I Know Your Pain

Autora: Giu | Beta: Cami / Leeh


Prólogo:

Eu corri os olhos pelo salão procurando por ela. Só ela. E, quando meus olhos encontraram os dela, nada mais chamou minha atenção. Fui ao seu encontro e prendi-a em meus braços. Ela se aproximou de meu ouvido e cochichou as palavras que eu esperei um bom tempo para escutar. Um sorriso bobo se formou em meu rosto e eu beijei o topo de sua cabeça. A música lenta nos dominou e a atenção de todos os alunos pausou em nós. Aquele realmente deveria ser o dia mais feliz da minha vida, se não fosse pelo que nos aguardava lá fora.


Capítulo 1 : An accident, and the change of life.

- VAMOS LOGO, FILHA! VAMOS NOS ATRASAR DESSE JEITO! – Minha mãe falou, ou melhor, berrou.
- ESTOU INDO!- Gritei de volta. Nessa casa, ninguém deixa a preguiça de lado e vem falar cara a cara. Terminei de arrumar minha mochila e desci as escadas em tempo recorde. Hoje é o meu aniversário de 15 anos, vamos comemorar no ringue de patinação.
- Pronto, mãe. Podemos ir agora. – Avisei-a enquanto recompunha meu fôlego. Ela só assentiu e começou a tagarelar com meu pai sobre suas lindas flores do seu lindo jardim. Revirei os olhos e os segui até o carro. O assunto continou o mesmo até que me desliguei de tudo e me concentrei na música que tocava no meu iPod. Acabei adormecendo pouco tempo depois.

(...)
Fui tirada de meu sono por uma forte brecada. Levanto o olhar, ainda sonolenta, e me deparo com uma linda árvore. Um pouco próxima. Tentei alertar meus pais:
- Pai? - Perguntei, manhosa.
- Está tudo bem, princesa. Só proteja sua cabeça.
Obedeci-o e, em questão de segundos, minha visão se restringiu a um clarão.

Acordei, desnorteada. Varri o vasto quarto com os olhos, não havia ninguém ali. Pouco tempo depois, entrou um médico, que puxou uma cadeira e sentou-se ao meu lado. Eu o encarei, desentendida, e ele apenas sorriu, compreensivo. Ele mexeu em alguns aparelhos ao lado de minha cama e começou a me explicar, lentamente... como se precisasse escolher as palavras cuidadosamente.
- Você está aqui porque sofreu um acidente de carro. Parece que um caminhão perdeu o controle e seu pai se desviou dele, mas acabou batendo numa árvore.
E, de repente, aquela cena veio em minha mente, como um flashback. Balancei a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos que persistiam em vir... Cadê a minha família? Por que esse médico está escolhendo tanto as palavras para falar comigo? Meus olhos já estavam marejados e eu nem prestava atenção ao que o médico me relatava. Limpei as lágrimas teimosas, e o interrompi.
- Cadê meus pais? Eles estão bem?
Ele se surpreendeu com minha pergunta repentina e baixou a cabeça. Ele fitava seus próprios pés. Mas que diabos! Diz logo onde estão meus pais!
- Eu sinto muito. Seus pais não sobreviveram.
Eu o encarei, com raiva. Fácil para ele. Ele deve ter uma família grande e feliz, que está à espera dele para o jantar.
- COMO VOCÊ PÔDE? VOCÊ É UM INCOMPETENTE! SAIA DAQUI! DEIXE-ME EM PAZ!
Ele me olhou com dó. Como se eu precisasse do dó dele. Maldito. Eu já estava aos prantos quando ele deixou o quarto. Ouvi uma leve batida na porta e me irritei.
- SERÁ QUE NINGUÉM MAIS PODE SOFRER EM PAZ?
Quem quer que fosse não ligou para o meu ataque e abriu levemente a porta. Entrou em silêncio, sentou-se ao meu lado e assim permaneceu por um tempo. Não aguentava mais aquela mulher me encarando.
- Quem é você? – Perguntei, seca.
- Sou sua tia. Meredith. Talvez você não se lembre de mim. A última vez que te vi, você era um bebezinho.
Não lembrava dela. Neguei com a cabeça e ela continuou.
- Bom, como você já sabe, agora que seus pais se foram ... – ela pausou e deixou uma lágrima escorrer – eu fiquei com a sua guarda. Eu sei que você vai dizer que sabe se virar sozinha, mas você ainda não é maior de idade. Não quero tornar isso mais difícil para você. Então, vamos resolver isso amigavelmente? – Ela sorriu. Um sorriso... sincero, de consolo. Retribui o gesto.
- Claro – foi só o que consegui pronunciar.
E acho que isso bastou para ela. Ela devia imaginar que eu ia me rebelar contra ela. Meredith sorriu, dessa vez tímida.
- Ótimo. Isso está sendo difícil para mim também. Eu amava muito os dois. E o único motivo de eu não vir visitar vocês frequentemente é pela razão de eu morar longe. E, bom, de não ter dinheiro suficiente para pagar uma viagem dessas – agora ela estava envergonhada. Eu sorri, incentivando-a a continuar.
- E isso é o que mais me incomoda. Você terá que deixar tudo aqui e ir morar comigo. Longe do comércio, dos shoppings, de tudo. – Ela realmente estava incomodada com tudo aquilo. Talvez eu sentisse saudade dos meus poucos e bons amigos que fiz aqui. Mas do quê adianta? Eu sou obrigada a ir morar com ela. E, bom, acho melhor resolver isso da melhor maneira.
- Meredith, eu realmente vou sentir saudades de tudo isso, mas o mais importante, minha família, eu já perdi. E eu realmente acho que, ficando longe daqui, vou pensar menos na morte dos meus pais. – Ela simplesmente começou a chorar e me abraçou, meio desajeitada.
- Obrigada por tornar isso mais fácil para mim, .
Eu apenas assenti. Pedi que ela me deixasse um pouco sozinha. Precisava pensar em tudo que aconteceu... tão rápido. Eu ainda estava tonta com tantos acontecimentos. E, acima de tudo isso, eu sentia uma vazio. Um vazio imenso. Só de pensar que, se eu não tivesse demorado tanto para me arrumar, aquele caminhão não estaria lá, e meus pais talvez ainda estivessem aqui. Comigo. Está tudo bem, princesa. Aquela última frase não saía de minha cabeça.
Fui tirada de meus pensamentos quando Meredith apareceu na porta, com uma aparência melhor do que antes.
- Trouxe comida para você. Você deve estar faminta – ela disse e me entregou uma bandeja. – Não deve ser nada boa. – Ela fez uma cara de nojo e eu ri. Comecei a mexer com a colher naquela papa. – Falei com os médicos. Hoje mesmo eles te darão alta. E, quando isso acontecer, vamos para sua casa – ela me olhou com um olhar de dúvida e eu assenti com a cabeça –, vamos pegar suas coisas. Roupas, objetos pessoais e tudo mais que você quiser levar. O seu quarto não é muito grande, então tente levar o mínimo de coisa. E, quando terminarmos tudo isso, vamos nos mudar. Ou melhor, você vai se mudar.
- Tudo bem – eu disse e coloquei uma colher daquela coisa na minha boca. – Desde que a sua comida seja melhor do que essa, vamos ser boas amigas. – Ela riu e beijou o topo de minha cabeça. No mesmo momento, entraram dois médicos. Um deles era o que eu chamei de incompetente. Senti-me mal por isso, afinal, ele não tem culpa de nada.
- Com licença, senhoritas, viemos avisar que já demos alta à . Recomendamos um pouco de repouso. Nada demais.
Eu encarei o médico que insultei e sussurrei um “desculpa por aquilo”. Acho que ele entendeu. Sussurrou de volta “Não foi nada. Está tudo bem”. Sorri, confortada. Não queria que ele ficasse se sentindo mal pelo que eu disse. Os dois se retiraram da sala e uma enfermeira entrou para me ajudar a levantar. Agradeci e fomos para o carro. Respirei fundo. Estava indo para casa, o lugar onde em qualquer cômodo a presença de meus pais permanecia.

