que você estava tão perto de formar assim, achei que levaria mais tempo.
– Só faltavam alguns documentos e a assinatura de Julian como meu supervisor.
– Então acabou o sacrifício da faculdade?
– Sim, acabou.
– O que quer dizer que você pode oficialmente me dar ordens, e eu sou muito graça por isso.
– Não exagere. – Tenisha riu. – Mas sua ajuda seria bem útil hoje.
– O que tem pra fazer?
– Temos uma leoa em trabalho de parto e, acredite se quiser, são três filhotes. Literalmente, preciso de alguém pra ver se os filhotes estão respirando, bem de forma geral, enquanto eu faço a cesárea.
– Uau, que responsabilidade!
– Estamos com poucos veterinários hoje. Dois doentes, sete em campo, um tá no ambulatório.
– Então o que estamos esperando? – Convidei. – Até porque é um puta sacrifício ter que ficar olhando filhotinhos, né?
Nós duas rimos e fomos para a sala onde seria feita a cirurgia. Outro veterinário nos acompanhava para cuidar da anestesia. Tenisha me ajudou a colocar vestes apropriadas e a limpar minhas mãos, mesmo que fosse calçar luvas logo. A sala estava quentinha e gostosa, porque estava bem frio do lado de fora. Um por um, Tenisha foi tirando os filhotes de dentro da mãe e eu, para variar, estava toda apaixonada nos pequenos leõezinhos.
Ao final da cirurgia, colocamos a leoa – com certa dificuldade – em uma maca com rodas e levamos até o recinto dela, deixando que acordasse aos poucos para, quando tivesse voltado a si definitivamente, apresentá-la aos filhotes. Ficamos no recinto ao lado, que estava vazio, com os filhotes. Administrávamos leite formulado para os três enquanto não estavam livres para mamarem na mãe. Enquanto isso, observávamos a leoa e como ela se recuperava pela grade.
– O que tá havendo entre você e o outro brasileiro? – Tenisha perguntou do nada e eu soube que era aquilo que estava deixando-a tensa durante o dia, pois tinha aquele ar de ‘quero falar alguma coisa mas não sei como’ desde que cheguei à sede.
– Ele não é brasileiro, é uruguaio, mas mora na mesma cidade que eu por acaso. – Expliquei. – E não está havendo nada.
Ainda. – Ela me corrigiu.
– Não vai haver, Tenisha, ele tem noiva.
– Ah, então ele é um babaca.
– Por quê? – Perguntei.
– Porque o jeito como ele te olha... – Tenisha comentou e estreitou os olhos para reparar em algum detalhe da leoa. – Nenhum homem olha pra uma mulher assim se não tiver algum tipo de sentimento por ela.
– Você deve estar enganada. Nos conhecemos tem um mês, nem tem como ter algum tipo de sentimento a essa altura, mesmo que ele fosse solteiro.
– Minha vó dizia que as coisas acontecem de forma mágica quando o destino já decidiu o fim da história.
– Às vezes, é difícil acreditar que eu e você temos a mesma idade. – Eu ri e ajeitei a mamadeira de um dos filhotes, que tinha dormido enquanto se alimentava. – Não está havendo nada nem vai haver.
