Finalizada em: 30/06/2021

Capítulo Único

nobody is gonna come and save ya
we pulled so many false alarms


a viagem

— Cara de cu.
deu um sorrisinho esperto e debochado enquanto dirigia o carro com o capô aberto, os óculos escuros e os cabelos voando como num filme antigo.
Tudo isso porque a sua mente e o seu corpo não conseguiam se acostumar com a presença de — não como ele, definitivamente, que estava lá, tranquilo, com os olhos na rodovia enquanto tocava uma música pop ruim na rádio e ele balançava a cabeça de um lado para o outro, como quem não se importa com a música ruim, como quem a aproveita. Ele estava lá. A camiseta com estampa alternativa e as mãos no volante do carro que tanto venerava. mal podia conter a irritação, mas ele estava lá. Despreocupado. Em silêncio, porque o silêncio nunca parecia incomodá-lo.
Essa era uma das pouquíssimas coisas que admirava nele. sabia como apreciar o silêncio de uma maneira que jamais conseguiria porque ela estava sempre preocupada demais em preencher espaços.
— Treze minutos — ele respondeu, debochado, depois de olhar no relógio. — Quase catorze minutos em que você conseguiu ficar calada. Parabéns, aposto que é um recorde.
— É, a sua presença me incomoda tanto assim.
— Você está no meu carro — rebateu, simplesmente, e o tom de voz sempre inacessível demais, os olhos que nem mesmo a encaravam.
— Não era minha primeira opção — sorriu e recostou a cabeça no assento, direcionando os olhos para ele. O tom era irônico, mas eles não se ofendiam tanto assim.
Para , era mais uma distração, uma forma de sair de sua própria mente e de todas as outras coisas que aconteciam. Era melhor que discutissem. Era melhor que direcionasse a raiva para algo que pudesse controlar.
— Posso te deixar no meio da rodovia, se quiser.
— Não vou te dar o prazer de dirigir em paz.
não respondeu e voltou a cantarolar qualquer música que tocava no aparelho de som. A sua voz era bonita, realmente, e se deixava secretamente apreciar, sem jamais admitir. Estavam a caminho de Brighton e, por questão logística e para a completa insatisfação de ambos, acabaram sozinhos no carro: e sua guitarra se juntaram a e sua bateria, mesmo contra sua vontade. Seria o primeiro show da CHASM em uma cidade tão distante de Nottingham, cerca de três horas de carro se você for rápido o suficiente — e como ainda não haviam participado de algo tão grande, se fosse para ser honesta, estava nervosa. A presença de não parecia ajudar em muita coisa.
Sempre foi assim, desde o primeiro dia. quase virou os olhos ao lembrar. Ela estava sentada na grama com seus amigos quando Daniel chegou, empolgado e radiante, dizendo: eu encontrei!
Era certo que precisavam de uma outra voz quando preferia ficar na bateria. Oi, eu sou o , ele disse. O Daniel me convidou pra tirar um som. Não soava tímido ou minimamente comunicativo, não parecia empolgado ou desinteressado. Só parecia familiarizado com qualquer coisa, como quem em nada se surpreende e com ninguém se intimida. não sabia ainda, ao olhar para o rapaz com um sorriso simpático no rosto que entregava a todos à quem se direcionava, e ele assentiu, mas não retribuiu. Com o tempo e com a estruturação do projeto, a medida em que o grupo se formava e criava sua identidade, se incomodava com as pequenas coisas sobre : os atrasos despreocupados, a constante troca de casinhos amorosos, a forma com que cada pessoa ao seu redor parecia se deixar levar por seu jeito que era desenvolto e também meio malandro.
Não houve conflito inicial. Era só a irritação secreta no olhar de que ele evidentemente havia percebido, mesmo que nenhuma outra pessoa o fizesse. Então, as provocações começaram.
Um ano e alguns meses antes. ainda ficava com Robbie, um colega em comum com os seus amigos. Não era necessariamente do grupo, mas sempre estava por perto e se dava bem com todos. Já de , não era nenhum amigo pessoal. Nunca se aproximaram. gostava de Robbie, se divertia com ele, mas nada muito sério ou intenso. Ele estava lá, estava interessado, era divertido e fodia bem. Parecia encantado com o fato de que ela tocava bateria e cursava História, dividida entre a vocação intrínseca pela música e a disposição afetiva em ser professora, enquanto ele fazia qualquer coisa relacionada aquelas engenharias.
Estavam no bar ao lado da faculdade, uma sexta-feira qualquer logo após a aula, estava na bancada de pedidos com uma cerveja na mão e ela parou perto para pedir a sua. Ao chegar perto dele, deu um sorriso mínimo por educação. Ele a observou durante todo o processo, um charme esquisito com o jeito seguro em que se recostava na bancada e levava a cerveja a boca.
Quando ela pagou e estava prestes a ir, ele disse:
— Oi, .
Ela estranhou o tom de voz, meio irônico, meio divertido, mas virou e o olhou de cima a baixo discretamente.
— Oi. Desconfiou-se ao cruzar um dos braços. Já faziam algumas horas que estavam todos ali, inclusive Robbie, Daniel, Momo, Jules e Dave, meio altos, mas nunca trocava muitas palavras com . Ele sempre parecia não incluí-la em seus assuntos e ela não estava mais interessada em participar. No entanto, surpreendeu-se.
— Tá bem, pergunta.
— O que você realmente vê no Robbie?
Ela piscou algumas vezes. Robbie era um velho amigo desde o colégio de Momo e Daniel, que estudaram juntos durante todo o ensino médio. Momo, que também cursava história, era então da mesma sala que na faculdade. Já Daniel, completamente apaixonado por sua monitora de Redação Criativa, a incluía em todos os seus planos. Jules acabou por se aproximar de todos, por mais que nunca tenham realmente se relacionado ou ficado juntos.
Robbie tinha um sorriso bonito e uma barba por fazer, cabelos castanhos bem escuros e era bom em fazê-la sentir-se interessante. Ele demonstrava gostar de ouvir enquanto ela falava e fazia piadas bobas (às vezes bobas demais) sobre coisas sérias. Usava um perfume cheiroso e tinha uma facilidade absurda para fazer contas. Não era muito bom em pautas políticas, no entanto; nesses momentos, ele mais ouvia ou fazia poucos comentários, todos minimamente coerentes, com exceção de um ou outro que ela ignorava porque, por favor, ele sabia o que estava fazendo quando a beijava lá embaixo.
— Por que é que isso é da sua conta mesmo?
— Ei, não precisa ficar na defensiva — levantou as mãos como quem se rende. — Foi só uma pergunta.
o empurrou de leve no peito com uma risada pelo nariz. Foi sarcástica.
— Você não me engana, sabia? Sabia que você não me engana?
Ele riu.
— Do que porra você tá falando?
— De você. Se acha muito esperto — ela o cutucou com o dedo da mão indicador da mão que também segurava a cerveja. Aproximou-se, o álcool e o barulho se misturavam pelo corpo de , que havia perdido o filtro e falava o que lhe vinha à cabeça. — Mas você. Não. Me engana.
balançou a cabeça em negação ao continuar rindo, também meio alcoolizado.
— Entendi. De todo jeito, fica aí pra você refletir — encolheu os ombros. Agora, ele quem a cutucou, espelhando seu gesto. — O que. Você. Vê. No Robbie?
— Sai daqui — afastou sua mão com uma careta, mas ele ainda parecia se divertir. — Esquisitão. Vou voltar pra mesa. Você fica aí.
Depois disso, nas semanas seguintes, passou a realmente se perguntar se estava com Robbie porque gostava ou porque era só fácil. Decidiu que era só fácil, mas nunca admitiu para ele, que continuavam a se provocar em todas as oportunidades que encontravam porque era o único jeito que pareciam conseguir se relacionar.
Depois de um ano convivendo com , esperava ter se acostumado. Pensou que gostaria de estar com seus amigos, que gostava de viagens de carro e que não gostava de ficar sozinha com por muito tempo porque era incômodo.
A presença dele era sorrateiramente incômoda, por mais que ela tentasse ignorar as partes de seu corpo que reagiam aos mínimos estímulos.
O sol estava quase se pondo sob o horizonte, bem atrás do rosto em perfil de , e eles já tinham passado de metade do caminho. Havia uma tensão que circundava o ambiente, e , ao tentar fugir, desviou o olhar para a janela. Arabella, agora, tocava no fundo, e acompanhava com a voz boa, enquanto ela fingia não escutar, sem dizer nada, sem nem mesmo olhar.
, no entanto, olhava. Desviava os olhos da rua sempre que podia e deixava-os fixos na fotografia esplêndida que era a luz que pincelava no por detrás do rosto de no banco passageiro. O formato do nariz, o desenho do lábio, o tamanho do queixo. Nada necessariamente muito proporcional, mas parecia muito gentil aos seus olhos.
se deixou ponderar sobre a beleza de naquele momento, mas não admitiu. Nem para ela, nem para si mesmo.

