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Única atualização em 05/12/2019

Capítulo Único

A multidão já estava começando a dispersar e, enquanto isso, nós seguimos para o nosso ônibus. Eu estava tão distante que mal escutei quando Gabriel anunciou, a plenos pulmões, que a derrota do Palmeiras para o Grêmio estava confirmada. Todo mundo estava gritando, pulando, os celulares nas mãos filmando tudo de dentro do ônibus.
– Qual é, Arrasca? Não tá feliz?
– Não é nada disso, Rodi.
– Então o que é?
Dia 24 de novembro de 2009. A festa de fim de ano do Defensor Sporting estava sendo sensacional. O ano tinha sido bom, principalmente com a conquista da Clausura e do Bombonerazo. Ninguém tinha eliminado o Boca Juniors na Bombonera. Fomos eliminados pelo Estudiantes depois? Até fomos. Mas o feito sobre o Boca era suficiente para comemorar. Então a nossa diretoria decidiu fazer uma festa para comemorar o sucesso da temporada. Nós dois tínhamos quinze anos, mas eu juro que olhei nos olhos dela aquela noite e disse que ia ficar com ela pelo resto da minha vida.
Meus colegas diziam que eu era maluco de me meter com a filha de um dos diretores, ainda mais sendo da categoria de base ainda. Eu não me importava. Apenas olhava para e pensava que ela era a mulher mais linda que eu já havia visto na vida. Ela perdia até para as minhas revistas adultas que escondia dos meus pais embaixo da cama.
era a felicidade em pessoa. Tinha sempre um sorriso no rosto e não faltava com simpatia nunca. Ela era brasileira, tinha ido para o Uruguai com os pais porque o pai havia conseguido a vaga de diretor no departamento de Relações Públicas do time. E abençoado foi o momento em que o destino a trouxe direto para mim.
Quase cinco anos depois, mais precisamente no dia 29 de abril de 2014, eu me ajoelhei aos seus pés após marcar um dos gols que permitiu que o Defensor fosse aos pênaltis contra o The Strongest e se classificasse para a as quartas de final da Libertadores. Nós dois tínhamos dezenove anos no dia, nossos pais entraram em desespero. Mas eu sabia que ela era a pessoa certa.
Ao final da temporada daquele ano, começaram as negociações e eu descobri que estava para sair do Defensor. Nós nos casamos em Montevidéu às pressas e, contra a vontade dos nossos pais, eu a levei comigo para o estado de Minas Gerais no início de 2015, quando fui contratado pelo Cruzeiro. era flamenguista doente, mas esteve ao meu lado durante todos os jogos. Nunca faltou um jogo sequer! Viajava junto, se sacrificava comigo, me motivava de um jeito surreal e foi parte essencial no me desempenho contra o seu próprio time em 2017.
Foi a primeira vez em que achei que tinha quebrado seu coração. Eu marquei contra o seu time em pleno Maracanã no primeiro jogo da final da Copa do Brasil daquele ano. No jogo de volta, no Mineirão, eu frustrei todas as tentativas do time dela de chegarem ao gol. Quando eu vi a bola vindo na minha direção no rebote, eu cheguei a pensar em não marcar, mas eu era profissional e entendia isso. Foi um gol feito.
Eu só fiz dois gois contra o Flamengo da . Um deles nos deu a Copa do Brasil de 2017. O outro, tirou eles da Libertadores de 2018. Quando eu fui procurá-la após o jogo de 2017, que vencemos nos pênaltis, ela pulou no meu colo e me deu um dos beijos mais deliciosos que eu já recebi na vida. Enquanto a festa continuava, ela olhava para o elenco do seu time do coração com um pesar no rosto, mas não me negava um sorriso sequer quando eu olhava para ela.
