Finalizada em: 24/03/2018
Music Video: Kyuhyun - A Million Pieces

Prólogo

A realidade era que tinha mais motivos para estar ansioso do que gostaria. Ansioso e igualmente nervoso, no caso. Especialmente nervoso.
Impaciente, ele sentou em uma das duas cadeiras previamente colocadas ao redor da mesa montada ali. Estava na cobertura do seu apartamento, que ele havia tirado o final da tarde para preparar. Tudo precisava estar perfeito para o pedido que faria logo mais, e estava, mas isso não diminuía a ansiedade que o fez batucar os dedos sobre a caixinha de veludo enquanto esperava.
Respirando fundo, olhou mais uma vez para o relógio em seu pulso e depois ao redor, checando se tudo estava bem para a mulher que chegaria há pouco. Luminárias se prendiam a cobertura, trazendo uma luz fraca e ambiente. Pétalas de rosa faziam um caminho no chão. Ele tinha certeza de que a primeira reação dela ao ver tudo seria rir, não fazia o tipo romântica enquanto ele era a definição perfeita de clichê.
Mas a mulher costumava achar fofo suas tentativas de agradá-la. Divertia-se com elas, na verdade, e no fundo sabia que gostava. Era a forma que ele tinha de demonstrar o amor que sentia, afinal. Era seu jeito de ser e ela se apaixonou por ele assim, mesmo que fosse bobo. No final, ela sempre terminava dizendo que o amava e ele adorava aquela parte, ouvir que era recíproco, mesmo que ele não tivesse dúvidas disso antes.
Aquela data, aquele dia, queria tornar especial. O guardariam para sempre se ela aceitasse seu pedido, se ela dissesse sim, e foi pensando nisso que decorou o lugar para um jantar na cobertura, tentando esquecer o dia já agitado que havia tido. Assustador.
Mais cedo, na manhã daquele mesmo dia, havia recebido a carta que ele menos queria receber. A carta que estava assombrando seus pensamentos nas últimas semanas, suas noites, mas que ele sabia ser inevitável. Havia adiado ao máximo, mas sempre soube que em algum momento isso não poderia mais ser feito, que a data chegaria e havia chegado. O alistamento militar era obrigatório, e servir também.
Quando jovem, achou uma boa idéia deixar para fazer isso no futuro, depois de ter conquistado uma vida estável. Só agora via que, talvez, assim fosse pior. Antes ele não tinha muito a perder além de tempo, agora sentia que perderia tudo se deixasse sua vida para trás e a ideia o apavorava, mesmo antes de descobrir que fora designado justamente para o local que menos queria ir, como se o clichê perfeito que sempre levara para vida o tivesse acompanhado ali também. Dessa vez, no entanto, sem que ele quisesse.
A data de início para sua responsabilidade militar já estava marcada, e sua função nele ainda gritava em letras maiúsculas em sua mente, exatamente como expressas na carta: "Soldado ativo". A partir do próximo mês, seria um soldado e teria que lutar na linha de frente se qualquer conflito ocorresse no seu país. Um que, ironicamente, era chegado em conflitos.
Era tudo tão irônico que quando viu, acabou rindo, mas agora só conseguia sentir medo.
Dois anos completamente afastado de tudo que conhecia, da vida que lutou para conquistar. Teria que deixar seu apartamento, seu emprego e até mesmo a mulher que amava para trás. Teria que se acostumar a força a uma nova realidade, uma que seria a sua pelos próximos dois anos.
Seria privado de ver sua família, seus amigos e de manter a vida que conhecia. Por dois longos anos.
Odiava pensar sobre o assunto. Odiava tentar imaginar aquela nova fase. Não só lá, dentro da base militar, mas como também fora dela, especialmente fora. Sua vida o esperaria? As pessoas sentiriam sua falta ou se acostumariam a viver sem ele? Ficariam preocupados sabendo que ele estava lutando pelo seu país, pela sua casa, independente de não querer fazer isso?
E ele sequer podia dizer que estava triste, ou preocupado. Não podia dizer que não queria aquilo. Homens o parabenizaram o dia todo por ter sido escalado como soldado, mesmo o colega de trabalho que foi designado para servidoria pública. podia sentia o alívio emanando dele, mas não podia dizer nada. Deveria se sentir honrado por sua missão, afinal, mesmo que ele só conseguisse pensar na vida que estaria deixando para trás.
não tinha ideia de como poderia contar para ela, a mulher que mais amava, que a hora de ir se aproximava. Que por dois anos teria que deixá-la. Estavam morando juntos há três meses, namoravam há três anos e ela estava otimista quanto ao alistamento. Ou tentando, no caso, porque ele tinha fingido estar também.
ainda se lembrava de chamá-la para morar com ele. Havia sido tão natural, impensado. Estavam deitados na cama dele, brincando com a mão um do outro. Ela disse precisar ir para a própria casa, mas ali já parecia seu lar. Passava a maior parte do seu tempo ali. Assim que o convite saiu de sua boca, retirou a oferta. Seu futuro era incerto, não sabia se podia prendê-la a um fantasma por dois anos, sem ao menos saber se ele voltaria.
Mas ela gostava de lembrá-lo do motivo por amá-la tanto. Ela aceitou o convite porque tinha fé nele, independente de onde o colocassem.
O colocaram onde mais temia no final das contas e estava apavorado. Claro que o pedido também estava contribuindo para isso agora, mas passara o dia todo agitado.
Ouviu barulhos na escada e imediatamente se levantou, guardando a caixinha do bolso interno do terno que vestia especialmente para a ocasião. Ela adorava vê-lo vestido daquela forma, mesmo que ele detestasse, então o fez por ela, esperando que compensasse as rosas das quais ela provavelmente riria.
- ? - ela chamou, sua voz soando um tanto quanto incerta do outro lado da porta, mas só havia um caminho a seguir e ele tinha certeza de que ela era inteligente o suficiente para entender seus post-its, mesmo que fossem confusos. - Está na cobertura? - falou novamente, agora mais perto da porta, e ele precisou secar a palma de suas mãos na calça, visto o tanto que estava nervoso.
- Aqui. - ele falou quando viu a maçaneta da porta se mexer e respirou fundo, tentando manter a calma para parecer o mais tranquilo possível, independente do seu coração batendo descontrolado em seu peito, como se estivesse prestes a pular pela boca.
A porta foi aberta, e sorriu antes mesmo de vê-la. Queria que ela visse seu sorriso antes de tudo, e de fato ela sorriu ao vê-lo, mas sua atenção rapidamente foi tomada para as rosas no chão, fazendo-a abaixar o olhar para elas.
- , o que…? - ela começou, a voz fraca em meio a surpresa, o queixo ligeiramente caído enquanto seguia o olhar para as luminárias e parando depois na mesa branca ao centro da cobertura, não vendo-o se aproximar até que ele segurasse suas duas mãos com as dele, fazendo com que ela o encarasse. - O que você está fazendo? - ela perguntou, ainda mantendo a mesma expressão de espanto em seu rosto, mas tudo o que ele fez foi puxá-la para mais perto da mesa, dentro do círculo que ele havia feito no chão com as rosas.
Ele sorriu novamente, e soltou uma de suas mãos para tocar seu rosto.
- Você sabe o que eu estou fazendo. - ele respondeu tranquilo, muito mais tranquilo do que esperava. A verdade era que ela o acalmava. Ela esvaziava sua mente. Era fácil esquecer do resto do mundo quando estavam juntos e naquele momento, esquecer do mundo era tudo o que ele mais queria. - É por isso que está com essa cara de pânico. - ele riu. Aquela expressão podia não ser vista como um bom sinal para a maior parte das pessoas, mas ele a conhecia, não duvidava dos sentimentos que nutriam um pelo outro. O pedido apenas tornava tudo mais oficial, era o passo que faltava para se tornarem de fato uma família e era mesmo assustador. Amar tanto alguém era assustador. Se dar conta de que, em algum momento, seus pais deixaram de ser sua única família e que agora você estaria formando outra, a sua, era assustador, mas ele tinha certeza de que era isso que ele queria e precisava fazer antes de ir. Talvez, comprometê-la a esperá-lo, não fosse justo, mas ela o faria independente do pedido, então ele preferia fazê-lo de uma vez.
se afastou um passo, e sem tirar os olhos dos dela, pegou no bolso a caixinha guardada há pouco. Viu prender a respiração com a atitude e se ajoelhou de frente para ela, vendo uma lágrima escorrer por seu rosto quando ele abriu a caixinha.
- , eu te amo. Eu te amo e quero passar toda a minha vida ao seu lado. Eu… Eu quero formar uma família com você, quero te amar todos os dias, acordar ao seu lado, quero... Quero me casar com você e é por isso que… - ele se interrompeu, mordendo o lábio inferior. Passou tanto tempo arrumando tudo que não pensou no que dizer. Já dizia todos os dias que a amava, parecia certo dizer algo mais, mas não sabia ao certo o que, ou o que mais poderia dizer para deixar claro o que sentia. - É por isso que eu fiz isso. - falou por fim. - Eu… Eu quero saber se você… Se você quer se casar comigo. - disse de uma vez e ela fez um barulho com a boca. Era como um soluço, seus olhos estavam vermelhos embora apenas uma lágrima tivesse escorrido e de repente todo o nervosismo voltou com a resposta que não veio. As lágrimas deveriam ser um bom sinal, não? Por que então ela não parecia feliz?
- V… você recebeu a carta, não foi? - ela perguntou, e repentinamente tudo fez sentido. Ela já sabia. Claro que ela deduziria tudo. - Soldado, vai entrar como soldado?
Sentindo o peso daquelas palavras como um tapa, abaixou a mão com o anel e seu olhar foi para o chão. Ouviu o choro dela se intensificar, levando sua reação como a afirmativa que ela não queria receber, mas não deu a ele tempo de se levantar para consolá-la, abaixando-se e se jogando nos braços dele. escondeu o rosto em seu pescoço, e ele sentiu as lágrimas dela escorrerem ali.
- Eu quero me casar com você. - ela respondeu, o abraçando com mais força enquanto ele a envolvia com os braços. - É claro que eu quero, . Eu te amo, e quero passar o resto da minha vida ao seu lado, por isso só vamos nos casar quando você voltar para mim, em segurança, está me ouvindo? - ela disse, e ele concordou com a cabeça sem soltá-la. A verdade era que estava com medo, estava morrendo de medo, mas não iria dizer a ela, não podia porque isso também a deixaria ainda mais assustada.
- Eu vou voltar. - ele falou, afastando-se dela apenas o suficiente para olhar em seus olhos ao dizer aquilo e sorriu apesar de toda a incerteza que estava sentindo. - Vou voltar e vamos nos casar no dia seguinte, ouviu? - perguntou, limpando suas lágrimas com toda a confiança que não sentia em si mesmo naquele momento. Ou com toda confiança que não tinha em suas próprias palavras. - Já deixe tudo pronto, porque depois faremos a viagem que planejamos. Suíça, uhn? - ela se obrigou a sorrir, e ele aumentou o próprio sorriso em incentivo. tirou o anel da caixinha, e segurou delicadamente uma de suas mãos para colocá-lo em seu dedo, beijando-o em seguida. - Eu vou voltar, . Eu prometo. - garantiu, mas infelizmente, não foi bem isso que aconteceu nos anos seguintes.