o imprevisto

— É. O carro quebrou. Pera, , se acalma, tá tudo bem!
o cutucava enquanto ele, no telefone, contava o acontecido para Daniel. O motor, simplesmente, não funcionava e a fumaça que saía do capô até tinha diminuído, mas continuava a subir, incessantemente. Estava nervosa, deveria dizer. Tinha um frio estranho na barriga com a ideia de não estar em Brighton para o evento ainda, um medo de as coisas darem errado. Fora a parte que não saberia como sobreviver àquela noite sozinha com . As últimas quatro horas não foram suficientes?
continuava a conversar com Daniel e ignorá-la enquanto se queixava no grupo só de meninas com Momo e Jules.

Momo HAHAHAHAHAHAH vocês vão ter que passar a noite aí?
Vão dormir no carro? Eu queria muito poder assistir esse momento


Jules Rindo com empatia
O não é tão ruim assim
Se você for qualquer pessoa menos a

eu não sei o que vamos fazer
não é como se ele conversasse comigo
está pedindo conselhos ao Daniel
que obviamente não sabe o que fazer direito
pq é um mela cueca
eu quero ir embora daquiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

E travou o celular para tentar poupar a bateria. Recostada sobre o capô, já haviam se passado quase duas horas que o carro havia estagnado, pensava ser por um problema no motor. O carro não era dos mais novos, mas ele garantiu ter checado antes de pegar estrada. No meio do acostamento, perto de um posto vinte e quatro horas, escutava Daniel atentamente com uma expressão meio frustrada ao manter o olhar sempre em volta. — Aham, eu vou avisando. Tá. Não precisa encher meu saco, vou cuidar muito bem da nossa pseudo barbie maconheira. Não é, ?
Deu um sorriso falso ao apertar sua bochecha levemente. o espelhou, estapeando a mão que tocou seu rosto, esperando-o desligar o telefone.
— E aí? O que vamos fazer?
— O seguro só vai resolver amanhã de manhã, não tem outra alternativa — ele deu de ombros. Soava meio cansado, mas não havia perdido a paciência em nenhum momento, pelo contrário. Havia lidado com toda a situação com uma benevolência surpreendente. — A gente tá pertinho de Londres. Dá pra gente chegar a tempo do festival tranquilo amanhã, mas a gente vai ter que passar a noite por aqui.
— Vai… — pigarreou. — ficar muito caro? O conserto. Eu posso…
— Não se preocupe com isso, virou os olhos levemente e direcionou-os ao seu próprio celular. — O que quer fazer? Tô vendo se tem algum pub aqui perto ou algo assim. Posso te deixar no hotel.
— Ué, eu vou também. Não vou ficar sozinha nessa cidade estranha, tá doido?
— Eu não te chamei, .
— Eu só vou precisar de vinte minutinhos pra me arrumar — negou com a cabeça, mas sorria. — Quinze então!
— Eu não vou esperar. Não adianta.
Discutiram enquanto andavam até um hotelzinho próximo de beira de estrada. Não era tão caro, agradeceu mentalmente ao receber a informação. Resolveram rapidamente as burocracias, afinal, não tinham muitas outras opções. O ambiente era pequeno e soava familiar, o quarto só contava com uma decoração clássica, luzes amareladas, uma cama com lençóis brancos e a suíte. No fim das contas, logo depois de tomar o seu próprio banho, sentado na cama e mexendo no celular, esperou por quarenta e sete minutos antes de reclamar. Esperou por mais dez até que, finalmente, saíssem.