Era de se imaginar que fosse enlouquecer quando eu lhe contasse que o seu time estava interessado em mim. Não ia assumir nunca, mas só aceitei a proposta, a princípio, por ela. Meu primeiro gol com a camisa do Flamengo foi na minha quarta partida e foi uma goleada de 4x0 em cima do Cabofriense. Um jogo merda, eu sei, mas ficou maravilhada. Então veio mais um contra o Vasco, e esse ela comemorou até perder a voz. O terceiro também foi contra o Vasco, quase na última jogada, que nos garantiu o empate e a chance de ganhar a Taça Rio nos pênaltis. A cada jogo – e agora ela viajava com muito mais entusiasmo –, me enchia de elogios incríveis. Ela me deu o apelido de “maior garçom do Brasil” por minhas participações em assistências. me fez acreditar mais em mim.
Eu tinha acabado de conquistar o título mais alto da minha carreira e, em vez de descer do avião e seguir para a minha casa com a minha mulher, que viajou até o Peru só para me ver jogar – tudo bem, não foi só para me ver jogar, foi como torcedora fanática que era também –, fui com os meus colegas para o centro da cidade do Rio de Janeiro para comemorar em cima de um trio elétrico. Nós sabíamos bem que poderíamos conquistar o título nacional ainda naquela tarde. E não me entenda mal, eu estava feliz. Estava particularmente feliz por fazer parte daquela conquista, sabia que aquilo me valorizaria muito como jogador. Mas eu só queria a naquele momento.
– Falta muito tempo pra gente chegar? – Perguntei a Tannure, um dos nossos médicos.
– Cara, parece que teve um acidente ali perto do Alvorada, tá tudo parado.
– Merda...
– O que houve?
– Diego! – Chamei meu companheiro de time, deixei meu assento e fui até ele. – Você sempre tá sendo o rei do romantismo com a sua mulher. Onde eu consigo floricultura aberta a essa hora?
Ele arregalou os olhos e parou a festa por um instante quando me ouviu.
– Como assim? Você sabe que estamos num domingo e que são seis horas da tarde?
– Diego, por favor, me ajuda.
– Ah, tem a do Barra Shopping! Você sabe onde fica aquele restaurante oriental, Benkei? É quase de frente.
Abri o celular, comecei a pesquisar e consegui o nome da loja. Achei um perfil no Instagram, que me levou a um site, que me levou a um número de WhatsApp. Mandei uma mensagem desesperada. Comecei a bater pé dentro do ônibus, tentando conter a ansiedade. Pelo menos, a resposta da empresa veio rápida. Perguntei sobre as flores disponíveis e, após processar as informações na resposta que recebi, pedi que preparassem o buquê de girassóis mais bonito que eles já tivessem visto.
Nós levamos cinquenta minutos até o nosso centro de treinamento. Mal desci do ônibus e saí correndo até o meu carro. Foi quando lembrei de que tinha bebido e não ia ter como dirigir. Olhei para trás, considerando pedir ajuda a meus companheiros, mas não tinha uma pessoa sequer ali que estivesse sóbria. Merda...
Pedi um Uber, não teve jeito. Levou cinco minutos até que o carro solicitado chegasse para me buscar. Ofereci uma boa quantia em dinheiro a mais para que ele me esperasse dentro do estacionamento do shopping enquanto eu não saía. Entrei correndo e, por sorte, a entrada era justamente próxima à loja da Kopenhagen. Peguei um pacote de bombons sem olhar o preço e corri para a loja que Diego havia me indicado. As pessoas me olhavam como se eu fosse um maluco, mas eu não me importava. Entrei na loja quase ofegando.
– Oi, eu acabei de reservar um buquê com vocês pelo WhatsApp.
A funcionária da loja arregalou os olhos quando me viu.
– C-Claro, já e-estamos terminando.
– Vocês têm cartão? Pra escrever nele?
– Temos s-sim.
Ela me estendeu algumas opções e eu escolhi um com capa vermelha, a cor favorita dela, e o interior com detalhes dourados. Percebi que minhas mãos estavam tremendo quando peguei na caneta para começar a escrever.

