Finalizada em: 13/05/2017

Capítulo Único


Trinta e seis horas e vinte quatro minutos. Esse era o tempo exato desde a morte de . E sim, eu estava contando. Isso, na verdade, era a única coisa que eu fazia. De alguma forma, sentia-me entorpecida depois dos últimos acontecimentos. Tudo parecia tão surreal, tão fora de lugar, que eu já não conseguia pensar no que significavam.
Primeiro , agora . não dava qualquer sinal de que acordaria tão cedo e eu só conseguia olhar para o corpo do homem estendido no sofá logo a frente, tentando me agarrar naquele pequeno fio de esperança de que pelo menos ele voltaria para nós. Eu sabia que aquilo estava errado, que me focar nele era apenas uma distração para toda a dor e angustia que eu sentia, mas aquilo era tudo que eu tinha.
havia morrido e levado consigo qualquer lembrança de sua existência. Não tínhamos um corpo para enterrar, jamais teríamos um túmulo para visitar. Todas as suas coisas haviam sido perdidas no incêndio na The Phoenix e eu tinha medo daquilo tudo, de esquecê-lo. Sabia, no fundo, que jamais conseguiria deixá-lo para trás, mas ainda assim me atormentava a ideia de não possuir nada para provar a mim mesma que ele era mais do que apenas fruto da minha imaginação. Que ele não ficaria apenas em nossa memória.
merecia mais do que aquilo, merecia um enterro digno, merecia viver e doía demais pensar que jamais teria qualquer uma das duas coisas, que nunca mais o veríamos, que nunca mais ouviríamos sua voz. Faziam-se apenas trinte e seis horas e, agora, vinte e cinco minutos, mas eu já sentia falta de seu sorriso, do seu humor tão tipicamente inapropriado e infantil. Sentia falta de seu toque, do seu cheiro, do calor do seu corpo e sabia que dali aquela saudade só iria piorar, aumentar, até me consumir por inteiro. Não existia nenhuma possibilidade de ser diferente quando minha mente, a todo instante, me obrigada a lembrar que ele jamais estaria conosco novamente e por mais que meus olhos queimassem o tempo inteiro com as lágrimas que ameaçavam cair, elas simplesmente não caiam. Eu me sentia incapaz disso, parecia absurdamente errado que eu me achasse no direito de chorar e já me culpava o suficiente por ter feito aquilo nos braços de mais cedo.
Eu me culpava por coisas demais na verdade, se parasse para pensar no assunto. Me culpava por ter deixado que morresse sem saber o que sentia por ele, sem nunca ter dito a importância que tinha. Me sentia culpada por ter estado entre e por tanto tempo, mesmo que aquilo nunca tivesse sido um problema antes, para mim ou para qualquer um dos dois, mas isso ainda não era nada se comparado com minha culpa por ter partido sem deixar nada no mundo que o fizesse ser lembrado como a pessoa tão excepcionalmente incrível que ele sempre foi. Sem ter deixado nada para trás. Uma parte dele podia estar viva se eu tivesse permitido, mas eu destruí aquela possibilidade sem ao menos dizer a ele. jamais saberia o que eu havia feito e pior, em alguns dias somente nós quatro nos lembraríamos dele, isso se os quatro ficassem vivos para isso.
Eu já não tinha mais tanta certeza absolutamente nada e por isso me sentia tão vazia, como se uma parte de mim tivesse sido arrancada a força, morrido junto com ele.
E de certa forma, tinha realmente.
Nunca havia sido emotiva, nunca me deixei abalar tão facilmente, mas de repente não tinha mais tanta certeza de que conseguiria me recuperar e deixei minha cabeça pender para trás, no encosto do sofá, enquanto era consumida por emoções demais para que eu conseguisse administrar, especialmente quando todas eram tão dolorosas de certa forma. Pesar, tristeza, luto e até mesmo solidão. Eu se quer sabia lidar com tudo aquilo de uma vez e a cada instante me sentia ainda mais sufocada, permanecendo imóvel enquanto gritava por dentro, pedindo por socorro, implorando para que aquilo tudo simplesmente passasse, sumisse, ou para que eu de alguma forma pudesse fazer isso por mim mesma, simplesmente sumir.
