Finalizada em 23/09/2019
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Capítulo Único

Estacionou o carro na vaga reservada para ela. Checou no retrovisor se tudo estava dentro dos conformes com a maquiagem básica que havia colocado mais cedo – estava ainda sonolenta e não confiava na própria capacidade de fazer um delineado decente quando mal conseguia manter os olhos abertos. Após confirmar que tudo estava no lugar, destravou as portas e saiu do carro, rezando para que os saltos que havia colocado não a traíssem. Max estava chegando em sua moto e desceu depressa ao ver a colega se dirigindo ao bloco principal.
– Ei, !
A jovem moça se virou para o rapaz, que estava ajeitando o capacete na moto ainda.
– E aí, gostoso?
– Já falei pra maneirar nos apelidos, a galera aqui fica me pilhando por causa disso.
– Como se você não gostasse... – Ela revirou os olhos e recebeu o abraço caloroso do homem quando este terminou de se aproximar.
– Feliz primeiro dia, senhora jornalista formada. – Max estendeu uma pequena barra de chocolate para ela. – Meus parabéns.
– Já estou aqui há anos, não tem necessidade dessa graça toda.
– Tava, mas como estagiária, e estagiários só servem pra uma coisa: fazer merda.
– Você fala como se fosse um expert no assunto.
– Eu já fui estagiário também, né? – Ele deu de ombros e riu dela.
O letreiro na porta indicava sua mais nova sala. Não era grandes coisas, mas a mobília escura e a cadeira – definitivamente mais confortável que a antiga, e nem precisava sentar-se nela para constatar tal fato – pareciam convidativas demais. Com o tempo, tudo estaria do jeitinho que precisava que estivesse. Mas agora podia bater no peito e falar: era jornalista, com diploma e registro profissional, e tinha deixado de ser uma mera estagiária da redação para se tornar uma das principais da equipe de fotografia do seu time de coração.
– Posso entrar? – Uma voz se fez presente do outro lado da porta.
– Claro. – Ela sorriu ao reconhecê-la.
– Bom dia. – Arrascaeta abriu o melhor dos sorrisos que podia e tirou a bolsa do ombro, deixando-a sobre a mesa nova de . – Trouxe uma coisa pra você.
Ela cruzou os braços, as pernas, e então se reclinou na cadeira, aproveitando o bom ângulo para observar o uruguaio tanto quando podia.
– O que houve?
– Nada. – Ela murmurou, em resposta, ainda o observando.
Giorgian tirou um embrulho rosa bebê com laço vermelho de dentro. O laço, observou, estava um pouco amassado, mas o gesto ainda era singelo e carregado de sentimento.
– É pela sua estreia.
– Não precisava.
– É claro que precisava. – Ele insistiu. – Espero que goste dos sabores, encomendei especialmente para você.
Ela sorriu e abriu o embrulho com cuidado para que não rasgasse nada, como costumava fazer. A caixa revelou um pequeno porém belo conjunto de trufas de chocolate. aumentou o sorriso e olhou de volta para o homem do outro lado de sua mesa.
– Vocês só podem estar querendo me engordar.
– Vocês?! – Giorgian arqueou uma das sobrancelhas, gesto que a mulher admirava.
– É. Você e o Max. É o segundo chocolate que ganho no dia.
– Hoje é seu dia, você merece. – Eric, seu imediato superior, apareceu na porta de sua sala. – Agora não é porque você está assumindo um novo cargo que merece ser tratada como novata. Arrascaeta, você não tem treino agora na piscina?
– Estou partindo pra lá! – Ele disse e foi para a porta, não sem antes deixar uma piscadela para , cujas bochechas ficaram coradas no mesmo instante.
Eric esperou, deu uma última espiada no corredor e, então, fechou a porta atrás de si.
– Você precisa tomar mais cuidado com isso, . Daqui a pouco, os dirigentes vão descobrir e eu não sei até quando vou poder encobrir essas suas “aventuras”. – Ele disse, fazendo aspas com os dedos.
– Tá tudo sobre controle. Afinal de contas, somos só dois amigos, um agraciando o outro com um presente de comemoração por uma nova conquista. Nada de errado nisso, nada que transgrida o contrato. Estou certa?
Eric revirou os olhos. Conhecia muito bem a mulher e sabia que ela estaria com a resposta na ponta da língua para qualquer imprevisto.
– Não vou discutir com você. – Ele disse, abrindo um meio sorriso. – Também não vou te dar chocolate, já que deu pra te ouvir reclamando agora a pouco.
– Ah, para! Eu quero chocolate!
– Não quer, não. Vai te engordar. Agora levante essa bunda da cadeira que temos trabalho a fazer.
– Hoje?!
– Sim, hoje.
– Mas a semana inteira sem compromissos oficiais pros jogadores, o que temos que fazer?
