Última atualização:20/05/2020
Contador:

Prólogo

Eu não queria estar ali e podia sentir claramente que a jovem do outro lado da mesa também não estava confortável com a situação. “A jovem”... A garota tinha a mesma idade que eu. Estar naquela posição era realmente horrível para mim, em todos os sentidos. Mas Harry, como meu gerente, me obrigava a estar em toda e qualquer entrevista de trabalho. Eu só queria gritar a plenos pulmões que não suportava mais aquilo tudo.
– E então, senhorita , preciso fazer a pergunta de ouro... – Harry abaixou os papeis e sorriu para a garota. – Por que devemos contratá-la?
Se ela não estava desconfortável antes, a cereja do bolo tinha acabado com ela. Provavelmente, desapareceria em um piscar de olhos se pudesse.
– Senhor Judd, senhor ... – Ela deu de ombros e se encolheu ainda mais. – Olha, eu realmente preciso do trabalho. Pra ser sincera, nem queria estar aqui e – Ao menos, temos algo em comum, a sinceridade ao extremo. – não sou de fazer coisas contra a minha vontade. Mas eu preciso. De verdade. E posso comprovar que sou capaz de transformar minha necessidade em produtividade para vocês.
– Por que você insiste tanto em precisar da vaga? – Perguntei sem ao menos perceber. – Qualquer um, na teoria, que vier até aqui precisa.
Ela ajeitou o cabelo, mais encolhida ainda, se era possível.
– É assunto pessoal, senhor .
Odiava ser chamado daquele jeito.
– Ok, Harry, – Finalizei a tortura de nós dois. – acho que temos o que precisamos. Entramos em contato para dar uma resposta, senhorita .
Ela assentiu, ofereceu a mão para um breve cumprimento e agradeceu a nossa atenção. Harry colocou a pasta dela na segunda gaveta e puxou outra pasta.
– Tá brincando...
– Não to não.
– Quantas ainda temos?
– Sete até o final do dia.
– É mesmo necessário que eu esteja aqui?
– Você é o patrão, , é obviamente necessário que você esteja aqui sim.
– Eu não aguento mais... – Murmurei.
– Senhorita Field! – Harry gritou ao meu lado. – Pode entrar, por favor.
Sophie Field era uma loira de farmácia que entrou com um chiclete na boca e atendeu uma ligação no meio da entrevista. Fora. Ruby Brennan usava muitas gírias, encaixou três palavrões na nossa conversa e, ainda por cima, sugeriu mudar a decoração. Fora. Courtney Morgan veio com um decote tão chamativo que me deixou desconfortável, além das unhas de quase dez centímetros de comprimento. Fora. Maya Middleton dominou a conversa toda, praticamente não permitindo que fizéssemos quaisquer possíveis perguntas, inclusive nos questionando em alguns momentos. Fora. Eloise Ashton era tímida demais, respondeu às perguntas com palavras curtas e monossilábicas, parecia ter algum tipo de transtorno que demandava tratamento e, muito embora estivéssemos dispostos a investigar mais a ruiva e pensar em dar uma chance a ela, descobrimos que estava mentindo no seu currículo. Fora. Isobel Ferguson conseguia ser mais prepotente que Middleton e reclamou de diversas partes nos critérios de preenchimento para a vaga, principalmente enfatizando que não trabalharia por menos que o dobro da quantia mensal oferecida. Fora.
Paige Holt foi quem mais se aproximou do que precisávamos, embora tivesse uma tatuagem enorme no pescoço que subia para o rosto. Eu não podia falar nada, tinha belas – não tão belas assim – tatuagens que talvez removeria se tivesse a chance. E era por isso que eu tentava evitar camisetas ou blusas de manga curta quando estava na pousada. Era um ambiente de trabalho, profissional, clientes podia se sentir desconfortáveis e... Quem eu estava querendo enganar? Meu cabelo era tudo, menos profissional. Cacete, eu estava realmente no fundo do poço, mergulhado em uma completa bagunça.
– Você vai contratar a menininha ingênua. – Harry disse quando a última saiu.
– Por quê?
– Porque te conheço desde que éramos crianças, não se esqueça disso.
– Ingenuidade nem sempre é bom quando se lida com clientes.
– Não é só esse o ponto. – Harry puxou de novo uma pasta da mesa de meu escritório, as letras garrafais do lado de fora. – Ela mora perto, então há menor chance de imprevistos que a impeçam de vir ou causem atrasos. Fez dois anos de Direito em Oxford e teve bom desempenho nas disciplinas, o que significa que inteligente ela é. Não tem filhos, não tem namorado...
– Ela pode ter mentido sobre isso.
– Você realmente acha que ela mentiu?
Revirei os olhos e olhei para o mar através da minha janela.
– Claro que não.
– Então você vai contratá-la.
– Você tá me dando uma ordem?
– Eu?! – Ele disse e pegou sua mochila no chão, junto ao pé da mesa. – De jeito nenhum. Estou apenas constatando o óbvio.
Fiz um som com a boca sem nem mesmo entender qual era a minha intenção com aquilo. Pelo reflexo do vidro, vi Harry se aproximar da porta.
– Precisa de mais alguma coisa?
– Não, pode ir pra casa. Além do mais, já deu o seu horário.
– Você tem certeza? – Harry insistiu. – Eu posso ficar se você não estiver bem, só preciso passar em casa pra avisar a Izzy e...
– Eu estou bem, Harry.
– Ok então. – Ele levantou as mãos como alguém que está se rendendo. – Me liga se precisar de alguma coisa.
– Pode deixar.
Continuei ali, olhando pela janela do quarto que havia sido meu desde que me conhecia por gente. Um ar saudoso invadiu meus pulmões. Eu nem percebi quando peguei o telefone fixo e comecei a discar o número que estava no papel.
– Alô?
– Senhorita ?
– Eu mesma.
– Aqui é , da pousada Parsons.
– Ah, – Ela derrubou alguma coisa do outro lado da linha. – olá, senhor . Ficou alguma coisa pendente?
Olhei para o mar uma última vez, torcendo para Harry estar certo.
– Você pode começar amanhã? – Eu disse a ela.
Um silêncio definitivo tomou conta da ligação por longos segundos.
– Senhorita ?!
– Claro. – Ela falou, rápido demais. – Posso sim.
– Ótimo então, fico feliz. Esteja aqui às sete, por favor.
Acho que ela pensou ter desligado a ligação, mas consegui ouvir um grito bem feminino do outro lado enquanto abaixava o telefone em direção ao gancho. Ri sozinho enquanto ajeitava a bagunça sobre a mesa. O retrato dos meus pais, logo à esquerda, quase me observava.
– Estou fazendo isso por vocês dois. – Murmurei, mesmo sabendo que eles nunca mais escutariam.