Capítulo Único

TRÊS ANOS DEPOIS


Com o roteiro de viagem em mãos, desceu da estação Zurich HB na rua Bahnhofstrasse. Era a principal rua de Zurique e havia decidido começar por ali. O roteiro estava pronto há muito tempo, na verdade, e mal se lembrava de tê-lo feito, mas precisava de um tempo para si mesma e levou aquilo de encontrá-lo como um sinal.
Por algum motivo, sempre teve vontade de conhecer a Suíça e sorriu por estar finalmente ali, olhando animada para o movimento intenso de pessoas na rua, andando de loja em loja. As marcas mais famosas estavam localizadas naquela rua: Dior, Burbarry, Prada, Armani, Tiffani. Um público bem específico de gente com muito dinheiro andava por ali. Um público do qual ela definitivamente não fazia parte, mas não se importou em olhar as vitrines com certo brilho nos olhos. Era tudo muito bonito, afinal. Desde as roupas e qualquer outra coisa que vendessem até a estrutura antiga dos prédios e ela não se importou de, talvez, parecer uma boba admirando tudo, tirando foto de tudo, distraída o suficiente para não notar as pessoas que precisavam desviar dela para não esbarrarem um no outro. Alguns se viravam para olhar feio, outros reviravam os olhos ou xingavam mentalmente, mas ela não notou até que o estranho tão distraído quanto ela se chocasse contra seu corpo.
cambaleou, mas ele rapidamente a segurou, impedindo que começasse muito mal seu tour pela cidade. Não precisava de nenhum hematoma, ou um tombo, mas de alguma forma não conseguiu dizer nada quando olhou nos olhos do rapaz. Ele a soltou ao colocá-la de pé, e sorriu gentilmente, mas a sensação de reconhecimento que surgiu no fundo de sua mente a atingiu em cheio. Acontecia com uma frequência um tanto quanto desagradável. Era como se ela precisasse muito se lembrar de algo, uma lembrança brigando para vir a tona, mas não importava o que fizesse, eram raras as vezes que ela se mostrava de fato para a mulher.
- Está tudo bem? - ele perguntou quando ela não disse absolutamente nada, e só então ela notou que ainda o encarava, sentindo suas bochechas corarem com a atitude totalmente estranha.
Mas até mesmo sua voz parecia familiar e ela mordeu o lábio inferior ao concordar com a cabeça, sem dizer mais nada no entanto.
- Eu estava distraído, me desculpe. - ele continuou, e ela novamente concordou com a cabeça, o fazendo estreitar os olhos. - Tem certeza de que está tudo bem? Você parece meio pálida. - disse ele, aproximando-se um passo como se fosse socorrê-la, mas por instinto, ela se afastou, chacoalhando a cabeça antes de sorrir.
- Está tudo ótimo. Também estava distraída, desculpe! - falou animada, e ele voltou a sorrir ao menear com a cabeça. Ela se curvou, sem se dar conta de que ele podia não ser coreano, que estavam falando inglês na Suíça, e simplesmente passou por ele a fim de seguir seu caminho. Com aquela sensação ainda incômoda ainda em sua mente, no entanto, olhou sobre os ombros para o estranho e o encontrou lhe observando, com ambas as mãos no bolso. Novamente, ele voltou a sorrir, e tirou uma das mãos do casaco para acenar, mas ela rapidamente se voltou para frente, sem fazer nada, decidindo não ser lá muito seguro dar liberdade ao estranho de sorriso bonito simplesmente porque ele era bonito, ou pela sensação tão familiar de que já o conhecia. Tinha um roteiro a seguir, e tirando-o da mente, foi isso que fez.

+++


O Lago Zurique era o segundo lugar no seu roteiro e dava para chegar nele a pé a partir da estação. Tudo no roteiro, aliás, estava marcado como uma sequência onde ela podia ir a pé de um lugar para o outro.
Não viu nada de muito surpreendente no lago, mas gostou da ponte e tirou foto dela. Era um dia claro e bonito apesar do típico frio e alguns barquinhos navegavam tranquilamente o rio. Sem pressa, ela seguiu as flores na margem enquanto apreciava a calma na vista e sorriu sozinha quando chegou a praça que, ironicamente, não estava no roteiro. Beirava o rio, o que a deixava ainda mais bonita e ela se encantou pela folhagem das árvores. Parou ali para tirar foto, primeiro da paisagem junto ao rio, depois das plantas e árvores ao redor e apenas quando foi tirar uma foto de si mesma com o rio no fundo, notou o rapaz desconhecido, porém conhecido, ali. O mesmo com quem havia esbarrado há pouco. Ele estava de costas, apoiado no muro que dividia a praça das pedras a beira do rio e tinha o mesmo sorriso no rosto. estreitou os olhos para ele, mas desviou o olhar rapidamente quando ele olhou por sobre os ombros, como se sentisse que era observado.
Imediatamente, ela deu as costas e se concentrou em sua foto, mas assim que disparou, o rosto dele apareceu do quadro da câmera, a fazendo pular de susto ao vê-lo ali.
- Eu não sou tão feio assim. - ele falou fazendo bico, como se estivesse muito ofendido, e ela ignorou o fato de achar aquilo tão adorável, guardando-a junto com aquela sensação de dejavu toda vez que olhava para ele.
- O que você está fazendo? - ela perguntou, referindo-se ao fato dele ter saído em sua foto. O rapaz deu de ombros.
- Eu que te pergunto. - devolveu, chutando uma pedrinha no chão enquanto ela o encarava em confusão.
- Quê? – perguntou a mulher.
- Está me seguindo? - ele quis saber e ela deixou o queixo cair, chocada com a pergunta tão absurda.
- Te seguindo?! – exclamou. - Você esbarrou em mim e ainda saiu na minha foto! - ela ergueu o celular para ele, comprovando o que havia dito e se sentiu ofendida quando ele, de fato, olhou.
Não que tivesse sido pelo motivo que ela esperava.
- Ficou muito boa. – respondeu simplesmente, ainda distraído com a tela do celular. - Me manda? – perguntou, se voltando novamente para ela que o encarou em confusão.
- O quê?!
- A foto. - ele repetiu, revirando os olhos divertido. - Você tem algum problema de entendimento?
- Por que você quer uma foto minha?! - ela debateu, sem se importar com a pergunta dele, e o rapaz lhe encarou como se fosse maluca.
- Sua? Eu não quero uma foto sua. Eu quero a minha foto, vou te cortar dela. – esclareceu e ela piscou algumas vezes ao encará-lo, totalmente desacreditada com a situação tão estranha.
- Você é maluco. - afirmou por fim, mesmo que ele lhe encarasse da mesma forma.
Estava pronta para dar as costas, mas parou quando ele a respondeu:
- Você me segue e o maluco sou eu?
- Eu não estou te seguindo! - exclamou, mas o homem estreitou os olhos ao encará-la com desconfiança. - Estou seguindo o meu roteiro!
- Você roubou o meu roteiro? - ele deu um passo para trás, como se estivesse muito assustado, e ela negou com a cabeça como se aquilo fosse muito ridículo.
- Por que eu ia querer te seguir?! - perguntou de uma vez, mas agora ele riu, riu de verdade, jogando a cabeça para trás e ela se viu ainda mais confusa do que estava, especialmente quando precisou ignorar as borboletas que surgiram em seu estômago. - Do que você está rindo?!
- Eu estou só brincando, é um roteiro bem típico. - disse ele. - Mas confesso que a praça não estava nos meus planos, a encontrei no caminho. - disse, olhando ao redor maravilhado.
- No meu também não. - ela respondeu baixo, ainda receosa e ele sorriu.
- Desculpa pela foto. Foi só uma brincadeira, mas posso tirar uma sua se quiser. - se ofereceu, estendendo a mão para pegar o aparelho, mas ela negou.
- Não precisa, obrigada. Estou bem. - respondeu, desconfiada, e ele concordou com a cabeça e aquele sorriso irritantemente bonito brincando nos lábios.
- Você quem sabe. - falou, guardando as mãos novamente no bolso. - Eu vou indo, então. Também tenho um roteiro a seguir. - acenou antes de simplesmente se afastar enquanto ela o encarava totalmente perdida. Já um pouco mais afastado, no entanto, ele se virou para ela, sem parar de andar. - Mas, sabe… Já é a segunda vez que nos encontramos. - declarou de forma brincalhona. - Se nos virmos novamente, acho que deveríamos seguir juntos. Vai que é o destino. Nunca se sabe. - ele piscou, e dessa vez ela acabou rindo da bobagem.
- Destino, claro. - respondeu, e ele sorriu.
- Se não acredita, por que não concorda?
- Porque não acredito. - ela devolveu.
- Vamos nos encontrar de novo. - falou com convicção, ainda andando de costas. - E vamos continuar juntos o nosso roteiro.
- Ah, claro. - ela ironizou sem levá-lo a sério, mesmo vendo certa graça em tanta bobeira.
- Isso foi um sim?
- Isso foi ironia.
- Eba, um sim. – ignorou sua fala. - Foi ótimo conversar com você. - disse apenas, dando as costas de uma vez para se afastar.