a tequila

o encarava enquanto ele tomava mais um shot de Tequila. precisava desopilar, sentia-se estressado. Depois de dirigir por algumas horas e resolver tantas burocracias, tudo que ele queria era uma noite com seus amigos para ficar bêbado e comemorar o primeiro festival da CHASM.
Ao invés disso, tinha , que o observava com os olhos meio esbugalhados ao vê-lo dar o terceiro shot.
— Bebe água.
E entregou para ele o copo com gelo em que ela mesma havia bebido. Ele deu um gole, mas encolheu os ombros. não era muito de beber além da conta, muito menos de fumar. havia se surpreendido com o fato de que havia aceitado mentir para os pais e dar um jeito de vir para Brighton quando eles estavam sempre na sua cola. Era ela quem sempre cuidava dos outros quando estavam alterados e foram poucas as vezes em que saíram em que ela não estava sóbria. Sempre bebia, de gole em gole, nunca passava do ponto. Enquanto bebia a água, observava seus movimentos com olhos cuidadosos, e ele expressou uma careta.
— Você não vai beber?
— Alguém tem que tomar as decisões por aqui.
— Eu posso tomar decisões perfeitamente.
riu. Estavam sentados de frente um para o outro numa mesa pequena. O barulho do bar era enorme, aquela famosa do The Killers tocava no fundo, eles se aproximavam para conversar. Tinha gente o suficiente. Não sabiam muito o que fazer, mas não era estranho ficar perto um do outro sem conversar, não ali. Enquanto ria, parou para pensar sobre como toda a espera havia valido a pena: estava linda, como sempre. Irritantemente bonita. Vários brincos na orelha, argolas grandes nos primeiros furos, os cabelos soltos, os olhos destacados pela maquiagem e os lábios que se curvaram num meio sorriso. A blusa que tinha o tecido apertado contra o seu corpo e deixava pequenas partes do sutiã preto de renda à mostra.
estava condenado e sabia disso. Sentia-se condenado toda vez que olhava para .
— E o que veio fazer, então?
— Não está óbvio? — perguntou. — Vim cuidar de você. No fim das contas, minha carreira musical depende da sua integridade física.
deu uma risada.
— Não precisa, , eu sei me cuidar muito bem, posso te deixar no hotel e voltar. Você pode descansar e tal.
— Não vou cair na sua, torceu o lábio, arqueando as sobrancelhas. — Anda, qual é o seu plano? Por que você está sendo legal?
— Pra você fazer o que eu quero logo — ele respondeu, simplesmente, e riu de novo, e ela riu também, mas soou chocada. — Ah, qual é, . Você quer estar comigo tanto quanto eu quero estar com você — seu tom era irônico. — A gente pode só aceitar isso pela noite e ficar de boa.
— Você quer flertar, é isso? — perguntou, inclinando-se para frente. — Eu posso te ajudar. Posso conseguir uma gatinha pra você.
Revirou os olhos.
— Só não quero que você fique olhando pra mim com cara de cu sem fazer nada a noite toda enquanto eu finjo que não estou notando.
— Ah, então você nota? — ela sorriu, triunfante. — Pensei que não se importasse com a minha cara de cu.
— Estamos sozinhos numa outra cidade, ok? — ele disse, óbvio. — Não sou um monstro.
molhou os lábios rapidamente, ainda com os braços cruzados e encarou-o. Parecia estar tentando se decidir.
— Ok, então, vou pedir três doses de Tequila pra mim também.
— Espera, , não precisa de três!
Antes que ele pudesse impedi-la, pediu ao barman as três doses, que prontamente as colocou em sua frente. parou ao seu lado no balcão, observando-a meio alto, com os olhos atentos para os seus próximos passos. Tomou a primeira dose de uma vez e os seus olhos lacrimejaram. Ela olhou pra ele como se fosse chorar logo depois de engolir e ele quis rir. — Aqui, toma o limão, alivia um pouco.
— Eu consigo sentir descendo pelo meu estômago...
— Vai ficar tudo bem — deu dois tapinhas no seu ombro, inclinando a cabeça para que voltassem para a mesa.
— Eu quero outra.
, pera...
Mas ela bebeu. E antes que ele pudesse reclamar, bebeu também a última. Gemeu logo depois, colocando o ar pra fora com uma careta. — Tá tudo quente!

a caminhada
Beberam muito mais durante à noite, falaram coisas sem sentido e acabaram esquecendo de seus desafetos eventualmente. Pelo contrário, pareciam os melhores amigos do mundo. Também misturavam as frases que diziam com espanhol e com francês e riam de suas próprias piadinhas bobas. não se recordava muito sobre como haviam chegado ali, mas passeavam pelas ruas da pequena cidade perto de Londres quando já era tarde, pois ela queria conhecer o lugar. não se opôs, por mais que ambos tivessem meio lentos.
Era uma cidade muito bonita, tons medievais e sem prédios altos. As casas tinham estruturas antigas, muitos bares e cafés pelas ruas, alguns abertos, outros fechados. Enquanto andavam, conversavam aleatoriedades e tinham uma garrafa enorme de cerveja na mão.
— Quando você vê essas estátuas, você não sente vontade de pixar? — perguntou, aleatoriamente.
olhou pra ela de lado.
— Tipo um grafite?
— Não. Tipo “ esteve aqui”. Ou “Brexit é o meu cu”. Acho que deve dar uma adrenalina, né? Deve ser legal ficar marcado pra sempre.
— … Até alguém pintar por cima.
o encarou.
— Por que você tem que ser chato?
— Você quer pixar coisas, , sendo que você dirige um Porsche — ele deu de ombros e virou levemente os olhos. sentiu-se ofendida por um momento, mas ignorou. — Nunca pixei nada. Dizem que é crime.
— Nunca roubou balinha na padaria?
Ele parou, surpreso, com o rosto franzido.
— Não, sabe, eu só me sinto confortável em roubar os grandes empresários ou banqueiros — rebateu, meio dramático, e revirou os olhos. — Ou políticos. Tem uma gama de pessoas que eu roubaria sem me sentir culpado, na verdade. O seu pai.
— Duvido que você militasse assim com uns dez anos e uma sede por adrenalina sem razões aparentes.
— Ei, meus pais são professores de história — ele piscou. — Eu nasci enrolado na bandeira de Cuba.
— Eu não sabia que seus pais eram professores de história — parou de andar, intrigada. Nunca havia ouvido nada sobre a família de , na verdade, mas sempre que os mencionava, parecia ter certo carinho. — Eles dão aula em colégio ou faculdade?
, um pouco mais na frente, parou também. As ruas estavam quase vazias mas eram bem iluminadas. Apesar disso, eram bonitas demais ao seu redor, o chão de paralelepípedo e as luminárias pretas com detalhes prensados. Todo mundo sabia o quão apaixonada por história era, o desejo de ser professora que a fez criar toda uma vida a parte de sua família. Naquele momento, ela sentiu como se, finalmente, encontrasse um ponto em comum com além da música.
— Minha mãe em faculdade, meu pai é apaixonado pelo ensino básico. Dá aula em colégio.
— Sinto que agora conheço um mundo novo de abriu o braço para o alto e passou por seu ombro, fazendo-o abaixar até sua altura. — Queria que você tivesse me contado antes. Mas você me odeia.
— Caralho, , sua mão tá gelada — afastou sua mão do rosto, mas seguiram andando entrelaçados. — Você também me odeia.
— Não, não. Você fez o ódio crescer dentro de mim. Antes disso, eu só tinha sentimentos puros.
— Ah, você sabe que não é ódio.
— E o que é, então?
a olhou nos olhos enquanto andavam. era mais baixa, mas ao mesmo tempo, parecia maior que todo o mundo, era grandessíssima, feita para coisas grandes. Algo nos seus olhos, no seu rosto ou no jeito que falava, ele não saberia muito bem dizer o que naquele momento, mas fazia com que ele sentisse algo queimar por dentro.
— Não sei.
Respondeu, honesto. sorriu com os dentes expostos e cílios longos que piscaram algumas vezes. Ele não sabia porque ela tinha sorrido, mas ela fazia essas coisas às vezes.
— Pra onde a gente tá indo?
— Sei lá. Parece ter um parque ali na frente. Tem gente ali? Você tá vendo alguma coisa?
— Tem! Tem gente ali!
gritou e começou a correr. correu logo atrás dela, pensando no quanto estava bêbado demais para acompanhá-la.

