Última atualização: 07/01/2022

Prólogo

Depois do susto por não lembrar como fui parar ali, comecei a observar o espaço enquanto planejava uma fuga. O quarto era enorme, provavelmente em metros quadrados tinha tamanho equivalente ao do meu apartamento inteiro.
À frente da cama onde eu estava, havia um painel enorme com uma grande televisão. Ao meu lado direito, duas poltronas sobre as quais estavam jogadas minhas roupas e outras peças de tecido, que provavelmente pertenciam ao homem nu que estava deitado ao meu lado esquerdo.
Resolvi me levantar da cama, vestir de volta minhas roupas e pegar um Uber de volta para casa.
Afastei os lençóis e, logo após sentir a textura nas mãos, constatei que eram de seda.
Me arrastei pelo colchão lentamente e, assim que olhei mais uma vez para a cama, não pude deixar de notar também que o rapaz tinha um corpo admirável que ficava ainda mais perceptível pela posição na qual ele estava: deitado de bruços com os braços dobrados por baixo do travesseiro e um dos joelhos flexionados, formando um 4 com as pernas. Tomei alguns segundos para admirar seus músculos bem definidos; os das costas e braços, as ‘covinhas de vênus’ e, principalmente... sua bela e musculosa bunda.
Um movimento dele na cama me tirou de meu devaneio, fazendo com que eu me apressasse ainda mais para pegar minhas roupas na poltrona e sair antes que ele acordasse.
Vesti o vestido de lantejoulas. Ele pinicava um pouco mais agora do que fazia na noite anterior, quando me arrumei para sair. Meus saltos estavam jogados no tapete perto da porta de saída do cômodo, e eu tentei me lembrar de onde tinha deixado minha calcinha, porque ela era o último item pessoal meu que faltava para que eu pudesse enfim dar o fora.
Depois de algum tempo de busca sem sucesso, desisti. Se deparar com uma calcinha desconhecida ao acordar não parecia ser um grande problema para o dono da casa, e eu não via problema em ficar sem as vestes íntimas por alguns minutos. Afinal, eu apenas ia entrar no carro e depois chegar em casa... Rápido e simples assim.
Pé ante pé, com meus sapatos em uma das mãos e minha bolsa na outra, comecei a procurar por um caminho que me levasse para fora daquela casa.
Percorri todo o corredor, desci as escadas em direção à porta principal e percebi que ela estava trancada e que a chave não estava em nenhum lugar por perto. Assim seria impossível sair dali.
Segui caminhando à procura de uma saída alternativa pelo andar, mas também não encontrei.
— Ótimo! — Resmunguei.
Dois passos à frente, parei diante do espelho da sala. Apesar da aparência bagunçada (eu nem imaginava o porquê) do meu cabelo, os fios não tinham sequer um pouco de frizz. Foi aí que me lembrei que dormira sobre roupas de cama de seda e concluí que a recomendação das blogueiras de moda a respeito dessa aquisição para a saúde capilar tinha seu fundo de verdade.
O lugar estava tão silencioso que eu podia ouvir o som de minha própria respiração e quase conseguia escutar meus batimentos cardíacos me implorando para sair logo dali.
Me aproximando da cozinha, me deparei com um corredor. Como não tinha nada a perder e tinha plena convicção de que não poderia ficar mais presa do que já estava, segui por ali e parei diante de mais uma porta de vidro. Empurrei e puxei, sem sucesso.
— Droga! — Reclamei, batendo a mão na parede ao lado. Foi quando, quase que magicamente, a porta se abriu, e eu percebi que meu tapa raivoso na parede acertou um botão que ativou a abertura da porta. Mal acreditei. A porta fechou sozinha depois de algum tempo, mas agora que eu já sabia da existência do botão, apertei mais uma vez e corri para fora, deixando que ela se fechasse atrás de mim.
A sensação de liberdade durou pouco. Mais precisamente, até eu perceber que estava presa no jardim e que, dali, não teria qualquer acesso à rua. Tentei voltar para dentro da casa, também em vão, porque a porta não abria de fora para dentro, apenas o contrário.
Se existiu o Jesus de quem fala a Bíblia, naquele momento tive certeza de que, em alguma vida passada, eu cuspi na água que ele fez virar vinho. Isso só podia ser um castigo.
Eu estava presa no jardim da casa de um desconhecido, enquanto ele dormia e não fazia ideia de quanto tempo demoraria até acordar. Não havia sequer um banco ou poltrona à vista – apenas um monte de grama – sobre a qual eu poderia me sentar confortavelmente, caso estivesse devidamente vestida com minha peça íntima.
— Por que não chove de uma vez? — Resmunguei, olhando para o céu nublado de Madrid e ouvindo um estrondoso trovão como resposta do universo à minha pergunta afrontosa.
Não passaram mais de dois minutos até começar a chover.
Tentei proteger minha pequena bolsa de festa na qual estava meu celular (sem bateria) dos pingos de água gigantes que despencavam do céu, mas a chuva estava ficando cada vez mais pesada e, em pouco tempo, eu já estava ensopada da cabeça aos pés. A vida estava me pregando uma peça terrível, e olha que já fazia quase um mês desde o Halloween (uma época nada agradável para um banho frio de chuva na Europa, acredite).
Não fazia ideia de quanto tempo demorou, mas sei que para mim pareceram anos, até que percebi a luz da cozinha por onde saí para o jardim se acender. Isso só poderia significar uma coisa: alguém estava ali.
Me levantei do chão (em determinado momento, não aguentei continuar em pé e, ignorando todos os insetos e grama que poderiam entrar em locais indesejáveis, me sentei no gramado) e corri em direção à porta como se minha vida dependesse disso.
O rapaz, que não parecia ser muito mais velho que eu, tinha um tom bronzeado muito bonito na pele. O cabelo estava cortado em um undercut de onde começava uma barba que estava por fazer, mas que, de certa forma, agregava um charme especial ao seu rosto.
Ele vestia apenas uma cueca boxer de pijama, deixando à mostra várias das tatuagens que tinha espalhadas pelo corpo, e manuseava uma cafeteira grande enquanto casualmente usava o celular, quando o assustei com dois socos fortes na porta de vidro.


Capítulo 01

¡Díos mío! ¿Qué te pasó?
Ele correu em direção à porta e apertou o botão na parede, permitindo que eu entrasse, sem parecer se importar com o fato de eu estar ensopando o luxuoso piso laminado de sua casa.
— Só preciso que você abra a porta da saída para eu pedir um Uber e ir para casa. — Falei, tudo de uma só vez, com a mandíbula e todo o resto do corpo tremendo de frio.
— Você dormiu aqui fora? — O homem perguntou, parecendo chocado.
— Não! Eu dormi lá em cima com você! — Ele pareceu buscar na memória a lembrança de ter dormido acompanhado e, pela expressão facial, se lembrou. — Acordei procurando a saída para ir embora, mas acabei presa aqui. Daí a chuva começou e eu... eu só preciso muito ir para casa, você não precisa falar nada, só abrir a porta. Por favor! — Implorei, evitando olhá-lo, pois estava prestes a ter um colapso de tanta vergonha acumulada.
— Tá louca? Não vou deixar você sair daqui assim. — Ele disse, observando com ar assustado minhas pernas molhadas e cheias de grama.
— Só abre a porta, por favor! — Falei, passando a mão por debaixo dos olhos para limpar o resto de maquiagem do dia anterior, que eu não tinha removido e tinha certeza de que, devido à chuva e às lágrimas, estava em estado deplorável.
— Você acha que algum motorista vai te levar a algum lugar encharcada desse jeito? Por que você não toma um banho enquanto eu faço um café quente? Esse frio vai acabar te dando uma pneumonia.
Eu estava com frio demais para me dar ao trabalho de explicar que o frio em si não era transmissor de pneumonia ou de qualquer outra doença, então prontamente aceitei o banho. Uma hipotermia também não parecia boa ideia, afinal.
— Pode pegar toalhas limpas na gaveta debaixo da pia. — Ele avisou, abrindo a porta de um dos banheiros de sua casa para mim.
— Obrigada!
Entrei e tranquei a porta. Por engano, abri o armário debaixo da pia ao invés da gaveta como ele tinha recomendado, e lá acabei me deparando com um secador de cabelo lilás enrolado em seu próprio fio, algumas toalhas cor-de-rosa, touca de banho e uma caixa transparente cheia de esmaltes.
Àquele ponto, eu já imaginava que não só havia cuspido no vinho de Jesus, como também havia fornecido todos os pregos que o prenderam na cruz. Meu dia só ficava pior!
Eu não deveria ter dormido com um estranho, muito menos com um estranho comprometido.
Eu até tentei considerar a possibilidade, mas, julgando pela aparência, aquele cara não me parecia do tipo que pintava as unhas ou usava um secador lilás.
Diante dessa teoria quase concretizada na minha cabeça, minha consciência implorava para que eu desse o fora dali ainda mais rápido. Ao mesmo tempo, eu não conseguia parar de desejar um enxágue de água quente para aliviar a tremedeira do meu corpo.
“Primeiro evitar uma hipotermia, depois praticar a sororidade.” Pensei, me enfiando debaixo da ducha quente.
— Er... Moça?! — Ele chamou, após bater na porta.
. — Corrigi.
, deixei uma peça de roupa aqui para você vestir, se quiser.
— Obrigada! — Eu disse, ainda aproveitando a água extremamente quente. Comecei a me perguntar se o dito cujo talvez tivesse pegado as peças de roupas secas do armário da esposa para me emprestar... Seria o cúmulo do absurdo, mas eu não sabia o que esperar dele.
Fechei o chuveiro e usei uma das toalhas cor-de-rosa para secar corpo e cabelo antes de abrir a porta e pegar a tal roupa seca que ele me emprestara.
Para alívio parcial da minha consciência pesada, as peças não eram femininas e pareciam bem quentinhas: um conjunto cinza de moletom e um par de meias da mesma marca esportiva.
Encontrei também uma escova de cabelo na pia do banheiro e saí do quarto prontíssima para dar o fora daquele lugar.
— Você pode abrir a porta para mim agora? — Perguntei, me aproximando do homem parado na cozinha.
— Espera, eu fiz café! — Ele esticou o braço na minha direção, segurando uma caneca, e perguntou, quando cruzei os braços num claro sinal de que não a pegaria: — Você não toma café?
— Olha, eu não sei como funcionam as coisas com você, mas essa situação de acordar na cama do marido de outra pessoa me deixa bem desconfortável. Eu nem deveria estar aqui! Te agradeço muito, mas o que eu quero mesmo agora é ir embora e fingir que essa noite nunca aconteceu. — Desabafei para que ele parasse de uma vez com a simpatia.
— Marido? — Ele riu. — De onde você tirou isso? Eu não sou casado!
— Uhum. Vai me dizer que o secador de cabelo lilás, os esmaltes e a touca de banho no banheiro... são seus? — Perguntei, como quem já sabia toda a verdade e estava esperando que o outro se enrole com uma mentira.
O rapaz gargalhou, e eu fiquei parada, esperando a explicação que viria a seguir.
— Você está certa. Não são meus... São da Sofia.
“Nossa, agora tudo está mais claro. Obrigada por esclarecer.” Pensei, com ironia.
— De quem? — Perguntei, já que obviamente não sabia de quem se tratava.
— Olha. — Ele disse, me mostrando a foto de uma menininha sorridente na tela de bloqueio de seu celular. — Essa é a Sofia, a mocinha vaidosa que me faz ter esmaltes e acessórios de cabelo no armário do banheiro. Ela é adorável, mas não somos casados. — O rapaz afirmou, ainda rindo e provando seu ponto.
— Ela é... sua filha? — Perguntei, envergonhada.
Ele assentiu com a cabeça.
— Ah, sim! — Eu ri também, cem por cento de nervoso. — Você é pai! Por que não disse antes? — Perguntei.
— Não tive a oportunidade — Ele riu. — E, sendo um cara solteiro numa boate, esse não costuma ser o tipo de informação sobre mim que mais interessa às mulheres. — O pai de Sofia disse, rindo meio sem jeito.
— Qual a idade dela? — Perguntei, realmente interessada.
Sempre amei crianças, não foi por acaso que já entrei na faculdade de medicina decidida a me especializar em pediatria.
— Ela acabou de completar 5 anos. No último dia 18!
Achei fofa a precisão na informação.
— E onde ela está? — Perguntei mais uma vez, me controlando para não parecer muito curiosa.
— Ela mora com a mãe, nos vemos duas vezes por mês. — Ele respirou fundo, colocando o celular de volta em cima da mesa. — Agora que já sabe que não estou traindo ninguém, posso te oferecer um café? — O rapaz perguntou, em seguida.
— Pode sim. Me desculpa por isso… — Falei, ainda envergonhada por tê-lo acusado.
— Não foi nada! Achei legal você se preocupar em não ser a responsável por estragar meu casamento hipotético. — Ele comentou.
— Jamais me perdoaria. — Comentei, rindo, enquanto ele esticava o braço, segurando a caneca mais uma vez.
— Açúcar? — O anfitrião ofereceu, e só então eu me dei conta de que não sabia o nome dele.
— Não, obrigada! Você me disse seu nome ontem, certo? Eu não consigo me lembrar. — Tentei soar o mais natural possível.
. . — O primeiro nome, tipicamente americano, tinha uma tonicidade especial na última sílaba, de forma que a sonoridade era hispânica e extremamente sexy. — Você não me conhece? — Ele perguntou, rindo da situação.
— Conheço, claro! Só tinha me esquecido... agora me lembrei. — Menti. Parecia a primeira vez que meus ouvidos escutavam aquela combinação de nomes. — Tudo bem se eu te perguntar com o que você trabalha? — Perguntei.
A questão estava na minha cabeça desde que percebi o tamanho da casa onde ele morava. “Só pode ser tráfico de drogas”, pensei.
Antes de me responder, riu mais uma vez:
— Sou goleiro do Atlético de Madrid. E da seleção de futebol da Espanha. Lá não sou o titular ainda, mas estamos trabalhando nisso.
Entendi então o porquê do “você não me conhece?”. E ri internamente mais uma vez pela enésima manota do dia. era famoso. Se eu o conhecesse, como disse que fazia, certamente não teria perguntado qual era sua ocupação. Simplesmente saberia.
— E você? O que faz? — Ele devolveu a pergunta.
— Sou médica. Residente em Pediatria.
— Você salva vidas... Que emocionante! — comentou, girando a caneca com a ponta dos dedos e se sentando em uma das cadeiras da cozinha, enquanto eu seguia de pé, um pouco distante.
— Para ser sincera, na maior parte do tempo, eu dou diagnóstico de virose para crianças com nariz escorrendo. A parte de salvar vidas fica para médicos mais velhos, estou apenas no primeiro ano. — Confessei, rindo, e ele riu de volta. — Mas não estou reclamando. Adoro meu trabalho, me faz muito feliz. — Fiz questão de explicar para que não houvesse um mal-entendido.
— Também adoro o meu. — Ele assentiu. — Esse é o segredo, não é? Trabalhar com o que se ama para que não sinta como um trabalho.
Assenti de volta, bebericando o café.
Mais alguns segundos depois, o goleiro ofereceu, caminhando em direção ao fogão:
— Vou fazer ovos mexidos para mim. Você aceita?
— Não. Obrigada! — Respondi.
— Tem panquecas também, se preferir. — Ele insistiu, e então eu fui quem ri.
— Você oferece café da manhã completo para todas as mulheres que dormem com você? — Perguntei.
Depois de alguns segundos refletindo sobre a pergunta, respondeu:
— Não! Só para aquelas que eventualmente ficam presas no meu jardim. — Ele riu. — E quando eu quero que elas voltem mais vezes. — completou, em tom galanteador, e eu levei um susto.
O clima na cozinha ficou meio pesado.
— Preciso ir. — Falei, deixando a xícara em uma das pontas da mesa.
— Espera, por quê? Você nem terminou seu café. — O rapaz perguntou, ficando de pé em seguida.
, eu... Olha, eu fico feliz por saber que você não é casado e que não dormi junto com um cara comprometido, porque eu me odiaria por isso! Mas a verdade é que eu não estou interessada em ter nada sério agora, porque eu não tenho tempo para isso. Seria até bom se tivesse, porque tivemos uma noite ótima e você é um cara legal, tenho certeza. Agradeço por ter me emprestado roupas secas e me dado café, mas a gente devia realmente encerrar por aqui. — Eu disse, tentando justificar, e riu mais uma vez, perguntando:
— Calma lá, quem está te pedindo algo sério?
Fiquei sem reação por alguns segundos.
— Se você gostou, qual o problema de repetir? Somos adultos, ! Não fizemos nada de errado. — Ele disse, em tom tranquilo, um pouco mais perto de mim.
— Sim! Eu sei. — Respondi, meio nervosa com a aproximação dele.
— Não ter tempo para se envolver não quer dizer que você não possa aproveitar o tempo que tem. — O tom dele agora era mais baixo, como se estivesse me contando um segredo, mesmo depois de ter dito com todas as letras que não estávamos fazendo nada de errado. — Se quiser repetir mais vezes, eu não vou te cobrar nada sério. Casual está ótimo para mim! — tinha um charme único no olhar, e, a cada palavra dele, eu me sentia perdendo um pouco da sensatez. Ele continuou: — Sem contar que... Bem, você é médica. Sabe dos benefícios. — O jogador riu. — Um pouco de serotonina e endorfina não podem fazer mal a ninguém.
— Você aplica essa metodologia no seu trabalho? — Perguntei, também rindo.
— É infalível.
Naquele momento, já estava perto de mim o suficiente para que o calor de seu corpo fizesse ser impossível não o desejar. Me rendi a um beijo extremamente lascivo, que despertou em mim um déjà-vu muito intenso. Foi como se, aos poucos, eu me lembrasse da noite anterior, que eu acabara de dizer que tinha sido ótima sem ter qualquer ideia. As lembranças em flash me fizessem querer mais de .
De fato, uma dose a mais de endorfina e serotonina não poderiam fazer mal.


Capítulo 02

Deixei que os beijos que ele sabiamente distribuía pelo meu pescoço me guiassem a uma direção completamente oposta da que eu tinha em mente minutos antes. Permiti que ele tocasse a barra da blusa que eu vestia, num claro gesto de reconhecimento, e me permiti sentir. Os beijos, os carinhos, a delicadeza do toque, que em tudo contrastava com o corpo másculo, repleto de tatuagens – as quais eu ainda não havia tido tempo de observar com calma.
Virei o pescoço na direção contrária à que ele buscava, apenas para facilitar o acesso ao que ele tanto desejava, e pude sentir a pele ser sugada e prendida entre os dentes. Deixei que ele adentrasse as mãos pela minha roupa, investindo em carícias por ali, ao mesmo tempo que seu próprio corpo investia contra o meu, me pressionando na parede e me prendendo ali de mais formas do que eu era capaz de entender.
Senti quando ele me ergueu, segurando meu corpo nos braços enquanto tentava invadir, sem muito sucesso, o decote do largo moletom que ele próprio tinha me emprestado. Estava confusa, tentando me entregar completamente às sensações que a boca dele, somada ao toque firme na minha coxa, provocavam; mas sem conseguir interromper o diálogo interno na minha mente me questionando o que estava acontecendo ali e todos os riscos envolvidos. A pressão causada pelos pensamentos fez com que eu afastasse o peitoral de sutilmente com a mão, sentindo meu rosto corar.
— O que houve, ? — O goleiro questionou, a boca avermelhada pelo excesso de trabalho imposto ao meu pescoço.
— Isso é tão... Não sei, estranho. — Respondi, arfando entre uma palavra e outra, tentando recuperar minha respiração.
— Alguém já te disse que você fica gostosa para un carajo vestida com roupa masculina e o cabelo molhado? Por Dios, eres la visión del paraíso. — Ele tentou desviar o assunto, tentando trazer o clima de segundos antes de volta, totalmente disposto a mais uma rodada do que quer que tenha acontecido na madrugada anterior.
era perigoso, no sentido mais delicioso da palavra. Aquele tipo que te faz perder a lucidez, num caminho sem volta.
— Você diz isso para todas ou só para aquelas com que você pretende transar na cozinha? — Brinquei, silenciando as vozes que me mandavam recuar.
— Funcionou? — Ele rebateu, gargalhando deliciosamente.
— Você vai ter que descobrir.
E eu não precisei repetir duas vezes. No minuto seguinte, eu já estava sendo colocada em cima da bancada da cozinha, ao mesmo tempo que, sem nem perceber, já tirava a parte de cima do moletom, que, quando foi ao chão, levou consigo a caneca de café que eu tomava um tempo antes.
Olhei para baixo, assustada com o barulho e preocupada por ter quebrado algo na casa do goleiro – eu não teria condições de ressarcir nada, se preciso fosse –, onde tudo parecia custar os olhos da cara.
— Desculpa. — Pedi, num susto.
— Ei, tranquila... ¡No pasa nada! — Ele disse, para me tranquilizar, gentilmente trazendo meu rosto de volta para si. — Cuido disso depois. Vem cá!
Senti me encarar vorazmente e permiti deixar a sensação de ser desejada consumir minha pele.
Afastei o tronco do dele, apenas para me apoiar contra a pedra fria da superfície onde fui colocada, ao mesmo tempo que jogava a cabeça para trás e deixava que ele dedicasse toda a sua atenção ao meu colo, agora completamente desnudo. Grunhi no exato instante em que sua boca entrou em contato com o bico do meu seio, deixando-o ainda mais intumescido.
Levei a mão, inconscientemente, na direção de seus cabelos e senti que sua dedicação aumentou à medida que aumentava o nosso prazer. Senti o exato instante em que ele prendeu o bico entre os dentes, antes de puxá-lo para si, me fazendo arfar em um misto de desejo e vergonha, por estar tão entregue a um mísero toque.
Reparei que, em resposta à minha entrega, se permitiu baixar o rosto pela minha barriga, deixando uma trilha úmida por todos os cantos onde passava, se ajoelhando aos meus pés. Respirei fundo enquanto ele tirava com suavidade a calça que eu tinha vestido apenas minutos antes, me levando a um lugar confuso.
Não que eu fosse pudica, repleta de pudores quando se tratava de sexo, mas aquele era um lugar ainda não conhecido, uma linha tênue entre a entrega completa e a entrega parcial, no qual qualquer passo em falso levaria a um fim trágico, provavelmente para o meu lado.
Tentei raciocinar mais uma vez em relação ao que estava acontecendo, mas perdi totalmente a noção de tempo e espaço quando a boca dele encontrou um ponto inchado entre minhas pernas, que clamava por atenção e carinho. Abri a boca na esperança de extravasar o que eu sentia com palavras, mas era incapaz de dizer qualquer coisa coerente ou miseramente compreensível naquele instante. Apenas levei minha mão de volta aos cabelos do goleiro e deixei que seu desejo me consumisse o quanto quisesse.
Viajei no tempo enquanto sentia flashes da noite anterior invadirem minha mente, aumentando ainda mais as sensações que aquele momento me causava. Temi machucá-lo com a força que prendia seus cabelos nas mãos, tentando aliviar as sensações que dominaram meu corpo, no segundo em que dois dedos me preencheram por inteiro, intercalando a atenção que me dava com os lábios.
Antes mesmo de entender o que acontecia naquele instante, meu corpo foi tomado por movimentos involuntários, uma espécie de rebolada, obrigando-o a encontrar todos os pontos que mereciam atenção. Baixei meu olhar na direção dele e o encontro que aquilo causou fez com que eu me dissolvesse em fumaça. Ouvi o som que o orgasmo me causou como uma mera espectadora, me deixando levar pela sensação de entrega que aquilo me causava.
— Acho que eu também tenho direito, não? — Ele tentou brincar, mas o desejo que gritava através de seus olhos falou muito mais alto do que qualquer palavra que poderia ser dita naquele instante.
Eu não me reconhecia.
O olhar lascivo, a boca brilhando com o resultado da minha excitação, o corpo exalando desejo eram exatamente o impulso que eu precisava para agir. Me afastei do material gelado da mesa, indo de encontro à boca dele, ao mesmo tempo que minhas mãos passeavam pelo tronco definido, caminhando em direção à barra da única peça de roupa que ele ainda vestia, querendo, o quanto antes, arrancá-la do caminho.
Acho que não fui muito sutil em meu avanço, visto que o jogador soltou um risinho baixo enquanto tentava segurar as minhas mãos.
— Preciso de um segundo. — Foi tudo o que ele disse antes de sumir pela porta da cozinha em disparada pela casa, me deixando nua em cima da bancada da ilha de sua luxuosa cozinha, sem entender muita coisa.
Bastou alguns segundos para que ele viesse novamente ao meu encontro, agora munido de um pacote de preservativo, que claramente chamou minha atenção.
— Um homem prevenido. — Foi tudo o que eu consegui responder antes de lhe atacar com desejo mais uma vez, como uma viciada, em abstinência do calor de segundos antes, causado por nossos corpos em estágio de ebulição.
Pensei em ajudá-lo com o preservativo, mas, antes que eu pudesse oferecer, ele estava pronto e eu só queria que aquilo acontecesse o quanto antes.
me puxou pelas coxas para que eu ficasse o mais próximo possível da borda ao mesmo tempo que levava novamente um dedo até a minha intimidade, apenas para constatar o que já devia estar claro em cada poro existente no meu corpo.
Eu queria aquilo tanto quanto ele.
E, assim, enquanto me olhava nos olhos, preencheu cada espaço que faltava, já entrando em uma sequência de movimentos ritmados, me fazendo fechar os olhos e arfar por tamanha intensidade.
Seria questão de tempo até que ele atingisse o ápice, e eu simplesmente sabia que o meu seria retardado em virtude do orgasmo recente, mas, de certa forma, me dava prazer senti-lo tão desarmado diante de mim.
Parecendo perceber minha inerência, levou uma das mãos – que antes apoiava na beirada da bancada – ao meu seio, acariciando-o e beliscando de leve, me fazendo delirar. Não satisfeito, com a outra mão, passou a estimular meu clitóris enquanto mantinha o vai e vem de seu corpo dentro do meu. Ele queria que fôssemos juntos, ou o mais próximo que pudéssemos juntos. Agradeci mentalmente por ter encontrado alguém que pensava no prazer dos dois e não apenas no seu próprio.
O formigamento na ponta dos dedos, o pé contorcido, a perna tremendo, o corpo suado e completamente entregue me fizeram perceber que eu chegaria, sim, ao segundo orgasmo. E muito mais rápido do que pensei que seria. Já estava quase lá e tinha plena ciência de que ele também, bastando assim uma remexida de quadril para ouvir um gemido incontido, que eu sabia ter vindo dele, em resposta ao que deveria ser um orgasmo muito bem recebido e aproveitado.
Deixei que ele repousasse a cabeça em meu colo enquanto tentava recuperar a própria respiração, aguardando o exato instante em que nos separaríamos em definitivo.
— Quer uma carona até em casa? — Ele ofereceu, algum tempo depois, enquanto se livrava do preservativo e vestia de novo sua única peça de roupa.
— Bom... Se não for te incomodar, eu gostaria sim. — Aceitei, também vestindo novamente o moletom que ele me emprestou.
seguiu até seu quarto para trocar a cueca de pijama por uma roupa casual e depois caminhamos até a garagem. Ele escolheu um entre os carros que estavam ali, e eu entrei logo depois dele. Fiquei meio tensa durante o percurso, depois de recuperar meu senso crítico, que havia sido intensamente entorpecido por , e repensar aquela conversa que tivemos de manhã.
— Você não vai me fazer assinar um termo de compromisso como o Christian Grey ou algo assim, vai? — Quebrei o silêncio, torcendo para que a semelhança entre os nomes, as casas, os carros chiques e as pegadas desconcertantes fossem as únicas coisas em comum entre os dois.
— Eu deveria? — perguntou, rindo, sem tirar os olhos da direção. — Não vou! Seremos amigos, . Amigos con derechos, só isso. E, se em algum momento não for mais conveniente para você, a gente pode parar. Sem ressentimentos. — O jogador explicou, dessa vez revezando o olhar entre mim e a rua por onde guiava o carro.
— Eu não entendo um cara como você propor uma amizade colorida comigo, sendo que pode escolher quem quiser e até revezar... Não faz sentido.
— Revezar? — Ele perguntou, rindo. — Quem disse isso para você?
— Sei lá. — Dei de ombros. — Na minha cabeça, todos os caras famosos são assim. Você não? — Perguntei e ele riu, sem graça, se justificando:
— Bom, eu... não tenho essa fama. Sigo o flow.
O encarei por alguns segundos, até que ele tirou os olhos da direção para me olhar de volta enquanto sorria. Meu coração disparou e, em meio segundo, desviei o olhar para frente para não ter que olhá-lo.
— Tudo bem se não tiver gostado da ideia, . Não quis te pressionar. Podemos esquecer isso. — Ele disse, parecendo preocupado com meu desconforto.
O que ele não sabia era que o desconforto era justamente por ter gostado – da ideia, e de outras coisas mais... –, mas não conseguir processar a informação.
— Mas eu não disse que não gostei. — Falei, sem nem pensar, temendo que o rapaz pudesse, subitamente, mudar de ideia.
Ele olhou de volta e riu mais uma vez.
— Acho que... podemos tentar. — Completei, soando um pouco menos esbaforida. — Ninguém precisa saber, né? — Perguntei, envergonhada com a possibilidade de alguém descobrir que eu estava envolvida em algo assim, mesmo sabendo que não era nada errado e nem era da vida de ninguém o que uma mulher adulta fazia de sua vida sexual.
— Não. Si lo ponen fácil, nos encontramos. Si preguntan, lo negamos. — Ele deu de ombros, convencido da resposta.
— Certo, eu topo! — Falei, de uma vez. — Mas me deixa pelo menos conhecer você um pouco melhor, vai. Não vou conseguir ser amiga con derechos de um cara que nem conheço direito.
— O que você quer saber?
O homem aproveitou a deixa para ligar o rádio e deixar o clima menos pesado. Aproveitei o gancho para perguntar alguma coisa, qualquer coisa, que pudesse me fazer sentir mais próxima daquele novo amigo:
— Hum... O que você gosta de ouvir?
respondeu, usando botões no próprio volante do carro para aumentar o volume. Uma música tocava, e o jogador pareceu se empolgar ao ouvi-la, pois começou a batucar seu volante no ritmo da canção:
— Ouço de tudo, mas esse é meu estilo favorito. Bachata.
Em outras palavras, música latina, romântica e melancólica, popular entre senhores de meia-idade.
¡Ay, no! — Exclamei, rindo.
— O quê? ¿A ti no te gusta? — Ele perguntou, rindo também e aumentando ainda mais o volume, me olhando mais uma vez enquanto eu gargalhava.
— Que cafona, ! — Comentei, já sentindo o clima mais leve à medida que o jogador dançava no ritmo da música. — Quem canta isso?
— Romeo Santos. — O goleiro respondeu, ainda envolvido com o ritmo da música, que, coincidentemente – ou não – mencionava uma proposta indecente, como aquele que ele acabara de me fazer. Ele cantava, e eu gargalhava pela performance.
— E você, gosta de ouvir o quê?
— Sou mais de música indie. Escuto reggaeton, às vezes. — Contei.
— Música indie? Reggaeton? E tem coragem de criticar minha bachata? — brincou, baixando o volume e rindo. Acabei rindo também.
Logo em seguida, fui interrompida pelo GPS, avisando termos chegado ao destino.
— É aqui mesmo? — Ele perguntou.
— Sim. Neste prédio aqui. — Apontei para que ele soubesse em que local parar. — Obrigada pela carona, . E obrigada pela roupa seca e aquecida. Vou lavar e te devolvo assim que der.
— Não se preocupe! Quando nos encontrarmos de novo, eu pego. — Ele sorriu. — Espero que não demore.
Enrubesci e acenei, me despedindo, para sair logo do carro.
? — Ele me chamou, abrindo a janela do veículo quando eu já estava alguns passos distante.
Me virei para trás, pensando ter esquecido algo, quando ele perguntou:
— Amigos?
Ri mais uma vez e concordei, acenando mais uma vez:
— Amigos!
Logo que ele saiu com o carro, voltei a caminhar em direção à entrada do prédio.
— Garota, por pouco eu não colocava a polícia atrás de você de verdade! Por que demorou tanto? Achei que o tatuado tinha feito você de escrava sexual. — Amanda disse, super empolgada, assim que abri a porta de entrada do apartamento. — Me conte logo tudo! — Ela pediu, me puxando para o sofá logo atrás.
— Bom, eu... Eu e ele... Foi... estranho.
— O que foi estranho? O sexo? Ele fode mal? — Amanda perguntou, com uma careta.
— Não, Mandy! Não mesmo... Ele é bom. — Respondi, tentando não me empolgar nos detalhes.
— O que foi estranho, então?
Esperei alguns segundos para decidir como diria aquilo a ela:
— Ele me propôs uma amizade con derechos e... eu aceitei! — Contei, como uma confissão.
Con derechos? Tipo fuck buddies? — Amanda perguntou, parecendo surpresa.
— Mandy! — Repreendi pelo termo, sem perceber que, afinal, era isso mesmo o que fora proposto. — Bom, na verdade, é mais ou menos isso mesmo. — Fui obrigada a concordar.
¡Ajá! Eu sempre soube que, embaixo desse seu disfarce de santinha, habitava uma menina má. — Ela riu, me deixando ainda mais sem graça.
— Idiota! Não fala assim. Eu aceitei meio no impulso, nem sei se vou conseguir fazer isso dar certo. — Respondi, sentindo a pele branca do meu rosto enrubescer mais uma vez e me sentindo obrigada a explicar a ela o amontoado de eventos que premeditaram a minha decisão, ainda naquela manhã.
— Tudo o que é combinado não tem como dar errado, . — Minha amiga falou, em tom sério, logo que terminei de explicar. — Se ele propôs pelo sexo e você topou pelo mesmo motivo... Já deu certo.
Eu logo avisei:
— Sim. Mas tente manter sua boca fechada, tá? Não quero fazer disso um evento.
— Sou um túmulo. — Minha amiga respondeu, beijando os dedos indicadores cruzados, em juramento.
— É bom mesmo!
Acabei rindo da reação dela.
— Vou trocar essa roupa emprestada antes que o Tatá a encha de pêlos. Já volto! — Falei, me levantando do sofá e seguindo até o meu quarto. — Por falar nisso, onde está ele? — Perguntei, ao observar que o bichano não estava lá como de costume.
Eu e Mandy tínhamos adotado Thalamus quando ele foi abandonado com mais outros quatro gatinhos filhotes no estacionamento do hospital onde trabalhávamos. Nem ponderamos muito o quanto ter um animal de estimação em meio a uma rotina tão intensa de plantões exigiria de nós, apenas não resistimos à sua carinha adorável, o levamos para casa e achamos que seria boa ideia nomeá-lo com a versão em latim do nome de uma estrutura neuroanatômica.
Apesar de super independente, Thalamus sempre foi um felino adorável, que adorava carinhos no pescoço, banhos de sol e subir nos armários e prateleiras do apartamento.
Seus irmãozinhos também foram adotados e, felizmente, todos passavam bem.
— Coloquei o arranhador dele na varanda. — Amanda respondeu, ainda na sala, e, logo depois de me trocar, eu fui até lá para encontrá-lo.
— Oi, pequenininho! Que saudade eu senti de você. — Falei, me abaixando, quando Thalamus me viu e começou a se enroscar na minha perna. — Mandy te serviu uma nova ração? Ou só sacudiu a antiga como sempre? — Perguntei ao gato, alto o suficiente para provocar minha amiga, que estava na sala logo ao lado.
— Thalamus, diga a que cuido muito bem de você quando ela resolve te trocar pelos gatos de duas pernas. — Amanda retrucou e rimos juntas. Coloquei o gatinho de volta ao chão e fui até a área de serviços para colocar a roupa que me emprestou na máquina de lavar.


Capítulo 03

Os dias foram passando rápido e, diferentemente do que imaginei, os encontros com estavam funcionando. Nenhum de nós dois queria algo além da cama, então era ótimo que pudéssemos passar uma noite (ou tarde, ou um pedaço da manhã) juntos e depois se despedir, sem ter toda aquela cobrança posterior ou ter que inventar justificativas ou desculpas para evitar um próximo encontro. Casual estava ótimo para nós.
No início, era ele quem fazia os convites, mas, com o passar do tempo, comecei a tomar a liberdade de também chamá-lo depois de um dia estressante no trabalho ou quando meu apartamento estava vazio; normalmente quando os dias de plantão da Amanda não coincidiam com os meus.
Outro ponto positivo daquele lance com era o fato dos encontros nunca ficarem monótonos porque ele sempre tinha algo novo a tentar. Sem contar que ter um parceiro fixo era muito mais seguro do que me aventurar com um homem diferente a cada vez que quisesse as tais doses extras de endorfina e serotonina; e, enquanto médica, aquela era uma preocupação real para mim.
Numa sexta-feira nublada, me vi despertar entre os lençóis de seda da cama do jogador mais uma vez, com uma claridade entrando por uma fresta da janela e deitado ao meu lado, com um dos braços por cima de mim, impedindo que eu me movesse para pegar o celular na mesa de cabeceira e olhar as horas.
?!
Não tive outra opção além de acordá-lo.
Assim que abriu os olhos, ainda meio confuso, recolheu o braço e se afastou na cama.
Apesar de estarmos frequentemente deitados juntos ali, acordarmos juntos não era comum. Eu sempre voltava para casa antes, mas, na noite do dia anterior, provavelmente o cansaço nos havia dominado e acabei dormindo por lá mesmo.
— Que horas são? — Perguntei, imaginando que fossem, no máximo, 9 ou 10 da manhã.
— Onze e dezessete. ¡Puta madre! O treino. — Ele falou, num susto, se levantando depois de conferir o horário no celular.
¡Mierda! Estou atrasada. — Falei, quase ao mesmo tempo, ficando de pé em um pulo e percebendo que, mais uma vez, minhas roupas tinham sumido. — Onde estão mesmo minhas coisas? — Perguntei, no desespero, cobrindo meu corpo com as mãos, meio envergonhada por estar nua na frente do rapaz, como se ele nunca tivesse tido essa visão anteriormente.
— Hum… No… corredor, eu acho!
Ele parecia igualmente constrangido e, para não me olhar, fingia procurar algo entre os lençóis.
— Vou procurar.
— Vou me vestir. — Eu disse, e ele saiu em direção ao seu closet. — Tchau! — Acenei de longe enquanto ele se calçava.
— Tchau, ! Bom trabalho.
— Obrigada, para você também! — Respondi e, antes de ir embora, perguntei: — Te vejo hoje à noite?
— Essa noite não dá. A gente combina outro dia. — disse, sem entrar em detalhes.
— Ok. Você me fala! Tchau. — Me despedi, peguei meu celular na mesinha de cabeceira e desci correndo pela escadaria da casa.
Desci do Uber num pulo e corri até o andar do meu apartamento. Troquei a roupa que vestia por uma mais comportada, que estivesse mais de acordo com meu ambiente de trabalho. Lavei o rosto, escovei os dentes e dei um jeito no cabelo. Peguei minha bolsa de instrumentos médicos e corri de volta para outro Uber, já sabendo que estava terrivelmente atrasada para a troca de plantão, que aconteceria às 12h.
Apesar do atraso considerável, era estranho que meu pager não tivesse tocado até então. Foi quando percebi que havia esquecido o pager. Não na minha casa, onde eu poderia passar e pegar na hora do almoço, mas sim na casa de , pendurada na alça da minha bolsa de mão, que, por acaso também fora deixada para trás.
Médicos atendentes esquecem seus pagers o tempo todo, mas, como eu era somente uma residente, meu superior fez questão de me lembrar o quão irresponsável tinha sido essa minha atitude. Prometi que não se repetiria e, assim que troquei de turno com a médica da noite às 19h, peguei o carro da Amanda emprestado e comecei a dirigir até a casa do goleiro para enfim recuperar meu pager.
No meio do caminho, me lembrei de quando ele disse que não poderia se encontrar comigo nesta noite e resolvi enviar uma mensagem para garantir que, no caso dele estar ausente, alguém ainda poderia me entregar minhas coisas ou pelo menos abrir a casa para que eu mesma pegasse.
“Estou em casa, pode vir”
Foi o que ele respondeu.
O porteiro abriu o portão para que eu parasse o carro na garagem e, como ninguém apareceu, segui em direção ao interior da mansão de Castillo. Depois de ouvir o som distante da risada do rapaz, pedi licença para subir.
— Pode vir, ! Estou aqui em cima.
O som da risada dele se misturou ao som de uma risada infantil e, ao juntar as peças, tudo fez sentido.
Não havia concentração ou viagem, somente não poderíamos nos ver neste dia porque era o final de semana dele com a filha.
— Se quiser trazer a bolsa para mim aqui embaixo, já estou de saída. — Falei, ainda do andar inferior, não querendo atrapalhar nada.
No pasa nada, venha cá! — O jogador disse seguramente.
Subi as escadas meio envergonhada, torcendo para que Sofia fosse novinha demais para entender o porquê de minha bolsa ter ficado na casa do pai dela.
— Boa noite! — Acenei assim que encontrei os dois na sala da casa em cima de um tapete de Twister. caiu da posição bizarra na qual estava posando assim que cheguei. Sofia caiu na gargalhada e logo saiu de sua posição também.
— Boa noite, como vai? — Ele ficou de pé para me cumprimentar e disse, colocando Sofia na minha frente: — Diga oi à amiga do papai, cariño.
¡Hola, hermosa! — Eu disse, me abaixando para receber um abraço assim que ela me cumprimentou com um 'hola' tímido.
Sofia era uma cópia fiel de , exceto pelo tom de pele mais claro e a cor loira dos cabelos. Os olhos negros, que, de tão escuros, se camuflavam entre íris e pupila, eram idênticos aos do pai e tão expressivos quanto os dele. Uma criança linda.
¿Cómo te llamas? — Ela perguntou, me observando com curiosidade.
. ¿Y tú? — Fingi não saber exatamente a resposta, e ela respondeu com simpatia:
— Sofia.
— Como Sofia, a princesinha da Disney? — Perguntei, e ela assentiu, sorrindo envergonhada e segurando as duas mãos do pai à frente do rosto. — ¡Qué bonito nombre!
Indaguei, dessa vez a , já ficando de pé e planejando sair logo dali para não atrapalhar o momento pai e filha:
— Onde está a minha...?
— Está no... Pues, vou pegar para você. — O rapaz disse, parecendo envergonhado em dizer na frente da filha que minha bolsa estava em seu quarto.
— Tudo bem. — Falei enquanto ele caminhava em direção ao corredor. Sofia continuou parada na sala, me observando com certa dúvida. — Quem estava ganhando o jogo? — Perguntei, me apoiando no braço do sofá.
— Eu. Papai nunca vence nesse jogo, porque sou muito flexível! — Sofia se gabou, perdendo aos poucos a timidez.
— Flexibilidade ajuda bastante, né?
— Sim! Olha o que consigo fazer. — A pequena disse, se afastando um pouco e fazendo uma abertura com as pernas no meio da sala.
— Olha só! Onde você aprendeu isso? — Continuei querendo puxar assunto.
— Eu faço aulas de balé, equitação e natação. — Sofia contou, ainda na pose.
— Uau! Você é uma atleta. Deve ser mesmo muito difícil ganhar de você no Twister. — Comentei.
— Eu também consigo colocar meus pés na cabeça, quer ver? — Talvez ela estivesse perdendo a timidez, mas não tão aos poucos quanto pensei.
— Com certeza, me mostre.
E, então, ela deitou de barriga para baixo e, com um mínimo esforço, dobrou o corpo de forma que a pontinha dos pés encostasse na cabeça.
— Sabe o que eu sei fazer? — Perguntei, e ela negou com a cabeça. — Consigo colocar a ponta da língua no nariz, olha só.
Sofia caiu na gargalhada logo que demonstrei minha única habilidade flexível.
— Aqui está sua bolsa, ! — apareceu na sala segurando minha bolsa.
— Muito obrigada. — Agradeci. Logo em seguida, Sofia perguntou o que era o objeto pendurado na alça da bolsa:
— O que é isso?
— Isso é um pager. Eu sou médica, então sempre que algum paciente precisa de mim no hospital, eu recebo uma mensagem nessa tela e sei exatamente onde a pessoa está. Aí posso ir até ele e ajudar. Legal, né? — Expliquei, agachada em sua altura, mostrando a ela como funciona o pager.
— Você é médica? — Sofia quis saber, enquanto seu pai nos observava.
— Sou sim.
— Ah! Papai estava doente e você veio ajudá-lo. — Ela concluiu, com tanta espontaneidade e convicção que precisamos de esforço para não rir.
— Sim, querida. Mas já está tudo bem comigo agora! — respondeu, pegando a filha no colo.
— Bom, acho que é hora de ir. Obrigada por tê-la guardado para mim, ! — Falei, em tom de despedida, me levantando e apontando para minha bolsa. — Tchau, lindinha. — Me despedi de Sofia e, antes que pudesse me virar para sair, a ouvi chamar:
!?
¿Sí? — Respondi.
¿Por qué no te quedas un rato más para jugar Twister con nosotros? — Ela pediu de uma forma fofa. Olhei para na hora e ele parecia surpreso, sem saber o que dizer.
— Não incomode a , amor. Ela certamente tem muito trabalho para fazer no hospital!
As palavras finalmente saíram da boca do rapaz, que concluiu a frase apesar de alguns engasgos.
Observei sua expressão tensa e, logo em seguida, a face esperançosa de Sofia, que perguntou para ter certeza:
— Você tem?
E eu não consegui mentir.
— Na verdade, acho que tenho tempo suficiente para uma partida de Twister antes de ir.— Respondi à pequena, que bateu as mãos em comemoração, se esforçando para sair do colo do pai.
— Então, vamos logo! Vamos, papai, você começa com a roleta.