+++


não admitiria se perguntassem, mas a verdade era que ficou atenta para encontrá-lo novamente depois. Xingou a si mesma por isso, claro. Ele era um completo estranho, mas foi inevitável. Algo nele chamava sua atenção. Não sabia o que exatamente, mas chamava e se viu sorrindo sozinha ao lembrar do som de sua risada, a forma como jogou a cabeça para trás ao fazê-lo.
Quando deu por si, já havia chegado ao Sechseläutenplatz. Não que soubesse pronunciar aquele nome. No geral, o Sechseläutenplatz era uma praça, apenas, mas muito mais simples do que a anterior. Diferente dela, essa era apenas um grande espaço vazio no meio da cidade, onde instalavam algumas atrações vez ou outra. Algumas pessoas estavam sentadas por ali, no chão mesmo. Tudo era muito limpo e aproveitavam o tempo para relaxar. Era final de semana, ninguém ali parecia ter pressa de ir para qualquer lugar. Ela também não teria se morasse ali, afinal.
voltou a pegar o celular, e tirou algumas fotos dos prédios e da praça, seguindo logo depois para as barraquinhas instaladas ali, curiosa para saber do que se tratava. Era uma feira de artesanato e ela sorriu por isso, olhando animada uma por uma. Roupas, quadros, enfeites e brinquedos feitos a mão. Por alguns instantes, ela se esqueceu totalmente do estranho que havia prometido encontrá-la, isso até encontrar um caderno de capa bordada e tentar pegá-lo ao mesmo tempo que o rapaz. Em um momento clichê demais para ser humanamente possível, ou mera coincidência, suas mãos se tocaram e ela se afastou quando ele sorriu. Ela podia até o estar procurando, mas não acreditava em destino para acreditar que se encontraram por acaso novamente.
- É você que está me seguindo! - ela exclamou, como se só então tudo fizesse sentido, e ele riu novamente.
- Eu estava brincando quando disse isso mais cedo, você sabe, não sabe? - ele perguntou, divertido. - Não tem nenhum motivo para estarmos seguindo um ao outro.
- Você está em todos os lugares onde eu estou! - ela exclamou, bufando em seguida ao notar o olhar totalmente divertido dele para ela, levando aquilo como deboche mesmo que não fosse.
- Na Bahnhofstrasse, que é ironicamente a rua da estação. A praça que, basicamente, é na mesma direção da rua, só seguir em frente, e a praça que é um ponto turístico comum.
- E que também dá pra chegar a pé a partir da praça e do rio. - o senhor na barraquinha disse e olhou chocada para ele por ter não só dado palpite na discussão dos dois, mas como também apoiado o rapaz nessa. - Desculpa, jovem, mas é um roteiro bem comum. A maior parte dos turistas faz esse caminho. - continuou, e o outro apontou em direção ao homem como se concordasse.
- Obrigado. - disse a ele, que concordou com a cabeça.
- Disponha. - respondeu e ela revirou os olhos.
- Bom, que seja coincidência, isso não é motivo para falar comigo toda vez, é? - perguntou apenas por implicância, e ele riu.
- Se não estivesse andando tão distraída, nunca teríamos nos esbarrado e ai nunca teríamos conversado.
- Está falando que esbarrou de propósito, então? Por que se não me viu também, é porque estava tão distraído quanto eu. Se não estava, foi de propósito.
- Paranóica, ela, não? - o rapaz perguntou ao homem da barraquinha, que riu simpático ao concordar.
- Ei, não jogue-o na conversa! - ordenou, estapeando o estranho com delicadeza até, levando-se em conta de que era um tapa. Em resposta, ele apenas olhou para o local atingido e depois para ela, ainda sem tirar o sorriso do rosto.
- Você costuma fazer isso mesmo, ou é só comigo? Sabe, essa coisa de trombar com desconhecidos, surtar com eles e depois estapeá-los.
- Só quando são irritantes! – devolveu exaltada, mesmo que estivesse na cara dele que estava se divertido com a situação.
- Mas eu não fiz nada! - ele riu e ela bufou antes de cruzar os braços.
- Está me seguindo. - disse mais uma vez, mas tudo o que ele fez foi segurar seus braços para descruzá-los, sob o olhar atento da mulher.
- Eu não estou te seguindo. É um roteiro comum. - insistiu, e o homem da barraquinha concordou.
- Vocês provavelmente vão continuar se encontrando pelo resto do dia. Seria até mais fácil se fossem juntos.
- Não. - ela negou imediatamente, mas o outro já concordava.
- Eu gosto dessa ideia, já que estamos sozinhos. – respondeu, a ignorando completamente. Ou, pelo menos, a sua fala. - Foi exatamente o que eu sugeri.
- E quem disse que eu estou sozinha? - perguntou e ele lhe encarou com certa ironia.
- Bom, não estou vendo ninguém com você no momento. Alias, esbarramos três vezes um no outro e eu não vi ninguém com você em nenhuma das duas vezes.
- Okay, não tenho. – admitiu a contra gosto. - Mas prefiro continuar sozinha. – acrescentou rapidamente.
- Não é legal andar sozinha por aqui. – o senhor na barraquinha voltou a falar. - As pessoas gostam de se aproveitar de turistas. Você tem cara de turista.
- Cara de turista? - ela repetiu, olhando para si mesma enquanto tentava decidir o que lhe entregava. O rapaz riu disso.
- Tirando fotos de tudo, com certeza! – falou ele, e a garota estreitou os olhos ao encará-lo novamente.
- E você não está tirando fotos? – perguntou com desdém.
- Estou. - deu de ombros, não vendo motivo para não admitir. - Por isso gosto da ideia. Seremos alvos menos fáceis.
- Não sou um alvo fácil. Estou bem. – se recusou a ceder, mas no fundo tinha plena consciência de que parecia muito mais com uma criança emburrada do que qualquer coisa.
- Bom, mas vamos para o mesmo lugar de qualquer forma. – ele insistiu. Não era nenhuma novidade que, ao invés de levá-la a sério, ele apenas se divertia com a situação. - Não custa fazermos companhia um para o outro.
- Eu nem te conheço! – falou de uma vez, mas ele não se abalou por isso.
- Aposto que tem essa sensação de que, na verdade, me conhece de algum lugar. - ele disse sorrindo, e ela imediatamente parou tudo que fazia, estreitando os olhos em sua direção como se perguntasse como ele sabia disso.
E algo no sorriso dele entregou que havia entendido a pergunta não verbalizada, mas optou por não dizer nada. Sorte dela.
- Vamos fazer assim. – o rapaz começou, apontando em seguida para o senhor na barraquinha. - Ele vai contar até três e dizemos ao mesmo tempo o próximo lugar no nosso roteiro. Se for o mesmo, vamos juntos. – completou, satisfeito com a própria ideia. - Vai ser mais legal se pudermos conversar com alguém sobre o lugar. É tão bonito. - ele sorriu largamente em uma tentativa de fazê-la ceder e voltou a falar quando ela não disse nada. – Vamos, se está tão certa de que não está fazendo um roteiro comum e que é só coincidência, não custa aceitar.
Sem mudar a expressão emburrada, cruzou os braços e ponderou por um instante. Não ia voltar atrás agora no que havia dito então concordou com a cabeça, sem desfazer a cara feia.
Foi então que o homem na barraca, que nenhum dos dois sabia como se chamava, iniciou a contagem. até pensou em deixar que o outro falasse antes só pra mentir o lugar depois caso fosse o mesmo, mas a verdade era que ela só estava fazendo birra, e por orgulho bobo. O rapaz era bonito e divertido, não se importava se ele a acompanhasse mesmo que não devesse, afinal, ele era um estranho. Por fim, levou tempo demais pensando e quando a contagem terminou e o homem gritou um "já", ela se assustou e realmente não pôde fazer nada além de ser sincera. Ambos falaram que o próximo local era o centro velho da cidade e o rapaz sorriu orgulhoso por isso, cruzando os braços em frente ao peito convencido.
- Acho que isso quer dizer que vamos juntos. - cantarolou e ela fez bico, cruzando os braços exatamente como ele tinha feito sem se dar conta. O rapaz, que não teve dificuldade em perceber, ergueu uma sobrancelha em sua direção e ela deixou o queixo cair, como se estivesse muito chocada com sua própria atitude de imitá-lo. Não havia sido de fato a intenção, foi premeditado, mas claro que ele não pensaria dessa forma. Ela abriu a boca para retrucar e tirar no rosto dele, o sorrisinho que surgiu ali, mas a verdade é que ficou desconcertada com ele, o que só piorou quando o homem da barraca riu dos dois.
- Do que você está rindo?! - ela perguntou, batendo um dos pés no chão, e o homem riu mais por isso.
- Vocês dois, são o casal perfeito.
- Não somos um casal! – ela negou rapidamente.
- Ah, isso ficou óbvio. - ele riu novamente. - Mas seriam um casal lindo se fossem.
- Anotado. - o rapaz respondeu, e ela se voltou para ele no mesmo instante, sentindo o rosto corar.
- Não anotou nada não! ‘Desanota! - exclamou, o fazendo rir por isso e em resposta, ela voltou a cruzar os braços, dando as costas para ele em seguida. - Não vou mais a lugar nenhum.
- Mas vamos acabar no mesmo local de qualquer forma. - ele lembrou e ela bufou, se virando novamente para ele em seguida, de súbito.
- Você, é desprezível. - disse ela, apontando dele para o homem da barraca logo depois. - Aliás, você também. - falou, mas tudo o que o rapaz fez, foi sorrir para ela por um instante. De alguma forma que ela não saberia explicar, soube ali que ele falaria mais alguma coisa então apenas esperou, erguendo uma das sobrancelhas para demonstrar isso, que esperava.
- Adoraria, de verdade, se me acompanhasse até o centro velho. - ele falou sério, embora o sorriso ainda brincasse nos seus lábios. - Vim sozinho, e ficaria feliz em ter com quem compartilhar a viagem se você quiser. Mas é sua escolha não ir. - esclareceu. - Pode desconsiderar a aposta e se preferir continuar sozinha, eu atravesso a rua e fingimos que essa conversa nem aconteceu.
Assim que ele terminou, por reflexo, ela revirou os olhos. Seu cavalheirismo chegaria a ser fofo se não fosse na realidade bobo. Tudo bem, não era exatamente como se ela estivesse ajudando, mas parando para pensar, sim. Era bobo ele atravessar a rua para seguir para o mesmo lugar que ela como se nada tivesse acontecido se podiam ir juntos.
- Não seja idiota. - ela respondeu apenas, e ele lhe encarou com confusão que, para ela, soava um tanto quanto falsa. - Vamos juntos de uma vez. - ela respondeu, mas para não dar o braço a torcer, não mais do que já havia dado, deu as costas para ele e seguiu a frente com os braços cruzados.
O rapaz ainda ficou parado por um instantes antes de seguí-la, e imaginou que estivesse trocando olhares com o homem na barraca. De alguma forma, pôde até mesmo imaginar sua expressão para isso, divertida devido a atitude dela de simplesmente ir sem esperá-lo após dizer para irem juntos. Quando notou, já ria por isso, por imaginá-lo, mas fechou a cara ao notar, assustando-se quando ele correu para alcançá-la como se tivesse sido pega fazendo algo muito errado. Ele sorriu.
- O que foi? - perguntou.
- Nada. - ele respondeu rapidamente, colocado as mãos nos bolsos, mas o sorriso ainda no rosto era como se soubesse o que se passava em sua cabeça. Atitude que ela preferiu ignorar ao, sem dizer mais nada, seguir seu caminho, fingindo que na verdade não tinha gostado de ter companhia.

