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Última atualização: 10/06/2022

Prólogo

O céu começava a mudar de cor à medida que o mapa indicava que eu estava muito perto de encará-la pela primeira vez depois de tudo. A discussão da semana passada formava um eco na minha mente que só seria resolvido com um isolamento acústico. E isso eu só conseguiria quando colocasse tudo em pratos limpos.
Não suportava a ideia de que o acervo de palavras dela tinha conseguido formar um dicionário de inverdades sobre mim. Porque sim, tudo que ela gritou naquele dia sobre mim era lorota, mas eu não poderia falar o mesmo sobre ela. A dançarina que, no começo de tudo parecia dos sonhos, rodopiava em mentiras, o que me causava insegurança, me fazia duvidar de tudo que vivemos e até de seus sentimentos. Eu estava decepcionado e, apesar disso, aqui estou dirigindo por oito horas ininterruptas em busca de respostas, um fio de esperança nessa avalanche de falsidade.
Talvez eu tenha sido ingênuo. Talvez eu realmente seja egoísta. Talvez seja tudo aquilo que ela gritou para mim. “Arrogante”. “Filho da mãe”. “Medroso demais para ficar sozinho”.
Mas eu me apaixonei. Não, eu a amei! Desde a primeira vez que pus meus olhos nela, naquele corredor.
Eu deveria ter enxergado nas entrelinhas, naquelas linhas tão finas que se romperam quando eu menos esperava. Apesar disso, caí feito um patinho, no auge da meia-idade, quando eu nem imaginava que iria errar novamente em tão pouco tempo.
Estendi minha mão para aumentar o volume da música, na tentativa de fazer com que minha mente internalizasse o que Fleetwood Mac havia escrito há anos.

“And if you don't love me now, you will never love me again”

Aquele era realmente um ultimato. Se ela não me amou durantes todos esses meses, não me amaria nunca mais. Os vocais do blues-rock, The Chain, explodiam em looping nos alto-falantes do carro, me fazendo lembrar da última vez que nos falamos. Bom, que nós brigamos.


Uma semana antes

Suas palavras pareciam engolir todos os neurônios do meu cérebro enquanto eu lia essa carta. Não conseguia acreditar. Meu corpo estava paralisado. Eu sentia que quanto mais tempo passasse naquele sofá, ele me engoliria. Comandei meus pés sustentarem meu corpo, caminhando diretamente para o bar, recolhendo a garrafa de uísque mais cara dali. Afinal, qual motivo mais plausível eu teria para bebê-la, senão este: a pessoa que eu amo não confiou em mim para mostrar todos os lados da sua história.
Despejei o líquido no copo, sem gelo, que não demorou muito para estar na minha boca. A bebida naquele momento não queimava, mal fazia cócegas na minha garganta; eu estava dormente demais para sentir a ardência. E por que queimaria, quando o que queimava era meu coração?
Eu andava de um lado para o outro, quase formando um buraco no chão; triste, furioso, perdido, sem saber o que fazer. Me irritava pensar que eu era uma pessoa tão vulnerável, aberta, e que vivia sendo chutada pela vida. Sentia raiva por ser uma pessoa que acreditava demais. Eu acreditava nas pessoas! E era uma decepção perceber que amei uma pessoa que não existe.
Disquei seu número algumas vezes, o que foi em vão. Claro que ela não teria coragem de escutar minha voz, não teve nem sequer coragem de jogar tudo na minha cara.
Eu tentaria mais uma vez, então desistiria. O toque dos números já parecia alto demais na minha cabeça, indicando um sinal nítido da minha embriaguez.
— Oi, Hazza — ela disse entre um suspiro. Pude sentir as batidas do meu coração acelerando quando ouvi sua voz.
Me mantive em silêncio, até que tomei coragem para falar tudo o que estava engasgado:
— Sua intenção era escrever essa carta e nunca mais ter que falar comigo novamente? — meu tom de voz apertado demonstrava a minha indignação.
— Porque eu me importo com você.
— Você pode parar de mentir agora, ! Eu não acredito em mais nada do que você fala. Como conseguiu esconder isso de mim esse tempo todo? Sou um idiota por não ter percebido. Eu... — paralisei, dando espaço à fragilidade presa em minha garganta.
— Você não é idiota por ser vulnerável, Harry, eu apenas não consegui ser como você. Não sei o que falar além de que sinto muito — a ouvi fungar do outro lado do celular. — Isso tá sendo mais difícil pra mim do que pra você.
— Você não tem o direito de dizer que estou melhor do que você! Você não faz ideia de como estou me sentindo.
— Ok, me desculpe. Por tudo, Hazza. Eu não queria ter te enfiado na minha bagunça.
— Se eu soubesse antes, talvez a escolha de ter sua bagunça fosse minha! O que aconteceu, ? Eu sempre fui uma pessoa totalmente aberta com você, e eu não merecia ser simplesmente avisado por uma carta que você ia embora. O que custava me incluir numa parte tão importante da sua vida? Não confiava em mim?
— Claro que confiava, entenda que você não foi o único. Eu omiti isso de todos os meus amigos.
— Como conseguiu fingir por tanto tempo?
— Eu não estava fingindo com você. Não menti sobre o que sinto.
— Tarde demais pra falar isso quando você me deixa sozinho! EU MERECIA SABER, MELANIE! Eu planejava nossa vida, e se soubesse disso antes, definitivamente teria feito novos planos para nós. Mas você simplesmente assumiu que não era boa o suficiente para mim. Porque é isso que você sempre fez, desde o começo de tudo. Sabe qual é a verdade, ? Você tem medo de nós. Medo do que nós fomos, somos, mas você foi covarde. Você preferiu a escolha segura.
— É, Harry, definitivamente você está sendo um arrogante, filho da mãe, sem coração! Você está bêbado e não sabe do que está falando. Acho que não tenho mais nada com você nesse estado. Você está me machucando falando desse jeito. Sei que é difícil aceitar, mas nosso momento passou. Foi maravilhoso e vou apreciá-lo, mas esse tempo passou. Eu não poderia fugir das minhas responsabilidades, passei muito tempo fugindo delas — ela disse pausadamente, e eu a cortei.
— Eu não merecia acordar sozinho sem você ao meu lado e ler que você simplesmente não vai estar mais aqui! — gritei.
— Eu sei que você não merecia! — ela gritou de volta. — Mas não posso me culpar depois de passar uma vida inteira me condenando por fugir da minha verdadeira vida. Você está sendo muito egoísta em simplesmente cuspir sobre o quão sozinho vai estar, mas poderia pensar um pouco no quanto eu PRECISO estar onde estou agora! Você acha que foi fácil largar tudo o que eu sempre sonhei? Mas não posso mais estar em Los Angeles, esse lugar nunca foi minha casa.
— Se você me amasse, eu seria sua casa e nada do resto importaria. Você iria me incluir em TODOS os aspectos da sua vida. Sinceramente, foda-se as suas mentiras! A gente nunca daria certo. Eu poderia ser a pessoa a quebrar todas as correntes que você se prende, mas realmente, , acho que não sou esse cara.
— Me desculpe, mas você aparentemente não quer ser esse cara agora. Preciso ir, Harry. Adeus. Espero que você seja muito feliz — ela desligou antes que eu pudesse falar mais alguma coisa.


Capítulo 1 – Head, head on the wall


— Todos prontos? Em seus lugares! Um… dois… três…
A palpitação do meu peito imitava as batidas ritmadas do single “Don’t Start Now” que ecoava por todo o auditório do Microsoft Theater. O suor que se encaminhava da minha têmpora até meus cílios declarava que aquela era a vigésima vez que passávamos a coreografia. Pisquei algumas vezes na tentativa frustrada de melhorar minha visão para não ter que desviar dos passos coreografados, mas quando escutei que deveríamos voltar para o camarim, passei o ombro no meu rosto e me livrei da transpiração.
Caminhando pelos corredores, eu guardava cada detalhe daquela primeira grande conquista, que faria questão de riscar das minhas metas profissionais para aquele ano. A maturidade que eu havia ganho em tão pouco tempo morando em Los Angeles definitivamente era algo que eu esperava, mas não tão rápido.
Antes que pudesse chegar ao camarim para o descanso, tentei bisbilhotar um cantinho livre para dançar livremente, me soltando um pouco antes da apresentação final. Um corredor ao lado do palco principal parecia tentador demais, então encaixei meu headphone que silenciou a passagem de som de outra banda, permitindo assim a melodia frenética de Juice, da Lizzo, invadir meus ouvidos.
Consegui sentir meu corpo todo respondendo a cada batida da música. De olhos fechados, mexi minha cabeça com os ombros de um lado para o outro, enquanto meus braços se cruzaram na frente do meu corpo. Senti os movimentos soltos e desconexos ao rodopiar, quando meu rosto bateu contra a parede.
— AI!
Ainda com os olhos fechados, levei minha mão em direção à testa, amenizando a dor local. Quando pausei a música que ainda tocava o refrão final, me assustei ao ouvir uma gargalhada alta. Girei meu corpo para procurar quem seria o autor do riso escandaloso e acabei encarando por tempo demais o homem alto à minha frente, que agora segurava o riso. Me percebi tímida por um momento – algo que não acontecia há algum tempo –, mas o moreno era bonito demais para que eu não ficasse assim. Senti um leve rubor pelas minhas bochechas aumentar à medida que não parávamos de nos encarar e o silêncio crescia entre nós.
— Me desculpa, não fique com vergonha. Eu estava te admirando alguns minutos atrás. Você estava maravilhosa dançando, mas não consegui não rir desse incidente — ele disse, tentando conter o sorriso. E que sorriso! — Você se machucou? — ele analisou mais de perto a minha testa. Perto demais, eu diria. Meus pés deveriam ter recuado, mas até eles estavam assustados com sua proximidade.
— Não, não, estou bem, obrigada. Definitivamente essa parede só tá aqui pra eu não ultrapassá-la — falei, rindo levemente sem graça. Tentei parecer menos envergonhada ao olhar para aqueles olhos esverdeados. — Ééer… Bom, vou indo... Não tente esse passo em casa, ok? — sorri e olhei para baixo, já que o tinha encarado o suficiente, ou talvez fosse vergonha dessa piada horrível que acabei de falar. Ultrapassei-o e me dirigi para o camarim.
— Hey, qual era mesmo a música que você estava escutando? Parecia que estava se divertindo — ele tocou meu ombro, o que me fez virar o tronco para encará-lo novamente. Seu toque, mesmo que rápido, me fez me sentir atraída quase que imediatamente.
Juice, da Lizzo!
Nada da sua aparência demonstrava que ele seria uma pessoa tímida, ou que ficasse desconcertado em momentos como esse. Mas sorri como ele estava sem jeito ao me abordar novamente e segui meu caminho pelo corredor.
Meu mísero interesse pela vida dos artistas e minha memória de Dory me impedia de reconhecer quem estava há poucos segundos conversando comigo, mas definitivamente aquele era alguém que eu conhecia. Segui na correria para entrar no camarim, fazer a maquiagem e a troca de roupa para a apresentação.


💃💃💃


Era um sonho. Tudo que minha mente assimilava naquele momento era de que eu estava realizada, ao mesmo tempo que tentava me concentrar em todos os mínimos detalhes para não cometer nenhum erro. Eu passava meus olhos em todas as particularidades daquele momento pré-performance; os profissionais faziam o último retoque de maquiagem na Dua Lipa enquanto outros ajeitavam o retorno de ouvido em sua roupa. Sendo a primeira vez participando de uma premiação musical, eu gostaria de guardar tudo em uma piscada para que pudesse surtar quando estivesse finalmente assimilando tudo aquilo no sofá de casa.

Coloque essa música para tocar
Don’t Start Now – Dua Lipa

Quando ouvimos o anúncio, as luzes se apagaram.

If you don't wanna see me

Entramos desfilando junto dela. Meus braços conseguiam sentir toda a energia que eu depositava neles enquanto os deslizava por todo meu corpo, até chegar em minha cintura e finalizando ao rebolar. Definitivamente a sensação de se apresentar para um grande número de pessoas – e muitas delas famosas – realmente era a mais desafiadora de toda a minha carreira até agora. Eu conseguia ser sentida de um fio de cabelo da cabeça até os dedos dos meus pés; a temperatura subia, causando explosão pelos meus poros. Sentia como se estivesse levitando, e aquilo não era nem um pouco desconfortável. Toda luta, ensaios pesados, machucados, calos e esforço me levaram até o atual momento.

If you don't wanna see me dancing with somebody
If you wanna believe that anything could stop me

Íamos de um lado para o outro, em movimentos cruzados, nos separando e nos encontrando novamente no centro, direcionando nossas mãos em direção à cantora. Os holofotes mudaram de amarelo para vermelho, o que complementava nossos movimentos mais frenéticos do refrão. A cada batida, meus poros conseguiam sentir a emoção de estar ali. Cada pêlo existente no meu corpo arrepiado aumentava minha disposição de dar o melhor de mim naquela performance.

Don't show up, don't come out
Don't start caring about me now
Walk away, you know how
Don't start caring about me now

Com uma postura curvada, desfilamos à acelerada do ritmo. Fazíamos movimentos cruzados ao lado da artista enquanto ela se direcionava para as cadeiras mais à frente do palco, dando continuidade à segunda parte da música. Meus olhos brilhantes e levemente marejados eram resultado de toda a energia da plateia muito animada à nossa frente.
Com um sorriso largo no rosto, conduzimos o final da performance reunindo todas as dançarinas ao redor da cantora, deslizando os pés de um lado para o outro, batendo palma similar à batida. Os rebolados sincronizados com os ombros iam acalmando meus nervos. Mas foi quando jogamos os braços para cima, formando uma ovação, que eu conseguia assimilar mais que eu estava, sim, em cima daquele palco, me sentindo simplesmente abençoada por toda essa experiência.



HARRY

Não era uma novidade para mim estar em um palco, mas a ansiedade e o medo sempre se pareciam como na primeira vez que performei para muitas pessoas, principalmente estando em carreira solo. Não estar com meus colegas de banda era assustador. Em toda performance, o nervosismo exercia tanto poder sobre mim que eu sempre corria para o corredor mais próximo para vomitar. E, naquele dia em específico, não pude fazê-lo. Tinha me deparado com uma garota de cabelos longos, altura mediana, com seus fones de ouvido em seu próprio mundo.
Bom, o mundo dela definitivamente não era igual ao meu, mas intrigante para mim.
Ela dançava livremente naquele espaço minúsculo ao som de alguma batida instigante, até que, num rodopio, bateu a cabeça na parede. Como não consegui guardar minha risada escandalosa, ela direcionou seu olhar para mim e eu tive que me desculpar por invadir seu espaço.
— Me desculpa, não fique com vergonha. Eu estava te admirando alguns minutos atrás. Você estava maravilhosa dançando, mas não consegui não rir desse incidente — falei, contendo meu riso. Sorri para tentar deixá-la mais confortável com o meu atrevimento. — Você se machucou? — cheguei mais próximo dela para analisar seu rosto. Senti seu corpo travar um pouco, o que me fez perceber que estava invadindo seu espaço.
— Não, não, estou bem, obrigada. Definitivamente essa parede só tá aqui pra eu não ultrapassá-la — ela disse, rindo levemente enquanto olhava para mim. Eu podia sentir o quão envergonhada ela estava pelo seu tom de voz baixo. — Ééer… Bom, vou indo... Não tente esse passo em casa, ok? — falou enquanto eu continuava paralisado, admirando seu sorriso caloroso. Ela caminhou em minha direção e desviou para o corredor ao lado.
— Hey, qual era mesmo a música que você estava escutando? Parecia que estava se divertindo — perguntei, tocando em seu ombro para alcançá-la antes que sumisse.
Juice, da Lizzo! — ela sorriu desconcertada, então se foi.
Permaneci alguns minutos em transe, me lembrando de como a garota se movimentava descontraída, quando escutei alguém da minha equipe me chamar para o restante do ensaio. Segui para o palco para os últimos retoques da apresentação de Sign Of The Times, percebendo que aquele incidente havia evitado meu enjôo pré-show, e por aquilo eu seria eternamente grato à dançarina desconhecida.


💃💃💃


Antigamente, eu era acostumado a ter a companhia dos meus colegas de banda. Porém, me sentia um pouco deslocado nessas premiações sem eles, então Jeffrey e Glenne sempre se mostravam felizes em me acompanhar. Enquanto a minha performance não era anunciada, estávamos sentados na segunda fila assistindo às apresentações dos outros artistas. Minha amiga gargalhava de alguma piada que seu namorado contava, que por um momento tentei escutar – algo que foi em vão –, então voltei minha atenção para o palco.
Confesso que nenhuma performance havia captado minha atenção – até aquela. Mas não pela cantora, e sim pela dançarina. A mesma que eu tinha esbarrado mais cedo. Apesar de longe, eu conseguia enxergar seu sorriso largo que não negava o quanto ela estava feliz de estar naquela posição; além do seu olhar brilhante – aquele tipo de olhar que eu conhecia muito bem – de quem estava realizando um sonho. Ela esbanjava graça e poder em seus movimentos, com linhas tão perfeitas que, se eu fechasse os olhos, conseguiria ler perfeitamente a partitura da música.
Poderiam ter mais vinte dançarinas ao seu lado, mas em cada passo meus olhos permaneceram adorando-a por todo o tempo que ela ficou naquele palco.
Eu estava atônito!
— Harry? Harry! Você está aqui ou em Marte?
Saí do transe e me direcionei para Jeff.
— Foi mal, estava distraído. Já está na hora? — perguntei e ele assentiu.
— No que você estava pensando? — perguntou Glen antes de eu me levantar para ir ao palco.
— Que estou apaixonado. Mas papo para outra hora. PERFORMANCE TIME! — corri para os bastidores antes que ela me parasse para alguma pergunta a mais.
Me encaminhei para o camarim cumprimentando algumas pessoas que eu encontrava pelos corredores. Assim que entrei, troquei rapidamente de roupa e me sentei na cadeira da maquiadora. Enquanto aquecia minha voz, repassei na minha cabeça tudo o que pudesse me deixar mais calmo naquele momento. Logo alcancei meu celular que estava no bolso e o desbloqueei, então passei meus olhos pela timeline do Twitter e li alguns comentários e desejos de boa sorte que meus fãs sempre mandavam. Mesmo não sendo uma pessoa que costumava documentar minha vida nas redes sociais, eu fazia questão de ler tudo, apesar de saber que em algum momento alguma crítica besta poderia me atingir. Mas tentava apenas focar nas palavras de carinho de quem realmente se importava comigo, daqueles que admiravam meu trabalho.
A parte mais desafiadora de me expor como um cantor solo era a expectativa criada em cima disso. As pessoas esperavam atitudes diferentes, posicionamentos por questões em que eu nem sequer imaginava estar envolvido, além do estilo das minhas músicas e até o modo como eu iria me vestir. Isso tudo passava a ser algo que trazia inseguranças em mim, mesmo não tendo vergonha do meu passado. Atualmente, eu não representava Harry Styles da One Direction.
Afastei aqueles pensamentos da minha mente quando minha banda entrou no camarim, prontos para subir no palco.
— Prontos? — perguntei, me levantando da cadeira.
— Estamos! — eles responderam em um coro.
Caminhamos em direção ao palco, parando perto da escada, e antes que pudesse finalmente subir, girei meu corpo para conseguir olhar para cada um deles.
— Queria agradecer muito a Deus por poder conseguir reunir pessoas com tanto talento para agregar à minha arte. Me sinto muito abençoado por vocês fazerem parte disso comigo. Deixemos toda a negatividade para trás e que possamos dar o máximo como sempre. Eu amo vocês — finalizei e nos abraçamos antes de subir no palco para o que seria a última performance da noite.
Um pouco trêmulo, me posicionei em frente ao microfone, encaixei o fone de retorno e, em poucos segundos, escutei a introdução da música.


💃💃💃


— Sua performance foi maravilhosa, assim como você. Mas quero saber, por quem você está apaixonado?
Mal chegamos no after party e Glenne estava no meu encalço, claramente empenhada para descobrir por quê falei aquilo tão abismado.
— Glenne, eu falei que estava apaixonado, mas não é esse tipo de paixão que todo mundo conhece. Não é por uma pessoa. Como artista, me apaixono por coisas que se movimentam. Na velocidade que o mundo imprime sobre a gente, eu acabo me apaixonando por coisas que se movimentam como a gente. Nasce e morre igual uma estrela.
Ela fez várias caretas confusas ao tentar entender o que eu havia acabado de falar.
— Eu disse que ele ainda estava com o pensamento na loirinha, amor. Pode me dar meus vinte dólares — Jeff disse, dando um tapinha nas costas dela.
— Vocês realmente apostaram se eu estava apaixonado por alguém? — perguntei com cara de assustado.
— Amor, não conte vantagem antes do tempo. Harry, não entendi absolutamente nada do que você falou. Você estava observando o palco paralisado... Você não é assim. Pode falar, a Dua Lipa é perfeita, mas ela não faz seu estilo — Glenne disse e eu suspirei, porque, conhecendo minha amiga, ela ia me vencer pelo cansaço.
— O que eu falei é totalmente verdade, sabe? Semana passada me apaixonei quando um pássaro pousou no meu ombro — eu disse, sentindo minhas bochechas se moverem num início de uma gargalhada quando ela deu um tapa no meu braço. — OK! Eu estava observando uma das dançarinas que estava performando com a Dua Lipa. Eu a encontrei antes da apresentação nos corredores enquanto ela dançava para se distrair, e não sei explicar muito bem, mas fiquei entorpecido quando a vi dançar. Eu meio que esperava vê-la aqui nessa festa, mas, aparentemente, ela não está aqui — passei meus olhos pelo salão e encontrei apenas rostos diferentes do que eu esperava ver.
— Pode passar os vinte dólares na minha mão agora — disse Glenne enquanto eu revirava os olhos para os dois.
— Vou falar com algumas pessoas, volto já — falei, me retirando.
Geralmente, eu curtia as festas pós-premiação apenas quando eram de amigos. Porém, essa em específico tinha pouquíssimas pessoas que eu conhecia, logo, parte do intuito dela seria conhecer novas pessoas.
A cada cinco minutos eu parava para cumprimentar alguém, mas tudo que eu desejava era o gosto de alguma bebida em minha boca para aliviar a tensão. Observei o salão um pouco, tentando encontrar o bar mais próximo. Ao olhar para o lado, por um momento senti meu corpo esbarrando em alguém, e um líquido gelado escorreu pela minha roupa. Olhei para baixo e vi o estrago, até que olhei para a garota na minha frente.


Capítulo 2 – Don’t you know that only fools are satisfied?

Abaixei meus olhos para observar o estrago que tinha feito no meu terno, levantando a cabeça logo em seguida para a mulher em minha frente com feições cheias de arrependimentos, como se estivesse pedindo perdão milhares de vezes.
— Nossa! Me perdoe, por favor. Sou muito desastrada e acho que fiquei atônita por ser você — ela disse, pegando um guardanapo de pano e passando pela roupa.
— Tá tudo bem, é só um terno. Não precisa se preocupar, deixa que eu limpo — peguei o guardanapo de sua mão e passei pela roupa, tentando amenizar o estrago.
— Desculpa perguntar, mas você poderia tirar uma foto comigo? — ela pediu, juntando ambas as mãos, implorando. Não pude deixar de rir de seu drama.
— Não peça desculpa, claro que sim! — peguei seu celular e fiz uma selfie. — Bom, vou indo... — esperei que ela dissesse seu nome.
— Kelsey. Estava tão atrapalhada que nem disse meu nome. Mas me perdoa novamente, Harry, e obrigada pela foto! — ela disse rapidamente, sumindo da minha vista em segundos.
Voltei para onde meu casal de amigos estava, quando peguei um copo de whisky com o garçom que passou por mim. Aquele seria o único copo que eu beberia hoje, recordando que, pela manhã, precisaria pegar o primeiro voo com destino a Dallas para dar continuidade à turnê. Caminhei em direção a eles e sugeri que fôssemos embora, ao que prontamente concordaram.
Seguimos todo o caminho de volta em silêncio, e, quando o carro parou em frente à minha residência, me despedi deles rapidamente. Peguei as chaves no bolso da calça, tirei os sapatos, me arrastei pelo porcelanato frio e fui diretamente para o banheiro na felicidade de poder tomar um banho quente, relaxante e demorado. Me despi, entrando no box de cabeça baixa, deixando que a água escorresse pela minha nuca até meus ombros, numa urgência de tirar um pouco do peso que sentia devido ao cansaço. Fechei meus olhos e minha mente viajou para a mulher que eu tinha visto hoje mais cedo.
Eu não sabia seu nome; tudo que conhecia sobre ela era o quão extasiado, admirado e surpreendido eu havia ficado com sua felicidade. E talvez não se tratasse da sua dança. Não, eu sabia que não se tratava disso, mas sim da paixão que ela demonstrava ao desenhar seus passos em cada batida daquela música. Eu precisava saber mais sobre ela e daria um jeito nisso.
Desliguei o chuveiro e enrolei a toalha na cintura. Caminhei até a cama sem ao menos colocar um pijama antes, notando o sono chegar ao encostar minha cabeça no travesseiro.




Pisquei algumas vezes antes de finalmente abrir meus olhos. Me espreguicei na cama e senti todos os músculos existentes do meu corpo dolorido, mas meus lábios se alargaram em um sorriso ao me lembrar do dia anterior, o que me fez esquecer da dor rapidamente.
Levantei da cama, dando passos largos até chegar na cozinha atrás de uma xícara de café. Procurei o pó da bebida e, em seguida, depositei na cafeteira, esperando alguns minutos até que ficasse pronto. Bebi um gole do líquido preto, degustando o sabor amargo enquanto ele fazia seu papel de despertar meus pensamentos. Me sentei na varanda, sentindo o vento soprar nos meus cabelos, e observei os pássaros que passavam no momento.
Coloquei meus fones e escutei a melodia de Vienna iniciar nos meus ouvidos. Não sei para quem Billy Joel havia escrito aquela música, mas era definitivamente atemporal e me representava de inúmeras maneiras. A autossabotagem já estava inerente na minha personalidade, principalmente quando eu realizava algo a mais na minha carreira. Sempre queria mais do que eu tinha, sempre faltava algo. E se eu era boa em algo, era fingir que não sabia o que se passava comigo. Então, me despertava desses pensamentos seguindo em busca da próxima meta até me sabotar novamente.
Desacelera, , você é ainda muito jovem. Desacelera, , você tá indo bem. Desacelera, , você não sabe que apenas tolos se contentam? Eu sabia, claro que sabia, mas até quando Vienna poderia esperar por mim?
— Escutando Vienna e metaforizando a vida? — uma voz me tirou do meu devaneio e eu direcionei minha cabeça para encarar minha amiga.
— Você sabe que sim — sorri um pouco triste, e ela veio se sentar ao meu lado.
— Eu tenho muito orgulho de você, , e acho que você deveria se dar mais crédito. Você esquece o quanto lutou para estar onde chegou. Você merece tudo o que está conquistando, porque foi tudo mérito seu! — ela falava olhando dentro dos meus olhos e, em seguida, me abraçou. Talvez era tudo que eu precisava naquele momento.
— Obrigada, Amber. Eu amo você.
Ela se levantou e me deu um beijo na testa, o que era a confirmação que também me amava.
— Mas agora me conta. Como foi tudo por lá? — perguntou, se escorando na bancada da cozinha e se servindo de uma xícara de café.
— Foi simplesmente IN-CRÍ-VEL. Sabe aquela sensação de levitar que você me falava? Eu me senti assim. Às vezes nem acredito que aquilo aconteceu mesmo. Tô muito feliz, realizada com tudo isso, e você sabe que eu devo muita coisa a você.
— Para com isso! Fico desacostumada com tantos elogios — ela se deitou no meu colo e eu comecei a fazer cafuné em sua cabeça. — AH! Você foi pro after party? Diz que sim, preciso de alguma fofoca de famoso.
— Na verdade, não fui, mas a Kelsey foi. Você pode perguntar para ela quando… – ouvimos uma terceira voz me interromper e falar eletricamente.
— Já estou aqui, pronta pra mostrar algo inédito! Belo! Exuberante! — Kelsey correu e se sentou no meio de nós duas. — Fui para o famoso after party e estava caminhando lindamente, como quem não quer nada, até que me esbarrei numa pessoa que sou fã HÁ MUITO TEMPO! — ela continuou fazendo suspense enquanto estávamos balançando as pernas, curiosas.
— Fala logo quem foi! — Amber pediu, agoniada.
Kels pegou seu celular e abriu a galeria de fotos para nos mostrar sua selfie.
— HARRY STYLES!
Em choque, peguei o aparelho de suas mãos e analisei a foto. O corte de cabelo era igual. O charme do sorriso estava ali, anunciado em sua bochecha. Como eu não reconheci essa famosa covinha?
Era ELE!
O homem que havia me visto passar uma das maiores vergonhas da minha vida. Meu membro favorito da boyband da minha adolescência! Eu sabia que o conhecia de algum lugar, que era alguém famoso. Como não pude reconhecer o MEU CRUSH DA ADOLESCÊNCIA? Como não tinha o identificado prontamente no momento em que pus meus olhos nele?!
— Eu esbarrei nele também — falei, depois de sair do meu surto interno. As meninas me olharam.
— CADÊ A FOTO? COMO FOI? — Kels perguntou com os olhos ansiosos em minha direção.
— Então... Eu não tinha o reconhecido até você me mostrar essa foto com ele — expliquei, levantando-me nervosa do sofá.
— COMO ASSIM, MELANIE? — foi a vez de Amber reagir. — Mas o que foi que rolou?
— Então, vocês sabem que antes de alguma apresentação eu gosto de me soltar um pouco, sozinha e longe de tudo. Fui pra um corredor próximo do palco principal, mas em algum momento me desequilibrei, bati o rosto na parede e ouvi uma risada. Quando me virei para ver quem era, acho que estava com tanta vergonha que nem raciocinei direito. Ele pediu desculpas, eu fiquei super sem graça, perguntou qual música eu estava escutando… Depois, só saí andando pelo corredor e nem quis olhar pra trás — contei, repassando toda a cena na minha cabeça e sentando-me novamente no meio delas.
— Meu Deus! Vocês conversaram e você não se tocou que era ele? — perguntou Amber. — Como isso é possível?
— Não sei, amiga. Eu estava muito envergonhada, só queria me esconder — respondi, olhando mais uma vez para a foto.
— Eu, além de tirar a foto, derrubei bebida no terno dele — Lockwood disse, enchendo a gente de risadas.
— Tinha que ser você, Kelsey! Eu não imaginaria outro jeito possível de você conhecer um dos seus ídolos. Mas e aí? Vai postar a foto?
— É claro. E vou marcar ele várias vezes, pelo menos umas dez. Dizem que ele não vê nenhuma marcação pelo Instagram, mas acho que tudo é questão de ser perseverante. Vai que ele me nota e me leva pra algum show dele — ela disse, e eu a observei caminhar até a cozinha. — Então, tirando todo esse acontecimento, minha apresentação foi incrível. A Ariana é muito simpática e as outras dançarinas eram bem legais também. E se eu tivesse conseguido te encontrar, , tinha te arrastado pro after party e você teria encontrado o Harry também.
— O destino não quis isso, infelizmente — respondi um pouco triste.
— Talvez você não tenha usado o destino a seu favor, . Você costuma ser desatenta aos sinais que ele te dá — disse Amber, levantando as mãos como se estivesse jogando toda a verdade na minha cara.
— Enfim, mudando de assunto... Onde ficava o camarim? — perguntei, passando meus olhos pelas minhas fotos e decidindo qual iria postar.
— Era próximo do refeitório, acho que do lado oposto do seu. Vocês querem? — ouvimos a voz da nossa amiga, que despejava panquecas pela bancada.
— Você ainda pergunta? O cheiro está divino!
Nos sentamos e avistamos uma montanha de panquecas com frutas e mel.
— Então, nós vamos para o aniversário do Chad? — questionei às meninas.
— Claro que sim. Estamos precisando de álcool, e você, de dar uns beijos — comentou Kels.
— Parem com isso! Já falei que não é nada disso, nós somos amigos.
— Que se beijam.
Sorri e continuei a comer panquecas.


