Última atualização: 06/03/2021

Capítulo 1

Primeiro movimento (Parte 1)

- Esse braço tá errado, ... – Ele comentou, apoiando as mãos na cintura e parando de dançar.
A moça parou imediatamente e ficou encarando-o, incrédula.
- Sério?! – Ela suspirou desanimada. – Eu tava fazendo assim desde o início, .
- Desculpa, eu não percebi... – Ele próprio balançou a cabeça. – Corremos tanto esses dias pra terminar a coreografia, que mal notei o precisávamos refinar!
- Sem problemas. Só me mostra como fazer do jeito certo e já corrigimos isso! – respondeu de maneira mais animada, fazendo-o sorrir.
- Ok! Você vai fazer assim... – mal percebeu que estava se aproximando dela.
Só notaram o que realmente estava acontecendo quando ele segurou gentilmente o braço dela, repousando uma das próprias mãos na cintura da moça a fim de corrigir a postura.
Ambos sentiram como se estivessem queimando a pele do outro.
- Acho que você conseguiu entender. – comentou, imediatamente soltando-a.
- Entendi. Assim, não? – resolveu repetir o passo corrigido para evitar que a situação ficasse mais desconfortável do que já estava.
- Isso mesmo. – E ele cruzou os braços, sorrindo, a fim de impedir as próprias mãos de fazer mais alguma asneira.
Afinal, eles tinham prometido que não iam se envolver.


Street


Desde o primeiro dia em que se conheceram, e se deram muito bem. Parecia que se conheciam desde sempre e não demorou para que percebessem que eram um ótimo par ao dançar.
Assim, a paixão que tinham em comum logo começou a ser compartilhada.
Apesar de ele fazer parte de um grupo e ela de uma companhia de dança, sempre tentavam arranjar tempo em suas agendas para dance practices. Nem que tivessem que dançar de madrugada durante a semana, lá estavam os dois, ensaiando os passos juntos.
Principalmente depois que ela pediu para que ele a ensinasse técnicas de Street – que definitivamente não era o forte de , apesar de que a moça conseguia fingir bem.
- Ah, você faz muito mais do que fingir! – Ele comentou em um dos vários ensaios que marcaram, meses após terem se conhecido. Estavam sentados no centro da sala, suados e cansados após horas dançando.
Apesar disso, para os dois, parecia que tinham se passado somente alguns minutos. Mal percebiam o tempo passando quando dançavam juntos.
- Ah, vai. Não precisa ser legal comigo só porque você é um cavalheiro. – respondeu após tomar um grande gole de água, provocando uma gargalhada nele. levantou logo em seguida.
- Não estou sendo legal, é verdade! Você é boa. Ou eu não estaria dançando com você quase toda hora. – E, dizendo isso, ele estendeu ambas as mãos para ela, pisando levemente nos pés de , para que ela tivesse mais estabilidade ao levantar.
- Então quer dizer que você gasta seu precioso tempo de artista famoso só com quem vale a pena? – Ela perguntou rindo e segurou as mãos de , fazendo-o rir novamente.
- Não foi isso que eu quis dizer...!
Mas ele a puxou para cima antes mesmo que pudesse terminar a própria frase. E, somente quando ela se levantou é que ele percebeu que a puxou com um pouco mais de força que o necessário. quase caiu novamente, porém a segurou fortemente em seus braços, travando as pernas para que nenhum dos dois se estatelasse no chão.
Ambos começaram a rir, porém todos os resquícios de seus sorrisos se esfacelaram no ar logo que se olharam nos olhos. Finalmente perceberam a situação na qual se encontravam. Estavam muito mais próximos do que esperavam.

E foi a primeira vez que sentiram seus corações batendo mais forte com a vista do outro.

Passaram longos segundos se encarando seriamente daquela maneira, sem dizer nada. Meses se passaram sem que notassem nada. Sempre acharam que o que tinham era uma ótima amizade e parceria na hora de dançar, nada mais do que aquilo. Porém, estando daquela maneira, um nos braços do outro... Não conseguiam controlar o sentimento que surgiu em seus corações e fez suas pernas bambearem.
- Desculpa! – Ele disse repentinamente, forçando-se a acordar daquele torpor momentâneo e puxar-se para a realidade. – Acabei te puxando forte demais.
- Sem problemas! – Ela respondeu com uma risada um tanto envergonhada, com as bochechas queimando em vermelho por conta da situação. – Não ocorreu nenhum acidente, então tudo bem!

Dizendo isso, ambos resolveram voltar ao dance practice, ainda entre risadas, como se nada tivesse acontecido.

Apesar de negarem, o acidente havia ocorrido. Seus corações simplesmente tropeçaram um no outro e, após aquele acontecimento, não havia mais volta.


Já era tarde. aguardava do lado de fora do estúdio, embrulhado em seu moletom e checando pela quinta vez se a touca que usava realmente estava cobrindo as pontas das orelhas – que pareciam congeladas.
A noite estava tão fria que ele podia ver a nuvem esbranquiçada que se formava toda vez que expirava contra o negro céu noturno.
Aguardava há mais de meia hora quando finalmente viu a criaturinha que tanto esperava saindo do prédio com sua mala de dança que, sinceramente, era quase maior que ela. sempre dizia que achava que caberia facilmente dentro daquilo lá.
- ! Aqui! Oi! – Ele acenou animadamente, chamando a atenção dela. A moça se virou e abriu um enorme sorriso ao vê-lo, dando uma pequena corridinha no dia frio para alcançá-lo. – Terminou seu ensaio?
- Oi, ! Terminei sim! – Ela respondeu sorrindo e acenando animadamente para ele. – Você ficou me esperando?
- Fiquei sim. Sua mala tá pesada? Quer que eu carregue?
- Não, obrigada. Consigo levar, sou forte! – colocou as mãos na cintura e com uma expressão destemida, fazendo-o rir. – Mas seu ensaio acabou cedo hoje, não? Você ficou me esperando todo esse tempo?
- Ah, não foi tanto tempo assim... – respondeu um pouco envergonhado, mudando de assunto rapidamente enquanto suas bochechas atingiam um tom escarlate. – Fiquei pensando se você não ia querer jantar. Conheço um lugar muito bom aqui por perto!
- Nossa, eu tô morrendo de fome. – A moça foi até um pouco dramática, provocando risadas nele. – Pra que lado, capitão?
- Para aquele, maruja! – Ele apontou prontamente, fazendo-a começar a andar na direção em questão. O próprio começou a caminhar ao lado dela, os dois próximos por conta do frio. – E como foi seu dia? Puxado?
- Yep. Mas compensou. Terminamos tudo que tínhamos para fazer, então sem problemas. – sorriu para ele, ajeitando a mala nos ombros. – E o seu? Tudo certo para o show?
- Tudo certo. Só tivemos que corrigir algumas coisas, mas todo mundo estava focado, então não tivemos muitos problemas. – Ele sorriu de volta, mal percebendo que as mãos deles estavam para se entrelaçar.
Já estavam acostumados a ficar próximos enquanto dançavam, portanto nunca notavam se a proximidade enquanto conviviam no dia a dia era normal ou não.
- Ah, que bom! Vocês vão precisar fazer outro treino puxado desses ou...?
- Não, tá todo mundo afiado. Agora é só ter certeza que tudo vai ficar bom no dia. – Dizendo isso, ele lançou um olhar enviesado para ela, com um pequeno sorriso no canto dos lábios. – Relaxa. Podemos voltar a fazer nossos treinos de madrugada.
- Jura? – Ela perguntou de volta na maior empolgação, fazendo-o dar gargalhadas. –Espera, não era por isso que eu perguntei, estou realmente interessada na vida de vocês! Mas não posso negar que senti saudades de dançar com você, vou fazer o quê?
- Obrigado... Também senti saudades de te encontrar todo dia. – se controlou para parar de rir, olhando-a com carinho. – Gosto de dançar com eles, mas com você é diferente.
- Temos mais liberdade. – completou sabiamente e ele concordou com a cabeça. – Podemos dançar como quisermos. Além de que você é excelente pra dançar Freestyle. Eu, por outro lado, sou uma negação.
- Negação?! , você precisa parar de falar assim de você mesma...! – Ele disse com uma risada levemente agressiva no fim da frase. – Já disse, você é ótima.
- Mas convenhamos, não sou tão boa quanto você. – Ela respondeu de maneira analítica, já cortando logo que ele abriu a boca para refutar. – Tenho ainda muita coisa a aprender com você, . E isso não dá pra negar!
- Continua não indicando que você não dança bem. – Ele a olhou de maneira dura e séria. – Nossos estilos são diferentes e o seu Freestyle é muito bom, no seu próprio estilo.
não conseguiu deixar de corar contra o vento gélido da madrugada. Mal percebeu que o rubor também se dava por conta dos dedos dele esbarrando levemente na mão dela enquanto andavam.
- Ah, é aqui! – E segurou-a repentinamente por um dos ombros, apontando para o restaurante ao lado deles. – Desculpa, mas já estávamos quase passando o lugar!
Rindo, abriu a porta para . O lugar era bem simples e provavelmente um dos únicos que ficava aberto até tão tarde. Só havia pessoas mais velhas e alguns homens bebendo silenciosamente em seus cantinhos. Um ou dois casais aqui e ali, o som das panelas e comida sendo frita ecoando da cozinha.
- Não é muita coisa, mas é o melhor lugar para comer depois que estamos cansados desse jeito. E nesse horário. – Ele comentou observando o restaurante e se adiantou para uma das mesas, puxando uma das cadeiras para que se sentasse. – Quer me dar seu casaco? Vou colocar junto com o meu na cadeira.
- Ah, obrigada! – E, com isso, parou atrás de , ajudando-a a tirar a pesada peça de roupa. Os dois achavam que suas bochechas estavam vermelhas por conta do calor da calefação do restaurante. – O cheiro da comida é muito bom! Não vejo a hora de experimentar!
- Você não vai se arrepender! – Ele tirou o próprio casaco e se sentou à frente dela. Ia falar mais alguma coisa, porém uma senhora parou ao lado dos dois.
- Seja bem vindo de volta, ! Muito trabalho no estúdio? – Ela perguntou com uma voz suave e melodiosa no meio da barulheira da cozinha. deu um grande sorriso de volta para ela.
- Não mais do que o normal...!
- E nossa! Você trouxe a sua namorada dessa vez? – A mulher perguntou empolgada. – Ela é tão linda!
Os dois ficaram imediatamente sem jeito, começando a dar risadas e falando um por cima do outro. A senhora não entendia mais nada.
- Eu não sou namorada dele! – finalmente conseguiu explicar e sorriu para a mulher. – Trabalhamos juntos. Também sou dançarina!
- Ah, esse garoto vive por isso! – A mulher olhou com carinho para ele. – Deve ser por isso que gosta de você. Não se preocupe, , não vou deixar que vocês passem fome! Já vou trazer o jantar, vocês precisam se alimentar...!
E foi embora.

Os dois ficaram se encarando com cara de paisagem.

- Ela não pegou os pedidos, ... Como que vai trazer a comida?
Com a pergunta de , ambos começaram a rir.
- Pelo menos, não vai deixar que passemos fome. É bom você ter um apetite grande.
- Meu Deus, tenho até medo... – E lançou um olhar assustado para a cozinha, fazendo-o rir enquanto tirava o gorro e deixava com os casacos.
- Eu tava pra te perguntar já faz um tempo... – comentou, apoiando os cotovelos na mesa. Sentia-se completamente à vontade perto dela e não via menor necessidade de ficar se esforçando para ser bonito a cada segundo. – Você coreografa, não?
- E por que você diz isso? – Ela perguntou de volta, com um sorriso divertido brincando nos lábios.
Ele lançou um olhar como se estivesse dizendo que entendia aquele sorrisinho atrevido nos lábios dela, sorrindo igualmente em seguida.

Mas, antes que pudesse responder, a dona do restaurante surgiu novamente, com duas canecas enormes em mãos.
- Pronto! Nada como duas cervejas para relaxar os pombinhos! – Ela comentou na maior alegria, deixando as canecas sobre a mesa e sorrindo alegremente antes de voltar diligentemente para a cozinha.
e somente riram e balançaram as cabeças, enquanto pegavam as cervejas.
- Ela não vai parar de achar que somos namorados, não? – perguntou ainda entre risadas.
- Essa mulher é obstinada, não posso fazer nada... – suspirou, ainda rindo. Em seguida, lançou um olhar significativo para a moça. – É melhor você aceitar o seu destino.
- Não me diga. Do jeito que somos viciados em trabalho, iríamos morar dentro daquele estúdio. – Ela disse antes de dar um gole na própria cerveja, fazendo-o se segurar para não cuspir a bebida entre risadas. – Imagina que lindo! Não precisaríamos nem pagar aluguel! Jamais chegaríamos atrasados!
- O máximo da eficiência! Todo mundo ia amar! – Ele respondeu no mesmo tom de sarcasmo. – Mas voltando... Você coreografa, não?
não respondeu, somente continuou encarando enquanto fazia uma trança lateral nos cabelos. Estava ficando com muito calor e sentia as bochechas ficando cada vez mais vermelhas.
- Digo isso, porque te vi dançando uma coreografia sozinha outro dia. Uma que só você sabia os passos e conseguia dançar perfeitamente. – Ele comentou com um pequeno sorriso nos lábios, respondendo à pergunta que ela fizera anteriormente. parecia chocada de ouvir aquilo.
- Não acredito que você me viu dançando aquilo...! – A moça comentou mortificada e ficou mais ainda quando ele balançou a cabeça afirmativamente e aumentou o sorriso.
O que fez com que plantasse a testa na mesa e não quisesse tirá-la de lá por nada naquele mundo.
começou a rir imediatamente, estendendo uma das mãos para afagar os cabelos dela de maneira brincalhona e fazê-la se levantar.
- Não precisa ficar assim! Eu gostei, você coreografa muito bem! Vamos, !
- Eu não mostrei aquilo pra ninguém ainda, ... – Ela comentou enquanto levantava a cabeça, a mão dele ainda entrelaçada nos cabelos sedosos de . – Juro que se você comentar com alguém...
- Eu já te dei algum motivo para não confiar em mim? – Ele perguntou de volta com uma piscadela. – Qualquer segredo seu está a salvo comigo, .
Esse comentário fez com que ambos trocassem olhares mais significativos, com carinho um pelo outro. Mal perceberam que a mão de escorregava vagarosamente para o rosto de . Faltava pouco para que os dedos dele alcançassem a pele macia da bochecha da moça, roçando levemente no lábio inferior dela.
Mas, claro, a comida tinha que chegar exatamente nesse momento.
- Vocês terão muito tempo para namorar depois! Agora seus corpos precisam de energia! – A dona do restaurante anunciou a chegada, fazendo com que ambos se assustassem e se separassem em um pulo, começando a rir em seguida.
E como era de se esperar, ela trouxe comida suficiente para oito pessoas.
Os dois ficaram encarando aquele monte de pratos cheios de comida, trocando olhares em seguida.
- Acho melhor começarmos, não? – perguntou, pegando os próprios hashis. – Ou não vamos terminar tudo isso essa noite.
- Ah, estava esperando você tomar uma iniciativa! – pegou os hashis com uma animação maior que o recomendável. – Estou morrendo de fome!
- Ótimo! Acho que tem o suficiente para nós dois!
Com isso, ambos brindaram com as canecas de cerveja antes de começar o banquete da noite.
- Hmmm, mas agora falando sério... – comentou repentinamente, ainda mastigando uma porção de kimchi. – Eu tive uma ideia.
- Talvez engolir antes de conversar? É uma ótima ideia. – respondeu com uma piscadela, fazendo-o rir.
- Não tenta fugir do assunto! – Ele apontou de maneira acusadora para ela com o hashi.
- Ok, ok. Diga.
- Acho que poderíamos fazer uma coreografia juntos. – disse finalmente, utilizando os próprios hashis para servir o prato de .
- Juntos...? – Ela estava um pouco em choque com aquilo. – Não sei se consigo te acompanhar, . Seus movimentos são muito travados e perfeitos, ainda estou penando para aprender seu estilo, você sabe disso.
- E está indo muito bem, por sinal. – E foi a vez dele de lançar uma piscadela para ela, fazendo corar levemente no calor do restaurante. – Mas pensei em fazermos uma coreografia juntos, cada um no seu estilo. Você puxando mais para esse seu lado de ballet e eu para o street. O que acha?
pensou um pouco, ponderando aquela proposta. Mordeu levemente a ponta dos hashis, mal percebendo o discreto sorriso que surgiu nos lábios de logo que os olhos dele pousaram nos lábios de .
- Sabe de uma coisa? Acho que poderia ficar bom. – Ela respondeu de maneira resoluta. – Você vai ter tempo de treinar comigo?
- Eu arranjo tempo pra você! – Ele comentou na maior alegria, fazendo-a rir. Em seguida, ergueu a caneca de cerveja. – Um brinde à nossa dança!
- À nossa dança! – repetiu e ambos bateram as canecas alegremente.
A dona do restaurante somente suspirou, sorrindo. Tinha certeza que eles seriam um ótimo casal.


- Tem certeza, ?
- ... Meu apartamento é só uma quadra abaixo. – Ele comentou pela vigésima vez, rolando os olhos, apesar de estar sorrindo. – Não se preocupa comigo. Vou chegar vivo.
- Promete? – Ela perguntou enquanto ajeitava a bolsa de dança nos ombros.
Estavam parados na calçada, em frente ao apartamento de . Era um lugar grande o suficiente para que ela vivesse confortavelmente com uma de suas amigas. Como a amiga de era personal stylist de outros artistas, era evidente que as duas viviam em um lugar onde podiam ser protegidas de paparazzi, fãs insanos e outras coisas que vinham junto com a fama.
Portanto, realmente estava tudo bem para ambos andar por aquele pedaço da cidade de madrugada sem ter que se preocupar.
- Prometo. – E ele deu uma batidinha de leve na ponta do nariz dela com o dedo indicador, fazendo-a sorrir. – Eu te mando uma mensagem quando chegar em casa, pode ser?
- Ok. Não vou dormir enquanto você não me certificar de que chegou vivo. – suspirou, bocejando inconscientemente logo em seguida.
sorriu. Ela mentia e falava que não estava cansada e que podia aguentar a madrugada toda, mas tinha certeza de que quando deitasse na cama, capotaria até o dia seguinte no mais profundo dos sonos.
- Me promete que você vai dormir o suficiente para ficar descansada e saudável? – Ele perguntou repentinamente, sorrindo para ela. não conseguia ficar sem sorrir de volta quando ele a olhava daquela maneira.
- Prometo sim, . A gente se vê amanhã?
- Com certeza. Agora vai dormir. Boa noite, . – Dizendo isso, ele se aproximou dela, a fim de... Bom, nem ele sabia o que queria fazer para se despedir dela. Normalmente, somente acenavam um para o outro e iam embora, sorrindo.
- Boa noite, . – Ela respondeu com um sorriso, sem ao menos questionar a proximidade dele. Os próprios pés de começaram a se aproximar de .
E assim, sem ao menos notar o que estavam fazendo e como se fosse a coisa mais correta e natural do mundo, pousou uma das mãos no rosto de enquanto as dela encontraram o peito dele – os lábios de ambos se encontrando imediatamente em um beijo tão leve quanto uma pluma.
O toque era suave, porém foi o suficiente para fazer com que sentissem pequenos choques nos lábios, como se um milhão de fogos de artifício estivessem explodindo na pele sensível de ambos. Mal conseguiam sentir as próprias pernas e as respirações ficaram levemente falhadas – como se todo o oxigênio do mundo não fosse suficiente.
Ao se separarem, passaram alguns segundos observando o outro nos olhos. sorriu logo em seguida, as bochechas corando e ardendo como fogo. não conseguiu se conter e começou a rir junto com ela, segurando-a em seus braços.
O que estavam fazendo? Aquilo não fazia o menor sentido. Eram parceiros de dança, melhores amigos. Além de que, ambos tinham vidas extremamente ocupadas e não podiam se envolver.
Então por que aquele momento roubado no meio da escuridão da madrugada silenciosa, na qual não havia uma alma viva por perto, pareceu tão perfeito e correto?

finalmente olhou para ele novamente, sorrindo com os olhos cheios de tristeza. respondeu tanto o sorriso quanto o olhar.
- Não precisa falar. Eu sei. – Ele comentou imediatamente, antes que ela pudesse falar qualquer coisa. – Vamos nos encontrar amanhã para dançar?
- E fingir que nada aconteceu? – Ela perguntou de volta, no que ele concordou com a cabeça, vagarosamente. – Ok. Não podemos...
- Nos envolver. – completou, tentando repetir aquela frase como um mantra dentro da própria mente e se convencer daquilo.
- Concordo. – respondeu decididamente, porém precisaria repetir aquilo várias vezes para convencer seu coração de seguir sua mente lógica sem reclamações. – Então até amanhã, ?
- Até amanhã, . – Ele comentou, sentindo certo vazio ao vê-la se desvencilhando de seus braços e entrando sozinha em seu apartamento.
Puxando o gorro para baixo a fim de cobrir melhor as orelhas, começou a caminhar pelo silêncio da rua na madrugada, sorrindo consigo mesmo na metade do caminho.
Ninguém sabia o que tinha acabado de acontecer, somente eles. Era algo que só podia ter acontecido uma vez e nunca mais. Porém, ele estava feliz que tinha acontecido.
Ao chegar em seu apartamento, tirou os sapatos, deixando-os ao lado da porta de entrada, e imediatamente pegou o celular.

: Cheguei em casa, são e salvo. Pode ir dormir agora [4:29am]
: Ótimo. Fico feliz de saber que você tá inteiro [4:30am]
: E vai dormir também, eu te conheço [4:30am]
: Só depois do banho [4:30am]
: Você sabe que eu não consigo dormir sujo ;) [4:31am]
: Cama, . Vai pra cama [4:31am]
: Larga mão de ser tão limpo [4:31am]
: HAHAHAHAHAHAHA [4:31am]
: Primeira pessoa que me manda ser porco!! [4:32am]
: É porque você não viu a sua cara [4:32am]
: Tá falando que eu tô estragado, é? [4:33am]
: Você tá cansado [4:34am]
: MUITO cansado [4:34am]
: Tava conseguindo ver estampado no seu rosto [4:34am]
: E não gosto de te ver assim, [4:35am]
: Sei que você é o rei do trabalho duro, mas às vezes tem que descansar [4:35am]
: Você tem razão [4:37am]
: Ufa [4:37am]
: Achei que você já tinha entrado no banho e eu teria que ir até aí pra te arrancar semi inconsciente de sono do chuveiro [4:37am]
: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA [4:37am]
: Também não é pra tanto! [4:37am]
: Mas você tá certa, eu tô acabado [4:38am]
: Dormir vai me fazer bem [4:38am]
: Vai [4:38am]
: Você será outra pessoa amanhã [4:38am]
: Coloca um pijama quentinho e aproveita sua cama fofinha :) [4:38am]
: Bom, já estou de pijama [4:40am]
: E a senhorita? Já colocou o seu? [4:40am]
: Ou vou ter que ir aí te forçar a trocar de roupa? [4:40am]
: HAHAHAHAHAHA [4:40am]
: Fui mais rápida que você, querido [4:40am]
: Troquei de roupa há 5min atrás [4:41am]
: Ótimo [4:41am]
: Já deixou a mala de dança arrumada? [4:41am]
: Yep, amanhã é só pegar [4:41am]
: Então vamos voltar a ensaiar amanhã... Né? [4:41am]
: Com certeza! [4:42am]
: Boa noite [4:42am]
: Boa noite e beijos de nutella! [4:42am]
: Hahaha beijos de matcha ;) [4:43am]

Assim, ambos finalmente foram dormir.
Porém, antes de pegarem no sono, ficaram pensando em como seria sentir os lábios do outro com sabores de nutella e matcha sobre a pele.

You’re the Best thing about me

(Você é a melhor coisa sobre mim)

The best things are easy to destroy

(As melhores coisas são fáceis de destruir)

Why am I walking away?

(Por que estou indo embora?)



estava treinando na sala de dança. O chão de madeira era liso o suficiente para que seus pés deslizassem com facilidade, as sapatilhas de dança com o material perfeito para facilitar os movimentos. A bermuda preta de lycra se agarrava ao corpo dela, impedindo qualquer incômodo. Quando já estava muito suada, ela ficava somente com o top de esportes na parte de cima – mas não era o caso. Por enquanto, estava com uma camiseta cinza que era o dobro do próprio tamanho, os cabelos presos em um rabo de cavalo alto.
Ela sentia cada batida da música dentro do próprio peito. Começou a acompanhar vagarosamente, somente sentindo a música levá-la aos poucos pela sala. Seus pés se acostumavam lentamente com o ritmo, até ganhar cada vez mais segurança.
Os braços dela se juntaram à melodia. misturava tanto o que já tinha aprendido com quanto o que já sabia. Em poucos segundos, já estava improvisando em seu próprio estilo – uma mistura dos dois, com bastante popping em alguns momentos, caindo nas pontas dos pés e fazendo movimentos fluidos com as mãos e braços.
corria pelos corredores, já atrasado para o ensaio com . Entretanto, quando começou a ouvir Cold do Maroon 5 enchendo o ambiente com uma batida gostosa para dançar, começou a sorrir com curiosidade. Sabia que era .
Ele diminuiu a velocidade gradativamente, chegando à sala sem fazer barulho algum. Parou à porta e se apoiou no batente quando viu dançando. Ela subiu na meia ponta e caminhou rapidamente pela sala em um clássico passo de ballet. Em seguida, caiu em plié, na quinta posição, completando o movimento com uma pirueta enquanto a perna que deveria estar dobrada ficava esticada. Quando terminou, começou alguns movimentos de braços típicos de popping – que ele tinha ensinado para ela na última “aula” que tiveram – arriscando-se em alguns movimentos de locking. Em seguida, a moça deu mais um giro, encontrando o rosto sorridente de parado à porta.
- ! Que susto! – Ela comentou rindo, parando de dançar enquanto colocava a mão no coração.
- Ah, não! Continua dançando, gosto de te ver improvisando...! – Ele pediu manhosamente enquanto sorria, caminhando na direção dela.
- Você tá aqui, eu não preciso mais dançar sozinha. – piscou para e voltou para sua mala de dança, recebendo um olhar de reprovação dele.
- Você só fala isso porque não quer improvisar na minha frente. – Ele analisou e ela se virou para refutar, mas não deu chance para que falasse. – Um dia eu ainda vou acabar com essa sua vergonha. Me aguarde, querida.
- Ih, então vou esperar sentada, querido. – Ela respondeu de maneira sarcástica, fazendo-o rolar os olhos. – Você é muito bom. Eu tenho todo o direito do mundo de ter vergonha de dançar na sua frente.
- Você não tem vergonha quando estamos dançando em clipes. – se aproximou dela com um olhar convencido, parando com as mãos na cintura. – Muito pelo contrário... Você faz questão de deixar todos os outros no chinelo e ser a melhor no MV.
- Ah, mas é diferente. Lá nós temos uma coreografia que treinamos até nossos pés sangrarem. – se aproximou dele da mesma maneira, parando a centímetros de , igualmente com as mãos na cintura. – E eu gosto que todo mundo saiba quem manda.
Ambos ficaram em silêncio durante alguns segundos, olhando-se nos olhos. deu um pequeno suspiro rápido, pensando consigo mesmo que aquilo fora incrivelmente sexy. Queria falar aquilo para ela, queria que soubesse. Ela precisava saber daquilo.
Mas eles não podiam se envolver. E ele tinha certeza que se comentasse aquilo, os dois iam rolar a colina da desgraça abaixo, sem conseguir sair dos braços um do outro.
Então era melhor não falar nada.
- Bom. Vamos começar? – perguntou com um pequeno sorriso nos lábios e indo para o centro da sala, aproveitando a música que estava tocando. – E, terminando o assunto: eu vou fazer você perder essa vergonha besta de mim.
- Nossa... – rolou os olhos, indo para o centro da sala junto com ele e parando próxima a . – Se você conseguir fazer isso, eu te dou um beijo.

Nesse momento, ambos congelaram. olhou assustada para ele, como se tivesse acabado de falar a coisa mais profana da face da Terra. replicou o olhar dela, da mesma maneira como olharia para alguém que tinha acabado de fazer uma algazarra quebrando algo acidentalmente.
- Desculpa. – Ela disse de maneira silenciosa, realmente arrependida da própria língua que não conseguia segurar.
deu um pequeno sorriso, com um pouco de dó dela. Sabia exatamente como ela se sentia. Antes da noite anterior, aquele tipo de brincadeira entre os dois era normal. Porém, após o beijo, não podiam mais brincar daquela maneira – por mais que tivessem prometido que tudo continuaria igual.
- Tudo bem. – Ele respondeu ainda com o sorriso nos lábios. – Vamos esquecer isso, ok? Agora vem cá, porque a noite vai ser puxada.
Os dois tentaram não levar aquela frase para um sentido mais sexy. Tentaram.
- Tenho até medo... – deu uma leve risada e parou ao lado de . – Vamos lá. O que você preparou para mim?
- Vamos melhorar esse seu locking? – Ele perguntou sorrindo e ela suspirou, derrotada. O que o fez rir imediatamente, fazendo-a sorrir da própria brincadeira. – Nem começa com o “eu não sou tão boa”, porque você já aprendeu bem! Falei: vamos melhorar!
- Ok. Melhorar. – Ela respondeu rindo. – Vamos começar por onde?
- Separei alguns movimentos que ainda não te ensinei e acho que você pode aperfeiçoar alguns da última vez. – E ele olhou para o espelho, fazendo-a fazer o mesmo. – Primeiro, você vai fazer assim com o braço.
E, com isso, as aulas começaram. seguia tudo que ele falava com diligência, às vezes irritada com a própria fluidez dos movimentos, sofrendo um pouco para fazer tudo travado conforme ele fazia. somente ria e falava que ela estava indo bem, continuando com o ritmo da aula.
Em pouco tempo, tinha ensinado tudo que queria e podiam se voltar para a parte do aperfeiçoamento. E era nesses momentos que ele a admirava cada vez mais.
- De novo. – disse depois de passar o mesmo passo pela décima vez. Literalmente.
- Não quer mudar um pouco...?
- Não. De novo. – Ela disse de maneira resoluta, voltando para o centro da sala. – Se não eu não aperfeiçoo essa porcaria. De novo.
- Ok. Tem certeza que aguenta?
- Tenho. Você não? – E lançou um olhar para ele que era feito de pura determinação. – Já disse, . De novo.
- Ok. Então vamos passar mais umas três vezes seguidas? – Ele perguntou somente para provocar. Gostava de ver aquela força nos olhos dela. Admirava toda vez que ela ficava daquela maneira.
- Pode ser. Você conta?
- Five, six, seven, eight! – E, foi só dar a deixa, que ambos começaram a dançar.
Enquanto ela fazia da maneira como ele ensinara, não desgrudava os olhos de . Analisava cada movimento das pernas dela, cada esticada de braço, cada onda feita com as mãos. Observava tudo com cuidado para poder corrigi-la.
Sempre fizera aquilo. Mas, naquele dia, o que ele sentia por ela quando a observava daquela maneira ficara somente mais evidente. nunca parou para notar o que se passava no próprio coração, mas finalmente percebera que toda aquela admiração se tornara um sentimento mais forte por . Ela era uma mulher excepcional – com a mesma força de vontade e determinação que ele tinha.

Observá-la dançando daquela maneira somente amplificava aquilo e fazia com que ele sentisse vontade de puxá-la pela cintura para dançar junto com ele.

balançou a cabeça, começando a segunda passagem dos movimentos. Tentou observá-la sem pensar em nada, confiando no próprio autocontrole e acreditando que conseguia se controlar para não pensar naquelas coisas – para reprimir os sentimentos.

Mas aquilo estava especialmente difícil de fazer.

Portanto, na terceira passagem, fez questão de não olhar para . Era melhor. Para ambos.
- Ok, tenho algumas coisas para corrigir. – Ele disse logo que acabaram a passagem. Precisava focar a própria mente em ensiná-la e comentar de dança de uma maneira analítica. – Logo no começo da segunda contagem...
- Aqui...? – E já repetiu o passo, fazendo-o confirmar com a cabeça.
- É, aí. O braço vem aqui, ó. – Dizendo isso, ele parou atrás de , puxando o braço dela para cima, a fim de ensiná-la a fazer o movimento correto.
tentava se controlar para não deixar a proximidade dele afetá-la. Porém, ao sentir os dedos da mão macia de entrando em contato com a própria pele, ela não conseguiu controlar o coração a dar uma leve acelerada. se lembrou quando ele pousou aqueles mesmos dedos em seu rosto antes de beijá-la na noite anterior.
E, de repente, parecia que ela estava sentindo todos os fogos de artifícios que o beijo de causou dentro dela.
travou o maxilar e tentou fazer de tudo para que ele não percebesse que ela estava engolindo em seco.
Mal sabia ela que estava se controlando em fazer com que ela não notasse que seus dedos estavam levemente trêmulos.
Ele respirou fundo, olhando-a resolutamente no espelho.
- Consegue fazer isso? – controlou a própria voz, que insistia em querer ficar tão trêmula quanto os dedos.
olhou para o reflexo dele no espelho. Tinha os olhos distantes, porém, logo que se encontrou com o olhar de , retornou a pensar de maneira lógica, com o próprio olhar determinado refletido à sua frente.
Ela sabia muito bem que ele não estava perguntando se ela conseguia fazer o passo. estava perguntando se conseguia levar aquela situação para frente. Se ela conseguia, assim como ele, fingir que nada tinha acontecido. Se ela conseguia fazer com que eles permanecessem somente melhores amigos.
- Consigo. – respondeu com a voz firme, olhando-o da maneira que amava ver nos olhos dela.
Ele sorriu, continuando a aula. Ela sorriu de volta, continuando a aprender tudo de maneira rápida e diligente.
Conscientemente, tinham acabado de definir algo da maneira mais decidida que conseguiram. Inconscientemente, estavam se apaixonando cada vez mais pela determinação do outro.


- Onde aquele moleque se enfiou?! – estava realmente fora do sério. E aquilo fazia com que risse cada vez mais.
Eles estavam em uma filmagem de um MV que ambos quase esqueceram que tinham. Mas, uma semana após a aula com a fatídica “decisão”, lá estavam eles em um galpão abandonado, escuro, às duas e meia da manhã, gravando a coreografia da música mais nova do grupo dele.
Para isso, lá estava como dançarina de apoio – fazendo exatamente o que ele falara que ela fazia: dançando melhor do que todo mundo e deixando claro que ela seria o destaque em todas as filmagens só com os dançarinos de backup.
Além de que, já era uma escolha óbvia de dançarina quando escolhiam quais iam dançar com os membros do grupo.
- ! Você viu o em algum lugar? – perguntou com as mãos na cintura, já claramente de saco cheio. Ela deu uma pequena risadinha. – O que tem de tão engraçado?!
- Você! – A moça respondeu de maneira sincera, apontando para ele. somente ergueu as sobrancelhas, como se não acreditasse no que estava escutando. – É muito engraçado quando você fica irritado, . Não é o seu normal, então, de verdade... É fofo, até.
Ele ficou observando-a, sem palavras, durante alguns segundos. Em seguida, começou a rir, olhando para o lado e balançando a cabeça em seguida.
- Ah, você não tem jeito... – comentou, já sentindo a irritação se dissipando do próprio coração. – Mas...
De repente, uma mão gélida encostou no pescoço dele. deu um pulo, como um gato, assustado demais para gritar. Quando olhou para trás e viu o dono da mão, encontrou rindo como se aquela fosse a coisa mais engraçada que acontecera no mês.
- Aish, seu moleque...!
- Obrigado por distraí-lo, ! – piscou para a moça, que ria horrores do susto.
somente olhou para ela, completamente incrédulo.
- Você...?
- Desculpa. Foi mais forte que eu. – Ela deu de ombros, parando de rir. – Na minha defesa, a idéia foi do .
ficou encarando os dois, ainda boquiaberto. Em seguida, ficou com cara de paisagem.
- Eu odeio vocês.
E foi embora.

e somente trocaram olhares e começaram a rir.
- Quem vai ser a nossa próxima vítima? – Ela perguntou empolgada. observou rapidamente o lugar e começou a sorrir.
- Olha o lá sozinho...! – Ele comentou, apontando discretamente. – Ele tá sentado bem de costas para aquela abertura escura ali...!
- ... Você é uma mente má. – comentou, sorrindo logo em seguida. – Eu adoro. Vamos!
Dizendo isso, ele imediatamente segurou a mão dela e começou a guiá-la silenciosamente até a passagem que falara. Quando estavam perto da caixa na qual descansava pacatamente, levou o dedo indicador aos lábios, sendo que confirmou com a cabeça que permaneceria quieta. Ambos se abaixaram um pouco e passaram silenciosamente pelo amigo – que não fazia idéia da presença deles por lá.
A passagem dava para um corredor escuro. deu uma corrida rápida para lá com , achando os lugares perfeitos para que ambos se escondessem. Apontou para uma caixa de um lado do corredor para que ficasse atrás da mesma e se escondeu atrás de uma caixa do lado oposto ao dela, sendo que os dois conseguiam se enxergar perfeitamente.

novamente levou o dedo aos lábios para que ela permanecesse em silêncio. Em seguida, ambos começaram a observar .

correu as unhas pela caixa atrás da qual se escondia. imediatamente levantou a cabeça, achando que tinha ouvido algo. Para completar, bateu algumas vezes em um armário de metal que tinha por perto. olhou para trás rapidamente, sendo que os dois se encolheram atrás das caixas.
- Tem alguém aí? – perguntou com as sobrancelhas franzidas e os dois permaneceram em silêncio. Ele balançou a cabeça. – Provavelmente estou escutando coisas...
Segurando o riso, pegou um pedaço de metal jogado perto de si e jogou na parede do outro lado do corredor.
O que fez com que se levantasse em um pulo, olhando de maneira assustada para o corredor.
- Mas o quê...?! – Ele perguntou para si mesmo e tanto quanto já estavam quase perdendo o controle.
- ... – A moça sussurrou com a voz um tanto rouca, ecoando pelo corredor escuro e chegando de maneira arrastada aos ouvidos do amigo. – ...
- O... O que... O que é isso...?! – perguntou, completamente aterrorizado. estava quase rolando no chão de tanta vontade de rir.
De repente, não aguentou e soltou uma leve risada, cobrindo a boca logo em seguida. Tanto ela quanto estavam se divertindo demais com aquilo.
- ! É você?! – perguntou colocando as mãos na cintura e claramente irritado com aquilo.
Quando disse isso, chamou e ambos saíram de mãos dadas da escuridão.
- Aish! Vocês dois quase me mataram do coração! – queria pegar a coisa mais próxima e atirar neles.
- Você não é o primeiro! – surgiu de qualquer lugar que estivesse por perto, claramente disposto a dar bronca nos dois, sendo apoiado por um amigo. – Eles quase me fizeram ter um infarto antes!
- Vocês que são muito fracos! – deu de ombros enquanto concordava com a cabeça.
- Fracos?! Vocês pararam pra notar onde estamos?! – abriu os braços, sinalizando o galpão. nunca esteve tão feliz de ter alguém do próprio lado em uma discussão. – Vocês dois parecem até irmãos! Seus doentes!
- Pode deixar que eu serei tão protetor e ciumento como um irmão de verdade para ela. – rebateu, inconscientemente segurando a mão dela novamente.
- Mas vamos lá, gente... Vocês realmente acham que nos colocariam pra gravar em um lugar perigoso? – perguntou ainda rindo, brincando com os dedos de e contente com o que ele tinha acabado de falar. Já o considerava um irmão e ficava feliz de saber que o sentimento era recíproco.
abriu a boca para refutar, porém não conseguia encontrar argumentos. Olhou para , como se estivesse pedindo ajuda, mas o próprio também não conseguia achar argumento algum.
Com isso, semicerrou os olhos e encarou , decididamente, apontando para ela.
- Nada mais de aulas pra você.
E, com isso, foi embora, sendo seguido por .
e somente caíram na gargalhada.
- Não se preocupa, ! Se ele não quiser mais te dar aulas, pode deixar que eu dou! – respondeu entre risadas.
Com isso, foram chamados de volta para a gravação. Já se colocando em seus lugares na coreografia, esperou até que ela estivesse ao lado dele antes de começarem.
- E nem se atreva a ir dançar com o . Você sabe que eu sou melhor. – Ele sussurrou ainda de maneira irritada, fazendo-a dar uma pequena risada.
- Pode deixar, . Você é meu parceiro de dança, mais ninguém.



Capítulo 2

Primeiro movimento (Parte 2)

Mesmo com as gravações, os dois se esforçavam para se encontrar e ensaiar, pensando na coreografia que fariam juntos. Claro, todo mundo sabia que eram os dois que estavam na sala de dança às duas e meia da manhã, repetindo os mesmos movimentos quinhentas vezes e depois estatelados no chão, sem conseguir respirar direito e literamente encharcados em suor.
Isso sem contar nas risadas. Vira e mexe, algum desavisado se assustava com a explosão de risadas vinda da sala.
e estavam se acostumando com o fato de que tinham se beijado. Falavam para si mesmos que foi somente um erro, um deslize de uma noite em que estavam muito cansados... Nada de mais. Tentavam se convencer que não tinham ultrapassado uma linha imaginária da qual não haveria volta.
Havia volta. Exatamente porque aquilo não fora nada de mais.
Ou pelo menos, era naquilo que queriam acreditar. Era disso que queriam se convencer.
Naquela noite específica, já estavam dançando há duas horas e meia. Eram onze horas da noite, pois conseguiram terminar seus afazeres do dia mais cedo e fora buscá-la enquanto se arrumava com sua companhia.
Ele andou rapidamente pelos corredores do estúdio, com medo de que já tivesse voltado para casa e estivesse esperando pacientemente pela mensagem dele falando que já estava disponível para ensaiarem.
Mas o celular dele acabara a bateria. Então lá estava ele, tentando correr contra o tempo, mas sem parecer desesperado. Ou alguém perceberia que ele estava mais empolgado que o normal para encontrá-la.
E aquilo ia contra tudo que estava tentando enfiar na própria cabeça nas últimas semanas. Ficar empolgado para encontrá-la em um nível normal era ok. Ficar empolgado demais? Era definitivamente ruim.
Por isso ele estava andando rápido. Seu coração queria correr, mas seu cérebro segurava a velocidade de seus pés.
Mesmo assim, não quis admitir que deu uma corridinha quando viu a porta da sala que servia de vestiário para a companhia de .
- ! – E ele escancarou a porta de supetão, gritando o nome dela, quase sem ar e com o coração explodindo no peito por finalmente ter chegado.
Ele só esquecera que aquele era o vestiário feminino da companhia.
Então o lugar foi tomado de gritos histéricos e mulheres se cobrindo ou jogando coisas em cima dele.
- DESCULPA! – se virou imediatamente, cobrindo os olhos com as mãos.
- ! O que você tá fazendo aqui?! – E, enquanto perguntava isso, pousou as mãos nos ombros daquele ser humano desavisado e empurrou-o para fora do vestiário, fechando a porta atrás de si.
- Desculpa! Eu achei que você já tinha ido embora! – Ele respondeu ainda de costas e com as mãos nos olhos, sentindo-se completamente envergonhado pelo que acabara de fazer.
Até ouvir rindo atrás de si.
- Ai, ... Você é realmente a melhor pessoa desse mundo... – Ela suspirou, pousando as mãos na cintura e dando uma leve risada.
finalmente se virou para olhar e responder alguma coisa que tinha pensado na hora para fazê-la rir. Mas, ao vê-la, ficou sem palavras: a moça estava vestindo a típica bermuda de dança – de lycra, no formato exato das pernas dela para facilitar os movimentos – e um top cor de salmão, os pés descalços contra o chão gelado, com a barriga e os braços a mostra, enquanto os cabelos emolduravam o rosto.
Ele sentiu as bochechas queimando logo que pensou que ela estava maravilhosa.
- Tá tudo bem? – imediatamente franziu as sobrancelhas. Afinal, nunca vira se comportando daquela maneira na frente dela.
- Tá, tá sim... – Ele respondeu balançando a cabeça, tentando ter um pouco mais de compostura e controlar o sangue que dava o ar da graça nas maçãs do rosto. Imediatamente, tirou o próprio casaco que usava e colocou sobre os ombros de . – Tá frio, ! Você não está sentindo, não?
- Ah, eu tava me trocando, né...! – Ela começou a justificar, rindo da reação dele. Porém, algo a atingiu como um raio e finalmente notou o estado em que se encontrava na frente de . – É, está meio friozinho mesmo...
Dizendo isso, a moça começou a colocar as mangas do casaco dele, que ficava gigante em , enquanto as próprias bochechas atingiam um tom rosa choque.
Se ainda fossem só amigos, não ia se importar de ficar daquela maneira na frente de . Mas aquela linha já tinha sido ultrapassada.
Ela própria balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos, enquanto ele fechava o zíper do casaco com cuidado. A linha não fora ultrapassada. tinha que se lembrar daquilo todo dia. Eles eram somente amigos. Só amigos.

O beijo fora um erro.

Um erro muito bom.

Mas ainda assim um erro.

Os dois suspiraram, enquanto observavam o outro. Como algo tão bom, que parecia tão certo, poderia ser um erro?