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trabalhava com crianças, então estava acostumada a fingir estar brava quando na realidade não estava, ou ficar séria mesmo quando estavam sendo fofos e adoráveis. Crianças eram fofas e adoráveis, assim como o rapaz ao seu lado, mas com ele, bom, ela estava fracassando verdadeiramente na tarefa de fingir estar brava. Talvez fosse o lugar, ou fato de ser tão bonito. Quem sabe, talvez, por ele ser tão bonito, mas evitou aquele último pensamento. Culpar o clima do lugar era muito mais simples do admitir estar admirando o estranho que a acompanhava.
Ele tinha as mãos nos bolsos do sobretudo enquanto andava, sorrindo fascinado para o tudo ao ser redor.
Niederdorf, a cidade velha de Zurique, era de fato adorável. As ruas de pedra e os comércios ao redor, a estrutura era tão bem preservada que parecia ter saído direto de um filme de época. se sentia animada em estar ali, mesmo que não tivesse nada para fazer além de andar pelas ruas. Eram tão agradáveis que poderia andar por horas apenas para ver tudo e o sorriso no rosto do rapaz, demonstrando se sentir da mesma forma, era agradável de certa forma. Sem dizer nada, ele apenas a acompanhava e olhava tudo que tinha para ser visto. Conversaram apenas quando concordaram em parar em uma confeitaria e ele lhe comprou doces. tentou recusar por birra, e acabou perdendo, então agora tentava manter no rosto um bico contrariado que também se recusava a ficar lá simplesmente porque, como já havia dito, tudo era adorável demais, assim como o sorriso do rapaz ao seu lado e ela quase queria bater nele por ser tão fofo quanto tudo naquele lugar.
A rua que seguiam se abriu em um espaço amplo com uma pequena construção ao meio, como se tivessem literalmente construído um prédio bem no meio da rua, que precisou se estreitar para rodear a construção. Tinha uma pequena fonte no meio, como se tivessem tentado disfarçar o prédio no lugar errado transformando aquilo numa praça, mas não era uma praça, era um prédio no lugar errado. Tudo ali era daquela forma, como se as construções tivessem sido feitas sem nenhuma lógica ou projeção e o que veio depois precisou se adaptar ao que já havia ali. Era a essência do lugar, era o que o fazia tão único de certa forma, mesmo que fosse definitivamente um labirinto para turistas. Ela, com certeza, não sabia mais voltar para a ponte, mas tudo bem, porque a fonte era linda e ela avançou com os olhos brilhando para tirar mais fotos. Parou, no entanto, quando notou que era observada e tentou fazer uma carranca novamente, o que apenas arrancou uma risada do rapaz.
- O quê? – ela perguntou com um bico nos lábios e ele mordeu os seus para parar de sorrir.
- Nada. Absolutamente nada. – falou, mas acabou rindo novamente em seguida. Ela olhou feio, mas ele não deu qualquer indício de se importar. – Posso tirar uma foto sua se quiser. – se ofereceu, mas ela apenas negou, sem nem pensar sobre a oferta.
- Não, obrigada. – respondeu e ele deu de ombros.
- Tudo bem, pode tirar uma minha? – perguntou, estendendo o celular e ela lhe encarou descrente. – O quê? – perguntou, cínico, mas acabou rindo em seguida. – Vem logo, deixa de ser boba. – sem pedir permissão, ele passou um dos braços por seus ombros e a fez seguir com ele até a fonte, parando de costas para ela.
- Ei! – a garota reclamou, mas ele a puxou de volta quando tentou sair, erguendo o celular e tirando uma foto dos dois juntos com a fonte de paisagem logo atrás. A soltou logo em seguida para olhar a tela, ver como tinha ficado, e ela bateu o pé em reprovação a sua atitude. Não que ele tenha demonstrado qualquer indício de se importar.
- A foto ficou ótima, quer ver? – ele perguntou, erguendo o olhar para a mulher que agora, tinha as mãos na cintura como se fosse dar bronca em uma criança. – O que foi? – ele perguntou outra vez, piscando algumas vezes como se não tivesse feito nada demais. O gesto ficou encantador feito por ele, mas ela manteve a expressão séria, como se fosse repreendê-lo.
- Você não pode só puxar pessoas que não conhece para tirar foto com você! – exclamou e foi a vez dele fazer bico. – E para de fazer isso!
- O quê? – ele perguntou, agora realmente confuso.
- Ser fofo, para. Eu estou tentando te dar uma bronca!
O rapaz riu, mas tentou se controlar quando ela olhou feio novamente.
- Você também queria uma foto. – falou, estendendo o celular para ela. – Ficou realmente bonita. – insistiu, sorrindo quando ela vacilou.
- Não. – ela bateu o pé novamente quando ele notou o vacilo momentâneo, mas o estrago já estava feito e o rapaz deu um passo em sua direção.
- Certeza? – perguntou animado, dando mais um passo sem abaixar a mão com o celular e ela apenas o tomou dele para olhar.
Dessa vez, também não pôde evitar um sorriso. Estava realmente tão linda quanto ele havia mencionado. Ele sorria para a tela, seus olhos fechando-se ligeiramente para isso de forma no mínimo bonitinha. Não se importou se ela olhava feio para ele por isso, mas quando ele bateu a foto, ela segurava seu braço para tentar se soltar dele e a expressão em seu rosto, enquanto o olhava, era muito mais cômica do que qualquer outra coisa. Pareciam um casal. Um casal muito bonito e ela novamente foi tomada pela sensação de reconhecimento, familiaridade, que ele trazia.
Contrariada, entregou a ele o celular e pôde ver no rosto dele, que conteve um sorriso que ela preferiu ignorar.
- Anota meu telefone e me manda a foto. – falou autoritária, mas um pouco mais baixo que o normal simplesmente por ter tido que dar o braço a torcer. Ele riu, claro, sem deixar de notar e disfarçou com uma tosse quando ela o repreendeu com o olhar.
- Claro, milady. Posso tirar uma foto sua também e mando as duas juntas. – ofereceu. – Mas ai, você vai ter que sorrir.
Ela o olhou com desconfiança apenas para não perder o costume, mas seguiu de braços cruzados para a fonte logo depois, vendo-o conter um novo sorriso. Ele ergueu o celular em sua direção e ficou olhando para a tela, esperando que sorrisse para disparar. Quando ela não o fez, ergueu o olhar para ela outra vez, sorrindo largamente como se exemplificasse o que ela tinha que fazer.
Apenas para fazer uma média, ela revirou os olhos, mas sorriu em seguida e ele novamente se voltou para a tela, disparando a foto que ele não parou de olhar até que ela estivesse ao seu lado.
- Também ficou linda. – confessou, sorrindo para ela que não fez nada além de encará-lo, esquecendo-se até mesmo da foto que tinha ido ali para olhar. O tom de voz usado por ele, como se falasse sem pensar, aqueceu seu coração e ela precisou desviar os olhos dos dele quando percebeu que corava sem motivo.
Ele estendeu o celular, e ela viu isso como uma ótima oportunidade de disfarçar o que havia sentido, digitando seu número na tela para que ele salvasse. Devolveu o aparelho ainda sem encará-lo mais uma vez, e olhou ao redor para disfarçar aquela sensação tão forte de que o conhecia de algum lugar.