💃💃💃


A extroversão conduzia minha vida da maneira que eu mais amava. Apesar de não ser vulnerável no lado amoroso, eu conseguia dirigir minha energia tendo contato com vários tipos de pessoas. Essa minha qualidade me permitia fazer amigos muito fácil, desde a infância, mesmo que alguns tivessem seus ciclos terminados cedo demais, o que era natural da vida.
No momento que pisei nessa cidade, não foi muito diferente, mas enxerguei a amizade de uma perspectiva contrária da que eu conhecia. Depois de conviver com eles, me considerei sortuda o suficiente tendo amigos que eu podia chamar de família. Estar com eles sem ter nada para vegetar me fazia bem; às vezes me deixava tão eufórica de pensar nisso que eu esquecia até qualquer mísero problema existente na minha vida.
Bem, no amor, confesso que eu era uma pessoa difícil de lidar. Não conseguia acreditar que eu pudesse passar tanto tempo amando alguém que me tornasse vulnerável, a ponto de, num piscar de olhos, tudo pudesse sumir da minha vista, me deixando quebrada por dentro. Por essa razão e muitas outras, nunca namorei, e seguia acreditando que nunca, em hipótese alguma, eu teria um relacionamento.
Apesar disso, meu corpo permitia se mostrar desimpedido, colecionando um tanto de amizades coloridas pela vida. Muitas vezes dava tudo completamente errado, mas, em algumas outras, a pessoa com quem eu me envolvia estava vibrando na mesma energia caótica que a minha, que era o caso do Chad.
Amber nos apresentou através do seu namorado. Eles dividiam apartamento e, numa noite aleatória, bebendo socialmente, começamos a conversar. Claro que primeiro reparei na sua beleza, que foi algo totalmente esquecível nos minutos seguintes. Fazíamos tudo juntos; nossa amizade fluiu de uma maneira que nunca tinha fluído com nenhuma outra pessoa que eu havia conhecido. Se um dia duvidei de almas gêmeas, chamas gêmeas e todas essas possibilidades místicas, eu não duvidava mais. Éramos tão parecidos… Nossa química era tão forte que, às vezes, ficava inevitável não dar um beijo ou dois.
Eu o admirava primeiro pela sua dança, segundo pela sua paixão pela vida, mundo e pôres do sol. Segundo ele, aquilo o deixava quente por dentro e por fora – era mais uma carga de energia que ele carregava dentro de si, emanando toda aquela luz para todas as pessoas ao seu redor.
Chad estava focado em deixar a dança de lado por um momento e seguir o caminho da atuação, e nada poderia atrapalhá-lo. Por isso, sua ideia de relacionamentos era parecida com a minha: não se apegar a ninguém para que nada saia dos planos principais. No fim das contas, era esse o nosso esquema. Sempre que surgia uma vontade, tesão, ou o que quer que fosse essa química, a gente ficava.
— Feliz aniversário, meu bem! — pulei em Chad e o abracei assim que ele abriu a porta.
— Tô tão feliz que você tá aqui. Obrigado, abelhinha — ele deu um beijo na minha cabeça e, depois, cumprimentou as meninas.
Fui em busca de uma bebida, cumprimentando algumas pessoas conhecidas pela festa. Passei os olhos pelo ambiente enquanto pegava um copo de cerveja: a decoração do aniversário estava repleta de pisca-piscas, mistletoes e uma árvore de Natal no canto do sala. O que poderia ser mais aleatório do que aquele lugar? Caminhei em direção ao Chad e o abracei por trás.
— O que uma árvore de Natal está fazendo no meio dessa festa? — perguntei com meu rosto encaixado em seu ombro.
— Eu não tinha uma decoração de aniversário, então coloquei uma natalina, cheia de luzes. Ficou bonitinha, não? — ele disse super sério, e eu comecei a rir.
— Você é a pessoa mais estranha do universo!
— Tu gosta de mim desse jeitinho — ele me abraçou, me apertando.
— Eu amo você! Agora vamos dançar — puxei-o para a pista de dança.

Coloque essa música para tocar
Vaina Loca – Ozuna

Dançamos em sintonia com a música até o momento que tocou nosso estilo favorito: reggaeton. Chad segurou minha mão com nossos corpos frente a frente, guiando a dança, deslizando os pés lado a lado enquanto eu rebolava ao som da melodia. Até que ele colou nossos corpos num segundo, me puxando pela cintura e encaixando sua perna na minha. Subi meus olhos para os seus enquanto ele se arriscava a me rodopiar e a cruzar nossos passos, ficando por trás de mim enquanto eu me movimentava em sincronia.
— Isso que eu chamo de um aniversário memorável — Chad colocou a mão na minha cintura enquanto eu ia rebolando contra seu corpo ao som da melodia do refrão.
— Fico feliz que você esteja gostando da sua festa — falei, me virando. Então, cravei meus olhos nele. — Você quer seu presente agora?
Ele suspirou e abriu um sorriso.
— Vem aqui.
Em meio aos nossos sorrisos, joguei minhas mãos por cima dos seus ombros e aproximei nossos lábios. Chad brincou com eles por um tempo até finalmente me beijar. Sua língua dançava com a minha lentamente, contrariando o ritmo da música que ia se dissipando ao fundo. Ele foi me arrastando pela festa sem se desgrudar de mim, até que senti a parede bater nas minhas costas, o que grudou mais ainda nossos corpos.
— Deveríamos sair daqui? — me afastei por um momento, levantando meus olhos para os dele.
— Temos dez minutos até darem falta do aniversariante — ele respondeu pausadamente enquanto eu mordiscava seu pescoço.
— Considere-se sortudo pelo melhor momento da sua noite — falei, puxando-o pelo corredor e jogando-o para o quarto mais próximo dali.



HARRY

— Obrigado, Dallas. Vocês foram maravilhosos hoje à noite. Vejo vocês na próxima! — admirei as luzes na plateia, dei um sorriso largo e saí do palco.
Comecei a caminhar até o camarim, agradecendo as pessoas que eu via no caminho, então abri a porta e me sentei no sofá com um suspiro cansado, mas aliviado de mais um show cumprido. Peguei uma garrafa de água no frigobar ao lado e dei um gole, esperando que a frieza do líquido aliviasse minha garganta. Passei meus olhos pelo ambiente em busca do meu celular; desbloqueei a tela, abrindo o Instagram numa busca por comentários, marcações de vídeos e fotos sobre o show. Era algo que eu sempre fazia, me deixava extremamente feliz ver os registros dos meus fãs.
— Conferindo os cliques impecáveis dos seus fãs? — ouvi a voz de Sarah e direcionei meu olhar para ela, que estava entrando com o resto da banda.
— Você sabe que sim! Na verdade, eu estava mesmo querendo falar com você — respondi, e ela se sentou junto a mim.
— Sou toda ouvidos para você — ela sorriu.
— Preciso encontrar alguém no Instagram — dei meu celular para ela.
— Qual o nome dela?
— Não sei. A única coisa que sei é que estava na premiação do final de semana e no balé da Dua Lipa — forcei um sorriso para encorajá-la.
— Você quer eu stalkeie a garota sem nem saber o nome dela? — perguntou, incrédula, e eu balancei a cabeça muito animado. — Você é Harry Styles. Por que não contrata um detetive particular?
— Acho que ficaria meio bizarro, não? Além do mais, acredito mais no seu potencial de stalker. Já soube de umas histórias de que, antes de você e o Mitch namorarem, você ficava de olho onde… — ela tampou minha boca e deu um sorriso forçado na direção do Mitch.
— Ok! Cala boca! Eu vou te ajudar — Sarah falou rápido, quase num sussurro. Dei um abraço apertado nela e pulei em comemoração.
— Agora quero saber o que você fazia antes de nós namorarmos — Mitch soou desconfiado.
— Não fazia nada. Sou uma pessoa muito equilibrada — ela lançou um olhar fatal para mim. — Vamos entrar no Instagram da cantora primeiramente — Sarah digitou o nome do usuário, entrou rapidamente na página que exibia todas as fotos da Dua Lipa. Ela abriu a última publicação, onde dava para visualizar o balé atrás dela.
— Olha ela aqui! Do lado direito — apontei na tela.
— Ela é linda! Mas não tem nenhuma marcação nessa foto, ou seja, nada feito. Vamos ver se nos comentários tem algo — Sarah passou cada comentário, tentando analisar a foto do perfil para checar alguma semelhança com a garota de cabelos pretos.
— Pode ver as fotos marcadas também.
— Você é bom nisso, hein?
Dei de ombros, convencido, não desviando os olhos da tela. Eu observava cada clique que minha amiga dava.
— Olha, tem essa com uma garota com a roupa idêntica, mas nenhuma das meninas marcadas é ela — Sarah foi abrindo cada perfil marcado para analisar os comentários e as curtidas, mas parecia que essa garota sabia se esconder. — Harry, acho que vai ser difícil.
Desviei minha atenção da sua fala para algumas notificações que, de repente, chegaram muitas vezes seguidas.
— Espera aí! Deixa eu abrir essa DM — ao clicar na tela, identifiquei a mesma menina que tinha esbarrado em mim no after party. Ela tinha me marcado pelo menos dez vezes na mesma foto, e sorri ao lembrar o quão desastrada ela era.
— Quem é essa? — perguntou Sarah.
— Ela pediu uma foto comigo na festa após a premiação, logo depois de esbarrar um drink no meu terno — expliquei calmamente enquanto minha amiga puxava o celular da minha mão para analisar o perfil da garota.
Levantei-me do sofá, caminhando até o banheiro para que pudéssemos ir para o hotel o mais rápido possível. Eu sabia que deveria ter perguntado seu nome, não era algo difícil de se fazer. Mas eu posso ser distraído às vezes, então me contentaria que era uma possibilidade nunca mais esbarrar na garota que exibia sentimentos em seus rodopios dançantes. Afinal, eu ainda não estava pronto para me jogar de cabeça em algo novo agora, embora me questionasse que talvez eu precisasse exatamente disso! Do despertar de sentimentos novos. Diferentes experiências para destravar traumas que pareciam rondar meus relacionamentos. Porém, agora existiria a dúvida do que poderia ser, já que eu não conseguiria encontrá-la.
Deixei o banheiro passando a camisa pela minha cabeça até que se encaixasse em meu corpo, o que me impediu de notar que Sarah ainda permanecia no camarim.
— Você ainda tá aqui, Sarinha? Cadê o resto do pessoal? — perguntei, pegando minha mochila e olhando para ela.
— Acho que encontrei a sua garota — ela me olhou com aqueles olhos gigantes demonstrando felicidade.
Corri em sua direção e puxei o celular de sua mão para conferir o que ela tinha acabado de me falar. Meus olhos passearam pela tela vendo cada foto e vídeo existente em seu perfil.
— É ela, não é?
— É ELA!


Capítulo 3 – Stalker or Singer?


O que falam sobre a crise dos vinte e tantos é verdade, mas, no meu caso, começou exatamente aos vinte. É nessa época que as pessoas costumam estar em diversos estágios da vida numa mesma idade. Alguns se casam e têm filhos, outros nem sequer imaginam ter uma vida a dois. Uns estão na faculdade, outros nem sequer sabem o que querem fazer com a própria vida. E a gente se compara mesmo, é natural. A comparação se torna inevitável, porque estamos começando a vida e não queremos começar errando. Mas essa insistência de se encontrar muitas vezes acaba nos frustrando, nos causando uma sensação de desencanto com a própria vida.
Em uma dessas crises, decidi que era hora de me mudar para Los Angeles – o que não foi nada fácil, principalmente para minha mãe. Fiz de tudo para não demonstrar que eu estava receosa com a decisão, mesmo ela sabendo que eu iria evoluir muito na minha profissão. A Cidade dos Anjos era o lugar onde as oportunidades eram criadas, e, no final de tudo, ela conseguiu entender. Mas existia o medo, a inquietação, as dúvidas, as incertezas, e você fica se perguntando se vale a pena sair da sua zona de conforto para viver um sonho. E o que posso falar até agora é que vale tudo para transformar ficção em realidade. Fazer uma mudança súbita saindo da adolescência é a coisa mais desafiadora que você pode fazer por si mesma. E digo com convicção: é a melhor escolha que fará na sua vida, porque não existirá um momento em que você será mais verdadeira e honesta – ou com motivos mais puros – do que agora. Se é isso que te empolga, então se arrisque e confie na sua intuição, porque há um grande risco de tudo se tornar real demais.
Atualmente eu dançava na Millennium Dance Complex, um estúdio de estreia de dançarinos no mundo da dança comercial, mundialmente conhecido como o “lugar onde tudo acontece”. A missão do Millennium era desenvolver paixão e técnicas de jovens talentos para, logo em seguida, os jogarem num mar de oportunidades. Era engraçado como eu lembrava como se fosse hoje quando conheci Kelsey nos corredores e ela me disse: “você está no lugar certo, . Estar aqui é como esfregar a lâmpada mágica, e pelo menos três de seus desejos serão realizados.” Desde então eu não desgrudei dela um segundo sequer.
O programa que escolhi estar envolvida era para grupos que já tinham vivência naquele mundo. Semanalmente eram desenvolvidas milhares de coreografias com nossos conselheiros para nos orientar, e, cada dia mais, desenvolver nossa base na dança. Foi por causa desse lugar que consegui me apresentar no American Music Awards, mais precisamente por meio de uma indicação do nosso conselheiro, o famoso Brian Friedman. dançarino e coreógrafo que já desenvolveu muitas coreografias para artistas como Britney Spears e Michael Jackson.
Como de costume, ao chegar no estúdio, tive a oportunidade de iniciar a aula fazendo um solo da minha apresentação. Isso acontecia quando o dançarino conseguia se apresentar em algum evento, então Brian me deixou no comando da turma.
— Como vocês sabem, não poderia ser diferente, hoje é o dia do solo da , e vocês podem acompanhá-la em seguida. A aula é sua, ! — disse Brian, seguido do som das palmas. Então, me pus no meio do estúdio.
O público era diferente, mas a sensação de formigamento era a mesma. Era um julgamento diferente e, talvez, mais desafiador. Movendo ritmicamente à medida que a música tocava, um filme passava-se na minha cabeça, conseguindo me lembrar de todas as sensações que senti ao longo daquele dia, inclusive do momento em que encontrei Harry. Na verdade, me lembrei especificamente do seu sorriso, e aquilo incrivelmente me acalmou. Lembrei do som da sua risada alta e, no momento em que pus meus olhos nele, vi seu sorriso aberto, marcante, formando covinhas juntamente às linhas perto de seus olhos, que definiam o quão sincero era aquele riso. Se eu tivesse outra oportunidade de vê-lo, com certeza falaria para ele que seu sorriso, sem dúvidas, foi o mais sincero que eu havia visto em anos.
E por que eu pensava nisso enquanto dançava? Talvez porque todo solo era uma experiência de sinceridade; pelas expressões naturais que se via em cada rosto na plateia, de vulnerabilidade por se mostrar sozinha para todos, tendo que confiar que seu corpo saberá o próximo movimento e seus músculos lembrarão exatamente o que fazer em seguida, sem ninguém ao seu lado para seguir. Rodopiei pela sala, mexendo meus quadris, e Brian me acompanhou também, finalizando o trecho da música e dando espaço para que os outros grupos fizessem suas apresentações.


💃💃💃


— Soube que sua apresentação foi um sucesso — escutei a voz de Brian enquanto postava o vídeo da minha performance solo nas redes sociais.
— Sim! Obrigada por me indicar, não conseguiria sem você — respondi ao direcionar meu corpo para ele e abraçá-lo.
— Tudo isso é resultado do seu esforço, eu apenas fiz meu trabalho. Logo menos você estará em alguma turnê.
— Você acha mesmo? — perguntei com uma feição surpresa.
— Tenho certeza que sim! Agora preciso ir. Te vejo na próxima aula — ele se despediu.
Fui em direção às minhas amigas, perguntando se elas iriam voltar comigo, e recebi uma resposta negativa.
— Vou para o apartamento do Brian — disse Amber.
— E eu vou junto, achei que o Chad tinha te chamado — interrompeu Kels.
— Ah, ele falou comigo, mas esqueci de responder. Mas vou pra casa mesmo, amigas, ok? — respondi, e elas assentiram. Nos abraçamos e eu segui meu caminho.
Uma playlist aleatória de pop tocava nos alto-falantes do carro enquanto eu dirigia. Os moradores da cidade deixavam claro que não importava o clima, a cidade sempre transpirava verão – as mulheres sempre com roupas curtas ou biquíni, esbanjando seus belos corpos; os homens com suas camisas abertas, exibindo seus abdomens treinados. E sempre, a cada esquina, via-se vestimentas cada vez mais estilosas, e isso era algo que sempre me atraiu para Los Angeles quando finalmente decidi me mudar da casa onde vivi parte da minha infância.
Antes que eu pudesse me perder demais nos meus pensamentos, meu celular tocou e logo apareceu no visor o nome do Chad. Prontamente atendi.
— Hey, lindo! — falei, animada.
— Hey, abelhinha. Você vive me dando vácuo, decidi te ligar. Você não vem? — ele indagou.
— Dessa vez eu vou passar, estou um pouco cansada. Mas a gente pode sair no domingo pra alguma praia, o que acha? — sugeri, contornando a situação.
— Você me abandona muito facilmente, mas tudo bem — ouvi seu tom manhoso. — A gente vai se falando, beijos.
— Beijos, dramático — ouvi sua risada antes de desligar.

Coloque essa música para tocar
Sweet Creature – Harry Styles

Ao encerrar a ligação, pude ouvir o som reiniciar numa música que eu nunca tinha escutado antes. As primeiras frases foram ditas de forma tão leve, tão suave que parecia uma canção de ninar. Dava vontade de cantar junto, mesmo não sabendo a letra.
Ficava claro que era uma canção sobre duas pessoas que não estavam mais juntas, teimosas o suficiente para não permanecerem como casal. Mas que se amaram o suficiente para saber que um era a casa do outro, independente de onde estivessem. O refrão, carregado de sentimentos e de sonoridade romântica, me remetia à atmosfera melódica de alguma música triste dos Beatles. Os poucos elementos sonoros da canção faziam com que todo o foco da música fosse para a voz do cantor.
Ao chegar em casa, olhei para o painel do carro e visualizei o cantor: Harry Styles. Tinha um fundinho do meu ser que acreditava conhecer aquela voz, mas tinha uma diferença gritante em seu tom – estava mais grave, mais rouca, mais madura. Então o dono daquela voz que suplicava romance era dele. Chegavam a ser engraçadas as coincidências da vida; logo eu que não acreditava em romance, me derretendo por uma letra cheia dele. Sorri com meus pensamentos e desci do carro, caminhando para a entrada do apartamento.


💃💃💃


Deitada de bruços e absorta em meus pensamentos, senti meu celular vibrar. Arrastei meu braço para baixo do travesseiro e procurei pelo aparelho, então virei meu corpo e coloquei o celular na altura do meu rosto, fixando meu olhar na tela. Bloqueei e desbloqueei-o repetidas vezes, na tentativa de observar se era algum tipo de miragem… mas todas as vezes ficava mais claro que as notificações eram verdadeiras.

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Parecia que eu estava vendo tudo em câmera lenta, mas saí do meu surto interno e finalmente desbloqueei o celular, passando o dedo pela tela. Abri o aplicativo e li novamente a notificação em que ele escreveu amar a performance na premiação do American Music Awards. Como poderia ser possível Harry Styles ter encontrado meu Instagram?
Quem poderia imaginar que ele fazia o tipo que stalkeava alguém, não é mesmo? Nunca passaria pela minha cabeça que isso poderia acontecer, mas a única coisa que eu tinha a meu favor era a minha personalidade atrevida. E se tinha algo que eu nunca deixava passar na vida era oportunidades, principalmente por não ter me tocado de que era ele na minha frente naquele dia. Então, prontamente curti duas fotos antigas e mandei um direct.



Nunca passou pela minha cabeça que era você naquele dia hahaha e de qualquer forma, obrigada por elogiar minha performance. 2:30pm




HARRY

Entre o emaranhado de sentimentos resultantes do término da turnê/relacionamento, eu tentava achar um equilíbrio dentro de mim. Apesar de saber como aquilo fluía com o tempo, o ser humano nunca estava preparado para terminar ciclos. Isso exigia habilidade, assim como o amor precisava de pessoas habilidosas para não cair nas suas armadilhas entusiásticas da paixão – e eu podia dizer com todas as letras que eu não gozava dessa habilidade. Turnês eram realmente difíceis, relacionamentos também e, mesmo tentando manter a fama fora da equação, todos deram errados por diferentes razões. Mas em todos eles o denominador comum era eu.
Ainda que a vida a dois trouxesse certos comodismos que a vida de solteiro não permitia, sua mente sempre vai estar dividida entre correr riscos ou permanecer na zona de conforto.
Eu nunca, por hipótese alguma, permanecia em inércia.
Por isso, mesmo sem práticas para flertar, minha autoconfiança destravou truques antigos de flerte como faziam os incas. Tateei o celular pela cama e encontrei o nome dela nas últimas pessoas pesquisadas. Rolei pelo perfil da , curti fotos antigas e comentei o último vídeo que parecia de uma performance recente dela, coincidentemente da música que eu a vi dançar na premiação. Demorei ainda observando seu perfil e, logo em seguida, decidi tirar um cochilo.


💃💃💃


Senti meu celular vibrar ao me despertar e olhei para o visor, anunciando uma ligação que prontamente atendi.
— Hey!
Vamos sair para jantar às 5:00 p.m. Você vai conosco? — ouvi a voz do Mitch indagar.
— Claro que sim. Estarei no lobby.
Tente não se atrasar, bad boy — ele finalizou a ligação antes que eu pudesse responder.
Passei as mãos nos olhos para me despertar rapidamente, então verifiquei as notificações pela tela do celular.

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Em pouco tempo me vi tentado checar se havia alguma mensagem no meu direct. Sorri ao ler, então respondi.



Nunca passou pela minha cabeça que era você naquele dia hahaha e de qualquer forma, obrigada por elogiar minha performance. 2:30pm

Harry
Sua testa está bem? Espero que não tenha batido em mais nenhuma parede por aí! 4:40pm
E mesmo sendo leigo, apenas apreciador da arte, amo o jeito que você dança. 4:40pm
Você tem paixão, ! 4:40pm


Hahaha minha testa e eu estamos bem, obrigada. 4:45pm
E eu realmente amo o que faço, por isso tants paixão. 4:45pm
Escutei hoje uma música sua... “Heavenly Creature” 4:47pm

Harry
Eu acho que você quis dizer “Sweet Creature” hahaha 4:50pm


Meu Deus! hahahaha que gafe! Tô tão envergonhada. 4:55pm
“SWEET CREATURE”!!! Prometo não esquecer 4:55pm
Quando você vem performar em L.A.? 4:56pm

Harry
Na semana que vem... Por quê? Você quer ir? 4:57pm


Eu com certeza irei, Sr. Styles 😏 4:58pm


Sorri com o flerte. Em seguida, olhei para o canto de cima do visor e reparei que já estava atrasado o suficiente para o jantar. Me levantei da cama, correndo direto para o banheiro, me banhei em poucos minutos e coloquei uma roupa casual. Antes que pudesse dar um jeito no meu cabelo, ouvi o toque do meu celular, já sabendo que seria a banda me apressando. Recolhi minha carteira e celular e segui para o elevador do hotel.
— Vinte minutos atrasado — ouvi Sarah falar assim que a porta do elevador abriu.
— Tenho uma boa desculpa para tal acontecimento — falei, me colocando no meio dos dois em um abraço. — Poderemos falar sobre isso no jantar — sorri de lado e olhei ao nosso redor, procurando a quarto membro do nosso grupo. — Ué, cadê a Clare?
— Ela disse que não ia, estava cansada — assenti ao ouvir Adam responder.
Nova Iorque continuava agitada assim como da última vez que estive aqui. Estávamos hospedados no DoubleTree Hilton, que ficava localizado em plena Manhattan, próximo de qualquer ponto badalado da cidade. Apesar de ter um apartamento em Nova Iorque, eu ainda não estava completamente pronto e, vindo com a banda, preferia que todos ficassem no mesmo ambiente para não haver atrasos.
Conhecer restaurantes com culinárias diferentes era o que eu mais gostava de fazer por aqui. Decidimos ir para um restaurante tailandês que ficava na Midtown West, chamado OBAO. No caminho, falamos sobe o quanto estávamos empolgados pelo primeiro show na cidade com a minha banda, e nossas expectativas eram as mais altas possíveis. Assim que nos sentamos na mesa do restaurante, o assunto não poderia ser outro senão o motivo do meu atraso.
— Só nos conte logo, estou super curiosa. E sei que você nunca se atrasa, então deve ser muito bom o motivo — disse Sarah, demonstrando ansiedade na sua voz.
— Ok! Curiosos para ouvir? — sorri abertamente, encorajando eles e esperando a confirmação. — Estava conversando com a !
— JURA? Não achei que você fosse tomar iniciativa agora — Sarah falou, espantada.
— Na verdade, eu apenas curti e comentei algumas coisas, ela que tomou a iniciativa de me chamar na DM — falei, com sorriso um presunçoso no rosto.
— Ela é uma garota de ação! Já gostei dela — ouvi Adam se pronunciar enquanto fechava o cardápio.
— E sobre o que vocês conversaram? — indagou Mitch.
— Ela disse que amou minha música, “Heavenly Creature” — falei, esperando a reação da mesa, que foram gargalhadas infinitas. Não me contive ao me contagiar por elas.
— Eu já amei ela, podemos conhecê-la? Poooor favoor! — suplicou Sarah.
— Claro, ela estará no show de Los Angeles. Eu a convidei.
Todos ficaram surpresos ao ouvir sobre o convite, e eu sabia o motivo.
— Então a loirinha já foi superada? — Mitch indagou com certa preocupação.
— Sabia que vocês iam citar ela — grunhi com a voz baixa, um pouco chateado.
— É só porque nos preocupamos com você — Sarah disse com sua voz doce.
— Eu sei, gente. Não tem problema. Mas estou tratando tudo isso como casual, só quero conhecer pessoas novas — falei, descontraído.
— A gente sabe que você é cuidadoso, mas tem coisas que não se controla — finalmente Adam se pronunciava.
— Eu só consigo me lamentar uma única vez sobre uma situação. A partir da segunda, já estou escolhendo sofrer. Então, já me lamentei pelo término e não posso reverter a situação. Não sei como responder se eu realmente superei, mas sendo completamente honesto comigo, só quero que tudo seja novo. Quero poder ser uma pessoa nova e começar tudo de novo — finalizei, sendo completamente verdadeiro com meus sentimentos. Acho que eu precisava falar aquilo em voz alta para finalmente dar um ponto final, pelo menos dentro de mim.
Dei um gole na minha bebida e me perdi em meus pensamentos, enquanto a conversa mudava de rumo.




Eu assistia a cena do sofá em câmera lenta, passando meu olhos de Kelsey para Amber numa velocidade frenética. Minhas amigas passavam o dedo pela tela para desbloqueá-la, em seguida arregalando os olhos em surpresa ao ler as mensagens e notificações. Eu ouvia a falação exagerada em forma de surto de uma forma divertida.
— Kels gritou, e eu voltei meus pensamentos para o surto delas.
— Você flertou com ele! Você é uma vadia, garota! — gritou Amber.
— Eu não perdoo ninguém. Caiu na rede da sereia, aqui é peixe, meu amor. Você acha mesmo que vou perdoar um homem lindo desses? Até parece! — falei, me achando.
— E se ele te procurou, algum interesse tem... Não iria ser do nada — ouvi a voz de Kels, duvidosa.
— Também parti totalmente desse princípio! Ainda curte fotos antigas? Talvez ele seja apenas um homem comum com desejos sexuais — peguei meu celular da mão de Kels e o bloqueei.
— Definitivamente você venceu na vida — ela continuou.
— Mas como ele te encontrou? — indagou Amber.
— Não perguntei, e ele não puxou mais assunto. Vou esperar ele falar algo — dei de ombros.
— É, espera. Ele deve estar ocupado — ela disse e eu assenti, enquanto as duas seguiram cada uma para seu quarto e eu segui para o meu.
Fiz minha rotina noturna de skincare e me joguei na cama. Antes que pudesse escolher alguma comédia romântica que eu colocaria toda minha atenção na tela de uma TV, senti o celular vibrar, e lá estava uma notificação que me tirou um sorriso.


Harry
Posso fazer um pedido? 00:35am


Claro, Mr. Styles. 00:36am

Harry
Na verdade, são dois... 00:36am
Eu queria te ver dançar uma música minha 00:37am


Pedido aceito 00:37am
E o segundo? 00:38am

Harry
Posso ter seu número? 00:39am


Pensei que nunca pediria 00:40 AM
+(1) (341) 7355-013 2 00:40 AM


Depois de alguns minutos sem resposta, resolvi dormir, mas o celular custou a vibrar pela última vez naquela noite.


Unknown number
Boa noite, Mrs. 00:45 AM


Bons sonhos, Mr. Styles 00:46 AM


Sorri com aquela mensagem e me virei de lado, finalmente encontrando o sono.