a música certa (e o apelido)

Eram uma ou duas da manhã quando encontraram o grupo na praça, em média seis ou sete pessoas. Eles fumavam maconha, conversavam e tocavam músicas, usavam roupas leves demais para o frio da Inglaterra. e se espreitaram atrás de uma árvore e observaram atentos e bêbados enquanto eles davam risadas e cantavam aquela animadinha da Billie.
— Por que você não vai lá cantar? — perguntou, batendo de lado com o cotovelo.
— Fica quieta, .
Mas assim que encontrou uma brecha, logo que pararam de cantar, gritou: ei! Olá!
espichou um pouco os olhos, seguindo-a, que tinha um olhar confiante e um andar quase troncho, já ele vestia um sorriso amarelo e meio envergonhado ao notar que se tornaram o mais novo centro das atenções. Pareciam simpáticos demais, os olhos baixinhos e sorrisos estampados quando perguntou se poderiam se juntar a eles. Sentou-se ao lado de uma das meninas da tal rodinha, que sorriu para ela e perguntou seu nome. , ela disse, e esse aqui é o .
Ele se sentou ao seu lado ao cumprimentar as pessoas com um sorriso e um aceno. Depois de certo papo, quando estavam prestes a engatar uma nova música, se pronunciou pela primeira vez:
— Vocês sabiam que a canta?
Ela quase tossiu, mesmo que não estivesse fumando. Negou com a cabeça, meio envergonhada, passando o cigarro para o lado por não querer tragar e pegou e fumou com um sorriso debochado no rosto. Ela o beliscou por trás.
— É mentira, é ele quem canta.
— É, mas é que eu tô guardando a voz. A gente vai tocar lá em Brighton amanhã.
Que desculpa podre, ela respondeu, mas bem baixinho. não era daqueles que guardavam a voz, pelo contrário; foram inúmeras as vezes que teve que reclamar com ele por chupar gelo ou cantar desnecessariamente por três horas seguidas antes de um evento. Um dos rapazes que estava ao seu lado pareceu empolgado demais com a informação. Enquanto debatiam sobre o festival e outras bandas que tocariam no outro dia, comentaram sobre o frustrante carro quebrado e o resto de seus amigos que já estavam preparando tudo para que chegassem na hora do evento. No fim das contas, depois de algumas risadas e uma interação amigável, a menina que estava sentada ao lado de disse: eu acho que vocês poderiam tocar pra gente!
Não, Debbie, não, que é isso, nós só queríamos ouvir vocês, respondia, enquanto prontamente pegava um dos violões. Ela ouviu a entrada de Dog Days Are Over, ele sabia que ela gostava de Florence. O grupo se empolgou.
— Vai, pediu, bem baixinho. — Você sabe que faz isso melhor que ninguém.
Estranhamente, usava o seu apelido mais que o normal naquela noite em específico. Se não eram palavras pouco afetuosas, de certeza era o nome completo que ouvia de sua boca ao mencioná-la. Expirou forte e não conseguiu negar.
Começou.

Happiness hit her like a train on a track
Coming towards her, stuck still, no turning back

conseguia cantar em tons razoavelmente baixos, era uma de suas virtudes preferidas como música, além da habilidade com a bateria e um desejo insinuante por outros instrumentos. O que não entendia era porque , em toda a sua magnificência de cantor underground que anseia por cada mínimo reconhecimento, se absteve para que ela tivesse aquele momento.

She hid around corners and she hid under beds
She killed it with kisses and from it she fled
With every bubble she sank with a drink
And washed it away down the kitchen sink

E então repetiu a frase do refrão algumas vezes, como seu próprio mantra. The dog days are over. The dog days are done. Havia algo meio mágico que acontecia com sempre que ela cantava ou tocava: era um brilho diferente, o rosto se iluminava, o coração acendia e ela sentia que estava cumprindo sua missão no mundo, por mais boba e irrelevante que fosse. Quase como se, de alguma forma, a música segurasse sua mão e a guiasse por um novo caminho, um caminho que a faria feliz, finalmente.

Run fast for your mother, run fast for your father
Run for your children, for your sisters and brothers
Leave all your love and your longing behind
You can’t carry it with you if you want to survive

Em algum momento da música, enquanto se deixava levar, perdida em seus próprios pensamentos e ao mesmo tempo, olhando para os desconhecidos encantados, levou seus olhos até , que já a encarava com uma admiração escondida, mas não se deixou ficar. Enquanto ele a olhava, sentiu afeto. Sentiu que ele a olhava com afeto.
Aumentava e abaixava o tom em vibratos calculados e alterações de frequência perfeitas, mas tudo soava muito natural. As pessoas a acompanhavam e cantavam em uníssono um pouquinho mais baixo e se sentia parte delas, como se fossem todos um só, como se fizessem parte de alguma coisa conectada e importante. A letra da música passou a fazer sentido como nunca antes. precisava ir embora, mas não o faria naquele momento. havia tomado a decisão mais importante de sua vida, mas ninguém precisava saber.

Happiness hit her like a bullet in the back
Struck from a great height
By someone who should have known better than that

E enquanto cantavam o refrão alegremente, mais algumas vezes, a música foi perdendo força e se deixou manter os olhos ali. Enquanto ele dedilhava com facilidade pelas cordas, ela sorria ao cantar as últimas notas. Num lampejo de euforia que corria por seu corpo, de maneira muito sinestésica e qualquer uma dessas coisas relacionadas à química, sentiu tomar algo de para si, sentiu algo de si fluir em direção a , e não tiravam os olhos um do outro.
Tocaram mais algumas músicas, conversaram mais um pouco, fumou mais um pouco, se sentia mais sóbria. Todo mundo decidiu marcar presença no evento do outro dia e, depois de algumas horas e mais algumas bebidas, e decidiram voltar para o hotel.
Já estavam pertinho, mas não contavam com a chuva no meio do caminho.