, eu sou péssimo com palavras e sei que você odeia isso em mim.
Mas saiba que meu amor por você simplesmente não pode ser colocado em palavras.
Espero que você continue me dando a chance de te fazer a mulher mais feliz do mundo todos os dias.
Você é o meu tudo.
Eu te amo.”


– Que merda... Vai ter que dar.
– Ela vai gostar, senhor. – A funcionária assustada disse para mim com um sorriso incerto e um buquê enorme nas mãos.
Paguei e saí correndo ao encontro do carinha legal do Uber que aceitou me ajudar com a minha loucura. Que tipo de marido eu era? Dez anos atrás, nós tínhamos dividido nosso primeiro beijo e era isso que eu fazia? Deixava que ela fosse para casa enquanto eu ia festejar? Ah, mas não era só isso, depois eu a levaria até a festa do time. Grande coisa! E se não fosse isso que ela queria? Deus, eu só não queria decepcionar a minha .
O trânsito do shopping até a frente do meu prédio não estava muito ruim, pelo menos. Eu entreguei duzentos reais ao motorista, que recusou.
– Vai fazer sua mulher feliz. – Ele disse. – E continua jogando do jeito que você jogou ontem.
Hesitei, abri um sorriso de agradecimento e joguei os duzentos reais no banco do carona enquanto saía correndo. O porteiro não demorou para destravar o portão e eu disparei para o hall do prédio. Apertei o botão do elevador umas cinco vezes seguidas mas, quando ele mostrou por tempo demais que estava no décimo andar, eu desisti e fui para as escadas. Se eu não trabalhasse com o meu condicionamento físico, teria infartado no meio daqueles degraus. Eu me atrapalhei todo com a chave na hora de abrir a porta e, com o coração na boca e medo de estragar o buquê e a embalagem de bombons, dei de cara com , usando uma das minhas blusas favoritas e um micro short pelo qual eu era apaixonado, sentada no sofá da sala e assistindo a uma reportagem sobre a nossa comemoração no centro da cidade. Quando virou para mim, seus olhos brilharam.
Não houve uma troca de palavras sequer. Eu deixei o buquê com cuidado em cima do aparador que ficava ao lado da porta, junto com os bombons, e fui até ela, que se levantou para me receber. Eu me sentia surrealmente feliz dentro daquele abraço. Era como se cada um fosse melhor que o outro, como se me desse mais certeza ainda do quanto ela me amava. Não pensei duas vezes e virei seu rosto para o meu. Não havia uma vez sequer que um beijo entre nós dois era simples. Aquela mulher era perfeita em cada pedacinho dela.
– Você lembrou! – disse, a voz embargada e o rosto escondido no meu peito.
– Desculpa ter te deixado aqui sozinha. Eu fui um idiota e...
– Deixa disso, não tem nada pra perdoar. Você conquistou isso tudo, era seu o direito de comemorar.
– Mas é o nosso dia, .
– Não importa. – Ela disse e ergueu o olhar para o meu. – É o seu dia também. E eu to tão feliz por você, meu amor...
Entrelacei meus dedos nos dela e ergui sua mão até a minha boca para que eu pudesse beijar os nós dos seus dedos.
– Lembra que você disse que não acreditava em mim?
– Como assim? – ergueu uma sobrancelha.
– Quando eu disse, há exatos dez anos, que você era a mulher da minha vida.
Ela deixou uma risada gostosa escapar, algo que sempre me contagiava.
– Você acreditou mesmo nisso? – Ela deixou um beijo na ponta do meu nariz. – Você me ganhou muito antes de abrir a boca pra mim. Eu só quis me fazer de difícil pra ver se você fisgava o meu anzol de um jeito que não soltasse mais.
– Então tenho uma má notícia. – Brinquei.
– Qual?
– Você não sabe pescar, porque eu já não tinha mais como fugir de você naquela época.
Dei impulso para que subisse no meu colo. Ela entrelaçou as pernas na minha cintura e, sem parar de beijá-la por um segundo, fui nos guiando até a nossa cama. Coloquei seu corpo no colchão com cuidado, sobre o meu. Ela sorriu para mim, o meu sorriso, aquele que me quebrava e derretia por completo.
– Você quer falar alguma coisa. – Deduzi.
– Engano seu.
– Eu duvido. – Beijei seus lábios mais uma vez e, então, desci para o pescoço. – Vou te provocar até você falar.
