Última atualização: 10/01/2020
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Prólogo

Eu não queria estar ali e podia sentir claramente que a jovem do outro lado da mesa também não estava confortável com a situação. “A jovem”... A garota tinha a mesma idade que eu. Estar naquela posição era realmente horrível para mim, em todos os sentidos. Mas Harry, como meu gerente, me obrigava a estar em toda e qualquer entrevista de trabalho. Eu só queria gritar a plenos pulmões que não suportava mais aquilo tudo.
– E então, senhorita , preciso fazer a pergunta de ouro... – Harry abaixou os papeis e sorriu para a garota. – Por que devemos contratá-la?
Se ela não estava desconfortável antes, a cereja do bolo tinha acabado com ela. Provavelmente, desapareceria em um piscar de olhos se pudesse.
– Senhor Judd, senhor ... – Ela deu de ombros e se encolheu ainda mais. – Olha, eu realmente preciso do trabalho. Pra ser sincera, nem queria estar aqui e – Ao menos, temos algo em comum, a sinceridade ao extremo. – não sou de fazer coisas contra a minha vontade. Mas eu preciso. De verdade. E posso comprovar que sou capaz de transformar minha necessidade em produtividade para vocês.
– Por que você insiste tanto em precisar da vaga? – Perguntei sem ao menos perceber. – Qualquer um, na teoria, que vier até aqui precisa.
Ela ajeitou o cabelo, mais encolhida ainda, se era possível.
– É assunto pessoal, senhor .
Odiava ser chamado daquele jeito.
– Ok, Harry, – Finalizei a tortura de nós dois. – acho que temos o que precisamos. Entramos em contato para dar uma resposta, senhorita .
Ela assentiu, ofereceu a mão para um breve cumprimento e agradeceu a nossa atenção. Harry colocou a pasta dela na segunda gaveta e puxou outra pasta.
– Tá brincando...
– Não to não.
– Quantas ainda temos?
– Sete até o final do dia.
– É mesmo necessário que eu esteja aqui?
– Você é o patrão, , é obviamente necessário que você esteja aqui sim.
– Eu não aguento mais... – Murmurei.
– Senhorita Field! – Harry gritou ao meu lado. – Pode entrar, por favor.
Sophie Field era uma loira de farmácia que entrou com um chiclete na boca e atendeu uma ligação no meio da entrevista. Fora. Ruby Brennan usava muitas gírias, encaixou três palavrões na nossa conversa e, ainda por cima, sugeriu mudar a decoração. Fora. Courtney Morgan veio com um decote tão chamativo que me deixou desconfortável, além das unhas de quase dez centímetros de comprimento. Fora. Maya Middleton dominou a conversa toda, praticamente não permitindo que fizéssemos quaisquer possíveis perguntas, inclusive nos questionando em alguns momentos. Fora. Eloise Ashton era tímida demais, respondeu às perguntas com palavras curtas e monossilábicas, parecia ter algum tipo de transtorno que demandava tratamento e, muito embora estivéssemos dispostos a investigar mais a ruiva e pensar em dar uma chance a ela, descobrimos que estava mentindo no seu currículo. Fora. Isobel Ferguson conseguia ser mais prepotente que Middleton e reclamou de diversas partes nos critérios de preenchimento para a vaga, principalmente enfatizando que não trabalharia por menos que o dobro da quantia mensal oferecida. Fora.
Paige Holt foi quem mais se aproximou do que precisávamos, embora tivesse uma tatuagem enorme no pescoço que subia para o rosto. Eu não podia falar nada, tinha belas – não tão belas assim – tatuagens que talvez removeria se tivesse a chance. E era por isso que eu tentava evitar camisetas ou blusas de manga curta quando estava na pousada. Era um ambiente de trabalho, profissional, clientes podia se sentir desconfortáveis e... Quem eu estava querendo enganar? Meu cabelo era tudo, menos profissional. Cacete, eu estava realmente no fundo do poço, mergulhado em uma completa bagunça.
– Você vai contratar a menininha ingênua. – Harry disse quando a última saiu.
– Por quê?
– Porque te conheço desde que éramos crianças, não se esqueça disso.
– Ingenuidade nem sempre é bom quando se lida com clientes.