a chuva

Em Londres estava quase sempre chovendo, realmente. Ao sentir os respingos e a intensidade do vento aumentarem, puxou pelo braço e correram e riram e tropeçaram até encontrar um beco com uma telinha para se protegerem. Quase grudados um no outro, apertava os braços contra seu próprio corpo, observando as gotas que caíam pelos cabelos curtos de e desciam pelo seu queixo enquanto ele olhava ao redor, tentando encontrar alguma perspectiva.
— A gente tá meio fodido — constatou. Mas quando virou os olhos para , ela já o observava. Sentiu-se quase constrangido, com um sorrisinho envergonhado no rosto. — Que foi?
— Nada.
Ela entendia um pouco o caos. Os traços do rosto, os ombros, o jeito que arrumava o cabelo. A voz, o jeito de falar e os olhos misteriosos. As coisas sobre eram mesmo tão atraentes assim, também achava. Com o tempo, aprendeu a subverter os desejos descabidos em uma irritação contínua, mas não se sentia irritada naquele momento. Aquele parecia o dia em que se conheceram de verdade, o que ela gostaria de contar, o que ela poderia viver de novo e de novo, porque sentia-se livre e porque não pensava sobre as outras coisas que aconteciam. Se alguém perguntasse, diria que foi a bebida, que foi a fumaça inalada de maconha ou um relapso maníaco, mas ali, imaginou como seria ter beijando o seu pescoço.
Não era nada tão romântico assim, era mais sensual. Era mais uma vontade nunca antes despertada ou um calorzinho que ela não viu espalhar por seu corpo. Alguns minutos se passaram.
… — arqueou a sobrancelha. — O que você está fazendo?
— Nada.
Mas encarava seus lábios.
— Bom, porque é culpa sua de a gente estar aqui — reiterou. — Você que quis andar pela cidade ou sei lá, pixar num sei o que.
E assim como chegou, a ideia se esvaiu assim que o ouviu reclamar. Fechou a cara.
— Claro que você iria jogar a culpa em mim, não assume responsabilidade por nada — rebateu. — O que quer fazer agora? Bater em velhinhos? Foi o seu carro que quebrou, otário. Se a gente tivesse vindo com o meu, nada disso teria acontecido.
, nem todo mundo tem condição de comprar um carro novo, principalmente o seu respondeu, debochado, e dessa vez, parecia mesmo irritado. — Pelo menos o meu fui eu que comprei. Não fico à beira dos vinte pedindo carros em valores exorbitantes pros meus pais.
Se encaravam e tinham certa irritação nos olhos. O maxilar de travado, a testa vincada, os lábios comprimidos. tinha as sobrancelhas arqueadas e não deixava a guarda baixar, com os braços cruzados.
— Eu não pedi — ela disse com uma careta, mas pareceu mais uma forma de se defender. — Só não entendo o porquê de você se recusar a vir com ele. É demais pra sua carteirinha de comunista?
— Porque é minúsculo, caralho, e a gente teve que trazer a bateria e duas guitarras, além da sua mala gigantesca pra dois dias.
— Então pronto, merda, o que você quer que eu faça? — encolheu os ombros e levantou os braços, impaciente. — Uma dança pra parar a chuva? Te peça desculpas de joelhos por ter nascido com condições financeiras estáveis? Venda meu carro e doe o dinheiro pra caridade…
Mas não pode terminar a frase. Empurrada contra o vidro gélido da loja, com sua roupa e cabelos úmidos, ela sentiu o corpo de se pressionar contra o seu enquanto sua boca a interrompia. O gosto era misturado, tinha cerveja, tinha tequila, tinha um gostinho de limão e resquícios de maconha, e tinha os lábios quentes que se movimentavam lentos e intencionais.
.
Ela jogou a bolsinha de lado no chão. Ele a pegou pelas pernas e sustentou-a contra o vidro. O barulho da chuva parecia aumentar enquanto, num beco escuro de Londres, ela passou os braços por seus ombros e deixou que beijasse seu pescoço.
Não era tão bom quanto pensava. Era melhor.
— Shhh. Cala a boca, .
As mãos urgentes levantaram um pouco de sua blusa e deixou o abdômen exposto. se colocava pra frente, tentando ter mais fricção, exigindo mais contato e puxava o cabelo dele com força. Quando apertou a sua coxa, gemeu no ouvido dele e voltaram a se beijar com muita vontade.
Nem perceberam a chuva parar. Mas depois de um tempo, ao fazê-lo, voltaram ao hotel e passaram a noite juntos.
Mentiria se dissesse que não tinha curiosidade. Tinha muita. Desde o primeiro dia.
Não gostava de admitir que também havia se rendido aos encantos de , mas depois dessa noite, nem mesmo conseguia se arrepender. Não conseguia parar de pensar no que tinha acontecido e em como secretamente ansiava para que acontecesse de novo. Chegaram no quarto e pareciam ter feito um acordo: sem nem pensar, tiraram suas roupas e se uniram depois de algumas provocações. Havia algo de arrebatador no jeito que se movia sobre ela, no calor que despertava em seu corpo quando a mão dele encontrava os lugares certos, como o seu peito e o seu pescoço, no suor que seus corpos ofegantes expeliam ao chocar-se. , enquanto metia, sentia-se preenchida e eufórica, sentia-se a mulher mais bonita do mundo, e gozou de um orgasmo químico e longo ao final, um que a satisfez. Não conseguiria se desvencilhar da imagem de seus olhos selvagens que a encaravam com muito desejo e atenção durante todo o momento, como se não quisesse perdê-la de vista nem por um segundo. enfiava a mão por seus cabelos e puxava, porque na verdade queria gritar, porque na verdade queria explodir em cada mínima sensação. As respirações trocadas e os gemidos contidos ecoavam pelo quarto numa melodia que só eles dois poderiam ouvir, mas ela queria que durasse mais.
Foi estranho acordar ao lado dele, no entanto, precisou de alguns minutos para se recompor. E como se nada tivesse acontecido, os dois decidiram entrar em um pacto silencioso de que nada precisava ser comentado: sem se olhar muito nos olhos, os dois, com uma leve ressaca e alguns minutos atrasados, correram para pegar suas coisas e fazer o check-out.
Se encararam algumas vezes no caminho de duas horas até Brighton, mas não disseram muita coisa além do necessário. comentou algo sobre estar calada demais, ela disse que precisava descansar e fingiu tirar um cochilo quando passou a perceber demais o silêncio, mas não conseguiu desligar a mente da presença de ao seu lado e do quanto parecia querer tocá-lo.