Capítulo 2 : Keep holding on.

Meredith estacionou o carro na enfeitada garagem de minha mãe. Ela adorava decorar tudo o que via pela frente. Esse era um dos vários motivos das brigas inúteis das sextas à tarde. Meu pai dizia que ela ocupava todo o espaço da garagem com seus penduricalhos. Ela dizia que seus enfeites deixavam a garagem com um ar zen. Acho que vou sentir saudades dos gritinhos histéricos de minha mãe e dos gritos de felicidade do meu pai quando seu time ia bem no jogo. Desci do carro e abri a porta de casa. Inalei o cheiro de incenso que ainda permanecia no ar. Os incensos de minha mãe que eu tanto reclamava. Tentei não observar demais a sala, o que com certeza me traria boas e más lembranças. Subi para o meu quarto, arrombando a porta. Abri o armário e peguei todas as malas que encontrei. No total, eram cinco. A primeira eu fiz de roupas, e assim foi... livros, objetos, iPod e tudo o que pensei que gostaria de levar. Juntei todas as malas que, no final, deram três. Sobraram algumas coisas que, talvez, com o tempo, eu voltaria para buscar. Peguei minha mochila e nela guardei meu notebook. Coloquei-a nas minhas costas e peguei duas malas. Desci as escadas e vi que Meredith me esperava na cozinha.
- Meredith, terminei minhas malas. Vá carregando o carro enquanto vou buscar a última.
Ela sorriu, pegou minhas malas e seguiu para o carro. Subi novamente e, quando estava ao lado de minha cama, encontrei uma foto. Eu, meu pai e minha mãe juntos num parque aquático. Minha mãe sempre dizia que eu estava linda naquela foto e eu sempre discordava. Mas deixava no meu criado para fazer sua vontade. Guardei-a no bolso da minha jaqueta, peguei minha mala e fui para o quarto dos meus pais. Abri o armário e peguei uma estátua que minha mãe tinha. Ela dizia que, depois da família, aquilo era o que mais fazia ela feliz. Apoiei na mesa e fui para o armário do meu pai. Peguei sua bola de futebol, assinada pelo seu jogador preferido. Aquilo significava muito para ele. Guardei tudo na mala e ouvi Meredith me chamando. Fui ao seu encontro e ajudei-a a guardar o resto das coisas. Entrei no carro e me acomodei no desconfortável banco. Meredith veio logo depois e deu partida no carro.
- Pronta para a longa viagem?
- Não, mas fazer o quê – ela riu e triou o carro da garagem.
- Se importa se eu ouvir? – Perguntei, apontando meu iPod.
- Claro que não. Vai ser uma longa viagem e você precisa descansar.
Sorri, agradecendo mentalmente por isso. Não estava nem um pouco a fim de ficar naquele silêncio embaraçoso. Liguei a música e observei a vista que passava pelo vidro do carro (n/a: aconselho ouvirem Hear You Me - Jimmy Eat World). Eu estava deixando todos os momentos, todas as risadas, as festas, as brigas, tudo para trás. Eu estava começando uma vida nova, em um lugar novo, com novas pessoas. E eu realmente vou demorar para me adaptar a tudo isso.
A viagem seguiu por uns 3 dias. Meredith parava em algumas lanchonetes, tomava um café e descansava. Acabamos de chegar em Billings, Montana. Meu novo lar. Meredith tem uma fazenda aqui. A casa é pequena, mas o campo é enorme. Enquanto descarregava o carro junto de Meredith, observei a fazenda. Do lado direito, um imenso haras. Pelo menos uns 10 cavalos habitavam o lugar. Do outro lado, um pasto com vacas, bois e bezerros. Fiquei fascinada com tanto animal. Sempre quis ter um cachorro. E, bom, agora eu tenho até vacas.
Meredith me guiou até a casa e me levou até meu quarto. De fato, era pequeno, mas tinha uma ar rural que me agradava. Desfiz minhas malas e avisei à Meredith que ia dar uma volta na fazenda para conhecê-la melhor. Ela só pediu que eu voltasse para o jantar.
Saí de minha nova casa com as mãos nos bolsos, andando lentamente e chutando algumas folhas que atreviam a rolar com o vento. A fazenda era simplesmente... linda. Do lado do haras, havia uma árvore. Grande e linda. Ela me fez lembrar do acidente. Caminhei até ela, encostei minhas costas na mesma e fui escorregando até sentir o úmido chão em contato com minha pele. Abracei meus joelhos e deixei que as lágrimas escorressem pelas minhas bochechas rosadas. Estava anoitecendo e a temperatura começou a baixar. Encolhi-me por impulso. Fiquei mais um tempo até que, involuntariamente, comecei a tremer. Voltei a caminhar em direção à minha casa. Abri a porta e encontrei Meredith preparando o jantar.
- Meredith, acho que vou tomar um banho. Tudo bem?
- Claro. O seu banheiro já está com toalhas. Qualquer coisa, me chame.
Assenti e subi a estreita escada. Observei o andar de cima. Tão simples, mas, mesmo assim, tão charmoso. Caminhei até meu quarto e separei uma calça de moletom velha e uma blusa branca de manga comprida, afinal, já estava esfriando. Segui até o banheiro, entrei no box e liguei a água quente. Aquilo veio como um analgésico para mim. Deixei que a água levasse todo o meu desespero e angústia. Terminei o banho, vesti minha roupa e desci para jantar.
- Meredith, precisa de ajuda?
Ela se virou para mim e sorriu.
- Aqui eu já estou terminando. Você pode ir montando a mesa, enquanto isso.
- Claro – ela me entregou uma toalha e eu a estendi sobre a mesa. Vasculhei nos armários até achar os pratos, talheres, copos e guardanapo. Abri a geladeira e peguei um suco, aparentemente de abacaxi. Coloquei-o na mesa e me acomodei em uma cadeira de palha. Meredith veio com a panela e serviu os pratos. Logo depois, sentou-se à minha frente.
- Essa é minha especialidade – ela sorriu, convencida –, macarrão ao molho de vinho.
- Uau – sorri, inalando aquele delicioso cheiro –, que coisa chique.
Ela sorriu, satisfeita, e começou a comer. Fiz o mesmo. Estava divino. Não conversamos nada até terminarmos de comer.
- Muito bom, mesmo – eu disse enquanto limpava minha boca –, eu estava precisando de uma boa comida.
- Que bom que gostou – ela sorriu. – Bom, acho melhor você ir dormir. Amanhã cedinho vamos à escola. Sua matrícula já está feita.
- Tudo bem – eu disse enquanto recolhia os pratos –, deixe que eu lave a louça.
Ela me olhou, desentendida, mas acabou cedendo.
- Vou para o meu quarto. Boa noite e até amanhã.
- Até.
Terminei de tirar a mesa, lavei a louça e arrumei a cozinha. Deixei tudo num brilho. Sorri, orgulhosa de mim mesma. Já era tarde. Subi lentamente para não fazer barulho, o que não adiantou muito porque a escada rangia mais do que o motor da velha caminhonete de Meredith. Fui para o banheiro, escovei meus dentes e coloquei meu pijama. Fui me arrastando até a cama. Hoje foi um dia cansativo. Eu precisava de uma bela noite de sono. Acomodei-me na cama e logo adormeci.

Capítulo 3 : A new friend.