– Hm... Certeza?
– Absoluta.
Ela deu uma olhada nos filhotes e abriu o sorriso bobo que todo mundo abria quando via filhotinhos tão pequenos dormindo depois do almoço. Tenisha levantou e eu a segui, concluindo que já teríamos terminado por ali.
– Você sabe como funciona a alimentação dos animais por aqui. Tem como checar se tem alguém fazendo e se estão fazendo direito, por favor? Tem dois voluntários que deveriam estar por lá, não sei se eles estão com supervisão.
– Claro. E depois? Mais alguma coisa?
– Se você quiser ir a campo, me avisa que eu falo com quem quer que esteja programado pra ir também.
– Tudo bem, eu te procuro quando terminar.
– Ah... Bachopi vai fazer aquela expedição de novo depois de amanhã. Ele pediu pra verificar se você gostaria de ir.
– Agradeça o convite por mim se você o vir antes de mim, mas acho que foi bom pra um dia só.
– Ah... Eu já ia me esquecendo. Vem comigo.
Antes de seguir Tenisha, dei uma boa olhada de volta para a leoa, apelidada carinhosamente de Grace. Fiquei questionando se ela já podia ser deixada sem observação, mas acabei saindo dali de qualquer forma. Caminhamos até uma pequena sala no corredor principal das salas dos veterinários oficiais da reserva. Assim que Tenisha abriu a porta, ficou óbvio pela arrumação que ali era a nova sala dela. Sorri só com a conquista, ficar feliz pelos outros realmente era quase melhor do que ficar feliz por si mesmo. Enquanto isso, ela foi até a primeira gaveta de sua mesa e pegou um envelope lá, entregando para mim logo depois.
– O que é isso?
– Julian pediu que eu te entregasse. – Ela deu de ombros e já foi saindo da sala, fazendo o caminho de volta para perto da leoa e dos bebês. – Disse pra te dar quando ele já tivesse ido, que ele não queria que você ficasse emotiva enquanto ele ainda estivesse por perto.
– Como assim? – Arqueei uma sobrancelha.
– Pois é, eu também não entendi. – Tenisha riu. – Você fica com a alimentação então enquanto eu fico de olho na leoa?
– Não vai precisar de ajuda?
– Tem gente chegando já do campo, minhas necessidades vão estar supridas.
– Qualquer coisa, me chama. – Pisquei para ela e dei meia volta, indo para onde ficavam armazenados os alimentos dos animais que estavam alojados ali na sede.
Abri o envelope enquanto caminhava no corredor. O papel revelou uma imagem impressa em boa qualidade de uma foto que tirei com Julian duas semanas depois de eu ter chegado à África do Sul naquele ano, durante uma ida ao principal shopping da cidade, só eu e ele em um passeio inicialmente despretensioso. Dei um sorriso inocente ao lembrar do dia em questão e então, por um impulso que eu não reconheci de primeira, virei a imagem e descobri um recardo no verso da foto.