Capítulo 01

Acordei com o despertador do celular e, pela milésima vez só naquela semana, tive vontade de jogar o aparelho pela janela. Chequei as horas e me perguntei em seguida o porquê de estar acordando às seis da manhã. Então lembrei de que tinha uma nova funcionária pra treinar.
Levantei da cama e fui para o banheiro tomar um banho correndo. Escovei meus dentes, acertei o cabelo para que parecesse um pouco menos bagunçado e enfiei o celular no bolso da calça jeans. Estava indo para a cozinha quando vi passando pela porta de entrada. Olhei o relógio de pulso e estranhei.
– Bom dia. – Eu a cumprimentei. – São seis e meia ainda, você chegou bem cedo.
– Bom dia. Perdão, eu não queria correr o risco de me atrasar. Posso esperar lá fora, se o senhor quiser.
– Não precisa dessa formalidade toda comigo, temos a mesma idade.
– Mas o senhor é o meu patrão, então...
Revirei os olhos longe da vista dela.
– Estou indo tomar café. Gostaria de me acompanhar? É bom que você já conhece a cozinha.
– Claro. – Ela murmurou, segurou sua bolsa com mais força e eu notei que a menina estava uma pilha de nervos.
Podia jurar que me arrependeria daquilo, mas acabei me aproximando dela inevitavelmente.
– Ei, fica tranquila. Isso aqui não é um bicho de sete cabeças, você vai tirar de letra.
tentou abrir um sorriso e assentiu.
– Quer deixar sua bolsa no armário? Ninguém mexe mas, se você não se sentir confortável, pode deixá-la no meu escritório também.
– Pode ser no armário.
Mostrei à menina quase sem voz a recepção no hall de entrada da casa. Ela aproveitou para deixar sua bolsa no armário logo abaixo da bancada. Utilizei o tempo ali para mostrar, por alto, como funcionava o esquema das chaves e pagamentos, prometendo deixar Harry mostrar a ela o funcionamento do sistema de reservas. Seguimos para a cozinha, e eu peguei uma maçã da fruteira logo na entrada.
– Pode ser que você seja solicitada aqui, eventualmente, conforme necessário, ok? Mas não se preocupe que as tarefas difíceis têm seus responsáveis. Se precisarem de ajuda, você será a responsável por esquentar alguma coisa no micro-ondas ou cortar cebolas, nada demais. Alguma dúvida até aqui?
– Não, senhor.
– Ali atrás, fica a dispensa, onde guardamos as compras para a cozinha, mas eu sempre peço para manterem organizada, então não tem nada a ser observado. Você terá tempo pra conhecer essa parte. Pode ser que um hóspede peça, por exemplo, uma garrafa de água ou um copo descartável, e é dali que você vai tirar. Falei rápido demais?
– Não, senhor, está tudo bem.
– Ok então, podemos ir até o depósito.
Eu mostrei a ela o porão, onde havia a lavanderia e as incontáveis prateleiras que abrigavam lençóis, cobertas, travesseiros, toalhas, cortinas, xampus, sabonetes e todos os outros tipos de materiais que pudessem ser necessários para os quartos. Junto da estante, uma porta que levava para o “armário” de limpeza, um cômodo minúsculo que continha todo o necessário para manter os padrões que meus pais gostariam que eu mantivesse por lá. E foi de lá que eu escutei o meu nome ser chamado pelo primeiro funcionário que chegava sempre.
Harry.
– Bom dia, senhorita , bom vê-la aqui.
– Bom dia. É igualmente bom estar aqui, senhor Judd. – Ela o cumprimentou.
– Por favor, só Harry basta.
– Bom dia, meninos! – A voz alegre de Lara veio da porta de entrada. – Opa, temos gente nova.
– Lara, essa é a . Ela vai ajudar a gente com a saída do Tom e da Patty.
– Olá, , é um prazer.
Lara, como sempre energética, se aproximou de para dar a ela um abraço caloroso. Eu assisti, do meu lugar, em silêncio, enquanto a menina ficava mais desconfortável ainda. Era bem claro que ela não queria estar ali, ou então estava realmente muito assustada. Mas não importava, eu realmente acreditava que ela era a melhor opção disponível e que não faria nada por mal entre a gente.
, se importa se eu a levar comigo pra me ajudar com os preparativos pro café da manhã? – Lara perguntou. – É claro, se você quiser, .
– Sem problemas. – Ela respondeu.
– Então, por mim, tá tudo ok. Se precisar de algo, , eu estarei em meu escritório. Ou você pode procurar o Harry por aqui. Acho que, por hoje, seria bom que você ficasse com Lara na cozinha, pra começar a aprender como as coisas tocam por lá. Lara, depois a apresente pros outros funcionários e a ajude com a questão dos quartos. Pode ser?
As duas assentiram e foi praticamente carregada por Lara na direção da cozinha. Eu me virei para Harry, que tinha um sorriso irônico no rosto.
– Podemos conversar? – Ele perguntou.
Apontei na direção do escritório e ele foi na frente. Quando passamos pela porta, girei a chave na fechadura.
– E então? Do que se trata?
– Os advogados ligaram pra mim essa manhã. Disseram que não conseguiram falar diretamente com você.
– Merda... Acho que tirei o telefone do gancho e não lembrei de colocar de volta.
– Tudo bem, isso não vem ao caso. Mas temos um problema.
– Outro?!
– É, outro. – Harry sentou na poltrona de frente para a minha mesa. – Os dois pombinhos estão nos processando.
Eu despenquei na minha cadeira e coloquei a mão na cabeça.
– Tá brincando, né?
– Eu queria.
– Com base em quê?
– Patty afirma que as funções atribuídas a ela eram sexualmente discriminatórias.
– ‘Sexualmente discriminatórias’? Isso sequer existe?!
– Aparentemente... E Tom alega que não teve direito às férias.
– Como não? Nós conversamos várias vezes a respeito disso, ele sempre deixava pra depois e... – Passei a mão no cabelo, sabendo que ia por água abaixo toda e qualquer tentativa de ajeitar aquela merda mais cedo. – Ah, cara, você tava presente nas conversas, além de eu ter registro de mensagens no celular também.
– Eu sei. Quanto a ele, não estou nem um pouco preocupado.
– Esse filho da puta sabe da nossa condição. Ele sabe que a gente tá indo de mal a pior. Qual a intenção dele em fazer uma merda dessas?
, calma, se estressar não vai levar a lugar nenhum.
– Bem, ficar calmo também não tá levando! – Eu gritei e soquei o tampo da mesa, me arrependendo logo em seguida, sob o olhar de um Harry que estava contendo uma risada. – Eu não fiz nada disso.
– Como eu disse, , eu sei. Mas a gente vai precisar enfrentar as consequências, é nisso que dá ter funcionários e não tem como você fazer tudo por aqui. Aliás, falando em funcionários, como está a novata?
– Bem. – Respondi. – Chegou meia hora mais cedo que o planejado hoje. Ainda tá com medo de tudo, mas...
– Ah, ela tá com a Lara, o medo vai passar já.
– Ou vai piorar, né?
Olhei para o retrato dos meus pais enquanto Harry ficava pensativo.
– Já fez a lista de compras do mês? – Ele perguntou. – Acho que seria bom irmos logo, tá chegando a época da carne ficar mais cara.
– Fiz ontem à noite. Achei melhor esperar pra dar uma conferência com os funcionários antes de te mandar às compras. Vou esperar o movimento do café da manhã passar pra fazer isso.
– É bom.
– Chegou mais um quarto ontem à noite, depois que você saiu. Um casal que teve problemas em outra pousada, que tá lotada.
– Então temos três quartos ocupados?
– Exatamente.
– Bem, é melhor que dois.
– Mas ainda temos nove vazios.
– Vamos lá, , é primavera ainda. As temperaturas estão baixas, a cidade não tá movimentada...
– Não tá, mas o casal foi recusado em uma pousada com overbooking. – Eu o interrompi. – Harry, eu sei que nós não somos os melhores na área mas, sinceramente, nós também não somos os piores. Nem de longe! Temos uma boa área externa, vista pro mar da maioria das suítes... Nós inclusive temos aquela merda de ‘selo verde’, que não nos trouxe nada até hoje.
– Mas a gente pode colocar nos sites de reserva, é algo a mais.
– Harry, não enche.
Ouvimos duas batidas na porta e Harry se levantou prontamente para atender.
– Ah! Olá, Vicky.
– Bom dia, Judd. ?
– To aqui.
– Hóspede da suíte sete reclamando de vazamento do banheiro.
– Isso não pode ser real... – Resmunguei. – Harry, chame o Oliver pra consertar isso.
– Tudo bem, vou ligar pra ele.
– Não! – Gritei, mudando de ideia imediatamente. – Transfira o hóspede pra suíte oito. É melhor, diga que é um agrado pra suprir o inconveniente. Não temos nenhuma previsão de lotação pelos próximos dias, deixa pra consertar isso depois. Só vá lá e feche o registro.
– Tem certeza?
Os dois me observavam da porta com olhares curiosos. Eu apenas assenti e, logo, os dois se retiraram. Olhei de relance para o infame telefone e o devolvi para o gancho. Que começasse o estresse do dia.
, temos maionese ainda?
– Sim, na dispensa. Sei que tá acabando, tá na lista pra próxima compra.
– Beleza então. – Stephen falou. – Já descobriu qual a desculpa dessa vez pro David ter faltado?
– Você fala demais. – Harry nos interrompeu. – Qual o menu do almoço de hoje? Pra eu já colocar a placa na rua.
Dylan saiu da dispensa com um saco de batatas nas mãos.
Fish and fries! – Ele gritou. – Cadê a novata? Ela seria muito boa pra ajudar a descascar isso aqui.
– Tá com a Lauren, ela tá mostrando como fazer a arrumação dos quartos de acordo com os nossos padrões.
– Mas não tem como ela demorar tanto assim, né? Nem hóspede temos!
– Vocês vão continuar falando merda até quando, hein? – Elevei a voz. – Façam o que vocês têm que fazer. A novata, que tem nome e é , por acaso, não existia ontem e vocês fizeram o serviço da mesma forma.
– É, mas agora que tem ela...
– Chega, Dylan. Por favor, eu to no meu limite. Preciso de gente aqui que queira ajudar. Vocês querem ajudar? Ótimo. Fiquem e ajudem. Do contrário, vocês viram a quantidade de gente que apareceu por aqui ontem para uma simples entrevista de emprego. Se quiserem cair fora, agora é a hora. Só, por favor, eu estou pedindo encarecidamente pra que vocês façam o trabalho de vocês. Podem reclamar o quanto quiserem quando o expediente acabar, mas preciso que não haja erros por aqui.
Os dois homens deram o assunto por encerrado com uma cara feia. Tia entrou logo depois pela cozinha.
– Desculpa o atraso, meninos, tive problemas com a Sophie.
– Sem problemas, seu marido ligou pra avisar. – Harry respondeu.
Eu fui caminhando sozinho para a área externa, de onde o mar podia ser observado de um ponto de vista melhor. Puxei o celular e pensei em fazer a ligação, mas não queria parecer um covarde àquela altura do campeonato. De qualquer forma, ainda estava muito cedo até mesmo para pensar em desistir.
– “Pedindo encarecidamente”... Meu Deus, nunca pensei que escutaria você falar assim.
– Dá um tempo, Harry. Eu sei que você gosta de fazer piadas, eu sei que você sempre diz que levar a vida com graça é o que pode tornar as coisas mais leves por aqui, mas eu realmente to de saco cheio disso tudo e to doido pra chutar o balde nesse exato momento.
– Ei, – Ele colocou a mão no meu ombro. – eu sei que tá foda, mas você é capaz disso.
– Será que sou? – Perguntei, ironizando. – Sabe do que eu sou capaz? De sentar na porra de uma mesa de escritório e fazer projetos. Eu sou muito bom em planejar design de interiores e deveria ter ganhado um prêmio por isso! Mas sabe o que meus pais escreveram no testamento deles? O apartamento em Londres, pra Elizabeth. O carro, pra Elizabeth. O sítio, pra Elizabeth. E a porra da pousada que já não estava lucrando direito há anos fica pra mim!
Quando terminei de levantar minha voz, notei que não estávamos mais sozinhos. estava com a cabeça baixa, as bochechas coradas e os olhos visivelmente arregalados. Quase pude ouvir a voz de Harry soltar um “parabéns, , assustando a novata”.
– Perdão, , não sabia que você estava aí.
– Tudo bem. – Ela falou, a voz muito baixa. – Naomi teve um problema em casa e pediu pra que eu assumisse a recepção por uns minutos. Ligaram pra fazer uma reserva pro final de semana, um casal com filhos. Eu anotei as informações, passei os dados bancários pro depósito. Mais alguma coisa que eu precise fazer? Ainda não me ensinaram a mexer no sistema.
Olhei para Harry, a frase que eu imaginara certamente estava quase escapulindo de seus lábios.
– Não tem mais nada, , é isso mesmo que fazemos por aqui. Quando Harry puder, ele te mostra como funciona o sistema. Anota as informações num pedaço de papel e deixa em cima da minha mesa, por favor, pra eu ficar de olho se o depósito vai cair.
Ela assentiu e saiu a passos largos de perto de nós.