Capítulo 04

Entre cores e partes do corpo, fui a primeira a cair e a sair do jogo todas as vezes até o fim da rodada. também não se mostrou o melhor dos contorcionistas e Sofia sempre era a campeã.
O clima descontraído do jogo e a leveza de ter uma criança no ambiente deram a mim e um pouco mais de intimidade.
Era impossível evitar que nossos corpos estivessem em contato – nas posições mais bizarras possíveis – durante o jogo, então nos restava apenas rir e tentar não cair.
— Sofi, eu adorei brincar com você, mas agora preciso ir de verdade. — Falei, depois de assisti-la vencendo o pai em mais uma rodada.
— Ah não! — Ela reclamou, cruzando os braços e fazendo com a boca um adorável bico.
— Filha, você também não vai poder brincar por mais tempo... Já é hora de dormir! A volta outro dia para brincar mais com você! — O pai disse com carinho à filha, que não pareceu muito satisfeita com a ideia.
— Você promete? — Ela o encarou, esticando o dedo mindinho para que o pai fizesse uma promessa.
— Sim, prometo. Agora vamos, vou colocar você na cama. — Ele disse, sem dar muita atenção à promessa que acabara de fazer.
— A pode me colocar na cama? — Sofia pediu espontaneamente. Menos de duas horas desde que nos conhecemos e aparentemente já éramos melhores amigas.
Crianças são criaturinhas preciosas, e meus chefes sempre diziam que eu tinha esse efeito de amizade instantânea nelas. Viviam me chamando no hospital para ajudar a conter as crianças durante exames e medicação. Eu e elas simplesmente nos entendemos.
riu e me olhou, parecendo confuso, enquanto secava com a gola da blusa de malha alguns pingos de suor que se formaram em sua testa depois da maratona de contorcionismo.
— Se estiver tudo bem por ela...
— Está tudo bem por você, ? — Sofia repetiu a pergunta, e eu ri mais uma vez.
— Tudo bem, querida. Onde fica seu quarto? — Perguntei, e Sofia me pegou pela mão para me levar até lá.
Adentramos o longo corredor, que também dava acesso ao quarto de e, em vez de seguir todo o caminho até a última porta, como eu já estava acostumada, Sofia abriu a segunda porta do corredor e entrou comigo em seu lindo quarto de princesa, impecavelmente arrumado e decorado.
Um lindo papel de parede floral em tons pastéis de amarelo e rosa cobriam as paredes do quarto, que tinha uma cama de casal no centro entre duas mesas de cabeceira em madeira branca, mesmo material da escrivaninha e das prateleiras cheias de bichinhos de pelúcia. Eles davam um toque mais infantil ao quarto de Sofia.
A pequena foi até o banheiro de sua suíte para escovar os dentes e vestir seu pijama. Depois, enquanto escolhia um livro na prateleira para que eu lesse, apareceu na porta segurando um copo infantil com duas alças laterais.
— Aqui está seu leite, Sofi. Estarei no quarto ao lado, caso precisem de mim.
— Boa noite, papai. — Ela disse, abraçando o pai após pegar seu copo de leite. — É leite rosa. Quer? Tem gosto de fresa. — Sofia me ofereceu, chegando mais perto da cama e a escalando para subir. Dei uma ajudinha, por causa da altura, enquanto respondia:
— Não quero, docinho. Obrigada!
— Eu vou fechar meus olhos, mas estou ouvindo, tá? — Sofi disse, com seu jeitinho fofo, se aconchegado em sua cama gigante e segurando as duas alças do seu copo de leite.
— Tudo bem! A história se chama “El ciempiés bailarín”.
Poucas páginas depois, o sono tomou conta do corpinho de Sofia. Após colocar o livro sobre a mesa de cabeceira, tirei o copo já vazio de suas mãos e o repousei sobre o mesmo móvel. Apaguei a luz do abajur e saí do quarto com cuidado para não fazer nenhum barulho, me encontrando com no corredor.
— Ela já dormiu? — Ele perguntou, me dando um susto sem querer, o qual disfarcei muito bem.
— Sim. Logo no comecinho do livro! Acho que ela estava bem cansada. — Contei, rindo. — , queria aproveitar e pedir desculpas por ter aparecido aqui desse jeito hoje. Você tinha dito que não podia me ver e eu não deveria ter vindo. Não sei se você preferia que Sofia não soubesse de mim... Desculpa se estraguei algo me apresentando a ela assim. — Mudei a expressão e falei tudo francamente.
— Imagina, ! Não por isso... Fique tranquila. Por mim não tem nenhum problema que vocês se conheçam. — Ele me tranquilizou. — Sofia é uma criança que adora companhia. Como aqui em casa somos quase sempre só nós dois, ela fica encantada quando uma terceira pessoa aparece! — Ele riu. — Especialmente quando é alguém tão bom com crianças quanto você!
— Ah, obrigada! Ela é uma criança adorável. — Comentei, sorrindo.
— Vou descer para comer algo, quer vir? — perguntou, apontando para a escada que dava acesso ao andar de baixo, onde ficava a cozinha.
— Na verdade, eu já estava indo para casa.
— Não precisa ter medo, eu só coloquei fogo na cozinha 3 vezes... esse ano! — O goleiro brincou, me arrancando uma risadinha. — É brincadeira. Não seja modesta! Vamos… — Ele chamou.
Desci os degraus atrás dele, muito tentada a aceitar o convite, porque não comia nada desde a hora do almoço.
— O que você gosta de comer? — Ele quis saber, tirando alguns ingredientes da geladeira.
— Er... Qualquer coisa que não tenha azeitonas. — Falei, observando o pote de vidro cheio de azeitonas. Essa era realmente minha única restrição alimentar.
— Você não gosta de azeitonas? Que absurdo! — disse, agora retirando dois pratos do armário da cozinha.
— Eu as odeio! — Contei. Não entrava na minha cabeça que alguém pudesse gostar do sabor de azeitonas por livre e espontânea vontade.
— Não vou levar para o lado pessoal dessa vez, tá? Faço seu sanduíche sem elas.
Ele riu e eu ri de volta.
— Quer ajuda com algo? — Perguntei, me aproximando do balcão.
— Hum... não precisa! Na verdade, se quiser guardar essa lata de Nesquik no lugar, fica nesse armário aí em cima do micro-ondas. — indicou com as mãos.
— É o leite rosa da Sofia? — Perguntei, quando bati o olho no rótulo.
— Isso! — Ele riu. — Ela é apaixonada por esse negócio. Eu tento evitar que ela tome tanto açúcar assim, principalmente antes de dormir, sei que faz mal... Mas na casa da mãe ela não pode tomar, então aqui eu deixo. — concluiu, dando de ombros.
— Se é algo que a deixa feliz e cria um vínculo entre vocês, não faz tão mal assim. Especialmente se é só de vez em quando, como quando ela está aqui... Acaba equilibrando. — Respondi, guardando a lata onde ele pediu e varrendo com a mão um restinho de pó rosa que tinha sobrado em cima da bancada, em que ele provavelmente preparou a bebida da filha.
— A paternidade é uma eterna busca por esse equilíbrio, em todos os aspectos. — Ele riu. — Quando tiver filhos, você vai entender. — disse, naturalmente, preparando os sanduíches.
— Bom... Acho que não vou entender, então. — Comentei, rindo sem graça.
— Como assim? Você não pode ter filhos? — Ele perguntou, no susto.
— Posso! Eu só não quero. — Respondi tranquilamente.
— Ma-Mas... você é pediatra, você ama crianças! — gaguejou, inconformado.
— Pois é! Tenho “filhos” o suficiente no consultório. — Brinquei, e ele ficou alguns segundos em silêncio, parecendo indignado.
Foi quando perguntei, ainda rindo da situação:
— Você está me julgando, né?
As pessoas costumam ficar em choque quando alguma mulher diz não querer ser mãe, como se isso fosse algum tipo de pecado ou desrespeito com as que querem ser mães e não podem. Eu já estava preparada para ouvir, pela milésima vez na vida, que “um dia o seu corpo vai pedir por isso e você vai ceder” ou que “é a natureza humana”, quando disse:
— Não! Sem julgamento algum. Só fiquei surpreso, se tratando de você. Conseguia te imaginar nitidamente sendo mãe, pelo jeito que cuidou da Sofia hoje. — Ele explicou seu ponto de vista.
— Eu realmente amo crianças, mas ter uma minha está fora dos planos! — Contei.
— E o que está nos seus planos? — Ele perguntou, me entregando um prato com sanduíche e um copo de suco.
— Me aperfeiçoar mais e mais no meu trabalho! Quando terminar a residência de pediatria, vou começar a especialização em oncologia. Tenho o sonho de abrir o primeiro centro oncológico infantil de Madrid e poder ajudar o máximo de crianças com câncer que eu puder. Em Valência, existe um centro oncológico ótimo, mas ainda não existe um lugar dedicado só à oncologia pediátrica aqui na Espanha, e eu acho que faz muita falta. — Contei, antes de morder o sanduíche pela primeira vez.
— Me parece uma ótima ideia!
— Obrigada. Ainda tenho um longo caminho pela frente, esse é só o meu primeiro ano na residência. — Expliquei. — E você? O que tem de planos para o futuro?
— Bom, eu... Antes de encerrar a carreira, eu quero já ter sido convocado para a Copa do Mundo, ter ganhado a titularidade no gol da Espanha e também uma Champions League pelo Atleti. Nesse meio tempo, ainda quero dar um irmãozinho para a Sofi e um dia trazê-la para morar comigo.
— É um bom plano! — Comentei, rindo. — Embora toda a parte sobre futebol tenha soado como árabe para mim.
Ele riu.
— Você não gosta de futebol? Ou só não acompanha?
— Só não acompanho. Meu pai sempre foi obcecado por futebol e, quando criança, cheguei a pedir para ele me levar junto para o estádio, mas ele nunca me deu muita abertura para participar desse meio. Dizia que era ‘coisa de homem’, como se algo assim existisse... — Desabafei, revirando os olhos. — E aí acabei desistindo. Hoje em dia acho que é tarde demais para começar, então nem tento!
— Eu entendo. Era coisa da época, né? Hoje em dia é melhor um pouco. Eu, pelo menos, falo sempre para a minha filha que isso não existe, que ela pode fazer qualquer coisa... Odiaria se ela deixasse de fazer algo que tem vontade por um conceito bobo desses. Ela adora jogar futebol comigo! — Ele disse, e eu sorri.
— Deve ser difícil, né? Passar tanto tempo longe dela... — Falei, depois de alguns longos segundos em silêncio. — Dá para ver que vocês dois são muito apegados. — Voltei no assunto sobre a Sofia.
— É! É difícil sim, mas por enquanto é o melhor para ela! Minha rotina é muito instável por causa do futebol e sei que ela é bem cuidada pela mãe, então tudo bem.
sorriu com conformidade, embora não parecesse 100% convicto do que dizia.
— Como você faz quando tem um compromisso no seu final de semana ou... Desculpa pela curiosidade, é que meus pais também são separados, mas quando eu era criança, passava quinze dias na casa de cada um. Dois finais de semana por mês não são muito pouco?
— Não precisa se desculpar, está tudo bem! Meus pais vivem em Guadalajara, a cidade onde nasci. Fica a uma hora daqui. Quando não posso ficar com Sofia no meu final de semana, ou minha mãe vem de lá para ficar com a Sofi aqui em casa, ou leva a Sofia para lá. Acontece mais do que você imagina, já que a mãe dela não concorda em flexibilizar os finais de semana de acordo com minha agenda. — O goleiro explicou enquanto bebericava seu suco.
— Você se separou há muito tempo? — Continuei com o que estava parecendo ser um interrogatório, apesar de não ser essa a intenção. De repente, estava muito curiosa sobre a vida de pai do .
— Eu nunca me casei com a mãe da Sofia, na verdade. A gravidez dela não foi planejada ou algo assim... Ela apareceu grávida um dia e disse que o bebê era meu. Tivemos algo casual e as datas batiam, então eu sabia que a possibilidade era real. Fizemos os exames, ainda durante a gravidez, só para ter certeza e confirmamos que o bebê era meu, então abracei a ideia. O momento não era o ideal, mas o que a vida sabe sobre respeitar os momentos que a gente planeja, né? — Ele disse, e eu concordei.
— E vocês se dão bem hoje em dia? Digo, você e a mãe dela... — Fiz mais uma pergunta.
— Bom, a gente conversa o que precisa, pela Sofia, mas nada além disso. A Veronica é uma pessoa meio difícil. Quando descobriu a gravidez, quis de qualquer maneira que ficássemos juntos, mesmo eu tendo deixado claro que não era o que eu queria. Falei que faria minhas obrigações de pai e que ajudaria no que ela precisasse para o bebê, mas que não tinha motivo para ficarmos juntos. Aí ela “aceitou” — Ele fez aspas com os dedos —, só que logo começou a dizer que a casa onde ela morava com os pais era pequena e tinha muita poeira, que isso não seria bom para o bebê etc. Como se eu fosse dizer “sim, é verdade. venha morar na minha casa!”.
Ele riu e continuou:
— Comprei um apartamento para ela e deixei montar como quisesse. A localização é ótima e elas moram lá até hoje, mas, assim que a Sofi nasceu, ela passou a reclamar que não se sentia segura levando o bebê de metrô para os lugares e que precisava de um carro. E é justo, eu dei. Mas, desde então, é assim... Ela sabe que Sofia é meu ponto fraco e que tudo que for melhor pra ela, vai ser o que eu vou fazer. Então, usa isso para conseguir as coisas! Eu evito render conversa com ela por causa disso, mas hoje em dia ela já até pede diretamente a Sofi para me pedir as coisas, como se eu não fosse achar estranho uma criança de 5 anos querendo uma Smart TV de 72 polegadas e um ar-condicionado como presente de Natal.
— Não acredito! Que loucura. — Comentei, rindo da parte dos presentes de Natal.
— E sobre a guarda, foi decisão do juiz! Se dependesse de mim, faríamos uma semana com cada, ou metade do mês com cada um... mas Veronica nunca facilitou as coisas para mim e, na época, o advogado dela até me convenceu de que a proporção atual seria melhor para Sofia, para que ela tivesse uma casa como referência e uma rotina, que seria importante para ela e que eu não conseguiria proporcionar devido ao meu trabalho. — suspirou. — Só quero o melhor para ela, sabe? Por isso cedi.
Suspirei também. Pais galãs sempre foram meu ponto fraco, eu podia dizer por todas as vezes que me deparei com um no consultório do hospital.
Terminamos nossos sanduíches, e eu me despedi dele ainda na cozinha antes de voltar para minha casa, três horas mais tarde do que o esperado, agora admirando meu amigo con derechos muito mais do que antes.


Capítulo 05

— Alô? — Atendi o celular de dentro do consultório mesmo, já que a espera do hospital estava vazia por algum tipo de milagre e eu não tinha mini pacientes para atender de imediato.
— Oi, ! Tudo bem? — Reconheci a voz de e percebi que não tinha lido o nome do chamador antes de atender.
— Oi, ! Tudo sim, e com você? — Perguntei, segurando o celular entre o ombro e a cabeça, para deixar minhas mãos livres o suficiente para fazer rabiscos nos papéis de rascunho que ficavam em cima da minha mesa. — Essa noite eu tenho plantão, mas a gente pode combinar amanhã, se quiser. — Falei, achando que poderia prever o assunto da ligação, já que nossos contatos costumavam se resumir a esse tipo de combinado.
— Não, na verdade não foi para isso que liguei. — Ele falou, meio sem jeito, do outro lado da linha. — Estava pensando sobre o que a gente conversou noutro dia, sobre futebol. Acho que nunca é tarde para conhecer e começar a gostar do esporte, e tenho um ingresso a mais para a partida contra o Getafe no sábado! Sofia vai estar comigo e minha mãe vai vir para levá-la ao estádio. Que tal se você for com as duas? — Ele perguntou, e eu soltei a caneta em cima da mesa num susto.
Éramos amigos de cama, como assim de repente ele já queria que eu conhecesse a mãe dele?
— Uau, ... É um convite e tanto. Eu nem sei como agradecer. Acho que é... Não sei se é uma boa, eu realmente não faço ideia do que acontece dentro do gramado, talvez tenha outra pessoa que você possa levar que vai aproveitar mais a oportunidade. Não? — Tentei explicar, gaguejando.
— Eu ganho ingressos para todos os jogos, . Não vai ser esforço nenhum, só achei que seria legal para você conhecer, sentir a energia. — Ele explicou. — Além do mais, os ingressos são do camarote. Se a partida estiver péssima, pelo menos lá tem comida e wi-fi.
Ele riu, e eu ri de volta.
— Vamos! Você deve isso a de alguns anos atrás, que queria conhecer um estádio de futebol e não pôde.
— Certo. Eu topo! — Concordei, no impulso.
— Ótimo. Vou buscar a Sofia depois da escola na sexta e minha mãe vem de Guadalajara no sábado de manhã. A gente combina qual o melhor horário para vocês se encontrarem!
— Tá bom. A gente se fala! Obrigada pela lembrança.
— Não tem de quê. Nos falamos! Tchau.
— Tchau.
Desliguei o telefone, não acreditando no que acabara de fazer.
— Amanda, você não acredita no que eu fiz. — Corri até o consultório da ortopedia e falei, assim que vi a sala vazia.
— Lá vem. — Ela se preparou para receber a notícia, fechando algumas abas no computador para prestar atenção em mim.
De onde eu estava, conseguia olhar para a espera da pediatria e garantir que não estava deixando nenhum paciente esperando enquanto fofocava com minha amiga.
me chamou para assistir a uma partida dele no estádio.... E eu aceitei! Estou ultrapassando os limites da amizade con derechos?
— Uou! Como assim? — Ela pareceu não entender.
— Eu comentei com ele que queria ter ido ao estádio quando era pequena, mas meu pai achava que não era coisa de menina e nunca me levou. Aí hoje ele veio com essa ideia e pareceu tão legal, sei lá… — Contei.
— Você já até desabafou sobre traumas de infância com ele, está preocupada com o quê? — Ela riu.
— Não foi um desabafo. Surgiu o assunto e eu… — Gaguejei de novo enquanto olhava mais uma vez para a sala de espera da pediatria, ainda vazia.
, eu acho que a amizade é de vocês e os derechos também são. — Ela me interrompeu e gesticulou. — Você pode fazer o que quiser, contanto que esteja bom para os dois e não tenha cobrança.
— Certo! — Assenti, captando a ideia.
— Não tem nada de mais também se quiserem deixar de ser somente amigos... Vocês estão se conhecendo, qual o problema?
Pensei por alguns segundos e respondi:
— Não, amiga! Ele não quer nada sério, e eu também não... Vai ver ele chama todas as amigas de cama dele para suas partidas de futebol e eu estou me emocionando a toa.
Amanda deu de ombros.
— O que teve de interessante aí hoje? — Mudei de assunto, dando mais uma conferida na sala de espera.
— Vem ver isso! — Ela chamou e me aproximei dela, diante da tela de computador do consultório. — Homem contra cavalo, o cavalo ganhou.
— Céus! Como esse pé foi parar aí? — Perguntei, meio chocada, observando a radiografia.
— Ele é profissional de hipismo, estava praticando saltos e caiu do alto do cavalo. Imagine... 90kg desabando do alto de um cavalo em alta velocidade por cima da articulação. Foi assim.
Simulei um tremor corporal como quem tem agonia a qualquer bizarrice ortopédica dessas pelas quais Amanda era deslumbrada.
— E você com os mini pacientes? — Ela perguntou, e eu corri para a porta para checar minha sala de espera mais uma vez.
— Admiti um pequenininho com uma massa abdominal hoje e encaminhei para a oncologia. Estamos esperando o resultado da biópsia, mas o paciente é tão fofo… — Contei.
Aquele caso em especial tinha mexido muito comigo no dia. Eu odiava todas as suspeitas de tumores nas crianças e celebrava com uma emoção muito verdadeira cada biópsia que apontava um tumor benigno. Em outras palavras, uma massa não-cancerosa que costuma ser mais fácil de remover e não precisa de tratamento com quimioterapia.
— Você diz isso de todos eles. — Amanda disse, sorrindo.
— Mas esse foi especial, não sei explicar o porquê. — Comentei. — Ele se chama Mateo. Não queria que eu o internasse porque tinha uma festa de aniversário de um coleguinha hoje à noite e o tema seria Star Wars. Ele ama Star Wars. — Contei.
— Pobrezinho! — Mandy respondeu.
— Sim... Espero que fique tudo bem. — Falei e, numa última checagem na sala de espera, vi um paciente se aproximando junto com um adulto. — Tenho um paciente! Preciso ir.
— Vai lá! Até mais.
— Até.
Nos despedimos, e eu voltei para o consultório para dar sequência aos atendimentos.
Mais tarde naquele dia, antes de adormecer no quarto coletivo do hospital, mandei mensagem para confirmando que estava dentro dos planos para o jogo no sábado. Já aproveitei e fiz o procedimento necessário para estender meu plantão seguinte por mais 12h para que o dia de folga caísse justamente no sábado.
Tudo estava combinado com . Sua mãe, que já estava com Sofia, iria me buscar de carro no meu apartamento duas horas antes da partida e, de lá, seguiríamos direto para o estádio. Ela tinha minhas entradas e eu não precisaria levar nada além do que quisesse levar, ele disse.
¡Hola! — Cumprimentei a senhora ao volante logo que abri a porta do carona.
— Oi, , boa tarde! Como está? Fique à vontade.
A mãe dele era mais nova do que eu, imaginei que seria quando comentou ser o caçula entre seus três irmãos.
— Tudo bem, e com a senhora?
¡Estupendo!
Ela estava vestida em uma blusa vermelha de cetim, uma jaqueta jeans azul e calça branca. Olhei para trás, já procurando por Sofia, que estava sentada sobre sua cadeirinha de elevação e fingia estar dormindo.
As roupas dela tinham as mesmas cores que as da avó: a camisa era vermelha e tinha o escudo do Atlético de Madrid do lado esquerdo. Ela vestia saia, meias três-quarto brancas e um all star da mesma cor da camisa. O azul estava nos laços, um de cada lado das marias-chiquinhas, que prendiam seu cabelo. Por um minuto, me perguntei se havia esquecido de mencionar sobre o dress code do evento. Eu estava de verde.
— Oh! Sofia está dormindo? — Perguntei, piscando para a avó, que acabara de acelerar o carro de .
— Como pode? Ela estava acordada e cantando agora mesmo. — A mãe do goleiro entrou na brincadeira, observando a neta pelo retrovisor.
— Bom, eu trouxe pirulitos de morango para ela, mas acho que eu e você vamos ter que comer sozinhas, já que ela dormiu. — Brinquei e, também a observando pelo retrovisor, vi seus olhinhos se abrirem instantaneamente. — ¡Ajá! Pega no flagra! — Falei, rindo e fazendo-a rir. — Como você está, lindinha? Aqui está o pirulito que trouxe para você.
— Como se diz, Sofi? — A avó chamou a atenção, e Sofia disse:
¡Gracias!
— Tem um para a senhora também. Aceita? — Ofereci, tirando outro pirulito da bolsa.
— Aceito sim. Muito obrigada, querida.
Ela pegou o doce, e logo percebi que não havia sido informada do nome dela, apenas de que ela iria me acompanhar naquela aventura.
— Qual é mesmo o seu nome? — Perguntei.
— É Abu Lu! — Sofia respondeu pela avó, e nós duas rimos.
— Esse não é meu nome, cariño. É a forma como você e meus outros netos me chamam. Meu nome é Lucia Helena. Mas “Lu” está de bom tamanho. E sem “senhora”, por favor. — Abu Lu disse, sorrindo, e eu assenti.
Fomos nos aproximando do estádio e foi fácil perceber, à medida que a concentração de pessoas vestidas no dress code azul-vermelho-e-branco começou a aumentar.
Lucia parou o carro num estacionamento interno e desci junto com ela. Ficamos esperando a Sofia descer, e, só depois de esperar por algum tempo, a avó se lembrou de um detalhe e disse, rindo:
— Oh, coitadinha! Eu me esqueço que as portas de trás desse carro não abrem por dentro.
Foi até a porta traseira e abriu para que a neta saísse.
— Vovó sempre me esquece dentro do carro. — Sofi resmungou, saindo de dentro do veículo.
— Eu não te esqueço dentro dele, cariño. Seu pai é que ativa essa trava de segurança toda vez e eu me esqueço! Mas você sempre sai logo depois que me lembro.
A avó ainda estava rindo da situação, e eu não pude evitar rir também.
— Não tem necessidade dessa trava. Ainda mais nas duas portas.... Ela já é uma mocinha! é meio exagerado às vezes. — A abuela de Sofia me contou, pegando a mão da neta e andando conosco em direção à entrada do estádio.
Logo em seguida, Lucia me entregou um cartãozinho que eu deveria inserir em uma máquina para liberar a catraca.
Subimos algumas escadas em direção ao camarote e, quando entramos, me senti num salão de festas.
Tinham aperitivos, mesas espalhadas numa área interna com ar-condicionado e uma arquibancada do lado de fora.
Sofia e Lucia estavam se sentindo em casa, não pareciam nem um pouco intimidadas com a sofisticação daquele lugar. Cumprimentaram algumas pessoas e eu fui atrás, acenando discretamente.
— Está quase na hora da música do papai, Sofi! — A avó disse, quando os jogadores estavam entrando em campo.
Sofia, que estava correndo de um lado para o outro com algumas outras crianças que estavam lá também, logo veio em nossa direção.
Fiquei sem entender o que elas queriam dizer com “música do papai”, mas fiquei quieta. Logo em seguida, cantaram o hino nacional e depois a tal música, que então fui entender que era um cântico que a torcida do Atlético havia feito em homenagem a .
Sofia cantava a música, pulando de tanta empolgação. Sabia cada palavra e percebi que a avó também, já que dublava a música enquanto filmava a neta.
Fiquei arrepiada com a homenagem, mesmo sem entender muito bem.
A partida começou, e o time de ganhou sem sofrer gols. Ele fez algumas defesas espetaculares e eu sabia disso porque, em cada uma delas, a torcida, que estava em maioria no estádio, vibrava como se houvesse sido um gol do time deles.
Sofia não assistiu por muito tempo, preferiu brincar com seus amiguinhos e jogar jogos no iPad. Quase pedi para me juntar a ela nas brincadeiras, porque a partida de futebol até parecia legal, mas 90 minutos era tempo demais.
Ao final do jogo, voltamos ao carro e ficamos esperando por lá dentro. A espera durou quase uma hora, mas quando ele entrou no carro com os cabelos molhados, já vestindo roupas casuais e trazendo uma mochila nas costas, o cheiro de banho tomado era tão bom que justificava toda a demora.
— Olá, meninas! — Ele disse ao se assentar no banco do motorista.
— Oi! — Respondemos, em coro.
Lucia estava no banco do carona ao lado do filho e eu estava no banco de trás, ao lado da cadeirinha na qual Sofia estava acomodada.
— Como está sua noite agora, ? Tem trabalho para fazer no hospital? — Ele perguntou, alguns segundos depois, quando tudo ficou em silêncio.
— Na verdade, não! Tirei o dia de folga. Por quê? — Respondi.
— O que vocês acham de uma pizza? — ofereceu, fazendo Sofia tirar a atenção do desenho animado que assistia pela minitelevisão acoplada ao banco do carro à sua frente, apenas para comemorar:
— Sim, sim, sim! Margherita, por favor! — Ela cantarolou, com tanta empolgação, que seria cruel da parte de qualquer um de nós negar o convite.
Fomos juntos a uma pizzaria que servia as pizzas de uma forma peculiar. Elas não tinham o formato redondo padrão, eram como largas fitas que podiam ter até dois metros de comprimento e até quatro sabores diferentes ao longo dessa medida. Logo descobri por que Sofia gostava tanto dali. Nem era pela pizza margherita em si (a qual ela só comeu uma fatia), e sim pelo pequeno playground que o restaurante tinha e que a manteve entretida durante todo o período que estivemos lá.
Em certo momento, ela quis mostrar algo à avó no parquinho e fiquei sozinha com na mesa.
— Aceita mais um pedaço? — Ele ofereceu, se servindo mais uma fatia quadrada de pizza.
— Estou satisfeita, obrigada! — Agradeci.
— Como foi a experiência hoje no jogo? — O goleiro perguntou.
— Bom, foi legal! Achei bem emocionante, principalmente o início com as músicas e homenagens... Mas, não vou mentir, não entendi muita coisa. — Contei, e deu uma risadinha.
— É normal! Nas próximas vezes, você vai pegando o jeito. — Ele afirmou, não parecendo perceber que acabara de insinuar que eu voltaria ao estádio em outra oportunidade.
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, meu telefone tocou, e pedi licença para atender.
— Dra. ? Aqui quem fala é a Carla, enfermeira da oncologia. Tudo bem?
— Oi, Carla. Tudo bem sim. Posso ajudar em algo? — Perguntei, tentando prever mentalmente o motivo pelo qual estavam me ligando.
, Mateo teve uma piora essa tarde e precisamos adiantar a cirurgia de ressecção. Não posso passar detalhes por telefone e sei que você não está em sobreaviso, mas, como ele é seu paciente, achei que gostaria de saber. — Ela contou.
— Claro. Obrigada por me avisar! Quando vai ser a cirurgia? — Questionei.
— Ele está sendo preparado para descer rumo ao bloco cirúrgico assim que uma sala for liberada.
— Estou a caminho! — Respondi, pegando minha bolsa e minha jaqueta na cadeira ao lado.
— O que houve? — perguntou, percebendo a movimentação.
— Um de meus pacientes precisou de uma cirurgia de emergência. Preciso ir até lá e ver como estão as coisas! — Respondi, ficando de pé.
— Poxa, que situação... Como você vai chegar lá? Quer que eu te leve? — Ele ofereceu, ficando de pé também.
— Imagina, ! É seu momento de descanso, aproveite esse tempo com sua filha e sua mãe... Pego um Uber aqui na porta em segundos. — Justifiquei, recusando a carona. — Só tenho a te agradecer pela experiência de hoje! Foi ótimo. Muito obrigada! — Agradeci, me despedindo dele com um abraço tímido.
— Não há de quê! Tem certeza de que não quer que eu te dê uma carona? — Ele reforçou a oferta.
— Tenho sim. Não se preocupe com isso! Deixe um abraço meu a Sofia e Lucia. — Pedi.
— Deixo sim! Até mais. — Ele disse, acenando à medida que fui me distanciando.
— Até! — Acenei, já de costas, pegando um Uber até o hospital.


Capítulo 06

Chegando ao hospital, me informei sobre o estado de saúde e sobre a cirurgia à qual meu paciente seria submetido.
Mateo estava com uma obstrução intestinal, decorrente da expansão de tamanho daquela massa abdominal que identifiquei logo na primeira consulta.
O resultado da biópsia indicava que se tratava de fato de um tumor maligno, e o plano inicial da equipe médica era de reduzir o tamanho da massa através de quimioterapia antes de operar, para aumentar a chance de sucesso. Porém, a massa cresceu muito rápido e, com isso, acabou obstruindo e comprometendo o funcionamento do intestino dele, caracterizando, assim, uma emergência cirúrgica.
Cheguei em pouco tempo e pedi autorização do cirurgião no comando para participar do procedimento. Uma vez autorizada, corri até o vestiário para vestir meu scrub esterilizado e me preparar.
Mateo ainda estava acordado quando adentrei a sala de cirurgia e as enfermeiras preparavam as máquinas e equipamentos em volta dele, que observava tudo parecendo bastante assustado. O monitor cardíaco ao lado dele confirmava, mostrando uma frequência cardíaca levemente acelerada.
– Oi, amiguinho. Como você está? – Perguntei, me aproximando dele.
! Quando eu perguntei, o médico barbudo disse que você não estava no hospital hoje. – Mateo disse, bravo, como se alguém o tivesse enganado.
O médico barbudo em questão era um outro pediatra do hospital, que provavelmente o atendera mais cedo neste dia.
– Eu não estava mesmo, mas quando me avisaram que você estava chamando por mim, eu vim correndo!
Sorri e ele sorriu de volta, mesmo parecendo ainda tenso.
O anestesista se aproximou de Mateo com a máscara de sedação e disse:
– Com licença, garotão. Vou colocar isso no seu rosto e você vai dormir, está bem?
O pequeno se assustou mais uma vez e virou o rosto na minha direção, falando:
– Não deixaram minha mãe vir comigo.
Fiz sinal para que o anestesista recuasse e esperasse um pouco até que o paciente estivesse mais calmo.
– É porque só podem entrar aqui os médicos e os pacientes, querido. – Expliquei e ele continuou, na esperança que fôssemos voltar atrás e permitir que sua mãe descesse:
– Mas ela não ia atrapalhar, só ia segurar minha mão.
– Eu sei, meu amor. Mas olha, eu vou estar aqui e posso segurar sua mão. O que você acha? – Ofereci, percebendo que a analgesia era só o que faltava para começarmos o procedimento e todos na sala estavam aguardando.
– Você vai ficar aqui o tempo todo? – Ele perguntou.
– Sim. O tempo todo! – Respondi para tranquilizá-lo.
– Tudo bem. – Mateo respondeu, me entregando uma de suas mãozinhas. – Mas eu não estou com sono!
Ele fez questão de avisar.
– Não tem problema. Essa máscara tem um cheirinho mágico. Você vai respirar fundo, fechar os olhos e falar o nome dos personagens que você mais gosta em Star Wars. Só vamos começar quando tivermos certeza que você dormiu! – Expliquei com carinho.
– Tudo bem.
– Podemos? – O anestesista perguntou, aproximando mais uma vez a máscara do rosto de Mateo, que apertou minha mão e fez exatamente o que havíamos combinado. Respirou fundo e fechou os olhos, falando:
– Chewbacca, Darth Vader, Luke e...
– Pronto? – O cirurgião chefe perguntou, querendo começar logo o procedimento.
Assenti, percebendo que o paciente já não segurava com força minha mão.
O anestesista confirmou, retirando a máscara do rosto da criança e finalizando o processo de anestesia.
– Bisturi. – O cirurgião-chefe pediu, e eu continuei de pé ao lado da mesa de cirurgia, segurando a mão do pequeno, como prometi que faria. – Você fez um bom trabalho, Dra. Valbuena. – Ele disse, algum tempo depois da primeira incisão.
– Obrigada, doutor.
– Vou dar início à dissecção. Você gostaria de vir até aqui observar? – O chefe ofereceu, me olhando por cima de seus óculos cirúrgicos.
Eu estava ao lado de Mateo, longe demais para conseguir ver qualquer coisa do procedimento.
Eu definitivamente gostaria de ir até lá e observar, principalmente porque nunca havia participado antes do procedimento em questão. O cirurgião adotou um método para remoção das aderências tumorais que era novo e tinha sido utilizado poucas vezes no nosso hospital, então observar de perto seria muito valioso para o meu aprendizado, mas a mãozinha de Mateo seguia segurando a minha.
Ele estava sedado, não perceberia caso eu o soltasse, mas algo em mim não conseguia fazer isso. Afinal, eu disse que estaria ali o tempo todo.
Em contrapartida, o momento da residência é muito delicado, porque é durante ele que se ganha experiência e é nele também que seus superiores tomam conhecimento de sua eficiência. Uma cirurgia como essa me traria muito dessas duas coisas. Eu estava em um conflito interno.
O cirurgião-chefe da cirurgia repetiu mais uma vez, reforçando que precisava seguir com o procedimento e não podia esperar até que eu ponderasse minha decisão:
– Dra. Valbuena?
– Eu adoraria, doutor, mas não posso! Prometi ao paciente que seguraria a mão dele. – Falei, percebendo que estava sendo julgada por praticamente todos os presentes na sala. O próprio chefe parecia indignado com a oportunidade que eu estava prestes a perder.
– Eu posso segurar a mão dele por você. – Uma das enfermeiras se pronunciou, sendo amável entre tantos olhares julgadores.
Eu sorri em agradecimento. Não conseguiria deixar uma criança desamparada, mas se ela pudesse amparar Mateo por mim durante a cirurgia, já era melhor.
Ela veio até onde eu estava e tirou uma das luvas para segurar a mão da criança, em um contato mais humanizado, e eu fui refazer minha assepsia e calçar as luvas.
A cirurgia foi um sucesso e pude participar como gostaria. Pouco antes do efeito da anestesia de Mateo acabar, voltei a segurar sua mão, de forma que meu rosto foi o primeiro que ele viu ao acordar na sala de recuperação.
Logo sua mãe também apareceu e, enfim, ele sentiu segurança para se soltar de minha mão. Os dois me agradeceram muito, e eu deixei o hospital nesse dia com a ótima sensação de dever cumprido. Eu sabia que, apesar do sucesso na cirurgia, o caminho do tratamento de Mateo seria longo e complicado. Porém, seguia a filosofia de que, se alguma atitude minha pode fazer esse percurso ser pelo menos 1% menos sofrido para algum paciente, eu já estava cumprindo minha missão.

— alguns dias depois —


– Alô? – Atendi o telefone, ainda meio grogue de sono. Meu plantão do dia anterior acabara às 07h, e a única coisa que consegui fazer quando cheguei em casa foi tirar um cochilo, que aparentemente se estendeu por tempo demais. O horário no aparelho celular indicava 15h30.
– Oi, ! Tudo bem? Está ocupada? – perguntou, do outro lado da linha.
– Ei, ! Na verdade, não. Acabei de acordar. – Expliquei a situação a ele, que respondeu:
– Perdão se fui eu quem te acordei. Na verdade, eu nem ia ligar, mas é que... – Ele fez uma pausa, parecendo um pouco envergonhado. – Sofia tem perguntado por você. Aquele dia na pizzaria, devido à emergência com seu paciente, vocês não puderam se despedir e, desde então, ela quer muito te ver de novo. Estamos saindo para um sorvete agora, por que você não vem junto?
Respirei fundo. Eu sabia que não deveríamos ter envolvido tão rápido a filha dele na nossa situação. Era realmente algo muito complicado para uma mente infantil entender.
, eu nem sei o que dizer. Sua filha é um doce de criança, nós realmente nos adoramos e me encantaria vê-la de novo, mas... isso não é um pouco estranho? Digo, o fato de estarmos envolvendo seus familiares na nossa situação me deixa um pouco preocupada. Não vai ser um tanto quanto confuso para a Sofia? – Questionei.
– Por enquanto, para a Sofia, você é apenas uma amiga do papai que ela conheceu e gostou. Me pediu para te convidar para um sorvete com a mesma inocência que pede para que eu convide os amiguinhos da escola dela. Nada de mais! Mas entendo caso você não se sinta confortável para aceitar.
– Não é isso! Só tenho um pouco de medo… – Expliquei e, antes que eu pudesse encontrar as palavras certas para explicar que apenas temia acabarmos nos envolvendo muito, interrompeu:
– Entendo. Sorvetes são realmente muito perigosos. – Ele brincou e me arrancou uma risadinha.
“Ela vai com a gente, papai?”, ouvi uma voz infantil do outro lado da linha e percebi que Sofia acabara de se aproximar do pai.
“Filha, a hoje tem um compromisso…”, o escutei dizer, um pouco distante do telefone.
“Qual?”, Sofia questionou, com certa decepção em seu tom de voz.
?! Na verdade, eu posso ir sim. – Eu disse, tentando chamar a atenção dele de volta para a ligação.
“Sofi, vá pegar seus sapatos”, falou à filha, antes de voltar para a ligação.
– O que disse? – Ele me perguntou.
– Posso sair para um sorvete. Está tudo bem. – Me dei por vencida.
Amigos saem para tomar sorvete juntos. Se éramos amigos, ainda que con derechos especiais, poderíamos fazer isso também, sem problemas. Não era justo com Sofia mentir sobre um compromisso que eu nem tinha, só para evitar de ver o pai dela.
– Pode me enviar o endereço e me encontro com vocês lá. – Respondi. O nome da sorveteria era totalmente novo para mim.
– Certo. Vamos ao ‘Magia Helada’. Estou enviando o endereço por mensagem. Nos vemos lá!
Me despedi de e me levantei da cama direto para o chuveiro. Eu precisava mesmo de um banho depois de quase 24 horas de plantão.
Terminei de me arrumar e, antes de sair de casa, me encontrei com Amanda, que chegava do hospital.
– Oi! Aonde você vai? – Ela perguntou.
– Combinei de sair para tomar um sorvete com e Sofia. – Contei. – Ei, eu estava brincando com Thalamus e ele me unhou. Acredita? – Comentei.
Minutos antes de Amanda abrir a porta, eu estava me despedindo do nosso gatinho, quando, durante uma brincadeira, recebi uma unhada dolorida.
– Você se machucou? – Mandy perguntou, quando mostrei a ela meu punho ferido.
– Doeu um pouco, mas já passou. Acho que as unhas estão muito grandes, talvez ele tenha feito sem querer. Quando foi mesmo a última vez que ele aparou as unhas? – Dessa vez, eu fui quem questionei.
Gatos são animais com muitas especificidades e uma delas é sobre o corte de unhas, que, embora precise ser feito, pode causar sérios danos aos nervos que eles têm nas patas caso seja feito de forma equivocada.
Amanda e eu não éramos corajosas o suficiente para fazer o procedimento sozinhas, então, teoricamente, Thalamus ia de dois em dois meses a uma clínica para check-up com o veterinário e também para cuidar da limpeza e de detalhes importantes, como o corte de unhas dele com a equipe do pet shop.
Porém, com a rotina maluca de trabalho e plantões, era muito difícil manter a frequência bimestral das consultas do Tatá. Pelo que eu me lembrava, já fazia muito mais de dois meses desde que ele fora ao local pela última vez. Como os bichanos se mantêm sempre limpinhos, o cheiro dele não era ruim, apesar do longo tempo sem banho. Só fui perceber que talvez precisássemos agilizar a próxima visita ao pet shop nesta tarde quando ele tinha me unhado.
– Foi ainda no verão! Faz realmente muito tempo. – Amanda disse, parecendo se lembrar. – É incrível pensar que não precisamos nem levá-lo ao pet shop, porque eles mesmo vêm até aqui para buscá-lo, mas ainda assim ele está há meses sem ir.
– Para o buscarem aqui, primeiramente alguma de nós duas precisa estar em casa, né? – Respondi, achando graça. Por incrível que pudesse parecer, essa era a parte mais difícil.
Amanda assentiu, rindo.
– Preciso ir agora, eles já devem estar chegando. – Falei.
– Para quem só queria algumas noites de diversão, você até que se envolveu bem, né? Um sorvetinho na quinta-feira à tarde com seu boy e sua enteada… – Minha amiga provocou.
– Não tenho boy nem enteada, sua tonta. É só um sorvete. – Falei, meio que tentando convencer a mim mesma do que dizia. – Foi a Sofia quem pediu para que ele me chamasse.
– Com certeza foi. – Amanda debochou, dando de ombros e pegando Thalamus no colo.
– Você vai precisar do carro? – Perguntei.
– Não. É todo seu! – Ela respondeu, tirando a chave da bolsa de mão e jogando-a em minha direção.
– Fico te devendo essa! – Falei, já passando pela porta de saída do apartamento.