Ouvi um ranger logo atrás de mim. O som era baixo, mínimo, mas no meio da noite qualquer som parecia alto demais. Não me sentindo muito disposta a me mover, apenas ergui o olhar. A casa onde nos instalamos estava abandonada, todo o assoalho fazia barulho quando nos movíamos, mas não esperava que ninguém além de mim estivesse acordada aquele horário. Não depois do dia que havíamos tido. Fugir era exaustivo e eu estava cansada daquilo tudo, farta. Nem mesmo a vingança por conseguia me motivar e quando vi logo atrás de mim, não me vi capaz de sentir nada além da culpa que voltou com toda força.
havia morrido sentindo-se inferior a . Eu sabia disso. Não pretendia escolher qualquer um dos dois, mas esperava e eu apostava que também, de que se precisasse, escolheria , mas eu não conseguia ter certeza daquilo. Da minha forma, amava os dois e agora o destino havia praticamente jogado a escolha na minha cara, como se me acusasse por não ter me decidido antes. Agora não precisava mais, agora eu só tinha a , mas isso não fazia com que eu me sentisse melhor, de forma alguma. Não conseguia mais olhar para sem me sentir uma traidora, não só por ele, mas também pelo que eu havia feito. Desviei o olhar quando notei que o encarava por tempo demais e fechei os olhos em seguida, tentando ignorar sua presença, seu olhar que eu sentia queimar sobre mim.
- Tem dois quartos ao fundo, com camas. – ele falou, sua voz soando ainda mais rouca devido ao silêncio da noite, mesmo quando ele tentava falar baixo, suavemente. Um tom que se quer combinava com ele. tentava, de qualquer forma, se aproximar e eu nem ao menos o culpava, para ser sincera. Eu que estava errada, eu que estava sendo uma vadia, mas era mais forte que eu. No fundo sabia que não ia querer isso, que eu ficasse sozinha, me excluísse, mas não era naquilo que eu pensava quando o repelia, eu se quer pensava na verdade. Não havia criado propositalmente a barreira que se instalara ao meu redor.
E no fundo eu sabia que o magoava com isso, mesmo que não fosse do tipo que demostrava emoções para qualquer tipo de coisa, sempre fechado demais. Mas aquele era apenas mais um motivo para me sentir culpada, para sentir raiva de mim por tudo que havia acontecido, que eu havia deixado acontecer. havia morrido sem saber o que eu sentia por ele e agora eu afastava , fazia com ele o mesmo que havia feito com antes de sua morte.
De repente, aquela comparação fez com que um arrepio terrível percorresse todo meu corpo. havia morrido, mas estava lá. Soava errado pensar sobre isso, que eu perdera um mais tinha o outro. Era egoísta, mesquinho, mas a possibilidade de perdê-lo também sem que ele, assim como , soubesse o que eu sentia, me atingiu com um baque devastador. Não podia perdê-lo também, não podia deixar que aquilo acontecesse e mesmo fechados meus olhos voltaram a queimar.
Ouvi se aproximar do sofá e precisei conter o ímpeto de me encolher, talvez até mesmo de fugir. Eu não podia lidar com ele agora se pretendia me manter firma. Não me via, de forma alguma, pronta para lidar com ele e mantive os olhos fechados como se ao menos o notasse ali, mesmo que fosse exatamente o contrário. Eu estava ciente de cada passo que ele dava para perto de mim e quando ele se sentou ao meu lado, com todo o cuidado do mundo, eu pude sentir o sofá afundar ao meu lado.
suspirou, mas se manteve em silêncio. Não tinha dificuldade nenhuma em imaginar seu cérebro trabalhando a todo vapor, pensando em uma maneira de se aproximar. Ele não era bom naquilo, assim como eu. O único que sabia lidar com outras pessoas, com sentimentos e emoções, era . Ironicamente.