Capítulo 02

Não era a primeira vez em que pousada ficava completamente vazia desde que eu assumi os negócios, infelizmente. Por conta disso, eu estava sem compromissos. Izzy estava insistindo há semanas para que eu fosse jantar com ela, Harry e as crianças. Eu sempre tinha uma boa desculpa na ponta da língua para negar mas, daquela vez, Harry sabia que não tinha nada me impedindo.
Eu gostava deles. Quando os dois começaram a namorar, eu dei a maior força para Harry. Ele foi o único namorado sério dela e ela, a única namorada séria dele. Era o casal que eu mais admirava no mundo. Apesar de todos os problemas, eles sempre estavam inabaláveis. Quando as crianças chegaram, o pacote só melhorou. Harry sabia que eu era apaixonado pelos filhos dele e minha maior diversão no mundo era quando eles davam as caras na pousada.
Vesti o básico, uma calça jeans, camisa branca e jaqueta de flanela quadriculada por cima. Era difícil ter a chance de usar roupas mais descontraídas, então decidi aproveitar a oportunidade. A casa deles ficava a exatamente um quilômetro da pousada, seguindo pela orla. Como não estava nos meus melhores dias e o tempo estava aberto, decidi que andar talvez fosse me fazer bem.
Desci a rua estreita que levava para a orla com passos curtos. Estava até adiantado, o que era surpreendente. Àquela hora do dia, com o sol já se pondo, era bem bizarro, mas eu me recusava a acreditar que poderia ser perigoso. Foi naquelas ruas que meus pais me criaram e eu fazia aquele caminho todo santo dia desde que me conhecia por gente. Não era a iluminação do crepúsculo que ia me assustar.
Apenas um carro passou por mim, o que foi consolador, porque seria frustrante não ter hóspede mesmo com a estrada movimentada. Logo depois, pude ver o mar novamente da estrada, então desacelerei mais ainda os passos. Sentia falta da agitação de Londres mas gostava muito do mar. Ele me trazia muita calma e era como se pudesse me conectar, de alguma forma, aos meus pais. Passei pela igreja que frequentava quando criança e, um pouco depois da curva dela, cheguei à entrada da casa. Abri a porteira e saí entrando. Só quando cheguei na porta é que fui anunciar a minha presença e toquei a campainha.
– Tio ! – A voz abafada lá de dentro foi seguida pelo som de passos apressados no chão de madeira e, em segundos, Lola, a filha mais velha de Harry e Izzy, estava abrindo a porta para mim. – Oi, tio !
– Oi, princesa! – Eu sorri e a peguei no colo. – Tudo bem com você?
– Tudo bem.
, vai entrando. – A voz de Izzy veio da cozinha.
– Oi, Kit! – Acenei para o mais novo, rindo enquanto estava escondido atrás da parede que levava para a sala.
Chutei os sapatos para que saíssem do meu pé e ficassem no hall de entrada. Fui até a cozinha. Izzy estava com um vestido florido, pés descalços, um avental cinza na frente do corpo e um penteado um pouco bagunçado. Largou a colher de pau dentro da panela ao me ver, tirou o avental por cima da minha cabeça e veio me cumprimentar.
– Ei! – Ela sorriu para mim e me abraçou. – Que bom que você veio. Sente-se, Harry achou que você fosse demorar um pouco e entrou no banho tem uns minutos.
– Sem problemas. – Falei e deixei Lola no chão para que ela fosse brincar com o irmão.
– Desculpa não ter ido na porta, não escutei o barulho do carro chegando, nem vi os faróis.
– Ah, eu não vim de carro.
– Veio a pé?! – Ela perguntou, assustada, recolocando o avental para seguir seu trabalho.
– Vim, é bom pra espairecer de vez em quando.
– Ah, nisso você tá certo.
– Trouxe um vinho. – Levantei a garrafa.
– Obrigada, querido, não precisava.
– Você quer ajuda?
– Não, pode deixar, já tá tudo esquematizado.
– Finalmente! – Harry gritou, descendo a escada da casa. – As crianças já tavam começando a achar que você tinha morrido.
– Menos, Harry. – Izzy ralhou e nós dois rimos.
– Vai uma cerveja pra esquentar?
– Ele trouxe vinho, amor.
– Mas aceito começar com a cerveja sim, obrigado.
Sentei no banco ao lado da bancada principal da cozinha. O notebook de Izzy estava aberto por ali. Izzy era romancista, ganhava a vida escrevendo de casa, o que era conveniente já que tinha duas crianças pequenas em desenvolvimento por perto. Havia um arquivo de texto aberto.
– Escrevendo mais um? – Eu perguntei e apontei para o notebook quando Izzy olhou para mim por cima do seu ombro.
– Esse tá finalizado, na verdade. Estou revisando pra mandar pra editora.
– É sobre o quê?
– Casamento arranjado, herança...
– Parece bom. Me avisa quando sair pra eu poder comprar.
– Pode deixar, eu mando uma mensagem.
Harry me entregou a cerveja e eu agradeci.
– Os advogados ligaram? – Ele me perguntou.
– Sim, mas só pra confirmar algumas informações. Nada novo.
– É melhor que más notícias.
, eu pedi pro Harry te falar... – Izzy começou. – Se estiverem precisando de alguma ajuda lá na pousada, eu posso tentar fazer algo por vocês. As crianças ficam bem tranquilas se tiverem um quarto pra brincar. Você sabe, né?
– Tá tudo bem por enquanto, Izzy, obrigado. A tá fazendo um bom trabalho, ajudando bastante.
– A ?
Até Harry ergueu uma sobrancelha.
– Você a conhece?
– Nossa comunidade não é muito grande, vocês sabem. – Ela disse e limpou as mãos no avental. – Aliás, vocês a conhecem também, só não estão lembrados.
– De onde?
– Da igreja. A mãe dela é Martha , filha da Mary.
– A senhora com Alzheimer?
– Ela mesma, morreu há alguns anos. – Izzy confirmou. – A Martha também não está bem. Eu as vi no hospital, quando fui levar Lola pra uma consulta de emergência por causa daquela gripe que todo mundo pegou. Mas não falei nada. A menina passou muito tempo longe daqui, nem sei se lembra do meu rosto.
– Então era esse o assunto delicado sobre o qual ela falou no dia da entrevista. – Concluí.
– A está indo bem? – Izzy perguntou.
– Muito tímida, mas é boa pessoa. Os hóspedes mais idosos gostam dela.
– Agora tudo encaixa.
Um barulho agudo e rápido ecoou pela cozinha. Izzy pegou duas luvas térmicas e abriu o forno, tirando uma bela lasanha de lá. Colocou sobre a bancada, onde havia um descanso de panela.
– Espero que tenha ficado bom, foi uma amiga italiana que me passou a receita.
– O cheiro tá incrível, meu amor. – Harry disse, a abraçando de lado, e deu um beijo na testa dela.
Quase me deu saudades de Felicity. Quase.
– Vamos comer então? – Izzy falou, animada. – Lola, Kit, vão lavar as mãos.
– Sim, mamãe! – Os dois entoaram.
– Vou precisar lavar também? – Harry brincou.
– É bom, se quiser comer.
Ele riu e foi até a pia.
, pode levar esses pratos pra mesa? – Ela apontou para a louça em cima do mármore.
– Claro. – Respondi e me pus a fazer o que ela havia pedido.
Logo depois, voltei à cozinha e a ajudei a levar taças para nós e copos especiais com suco de morango para os pequenos. Peguei alguns talheres para levar para mesa e dei uma boa olhada ao redor.
– Falta alguma coisa?
– Não, , você já ajudou muito. Obrigada.
Harry voltou com as crianças e nós todos nos sentamos à mesa. Deixei que Izzy colocasse primeiro os pratos dos filhos, já que eles provavelmente levariam muito mais tempo para finalizar a refeição que nós três. Em seguida, ela e Harry fizeram sinal para que eu me servisse. Eu sei que a etiqueta manda que os anfitriões permitam que a visita se sirva primeiro, mas eu não gostava muito dessa regra. Sempre achei que o dono da casa é o dono da casa e ponto final, e Harry sabia bem dessas minhas manias. Mesmo assim, decidi que não ia deixar meu espírito depressivo, rabugento e ranzinza atrapalhar a noite dos dois e me servi logo com um pedaço não muito grande.
– Quer parmesão? – Izzy ofereceu.
– Seria muito bom.
Ela esticou o pote por cima da mesa para mim e eu joguei um pouco do queijo no meu prato, devolvendo-o logo depois. As crianças comiam com sorrisos no rosto, brincando com a comida eventualmente. Harry e Izzy também eram só sorrisos. Aquela cena, em partes, esquentava a minha alma, mas me dava mais saudade do que qualquer outra coisa.
– Onde você vai passar o Natal esse ano, ? – Harry perguntou. – Eu e Izzy estávamos conversando... Os pais dela vão viajar, meus pais também... Se você aceitar, é claro, nós poderíamos ir para a pousada e ficar por lá. Estamos quase lotados pra essa data mesmo.
– Eu gostaria disso. – Sorri.
– Mas só vamos se você comprar um presente pra cada um de nós. – Ele brincou e Izzy deu um empurrão nele. – Especialmente essa aqui. Só aceita joias com três zeros, no mínimo.
– Harry, para.
– Tudo bem, vou ver o que consigo providenciar. – Disse, um pouco divertido com a cena.
Observando os dois, percebi que havia um vazio em mim que eu me negava a aceitar. Não era nada relacionado à falta que meus pais faziam, mas estava óbvio para qualquer um que me conhecesse bem. Provavelmente, para Harry estava tão óbvio que aquele convite para jantar era uma forma de testar se eu estava convencido da existência daquele vazio ou não.
Já estava nos meus trinta e dois anos e tive uma vida interrompida do dia pra noite. Fui criado por uma família tradicional, pai e mãe que se amavam e compartilhavam tudo, vendo uma fidelidade incrível todo santo dia dentro de casa. Em Londres, eu não tinha tempo para pensar nesse tipo de coisa. Acordava trabalhando, dormia trabalhando. Na Cornualha, também não era muito diferente. Eu literalmente vivia dentro do trabalho. Mas havia momentos de paz, onde eu desacelerava por um motivo ou outro. Esses momentos me permitiam pensar e ter desejo de algo que eu não tinha tempo para desejar em Londres: uma família. Trinta e dois anos e eu não tinha uma família.
Se meus pais não tivessem sofrido o acidente, eles me pressionariam e diriam que minha irmã já estava com família estabelecida como argumento. Mas também teriam me feito largar Felicity. Em vida, eles já tinham gastado um bom esforço com isso. A morte deles pareceu abrir meus olhos para um relacionamento fadado ao fracasso como o que eu tinha com ela. Eu gostava, sim, da vida agitada de Londres, mas ainda era um menino da Cornualha.
Estava no meio de uma das últimas garfadas quando meu telefone começou a vibrar no tampo de madeira, fazendo um barulho alto o suficiente para assustar as crianças. Eu tirei o aparelho da mesa imediatamente para cessar o som.
– Desculpa, eu esqueci de desligar.
– Tudo bem, pode sempre ter alguma coisa na pousada, você não deveria desligar mesmo. – Izzy disse para mim. – Pode atender na varanda, se quiser.
Eu sorri sem graça, peguei o aparelho e me levantei. Enquanto caminhava para fora da casa, olhei o identificador de chamadas. Pensei mil vezes antes de atender.
– Oi, Liza.
– Oi, maninho. Como você tá?
– Bem, – Menti. – e você?
– Estamos ótimos. Eu e Luke vamos deixar as crianças com os pais dele e vamos passar uns dias no interior.
– Que bom. – Murmurei, revirando os olhos. – Pra quê ligou?
– Pra saber como vai meu irmão caçula.
– Vou bem, obrigado, já disse. Mais alguma coisa?
...
– O quê?
Ela respirou fundo do outro lado.
– Sabe, não é como se você fosse o único que tem o direito de sofrer.
– Isso nunca saiu da minha boca.
– Mas você pensou.
– Não, Elizabeth, não pensei. Você tá tirando conclusão precipitada, pra variar.
– Você é quem pra falar comigo assim? – Ela gritou.
Eu desliguei o telefone na cara dela. Seria assim, sem arrependimentos, como das últimas vezes. Não tinha o mínimo saco para aguentar falar com minha irmã, ainda mais nos termos que estavam regendo as conversas durante aqueles últimos dias. A porra da pousada não tinha ficado para mim? Para que ela queria saber então de como andavam as contas? Se fosse do interesse dela, teria ido ver por conta própria.
– Tio ?
Dei um pulo no lugar e soquei, sem querer, o guarda corpo. Lola se encolheu. Esperando poder me retratar imediatamente, agachei à sua altura.
– Desculpa, princesa. O que houve?
– Mamãe mandou te chamar pra você comer bolo.
Tentei abrir um sorriso para ela. Lola merecia.
– Que delícia! O bolo é de quê?
– Não sei, tio.
– Você me leva?
Eu estendi a mão para ela, que pegou na minha sorridente e me guiou aos pulinhos de volta para a mesa de jantas dos Judd.