- Pronto, agora você está quentinha! – disse sorrindo, com sua expressão alegre de sempre, como se nada estivesse acontecido. Se pensasse demais, ele acabaria beijando novamente e aquilo não podia acontecer.
- Sim, sim, obrigada! – Ela sorriu de volta, segurando as mangas do casaco por dentro e aproximando as mãos das bochechas. queria morder o nariz de , de tão fofa que ela parecia. Imediatamente, segurou o tecido que sobrava nas laterais da calça para conter os próprios impulsos enquanto somente sorria de volta para ela. – Você me espera aqui fora para irmos dançar?
- Sem problemas, espero sim! – O sorriso dele aumentou e ela concordou com a cabeça, voltando para dentro do vestiário. soltou um suspiro audível, sentindo-se aliviado e relaxando todo o corpo, enquanto recostava-se à parede mais próxima. Abaixou a cabeça e ficou pensando durante alguns segundos, levantando-a novamente enquanto respirava fundo. – Foi um erro. Nada de mais. Vocês são amigos, , só amigos...
Ele repetia aquilo para si mesmo em um tom baixo, de olhos fechados. Precisava se controlar. Precisava colocar na própria cabeça que aquilo não era nada de mais.
Mas, como se para dizer que ele estava errado, a mente de imediatamente se lembrou de como estava naquela noite. E, novamente, ele se viu beijando-a em frente ao prédio da moça. Sentia a pele fria do rosto dela contra seus dedos, a bochecha macia de na palma da mão. Os lábios dela estavam quentes e levemente úmidos, macios e aveludados como um pêssego. Os lábios de pousaram sobre os dela com uma leveza de como se os dois estivessem em anos de relacionamento e os beijos de despedida fossem algo automático... Mas algo naquele simples beijo foi o suficiente para deixá-lo completamente curioso.
queria mais. Ele queria sentir os lábios de com força contra os seus, em um beijo longo, suficiente para acalmar todos os sentimentos que consumiam o coração dele como fogo.
- Aish! Se controla, seu besta...! – comentou batendo na parede atrás de si. Balançou a cabeça, irritado consigo mesmo. – Você disse que não era nada de mais! Você prometeu que não era nada de mais...!
- ...? – E surgiu do vestiário, assustando-o e fazendo-o dar um leve pulo por conta do sobressalto. – Falando sozinho de novo?
- Ah, você sabe. É uma mania que não dá pra evitar. – Ele respondeu rindo e piscando para ela, fazendo-a rir de volta.
ainda usava o casaco dele – agora com uma blusa por baixo – que ficava o triplo do tamanho dela. sorriu carinhosamente ao vê-la daquela maneira. Se dependesse dele, podia usar todas as suas roupas.
Mal sabia que a moça também estava afetada. Ao ver aquele sorriso nos lábios dele, não conseguiu deixar de dar um pequeno sorriso inconsciente e imaginar como seria bom tê-lo como namorado, sorrindo todo dia daquela maneira carinhosa para ela.
- Vamos? – Ele perguntou de repente, acordando-a de seus pensamentos. – Quer que eu leve a sua mala?
- Você já me emprestou seu casaco, . Eu posso levar a mala. – respondeu piscando para ele, enquanto ajeitava a mala no ombro. Não queria se aproveitar da boa vontade do amigo. – Já planejou algo para hoje?
- Mas é claro! Você já me pegou despreparado alguma vez?
E, assim, os dois conseguiram seguir para a sala de dança e iniciar a aula do dia. Ficaram lá durante horas, repetindo, repetindo e repetindo, até finalmente sentirem o suor escorrendo pelo rosto como se fosse água.
Sendo assim, quando não aguentaram mais, se estatelou no chão perto do espelho da sala de dança – sendo que a seguiu, deitando ao lado da moça.
Os dois ficaram encarando o teto durante um bom tempo, em silêncio, somente tentando recuperar as respirações.
- ... – comentou de repente, ainda respirando fundo.
- Hmmm...? – Ele se limitou a responder, de olhos fechados. Ela somente começou a rir enquanto ouvia a forte respiração dele, subindo e descendo de maneira ritmada.
- Nossa, eu te destruí tanto assim? – Ela perguntou ainda entre risadas.
- Não, querida. Acho que fui eu que peguei pesado demais essa noite e destruí nós dois. – respondeu com um sorriso enquanto olhava para ela. virou a cabeça também para olhá-lo.
Os sorrisos nos rostos deles sumiram paulatinamente. Antes, aquele tipo de brincadeira não importava muito: faziam direto e nem notavam o duplo sentido, simplesmente porque, para eles, não havia duplo sentido. Mas agora havia. E era um duplo sentido que eles desejavam que fosse real.
- Então... – retomou, como se não tivessem pensado em nada de mais. – Precisamos começar a pensar na nossa coreografia.
- Ah, verdade... – Ele voltou a encarar o teto, genuinamente pensativo. – Precisamos de um tema.
- Exato. – E ela o imitou, encarando o teto, sem perceber que aproximava lentamente a própria mão da mão mais próxima de . – Mas eu cheguei a pensar em outras coisas já...
- Como o quê? – E ele mesmo moveu a mão de maneira inconsciente em direção à dela. Já podia sentir até o calor úmido da mão de .
- Se vamos fazer danças complementares, nem tudo precisa ser igualzinho... – Ela jogou a ideia, vendo que ele a observava com curiosidade.
- Vocês vão fazer uma coreografia juntos?!
- MEU DEUS! – e gritaram juntos, encarando a origem da voz em um sobressalto. Teriam se sentado, mas estavam cansados demais para aquilo.
- ! Você não sabe bater, não?! – perguntou levemente irritado, com uma das mãos sobre o coração. Estava mais disparado que bateria de Escola de Samba desfilando na Sapucaí.
- Aqui não é seu quarto. Por que eu bateria? – O amigo respondeu dando de ombros e caminhando até o som da sala. – Além disso, achei que poderia ensaiar um pouco com vocês!
- Tudo bem, , pode ensaiar... – respondeu suspirando, deitando a cabeça novamente no chão. – Só não precisa matar a gente do coração da próxima vez.
- Você sabe o que dizem, né? – respondeu rindo. – Quando alguém se assusta assim, é porque estava fazendo algo de errado!
e simplesmente trocaram olhares e deram breves risadas, enquanto selecionava uma música qualquer. Deliberadamente, finalmente deixou que sua mão se aproximasse da mão dela e tocasse os dedos de – de maneira leve e discreta. A moça somente sorriu, voltando a encarar o teto, enquanto dançava despreocupadamente, observando atentamente seus movimentos no espelho.
Aquilo era algo arriscado – tanto para os sentimentos deles quanto para o fato de que havia mais alguém na sala. Apesar do toque suave como a pena da asa de um anjo que caíra despercebida pelo mundo, não conseguiu ficar sem fechar os olhos e apreciar o momento, movendo levemente os dedos e só desejando no lugar mais secreto da própria mente que pudesse entrelaçar a mão levemente úmida de e não soltá-la nunca mais. Percebendo os movimentos dela, lançou um olhar discreto para , finalmente notando na expressão do rosto da moça que aquele desejo de tê-la em seus braços era recíproco. Aquele toque somente fazia com que a sensação de aperto e falta de ar dentro dos pulmões deles piorasse – mas era muito bom para que se separassem.
voltou a encarar o teto logo que fez um passo que causou um baque com suas botas no chão. Ele notou que também foi puxada para a realidade, pois a moça parou de mover os dedos contra a mão dele – o que fez dar um breve sorriso melancólico. Não era só ele que notara o perigo: se os visse daquela maneira, nunca mais teriam paz e poderiam chegar perto do outro sem alguma piadinha sobre amor. E aquelas piadinhas eventualmente acabariam com eles, pois pensariam em tudo que poderia ser realidade e jamais iria se concretizar, sendo obrigados a rir com os amigos e falar que tudo aquilo era mentira – quando não passaria da mais pura verdade.
- Então... – disse repentinamente, ainda de olhos fechados, como se estivesse dormindo. – Pensei em algumas coisas pra nossa dança... Comecei pensando em cores, pra falar a verdade.
- Ah, eu devia saber que era isso... – respondeu com um sorriso besta nos lábios, encarando algum ponto distante do teto. – Você sempre “escuta” cores. Mesmo que a gente não tenha definido a música ainda, devia ter adivinhado que você ia pensar nas cores antes de qualquer outra coisa.
- As cores que me ajudam a saber que feeling eu quero pra coreografia, fazer o quê? – A moça respondeu de maneira displicente, fingindo que estava dando de ombros. Ele sabia que era o jeito dela de brincar com ele e aparentar não se importar com aquilo. – Se eu definir a cor da coreografia, consigo saber melhor que música quero pra combinar.
- E o que você pensou de cor até agora?
- Se você aceitar, estava pensando em usar uma das minhas paletas preferidas... Rosa, azul, roxo e âmbar. – Ela comentou com um breve sorriso, finalmente abrindo os olhos e observando algum ponto distante, claramente vendo qualquer outra coisa que não era o teto branco da sala de dança. – Acho que teríamos o suficiente pra fazer uma dança misturada, tanto com elementos de street quanto de ballet.
- É uma boa ideia... – E foi a vez de fechar os olhos, já imaginando com ficaria um MV com aquela paleta de cores. Não tinha esperanças de que a dança deles virasse um MV, mas não via nenhum problema em sonhar acordado com aquilo. Já podia se ver estendendo a mão para em um movimento típico de Michael Jackson, enquanto ela o segurava e confiava nele para apoiar todo seu peso ao estender a perna para trás em um arabesco. Em seguida, começariam uma sequência de locking com tutting, o fundo mudando para um azul celeste levemente arroxeado. – Funciona muito bem. Acho que ficaria bom, principalmente com as transições. Ia ser legal principalmente se você, em algum momento, começasse uma sequência mais de ballet e eu te seguisse fazendo praticamente a mesma coisa, mas com movimentos de street...
- Em Canon? Eu começo na primeira contagem e você me segue na segunda? – perguntou, finalmente olhando para ele novamente.
- Exato. Eu seguro sua mão e começamos a dançar igual, no mesmo estilo, logo que termina a sequência. – confirmou com um largo sorriso, contente de ver que havia outra pessoa nesse mundo que falava a mesma língua que ele.
Os dois nem perceberam que, quando suas ideias se complementaram, seus dedos se entrelaçaram imediatamente – finalmente realizando o toque que eles tanto desejam.
- Ia ficar muito legal. – finalmente se manifestou, fazendo uma pequena pausa para limpar o suor que escorria da testa com uma toalha que encontrou jogada por aí. – Os estilos de vocês dois seriam dissonantes e complementares ao mesmo tempo, acho que funciona bem. Já pensaram em qual vai ser o tema da dança?
- Não... Começamos a pensar nisso outro dia. – comentou enquanto se sentava, soltando a mão de . Não podia arriscar que o amigo os visse daquela maneira. E, logo que percebeu que ela também estava se mexendo, a ajudou a se sentar também. – Ainda não temos nada muito definido pra falar a verdade.
- Yep. Só decidimos que queríamos misturar nossos estilos. – A moça deu de ombros, apoiando no espelho atrás de si. – Mas ainda precisamos definir muita coisa. A música, inclusive.
- O que vocês acham da ideia de “amor proibido”? – jogou a ideia casualmente e os dois somente arregalaram os olhos, trocando olhares assustados quando perceberam que o amigo não estava olhando. Imediatamente checaram se suas mãos não estavam mais se tocando e sentiram os corações acelerando como se estivessem em uma montanha russa, prestes a cair a toda velocidade. Sentiam as pernas formigando e parecia que havia um cubo de gelo escorrendo por suas espinhas. – Não sei... Vocês falaram dos estilos, o ballet e o street, a mistura que pretendem fazer e tal... “Amor proibido” é um conceito que funciona muito bem aí, acho. Afinal, tem tanta gente que acha que esses dois estilos não se encaixam e vocês dois fazem funcionar tão bem...
jogou a toalha em qualquer canto de maneira tão displicente que os dois começaram a se acalmar um pouco. Conheciam o amigo e sabia quando ele falava alguma coisa para provocar e quando falava algo sinceramente. Naquele momento, quando voltou a olhar para o espelho, tornando a treinar seus movimentos perfeitos e sem erro algum, tiveram certeza que ele falara sinceramente – com o intuito somente de ajudá-los. Sendo assim, sentiram o alívio escorrendo pelos ombros enquanto abriam sorrisos.
- Mas sabe... Acho que é um conceito que funciona... – comentou lentamente, lançando um olhar enviesado para . Queria ver se ele concordaria com a ideia e se ela não estava ultrapassando barreiras. Queria muito que ele aceitasse, mas não entendia o motivo daquele sentimento. Futuramente, iria entender que só resolveu insistir no conceito de “amor proibido”, pois seria uma maneira de finalmente exteriorizar todos seus sentimentos por ele sem levantar suspeitas. Por mais que ela mesma estivesse ignorando o que sentia. – O que você acha...?
- Acho que fica bom sim... Podemos trabalhar em cima disso... – E, dizendo isso, mudou seu olhar para ela. Queria ter certeza de que estava confortável com aquela ideia... E não queria admitir para si mesmo que adoraria trabalhar com aquele conceito, principalmente nos momentos em que precisassem coreografar algo típico de amantes. Ele fez questão de apagar aquilo da própria mente em segundos, mas não pôde deixar de imaginar os dedos de correndo pela sua bochecha lentamente enquanto ele somente fechava os olhos no meio da dança. – Se você quiser.
- Bom, acho que vocês dois querem! – disse com uma risada. – Já se perguntaram isso umas três vezes, podem parar de repetir esse assunto em looping!
somente lançou um olhar de morte para o amigo, enquanto suspirava. Em seguida, a moça ergueu uma sobrancelha.
- Ô seu folgado! Você vai mesmo deixar essa toalha jogada aí?! – Ela perguntou indignada, apontando para . – Usa minha toalha e depois joga por aí que nem roupa suja, é isso mesmo?
- Não sabia que era sua, desculpa! – respondeu assustado, imediatamente pegando a tal toalha do chão e colocando sobre o aparelho de som. – E nem pensa em brigar comigo, porque vim até aqui pra dançar com vocês e nada até agora!
- Eu tava dando uma pausa, tá? Não sou feita de ferro! – A moça respondeu rindo e se levantou imediatamente, aproximando-se do amigo. – Mas vamos lá, agora você tem minha atenção, querido.
- Ótimo! – Ele comentou fingindo estar bravo, mas sorrindo de maneira até um pouco infantil logo em seguida. – Vamos ver o que você anda aprendendo...!
- ! – virou para , que ainda estava sentado no chão, apoiado no espelho da sala. – Você não quer vir dançar com a gente?
- Ah, por enquanto não, ... Preciso dar uma pausa também! – E ele sorriu. – Podem ficar aí, juro que não vou julgar ninguém!
Com isso, segurou a mão de e a fez dar um giro pela sala, começando a dançar com ele.
apoiou os cotovelos nos joelhos e recostou a cabeça no espelho atrás de si. Um pequeno sorriso brincava nos cantos dos seus lábios, enquanto seus olhos a observavam atentamente, cheios de carinho. Ele gostava de observar como o corpo de se movia quando a moça dançava. E ia gostar mais ainda de coreografar um “amor proibido” junto com ela.


- Krumping, ? Sério? – estava indignada, com as mãos apoiadas na cintura.
E lá estavam eles novamente naquele galpão abandonado no meio do nada, prontos para dançar no chão laminado de água. Tiveram alguns dias de descanso enquanto a equipe de edição trabalhava no MV, mas daí o diretor teve a “brilhante ideia” – palavras do próprio homem – de colocar o grupo e só um grupo seleto dos melhores dançarinos para fazer a coreografia no galpão abandonado, sobre a água e depois com chuva falsa caindo sobre eles.
Não seria nada fácil. Novamente era de madrugada e estava frio. Porém, para o conceito do MV, não era possível usarem roupas quentinhas: estavam usando regatas e jaquetas de couro, calças skinny rasgadas e correntes penduradas na cintura ou sobre o peito, com botas que não eram nem um pouco impermeáveis.
Enquanto esperavam para fazer a maquiagem, e conversavam sobre seus próximos ensaios e o que incorporariam na coreografia que ainda estavam tentando descobrir o conceito – deixando a ideia de de “amor proibido” em standby, somente para utilizá-la se não achassem nada melhor.
- Sério! Krumping tem uns movimentos bem legais e acho que tá na hora de você aprender. – Ele respondeu sorrindo largamente, quase como se estivesse se divertindo com a desgraça da amiga. – Nossas coreografias usam krumping e tem uma delas que tem bastante disso. E nem vem me falar que eu sei que você já tirou a coreografia e sabe dançar!
- Saber dançar aquela coisa talvez seja uma palavra forte demais... – A moça suspirou e se sentou em um dos caixotes próximos. – Eu sei o básico dela. O resto improviso como sei e acaba virando algo mais puxando pra ballet do que pra street em si.
- Jura? – Ele ergueu uma sobrancelha. – Eu ia adorar ver isso um dia.
- Pois é. Infelizmente nem tudo que a gente quer acaba acontecendo na vida real, né querido? – comentou de maneira sarcástica, sorrindo docemente em seguida.
- Para de ser envergonhada comigo, mulher. – respondeu seriamente e ela conseguia ver que ele não estava de brincadeira por conta da maneira que a olhava.
- Um dia, talvez. Mas não será hoje. – Ela suspirou de volta, admitindo a vergonha que tinha de dançar livremente na frente dele. – Krumping é muito difícil pra mim, ...
- Ah, eu tenho certeza que você dançaria com a maior facilidade, ! – surgiu repentinamente, já com a maquiagem e pronto para a gravação. Ele claramente estivera escutando toda a conversa, já que a cadeira em que estava sentado para que a maquiadora trabalhasse era logo ao lado deles.
- Desde quando você terminou...? – franziu as sobrancelhas e logo que se levantou para ir à cadeira, já que estivera esperando a maquiagem de acabar, viu se sentando casualmente, como se nada estivesse acontecendo. – ...
- Não é minha culpa, você que demorou demais! – O amigo respondeu, ignorando o olhar de morte que lançava para ele, sorrindo logo em seguida.
- Pode ir tirando essa certeza da sua vida então, . – suspirou, claramente ignorando o fato de que queria esganar e aparentemente o amigo não se importava com aquilo. Enquanto isso, se sentou ao lado dela na caixa, observando enquanto voltava a se sentar na frente deles. – Eu sou péssima de krumping. O já tentou me ensinar uma vez e posso te garantir que foi uma experiência traumática.
- Ela quase me bateu umas três vezes. – completou imediatamente, antes que pudesse perguntar. – Mas não foi porque você era péssima! Foi porque eu não prestei atenção!
- E provavelmente porque ele é um péssimo professor. – comentou claramente para provocar o amigo, recebendo um olhar de morte de . somente começou a rir. – Mas brincadeiras à parte, você é boa de street e dança em geral. Com um pouco mais de treino, vai tirar krumping de letra, eu tenho certeza.
- Não é tão difícil assim, . É só a questão de acostumar com os movimentos, que nem você fez com tutting, por exemplo. – E nisso, lançou um sorriso doce para ela, fazendo-a suspirar quase derrotada.
- É que vocês dois não estão entendendo. Krumping para mim seria como um fouetté triplo pra vocês. – A moça apoiou os cotovelos nos joelhos e o rosto nas mãos, suspirando. Estava sofrendo com a ideia de dançar de uma maneira ridícula na frente de .
Sempre tivera aquele problema, porém, após o beijo, aquilo somente agravou exponencialmente. Queria que a visse como uma excelente bailarina em geral, não somente em um estilo específico. O pensamento de dançar de maneira desconjuntada na frente dele, sem conseguir coordenar os movimentos direito e acabar fazendo algo totalmente horrível a assustava. Em algum lugar escondido do coração de , ela tinha medo que perdesse o interesse por ela; que repentinamente ela se tornasse algo completamente indiferente para ele. A moça sabia que aquilo não tinha fundamento algum – pois claramente se sentia atraído mais pela personalidade do que qualquer outro motivo fútil – mas não conseguia conter aquele sentimento.
- Fouetté...? – franziu as sobrancelhas imediatamente, lançando um olhar para , para checar se o amigo conhecia que tipo de movimento era aquilo.
- Deve ser algo de ballet. – deu de ombros, tão confuso quanto .
- É algo de ballet! – finalmente se manifestou em sua cadeira, apesar de ter os olhos fechados enquanto a maquiadora passava o pincel cuidadosamente por sua pálpebra, colorindo-a de marrom café. – Algumas pessoas falam que é o passo mais difícil que existe!
- Ninguém te perguntou! – respondeu rispidamente, levando um leve tapa de enquanto a moça se levantava. – Ei...!
- Não sei se é o mais difícil... É trabalhoso, isso tenho que admitir. – Ela comentou, tirando as botas e escorregando algumas vezes com as meias sobre o chão até achar uma superfície lisa sem nada em volta. e a observavam atentamente. – Mas depois que você pega o jeito, ele flui.
- Ah, eu já vi seus fouettés, . São lindos. – comentou com um sorriso sonhador nos lábios.
- E posso saber por que o sabe disso e a gente não? – cruzou os braços com uma ponta de ciúmes se manifestando em seu peito. Dependendo da situação, ele admitia aquele sentimento com uma facilidade incrível.
- Porque a gente fez um dance practice uma vez e conversando sobre ballet, acabamos comentando disso. Ele pediu para que eu dançasse e eu dancei. – E somente sorriu. – Fim de história.
Essa resposta só fez com que e lançassem olhares suspeitos para . Quando o amigo abriu os olhos para que a maquiadora pegasse mais maquiagem, encontrou-os encarando-o.
- Que foi? Vocês que não puderam ir naquele dance practice no dia. – deu de ombros, convencido a não se sentir mal sobre aquilo. – E você chegou atrasado, .
- Chegou?! – nunca soubera daquele fato. queria bater em si mesmo e só lançou um sorriso um tanto sem jeito para ela.
- É... O teve que ficar mais tempo nas gravações naquele dia. Logo que eu consegui, saí do estúdio e corri para a sala de dança, mas você já tinha ido embora há uns dez minutos. – Ele contou, bagunçando os próprios cabelos para se distrair do fato de que estava começando a sentir as bochechas ardendo em vermelho. – O comentou que você tava cansada, então pedi pra ele não falar nada, pois sabia que você voltaria e, se soubesse depois, ia se sentir culpada de não ter me esperado.
- Claro! Você saiu correndo pra dançar comigo! Poxa, ! – E balançou a cabeça, sem conseguir acreditar nele.
- É. Enquanto isso, eu tava lá, que nem trouxa, gravando. – suspirou, fazendo com que todos começassem a rir da desgraça dele. – Bom, já que você está aí, sem sapato, pode mostrar pra nós agora, né ? Como chama mesmo? Fouetté?
- É. Fouetté. E triplo ainda por cima. – Ela respondeu piscando.
Antes que pudessem falar qualquer outra coisa, porém, ela se colocou em uma quarta posição com os pés bem espaçados, em uma postura típica para início de pirueta. Pegando impulso com a perna de trás, se levantou em meia ponta na perna esquerda, dobrando a direita até que formasse um quatro, realizando um giro perfeito. Nada de especial até ali.
Porém, quando seu corpo estava quase de frente para eles novamente, saiu da meia ponta e caiu em plié, enquanto a perna direita se estendeu para a lateral, pegando impulso novamente para mais uma pirueta. Assim que a perna se dobrou no quatro novamente, a perna esquerda subiu na meia ponta como antes para viabilizar o giro. E, depois que ela terminou o movimento, ainda o repetiu mais uma vez.
Na terceira pirueta, , caiu novamente na quarta posição que fizera no começo, para iniciar o giro, porém dessa vez usou a perna de trás para ancorá-la de volta no chão e segurar a força dos movimentos para que parasse. A moça tinha um sorriso plácido no rosto, como se tivesse acabado de fazer a coisa mais simples do mundo.
Enquanto isso, e somente a observavam boquiabertos, completamente pasmos e sem conseguir acreditar no que tinham acabado de presenciar.
- Isso é um fouetté triplo. – Ela comentou rindo, as bochechas corando em vermelho ao ver a expressão dos dois, mas logo conseguindo controlar os sentimentos.
- Ela consegue fazer até sete sem cair! – teve que complementar e os dois somente ficaram mais impressionados ainda.
- Calma! Não é bem assim! – agitou as mãos, negando tudo enquanto se aproximava. – Três é meu número perfeito para fouettés. Consigo fazer bem até cinco. Depois disso começo a andar e a coisa começa a ficar estranha. Se ultrapasso de sete, vai desandar tudo e provavelmente eu cairei no chão. De bunda.
- “Andar”? Como assim? – franziu as sobrancelhas. Estava acostumado com termos de dança, mas não sabia o que aquilo significava naquela frase.
- O ideal do fouetté é que você consiga começar em um lugar e terminar nele mesmo. Acontece que chega uma hora que, pra se equilibrar, você começa a ir mais para o lado, começando em um lugar e terminando uns centímetros mais para o lado. – explicou, sentando-se novamente ao lado de . – Meu sonho é conseguir fazer o solo da Odile sem andar e sem me esborrachar no chão.
- Solo de quem...? – E estava tão perdido quando .
- Odile! – se meteu na conversa novamente, aproximando-se dos amigos após terminar a maquiagem. – É do ballet do Lago dos Cisnes. A bailarina principal faz o papel da Odete, o cisne branco, e da Odile, o cisne negro. É um dos papéis mais difíceis que tem e mais disputados entre as bailarinas, precisa ser muito boa pra conseguir fazer.
- E o solo da Odile são trinta e dois fouettés seguidos, se não me engano. É uma coisa linda de se ver. – respondeu sorrindo, claramente sonhando com aquilo.
- Trinta e dois? – estava chocado, levantando-se rapidamente para que ninguém tomasse seu lugar na cadeira de maquiagem. – Fazer três que nem você fez já é difícil e incrível! Imagina trinta e dois!
- Pois é. Por isso é preciso ensaiar até os pés praticamente sangrarem. – deu de ombros. – É por isso que sou tão dura comigo mesma e sempre quero ser perfeita nos movimentos. É algo que você aprende dançando ballet.
- É mais exigente até do que o Exército. – respondeu com uma risada sem humor, fazendo-a sorrir enquanto concordava. Ele sempre se admirava com o fato de que era tão forte e resistente. Não sabia com detalhes a trajetória dela para se tornar a dançarina que era, porém sabia que não fora fácil: enfrentara a própria família para seguir seus sonhos, assim como eles fizeram, e passara madrugadas forçando o próprio corpo para ser nada menos que excelente. Isso fazia com que ele a admirasse absurdamente. – É por isso que você é tão incrível, .
- Obrigada, . Você também é bem incrível. – Ela respondeu com uma piscadela, fazendo-o sorrir em resposta.
- ...? – Uma das maquiadoras se aproximou repentinamente. – Terminei de maquiar a última pessoa, você quer vir comigo para agilizar o processo?
- Ah, claro! Pode ser! – A moça imediatamente se levantou, feliz que estava na sua hora de ser maquiada. – Depois que terminar a minha já vamos gravar, certo?
- Certo. – A maquiadora sorriu e tornou a atenção para e . – É bom já ficar a postos, meninos. Não vou demorar muito com ela.
Sendo assim, se sentou na cadeira ao lado de e fechou os olhos para iniciar a maquiagem. Os dois achavam que estavam sendo bem discretos, abrindo os olhos e observando o outro pelo espelho, trocando alguns sorrisos rápidos quando ambos se encontravam de olhos abertos. Quando o outro estava de olhos fechados, somente aproveitavam para observar durante alguns rápidos segundos, antes de voltar a atenção para os pincéis. Porém, as maquiadoras logo notaram essa troca de olhares e, concordando com pequenas risadinhas inaudíveis enquanto e estavam de olhos fechados, começaram a fazer hora quando algum dos dois abria os olhos, demorando um pouco mais para pegar a maquiagem ou fingindo ter que trocar de pincel – algo que deixou e bem contentes, apesar de nem perceberem que podiam aproveitar seus olhares por conta da ajuda das maquiadoras.
Naturalmente, apesar de enrolar, a maquiadora de acabou a dele antes. Sendo assim, com a desculpa de esperar ficar pronta para ajudá-la a não escorregar no chão molhado, ele ficou aguardando, em pé mesmo, contendo a vontade de olhá-la no espelho, pois não queria ser muito óbvio. As maquiadoras somente trocavam risadinhas inaudíveis, achando que ele estava sendo a pessoa mais fofa do mundo – de braços cruzados, sério, fingindo estar completamente alheio ao que estava acontecendo.
- Estou pronta, vamos? – finalmente perguntou, enquanto pegava a jaqueta de couro da cadeira em que havia pendurado.
se virou para responder e prontamente acompanhá-la até a área da filmagem, porém assim que a viu ficou sem palavras. As roupas dela eram completamente negras, a blusa regata larga e rasgada expondo os braços delineados e elegantes. Os cabelos emolduravam perfeitamente o rosto e a maquiagem somente acentuou as melhores características dela. Apesar de ser mulher, como os integrantes e outros dançarinos eram homens, a maquiagem de seguira a deles, somente um pouco mais carregada e esfumaçada por ter olhos maiores, a boca com um tom levemente mais avermelhado e certamente mais brilhante com o gloss. Seria horrível para dançar, pois seus cabelos grudariam o tempo todo, porém ficaria maravilhoso no MV. Enquanto ela colocava a jaqueta, só ficou observando a cara de paisagem de – levemente boquiaberto com a beleza dela.
- O que foi? – A moça perguntou novamente, observando-o com grandes olhos inquisidores em inocência.
- Ah, o quê...? – E nem ele sabia muito bem o que ela tinha perguntado. Estava muito distraído com a maneira como a sombra cor de café emoldurava a parte de baixo dos olhos de , da mesma maneira que fizeram nos olhos de . Porém, com ela, havia ficado completamente diferente e muito mais gracioso, além de impactante. – Vamos?
- Sim, vamos. Mas por que você tá me encarando com essa cara perdida? – Ela perguntou rindo, começando a caminhar com . Os dois mal notaram quando as maquiadoras começaram a rir e comentaram entre si que ambos formariam um ótimo casal.
- Eu te encarei...? – Ele perguntou balançando a cabeça e se amaldiçoando mentalmente. – Desculpa, não era minha intenção! Não é nada...
- , você ficou um bom minuto me olhando com cara de poste, não é possível que não seja nada! – respondeu com uma boa risada ao fim da frase.
deixou que chegassem à metade do caminho, onde não havia mais ninguém por perto, somente o pessoal que faria a gravação à frente e a produção toda atrás. Ele olhou em volta, checando se haveria alguém perto o suficiente para ouvi-lo, porém todos estavam longe. Se ele mantivesse a voz baixa, poderia falar com ela, poderia responder à pergunta de sinceramente...
A questão era: ele devia? Prometeram não se envolver, repetiram milhões de vezes que aquele beijo não fora nada. Mas só ele sabia como ficava acordado durante a madrugada, sozinho em sua cama, encarando o teto e relembrando o toque dos lábios de nos seus... Só ele sabia como queria mais. Como queria segurá-la em seus braços, beijá-la sem medo algum, chamá-la por algum apelidinho tonto... Como queria se sentar com ela embaixo das cobertas e assistir filmes durante uma noite fria, terminar um dance practice com ela em seus braços, beijá-la enquanto a encostava em um dos espelhos da sala de dança, subindo as mãos por dentro da blusa de enquanto ela suspirava.
prometera que não se envolveria com ela. Mas não conseguia conter a própria mente de imaginar como um relacionamento com ela não seria nada menos que perfeito. Podia se ver claramente de mãos dadas com , na neve, levando-a para a casa de chá mais próxima para que pudessem comprar chocolates quentinhos e aquecer os narizes com o vapor enquanto ela ria daquela maneira que ele achava maravilhosa.

Aquela imagem fez com que as palavras travadas na ponta da língua de ganhassem vida própria.

- Você está linda. Essa maquiagem só te deixou mais perfeita do que já é. – Ele comentou silenciosamente, em um tom que somente escutaria. Ao escutar cada uma das frases, a moça até se esqueceu de como fazia para respirar normalmente. – Foi por isso que te encarei: ninguém vai conseguir desgrudar os olhos de você nesse MV... Principalmente eu.
A última frase de foi dita em um sussurro, enquanto somente fechou os olhos. Ambos caminhavam lado a lado, em uma distância normal, com as mãos enfiadas nos bolsos das jaquetas de couro. Ela queria tocá-lo, enlaçar seus braços em volta do torso de e apoiar a cabeça no peito dele, em um abraço apertado. Ele queria enlaçar os próprios dedos nos dela, puxando-a para perto de si em um abraço, afagando os cabelos de que ele tanto gostava. Mas tudo que podiam fazer era continuar encarando o chão e caminhar normalmente, como se nada estivesse acontecendo. Como se não tivesse dito nada de mais.
- Você também está maravilhoso, . É por isso que não consegui olhar direito na sua direção até agora. – finalmente respondeu de maneira silenciosa, quase como um sussurro. arregalou os olhos, chocado com aquelas palavras, pois não achou que responderia. Após a promessa que fizeram, achava que qualquer comentário que ele fizesse com aquele teor seria completamente unilateral... Porém estava enganado. Lá estava ela, abrindo os próprios sentimentos para ele. Por mais que fosse por um pequeno momento roubado. – Teria te encarado da mesma maneira que você fez comigo... Acho que você vai chamar mais atenção do que qualquer outro nesse MV.
Com o fim dessa frase, ambos finalmente alcançaram o grupo de amigos e dançarinos que fariam a gravação. Conversaram um pouco com todos, como se nada tivesse acontecido, até o Diretor se aproximar e anunciar para que tomassem seus lugares, pois a gravação logo teria início.
E não foi fácil. Por conta da água, o chão ficou escorregadio e era difícil manter a estabilidade sem acidentes – ainda mais porque a coreografia rápida, dinâmica e complicada, com passos difíceis de executar até em um chão estável. Tiveram pequenos acidentes – como escorregões e até algumas quedas – mas nada que não estivesse finalizado perfeitamente em uma hora e meia de gravação.
- Ótimo! Vamos gravar a parte com a chuva em dez minutos, então nem pensem em descansar! – O Diretor finalmente comentou, enquanto todos procuravam algum lugar para sentar.
Nem adiantava se secar, pois acabariam molhados novamente. Como não seria nenhuma das cenas iniciais do MV, nem fazia sentido começarem secos: já podiam ir molhados que não teriam problema algum.
- ! Vem cá e me tira uma dúvida! – se aproximou da amiga, chamando-a para perto através de gestos com as mãos.
- Você tem um cobertor? Se não, nada feito! – A moça respondeu tentando aquecer os próprios braços, fazendo-o rir imediatamente.
- Infelizmente não, mas sou bem quentinho! – Dizendo isso, passou um braço pelos ombros dela. – Pronto! Melhor assim?
- Melhor. Diga o que você quer, fofo.
- O me disse que você e o vão fazer uma coreografia, confere? – Ele perguntou todo animado, fazendo-a rolar os olhos.
- Confere. Era pra ser um projeto só nosso, mas aparentemente ninguém sabe guardar segredo. – E cruzou os braços, enquanto e se aproximavam carregando bebidas quentes.
- E vocês vão coreografar com o conceito de “amor proibido”? – Foi só perguntar que e imediatamente se olharam como se tivessem sido descobertos por fazer a coisa mais errada do mundo.
- Ainda não sabemos. – fez o favor de responder enquanto ainda continuava impactada com a pergunta inesperada. Ele estendeu um copo branco com tampa para ela, sorrindo em seguida. – Chocolate quente. Para esquentar um pouco nesse frio.
- Ah, obrigada, ! Você é um anjo! – pegou o copo, acidentalmente segurando nos dedos de também. Ele demorou um pouco para soltar o recipiente, somente para sentir o toque dela durante algum tempo a mais.
- Eu que dei a ideia do “amor proibido”. – finalmente comentou enquanto pegava os copos da mão do amigo e soltava de . Afinal, o copo estava quentinho e todo mundo queria esquentar as mãos no recipiente. – Acho que ficaria muito bom com os estilos deles.
- Ficaria mesmo! Era sobre isso que estávamos falando até agora! – comentou animadamente após um gole de chocolate que fez suas bochechas ficarem rosadas com o calor repentino. – O Diretor até curtiu a ideia! Se a coreografia ficar legal, e temos certeza que vai ficar, vocês podiam gravar um MV! Acho que não seria nem um MV, seria só um vídeo curto, mas algo para colocar no meio dos shows como intervalos e no nosso canal no Youtube. Poderíamos desenvolver bem essa ideia de “amor proibido” dependendo da música que vocês escolherem e do feeling da dança. Vai ficar excelente!
- Mas ainda nem pensamos direito, tínhamos algumas outras ideias... – respondeu despreocupadamente, mentindo na cara dura. Não tinham nenhum outro conceito e adoraram a ideia do “amor proibido”, mas não podiam negar que estavam um tanto relutantes.
- Ah, , nenhuma ideia será melhor que a do , eu garanto! – O Diretor surgiu no meio do grupinho, assustando a todos e quase causando um acidente generalizado de chocolates quentes. – Quando decidirem a música e fizerem uma parte da coreografia, me mostrem, certo? Vamos desenvolver bem essa ideia maravilhosa que vocês tiveram de coreografar juntos e fazer bom uso disso para propaganda do show que está para lançar! Todo mundo adora uma história de amor proibido! Agora se preparem que vamos voltar a gravar em dois minutos.
Dizendo isso, o Diretor se afastou enquanto e somente trocaram olhares difíceis de decifrar. Não teriam muita escapatória: tinham que coreografar aquele tema. Em parte, estavam tensos, mas, de resto, estavam contentes que agora tinham uma desculpa para obrigatoriamente usar a ideia que dera durante aquele último dance practice.
- Parece que não temos muita opção, né...? – perguntou um tanto desconfortável, sendo que e imediatamente começaram a rir, sem nem perceber os olhares dos amigos.
- Claro que não! Estamos ansiosos pra ver a coreografia! – comentou alegremente, genuinamente curioso. – Quero ver o que vai sair disso!
e também sorriram, de maneira muito mais significativa para seus olhos. Eles também queriam saber o que aconteceria a partir dali, principalmente com a responsabilidade de fazer uma coreografia daquelas.


Capítulo 3

Segundo movimento - Ballet (Parte 1)

Semanas se passaram desde aquele dia. O MV finalmente foi lançado e o grupo ficou ocupado fazendo as promoções e apresentações que vinham após um lançamento daqueles. , por outro lado, fora chamada para fazer outra gravação, dessa vez para um clipe do grupo NCT – que, apesar dos vários integrantes, precisava de vários dançarinos de apoio para viabilizar o MV – o que a deixou indisponível por um bom tempo.
sentia que a sala de dança era grande demais para ele. Os dias se passavam e lá estava ele sozinho: o silêncio na rua e a batida da música que embalava seus movimentos de street vibrando pelo chão.
Ele sentia falta da delicadeza de ao dançar ballet, dos movimentos leves e cuidadosamente executados pela amiga. Sentia-se estranho ao olhar para o espelho e ver sua própria silhueta refletida no meio daquela enorme e sufocante sala branca.
Naquele dia especificamente, estava se sentindo mais sozinho do que o normal. Fazia dias que eles não se falavam nem por mensagens, pois ela estava destruída por conta das gravações, e semanas que não se viam. Parecia que o coração dele sentia o fato de que não estava ao seu lado.
repentinamente pegou-se observando sua própria forma no espelho. Lembrou-se de como comentara sobre posturas e como podia adivinhar facilmente se a pessoa fizera aula de ballet ou outro estilo de dança pela postura.
Ele ergueu uma sobrancelha. Imediatamente endireitou as costas, ficando o mais reto que conseguia, erguendo até um pouco a cabeça. Vira alguns vídeos de ballet com ela, além de que estavam eternamente tentando marcar uma sessão cinema na qual assistiriam ao ballet da Bela Adormecida – um dos vários na coleção de DVDs de .
Ela ensinara a ele algumas posições e também não era besta. Colocou os pés na quarta posição, esticando a perna de trás até a ponta dos dedos apoiarem no chão, os braços dobrados da maneira como a posição pedia. Aquela era a base para piruetas, ele se lembrava de quando o ensinou a parar daquela maneira. Só que ao invés de fazê-lo ser ridículo no meio da sala de dança, ela que fizera aquela pose. E ficava simplesmente deslumbrante quando mostrava seu lado elegante de bailarina.
- O quê? Alguém resolveu aprender a dançar ballet?
A voz dela ressoou pela sala como um sino de prata em uma manhã de inverno. se virou imediatamente, em choque, encontrando uma parada à porta da sala de dança, a mochila enorme apoiada no ombro, os cabelos soltos contrastando com a blusa enorme e larga – que mais parecia um vestido – as pernas cobertas por um par de calças jeans rasgadas nos joelhos e o all star vermelho surrado mal amarrado nos pés.
- ! Que saudades! – E saiu correndo na direção dela, imediatamente agarrando-a e tirando-a do chão, feliz em finalmente vê-la. – Faz tanto tempo!
- Nem me diga! Eu estava morrendo sem os nossos dance practices! – Ela respondeu rindo, retribuindo o abraço como conseguia, já que a mala de dança fora esquecida no chão. – Pra você estar dançando ballet, é porque ficou com muita saudade!
- Ignora e finge que você nunca viu aquilo. – Ele respondeu rindo de si mesmo enquanto a deixava no chão. – É sério, . Aquilo tava medonho.
- Não acho. Você tem porte de bailarino. Sua constituição física é boa para isso! – piscou para ele e pegou a mochila do chão, caminhando para seu fiel e conhecido cantinho na sala de dança.
quase suspirou ao ver a mochila de dança dela sendo jogada naquele canto. Era aquele o lugar ao qual o objeto pertencia e aquele ponto da sala ficava bizarramente vazio sem aquele troço grande o suficiente para enfiar a própria lá dentro.
Só depois que ela se sentou é que ambos perceberam o que a moça tinha acabado de falar. E aquilo fez lançar um sorriso um tanto safado para ela, o que percebeu com o canto dos olhos.
- Quer dizer que você fica prestando atenção na minha constituição física então...? – Ele colocou as mãos na cintura e lançou seu melhor sorriso convencido para a amiga.
- Para de safadeza, seu pervertido! – respondeu rindo, jogando não um, mas os dois pés do all star vermelho em cima dele. imediatamente caiu na gargalhada, esquivando-se dos sapatos. – Não foi isso que eu quis dizer, tonto!
- Sei que não foi...! – Mas claro. Ele resolveu provocar mais, de maneira sarcástica ainda por cima.
E mal teve tempo para se esquivar de uma sapatilha de salto atirada na própria direção. Por pouco não levou um sapato na testa.
- Hoje você tá atacado, não? – Ela balançou a cabeça, caminhando pela sala usando somente uma sapatilha, a fim de buscar a que fora estampada na outra parede.
- É que faz muito tempo que não te vejo. Daí fico besta desse jeito. – E o próprio comentou com uma risada um tanto envergonhada.
- Percebe-se. – ergueu uma sobrancelha enquanto se equilibrava em somente uma perna para colocar a sapatilha. – Mas também senti saudades, só por isso joguei os sapatos.
- Ah, mas que amor mais bruto...! – Ele suspirou de volta em tom de brincadeira, fazendo-a rolar os olhos enquanto ria.
- É, e pelo visto você gosta! – A moça parou bem próxima a , com as mãos na cintura.
- Adoro! – Ele respondeu imitando a pose e o sorriso que ela tinha no rosto, ambos a míseros centímetros de distância.
E só quando tiveram a vontade quase incontrolável de se beijar para matar as saudades é que perceberam que aquela situação era perigosa demais para eles. Os sorrisos diminuíram gradualmente e foi a primeira a se afastar, olhando para os pés.
- Gosto das suas brincadeiras tontas também... – Ela comentou, tentando, de maneira frustrada, não parecer tão afetada.
- Você é uma das poucas, eu sei... – passou a mão pelos próprios cabelos, bagunçando-os um pouco e tentando conter os tons de rosa que cismavam em tingir suas bochechas por conta da vergonha.
- Mas então... Você chegou a pensar um pouco mais na coreografia? – puxou logo o assunto para não pensarem muito naquilo. Ou acabariam se beijando efetivamente. – Ou só focou em mudar pro lado ballet da Força?
- Engraçadinha. – Ele comentou com os olhos semicerrados e um pequeno sorriso no rosto, imediatamente voltando para o clima brincalhão de antes. – Pensei em algumas coisas, mas ainda não definimos a música, né? Daí fica um pouco difícil...
- Eu cheguei a pensar nisso enquanto estávamos gravando... Se você não se importar, vou colocar a música que pensei, pode ser? Aí você vê se encaixa com o que pensou. – A moça sorriu de volta, aproximando-se do aparelho de som.
- Ah, claro! Sem problemas... – Enquanto respondia, entretanto, perdeu-se em seus pensamentos ao observar . Apesar de ter um pequeno sorriso nos lábios, os olhos dela estavam cansados como nunca. Ela parecia ter emagrecido desde a última vez que se viram e aquilo fez com que ele imediatamente franzisse as sobrancelhas. – ... Você não tá cansada não?
- Nope. Estou bem, ... – Ela respondeu automaticamente, fazendo-o rolar os olhos.
Sendo assim, se aproximou dela e abriu os braços. imediatamente olhou para ele e ergueu uma das sobrancelhas.
- O que você quer?
- Um abraço. – Ele respondeu com o maior sorriso do mundo estampado nos lábios.
- Mas você já me deu um! De urso até! – A moça balançou a cabeça, porém se voltou para ele. Era impossível negar abraços para .
- Eu sei, mas aquele foi de saudades. Agora posso dar um abraço de gente... – E, dizendo isso, a envolveu, os braços de presos entre os dois. Ele resolveu aproveitar o sentimento de tê-la em seus braços e logo o que era para ser somente um abraço rápido se tornou algo mais. Os dedos de se prenderam entre o tecido da blusa de e ele até arriscou repousar uma de suas mãos sobre os deliciosos cabelos dela. Somente nesse momento que ele abriu os olhos e, ao se ver no espelho, percebeu que estavam levando as coisas longe demais. – Sabia. Você emagreceu.
- O quê? – E imediatamente franziu as sobrancelhas, distanciando-se levemente de e encarando-o sem entender. – Você me abraçou só pra ver se eu tinha emagrecido?
- Exatamente. Estou preocupado com você, . Nunca te vi tão cansada. – Dizendo isso, ambos aproveitaram para se separar do abraço, relutantes em ter que deixar o outro. – Dois MVs seguidos é algo pesado. Não é pra todo mundo e é difícil de aguentar. Ainda mais que você teve que aprender a coreografia do outro na marra e com pouco tempo para ensaiar.
- Ah, eu aguento, . Não é a primeira vez que tenho que trabalhar além do meu limite. – A moça piscou para ele e voltou para o aparelho de som.
- Eu também já tive que trabalhar a ponto de chorar. E sei exatamente como precisamos de descanso em seguida. – Dizendo isso, ele se apoiou no aparelho de som, observando-a cuidadosamente. – Você precisa de tempo para relaxar.
- Mas eu relaxo quando estou com você. – respondeu de maneira praticamente inconsciente enquanto procurava a música que queria. – Nossos dance practices são momentos de descanso para mim, não trabalho.
somente a contemplou durante alguns segundos. A moça realmente parecia extenuada, mas não havia nada além de verdade nas suas palavras. Ele deixou um pequeno sorriso colorir seus lábios. Na própria opinião, era uma pessoa extraordinária. se lembrou das noites em que seu corpo não parava de doer de tanto treinar, quando se trancava no chuveiro às três horas da manhã e deixava as lágrimas escorrerem livremente, pensando se realmente conseguiria aguentar tudo aquilo. Mas ele tivera seus amigos do grupo para dar suporte a ele... Quantas vezes não o encontrara sentado no corredor do dormitório com hematomas nos tornozelos e oferecera todo o apoio e ajuda do mundo?
perdera a conta. Observando , sabia que ela tinha passado pelo mesmo. Ninguém alcançava um sonho sem esforço, dedicação e milhares de noites mal dormidas. Mas ele se questionava: quem a apoiara? Ela tivera um ombro amigo? Alguém que a ajudasse a se levantar quando estava cansada demais, machucada demais? Algo dentro dele o incomodava, dizendo constantemente que não, ela não tivera em quem se apoiar. Aquilo fez com que ele inconscientemente esticasse o braço até finalmente tocar a mão dela, acariciando-a cuidadosamente, como se fosse se desfazer com um toque mais forte.
Ela imediatamente voltou a cabeça para ele, franzindo as sobrancelhas. Era a primeira vez que ele a tocava tão diretamente daquela maneira. não sabia como reagir e não tinha ideia do que fazer com o sentimento quente e aconchegante que se criou em seu coração e dispersou por todo o corpo conforme o sangue bombeava por suas veias. Ela queria que ele não soltasse sua mão nunca mais.
- ...? – perguntou com a voz estupidamente falhada, o único resquício que tinha sobrado na própria garganta.
- Você sabe que pode contar comigo, não? – Ele perguntou, finalmente tirando os olhos dos seus dedos que se uniam para encontrar os olhos confusos da moça. – Aguentar essa vida que a gente tem e a cobrança não é fácil. Tenho a impressão de que você não teve muito em quem se apoiar pra se segurar em pé e quero ser essa pessoa. Quero que você venha me pedir ajuda quando precisar de força, ok? Você não precisa ficar sozinha.
- Não preciso me preocupar, por que você está aqui...? – Ela perguntou de volta, sem conseguir se policiar sobre o que estava falando. Normalmente, teria começado a rir e perguntaria de onde ele estava tirando tudo aquilo tão repentinamente. Mas havia algo no fato de ter feito questão de checar se ela tinha emagrecido, notado que ela estava cansada além do normal e a maneira como ele a olhava que a impediu de agir de maneira pensada.
- Exato. Porque eu estou aqui. – E deu um de seus lindos sorrisos que sempre fazia com que sorrisse de volta e ficasse com vontade de suspirar.

Just one kiss on my lips
(Só um beijo nos meus lábios)
Was all it took to seal the future
(Foi o suficiente para selar o meu futuro)
Just one look on your eyes
(Só um olhar nos seus olhos)
Was like a certain kind of torture
(Foi como um certo tipo de tortura)


Os olhos de imediatamente encontraram os de em choque. Nenhum dos dois esperava que a música que ela comentara começasse a tocar repentinamente daquela maneira enquanto suas mãos estavam unidas de uma maneira tão íntima. O que era aquela letra? Parecia que estava falando diretamente com eles, revelando todos os sentimentos mais secretos que ambos se esforçavam tanto para reprimir dentro de si mesmos.

Just one touch from your hands
(Só um toque das suas mãos)
Was all it took to make me falter
(Foi o suficiente para me fazer vacilar)


O toque dos dedos de somente ficou mais óbvio enquanto o coração de fazia questão de bater de uma maneira descompassada. Ela começava a se questionar se fora uma boa opção colocar aquela música para tocar, mas agora não tinha como voltar atrás.

Forbidden Love
(Amor proibido)
Are we supposed to be together?
(Nós devemos estar juntos?)
Forbidden Love
(Amor proibido)


Os lábios de se curvaram em um pequeno sorriso sem humor com a ironia daquela letra. Sentindo a música caminhando lentamente pelo próprio corpo, os dedos dele se fecharam com um pouco mais de força na mão de , puxando-a vagarosamente para o meio da sala.
Ela não questionou: largou os aparelhos de som e deixou que seus pés seguissem como se estivesse hipnotizada, completamente entregue ao caminho que a música a fazia seguir. A batida crescia aos poucos e sabia aonde isso os levaria.
Quando a primeira nota de baixo soou grave pela sala e reverberou pelo chão, os pés de começaram a se mover em seus movimentos perfeitamente executados. o seguiu, dançando a melodia da maneira fluida como o ballet, em que era tão boa, exigia.
No momento que se virou novamente para , os olhares deles se encontraram de uma maneira quase tóxica. Sabiam o que deveriam fazer, o que deveriam dançar. Os passos que já tinham montado anteriormente da coreografia começaram a se materializar com uma naturalidade que nem eles esperavam. se movia ao redor de , ele sempre perto dela, porém sem poder tocá-la.
E estava nítido na coreografia como os dois sofriam com aquele fato.

