Finalizada em: 03/03/2018
Music Video: BTS - I Need U
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- , eu… eu sei que… - um soluço. Lágrimas intensas atrapalhavam a ligação feita às pressas no meio da noite. - Você me pediu pra nunca mais ligar. Eu tentei, eu… Você sabe que eu tentei… - outra pausa e o rapaz do outro lado, com as mãos tremendo, fungou, tentando se conter para pelo menos terminar de falar. - Você não me atende, então estou deixando esse recado. Eu preciso de você. Eu preciso… Por favor, . Eu não estaria ligando se não fosse… Importante. - mais lágrimas, e o tempo acabou, fazendo com que a ligação se encerrasse antes que ele fosse capaz de falar que realmente precisava.
O rapaz ligou novamente, e assim que a mensagem foi para a caixa postal, continuou:
- , eu fiz algo… Eu fiz algo terrível. - confessou finalmente, em um desespero quase palpável. O tremor provocado pelas lágrimas tomaram conta do seu corpo e ele sequer saberia dizer, se o perguntassem, como ainda conseguia segurar o telefone contra o ouvido. - Por favor, me liga, por favor, eu preciso falar com alguém, eu preciso… Eu vou enlouquecer, . Eu vou… Me ajuda, por favor… - implorou uma última vez e, repentinamente, a ligação se encerrou, antes que o tempo terminasse uma segunda vez.


Prólogo


Saber o que o esperava não fez com que estivesse realmente preparado para o que encontrou quando parou ali, em frente a casa na rua vinte. E ele conhecia aquele lugar muito bem.
Era a casa de seu velho companheiro, seu melhor amigo desde a infância e seu vizinho da casa ao lado, . O garoto sempre tentou demonstrar mais força do que tinha de fato. Ele precisava disso para não enlouquecer com a vida que levava, mesmo que fosse apenas uma máscara. Era por isso que se mantinha por perto, era por isso que cuidava dele como se fosse um irmão. Mesmo cansado da vida, tinha aquele brilho dentro de si, como uma chama de esperança de que as coisas poderiam mudar um dia.
Chama que viu se apagar no dia que foi embora. No dia que virou as costas para o amigo e com palavras cruéis, decidiu nunca mais voltar.
fez tudo errado. Aquela coisa, de cuidar do mais novo e olhando para as faixas amarelas da polícia que cercavam a antiga casa do rapaz, ele quis bater em si mesmo, machucar a si mesmo em punição pelo que havia causado. Estava tão perdido em culpa pela morte de um companheiro que deixou o outro afundar sozinho em sua própria solidão. Abandonou o que mais precisava de ajuda, o que jurou proteger, e jamais se perdoaria se algo acontecesse a ele.
- Eu não posso acreditar que o fez isso. - falou, parado ao lado de com a mesma expressão de melancolia e espanto que , de pé do seu outro lado. Em algum momento, o grupo de cinco garotos se tornou quatro e agora, eram apenas três. Se é que ainda podiam se chamar de grupo depois de todos terem ido embora, de cada um ter seguido seu próprio caminho, sua própria vida, deixando o mais vulnerável para trás.
deveria tê-lo levado. Sabia disso, mas agora talvez fosse tarde demais.
- O que conhecemos jamais faria. - respondeu o outro e, de maneira debochada, acabou rindo, sem poder se conter.
Não, o que conheciam não faria. Mas quanto tempo era necessário para que uma pessoa perturbada e solitária enlouquecesse? Quanto tempo levava para que uma pessoa que carregava o fardo que ele carregava, perdesse o juízo sem ninguém com quem conversar, sem ninguém em quem se apoiar? Ele não era mais o que conheciam e eles haviam sido os responsáveis por destruí-lo. Por apagar toda a vida que ainda restava no garoto.
- Fazem meses. - respondeu por fim, recebendo os olhares atentos e confusos dos outros dois com ele. - O deixamos sozinho, por meses. Não o conhecemos mais. Não somos mais os mesmos.
- O quanto você precisa mudar para cometer assassinato? - perguntou e, pela primeira vez desde que havia chegado ali, o encarou.
- Eu sempre quis matar a mãe dele. Acho que não precisava de muito na verdade. - respondeu, como se falasse sobre o tempo e sem esperar os outros dois, seguiu em direção a casa sem se importar com qualquer medida de contenção criada pela polícia para manter os curiosos afastados.
Se ainda conhecia pelo menos um pouco do melhor amigo, sabia que ele provavelmente estava pensando em alguma maneira desesperada de tirar a própria vida. Teria medo, e choraria por isso. Pelo que havia feito, pela culpa, e por não ter coragem de fazer o que, na cabeça dele, era necessário. tinha que encontrá-lo antes que tomasse atitudes drásticas. Precisava recuperar qualquer vestígio do velho que poderia existir dentro dele, da inocência de um garoto que precisou crescer rápido demais e sabia que a melhor forma de fazer isso era com o diário escondido embaixo do assoalho de seu quarto. O diário onde escrevia seus maiores fantasmas, contava toda a sua dor. Se fosse possível encontrar respostas, era ali que estariam.
Sangue seco ainda marcava o chão da sala, mas não ficou para analisar os sinais de luta ao redor. Não queria imaginar o que tinha acontecido, preferia ouvir do próprio e para isso, teria que encontrá-lo.
Ouviu os amigos o seguirem de perto, mas ninguém disse nada. Algo no ambiente emanava aquela tensão. sabia que o cheiro metálico no ar era do sangue, mas de alguma forma soava como desespero para ele. Era como se pudesse sentir na pele tudo o que havia passado sozinho ali. Sem ter para onde ir, sem ter com quem distrair sua mente. Toda a dor que o havia levado a uma atitude tão desesperada quanto a que havia tomado.
- Será que vamos encontrar respostas no diário? - perguntou quando chegaram a porta do quarto do garoto. - Será que vamos… Encontrá-lo? - quis saber, e os outros dois sabiam que ele se referia a e não ao diário simplesmente porque estavam todos na mesma situação. Todos desejavam a mesma coisa. Precisavam ter de volta, resgatá-lo de onde quer que estivesse e foi com esse pensamento que abriram o diário assim que o encontraram no lugar de sempre, iniciando o que viria a ser a pior leitura que poderiam fazer. Pior por ser tão real.


Capítulo Único

ALGUNS DIAS ANTES


Se o perguntassem, jamais saberia dizer qual motivo havia sido responsável por fazê-lo entrar de roupa na banheira velha no banheiro de seu quarto. A camisa branca colava em sua pele, já transparente devido a água e alguns fios de seu cabelo caiam sobre seus olhos, mesmo depois de afastá-los para trás.
Ele sempre teve aquilo. A vontade de gritar do nada. Aqueles dias que ele odiava tanto o mundo, as pessoas e a si mesmo que estar no seu próprio corpo, ter que lidar com a própria mente, o deixavam prestes a enlouquecer. Mas estava pior. Cada dia a loucura parecia mais real, mais próxima, e enquanto ouvia a mãe gritar com o padrasto bêbado do lado de fora, brincava com o isqueiro, pensando no quão fácil seria simplesmente derrubá-lo em seu quarto quando estivesse sozinho, se perguntando se teria coragem o suficiente para ver tudo queimar.
Ele também pensava muito naquilo, em ver tudo queimar. Ele via tudo queimar quando fechava os olhos e via tudo queimar quando os abria no meio da noite, aos berros depois de mais um pesadelo com . O fogo não havia sido responsável pela morte do amigo. Foi a queda do penhasco, as pedras na água. Ainda se lembrava do sangue, do corpo inerte do garoto depois de morrer, mas de alguma forma, quando fechava os olhos e se lembrava dele, era o fogo que via primeiro.
Talvez fosse culpa. Ele havia começado o incêndio afinal, junto com . A ideia havia parecido boa na hora. Se vingariam do meio irmão desprezível de e levariam junto toda a produção de drogas que ele traficava, mas deveriam ter imaginado que mexer com traficantes era uma péssima ideia.
Foi assim que acabou morto. O mais novo do grupo. Foi assim que a culpa consumiu todos que restaram. Foi assim que se afastaram e foi assim que cada um seguiu seu próprio caminho, menos ele. não tinha ideia de qual era o seu caminho para seguí-lo e sentindo-se sufocar como sempre se sentia ao pensar no assunto, deixou o isqueiro cair no chão ao seu lado, deslizando na banheira até estar totalmente submerso.
Tudo o que ele queria, era que a dor sumisse, que a solidão passasse. Ele queria que as coisas pudessem voltar a ser como eram, mas não havia mais ninguém ali para que isso acontecesse. Ele estava, definitivamente, sozinho. desconhecia o que era amor de mãe. desconhecia o que era ter um pai, já que foi abandonado pelo seu antes mesmo de saber o que era isso. Seu padrasto, desde a infância, era como o monstro que as crianças temem embaixo da cama, com o triste detalhe de ser real e seu meio irmão, o responsável por ter crescido com tanto medo de tudo.
sentiu as lágrimas queimarem seus olhos, mesmo fechados embaixo da água e apertou as bordas da banheira, soltando o ar pelo nariz como se tentasse se acalmar o suficiente para não chorar. Seu pulmão já doía, clamava por ar, mas nunca chegou a saber até onde iria com aquilo, ou até onde aguentava, pois um estrondo do lado de fora o assustou ao ponto de fazê-lo pular, submergindo imediatamente.
Sem fôlego, ele tossiu. Não tinha se dado conta do tempo que havia passado embaixo da água até submergir e sentir os efeitos reais de estar se afogando. já não reconhecia a si mesmo. Aquele tipo de atitude não condizia com a pessoa que ele conhecia e se viu assustado ao notar isso, que quase tirou a própria vida sem perceber, que não eram apenas pensamentos, que era muito mais verdadeiro do que esperava.
Ele já não tinha mais controle sobre si mesmo.
Uma batida forte na porta o vez pular novamente, e quando sua mãe gritou, se deu conta de que era o mesmo barulho que o despertou da inércia dentro da banheira. Ela o estava chamando e tentando respirar fundo, encher seus pulmões com ar ao invés de água, ele passou as mãos pelos cabelos antes de tomar coragem para respondê-la:
- O quê?! - ele gritou para ser ouvido, e fechou os olhos quando ela chutou a porta.
- Estou mandando sair dai. - ela respondeu, impaciente, mas não fez qualquer menção de se mover, limitando-se a ficar ali, quieto. - ! - ela gritou novamente quando ele não disse nada e ouviu um palavrão por isso. - O xerife está aqui. Saia de uma vez.
Imediatamente, a palavra xerife o fez levantar. "Xerife" nunca teve o mesmo significado para ele do que tinha para as outras pessoas. O xerife, para ele, seria sempre o pai de e de alguma forma a primeira coisa que surgiu em seu coração foi esperança de que o amigo tivesse voltado, antes de se afundar com sua mente gritando que a única coisa que o levaria pessoalmente até ali ao invés do próprio , seria uma má notícia.
E ele estava certo. Sua visita era a prova de que tudo que já era ruim, podia piorar.
vestiu-se rapidamente para encontrar o homem na sua sala. Jeans rasgados, um moletom com capuz. Aquilo era tudo o que ele vestia ultimamente, mas com seu padrasto em casa, bom, talvez ele devesse ter imaginado que chegar até a sala não seria exatamente a tarefa mais fácil do seu dia.
Antes mesmo que pudesse ver de onde o homem surgira, já estava com o rosto colado a parede. Tentou se soltar, mas o homem o prensou mais ali, segurando-o pelo pescoço para isso.
- O que você aprontou agora, hein, seu moleque?! - o que a polícia está fazendo nessa casa?
- Se você me deixar conversar com ele, eu descubro. - respondeu entredentes. Parte pelo ódio que sentia do homem e parte porque era simplesmente impossível falar com a cara enfiada na parede como a sua estava. Novamente, tentou usar as mãos para afastar o rosto, mas dessa vez o homem não se limitou em apenas empurrá-lo, batendo com o rosto do garoto sem piedade. gemeu, e deixou os braços caíssem ao lado do corpo. Não via mais sentido em lutar. Ele nunca vencia, apenas se machucava mais e outra vez naquele dia, fechou os olhos, tentando recuperar a calma para impedir a si mesmo de chorar.
Tão rápido quando o peso das mãos do homem em seu pescoço surgiram, no entanto, elas sumiram e ainda levou alguns segundos para se virar, vendo o pai de ali, segurando o homem pela gola da camisa de forma semelhante com a qual ele segurava há pouco.
- Está tudo bem? - o xerife perguntou e de forma completamente automática, ele meneou positivamente com a cabeça, mesmo que não fosse verdade.
- O , aconteceu alguma coisa? - perguntou preocupado. O homem nunca gostou de nenhum deles, afinal. Tinha planos maiores para o filho, planos que não envolviam sair por ai fazendo coisas de marginal. Não dava para imaginar nada bom vindo daquela visita, mas vê-lo negar já foi o suficiente para que suspirasse aliviado, pelo menos de início.
- Não é exatamente com ele que eu estou preocupado. - respondeu o homem, fazendo com que estreitasse os olhos.
- O que houve, então? - quis saber, não conseguindo imaginar qualquer motivo que o levasse a estar ali se não fosse o ex companheiro.
Antes de respondê-lo, o policial olhou para o padrasto do garoto e o viu revirar os olhos, como se precisasse daquilo para se ver ainda mais confuso.
- Não tem sentido fazer alarde. - disse o homem e, de alguma forma, soube que o simples fato dele dizer aquilo, que não precisava de alarde, já era prova suficiente do contrário.
- Joshua é perigoso, matou um garoto. Isso diretamente, sem contar os vários outros que provavelmente foram pelo menos caminho com as porcarias que ele vendia.
- Você quer mesmo discutir isso aqui, xerife? Quer falar sobre o meu filho na minha casa? - perguntou, mas o homem não deu atenção a ele.
- O que tem o Joshua? - perguntou, tentando conter tudo o que sentia com a simplesmente menção ao nome. O medo, o luto que ele havia causado.
- Rapaz, eu sinto muito. - o xerife começou, mas apesar de soar como se Joshua tivesse morrido, sabia que não era isso. A morte de Joshua seria motivo para se comemorar, e não o contrário. A morte de Joshua representava mais bem do que mal e se o xerife lhe dizia que sentia muito, bom… era óbvio que ele havia sido solto e aquilo soava tão irônico, que riu. Mais do que isso, gargalhou e nem se importou com o fato de soar um estranho para os próprio ouvidos, de não rir há tanto tempo, que nem lembrava mais o som da sua voz quando o fazia. Ele estava ciente dos olhares confusos sobre ele, como se o perguntassem se havia enlouquecido, mas ele não ligava porque realmente se sentia assim, insano. Rir quando o homem que mais o queria morto foi solto da prisão, era loucura, mas de alguma forma ele só conseguia rir porque sua vida era tão ridiculamente ruim, que parecia fazer parte de uma novela de drama.
- Desculpa, eu… - colocou a mão em frente a boca para tentar se controlar, e deu uma leve tossida para disfarçar. - Joshua foi solto? Ele matou e agora está solto depois que queimamos o galpão dele?
- É por isso que eu estou aqui, . Vamos colocar escoltas e… - antes que o homem terminasse, o garoto ergueu em sua direção uma das mãos, como se pedisse silêncio. O homem esperou que falasse algo, mas tudo o que ele fez foi colocar o capuz na cabeça antes de passar por ele, seguindo o corredor sem olhar para trás. - Aonde você está indo? - o homem perguntou alarmado, o seguindo em direção à porta. - , ele é perigoso, e vai te procurar.
- Xerife. - o chamou, parando na porta com a mão na maçaneta antes de se voltar para ele, olhando sobre os ombros. - Moramos na mesma casa, não tem como fugir disso. - respondeu antes de finalmente abrir a porta para sair.
Ele sabia, não tinha como fugir de Joshua, mas de alguma forma, não se sentia realmente mal em saber que o meio irmão estava livre. O máximo que Joshua poderia fazer, a final, era matá-lo e sinceramente, mesmo que não quisesse admitir, não tinha certeza se aquela ideia era realmente não ruim afinal. Estar vivo era muito mais assustador.