- ... – ele chamou, com um sussurro. Havia certo pesar em sua voz, dor, e senti uma lágrima escorrer dos meus olhos fechados sem que eu pudesse contê-la. Me odiei por aquilo, mas quando senti sua mão em meu rosto, limpando a lágrima com uma delicadeza que eu desconhecia, tudo desabou, todas as barreiras caíram e quando abri os olhos novamente, minha visão se tornou embaçada com as lágrimas que a tomaram. Mais delas do que eu gostaria. Como se pudesse ver tudo ruir, me puxou para seu braços e não encontrei forças o suficiente para me afastar, escondendo o rosto em seu pescoço enquanto era, pela segunda vez, tomada pelas lágrimas.
Era isso, eu não era, nem de longe, tão forte quando esperava, quanto gostaria e sucumbi em seus braços, chorando tudo que não havia chorado desde que se fora há trinta e seis horas atrás. Segurei com firmeza em sua camisa, tentando me manter firme de uma forma que nem de longe me sentia capaz em fazer.
Perdê-lo doía de uma forma que eu não me via capaz de expressar em palavras e talvez devesse ter vergonha de chorar justo nos braços de , mas não conseguia absorver o que fazia, não quando aquilo era o mais perto que eu tinha de conforto em dias. Só então me dei conta do quanto precisava daquilo, do seu calor, do seu apoio e eu queria só ficar ali, queria me esconder em seu peito até que a dor passasse, mas algo em minha mente parecia disparar em alerta, como se gritasse que eu não tinha o direito de fazer aquilo, especialmente nos braços de .
Como se tentasse me impor sobre mim mesma, sobre todos os instintos que pediam para que eu ficasse longe, me segurei nele com mais força, o sentindo intensificar o aperto ao meu redor enquanto escondia o rosto no topo de minha cabeça. Me senti segura ali, como se precisasse de proteção mesmo que nunca tivesse precisado. A questão era que, no momento, eu sentia como se realmente precisasse, como se a qualquer momento pudesse quebrar como vidro e, sinceramente, já me sentia daquela forma, totalmente quebrada.
Jamais imaginei passar por isso novamente desde a morte de meus pais, o luto, a tristeza, e se quer me lembrava direito como havia sido, só me lembrava de chorar copiosamente, exatamente como estava fazendo.
- Eu sei que você precisa disso. – sussurrou contra meus cabelos, não ousando se afastar e o agradeci mentalmente por isso. Agora que começara a chorar, a ruir, não tinha mais ideia de como me manter inteira sem seus braços para manterem os pedaços juntos. - Eu sei como se sente por dentro, . Mas não abaixe sua cabeça para a tristeza. – continuou no mesmo tom, segurando em meus cabelos em seguida. – Sei que não tenho o direito de falar por ele, de dizer o que gostaria ou não, mas não vejo como ele pudesse ficar satisfeito de te ver assim. Eu não fico.
- Saber disso não faz com que fique mais fácil. – respondi, apertando meus olhos com força uns contra os outros, ciente de que aquilo de forma alguma ajudaria de qualquer forma, não com as lágrimas tão intensas como estavam.
Eu nem me lembrava de um dia ter chorado tanto e lutei ao máximo para me conter.
- Você vai superar isso. – ele respondeu, seu tom de voz ainda baixo, controlado, como se tentasse me acalmar daquela forma, me confortar. - Pode não ser agora e pode doer muito antes que supere, mas precisa fazer isso e eu sei que vai. – garantiu. - É a mulher mais forte que eu conheço.
- Não me sinto forte agora, . – respondi, com o rosto ainda escondido em seu pescoço, minha voz embargada, como uma garotinha assustada e me odiei por isso. Exemplificava muito bem minha fala, forte era o último adjetivo para mim no momento, mas me odiei mesmo assim. Não que mais um motivo para isso fosse fazer muita diferença na minha lista.
- Mas você é. – repetiu ele, afastando-se ligeiramente quando notou o que nem mesmo eu havia notado ainda. O fluxo das lágrimas havia diminuído e me encarou, passando uma das mãos delicadamente por minha bochecha a fim de limpar as lágrimas que ainda o molhavam.– Você vai ficar bem, . – falou, transmitindo uma confiança que eu definitivamente não tinha ao lançar a mim um pequeno sorriso. – Eu sei que você precisa superar isso sozinha, mas eu estarei aqui com você, continuarei pensando em você até que esteja bem.