Forbidden Love
(Amor proibido)
We seal the destiny forever
(Nós selamos o destino para sempre)
Forbidden Love
(Amor proibido)


Nesse momento, algo tomou de uma maneira que ela não sabia o que era: a música, a letra, a maneira como os movimentos nadavam em meio à melodia... Ela parou em frente a e, ainda na dança, repousou uma das mãos na face dele, movendo-a vagarosamente em um passo delicado de dança.
O choque de sensações que sentiu foi maior do que qualquer palavra que ele pudesse dizer. Fechando os olhos, somente abriu levemente os lábios em um suspiro, enquanto aproveitava aquele pequeno momento em segredo que podia aproveitar o toque de de maneira irrestrita.
A expressão no rosto de quase a fez perder a respiração.
Abrindo os olhos com o sentimento de seu coração batendo na velocidade da luz espelhado no olhar, segurou a cintura de com força e a girou pelo ar em um passo de dança não muito gracioso – afinal, ele nunca tinha dançado daquela maneira com alguém – mas que tirou o ar dos pulmões dela por um segundo.
Tocando os pés novamente no chão, eles coordenaram passos que ensinara anteriormente a . segurou a mão dela no fim da sequência, fazendo-a girar enquanto a música realizava uma contagem regressiva.
5, 4, 3...
Era mais forte do que eles. A dança os levava para outro mundo, um lugar em que podiam estar juntos e exteriorizar todos os seus sentimentos. Estavam absortos e não queriam parar nunca mais.
2, 1.
Quando a contagem chegou ao final, finalmente parou de girar, parando a centímetros do rosto de .
Voltando novamente para a realidade enquanto a música acabava, ambos começaram a se distanciar vagarosamente, completamente sem ar. Aquilo fora mais um erro que cometeram desde aquele beijo – que nunca deveria ter acontecido.
Com as costas encontrando as paredes repletas de espelhos da sala de dança, e tinham somente uma questão nas suas mentes: por que algo tão errado tinha que ser tão bom?
- UAU, essa é a coreografia de vocês?!
E esse berro à porta da sala fez com que os dois quase morressem do coração.
Na verdade, quase teve um colapso e de fato caiu no chão, sem força alguma nas pernas, somente pensando em como tinha sido boba por se deixar levar pela música. Se alguém os visse dançando daquela maneira sem contexto, os dois estavam mortos.
- ! NÃO FAZ ISSO! – não pôde deixar de gritar com o amigo enquanto tinha a mão no coração e se apoiava no espelho.
- O que foi? A sala não é particular! – O amigo respondeu, já se adiantando rapidamente até . – , você tá bem?!
- E você tem a pachorra de me perguntar isso depois de quase me matar...? – Ela perguntou de volta levemente sem ar, ajoelhando-se no chão e respirando fundo de olhos fechados, enquanto somente ouvia uma breve risada de e os passos dos dois se aproximavam.
- Eu senti saudades de você! Quando soube que estava aqui, vim direto pra sala de dança, pois sabia que a primeira coisa que faria seria dançar com esse pastel. Daí não deu pra evitar assistir enquanto vocês dançam, é uma química e tanto! – Dizendo isso, se ajoelhou em frente à amiga enquanto ela somente lançava um olhar rápido para . Ele também tinha um olhar de “não podemos fazer isso de novo” e aquilo a deixou aliviada. – É bom te ver novamente!
Com isso, a amassou em um abraço de urso, fazendo-a perder o ar por alguns segundos, mas causando um sorriso logo em seguida. também sentira saudades.
- ! – E a cabeça alegre de surgiu na porta da sala. – Você está de volta!
- O que é isso agora? A casa da mãe Joana? – rolou os olhos enquanto o amigo corria até eles, fazendo com que começasse a rir.
- E quem é você? O namorado dela, por um mero acaso? – respondeu da mesma maneira incomodada, mal percebendo como congelou no lugar.
- , você emagreceu? – se separou dela e a observava de cima abaixo com um olhar preocupado. – É pouco tempo pra ter emagrecido tanto. E parece cansada também. Esse maluco tá te escravizando pra dançar com ele, é isso?!
- Eu não fiz nada...! – jogou os braços para cima, quase começando a andar em círculos. Qualquer coisa que dissesse poderia revelar aquele sentimento que ambos compartilhavam e tentavam de todas as maneiras tratar como se não fosse nada.
- Não, eu que senti saudades de dançar com ele. – deu uma pequena risada enquanto segurava a mão que estendia para a ajudar a se levantar. – Eu emagreci sim, mas foi só um pouco. E também senti saudades de você !
- Eu nem precisei dizer e você já respondeu, quanta eficiência! – Ele riu e prosseguiu com um abraço apertado. Teria durado mais se não tivesse se afastado dela com as sobrancelhas franzidas e uma expressão completamente incomodada. – Você emagreceu bastante sim.
- Temos que remediar isso, gente. – comentou seriamente enquanto só observava tudo com as mãos na cintura.
Ele só queria dançar com ela.
- Noite da pizza? – perguntou seriamente enquanto o encarava de volta da mesma maneira.
- Noite da pizza. Eu vou pegar nossos casacos. – confirmou e já começou o caminho até a porta.
- Eu vou ligar lá e peço pra já prepararem nosso pedido! – E saiu correndo para pegar o celular.
e somente ficaram encarando a porta da sala de dança durante alguns segundos em silêncio, agradecendo mentalmente que nenhum dos dois percebera nada de estranho entre eles.
Em seguida, trocaram olhares e começaram a rir.
- Teremos bastante tempo pra dançar depois. – comentou enquanto ia até a porta, recolhendo os tênis de no meio do caminho. Ela somente riu enquanto jogava a mala de dança sobre o ombro.
- Sempre teremos tempo para os nossos dance practices. – A moça concordou e, aproximando-se da porta, olhou novamente para . – Eu senti saudades.
- Também senti. – pegou os tênis das mãos de .
Os dedos dela passaram pela mão dele um pouco mais vagarosamente do que o gesto exigia. Ambos sentiram o coração acelerando, lembrando-se de como tocou o rosto de enquanto dançavam.
Distanciando-se, procurou um banco para colocar os tênis antes de ir à pizzaria com os amigos. apagou as luzes da sala de dança e fechou a porta, certificando-se de que esta permaneceria bem fechada.
Eles se arriscaram demais durante o dance practice. Aquela dança e aqueles sentimentos não poderiam sair de lá.

- Quer mais um pedaço, ? – ofereceu enquanto pedia mais uma rodada de cervejas. A moça imediatamente começou a rir.
- Gente, não é pra engordar tudo que eu perdi nesses últimos dias em um dia só! Não é saudável!
- Ok. Eu vou pedir mais uma... Moça! – literalmente ignorou as palavras da amiga e, enquanto pedia mais uma pizza, tinha um ataque de risos como não tinha há muito tempo.
- É a nossa terceira pizza, ! Vai com calma!
- Não é só a senhorita que tá com fome aqui! – comentou e estendeu a mão para ela. – Passa o prato, . O último pedaço dessa daqui é pra você, esses dois esfomeados podem esperar a próxima pizza.
- Eu posso esperar...
- . Deixa esses dois sofrerem um pouco por interromperem o nosso ensaio. – disse seriamente, fazendo tanto quanto lançarem olhares indignados para ele.
- Agora que você falou, eles merecem sofrer mesmo. – incorporou a seriedade do amigo, o que causou mais indignação nos outros dois. – Pode me servir?
- Já tô com tudo pronto, só falta seu prato! – E sorriu largamente para a moça.
Ela estendeu o prato para ele e, nesse momento, seus dedos se encontraram. Enquanto e começavam com uma quantidade absurda de reclamações, e somente trocaram olhares.
Ele não distanciou o prato para não ter que largar a mão de . Era um dos poucos momentos em que podia tocá-la daquela maneira, então aproveitaria ao máximo. Demorando um pouco mais do que o recomendado para colocar o pedaço de pizza no prato – uns dois segundos a mais – sorriu para ela.
Como agradecimento, acariciou a mão dele com o dedão, por um rápido segundo, sorrindo ao ver a expressão de choque no rosto dele.
- Vocês ao menos estão escutando a gente?! – estava no ápice da própria revolta.
- Não. – Ambos responderam ao mesmo tempo.
Isso fez com que caísse na gargalhada enquanto somente ficou encarando o horizonte com uma expressão de vazio.
Sorrindo orgulhosamente um para o outro, a única coisa que e pensavam é que tinham descoberto algo novo.
E aproveitariam aquilo da melhor maneira que pudessem.

- Aish, mulher! O que você fez no seu rosto? – perguntou com as mãos na cintura, enquanto os amigos atacavam garrafas de água após um dance practice do grupo todo. Tinham uma coreografia nova a aprender e lá estava , aprendendo tudo junto com eles para apresentar nos programas das próximas semanas e, eventualmente, em shows.
- O que eu fiz...? – Ela mesma perguntou, olhando-se no espelho. Tomou um susto ao ver uma marca do que parecia graxa na bochecha. – Nossa. Como isso veio parar aqui...?
- É exatamente isso que eu me pergunto. – riu e parou em frente a ela. – Vem cá.
Como sempre faziam como amigos, estendeu a mão para limpar o rosto dela com os dedos. Ninguém além deles notou como seus olhos carregavam algo mais significativo. O toque dele não durou mais que três segundos, mas foi o suficiente para acelerar o coração de e fazer com que ela desejasse por mais. Ele tentou aproveitar o máximo que pôde antes de literalmente começar a esfregar o rosto da moça.
- Cruz credo, isso aqui não sai! Você esfregou a cara no asfalto por um mero acaso?! – segurou o outro lado da cabeça de e, cobrindo a palma da mão com a manga do casaco, começou a esfregar com mais vontade.
E lá se foi todo o momento romântico que resolveram aproveitar secretamente.
- Também não é pra usar o seu casaco de pano de chão, seu bruto! – respondeu, o rosto já começando a ficar vermelho, porém ria com toda aquela situação. Não podia negar que era minimamente engraçado.
- Olha que cara mais sem noção...! – rolou os olhos enquanto se aproximava, batendo nas mãos do amigo e fazendo-o soltar de . – Isso é jeito de se tratar uma dama?! Tem que ir com cuidado!
- Tenta você então, já que é tão...!
Mas nem teve tempo de terminar a frase: molhou a manga do casaco com a água que tinha na garrafa e começou a esfregar o rosto de com todo o cuidado do mundo. Estava demorando, mas a mancha preta saía aos poucos.
- É, , eu não queria admitir, mas... O tem mais jeito mesmo. – Ela foi obrigada a constatar, enquanto somente abria um enorme sorriso de “está vendo, eu sei que sou um ser humano sensacional”.
- Porquinha que esfrega o rosto no asfalto. – praticamente sussurrou ao passar por trás deles, aproveitando a situação para provocá-la.
- Olha aqui, saiba que eu... – Mas parou de falar assim que viu o rosto de : lá estava ele com a mesma marca na bochecha. – Olha. Quem. Fala. Porquinho de panceta de churrasco.
- Quê?
nem teve tempo de reclamar: em poucos segundos já estava sendo atacado por e seu jeito bruto de limpar aquela graxa que não sabiam de onde tinha surgido.
- Ai...! Sai daqui! Eu quero o me limpando, não você! – tentou empurrar o amigo, porém não o deixou escapar.
- Agora que você tá aqui, não tem como escapar. E como dá pra perceber, o tá ocupado. Agora para de se mexer!
Nesse momento, deu uma breve risada, no que olhou para ela. Ambos sorriram um para o outro: o plano tinha dado certo e conseguiram se tocar de maneira diferente em público, sem que ninguém notasse algo de diferente naquela relação.
Dependendo de como fosse, aquilo podia até se tornar algo mais frequente.

- , sua camisa tá uma bagunça! Vem cá! – o chamou com as mãos no backstage de um programa no qual iriam se apresentar. – Você tem que estar sempre alinhado, deixa que eu arrumo pra você...
- Nossa, nem vi que estava tão ruim assim. – comentou, sentindo os dedos de se fechando na gola da camisa dele e começando a arrumá-la. Ele somente sorria toda vez que sentia os dedos dela esbarrando de maneira desnecessária na pele quente do seu pescoço. Ele arriscou olhadas rápidas para os lados, a fim de se certificar de que não havia ninguém por perto, e abaixou o tom de voz. – Pelo jeito, você gostou bastante de tocar o meu pescoço.
somente sorriu de volta, de maneira levemente provocativa, mas que, em seguida, tornou-se o sorriso de sempre. Ele mesmo se questionou o que o tinha levado a falar aquele tipo de frase inadequada para um momento tão exposto, porém quando viu as bochechas de queimando no início de um tom avermelhado, somente sorriu.
- Tanto quanto gosto de dançar com você. – arriscou uma rápida e discreta piscada antes de se afastar, fazendo sorrir de maneira admirada. Nunca imaginara que ela corresponderia de maneira tão explícita. Ainda mais depois que prometeram não se envolver.
Ainda mais depois que prometeram não se envolver.
não sabia o que fazer com o próprio coração. Talvez estivessem indo longe demais, mas era muito bom para pararem com aquilo. Eles realmente sentiam carinho um pelo outro, queriam ficar juntos – ele perdera a conta de quantas vezes sonhara com , sentira seus lábios tocando os dela novamente – mas nada era tão simples assim.
Ele fazia parte de um grupo, ela era uma dançarina de apoio. Naturalmente, ele não podia namorar e, quando o fizesse, precisaria de toda a ajuda do pessoal de marketing – e praticamente do mundo todo, para ser sincero – para que tanto a mídia quanto as pessoas aceitassem aquilo. Além disso, tinha uma carreira como dançarina e aquela notícia, dependendo de como fosse recebida, podia acabar com todos os contratos dela e grupos que a chamassem para duetos, MVs ou tours.
balançou a cabeça e focou novamente no palco onde se apresentariam. Tinha que esquecer aqueles sentimentos ilógicos e trancá-los dentro de uma caixinha – pelo bem de ambos.
- O que estamos fazendo...? – Murmurou para si mesmo e respirou fundo. Levantando a cabeça e olhando o outro lado do backstage, ele encontrou estalando o pescoço e aquecendo os braços, preparando-se para entrar.
sorriu e começou a imitar os movimentos dela. Quando notou que ele fazia isso, imediatamente começou a rir.
Apesar de sua mente lógica mandá-lo controlar os sentimentos, não conseguia impedir o coração de bater mais rápido quando via aquele sorriso – era apaixonado pelo sorriso dela.
Entretanto, não era só ele.
- Aaaah, ! Você é sensacional! – exclamou enquanto ele dava o sorriso mais brilhante da face da Terra.
Mas ela não tinha como evitar. Era de madrugada e lá estavam eles em outro dance practice eterno, que foi obviamente prolongado por ela, , e . Se dependesse daqueles quatro, jamais sairiam da sala de dança. No final de tudo isso, quando todo mundo já estava cansado e jogado no chão da sala, suado e dando risada dos erros que cometeram durante todo o ensaio, sumiu durante uma boa hora somente para voltar com quatro marmitas quentinhas de lámen.
- Ah, não sou não! É o mínimo que eu podia fazer depois de todo esse tempo dançando! – ainda estava com aquele sorriso enorme nos lábios, entregando o pacote de lámen de cada um, fazendo questão de tocar a mão de ao dar o dela.
- Mínimo! – Ela respondeu com uma risada ao fim da palavra, sorrindo ao sentir a mão dele. – Esses dois aqui nem se movimentaram! , você tem o coração mais lindo do universo, é um ser iluminado e possui o talento digno da estrela mais brilhante do céu. Se isso não é ser sensacional, eu não sei o que é!
Ele se sentou em frente à na rodinha em que estavam, somente rindo da maneira mais envergonhada que ela já vira, as bochechas queimando em vermelho.
- Aish, mulher, não fala assim... Eu não sou nada disso... – Ele murmurou de volta, enquanto ria, somente levando um empurrão de para parar e falar daquela maneira de si mesmo.
- E eu não sou sensacional? Por que você também não fala assim de mim? – reclamou com as sobrancelhas franzidas enquanto mastigava, somente sendo agredido pelos hashis de .
- Você não consegue nem fechar a boca enquanto come, lá se vai toda a sua iluminação! – A moça respondeu imediatamente, provocando risadas nos outros dois. – Você já tem meio mundo pra te lembrar que é maravilhoso, me deixa dar um pouco de carinho pro e para de ser ciumento.
- Eu não sou ciumento... – resmungou para si mesmo fazendo bico enquanto escolhia qual vegetal ia comer em seguida.
- Imagina... – respondeu com os olhos semicerrados para o ser em questão.
A discussão continuaria se um assistente não tivesse entrado na sala e chamado .
- Hmmm, tem um entregador lá na portaria, falando que trouxe as bebidas e os doces que você pediu.
- Ah, é verdade! – imediatamente largou as coisas no chão e se levantou. – Pode deixar que eu vou buscar. ! Já que você quer ser um ser humano sensacional também, vem me ajudar a pegar tudo!
- Mas eu tô comendo...
- E para de reclamar que nem uma criança de cinco anos! – já cortou enquanto o amigo resmungava, sabendo que se levantaria logo em seguida para não ser taxado de criança. – Voltamos logo!
- Você é mais que sensacional, ! – gritou enquanto eles deixavam a sala, entre as risadas envergonhadas de e os suspiros de .
A moça somente sorriu enquanto voltou a comer seu lámen. Porém, no meio do caminho, encontrou o olhar de – que a observava com um sorriso carinhoso no rosto enquanto comia.
Por um momento, sentiu o coração acelerar. Será que tinha percebido algo? Será que estavam sendo óbvios demais? Bom, antes ele perceber, do que qualquer outra pessoa. Sabia que o amigo não espalharia nada para a mídia e ia ajudá-los a manter tudo em silêncio – provavelmente aconselhando-os a parar os ensaios e ajudando-os a cancelar a dança do “amor proibido” que estavam coreografando com tanto afinco. Porém, teriam o suporte dele para nada dar errado e poderiam acabar de uma vez com todos aqueles sentimentos que se encontravam no limbo.
Por mais que aquilo a machucasse, aquela perspectiva também era um alívio.
- O que foi? – perguntou com uma sobrancelha erguida.
- O jeito que você fala com ele. – respondeu e a moça prendeu a respiração. Tinha certeza que ele percebera. – Obrigado, .
- Hã? – Mas agora estava confusa. – Por que você está me agradecendo?
- O é o tipo de pessoa que finge estar feliz o tempo todo. – começou a explicar, dando um jeito de enrolar o próprio lámen no hashi. – Ele nunca fala quando está chateado e é muito raro encontrá-lo chorando. Ele literalmente se esconde pra chorar, ou faz isso quando sabe que ninguém está por perto. O é uma pessoa como todos nós e as pessoas esquecem isso... Existem muitos comentários maldosos sobre ele e às vezes temos até que proibi-lo de ver algumas coisas, porque pode acabar com a autoestima de qualquer um. Mas ele sabe o que está acontecendo e, mesmo assim, se força a sorrir e amar todo mundo. Então é bom que alguém o lembre de que ele é uma pessoa ótima nesse mundo.
- É sério isso? Ele foge de todo mundo pra chorar? – franziu as sobrancelhas. – Sei que ele é humano, estou acostumada a lidar com esse lado nos ensaios. Aliás, gosto dele assim: como pessoa, não como ídolo famoso nas telas das TVs. Mas sei que ele tem essa mania de sempre colocar um sorriso no rosto...
- Ah, sim. Olha, em todo esse tempo que estamos juntos, eu só o vi chorando uma vez. – comentou com um pequeno sorriso no rosto. – Fiquei muito preocupado, mas consegui ver o quanto ele se esforça pra parecer tão bem e não preocupar ninguém. Então, de verdade, sempre que você puder, fale desse jeito com ele.
- Uma vez só...? – E estava pasma enquanto confirmava com a cabeça. – Eu sinceramente não sei como ficaria se encontrasse alguém com um coração tão maravilhoso como o dele chorando desconsoladamente.
- Pra ser bem sincero, nem eu soube muito bem o que fazer. – deu uma breve risada sem humor e suspirou antes de contar a história. Tinha certeza que podia confiar aquilo à .

O relógio marcava três e quarenta e quatro da manhã. tinha acabado de chegar ao dormitório e simplesmente não aguentava de dor nas pernas e no torso. Seu corpo todo estava dolorido e ele realmente não sabia como tinha feito para chegar lá inteiro depois de um dia todo somente ensaiando.
As últimas semanas foram difíceis para ele. Comentários e mais comentários se empilhavam, desmerecendo todo o trabalho de . Os outros membros do grupo até o proibiram de entrar nas redes sociais depois que ele encontrara um comentário de uma garota falando que era horrível e extremamente sem talento, questionando o porquê de ele ainda estar no grupo e ninguém se livrava dele de uma vez. Para ela, somente empacava os amigos e não trazia nenhuma contribuição ao grupo... E o pior: depois desse comentário, houve quase literalmente um dilúvio de muitos outros concordando plenamente com a garota e até o esculachando ainda mais.
E foi aí que ele fora proibido de acessar as redes.
O celular dele até fora confiscado pelo Diretor da Produtora. Todos os aplicativos de redes sociais foram bloqueados e até o navegador de internet dava problema na hora de abrir. somente tinha acesso às mensagens pessoais e ligações, mais nada.
Assim, sentindo-se completamente inútil, ele começou a treinar. E treinar. E treinar. Até se esquecer de comer corretamente e dormir o mínimo necessário por dia. não percebeu quando seu corpo começou a gritar para que ele parasse: simplesmente tomava remédio por cima de remédio para a dor passar e continuar treinando. Ele tinha talentos. Ele valia a pena. E ia provar para todo mundo.
Mas, naquela noite especificamente, as coisas estavam difíceis de aguentar. se esquecera de tomar seus remédios e todo o cansaço que estava sendo mascarado pelas pílulas caiu nele como o mundo caiu sobre os ombros de Atlas. Ele estava sem energia, sem motivação e querendo desistir de tudo – literalmente tudo.
Parou na cozinha do dormitório, para não acordar os amigos, e levantou as calças até os joelhos. Seus tornozelos e a parte interna das batatas das pernas tinham hematomas enormes, os pés vermelhos e doloridos. Começando a sentir os membros latejando de dor, se deixou escorregar pelo armário da cozinha até se sentar no chão e começar a chorar.
A primeira lágrima que escorreu por seu rosto era tímida e quente, como se estivesse testando o caminho para as outras. Mas assim que esta pingou do queixo até a blusa, outras surgiram desenfreadamente e logo percebeu que não conseguia mais parar de chorar.
Apesar de tudo, ele permaneceu em silêncio. Não tinha o direito de acordar seus amigos, não quando ele era o culpado por todo aquele incômodo.
- ...? – A voz de ecoou pelo silêncio da madrugada, à porta da cozinha. viu o amigo de pijamas, esfregando os olhos e com a cara inchada de sono. Ao vê-lo chorando no chão da cozinha, os olhos de se arregalaram e ele imediatamente saiu correndo na direção de . – ! Tá tudo bem? O que aconteceu...? Meu Deus! Suas pernas!
- Não aconteceu nada, desculpa... – respondeu entre as lágrimas, a voz embargada e os soluços típicos de quem tentava se controlar de uma crise de choro repentina. estava ajoelhado ao lado do amigo, observando os hematomas, em choque. – Desculpa, ...
- Desculpa pelo quê? E como assim não aconteceu nada?! – não conseguia se conformar. Passou os dedos pelas pernas do amigo, mas tudo que conseguia fazer era continuar a pedir desculpas enquanto tentava controlar aquelas lágrimas inconvenientes. – A gente precisa cuidar disso aqui!
Falando isso, pegou vários gelos no freezer, embrulhou-os em um pano de prato e se sentou próximo aos pés de , encostando a bolsa de gelo improvisada em um dos tornozelos do amigo, que somente suspirou.
- Desculpa, ... De verdade... – finalmente falou depois de um tempo aproveitando o alívio proporcionado pelo gelo.
- Pelo quê? Você tá alucinando também? Será que tá com febre...? – se inclinou para frente e plantou a mão na testa de , encontrando-o quente, porém dentro do normal. Ajustou-se novamente em seu lugar, com as sobrancelhas franzidas.
- Por tudo que eu faço. Por empacar vocês. Por te acordar de madrugada pra cuidar de mim. Por ser um estorvo. – suspirou ao fim da frase e as lágrimas começaram a correr novamente por suas bochechas rosa choque. – Acho que o melhor mesmo é deixar o grupo e tentar algo como dançarino de apoio. Assim vocês não precisam...
- Cala a boca! – disse imediatamente, parecendo bravo. olhou para ele com um par de olhos assustados e vulneráveis. O coração de se apertou ao ver o amigo tão desolado. – Não fala uma asneira dessas! Nunca mais! É você quem nos ensina as coreografias, quem nos coordena antes de entrar no palco, quem cuida de nós durante as viagens. É você quem tira nossas dúvidas, ajuda nosso coreógrafo, aprende diversas línguas pra se comunicar com nossos fãs e produz músicas maravilhosas que eu nem chego perto de conseguir fazer. Você não pode sair do grupo, -ssi. A gente precisa de você. De verdade. Se aquelas meninas estão falando um monte de besteira sobre você, o problema é que elas são cegas o suficiente para não te enxergar.
- Isso não indica que eu não precise melhorar, ...
- E também não indica que você precisa se matar por causa disso! Você já é muito bom e vai ficar cada vez melhor! Mas não quero perder meu amigo por causa de uma coisa tão besta, por favor, ! – Os olhos de imploravam por bom senso do amigo. conseguira se controlar para parar de chorar, mas ainda era possível ver lágrimas latentes em seus olhos. – Vamos. Você precisa tomar um banho e descansar. Não pode ficar assim. Vem que eu te ajudo.
Falando isso, ajudou a se levantar do chão. Logo que se colocaram em pé, notou que tinha a cabeça baixa e as lágrimas começaram novamente a cair dos olhos dele como pequenos cristais atingindo a cerâmica da cozinha. não pensou duas vezes e abraçou fortemente o amigo. escondeu o rosto no ombro de e retornou a força do abraço, voltando a chorar da mesma maneira que antes, ainda silenciosamente.
- Conta comigo. Eu sempre vou te ajudar. Você é meu amigo e eu sempre estarei aqui por você, ok? – perguntou, já tendo que controlar as lágrimas que insistiam em começar a surgir, fazendo sua voz tremer no fundo da garganta.
- Ok. Obrigado, . – respondeu com o que lhe restou da própria voz e tentou se acalmar.
Não que estivesse magicamente bem... Mas as palavras de fizeram com que, no mínimo, as pernas de parassem de latejar.

riu ao ver a expressão impagável de choque no rosto de . Os olhos da moça estavam tão grandes e vulneráveis como os de naquela noite – e até parecia que ela estava prestes a chorar.
- Teve gente estúpida o suficiente pra falar que ele não tem talento...? – As sobrancelhas de se franziram, a voz não mais alta que um murmúrio.
- Existe louco pra tudo nesse mundo, ... Por isso eu digo! Quanto mais você conseguir enfiar na cabeça daquele sem noção que ele é tudo isso, melhor! – sorriu, tentando deixá-la menos desconsolada.
- Trouxemos os doces e as bebidas! – surgiu na sala com um sorriso enorme no rosto, ao lado de que carregava, assim como o amigo, várias sacolas.
- Como não sabia o que cada um queria, escolhi quatro doces diferentes, daí podemos dividir! – Ele comentou com um sorriso um pouco mais comedido nos lábios, mas infinitamente gentil.
imediatamente deixou as coisas no chão e se levantou, caminhando rapidamente até . Quando o alcançou, fechou os braços em volta do torso do amigo e apoiou a cabeça no peito dele.
Todo mundo, inclusive , só ficou encarando. , ao contrário dos amigos, continha a pequena risada que cismava em surgir no fundo da garganta.
- Ei, ... Tá tudo bem? – perguntou com a voz calma enquanto entregava as sacolas para que, na preocupação com , resolveu pegar todas de uma vez para liberar os braços do amigo.
- Tá sim. Eu só quero que você saiba que é uma das pessoas mais maravilhosas que já conheci. Não falo tudo por exagero, falo porque realmente acredito. – E deu um pequeno sorriso, ainda de olhos fechados enquanto somente escutava o coração dele acelerar. – Obrigada por ser quem você é, .
certamente não estava esperando por aquilo, mas foi uma surpresa bem vinda. Poder sentir os braços de em volta do torso dele e ouvir aquelas frases dos lábios da moça era quase como um sonho.
E o melhor de tudo: eles não estavam precisando se esconder.
- Obrigado por ser uma estrelinha nas nossas vidas, . – sorriu, retribuindo o abraço. Não da maneira que queria, mas como podia na frente dos amigos.
Ele queria que aquele momento congelasse e o tempo não voltasse a fluir nunca mais.

Capítulo 4

Segundo Movimento – Ballet (Parte 2)

Uma das coisas que mais gostava de fazer era observar ensaiando quando ele não percebia que ela estava lá.
Após um dia particularmente cansativo de ensaios e correria, fez o que sempre fazia: jogou a mochila de dança nos ombros e foi até a sala em que ensaiaria com .
Desde que começaram a coreografar o tal amor proibido, ela tinha todo o tempo do mundo para ensaiar com ele sem reclamações – até conseguia terminar os próprios ensaios mais cedo, assim como ele, para dançarem juntos. Como havia virado trabalho, a previsão era de ficar cada vez mais frequente. Logo estariam se encontrando às três da tarde para coreografar e ensaiar até as nove da noite.
Ela não reclamava. Muito pelo contrário, estava extremamente feliz com aquilo.
O que não gostava, porém, era do tanto de burburinho que aquilo havia gerado. Já comentavam de passos e músicas que os dois nem tinham cogitado; nos corredores foram criadas as mais diversas teorias acerca da dança – uma delas sendo que ambos estavam secretamente apaixonados.
A primeira vez que ouvira aquilo, engasgara com a água que bebia e quase entrara em pânico – mas conseguira disfarçar tudo muito bem. Por sorte, muitas pessoas da equipe – principalmente os responsáveis pelo marketing do grupo de – desmentiram aquele fato, negando veementemente que qualquer um dos dois estivesse apaixonado.
Afinal, aquilo era algo que eles não poderiam estar e, se estivessem, teriam que pedir diversas autorizações para muitas pessoas para poderem ao menos fazer uma coreografia mais... Intensa.
Ouvindo a música já tocando na sala, sorriu ao também ouvir os tênis de batendo e deslizando pelo chão. Como a porta estava aberta, a moça silenciosamente entrou na sala e, percebendo que ele estava muito concentrado nos próprios passos, sentou-se em um cantinho discreto, no chão, enquanto o observava.
Tinha dias que ficava completamente diferente quando dançava. tinha a teoria de que ele deixava transparecer um lado da personalidade que normalmente escondia – e ela tinha o privilégio de ver.
Com a testa pingando suor e o mesmo escorrendo pelo pescoço, o olhar de brilhava com um tipo de fagulha diferente. Era feito de um fogo crepitante que faria com que qualquer um que o tocasse entrasse em combustão. Às vezes ele mordia os lábios, fechava os olhos, jogava a cabeça para trás. A expressão no rosto era sempre intensa, os movimentos fortes e precisos. Ele não errava um passo, não executava nada com imperfeição. A energia que emanava de era completamente diferente, quase magnética, fazendo com que ela sentisse vontade de se levantar e dançar com ele na mesma intensidade.
Porém tinha plena noção de que, se o fizesse, ela acabaria de costas para ele, com a segurando pela cintura próxima ao próprio corpo, grudando os quadris nos dela, ambos se encarando com a mesma intensidade pelos reflexos no espelho – o calor, o suor e a música certamente tóxicos.
Balançando a cabeça, acordou dos próprios pensamentos. Aquele cenário era algo que ela certamente deveria evitar. Eles eram só amigos. Tinham que ser.
Abraçando as próprias pernas e apoiando a cabeça nos joelhos, continuou observando . Podia passar o dia todo somente apreciando os movimentos dele, nunca se cansaria de vê-lo dançando. tinha um estilo que era simplesmente apaixonada, os passos executados de maneira perfeita, o tempo e a batida moldando os movimentos.
O principal, porém, não era a perfeição. O que fazia com que fosse perfeito no vocabulário de era a paixão que ele tinha por dança. nascera para aquilo e era óbvio que estava no meio que dominava quando a música começava a tocar para que ele dançasse. O momento que mais gostava de observar quando ele ensaiava sozinho, era quando colocava a música, parava no meio da sala e fechava os olhos.
Esse era o momento. Em que ele sentia a melodia envolvendo-o, a batida dentro do próprio peito. Quando falava com a música, entendia o que ela queria e o que significava, soltando o próprio corpo para fazer com que os movimentos tornassem algo impalpável em realidade. Por meio da dança, conseguia expressar tudo que sentia quando ouvia música.
sorriu quando ele fechou os olhos enquanto dançava. Era algo lindo de se ver, algo que ela nunca se cansava. Tinha muito que aprender com ele. Ela era boa de expressar os sentimentos somente por meio de música – porém quando tocava ou cantava, algo que desconhecia completamente e, se dependesse de , ele continuaria na ignorância. Também conseguia se expressar por meio da dança, mas era diferente com . O jeito dele era diferente.
Os dedos de se embrenharam no próprio cabelo, jogando-o para trás e espalhando o suor pelas mechas. Mordendo os lábios, ele passou a fazer movimentos fortes e precisos de popping, fazendo-a sorrir mais ainda. se soltou no próprio Freestyle, novamente fechando os olhos e começando movimentos exagerados, grandes como a música que escutava. Deslizando os pés pela sala, girou nos próprios calcanhares – um giro típico de Michael Jackson, como sempre dizia – e somente parou quando abriu os olhos e deu de cara com ela.
- ! Há quanto tempo você tá aqui?! – imediatamente parou de dançar e abriu um dos sorrisos mais sinceros que dera. Quando estendeu os braços para ela, esqueceu com quem estava falando e imediatamente se levantou para correr para um abraço.
- O suficiente pra te ver dançando da maneira mais linda...! – Ela sorriu e fechou os próprios braços em volta do torso molhado de . Ele a abraçou com força, quase beijando o topo da cabeça de por impulso. Mas conseguiu se controlar.
- Depois você reclama que eu fico te observando dançando.
- Olha aqui, te observar é uma arte! – já começara a se defender após se separar do abraço, pronta para lançar todos os argumentos possíveis.
Entretanto, imediatamente corou e começou a rir como nunca – claramente envergonhado com o comentário dela.
somente sorriu de volta. O que ela faria com ele? Cada vez que tentava se negar e evitar os sentimentos que cismavam em surgir no próprio coração, fazia com que ela somente se apaixonasse mais.
- Exagerada. – Ele comentou de maneira um tanto seca, apesar do grande sorriso no rosto. – Você chegou a coreografar algo novo?
- Não... Ainda estou empacada naqueles oitos logo após os primeiros que coreografamos... – imediatamente suspirou, colocando as mãos na cintura. – Eu tô em uma fase de bloqueio criativo. Sei lá por quê.
- Bom, não sei o motivo, mas podemos resolver isso dançando! – piscou para ela, trocando a música que tocava. – Só espero que não por algo ruim.
- Ficamos sem nos ver a semana passada toda, não? Acho que foi isso. – Ela permanecia pensativa enquanto se alongava.
somente a observava, notando que não prestava muita atenção nele. Ela tinha acabado de admitir que sentira saudades dele durante a semana que se passara. finalmente confirmara que não fora o único a sofrer com a troca somente de mensagens. Descansando as mãos na própria cintura, suspirou. Não sabia mais o que fazer para não se apaixonar cada vez mais por .
- Estamos juntos agora, então podemos matar as saudades. – Ele resolveu responder, pensando em como mataria as saudades dela se fossem namorados.
imediatamente olhou para a parede mais próxima e decidiu que o melhor a fazer era tomar vários goles de água gelada. Aqueles pensamentos não iam levar em nada e podiam causar algo ainda pior.
- O que você acha de dançarmos um pouco de Freestyle antes de voltarmos à coreografia? – sorriu e achou que ia abraçá-la ali mesmo. E nunca mais soltar.
- É a melhor coisa que podemos fazer! Vou achar uma música boa pra krumping...!
- !
Ele imediatamente começou a rir ao ouvi-la reclamando. Sabia a dificuldade que tinha com aquele estilo e, sinceramente, só a perturbava daquela maneira, pois achava lindo o jeito como ela reclamava e as bochechas ficavam ligeiramente vermelhas. Quando estavam ensaiando há muito tempo, entretanto, ficava parecendo um pequeno tomate cereja.
Começaram devagar para que aquecesse os músculos e não se machucasse. fazia algumas combinações que tinha ensinado para ela durante os dance practices que faziam antes das coreografias. Ela se lembrava de tudo perfeitamente e não podiam negar que tinham uma química que fazia com que as danças fluíssem mais fáceis.
complementava em todos os aspectos em que ele era mais fraco e vice versa. Ao vê-los dançando, nada faltava – afinal, o que um não fazia o outro conseguia. Aos poucos, foi se soltando no próprio estilo, enquanto começava a voltar-se para o dele.
Os passos de sempre eram mais suaves, mesmo quando dançava popping – além de que ele sempre notara que ela tinha uma paixão por gliding. , por outro lado, tinha movimentos mais secos, marcados e fortes, sempre puxando para popping e locking. E, apesar de tudo, sempre conseguiam adaptar-se para que ficasse harmônico quando estavam juntos.
- Ah, essa música é ótima...! – imediatamente sorriu ao ouvir os primeiros acordes de For a Better Day.
Mudando completamente, a moça começou alguns passos típicos de ballet – que só funcionavam propriamente quando ela estava com o par de sapatilhas nos pés. parou por alguns segundos a fim de admirá-la – afinal, aquele era um estilo no qual ele nunca se aventurava. A maneira como executava os passos fazia até com que parecesse que ela não fazia o menor esforço.
Com um pequeno sorriso satisfeito, voltou a dançar, aproximando-se de . Notando que ele queria dançar com ela, se virou para ele e, quando a música parou, ambos tomaram fôlego para a sequência de passos que viria a seguir.

For a better Day

Tanto quanto não desgrudaram os olhos um do outro quando as pernas começaram a seguir o ritmo do piano. Segurando a mão de , a girou, fazendo com que ambos parassem de frente para o espelho. Começando uma série de passos já conhecidos, os executou no próprio estilo marcado enquanto optou para seu estilo fluido.

Wish you could find that Love is a fragile thing
Magic calm from a pretty thing
Maybe it might be time
For a better day

Os dois dançavam em completa sintonia. Absorvidos na música e na dança do outro, conseguia se soltar enquanto a seguia em seu próprio jeito de dançar. Logo, o que ela temia que acontecesse tornou-se realidade: e se esqueceram completamente do que significava “espaço pessoal”, já não se importando se estavam muito próximos ou não.
Seguindo o ritmo do piano, os quadris de começaram a se mover de uma maneira que nunca vira antes. Quando ela ergueu os olhos para ele, encontrou-o sorrindo com nada mais além de desejo nos lábios. congelou por alguns segundos, questionando-se sobre qual seria a reação dela ao vê-lo encarando-a de maneira tão descarada.
Porém somente mordeu o lábio inferior e se aproximou de , também sorrindo.
Jogando toda a lógica e o bom senso para o alto, deixou-se levar pela música. Colocando as mãos na cintura de , puxou-a na direção do próprio corpo, deixando quase nenhum espaço entre ambos. Conseguiam sentir o calor certamente radioativo que emanava de seus corpos – sensação que somente aumentou quando repousou uma das mãos no peito de .

And we sang our song for the little thing
Magic calm, but the joy you bring
Running it down the line

fechou os olhos ainda nos braços de e se deixou levar pela música. Tomando a liderança da dança, a guiou pela sala, seguindo os movimentos com a leveza e graciosidade que só ela poderia ter. Ele jamais abandonou a própria energia e ela não abriu mão da força que sempre tinha ao dançar. Apesar dos estilos opostos, como sempre, ambos eram complementares, dançando de maneira homogênea e, para qualquer um que assistisse, simplesmente perfeita.

Maybe it might be time

Com a pausa da música, e finalmente pararam de frente um para o outro, olhando-se nos olhos. Havia pouca distância entre seus lábios – conseguiam sentir nitidamente a respiração quente do outro contra a própria pele. As respirações estavam aceleradas, as almas precisando muito mais do que aquela dança.

For a better day

As mãos de encontraram as laterais do rosto de , grudando os lábios nos dela em um impulso que ia muito além do que qualquer auto controle que eles pudessem ter.
Os braços da moça imediatamente se fecharam em torno do torso de , puxando-o na própria direção até que seus corpos se grudassem. Aquele beijo era muito diferente do primeiro beijo que deram – era um beijo carregado de saudades, tensão e desejo. Finalmente estavam concretizando o que lhes roubara diversas noites de sono, finalmente resolveram dar vazão aos sentimentos enterrados com tanto esforço nos próprios corações.
Separando-se por alguns segundos, queria ver a expressão de para checar se estavam na mesma página, com os mesmos desejos - encontrando-a com os lábios avermelhados e inchados por conta do beijo, o que o deu certeza de que tinham as mesmas intenções foi o olhar que ela o lançava.
Subindo as mãos pelo pescoço de , voltou a beijá-lo, ficando na ponta dos pés para alcançá-lo mais facilmente. Não demorando em reagir, ele segurou os quadris dela, começando a enlaçá-la com os braços logo em seguida.
sabia o que aquilo significava. Segurando-se com mais força, tomou impulso e imediatamente foi segurada por , que não demorou em ajeitar as pernas dela em volta da própria cintura para que a moça não caísse.
Ele mordeu levemente os lábios dela ao sentir as coxas de contra os quadris pela primeira vez. Ficando cada vez mais sem ar e recusando-se a se separar dos lábios dela, cambaleou até o espelho mais próximo, apoiando-a contra este enquanto os dedos dela se embrenhavam com força pelos cabelos dele.
Segurando-a com mais força pela a cintura, os dedos de começaram a se aventurar pela bainha da blusa de . Ela desceu as mãos pelo peito dele, claramente desejando arrancar aquela blusa que julgava inconveniente.
Estavam tão absortos um no outro que nem perceberam a porta da sala de dança se abrindo e o olhar chocado de ao se deparar com aquela cena.
Quando ouvira a música, sabia que e estariam ensaiando a tal da “dança do amor proibido”, como ele gostava de chamar. Queria aproveitar para dançar um pouco com os dois e vê-los ensaiando – afinal, adorava vê-los dançando juntos – então resolvera entrar na sala silenciosamente e apreciar o ensaio.
Porém, encontrou-os se beijando contra o espelho, as mãos de quase entrando na blusa de , de maneira urgente e como se aquele fosse o último dia que teriam na terra.
nem sabia como reagir. Ficou por alguns segundos observando-os, boquiaberto. Estava congelado na porta. Saía correndo? Continuava lá? Fingia que nada tinha acontecido? Gritava? As opções eram muitas e, sinceramente, ele achava que ia gritar qualquer coisa se tentasse falar a palavra mais simples que fosse.
- Eu te amo, . – murmurou entre os lábios dela.
- Eu também te amo, . – respondeu de maneira trêmula, completamente sem ar.
Nesse momento, e finalmente deixaram de se beijar.
Observando-se completamente em choque, a música chegara ao fim, trazendo-os de volta à vida real.
- O que estamos fazendo? – Perguntaram juntos, enquanto se soltava de e ele a colocava cuidadosamente no chão.
fechou um pouco a porta e continuou observando, tentando processar o que tinha acabado de presenciar. Eles realmente estavam apaixonados? A história do amor proibido que ele inventara era real?
- , a gente não pode...
- Ficar juntos. Eu sei. – passou as mãos pelos cabelos encharcados de suor, pensando no que tinham acabado de fazer.
- Acho melhor... – E parou de falar, engolindo em seco. Os olhos de a observavam com expectativa. – A gente dar um tempo na coreografia.
O silêncio que tomou a sala foi sepulcral. Como nunca notara que eles estavam apaixonados de verdade?! Dar um tempo naquela coreografia seria a pior coisa do mundo e acabaria com e . Eles não conseguiriam ficar tanto tempo distantes um do outro, sabia daquilo.
- É melhor. – Mas concordou, a decisão transparecendo na própria voz. – Não podemos mais nos tocar dessa maneira.
concordou lentamente com a cabeça, controlando as lágrimas que teimavam em surgir nos próprios olhos. estava cada vez mais boquiaberto, sentindo o coração afundar no próprio peito. Se pudesse fazer algo para ajudá-los, faria sem pensar duas vezes.
- Nunca mais. – replicou, tão decidida quando .
E assim, a música morreu voluntariamente na sala de dança pela primeira vez em um ensaio de e .
abandonou a porta da sala e voltou para casa o mais rápido possível. Tinha plena consciência que tinha acabado de presenciar algo que não era para ser visto por ninguém – e prometeu a si mesmo guardar o segredo dos melhores amigos a sete chaves.

- Oi, .
- .
Eles se cruzaram pelos corredores do estúdio pela terceira vez naquela semana, cumprimentando-se de maneira educada, com sorrisos rápidos e sem ao menos parar para um abraço ou uma conversa um pouco mais longa.
e não podiam mais arriscar ficar no mesmo recinto – muito menos se tocar em um aperto de mão que fosse. Se sentissem o toque aveludado da pele do outro, eram capazes de jogar tudo para o alto e trocar beijos urgentes e apaixonados, algo terminantemente proibido.
Como tudo ainda estava muito recente, passaram aquela semana sem ao menos trocar olhares. Evitavam ao máximo os ambientes em que podiam se encontrar ou passar tempo juntos. A sala de dança, pela primeira vez em anos, ficou fechada durante as madrugadas, sem uma música sequer ou o som de pés dançando incansavelmente.
Quando trocaram aquele cumprimento cordial e frio pela terceira vez, os olhos de se arregalaram de maneira incrédula, enquanto o coração de parecia afundar no peito com certa falta de ar.
- O que houve com vocês?! – finalmente resolveu perguntar a , dando um pequeno empurrão no amigo.
- Hã...? – E franziu as sobrancelhas. Até aquele momento, achava que estava lidando com as coisas muito bem.
- Vocês nunca foram tão distantes dessa maneira! – estava exasperado, enquanto somente observava com as mãos nos bolsos da calça. – Se você tivesse gritado e saído correndo atrás da para um abraço, eu teria entendido melhor do que esse “”. O que houve com vocês?!
- Com nós...? – E parecia repentinamente desconcertado, demorando alguns segundos para se recompor. – Nada, não aconteceu nada... Ela está muito ocupada com os outros projetos e eu com as nossas coreografias novas. Não posso largar tudo e a tem vários outros ensaios para participar. Precisávamos dar um tempo nos ensaios pra não morrermos de tanto dançar.
abaixou a cabeça, sentindo um nó surgindo na base da garganta. Ele sabia o motivo daquele afastamento entre os dois. Lembrava-se nitidamente da maneira como e se beijaram naquele ensaio, bem como disseram ao outro que estavam apaixonados.
Vê-los se evitando daquela maneira acabava com ele. queria poder fazer algo pelos amigos que tanto amava.
- Mas já, de novo? A mal teve tempo para descansar do outro projeto! – E estava indignado em sua ignorância. – Ela vai ficar doente desse jeito! A é do tipo de mulher que se dedica de uma maneira que a faz se negligenciar, contanto que os projetos saiam perfeitos. Precisamos ficar de olho nela, não dar todo esse espaço que você dá, ignorando-a completamente! , o que você acha...?
Mas, quando e olharam para trás, estava observando as janelas do estúdio, agindo despreocupadamente.
- Ei, ! – chamou e ele imediatamente se virou para o amigo, fingindo surpresa. – O que você acha?
- Sobre o quê...? – A expressão perdida de não podia ser mais perfeita. – Desculpe, estava observando como o dia está bonito lá fora. O que eu acho sobre o quê...?
somente rolou os olhos, controlando-se para também não jogar os braços para cima.
- Vocês dois são terríveis...! – E disparou na frente deles, desistindo daqueles dois seres humanos.
Em silêncio, e continuaram caminhando, um ao lado do outro.
e teriam o silêncio de . Afinal, aquilo era o melhor que ele podia fazer pelos amigos.