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Com as mãos nos bolsos e o capuz escondendo o rosto, vagou pelas ruas da cidade sem qualquer rumo ou objetivo aparente além daquele, o de simplesmente vagar por ai. Algumas pessoas olhavam quando ele passava, com pena, mas ele fingia não notar. A maior parte delas se lembrava do garoto com o grupo de amigos, correndo por toda parte, fazendo qualquer coisa que lhes viesse a mente. Eram baderneiros. Pichavam os muros, invadiam terrenos para festejar sozinhos. Literalmente paravam o trânsito e se divertiam como podiam. Eram conhecidos na cidade e, no geral, as pessoas os odiavam. Isso até tudo acontecer, até perderem , até todos irem embora e apenas ficar para trás.
No geral, as pessoas conheciam a família desestruturada de . Não era da conta de ninguém, mas quando seu irmão era um traficante, bom, as pessoas passavam a te conhecer, a te julgar, e não era como se os seus amigos tivessem boa fama de qualquer forma.
suspirou, mais uma vez sendo tomado pela melancolia que sentia sempre que pensava nos velhos tempos, quando tinha o apoio necessário para não ruir. Quando as coisas, a sua forma, estavam bem. Ou pelo menos tão bem quanto se podiam estar tendo um padrasto alcoólatra e o meio irmão que ele tinha.
Já era tarde quando ele finalmente deu por si e percebeu que já estava longe demais. Não tinha nenhuma vontade de voltar para a casa, e nem era porque seu irmão provavelmente estaria lá, pronto para dar a maior surra que ele já havia tomado. Era simplesmente porque ele nunca queria voltar para a casa. Não era, nem de longe, seu lugar seguro, mas estava cansado depois de tanto andar e se pudesse simplesmente se jogar na cama e dormir, bom, já estaria na vantagem.
deu meia volta e passou a seguir o caminho contrário ao que tinha seguido para chegar ali. Distraído, não se importou se alguns lugares por onde havia passado não eram mais tão seguros a noite, ou se alguns grupos de pessoas bêbadas ria escandalosamente nos becos nos quais estava acostumado a passar, com seu próprio grupo, que agora não existia mais.
E eles já haviam aprontado com grande parte deles. Sempre destemidos por terem um ao outro, mas agora não tinham mais. Foi ai, em um desses becos, que ele esbarrou com um homem pelo menos seis centímetros mais alto que ele. Isso que já era alto. Ele não se importou de início, mal viu quem era até ser puxado para trás e jogado de costas contra a parede. Pela segunda vez no mesmo dia. Foi só então que ele viu, a pessoa era ninguém mais ninguém menos que o próprio Joshua e ele riu novamente da irônia da vida.
Era também a segunda vez que ele ria aquele dia. Talvez fosse até um de seus bons dias se ele ignorasse a surra que já sabia que receberia agora, especialmente quando Joshua estava com outras três pessoas e ele ainda era só um.
- Olha quem temos aqui. - Joshua falou animado e só conseguiu pensar no quão clichê aquela frase era. Tudo em sua mente trabalhava fora daquele óbvio. Do medo que ele deveria sentir, mas não sentia. Da ameaça evidente. só tinha medo da solidão. De deitar na cama e sonhar com a morte de . Isso lhe dava medo. Dor física o fazia parar de pensar em estar sozinho. A morte não lhe assustava, então tudo estava bem, mesmo que Joshua estivesse claramente alterado e louco por vingança. - Surpreso em me ver?
- Moramos juntos, eu ia te ver alguma hora. - respondeu um tanto quanto sarcástico, o que fez o sorriso no rosto de Joshua sumir. De forma agressiva, ele esmurrou a parede ao lado da cabeça de , esperando que ele pulasse ou se assustasse como normalmente acontecia.
Mas aquele já estava calejado demais da vida apesar de ser tão jovem. Não seria a primeira surra dele na vida, ou a primeira vez que o ameaçavam daquela forma. Tudo o que fez foi piscar com calma, voltando a encará-lo no segundo seguinte. Já sabia o que o esperava, afinal. Não era nenhuma surpresa.
Joshua sorriu, de alguma forma satisfeito com aquela atitude e deu dois tapinhas no rosto de , que não reagiu, mesmo com os amigos do outro rindo logo atrás dele.
- Ficou mais esperto agora que não tem mais ninguém para te proteger? - Joshua perguntou, bebendo mais um gole de cerveja direto da garrafa. - Fiquei sabendo que até o foi embora. Grande amigo ele. - falou, e de alguma forma aquelas palavras doeram mais do que qualquer tipo de agressão. Ele pensava em todos os dias. Se ele estava bem, ou tinha se afundado na culpa que o consumia antes de ir embora. Se havia parado de beber, ou se continua caindo de bar em bar como tinha sido seus últimos dias ali. só tentou contato uma vez, quando ordenou que ele não o fizesse mais. sabia ser bem persuasivo. E cruel quando queria, então não o fez novamente. Ele estava certo, afinal. o atrasava, o prendia naquele lugar onde ninguém queria ficar preso, mas que não sabia como deixar. - Vamos fazer assim, então. Se você vir trabalhar comigo, assumir o lugar que seria do , eu não te dou uma surra agora. Você sabe que merece uma surra, não sabe?
- Por colocar fogo no seu galpão? - se fez de cínico. - Colocaria de novo se fosse trabalhar com você.
Em resposta, tudo o que Joshua fez foi sorrir antes de acertar o primeiro soco em , mas pelo menos ele parou de pensar em . Seu rosto latejou, e ele se curvou, mas Joshua espalmou seu peito para empurrá-lo de volta para a parede, lhe acertando mais um soco no rosto e depois outro no estômago.
Se tinha algo que havia aprendido com a vida, era de não cair independente do tamanho da surra. Cair era pior, especialmente quando estavam em um grupo. Fazia com que fosse mais fácil para as pessoas baterem nele, todas ao mesmo tempo. E chutes doiam mais, especialmente quando várias pessoas o faziam simultaneamente. Foi por isso que ele lutou para ficar em pé, mesmo depois de alguns instantes, quando seus joelhos ameaçaram ceder.
Mas é claro que eles jamais se cansariam até que ele cedesse. E em algum momento, isso aconteceu. só não ficou acordado por muito mais tempo depois disso para quando foi.