Acordei com o sol batendo no meu rosto. Levantei-me e fiz minha higiene matinal. Vesti uma calça jeans, uma blusinha branca e, por cima, um sobretudo preto. Prendi meu cabelo num rabo-de-cavalo e coloquei minha franja de lado. Desci até a cozinha e encontrei Meredith preparando o café.
- Que bom que acordou. Gosta de panquecas?
- Muito – disse enquanto puxava uma cadeira.
- Espero que goste da escola que escolhi. Falam muito bem dela e eu achei todos muito simpáticos.
- Obrigada, Meredith, por tudo que está fazendo por mim – eu sorri, envergonhada.
- Não tem que agradecer, querida. Você sabe que pode contar comigo para tudo. – Ela me olhou. Um olhar diferente... um olhar materno.
- Eu sei – eu respondi e ela me abraçou, desajeitada do jeito dela. Eu sorri. Eu realmente precisava de um abraço confortante. Ela se soltou do abraço e seguiu para o forno. Pegou a frigideira e passou a última panqueca para o prato. Jogou uma cobertura de chocolate por cima e colocou na mesa.
- Eu amo essa panqueca – ela disse enquanto pegava um garfo para servir. – Sirva-se.
Eu peguei duas panquecas e comecei a comer. Realmente, estava uma delícia. Lambuzei-me inteira, mas terminei sem sujar minha blusa. Palmas para mim.
- Nossa, onde você aprendeu a cozinhar tão bem?
Ela adora receber elogios pela comida. Isso dá para perceber rápido. Ela sorriu e respondeu enquanto tomava um gole de leite.
- Minha mãe me ensinou. Ela dava aula – assenti e ela olhou o relógio. – Nossa! Esqueci do tempo! Vamos, estamos atrasadas.
Corri pelas escadas e entrei no meu quarto. Apanhei minha mochila que Meredith já tinha colocado o material e escovei meus dentes. Desci e encontrei Meredith no carro, dando partida. Entrei apressada e ela seguiu para o colégio.
- Você está na sala 7. Sua aula termina às 12h. Venho te pegar para o almoço. Qualquer dúvida, pergunte na secretaria. Se acontecer alguma coisa, ligue-me. – Ela me entregou um pequeno pedaço de papel com seu número de celular. Guardei em minha mochila e ela estacionou.
- Te vejo mais tarde, .
- Tchau, Meredith – dei um beijo em sua bochecha e saí do carro, apressada.

(...)
Já estava caminhando pelo imenso corredor quanto ouvi gritos e risadas vindos, aparentemente, da minha sala. Abri a porta lentamente e me deparei com uma baderna. Os lugares eram marcados e a mesa era para uma dupla. Olhei no papel que a secretária me entregou que continha o número de minha carteira. Carteira 5. Corri o olho por todas as mesas e encontrei a minha. E, por coincidência, o núcleo de todo aquele mucuvuco. Pedi licença aos alunos e me acomodei na cadeira. Arrumei meu material e, quando levantei meu olhar, vi o que estava causando tudo aquilo. Um menino de cadeira de rodas, minha dupla de mesa, sendo ofendido por seus “colegas”. Idiotas. E aquilo continuou até que minha paciência esgotou.
- Afinal, qual é o problema? – Disse em um tom bem alto, devo dizer.
Todos pararam imediatamente e eu virei o centro da atenção. Aqueles olhares me metralhavam.
- O que disse, novata? – Uma garota de cabelos lisos e sedosos me perguntou, com uma cara de superioridade.
- Virou surda agora? Eu disse: QUAL É O PROBLEMA? – Eu repeti alto, clara e pausadamente. Sorri, cínica. Ela me olhou com ódio, mas não pôde responder. O professor entrou e todos correram para seus lugares. O garoto ao meu lado levantou seu olhar até mim e me olhou assustado. O professor me chamou lá na frente. Eu me levantei e segui até ele.
- Essa é uma aluna nova. Quero que deem as boas-vindas à ... – ele olhou num papel e continuou – . E então, quer nos contar alguma coisa sobre você?
A classe inteira estava em silêncio. A garota do episódio anterior me fuzilava com seus olhos verdes.
- Bom, eu morava em NY com meus pais e acabei de me mudar para cá. Agora estou morando com minha tia. – Estava torcendo para ninguém me perguntar porque eu me mudei para cá. Esforço jogado fora.
- Professor – a garota dos olhos verdes levantou a mão.
- Sim, Sally? – Ele respondeu.
- Por que você se mudou para uma cidade pequena dessas se você podia ficar na maravilhosa NY, hein, ?
Ela realmente não foi com a minha cara. Eu a olhei desafiadora.
- Motivos pessoais – virei-me para o professor e ele pediu que eu me sentasse. Sorri para ele e voltei para minha carteira. Ele continuou a aula. Eu anotava tudo o que ele escrevia na lousa. Percebi que o garoto ao lado não tirava os olhos de mim. Terminei de copiar, virei para ele e ele rapidamente desviou o olhar.
- Bom, meu nome você já sabe. Qual é o seu nome? – Perguntei simpática.
Ele me olhou tímido. Acho que ele realmente não gosta de socializar.
- Tudo bem. Não precisa conversar se não quiser – levantei meus braços me rendendo.
A aula continuou normalmente. O intervalo veio e todos saíram como animais da sala de aula. Levantei-me devagar e percebi que o garoto sem nome (n/a: HSIUAHSIAU, eu ri agora) estava com dificuldades de sair da mesa. Puxei sua cadeira de rodas e ele deslizou pela mesa. Virei sua cadeira e o soltei. Ele me olhou e sussurrou um “obrigado”.
Segui para o refeitório e observei o mesmo. Várias mesas ocupavam o local. Claro, como em todas as escolas, cada uma era ocupada por um grupo. Populares, nerds, excluídos. Suspirei. Não era o que eu espera de minha nova escola. Corri meus olhos pelo imenso salão e encontrei o menino sem nome sozinho em uma mesa. Segui até ele e percebi que ele cutucava a comida, como se estivesse preso em pensamentos.
- Pensando em quê? – Eu perguntei enquanto me sentava.
Ele levantou sua cabeça rapidamente. Deve ter se assustado.
- Posso me sentar aqui?
Ele só assentiu e continuou remexendo sua comida. Ficamos em silêncio até que ele quebrou o mesmo.
- Por que está sendo legal comigo? – Ele me perguntou, indiferente.
- Por que eu não deveria ser? – Eu respondi no mesmo tom.
Ele sorriu. E que sorriso lindo que ele tem.
- Uau. Você tem um sorriso lindo – comentei.
Ele corou e baixou a cabeça.
- Olha, eu realmente não sei qual é a dessas pessoas daqui. Nenhuma delas é melhor do que você. E nem vai ser. Estou tentando ser legal com você. Não é por dó ou algo do tipo. Não tenho dó de você. Minha vida não é mil maravilhas e não estou me queixando disso. – Eu ia continuar com meu discurso, mas ele me interrompeu.
- O que aconteceu na sua vida? O garoto que você gosta não gosta de você? Ou, deixa eu pensar... não tem a vida de seus sonhos? – Ele perguntou, raivoso.
- Você quer mesmo saber o que aconteceu? Eu perdi meus pais. Em um acidente de carro. Tive que deixar para trás toda a minha vida para vir morar aqui, com minha tia. – Respondi, grossa. Ele me olhou arrependido. Meus olhos já estavam marejados.
- Mas, quer saber, não preciso ficar com quem não gosta da minha presença e nem ao mesmo diz seu nome – disse enquanto levantava. Ele me olhou, suplicante.
- Desculpe.
Havia sinceridade em sua voz.
- . Meu nome é .
Eu o olhei divertida.
- Lindo nome. Posso te chamar de ?
Ele assentiu e eu sentei novamente na cadeira. Conversamos sobre mais algumas coisas até que Sally veio em nossa direção com seus seguidores e nos interrompeu.