Capítulo 07

O GPS me guiou até a sorveteria, que ficava alguns minutos distante da minha casa. Logo que desci, já avistei e Sofia em uma das mesas da entrada, ainda sem seus sorvetes.
– Olá! – Eu disse, ao me aproximar dos dois.
! – Sofia exclamou ao me ver. – Você conseguiu desmarcar sua reunião no hospital.
– Oi, princesa! Consegui sim. Vir tomar sorvete com vocês me parecia muito mais legal do que a minha reunião. – Eu respondi. Provavelmente tinha dado essa desculpa a ela quando disse que eu não poderia ir com eles à sorveteria.
Sorri timidamente para o goleiro como cumprimento, e ele retribuiu o gesto.
– Posso escolher o sorvete agora, papai? – A pequena perguntou e o pai assentiu, já se levantando para irmos em direção ao balcão.
As opções de sorvete eram as mais diversas e todas pareciam bastante apetitosas.
– Qual sabor você costuma pedir, Sofi? – Perguntei, buscando uma indicação.
– Unicórnio. É o meu preferido! – Ela respondeu, quase imediatamente, e eu e Cristian rimos juntos diante da resposta.
– Me parece um sabor bastante diferente. – Comentei.
– É colorido e tem gosto de algodão doce. Se aceita uma sugestão, gosto do El Padrino. – Cristian sugeriu, enquanto Sofi estava distraída passando seu pedido ao funcionário do balcão.
– Pistache, Cereja e Cannoli? – Perguntei, desconfiada, observando a descrição do sabor logo abaixo do nome criativo.
– É o meu pedido de sempre. – Cristian disse e repetiu o pedido ao atendente.
Preferi uma aposta mais segura e pedi duas bolas de Snowflake, que era uma combinação de Baunilha, Caramelo e Flor de Sal.
Enquanto o funcionário da loja montava meu cone de sorvete com o sabor escolhido, um outro sabor à mostra na vitrine gelada me chamou a atenção. Era azul e levava o nome Bantha Milk, uma alusão à famosa bebida do filme Star Wars; o que me lembrou Mateo, meu pequeno paciente fã da saga.
Se Mateo estivesse se alimentando livremente, eu daria um jeito de levar um pouco desse sorvete para ele. Como, devido à cirurgia, ele ainda tinha muitas restrições alimentares, preferi esperar até que ele pudesse aproveitá-lo.
– Já está pago. – O rapaz do caixa disse, apontando para , me tirando de meus pensamentos quando perguntei quanto devia pelo sorvete.
Agradeci e fui ao encontro dele.
– Ei, você pagou pelo meu sorvete? – Perguntei, me aproximando.
– Sim. Posso fazer isso, né? Digo, como amigo... Ou estou ultrapassando os limites da amizade ao te pagar um sorvete? – Ele se explicou, soando um pouco irritado.
, não é isso... Só queria agradecer. Não precisava!
– Não foi nada. – O jogador respondeu.
– Pai, você prometeu que eu ia poder brincar no parque, não foi? – Sofia disse, cobrando do pai.
– Sim, mi amor. Vamos andando. Até chegarmos lá, você termina seu sorvete.
– A vem junto, não é? – A pequena perguntou ao pai, que devolveu a pergunta a mim, rindo como quem quer mostrar que não era sua culpa. Sofia simplesmente gostava mesmo de mim.
– Você vem, ?
– Hum... Claro, vou sim. – Respondi, diretamente à criança, que comemorou e continuou saltitante, sendo guiada pelo pai até o playground, em uma praça, cerca de 3 minutos de caminhada distante da sorveteria onde estávamos.
– Guarda para mim? – Sofia pediu, entregando seu potinho de sorvete ao pai para ir brincar.
– Filha, termine de tomar com calma. Os brinquedos não vão sair daqui. – disse, ao perceber que, apesar de ter pego o menor tamanho de sorvete disponível para Sofia, ela ainda assim não tinha tomado tudo.
– Estou satisfeita. – Sofi respondeu, convencendo o pai a pegar a sobremesa para si e correndo em direção aos brinquedos na pracinha.
Eu e então ficamos a sós, cercados de outros pais que observavam os filhos brincando.
De alguma forma, mesmo sabendo que compartilhamos momentos infinitamente mais íntimos que aquele, estar perto dele em silêncio me deixava extremamente constrangida.
, eu...
– Sabe o que eu...
Tivemos a ideia de quebrar o gelo ao mesmo tempo e, depois da formalidade de “pode falar”, “não, diga você primeiro…”, resolvi dizer a ele o que estava pensando:
– Na verdade, só queria te pedir desculpas por agir estranho às vezes quando você tenta ser simpático comigo. Essa situação toda de amizade con derechos é nova para mim, e eu sinto como se precisasse me certificar o tempo todo de que não vamos ter nada além. Mas não faço por mal. Só queria te dizer isso. – Expliquei, ainda tomando meu sorvete, evitando contato visual com o jogador. – O que você ia dizendo? – Perguntei.
– Ia dizer que esse tamanho “pequeno” engana. Tem mais sorvete de unicórnio aqui do que eu gostaria de ter que tomar. – respondeu, com um sorriso ladino.
O fato das nossas falas terem assuntos e importâncias totalmente diferentes nos fez rir.
Depois de mais um longo silêncio constrangedor, ele perguntou:
– Foi um trauma grande, não foi?
– Como?! – Perguntei, sem entender muito o comentário que, à princípio, me pareceu totalmente aleatório.
– Você precisa se certificar de que não seremos nada além de amigos, porque... deve ter se machucado feio no amor para não querer viver isso com mais ninguém. Estou certo?
Uma brisa fresca bateu, empurrando meus fios de cabelo em direção ao meu rosto. Me esforcei para afastá-los enquanto pensava se deveria mesmo me abrir sobre o assunto para .
– Quase. Acho que vai um pouco além disso... mas é uma longa história. – Eu disse, voltando minha atenção ao sorvete de baunilha, que, apesar de delicioso, de fato parecia maior naquele momento do que era na sorveteria quando o escolhi.
– É um grande sorvete também. – O goleiro riu, com simpatia. – Temos tempo.
– Tudo bem. – Me dei por vencida. Fazia muito tempo que eu não falava disso para ninguém. – Para você entender onde essa história começa, durante todos os meus anos de ensino fundamental, eu fui a nerd da turma que não tinha amigos ou vida social porque os outros tinham vergonha de se aproximar de mim. – Comentei. Essa nem era a pior parte da história, mas já parecia surpreso:
– O quê?! Você não me parece o tipo de pessoa que sofria bullying pela aparência na escola. – Ele disse.
– É, talvez hoje não. Mas vale lembrar que o Ensino Fundamental aconteceu anos antes de eu tirar meus aparelhos ortodônticos, ganhar massa muscular na academia e trocar meus grandes pares de garrafas por lentes de contato. – Comentei, rindo, e deu de ombros, rindo também.
– Se você diz...
– Vai por mim, eu era horrível! Não que justifique tratar alguém tão mal por conta da aparência, mas funciona assim na escola. Ou, pelo menos, na minha escola. – Eu disse. – Foram anos terríveis, até que, durante o último ano antes da formatura do ensino médio, aconteceu minha transformação, e só a partir daí meus colegas passaram a me considerar “esteticamente aceitável” o suficiente para andar com eles e ser convidada para os eventos deles. – Contei, resumindo bem a introdução para chegar logo à parte mais importante.
– Que cruel. – comentou, finalizando o sorvete colorido de Sofia e voltando a desfrutar de seu El Padrino.
– Você acha essa parte cruel? Espera só. – Adiantei, com suspense. – Eu finalmente estava vivendo a vida que sempre quis. Tinha “amigos” – Falei, fazendo aspas com os dedos –, comecei a frequentar os eventos do pessoal descolado da escola e acabei por conhecer mais gente descolada também. Entre essas pessoas, conheci um cara chamado Rugan, que veio a ser meu primeiro namorado. – Suspirei. A lembrança ainda me fazia um pouco mal. – Ele propôs o namoro poucos dias depois de termos nos conhecido numa festa, e eu fiquei meio insegura de aceitar, porque não o conhecia direito. Mas o que eu podia fazer? Ele era um dos populares, e eu era insegura demais para assumir o risco de voltar ao lugar de antes, isolada na escola. As prioridades dos adolescentes são meio engraçadas, né? – Eu disse, rindo sem graça.
Me sentia uma boba explicando como funcionava minha cabeça naquela época. O goleiro permanecia sério, focado na história.
– No começo, eu realmente gostava muito de estar com ele, mas, algum tempo depois, a relação foi tomando um rumo estranho e, por mais que eu sentisse que precisava me afastar, Rugan conseguia me controlar. Ele dizia que, no momento em que desistisse de mim, eu jamais encontraria outra pessoa. Essa era a estratégia perfeita para persuadir uma menina insegura de 17 anos. E foi assim que Rugan me convenceu a fazer coisas que tiveram consequências gravíssimas para minha vida.
negava com a cabeça, parecendo incomodado com a história.
– Que tipo de coisa? – Ele perguntou, com curiosidade.
– Não tem nada a ver com drogas ou crimes, tá? – Fiz questão de explicar antes, num susto, ao pensar que talvez estivesse considerando a possibilidade de eu ter me envolvido com tráfico ou furtos por conta de um namorado idiota. – Ele me fez me afastar de vários amigos e até da minha própria família, por ciúmes. Era o tipo de cara que criticava minhas roupas, meu comportamento, meus sonhos, minhas amizades... Eu não tinha mais personalidade. Era a namorada do Rugan, e só. Mas não me sentia nem no direito de me incomodar com isso, porque ele me convencia de que essa era minha melhor versão. – Contei, com a voz trêmula, pegando fôlego antes de continuar: – E, como se tudo isso fosse pouco, para completar, ele me convenceu a... deixar que ele gravasse nossa primeira vez. Ninguém veria, é claro, ele dizia. Era só para guardar de recordação, ou algum tipo de fetiche bizarro... sei lá! – Eu disse, encarando o longe. – Eu titubeei mais uma vez, mas isso foi logo no começo do namoro, então acabei cedendo. Sempre sentia que estava no lucro por pelo menos ter alguém que gostasse de mim. – Eu ri. Me sentia tão estúpida falando aquilo em voz alta... – Foi só quando ele se tornou agressivo – fisicamente, porque psicologicamente ele já me torturava havia muito tempo – que aquelas pessoas que se importavam comigo, das quais ele me fez me afastar por ciúmes, resolveram me alertar, e eu finalmente tomei coragem de dizer “chega”. Eu tinha acabado de ser aprovada na universidade, no curso dos meus sonhos e resolvi ver isso como uma luz no fim do túnel. Uma oportunidade de recomeçar, sabe? Aí vieram as chantagens e ameaças, como ele sempre fazia, mas a esse ponto eu já conhecia todos os discursos dele e, honestamente, já não me impressionava com nenhum. ‘Bati o pé’ que era isso o que eu queria, e daí terminamos. A última coisa que ele me disse foi que eu ainda ia me arrepender disso. Achei que ele estava dizendo que eu ia sentir sua falta ou querer voltar... mas foi bem pior. Eu nem lembrava mais daquele vídeo, mas logo nos meus primeiros meses na universidade, o vi se espalhar e ser visto por milhares de pessoas. – Confessei. Não sei se foi o fato em si ou a naturalidade com a qual contei que chocaram mais , que estava boquiaberto quando olhei para ele.
– Então teve a ver com um crime, afinal. E você foi a vítima.
– Bom, sim. Olhando por esse lado… – Falei, voltando a tomar meu sorvete. Mastigar as pedrinhas de flor de sal em meio ao sorvete de baunilha causavam realmente uma sensação parecida à de morder um floco de neve. O nome dado ao sabor de sorvete era ideal.
– Mas imagino que você tenha tomado todas as medidas judiciais possíveis, não foi? Esse cara teve que pagar pelo que fez, não teve? – perguntou, praticamente implorando por um desfecho positivo.
– O pai dele pagou uma multa em não-sei-quantos salários mínimos, mas foi só isso. A lei não funciona tão bem para adolescentes mimados de família rica. – Resmunguei. – Eu e minha família também pagamos para retirar o vídeo da internet, mas a rede é rápida e desenfreada. Não dá para garantir que conseguimos... Mas eu sobrevivi! Tranquei a faculdade por um semestre e, quando voltei, ninguém mais se lembrava desse episódio. Só eu. – Expliquei, um pouco envergonhada.
Aquele assunto era muito íntimo, eu nem sabia de onde havia tirado tanta coragem para falar sobre isso logo com , meu amigo de cama.
, isso é uma merda. Sinto muito que você tenha passado por algo assim. – Ele expressou, e eu neguei com a cabeça, como quem diz “está tudo bem, já passou”. – Então... é esse o motivo? Você se recusa a se envolver com alguém por medo de ter a intimidade exposta de novo?
Pff... Não. Claro que não. O vídeo vazado foi um sintoma, a raiz do problema é bem mais embaixo. Hoje em dia sei identificar os sinais, sei como me proteger. Isso não é o pior que pode acontecer. – Expliquei.
– E o que é o pior que pode acontecer? – perguntou, me deixando em dúvida se eu deveria continuar me abrindo tão intensamente.
– O pior que pode acontecer é... confiar desse jeito em alguém de novo. – Falei, ainda sem coragem de olhar para , mesmo percebendo que ele seguia olhando para mim. – Isso eu prometi a mim mesma que nunca mais vou fazer. – Desabafei.
– Nunca mais? – O jogador questionou, ainda parecendo surpreso.
Neguei com a cabeça, e ele seguiu parecendo impressionado, mas sem se sentir no direito de questionar. E, de fato, a história não era da conta dele. Eu nem sabia por que me senti tão confortável para me abrir sobre aquele assunto.
– Papai, olha o que eu achei.
Sofia se aproximou, correndo e mostrando-nos uma joaninha que caminhava por seu braço esquerdo.
– Que legal, filha! Onde você a encontrou? – perguntou, segurando o braço da filha para observar o inseto mais de perto.
– Estava andando na árvore onde fica o balanço. – A menina explicou, orgulhosa.
– Já ouvi dizer que encontrar uma dessas é sinal de sorte. – Falei, sorrindo.
– Olha pra cá, deixa eu fazer uma foto! – pediu, tirando o celular do bolso.
– Xis! – Sofia disse, enquanto ele clicava a fotografia.
– Putz, esperem aí só um momentinho, meninas. – comentou, parecendo preocupado e saindo de perto para atender o telefone.
De longe, eu observava sua forma de falar e os gestos que ele fazia com as mãos... Definitivamente não parecia receber uma boa notícia na ligação.
¡Cojones, Julio! Você tinha me dito que era no sábado. Eu sei que não posso deixar de ir, mas preciso ver o que vou fazer aqui primeiro. Estou com minha filha, cara. É para evitar esse tipo de coisa que as pessoas planejam os eventos com antecedência! – O jogador dizia, já se aproximando de novo de mim e de Sofia, que estava distraída repondo as energias com um gole da água que o pai comprou junto do sorvete. – Tudo bem, Julio, eu me viro. Estarei lá, não se preocupe. Tchau. – Ele finalizou, antes de se despedir da chamada e dizer para Sofia, parecendo apressado e juntando as coisas na mesa como se estivesse prestes a ir embora: – Sofi, papai teve um imprevisto. Você vai precisar passar a noite na casa da vovó hoje.
– Por quê? – A menina perguntou, sem entender a movimentação. Eu seguia sem entender também.
, eu tive um imprevisto com meu agente. Sinto muito por sair assim, mas vou precisar deixar a Sofia na casa da minha mãe por essa noite, então eu e ela já vamos para eu não me atrasar. – explicou, dessa vez falando diretamente para mim, que nem tinha terminado todo o meu sorvete ainda.
– Eu não quero ir. Quero ficar com você! – Sofia reivindicou, com os olhos marejados, parecendo realmente chateada.
– Filha, escuta: Julio me disse que eu tinha sido convidado para um evento no sábado. No sábado, você já teria voltado para a casa da sua mãe e eu poderia ir sem problemas, então aceitei. Mas Julio se confundiu e o evento é hoje! Tem várias pessoas que estão contando com o papai lá, não posso deixá-las na mão. Você entende? – explicou, com carinho, se agachando na altura da pequena para falar com ela olho no olho. – Eu te busco na casa da vovó amanhã cedo, assim que eu acordar. Prometo!
– Mas a vovó mora longe. Deixa eu ir com você, por favor. – A menina pediu, mais uma vez, já em lágrimas.
– Filha, não faz assim... – O jogador parecia chateado pela situação. – Não é um evento para crianças e não tem outro lugar para onde você possa ir, precisa ser na casa da vovó. Por favor, não faça pirraça, ajude o papai. Vamos!
, e se... – Falei, chamando a atenção dos dois para mim. Acho que durante o momento tenso, tanto ele quanto Sofia se esqueceram que eu estava ali prestando atenção ao diálogo. – Sofia ficar comigo? Amanhã eu só trabalho à noite! Posso ficar com ela, sem problemas.
Não sei se fui eu ou que se surpreendeu mais com a minha sugestão.
– Sério? – Ele perguntou.
– Bom, sim. Não será a primeira vez que fico sozinha com uma criança. Se ela for do tipo que não tem problemas em passar a noite fora de casa, e nem alergia a gatos, porque, você sabe... Bom, pode ser uma solução. Eu moro bem mais perto daqui do que os seus pais. – Respondi, e os olhinhos de Sofia voltaram a brilhar. Aparentemente, ela tinha gostado da ideia.
– Ela não tem alergia e dorme fora de casa sempre. Se estiver mesmo tudo bem por você, , será uma enorme ajuda. É o evento do meu patrocinador esportivo, eu realmente não posso deixar de ir... Mas Sofi também está certa, minha mãe mora longe e amanhã é nosso último dia juntos. Perderíamos metade do tempo na estrada.
– Tudo bem por você, Sofia? – Perguntei, pensando que quem deveria dar a palavra final era ela.
– Sim! Eu quero muito dormir na sua casa. Vai ser divertido! – Sofi exclamou, arrancando sorrisos meus e do pai dela.
– Bom, então só precisamos ir até em casa e pegar algumas coisas. Me arrumo e a deixo na sua casa antes de seguir para o evento. 19h está bom para você?
– Sim, está. Como for melhor… – Assenti, já com um frio na barriga por pensar no tamanho da minha responsabilidade.
– Então vamos nessa, Sofi. O papai ainda precisa pegar um terno na lavanderia! – exclamou, tomando a filha pela mão. – Agradeça a por isso, filha. – Ele disse, antes de se virar e sair andando rápido com a criança em direção ao carro.
– Tchau, ! E obrigada. – Ouvi Sofia dizer, antes de me virar e também sair procurando o carro para voltar para casa e contar a Amanda a loucura que eu acabara de fazer.


Capítulo 08

– Você o quê? – Amanda perguntou enquanto eu tirava da sacola de supermercado itens que comprei para receber a pequena visita ilustre de Sofia em casa.
A despensa de duas residentes que praticamente vivem no hospital a trabalho nunca tem muita abundância, mas é o suficiente para nos manter vivas. Com uma criança em casa, porém, eu não queria ter que oferecer miojo ou biscoitos cream-cracker com manteiga para o jantar, então fiz algumas compras e, entre elas, levei um pote pequeno do tal leite em pó rosa, que eu já sabia que fazia parte da rotina de sono dela.
– Foi no impulso, tá?! – Falei, na defensiva. – precisa ir ao tal evento do seu patrocinador e o agente dele fez uma confusão com as datas. A mãe dele vive em Guadalajara e não há a menor necessidade de fazê-lo pegar a estrada quatro vezes em um período tão curto de tempo. Eu só quis ajudar! – Expliquei.
– Essa criança não tem mãe? – Amanda perguntou, sensível como uma porta.
– Claro que tem, mas eles são separados e a mulher é complicada. Você teve uma família perfeita a vida toda, nunca vai entender a dificuldade de ser filha de um casal separado. – Falei. Só quem já viveu a situação na pele pode ter uma ideia. E ainda que eu entendesse, sabia que a relação dos meus pais era, de longe, muito melhor que a de e Veronica. – Você não precisa fazer nada, amiga. Nem vai se lembrar que ela está aqui. Só estou te comunicando para não ser pega de surpresa! Eles vão chegar às 19h. – Expliquei, um pouco sem paciência com a Amanda.
Esperava que, ao menos, ela fosse entender minha atitude e me ajudar a recepcionar bem a criança.
– Certo. Se precisar de mim, me avise.
– Ok. – Respondi, guardando o restante das compras no armário da cozinha. Dei uma ajeitada na casa e conferi o relógio. Concluí que teria tempo de um banho antes das 19h e foi o que fiz.
Eram 19:10 quando o interfone tocou e eu liberei a entrada dos dois. Eu sabia que isso não significava nada e que tinha oferecido minha casa para que a filha de passasse a noite muito mais por ela do que por ele, mas não pude evitar as mãos suando e o coração disparado.
– Oi. – Ele disse, sorrindo simpático quando abri a porta e me deparei com a cena: Sofia vestia uma fantasia de Elsa e segurava um macaco de pelúcia em uma das mãos, enquanto a outra segurava a mão do pai, que, por sua vez, tinha no ombro uma mochila infantil e vestia um blazer azul-petróleo que lhe caía muito bem (não pude deixar de reparar).
– Olá! Como estão? – Consegui falar, depois de alguns milésimos de segundo gaguejando mentalmente.
– Bem! – Sofia respondeu.
Me agachei para ficarmos na mesma altura e para receber um abraço, pensando em ter um motivo a mais para tirar os olhos do pai dela, que estava especialmente bonito naquela ocasião, com os cabelos molhados penteados para trás e um perfume muito gostoso. Eu arriscaria dizer que era uma visão quase tão atraente quanto a de despertar ao lado dele na cama depois de uma noite quente.
– Ela insistiu na fantasia de Elsa, não pude evitar. – brincou, me entregando a mochila que estava em seus ombros logo que fiquei de pé novamente. – Mas aqui dentro tem um pijama, uma troca de roupa, escova e pasta de dente... e também tem o iPad que vai mantê-la entretida e te dar sossego por algum tempo. – O rapaz disse, sorrindo enquanto se esforçava para se lembrar de tudo o que colocara na bolsa da filha.
Já disse sobre minha quedinha em pais galãs?
– Obrigada mais uma vez por isso, . Me ajudou imensamente. Vou estar com o celular em mãos o tempo todo, qualquer coisa pode me ligar! – completou.
– Não há de quê. Vamos nos divertir, não é, Sofia? Ou devo dizer Elsa, la reina de las nieves? – Perguntei, pegando a pequena pela mão.
– Sim! – Ela assentiu, sorridente.
– Dê um beijinho aqui então para eu ir. – O pai pediu e, ao receber o beijo, completou: – Se comporte e obedeça a , combinado? Amanhã, quando acordar, peça a ela para me ligar, e eu venho buscar você.
– Está bem. Tchau! – Sofia concordou, voltando a pegar minha mão. O goleiro estava saindo quando se lembrou de algo e se virou novamente para dizer, já um pouco distante:
– Ah, , também coloquei aí o copo com tampa e um pouco de leite rosa em pó, dentro. É só misturar com leite morno!
– Não precisava se preocupar. Eu comprei leite rosa! – Falei e sorriu, parecendo agradecido. Sorri de volta e acenei no mesmo instante que ele voltava a caminhar em direção ao elevador para seguir rumo ao evento.
– O que quer fazer primeiro, Sofi? Separei alguns jogos e filmes se quiser assistir. Também pensei em pedirmos uma pizza, então me avise quando sentir fome. – Falei, colocando a mochila dela sobre o sofá.
Sofia observava o ambiente em volta atentamente enquanto pensava nas opções que eu acabara de dar a ela.
– É um gato de verdade? – A pequena perguntou, parecendo muito empolgada ao ver Thalamus, que estava deitado na prateleira em cima da televisão, se comportando como o item decorativo que ele tinha certeza de que era.
– Sim! Quer brincar com ele? – Ofereci, me aproximando do bichano para pegá-lo.
– Como ele se chama? – Ela perguntou, já fazendo um carinho no gato.
– Thalamus! A gente chama ele de Tatá. – Expliquei.
– Oi, Tatá. Você parece um boneco de neve, todo branquinho. – Sofi disse, com seu jeitinho angelical.
Thalamus fechava os olhos e se deliciava com os carinhos que recebia na cabeça.
– Oi, menininha!
Amanda apareceu na sala, caminhando até a cozinha para pegar um pouco de água.
– Oi!
Sofia acenou, um pouco tímida, olhando para mim como quem pergunta “quem é essa pessoa?”.
– Sofi, essa é a Amanda. Ela é minha amiga e é médica no mesmo hospital que eu trabalho. Ela também mora aqui. – Apresentei as duas quando Mandy se aproximou, cumprimentando Sofia com um abraço.
– Qual de vocês duas é a mãe dele? – A pequena perguntou, curiosa, apontando para o Thalamus.
– Er... Acho que nós duas. Nós o adotamos juntas! – Minha amiga respondeu, parecendo nunca ter refletido sobre isso antes.
– Então ele tem duas mães? – Sofia perguntou e Amanda respondeu, mais uma vez:
– Sim.
– E não tem pai?
Crianças, como sempre, muito curiosas.
– Bem... não. – Eu respondi, dessa vez um pouco constrangida. Não queria causar um conflito caso a família de Sofia fosse do tipo extremamente conservadora ou algo assim.
– Ah, legal! Tem uma menina na minha sala que tem dois pais e nenhuma mãe. – Sofi comentou, parecendo não se importar.
Uma das coisas que mais me encanta nas crianças era a forma simples como tudo funciona na cabecinha delas e o quanto elas são puras e livres de preconceito até que alguém as convença do contrário.
Amanda voltou ao quarto para estudar, e os minutos seguintes se resumiram a mostrar para Sofia o tipo de brincadeira que o gato gostava, além de participar de cada uma delas com ela. Sofi era mesmo muito boazinha, não parecia ser tão difícil assim cuidar dela.
– O que foi isso? – Ela me perguntou, espantada.
– Minha barriga. – Respondi, rindo. – Acho que já vou pedir nossa pizza. Estou com fome!
– Meu Deus, parece um leão rugindo! – A pequena disse, rindo junto comigo.
– A sua pizza favorita é a marguerita, certo? – Perguntei, me lembrando do dia que fui com ela e a avó ao estádio e, logo em seguida, fomos com a uma pizzaria.
– Como você sabe? – Sofia perguntou, parecendo impressionada.
– Leio pensamentos. – Brinquei, tocando cada lado de minha cabeça com o dedo indicador de uma mão e arrancando mais uma risada da convidada mais nova que eu já tinha recebido em casa. – Já volto. Quer ficar aqui brincando com o Tatá? = Ofereci, me levantando para ligar para a pizzaria.
Sofia disse que sim e ficou sentada sobre o chão da varanda, puxando um cadarço de sapato para que Thalamus tentasse pegar. Era uma das brincadeiras favoritas do meu pequeno felino, e ele poderia fazer isso por horas. Na verdade, aparentemente, os dois poderiam.
Fui até o quarto e perguntei se Mandy queria comer pizza conosco, e ela topou, contanto que a segunda metade fosse de pepperoni. Assim que terminei de fazer o pedido pelo telefone, fui até a cozinha para servir a mesa de jantar. Amanda estudava no quarto, Thalamus e Sofia brincavam na varanda... Tudo parecia tranquilo demais.
Foi aí que ouvi um grito infantil assustado, e um arrepio percorreu toda a minha espinha. Mais que depressa corri até onde Sofia estava, sem nem conseguir imaginar o que poderia encontrar ao chegar lá.
– O que houve, Sofi? – Perguntei, desesperada, me ajoelhando ao lado dela no chão.
A menina cobria o rosto com as mãos e Thalamus a observava, alguns metros distante.
– Ele me unhou. – Sofia resmungou, chorosa.
– Deixa eu ver! – Pedi, afastando suas mãozinhas apenas para perceber um arranhão que ia desde a bochecha até próximo ao canto interno do olho de Sofia. Não tão profundo a ponto de precisar de pontos, mas o suficiente para formar algumas gotículas de sangue por toda a extensão. – Vem, vamos lavar isso. – Chamei, tentando não transparecer meu desespero, pegando a criança no colo e indo com ela até o banheiro.
– Vai doer? – Sofia perguntou, assustada, com vontade de chorar, mas provavelmente com vergonha de fazê-lo na minha frente.
– Pode arder um pouquinho, Sofi, não vou mentir! Feche os olhos. – Pedi, depois de lavar minhas mãos, molhando um chumaço de algodão em um líquido antisséptico para desinfetar o lugar machucado.
– Quer segurar minha outra mão? – Ofereci, entregando a ela a mão que não estava segurando o algodão. Eu só conseguia pensar em como ia explicar isso ao .
– Eu só queria dar um abraço nele. – Sofia disse, ainda choramingando.
– Ah, Sofi... Ele não gosta muito de abraços, eu deveria ter te avisado. Deve ter achado que você ia machucá-lo e por isso tentou se proteger... Foi um mal-entendido. Sinto muito! – Falei, realmente sentida pela menina ter se machucado justamente sob minha vigília.
– O que aconteceu? – Amanda apareceu na porta do banheiro e perguntou, preocupada ao ver nossa pequena convidada sentada na pia enquanto eu passava algodão com antisséptico em seu rosto.
– O Thalamus me unhou. Eu tentei abraçar ele, mas ele não gosta muito de abraços… – Sofia explicou, antes que eu pudesse dizer algo. Pelo menos agora ela já não parecia mais querer chorar.
– Minha nossa, a gente precisa aprender a cortar as unhas desse gato logo. – Mandy exclamou, olhando a ferida mais de perto.
– Pronto, Sofi. Isso deve curar em alguns dias! E, não se preocupe, foi fininho demais para sequer deixar uma cicatriz. – Falei, pegando-a no colo novamente para colocá-la de volta no chão.
– Por que fica alto assim? – Sofia perguntou, se olhando no espelho.
– Porque é recente, aí fica em alto relevo. Logo vai abaixar... Podemos colocar uma fitinha aí para você não ficar vendo, o que acha? – Ofereci, tirando do kit de primeiros socorros que havia pegado um rolo de fita micropore bege. Era o suficiente para esconder o arranhão e, ao mesmo tempo, permitir que a ferida “respirasse” para cicatrizar.
– Posso voltar a brincar com ele? – A pequena perguntou, depois que colei a fita em seu rosto.
– Pode sim, mas sem abraços, por favor! – Pedi, quase suplicando.
Sofia assentiu e saiu correndo novamente em direção à varanda.


Capítulo 09

– Amiga, o que você vai fazer? – Amanda perguntou, ainda parada em frente ao banheiro, como estava desde que chegou.
– Não tem o que fazer além de desinfetar e deixar cicatrizar. – Respondi, guardando as coisas de volta no armário.
– Não sobre isso, . O que você vai dizer ao ? – Ela explicou.
– Não sei! Se eu ligar, ele vai se assustar muito. Acho que vou só passar uma mensagem. – Falei.
– Como você acha que ele vai reagir? – Amanda perguntou mais uma vez.
– Não sei! Tenho medo. – Respondi, com sinceridade. – Vai ser pior se eu deixar para contar quando ele vier buscá-la, não vai?
– Isso com certeza. – Mandy respondeu, e eu resmunguei:
– Droga.
Depois de alguns segundos nos encarando, disse a ela:
– Vá servir a mesa do jantar enquanto eu penso em uma mensagem para enviar a ele.
Amanda, então, saiu em direção à sala de jantar, e eu fiquei sozinha no banheiro, pensando em como contar a sobre o pequeno acidente que deixei acontecer ao seu bem mais precioso.
Logo que desbloqueei a tela, vi que, minutos antes, o próprio jogador já havia me enviado uma mensagem de áudio, na qual dizia:
“Oi, . Acabei de chegar ao evento, estamos tendo um coquetel e em breve será a apresentação... Como estão as coisas por aí? Espero que estejam se divertindo. Beijo grande.”
– Putz. – Falei em voz alta.
Depois de digitar e apagar várias vezes, acabei enviando a ele algumas mensagens em sequência:
“Oi, ! Por aqui estamos bem... Sofia está apaixonada por Thalamus, meu gatinho. Eles estão brincando faz algum tempo, na verdade. Eu já ia mesmo te enviar uma mensagem, porque, numa dessas brincadeiras, ele acabou unhando a Sofia e causando um arranhão. Eu acho até que foi sem querer, porque ele é super dócil... Foi bem superficial, eu já limpei e ela está bem. Inclusive pediu para voltar a brincar com ele. Desculpa mesmo por esse incidente, mas você sabe como é, né? Sempre naquele segundo que não estamos vendo... Agora pedi uma pizza e logo vamos nos deitar. Prometo não esquecer de pedir que ela escove os dentes hehe Beijo grande. Bom evento para você.”
Tentei adicionar alguns elementos leves de humor e ocultar informações pouco importantes, como o fato de que o arranhão acontecera a poucos centímetros do olho da criança, para tentar minimizar os efeitos.
Algum tempo depois, o interfone tocou, anunciando a chegada de nossa pizza, e eu fui comer com as meninas, dando tempo suficiente para que visse a mensagem e me respondesse.
Ao fim do jantar, quando disse a Sofi para que fosse escovar os dentes, peguei o celular novamente e vi que havia respondido as mensagens.
“É sempre no segundo de distração mesmo que essas coisas acontecem... Mas não se preocupe, ! Sofia é a própria versão real da Felícia daquele desenho e está sempre amassando os bichinhos hehe o importante é que está tudo bem agora! Diga a ela que mandei um beijo e boa noite.”
O peso de 15 toneladas saiu das minhas costas no momento que li a mensagem e percebi que o incidente com Sofia não tinha sido suficiente para que ficasse irritado comigo.
Depois de escovar os dentes e vestir seu pijama, arrumei minha cama para Sofia e enchi um colchão de ar para que eu pudesse dormir no mesmo cômodo com ela, que brincou com seu iPad por alguns minutos e logo dormiu, bem mais rápido do que imaginei que seria.
No dia seguinte, pela manhã, acordei cedo e preparei uma mesa de café da manhã. Havia muito tempo que não o fazia, devido à correria do dia a dia. Sofia acordou pouco tempo depois e veio ao meu encontro na cozinha.
– Oi, princesa! Dormiu bem?
– Sim. Seu quarto é muito confortável. – A pequena respondeu, coçando os olhos. Ela estava adorável em seu pijama de ursinhos e com o cabelo bagunçado de quem acabou de acordar de uma longa noite de sono.
– Preparei o café da manhã, espero que você goste! – A convidei para comer, puxando uma das cadeiras para que ela se sentasse.
Logo que nos acomodamos e estávamos prestes a começar a comer, a campainha tocou. Eu me levantei para atender, pensando “quem será a essa hora?”.
! – Exclamei ao abrir a porta. Eu não havia telefonado ou sequer enviado uma mensagem avisando que eu e Sofia já estávamos de pé. Como ele sabia?
– Papai! – A pequena disse, se levantando e correndo até o pai.
– Oi, meu amor. Que saudade o papai sentiu de você! – Ele respondeu, com carinho, pegando a filha no colo.
– Estava esperando terminarmos o café da manhã para te ligar. – Falei, para que ele soubesse que eu ia cumprir o combinado de avisá-lo quando acordássemos pela manhã.
– Eu vim antes porque não queria mesmo te incomodar por mais tempo. Além do mais, tenho que devolver essa mocinha para a mãe depois do almoço, então meu tempo com ela está super apertado! – Ele explicou, ainda com a filha nos braços.
– Entendi. Você está certo... Espera só ela terminar de comer o café da manhã, ela acabou de começar. – Falei.
– Entra, papai! Você precisa conhecer o Thalamus, ele é o gato da e parece um boneco de neve. – Sofia disse, se esforçando para sair do colo e puxando o pai pela mão casa adentro.
– Com licença! – pediu ao passar pela porta.
– Fique à vontade. – Falei.
– Ei, cara. Como você é bonitinho… – disse, se aproximando do bichano, que olhava curioso, parecendo não entender a movimentação e tantas pessoas ao seu redor.
– Pode tocar, papai. Ele gosta de carinho no pescoço! – Sofia disse, mostrando como fazer. Logo se lembrou de reforçar: – Só não pode abraçar, porque ele não gosta.
Eu ri.
– Você descobriu da pior maneira, não é, Sofi? – Perguntei, fazendo um carinho no cabelo dela.
– Minha nossa! Isso não está doendo, filha? – perguntou, parecendo surpreso por finalmente observar o esparadrapo de micropore bege que cobria o arranhão no rosto da pequena.
– Doeu só um pouco, mas já passou. – Ela explicou, e o pai respondeu, um pouco mais sério:
– Termine seu café para irmos.
A menina obedeceu, e nós dois nos sentamos em volta da mesa para esperar que ela comesse suas torradas cobertas com mantequilla y marmelada, como ela mesma pediu.
– Você aceita algo, ? Suco, café… – Me lembrei de perguntar.
– Não, não. Muito obrigado! – Ele respondeu, nos imergindo de volta em um silêncio fúnebre, que durou apenas até Sofia soltar um comentário totalmente aleatório:
– Pai! Sabe de uma coisa?
– O quê, meu amor?! – perguntou, direcionando sua atenção à filha.
– O Thalamus tem duas mães e nenhum pai. – Ela disse.
– Oh! Como aquele personagem do livro que lemos, não é? – Ele respondeu, fazendo com que a filha concordasse, sem dar muita importância.
– Uhum.
E, em mais alguns segundos, veio a grande pérola, capaz de ser mais constrangedora do que o próprio silêncio constrangedor de antes:
– Se você e a se casassem, você poderia ser o pai do Thalamus. – Sofia disse, com naturalidade, fazendo com que eu e nos olhássemos, caindo na risada logo em seguida. – O que foi? – Ela perguntou, sem entender o que havia de tão engraçado. justificou:
– Não é nada, minha filha. Tenho certeza de que Thalamus tem tudo o que precisa com suas duas mães! Agora vamos, termine logo essa torrada.
Em mais alguns instantes, Sofia terminou de comer e nos despedimos com um abraço apertado antes que ela seguisse com o pai para fora do meu apartamento. Ela me fez prometer que ainda veria o Thalamus outras vezes, e logo foi embora, junto com , que percebi ficar um pouco mais quieto do que o comum quando o assunto do arranhão veio à tona.
– Eu acho que ele ficou irritado por eu não ter mencionado que foi um arranhão grande e bem próximo do olho. – Comentei com Amanda, horas depois, quando estávamos dentro do carro indo para o hospital para o plantão noturno.
– Não faz sentido, . Se ela já estava bem, que diferença isso faria? – Mandy respondeu, guiando o veículo pelas ruas da cidade, que estava especialmente nublada nesta tarde. – Deve ser só impressão sua, tenho certeza de que ele não ficou chateado.
– Espero mesmo que seja. – Respondi, observando a imagem de com Sofia que o goleiro usava como foto de perfil no aplicativo de mensagens.
– Você está aqui em cima hoje? – Minha amiga perguntou quanto ao andar do hospital no qual eu trabalharia no dia.
– Na verdade, não. Preciso ver Mateo hoje, ele está na oncologia. – Respondi, pegando meus materiais para sair do carro junto com ela.
O complexo hospitalar em questão era enorme. Contemplava dois quarteirões da cidade e por isso tem vários estacionamentos, que ficam em pontos estratégicos para facilitar o acesso dos pacientes e funcionários. Porém, como Amanda e eu cumpríamos nossas funções em diferentes alas do hospital, nem sempre o mesmo estacionamento era um ponto estratégico para as duas ao mesmo tempo. Nesse dia, por exemplo, o azar era todo meu, que teria que atravessar o hospital inteiro por dentro para chegar à ala da oncologia, que era mais próxima da rua frontal do hospital do que da rua lateral, por onde entramos.
– Foi mal! Na próxima, paro mais perto. Aproveite e faça sua caminhada do dia. – Mandy disse, rindo, já um pouco mais distante de mim, se aproximando da porta de entrada.
Ri de volta pelo comentário e me virei de frente para o carro mais uma vez, apoiando minhas bolsas no capô, no intuito de organizá-las para conseguir segurar tudo de uma vez, de forma que facilitasse a longa caminhada que viria a seguir.
– Valbuena?!
Procurei o som que ouvi e percebi a aproximação de um carro preto com vidros escuros e apenas uma das janelas abertas, por onde um homem me chamava.
Valbuena foi o sobrenome que herdei de minha família paterna e que carregava com orgulho. No entanto, era mais frequentemente chamada pelo primeiro nome ou pelos apelidos que tinha recebido ao longo da vida. Os colegas da faculdade e do trabalho eram os únicos que me chamavam pelo sobrenome, então, logo que o ouvi, soube que se tratava de alguma pessoa desses dois núcleos.
– Doutor Felipe. Se lembra de mim? – O rapaz disse, se apresentando.
– Olá, doutor Felipe! Como está? – Cumprimentei o médico, sem entender muito bem a aproximação. Nos conhecíamos pelos eventos do hospital e por encontros despretensiosos pelos corredores dali. Não era como se tivéssemos intimidade suficiente para aquele tipo de abordagem no estacionamento.
– Bem, e você? Está chegando ou indo embora?
– Estou chegando. Vou andando até o bloco B, vim de carona com uma amiga e por isso paramos tão longe. – Expliquei, antes que ele perguntasse. – E você? Está chegando ou indo embora?
– Estou indo... Fiz 24h de plantão, cheguei às 22h de ontem. Quer uma carona? Passo pela Rua Pedro Rico para ir embora. – Felipe respondeu, parecendo simpático ao explicar que passaria em frente à rua frontal, que dava acesso direto ao bloco B e poderia me poupar de uma longa caminhada por dentro do hospital para chegar até lá.
– Bom, se não for atrapalhar, aceito sim. – Eu disse.
Em resposta, o rapaz se esticou dentro do veículo para abrir a porta do carona para mim.
– Com licença. – Pedi.
– Fique à vontade. – Ele disse, sorrindo, e completou logo em seguida, como se quisesse conversar e não pudesse perder tempo, já que sabia que eu logo teria que descer do veículo: – Ouvi sobre você essa semana.
– É mesmo? O que ouviu? – Perguntei, surpresa.
– Foi sobre aquela cirurgia que você participou, da ressecção do tumor de um garotinho. – Felipe respondeu, mencionando a cirurgia de Mateo.
– Ah, é justamente o paciente que vou ver no bloco B hoje. – Comentei.
– Disseram que você foi incrível, mas... Bem, é o tipo de coisa que só de olhar para você já dá para saber. – O médico disse, em tom galanteador, me fazendo revirar os olhos mentalmente ao perceber que foi a tentativa de uma cantada. – Você está no primeiro ano, certo? – Ele perguntou, sobre a residência.
– Isso. Pediatria, primeiro ano! – Respondi, torcendo para chegarmos logo à rua Pedro Rico.
– Se algum dia quiser pegar algumas dicas com alguém mais experiente, estou no segundo ano. – Ele disse, com ar convencido.
– De pediatria? – Perguntei, com estranhamento. Não me lembrava de tê-lo visto na ala pediátrica, nem mesmo nos simpósios e seminários que eu frequentava com estudantes mais velhos da área.
– De trauma, na verdade. Mas posso te ajudar na sua área também, se quiser. – Felipe respondeu.
– Claro... – Resmunguei, revirando os olhos mentalmente mais uma vez. É claro que um homem poderia me ajudar no meu trabalho mesmo sem ter qualquer experiência na área. Havia algo que eles não pudessem fazer?
Estávamos apenas alguns metros distante da portaria principal, então preferi preservar minha própria sanidade mental do discurso moralista que eu estava prestes a iniciar e segui calada até a hora de descer.
– Aqui estamos. – O médico disse, parando o veículo em frente à portaria principal da unidade de hematologia e oncologia.
– Obrigada! – Acenei, tentando abrir a porta do carro em seguida e percebendo que ela estava trancada.
Olhei para o rapaz, esperando que ele liberasse as travas, mas ele olhou de volta, rindo:
– Vai sair assim? Sem nem se despedir direito de mim? – Felipe perguntou, e eu percebi que a longa caminhada teria sido uma opção infinitamente melhor do que essa carona.
– Obrigada pela carona! Bom descanso. – Completei a resposta, impaciente, torcendo para que isso fosse o suficiente para ele me deixar sair.
– Ainda não me convenceu.
O rapaz, que aparentava ter por volta de 26 anos de idade, demonstrava ter pouco menos que a metade disso em maturidade.
– Felipe, eu tenho pacientes! – Eu disse, demonstrando meu desconforto enquanto tentava, mais uma vez, sem sucesso, sair do carro.
– Está bem, bom trabalho, mas vou cobrar essa despedida depois. – Ele respondeu, ainda rindo – de algo que aparentemente ele era o único a achar engraçado – e finalmente liberou as travas das portas. Abri e saí dali como se minha vida dependesse disso.
Ouvi dizer uma vez que a autoestima e autoconfiança de alguns homens deveriam ser encapsuladas e comercializadas. Com certeza, Felipe seria um excelente polo para extração dessa matéria-prima.


Capítulo 10

– Oh, meu Deus, não acredito! – Eu disse, me aproximando do homem, que avistei de longe sentado em uma das cadeiras da cafeteria do shopping.
se vestia do que quase podia ser considerado um disfarce: o boné de alguma grife famosa cobria seus cabelos, enquanto uma jaqueta jeans, que tinha uma gola alta, cobria praticamente metade de seu rosto.
A fama paga bem, mas tem seu preço também. Para mim, que não abria mão da minha própria liberdade, ter que ir ao shopping vestindo um disfarce para ter alguns minutos de paz me parecia um preço bem caro.
Observando-o de longe, tão bem escondido, até me questionei como pude ter tanta certeza de que era ele antes de abordá-lo. Talvez tenham sido os olhos, que, mesmo distraídos na tela do celular que ele manuseava, ainda eram os olhos de , e eu os reconheceria a quilômetros de distância.
! – Ele exclamou, depois do pequeno susto por ter sido reconhecido e um leve delay até me reconhecer. – Como você está?
– Tudo bem! E você? Como foi de viagem? – Perguntei, me lembrando que, em uma troca de mensagens recentes, ele havia adiantado que teria uma semana movimentada pelos jogos fora e que não estaria na cidade até quinta-feira, que era justamente o dia em questão.
– Acabei de chegar, acredita? Tenho uma reunião com meu empresário e ele sugeriu que fosse aqui, então vim. E você? O que faz aqui?
As cafeterias do shopping sempre me pareceram o lugar ideal para pessoas de negócios se encontrarem e abrirem seus laptops para conversarem sobre questões empresariais enquanto desfrutavam de um delicioso café. Era uma pena que, em geral, minhas reuniões referentes a trabalho acontecessem dentro de salas do hospital.
– É uma boa pergunta! – Eu ri. O que eu fazia no shopping mais chique da cidade quando só olhar para as vitrines das lojas dali já estourava meu limite do cartão? – Quebrei meu oftalmoscópio em uma consulta e precisava de um novo. Tenho crédito na loja de equipamentos médicos daqui, por isso eu vim! Amo o café desta cafeteria, então, sempre que venho, faço essa parada obrigatória antes de ir embora. – Expliquei, mostrando a sacola na qual coloquei o oftalmoscópio que comprei, junto de uma lanterna clínica, que, bom, eu não precisava, mas estava na promoção e eu pensei “ah, por que não?”.
– É realmente um ótimo café! Entra aí, falta um pouco até meu empresário chegar... Eu cheguei bem cedo. – ofereceu, e eu pensei mais uma vez “ah, por que não?” antes de aceitar.
– Hum.. Tudo bem! O que você pediu? – Perguntei, adentrando a cafeteria e me assentando no lugar à frente de , que provavelmente estava reservado para o empresário, mas que seria meu até que ele chegasse.
– Um Caramel Macchiato. – Ele respondeu, chegando mais perto para apontar para a bebida específica no cardápio que eu observava.
Uma curiosidade sobre é que ele estava sempre cheiroso. Algo em mim sempre se questionava se mesmo dentro de campo, com todo aquele suor, ele conseguia se manter cheiroso assim, porque não houve sequer um momento em que não me surpreendi positivamente pelo perfume que exalava dele.
– É o meu favorito! Vou pedir um também. – Comentei, rindo da coincidência. fez sinal para que um dos garçons se aproximasse e passei a ele meu pedido: – Boa tarde! Gostaria de um Caramel Macchiato com duplo expresso, por favor. E uma água com gás. – Falei, e o atendente se retirou após anotar meu pedido. – Onde você estava essa semana? – Perguntei, colocando a sacola de compras e minha bolsa de mão nos ombros da poltrona onde estava sentada.
– Jogamos em Bilbao e depois em Sevilha. – Ele disse, parecendo meio atônito.
Antes que eu pudesse falar algo, fomos interrompidos por outro garçom, que colocou os pedidos à frente de , anunciando-os:
– Aqui está um Caramel Macchiato com duplo expresso e uma água com gás.
– Acho que na verdade esse é o meu pedido. Mas ué.. Como chegou tão rápido? – Questionei, e o garçom ficou um pouco confuso.
– Na verdade, esse é meu mesmo, porque pedi primeiro. – explicou, rindo.
– Pedimos exatamente a mesma coisa? Sem saber? – Perguntei, surpresa.
O goleiro assentiu e o garçom riu junto conosco, dizendo antes de se retirar:
– Não sei não, hein? Essa coincidência me parece uma coisa de destino!
Eu e continuamos rindo da situação enquanto tentávamos disfarçar o desconforto pelo comentário.
– Fica bem melhor com dois shots de expresso, não é? – Ele brincou, erguendo a xícara antes de provar a bebida pela primeira vez.
Eu assenti, logo buscando um assunto para evitar um silêncio constrangedor:
– Como está a Sofia?
– Sofi está bem! Nos falamos sempre por videochamada. – O jogador respondeu.
– Quando vocês vão se ver? – Perguntei a primeira coisa que me veio à mente para manter um assunto descontraído, mas logo vi a expressão risonha de se tornar uma face apática e, sem saber muito bem como me explicar, ele disse:
– Seria no final dessa semana, mas... sofri uma punição pela última vez que ela esteve comigo e perdi o direito da visita dela essa semana.
– Uma punição? O que foi que você fez? – Perguntei, assustada, sem perceber que estava soando um pouco julgadora. Na minha cabeça, um motivo justificável para um pai ser impedido de visitar a própria filha tinha que ser algo muito grave, o que não parecia o caso, até porque... – A última vez que você esteve com ela não foi justamente no dia que ela passou a noite lá em casa? O que você pode ter feito de tão grave se ela ficou tão pouco tempo com voc... – De repente, uma ideia me passou pela cabeça, e eu perguntei, extremamente preocupada: – Oh não! Não me diga que sua punição foi pelo arranhão que ela levou do meu gato. Foi?
– Bom, na verdade, é um pouco por isso, sim. Mas não se preocupe, , não é culpa sua. Veronica sempre procura motivos para que eu seja punido... Eu já esperava por essa. – Ele comentou, ainda envergonhado. Eu não conseguia acreditar.
– Bom, tudo bem, mas não é para isso que deveria servir um juiz? Para que as decisões sejam justas? Eu nunca ouvi falar sobre punições em forma de privação de visitas, isso não faz nenhum sentido! O que seu advogado acha disso? – Eu perguntei, e apenas respondeu, parecendo desesperançoso:
– É uma causa perdida, ! Meu advogado mesmo disse que preciso aceitar que as crianças são das mães e que os juízes consideram isso.
– Ele disse o quê? – Perguntei, tão indignada a ponto de assustar .
Me parecia inconcebível que um advogado tivesse mesmo dito isso ao seu cliente e ainda mais inconcebível que, mesmo sendo um ótimo pai, o jogador fosse prejudicado nas batalhas judiciais que enfrentava pela filha simplesmente por ter um advogado fraco e desinformado a ponto de soltar um comentário como esse.
– Olha, acho que sei uma forma de te ajudar. – Falei, depois de ponderar muito bem e ser vencida por uma voz no meu subconsciente que dizia “O que você tem a perder? Já está envolvida na história dos pés até a cabeça mesmo…”.
– Aqui está um Caramel Macchiato com duplo expresso e uma água com gás. – O garçom que me atendeu nos interrompeu, servindo meu café.
– Obrigada! – Eu disse, pegando a xícara.
– Me ajudar? Como? – perguntou, interessado, tomando os últimos goles de seu café enquanto eu tomava os primeiros goles do meu.
– Preciso fazer uma ligação. Espera! – Respondi, deixando o goleiro visivelmente curioso.
Digitei os números no celular e me levantei para finalizar a ligação, explicando o caso de forma resumida e pedindo por ajuda à única pessoa que tinha certeza de que poderia intervir nessa situação.
?! – Chamei, me aproximando novamente do jogador. – Vai fazer algo depois daqui? Quero te levar para conhecer uma pessoa que pode te ajudar! – Falei.
– Não tenho nada programado. Podemos ir! – respondeu, ainda sem entender, ou talvez sem acreditar que eu pudesse realmente conhecer alguém capaz de ajudá-lo. – Não vai terminar seu café? – Ele ofereceu, algum tempo depois.
A adrenalina do momento foi o suficiente para me deixar com as pernas inquietas embaixo da mesa, então decidi que consumir ainda mais cafeína não seria uma boa ideia.
– Na verdade... Não! Você quer? – Ofereci a xícara ao jogador, que a pegou e tomou o que sobrou da bebida em um só gole, questionando em seguida se eu sempre deixava o café sem terminar: – ¿Siempre dejas su café a medias?
– Hum... Não sei?! Deixo?
– Sim. Ou, pelo menos, sempre que está comigo... – Ele riu. – Quando ficou presa no jardim e te fiz café para aquecer, até pensei que tinha feito muito forte ou muito fraco, porque você mal o tocou. – comentou, timidamente. – Mas depois eu tomei o resto e me pareceu tudo bem, então não entendi.
Eu ri da preocupação.
– Não é sua culpa! – Comentei, ainda rindo. – Eu preciso medir o quanto de cafeína consumo fora do hospital, porque... Bem, é mais ou menos à base de café que vivo lá dentro. Então isso acontece. Mas é bom saber que não desperdiço quando você está por perto. – Falei, sorrindo e arrancando dele um sorrisinho.
?! – Ouvimos uma voz se aproximar, chamando o jogador.
– Olá, Bauti. Venha cá! Essa é a , uma amiga. Estávamos conversando enquanto você não chegava. – disse, quando o homem parou ao lado da mesa.
Estendi a mão para cumprimentá-lo enquanto o jogador finalizava as apresentações.
– Esse é meu empresário, Bautista.
– Prazer! Já estou de saída, vou deixar vocês à vontade. – Falei, me levantando. – Você me avisa quando acabar? Estarei por aqui. – Pedi, e assentiu, confirmando.
Depois de gastar tempo literalmente apenas olhando as vitrines e caminhando pelo shopping, avisou que já estava a caminho do estacionamento, de onde seguiu meu carro até o destino ao qual combinamos que eu o levaria.
Chegamos à pequena mas confortável casa, que eu conhecia tão bem. Eu sabia que o anfitrião fazia questão de ser avisado com bastante antecedência ao receber visitas, mas esse caso era urgente e eu não pude evitar. Tinha certeza de que ele entenderia.
– Quem mora aqui? – perguntou, parecendo meio desconfiado.
– Você logo vai saber! – Respondi, guardando o segredo pelos últimos minutos.
– Perlita! – Eric exclamou ao me ver, me recebendo com um abraço apertado.
, esse é Eric, meu irmão. E esse é Pablo, seu esposo. – Eu disse, apontando para os dois rapazes parados à nossa frente, finalmente revelando a quem eu o havia levado para conhecer. Em seguida, completei: – Meninos, esse é ! O amigo de quem falei com vocês.
– Como vão?!
apertou as mãos dos dois e eles retribuíram.
– Vamos entrar! – Pablo disse, abrindo passagem. – Aqui dentro podemos conversar com mais calma.
– Claro, com licença. – O goleiro disse, adentrando a casa logo depois de mim.
Caminhamos até a sala de estar e fomos convidados a nos sentar nas poltronas em volta de uma pequena mesa de centro.
– Certo, Perlita, como posso ajudar? Você não foi muito clara no telefone. – Meu irmão perguntou, me chamando mais uma vez pelo apelido que me dera anda na infância e que, de tão único, fazia muito tempo que eu não ouvia.
Desde que nasci, Eric me descrevia para as pessoas como a “pequena pérola” da casa, a filha favorita dos nossos pais. Daí o apelido, “perlita”.
Eu não podia negar que adorava meu título e também os benefícios que vinham junto com o fato de ser a pedra preciosa da família.
, Eric é advogado e trabalha com direito familiar. – Expliquei, primeiro ao , antes de explicar a situação diretamente ao meu irmão. – Sou suspeita para dizer, mas ele é muito bom no que faz! Queria que você desse uma chance para ele avaliar sua situação e talvez te ajudar com a questão da restrição de visitas a Sofia, ou até com a questão da guarda em si.
– Claro! Podemos tentar sim. Se você acha que há algo que possamos fazer… – prontamente concordou, com um traço de esperança surgindo em seu rosto.
– E em que exatamente eu poderia ajudar?
Eric reforçou que fazia pouca ideia sobre a situação, então logo começou a explicar toda a história, desde o começo.
– Bom, eu preciso de algumas informações a mais sobre o caso para poder falar com propriedade, mas acredito que possamos recorrer sobre esse pedido de suspensão das visitas. Seu advogado não sugeriu isso? É um procedimento padrão. – Eric disse, parecendo meio confuso.
– Hum... Não. – respondeu, torcendo a boca.
– Você recebeu uma intimação judicial sobre isso, certo? Por acaso tem uma cópia aí que eu possa dar uma olhada? – Meu irmão perguntou.
Eu, médica, e Pablo, chefe de cozinha, permanecemos no local apenas para dar apoio moral aos rapazes. Afinal, nenhum de nós dois entendia uma palavra sequer do vocabulário jurídico que Eric dominava e que parecia entender tão bem.
– Na verdade, tenho sim. Espera um momento! – respondeu, se esforçando para puxar o celular para fora do bolso da calça. Em alguns segundos, acessou sua caixa de e-mail e localizou o arquivo em questão, entregando o aparelho para que Eric conferisse.
... O que ela alega aqui é que a criança não está em segurança quando está sob seus cuidados e que você tem delegado sua função a terceiros, que não têm proximidade com a criança. – Ele disse, analisando o documento. – Mas, pelo que a me adiantou, esse foi um fato isolado, não foi? E ela não era uma desconhecida para a criança também.
– Sim, é verdade. Mas em que isso muda? – parecia confuso.
– Bom, é motivo suficiente para se recorrer. Você pode justificar e provar que a criança é sim bem cuidada e que essa situação foi um incidente. – Meu irmão explicou. – Daí será feito um novo julgamento. E acho bem improvável que não atendam o pedido de reconsideração. Se deixar em minhas mãos, é uma causa ganha, modéstia a parte. – O advogado completou, ainda parecendo descrente no conteúdo dos documentos que via pelo celular.
– E, enquanto esse recurso não for aprovado, ele segue afastado da filha, Eri? Quanto tempo você acha que demora?
– Sim. Até o recurso ser julgado, sim. Mas o tempo de espera é relativo. Podemos fazer o pedido de uma tutela de urgência, exigir que vocês mantenham contato virtual ou telefônico até que se conclua o processo. Ou mesmo que, durante esse período, você faça as visitas na casa da mãe da criança ou em outro local na presença de um adulto da confiança dos dois. São muitas as opções, me surpreende o seu advogado pessoal não ter considerado isso antes. – Eric explicou, didaticamente.
– Esse advogado é mesmo de sua confiança, ? – Perguntei.
– Bom, agora eu já não sei… – comentou, parecendo decepcionado.
– Um advogado tem que ser alguém de sua confiança. Que esteja disposto a lutar pelas suas causas contigo! – Eric argumentou, antes de oferecer: – Mas nunca é tarde demais. Se precisar de auxílio ou até mesmo quiser que eu tome a frente dessa situação a partir de agora, estou à disposição! pode te passar meu contato e nos falamos!
– Certo! Obrigado. Vou pensar sobre isso. – O jogador comentou, ainda com ar de chateação. – Mas também não quero ser muito incisivo em uma batalha judicial agora, porque o que menos quero é prejudicar minha filha. Por piores que sejam os erros da Veronica, para Sofia, ela é apenas sua mãe. Não quero que ela nos veja como rivais, você entende?
– Perfeitamente. – Eric concordou. – É por isso que todas as decisões que tomamos na advocacia familiar, colocam as crianças como prioridade. O contato paterno na infância é tão importante quanto o materno. Afastar vocês dois sem um motivo relevante é prejudicar o desenvolvimento dela da mesma forma.
– Justo! Sendo assim, eu entro em contato com você em breve. Pegarei o número com a . Muito obrigado pela atenção. – O jogador disse, se levantando e apertando a mão de Eric mais uma vez, em despedida. Fez o mesmo com Pablo e, antes de se despedir de mim, perguntou: – Você vai ficar?
– Hum... Acho que sim. Faz tempo que não vejo esses dois! Muito assunto para colocar em dia. – Respondi, tentando aliviar o clima pesado.
– Só mesmo assim para eu receber uma visita dessa médica tão ocupada! – Eric brincou, ao lado de Pablo, alguns passos atrás de nós.
– Está certa! – abriu um sorriso ladino e logo disse, para mim, num tom um pouco mais melancólico: – Obrigado, , por ter me trazido aqui.
– Você vai ficar bem? – Perguntei, preocupada pela mudança na expressão facial.
– Sim! É muito para processar, mas vou ficar bem. Obrigado! – sorriu timidamente e em seguida beijou meu rosto, com carinho, se despedindo. – Obrigado de novo, pessoal! Falo com você de novo mais tarde, Eric.
– Fico aguardando! – Meu irmão respondeu.
Acompanhei o goleiro até a porta e, logo que ele passou, eu a fechei e me virei para trás, indo em direção ao meu irmão, que me olhava boquiaberto, parecendo muito surpreso.
– Quando é que a senhorita ia me contar que estava namorando um jogador da seleção? – Ele perguntou.
– Eric! Eu não estou namorando o , que ideia! – Falei. – Somos amigos. E eu também não sabia que ele era jogador de futebol quando o conheci. – Expliquei, sem mentir. Éramos mesmo amigos, eu apenas omiti a parte dos direitos inclusos no pacote.
– Amizade colorida, né? Sei como é... Estou casado com a minha há 3 anos! – Eric atacou mais uma vez, rindo para Pablo, que riu de volta.
– Eric! – Repreendi. – Você está me deixando constrangida. Se continuar, vou embora. – Falei sério dessa vez, para que ele parasse.
– O papai vai pirar quando souber que você está com um jogador do Atlético!
– Eric, se você contar algo ao papai, eu degolo você. Eu não estou com ninguém. – Falei.
Mesmo Eric tendo 30 anos e eu, 26, nossas discussões sempre envolviam algumas das frases que usávamos quando éramos crianças.
– Ei, ei, parem com isso! – Pablo interferiu, agindo como uma pessoa madura. – Por que vocês não vêm até a cozinha para experimentar o Tiramisú que preparei?
– Nossa, tá aí algo mais interessante do que ameaçar Eric de morte. – Brinquei, percebendo que não havia comido nada na cafeteria do shopping e que meu estômago rugia.
Eu e os meninos passamos o resto da tarde rindo juntos e conversando. Fazia mesmo muito tempo que não nos víamos e esse encontro foi mais do que especial! me proporcionava ótimos momentos, até mesmo quando já não estava mais presente.