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ATUALMENTE

- Para. - interrompeu a leitura de , e não foi surpresa para ninguém quando sua voz soou embargada. Ele passou a mão pelo rosto, e todos ficaram em completo silêncio depois disso, sentindo toda a dor que haviam lido, remoendo tudo o que o garoto havia passado. Sozinho. - Como… como pudemos fazer isso? - ele perguntou, e algumas lágrimas escorreram de seus olhos. Lágrimas que ele limpou agressivamente, como se não se visse no direito de chorar depois do que havia feito, de abandonar um amigo. - É o ! Não era óbvio que ele não conseguiria sozinho?
- Ele é muito mais forte do que parece. - disse, e ergueu o olhar para ele. - Talvez mais forte do que todos nós. Fomos embora, nós fugimos, mas ele ficou e aguentou, mesmo que seu fardo fosse maior que o de todo mundo.
- Aguentou? - perguntou, erguendo-se da cama onde estava sentado e aumentando o tom de voz. - Isso é aguentar para você?! Ele estava… Ele estava desabando! Ele queria se matar. Ele estava tendo pesadelos e pensando em por fogo na casa, em si mesmo!
- Em quantos dias você faria isso se tivesse sido deixado para trás e levasse a vida que ele leva? - voltou a perguntar, e a resposta de veio rápida:
- Ah, ele sofreu por meses, não por dias. Estou tranquilo agora. - ironizou, mas chamou sua atenção quando fechou o diário com mais força do que o necessário. Também estava inconformado.
- Quando acordou, ele se arrastou para a rua e quase foi atropelado. - riu sem humor ao contar o final do relato que o impediu de ler para eles em voz alta. - Um garoto ruivo o salvou e a próxima coisa escrita é no outro dia.
- Ah, obrigado. - respondeu após ouví-lo. - Me sinto bem melhor em saber.
- Não estou falando isso por você, . Estou lendo porque precisamos saber onde ele está. - respondeu, olhando para o amigo com uma calma que nem de longe, existia. Aquelas palavras podiam doer em , em todos eles, mas era um preço minúsculo a se pagar depois do que haviam causado.
E nisso sim ele concordava com . Que espécie de amigos eles eram? era sim mais forte do que parecia, mas nem uma muralha podia aguentar tudo aquilo, todos os dias, sem ruir em algum momento. Aquele era o dele. Levou meses, mas finalmente caiu e ninguém estava ali para recolher os cacos. Pior, haviam ignorado seu pedido de socorro. Depois de , todos queriam um tempo para si, e respeitou, mesmo que a solidão custasse sua sanidade. Em troca, quando ele precisou de ajuda, todos o ignoraram e pigarreou quando percebeu o bolo crescendo em sua garganta.
- E você acha que o diário vai ajudar? - perguntou por fim, depois de um tempo maior que o necessário. Soava mais calmo, mas seus olhos estavam vermelhos quando voltou a encarar . - Você acha que depois de matar a mãe e o irmão ele ia simplesmente sentar na cama e anotar tudo no diário que depois ele deixou para trás?
- Não, . Eu não acho que depois de cometer um crime, se lembraria de anotar na droga do diário. Mas eu não tenho nenhuma ideia que nos coloque perto de saber onde ele está, não além dessa, então a menos que você tenha algo melhor para sugerir, seria legal se você sentasse na cama e ficasse quieto para que eu terminasse. - falou, sem tentar conter a impaciência. nunca foi a pessoa mais serena do mundo, mas não costumava usar seu temperamento explosivo com os amigos. Pelo menos não antes e por isso permaneceu onde estava, o encarando com certo espanto.
- Quando viramos isso? - perguntou em um fio de voz, olhando para as próprias mãos. - Éramos inseparáveis e agora mal conseguimos ficar no mesmo ambiente sem brigarmos. - falou, e soltou uma risada nasalada, coberta de deboche.
- Vocês se lembram que foram os primeiros a irem embora, não lembram? - falou, já que aparentemente os dois haviam decidido ignorar aquele fato um tanto quanto importante do caso. - Eu entendo que diferente de mim, por exemplo, vocês têm algum futuro. Vocês nunca esconderam seus planos de ninguém. Mas a questão é que vocês dois simplesmente foram embora, vocês desapareceram. Não ligaram, não mandaram mensagens. Vocês decidiram esquecer de tudo para seguir a própria vida e agora perguntam o que aconteceu? Vocês mesmos aconteceram!
- Nós fomos os culpados pela morte do ! - gritou, sem conseguir conter mais as lágrimas. - Estar de volta dói, lembrar do que fomos, dói. Sim, eu escolhi me afastar porque eu não estava mais aguentando o peso do que eu tinha feito! Por que sonhar com aquela noite todas as noites estava acabando comigo e eu queria superar! Eu precisava. Foi a coisa errada a se fazer, hoje eu sei disso. Mas foi a única coisa que eu tive na época, ! Todos nós agimos errado, mas fizemos em meio a atitudes desesperadas de aguentar toda a culpa que sentimos.
- Nós fugimos, você passou meses em off, bêbado demais para o resto do mundo e enquanto isso … - começou, mas foi interrompido pelo próprio :
- Ele ficou. - respondeu o garoto, deixando mais algumas lágrimas escorrerem. - tentou se manter são no meio de tudo isso até que foi tarde demais. - afirmou, voltando a se sentar no instante seguinte antes de apontar para o diário nas mãos de . - Volte a ler. - pediu, seu tom soando como uma súplica em meio as lágrimas. - Eu só… Eu só quero encontrá-lo, . Como você. Eu quero que ele esteja bem, que ele fique bem. Não vou aguentar se souber que o perdemos também, é . O nosso .
só notou que também chorava quando sentiu sua própria lágrima pingar em sua mão sobre o diário e desviou o olhar para lá imediatamente. não chorava, não era assim e sem dizer nenhuma palavra ele voltou a abrir o diário, mesmo com as lágrimas que segurava embaçando sua visão.
Ele precisava encontrar o amigo, seu melhor amigo. Precisava dizer que tudo ficaria bem e, mais do que isso, garantir que ficasse. Entre todos eles, era o que mais merecia encontrar algum conforto na vida, sempre havia sido e foi naquele momento, enquanto encarava o diário marcado de sangue e lágrimas, que prometeu a si mesmo que se o encontrasse, garantiria que encontrasse novamente a esperança que havia perdido. Ia garantir que encontrasse seu final feliz.

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ALGUNS DIAS ANTES

Uma coisa que jamais saberia explicar se o perguntassem, era como ele havia conseguido chegar até a casa de aquela noite.
Estava exausto, cada passo doía como um inferno, mas ele lutou para não chorar. Nunca antes aquele caminho pareceu tão longo, e já o conhecia muito bem, dos velhos tempos. Não ia até a casa de desde que o amigo fora embora, mas não podia ir para a sua. Tinha medo de enlouquecer de vez se chegasse lá e ainda tivesse que enfrentar seu padrasto bêbado. Ele não tinha mais forças para aguentar aquilo, nem física e nem psicológica e a casa de foi o único local no qual conseguiu pensar e o único que estava vazio.
sempre foi muito reservado ao falar da própria família, e ninguém jamais o tinha pressionado quanto ao assunto. Que todos no grupo eram um tanto quanto desajustados, não era uma novidade para ninguém. Entendiam muito bem disso, todos sofriam a sua maneira e se preferia manter segredo, tudo bem. Ninguém julgava.
O garoto morava sozinho em um barraco com dois únicos cômodos, sendo eles o quarto e o banheiro. Obviamente, não tinha móveis porque simplesmente não cabia nenhum ali, mas o fato de ter apenas um colchão nunca os havia impedido de passar horas ali.
Quando todos ainda estavam juntos, e levaram uma televisão velha e o videogame que haviam comprado juntos para lá. Nunca jogavam sozinhos de qualquer forma, então não viram problema em levá-lo. Costumavam se juntar todos no colchão de e brigar pelo controle. Sujavam a casa toda de salgadinho e fugiam para dormir na casa de que era o único que também vivia sozinho e, pelo menos, tinha uma cama. Como desculpa, usavam a preguiça de limpar tudo, mas a verdade era que todos queriam que tivesse um lugar decente onde dormir e sabiam que ele não iria se simplesmente jogassem a verdade para ele. Não que ele ficasse na cama de toda vez, no geral, brigavam por ela também e os perdedores se dividiam entre o segundo colchão e o sofá. Os tempos sempre foram difíceis, essa era a verdade, mas antes pelo menos tinham um ao outro para que pudessem enfrentar juntos aquilo, entre risadas e, algumas vezes, atividades não muito bem vistas pela polícia. Não que eles tenham ligado para isso algum dia.
soube que a casa de também era um fardo grande demais assim que abriu a porta e lembrou de tudo isso. Depois que as lembranças lhe inundaram com força o suficiente para fazê-lo cambalear. Se ainda se visse em condições, teria dado meia volta ali mesmo, trancado novamente a porta e ido embora, mas a verdade era que não tinha nenhum outro lugar para onde ir. Todos os lugares que conhecia e podiam ser tranquilos o suficiente para lhe trazer paz, teriam lembranças dos amigos. Era inevitável mesmo que lembranças daqueles dias fosse tudo o que ele não precisava daquele momento.
Mais uma vez naquele dia, ou noite, ele fechou os olhos e respirou fundo, contando até dez, mas estava tão difícil. Era como se tudo de ruim tivesse desabado sobre ele de uma única vez, como se o testasse para saber até onde mais ele conseguiria aguentar. Ele estava tentando, de verdade. Ele queria ser forte, ele queria, mas abrir os olhos pela manhã ficava mais difícil a cada dia que se passava.
Sem aguentar mais o peso do próprio corpo, se obrigou a entrar. O colchão de ainda estava ali, junto com a TV, mas o videogame não. e o haviam levado quando conseguiu uma bolsa na faculdade. ficou feliz por ele na época, e tentava lembrar a si mesmo de que ele estava bem, que teria o futuro brilhante que merecia, mas a verdade era que se sentia triste por ter perdido o contato.
Perturbado com todos os pensamentos em sua mente, se deitou no colchão com um gemido e pescou o celular no bolso, olhando atentamente para a tela. Ele queria tanto ligar. Precisava de apoio, precisava de um ombro onde chorar, mas se contentaria em apenas saber se todos estavam bem. Saber como estava na faculdade, saber o que estava fazendo. Saber se estava sóbrio. Ele precisava desabafar, mas ficaria tão feliz em simplesmente ouvir a voz de um deles. De saber que não estava completamente sozinho, mas o medo de não ser atendido e descobrir que não tinha mais nada o atingiu em cheio. Se perdesse também as esperanças, não suportaria e deixou o celular de lado antes que fizesse algo que só o deixaria pior.
Cansado e com dor, se encolheu na cama, estremecendo de frio com a brisa gelada que entrou pela janela quebrada. Ele havia prometido não chorar quando foi embora. Ouvir dele que só havia sido o único a ficar porque não sabia se virar sozinho fez com que ele entrasse naquela luta com si mesmo para provar que podia ficar firme, que podia seguir independente do quão ruim tudo fosse, mas naquele momento, sozinho no quartinho onde, apesar de tudo, tinha tantas boas lembranças, foi demais e ele chorou.
Chorou porque estaria decepcionado se o visse daquela forma, tão miserável. Chorou porque não aguentava mais se sentir tão miserável, mas, principalmente, chorou porque sabia que a esperança que matinha era completamente ridícula e seus amigos jamais voltariam. passou meses tentando não culpá-los por irem embora. Passou meses tentando não culpá-los por deixar aquela vida para trás, tentando entender a decisão que haviam tomado, mas nada justificava as ligações ignoradas.
havia, definitivamente, sido deixado para trás. E ele sabia que todos haviam seguido sozinhos, que não era como se tivessem ido juntos e o deixado, mas ele sequer havia terminado o colegial, então para onde iria? Não conseguiria um emprego em lugar nenhum se tentasse fugir e diferente de , não tinha um pai. Diferente de , não tinha um dormitório e uma vaga na faculdade e diferente de , não tinha a herança do pai, ou o dinheiro da venda da casa. A verdade era que todos tinham uma forma de seguir em frente e ninguém lembrou do fato de que ele não tinha quando simplesmente foram embora, o deixando ali para a própria sorte. Passou meses tentando ser forte por eles, porque sabia que todos sempre viram aquela responsabilidade de protegê-lo, mas pensar sobre isso apenas o deixou pior, afinal, a responsabilidade não serviu de nada no final. Ninguém pareceu pensar duas vezes antes de ir embora e precisando desesperadamente desabafar, ele pegou o diário que levava consigo para grande parte dos lugares ultimamente. O caderno era sua única forma de desabafar agora e foi ali que escreveu todo seu dia, que descontou toda sua dor e frustração. Foi ali que ele escreveu a realidade que, finalmente, havia caído sobre ele: Seus amigos, não iam mais voltar. Seus amigos, não eram mais os seus amigos e se ele queria ter uma chance, precisava iniciar seus planos a partir dali, sozinho, por que essa era a sua realidade agora e ele precisava dar um jeito de conviver com ela até que pudesse partir também.