– Primeira porta à direita da sua mesa. Monte a câmera e vá na piscina e na academia tirar umas fotos deles pra enviar pro acervo do site. Depois do almoço, treino no campo. Monitore também. E redija um artigo pro site, falando sobre como anda a preparação pro jogo contra o Atlético Mineiro.
– Sério?
– Estou sorrindo, ?
Ela bufou e obedeceu, começando a preparar o equipamento. Trocou os saltos pela sapatilha de tecido que carregava estrategicamente na bolsa grande que levava, o glamour podia e devia esperar. Prendeu o cabelo, antes solto, em um rabo de cavalo alto. O que mais pensava era em como tinha sido inútil ter caprichado nos cachos abertos naquela manhã.
– Bom dia, . – Gustavo a cumprimentou no corredor que levava à área da piscina coberta, abrindo a porta para a mesma. – Eric já te colocou pra trabalhar hoje?
– Não seria novidade vindo dele, seria?
Os dois riram.
– Não, definitivamente não.
– Bom dia, flor do dia! – Éverton a gritou. – Marília mandou os parabéns pela promoção.
– Agradeça a ela por mim. – Ela disse, gentilmente.
! – Rafinha a chamou também. – Você podia me enviar umas fotos do jogo da semana passada?
– Estão com Max, vou pedir pra ele passar pro seu e-mail.
– Obrigada. – O jogador a respondeu com um sorriso amigável no rosto.
Estava andando até uma mesa na beira da piscina para deixar alguns dos equipamentos e os preparar para a eventual necessidade de troca. Sentia, nas costas, um olhar a acompanhando. Queria se negar a acreditar que pertencia a quem achava que era, ainda mais depois do clima tenso entre os dois na social que fizeram na casa de Éverton e Marília, um dos jogadores principais e a melhor amiga da então jornalista. Então se pôs a continuar seu serviço e puxou uma cadeira para se sentar. Eram os preguiçosos que inventavam as melhores formar de realizar um trabalho afinal de contas, não era? Levantou a câmera na direção de Gerson. Este deu uma piscadinha para ela antes de voltar ao que estava fazendo. Ela sorriu em resposta e bateu a foto.
– Não é pra pararem o que estão fazendo só porque estamos aqui. – Gustavo disse em alto e bom tom.
– Eu senti a indireta. – Gerson respondeu.
– Todos, pausa de dois minutos. – Thiago, um dos preparadores físicos, ordenou.
checou as configurações da câmera e, mais uma vez, a levantou até a altura de seus olhos. Começou a focar quando encontrou o olhar através da lente. Fingiu muito mal que não havia reparado e bateu mais uma foto.
– Alguém sabe o horário do voo na sexta?
– Vai nos dar a honra da sua companhia? – Gabriel ironizou, ao que ela respondeu com uma careta, fazendo ele e Bruno rirem. – Cinco horas da tarde.
– Galeão ou Santos Dummont?
– Segunda opção. – O atacante respondeu e lhe deu as costas, saindo da piscina para buscar um copo de água.
– Você vai mesmo pra Minas? – O colega perguntou ao seu lado.
Ela se levantou, agachou perto da beira d’água e ajustou, mais uma vez, o foco. Bruno estava distraído, e sua mira não falhou, como sempre.
– Vou. Eric pediu que eu o substituísse.
– Uau, isso é grande.
– Eu sei, e eu to preocupada.
– Com o quê? Você dá conta de tudo!
Notou que Berrío estava se alongando na beira da piscina e mirou a câmera em sua direção. Bateu a foto e se levantou, desencaixando a lente que estava usando.
– Gu, pega a 50mm pra mim, por favor?
– É claro. – Ele respondeu com um sorriso e tomou a lente anterior da mão da colega.
– Não vai falar comigo? – A voz soou logo aos seus pés, vindo de dentro da piscina.
– Estou falando com todos normalmente, Diego.
– Ah, bem. Pensei...
– Pensou o quê? – Ela respondeu, o tom de voz desafiador que gostava de usar com o meia.
, como vai? – O técnico entrou no ambiente da piscina e cumprimentou a moça. – Soube da promoção. Meus parabéns.
– Obrigada, Jorge. – respondeu e deixou um sorriso sarcástico com Diego antes de encaixar a lente que Gustavo trouxe até ela.
Foi, então, até o outro lado da piscina. tinha bom olho para detectar onde a luminosidade favorecia alguém. Não que ela achasse que Vitor poderia ser favorecido de alguma maneira. Por conta da paixão que sentia pelo clube desde a infância, nem sempre conseguia separar o emocional do profissional. E Vitor era o perfeito exemplo nesse caso. Odiava ter que lidar com ele, e sentia que não era a única – mas só ela não conseguia disfarçar. Por isso, tinha que se obrigar a lembrar de tirar, ao menos, uma foto dele quando ficava responsável pelas imagens.