Queria que tivéssemos nos conhecido de outra forma.


Meu sorriso só aumentou. Eu estava toda boba, sem nem questionar minimamente a minha súbita necessidade urgente por um homem. Nunca tinha me sentido daquela forma em situação nenhuma, nem antes de Tomás, que era meu relacionamento mais longo até aquele momento. Não estava entendendo minha própria cabeça, mas acho que estava procurando refúgio do que estava vivendo na suposta chance de relacionamento ínfima que tive com Julian. E então eu trombei em alguém.
– Descul... – Meus ombros caíram no momento em que eu olhei para a frente e deixei a frase incompleta de qualquer jeito.
Achei que ele fosse ignorar, seguir seu caminho. Seria tão melhor assim... Mas ele desistiu no meio da ação e parou na minha frente.
– Por favor, me diz o que tá havendo.
– Nada.
– Eu não acredito.
– Aí não é problema meu. – Resmunguei e virei para continuar o caminho.
– Olha, me desculpa pelo que a minha... – Ele hesitou em usar a palavra e eu definitivamente notei aquilo. – Ela não deveria ter falado com você daquele jeito.
– Agora você sente muito?!
– Eu não fazia a mínima ideia de que algo como aquilo poderia acontecer, .
– Conta outra...
– To sendo sincero.
– Tá bom, que seja. – Revirei os olhos e bufei, mais irritada com aquilo do que considerava ser saudável. – Não importa, tá? Eu não tenho exatamente nada com você. Nós viemos aqui fazer trabalho voluntário, ajudar quem precisa. Não quero saber de seja lá qual problema você tem com sua noiva. Só disse pra controlar o tanto de estupidez que ela anda falando porque eu fui muito bem ensinada a me defender. Agora vê se parar de cismar comigo. Você já tá aqui faz tempo, não precisa de mim pra ser sua guia particular ou seja lá o que você acha que eu sou. Não é minha obrigação, fiz como um favor pra uma amiga. Então... Sei lá, cara, faz o que você achar melhor, só me deixa de fora dessa.
O discurso surtiu efeito. Ele não insistiu mais, eu pude seguir meu caminho novamente sem perturbações. Sinceramente, naquele instante, eu nem lembrava mais da foto com Julian, que eu já tinha guardado no bolso da calça sem nem perceber. A única coisa que passava na minha cabeça era que eu precisava sair de perto dele de qualquer jeito.
Até meu rendimento foi afetado. A filhote de elefante ainda estava por lá e eu achei que seria uma boa distração interagir com ela. Fiz todo o procedimento com a equipe de segurança da reserva e entrei no grande recinto da bebê que crescia incontrolavelmente. Por um lado, era uma boa notícia. Brincamos um pouco com a água, ofereci melancias que havia levado no carrinho de mão. Por alguns minutos, tirei minha cabeça do estresse. Mas logo eu precisei seguir com o planejamento do dia porque ainda havia muito o que fazer.
! – Bachopi apareceu e chamou meu nome quando eu comecei a separar as carnes que eram para os grandes felinos.
– Oi, Bachopi, como vai?
– Vou bem. Tenisha já falou com você?
A pergunta foi interrompida pelo toque do meu celular, o que eu silenciei imediatamente.
– Falou sim. Eu disse que vou recusar dessa vez, mas quem sabe numa próxima.
– Eu acho que nós vamos...
De novo, o celular tocou. Eu bufei e peguei o aparelho na mão, recusando a ligação e colocando no modo silencioso, o que eu já deveria ter feito desde a manhã daquele dia.
– Desculpa, você ia dizendo...
– É que nós vamos em outros três dias, pelo menos, além do próximo. Então, se você quiser ir, só me falar que... – Ele parou a frase porque meu celular estava fazendo som ao vibrar na minha mão. – Odeio me meter na sua vida, mas acho que deve ser importante.
Olhei o identificador de chamadas, era o número de Charlotte. Em um primeiro momento, estranhei. Não haveria motivo para ter alguma urgência da parte dela, mas decidi atender do mesmo jeito.
– Só um minuto. – Disse e dei dois passos para longe de Bachopi a fim de atender o telefonema. – Oi, Lottie, o que houve?
É sua irmã, . Ela sofreu um acidente na obra. O ferimento não foi grave, mas ela está sendo encaminhada para o hospital da província exatamente agora.
– Merda! Eu to indo.
Pode pegar o carro que levou vocês, eu mando outro.
– Obrigada, Lottie.
Por nada! Nos encontramos mais tarde.
Eu me virei para Bachopi, preparando uma explicação para tudo aquilo, mas ele estava sorrindo compreensivo antes mesmo de eu falar qualquer coisa.
– Não precisa dizer nada, só vai.
– Obrigada e desculpa deixar vocês na mão.
– Que isso, , você sempre ajuda bastante a gente. Vai lá! A gente se vê.
Com um sorriso, eu me despedi. Fui até onde o meu casaco estava e comecei a vestir. De repente, não estava mais sozinha. Não era surpresa nenhuma para mim, àquela altura do dia psicologicamente estressante, que fosse Giorgian.
– Eu vim em paz. – Ele ergueu as mãos em rendição. – Pediram pra te entregar.
Giorgian esticou um papel para mim e eu nem sequer tive coragem de olhar para ele. Peguei o papel e comecei a desdobrar. A caligrafia não era das melhores, mas as palavras em português entregavam o único remetente possível.

Eu sinto muito por seja lá o que eu fiz.


Como em um ato reflexo, levantei o olhar na direção que ele seguiu depois de fazer a entrega. Giorgian ainda estava no corredor e deu uma olhada rápida por cima do ombro para mim. Nossos olhares se cruzaram e meu coração pulou uma batida. Um milésimo de segundo depois, minha garganta estava completamente seca.


Capítulo 10

Giorgian Daniel De Arrascaeta Benedetti (Nuevo Berlín, 1 de junho de 1994),
mais conhecido como De Arrascaeta ou somente Arrascaeta,
é um futebolista uruguaio que atua como meia.
Atualmente, joga pelo Flamengo.