– Não é só esse o ponto. – Harry puxou de novo uma pasta da mesa de meu escritório, as letras garrafais do lado de fora. – Ela mora perto, então há menor chance de imprevistos que a impeçam de vir ou causem atrasos. Fez dois anos de Direito em Oxford e teve bom desempenho nas disciplinas, o que significa que inteligente ela é. Não tem filhos, não tem namorado...
– Ela pode ter mentido sobre isso.
– Você realmente acha que ela mentiu?
Revirei os olhos e olhei para o mar através da minha janela.
– Claro que não.
– Então você vai contratá-la.
– Você tá me dando uma ordem?
– Eu?! – Ele disse e pegou sua mochila no chão, junto ao pé da mesa. – De jeito nenhum. Estou apenas constatando o óbvio.
Fiz um som com a boca sem nem mesmo entender qual era a minha intenção com aquilo. Pelo reflexo do vidro, vi Harry se aproximar da porta.
– Precisa de mais alguma coisa?
– Não, pode ir pra casa. Além do mais, já deu o seu horário.
– Você tem certeza? – Harry insistiu. – Eu posso ficar se você não estiver bem, só preciso passar em casa pra avisar a Izzy e...
– Eu estou bem, Harry.
– Ok então. – Ele levantou as mãos como alguém que está se rendendo. – Me liga se precisar de alguma coisa.
– Pode deixar.
Continuei ali, olhando pela janela do quarto que havia sido meu desde que me conhecia por gente. Um ar saudoso invadiu meus pulmões. Eu nem percebi quando peguei o telefone fixo e comecei a discar o número que estava no papel.
– Alô?
– Senhorita ?
– Eu mesma.
– Aqui é , da pousada Parsons.
– Ah, – Ela derrubou alguma coisa do outro lado da linha. – olá, senhor . Ficou alguma coisa pendente?
Olhei para o mar uma última vez, torcendo para Harry estar certo.
– Você pode começar amanhã? – Eu disse a ela.
Um silêncio definitivo tomou conta da ligação por longos segundos.
– Senhorita ?!
– Claro. – Ela falou, rápido demais. – Posso sim.
– Ótimo então, fico feliz. Esteja aqui às sete, por favor.
Acho que ela pensou ter desligado a ligação, mas consegui ouvir um grito bem feminino do outro lado enquanto abaixava o telefone em direção ao gancho. Ri sozinho enquanto ajeitava a bagunça sobre a mesa. O retrato dos meus pais, logo à esquerda, quase me observava.
– Estou fazendo isso por vocês dois. – Murmurei, mesmo sabendo que eles nunca mais escutariam.


Capítulo 01

Acordei com o despertador do celular e, pela milésima vez só naquela semana, tive vontade de jogar o aparelho pela janela. Chequei as horas e me perguntei em seguida o porquê de estar acordando às seis da manhã. Então lembrei de que tinha uma nova funcionária pra treinar.
Levantei da cama e fui para o banheiro tomar um banho correndo. Escovei meus dentes, acertei o cabelo para que parecesse um pouco menos bagunçado e enfiei o celular no bolso da calça jeans. Estava indo para a cozinha quando vi passando pela porta de entrada. Olhei o relógio de pulso e estranhei.
– Bom dia. – Eu a cumprimentei. – São seis e meia ainda, você chegou bem cedo.
– Bom dia. Perdão, eu não queria correr o risco de me atrasar. Posso esperar lá fora, se o senhor quiser.
– Não precisa dessa formalidade toda comigo, temos a mesma idade.
– Mas o senhor é o meu patrão, então...
Revirei os olhos longe da vista dela.
– Estou indo tomar café. Gostaria de me acompanhar? É bom que você já conhece a cozinha.
– Claro. – Ela murmurou, segurou sua bolsa com mais força e eu notei que a menina estava uma pilha de nervos.
Podia jurar que me arrependeria daquilo, mas acabei me aproximando dela inevitavelmente.
– Ei, fica tranquila. Isso aqui não é um bicho de sete cabeças, você vai tirar de letra.
tentou abrir um sorriso e assentiu.
– Quer deixar sua bolsa no armário? Ninguém mexe mas, se você não se sentir confortável, pode deixá-la no meu escritório também.
– Pode ser no armário.
Mostrei à menina quase sem voz a recepção no hall de entrada da casa. Ela aproveitou para deixar sua bolsa no armário logo abaixo da bancada. Utilizei o tempo ali para mostrar, por alto, como funcionava o esquema das chaves e pagamentos, prometendo deixar Harry mostrar a ela o funcionamento do sistema de reservas. Seguimos para a cozinha, e eu peguei uma maçã da fruteira logo na entrada.