– Rodilindo na área! – Rodinei entrou gritando, fechando a cara assim que viu que o treinador estava por ali. – Desculpa o atraso, professor, problemas em casa com a bebê.
– A diretoria já me informou. Ao trabalho, por favor.
Ele assentiu rapidamente, tirou a camiseta e, fazendo um exagero que não cabia à situação, fingiu que a água estava muito gelada. tratou de captar o momento do drama. Checou como a imagem ficou no visor do equipamento e caiu no riso consigo mesma.
– Eu sei que sou lindo, pode assumir.
– É um idiota, isso sim. – A moça retrucou. – Não sei como a Nina te aguenta.
– Ela ama o pretinho aqui.
– Rodinei, mais trabalho e menos falação. – O técnico chamou sua atenção.
aproveitou para tirar uma foto dele enquanto observava a equipe sob seu comendo, compenetrado como sempre e com João, seu fiel escudeiro, logo atrás. O técnico não era lá cheio de sorrisos, mas era boa em ler as pessoas e sabia que, por trás daquela casca grossa, existia um coração cheio de compaixão. Então sorriu ao bater uma segunda foto, para ter certeza de que a primeira não ficaria fora dos seus padrões.
– Ei, ! – Filipe a chamou. – Pode tirar uma nossa e depois me enviar?
– Claro. – Mais uma vez, ela respondeu com um sorriso.
Boa parte do elenco se juntou no centro da piscina. Gabriel, para variar, fez palhaçada e os olhos caíram na gargalhada. capturava todos os momentos com sua câmera, desde a pose inicial até a descontração do elenco. Gostava tanto daquele ambiente que chegava a doer. Foi quando o uruguaio ressaltou por entre os companheiros e os olhares se trocaram. Ela mudou a configuração da câmera rapidamente e direcionou a lente para Arrascaeta. Ele abriu um sorriso derretido para ela, que capturou a imagem, certa de que não dividiria com ninguém. Não aquela.
– Mocinhos, vestiário. – Thiago gritou depois de bater as mãos três vezes. – Quero todos na academia em dez minutos. O Marcos vai guiar vocês lá.
A movimentação fez sair da sua zona de conforto. Enquanto percebia que era hora de ir, se direcionou para a mesa onde havia depositado suas coisas quando chegou. Estava guardando tudo na bolsa quando percebeu que alguém se aproximava.
– Vai me ignorar até quando?
– Não estou te ignorando, e você não pode fazer isso aqui.
– Aqui onde?
Aqui, onde qualquer um pode ver que você tá perto demais pra ser confortável pra mim.
– Somos só colegas de trabalho que se dão bem, não somos?
– Não. – afirmou. – Eu sou a jornalista-barra-fotógrafa da equipe de futebol profissional. Você é o jogador recém divorciado, com dois filhos de bagagem, com quem eu legalmente não posso sonhar em me envolver.
– Mas já se envolveu.
Ela deu de ombros e fechou o zíper da bolsa, pronta para ir ao escritório fazer uma breve pausa.
– Aí é um problema com o qual eu vou ter que lidar. Pode me dar licença?
– Você e o Arrascaeta estão tendo alguma coisa?
ficou imediatamente surpresa com a pergunta. Arregalou os olhos em um primeiro momento, mas logo tratou de dissipar o susto.
– E desde quando isso te diz respeito, Diego?
– Desde quando nós...
Nós?! – Ela o interrompeu. – Nós existimos?
– Então você vai continuar me ignorando.
– Diego, você tem sete minutos pra estar na academia. – sorriu debochada para ele. – Agora, se me dá licença, eu tenho mesmo que ir até o meu escritório.
– Me espere lá na hora do almoço. – Ele disse quando a moça lhe deu as costas.
decidiu ignorar. Não iria esperá-lo. Se ele achava que sim, provavelmente estava sonhando acordado. Mas se recusou a se dar o trabalho de informar Diego sobre isso. Ao invés, foi no escritório e aproveitou para deixar a câmera sincronizando as fotos recém obtidas com a pasta que mantinha na nuvem. A caixa de bombons que Giorgian havia lhe dado estava espreitando-a, de esguelha. Ela, então, sorriu e a tomou para si. A primeira mordida revelou um recheio de coco, o seu favorito, fazendo com o que sorriso aumentasse em seus lábios. Estava tão entretida, os olhos fechados como se servissem para aprimorar a degustação, que não percebeu que não estava mais sozinha em seu escritório. Foi desperta pelo barulho da tranca na sua porta. O susto, em primeiro lugar, rapidamente deu espaço para outro sorriso, este de natureza bem diferente do que estava antes em seu rosto.
– O que você tá fazendo?
– Vim ver você.
– Sabe que não posso.