Eu não sei exatamente em que ponto da minha vida eu tinha chegado para estar pesquisando sobre ele no Google e lendo sua página no Wikipédia. E que maldição havia atingido a minha pessoa? Antes que eu desse conta, estava no Pinterest, pesquisando o nome dele. Tudo isso, em aba anônima, porque sabe lá Deus que medo inconsciente eu tinha na cabeça de estar sendo espionada ou coisa do tipo.
, você... – saiu do banheiro e eu dei um pulo onde estava deitada na cama, ela só riu de mim. – Tá tomando susto à toa?
– Ah, eu tava com a cabeça longe. Mas fala... O que houve?
– Só queria saber se você tem certeza sobre não ir com a gente.
– To bem aqui, fica tranquila, Ju.
– Tem certeza?
– Tenho sim.
– Vai ser legal, .
– Disso, eu não tenho dúvidas. – Falei, rindo, e bloqueei o celular para não ser acidentalmente flagrada. – Só to com a cabeça cheia mesmo, quero ficar com a cabeça zerada um pouco.
– Isso não tem nada a ver com o Julian ter ido embora, né?
– Não, claro que não.
– Nem com o uruguaio... – usou de todo o sarcasmo do mundo na sua voz.
Olhei para ela série e fiz cara de quem reprovava sua fala. Ela só riu e seguiu com sua preparação para o dia fora. Iriam as três para um passeio na Groendal Nature Reserve. Nós já havíamos ido lá até mesmo com minha mãe, mas em uma situação diferente. O lugar era lindo, cercado pela cordilheira Groot Winterhoek e cheio de ravinas, mas não era o que eu precisava. Exaurir meu corpo poderia dar espaço para a mente trabalhar mais. Eu queria esvaziar a mente, pensar no que tivesse que pensar e deixar para trás as coisas ruins.
Elas saíram logo depois do café da manhã. Eu fiquei pelo restaurante ainda, observando as pessoas sem pretensão nenhuma, até que lembrei que ele podia chegar a qualquer momento. Levantei logo e fui dar uma volta pelo bairro onde o alojamento ficava localizado.
Havia um conjunto habitacional construído majoritariamente pelos voluntários do programa que nós estávamos fazendo, beirando a Swartkops Valley Local Authority Nature Reserva. Andei pelas ruas tranquilamente, cumprimentando por acaso alguns que estavam passando por ali. Eles sabiam que eu não era dali e concluíam que eu pertencia ao programa de voluntariado automaticamente. Eram gratos por isso, um sentimento que deveria ser propagado pelo mundo, e isso era bonito de vivenciar. Então eu e meu fone de ouvido tocando Bryan Adams – não era a escolha mais sábia para quem estava na mesma situação que eu, mas era Bryan Adams, não é? – seguimos nosso caminho despretensioso a fim de procurar um mínimo de paz possível.
Voltei ao alojamento e fui pelas escadas para o meu andar, evitaria encontros desnecessários. O problema é que eu havia bloqueado o celular com o Pinterest aberto e, assim que eu o desbloqueei, dei de cara com as várias fotos que haviam lá dele. A idiota que vivia dentro de mim ficou encarando o celular. O filho da puta era bonito. Só que a cura veio antes do previsto, com uma notificação do Instagram que indicava uma nova solicitação de mensagem.
Eu só ri. Chegava a ser patético. Já tinha perdido a conta de quantos usuários tinha bloqueado porque era Tomás tentando fazer contato de alguma forma. Minha autoestima nem se afetava mais, eu só ignorava e fazia uma ou duas piadas mentais sobre o assunto. Mais uma vez, nem me dei o trabalho de ler, apenas bloqueei o usuário e fiz uma denúncia baseada em spam. O que era surpreendente àquela altura era Tomás não se tocar que eu era advogada e que podia acusá-lo de assédio a qualquer momento. Eu só não tinha seguido por esse caminho ainda porque nem em uma audiência eu queria ter que encarar o filho da puta.
– Ei, ! – Ouvi alguém chamando do outro lado da porta e levantei da cama para atender, dando de cara com Gena assim que abri. – Sua irmã avisou que estariam fora pelo dia mas que você estaria aqui. Quer ir pra cozinha? Sei que você gosta.