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se encolheu no colchão antes mesmo da consciência voltar por completo. Ele gemeu de dor, mas ainda não estava acordado o suficiente para se dar conta disso, ou mesmo para reconhecer o som da própria voz ao fazê-lo.
Seu corpo todo doía demais para que ele conseguisse assimilar qualquer outra coisa e levou minutos, ainda encolhido sobre o acolchoado, para notar que havia sido coberto e por isso não sentia mais o frio que o fez estremecer durante grande parte da noite.
Confuso, lutou para abrir os olhos. No dia anterior, teria tido esperanças de que estava de volta, mas de alguma forma, sentindo os olhos ainda inchados pelas lágrimas, soube que não era verdade, que não voltaria e que se tinha alguém cuidando dele novamente, bom, era qualquer pessoa menos qualquer um dos ex companheiros.
Era mais fácil ele mesmo ter pego a coberta e não se lembrar do que ter voltado.
- Foi uma grande surra essa que você levou ontem, uhm? - falou uma voz desconhecida e , mesmo com dificuldade, lutou para se sentar e olhar ao redor. Todos os seus instintos gritado em proteção simplesmente porque não conseguia mais acreditar em bondade humana depois de tudo.
Quando encontrou os olhos atentos do garoto ruivo em si, recuou ligeiramente para trás, mesmo que ele sorrisse com uma expressão serena e animada no rosto.
- Bom dia! - falou, e se limitou em encará-lo sem expressão, recebendo uma careta emburrada por isso. - É isso que eu recebo por ter te salvado mais de uma vez noite passada? - perguntou, e só então se deu conta de que era o mesmo garoto que o impedira de ser atropelado.
- Me seguiu? - perguntou, mas o outro revirou os olhos para a pergunta.
- Eu moro aqui, você que invadiu. - respondeu, e em um momento de inocência quase genuína, olhou ao redor, como se precisasse conferir que aquele era mesmo o lugar certo. Claro que, se não fosse, não saberia o truque necessário para abrir a porta sem tranca, mas estava tão confuso e perdido na noite anterior que não seria realmente uma surpresa se tivesse entrado na casa errada. Se é que aquele barraco podia ser chamado de casa.
Mas estava no lugar certo. Ele soube porque havia lembranças dos amigos por toda parte. O teto respingado com tinta preta da lata de spray que eles estouraram na parede uma vez. A janela ainda queimada graças a ideia genial que havia tido de fumar perto da cortina. No chão, ainda tinha as marcas do móvel embutido para a televisão minúscula que devam a e mesmo com a porta do banheiro fechada, podia ver o brilho colorido do sol, refletindo os azulejos pintados por em alguma ocasião, para trazer alegria ao local tão cinza.
- Não… - começou, quando teve certeza de que aquele era o lugar certo, mas a realidade era que não voltava para a cidade há meses, então não era realmente de se espantar que outra pessoa já morasse ali. Só não pôde evitar a tristeza tão inevitável, afinal, não importava quantas vezes desistisse de esperar, ou quantas dissesse não acreditar que voltariam, que podia seguir sozinho, a verdade era que ele queria sim que voltassem e tinha esperanças, mesmo quando tentava não ter, o que só fazia doer ainda mais a possibilidade de ter dado um fim na casa sem nem ao menos contar a ele. - Você comprou o lugar? - perguntou, temendo a resposta, e o outro riu.
- Você acha mesmo que se eu tivesse dinheiro pra comprar qualquer coisa, escolheria aqui? - ele perguntou. - Estava vazio e eu não tinha para onde ir. - explicou, mas seus olhos se arregalaram em pânico no segundo seguinte. - Conhece o dono? Se eu precisar sair, eu saio! Não precisa chamar a polícia! Não tenho dezoito ainda e...
- Relaxa, não tem dono. - respondeu, mesmo que aquilo doesse ainda mais que seu corpo depois de ter apanhado. Era verdade, não tinha mais dono porque já estava longe, criando uma nova vida assim como os outros. Precisava fazer a si mesmo entender isso, porque quanto antes o fizesse, antes pararia também de esperar, de sofrer o abandono. Era melhor se sentir solitário do que abandonado e quem sabe, se parasse de esperar, conseguisse fazer algo por si mesmo, nem que fosse apenas reunir coragem o suficiente para sair dali.
sabia onde estava a maior parte de seus problemas, mas recuava sempre que pensava sobre o assunto. Independente de tudo, ele pelo menos ele tinha o que comer, e uma cama onde deitar a noite. Era mais do que muita gente tinha. Era mais do que o próprio tinha quando chegou, mas a cada manhã, em que seu coração despertava doendo um pouco mais do que no dia anterior, se perguntava se passar por tudo aquilo valia a pena. Se mesmo não tendo uma casa, não fosse ficar melhor já que o seu lar era o último lugar que ele conseguia enxergar como um lar quando lhe fazia tão mal. Foi o que fez no final das contas, e hoje estava na faculdade. Deu certo para ele, mas evitou pensar em .
- Você pode ficar, eu só… Costumava vir aqui, mas… Fazia meses que não vinha. - voltou ao assunto, apenas para parar de pesar. Levou a mão até a testa, onde lembrava-se te der sangue escorrendo na noite anterior, mas agora estava coberto com um curativo apesar da testa ainda doer. Confuso, ele ergueu o olhar para o garoto ruivo mais uma vez, que voltou o sorriso para o rosto imediatamente, como se não fosse a própria visão do inferno depois do outro dia. Hematomas, olhos inchados, roupa ensanguentada. Nem mesmo sua mãe seria capaz de ignorar o estado que ele se encontrava.
- Eu limpei a maior parte dos machucados. - o garoto explicou orgulhoso, mas permaneceu inexpressivo ao encará-lo. Tinha algo no garoto, uma alegria implícita, como se fosse inatingível por qualquer mal. Um brilho de esperança nos olhos, como se acreditasse que seus dias ruins estavam contados, que sua vida ia melhorar em algum momento e não conseguiu deixar de notar a semelhança entre eles. Pelo menos entre a versão antiga dele mesmo, quando também acreditava nisso. Meses depois da morte de , se sentia muito mais como um morto vivo, se arrastando dia após dia, tentando apenas chegar inteiro até o final sem precisar parar no caminho pelo menos uma vez para recolher mais um caco perdido. vivia apenas em prol de evitar qualquer coisa que fosse deixá-lo ainda pior, como o padrasto e o meio irmão. Tirando isso, não fazia mais nada além de dormir quando estava sozinho em casa e escrever quando não podia voltar, porque sabia que o padrasto estaria lá e ele tinha medo de voltar. - Também te sedi minha coberta. - o garoto voltou a falar quando notou que não diria nada, nem mesmo para agradecer. - Você parecia precisar mais do que eu.
- Por que fez isso? - perguntou por fim, soando muito mais curioso do que rude. No seu mundo, as pessoas não ajudavam umas as outras por nada. Pelo menos não no seu novo mundo, onde ele havia finalmente se dado conta de que nem mesmo com os amigos, podia contar. E caramba, foram anos. Se eles foram capazes de dar as costas a sem pensar duas vezes, ele não podia nem imaginar quem em sã consciência o ajudaria. Não quando até mesmo os mais próximos lhe viraram as costas. - Por que se deu ao trabalho? - voltou a perguntar, mas o garoto ruivo o encarou como se a resposta para a pergunta fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- Você precisava de ajuda. - disse apenas, soando como se não acreditasse que estava realmente ouvindo aquela pergunta. - Você estava com febre, tremia e delirava e eu tinha um cobertor. - explicou, mas negou com a cabeça. Não era apenas pela coberta, era por tudo.
- Não estou falando disso. - respondeu, tentando lembrar a si mesmo do seu próprio altruísmo, o que o movia. Houve um tempo em que se preocupava em ajudar os outros e eram tempos mais fáceis. Ultimamente, se visse alguém prestes a ser atropelado, provavelmente ficaria parado assistindo, sem sentir absolutamente nada. - Estou perguntando por que me ajudou. - insistiu, mesmo que não tivesse muita certeza quanto ao motivo. Talvez só estivesse tentando se lembrar de como era. Tudo o que ele mais queria, era não se sentir tão mal. Queria voltar a ser como o garoto ruivo a sua frente. Queria ter qualquer motivo para voltar a sorrir.
- Você precisava. - ele apenas repetiu mais uma vez, como se isso explicasse tudo. - Eu já disse.
Com suas palavras, apenas suspirou. Era assim que as coisas tinham que ser, não era? Ajudar o próximo sem esperar nada em troca, ou sem precisar de um motivo. Ele era assim também. Tinha prazer em fazer o bem e se dar conta do quanto havia mudado só o deixou ainda mais triste, porque não foi para melhor. Antes ele era uma pessoa boa em uma vida ruim. Agora nem isso. Ele apenas tentava sobreviver e para piorar, estava fazendo um trabalho terrível nessa tarefa. provavelmente teria vergonha do que ele tinha se tornado e sentiu as lágrimas voltarem aos seus olhos ao pensar no garoto, decidindo que estava na hora de mudar o rumo de seus pensamentos antes que quebrasse mais uma vez a promessa feita meses atrás.
- Como sabe que… - começou, só depois percebendo que não tinha muita certeza se realmente queria saber a resposta para sua pergunta. - Que eu estava delirando? - terminou a pergunta com uma careta, com vergonha da resposta antes mesmo de ouvi-la.
Como se notasse seu receio, o garoto ruivo mordeu o lábio inferior antes de prosseguir.
- Ahn… Nada. - respondeu, ainda incerto. - Você só… chorou.
abaixou a cabeça, odiando-se por isso mesmo que na verdade, fizesse sentido. Depois do dia anterior, chorar parecia bem plausível, mas odiava se sentir ainda mais fraco do que já se sentia, especialmente na frente dos outros, de estranhos, que não precisavam vê-lo tão frágil, ou o fracasso de pessoa que era em vida.
- Não precisa ter vergonha de chorar. - o ruivo continuou, mesmo que não tivesse dito nada. - É normal ter medo, se sentir triste ou… Perdido. É normal, e isso não te faz fraco se você conseguir se reerguer no dia seguinte, muito pelo contrário. Só te faz mais forte se mesmo assim, você levantar. Chorar não te faz mais fraco. Abaixar a cabeça e não fazer nada, é que faz. - o garoto falou e, por um longo instante, tudo o que conseguiu fazer foi encará-lo.
não podia dizer que ele estava errado quanto a sua comparação, mas estava errado quanto a ele ser forte, porque não era, não se sentia mais assim porque, há muito tempo, havia desistido de lutar. Não via mais motivos para isso, ou alegria em seguir, em viver.
Quem olhava de fora, via um garoto quieto e recluso, mas por dentro ele se sentia uma bagunça. Por dentro, ele gritava desesperadamente por ajuda, implorava para que aquela dor que sentia o tempo todo, passasse e as vezes chegava a se tornar quase enlouquecedor não poder simplesmente gritar de verdade. Ele via as pessoas passarem ao seu redor, rindo despreocupadas, e não conseguia mais se lembrar como era, mesmo que não fizesse tanto tempo que ele era também uma dessas pessoas, rindo mesmo que sua vida fosse uma baderna. A verdade era que ele sabia que havia algo de errado com ele, algo mais errado do que apenas luto, mas sem ninguém era difícil encontrar um motivo, um único motivo para ter vontade de melhorar.
A vida era tão difícil, tão cruel, mas de alguma forma a fala do garoto fez com que ele se sentisse mal por pensar assim.
não gostava de se sentir fraco, mas o menino ruivo estava certo porque ele havia abaixado a cabeça e se conformado, havia desistido e esse era o ponto, e diferença dos fortes, para os fracos.
Ele estava cansado de ser o fraco. Estava cansado de esperar.
- Você… tem morado aqui? - perguntou em uma mudança súbita de assunto que fez com que o outro estreitasse os olhos, confuso.
- Eu… sim. - respondeu, ainda sem entender onde o outro queria chegar.
- Há quanto tempo? - insistiu em perguntar.
- Ahn… Há uns dois meses, eu acho. - respondeu incerto. - O que houve, por que a pergunta?
- Vamos embora. - falou de um vez. Farto dos motivos que o prendiam ali. A verdade era que ficar o fazia mal, levava um pedaço dele todos os dias, mas tinha tanto medo de ir, que acabou por simplesmente aceitar sua condição, por pior que fosse.
Tudo bem, ele tinha um teto onde morar, mas sua casa, entre todos os lugares, era o que mais lhe fazia mal. Se sentia ameaçado ali, ao ponto de só conseguir dormir se estava sozinho e com as portas e janelas bem trancadas. De pequeno, era pior. Chegava a dormir no banheiro só para ter uma tranca a mais entre ele e o perigo eminente que sentia do lado de fora.
sabia que as chances daquilo dar errado eram muito maiores do que dar certo, mas ele nunca fora muito ajuizado de qualquer forma.
- Embora de… onde? - o garoto voltou a perguntar, totalmente confuso, e acabou rindo. Não tinha qualquer motivo concreto para rir. Aquilo sequer tinha graça, mas de alguma forma, no fundo, ele sempre soube o que precisava fazer para se libertar de todo aquele sofrimento. Só tinha medo, mas havia chegado a um ponto tão baixo na noite anterior que não conseguia ver como tudo poderia ficar ainda pior, mesmo que não tivesse mais um teto depois de fugir.
- Embora daqui, dessa cidade.
- Ficou louco? - garoto ruivo respondeu, rindo um tanto quanto agitado, e olhou para ele com uma sobrancelha erguida.
- Você invadiu um barraco. - observou. - O que te prende aqui?
- Ter um barraco é melhor do que nada. - o ruivo respondeu. - E você não tem ideia do quanto é difícil conseguir uma matrícula na escola sem ninguém para assiná-la.
- Conseguiu uma vez, podemos fazer de novo. E se não conseguirmos também, quem liga?
- Eu não sei em que mundo de fantasia você vive, mas ainda precisamos do estudo se quisermos alguma coisa da vida depois de nos formarmos. Não é assim.
- Qual o seu nome? - mais uma vez, mudou de assunto, e o garoto respondeu mesmo sem entender absolutamente, como estava estampado em sua face.
- Prefiro que me chamem de Hope.
- Certo, Hope. - falou, colocando a coberta de lado e achando, no mínimo, irônico que ele se chamasse “esperança”. - Eu não vivo em um mundo de fantasia. Eu vivo em um mundo onde voltar para a casa, é meu pior pesadelo. E eu sei que você deve estar pensando que… Que eu sou só mais um adolescente fazendo drama porque normalmente, é isso que as pessoas pensam, mas quem fez isso comigo - apontou para si mesmo, para os hematomas em seu corpo. -, foi meu irmão. E eu nem vou entrar nos detalhes do porque dele querer me matar, mas quando eu digo "matar", quero dizer literalmente e nem vai ser a primeira vez que ele faz isso, que ele mata alguém. O primeiro, foi um dos meus melhores amigos. Nada me prende aqui, Hope e se eu não ir embora, esse lugar vai me matar porque eu, de verdade, não aguento mais. Eu… eu me sinto preso nessa cidade, e preso dentro de mim mesmo porque… - ele se interrompeu, rindo em nervosismo. - Eu vivo com medo, eu vivo… sozinho, eu… Eu estou enlouquecendo aqui, Hope. Eu não aguento mais olhar todos os dias para os mesmos lugares e me lembrar de tudo que já aconteceu. Isso está me matando. Eu me sinto morto, vazio, e não tem nada pior do que se sentir morto quando se está vivo. Não tem nada pior do que viver odiando a si mesmo, viver sabendo que não está vivendo, sentindo todos os dias que está no lugar errado e que o mundo não tem lugar para você. Eu preciso ir embora daqui, eu preciso disso. Preciso me libertar porque eu não aguento mais viver preso.
só percebeu o quanto havia falado quando terminou e notou que estava sem ar. Ele soltou o ar pela boca, para respirar fundo em seguida, mas de alguma forma, poder ter dito tudo aquilo em voz alta pela primeira vez já diminuiu consideravelmente o peso em seus ombros. Era isso ou o fato de ter, finalmente, tomado uma decisão. Com ou sem Hope, ele iria embora. Preferia ter companhia. Se havia algo que tinha aprendido era que não sabia lidar com a solidão, mas estaria solitário ali de qualquer forma. Sabia que depois do abandono dos amigos, demoraria para confiar em alguém novamente, mesmo no garoto de sorriso caloroso, mas preferia que ele fosse. Hope lhe trouxe esperança, afinal. Parecia justo mesmo que ele, muito provavelmente, acabasse desenvolvendo uma barreira ao seu redor apenas para evitar sofrer novamente a dor da perda, ou a de ser deixado para trás.
- Você parece… decidido. - foi tudo que o garoto respondeu depois de tempo demais, e , após suspirar mais uma vez, ergueu o olhar para ele.
- Na verdade, eu demorei tempo demais para decidir, mesmo sabendo que precisava, e isso quase custou minha sanidade. Eu preciso ir embora daqui, Hope. Eu só… preciso.
O garoto voltou a ficar quieto, por tempo demais, e soube de alguma forma, que ele ponderava sobre o assunto. Não tinha certeza ao certo do motivo que o levava para convidar um completo estranho para fugir com ele, e pior, porque o estranho estava de fato considerando, mas se tinha algo que sabia fazer, era reconhecer outros perdidos como ele. Havia sido assim com e o mesmo agora, com Hope. Sim, ele tinha o brilho que há muito tempo se apagara em , mas ele sabia que Hope também não tinha nada, que estava tão solitário quanto a ele. Havia chegado ao ponto de invadir um barraco como o de para morar, então não era possível que tivesse muito.
- Sabe, viver por ai, na rua, não é fácil. - o garoto falou depois de um longo tempo, finalmente tirando o sorriso tão calmo do rosto. soube que Hope queria sua atenção, que o que quer que ele fosse dizer, seria importante e por isso, prestou atenção. - Já morei em um carro, e na escola. Já fiz as piores coisas para ter dinheiro. Você precisa ter ciência de tudo isso antes de um passo como esse, mas… Eu me vejo em você, sabe? - Hope falou, e não pôde esconder o espanto. - Eu sei que você não se acha a pessoa mais forte do mundo nesse momento, mas tomar a atitude necessária para se libertar de algo que te faz mal é um passo que poucos conseguem dar. Especialmente quando o caminho é tão assustador.
- A ideia de ficar me assusta mais.
- Eu sei. - Hope concordou. - Já passei por isso, e eu sei. Estou com você nessa.
não conhecia o garoto, mas ouvir aquilo quase o fez chorar. Talvez fosse carência depois de tanto tempo sozinho. Talvez fosse alívio por não ter que seguir sozinho. Talvez fosse felicidade por finalmente ter outra pessoa consigo, mas nessa parte evitou pensar, afinal, a ideia de se deixar depender de outro alguém novamente também não era algo que gostava.
Pela primeira vez em tempo demais, sorriu de verdade, sorriu de emoção e apenas a ideia de realmente fugir trouxe um alívio inexplicável para seu coração. Um alívio que ele nunca esperou sentir, que ele nunca havia sentido, mas apesar disso, jurou para si mesmo que a partir daquele momento, tomaria cuidado também com as pessoas. Principalmente com elas. Foi ali que ele decidiu que, apesar de estar feliz em ter companhia, não se deixaria, nunca mais, depender tanto de alguém quanto se deixou depender dos amigos que foram embora.
Naquela manhã, voltou para a casa decidido a fazer suas malas. Sua mochila, no caso, já que seria impossível levar muito. Estava disposto a sumir no mundo junto com o garoto de cabelos ruivos, mas deveria ter considerado, pelo seu histórico, que nada poderia ser tão fácil.
deixou que a esperança crescesse rápido e a queda, quando veio, foi gigantesca. Grande demais para que ele pudesse suportar.