Capítulo 4: Shut Up.
- Eu ouvi direito? A órfã virou amiguinha do aleijado? - Sally disse, debochada.
Eu a encarei, sem expressões. Levantei-me calmamente e me aproximei dela.
- É, Barbie, a órfã é amiguinha do aleijado. Corra pela escola e conte a novidade. Todos vão adorar saber que a novata e o deficiente físico não são idiotas como você. Agora, faça-me um favor, saia daqui e leve a sua cambada com você antes que eu me irrite.
- A órfã vai fazer o quê? Me bater?
- Não gosto de violência e muito menos de perder meu tempo batendo em pessoas inúteis como você, mas sempre abro minhas exceções – cerrei meus punhos e me aproximei dela. Sua cara transbordava medo. Ela se virou no mesmo momento e saiu correndo com sua cambada. Voltei a sentar com e ele me encarava assustado.
- O quê? Não acha que ela merecia ouvir umas? – Ele gargalhou e eu o acompanhei. Segundos depois, todo o refeitório nos encarava. Não ligava. O sinal bateu, eu me levantei e ajudei com sua cadeira de rodas. Para ser sincera, esse foi o melhor intervalo da minha vida. Entramos na sala e fomos para nossos lugares. A aula começou. Biologia. Érgh. Odeio. Arranquei um pedaço da folha em que eu anotava as observações do professor e escrevi:
Se não quiser falar disso, eu entendo. Mas eu realmente queria saber o que aconteceu para você ficar assim. Conte-me sua história.

Passei o papel para , que abriu no mesmo instante. Ele revirou seu estojo à procura de um lápis. Quando o achou, começou a responder. Eu o observava. Ele era um garoto muito bonito... seu sorriso, seu jeito. Só pensar que, se ele não fosse deficiente físico, todas as garotas caíram ao seus pés me fez ficar enojada. É como uma frase de Antoine de Saint-Exupéry que diz que o essencial é invisível aos olhos. Só se vê bem com o coração. Ele passou o papel para mim. Comecei a ler:
Não vejo problema nenhum em te contar minha história. Mas, se não se importa, prefiro que não seja por um pedaço de papel no meio da aula de Biologia.

Eu sorri e respondi.
Tudo bem. Conhece a fazenda ?

Passei a ele.
Conheço. É de algum parente seu?

Sim. Da minha tia .Pode passar lá? Perto das 14h? Eu podia te mostrar a fazenda e você, contar-me sua história :)

Claro. Vai ser divertido.