Em um dos dias daquela semana que decidira se distanciar de , ouviu uma música pesada vindo de uma das salas de dança – a sala deles, que ficara tanto tempo trancada e sem uso.
Já eram dez horas da noite e todos já tinham ido embora. , naturalmente, pegara suas coisas para ir até uma sala e treinar mais – tinha alguns passos para refinar. Porém, ao se aproximar da tal sala, ouviu a música tocando e o barulho de pés contra o piso de madeira.
Uma música com batida marcada e guitarra definida – só podia ser . Observando pela porta entreaberta, identificou Break it to Me do Muse ressoando pelas paredes – música que ela dissera antes que daria uma boa coreografia. sempre a pedira para mostrar alguma improvisação ou algo do gênero com aquela música, mas sempre ria e desconversava.
O intuito dele era somente observar rapidamente e ir embora. Estava com saudades de e só queria vê-la dançando mais uma vez depois de tanto tempo evitando-a de maneira tão rude.
Mas quando viu a figura dela se movendo no centro da sala, não conseguiu desgrudar os olhos.
estava somente com uma bermuda de lycra preta colada ao corpo e um top de ginástica da mesma cor, as sapatilhas nos pés e os cabelos soltos, cascateando pelo corpo de maneira indomável. Ela os usava como parte da coreografia, ora correndo os dedos por estes para tirá-los do rosto, ora jogando-os para um lado ou para o outro. O suor escorria por todo o corpo dela, a sala com uma atmosfera positivamente tóxica.
Mas os passos da dança foram os elementos que chamaram mais a atenção dele. nunca a vira dançando daquela maneira. movia o corpo de maneira certeira, em passos marcados e, ele tinha que admitir: sexys. Olhando de maneira intimidadora para o próprio reflexo no espelho, continuava a dança com a plena consciência de que só havia ela naquela sala e, portanto, podia fazer qualquer coisa.
Quando ela se ajoelhou no chão, ainda com aquele mesmo olhar para o espelho, e, em seguida, jogou a cabeça para trás, fazendo um cambré que quase fez com que o topo da cabeça dela encostasse o chão, franziu as sobrancelhas e olhou para baixo, tendo que se controlar.
Fechando os olhos, ele já podia se imaginar entrando na dança com . O próximo passo era “controlar” a dança dela: colocar-se ao lado de , a mão espalmada a centímetros do peito dela, subindo e descendo para que fizesse o mesmo com o corpo, como se ele estivesse puxando-a por fios invisíveis.
Nesse momento olharia para ele, segurando a mão de para que a puxasse com força para cima. Eles entrelaçariam os braços até que ele estivesse atrás de , ainda segurando a mão dela e com o braço enlaçando a cintura da moça. Em seguida, seguiriam por movimentos de locking complementares – sempre atrás de , os corpos de ambos grudados e movendo-se em perfeita sincronia.
Quando abriu os olhos novamente, notou que mordia os próprios lábios e tinha as mãos cerradas em punhos. Olhando novamente para , encontrou-a dançando de olhos fechados e também mordendo os próprios lábios, fazendo movimentos muito semelhantes aos que ele tinha imaginado.
Será que ela estava se imaginando com ele...?
Aquilo imediatamente acendeu uma luz vermelha na cabeça de .
Ele deixou a sala como um furacão, a fim de voltar para casa e tomar um banho que o congelasse. O próprio ensaio que planejara para aquela noite estava cancelado.

: Eu sinto sua falta [1:27a.m]

O celular de vibrou com a mensagem enquanto ele encarava o teto do quarto, completamente no escuro, somente ouvindo o barulho de roncando levemente.
Precisava se lembrar de mandar o amigo fazer algum tipo de terapia para aquilo. Ou pedir para trocar de quarto e ficar no mesmo que – por mais que gostasse de ter como colega de quarto.
A vibração do celular, porém, chamou sua atenção. pegou o telefone e abriu a mensagem, colocando o brilho da tela no mínimo para não acordar .
: Eu sinto sua falta [1:27a.m]
O coração de desmoronou no próprio peito. Se ele pudesse, sairia da cama naquele exato instante, correria até o apartamento de e a beijaria assim que ela surgisse à porta, aproveitando cada instante do beijo.
Mas ele não podia.
Fechando os olhos, contou vagarosamente até dez, tentando ignorar as imagens de dançando naquela noite conforme contava. Quando chegou ao dez, contou mais seis números só para que a memória dela conseguisse terminar dois oitos dançando.
: , eu tô com tantas saudades [1:34a.m]
: Tô quase morrendo sem poder falar com você ou mandar mensagens [1:34a.m]
Ele esperava que ela não respondesse, mas precisava ser sincero. Aquelas semanas estavam sendo pura tortura para ele. Tudo que queria era, ao menos, dançar com novamente.
Por isso, o coração dele quase saltou pela boca quando o celular vibrou novamente.
: , , , você respondeu [1:38a.m]
: Eu também estou, quase morrendo [1:38a.m]
: Treinar não tem tanta graça quando estou sozinha [1:39a.m]
: A sua dança de hoje tava maravilhosa [1:40a.m]
: Eu nunca te vi dançando daquela maneira [1:40a.m]
congelou com o celular em mãos, completamente mortificada com a perspectiva de que havia assistido aquele ensaio dela.
Lembrando-se de cada movimento que tinha feito, cada mordida nos lábios, cada levantada de blusa, a maneira como arrancou o pedaço de tecido e jogou no canto da sala, dançando somente de top... queria se enfiar embaixo da cama e não sair de lá.
: Pelo amor, [1:42a.m]
: Finge que você nunca viu aquilo [1:42a.m]
: Eu tava descompensada [1:42a.m]
: Descompensada por quê? Alguma coisa que eu possa ajudar? [1:42a.m]
: E não vou esquecer nunca, você tava maravilhosa [1:42a.m]
corou mais ainda, escondendo o rosto no travesseiro enquanto continha o riso como uma garota do colegial que era elogiada pelo cara que estava a fim. Enquanto isso, na própria cama, sorria, imaginando o quanto as bochechas dela estariam coradas. Ele tinha vontade de mordê-las, como duas maçãs vermelhas.
: Descompensada porque estou em crise de abstinência de você e dos nossos ensaios [1:44a.m]
: Então, nada que possamos fazer a respeito aí [1:44a.m]
: Sabe, conversar com você por mensagens já ajuda [1:44a.m]
: Um pouco [1:45a.m]
: Não estou dizendo que é a melhor opção [1:45a.m]
: Mas pelo menos não ficamos tão distantes [1:45a.m]
Tanto quanto sabiam que qualquer tipo de contato era letal para eles. Dançando ou não, conversando fisicamente ou não, tocando-se ou não... O simples fato de trocarem ideias com o outro já os fazia rolar ladeira abaixo.
Simplesmente porque somente iam se apaixonar cada vez mais.
Não precisavam se tocar para que aquilo acontecesse. Não precisavam se beijar. Conversar era o que mais contava para os dois e o que mais fazia com que seus corações batessem mais rápido. Era uma péssima ideia manter contato, por mais que fosse somente por mensagens.
: Fechado [1:46a.m]
: Não aguento muito tempo sem falar com você [1:46a.m]
: Nem eu [1:47a.m]
: Só me promete uma coisa? [1:47a.m]
: O quê? [1:47a.m]
: Você vai continuar dançando do jeito que te vi dançando hoje [1:47a.m]
: ! [1:47a.m]
: Você tava absurdamente sexy [1:48a.m]
: Eu quero te ver dançando assim várias vezes [1:48a.m]
: Só se você me prometer uma coisa [1:48a.m]
: Qualquer coisa [1:48a.m]
: Um dia você vai dançar aquela música comigo [1:48a.m]
: Fechado [1:49a.m]
Ambos desligaram os celulares e se viraram de lado para dormir, com sorrisos enormes nos lábios.
Por mais que quisessem manter perfeito controle da situação, sabiam muito bem que não tinham controle algum.

As mensagens, porém, estavam escassas – como se ambos tivessem saudades, porém com plena noção do que aconteceria se voltassem a se falar da mesma maneira que antes. Cada palavra era como se estivessem atravessando um lago pisando nas pedras mais frágeis e preciosas para se aproximar do outro: qualquer movimento em falso faria com que caíssem e não dessem as mãos nunca mais.
Antes permanecer próximos e sem se tocar do que darem as mãos somente uma vez.
Assim como a observou sem que percebesse, um dia o encontrou no estúdio, ensaiando sozinho. Era a primeira vez em quase três semanas que ele ensaiava sem a companhia dela, então a moça não resistiu uma espiada.
E lá estava o dançarino que ela tanto admirava: dançava como se o suor e o calor não fossem nada, como se aquilo fosse mais natural do que respirar. Era lindo de se assistir e queria ficar naquele cômodo com ele para sempre.
A moça permaneceu em silêncio em seu cantinho, somente admirando até o momento que ele parou a música e se abaixou na frente de um notebook apoiado no sofá. franziu as sobrancelhas, sem entender o que estava fazendo.
Quando entendeu, levou as mãos à boca.
O grupo de tivera uma apresentação alguns dias antes. Eles treinaram horas e horas e horas – aperfeiçoou cada movimento, cada passo, cada entonação de voz, cada palavra. Recusava-se a subir em qualquer palco sem ser minimamente perfeito.
Mas claro, sempre havia comentários de que algo saíra errado. Naquela apresentação, não houve nada de mais: a maioria dos comentários era positiva. Apesar disso, estava assistindo ao vídeo repetidas vezes e, quando ele voltou uma parte, finalmente notou.
literalmente mudava de expressão e olhar quando estava se analisando. Todo o exterior sorridente tornava-se sério e focado: a cabeça se abaixava levemente e o olhar gélido era forte o suficiente para cortar o mais resistente dos metais. As sobrancelhas de se franziram levemente e ele voltou a parte. E de novo. E mais uma vez.
- Que porcaria de movimento... – Ele comentou consigo mesmo após alguns segundos, balançando a cabeça enquanto pausava o vídeo, levantando-se do chão logo em seguida. – Não acredito que apresentei um negócio ruim desses...
- Não está ruim... – sussurrou para si mesma. – Está perfeito, . Quando você vai notar que é perfeito...?
E começou a ensaiar a parte que achara ruim. Repetiu o oito uma, duas, três, quatro vezes...
fechou os olhos, segurando as próprias mãos. Ela queria entrar naquela sala de dança e pegar em seus braços, mantê-lo junto de si e assegurá-lo de que não havia dançarino mais perfeito do que ele. tinha mania de achar erros no próprio trabalho, o perfeccionismo sendo uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo. Ele não conseguia parar enquanto não achava que estava perfeito – e normalmente só parava quando tinha que comer e dormir.
Abrindo os olhos novamente, achava que estava a ponto de chorar. Nunca tivera tanta vontade de tocar alguém e nunca fora proibida de fazê-lo. Mas lá estava ela, observando a pessoa que mais amava se autocobrando de uma maneira não muito saudável e sem poder fazer nada para lhe dar apoio moral.
Fechando a porta da sala, praticamente saiu correndo para outra sala de dança do lado oposto do corredor. Lá ela poderia ter paz e descontar todas as frustrações na própria dança.
Mas nada saiu. Ela colocou as músicas que normalmente a inspirava para dançar, porém os pés não se moviam. achava que aquilo era resultado de não dançar com por muito tempo – até que uma música melancólica começou a ressoar, fazendo os pés dela deslizarem pelo chão.
Sentindo um pouco de conforto no coração, fechou os olhos e deixou-se levar pela música do Cisne, uma das suas coreografias de ballet favorita. Fazia muito tempo que ela não dançava aquele estilo estritamente falando – com direito a todas as suas formas técnicas.
Lembrava-se do quanto treinara os braços para fazer os movimentos parecerem um par de asas de cisne. O quanto de força precisava para executar os passos e, mesmo assim, passar a impressão de uma forma delicada e frágil. Os pés – em meia ponta, pois ela estava sem as sapatilhas de ponta – moviam-se em pequenos passos de um lado para o outro, de maneira simples e delicada, flutuando como a música que tocava.
nunca a tinha visto dançar daquela maneira. Quando viu que estava ensaiando, ia entrar fazendo um escândalo – afinal, ficara traumatizado do que acontecera da última vez que tentara assistir a um ensaio escondido. Porém, ao vê-la dançando daquela maneira, as palavras sumiram da boca de e ele só pôde ficar parado, boquiaberto, enquanto admirava.
Ele se sentou em um espaço da sala, sem desgrudar os olhos da amiga. Os movimentos eram simples e delicados, a expressão repleta de uma tristeza que ele nunca vira nos olhos de . Ela fechava os olhos, passando as mãos pelo próprio rosto, como se lembrasse do toque de alguém. Em seguida, voltava a fazer os movimentos de asas com os braços – como um pássaro que, aos poucos, esvanecia.
mal percebeu quando tirou o celular do bolso e começou a gravar. Conseguiu segundos suficientes para que o vídeo guardasse todo o sentimento que ela queria expressar. Os belos movimentos, ora mais rápidos, ora mais lentos, a melancolia no olhar e as mãos tocando o rosto – até o momento em que ela vagarosamente se sentou sobre uma perna dobrada, mantendo a outra esticada enquanto deitava a cabeça sobre esta, quase tocando o pé em ponta. A música morreu assim que parou de se movimentar.
- ...? – chamou cuidadosamente e ela levantou a cabeça de supetão, assustada com aquela presença.
- Qual é a sua mania de surgir do nada?! – Ela perguntou exasperada enquanto levava uma mão ao peito para sentir o coração disparado. – , você não pode surgir assim no meio dos ensaios alheios!
- Vai por mim, eu sei. – E só depois de responder de maneira tão assertiva é que se lembrou que não tinha ideia do que ele vira naquela madrugada. – Eu ia te chamar assim que entrei, mas nunca te vi dançando algo tão... Bonito. Que música é essa, ?
- Ah, obrigada... – Ela não queria admitir, mas corou um pouco com o elogio. – É a Morte do Cisne, coreografado para a bailarina Anna Pavlova. Já assistiu?
- Não. E que coisa horrível. – As sobrancelhas de estavam franzidas enquanto ele se aproximava para se sentar perto de . Ela somente riu enquanto se ajeitava no chão.
- Diziam antigamente que os cisnes são mudos durante a vida, mas podem cantar uma só melodia antes de morrer, a mais bela de todas. Essa dança é feita para demonstrar o coração ferido de um cisne... – E suspirou, abraçando as próprias pernas e abaixando o tom de voz. – Também tem quem relacione o canto deles ao amor eterno e imortal...
se sentou em frente à amiga ao mesmo tempo em que o próprio coração despencava no peito. Aquela não foi só mais uma dança: foi a maneira de expressar o quanto estava sofrendo por não poder falar ou tocar . O pior de tudo era que tinha que fingir estar completamente alheio a tudo aquilo, sem poder abraçá-la ou consolá-la.
Por isso, limitou-se a segurar uma das mãos de , chamando a atenção da moça.
- Ei... – Ele balançou a mão dela de leve. – Você está tão melancólica esses dias, . Tá tudo bem? Não gosto de te ver assim.
- Tudo bem, ... Só cansada... – Ela deu um pequeno sorriso, querendo abraçá-lo e contar tudo que estava acontecendo.
- Hmmm, e você e o ? Não vão ensaiar mais? – perguntou como quem não queria nada, sorrindo logo em seguida. – Se vocês não coreografarem, a dança não vai sair nunca.
- Ah, ele está muito ocupado esses dias... E eu também. – respondeu silenciosamente, com um sorriso não muito alegre nos lábios. – Às vezes é melhor nos separarmos um pouco.
- Mas você fica triste. E ele também. – teve que ressaltar, fazendo os olhos de imediatamente mais atentos. – Ele anda pra lá e pra cá desanimado, vira e mexe pergunta de você e depois finge que não está interessado, mas todo mundo sabe que ele está sofrendo internamente porque sente a sua falta. Dançar com você é muito importante para ele.
- É importante pra mim também. – completou enquanto sentia as bochechas queimando em vermelho. – Mas, por enquanto, é melhor focarmos no que precisamos.
não tinha mais o que responder, somente torcendo o nariz e pensando no que mais poderia falar. Sem arranjar opções, tentou divisar alguma maneira de fazê-la sorrir – não queria que continuasse com a mesma expressão que tinha durante a dança. Sim, fora uma das coisas mais belas que vira, mas também uma das mais tristes. E ele não queria que sua melhor amiga, quase irmã, permanecesse triste daquela maneira.
- Aceita tomar um sorvete comigo?
imediatamente franziu as sobrancelhas com aquela proposta inusitada.
- , isso é hora pra tomar sorvete?! – Ela estava indignada, o que fez com que ambos caíssem na gargalhada.
- Qualquer hora é hora de tomar sorvete! – Ele se levantou do chão, segurando as mãos dela em seguida para ajudá-la a fazer o mesmo. – E se for fazer você sorrir dessa maneira, vou pedir uns cinco sorvetes!
e , ao saírem do estúdio enquanto conversavam entre risadas, mal perceberam saindo da própria sala de dança limpando o suor da testa com uma toalha. Sentindo o peito apertar por não poder estar junto com , simplesmente abaixou a cabeça e foi até o banheiro o mais rápido que podia. Não queria admitir que estava com ciúmes do próprio amigo – as saudades começando a ficar insuportáveis.
- Eu fico me perguntando como vocês sabem de tantos lugares que ficam abertos de madrugada! – ria enquanto aguardava sentada na poltrona lilás em frente a .
- São os únicos lugares que conseguimos vir sem ser assediados, acontece. – Ele deu de ombros, contente em vê-la sorrindo tanto. Aquela era a lanchonete favorita de . – Sempre pensei em trazer uma eventual namorada para cá. O que você acha? Quando eu tiver uma vai funcionar?
- Claro que vai, esse lugar é maravilhoso! Me lembra todos os animes que assisti quando era criança! – tinha os olhos sonhadores enquanto observava as opções no menu grudado à parede. se sentia aliviado ao ouvir aquilo. – Coitado. Você acabou de madrugada comigo aqui.
- Coitada de você também! Terminar aqui comigo, entre todas as pessoas! – apoiou o rosto em uma das mãos, ajeitando os óculos no rosto. Ela nunca sabia quando ele apareceria de óculos, mas sempre gostava quando decidia usá-los. – Também me lembra os animes que assisti! Temos que colocar alguns em dia, .
- Olha, eu aceitaria fácil uma maratona de InuYasha. – Ela respondeu seriamente, fazendo arregalar os olhos.
- Sério isso?! – E ele mal esperou ela confirmar com a cabeça. – Vamos marcar! Por favor! Precisamos!
- Ok, estou com saudades das nossas maratonas de séries e filmes! – não conseguia parar de rir da animação de . Teria continuado o assunto se a garçonete não tivesse chegado no mesmo momento com um banana split gigante e duas colheres de metal brilhante para os dois. – ... Isso aí é só pra duas pessoas...?
- Nem vem, porque eu sei que você consegue comer metade com facilidade! – respondeu de maneira acusadora, fazendo-a rir novamente. Pegando um pouco de chantilly na própria colher, ele manchou a ponta do nariz dela de propósito. – Sua sem vergonha!
- Você não fez isso! – Os olhos de estavam arregalados e a voz ultrajada, mas os lábios contendo o sorriso a denunciavam. Com um movimento rápido da própria colher, ela também manchou o nariz dele. – Sem vergonha!
- Olha... Eu vou ser o adulto da relação e terminar isso antes que a situação saia de controle! – falava de maneira séria, claramente brincando com ela enquanto limpava o chantilly do próprio nariz. Em seguida, lançou um sorriso malicioso para . – E também porque estamos em um lugar público. Aguarde só a nossa maratona, eu vou te sujar inteira de chantilly!
- Desafio aceito, meu querido! – respondeu com o mesmo tipo de olhar e sorriso, levantando a colher logo em seguida. – Pronto?
- Estava esperando você parar de ser engraçadinha! – E claro, não pôde deixar de provocá-la.
Enquanto começaram a comer o sorvete, porém, ouviram uma música conhecida tocando na rádio. Não demorou muito para identificarem Friends do Justin Bieber, uma das músicas que tinham como favorita em comum. Em poucos segundos, tanto quanto estavam dançando em seus lugares, cantando cada vez mais animadamente – até, ao fim da música, estarem cantando em alto e bom som, usando as colheres de microfone e sem se importar com o sorvete que derretia aos poucos.
- Can we still be friends? Doesn’t have to end! apontava para ela enquanto cantava.
- And if it ends... Can we be friends? cantava apaixonadamente, apontando de volta.
E voltaram a dançar até que a música terminasse e o sorvete chegasse à última colherada.
Como o bom amigo que era – além de preocupado com a proteção de , já que sempre falava que segurança vinha em primeiro lugar – ele caminhou com ela até o prédio, não muito distante do que ele morava. Enquanto caminhavam, porém, deixou o próprio casaco com ela para que a amiga não congelasse no frio da madrugada.
- Obrigada por me levar para tomar o sorvete, . – suspirou logo que se aproximaram da entrada do prédio, enquanto entregava o casaco de volta para ele. – Eu... Eu estava precisando sorrir um pouco.
- Olha, ... Eu não sei de muita coisa, nem o motivo de você e o terem parado de ensaiar juntos... – mentiu, enfiando as mãos nos bolsos do casaco que acabara de colocar de volta. – Mas isso está afetando tanto você quanto ele. Vai por mim quando eu digo que o está miserável.
- Isso é tudo que eu não quero... – suspirou, rolando os olhos.
- Volta a ensaiar com ele? Por favor? – tinha seu melhor olhar pidão para a amiga, que sorriu logo em seguida.
- Vou pensar sobre isso. Ele tem que querer voltar a ensaiar comigo também. – E, com um pequeno sorriso, acenou para o amigo. – Agora precisamos dormir. Até amanhã, .
- Até, . – Ele acenou de volta, colocando-se no caminho de casa. – Ele vai querer dançar com você...
Para a surpresa de , porém, quando entrou em casa, encontrou a luz da cozinha acesa. Achando que alguém tinha esquecido ligada, foi até o cômodo para desligá-la – encontrando recém saído do banho, bebendo provavelmente o terceiro copo d’água da noite.
- Ah, oi! Acabou de chegar, ? – perguntou casualmente, recostando-se em uma bancada.
- É, faz pouco tempo. Estou cansado... – respondeu com um suspiro. – Você saiu com a , não? Ela está bem? Está se cuidando?
deu um pequeno sorriso. estava fazendo o melhor que podia para fingir que não se importava tanto assim com ela, mas não conseguia ficar totalmente distante. Era óbvio que se preocupava e queria saber tudo sobre o que estava acontecendo com enquanto estavam distantes.
- Sim, ela está bem. Só um pouco cansada também... Aliás! – teve a melhor ideia que podia. Pegando o celular do bolso, parou ao lado do amigo, abrindo um vídeo. – Olha isso daqui. Peguei a no meio de um ensaio, ela estava relembrando uma coreografia antiga de ballet. É uma das coisas mais lindas que já vi.
Apesar do vídeo, prestava atenção na reação de . Percebeu quando os olhos do amigo se encheram de lágrimas, prestando atenção em cada movimento perfeito dos braços de que imitavam asas. nunca fora de conhecer muito sobre ballet, mas sabia reconhecer algo belo quando via à sua frente.
- É muito bonito mesmo... Mas tão triste... Nunca vi ela dançando assim... – estava até falando mais baixo, de tão concentrado que estava. não pôde deixar de sorrir.
- Ela está com saudades de você.
Aquilo fez com que olhasse imediatamente para o amigo.
- Vocês poderiam voltar a dançar juntos. Vai fazer bem.
- Posso checar a agenda dela... – respondeu de maneira pensativa, apontando para o celular dele em seguida. – Me passa esse vídeo depois, por favor?
concordou com um sorriso e ambos se separaram para seus respectivos quartos após se desejarem boa noite. Deitado na própria cama e assistindo o vídeo pela terceira vez, o celular de vibrou inesperadamente.
: Boa noite, [2:03a.m]
: Boa noite, [2:03a.m]
: Até amanhã. Bons sonhos [2:03a.m]
: Bons sonhos. A gente se fala amanhã [2:03a.m]
Era a primeira vez em semanas que eles conseguiam sorrir calmamente antes de dormir.

- Olá, garotos! – cumprimentou com sua voz animada de sempre, o que fez praticamente sair correndo em direção a ela.
- ! Nunca mais some desse jeito! – Ele ia abraçá-la, mas logo percebeu que não desgrudava o olhar de . Erguendo uma sobrancelha, finalmente resolveu se manifestar. – Olha, eu não sei o que ele te fez, mas não deixe de falar com a gente por causa desse pastel!
- O quê? – E parecia ter acordado de um longo sono. – O não fez nada! Eu realmente estive ocupada!
E não era mentira. realmente tivera que atender a outros grupos, porém sempre daria um jeito de ensaiar com . O problema é que se passassem qualquer segundo juntos, provavelmente iam acabar nos braços do outro, trocando beijos demorados e cheios de saudades.
Então era melhor evitar.
- Você vai voltar a ensaiar conosco? – finalmente perguntou, as mãos nos bolsos da calça. Ele não podia arriscar ficar com as mesmas livres perto de .
- Se vocês quiserem...
- Claro que queremos. – Pela primeira vez, , e falaram ao mesmo tempo, fazendo-a rir.
- Ok... O que vocês querem passar? – Colocando a mochila de dança no chão, sorriu para os três.
E todos sabiam que aquele era um sinal de que ela ficaria.
- Você vai fazer parte do nosso MV novo, não? – piscou para a amiga, fazendo-a franzir as sobrancelhas. Com a reação dela, pararam de sorrir. – Calma. Avisaram que você vai fazer parte do MV, né?
- Não. – E a moça abriu um enorme sorriso de volta. – Ah, calma. Pode ser que esse seja o contrato que me falaram há uns dois dias atrás que renovaram. Se não me engano, minha companhia renovou três anos e ainda estão negociando uma cláusula de exclusividade no meu contrato pessoal com a companhia de vocês.
- Nossa. Que bem informada você é sobre seu próprio contrato. – estava genuinamente impressionado. Achava que não conseguia encontrar mais motivos para gostar de , mas lá estava ela para provar o contrário.
- Ah, meu querido. Lembre-se que eu tive uma vida de mortal antes de virar dançarina. – Com uma piscadela, começou a prender os cabelos em um rabo de cavalo. – Vocês querem me ensinar o MV novo?
- Com certeza. – Dizendo isso, agarrou a mão da amiga, caminhando com ela para o meio da sala. – E ainda faço uma aposta: você vai demorar uma hora pra pegar a coreografia.
- Meia hora! Aposto cinquenta dólares! – levantou a mão, aproximando-se dos amigos animadamente. Não conseguia dizer não a uma aposta.
- Dez minutos. – anunciou, parando próximo aos amigos.
No que , e somente o lançaram olhares indignados.
- Dez minutos...? – Ela perguntou incrédula, com uma sobrancelha erguida, enquanto encarava o sorriso convencido que tinha nos lábios.
- Você demorou dez minutos! – apontou para o amigo no ápice da indignação. – Ninguém mais consegue fazer uma coisa dessas!
- Exatamente. – E o sorriso de aumentou. – Ela consegue.
somente rolou os olhos, mas os lábios tinham um sorriso que demonstrava o quanto estava tentada. Após alguns segundos, ela se virou novamente para os amigos, aquecendo os pés e os braços.
- Desafio aceito, . – Nenhum deles tinha visto antes os olhos de queimando da maneira que estavam naquele momento. – Valendo o quê...?
- Aquele passo que você falou que queria colocar na coreografia. – Ele respondeu de maneira convencida, ganhando uma risada divertida de .
e somente trocaram olhares.
- E que passo é esse, posso saber?! – Claro, não ia se dar por vencido.
- É ela colocar uma das pernas no meu ombro enquanto eu a seguro pela cintura e arrasto até o outro canto do palco. – declarou como se não fosse nada.
e lançaram olhares boquiabertos para a amiga – que somente ria.
- Quando você fala desse jeito, parece bem pior do que realmente é.
- Você consegue fazer isso? – estava com os olhos tão arregalados que tinha certeza que poderia fazer um meme. Mas se controlou e somente confirmou com a cabeça. – Olha. Depois que vocês terminarem essa coreografia, a próxima vai ser comigo.
imediatamente sentiu uma pontada estranha no coração. Não estava acostumado com aquele tipo de sentimento, principalmente envolvendo seus amigos, mas tinha certeza que acabara de receber uma pontada de ciúmes. E tinha plena noção que não podia sentir ciúmes de – afinal, eles nem namorados eram.
Ele não sabia nem o que aquele relacionamento esquisito que tinham podia se classificar.
Balançando a cabeça, se distanciou um pouco. Amigos. Eles eram amigos.
- Bom, vamos lá. Comecem a me mostrar a coreografia. – anunciou após alguns rápidos aquecimentos. Já tinha se aquecido antes e não precisava de nada muito puxado. – Está cronometrando, ?
- Já posso começar a contar? – Ele pegou o celular do bolso, fingindo que nada tinha acontecido.
- Ah, por que não deixamos a aposta mais interessante? – propôs antes de começarem a contar o tempo. – Podemos sair pra jantar e fazemos uma noite de cinema em casa. O que acham?
- Que essa é a melhor desculpa que você arranjou pra fazer a noite de cinema. – comentou com os braços cruzados, sem entender o intuito do amigo. Se quisesse sair pra comer e depois assistir um filme, podia somente convidá-los.
- Ah, mas claro que vamos adicionar mais graça para a coisa... – comentou imediatamente com um sorriso sapeca no rosto. – Se a ganhar, o tem que usar qualquer roupa ridícula que ela escolher, incluindo as promocionais de photoshoots. Se ele ganhar, a tem que sair com uma roupa escolhida pelo .
A sala de dança ficou em silêncio durante alguns segundos.
- Fechado. – e disseram ao mesmo tempo, trocando olhares em seguida e começando a rir.
já era naturalmente competitiva... Agora ficaria um pouquinho pior.

- Olha, , eu não queria falar nada... – comentou enquanto tomava um gole do próprio chá gelado. – Mas você tá um charme.
- Morde a sua língua, . – Ele lançou um olhar não muito feliz para ela, apesar do sorriso nos lábios.
e somente riam toda vez que olhavam para o amigo. estava com uma calça pantalona, uma camisa retirada diretamente dos anos setenta, o blazer combinando com a estampa escandalosa da calça e um par de botas prateadas de salto.
- Podia ser pior, . Essa nem foi a roupa mais ridícula que eu achei. – respondeu com uma risadinha, mordendo a língua propositalmente ao fim da frase. Ele somente rolou os olhos.
- Eu tô com esse horror de salto que mal dá pra andar direito, flor. O que podia ser pior que isso?
- O conjunto rosa. – declarou fazendo todos começarem a rir escandalosamente enquanto os olhos de se enchiam de terror.
- Está vendo?! Eu fui piedosa! – ria a ponto de chorar só de imaginar vestindo as outras roupas. – , me lembre de enfiar o conjunto rosa nele da próxima vez!
- Eu não devia ter aceitado essa aposta... – suspirou, tomando mais um gole da própria Coca Cola e cogitando pedir uma bebida alcoólica.
Apesar disso, voltou a sorrir quando viu a maneira como ria junto com e ao lado de . Ela estava contente e ele sentira saudades daquela risada. Além disso, nunca faria uma aposta daquelas se não soubesse poderia ganhar.
Afinal, não queria admitir, mas aquela foi a única desculpa que arranjara para eles a fim de colocar o passo que dera a ideia antes. Era um passo excelente, que exigia técnica e flexibilidade da parte dela – mas não podiam negar que era um pouco... Íntimo. Ele teria que segurar a perna dela com força no lugar, segurando-a pela cintura bem próxima ao próprio corpo. tinha vontade de morder os lábios só de pensar naquilo.
Talvez não fosse a escolha mais inteligente, tendo em vista a situação em que se encontravam. Mas, com certeza, era a mais interessante.
- Você não devia ter desafiado essa maluca, isso sim! – comentou com uma risada escandalosa. – Você sabe como ela fica com desafios. E mesmo assim foi lá e cutucou a onça com vara curta. Em quanto tempo foi que a aprendeu a coreografia, ...?
- Sete minutos! – respondeu com a boca cheia, fazendo rir e dar um tapa no amigo.
- Ô seu animal, vê se come que nem gente...! – E foi só ela falar que parecia que fizera questão de ser ainda mais contra a civilidade.
- Eu sei, eu sei, é responsabilidade minha também... – comentou com um suspiro, apoiando a cabeça em uma das mãos.
Mas não se arrependeria daquela aposta. O brilho de determinação nos olhos de , a maneira como ela prestava atenção em cada detalhe somente para repetir em seguida, o suor escorregando pelo rosto e pelo colo... jamais se arrependeria daqueles sete minutos.
- Da próxima vez, desafio você a aprender em menos de sete. – anunciou, piscando para .
e ficaram boquiabertos, congelando na mesa enquanto e somente trocavam olhares convencidos e cheios de orgulho.
- Valendo o quê? Eu vou poder escolher as suas roupas? – Ele perguntou erguendo um pouco a cabeça, querendo saber até onde ela chegaria com aquela brincadeira.
- Valendo o que você quiser. – A moça disse seriamente, provocando reações exageradas em e . somente a lançou um meio sorriso que nunca vira antes.
E, se não estivessem entre amigos, falaria que estava repleto de segundas intenções.
- Eu ainda vou te fazer se lembrar de hoje. – Ele piscou para ela, voltando a tomar a própria Coca Cola.
- Claro que vai. Vestido desse jeito, vai se lembrar disso aqui pra sempre. – comentou de maneira dramática.
E nisso, o grupinho explodiu em risadas enquanto somente contemplava as próprias decisões, questionando-se seriamente.

- Ok, agora que a minha caminhada da vergonha chegou ao fim... – anunciou enquanto entravam em casa. – Eu vou tirar essa roupa e tomar banho.
- Eu idem. – já se adiantou, quase correndo para o quarto. – Vou usar seu banheiro, ! Você e a podem arrumar as coisas enquanto isso!
Dizendo isso, e se trancaram em seus quartos enquanto e somente ficavam parados na sala, com cara de paisagem.
- Por que sempre sobra pra gente...? – comentou com um suspiro enquanto erguia uma sobrancelha.
- Porque nós somos trouxas e aqueles dois são uns folgados. – deu de ombros e segurou o pulso do suéter de , começando a caminhar com ela pela casa. – Pelo menos a gente pode escolher o filme.
- Tem que ter alguma vantagem! – Ela respondeu de maneira exagerada, fazendo-o rir.
- Faz o seguinte: você é boa de fazer pipoca! Enquanto isso, vou dar uma arrumada nessa bagunça que a gente chama de sala e te falando os filmes para escolhermos juntos. Pode ser? – E o sorriso que ele deu, podia aquecer até os corações mais frios. adorava quando ele sorria daquela maneira; o considerava um irmão que ela nunca tivera e sempre quisera ter.
- Ok. Não vai achando que você vai escapar do trabalho pesado, hein? – Ela comentou com um cutucão no braço dele, fazendo-o reclamar.
- Você já viu o estado dessa sala?! – abriu os braços, fazendo-a rir enquanto caminhava até a cozinha. Por ser uma casa com conceito aberto, a cozinha e a sala eram divididas somente pelas bancadas, facilitando a comunicação dos dois.
- Hmmm... Mas está muito silencioso... – comentou enquanto procurava o milho para fazer a pipoca. – Será que os outros membros do grupo também estão por aqui ou só nós?
- Provavelmente estão dormindo já... – Ele respondeu um tanto distraído, organizando a bagunça que haviam deixado no local. Observando com o canto dos olhos, deu um pequeno sorriso enquanto uma ideia surgia na mente. Deixando o celular em cima da mesa, colocou uma playlist e começou a cantar assim que a primeira música surgiu.
- Ah...! Eu adoro quando você canta pra mim, ! – sorriu animadamente, causando bochechas avermelhadas no amigo. agradeceu mentalmente o fato de que ela estava de costas, prestando atenção às pipocas que estouravam.
Em poucos segundos, se juntou na cantoria e logo ela e estavam fazendo um dueto. Se tinha uma coisa que adoravam, era cantar juntos. Sempre que começava a tocar alguma música que gostavam em algum lugar, logo estariam de braços dados, cantando animadamente – e de maneira até escandalosa.
tirou as pipocas da panela e levou a uma bacia de plástico – pois conhecia os amigos e sabia o tanto de pipocas comiam, mesmo após jantar. Deixando sobre a bancada, apoiou-se nesta para observar enquanto terminava de organizar os travesseiros no edredom que havia estendido no chão da sala para ficarem confortáveis.
- Então, pensei em alguns filmes que poderíamos assistir... – Ele começou a comentar enquanto a música estava se aproximando do final. – Mas até já sei qual você vai escolher.
- Ah, é? Qual? – Ela perguntou curiosa enquanto colocava as mãos na cintura e a olhava com um sorriso convencido nos lábios.
- Jurassic Park.
Os dois trocaram olhares durante algum tempo.
- Você me conhece melhor do que eu achava! – deu a volta na bancada, aproximando-se do amigo. – Já separou o filme?
- Ah, você podia pegar na estante, né...? – Ele perguntou de maneira preguiçosa, voltando a arrumar os travesseiros.
- Seu folgado! Você me falou que não fugiria do trabalho pesado! – estava indignada. Ia continuar reclamando até ouvirem uma música bem conhecida tocando no celular de . – Você colocou Blink 182 na sua playlist?
- Que foi? Culpa sua que ficou um dia inteiro cantando All The Small Things na minha orelha! – acusou, fazendo-a rir.
Sem pensar duas vezes, repentinamente pegou um travesseiro e bateu com tudo no amigo – somente para encontrar a expressão indignada de em seguida.
- Isso é por ser folgado comigo! – Ela reclamou com propriedade, ainda agarrada ao fofinho travesseiro azul.
- Ok, ... Isso é total responsabilidade sua! – Dizendo isso, pegou um travesseiro em fúria e partiu para cima da amiga.
fugiu enquanto ria, driblando os móveis e falando para tomar cuidado com as coisas quebráveis enquanto o amigo somente corria atrás dela tentando atingi-la com o travesseiro de todas as maneiras. Entre risadas, ele jogou o travesseiro em cima de , atingindo-a sem pena.
- Acertei! Agora você não escapa! – pegou outro travesseiro e ambos começaram a guerrear sem dó do outro.
A sorte era que nenhum dos travesseiros era feito de penas.
- Eu vou acabar com você! – respondeu, massacrando com vários golpes de travesseiro.
- Chega de ser legal! – E, na fúria do momento, se abaixou e agarrou pela cintura, atirando-a ao chão em cima dos edredons fofinhos. Com ambos no chão, se apoiou nos braços para checar a amiga, afinal a queda não havia sido cuidadosa. – Tudo bem aí?
o olhou durante algum tempo, retomando o fôlego. receava que ela falasse que tinha se machucado, mas a moça imediatamente começou a rir e deu com um travesseiro no amigo, fazendo-o tombar ao lado dela. Entre diversas travesseiradas e risadas, e finalmente se cansaram conforme a música chegava ao fim – terminando a mesma enquanto deitados um ao lado do outro, encarando o teto e tentando retomar o fôlego.
Finalmente fecharam os olhos e começaram a acalmar a respiração. Tinham sorte de ter um ao outro e, sinceramente, não podiam esperar nada melhor que aquela amizade. Aquele era um dos bons momentos de estarem juntos – e algo que esperavam se repetir ainda muitas vezes.
- Isso porque a gente disse pra vocês organizarem a sala! – comentou com as mãos na cintura. e imediatamente se sentaram, como duas crianças levando bronca. – Olha que bagunça...!
até começou a dar uma bronca e resolveu responder, porém somente conseguia prestar atenção em . Ele estava com os cabelos molhados, recém-saído do banho, secando-os com a toalha branca que contrastava com a blusa preta do pijama. Algumas gotas de água ainda escorriam pelo rosto e pescoço dele – e não conseguia deixar de prestar atenção em como elas sumiam pela gola da blusa.
Logo, a moça se pegou imaginando como seria embaixo da blusa. Aquilo a fez dar um pequeno sorriso – que não passou despercebido por . E, encontrando os olhos dele com aquele sorriso óbvio nos lábios – que havia presenciado pela primeira vez na lanchonete naquela noite – a moça começou a ficar vermelha feito um pimentão, imediatamente levantando-se do chão.
- Bom, minha vez de tomar banho! – Ela declarou, puxando pelas mãos para que também se levantasse. – Vai no banheiro do , eu vou no do seu quarto e em menos de dez minutos estamos de volta!
- Eu deixei uma roupa minha separada pra você em cima da cama do , ! Acho que vai servir! – anunciou enquanto e saíam correndo para seus respectivos banheiros. – Você entendeu alguma coisa? Por que ela saiu correndo daquele jeito?
- Não sei. – mentiu, dando de ombros enquanto não conseguia esconder o sorriso no rosto. – A sempre foi meio doidinha, não...?
e se sentaram nos edredons, conversando enquanto aguardavam os amigos. Não tiveram que esperar muito até que e retornassem em seus pijamas – o de , no caso, era uma blusa velha de e o shorts de esportes que ficava na mala de dança e, por sorte, não tinha sido usado naquele dia.
A blusa, porém, cobria os shorts – fazendo parecer que usava somente a blusa do amigo. começou a corar involuntariamente, questionando-se o motivo por ele não ter emprestado uma blusa a ela.
- Ah, você está um amor na minha blusa! – comentou com um sorriso enorme enquanto se aconchegava entre ele e .
E lá estava novamente: a pontada de ciúmes no peito de que ele sabia estar errada, mas não podia fazer nada contra. Ele se sentia um ser humano horrível, mas não podia mandar seu coração retornar seus sentimentos. abaixou a cabeça, ignorando as pernas nuas de .
- Sim, eu agradeço muito, . – Ela sorriu de volta para o amigo, aconchegando-se no edredom. – , vai colocar o filme?
- Claro!
- Qual que é? – perguntou quase imediatamente, falando tão rápido que mal entenderam o amigo. Mas ele queria fazer qualquer coisa para se distrair daqueles sentimentos.
- Jurassic Park. – e anunciaram juntos com um sorriso.
- Ah, não! – e responderam ao mesmo tempo, provocando diversas risadas.
- Vocês sabem que eu sempre me assusto...! – resmungou cruzando os braços, mas foi completamente ignorado pelos amigos.
- Bom, é a opção da noite. – deu de ombros. – A não ser que vocês queiram fazer desfeita para a nossa ilustre visita!
Dizendo isso, e pararam de reclamar e conseguiu sentar satisfeito em seu lugar, a bacia de pipoca já a postos enquanto o filme começava.
Aquela fora uma das melhores noites que os quatro tiveram em muito tempo. Divertiram-se como nunca, assustaram-se com o filme, deram risadas e comeram pipoca – muita pipoca. Por isso, quando o sono bateu, praticamente desmaiaram no chão da sala – e arrumara o local estrategicamente para aquilo: sabia que ninguém teria condições de levantar e ir para os quartos.
Quando percebeu que todos estavam dormindo, desligou a TV e apagou as luzes, retornando ao seu canto no edredom após ajeitar e cobrir os amigos. De frente para , ele fechou os olhos – desejando que estivessem somente os dois e ele pudesse abraçá-la no escuro. Assim ninguém saberia de nada.
Repentinamente, sentiu pequenos dedos procurando a mão dele, tocando o pulso dele até chegar à palma. Segurando a pequena mão que se entrelaçava à dele, sorriu na escuridão.
- ...? – Ele sussurrou um tanto inseguro. A mão dela se apertou contra a dele.
- Eu tenho medo de escuro... Desculpa, ... – Ela sussurrou de volta, a voz mais próxima do rosto dele do que esperava. Ele podia sentir a respiração quente da moça nas próprias bochechas.
- Não precisa pedir desculpas. – Ele respondeu, trazendo o braço dela mais para perto em uma atitude instintiva de proteção. – Pode confiar em mim. Ninguém vai saber.
sorriu de volta, ambos finalmente se deixando adormecer. Porém, em seus sonhos, aquela era a única ideia que permanecia na mente deles – “Ninguém vai saber” .

Após aquela noite, e nunca mais se atreveram a ficar distantes um do outro. Controlavam-se da maneira que podiam e ensaiavam com o grupo e os dançarinos de apoio para a gravação do MV. Aos poucos, voltaram a discutir as ideias da coreografia que montavam anteriormente, começando a delinear coisas somente na imaginação. E, quando menos esperavam, tinham marcado novamente de ensaiar juntos.
carregava a mochila de dança com animação. Ajustou nos ombros enquanto se aproximava a passos rápidos da sala de dança que sempre utilizavam. Os dedos estavam quase tremendo de empolgação ao tocar na maçaneta, entrando na sala com uma animação desmedida.
Mas encontrou-a apagada e vazia.
Os ombros de despencaram. A mochila caiu no chão. O que será que tinha acontecido? Será que estava machucado e não pudera ensaiar? Será que algo estava errado?
Será... Que ele a havia deixado lá?
- ! – E, ao ouvir o próprio nome, a moça quase grudou no teto com o susto. Virou-se somente para encontrar rindo. – O marcou de te encontrar aqui hoje, não?
- Sim! Alguma coisa aconteceu? – Ela tentava mascarar a preocupação, mas era algo que não sabia fazer muito bem.
- Ele precisa ensaiar um solo! O vai ter um solo de dois minutos no nosso show, algo que só ele pode fazer, para falar a verdade. – comentou casualmente, sorrindo ao ver o alívio óbvio se espalhar pelo rosto de . – Sabe a nova sala de dança? No último andar, com a parede de janelas e a varanda? Ele está ensaiando lá.
- Ah, tinha que ser o exibicionista desse jeito querendo que o mundo inteiro o veja dançando. – deu uma breve risada, sabendo que provavelmente fechara as janelas ou não se importava exatamente porque, pelo horário, o mundo deveria estar dormindo.
- Quem dera fosse isso mesmo... – suspirou com um sorriso. – Bom, eu vou pra casa agora, porque estou quebrado. Queria ver o ensaio de vocês, mas não vai dar. Consegue achar a sala?
- Consigo sim, obrigada, ! Boa noite! – Com isso, recolheu sua mochila do chão e subiu as escadas correndo até a famigerada sala.
Era muito mais bonita do que esperava. Mas, exatamente como era de praxe de , a música estava alta para abafar a respiração cansada e o som dos tênis se arrastando pelo chão, deixando marcas de borracha na superfície branca.
A voz que ecoava era a dele, uma música que havia escrito para abrir o show. Era muita responsabilidade e sabia muito bem como ele devia estar uma pilha de nervos. Entrando silenciosamente na sala, a moça deixou a mochila em um canto enquanto observava boquiaberta.
estava usando uma blusa regata e uma calça simples, ambas pretas. A parte de cima já colava ao corpo dele por conta do suor. As calças, com rasgos nos joelhos para que ele pudesse dobrar as pernas, revelava os joelhos roxos de tanto ensaiar. franziu as sobrancelhas enquanto continuava com a coreografia – extremamente emocional, cheia de sentimentos reprimidos, raiva e dor, assim como a voz dele naquela música. Ela não notara antes, mas ao vê-lo dançar, imaginou como gravar aqueles versos deveriam ter sido extremamente extenuantes para ele – a voz era rouca e rasgada, repleta de sentimentos intensos, que externava por meio da dança e das expressões.
E de repente, sem aviso algum, caiu com todo o peso em seus joelhos, como parte da coreografia. levou as mãos à boca, chocada, enquanto observava com um grande par de olhos a expressão de dor no rosto dele. Não havia técnica, não havia truque: ele absorvera todo o impacto nos joelhos e continuou a dançar, como se nada tivesse acontecido.
Após um oito, porém, ela identificou a coreografia. Ele já tinha mostrado aquilo para ela antes – inclusive ensinado em um dos incansáveis dance practices deles. Tirando os sapatos e ficando somente de meias, caminhou decididamente até , juntando-se a ele nos movimentos em poucos segundos.
Ele se assustou momentaneamente logo que ela surgiu ao lado dele. Porém, se queria dançar, iriam dançar. Continuando a coreografia, ele não deu descanso para a amiga, sendo que ela se manteve firme em cada passo que fizeram. Tão enérgica quanto , aproveitando o momento para se livrar de todas as emoções que estavam guardadas dentro de si.
estava muito contente de ter encontrado alguém que dançasse com ele e não por ele.
Após alguns passos, porém, começou a cantar.
ficou em choque. nunca cantara daquela maneira quando dançaram antes. Fechou os olhos, escutando cada palavra enquanto acompanhava aos passos de como se fossem um só – completamente sincronizados pela batida da música.
Terminaram a coreografia de maneira abrupta, um de frente para o outro, a centímetros de distância. fechou os olhos, respirando fundo, de maneira completamente descontrolada. nunca o vira com tantos sentimentos como naquele dia.
- ...
- Eu não aguento mais ficar longe de você, . – Ele finalmente sussurrou, ainda de olhos fechados, mal conseguindo ter fôlego para falar.
Em um impulso, abraçou . Enroscando os braços em volta da cintura dele, colou a cabeça contra o peito de , ouvindo a batida descontrolada do coração. Nenhum dos dois sabia se era por conta do cansaço ou por estarem dançando juntos novamente.
- Eu também não, ... – Ela respondeu de maneira mais decidida, não tão cansada quanto ele. – Seus joelhos... Posso cuidar de você?
A pergunta foi o suficiente para que largasse toda e qualquer lógica, abraçando e trazendo-a o mais próximo que podia do próprio peito. Finalmente estava abraçando-a da maneira que queria e que deveria. Ele queria que ela cuidasse dele – mas também queria cuidar de . Queria estar com ela, dançar com ela. Sem aquela coisa ridícula de ficar sem se falar por não ser o correto, por não poderem se amar por conta de uma condição da vida que viviam.
Segurando o rosto de com ambas as mãos, se lembrou das palavras que tinha dito na noite que resolveram assistir filmes entre amigos. Enquanto o observava com olhos confusos, finalmente entendeu a reação de , lembrando-se das mesmas palavras. Ele a puxou para perto sem hesitar, unindo seus lábios em um beijo demorado que fez com que, aos poucos, os corações de ambos voltassem ao batimento normal.
Afastando-se levemente de , os lábios ainda tocando os dela, apoiou a própria testa na dela, ambos de olhos fechados.
- Ninguém precisa saber.
O sussurro dele ficou preso nos lábios dela – fazendo sorrir levemente antes de beijá-lo novamente.
- Ninguém.