Capítulo 03

– Bom dia, !
– Bom dia, Judd. – Revirei os olhos. – Desculpa, perdi a hora.
– Tudo bem, mas levanta logo essa sua bunda branca daí. Temos dois casais novos, suítes cinco e... Um, eu acho.
– A um não estava com a elétrica dando curto?
– Então... Talvez a gente tenha um problema ou uma mina de ouro.
– Do que você tá falando, Harry?
– A consertou.
– O quê?!
Eu me levantei quase correndo. Botei uma das primeiras roupas que apareceram no armário e torci para ter sido uma boa escolha. Escovei os dentes e corri para a cozinha, nada dela. Desci para o porão e estava dobrando toalhas como se nada tivesse acontecido, ao lado de Tia e Vicky.
– Bom dia, meninas. – Disse, procurando não assustar ninguém. – , podemos conversar? – Assim que eu falei, notei que a garota ficou branca, quase transparente, e pensei rápido em reverter o quadro. – Acho que anotei alguma coisa errada na sua documentação, só queria confirmar uns dados.
– Tudo bem. – Ela murmurou, terminou o que estava fazendo e se virou para me acompanhar.
Tentei andar devagar até o meu escritório, tendo certeza de que ela estava por perto. Fiz sinal para Harry, que estava no corredor, e nós três entramos na sala.
– Eu fiz alguma coisa de errado? – perguntou cheia, de medo.
– Não, não... Fica tranquila. Harry. – Eu indiquei que ele falasse.
– A Lauren disse que você chegou cedo hoje e foi trocar a fiação da suíte um.
– Não era nada demais. Os fios estavam desgastados na ponta e a fase acabou encostando no neutro. Eu só isolei e recoloquei no lugar.
– Tudo bem, mas você sabe que isso não é seu dever, certo? Você não precisa se preocupar com esse tipo de coisa.
– É que era tão simples de verificar e eu... – suspirou. – Me desculpem, eu não devia ter mexido nisso.
– A questão é que nós precisamos ter...
– Você tem medo da gente, ? – Eu acabei interrompendo Harry.
– O quê? Não, não, senhor.
– Já disse que não precisa dessa formalidade, , está tudo bem.
– É só respeito.
– Judd, pagamento. – David chamou da porta.
Ele saiu em uma meia corrida, deixando eu e sozinhos. A garota encolheu os ombros. Parecia, mais uma vez, que iria chorar a qualquer momento.
– Do que você tem medo? – Eu insisti.
– Não é medo, só é respeito. Eu preciso do emprego.
– Você acabou de chegar, ninguém vai te mandar embora, fica tranquila. – Falei e puxei minha carteira do bolso, tirando uma nota de dez libras lá de dentro e esticando para ela. – Toma, aceite como um bônus pelo reparo.
– Que isso! Eu não fiz mais do que a minha obrigação.
– Fez sim. Além disso, eu gastaria o dobro, pelo menos, pra chamar um eletricista, então eu insisto. Você merece e, se precisa do emprego, precisa do dinheiro.
– O senhor também precisa, sei que a pousada não está passando por um bom momento.
– Vamos fazer um acordo então. – Propus. – Eu aceito que você não aceite o dinheiro com algumas condições.
– Como o senhor quiser.
– Essa é a primeira delas. Chega de ‘senhor’ ou ‘’. Meu nome é , não tem problema me chamar assim.
– É que o senhor é meu patrão.
– Pode usar o ‘você’ sem medo, , não vou ficar chateado. E a segunda condição é que você fique tranquila aqui. Você acabou de chegar, tem feito um ótimo trabalho pra quem ainda está conhecendo como as coisas funcionam... Não tenho a menor intenção de te mandar embora. Confia em mim, por favor.
Ela assentiu. Acho que também sorriu, mas não teria como ter certeza, já que eu nunca tinha visto sorrir antes.
– Mesmo que eu goste da ideia de não fazer nada, não podemos ficar de folga aqui. Temos mais clientes e as coisas têm que estar em ordem pra hoje. Você sabe cozinhar?
– Algumas coisas, sim.
– Então vai lá na cozinha e escolhe o que vai ser o almoço de hoje. Fica à sua escolha.
– Mas, senhor ... Quer dizer... , eu nunca fui responsável por isso aqui.
– Voto de confiança de mão dupla. Te dando essa responsabilidade, eu mostro que confio em você pra isso. Se você for lá, pode me mostrar do que é capaz. Não precisa ser algo elaborado. Só avise o Harry pra ele anunciar o prato do dia.
– Tudo bem. Mais alguma coisa?
– Pode ir pra casa depois do almoço, já que você não aceitou o dinheiro como bônus.
assentiu mais uma vez e saiu do escritório. Harry estava na porta e ficou olhando enquanto ela se afastava.
– Cara, eu queria ter um patrão tão bom quanto você.
– Eu sou seu patrão, idiota.
– Mas não é tão legal assim comigo quanto é com ela.
– Coitada, ela se esforça mais do que todo mundo aqui. Mais que eu até!
– Você não se esforça pra porra nenhuma, essa é o problema. – Harry sentou na cadeira em frente à minha escrivaninha. – Os hóspedes que fecharam pra semana que vem cancelaram.
– Ótimas notícias.
– Na verdade, até que não é muito ruim, já que eles ultrapassaram o prazo pra cancelamento gratuito e nós vamos receber metade do valor da hospedagem, de qualquer forma.
– Harry, eu não sei mais o que fazer pra botar esse negócio pra frente.
– Às vezes, a resposta tá embaixo dos seus olhos e você ainda não viu.
– Nossa, poeta, de onde tirou essa?
– Ah, é uma frase de um dos livros da Izzy. Enquanto isso... Você fez certo com a .
– Alguém precisa tirar o medo da garota.
– Isso é um fato. Mas enquanto a gente não resolve essa parte, eu vou fazer compras. Algo em especial?
– Nada que não esteja na lista.
– Ok então. Me liga qualquer coisa.
Assenti e abri o notebook. Chequei o e-mail, as plataformas alternativas de reserva... Havia um pedido novo para cinco noites. Fiz a confirmação e conferi os dados, cadastrando tudo no sistema de hospedagem da pousada. Abri o Facebook e, em menos de um minuto de rolagem, apareceu uma propaganda enorme da pousada vizinha. A porra da minha pousada ninguém via, mas a concorrência aparecia até para mim. A raiva me subiu e deixei o telefone de lado.
. – Dylan me chamou da porta. – Tem um hóspede querendo falar com o gerente, mas o Harry saiu pra fazer compras, então...
– Já estou indo.
Ajeitei a camisa e o cinto e saí do escritório. Era o senhor da suíte seis.
– Bom dia, senhor Hopkins. Em que posso ajudar?
– Bom dia, filho. Olha, eu não quero ser daqueles que só reclamam, mas nosso edredom estava fedendo a mofo essa noite e o banheiro não foi limpo perfeitamente.
– E não trocaram o edredom para o senhor?
– Nós não pedimos, na verdade.
– Eu peço desculpas, vou arrumar um novo imediatamente.
– Vou sair com minha esposa para almoçar no centro da cidade e voltamos mais tarde.
– Nós teremos almoço aqui, senhor Hopkins, sai às onze e meia.
– Vocês têm? Ninguém me disse.
– Senhor Hopkins, quem recepcionou o senhor e sua mulher quando chegaram?
– Foi um rapaz jovem, loiro, com cabelo curto e... Ah, ele tinha uma tatuagem no dedo.
– Stephen... – Murmurei. – Eu realmente sinto muito por todo o transtorno. O que eu posso fazer agora é efetuar imediatamente a troca do edredom, mandar limparem o banheiro nesse instante e oferecer uma refeição grátis.
– Filho, seria ótimo.
– Vou atrás disso exatamente agora e, mais uma vez, sinto muito.
Desci as escadas para o porão correndo. Lauren estava retirando alguns lençóis da máquina de lavar na hora que eu apareci.
– Quem foi o responsável pelas roupas de cama na terça?
– Foi a Lara.
– E onde ela tá?
– Bem aqui. – Lara respondeu do topo da escada. – Só fui no banheiro. O que houve?
– Casal reclamando de cheiro de mofo do edredom. Sinceramente... De tudo, como vocês puderam fazer isso?
– Desculpa, , eu lavei direitinho.
– Mas não tirou da máquina assim que terminou de bater, não é? – Falei. – Já disse mil vezes que isso deixa cheiro na roupa e vocês não me escutam.
– Não foi nada demais, ok? Vou trocar.
– Quem vai fazer a troca sou eu, pode deixar. E foi algo demais sim. Nunca se sabe o quanto pode custar um erro desses. E alguém sabe onde tá a Vicky?
– Fazendo a arrumação dos quartos, por quê?
Peguei um edredom novo, deixei as duas sem resposta e subi para as suítes. Achei a garota fazendo a arrumação da suíte oito.
– Ei, Vicky, pode me acompanhar, por favor?
– Claro. – Ela se ajeitou e tirou as luvas de limpeza. – O que houve, ?
Em silêncio, nós seguimos até a suíte do senhor Hopkins. Bati na porta e, como não houve resposta, abri com a chave mestra. Deixei o edredom sobre a cama e peguei o anterior nos braços. Fomos até o banheiro e eu identifiquei imediatamente do que o hóspede havia reclamado.
– Isso é o que eu peço pra vocês fazerem?
– Eu só estava economizando material.
– Economizando material de limpeza, Vicky?! Tá brincando comigo, né?
– Você não tinha comprado.
– Era só pedir! Eu passo lista todo dia, pergunto sempre se vocês precisam de alguma coisa...
– Caramba, , você tá irritado hoje, hein?
– E eu não tenho o direito de estar irritado com vocês tratando um cliente como se não valesse de nada? Caralho, parece que só eu me importo com isso aqui.
– Cara, eu sei que tá difícil, mas isso não justifica você falar comigo assim.
– Só faz o seu trabalho direito, Vicky, ok? Refaz o banheiro agora, e faz direito dessa vez. Eu não posso permitir erros aqui dentro e você sabe bem disso.
Ela assentiu e foi na outra suíte pegar o material de limpeza. Desci de novo até o porão, deixei o edredom – que, por Deus, realmente estava fedendo a mofo – e, só com o olhar, dei uma bronca silenciosa na Lara. Faltava um na minha lista para chamar a atenção e, como ele não estava na recepção, só restava um lugar.
– Stephen, vem até aqui, por favor. – Eu o chamei na porta da cozinha e fui até o corredor, onde não havia ninguém, aguardando que ele chegasse perto para que a conversa ficasse entre a gente. – Cara, quantas vezes eu já repeti que a gente tem que convencer o cliente que nós temos tudo pra suprir as necessidades dele?
– Do que você tá falando?
– O hóspede da dois nem sabia que a gente tinha almoço e você recepcionou o cliente na chegada.
– Ah, cara, eu devo ter esquecido.
– Que não aconteça da próxima vez. Isso nem devia ter acontecido, na verdade. Certos erros não podem ser cometidos.
– Ok, , sinto muito.
– É melhor que sinta mesmo. – Ralhei. – Faça seu trabalho direito, por favor. Nós estamos no limite.
Podia parecer que não, mas eu odiava ter que brigar com os funcionários, ainda mais porque eram todos praticamente da mesma faixa etária que eu. E era sempre assim, uma porrada de uma vez só. Eu me sentia mal com as falhas perante os clientes, me sentia mal de parecer um carrasco para as pessoas que trabalhavam para mim, mas eu precisava ter pulso firme, certo? E ainda tinha que ter paciência extra para lidar com e sua introversão. Ela não tinha culpa do meu humor estar uma merda, eu precisava me controlar.
– Tudo bem por aqui? – Perguntei a ela quando cheguei na cozinha mais uma vez.
– Acho que sim. Está tudo em andamento, a couve-flor ficou no ponto certo, agora está no forno e...
– O que você está fazendo?
– Suflê de couve-flor.
– Não use ingredientes muito pesados, tem hóspedes idosos aqui e não sei se eles têm alguma intolerância.
– Tudo bem, já tomei cuidado com isso.
– Todos estão te ajudando?
– Estão sim, obrigada por perguntar.
– Se precisar, me chame. Vou estar no salão.
Ajudei a equipe a arrumar as mesas. Em menos de meia hora, os primeiros clientes para o almoço chegaram. Não eram hóspedes e, a julgar pelas roupas, estavam vindo da praia. Bom, a placa na estrada estava funcionando. Fiz a devida recepção e eles logo foram servidos. O senhor Hopkins ocupou a segunda mesa com sua esposa. Eu mesmo os servi e, no final da refeição, quando já tínhamos sete meses ocupadas, ele me chamou.
– Algum problema? – Perguntei, tentando soar o mais solícito possível.
– Quem fez a couve-flor? – Ele perguntou, parecia sério.
– Foi uma funcionária nova, nós a testamos na cozinha hoje.
– E me deu uma refeição grátis teste? – O senhor Hopknis falou. – Olha, filho, eu estava preocupado com me decepcionar depois do que passei de ontem para hoje mas, sinceramente... Está uma delícia. Mande os parabéns para ela.
– E peça a receita, por favor. Eu adoraria, se fosse possível. – Sua esposa disse.
– Na verdade... Os senhores me dão licença? Prometo voltar em um minuto.
Corri até a cozinha tentando não fazer escândalo.
, – Eu a chamei. – vem cá.
Fiz ela me acompanhar e receber, pessoalmente, os elogios. Eu era o patrão, tudo bem, mas ela tinha crédito naquele sucesso em particular. Se estava sendo tão boa funcionária daquele jeito, introvertida e tensa, imaginava o quão boa ela poderia ser se estivesse se sentindo melhor. Não sei se isso foi fruto do meu pensamento como patrão ou se eu simplesmente não queria ver outra pessoa fodida ali porque, de fodido, bastava eu.
E enquanto o senhor e a senhora Hopkins deslanchavam em elogios ao menu que ela havia feito, vi sorrir pela primeira vez desde que eu a contratei. Bem... Eu tinha feito uma coisa certa, pelo menos.