o show

Chegaram a tempo da passagem de som, lá pras duas. Tinha um frio na barriga de que não saía por nada durante o resto do dia. Enquanto as outras bandas tocavam, todas com músicas originais conhecidas pela comunidade mais alternativa da Inglaterra, ela se sentiu aliviada em rever os amigos, mas poderia vomitar a qualquer momento de nervoso.
era muito bom em compor músicas. também, mas a maior parte das músicas da CHASM tinham autoria dele e ajuda dos outros. Quando seus nomes foram chamados, arregalou os olhos e os direcionou para ele sem querer. Ele só deu um meio sorriso e assentiu lentamente, incentivando-a. Você é foda, ele sibilou. Ela deu um risinho nervoso enquanto entravam no palco.
O festival era de médio porte e tinham três palcos ocorrendo ao mesmo tempo. Era fim de tarde, o céu estava meio rosado, tinham pelo menos oitocentas pessoas na plateia de frente para eles: algumas sentadas em suas cangas com suas bebidas em mãos, outras mais próximas em pé e perto do palco, outras pareciam se aproximar, interessadas. O ambiente era aberto. O show deles aconteceu entre uma banda de médio porte e introduziria o caminho para a atração especial daquele palco, que era da banda mais conhecida. Então entraram no palco, , Daniel que era o baixista, Dave que ficava na guitarra de base, na bateria e Momo no teclado e no efeitos sonoros. Foram recebidos com gritos e aplausos.
Começaram com Only Angel depois que os introduziu com uma simpatia atraente e um grito de início que compunha a música. A energia trocada era, realmente, algo a se sentir de longe. As pessoas balançavam as cabeças e dançavam pela grama sem se preocupar em serem vistas. Cada instrumentista parecia fazer parte de uma orquestra alinhada e impecável. Com talento, empolgação e humildade, conquistaram, música por música, cada pessoa da plateia.
Depois de alguns minutos de show, pareceu esquecer o nervosismo e concentrar sua psique no todo que compunha o momento: como ela se sentia, como o público respondia, o som grave que se unia ao baixo, toda a composição que cada instrumento trazia pro todo. Era como se o mundo ao redor não importasse tanto assim, a relação estreita e controversa que mantinha com os pais não importasse tanto assim, as suas dúvidas e os seus questionamentos, as suas decisões, ali, estava certa. Pronta. Nada poderia tocá-la, nada poderia acabar com a excitação que percorria suas vias com o encontro de suas mãos com as baquetas.
Em seus cabelos soltos que ela sempre se arrependia de não prender, a postura correta e o pedacinho da barriga que aparecia com o top que vestia, sentia seu coração bater acelerado em adrenalina e nada tirava sua atenção da música.
Exceto quando, bem no meio do solo de Carolina, virou de lado com a sua guitarra e pousou os olhos em .

There’s not a drink that I think could sink her
How would I tell her that she's all I think about?
Well, I guess she just found out
Cantando partes diferentes da música, ainda sim, suas vozes se encontraram. E ainda sim, continuava olhando para .
She's a good girl…
She feels so good
Olhava para ela, procurava suas íris com os olhos, tinha uma espécie de rendição no olhar, uma reverência. retribuiu, sem muito entender aquela força quase magnética que a atraía, e algo de estranho subiu por sua espinha. Contorceu o pescoço ao sentir. Ele não parou de tocar a guitarra. Ela ainda movimentava os braços nos pratos, o pé na caixa. Mas se perderam um no outro por uma fração de segundo e quase não quiseram se reencontrar.
I fucked her once and wrote a song about her
I wanna scream, yeah, I wanna shout it out
And I hope she hears me now

Ele sorriu debochado ao acrescentar toda uma estrofe que não tinha antes na música e virou-se para frente de novo. , ao acompanhá-lo com o instrumento, perguntou-se se ele realmente havia o feito. Uma música inteira? Sobre ela? Mordeu o lábio, balançou a cabeça e, ao olhar pro público, esqueceu-se facilmente de e de seus ruídos de comunicação.

I was the one you always dreamed of
you were the one I tried to draw
how dare you say it's nothing to me?
baby, you're the only light I ever saw


o pós


Quando todos saíram do palco, enérgicos e eletrizados depois de desmontar o palco, o grupo de amigos continuou bebendo e curtindo o resto do festival, mas sumiu por um tempo. foi a única que se deu conta e não quis perguntar, porque não queria admitir para si mesma que estava curiosa ou ao menos minimamente interessada. Nada a impedia de procurar por ele, no entanto. Só queria vê-lo de longe. Só pela curiosidade.
Deu uma desculpa esfarrapada e saiu em sua busca. Onde será que o está, pensou, e sua primeira tentativa foi a quermesse de bebidas. Ele não estava lá. Também procurou-o na multidão de dois outros palcos e, com a visão meio turva e a quantidade de gente, teve um pouco de preguiça, mas ele não parecia estar por lá também. Foi aí que encontrou o terceiro palco. Era com certeza o palco que ele escolheria. Podiam não conversar tanto assim, mas ela o conhecia suficiente para saber. Era uma das bandas que realmente gostava — não que ela se lembrasse o nome, era alternativa demais para que se interessasse, mas o som lhe remetia a algo, algum dia específico. Quando se esgueirou pelas beiradas de um dos corredores de trás do terceiro palco, um dos que davam para a produção, com alguns minutos de conversa e muita simpatia, conseguiu um colar para adentrar o ambiente restrito.
Enquanto andava por aí, sorrindo meio assustada enquanto as pessoas passavam com grandes caixas de som e roupas pretas, sentiu alguém puxar o seu braço e esgueira-la contra a parede.
— O que você tá fazendo aqui?
— Sou uma mulher de muitos contatos — e mostrou o colar que lhe dava acesso. — E você, o que faz aqui?
deu uma risada e balançou a cabeça em negação. Tinha as mãos no bolso, mas se aproximava lentamente, sem que percebesse. Então, apoiou uma mão na parede, ao lado de .
— Eu sou amigo dos caras da banda.
— Ah…
Não sabia muito bem o que estava fazendo, mas tentava não pensar. não demorou muito para beijá-lo, nem mesmo se deixou completar uma frase. disse que ela estava muito bonita e que estava querendo se encontrar com ela de novo. Gostava de como a boca dele se movia contra a sua, gostava da língua no pescoço, sentia seu corpo arder com as mãos que se espalharam pela cintura e curvatura dos seios.
Completamente entorpecida pelas sensações, sentindo os lábios vermelhos e o rosto corado, , de repente, pensou na possibilidade de alguém vê-los juntos e sentiu medo. — Ei, ei, ei, calma…
— O que? — não parecia muito interessado no que ela dizia enquanto beijava o colo do seu peito.
— Alguém pode nos ver aqui e…
olhou para os lados, meio assustada, meio desesperada, e arqueou a sobrancelha e afastou a cabeça um pouco. — E…?
— Você não contou pra ninguém, contou?
também tinha lábios em tons avermelhados. O cabelo bagunçado, parecia um pouco ofegante e guardava certo ressentimento no olhar, que era muito bem disfarçado com o tom debochado.
— Não, não contei.
— Ok. Então não conta. Tá?
— Por que?
— Porque eu não quero ter que lidar com isso agora.
pensou em Robbie descobrindo e na rivalidade ridícula que os dois tinham. Pensou nos seus amigos descobrindo. Pensou na possibilidade de ela mesma descobrir que tudo aquilo estava se tornando real demais e quase quis se desvencilhar dele, mas manteve a mão repousada em sua nuca.
Foi ele quem se afastou. Encarou-a.
— Lidar com o que? Você não é solteira?
— Sim, mas…
— Então?
— Só... não conta. Eu não quero que ninguém saiba.
Disse meio sem pensar, mas não tinha como tirar. Ficaram alguns segundos em silêncio. pensou em beijá-lo novamente, mas ele não parecia interessado. Olhava para ele quase suplicante enquanto tinha as sobrancelhas curvadas e uma testa enrugada.
— Ok, — ele deu de ombros. — Você devia voltar pra galera. Não deveria estar por aqui.