Eu sabia que ele tentava me confortar, mas de alguma forma, suas falas apenas machucaram mais. Não parecia justo com . Como se estar com insultasse sua memória.
Só então me dei conta do quão injusto aquilo era com também. Eu estava chorando em seus braços a morte de outro homem. Um homem que eu amava e senti as lágrimas voltarem por estar fazendo aquilo com ele. Aumentei a distância entre nós imediatamente, falhando completamente em minha tentativa de manter o choro longe. Quando dei por mim, as lágrimas já caiam novamente e me senti sucumbir sem os braços de , mas não achava certo continuar deles.
E eu nem merecia qualquer um dos dois. Nunca mereci e tampouco merecia estar com .
- ... – ele começou, mas o sorriso já havia sumido de sua face, aberto espaço para amargura, tristeza, e me doeu tanto ver aquilo que só pude pensar em fugir dali, me esconder onde eu não pudesse mais magoá-lo como estava fazendo, nem que o estivesse fazendo com toda minha culpa e angustia. Ele não precisava participar disso, não devia e eu neguei com a cabeça quando ele tentou se aproximar. – . – tentou novamente, mas apenas neguei mais uma vez.
- Isso... Isso não parece... Certo. – confessei, lutando para enxergá-lo com a visão tão embaçada com as lágrimas, especialmente quando todo o ambiente ao nosso redor estava totalmente escuro. – Não era certo ficar entre os dois. Não é certo... – minha voz falhou ao final, não conseguia dizer em voz alta que não era certo ficar com ele simplesmente porque a possibilidade de perdê-lo era tão absolutamente terrível quando a morte de . Não tinha dúvidas de que preferia vivo, mas fora do meu alcance do que como estava, mas ainda era cruel demais.
- Sabíamos o que estávamos fazendo, . – ele respondeu, mas sabia que havia entendido o que eu pretendia dizer mesmo que eu não tivesse dito. sempre foi bom naquele tipo de coisa, era um observador. Sempre havia sido, mas preferiu ignorar aquela fala e eu só podia agradecê-lo mentalmente por isso. Não saberia lidar com mais aquilo agora. – Nós sabíamos onde estávamos nos metendo. Sempre soubemos e você nunca nos viu reclamando por isso porque nenhum de nós dois ligávamos desde que pudéssemos estar com você.
Sem nenhum vestígio de humor, acabei rindo, antes que pudesse me conter.
- Isso era pra soar melhor de alguma forma, ? – perguntei em meio as lágrimas que ainda caiam. Já havia desistido de lutar contra elas. – Eu submetia os dois a isso e vocês aceitavam porque era melhor do que nada? Era para que eu me sentisse melhor?
- Aceitávamos porque, apesar de tudo, um sabia o que o outro sentia. Não estávamos dispostos a ceder, a te deixar ir com o outro facilmente, mas independente da escolha, se ela existisse, você estaria em boas mãos. Sempre soubemos reconhecer isso.
- Isso não muda o fato de que eu não merecia nenhum dos dois antes tanto quanto mereço agora, . – respondi, me sentindo pior a cada fala. Nunca tínhamos conversado sobre aquele assunto, fingíamos na maior parte do tempo que aquele triângulo amoroso que eu havia inventado não existia e só agora eu via o quão egoísta eu havia sido, além de tudo. Se eu estivesse realmente fazendo uma lista de motivos para me odiar, bom, ela estaria quilométrica e neguei com a cabeça, vendo as lágrimas pingarem em minha roupa quando abaixei a cabeça, sem conseguir mais olhar para ele. – , você deveria...