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ATUALMENTE

virou para a próxima página quase que agressivamente, mas sabia que não tinha mais nada ali. Esse era o motivo de seu desespero, afinal. decidiu viver, decidiu seguir em frente, mas então… Nada. O relato acabava ali e se tinha uma coisa que ele sabia era que, bom, não havia dado certo. Independente de qual fosse o plano, nunca chegou a colocá-lo em prática, seu mundo desabou de vez antes disso e mesmo que não fosse realmente difícil imaginar o motivo, não saber o que de fato havia acontecido o enlouquecia tanto quanto o de não saber onde estava, ou se estava pelo menos vivo.
Nunca considerou fraco como ele provavelmente acreditava, mas tinha medo que dessa vez, ele não fosse aguentar. De que dessa vez, não fosse ser capaz de se reerguer e sozinho, céus, não queria nem imaginar até onde iria na esperança de por fim em toda sua dor.
- Então é isso? - Jimim perguntou, inconformado. - O que diabos aconteceu depois disso?! - quis saber, seu tom de voz beirando a histeria porque mesmo que nenhum deles fosse capaz de dizer em voz alta, todos estavam preocupados que fizesse algo contra si mesmo. Especialmente depois de ter deixado claro, em seu diário, quantas vezes se viu pensando sobre isso.
E uma pessoa que considera por fogo na própria casa, mesmo estando dentro, não pode ser considerada muito racional. Só alguém a beira do mais completo desespero consegue cogitar algo assim, nessa magnitude.
- Ele sequer chegou a fazer as malas. - falou, olhando o quarto ao redor. A cama desfeita, o guarda-roupa aberto, porém intacto. A ideia de se libertar nunca passou de uma ideia. Um breve momento de esperança que só serviu para derrubá-lo ainda mais fundo. - E sabemos que ele também nunca chegou a fugir.
- voltou para a casa, e antes de tudo, escreveu. - falou, deduzindo o que havia acontecido levando em consideração o que conhecia do amigo. E sempre seria seu melhor amigo. Ele podia ter cometido o maior erro da sua vida com , sabia disso. E talvez o garoto nunca mais o perdoasse, mas não o deixaria novamente. Acompanharia todos os seus passos e garantiria que ele ficaria bem, mesmo que o tivesse que fazer de longe. Era isso que deveria ter feito desde o início. É isso que os amigos fazem, e ele tinha sido um péssimo amigo. - Ele queria registrar seus últimos dias,. - continuou, lutando para não pensar no pior. - Deixar marcado o que o fez seguir adiante antes de ir embora de verdade. Provavelmente deixaria esse diário aqui de qualquer forma e começaria um novo. Uma nova fase de sua vida.
- Que nunca aconteceu. - respondeu sem que pudesse evitar, abaixando a cabeça enquanto as lágrimas voltavam para seus olhos. - Ele nunca conseguiu se libertar. - continuou, e falou um palavrão em voz alta por isso, jogando o diário do outro lado do quarto antes de se levantar para encarar , irritado de como a fala havia soado.
- Ele não morreu, está bem?! - disse, um pouco mais alto do que o necessário simplesmente porque, por mais que quisesse negar, aquele era o seu maior medo. o ligou horas depois do assassinato e eles levaram mais algumas horas para chegar. Tempo demais para uma pessoa tão perdida. Tempo demais para alguém tão sozinho, com a cabeça cheia dos piores pensamentos possíveis.Mas ainda assim evitava pensar no pior. O que ele conhecia era tão otimista. Agora era a vez de ser otimista pelos dois. - Não fala dele como se ele tivesse morrido. - lutou para continuar, ouvindo sua voz embargada e odiando-se ainda mais por isso. Deveria brigar com por estar errado e não por falar o que todo mundo estava pensando. Não podiam pensar naquilo, tinham que ter fé em . A fé que não tiveram. - Ele não morreu, isso não aconteceu. - insistiu, falando um pouco mais baixo como se estivesse cansado de pensar sobre aquilo.
- , nós o destruímos. - falou, com dor no olhar. - Uma parte dele sim, morreu. E nós fizemos isso. Você não ouviu nada do que leu? Tiramos toda a esperança que ele tinha do mundo, tiramos toda a esperança que ele tinha nas outras pessoas. Levamos até mesmo a confiança que ele tinha em si mesmo e deixamos apenas o medo. Fomos nós que fizemos isso, acabamos com a vida dele e mesmo depois que o encontrarmos, ele nunca mais vai ser o mesmo, ele nunca vai confiar em nós outra vez. Isso se for capaz de confiar em alguém.
- Ele matou duas pessoas. - observou com tristeza, em concordância a por pior que fosse. - Vai levar anos para se recuperar disso, que dirá de todo o resto. O abandono, o luto, os pesadelos.
- Éramos as únicas pessoas em sua vida e o deixamos para trás. - passou uma das mãos pelo rosto novamente e fungou sem se importar em chorar na frente deles. - Ele sempre fez tudo por nós e…
- Não é hora… Pra isso. - o cortou, falando entredentes enquanto afundava as unhas na palma de suas mãos. Não precisava que ninguém repetisse em voz alto tudo que ele sentia e sabia. Carregaria aquela culpa por toda a vida. Jurou cuidar de , mas tudo o que fez foi criar nele sequelas irreversíveis que o garoto provavelmente levaria para toda a vida.
A verdade era que entendia muito bem das palavras naquele diário, da dor de , porque compartilhava grande parte delas. A morte de o sufocou, foi um fardo maior do que ele poderia carregar e quando viu, a situação havia se invertido. Sempre cuidou de e, de repente, era o contrário, quando ele se quer se achava digno daquele cuidado, não quando ainda se via como o único responsável pela morte do amigo.
sabia que não precisava ter sido tão cruel quando foi embora, mas precisava daquele espaço. Precisava daquilo para reerguer a si mesmo e estava tão farto da vida que não foi capaz de pensar em mais ninguém, mesmo que este fosse a pessoa que mais se importou com ele.
- , você está… - falou quando viu o sangue pingar de uma de suas mãos, mas negou com a cabeça quando ele fez menção de seguir em sua direção.
- nos deu uma pista. - falou apenas, erguendo a camisa para guardar o diário em seu cinto antes de descê-la novamente. - Hope, o garoto ruivo. Precisamos encontrá-lo e torcer para que tenha alguma notícia. - falou apenas, e não esperou pelo outros para dar as costas, saindo da casa o quanto antes para seguir para o próximo destino: A antiga casa de .