Coloquei um sorriso no rosto. De fato, eu adorava cozinhar. Se não houvesse obrigação, é claro. Cozinhar era terapia para quase tudo na vida. Foi uma ótima distração para quando minha cabeça ainda estava quente por conta do que aconteceu com Tomás, não havia motivo para não ser útil naquele momento.
– Claro, Gena, vai ser um prazer. Vou só me trocar, pode ser?
– Pode sim, claro, querida. Te espero lá embaixo?
Eu assenti e ela saiu, dando-me espaço para fechar a porta. Tirei o casaco para colocar outro mais simples. Foi quando senti o papel no bolso dele. Nem sabia que ainda tinha aquilo guardado. De repente, os flashes do dia vieram à minha cabeça. Seu olhar, minha sensação de sufocamento, o clima intenso que instaurou-se entre nós naquele breve instante. Eu sentia como se estivesse sofrendo por algo que nem sabia que existia, como se uma nuvem estivesse constantemente sobre mim, fazendo o ar estar sempre pesado ao meu redor.
Queria ter a capacidade de ler a mente dele. Por um segundo, que fosse. Pensava que esse tempo já seria bem suficiente. Queria ver pelos seus olhos o que ele tanto via entre nós e porque insistia em fosse lá o que estivesse acontecendo, entender o que estava pensando e o porquê daquilo tudo. Sentia como se fosse uma necessidade intrínseca a mim, mas eu não sabia de nada.
O sorriso que Gena colocou no meu rosto morreu com aqueles pensamentos e eu me afundei mais ainda. A partir daquele instante, meus pensamentos se fundiram em uma confusão só. Eu queria vê-lo. Por quê? Não fazia a mínima ideia. Mas, de repente, sentia essa necessidade. Sentia na mesma intensidade que sentia o contrário. No entanto, ainda sentia. Só que não havia tempo para enrolação da minha parte. Tinha firmado compromisso com Gena e, por mais que fosse bobeira, eu sempre honrava com a minha palavra.
– O que temos pra hoje? – Perguntei fingindo estar animada quando apareci na cozinha.
– Boboties.
– E como eu posso ajudar?
– Pode picar as pimentas bem pequenas?
– Claro! Onde estão?
– Logo ali. – Gena apontou para uma bancada à minha esquerda.
Cumprimentei alguns dos que estavam mais perto e comecei o meu trabalho. O bom era que eu não tinha exatamente habilidade com facas e a que eu estava segurando não tinha o corte muito preciso, o que exigia mais concentração da minha parte para efetuar o trabalho de forma correta. A cabeça repetia “cuidado com os dedos, cuidado com os dedos” como um mantra, cem por cento ocupada com aquilo. Não ousei reclamar em nenhum momento. Aquela faca era tudo o que eu precisava naquele instante.
! – A característica voz de Charlotte animada em um domingo de folga ecoou pela cozinha. – Você por aqui?
– Me alugaram. – Brinquei e dei de ombros.
– Eu acho que você ajuda além do que deveria pra poder comer mais sem ninguém reclamar.
– Meu Deus, me descobriram. – Eu fiz cara de assustada enquanto murmurava, embalando na brincadeira dela para, logo depois, rirmos juntas.
– Não sabia que você tinha ficado pra trás.
– Eu achei melhor. Estou sentindo uma dor chata na perna, não ia dar pra ficar fazendo trilha o dia inteiro com as meninas. – Menti. – Houve alguma coisa?
– Nada, só checando se tá tudo em ordem. Se a perna piorar e você precisar de atendimento médico, me avisa, ok?
– Claro. – Respondi com um sorriso.
– Tenho analgésicos também, só pedir se precisar.
Depois do processo demorado que levava para preparar os boboties, eu ajudei a colocar os acompanhamentos para que todos se servissem. Ia colocar meu prato quando vi quem estava entrando no refeitório. Achei melhor fingir que a minha mente não estava em ordem e, mesmo com Giorgian do meu lado na fila para colocar a comida – o que eu sabia que podia acontecer a qualquer instante porque, afinal de contas, ainda estávamos alojados no mesmo lugar–, segui com a postura de que tudo estava bem. Peguei minha comida e fui comer na cozinha mesmo, enrolando todos que perguntavam sobre o motivo daquilo.
Disparei para o quarto assim que terminei, tive a cara de pau de deixar meu prato sujo na pia e sair praticamente correndo. Um banho? Uma soneca? Um seriado? Todas as soluções pareciam inúteis para mim, nenhuma delas parecia minimamente que poderia dar certo. A repentina proximidade com ele não estava nos meus planos e colocou-me irritadiça novamente.