+++


Graças aos risos, se engasgou com o sorvete e o rapaz jogou a cabeça para trás ao rir dela. Gargalhar, na verdade e nenhum dos dois saberia dizer em que ponto aquilo havia acontecido. Já haviam conhecido o jardim Chinês e depois almoçado com vista para o rio. Tinham implicado um com o outro em grande parte do percurso, mas ela desistira de tentar se livrar dele simplesmente porque nunca quis de verdade, não que pretendesse admitir isso a ele em algum momento.
Agora, quase ao final do roteiro, atravessavam a ponte para visitar a catedral de St. Peter. Já havia visto fotos lindas do lugar, estava ansiosa para tirar as suas, mas precisava admitir que a paisagem já não era mais toda a graça do passeio e que, apesar de querer chegar logo na igreja, também não queria pois significava estar mais perto do final do dia e da despedida.
Ainda não sabia o nome do rapaz simplesmente porque não viu necessidade em perguntar. Estavam bem daquela forma, apenas conversando e conhecendo os lugares. Saber seu nome era irrelevante e tampouco havia contado a ele o seu. Salvaram seus contatos no celular com apelidos fictícios e nenhum deles se importava de fato.
- Fala sério, você já pode admitir. – ela insistiu no assunto em que estavam. – Eu não vou mais ficar brava com você.
- Você nunca esteve brava comigo. – ele respondeu, lambendo o sorvete em seguida. – Aquele seu bico é a coisa mais falsa do mundo, nem precisa te conhecer pra saber disso. – falou, e ela deixou o queixo cair como se estivesse muito chocada. – Essa sua cara, alias, também não.
- Eu não estou fazendo cara nenhuma!
- Está sim. – ele imitou, abrindo a boca de maneira no mínimo, muito falsa, o que a fez rir.
- Idiota.
- Dramática. – ele acusou, voltando a lamber o sorvete. – E não, eu não roubei seu roteiro no metro, até porque, ele está com você, não está?
- Pode ter tirado foto. – ela insistiu, ainda tentando desvendar o motivo pelo qual tinham exatamente o mesmo roteiro. Tinham acabado de tirar a prova mostrando um ao outro o que haviam planejado e, bom, eram roteiros idênticos, perfeitamente iguais.
- Só tem um problema nessa sua historia. – ele observou divertido. – Eu estava na Bahnhofstrasse antes de você, então... Não tem como eu ter estado no mesmo metro que você pegou e ainda tido tempo de passar a limpo tudo que você escreveu antes de te encontrar.
pensou por um instante, tentando encontrar uma solução para aquilo, mas, é claro, não encontrou e terminou apenas por suspirar vencida.
- Certo, você tem razão. – falou por fim, lambendo o próprio sorvete enquanto ele sorria convencido.
- E o que eu ganho com isso exatamente? – perguntou e ela ergueu uma sobrancelha para a pergunta.
- Eu admiti que você tem razão, isso não basta?
- Eu sempre soube que tinha razão, claro que não basta. – ele respondeu e deu de ombros quando ela lhe encarou perplexa. – Quero uma pergunta.
- Você já fez várias. – ela respondeu. – Não é como se eu não tivesse respondendo.
- Eu só estou tentando ter desculpa para mais uma, será que você pode colaborar comigo, por favor? – perguntou divertido e ela acabou rindo.
- Vai em frente. – gesticulou para que prosseguisse e ele concordou satisfeito.
- Obrigado. – respondeu, lambendo novamente o sorvete antes de continuar, como se não tivesse notado que, com a pergunta, a deixara curiosa. era afobada e ansiosa. Algo que ele já havia sim notado mesmo que tivessem passado poucas horas juntos. Já tinha jogado isso da sua cara algumas vezes, alias, então ela só pôde imaginar que era de propósito e por isso esperou sem pressioná-lo. Quando ele se voltou para ela, riu em vê-la esperando, o que fingiu não notar. – Eu só fiquei curioso... – começou casualmente. - Por que está viajando sozinha se está noiva? – perguntou e não pôde evitar a expressão confusa que surgiu em seu rosto. Apenas quando o rapaz apontou para a aliança em seu dedo, se lembrou e deixou a boca abrir em um “oh” enquanto a tocava com a outra mão.
- E... eu não estou. – falou, brincando com o anel sem encará-lo. Era uma história muito mais complexa que aquilo, na verdade, mas se limitou em responder ao básico para não prolongar o assunto desconfortável. – Ele faleceu. Foi no exército. Ele entrou como soldado e nunca mais saiu. Parece errado tirar a aliança, mesmo depois de tanto tempo.
- Eu sinto muito, desculpa ter perguntado. – ele respondeu, desviando o olhar constrangido, mas ela negou com a cabeça para dizer que estava tudo bem. A verdade era que não se lembrava direito de e por isso tirar a aliança parecia tão errado. Ela sabia que o havia amado. Sentia ainda aquele amor dentro do peito e o buraco que saber de sua morte, havia causado. Era como se algo faltasse em seu coração, o espaço que ele antes preenchia, mas era só. Não existia mais nada nas lembranças onde ele deveria estar e ela, sinceramente, acreditava ser alto preservação. Algo que sua mente fez para que não sofresse tudo que tinha para sofrer com sua perda.
Tentando evitar o silêncio constrangedor iniciado com aquela fala, decidiu perguntar então sobre ele simplesmente para mantê-lo falando. Ele era bom naquilo, em falar. Melhor do que ela, mas de repente, seu sorvete pareceu muito mais interessante do que a coisa toda e, bom, cabia a ela fazer algo.
- E você? – perguntou a primeira coisa que lhe veio em mente, notando sua confusão quando ele voltou a erguer o olhar para ela. – Está viajando sozinho também. – explicou. – Não é o tipo de viagem que se faz sozinho.
- Ah! – ele exclamou, mordendo a casquinha do seu sorvete. – Não planejei vir sozinho, era um roteiro que eu tinha junto com... Alguém especial, mas perdemos o contato depois que eu voltei do... – ele pareceu vacilar, como se repensasse sobre a fala e ela se voltou para ele. Não era difícil de imaginar a continuação, ou o por quê.
- Acabou de sair do exército, não foi? – ela perguntou e ele concordou enquanto mantinha o contato visual.
- Como sabe?
- O cabelo. – ela apontou. – É como eles cortam. Deu pra imaginar quando você vacilou. – admitiu. – Está tudo bem, é sério. Não é um assunto proibido. – ele concordou com a cabeça, mantendo-se sério por um instante antes de sorrir para ela, apenas um ligeiro levantar de lábios que ela não pôde evitar corresponder, não depois de sentir seu coração se aquecer de forma tão agradável com a atitude. – E... eu... – ela começou, gaguejado após se dar conta de que já se encaram por tempo demais e sentindo as bochechas corarem, voltou a olhar para frente, concentrado-se no que restava do seu sorvete derretido. – Espero que retomem o contato. – novamente, disse a primeira coisa que lhe veio em mente, mesmo que aquela frase despertasse um certo ciuminho lá no fundo, um que preferiu ignorar simplesmente porque não fazia sentido. Ele era um estranho que mal conhecia. Sequer sabia seu nome ou onde morava, então... Não. Mas ah, o ciúmes estava lá sim. Oh se estava, e ela xingou a si mesma, mentalmente, por isso.
- Eu estou tentando. – ele respondeu e apesar de sentir os olhos dele sobre ela, fingiu não ver nada. – Ela não sabe ainda, mas estou tentando. – disse e ela concordou, apontando para a igreja logo em seguida, como se quisesse mudar de assunto.
- Chegamos. – falou, praticamente cortando sua fala e ele riu por isso. – Uhm? – perguntou, cínica, e ele apenas riu mais uma vez antes de negar com a cabeça, controlando o riso.
- Absolutamente nada. – respondeu, subindo junto com ela os degraus da igreja. Ela era muito simples, as paredes brancas, janelas normais, nenhum vitral bonito como era de costume nas igrejas. Portas grandes de madeira, telhado comum, mas o relógio... O relógio era incrível e compensava todo o resto, especialmente sob o céu alaranjado de final de tarde.