Capítulo 04

Na teoria, eu não tinha direito a folgas. Só tirava em ocasiões muito distintas como, por exemplo, se eu precisasse resolver alguma coisa séria, e isso era cronometrado para cair junto com o baixo movimento da pousada. Meu pai sempre dizia que um bom negócio só ia para a frente se o dono do negócio estivesse sempre por perto. Assim que eles morreram, eu não quis muito tocar a pousada, mesmo depois da carta melosa do testamento deles que dizia que seria meu jeito de perpetuar a memória da família. Foi na época que a pousada menos rendeu e as coisas desandaram muito. Não estávamos no céu naquele exato momento, é verdade, mas estávamos melhores. De um jeito ou de outro, eu ainda pensava em desistir às vezes, e eram nesses dias que eu tirava as folgas forçadas.
Harry confirmou várias vezes que só precisariam dele em casa se houvesse uma catástrofe de proporções gigantescas. Então peguei meu carro, que já estava quase criando poeira, e fui para a estrada. Segui a Summer Lane até a A390 e fiz uma conversão para a A38, pegando a A30 logo depois. Por fim, poucas milhas na A39 me deixaram quase no ponto que eu queria: o cemitério de Truro.
Não era luxuoso. Meus pais também não eram de esbanjar luxo. O cemitério foi escolhido também em testamento, e aquilo provavelmente tinha partido da minha mãe. Meus avós maternos estavam enterrados ali também, já havia quase vinte anos. Por isso, eles queriam ser enterrados lá também, no jazigo da família. É, meus pais não eram de esbanjar luxo, mas adoravam fazer qualquer coisa que envolvesse um advogado para repassar as vontades deles.
Eu me aproximei da lápide. Era grande e retangular. Um absurdo esperar que dois irmãos que acabaram de perder ambos os pais tivessem tempo e cabeça para escolher que tipo de lápide colocar, o tipo de pedra, a fonte das inscrições, o texto que deveria estar escrito... Meus pais não haviam morrido por conta da idade ou por conta de uma doença que já vinha se arrastando. Foi um acidente de carro, eu não estava pronto, Elizabeth também não estava. Ela era mais velha e já estava desconcertada, quem diria eu!
As coisas estavam fluindo muito bem em Londres naquela época. O escritório tinha uma clientela fixa muito boa e eu, ainda que fosse novo, estava em crescente ascensão no mercado de trabalho de arquitetura. Gostavam do que eu fazia porque eu era bom em enxergar as coisas prontas antes de começarem a fazer, então meus projetos sempre eram possíveis de concretizar. Eu me ensinei a ser compreensivo quando não tinha paciência, aprendi a manipular os clientes quando fosse necessário – não me entenda mal, tem horas que o cliente não pode mandar em tudo, porque o cliente vai insistir em uma ideia que vai ficar feia e, no final das contas, ainda vai ser o seu nome na reta. Por isso e outras coisas, meu sucesso era considerável.
Eu não era rico. Tinha dinheiro suficiente para me manter com certo luxo. Gastava muito, isso era verdade, mas eu não tinha responsabilidade nenhuma, então para quê guardar? Eu só tinha a juventude na minha mente. Por que diabos iria me preocupar em perder meus pais, se eles estavam com pouco mais de cinquenta anos de idade, saudáveis e, de acordo com a expectativa de vida média do país, ainda tinham mais uns vinte anos pela frente? Aquela ligação acabou com a minha vida.
Pouco tempo antes disso acontecer, eu e Felicity, minha então namorada, tínhamos declarado que estávamos em crise. Pode-se dizer assim porque a crise já existia antes. Naquela época, ela foi apenas constatada. Eu já não estava muito feliz, e o estresse acumulado entre Felicity e o escritório – que estava angariando mais clientes e, por mais que isso fosse bom, significava mais trabalho e prazos mais apertados – não estava me deixando muito bem.
Conheci Felicity na festa de formatura. Ela era irmã de um dos meus colegas de turma. Atraente além do que eu merecia, foi ela quem deu o primeiro passo. Felicity deu o primeiro passo em tudo na verdade. Depois de terminar definitivamente com ela, até cheguei a me perguntar se eu quis, em algum momento, realmente ter um relacionamento com ela ou se eu só deixei o fluxo seguir, com ela no comando como se fosse uma monarquia.
Nosso relacionamento não era saudável. Felicity era mandona, ciumenta, egocêntrica e irresponsável. Eu era desinteressado, desleal – embora eu nunca tivesse me envolvido com outra mulher enquanto estava com ela, eu mesmo considerava meus próprios pensamentos como uma traição –, infantil e workaholic. Nós nos víamos para brigar e para sexo, apenas. Não conseguíamos manter uma conversa de mais de dez minutos. Mas Felicity gostava de fazer frente para os amigos, e eu a deixava me usar. Por quê? Não sei.
Eu não tive a intenção de apresentá-la aos meus pais, para ser sincero. O encontro aconteceu em uma visita surpresa que eles fizeram ao meu apartamento em Londres. Ela abriu um sorriso gigante e bajulou os dois tanto quanto conseguiu. Meu pai disfarçava bem, mas minha mãe não controlava a expressão. Pouco tempo depois desse primeiro e único encontro entre eles, comecei a ser bombardeado. “Ela não serve para você”, “não é com esse tipo de mulher que você quer constituir família”, “senti algo de errado com ela”, “vocês dois não parecem ser um casal feliz”, “se você achasse que ela era boa, teria levado ela em casa”... Essas frases foram só algumas das várias que eu escutei. O pior era saber que, no fundo, eu sabia que meus pais estavam certos.
Elizabeth a conheceu também, mas nós nos esbarramos em um supermercado. Minha irmã e Felicity eram muito parecidas, sempre politizadas e sorridentes a todo momento. Dentro de quatro paredes, no entanto, a coisa era diferente. Ninguém conhecia Elizabeth e Felicity como eu conhecia e, se eu falasse um “a” sobre as duas, não acreditavam. Meus pais até conheciam Elizabeth bem, mas aí o buraco era mais embaixo. Eles só realmente passavam a mão na cabeça dela demais, e talvez isso tenha sido o motivo para ela se tornar a mulher por quem eu passei a sentir um leve desgosto. Era favoritismo, certeza.
A polícia de Porthleven ligou para mim enquanto eu estava em reunião. Algumas mudanças importantes estavam sendo decididas sobre uma nova plataforma de prestação de serviços e eu estava muito irritado por não estarem levando em consideração a minha opinião para tomarem as decisões necessárias. Quando minha secretária interrompeu a reunião para avisar da ligação, respondi irritado que não queria falar com ninguém. Menos de dois minutos depois, ela voltou. Todo mundo ficou em silêncio quando Patricia abriu a porta novamente e eu estava pronto para dar uma nova resposta atravessada, mas seu rosto estava em choque. Pedi licença e fui atender a ligação.
Você nunca vai estar preparado para perder alguém. Quando meus avós morreram, eu era novo. Meu avô se foi por conta de um câncer agressivo. Depois de três meses na unidade de tratamento intensivo do hospital, não era de se esperar que ele sobrevivesse, de qualquer forma. Minha avó já tinha noventa anos e apenas um rim – doou um deles para sua irmã mais nova. Ela dizia que já estava cansada mesmo e que tudo bem se ela morresse. Simplesmente deitou para dormir e não acordou mais.
Meus pais foram vítimas de um assassino não identificável. Nem eu nem Elizabeth sabíamos que eles estavam na outra ponta da Cornualha. Eram nossos pais, não nossos filhos. Eles não nos avisavam sobre tudo o que faziam, e nem precisavam. Os dois gostavam de fazer isso. Tinham um gerente de confiança que trabalhava com eles há anos e se permitiam deixar a pousada eventualmente por conta dele. Aí pegavam o carro e iam passear. Mas ninguém imaginava, nem eles, que um carro roubado iria acertar eles em cheio depois de uma curva fechada e jogaria o carro no mar. Meus pais eram saudáveis, sim, mas não eram super fortes, e não conseguiram abrir porta ou vidro para saírem. Morreram afogados no mar que eles tanto amavam.
Imagine como eu me sentia. Tudo caiu de repente nas minhas costas. ‘Devastado’ era uma palavra muito fraca para me descrever àquela altura. Levei dias até conseguir sair do estado de choque e derramar a primeira lágrima. Quando comecei, não parei mais. A leitura do testamento foi feita um dia antes do enterro, que levou um tempo para ser feito porque o legista teve problemas e demorou a liberar os corpos. Depois daquele dia, eu nunca mais fui o mesmo.
Felicity foi a primeira coisa que me livrei da vida antiga. Eu amava Londres e o que Londres me trazia, mas queria renascer. A dor do luto praticamente me obrigava a isso. Terminei com ela por telefone. Ela insistiu que eu estava sendo precipitado, que a decisão não deveria ser tomada de cabeça quente, até falou que havíamos nascido um para o outro. No final, quando ela perguntou o que ela faria sem mim, o que ela seria sem mim, eu entendi que o egoísmo iria ser como um câncer na minha vida. Fui a Londres, peguei minhas coisas, mudei o número do celular e, desde então, eu era oficialmente o dono da pousada Parsons.
O que meus pais nunca me contaram era que a pousada não estava indo muito bem. Todo mundo estava se adaptando às novas tecnologias e eles se negavam, por exemplo, a usar um sistema automatizado de reservas pelo site. Fazer com que eles criassem o site, por si só, já foi um grande sacrifício, e levou mais tempo ainda para convencê-los de aprenderem a usar um e-mail. Por conta desses motivos, eu peguei a pousada em um estado deplorável.
Por vezes, precisei tirar dinheiro do meu próprio bolso para pagar os funcionários em dia. Levei três meses até parar de fechar a semana no negativo e mais dois para obter algum lucro. Harry era meu melhor amigo desde que eu me conhecia por gente e tinha conhecimento para atuar na área. Nós dividíamos o lucro pela metade entre nós dois, o que não era muito. Ele tinha sorte por ter Izzy, uma autora com certo sucesso, o que gerava uma boa renda para a casa. E eu tinha sorte de ter Harry.
Alisei a lápide mais uma vez e pensei em tudo o que tinha vivido nos últimos dois anos, da vida agitada em Londres para o desespero por atividade na Cornualha. Tinha sido criado ali mas cheguei a pensar em nunca mais voltar. O instinto era perguntar para eles o motivo, só que eu sabia que meus pais não me responderiam. O testamento, o acidente, a minha vida... Tudo era questionável naquele instante.
Saindo do meu transe espiritual ou seja lá o que era toda aquela rememoração, vi que alguns carros estavam se aproximando da capela. Do carro logo atrás da funerária, saiu um menino pequeno, de dez anos no máximo, em prantos. Eu não sabia quem era o morto, mas sentia sua dor e entendia o sentimento. De repente, me vi conectado com o menino. Em meio às lágrimas, ele se voltou para mim, mas a mulher que o guiava, talvez sua avó, chamou sua atenção para o caminho que deveriam seguir.
Estar naquele lugar não era fácil e a energia daquela cerimônia era das piores, mas ir ali, visitar o túmulo dos meus pais, meio que me renovava as energias. Um jeito estranho, é claro, e nem eu saberia explicar como. Mas era bom me lembrar de que não adiantava chorar sobre o leite derramado. O que eu podia era mudar a minha vida dali para a frente. Sentir saudades? Tudo bem. Sofrer? Não. Enquanto eu pensava nisso e imaginava o tipo de piadinha que fariam se soubessem que eu me sentia daquela forma, meu celular começou a tocar no bolso.
– Fala, Judd. – Atendi.
, aconteceu uma catástrofe.
Sorri comigo mesmo e comecei a caminhar na direção de onde o carro estava estacionado.
– Não se preocupe, já estou voltando.