- O quê? – ele me interrompeu, seu tom de voz praticamente me desafiando a completar a frase. - O que eu deveria fazer? Ir embora? – perguntou, desacreditado, mas não ousei erguer a cabeça para encará-lo, apenas pisquei lentamente, os abrindo em tempo de ver mais lágrimas se juntarem com as anteriores, molhando minha calça. – , você está mesmo se ouvindo? – ele perguntou, voltando a se aproximar quando não me movi. Tentei me afastar novamente, mas segurou meu rosto entre suas mãos, impedindo que eu o fizesse ao olhar em meus olhos. – , eu não vou a lugar nenhum. Nunca. – sussurrou. - Eu amo você.
Suas palavras me congelaram completamente no lugar, fizeram com que qualquer fala desaparecesse completamente dos meus pensamentos. Eu tinha certeza de que o choque estava estampado em meu rosto. Era a primeira vez que ouvia aquilo e por mais inadequado que o momento pudesse ser, e era, sabia que era verdadeiro. Eu sentia o mesmo e por mais que quisesse negar, ouvir aquilo dele, em voz alta, me aqueceu por inteiro, como se aquilo fosse tudo que eu precisava esse tempo todo, mesmo que não soubesse daquilo. “Eu te amo”, três palavras minúsculas com um significado imenso, mas de alguma totalmente contraditória, me senti pior por ter me deixado levar por ele, mesmo que por um instante. Eu sabia o que era aquilo, era o remorso. O mais puro remorso, como se eu não tivesse o direito de ficar feliz com morto, especialmente após tê-lo privado da escolha de ser pai, de deixar um filho no mundo, um legado, alguém para levá-lo para sempre no coração como eu levaria.
E como se precisasse que me odiasse também, apenas para me manter sozinha e solitária como eu acreditava que precisava, contei a ele. Jamais imaginei contar aquilo para alguém, mas quando abri a boca, foi exatamente isso que saiu.
- Eu abortei há seis meses. – confessei, o deixando completamente sem fala. A expressão de era, muito provavelmente, a mesma que eu havia feito ao ouvi-lo dizer que me amava e afastei suas mãos de meu rosto para me soltar, passando a mão pelo rosto para limpar as lágrimas que finalmente haviam diminuído.
- C... como? – gaguejou, claramente espantado. Mas não era espanto que eu queria. Queria que me odiasse pelo que eu havia feito tanto quanto eu me odiava. Queria que ele se afastasse para que fosse mais fácil sofrer em paz, em silêncio. Aguentar sozinha a punição que eu certamente merecia. – Você estava... grávida? – perguntou quando não disse mais nada.
- Tirei o bebê há seis meses. – repeti com amargura, fechando os olhos quando senti que voltaria a chorar. Aquele assunto, em voz alta, não contribuía em nada com o choro. Agora que eu havia me permitido fazer aquilo não me via capaz de parar tão cedo. – Era do e ele não sabia, óbvio que não.
ficou alguns segundos em silêncio, como se absorvesse aquelas palavras, e eu suspirei enquanto esperava, engolindo em seco. Queria que ele me acusasse por ter feito isso sem que soubesse, mas por fim ele apenas concordou com a cabeça, como se tudo fizesse sentido agora.
- Foi por isso que você decidiu que não merece mais estar comigo? Que não é digna de ter estado com qualquer um de nós? – perguntou, descrente, mas me afastei quando ele tentou se aproximar mais uma vez, não ligando para o fato de estar quase no fim do sofá. – , você acha que fez mal de evitar que uma criança nascesse nessa vida fudida que nós levamos? – questionou, com uma calma invejável. - , olha onde nós estamos. Como estamos. Perdemos o , a , e o está inconsciente há horas. Você acha mesmo que é uma pessoa tão cruel assim em não tê-lo colocado no meio dessa bagunça que vivemos?
- Poderíamos ter fugido também. – respondi, precisando limpar mais algumas lágrimas. – Eu faria qualquer coisa para que ele ainda estivesse vivo, eu... Eu até teria esse bebê, que droga!
Antes que pudesse continuar, já estava chorando mais uma vez e voltou a me tomar em seus braços, deixando que eu chorasse em seu peito enquanto tremia violentamente com a força das lágrimas. Era aquilo, se eu tivesse escolhido o bebê poderíamos estar longe e ele estaria vivo. Eu teria que abrir mão de para isso, sabia, mas faria qualquer coisa para mantê-los vivos, faria o mesmo por . Mil vezes se fosse preciso.