Capítulo 5

Terceiro Movimento – Valsa Vienense (Parte 1)

A voz de The Weeknd ao som de I Feel It Coming ecoava pelo estúdio enquanto o copo de café esquentava os dedos de .
Ele estava em seu próprio estúdio, sozinho, rodeado de música e de sua coleção de coisas coloridas e estilosas. Tudo que gostava, comprava para decorar seu estúdio: discos, CDs, artes de álbuns, bonecos colecionáveis, objetos de decoração, instrumentos... Apesar da quantidade de coisas, seu estúdio era bem organizado e a mesa deixava à mostra as três telas do computador e o teclado de piano conectado à máquina para que ele pudesse trabalhar em suas composições.
trabalhava em sua mixtape. Já fazia uns bons dois anos que ele falava que lançaria, mas nada. Nunca estava suficientemente satisfeito com o resultado das músicas e sempre achava que faltava algo.
Ele recostou a cabeça na grande cadeira de rodinhas, confortável o suficiente para que passasse horas trabalhando incansavelmente. fechou os olhos, deixando-se levar pela música.
Ele tinha uma grande admiração pelo trabalho do Daft Punk, sendo um dos discos de vinil que decorava uma de suas paredes. sentia a batida bem arranjada com o baixo, a maneira como os sintetizadores eram colocados de maneira que o maior peso estava no baixo. Era certamente uma grande inspiração no trabalho dele, algo que sempre o fazia voltar em suas músicas e escutar se o sentimento que ele queria era aquele mesmo.
De repente, uma mensagem no celular. somente o pegou ao ver o nome de piscando na tela.
: Pra animar um pouco a sua noite [00:03 a.m]
: Lembrando que você podia estar aqui [00:03 a.m]
: Vídeo [00:04 a.m]
deu um pequeno sorriso, enquanto abria o vídeo de vinte segundos que ela mandara.
Como se fosse obra do destino, ela estava dançando a mesma música que ouvia no momento. se movia com as ondas da música, como se fosse levada da mesma maneira que uma sereia faria no mar. Ele conseguia ver os passos que a havia ensinado, tudo que gostava de fazer e de aprender.
Tomando um gole de café e sentindo o peito esquentar, rapidamente respondeu.
: Estou tentando terminar minha mixtape [00:06 a.m]
: Mas você dança tão bem, já estou com saudades [00:06 a.m]
: Ansioso para quando formos gravar o programa [00:07 a.m]
: Também estou, você vai ver o quanto eu ensaiei. Consigo dançar de olhos fechados! [00:07 a.m]
: Quando você vai me mostrar suas músicas, falando nisso? [00:07 a.m]
: Ainda não estão suficientemente boas pra te mostrar [00:08 a.m]
: Quando estiverem melhores, você pode passar aqui e me falar o que acha! [00:08 a.m]
- Ué, eu não posso passar antes...? - Ele ouviu a voz baixa de logo atrás de si e quase pulou da cadeira com o susto.
Quando se virou, lá estava ela sorrindo, somente com a cabeça para dentro do estúdio.
- Você sempre pode passar aqui! Só não precisa me matar do coração! - riu, convidando-a para entrar com gestos das mãos. também riu, entrando furtivamente e fechando a porta atrás de si. - Você nunca veio aqui, né?
- Nope, você nunca me chamou. - disse de maneira brincalhona, enquanto observava cada canto daquela sala. Quanto mais observava, mas gostava: era como se estivesse entrando no mundo particular de , que muitas pessoas não tinham acesso. - Mas já adorei seu estúdio!
- Ah, fico feliz que tenha gostado! Aliás... - Dizendo isso, ele se levantou e pegou a pesada mala de dança de . - Quando vier aqui, pode deixar sua mala no sofá. Não tem problema.
- Ah, obrigada...! - sentiu as bochechas corando aos poucos, sem saber muito bem o motivo.
Fazia pouco tempo que tinham decidido ter um relacionamento em segredo, já que aqueles sentimentos que tinham um pelo outro já estavam muito fortes para continuarem ignorando. Sendo assim, nenhum dos dois tinha muita noção de como proceder com aquilo, muito menos de como se cumprimentar quando se viam sozinhos ou com outras pessoas em volta.
- E além disso! - sorriu, virando-se para ela após deixar a mala em cima do sofá. Falando isso, aproximou-se e repousou uma mão na face da moça, hesitando um pouco antes de grudar os lábios nos dela com um beijo morno e aconchegante. Algo que fazia ambos se sentirem em casa. - É bom te ver.
- É muito bom te ver também, . - sorriu de maneira até um pouco envergonhada e sinceramente não sabia de onde todas aquelas reações estavam vindo. só conseguia achar completamente adorável. - Então quer dizer que você está trabalhando na sua mixtape?
- Yep. Um dia termino. - Ele respondeu de maneira até um pouco desinteressada, enquanto a observava se aproximando do computador dele. analisava os programas que ele utilizava, as takes, os instrumentos, as ondas de som e parecia completamente deslumbrada enquanto apoiava os cotovelos na mesa dele. - Estou tentando terminar de editar essa track.
- Você tem alguns picos aqui... - Ela comentou apontando para a tela, fazendo-o se aproximar e se sentar na poltrona ao lado dela, intrigado. - Aqui, está vendo? Eles estão ultrapassando o teto, provavelmente vão ficar estourados quando você tocar a track.
- Mas o quê... - murmurou para si mesmo, observando sem conseguir acreditar. Com alguns comandos, grifou os picos em laranja e os apagou em alguns segundos. Depois continuou observando a track, agora bem mais limpa que antes, sem conseguir acreditar. - Você sabe editar e produzir música?!
- Não! Não, jamais...! - respondeu rindo, colocando uma parte do cabelo atrás da orelha enquanto o observava. - Só sou curiosa. Dei uma fuçada algumas vezes, porque gostaria de aprender. Mas nunca tive a oportunidade.
- Eu fiquei horas olhando isso daqui e demorei pra perceber. É um erro tão iniciante... - Ele suspirou, balançando a cabeça.
- Provavelmente porque seu ouvido e seus olhos já estão acostumados demais com essa track. Eu sei que você é viciado em trabalho, ... - E apoiou uma das mãos no ombro dele. - Mas precisa descansar. Daqui a dois dias vamos gravar a apresentação no programa e você precisa estar ok para a produção.
- Eu sei... Só realmente queria terminar isso aqui. - Ele suspirou, observando o computador. Após alguns segundos, porém, salvou todos os arquivos e fechou os programas, desligando o aparelho. - Sabe o que podemos fazer? Após a apresentação no programa, você vem passar uma noite aqui comigo, aí eu te ensino como produzir as músicas e você pode ouvir minha mixtape. O que acha?
- Você está me chamando para um encontro, senhor ? - perguntou com humor na voz, fazendo-o sorrir enquanto a puxava mais para perto de si, por mais que ele ainda estivesse sentado na cadeira.
- Estou sim. Um primeiro encontro propriamente dito. - Ele sorriu de volta, enquanto ficava entre as pernas de e apoiava aos mãos nos ombros dele. Aquilo era tão estranho para os dois que os fazia sentir os corações disparando dentro do peito enquanto as bochechas queimavam. - Mas você não precisa se arrumar nem nada... Pedimos comida aqui e ficamos aproveitando o tempo juntos. Gosto de ver você assim, como é no dia a dia.
- O mesmo vale pra você, . Queria que você soubesse o quanto é lindo, mesmo sem estar com toda a produção de palco e afins. - Ela respondeu em um tom mais baixo, agora próxima do rosto dele, enquanto afastava os cabelos de da testa.
Eles se beijaram novamente. Sem pressa, sem se preocupar. Como qualquer outro casal normal faria, aproveitavam cada momento que a madrugava os proporcionava. a segurou com um pouco mais de força pela cintura, guiando um beijo lento para que se descobrissem aos poucos - algo que nunca tiveram a oportunidade de fazer. Separam-se por breves segundos somente para retomar a respiração, sentindo enquanto batia de maneira morna na face do outro, somente para unir os lábios novamente. Era uma sensação que certamente os deixaria viciados, teriam que voltar a se ver várias vezes somente para sentir aqueles lábios.
Tinham plena noção que aquele primeiro beijo em segredo, tantas madrugadas antes, havia sido o que os levara para aquele momento - e agradeciam mentalmente o lapso que tiveram naquele momento para se beijarem a primeira vez. Os lábios de pertenciam aos de e sabiam que a recíproca era verdadeira.
- Hora de ir pra casa? - Ela perguntou baixinho, após se separar somente o suficiente dele para fazer a pergunta. sorriu contra os lábios dela.
- Hora de ir pra casa. Só preciso pegar minhas coisas, você me espera?
- Claro que sim. Vou ficar na recepção como sempre fazemos para que ninguém ache estranho. - piscou para ele e, após pegar a mochila de dança, deixou o estúdio de para fazerem a caminhada de volta juntos.
terminou o último gole de café quentinho que desceu por sua garganta enquanto observava a porta que havia acabado de usar e os últimos acordes da música do disco que escutava tocava para dar boas vindas ao silêncio da noite.
Ele queria fazer uma música para que ela pudesse dançar. Por mais que ninguém pudesse saber daquilo, ela saberia - queria fazer uma música para sua .

- Você se importa se passarmos rapidinho naquela loja de conveniência vinte quatro horas antes de irmos para casa? - perguntou enquanto se aproximava casualmente de , ambos acenando para o segurança como sempre faziam.
- Não! Estou com falta de chocolate em casa, vai ser bom dar uma passada lá! - sorriu de volta, dando um “boa noite” animado ao segurança. - Você está há quanto tempo sem comer?
- Então... Não sei. Fiquei trabalhando e perdi noção de tempo, pode ser que faça umas boas seis horas que eu não coloco comida no meu sistema. - enfiou as mãos nos bolsos da calça enquanto sentia o frio da madrugada atingindo-os com uma brisa leve.
Imediatamente, sua atenção voltou para . Era esquisito pensar aquilo, mas agora ela era namorada dele. E uma coisa que sempre quis fazer quando tivesse uma namorada era protegê-la do frio de uma noite exatamente como aquela. Em seu ponto de vista, seria perfeito envolvê-la nos braços, trazendo mais para perto do próprio corpo e esquentá-la com o calor dele. Somente aquele pensamento fazia o coração dele se agitar no peito, enquanto os lábios queriam sorrir.
Mas estavam logo na frente da empresa e ser muito óbvios em público certamente seria uma péssima decisão.
- Você precisa se alimentar direito, . Ou não vai aguentar o tranco da sua agenda lotada.- Dizendo isso, se aproximou dele, empurrando-o levemente com o ombro e permanecendo próxima ao calor do corpo dele. - Não quero te ver passando mal, sei do seu histórico e dos garotos.
- É, eu sei, eu sei... - suspirou, sem se distanciar dela enquanto olhava para os pés na calçada. - Mas pelo menos o desistiu daquela dieta maluca quando o parou de comer junto com ele.
- Ainda bem, ou eu teria que botar um pouco de bom senso na cabeça daquele sem noção. - respondeu de maneira resoluta, fazendo-o sorrir. - Ele já é maravilhoso exatamente da maneira como é. Não precisa ficar emagrecendo horrores só porque tem um monte de gente estúpida na mídia.
- É que a mídia não perdoa, . Você tem sorte de ficar sob os holofotes só de vez em quando. Às vezes é... - Ele respirou fundo, os ombros se abaixando como se carregassem algo pesado quando expirou. - Insuportável.
- . - chamou imediatamente, parando no meio da calçada. Alarmado, ele parou logo em frente a ela. A vantagem de ser madrugada é que haviam somente eles na rua, sendo a lua a única testemunha do que quer que fizessem. - O que houve? Aconteceu alguma coisa?
- Não. Tá tudo bem! - Ele respondeu após alguns segundos, sorrindo como sempre. Parecia que nada tinha acontecido e aquilo fez com que ela franzisse as sobrancelhas.
tirou as mãos dos bolsos e repousou nas faces gélidas de , ficando na ponta dos pés para aproximar o rosto dele ao dela e beijá-lo na madrugada gelada, esquentando-o novamente. O beijo dela foi cuidadoso, como se quisesse protegê-lo do que quer que estivesse deixando o coração dele aflito. Aquilo fez com que fechasse os olhos e lutasse para que não derramasse pequenas lágrimas inconvenientes que insistiram em surgir: era a primeira vez em anos que sentia um porto seguro no meio da tempestade constante em que ele se encontrava.
- Você sabe que pode contar sempre comigo, não? - Ela murmurou enquanto se distanciava dele. - Não estou aqui só para os momentos bons. Se vamos ter um relacionamento, é para estarmos aqui para o outro nos momentos difíceis também. O que houve, ?
permaneceu de olhos fechados, mesmo que tivesse se distanciado dele. Após aproveitar as palavras dela, começou a sorrir. Não queria abrir os olhos enquanto não tivesse certeza que não iria chorar - por mais que não entendesse muito bem o que era aquele sentimento no peito dele. Só sabia que estava feliz.
- Alguns comentários sobre mim, . Nada demais. Provavelmente estou sendo muito dramático por pouca coisa. - Ele deu uma breve risada, ainda de olhos fechados.
sorriu, cruzando os braços. Não sabia mais o que fazer com . Achava que aquilo seria impossível, mas a cada dia que se passava, ela se apaixonava cada vez mais.
- Sabe. Você também pode chorar na minha frente. - E ele conseguia ouvir o sorriso nos lábios de .
Aquilo fez começar a rir, por mais que uma pequena lágrima fizesse questão de escorrer pela face dele. a enxugou rapidamente com a manga do casaco, abrindo os olhos e colocando as mãos na cintura ao observá-la.
- Você não precisa fazer isso comigo, né? - Ele perguntou com uma risada, por mais que os olhos ainda estivessem molhados. somente riu de volta. - Vamos para o mercadinho antes que acabemos abraçados em algum lugar que ninguém possa nos ver, chorando nos braços um do outro!
- Ah, isso é algo que eu ia gostar de ver! - Ela continuou sorrindo enquanto caminhava ao lado dele.
- O quê? Minha expressão chorosa? - exagerou na reação, fazendo biquinho e muito mais drama do que o necessário.
- Não! O seu lado vulnerável, seu tonto! - balançou a cabeça enquanto ria novamente. - Acho que eu poderia ser vulnerável com você, então não ia me importar de ver esse lado seu!
- É... - suspirou. - Acho que eu não me importaria também. Quem sabe um dia, minha pequena bailarina?
queria passar um dos braços pela cintura de e o puxar mais para perto, apoiando a cabeça no ombro dele enquanto caminhavam. Queria ao menos poder abraçá-lo, porém aquele beijo repentino que ela decidira dar para que ele se abrisse um pouco mais já fora risco suficiente para uma noite.
E assim, ambos foram até a loja de conveniência, no que comprou seus chocolates e foi obrigado por ela a comprar dois pacotes de miojo e algumas frutas só para aquela noite. Ele aceitou, mas não comeria tudo aquilo - afinal... Talvez ele precisasse emagrecer pelo menos um pouco para melhorar a aparência. não sabia muito bem o que fazer para agradar ao público, porém via que era aquilo que os artistas normalmente faziam para ser considerados mais bonitos... Então não deveria machucar.
- Promete pra mim que vai se cuidar, ? - perguntou com um suspiro cansado quando chegaram ao apartamento dela. - Não importa o que falaram, ok? Você é perfeito.
- Ah, são os seus olhos, meu amor...! - Ele respondeu da maneira mais brega possível, porém as bochechas coraram com o elogio. - Mas prometo que me cuido. Você também, viu?
- Ok, pode deixar. - O sorriso levemente envergonhado dela quase fez derreter. não estava acostumada a ter alguém se importando com ela daquela maneira, portanto não sabia muito bem como responder, tendo reações como aquelas. - Falando nisso, faz um tempinho que não vejo o por aí. Ele tá bem?
- Hmmm, acho que sim... Mas ele não fala muito, né. - franziu as sobrancelhas, notando que fazia uns três dias que não via direito o amigo, por mais que morassem no mesmo apartamento. - Acho que seria legal se você mandasse uma mensagem pra ele. O se cobra demais e acho que esteja treinando mais do que o necessário.
- É, bom. Uma falha de personalidade de todos vocês, aparentemente. - fingia estar irritada, fazendo dar um sorriso como uma criança que tivesse acabado de fazer besteira. - Mas vou falar com ele sim. Boa noite, !
Dizendo isso, o beijou rapidamente antes de ir embora, virando-se para trás somente para ver com as bochechas ardendo enquanto acenava para ela.
Quando já tinha sumido do campo de visão dele, chutou um pequeno pedaço de papel dobrado, levemente amarelado, quando começou seu caminho para casa. Franzindo as sobrancelhas, pegou o papel entre os dedos: provavelmente era algo de . Colocando-o no bolso do casaco junto com as mãos, decidiu que poderia devolver aquilo a ela no dia seguinte.
Enquanto ele estava quase chegando ao próprio apartamento, já estava de pijama, confortavelmente embrulhada em seus cobertores quentinhos. Com o celular em mãos, decidiu pesquisar o que estavam falando de na mídia e nas redes sociais, a fim de entender o que ele tinha comentado antes enquanto esperava a mensagem dele de que tinha chegado em casa.
imediatamente franziu as sobrancelhas ao encontrar o resultado das pesquisas. Antes de clicar nos sites, questionou-se se teria paciência e não xingaria ninguém - se estava pronta para ver aquele tipo de coisa. Mas agora era seu namorado e ela queria dar o suporte que ele precisava.
“Quem é aquele feio ali na ponta?”, “Por que ele continua no grupo? Obviamente não tem nada a acrescentar, só fica estragando as fotos enquanto os outros são bonitos”, “Ah, aquele é o feinho que ainda por cima é chato, né?”, “Ele podia se cuidar mais. Talvez se emagrecer uns três quilos e considerar umas cirurgias plásticas”, “Ele me lembra algum animal... Qual vocês acham que ele parece?”, “Podia ser o bicho de estimação do grupo e ficar só lá no canto sem fazer nada, ninguém sentiria falta”.
O coração de afundou no peito. Ela tentou se segurar, mas imediatamente começou a chorar. Se ela estava se sentindo daquela maneira, como ele estava se sentindo?
“Lembra da vez que exigimos que ele saísse do grupo por ser feio, chato e sem talentos? Poderíamos fazer isso de novo”.
Por causa de , o grupo ganhara prêmios de melhores danças e coreografias - porque ele se esforçara para fazer com que todos aprendessem e se apresentassem da melhor maneira. Por causa dele, o grupo tinha músicas bem escritas - era responsável por escrever partes das letras e produzir partes das músicas. Por causa dele, o grupo era da maneira que era - se saísse, não seriam mais o mesmo grupo. Igualmente se qualquer outro membro saísse: eles dependiam uns dos outros e tinham plena consciência daquilo.
parou de ler os comentários tóxicos e segurou o celular contra o peito, tentando controlar as lágrimas. E ele ainda fingira para ela que estava tudo bem. Que não havia nada de errado e que não precisaria se preocupar com ele. Porém se ela não se preocupasse, quem se preocuparia? Sabia que tinha amigos e ajuda da empresa, porém tinha plena consciência que ele escondia muita coisa.
: Hey, ! [1:47 a.m]
: Lembrei de você [1:47 a.m]
: Foto [1:47 a.m]
respirou fundo ao ver as mensagens chegando no celular. Esperava que fosse chegando em casa e já estava pronta para um discurso, mas se controlou ao ver o nome de . Talvez ela precisasse se acalmar e ver falando com ela era exatamente o que precisava - aquele era um assunto que, se fosse falar com , devia ser conversado pessoalmente, não por uma tela de celular.
E ela deu um pequeno sorriso ao ver o que enviara: lá estava um print da tela do celular dele escutando Friends. imediatamente se lembrou do dia em que ficaram cantando enquanto comiam sorvete de madrugada.
: Ah, boas memórias daquele sorvete! [1:48 a.m]
: Precisamos marcar aquela maratona de anime [1:48 a.m]
: Agora, o que você está fazendo acordado agora? [1:48 a.m]
: Voltando pra casa, tava ensaiando [1:48 a.m]
: Não quero errar na apresentação [1:48 a.m]
: O programa vai ao ar no país todo. Além de que é bom pra ensaiar pro show [1:49 a.m]
: Mas você tá comendo, né? E descansando? [1:49 a.m]
: Tô sim, obrigado por se preocupar! [1:53 a.m]
estranhou a demora na resposta de , suspirando em seguida. Qual era a dificuldade que eles tinham em falar dos próprios problemas? Mas ela não podia falar nada: era exatamente igual a eles - ou até pior.
: Eu sei que você é esforçado, só não vai se puxar demais, tá? [1:54 a.m]
: Não importa o que a mídia e as redes sociais falem [1:54 a.m]
: Não quero te ver infeliz [1:54 a.m]
: Ah, você viu as coisas sobre o , né? [1:55 a.m]
: Eu tô quase tirando o celular dele pra que não se cobre demais [1:55 a.m]
: É então... Aí fico preocupada com você e as coisas que não me conta [1:55 a.m]
: Promete que vai se cuidar? [1:55 a.m]
: Prometo sim! Não se preocupe! [1:56 a.m]
: Muito obrigado, ! Boa noite! [1:56 a.m]
O resto da conversa foi somente figurinhas animadas sorrindo e mandando boa noite. Era incrível como as conversas dela e se resumiam a memes - mas nenhum dos dois podia ficar mais feliz com aquilo.
Enquanto escolhia mais uma figurinha, porém, o celular de recebeu outra mensagem: dessa vez de , fazendo-a sorrir.
: Foto [1:58 a.m]
Abrindo a imagem, encontrou uma selfie de , sorrindo, já de pijama contra o próprio travesseiro, e com a legenda “boa noite, minha linda”. Ele não estava de maquiagem e os olhos pareciam cansados, mas era aquele sorriso que fazia com que os joelhos de bambeassem e o coração se aquecer. não podia ser mais bonito: tanto por dentro quanto por fora.
: SÉRIO [1:58 a.m]
E ela não conseguiu deixar de ficar histérica.
- ...? – A amiga dela surgiu repentinamente no quarto, no que imediatamente fechou a foto no celular e olhou para a companheira de casa. – Que bom que você já chegou... Não vai dormir, não?
- Já vou. Acabei de voltar do ensaio, desculpa se te acordei. – sorriu enquanto observava a amiga no seu melhor estilo de pijama de flanela.
E isso porque a pessoa era toda fashion no dia a dia.
- Ok. Vê se não vai muito tarde, tá? – E a amiga bocejou enquanto ia embora, claramente ignorante em relação ao horário. – Daqui a pouco você vai ficar doente. Boa noite.
- Boa noite! - sorriu de volta, cuidando para não fazer muitos barulhos. Não esperava que a amiga acordasse, afinal estava acostumada a voltar tarde, porém era bom ver que ela se importava.
esperou até ouvir a porta do quarto se fechando para pegar o celular às pressas.
: Que foi? [1:59 a.m]
: ...? [2:00 a.m]
: Oi, quase fui pega pela minha colega de quarto [2:07 a.m]
: Desculpa [2:07 a.m]
: Mas o ponto é: [2:07 a.m]
: PQP, [2:08 a.m]
: SE ALGUÉM TIVER A PACHORRA DE FALAR QUE VOCÊ NÃO É BONITO [2:08 a.m]
: EU VOU DAR UMA SURRA DE SELFIES SUAS NA PESSOA [2:08 a.m]
: DE VERDADE [2:08 a.m]
: Você tá MARAVILHOSO nessa foto [2:08 a.m]
: HAHAHAHA MULHER [2:09 a.m]
: Eu achei que você já ia mandar um “nossa que cara de estrupício” [2:09 a.m]
Apesar de sorrir e entrar na brincadeira, porém, sentiu um leve aperto no peito ao ver aquelas palavras.
: ESTRUPÍCIO?! [2:09 a.m]
: Ok [2:09 a.m]
: Tá decidido [2:10 a.m]
: O quê? [2:10 a.m]
: Eu vou aí na sua casa [2:10 a.m]
: Esfregar a sua cara no espelho [2:10 a.m]
: Pra você ver como você é bonito [2:10 a.m]
: Porque você tá despertando meu lado agressivo agora [2:11 a.m]
: HAHAHAHAHAHAHAHAHA [2:11 a.m]
: Sério, se você vier [2:11 a.m]
: MELHOR [2:11 a.m]
: Eu vou aí pra falar TUDO que acho lindo em você [2:11 a.m]
: Cada centímetro desse corpo e desse rosto maravilhoso [2:11 a.m]
Com isso, mordeu o lábio inferior, questionando-se se entenderia o que ela queria dizer. Aquele assunto não se resolveria daquela maneira, mas, no momento, ele precisava de alguém que o colocasse para cima - além de que queria que entendesse que ele não era somente lindo, mas também desejado, algo que provavelmente se forçava a ficar ignorante sobre.
: [2:12 a.m]
: Você se controla [2:12 a.m]
: E para de falar essas coisas [2:12 a.m]
: “”? Ah, ... [2:13 a.m]
: Que foi? [2:13 a.m]
: Você só me chama assim quando fica sério [2:13 a.m]
: E pra ser sincera... [2:13 a.m]
Ela se questionou se mandaria a próxima mensagem. Já estava com ela digitada e, sinceramente, com certa vergonha. Mas queria dizer aquilo a - precisava dizer. Algo dentro dela dizia que ele precisava ler aquelas palavras e entender intelectualmente que os sentimentos deles não eram somente platônicos, mas também físicos. Que ele era o suficiente para ela.
: Você fica muito sexy quando está sério [2:13 a.m]
: , para. [2:14 a.m]
Hosoek imediatamente olhou para dormindo em sua cama no quarto que dividiam. As luzes estavam apagadas e a única fonte de iluminação era o celular de . Ele conseguia imaginar indo para lá, os dois se refugiando silenciosamente no closet para que ela fizesse exatamente o que tinha dito: admirar cada centímetro dele. E não veria a hora de fazer exatamente a mesma coisa com .
Mordendo o lábio inferior com força, jogou a cabeça para trás no travesseiro, fechando os olhos. Ele ia ficar maluco. Lembrava-se claramente do dia em que sentira as pernas de fechadas em volta da própria cintura enquanto a beijava apaixonadamente, as costas dela apoiadas contra o espelho da sala de dança. Ele devia ter aproveitado mais exatamente por não haver perspectivas de se beijarem daquela maneira novamente, apesar de pensar que aquilo fora um erro terrível – se antes estavam afundados um no outro por conta de um beijo, depois daquilo estavam completamente perdidos.
Tudo que conseguia pensar era em beijá-la daquela maneira novamente. Em ter a oportunidade de sentir a pele de por debaixo da blusa, os dedos dela agarrando os cabelos dele com força.
: Você também tá lembrando daquele dance practice...? Do espelho...? [2:15 a.m]
: Aish... [2:15 a.m]
: Não acredito que você também [2:15 a.m]
: O que deu na gente naquele dia? [2:15 a.m]
: Acho que foi a música [2:16 a.m]
: E o jeito que você me segurou pela cintura [2:16 a.m]
: Você gostou? [2:16 a.m]
Agora ele estava sorrindo. Na hora que fez aquilo, ficara na dúvida, mas saber explicitamente por que ela havia gostado o deixava mais feliz. E ela sabia que ele precisava ouvir aquele tipo de coisa.
: Eu adorei. Acho que não tem uma coisa que você faça que eu não goste [2:17 a.m]
: Não foi a primeira vez que eu quis que você me segurasse daquela maneira, [2:17 a.m]
: Daqui a pouco vou precisar ir aí mesmo, porque já estou com saudades de te abraçar [2:17 a.m]
: HAHAHAHA [2:17 a.m]
: Seremos dois [2:18 a.m]
: Se bem que acho que preciso te abraçar com mais frequência [2:18 a.m]
: E acho melhor pararmos de falar então, pelo nosso próprio bem [2:18 a.m]
: É uma decisão sábia [2:18 a.m]
: Ah, e ... De verdade... Eu te acho a pessoa mais linda que eu já vi. Por dentro e por fora [2:19 a.m]
: E isso me faz querer ficar sempre com você [2:19 a.m]
: Queria que soubesse disso, viu? [2:19 a.m]
: Eu também te acho maravilhosa, [2: 19 a.m]
: Obrigado... E muito obrigado também pelo beijo arriscado no meio da rua [2: 19 a.m]
: Até amanhã, linda [2:20 a.m]
: Foto [2:23 a.m]
abriu a foto com grandes expectativas e não ficou desapontado. Lá estava , deitada na própria cama, de pijama, sorrindo para ele e a legenda “boa noite, lindo”. suspirou, observando com carinho. Não apagaria: deixaria guardada em um lugar escondido em seu celular para todas as noites que quisesse imaginar que estava dormindo ao lado dele. Para sempre que quisesse abraçá-la e não pudesse.
: Boa noite [2:24 a.m]

somente checou o papel que havia derrubado no dia seguinte. Como era de se esperar, estavam com as agendas cheias e não conseguiram se encontrar. Enquanto isso, também estava em algum lugar ninguém mais sabia qual era, começando a preocupar com aquela ausência repentina.
Entre um ensaio e outro, enquanto pegava a garrafa de água da própria mochila de dança, ele viu cair o papel de , lembrando-se que precisava devolvê-lo. Com curiosidade, abriu o mesmo e leu o que estava escrito - esperava que ela não fosse se importar.
We shouldn’t have met in first place
(Nós não deveríamos ter nos conhecido em primeiro lugar)
But since I saw you, I’m stuck in your maze
(Mas desde que eu te vi, estou presa no seu labirinto)
Your sweet eyes are like the sea
(Seus doces olhos são como o mar)
Every time I push me out, you pull me in
(Toda vez que me empurro para fora, você me puxa de volta)
With every touch you drag me in
(Com todos os toques, você me arrasta a você)
But I really don’t want to resist
(Mas eu realmente não quero resistir)
You’re the light that guides my way
(Você é a luz que guia meu caminho)
You take me out of darkness just holding my hand
(Você me tira da escuridão, somente segurando minha mão)
Bridge (Ponte) -> estilo mais acústico, antes de entrar no refrão
We’re living a forbbiden love, it shouldn’t be seen
(Nós estamos vivendo um amor proibido, não deveria ser visto)
But it’s so strong I can’t resist
(Mas é tão forte que eu não consigo resistir)
In the shadows is where we meet
(Nas sombras é onde nos encontramos)
The night is ours, full of kisses [??? trocar essa última linha]
(A noite é nossa, repleta de beijos)
We don’t care what people may say
(Nós não nos importamos com o que poderão falar)
My heart belongs to you all the way -> sobe um ou dois tons
(Meu coração pertence a você, durante todo o caminho)
continuou encarando o papel durante mais algum tempo, compreendendo tudo que estava escrito. Além das frases e anotações sobre tons e pontes, havia letras como “C”, “A”, “G”, “E” em cima de algumas palavras, como teria em uma partitura.
Aquilo era uma música.
havia escrito uma música.
releu a letra diversas vezes, pensando se ela teria escrito para ele - definitivamente parecia que era aquilo. tinha desenhado variações de tom, paradas e outras coisas para guiar a melodia que ela queria. Ainda não estava completa, mas será que ela daria a ele? Além disso, por que o papel parecia tão velho?
- Andou escrevendo coisa nova, ? - finalmente apareceu no ensaio, sentando-se ao lado do amigo. imediatamente dobrou o papel.
- Não, encontrei isso aqui por aí... - Ele respondeu de maneira distraída, ainda tentando compreender aquelas palavras no papel. - E você? Demorou pra aparecer!
- Estava ensaiando um pouco sozinho! A gravação é amanhã, quero fazer tudo certo! - comentou sorrindo, no que ergueu uma sobrancelha.
- Você comeu alguma coisa...?
O amigo não respondeu. Ambos ficaram em silêncio enquanto ajeitava os cadarços do tênis para não se machucar durante o ensaio. Quando terminou, tirou duas barrinhas de proteína do bolso da calça e estendeu uma a .
- Você também não comeu, né? - perguntou casualmente.
também nem respondeu. Somente pegou a barrinha, sem discutir, e abriu junto com o amigo, ambos comeram em silêncio enquanto contemplavam os outros amigos que continuavam o ensaio em grupo.
- Só não conta pra , tá...? - murmurou, no que concordou vagarosamente com a cabeça.
- Pode deixar.

Aquele camarim era uma das coisas mais sufocantes que já tinham presenciado na vida.
, como bailarina de apoio do grupo dos amigos, estava se arrumando no camarim junto com eles para a gravação do programa para o qual estiveram se preparando. Era algo que misturaria vários artistas, homenageando músicas antigas que fizeram muito sucesso. Um programa importante, com um enorme palco e uma plateia considerável - além de que seria transmitido para todo o país e colocado no Youtube posteriormente. A cobrança era alta, mas mesmo assim, todos conversavam e davam risadas, já acostumados com o clima.
e , por outro lado, não estavam acostumados. Era a primeira vez que passavam por aquela situação enquanto em um relacionamento que só ambos sabiam sobre.
- ! É sua vez de maquiar! - A maquiadora dele o chamou logo que se levantou da cadeira, pronto para a apresentação.
- Ok, ok! Estou indo! - respondeu animado, indo rapidamente até a cadeira e se sentando confortavelmente, um sorriso estampado nos lábios. - Como você está hoje, minha maquiadora preferida?
- Bem e você, ? Nervoso? - Ela rebateu com uma breve risada, sempre animada de conversar com ele. era extremamente simpático com qualquer ser animado ou inanimado, então não tinha como não se sentir confortável ao lado dele.
- Um pouco, mas não mais que o normal. - E ele piscou para ela. - Afinal, não é a primeira vez que fazemos isso, né?
- Definitivamente não! - A maquiadora ao lado respondeu rindo, no que olhou para ela sorrindo.
E logo congelou, estava sentada na cadeira ao lado, a boca brevemente aberta enquanto a maquiadora aplicava batom lentamente com um fino pincel. Os olhos dele se perderam enquanto o pincel escorregava pelos lábios macios da moça.
- Fecha os olhos, . Você já está de base, então vou começar por eles. - A maquiadora dele se pronunciou e sentiu os ombros ficando tensos enquanto obedecia. Será que ela percebera como encarara ?
- Além de que logo teremos algumas semanas com shows. - comentou, observando sendo maquiado ao seu lado. - O programa será uma ótima maneira de treinar.
- Mas vocês dois já ficam ensaiando o tempo todo! - A maquiadora dela comentou, fazendo engasgar na própria saliva. abriu os olhos em um reflexo, quase se machucando com o pincel que corria por suas pálpebras.
As duas maquiadoras ficaram sem saber o que fazer enquanto tossia e os olhos de lacrimejavam.
- Vocês estão bem? - Elas perguntavam. - O que houve?! Precisam de algo?!
- Tudo sob controle, nada não! - tentava respirar fundo enquanto sorria de maneira desajeitada.
- Eu só assustei com a tosse dela! Foi isso! - piscava várias vezes, tentando parar de lacrimejar. - E não ensaiamos toda hora. Eu estou trabalhando nas minhas músicas também.
- Ah, sim, é verdade... Mas vocês passam sim um bom tempo juntos. - A maquiadora dele respondeu com um sorriso simpático e assim que ambas se viraram para suas maletas de maquiagem, e trocaram olhares significativos.
- Precisamos terminar nossa coreografia. - lembrou, tentando escapar daquela situação.
- Sabemos! E não vemos a hora de ver a dança, ficará linda! - A maquiadora dela respondeu, fazendo-a olhar para cima enquanto voltava a fazer os últimos retoques nos olhos de .
Ela e respiraram fundo, acalmando-se daquele susto. Ou ambos haviam ficado muito óbvios ou estavam exagerados demais - e tinham a leve impressão de que podia, sinceramente, ser as duas opções.
- Vocês vão entrar em vinte minutos! - Uma moça da organização entrou no camarim, ajeitando o headset na cabeça. - Eles ficam prontos em quanto tempo?
- No máximo em dez! - Uma das maquiadoras respondeu e a moça concordou com a cabeça.
- Ótimo. Em dez minutos eu volto para levá-los para a concentração! - Dizendo isso, ela deixou o camarim.
- Ótimo! Logo vamos gravar e poderemos focar no show que está por vir e na promoção do novo álbum! - comentou de maneira animada, com as mãos na cintura. - Estou animado para começarmos a divulgar as novas músicas! E você, ?
- Também. - respondeu com um pequeno sorriso, sentado calmamente em seu canto no camarim.
Aquilo era... Estranho.
- O que foi? Está tudo bem? - franziu as sobrancelhas, aproximando-se do amigo.
- Tudo bem, não se preocupe! - respondeu com um sorriso um pouco mais sincero, mas mesmo aquilo não foi suficiente para nenhum dos amigos.
abriu a boca para responder, mas foi chamado por um dos estilistas a fim de acertar a camisa que estava fora do lugar. Por mais que relutasse, tinha que atender, deixando sozinho.
lançou um olhar preocupado ao amigo, que continuava sentado em seu canto, encarando um ponto específico do chão como se não houvesse nada mais interessante no mundo do que aquele ponto. Aquilo era realmente muito estranho: normalmente, estaria treinando a voz ou algum passo de dança, mas nunca estaria parado daquela maneira.
Portanto, os dez minutos se passaram de maneira lenta e asfixiante para o grupo - teve que resolver muitos problemas com seu guarda roupa, as maquiagens de e pareciam não ficar prontas nunca e permaneceu mais quieto que um monge budista em meditação.
- Dez minutos! Vamos para a concentração! - A moça da organização surgiu na sala, levando os membros do grupo na frente e os dançarinos atrás.
seguia enquanto aquecia os braços, focando na apresentação. Os membros da sua companhia de dança faziam o mesmo, preparando-se para que tudo saísse absolutamente perfeito. Ela estalou o pescoço de um lado para o outro, começando a ouvir a plateia gritando enquanto chegavam ao espaço da concentração.
Esse era o momento em que e ficavam separados. Ele coordenava tudo com seu grupo, repassava a coreografia e corrigia cada integrante. Enquanto isso, ela fazia o mesmo com a sua companhia: sendo a que conhecia melhor as apresentações e a dança, repassava e analisava tudo com cuidado - coordenando por volta de dezesseis dançarinos.
- Cinco minutos! Podem tomar seus lugares e deixem espaço para o outro grupo! - A organizadora anunciou, fazendo-os se dividir para lados diferentes do palco.
e estavam em lados opostos, conseguindo ver o outro através do palco. Ele sorriu para ela, dando um pequeno aceno. murmurou “boa sorte”, fazendo ele sorrir mais ainda. Quando as luzes do palco se apagaram e o grupo anterior saiu - dando espaço para que eles entrassem - ficou imediatamente sério, focando somente no palco e na deixa que teria para entrar.
A música começou e os membros do grupo dele entraram gradualmente. tinha o microfone em mãos, dançando sem derrubar. sorriu levemente: lembrara-se da vez em que ele explicou para ela como se apresentar com um microfone, usando um controle de televisão como exemplo. Ela derrubara o controle tantas vezes que tiveram que comprar outro.
- Prestem atenção! A nossa deixa é em três oitos! - Ela gritou repentinamente para os dançarinos que estavam ao lado dela, que confirmaram com a cabeça.
contou o tempo. Conforme estavam prestes a entrar, começaram a se mexer conforme a batida da música. Ela começava a sentir o frio na barriga típico de quando estava para entrar no palco e deu um pequeno sorriso.
- Cinco, seis, sete e vai!
Assim que gritou, os dançarinos entraram com ela. O grupo de dançava à frente, com ela e os outros dançarinos dando apoio atrás. Ela conseguia ouvir os gritos da plateia, a maneira como vibraram assim que o palco ficou cheio. As luzes eram quentes e a deixavam com calor em suas roupas negras, mas não era a primeira vez que tinha que lidar com aquilo. Por conta das luzes, não conseguia ver o rosto de ninguém na plateia, mas sempre tinha a técnica de olhar para o mesmo ponto fixo ao fundo do local no qual estavam se apresentando - aprendera aquilo desde pequena e mantivera para sempre.
Em um certo momento da música, o grupo de dividiu e foi dançar ao lado de . Da mesma maneira como conseguia acompanhar , era a mais indicada para acompanhar em apresentações, fazendo-o sem esforço. Mas havia algo estranho: notou a maneira como os braços dele tremiam e as pernas pareciam fazer muita força para permanecer no lugar. se controlou para manter a expressão neutra de sempre, mas com certeza perguntaria mais tarde se ele estava bem.
Quando o grupo se uniu na pose final, a plateia gritou tão alto que o palco sob os pés deles tremeu. Após agradecerem, as luzes se apagaram e todos correram para o backstage: haveria uma pausa para o momento dos comerciais e aquela era a única apresentação da noite. Eles precisariam voltar ao palco somente ao final para agradecer, mas já poderia descansar no camarim e tirar aquelas roupas insuportavelmente quentes.
- Intervalo de dez minutos! – Eles ouviram nos pontos em seus ouvidos enquanto saiam correndo do palco, contentes com a chegada mais que necessária daquele intervalo.
Como cada um saiu por um canto diferente do palco, e eram os únicos que estavam juntos, utilizando a terceira saída da esquerda junto com vários outros dançarinos de backup da companhia dela. Entretanto, assim que ouviram o intervalo, esses dançarinos já saíram correndo para o vestiário, a fim de tirar aquelas roupas e finalmente descansar. Voltariam para o palco somente se estritamente necessário - e sabiam que não seria necessário.
estava pronta para correr junto com os amigos para o vestiário, porém ouviu um barulho estranho. Achou que era o próprio nome, dito de uma maneira estrangulada e quase inaudível. Por conta do intervalo, o lugar já estava deserto, sendo que as únicas pessoas que continuavam naquele lado do backstage eram ela e .
E ele cambaleava na direção dela - algo que a moça não esperava ao se virar.
- ...! – Ela ouviu novamente quando ele murmurou quase sem ar, sendo que finalmente a alcançou e apoiou as mãos de maneira pesada nos ombros da amiga. Ela imediatamente franziu as sobrancelhas em preocupação, segurando os braços dele.
- ! Tá tudo...?
Mas, antes que pudesse terminar de perguntar, caiu de joelhos na frente dela, de olhos fechados, como se fosse perder a consciência a qualquer momento.
- ! – gritou desesperada. Segurou o rosto do amigo com as duas mãos, sentindo-o mole e suado como nunca. A temperatura corporal dele estava um absurdo e ela não sabia o que fazer. – O que houve?! , fala comigo!
- , eu... – Ele tentava falar, mas não conseguia. Somente segurava a cintura dela com força. Queria tentar se levantar, mas sabia que as pernas não aguentariam.
- Você precisa de um médico. Eu vou chamar.
Mas, na hora que ela disse isso resolutamente e tentou andar, imediatamente segurou a mão dela com a força que lhe restava, impedindo-a de se distanciar dele. se virou novamente para ele, sem entender aquela atitude.
- Não. Não faz isso, . – E, apesar de parecer meio bêbado com o cansaço, tinha a voz firme e clara ao dizer aquilo. – Não chama ninguém.
- Mas ...! - Ela ia entrar em pânico. Tinha certeza daquilo.
- Só me ajuda a respirar... Por favor...! – Ele olhou para cima, encontrando os olhos de .
- Você precisa de alguém pra cuidar de você! Não pode ficar assim...! – O coração dela estava apertado, sem opções do que fazer. simplesmente não entendia o motivo de não largar a mão dela e deixá-la achar um médico.
- Eu tenho você. – Ele respondeu mal conseguindo respirar, mas ainda olhando-a nos olhos. – Só você pode me ver assim... Não quero mais ninguém... Por favor.
E finalmente entendeu. Porque o orgulho dela era igual ao orgulho dele.
E ela jamais iria admitir quando estivesse mal da maneira como ele estava. Quando seu corpo não estivesse mais aguentando. Quando os membros estivessem doendo e os pés praticamente sangrando. Ela levantaria a cabeça e subiria naquele palco. Nem que aquilo acabasse com ela... Da mesma maneira que ele fizera.
- Tira a blusa, . – respondeu, agora mais calma e centrada. Entendia plenamente e sabia que, se fosse o contrário, iria desejar que ele se comportasse de maneira fria e focada para cuidar dela.
conseguiu dar um pequeno sorriso e arrancou a blusa imediatamente, jogando-a para e finalmente estatelando-se no chão, de barriga para cima, mal conseguindo respirar. pegou uma toalha que usaria para enxugar o próprio suor e uma garrafa de água gelada que havia por perto, sentou-se de pernas cruzadas no chão e puxou pelos ombros até que a cabeça dele acabasse apoiada as pernas dela.
pousou a garrafa de água no pescoço dele, fazendo-o suspirar em agradecimento. Em seguida, a moça pousou a mão livre sobre o coração dele, usando a toalha para secar o suor do rosto, pescoço e ombros de .
- Respira devagar para mim, . Ou seus pulmões Obedecendo imediatamente à voz calma de , ele passou a respirar lentamente, a mão dela pressionando o peito para forçar o ar para fora do corpo de .
O tempo passou até que ele conseguisse voltar a respirar de uma maneira mais cadenciada. fechou os olhos enquanto permaneceu secando o suor dele e checando os batimentos cardíacos. Ela tirou os cabelos de do rosto do amigo, correndo os dedos de maneira calma pela cabeça dele a fim de fazê-lo relaxar. Quando abriu os olhos novamente, parecia que não teria um colapso, mas também parecia cansado.
- Eu te amo, ... – Ele murmurou, claramente mais em outra dimensão do que naquela em que se encontravam. - Obrigado...
Mas aquilo não fez com que ela deixasse de abrir um pequeno sorriso. Afinal, eles eram melhores amigos e, se fosse ela naquela situação, não pouparia esforços para cuidar de .
- Eu também te amo, .
E, com isso, ela voltou a limpar o suor dele, ainda pressionando periodicamente o peito de para ajudar na respiração – os dois agora contentes de que tinham se entendido e finalmente em um estado de espírito mais calmo do que quando ele praticamente desmaiara na frente da amiga.