– Você nunca pôde, mas agora tem uma sala só pra você.
– Agora não posso mais do que nunca.
, por favor...
– Não, Arrasca. – Ela disse quando o homem já estava bem próximo dela. – Qualquer um pode chegar aqui, a qualquer hora. Como explico a porta trancada e você aqui dentro?
– Eu estava conversando com você sobre uma sessão de fotos que quero fazer pra promover uma campanha publicitária.
Ela arregalou os olhos e, logo depois, arqueou uma sobrancelha. Um sorriso travesso brincava nos lábios do jogador à sua frente.
– Quer dizer então que você planejou tudo?
– Você merece que eu planeje tudo.
– Arrasca, não... – Ela murmurou, quase inaudível.
A mão hesitava em impedir a completa aproximação. Estava entre os dois, mas ambos sabiam bem o que a jornalista queria de verdade.
– Gostou dos bombons? – Ele sussurrou bem próximo de seu ouvido, brincando com propositalmente.
– Para com isso. – soltou uma lufada de ar carregada de tensão pelos lábios semicerrados.
Giorgian não podia mais esperar. Não tinham tempo. Por mais que os dois adorassem aquele jogo de negar o outro quando sabiam que se desejavam demais, ali precisavam ser sucintos. Então ele tomou a cintura da jornalista em suas mãos e a puxou em sua direção. Era o suficiente para que ele, toda vez, a possuísse por completo. Não falhava nunca, ele era o ponto fraco dela e ela era o dele.

―‖―‖―‖―


olhou no espelho mais uma vez. Retocara o batom perfeitamente para que parecesse o mesmo de antes. Ao menos o rabo de cavalo havia permanecido no lugar, o que ela não teria tanta sorte para colocar de volta. Mesmo que já tivesse confirmado trinta vezes em sua mente que seu visual era o mesmo de alguns minutos atrás, estava insegura. Não sabia se era consigo mesmo, com relação às pessoas que teria de encarar quando saísse de seu escritório ou se era por conta do uruguaio. Fosse qual fosse a resposta, precisava trabalhar.
! – Ouviu Eric a chamar do escritório vizinho ao seu.
– Sim? – Ela respondeu da porta.
– Você vai poder viajar mesmo?
– Já tinha confirmado com o pessoal que vai separar as passagens.
– Tudo bem então, só pra confirmar. Você vai me ajudar pra caralho, eu realmente precisava desse final de semana de folga.
– Disponha. – Ela sorriu e deu de ombros. – Vou pra academia, precisa de alguma coisa?
– Max falou que vai redigir o artigo, então você tá livre dessa. Mas trate de supervisioná-lo, por favor.
– Só isso?
– Tem mais uma coisa. – Eric disse e fez sinal para que ela entrasse, abaixando o tom de voz. – Para de dar em cima do garoto. Qualquer homem teria um treco por você, e ele tá solteiro faz muito tempo. Você tá mexendo com a cabeça dele.
– Mas você não tem um treco por mim. – Ela riu. – Você sabe bem que não vou parar de provocar o Max.
– Quando ele te pegar, você não vai aguentar.
– Que seja. Algo mais?
Eric revirou os olhos e, sem dizer mais uma palavra, fez sinal para que ela saísse. segurou a gargalhada e deixou o escritório do chefe, rumo à academia. Só de ver aqueles homens fazendo força nos equipamentos sentia vontade de pegar o carro, voltar para casa e dormir por dez horas seguidas. Riu consigo mesma ao pensar naquilo. Gustavo, seu agora assistente, já havia separado a área para que organizassem os equipamentos que iriam usar daquela vez.
– Trinta cliques e vamos almoçar?
– Só isso? – resmungou. – Você tá com preguiça hoje, hein!
– Eu não tomei café da manhã hoje, me dá um desconto.
– Ei, bonita! – tomou o chamado para si, já que era a única mulher que trabalhava ali, e se virou para Renê. – Tá ocupada hoje?
– Você já foi mais discreto pra chamar mulher pra sair. – Gabriel provocou de perto, causando uma gargalhada geral.
– Ela merece tratamento especial. – Renê brincou. – E então?
– Livre como um pássaro. – Ela respondeu.
– Social lá em casa hoje, topa?
Open bar?
– Pra você, – Renê pegou na mão da jornalista e a levou até sua boca, deixando um beijo no dorso. – sempre.
Ela revirou os olhos e riu.
– Me diga o horário e eu estarei lá.
– Oito. – Ele rebateu o comentário.
Ela assentiu e focou Bruno Henrique na câmera, entretido com o exercício na bicicleta ergométrica. Quando a notou, fez pose para ser clicado. A jornalista registrou a imagem e se virou para o resto da academia, se perguntando qual seria a próxima vítima. Foi quando Arrascaeta passou na sua frente, trocando da extensora para a esteira.