Capítulo 05

Eu e Harry sentávamos juntos no meu escritório todo dia cinco do mês para fazer uma revisão do balanço de caixa da pousada. Costumávamos ler e responder comentários online sobre nossos serviços também. No mais, havia uma planilha que tínhamos montado para manter o controle estrito e detalhado de todos os gastos, como quanto material de limpeza foi necessário comparado a quantas suítes e por quantas noites ficaram ocupadas. Era o nosso jeito de ver furos na nossa própria administração.
Naquele dia em especial, tínhamos a visita importante de Izzy e das crianças. Como o escritório tinha uma porta que levava diretamente para o meu quarto, nós deixamos a porta aberta para que Kit e Lola ficassem por lá, vendo desenho na televisão, enquanto trabalhávamos. Eu peguei uma televisão maior de uma das suítes desocupadas e a levei para meu escritório, improvisando um rack com criados-mudos. Conectei meu computador por conexão wireless a ele enquanto Harry e Izzy se certificavam de que estava tudo em ordem com as crianças. Logo, eles puxaram as cadeiras para observarem melhor a tela. Eu abri, então, uma planilha em branco.
– Vamos lá então, Izzy. – Disse a ela.
– Faça sua mágica, meu amor. – Harry sussurrou e piscou um olho para a esposa.
– Me mostra a lista de compras, .
Com um comando do meu assento, troquei a janela. Izzy cruzou as pernas e pegou um bloquinho de notas que havia levado.
– Você tem como colocar todos esses itens na outra planilha? Eu sugiro que você coloque o valor do lado. Em uma terceira coluna, coloca a porcentagem que pode ser economizada com a troca de marca e, na quarta, uma fórmula pra já gerar o valor total com a mudança.
– Vou fazer, um instante.
Copiei a tabela inteira para o novo documento. Fiz a configuração necessária para que o conteúdo ficasse de melhor visualização e recostei na minha cadeira.
– Ok, começando pela área da limpeza... Amaciante. – Izzy mexeu na calculadora que eu havia lhe emprestado. – Seis ponto sete por cento.
Digitei o número no teclado à minha frente, pulando para a próxima célula.
– Água sanitária... – Eu procurei o item dentre os vários expostos na tela. – Vinte e um ponto quatro por centro.
– O quê?! – Arregalei os olhos enquanto fazia a anotação.
– Você ainda não viu nada. – Ela disse. – Tira manchas para lavanderia... Vinte e quatro ponto oito por cento.
– Tem certeza de que você viu esses valores certos?
– Tenho sim, , continue anotando. Vamos para o próximo que é... Sabão em pasta! Sete por cento.
– Agora parece mais próximo da realidade. – Murmurei enquanto digitava o valor.
– Cera, dezesseis ponto um por cento.
– Ok, próximo? – Pedi.
– Lustra móveis... – Izzy olhou para trás e sorriu para mim. – Tá preparado?
– Pode falar.
– Cinquenta e quatro ponto sete por cento.
– Você tá brincando, Izzy.
– Vai digitar ou não?
– Não tem como isso ser real, Harry!
– Ela é dona de cada, , sabe mais disso do que você. – Meu melhor amigo riu de mim.
– Vamos, cinquenta e quatro ponto sete, não vou repetir. O próximo é o limpa vidros, que dá em... Trinta e três ponto um por centro.
Conforme Izzy ia falando, eu ia digitando os valores. Às vezes, a incredulidade batia à minha porta, como quando ela falou que podíamos economizar vinte e cinto por centro trocando a marca do papel higiênico ou trinta e seis ponto quatro por cento trocando a marca do vinagre. Tudo, é claro, sem perder a qualidade. Eu estava atônito com cada número que ela anunciava e não conseguia acreditar até então no que estávamos fazendo.
Acabamos toda a listagem das novas marcas, depois de conferirmos percentualmente a vantagem delas, por volta das dez e meia da manhã. Izzy aproveitou para levar as crianças na cozinha para fazerem um breve lanche. Eu joguei alguns comandos na planilha, comparando os novos valores com a média das últimas listas de compras.
– Puta que pariu...
– O que foi? – Harry perguntou.
– Se trocarmos as marcas de todos os insumos que listamos hoje, a economia seria de, pelo menos, duas mil libras por mês. – Sussurrei, nem eu acreditava. – Meu Deus...
– Eu te falei que a Izzy seria demais.
– Ela tem certeza sobre essas marcas? Quero dizer... Não podemos deixar a qualidade cair.
– Cara, alguma vez eu já te deixei na mão aqui na pousada?
– Não, nunca.
– E você confia em mim?
– É claro que...
– Eu confio nela. – Harry deu de ombros e pegou uma bala do pote em cima da minha mesa. – Confio nela mais do que confio em você, e olha que eu confio em você pra caralho. Izzy, além de ser uma puta escritora, é a pessoa responsável por fazer aquela casa andar, e ela faz isso sem erro nenhum.
– Nisso eu devo concordar.
– Então pronto, deixa quieto. Eu vou atualizar a lista de compra com as novas marcas e aí a gente usa esses dois mil pra investir aqui.
– Não, quê isso! Mil é pra você e pra Izzy, vocês merecem.
, a pousada precisa disso.
– Você é meu amigo e tá ganhando pouco pelo trabalho que tá fazendo, Harry. É sério. Eu reinvisto os meus mil. O que sobrar, a gente marca de levar a Izzy pra levar num restaurante bom qualquer dia desses.
– Me levar num restaurante bom? – Izzy voltou ao escritório.
– Mamãe, posso ir também? – Lola perguntou.
– Eu também quero! – Kit chamou a atenção de todos.
Harry sorriu para mim e deu de ombros.
– Agora eles já ouviram.
– Sem problemas, vamos ver a possibilidade.
– Harry, eu acho que já vamos indo, e aí eu passo pra te pegar aqui mais tarde.
– Mas já? – Eu levantei da cadeira. – Fica pro almoço, Izzy, é o mínimo que eu posso oferecer depois da baita ajuda que você me deu hoje.
– Fica tranquilo, , obrigada. Eu já deixei tudo no esquema em casa, antes de sair, e tenho que levar as crianças pra creche ainda.
– Tem certeza?
– Tenho sim.
– Eu te acompanho até a saída então. – Disse e fiz um sinal para que Harry fizesse o mínimo de me acompanhar. – Eu nem sei como te agradecer, Izzy. Isso pode ser o milagre que a gente precisava.
– Ah, , não tem problema. Sabe disso. Estou aqui se precisarem, só chamar.
– Só chamar e torcer pra você não estar em um daqueles dias em que se entoca no escritório pra escrever e não sai mais de lá.
– Isso também. – Izzy riu e se virou para mim quando chegamos na porta. – Se precisar de novo, só falar com o Harry que eu venho.
– Pode deixar.
Ela me puxou para um abraço rápido e, logo depois, eu abaixei na altura das crianças.
– Vocês vão embora sem falar comigo?
– Claro que não, tio . – Lola revirou os olhos e riu, abraçando o meu pescoço e deixando um beijo na minha bochecha.
– Tchau, tio . – Kit acenou à distância e ofereceu a mão para um high five.
Eu e Harry ficamos em silêncio na porta da pousada, esperando o carro desaparecer da vista. Quando voltei para dentro, estava nos aguardando no hall de entrada, os ombros para dentro e a feição mais tímida de sempre.
, algum problema? – Harry perguntou parecia saber lidar com aquele tipo de situação bem melhor do que eu, além de parecer menos amedrontador.
– Senhor , eu posso conversar com o senhor em particular?
– Claro, vamos lá no escritório. Harry, enquanto isso, você pode fazer a checagem do estoque?
– Pode deixar, vou imprimir a lista na recepção.
Fiz sinal para que fosse na frente. Afinal de contas, o ‘primeiro as damas’ era só mais um dos conceitos que eu havia aprendido com os meus pais. Tomei a frente apenas para abrir a porta do escritório e permiti que ela entrasse antes de mim. Assim que entrei, percebi que a porta que dava para meu quarto ainda estava aberta. Fui direto fechá-la.
– Desculpa, as crianças do Harry estavam aqui. – Eu me justifiquei, indo direto arrumar as cadeiras que estavam em posições erradas, e fiz sinal para que se sentasse. – Então... O que houve?
– Eu sei que são tempos difíceis, senhor ...
– Já disse, , pode chamar de .
Ela abriu um meio sorriso e respirou fundo.
– Ok, .
– Ótimo. Não quer se sentar? – Ofereci novamente.
– Não, obrigada, prefiro ficar de pé mesmo.
– Sem problemas então. Pode continuar o que você estava falando, desculpa te interromper.
Ela começou a brincar com os dedos das mãos, unidas na frente do corpo. Já havia notado que fazia aquilo quando ficava muito nervosa.
– Eu sei que as coisas não estão indo bem aqui na pousada, que vocês não estão tendo clientes como antes. Posso ser nova aqui, mas o pessoal fala, sabe? E eu não me acho merecedora de nada além do que eu já tenho aqui. Na verdade, acho até que tenho mais do que mereço.
Sabia onde aquilo ia dar e quis poupar do martírio pelo qual ela estava se forçando a passar.
– Você precisa ou de um aumento, ou de um adiantamento ou de uma folga. Qual dos três?
Ela deu um sorriso amarelo.
– De um adiantamento. – disse baixo e, de repente, subiu o volume da voz e começou a falar rápido. – Mas eu posso compensar, posso vir mais cedo ou ficar até mais tarde. Posso até vir na minha folga, não tem problema.
– Posso saber o motivo pelo qual você precisa do adiantamento?
Sua expressão se tornou triste e eu decidi não insistir mais.
– De quanto você precisa?
– Duzentas libras. – voltou a ser tímida.
Eu puxei minha carteira do bolso. Verifiquei que eu não tinha a quantidade suficiente para ela, mas tirei as duas notas de cinquenta de qualquer forma. Por algum motivo que eu não entendia, sentia que precisava ajudá-la.
– Só tenho cem aqui agora. Quando o pessoal estiver almoçando, me procura que eu pego os outros cem do caixa da recepção.
chegou perto da minha mesa e pegou o dinheiro sem nem conferir.
– Muito obrigada, senhor... ! – Ela se corrigiu e sorriu. – Eu posso ficar até mais tarde hoje, quem sabe tentar limpar aquela mancha que ficou no chão da escada e...
– Não precisa, .
– O quê?
– É um simples adiantamento, não precisa fazer mais pra pagar juros por isso.
– O senhor tem certeza?
– Sem ‘senhor’, . – Eu disse e me levantei. – E sim, eu tenho.
– Muito obrigada, obrigada mesmo.
– Me agradeça voltando pra cozinha, que é onde você deveria estar. – Brinquei.
Ela quase correu até a porta. Achei que ia sair mas, quando a abriu, virou-se para mim novamente.
– Eu preciso do dinheiro pra comprar um remédio pra minha mãe. – disse. – Gastei tudo do último salário com mantimentos e colocando algumas contas em dia, mas ela é doente e o quadro dela agravou.
e eu ficamos nos olhando por alguns segundos. De repente, o clima ficou pesado, mas eu sentia que estava mais leve.
– Sem problemas. Se eu puder ajudar, me avise.
– Já ajudou muito. – Ela mostrou o dinheiro e, após guardá-lo no bolso, saiu, fechando a porta ao passar.
Sentei de novo na cadeira e comecei a olhar a planilha de mais cedo. Fui colocando os nomes que Izzy havia anotado no papel para mim, preenchendo os dados aos poucos. Pelo site de um dos nossos fornecedores, já fui pesquisando os valores reais dos produtos e colocando em uma planilha orçamentária. Conforme ia fazendo, estava verificando que o panorama podia ficar melhor do que eu estava imaginando. Será que eu havia descoberto, finalmente, como fazer as coisas andarem nos trilhos?
Logo depois, abri outra planilha, uma mais importante e mais séria. As contas estavam aumentando. O lugar era velho e meus pais, apesar de manterem tudo na mais perfeita ordem, não tinham como prever tudo. Algumas coisas iam dar defeito eventualmente, isso era inevitável. Mas não precisava dar defeito tudo junto, certo? Aparentemente, precisava sim.
estava sorridente ou é impressão minha? – Harry perguntou quando voltou ao escritório para finalizarmos os detalhes para a compra.
– Ela pediu um adiantamento.
– É, eu estava certo. – Harry murmurou e se jogou na cadeira que ele ocupara mais cedo naquele mesmo dia, seu lugar de sempre. – Eu precisava mesmo ter um chefe como você.
Nós dois rimos mas o momento de descontração acabou rápido. Ainda precisávamos botar a casa em ordem.