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sentiu na pele as palavras de assim que abriu a porta, sendo inundado por lembranças demais. Todas surpreendentemente boas apesar da vida tão desprezível que levavam na época. Lembrava-se da festa feita para em seu banheiro certa vez, por insistência de que sabia o quanto aquilo seria importante para o amigo, mesmo que ele, o próprio , não ligasse de comemorar aniversários, mesmo o seu.
Aquele era o tipo de amigo que ele era, afinal. Um tipo raro, que nenhum deles havia sido para ele em retorno, mesmo quando mais precisou.
- Aquele sangue no lençol, é dele? - perguntou enquanto olhava para a roupa de cama amontoada e jogada em um canto do quartinho que um dia, fora de . Imediatamente, os outros dois deixaram que sua atenção se voltasse para o local indicado e sentiu um arrepio incômodo subir pela sua espinha, o que foi resposta o suficiente para ele.
O único colchão no local estava sem o lençol e de acordo com os relatos no diário de , ele havia dormido ali em algum momento. Só era um pouco difícil de saber o momento certo para ter certeza, comprovar suas suspeitas, mas algo dentro dele sabia qual era a resposta.
- Não estaria ali ainda se fosse, estaria? - perguntou esperançoso. Ou tentando ter alguma esperança, no caso. Já que estava tão difícil reunir alguma. - Quer dizer, é o único lençol do colchão, eles não teriam limpado? Precisam dele, esse colchão tem tipo… Mil anos.
- E você acha que o , depois do que aconteceu, teria tido tempo de lavar o lençol? - perguntou com uma certa dose de ironia, deixando claro o quão idiota aquilo soava. Somente quando notou a expressão de tristeza no rosto de que se deu conta de que nem mesmo ele acreditava. Só queria tirar forças de algum lugar, mesmo que fosse de uma mentira, uma fantasia de que estava bem e que aquele sangue não era proveniente da surra que ele tinha levado de Joshua, seu meio irmão.
- Já passaram mais de vinte e quatro horas. Eu só pensei que… - ele tentou ainda, mas , impaciente, o interrompeu.
- Sério que entre todas as coisas, vocês vão discutir em quanto tempo é aceitável lavar a droga de um lençol? - perguntou, soando um tanto quanto exaltado agora. Ali, a esperança era ter pistas. Encontrar o garoto ruivo e esperar que ele tivesse uma resposta, mas não. Tudo o que encontraram foram mais indícios de que estava ainda pior do que pensavam e não sabia como simplesmente lidar com aquilo, saber que a situação era ainda pior do que a catástrofe que ele já esperava.
- Estamos todos tão preocupados quanto você, . - falou pacientemente para o amigo, em uma tentativa falha de acalmá-lo simplesmente porque, a única coisa capaz de acalmá-lo no momento, era ter novamente e saber que ele estava bem.
- está certo. - concordou com pesar. - Todos nós estamos sofrendo com a culpa do que fizemos, todos queremos encontrá-lo, . É o que eu mais quero. - ressaltou, dando alguns passos em sua direção como se tentasse confortá-lo. - Não precisa disso, dessa postura. Não se martirize mais do que… - ele suspirou, negando com a cabeça. - Se exaltar não vai nos ajudar a encontrar . - completou por fim, mas tudo o que fez foi urrar irritado, chutando com toda força que tinha o colchão ali, no chão.
- Eu estou exaltado, , porque você não está ajudando! - gritou repentinamente, sem que ninguém esperasse, e no primeiro instante pulou no lugar, arregalando os olhos enquanto o encarava chocado. Não era a primeira vez e nem seria a última que viriam explodir e gritar. Ele era assim, aquela era sua forma de extravasar, mas não fazia com que fosse menos assustador, muito pelo contrário. - Estou mantendo essa postura, porque não conseguimos encontrá-lo e a droga do tempo está passando! - continuou, mas sua voz já soava embargada e seus olhos, vermelhos, enchiam-se de lágrimas. - Eu estou mantendo essa postura porque quanto mais tempo ele fica sozinho, mais perigoso é para ele, maiores são as chances dele fazer uma besteira! - aumentou ainda mais o tom, já aos berros. - É o , e ele está sozinho! Nós o deixamos sozinho, eu o deixei sozinho, que porra!. - e foi então, com essa fala, que o próprio se deixou ruir, sendo amparado por que imediatamente seguiu até ele. Quando o garoto lhe envolveu pelos braços, não rejeitou o apoio como normalmente faria e apenas escondeu o rosto em seu pescoço, se deixando chorar como segurava fazer desde que recebeu a notícia de que, após matar a própria mãe, estava desaparecido. Sozinho a própria sorte sabe-se lá onde.
E tinha ligado por ajuda. Ligação que ignorou até ouvir a mensagem e não podia acreditar na própria atitude de ignorá-lo. Era seu melhor amigo, tinha pedido apenas alguns minutos de atenção e ignorou. Havia ignorado seu pedido de socorro e agora não o encontrava mais para ampará-lo.
- Vamos encontrá-lo, . - sussurrou, tentando esconder que agora, graças as lágrimas de , também estava aos prantos. Era a primeira vez que via o outro dessa maneira. fazia mais o tipo que gritava do que o tipo que chorava, mas não estava sendo exatamente fácil para ninguém.
- Você não sabe disso, . Não tem como sabermos porque ninguém o atendeu quando ele ligou. - respondeu, o soltando para limpar as próprias lágrimas com as costas da mão. - Que merda de pessoas nós somos? Por que fizemos isso?
- Estávamos todos com medo do que fizemos no passado. Esse lugar carrega peso demais, lembranças demais. - respondeu. - Até mesmo as lembranças felizes são tristes porque nelas, ainda era vivo e agora não é mais.
- Não vou suportar se tivermos perdido também. - respondeu, dando as costas para os amigos e, ironicamente, dando de cara para o rostinho desenhado na parede pelo próprio , como que para lembrar a si mesmo da merda de pessoa que ele era.
A porta, então, foi aberta de súbito e todos se voltaram para ela, vendo o garoto ruivo mencionado por em seu diário parar na porta, os olhos assustados por ver três completos estranhos ali. Sem notar o que fazia, o garoto deu um passo para trás, sem tirar os olhos dos três amigos como se, a qualquer momento, pudessem se jogar sobre ele para lhe fazer algum mal.
- Hope, não é? - falou primeiro, o tom de voz calmo e diplomático que só deixou o recém chegado ainda mais desconfiado, afinal, eram três estranhos para ele que ainda por cima, sabiam seu nome.
- Como…? - ele começou, ainda da porta, e bufou sem paciência, deixando claro que não tinham nenhum tempo para aquilo.
- Não estamos aqui por você. - falou de uma vez. - , queremos saber do .
- Quem? - o garoto se fez de cínico e revirou os olhos, avançando imediatamente em sua direção como se pudesse agredir o garoto só por fazê-lo perder tempo.
E, bom, ninguém acreditava que ele não fosse fazer de fato, por isso se colocou entre eles, os braços erguidos para colocar distância entre e o garoto ruivo.
- Ei, não é assim, .
- Não temos tempo para perder com isso, ! - ele exclamou antes de passar pelo amigo e avançar novamente em Hope. Ele bateu com uma das mãos na porta, ao lado da cabeça do garoto que, no susto, pulou. - , vocês iam fugir. Onde ele está?
- E… eu…
- ! - também o repreendeu. - Se ele ainda está aqui é porque não fugiram. E nós sabíamos disso. nunca voltou para cá!
Furioso, muito mais por saber que era verdade, esmurrou a porta mais uma vez antes de se afastar, bufando.
- E que porra deveríamos fazer agora?! Não sabemos onde ele está e… Que inferno, fazem horas que ele sumiu! - gritou, teria jogado mais alguma coisa longe se ali tivesse algo para ser jogado.
- Quem… quem são vocês? - o garoto gaguejou, mas recuou mais uma vez sob o olhar de .
- Somos amigos do . - foi quem respondeu e viu o olhar do garoto ir de amedrontado para confuso e depois desconfiado.
- Ele não parecia ter amigos. - respondeu cauteloso e urrou.
- Não vamos achar nada aqui, precisamos continuar. - falou, tentando passar por para chegar até a porta, mas o garoto o segurou pelo braço para impedí-lo.
- Fica frio. - pediu novamente e o encarou com impaciência. Abriu a boca para falar, mas antes que o fizesse, o impediu. - Eu sei, está bem. Não temos tempo, mas ele é a melhor pista que temos.
- Eu? - Hope perguntou, perdido, e concordou ao erguer novamente a cabeça para ele.
- mantinha um diário. - foi o primeiro a ter a intenção de explicar algo para o garoto, que direcionou a atenção para ele de imediato, quase como se o agradecesse por isso. - Viemos atrás de quando soubemos o que houve, e lemos sobre você lá. Precisamos de qualquer pista que nos leve a encontrá-lo.
- Mas de onde vocês vieram? - Hope insistiu. - Ele não chamaria um estranho para fugir se tivesse amigos.
- Mas ele tem. - respondeu apenas. - Péssimos amigos, pois viramos as costas para ele, mas estamos de volta e estamos preocupados. Queremos saber se vai ser útil ou não.
- Não sei dele. - Hope falou por fim. - Ele foi para a casa buscar algumas coisas. Roupas, qualquer coisa que pudesse nos ajudar a comprar uma passagem só de ida para qualquer lugar, mas nunca mais voltou. Só depois de alguns dias soube o que houve porque, ironicamente, iríamos fugir, mas eu sequer sabia seu nome. Entendi ali porque ele nunca voltou, embora não sei se posso entender o motivo que o levou a isso. Só sei que ele parecia transtornado quando o conheci, e que ele precisa de ajuda. Ele é um garoto bom, qualquer um pode ver isso. Um garoto bom em um mundo cruel. Se eu pudesse, de verdade, os ajudaria.
- Não ajudaria não. - respondeu e, confusos, todos se voltaram para ele, vendo o sorriso que ele formou nos lábios, mesmo que este fosse ligeiramente melancólico.
- O quê? - perguntou, mas quando voltou a falar, não foi para responder a sua pergunta.
- Você não confia na gente e fingiu não conhecer por fidelidade a alguém que nem conhece. - sorriu triste. - Eu ficaria feliz em saber que conseguiu fugir com você.
- Mas isso não aconteceu e precisamos ir agora. - retrucou mais uma vez, bufando por de fato terem prolongado aquela conversa tão sem sentido. - Vocês vêm logo ou pretendem passar a vida aqui? - perguntou, mas não esperou por uma resposta antes de passar por Hope, quase o arrastando junto na porta mesmo que coubessem os dois traquilamente ali. Não precisou olhar para trás para saber que os outros dois amigos o seguiam e pôde até mesmo imaginar o pedido de desculpas silencioso de para o garoto ruivo, mas não teria parado de andar se ele não os chamasse de volta, fazendo-os vacilar na esperança de alguma nova posição quanto a .
- Esperem um minuto. - ele pediu, e todos os três se voltaram para ele de imediato, na ilusão de alguma notícia concreta que pudesse ser realmente utilizada.
- Se… Se são amigos dele, podem descobrir onde ele está se vocês se esforçarem. - disse ele, mas tudo o que ouviu foi uma afronta pessoal e o teria socado se, mais uma vez, não interferisse.
- , para! - pediu. - Que inferno!
- Ele está dizendo que…
- Ele está dizendo que precisamos parar e pensar como o . O que ele faria? - perguntou, e viu Hope concordar com sua fala. - Lemos o diário dele, sabemos tudo o que ele estava sentindo, o que fez. Então, para onde ele iria?
E foi então que, em um choque assustador de realidade, os três souberam imediatamente para onde ir, onde provavelmente estaria.
Só precisavam torcer para que já não fosse tarde demais.