– Aeróbico, Arrasca? – Ela provocou, e o uruguaio sorriu imediatamente para ela.
– Pra manter o fôlego em dia.
– É bom mesmo. Menos que dois gols em Minas, eu nem aceito.
Ele riu com a resposta da moça. Segundos depois, esta estava apontando a câmera para o homem, que tentava manter a cabeça distante da percepção dela ali. Havia outro que certamente não deixaria escapar dos seus pensamentos. Diego não parava de notar o sorriso dela, o mesmo que o havia cativado meses atrás. Talvez fosse o fato dela ser, teoricamente, inalcançável que o atraía, e ter uma mulher real para si era tudo o que ele jamais havia vivido. A experiência era perfeita demais para não ser tão desejada quanto ele o fazia. Bufava de raiva, descontando no exercício a frustração que sentia por parecer estar sendo trocado por alguém mais novo.
– Você estressado fica um tesão. – se projetou ao seu lado, disfarçando as palavras que saíam da sua boca com a câmera, focada em Diego.
, – Ele murmurou. – você tá brincando com fogo.
– Nunca tive medo de me queimar.
deu de ombros e focou a câmera nele, com uma atenção especial para aqueles braços que ela tanto gostava. Diego fingiu ignorar, mas era difícil disfarçar o efeito que a carioca tinha nele. Ela saiu de perto do jogador, mas não sem antes notar que os pelos na nuca dele estavam arrepiados. Sorriu ao constatar isso, mas não parou o caminho. E enquanto terminava o trabalho do dia, percebia os dois pares de olhos queimando em suas costas. Queria mais que continuasse daquele jeito, a diversão era boa demais para interromper. Ao menos, para ela.

―‖―‖―‖―


Oito horas em ponto, estava se apresentando na portaria do condomínio onde uns dos jogadores residiam. Pontualidade era o seu maior motivo de orgulho, para tudo. O porteiro da noite já a conhecia devido às diversas vezes em que eles marcaram de sentarem-se em volta da piscina de um deles, tomarem umas boas dezenas de cervejas e falarem besteira até tarde da noite, mesmo que isso significasse quase todo mundo com um par de olheiras no dia seguinte. A diretoria nunca sabia, é claro, porque eles todos preferiam passar a imagem de santos ao invés de expor o pessoal.
– Boa noite, dona Carolina.
Ela revirou os olhos. Odiava ser chamada de Carolina. Era tão difícil entender que era um e e não um a no final da palavra? Era a mesma coisa que chamá-la por qualquer outro nome, quase uma ofensa. Mas respirou fundo, disfarçou bem e fingiu não se importar.
– Boa noite, seu Sílvio. Como vai a patroa?
– Vai bem, melhorou da coluna, levei ela naquela clínica que a senhorita me recomendou.
– Bom! Melhoras pra ela!
Ele acenou com a cabeça e finalmente abriu a cancela de entrada. O motorista do Uber que a levava seguiu as últimas instruções e a deixou em frente a uma das casas mais simples do condomínio. Thaís abriu o portão para ela sem muita surpresa, a pequena Esther aos seus pés, curiosa com a nova visita.
– Oi, baixinha! – abaixou na altura da filha do jogador.
A criança, tímida, abriu um sorriso pequeno e se escondeu atrás da perna da mãe. e Thaís se aproximaram brevemente e deixaram dois beijos na bochecha de cada.
– Um dia, ela vai te dar trela de primeira.
– Eu não sou boa influência pra ela. – A jornalista brincou enquanto entrava no terreno, já caminhando para os fundos da casa onde ela sabia que a churrasqueira estaria sendo acesa.
Iam trocando palavras fúteis pelo caminho. Pluto, o beagle da família, veio receber a novidade com sua alegria de sempre. estava já na esquina do contorno da casa e abaixou para fazer carinho no animal, se equilibrando nos mesmos saltos que havia colocado para ir ao trabalho naquele dia. Quando se levantou novamente, deu de cara com um par de olhos vidrados no decote de sua blusa.
– Chegou cedo. – Observou.
– Você não é a única que pode ser pontual.
– Mas geralmente sou.
– E aí, ? – Renê a gritou da churrasqueira.
Deixou o homem sozinho e se encaminhou para cumprimentar o anfitrião. Depois de um rápido abraço, se afastou e observou o que estava exposto na bancada da churrasqueira.
– Teremos kafta? Que chique!
– A Thaís me mata se não tiver.
– Quem mais vem?
– A galera de sempre, eu acho.
– Amor? – Thaís chamou de dentro de casa.