💃💃💃


O dia ensolarado de domingo pedia movimentação, e foi isso que eu havia decidido fazer naquele dia: seja ir à praia, um passeio ao ar livre, caminhar pelo calçadão de Venice Beach ou apenas algo que me tirasse dos meus próprios pensamentos. A mensagem que chegou em meu celular para que eu ficasse pronta em poucos segundos me tirou de um demasiado tédio.
— Salvou meu domingo, honey — falei assim que entrei no carro.
— Eu salvo a sua vida e você não admite — Chad me olhou enquanto eu retribuía seu sorriso convencido, sabendo que ele tinha dito a verdade.
Alguns minutos se passaram enquanto eu observava o mundo janela afora. Falar sobre sentimentos era a coisa mais difícil de sair da minha própria boca, mas eu precisava admitir: mesmo que fosse a coisa mais difícil a se fazer, sabia que minha amizade com ele tinha me salvado de inúmeros momentos que pensei em desistir de tudo. E falo de experiência de vida ou morte, as quais muitas vezes eu não conseguia tirar um bom motivo para permanecer ali. E um mais simples cuidado, um abraço, um chamego ou até mesmo um “sinto sua falta” conseguia me tirar um sorriso em meio a qualquer crise existencial. Chad mantinha minha mente sã por muitos momentos, e ele nem conseguia imaginar tamanha sua importância.
Observei-o estacionar o carro extremamente concentrado, mas desviei o olhar logo em seguida, para que não tivesse a impressão errada sobre encará-lo.
Hello, Venice Beach! Só gente linda nesse lugar — ele disse, colocando seus óculos de sol e não disfarçando nenhum olhar para as garotas que passavam por ali, que eu também não deixava de notar.
— Essa praia nunca decepciona!
— O que quer fazer? — Chad me perguntou.
— Só queria ficar quietinha na areia mesmo — respondi, e ele assentiu.
— Mas antes... — eu sabia que ele não precisaria concluir a fala para saber o que falaria.
A gente sempre tinha o poder de saber o que o outro estava pensando só de se olhar e, por isso, caminhamos até a Abbot Kinney, a rua mais descolada e incrível que existia em Venice Beach, onde tudo exala moderninho e sofisticado demais. “The coolest block in America”, eu costumava dizer. Quando vinha com as meninas, era puro banho de loja que nos fazia perder a cabeça. Mas, quando vinha acompanhada de Chad, a Madmen era a nossa parada obrigatória. Conhecida como a “Starbucks da maconha”, era uma loja onde se encontrava vários produtos à base de Canabidiol. Esperei-o do lado de fora como sempre, ou iria passar muito tempo olhando algo desnecessário.
— Agora podemos ir — ele colocou a mão no bolso, e fomos caminhando pelas ruas até sentirmos a areia nos pés.
Sentamos embaixo da guarita de salva-vidas para fugir do sol e ter um pouco de sossego. Chad se sentou e abriu as pernas, indicando que eu deveria me colocar entre elas. Encostei minha cabeça em seu peito e esperei que ele acendesse o beck. Eu não precisava olhá-lo para saber que ele fechava os olhos a partir do momento que encostou seus lábios na seda para finalmente tragá-lo. Senti seu peito subir e descer atrás de mim, e ele me repassou o cigarro. Inalei a fumaça tão forte que senti imediatamente toda a ansiedade dando espaço para que meu corpo ficasse mais relaxado e tranquilo.
Toda vez que eu fumava maconha era diferente da anterior. Combinava sempre com meu humor atual. Hoje eu só queria sentir literalmente nada, fugir dos meus pensamentos e deixar que minha mente ficasse cada vez mais vazia, só aproveitando o momento. Mas, ainda sim, senti meus olhos ficarem cada vez menores, e meu sorriso cada vez maior. Observei o mar à minha frente e soltei um suspiro. Chad beijou meu pescoço e eu me arrepiei com sua respiração quente.
— No que está pensando? — ele indagou.
— Literalmente nada, e isso me faz sentir maravilhosamente bem — sorri.
— Eu não consegui passar naquele teste — ele falou de repente em meio a um suspiro.
— O que seu amigo te indicou?
— Sim, eu sabia que tinha ficado muito nervoso.
— Mas tenho certeza que você vai se dar muito bem. É só uma questão de tempo — me virei em sua direção.
— Eu não sei.
— Eu acredito em você. Estou sentindo que falta pouco para você conseguir algo gigantesco, e você nem imagina — olhei para ele, que assentiu.
— Obrigado por acreditar em mim — disse, olhando em meus olhos.
— Fecha os olhos — pedi e ele resistiu, mas assim o fez. — Faz um desejo e coloca em seu coração.
— Ok — virei meu corpo para ficar de frente para ele, admirando as rugas que seu rosto fazia ao perceber que eu estava o observando.
— Fez? Agora, acredita bem no fundo que ele pode se tornar realidade — observei-o assentir, ainda com os olhos fechados. — Eu tenho fé de que tudo que você acredita fielmente está perto de acontecer, e se você abre a mente e o coração para a possibilidade disso, então só resta esperar.
Ele abriu os olhos e me apertou em um abraço. Coloquei meus braços em seu pescoço e beijei toda a lateral do seu rosto.
— Te amo, caralho!
— Eu também
Eu amava relembrar aos meus amigos o quão inteligentes e merecedores eles eram dos seus sonhos, mesmo que parecesse longe da realidade. Senti suas mãos emoldurarem meu rosto, e todo o calor da ponta dos seus dedos me fizeram arrepiar. Apertei seus braços e observei sua pupila já dilatada olhando para meus lábios entreabertos. Passei a ponta da língua, umedecendo-os, gerando um convite para que ele unisse nossas bocas com diversos selinhos, até eu lentamente tomar a iniciativa de beijá-lo. Nossas línguas entrelaçaram-se lentamente, tornando o beijo profundo e intenso, o que me fez soltar um leve gemido, tornando o momento mais prazeroso. Mordisquei seus lábios e o senti dar uma risada separando os seus, ocupando-os novamente com o beck.
Ficamos ali por tempo suficiente para observar o sol se pondo em suas nuances alaranjadas, aproveitando a presença um do outro. Quando já era um pouco mais tarde, meu celular vibrou, nos despertando dos nossos devaneios e indicando que já era hora de ir.
— Quem é? — perguntou Chad.
Levantei-me da areia e peguei meu celular, que encontrava-se no bolso de trás da minha calça. Desbloqueei a tela e vi a seguinte mensagem:


Harry
Hey, ! Eu queria saber se devo colocar acompanhantes com você na lista do show 5:51pm


— É a Amber preocupada. Vamos? — respondi assim que li a mensagem e bloqueei o celular novamente.
Não sabia por qual motivo eu havia mentido naquele momento para Chad, mas me senti estranha assim que o fiz. Afinal, éramos amigos, e ele sempre soube de tudo o que se passava em minha vida.
Durante todo o caminho até em casa, jogamos conversa fora, mas eu não conseguia puxar muito assunto. Senti que finalmente pude respirar quando pus meus olhos na frente do meu apartamento.
— Tem certeza que não quer dormir lá em casa? — ele perguntou, colocando a mão na minha coxa.
— Tenho. Amanhã de manhã tenho que acordar cedo, e você vai fazer essa tarefa ser impossível — sorri e deixei um beijo em sua bochecha. Saí do carro e fechei a porta, até que ele me chamou. — Esqueci algo?
— Não, mas só uma coisa que está na minha mente.
— O quê?
— Sinto que nossa vida vai começar a mudar drasticamente em pouco tempo — ele soltou, parecendo que sabia de algo.
— Eu também sinto isso, Chad — respondi e o vi arrancar com o carro em poucos minutos.
Subi as escadas martelando aquela frase na minha cabeça, acreditando fielmente que algo estava prestes a mudar. Mas eu não tinha certeza se poderia ser algo bom ou ruim.


Capítulo 4 – THE show


— Eu gostaria de algo que não fosse o hip hop comum essa semana, acho que falta um pouco de ousadia em vocês. Quero algo que me surpreenda! Vejo vocês amanhã — disse Brian, saindo do estúdio e nos deixando um pouco dispersos por toda a sala.
— Vou ficar por aqui até tentar tirar água de pedra, meninas — falei para elas. — Apareço mais tarde em casa.
— Ok, se cuida! Vê se come alguma coisa.
— Tá bem.
Era a semana da criatividade no Millennium Dance Complex, e era nossa obrigação mostrar um pouco de audácia em qualquer mínimo passo que faríamos. Fui colocada com Josh e Rick, que eram tão novos quanto eu no estúdio. Perguntei se eles estariam dispostos a testar algo novo naquele dia, e eles aceitaram.
Eu acreditava que, recentemente, ninguém tenha feito um pop rock alternativo com uma pegada dos anos 90 nas rotinas de dança. Então calhou de eu estar escutando o álbum do Harry para o show que aconteceria no final de semana e estar simplesmente viciada em Kiwi, que era bem diferente do restante do álbum.
Coloquei a música para tocar, e os garotos logo perceberam o que eu tinha imaginado para a coreografia.
— Tem esses riffs de guitarra durante toda a música... — comecei a explicar, ilustrando as batidas com a minha mão.
— Cada riff tem que ser marcado por um novo movimento — Josh continuou.
— Exatamente! E como ela é bem agitada, os movimentos tem que ser rápidos...
— Até antes de iniciar a batida — Rick concluiu, e eu assenti.
— Topam?! — perguntei e eles sorriram, alegres.
Na maioria das vezes, uma coreografia não precisava ser da música completa, apenas das partes que eram mais enérgicas da letra. Nessa em específico era o pré-refrão e o refrão.
— A gente pode iniciar marcando na cintura e girando. Chegando no “I’m kind of into it”, já dá pra tornar a dança mais sensual, sabe? Deslizando a mão pela virilha e, logo em seguida, jogar o corpo para trás.
— Quando chegar no refrão, acho que deveríamos fazer uma pegada mais sensual para dar um significado à letra, tipo assim — Rick se jogou no chão, fazendo movimentos com o quadril para baixo, abrindo e fechando as pernas
— Eu ameeeei! — falei, pulando com eles.
Tentamos reproduzir do pré-refrão e demos continuidade a todos os outros movimentos de uma forma mais livre, do jeito que vinha em nossas mentes. E, então, juntamos tudo.
— No trecho “it's getting crazy”, poderíamos usar a mão na frente, girando e, logo em seguida, puxando para a cabeça como se estivéssemos literalmente tirando a loucura do ambiente, sabe? — falei, demonstrando tudo lentamente para eles.
— E trazendo para perto, né? — Rick continuou.
— Isso!
— Poderíamos usar movimentos repetitivos com os pés e braços logo em seguida, porque ele repete duas vezes a mesma frase “I think I’m losing it”.
— PERFEITO! E depois podemos juntar com a parte mais sensual que Rick disse com o quadril.
Fizemos aquela rotina durante a tarde praticamente toda, e agradeci imensamente a eles porque toparam minhas ideias e agregaram muito também. Era sempre importante ter pessoas naquele ambiente que somavam para o seu crescimento. Era literalmente aquela famosa frase: “se quiser chegar mais rápido, vá sozinho. Se quiser ir longe, vá em grupo”.
Dei carona para eles e cheguei em casa querendo apenas uma taça de vinho, me jogar no sofá e conversar sobre qualquer besteira com as garotas. Ao entrar em casa, encontrei-as no sofá com mais duas companhias que eu amava: Chad e Brian.
— Vocês não têm casa? — perguntei assim que abri a porta.
— Feliz que gostou de me ver — Chad levantou-se do chão e veio me abraçar, e eu retribuí.
— Ela gosta de ser ácida às vezes, né? — abracei Brian também.
— É apenas meu jeitinho — fiz uma cara de fofa. — Vou tomar banho e já volto pra ficar aqui com vocês.
Segui para o meu quarto, jogando minha bolsa num canto e indo diretamente para o banheiro descarregar o cansaço debaixo do chuveiro. Coloquei a playlist que eu amava para cantar no chuveiro, mas não demorei muito. Lavei o cabelo rapidamente e, depois de três músicas, desliguei o registro.
Abri a porta e me deparei com Chad deitado na minha cama.
— Bela cantoria — disse ele.
— Eu sei. Acredita que eu estava pensando em desistir da dança e me aventurar nesse mundo? Acho que levo jeito — falei, com o riso preso.
— Não se arrisque tanto assim, talvez você morra de fome.
Revirei meus olhos, sabendo que ele amava me provocar.
— Inclusive, você é folgado, hein? Tá fazendo o quê esparramado na minha cama? — tirei a toalha do cabelo e joguei-a em seu rosto, escutando sua risada abafada.
— Você sabe como é... Vim apreciar a vista — ele soltou e eu me desequilibrei um pouco, tentando colocar a calcinha na perna.
— Você NÃO presta! — gargalhei. Peguei uma camisa oversize que eu gostava de usar como pijama às vezes e me joguei na cama ao seu lado.
— Tá cansada?
— Muito! Quero uma massagem nos pés — me endireitei na cama e dei meu pé na direção de Chad, que rapidamente o pegou. — Grata! Você é um amorzinho — apertei suas bochechas, e ele me mostrou a língua em sinal de convencimento.
— Semana de criatividade?
— Você sabe que sim! Mas até que eu consegui desenrolar bem.
— Claro que sim. Você não tem um defeito, abelhinha. Mas eu não gosto de ficar te elogiando muito, porque você já começa a se achar mais.
Joguei meus cabelos para trás, gargalhando e me gabando um pouco.
— Vamos pra sala. Preciso de uma taça de vinho gelado descendo pela minha garganta.
Nos levantamos e fomos para a sala, enquanto estavam todos entretidos com algo no celular.
— O que vocês tanto gritam?
— Eu já falei que NECESSITO de uma pizza de pepperoni, e esses dois não querem! Preferem marguerita — disse Kels, desesperada, indo para o outro lado da sala em busca de outra garrafa de vinho.
— Gente! Queijo com tomate? Me respeitem! Pepperoni... ÓBVIO! E sem discussões.
— Chad? — Brian se pronunciou.
— Pepperoni — ele disse por fim, e minha amiga gritou um “yes” animado da cozinha.
— Pega uma taça pra mim, por favor!
Sentei no sofá, esperando que minha amiga me trouxesse a taça e, assim que estava em minhas mãos, bebi metade dela.
— HEY! — Amber gritou. — Calminha, amanhã tem rotina.
— Eu sei, mas eu estava pensando nesse líquido perfeito o dia todo!
— Foi difícil?
— Não. Na verdade, foi muito tranquilo. Rick e Josh são simplesmente maravilhosos.
— Eu sabia que você ia gostar deles.
— E qual música você escolheu? — perguntou Brian.
— Kiwi, do Harry Styles — falei rapidamente e Kels bebericou o vinho, tentando preencher a boca para não falar besteira.
— Não é o cantor que vocês vão ver no final de semana? — Brian perguntou novamente.
— Ele mesmo! — Amber respondeu.
— Não estava sabendo disso. Quando vai ser? — indagou Chad com uma feição confusa.
— No sábado, em Inglewood.
— GIRLS TRIP! — pronunciou Kels.
— Eu acho um absurdo isso, vamos ter que fazer uma BOYS TRIP — gritou Chad.
— Menos, querido, bem menos. Até porque Inglewood é aqui do lado — fiz um sinal com a mão, pedindo para ele baixar a bola.
A campainha tocou, em sinal de que nosso jantar havia chegado, e eu me levantei para atender. Entreguei o dinheiro, peguei as pizzas e fechei a porta com os pés. Coloquei-a no meio de nós, no chão, e cada um pegou o seu pedaço. Fiquei um bom tempo em silêncio, apenas apreciando a comida enquanto eles continuavam um papo aleatório, o que me dava tempo de me perder em pensamentos.
Me levantei por um momento e fui até a cozinha pegar o restante de vinho e encher minha taça. Encostei meu corpo na bancada, apoiando meus cotovelos em cima dela e pegando meu celular em seguida. Fiquei tentada a enviar uma mensagem para Harry o dia inteiro, porém relutei por vários momentos, porque não queria soar aduladora. Ele devia ter milhares de pessoas o bajulando o tempo todo, então talvez me tornasse chata, e essa nunca seria a minha intenção. Entretanto, minha personalidade impetuosa não me permitia prolongar aquela vontade e agir com prudência. Nunca tive paciência para rodeios, e não ia mudar porque o cara era famoso.



Curiosa pra saber o que você vai achar da coreografia que fiz pra uma de suas músicas 8:45pm

Harry
Você gosta de provocar a curiosidade alheia... 8:46pm


É o meu principal charme 8:46pm

Harry
Quando poderei admirar a obra de arte? 8:46pm


Amanhã! 8:47pm
Na verdade, a música me deu uma grande ajuda pra rotina dessa semana 8:47pm

Harry
A minha obra de arte está ajudando outra arte... 8:47pm
Algo normal na minha existência 😎 8:47pm


Sabia que você era um pouco narcisista. Sua sorte é que você é bonito! 8:48pm

Harry
Você sabe que um narcisista reconhece outro, não é? 8:48pm
Lisonjeado pelo elogio. Você também não é de se jogar fora, ! 8:49pm
Ou acha que te segui à toa? 8:49pm


Isso era óbvio! Você não tem cara que dá ponto sem nó, Styles. 8:50pm
Mas achei que saberia me elogiar melhor. O narcisismo te deixa desconfortável com belezas maiores que a sua? 8:50pm

Harry
Odeio me sentir assim, mas sim?? Hahaha 8:50pm
Mas, na verdade, eu gosto de inovar nos meus elogios 8:50pm


Okay... Agora fiquei curiosa 8:51pm

Harry
, além de encantadora, você sabe exatamente o que quer, e não tem nada mais bonito em uma mulher do que a confiança 8:51pm


! — ouvi meu nome num tom um pouco mais alto do que o comum e tirei os olhos do celular, olhando para Kelsey na minha frente. — A gente tá te chamando há séculos, o que você tanto faz aí?
— Tava conversando aqui. O que houve?
— Vamos assistir um filme, vem!



Você também sabe o que faz, Styles 8:55pm
Boa noite 8:55pm


Deixei o celular de lado e caminhei até o quarto, pegando um edredom para estender no chão em frente à televisão.
— Passa uma almofada, por favor! — estendi meu braço em direção ao sofá e senti o objeto na minha mão em alguns segundos. — Grata.
— O que vamos ver? — perguntou Brian.
— Qualquer coisa menos terror — disse Chad.
— Ah, pelo amor de Deus. Você tem quantos anos? Dez? — soltei para ele, o provocando e recebendo uma revirada de olho.
— Comédia? — Amber sugeriu.
— Não! — Kels negou.
— Suspense, então — falei.
Em poucos minutos, eu estava deitada com Chad abraçado comigo, porque ele não gostava desse tipo de filme.
— Faz cafuné em mim — senti sua cabeça roçar na região da minha barriga.
— Tá carente?
— Sim, e você não me dá atenção — ele fez um biquinho.
— Ah! Para de besteira.
— Você prefere ficar no celular!
— Dramático!
Fiz o cafuné que ele pediu, e, em poucos minutos, praticamente todos estavam dormindo. Por isso preferi escolher o gênero que eu gostava, porque eu assistia até o fim, e foi o que fiz. Quando os créditos passaram pela tela, despertei todos, que foram para seus devidos quartos. Levei as caixas de pizza e taças para a cozinha antes que pudesse finalmente ir para minha cama.
Encontrei Chad já sem camisa estirado nela, e logo me pus ao seu lado, puxando um pouco do edredom para mim.

Coloque essa música para tocar
Affection – Cigarettes After Sex

— Você já está com o meu lado favorito da cama, podia deixar um pouco de edredom pra mim, né?
— Vem pra mais perto que não precisamos ficar nessa briga de espaço — senti a mão dele procurar minha cintura, me trazendo para mais perto.
Ele virou o rosto em minha direção, dessa vez mais próximo que antes, e ficamos nos olhando por alguns segundos. Senti sua mão acariciar minhas costas e subir para o meu pescoço, o que me fez arrepiar um pouco. Eu era fraca quando provocada ou tocada, então me aproximei de seus lábios assim que o vi fechar os olhos.
A prática de exteriorizar o amor – seja por meio de palavras, gestos, demonstrando proteção com alguém querido, nutrindo uma relação de carinho – era afeição. Eu e Chad éramos pura afeição. Não era apenas sexual. Era uma amizade melhor e aprofundada.
Entrelacei minhas pernas nas dele, roçando na sua intimidade, sentindo que ele já estava duro. Apertei seu braço em resposta às mordiscadas que estava sentindo por toda extensão da minha mandíbula, que desciam pelo meu pescoço. Afastei meu corpo por alguns segundos e me pus em cima dele, colocando as pernas uma de cada lado do seu quadril. Suas mãos passeavam por dentro da minha camisa, subindo da cintura e indo de encontro com meus seios. Chad sabia os lugares exatos onde me tocar. Ele sabia o que eu gostava, principalmente depois de beber algumas taças de vinho. Sabia exatamente o que estava fazendo quando demorava nos meus seios, apertando-os com mais força do que o normal.
Era sexual! Mas também era afeição.
— Você sempre sabe o que faz.
— Sei? — vi seu rosto sacana iluminado apenas pela luz do abajur.
— Hmmm — fechei meus olhos quando ele puxou meu mamilo.
Chad puxou minha camisa para cima, e eu levantei os braços para que ele pudesse retirá-la, vendo-o jogá-la em qualquer parte do quarto. Inclinei meu corpo para frente e o beijei profundamente, sentindo seu membro pulsar embaixo de mim enquanto eu rebolava em seu colo. Senti suas mãos apalparem minha bunda, seguido de um tapa que me fez dar um pulo. Era pura libertinagem. Luxúria. E vício. É, eu era viciada em seu sexo, e nenhuma parte do meu corpo mentia isso.
— Gostosa! — ele disse, repetindo o tapa e me fazendo gemer.
Saí de cima dele por um instante e o ajudei a puxar sua calça para baixo, exibindo seu membro para mim. Tudo que consegui fazer a partir dali foi estender minha mão para a gaveta ao lado da cama e alcançar a camisinha. Num segundo ele colocou, afastou minha calcinha e me pôs em cima dele novamente, cavalgando-o. Lentamente. Eu subia e descia devagar, sentindo sua intimidade me preencher. Tentei acelerar o movimento, mas ele forçou para que permanecesse lento. Pôs seu tronco mais perto do meu, nos aproximando mais e juntando nossos lábios num beijo cheio de desejo, fazendo um carinho na minha bochecha. Ficamos alguns minutos assim, até que atingi o ápice. Mas ele continuou, dessa vez acelerando o quadril e me forçando a rebolar na mesma velocidade, o que já me deixava duas vezes mais excitada e me direcionava para um segundo orgasmo seguido.
Era carnal, mas também não era.
... — ouvi seu gemido chamar meu nome.
Senti seu pau pulsar dentro de mim, enquanto meu corpo começava a tremer. Estava prestes a explodir, então senti seus lábios encontrarem os meus, desesperados para abafar o gemido. Ele gemeu uma última vez, e eu senti meu líquido escorrendo. Nossas respirações encontravam-se descompassadas. Senti o cansaço tomar meu corpo, e relaxei em cima dele. Coloquei minha cabeça em seu ombro para descansar um pouco, ainda sentindo-o dentro de mim.
Senti suas mãos procurando afastar alguns fios de cabelo que estavam no meu rosto e, na sequência, dando alguns selinhos nos meus lábios. É, ás vezes não era erótico. Só às vezes, o que poderia ser perigoso com o tempo. Mas era AFEIÇÃO. Eu e Chad era afeição.
Saí de cima dele e me joguei de lado, puxando o lençol para cima do meu corpo. Me virei de lado para dormir, mas senti seus braços me puxando para perto. Virei novamente meu corpo e ele me puxou para seu peito, me envolvendo em seus braços.
— Não vai me deixar dormir, garoto? — dei um tapa leve em seu peito.
— Só queria ficar admirando sua beleza um pouco.
Olhei em seus olhos e não encontrei a luxúria de quando estávamos transando. Notei algo diferente.
— Eu sou linda, eu sei.
— Mais linda ainda quando te faço gozar — ele disse, depositando um beijo nos meus lábios.
Encontrei seus olhos e aprofundei o beijo, na tentativa de me dar mais tempo para disfarçar minha vergonha com aqueles elogios repentinos. Eu não sabia o quê ou como teria que responder àqueles elogios depois do sexo, principalmente com ele. Bom, era afeição entre a gente, mas às vezes o Universo criava situações favoráveis para sermos mais afetuosos uns com os outros.
A gente tinha bebido vinho, e isso nos rendeu um momento mais relaxado do que em outras vezes – o que justificava, inclusive, ele ter gemido meu nome. Isso nunca havia acontecido antes, mas eu sabia que, quando isso acontecia, a pessoa estava interessada em algo além do carnal. Mas isso era comum, não era? Às vezes, coisas escapam durante o sexo por puro tesão. Se uma situação amplifica o desejo, o amor e o carinho, seja da forma que for, certamente nos rendemos a ela. Então, entre nós continuava sendo afeição, não é?


💃💃💃


Despertei pela manhã um pouco atrasada. Me desvencilhei dos braços de Chad que contornavam minha cintura e fui direto para cozinha tomar meu café da manhã. Decidi comer um kiwi que estava na geladeira e me sentei na bancada. Minutos depois, as meninas estavam acordadas e fazendo algo para comer.
— Vocês estão prontas? — indaguei.
— Sim! — as duas responderam.
— Vou me trocar rapidinho.
Me encaminhei para o quarto, direto para o banheiro. Em menos de cinco minutos, eu estava bagunçando o guarda-roupa e escolhendo qual roupa iria vestir.
— Você já vai?
Virei meu corpo na direção da voz.
— Já! Estou atrasada, inclusive — respondi, colocando um casaco por cima do cropped preto. — A gente se fala depois, ok? Deixa a chave no tapete.
— Ok… Boa aula, abelhinha...
Chad estava com os cotovelos apoiados na cama, o corpo em minha direção. Esperei que ele concluísse sua fala, mas, observando sua cara pensativa, percebi que ele desistiu de falar o que havia pensado.
— Obrigada. Bom dia, meu bem — caminhei até ele e fui em direção para dar um beijo em sua bochecha, mas ele desviou o rosto e tocou meus lábios rapidamente.
Atônita, acenei para ele e andei até a sala. Peguei minha bolsa que estava no sofá e me direcionei para a porta, tentando sair de casa o mais rápido possível.
— Vamos? — perguntei às meninas.
— Sim! — elas responderam sincronizadas.
Entramos no carro em silêncio e, durante boa parte do caminho, apenas o som preencheu o ambiente, o que era estranho para nós.
— Eu perdi algo? — Amber soltou.
— Não entendi, você perdeu o quê? — olhei para ela ao meu lado, com a cara confusa.
— Você tá calada demais. O que perdi nesse meio-tempo?
— Achei que só eu estava notando isso... — finalizou Kels.
— Tô normal, só tô me concentrando para apresentar a rotina hoje — falei, prestando atenção no trânsito.
— Você transou ontem?
— Sim.
— Entendi tudo.
Olhei para Amber, mais confusa ainda.
— O que você sabe que eu não sei? — questionei.
— O que você percebeu que não nos contou?
— Foi um pouco estranho ontem… Não o sexo em si, mas os olhares. No final, ele quis me manter por perto. A gente não costuma conversar depois, não sei explicar... Ele nem me elogia carinhosamente, só fala do sexo em si — disparei, e ela suspirou ao meu lado. — Agora fala o que você sabe, né!
— Brian disse que ACHA que Chad pode estar balançado por você. Ele não ouviu nada e nem mesmo conversou com Chad sobre isso, mas percebeu que ele tá mais carinhoso com você.
— Mas ele sempre foi. A gente sempre foi carinhoso um com o outro... Ah, lembrei de outro detalhe... Agora pela manhã, quando fui me despedir, Chad me deu um selinho.
— Isso é MUITO íntimo — gritou Kels.
— EU SEI! — gritei de volta.
— Já tô prevendo o caos que vai ser. E a gente sabe que ele sempre foi carinhoso, mas olha o que você acabou de falar, amiga... Tem algo mudando, e vocês já ficam há um bom tempo, .
— A gente falou pra você uns tempos atrás já, mas você não percebeu — Kels completou a amiga. — O que vai fazer?
— Que droga! — bufei enquanto estacionava. — Nada! Vou fingir que isso não está acontecendo. Apenas fingir que nada está acontecendo é sempre a melhor solução.
Saímos do carro e elas se entreolharam, achando que eu não notaria. Em fingir eu sou ótima, então fingiria que aquilo não estava acontecendo até pelo menos quando a situação exigisse de mim uma reação. Por enquanto ele não havia falado nada, então eu manteria isso como estava.
Quando entramos no estúdio, o primeiro grupo já estava se apresentando. Me pus ao lado de Josh e Rick, esperando que fosse nossa vez.
— Desculpem o atraso — passei minha mão suada na minha calça de moletom.
— Relaxa, já avisamos a Brian qual seria a música e ele adicionou na playlist.
— Ótimo!
Depois de alguns grupos se apresentarem, fomos chamados para a frente da sala e nos posicionamos antes de escutar o começo da música. Tentei colocar minha cabeça naquele momento. Naquela dança.

Coloque essa música para tocar
Kiwi – Harry Styles

She worked her way through a cheap pack of cigarettes ♪
Hard liquor mixed with a bit of intellect ♪
And all the boys, they were saying they were into it ♪
Such a pretty face on a pretty neck ♪

E como toda boa dança dependia de uma sequência de acontecimentos pelo caminho para levar o corpo à sua verdadeira expressão, deixei que toda energia de raiva e indignação passasse pelos meus poros. Começamos girando o quadril do jeito que tínhamos ensaiado.

She's driving me crazy ♪
But I'm into it, but I'm into it ♪
I'm kinda into it ♪
It's getting crazy ♪
I think I'm losing it, I think I'm losing it ♪

Fechei meus olhos e me deixei levar pela melodia. Como escutava pela letra, eu realmente achei que estava enlouquecendo e fora de mim, só pelo fato de algo não estar caminhando como eu imaginava. E isso me deixava extremamente irritada. Por que Chad queria complicar as coisas, colocando sentimento em algo que não tinha?

Oh, I think she said ♪
I'm having your baby ♪
It's none of your business ♪

Com movimentos elaborados e rápidos, conduzi meu corpo para aqueles passos que passamos a tarde repetindo. Eu conseguia mentir e fingir, mas o meu corpo não. Eu era péssima em demonstrar meus sentimentos falando, mas era boa com meu corpo. Muitas vezes achamos que as palavras carregavam mais força do que qualquer outra coisa, mas o que ninguém sabia era que nossos corpos podiam ser muito mais convincentes e expressivos do que qualquer verbo antes inventado nesse mundo.

I'm having your baby ♪
It's none of your business ♪
(It's none of your, it's none of your) ♪

A parte mais sensual e energizante da música era aquela, então me concentrei nos movimentos sinuosos e sensuais que aquele trecho trazia. Minha cabeça girava um pouco pela confusão que eu sentia, mas foquei em certo momento no sexo de ontem, para que pudesse expressar mais um pouco da libertinagem que essa música apresentava também. Nesse momento – já no final da coreografia –, ouvi em uma altura maior os gritos da galera na sala: “isso aí!”, “que fogo é esse!”, “caralhooo”, o que me tirou um sorriso. Aquela era uma das melhores coisas da rotina de dança: a animação da galera em volta.