+++


já não tinha mais lágrimas em seus olhos ou forças para que outras escorressem. Não depois de tantas outras já terem feito isso. Seu peito doía depois de chorar copiosamente por horas sem parar, mas em algum momento, que ele jamais saberia dizer qual, simplesmente parou. Foi ai, nesse momento, que ela veio, a coragem para o que ele queria fazer desde que chegou ali, mas que não conseguia simplesmente porque era covarde demais para fazê-lo, independente do quanto sofresse e do quanto precisasse dar a si mesmo um pouco de paz.
Paz, isso era tudo o que ele queria quando deu mais um passo para a frente, se engasgando na beira do penhasco ao olhar para as águas violentas lá embaixo, batendo contra as pedras em um som que nunca antes pareceu tão assustador. Mas não pelo que ele estava prestes a fazer e sim pelas lembranças que aquele lugar lhe traziam. Era com aquele penhasco que sonhava todas as noites, era com as cinzas daquele mesmo galpão, bem atrás dele, afinal, foi ali que tudo aconteceu. Aquele era o galpão de Joshua, que ele e os ex companheiros haviam incendiado, causando a morte de logo depois quando Joshua decidiu começar por ele sua vingança.
Um trovão soou no céu, e junto com ele, mais uma lágrima solitária escorreu pelo rosto de que, por um instante, fechou os olhos, revendo mais uma vez o que havia feito, deixando que tudo se repetisse em sua mente novamente, que o consumisse. Doía. Doía tanto que parecia prestes a devorá-lo, mas era justo que ele sofresse. Havia sido um dos responsáveis pela morte de um amigo, e agora havia diretamente matado o meio irmão e a mãe.
Havia matado sua própria mãe.
Quando deu por si, já havia voltado a chorar. Tão forte e tão alto que precisou cobrir a boca com as duas mãos.
Uma das coisas que mais tentou fazer em vida, foi conquistar o afeto de sua mãe, mesmo que uma parte pequena dele, mas então, mesmo que não fosse a intenção, ele a havia matado e aquilo só provava que ela esteve certa de odiá-lo a vida inteira. Talvez fosse coisa de mãe e ela só sabia que por dentro, ele era terrível. Que por trás daquele garotinho que ele havia sido, altruísta, havia um monstro prestes a escapar, um tão horrível quanto o próprio Joshua. Um ainda pior que o seu padrasto.
era um monstro, porque apenas um monstro era capaz de fazer o que ele havia feito e ainda conseguir pensar em acabar com a própria dor quando obviamente, merecia sentí-la.
Ainda tinha sangue em suas unhas, sangue que ele não havia conseguido lavar mesmo depois de esfregar por horas. As mesmas mãos estavam machucadas com a força colocada quando tentou limpá-las, mas nada ajudou quando ainda sentia o cheiro do sangue, quando sua roupa ainda continha as marcas de todo o mal que havia causado.
ainda podia ouvir a risada de Joshua antes de morrer, o acusando por e o amaldiçoando a uma vida miserável. Ainda podia ouvir o choro da mulher jogada no chão, afogando-se em seu próprio sangue. Lembrava-se de tentar socorrê-la e lembrava-se dela o afastando. Podia vê-los claramente em frente aos seus olhos quando os fechava, mesmo que no momento, quando aconteceu, sua vista estivesse totalmente embaçada pelas lágrimas, pelo desespero de não saber o que fazer.
Engasgando-se mais uma vez, deu um novo passo para a frente e seu pé escorregou, fazendo com que algumas pedras se desprendessem e caíssem morro abaixo.
Ele sabia o que precisava fazer, mesmo que talvez não fosse o mais justo. Era certo que ele sofresse pelo que havia feito, não era? Era certo que fosse punido depois de tirar não só uma, mas três vidas. sabia que se entregar, era o certo, mas nunca foi capaz de fazer o certo e de qualquer forma, certamente não aguentaria viver com aquela culpa, não outra culpa. Já não aguentava nem mesmo os pesadelos que tinha, como poderia suportar mais dois?
Era egoísmo, ele sabia. Assim como sabia também que não podia pensar em si mesmo depois de tudo, mas ele já era um monstro de qualquer forma, não era? Era aquilo que pessoas ruins faziam, então estava tudo bem, ele só esperava que um dia, de onde quer que estivesse, pelo menos o perdoasse. , que foi cedo demais, e chorou novamente ao pensar no amigo que deveria ter ainda toda uma vida, mas que não tinha mais.
- Me desculpa, . - ele pediu, olhando mais uma vez para baixo e vendo as pedras que haviam levado o amigo há alguns meses. - Me desculpa por fazer isso. - falou, tentando controlar as lágrimas que recusavam-se a ser controladas. - Eu juro que nunca quis, eu juro… - mais uma vez, o garoto levou as mãos para o rosto, chorando escondido ali. - Por quê? - ele perguntou então, para o nada. E dessa vez não falava mais com o amigo. - Eu nem sempre fui tão ruim, então por que… Por que tudo isso? O que… o que eu fiz? - insistiu, mesmo ciente de que jamais teria a resposta para aquela pergunta. Nem sabia se tinha de fato alguém ouvindo. Depois de tudo, parecia difícil acreditar que tinha, não com a vida tão cruel que havia levado.
E houve uma época em que ele evitava pensar sobre isso, ou perguntar por quê. Ele sabia que, em algum lugar do mundo, provavelmente existia alguém em uma vida tão ruim quanto a dele, ou até pior, mas nada daquilo fazia mais sentido.
- Eu só queria ter tido uma vida decente. - falou sozinho, em um sussurro. - Uma mãe que me amasse, ou amigos que se importassem. Eu queria ter tido planos, ou talvez tê-los feito antes. Ter fugido antes. Eu só… só queria ter tido a chance de conhecer uma vida normal. Quem sabe até entediante. - ele riu em meio as lágrimas, que voltaram assim que o sorriso se foi no segundo seguinte. - Queria achar meu lugar. O lugar que eu achei que tinha em algum momento. Ou talvez… - ele parou para pensar, limpando as lágrimas com as costas da mão. - Talvez nunca ter conhecido fosse mais fácil. Não saber tudo o que eu perdi, ou que poderia ter. Uma dor a menos já ajudaria. - falou sozinho, e enquanto as lágrimas diminuíam, de alguma forma, o peso também diminuiu, como em um sinal de que ele estava certo em sua escolha de pular.
Era isso que ele queria, não era? Uma dor a menos? Se pulasse, não teria nenhuma.
Mais um passo, e seria o último, já estava próximo o suficiente, mas foi então, quando fechou os olhos, que o verdadeiro sinal veio. Na voz de .
- ! - ele gritou em desespero, mas o garoto não se moveu de onde estava, sentindo o coração vacilar ao ouví-lo depois de tanto tempo. - Por favor, . Não faz isso, por favor. - implorou, ainda ao longe, mas por mais que quisesse abrir os olhos para ter certeza de que não estava imaginando, não o fez por medo de realmente estar. - . - ouviu novamente, em súplica, e agora estava tão perto… Era tão real. - , olha pra mim. Abre os olhos, e olha para mim. - ele implorou, mas apenas quando sentiu uma das mãos de em seu ombro que ele soube que era realmente real. estava ali, tinha voltado e o espanto em sua face ao vê-lo destruiu um pouco mais. Ele não esperava mesmo que fossem voltar. Ele esperava morrer sozinho e, junto com , voltou a chorar. - Me desculpa. - implorou aos sussurros. - Me desculpa por ir embora, . - repetiu, cuidadosamente puxando o amigo para seus braços e o afastando da borda do penhasco. - Me desculpa por te deixar, .
No primeiro instante, não fez absolutamente nada, apenas deixou seus braços caídos ao lado do corpo enquanto o abraçava e, perifericamente, viu também os outros. , e até mesmo Hope.
Esperou pelos primeiros três por tanto tempo, mas só decidiram aparecer quando não tinha mais nada dele para ser resgatado. Não tinha sobrado nada. era apenas uma casca de dor e sofrimento que se quer conseguiu abraçar o amigo. Se é que ainda podia considerá-lo assim, como um amigo.
- O que você está fazendo aqui? - perguntou, seu tom de voz soando tão vazio quanto ele se sentia por dentro. se afastou, como se percebesse que algo estava errado, mas permaneceu segurando os ombros de como se temesse que ele fosse simplesmente correr dele e se jogar penhasco abaixo, para a morte certa.
Mas bastou olhar para , tão pequeno e fragilizado, que ele soube que o amigo não faria isso. Ele dificilmente conseguiria correr para qualquer lugar no estado que estava. Seu rosto machucado e cheio de hematomas. As manchas de sangue na roupa, provavelmente os dele se misturando com de Joshua e a mãe. O rosto lavado pelas lágrimas, o cabelo colado a testa e os curativos feitos por Hope, sujos e descolando agora. Nunca tinha visto o garoto daquela forma, nem mesmo nos seus piores dias, mas tentou sorrir ainda assim. Demonstrar qualquer mínimo apoio mesmo que por dentro, se sentisse a pior pessoa do mundo.
Ele não estava ali quando mais precisou. Não tinha o direito de voltar como se nada tivesse acontecido, mas desde que conseguisse manter vivo, não se importava de receber o ódio dele por isso, mesmo que não acreditasse de verdade que fosse capaz de sentir ódio de alguém.
- Você me chamou, . - ele respondeu, como se aquilo fizesse algum sentido e apenas permaneceu imóvel, lhe encarando de forma inexpressiva com exceção de toda a tristeza no olhar. A maior que ele já havia visto.
- Eu te chamei antes. - devolveu no mesmo tom de voz baixo, quase inaudível. só foi capaz de escutar porque estava muito perto e olhou para o amigo com todo arrependimento que tinha no coração.
- Eu sei que chamou. - falou, deixando que mais algumas lágrimas escapassem. - Nunca vou me perdoar por ter demorado tanto pra voltar, , mas eu estou aqui agora e nunca mais vou sair do seu lado, mesmo que me mande ir.
- Você seguiu a sua vida, . - respondeu, sem realmente culpá-lo. A verdade era que, por mais que tivesse se sentido triste por tanto tempo, não culpava de fato os amigos por terem ido embora. Eles fizeram o que foi necessário fazer para superarem, o que tentou apenas quando já era tarde demais. - Se eu tivesse feito o mesmo, não estaria aqui hoje. Não teria feito o que eu fiz.
- Eu sei que não foi por que quis, . Você não faria isso de propósito. - respondeu, mas tudo o que o garoto fez foi negar com a cabeça ao encará-lo.
- Não, você sabe não. - disse ele, fungando quando mais algumas lágrimas vieram. - Joshua matou o , e minha mãe sempre foi uma péssima mãe. Como você sabe que eu não queria? - questionou, jogou em seus ombros a questão que não saia da sua cabeça há horas. - Como sabe que internamente, eu não fui sempre uma pessoa ruim disfarçada de alguém bom?
- Por que eu te conheço, . - ele respondeu com convicção, se aproximando mais para olhar no fundo de seus olhos e transmitir, para , toda fé que tinha nele. - Você não é e nunca vai ser uma pessoa ruim. Você está apenas assustado, tentando se agarrar em qualquer coisa que possa por um fim na dor que está sentindo, mas não deve seguir esse caminho e eu não vou deixar que siga. Você tem muito mais do mundo pra ver.
- Eu matei duas pessoas, . - ele insistiu, não conseguindo aceitar que havia qualquer argumento capaz de vencer aquele fato, mesmo que ele decidisse viver. - Eu matei duas pessoas e não sei se posso lidar com a culpa de ter feito isso. Eu sonhava com todas as noites, eu o via queimar ou se afogar. Eu tenho medo de fechar os olhos e ver Joshua agora, ou minha mãe. Eu não consigo parar de pensar no que eu fiz, em repetir tudo na minha cabeça e não vou conseguir aguentar isso. – ele segurou o braço de , quase em um pedido desesperado de socorro. – Eu só quero que tudo passe, . Eu preciso que passe porque eu não aguento mais. Eu estou cansado de viver assim, de me sentir sempre no limite e talvez seja errado querer acabar com tudo tendo feito o que fiz. É o jeito mais fácil de fugir das consequências pelo meu erro, mas eu não posso. Eu não sou forte o suficiente para passar por isso.
- Você é sim, . – interferiu agora, abraçando de um lado e de outro, enquanto fechava o círculo fazendo o mesmo do outro lado. - Você aguentou tudo isso sozinho, é mais forte que todos nós que fugimos na primeira oportunidade. – falou ele, sorrindo triste para o amigo. - Se tem alguém que pode passar por isso, é você e nós não vamos te deixar ir para lugar nenhum.
- Não vai ser fácil, nós sabemos disso. – foi a vez de , e com a visão embaçada pelas lágrimas, olhou em sua direção. - Vai doer todos os dias, eu sei. E você vai pensar neles tanto quanto em , mas não precisa acabar aqui. Você quer viver, . E no fundo sabe disso, é por isso que é tão triste, porque não sabe como. Não consegue ver uma solução no meio do caos, mas você pode voltar a ser a pessoa que sempre foi e merece isso, . Eu sei que você acha que não, e que carrega a culpa do mundo nas costas agora, mas você é sim uma pessoa boa, sempre foi, mesmo tendo que suportar sozinho os piores fardos.
- Eu matei duas pessoas, . – insistiu, porque entre todas as coisas aquilo era tudo o que ele conseguia repetir para si mesmo. Havia matado duas pessoas, tinha tirado duas vidas e não conseguia ver uma forma de continuar em meio àquilo.
- Duas pessoas que te mataram um pouco a cada dia. – voltou a falar, como se entendesse exatamente onde o garoto queria chegar. O rumo que seus pensamentos estavam seguindo. – Duas pessoas que cometeram tantos erros quanto você. Eu sei que isso não justifica, que um erro não anula o outro, mas terminar com a própria vida por isso também não é a solução. Você precisa se perdoar pelo que fez mesmo que pareça não ter perdão, porque apesar de terem partido, eles foram depois de ter vivido toda uma vida da forma errada e eles nunca viram seus erros, ou se importaram. Você, por outro lado, pode usar isso para viver da forma certa. Para ser a pessoa boa que eles nunca tentaram ser. A pessoa que você era e é, mesmo com tudo que suportava. Você, mais do que qualquer um deles, merece viver, . Provar que todos cometem erros, mas que a forma como decidem viver com isso é o que faz de cada uma delas diferente.
- ... – sussurrou, mas naquele momento, mesmo ele tento voltado a chorar copiosamente, souberam que as palavras haviam surtido algum efeito pois ao invés de repetir novamente o que havia feito, tudo o que o garoto fez foi abraçá-los, deixando-se ser abraçado também em retorno. – C... como eu... Sou um fugitivo, como...?
- Nós vamos dar um jeito. – respondeu apenas, o segurando com mais força ao interromper sua fala. – Estamos aqui agora, e não vamos deixar que nada te aconteça, .
- Você não está mais sozinho, nunca mais vai ficar. – concordou, estendendo uma das mãos para que Hope se juntasse a eles. – Vamos descobrir como passar por isso. Todos juntos. – prometeu, e foi exatamente isso que fizeram dali por diante.