E simplesmente saiu em direção ao backstage. Em choque, bufou, com a boca aberta. E você é um grosso do caralho, disse alto o suficiente para que ele ouvisse. Ele nem ao menos virou o rosto para respondê-la.

a tequila, pt.2

tinha uma nova paixão: a bebida latina que ardia ao descer pela garganta e combinava com limão e sal parecia ter ganhado seu coração. Principalmente quando parecia ser o chato arrogante insuportável que era dois dias antes e que, na verdade, sempre foi. Estava feliz com o show, estava elétrica, o álcool corria por seu sangue e sentia seus poros abertos, dançava ao som de uma música que não soava muito britânica. Ria com os amigos, meio sem filtro e meio animada demais, com quem havia se reencontrado fazia algum tempo, mas de vez em quando passava os olhos pelo ambiente e procurava por uma pessoa específica.
Não conseguia parar de pensar nessa outra versão que tinha conhecido dele, no entanto, no quanto queria saber mais sobre os seus pais, na vontade que tinha de perguntá-lo sobre o que havia acontecido no show, no desejo latente de beijá-lo de novo que reaparecia vez ou outra por sua mente. Suspirou fundo, tirando a atenção de Robbie, que colocou a cabeça no seu ombro e falou bem próximo ao seu ouvido:
— O que você está procurando?
, meio alcoolizada, demorou para pensar em alguma coisa.
— Uma — pigarreou — amiga minha que disse que vinha.
— Ah — aproximou-se. — Você foi muito foda hoje. Acho que você é a melhor baterista da Inglaterra.
E sorriu. estava mesmo com uma vontadezinha sorrateira de transar com alguém. Foi só o que precisou: uma massagem no ego, uma dose ou outra de tequila…
, colocando-se para frente, roçou o corpo no de Robbie. A barba já raspava por seu maxilar e ela engoliu em seco, com um fogo que ela não sabia muito bem de onde vinha.
— Você só fala isso pra me conquistar…
— Eu te conheço, — ele disse ao puxá-la pela cintura. — Eu sei do que você gosta…
Sem ao menos avisar, então, e Robbie seguiram juntos pro Airbnb em que todos estavam hospedados.

I’ll make the most of all the sadness
you’ll be a bitch because you can

o flagra


— Porra, vocês não podiam ir pro quarto? — foi Momo quem reclamou. — Por que não atendem a porra do celular?
, que estava sentada no colo de Robbie de calcinha e top enquanto se beijavam, arregalou os olhos ao ouvir a voz irritada da amiga soar pela sala do apartamento razoavelmente espaçoso e levantou-se rapidamente, pegando a calça jogada pela sala. Em sua defesa, tinham transado no quarto da primeira vez, decidiram ir dormir, se reencontraram na sala para beber uma água e acabaram, de algum jeito, no sofá. Meio envergonhada, sentiu uma pontada de dor atingir sua cabeça ao se levantar. Fechou os olhos com força.
— Foi mal…
— Podiam ter avisado, filhos da puta — Daniel disse, mas ele não soava especificamente bravo. Daniel nunca ficava bravo com ; talvez com Robbie, mas deu de ombros sem se importar muito. O resto do grupo parecia meio cansado e foram se dispersando pelo apartamento. — A gente procurou vocês pra caralho.
— Só a sendo egoísta. Nada de novo sob o sol.
, que nem ao menos havia direcionado o olhar para , disse ao dar um sorrisinho indecente. — Melhor dar um jeito nisso aí.
E inclinou a cabeça para Robbie. Não ficou claro para quem ele estava falando enquanto olhava de um para o outro em certo julgamento.
ficou furiosa. Ignorou o braço de Robbie que tentou segurá-la e foi até , desafiando-o com o olhar e uma expressão irritada enquanto batia o pé no chão ao andar e colocava a camiseta de pijama de novo.
— Eu sou egoísta? Por fazer uma vez o que você faz o tempo todo? Sumir, deixar todo mundo esperando no ensaio, chegar atrasado, transar?
— Pelo menos eu não faço isso quando estamos em outra cidade e tá todo mundo preocupado com você.
— Ah, imagino, realmente, o quanto você deveria estar preocupado comigo.
a encarou, cético e piscou algumas vezes sem mais responder, enquanto Daniel e Robbie os encaravam também, perplexos. Não que fosse uma novidade que e estivessem discutindo; eles só pareciam discutir de maneira diferente. Não era mais a provocação pela provocação.
e , agora, usavam um outro tom e ignoravam as pessoas ao redor.
— Tem razão. Realmente não me preocupo.
E saiu, despreocupado, para a cozinha.
o seguiu, ouvindo Robbie chamá-la para perguntar o que estava acontecendo. Vai dormir, Robbie, ela disse antes de entrar pela cozinha.

you try to hit me just to hurt me
so you leave me feeling dirty ‘cause you can’t understand
we’re going down, and you can see that too
we’re going down...

o acordo

Fechou a porta com força e cruzou os braços. se assustou um pouco com o barulho àquela hora da madrugada enquanto bebia um copo d’água. Expirou fundo ao ver .
— Você endoidou de vez?
, são cinco da manhã… Eu realmente tô cansado.
— É assim que você vai me tratar? Só por que eu não fiz o que você queria? — perguntou, quase sussurrando. — E ainda me chama de mimada. Achei que a gente estava de boas.
— O que é que eu queria?
— Sei lá? Contar pras pessoas? — ela encolheu os ombros, confusa. — Você é meio difícil de entender, parece que ficou bravo do nada.
— Você faz o que você quiser, , só não me faz perder uma hora e meia de festival te procurando que nem um otário enquanto você transava com o Robbie pra todo mundo ver de novo, tá certo?
sentia-se ofendida pelo jeito que falava. O tom era baixo, mas distante. Como se não fossem íntimos, como se não fosse importante. As palavras pareciam destruir todas as pontes que haviam construído, pedra por pedra. Virou os olhos levemente.
— Por que essa cisma com o Robbie?
— Nada na real, ele só é um otário. Pronto, acabou? Posso ir dormir?
— É, eu realmente achei por um momento que estava enganada sobre você e que você podia ser uma pessoa decente. Olha só, eu estava certa desde o início! Você é um puta babaca que tá cagando pra todo mundo!
Sussurrou e quase gritava, irritada, enfurecida, enquanto mantinha o tom neutro. Não parecia se abalar com as suas palavras.
— Você que é viciada em mentir, em esconder as coisas, em fingir pras pessoas algo que você não é, que você não quer. Eu assumo as merdas que eu faço, pelo menos. Me diz, , o Robbie sabe quem você é, realmente? Você sabe quem você é?
— Vá se foder! — praguejou, em choque, em raiva, e empurrou seu ombro. — Vá se foder!
Ela sabia do que estava falando. Ela sabia que mencionava a dinâmica cuidadosa e bamba que mantinha com seus pais. Seus olhos chegaram a arder, mas não lacrimejaram. engoliu em seco, sem conseguir absorver o peso das palavras que ele havia dito.
expirou.
— Você quis transar comigo, não foi? Naquele dia?
Ontem, quase corrigiu, mas não o fez. Revirou os olhos.
— Sim, eu quis.
— Pronto, eu quis também. Transamos. Foi isso. Agora podemos voltar a nossa rotina normal.
— Certo. A gente não precisa se falar. E ninguém fica sabendo. Nunca.
— Fechado. Nunca.
— Não quero que ninguém saiba que eu me rebaixei ao ponto de transar com você.
estendeu a mão. apertou rapidamente, assentiu com um sorriso e disse ao sair da cozinha:
— De nada.