- você não pode se condenar por isso, por uma possibilidade em um futuro imaginário. – falou sem me soltar e senti seus lábios em meus cabelos. – Você fez o que era certo para você, não seria justo se fosse o contrário, se tivesse feito por outra pessoa. E mesmo não teria permitido, ele não teria pedido para que você tivesse o bebê contra sua vontade.
- Você não sabe.
- Me diz você então, ele teria? Ele teria te pedido para fazer algo que não quer, que não está pronta para fazer? – perguntou e se quer precisei pensar muito para saber a resposta. Senti que afastou seu rosto dos meus cabelos e ergui o olhar para encará-lo. - Não leve isso tão a sério agora, não tente encontrar uma forma para jogar a culpa disso para você, a culpa não é sua. O luto é seu, você precisa sentir, mas não pode procurar maneiras de se punir por algo que não fez, de se punir por estar viva porque ele não está. – falou, acariciando meu rosto com ternura. Fechei os olhos por um instante, por seu toque, e o encontrei sorrindo fraco quando os abri novamente. – , se sacrificaria por você quantas vezes precisasse, assim como eu. Assim como você também faria por nós, . Faríamos por amor, para que o outro vivesse e não para que se deixasse morrer em vida. Se não quiser acreditar no que eu digo, me diz o que você fazia. Eu tenho certeza que essa vai ser a sua resposta.
Mais uma vez, eu não precisava realmente pensar para saber a resposta e por um motivo diferente dessa vez, chorei mais. Não disse nada, não me movi, mas quando sorriu, me apertando mais intensamente contra seu corpo, soube que ele havia entendido.
- Eu também te amo, . – sussurrei, esperando que minhas palavras causassem nele o mesmo efeito que haviam causado em mim.
Eu jamais superaria a morte de , jamais conseguiria deixar o luto de lado, aquela angustia. havia deixado um espaço vazio em meu coração, havia levado um pedaço dele junto consigo para onde quer que tivesse ido. As coisas poderiam ser diferentes, especialmente se eu tivesse optado pelo bebê, como . Eu teria uma parte dele comigo e nunca conseguiria simplesmente evitar a culpa que aquilo traria sempre que pensasse no assunto, mas eu ainda podia honrar sua morte mesmo que precisasse lidar com o remorso todos os dias.
E no fundo eu sabia que precisava lidar com aquele remorso, tanto quanto precisava lidar com o luto que havia mencionado.
- Amanhã, com a luz da manhã, você se sentirá melhor. – ele falou, voltando a se afastar apenas o suficiente para me encarar. – Eu sei que você precisa chorar, mas não chore. Não hoje. Tem toda uma vida para isso, para chorar de felicidade, não precisa chorar hoje. – tentou e, mesmo sem me ver sendo nem remotamente capaz de fazer aquilo, eu concordei, optando por fazer aquilo por ele, por , já que eu não era capaz de fazer por mim. Já que eu não achava certo fazer por mim.
Mas era o que eu tinha e me agarraria dele para emergir novamente. Não conseguiria fazer isso tão cedo, sabia, mas em algum momento e fechei os olhos na esperança de que, em seus braços, o sono viesse, me agraciando com pelo menos algumas horas de paz.


Fim.



Nota da autora: Yeeeey! Posso comemorar esse mixtape dramático? Tarde demais, já estou comemorando. Hahahahaa Desculpem por isso.
Enfim, espero que tenham gostado do spin-off, agradeçam a Bruna Lobato por ter infernizado minha vida para escrevê-lo, literalmente. Ela até achou a música pra mim (chataaaaaa). Hahahaha Foi meio trabalhoso descobrir em que momento da história ele poderia acontecer, mas confesso que gostei do resultado então espero que tenham gostado também.
Comentem, por favor! E leiam os outros ficstapes! Hahahaha A pessoa aqui se empolgou com eles, fazer o que? XD
Xx
Mayh.



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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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