Capítulo 11

O dia a dia no hospital tem muitas particularidades. Afinal, é um local onde imprevistos acontecem o tempo inteiro e emergências chegam a qualquer horário, bagunçando toda a rotina. Mesmo assim, tentávamos manter o mínimo de programação para pelo menos tentar dar conta de tudo dentro do período de horas que ficávamos lá.
Meu dia normalmente começava pela ronda, para me atualizar sobre os pacientes que foram admitidos durante a noite, sobre a situação atual dos que eu já tinha atendido antes e também para adiantar alguns papéis de alta para os que pudessem ser liberados.
– Ei, amigão! – Chamei ao me deparar com Mateo, distraído na tela de um smartphone, se divertindo com algum jogo virtual. Eu não esperava vê-lo ali.
Peguei o prontuário para descobrir o motivo da internação, mas antes recebi um abraço apertado.
! – Ele exclamou ao me ver, esticando os braços para um abraço.
– Oi, meu amor! Como estão as coisas?
Retribuí o carinho, em seguida me afastando para ler as anotações no prontuário.
– Eu vim porque estava dificuldade para respirar, mas dormi com esse fio no meu nariz e agora estou melhor! Eu posso ir para casa? – Mateo disse, apontando para a cânula de oxigênio e falando com toda a simpatia e desenvoltura típicas dele, que eu já conhecia.
– Vou examinar você e falaremos sobre isso. Tudo bem? Onde está sua mãe? – Perguntei, ainda analisando o prontuário.
Os sintomas de Mateo indicavam alguma intercorrência na parte respiratória. Analisando os sintomas, eu tinha duas suposições: uma delas era a de um derrame pleural. Em outras palavras, um acúmulo de água na pleura; camada que reveste o pulmão. É uma condição até comum entre os pacientes oncológicos devido ao tratamento com a quimioterapia e, apesar do nome feio, era a melhor das hipóteses. A pior delas, porém, era a de uma metástase do tumor para os pulmões, o que seria muito mais agressivo e complicado de tratar.
– Mamãe não pode ficar aqui o dia todo, só à noite. – Mateo explicou e, enquanto eu o examinava, perguntou mais uma vez: – Vou poder ir logo para casa?
– Oh, querido... Hoje não! Eu sinto muito. Ainda precisamos fazer alguns exames em você para saber por que você está tendo esses problemas para respirar.
– Vou perder o jogo? – Ele quis saber, com os olhinhos caídos e um biquinho extremamente fofo.
– Qual jogo? O clássico de amanhã? – Perguntei, como se fosse mesmo ligada nesse assunto. O único motivo pelo qual eu sabia que haveria um clássico madrileno no dia seguinte era porque havia comentado sobre.
– Sim! Nessa televisão só passa desenho de bebê. – Mateo explicou, frustrado, apontando para a TV do cômodo, que ficava mesmo fixa em um único canal infantil em todas as alas da pediatria.
– Que horas é mesmo esse jogo? – Indaguei mais uma vez, esquematizando um plano mentalmente.
– É às quatro da tarde! – Ele respondeu, com muita certeza.
– Olha só, eu tive uma ideia! Também quero muito assistir a esse jogo e vou estar livre aqui no hospital amanhã às quatro da tarde, então que tal se eu trouxer meu notebook para cá e nós dois assistirmos ao jogo juntos? – Ofereci.
Meu plantão acabaria ao meio-dia no dia seguinte, mas eu poderia enrolar um pouco por lá até às 16h para fazer companhia a Mateo e ainda permitir que ele assistisse ao jogo que tanto queria.
– Sim! Vai ser incrível. – O pequeno exclamou, sorrindo e logo perguntou, com ar desconfiado. – Mas, espera, você torce para qual dos dois? Para o Atlético, como eu, ou para o Real?
– Para o Atlético, é claro. – Eu disse.
Meu pai, rojiblanco fanático, estaria orgulhoso de ouvir essa frase, porque não era algo que eu dizia com frequência. Normalmente, diante dessa pergunta, eu sempre respondia “não me importo muito com futebol”, mas neste dia fiz questão de dizer a Mateo que torcia pelo mesmo time que ele.
– Que legal! Qual seu jogador favorito? – Ele perguntou, empolgado por ter alguém com quem comentar sobre o assunto. A parte que ele não poderia saber era que eu não sabia nada a respeito do assunto e que o único jogador do Atlético de Madrid que eu conhecia era...
, o goleiro! E o seu? – Respondi, fingindo normalidade.
? – Mateo quis confirmar. Pelo tom, deduzi que os torcedores não costumavam chamar pelo primeiro nome. – Ele também é o meu! é o melhor goleiro do mundo!
– Não é mesmo? – Assenti, concordando sem fazer a menor ideia, e logo finalizei, antes que outra pergunta do pequeno me deixasse em maus lençóis. – Então, fica combinado assim? Você faz todos os seus exames hoje e, amanhã, na hora do jogo, eu venho aqui assistir com você!
– Combinado! – Ele concordou, com um largo sorriso. Nos despedimos, e eu dei sequência às longas horas de atendimentos.
No dia seguinte, como combinado, terminei meu plantão ao meio-dia e saí do hospital para almoçar em um restaurante próximo. Eu tinha meu compromisso com Mateo às quatro e pensei que, se eu fosse até minha casa para almoçar antes do jogo, não teria ânimo suficiente para retornar ao hospital na hora do combinado.
“Ei, , passando para te desejar boa sorte no jogo.
Acabem com o Real Madrid hoje!”

Enviei para assim que me sentei e pedi o prato de almoço ao garçom.
“Você se tornou uma torcedora rojiblanca mais rápido do que eu esperava! Heheh obrigado, .
Faremos o possível!”

Ele respondeu rápido, e eu me peguei sorrindo para a mensagem quando li.
“Na verdade, meu pai sempre fez dos dias de clássico um evento lá em casa... Tinha todo um ritual, a posição certa da televisão com uma camisa do Atleti em cima do sofá para dar sorte! Hahah acho que no fundo eu sempre curti esse clima.”
Contei.
“Legal!! Você vai ver o jogo com ele hoje?”
perguntou.
“Não, eu combinei com um outro torcedor do Atleti hoje! Que é seu fã, inclusive…”
“Quem?”
O goleiro enviou a pergunta quase instantaneamente depois que falei.
“É um paciente meu, se chama Mateo! Ele tem 7 anos. Ofereci meu computador para vermos o jogo juntos, já que, na TV da ala infantil, só passam filmes e desenhos infantis... Ele disse que você é o jogador do Atlético de quem ele mais gosta e que te acha o melhor goleiro do mundo”
Disse, enviando junto uma foto que tirei de Mateo, com autorização de sua mãe. Normalmente guardava essas fotos como recordação e não as publicava para não expor os pacientes, mas sabia que não faria nada com a imagem do garotinho além de ver, então enviei.
“Heheh que lindo o Mateo!
Será que posso enviar minha camisa do jogo de hoje para ele? Ele ficaria feliz?”

ofereceu, e meu coração errou uma batida de tanta alegria. Sabia que Mateo ficaria infinitamente feliz com esse presente!
“Minha nossa, , é claro que sim. Ele vai ficar muito feliz!!!”
“Ele sabe que nos conhecemos?”
perguntou.
“Não sabe, não! Mas pensarei em uma boa explicação para dar a ele.”
Respondi.
“Certo. Depois do jogo, se quiser ir lá pra casa... Te entrego a camisa e a gente resolve aquelas outras questões…”
Outras questões, claro.
“Fechado!”
Enviei.
“Vou descer com o time para a preleção agora, . Logo iremos para o estádio! Te vejo mais tarde. Beijo”
O jogador disse e provavelmente desligou o celular, porque nem chegou a receber a mensagem que enviei em seguida:
“Nos vemos! Me diga quando eu puder ir. Bom jogo!”

– Saio em 10 minutos. – Avisei, adentrando meu banheiro.
Com uma lâmina e um pouco de espuma, fiz a raspagem das minhas pernas e me enxaguei em uma ducha morna e rápida.
Eu precisava com certa urgência das minhas doses de endorfina e serotonina naquela noite. O dia no trabalho tinha sido longo e, felizmente, estava disponível e parecia querê-las também, tanto quanto eu.
O clássico madrileno acabou em um sofrido 2x1 com vitória rojiblanca. Nos últimos minutos de jogo, uma bola sobrou nos pés do atacante do time, que marcou o gol e garantiu a vitória de sua equipe.
– Céus, você demorou uma eternidade. – disse, abrindo a porta. O porteiro, sr. Ángel, já conhecia o carro e abria o portão da garagem quando eu chegava nele.
– Oi! Desculpa, eu... tive que resolver algumas coisas antes de sair.
Coisas importantes, como, por exemplo, raspar minhas pernas.
– Tudo bem, vamos subir?
– Na verdade, quando cheguei, alguém parecia estar fazendo uma entrega no portão menor... Logo deve tocar o interfone, se você preferir esperar. – Comentei.
Tinha mesmo visto algum entregador parado em frente ao portão de entrada da mansão de . Imaginei que ele logo teria que ir até lá assinar o recebimento de algo e esperava mesmo que isso não acontecesse em um momento inoportuno que quebrasse todo o clima.
– Sim, é da farmácia. Mas relaxa, o interfone não vai tocar. – respondeu, percorrendo o caminho até as escadas.
– Ué, como você tem tanta certeza? – Perguntei, seguindo-o.
– Ángel sabe. Temos um código para momentos assim... Digo que estou indisposto. Daí ele sabe que não deve me incomodar, até que eu “melhore”.
O goleiro riu ao contar, subindo as escadas à minha frente enquanto eu perguntava, num misto de indignação e risadas:
– Eu sou sua indisposição?
– Eu precisava de um código...
deu de ombros, olhando para trás e rindo.
– Ah, antes que eu me esqueça, aqui está a camisa para o seu pequeno paciente. – Ele disse assim que adentramos o quarto, pegando a camisa sobre uma das chases, que ficavam à frente de sua televisão.
– Muito obrigada! Você autografou? – Perguntei, retoricamente, ao observar um escrito com caneta no tecido e perceber que se tratava de uma assinatura. – Minha nossa, , você nem imagina o quanto fará esse garotinho feliz. – Falei, exultante, só em pensar na alegria de Mateo. – Se tiver algo que eu possa fazer para retribuir… – Eu disse, ainda admirando a camisa, que era muito bonita, inclusive.
– Eu jamais pediria algo em troca, . – Ele sorriu. – E, mesmo assim, você já fez muito por mim, me apresentando ao Eric para me ajudar com a questão da guarda de Sofia. – completou, e imediatamente senti o clima pesar um pouco.
– E por falar nisso... Como estão as coisas? Eric conseguiu te ajudar? – Perguntei.
– Ele conseguiu uma determinação de que eu e Sofi conversemos todos os dias durante uma hora por videochamada até que o processo seja julgado, mas não é muito diferente do que já fazíamos. Eu e ela sempre conversamos por vídeo, mesmo antes da punição. – explicou, com a frustração nítida em seu tom de voz. – Não é culpa do Eric, ele tem feito tudo o que pode. Essas coisas são demoradas mesmo.
– Entendo. Deve ser frustrante. – Comentei, desapontada.
– E como… – Ele assentiu, um pouco sem graça.
– Mas tenho certeza de que tudo vai se resolver da melhor forma e logo você e Sofi estarão juntinhos de novo. – Falei, sorrindo amarelo, tentando ser positiva.
– Eu só não consigo entender, sabe? O que Veronica ganha com isso? Será que ela não percebe que, ao afastar a Sofia de mim, ela prejudica a própria filha? – desabafou, negando com a cabeça, parecendo inconformado.
– Não sei, . De verdade.
– Fico pensando que, no momento em que soube que seria pai, mesmo sem ter me planejado para isso na época, prometi a mim mesmo que seria o melhor pai possível para a Sofia. Que nunca ia faltar na vida dela e nem deixar nada faltar – Ele dizia, cabisbaixo. – E eu nunca fui perfeito, sei que não, mas daí ter um juiz determinando que eu fique longe da minha filha porque me vê como uma ameaça à segurança dela? Você tem ideia do quanto isso é ruim?
Neguei com a cabeça. Eu não fazia ideia, só podia imaginar.
– Ela é tudo o que tenho de mais importante nessa vida, . Pensar que o processo ainda vai ser julgado e que tudo pode acontecer me tira a paz. – Ele completou, se abrindo totalmente.
– Não pensa assim. – Falei, me sentando ao lado dele na cama. – Pensa que não tem nenhum motivo para um juiz manter essa decisão. Não faz sentido ela continuar longe de você, já que você nunca fez nada com a intenção de prejudicá-la. Sofia sabe disso, e é claro que a opinião dela vai ser levada em conta também. Vai dar tudo certo, fica tranquilo.
– Eu não consigo ser otimista em relação a isso. Sei que, mesmo se tudo der certo agora, depois vai vir outra coisa. Sempre vai surgir algo.
Não soube o que responder, então apenas continuei ao seu lado e acariciei seu braço com carinho, num gesto de solidariedade amistosa.
Meu coração apertava a cada vez que me lembrava que o tal arranhão no rosto de Sofia fora causado por um descuido meu. De certa forma, me sentia culpada e responsável por aquele sofrimento de , e talvez fosse por isso que vê-lo tão abatido me entristecia tanto.
, eu sei que combinamos hoje, mas... – pegou fôlego para dizer, parecendo desconfortável – … não estou mais no clima, desculpe! Se você não se importar de deixarmos para outro dia.
– Claro! Sem nenhum problema, eu vim mesmo para pegar a camisa que você deixou para Mateo. – Menti, tentando disfarçar que estava ansiosa para o nosso momento. – Amanhã, quando entregar a camisa a ele, vou filmar a reação para que você veja.
sorriu amarelo.
– Espero mesmo que ele goste! O Atlético tem uma equipe muito engajada em projetos de caridade, sempre promovem algumas visitas ao estádio para torcedores em tratamento de alguma doença. Eu posso ver como funciona e você vê se seria viável para ele. – Ele ofereceu.
– A imunidade dele está muito baixa devido ao tratamento, então visitar um lugar com muitas pessoas não seria uma opção por agora. Mas mesmo assim, obrigada, ! A camisa já vai fazê-lo muito feliz. – Falei, me levantando. – E, quem sabe, talvez um dia você apareça por lá para uma visita? Usando todo o aparato necessário, não teria risco. Tenho certeza de que faria a alegria de muitas crianças ali.
Emendei, calçando novamente meus sapatos.
– Você acha mesmo? – Ele pareceu sem graça. – Tem uma instituição de apoio que eu ajudo com um valor mensal e eles sempre me convidam, mas nunca consegui ir até lá. Não sei qual seria minha reação vendo tantas crianças em tratamento de algo tão grave... Temo acabar me emocionando e as fazer se sentirem mal.
– Tem algo sobre a ala de oncologia pediátrica que me encanta toda vez. – Contei. – Diferentemente do que muita gente pensa, aquele não é um lugar triste! Muitas vezes eu entrei lá sentindo que precisava levar alegria àquelas crianças e saí com a sensação de que foram elas que trouxeram isso a mim. – Falei, sorrindo. – A cada vez que vejo um sorriso ou escuto a gargalhada de um daqueles seres tão pequenos que estão passando por algo tão pesado, eu logo penso “do que eu estava reclamando mesmo?”. São pessoinhas com tanta força e tanta vontade de viver, que me sinto energizada só por estar perto delas. A ajuda financeira é ótima e muito importante para essas instituições, mas pode ter certeza de que passar um tempo de qualidade com elas faria um bem enorme também. Pensa nisso. – Finalizei, percebendo que estava falando demais.
ouvia atentamente e parecia buscar longe nos seus pensamentos uma ideia.
– Bom, vou nessa! – Me despedi, pegando minha bolsa em uma mão e o presente de Mateo na outra. – Boa noite, . A gente se vê.
? – O goleiro chamou, quando eu já estava mais próxima da porta para sair do quarto do que da cama, na qual ele continuava sentado. – Você iria comigo? – Ele completou, quando me virei em sua direção para ouvi-lo.
– À instituição? – Perguntei, um pouco confusa.
– Sim. Você iria?– Ele repetiu a pergunta e eu precisei de alguns segundos para processar.
Seria envolvimento demais? Mas, àquele ponto, o que não seria envolvimento demais?
– Claro. É só me dizer o dia com antecedência, assim me planejo para ficar livre no hospital e vamos juntos.
– Certo! Muito obrigado. – O goleiro disse, com um sorriso.
Sorri de volta e saí do quarto e da casa, um pouco confusa. Entrei no carro e dirigi de volta até meu apartamento, onde encontrei Amanda que, felizmente, estava lá, acordada e disponível para ouvir meus pensamentos cheios de dúvidas.


Capítulo 12

– Eu não sei explicar, mas vê-lo assim tão vulnerável... Mexeu comigo mais do que eu esperava que faria. – Comentei, relembrando as cenas de mais cedo na casa de .
– Mas foi um sentimento de pena? De culpa? Ou você está se apaixonando por ele? – Mandy questionou, parecendo precisar de mais informações para formar sua opinião.
– Eu me sinto culpada, porque o incidente aconteceu aqui em casa, quando Sofia estava sob meus cuidados, sabe? E também senti pena porque sei o quanto ela é importante para ele e imagino o quanto deve ser ruim ficar longe da própria filha sem nem mesmo entender o motivo. – Falei, refletindo bem antes de cada palavra. – Mas... teve algo a mais. Acho que estamos nos envolvendo muito. – Confessei.
– Mas isso é óbvio, . – Amanda riu, como se eu estivesse contando uma piada. – Você está se envolvendo dos pés à cabeça. E eu não julgo você... Mas esse é um fato.
– Eu aceitei essa ideia maluca de amizade de cama sem saber como funciona, agora não sei se devo fazer algo sobre isso ou deixar como está. – Resmunguei.
– Você não acha que ele talvez queira algo a mais? – Amanda perguntou.
– Não sei. – Respondi. – é extremamente gentil e educado com todas as pessoas. Talvez seja o jeito dele. Talvez estejamos mesmo nos aproximando muito, mas como amigos… – Falei e, depois de pensar por alguns segundos, completei: – Isso é muito difícil. Existe um carinho e uma parceria, porque somos amigos... Conversamos sobre tudo, porque somos amigos.... Mas daí também existe o sexo, porque, bem... Foi por aí que tudo começou. Só que é mais ou menos assim que funciona um relacionamento também, não é? Como eu possivelmente vou saber onde traçar a linha? – Perguntei, em disparada, sendo bombardeada por pensamentos e sentimentos muito confusos.
– No namoro, tem amor. Ou, pelo menos, deveria ter. – Amanda disse e fez um adendo, nos arrancando uma risadinha. – Acho que é aí que você traça a linha. Você ama ?
– Bom... Não! Amar, eu não amo! – Falei, prontamente, sem saber se acreditava mesmo no que dizia ou se estava resistente a essa ideia como forma de defesa. – Gosto dele e de estar com ele... E gosto do sexo com ele, também. – Eu ri. – Acho que isso é tudo.
– No namoro, também não existem outras pessoas. Ou, pelo menos, normalmente não existem. – Ela disse e, mais uma vez, fez um adendo que nos arrancou uma risada. – Atualmente tanto você quanto têm a liberdade de se envolver com quem quiserem, você se lembra disso, não é? A ideia dele estar com outras pessoas te incomoda? – Mandy perguntou.
Titubeei por alguns segundos e Amanda respondeu, retomando a palavra:
– Se você está bem com essa ideia e segura de que não sente nada a mais, não tem com o que se preocupar, . Pode só continuar a aproveitar sua amizade con derechos e tudo o que ela te proporciona.
Amanda riu.
– Mas, se em algum momento perceber que está sentindo algo diferente, não pode fazer tão mal ser sincera com ele sobre seus sentimentos. O pior que pode acontecer é você receber um “não” e ter que procurar outro amigo de cama. – Minha amiga disse, dando de ombros, como se a situação fosse mesmo tão fácil.
– Sim, é só isso. – Completei, achando graça. Não levava mesmo a sério a ideia de voltar a me envolver com alguém, e Amanda sabia bem disso.
Logo no final de semana seguinte ao que o assunto veio à tona pela primeira vez, eu visitei, junto de , a instituição de caridade apadrinhada por ele.
As crianças sempre ficam deslumbradas com a presença de alguma personalidade conhecida e, aparentemente, era bem conhecido. Ele me perguntou, antes de irmos, como deveria se comportar e o que deveria fazer, com medo de cometer algum “erro” ou causar algum desconforto às crianças do lugar. Eu disse a ele que não se preocupasse muito com isso, tratasse-as como as crianças normais que são e só procurasse não perguntar sobre o diagnóstico às próprias crianças ou aos seus acompanhantes, visto que muitos respondem sobre isso sem problemas, mas outros se incomodam um pouco ao tocar num assunto tão delicado.
Ele parecia tenso, mas a tensão durou somente até passarmos pela porta de entrada e ele ser recebido com um abraço caloroso por aquelas várias crianças que, antes disso, nem o conheciam pessoalmente, mas já tinham um carinho enorme por ele.
foi incrível com as crianças do começo ao fim da visita. Parecia até já ter feito isso várias vezes antes. Acho que a paternidade ajuda nesse ponto e, não por acaso, ele fazia questão de sempre falar sobre Sofia. Ouvi várias vezes comentários como: “Sabia que você tem o mesmo nome da minha filha?” ou “Tenho uma filha que tem 5 anos também”, “Na próxima visita, vou trazer minha filha para brincar com vocês”.
Na hora de ir embora, as organizadoras da instituição nos pediram para posar junto das crianças para uma foto de recordação. Tentei me oferecer para tirar a foto, numa tentativa de não aparecer na imagem, mas elas insistiram tanto que eu acabei participando. Fiquei agachada ao lado de uma criança que estava em uma cadeira de rodas e estava de pé, logo atrás. Na hora de posar para a foto – como instintivamente acontece sempre em fotos em grupo, que todos tendem a se aproximar –, sutilmente apoiou a mão no meu ombro. Retribuí o gesto colocando minha mão por cima da dele, enquanto, com a outra mão, eu abraçava a criança ao meu lado. Sorrimos para as fotos e, logo em seguida, nos despedimos. sempre dizendo que voltaria em breve para mais uma tarde como aquela, e eu, feliz, tanto por ele quanto pelas crianças e seus acompanhantes, que teriam mais momentos especiais como aquele.
– Você estava certa. – disse, quando entramos no carro, ao sair da fundação.
– Sobre o quê? – Perguntei, sem entender. Estávamos em silêncio, como eu possivelmente estaria certa sobre algo se não havia dito nada?
– Aquilo que me disse aquela vez, em casa... Não é um lugar triste. – explicou, concentrado na direção.
– Ah sim, sobre isso... – Falei, finalmente entendendo. – Viu só? Eles são muito alegres, mesmo com todas as dificuldades. É uma baita lição para nós.
– Totalmente. Vou me organizar para fazer isso mais vezes, después de las fiestas. – disse, me fazendo lembrar que faltavam poucos dias até o feriado de Natal e, por consequência, também o Ano Novo. – Aliás, quais são seus planos para o feriado?
– Trabalho. – Respondi, rindo amarelo. – Eu sempre trabalho no Natal e no Réveillon. – Completei.
– Sério?! – perguntou, parecendo surpreso, aproveitando um semáforo à nossa frente para me observar. – E por que isso?!
Pues... Primeiro porque eles valem mais dinheiro do que os plantões de dias normais. – Confessei, sincera.
Era verdade. A maioria dos médicos e enfermeiros não se disponibiliza para trabalhar nos feriados, por isso os plantões nessas datas são mais bem remunerados.
– E segundo, porque, ao mesmo tempo, quando estou trabalhando nessa data, evito ter que ouvir meu pai fazendo drama sobre eu ter escolhido passar a data com minha mãe, ou o contrário.
Eu ri.
Essa parte também era verdade e envolvia o meu pior pesadelo da adolescência, quando eu já era “livre” para escolher passar o feriado do Natal com minha mãe ou com meu pai, mas sempre me sentia mal quando ligava para um ou para o outro à meia-noite para desejar Feliz Natal ou Ano Novo, e ouvia suas vozes tristes pelo telefone, me fazendo sentir que tinha feito a escolha errada.
Ainda na faculdade de medicina, no internato, quando os plantões sequer valiam uma quantidade significativa de dinheiro, percebi que, se estivesse trabalhando na data, não precisaria fazer essa escolha tão dolorosa e que, assim, meus pais não teriam do que reclamar. Então, foi o que fiz todos os anos, desde o primeiro.
Agora, sempre que fazia a ligação à meia-noite (ou assim que consigo uma pausa em meio aos atendimentos), percebia que o orgulho por saberem que estava trabalhando era maior do que a chateação por não me terem por perto, então ficava aliviada.
Além do mais, não é como se eu fosse uma pessoa religiosa que tinha rituais natalinos ou como se sequer me importasse com o fato de que, durante a madrugada, um ano acaba e o outro termina. Nunca foi grande esforço para mim!
– E você? O que faz no Natal? – Perguntei a , que parecia ainda refletir sobre a minha justificativa para escolher sempre os plantões natalinos e de Réveillon.
– Normalmente reúno a família em Guadalajara, onde moram meus pais. Levo a Sofia comigo um ano sim e outro não. Nos anos em que a pego para o Natal, também passamos a virada e a primeira semana de janeiro juntos. É o maior tempo que tenho com ela em sequência no ano... – Ele contou. – Ano passado ela ficou com a mãe, então, esse ano, teoricamente, é meu. Com essa ordem de restrição de visitas, eu não sei como vai ser. Eric me disse que a qualquer momento posso ter um retorno do juiz me liberando para pegar a Sofia, então acho que vou ficar aqui por Madrid mesmo e torcer para que isso aconteça antes da véspera do Natal.
– Vai dar tudo certo. – Falei, esperançosa, e concluí: – E você vai até colocar uma rosa branca para o São Nicolau embaixo da árvore, como agradecimento.
– Como?! – perguntou, parecendo não entender.
– A fábula natalina da rosa branca. Você não a conhece? – Comentei, não conseguindo evitar uma risadinha. Era engraçado que justo eu estivesse falando sobre fábulas infantis natalinas para .
– Não. Me conte! – Ele pediu, já chegando com o carro próximo ao Hospital Universitário, para o qual estava me dando uma carona depois da visita às crianças da fundação.
– Ah, é bobeira... Minha avó me contava essa fábula quando era pequena, eu nem sei se é uma história conhecida, realmente. – Falei, rindo sem graça.
– Mas agora fiquei curioso, oras. Quero saber! – repetiu, rindo de volta. Suspirei antes de contar a ele um resumo da história que vovó me contava e que fazia parte da minha infância.
– A história diz que, quando Jesus nasceu, havia uma pastorinha de ovelhas muito pobre que queria presenteá-lo, mas que não conseguia encontrar nada bonito ou especial para levar. Então, ela chorou, pedindo ao São Nicolau que lhe ajudasse, e ele transformou suas lágrimas em lindas rosas brancas. Daí, ela foi até a manjedoura e deixou as flores como presente. – Contei, tentando resumir ao máximo. – A moral da história é que nenhum desejo de Natal é impossível para o São Nicolau. – Eu ri. – E, como agradecimento, as pessoas deixam para ele uma rosa branca embaixo da árvore, na manhã de Natal. – Contei, meio envergonhada pela história tão infantil. – Ou talvez minha avó tenha inventado a história e só a minha família faça isso. – Completei, rindo.
Mesmo atualmente não acreditando mais na parte religiosa da história, algumas vezes me peguei desejando colocar uma rosa branca debaixo da árvore de Natal na manhã do dia 25, só para relembrar e manter viva a tradição da família.
– Gostei! – disse, com um sorriso simpático. – É uma boa tradição natalina.
– É sim! – Respondi, também sorrindo, e completei, antes de sair do carro: – Bom, acho que vou indo. Se não nos vermos antes, tenha um Feliz Natal!
– Você também, . Feliz Natal!
Ele sorriu e eu sorri de volta, abrindo a porta do veículo e caminhando em direção ao meu local de trabalho.
O plantão seria “curto”, com duração de apenas 12h. Assim, eu poderia descansar nas 24h seguintes e começar um plantão de 24h já no dia 24 de dezembro. Dessa forma, estaria no hospital durante tarde e a noite da véspera, e seguiria por lá da madrugada até metade do dia oficial do Natal. Exatamente como nos anos anteriores.
Estava terminando de colocar meus pertences no escaninho quando ouvi duas batidas na porta do cômodo e um colega entrou, chamando meu nome.
– Valbuena.
– Pois não?! – Respondi, já vestida em minhas roupas de plantão, prendendo o cabelo em um coque.
– Tem alguém procurando por você aqui fora.
Encarei por alguns segundos a tela azul que meu próprio cérebro tinha criado e saí pelo caminho indicado por esse colega para onde a pessoa em questão estaria.
!
? – Perguntei, confusa.
– Você esqueceu seu celular no meu carro. Ele tocou e só então eu o vi. Pensei que pudesse se algo importante, então… – O jogador disse, me entregando o aparelho.
– Oh! Muito obrigada... – Exclamei e agradeci, pegando o celular de sua mão. – Não precisava se preocupar, você provavelmente já estava quase em casa. – Exclamei, envergonhada.
Já era a segunda vez que eu esquecia um de meus pertences importantes e acabava tendo que me encontrar com o goleiro fora do planejado para recuperar o objeto.
– Não foi nada. – disse, analisando o lugar. – Então é aqui que você trabalha?!
– Bom, sim... Na residência, acabamos sempre revezando entre as alas... Mas, em geral, estou sempre por aqui. – Contei.
– Que linda árvore de Natal! O que é essa sala? – disse, algum tempo depois, observando pela janela o pinheiro natalino – artificial, por motivos óbvios – que fora montado e decorado para ornamentar a brinquedoteca das crianças.
– Linda, não é?! Aí dentro é como uma sala de brinquedos. Muitas crianças vêm para o hospital e precisam passar muitas horas entre exames ou procedimentos, então, para a espera entre um e outro não ser tão desgastante, elas podem esperar aqui dentro e brincar, ou assistir à televisão… – Expliquei ao goleiro, que ainda observava a sala pela janela de vidro. – O hospital é público, então digamos que o investimento em brinquedos para a brinquedoteca não é tão expressivo, o que é compreensível. Por isso, a maior parte dos jogos e brinquedos aí dentro foi doada. Mas, mesmo assim, acho genial que tenham tido a preocupação em construir um cantinho como esse aqui.
– É mesmo incrível. – concordou e logo completou: – Bom, , já vou indo. Vim só entregar seu celular, não quero te atrapalhar. – Um enfermeiro passou caminhando pelo corredor ao lado e disse aquilo com certa pressa para ir embora, observando o rapaz e querendo se certificar de que ele não nos havia visto.
– Certo. Obrigada mais uma vez por tê-lo trazido até aqui. – Eu ri, sem graça. – Eu também não queria te atrapalhar, mas meio que fiz isso, não é?
– Imagina, não foi nada. Se cuida! Boa noite. – acenou, se despedindo, e eu retribuí o gesto.
No dia seguinte, durante as horas de descanso que teria até me apresentar de novo para o plantão de Natal, conversei sobre o ocorrido com Amanda.
– A tarde na instituição foi incrível e estávamos tão próximos que foi quase como se fôssemos um casal. Mas, ao mesmo tempo, quando ele apareceu lá no hospital para levar meu celular, parecia que estava com medo de ser visto comigo. Foi tão estranho...
– Ah, – Ela dizia, dobrando roupa por roupa antes de montar a mala que levaria para Combarro, a pequena cidade litorânea onde moravam seus pais e onde ela passava as festividades todos os anos –, não acho que um cara com tanta experiência em relacionamentos casuais fosse vacilar assim. Te convidar para o acompanhar em uma instituição de caridade? Sei lá... Me parece que ele deve estar gostando de você e tentando se controlar para não se aproximar rápido demais e te assustar, já que você tem pavor da ideia e já o deixou saber disso. – Amanda comentou, e eu dei de ombros, concentrada em dobrar uma jaqueta que ela queria fazer caber na mala. – E, sinceramente, eu não entendo por que você resiste tanto à ideia de algo sério com ele, amiga. Você mesma disse que não é como se fosse muito diferente do que vocês já estão vivendo. Se for recíproco, qual o problema?
– Meu coração palpita só de pensar em encarar um relacionamento de novo. É um compromisso muito grande. E, na verdade, é justamente por isso que não acho que ele queira. Se eu começar a criar expectativas e ele não tiver interesse algum em algo sério, corro o risco de perder o que já temos. E, entre ter isso e não ter nada, prefiro deixar as coisas como estão.
– Mas como você possivelmente vai saber se não perguntar? Ou se pelo menos demonstrar algum interesse para ver se ele corresponde? – Amanda questionou. – Você pode estar perdendo algo muito melhor do que tem atualmente. Um relacionamento que vá te fazer feliz, como você merece, em vez de te machucar, como o anterior. – Ela explicou. – Vai evitar isso por medo de algo incerto?
Dei de ombros, realmente confusa.
– Olha, não precisa ser tão incisiva e dizer tudo de uma vez. Pode ir permitindo essa aproximação aos poucos, para ver como ele reage. Se realmente não for do interesse dele, ele vai dar sinais e você vai perceber. Daí, é só recuar e voltar a manter as coisas como estão agora.
– Posso fazer isso, né?! – Comentei, ainda sem certeza.
– Claro que pode! – Amanda concordou, prontamente, e exclamou ao terminar de guardar tudo na mala: – Pronto, acho que isso é tudo!
– Certo. Te deixo na rodoviária. – Eu disse.
– Você vai ficar bem, não é?! – Minha amiga perguntou.
– Claro que vou! Você sabe que eu passo o Natal sozinha desde o internato, não sabe? Eu sempre fico bem. – Falei.
– Não é sobre o Natal que me preocupo com você, . – Mandy disse, num suspiro, me olhando com tanto carinho que me lembrou o olhar da minha mãe. – Se você soubesse o tamanho do amor que merece, não ia se blindar tanto diante da possibilidade de receber isso. – Amanda concluiu, me provocando um sorriso agradecido e meio envergonhado também. Ela não costumava ser uma pessoa que demonstrava muito seus sentimentos, mas eu sabia que havia verdade em cada uma de suas palavras e resolvi considerar o que ela dizia.


Capítulo 13

É fato que ninguém espera passar uma data comemorativa doente ou machucado dentro de um hospital. Não importa se é o Natal, Ano Novo, Páscoa ou seu aniversário... O cenário hospitalar nunca faz parte dos planos, o que é um tanto quanto irônico, porque é justamente nas datas comemorativas que os prontos-socorros acabam ficando mais cheios.
Pessoas caem de grandes alturas pendurando luzes de Natal nos telhados ou decorando pinheiros natalinos, se queimam nas lareiras, se acidentam guiando seus veículos por estradas molhadas pela precipitação de neve, ou pela neve, propriamente dita, entre outros motivos. Essa é, sem dúvidas, a época do ano em que nós, profissionais da saúde, mais trabalhamos.
Aceitar os plantões durante esse período é como comprar um passaporte para fora da realidade. Afinal, a correria era tamanha que por vezes chegávamos a esquecer que, no mundo lá fora, a maioria das pessoas estava em festa com seus familiares.
Para aqueles que, por incidente, acabavam dentro do hospital e também para os que, devido a um quadro clínico que exigia observação próxima, não eram autorizados a sair de lá para confraternizar com seus entes queridos, era preciso usar de nosso sentimento de empatia para flexibilizar algumas normas, como o limite de visitantes por turno ou restrição do tempo de permanência dessas pessoas ali. Isso fazia com que o hospital ficasse cheio não só de pacientes, como também de acompanhantes.
– O que temos aqui? – Perguntei, me aproximando da área de desembarque das ambulâncias.
Mal tive tempo de experimentar o café que acabara de pegar na cafeteria do hospital e já tive que deixá-lo em cima do balcão de enfermagem, torcendo para que voltasse a vê-lo em algum momento da madrugada. Já estaria frio e com pouco sabor do creme que eu pedi como acréscimo, que tinha justificado a mim mesma que merecia o "mimo" depois de uma noite agitada na Emergência Pediátrica do hospital.
Mal sabia eu que a madrugada estava caminhando para ser tão movimentada quanto.
– Menino, 2 anos, ingestão de corpo estranho com suspeita de material magnético. – O paramédico disse enquanto a maca era colocada sobre o chão.
– Ele engoliu um ímã? – Um dos médicos mais jovens, que estava recebendo o paciente comigo, perguntou, parecendo espantado.
– Eu disse que não era para você dar o presente antes da manhã de Natal.
– Isso teria acontecido hoje ou amanhã. A culpa é sua por comprar um presente com peças tão pequenas. Ele é um bebê!
Dois adultos discutiam, descendo da ambulância logo atrás da maca com um bebê, que chorava, assustado.
– António, por favor, quero uma radiografia de pescoço, tórax e abdome. Luisa, cheque a disponibilidade das salas cirúrgicas e do cirurgião pediátrico em plantão. Talvez precisemos deles. – Pedi aos dois internos que estavam ali comigo, pensando em ganhar tempo caso o ímã tivesse causado alguma reação mais grave no corpo da criança.
Os dois saíram, cada um em uma direção para fazer o que eu pedi e, antes que eu pudesse seguir também, senti uma mão segurar meu braço e me virei para ver quem falava comigo.
– Ele vai ficar bem, doutora? Por favor, diga que ele vai ficar bem. Meu filho é tudo na minha vida. Diga que ele vai ficar bem, por favor. – A mãe da criança suplicou, com lágrimas nos olhos. Eu me deparava com cenas assim mais vezes do que podia contar, mas nunca ficava mais fácil ver o desespero no olhar de quem confiava em mim para restabelecer a saúde do seu bem mais precioso.
– Faremos o possível, senhora! Vamos cuidar bem dele. – Eu disse, tocando sua mão com carinho, tentando tranquilizá-la. Prometer que o paciente ficará bem ou mesmo que voltará com vida era algo que, infelizmente, nunca podíamos fazer. – Vocês podem aguardar na sala de espera que, assim que possível, trarei notícias sobre seu filho. – Eu disse, sinalizando o caminho para que eles fossem até o local adequado.
– Obrigado, doutora. – O homem pediu, também emocionado e tenso.
Assenti com a cabeça e saí andando em alta velocidade até a sala de raio-X, para onde o paciente fora levado.
O maior risco na ingestão de magnetos era que – no caso de terem sido engolidas duas ou mais peças – elas começassem a se atrair estando em locais diferentes do trato digestivo, forçando, assim, as paredes de alguns órgãos contra as paredes dos outros. Essa pressão interna podia ser tão forte a ponto de causar o rompimento dessa “barreira” e resultar, então, em uma hemorragia interna, sepse e até morte.
– Dra. Valbuena?
– Sim. – Respondi, atendendo ao chamado do interno que pedi que obtivesse uma radiografia de tórax do paciente.
– Já tenho os resultados do exame do garotinho do ímã.
– O que mostrou? – Perguntei, ficando de pé para entender a situação.
– Aqui está. – Ele disse, me entregando o exame impresso. – Por sorte, ele engoliu apenas uma peça com ímã. Ela está localizada ainda no estômago, então podemos remover com uma endoscopia digestiva alta. Já chamei o pager do cirurgião que está de plantão, ele está a caminho.
– Excelente, António. Muito obrigada! – Agradeci, também elogiando o interno pela sua conduta diante da situação.
– Você vai observar? – Ele perguntou sobre o procedimento.
– Não. Vou avisar aos pais dele e depois ficar aqui na emergência, caso apareça mais alguém. – Respondi. A equipe médica não estava completa no dia, e eu preferia continuar de sobreaviso para nenhum paciente precisar ficar esperando caso alguma emergência chegasse. – Ei, António?! – Chamei novamente a atenção do interno para mim, me lembrando de instruí-lo sobre algo importante. – Quando ele já estiver no quarto, eu passo para examiná-lo, mas, caso os pais perguntem, alta só após a primeira dieta. Ok?
– Certo, Dra. Valbuena. Obrigado!
Fui até a sala de espera para avisar aos pais do pequeno de que sua situação era bem mais tranquila do que estávamos nos preparando para enfrentar. A endoscopia poderia ser feita apenas com sedação e, em poucas horas, ele já estaria bem de novo. Recebi um abraço apertado em agradecimento e voltei para a ala da emergência para aguardar por um possível novo caso, que, felizmente, não chegou pelo resto da madrugada.
Resolvi ir para o quarto de “descanso” médico para tentar um cochilo quando já eram quase 5h da manhã. Nesses casos, levo comigo meu pager e me comprometo a acordar e atender a qualquer chamado, caso ele soasse.
Felizmente, o aparelho sonoro permitiu que eu dormisse até as 9h da manhã – o que era bastante tempo, principalmente num plantão de data comemorativa – até ele soar, me requisitando para uma consulta.
O paciente dessa vez parecia estar tendo uma reação alérgica a algo que comeu na ceia de Natal e apresentava alguns focos de prurido e angioedema na pele, mas foi medicado com um anti-histamínico injetável e ficou em observação por algumas horas até ser liberado para casa.
No começo da manhã, passei pelos quartos dos pacientes para ver como eles passaram a noite e para atender qualquer demanda deles, caso fosse necessário. Quando terminei a ronda, já faltava pouco para a hora de ir embora, 24h depois de ter chegado ao hospital.
Estava a caminho dos armários para trocar minha roupa e pegar meus pertences, mas me distraí por algum tempo conversando com as enfermeiras no balcão de enfermagem da entrada principal do pronto atendimento.
Alguns minutos de conversa depois, senti uma mão pequena tocar minhas costas e me virei para ver quem era. Encarei novamente uma tela azul formada pelo meu cérebro, enquanto tentava assimilar tudo.
– Oi, ! – A pequena disse, sorridente, com um traço de timidez.
– Sofia? Oi, princesa! O que acon.... – Me agachei para receber um abraço e, logo em seguida, olhei para frente, me deparando com outro rosto conhecido, que se aproximava de nós. – ? Está tudo bem? O que vocês fazem aqui?
O goleiro sorriu e apontou com a cabeça para a filha, que ainda estava parada à minha frente. Olhando para ela de novo, eu pude perceber que ela segurava algo.
– Isso é para você.
Sofia esticou o braço na minha direção, me entregando o que pude perceber que era uma rosa branca envolta por papel de seda, o plástico de alguma floricultura, e um laço vermelho de Natal para enfeitar.
– Ah, Sofia... O que eu faço com você, hein? – Falei, encantada, já pegando a flor de sua mão e puxando-a para mais um abraço. – Que flor linda, meu amor! Muito obrigada. – Eu disse.
– Papai me contou a história da rosa branca de Natal. – Sofia explicou, ainda um pouco tímida. – Nós colocamos uma flor como essa embaixo da árvore para o São Nicolau, mas papai disse que você também merecia uma.
– Eu? – Perguntei, um pouco confusa, olhando para , que agora estava parado bem ao nosso lado. – Por ter te contado a história?
Fiquei de pé para cumprimentá-lo, também com um abraço, enquanto esperava uma resposta.
– Não! Por ter me ajudado a realizar meu desejo de Natal. – O jogador respondeu, próximo ao meu ouvido quando nos abraçamos. – Eric me ligou ontem, dizendo que conseguiu a liberação para que eu pegasse Sofia. – Ele disse, sorrindo, e eu não pude evitar um sorriso também, instantaneamente.
– Sério? – Perguntei, retoricamente. Só depois que ele falou foi que liguei os fatos e concluí que, se ele e Sofia estavam juntos agora, era porque tinha dado tudo certo.
– Minha nossa! Fico tão feliz por vocês... Que alegria. Você merece! Eu sabia que ia dar tudo certo. – Falei, abraçando o goleiro mais uma vez, em meio à euforia pela notícia.
– Seu irmão é mesmo muito bom no que faz! Não teria sido possível se você não nos tivesse apresentado, então... Parte da realização do meu desejo de Natal foi graças a você. – Ele explicou, mais uma vez, para que eu entendesse por que ele achou que eu também merecia uma rosa branca na manhã de Natal.
– E você acabou não indo mesmo para a cidade dos seus pais? – Perguntei, por curiosidade. Ele tinha dito que era o que fazia todo ano, independentemente de estar ou não com a filha... Mas era a manhã de Natal e ele ainda estava em Madrid.
– Ah, , essa história dava um filme. Foi mesmo um milagre de Natal, você precisa ouvir. – comentou, rindo.
– Eu quero mesmo! – Falei, curiosa, olhando para o relógio em meu pulso direito e percebendo que, pelo horário, já podia ir embora do hospital. – Meu plantão acabou de acabar. Me dá cinco minutos para confirmar se a próxima médica já chegou e para me trocar? A gente pode tomar um café e você me conta toda a história. – Expliquei a situação a .
– Claro. Ficaremos aqui te esperando. – Ele respondeu, segurando Sofia pela mão.
– Acho que não vou demorar muito, mas, se quiser, pode esperar com ela naquela brinquedoteca que te mostrei aquele dia. Lembra onde fica? – Sugeri, pegando em cima do balcão meu copo de café e a prancheta que eu segurava quando cheguei ali para conversar com minhas amigas da enfermagem.
Só então percebi que elas observavam atentamente toda a cena, até porque a sala de espera do pronto atendimento estava vazia. , eu e Sofia éramos os únicos movimentando o local.
– Acho que sim. – disse, sem certeza.
– Vem comigo, eu passo por lá no caminho. – Falei, já andando em direção à sala de brinquedos que poderia manter Sofia entretida por algum tempo, até que eu fizesse a passagem do plantão para a residente do próximo turno.
Por sorte, ela já estava no hospital e, como não foram tantas as admissões durante a noite, eu tinha poucos casos para explicar a ela antes de fazer a troca.
Assim que terminei, já fui logo trocar minhas vestes hospitalares pela roupa que levei na mala de plantão. Como sabia que e Sofia estavam esperando por mim, tentei fazer isso da forma mais rápida possível e, em vez de tomar uma ducha, como eu gostaria, apenas escovei os dentes, lavei o rosto e reforcei o desodorante e o perfume.
– Oi! Voltei. – Falei, diante da porta, observando que Sofia brincava na mesa de legos junto com outras duas crianças. Ao me ver, ela e o pai se despediram dos demais e vieram em minha direção.
– Vocês querem tomar um café ou algo assim? – Sugeri, logo que eles saíram.
– Será que encontraremos alguma cafeteria aberta hoje? – questionou, andando comigo em direção à saída.
– Esqueci que é Natal! – Falei, rindo.
– Que tal lá em casa? Posso fazer um café enquanto conversamos. – ofereceu, e eu pensei duas vezes antes de aceitar.
Antes que eu pudesse responder, Sofia disse para mim:
– Isso! Vamos para a casa do papai, assim posso te mostrar meu presente de Natal.
– Pode ser? – sugeriu de novo. Acho que acabei transparecendo que fiquei um pouco desconcertada com o convite, porque o goleiro me observava com expressão preocupada.
– Hum... Bom, pode. Eu... É, pode ser! – Respondi, fingindo procurar a chave do carro na minha bolsa de mão, mesmo sabendo exatamente onde a guardei quando cheguei ao hospital no dia anterior.
Percebi que talvez aquela fosse uma boa chance de confirmar o que Amanda tinha me dito no dia anterior sobre a aproximação do jogador ter ou não outros interesses e topei.
– Não repara na bagunça, dispensei todos os funcionários para passarem o Natal com suas famílias e não sou muito bom em organizar as coisas. – disse, logo que nos encontramos na garagem de sua casa.
– Não se preocupe com isso! – Falei, trancando o carro.
– Ei, Sofi, por que não vai mostrar seu presente de Natal para a enquanto eu preparo um café para nós e um chocolate quente bem gostoso para você?
– Tudo bem!
Sofia sorriu, pegando minha mão em seguida para me levar em direção ao seu quarto.
– Você aceita um chocolate também, ? Ou prefere um café? – quis se certificar antes que eu e Sofi saíssemos dali.
– Hum... Acho que, dessa vez, aceito um chocolate quente. – Falei, e ele assentiu.
Voltei a caminhar com a pequena até seu quarto.
– Esse foi o presente que o papai me deu! – Sofia disse ao abrir a porta, mostrando um cavalete em miniatura, com uma tela branca exatamente na altura ideal para que ela pintasse. Além disso, vários tubos de tinta, pincéis, rolinhos, um avental e outros itens de pintura que ela parecia ter amado ganhar.
– Uau! É como ter seu próprio ateliê! Que incrível. – Exclamei. O presente parecia mesmo genial.
– E você, ? O que ganhou de Natal? – Sofia perguntou, algum tempo depois.
– Hum... Eu? – Perguntei, e ela assentiu. – Eu ganhei... Bom, na verdade, até agora nada. Só a flor que você e seu pai me deram! – Expliquei.
– O Papai Noel não te deu nada? Nem sua mãe ou seu pai? – Ela questionou, surpresa.
– Ainda não me encontrei com meus pais... Acho que é por isso. O Papai Noel costuma deixar meus presentes com algum deles. – Falei, arrumando qualquer desculpa esfarrapada.
– Você não passou o Natal com seus pais? – Sofia perguntou, mais uma vez.
– Não. Eu passei no hospital, ajudando as pessoas que ficaram doentes no Natal.
– Eles ficam tristes? – A pequena indagou, parecendo interessada.
– As pessoas do hospital? Bom, acho que...
– Não! Os seus pais. Por você não ter passado o Natal com eles. – Ela me interrompeu, se explicando. – Eu também não passei o Natal com a minha mãe. – Sofia disse, desviando o olhar, num sinal de desconforto. Logo entendi a preocupação pela pergunta.
– Oh, Sofi... Eles não ficam, não. – Falei, me agachando para ficar na altura dela e conversarmos. – Os pais só querem ver a gente feliz! Você ficou feliz por passar o Natal com seu pai? – Perguntei, já sabendo que a resposta seria “sim”.
– Foi muito legal! – Ela disse, assentindo com a cabeça.
– Então com certeza sua mãe ficou feliz também. – Falei, mesmo sem fazer ideia, porque não conhecia a mãe de Sofia.
– Meninas? – chamou, ainda no corredor, se aproximando do quarto da filha. – Venham antes que o chocolate quente de vocês esfrie! – Ele disse após algumas batidinhas na porta, que já estava aberta.
– Hum! Vamos até lá, então. – Falei, esticando a mão para Sofia, que a pegou e caminhou comigo até a sala de estar, onde colocou as canecas de chocolate quente, junto de alguns biscoitos, na mesa de centro, logo à frente da lareira moderna que compunha uma das paredes da casa.