I'm having your baby (hey!) ♪
It's none of your business (oh) ♪
I'm having your baby (hey!) ♪
It's none of your, it's none of your ♪

E finalizamos, girando nosso corpo e apontando para frente, dando alguns segundos antes de ouvirmos as palmas. Nos levantamos e eu abracei os meninos em cada lado do meu corpo. As pessoas vieram nos cumprimentar, nos parabenizando pela coreografia.
— Foi isso que eu pedi! — disse Brian para a sala toda. — Parabéns, , Josh e Rick. Agora o que acham de repassar a coreografia para todos?
— Claro! Será um prazer — respondi.
Ficamos pela manhã toda passando os passos para a turma antes que eu pudesse ir para casa descansar.
Postei o vídeo da coreografia no feed antes de conseguir tirar meu tão merecido cochilo da tarde. Despertei no começo da noite, logo tateando meu celular pela cama. Vi que havia algumas mensagens pela barra de notificações.

[Instagram] chadgreco curtiu seu vídeo
[Instagram] chadgreco comentou seu vídeo
“Você sempre consegue surpreender, abelhinha”
[Instagram] chadgreco comentou seu vídeo “on fire 🔥”

[Instagram] curtiu seu vídeo
[Instagram] comentou seu vídeo
“eu acho que virei seu fã”

Abri o meu WhatsApp e lá estavam algumas mensagens deles também. Não sabia se caía na gargalhada ou chorava, porque conseguia sentir onde eu iria me meter num futuro próximo. Mas eu também conseguiria levar aquilo tudo como uma brincadeira, então rapidamente respondi os dois.


Chad
Que vídeo foi aquele? De nada, inclusive. Eu sei que você ficou inspirada depois de ontem. 2:07pm


Alguém já te avisou que você é convencido? Eu tenho sex appeal, garoto! 5:55pm


Harry
Meu eu narcisista veio na humildade dizer que você conseguiu melhorar a música cem vezes mais com essa coreografia 3:35 PM


E você ainda tem dúvidas de que é meu fã 5:56 PM
Apenas admita, Styles 😉 5:56 PM




HARRY

Os números eram engraçados. Eles tinham o poder de medir você, medir seu tempo e também te analisar. O que eu quero dizer é que números sempre fizeram parte das nossas vidas, principalmente da minha. A minha capacidade como artista era medida por charts ou pela quantidade de ingressos que vendia, e isso conseguia me afligir antes de começar a turnê. Bom, apenas inseguranças de início, mas, depois de algum tempo, eu não pensava mais nisso. Pensava apenas em fazer o melhor show e divertir as milhares de pessoas que sempre faziam de tudo para estar ali, me prestigiando.
O que eles não conseguiam medir era o tamanho de um sonho, um desejo, um coração.
Um flashback de inseguranças, medos e angústias, antes de a turnê começar, passou pela minha cabeça quando soube que eu precisaria de mais de um dia para dar adeus ao trabalho do meu primeiro álbum. A The Forum, situada em Inglewood, tinha capacidade para 17.505 pessoas, e os ingressos haviam esgotado em minutos desde o dia que anunciamos que voltaríamos para Los Angeles novamente. Por isso decidimos fazer um segundo dia de show, para fechar a turnê de maneira épica.
A primeira noite havia sido fantástica, e eu estava me preparando para a segunda fazendo um café da manhã com torradas, ovo mexido e um smoothie proteico. Não demorou muito até que Jeffrey entrasse pela cozinha.
— O fim de uma era! Como se sente, Styles? — ele perguntou assim que se sentou à mesa.
— Fizemos um bom trabalho — direcionei minha mão, dando um soco com a dele.
— O que tem para mim?
— Nada? Você sabe que nunca faço nada pra você.
— Achei que pelo menos hoje você ia me mimar.
— Sonhou! Eu que tenho que ser mimado, já viu as minhas olheiras?
Jeff bufou em resposta e foi em direção à cozinha fazer algo.
— Vai ter after party ou não?
Meus amigos de L.A. estavam insistindo em fazer uma comemoração de final de turnê, mas eu ainda não havia decidido se queria. Porém, conhecendo eles, eu teria que ir para a festa “surpresa” que fariam.
— Pra ser bem sincero, talvez eu decida de última hora, mas a vontade é de não ir. Só queria me jogar na cama e dormir por dias seguidos.
— Você sabe que isso não vai acontecer — ele disse, voltando a se sentar na mesa. Bufei em resposta.
— Conseguiu minhas passagens para o México?
James Corden comemoraria seu aniversário de quarenta anos numa viagem para Cabo, e eu não poderia deixar de ir. Além de aproveitar um pouco para descansar, poderia estar ao lado de alguns amigos que não via há muito tempo.
— Sim, daqui a duas semanas. São três dias, e depois... você acha que já tem material para começar o novo álbum?
Dei um gole no café e tentei responder o mais rápido possível. Imaginei que emendaria um álbum no outro. Eu tinha alguns rabiscos e sentimentos que precisava colocar no papel, mas ainda não tinha conseguido escrever nada concreto.
— Não tenho nada em mente ainda, Jeff. Digo, sei o que quero fazer e o que quero escrever, mas não acho que consigo para agora. Só tô muito cansado... Quero tirar um tempo para mim — olhei para ele e percebi que meu empresário entendia tudo o que eu estava falando.
— Tudo bem, eu te dou essas férias. O que acha de três meses? Mas claro, de vez em quando vai aparecer algum trabalho ou outro. Tudo bem assim?
Era muito bom ter seu empresário como seu amigo, porque eu poderia ser honesto e fazer o que eu quisesse dentro dos limites, claro. Levantei-me da cadeira e o abracei.
— OK! Agora pode me largar.
— Eu gosto de abraços — apertei-o novamente e, depois, o soltei quando escutei o toque do meu celular.
Caminhei até a sala de estar e vi o aparelho jogado no sofá. Peguei-o e quase tomei um susto com o nome que aparecia na tela.
— Quem é? — ouvi a voz de Jeff, agora um pouco longe.
— Camille — respondi mais baixo que o normal, ainda atônito.
— Quem?
Não consegui responder novamente, mas atendi o telefone antes que a chamada caísse. Estava curioso pelo motivo que ela estaria me ligando.
Coucou... Harry?! — aquele maldito sotaque francês.
— Hey... — respondi, depois de uns segundos paralisado.
Você está bem?
— Sim, só não estava esperando ouvir de você — tentei disfarçar um pouco a voz.
Onde você está agora?
— Estou em Los Angeles para o último show da turnê.
Você vai arrasar, sei o quanto gosta desse lugar.
— Sim, acho que você tem grande parte do meu amor por essa cidade…
Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos, até que finalmente me tirou o chão:
Estou saindo com alguém — ouvi o barulho que ela fazia com a boca quando falava algo que estava guardando há muito tempo.
— Tudo bem... — tentei não transparecer que eu me importava.
E eu só liguei porque você merece saber por mim, e não por qualquer tabloide inconsequente…
— Você estando feliz, para mim é o que importa — a interrompi. — Obrigado por se importar.
Estou feliz sim, obrigada. Eu só queria... — ela parou por um momento. Foi quando pude ouvir uma voz masculina ao fundo e senti meu estômago revirar um pouco. — Je vais, bébé... Desculpa. Então, só queria que soubesse por mim. A gente sempre se respeitou muito, e acho que você merecia saber. Tenho que ir agora.
— Tudo bem. Fico feliz que se lembre da gente com respeito, e eu só desejo que você seja feliz.
Obrigada, bom show! Bisou — e desligou.
Sentei no sofá e joguei o celular o mais longe possível, para que eu não atendesse mais ninguém que me tirasse a paz. Camille estava em um relacionamento, e tudo que consegui dizer era que eu estava feliz por ela – afinal, não era isso que se dizia nessas situações?
Eu odiava aquilo. Odiava que ela já tinha me superado. Apoiei meus cotovelos nas pernas e abaixei a cabeça nas minhas mãos. Pude ouvir os passos de Jeff aproximando-se de mim, e senti o meu lado do sofá afundar um pouco, sabendo que ele havia se sentado.
— Era Camille? — senti suas mãos no meu ombro e balancei a cabeça, afirmando e tentando não chorar na frente dele.
— Ela está saindo com alguém e me ligou para avisar.
— E o que você disse?
— Que estava feliz por ela, como poderia responder o contrário? Eu estraguei tudo...
— Os dois têm culpa nesse término. Acho que você se cobra demais por algo que duas pessoas foram responsáveis. Camille era um pouco problemática...
— Eu sei — pausei por um tempo.
Nossas ideologias realmente se diferenciavam em muitos pontos, mas isso não era importante. O que é importante quando você ama alguém?
Camille só me fazia bem, e eu ignorava todo o resto. Com o término, meus amigos citaram muitas coisas que abriram minha mente para algumas situações, para me fazer enxergar que términos traziam clareza. Mas, naquele momento, eu não conseguia ver coisas ruins. Só conseguia pensar que fui substituído, e isso doía MUITO. Sempre queremos ver o outro bem, mas não melhor que a gente – egoísta, eu sei, mas era a mais pura verdade – pelo menos quando falamos de ex-namoradas.
— Acho que preciso escrever — falei, depois de alguns segundos em silêncio.
— Vou te deixar sozinho. Mando o carro mais tarde, você tem que fazer a passagem de som às três horas.
— Tudo bem.
Observei Jeff sair pela porta rapidamente e subi para o meu quarto. Peguei o violão, meu caderno de canções e fui me sentar na cama, dedilhando alguns acordes.
Eu não estava bem. Me sentia péssimo como não havia me sentido há muito tempo. E queria saber de tudo. Queria perguntar para ela como aconteceu. Eles já estavam se encontrando quando ainda estávamos juntos? Porque não fazia sentido chamá-lo de “bébé” se tinham pouco tempo de relacionamento. Eram tantas perguntas que rondavam a minha mente naquele momento que eu só queria escrever tudo, e foi o que fiz com as frases que choviam em minha mente.
“Don't you call him baby, we're not talking lately... Don't you call him what you used to call me”.
Desarmado. Vulnerável. Nunca tive medo de ser aberto para quaisquer que fossem as situações. Elas eram parte de quem eu era como artista. Eu tinha que estar nessa posição de fragilidade, mas doía como um inferno! Não queria que Camille estivesse bem. Eu odiava que ela estivesse bem, odiava que ela estivesse feliz. Queria que ela estivesse fodida como eu. Odiava que tudo me lembrava dela, odiava que essa merda dessa cidade me lembrava ela. Até o jeito de me vestir me lembrava Camille!
“I, I confess I can tell that you are at your best. I'm selfish, so I'm hating it.”
Mas eu sabia que nós não funcionaríamos do mesmo jeito. As brigas pisavam no amor. Minha dor era mais uma ferida do que um amor não resolvido. Não era mais amor. Quando algo ocorre e demora a passar, não é mais amor, é só um calo. Incomoda às vezes, mas passou. Eu sempre a amaria, mas eu não a amava mais.
Não conseguia mais escrever sobre aquilo, pelo menos não agora. Mas já havia feito mais que o bastante por hoje. Deixei de lado o violão e a caneta e fui decidir o que eu iria vestir na noite de hoje. Eu estava feliz que alguns dos meus amigos estariam presentes. Talvez eu devesse me divertir um pouco essa noite e tranquilizar minha mente.
Eu merecia.
Enquanto resolvia outros detalhes, o dia passou rápido, e, exatamente às duas horas da tarde, o carro encontrava-se para me buscar. O caminho até Inglewood não era demorado, e em pouco tempo eu já me encontrava na passagem de som, um pouco distraído, mas consegui desenrolar.
— Tá sentindo-se melhor, Styles? — ouvi Jeff assim que escutei a porta do camarim ranger.
— Sim! Pode confirmar o after, inclusive. Ninguém vai precisar mais implorar pela minha ilustre presença — respondi de bom humor enquanto passava meu olhar pelo Instagram. Então, parei em uma foto da .
— Ela vem para o show? — Jeff já estava bisbilhotando o meu celular.
— Vem sim, com duas amigas. Vão ficar no camarote com o restante dos convidados.
— Eu e Glenny podemos puxar assunto com ela tranquilamente. Você sabe que Glenny não vai querer perder a oportunidade de conhecer a “dançarina dos sonhos” — ele fez uma voz de apaixonado, me zoando.
— Vocês passam a noite transando ou pensando uma forma de me irritar sobre isso? — provoquei, contendo o sorriso.
— Você sabe a resposta, até porque teremos o resto das nossas vidas para transar.
Caí na gargalhada, porque eu sabia que eles falavam disso antes de dormir. Eu conseguia imaginar perfeitamente a cena, e balancei a cabeça em sinal de negação. Logo depois, Jeff saiu do camarim e me mandou direto para maquiagem, cabelo e afins para eu começar a me arrumar para o show.
Fui de canto a canto daquele backstage, até que finalmente tirei um tempo para me alimentar antes que o show pudesse começar. Aqueci a minha voz nesse meio-tempo, então fui chamado para entrar no palco em alguns minutos.
Desde a hora que cheguei, consegui abraçar todos os funcionários que havia visto no dia de hoje, e agradeci imensamente o carinho e o trabalho que tiveram comigo durante toda essa trajetória.
— Sem vocês todos que estão aqui, nada disso seria possível, e eu sou extremamente grato por não terem desistido em nenhum momento. Cada um com saudade da família, dos filhos… Sei que não é nem um pouco fácil esse trabalho, mas também somos uma família e conseguimos durante um ano inteiro nos dedicar a esse projeto. Eu amo vocês!
A equipe estava toda reunida nos bastidores minutos antes do show começar, e precisei daquele momento para agradecer a todos novamente. Não era algo fácil de se fazer. Por vezes, eu achava que a parte mais fácil era minha – só bastava eu subir no palco e cantar –, mas toda a estrutura por trás... isso sim era pesado.
Nos abraçamos coletivamente, e caminhei pela parte do palco enquanto ajeitava meu microfone e o fone de retorno.
A performance sempre foi minha parte favorita de estar na indústria musical. Era excitante. Todas as noites, o cansaço conseguia ser vencido só de poder ver sorrisos de todas as partes do mundo.
Vi a banda se posicionar cada um em seu lugar. Então, me pus no meio do palco, esperando o som da minha própria voz falando a famosa frase: “Should we just search romantic comedies on Netflix?”.
Sabia que era ali onde meu trabalho começava.





Inglewood ficava a poucos minutos de West Hollywood, mas como tudo era motivo para uma road trip, assim fizemos. Passaríamos uma noite em um hotel e, no dia seguinte, voltaríamos para nossa casa. Fazia um bom tempo que não tínhamos esses momentos só nossos, porque na maioria das vezes estávamos com os garotos.
— Quer parar de ficar trocando a música antes que ela acabe?! — pedi, irritada, quando vi Kels mexendo novamente no som.
— Quero que você escute as músicas em velocidade rápida, máxima. Você não sabe todas as canções dele ainda.
— O que é totalmente normal. É só eu ficar abrindo minha boca alfabeticamente de A a Z e vai parecer que eu sei qualquer letra.
— Você ainda acha que isso ENGANA alguém, ? Por favor, preste atenção nas músicas!
— Pelo amor de Deus, Kels, deixa em uma música. Eu juro que você vai ter um treco hoje, e eu não tenho curso de primeiro socorros — Amber disse por fim, e nossa amiga ficou quieta até chegarmos no hotel.
E fomos assim o caminho inteiro. Prometi aprender a maioria das músicas para que eu conseguisse aproveitar o show da melhor forma possível, e devo confessar que me surpreendi com elas.
“Como assim Harry Styles, um jovem ícone da música visto como um símbolo sexual por muitas mulheres, poderia sofrer tanto assim por amor?”, foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça. Talvez fosse a ironia de tudo isso. Talvez ele quisesse se mostrar tão humano como qualquer outra pessoa, e eu conseguia sentir a certeza de que ele odiava como as pessoas o enxergavam. Mais da metade do álbum eram músicas tristes e profundas, que eu jamais imaginaria. Infelizmente – ou felizmente – foram as que mais gostei, visto o meu encanto por letras cheias de emoção, devoção, com muita história envolvida.
Passei a semana escutando o bendito álbum e já sabia a maioria das canções. Só gostava de encrencar com a Kelsey, porque ela conseguia deixar qualquer pessoa louca às vezes. Ela me obrigou a decorar até os covers que ele faz no show, e pasmem: a maioria deles eram baladinhas românticas.
Chegamos em Inglewood no final da tarde e fomos direto para o hotel descansar. O show começaria às dezenove horas, e, por termos acesso pelo camarote, não precisaríamos chegar muito cedo como fazíamos em outros shows.
Eu estava ansiosa como nada havia me deixado nos últimos tempos. Eu era muito fã de qualquer tipo de entretenimento, principalmente de shows e festivais de músicas. Era algo que realmente tocava minha alma e complementava a minha arte, de certa forma. Nunca tinha lido em nenhum lugar, mas com certeza ir em shows aumentava a expectativa de vida humana. Acredito que tenha a ver com a proximidade de pessoas ao redor e um amor compartilhado tanto pelo artista quanto pela família e amigos, que é quem geralmente levamos para compartilhar esses momentos.
Além de tudo, eu precisava disso. Eu pegava um pouco pesado comigo mesma. Colocava uma pressão desnecessária para buscar a perfeição nas coreografias, então era sempre bom ter a minha mente distraída por alguns momentos.
Me levantei antes das meninas e comecei a me arrumar, com medo de me atrasar. Não fiz nada de mais no meu rosto, apenas um esfumado marrom, uma pele deslumbrante que já me deixava realizada e um gloss para finalizar tudo.
— Você já está arrumada? — ouvi a voz de Amber.
— Só a maquiagem. Podem agilizar tudo pra gente não se atrasar.
— Alguém está ansiosa... — soltou Kels, antes de entrar no banheiro.
— Um pouco, claro — me levantei da cadeira em frente ao espelho e fui em direção à minha mala.
Me vesti com uma calça jeans destroyed, um cropped preto e uma bota preta de cano baixo – tudo o mais confortável possível. Meu cabelo estava liso e apenas coloquei a franja um pouco para trás, deixando alguns fios soltos contornarem o meu rosto.
— O que você achou? — virei meu corpo quando vi Amber me observar pelo espelho.
— Eu acho que você está uma gata! Por quê? — ela jogou o celular para o lado e veio ao meu encontro.
— Não sei...
— Você é linda, meu bem! — ela disse, me abraçando por trás.
— Só falta as suas jóias — escutei Kels saindo do banheiro. — Coloque um colar, brincos e seus amados anéis.
— É, acho que falta isso.
Me olhei no espelho pela milésima vez antes de sairmos, então fomos em direção à entrada do hotel para esperarmos o carro de aplicativo. A arena que aconteceria o show ficava a poucos minutos do hotel que escolhemos, então chegamos rápido no local, que estava repleto de gente por todos os lados.
— Acho que temos que ir por aqui — apontei para o escrito “Acesso VIP”. — Harry disse que o empresário dele iria nos encontrar na entrada.
Andamos até o acesso VIP e encontramos um segurança na porta.
— Boa noite, senhorita, qual seu nome? — ele me encarou.
— Boa noite. Sou , e essas são minhas amigas Amber Knight e Kelsey Lockwood — o observei verificar a caderneta em sua mão, procurando os nomes.
— Algum problema, Bruce? — ouvi uma voz masculina atrás dele.
— Essas garotas estão com os nomes na lista, mas não consigo encontrá-las.
O homem atrás dele era mais baixo que o segurança. Ele tinha uma barba por fazer, usava uma camisa social e um crachá com o nome “Jeff Azoff”, seguido da sua função “Manager”.
— Você é ? — Jeff direcionou sua atenção para mim.
— Sim.
— Elas estão comigo, pode deixar — ele disse, então assisti o segurança nos dar passagem para entrar na arena. — Desculpe pelo imprevisto. São muitas pessoas para pôr na lista, às vezes passa batido. A propósito, sou Jeff, empresário e amigo do Harry — ele me estendeu a mão, e eu a apertei em seguida.
— Não tem problema... Sou e essas são minhas amigas, Amber e Kelsey — apontei para elas, que sorriram seguido de um “oi” tímido.
— Muito prazer, meninas. Podem me seguir e ficar à vontade no camarote. O show vai começar em instantes, e, no final, Harry pediu para levar vocês para o backstage. Beleza?
Assentimos e seguimos o homem pelo corredor pouco iluminado, não muito longo. Fomos encaminhadas para o camarote rapidamente, onde estavam presentes outras pessoas, inclusive famosos como Shawn Mendes, Kendall Jenner e Jen Atkin.
— Fiquem à vontade, vou chamar a minha namorada para vocês conhecerem. Com licença — Jeff saiu, indo em direção a uma mulher de cabelos castanhos com a estatura semelhante à sua.
A arena estava barulhenta como deveria estar, e os fãs ansiosos cantavam as músicas do seu ídolo na ansiedade de vê-lo em poucos minutos. Observei ao redor e parei quando vi o empresário caminhando em nossa direção novamente, com sua namorada ao seu lado. Ele falou algo em seu ouvido, e a vi mexer a cabeça em minha direção.
— Oi, sou Glenne. Você deve ser a dançarina dos sonhos — ela me envolveu em um abraço inesperado, o que me assustou um pouco. Mas retribuí, sentindo sua calorosidade.
— Sou , muito prazer — falei ao olhar para ela novamente. — Mas... dançarina dos sonhos?
— A gente te chama assim quando estamos com o Harry — ela sorriu, ainda segurando minhas mãos.
— Harry vai matar a gente falando disso... — Jeff passou a mão pela cintura da namorada. — , só esquece o que você ouviu, ou nosso amigo vai desfazer uma amizade de anos.
— Já esqueci, então — gargalhei com Glenne. — Ah, essas são minhas amigas, Amber e Kelsey — apontei para as meninas.
— Feliz que as trouxe. Muito prazer, meninas — ela tratou de abraçá-las também. — O show já vai começar. Vou ficar com o pessoal por um tempo, depois volto pra ficar com vocês, tá bem?
— Podem ficar à vontade, nem se preocupem. Estamos muito bem aqui!
Observei eles irem de encontro com as outras pessoas do lado oposto do camarote. O ambiente foi ficando mais escuro, indicando que estava mais próximo do começo do show. Eu realmente não esperava esse acolhimento em nenhum momento, mas que bom que estava sendo surpreendida positivamente. Achei que ficaríamos encolhidas em um canto sem conseguir interagir com ninguém.
— Você vai sair daqui melhor amiga dos melhores amigos dele — Kels disparou. — Já te disse o quão sortuda você é?
— Eles estão sendo simpáticos, apenas. Para de inventar fanfic! — falei rapidamente.
— Eu não estou nem aí pra isso, quero saber é se posso tietar o Shawn Mendes. O homem é um gostoso! Que meu namorado nunca escute isso... — Amber se benzeu, e eu ri de seu desespero.
— Acho que podemos, mas não agora, né? Fica muito na cara.
— E aquela é nada mais nada menos do que Kendall Jenner, senhoras e senhores — Kels apontou com o olhar. — Vocês sabiam que ela namorou Harry?
— Sim, eu lembro dos tempos da One Direction, cada namorada dos garotos — soltei, um pouco insegura. — Mas você acha que eles ainda têm algo?
— Não! Ele estava namorando recentemente, mas nunca se sabe... Vai que a amizade deles é tipo a sua com o Chad — ela deu de ombros. Fiquei pensativa, observando de soslaio a modelo que conversava animada com Jen Atkin.
— Gente, vai começar! — Amber nos cutucou.
Um grande cubo mágico apareceu no telão com uma melodia conhecida e, logo em seguida, acompanhada da frase “Should we just search romantic comedies on Netflix?”. Pronto. Depois dessa frase memorável, começava a introdução de Only Angel. E a arena inteira eram gritos e choros acompanhados de “eu te amos” por aquele artista que era tão esperado naquela noite.
Harry surgiu com um terno preto repleto de detalhes dourados. Definitivamente ele estava brilhante naquela noite. Caminhou pelos dois lados do palco, soltando beijos para os fãs antes de começar a cantar. Ele estava enérgico, dançando de um lado para o outro sempre com simpatia, cumprimentando seus fãs e com vocais perfeitos, assim como ele. No final da primeira música, pedia mais palmas e gritos com um sorrisinho convencido, que, com certeza, já era comum dele.
A segunda música foi logo emendada, Woman, com letra melancólica e acordes sensuais. Uma mistura bem a cara dele e diferente do restante de suas músicas. Ao final dela, Harry resgatou seu violão e introduziu seu primeiro speech da noite:
Boa noite, Los Angeles. Bem vindos ao último show. Meu nome é Harry...
— Eu não entendo por que ele sempre fala o nome dele quando claramente todo mundo sabe — Kelsey gritou nos nossos ouvidos, e eu ri em resposta.
— Ele gosta de se autoafirmar — eu disse, sorrindo.
… Nós temos um único trabalho essa noite, e é entreter vocês. Prometo que faremos nosso melhor. Vocês também têm um trabalho de ter a melhor noite das suas vidas. Se quiserem cantar, dançar, por favor, sintam-se livre para fazerem o que quer que seja e serem quem vocês são essa noite.
Eu conseguia entender a euforia de todas aquelas meninas, porque, na época da One Direction, eu me sentia exatamente assim quando qualquer um daqueles garotos eram fofos. Mas Harry parecia um lorde com aquelas falas. Ele realmente tinha se transformado num verdadeiro artista, um verdadeiro rockstar.
As próximas músicas foram lentas, com letras cheias de histórias. Ever Since New York foi tocada com ele na guitarra acústica. Durante os versos, Styles dava pequenos sorrisos que ampliaram suas covinhas, o que deixava aquele ser humano mais bonito ainda.
Em Two Ghosts, ele trocou a guitarra por um violão preto e alguns detalhes roxos, com a mesma voz rouca e apaixonante. Eu acompanhava a letra no meu mundo, de olhos fechados. Amava aquelas letras mais calmas. Mas logo Harry emendou com Carolina, mais agitada, fazendo a arena ficar mais animada – se é que poderia ficar mais –, principalmente quando ele chegou perto de Mitch, e os dois tocaram juntos o final da canção.
... Como estão se sentindo? — ele perguntou, acompanhado de gritos. — … Se vocês lembrarem dessa música, por favor, cantem comigo.
E quando os acordes de Stockholm Syndrome iniciaram, eu pulei empolgada, remetendo aos meus dias de adolescente directioner. Cantava com todo ar que tinha no meu pulmão, feliz da vida com aquela letra. Segurei minhas amigas pelo pescoço enquanto cantávamos juntas, sendo completamente livres naquele momento.
— Dessa eu me lembro nitidamente! — gritou Amber.
A próxima música eu escrevi alguns anos atrás, quando a entreguei para uma mulher cantar lindamente. Mas, Los Angeles, hoje irei tomá-la de volta... Essa é Just a Little Bit of Your Heart.
Era uma música escrita por Harry que foi dada para Ariana Grande e que tinha uma letra tão linda que dava vontade de estar apaixonada. Sabe aquelas histórias que você é um completo tolo pela pessoa, metendo-se num triângulo amoroso? Pelo menos era como eu conseguia ler a música.
Em seguida, os acordes mudaram novamente para algo mais pesado. Sexy. Libertino. Ele despejava todo seu desejo sexual naquela música. Era excitante ouvir o jeito que ele cantava, sua voz um pouco rouca falando sobre sexo oral. Harry dava pequenos sorrisos safados durante vários trechos, porque ele sabia o que causava nas milhares de garotas/mulheres – e homens – naquele recinto. Aparentemente, essa música não estava no álbum…
— Tá me dando vontade de transar — falei para as meninas, com uma cara desesperada.
— Nem me fale, essa música cantada por ele exala sexo. Vou correr pro meu namorado quando chegar em casa — disse Amber um pouco transtornada, o que nos fez rir.
Meet Me in the Hallway foi tocada e era uma das minhas favoritas, por ser dolorosa e mostrar o quão vulnerável Harry era, mesmo parecendo o contrário. Eu até gostaria de saber a história por trás daquela. Como ele poderia sentir tanta dor por alguém a ponto de precisar de morfina para amenizá-la?
Ele passeou pelo meio dos fãs após a canção, até que senti uma mão pegar meu braço. Olhei para o lado e vi Glenne sorrindo.
— O que está achando do show? — ela perguntou.
— Estou adorando, precisava disso para me distrair um pouco.
— É para isso que Harry faz isso! — ela apontou para ele, que estava caminhando cheio de flores em seus braços.
— Ele é sempre assim? Digo, na vida real? — perguntei, atônita com tudo que estava vendo.
— Gentil, sexy e amoroso? — ela perguntou novamente, e eu assenti. — Sem tirar nem pôr...
Os acordes de Sweet Creature tocaram e eu me lembrava de quando a escutei pela primeira vez. E do mico que paguei quando disse o nome da música errado.
— O que você faz da vida? — indaguei a Glenne, que estava observando o show. Ela direcionou seu olhar para mim.
— Sou líder de negócios de relações com artistas da Apple Music. Basicamente, minha missão é criar estratégias de comunicação junto com a equipe para atrair o público para a empresa.
— E você também tem que manter uma relação com o artista para que ele não “perca interesse” pela empresa?
— Também! Demanda muita paciência, sabe? Mas eu amo o que faço — seus olhos eram bastante expressivos e parecia que sorriam junto quando ela falava.
— Imagino que sim!
— Eu já sei o que você faz, mas posso perguntar algo?
— Claro que sim.
— O que você ama sobre ser dançarina?
— Acho que ninguém nunca me perguntou isso, mas acho que o poder de me expressar através do meu corpo... Não sou muito boa com as palavras, então a dança ajuda — dei de ombros.
— Duvido, . Só com essa resposta, você prova que é boa com elas — Glenne completou, sorrindo, me fazendo pensar que talvez ela estivesse certa.
Passamos mais algum tempo conversando. Glenne era uma mulher incrível e conseguia me levar a assuntos que eu jamais pensaria em conversar durante um show, como por quê ela e Jeff não poderiam ter um cachorro no momento atual de suas vidas profissionais; ou quando estava relatando a história de quando viajou sozinha pela primeira vez à trabalho, passando vinte minutos conversando com alguns clientes com a camisa social aberta, mostrando praticamente todo seu sutiã. Ela parecia tímida em alguns momentos, mas senti que a amiga de Harry queria me fazer sentir confortável naquele ambiente.
Paramos para aproveitar um pouco o show quando Styles estava cantando Girl Crush no meio do palco entre os fãs, o que deixava tudo mais incrível. Ele tinha um carisma de dar inveja a qualquer famoso, isso era inegável.
Não deixei de perceber que ele interagia sempre com os fãs, inclusive algumas brasileiras que estavam perto do palco.
Vocês vieram do Brasil? Então posso dizer... “Boa tarde? Beleza? Obrigado? Obrigada?”
— Você é daqui de Los Angeles? — perguntei a Glenne.
— Sim! Desde sempre, e você?
— Na verdade, sou meio brasileira e meio americana. Me lembrei um pouco do meu pai quando vi o Harry falando agora com aqueles fãs.
— Eu nunca fui, mas falam sempre tão bem do Brasil para mim. Quero passar férias lá um dia.
— Você vai adorar, principalmente se gostar de praias. As do nordeste são as melhores, mas ninguém nunca fala delas para os estrangeiros.
— Você já pode ser minha guia turística quando eu for!
Já no final do show, a música Sign Of The Times deixou um tom mais melancólico, principalmente quando o público gritou mais alto a parte “Welcome to the final show”, o que fez Harry se emocionar um pouco. E antes que passasse para a próxima música, ele quis novamente falar mais um pouco com a plateia:
Primeiro de tudo, tem algumas pessoas que não vemos no palco. Eles chegam bem antes da minha chegada e saem bem depois da minha partida. Eles trabalham incontáveis horas, e a hora que eles dormem é muito, muito contável. Se essas pessoas do backstage não existissem, esse show não aconteceria. Eu não aconteceria. Então, por favor, batam palmas para toda minha equipe fora e dentro do backstage!
E toda a arena fez o maior barulho para homenagear todos os funcionários que trabalhavam duramente para que todo aquele espetáculo acontecesse.
… E para terminar, eu gostaria de agradecer aos meus amigos, minha família e meu manager, Jeff, por acreditar em mim. A primeira vez que ele me trouxe para o The Forum foi em janeiro de 2014. Era o show do Eagles, e ele passou para a passagem de som. Entramos por aquele corredor e foi a coisa mais bonita que eu vi na minha vida. Naquele momento, eu sabia que queria me apresentar aqui algum dia. E isso me leva ao quarto agradecimento e mais importante. Esse tipo de coisa não acontece para pessoas como eu na vida real, e a única razão pela qual eu consigo fazer esse trabalho é por cada um de vocês que estão aqui hoje, ou para aqueles que estiveram em alguma arena pelo mundo durante essa turnê. Meus verdadeiros fãs, eu amo vocês. Muito obrigado, vocês mudaram a minha vida. Obrigado, obrigado, e eu prometo que vou voltar em algum momento próximo.
— Assim fica fácil se apaixonar...
— Eu sei... — respondeu Glenne ao meu lado, sorrindo, e eu só queria arrumar um buraco para me esconder.
— Meu Deus! Eu disse isso em voz alta? — passei minhas mãos pelo rosto, tentando esconder a vergonha.
— Fica tranquila! Eu não conto pra ele — ela deu uma piscadela.
Harry tocou mais algumas músicas antes de terminar o show, mas foi a última que mais me chamou atenção e me tirou a lucidez. Ele deu todo o fôlego que ainda lhe restava para cantar três vezes Kiwi. Eu sabia a letra tão decorada, com a coreografia tão vívida na minha memória, que não deixei de cantar o mais alto que pude. Talvez ele tenha lembrado do meu vídeo para cantar tantas vezes, ou talvez só não queria que a turnê acabasse! E eu imaginava o porquê. Depois de ver o que Harry fazia no show, acho que ficava um vazio dentro de si, sem ver tanta gente gritando suas músicas do fundo do coração.
Glenne despediu-se de mim por enquanto para falar com algumas pessoas, e eu voltei a ficar ao lado de Kelsey e Amber. Foi quando, mais uma vez, escutei Styles despedindo-se dos fãs:
Beijinho. Obrigado por nos assistirem, foi um prazer tocar para vocês. Estou saindo para escrever mais algumas músicas, espero vê-los novamente em breve. Agradeço a minha banda, equipe e todos que tornaram essa turnê tão incrível. Trate as pessoas com bondade. Adeus por agora. Eu amo todos vocês.
E ele se despediu juntamente com a banda e deixou o palco. As meninas cochichavam atrás de mim, e eu não entendi o porquê.
— Posso passar, por favor? — ouvi uma voz um pouco fina atrás de mim. Virei meu corpo para ver quem era e me deparei com Kendall.
— Claro, fique à vontade — respondi com um tom irritado pela forma que ela falou.
Observei a amiga dela sorrir para a gente, nos cumprimentando, e eu acenei de volta com um sorriso enquanto elas passavam por nós.
— Agora é o momento de pedir foto para o Shawn, e vocês não vão me segurar — disparou Kels.
— Eu também quero! — disse Amber.
O cantor estava tirando foto com alguns fãs que conseguiam entregar seus celulares para ele, e ele gentilmente tirava as selfies. Quando Shawn passou por nós, nos cumprimentou educadamente, e as meninas logo o emboscaram.
— Você poderia tirar foto com a gente? — perguntou Kels.
— Claro que sim! — ele disse, sorrindo. E que sorriso!
Shawn tomou o celular que Kelsey entregou em sua mão e pôs o braço no alto para tirar a foto.
— Obrigada pelo carinho, garotas! Boa noite.
— Boa noite, Shawn — respondemos em conjunto.
Ficamos conversando por mais alguns minutos enquanto a arena começava a esvaziar em pouco tempo. Observei o camarote ficar vazio, e Glenne e Jeff passaram por nós.
— E aí meninas, gostaram do show? — o homem perguntou.
— Amamos! — Kels respondeu, e todas assentimos.
— Podemos ir para o backstage, se vocês quiserem.
— Claro!
Ele seguiu caminho com Glenne em seu encalço pelo corredor à direita, e eu os acompanhei. Olhei para trás e vi as meninas ainda paradas, o que achei estranho.
— Vamos, gente! — chamei por elas.
— Amiga, a gente tava conversando e decidimos ficar te esperando aqui fora — falou Kels.
— Ué, por quê? — demonstrei confusão, olhando para as duas.
— Sei lá, amiga — continuou Amber. — Acho que é um momento seu com Harry. Ele que te convidou. Sério, a gente fica aqui tranquila te esperando.
— Tá bem, me avisem qualquer coisa.
A namorada do manager me puxou pela mão e me guiou por dentro da arena, até eu visualizar um corredor maior com várias portas. Muitos funcionários andavam de uma lado para outro, arrastando equipamentos e desmontando o lugar o mais rápido possível para poderem ir para casa. Imagino que deveriam estar loucos por alguns meses sem ter que estar todo dia na estrada.
Paramos numa porta que tinha uma plaquinha branca colada com o nome do Harry em preto. Jeff bateu na porta e ouvimos a voz do cantor anunciando que poderíamos entrar. Jeff se afastou e acenou para que as mulheres entrassem primeiro.
— Oi, Harryzinho... — a morena foi em direção a ele, o abraçando.
— Hey, Glen... — ele retribuiu o abraço com os olhos fechados, e, quando os abriu, notou a minha presença.
— Hey, dono da noite! — sorri e acenei, e ele veio em minha direção para um abraço.
— Você veio!
Harry vestia uma camisa branca de manga curta e uma calça pantalona da mesma cor. O cabelo estava um pouco bagunçado, mas sempre impecavelmente arrumado e lindo. Inalei parte de seu perfume quando nos abraçamos, e acho que nunca senti um homem tão cheiroso em toda a minha vida.
— Claro que sim, ou acha que iria perder você cantando Sweet Creature? — inclinei a cabeça e sorri, já sabendo o que ele falaria em seguida.
— Você realmente aprendeu o nome da música, estou simplesmente chocado — gargalhou, e as malditas covinhas apareceram.
— Harry, vamos nos despedir de algumas pessoas. Quando quiser ir embora, você fala, ok? — Jeff falou atrás da gente. Virei meu corpo em direção a eles, me colocando ao lado de Styles.
— Sim, acho que vou ficar um tempo ainda com o pessoal no backstage.
— Tudo bem. , foi um prazer... — o homem falou novamente.
— Gente, o prazer foi meu. Obrigada por terem me recebido tão bem no camarote, de verdade.
— Não foi nada, dançarina dos sonhos. Não suma! Adorei você — Glenne disse com um sorriso sapeca no rosto e, por fim, eles saíram do recinto, nos deixando sozinhos.
— Poderia saber o porquê da “dançarina dos sonhos”? — perguntei a Harry, com a cara confusa.
— A Glenne é assim mesmo, vem, senta aqui — ele tratou logo de mudar de assunto e mostrou o sofá branco que estava a alguns centímetros da gente.
Agora que estava sentada, passei meus olhos pelo camarim e percebi que tinha muitas coisas pessoais dele espalhadas pelo local. Acredito que ele fazia aquilo para se sentir mais confortável e “em casa”.
— Você quer uma cerveja ou água? — Harry ofereceu, ao lado do frigobar.
— Uma cerveja, por favor.
— Cadê suas amigas? — ele perguntou, me entregando uma cerveja e sentando-se ao meu lado.
— Obrigada! — agradeci pela cerveja. — Na verdade, elas quiseram esperar lá fora, acho que vamos sair depois. Viemos para Inglewood hoje à tarde e voltamos amanhã à noite.
— E o que pretendem fazer? — ele deu um gole na água quando também dei um na minha cerveja.
— Acho que vamos beber algumas cervejas, nada de mais. Mas então, eu preciso perguntar ou vou me esquecer…
— Pode me perguntar qualquer coisa, — ele estava inclinado em minha direção; o cotovelo apoiado no sofá, e suas mãos, fechadas em sua frente. Seus dedos, por sinal, estavam cheios de anéis lindíssimos.
— Como você sai de uma música extremamente triste para outras tão enérgicas e, inclusive, bem sexuais em tão pouco tempo? Eu achei surreal de incrível — dei mais um gole na minha bebida.
— Como você se cura de um coração partido? — ele me perguntou, abrindo um sorriso lateral.
Seus olhos não desviavam dos meus em nenhum momento. Eu conseguia fazer suposições da personalidade de alguém me baseando se elas nos olham nos olhos ou se desviam o olhar durante uma conversa, e devo dizer que o homem na minha frente estava passando no teste. Eu não sabia se ele era sempre assim, mas Styles me olhava com o corpo totalmente inclinado para mim, como se ele estivesse interessado na conversa. Isso era algo que eu admirava, porque eu mesma era assim com a maioria das pessoas.
— Faz tempo que isso aconteceu comigo, mas com sexo — comentei. Ele simplesmente deu de ombros, com um riso tímido entre os lábios enquanto concordava com minha resposta.
— Você é uma heartbreaker, ? — sorriu.
— Nunca! Por que acha isso de mim, Styles? Eu sou um anjo — coloquei minha mão livre embaixo do meu queixo, numa tentativa de mostrar fofura.
— Eu não estou acreditando muito nisso — ele gargalhou.
— Você fala como se não tivesse quebrado diversos corações ao redor do mundo...
— Eu nem sou isso tudo — ele não se gabou e, naquele momento, desviou o olhar, algo que me intrigou. Porém, logo tratou de mudar de assunto: — Mas o que achou do show? Cantei Kiwi mais de uma vez. Além de ser uma das favoritas dos fãs e mais enérgicas, sabia que você gostava.
— Eu não queria jogar meu lado narcisista para jogo hoje, mas acho que eu sabia.
Harry gargalhou e eu o acompanhei.
— Por que eu sentia que você ia trazer isso à tona?
— Porque nós temos essa personalidade egoica em comum — respondi, e ele balançou a cabeça, concordando.
— AH! Tem uma música que eu tenho certeza que deve estar em qualquer playlist de sexo no Spotify... Algo sobre sonhar com seu gosto ao dormir... — falei e ele sorriu, já sabendo qual seria a música.
— É Medicine. Ela nunca foi lançada, eu apenas canto nos shows. Então você gostou dela? — Styles colocou um sorriso safado no rosto. Eu ri em resposta, colocando a boca da garrafa nos lábios ao me lembrar da cena de vê-lo cantando.
— Claro! Eu gosto de músicas que afloram as minhas emoções.
— Faz sentido. O jeito que você dançou Kiwi… Eu fiquei chocado! O que estava se passando em sua cabeça?
— Isso não posso responder, mas você pode imaginar — sorri timidamente, deixei a cerveja de lado e voltei para ele de novo.
Ficamos um tempo nos encarando. Harry umedeceu os lábios, passando a língua entre eles. Era a segunda ou talvez terceira vez que eu citava a palavra sexo nessa conversa ou insinuava algo de teor sexual. Não era algo que eu planejava, mas, quando ficava nervosa nesse tipo de situação – na qual me sentia atraída fisicamente por alguém –, sempre me recorria para a parte carnal. Isso poderia assustar as pessoas, ou não. Era um risco que eu corria.
Senti a mão dele retirar o fio de cabelo que estava na frente do meu olho e senti a frieza dos seus anéis tocar rapidamente o meu rosto, o que me causou um certo arrepio. Não consegui desviar meus olhos dele por nenhum momento. Senti seu corpo se inclinar mais próximo do meu, e fiz o mesmo em sua direção. Mas, ao ouvir a porta ranger, nos afastamos.
— Desculpa, Harry, não sabia que estava com alguém — vi uma mulher com olhos arredondados e verdes bem claros, com o corpo ainda atrás da porta.
— Não tem problema. Entra, Sarah! — ele se levantou do sofá e a puxou pela mão até mim, então também me levantei para cumprimentá-la. — Essa é .
— E você é a dona da banda e o Harry só canta nela. Acertei? — ela olhou de mim para ele.
— Eu já amei ela! — falei e Styles gargalhou, revirando os olhos.
— Eu sei quem você é. Eu que te encontrei no Instagram para esse daqui — Sarah apontou para ele. Em seguida me abraçou, e eu retribuí.
— E eu achando que ele que teve todo trabalho de me stalkear.
— Ah, mas ele fez isso depois e...
— Ok, só esquece isso que ela falou! — Harry a puxou para perto, tentando fazê-la não falar mais nenhuma besteira. Eu só conseguia rir. — O que você precisava me falar, Sarah?
— Na verdade, estávamos atrás de você para ficar pelo backstage mesmo, antes de todos irem embora. Nada de mais, já vou voltar pra lá.
Olhei a hora no meu celular e vi as notificações das meninas, o que me fez despertar para não me demorar mais.
— Eu vou pra lá depois — Styles avisou, e a mulher assentiu.
— Vou indo. Foi um prazer te conhecer, ! — ela disse e saiu pela porta, fechando-a.
— Harry, não quero te atrapalhar. Você deveria ir, as meninas estão me esperando lá fora...
— Você não está atrapalhando, . Não vá agora...
— Tá tudo bem, eu realmente tenho que ir. Muito obrigada pelo convite, foi maravilhoso. Você é um artista incrível! — o abracei pelo pescoço e senti suas mãos nas minhas costas. Ele me apertou um pouco mais próximo, até que nos soltamos.
— Obrigado por vir. Podemos nos encontrar qualquer dia desses?
— Claro, a gente combina algo! Tchau — falei, dando uma última olhada nele. Depois, saí pela porta.