Por conta do acidente de naquela apresentação, as agendas deles deram uma acalmada. Alguns compromissos foram desmarcados para que conseguissem descansar e ficou sob vigilância constante de - e checagem médica uma vez por semana - para evitar que algo acontecesse.
e que encontraram cuidando de no backstage. Assim que se aproximaram em preocupação, ela contou tudo que acontecera, tudo que conversaram, sendo ajudada por eles a levantar e levá-lo a um camarim mais reservado. Após alguns minutos, ele estava bem novamente, subindo ao palco no final do programa com um sorriso no rosto. Ninguém suspeitou de nada, mas obviamente o deixariam na vigilância.
- Eu quase morri do coração... - comentou com enquanto levavam as coisas de dança para o estúdio dele. - Fiquei super preocupada. Achei que o ia desmaiar na minha frente.
- E no final, saiu de lá como uma heroína e ainda um “eu te amo” do lado dele! - riu de volta, fazendo-a sorrir. - Algo raro, devo dizer!
Após aquele esforço todo por parte de , resolveram pegar um pouco mais leve com os próprios ensaios. voltou a prestar mais atenção à alimentação e decidiram treinar por somente algumas horas - quando a madrugada chegou, arrumaram as coisas, porém não queriam voltar pra casa: era o momento que tinham para ficar juntos.
Portanto, a melhor escolha era o estúdio de . Lá, ninguém os incomodaria.
- Pois é, você viu que coisa? E ainda retribuí o “eu te amo”, algo mais raro ainda! - brincou enquanto ele abria a porta e dava espaço para que a moça entrasse. - Mas não tinha como. Ele é meu melhor amigo. Eu falaria a mesma coisa para o .
- E para mim...? - Logo que fechou a porta e fez essa pergunta, se voltou para ele, questionando-se se estaria com ciúmes.
Mas tinha um sorriso bobo estampado nos lábios, fazendo-a rolar os olhos enquanto também sorria.
- Acho que já disse isso para você, não...? - Ela perguntou de volta, aproximando-se dele até estar na distância certa para um beijo. - Pelo que eu me lembro, você estava me encostando contra um espelho na sala de dança, com as minhas pernas enroscadas na sua cintura.
- Enquanto eu tentava encontrar a sua pele embaixo da blusa? - entrou na brincadeira, fazendo-a confirmar lentamente com a cabeça. - Acho que eu lembro desse dia.
- “Acha”? Preciso te lembrar então? - E por mais que tivesse perguntado, não esperou resposta, somente grudando os lábios nos de .
Ele a enlaçou pela cintura, puxando-a mais para perto de si e grudando-a contra o próprio corpo. correu os dedos pelos cabelos de , aproveitando o beijo lento no silêncio da noite.
Silêncio esse que foi interrompido por uma batida na porta que quase fez com que ambos grudassem no teto por conta do susto.
- ? Você tá aí...? - Ouviram a voz tentativa de do outro lado, no que respirou fundo enquanto abria a porta para o amigo. - Ah, você tá sim! Oi, ! Tudo bem?
- Considerando que eu quase morri de susto agora, podia estar melhor. - Ela respirava fundo, fazendo rir. - Ao que devemos a sua ilustre visita nessa hora da madrugada?
- Exatamente o fato de ser tarde e vocês ainda estarem aqui. - respondeu com um sorriso simpático nos lábios. Estava genuinamente preocupado. - Depois do que aconteceu com o , estou de olho no pessoal. , , vocês deveriam voltar para casa e descansar.
- Já vamos, , não se preocupe. - imitou o sorriso sincero do amigo. - A me pediu um disco emprestado e viemos aqui procurar. Prometo que não vamos mais trabalhar hoje.
- Sério? - ergueu uma sobrancelha, no que os dois juraram solenemente que era somente aquilo. - Então ok. Se precisarem de algo, me avisem. E voltem em um horário decente, tá?
- Ok, pode deixar! - e responderam juntos, acenando para .
Assim que o amigo sumiu no corredor, fechou a porta do estúdio e os dois puderam suspirar de maneira audível, como se tivessem acabado de sair da situação mais estressante de suas vidas.
- Essa foi quase... - comentou com a mão no coração, somente concordou com a cabeça.
- Temos que tomar mais cuidado... Sem nos beijar atrás da porta mais. - Ela piscou para ele, fazendo-o rir. - Mas então... Nós vamos voltar pra casa...?
- Não queria voltar tão cedo, queria ficar com você... Na verdade... - E suspirou, parecendo um pouco desanimado. franziu as sobrancelhas, estranhando.
- O que houve, ?
- É que... - Ele enfiou as mãos nos bolsos, os ombros novamente desanimados. - Eu vi que tá passando no cinema aquele filme que você queria assistir. Queria te levar lá.
- Um encontro no escurinho do cinema só com você? De mãos dadas, refrigerantes e pipocas? - sorriu, corando só de imaginar aquela possibilidade.
- Isso mesmo...! - sorriu de volta de maneira animada, somente para que sumisse gradualmente em seguida. - Mas... Não posso te levar. Não podemos...
- Deixar que nos vejam juntos. - completou, os próprios ombros desabando enquanto ela olhava para o chão, sendo atingida com a realidade.
ficou com o coração nas mãos. Queria dizer palavras reconfortantes, queria fazer algo para que não ficasse triste daquela maneira, mas o que poderia dizer? Não havia nada ao alcance de ambos, simplesmente porque a vida e a imagem pública dele o impediam de namorar com alguém. Se eles saíssem somente para assistir um filme e comer pipoca, estariam arriscando suas carreiras e as carreiras dos amigos que trabalharam tanto para chegar lá. Um simples amor não poderia acabar com tudo aquilo. Um simples filme no cinema.
Ele olhou para os próprios pés em seguida, derrotado. Sentia-se feliz de ter arranjado uma maneira de ficar com , mas não podia deixar de achar que era ridículo não poder levá-la ao cinema e viver algo considerado normal por outros casais.
- Tive uma ideia! - comentou de maneira animada, fazendo-o olhar imediatamente para ela. Os olhos da namorada estavam animados, o que deu um pouco de esperança a . - Podemos fazer uma noite de pizza e Netflix! O que você acha?
- Você... Não se importa? - Apesar da pergunta, já estava animado com aquela ideia.
- Nem um pouco. Só me importo de estar com você. - Ela sorriu de volta, fazendo-o espelhar aquela reação. - Podemos ficar no seu sofá, ajeitar o computador pra assistir algum filme e pedir a comida!
- Ok! Eu sei um lugar ótimo que entrega até nos horários mais improváveis! - Dizendo isso, começou a discar um número em seu celular.
Em pouco menos de uma hora, eles já tinham uma boa pizza quentinha, algumas garrafas de soju e o computador ajustado para assistir filmes. se sentou no sofá de , apoiando a pizza em uma caixa de som que deixaram na frente deles exatamente para aquele fim. As garrafas estavam apoiadas em lugares seguros no chão, perto de onde se sentaria.
- Posso apagar as luzes? - Ele perguntou, recebendo uma confirmação animada de que já segurava seu primeiro pedaço.
Assim, ficaram somente com a iluminação do computador e algumas luminárias da mesa de trabalho enquanto se sentava ao lado de .
- Antes de colocar o filme, só vamos nos ajeitar... - Ela comentou fazendo um sinal para ele. - Você consegue se encostar ali?
- Consigo sim, mas minhas pernas tem que ficar esticadas em cima do sofá. - Ele respondeu sem entender direito.
- Essa é a intenção. - piscou para ele e, quando entendeu, imediatamente começou a sorrir.
Assim que se ajeitou no sofá, abriu os braços para receber . Ela se aconchegou entre as pernas dele, apoiando a cabeça contra o ombro de . Ao ficarem confortáveis, sorriram ao perceber que aquilo era bem melhor que ir ao cinema.
- Ah, e você não sabe a melhor parte... - comentou e, depois de procurar durante alguns segundos, puxou um cobertor que ficava ao lado do sofá.
- Por que você tem isso aqui?! - ria, completamente pega de surpresa com aquilo.
- Já tive que dormir por aqui várias vezes, é sempre bom estar preparado. - Ele respondeu, beijando o topo da cabeça da namorada logo em seguida.
Arrumaram o cobertor para que cobrisse a ambos e aconchegaram-se no sofá de uma maneira que não conseguiriam fazer em nenhum outro lugar. Com as pizzas em mãos e as garrafas abertas, iniciaram o filme e aproveitaram cada segundo daquela madrugada que tinham juntos.
Os dance practices eram bons... Mas permanecer nos braços um do outro também valia a pena.




Capítulo 6

Terceiro Movimento - Valsa Vienense (Parte 2)

Eles nem perceberam o horário em que foram dormir. Tinham toda a intenção de retornar aos seus apartamentos - afinal, era perigoso dormirem juntos no estúdio de . Porém, o sono foi chegando aos poucos enquanto aproveitavam os momentos dos filmes e logo a cabeça de pendeu de maneira mais pesada no ombro de .
Sem querer acordá-la, ele deixou o filme rodando, aconchegando-a de maneira melhor em seus braços para que estivessem praticamente deitados. Quando o filme terminasse, a acordaria para levá-la para casa.
Porém ele mesmo caiu no sono. Não notaram, mas ter um contra o outro era mais confortável do que dormir em suas camas. se aninhou contra enquanto ele somente a aproximava mais de si - o que terminou com ambos deitados de conchinha no sofá do estúdio, com as costas no encosto do mesmo e com as costas grudadas no peito dele. Dormiam placidamente, como se nada no mundo pudesse atingi-los.
acordara cedo naquele dia. Não encontrara com desde o acidente no backstage, então queria conversar com ela para ao menos agradecer pela ajuda da amiga. Colocando seu moletom favorito e usando o capuz para esconder o rosto e as orelhas do vento gelado, enfiou as mãos nos bolsos e caminhou até a Boulangerie próxima ao apartamento que ele dividia com os outros membros do grupo.
- Bom dia, Marie! Tudo bem? - Ele perguntou logo ao passar pela porta que anunciou a presença dele com um pequeno sino. Marie, uma mulher francesa alta e mais velha, porém que não aparentava a própria idade, surgiu de trás do balcão.
- Bom dia, ! Acordou cedo hoje, hein? Tudo bem e você? - Ela se apoiou no balcão, um belo sorriso colorindo o rosto. continuou com as mãos nos bolsos, sorrindo de volta para ela, de maneira até um tanto envergonhada.
- Preciso voltar à minha rotina do dia a dia. - Ele deu de ombros. - Nada de mais... Você começou cedo hoje também!
- Como sempre faço, meu querido. - Marie piscou para ele de maneira simpática. - Como posso te ajudar hoje?
- Vou levar meu café da manhã pra viagem e queria levar algumas coisas para uns amigos também... - pensou, observando o que já estava exposto na vitrine. - Você acha que consegue embalar quatro madeleines, um chocolate quente e um café pra viagem?
- Claro que consigo! Além do seu americano e um pão de chocolate, certo? - Ela perguntou enquanto anotava em uma comanda e confirmava com a cabeça. - Vai ter companhia no seu café da manhã hoje?
- Preciso agradecer minha amiga por cuidar de mim... É o mínimo que posso fazer! - E o sorriso envergonhado surgiu novamente nos lábios de .
Em pouco tempo, ele estava com o café da manhã estrategicamente pensado embalado em uma sacola de papel pardo de tamanho considerável enquanto andava pela rua. Chegou à empresa antes do que o normal, sendo cumprimentado pelas poucas pessoas que estavam no local. Durante o caminho, chegou a enviar algumas mensagens para , porém não obteve retorno - portanto, seguir para o estúdio de era o mais recomendado.
também comprara algumas coisas para alimentar o amigo. Se seu palpite estava certo, tinha ficado lá a noite toda trabalhando em suas músicas e não voltara para casa - o que indicava que provavelmente não tinha comido.
Ele nem se deu ao trabalho de bater na porta do estúdio de : simplesmente segurou a maçaneta e entrou como se fosse a própria casa.
- , você ainda está aqui, não...?
E as palavras de sumiram assim que ele avistou e no sofá.
imediatamente congelou no lugar, sem mover um músculo. Ficou parado provavelmente durante alguns minutos, com receio de que os amigos tivessem acordado. Por sorte, permaneceram em silêncio, abraçados em seu sono, enquanto estava parado no meio do estúdio com cara de pastel.
Eles tinham que acordar e se ajeitar. Deram sorte que fora quem os encontrara e ele já sabia dos dois há muito tempo. Aproximando-se furtivamente da mesa do estúdio, encontrou o celular de e colocou o som, para que tocasse quando ele ligasse.
E, depois disso, praticamente saiu correndo de lá de dentro.
Quando os dois tinham decidido ficar juntos? Até onde sabia, prometeram se evitar até a morte. Sabia que era difícil para os amigos, mas esconder um relacionamento seria mais difícil ainda.
sentia a cabeça girar enquanto seguia pelo corredor até a sala de dança. Respirava fundo para manter a calma. Era melhor estarem juntos: separados, e estavam absolutamente miseráveis. Então, se ele era a única pessoa que sabia, o mínimo que podia fazer era ajudar.
Centrando-se novamente quando chegou à sala de dança, discou o número de e aguardou, torcendo para que acordassem antes que alguém fosse procurá-los.
Com o toque do celular, e se remexeram no sofá. Era a primeira vez que dormiam abraçados com alguém que gostavam - e certamente queriam repetir aquilo. Ao notar a situação em que estavam, respirou fundo, abraçando-a com mais força e fazendo-a rir. Em seguida, deu um beijo no topo da cabeça de e ficou em silêncio com ela durante alguns segundos, situando-se novamente na realidade.
- É meu celular tocando, né...? - Ele murmurou de maneira cansada e confirmou com a cabeça. - Quem está me ligando tão cedo...?
- Não faço ideia... - Ela suspirou de volta. De repente, arregalou os olhos, como se finalmente tivesse acordado. - . Estamos no seu estúdio, não?
E foi a vez de arregalar os olhos.
Eles tinham cometido um erro.
Um belo de um erro.
- Consegue pegar meu celular pra mim, linda....? - Ele perguntou assim que começaram a se ajeitar no sofá para se sentar e não se encontrarem em uma situação tão comprometedora.
- Aqui. - se esticou e entregou o aparelho para ele. - É o .
- Ok, obrigado. - Ele mandou um beijo no ar para ela, fazendo-a sorrir assim que atendeu à ligação. - Oi, !
- Oi, ! Tudo bem?! - E não poderia estar mais feliz com o fato de que o amigo atendera o celular.
- Tudo sim... Por que você está me ligando tão cedo? - perguntou de maneira natural, mas queria ter certeza de que o amigo não suspeitava de nada.
- Ah, eu estou chegando na empresa e a ainda não respondeu minhas mensagens! Queria pagar um café da manhã pra ela por ter me ajudado no backstage... E entregar algumas coisas pra você também, acho que você dormiu no estúdio e não comeu nada, né? - respondeu com uma risada mais histérica do que o normal, mas que passou pelos ouvidos sonolentos de .
- É verdade... Obrigado! Eu vou ver se consigo falar com a ! - Assim que disse isso, a moça se virou imediatamente para com uma sobrancelha erguida. - Encontramos com você na sala de dança?
- Pode ser! Estou indo pra lá! - mentiu, já sentado diligentemente no chão da sala de dança.
- Ok! Assim que eu achar a , vamos aí! - Com isso, desligou o celular com um suspiro.
- Ele sabe de alguma coisa...? - Ela perguntou em expectativa, no que balançou a cabeça negativamente.
- Parece que não... Dessa vez nos descuidamos. - Ele deu um pequeno sorriso para a namorada, fazendo-a dar uma breve risada.
- Nem me fala. Eu estou com a mesma roupa de ontem e não tenho desculpa pra isso. - suspirou, arrumando as coisas na mala de dança para jogá-la nos ombros e seguir à sala de dança.
- Hmmm, sobre isso... - E se pôs a procurar por algo na própria mala de dança. Após alguns segundos, achou uma camiseta preta, simples e certamente comprida demais para ela. - Sempre trago uma troca de roupa pra quando durmo aqui. Se você trocar a blusa, acho que não vão notar que está com a mesma calça.
- Obrigada, . - agradeceu com um sorriso e um rápido beijo nos lábios do namorado.
Virando-se de costas para ele, tirou a blusa do dia anterior e dobrou-a com cuidado. Não era a primeira vez que a via de top de esportes, mas era a primeira vez que prestava atenção ao corpo de . Ela parecia ter a pele macia e ele se lembrava de como era quente quando se beijaram contra o espelho em um dos ensaios. Balançando a cabeça, suspirou enquanto ela colocava a blusa dele.
- Ficou enorme, mas já é melhor que nada! - Ela riu, mostrando para ele o resultado final.
imediatamente começou a rir: a blusa podia facilmente ser um vestido.
- Você está linda, meu amor! - Dizendo isso, ele a beijou, demorando um pouco mais do que o necessário. - Agora vamos antes que o comece a achar estranho.
somente concordou e seguiu discretamente para fora do estúdio. Mesmo assim, não conseguia parar de sorrir: era a primeira vez que ele a chamava de “meu amor” daquela maneira.

- Caiu da cama hoje, ? - perguntou logo que entraram na sala de dança.
- Bom dia, garoto da manhã! - cantarolou sorrindo logo que viu o amigo se virar. não conseguiu deixar de rir: ela certamente estava de bom humor. E ele sabia o motivo. - Como você está?
- Bem melhor! - sorriu de volta, levantando-se do chão. Já tinha ajeitado o café da manhã em uma toalha improvisada e apontou para o mesmo de maneira meio desajeitada. - Queria te agradecer e pedir desculpas pelo susto de outro dia... Não queria deixá-la preocupada, mas não queria que ninguém me encontrasse naquele estado. Obrigado por cuidar de mim, .
- Mas olha só, ele só faz essas coisas legais por você. - piscou para , rindo enquanto ia até o café da manhã, já atraído pelo cheirinho morno do café.
somente continuou sorrindo. Eles estavam sendo óbvios e, se não fosse seguro se comportar daquela maneira somente na presença dele, certamente daria umas boas pisadas “discretas” no pé de para ver se ele notava.
e estavam felizes como não via há meses. Não queria que aquilo acabasse somente por descuido de ambos.
- Fico feliz que você tá bem. - segurou a manga do casaco de , levando-o até o piquenique improvisado de café da manhã. já estava com o copo de café em mãos, apreciando o aroma de olhos fechados. - Se me der mais um susto daqueles, juro que te atiro do palco só de raiva.
Com essa frase, e imediatamente começaram a rir enquanto ela e o amigo se sentavam. Seria uma cena engraçada para falar a verdade: era maior e bem mais forte que . Qualquer tentativa de jogá-lo do palco contaria com muito esforço da parte dela.
- Quem sabe se você comer um pouco mais e ficar mais forte vai poder competir comigo, hein? - brincou, empurrando-a de leve com o ombro. lançou um olhar engraçado para ele, já atacando uma das madeleines.
- Com você se entupindo de pão de chocolate, é claro que vai ganhar de mim! - respondeu analiticamente e começou a rir mais ainda, quase engasgando no próprio bolinho.
- Posso saber qual é a graça? - perguntou com a boca cheia de pão, o chocolate manchando levemente os lábios, enquanto apoiava uma das mãos na cintura e olhava o amigo que tentava se conter e não morrer engasgado de madeleines. somente balançava a cabeça, tentando não rir do namorado.
- Ela te chamou de gordo na cara dura. - Aquilo provavelmente era muito mais engraçado na cabeça de do que de qualquer outra pessoa. Ou ele somente estava propenso a rir de maneira desembestada.
- Pois saiba que...! - levantou o dedo indicador, ainda se ocupando de comer o pão de chocolate ao mesmo tempo em que falava, quando o celular de recebeu uma mensagem e a moça desligou completamente do assunto.
Enquanto tomava o chocolate quente e sentia o corpo todo esquentar, as sobrancelhas dela se franziam a cada palavra que lia da mensagem que recebera. Era do produtor da companhia para qual ela trabalhava, o mesmo que fazia a gestão entre ela e a companhia do grupo ao qual e pertenciam. Por muitas vezes, o produtor a avisava das regras da companhia - se havia alguma especificação para os bailarinos, quais roupas ela teria que usar, restrições de cortes de cabelo, maquiagem e etc.
Mas a que ela recebera naquela manhã realmente a incomodara.
- O que foi, ? - perguntou imediatamente, logo que notou a expressão incomodada no rosto da moça.
- Nada... - Ela suspirou, balançando a cabeça e deixando o celular de lado. - Só regras e mais regras. O de sempre.
- O de sempre nunca é bom por aqui... - analisou enquanto concordava com a cabeça. - O que foi?
- Eu tenho que emagrecer. De três a cinco quilos. - Ela suspirou, dando uma generosa mordida em uma das madeleines.
- O quê?! - E a indignação dos dois foi em uníssono.
- Pra dançar com você... - Ela apontou para . - E continuar a participar nos próximos MVs e apresentações, já que querem me colocar mais em destaque nos grupos de dança. Tenho que manter a forma desse corpinho lindo e emagrecer seria, e vou usar as mesmas palavras, “de bom tom”.
- De bom tom? Bom tom?! - parecia que estava prestes a morder alguém. - , você anda se esforçando tanto que tá emagrecendo a cada dia que passa! Se emagrecer mais, vai sumir!
- Regras, são regras, ... - Ela fechou os olhos, suspirando enquanto parecia cansada. - Aparentemente o lindo time de Marketing da sua empresa acha que eu sou mais vendável se estiver mais magra.
e rolaram os olhos, já prontos para xingar o primeiro que desse o ar da graça naquela sala. , porém, deu de ombros e continuou a comer placidamente.
- É a vida. Eu escolhi esse tipo de carreira e sabia quais os tipos de obrigações idiotas impostas pela sociedade que teria que enfrentar para poder dançar. - A moça comentou como se não fosse nada de mais. - Então essa semana será de salada e academia. Muita academia que eu odeio.
- Olha só, tive uma ideia! - imediatamente parecia que tinha sido atingido por um raio. - Você me ajudou no backstage, eu posso te ajudar agora! O que acha de treinar comigo? Posso ser seu treinador e amigo, assim essa semana vai passar rapidinho e eu garanto que você não vai emagrecer de um jeito que vai te matar.
- Agradeço muito, . - sorriu novamente, parecendo genuinamente mais feliz. - Ter a sua ajuda vai me fazer muito bem.
notou, porém, que o observava, como se quisesse comentar algo. focava em dança e fazia somente o estritamente necessário na academia, ao contrário do amigo. Aquele já era um fato muito bem conhecido, portanto era o melhor professor que poderia ter.
- Pode deixar, . - comentou sorrindo, ao notar a maneira como o amigo o observava. - Eu vou cuidar bem da .
Por um segundo, e tiveram a louca impressão que sabia do relacionamento em segredo entre eles. Mas, no segundo seguinte, voltaram a sorrir e a aproveitar o café da manhã que o amigo providenciara.

- Vamos lá, ! Só mais um pouco! - estava abaixado na frente da amiga, observando enquanto ela puxava os pesos que ele colocara no aparelho. Tinha que se certificar de que ela faria o movimento correto e não teria nenhum tipo de lesão.
somente lançou um olhar revoltado na direção do amigo enquanto puxava as alças para frente e sentia o suor escorrendo da lateral do rosto e descendo pelo pescoço. teve que se controlar para não rir e ela percebeu, sentindo-se seriamente tentada a tirar o pé do lugar e dar um chute nele.
Mas já estava sentada e qualquer movimento brusco poderia machucá-la. Então, por um bem a si mesma, decidiu não agredi-lo.
Pelo menos não fisicamente.
- Ótimo! Só mais cinco, vai! - sorriu quando ela colocou os pesos de volta no lugar e respirou fundo, voltando ao exercício.
- Sério. Eu te odeio tanto, . - A moça disse entre os dentes, fazendo-o dar uma breve risada. se aproximou ainda mais dela e apoiou as mãos nos joelhos da amiga.
- Você tá indo bem, não desanima! - Ele tinha um grande sorriso nos lábios, ignorando as palavras rudes de . - Usa esse ódio todo pra te animar, vai! Só mais quatro!
- Eu vou morrer com mais quatro! - E ela estava a ponto de chorar. Como é que conseguia lidar com uma rotina daquelas? gostava de dançar, agora passar horas na academia trabalhando nos músculos do corpo? A moça fugia de qualquer coisa parecida com aquilo.
- Vai nada! Você já sobreviveu à meia hora de bicicleta, uma hora e meia de exercícios e depois só vamos fazer mais meia hora de bicicleta, que é o mais fácil pra você, se quer saber! - apertou os joelhos dela levemente, de maneira carinhosa. - Vamos! Só mais um pouco, !
- Mais um pouco e depois mais meia hora de bicicleta. - rolou os olhos, porém não conseguiu deixar de dar uma risada. - Você quer me matar, moleque!
- Ei, se você me chamar de moleque de novo, aí sim vou querer te matar. - Ele tentou ser ameaçador, mas não conseguia levar a sério. - Só mais um pouco! Vai!
E, de fato, ela conseguiu. comemorou alegremente enquanto só queria ficar no aparelho e morrer, porém ele segurou a mão dela e começou a puxá-la de lá.
- Me deixa descansar, ...! - resmungou, mas ele não desistiu. Afinal, era bem mais forte que ela, então conseguiria carregá-la facilmente, se necessário.
- Não, não, não! Sem descanso! Falta só mais meia hora! - E, com isso, ele a arrastou até a bicicleta mais próxima.
era como : preferia passar seu tempo dançando e refinando coreografias do que fazendo mil e um exercícios na academia. Sabendo que estava treinando com , porém, resolveu passar na sala de musculação e ver em que ponto estavam - já no meio da semana daquele treinamento intenso, ele se lembrava de como ela reclamara de dores musculares das mais estranhas e até dormiu na sala de ensaio por conta do cansaço.
- Só mais um pouco! Vai! Vai! Você consegue! - gritava na frente da bicicleta de .
- Eu vou te matar, ! - gritou de volta, segurando a mão dele por algum motivo. Mas aquilo fez ambos começarem a rir, sem se soltar.
deu um pequeno sorriso. Como queria estar lá ajudando a treinar. Como queria também segurar a mão dela daquela maneira sem se importar. tinha sorte... E tinha até um pouco de ciúmes do amigo, mas nada que fosse contra especificamente - somente queria poder tocar a própria namorada quando tivesse vontade.
- Olha só quem milagrosamente apareceu por aqui! - notou a presença de , puxando-o de volta dos próprios pensamentos. Se ele não estivesse terminando um exercício, deixando a própria camiseta suada no peito e nas costas, teriam visto como corou como um pimentão.
- Também preciso fazer minha parte de vez em quando, né...? - Ele perguntou meio sem jeito, aproximando-se enquanto tirava os cabelos suados do rosto. - Como você tá aguentando, ?
- Eu não tô aguentando. Essa é a resposta. - Ela respondeu de maneira agourenta, fazendo ambos começarem a rir. - Me dê forças, .
Nisso, a outra mão dela segurou a de , fazendo-o sentir surpresa por um breve segundo. Em seguida, o coração dele disparou no peito e abriu um enorme sorriso, fazendo até com que os olhos fechassem. não conseguiu ficar sem sorrir de volta.
tinha um olhar orgulhoso e satisfeito. Por causa de todo aquele treinamento, eles puderam dar as mãos de uma maneira que não fora óbvia para ninguém - um gesto inocente, que ela fazia até com um amigo como ele. Mas que, para e , significava muito mais.

- Eu estou magra, bela e com sono. - resmungou durante um dos ensaios, sentando no chão como uma criança enquanto fazia as “pernas de borboleta” como aprendera no ballet quando criança: unir os pés em frente ao corpo e ficar brincando de abrir e fechar as pernas de leve para treinar flexibilidade. Porém, desde criança, aquela era uma mania que ela tinha para relaxar. - E com fome.
- Sorte sua que eu trouxe algo. - piscou para ela, deixando a música rolar no aparelho de som e, após fuçar a própria mochila, sentou-se na frente dela, estendendo uma barra de chocolate. Inteira. somente olhou para ele e ergueu uma sobrancelha. - Você sabe, glicose é a melhor maneira de repor energia.
- Não acredito que você também faz isso...! - Ela parecia incrédula enquanto pegava a barra com um enorme sorriso nos lábios. sorriu de volta, pendendo a cabeça para o lado.
- O quê...? - Ele perguntou daquela maneira meio boba, repleta de admiração. Não podia fazer nada quando ela era tão... Ela.
- O chocolate! - E colocou um quadradinho na boca, fechando os olhos ao saborear a comida. - Eu fazia isso quando era mais nova! Quando tinha uns quinze anos e estava na escola, antes das aulas de dança, precisava de energia. Então sempre pensava que o mais lógico era glicose e comprava uma barrinha bem pequena de chocolate pra aguentar o tranco de duas horas de aula, duas vezes por semana. Era meu ritual antes de dançar.
- Bom, é a melhor maneira de sobreviver nesse mundo puxado da dança! - riu de volta, estendendo a mão de maneira inconsciente para limpar o canto do lábio dela que ficara sujo de chocolate. sentiu um calafrio na espinha, porém um calafrio bom, algo que sempre acontecia quando a tocava. - Eu fico tão feliz de ter te encontrado naquele dia gravando nosso MV naquele frio desgraçado...
O comentário de fora feito de maneira meio ausente, quase um devaneio dele para ele mesmo. se lembrava claramente do frio quando inventaram de gravar uma cena inteira de dança do MV deles em cima de uma montanha. Era a primeira vez que a companhia dela era chamada para servir de apoio para eles e, sinceramente, ela não achava que algum deles teria interesse em conversar com uma estrangeira como ela. Mas estava quase nevando, um frio impiedoso, e todos os músculos acostumados com o país tropical de retesavam naquela ventania cortante. Mesmo com os casacos, mesmo com os aquecedores, mesmo com os chás: os olhos dela lacrimejavam de frio e o nariz brilhava em vermelho. a encontrara na multidão de pessoas que tinham se reunido naquela montanha para fazer o MV acontecer e não conseguira tirar os olhos dela.
- Você me ofereceu chá... - relembrou, ausente como , fazendo-o sorrir de maneira ainda mais brilhante. - E me perguntou de onde eu era.
- E você me respondeu o último país que eu ia esperar. - Nisso, os dedos de começaram a acariciar o rosto de , fazendo-a fechar os olhos. - Mas o país que sempre faz meu coração sentir saudades.
- E você veio do país que sempre me fez sentir saudades. - Ela abriu um sorriso esperto colorindo os próprios lábios. - Que dupla somos nós, .
- A melhor, se você quer saber minha opinião. - Ele respondeu meio convencido, fazendo-a rir.
Essa risada, porém, logo foi abafada por um beijo cuidadoso que fez questão de demorar o quanto queria, apreciando pelo tempo que lhes fora dado no meio daquela noite.
- E o beijo dela tem gosto de chocolate, ainda por cima. Como é que nós nos encontramos? - olhou de relance para o teto, como se estivesse falando com uma força muito maior do que ambos.
dera uma pequena risada da gracinha dele. Mas ela também se fazia a mesma pergunta - e pedia para que não se separassem, por mais que nada estivesse a seu favor.

Para ser bem sincero, tinha orgulho.
Era um dos raros momentos que ele podia parar aquela rotina desenfreada de sempre e observar dançando. Ela estava treinando com o grupo de dançarinos que apresentariam com eles nos shows e MVs, sempre repetindo os movimentos diversas vezes até se cansar e indo mais além. Ele fizera uma pausa no próprio treino para comer uma barrinha de proteína e não pôde deixar de observá-la.
deu um pequeno sorriso sem muito humor enquanto a via dançando incansavelmente. Queria poder levá-la para sair. Assistir um filme no cinema, talvez? Sabia que gostava de filmes. O convívio deles não ia muito além das abafadas salas de dança e queria conhecê-la em outro nível, de maneira mais íntima. Queria levá-la para sair nos fins de semana. Passear em um parque. Fazer um piquenique e conversar sobre qualquer coisa que viesse na cabeça. Sentar com ela no sol e ficar sem fazer nada.
Sabia que era o tipo de pessoa que ele nunca se sentiria desconfortável de fazer algo como aquilo... Mas como ele, , faria algo diferente de trabalhar e trabalhar e trabalhar?
Não podia mentir para si mesmo. Sabia que quando era muito jovem até para poder tomar as próprias decisões, escolhera se vender para uma indústria impiedosa que não deixaria que ele tivesse a própria vida. tinha plena consciência de que voluntariamente se jogara em um abismo, trocando a própria liberdade para viver algo que sempre sonhara - para ser o artista que era hoje em dia. Ele escolhera viver com aquelas amarras de marionete em volta dos próprios pulsos e tornozelos, pois aquilo lhe traria a fama que tinha atualmente.
Mas quando era jovem, nunca pensara que seu coração o faria amar e questionar se tudo aquilo realmente valia a pena.
Franzindo as sobrancelhas, suspirou. Era claro que valia a pena. Ele não tinha dúvidas daquilo, nunca tivera. Mas será que era tão impossível assim alguém como ele poder amar...?
- Pensando na vida, ? - surgiu repentinamente ao lado de , fazendo-o quase derrubar o próprio café que resolvera tomar para acompanhar a barrinha.
- É, um pouco... - suspirou novamente, voltando a observar os dançarinos com um olhar distante. - Você já parou para pensar um pouco na vida que levamos?
- Tento não pensar muito nisso... Mas sim. - cruzou os braços, também observando. - Tá pensando nas coisas que poderíamos fazer se não fôssemos quem somos...?
somente concordou com a cabeça, tomando um gole de café. permaneceu em silêncio, pensando nas palavras do amigo.
- Você já se apaixonou por alguém? - perguntou baixinho como se estivessem conversando sobre o maior segredo do mundo. pareceu congelar ao lado dele.
- Tento evitar ao máximo. - O amigo respondeu, sabendo que o assunto era delicado. - Cheguei a gostar um pouco de alguém, mas me forcei a esquecer. Não ia dar certo. Não assim.
novamente concordou com a cabeça, sem dizer uma palavra. Sabia que a atitude que tomara era a mais inteligente tendo em vista o que faziam. escolhera com a mente, não com o coração. Mas se deixara envolver demais, dera muita vazão aos sentimentos, e agora estava enfiado em uma situação que, sinceramente, a cabeça dele só conseguia prever resultados catastróficos.
- Você... - começou a perguntar, abaixando ainda mais a voz. - Gosta de alguém?
- Não. - respondeu com uma certeza inabalável, a fim de distanciar qualquer dúvida que o amigo pudesse ter. - Não. Mas estava pensando como lidaria caso começasse a me apaixonar. Só sonhando acordado, como sempre.
- Ah, sim.... - deu um pequeno sorriso, um pouco mais aliviado. - Você deveria estar pensando na coreografia, isso sim! Não fica se preocupando demais com essas coisas! Se focar no trabalho...
- Não vou ter tempo pra pensar besteira, eu sei, eu sei! - deu uma risada rápida e divertida, completando a frase que eles sempre falavam quando estavam preocupados com algo ou começando a ter dúvidas sobre o caminho que estavam seguindo. - Só vou terminar o meu café e já vou lá, ok?
- Ok. Se não vier logo, eu venho aqui te carregar à força pro ensaio! - ameaçou, fazendo a risada de aumentar.
Mas, antes de deixar a sala de ensaio dos dançarinos e voltar para a própria, observou mais uma vez - concentrada, brilhante de suor, repetindo a coreografia provavelmente pela vigésima vez - e só conseguia pensar nas palavras de “não ia dar certo, não assim”.
Ele sinceramente esperava que o amigo estivesse errado - por mais que sua mente dissesse que ele estava certo.

- Você gosta de sorvete?
- O quê?
foi pega de surpresa no meio daquele dance practice com quase adentrando a madrugada.
Como sempre, era tarde da noite e estavam ensaiando juntos. Deram uma pausa na coreografia para que ele pudesse ensinar mais algumas técnicas a ela e vice versa, divertindo-se um pouco para liberar a tensão da cobrança do dia a dia.
Então aquela não era uma pergunta que estava esperando enquanto fizeram uma pequena pausa para beber água.
- Sorvete. - continuou com um sorriso nos lábios ao ver a confusão no rosto dela, sentado no chão e retomando a respiração. ergueu uma sobrancelha. - Fiquei pensando nas coisas que casais normais fazem e lembrei que sair pra tomar sorvete é sempre gostoso. Acho que nunca fizemos algo assim juntos.
- Ah, sim, sim... - concordou vagarosamente com a cabeça, um pequeno sorriso surgindo nos lábios. - Gosto bastante de sorvete. Aliás, você já foi em uma sorveteria que tem aqui por perto? , é o melhor lugar do mundo!
- Ainda não... - Ele deu um pequeno suspiro, porém ainda sem parar de sorrir enquanto se sentava em frente a ele. - Não posso fazer muitas coisas na rua sem programar muito antes, além de que a probabilidade de ser reconhecido pelas pessoas e não conseguir fazer nada é muito grande.
- Ah, não tinha pensado nisso... - Ela olhou para baixo, os ombros ficando um pouco tensos. - Você não sai nunca então?
- De vez em quando. Mas precisa ser tudo muito bem programado, ou a equipe de segurança pira. - Ele tentou dar uma pequena risada para ela ficar mais confortável, mas ainda parecia incomodada. - Não é tão ruim quanto parece. Às vezes consigo sair por aí e tomar um sorvete.
- Hmmm... - Ela concordou com a cabeça lentamente, dando um pequeno sorriso em seguida. - Então quando você conseguir, faça o favor de tomar sorvete de banana com chocolate. Você não vai se arrepender, é o melhor de todos.
- Sério?! Você é dos sabores exóticos então? - riu com a resposta inesperada, fazendo-a rir junto com ele enquanto concordava.
Não ia comentar que queria ir com ela e poderiam experimentar os sorvetes um do outro. sabia muito bem o motivo de ter indicado ao sabor ao invés de falar que ela o pediria e ele poderia experimentar dela: a moça, assim como ele, tinha plena consciência de que não poderiam ir a uma sorveteria juntos.
- Sabe o que eu tava pensando? - Com isso, ele se levantou do chão, estendendo uma mão para ajudá-la a se levantar. - Você tá com fome?
- Hoje você tá o rei das perguntas inesperadas, não? - ergueu uma sobrancelha enquanto se levantava com a ajuda do namorado. - Um pouco sim, por quê?
- Tem um lugar que eu consigo ir nesse horário que o pessoal já me conhece e não correremos risco. - Ele disse de maneira animada, já começando a desligar tudo na sala para sair com . - Ok, não que não haverá risco, mas o risco é bem mais baixo. E te juro: é o melhor hotteok da cidade.
- Hotteok?! - Apesar da pergunta, a moça já estava tirando a sapatilha e colocando as botas, arrumando-se para sair com ele. - , você sabe o quanto eu sofri pra ficar magricela e sucesso pra equipe de vocês? Agora você vai me entupir de hotteok?
- Nem me fala, foi um exagero pedirem aquilo pra você... - Ele balançou a cabeça enquanto arrumava a própria mala antes de deixarem a sala. - Você já é gostosa, o que mais queriam?
ficou em silêncio durante alguns momentos. Sem a resposta dela, se virou para trás somente para encontrá-la vermelha feito um tomate e tentando conter o riso enquanto arrumava a própria mala de dança - já com o casaco e pronta para sair.
- Que foi...?
- Quer dizer que você me acha gostosa, ? - Ela colocou a mala no ombro, erguendo uma sobrancelha enquanto observava o namorado.
E ficou repentinamente lívido.
- Eu falei em voz alta. - Ele concluiu para si mesmo, fazendo-a rir imediatamente. - Quer dizer, é. Acho sim. Você é bem bonita e gostosa. Não acho que precise fazer algo pra melhorar, porque já é perfeita, na minha opinião.
- Não estou acostumada a tantos elogios de uma vez assim. - começou a caminhar, indo até a porta com e esperando enquanto ele apagava as luzes. - Você também é bem bonito e gostoso, .
- Jura? - O sorriso animado dele não podia ser definido em palavras, mas concluíra que gostara. Bastante. - É por isso que você não parava de me encarar aquela vez que estávamos em casa e eu tinha acabado de sair do banho?
Os olhos de se arregalaram repentinamente e a moça não sabia onde enfiar a cara, fazendo-o explodir em risadas enquanto a seguia pelo prédio.
- Em minha defesa...! - começou a falar, não sabendo se ria de vergonha ou se fugia dele. Mas estavam namorando, então um assunto como aqueles acabaria surgindo cedo ou tarde. Teriam que se acostumar e, se ela fosse sincera consigo mesma, não estava se sentindo intimidada por ou algo do gênero. Sentia-se confortável para conversar dos mais variados assuntos. - Você fica muito bonito com o cabelo molhado e água escorrendo pelo seu pescoço. É algo mais forte que eu.
- Hmmm... - E claro, tinha que provocar. Ele a seguia logo atrás da moça, mas ela praticamente conseguia ouvir o sorriso convencido na voz dele. - Imagino então que quando eu fico suado desse jeito nos dance practices, você deve pirar.
- Ai meu Deus, agora vai ficar se achando a última bolacha recheada do pacote, não...? - suspirou, rolando os olhos e questionando-se da própria sanidade ao ser tão sincera. - Mas é, eu gosto sim. Você fica com uma confiança desmedida quando está dançando, principalmente nos shows. É incrível de assistir e olha... Se eu falasse que não te acho gostoso, não estaria sendo sincera. Você que nunca comentou muito dessas coisas comigo.
- Ok... Então vou comentar que adoro te ver treinando na sala de dança só de top e shorts. - Ele comentou baixinho, em seguida passando pelo segurança do prédio com ela e desejando boa noite ao homem. Assim que chegaram à rua, começou a caminhar do lado de , guiando-a no caminho que queria que fizessem até chegar ao “melhor hotteok da cidade” segundo ele. - Você também tem uma confiança e uma aura enquanto está dançando que olha... Já te vi dançando algumas coisas que nunca dançou antes com o seu grupo e só faz quando está sozinha nas salas e te digo uma coisa: qualquer um ficaria no chão se te visse daquele jeito, mulher.
- Incluindo você? - deu uma breve risada, tentando esconder as bochechas que se avermelhavam. Por sorte estava mais gelado e ela corava com tempos mais frios. Ainda ia ter que se acostumar com falando dela daquela maneira, mas não podia negar que gostava.
- Principalmente eu. - Ele piscou rapidamente para ela, sorrindo em seguida. - Já queria te falar isso faz algum tempo, mas sempre fiquei pensando que você acharia que estou ultrapassando algum limite entre nós. Como estamos namorando agora, acho que não temos mais esse limite... Não?
Ele queria se certificar que estavam na mesma página. não era a pessoa mais literata do mundo em relacionamentos amorosos e, da mesma maneira que era tudo muito novo para ela, era o mesmo para ele. Então queria ter certeza que não estava forçando nada nem a deixando desconfortável - mas era o que ele gostaria de poder conversar com uma namorada em um relacionamento saudável.
- Acho que temos que começar a derrubar esse limite... Que nem fizemos hoje. - Ela sorriu de volta, fazendo-o quase suspirar em alívio. - Namorar é algo muito novo para mim. Sempre foquei em estudos e trabalho, então minha vida social nunca foi lá uma maravilha.
- Bom, eu tive uma namorada e não durou muito tempo. Não sou o maior exemplo do mundo em relacionamentos amorosos. - balançou a cabeça, indicando o caminho que tinham que tomar e evitando lugares muito movimentados. - Além de que era uma criança tonta e tenho certeza que um namoro com quinze anos de idade e um agora são estratosfericamente diferentes.
- Quer dizer então que teve um namorinho no auge dos seus quinze anos de idade?! - colocou as mãos na cintura, sorrindo como nunca e parecendo extremamente surpresa. rolou os olhos e se arrependeu imediatamente das próprias palavras. - Vamos lá, conte-me mais sobre isso! Você era do estilo brega que tentava vestir roupas formais pra sair com a namorada e parecia um patinho recém-nascido tentando parecer grande? Ou era o bad boy que ficava fazendo marra e vestindo jaqueta de couro, levando a moça pro mau caminho...?
- Pra sua informação, eu não era tão ruim assim, tá...? - suspirou e o sorriso de somente aumentou.
Sim. Ele se arrependia amargamente.
- Ah, meu patinho, não fica assim! Tenho certeza que você era um fofo...! - Ela queria abraçá-lo. E, assim que chegaram em uma rua mais escura, olhou nos arredores para ter certeza que não estavam sendo seguidos por ninguém e poderia dar um abraço forte e exagerado em .
- Você é a pior pessoa. - Ele jogou a cabeça para trás. Se arrependimento matasse, já estaria enterrado. - Te amo só às vezes.
- Sei. - E ela respondera exatamente como uma mulher que tem certeza que o homem está mentindo, apertando ainda mais o abraço. - Não se preocupe, patinho. Você está a salvo comigo.
- Quer parar de me chamar de patinho...? - ergueu uma sobrancelha enquanto ela o soltava. - Pra sua informação, eu não era tão brega assim naquela época. Lembre-se que eu dançava com a galera de hip hop...
- Patinho de dia, dance monster à noite. - respondeu de uma maneira dramática e imediatamente rolou os olhos e xingou enquanto ela somente explodia em risadas.
- Pior. Pessoa. - Ele repetiu categoricamente, mas aquilo não impediu os risos da namorada.
- Mas ainda assim, sua pessoa. - Ela piscou de volta, colocando as mãos nos bolsos do casaco antes que tivesse a vontade de abraçá-lo novamente. - Como minha mãe dizia: sempre existe um chinelo velho para um pézinho cansado.
- Que horror! - E não conseguiu ficar sem rir. - Juro que se você continuar me chamando de patinho ou dance monster, só vou te chamar de chinelo velho!
- Não tem problema, patinho. Eu sempre serei o chinelinho pro seu pé de dançarino descansar. - Claramente estava brincando, fazendo-o rolar os olhos novamente enquanto ela só ria.
Apesar de tudo, aquelas palavras foram até bonitas por parte dela. Ele sabia que sim, estava brincando. Mas também sabia que ela conhecia a rotina puxada dele e, ao falar aquilo, estava insinuando que sempre seria a pessoa para quem ele poderia voltar quando estivesse cansado sem conseguir se mover. Toda vez que precisasse de conforto, estaria ali.
- Ah, chegamos! - Ele segurou o pulso dela repentinamente, fazendo-a parar de dar risadas sozinha.
E logo notou que estavam em uma pequena feira de rua, com no máximo cinco barracas, nas quais pessoas compravam, vendiam e consumiam produtos lá mesmo. Não era extremamente cheio, mas também não era vazio. E era de madrugada.
- Existe uma feira de rua de madrugada por aqui?! - Ela ergueu uma sobrancelha, realmente impressionada, esquecendo-se do “patinho”.
agradecia internamente àquilo.
- É pro pessoal que trabalha à noite e de madrugada na região. Eles vêm comprar algumas coisas e aproveitam pra dar uma pausa no expediente pra comer. - Dizendo isso, segurou a mão de e começou a guiá-la pela feira. - O pessoal aqui me conhece desde pequeno porque minha mãe chegou a trabalhar num desses expedientes na região, então não vão fazer nada. Como eu disse, é mais seguro!
estava fascinada. Nunca pensara que a levaria para conhecer um lugar que fazia parte da história pessoal dele, por mais simples que fosse, mas lá estavam eles. Era como um mundo secreto que somente os dois tinham ciência da existência.
- Olá, tio do hotteok! - parou em frente a uma barraca e acenou animadamente. Lá trabalhavam um homem e uma mulher mais velhos com uma garota que devia ainda ser adolescente e provavelmente filha dos dois.
- ! Quanto tempo! - O homem abriu um enorme sorriso, apoiando-se no balcão da barraca para conversar com ele. - Conseguiu dar uma pausa pra vir nos visitar de novo?
- Sim, de vez em quando é bom, né? - respondeu do jeito animado de sempre, puxando um pouco mais para perto. - Estava ensaiando com a minha amiga e ficamos com fome! Ela não é daqui e falei que precisava experimentar o melhor hotteok que essa cidade já viu!
- Ah, prazer em conhecê-la! Sentem-se, sentem-se! - O homem acenou com as mãos para mesinhas de plástico montadas na rua. - Nós levaremos os hotteoks para vocês! Fiquem à vontade! Vamos caprichar!
- Obrigado! - acenou de volta, começando a caminhar com até as mesinhas. Mal percebia que ainda estava segurando a mão dela. - O tio do hotteok é a melhor pessoa e você não vai se arrepender.
- Por que eu tenho a impressão que você não sabe o nome dele e vai ser “tio do hotteok” pelo resto da vida? - perguntou enquanto se sentava, fazendo-o dar uma breve risada. - Mas esse lugar é sensacional, ! Fico feliz que você me trouxe aqui.
- Não é o melhor encontro, reconheço isso... - Ele suspirou ao se sentar. - Queria poder te levar em algo mais decente, sabe? Poder sair com você para ir ao cinema, em um parque... Poder sair pra jantar em um desses restaurantes chiques que nem todos os casais fazem, acho que você ia gostar. Mas não sei nem se vamos poder assumir alguma coisa, nem como lidar com tudo isso...
Enquanto falava desembestadamente, porém, repousou uma das mãos sobre as dele, que finalmente pararam de se mexer enquanto os olhos de focavam na namorada sentada à sua frente.
- Tá tudo bem, . Eu gosto muito mais de algo assim do que de um jantar chique. - acariciou levemente a mão dele, um pequeno sorriso nos lábios. - Eu estou com você, não com o seu dinheiro.
Um sorriso como um raio de sol desabrochou nos lábios de e os olhos dele espelharam uma alegria que ela não via sempre. Segurando as mãos de , somente respirou fundo, ainda sorrindo.
Como ele poderia não se apaixonar por ela? Aquilo tinha que dar certo.