– Pode ser que você seja solicitada aqui, eventualmente, conforme necessário, ok? Mas não se preocupe que as tarefas difíceis têm seus responsáveis. Se precisarem de ajuda, você será a responsável por esquentar alguma coisa no micro-ondas ou cortar cebolas, nada demais. Alguma dúvida até aqui?
– Não, senhor.
– Ali atrás, fica a dispensa, onde guardamos as compras para a cozinha, mas eu sempre peço para manterem organizada, então não tem nada a ser observado. Você terá tempo pra conhecer essa parte. Pode ser que um hóspede peça, por exemplo, uma garrafa de água ou um copo descartável, e é dali que você vai tirar. Falei rápido demais?
– Não, senhor, está tudo bem.
– Ok então, podemos ir até o depósito.
Eu mostrei a ela o porão, onde havia a lavanderia e as incontáveis prateleiras que abrigavam lençóis, cobertas, travesseiros, toalhas, cortinas, xampus, sabonetes e todos os outros tipos de materiais que pudessem ser necessários para os quartos. Junto da estante, uma porta que levava para o “armário” de limpeza, um cômodo minúsculo que continha todo o necessário para manter os padrões que meus pais gostariam que eu mantivesse por lá. E foi de lá que eu escutei o meu nome ser chamado pelo primeiro funcionário que chegava sempre.
Harry.
– Bom dia, senhorita , bom vê-la aqui.
– Bom dia. É igualmente bom estar aqui, senhor Judd. – Ela o cumprimentou.
– Por favor, só Harry basta.
– Bom dia, meninos! – A voz alegre de Lara veio da porta de entrada. – Opa, temos gente nova.
– Lara, essa é a . Ela vai ajudar a gente com a saída do Tom e da Patty.
– Olá, , é um prazer.
Lara, como sempre energética, se aproximou de para dar a ela um abraço caloroso. Eu assisti, do meu lugar, em silêncio, enquanto a menina ficava mais desconfortável ainda. Era bem claro que ela não queria estar ali, ou então estava realmente muito assustada. Mas não importava, eu realmente acreditava que ela era a melhor opção disponível e que não faria nada por mal entre a gente.
, se importa se eu a levar comigo pra me ajudar com os preparativos pro café da manhã? – Lara perguntou. – É claro, se você quiser, .
– Sem problemas. – Ela respondeu.
– Então, por mim, tá tudo ok. Se precisar de algo, , eu estarei em meu escritório. Ou você pode procurar o Harry por aqui. Acho que, por hoje, seria bom que você ficasse com Lara na cozinha, pra começar a aprender como as coisas tocam por lá. Lara, depois a apresente pros outros funcionários e a ajude com a questão dos quartos. Pode ser?
As duas assentiram e foi praticamente carregada por Lara na direção da cozinha. Eu me virei para Harry, que tinha um sorriso irônico no rosto.
– Podemos conversar? – Ele perguntou.
Apontei na direção do escritório e ele foi na frente. Quando passamos pela porta, girei a chave na fechadura.
– E então? Do que se trata?
– Os advogados ligaram pra mim essa manhã. Disseram que não conseguiram falar diretamente com você.
– Merda... Acho que tirei o telefone do gancho e não lembrei de colocar de volta.
– Tudo bem, isso não vem ao caso. Mas temos um problema.
– Outro?!
– É, outro. – Harry sentou na poltrona de frente para a minha mesa. – Os dois pombinhos estão nos processando.
Eu despenquei na minha cadeira e coloquei a mão na cabeça.
– Tá brincando, né?
– Eu queria.
– Com base em quê?
– Patty afirma que as funções atribuídas a ela eram sexualmente discriminatórias.
– ‘Sexualmente discriminatórias’? Isso sequer existe?!
– Aparentemente... E Tom alega que não teve direito às férias.
– Como não? Nós conversamos várias vezes a respeito disso, ele sempre deixava pra depois e... – Passei a mão no cabelo, sabendo que ia por água abaixo toda e qualquer tentativa de ajeitar aquela merda mais cedo. – Ah, cara, você tava presente nas conversas, além de eu ter registro de mensagens no celular também.
– Eu sei. Quanto a ele, não estou nem um pouco preocupado.
– Esse filho da puta sabe da nossa condição. Ele sabe que a gente tá indo de mal a pior. Qual a intenção dele em fazer uma merda dessas?