Eu sorri e ele retribuiu. O sinal bateu e todos correram, como no intervalo. Bufei e arrumei meu material. Ajudei com o dele e seguimos para o portão. Meredith já me aguardava.
- , minha tia chegou. Quer uma carona?
- Ah, obrigado, , mas meu avô vem me pegar.
- Tudo bem, então. Te vejo mais tarde – sorri e saí pelo portão.
- OK – ele respondeu quando entrei no carro. Nunca ninguém pronunciou meu apelido com tanto... carinho. realmente era um cara incrível. Estou curiosa para saber de sua história. Fechei a porta e Meredith acelerou.
- E então, como foi o primeiro dia de aula?
Eu sorri e deitei minha cabeça no banco.
- Foi ótima. Meredith, eu chamei um menino, , para vir conhecer a fazenda, tudo bem?
- ? O menino da cadeira de rodas?
- Sim, você o conhece?
- Ah, querida, conheço sim. A avó dele é minha amiga. Ele é um doce de garoto, não me importo de ter chamado ele, até que é uma boa ideia – ela sorriu meigamente.
- Obrigada, tia.
Ela abriu um imenso sorriso. Um sorriso igual ao de uma mãe quando seu filho pronuncia a primeira palavra. Acho que ela se sentiu... bem sendo chamada de tia. Tia Meredith estacionou sua velha caminhonete na fazenda e nós descemos. Ela destrancou a porta e eu entrei em disparada. Ela riu e avisou que ia preparar o almoço. Tomei um banho. Vesti um shorts jeans, uma camisa branca cheia de desenhos e uma blusa cinza bem leve. Desci até a cozinha e comi a deliciosa lasanha de Meredith. Elogiei-a, como sempre.
- Bom, tia, agora eu vou lá fora esperar – avisei-a enquanto me levantava.
- Tudo bem. Mas não volte para casa muito tarde. Convide para o jantar. Vou fazer macaxeira (n/a: essa sua tia é meio abrasileirada. SIAHSAUISHAIU) e eu sei que ele ama.
Eu ri e prometi fazer tudo o que ela disse. Saí de casa e fui até a linda árvore. De lá, eu tinha uma boa visão do portão. Fiquei um tempo, até que ouvi um carro entrando na propriedade. Levantei-me e corri ao encontro do mesmo. Era uma van. Um homem dirigia, seus cabelos encaracolados e bagunçados eram idênticos aos de . Tudo bem que aquele homem, aparentemente seu avô, tinha o cabelo grisalho, mas, mesmo assim, se parecia. Ele desceu e se apresentou.
- Boa tarde. Você deve ser – assenti e ele continuou. – Sou João, avô de . – Ele estendeu a mão e eu apertei-a.
- Muito prazer, Sr. João. – Ele soltou minha mão e sorriu simpático.
- Igualmente, , igualmente.
Ele seguiu para trás do carro e abriu. desceu por uma rampa. Logo que me viu, um sorriso se formou em seu rosto. Sorri imediatamente. O avô de se aproximou dele e sussurrou.
- Ela é realmente muito bonita, . Muito bom gosto o seu.
Mesmo sendo um sussurro, eu consegui ouvi-lo e percebeu. No mesmo instante, ele corou e eu sorri.
- Vamos nos divertir muito, Sr. João. Será que você pode deixá-lo aqui para o jantar?
- Claro, . Venho buscá-lo às 20h, combinado?
- Combinado – sorri e ele entrou no carro.
Tirei de trás do carro e seu avô tirou o mesmo dali. Acenou para mim e eu retribui.
- Meu avô gosta de você - ele comentou enquanto eu o guiava até a árvore. Sorri, envergonhada.
- Ele parece ser legal – foi só o que consegui pronunciar. Levei-o até a árvore.
- Então, quer começar por onde? – Perguntei enquanto ele fitou suas mãos, que estavam entrelaçadas uma na outra.
- Na verdade, eu já conheço a fazenda – ele sorriu culpado –, mas adoraria ver de novo o lago. Faz muito tempo que não venho aqui.
- Claro – sorri e o guiei. Conversamos pelo caminho até chegarmos no lago. Acomodei-me em um velho banco de madeira e acomodou sua cadeira de rodas bem do lado do banco. O lago realmente era lindo. apanhou algumas pedrinhas e me entregou-as. Ele jogou uma no lago, ela deu 3 pulos e mergulhou na água esverdeada. Um lindo arremesso. Fiz o mesmo, mas ela afundou no momento em que entrou em contato com a água. riu e eu cortei aquele silêncio.
- Mas então, não vai me contar sua história?
me encarou, pensativo. Ele pousou suas mãos nas rodas de sua cadeira e as girou, aproximando-se do rio, e parou. Levantei-me e sentei no chão, ao lado dele. Foi então que ele começou.
- Tudo começou ano passado...

Capítulo 5 : You’re not alone, I’m here with you.