💃💃💃


— Vocês estavam muito perto? Tipo, MUITO? — Kels gritava no meio do bar.
Estávamos na Three Weavers Brewing Company, uma famosa cervejaria artesanal da região. O local era rústico, com praticamente todos os móveis feitos de madeira. Decidimos ficar ao ar livre para aproveitar mais a brisa noturna, onde tinha uma maior concentração de gente e onde podíamos interagir com outras pessoas.
— Sim, amiga, mas acho que o melhor que poderia ter acontecido foi a Sarah entrar naquele camarim. Ia ser muito precipitado — dei um gole grande na minha cerveja, terminando o restante do copo.
— Muito estranho você falar isso, mas devo concordar — disse Amber.
— Vocês sabem como eu fico quando estou nervosa.
— Só fala de sexo! — Kels comentou.
— Exatamente. Parecia que eu não tinha mais nada para falar além daquilo. Não sei nem se ele vai falar comigo de novo.
— Mas as pessoas que estavam ao redor dele pareciam conhecer você. Então Harry falou de você para eles, acho que isso já é alguma coisa.
— Eu nem sei por que tô tão preocupada com isso. Enfim, vou pegar outra cerveja, volto já — me levantei do banco que estávamos e segui para a parte interna do bar.
Segui em direção às torneiras e pus meu cartão no visor, esperando que a bebida fosse liberada logo em seguida. Esperei que o copo enchesse e passei meus olhos pelo ambiente, parando em uma mulher que me encarava a alguns metros. Aparentemente estava sozinha, sentada próximo ao balcão de atendimento. Tinha a minha altura, olhos curiosos e um cabelo loiro de dar inveja. Terminei de encher meu copo e fui em direção ao balcão, sendo acompanhada pelo olhar dela.
— A gente se conhece de algum lugar? — perguntei, quando a vi virar o corpo em minha direção.
— Não, eu estava flertando com você mesmo — ela sorriu sem mostrar os dentes.
— Uau! Você é direta! — gargalhei.
— Peter! Traz duas doses de tequila, por favor — ela sinalizou para o barman, que logo colocou os dois copinhos em nossa frente.
— Qual seu nome?
— Sol, e você?
— Pode me chamar de .
— Ok, . Tome sua dose, coloque o sal na mão — ela colocou o sal na parte de cima da minha mão. — O limão você não vai precisar.
— Por quê? — achei estranho.
— Só confia em mim, esse é meu jeito de tomar tequila. Saúde!
Passei a língua no sal e, em seguida, coloquei o líquido para dentro, sentindo minha garganta arder um pouco. Senti uma mão na minha cintura, olhei para frente e a loira estava mais próxima de mim. Encarei seus olhos azuis brilhantes e ela me beijou. Seus lábios eram tão macios que pareciam um algodão-doce. O sabor do seu gloss se misturava com o álcool que havíamos acabado de ingerir, trazendo um doce para minha boca. Coloquei uma mão em seu pescoço, enquanto a outra acariciava sua cintura por baixo do casaco, onde pude sentir sua pele se arrepiar. Antes que pudesse aprofundar o beijo, Sol me puxou para um corredor atrás dos banheiros e me prendeu na parede.
— O limão foi trocado pelo beijo, então? — perguntei.
— Sim, gostou?
— Acho que eu nunca teria uma ideia tão genial!
Trocamos mais alguns olhares e eu a beijei novamente, já sentindo o calor subindo por todo meu corpo. Eu não saberia identificar se era a tequila no meu organismo ou simplesmente o tesão que estava sentindo. Ela aprofundou sua língua na minha boca quando passei minhas mãos da sua cintura para sua bunda, que era tão linda que parecia um pêssego. Até que ouvimos algumas vozes e nos separamos.
— Acho que devemos voltar — falei, olhando para seus lábios inchados.
— Ok — ela me deu um selinho.
— Estou com duas amigas numa mesa, você quer sentar conosco?
— Não, na verdade, eu já vou. Bebi demais por hoje, e amanhã tenho um voo cedíssimo.
— Ok, qualquer coisa, esse é meu número — puxei o celular dela de seu bolso e digitei o meu contato.
— Qualquer dia que eu estiver por L.A., te ligo — Sol piscou para mim e andamos até o lado de fora.
Quando cheguei na mesa, acenei para ela e vi as caras irritadas das minhas amigas.
— Me perdoem — pus minhas mãos juntas, pedindo para que elas me desculpassem.
— Você tem que ter uma justificativa muito boa, sério! — Amber disse num tom ríspido.
— Eu estava beijando aquela mulher que acabou de falar comigo.
— Tá desculpada! — as duas responderam rápido, e eu gargalhei em resposta.
— Acho que podemos ir, já bebemos o bastante por hoje — Kels falou e concordamos.
Pagamos tudo e chamamos o Uber, chegando no hotel em poucos minutos. Tirei toda a minha maquiagem e escovei os dentes enquanto passava o olho pelo meu feed. Harry havia postado uma foto despedindo-se da turnê. Ele estava com um óculos rosa grande demais para seu rosto e mandava um beijo para a câmera. Curti rapidamente e bloqueei a tela.
Deitei na cama gostosa do hotel e senti o celular vibrar. Era uma mensagem dele.


Harry
Você está livre no sábado? 1:30am


Sim, para onde vamos? 1:31am


Capítulo 5 –I’ve had the time of my life


A primeira vez que dancei para uma plateia relativamente grande – de quinze pessoas –, eu sabia que seria péssima e iria errar. Mas lembro como se fosse hoje o que o professor me aconselhou: “Se você errar, faça uma expressão facial de acerto e ninguém saberá que errou”. Então, eu tentava manter em mente que um primeiro encontro era exatamente do mesmo jeito.
Não me lembrava nitidamente da última vez que me submeti a um date, e sempre que tive a oportunidade de evitar essas situações, acredite, eu as evitava. Porque os encontros sempre teriam essa atmosfera embaraçosa, sempre seriam chatos ou sufocantes demais; no entanto, aquele me parecia diferente de alguma maneira.
— Primeiro... — Kels começou a aconselhar.
— Nunca pare de sorrir — Amber continuou.
— E segundo, sempre esteja preparada...
— … para algo inesperado — eu concluí.
— Aprendeu direitinho — Kels bateu palmas, claramente mais animada que eu mesma para o date. Eu estava um pouco nervosa, mas não de um jeito desesperador.
Segui até a cozinha com elas em meu encalço, enchendo minha cabeça de dicas e ideias de papos, e eu sabia que não precisaria disso. Sentia que ia tudo muito bem e obrigada dentro da minha cabeça.
Harry não fazia o tipo que eu precisaria pensar em ideias mirabolantes de histórias para manter uma conversa. Não precisaria disso para preencher algum silêncio. Ia fluir.
Abri a geladeira e procurei a tequila que mantínhamos ali para ocasiões de emergência.
— Não me diga que você vai... — Ambs nem precisou terminar de falar para que eu colocasse o bico da garrafa na boca e tomar um gole.
— Você está ficando maluca?
— Eu precisava ficar mais leve, vocês tão falando muito, tá me deixando estressada. Tava tudo tranquilo antes de todos esses conselhos.
— Você que pediu e precisava, até porque, , você nunca vai em encontros…
— Eu sei de tudo isso, mas sempre vou fazer o contrário do que vocês falam, então... — dei outro gole na bebida e a coloquei de volta na geladeira.
— Pronta?
Pisquei algumas vezes, tentando lembrar de algo que poderia ter esquecido.
— Acho que sim! Me desejem sorte — peguei minha bolsa e saí pela porta.


💃💃💃


First dates costumavam ser constrangedores, então o que quebraria gelo numa situação assim, se não um lugar exótico? Não imaginei outro lugar quando ele me pediu uma sugestão. No primeiro instante, Harry achou que eu estava brincando, mas o convenci quando lhe contei um pouco de como aquele lugar era apenas ousado em relação aos demais.
— Você não planejou me matar e enterrar aqui, né? — Harry parou de caminhar e me olhou desconfiado.
— Com certeza, já imaginou? Você sendo enterrado ao lado de Johnny Ramone?
— É uma honra, realmente... Mas isso pode esperar mais um pouco — pronunciou, brincalhão.
Era estranho que um lugar onde enterravam-se pessoas fizesse tanto sucesso a ponto de virar atração turística, mas em Los Angeles tudo era possível. Localizado em Santa Monica Boulevard, Hollywood Forever era um dos cemitérios mais famosos dos Estados Unidos, onde as maiores estrelas da Era de Ouro de Hollywood descansavam depois da morte. O lugar vasto possuía uma área verde admirável, e passou a ter um roteiro turístico contando as histórias de algumas celebridades que descansavam ali. Inclusive, aos sábados, quando o sol se punha, o cemitério transformava-se em um cinema ao ar livre, onde os espectadores exibiam suas toalhas vermelhas de piquenique estiradas na grama bem cuidada para assistir aos filmes antigos.
— Pronto para nossa mini tour? — minha voz saiu um pouco mais alta pela empolgação.
— Por que mini? — ele levantou uma das sobrancelhas.
— Eu só conheço duas histórias de falecidos — sorri tímida, admitindo.
— Tudo bem, estou pronto! — esfregou as mãos, mostrando estar ansioso.
Estávamos andando pela área de concreto. Ao nosso redor, as sepulturas se tornavam belas ao misturar-se nas árvores altas, robustas e mais verdes que eu pudesse imaginar. Os arbustos e canteiros de flores bem cuidados traziam cores a mais ao local. E, de longe, dava para avistar a grande parede branca onde passavam-se os milhares filmes do Cinespia.
— Como falamos dos Ramones, você sabe da história do triângulo amoroso que ocorreu na banda? — paramos em frente à sua sepultura.
— Não, por que não me conta? — perguntou com sua voz mansa.
— Você sabe como era a personalidade deles?
— Sim, Joey era um hippie complexo, de esquerda, enquanto Johnny era republicano de direita. Eles eram literalmente opostos, nem sei como se suportavam!
— Eu também não sei como funcionava essa amizade. Até o jeito deles se portarem na banda tinha essa diferença discrepante. Mas voltando pro triângulo... Uma linda mulher chamada Linda Daniele começou a namorar Joey. Ela era conhecida pela banda desde um show que foi realizado na cidade de Nova Iorque, mas foi quando eles lançaram o filme Rock 'n' Roll High School que engataram um romance.
— E o plot da história?
Eu gargalhei em resposta.
— Vem agora! Depois de três anos de namoro, de repente Johnny se aproximou de Linda e ela trocou o vocalista pelo guitarrista. Segundo eles, não rolou traição, mas nunca se sabe… Daí eles se casaram e permaneceram juntos até a morte dele.
— É por isso que chamavam ela de Yoko Ramone? — Harry estreitou os olhos, e eu assenti com a cabeça, gargalhando.
— Uma bela associação de personalidades, hein? Pois bem, os “amigos” — levantei as mãos para indicar as aspas —, mesmo não se falando, mantiveram-se na banda por doze anos.
— Inacreditável você conseguir trabalhar com alguém dessa forma, sem falar uma mísera palavra... Deve ter sido por isso que Zayn não quis continuar na banda, você sabe... — assenti, o encorajando a continuar. — Ele não tinha mais o vínculo de antes com a banda. Claro que não foi nada com mulheres, mas era um sentimento esquisito, um ambiente estranho, sei lá, não conseguiria definir.
— Você ainda mantém contato com ele?
— Não, não. Eu sou muito transparente, . A maneira como tudo aconteceu não me deixou nada feliz, porque parecia ser o motivo de toda a angústia que ele sentia, mas não era isso. A atmosfera toda daquela indústria pesava o clima, mas a gente merecia muito mais como amigos dele, sabe? — senti sua voz trêmula; a situação definitivamente ainda era um ponto frágil para ele.
— A ingratidão é um dos piores sentimentos que alguém pode sentir por alguém.
— Eu concordo com você — ele soou pensativo. — Bom, você tem tempo de mais uma história antes do filme começar — disse, checando o relógio.
— Judy Garland!
— Dorothy Gale em O Mágico de Oz — ele respondeu.
— Exatamente! Ela fez outros trabalhos, mas esse especificamente alavancou sua carreira ao mesmo tempo que, infelizmente, foi a ruína dela. A mãe de Judy era muito controladora, e a partir do momento que ela conseguiu o papel como Dorothy, a agência tinha que mantê-la sempre numa silhueta infantil por causa do personagem. Então, ela fazia uma dieta restritiva ao extremo, na qual ingeria um bowl de sopa de frango e café preto.
— Só?! — Harry indagou, assustado.
— Sim, infelizmente, e ela fumava muito pra despistar a fome. Tipo quatro maços de cigarro por dia, sabe?
— MEU DEUS! Que absurdo! Eu acredito que hoje em dia existe isso, mas não nesse nível... — ele cobriu a boca com as mãos, abismado com a história.
— É, hoje em dia existe uma abertura maior para pautas desse tipo, mas no mundo da dança ainda existe muita pressão estética em relação ao peso.
— Em geral, pessoas que trabalham com a imagem devem estar esteticamente padronizadas, e isso acaba com a saúde mental das pessoas. É bizarro...
— Também acho! E é sempre o mesmo papo de que, se você não se manter num padrão específico, você não consegue alguns papéis em filmes. Na dança, você não conseguiria realizar determinado movimento e claramente não é assim. As pessoas adoecem outras com suas concepções loucas!
— Judy morreu de overdose, tô certo? — o observei coçar o nariz, me distraindo um pouco.
— Ah, sim! Overdose de barbitúrico aos 47 anos — parei um pouco para admirar o pavilhão dedicado à atriz. — O ritmo de trabalho dela era sinistro, tanto que chegou a ficar três dias seguidos trabalhando. O que a mantinha em pé era anfetamina e adrenalina. Quando ela acabava as gravações, sempre estava muito acelerada, ligadona, sabe? Então ela necessitava de mais drogas para dormir, no caso dela: barbitúricos. Mas era um sono entre quatro e cinco horas, e após acordar, já entupiam ela de mais drogas pra voltar a trabalhar.
— A vida dela foi horrível, e pensar que tudo o que ela queria era viver um sonho.
— Pois é…
— O que você quer escrever? — Harry parou em frente ao livro de visitas e esperou que eu chegasse ao seu lado.
— Hmmm... — pus meus olhos na vitrine com os objetos dela. — Não sei — olhei de lado, observando que ele já escrevia algo. — Você que é bom com as palavras, até escreve umas músicas — gargalhei, quando ele revirou os olhos e sorriu. — Pode adicionar que eu torço para que ela esteja em um lugar de paz.
Me aproximei dele, passando meus olhos pelo caderno em nossa frente, e tudo que consegui notar do seu recado foi “All the love, + ao final. Sorri refreado quando senti seu braço me envolver de lado e me arrastar para o lado de fora do pavilhão.
Nunca fui acostumada com carinhos repentinos ou aproximações corporais. A verdade é que atitudes como essas me deixavam extremamente desconfortáveis. Eu não saberia explicar o porquê, mas era como eu me sentia com demonstrações de afeto.
Mas naquele momento não.
Talvez porque Harry sempre fazia questão de prestar atenção em tudo que eu falava, e, consequentemente, eu me via nessa ambiência confortável. Talvez porque sabia que aquela aproximação não tinha uma intenção carnal. Sentia que era por uma gentileza, cuidado, e isso que me deixava surpresa. Eu estava confiantemente liberta, independente de como eu agisse e falasse, porque ele me permitia. Harry conseguia dar essa janela de possibilidade para um simples momento.
E a ansiedade que eu sentia antes de chegar naquele date tinha ido embora naquele instante – ou tenha ido antes –, mas tomei consciência quando seu braço me abraçou de lado.