– To indo! – Ele respondeu. – Se chegar alguém, você pode receber no portão?
assentiu e observou o anfitrião entrar na casa. Estava fingindo interesse nas carnes escolhidas quando sentiu a presença atrás de si, mesmo que Diego não tivesse feito nenhum barulho para se aproximar. Então decidiu não demonstrar o quanto seu corpo estava reagindo àquilo. O problema é que Diego também a conhecia muito bem, e aproveitou a exposição da pele proporcionada pelo coque bagunçado e encaixou o queixo no seu pescoço.
– Você tá uma delícia.
– E você tá um abusado.
...
– O que foi? – Ela se virou rapidamente, ficando de frente para ele, o que desestabilizou o jogador, para a felicidade dela.
– Diego! – Renê chamou de dentro de casa, e os passos fizeram o casal se afastar rapidamente. – Eu fiz uma merda grande, comprei uma porrada de cerveja vencida.
– Parabéns, gênio... – murmurou, rindo.
– Tem como você ir comprar mais pra mim rapidinho?
– To sem carro. – Ele respondeu.
– Pode levar o meu.
Diego assentiu e ponderou por alguns instantes, um tanto quanto aéreo ao local em que estava por segundos.
– Me faz companhia, ?
– Acho melhor eu ficar pra ajudar a Thaís no que precisar.
– Não vou precisar não. – A dona da casa gritou de lá de dentro, fazendo a jornalista querer enfiar a cabeça em um buraco na terra.
O caminho até o supermercado foi em silêncio. Instintivamente, havia chegado as pernas o mais para a direita possível, para longe de Diego. Estava até estranhando o trânsito fluindo muito bem na Avenida das Américas, mas foi só pegarem o acesso para a Ayrton Senna que tudo parou. Ótimo¸ pensou. Não era anormal que aquilo acontecesse, mas podia muito bem acontecer de levarem longos minutos ali. Para a infelicidade da mulher, foi isso que aconteceu. E só serviu para o clima ficar mais tenso.
– Tá com medo de mim?
– Eu?! – fingiu uma falsa indignação. – De jeito nenhum.
– Então por que tá longe?
– É uma SW4, Diego, o carro é grande mesmo.
– Você sabe do que eu to falando...
– Na verdade, não sei. – Ela disse e virou o rosto para olhar mais a frente, o engarrafamento estava se estendendo até, pelo menos, a agulha que precisavam acessar.
– Você e o Arrascaeta...
– Já disse que com quem eu fico ou deixo de ficar não te diz respeito. – nem deixou o jogador terminar.
– E eu já me propus a assumir um relacionamento com você.
– Ah, claro. Eu sou demitida por justa causa por causa disso, lembra?
– Você não vai precisar trabalhar se estiver comigo.
aproveitou a falha para forçar uma gargalhada falsa escandalosa, fazendo Diego revirar os olhos e apertar as mãos no volante do carro.
– O que você quer de mim?
– Achei que já tinha ficado óbvio.
– Não ficou.
– Eu quero você.
A mulher sorriu ao ouvir a voz firme do homem.
– E você poder ter o que quer, mas precisa entender que não vai ser todo dia.
...
– Diego, eu não tenho a mínima intenção de engatar num relacionamento agora, muito menos um que vai foder a minha carreira se chegar a público.
Uma buzina despertou os dois. Foi quando perceberam que os carros haviam andado e estavam bloqueando parte do fluxo. Diego desistiu previamente da conversa e voltou sua atenção para o trânsito. Logo estavam no estacionamento de um dos mercados da região.
– Você vai comigo?
– Claro que não! Como explicar eu estar comprando cerveja com você?
– Somos colegas de trabalho.
– Eu sou a garota que tira suas fotos.
– Você não é só isso.
Ela desafivelou o cinto de segurança e se esticou por cima do apoio de braço central até terem seus rostos colados um no outro. Diego ficou ofegante, e gostava de sentir que tinha todo esse poder com ele.
– Vai comprar a cerveja. – Ela sussurrou em seu ouvido direito. – Vou estar te esperando aqui.
O homem, depois de se recompor, deixou o carro com ela dentro. Demoraram cerca de mais trinta minutos até chegarem de volta. À essa altura, a maioria dos convidados já havia chegado. Ele se enturmou rapidamente com os colegas de time. Marília cumprimentou à distância, o filho pequeno no colo. A jornalista estava pronta para se aproximar da churrasqueira, de onde agora saíam alguns petiscos, quando o portão foi aberto mais uma vez. O coração dela saltou no peito por um segundo enquanto o uruguaio se aproximava dela com passos firmes. A mão na cintura era previsível, mas a tirava de órbita toda vez.
Hola, mi amor. – Ele disse em voz baixa quando a puxou para um abraço mal intencionado.
– Não faz assim que eu me apaixono. – pediu, a voz derretida no sotaque dele.
No estoy haciendo nada.
– Imagina se estivesse.
No se lo digas a nadie, pero la intención es enamorarte.
– Agora deixou de ser sexy pra eu não entender nada.