“ Era véspera de natal. Pessoas felizes arrumando suas casas para a chegada de familiares; as crianças animadas em ganhar presentes do velho Noel. Minha mãe, desligada como sempre, esqueceu de comprar refrigerante para a ceia. Meu pai disse que iria sozinho na padaria, mas minha mãe queria escolher o refrigerante. Resolvi acompanhá-los, já que precisava de pilhas novas para minha câmera. Estava chovendo muito forte, devo dizer. Meus pais quase desistiram de ir, mas chegaram à conclusão de que a ceia tinha que estar completa. Saímos de casa em direção à padaria. O tempo estava horrível e a visão, pior ainda. Foi então que meu pai perdeu o controle do carro e bateu em um caminhão. Os dois morreram na hora. Eu sobrevivi, já que estava no banco de trás. Mas, bem, sobrevivi desse jeito. " – ele disse, apontando para seu estado. – Acordei no hospital. O médico me disse que eu estava paraplégico. Venho fazendo tratamentos desde então. Ele disse que tenho chances de voltar a andar, mas que talvez isso demore um pouco.
- E cá está minha história – ele disse, baixando a cabeça. Percebi que uma lágrima teimosa correu sobre seu rosto.
- Você não precisa ter vergonha de si mesmo. Você sabe disso. Poderia ter acontecido com qualquer um, poxa! Até mesmo com a Barbie da Sally – quando ele ouviu esse nome, sua expressão piorou mais ainda.
- Ah, meu Deus! – Eu disse assustada – você gosta da Sally!
Ele me olhou, meio cabisbaixo. Agora entendi o porquê dele não retrucar tudo o que a Sally fazia de mal para ele. Ele realmente gosta dela.
- Nunca contei isso para ninguém. Muito menos para ela. Eu me sinto um inútil e aleijado, que não pode fazer uma garota feliz. – Ele disse com raiva de si mesmo.
- Hey, . Você não pode fazer a Sally feliz porque ela não pode ser feliz. Você já viu o jeito que ela te trata? Não quero que você se sinta mal pelo que eu estou te dizendo. Mas poxa! Ela não te merece! Você é mil vezes melhor do que aquele loiro aguado que ela namora. Você não pode fazer ela feliz, mas pode fazer outras garotas felizes. Garotas que se importem com você, que gostem de você e que não liguem para isso – eu disse, apontando para sua cadeira de rodas. Ele já estava chorando, simplesmente chorando na minha frente. Levantei-me e o abracei, meio desajeitada. Ele não reagiu. Pelo contrário, apenas deitou sua cabeça em meu peito e desabou a chorar. – Um dia você vai encontrar a garota certa para você. Você vai ver – eu sussurrei em seu ouvido e isso pareceu acalmá-lo. Ficamos mais um tempo ali, apreciando a vista. Dei uma volta de cavalo enquanto colhia laranjas. Peguei um cavalo preto, lindo. Dei-lhe o nome de Paco. Não sei de onde tirei o nome. E assim as horas se passaram. Quando deram 17h, chamei , que estava brincando alegremente com uns pássaros. Seus cabelos encaracolados esvoaçavam com o vento e brilhavam à luz do pôr do sol. Seu sorriso parecia mais sincero e alegre do que nunca. Ele realmente me fazia sentir melhor. Ele veio em minha direção com um sorriso brincalhão nos lábios.
- Tia Meredith deve estar precisando de nossa ajuda – eu o alertei.
Comecei a andar em direção de casa e ele me seguiu. Entramos e Meredith recepcionou como um filho. Os dois saíram em direção à cozinha conversando. Fui logo atrás.
- E então, , como está sua avó? Estou com muitas saudades dela e do João! - Eles conversavam animadamente.
- Os dois estão muito bem. Vovó mandou lembranças.
- Mande um beijo para os dois.
Ele sorriu e começamos a ajudar tia Meredith. colocava a mesa enquanto eu pegava os pratos e talheres. Arrumamos tudo e nos acomodamos. Meredith ainda não havia terminado o jantar. Ficamos conversando sobre diversas coisas. E foi então que o mundo começou a acabar. O vento foi tão forte que derrubou o quadro da parede. Corri para fechar todas as janelas enquanto Meredith saiu de casa, para guardar os cavalos, vacas e bois. ficou parado, observando-me. Depois do vento, veio a chuva. Os pingos começaram a cair levemente sobre a fazenda e foram intensificando-se até virar um temporal. Meredith voltou encharcada e foi tomar um banho. Terminei o jantar por ela e servi a mim e a . Começamos a comer e Meredith se juntou a nós.