💃💃💃


— Tudo bem se ficarmos aqui?
O local era afastado do restante das pessoas que estavam ali, mas eu entendia o fato de Harry não querer ficar no meio da multidão.
— Claro! E podemos nos encostar nessa parede — indiquei a superfície cinza com minha mão.
Eu tinha planejado levar algumas frutas e sanduíches para aquele momento, e fiz questão de levar um morango à minha boca assim que o coloquei em cima da toalha quadriculada. O ambiente já estava bem lotado, com pessoas espalhadas por todo gramado. Um pouco mais distantes, eu e Harry estávamos sentados, esperando o filme começar.
— Trouxe isso para nós — ele tirou um vinho branco de sua mochila.
— Não creio! Eu amo — meu sorriso veio de orelha a orelha.
— Ufa! Que bom que acertei — pôs a mão no peito, mostrando estar mais leve com a decisão.
— Quer que eu abra? — ofereci, e ele estendeu o vinho para mim enquanto vasculhava a bolsa à procura das taças. Felizmente a garrafa tinha uma rosca para facilitar sua abertura.
A cor do céu transformava-se a todo momento; de azul e amarelo passou para um arroxeado laranja, até que o telão do Cinespia clareou a parede. A introdução de Be My Baby, de The Ronettes, tocava quando ainda estávamos distraídos conversando.
— MEU DEUS! Isso é Dirty Dancing? — fixei meu olhar na tela até comprovar a minha suspeita.
— Um marco na história, eu amo esse filme — observei seu entusiasmo com um sorriso ao falar.
— Acho que escolhi o que ia fazer da vida por causa desse filme. Acho que eu tinha sete anos!
— Uma criança prodígio — ele comentou, me fazendo sorrir envergonhada. Então, prestamos atenção no filme.
O que alguém poderia falar mal de um clássico contemporâneo dos anos oitenta do século vinte? Nada! Dirty Dancing foi um dos melhores filmes da história do cinema. A trama do casal encantou qualquer pessoa que assistiu, além de todo o desenrolar dramático envolvendo pautas extremamente essenciais para a época, talvez até chocantes – preconceito de classes, relações entre pais e filhos, gravidez não plenejada e aborto ilegal.
— Isso era um estilo de dança da época ou fabularam o ritmo quente? — ouvi Harry se pronunciar, me tirando de órbita.
— Então... Bem sensual, não é? — gargalhei.
— Sensual não seria a palavra certa. Talvez… sexo dançante — seu sorriso malicioso de lado fez sua covinha se rebelar.
— Hahaha! E eu aposto que você queria aprender esse ritmo, Styles — estreitei os olhos com lábios risonhos.
— Eu tenho minhas próprias habilidades dançantes — ele remexeu seu quadril ao mesmo tempo que os braços, me fazendo rir de sua tentativa. — Viu? — apontava para sua cintura.
— Nada mal, Johnny! Teremos tempo para melhorar esse seu lado dançarino — dei dois tapinhas em seu braço.
— Olha só a cara da Baby — o observei apontar com o queixo para tela. — Quem carrega uma melancia para um baile? — ele riu e eu o acompanhei.
Meu olhar também acompanhava atenciosamente cada passada de mão que ele dava para alinhar seu cabelo teimoso, que insistia em cair na lateral de sua testa. Eu poderia disfarçar, mas minha cara lisa não deixaria de admirar a beleza dele estando ao seu lado. O momento dessa tarde inteira seria carregar minha memória ocular para surtar tranquila em casa o quanto quisesse.
— Você sabia que eles não se davam bem? Essas risadas não foram ensaiadas, muito menos o aborrecimento de Patrick — revelei quando passava a cena em que eles ensaiavam para a apresentação de dança.
— Jura? Incrível como algumas cenas improvisadas muitas vezes enriquecem os filmes!
— Acho fascinante também, porque parece que foi tão bem pensada, quando na verdade não passa de uma mera coincidência ou erro no set.
Eu era apaixonada por esse filme, nem só por ele trazer minha arte favorita ou um casal real que encanta gerações. A roteirista, Eleanor Bergstein, trouxe algumas experiências pessoais para ele e vários traços feministas, como a sororidade de Baby em relação a Penny, que me deixava nas nuvens. Infelizmente, não é algo que estamos acostumados hoje em dia, e assistir a personagem nunca hesitarem em oferecer apoio à instrutora de dança me trazia uma ponta de esperança no mundo.
— O aborto já era legalizado nessa época, né? — Harry perguntou.
— Sim, apenas no filme que não, porque se passa nos anos sessenta.
— Estamos em 2018 e alguns países não entendem que as mulheres têm total direito sob seus corpos.
— Eu odeio ter que pensar nisso, é um verdadeiro absurdo. Mas acredito que o pior é quando, mesmo legalizado, algum louco religioso trata a situação como pecado — revirei meus olhos. — Algumas pessoas próximas a mim já passaram por isso, então me tira um pouco do sério.
— Essas situações têm a obrigação de revoltar qualquer um. Ninguém vai sentir a dor do outro, mas as pessoas só precisam se colocar um pouco no lugar dos outros. O mundo precisa de mais empatia e bondade...
— Você sabe que definiu a Baby inteira, não é? — ele assentiu. — E foi exatamente isso que fez Johnny se apaixonar por ela — sorri. — Ela foi tão empática pela instrutora de dança e nem quis saber da história para isso. Ela simplesmente ajudou Penny! — eu falava empolgada. — É por isso que é um dos meus filmes favoritos, e ela não precisou fingir ser alguém que não é para conquistar o bonitão! Só sendo ela mesma — concluí.
— É o que você faz para conquistar corações? — ele jogou a cabeça na lateral, e eu percebi seu olhar risonho.
— Você não tem jeito — ri, negando com a cabeça. — Desculpa se tagarelei demais agora.
— Nem precisa, eu gosto de ouvir as pessoas falarem de seus amores — Harry sustentou seu olhar risonho no meu.


💃💃💃


— Tenho algo a confessar sobre esse dia.
— O quê?
Estávamos andando até o estacionamento, e tudo que podíamos ouvir naquele momento era nossas vozes, nossos passos arrastados e alguns grilos solitários.
— Eu bebi dois shots de tequila antes de encontrar com você — escondi um pouco meu rosto, e Harry paralisou com as mãos na cintura quando ouviu a minha resposta.
— QUÊ?! Você achou que o date ia ser péssimo? Silêncio constrangedor e tudo de pior que ocorre em primeiros encontros?
— Nããão, claro que não! Só que eu não me lembrava da última vez que tinha ido a um. Talvez eu tenha ficado nervosa com o tanto de conselhos das minhas amigas que vão a encontros. Não estou acostumada com isso. Sendo bem sincera, eu odeio!
— Agora você ama... — ele sorriu, convencido.
— Você se acha muito — dei um tapinha em seu braço. — Mas, I’ve had…
… the time of your life — ele abriu os braços, ainda brincalhão, e eu revirei os olhos em resposta.
— Tá, trazendo o tema à tona, me fala o melhor momento da sua vida — pedi enquanto ele destravava o carro e abria a porta para mim em seguida.
— Hmmm... Deixa eu pensar.
Esperei Harry dar a volta e se sentar ao meu lado no banco do motorista. Seu braço estendeu para ligar o carro enquanto eu o observava pensativo.
— Posso ser clichê? — levantou a sobrancelha, esperando minha resposta, então assenti. — Quando ouvi que seria uma banda e conseguiria de alguma forma conseguir realizar meu sonho de cantar.
— Eu sabia que você diria isso... mas agora, um não tão clichê.
— Quando tive a oportunidade de pagar uma viagem para minha mãe e minha irmã.
— E vocês foram para onde?
— Nice, na França. Eu me senti realizado em poder proporcionar isso para elas, sabe? Acho que qualquer pessoa se sente.
— É, eu entendo o que você fala. Minha família sempre foi grande, é um pouco difícil proporcionar momentos de lazer. Então, sempre que posso, tento dividir meu tempo entre meu irmão mais novo e minha mãe.
— Você tem quantos irmãos?
— Tenho três, dois homens e uma mulher. O único que sempre vem me visitar é meu irmão mais novo, Oliver.
— Seus irmãos são ciumentos?
— Não, eles são bem tranquilos. Eu não dou trabalho — dei uma piscadela para ele, que sorriu.
Chegando mais perto de casa, minha mente analisava cada mínimo detalhe daquele dia, que tinha sido exatamente o oposto do que havia imaginado. Em determinado momento da vida, eu havia parado de colocar expectativas nas pessoas e até mesmo nas situações que me aconteceriam no futuro.
Eu sempre estaria tentando me blindar de tudo que tinha a possibilidade de me deixar sem fé.
Era isso.
Todos os dias da minha vida estou tentando ter menos expectativas em relação a tudo! Porque todos os dias parecia que a vida estava me incentivando a reduzir as minhas perspectivas.
Então, de repente, a vida me presenteou com esse dia, me convidando a enxergar que o mundo ainda me proporciona conhecer pessoas autênticas, com uma aura incrível que deixava todos os pensamentos negativos flutuarem para longe, no momento que surgiam na minha mente.
As palavras tinham uma incrível conexão com sua habilidade de ser visto como atraente ou confiante. Harry sempre as usava a seu favor. Ele era essa pessoa engraçada sem precisar estar sempre contando uma piada. Ele era inteligente sem precisar estar sempre falando algo de cunho intelectual. Ele só precisa estar naquele ambiente com sua incrível confiança, calma e amor.
— E o melhor momento da sua vida? — indagou e continuou. — Além desse dia comigo, claro — disse, convencido.
— O que te faz ter tanta certeza disso? Posso chegar em casa e falar mal de você para minhas amigas.
— Tsc, tsc, tsc — negou com a boca. — Fora de cogitação — me examinou com o olhar e seu sorrisinho convencido, o que me fez rir nasalado com sua convicção mais que certa, por sinal.
— O dia do AMAs foi muito importante para mim — respondi, por fim. — A sensação de que um sonho se concretizou me deixou com um sentimento de realização.
— Você parecia nervosa quando te encontrei no corredor.
— É, eu estava mesmo. Mas aquele ritual sempre ajuda a me manter sã. Coloco meus fones e foco na música... Você parecia fugido naquele dia também.
— Eu estava nervoso, mas de alguma forma te encontrar fez a ansiedade ir embora — seus olhos verdes estacionaram em mim, enquanto meus lábios tentavam conter o riso.
— Não creio que você gosta de cantadas baratas, Styles.
Sutilmente sua boca transformava-se num sorriso sedutor. Ele claramente estava se divertindo com isso.
— Essa foi, né? — ele mudou sua postura ao admitir. — Mesmo assim, é verdade o que eu disse.
Olhei para o lado, tentando não demonstrar felicidade ao ouvir aquela frase. Quem não gostaria de saber que sua presença trouxe leveza num momento de nervosismo, sem nem sequer se conhecer?
— É esse prédio do lado direito — apontei para a fachada branca e ele estacionou em poucos segundos. — Obrigada pelo dia, — o abracei pelo pescoço assim que retirei o cinto. Seu perfume levemente adocicado atingiu minhas narinas, enquanto minha mente dava maior importância para suas mãos, que apertavam um pouco minha cintura.
— Eu que agradeço a companhia, estava precisando de um dia assim — nos afastamos e permanecemos em um silêncio de poucos segundos. Ele puxou a minha mão, depositando um beijo no dorso, o que não me deixou disfarçar meu sorriso. — A gente se vê, pode falar comigo a qualquer hora!
— Tá bem, pode deixar! — abri a porta do carro e caminhei até o portão de entrada. Antes de abri-lo, dei uma última olhada para ele, percebendo que ainda permanecia ali.
Ouvi a buzina e acenei um tchau em resposta.


Capítulo 6 – Drunk on a feeling


Era cansativo chegar a perfeição.
Dançar era fácil, era o que eu mais amava fazer. Mas treinar para ser perfeito... era difícil.
Minha mente tinha o poder de me sabotar a todo segundo, por isso eu procurava me distrair com exercício físico ou algo do tipo. Inclusive, pude descobrir um tempo atrás que, para a vida manter-se equilibrada, você tinha que deixar seu corpo se cansar pelo menos uma vez na semana. Apenas algo que deixava seu corpo mais leve. Sabe toda aquela energia acumulada que não te deixa realizar nenhum dos seus afazeres direito? Nenhuma ideia sua se torna concreta porque o estresse suprime qualquer mínima criatividade que você teve para desenvolver algo? Então, pegue esse conselho: se canse.
Pode ser transar!
— O que deu em você hoje? — Chad perguntou, tentando estabilizar a respiração.
Saí de cima dele e joguei meu corpo ao seu lado. Vez ou outra, usamos o intervalo do almoço para nos cansar. Uma escapadinha durante a semana.
— Raiva, porque eu não conseguia fazer um simples rebolado — bufei.
— Aí você veio destravar o quadril em cima de mim? — ele passou a mão na minha barriga e eu acompanhei seu sorrisinho malicioso.
— Claro, sinta-se lisonjeado por esse momento — me levantei da cama, passei a camisa pela minha cabeça e tratei de me vestir rapidamente. — O que vamos almoçar?
— Esse já não foi nosso almoço?
Olhei para sua cara debochada.
— LEVAAANTA! Eu quero almoçar! Alimente seu dragão, Chad — esperneei, passando a calça pela minha bunda e caminhando para o banheiro em seguida.
— Você bem que podia fazer aquela salada que eu amo, né?
— Você tá com preguiça? — coloquei minha cabeça na brecha da porta e o observei assentir com carinha de cachorro sem dono. — Tudo bem, então vamos comer alguma coisa no restaurante perto do estúdio.
— Combinado!
Não demorou muito para que estivéssemos no carro e, em menos de dez minutos, estávamos no restaurante.
— Obrigada! — respondi para o garçom quando ele pôs a caesar salad na minha frente.
O SunCafe Organic tornava-se a cada dia um dos meus lugares preferidos. Eu sempre tentava experimentar uma opção vegana diferente. As mesas de madeira tinham meu coração em qualquer decoração, ainda mais naquele ambiente rústico do pátio que eu amava. Fazia questão de sentar ao ar livre sempre que frequentava, para apreciar a refeição com o toque da brisa fresca de L.A. em meu rosto.
O homem à minha frente estava calado até demais. Quase pude adivinhar quando estava na iminência de caçar alguma informação da minha vida, o que já era comum de se fazer.
— Para onde você foi no sábado? As meninas foram lá pra casa, senti sua falta.
Diante de sua pergunta, aproveitei para encher minha boca com mais uma garfada e dar tempo para processar alguma resposta.
Foi ossostor om folme — murmurei com a boca cheia de salada, recebendo uma risada dele em resposta.
— Sem pressa, Fiona, termine de mastigar.
Semicerrei os olhos, puta pelo apelido. Arremessei um guardanapo nele, tentando cessar sua gargalhada
— Fui assistir um filme com uma amiga.
— Amiga, hein? — Chad me olhou desconfiado, mas dei de ombros.
— Entenda como quiser — dei um sorrisinho lateral.
— Você é uma safada! — ele arremessou o guardanapo de volta.
— E o que fez o final de semana inteiro? — tratei rapidamente de reverter a conversa.
— Ficamos conversando, tomando cerveja... nada de mais — disse a última frase com um tom de chateação.
— Achei que iriam para a Exchange...
— Íamos, mas de última hora todo mundo desistiu. Eu não ia sozinho. Minha única companhia possível estava num date, então fiquei com as mãos atadas — ele conseguiu voltar ao assunto em menos de um minuto, era tempo recorde para Chad. Quando ele tinha virado tão atento a tudo?
— Pare de choramingar, nós podemos ir para alguma nesse final de semana.
— Promete?
— Eu já dei pra trás com algum rolê com você? — o observei puxando a mão para contar nos dedos. — Olhe bem o que você vai falar, hein, garoto! Você quer ir na sexta?
— Na sexta estarei na sua porta! — ele estendeu a mão e eu correspondi com um soquinho.


💃💃💃


— Brian, por que estamos fazendo isso? — finalmente me pronunciei quando algumas pessoas já saiam da sala após o ensaio.
— Achei que ninguém perguntaria — ele pressionou os lábios, puxando um dos lados num sorriso presunçoso.
— Aaah, então realmente era um teste — gargalhei com sua técnica para que algum aluno mostrasse indignação por aquele dia louco.
Claramente aquela batida repetitiva me parecia mais um sample de My Favorite Things do musical da Broadway “The Sound of Music”. Mesmo sem nenhuma letra, era impossível não reconhecer a melodia.
— Sim, parabéns! Passou na primeira fase do teste — Brian juntou as mãos com palminhas.
— E qual seria a segunda? — arqueei a sobrancelha, curiosa.
— Você conhece Hannah Lux Davis?
— Deveria? — pronunciei em tom baixo, com medo da resposta.
— Não me faça uma pergunta dessas. Claro que sim, ! Ela é a diretora da maioria dos clipes da Ariana Grande e me pediu para selecionar alguns dançarinos da Millennium.
Franzi o cenho, tentando absorver todas as informações.
— Isso quer dizer que... — eu precisava da palavra final para não criar falsas esperanças.
— Vou passar seu contato para os coreógrafos do clipe — ele completou sutilmente ao pegar sua mochila, e, antes que pudesse sair pela porta, o surpreendi com um abraço.
— OBRIGADA, BRIAN. OBRIGADA, OBRIGADA!
Ele envolveu o braço que estava livre em minha cintura em resposta.
— Você está fazendo um ótimo trabalho, garota! Não me decepcione — disse por fim e deixou o recinto.
Busquei meu celular enquanto caminhava para o carro e disquei os únicos números que eu conhecia de cor da minha lista de contatos. Além do mais, sentia falta da sua voz, que sempre dizia com todas as letras que acreditava em mim.
?
— Oi, mãe! Como você está?
Estou bem. Seu irmão já gritou aqui dizendo que você se esqueceu dele.
— Ele só pode estar de sacanagem, o lembro de tomar banho todos os dias — escutei sua risada no fundo; que saudade estava dessa risada.
E você, como está?
— Estou bem, liguei para contar uma novidade.
Me diga, então!
— Vou participar de um clipe da Ariana Grande! — minha voz saiu mais alto do que esperava, e eu culpava meu entusiasmo.
Isso é incrível, meu bem! Estou muito feliz, mas você sempre me orgulha... Venha dar os parabéns para sua irmã, ela vai participar de um clipe — escutei sua voz mais alta chamando Oliver. — Ariana Grande?! Você é simplesmente foda! Existe algo que você ainda não fez? — afastei o celular do ouvido antes que ficasse surda com seu grito.
— Meu ouvido, garoto! — ouvi sua risada do outro lado. — Obrigada, maninho, vejo você em breve.
Você escolheu certo, . Confie no seu potencial, isso tudo é fruto do seu esforço — suspirei com a voz da minha mãe novamente.
— Obrigada, dona Amélia.
Tenho que terminar o jantar, mas ligue mais vezes. Sinto saudades de escutar sua voz. Te amo! — sorri ao ouvir aquilo.
— Também te amo, beijos.
Me sentia agradecida e abençoada sabendo do apoio que eu tinha da minha mãe, porque era somente o que eu precisava naquela época. Não foi fácil tomar aquela decisão, nunca foi, mas colocar todas as minhas roupas na mala para correr atrás dos meus sonhos nesta cidade onde eu não conhecia absolutamente ninguém era uma coragem totalmente minha. Era nítido que era uma preocupação da minha família. Mesmo com o coração encolhido dentro do peito, eles deixaram de lado qualquer opinião, porque no fundo sabiam que, se eu continuasse em Virginia, seria a garota mais triste daquela cidade. Ninguém aguentaria me ver triste todos os dias da minha vida, assim como eu não suportaria todas as pessoas tentando me tirar daquela atmosfera de tristeza.
É claro que eu tinha medos e angústias, porque tudo seria completamente novo. Porém, eu fazia questão de chutar para longe qualquer pensamento negativo em relação àquilo. Poderia ter meu pessimismo sobre qualquer outra área da minha vida, menos daquilo.




Los Angeles parecia sempre tão corrida que eu nunca parava para apreciar as coisas. Por esse único motivo, quando tinha oportunidade de passar um tempo na praia, fazia questão de fazer isso. Os raios solares de Los Cabo aparentavam sempre mais quente do que em qualquer parte do mundo, o que justificava minha pele pinicar por falta de protetor solar. Três dias bebendo margaritas e jogando conversa fora parecia o sonho destas mini férias, embora, na maioria das vezes, qualquer saída parecesse uma extensão de networking nessa indústria.
— Você aceitaria ser host do programa em dezembro? — James soltou no meio da nossa conversa, o que me surpreendeu de certa forma.
— Claro que sim! Mas de onde surgiu essa ideia? — coloquei meu drink de lado e foquei no que ele dizia.
— Você lembra quando Charlotte nasceu? — assenti. — Desde então, eu e a equipe pensamos em te trazer de volta, e agora que sua turnê está concluída, por que não?
— E eu achei que era one time only— gargalhamos, lembrando da minha promessa ao vivo. — Seria uma honra, de verdade!
James fez questão de me abraçar em agradecimento.
— Como estão as coisas, mate? — perguntou enquanto eu bebericava mais do meu drink.
— Eu conheci uma pessoa.
Percebi sua postura mudar um pouco, curioso com a minha frase.
— Isso é bom, não?
Parei um pouco para refletir, algo que talvez ainda não havia feito, pelo menos não com tanta cautela.
— Acho que sim? — respondi com uma pergunta. — Fomos a um encontro no final de semana, e ela é incrível! Super enérgica, inspirada quando fala das coisas que ama.
— Mas... — ele me esperou completar.
— Mas não estaria cedo demais? — suspirei.
— Você gostou de sair com ela? — questionou, e eu afirmei com a cabeça. — Então apenas aproveite o momento. Vocês se falaram após o encontro?
— Ainda não.
— Então fale! Parece que você esquece das suas lições de vida — James deu uns tapinhas em minhas costas antes de se levantar e falar com seus outros convidados.
Senti meu celular vibrar no bolso.


Aproveitando seus dias de sol? 14:46pm

Alcancei um sombrero colorido, arrumei-o em minha cabeça e estendi meu braço para tirar uma selfie.

Harry
📸 [enviou uma foto] 14:49pm


Esse sombrero lhe caiu bem! 14:50pm
Só queria saber como você estava, divirta-se! 14:51 pm

Harry
Lembrei de você quando bebi tequilas ontem 👀 14:51pm


Eu realmente não deveria ter lhe dito hahaha 14:52pm
Agora estou envergonhada 14:52pm

Harry
Nós deveríamos beber tequila juntos, assim eu esqueço disso 14:52pm


Você vai estar em L.A. no final de semana? 14:53pm

Harry
Sim, chego na sexta. 14:53pm


Então vou te levar no meu bar favorito no sábado, o que acha? 14:54pm

Harry
Combinado! 14:54pm


Vou voltar para o ensaio 14:54pm
Te vejo no sábado, 😘 14:55pm

Harry
Beijos, 🍸 14:55pm


Os convidados de James estavam por todo lado, mas foram se dispersando quando ele anunciou que voltaria a se reunir no hall do resort para jantar. Larguei meu celular de lado, fazendo questão de me deitar em uma das espreguiçadeiras que estava em minha frente. O céu estava terrivelmente limpo, sem uma nuvem sequer, e mantive o chapéu que ainda estava em minha cabeça mesmo sabendo que aquilo não me faria escapar de ficar queimado do sol.
Podendo desfrutar de horas ociosas até o jantar, decidi ficar por ali e ler um livro, inclusive em busca de ocupar a cabeça. Alain de Botton deixava mais que claro, todas as vezes que eu folheava suas páginas, que a chave da felicidade era ser vulnerável, seja com amigos ou prováveis envolvimentos amorosos. Porém, tratando de relacionamento, você só não espera ser bom nisso? Seria muito mais fácil se fosse um simples dom, mas não. Estar em um relacionamento real com alguém demandava uma habilidade que eu certamente não possuía, tendo em vista meu último fracasso.
Por hora eu ainda me via pensando se foi mesmo um fiasco ou seria minha mente me sabotando outra vez. Bom, vez ou outra Camille ainda passeava pelos meus pensamentos, mesmo sabendo que bagunçou alguns princípios, clareou meus certos e errados. Aspirava também nunca me esquecer, principalmente dos erros, porque, além disso, esperava que esse sentimento de lucidez e discernimento fosse duradouro, porque foi resistente até que perdeu-se a força, significativo até que perdeu-se o sentido e belo até que perdeu-se o encanto.
No entanto, depois dela eu estava mais aberto, e o que de ruim poderia resultar nisso?




— Você nem teve tempo pra falar como foi o encontro no sábado — Amber soltou de repente, enquanto eu retocava o batom no espelho do banheiro depois do jantar.
— Nem vou falar agora, né? — virei a cabeça em sua direção e olhei discretamente de soslaio para a sala onde podíamos ouvir as vozes de Chad, Brian e Kels.
— Esqueci totalmente de te perguntar, mas foi bom? — ela nunca conseguiria disfarçar sua curiosidade, o que me fez rir.
— Foi sim, amiga. Inclusive, amanhã sairemos novamente.
— Mas amanhã não era a Girls’ Night?
Tomei um susto e paralisei, me concentrando.
— Eu esqueciiii! E agora? — choraminguei um pouco enquanto observava Ambs revirar os olhos.
— Eu te perdoo por ele ser gato, você pode sair com ele! — a abracei enquanto ela tentava se desvencilhar de mim. — Tá tudo bem, pode me largar agora. Podemos combinar outro dia.
— CALMA! Tenho uma ideia melhor… — vi suas sobrancelhas se levantarem, calculando o que eu estava prestes a falar. — Vocês deveriam ir comigo!
— Pirou?! — ela agitou seus braços em direção à cabeça, me indicando estar louca.
— Por que a pirou? — Kels apareceu na porta do banheiro, provavelmente para nos chamar, já que estávamos atrasadas.
— Amanhã ela tem um encontro com você-sabe-quem… — indicou com a cabeça para os meninos, para que ela não falasse alto.
— MENTIRA! — gritou baixo.
— Mas eu sei que tínhamos marcado nossa saída e sugeri vocês irem também para o date — observei a minha amiga serelepe olhar devagar para a cacheada.
— AH, NÃO!
— Que besteira, Amber.
— Assim, o encontro é seu. Você tem total responsabilidade se der errado ou muito certo.
— Você vai avisar a ele? É o mínimo — ela perguntou, e eu assenti.
— E vamos de encontro quádruplo com Harry Styles! — Kels comemorou, e eu caí na gargalhada.
— Vamos logo! Já estamos atrasadas.
Caminhamos até a sala, chamamos os garotos e nos separamos nos carros para ir até a balada. Durante o trajeto, mandei mensagem para Harry, explicando a situação que eu já tinha algo marcado para o sábado, mas havia esquecido. Logo ele fez uma piada perguntando se era uma nova estratégia minha, com medo do encontro não ficar parado ou sem diálogo, o que me fez gargalhar e responder negativamente. No final, ele aceitou numa boa a proposta de Amber e Kelsey estarem conosco para que eu não desmarcasse com ninguém, e também mostrou-se feliz em conhecer minhas amigas.
Impecável: era o que eu pensava sempre que pisava em uma balada diferente em Los Angeles. Para ser mais específica, em Hollywood, agora que estávamos em uma. Nem só de calçada da fama ou até mesmo o famoso letreiro vivia a cidade, mas todo um reduto de música eletrônica e serviço VIP de bebidas do circuito de boates espalhadas de qualquer esquina. Esse era o poder da Cidade dos Anjos – enquanto uns amam fazer um piquenique em trilhas naturais em colinas, outros amavam a agitação dos clubes.
Naquele dia da semana em específico – sexta-feira – era comum que tivessem alguma celebridade convidada para performar na Playhouse. Marshmello estava presente no recinto, então era de se imaginar como estava a atmosfera daquele lugar.
— Como vai ser o esquema hoje? — Chad perguntou antes de colocar a boca na garrafa de champanhe.
— Siga a proposta do ambiente, Chad! Divirta-se na casa de jogos — pisquei para ele e tomei a bebida da sua mão.
Meu conjunto prateado destacava-se no meio de tantos vestidos pretos naquele ambiente. Meus olhos famintos não demoraram em rastrear todos que resolveram aproveitar a TBA Fridays da Playhouse, assim como eu. Pedimos alguns shots de tequila para começar a noite, antes de seguir para a pista de dança.
…AL DENTRO! — gritei, tomando o líquido em seguida. — NOSSA! Por que eu sempre escolho tequila mesmo? — fiz uma careta quando coloquei o limão nos lábios.
Conseguimos uma mesa assim que chegamos por pura sorte, além de um balde com bebidas. Brian encontrou alguns amigos – gatos, diga-se de passagem – que agregou mais ao nosso grupo. Depois de alguns drinks e conversas jogadas fora, nos distanciamos um pouco do grupo.
— Vamos dançar! — Kels nos arrastou para o meio da pista de dança.