Capítulo 14

– Esse chocolate quente está fantástico. Você precisa me passar a receita depois. – Falei ao jogador, logo que tomei o primeiro gole da bebida.
– Bem, eu… – começou a falar, quando uma garotinha com um bigode de chocolate quente e portadora de uma sinceridade que mal cabia em tão pouco tamanho o interrompeu:
– Papai nem sabe fazer chocolate quente. A máquina de café faz sozinha, ele só pressiona o botão!
Eu não pude evitar uma risadinha.
– Obrigado pelo voto de confiança, filha. – Ele disse, com sarcasmo, arrancando risadas de nós duas. – Não quer mais? – Cristian perguntou à filha, algum tempo depois. Sofia confirmou que estava satisfeita e que voltaria ao seu ateliê de pintura no quarto. – Certo, eu e estaremos aqui conversando. Traga a pintura para vermos depois. – O goleiro disse, limpando a boca da filha com um guardanapo.
Logo que ela saiu correndo de volta para seu quarto, percebi que seguia olhando para os dois com um sorriso bobo no rosto. A relação de Sofia com me lembrava muito a minha relação com meu pai, e isso aquecia meu coração em um lugar muito especial.
– Agora sim, podemos conversar. – Ele disse, também sorrindo para mim.
– Sim! Me conte, como isso aconteceu? Estou tão feliz por vocês!
– Bom, basicamente o que aconteceu foi... Eric. Seu irmão é o melhor, , espero que você saiba disso. – disse, sem conseguir conter a empolgação. Naquele momento, fiquei feliz por ter ignorado a parte de mim que pensou em não mencionar Eric na história porque temia ser envolvimento demais. – Desde que assumiu o processo, encontrou uma série de coisas erradas que eu nem fazia ideia e que meu antigo advogado nunca tinha mencionado. – Ele falou, parecendo muito feliz. – Primeiro, uma coisa que eu não sabia. O regime de guarda não tem nada a ver com frequência de visitas. Você sabia disso? Eric me explicou que a guarda de uma criança diz respeito ao poder de decisão sobre ela, ou seja, ainda que eu não tenha custódia fixa da Sofia, posso compartilhar a guarda. Passo a ser envolvido em decisões importantes da vida dela, como mudança de escola, registros médicos e essas coisas. – Ele explicou, usando os termos técnicos que provavelmente Eric o havia ensinado. – Já estamos providenciando a mudança no regime de guarda e, logo em seguida, vamos ajustar a frequência das visitas, de forma mais flexível, para que minhas viagens com o time não atrapalhem meus momentos com ela.
– Uau! Agora sim. – Exclamei, com um sorriso. Isso era o mínimo e já deveria ter sido feito muito antes.
– Ele disse que, no meu caso, se encaixa também um pedido de revisão da proporção de Pensão Alimentícia, que atualmente é de trinta por cento do meu salário fixo. – contou. – Mas eu não quis mexer nessa parte, pelo menos por enquanto. Não quero que no futuro a Sofia se pergunte, por um minuto sequer, se essas providências que vou tomar agora tiveram alguma relação com dinheiro. E, se alguém colocar isso na cabeça dela, quero que ela mesma possa comprovar que não mexi em um centavo sequer do dinheiro que é dela. – Ele dizia, seguro, parecendo bem decidido.
Não pude evitar pensar que trinta por cento do salário de um atleta profissional e bem-sucedido como , mensalmente, era dinheiro suficiente para sustentar confortavelmente não só Sofia, como mais cinco crianças iguais a ela.
Guardei meus pensamentos só para mim, mas não sei se no lugar dele eu teria tanta certeza em não pedir a tal revisão.
– E como aconteceu a liberação da visita para o Natal? Estou ansiosa por essa parte. – Falei, e ele sorriu, se empolgando mais uma vez.
– Como eu te disse, seu irmão fez todo o procedimento necessário e ficamos apenas aguardando o agendamento da audiência com o juiz, mas foram dias sem ter sequer uma resposta. Como a audiência poderia ser agendada a qualquer momento, eu disse aos meus pais que não iria para a cidade deles para o Natal, para estar aqui de sobreaviso. Eu já nem tinha mais esperanças que algo de fato fosse acontecer, mas daí Eric me ligou dizendo que a audiência fora marcada para o dia 23. – Ele contava, feliz apenas por se lembrar. – E ela, enfim, aconteceu. Terminou às seis da tarde e o juiz determinou então que Veronica tinha vinte e quatro horas para me entregar Sofia antes de ser responsabilizada por descumprir uma ordem judicial... E ela foi até o limite, ! Você nem imagina. Quando eram cinco e meia do dia seguinte, Eric me ligou, dizendo que Veronica estava a caminho, trazendo Sofia aqui. Eu nem acreditei! – Ele disse, com os olhos marejados, se emocionando de novo só por contar.
– Como Eric sabia? – Perguntei.
– Eric ficou em contato com a advogada de Veronica, assim eu não precisaria tratar nada diretamente com ela e nem ela comigo. Ele disse que seria melhor assim, tendo um mediador. – explicou.
– Justo! E como foi para Sofia? – Perguntei, ainda tomando meu chocolate quente.
– Logo que ela chegou, fizemos muita festa. Estávamos com muita saudade um do outro! Depois que nos acalmamos um pouco, ela ficou mais introspectiva... Acho que ficou um pouco confusa, sabe? Ela não sabe nada sobre a parte judicial, então acho que estava se perguntando por que tudo aconteceu assim tão rápido. – Ele disse. – Foi aí que contei a ela sobre a fábula do Natal que você me havia contado. Disse que ela tinha sido meu pedido ao São Nicolau e que agora eu devia uma rosa branca a ele...
riu e eu não pude evitar rir também.
– ... E a você também. – Ele finalizou, me sorrindo com simpatia.
– Ela me perguntou agora há pouco se meus pais não ficam tristes quando não passo o Natal com eles. Acabei deixando escapar essa informação. – Contei. – Eu disse a ela que não. Que os pais só querem que estejamos felizes e isso os faz felizes também... Mas acho que ela pode estar um pouco confusa sim. Não sabemos o que a mãe disse a ela, se disse que ficaria triste ou algo assim. Crianças são muito “egocêntricas”, no sentido não pejorativo da palavra, sabe, ? Elas acham que tudo o que acontece é por causa delas... Quando veem um pai ou uma mãe triste, se culpam por isso. Acho que talvez não seja a melhor opção deixá-la tão alheia assim ao que está acontecendo, porque a cabecinha dela pode começar a criar cenários que não são reais e isso é bem pior. – Falei enquanto me observava atentamente. – No seu lugar, eu tentaria chamá-la para uma conversa, de uma forma bem leve, explicando somente a parte que ela precisa saber. Deixar claro que vocês dois a amam, independentemente de qualquer coisa, e que só estão ajeitando o período que ela passa com cada um para que seja mais justo e que vocês não fiquem com tanta saudade um do outro. Ela vai entender, tenho certeza.
assentiu com a cabeça, parecendo entender bem o que eu dizia.
– Ou você pode procurar uma psicóloga infantil e pedir a ela que faça isso, mas eu ainda sou mais a favor de que ela saiba diretamente por você! Ela acreditará melhor assim. – Falei. – Ou, pelo menos, eu acho. Foi assim comigo... Desculpa me meter nisso, você nem pediu minha opinião.
Eu ri, percebendo que podia estar sendo um pouco invasiva.
– Não, de forma alguma! É bom saber disso. Eu nunca tive pais separados, então algumas coisas nem passam pela minha cabeça até que alguém diga. Eric tem uma psicóloga infantil em sua equipe e me disse mesmo que essa seria uma boa ajuda para Sofia, mas vou tentar ter essa conversa a sós com ela primeiro. Obrigado por me dizer!
– Não tem de quê. – Respondi, sorrindo para ele, que perguntou:
– Quantos anos você tinha? Quando seus pais se separaram.
– Tinha acabado de completar 9. Tivemos essa conversa quando eles oficializaram o divórcio, alguns dias depois do meu aniversário, e passei a viver entre duas casas, 15 dias em cada. – Expliquei.
– E essa divisão foi tranquila para você? Me disseram que a criança perde um pouco da referência de “lar” quando vive em duas casas ao mesmo tempo.
– Sinceramente? No começo, eu odiei. – Falei. – Eu detestava quando estava com minha mãe e queria brincar com um brinquedo que era justamente o que eu tinha esquecido na casa do meu pai. Isso acontecia sempre. Também vivia deixando material escolar na casa de um deles e acabava precisando de algo para a lição de casa quando já estava na casa do outro... É uma adaptação, leva tempo. Tinham dias em que eu sabia que precisava ir para o meu pai, por exemplo, mas estava tão confortável com minha mãe que gostaria de poder ficar, ou o inverso. Acabava indo, por medo deles ficarem tristes pensando que eu não queria ficar com eles. – Parei por alguns segundos para tomar fôlego. Estava falando tão rápido quanto um narrador esportivo. – Mas, com o tempo, para mim fez sentido. Entendi que eles me amavam igualmente e que por isso queriam e mereciam ter o mesmo tempo comigo.
– Justo! – Ele concordou.
– Quando minha mãe apresentou o primeiro namorado, um ano depois da separação, como forma de protesto, eu disse que ia morar integralmente com meu pai. Mas, como só poderia tomar essa decisão aos 12 anos, tive que continuar no rodízio até lá. – Contei, rindo. – E foi até bom porque me acostumei. Desde então, minha mãe tem uma rotatividade bem grande de namorados. – Ri mais uma vez. – Porém, foi só eu me acostumar com o namoro da minha mãe que meu pai decidiu começar a namorar também, e eu voltei à estaca 0. – Disse, revirando os olhos. – Tive ainda mais ciúmes dele! Decidi fazer a vida da minha madrasta um inferno até ela desistir do relacionamento. Bem estilo “Operação Cupido”, sabe, o filme? Mas sem a parte de tentar fazer meus pais voltarem a ficar juntos. E também sem o apoio do meu irmão, que era o queridinho da madrasta. – Contei, fazendo uma cara de nojo que eu sempre me pegava fazendo ao contar essa história. riu, e eu acabei rindo também.
– Não se parece nem um pouco com você, ! – Ele disse. Era verdade, todas as pessoas que souberam da história estranharam minha atitude e perderam a imagem de criança boazinha que tinham de mim na época. – O que você fez? Deu certo?
– Ih, foram muitas coisas. Já coloquei cola branca dentro do shampoo dela, mel no vidro de bronzeador... Para você ter ideia, um dia fingi estar tendo uma reação alérgica a uma comida que ela fez e só foram descobrir que era mentira quando eu já estava no hospital. Acredita? – Falei, com naturalidade, e ri de novo ao ver a cara espantada de a cada coisa que eu falava. – Essas foram algumas das piores coisas e me lembro delas porque fiquei de castigo por muito tempo! Mas devo ter cometido outros pequenos delitos ao longo do tempo. E não. Não funcionou, porque ela e meu pai estão juntos até hoje.
– Estou perplexo. – O jogador disse, com a expressão de fato perplexa, apesar de cair na risada logo em seguida.
– Eu tinha 10 anos, tudo bem? – Falei, na defensiva. – E depois, aos 12, quando pude escolher uma casa para morar, preferi ficar com eles. Foi quando minha relação com minha madrasta melhorou, e hoje em dia a gente se dá super bem. É engraçado, porque, agora, olhando para trás, eu nem consigo mais enxergar meus pais juntos. Eles brigavam tanto, eu não sei como eles sequer acharam um dia que seria boa ideia serem um casal. Mas, mesmo assim, não foi fácil vê-los com outras pessoas. – Completei.
– Não sei se Veronica já apresentou alguém pra Sofia... Eu nunca. Até porque o mais perto que cheguei de ter um relacionamento sério foi antes de saber que ela existia. Mas aí logo Veronica apareceu falando que tinha um bebê meu na barriga, e a moça deu o fora.
Olhei um pouco espantada, tentando entender a situação, e ele logo explicou, ao perceber meu espanto:
– Não, não é o que você está pensando! Veronica me contou de Sofia quando já estava com 6 para 7 meses de gravidez. Eu estava junto dessa outra moça havia 4 ou 5 meses. Foi algo assim.
– Entendi. Mas você acha que ela reagiria bem? Digo, Sofia, a ter um padrasto ou madrasta...
– Bom, acho que sim. Ela é bem compreensiva. Sem contar que é diferente para ela, porque nunca viu os pais juntos, então não tem essa imagem na cabeça, como você teve. Desde que Sofia se entende por gente, eu moro em uma casa e a mãe dela em outra. São dois mundos diferentes, e sempre foi assim. – disse, refletindo bem. – Não que esteja nos planos dar a ela uma madrasta, mas, se algum dia acontecer, acho que ela não dará trabalho, não!
Refleti por alguns segundos sobre o que o jogador disse e concluí que, se estivesse interessado em "expandir" nossa amizade con derechos, não ia escancarar assim tão facilmente que não tinha planos de se envolver seriamente com alguém. Não soube dizer se fiquei frustrada ou só surpresa com essa constatação, mas imaginei que talvez esse fosse o sinal que eu precisava para recuar.
– Bom, tomara que não. – Sorri amarelo, bebericando meu chocolate quente. – Agora que já me atualizei sobre a história do seu milagre de Natal, acho que é hora de voltar para minha casa e deixar vocês dois se curtirem um pouquinho mais, para correr atrás do tempo perdido. – Falei, assim que terminei a bebida. – Vou para casa.
– Está cedo, por que você não fica um pouco mais? Eu e Sofi estamos aqui sozinhos, você vai ficar lá sozinha... Pelo menos podemos nos fazer companhia. É Natal, afinal! – O goleiro sugeriu com um sorriso sincero, e eu me esforcei para não expressar minha face de confusão. Por que ele insistia em ser tão gentil comigo?
– Ah, não se preocupe com isso. Eu me viro bem sozinha, mesmo no Natal! E, para ser sincera, foi um longo plantão. Eu preciso mesmo descansar. – Falei, com esforço para não soar rude.
– Bom, se você diz... Tudo bem. – Ele se deu por vencido.
– Chama Sofia aqui para eu me despedir dela? – Pedi, e ele atendeu, chamando o nome da filha, que, em segundos, apareceu saltitando pela sala, me trazendo de presente uma pintura de aquarela em papel sulfite. Nos despedimos com um abraço, e eu fui para casa, refletindo um pouco mais do que a data propõe, sobre um tal goleiro e a amizade con derechos que tínhamos.


Capítulo 15

, isso não tem absolutamente nada a ver. Não viaja! – Amanda disse, pelo telefone, logo que cheguei em casa e liguei para atualizá-la sobre a situação com .
– Ele disse com todas as letras que não está planejando dar uma madrasta para a filha. O que mais isso poderia querer dizer? – Perguntei.
– Ora, mas foi você quem quis garantir que não haveria nada além da amizade e dos derechos. O que você esperava? Que ele te dissesse algo como “quando eu e você estivermos juntos em um lindo relacionamento, acho que ter uma madrasta não será um problema para a minha filha”? – Mandy respondeu, parecendo não ver lógica em sequer uma palavra do que eu tinha dito.
– Eu não sei. Ele podia não ter dito nada, mas escolheu deixar isso claro. Acho que foi aquele sinal que você disse, indicando que eu precisava recuar, sabe? – Expliquei, ainda meio confusa.
– Eu nunca disse que seria um único sinal e nem que você deveria recuar tudo de uma vez. – A futura ortopedista disse, frustrada, do outro lado da linha. – Não atropela as coisas, . Sério. Tenta um blefe para ver a reação dele.
– Um blefe? – Perguntei, rindo.
– Baixa a guarda sobre essa coisa de serem só amigos con derechos da próxima vez que vocês forem sair, propõe alguma coisa um pouco mais romântica, mas nem tanto. Vê o que ele acha da ideia. – Ela sugeriu, e senti um frio na barriga.
Meu lado racional me fez declinar a ideia no mesmo momento, mas a vontade de descobrir o que seria algo “um pouco mais romântico, mas nem tanto” com me fez aceitar.
– Certo. Vou tentar! – Falei, decidida.
Meu primeiro impulso de “blefe”, como Amanda sugeriu, veio poucos dias depois daquela conversa, na primeira semana do novo ano, quando perguntei ao goleiro o que ele faria à noite e se não toparia se encontrar comigo em casa, já que a outra médica residente lá não estaria presente.
“Oi, ! Poxa, hoje seria ótimo, mas estou viajando para um jogo amanhã. Essa semana toda vamos ter algumas partidas muito importantes, na verdade. Mas assim que voltar para Madrid te falo, certo?”
Ele respondeu, mais rápido do que imaginei.
“Quando você volta?”
Perguntei, despretensiosamente.
“Amanhã. Sábado jogamos pela La Liga”
Ele respondeu, e eu questionei, alguns segundos depois, só para render a conversa:
“Esse é um dos jogos importantes?”
“É sim! Hahah”
enviou, apenas alguns segundos antes de enviar outra mensagem:
“Quer ir?”
Senti a barriga gelar em um sustinho, pouco antes de perceber que aquela era uma oportunidade perfeita.
“Dessa vez, Sofia não irá, nem minha mãe, mas você pode levar alguém para te fazer companhia, se quiser.”
O jogador continuou antes que eu respondesse.
"Bom... Eu adoraria! Talvez agora eu já consiga entender um pouco mais do jogo, não é?"
Enviei logo em seguida, decidida a não perder aquela oportunidade.
“Com certeza! Separo dois ingressos para você, então :)”
disse, e eu achei que era um bom momento para um “blefe”:
“Na verdade, eu devo ir sozinha mesmo. Se estiver tudo bem por você e puder me dar uma carona na volta…”
“Ah, tudo bem! Sem problemas. Faremos assim”
Ele concordou.
“Até lá, então!”
Eu disse.
¡Hasta, !

O sábado da partida chegou mais rápido do que tinha pensado.
Me atentei às notícias para entender a importância do jogo e, pelo que parecia, Atlético precisava da vitória para se manter na zona de classificação para a Champions League do ano seguinte, que, eu já sabia, era o campeonato mais importante. Assim, se por acaso eles não fossem campeões naquela edição, teriam acesso garantido à próxima.
Deixei o hospital pela manhã, depois de mais um plantão, e me arrumei em casa. pediu a seu motorista particular que deixasse o ingresso na portaria de meu prédio e peguei-o lá mesmo antes de sair em direção ao estádio. A multidão era enorme do lado de fora e cada uma dessas pessoas caminhava em direção a uma entrada diferente do estádio. Sofri um pouco para encontrar a minha, mas cheguei e me acomodei no camarote a tempo de pegar um refri e esperar a partida começar.
Ao me arrumar, me lembrei da quebra de dress code que cometi na minha última ida ao estádio e, dessa vez, me vesti num vestido casual vermelho com tênis branco. Não tem como errar indo em um traje rojiblanco para uma partida da equipe rojiblanca.
Ao fim dos 90 minutos, Atleti conseguiu uma vitória suada em cima de um adversário difícil. sofreu um gol, mas sua equipe conseguiu reverter o placar, que terminou em dois a um para os donos da casa. Apesar do gol sofrido, ouvi algumas pessoas comentarem sobre a boa atuação do goleiro e senti uma pontinha de orgulho quando ouvi o nome dele ser mencionado, mas não disse uma palavra sequer com qualquer uma das pessoas ali sobre quem eu era ou quem me havia convidado.
Esperei ainda dentro do camarote por mais alguns minutos, assim como Lucia e Sofia fizeram da última vez, até que recebi uma mensagem do goleiro, dizendo que estava pronto para ir embora e me dar a carona que pedi.
– Como foi dessa vez? – Ele me perguntou, logo que nos encontramos e nos abraçamos em um cumprimento amistoso.
– Eu continuo sem entender muito bem, mas... Se vocês venceram, foi um bom jogo. Não é? – Comentei, ainda comendo batatas chips que tinha pegado do buffet infantil do camarote.
– Foi sim. Por ter sido o primeiro do ano, começamos bem. – respondeu, já dirigindo para fora do estádio.
– E o próximo já é semana que vem?
– Sim, mas aí será outro campeonato. Dia 09 jogaremos a semifinal da Supercopa e, se vencermos, no dia 12 será a grande final. Em fevereiro também começarão as fases eliminatórias da Champions League, já que nos classificamos na fase de grupos. – Ele disse, soando meio grego para mim, que desconhecia a maioria dos campeonatos citados.
– Céus! Como vocês conseguem jogar tantas partidas em tão pouco tempo? Me cansei só de ouvir. – Perguntei, rindo de mim mesma, que seria incapaz de sequer assistir a todos esses jogos. Quem dirá jogá-los.
soltou uma gargalhada espontânea e fofa, que me fez rir também, e logo respondeu:
– O técnico prioriza algumas competições e faz um rodízio da equipe para não sobrecarregar tanto os jogadores. Como consideram minha posição menos desgastante que as outras, acabo indo a campo na maioria, mas é provável que eu não jogue pela Copa do Rei no final do mês, para descansar. Nosso foco principal esse mês é a La Liga e a Supercopa.
– Entendi... Eu acho. – Comentei, confusa, e o goleiro riu de novo, assentindo.
– Percebe que vou precisar bastante de você nesse período, não é? – Ele brincou, fazendo meu coração errar uma batida.
– Como?! – Questionei, sem entender se havia sido uma investida ou mera brincadeira.
– Para desestressar, ué. – Ele riu. – Vai ser um período tenso.
Os derechos, e apenas eles.
Isso era tudo, é claro.
– Ah, sim. – Ri amarelo. – Conte comigo.
– Por falar nisso... – O goleiro comentou enquanto dirigia. – Quer que eu te deixe em casa ou... quer ir lá pra casa? – Ele ofereceu, mordendo o lábio inferior, sem olhar diretamente para mim.
Eu não podia negar que, de fato, tinha muita vontade de acompanhá-lo até em casa.
Não queria que minha indecisão sobre os meus sentimentos acabasse por atrapalhar nossos benefícios. Afinal, ficar sem eles era o pior cenário para mim, de qualquer forma.
– Não está no clima hoje? – Ele quis saber, tirando os olhos da rua, por onde guiava o carro, para olhar para mim por alguns segundos, quando percebeu minha demora para responder sua pergunta.
– Na verdade, não é isso. Eu só... tinha prometido a mim mesma uma grande taça de vinho em meu tempo off antes de dormir e estava contando com esse momento, sabe? – Eu disse, convicta de que o jogador insistiria.
– Ah... – resmungou, com um sorriso ladino e dando de ombros discretamente. – Se for só por isso, tem bastante vinho lá em casa também.
Segurei firme para não abrir um sorriso de volta, porque era exatamente a resposta que eu queria ouvir.
– Bom, acho que então tudo bem! – Falei, como quem não quer nada, apenas um segundo antes de sentir que o goleiro acelerou para chegarmos à sua casa mais rápido.

– Você tem uma adega? – Perguntei, surpresa. Era um cômodo enorme, com refrigeradores gigantes e várias garrafas de vinho em prateleiras divididas.
– Sim! Minha família fundou a Bodega Finca Río Negro, conhece?
Neguei com a cabeça.
– Fica em uma província de Guadalajara, chamada Cogolludo. Meus avós nasceram ali e viveram muito tempo da produção de vinho. Fundaram a própria vinícola, que hoje é um ponto turístico, e passaram o amor pela bebida de geração em geração. Não tive como fugir! – explicou, procurando entre as prateleiras um vinho específico. – Essa é a joia rara da Finca Río Negro. – O jogador disse, retirando do refrigerador e me entregando uma garrafa de vinho com rótulo preto, no qual apenas se podia ler o nome dado à bebida escrito em letras douradas.
– “El Arquero”? Por sua causa? – Perguntei, em um sorriso.
– É o meu preferido, então batizaram com uma homenagem. Você gosta de tinto? – explicou, e eu assenti.
O goleiro pegou sobre a mesa um saca-rolhas automático e, em seguida, virou a bebida em um decanter, antes de servir um pouco em cada taça. Com as taças em mãos, caminhou até uma das poltronas ao fundo do cômodo, me convidando a fazer o mesmo.
– Gostou? – Ele quis saber, depois de me entregar uma das taças e me ver cheirar o conteúdo antes de prová-lo.
– Sim! É exatamente como eu gosto: seco e suave. Tem um traço de cedro? – Comentei, balançando a taça levemente, de forma que o vinho molhasse a superfície de cristal em um padrão de ondas bonitas de observar.
– Tem sim. Você também entende de vinhos? – O goleiro comentou, parecendo surpreso.
– Bom... Meus avós não são donos de vinícolas ou nada assim, mas meu pai é um apaixonado por vinhos. Também não tive como escapar dessa paixão.
– Passou ilesa apenas pela paixão por futebol, né?
Ele riu.
– Olha, essa não me pegou mesmo, mas acho que foi por falta de oportunidade. – Eu ri de volta. – Só preciso entender o jogo de fato, você vai ver! Eu acho que vou gostar!
– O que você ainda não entende? – perguntou, interessado em esclarecer.
– Ah, não ocupe sua mente com isso agora. Já teve muito futebol no seu dia. Eu tiro essas dúvidas depois. – Falei, ainda movendo suavemente a taça com vinho, preocupada em estar incomodando com esse assunto.
– Não é nada. Eu posso falar sobre futebol por um dia inteiro sem me cansar. Eu amo esse esporte de verdade. – O goleiro comentou. – Pode perguntar!
– Se você insiste... – Eu ri. – O esporte é jogado com os pés, certo? Digo, menos no seu caso, que é goleiro, eu sei, mas por que tem alguns momentos que outros jogadores fazem arremessos com as mãos? – Perguntei, envergonhada.
– Ah, você deve estar falando do arremesso lateral. Acontece quando a bola sai pela linha da lateral do campo e, para recolocá-la em jogo, o jogador do time oposto ao do jogador que encostou nela por último antes de sair a arremessa de volta. É basicamente o único momento do jogo onde os jogadores de linha podem usar as mãos. – Ele explicou, sem nenhum traço de julgamento pela dúvida estúpida. Me senti menos envergonhada.
– Sim, mas... por que não com os pés? – Perguntei.
– Bom, é a regra. Acho que, com os pés, a bola iria muito mais longe e acabaria sendo um lance claro de gol várias vezes no jogo. O objetivo do arremesso lateral não é de ser uma punição, como numa falta, por exemplo. Com os braços, a força é mais limitada, então é mais justo ser assim.
– Entendi. – Falei. – E naqueles momentos em que a bola entra no gol e todos comemoram, mas depois o juiz volta atrás e diz que não valeu?
– Ah! – Ele riu. – Isso aconteceu hoje, não foi?
Assenti, me lembrando da frustração dos torcedores que estavam ao meu redor quando isso aconteceu.
– Pode ser por uma série de motivos. Se a equipe de arbitragem verifica o lance e percebe que em algum momento antes do gol a equipe que sofreu o gol foi prejudicada e o jogo deveria ter sido parado, eles anulam o gol para corrigir o erro. Por exemplo, se você faz uma falta em mim e o juiz não percebe, mas, no mesmo lance sua equipe, marca um gol, a minha equipe fica prejudicada, concorda? Porque, se o lance tivesse sido parado, você talvez não conseguiria marcar...
– Justo. – Respondi, compreendendo a explicação.
– Mas, hoje, o que fez o juiz anular foi o outro árbitro ter dito a ele que o jogador que marcou o gol estava em posição de impedimento. Em resumo, essa é uma regra que surgiu para evitar que um jogador da equipe ficasse parado dentro da área, só esperando até que algum companheiro lhe entregasse a bola para chutar para o gol. Então, determinaram que pelo menos um jogador do outro time deve estar à frente dele nesse momento. – disse. – Mas existem várias divergências sobre lances em que um árbitro anula o gol e acham que ele não deveria ter feito, ou o contrário. Essa parte é mesmo mais complicada de entender, não se preocupe. – contava, bastante empolgado.
Me distraí o observando e percebendo quanta segurança ele tinha para falar sobre esse assunto, que dominava tão bem.
– O que foi? – Ele questionou, percebendo.
– Nada, acho legal como você tem facilidade em explicar algo tão complicado. – Comentei, rindo.
– Ah, doutora, tenho certeza de que a medicina é muito mais complicada do que o futebol, e você a domina. – retrucou, em um tom engraçado. – Me conta algo. – Ele pediu, e eu questionei, confusa:
– Como?!
– Algum fenômeno interessante do corpo ou algum fato bizarro e interessante que você já tenha visto.
Parei por alguns segundos tentando pensar em algo que pudesse explicar a ele, mas, assim, tão aleatoriamente, era difícil encontrar algo.
– Vou dizer sobre algo que vi no hospital esses dias. – Adiantei, me lembrando de um caso que causou surpresa geral no hospital, ainda na semana em questão. – Sabia que... se você encaixar uma lâmpada dentro da boca, não vai conseguir tirar sem ter que quebrá-la? – Contei, e ele esboçou surpresa, questionando:
– E por que isso?
– O formato da lâmpada permite que ela entre facilmente na boca e se encaixe entre seu céu da boca e seus dentes de trás, mas os músculos da articulação temporomandibular, que são os músculos que permitem a oclusão da mordida, são extremamente fortes. E quando eles se colocam nessa posição, se tensionam e contraem. O susto por não conseguir tirar a lâmpada paralisa os músculos, que já estão contraídos, e aí já era. Não abre mais.
– Minha nossa! Devo me preocupar com o fato de estar extremamente curioso e interessado em colocar uma lâmpada na minha boca agora mesmo? – O jogador perguntou, rindo, apesar de parecer em choque com a informação.
– Não faça isso! – Eu ri. – O paciente que atendemos sentia câimbras horríveis na mandíbula e estava tentando gritar de dor, mas não conseguia porque tinha uma lâmpada na boca e não podia forçar os dentes para não correr o risco de quebrar o vidro e se cortar. Depois ficou tudo bem, mas acho que ele não recomenda a experiência. – Contei, rindo.
– O que fizeram para tirar? – perguntou, interessado, servindo mais vinho em nossas taças.
– Anestesiamos o músculo para aliviar a dor, inserimos um pano cirúrgico por dentro da boca dele, envolvendo a parte de vidro da lâmpada e pedimos a ele que mordesse, para quebrá-lo. O pano cirúrgico é resistente e não permitiria que ele se machucasse com estilhaços, então ele mordeu e retiramos, sem maiores problemas. – Contei, novamente balançando a taça delicadamente para observar o padrão hipnotizante de ondas que o líquido fazia sobre o cristal. – Ele deu sorte por ter chegado ao hospital a tempo, porque correu um risco sério de deslocar a mandíbula ou de cortar a boca e engolir cacos de vidros. Questionamos o porquê de ele ter feito algo assim e ouvimos que ele foi desafiado por amigos da escola, acredita? Adolescentes são inacreditáveis às ve...
Quando tirei meus olhos da taça para olhar de novo para , percebi que ele havia se aproximado de mim sem que eu percebesse, e que fitava meus lábios.
Em uma fração de segundo, engoli em seco, intercalei meu olhar entre seus olhos e seus lábios, cada vez mais próximos dos meus, e, sem ponderar muito sobre as consequências, permiti me entregar àquele beijo.
segurou minha nuca por trás dos cabelos e tocou meu rosto suavemente enquanto experienciávamos um tipo de intimidade que era nova à nossa amizade con derechos.
Um beijo, sem todo o afobamento usual de nos despir rápido e avançar para a próxima etapa.
Um beijo suave, enquanto ainda tínhamos nossas roupas vestidas e desfrutávamos juntos de um vinho e de nossa companhia.
percebeu, e eu também.
Como em um choque, nos afastamos com uma descarga de sobriedade que nos fez perceber que aquilo não fazia parte do “roteiro”.
– Por que não vamos lá para o quarto? – O jogador sugeriu, passando a mão pelo próprio rosto e cabelo.
– Claro. Vamos sim! – Assenti, me levantando logo atrás dele e seguindo-o por todo o caminho até o quarto, onde os beijos não pareciam tão estranhos, por estarem inseridos em um contexto diferente.


Capítulo 16

Adentrei o apartamento ainda atônita, tentando processar os eventos da noite, e me deparei com uma luz acesa na cozinha. Entrando lá, percebi que Amanda fazia um tradicional “bocadillo” noturno enquanto Thalamus bebia água de sua fonte particular, localizada entre a cozinha e a área de serviço.
– Acordados? – Perguntei, fazendo com que ambos olhassem para mim.
¡Hola, ! Buenas noches. – Amanda me olhou com estranhamento. – Está tudo bem? Por que está com essa cara de quem viu um fantasma?
– Amiga... e eu... nos beijamos. – Contei, em tom de desabafo. Mandy parecia não surpresa e aguardava o resto da história.
– Se beijaram? – Ela repetiu, e eu assenti. – Mas você está transando com esse cara há meses, é óbvio que vocês estão se beijando… – Amanda comentou, ainda esperando pela explicação, que eu dei logo em seguida:
– Aí é que está. Não foi um beijo como que estávamos acostumados. Começamos tomando vinho e conversando e, quando vi, estávamos encarando os lábios um do outro e, antes de mais nada, aconteceu. – Falei, soltando um suspiro que parecia estar sendo segurado por todo esse tempo até que eu pudesse dividir o que aconteceu com alguém. – Foi diferente, sabe? Mais sutil, mais carinhoso. É bizarro dizer isso, mas beijar alguém assim envolve mais intimidade do que beijar durante uma transa.
– E o que ele achou disso? Vocês se falaram? – Amanda questionou, parecendo finalmente surpresa.
– Não! Acho que o fato assustou a nós dois. Quando a ficha caiu, ele sugeriu irmos para o quarto, como de costume. – Contei e logo fiz um desabafo. – E fomos, como se nada tivesse acontecido... Mas aconteceu. E não consigo tirar isso da cabeça.
Minha amiga aproveitou para me aconselhar, vendo o lado positivo.
– Bom, mas não dá para negar que o que aconteceu hoje foi um bom sinal. Não é? Se ele deu essa abertura, talvez esteja sentindo o mesmo que você.
– Talvez. Principalmente porque partiu dele o impulso para o beijo. – Falei, refletindo sobre a ideia. – Vou ver como as coisas ficam essa semana. Se ele continuar dando abertura, dou sequência ao nosso plano.
– Ou você pode simplesmente ser franca com ele e descobrir log… – Amanda começou a sugerir, quando interrompi:
– Eu vou ser franca com ele. – Respondi de imediato e completei: – Quando tiver certeza de que ele corresponde. Não quero ficar como a tonta que aceita sexo casual, se apaixona sem ser correspondida e acaba ficando sem as duas coisas. – Falei, na defensiva, ao passo que Mandy negava com a cabeça, incrédula por tamanha incoerência.
– Se você insistir nisso, vai chegar um momento em que não vai aguentar continuar sendo só amiga dele e vai acabar perdendo os derechos da mesma forma. Essa é uma outra maneira de ficar sem as duas coisas. O que é pior? – Ela questionou.
– Isso não vai acontecer. – Falei, dando de ombros. – Será ótimo se ele quiser algo a mais, mas posso viver com o fato de que ele talvez não queira. – Completei, mesmo sem ter certeza sobre minhas palavras.
Na verdade, estar nesse lugar – de gostar do goleiro sem assumir – era uma espécie de “zona de conforto desconfortável”.
No nosso dia a dia, tudo se mantinha praticamente igual, apesar das minhas investidas suaves. Seguíamos nos vendo, mantendo nossos encontros ocasionais e conversando como amigos.
Falar sobre o que eu sentia seria um passo grande para fora dessa zona de conforto porque, ao mesmo tempo em que havia a possibilidade de ser recíproco, também havia a possibilidade de o goleiro não corresponder ao sentimento ou ao desejo de termos algo a mais.
Talvez isso não mudasse em nada nossa amizade ou nossos direitos, ou talvez mudasse completamente. E essa era uma possibilidade com a qual eu não estava preparada para lidar.
preenchia algo em mim que raramente havia sentido ser preenchido por outra pessoa. E nem me refiro só ao sexo. De certa forma, sua energia e amizade completavam uma parte minha com bastante leveza, e eu não queria arriscar perder isso.
Eu já sabia qual era a opinião de Amanda sobre o assunto, mas resolvi questionar outra pessoa que tinha certa experiência e não se incomodaria em me ajudar a decidir o que fazer.
– Eric, deixa eu te perguntar uma coisa? – Perguntei ao meu irmão logo que ele atendeu à chamada de vídeo.
– Claro, pequena. O que quer saber?! – Ele disse.
– Quando foi que você descobriu que estava gostando de verdade do Pablo? – Perguntei. – Vocês tinham uma amizade colorida, não era? Quem deu o primeiro passo para se aproximarem mais? E como foi?
– Uau! Muitas perguntas. – Ele riu e comentou, em tom de brincadeira. – Achei que você fosse me pedir dinheiro emprestado.
Soltei uma gargalhada e comentei:
– Talvez estar precisando de dinheiro fosse mais fácil de resolver, maninho. Acredite.
– Bom, vamos lá. – Eric disse, se ajeitando na cadeira ao prever que o assunto a seguir seria longo. – Era isso sim. Nos conhecemos por amigos em comum e ficamos pela primeira vez em uma festa deles. Depois, em todos os eventos desses amigos que nos encontrávamos, ficávamos de novo. – Ele falou, com naturalidade. – Mas isso era tudo. Depois, voltávamos a ser como desconhecidos. Tínhamos o número um do outro, mas não trocávamos mensagens nem nada do tipo.
– Certo...
Assenti, sinalizando que estava compreendendo a história.
– Até que um dia começamos a conversar. Não me lembro quem deu esse primeiro passo, mas sei que descobrimos muitas coisas em comum, e conversar com ele passou a ser uma parte importante do meu dia. – Eric disse, em tom amável, sorrindo de orelha a orelha ao trazer de volta aquelas memórias. – E o dia que mudou tudo foi um em que Pablo sofreu um acidente no trabalho. Não era nada grave, mas ele precisou ficar hospitalizado de um dia para o outro e me ligou pedindo para ir até lá. Perguntei se eu podia ser útil levando alguma coisa; roupas, um lanche, talvez... Como amigo. E ele respondeu que apenas queria minha companhia. Acho que foi ali que fez sentido e entendemos tudo. – Meu irmão contou, fazendo uma pausa para tomar fôlego. – O amor se sobressai em momentos de vulnerabilidade, sabe, Perlita? E, nesse, dia percebemos que a companhia um do outro tornava os momentos difíceis mais suportáveis. Decidimos dar uma chance para fazer daquela amizade algo a mais, e o resto você sabe. – Ele finalizou, e eu sorri instantaneamente.
A história de amor daqueles dois era mesmo uma das mais lindas que eu conhecia.
Na época que tudo aconteceu, eu tinha pouco mais que quatorze anos, e não compreendia ainda por que Eric se envergonhava tanto ao falar sobre o que sentia por Pablo ou por que ele precisava lidar com tantos medos e angústias para “se assumir” gay para os nossos pais e para o mundo. Eu jamais tive que sequer assumir minha sexualidade para alguém em algum momento da vida.
Mesmo sem ter conhecimento suficiente para entender na época, eu já sabia que os dois mereciam muito ficar juntos.
Embora Eric tenha sido sempre respeitado e acolhido em nossa casa, o mundo fora dela foi algumas vezes bem cruel com ele. Foi difícil ver meu irmão lidando com essa realidade e choramos juntos diversas vezes por isso. Hoje, vê-lo feliz e realizado em um relacionamento tranquilo e saudável com uma pessoa maravilhosa me trazia uma sensação imensurável de alívio.
– Você teve medo? Digo, quando começaram a se aproximar... Teve medo de perder a amizade dele e de se tornarem distantes? – Perguntei.
– Em algum momento eu percebi que a própria amizade nos estava afastando, Perlita. É difícil insistir na amizade quando você sabe dentro de si que não é só isso o que quer, sabe? – Eric disse, com um raciocínio que pareceu ter lido meus pensamentos na conversa com Amanda. – E aí a chance que havia de dar certo foi o que me fez arriscar.
– Entendi. – Respondi, depois dele explicar.
– Posso saber o que está te deixando tão curiosa assim sobre minha história com Pablo? – Eric questionou, voltando a sorrir do outro lado da linha.
– Um coração confuso. – Respondi, sem muitos detalhes. – Se tudo der certo, em breve você vai saber.
Sugeri meu irmão para ajudar na batalha judicial que estava enfrentando pelos ajustes na guarda de Sofia não só porque sabia da competência de Eric em sua área de atuação, como também porque sabia que ele compreendia a importância de uma divisão de guarda harmônica para os filhos de pais que não vivem juntos. Afinal, nós dois vivemos juntos esse processo quando nossos pais se separaram e, mesmo sabendo que conosco não houve tantos atritos – pelo menos não judicialmente – quanto havia entre e Veronica, era sempre mais fácil se compadecer pela situação de alguém quando já se vivenciou algo parecido.
Esse processo todo fez com que e Eric se aproximassem bastante e estivessem sempre em contato. Assim, eu não quis dizer abertamente sobre quem estava falando ao pedir o conselho, mas imaginei que logo meu irmão juntaria as peças e entenderia tudo.
– Espero mesmo que sim! – Ele disse, em tom de despedida, e eu suspirei. – Boa sorte com o que quer que seja, ! Amo você.
– Obrigada, maninho! Também amo você. – Falei.
A conversa com Eric e minhas reflexões internas me fizeram decidir ser sincera com logo que houvesse a oportunidade. Seria a forma mais segura – e madura – de saber com certeza o que ele tinha em mente, antes que a situação toda se tornasse difícil demais de lidar.
Primeiramente, porém, decidi tomar um banho. Sempre gostei da ideia de ligar o chuveiro em momentos confusos e deixar a água lavar minhas dúvidas como se elas fossem sujeira.
Ao sair, antes de qualquer coisa, percebi que Amanda acabara de chegar do hospital e que havia trazido consigo nosso jantar.
– Noite de hambúrguer? – Perguntei, surpresa, vendo a mesa pronta.
– Sim! Trouxe o seu de sempre. – Ela disse, apontando para o lugar que preparara para mim com um prato sobre o qual colocou o hambúrguer e as batatas fritas e um copo com refrigerante de maçã verde.
Logo à frente, a mesma composição havia sido montada em um lugar da mesa para ela.
– Qual a razão deste jantar especial em plena segunda-feira? – Perguntei, rindo, quando nos sentamos para comer.
Fazíamos tudo sempre com tanta pressa – ou para ir trabalhar, ou para descansar do trabalho – que jantares com direito a mesa posta eram exclusividade de datas comemorativas, como aniversários, o que não era o caso.
– Tenho uma notícia. – Ela exclamou quando já estávamos sentadas à mesa comendo nossos hambúrgueres.
– E qual é? – Perguntei.
– Você se lembra daquele programa de residência médica nos Estados Unidos do qual te falei algumas vezes? – Amanda perguntou, não conseguindo conter um sorriso.
– No hospital referência em cirurgia ortopédica? Me lembro, claro.
Concluir a residência no exterior era um dos maiores sonhos de Mandy desde o começo do curso na faculdade.
– Eles aceitam residentes a partir do segundo ano e, como terminaremos o primeiro ano em algumas semanas, resolvi me inscrever para ver no que dava, e... fui aprovada! – Ela contou, radiante, abrindo um enorme sorriso.
– O quê? Não acredito! É sério? Amiga, que notícia maravilhosa! Parabéns! – Exclamei, tão empolgada quanto ela diante daquela notícia, me levantando e caminhando em sua direção para dar-lhe um abraço. – Por que não disse nada antes? – Falei, a abraçando apertado uma segunda vez.
– Nunca imaginei que seria chamada logo na primeira tentativa, me apliquei mais para conhecer o processo... Mas acabou dando tudo certo! – Ela explicou, sorrindo de orelha a orelha, orgulhosa de si mesma.
– Esse é o lado ruim de ser muito inteligente. Você não pode fazer uma prova apenas para conhecer o processo sem ser aprovada. – Brinquei, rindo.
Tão bom quanto realizar nossos sonhos era ver pessoas que amamos realizando os seus também.
– E quando você vai? Já tem alguma previsão? – Perguntei.
– Sim. Em dois meses. – Ela contou. – Tenho pouquíssimo tempo para encontrar uma acomodação. Por sorte, pelo menos as passagens meus pais disseram que vão me dar de presente.
– Certamente Nova York tem um lugarzinho especial esperando por você e ele aparecerá na hora certa. Vai te fazer muito bem essa experiência, tenho certeza. – Falei.
Apesar de não ter o mesmo sonho, de concluir minha especialidade em outro país, sabia o quanto era importante para Amanda.
– Vou sentir muito a sua falta! – Completei, a abraçando mais uma vez. – Esse apartamento ficará gigante sem você.
– Sentirei sua falta também, . – Minha amiga disse, em um sorriso. – E sobre o apartamento, amiga, queria dizer que se você quiser começar a buscar uma nova pessoa para dividi-lo contigo, pode ficar à vontade. – Amanda disse, agora um pouco mais séria. – Ficarei lá em Nova York por pelo menos dois anos e sei que arcar com o valor integral das contas e do aluguel é um pouco pesado... Então faça como achar melhor, ok? – Ela explicou, e eu assenti. Poderia deixar para me preocupar com isso depois, quando ela de fato fosse embora.
– Vamos ter que dividir Thalamus ao meio? – Perguntei, de brincadeira, ao ver o felino passar por nós, desfilando pela casa.
– Seria o ideal! Mas pesquisei os valores de viagens intercontinentais com animais no avião e não tenho orçamento suficiente para levar nem meio Thalamus. – Minha amiga brincou, nos arrancando risadas, e depois completou falando sério novamente: – Mas prometo continuar a dividir com você também os gastos referentes a ele, ok?
Assenti, ainda tentando processar a novidade e a avalanche de informações que acabara de receber.
Mandy e eu vivíamos juntas, dividindo o apartamento, desde a universidade. Ela me conheceu em um dos momentos mais tensos da minha vida, depois de toda a situação com o vídeo exposto por Rugan.
Se houve um lado bom nessa história, foi que – como tive que trancar o semestre depois que tudo aconteceu – acabei caindo na mesma turma de Mandy ao me matricular novamente.
Não sabia ainda dizer como seria o dia a dia sem tê-la por perto, mas já sabia que sentiria muito a sua falta. Não é exagero dizer que ela foi uma das pessoas que mais me ajudou no processo de me reencontrar e me valorizar de novo, e, por isso, eu seria sempre grata.