****
- ? - franziu as sobrancelhas assim que a moça entrou na sala. - Você se perdeu pelo prédio...? Precisa de ajuda...?
- Hmmm, acho que não? - Ela também estranhou, vendo as faces confusas dos amigos sentados a uma grande mesa enquanto vários outros times da empresa se organizavam para iniciar uma apresentação ou algo do gênero. - Fui chamada pra participar da reunião de vocês hoje.
- Uma reunião de marketing? - E foi a vez de de franzir as sobrancelhas. - É para falar sobre a nossa coreografia, talvez?
A pergunta foi feita para o responsável do time de marketing. Ele checava algo no celular com um sorriso satisfeito e fez sinal para que esperassem. Nenhum deles gostava daquele engravatado, como chegaram a apelidar, mas não podiam negar que era um ótimo diretor para a área. Enquanto o CEO da empresa estava ocupado com negócios nos EUA, o diretor de marketing tinha mais liberdade para agir e precisava fazer com que o negócio continuasse rodando e dando lucro enquanto as negociações nos EUA continuavam.
- Aposto dez que esse cara vai vir com uma ideia maluca que ninguém vai gostar. - murmurou assim que se sentou na cadeira ao lado dele, reservada para ela. Era suficientemente distante de e ambos estavam fazendo um bom trabalho fingindo que não estavam envolvidos.
- Aposto que ele vai querer colocar vocês com blusas brancas e finas dançando na água gelada em um conceito extremamente sexy no próximo comeback. - rebateu com um pequeno sorriso enquanto observava um ponto sem expressão alguma e tanto quanto faziam caretas, rejeitando aquela ideia. - É uma ideia maluca que nenhum de vocês vai gostar.
- Ok. Então aposto que ele vai querer fazer um conceito fofinho de arco íris e borboletinhas com coreografias idiotas. - tinha que dar uma ideia ainda pior que a de , fazendo e observarem ambos em puro terror.
- Por que vocês tem que imaginar umas coisas dessas? - perguntou em indignação, fazendo com que ambos começassem a rir. - A gente nunca pensa nada de bom das reuniões de marketing, não?
- Bom, lembrando que da última vez você foi forçado a usar aquela bota prateada de salto e uma roupa inteira branca de lantejoulas, temos motivos pra temer as reuniões de marketing. - analisou, fazendo todos rirem daquele famigerado dia e a roupa de .
- Nossa, por favor. Que não seja mais uma bota prateada, aquilo machucava os pés...! - olhou para o teto e todos pararam de rir assim que o engravatado do marketing se aproximou da mesa a fim de iniciar a reunião, silenciando a sala.
- Bom, temos boas notícias. - Ele comentou com um sorrisinho triunfante nos lábios. Sempre que começava uma frase daquela maneira era por conta de algo realmente muito bom ou uma daquelas ideias idiotas que conversavam antes. - , você hoje é o assunto número 1 não só do país, mas do Twitter e arrisco até dizer do Youtube.
- Jura? - Os olhos de aumentaram exponencialmente em choque. - O que eu fiz dessa vez? Nem postei nada nas redes sociais nos últimos dias.
- Na verdade, foi uma ideia que tivemos recentemente, por conta de vários boatos que surgiram no fandom após o último MV de vocês. - O homem cruzou os braços, claramente em orgulho. - Era algo que teria uma ótima recepção e poderia colocar tanto você quanto o grupo todo ainda mais em destaque para a mídia.
Eles somente trocaram olhares, sem saber do que o homem estava falando. Alguns membros do time começaram a acessar os celulares e parecer chocados, mas comentando animadamente logo em seguida.
- O que você fez, ...? - ergueu uma sobrancelha, perguntando baixinho enquanto pegavam os celulares.
- Como é o comeback de vocês e logo começaremos com as semanas de premiações, precisávamos de algo que colocasse o grupo na mídia. O boato teve uma resposta muito mais positiva do que esperávamos e imediatamente já conseguimos ver que há um apoio muito forte das fãs, principalmente porque foram elas mesmas que começaram com esse boato e trouxeram a ideia para nós.
Abrindo o Twitter, todos notaram uma comoção violenta, porém não conseguiam identificar bem qual era o assunto. Assim que acessaram os sites de notícia, procuraram a aba de celebridades enquanto o engravatado continuava falando.
- Há três horas, confirmamos que e estão namorando há seis meses e esconderam tudo da mídia, somente para confirmarmos agora após as teorias que surgiram com o MV novo.
“Empresa confirma namoro entre e dançarina - era a manchete da primeira notícia que conseguiram encontrar sobre o tema.
e imediatamente trocaram olhares. Suas pernas formigavam. Suas cabeças giravam violentamente. permanecia boquiaberto, observando a notícia em choque. parecia ter congelado no lugar.
O que diabos estava acontecendo?!



Capítulo 7

Quarto Movimento - Sattriya Nritya (Parte 1)

- Mas nós... Nós...! - começou a falar, apontando para ele e para . - Nós não estamos...!
- Sim, eu sei. Mas isso não importa. A notícia colou, foi super bem recebida pelas fãs e vocês são o casal mais queridinho do país e me arrisco a dizer do mundo todo no momento. Não vamos voltar atrás com isso, não agora. Você e a formam um ótimo casal e já têm convivência, quem sabe podem acabar se gostando no processo?
- Espera. - apoiou as mãos na mesa, tentando se segurar em algo para não desmaiar. - Nós teremos que fingir um namoro então?
- Exatamente. Nada que exija muito esforço.
- O quê?! - lançou um olhar de ódio ao homem, descendo a mão à mesa e causando um baque que assustou todos que estavam presentes. - Nós não somos autorizados a amar, lembra?! E você vem dizer que fingir um namoro não exige muito esforço?! E a vontade deles, onde é que fica?!
- Pra alguém que não tem nada a ver com o assunto você está bem irritado, . Não vai atrapalhar a sua coreografia com ela, se é isso que te incomoda. - O homem respondeu com descaso, checando novamente o celular. - O vai fazer uma regravação da música que vocês estão coreografando e vai ter todo um significado de como ele nunca pôde falar abertamente que estavam namorando. Será perfeito e venderá bastante, então não se preocupe.
estava borbulhando de raiva. Achava que ia bater naquele infeliz e desmaiar logo em seguida. O que estava acontecendo?! Como tudo conseguiu dar aquela reviravolta daquele jeito?!
Antes que pudesse se levantar, entretanto, segurou o pulso dele, fazendo-o olhar para o amigo. Os olhos de pediam que ele se acalmasse, pois ambos sabiam que qualquer decisão do diretor de marketing não podia ser colocada abaixo daquela maneira. Precisariam falar com o CEO e expor aquele absurdo, mas enquanto eles estivessem nos EUA, não tinham muitas opções. Não era um assunto para se discutir por meio de telefone ou e-mail, ainda mais quando o marketing tinha um plano tão bem feito em volta e um boato como aquele.
- E a nossa vida? - perguntou com as sobrancelhas franzidas. - Eu não posso decidir quem quero amar?
- Por enquanto não. Mas você é jovem ainda, vai ter tempo suficiente para conhecer e namorar quem quiser depois.
A cabeça de girava violentamente. Sem ouvir muita coisa, a moça se levantou da cadeira, chamando a atenção de todos.
- Eu preciso ensaiar... - Ela respondeu de maneira ausente, sem ao menos ouvir o que estavam falando.
- Eu também. - se levantou como um soldado militar chamado para combate. - Reservei a sala pra treinar com ela agora. Se me derem licença, vou continuar ensaiando a dança perfeita do amor proibido entre ela e .
- Ótimo, ótimo! Não se esqueçam de terminar até o fim do mês, vamos acelerar com esse MV agora! Ah, , você vai precisar regravar a música...
- Ok, ok, eu entendi... - parecia derrotado, os ombros baixos enquanto tentava fazer as pernas pararem de tremer. - Eu preciso...
- Tomar uma água? Eu também. - respirou fundo, caminhando até o amigo e passando o braço pelos ombros dele. Sentia o corpo todo de tremendo e não podia negar que as próprias mãos tremiam também. - Depois vamos começar a ver dessa música.
- Ótimo. Já que todos estão a par com seus afazeres, dispensados.
Mas nem esperaram o diretor terminar de falar. Quando a palavra “dispensados” fora dita, todos já estavam fora da sala, tentando colocar suas vidas de volta no eixo.

não ouvia um barulho sequer.
Sua mente estava em outro lugar, talvez até outro planeta. Os pés da moça se mexiam no automático e o equilíbrio estava fora do eixo. Ela sentia que ia cair e ficar no chão enquanto o mundo todo continuava rodando violentamente - ao contrário de quando ela dava pirueta atrás de pirueta quando estava dançando, dessa vez não tinha um ponto de referência parado no qual pudesse se ancorar. Ela estava solta, o mundo em vertigem e a existência dela em completo caos.
Chegando à sala de dança, a moça finalmente se olhou no espelho, ainda tentando entender o que estava acontecendo.
E finalmente começou a chorar.
- . - chamou, entrando logo em seguida como se estivesse marchando para a guerra.
Quando a encontrou daquela maneira - chorando desconsoladamente, tentando segurar as lágrimas e não fazer barulho para que ninguém soubesse ou comentasse da fraqueza dela - o coração de afundou no peito e os passos somente se tornaram mais urgentes até ela.
Ele não se importava com o que podia acontecer. Se alguém os visse ou não, se os descobrissem ou não. Nunca vira de uma maneira tão vulnerável, tão abertamente machucada - e não podia ficar somente parado observando aquilo.
Sem uma palavra, aproximou-se dela e puxou-a para um abraço, aninhando-a no próprio peito. fechou os braços em volta da cintura dele com força, agarrando a blusa do namorado e escondendo o rosto nele - manchando-o de lágrimas. Uma das mãos de encontrou os cabelos dela enquanto ele dava alguns beijos no topo da cabeça de e a abraçava da melhor maneira que conseguia.
Que confusão haviam se enfiado.
- Isso não é justo... . Não é justo. - A voz dela soou baixa e abafada, entre lágrimas e pequenos soluços. - Era mais óbvio me colocarem com você. Eu não quero... Não consigo. Não é justo, .
fechou os olhos com raiva enquanto a ouvia chorar e falar daquela maneira contra o peito dele. Lágrimas começaram a escorrer no próprio rosto, ouvindo cada palavra que tinha a dizer.
Por que nada na vida dele podia ser fácil?
O amor era para ser uma coisa óbvia, natural e confortável. Um porto seguro no meio de todas as tempestades absurdas que ambos tinham que enfrentar. Sabiam que não seria fácil, mas escondendo o relacionamento por um bom tempo, tinham a esperança - por mais que fosse mínima - de ficarem juntos afinal. De poder provar ao mundo todo que também mereciam ter o conforto de alguém ao próprio lado para aguentar o tranco de viver a vida.
Mas lá estavam eles, o amor como a grande tempestade do momento.
- Eu queria poder te dizer alguma coisa, fazer alguma coisa... - A voz de era amarga e cheia de raiva, de uma maneira que nunca tinha ouvido antes. - Mas não posso fazer nada. Esses caras agem como donos da minha vida, das vidas dos caras do grupo. E não podemos fazer nada quando eles decidem alguma coisa. Se fosse uma reunião para discutir a ideia, meu Deus, , eu moveria os céus e o inferno para que isso não fosse pra frente. Mas nem nos perguntaram antes. Fizeram tudo e nos avisaram depois, tirando a nossa liberdade, como sempre.
“Como sempre.”
devia ter esperado por algo como aquilo, para falar a verdade. Uma vez que ela estava junto com , tinha abandonado a própria liberdade. Se quisesse ter uma vida normal de novo, teria que abandoná-lo - pois aquele era um caminho que não seguia há muito tempo. A pergunta era o que ela prezava mais: ou a própria liberdade?
Fechando os olhos e respirando fundo a fim de tentar controlar as lágrimas, sabia qual era a resposta, muito antes de se envolverem daquele jeito.
- É bom eu ir me acostumando então. - Ela disse com a voz trêmula, distanciando levemente para observar os olhos avermelhados e a expressão séria de . - Eu estou com você agora. E não é uma equipe de marketing que vai me assustar.
E, mesmo querendo quebrar cadeiras em cima de cada um daquela equipe desgraçada que fez aquilo sem consultá-los, ele não conseguiu deixar de dar um pequeno sorriso, orgulhoso com as palavras de .
- Não mesmo, ... - correu os dedos pelo rosto dela a fim de secar as lágrimas que ainda escorriam, porém mais calmamente. - Não mesmo.

A coisa mais esquisita naquele dia, porém, foi voltarem para casa sem o outro.
Pois caminhava pela rua noturna com ao seu lado.
Carregando a mala de dança nos ombros, se mantinha em silêncio enquanto ele tinha as mãos nos bolsos da calça de moletom preta. Sinceramente, nenhum dos dois sabia por onde começar a se falar: como ficaria a amizade deles no meio de tudo aquilo?
As mãos de remexiam nervosamente a alça da bolsa, enquanto a moça comia a pele dos lábios - uma péssima mania quando estava nervosa. O que ela falaria para ? Ele não sabia nada de . Então como explicaria que ela simplesmente não podia namorar com ele, nem de brincadeira? E se ele achasse que um dia poderiam efetivamente namorar? E se quisesse levar aquilo lá a sério?
As perguntas eram muitas e a mente dela corria em círculos a 300 quilômetros por hora.
- ...
- ...
Falaram ao mesmo tempo. Aquilo só ajudou a deixá-los ainda mais desconcertados.
- Desculpa! Pode falar, eu...
- Não, fala você! - começou a tropeçar nas palavras também, atropelando no meio da frase. - Não sabia o que ia falar e só queria quebrar o gelo! Pode falar!
- Eu não sabia nada disso. - finalmente conseguiu dizer aquilo a ela. Agora tinha algo muito mais complicado para falar. - Planejaram tudo sem mim, sem ninguém do grupo, ninguém tava sabendo...
- Eu sei. Eu também não sabia... - balançou a cabeça, voltando a olhar para os pés que caminhavam lentamente naquela noite. - E não faz o menor sentido.
- Menor. Seria mais óbvio te colocarem com o . - suspirou, movimentando um pouco os ombros para que pudesse relaxar antes de falar o que precisava. - Antes que você me pergunte, não parece que há nada entre vocês. Parece somente que são dois dançarinos profissionais apaixonados pela profissão e, acima de tudo, amigos, mas...
estava repentinamente alerta. Estava assustada da maneira como falava e começava a se perguntar se ele...
- Eu sei que vocês estão juntos. Cheguei um dia na sala pra ver vocês ensaiando e encontrei vocês se beijando.
Pronto. finalmente tinha dito aquelas palavras que há tanto tempo estavam acabando com ele. Não sabia para onde olhar, não sabia onde enfiar as mãos - não sabia nem onde enfiar a si mesmo. Se não falasse alguma coisa, ele provavelmente ia gritar e enterrar a cabeça na grama que nem um avestruz.
O coração de estava preso na garganta: ela simplesmente não fazia ideia de como reagir àquela informação. Mal sabia que ela também queria ser um avestruz e sumir.
- Você sabe então desde...
- Acho que desde o começo? - Ele ergueu uma sobrancelha, irrompendo em uma risada estridente e nervosa que durou no máximo uns dois segundos. - Desculpa. Eu tô nervoso, não sabia o que fazer, quase gritei e saí correndo...!
- Ainda bem! Porque eu tô quase gritando e saindo correndo também! - E foi a vez de rir de maneira descontrolada.
Finalmente ambos trocaram olhares e, com isso, riram juntos. Todo aquele clima desconfortável criado por aquela história doida do pessoal do marketing se dissipara - lá estava a amizade forte e confortável que tinham com o outro. A amizade que nunca queriam abrir mão.
- Juro. Eu fiquei com um medo de que vocês tivessem me visto! Já viu o bravo?! Ele vira um bicho, ia me comer vivo...! - se sentia mais leve, inconscientemente se aproximando um pouco mais de . Ela mesma não percebera quando fizera o mesmo.
- Olha, nunca vi o extremamente bravo, mas hoje tive uma prévia de como isso deve ser. - balançou a cabeça, suspirando. - Provavelmente o melhor era correr como se não houvesse amanhã mesmo.
- Então, e depois eu não sabia como me comportar com vocês! - tirara as mãos dos bolsos, começando a gesticular como sempre fazia. - Entrei em desespero e quando vi que iam fingir que nada tinha acontecido, resolvi entrar no mesmo barco e seguir a onda.
- Sábias palavras, . Entra no barco e segue a onda. - E, apesar do tom extremamente sério e expressão sábia, estava claramente zoando pelas últimas palavras.
- Olha aqui, você não começa. - Ele colocou as mãos na cintura, fazendo-a se segurar para não rir. - Porque agora tá todo mundo no mesmo barco.
- Sem bote salva vidas.
- Exato. Se der algum problema, vamos ter que usar alguém de boia.
- Claramente você, porque é o mais forte de todo mundo.
finalmente irrompeu em uma risada divertida que o fez franzir o nariz e parecer um garoto achando graça de alguma piada boba que estava fazendo junto com a irmã.
- boia. - comentou divertidamente. - Acho bom já te comunicar que o é o patinho e eu sou o chinelinho.
- Quê?!
- Essa você vai ter que perguntar pra ele. - Ela piscou de volta para o amigo, suspirando em seguida. Era engraçado como se sentia extremamente leve, como se um peso tivesse sido tirado de todo seu corpo. - Quem diria... É bom falar disso com outra pessoa que não é o .
a observou durante um tempo enquanto sorria placidamente para si mesma. Não conseguia imaginar como era difícil passarem por tudo aquilo sem o apoio de ninguém e fingindo que nada estava acontecendo - enquanto claramente estavam perdidos um para o outro.
- Vocês podem contar comigo, tá? - Ele disse repentinamente, sorrindo quando a moça olhou para ele. - Qualquer coisa, . Eu estou aqui pra vocês dois, porque vocês dois são muito importantes para mim. De verdade.
- Obrigada, . De coração. - abriu um enorme sorriso e segurou a mão de carinhosamente como agradecimento. Afinal, eles eram namorados aos olhos do mundo, não? Então podia encostar nele como bem entendesse em público. Pelo menos uma coisa boa em todo aquele caos.
- Ah! Nossa! - exclamou dando um pequeno pulo no lugar e fazendo-a erguer uma sobrancelha. - Eu acabei de ter uma ideia genial!
- Sabe que tenho medo quando você tem ideias geniais...
- Essa você vai gostar, tá...? - Ele quase mostrou a língua de volta para ela, mas concluiu que aquilo seria muito infantil, até para o nível de amizade deles. - Nós estamos “namorando”, certo? Então não tem motivos pra ninguém suspeitar de você e do . Você pode passar quanto tempo quiser com a gente, ir pra nossa casa quando bem entender e treinar no estúdio até cansar, porque tem o pretexto de querer ficar comigo. E nisso, eu posso ajudar vocês. Posso dar cobertura e ser o seu álibi quando precisarem!
parou no meio da rua e ficou observando , boquiaberta.
- Não é que essa ideia é genial mesmo? - Ela comentou parecendo extremamente chocada.
- Eu disse, mulher! Eu disse! - E ele não conseguia deixar de sorrir com a própria genialidade.
- Já dizia Bradley Cooper em Nasce Uma Estrela: “você sabe que eu nunca minto sem um álibi”! - Agora sorria, mais animada com aquela perspectiva. E ficava feliz em vê-la mais feliz daquela maneira.
Afinal, ela já o ajudara tanto, aquele era o mínimo que ele podia fazer por sua melhor amiga e um de seus melhores amigos. queria de todo coração que fosse feliz e tivesse uma boa vida - e, sinceramente, sabia que podia ser algo extremamente fixo na vida do amigo que só traria coisas boas.
- Quer que eu fale a ideia pro ou você conversa com ele? - Nisso, chegaram ao apartamento da moça, parando em frente ao portão.
- Eu não sei se ele vai querer me morder por eu saber de tudo e não falar nada, ou se vai ficar contente com a minha ideia genial, pra falar a verdade. - O amigo ponderou, colocando as mãos novamente nos bolsos da calça.
- Ok. Eu falo com ele. Vou só tomar um banho e ligo pro digníssimo. - Aquele comentário de fez dar uma breve risada, que durou somente até o momento em que ela ficou nas pontas dos pés e deu um beijo na bochecha do amigo. - Isso é pela ideia. Obrigada mesmo por querer nos ajudar, .
- Não precisa agradecer! - Ele deu um sorriso um tanto envergonhado e acenou rapidamente. Gostava da maneira sobre como ela estava falando de ; tão livre e íntima. - Boa noite, . Se precisar de qualquer coisa, pode me gritar. Eu estarei aqui.
- Você também, . - Ela piscou rapidamente para o amigo. - Boa noite!
Quem diria que há males que vêm para o bem?

****


Lotar o Tokyo Dome não era tarefa fácil. 55 mil assentos em um dos estádios mais famosos do Japão, era como lotar Wembley em Londres.
O show não seria fácil: com quatro horas ininterruptas de coreografias, músicas enérgicas e músicas lentas, trocas de figurinos, equipe de dançarinos de apoio, mudanças de sets, cenários e mais cenários, pirotecnias e fogos de artifício, chamar aquilo lá de maratona era apelido.
Era exatamente para isso que treinavam incansavelmente todos os dias.
Para a alegria de , estava entre os dançarinos de apoio. Era a primeira vez que ela efetivamente viajava com eles em uma tour: ao invés de somente fazer parte de alguns shows e depois continuar o ano com outros grupos e servido de apoio para artistas em geral, agora a companhia dela era exclusiva e viajava o mundo junto com eles.
E claro, ela já tinha se apresentado no Tokyo Dome antes, mas estava mais do que empolgada de poder fazer isso ao lado de .
Para a infelicidade dele, porém, ela fora como namorada oficial de . Não ficavam no mesmo quarto, porém tiveram a privacidade e possibilidade de ficar em quartos um do lado do outro, além de conseguirem se encontrar quando quisessem e da maneira que quisessem.
Sim, tinha ligado para ele na noite daquele dia fatídico e explicado a ideia de .
- Sabe... Nem eu tinha pensado nisso. Será que dá certo? - perguntara para ela, um pouco de esperança renovada no fundo da voz.
- Não sei, mas não custa nada tentar, né? - dera de ombros, enfiando-se embaixo das cobertas pronta para dormir. - Sinceramente, não temos muitas opções e essa parece ser a melhor de todas até agora.
- Pior que é verdade. - Ele considerara com uma risada sem humor, sabendo muito bem que aquela era a melhor chance que teriam de namorar em paz.
Então ele concordara. aceitara e ficara extremamente agradecido a por tudo aquilo. Não conseguia falar a alegria que era quando falava que precisava ensaiar com e, na verdade, ficava no próprio estúdio enquanto e a namorada podiam aproveitar para assistir a algum filme juntos no sofá da sala de dança. Ou quando e sumiam e, ao perguntá-los o que havia acontecido, falava que “o não sei, mas não consegui resistir alugar a pra mim quando a encontrei no corredor”. Ambos atuavam como o casal mais meloso e apaixonado do mundo, como dois adolescentes que só davam as mãos e já se achavam num relacionamento seríssimo - e aquilo não podia ser melhor.
MAS.
Sempre há um “mas”.
esperava sentir tudo na vida, menos ciúmes do amigo.
Mas lá estava ele. Vendo e andar de mãos dadas, ou vendo como ele podia comprar pequenos presentinhos para a amiga e agradá-la sem começar rumores idiotas, sair para tomar um sorvete em alguma lanchonete próxima... poderia até levá-la ao cinema.
Era horrível. Mas estava com ciúmes. Ele queria poder fazer tudo aquilo com sua namorada - não ficar observando viver um romance com ela que nem era realidade.
Será que se eles tivessem falado daquilo abertamente para todo mundo estaria tudo tão fácil quanto o namoro falso com ?
Aquele tipo de pensamento deixava mais ansioso até do que se apresentar em toda a grandiosidade do Tokyo Dome. Sozinho em um canto do palco, esperando para começar sua música solo, precisava parar de pensar em todas aquelas porcarias e focar no que realmente importava: seu trabalho.
E, de repente, sentiu um beijo rápido nos lábios, algo que o acordou e o trouxe de volta à realidade em um piscar de olhos.
- Boa sorte, amor. Vai lá e faz o que você sempre faz de melhor! - Era . Só ela sabia como, conseguiu se esgueirar sem ser vista até aquela parte do backstage e logo em seguida já saiu correndo para poder se trocar e se preparar para a próxima música.
não pôde deixar de abrir um enorme sorriso, enquanto a plataforma na qual ele surgiria no palco começava a se erguer lentamente. Era aquele tipo de coisa que fazia com que o coração dele se aquietasse e parasse de ficar com aqueles sentimentos bobos.
Todos os fãs comentaram como a apresentação de nunca fora tão incrível quanto a daquela noite no Tokyo Dome.

Dois dias consecutivos de shows puxados daquela maneira definitivamente não eram fáceis. Por mais que treinassem e estivessem sempre fisicamente em forma para aguentar o tranco, não podiam deixar de admitir que tinham adquirido hábitos durante os anos que certamente não eram saudáveis.
Como a mania incessante de tomar remédios para dor a fim de ignorar o corpo gritando por um pouco de descanso.
Não era o início da turnê e aquilo indicava cansaço. tinha a incrível fama de ser um dos dançarinos mais impecáveis da atualidade, de conseguir ter fôlego para cantar e dançar durante horas sem deixar de parecer animado e sorridente.
Mas sabia muito bem que ele escondia todo o cansaço por trás daquela máscara alegre e confiante - e que, quando o corpo já não estava aguentando mais, tudo desmoronava repentinamente e sem aviso.
Exatamente como no dia do segundo show no Japão.
Observando as apresentação da última música - que eles cantavam sozinhos no palco, sem ajuda de nenhum dançarino de apoio - massageava o ombro direito que latejava de dor enquanto prestava atenção em cada movimento do namorado com preocupação. Aparentemente, tudo estava bem... Mas havia uma coisa que não se encaixava.
Os olhos de .
Ele sorria, porém os olhos estavam extenuados. Olhando em volta, percebia que ninguém comentava sobre aquilo. Provavelmente porque ela se preocupava demais com o bem estar dele, sempre era atenta para qualquer indicativo de qualquer desconforto que ele pudesse sentir.
O que era engraçado, para falar a verdade. Ela nunca fora a pessoa mais voltada para relacionamentos - muito pelo contrário. E lá estava ela, conseguindo notar qualquer nuance de alteração de humor em com somente um olhar. nunca achou que se preocuparia tanto, que amaria tanto alguém para chegar àquele ponto. Balançando a cabeça, a moça suspirou.
De todas as pessoas do mundo que ela podia se apaixonar, tinha que ser por : a pessoa mais workaholic do Universo, que colocava as necessidades do trabalho e do grupo acima das próprias, que se puxava além do que conseguia para fazer o que era pedido que ele fizesse. Outro ser humano completamente não voltado para relacionamentos e que tinha essa área da vida como a coisa mais sensível e complicada de todas.
Ela continuou prestando atenção em , na maneira como o braço dele parecia pesado ao levantar para acenar a todo mundo que assistia, como ele parava de sorrir toda vez que se virava de costas para a plateia, as respiradas fortes que dava enquanto franzia as sobrancelhas em uma expressão que parecia de dor controlada. Tudo que tinha vontade de fazer era perguntar a ele o que estava acontecendo.
Mas cada detalhe que ela notara fez sentido no fim da apresentação.
Como sempre, continuou acenando alegremente até as luzes do palco começarem a apagar. Conforme a plataforma em que ele estava com os outros amigos do grupo começou a descer, não esperou até estar fora do palco: despencou nos joelhos e começou a tossir, já escondido de toda a plateia conforme a plataforma abaixava cada vez mais.
olhava para ele com preocupação, porém ainda acenando para a plateia. fechou os olhos e parou de tossir, fingindo que estava meditando - então ninguém no backstage notou nada de mais. Porém sabia que havia algo de errado: tentava encontrar alguém no backstage para que pudesse lançar um olhar óbvio de “por favor, cuidem do meu amigo”, mas não encontrava ninguém. também tentava fazer a mesma coisa, por mais que sorrisse e acenasse.
se sentia completamente inútil. Não sabia o que estava acontecendo, tendo que controlar a respiração para não denunciar seus sentimentos. Casualmente pegou uma garrafa de água e inventou alguma desculpa de que ia ao banheiro para poder abandonar sua companhia e os outros membros do staff sem levantar suspeitas.
E, assim que chegou ao corredor negro que dava acesso aos camarins, saiu correndo para a sala.
Os pés dela corriam com uma energia que nem a moça sabia que tinha no próprio corpo. Ela também estava extenuada, mas a preocupação era maior. Tinha que saber o que acontecera com .
O caminho pelo backstage parecia um labirinto interminável. Somente após vários erros, ela finalmente alcançou a porta que sabia ser do camarim deles.
Quando a viu, não pensou duas vezes: escancarou a mesma, dando um susto em , que era o único habitante daquela sala.
- ... – Ele resmungou com a voz falhada, tropeçando nos próprios pés e procurando alguma coisa.
imediatamente fechou a porta e correu até ele, segurando nos braços. Ele tentava sustentar o próprio peso, focando os olhos no chão para ver se ajudava com a estabilidade.
- ! , meu Deus... O que foi?! O que você precisa?! – Ela perguntou enquanto o levava para o local mais próximo no qual ele pudesse se apoiar: uma das mesas de maquiagem. – Você comeu alguma coisa?! O que você tá sentindo?!
- Dor em tudo, preciso do meu remédio... – Ele respondeu apontando a própria mochila de dança que fazia questão de levar para cima e para baixo. se apoiou de qualquer jeito na mesa de maquiagem, logo depois que empurrou todos os cosméticos para longe sem cuidado nenhum. – Não consigo respirar direito, meu corpo todo dói, ...
- Calma...! – E ela deu um beijo inesperado nos lábios de , fazendo-o ficar um pouco mais lógico e ignorar a dor durante alguns segundos. – Eu tô aqui e tudo vai ficar bem, ok?
nem deixou que respondesse: correu até a bolsa, pegou o vidro com os comprimidos e levou-os até ele, estendendo a garrafa de água. tinha as mãos trêmulas e ela teve que ajudá-lo a tomar tudo corretamente – sem derrubar comprimidos nem muita água no próprio corpo.
voltou a tossir logo após o último gole de água. Sem se importar, segurou o rosto dele com as duas mãos e lhe deu um beijo demorado, para acalmá-lo. Aos poucos, percebeu que a respiração de foi voltando ao normal, por mais que ele começasse a pender para um lado. E mais. E cada vez mais...
- ! Você tá caindo! – desgrudou os lábios e o segurou pelos ombros, impedindo-o de se estatelar no chão.
- Eu tô com um pouco de tontura... – balançou a cabeça, abrindo e fechando os olhos para ver se conseguia focar as coisas direito.
- Vem cá, você precisa se deitar. – Dizendo isso, deixou que ele a usasse de apoio até alcançarem o tal sofá e se estatelar por lá, completamente exausto. – Você tá muito quente. Vou tirar sua blusa, ok?
- Você sempre pode tirar minha blusa... – Ele respondeu com uma sombra de sorrisinho sacana nos lábios, fazendo-a dar uma breve risada. começou a subir a blusa dele e a ajudou a se livrar do pedaço de pano. Somente quando ela esticou totalmente os braços é que ele percebeu uma expressão de dor no rosto dela. – O que foi, ? Você tá machucada...?
- Levei um tombo outro dia, machuquei meu lado direito todo. – Ela disse simplesmente, jogando a blusa suada longe. – Nada de mais. Consigo me virar.
Mas imediatamente franziu as sobrancelhas, fazendo um leve bico de indignação com aquelas palavras. Se estivessem em outra situação, teria começado a rir.
- E você ainda tá fazendo os shows como se não tivesse nada...? – Ele ainda estava com aquela expressão enquanto ela só confirmava com a cabeça. – Toma um dos meus remédios. Vai ajudar com a dor.
Normalmente, teria reclamado do tanto de remédios que ele tomava, mas, naquele dia, também precisava de um. Tomou um comprimido e rezava para que logo fizesse efeito.
- Aproveita e tranca a porta... Por favor...
Ela não entendeu o pedido dele, porém não negaria nada a no estado em que ele estava. Assim que trancou a porta, aproximou-se novamente do sofá – e, logo que chegou perto, ele estendeu os braços para ela.
- Vem cá?
não precisava pedir duas vezes: tirou os sapatos, chutando-os em qualquer canto, e se deitou no sofá com ele, aninhada nos braços dele. Aquele era um dos momentos mais raros que teriam em suas vidas, portanto resolvera aproveitar ao máximo.
- Acho que há males que vem para o bem, não? – perguntou com uma pequena risadinha, sentindo um beijo no topo da cabeça logo em seguida.
- Com certeza... – E ele suspirou enquanto ela podia ouvir o sorriso em sua voz. – Obrigado por cuidar de mim.
- Imagina... - Foi a vez de suspirar, sentindo o primeiro momento de calma naquele dia, assim como . Era como se ele finalmente estivesse ancorado após girar vertiginosamente durante horas. - Depois disso a gente vai comer. Aposto que você não comeu nada hoje.
- Não tive muito tempo. - fechou os olhos, entrelaçando os dedos com os de . Aquilo a fez sorrir enquanto ambos sentiam os corações voltando a bater normalmente. - Você vai jantar com o hoje?
- Pensamos em pedir uma pizza. Você sempre será bem-vindo, agora que eu tenho que passar quase o tempo todo com ele. - E apesar de tudo, sentia que logo ia dormir nos braços do namorado. - Acho que podemos chamar o também...
- Então vamos ter que pedir umas cinco pizzas, porque só o come duas sozinho no pós show.
não conseguiu deixar de rir mais do que esperava com aquele comentário. ria junto com ela, a voz leve e baixa nos ouvidos da moça. Apesar de tudo, aquele foi um dos melhores momentos que viveram naquela semana.

- Ok, vocês deixaram o gostoso do ficar sem comer, então uma pizza inteira vai ser pra esse desgramado.
A intenção de era anunciar isso somente para enquanto entrava no quarto dele após já estarem todos de volta no hotel, devidamente de banhos tomados e prontos para descansar - mas a visão que teve em seguida enquanto corava que nem uma pimenta vermelha atrás da moça, foi de emergindo do banheiro com uma expressão completamente chocada.
e congelaram no lugar. Aquilo definitivamente não era o planejado - afinal, somente sabia deles. escorregara feio com aquele comentário.
- Como assim?! - parecia completamente indignado e nenhum dos dois sabia como explicar aquilo. - Você chama o de gostoso e eu?! Agora se me tratar por menos de “homem mais delicioso do mundo” não vou nem te responder, mulher!
não sabia onde enfiar a cara. , por outro lado, desatou em risadas escandalosas que seriamente faria com que ele sentasse em algum lugar logo mais para manter o equilíbrio. O próprio - que saía do banheiro com os cabelos emplastrados de algo colorido e um pincel de tintura nas mãos envoltas por luvas baratas - também não conseguia deixar de rir. A moça simplesmente se questionava o motivo de ser completamente sem noção do jeito que era.
- Olha. Você não quase morreu depois do show. - suspirou, colocando as mãos na cintura. - Esse asno que tá rindo que nem uma besta, por outro lado, ficou um bom tempo se recuperando.
- E só por isso ele merece ser chamado de “gostoso”? - imitou a pose dela, ainda completamente indignado, como se aquilo fosse o maior disparate que ele já tinha ouvido.
- Eu também passei mal, cadê meu “maravilhoso dono do Universo”? - apoiou no batente da porta, um sorriso besta e convencido nos lábios.
- É, você vai ver só, criatura. Continua nessa que você vai ver o que vou falar de você publicamente. - ameaçou com os olhos semicerrados, fazendo e rirem mais ainda.
- Ah, vai me difamar agora, é? - ergueu a cabeça de maneira arrogante enquanto ela se aproximava mais ainda.
- Não preciso te difamar com esse assassinato que você tá fazendo no seu cabelo, já cumpriu todo o trabalho sozinho. - ergueu uma sobrancelha, apontando para metade do cabelo colorido do amigo. - O pessoal da empresa sabe que você tá fazendo isso? Alguém autorizou?
- Não. - E sorriu de maneira radiante. - Vou chegar amanhã assim e quero ver quem vai me falar alguma coisa.
O quarto ficou em silêncio. Podia ser idiota para qualquer outra pessoa, mas, para todos eles, aquela era uma demonstração de revolta e uma queda de braço para ver quem era mais forte: eles ou os executivos da empresa que achavam que mandavam em tudo. Era uma retaliação mais que digna pelo que fizeram com ele, ela e .
- Quer ajuda? - perguntou imediatamente e sorriu mais ainda.
- O tava me ajudando, mas se a minha namorada me ajudar, vai ser melhor ainda acho!
- Todo mundo resolveu me trocar hoje! - parecia completamente revoltado, rolando os olhos. - Não peço pizza pra ninguém!
- O que você acha de me ajudar a fazer um undercut, então? - perguntou repentinamente, atraindo olhares um tanto surpresos. - O que foi? Não estamos nos rebelando contra o sistema? Eu adoro meu cabelo com undercut e eles me enchem o saco pra não fazer nada nunca. Então vamos mudar isso hoje.
sorriu, sentindo uma pontada de orgulho no coração. Como pensara anteriormente, para muita gente, aquilo poderia parecer besta, mas não para ela. O que era para ser somente uma noite de pizza e conversas para relaxar após os incríveis shows do Tokyo Dome, tornou-se uma noite de revolta, regada à cerveja e muita pizza enquanto tentavam ajeitar os cabelos de e . e ficaram para a próxima leva de revolta.
Porque ela viria. Ah, se viria. Iam ensinar uma lição para aqueles engravatados que não eram propriedade de ninguém.

Caos. Era a palavra que definia o que acontecera em seguida. Nem nem imaginaram que podia acontecer uma tempestade em copo d’água tão grande por conta de umas modificações aleatórias nos cabelos.
Mas acontecera. A equipe de staff ficara sem saber o que fazer. O pessoal do marketing entrou em pânico. Os fãs começaram milhões de teorias somente por causa de cabelos. E, enquanto tudo isso acontecia, os dois somente davam risadas e comemoravam juntos.
Sentiam-se fortes e invencíveis. O CEO da empresa não estava lá para controlar o pessoal da empresa, deixando tudo nas mãos do vice-presidente que desconhecia a palavra “liberdade”. Se estivesse lá, uma conversa sobre aquela invasão de privacidade seria o suficiente - mas ele não estava e o vice-presidente não conversava. Então se tivessem que se revoltar, era exatamente isso que fariam - até o CEO retornar e poderem ter uma conversinha sobre todo aquele caos.
- Ainda bem que eu consegui deixar seu cabelo pelo menos aceitável. - comentou com uma pequena risada enquanto caminhava de mãos dadas com perto da enorme piscina do hotel. - Porque a cor tava um desastre quando você tinha pintado só metade que nem o seu nariz.
- Meu nariz é muito bonitinho, dá licença? - ergueu uma sobrancelha, mas andava de maneira confiante e contente consigo mesmo. - Acho que é a primeira vez que a gente resolve dar uma lição nesses pastéis de maneira tão direta e sem medo do que pode acontecer.
- Bom, eles vão retaliar, né? Você sabe disso. - Ela brincou um pouco com a mão dele, balançando mais que o necessário. riu.
- Sei. E eles podem vir, eu e o estamos prontos.
Apesar de tudo, sorriu, começando a observar os próprios pés enquanto caminhava. Ela não achava ruim - muito pelo contrário. Era a primeira pessoa a instigar revoltas contra o sistema, simplesmente porque sabia como o sistema podia acabar com uma pessoa. Ficava contente de saber que e estavam tomando as próprias rédeas e mostrando que tinham poder; que ninguém podia passar por cima das vontades e desejos deles. Que não eram marionetes sem alma como algumas pessoas da empresa gostavam de acreditar.
- Você queria estar aqui com o , não? - perguntou baixo, porém tinha um pequeno sorriso compreensivo nos lábios. suspirou.
- Eu queria muita coisa, . Mas não vou reclamar do que tenho agora, já é muito bom estar aqui com você. - Ela começou a caminhar um pouco na frente dele, virando-se de frente para o amigo e dando passos confiantes de costas. - Eu e o não temos o relacionamento perfeito de filme de romance que muita gente sonha em ter. Mas eu estou com ele, tenho você ao meu lado, me forçando a chamar ele de “delicioso” todo dia, uma carreira como dançarina e, sinceramente, não tenho muito do que reclamar. É o que disse, não é o ideal, mas é o suficiente.
- Ah, cara, você só pode estar de brincadeira... - franziu as sobrancelhas, parando repentinamente e olhando para algum lugar por cima dos ombros de . Antes que ela pudesse perguntar, porém, ele já estava respondendo. - Papparazzi. Sério, a empresa sempre toma um cuidado absurdo pra que nenhum deles invada os hotéis desse jeito. O presidente faz questão que a gente tenha privacidade e paz pelo menos quando estamos dentro dos lugares. Como esse cara conseguiu chegar aqui?
- Ai que droga... Se tem uma coisa que eu queria era não ter que lidar com papparazzis. - franziu as sobrancelhas, abaixando a cabeça. Não sabia nem o que fazer: aquela não era a vida dela e, apesar de estar acostumada com as apresentações, não estava acostumada com aquele tipo de coisa.
Por sorte, estava.
- Queria conversar com você antes disso, mas parece que não vai ter jeito. - Ele comentou de maneira séria, fazendo pender a cabeça para um lado. De repente, porém, sorriu para ela e tirou algumas mechas de cabelo do rosto da moça, acariciando o rosto dela em seguida. - Relaxa, não vou fazer nada. Mas aquele idiota quer fotos do nosso “relacionamento” e esse é o máximo que vai ter.
- E depois vamos fazer o quê? Sair correndo? - perguntou baixinho, dando algumas risadas envergonhadas, como se estivessem falando as coisas mais românticas do mundo um para o outro. se aproximou do rosto dela, grudando um dos lábios no ouvido da amiga enquanto segurava o rosto dela com a outra mão.
- Exatamente. O que queria conversar é que preparei uma surpresa com o hoje, mas não vai dar tempo de te explicar. - Com isso, deu uma breve risada. - Quando eu segurar sua mão, corre comigo.
- Sério?! - não esperava aquilo, segurando os ombros de enquanto ele ainda estava abaixado na altura dela. - A gente literalmente vai fugir de papparazzis?!
- Bem vinda à vida da fama. É uma porcaria, você vai odiar. - Ele respondeu com um sorriso e deu um beijo rápido na têmpora da amiga. - Agora vamos!
Segurando a mão de , ela sabia que era o momento para segui-lo. era de fazer o próprio caminho e não seguir ninguém - e, principalmente, não confiar em ninguém. Mas era diferente. Todos eles eram diferentes. Ela sabia que podia fechar os olhos e segui-los cegamente que a guiariam para um lugar bom e seguro.
- Ei! Eles estão fugindo! - Ouviram um papparazzi gritando e perceberam que havia mais dois que não notaram antes.
- Vem, ! Vamos mais rápido! - segurava a mão dela com força, sorrindo ao checá-la ao lado dele. A moça começou a rir e ele mesmo não podia fazer nada de diferente daquilo.
- Se eles pegarem a gente, o que vamos fazer? Xingar todo mundo e sair correndo de novo?! - corria o máximo que conseguia, próxima a .
- Olha, não é uma má ideia! Não vai me dando sugestões! - Ele comentou no meio de uma risada.
Atravessando o salão de entrada do hotel como um par de raios, e chamaram atenção das poucas pessoas na área comum, correndo como se não houvesse amanhã e tropeçando nos próprios pés. Os funcionários observaram sem entender nada até os papparazzis aparecerem correndo atrás alguns segundos depois. E não puderam deixar de trocar pequenas risadas.
- Pra onde agora?! - perguntou logo que deram com a cara na porta do elevador. apertava todos os botões para chamar os elevadores em desespero.
- De que adianta tanto elevador pra não chegarem nunca, hein?! - Ele riu enquanto checava os papparazzis que vinham correndo, tirando fotos de ambos.
- Vem cá! Esquece isso! - A moça segurou quase pela gola da blusa e saiu correndo com o amigo em seu encalço, quase tropeçando nela ao tentar correr atrás da amiga.
Esticando os braços e dando um encontrão na porta corta fogo com toda a força, e irromperam na escada de serviço do hotel da maneira mais escandalosa que já haviam visto. A moça tentou segurar a porta enquanto tropeçava desembestado até dar um encontrão na parede logo em frente, dando gargalhadas junto com ela quando novamente trocaram olhares e a porta batia com um estrondo.
As camareiras que estavam por lá tomaram um susto, derrubando tudo que carregavam no chão. e imediatamente começaram a ajudá-las a pegar as coisas.
- Desculpa! Desculpa mesmo! - comentava com as bochechas queimando de tanto correr.
- Estamos tentando fugir de gente que quer se intrometer na nossa vida! - tentou explicar o mais rápido que conseguia e as moças, que obviamente sabiam da confirmação do namoro deles, acharam aquela a cena mais linda que viram em anos.
- Desçam pro segundo subsolo e peguem o elevador de serviço! - Uma delas instruiu, fazendo-os trocar olhares. Mas não podiam pensar muito: ouviram passos se aproximando. - Rápido!
- Obrigada! - agradeceu enquanto segurava a mão dela novamente e disparava em direção às escadas para que pudessem fazer o que tinham sido instruídos.
Chegando ao segundo subsolo, viraram em uma esquina do estacionamento e se esconderam durante alguns segundos, tentando retomar o fôlego. Se precisassem, não correriam mais: já estavam extremamente cansados e toda aquela correria somente contribuiria para as dores nas pernas. Em silêncio, apoiou as costas na parede enquanto apoiou um dos braços na mesma, inclinando-se para checar eventualmente se alguém estava se aproximando.
- Você já tinha feito isso antes...? - Ela perguntou com a respiração entrecortada, recebendo um olhar animado de .
- Não. - E ele deu um sorriso sapeca, enquanto tentava retomar a própria respiração. - Mas devia ter feito, viu. Tomara que as câmeras fotográficas deles quebrem.
- E os celulares. Aí não vão poder tirar fotos de jeito nenhum. - completou com uma piscadela, fazendo-o sorrir em confirmação enquanto jogava os cabelos suados para trás.
- Parece que não teremos mais... Espera. - foi cortado no meio da própria frase ao ouvir passos. Quando começaram a ouvir vozes confusas como se estivessem procurando por algo, ele e se esgueiraram pelo canto da parede a fim de ver quem estava por lá. - Olha. Esses caras merecem um prêmio por persistência, viu.
- Ali! - Um deles gritou, apontando para ambos e já pronto para tirar uma foto.
- Vamos! - segurou a mão de arrastando-o junto com ela até o elevador de serviço. Estava mais próximo do que imaginavam e não gastaram tanto tempo perdidos em busca do mesmo.
Por sorte, quando quase socou o botão para que chegasse mais rápido - não que isso fizesse algum sentido, mas no momento em que estavam, não iam questionar nada - o elevador abriu as portas e ambos conseguiram tropeçar para dentro.
- Tchau! - Enquanto as portas se fechavam, e sorriram e acenaram para os papparazzis, que estavam a ponto de gritar de raiva.
apertou um dos andares e, assim que finalmente se viram sozinhos, começaram a dar gargalhadas, desabando juntos no chão do elevador, extremamente cansados.
- Você viu a cara deles?! - perguntava, ainda de mãos dadas com . Ela apoiou a cabeça no ombro dele, usando-o como apoio enquanto davam risada.
- Ah, como eu queria que tivessem filmado isso! - O próprio não conseguia parar de rir e já sentia a barriga doendo. Apoiou a cabeça na de , repentinamente desejando que aquele sentimento nunca acabasse. Fazia tempo que não se divertia daquela maneira.
- Daqui a pouco vão falar que eu tô incentivando sua fase rebelde! - A moça o empurrou de leve para o lado, fazendo concordar com a cabeça.
- Ah, sim, sempre culpa dos outros e não do sistema...! - Ele suspirou, sem ar por tanto correrem e, agora, por darem tantas risadas.
Quando chegaram ao andar que apertara, desceram do elevador rapidamente e, ainda de mãos dadas, caminhavam um do lado do outro, fingindo que nada tinha acontecido. Apertando o passo, ele a guiou para a escada de incêndio.
- Eu combinei com o que essa noite ele vai dormir no meu quarto e eu no dele. - comentou logo que pararam em frente à porta. - O meu quarto é dois andares pra baixo, você sabe o número. O dele é um pra cima, se precisarem de alguma coisa. A chave tá aqui.
Com isso, deixou o cartão nas mãos de . A moça estava sem palavras, tentando compreender tudo que estava acontecendo.
- Vocês não têm muitas oportunidades de ficarem juntos, sozinhos. Você tem a sua colega de quarto, o mora com todos nós e viajando com a gente agora, nessas circunstâncias, vocês não podem ficar juntos de jeito nenhum. - explicou rapidamente, abrindo a porta para a amiga. - Então eu conversei com ele e a gente deu um jeito. Vai lá e aproveita essa noite, .
- ... - Ela suspirou, abrindo um enorme sorriso em seguida. - Você é a melhor pessoa. Obrigada, de verdade.
Piscando para ela, a deixou ir antes que os papparazzis conseguissem chegar naquele andar. Pegando a escada de emergência do outro lado do corredor, foi para o quarto de , contente com o resultado daquela noite.
Enquanto isso, as mãos de abriam a porta do quarto de com afobação e certa ansiedade. E se alguém aparecesse por lá? E se a vissem fazendo aquilo? E se descobrissem que e tinham trocado de quarto?
Mas todas aquelas preocupações se dissiparam quando ela rapidamente entrou no cômodo e conseguiu, finalmente, respirar em paz - encontrando alarmado e tão ansioso quanto ela.
- ! - Ele exclamou logo que a viu, indo na direção da moça com os braços abertos.
- ! - E a chave dela foi logo esquecida no chão, enquanto corria para e fechava os próprios braços em volta dele, sentindo-o assim que ele a abraçou de volta, apertado, como se tivessem passado meses longe um do outro. - Essa foi a melhor ideia que você e o tiveram em anos!
- Não é? Acho que a gente se superou agora! - comentou com uma risada animada, dando vários beijos na cabeça e na bochecha da namorada. - Você tá toda ofegante, o que houve?
- Tivemos uma bela escapada de papparazzis hoje até virmos pra cá. - Ela resumiu com um sorriso sapeca e parecia indignado.
- Papparazzis? Ah... - Ele fechou os olhos, levemente irritado. - Aquela porcaria da equipe de marketing. Só pode ser isso.
- Como assim?
- Esses caras nunca entram nos hotéis que estamos a não ser que a gente deixe. - ergueu uma sobrancelha, colocando as mãos na cintura. - Por que conseguiram entrar hoje? Qual novidade você acha que estão cobrindo?
era a própria face da indignação quando conectou os pontos que provavelmente o time de marketing autorizara alguns papparazzis para fazer propaganda do relacionamento dela com .
- Nossa. Nossa. Eu tô com vontade de morder alguém.
tentou permanecer sério, ainda mais com o nível daquela acusação, mas não conseguiu esconder um pequeno sorriso safado que surgiu no canto dos lábios. somente lançou um olhar como se perguntasse “qual é a dessa cara de besta”?
- Bom... - ficou ligeiramente avermelhado, o coração batendo cada vez mais forte. Não sabia se era o correto a se falar, mas tinha que tentar. - Você sempre pode me usar de cobaia para mordidas quando quiser.
E ele sabia que acertara em cheio quando sorriu de maneira envergonhada de volta, as bochechas corando enquanto começava a rir.
- Você não presta, né...? - Ela perguntou de volta, notando a postura convencida de . Não podia negar que ele era um tanto intimidador quando ficava daquela maneira.
E o jeito como ele a olhava naquele momento - sorrindo, com a mais pura admiração nos olhos, sabendo que ela estava entrando na brincadeira dele - no momento a fazia se sentir como a única pessoa do mundo.
- Acho que nós dois não prestamos quando estamos juntos. - Ele deu de ombros, com um sorriso como se observasse a coisa mais bela e rara do mundo.
Antes que pudesse falar qualquer coisa, porém, repousou uma das mãos no rosto dela e a puxou para um beijo lento. Mais lento do que qualquer um que já tinham experimentado antes - afinal, naquela noite, o que não lhes faltava era tempo.
Era estranho até. Estavam experimentando uma sensação de ficar juntos sem interrupções, sem ter que fazer tudo furtivamente, sem ter que trocar beijos e olhares de maneira rápida para que ninguém percebesse. Podiam simplesmente passar tempo um com o outro, porque, para todos os efeitos, ela estava com naquele momento.
- Eu já te disse que você beija muito bem, ? - Ela perguntou assim que ele partira o beijo, notando como o namorado parecia repentinamente sem graça com aquele comentário.
- Você também, linda. - correu os dedos pelos cabelos dela, fazendo-a fechar os olhos como se estivesse recebendo uma massagem. - Lembra quando a gente tava conversando em um dos ensaios sobre como eu te acho linda e gostosa...?
- Claro que lembro. - Ela comentou como se fosse óbvio, enquanto a puxava mais para perto.
- Hmmm. Não cheguei a comentar como também é difícil ficar longe de você e não poder te tocar. - Ele ainda brincava com os cabelos dela, abaixando a voz para um tom mais grave e confortável para ambos. mordeu o lábio, tentando, frustradamente, esconder um pequeno sorriso.
- Como agora...? - As mãos dela subiram até os ombros de , fazendo com que não sobrasse nenhum espaço entre ambos. E ele sabia exatamente o que ela queria dizer.
- Como agora. - concordou, fechando a distância que restava entre eles com um beijo que demorou o tempo que eles simplesmente queriam.
Mal perceberam enquanto ele começou a andar até que a cintura dela encontrasse uma das cômodas do quarto. puxou levemente os cabelos do namorado, aproveitando o novo corte - que ela gostara mais do que queria admitir. Com um impulso, logo ela estava em cima da cômoda, as pernas fechadas em torno da cintura dele, aproveitando enquanto explorava a sensação de beijá-la em diversos lugares: nos lábios, na mandíbula, pescoço, clavícula, orelhas... As opções eram muitas e o tempo estava a favor de ambos.
As mãos dela desceram pelas costas do namorado, puxando a camiseta para cima. se desvencilhou da peça de roupa e ela logo conseguia sentir a pele quente dele embaixo dos dedos. não demorou muito para fazer o mesmo e, com mãos trêmulas, encontrar usando algo diferente de um top de esportes pela primeira vez.
- Aposto que você tava esperando um dos meus tops pretos. - Ela comentou com humor, a respiração um tanto falha.
- Pra falar a verdade, eu nem sei o que estava esperando. - deu uma pequena risada envergonhada e se aproximou novamente dela, segurando o rosto da namorada com ambas as mãos. - Mas, de qualquer jeito, você é perfeita.
Voltando aos beijos, ele escorregou as mãos até as pernas dela, carregando-a até a cama. se segurou estavelmente, começando a explorar a mandíbula e o pescoço de . Ele mordia os lábios enquanto atravessava o quarto, finalmente conseguindo deitar com ela no colchão fofinho da espaçosa cama de casal na qual passaria aquela noite.
- Se você quiser que eu pare, me avisa, tá? - Ele perguntou repentinamente, separando-se dos lábios ávidos da namorada e observando-a enquanto parecia lutar para respirar direito. - A gente não chegou a conversar sobre isso...
Colocando os dedos sobre o lábio de , o fez ficar quieto, sorrindo com uma admiração nos olhos que ele raramente vira antes.
- Eu te amo, . - Ela sussurrou, silenciosamente entre o som dos corações desenfreados de ambos.
esperava por tudo, menos aquilo. O sorriso que tomou conta dos lábios dele podia ser caracterizado como um pedaço de raio de sol - deslumbrante e que podia iluminar qualquer dia. Ele tentava esconder o fato de que os olhos estavam quase lacrimejando, tomado por um sentimento muito mais forte do que ele esperava.
- Eu também te amo, . - sussurrou de volta, acariciando os cabelos dela novamente. - Muito. Minha estrela que caiu do céu.
sorriu de volta, com uma leve risada enquanto ele se abaixava novamente para beijá-la. Naquela noite, não havia constelação na imensidão do Universo que brilhasse mais do que os dois.