– Nós temos que nos aprontar pra festa.
– Deixa essa festa pra lá. Eu deveria ter te priorizado desde sempre, o dia deveria ter sido inteiramente nosso.
– Mas eu já chamei a Michelle pra vir fazer meu cabelo e maquiagem. – falou, passando os dedos suavemente pelo meu cabelo. – Inclusive, ela deve chegar a qualquer momento.
Revirei os olhos, saí de cima dela e deitei ao seu lado.
– Desculpa, é tudo culpa minha.
– Não é culpa sua, meu amor. Vocês conquistaram algo incrível, é seu direito celebrar.
– Eu preferia celebrar apenas você.
– Mas você celebrou. – Ela disse e deitou de lado para me olhar. – Você me celebrou durante esses dez maravilhosos anos. E, meu amor, você vai ter muito mais que dez anos pela frente pra celebrar.
– Mesmo se eu sair do Flamengo?
– Mesmo se você sair do Flamengo.
– E se eu for pra Europa? Você me segue?
– Claro que eu te sigo, Arrasca. Pra onde você for. Você sabe que eu amo o Flamengo desde nova, mas você é a minha vida e o amor que eu sinto pelo Flamengo pode ser do tamanho do mundo, mas o amor que eu sinto por você é do tamanho do universo.
– Jura?
– É claro que eu juro. – aproximou o rosto do meu e me deu mais um beijo. – Aliás, o que eu tinha pra falar era...
– Eu sabia! – Acabei a interrompendo, sentando imediatamente na cama.
começou a gargalhar e se sentou ao meu lado.
– Eu também tenho um presente pra você.
– Verdade?
– Não é tão charmoso quanto o seu, mas eu sabia que não poderia deixar nosso marco de dez anos juntos em branco. E já vou avisando logo que estou estendendo como presente das nossas bodas de madeira também.
– Tem que ser muito bom, hein!
– Eu realmente espero que você goste a esse ponto.
Ela sorriu gentilmente, foi até o nosso closet e voltou de lá com uma caixa pequena em mãos. Eu tentei tomar a caixa da mão dela, mas hesitou e segurou o pacote com um pouco mais de entusiasmo.
– Arrasca?
– To aqui.
– Você me ama? – Ela perguntou.
– Como assim?! É claro que eu te amo! Você ainda tem dúvidas?
engoliu em seco, o que me deixou incomodado. Seus olhos brilhavam diferente agora, quase como se ela fosse chorar. Se tinha uma coisa que eu odiava era ver os olhos que eu tanto amava derramarem lágrimas.
– Aconteça o que acontecer, não se esqueça do quanto eu te amo.
Ela finalmente soltou a caixa e a deixou em minhas mãos. Afastou-se e sentou na cama, como se fosse para me observar de um ângulo melhor. Abri a caixa e comecei a desenovelar o papel de seda que embrulhava seja lá qual fosse o tal presente. Quando terminei, senti o coração tentar pular para fora do meu peito. O objeto comprido marejou meus olhos.
– Isso é...
– Feliz dez anos juntos, papai.
Duas horas depois, naquela mesma tarde, eu a observava terminar de se arrumar contra o espelho. Michelle, sua amiga e maquiadora profissional, deixou o apartamento quando eu terminei de abotoar minha camisa. veio até o closet e, sem nem olhar para mim, pegou o vestido que tinha separado mais cedo. Eu adorava aquele em particular. Sentei no banco que tínhamos para calçar sapatos e, enquanto ia colocando meu tênis, demorava quatro vezes o tempo necessário porque estava com o olhar todo dedicado à minha mulher. Minha esposa. Aquela cor que ela chamava por um nome estranho mas eu insistia em dizer que era rosa misturado com vermelho ficava simplesmente deslumbrante nela. E conforme ia ajeitando o vestido no seu corpo, eu tinha cada vez mais certeza de que havia feito a escolha perfeita para mim quando, naquela festa, dez anos antes daquele dia, eu disse a ela que a faria minha para sempre.
Nunca uma promessa foi tão gostosa de se cumprir.


Fim.



Nota da autora: Só queria lembrar que promessas estão sendo cumpridas!!! Hahahahah Muito obrigada a você que leu até aqui e, caso se sinta confortável, dê uma olhada aqui pra baixo que, com certeza, tem algo que possa te agradar :)





TODAS AS FANFICS DA AUTORA:

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Aqueles Malditos Olhos Verdes [Jensen Ackles - Em Andamento]
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