Capítulo 17

A noite de hambúrguer terminou tarde da noite com Amanda e eu fazendo planos e mais planos para sua futura vida em Nova York. Nos empolgamos tanto que fomos dormir de madrugada e, com isso, acabei nem me lembrando dos planos de ligar para e conversar com ele.
– O que há de tão engraçado? Também quero rir. – Perguntei no dia seguinte pela manhã, adentrando a antessala do “sossego” médico, onde, nas mesas redondas nas quais os médicos costumam comer ou sentar para conversar em seus momentos de tempo livre, um grupo de quatro internos ria observando a tela de um celular.
A manhã de quinta-feira era fria e nebulosa, mas tinha tudo para ser só mais um dia de trabalho normal.
– O que foi? – Repeti a pergunta, percebendo que eles diminuíram as risadas ao me verem aproximar.
– Não é nada engraçado. – Uma quinta colega, que estava deitada em um dos sofás mais ao fundo da sala, comentou, em tom de desaprovação. – Tem um vídeo íntimo correndo pela internet de uma menina perdendo a virgindade. Todos os homens de Madrid devem tê-lo recebido, porque hoje no metrô a caminho do hospital isso era tudo sobre o que eu ouvia. Não sei que tipo de senso de humor eles têm para achar algo engraçado nessa situação, mas a mim me dá asco. Esse vídeo certamente foi compartilhado sem autorização dela. Vocês são podres! – A moça disse, parecendo farta de ouvir as risadinhas e comentários sobre o vídeo.
– Fala sério, parece um bezerro. – Um deles comentou, arrancando novas risadas dos outros três. Movimentei a cabeça em negação e, antes que pudesse dizer algo para repreender a atitude dos rapazes, o que segurava o celular o virou em minha direção, como se quisesse que eu me juntasse ao momento divertido que eles estavam dividindo ali.
Logo eu.
O capítulo sobre o vídeo íntimo que tive exposto era uma parte da minha vida sobre a qual, via de regra, eu não comentava com as pessoas que me conheceram após o episódio. Uma exceção era Amanda, com quem dividi a história em algum momento ainda no primeiro ano que começamos a estudar juntas, e a outra exceção era , com quem comentei em algum momento de pouca lucidez, no curto período que fazia desde que nos conhecíamos.
Para mim, não tocar mais no assunto era como negar a existência do ocorrido e fingir que tudo não havia passado de um pesadelo ou qualquer outra coisa que não fosse real, exatamente como eu queria que tivesse sido. Muito embora, no meu subconsciente e na minha memória, eu soubesse exatamente o quão real tudo aquilo tinha sido.
– Deixe ela decidir se tem graça ou não, Mirella. Não seja uma estraga-prazeres. – O rapaz disse enquanto observava minha reação ao olhar para a tela daquele celular.
Meu primeiro impulso foi de resistir a compactuar com mais exposição na vida daquela garota e desviar o olhar, mas algo naquele vídeo me prendeu.
Assim como foi comigo, a câmera não estava escondida, o que mostra que o fato daquele momento estar sendo gravado não era segredo. O próprio garoto com quem a menina se relaciona nas cenas foi quem fez a filmagem, e eu sabia que isso era sinal da confiança que ela depositava nele, assim como eu depositei. Era sinal de que ela jamais imaginava que um dia esse vídeo estaria nas mãos de desconhecidos, assim como eu também não imaginei.
– Vocês perderam a cabeça? – Perguntei, indignada. – É óbvio que não tem graça! Sabe que numa dessas vocês acabam com a vida de uma pessoa? De uma menina. Essa garota não deve ter mais que 16 anos... Céus! Vocês são médicos, são adultos. Ajam como tal! – Bufei, dando as costas para o quarteto, que parou de rir após a bronca.
– Ah, pera aí, né? Ela sabia muito bem o que estava fazendo. Deixou ser filmada, assumiu os riscos. Se tem alguém errado nessa história, não somos nós, é ela! – Um deles ainda teve coragem de contestar, me fazendo dar meia-volta e encará-los de frente mais uma vez:
– Como é que é? – Perguntei, sem acreditar no que acabara de ouvir.
– Se a pessoa consente com uma filmagem em um momento como esse, sabe o que pode acontecer... O erro foi dela. Ela que lide com isso. – Ele repetiu, dando de ombros.
Os outros três em volta pareciam concordar com ele, e a moça deitada no sofá observava a cena, atônita.
– O erro foi dela? – Questionei. – Ela poderia deixar ser filmada como quisesse, que isso não daria a ninguém o direito de compartilhar sua intimidade sem autorização. – Bufei. – Quando vocês saem de casa para trabalhar, também assumem o risco de serem assaltados na rua. Existem formas de evitar isso, sim. Mas nem por isso o ladrão tem menos culpa do roubo se ele ocorre. – Expliquei, tão claro quanto um mais um são dois. – Mas, sim, culpar a vítima é sempre o caminho mais fácil, até acontecer com você.
– Ei, ei... O que está acontecendo aqui? – Amanda perguntou, adentrando o cômodo com sua bandeja de almoço nas mãos, sem entender a discussão que ocorria no momento.
– Esses idiotas estão tirando sarro do vídeo íntimo vazado de uma garota, como se houvesse algo engraçado nas consequências que algo assim pode trazer para a vida de uma pessoa. – Resmunguei, ainda negando com a cabeça, incrédula por estar tendo que lidar com uma situação como aquela mais uma vez, ainda que eu não fosse a vítima.
– Ninguém está rindo das consequências, Valbuena. Fica fria! – Um dos quatro, que estava calado até agora, disse, tentando amenizar a situação.
– E nem tem nada muito errado com a performance, ela só precisa tomar cuidado com os sons para não ser confundida com um porco no abate. – O primeiro completou, se sentindo muito engraçado e tendo seu ego massageado pelos amigos idiotas em volta, que voltaram a rir, tão maduros quanto crianças em idade pré-escolar.
Pensei em algo para falar, mas não consegui formular nada que pudesse alcançar um nível tão baixo e desprezível. Apenas senti meu rosto enrubescer, minha respiração ficar mais pesada e, logo em seguida, senti a mão de Amanda tocar meu ombro, me puxando para fora dali enquanto dizia:
– Vamos, . Nem vale a pena...
Obedeci, convicta de que era mesmo o melhor a fazer em nome da minha saúde mental ou antes que eu soltasse qualquer comentário que pudesse me expor.
Antes de deixarmos a sala, Amanda ainda fez questão de deixar um último comentário ácido aos rapazes.
– Se vocês se preocupam tanto assim com a sonoridade do ato sexual, deveriam tomar mais cuidado com os sons que emitem quando levam garotas para o quartinho do sossego... Sorte que nunca duram muito tempo e logo acaba. Assim não precisamos ficar ouvindo vocês. Com licença!
Já no corredor, ela me perguntou, segurando uma de minhas mãos:
– Como você está?
– Estou bem. Indignada, mas bem! – Respondi, percebendo a preocupação em seu olhar.
– Sei que esses acontecimentos acessam várias memórias que você não gosta de acessar e eu sinto muito mesmo que você tenha tido que lidar com isso. Se quiser conversar, sabe que pode contar comigo. Não sabe? – Mandy disse, ainda me segurando pela mão e olhando para mim com atenção e zelo.
Sem saber o que dizer, respondi puxando-a para um abraço, que agradecia em silêncio por ter alguém com quem contar.
Seguimos juntas até o refeitório, onde almoçamos e ficamos algum tempo conversando até que tivéssemos que voltar ao trabalho.
Foi uma tarde longa de atendimentos, o que foi bom para tirar aquele vídeo da minha cabeça e também todas as lembranças relacionadas a ele, que meu cérebro tinha acessado desde então.
Pelo menos por algum tempo.

{Aviso de gatilho emocional: tentativa de suicídio}

Era inevitável que algumas lembranças me voltassem à mente e que meu cérebro reproduzisse várias cenas daquele evento, mas tentei voltar aos meus atendimentos com dedicação total para me distrair do assunto, apenas até ser puxada de volta para ele.
Já no final da tarde, meu pager soou no bolso do jaleco, apontando uma emergência e me direcionando para a área de desembarque de ambulâncias.
– O que temos? – Perguntei, vestindo o aparato para receber o paciente.
Os outros três médicos internos, que chegaram lá um pouco antes de mim, fizeram a remoção da maca junto aos socorristas. Porém, logo que cheguei, percebi os três meio estáticos. Ninguém falava nada ou sequer me respondia. Não por acaso, aqueles eram os médicos com os quais me irritei na sala de descanso mais cedo.
– O que houve? – Perguntei, agora a uma das socorristas, me aproximando um pouco mais da maca, já que os médicos em questão não me respondiam.
– Paciente do sexo feminino, 16 anos, foi encontrada desacordada em casa junto de uma cartela vazia de remédios. Pressão arterial instável, baixa saturação. Ministramos Naloxona no caminho.
A paramédica me informou e comecei logo a me movimentar mais rápido para agir. Foi quando percebi os rapazes ainda estáticos, olhando para mim com aparência assustada. Tentei entender e logo pensei que aquela menina talvez fosse da família de algum deles. Olhei com atenção para o rosto dela mais uma vez para conferir. Foi quando, de repente, algo em minha mente fez um click, e tudo se encaixou.
Mesmo desacordado e coberto por uma máscara de oxigênio, reconheci que aquele rosto pertencia à menina do vídeo do qual eles debochavam ainda mais cedo.
Não tinha exagerado quando dissera que uma situação como aquela podia acabar com a vida de alguém. Num momento como aquele, eu preferia ter estado errada.
– Precisamos estabilizar. – Falei diretamente com a paramédica e depois com um dos médicos que observavam atônitos à cena. – Providencie uma lavagem gástrica, agora! – Gritei essa última parte quando ele demorou a se mover para providenciar o que pedi.
Chegaram mais alguns membros da equipe, entre eles enfermeiros, que adentraram o hospital com a maca, mas nenhum preceptor. Isso não era permitido, mas, aparentemente, eu era a médica de mais alta “patente” presente ali. Mesmo sendo apenas uma residente do primeiro ano.
– Ela está fibrilando! – Uma enfermeira anunciou, apontando para o monitor cardíaco que apitava continuamente e já trazendo o carrinho de parada.
– 1mg de adrenalina, por favor. – Pedi, pegando as pás para fazer a desfibrilação e já comandando: – Carrega em 200. Afasta.
Um choque e nada. Paciente ainda em V-Fib.
– 300, por favor. Afasta!
Aumentei a intensidade do choque e, enfim, o monitor indicou uma estabilização dos batimentos.
– Ela voltou. – Exclamei, respirando aliviada. – Observe e pode iniciar a lavagem. Você pode também solicitar um neuro aqui para avaliação, por favor? – Instruí à enfermeira que estava trabalhando comigo. Ela assentiu, se movimentando para fazer o que pedi. – Já temos uma identificação da paciente? – Perguntei, de modo geral, caso alguém na sala soubesse.
Catarina Monjardin. 16 anos. – Uma voz ao fundo disse, analisando o prontuário que acabara de chegar da recepção.
– Aguente firme, Catarina. Estamos aqui com você. Vai dar tudo certo. – Eu disse, próximo ao ouvido da paciente, mesmo sabendo que o grau de consciência dela era insuficiente para entender.
A enfermeira logo informou os valores mais recentes dos seus sinais vitais e deu início ao processo de lavagem gástrica. Me afastei para analisar o prontuário da paciente, mas a aparente tranquilidade na sala durou por pouco tempo.
– Doutora, a saturação está caindo.
– Oh, não! – Falei, tensa por estar tendo que controlar a situação sozinha. Isso não era certo. – Vamos ventilar. Alguém chamou o neuro que eu pedi? – Perguntei, me aproximando novamente, assim que vi o valor da saturação indicado pelo monitor à frente. – Vocês vão ficar aí parados? Ou vão agir? – Indaguei, inconformada, vendo que o grupo de médicos seguia parado ao fundo da sala. – Na hora de rir vocês estavam a postos, não é? Façam algo de útil agora. – Finalizei, já exigindo que cada um fizesse algo para ajudar. – Você, vá buscar o soro glicosado. – Eu disse, apontando na direção de um deles e indicando o comando. – Você, eu quero uma análise constante da temperatura corporal dela e compressas frias para o caso de uma hipertermia. E, você, vá buscar a droga do neurologista que pedi. Agora! – Ordenei, como se eu fosse a médica chefe e não uma mera residente do primeiro ano.
– Doutora, ela está fibrilando de novo. – A enfermeira avisou logo que o monitor cardíaco começou a apitar disparadamente.
¡Joder! – Exclamei, soltando um palavrão, num misto de susto e frustração por não estar conseguindo estabilizar a paciente. – Carrega o carinho em 200, de novo, por favor. – Falei, pegando as pás e preparando o equipamento para usar novamente.
– Voltou! – A enfermeira anunciou, e eu respirei aliviada por alguns segundos, logo já sendo tomada pela tensão de que uma nova instabilidade acontecesse.
Algum tempo depois, o neurologista finalmente chegou, caminhando tranquilamente.
– Até que enfim! Onde o senhor estava? – Perguntei assim que o vi adentrar a sala.
– Na cafeteria. – Ele respondeu, calmo, pegando o prontuário da paciente para avaliar. – Ela caiu? – O médico perguntou.
– Ela foi encontrada desacordada. – Expliquei, ainda indignada pela resposta anterior. – Por isso solicitamos a sua análise, para descartar algum risco casa tenha havido trauma ou pelo tempo inconsciente.
– Certo, primeiramente vamos precisar de compressas frias para o caso da temperatura corporal aumentar como resposta ao remédio ingerido. – Ele disse, analisando a composição do medicamento, logo que uma das enfermeiras lhe entregou a cartela vazia.
– Já pedi, doutor. Estamos monitorando a temperatura.
– E ela corre também o risco de hipoglicemia, precisamos de um soro glicosado. – Ele acrescentou.
– Já pedi também. – Completei, e ele olhou torto, como se estivesse irritado por eu ter feito todas aquelas ordens sozinha, sem a presença de um preceptor. – Alguém precisava fazer alguma coisa para evitar que a paciente morresse enquanto o senhor tomava café. – Desabafei, no calor do momento, sem nem perceber.
Nunca tinha sido o tipo de pessoa que afrontava as autoridades ou que falava com rispidez com qualquer pessoa, mas aquele dia estava sendo tão difícil que, sem nem pensar, deixei que aquelas palavras escapassem.
O médico em questão me olhou com indignação e, em seguida, analisou fixamente o meu crachá, preso ao bolso do jaleco, como se quisesse memorizar meu nome.
– Desculpa, doutor. É que a paciente parou duas vezes, essa não é minha especialidade e não havia sequer um preceptor disponível. Essa situação não pode acontecer. – Pedi desculpas, baixando o tom e tentando fazer com que o médico olhasse de novo para mim. Ele estava avaliando as pupilas da paciente com o auxílio de uma lanterna e nem sequer me olhou de novo antes de dizer:
– Nós sabemos muito bem o que pode e não pode acontecer dentro desse hospital, Dra. Valbuena. Isso também não é especialidade sua. Você está dispensada do caso.
– Doutor, mas eu… – Tentei dizer algo que pudesse fazê-lo voltar atrás, mas fui ignorada.
– Peça a alguém para subir com a máquina de tomografia quando estiver saindo.
Engoli em seco, me dando por vencida, e saí da sala em direção ao posto de enfermagem para pedir que alguém levasse a tal máquina até lá.


Capítulo 18

, me disseram que a menina do vídeo está aqui. É verdade? Você quem a recebeu? Meu Deus, quais as chances? Como você está? Como ela está? – Amanda interrogou, me parando ao passar por mim no corredor. Neguei com a cabeça, tentando evitar cair no choro ali no meio de tantas pessoas. – Ei, o que houve? Vem cá. – Minha amiga chamou, preocupada, percebendo minha expressão chorosa.
– Preciso pedir uma máquina de CT. Já falo com você. – Expliquei, e ela ficou observando, sem entender nada.
Logo que consegui fazer o pedido da máquina, caminhei em direção a Amanda e fomos juntas até o quarto de descanso novamente.
– Ela deu entrada no hospital já desacordada, parou duas vezes, eu e as enfermeiras tivemos que estabilizar sozinhas. Não tinha nenhum médico-atendente lá para auxiliar. Só aqueles bananões dos internos, que ficaram tão chocados por saberem quem era a menina que não fizeram absolutamente nada, aqueles idiotas. – Contei, tudo num fôlego só, em desabafo, logo que nos sentamos em uma das camas para conversar. – Sabe o que é pior? – Falei, me acalmando um pouco. – Eu não sei se somos muito parecidas mesmo ou se eu estou viajando nessa ideia, mas eu olhava para ela e só conseguia me ver ali, Amanda! Que tipo de brincadeira de mau gosto do universo é essa? – Comentei, sabendo que ela sabia bem o que eu queria dizer.
– Você quase fez essa loucura também, não foi? – Amanda perguntou, me olhando com preocupação.
– Foi por muito pouco. – Concordei, com o olhar perdido, sentindo as lembranças daquele dia voltando à minha mente e meus olhos se enchendo de lágrimas, as quais escorreram sem que eu pudesse evitar. – Eu já tinha planejado tudo. Estava tão desesperada que só pensava em cada pessoa que eu conhecia e no que elas pensariam quando vissem aquele vídeo. Eu tinha certeza de que, cedo ou tarde, todo mundo veria. Na minha cabeça, naquele momento, não tinha outra saída, essa era a única. Foi mesmo por muito pouco. – Contei, sendo tomada pela emoção.
Eu sempre dizia que aquele capítulo era página virada, mas ainda não conseguia falar sobre ele sem chorar, o que talvez fosse sinal de que não era uma página tão virada assim.
– O que te fez desistir? – Amanda perguntou, com carinho, percebendo que talvez finalmente eu precisasse falar sobre isso para aliviar.
– Meu pai me ligou. Na hora exata. Se ele tivesse deixado para ligar cinco minutos depois, eu nem sei... – Respirei fundo para continuar. – E quando eu atendi, ele nem disse “alô”, só me disse “Filha, eu já sei o que aconteceu. Não se preocupe, vamos resolver isso juntos”. Eu chorava e perguntava para ele: “Você não está envergonhado? Você não está com raiva de mim?”. E ele dizia: “Eu nunca vou ter raiva de você, filha. Você é o que tenho de mais precioso. Não se preocupe! Vamos resolver”. E eu não estava esperando receber apoio. Estava esperando ele gritar comigo, me xingar, dizer que estava envergonhado... Mas não. – Contei. Essa parte era um capítulo inédito no tal livro que tinha a “página virada”. Nunca tinha chegado a contar aquilo para ninguém.
– E depois? – Amanda questionou.
– Eric foi quem soube primeiro e foi também quem contou ao nosso pai. Depois foi para a casa da nossa mãe, onde eu estava, para conversar com ela enquanto meu pai me levava para a casa dele e me acalmava. Lembro que eu soluçava e dizia: “Pai, eu estraguei a minha vida”, e ele respondia: “Sua vida mal começou, filha. Vai chegar um dia em que isso aqui não vai mais significar nada. Você vai ver só”. – Contei.
– Quando Eric terminou de conversar com nossa mãe, os dois foram até a casa do meu pai, e ela me disse que estava do meu lado e que tudo ficaria bem. Eu nem entendi nada. – Soltei uma risadinha em meio às lágrimas. – Minha mãe se importa muito com o que os outros pensam, sabe? Ela certamente estava muito envergonhada pensando no que as amigas iriam pensar se soubessem. Mas meu irmão fez um bom trabalho de intermediação.
– Já era um bom mediador de conflitos mesmo antes de se formar. – Amanda concordou, também se permitindo um sorriso amarelo.
– Eu tranquei o semestre na faculdade porque não conseguia lidar com a ideia de ser vista naquele lugar de novo. Fiquei isolada durante praticamente 6 meses, mas depois voltei e foi quando nos conhecemos. – Falei, e Amanda concordou. Ela sabia o resto da história. – E foi mesmo como meu pai disse: no final do curso, ninguém mais se lembrava desse vídeo. Só eu! Mas me lembrar, mesmo que sozinha, ainda dói.
Mandy assentiu, secando com seu polegar mais uma lágrima no meu rosto.
, sabe de uma coisa? – Ela sugeriu, com carinho. – Eu acho que você deveria ir para casa. Tomar um banho, descansar um pouco... O dia de hoje foi difícil do começo ao fim, você merece isso.
– Amiga, eu não posso... meu plantão no P.A. só vai terminar às 7h. – Falei.
– Eu assumo no seu lugar. É medicina geral, posso dar um jeito. Amanhã você assume o meu às 19h e ficaremos quites. O que acha? – Mandy disse, já com todo um plano arquitetado.
– Bem... Pode ser! – Concordei.
Minha fala agressiva ao preceptor mais cedo era prova de que eu deveria sim usufruir de algumas horas de descanso para evitar maiores problemas naquele hospital.
– Certo. Precisa estar bem para cuidar das pessoas! – Ela concordou, parecendo aliviada por saber que eu ia para casa descansar. – Te deixo em casa?
– Não se preocupe, Mandy! Você já está fazendo muito por mim. – Eu disse, me levantando e indo em direção aos armários para pegar meus pertences. – Amiga, me faz um último favor? – Pedi.
– Qualquer coisa. – Amanda respondeu.
– Horácio me tirou do caso de Catarina, mas eu gostaria muito de saber como ela está. Se ela acordar, se algo acontecer, você me avisa? – Expliquei, já me sentindo lacrimejar de novo, pela situação-gatilho e pela frustração em ter sido retirada de um caso com o qual eu estava intensamente envolvida.
– Vou ficar de olho. – Amanda disse, se vestindo de novo em seus scrubs. Era para ela estar indo para casa, e não eu. Foi uma atitude muito nobre da parte dela propor aquela troca. – Agora tenta se desligar disso um pouco. Liga uma comédia romântica na TV, vai ler um livro... Faça qualquer coisa, menos ficar pensando no que aconteceu aqui. Ok?
Mandei um beijo no ar antes de sair do cômodo e caminhar em direção à portaria principal, de onde poderia solicitar um carro e ir para casa.
Adentrei nosso apartamento e logo peguei Thalamus no colo, na tentativa de receber um carinho e me sentir acolhida, mas o pequeno felino não estava no clima para chamegos e logo saltou para ir a algum lugar mais divertido.
Segui até o banheiro e tomei uma ducha quente, tentando enxaguar de uma só vez: o cabelo, o corpo, a alma e o nó gigante que seguia preso na minha garganta.
Foi quando a sensação de déjà-vu me levou de volta à última vez que havia adentrado aquela ducha na esperança de clarear meus pensamentos. Tinha sido ainda no dia anterior, depois de conversar com meu irmão e antes de ligar para , o que acabei não fazendo porque me distraí com Amanda, nossa noite de hambúrgueres e sua novidade.
Refletindo sobre isso, ouvi ecoar na minha mente a frase dita a mim por Eric: “o amor se sobressai em momentos de vulnerabilidade”. E consegui relacioná-la ao momento que estava vivendo.
Tal como Pablo – machucado e assustado após um acidente de trabalho, querendo a companhia de Eric para se sentir melhor –, eu me sentia vulnerável após uma experiência traumática como a que acabara de vivenciar no dia de trabalho e imaginei que a companhia de poderia também me ajudar a me sentir melhor. Até porque, o goleiro era, depois de Amanda, a única pessoa fora do meu círculo familiar que sabia do histórico com o vídeo e o quanto todo o processo havia sido difícil para mim.
Chamá-lo parecia uma opção super razoável, então, para não ter tempo de me acovardar e mudar de ideia, fiz a ligação imediatamente. Ainda no banheiro, com uma toalha enrolada em meu corpo e outra prendendo meus fios molhados de cabelo.
O telefone chamou por duas vezes e eu logo ouvi a voz do goleiro, do outro lado.
– Alô?
– Oi, , é a ! Tudo bem? – Eu disse.
– Oi, ! Como você está? – Ele perguntou.
– Hum... tudo indo. E você? Está em Madrid? – Questionei.
– Tudo ok por aqui também! E, sim, estou em Madrid, mas... hoje meu irmão está aqui comigo. – Ele respondeu, já justificando e prevendo o motivo da ligação. – De vez em quando combinamos uma noite de pôker, e acabamos fazendo uma hoje, então não vai dar. Mas, se quiser, podemos nos ver amanhã. Tudo bem?
– Claro, na-não tem problema, eu só... Nós... A gente combina. – Falei, depois de gaguejar um pouco.
– Ótimo! Nos falamos. Beijos, ! – Ele se despediu.
– Beijo. – Falei, segundos antes de tirar o celular do ouvido para desligar a chamada. Foi quando ouvi um som vindo dele e resolvi checar se ainda estava falando algo comigo.
– Pronto, podemos voltar. – Ele dizia, com a voz já um pouco mais abafada e distante.
– Estou atrapalhando algo? – Ouvi outra voz perguntar, ainda mais distante que a dele. Havia ainda alguns ruídos, me impedindo de entender o que diziam.
– Não. Era aquela moça de quem te falei. Mas já está tudo resolvido. – O goleiro explicou.
Logo entendi o que aconteceu. pensou que havia desligado a chamada e provavelmente guardou o celular no bolso e voltou para a jogatina com seu irmão. Não fazia ideia de que eu seguia escutando tudo.
Como o assunto da conversa era eu, me senti no direito de continuar ouvindo.
Coloquei a chamada no viva-voz e aumentei ao máximo o volume do som do meu celular.
– Quanto tempo faz que vocês estão juntos, mesmo? – A outra voz perguntou.
– Não estamos juntos... É casual. Quer outra cerveja? – desconversou, mas o irmão fez outra pergunta:
– É casual há quanto tempo, então?
– Alguns meses. Talvez uns seis? Por que você está tão curioso? – Ele perguntou, impaciente, e seu irmão respondeu:
– Só quero saber, ué! Você nunca me conta nada.
– Não te contei porque não é nada de mais, oras. Vou ter que ficar preenchendo um relatório de todas as mulheres que eu trago para minha cama? Sério, Ramón, você tem umas ideias… – disse, impaciente.
– Não é a mesma coisa, você sabe. Desde quando você fica casualmente com a mesma mulher por meses? Deve ter algo de especial nessa aí. Não?
Continuei com a saída de som do celular próxima ao ouvido para não perder um segundo sequer daquela resposta.
– Ela é bonita, mas não faz o meu tipo. – O goleiro respondeu, de pronto. – Só está rolando porque ela topou o lance sem compromisso e, você sabe... Isso é uma raridade. Entre ter variedade e correr o risco de encontrar outra louca como Veronica, ou ter alguém fixo, mas que só quer o mesmo que eu, prefiro jogar seguro. – Ele disse, e eu tive o primeiro impulso de desligar a chamada, mas insisti. Por um lado, queria saber exatamente o que ele pensava de mim. Por outro, tinha a esperança de que tivesse entendido mal e ele fosse explicar melhor.
– E por que ela não faz seu tipo? – Ramón, o irmão, perguntou, em meio a alguns ruídos da chamada.
Nah... – resmungou. – Primeiro que ela é bem mais nova que eu. Também é obcecada pelo próprio trabalho e muito insegura com tudo. Não dá.
– Mas você precisa relevar... Toda mulher fica meio insegura se envolvendo com um cara famoso. – O irmão comentou.
– Não, nem é isso! Ela não acompanha futebol, nem sabia quem eu era quando me conheceu. – explicou.
– Por que ela é insegura, então? – O irmão parecia curioso.
“Ele não vai falar, vai?”, perguntei mentalmente, me apegando à esperança de bom senso por parte do goleiro e torcendo para não precisar reviver a lembrança do vídeo mais uma vez naquele dia.
– Ah, é complicado. Ela passou por uns perrengues num relacionamento passado, uma coisa meio traumática. – Ele disse, sem entrar em detalhes. – E eu não sou a pessoa para lidar com esses sentimentalismos, você sabe.
– Nesse caso, é mais complicado mesmo. – O irmão lamentou. – Mas relaxa, mano. Vai chegar a pessoa certa na hora certa!
– Ramón, eu não poderia estar mais relaxado. Não estou procurando por ninguém, minha vida tá legal assim. Você viaja nessa ideia toda vez, cara. Que coisa chata! Podemos retomar o jogo? – reclamou, impaciente.
Achei que aquele era o momento ideal para desligar a chamada, porque já nem queria mais ouvir o que quer que eles fossem falar ali.
Minhas mãos tremiam e, antes que eu pudesse perceber, minhas pernas e a mandíbula também. Ouvir falar sobre mim com tamanho desprezo foi como um soco na boca do estômago, e eu quase podia sentir, fisicamente, aquela sensação.
Passei as mãos pelo rosto à medida que comecei a chorar em um misto de tristeza, decepção e raiva.
Me sentia uma estúpida. Estava prestes a me declarar para um cara que acreditava que só estava “rolando” porque preferia jogar seguro do que ter variedade. Objetificada, como um filme que alguém já sabe que gosta do enredo e decide assistir de novo em vez de arriscar um título novo e não gostar da história.
Nua, no sentido literal e figurativo. E ferida, de um jeito figurativo, que era quase real também.


Capítulo 19

Respirei fundo, tentando conter o choro, que não cessava.
Aquele ocorrido foi como aquela gota d'água que faz um copo muito cheio transbordar.
O dia tinha sido difícil o suficiente e, quando imaginei que algo – mais especificamente "alguém" – pudesse amenizar meu sofrimento, recebi em troca um balde de água fria.
Mais do que doeu ouvir que, para , eu não fazia o “tipo” para se envolver, doeu perceber que eu não podia culpá-lo por isso. Eu era mesmo insegura, bitolada no meu trabalho e, apesar de me considerar bem madura perto de outras pessoas da minha idade – o que é meio inevitável quando se colecionava tantos perrengues quanto eu ao longo da vida –, eu tinha mesmo alguns bons anos de idade a menos que o goleiro.
Não que justificasse tamanha insensibilidade ao falar sobre mim, mas outra questão que eu não podia questionar era sobre a casualidade dos nossos encontros, já que fui eu quem fiz questão de assegurar que não teríamos nada além da cama. Ou seja, se casual estava ótimo para ele, ele imaginava que estava ótimo para mim também.
E, por esse lado, era melhor mesmo que eu tivesse ouvido aquela conversa de uma vez, para cortar logo pela raiz qualquer expectativa de algo a mais com . Se eu não tivesse feito isso, poderia continuar me iludindo com atitudes do goleiro, fantasiando por conta de gestos e palavras, que, no final, eram apenas o jeito dele. Nada tinham a ver com reciprocidade aos meus sentimentos, como imaginei que tinham, e ele fez questão de deixar claro.
– Amiga, eu... nem sei o que dizer! – Mandy disse, parecendo chocada, quando eu contei a ela.
– Nem precisa dizer nada. Um “eu te avisei”, talvez. Mas eu agradeceria se você evitasse! – Ri, sem graça, me sentando ao seu lado no sofá.
– Como eu poderia dizer que te avisei se estava tão empolgada sobre isso quanto você? – Ela comentou, com um pesar condolente.
– Você disse no começo que tudo o que é acordado não pode dar errado. Eu fui inventar de sair do acordo desenvolvendo sentimentos e deu tudo errado. – Expliquei.
– Ah! Mas não foi sua culpa, vai... Essas coisas são mesmo uma droga. A gente não escolhe! – Amanda completou, tentando me consolar. – Você disse a ele que ouviu?
– Está louca? Claro que não disse! Não consigo nem cogitar a ideia de conversar com ele de novo. – Falei. – E sei que se soubesse o que ouvi, vestiria o disfarce de gentleman para me fazer perdoá-lo.
– Não julgo você. Eu também não conseguiria. – Amanda concordou, completando alguns segundos de silêncio depois. – Só... Pobrezinha da criança, né? Vai sentir sua falta. – Ela comentou, parecendo se lembrar de repente sobre Sofia.
– É! Acho que vai ser a parte mais difícil para mim também! Era esse o meu medo quando começamos a nos envolver demais. E eu estava certa, porque agora nem amigos, com ou sem direitos, seremos. Eu não quero vê-lo nunca mais. Seu nome me dá ao mesmo tempo asco e raiva. – Falei, transparecendo minha raiva. – Sorte que a Sofia é bem novinha e logo vai me esquecer! Crianças se adaptam rápido. – Eu disse, decidida a acreditar nas minhas palavras.
– Ei, para te tirar da bad, você sabe que a nova turma de internos chega no final do mês, não é? – Minha amiga disse, mudando o assunto e seu semblante, que agora parecia mais animado.
– E eu deveria ficar feliz por isso? – Questionei, rindo.
Internos são, geralmente, um grupo conhecido por ser odiado por todos os outros grupos do hospital. Eles simplesmente fazem tudo errado. A culpa é da inexperiência, claro. E, como já tinha sido interna um dia, sabia das dificuldades e procurava sempre tratá-los com o máximo de respeito e gentileza para que se adaptassem logo e parassem de cometer gafes. Porém, era dura a missão de tolerá-los, e eu não conseguia ver como a chegada de mais um grupo cheio deles poderia ser motivo de comemoração.
– Não, não pelos internos, óbvio. – Amanda revirou os olhos e riu em seguida. – Mas daí tem a festa, né? E, você sabe, essa é a única parte boa da chegada deles. Ouvi dizer que esse ano será um evento fechado na Velvet. É provavelmente a última festa de recepção de internos que teremos a oportunidade de ir juntas antes que eu me mude, então você precisa ir comigo. – Ela disse, mencionando o nome de uma das melhores casas noturnas da cidade.
– Na Velvet? Quem será o filho de milionário que vai bancar o fechamento da Velvet para um evento desses? – Questionei.
A casa noturna, localizada na zona sul da cidade, era uma das mais sofisticadas de Madrid. Um ambiente nada parecido com o das festas que costumávamos frequentar.
– Bom, isso não sei. Sei que faltam dois meses e já estão vendendo as entradas. Se eu fosse você, já compraria. Antes da virada de lote, sabe como é. – Minha amiga disse.
– Claro! Quando for comprar a sua, pode comprar a minha e depois te passo o valor. Nem me lembro quando foi a última vez que fui a uma casa noturna como a Velvet.
Exceto que me lembrava sim. Talvez não lembrasse exatamente de como saí de lá direto para a casa de um desconhecido e acordei no dia seguinte desesperada para ir embora e acabei presa, na chuva, em um jardim. Mas, infelizmente, do que veio depois disso, me lembrava sim.
Voltando ao assunto , não existia um jeito fácil de explicar a alguém que você, por acaso, tinha ouvido uma conversa dela e que tinha se sentido mal pelo que tinha ouvido porque, embora vocês tivessem combinado de realmente não ter nada sério um com o outro, você estava criando sentimentos e achava que eles eram recíprocos e, agora, já não queria mais se envolver porque sabia da existência daqueles sentimentos da sua parte e da inexistência deles por parte dele. Então, depois do incidente com a chamada telefônica, não tínhamos conversado mais.
O goleiro tinha tentado contato algumas vezes e chegara inclusive a perguntar por mensagem, diretamente, se algo me havia chateado e por que eu não o estava respondendo – aparentemente, sem nem imaginar o que havia acontecido. O sentimento que ler seu nome na tela do celular me trazia era tão ruim que eu seguia sem conseguir respondê-lo e não planejava fazê-lo ainda que pudesse.
Por sorte, algum tempo depois, ele parou de insistir.
Depois da minha grande decepção e de cortar totalmente os laços com o jogador, decidi voltar a me dedicar exclusivamente aos meus pacientes. Eu sentia, um pouco mais do que gostaria, falta das minhas doses quase diárias de serotonina e endorfina; não podia negar, mas tentei compensá-las criando o hábito de correr por algum tempo uma vez ao dia – ou quando me sobrava tempo e ânimo.
Não era a mesma coisa, óbvio, quem eu estava tentando enganar? A corrida até era interessante e tinha seus benefícios, mas, por pior que fosse sentir raiva de , eu simplesmente não conseguia evitar sentir falta dele também.
Como, no trabalho, as coisas seguiam a todo vapor e o hospital era o lugar onde eu ficava mais entretida e tinha menos tempo para pensar sobre outra coisa, passei a ficar bastante por lá.
A paciente Catarina – de quem fui retirada do caso aquela vez –, depois de ser mantida em um coma induzido por alguns dias, começou a apresentar uma melhora significativa de suas funções vitais. Amanda me mantinha informada.
Sabemos que o processo de retirada do coma para pacientes com histórico suicida costuma ser bem delicado. A equipe de psiquiatria já estava de sobreaviso, e ela passaria por uma avaliação assim que recuperasse a consciência, o que acabou acontecendo – por coincidência – em um momento em que eu estava passando pelo centro de terapia intensiva.
Estava analisando o prontuário de um outro paciente, quando uma enfermeira solicitou que eu fosse até o box de Catarina, porque ela havia acordado. Hesitei por um momento, porque tinha sido retirada do caso. Porém, eu era a única médica por perto e achei que isso era motivo suficiente para ignorar aquele afastamento idiota.
Me apresentei à garota e fiz a avaliação de seu grau de consciência. Pedi à enfermeira que chamasse a equipe de psiquiatria e, enquanto eles não chegavam, fiz o que pude para acolher a paciente. Conversamos um pouco e tentei ser o mais carinhosa e empática que pude, mantendo o profissionalismo e seguindo as instruções que recebemos para casos assim. Não era tão simples quanto chegar e dizer tudo o que o seu coração pedia para que fosse dito. Exigia muita responsabilidade, e eu sabia disso.
No dia seguinte, o próprio Dr. Horácio, que foi quem me retirou do caso de Catarina, me chamou pelo pager, e eu fui ao seu encontro.
– Não sei o que você fez por aqui. – Ele resmungou, me recebendo do lado de fora do box de CTI. – Mas a paciente estava solicitando sua presença.
– Então estou autorizada de volta no caso? – Perguntei.
– Ela não fala com ninguém. Se você puder ser útil, sim. Está autorizada. – O médico disse, com tom rabugento. Sorri internamente, porque sabia que poderia sim ser útil nesse caso.
– Oi, Catarina, bom dia! Você estava procurando por mim? – A cumprimentei, adentrando o box.
– Oi. Sim, eu... vi seu nome no crachá aquele dia. E você foi muito gentil comigo. – Ela disse, parecendo envergonhada. – Eu acho que a maioria das pessoas aqui não concorda muito com o que eu fiz. Parecem me julgar o tempo todo. Mas você não. Com você, foi diferente.
– Bom, eu... – Limpei a garganta, sem saber exatamente o que dizer. – Eu não julgo ninguém. Meu trabalho aqui é acolher você e cuidar para que você melhore. Mas posso te entender melhor, se você quiser me explicar os motivos que te levaram a fazer isso. – Eu disse, puxando a cadeira de acompanhante para mais perto da cama e me sentando em seguida.
– Cometi um erro, . Pensei que não poderia viver com isso. Só queria escapar, sabe? – A paciente confessou, ainda cabisbaixa.
– E... que erro tão grave foi esse? – Perguntei, mesmo sabendo exatamente a resposta. Não era certo antecipar informações sobre os pacientes, por isso deixei que ela me contasse apenas o que quisesse que eu soubesse.
– Confiei demais em alguém que não devia. E tive minha confiança traída. Envergonhei a mim mesma e à minha família. – Ela respondeu, sem entrar em detalhes.
– Bom, acho que então o erro foi de quem usou dessa confiança para atingir você. Não? Confiar nas pessoas não é um erro. – Falei, tentando não me expor também.
– Mas quem vai ter que lidar com as consequências disso sou eu, e não a outra pessoa. – Catarina desabafou, novamente em tom de choro.
– Era disso que você estava tentando escapar? – Perguntei. – Das consequências?
– Sim! E da vergonha e do julgamento das pessoas. – A menina disse, se entregando às lágrimas.
– Das consequências, da vergonha, do julgamento das pessoas... Mas da vida em si, não, né? – Perguntei.
– Dá no mesmo – Ela estalou a língua. – É o tipo de coisa que você só entende quando acontece com você.
– É mesmo? – Questionei. – Bom, deixa eu te contar um segredo sobre mim, então. Alguns anos atrás, eu também confiei em alguém. Alguém que eu amava, que nunca imaginei que faria mal para mim. – Contei, quebrando um pouco o protocolo. – Mas que, em um momento de raiva, tentando me atingir, me expôs para várias pessoas, em uma situação que eu não queria ser vista por ninguém. Foi algo muito baixo. Me senti violada e traída, e isso doeu como o inferno. E eu também quis fugir dessa dor, dessa culpa, dessa vergonha... Achei, como você, que fugir desses sentimentos ou da vida daria no mesmo. Mas o que mudou tudo para mim foi descobrir que não. Que eu podia me livrar desses sentimentos e continuar viva. Não é fácil de primeira, não vou mentir. Mas, olha, todos os sonhos que eu realizei na vida estavam do lado de lá dessa decisão de continuar vivendo. E foram muitos sonhos! E valeu muito a pena ter tomado essa decisão. – Contei, abrindo o coração, tentando evitar de cair em lágrimas.
– Seus pais perdoaram você? – Ela quis saber, parecendo logo perceber a semelhança entre nossos relatos.
– Sim! Muito embora eu ache que não tem como “perdoar” alguém por algo pelo que esse alguém não tem culpa. – Expliquei. – Você não tem culpa, como eu não tive culpa! Algumas coisas na vida demandam uma maturidade que a gente não tem na hora e só cria depois que algo horrível acontece, mas isso não é um defeito. É só a vida...
– Você já era médica quando aconteceu? Acha que ainda consigo ser médica se eu tentar? – A menina perguntou, parecendo com medo da resposta.
– Eu não era médica ainda quando aconteceu. E... olha só onde estou agora. – Falei, sorrindo entre lágrimas, mostrando o ambiente em volta, com as mãos. Além de todas as coincidências, o sonho de Catarina ainda era o mesmo que o meu, quando tinha sua idade. – Esse acontecimento não vai entrar no caminho dos seus sonhos, minha linda. E, quando você chegar lá, isso vai ser só um detalhe. Pode confiar em mim.
Ela sorriu de volta, e foi a primeira vez que vi seu sorriso. E, no seu sorriso, um traço de esperança, que era exatamente o que eu queria ver, desde aquele dia em que a recebi no hospital.
Depois daquele dia, soube que todas as consultas dela com a equipe de psiquiatria e psicologia do hospital ficaram mais fáceis.
Dr. Horácio passou a me tratar melhor, e eu e Catarina acabamos nos tornando bem próximas. Ela foi a terceira pessoa, fora do meu círculo familiar, para quem me abri sobre aquele acontecimento, mas o motivo era nobre.
Dias depois, quando ela recebeu alta para seguir seu tratamento em casa, quebrei outro protocolo e dei a ela meu número de celular. Me coloquei à disposição para ouvi-la caso ela quisesse conversar. Disse que queria receber, através daquele número, novidades sobre o processo seletivo que ela enfrentaria no final daquele ano para se tornar uma médica, como eu. E, quem sabe, usar sua história para ajudar outros pacientes, como havia feito com ela.
Cheguei em casa por volta das 22h naquele dia.
Exausta, mas muito orgulhosa de mim e com a sensação de dever cumprido por ter ajudado tanto aquela paciente em especial. Depois de um longo e relaxante banho, alimentei Thalamus – já que Amanda só chegaria em casa pela manhã no dia seguinte – e fui dormir.
Aquele tinha sido um daqueles dias em que mal tive tempo para pensar em outra coisa, então foi grande o meu espanto quando, no meio da noite, ouvi o celular tocar e atendi com pressa, pensando que pudesse ser Catarina precisando de ajuda, mas me deparei com uma outra voz conhecida do outro lado da linha, que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo, independentemente do tempo que tinha feito desde a última vez que a ouvira.