Eu pensei que a mente esvaziaria se eu ficasse por ali, mas o que mais fiz foi preenchê-la com todo e qualquer tipo de futilidade – no sentido ruim da palavra – que estava ao meu alcance. Eu precisava apelar para a minha carta na manga: mamãe. Mandei uma mensagem, perguntei se ela tinha disponibilidade para uma chamada de vídeo e, poucos minutos depois, eu estava atendendo sua ligação pelo Skype, vendo-a energeticamente acenar do outro lado da câmera.
– Oi, mãe!
Oi, meu bebê! Como estão as coisas por aí, meu amor?
– Estão bem, e com a senhora?
Tudo está certo por aqui. – Ela falou e sorriu. – Vou pra sua tia na semana que vem, ficar um tempo lá com ela e as crianças.
– As crianças que já são adolescentes, quase mulheres feitas? – Brinquei sobre minhas primas.
Ah, nem me lembre disso. Cada vez que penso no tanto de tempo que passou desde que você e sua irmã nasceram, eu sinto que nascem mais cinco mil fios de cabelo branco na minha cabeça.
– Deixa de ser exagerada, madame... – Revirei os olhos. – A senhora vai dirigindo, de ônibus ou de avião?
De avião, consegui uma promoção boa e custou poucas milhas.
– Que bom então.
Por que você não saiu com sua irmã?
– Como assim?
Ela acabou de postar uma selfie com lia) e . Você não estava na foto, então concluí que não foi junto.
– Ah, eu não tava me sentindo muito bem quando elas saíram.
O que foi? Algo que você comeu?
– Provavelmente.
O que você comeu ontem?
– Pizza.
Ah, então foi o queijo, com certeza. Os hábitos higiênicos daí não são tão bons quanto os nossos. Não que os nossos sejam perfeitos, né, mas...
– A senhora deve estar certa. – Murmurei.
Mas por que eu ainda sinto que tem algo tristonho nesse seu rostinho lindo?
– Não é nada, mãe.
É um garoto?
– Não, mãe! – Gritei.
Você negou rápido demais... – Ela estreitou os olhos. – Não é o Tomás, é?
– Não, mãe, ele é página arrancada da minha vida. – Frisei a palavra.
Então o que é? Fala pra mamãe.
– Mãe, de verdade, eu não... – Fiz uma pausa na frase, desviei o olhar da tela e suspirei. – É sério, não é nada.
Sabe que mãe sempre sabe quando os filhos estão mentindo, não é? E não venha bancar a advogada pra cima de mim, senhorita, que essa sua lábia não cola comigo.
– Estou sendo julgada agora?
Você quer ser julgada?
– Desde quando isso passou de uma conversa amigável para uma inquisição?
Desde quando você insiste em mentir pra sua mãe.
– Não vou ter essa discussão com a senhora.
!
– Eu acho que vou tomar um banho, mãe.
Não foge de mim.
– Não to fugindo, – Falei. – só vou tomar um banho, ok? A senhora me viu. Não era isso o que nós duas queríamos?
Queria que você falasse comigo.
– Tá tudo bem, mãe, relaxa.
É difícil assim, né, ? – Ela bufou do outro lado da tela. – Mas ok, você que manda.
– A gente se fala.
Sim, claro. Só não se esqueça de que eu te amo, viu? E que seja lá o que você estiver passando, pode conversar com a mamãe a hora que for, sempre que precisar.
– Ok, mãe, obrigada.
E não se esqueça que, não importa o que aconteça, você deve seguir o que seu coração tá dizendo.
– Pode deixar. Eu vou indo.
Dê um abraço na Charlotte por mim.
– Claro.
Eu te amo, meu bebê.
– Também te amo, mãe. – Falei e desliguei.
Fui para o banho com uma decisão tomada. Algo precisava ser feito sobre aquilo e eu não deixaria nenhum dia a mais passar sem agir como a adulta que era.


Continua...



Nota da autora: Eu sou completamente louca e estou me metendo em outro desafio. Se você passou por aqui, não se esqueça de deixar um comentário aqui embaixo!





PARA ACOMPANHAR GRUPOS NO WHATSAPP, NO FACEBOOK E PERFIL NO INSTAGRAM, COM INFORMAÇÕES EXCLUSIVAS E PRIORITÁRIAS, CLIQUE NOS ÍCONES ABAIXO:



Existem dezenas de fanfics minhas, com temas variados, no site. Dentre eles, posso citar Supernatural, Henry Cavill, McFLY, BTS... Confira tudo na minha página de autora, que você acessa clicando aqui.



comments powered by Disqus