Para você ouvir de fundo
Wolves (Said The Sky Remix) – Selena Gomez, Marshmello

Joguei meus braços para cima, sentindo meu corpo ficar mais livre enquanto a energia da música me possuía aos poucos. Suor, excitação e euforia já faziam parte de mim. Assistir minhas amigas sorrindo e se divertindo me deixava feliz – estar com elas me fazia a pessoa mais incrível do mundo, e aquilo ali, para mim, já era suficiente para a noite ser perfeita.
O som começou a ficar abafado e dissipado quando senti o peso de estar sendo observada. Rastreei com os olhos quem estava me examinando e encontrei um par de íris castanhas claras num corpo de um homem de altura mediana, moreno, que estava em nossa mesa minutos atrás.
Andei em sua direção, não desviando por nenhum minuto nossos olhares.
— Você tem cara de problema — disparei assim que cheguei perto o suficiente para que ele ouvisse.
— Se você quiser que eu seja… — ele estendeu a mão enquanto me pus a assistir seu olhar safado, e, num perigo iminente, o puxei para mim.
Seus lábios estavam gelados quando me propus a aquecê-los. Senti suas mãos urgentes procurarem tatear meu corpo, parando um pouco acima da bunda. Eu gostava da sensação de beijar pessoas desconhecidas, que talvez nunca precisaria encontrá-las novamente. Era só pura atração e diversão. Sua barba por fazer encostava na minha pele, me arrepiando um pouco. Sua língua encostava na minha como se pudesse, de alguma forma, prendê-la com a sua. Depois de algum tempo, nos afastamos e seguimos para lados diferentes.
Decidi voltar para ficar um pouco com as meninas; porém, quando cheguei em nossa mesa, percebi alguns rosto diferentes. Inclusive de uma garota com traços finos, corpo esguio que usava um vestido rosa, talvez o único dentre todas as mulheres desse lugar. Puxei papo com todos um pouco enquanto bebericava uma dose de whisky, sentindo seus olhos pesarem em mim. Amber estava ao seu lado e logo percebeu onde aquilo daria, me dando alguns olhares cúmplices e cochichando com Brian em alguns momentos. Minha mente não conseguia desviar do propósito de beijar aqueles lábios; por essa razão, fiz questão de passar para o outro lado da mesa, logo colocando a mão em sua cintura.
— Posso saber seu nome? — ouvi a garota de cabelos cacheados se direcionar a mim antes que eu pudesse pronunciar algo.
— Agora ou depois do nosso beijo? — indaguei e, quando ela sorriu, aceitei aquilo como uma porta de entrada para tocá-la.
Apesar de seus lábios cheios me conectarem a olhá-los, a sensação deles nos meus foi o que me fez querer beijá-la. Dessa forma, meu instinto me fez tocar levemente seu rosto, afastando os cachos de seu cabelo que insistiam em cair. Nossas línguas tinham uma sincronia incrivelmente gostosa, onde eu poderia passar uma eternidade. Por ser um pouco mais baixa que eu, seu corpo se encaixou com o meu, deixando nosso contato mais próximo. Senti sua unha arranhar meu pescoço, me fazendo arfar durante o beijo. Deslizei minha mão pela lateral do seu corpo e apalpei sua bunda de leve, fazendo-a sorrir. Depositei um selinho em seus lábios antes de me afastar dela.
— Eva — ela disse quando abriu os olhos.
— sorri quando ela me roubou um beijo novamente. — Acho que você é meu pecado essa noite, Eva — pronunciei, e nos beijamos mais algumas vezes naquela noite antes que ela fosse embora.
Durante a noite, não sei se minha mente totalmente bêbada estava enxergando nitidamente, mas percebi Chad com cara de poucos amigos todas as vezes que eu direcionava algum assunto para ele. Tentei relevar a maior parte da noite, porém não por muito tempo. Me encostei nele e cochichei no seu ouvido.
— O que posso fazer para animar sua noite? — sorri, tentando animá-lo.
— Nada, tô de boa. Só não deveria ter vindo.
Tomei um susto com aquela resposta.
— Ué, o que aconteceu pra você tá com essa cara de cu?
— Nada, . Tá tudo tranquilo, vai aproveitar a noite — ele movimentou a mão para a pista de dança, me indicando para dançar.
— Sério que você não vai me dizer? — me pus em sua frente e puxei seu rosto para me olhar.
— Não vou dizer. Depois você descobre, quando estiver sóbria — ele tirou minha mão do seu rosto e se afastou um pouco, o que deixou puta.
— Agora FUDEU! Eu estar bebendo é um problema?! — questionei, exaltada.
— Esse seria o menor dos problemas, — Chad pronunciou calmamente, com olhar fixo no meu.
— Como você é idiota! Não vou ficar puxando seu saco, fica aí com sua cara de tacho — saí da mesa e fui até o bar. No meio do caminho, senti uma mão agarrar meu pulso. Olhei para trás e o vi com uma feição arrependida.
— Me desculpe, vamos dançar! — ele tentou me puxar para perto. Uma tentativa falha, diga-se de passagem.
— Dá um tempo, Chad, você seria a última pessoa que eu dançaria hoje — puxei meu pulso e me perdi na multidão.
Não saberia em qual momento, mas as meninas me puxaram para o carro que nos levaria para casa. No entanto, lembro vagamente de ainda ter passado um bom tempo bebendo em consequência da raiva que senti do Chad.
Ao abrir meus olhos naquela tarde, me direcionei direto para a geladeira à procura de água. Minha garganta seca revelava que eu não havia bebido pouco na noite anterior.
— Se hidrate bem mesmo, porque mais tarde tem mais — a voz de Amber saiu alta o suficiente para eu tomar um susto.
— Não me lembre, e será tequilas novamente — coloquei a mão na cabeça depois que lhe entreguei a garrafa para que ela pudesse tomar. — Como chegamos em casa ontem?
— Você não lembra?
— Deveria?
— Não teve nada de mais, só não sabia que tinha bebida o suficiente para não lembrar.
— A tequila faz essas coisas comigo, amiga. Eu realmente tenho uma perda de memória com algumas bebidas.
Esperamos Kelsey acordar para decidir o que almoçaríamos. Enquanto isso, notei no meu celular algumas mensagens e ligações repetidas de Chad. Não conseguia entender o porquê daquilo.
— Pra quê o desespero de Chad? — mostrei o visor para Ambs.
— Você não percebeu ainda, não é? — ela perguntou, mas a olhei confusa.
— O quê, exatamente? Eu juro que tô lembrando pouco, acho que senti raiva dele por algum motivo.
— Não sobre ontem, mas acho que ontem ficou muito nítido que ele sente ciúmes de você. Brian e eu fofocamos a noite inteira sobre vocês…
— O casal mais fofoqueiro que eu conheço — revirei os olhos. — Ciúmes? — balancei a cabeça, tentando negar. — Mas o que mais eu fui pauta na fofoca?
— Chad passou a festa encarando você beijar todos — ela revelou, e pisquei muitas vezes, tentando entender.
— Ele beijou alguém ontem? — sondei.
— Não…
Parei um pouco para analisar a noite anterior, e algumas memórias passearam pela minha mente. Chad havia passado a noite inteira grudado na mesa, bebendo. Não o vi beijar ninguém em momento algum e, quando eu me aproximei dele, lá estava a cara de poucos amigos. Lembrei que ele me tratou mal. Mesmo tentando se desculpar, eu já estava embriagada para conversar sobre qualquer pequeno detalhe.
— Acho que tô lembrando vagamente que nos desentendemos.
— É, sobre o quê?
Me joguei no sofá e passei minha mão pelo rosto em desespero para lembrar de tudo.
— Ele estava chateado com algo, mas não quis me contar. Achou ruim eu ter bebido e disse que sóbria eu perceberia tudo. Amber, me ajuda… Que porra o Chad quer de mim? — questionei, desesperada, esperando uma resposta diferente da que eu ouviria a partir dali.
— Você só quer que eu confirme, não é? — assenti. — Ele está apaixonado por você, !


Capítulo 7 – I'll find a place inside to laugh

— POR QUÊ? — olhei incrédula para as meninas. — Por que ele tá apaixonado por mim?!
— Como diabos eu vou saber disso?! Agora não dá pra evitar, converse com ele e pergunte você mesma. A gente já vinha te avisando pra tomar cuidado e conversar, mas agora a merda já está feita e exposta — Amber respondeu firme, quase como se estivesse brigando comigo, e nossa amiga apenas concordou com a cabeça.
Eu acreditava que pela primeira vez na vida esse acordo de “amigos com benefícios” daria totalmente certo, porque finalmente aparentava que eu tinha conhecido uma pessoa igual a mim. Literalmente igual. Mas em que mundo Chad estava morando? Se enquanto no meu, eu simplesmente só o via como um amigo?
Reconhecer um erro: talvez essa seja a situação mais difícil que eu tinha que lidar na vida. Contudo, existia uma parcela frágil nessa equação em que eu não poderia mais empurrar com a barriga. Possivelmente, eu tenha percebido nas entrelinhas muito antes dos avisos prévios, mas a preguiça de procurar uma nova amizade colorida me pegou de jeito, muito antes da minha consciência me alertar o quão errada eu estava pensando daquela forma. Então, eu não poderia fazer isso com Chad. Não mais. Existe um limite e eu havia ultrapassado.
— Eu sei o que eu tenho que fazer, e lá vamos nós… — peguei meu celular em seguida.
— Você vai falar com ele agora? — Kels perguntou.
— O quanto antes melhor, não? Eu prefiro, ele já me ligou muitas vezes hoje. Vocês vão sair agora à tarde?
— Se você quiser que a gente saia… — Amber respondeu.
— Acho que seria melhor, se vocês não se importarem. Obrigada — as abracei e fui em direção ao meu quarto. Me joguei na cama, agarrei meu travesseiro e puxei o celular para a orelha, escutando a chamada ser atendida.
Alô?
— Oi, Chad, sou eu.
Hey, , graças a Deus é você. Me desculpe por ontem, eu… — ele falou mais rápido que o normal.
— Acho melhor conversarmos pessoalmente. Tô te esperando aqui em casa — falei antes que ele começasse a justificar suas atitudes.
Tá bem, chego aí daqui a pouco — senti sua respiração pesada antes de desligar a chamada.
Deixei o celular de lado, virando meu corpo encolhido na tentativa de me ninar. Ok. Isso seria mais difícil do que eu imaginava. Na verdade, já estava sendo difícil ter que decepcionar uma pessoa que eu gostava tanto.
As meninas ficaram enrolando um pouco até que Chad chegasse, para que eu não ficasse sozinha com meus pensamentos. Quando disse que já estava próximo, trataram logo de sair do apartamento para me deixar a sós com ele.
?! — reconheci a voz masculina um pouco longe.
— Tô aqui no quarto! — gritei de volta.
Chad vestia uma calça moletom cinza com uma camisa branca, e tinha um rosto cansado da ressaca da noite anterior.
— Nossa, qual a placa? — sorri para ele, que me deu língua em resposta.
— Você também não tá bonita de ressaca, não, garota — se jogou na cama ao meu lado, colocando as mãos atrás da cabeça.
Ficamos um tempo em silêncio, só nos olhando. Seus olhos estavam confusos, tristes, evitando iniciar a conversa, até que minha consciência insistiu finalmente a formar a pergunta mais direta de toda a minha existência:
— Quando você começou a se sentir assim por mim? — meu olhar analisava cada movimento dele.
— Talvez desde o começo? — ele pronunciou, desconfiado. — Seria difícil eu não me apaixonar por você, . Você é minha melhor amiga. Tudo é fácil, estar com você é fácil, e por que não tentar? — ele apontou para nós.
— Chad, eu… — travei minha fala, um pouco com medo de magoá-lo, o que era inevitável. — Eu não sinto a mesma coisa. Desde o começo eu te disse que não mudaria de opinião, porque eu gosto das coisas desse jeito: descomplicado, casual e cômodo.
— Cômodo? — ele riu sem graça. — Tô me sentindo um merda agora… — sua voz soou zombadora.
— Não, não, não! Você entendeu o que eu quis dizer — me irritei um pouco quando percebi seu tom de voz debochado. — Tudo isso que nós temos é muito cômodo, sim. É conveniente, Chad! Não preciso me esforçar pra nada acontecer. Se qualquer um de nós quisermos beijar, transar ou simplesmente ir a um cinema sem querer estar só, não precisamos ir a encontros tediosos. Eu te disse antes de tudo isso começar que era muito mais simples transar com amigos porque não precisaria começar tudo do zero, e você concordou com tudo o que eu falei — meu tom de voz saiu alto demais.
— É, mas aparentemente você esquece de qualquer mínima coisa que você diz.
— E o que eu disse de tão errado, Chad?
— Lembra quando fizemos o luau na praia? — assenti e o deixei continuar. — Você fez questão de me beijar na frente de todos, sabendo que havia uma garota que eu queria ficar — suas mãos inquietas quase me faziam desconcentrar da minha fala. Era nítido o quanto ele estava nervoso de expor tudo o que sempre sentiu.
— Ela era uma péssima pessoa — dei a única desculpa pela qual eu havia feito tal ação. — E você sabia disso!
— Isso não vem ao caso! Depois dessa cena, você lembra o que me disse ou sua memória é curta demais? — Chad questionou. Fiquei parada esperando, porque realmente não me recordava de tantos detalhes da gente quanto ele. — Você me disse que eu seria a pessoa perfeita pra você porque eu te entendia. Porque eu conhecia você como a palma da minha mão, . Quem em sã consciência fala isso sem a intenção?
Observei seus olhos marejados, então senti o nó se formando no meu estômago.
Eu me sentia culpada por não me lembrar com tantos detalhes de muitos momentos que, para ele, foram essenciais para florescer esse sentimento por mim. A bebida sempre explanava pensamentos tão contidos no meu subconsciente que eu não imaginava que tinha. Era possível que, sim, eu sentia que Chad seria uma pessoa maravilhosa para me relacionar, porque ele era uma pessoa incrível como ninguém nunca havia sido. Mas dentro do meu coração tudo permanecia o mesmo.
— Me desculpe se te fiz enxergar algo que não existia, mas você criou uma imagem de mim que não existe. Eu não lembro desse dia, não lembro principalmente das palavras que te disse, mas pra mim nada mudou, entende? — eu não tirava meus olhos dele, mas me doeu vê-lo desviar o olhar. — Chad, nunca fomos reféns de sentimentos com ninguém antes. Por que você acha que eu seria essa pessoa que faria tudo mudar?
— Você me mudou! — ele segurou meu rosto, tão convicto daquilo que chegava a me assustar.
— Agora eu que estou me sentindo uma merda por não te corresponder — senti algumas lágrimas molharem meu rosto. — Me desculpa, meu bem. Me desculpa se eu te magoei, não era minha intenção. Por que não me disse antes? Eu não quero que nossa amizade acabe.
— Eu achei que você enxergaria… Tá tudo bem, — ele me abraçou enquanto eu molhava toda sua camisa. — Eu que fui um idiota por achar que isso daria em algo.
De repente, me desvencilhei dos seus braços e fixei meu olhar no seu, marejado.
— Não, você não foi. Você é um cara incrível e merece alguém que queira você por inteiro! — sorri, vendo-o puxar a lateral da boca e tentar um sorriso que parecia triste demais para ele, que vivia me fazendo rir. — Não seria justo te fazer insistir em algo que não vai pra frente — me afastei dele, sustentando minhas mãos em seu rosto e observando sua feição triste e decepcionada.
— Podemos não ficar estranhos, por favor? — Chad pediu.
— Por favor!
Ficamos abraçados durante um tempo, mas depois ele disse que iria para casa ficar um pouco sozinho. Nos despedimos com aquela cara de enterro por algo que havia sido de fato cravado, torcendo para que nossa amizade não tivesse ido junto.


💃💃💃


Eu bebericava uma cerveja encostada na bancada da cozinha enquanto esperava Kelsey e Amber ficarem prontas. Rolava meus olhos pelo Instagram, mas de fato eu não estava olhando absolutamente nada, apenas passando o tempo.
— Nossa, gente, que demora!
— Já vamos! — escutei as vozes abafadas de ambas.
Esperei mais cinco minutos antes de entrarmos no carro de aplicativo, que não demorou no percurso; ele nos deixou na esquina da rua. O The Cave era definitivamente o meu bar favorito de todos, de qualquer lugar existente no mundo. Havia dois cenários: o subsolo era de fato uma caverna, onde do lado direito tinha a bancada para se fazer pedidos, e do lado esquerdo, uma espécie de pista de dança, em que alguns momentos um DJ desconhecido tocava aquelas músicas pop dos anos 2000. Em outros, o jukebox fazia seu papel de preencher o ambiente com melodias antigas perfeitamente.
Eu gostava da sensação de estar naquele bar intimista, que proporciona esse abraço na alma quando eu apenas gostaria de sentar e conversar sobre a vida; embora algumas conversas sempre saíssem profundas demais.
— Como foi com Chad? — Kelsey se mostrou curiosa no momento em que sentamos na mesa dos fundos.
— Foi uma conversa sincera, sabe? Acho que ficou tudo bem. Ele realmente queria tentar algo comigo, disse que eu mudei a forma dele de enxergar relacionamentos. Enfim, prometemos não ficar estranhos e espero que realmente seja assim.
— Eu acho que ele vai se afastar um pouco — Amber disse, mostrando-se duvidosa.
— Já eu não acho, isso só aconteceria se começasse a tratá-lo de forma diferente. Não tendo mais intimidade… — Kels se posicionou oposta à nossa amiga.
— Mas eu não pretendo mais ficar com ele — eu a interrompi.
— Não dessa forma, digo intimidade da amizade mesmo. Você não mudaria com ele e nem é a sua intenção — ela continuou.
— Ah, sim, claro. Não pretendo mudar dessa forma, e deixei isso claro.
Joguei meu cabelo para o lado, tirando boa parte do franjão da minha visão, bebericando a cerveja em seguida. A mesa de repente ficou num silêncio esquisito, o que me fez tirar os olhos do vidro verde em minha frente para as meninas em transe.
— Ué, já estão bêbadas?! — questionei sem entender, observando a feição delas mudar para abobalhadas.
— Espero que não. Vocês precisam ficar bêbadas comigo! — olhei lateralmente para cima quando ouvi um tom de voz masculino conhecido por mim. Harry estava na ponta da mesa, vestia uma camisa básica branca de botão e uma calça de alfaiataria preta. Como poderia ficar tão lindo com algo tão simples?
Me levantei para abraçá-lo e senti suas mãos percorreram minhas costas. Seus dedos pareciam querer conhecer minha pele quando os senti pressionar um pouco ao redor da minha cintura. Mesmo querendo demorar naquele toque, me afastei dele para apresentá-lo às garotas.
— Hey! Encontrou fácil o lugar?
— Sim! Não demorei, não é? — ele perguntou ainda com as mãos no meu braço, preocupado com sua pontualidade britânica. Demorei uns segundos para respondê-lo enquanto processava seu perfume em minha mente.
— Não, chegamos há pouco tempo. Então, essas são Kelsey e Amber — apontei para cada uma antes de sentar no booth, o observando abraçar cada uma delas.
— Kelsey, mais conhecida como garota do drink! — ouvi ele dizer quando se sentou ao meu lado.
— MEU DEUS! Você se lembra disso?! — ouvi a gargalhada nervosa de Kels contaminar a mesa.
— Claro! E as trezentas notificações que me marcou naquela foto pós-catástrofe — Harry expôs um sorriso brincalhão.
— Você fez mesmo isso, Kels? Achei que estivesse brincando! — eu indaguei, perplexa. Poderia jurar que havia falado da boca para fora, mas acho que estava tão atordoada naquele dia que me esqueci como Kelsey poderia ser um pouco fora do normal.
— Em minha defesa, eu nem imaginava que você veria, Harry. Só queria deixar claro que sou uma pessoa totalmente normal, apenas muito fã do seu trabalho — ela abriu um sorriso sincero.
— Bom, obrigado por isso. Se não fossem as notificações, eu não teria encontrado a dançarina dos sonhos — senti a mão de Harry tocar a minha, que estava estacionada ao lado da minha coxa. Ele estava fazendo de tudo para me tocar desde que havia chegado, e eu estava adorando tudo isso.
Meu novo apelido saindo pela sua boca não me era estranho, mas por enquanto eu deixaria essa informação guardada no fundo da minha mente. Ele, com um sorriso ladino todo galanteador, repousou seus olhos em mim sabendo que sua tacada de mestre havia me atingido em cheio. Styles fazia o tipo misterioso, mas quando queria deixar algo claro, ele diria com todas as letras. E estava deixando tudo muito mais que nítido!



HARRY

Os lugares que escolhemos frequentar trazem mais informações sobre nossas personalidades, talvez mais do que possamos imaginar. Ou até mesmo em que fase nos encontramos. Você envelhece e passa a nem querer passar perto de alguns locais – Beachwood Cafe que me perdoe –, mas esse era o natural da vida. Nada permanecia o mesmo, principalmente a gente.
Passeando meus olhos pelo ambiente, eu conseguia entender um pouco como era , como ela escolhia viver sua vida. Não que ao pé da letra isso signifique que ela seja definida por esse lugar, mas à medida que você gasta parte da sua vida em alguns ambientes, mais ele tende a falar sobre você. Mais ele passa a significar você.
— Vocês vêm sempre aqui? Eu adorei esse lugar! — perguntei, admirando uma guitarra pendura à minha esquerda.
— Sim, é nosso safety place. A gente sempre vem aqui pra chorar as pitangas! — respondeu, afirmando o que eu já esperava. O ambiente intimista a ajudava sempre recorrer a ele para se sentir bem.
— Qual pitanga quer chorar pra gente hoje, Harry? — Amber me questionou.
— Não estou conseguindo escrever — cocei minha nuca, desconfortável por ser sincero até demais.
— Jura? Nada mesmo? — a morena continuou me ouvindo desabafar.
— Na verdade, uma linha ou duas. Algumas palavras desconexas, mas nada concreto que se possa chamar de música — concluí um pouco chateado.
— Não se pressione, talvez você só esteja cansado demais da turnê — a cacheada me direcionou o papo enquanto continuava me observando sem falar nada.
— Também acho, relaxe um pouco. Você precisa de uma noite divertida, regada de bebidas, sem falar de trabalho! — ela disse por fim, talvez sabendo que eu não falaria muito além disso.
— OWEN! — gritou para o garçom, que logo surgiu ao meu lado. — Traz uma rodada de tequila?
— É pra já, ! — como um foguete, o homem saiu e voltou em questão de segundos.
— Entenda, Harryzinho, regra número um desse rolê: não falar de trabalho!
Gostei de como meu novo apelido soava na boca de , e acompanhei as regras que faziam parte, talvez, de sua personalidade.
— Regra número dois — ela continuou —, beber sem pensar no amanhã.
Encarei-a sorrindo, vendo seu rosto se transformar maliciosamente ao falar aquilo.
— Estou pronto para viver pelas suas regras hoje, !
Observei-a distribuir os copinhos entre nós. Ela definitivamente se sentia à vontade naquele lugar, diria até que fosse seu habitat natural. Estar em volta das suas amigas, vivendo como se não houvesse amanhã; talvez fosse exatamente disso que precisasse naquele momento.
Esperei as garotas colocarem o sal em suas mãos primeiro e repeti o mesmo gesto, posicionando o limão e esperando o brinde.
— Entenda, Harryzinho, o álcool pode não nos dar um futuro, mas dá um passado inesquecível! — ela ergueu a bebida, finalizando com tintilar dos copos.
Passei a língua em minha mão, sentindo o gosto salgado, em seguida trouxe a bebida para minha boca sem demora, engolindo todo líquido que insistia em arder. Julgando que estava sendo observado, me senti lento demais naquela situação quando por fim chupei o limão.
— Ou estou um pouco enferrujado nisso ou vocês bebem muito rápido.
— Eu temo que seja a primeira opção, Styles — Kelsey balançou a cabeça, um pouco decepcionada que talvez eu fosse fraco para bebida.
— Mas vamos mudar isso hoje, não se preocupe — passou a mão pelo meu ombro, me acalentando. Eu sabia que estava me zoando, então ri baixinho.
— Você está adorando isso, não é? — cheguei mais próximo dela, sussurrando em sua orelha. Quando percebi seu corpo travar um pouco com minha proximidade, agradeci internamente por saber que ela demonstrava estar atraída por mim, assim como eu estava por ela.
— E você parece que adora me deixar sem resposta — respondeu baixinho antes que eu me afastasse dela. Seu olhar parou no meu por alguns bons segundos, então franzi a testa com um sorriso convencido.
— Então, como vocês se conheceram? — voltei o assunto para o resto da mesa, me mostrando estar curioso em saber mais sobre como as garotas tinham virado amigas.
Amber era um pouco mais centrada do que as outras – não de um jeito ruim, mas em diversas situações ela aparentava sempre ter opiniões mais concretas sobre diversos assuntos. Kelsey era o tipo de pessoa que faria uma simples ida à padaria ser divertida. Um pouco louquinha, mas com o coração gigante.
— Primeiro eu conheci a Amber. Estava desesperada para sair da casa dos meus pais há um tempo, então quando vi o anúncio de roommate no quadro de avisos do estúdio, não pensei duas vezes. Então, quando apareci no endereço, era essa mulher linda que estava me esperando — ela abraçou carinhosamente a amiga que estava ao seu lado. — Mas foi difícil, porque ela me fez uma entrevista de uma hora! Foi mais fácil passar no vestibular do que morar com ela.
— Em minha defesa, eu tive uma roommie com mania de organização. Eu simplesmente não tinha paz! Então, não poderia deixar de saber todas as manias de Kelsey antes de permitir que morasse comigo — Amber respondeu.
— E você, ? — tornei minha atenção para ela, que tinha acabado de terminar sua cerveja.
— Bom, quando decidi me mudar, a única certeza que eu tinha era que iria estudar na Millennium, o resto eu pensaria quando chegasse aqui. Mas omiti isso da minha família e não pensei duas vezes. Então, quando cheguei em L.A., dormi por quase duas semanas no estacionamento do estúdio. Até que Kelsey me encontrou no carro numa noite aleatória, bateu no vidro e quase me causou um infarto, porque eu podia jurar que ia ser expulsa do estacionamento. E logo me convidou para dormir com ela naquela noite.
— Depois desse dia, ela nunca mais saiu do nosso lado — completou Amber, estendendo a mão para , que sorriu para ela numa forma de gratidão por terem a acolhido tão bem.
— Lindo que você teve essa coragem, . Tenho certeza que o universo enxerga esse atrevimento, e a vida retribui com pessoas maravilhosas no caminho para te apoiar — falei dando uma piscadela para as garotas, que estavam todas sorrindo de orelha a orelha.
Era fácil entender por que a amizade delas funcionava agora, porque elas se apoiaram. Em uma situação normal, as personalidade delas nunca se encontrariam naturalmente, mas a vida fez com que nada dependesse disso. Apenas do amor incondicional entre elas, de um elo quase que superior.
— Obrigada, Harry — um pouco tímida, pressionou seus lábios, desviando seu olhar de mim logo depois.
A cada gole, uma nova risada preenchia nossas conversas, até que alguns shots depois meu corpo já estava inebriado o suficiente para passar a reparar demais em . Em como ela jogava sua cabeça para trás quando estava rindo demais, dando uma visão para seu pescoço que era quase impossível evitar olhar.
Por pura sorte, resolvemos buscar as bebidas no balcão, já que estavam demorando mais que o normal. Paramos no meio do caminho para colocar alguma música naquele aparelho milenar. Apalpei meu bolso em sinal de alguma moeda para alimentar a jukebox, não encontrando nenhuma.
— Eu tenho moeda! — ela fuçou sua bolsa um pouco, me estendendo sua mão aberta com alguns centavos.
— O que quer escutar? — coloquei as moedas no lugar indicado, esperando sua resposta.
— Alguma música que você gosta muito e tem certeza que eu nunca ouvi — ela respondeu, sentando-se em um dos bancos do balcão.
— Bem específica, já sei qual colocar — vasculhei o catálogo e selecionei a canção.

Coloque essa música para tocar
Almost Cut My Hair – Crosby, Stills, Nash & Young

A melodia me preenchia em cheio todas as vezes que eu a escutava. Me fazia teletransportar para quando ainda nem imaginava todas as mudanças que aconteceriam comigo pós-fama. Meu padrasto, que sempre esteve presente na minha vida, brincava com o sentido da música: “Você mal tem cabelo para cortar”, eu brincava com ele, e ele fazia questão de responder que eu talvez ainda fosse novo demais para entender o significado daquilo. O cabelo na música era só uma metáfora para o crescimento. Estávamos em constante evolução, seja por dentro ou por fora, especialmente naquele ambiente em que a todo segundo eu poderia ser consumido pela fama, sofrendo tantas pressões externas que poderiam me tirar a essência.
— Acho que seu gosto musical tem alma de idoso, Styles! — disse sorridente, me provocando.
Ouch! — coloquei a mão no coração, fingindo estar ofendido. — Mas o que posso fazer se no primórdio dos tempos as músicas eram pura poesia?
— Acho que você pode ter razão — ela respondeu, me chamando para ocupar o banco que estava ao seu lado. — O que fala essa música? — virou seu corpo em minha direção; seus joelhos descobertos tocavam minha perna. Reparei pela primeira vez que ela estava usando uma saia que deixava à mostra parte de sua coxa.
Concentre-se, Styles.
Voltei meus olhos para , espelhando sua posição e encarando-a de frente. Porra! Ela era linda! Seus lábios estavam ainda preenchidos por algum gloss brilhante que me prenderam por tempo demais neles. A bebida amplificou tudo que eu já achava interessante nela.
— Sei que não é simplesmente sobre cortar um cabelo — me tirou um pouco do transe com a última frase.
— Depois de anos analisando, eu identifiquei novos significados.
— Me fale o primeiro que vem à sua mente.
— A mística inteira da música envolve transformações da vida. As coisas não estão acontecendo do jeito que a pessoa imaginava. O que ela sente por dentro não está tão legal, por isso ela não consegue estar em relacionamentos profundos — expliquei e se mexeu um pouco no banco, ainda me encarando. — Mas de alguma forma ela sabe que só depende dela mesma tornar isso melhor, prometendo não se entregar ao medo.
— ““I'll find a place inside to laugh” — a ouvi repetir logo depois que a música acabou. — É uma bela música, Styles. Acho que gosto do seu estilo musical, prometo nunca mais reclamar dele — seus olhos gigantes estavam brilhando. Parecia que, de alguma maneira, o que eu falei havia significado muito para ela.
As palavras que tinham acabado de sair da minha boca nem sequer tinham passado pela minha mente antes. Talvez eu fosse aquela pessoa da música que precisasse de uma transformação. As coisas não estavam do jeito que eu imaginava; na verdade, nada nunca vai estar exatamente do jeito que imaginamos, e de alguma forma eu devia a mim mesmo uma mudança.
— Owen! — gritou para o atendente, que estava um pouco distante.
— E aí, ! O que vai querer? — ele surgiu em nossa frente com um pano pendurado em seu ombro, pousando o olhar atento na dançarina.
— Seis shots de tequila, por favor — pediu, e arregalei os olhos para ela, assustado. — Esse homem precisa da melhor tequila que esse bar tem! — continuou animada enquanto me passava pela cabeça que eu chegaria em casa, no mínimo, sendo carregado.
— Você vai matá-lo antes de conseguir chegar na cama dele — o barman soltou de repente, me fazendo cair na gargalhada enquanto as bochechas dela se tornavam vermelhas.
— MEU DEUS! PARE! Só coloque as bebidas rápido, pare de me envergonhar — aumentou a voz, rindo de nervoso com ele. — Finja, por favor, que não escutou o que esse loiro oxigenado acabou de falar — ela posicionou suas mãos juntas como se eu fosse um Deus e estivesse orando para que eu apagasse aquilo da memória. Eu nunca faria aquilo, queria guardar essa cena para sempre na minha mente para provocá-la num futuro próximo.
— O que ele falou mesmo? — entrei em sua brincadeira, colocando a mão no meu ouvido e fingindo surdez. Gargalhei logo em seguida.
O loiro colocou os copos enfileirados na bancada, reunidos com limão e sal à nossa frente.
— Espere um minuto, vou entregar dois para as meninas! — ela tomou em sua mão, deixando apenas quatro na minha frente.
— Eu vou morrer hoje, Owen? — levantei meu olhar para o homem que ainda estava parado em minha frente e observei assentir com a cabeça.
não tem muito limite quando está festejando, acostume-se com isso — ele deu de ombros, zoando um pouco a garota. — Principalmente porque você é o primeiro homem que ela traz pra cá — Owen trouxe aquela informação casualmente, mas de certa forma me deixou com uma pulga atrás da orelha. Porém, não me deu tempo suficiente para tirar mais nenhuma informação dele.
— Voltei! Onde estávamos? — ela se posicionou em minha frente de novo, pegou os copos e me estendeu um, brindando logo em seguida.
Observei passar a língua em sua mão, tirando todo o sal que depositou no meio do seu polegar e indicador. Me arrependi no mesmo instante! Repeti seus movimentos e engoli o líquido rápido, na tentativa de esquecer a cena.
Tentativa falha.
Estacionei meus olhos nela quando fez a mesma coisa em seu segundo shot seguido, mas, dessa vez, cravou seus olhos em mim enquanto o fazia. Olhos estes que pareciam estar se divertindo; diria até que percebiam minha falta de ar repentina, minha boca seca e minha vontade de agarrá-la bem ali. Ela sabia exatamente o que estava fazendo.
Bebi o outro copo para desviar meu olhar de , ou eu morreria de tesão na frente de todos daquele bar.
— Vem aqui! — a puxei pela mão, levando a mulher em forma de tentação até uma mini-pista de dança que permanecia tocando alguma playlist de músicas antigas demais. Girei no mesmo lugar, puxando-a para próximo de mim logo em seguida.
— Uau! Você é bom nisso — sua boca abriu em surpresa.
— Tenho passos que nunca viu, zinha — sussurrei em seu ouvido, sabendo exatamente o que lhe causaria.
— Você gostou do seu apelido novo, não é? Tanto que está me imitando — ela sorriu convencida enquanto eu ria, sabendo que estávamos na mesma página. Nós dois estávamos nos provocando, puxando até o limite daquela tensão sexual.
Entrelacei nossas mãos de um lado, enquanto a outra estava na metade de suas costas, guiando nossa dança.
— Eu gosto como ele soa em sua boca — respondi, depositando um beijo bem na curva do seu pescoço. Ouvi sua respiração falhar por um instante, então voltei a olhá-la. Estava na iminência de dizer algo.
— Lembra mais cedo quando você disse que não estava conseguindo escrever? — ela indagou e eu assenti, a incentivando a continuar. Nossos corpos estavam próximos demais, e nossas bocas, longe demais. — Às vezes, quando não consigo criar uma coreografia ou todos os passos parecem simples ou bobos demais, eu me jogo no mundo. Então, com minha humilde sugestão, acho que você deveria deixar a vida te surpreender um pouco e viver, Harryzinho.
Essa era a deixa.
Minha mão passeou do meio de suas costas para a região da lombar. Seu corpo fez um impulso, se unindo mais ao meu, e agora sua respiração estava perto o suficiente para interagir com a minha. Encontrei seus olhos desesperados pelo meus, quando entrelaçou seus braços pelos meus ombros. O roçar dos nossos lábios me lembrava por que eu deveria viver.
Até que seus lábios já não estavam mais tão próximos. Nem mesmo seu corpo.
— Me perdoem! Mas a Kels está passando mal. Eu posso voltar com ela, mas só precisava avisar a você, amiga — avistei Amber puxando-a para conversar com ela.
— Não vou deixar você ir com ela sozinha — respondeu .
Olhei para ela, que já estava um pouco afastada, com uma expressão chateada. Seus lábios diziam “me desculpe” sem emitir som, então respondi para ela que estava tudo bem e as segui até a saída do bar.
Com Amber ao seu lado, Kelsey já estava sentada em um banco do lado de fora; estava no meio da rua tentando parar algum táxi que as levassem para casa. Me aproximei dela, que me olhou assim que pus minha mão em sua cintura, a abraçando lateralmente.
— Querem voltar comigo? O motorista pode deixar vocês em casa — ofereci, mas sua cabeça negou de primeira.
— Não quero atrapalhar você, Harry. Além do mais, o táxi já está parando — ela acenou a mão para outro, que dessa vez parou.
— Tudo bem, mas por favor, lembre-me de dizer se chegaram bem. Ok?
— Claro. Vamos, amiga!
Observei sua amiga dormindo no ombro da morena, impossibilitando-a de andar. Caminhei até o banco e passei meu braço por suas costas enquanto o outro envolvia suas pernas, carregando-a até o carro. Posicionei a garota e coloquei o cinto de segurança, me afastando para as outras entrarem.
— Harry, muito obrigada. Desculpe por tirar a dançarina dos seus braços — Amber riu sem graça antes de me abraçar.
— Tudo bem, Ambs. Amei conhecer vocês!
surgiu em minha frente antes de entrar também naquele carro que a levaria para longe dos meus lábios.
— Me desculpe, novamente — sua voz soou chateada.
— Aceita jantar comigo? — perguntei, ignorando seu milésimo pedido de desculpas e vendo-a abrir um sorriso.
— Claro! Vou adorar, prometo não envolver tequila dessa vez — disse brincalhona.
— Pelo menos estaremos em casa se um de nós passar mal — juntei uma mecha de seu cabelo atrás da orelha que o vento insistia em bagunçar.
— Você vai cozinhar? — seus olhos estavam confusos, então dei de ombros só para alimentar sua curiosidade. — Tudo bem, misterioso. Vou indo! — ela se afastou demais, o que me fez sentir o vazio do espaço que seu corpo não ocupava mais.
— Tchau, zinha.
Num ato inesperado, seu corpo – que já estava de costas para mim – girou em minha direção. O vazio era ocupado novamente pelo seu corpo esguio. Perto o suficiente. Suas mãos contornaram meu rosto quando seus lábios grudaram nos meus. Apenas encostaram, sem conversar. Nem precisavam. Mas depois dali, eles queriam viver.
— Tchau, Harryzinho.