Ela sorriu também, agora para o lugar a sua volta, mas voltou a atenção para o rapaz a sua frente quando este colocou uma mão para trás antes de estender a outra a ela, curvando-se ligeiramente para frente como uma reverência. lhe encarou com confusão, e ele sorriu em incentivo para que aceitasse, o que ela não entendeu até que uma música suave começasse a tomar em algum lugar por perto. Eram violinos, soavam mais baixo do que deveriam ser de fato devido a distância e seu primeiro intuito foi procurar de onde vinha aquele som.
Era um restaurante ao longe, eles tocavam ao ar livre na parte aberta do comércio. O rapaz estava de frente para o lugar, não era surpresa que tivesse visto, mas ela riu mesmo assim porque dificilmente teria notado. Quando se voltou para ele, o rapaz ergueu uma das sobrancelhas e arrumou a postura para pegar sua mão, antes que ela de fato tivesse tempo para ceder. Quando ela não negou ou recuou, se aproximou alguns passos. Mantendo ainda uma distância respeitosa entre eles, levou uma das mãos até suas costas enquanto erguia a que segurava a mão dela. riu, segurando em seu braço com a mão livre. Não sabia dançar, nunca soube, mas não se importou com isso naquele momento. Ele também sorria, e era definitivamente o sorriso mais bonito que já havia visto.
Sem desviarem o olhar enquanto riam, ele deu um passo para frente, e ela acompanhou dando outro para trás. Depois fez o contrário e foi ele para trás, fazendo com que fosse fácil acompanhá-lo. Era bobo, dançar com um estranho em frente a uma igreja fechada, com violinos ao fundo, mas até mesmo o lado romântico que ela nunca admitiu ter gritou eufórico, seu coração prestes a sair pela boca apesar de estarem rindo enquanto faziam aquilo.
E até mesmo o som de sua risada era bonito. Parecia não haver nada de errado com ele, ou fora do lugar. Era até demais para se acreditar que era verdade e ela desejou ter perguntado seu nome como se aquilo fosse provar que ele realmente existia e estava ali, que não era delírio porque tudo naquele dia parecia ter saído direto de um filme de romance e ela nunca acreditou nesse tipo de coisa. era o romântico, era quem acreditava e então ela decidiu que era aquilo que estava fora do lugar. Sentiu culpa por estar tão encantada por outro homem que não fosse ele.
Enquanto olhava para o rapaz a sua frente, o sorriso finalmente saiu de seu rosto, mas não teve tempo de se afastar quando ele lhe girou no lugar. Ela o viu ficar sério também enquanto rodava, e então, quando voltou ao lugar, já estavam próximos demais. A respiração dele tocou seu rosto, suave, e ela pôde sentir de perto seu aroma, o perfume que lhe tirou o fôlego durante todo o dia. Todos os traços perfeitamente desenhados em seu rosto estavam mais perto e ela teve vontade de tocá-lo, mas se limitou em segurar com mais força a manga de seu casaco, como se quisesse evitar a si mesma de colocar seus pensamentos em prática.
Quando percebeu o que fazia, imediatamente se afastou. Procurou qualquer coisa para lhe distrair dele, usar como desculpa para aquilo, mas antes que pudesse virar totalmente de costas para ele, foi puxada de volta.
Em um instante, estava se afastando e no outro, sem que pudesse notar o que acontecia, estava em seus braços, literalmente, após ser puxada repentinamente para um abraço que a deixou totalmente se reação. Em momento nenhum ele havia chegado tão perto, sempre se mantendo dentro dos limites do aceitável para dois desconhecidos, mas então aquilo. Ele a envolveu com os braços de forma terna e sentiu como se ele tentasse transmitir com ele emoções demais. Emoções que ela nem mesmo entendia, mas sentia de alguma forma porque algo parecia gritar no fundo de sua mente que ela estava se esquecendo de algo importante. Era aquela mesma sensação que vinha sempre que estava prestes a se lembrar de algo, quando uma lembrança estava pronta para vir a tona, mas simplesmente não vinha. Era uma impressão de reconhecimento junto com a de que tinha alguma coisa faltando. Sentia aquilo o tempo todo em seu apartamento, que na verdade era de e foi disso que fugiu quando decidiu viajar sozinha. Mas então, lá estava ela, sentindo todas as mesmas coisas com, se possível, ainda mais intensidade. Não entendia o motivo daquele abraço lhe trazer de volta tudo isso, mas apesar da confusão mental de alguma forma também parecia certo estar ali. Como se fosse exatamente o que procurava.
Por um instante, relaxou em seus braços, se deixou apoiar a cabeça em sem ombro. Sentiu o subir e descer de seu peito com a respiração que mantinha, mas ao se lembrar de onde estava e de que nem ao menos existia mais música, se afastou e ele não deu qualquer indício de se opor, deixando que ela o fizesse.
- Desculpa. – ele sussurrou, mas o sorriso sempre animado não estava mais lá. Havia certa dor em seu olhar e ela foi pega de surpresa por isso também. – Você só... Me lembra alguém. Desculpa. – pediu, e ela concordou. Tinha vontade de abraçá-lo novamente só para fazer com que aquela tristeza em seu olhar passasse, mas não o fez. De repente, sua cabeça estava uma bagunça. Era como se tivesse tantas coisas lá, chacoalhando-se e misturado-se umas com as outras que ela não conseguia se focar em nenhuma para saber o que de fato queriam lhe dizer. Sabia apenas que queriam contar algo, mas ela não conseguia decifrar e apenas deu um passo para trás, sem notar que o fazia. Queria fugir daquela confusão, e nem parou para pensar que se o fizesse, sem nem saber seu nome, seria impossível encontrá-lo novamente, o rapaz que em algumas horas mexera completamente com ela.
Quando chegaram à igreja, só conseguia pensar que não queria que o dia terminasse para que não tivesse que se despedir, mas em meio à bagunça que virara sua mente ela só queria sair dali e nem conseguiu pensar nisso.
- Eu... tenho que ir. – disse apenas, mesmo que não soubesse nem mesmo o caminho que deveria tomar. Deu as costas novamente, e dessa vez ele não fez nada até que estivesse no final dos degraus, quando sem mover um passo de onde estava ele a chamou:
- ... – falou seu apelido e tudo sumiu tão rápido quanto veio. Sentindo todo seu corpo se arrepiar, ela se virou, com certo choque no olhar. Dessa vez deu de cara com o sorriso novamente, o mesmo que há pouco havia sumido. Era como se nada tivesse acontecido, na verdade, o que só era um pouco mais confuso. – Ainda tem dois lugares no nosso roteiro. – a lembrou, mas seu próprio nome, na voz dele, ainda repetia em sua mente.
- Como sabe meu nome? – ela perguntou, e ele franziu o cenho sem entender.
- Uhm?
- Eu não te disse meu nome. Como você sabe meu nome? – ela repetiu, certa daquilo.
- Como eu saberia seu nome se não tivesse me dito? – ele perguntou, a encarando com certa preocupação.
- É o que eu estou te perguntando.
- Você salvou seu contato com seu nome. – ele tirou o celular do bolso, usou a digital para desbloquear a tela e então desceu os degraus para se aproximar. Ela se afastou um passo a primeiro momento, mas então ele estendeu o aparelho e ela aceitou, abrindo por si mesma os contatos e buscando por seu nome ali.
Confusa, viu que ele falava a verdade. O nome do contato era o seu e o número também. A única da lista.
- Eu não... – ela estranhou, olhando para ele e depois de volta para a tela.
- Está tudo bem? – ele perguntou e ela concordou, devolvendo o celular em seguida. – Posso te acompanhar até seu hotel se não estiver se sentindo bem. Ou até o posto de taxi se preferir assim. – falou e ela negou. Foi só uma confusão passageira e ela se obrigou a sorrir novamente para ele, demonstrar que estava tudo bem. - Lindenhof Platz, certo? – disse e ele, ainda desconfiado, guardou o celular de volta no bolso e concordou com a cabeça, sorrindo.
- E a Frau Gerolds Garten a noite. – completou e ela sorriu novamente, mesmo que aquela sensação incomum ainda lhe acompanhasse.