Epílogo


não tinha nada específico em mente quando se afastou do grupo de amigos que gritava no píer, correndo uns atrás dos outros. Era aniversário da morte de . Quatro anos agora, mas por incrível que pudesse parecer, ele não se sentia mal por isso, muito pelo contrário.
Estavam na praia, era um lugar deserto e o sol já começava a se por no horizonte quando ele, sozinho, decidiu ir para o lugar mais alto. Uma estrutura metálica que um dia talvez tivesse servido para içar qualquer coisa nos navios que atracavam ali.
Mas foi ali mesmo que subiu, abrindo os braços para a brisa que tocou sua pele assim que chegou ao topo.
Era o aniversário de tudo de ruim que havia acontecido em sua vida. Anos atrás, naquele mesmo dia, tudo havia começado. Havia perdido um dos seus melhores amigos. Caído no buraco mais fundo que um dia poderia ter alcançado, conhecido a maior dor que poderia ter vivido, mas foi ali, no topo daquela estrutura, quando se sentiu verdadeiramente bem apesar de tudo que ele soube, com toda a convicção que podia ter: Ele havia superado e riu por isso, riu alto, jogando a cabeça para trás porque céus, era bom demais. Ter conhecido a pior dor que poderia conhecer e, mesmo assim, tê-la superado, era a melhor parte de ter escolhido viver.
Não havia sido fácil, jamais poderia dizer isso. Precisaram mentir sobre ele ter realmente se jogado do penhasco aquela noite. Precisaram mentir sobre ele ter realmente morrido depois de matar duas pessoas. Viveu com medo de ser pego e ir preso. Perdeu a conta de quantas vezes acordou aos berros no meio da noite, chorando e tremendo. Revivendo tudo o que havia feito. Ele havia se excluído em sua própria dor. Havia levado anos para conseguir confiar em alguém novamente, mesmo nos próprios amigos que, como prometeram, nunca mais saíram do seu lado.
E esperou, todos os dias, pelo dia que virariam as costas novamente. Cada vez que saiam ele chorava, imaginando que nunca mais iam voltar. Foram seus piores momentos, seus piores dias, e mais de uma vez ele pensou em acabar com tudo. Pensou em encontrar do outro lado. Pensou em encontrar paz dessa forma e, hoje, ficava feliz por nunca ter feito. Agora que ele podia ver tudo que sempre esteve errado, era mais fácil seguir em frente.
Ainda não achava certo ter acabado com as vidas que havia acabado, mas podia enxergar coisas que antes, ele não via. Hoje sabia que a culpa não era sua se sua mãe não sabia ser mãe. Não a culpava também, as vezes ela só não soubesse fazer aquilo, ou não tivesse tido uma boa mãe em quem se basear. Talvez ela realmente o culpasse por ter nascido e levado sua vida tão jovem, talvez ela quisesse mais e ele realmente tivesse atrapalhado, mas esperava, sinceramente, que ela pudesse ver que ele pelo menos havia tentado e se esforçado para que seu fardo não fosse tão grande. Tentou ser um bom aluno apesar da bagunça que fazia com os amigos e tentou obedecer sempre que ela pedia. Até mesmo hoje, ele ainda se pegava fazendo as coisas certas pensando no que uma mãe gostaria que um filho fizesse, esperando compensar a mínimo possível do que havia feito.
Ele a matou tentando salvá-la, afinal. Joshua tentava bater nela, tentou assustar Joshua com um pedaço quebrado de garrafa, mas o matou quando Joshua novamente tentou agredi-lo e sua mãe, ao se jogar sobre ele em repreensão pelo que havia feito, esqueceu-se da garrafa ainda em sua mão.
Chegava a ser ridículo quando pensava, a forma como tudo havia acontecido porque ele mal havia se movido, ou feito qualquer coisa além de pegar a maldita garrafa. Se Joshua não tivesse tentado agredi-lo, não teria morrido. Se sua mãe não tentasse repreendê-lo por tê-la salvado, também não.
Mas o mais irônico, entre todas as coisas, era o fato daquele dia, apesar de ter sido o motivo para seus piores pesadelos, também ter sido o primeiro passo para a sua libertação. Ele não gostava de pensar assim de verdade, que algo tão horrível havia acontecido para alguma espécie de bem maior, mas não podia evitar que aquilo viesse a sua mente vez ou outra. Pensar dessa forma fazia parecer que ele acreditava ter feito o certo e ele jamais pensaria isso, nem em um milhão de anos, mas as palavras de costumavam voltar a sua mente as vezes e ele o ouvia repetir que nenhum dos dois conseguiam ver os erros que cometiam para melhorar. Eles também estavam presos em uma bolha de angustias a sua própria maneira, mas achavam certo fazer mal aos outros ao invés de tentarem se curar como havia feito.
- ! – ouviu o grito de , e sorriu ao voltar sua atenção novamente para os amigos lá embaixo. tentava empurrar píer abaixo, para a água, sem tentar de verdade, o que qualquer um poderia ver menos o próprio . Estavam todos vestidos e agasalhados. Não estava um clima tão bom para se entrar na água apesar do sol e não faria isso, mas não importava. gritava e os outros, sentados a beira do píer, riam dos dois.
Era aniversário da morte de , mas não era o único que havia superado, se perdoado. Todos tinham, e de alguma forma ele sabia que , de onde quer que estivesse, estaria satisfeito com eles por isso. Estaria rindo e se divertindo em vê-los ali, tirando algum proveito de uma data que tinha tudo para ser tão dolorosa.
Por um instante, desejou ter levado consigo a câmera que o havia acompanhado durante todo o percurso até a praia apenas para fotografar aquele momento. Eternizar o dia em que havia se dado conta de que estava curado. Eternizar os amigos, brincando e se divertindo como se nada mais pudesse afetá-los porque tudo estava finalmente bem, porque tinham uns aos outros. Não entendeu, na verdade, o motivo de tê-la deixado para trás quando não a tinha largado por nenhum instante até então, mas foi ai que ele se lembrou do diário em sua cintura e mais uma vez riu consigo mesmo, tirando-o de lá.
O último diário quando todos os outros haviam sido queimados. E houveram muitos outros quando ele não confiava em ninguém. Precisava desabafar de alguma forma para não enlouquecer, mas não confiava em ninguém para ouvi-lo até voltar a confiar e queimar todos. Aquele havia sido o primeiro passo para sua real melhora, mas um ficou para trás. O diário dos seus meses sozinho, o diário que os meninos usaram para encontrá-lo. Aquele diário nunca queimou e havia trazido consigo. Ele andava com ele naquela mesma data todos os anos, e pela primeira vez o porquê fez sentido em sua cabeça. Olhando de forma travessa para o caderno, ele rasgou a primeira página, deixando que voasse para a água. Talvez as ondas, em algum momento, a trouxessem de volta para a margem, mas ele não se importava e não parou até que tivesse terminado e se livrado de todas as páginas, sentindo-se completamente bem por ter, de fato, terminado.
- ! – ouviu gritar ao longe, e precisou por uma das mãos na testa para poder enxergá-lo lá embaixo. – O que está fazendo?! – perguntou, mas ao invés de responder, tudo o que fez foi sorrir ao olhar mais uma vez para o horizonte.
Ele estava se libertando. Finalmente, estava se libertando e ele sabia qual era a última coisa que deveria ser feita para limpar de uma vez a alma depois de todo o mal que havia feito e passado.
Uma brisa acariciou seu rosto, e uma borboleta branca passou por ele, fazendo com que seus olhos se enchessem de lágrimas sem qualquer motivo. Não eram lágrimas de tristeza, era uma mistura de calma e realização. Era a paz que ele havia pedido, a paz que ele implorou tantas vezes para encontrar e, pensando que talvez aquela borboleta fosse um presente de para dizer que tudo estava bem, correu pela plataforma e com um sorriso no rosto, pulou na água, ciente de que nenhum outro mal poderia atingi-lo novamente quando voltasse para a superfície, sentindo-se mais vivo do que jamais havia se sentido.


Fim.



Nota da autora: Eu estou tipo: Aaaaaaaaaaaaaaaaah com essa fic! Estou orgulhosa, de verdade, e isso não acontece com tanta frequencia apesar da lista enorme. Hahahha Mas enfim, a fic é triste, mas o final... Estou bem feliz, chorei escrevendo, então espero que tenham gostado também, de verdade. Que o sofrimento tenha valido a pena. <3
P.S: Quem tiver interesse em saber mais sobre o começo da história, como eles chegaram a isso, podem ler o MV: Run. As histórias se completam, mesmo sendo leituras independentes.
Xx
Mayh.



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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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