- Que chuva, não? – Ela disse enquanto se sentava na cadeira.
- Pois é. – Respondi e foi quando a luz acabou. Dei uma gritinho pelo susto e tia Meredith foi buscar umas velas com a ajuda da lanterna. Ajudei-a a acendê-las e colocamos quatro na mesa. O telefone tocou e minha tia foi atendê-lo. estava calado. Até demais.
- Ah, claro. Não, sem problemas. Então deixe que amanhã levo ele junto de . Claro, claro. Tudo bem, eu aviso. Ok, mande um beijo para Alda. – Meredith desligou o telefone e veio em nossa direção.
- , era seu avô. Ele disse que, como a luz acabou e a garagem é eletrônica, ele não consegue tirar o carro. Acho que você vai ter que dormir aqui – ela disse e sorriu. pareceu não gostar da ideia. Ele me encarou e voltou os olhos à Meredith.
- Meredith, eu preciso de alguns cuidados. Não consigo me deitar sozinho, muito menos tomar banho sozinho. Não é uma boa ideia. - Meredith encarou-o.
- , eu te conheço desde pequeno. Não há nada aí que eu não tenha visto – ela apontou o corpo de e ele corou. – Mas, se estiver com vergonha de mim, eu te ajudo a sair da cadeira e a se sentar na banheira. Você se lava sozinho e eu deixo a toalha ao seu alcance. Você enrola ela em sua cintura e depois eu e colocamos você de volta na cadeira. Tudo bem assim?
Ele a olhou aliviado e assentiu. Tia Meredith seguiu para o banheiro de baixo. Afinal, como subiria as escadas? Ajudei ela a tirá-lo da cadeira e colocá-lo na banheira. Ele tirou sua camisa sozinho e colocou em cima de sua cadeira de rodas, que estava do lado da banheira. Talvez vocês não acreditem em mim, mas ele tinha uma barriga, devo dizer, bem definida mesmo. Não sei como, mas também não perguntei.
- Ah, você ainda está aí? Desculpe não te vi – ele disse enquanto pegava sua blusa de volta. Engraçado, mas ele não estava envergonhado.
- Desculpe eu. Bom, eu, er, acho que, aaah, preciso ir – eu disse e me virei para sair dali. Acho que me enrolei um pouco com as palavras.
- Hey, espere, . Deixa eu te fazer uma pergunta. – Eu me virei e ele já havia colocado a blusa de volta. – Você acha que se eu não fosse assim – ele olhou para si mesmo e voltou seu olhar para mim – a Sally talvez tivesse olhos para mim?
- , ponha uma coisa na sua cabeça. Você é uma garoto lindo. Se você não andasse de cadeira de rodas, metade da escola cairia aos seus pés. Sem dizer que, hã ... – eu gaguejei, apontando para sua barriga. Ele entendeu e riu pelo nariz – só que você precisa entender também que todas as garotas que cairiam aos seus pés seriam as mesmas que te chamaram de aleijado - eu sorri, e ele retribuiu.
- Você já gostou de alguém que nunca teve olhos para você? – Ele me perguntou cabisbaixo.
- Já, , já. E era o mais popular do colégio, e eu... bom, eu era só mais uma que se arrastava aos seus pés. Mas uma hora você se toca que se aquela pessoa não tem olhos para você, você também não tem olhos para quem merece. Eu sei que não é fácil para você, mas você pode torná-lo. – Ele me olhou confortado.
- É, mas eu acho que eu já estou tendo olhos para outra pessoa. – Ele se envergonhou e raspou a garganta.
- Hum, ela é bonita?
- Muito - ele respondeu animado.
- E ela te dá olhos? – Perguntei novamente.
- Mais do que as outras. – Ele sorriu sapeca e eu corei.
- Er, bom, hum. Acho que eu vou tomar um banho também. Tchau. – Eu disse e saí dali rapidamente. Subi as escadas e me tranquei no banheiro. Aquilo foi uma indireta? Ah, , pare com isso. Você o conhece há um dia. Não se iluda. Deixei a água correr pelo meu corpo, anestesiando-me.