Capítulo 20

? Te acordei? – Ouvi a voz rouca de falar pelo telefone, soando um pouco assustado. Me assustei também ao perceber que era ele na ligação.
– Hum... sim! – Respondi, com sinceridade. – Aconteceu algo? – Perguntei, afastando o celular do rosto para enxergar as horas, com os olhos semicerrados devido à claridade da tela.
Eram 00:22.
– Desculpe! Eu não queria incomodar você, mas... essa semana estou com a Sofia e ela não está passando muito bem. – Ele se embaralhava com as palavras, parecendo muito nervoso.
Me sentei rápido na cama, num sobressalto ao ouvi-lo dizer sobre a saúde da filha. Acendi o abajur e, ainda coçando os olhos, que ardiam pela claridade da luz, perguntei:
– O que ela tem?
– Está com uma febre que não abaixa. Já dei o remédio e nada. – respondeu, em tom apreensivo.
– Febre de quanto? Qual remédio você deu? Quanto tempo faz? – Questionei, tentando reunir o máximo de informações para tentar deduzir o que podia estar errado com Sofi.
– A febre está em 39,5ºC. Dei Advil infantil na medida da bula para o peso dela, mas não me lembro agora quanto foi. Isso já faz uma hora.
– Ok. – Falei, tentando raciocinar. – Tem algum outro sintoma? Ela reclamou de alguma coisa?
– Ela está chorosa e resmungando, mas não me fala se está com dor em algum lugar... Acho que estou nervoso e acabei a deixando nervosa também. – Ele desabafou. – Desculpa ter te acordado, . Pensei que talvez você estivesse de plantão no hospital e que eu pudesse levá-la para você examinar. Tenho o número do pediatra dela em algum lugar aqui, mas não consegui achar. Acho que vou com ela para o hospital mesmo. – O rapaz dizia, parecendo totalmente desnorteado.
, o ideal é não a levar para o hospital agora. – Falei. Realmente não é recomendado levar crianças ao pronto-socorro antes da febre completar 12h de duração. A chance deles se contaminarem com algum vírus ou bactéria no hospital, sendo que a imunidade tende a já estar baixa, é grande e não vale o risco. – Olha, fica tranquilo, estou indo para sua casa. Chego em 10 minutos. – Avisei, já arrancando meu pijama para vestir uma calça jeans com camiseta e pedir um Uber até a casa do goleiro, já que o carro estava com Amanda no hospital.
– Você acha que pode ser algo sério? – perguntou, ainda no telefone.
– Não sei, mas crianças têm febre o tempo todo, fica tranquilo. Não vai ser nada. Chego logo. – Falei, pegando minha bolsa de instrumentos médicos e dando uma conferida geral para ver se tudo o que seria necessário estava ali.
Surpreendentemente, não foi difícil encontrar um Uber, apesar do horário. Meu coração estava disparado e, apesar de estar acostumada a lidar com esse tipo de ligação noturna, acordar assustada nunca foi uma das minhas coisas favoritas na vida.
Desci do carro. Antes que eu pudesse tocar o interfone, Ángel, o segurança da portaria de , liberou o portão para que eu entrasse. A porta de entrada para a casa estava destrancada, então subi rápido pela escadaria até chegar ao quarto de Sofia, que estava deitada na cama, vestindo apenas seus shorts de pijama e coberta por um lençol. Na mesa de cabeceira havia um termômetro, o remédio que disse ter dado a ela, um copo de água e uma toalha de rosto.
– Oi, minha linda, o que você tem, hein? – Perguntei, me aproximando da cama para dar-lhe um beijinho na cabeça.
– Eu vomitei no papai. – Ela disse, antes mesmo de me cumprimentar, parecendo preocupada.
– Às vezes isso acontece mesmo, Sofi... Não precisa se preocupar, tá? Seu papai não vai se importar! – Falei, com pena de sua aparência abatida. – Você pode se deitar mais para baixo pra eu te examinar? – Pedi, ajudando-a a se deitar numa posição melhor para examinar. – Vou apertar aqui e você me diz se dói, tá bom? – Pedi, apertando a lateral de sua barriga. – Dói? – Perguntei à medida que fui mudando o local que apertava.
– Não. – Sofia ia respondendo.
Nesse meio tempo, saiu do banheiro da suíte para o quarto de Sofia, sem camisa, usando uma toalha para secar seus braços.
! Que bom que você veio. Obrigado.
Ele pareceu aliviado quando veio na minha direção e me abraçou.
Fiquei um pouco desconcertada com o abraço, mas não demonstrei. Entendi o tamanho do alívio dele e me senti bem por poder ajudar.
– Imagina! Não tem de quê. – Respondi, ajeitando meus óculos e o cabelo, que prendi em um rabo de cavalo quando percebi que perderia muito tempo penteando-o.
– Antes de você chegar, ela vomitou. Tive a ideia de fazer um achocolatado para ela, mas acho que não caiu muito bem. Não foi muito, mas acho que talvez… – disse, ainda com ar preocupado.
– Ela me disse. Vou me atentar a isso. – Respondi, sem muita meiguice, concentrada no exame físico de Sofia. – Nada? – Perguntei à pequena, ainda sobre as dores, apalpando seu abdômen.
– Hum-hum. – Ela negou com a cabeça.
– Ótimo! – Eu disse. – Posso medir sua temperatura? – Pedi, e Sofia gentilmente esticou o bracinho para que eu posicionasse o termômetro na axila, fechando-o logo em seguida. – Posso ver sua língua, Sofi? Diga “ah!”. – Pedi, e ela obedeceu. – Ah, aqui estão! – Falei, identificando algumas bolinhas brancas na garganta de Sofia. – Isso é uma estomatite viral. Herpangina, já ouviu falar? – Perguntei, desligando a lanterna e guardando de volta na caixinha.
O jogador negou com a cabeça, ainda tenso.
– O nome é mais feio do que grave. – Eu disse para tranquilizar. – É um quadro viral. Causa essas pequenas aftas na boca e garganta...
– Ma-mas... E o vômito? Não é nada na barriga? – perguntou.
– Não, eu avaliei o abdômen e está tudo ok. Algumas crianças com esse quadro têm mesmo dificuldade para se alimentar, para beber água e falta de apetite, o que pode causar vômitos. É normal! – Respondi, vendo os músculos de sua face descontraírem um pouco, de alívio. – As bolinhas parecem ter surgido há pouco tempo, por isso a febre tão alta. É assim nos primeiros dois ou três dias, depois melhora! – Falei, conferindo o termômetro. – Inclusive, começou a baixar agora, está em 38,5°C Acho que um banho morno nela seria boa ideia. – Falei, observando o rostinho de Sofia, que parecia estar com sono e incômodo ao mesmo tempo.
foi até o chuveiro para preparar o banho e eu fiquei com a pequena no quarto.
– Tia , estou com muito frio. Não quero tomar banho! – Ela suplicou, já com os olhinhos cheios de lágrimas.
– Seu corpo está muito quente, meu amor. Precisamos desse banho para diminuir sua temperatura e fazer você se sentir melhor.
– Mas eu não quero! Por favor. – Ela pediu, chorando ainda mais.
Era terrível ver qualquer criança doente, e o choro de Sofia, em especial, partiu meu coração.
– Vem, filha. Vai ser rápido, o papai promete. – disse, guiando a filha até o chuveiro.
– Não, papai. Está frio! Está frio! Não quero entrar! Tia , me ajuda! – Respirei fundo, com pena, e fez o mesmo, parecendo agoniado.
Por fim, pegou Sofia no colo e a abraçou forte. Pude ver o abraço apertado que ela deu nele em troca, em meio ao choro de desconforto. Em seguida, ainda vestido como estava, adentrou o chuveiro, segurando a pequena no colo. Ela chorava, e ele a apertava forte, parecendo se esforçar para não chorar também, enquanto a água morna do chuveiro molhava os dois.
– Está tudo bem, meu amor. Tudo bem... já vai melhorar. Vai melhorar. – dizia, jogando mais água nas costas de Sofia, que por fim se acalmou e deitou a cabeça em seu ombro. – Acha que já é o suficiente? – Ele perguntou a mim algum tempo depois. Eu seguia em pé diante do box de vidro, onde os dois estavam, a fim apenas de dar apoio emocional.
Contudo, não podia deixar de perceber o quanto o goleiro exercia sua função de pai com uma ternura e dedicação únicas, que iam além do que era apenas obrigação.
– Acho que sim. Você quer que eu te ajude com toalha ou um novo pijama? – Ofereci, percebendo que, apesar de estar sem camisa desde a hora que cheguei, adentrara o chuveiro ainda vestindo sua calça de moletom.
– Você pode pegá-la e secá-la lá no quarto? Vou me secar e pegar um novo pijama no meu quarto. – O goleiro pediu.
– Claro. – Eu disse, pegando a toalha para a qual ele apontou e apanhando Sofia de seu colo, enrolando-a na toalha. – 37°C, olha só! Bem melhor… – Falei, algum tempo depois de já tê-la secado e vestido em um pijama leve, tirando o termômetro enquanto ela dormia.
– Graças a Deus! Obrigado, . – agradeceu, também já devidamente seco e vestido, observando a filha dormir.
– Não há de quê.
– Escovei os dentes dela hoje cedo e não percebi nada diferente. Não fazia ideia que havia algo errado. – Ele disse, parecendo se sentir um pouco culpado.
– Não tinha como você ter visto antes, porque os sintomas começam com o aparecimento das bolinhas e as dela estavam bem escondidas... Não se preocupe com isso. É um quadro bem comum entre crianças. – Eu disse para acalmá-lo.
– Tem algum remédio que ela possa tomar para isso sarar logo? – Ele perguntou.
– Por ser um quadro viral, não tem um remédio para a doença especificamente. A gente cuida dos sintomas para o corpo combater o vírus. – Expliquei, didaticamente, como faço sempre com os pais e mães no consultório do hospital. – Mas vou prescrever um anti-inflamatório e um anestésico local para aliviar o incômodo.
– Está ótimo, ! Muito obrigado mais uma vez. Você sabe que... Sofia te ama! Não é? – Ele disse. – Eu estava tão nervoso e com certeza ter você aqui a deixou bem mais tranquila. – Ele contou.
– Não há de quê, ! Eu também amo a Sofia.
Um silêncio desconfortável pairou pelo ar, até que perguntou:
, por que você não me diz o que aconteceu? Entre a gente… – Ele pediu.
, eu só... prefiro não. Tá? – Respondi, sem graça.
– Você está se envolvendo com outra pessoa? É isso? – Ele tentou adivinhar.
– Não! Não é isso. – Respondi, de pronto.
– Então o quê? Só quero entender o que houve! Se fiz algo que te magoou, quero pedir desculpas.
Neguei com a cabeça. Eu não queria ouvir o goleiro se desculpar por ter sido sincero ao falar de seus sentimentos para alguém. Apenas não queria que continuássemos próximos, se ele tinha tantos receios sobre mim.
– Papai! – Sofia chamou, cortando o assunto, pegando uma das mãos do pai, que, em um segundo, respondeu:
– O que foi, meu amor?
– Minha garganta está doendo muito. – Ela disse, com as duas mãos segurando o pescoço.
olhou para mim, esperando por uma explicação.
– São as aftas... Causam uma inflamação e dói mesmo. Vai aliviar com os remédios. – Respondi, com pena. – Não tem nenhuma farmácia que possa entregá-los aqui? – Perguntei.
– Até tem, mas nenhuma das que atendem o bairro funciona 24 horas e, às duas da manhã, todas já estão fechadas. Vou ter que dirigir até encontrar uma aberta. – explicou, tentando pensar em uma saída.
Como eu já estava de saída e não havia ninguém mais na casa, não havia quem pudesse ficar com Sofia até o pai voltar.
– Quero a minha mãe! – Sofia choramingou, nos fazendo olhar para ela.
– Oh, filha, não faz assim... O papai não está aqui com você? – O pai perguntou, sentido, indo em direção à menina e a abraçando. – Então por que você está chorando? – Ele questionou, com carinho. Continuei observando de longe.
Sofia continuou a chorar baixinho, sem responder, e o pai respirou fundo, se dando por vencido.
, se você quiser ir até a farmácia pegar os remédios... – Falei, observando a cena. – Posso ficar aqui com ela até você voltar.
– Sério? – Ele perguntou, parecendo surpreso. – Você faria isso?
Assenti, tentando não perder minha pose profissional. Eu realmente não deixaria uma criança sentindo dor por um minuto a mais se pudesse impedir, mas – ainda que não quisesse assumir – sabia que estava agindo com mais carinho por se tratarem dos dois.
– Ouviu, filha? vai ficar aqui com você enquanto vou até a farmácia buscar os remédios para você se sentir melhor. – Ele avisou, com otimismo. – Só vou pegar minha carteira e chinelos. Vai ser rápido. – avisou, dessa vez para mim, saindo do quarto.
Fui até minha bolsa de materiais para pegar o bloco de receitas, carimbo e caneta. Depois de estar com o papel devidamente preenchido, fui até o goleiro no corredor para entregá-lo.
. – Chamei, percebendo sua fisionomia triste. – Crianças ficam mesmo mais sensíveis quando estão doentes. – Expliquei. – Ela pedir pela mãe não quer dizer que você não esteja fazendo um bom trabalho. Ela só está... sensível. Você sabe, né? – Falei, para confortá-lo, e ele assentiu.
– Não tem problema ela querer a mãe. Mais cedo eu até liguei mesmo para Verônica, para que Sofia falasse com ela pelo telefone. Mas ela não atendeu. – resmungou, passando as mãos pelo cabelo, ainda molhado pela ducha de mais cedo.
– E se você enviar uma mensagem explicando a situação e contando que é a própria Sofia quem quer falar com ela? – Perguntei.
– Eu fiz isso, mas não tive resposta. A mensagem foi entregue, mas não consigo saber se ela leu... O check não fica azul.
pegou o celular de novo e conferiu algo na tela.
– Bom, vou logo até a farmácia buscar os remédios. Volto em 10 minutos. – Ele disse, com uma jaqueta pendurada nos ombros, calçando chinelos slide e segurando, em uma mão, o celular e, na outra, a carteira e a chave do carro.
Entreguei a receita e avisei:
– Estarei com ela aqui. Não se preocupe.
desceu as escadas em direção à garagem e eu caminhei de volta para o quarto de Sofia, que parecia ter finalmente pegado no sono de novo.
Me aproximei da cama e toquei de leve seu rostinho, para checar a temperatura.
– Mamãe? – Ela chamou, como resposta ao toque.
O quarto estava com as luzes apagadas e a única iluminação vinha da televisão, na qual um desenho infantil passava, sem volume. Seus olhinhos seguiam fechados, então deduzi que ela não estava completamente desperta, apesar de estar conversando.
– Sofi, não é a mam… – Comecei a explicar, mas logo me interrompi e não consegui concluir. Me lembrei do quanto ela queria a presença da mãe e pensei que talvez não fosse ser má ideia deixá-la pensar que havia realmente sido atendida.
– Mamãe? – Ela chamou mais uma vez, ainda sem abrir os olhos, e, mesmo com um frio na barriga, temendo que algo desse errado, respondi:
– Oi, mi amor. O que foi?
Me aproximei dela, ainda na dúvida se estava cometendo um erro terrível ou não.
– Estou doente. – Ela contou, buscando minha mão, ainda com os olhos fechados.
– Sim. Eu sei, querida. Mas logo vai passar.
– Deita aqui comigo? – Sofia pediu, fazendo meu coração disparar ainda mais.
Demorei a responder, então ela perguntou de novo:
– Deita, mamãe?
– Sim! Vou me deitar com você. Dá um espacinho aí para mim. – Falei, me aconchegando na cama grande ao lado dela. – Pode descansar, amor. Vou estar aqui com você. – Continuei no meu papel enquanto acariciava a mão de Sofia e senti uma sensação diferente percorrer todo o meu corpo. Que estranho foi ser chamada de “mamãe”, ainda que por engano.
Mais estranho ainda foi perceber que eu tinha gostado da sensação, como se em alguma parte do meu ser eu tivesse desejado que esse momento acontecesse. Mas não em qualquer momento, com qualquer criança... Somente com Sofia. Exatamente como acabara de acontecer.


Capítulo 21

Deixei a casa dos algum tempo depois, logo que voltou da farmácia. Cheguei em casa, por coincidência, juntamente com Amanda, que acabara de deixar o plantão no hospital. Estranhando o fato de eu ter chegado de algum lugar neste horário, ela questionou:
– Ué, o que você está fazendo aqui?
– Estava na casa de . – Falei.
– Uma recaída? Mas já? – Ela perguntou, sem entender.
– Não, sua tonta! – Eu ri. – Sofia estava doente, ele ficou meio desesperado e ligou para saber se eu estava no hospital e se poderia levá-la para que eu a examinasse. Para evitar que ele fosse com a criança para o pronto atendimento sem necessidade, me ofereci para ir até lá. – Expliquei, no percurso entre o hall do prédio e nosso apartamento.
– E o que ela tinha? – Mandy questionou.
– Herpangina, com certeza. Lesões muito características na úvula e no palato. Várias delas, coitadinha! E febre alta, resistente ao remédio. – Contei, com naturalidade para utilizar os termos médicos, uma vez que sabia que Amanda os entenderia.
– Certamente, então. – Ela concordou com a hipótese diagnóstica e logo perguntou: – E você e ? Se falaram algo?
– Na verdade, sim. Ele questionou os motivos para eu ter me afastado e tudo mais... Mas eu disse que preferia não dizer. – Expliquei, e ela torceu a boca, em desaprovação. – Amiga, o que eu podia fazer? Contar pra ele toda a verdade? Só ia fazê-lo ficar sem graça por ter dito aquelas coisas, sendo que ele tem total direito de me achar uma péssima pessoa para se envolver, e ele nem sabia que eu o estava ouvindo. Aí ele ia se desculpar, de novo, e ia ficar um clima péssimo. Nem era o momento pra isso. – Falei, na defensiva.
– Eu te entendo. – Ela concordou, apesar de seu rosto mostrar o contrário. – Mas não deixa de ser estranha essa história, né? As atitudes dele todas apontavam para um caminho diferente do que ele falou na ligação.
Dei de ombros.
– Por isso que eu não confio em ninguém com base nas atitudes... ou nas palavras – Eu ri, sem graça. – Por isso eu não confio em ninguém, nunca. – Falei.
Amanda torceu a boca, com pena, mudando de assunto logo em seguida para aliviar o clima.
– Ei, você vai fazer algo hoje à tarde? – Ela quis saber.
– Não que eu saiba... Só vou para o hospital à noite. Por quê?
– Queria procurar uma roupa para a festa dos novos internos no Velvet. Sabe quando foi a última vez que usei uma roupa de festa? – Ela fez uma pausa dramática. – Acho que, na época, suspensórios eram moda, junto com calças de cintura baixa.
– Sua exagerada!
Eu ri.
– Se quiser ir comigo, só vou entrar e dormir um pouco, porque estou exausta. Depois saímos e almoçamos por lá, pode ser?
– Pode! Vou tentar encontrar algo para mim também... Considerando que a última vez que saí para algum evento assim, foi com você, tenho medo de só encontrar no meu closet calças fuseaux e polainas. – Falei, entrando na brincadeira e rindo também.
Ainda faltava pouco mais de uma semana para a tal festa e, apesar de estar com o tempo contado, foi bom ter aquela momento no shopping com Amanda, experimentando roupas e planejando uma noite que tinha tudo para ser muito divertida.
Acabei comprando um conjunto de saia e cropped, que, embora deixasse meus ombros e costas desnudos, tinha mangas longas e soltas, além de uma saia no comprimento ideal para não mostrar demais. Optei por um sapato de salto, que me ajudasse a parecer mais alta do que todos os meus 168 centímetros de altura permitiam. Era bom não se vestir com pijamas cirúrgicos e sapatos crocs de vez em quando.
No dia da festa, modelei toda a extensão do meu cabelo em cachos largos e caprichei um pouco mais na maquiagem do que costumava fazer. Abrir mão dos óculos de grau e do rabo de cavalo de todo dia também fazia bem para a autoestima.
Cheguei com Amanda e outras duas colegas, que também eram residentes e compraram entradas para a festa. Como havia local disponível no carro, Mandy ofereceu carona e elas aceitaram.
Chegamos pouco mais de uma hora depois da abertura dos portões, quando o som já estava bem alto e a maioria das pessoas, muito animada. Fomos logo garantir nossas bebidas e também curtir um pouco da música.
Antes que eu pudesse perceber que algum tempo de festa já havia passado, comecei a ouvir as pessoas combinando um “after”. Jovialidade exagerada para minha alma senhoril, que era incapaz de passar horas dançando e bebendo em um lugar e sair de lá rumo a outro lugar para seguir fazendo a mesma coisa, muito embora a primeira parte da noite estivesse sendo muito divertida até então.
Anunciaram que o DJ contratado para ser a atração principal subiria ao palco em mais alguns minutos, e, antes que ele chegasse, eu e as meninas resolvemos ir ao banheiro para aliviar nossas bexigas e conseguir curtir todo o setlist sem interrupções.
No caminho para o banheiro, tive a impressão de ver um rosto conhecido entre a multidão, mas, sem meus óculos de grau e com tantas luzes coloridas que piscavam sem parar, eu não tinha um bom parâmetro para confirmar.
? O que aconteceu?
Amanda me empurrou de leve quando parei de andar para olhar, com os olhos semicerrados, me esforçando para enxergar.
– Pensei ter visto . – Falei, sacudindo a cabeça rápido para tirar aquela ideia da mente.
? Aqui? – Ela riu. – No meio de uma festa barata de universitários? Ai, , a falta de costume com os destilados está afetando sua sanidade.
– Sim! Você tem razão. – Dessa vez, eu ri, meio sem graça, e disse alto o suficiente para que ela ouvisse apesar do som tão alto. – Não se fazem mais Carinas como na época da faculdade. – Brinquei a respeito do nosso tempo de universitárias, quando a quantidade de destilados não me era um problema.
– Vem, vamos fazer xixi! – Amanda respondeu, me puxando pela mão, vendo que havíamos nos perdido das meninas que estavam conosco.
Mais alguns passos adiante, voltei a olhar na direção do bar, onde eu, supostamente, havia avistado . Mesmo com a visão míope e afetada pela bebida, eu seguia com a impressão de que era ele. Meio escondido com a cabeça baixa, um boné e a gola da camisa alta o suficiente para cobrir metade do rosto, mas a tatuagem no braço estava à mostra e seria muita coincidência alguém com tantas similaridades. Ao mesmo tempo, não fazia sentido algum que estivesse ali, tomando bebida barata em uma festa barata. Eu estava em um dilema com minha própria mente.
– Amiga, qual foi agora? – Mandy perguntou, impaciente, quando parei de andar mais uma vez.
– Nada. Vou te esperar aqui, tá? Não estou com tanta vontade de ir ao banheiro e... Acho que vou pegar uma água para ficar um pouco mais sóbria. – Expliquei, convicta de que não tinha bebido o suficiente para ter alucinações, mas decidida a voltar ao meu estado de consciência total.
– Tem certeza? Não vai sair daqui? – Amanda confirmou, gritando para que eu pudesse ouvir.
– Tenho. Vou pegar a água e volto exatamente para cá. Na terceira pilastra, da esquerda para a direita, sentido banheiro. – Falei, dando as coordenadas precisas de onde estávamos, para que ela soubesse que eu não ia me perder.
Minha amiga assentiu e foi em direção ao banheiro, enquanto eu caminhava em outro sentido, rumo ao bar para pedir uma garrafa de água. Pensava em quais motivos poderiam ter levado a aparecer ali, se é que era ele quem eu havia visto, e se havia a possibilidade dele saber que eu estava ali também.
– Ei, você!
Senti uma mão tocar um dos meus ombros e, num sobressalto, olhei para trás, na esperança de ver um rosto específico, mas me decepcionei ao ver outro.
– Oi? – Respondi, olhando o indivíduo com estranheza e voltando a procurar na direção do bar.
– Se lembra de mim? – O rapaz questionou, com a voz embriagada e um tom de desafio.
– Hum... Você é... Não, não me lembro, desculpe. – Falei, com sinceridade.
Ele se aproximou de mim para que eu pudesse ouvi-lo melhor e disse:
– Sou o Dr. Felipe, do 2º ano de Trauma. Te dei carona no estacionamento do hospital no outro dia.
– Ah! Você! – Falei, finalmente me lembrando do rapaz inconveniente que tinha me dado uma carona de dois minutos e insistira em um tom paquerador durante todo o tempo. – Me lembro sim. Tudo bem? – Tentei agir com simpatia, apenas para me despedir e seguir rumo ao bar para pegar a água que queria.
– Tudo! E você? – Ele perguntou, se aproximando de novo. – Não está bebendo?
– Não. Na verdade, eu bebi, mas acho que foi o suficiente por hoje. Estava, na verdade, indo pegar uma água. – Contei, já me movimentando para sair. Ao olhar para lá de novo, percebi que o rapaz parecido com havia saído e eu o perdera de vista.
– Tenho água aqui, você quer? – Felipe ofereceu, pegando uma garrafa na mesa logo atrás, enquanto eu seguia me esticando para tentar ver o rapaz no bar.
– Na verdade, não. Prefiro pegar uma cheia lá no bar, estou com bastante sede. – Justifiquei, a um passo de parar de tratá-lo com educação.
– Depois você pega mais, se quiser. Fica aqui um pouco, nem conversamos ainda, você está tão bonita… – Ele dizia, se aproximando mais e mais, enquanto eu tentava me esquivar, até que segurou meu braço.
– Felipe, você está sendo inconveniente, eu não quero ficar aqui. Solta o meu braço. – Falei, irritada, ao ver que ele realmente não queria que eu saísse.
Todo o meu esforço era em vão porque, apesar de me movimentar com bastante vontade de sair dali, Felipe era mais forte que eu. Ao perceber que eu não tinha interesse, começou a me segurar com bastante força, a ponto de machucar meu braço.
Tentei buscar Amanda com os olhos, no local que combinamos de nos reencontrar, mas ela ainda não havia saído do banheiro.
Justamente na hora em que pensei em gritar por ajuda, o tal DJ foi anunciado no microfone e as pessoas gritaram em conjunto por longos minutos, desde o momento em que ele subiu no palco até a primeira música começar, inclusive também em volume bem mais alto do que as músicas anteriores.
– Se eu te der um beijo, você muda de ideia? – O infeliz perguntou, com o rosto bem perto do meu, enquanto eu seguia tentando desviar.
– Não?! Qual o seu problema, hein? Me solta! – Falei, vendo sua expressão mudar para um traço de raiva por ter sido confrontado.
– Você se acha muito boa, né? – Ele perguntou, segurando agora meus dois braços com força. – Acha que está com moral para ficar escolhendo, mas tá longe de ser isso tudo. Você nem é tão bonita assim.
Confrontar um homem mimado, que não sabia ouvir “não” e que estava alcoolizado, não era lá uma ideia muito boa, mas não pude evitar.
– Ué, vai lá ficar com as melhores que eu, então. Já te falei que não quero nada contigo, me deixa sair. – Respondi, com ódio. Da atitude babaca e do fato de que eu não conseguia me soltar, por mais que tentasse.
Apesar do segundo de coragem antes da frase, logo comecei a sentir medo. Ninguém na festa parecia prestar atenção no que acontecia, pois o DJ estava no palco estreando seu setlist badalado.
Olhei para trás de novo, tentando visualizar Amanda mais uma vez, e, para o meu alívio, percebi que ela havia me visto e que vinha na minha direção, junto de Anita e Vera, as outras colegas que foram para a festa conosco.
Antes mesmo que as três conseguissem chegar perto, percebi outra movimentação vindo pelo outro sentido em nossa direção, e, antes que pudesse olhar, ouvi alguém dizer:
– Qual é a sua, cara? Solta ela!
E senti uma pressão forte, logo conseguindo me soltar dos braços de Felipe, ao passo que ele cambaleava para trás depois de um empurrão.
Tentei processar tudo o que estava acontecendo. Vi que Felipe tentava se reequilibrar de pé e que as meninas pararam de andar em nossa direção, surpresas ao verem algo. Me virei para trás para ver quem havia me ajudado e precisei de alguns segundos para processar a informação e concluir:
?


Capítulo 22

– Ele te machucou? – perguntou, se virando de frente para mim e ignorando Felipe, que precisou se apoiar em uma das mesas para não cair no chão.
– Na... Não. – Gaguejei, tentando entender o que estava acontecendo ali. Eu sabia que o havia visto!
Numa fração de segundo, aproveitando que estava distraído e preocupado comigo, Felipe revidou o empurrão, acertando em cheio o rosto do goleiro com o cotovelo e provocando um barulho bem alto.
– Ouch! – gritou, se afastando e protegendo o rosto com o braço.
! – Exclamei, no susto.
Amanda, Anita e Vera chegaram correndo, e a movimentação chamou a atenção de algumas outras pessoas em volta. Entre elas, de dois outros rapazes que vieram segurar Felipe antes que se formasse uma briga ainda maior.
– O que aconteceu? – Eles perguntavam enquanto o médico tentava, a todo custo, partir para cima de .
– Esse babaca aí incomodando as mulheres. – Uma das meninas reclamou.
Eu estava dividida entre olhar para garantir que Felipe estava contido e olhar para para saber se ele estava bem.
– Se não sabe ouvir “não”, tem que ficar em casa, amigão! – Ouvi um dos rapazes dizer, enquanto “escoltavam” Felipe para outro lugar.
Quando vi que finalmente o médico não conseguiria sair, corri na direção do goleiro.
– Você se machucou? – Perguntei, mais uma vez, me aproximando da mesa onde tinha se apoiado.
Ele tocava seu próprio rosto e olhava para a mão na sequência, aparentemente tentando enxergar sangue, mas as luzes coloridas não ajudavam.
– Acho que quebrou meu nariz. – Ele respondeu, gemendo de dor.
– Vem aqui, deixa eu ver.
Puxei o rapaz pelo braço, guiando-o até um local menos tumultuado e com iluminação melhor. Passamos por uma pequena porta na qual estava escrito “acesso restrito”, que nos levou a uma área externa, onde havia uma caçamba de lixo, alguns entulhos, um amontoado de caixas de madeira e um único poste, que, por incrível que pareça, sozinho, iluminava bem mais do que com aquelas luzes coloridas de dentro do lugar. As meninas vieram atrás, mesmo sem entender muito bem.
– Senta aqui, deixa eu dar uma olhada. – Eu disse, sugerindo que se sentasse sobre uma das caixas de madeira para que eu pudesse alcançar seu nariz com maior facilidade, já que o goleiro media quase dois metros de altura e, mesmo com meu salto novo, eu não ficava alta o suficiente.
– Peraí, você não é aquele cara... que joga no... Naquele time de futebol? – Vera perguntou, parecendo reconhecer .
O jogador sorriu sem graça e assentiu, apesar da expressão de dor.
– Vocês se conhecem? – Anita completou, também parecendo surpresa, mas foi ignorada.
Eu tentava analisar, por vários ângulos, se o nariz estava quebrado ou não, enquanto Amanda ajudava iluminando o rosto de com a lanterna de seu celular.
– Você acha que quebrou? – Ele perguntou, preocupado, ainda com a cabeça inclinada, como pedimos que ele fizesse, para avaliarmos o septo.
– Não! Acho que não. – Respondi. – Amanda, o que você acha? Você está mais acostumada a ver ossos quebrados do que eu.
Trocamos as posições e eu passei a iluminar o nariz do jogador enquanto Amanda analisava. Anita e Vera seguiam atônitas observando.
– Não quebrou! No máximo deslocou o osso nasal, mas consigo realinhar isso aqui em 5 segundos. Posso? – Ela concluiu, pedindo autorização ao goleiro para tocar seu nariz.
– Você o quê? Vai mexer no meu nariz aqui?
O jogador parecia apavorado e olhava para mim na esperança que eu fizesse algo.
– A Amanda é ortopedista, vai dar tudo certo. Calma. – Falei para tranquilizá-lo.
– Bom, teoricamente, ainda não sou ortopedista, mas eu sei realinhar um nariz, cara. Fica tranquilo. Se esperar e calcificar, vai ser pior. – Mandy disse.
– Se calci… O quê? Ai, meu Deus. – O goleiro resmungou, fechando os olhos, pronto para sentir uma dor terrível.
– Vou no 3. – Amanda avisou – 1, 2...
– Ei! Vocês não podem ficar aqui.
Um segurança apareceu, bem na hora, vendo que estávamos em local restrito.
– Amigo, eu estava no meio de algo aqui. – Amanda reclamou por ser interrompida, com uma mão segurando o nariz de e a outra segurando a cabeça do jogador por trás da nuca.
A cena seria cômica se não fosse trágica.
– Moço, nós sabemos. Mas o meu amigo aqui se machucou e nós somos médicas, estamos apenas tentando ajudá-lo e já vamos embora. – Expliquei.
– Hum. – O segurança disse, desconfiado – Nesse caso, tudo bem. Mas não demorem! Não quero ter problemas por causa de vocês.
– Não vamos demorar! – Respondi, agradecida. – Será que você consegue me arrumar um pano e um pouco de água? – Pedi, tentando não abusar demais, a fim de limpar a parte do rosto de que estava suja de sangue, provavelmente por algum vaso sanguíneo que foi rompido com o impacto da cotovelada.
Logo que ele apareceu, virou o rosto para o outro lado e seguiu assim até o rapaz sair dizendo que ia tentar encontrar o tal pano e água. Eu deduzi que o jogador temia ser visto com um machucado após uma briga em uma boate. Era, de fato, um amontoado de informações que daria uma notícia terrível, daquelas do jeitinho que Veronica gostava para levar aos advogados.
– Certo, agora vou. – Amanda avisou, retomando a posição para realinhar o nariz de . – 1, 2...
O som de “crack” se misturou ao grito de dor do goleiro.
– Pronto. Me desculpe. – Ela pediu. – Mas seu nariz está ok agora.
– Obrigado. Eu... acho. – agradeceu, com ar sofrido.
– Consegui um kit de primeiros socorros com o pessoal da organização. – O segurança voltou, trazendo consigo uma pequena maleta.
Internos, apesar de tudo, eram fofinhos. Nas festas dos residentes, a última coisa que alguém encontraria se precisasse seria uma caixa de primeiros socorros.
– Ótimo. Muito obrigada! – Agradeci, pegando a maleta, já abrindo para ver o que podia encontrar lá dentro.
– Meninas, agora que já está tudo bem, por que não voltamos e deixamos a terminar? – Amanda disse, enfatizando que queria nos deixar a sós. As três saíram pela porta por onde entramos e Mandy apontou para seu próprio celular, dizendo, com gestos, que estaria com o aparelho em mãos e que, quando eu acabasse, poderia enviar uma mensagem a ela.
– É só pressionar a ponta do nariz e esperar. Deve parar de sangrar daqui a pouco. – Falei, sem olhar para , enquanto entregava a ele um pedaço de gaze embebido em soro antisséptico, ambos encontrados entre os materiais de primeiros socorros.
. – Ele chamou, percebendo minha falta de envolvimento.
– Assim que puder, também seria bom colocar gelo aí, para não inchar. – Continuei falando, sem mudar meu tom impessoal, ignorando o fato dele ter me chamado.
– Ei, obrigado! Você já ajudou o suficiente com meu nariz. Por favor, me escuta. – O jogador reclamou, me obrigando a olhar para ele.
– O que há de errado com você, hein? – Questionei, bufando irritada. – Eu parei de responder suas mensagens e, em vez de entender que não quero falar contigo, você aparece num evento do meu trabalho? Como você sequer sabia que eu estava aqui? Qual a dificuldade que vocês homens têm em entender um “não”?
, não faz assim. Eu sei que aconteceu algo, porque, em um dia, estávamos bem e, no outro, já não. Você simplesmente parou de responder minhas mensagens e de falar comigo... – Ele disse de novo, mantendo um tom carinhoso. – Eu gosto muito de você para não me importar com algo assim. Eu só quero entender.
– Gosta muito de mim? – Eu ri. – Você nem me conhece, . E nem eu conheço você. – Resmunguei, e ele me olhou com estranhamento, perguntando:
– Por que você diz isso?
– Por quê? – Fiz uma pausa para pegar fôlego, indignada por ele nem sequer imaginar o motivo. – Porque eu achei que te conhecia o suficiente para decifrar seus pensamentos pelas suas atitudes. E pensei que tínhamos isso em comum, mas logo descobri que, para você, eu sou imatura e sentimentalista, bitolada no trabalho, insegura... Então por que você se importa tanto com alguém assim? – Desabafei, com raiva, sem nem pensar muito antes de falar. Apesar do susto ter me deixado sóbria em um instante, o pouco que bebi ainda estava influenciando minhas emoções.
– Quem disse que penso isso de você? – O goleiro perguntou, sem entender, como se nunca tivesse dito tais palavras. Isso alimentou minha raiva e eu respondi, aumentando o tom:
– Você disse isso, ! Se alguém tivesse me contado, eu não acreditaria. Então que bom que ouvi da sua própria boca.
Ele continuava parecendo não entender, até que, algum tempo depois, algo se encaixou em sua mente, fazendo-o se lembrar.
– Meu Deus. Você ouviu? No dia do jogo de cartas? Mas... como?
Revirei os olhos.
– Talvez você devesse conferir se desligou a ligação com a pessoa antes de começar a falar mal dela para os seus amigos.
cobriu o rosto com as mãos, parecendo desacreditado.
, por Deus, não é o que você imagina... Me deixe explicar. – Ele pediu, em desespero.
– Eu não estou imaginando, eu ouvi. – Falei. – Mas não se preocupe, . Você tem todo o direito de pensar o que quiser sobre mim. E de falar o que quiser, também. – Completei, dando de ombros. – Mas eu tenho o direito também de não querer manter contato com alguém que pensa sobre mim como você. E que trata das minhas inseguranças com tão pouca sensibilidade, mesmo depois de fingir que se importava com elas.
– Não adianta justificar, porque você não vai acreditar, eu sei... Mas me escuta, por favor! Me deixa pelo menos tentar explicar. – Ele pediu, e eu dei de ombros, conformada. – Naquele dia, meu irmão estava em casa comigo. – contou – E ele é essa pessoa que pergunta o tempo todo sobre os meus relacionamentos, faz perguntas inconvenientes e comparações. Eu tentei tirar o foco da conversa, mas ele insistiu, então decidi dizer tudo aquilo para soar convincente e ele parar. Mas eu juro, juro por tudo que nada do que disse era verdade. – explicava, parecendo irritado consigo mesmo. – Eu nem acredito nas coisas que eu falei. Foi tudo da boca pra fora, eu te juro. E foi tão insignificante que eu já nem me lembro mais de tudo o que disse.
– Quer que eu te lembre? – Perguntei, com sarcasmo, cruzando os braços.
... Por favor, não. – Ele parecia arrependido e chateado por estar sendo tratado com tanto desdém.
Revirei os olhos, ainda evitando contato visual com o goleiro. Assim ficamos por alguns segundos, até que ele disse:
– A verdade é que as perguntas de Ramón me incomodaram muito, . Como jamais fizeram quando eram sobre outra pessoa. – dizia, cabisbaixo. – Porque elas me fizeram perceber que eu gostava de você. E que queria você de um jeito que não podia querer, porque não era o que combinamos e você fazia questão de sempre repetir isso. – O jogador me olhou por alguns segundos antes de voltar a encarar o chão à sua frente. – Então, como um tolo, na tentativa de não ser visto na posição de rejeitado, eu...
– Tentou me rejeitar primeiro? – Eu ri, mesmo sem achar graça. – Típico de homem.
negou com a cabeça.
– Não foi uma atitude de homem, . Foi a atitude de um babaca, e eu sinto muito! Sinto muito que, de todas as coisas que eu falo e penso sobre você, você tenha dado o azar de ouvir justamente aquelas que eu não quis dizer de verdade. – O goleiro contou. – Você é uma das pessoas mais incríveis, maduras, dedicadas e fortes que eu já conheci. E você é linda, . por dentro e por fora! Eu admiro o quanto você se dedica aos seus pacientes, a ponto de deixar um jantar pela metade para ir ajudar uma criança durante uma cirurgia, ou acordar no meio da madrugada de um dia de folga e ir até a casa de um pai de primeira viagem que não sabe cuidar da febre da filha... – Ele dizia, se atentando às minhas expressões para ver como eu reagia ao que ele falava. – E se isso é um exagero, é um exagero bom. E mostra quanta vocação você tem para fazer o que faz! Eu nunca vi isso como algo negativo. – Ele completou, olhando para mim, que não conseguia parar de fitar o longe, negando com a cabeça enquanto sentia meus olhos se encherem de lágrimas. – E, sobre insegurança, não é que isso seja uma qualidade, mas, depois de passar pelo que você passou, é inevitável e eu sei disso. Foi ridículo e insensível da minha parte ter mencionado assim, sem tato. E, ainda sobre isso, é incrível que você tenha conseguido dar a volta por cima, sem deixar isso te impedir de realizar seus sonhos. Queria conseguir provar para você tudo o que estou dizendo agora, mas não posso. Espero que você acredite. Me perdoa! – Ele pediu, e eu assenti, com certa pressa, apertando as pálpebras numa tentativa de conter as lágrimas. Quem sabe se eu dissesse que o perdoava, ele finalmente iria embora?
Embora insistisse que não quisera dizer aquelas palavras, eu as havia ouvido. E elas foram muito reais e incisivas. Não poderia simplesmente substituí-las pelas palavras que ele dizia agora, embora quisesse muito e achasse que elas combinavam bem mais com a personalidade do goleiro que eu conhecia, ou que pensava conhecer. Minha mente estava em um impasse.
– Está bem, você queria entender o que aconteceu. Já entendeu, já se desculpou... Terminamos? – Perguntei, limpando rápido uma lágrima que escorria antes que ele pudesse ver.
– Ainda não. Tem algo mais que quero te contar. – Ele adiantou. – Na quinta-feira dessa semana, saiu a decisão judicial definindo o regime de guarda da Sofia como compartilhada-alternada. Uma semana com cada, como estivemos tentando esse tempo todo. – disse, mudando o assunto.
Não pude evitar o sentimento de alegria que me invadiu, mas tentei não transparecer e disse:
– Uau! Parabéns! Fico feliz por vocês.
– E, no dia anterior, jogamos pelas quartas de final da Champions e vencemos. O que significa que nos classificamos para a penúltima fase do campeonato mais importante que o time disputa. – dizia, parecendo chateado apesar das notícias boas.
– Eu ouvi mesmo dizer! Parabéns, mais uma vez. – Parabenizei, ainda sem entender a melancolia.
– Desde que paramos de nos ver, , eu sinto falta de algo. Pensei que fosse falta do sexo, e isso foi até fácil de resolver, mas só me fez perceber que não era o que faltava. – Ele explicou, envergonhado. – No dia que você foi me ajudar com Sofia, mesmo em meio ao caos, eu me senti preenchido por estar ali com vocês duas. E isso é muito louco, porque eu não sou essa pessoa, nunca me senti assim...
Continuei ouvindo, sentindo um frio na barriga terrível.
– E tudo me atingiu muito mais forte depois do jogo e depois que recebi a notícia sobre a guarda, porque eu percebi que queria poder comemorar com você, e que já não podia mais, porque você estava chateada comigo e eu nem sabia o porquê. – Ele explicou, com tristeza. – Quando percebi você se afastar, me toquei que pior do que ser rejeitado por você seria te perder sem saber o porquê. E foi por isso que vim até você. Vi pelo Instagram que estaria aqui, e vim. Vim para te dizer que, se existe qualquer interesse da sua parte em sermos mais do que somos, ou que éramos – Ele corrigiu. –, você pode saber que é recíproco...
Eu percebia que ele me olhava fixamente, mas simplesmente não conseguia olhar de volta.
– ... E que eu prometo compensar cada uma daquelas coisas que eu disse, se você me der a oportunidade. – O goleiro finalizou, e eu neguei com a cabeça, em perplexidade.
. Isso é... muito. – Falei, depois de ficar alguns segundos engasgada, sem conseguir emitir qualquer som. – É muito para entender, muito para processar, muito para uma noite só. Minha nossa!
– Tudo bem. – Ele disse para me tranquilizar. – Não precisa falar nada agora. Eu que não poderia deixar de te falar essas coisas. E de torcer para que, no fundo, você sinta o mesmo.
Neguei com a cabeça, não por discordar do que ele dizia, mas por não acreditar que tudo aquilo estava de fato acontecendo.
– Mas tudo bem também se não sentir. – Ele disse, com um sorriso sem graça. – O mais importante para mim agora é saber se você me perdoa. Estamos bem?
Assenti, com os lábios trêmulos, sem conseguir emitir uma palavra.
– Certo. Então já vou indo. – se aproximou para beijar meu rosto com carinho e completou, em tom de despedida: – Você vai ficar bem aqui? Aquele cara não vai voltar a te incomodar?
– Vou ficar bem! Não se preocupe.
Sorri amarelo.
– Amigos?
Ele esticou o dedo mindinho na minha direção, me arrancando uma risadinha.
Fizemos o trato “amigos?” “amigos!” logo que definimos nossa amizade con derechos. Foi impossível não lembrar daquele momento quando ele perguntou, e eu respondi, num sorriso murcho:
– Amigos.
Apertei de volta seu mindinho e, em seguida, observei conforme o rapaz se distanciava, rumo à porta de acesso de volta para o salão principal da festa e, de lá, até a saída da casa noturna.


Capítulo 23

– Por que homens agem como idiotas perto de outros homens, hein? – Amanda questionou, revirando os olhos, logo que nos encontramos no banheiro, como combinamos por mensagem.
Era o único lugar que seria fácil de encontrarmos uma à outra em meio a uma boate cheia como aquela. A música ainda tocava alto no lugar e as paredes do banheiro abafavam um pouco o barulho, nos permitindo conversar. Nos sentamos no parapeito da larga janela, que dava para uma área externa cheia de plantas, e era largo o suficiente para minimizar os riscos de cairmos dali.
Dei de ombros, e ela fez outra pergunta:
– E você? Como se sentiu com isso?
Amanda parecia curiosa, porém já aguardava uma má notícia pela minha expressão pouco satisfeita.
– Eu fiquei em uma encruzilhada, né, amiga? – Falei, com desapontamento. – É fácil ele simplesmente vir aqui e voltar atrás em tudo o que disse, mas como eu acredito nisso agora? Depois de ouvir tudo o que ouvi... Logo eu, que já não confio em ninguém. Não dá! – Expliquei.
– O que você teme que aconteça? – Ela perguntou, tentando compreender.
– Que não seja verdade. Que ele só tenha feito isso por... Sei lá, sentir falta de mim na cama. – Falei, em tom baixo, mesmo sabendo que o banheiro estava vazio. – E que quando voltar a ter isso, não vai querer mais nada. Quem garante que ele sente mesmo falta de mim e não do que eu faço? – Expus uma das minhas preocupações, e Amanda respondeu, tentando não ser sarcástica:
– Amiga, mas será que ele teria mesmo essa disposição? De cruzar a cidade, enfrentar uma boate universitária e se declarar... Só para voltar a transar com você? – Ela riu. – O que você tem aí embaixo? Heroína?
Fui obrigada a rir também.
– Mas ele pode estar agindo por impulso. E se formos além e, de repente, todas essas coisas que antes ele tinha dito que eram defeitos e agora diz que não são voltarem a ser defeitos para ele? E ele me rebaixar de volta ao status de amiga de cama, porque é isso que eu faço bem? – Desabafei com Amanda, que negou com a cabeça por alguns segundos antes de me responder.
– Sabe o que eu acho? – Ela perguntou e, ao me ver negar, explicou: – Acho que Rugan bagunçou sua mente com aquele relacionamento tóxico dele. Te fez acreditar que você não tem nenhum outro valor além do sexo. E você não pode acreditar em algo tão irreal sobre si mesma, ! – Ela dizia enquanto eu me concentrava em absorver suas palavras.
Fazia sentido o que Amanda dizia. Rugan fazia tantas críticas à minha personalidade e às minhas atitudes que era fácil pensar que eu não tinha qualquer valor fazendo outra coisa além daquilo que fazia e ele não reclamava.
– Quando você acredita que não pode ter vindo aqui porque sente falta de você como pessoa, como companheira, como amiga... Você anula todas as suas outras qualidades. E você precisa se lembrar que elas existem, mesmo que um babaca tenha te feito duvidar delas algum dia. – Mandy disse, com firmeza. – Se o bonitão tatuado está dizendo que gosta de você e que quer tentar algo a mais com você... Manda ver, amiga! Você quis por tanto tempo que ele correspondesse. Não foi? – Minha amiga finalizou, me deixando reflexiva.
– E se eu estragar tudo? – Perguntei, trazendo o tom tenso de volta à conversa.
– É uma possibilidade, você vai ter que viver com isso. Mas também há a possibilidade de dar tudo certo e você ser feliz com ele como ainda não foi com ninguém. Acho que você tem que ouvir seu coração e não seu medo dessa vez.
Ela deu de ombros.
– Li uma mensagem no Réveillon que dizia para “não viver o mesmo ano 75 vezes e chamar isso de vida”. A gente precisa deixar a vida surpreender, de vez em quando. – Mandy contou. – Acho que é uma boa forma de pensar.
Assenti, absorvendo os conselhos recebidos.
– Sim! Mas, agora, vamos lá terminar de fazer o que viemos até aqui fazer. – Amanda me puxou pelo braço até o caminho de volta para o salão.
Peguei mais uma bebida e me permiti desfrutar daquele momento de lazer, sem qualquer pressão para tomar uma decisão. Pelo menos por enquanto.
O que quer que fosse acontecer da minha relação com aconteceria – se tivesse que acontecer – da forma certa e no momento certo. Também era bom pensar assim.