Ele riu, o que a contagiou e formou um belo sorriso em seus olhos.
– Arrasca! – Gabriel o gritou do outro lado da piscina da casa. – Chega mais, vem ver isso aqui.
Os dois se despediram brevemente com um olhar. Era por isso que tentava manter uma relação de amizade com todos, indiscriminadamente, e jogava cantadas aleatórias para qualquer um, parte por sua personalidade extrovertida e parte por querer disfarçar as coisas com Diego. A chegada de Arrascaeta foi um obstáculo para os dois. Bem, para Diego, porque gostava bastante de se divertir com o uruguaio. Era dois anos mais novo que ela mas, ainda assim, conquistou seu coração – e outra parte do corpo – sem maiores dificuldades. Ela realmente nunca havia pensado sobre um relacionamento sério, a pouca experiência que havia tido com aquilo era suficiente para lhe mostrar que não queria viver desse jeito, não naquele momento. O problema era que o clima entre os três estava ficando indisfarçável, e a quantidade de sociais como aquela estavam aumentando, o que colocava o paulista, o uruguaio e a carioca, geralmente vestida no melhor estilo femme fatale, em conflito direto. só gostava cada vez mais do jogo.
– O que você tá fazendo é maldade. – Marília comentou, com o filho adormecido em seus braços.
– Você bem que gostaria de estar no meu lugar.
– Ah, , passei dessa fase. – A amiga apontou com os olhos para a criança.
– E não deixa de ser maldade. – Eric de repente surgiu atrás das duas.
Uma música começou a tocar, vindo do carro da casa. Era um pagode, detestava. Alguns deles, já sob efeito da cerveja, começaram a cantar alto. Marília, sem a amiga ver, foi para dentro da casa com o pequeno, deixando sozinha entre tantos homens ali. Diego estava envolvido no grupo cantante enquanto Arrascaeta, que talvez nem conhecesse a música, ficou sentado, alguns metros de distância entre ele e a mulher. Foi quando o maquinário começou a trabalhar em sua mente, e o que ela já tinha de perversão só foi ficando cada vez mais pesado.
– Vai levar isso até quando?
– Estou considerando as minhas opções.
– Lembra da primeira vez que você me convidou pra um de seus aniversários? – Eric perguntou. – Foi quando eu conheci seu irmão.
– Lembro sim, embora quisesse esquecer a parte onde eu enchi a cara, subi na mesa de sinuca do prédio e dancei até quase cair de cara no chão.
O supervisor riu, lembrava-se bem dessa parte também.
– Seu irmão me disse pra tomar cuidado com você porque, de acordo com ele, você como uma mamba negra... Linda mas com um veneno diabólico.
– Vou agradecer a ele pelo elogio.
Eric ofereceu a cerveja que estava tomando para , que aceitou de bom grado. Deu um longo gole e continuou observando os dois homens que desejava.
– Já pensou no que vai fazer quando um descobrir sobre o outro?
– Eu sou um livro aberto, Eric. Se um já não sabe sobre o outro, tem algo errado.
– Nisso você tem razão. – Ele respondeu quando sua cerveja foi devolvida. – Mas ainda me preocupa que você esteja correndo risco demais.
– Você quer dizer o trabalho?
– Absolutamente.
Ela ficou tensa, de repente. Não gostava de falar sobre o assunto. Era bem impulsiva, em todos os momentos, e consequência era uma palavra que não constava no seu vocabulário. No entanto, havia uma voz na sua subconsciência que a alertava de que, se aqueles boatos caíssem nas mãos erradas, o sonho da sua vida desceria por água abaixo.
– Vai que mudam a cláusula de proibição de relacionamento entre funcionários.
– Duvido muito que façam isso.
revirou os olhos, tomou a cerveja da mão de seu superior e deu mais um gole.
– Você se opõe a isso?
– Eu?! – Eric perguntou, quase indignado. – Se eu me opusesse a isso, você não estaria no Flamengo há anos. A vida é sua, pode dar pra quem quiser.
– Qualquer um?
Ele riu.
– Qualquer um.
– Escolhe um deles pra mim então.
– Você tá bêbada, , devia diminuir o ritmo.
– Já foi pra cama com duas, Eric?
– O quê?!
– Você me ouviu.
– Namoro com a Mônica desde os doze anos de idade, você sabe que eu não tive nenhuma outra mulher além dela.
A mulher deu de ombros e sorriu diabólica. Buscou o celular no bolso imediatamente, digitou “Quero você, essa noite. Te espero no lugar de sempre em trinta minutos.” e pediu um Uber. Procurou pela anfitriã da casa, como não queria nada.
– Thaís, eu não vou atrapalhar a diversão do pessoal, mas acho que já vou.
– O que houve?!
– Esqueci um remédio. – Mentiu.
– É o quê? Talvez eu tenha.