and I know that we’re doomed
my dear, we’re slowdancing in a burning room

a volta pra casa


— Como foi o fim de semana em Kent? — ouviu seu pai perguntar. Todos os olhares da mesa se voltaram para : sua mãe, sua irmã mais velha com olhos especialmente esbugalhados ao tomar o vinho na taça, seu cunhado. Piscou algumas vezes. Kent. Praia. Diga alguma coisa sobre praia. — Você não me parece muito bronzeada.
A mesa de jantar, posta de forma impecável, tinha muitos ítens brancos e finos que sempre tinha medo de quebrar, uma enormidade de talheres e servia lagosta. Um lustre de cristal no centro iluminava todo o ambiente que era espaçoso e tinha alguns espelhos. Era só mais um domingo comum na casa dos . Sempre arrumados. Sempre intactos.
— Foi bom. O sol não apareceu muito — deu um mínimo sorriso. — Mas foi tranquilo. Cozinhamos, fomos à praia. Tem uma vinícola logo embaixo, do avô da Momo. A gente tomou uns vinhos estrangeiros e tudo.
Seu pai, sempre desconfiado, pareceu acolher a resposta com satisfação. Sorriu de volta. fingia não perceber que o fato de seu pai gostar tanto da família de Momo se baseava no fato de que eles eram estupidamente ricos. Qualquer coisa que inventasse, estando com ela, seria bom o suficiente.
— E quanto ao estágio na Birmans?
— Acredito que terei uma resposta na semana que vem. Espero que dê tudo certo.
Alice, a única pessoa da mesa que sabia de suas peripécias, engasgou com o suco. , intocável, repreendeu sua irmã com um chute no pé por debaixo da mesa, mas seu rosto permanecia límpido e doce.
Deu mais um sorrisinho de lado e demonstrou estar esperançosa. não havia aplicado para estágio nenhum, visto que já fazia mais de um ano que havia desistido da faculdade de Direito e transferido para História. Seus pais, no entanto, não sabiam disso.
Quando mudaram de assunto, , finalmente, sentiu-se aliviada por poder desligar-se daquela conversa inútil e cansativa novamente. Ao levantar os olhos até seu próprio rosto maquiado refletido por um espelho distante, o cabelo longo e o vestido que não usaria em nenhuma outra ocasião para o jantar em família, perguntou-se se os seus pais ainda a amariam se ela pudesse contar para eles sobre quem realmente era.
don’t you think we oughta know by now?
don’t you think we should’ve learned somehow?


a composição


Daniel e Momo riam. tomava um gole de sua cerveja e dava de ombros, logo depois de ter contado alguma história engraçada que aconteceu no festival quando não estavam juntos.
— Eu não sabia que você conhecia os caras da Black Traffic — Momo comentou.
Estavam no apartamento de Daniel. Ele era o único do grupo que realmente morava sozinho. Por isso, usavam um dos quartos vagos como uma espécie de estúdio improvisado para compor e gravar, e era onde estavam, os três. — Eu adoro o EP que eles lançaram!
— Eles gostaram bastante do show, eu contei pra vocês? — disse, empolgado, com um sorrisinho no rosto. — Eu já tinha mostrado umas músicas pra eles. Um deles tá na minha turma de Percepção Musical 3, o baixista.
— E você acha que eles vão
— Tá, mudando de assunto, o que rolou entre você e a em Londres?
Daniel perguntou, Momo abriu um pouco mais os olhos, curiosa, e assentiu com a cabeça.
— É. Ela ficou irritada quando eu perguntei.
não era muito o cara das mentiras. Não que tivesse alguma dificuldade, ele só não gostava de sustentar histórias grandes. Com aquelas bobas, que não envolvem mais ninguém, essas ele não se importava.
Mas aparentemente era importante para e ele respeitava isso, então, ao virar os olhos (mas só internamente), engoliu a cerveja e disse:
— A gente tava no caminho, o carro quebrou, ficamos num hotel e depois fomos pro festival.
Os dois o encararam. não queria mais ter que falar sobre o assunto.
Toda vez que se lembrava do assunto, se lembrava de que não queria ser vista com ele. Toda vez que se lembrava do assunto, se lembrava de que não se importava em ser vista com Robbie.
— Não… Muito estranho. Você nem tá reclamando dela. Você passou um dia inteiro com a — Momo balançou a cabeça em negação ao dizer. — Estranhos.
— A gente ignorou a presença um do outro a maior parte do tempo. Eu tava com uma música na cabeça, fiquei escrevendo e nem lembrei dela.
— Dá pra você mostrar a música, então? Como é mesmo o nome?
Arabella.



Fim?



Nota da autora: E AI HAHAHAHAHAHHAHAH eu sei que é um final maldoso, porém, tananã: essa ficstape é uma espécie de prólogo para minha próxima fic! UHU! Stella e Harry ainda vão enlouquecer muito nossa cabecinha <3 eu pessoalmente adoro um enemies to lovers, quem conhece sabe, e a história vai começar mais ou menos um ano depois desse fatídico fim de semana. Mas me contem, O QUE VOCÊS ACHARAM? ME FALEM DO HARRY, DA STELLA, DA BANDA, DO QUE VOCÊS QUISEREM, EU QUERO SABER TUDO! Muito obrigada se você leu até aqui, espero que você tenha gostado. Eu, pessoalmente, amo sou doida por esses personagens, até mesmo o Robbie coitado HAHAHAHAH. E tô doida pra que vocês conheçam mais de cada um deles <3 Um beijão!



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