Dois dias depois da festa, cheguei ao hospital na parte da manhã e notei uma movimentação estranha no andar principal. A sala de brinquedos estava interditada e pessoas entravam sem parar carregando e deixando caixas lá dentro.
– O que está havendo aqui? – Perguntei, diante da porta, algum tempo depois de ficar parada ali, segurando meu copo de café e observando.
– O hospital recebeu uma doação de brinquedos. Vamos deixar o lugar interditado até que eles sejam higienizados e organizados nos lugares. – Um rapaz da organização respondeu, deixando outra caixa lá dentro.
– Uau! Quem doou isso tudo? – Perguntei, surpresa.
– Não sei. Não me disseram! – Ele respondeu, dando de ombros.
– Deve ter sido alguma escola, porque isso aqui é brinquedo demais! – Falei, ainda surpresa.
– Tem coisa nova aqui, ainda dentro da embalagem. – Ele completou, também surpreso.
Nesse instante, ouvi meu celular tocar e pedi licença para atender, vendo que se tratava do meu preceptor de pediatria.
– Pois não?
– Dra. Valbuena, aqui é o Armando, bom dia. Você já chegou ao hospital? Estou reunido com Elis e Alan na sala de imagens, gostaria que você se juntasse a nós. Estamos avaliando o resultado dos exames de imagem de um dos nossos pacientes. – Ele disse, e eu prontamente respondi que estava a caminho.
A sala de imagens é um dos lugares mais eficientes para discussão de opções de tratamento, porque contém vários monitores em tamanhos variados e combina diversas imagens laboratoriais para que possamos analisá-las atentamente, buscando por detalhes que podem ser cruciais na decisão por um método ou outro.
– Com licença. – Pedi, após bater à porta e abri-la.
– Valbuena, entre, por favor. – Meu preceptor disse, me convidando para me juntar a eles. – Estamos analisando os exames de Mateo Sánchez.
Me aproximei dos três médicos reunidos em uma mesa redonda no centro da sala, mas não me sentei.
– Os exames de antes e depois do tratamento não mostraram melhora significativa do quadro, . Mesmo com os medicamentos. – Armando explicou, me colocando a par da situação.
Me aproximei do monitor, pedindo licença para tocar a tela e movimentar a imagem de tomografia, de modo que me desse melhor visibilidade.
– Como eu ia dizendo anteriormente, doutores, minha sugestão é iniciar os cuidados paliativos o mais rápido possível e encaminhar o paciente para casa, para liberarmos o leito a outros pacientes que estão aguardando transferência. – Dra. Elis disse, com certa insensibilidade.
– De acordo. – O oncologista Alan concordou, retirando os óculos num claro sinal de rendição.
“Como assim? Não vamos sequer discutir outras opções?”, pensei, mas segui observando estarrecida, na esperança de que Armando fosse dizer algo do tipo e comprar comigo a briga por esse paciente.
– De acordo. – Ele disse, parecendo chateado pela decisão, após mais alguns longos segundos observando o conjunto de exames de Mateo.
– De acordo, Dra. Valbuena? – Elis perguntou, me apressando para confirmar que também concordava com sua proposta de seguimento para oficializá-la e finalizarmos a reunião.
– Não. – Respondi, sem pensar.
– Perdão?! – A médica questionou, indignada por eu não ter concordado.
– Não! Existem outras opções, e eu gostaria que elas fossem debatidas e levadas em conta. – Respondi, decidida a não “jogar a toalha”.
– E qual seria sua sugestão, doutora? – Alan perguntou, sem muita confiança. Os residentes do primeiro ano, como eu, eram quase sempre tratados assim. No começo, eu me incomodava, depois aprendi a ignorar.
– Potencializar o esquema VAC com irinotecano ou topotecano seria uma opção? – Perguntei diretamente a Armando, que parecia ser o único ali a validar minha opinião.
– Infelizmente, existe um risco grande de neutropenia por conta das radioterapias às quais o paciente foi submetido anteriormente, , o que inviabiliza o uso destes medicamentos. – Ele lamentou ao me responder.
– Mas se o tratamento for combinado com o transplante de células estaminais do próprio paciente? O risco diminui, não é mesmo? – Questionei.
Elis revirou os olhos, mas eu fingi que não vi. Alan retrucou:
– Seria muito agressivo, . O paciente pode nem sobreviver.
– Ele não vai sobreviver se nada for feito também. – Respondi, de pronto.
Armando seguia pensativo.
– O conselho jamais aprovaria algo assim, garota. Você tem ideia do quanto esse tratamento custaria ao hospital? – Dra. Elis discordou novamente. – O paciente sequer tem um plano de saúde, e eu duvido que qualquer plano cobriria esse tipo de intervenção. Não compensa os gastos que geraríamos à família dessa criança sem ter um prognóstico favorável.
Apesar de confiar na minha proposta de tratamento, esse ponto era verdade. O conselho deliberativo do hospital precisaria aprová-la, e as chances de isso acontecer eram mesmo muito pequenas. Mateo não tinha plano de saúde e sua família era muito simples, não conseguiriam arcar com um tratamento tão caro.
– Eu acho que deveríamos pelo menos dizer à família dele sobre a possibilidade. Talvez consigam fundos por meio de programas sociais ou vaquinhas online. – Falei.
Um silêncio pairou no ar e Elis revirou os olhos mais uma vez, num claro sinal de desaprovação.
– Vocês jovens vivem no mundo da lua. – E aproveitou para declarar assunto encerrado, se despedindo antes de deixar a sala. – Se estamos todos de acordo, preciso ir. Tenho uma cirurgia agora mesmo. Com licença.
– Também vou. Vocês comunicam à família? – Alan perguntou antes de também sair.
– Armando, eu não entendo! Por que não podemos ser francos com eles? – Perguntei quando só restavam eu e meu preceptor na sala.
, querida... Eu admiro muito seu empenho, mas é muito cruel dar esperanças tão irreais assim a uma família. – Ele dizia, parecendo chateado também, apesar de mais conformado que eu. – Eles teriam que ter fundos imediatos para iniciar o novo tratamento o mais rápido possível. Mesmo que a vaquinha fosse um sucesso, seria uma corrida contra o tempo. A medicina é limitada, e às vezes precisamos usar essa justificativa para confortar os familiares. Como pai, eu te digo, será mais sofrido ouvir que existe algo capaz de salvar o filho e perceber que eles não conseguem pagar por isso, por mais que queiram, do que ouvir que nada mais pode ser feito e que eles fizeram o melhor que podiam.
Comecei a sentir meus olhos se enchendo de lágrimas, mas me esforcei para permanecer forte. É muito frustrante lidar com situações assim, principalmente em casos de pacientes com os quais estamos muito envolvidos.
– Precisamos ir até lá comunicá-los. Nesse momento, é preciso acolher a dor dessa família, com respeito e sensibilidade. Você consegue! – Armando completou, com carinho.
Respirei fundo e segui caminhando com ele pelos corredores do hospital, em direção ao quarto onde estava o paciente em questão.
– Oi, Isabel. – Cumprimentei a mãe de Mateo, que lia um livro distraidamente sentada ao lado da cama onde o filho caçula dormia. Os muitos fios ligados ao seu pequeno corpinho verificavam seus sinais vitais, até então estáveis.
! Oi, minha querida. Como vai? Mateo acabou de cair no sono. É uma pena, ele iria adorar te ver. – Ela disse, num sorriso.
– Você tem um minutinho? Podemos conversar? – Pedi, ainda controlando a respiração para não chorar. Ela logo percebeu que não teríamos uma conversa leve e descontraída como de costume, porque rapidamente se levantou e saiu comigo do quarto.
Desenvolvi, logo nos primeiros dias de residência, um protocolo pessoal de não conversar sobre o quadro das crianças com seus responsáveis estando perto delas. Mesmo que estivessem dormindo. Sempre convidava os pais para o lado de fora do quarto, ou do box do CTI, qualquer lugar onde os pacientes não pudessem ouvir. Para mim, cabia a eles absorver e processar as informações primeiro, para depois escolher se e como passá-las aos filhos.
Dr. Armando também tinha esse costume e esperou por Isabel do lado de fora do quarto junto comigo.
– O que houve? – A mãe de Mateo disse, assustada.
– Sra. Sánchez, fizemos hoje uma análise dos exames recentes de Mateo. As análises clínicas e também os exames de imagem que ele fez antes e durante o tratamento. – Falei, me esforçando para finalizar as frases. – Infelizmente, o prognóstico não é bom. A medicação não está sendo suficiente para controlar o foco canceroso nos pulmões.
– E o que faremos, então? Ele precisará de uma dose mais forte? Como reverteremos isso, doutora? – Isabel perguntou, preocupada, observando o filho pela janela na porta do quarto.
– As sessões de quimio e rádio não têm demonstrado eficácia. O organismo e a imunidade de Mateo estão sendo debilitados por esses tratamentos e o resultado não o está curando, apenas o deixando mais doente. Então, nós, como médicos responsáveis pelo tratamento dele, estamos considerando adotar um sistema de cuidados paliativos, para que ele tenha mais qualidade de vida e menos sofrimento... – Dr. Armando tomou a frente da explicação, percebendo minha dificuldade. – Acreditamos que será melhor para ele.
– Cui… dados pa-paliativos? Isso significa que não há mais o que fazer para salvá-lo? – Isabel questionou, incrédula, se entregando às lágrimas. Eu estava a ponto de fazer o mesmo.
– Infelizmente, a doença chegou a um ponto que não nos deixa muitas opções, senhora Sánchez. Eu sinto muito. – O médico disse, ainda falando por mim, já que eu não conseguia sequer emitir um som.
– Não pode ser. Não pode ser verdade, tem que haver algo a ser feito, ele é apenas uma criança. Isso não é certo! – A mãe de Mateo dizia, se debulhando em lágrimas. – Por favor, não pode ser verdade. , não pode ser! Isso não é certo. Os filhos não deveriam partir antes dos pais, isso não é certo! Eu não posso perdê-lo.
Àquela altura, todo meu discernimento da função de médica foi por água abaixo e, enquanto envolvia Isabel em um abraço de consolo, me permiti derramar algumas lágrimas junto dela.
– Eu sinto muito. – Falei, em meio ao choro contido.
– Com o tratamento paliativo, poderemos garantir o máximo possível de conforto para Mateo. Ele não vai sofrer. – Armando disse, de longe, observando nosso abraço. – Voltaremos a conversar sobre isso em um outro momento, mais oportuno. – Ele completou, percebendo que seria cruel abordar agora com Isabel o plano de cuidados paliativos. O pager em seu bolso soou. – Preciso ir agora, Isabel, mas estou à disposição para esclarecer qualquer dúvida. Você tem meu contato. Eu sinto muito mesmo. – O médico disse, algum tempo depois, tocando carinhosamente o ombro de Isabel, que ainda chorava abraçada a mim.
Esses eram os piores momentos na vida profissional de uma médica. Eu tive certeza que o choro desesperado de Isabel e a frase “isso não é certo” ecoariam em minha mente por muito tempo depois daquele dia.
Não era mesmo certo.
Mais errado ainda era não podermos lutar até o final por uma possível recuperação. Eu sabia que as chances eram pequenas, mas, enquanto elas existissem, desistir sem tentar nunca seria minha primeira opção. A hierarquia hospitalar era muito frustrante às vezes.
– Tem algo que eu possa fazer por vocês? Alguém para quem você queira ligar ou… – Perguntei a Isabel, quando ela saiu do abraço alguns segundos depois.
– Não, querida. Meu marido virá no final do dia, trocar de lugar comigo. Prometi às minhas outras filhas que passaria a noite com elas hoje. Já faz uma semana que estou aqui com Mateo, sem vê-las... Então, quando ele chegar, direi a ele. Não vamos falar nada com Mateo por enquanto.
– Tudo bem. – Concordei, tocando com carinho seu cabelo. – Estarei aqui no hospital durante toda a noite. Se precisar de ajuda com isso, é só me chamar.
– Obrigada, . – Sra. Sánchez disse, secando as lágrimas com a gola da camiseta.
– Isabel, eu preciso ir agora. – Falei, em tom de despedida, porque precisava dar sequência ao trabalho do dia. – Eu queria muito poder mudar essa situação toda e curar o seu filho, mas infelizmente algumas coisas fogem do nosso poder. Eu sinto muito mesmo. – Desabafei, sentindo as lágrimas voltando para os olhos.
– Você foi um anjo na vida de Mateo, . Ele se sentiu seguro durante todos os exames e procedimentos, simplesmente por ter você perto, e nós nos sentimos amados e acolhidos. Eu sei que você não mediu esforços por ele. Se chegamos ao ponto de não ter mais o que fazer, eu tenho certeza de que não foi por falta de dedicação sua. – A mãe de Mateo dizia, agora mais serena do que eu, que tentava a todo custo não cair em lágrimas ali mesmo no corredor. Me aproximei dela mais uma vez para um abraço e, antes de sair, a ouvi pedir, segurando minhas mãos:
– Só tenho uma coisa para pedir a você, minha querida. Posso?
– Claro, se eu puder ajudar. – Respondi.
– Se você souber de alguma coisa, qualquer coisa que não foi testada em Mateo e que possa dar a ele uma esperança de continuar vivo... – Isabel engoliu em seco, parecendo atingida pelo peso de dizer aquelas palavras em voz alta. – Por favor, não deixe de me dizer. Estamos dispostos a qualquer coisa. Quero ter certeza de que tentamos de tudo.
Assenti com a cabeça, dessa vez sentindo em mim o peso das palavras proferidas por ela, como se pudesse ler minha mente. Eu também não queria sossegar antes de tentar de tudo, mas, naquele ponto, algumas coisas já não dependiam mais só de mim.
– Se eu souber de alguma coisa... – Eu disse, secando mais uma lágrima. – Farei tudo o que eu puder para que Mateo tenha acesso. Eu prometo!
Isabel sorriu amarelo em agradecimento, e eu repeti que precisava ir.


Capítulo 24

– Dr. Armando? – Chamei, vendo que o médico comia um lanche na cafeteria.
– Olá, ! Como foi com Isabel? – Ele perguntou, preocupado ao me ver.
– Armando, ela me implorou para dizer a ela se souber de alguma alternativa. E eu sei de uma alternativa! Não posso continuar fingindo que não. – Desabafei, sendo totalmente inconveniente por atrapalhá-lo durante um momento de sossego, mas, dessa vez, não me importando nem um pouco com isso.
O médico suspirou.
– De quantos euros estamos falando? – Perguntei. – Só para eu ter uma ideia, assim posso me convencer de uma vez por todas que é impossível conseguir toda essa quantidade de dinheiro em tão pouco tempo. Ou traçar um plano para ajudá-los a conseguir.
Armando suspirou novamente, tirando seu celular do bolso e fazendo algumas pesquisas antes de me responder.
– Acredito que só a extração das células estaminais, o armazenamento delas e o processo de transplante custaria, em média, 6.000 euros. Se isso der certo, ainda teremos as novas sessões de quimioterapia, com os novos fármacos, que ficaria em média mais uns 10.000 euros por sessão. Eu diria que Mateo precisa de umas 10 para vermos algum resultado... Uns cento e dez mil euros, só para começar. Teríamos que checar a disponibilidade desse serviço ser feito aqui no hospital. Caso contrário, precisaríamos encaminhá-lo a outro hospital, em outra cidade, para dar sequência ao tratamento, e aí haveria mais gastos com acomodação e transporte.
– Isso já não seria tão caro! Eu acho que é possível, Dr. Armando, se mobilizarmos várias pessoas.
O médico me olhava com estranheza.
– Você teria que arrecadar quase quatro mil euros por dia para conseguirmos chegar ao valor final em um mês, . – Ele disse, me devolvendo um cálculo matemático feito na calculadora do celular. – Isso é muito dinheiro. Mateo tem pouco tempo.
Refleti por algum tempo e percebi que Armando tinha razão.
Suspirei, me sentindo sem saída.
– Admiro seu esforço, . Mas acho que já é hora de parar. – O médico disse, com um pouco mais de firmeza.
– Tudo bem. Você tem razão – Assenti, cabisbaixa. – Desculpe incomodar.
– Não por isso! – Armando finalizou, em tom de despedida.
Saí caminhando pelo terraço, derramando algumas lágrimas pelo caminho. No caminho de volta para a área de atendimento, passei pela brinquedoteca das crianças mais uma vez e os funcionários continuavam ali, limpando e desinfetando cada peça antes de posicioná-las nas prateleiras.
Algumas caixas ao fundo continham brinquedos que ainda aguardavam para serem limpos e guardados. Quando me aproximei delas, algo me chamou a atenção. Uma das caixas de papelão que estava servindo de embalagem para os brinquedos parecia já ter sido algum dia a embalagem de garrafas de vinho. Na lateral, observei uma logomarca que parecia familiar e um nome que soava mais familiar ainda.
“Bodega Finca Río Negro? Quando foi que ouvi esse nome antes?”, me perguntei, ainda observando o objeto. Foi quando um flash de lembranças me ocorreu, me levando de volta ao dia em que tomei vinho, na adega de após um jogo do Atlético de Madrid.
Na oportunidade, ele comentou que era neto dos fundadores de uma vinícola em uma província da cidade natal de seus pais e o nome era exatamente esse. Bodega Finca Río Negro.
!
Será que ele tinha algo a ver com a doação dos brinquedos ou tudo não passava de uma enorme coincidência?
Titubeei um pouco, mas resolvi enviar uma mensagem para ter certeza.
“Oi, ! Como vai? Desculpa a mensagem tão cedo, mas... você por acaso teve algo a ver com uma encomenda que recebemos hoje aqui no hospital?”
O jogador apareceu online logo em seguida e já começou a digitar as mensagens, que enviou a seguir:
“Oi, !
Na verdade, eu... tive sim. Como sabe?
Que bom que receberam tudo certinho.”
Neguei com a cabeça, sem acreditar, e resolvi ligar para entender.
– Onde você conseguiu tantos brinquedos? A brinquedoteca está parecendo uma unidade da Primark. – Brinquei, citando o nome da rede de lojas de brinquedos mais famosas do país, ainda empolgada, logo que ele atendeu. – As crianças vão adorar, . Muito obrigada, em nome de todos nós aqui do hospital. Ficamos muito felizes!
– Ah, não tem de quê, eu s...
Ele começou a dizer e eu o interrompi:
– Você não está tentando me comprar mimando meus minipacientes, não é? – Perguntei. – Porque esse seria um golpe muito baixo.
Sorri, em tom de piada, mas certa do fundo de veracidade no que tinha dito.
– Não! – Ele exclamou, logo que ouviu, parecendo realmente preocupado que eu pensasse que a doação fora feita por interesse. – Comecei a arrecadação logo depois daquele dia que fui levar o seu celular e você me apresentou ao lugar e disse que ele vive de doações. Separei com a Sofia alguns brinquedos que ela não usa mais e mobilizei meus colegas e os funcionários do time a fazerem o mesmo, doar brinquedos usados dos filhos, ou novos... Demorou algum tempo até reunirmos tudo isso e hoje fizemos a entrega. Não teve nada a ver com aquela nossa conversa, eu juro! Não era nem para você saber que eu tinha algo a ver com isso. – O jogador justificou, me arrancando mais um sorriso.
Eu me lembrava do dia em que tinha apresentado o cantinho das crianças para ele, mas não imaginei que ele estivesse planejando algo assim.
– Eu acredito, ! Não se preocupe. Descobri por um acaso e não pude deixar de ligar para te agradecer – Falei, para tranquilizá-lo. – Agradeça a todos os envolvidos por nós. Se quiser, depois posso pedir à direção do hospital que faça uma publicação agradecendo, ou algo do tipo. – Falei, sabendo que, muitas vezes, as pessoas esperam um reconhecimento em troca de alguma ação de caridade, seja ela qual for. Nas equipes de futebol, esse feedback é muito valorizado, então imaginei que ele fosse aceitar.
– Não se preocupe com isso. O mais importante é que tudo chegou aí perfeitamente. – disse.
– Chegou sim. Os brinquedos estão sendo higienizados agora antes de serem guardados e, como são muitos, talvez isso demore um pouco. – Eu ri. – Mas assim que estiver tudo pronto, te envio uma foto.
– Perfeito. Vou aguardar! – Ele disse, parecendo sorrir de volta. – E se tiver algo mais que nós possamos fazer para ajudar aí no hospital, me avise.
– Obrigada! Como eu te disse, a brinquedoteca não é a prioridade do governo, o que é compreensível, mas todo o essencial chega até aqui muito bem. Ou, pelo menos, tem chegado até agora. – Eu ri. – Se algum dia precisarmos, pode deixar que eu t…
A situação toda me deixou tão empolgada, que, por um breve momento, me esqueci do motivo pelo qual estava chorando minutos antes. Ainda conectada a pelo telefone, desviei o olhar e avistei Armando caminhando pelo corredor o lado, e foi aí que uma ideia me cruzou a cabeça.
! – Chamei, de repente, após alguns segundos de silêncio que minha mente precisou para processar a informação. – Na verdade, eu poderia sim usar a sua ajuda e a dos seus colegas em uma coisa.
– No quê? – Ele perguntou, parecendo notar a mudança no meu tom de voz.
– Hum... Não posso dizer agora, porque é sobre um paciente e... – Expliquei, olhando em volta. – Posso te ligar amanhã quando chegar em casa do plantão? Por volta das 10h.
– Poxa, neste horário vou estar treinando. – Ele lamentou, fazendo uma pausa. Mas logo sugeriu, parecendo se lembrar de uma informação sobre mim que aprendeu durante a época em que nossa amizade con derechos vigorava: – Você tem o dia seguinte aos plantões livre, não é?
– Tenho sim.
– Bom, se preferir conversar pessoalmente, combinamos um café amanhã quando eu sair. Eu te ligo! – sugeriu.
– Perfeito! – Respondi, já me sentindo animada ao raciocinar que, numa equipe grande como a dele, onde todos recebem tão bem, era bem possível que pelo menos uma parte deles se unisse para ajudar na situação de Mateo. – Fico aguardando seu retorno. Só... não esquece, tá? É um pouco urgente. – Pedi, com medo dele esquecer de retornar a ligação. Sabia que estava em uma corrida contra o tempo.
– Claro. Não vou esquecer, não se preocupe! – Ele respondeu e eu ri, timidamente.
– Certo. Preciso ir agora! – Falei, em despedida.
– Até mais! Bom trabalho. – se despediu também.
– Igualmente. – Desliguei, com vontade de dar pulinhos de alegria.
Nunca havia sequer cogitado a possibilidade de pedir ajuda do goleiro para algo assim, mas, de repente, isso fazia total sentido, e eu podia sentir que estava no caminho certo.

Mantive minha boca fechada durante todo o tempo até que finalmente pudesse conversar com o goleiro, considerando a máxima do “o que ninguém sabe, ninguém estraga” e, pontualmente às onze horas do dia seguinte, recebi uma ligação dele.
– Bom dia, ! – Ele disse, logo que atendi.
– Oi, . Bom dia! Obrigada por ligar. – Falei. – Podemos nos encontrar naquela mesma cafeteria do Moraleja Green? – Pedi, sugerindo a cafeteria do shopping onde nos encontramos por acaso aquela vez.
Na oportunidade, eu decidi entrar em contato com meu irmão para ajudar na questão da guarda de Sofia. Esperava que, dessa vez, fosse ele quem me ajudaria com a questão do tratamento de Mateo.
– Podemos. Te vejo lá! – Ele respondeu rapidamente.
Desliguei o telefone com pressa e me vesti para ir até lá.
Passei a noite sem sequer fechar os olhos durante o plantão, mas não porque foi um turno movimentado com pacientes, e sim porque estava muito ansiosa para saber se meu plano daria certo.
Desci em frente ao portão de acesso mais próximo possível da cafeteria e caminhei a passos largos até lá. Já havia ensaiado centenas de vezes o que dizer a logo que o visse e me preocupei ainda em levar o laudo médico de Mateo, para que ele não tivesse dúvidas da veracidade daquilo que eu dizia.
O goleiro já estava sentado em uma das mesas do fundo e acenou logo que cheguei para que eu o visse.
Caminhei até lá com as mãos frias, apertando a alça da bolsa que estava em meus ombros para tentar aliviar a tensão.
– Oi, ! Como está? – Ele perguntou, se levantando para me receber com um abraço e um beijo no rosto. – Tomei a liberdade de pedir seu café de sempre, que é o mesmo que o meu. – Ele riu. – Acabou de chegar!
– Ótimo! Muito obrigada, passei a noite toda acordada no plantão, vai ser bem útil. – Falei, me sentando na poltrona à frente e bebericando o café. – Então, , fico até sem graça de pedir sua ajuda em uma situação como essa. Sei que é um pouco demais, então saiba que se você não puder ajudar, eu vou entender. Ok?
O goleiro me encarou com estranhamento e eu peguei fôlego para continuar o discurso:
– Você se lembra de Mateo? Meu paciente de sete anos para quem você deu uma camisa certa vez… – Perguntei.
– Claro! Me lembro sim. – respondeu, parecendo precisar de quase nenhum esforço para buscar o nome de Mateo na memória.
– Quando o conheci, ele tinha uma massa abdominal que descobrimos se tratar de um câncer. Se lembra? – Expliquei. – Ele começou o tratamento, fez uma cirurgia e várias sessões de quimioterapia até que conseguiram remover o tumor e ele entrou em remissão. Porém, algum tempo atrás, voltou ao hospital com alguns sintomas, e acabamos descobrindo alguns focos metastáticos nos pulmõezinhos dele.
– Alguns focos...? – perguntou, quanto ao termo.
Eu convivia com tantos médicos no meu dia a dia que, às vezes, até me esquecia de usar termos menos técnicos ao falar com as pessoas leigas.
– Metastáticos. Significa que o câncer dele se espalhou para os pulmões – Expliquei, tentando soar o mais compreensível possível. – E então ele voltou às sessões de quimio, mas o câncer dessa vez está bem mais resistente e não estamos conseguindo controlar com as medicações. Os meus preceptores, que são os médicos mais experientes, estão convictos de que o melhor a fazer é tratá-lo paliativamente. Ou seja, parar de tentar curá-lo e dar a ele qualidade de vida até que ele não viva mais. – Contei, terminando de falar com um nó na garganta.
observava com os olhos atentos, tentando entender o que eu dizia e, provavelmente, prever como poderia me ajudar nessa situação.
– Porém, existe uma possibilidade de tratamento que envolve reforçar a medicação atual de Mateo. Isso costuma funcionar em casos assim, mas, como a saúde dele já está bem debilitada pelo tratamento anterior, para conseguir aguentar essa medicação reforçada, ele teria que enfrentar um transplante de células estaminais, que você deve conhecer como “células-tronco”. Nesse processo, a gente retira algumas células “mais saudáveis” do corpo dele antes de receber a medicação e, depois de recebê-la, recolocamos essas células para que elas ajudem o corpo dele a se recuperar. – Expliquei detalhadamente. – Meus preceptores concordam que essa opção pode funcionar, mas se recusam a sequer mencionar a possibilidade aos pais do Mateo, porque é um tratamento caro, pelo qual eles não teriam condições de pagar. – Comentei, fazendo uma pausa para beber um gole de água, porque já estava com a boca seca de tanto falar. – Atualmente, ele é tratado de graça pelo sistema nacional de saúde pública. Só que essa opção que mencionei, com o transplante de células e reforço da medicação, não é coberta por esse sistema. Teria que ser paga à parte. – Contei. – Eu disse que não podíamos desistir por isso, porque existe a possibilidade de fazermos uma vaquinha virtual, ou eventos para arrecadar dinheiro... Mas a verdade é que Mateo não tem tempo, sabe, ? Esse tratamento teria que começar imediatamente para podermos sonhar com uma recuperação total. E, por isso, meus preceptores querem desistir sem sequer dizer aos familiares de Mateo sobre essa opção.
Comecei a sentir meus olhos se enchendo de lágrimas de novo, mas me esforcei para não chorar.
– A mãe dele ainda me implorou para dizer a ela se descobrirmos qualquer possibilidade de continuar lutando, mas não posso fazer isso sem a autorização dos meus superiores, e eles acham errado “alimentar as esperanças” de uma mãe que não pode pagar pelo tratamento do filho. Mas eu sempre me coloco no lugar das pessoas e eu, se estivesse no lugar dela, gostaria de saber. Mesmo que eu não pudesse pagar imediatamente... Pela saúde de um filho, eu venderia meu carro, minhas roupas… Até minha casa, se isso pudesse ajudar. Você não faria o mesmo? Pela sua filha? – Desabafei, tudo de uma vez, falando chorosa e com rapidez tamanha que, até para mim, soava um pouco incompreensível. Mesmo assim, respondeu, demonstrando que havia entendido perfeitamente:
– Eu venderia até minha alma.
– Viu só? É exatamente o que penso. – Falei, levantando o rosto mais uma vez. – A questão não é perder um paciente. Estamos acostumados com isso. Algumas vezes vencemos, outras a doença vence. Isso é comum. – Expliquei. – Triste, mas comum. O que não consigo aceitar é perder antes de tentar até o fim.
– Entendo. – Ele concordou. – Você tem uma estimativa do preço do tratamento dele? Para eu saber com quanto poderia ajudar.
– Tenho um valor estimado que alcancei com algumas pesquisas. Nada definitivo ainda, mas dá para ter uma ideia e mostrar para os seus companheiros. Talvez se cada um puder doar uma parte, não sei... – Sugeri, tirando da bolsa de ombro uma pasta e, de dentro dessa pasta, uma folha na qual imprimi uma lista de gastos que a família de Mateo enfrentaria caso decidisse optar pelo tratamento. – Acho que já te disse também que aqui em Madrid não existe um hospital exclusivamente oncológico, como existe em Valencia. Provavelmente Mateo teria que ser transferido para lá nessa nova etapa do tratamento, por isso aí incluí os gastos estimados com aluguel, alimentação e transporte. – Expliquei enquanto observava atentamente a folha que lhe entreguei.
– Isso seria o valor total ou...? – Ele perguntou, olhando para mim novamente.
– Sim. Como eu disse, está estimado, mas seria o valor total.
, eu... não sei como dizer isso sem parecer arrogante, mas... – Ele disse, parecendo confuso, ainda analisando o papel. – Posso ajudar com isso sozinho.
– Oi?! – Perguntei, arregalando os olhos.
– Sim. Eu teria que conversar no banco para autorizar um saque tão grande, mas não deve ser um problema. – Ele falou. – Ou se tiver uma conta para onde transferir, consigo passar esse dinheiro para a família de Mateo amanhã mesmo.
, você está falando sério? Isso é muito dinheiro. Eu estava pensando em você dividir com seus colegas para chegarmos ao valor total, porque... minha nossa! Eu não acredito. – Falei, ainda muito impressionada.
– Eu faço questão. Sou pai, você sabe. E, se estivesse na situação dos pais dessa criança, pediria a Deus todos os dias e noites que iluminasse alguém com condições de ajudar. E eu tenho. – Ele disse. – Não posso me comprometer a ajudar todas as pessoas que não podem pagar por um tratamento, mas ajudar alguém já é melhor do que não ajudar ninguém. – O goleiro finalizou, dando de ombros.
– Calma, então vamos por partes. – Falei, sentindo até calor pela minha euforia interna. – Vou voltar para o hospital agora mesmo e conversar com meus preceptores para dizer que a parte financeira não será mais um problema. Daí diremos aos pais de Mateo para pedir a autorização e eu volto a falar com você para planejar essa transferência. Ok?
?! Vai voltar para o hospital agora? Você não esteve lá a noite toda? – perguntou, espantado, observando minha movimentação para sair logo.
– Eu preciso ir antes que os preceptores saiam! Como te disse, é uma corrida contra o tempo. – Falei, pegando minha bolsa no ombro da cadeira e meu celular por cima da mesa. Bati o olho na xícara de café e percebi que só tinha bebido metade do conteúdo dela, mas não teria tempo para finalizar. – Você vai ter que terminar esse para mim, de novo. – Falei, rindo, ao lembrar do dia em que perguntou se eu sempre deixava as xícaras de café pela metade.
– Sem problemas, doutora! Faça o que tem que fazer. – Ele disse, com um sorriso encorajador. – E depois durma, por favor. Nem fui eu quem passou a noite em claro, e estou com sono por você. – brincou e eu sorri, concordando. Acenei me despedindo e saí do shopping para o hospital.
Eu tinha certeza de que tudo daria certo.


Capítulo 25

– Doutor Armando, você tem um minuto? – Perguntei, chegando esbaforida no hospital e encontrando meu preceptor na sala de descanso.
No mesmo lugar estavam Elis e Alan, então aproveitei para incluí-los na reunião que estava tentando propor.
– Na verdade, se vocês três tiverem um tempinho, tem algo que gostaria de conversar com vocês aqui na sala de reunião.
Armando se dispôs a se levantar prontamente e caminhou na minha direção. Os outros dois estranharam um pouco. Não costumava ser o caso de médicos residentes solicitarem reuniões, mesmo que informais, com a equipe médica atendente. Mas, naquele momento, eu não poderia me importar menos com isso.
– Pois não, Dra. Valbuena?! – Alan disse, adentrando o cômodo logo atrás de mim.
– Prezados, eu gostaria de reabrir a pauta da nossa última reunião... O tratamento de Mateo.
– Ah, de novo não. – Elis cruzou os braços, demonstrando impaciência.
, já conversamos sobre isso. – Armando respondeu, incomodado também.
– Os senhores podem, pelo menos, ouvir o que tenho a dizer? – Solicitei, com todo o decoro, para tentar obter o mínimo de confiança. – Encontrei uma pessoa disposta a arcar com o valor do tratamento. E a mãe do paciente demonstrou interesse em aceitar medidas drásticas na busca pela cura. Como esses eram nossos principais empecilhos, gostaria de saber se é de comum acordo que agora adotemos a opção de tratamento que garante ao paciente uma chance de viver?
Os médicos pareciam espantados.
– Quem estaria disposto a fazer isso? – Alan perguntou.
– Um doador anônimo, que se comoveu com a história e se comprometeu a arcar com os custos. – Eu disse, tentando preservar o nome de .
– E como é que a senhorita planeja garantir que esse doador está mesmo comprometido a pagar por todo o tratamento de um desconhecido? E como garantir que ele tem condições para tal? – Elis questionou.
– Sei da idoneidade dele, doutora. E de sua condição financeira também. Somos próximos. – Respondi, irritada. Garantindo que o dinheiro estaria na conta da família Sánchez, o resto não interessava a mais ninguém.
– Bom, ... Se Mateo terá seu tratamento patrocinado por alguém, e sua família está disposta a enfrentá-lo, eu não vejo motivos para não dar uma chance. – Alan falou.
– Você é mesmo terrível quando coloca sua mente em algo, não é, Valbuena? – Armando disse, sorrindo e me arrancando um sorriso. – Nesse caso, podemos sim investir na sua sugestão de tratamento.
– A senhorita planeja pedir ao seu namoradinho para bancar o tratamento de todos os seus pacientes carentes, ? – Elis falou, despejando seu veneno.
– Estamos dispostos a ajudar quantos pacientes pudermos e nossa condição financeira permitir, doutora. E poder fazer por um deles já é melhor do que não fazer por nenhum. – Falei, sem desmentir a afirmação da médica de que eu e o doador em questão tínhamos algum envolvimento, porque senti que o comentário foi feito para me constranger. Abri um sorriso ao final, para que ficasse claro que o objetivo não fora alcançado.
Elis ergueu as sobrancelhas em desaprovação, mas não disse mais nada.
Ainda sorrindo, perguntei:
– Então, é de comum acordo que o plano de tratamento de Mateo será alterado? Não entraremos mais com o protocolo paliativo?
– De acordo. – Armando foi o primeiro a dizer, parecendo orgulhoso de mim.
– De acordo. – Alan completou.
– Se todos vocês concordam… – Elis disse, dando de ombros.
– Ótimo! Vou comunicar à família. – Exclamei, saindo em direção ao quarto de Mateo.

– Isabel, posso dar uma palavrinha com você? – Pedi, sem conseguir guardar meu sorriso ao vê-la.
– É claro. – Ela respondeu, tensa, se levantando e caminhando até mim, fora do quarto.
– Isabel, eu tenho ótimas notícias! – Exclamei – Descobri uma forma de potencializar o efeito do tratamento de Mateo, fortalecendo seus medicamentos. Assim, não precisamos partir para os cuidados paliativos e ainda temos uma esperança de cura. – Contei.
– Oh, meu Deus! Que notícia maravilhosa! – A mulher levou as duas mãos à boca numa expressão surpresa. – Mas, , isso seria coberto pelo sistema público? – Ela indagou, agora parecendo preocupada. – Por que não foi cogitada essa possibilidade antes?
– Então, Isabel... O tratamento não é coberto pelo sistema público, e foi por isso que não o consideramos antes. Porém, encontrei um doador disposto a arcar com todos os custos do tratamento de Mateo. Vocês não terão que se preocupar com nada. Só precisam nos autorizar a iniciar esse novo tratamento, mas mais adiante conversaremos e eu explicarei tudo detalhadamente ao seu esposo e a você.
! Isso é sério? É um milagre! Quem seria esse doador? Por que ele fez isso? – Isabel questionou, ainda cobrindo a boca com as mãos.
– É um amigo meu. Contei a ele sobre a situação, e ele se dispôs a ajudar. – Eu disse. – Isabel, querida, preciso que saiba que esse novo tratamento é bem forte e é até um pouco agressivo. Talvez vocês precisem passar um tempo fora de Madrid, e envolve alguns outros procedimentos bem delicados sobre os quais conversaremos em breve. O caminho é longo e que não vencemos ainda, preciso repetir, para não criar expectativas irreais. Mas, pelo menos, com essa possibilidade, podemos continuar tentando, e isso já é algo. – Expliquei, para que ela soubesse que o tratamento ainda exigiria algum tempo de esforço.
– Depois de ouvir que não há mais o que fazer para salvar a vida de um filho, , uma notícia como essa é suficiente por agora. O futuro a Deus pertence, mas, por agora, voltamos a ter esperança. E poder ter esperança é um privilégio. – Ela sorriu. – Obrigada! Agradeça ao seu amigo por mim também. Espero um dia poder agradecê-lo pessoalmente por essa enorme benção.
– Acredito que vocês terão a oportunidade de conhecê-lo muito em breve. – Falei, também evitando expor o nome de , pelo menos por enquanto. – E não há de quê! Eu faria isso mais mil vezes por Mateo. – Contei. – Nos vemos de novo em breve e conversaremos com calma sobre cada etapa a seguir, certo? Fiquem bem! – Falei, em tom de despedida.
– Certo! Obrigada mais uma vez, . – A mãe de Mateo disse, me abraçando.

Voltei para casa e dormi, antes mesmo de conseguir contar à Amanda sobre a novidade ou dar retorno a sobre o caso. Quando enfim retornei ao hospital, alinhamos com a equipe geral todas as etapas que viriam a seguir.
Armando adiantou contato com a equipe do hospital oncológico de Valencia, e a vaga de Mateo já estava reservada com o oncologista de lá, que era de sua confiança e que daria sequência ao tratamento, nos mantendo informados, ainda que de longe.
Explicamos todos os passos aos pais de Mateo, e eles concordaram em iniciar o processo logo que fosse possível. Coloquei a família em contato com , e o valor do tratamento foi entregue a eles em uma única transação.
O peso de duas toneladas saíra das minhas costas quando vi que tudo estava encaminhado.
O goleiro foi convidado algumas vezes para ir até o hospital conhecer Mateo antes da transferência de hospital, porque os pais de Mateo acreditavam – e nós, médicos, também – que essa visita faria muito bem ao pequeno, para motivá-lo naquela nova etapa.
Por conta do calendário corrido, acabou só conseguindo uma brecha na agenda para uma visita na manhã do dia em que Mateo seria levado para o hospital em Valencia, de ambulância, para garantir todo o suporte médico em caso de necessidade.
– Posso levar algo de presente para ele? – O jogador perguntou, por telefone, alguns minutos antes de sair de casa.
– O que seria, no caso? – Questionei para saber se seria autorizado ou não.
– Uma roupinha do Atleti com o nome dele e uma bola. Foi o melhor que consegui pensar... Já pedi à minha faxineira para lavar e higienizar tudo direitinho, não se preocupe.
– Ah, claro! Pode trazer sim. Ele vai gostar. – Respondi. – Só tente não demorar muito. A ambulância para levá-lo deve chegar em mais algumas horas.
– Certo! Saio em cinco minutos. – Ele disse, se despedindo.
– Lembre de chegar pelo estacionamento que te disse. – Completei.
Arquitetei um plano para que conseguisse ir ao quarto de Mateo sem ser visto por muitas pessoas, para evitar transtorno e uma demora que talvez atrapalhasse a visita.
concordou, se despediu e desligamos a chamada. Saí em direção ao hospital também, porque não era meu dia de trabalho, mas eu não poderia deixar de ir até lá me despedir.

Meu plano tinha dado totalmente certo. Passamos pelos corredores mais vazios, e atraiu poucos olhares.
Entreguei a ele uma máscara facial descartável, recomendada para os visitantes dos pacientes de oncologia para evitar o contágio de doenças virais nesse grupo, que tinha a imunidade mais baixa, e adentrei o quarto antes dele.
– Oi, Mateo! Como você está, meu amor? – Perguntei, me aproximando.
– Oi, Dra. ! Por que você não está vestida de médica hoje? – Ele questionou, observando meu look casual.
Eu e sua mãe rimos da espontaneidade, mas fiz questão de explicar:
– Hoje não estou trabalhando, querido. Vim aqui só ver vocês antes da viagem!
– Ah sim, entendi. Eu vou logo? – O pequenino perguntou.
– Sim! Logo, logo. Mas, antes, tem uma outra pessoa que quer ver você e te desejar uma boa viagem. – Falei.
– Quem? – Ele quis saber, curioso, olhando para a mãe à espera de uma resposta.
Isabel negou com a cabeça, fingindo que não sabia do que se tratava, mas, àquela altura, já sabia de tudo. Inclusive de que fora o jogador quem proporcionou aquela nova etapa do tratamento de seu filho.
Fui até a porta e a abri, fazendo sinal para que entrasse.
Isabel estava com o celular ligado na direção do filho para filmar sua reação, que não poderia ter sido mais fofa e espontânea.
– Com licença! Me disseram ser aqui o quarto do menino mais forte de todo esse hospital. É você? – brincou, se aproximando aos poucos de Mateo, que ainda tentava entender, mas assentiu quando fez a pergunta.
O goleiro vestia um conjunto de agasalho do clube onde jogava, e acho que isso facilitou o reconhecimento apesar da máscara. Mateo o observava boquiaberto.
– Qual o seu nome? – O goleiro perguntou. O menininho seguia atônito.
– Mateo. – Ele respondeu, ainda muito impressionado.
– Ah! Então é para você mesmo essa encomenda. – disse, sorrindo e posicionando sobre a cama de Mateo a caixa que trouxera para o menino. – Quer ajuda para abrir?
Isabel seguia filmando e eu de longe observando a cena, com o coração aquecido por tanta ternura envolvida.
– Obrigado, . – Mateo disse, ainda parecendo em choque. – Você é o mesmo, não é? – Ele quis se assegurar, nos fazendo rir.
– Sou sim. – respondeu.
– Vocês parecem formiguinhas quando vejo pela televisão. – Mateo contou, com seu lindo sorriso infantil.
Rimos juntos mais uma vez.
– Sou grandão, não é? – disse, entrando na brincadeira. – A TV nos mostra muito de longe... Que tal se, quando voltar de sua viagem e estiver melhor, eu te levar para ver um jogo no estádio? – ofereceu. – E você entrará em campo comigo. Assim, as pessoas que virem você pela televisão é que vão te ver como uma formiguinha.
– Vou poder ir, mamãe? – Mateo parecia fascinado e perguntou, preocupado se as irmãs poderiam ir junto: – E também Sara e Luna?
– Claro! Poderão sim. – Isabel respondeu, com os olhos cheios de lágrimas. – Mas para isso precisa deixar os médicos cuidarem da sua saúde direitinho, durante a viagem. Tudo bem?
– Isso mesmo. Você vai ser bem forte? – concordou e perguntou, estendendo as mãos para Mateo bater.
– Sim! – Mateo assentiu, empolgado e parecendo energizado, como havia muito tempo não o víamos.
– Posso fazer uma foto de vocês? – Isabel perguntou, logo que ajudou Mateo a se vestir na camisa que levou. O momento merecia mesmo uma foto.
– Claro! Pode sim. – respondeu, já se aproximando do pequeno para a foto.
– Junte-se também, . Por favor! Quero uma foto do Mateo com seus dois anjos da guarda. – A mãe do menino pediu, depois de fazer um click dos dois. Ajeitei o cabelo o melhor que pude e me aproximei, abraçando Mateo de lado, com carinho, enquanto envolvia meus ombros para posarmos para a foto.
Na sequência, ouvimos duas batidas na porta.
– Com licença. A ambulância que fará a transferência dele já chegou. Podemos ir? – Carla, a enfermeira, disse ao abrir a porta.
– Sim! Aqui está tudo pronto. – Isabel respondeu, num suspiro de tensão, observando em volta. O quarto já estava vazio, havia apenas duas malas de viagem posicionadas ao canto e uma mochila infantil junto delas.
Carla e outras duas enfermeiras adentraram o quarto, trazendo consigo a maca da ambulância, para facilitar o transporte. Enquanto faziam todo o procedimento com o pequeno, Isabel se aproximou de e de mim para agradecer.
– Queridos, eu gostaria de agradecê-los imensamente por tudo. Sei que estamos apenas começando essa nova fase do tratamento do meu filho e que não será fácil, mas estamos indo com nossos corações cheios de esperança. – Isabel dizia, com os olhos marejados. – E isso é graças a vocês. Muito obrigada. Que Deus retribua em dobro tudo o que vocês fizeram pelo meu filho. – Ela finalizou, pegando minha mão e dizendo com carinho: – Principalmente você, minha querida. Por ter lutado tanto para Mateo ter acesso ao tratamento. Você nasceu para fazer o que faz, e o mundo precisa de mais pessoas assim.
Comecei a sentir meus olhos se enchendo de lágrimas e nem soube o que responder, apenas a abracei apertado por longos segundos.
– Por aqui tudo pronto, pessoal. – Carla avisou, depois de reposicionar as máquinas que acompanhariam Mateo da cama para a maca móvel.
– Vou com vocês até a ambulância. – Comentei.
– Eu te ajudo com isso. – disse, pegando as duas malas e deixando Isabel levar apenas sua bolsa de mão e a pequena mochilinha infantil do filho.
Chegamos à área de ambulâncias, e o pequeno não parecia impressionado, por já ter estado dentro de uma mais vezes do que alguém poderia imaginar, diante de sua pouca idade. Um paramédico ajustou a maca e prendeu Mateo no cinto de segurança. Isabel adentrou o veículo também na parte de trás e, alguns minutos depois, os dois acenaram pela última vez, antes que a porta por onde eles entraram se fechasse.
Eu estava muito orgulhosa por ter lutado com unhas e dentes para que meu paciente tivesse acesso ao tratamento, por ter tido minha opinião validada por profissionais mais experientes que eu, ainda que a contragosto por alguns deles.
Ao mesmo tempo, isso colocava sobre os meus ombros uma tensão grande.
Eu sabia que, se o novo tratamento não surtisse efeito, ou fosse agressivo demais para o corpinho de Mateo, eu me sentiria culpada. Era muita responsabilidade tomar a decisão de iniciar uma abordagem como aquela, mas, no fundo, eu sabia que tinha feito a coisa certa.
Tantos pensamentos ao mesmo tempo me deixaram emotiva e, enquanto a ambulância manobrava para sair do estacionamento em direção à estrada – e eu seguia parada, observando, envolvendo meu próprio corpo com os braços –, me peguei secando algumas lágrimas que escaparam sem eu perceber.
Senti um toque em meu braço. Antes que pudesse entender, percebi que era me puxando para um abraço de consolo, me envolvendo com um dos braços e acariciando minhas costas com a outra mão.
Me permiti retribuir o abraço e ficar algum tempo sendo alentada por ele.
– Vai ficar tudo bem. – O rapaz disse, com carinho. – Ele vai ficar bem! Você vai ver só.
Assenti, sem dizer nada de volta.
– Você ainda trabalha hoje? – perguntou, logo em seguida.
– Não. Vou já para casa! Meu plantão começa amanhã às 7h e preciso descansar. Só vim me despedir. – Comentei, secando o rosto com uma das mãos, ainda com o outro braço por trás das costas do goleiro, que me abraçava.
– Te deixo lá. Ok? Não aceito não como resposta. – perguntou, sorrindo com ternura, enquanto enxugava uma de minhas lágrimas.
– Bom, acho que, nesse caso, eu aceito sim, então.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.





Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Caso não esteja vendo a caixinha de comentários, você pode acessá-la por aqui.


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