, calma, se estressar não vai levar a lugar nenhum.
– Bem, ficar calmo também não tá levando! – Eu gritei e soquei o tampo da mesa, me arrependendo logo em seguida, sob o olhar de um Harry que estava contendo uma risada. – Eu não fiz nada disso.
– Como eu disse, , eu sei. Mas a gente vai precisar enfrentar as consequências, é nisso que dá ter funcionários e não tem como você fazer tudo por aqui. Aliás, falando em funcionários, como está a novata?
– Bem. – Respondi. – Chegou meia hora mais cedo que o planejado hoje. Ainda tá com medo de tudo, mas...
– Ah, ela tá com a Lara, o medo vai passar já.
– Ou vai piorar, né?
Olhei para o retrato dos meus pais enquanto Harry ficava pensativo.
– Já fez a lista de compras do mês? – Ele perguntou. – Acho que seria bom irmos logo, tá chegando a época da carne ficar mais cara.
– Fiz ontem à noite. Achei melhor esperar pra dar uma conferência com os funcionários antes de te mandar às compras. Vou esperar o movimento do café da manhã passar pra fazer isso.
– É bom.
– Chegou mais um quarto ontem à noite, depois que você saiu. Um casal que teve problemas em outra pousada, que tá lotada.
– Então temos três quartos ocupados?
– Exatamente.
– Bem, é melhor que dois.
– Mas ainda temos nove vazios.
– Vamos lá, , é primavera ainda. As temperaturas estão baixas, a cidade não tá movimentada...
– Não tá, mas o casal foi recusado em uma pousada com overbooking. – Eu o interrompi. – Harry, eu sei que nós não somos os melhores na área mas, sinceramente, nós também não somos os piores. Nem de longe! Temos uma boa área externa, vista pro mar da maioria das suítes... Nós inclusive temos aquela merda de ‘selo verde’, que não nos trouxe nada até hoje.
– Mas a gente pode colocar nos sites de reserva, é algo a mais.
– Harry, não enche.
Ouvimos duas batidas na porta e Harry se levantou prontamente para atender.
– Ah! Olá, Vicky.
– Bom dia, Judd. ?
– To aqui.
– Hóspede da suíte sete reclamando de vazamento do banheiro.
– Isso não pode ser real... – Resmunguei. – Harry, chame o Oliver pra consertar isso.
– Tudo bem, vou ligar pra ele.
– Não! – Gritei, mudando de ideia imediatamente. – Transfira o hóspede pra suíte oito. É melhor, diga que é um agrado pra suprir o inconveniente. Não temos nenhuma previsão de lotação pelos próximos dias, deixa pra consertar isso depois. Só vá lá e feche o registro.
– Tem certeza?
Os dois me observavam da porta com olhares curiosos. Eu apenas assenti e, logo, os dois se retiraram. Olhei de relance para o infame telefone e o devolvi para o gancho. Que começasse o estresse do dia.
, temos maionese ainda?
– Sim, na dispensa. Sei que tá acabando, tá na lista pra próxima compra.
– Beleza então. – Stephen falou. – Já descobriu qual a desculpa dessa vez pro David ter faltado?
– Você fala demais. – Harry nos interrompeu. – Qual o menu do almoço de hoje? Pra eu já colocar a placa na rua.
Dylan saiu da dispensa com um saco de batatas nas mãos.
Fish and fries! – Ele gritou. – Cadê a novata? Ela seria muito boa pra ajudar a descascar isso aqui.
– Tá com a Lauren, ela tá mostrando como fazer a arrumação dos quartos de acordo com os nossos padrões.
– Mas não tem como ela demorar tanto assim, né? Nem hóspede temos!
– Vocês vão continuar falando merda até quando, hein? – Elevei a voz. – Façam o que vocês têm que fazer. A novata, que tem nome e é , por acaso, não existia ontem e vocês fizeram o serviço da mesma forma.
– É, mas agora que tem ela...
– Chega, Dylan. Por favor, eu to no meu limite. Preciso de gente aqui que queira ajudar. Vocês querem ajudar? Ótimo. Fiquem e ajudem. Do contrário, vocês viram a quantidade de gente que apareceu por aqui ontem para uma simples entrevista de emprego. Se quiserem cair fora, agora é a hora. Só, por favor, eu estou pedindo encarecidamente pra que vocês façam o trabalho de vocês. Podem reclamar o quanto quiserem quando o expediente acabar, mas preciso que não haja erros por aqui.