Capítulo 06

Parecia que era brincadeira do destino. Sinceramente, era a única opção plausível. Nós conseguimos economizar um pouco com a compra de suprimentos e, então, veio um casal se hospedar conosco. Não podíamos ter qualquer tipo de preconceito, é claro. Naquele ponto da Cornualha, era bem comum para nós que a faixa etária dos hóspedes fosse alta. E não me entenda mal, nós realmente gostávamos disso. Inclusive, gostávamos justamente pelo motivo que nos fez odiar aqueles dois que eu nunca deveria ter hospedado na pousada.
Estava começando a repensar a minha política de “não negamos ninguém”. Os dois, que se identificaram como Keira e Scott Archer – àquela altura, eu sinceramente não me surpreenderia se descobrisse serem identidades falsas –, chegaram pouco depois das onze horas da noite, mesmo com o e-mail de reserva expressando diversas vezes que o horário de check in era de uma da tarde às sete da noite. Tinham, nos documentos apresentados, quase dez anos a menos que eu. Alegaram problemas no carro, ok, tudo bem, acontece. Problemas no carro que os fizessem chegar àquela hora? Muito estranho mesmo. Mas eu estava lá e os recebi. Como sempre, o pensamento supremo de “dinheiro é dinheiro” me fazendo colocar a carroça na frente dos bois. Minha mãe usaria esse tipo de expressão, meu Deus, eu estava ficando velho definitivamente.
Cada um deles me deu dois cartões de crédito para testar, pois o tipo de reserva deles era sem pagamento prévio e exigia que o valor total da hospedagem fosse quitado no check in. Os quatro cartões foram negados. Chequei devidamente, os cartões estavam no nome de quem eles diziam ser. Como política do site de reservas, eu poderia cobrar o valor total no cartão utilizado como garantia para reserva. Adivinha? Também negado. Como não havia como ligar para as administradoras dos cartões ou para os bancos e existia a possibilidade de ser tudo um grande mal entendido mesmo, eu falei para que eles ocupassem a suíte que, no dia seguinte, veríamos aquilo.
Manhã do outro dia. Eu havia saído do quarto só para receber os funcionários que estavam chegando e tinha voltado para lá, não estava com a cabeça muito boa. Entenda, uma pessoa que perde os pais de uma hora para a outra não tem como estar com a cabeça boa de forma alguma, mas eu estava até achando que era fraco demais. De repente, sou interrompido do meu “momento espiritual de luto” pelo som de gritaria. Não estava devidamente vestido para me apresentar como proprietário daquela pousada e não sabia se Harry já tinha chegado – ele havia me enviado uma mensagem informando que ia atrasar um pouco porque Izzy não estava bem de saúde e ele esperaria até a mãe dela chegar para ir trabalhar. Não questionei porque não havia motivo. E muito menos porque eu não imaginava o que iria acontecer.
Keira e Scott estavam aos berros com Lara. Como eu ainda não sabia o motivo do escândalo, eu me aproximei torcendo para que ela não lhes desse uma resposta atravessada e pensando em como faria para colocar o sorriso mais cínico formal e educado possível no meu rosto. Quando ia abrir a boca, os dois deram um grito final e, carregando malas, saíram em direção ao estacionamento. Eu estava começando a entender que tinha um problema e eles iam embora, ok, mas a primeira e única noite deles ainda teria saído de graça e eu não podia aceitar aquilo por mil e uma razões justíssimas.
Tentei de tudo, mas eles ainda saíram arrancando pela estrada a fora. Eu estava puto. Muito puto. Inclusive puto o suficiente para começar a descontar em todo mundo quando voltasse para dentro. Conforme eu ia chegando mais perto, eu ia tentando mais e mais em controlar, mas não parecia estar ajudando, muito pelo contrário. Foi quando eu dei um encontrão em e quase fiz com que ela caísse, se não fosse pelo reflexo de segurá-la pelos ombros.
– Desculpa, . – Ela me cumprimentou com a cabeça e saiu em direção à sala de convivência.
Com o olhar que me direcionou, fui para a recepção me perguntando se todos me viam como um monstro ali. Estava sem paciência para pensar muito, Harry ainda não havia chegado e eu precisava tirar um prejuízo das contas da pousada. Afinal de contas, eles ainda haviam ficado lá, gastado energia e água, e ainda precisaria que meus funcionários trabalhassem para preparar o quarto novamente.
... – Lara se aproximou, tímida como eu nunca havia visto a mulher mais elétrica dentre as funcionárias da pousada. – Eu juro que eu não falei nada de errado dessa vez. Eles só surtaram, nem me deram a chance de abrir a boca.
– Nós podemos conversar depois, Lara, eu tenho que ligar pra administradora do cartão, pro site de reservas...
– Eu vou lá em cima pra arrumar o quarto e trazer as roupas de cama e banho pra lavar.
– Tudo bem, ótimo. Quando terminar, você me explica direito o que aconteceu.
– Ok, obrigada. – Ela disse e se afastou.
Chequei o relógio. Nem as administradoras de cartão de crédito nem o site de reservas atenderia minha ligação, ainda estava cedo demais. Mesmo assim, fiquei encarando a tela do computador da recepção, daquela mesma forma que as pessoas encaram a geladeira de porta aberta, esperando uma solução milagrosa pular na minha cara.
! – Ouvi meu nome ser gritado e, pelo tom de voz, já sabia que não era boa coisa.
Subi as escadas correndo, pulando degraus. Ouvi um murmúrio vindo precisamente do quarto onde o casal problemático ficou e fui para lá. Quando cheguei na porta, simplesmente parei.
– Que merda é essa? – Falei, mas a minha voz saiu baixa porque minha garganta simplesmente secou.
Se um dia eu tive um ataque de pânico, foi naquele exato momento. A televisão deveria estar pendurada na parede, mas estava no chão. O espelho grande da parede de frente para a cama estava completamente quebrado. O varão da cortina e da cabeceira da cama estavam arrancados dos seus lugares. Alguns vidros da janela simplesmente não estavam lá, era provável que o chão estivesse cheio de cacos. O enorme relógio decorativo que meus pais haviam ganhado de presente de um casal de amigos também estava em pedaços, no chão. O par de abajures que ladeavam a cabeceira da cama estavam em estado deplorável. Como se fosse a cereja do bolo – uma puta cereja estragada –, havia uma mancha no carpete que eu podia apostar que, para a minha sorte, se tratava de vinho. Eu queria vomitar.
– Não entra no banheiro. – Lara disse.
Eu realmente quis obedecer, mas eu precisava. Tanto a porcelana da pia quanto a do vaso estavam quebradas. Eu só conseguia me perguntar como eu não tinha escutado tudo aquilo. No segundo seguinte, estava pegando no celular para ligar para a polícia. Pedi que Lara deixasse o quarto do jeito que estava e fosse fazer outra coisa. Desci sem animação nenhuma. cruzou o meu caminho de novo e, pela primeira vez, ela com certeza não era a pessoa mais infeliz ali na pousada. Harry entrou pela porta principal na hora que eu estava na recepção e notou de cara que tinha alguma coisa muito errada.
– O que houve? – Ele perguntou, deixando a mochila às pressas de qualquer jeito do chão da recepção enquanto eu vasculhava o programa de gravação das imagens de segurança.
– A reserva de ontem, da dois...
– Os que não vieram?
– Era melhor que eles não tivessem vindo, Harry. – Eu olhei para a tela do computador enquanto verificava as imagens. – Destruíram o quarto inteiro.
– Do que você tá falando?
– Televisão, cortina, carpete...
Eu mal podia acreditar na minha voz. Estava a ponto de surtar. Comecei a suar sem perceber e, mais uma vez, a minha boca ficou seca. Pude ver o terror no rosto de Harry. Ele falou alguma coisa mas eu não consegui escutar. Então Dylan surgiu e, com Harry, ajudou a me carregar até o restaurante, que já estava vazio após o café da manhã ter sido servido. Eu estava desmaiando?
Eles me sentaram em uma cadeira e eu senti que estava começando a voltar para dentro de mim. Harry ficou esperando do meu lado até que a polícia chegou. Eles falaram comigo rapidamente, mas eu ainda estava um pouco aéreo. Fiquei sentado lá enquanto Harry levou os policiais até a suíte.
... – se aproximou lentamente, falando baixo. – Lara me contou sobre o que rolou. Eu posso ajudar com alguma coisa? Posso trazer alguma coisa pra você?
– Tá tudo bem, .
– Tem certeza?
Olhei para ela. Estava em cima da linha tênue entre o compreensivo e o muito puto. Para eu estourar com , não me custaria esforço algum. Mas havia algo no olhar de que eu não via em ninguém além de Izzy desde a última vez em que estivera com a minha mãe: a intenção de cuidar de mim. Eu não achava que precisava daquilo, mas estava lá sempre que Izzy estava por perto, e eu reconheci a mesma ação em . Ver aquele olhar baixou minhas guardas.
– Tenho sim, , obrigado.
– Tem chá de maracujá do café da manhã, ainda tá quente. Minha mãe sempre me mandava tomar quando eu tava estressada com as coisas da faculdade, e funcionava. Posso trazer uma xícara pra você?
Queria negar. Queria repetir que estava tudo bem, que eu não precisava daquilo. Queria que ela me deixasse sozinho. Mas havia algo no tom de voz dela que me fazia sentir que aceitar a ajuda, por mais que eu não a quisesse, talvez fosse a melhor escolha a se tomar naquela hora. Então forcei um sorriso e torci para ele não ter ficado muito feio.
– Pode ser. Obrigado.
Ela sorriu e saiu correndo na direção da cozinha. Peguei no celular de novo. Pensei em tanta coisa que nem sabia por onde começar. Eu estava escutando os policiais falando com Harry no andar de cima e me sentia mal por não estar junto, mas eu realmente estava no meu limite. Era o de sempre, um passo para frente e dois para trás. Estava cansado de sempre perder e pronto para jogar a toalha.
, aqui...
Eu virei rápido demais quando ouvi meu nome ser chamado e acabei indo de encontro a , que caiu para a frente, derramando o chá todo em mim. A xícara quicou na mesa e, depois, caiu no chão, se quebrando em pedaços. O segundo exatamente após isso passou em câmera lenta para mim, como se eu pudesse pausar o tempo e pensar em qual seria a minha reação. era muito como eu: sincera, introvertida, contida, tímida e perfeccionista. Ela finalmente havia saído um pouco da bolha dela. Se eu deixasse sair qualquer palavra grosseira ou uma palavra bem escolhida mas com o tom errado, ia entrar na bolha de novo e nunca mais ia sair. Como eu sabia daquilo? Porque eu também tinha saído da bolha uma vez e, por força do destino, entrei de novo, sem a menor intenção de voltar a sair durante toda a minha vida. Notei também outra coisa naquela fração de segundo: o chá estava realmente quente ainda. E aí eu não consegui evitar reagir sem pensar, porque comecei a dar tapas na minha calça como se pudesse tirar o líquido dali.
– Merda, merda, merda, merda, merda... Desculpa, , eu...
começou a chorar. De todas as vezes em que eu achei que a veria chorar, ela começou a chorar por causa de uma xícara. Com chá quente nas minhas pernas, mas ainda assim... Era só uma xícara. Eu poderia comprar outra, ou nem comprar e enrolar até ter mais folga financeira.
. – Eu a fiz levantar porque estava tentando recolher os estilhaços da xícara. – Não precisa disso, calma.
– Mas ...
– Você precisa parar de se preocupar tanto! – Acabei dizendo sem pensar. – Todo mundo erra, ok? Você não é uma má pessoa, você é muito boa aqui. Tá tudo bem.
– Mas acabou de acontecer o que aconteceu, o dinheiro já não é muito, a xícara...
. – Chamei sua atenção e, então, ela olhou para mim. – Volta na cozinha, pega duas xícaras e senta aqui comigo. Você tá precisando do chá tanto quanto eu.
, eu sinto muito.
– Foi culpa minha, , eu não deveria ter virado tão rápido na sua direção.
...
– Relaxa, . – Insisti mais uma vez.
– Mas...
– Vamos nos acalmar, ok? O dia começou muito mal, vai só piorar se a gente não parar agora e recomeçar. Então vamos fingir que isso nunca aconteceu, tá? – Apontei para a xícara no chão. – Vai lá, pega as duas xícaras com chá que eu te falei pra pegar. Enquanto isso, eu vou pegar uma vassoura e uma pá pra tirar isso daqui.
– Você não se queimou? – Ela perguntou, realmente preocupada.
– Não, tá tudo bem.
– Você precisa se trocar.
– Eu preciso de muitas coisas, . – Disse, rindo sem humor algum. – Me trocar é o de menos. Agora podemos recomeçar o dia? Você me promete que vai ficar tranquila?
Ela ponderou por uns instantes e depois assentiu, indo de volta para a cozinha. Pela primeira vez em anos, alguém conseguiu frear o muito puto dentro de mim.