Capítulo 8

Quarto Movimento - Sattriya Nritya (Parte 2)

acordou no meio da madrugada com um barulho ao seu lado. Abrindo levemente os olhos, encontrou sentado na beirada da cama, parecendo cansado, prestes a levantar. Será que ela tinha dormido demais?
- Hmmm... - Ela resmungou logo que notou o relógio do celular marcando quatro e meia. Isso fez com que ele notasse que a namorada havia acordado com a movimentação, fazendo-o virar um pouco na direção dela.
- Eu te acordei...? Desculpa. - Apesar disso, mantinha o tom de voz baixo e um sorriso gentil no rosto, fazendo-a sorrir de volta. suspirou e se sentou, abraçando-o por trás. deu uma breve risada enquanto ela se aninhava às costas dele, apoiando a cabeça no ombro do namorado e nem um pouco discretamente aproveitando o aroma dos cabelos e do pescoço dele. segurou as mãos dela que repousaram sobre o peito nu dele, fechando os olhos e aproveitando o silêncio da madrugada.
Era como ela havia escrito na música que ele encontrara uma vez. Eles se encontravam nas sombras, nos únicos momentos em que podiam ter privacidade e o conforto um do outro.
- Agora me fala por que você levantou tão cedo...? - A voz de era sonolenta, de uma maneira que ele nunca ouvira antes. - Não consegue dormir...?
- Hmmm, mais ou menos... - Ele concordou, abaixando a cabeça e suspirando em seguida. - Esse quarto é do , né? Seria estranho se eu saísse daqui amanhã.
- Verdade. Não tinha pensado nisso. - franziu as sobrancelhas, abraçando-o com mais força. Sinceramente, esperava que ela não o soltasse jamais.
- A gente pensou em trocar os quartos nesse horário... - resmungou, brincando com os dedos das mãos dela. - Podemos trocar a cama dele e daí o vem pra cá, eu volto pro meu quarto.
- Ok, ok... - Ela concordou de maneira um tanto derrotada. - Aí eu volto pro meu também.
- Você não precisa se não quiser, amor. Pode descansar...
- Mas eu quero. Não preciso de ninguém criando mais um monte de fofocas sobre eu e ele. - disse de forma um tanto dura, fazendo somente concordar com a cabeça.
Ele não queria admitir, mas aquele comentário dela fez o lado um tanto ciumento que até desconhecia, sossegar um pouco e se sentir um tanto orgulhoso.
- Mas será que você tem dois minutinhos sobrando...? - Ela quase sussurrou no ouvido de , fazendo-o dar um pequeno sorriso.
- Por que você quer saber...? - Ele mal terminou de perguntar e o puxou para que se deitasse novamente, abraçando-o enquanto os dois riam naquela madrugada silenciosa.

***


não era muito de falar as coisas, mas tinha muita admiração pelos amigos do grupo.
No caso de , admirava como o amigo conseguia ser um artista tão completo. Ouvia muita gente falando que os holofotes amavam – e não sabia se discordava ou não daquilo.
Não que não fosse popular, claro que era. Mas era... Diferente. Não era o holofote que o amava, era que adorava o que fazia. Podia ser palhaço quando queria, barulhento, completamente avoado – mas quando o assunto era trabalho, era completamente diferente. Focado, dedicado e incansável, ele não parava enquanto não atingisse a perfeição.
Era por isso que sempre gostava de assistir as passagens de som e coreografia de nos palcos ao redor do mundo enquanto treinavam para se apresentar mais tarde.
Sentado na plateia, em uma das milhares de cadeiras tão apertadas, tinha os braços apoiados no guarda corpo de ferro à sua frente e observava à distância: treinando, ensaiando, corrigindo, cantando... Dançando.
tinha os olhos focados no amigo, observando todo aquele trabalho. Queria ser como ele algum dia. Se pudesse se ver da maneira como ele – e muitos outros – o viam... Saberia o quanto brilhava, o quanto era especial. O quanto era incrível observá-lo dançando com um sorriso nos lábios, cantando de olhos fechados, como se aquilo fosse algo tão inerente a ele quanto respirar.
“É algo mágico. Não dá pra explicar.” se lembrava de dizendo uma vez quando estava sozinho com ela durante toda a aventura daquela turnê. “Você consegue...” ela respirara fundo, com o olhar distante, um pequeno sorriso nos lábios – como se estivesse vendo e não a paisagem da varanda em que estavam. “Você consegue ver a alma dele.”
E era isso, achava. Dava para ver a alma de . Ele brilhava no palco, não por causa das luzes, não por causa das roupas escandalosas, não por causa dos ternos de grife, não por causa dos efeitos especiais. brilhava porque a alma dele brilhava.
sorriu ao ver dando um de seus giros, parando em seguida de braços abertos e sorrindo com a cabeça virada em direção ao céu, ouvindo a música que continuava tocando enquanto os olhos fechados sentiam cada batida que ressoava pelo chão embaixo dos pés dele.
o admirava demais – e esperava um dia ser metade da pessoa que era. Aquilo já seria muito mais do que esperara conquistar em toda sua vida.
- É incrível, né? – E a voz repentina de quase fez cair da arquibancada, virando-se assombrado para aquele ser que surgira do nada ao seu lado.
- De que bueiro você surgiu...? perguntou de volta de maneira agourenta, fazendo rir.
- Isso foi por todas as vezes que você quase me matou do coração, seu infeliz. – O sorriso de não podia ser mais diabólico. – Mas é incrível, não? Ver o ensaiando?
- Uhum. Eu sempre gosto de ficar aqui pra ver se aprendo alguma coisa nova. – balançou a cabeça, levantando-se logo que a música parou de tocar e começou a conversar com os dançarinos de apoio para corrigir algumas coisas.
- É sempre bom, eu fico de vez em quando. – seguia o amigo com as mãos nos bolsos, ambos caminhando em direção ao palco. – Mas para ver se ele erra alguma coisa e ter algo pra falar quando ele me enche o saco porque estou meio tempo mais lento.
- Mas você sempre tá meio tempo mais lento. – ergueu uma sobrancelha, recebendo uma risada de em resposta.
Balançando a cabeça, começou a rir também. Aquilo era clássico e era algo do próprio . reclamava, mas porque reclamava de tudo quando estava corrigindo ou ensinando as coreografias. Qualquer que fosse o erro, mesmo se nem fosse um erro, em dois tempos, estaria no cangote do próprio coitado que fez algo de diferente, falando “repete o que você fez” e todo mundo saberia que aquele infeliz não teria paz nas próximas duas horas.
Todos tinham defeitos – o de era perfeccionismo.
- Do que você tá rindo? – estranhou quando repentinamente começou a dar risadinhas sozinho.
- Ah, nada... – Ele balançou a cabeça, suspirando. Sabia que não se contentaria com aquela resposta. – Já percebeu que a é tão perfeccionista quanto o ? Vai ver é por isso que ela aguenta tanto ele.
- Nossa, é verdade! – nunca tinha parado para pensar naquilo, mas logo começou a rir. Mal viu fechando os olhos em alívio, pois quase dissera que os amigos se gostavam. – Imagina? Quando ele começa a falar alguma coisa pra ela, a deve elencar uma lista de erros do ! Deve ser por isso que tão demorando tanto pra coreografar!
- Demorando?
- É. Assim, nós temos vidas sem sossego, mas do jeito que os dois são, você não acha que já deveriam ter acabado de fazer a coreografia? – deixou a pergunta no ar enquanto somente encarava um ponto vazio. Sabia muito bem que o motivo daquela demora era que queriam passar tempo juntos, além de usar vários “ensaios” como encontros variados. – Eu nunca tinha pensado nisso na verdade. Mas ouvi um pessoal da equipe comentando como eles estão demorando... Acho que aquela galera do marketing logo vai encher o saco deles.
- Ah, é? Por quê?
- Teoricamente ela é sua namorada, né...? – suspirou, chutando um papel que estava jogado no chão. – É uma droga. Sei que nem você e nem ela estão felizes com isso. Por mais que a gente saiba que, se vocês realmente namorassem na vida real, você não teria nenhum problema com ela gastando tempo com o , não é o que as outras pessoas veem. E a nossa vida toda depende do que as outras pessoas veem.
franziu as sobrancelhas, encarando o chão enquanto andava. Estavam quase no palco e já havia dispensado os dançarinos, pegando sua fiel garrafa d’água e enfiando o gorro na cabeça para tirar os cabelos dos olhos, já pronto para se aproximar dos amigos e perguntar o que acharam do treino.
O que falaria para os dois? tinha razão no que dissera. A vida deles dependia da opinião pública e das aparências. Ele e tinham que fazer aquilo funcionar, pelo menos durante aquele tempo. As carreiras de todos eles dependiam daquilo.
Mas como falar para os amigos que “vocês estão namorando, mas estão passando tempo demais entre si”?
- Então! O que acharam? – perguntou até antes de se aproximar deles, da maneira escandalosa de sempre, com um sorriso enorme estampado no rosto.
E achou melhor deixar aquilo para depois.

não estava errado: tinha todos os motivos do mundo para suspeitar daquela equipe de marketing.
E eles sabiam que algo estava muito errado quando , e foram convocados para uma conversa só entre os três e a equipe.
e não tinham visto nada de estranho, para falar a verdade. Enquanto esperavam juntos em frente a porta do camarim no qual ocorreria a reunião, achavam que podia ser algo a ver com alguma ação promocional que queriam os dois atuando juntos.
Afinal, os dois dançando juntos sempre era uma boa ideia: tinha tudo para acompanhar e geralmente conseguiam performances de desbancar a concorrência quando atuavam em conjunto.
Mas assim que viram surgindo no corredor, congelaram no lugar. Imediatamente.
Os três ficaram se olhando durante um tempo.
- Não vai me dizer que vocês dois também...? – Ela começou a falar, mas logo recebeu uma confirmação um tanto aterrorizada de ambos.
ficou encarando um ponto sem ao menos respirar enquanto e entravam em pânico.
- Será que eles descobriram?! – perguntou baixinho, os olhos arregalados. Parecia que logo ia arrancar os cabelos da cabeça em desespero.
- A gente fez de tudo pra não dar bandeira! – tinha as mãos na cintura, as sobrancelhas franzidas e tentando respirar calmamente. Tentando. – Será que foi o dia que trocamos de quarto?!
- Mas a gente fez tudo certo! – balançou a cabeça, em pânico. – Checamos várias vezes, lembra? Ninguém nos viu!
- A gente acha que ninguém viu! – respondeu com o rosto um tanto vermelho, os gestos começando a ficar agressivos.
Mas ambos se viraram para . A mulher ficara estranhamente silenciosa com tudo aquilo, encontrando-a ainda encarando um ponto fantasma, sem falar nada.
Na verdade, não sabiam nem se ela estava respirando.
- ...? – ergueu uma sobrancelha. – Tá tudo bem...?
- Eu tô me concentrando pra não ter um ataque de ansiedade. – Ela respondeu calmamente, fechando os olhos e respirando fundo. Quando viram o tanto que as mãos dela estavam tremendo, perceberam que estava tão desesperada quanto eles.
- Calma! Calma! Não precisa se preocupar! – Mas era a representação física do desespero. rolou os olhos.
- Desse jeito você vai fazer com que ela fique ainda mais preocupada! – apontou para a namorada que começara a fazer exercícios para manter a respiração calma.
Aquilo estava um caos. Um desastre. Nenhum dos três sabia o que fazer – mas sabiam que se tivessem que esperar muito, provavelmente sairiam correndo gritando em pânico logo mais.
- Ah, vocês já estão aí! – Uma das assistentes de marketing finalmente abriu a porta, sorrindo gentilmente. Aquilo fez com que os três quase desabassem no chão; não sabiam se de nervoso ou de susto. – Podem entrar! Acabei de sair de um call com o diretor!
Eles trocaram olhares, achando que ela estava simpática demais para alguém que ia dar alguma notícia séria.
- O diretor de marketing não vai fazer parte da reunião? – tomou a iniciativa, sabendo que nenhum dos dois ia conseguir fazer meia pergunta sem dar bandeira que estavam à beira de um ataque de nervos coletivo.
- Não, não, ele está ocupado com outra reunião... E achou que isso é algo que eu podia comunicar para vocês, já que só vai afetar as agendas quando essa parte da turnê terminar. – A moça sorriu de volta, observando enquanto eles se sentavam nas confortáveis poltronas. Ela mesma se sentou quando todos estavam confortáveis. – É sobre a coreografia de vocês dois, e .
- O que houve? Algum problema? – franziu as sobrancelhas enquanto congelava no lugar. Ele decidira não comentar nada muito cedo e agora perdera a oportunidade.
- Somente um pequeno problema... – A moça parecia até desconfortável em falar aquilo. – Você e o estão demorando muito para coreografar. Por causa disso, a coreografia vai sair enquanto você e o estão namorando... Isso não vai ser muito bom do ponto de vista do marketing.
Os três somente continuaram a observá-la, tentando entender qual rumo aquela conversa tomaria. A moça respirou fundo, sorrindo em seguida.
- Eles só querem que vocês terminem a coreografia, mas que o MV seja gravado com o ao invés do .
- O QUÊ?! – imediatamente se levantou, com perguntando a mesma coisa, congelado em seu próprio lugar no sofá, ao mesmo tempo em que ficava boquiaberta.
A moça não sabia o que fazer.
- Você não pode fazer isso com eles! Com o ! – apontou para os amigos, exasperado. – A coreografia é dele! Eu não posso dançar a coreografia dele!
- Eu sei, mas é uma decisão que já foi tomada...
- E a nossa vontade fica onde, de novo? – estava com uma expressão mais dura do que esperava, pois a moça até recuou levemente ao vê-lo. – Eu não consigo abrir mão disso. Não posso abrir mão disso.
- Mas...
- Você consegue nos dar um tempo para pensar em como o pode participar do MV sem interromper a coreografia? – imediatamente calou os ânimos da sala. A assistente somente pendeu a cabeça para o lado, tentando entender. – Eu e o estamos nos finalmentes. Se o tiver que aprender tudo, demoraremos mais ainda para desenvolver algo legal, que combine com o contexto e fique bom. Esse MV vai acabar demorando séculos pra ficar pronto, mas se vocês nos derem um tempo, conseguimos pensar em como deixar plausível a participação do sem ter que alterar a coreografia.
somente lançou um olhar um tanto incomodado para . Apesar de reconhecer que aquela era uma ótima saída, não gostava nem um pouco: o que era para ser uma coisa deles acabaria virando algo deturpado por aquelas pessoas que só viam ele e como bonecos para fazer as vontades da mídia do momento – não as vontades pessoais deles.
- Eu... Bom... Não é uma má ideia... – A moça respondeu, pegando o celular. – Vou falar com o diretor. Vocês podem esperar um pouco?
- Por isso? Sim. se sentou novamente, cruzando os braços. – Não vamos a lugar nenhum.
O resto da reunião foi rápido – e nenhum deles conseguiu acreditar que aquela ideia de realmente tinha funcionado. A dança de e agora não era só deles: era também de , que seria o narrador da própria história de amor.
Por mais que aquilo fosse uma mentira.

- Como você conseguiu ficar tão calma, mulher?! – estava quase virando mesas de ponta cabeça só de raiva de toda aquela reunião. – E outra, o que vamos fazer? Como vamos resolver isso tudo tão rápido?! De onde você...?!
- ... Respira. – colocou uma mão no ombro do amigo, segurando a pizza com a outra. Depois que começaram a “namorar”, noites da pizza no quarto de eram praticamente obrigatórias. E praticamente diárias. – A gente pode estar em um beco sem saída, mas ainda estamos em três e ainda podemos lutar. – irradiava uma sabedoria que fez erguer uma sobrancelha enquanto a moça somente procurava por algo na televisão.
- O quê...?
- Assiste isso daqui. – Ela respondeu com um pequeno sorriso, colocando um filme para rodar.
- Moulin Rouge? Essa é a sua grande ideia? – olhou para ela indignado e somente concordou, um sorriso satisfeito nos lábios. – A Satine morre no final, mulher. Espera. Você não tá com uma doença terminal não, né?!
- Cala a boca, seu idiota! – bateu em com uma almofada, fazendo com que a pizza dele quase caísse das mãos. Ele só ria como o bobo que era, causando a mesma reação nela. – Não tô falando do desfecho da história em si! Mas a Satine e o Christian vivem um...
- Amor proibido. – completou, franzindo as sobrancelhas. – Ok. Vamos ver. Vou dar uma chance pro seu filme.
- Segura na minha mão e vai, . Você vai entender. – piscou para ele, fazendo com que ambos focassem no filme.
Claro que, ao bater na porta do quarto de de madrugada após ter certeza que ninguém iria vê-lo ou incomodá-los, esperou encontrar tudo, menos o que realmente aconteceu.
abriu a porta e o puxou para dentro como um turbilhão. Enquanto ainda estava tentando entender o que estava acontecendo, ouvia uma música tocando de fundo e logo se encontrou em frente ao sofá, com Moulin Rouge passando ao fundo e tanto o amigo quanto a namorada com sorrisos muito empolgados para aquela situação.
Aquilo era... Suspeito.
- Posso saber o motivo de tanta alegria no meio desse caos? – ergueu as sobrancelhas, ainda sem entender nada.
- A melhor ideia acabou de surgir. – anunciou, ainda sorrindo de maneira empolgada junto com . continuou encarando aqueles dois sem entender nada.
- Meu Deus, vocês piraram... – Ele constatou como se tivesse assustado, fazendo-os rir mais ainda. E começou a suspeitar que talvez ele estivesse certo.
- Sabe toda a ideia de me colocar no MV? De alguma maneira? – chamou a atenção de , fazendo-o imediatamente ficar sério. – Temos uma solução que você vai amar.
- Sério? E o que é? – perguntou prontamente, sendo que e estranhamente se colocaram ao lado dele... Como se estivessem em um musical.
- Spectacular, spectacular! e anunciaram juntos, como se abrindo um teatro. franziu as sobrancelhas, começando realmente a ficar com medo do que tinha acontecido com eles.
- No words in the vernacular can describe this great event… (nenhuma palavra no vernáculo pode descrever esse grande evento...) - estava entre anunciar dramaticamente e cantar de maneira exagerada. E não entendia nada. – You’ll be dumb with wonderment! (você ficará bobo de maravilhado!)
- Returns are fixed at ten percent, you must agree that’s excellent! (retornos estão fixados em dez porcento, você tem que concordar que isso é excelente!) – E se juntou naquela maluquice de anunciação, como se estivesse conversando com e , sendo que o último somente concordou com a frase que ela disse. E desde quando tinha começado a tocar uma música que combinava com aquela maluquice...? Aquilo era... Can Can? – And on top of your fee, you’ll be involved artistically! (e sobre a sua taxa, você estará envolvido artisticamente!)
- Gente... Do que diabos vocês estão falando? Não tô entendendo nada. – No que comentou, o empurrou para que ele se sentasse no sofá. caiu em um baque confuso, quando ela e passaram os braços um pelo ombro do outro, praticamente se abraçando, lado a lado.
- So exciting, the audience will stop and cheer. So delighting, it will run for fifty years! (tão empolgante, a audiência irá parar e torcer. Tão delicioso, irá ficar em cartaz por cinquenta anos!) – No que eles começaram a cantar, e começaram a se aproximar vagarosamente de no ritmo da música. Ele franziu as sobrancelhas quando os dois subiam e desciam ao ritmo da música; e aquilo era definitivamente Can Can. Desde quando eles sabiam cantar as músicas do Moulin Rouge?! – So exciting, the audience will stop and cheer, so delighting, it will run for fifty years! (tão empolgante, a audiência irá parar e torcer, tão delicioso, irá ficar em cartaz por cinquenta anos!)
já estava pronto para segurar aqueles dois no lugar e perguntar “o que” por quinhentas vezes se fosse preciso, mas já era tarde. Eles começaram a dançar pelo quarto, seguindo a música – mas com uma letra diferente.
- Uma princesa e um príncipe...! seguia a melodia, mas cantando o que ele e tinham mudado. E claro, sem deixar de interpretar, apontando para quando disse “princesa” e para quando disse “príncipe”. – Sultões e cortes árabes!
- Sedas e dançarinos! pegou a deixa quando apontou novamente para ela, a fim de que continuasse. A moça se embrulhou de qualquer jeito em um lençol que não tinha ideia de onde aqueles dois malucos tinham tirado. – Contos e mil e uma noites!
- Tudo junto e misturado... – Os dois começaram a cantar juntos, ficando novamente em frente a . o embrulhou no lençol como se fosse o véu de uma dançarina do ventre. Ele não sabia se ria ou se ficava ainda mais confuso, porque não estavam fazendo o menor sentido. – Intriga, perigo e romance! Um amor proibido que irá fazer muito sentido!
- So exciting, the audience will stop and cheer! So delighting, it will run for fifty years! – E nisso, os dois começaram a pular de um lado para o outro em volta da poltrona que estava sentado. Sim, ele estava confuso, mas não conseguia deixar de rir com aqueles dois palhaços.
- Vocês podem me explicar de uma maneira que faça sentido, por favor?! – Ele perguntou entre risadas, no que e seguiram a música até que a moça se sentou ao lado dele, segurando as mãos de dramaticamente. E ele se perguntava desde quando ela tinha arranjado flores para colocar no cabelo.
Mas subindo em cima da mesa de centro de mármore, embrulhado no cobertor como se fosse uma roupa árabe, chamou mais atenção.
- A princesa e o príncipe de dois reinos se apaixonam...! – E ele voltou na de contar a história como se estivesse cantando a música de fundo, ao mesmo tempo em que inventava a letra e interpretava. Quando falou essa frase, apontou para e , no que olhou para ela sem entender, vendo a moça se fingir envergonhada e apaixonada de maneira teatral. Por algum motivo, aquilo o fez sorrir. – Mas ela é prometida a um Sultão que só quer o trono!
- Um matrimônio de fachada, para manter relações políticas... começou a cantar, como se estivesse triste, segurando as mãos de com mais força. Em seguida, olhou nos olhos dele antes de continuar a música. – Mas ela e o príncipe tomam as rédeas de suas vidas!
- Sem que ninguém perceba, eles vivem seu romance! desceu da mesa de centro, aproximando-se dos dois da mesma maneira teatral de antes. começou a entender um pouco o que eles queriam dizer com tudo aquilo. – Um amor proibido, sempre fora do alcance!
- A princesa e o príncipe, sempre juntos pela dança... colocou uma das mãos sobre as dos dois. – Em uma festa são convocados para entreter a bonança! Em frente ao Sultão e para todo o reino, fazem a apresentação, cantada por seu fiel escudeiro...
Dizendo isso, se levantou, colocou a mão no peito e fez uma reverência para os dois, fazendo cair na gargalhada. Ele achava que estava começando a entender aquela maluquice.
- Como um belo narrador, o escudeiro participa! retomou a cantoria, fazendo olhar para ela de maneira desacreditada, mas com um sorriso divertido nos lábios. – Carregando em suas palavras a história proibida.
- E dessa maneira, o Sultão de nada desconfia...! pegou a mão que estendeu para ele, ajudando-a a se levantar e abraçando a moça lado a lado como fizeram antes quando fora pego naquele caos. – Podendo os pombinhos, continuar agindo na surdina!
- Pombinhos na surdina?! Sério?! – ergueu uma sobrancelha, mas já estava caindo na gargalhada. e fizeram o mesmo, mas logo estavam pulando para cima e para baixo como antes.
- Spectacular, spectacular! No words in the vernacular can describe this great event, you’ll be dumb with wonderment! (espetacular, espetacular! Nenhuma palavra no vernáculo pode descrever esse grande evento, você irá ficar bobo de maravilhado!) – Terminando de cantar pulando como dois coelhos enquanto somente gargalhava, e o puxaram para dançar com eles. Colocando no meio, apoiaram-se um no ombro do outro e começaram a pular como se efetivamente estivessem dançando Can Can. tentava não cair enquanto ria e fazia o melhor para dançar com os dois. - So exciting, the audience will stop and cheer. So delighting, it will run for fifty years! (tão empolgante, a audiência irá parar e torcer. Tão delicioso, irá ficar em cartaz por cinquenta anos!)
E no que a música de Can Can começou a tocar sem a letra em si, anunciando o final daquela maluquice toda, e colocaram sentado na mesa de centro, o embrulharam com o lençol, jogaram várias almofadas em volta, colocaram flores nos cabelos dele, embrulharam em outro lençol, se sentou ao lado de , segurou as mãos dele e, em uma pose dramática de amantes dignos de Mil e Uma Noites, jogou um monte de papel picado em cima dos dois, ajoelhando-se no chão e apontando para eles como se tivessem terminado o maior espetáculo de todos os tempos.
Ficaram alguns segundos com meio confuso, na sua pose teatral e sorrindo enquanto apontava para eles até finalmente explodir provavelmente na maior crise de risadas que tivera em toda a vida.
- Eu acho que entendi...! – Ele dizia com o rosto vermelho, rolando na mesa de mármore, enquanto tentava ainda segurar uma das mãos de . Mas a própria moça parecia uma maçã do amor de tanto que ria e se encontrava estirado no chão, completamente sem ar. Mal conseguia rir. – Mas sério...! O que foi isso...!
Nenhum deles conseguia responder. Os três se contorciam de dar risadas e toda vez que tentavam falar algo, somente olhavam para os outros e riam mais ainda. Tinham lágrimas escorrendo pelo rosto e não conseguiam parar de rir. Faziam o melhor para respirar e, se tentavam se controlar, era só olhar para com seu lençol e flores na cabeça para começar a rir novamente. tentou se levantar, mas acabou no chão junto com . tentou ajudá-la, mas acabou estirado com os dois, rolando pelo tapete sem conseguir voltar ao normal.
Eles demorariam muito ainda para conseguir trocar qualquer palavra lógica depois de tudo aquilo. Mas esperavam dar risadas ainda por muito tempo.
E descobriram que uma eternidade pode durar somente alguns momentos quando se divertiam daquela maneira com pessoas que amavam.

- Ok... – respirava fundo, assim como e .
Estavam estirados no chão, no meio, os três olhando para o teto do quarto. Finalmente conseguiram parar de rir – o que não foi tarefa fácil – e voltaram a tomar o fôlego como precisavam para falar normalmente. Era o momento de trocar palavras como seres humanos normais.
- Ok... Eu entendi que o será nosso “narrador” no MV. – finalmente colocou em uma sentença o que aqueles dois precisaram de um musical para apresentar. – É isso?
- Bem... É. Mas não é. – respondeu, fazendo ficar mais confuso ainda. – Não é isso.
- A ideia é que eu participe do MV e que tenha uma parte de coreografia. – começou a contar, fazendo pausas no meio da frase para respirar. – Mas como narrador. Como se eu estivesse contando minha história de amor como um conto fantástico para ninguém descobrir, entende? Por isso que seria a e você, não eu e ela.
- Como começamos a coreografia antes de anunciarmos o “namoro”... – E ainda não conseguia dizer aquilo sem torcer o nariz. – É como se o e eu tivéssemos pensado em tudo isso para declarar o nosso romance secreto sem que ninguém percebesse, por isso você dançaria comigo enquanto ele contaria a história, servindo somente de narrador.
- Hmmm... É bem esperto, pra falar a verdade... – considerou, realmente impressionado com toda a ideia que tiveram para contornar aquela situação. – E toda a coisa de Sultão, príncipe, princesa...?
No que ele perguntou, e deram pequenas risadas, controlando-se novamente o mais rápido possível. Ou dariam aquela noite como perdida, sem conseguir conversar.
- Todo conto de fadas precisa de um vilão, certo? – perguntou com um sorriso esperto, finalmente se sentando. Ajudou tanto quanto a fazer o mesmo, cada um apoiando as costas em alguma coisa para permanecer sentado. Tinham cansado mais do que esperavam. – Um Sultão que se intromete no meio do amor de um príncipe e uma princesa por um casamento arranjado, parecia mais do que verídico na nossa vida maluca. Não é como se não arranjassem nossos relacionamentos para fazer mídia, não é mesmo?
não conseguiu deixar de sorrir com aquela frase repleta de sarcasmo de .
- Mas você não é um Sultão cruel que só quer ficar com a por política. – adicionou, fazendo sorrir enquanto se aproximava mais dele para apoiar a cabeça no ombro do namorado. Estavam sozinhos, então podia fazer aquilo.
- Ele não. Mas nosso maior inimigo não é o , não é mesmo? – A moça sorriu para o namorado, brincando com a mão dele. – Nosso próprio Sultão cruel, que só me usa como uma Barbie e vocês como bonecos para influenciar o império construído nas costas e no trabalho de vocês. Já ouviu falar de alguém assim? Uma dica: ele trabalha no departamento de marketing.
- E no final... – começou a falar, mas logo emendou.
- O príncipe e a princesa dançam em frente ao Sultão e ao reino, com a narração do escudeiro, sem que ninguém perceba que os dois se amam.
- E podem continuar vivendo em segredo, sem ser incomodados. – piscou para , vendo a expressão impressionada, porém iluminada por um grande sorriso, colorir o rosto do namorado.
- Vocês dois tiveram essa ideia?
- Sim. Trabalhamos nela juntos. – respondeu prontamente.
- Mas quem surgiu com tudo foi a . – apontou para a amiga, fazendo-a corar. – Quem colocou Moulin Rouge e me disse só um “, confia que a ideia é boa”, foi ela.
ia começar a se explicar. Queria falar qualquer coisa sobre não ser infantil nem ser louca – muito menos sonhadora. Queria dizer que somente queria ficar com ele em paz, que poderiam usar de meios artísticos para inventar desculpas. Queria falar qualquer frase bonita para que ele não achasse menos dela por ter tido uma ideia, como muita gente diria, tão fora da caixinha.
Mas antes que ela pudesse falar qualquer coisa, repousou uma das mãos no rosto de , beijando-a e impedindo de inventar qualquer desculpa. se recostou ao sofá e sorriu, satisfeito com o resultado daquela noite.
Tinham um grande plano para colocar em prática.

***


podia dizer que uma coisa boa tinha saído de tudo aquilo: passar tempo com era algo que sempre o deixava mais feliz.
No final dos shows – e dos treinos também, para falar a verdade – sempre se encontrava com ela. Fosse para tomar um chocolate quente – ou um chá gelado – ou fosse para comer pizza no quarto deles e jogar vídeo games: agora tinham todas as desculpas do mundo para passar tempo juntos e ninguém podia reclamar.
Aquilo sempre o fazia sorrir.
- ... O que é isso?
- Uma garrafa de vinho, . Nunca viu? – Ele falava de maneira brincalhona, fazendo-a rolar os olhos enquanto sorria. – É um artefato raro, eu sei, mas consegui achar por essas terras.
- Você é péssimo. – Mas sempre ria das gracinhas dele, péssimas ou não. E sempre estava disposta a competições de vídeo game.
Que geravam altas discórdias entre ambos, afinal os dois nasceram para competir – e tinham o orgulho como o pior pecado capital.
- Sabe que a gente tá jogando em dupla. – Naquela noite em específico, sim. Mas não era sempre.
- Eu sei, mulher. E já vou aí te ajudar. – falava sem desgrudar os olhos da tela. Agradecia mentalmente toda vez que o pessoal da reserva lembrava de pedir para colocar jogos no quarto dele.
- Ousado de você assumir que eu preciso de ajuda. – somente ergueu as sobrancelhas em surpresa, recebendo o mesmo tipo de expressão em retorno. olhou rapidamente para ela, fazendo-a rir.
- Ora, ora! Ok, se você não precisa de ajuda, consegue se virar aí!
- Consigo mesmo, consagrado. Aliás, com esse zumbi no seu cangote, quem vai precisar de ajuda é você.
- Ai, droga! – E imediatamente perdeu toda a pose, começando a lutar desesperadamente.
Para a sorte dele, porém, logo apareceu e se livrou do zumbi com não mais que dois tiros.
- Obrigado, . – sorriu para a amiga, de maneira sincera, fazendo-a espelhar a expressão. – O que eu faria sem você?
- Nada. Você é um desastre jogando sozinho. – Ela respondeu prontamente, ganhando a indignação do amigo.
- Ah, é? Ah, é?! – Ele largou o controle no chão, já se inclinando ameaçadoramente na direção dela. Os dois tinham a mania eterna de se sentar com a caixa de pizza no chão, lado a lado, as costas apoiadas no sofá, enquanto jogavam vídeo game. – É isso mesmo que você acha?!
- ... – se distanciava, o controle já esquecido. Mas avançava em cima dela como um leão. – Se controla, seu tonto!
- Você vai ver só!
E ele lançou mão da coisa que mais odiava naquele mundo: cócegas.
Ela nem teve tempo de fugir. Agarrada por , a moça foi lançada ao chão e atacada por cócegas. tentava lutar, tentava se soltar, mas tudo que conseguia fazer era rir e implorar que ele parasse. só conseguia rir junto com ela – não seria tão ruim a ponto de fazê-la aguentar muito tempo daquilo, mas estavam falando dele e . Ela só ficaria brava na medida que ele ficou bravo com o “desastre no vídeo game” – o que não era muito.
E assim seguiam as noites deles. Dando risadas, comendo pizzas, aproveitando um tipo de companhia que nenhum dos dois nunca teve – mas só naqueles momentos percebiam o quanto precisavam daquele tipo de coisa.
Naquela noite, após o ataque de cócegas, as aventuras no vídeo game, pizza e mais uma garrafa de “vinho raro” que fizera questão de pedir no quarto, ambos estavam cansados e com sono. Enquanto deixavam músicas rolando na pequena caixa de som dele – com a playlist dela – conversaram até seus corpos exigirem descanso.
Ele mal percebera, na verdade. Mas, quando não respondera a um dos comentários sonolentos dele, se virou para o lado e notou a cabeça dela apoiada no ombro dele. dormia calma e pacificamente, uma expressão serena diferente da expressão forte e séria do dia a dia. Ele a via rindo, ele a via se divertindo, ele a via séria e trabalhando – mas raramente a via tão... Humana. Frágil até.
sorriu ao perceber que ela franzia o nariz toda vez que expirava: uma mexa de cabelo rebelde brincava no rosto da moça, provavelmente incomodando. Com cuidado, ele tirou aquela mexa do rosto de – mas não colocou atrás da orelha: lembrava-se muito bem de como ela falava que as orelhas congelavam quando estavam expostas em um dia frio.
Aquela noite estava levemente gelada e aquela doida de mangas curtas. reclamara, mas era o único pijama limpo que tinha. Passando levemente a mão pelos braços da amiga, notara como estavam gelados – ela provavelmente estava passando frio e extremamente desconfortável de dormir toda torta no chão.
- Ei. Hora de ir pra cama, . – a chamou com cuidado, balançando-a de leve.
Mas somente resmungou algo ininteligível e continuou dormindo.
- Cabeça dura até desacordada, né? – Ele perguntou com uma pequena risada no fim da frase, balançando a cabeça. Ela era incorrigível, mas ele também. provavelmente só aguentava o tão obstinado que ele era, pois era igual... Ou pior. O mesmo valia com . – Ok. Vamos lá, princesa.
Com isso, se levantou e, pegando nos braços, ergueu-a do chão para colocá-la na cama. Ela era leve para ele – afinal, conseguia carregar tanto quanto como um saco de batatas – e o caminho foi sem problemas: era incrivelmente quieta enquanto dormia.
Talvez porque gastava toda a energia quando estava acordada.
Com cuidado, ajeitou a amiga na cama e embrulhou-a nas cobertas, fazendo questão de deixá-la quentinha. Tirou os cabelos do rosto de para que ela não se incomodasse e abaixou-se ao lado da cama para observá-la – sorrindo ao notar como ela corava enquanto ele ajeitava os cabelos dela. Até dormindo, corava como um “porquinho rosado”, como ela mesma dizia.
- Eu te amo. – finalmente disse, silenciosamente, baixo demais, para que ninguém ouvisse. Em algum lugar dele mesmo, esperava que nem ele ouvisse as palavras que saíram da boca para fora, em uma reação automática que ele não conseguira guardar no próprio peito.
Ele precisava entender que tipo de amor era aquele.
- Eu também te amo, ... – sussurrou sonolentamente, provavelmente achando que estava sonhando com aquelas palavras. A resposta dela fez sorrir, apesar de ficar um pouco incomodado consigo mesmo.
Enquanto agarrava um travesseiro e se virava para o outro lado, se levantava para escovar os dentes e se preparar para dormir. Sim, ele amava . Com todo o coração. Protegeria como se fosse da mesma família, do mesmo sangue que ele...
Mas tinha que tomar cuidado e entender qual tipo de amor era aquele que dissera para ela naquela noite. Fechando os olhos, suspirou enquanto se apoiava no batente da porta do banheiro.
Não podia se apaixonar por . De jeito nenhum.






Continua...



Nota da autora:(05/08/21)
Estava guardando essa última cena no meu celular. Fui checar a data que escrevi porque pensei “olha só, finalmente tô colocando isso aqui que planejei faz tanto tempo” e a data é de Julho de 2019.
Então aleluia, essa cena planejada há 2 ANOS finalmente encontrou a luz do dia!
Hahahaha aliás, me perdoem a DOIDEIRA da cena do Moulin Rouge, mas recentemente minha mãe começou a ver coisas de cosplay comigo e ela jura de pé junto que tenho que fazer cosplay da Satine – fui assistir o filme de novo pra dar uma olhada em todas as roupas e percebi que a história é um TANTO parecida com Dance Practice no quesito “amor proibido”.
E não consegui deixar de imaginar a pp e o melhor amigo pulando que nem dois coelhos, cantando que nem uns doidos enquanto o pp fica só “meu senhor, vocês PIRARAM”.
Foi mais forte que eu.
Ainda bastante coisa por vir, mas estamos chegando na reta final! Daqui pra frente, tenho só mais dois movimentos planejados: Flamenco e Pas de Deux. Todos os movimentos tiveram duas partes, mas ACHO – grande acho aqui – que o Flamenco vai ser um movimento único e talvez o Pas de Deux também. Preciso ver o que vai sair das anotações que tenho aqui.
Muito obrigada mesmo pela leitura e por todo mundo que não desistiu de Dance Practice mesmo demorando um tempão para atualizar! Acreditem em mim, as atts demoram mas SEMPRE acontecem. Eu jamais vou abandonar essa história sem final, não se preocupem.
E pra quem não sabe, eu tenho uma página no Facebook e no Instagram – os links vão ficar abaixo pra vocês me seguirem. Lá sempre falo um pouquinho do que estou trabalhando na escrita e tenho muitos planos para dar meus primeiros passos como autora de livros! Todo apoio será super bem-vindo e gosto de ter contato com as leitoras para ter feedbacks!
Podem comentar aqui, podem me chamar em qualquer das redes sociais e ser emocionada comigo: isso dá motivação pra continuar escrevendo! Posso demorar um pouquinho mas sempre respondo ;)
Vejo vocês na próxima att!

Ah, e quase esqueci: segue o que anotei sobre esse estilo de dança que dá nome ao capítulo!
*O capítulo se chama Sattriya Nritya, pois é um estilo de dança indiana. Combina dança e drama, muitas vezes teatral, retratando uma história. Quando vi que muitas vezes é relacionada a Krishna e Radha, fiquei interessada. Daí quando vi que também retrata avatares de Vishnu, como Rama e Sita, decidi nesse estilo mesmo. Rama foi um príncipe e Sita era sua princesa. Mas, no meio do caminho, ela foi sequestrada por um demônio de várias cabeças e Rama foi salvá-la com seu arco e flecha dourado (olá, Blood, Sweat and Tears, estou olhando pra você). Daí não resisti e teve que ficar esse estilo mesmo.


PS: Ah, e segue meu grupo no facebook pra que vocês fiquem de olho nos meus próximos projetos – tenho mais alguns ficstapes para entregar e sempre atualizo por lá! Tem espaço pra todo mundo, sempre procuro conversar bastante com o pessoal que faz parte e realmente vou ficar feliz de vê-los por lá: https://www.facebook.com/groups/558784227519925/?ref=bookmarks.

Disclaimer: Essa história é protegida pela Lei de Direitos Autorais e o Marco Civil da Internet. Postar em outro lugar sem a minha permissão é crime.
Não gosto de falar essas coisas, mas como já tive problemas antes, acho bom deixar avisado. Nem tudo que tá na internet é do mundo, minha gente. Quer postar em outro site? Fala comigo! Eu não mordo! Hahaha a gente vê de me dar o crédito e linkar para o original aqui no FFObs! Só me mandar um e-mail ou pedir aí nos comentários!





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