Os dois homens deram o assunto por encerrado com uma cara feia. Tia entrou logo depois pela cozinha.
– Desculpa o atraso, meninos, tive problemas com a Sophie.
– Sem problemas, seu marido ligou pra avisar. – Harry respondeu.
Eu fui caminhando sozinho para a área externa, de onde o mar podia ser observado de um ponto de vista melhor. Puxei o celular e pensei em fazer a ligação, mas não queria parecer um covarde àquela altura do campeonato. De qualquer forma, ainda estava muito cedo até mesmo para pensar em desistir.
– “Pedindo encarecidamente”... Meu Deus, nunca pensei que escutaria você falar assim.
– Dá um tempo, Harry. Eu sei que você gosta de fazer piadas, eu sei que você sempre diz que levar a vida com graça é o que pode tornar as coisas mais leves por aqui, mas eu realmente to de saco cheio disso tudo e to doido pra chutar o balde nesse exato momento.
– Ei, – Ele colocou a mão no meu ombro. – eu sei que tá foda, mas você é capaz disso.
– Será que sou? – Perguntei, ironizando. – Sabe do que eu sou capaz? De sentar na porra de uma mesa de escritório e fazer projetos. Eu sou muito bom em planejar design de interiores e deveria ter ganhado um prêmio por isso! Mas sabe o que meus pais escreveram no testamento deles? O apartamento em Londres, pra Elizabeth. O carro, pra Elizabeth. O sítio, pra Elizabeth. E a porra da pousada que já não estava lucrando direito há anos fica pra mim!
Quando terminei de levantar minha voz, notei que não estávamos mais sozinhos. estava com a cabeça baixa, as bochechas coradas e os olhos visivelmente arregalados. Quase pude ouvir a voz de Harry soltar um “parabéns, , assustando a novata”.
– Perdão, , não sabia que você estava aí.
– Tudo bem. – Ela falou, a voz muito baixa. – Naomi teve um problema em casa e pediu pra que eu assumisse a recepção por uns minutos. Ligaram pra fazer uma reserva pro final de semana, um casal com filhos. Eu anotei as informações, passei os dados bancários pro depósito. Mais alguma coisa que eu precise fazer? Ainda não me ensinaram a mexer no sistema.
Olhei para Harry, a frase que eu imaginara certamente estava quase escapulindo de seus lábios.
– Não tem mais nada, , é isso mesmo que fazemos por aqui. Quando Harry puder, ele te mostra como funciona o sistema. Anota as informações num pedaço de papel e deixa em cima da minha mesa, por favor, pra eu ficar de olho se o depósito vai cair.
Ela assentiu e saiu a passos largos de perto de nós.


Capítulo 02

Não era a primeira vez em que pousada ficava completamente vazia desde que eu assumi os negócios, infelizmente. Por conta disso, eu estava sem compromissos. Izzy estava insistindo há semanas para que eu fosse jantar com ela, Harry e as crianças. Eu sempre tinha uma boa desculpa na ponta da língua para negar mas, daquela vez, Harry sabia que não tinha nada me impedindo.
Eu gostava deles. Quando os dois começaram a namorar, eu dei a maior força para Harry. Ele foi o único namorado sério dela e ela, a única namorada séria dele. Era o casal que eu mais admirava no mundo. Apesar de todos os problemas, eles sempre estavam inabaláveis. Quando as crianças chegaram, o pacote só melhorou. Harry sabia que eu era apaixonado pelos filhos dele e minha maior diversão no mundo era quando eles davam as caras na pousada.
Vesti o básico, uma calça jeans, camisa branca e jaqueta de flanela quadriculada por cima. Era difícil ter a chance de usar roupas mais descontraídas, então decidi aproveitar a oportunidade. A casa deles ficava a exatamente um quilômetro da pousada, seguindo pela orla. Como não estava nos meus melhores dias e o tempo estava aberto, decidi que andar talvez fosse me fazer bem.
Desci a rua estreita que levava para a orla com passos curtos. Estava até adiantado, o que era surpreendente. Àquela hora do dia, com o sol já se pondo, era bem bizarro, mas eu me recusava a acreditar que poderia ser perigoso. Foi naquelas ruas que meus pais me criaram e eu fazia aquele caminho todo santo dia desde que me conhecia por gente. Não era a iluminação do crepúsculo que ia me assustar.