– É de manipulação, pra pele.
– Eita, então eu provavelmente não vou poder te ajudar.
– Você avisa o Renê pra mim?
– Claro. – Ela sorriu e a abraçou.
Não demorou para que o carro solicitado chegasse. Assim que conseguiu disfarçar para que não percebessem sua fuga e entrou no carro, pegou o celular de novo. Antes que saísse do condomínio, enviou a mensagem digitada anteriormente para os dois.
sabia que tinha Diego e Arrascaeta – cada um com seu jeito – nas mãos e que bastava uma palavra dela que os dois obedeceriam. Estava ultrapassando limites aquela noite, sabia bem disso, mas tudo o que podia acontecer era dar errado e continuarem do jeito que estavam ou dar certo e embarcarem numa aventura completamente nova. Um ou outro, considerava vitória.
Desceu na frente de um dos pontos mais solitários na orla da Barra da Tijuca. Era perigoso àquela hora, mas a adrenalina na sua corrente sanguínea botava todo medo para longe. Então apenas se conteve com chegar bem perto da água e aguardar.
? – Ouvi a voz do uruguaio chamar.
Quando se virou, foi bem óbvio que outra pessoa chegava logo atrás. Ela sorriu, o plano estava – até então – dando perfeitamente certo.
– O que tá acontecendo? – Diego perguntou.
– Preciso conversar com vocês. – Ela disse, andando com passos tranquilos e largos até mais perto do asfalto, onde uma mureta baixa serviu de perfeito apoio para suas pernas.
– Fala. – Diego tomou a frente da situação de novo, deixando Giorgian um tanto quanto retesado.
– Em primeiro lugar, pra quê o tom de voz alterado?
– Você não tá facilitando as coisas.
revirou os olhos. A ideia parecia mais fácil do que a execução da mesma estava sendo.
– É o seguinte... Algum de vocês dois tem alguma intenção de ter um relacionamento sério comigo?
Os homens ali presentes arregalaram os olhos, definitivamente surpresos com a fala aberta dela. Isso fez com que uma leve risada escapasse por entre seus lábios.
– Vou tomar o silêncio como um sim. E os dois sabem bem que eu não vou me expor, de forma alguma, porque isso coloca em risco a minha carreira?
Dessa vez, os dois responderam com um aceno afirmativo de cabeça.
– Então eu tenho um acordo a propor. Quero que me ajudem a decidir entre os dois.
– Isso é sério? – Giorgian perguntou, a sobrancelha arqueada.
– Seríssimo. – Ela respondeu com um sorriso. – Vocês querem dividir?
Diego foi o primeiro a negar, seguido pelo outro. , então, deixou a cabeça pender para a direita e abriu um sorriso quase angelical.
– Vocês podem cair fora a qualquer momento e eu vou fingir que nunca houve nada entre a gente, sem mágoas ou ressentimentos. Eu juro.
– Não quero cair fora. – Diego foi o primeiro a responder.
– Arrasca?
Demorou alguns segundos, mas o olhar que ele direcionou a ela fez seu corpo estremecer. Amava ter poder sobre eles, mas odiava que eles também tivessem poder sobre ela.
– Também não quero.
, então, se aproximou dos dois, que estavam a cerca de cinco passos de distância. Ficou propositalmente entre os meio campistas, olhando de um para o outro incessantemente. Sentia seu sangue pulsar quente e o coração queria pular de dentro de si.
– Me convençam então. – A mulher abriu um sorriso maroto e passou a língua no lábio inferior só para provocá-los. – Começando pelo teste um. Estou metade bêbada, com um tesão da porra... E vou partir pra casa agora. Entrem em um acordo. Ou os dois, ou nenhum.
Ela deu as costas para os homens e, forçando um rebolado que ambos adoravam, caminhou na direção da rua. Diego e Arrascaeta, em um primeiro momento, não conseguiram desviar os olhos do corpo da mulher, que havia escolhido a roupa da noite propositalmente para chamar a atenção deles. Estavam perdidamente perdidos na paixão que sentiam pela jornalista, e só estavam percebendo isso naquele instante.
O mais velho foi o primeiro a desviar o olhar. De repente, os dois homens se viam considerando a possibilidade. Quando um olhou para o outro, foi o que faltava para saberem qual escolha tinham tomado. Cada um com sua paixão, nenhum dos dois estava disposto a desistir de conquistar o coração de pedra de . Nem que para isso fosse preciso uma noite de aventura. E, cá entre nós, isso jamais seria um sacrifício. Para nenhum dos três.


Fim.



Nota da autora: Tem um pedido incessante por fanfic do Flamengo no grupo então eu, como maravilhosa autora que sou, decidi satisfazer vocês com essa short kkkkkk vai que o retorno é bom e a gente evolui isso aí pra algo mais!





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