+++


ria sob a luzes coloridas da Frau Gerolds Garten enquanto esperavam o taxi que ela havia pedido. Era tarde, já havia passado e bastante da hora que ela havia planejado voltar para o hotel. Precisava acordar cedo para o dia seguinte se quisesse visitar a Montanha Uetliberg, então estava mais do que na hora de ir.
Tinham se divertido. Frau Gerolds Garten era uma espécie de bar aberto, ou restaurante, era um pouco confuso. Até porque o lugar parecia mais com uma pracinha colorida no centro de uma pequena vila. Era localizado no centro de uma parte muito mais industrial de Zurique, com prédios chiques e elegantes e então lá estava a Frau Gerolds Garten, fugindo de tudo isso. Várias luzes coloridas se estendiam ao longo do lugar, havia várias barraquinhas coloridas, pequenas tendas, com comidas típicas e música. Tinha muita gente, e após jantarem, uma moça simplesmente lhe pediu permissão para tirá-lo para dançar. riu enquanto ela ensinava passos de dança para o rapaz que desengonçado, se colocou a aprender. Dançaram uma música e então ele tirou para fazer o mesmo. Eram canções animadas e seguras, então apenas se divertiram entre músicas e sorrisos. Ela estava cansada, muito mais do que estaria se tivesse feito o roteiro sozinha, mas tudo bem porque também havia se divertido muito mais do que imaginava se divertir.
Agora, enquanto esperavam o taxi, a música soava longe, mas ela ainda tinha um sorriso no rosto. Estava com o cabelo preso agora, porque apensar da noite e do vento gelado, sentia calor. Ele tinha as mangas do sobretudo dobradas, mas ela se sentia leve. Leve e confiante de que o dia seguinte seria ainda melhor.
- Sabe, você não facilita em nada para o destino. – ele reclamou novamente, fingindo um bico emburrado que apenas a fez rir.
- É o seu destino, tenha mais fé. – ela brincou, dando um tapinha em seu peito antes de se voltar novamente para a rua.
Ele bufou contrariado, mesmo que não estivesse realmente irritado e ela sabia.
- Eu tenho fé, você que força demais. Não é assim que funciona.
- E como você sabe como funciona? – ela retrucou, ficando se frente para ele. – O destino te contou no almoço?
Ele estreitou os olhos para ela.
- Haha. – ironizou uma risada. - Ele te ajuda uma vez, mas você precisa fazer alguma coisa também pra ajudá-lo. – explicou. - Não dá pra exigir muito e só esperar um milagre.
- Não estou esperando um milagre. – ela respondeu de forma simples. – Ué, cadê toda a sua segurança de: “Montamos o mesmo roteiro, vamos nos ver outra vez”?
- Isso valeu para hoje, não sei o que você marcou para amanhã.
- Tenha fé. – ela repetiu, dando as costas para brincar no meio fio enquanto ele lhe encarava perplexo.
- Aish. – reclamou. - Não é mais fácil me dizer?
- Não. – ela respondeu, rindo de sua indignação quando ele reclamou uma segunda vez.
De alguma forma, quem estava confiante agora de que se encontrariam novamente era ela. Não sabia bem o motivo, mas ela sentia que iam, que não tinha acabado ali e não queria que acabasse.
Só o estava dispensando porque já tinha seu número, ou definitivamente não o faria, e por isso estava bem com aquela situação, de simplesmente entrar em um taxi e ir embora.
- ... – ele choramingou, vendo o taxi virar a esquina, e ela riu novamente, voltando para perto dele. – Você nem me disse onde mora. Em que cidade, ou país.
- E você não me disse o seu nome. – ela respondeu.
- Por que você não disse onde mora! – insistiu, em uma reação muito semelhante as dela mais cedo.
riu.
- Então estamos quites. – falou ela, abrindo por si mesma a porta do taxi quando este parou ao seu lado.
- ... – ele repetiu e ela apenas riu mais uma vez, inclinando-se para beijar sua bochecha antes de rir. Não deixando que ela se afastasse, ele segurou sua mão e ela esperou, com um sorriso no rosto. Se ele não a beijasse agora, ela mesmo o faria, mas ele o fez, tocando seus lábios delicadamente com os dele, afastando-se, no entanto, rápido demais. Alguns segundos depois.
Ela não se moveu, apenas abriu os olhos e o encarou, ainda parada na porta do taxi. Sorriu para o rapaz, olhando em seus olhos, e ele repetiu o gesto, aproximando-se novamente após tomar isso como incentivo. Ele a envolveu com os braços, e ela segurou em sua nuca, correspondendo ao beijo que ele iniciou. Seus lábios eram quentes, macios, e tinham exatamente o sabor que ela imaginava. Sentiu-se leve ali, enquanto suas línguas se tocavam lentamente, exploravam uma a outra como se precisassem provar tudo que podiam naquele pouco tempo que restava dos dois juntos. Era um beijo lento, porém caloroso e por mais que ela quisesse prolongá-lo ao máximo, preferiu se afastar, deixar algo para o dia seguinte.
O rapaz protestou com um resmungo baixo e ela riu enquanto se afastava de costas, sem tirar os olhos dele enquanto o esperava abrir os seus. Ela sorriu quando o fez.
- Até amanhã. – disse, e ele grunhiu novamente enquanto a via entrar no taxi.
- Eu tenho pena do seu cupido. – resmungou e ela riu enquanto fechava a porta. – Não ri não, é sério. Você não facilita pra ele. – continuou, e ela apenas acenou, olhando para ele pelo espelho retrovisor.
- Tchau... – cantarolou, não podendo deixar de notar, na expressão contrariada do rapaz, alguma semelhança com o próprio , assustando-se com o pensamento ao percebê-lo.
Era a primeira lembrança de que lhe vinha em mente para poder comparar.

+++


Quando chegou no hotel, respirou fundo, deixou a bolsa de lado na poltrona e sem se importar de ainda vestir as roupas que usou durante todo o dia, se jogou na cama, de braços abertos.
Ela não sabia se era culpa ou de fato alguma lembrança que começava a emergir em sua mente, mas estava dividida entre pensar no rapaz que não sabia o nome e em . Ela muito já havia tentado, mas depois do acidente, nunca mais conseguiu lembrar dele. Não tinha uma imagem do noivo em sua mente, ela tinha apenas os sentimentos que emergiam quando pensava nele. O amor, o calor que aquecia seu coração. Tinham se amado muito, intensamente, e ela ainda o amava, sabia disso, por isso nunca tivera coragem de tirar a aliança de seu dedo.
Mas quando se despediu do rapaz há cerca de uma hora, ela de alguma forma viu nele. Não sabia explicar o motivo exatamente. Se perguntava se não era pelo que ele lhe havia feito sentir, como se estivesse viva novamente. Desde que perdera não se sentia assim mesmo que não lembrasse dele. Era maluco, mas era sua realidade. O problema era que sentir isso por outra pessoa também trazia aquela culpa e caramba, era coisa demais na sua cabeça já normalmente acelerada demais.
Respirando alto, ela se levantou e soltou o cabelo. Precisava de um banho, para depois dormir. Não importava o que era, e não ouviria a culpa. havia partido e estava na hora de seguir. Todos lhe diziam isso e pela primeira vez ela tinha vontade de tentar. Talvez estivesse se iludindo demais com o recém conhecido, colocando mais expectativas do que deveria, mas aquele poderia ser só o começo.
Ela tirou o casaco que usava, e o deixou de lado na poltrona também, junto com sua bolsa. O roteiro do dia ainda estava em seu bolso, junto com o celular e ela tirou ambos dali, colocando-os na mesa de centro antes de seguir para o banheiro.
O toque do seu celular, no entanto, chamou sua atenção e ela voltou correndo para o quarto.
Ah, expectativas... Não existia nenhum talvez. Ela, definitivamente, tinha colocado um par a mais delas sobre as costas do rapaz e nem se deu conta de que o toque era do alarme e não de uma nova ligação.
Ela pegou o celular, não se lembrava de ter colocado qualquer alarme enquanto na tela, aparecia o aviso: “Remédio”. Ainda mais confusa, ela olhou as horas, só então se dando conta de que, por pouco, não se esquecera dele. Foi até o armário, tirou um comprimido do frasco ali e o engoliu com um pouco de água, só depois parando para se perguntar que horas havia colocado aquela droga de alarme.
- Amélia. – falou em voz alta. Em casa, era sua irmã quem a lembrava do remédio. A verdade era que ela precisava lembrar. Ele o acompanharia por toda a sua vida agora, era uma consequência do acidente que sofrera do dia que soube sobre a morte de . Também não lembrava dele, mas tinha bagunçado legal com sua cabeça. Não tomar os remédios era péssimo. Mas ela nunca lembrava.
Decidindo que aquilo era obra da sua irmã, deixou o frasco com os comprimidos onde estava e tomou o caminho do banheiro novamente, parando, no entanto, ao notar o post-it em sua bolsa:

“Não foi a Amélia”


Ao ler, sentiu o coração disparar imediatamente e olhou assustada para os lados, se perguntando como aquilo foi parar ali. Não se lembrava de ter visto quando deixou a bolsa lá e tampouco tinha como alguém saber sobre aquilo. Sobre o alarme e sobre ela pensar que teria sido colocado pela irmã. Lentamente, ela deu passos para trás, buscando o apoio de uma parede como se a qualquer momento alguma coisa ou alguém pudesse se jogar sobre ela. Foi quando, olhando para suas coisas ao longe, notou outro post-it amarelo saindo pela fresta da bolsa e após respirar fundo e olhar para o lado duas vezes, decidiu ir até lá, abrindo-a e tirando dali o segundo bilhete:

“Também não foi um fantasma. Não seja tão medrosa”


- Não pensei em fantasmas. – ela respondeu em voz alta, contrariada porque é obvio que pensou. Ela sempre pensava em fantasmas primeiro, o que era irônico para uma pessoa que não costumava acreditar em bobeiras como destino.
“Destino”, de alguma forma a palavra lhe levou até o rapaz que conheceu pela manhã e enquanto cogitava aquela possibilidade, dele com os bilhetes, acabou rindo simplesmente porque era ridículo.
Mas então, não sendo ele, quem mais poderia ser? Por que tinha post-its em suas coisas? Já não bastava todos que diariamente encontrava perdidos pelo apartamento de ...
E então ela arregalou os olhos.
Era a letra de .
Levando uma das mãos até a boca, ela se deixou cair sentada no chão, os olhos se enchendo de lágrimas enquanto finalmente vinha a sua mente, com a mesma forma do rapaz que conhecera mais cedo. Por um instante, ela até cogitou que aquilo tivesse acontecido simplesmente porque sua mente confusa associara os dois como se fossem um, mas então, meio segundo depois, ela entendeu. Eles eram um. O rapaz que conheceu, o rapaz com quem passara o dia, era e perceber isso apenas a fez chorar ainda mais.
Por isso tantos sentimentos no abraço, por isso a expressão tão triste em seu rosto. Passaram o dia juntos e em nenhum momento ela lembrou. Esteve com e não foi capaz de saber.
Em desespero, ela se esticou para buscar o celular na mesinha, derrubando junto com ele o roteiro que usara ao longo do dia. Ele caiu aberto, e só assim ela pôde ver um novo post-it ali dentro, puxando o roteiro para perto a fim de lê-lo.