Apenas um carro passou por mim, o que foi consolador, porque seria frustrante não ter hóspede mesmo com a estrada movimentada. Logo depois, pude ver o mar novamente da estrada, então desacelerei mais ainda os passos. Sentia falta da agitação de Londres mas gostava muito do mar. Ele me trazia muita calma e era como se pudesse me conectar, de alguma forma, aos meus pais. Passei pela igreja que frequentava quando criança e, um pouco depois da curva dela, cheguei à entrada da casa. Abri a porteira e saí entrando. Só quando cheguei na porta é que fui anunciar a minha presença e toquei a campainha.
– Tio ! – A voz abafada lá de dentro foi seguida pelo som de passos apressados no chão de madeira e, em segundos, Lola, a filha mais velha de Harry e Izzy, estava abrindo a porta para mim. – Oi, tio !
– Oi, princesa! – Eu sorri e a peguei no colo. – Tudo bem com você?
– Tudo bem.
, vai entrando. – A voz de Izzy veio da cozinha.
– Oi, Kit! – Acenei para o mais novo, rindo enquanto estava escondido atrás da parede que levava para a sala.
Chutei os sapatos para que saíssem do meu pé e ficassem no hall de entrada. Fui até a cozinha. Izzy estava com um vestido florido, pés descalços, um avental cinza na frente do corpo e um penteado um pouco bagunçado. Largou a colher de pau dentro da panela ao me ver, tirou o avental por cima da minha cabeça e veio me cumprimentar.
– Ei! – Ela sorriu para mim e me abraçou. – Que bom que você veio. Sente-se, Harry achou que você fosse demorar um pouco e entrou no banho tem uns minutos.
– Sem problemas. – Falei e deixei Lola no chão para que ela fosse brincar com o irmão.
– Desculpa não ter ido na porta, não escutei o barulho do carro chegando, nem vi os faróis.
– Ah, eu não vim de carro.
– Veio a pé?! – Ela perguntou, assustada, recolocando o avental para seguir seu trabalho.
– Vim, é bom pra espairecer de vez em quando.
– Ah, nisso você tá certo.
– Trouxe um vinho. – Levantei a garrafa.
– Obrigada, querido, não precisava.
– Você quer ajuda?
– Não, pode deixar, já tá tudo esquematizado.
– Finalmente! – Harry gritou, descendo a escada da casa. – As crianças já tavam começando a achar que você tinha morrido.
– Menos, Harry. – Izzy ralhou e nós dois rimos.
– Vai uma cerveja pra esquentar?
– Ele trouxe vinho, amor.
– Mas aceito começar com a cerveja sim, obrigado.
Sentei no banco ao lado da bancada principal da cozinha. O notebook de Izzy estava aberto por ali. Izzy era romancista, ganhava a vida escrevendo de casa, o que era conveniente já que tinha duas crianças pequenas em desenvolvimento por perto. Havia um arquivo de texto aberto.
– Escrevendo mais um? – Eu perguntei e apontei para o notebook quando Izzy olhou para mim por cima do seu ombro.
– Esse tá finalizado, na verdade. Estou revisando pra mandar pra editora.
– É sobre o quê?
– Casamento arranjado, herança...
– Parece bom. Me avisa quando sair pra eu poder comprar.
– Pode deixar, eu mando uma mensagem.
Harry me entregou a cerveja e eu agradeci.
– Os advogados ligaram? – Ele me perguntou.
– Sim, mas só pra confirmar algumas informações. Nada novo.
– É melhor que más notícias.
, eu pedi pro Harry te falar... – Izzy começou. – Se estiverem precisando de alguma ajuda lá na pousada, eu posso tentar fazer algo por vocês. As crianças ficam bem tranquilas se tiverem um quarto pra brincar. Você sabe, né?
– Tá tudo bem por enquanto, Izzy, obrigado. A tá fazendo um bom trabalho, ajudando bastante.
– A ?
Até Harry ergueu uma sobrancelha.
– Você a conhece?
– Nossa comunidade não é muito grande, vocês sabem. – Ela disse e limpou as mãos no avental. – Aliás, vocês a conhecem também, só não estão lembrados.
– De onde?
– Da igreja. A mãe dela é Martha , filha da Mary.
– A senhora com Alzheimer?