Capítulo 07

Sentei para almoçar à uma hora da tarde. Eu tinha manias bem estranhas. Almoçar entre meio-dia e meio-dia e meio era uma dessas manias. Odiava almoçar tarde, me deixava de mal humor. A comida estava boa, ainda estava quente, mas eu estava puto da vida por não ter conseguido resolver tudo a tempo de comer no horário. Receber os advogados naquele dia não estava, exatamente, facilitando as coisas.
– Bem, senhor , por onde o senhor quer começar? – Jules, o mais velho deles, tomou a frente da conversa quanto entramos no meu escritório após o almoço.
– Por onde vocês acharem melhor.
– Sendo assim... – Ele apontou para Colbie, que tirou algumas folhas de dentro da pasta preta cara que carregava, colocando em cima da minha mesa em seguida. – Esses são os pedidos de acordos que os advogados de ambas as partes apresentaram essa semana.
Peguei os papeis e não li nada além do que estava na penúltima linha antes da sessão das assinaturas: os valores. Eram cifras absurdas, impensáveis, que me colocariam em falência na manhã seguinte, a ponto de precisar vender a pousada para continuar me mantendo de alguma forma. Eu só consegui rir, e não era uma risada boa.
– Vocês não podem estar achando que eu devo levar isso a sério, não é?
– Senhor , a senhorita Watson afirma ter testemunhas que irão depor em caso de ir a julgamento se as partes não entrarem em acordo antes.
– Minhas funcionárias não poderiam testemunhar também? – Perguntei. – Tenho cinco funcionárias mulheres, elas sabem muito bem que eu nunca fiz esse tipo de coisa. Além disso, que tipo de atividade sexualmente discriminatória eu poderia ter feito se a Patty foi contratada exclusivamente para fazer a limpeza dos quartos? Ela nunca fez nada além disso.
– Ela insiste em alegar que era forçada a fazer coisas desnecessárias e degradantes à sua imagem só porque era mulher. – Jules explicou.
– Como...?
Ele não me respondeu. Ao invés disso, puxou um papel da pasta dele e colocou o óculos no rosto, começando a ler em seguida.
– “Eu era obrigada a usar roupas degradantes e transparentes em um serviço onde, constantemente, manipulava água, o que expunha a minha imagem de forma humilhante. Não me eram fornecidos materiais de trabalho apropriados e, por vezes, precisei me colocar em posição infame para realizar devidamente o serviço ao qual eu era destinada. Mais de uma vez, fui observada indevidamente por funcionários do local.
– Funcionário, no singular, e foi com ele que eu a vi transando na lavanderia. Ela fez acusação de estupro pra cima do Rogers?
– Não que seja de nosso conhecimento.
– Até onde eu sei, – Interrompi a fala deles. – os dois seguem namorando até os dias atuais. Isso tá exposto nas redes sociais dos dois. Agora me digam que eu não posso demitir dois funcionários por estarem fodendo na porra da minha lavanderia em horário de serviço que eu fecho essa merda de lugar.
, se acalma. – Harry falou alguma coisa finalmente.
– Me acalmar é o caralho! – Gritei e bati na mesa.
Respirei fundo várias vezes, tentando me acalmar. Os dois engravatados olhavam para mim, curiosos a respeito da minha reação.
– Patty nunca reclamou do serviço que estava prestando. Ela tinha material à vontade. Se ela não estava conseguindo trabalhar bem com aquilo, deveria vir a mim, como qualquer outro funcionário meu sempre fez desde que assumi esse lugar.
– Alguma de suas funcionárias mulheres estariam dispostas a testemunhar? – Colbie perguntou.
– A escolhida deve exalar confiança, parecer indubitável aos olhos de qualquer um, ter credibilidade estampada em seu rosto. – Jules complementou. – Precisamos convencer o juiz também no visual.
– A Tia poderia fazer isso. Tenho certeza de que ela não se incomodaria.
– E aí eu teria que tirar a minha melhor funcionária daqui em pleno dia de serviço? – Perguntei.
, é o que a gente tem.
– Mas, senhor , essa situação não nos preocupa tanto. Com testemunhas que não tenham ligação emotiva com o senhor, não há motivo para o juiz considerar que as palavras sejam inválidas. A testemunha que a senhorita Watson tem é amiga dela, podemos usar isso contra.
– Vocês devem usar.
– Nós devemos nos preocupar é com o senhor Rogers.
– Por quê?
– O senhor disse que a única testemunha do acordo que fizeram foi o senhor Judd. – Jules apontou para Harry.
– Sim, ele estava na sala comigo. É comum que nós dois façamos esse tipo de conversa com os funcionários de forma geral, pra qualquer assunto.
– Mas o senhor Rogers sabe que vocês dois são ligados além do laço entre dono do estabelecimento e gerente. Os advogados dele certamente sabem disso e irão usar contra o senhor.
– Ok, e o que vocês sugerem que eu faça?
– Sobre ele, ainda estamos tentando pensar a respeito de uma tática mais segura, na falta de uma palavra melhor. O valor é bem abaixo do valor que a senhorita Watson está pedindo, não vai denigrir a imagem da sua empresa perante outros possíveis empregados. Talvez o senhor pudesse considerar fazer uma contraproposta.
– Claro, vou fazer, uma contraproposta de dez centavos. E ele não merece nem isso!
– Senhor , por favor...
– Eu acho que já ouvi o suficiente por hoje. – Não deixei que Jules terminasse sua fala. – Por favor, me envie por e-mail o que é necessário para apresentar a Tia como testemunha no caso da Patty. E podem apresentar uma contraproposta de setecentas e cinquenta libras pro Rogers. O trabalho que eu teria para ir a julgamento, além dos gastos com vocês, faria valer a pena pagar por esse valor.
– Ok então. – Jules se levantou da cadeira, sendo seguido por Colbie. – Vou pedir que redijam a proposta e também envio para sua aprovação amanhã.
Trocamos cumprimentos e Harry os levou até a porta. Enquanto isso, eu fui até a cozinha para pegar um pouco de trifle que havia sobrado da sobremesa do almoço.
, – David me chamou, estava lavando a louça. – eu posso faltar amanhã? Pode descontar do meu pagamento, não tem problema. Sei que tá complicado, mas...
– Cara, eu realmente preciso de você aqui amanhã. Vou ter três funcionários de folga.
– Minha namorada vai fazer ultrassonografia pra ver o sexo do bebê amanhã.
– Eu posso cobrir a folga dele, . – veio da despensa.
– Você vai cobrir uma falta pela terceira vez seguida? De jeito nenhum, , você precisa folgar também.
– Eu posso ficar, .
– Poxa, muito obrigada.
, vem cá. – Fiz sinal com a cabeça na direção do salão e ela me seguiu. – Você não tem que fazer isso.
– Mas não tem problema. De verdade. É até bom, porque o dinheiro me ajuda também.
– Você tá precisando de alguma coisa, ?
– Se o senhor estiver me oferecendo algo fora do acordado entre nós no contrato de trabalho, não precisa. Minha mãe me ensinou muito bem que eu não preciso ganhar as coisas enquanto puder conquistar.
– Você não estaria deixando de folgar tanto se não precisasse de ajuda.
– Eu estou bem.
– Mesmo?
– Mesmo. – Ela tentou sorrir. – Eu dei uma planejada no menu da próxima semana, tem algumas coisas que vão vencer e precisamos usar.
– Ótimo. Você pode deixar comigo no fim do dia?
– Posso sim. – Ela sorriu mais uma vez. – Mais alguma coisa?
– Não, pode voltar.
assentiu e se afastou. Levei dois potes de trifle comigo para o escritório.
, você precisa ser um pouco mais paciente com os advogados.
– Você parece minha irmã falando assim.
– É a verdade. – Harry puxou uma cadeira e sentou de frente para mim. – O que vamos fazer se perdermos a ação contra a Patty?
– Não podemos perder a ação contra ela.
– Mas a gente tem que considerar a opção, . A gente tem que se preparar pra isso.
– Harry, eu não tenho vinte mil pra pagar aquela filha da puta mentirosa. Eu já dei tudo o que eu tinha pra manter esse lugar e não atrasar os salários. Se eu precisar de vinte mil, vou ter que vender o carro. E lá se vai a minha última reserva financeira.
– Eu posso ajudar, tenho algo guardado...
– Harry, nem pensar. – Eu nem deixei que ele terminasse a frase. – Você tem filhos, já faz demais pra me ajudar com esse lugar.
– Você já pensou em vender isso aqui? A propriedade vale muito, você poderia tranquilamente voltar a Londres e recomeçar sua vida.
Eu olhei para um dos retratos da mesa, onde eu estava com meus pais.
– Eu não tenho raiva por ter ficado só com esse lugar pra tomar conta, mas porque não dividiram a responsabilidade com a minha irmã. Ela ficou só com o bom e eu fiquei com um lugar que estava indo para a falência. – Suspirei. – Não posso vender. Eles não me perdoariam.
– Você sempre acha que deve muito aos outros quando não deve tanto assim. O que me lembra outro assunto, na verdade.
– Do que você tá falando?
.
– O que tem ela?
– Você acha que eu não vi o episódio do chá?
– Não sei em que ponto você tá querendo chegar, Harry.
– Ah, , por favor! Até quando a gente tava no final do ensino secundário e você não fazia ideia de como flertar com uma garota, as coisas eram mais discretas.
– Não sei de onde você tirou que eu estou flertando com alguém. – Eu me defendi.
– Você não estava? – Harry perguntou, com tom de deboche.
– Eu to falando sério.
– Eu também. – Ele se levantou. – Você merece alguém que seja parecido contigo.
– De onde você tirou esse papo de cupido?
– Você acha que eu não vejo como você se sente quando vai lá em casa? O jeito que você olha pras crianças, como você observa meu relacionamento com a Izzy... Você pode tentar me enganar de diversas formas, , mas eu te conheço.
Quando terminou a frase, ele andou para fora do escritório. Harry parou quando já estava de saída, com a porta no meio do caminho para ser fechada. Então ele se virou e eu soube que vinha alguma gracinha.
– Eu vejo o jeito como você olha pra ela, .
– Acho que você tá vendo demais agora.
– Talvez isso seja bom pra você.
– Seja bom pra mim como, Harry?
– Não sei. – Ele deu de ombros. – Vocês dois são muito iguais, os dois precisam tomar vergonha na cara e aprenderem a serem vocês mesmos... E estão solteiros. Bem, ela tá solteira, até onde eu sei.
– Harry, sério, não é hora pra isso.
– Então você vai ficar sozinho pra sempre? Boa sorte, irmão.
– Harry!
– Câmbio, desligo. – Ele gritou e fechou a porta do meu escritório.
Ia começar a resolver algumas coisas pelo e-mail, ajustar os dados de algumas planilhas, fazer o meu trabalho de proprietário da pousada mas, de repente, eu não tinha mais disposição. Fui fechando as janelas até só ficar visível a minha área de trabalho. A foto do plano de fundo ainda era a última foto que eu havia tirado com meus pais. Fiquei olhando para ela durante um tempo até decidir, finalmente, que eu não iria produzir nada ali e que era melhor desligar logo a máquina e me dar um descanso mental para, depois, voltar a trabalhar direito.
Levantei da cadeira e fui até a janela de onde eu costumava ficar olhando para o mar. Estava azul escuro, puxando para um tom verde. De lá, eu podia ver também uma boa parte do pátio externo da pousada. Ironia do destino ou não, estava lá, servindo o casal de idosos da suíte quatro. Eu já ia sair da janela, mas algo me prendeu ali.
Seria idiotice por completo tentar dizer que não chamaria a atenção de um homem que olhasse bem para ela. Não tinha um corpão, não era como as garotas capas de revista ou modelos de Instagram. Mas talvez fosse isso que agradasse a minha vista quanto a ela. Ter vivido com Felicity não resultou em uma boa experiência. Não que eu estivesse pensando em ter outra pessoa na minha vida. Felicity tinha me cansado tanto que eu praticamente havia me prometido não ter algo sério de novo nunca mais. Mas parecia o tipo de pessoa pé no chão, que não faria mal a ninguém intencionalmente, que tinha um coração puro. Parte de mim queria aprender com ela, talvez fosse daí que a atração começou a querer vir. Disso e, é claro, da conversa com Harry naquela tarde.


Continua...



Nota da autora: Ai, meus nenéns <3

MENINAS! AGORA TEMOS UM GRUPO NO FACEBOOK! A pedido de algumas leitoras, estou criando um grupo onde podemos conversar melhor do que aqui sobre os capítulos, sobre as atualizações e sobre quase qualquer outra coisa! Para entrar, clique AQUI!.





TODAS AS FANFICS DA AUTORA:

All Roads Lead to You [Supernatural - Em Andamento]
Badges and Guns [Henry Cavill - Em Andamento]
Before She's Gone [BTS - Finalizada] (em breve)
02.Black Swan [BTS - Ficstape BTS: Map of the Soul 7] (em breve)
Don't Tell My Ex [Henry Cavill - Em Andamento]
03.Gorilla [Sebastian Stan - Ficstape Bruno Mars: Unorthodox Jukebox] (em breve)
I Don't Want Somebody Like You (I Only Want You) [McFLY - Em Andamento]
01.I Forgot that You Existed [Original - Ficstape Taylor Swift: Lover] (em breve)
In the Eye of the Hurricane [Bon Jovi - Em andamento]
Just a Heartbeat Away [Louis Tomlinson - Shortfic] (em breve)
Me Peça para Ficar [Clube de Regatas do Flamengo - Em andamento] (em breve)
Move If You Dare [McFLY - Shortfic]
No Angels [Supernatural - Em Andamento]
Para Ter Você nos Meus Braços [Clube de Regatas do Flamengo - Shortic]
Por um Acaso do Destino [Clube de Regatas do Flamengo - Em andamento]
13.Something for the Pain [Sebastian Stan - Ficstape Bon Jovi: One Wild Night] (em breve)
01.The Crown [BTS - Ficstape Super Junior: Time Slip] (em breve)
Traded Nightmares for Dreaming [McFLY - Em Andamento]
Tudo por um Gol [Clube de Regatas do Flamengo - Finalizada]
06.Walls [Henry Cavill - Ficstape Louis Tomlinson: Walls] (em breve)


comments powered by Disqus