“Você não lembrou. Prometi a mim mesmo que faria lembrar até o final do dia =(“


Com o bilhete, lágrimas embaçaram sua visão em uma mistura de culpa por não ter lembrado, de uma saudade quase dolorosa de abraçá-lo novamente e felicidade porque ele estava vivo.
Foi então que momentos dos dois juntos começaram a passar em sua mente. O dia em que se conheceram, o primeiro encontro. A educação quase irritante de Kyuhyuh, que sempre fazia com que ela fosse a primeira a tomar atitude, sempre impaciente e acelerada demais para ele, que era totalmente o oposto. Se lembrou das declarações de amor feitas por post-its e riu em meio as lágrimas. Ele era obcecado por post-its e ela sempre tentava fazer com que ele usasse o celular para isso. Alarmes eram mais fáceis que papeis coloridos.
Ela passou para a próxima página do roteiro enquanto suas memórias ainda voltavam aos poucos. A carta do alistamento e o medo que sentiu de perdê-lo. O pedido de casamento quando descobriu que ele serviria como soldado e a polícia em sua porta um ano depois, quando recebeu a notícia de que haviam perdido todo seu grupo em uma missão. Ela não ouviu direito depois disso. Era algo como ter ficado preso em uma gruta no território inimigo e seu corpo nunca ter sido encontrado. Só a avisaram sobre o acontecido meses depois, após terem parado com as buscas. lembrava agora de ter gritado. Estava há meses sem notícias dele, não recebia mais cartas. Tinha tentado de tudo por informações que ninguém nunca passou até mandarem dois policiais para informar que ele estava morto.
Os dois homens em sua porta tentaram lhe consolar e foi ai que ela fugiu do apartamento e dirigindo sem rumo, bateu o carro.
Ainda tinha sequelas físicas do acidente, mas o que apenas psicólogos puderam explicar foi o motivo de apenas ter sumido. Era óbvio, na verdade, mas fez as consultas por insistência de Amélia.
Ela também havia insistido para fazer a viagem. O roteiro que tinha da Suíça e que só agora ela lembrava, havia planejado com . Seria a lua de mel quando ele voltasse do exército. Era por isso que o rapaz sabia todos os lugares onde ela ia estar.
Tentando limpar as lágrimas, ela pegou finalmente o celular. Suas mãos tremiam e só então ela notou, buscando por ele nas conversas e enviando uma única palavra de início:



O viu ficar online, e com angustia esperou vê-lo digitar, o que pareceu levar décadas para acontecer. Quando a mensagem apareceu, não foi mais que um simples “oi” que a fez xingar em voz alta antes de voltar a digitar com as mãos trêmulas.

“Foi por isso que não me disse seu nome. Era você, todo o tempo.”
“Foi por isso também que sabia o meu, mesmo sem eu dizer. Eu não disse, não salvei com meu nome. Usei um apelido, mas você já tinha meu número salvo com meu nome.”


Ao invés de respondê-la, ele apenas enviou um emoji com dedinhos de “ok”. quis matá-lo e sabia que ele sabia muito bem disso também.

“Fala comigo, eu estou enlouquecendo, fala comigo!”
“Está bravo porque eu não me lembrei? Me desculpa, mas por favor, fala comigo.”


Finalmente, ele começou a digitar e dessa vez levou mais de meio segundo para a mensagem aparecer, finalmente:

“Alguma vez na vida eu já fiquei bravo com você?”

Assim que leu, voltou a digitar novamente, mesmo que as lágrimas tornassem a tarefa muito mais difícil do que deveria ser:

“Eu preciso te ver, por favor. Vem pra cá.”


“Nos vimos o dia inteiro”

“Eu não sabia que era você,


“Amanhã”
“Só siga o roteiro original para o dia 2”

, por favor...”


“Boa noite, . Eu te amo”


E isso foi tudo antes dele simplesmente sumir mais uma vez.

+++


não dormiu ou comeu. Passou a noite no chão e só tomou banho pela manhã porque era necessário. Por que estava suja e não podia reencontrá-lo daquela forma. Deu sorte de só ter levado na mala roupas que combinavam, aquela foi a única coisa que lhe permitiu colocar um sobretudo e botas da mesma cor vinho. Saiu praticamente correndo do quarto e esqueceu a bolsa, tendo que voltar para pegá-la. O caminho até a montanha Uetliberg era apenas uma névoa estranha porque ela não tinha ideia de como chegou ali. Um lugar definitivamente grande demais para o tamanho da sua ansiedade em encontrá-lo.
Pegou o celular, já sentia novamente as lagrimas nos olhos, precisando segurá-las para não se acabar de chorar outra vez. Seus olhos ainda estavam inchados da noite anterior que ela passara chorando. Não podia chorar ainda mais.

“Onde você está. Eu não te acho. Já chegou?”


“Tenha fé”


A referência dele a sua própria fala a deixou enfurecida. Já estava uma pilha de nervos, não precisava que ele fizesse piada.
Sem nem pensar sobre o que fazia, digitou rapidamente a resposta e enviou, só depois se dando conta do que havia dito:

eu juro que quando colocar as mãos em você, eu te mato”


“Eu passei dois anos morto e você já quer me matar de novo? Hahaha”


A resposta foi o suficiente para fazê-la voltar a chorar, abraçando o próprio corpo enquanto era tomada pelas lágrimas. Só queria poder vê-lo outra vez e chorou tão alto que sequer foi capaz de ouvir quando passos se aproximaram, os passos dele.
- Desculpa, não queria te fazer chorar. – falou e o som de sua voz foi o suficiente para fazê-la se virar de súbito, arregalando os olhos para sua figura ali e imediatamente se jogando em seus braços, quase derrubado ambos com o impacto.
- É você mesmo, é você. Você está vivo. – ela chorou, engasgando-se com suas próprias palavras e apertando-o o máximo que podia contra seu corpo. – É mesmo você.
- Você passou o dia comigo ontem. – ele repetiu e ela só não o estapeou porque, para isso, teria que soltá-lo e essa era a última coisa que ela queria fazer no mundo.
- Ontem eu não sabia quer era você! – exclamou, mas a mistura de emoções e euforia que sentia acabou não permitindo que ela continuasse lhe abraçando. Ela precisou soltá-lo de qualquer forma para olhar direito em seu rosto e analisar cada detalhe. Se certificar de que era ele nos mínimos detalhes, comparar com o de três anos atrás porque agora tinha com que comparar. – Meu Deus, você está vivo. – repetiu sem que pudesse se conter e ele sorriu para ela, os olhos também vermelhos em sinal de que estava contendo as próprias lágrimas.
- Eu estou. – falou, segurando a mão que ela levou até seu rosto. – Eu prometi que ia voltar e voltei. Demorei, mas voltei.
- Eu te amo tanto. – ela chorou, voltando a abraçá-lo e ele apenas escondeu o rosto em seu pescoço, segurando-a com firmeza como se precisasse tanto daquilo quanto ela. E provavelmente precisava, até mais, porque enquanto ela reprimia toda a dor em sua mente, evitando a perda, passou dois anos completamente sozinho. Sem saber se viveria, se voltaria para casa e se a veria de novo. Viveu seu inferno e pensar nisso a fez chorar ainda mais, mesmo que não tivesse nem ideia de onde ainda tirava tudo aquilo de lágrimas para derramar. – Me desculpa por não ter lembrado. Me desculpa por ter esquecido. Me desculpa, por favor. – ela implorou e ele apenas beijou sua bochecha, sem soltá-la.
- Foi melhor assim. Fico feliz que tenha sido assim.
- Não foi. – ela negou, afastando-se novamente. – Eu deveria ter te procurado, eu deveria ter feito alguma coisa. Não podia ter aceitado aquela notícia sem que tivesse um corpo. E poderia ter te encontrado, eu...
- , para. – ele segurou seu rosto entre as mãos e fez com que ela lhe encarasse. – Você não poderia me achar. Eles procuraram, e não acharam. Você não poderia ter feito nada. Foi melhor assim.
Ela segurou suas mãos, mas negou com a cabeça, sentindo seu peito doer ainda mais com as lágrimas dos olhos dele. Estava feliz de tê-lo de volta, mas ainda doía pensar em tudo que ele tinha passado e na culpa de não ter passado por tudo com ele. Doía de pensar na possibilidade de perdê-lo. Doía lembrar da notícia de sua morte e no buraco em seu peito por todos aqueles anos que agora ela sabia, era saudade. Saudade de alguém que ela até então não lembrava.
- Eu senti tanto sua falta. – ela choramingou, se perguntando se conseguiria parar de chorar em algum momento. – E eu nem sabia que era isso que doía até agora.
- Então só me abraça. – ele pediu em um sussurro, a voz embargada com suas próprias lágrimas. – Não pensa no que poderia ter acontecido ou no que aconteceu. Não importa, eu estou de volta. Eu voltei, eu te amo e vamos nos casar.
Atendendo ao seu pedido, ela voltou a abraçá-lo, esperando que toda aquela euforia em seu peito se acalmasse para que pudesse curtir apenas ele ali, sua presença, seus braços e, principalmente, sua vida. Ele tinha voltado para ela como um milagre e se antes ela não acreditava nesse tipo de coisa, agora ela acreditava porque ele, ele era o seu milagre e tudo que ela queria agora, era viver com ele pelo resto de sua vida.
- Me promete... – ela começou, afastando-se apenas o suficiente para que pudesse encará-lo. – Me promete que nunca mais vai sair de perto de mim.
- Nunca. – ele respondeu, afastando de seu rosto uma mecha de seu cabelo enquanto uma lágrima escorria de seus olhos. – Nunca mais, . – prometeu, juntando seus lábios em um beijo que seria apenas o primeiro de muitos outros que ainda trocariam.


Fim.



Nota da autora: Aaaaaah, mais um MV pra ser o orgulho da mamãe! Espero que tenham gostado! <333 Super me identifico com os MVs do Kyuh, todos trabalhados nas desgraças, mas quis um final feliz pra esse, mesmo que o MV real não tenha (principalmente por isso) Hahaha
Comentem, pls! <3
Xx
Mayh.



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