– Ela mesma, morreu há alguns anos. – Izzy confirmou. – A Martha também não está bem. Eu as vi no hospital, quando fui levar Lola pra uma consulta de emergência por causa daquela gripe que todo mundo pegou. Mas não falei nada. A menina passou muito tempo longe daqui, nem sei se lembra do meu rosto.
– Então era esse o assunto delicado sobre o qual ela falou no dia da entrevista. – Concluí.
– A está indo bem? – Izzy perguntou.
– Muito tímida, mas é boa pessoa. Os hóspedes mais idosos gostam dela.
– Agora tudo encaixa.
Um barulho agudo e rápido ecoou pela cozinha. Izzy pegou duas luvas térmicas e abriu o forno, tirando uma bela lasanha de lá. Colocou sobre a bancada, onde havia um descanso de panela.
– Espero que tenha ficado bom, foi uma amiga italiana que me passou a receita.
– O cheiro tá incrível, meu amor. – Harry disse, a abraçando de lado, e deu um beijo na testa dela.
Quase me deu saudades de Felicity. Quase.
– Vamos comer então? – Izzy falou, animada. – Lola, Kit, vão lavar as mãos.
– Sim, mamãe! – Os dois entoaram.
– Vou precisar lavar também? – Harry brincou.
– É bom, se quiser comer.
Ele riu e foi até a pia.
, pode levar esses pratos pra mesa? – Ela apontou para a louça em cima do mármore.
– Claro. – Respondi e me pus a fazer o que ela havia pedido.
Logo depois, voltei à cozinha e a ajudei a levar taças para nós e copos especiais com suco de morango para os pequenos. Peguei alguns talheres para levar para mesa e dei uma boa olhada ao redor.
– Falta alguma coisa?
– Não, , você já ajudou muito. Obrigada.
Harry voltou com as crianças e nós todos nos sentamos à mesa. Deixei que Izzy colocasse primeiro os pratos dos filhos, já que eles provavelmente levariam muito mais tempo para finalizar a refeição que nós três. Em seguida, ela e Harry fizeram sinal para que eu me servisse. Eu sei que a etiqueta manda que os anfitriões permitam que a visita se sirva primeiro, mas eu não gostava muito dessa regra. Sempre achei que o dono da casa é o dono da casa e ponto final, e Harry sabia bem dessas minhas manias. Mesmo assim, decidi que não ia deixar meu espírito depressivo, rabugento e ranzinza atrapalhar a noite dos dois e me servi logo com um pedaço não muito grande.
– Quer parmesão? – Izzy ofereceu.
– Seria muito bom.
Ela esticou o pote por cima da mesa para mim e eu joguei um pouco do queijo no meu prato, devolvendo-o logo depois. As crianças comiam com sorrisos no rosto, brincando com a comida eventualmente. Harry e Izzy também eram só sorrisos. Aquela cena, em partes, esquentava a minha alma, mas me dava mais saudade do que qualquer outra coisa.
– Onde você vai passar o Natal esse ano, ? – Harry perguntou. – Eu e Izzy estávamos conversando... Os pais dela vão viajar, meus pais também... Se você aceitar, é claro, nós poderíamos ir para a pousada e ficar por lá. Estamos quase lotados pra essa data mesmo.
– Eu gostaria disso. – Sorri.
– Mas só vamos se você comprar um presente pra cada um de nós. – Ele brincou e Izzy deu um empurrão nele. – Especialmente essa aqui. Só aceita joias com três zeros, no mínimo.
– Harry, para.
– Tudo bem, vou ver o que consigo providenciar. – Disse, um pouco divertido com a cena.
Observando os dois, percebi que havia um vazio em mim que eu me negava a aceitar. Não era nada relacionado à falta que meus pais faziam, mas estava óbvio para qualquer um que me conhecesse bem. Provavelmente, para Harry estava tão óbvio que aquele convite para jantar era uma forma de testar se eu estava convencido da existência daquele vazio ou não.
Já estava nos meus trinta e dois anos e tive uma vida interrompida do dia pra noite. Fui criado por uma família tradicional, pai e mãe que se amavam e compartilhavam tudo, vendo uma fidelidade incrível todo santo dia dentro de casa. Em Londres, eu não tinha tempo para pensar nesse tipo de coisa. Acordava trabalhando, dormia trabalhando. Na Cornualha, também não era muito diferente. Eu literalmente vivia dentro do trabalho. Mas havia momentos de paz, onde eu desacelerava por um motivo ou outro. Esses momentos me permitiam pensar e ter desejo de algo que eu não tinha tempo para desejar em Londres: uma família. Trinta e dois anos e eu não tinha uma família.