(...)

Já estava vestida quando desci em direção à sala de TV. Tia Meredith estava com uma cara de exausta arrumando o sofá para .
- Hey, tia, deixe que eu termine isso – ela me olhou totalmente agradecida e me entregou os lençóis.
- Vamos lá, ajude-me com – quando ela pronunciou aquele nome, eu abri um imenso sorriso.
- Claro – eu respondi e seguimos para o banheiro. Entramos e estava com uma toalha envolvendo sua cintura. Tentei não reparar em nada nele, e apenas ajudei Meredith a colocá-lo de volta na cadeira. Ele agradeceu e Meredith avisou que precisava dormir. Entreguei umas roupas a e fechei a porta do banheiro. Passaram uns 10 minutos. Estava ficando preocupada.
- ? Você está bem?- Eu disse enquanto batia na porta.
- Er, estou. Mas acho que preciso de uma mãozinha aqui. - Ele disse, e eu abri a porta lentamente. Surpreendi-me com o que vi. Ele estava de pé, vestido.
- , você está de pé! – Eu exclamei fascinada.
- Será que você pode me ajudar? Quero tentar andar um pouco – ele sorriu, brincalhão.
Aproximei-me dele e envolvi um braço em sua cintura e com o outro peguei sua mão. O calor de seu corpo fez com que eu me arrepiasse. Ele começou a movimentar sua perna enquanto fazia uma careta, provavelmente de dor.
- Está doendo? – Perguntei preocupada.
- Um pouco – ele respondeu enquanto firmava a perna no chão.
- Ah, ! Você está conseguindo!! Espere só até Meredith descobrir! – Eu disse animada.
- Não, , não conte nada a ela. Não quero dar falsas esperanças a ela e aos meus avós. Isso pode ficar só entre nós?
- Claro, como quiser. – Ele não conseguiu dar mais do que um passo e então eu o coloquei de volta na cadeira de rodas. – Uau, ! Você conseguiu! - Eu estava realmente feliz por ele.
- Você acha que agora a Sally vai me notar? – Ele me perguntou, esperançoso. Que merda! Sally, Sally e mais Sally!
- É claro, ela só pensa em beleza mesmo – eu respondi seca e o acomodei no sofá. – Bom, , eu vou dormir, melhor você fazer o mesmo – peguei suas pernas e coloquei no sofá, fazendo ele se deitar.
- O que foi? Por que você não gosta que eu fale da Sally? – Porque ela te insulta e você continua amando ela? Era isso o que eu queria dizer para ele. Mas não sou tão louca assim.
- Nada, , nada – respondi seca e subi as escadas, deixando-o com uma cara desentendida. Entrei no meu quarto, escovei meus dentes e deitei em minha cama. Deixei que o sono se apoderasse de mim.

Capítulo 6 : You can make me happy, and you know.


Acordei com o despertador miando pela vigésima vez. Levantei-me devagar e vesti uma roupa qualquer. Desci as escadas e encontrei acordado e deitado no sofá, encarando o teto. Fiquei observando-o, até que resolvi ajudá-lo.
- Está precisando de uma ajudinha aí? – Eu disse e sorri.
- Seria bom – ele respondeu carismático.
Aproximei-me dele e envolvi meus dois braços