Se meus pais não tivessem sofrido o acidente, eles me pressionariam e diriam que minha irmã já estava com família estabelecida como argumento. Mas também teriam me feito largar Felicity. Em vida, eles já tinham gastado um bom esforço com isso. A morte deles pareceu abrir meus olhos para um relacionamento fadado ao fracasso como o que eu tinha com ela. Eu gostava, sim, da vida agitada de Londres, mas ainda era um menino da Cornualha.
Estava no meio de uma das últimas garfadas quando meu telefone começou a vibrar no tampo de madeira, fazendo um barulho alto o suficiente para assustar as crianças. Eu tirei o aparelho da mesa imediatamente para cessar o som.
– Desculpa, eu esqueci de desligar.
– Tudo bem, pode sempre ter alguma coisa na pousada, você não deveria desligar mesmo. – Izzy disse para mim. – Pode atender na varanda, se quiser.
Eu sorri sem graça, peguei o aparelho e me levantei. Enquanto caminhava para fora da casa, olhei o identificador de chamadas. Pensei mil vezes antes de atender.
– Oi, Liza.
– Oi, maninho. Como você tá?
– Bem, – Menti. – e você?
– Estamos ótimos. Eu e Luke vamos deixar as crianças com os pais dele e vamos passar uns dias no interior.
– Que bom. – Murmurei, revirando os olhos. – Pra quê ligou?
– Pra saber como vai meu irmão caçula.
– Vou bem, obrigado, já disse. Mais alguma coisa?
...
– O quê?
Ela respirou fundo do outro lado.
– Sabe, não é como se você fosse o único que tem o direito de sofrer.
– Isso nunca saiu da minha boca.
– Mas você pensou.
– Não, Elizabeth, não pensei. Você tá tirando conclusão precipitada, pra variar.
– Você é quem pra falar comigo assim? – Ela gritou.
Eu desliguei o telefone na cara dela. Seria assim, sem arrependimentos, como das últimas vezes. Não tinha o mínimo saco para aguentar falar com minha irmã, ainda mais nos termos que estavam regendo as conversas durante aqueles últimos dias. A porra da pousada não tinha ficado para mim? Para que ela queria saber então de como andavam as contas? Se fosse do interesse dela, teria ido ver por conta própria.
– Tio ?
Dei um pulo no lugar e soquei, sem querer, o guarda corpo. Lola se encolheu. Esperando poder me retratar imediatamente, agachei à sua altura.
– Desculpa, princesa. O que houve?
– Mamãe mandou te chamar pra você comer bolo.
Tentei abrir um sorriso para ela. Lola merecia.
– Que delícia! O bolo é de quê?
– Não sei, tio.
– Você me leva?
Eu estendi a mão para ela, que pegou na minha sorridente e me guiou aos pulinhos de volta para a mesa de jantas dos Judd.


Continua...



Nota da autora: Mais uma loucura minha? Sim, mais uma loucura! Só não posso mais reclamar que não temos capa da Flávia, mas já temos e está maravilhosa! Espero que gostem ❤️





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All Roads Lead to You [Supernatural - Em Andamento]
Aqueles Malditos Olhos Verdes [Jensen Ackles - Em Andamento]
Badges and Guns [Henry Cavill - Em Andamento]
Don't Tell My Ex [Henry Cavill - Em Andamento]
I Don't Want Somebody Like You (I Only Want You) [McFLY - Em Andamento] (Em breve, no especial 'The Lost Authors')
In the Eye of the Hurricane [Bon Jovi - Em Andamento]
Move If You Dare [McFLY - Shortfic] (Em breve, no especial 'The Lost Authors')
No Angels [Supernatural - Em Andamento]
Para Ter Você Nos Meus Braços [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic]
Por um Acaso do Destino [Clube de Regatas do Flamengo - Em Andamento]
Traded Nightmares for Dreaming [McFLY - Em Andamento]
Tudo por um Amor [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic] (Em breve, no especial 'The Lost Authors')
Tudo por um Beijo [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic]
Tudo por um Gol [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic]
Tudo por um Momento [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic]
Tudo por um Sim [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic] (Em breve, no especial 'The Lost Authors')


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