Capítulo 8 – This is called edging!


Encarei a porta, alta o suficiente para me deixar com dor na lateral do pescoço, quando tentei medir seu tamanho com os olhos. Os números metálicos indicavam que eu estava na casa certa. Alisei meu vestido vermelho como se aquilo melhorasse o amassado dele, posicionei os franzidos do busto, levantando um pouco meus seios, e foi ali que percebi que as garotas tinham o escolhido bem. Fazia um tempo que eu não o usava, tanto que não me incomodava mais com o fato de as flores amarelas da estampa serem pequenas demais, até levantou minha autoestima depois dessa semana desgastante. Eu estava uma gata!
Estendi a mão para tocar a campainha e, em poucos segundos, a porta se abriu. Uma ruiva surgiu à minha frente, o que me pegou de surpresa.
— Oi, ! Como você está? — ela escancarou a porta antes de seus braços me surpreenderem.
— Oi, dona da banda! Estou bem, e você?
— Estou cansada de ajudar os homens na cozinha, ainda bem que você chegou! — a mulher entrelaçou seu braço ao meu, me puxando para dentro da casa. — Trouxe o quê? — ela espiou minha mão esquerda.
— Chardonnay. Espero que gostem! — estendi o vinho em sua direção.
— Eu amo!
Andamos por um corredor de pedra com infinitos bambus de jardim nas laterais, transformando-as em uma falsa parede verde. A casa era toda em uma pintura minuciosamente branca, e, apesar de estar escurecendo, a piscina ainda refletia uma das variações azuladas da água. Quando chegamos no patamar da escada, que dava acesso à sala de estar, tirei meu tênis e o posicionei ao lado de todos os outros calçados que estavam ali.
Meus olhos admiravam a decoração aconchegante daquela casa à medida que eu seguia Sarah. As almofadas geométricas em preto e bege talvez fossem a única coisa que alegravam o sofá cinza, posicionado à frente da lareira. O janelão à esquerda dava uma bela vista aérea da cidade de Los Angeles.
— Oi, cozinheiros! — aumentei minha voz quando vi que eles discutiam algo sobre o tempero certo do que parecia ser um risoto. Os dois pararam no mesmo momento para olhar para mim, me lançando um sorriso.
! Que bom que chegou! — Harry me cumprimentou. Cheguei mais perto para abraçá-lo, mas ele se distanciou. — Nããão, estou com um cheiro péssimo de fumaça.
— Larga de ser besta, eu não ligo — passei meus braços pela sua cintura, e logo senti um beijo na minha cabeça.
— Chegou para nos ajudar, dançarina? — Mitch me lançou sua mão para bater num soquinho em saudação.
— Claro, o que vocês precisam? — examinei a panela que emanava um cheiro cítrico. Devia ser risoto de limão.
— Prova aqui, me diz o que falta no tempero — Harry pegou uma colher e colocou um pouco do arroz, direcionando para minha boca. Então, pousei minha mão em seu punho para encaixar a colher em meus lábios. — Cuidado, tá quente! — ele avisou um pouco tarde, já que minha língua queimava um pouco. É, definitivamente era de limão siciliano, dava mais personalidade ao prato.
— Hmmm… Está uma delícia, mas tá faltando um pouco de pimenta — falei, vendo os olhos curiosos dos dois homens que pareciam ter clareado a mente com a minha fala.
— Nossa! Eu achei que faltava sal — disse Mitch, um pouco chateado.
Observei o movimento do cantor, que ainda estava em minha frente pegando o moedor de pimenta e depositando em cima do arroz. Sarah surgiu ao meu lado, me estendendo uma taça de vinho branco.
— Obrigada, Sarinha — beberiquei, sentindo um sabor adocicado invadir minhas papilas. — Delícia!
— Gostou? Esse já estava aberto, o outro você pode beber com Harry mais tarde — ela lançou uma piscadela, e eu ri com sua feição brincalhona. — Senta aqui, , enquanto observamos esses homens se atrapalharem na cozinha.
Senti a cadeira preta e acolchoada me abraçar quando sentei, e logo a baterista se posicionou ao meu lado. Tínhamos uma visão de face a face para os cozinheiros, mas a bancada de mármore negro nos distanciava do cooktop do lado oposto.
— Você sabe que cozinhamos melhor que você, Jones! — o cantor respondeu.
“Sarah, pelo amor de Deus, venha com Mitch me salvar dessa enrascada que eu me meti” — a ruiva ao meu lado engrossou a voz com a mão em forma de telefone, imitando Harry, o que me fez gargalhar. Sua provocação respondia a pergunta que rondava a minha cabeça: por que eles estariam ali, se eu podia jurar que Harry havia me dito que seríamos apenas nós dois?
— Pare de envergonhar ele, amor, ou a dançarina vai deixá-lo antes do camarão dourar — disse o guitarrista sob o olhar fulminante do cacheado.
— Se tenho amigos como vocês, para quê teria inimigos, não é mesmo? — ele balançou a cabeça, envergonhado.
— Então, o que quer escutar, ? — Sarah me direcionou o celular, me permitindo digitar na barra de pesquisa.

Coloque essa música para tocar
Big Yellow Taxi – Joni Mitchell

— Hey! Eu amo essa música! — Harry pronunciou quando a introdução de Big Yellow Taxi tocou nos alto-falantes.
A batida folk da música que escolhi os incentivou a continuarem a cozinhar e a dançarem juntos, balançando os braços próximo às cabeças, exibindo uma dancinha engraçada. Durante pelo menos uns trinta minutos ainda, eles conduziram o jantar enquanto Sarah me mantinha entretida com uma girlie talk, me oferecendo queijos e outros aperitivos para sustentar a fome até que o prato ficasse pronto.
— O que você acha de sermos asiáticos por uma noite comendo ali? — a ruiva apontou para a mesa de centro próxima ao sofá.
— Amei a ideia!
Enquanto Mitch e Harry ainda estavam no banho, arrumamos a mesa e nos sentamos logo em seguida com nossas taças em mãos. Em pouco tempo, Harry ocupou o espaço vazio ao meu lado, permitindo que o cheiro confuso do pós-banho, tabaco e notas frutadas do seu perfume preenchesse o ambiente. Acho que aquele já era meu cheiro favorito.
— Demorei? — o ouvi inspirar e passar a mão pelo nariz. Aquilo definitivamente já era uma mania sua. Então, neguei com a cabeça enquanto já bebia a terceira taça de vinho, o que me deixava inebriante.
— Podemos comer agora? Dolly está reclamando de fome — Sarah disse alisando sua barriga, e eu arregalei os olhos.
— Dolly? Você não está…? Está?
Todos riram da minha reação enquanto eu ainda esperava uma resposta.
— Não, é apenas um ser que existe dentro da Sarah. Achamos que é um alienígena que suga toda a comida que ela coloca pra dentro — Mitch passou a mão na barriga dela, beijando-a em seguida.
— Só tenho bastante fome, apesar do meu corpinho pequeno — ela resmungou.
— Eu podia jurar que ia ser o nome do filho de vocês e que ele já se encontrava em sua barriga — suspirei em alívio, ainda causando algumas gargalhadas.
— Ainda não, mas é algo que pretendemos, né, amor? — a ruiva jogou o papo para o namorado.
— Sim! Acho que, imaginando nosso histórico, talvez em algum momento aleatório você me diga de repente, “ei, o suco verde está pronto e estou grávida!” — ele disse descontraidamente, imitando a voz de Sarah.
— É a cara de vocês mesmo! — continuou Harry.
— Como começou tudo com vocês? — perguntei, demonstrando curiosidade.
— Eu tenho meu ponto de vista! — Harry se empolgou para falar. O casal começou a rir e lhe cedeu a fala. — Obrigado! Eu amo contar isso! Vamos lá! — posicionou suas mãos juntas, estalou seus dedos reunidos e preparou-se para contar a história. — Quando formei a banda para a carreira solo, Mitch se mudou para Londres, para o meu antigo apartamento, então apresentei ele aos meus amigos que moravam no andar de cima. Todos os dias eles falavam, “nossa! Mitch estava muito louco ontem, você tinha que ter visto”. Certo dia, eu questionei “E, aí? O que Mitch aprontou ontem?”, então me responderam que não tinham saído com ele, o que me deixou intrigado. Eu, com o espírito de velha fofoqueira, perguntei para onde ele tinha ido, e ele respondeu que havia convidado Sarah pra jantar. Fiquei me sentindo um pouco cupido depois disso — Harry terminou se gabando por ter sido a pessoa que apresentou eles dois.
— E foram poucos dias depois de eles se conhecerem? — questionei.
— Sim, acho que uma semana, talvez. Foi muito rápido.
— E a versão de vocês?
— Nem sequer imaginava que ele estava interessado em mim, até me chamar pra sair. Eu aceitei porque achava bonitinho esse jeito tímido dele — a baterista disse, fazendo carinho no rosto dele. — Passamos o jantar inteiro falando dos nossos interesses musicais, e a noite inteira em sua cama.
— Nããão, pula essa parte, eu não quero saber! — Harry soou desesperado ao meu lado, o que me faz gargalhar e o casal revirar os olhos.
— Continuando… Acho que foi o mais natural possível. Foi leve! Já tinha passado por relacionamentos conturbados, mas Mitch mudou isso e não precisamos ficar estabelecendo limites, apenas quando estávamos trabalhando. Pouco tempo depois, estávamos namorando.
— Eles eram muito fofos no começo, porque Mitch ficava se virando toda hora para olhar para Sarah nos ensaios — Harry o imitou, virando o corpo algumas vezes.
— Eu gostava de tocar admirando-a — Mitch disse desconcertado, dando um selinho na namorada.
Era engraçado como ele passava a maior parte do tempo inexpressivo. Juro! Nada o faria mudar sua feição para que demonstrasse qualquer tipo de sentimento, a não ser que estivesse se dirigindo a Sarah, porque era aí que ele fazia questão de sorrir para ela. A baterista, por sua vez, não se parecia tanto com ele. Ela se expressava até demais com seu jeito fofo e mandão ao mesmo tempo, o que fazia esse casal ficar tão interessante aos meus olhos. A dinâmica deles era diferente dos casais que eu conhecia. De longe aparentava ser óleo e água, que nunca se misturariam, mas observando suas interações, era perceptível que personalidades diferentes poderiam criar uma bela química, até porque não era por essa razão que duas pessoas davam certo. Era muito mais que isso.
Após bater mais algum papo, nos direcionamos para a cozinha para lavar os pratos. Harry tentou me impedir de fazer isso, mas eu podia ser persuasiva quando queria e tive ajuda de Sarah para isso.
— E você, ? Já namorou? — ela me perguntou.
— Não, acho que não sirvo pra isso — fui sincera.
— Ora, não fale besteira! Talvez só não tenha encontrado alguém bom o suficiente.
— É, talvez você tenha razão — sorri para ela.
— O amor não é preto no branco, sabe? Ele não precisa ser definido, só precisa ser. Existe aquela pessoa especial que chega num momento aleatório e trocamos sintonia, seja de natureza sexual ou intelectual. Ela nos leva a um nível de intimidade que pode nos causar estranheza no começo, mas depois esse sentimento nos causa paz. Bem, o que quero dizer é que o amor é só uma pontinha do iceberg, o desenvolvimento do relacionamento que é gostoso.
— Eu acho que fujo antes que chegue no nível “intimidade” — admiti quase que para mim.
— Tente não fugir na próxima vez que surgir a oportunidade — ela guardou o último copo que estava em sua mão.
Pouco tempo depois de nos sentarmos na varanda, o guitarrista chamou sua namorada para ir embora, que rapidamente aceitou. Me despedi deles com um abraço e os assisti sair da minha vista. Enquanto Harry os levava até a porta, levantei-me do banco e caminhei até o vidro de proteção, me debruçando nele enquanto iluminava meus olhos com a vista da cidade. As luzes das casas vista de cima assemelhavam-se a constelações de estrelas, algo que nunca tinha presenciado. Senti uma mão contornar minha cintura e, assustada, logo virei para encarar Harry, que me servia outra taça de vinho todo sorridente.
— Linda vista, não? — me perguntou, olhando para frente assim como eu.
— Sim, tenho quase certeza que se decidiu por essa casa quando olhou para ela.
Touché! De fato, foi o que me fez comprar. É estranho saber que, daqui de cima, tudo é extremamente calmo. Talvez o único som que se escute seja de algum pássaro, e Los Angeles de perto é um caos total.
— Você não gosta do caos?
— Prefiro a quietude na maioria das vezes, tenho até reconsiderado minha estadia aqui.
— Como assim? Achei que você gostasse da cidade — beberiquei meu vinho, examinando seu rosto.
— Não a odeio, mas sinto que meu relacionamento com L.A. mudou muito. Aceitei que não tenho mais que viver aqui para alcançar alguns trabalhos, algo que por muito tempo acreditei para que as coisas ficassem bem. Acho que pode ser saudades de casa, enfim.
— Bem, eu sinto saudades de casa, mas infelizmente, ou felizmente, a cidade me proporciona oportunidades realmente quase perfeitas.
— É, acho que você tem razão — ele demorou-se um pouco, parecendo processar o que eu havia acabado de falar. — Olha, inclusive, me desculpa por Mitch e Sarah estarem aqui. Eu me atrapalhei na cozinha e fiquei desesperado.
— Você poderia ter me pedido ajuda, Hazza.
— É, seria mais simples, mas eu queria fazer algo legal sem que você tivesse nenhum trabalho. Mas fiquei chateado por saber que seria mais uma situação em que pessoas iam nos atrapalhar.
— Pode acreditar que fiquei chateada no mesmo nível na semana passada. Inclusive, obrigada de novo por ter ajudado Kels no outro dia.
— Não foi nada de mais — disse, fazendo pouco caso da sua atitude de carregá-la até o carro. Fiquei repassando essa cena na minha cabeça quase durante a semana inteira.
— Bom, se não fosse isso, já estaríamos habituados hoje e eu poderia te beijar sem precisar do momento certo — disparei com a coragem de quem havia tomado praticamente uma garrafa de vinho.
— E qual seria o momento certo? — ele sorriu ladino, mostrando sua covinha mais do que gostaria que tivesse.
— Você vai encontrá-lo até o fim da noite — dei uma piscadela, me dirigindo até o banco acolchoado. Harry balançou a cabeça e sorriu, me acompanhando. Logo pude sentir sua presença ao meu lado novamente.
— Tudo bem, eu lido bem com desafios.
Por um momento, desviei da conversa e passei a observar cada movimento que ele fazia. Sua perna esquerda estava dobrada enquanto a outra estava esticada, alcançando o chão – aquilo permitia que seu corpo ficasse virado totalmente para mim. Harry segurava perfeitamente a taça de vinho, pelo caule, mas o que me prendia a ele, na verdade, era assistir seus lábios temporariamente molhados a cada gole e seu rosto se tornar avermelhado, sereno e relaxado.
— Por que não me conta como escolheu a dança? — graças a sua pergunta, ele me desviou de fitar sua boca por tempo demais.
— Vou ser muito clichê se falar que ela me escolheu? — tombei a cabeça para o lado, rindo um pouco.
— Gosto de clichês — ele sorriu, me incentivando a continuar.
— Eu era uma criança muito ativa, e isso mobilizou meus pais a me matricular no Jazz¹. Essa foi minha primeira experiência com a dança, mas com o passar do tempo, era nítido que eu sempre fui muito liberta, amava criar passos. Então, quando pude me reconhecer como dançarina, me encontrei melhor no Street Dance².
— E como veio parar nessa cidade?
— Lembra que te disse que a única certeza que eu tinha era que ia estudar na Millenium? — perguntei, ao que ele assentiu. — Bem, eu havia participado de uma convenção de dança com um dos professores do estúdio, Brian Friedman. Não tinha nada de cunho competitivo, apenas de aprendizado mesmo. Porém, aos poucos, ele foi captando alguns dançarinos que tinham se destacado mais no final de semana.
— E é claro que você se destacou. Nem precisa ser profissional para notar você, . Eu te vi.
Pressionei meus lábios com um sorriso tímido. Me sentir acanhada por elogios não era comum, mas Styles parecia fazer isso perfeitamente bem.
— Apesar disso, eu não fui imediatamente para Los Angeles — continuei. — Demorei uns anos para maturar a ideia na cabeça, ajeitar a minha vida…
— Algo aconteceu que te impedisse de vir?
— Eu… eu… quebrei meu pé logo após essa oportunidade — falei após hesitar um pouco —, além do falecimento do meu pai. Então, eu não conseguia sair de perto da minha família imediatamente.
— Nossa, sinto muito pelo seu pai. Nunca perdi ninguém da minha família, pelo menos não tão lúcido com minha idade. Mas sinto muito, mesmo — ele respondeu, quase se desculpando por não saber.
— Obrigada, Hazza, de verdade — respondi, sincera. — Mas depois de uma maré de depressão, minha mãe implorou para que eu reagisse e fosse atrás do meu sonho. Por mais que fosse duro me ter longe de casa somado ao luto, a minha felicidade compensaria a saudade, sabe?
— Deve ser muito difícil para os pais enxergarem o quão triste podemos ficar se não conseguimos o que tanto queremos.
Concordei com a cabeça, analisando um pouco tudo que eu tinha passado.
— O papo pesou do nada, né? — ri um pouco. — Culpa sua que me veio com uma pergunta profunda!
— Euuuu? Sou apenas um apaixonado por histórias! — ele brincou. — Quer mais? — levantou a garrafa de vinho em minha direção, que prontamente aceitei.
— Estou brincando. Mas é sempre bom lembrar sobre algo que me fez crescer, e fazia um tempo que ninguém me perguntava sobre isso — admiti. — Você já teve esses momentos, de se pegar pensando sobre uma época que te impulsionou para frente?
— É claro! Inclusive, acho que estou vivendo isso agora. Sabe quando algo vai muito bem e seus pensamentos imediatamente se voltam para “o que vem a seguir”? Tudo se move tão rápido que muitas vezes não temos a chance de parar e pensar, “caramba, isso foi realmente incrível.” Finalizei a turnê, estou feliz, mas fico sempre pensando adiante e além, enquanto eu simplesmente posso pensar que foi ótimo.
— Ainda não conseguiu escrever nada? — indaguei, e ele negou com a cabeça.
— Não, mas é isso que estou internalizando. Essa vida de turnê, shows, entrevistas, não é a minha vida real, entende? É apenas o meu trabalho, que é incrível, por sinal. Só uma extensão de mim — Harry soou pensativo, talvez sincero até demais, como se estivesse processando essa concepção sobre sua vida. — E agora eu quero me impulsionar para a vida real, não sei se faz sentido…
— Sim, eu entendi seu ponto. Mas nunca havia parado para pensar sobre isso — beberiquei o vinho. — Sigo com o meu conselho de antes… — falei presunçosa.
— Viver? — ele perguntou e eu assenti. — Você vai me ajudar com isso? Tipo, você literalmente vai ser Baby, acreditando fielmente em realidades paralelas, e eu Johnny, que não consegue mais enxergar um palmo além da sua realidade frustrada?
— Claro! Me sinto lisonjeada com o desafio — gargalhei. — Agora, por que você tinha que filosofar com Dirty Dancing? — fiz uma cara confusa, não acreditando no que ele tinha relacionado.
— Vou confessar — ele sussurrou, como se estivesse contando um segredo. — Durante aquela semana, eu assisti ao filme novamente.
— QUÊ? Não acredito, Harry! Já é seu filme favorito? — perguntei em meio às risadas, animada com a possibilidade.
— Não fique tão confiante, esse posto continua sendo de Diário de uma Paixão — ele sorriu inabalável com a hipótese.
— Tudo bem… Agora, já que trouxe o filme à tona, tenho algo a confessar — levantei as sobrancelhas, um pouco hesitante com o que ia falar.
— Ok… Todo a ouvidos.
— Nunca consegui reproduzir aquela cena, sabe? Tenho esse sonho desde a primeira vez que assisti o filme.
— Que cena? Ah, não, não me diga que é a cena da dança final.
— Exatamente!
— Uau! Quê? Como não? Em todos seus anos de carreira, como isso nunca aconteceu? — ele falava perplexo com a informação.
— Ah! Ninguém nunca foi forte o suficiente para me segurar — falei um pouco chateada.
— Alexa! Play I’ve Had The Time Of My Life.

Para entrar no clima
(I've Had) The Time Of My Life – Bill Medley, Jennifer Warnes

Em poucos segundos, pude ouvir a assistente virtual concordar com Harry e começar a introdução da música. Seu corpo se moveu como um vulto e ele ficou de pé, logo se adiantando e indo em direção à sala de estar, me deixando sozinha.
Deixei a taça ao lado da sua e também me pus em pé, observando seus passos.
— Calma, o quê? — por um instante, parecia que meu queixo havia atingido o núcleo da Terra. Coloquei a mão na boca, escondendo minha risada baixinha de nervosismo. Ele não podia estar falando sério, não é?
— Venha!
Harry voltou até a varanda para me puxar para a sala quando me viu parada como uma estátua, incrédula com aquela ideia de jerico. Tentar o lift³ após algumas taças de vinho só poderia resultar em queda. Abri a boca, tentando falar alguma coisa enquanto o assistia se posicionar de frente para mim, numa distância que me permitia correr até ele quando fosse a hora.
— Você não tá falando sério, está?
— Nunca falei tão sério em toda a minha existência, . Vamos lá! — ele começou a alongar seus braços como fazia antes de fazer algum exercício físico.
— Ok, calma! Você já fez isso? — questionei, sentindo todas as minhas juntas tensionadas.
— Bem, uma vez fiz uma tentativa, mas eu devia ter uns dezoito anos.
— E como se saiu? — estudei sua mão ir até sua nuca, sabendo da resposta seguinte.
— Deu certo… até certo ponto. , tenha um pouco de fé, ok? Agora tenho braços mais fortes de um homem, e não de um adolescente! — ele esticou seu braço e forçou o bíceps, me fazendo gargalhar.
— Tá bem… Tá! Mas acho que deveríamos arrastar um pouco essa mesa — apontei, e em segundos Harry tratou de retirá-la da nossa vista.
— Está chegando a hora… — ele juntou suas mãos em frente ao corpo, me chamando, perto da ponte final da música. — Vamos lá!
— Ok… — joguei a cabeça um pouco para o lado, ainda um pouco desconfiada. — Você tem certeza?
— Tenho, vamos! Tô pronto! — Harry abaixou parte do seu tronco e olhou em minha direção, com a perna direita de apoio e mãos à frente, só esperando pelo meu corpo ficar mais próximo.
Balancei meus braços freneticamente, tentando ficar menos nervosa. Olhei para ele, dei alguns pulinhos para me aquecer, o assisti rindo da minha preparação e, com mais alguns incentivos, eu estava pronta.
— Por Deus, Harry! Me segure ou vamos passar o resto da noite num hospital!
— Vou me agarrar a essa possibilidade e te segurar firme. Venha!
Em meio a alguns gritinhos empolgados e assustados, corri em sua direção, observando seu corpo ficar mais ereto enquanto ia chegando mais perto. Sustentei minhas mãos em seus ombros para me equilibrar enquanto as suas agarraram as extremidades de cada lado da minha cintura com força. O vento soprava nos meus cabelos enquanto ele me rodopiava em círculos; seus olhos verdes estavam atentos em mim e em me manter firme pelo tempo que fosse.
— Aaaah, sinto que estou voando, Harry! — gritei com a voz um pouco trêmula por medo e excitação.
— Tente manter suas pernas retas ou vamos nos desequilibrar — ele falou, precisando um pouco de esforço. — Oops…
— O que houve? — senti seu braço tremendo ao mesmo tempo que minhas pernas flexionaram.
— Cãibra no braço direito. AI!
Rapidamente, seus passos começaram a ficar pesados, pendendo pouco a pouco para trás. Sua panturrilha bateu na beirada do sofá, e caímos com um grito fino meu.
O corpo de Harry parecia ser puxado para baixo, mas ele fez questão de agarrar minha cintura com um dos braços para que eu não sentisse a queda. Pousamos no assento com um baque. Minhas mãos espalmaram em seu peitoral, tentando não machucá-lo com o choque de nossos corpos.
— Acho que a ideia do hospital ainda pode ser válida — ouvi sua voz baixinha, além de ver seu cenho franzido de dor.
— Por Deus, Harry! Onde machucou? — perguntei, preocupada.
— A-HÁ! Te peguei! — ele gritou, me tirando de transe.
— Que susto! — estapeei fraco seu braço enquanto ele ria de mim. Sua risada escandalosa evidenciava as rugas perto de seus olhos, e foi nesse momento que percebi o quão próximos estávamos.
— Estou bem, não se preocupe — ele cutucou minha cintura, me incentivando a ficar calma. Então, finalmente consegui aliviar a tensão do momento, me contagiando com sua risada.
Deslizei meu corpo para o lado, para não pesar mais em cima dele, mas seu braço me impediu de reagir. Levantei meu olhar para o dele e senti sua mão deslizar pela minha lombar, me causando sensações que não saberia pará-las. Não se ele continuasse a me tocar.
— Sabe aquele papo de momento certo? — ele me perguntou, e eu só assenti. — Acho que encontrei ele — sussurrou.
Encostei minha testa na dele, admirando seu olhar esverdeado luxuriante. Meu corpo agora estava sentado em cima de sua cintura, mais próximo, sem o mínimo esforço em estar mais perto de Harry. Minhas pálpebras pesaram quando sua mão pressionou a lateral da minha cintura, e esperei o beijo que nunca veio.
— O que houve? — o vi se afastar, olhando para ambos os lados, o que me deixou confusa.
— Me certificando que ninguém vai nos atrapalhar — ele disse brincalhão enquanto eu assentia, rindo nasalado.
— Não precisamos mais perder tempo, só temos eu e você aqui! — respondi, não demorando para sentir o choque de nossas bocas.

Coloque para tocar
living room flow – Jhené Aiko

Minhas pálpebras se fecharam quando senti seus lábios tocarem os meus. Tinham a mesma maciez que eu lembrava quando pulei em seus braços e roubei um selinho seu na semana passada. Entreabri a boca, permitindo que nossas línguas se conectassem como um ímã, dançassem pelo tempo que nossas respirações conseguissem se manter. Minha pele esquentava a cada toque dele, me deixando assustada, porque não imaginava quanto tesão eu havia acumulado em tão pouco tempo. Escutei um suspiro sôfrego sair da minha boca quando uma trilha de beijos ia sendo distribuída do meu maxilar até o meu pescoço.
Puxei sua cabeça para cima novamente, sentindo falta da sua boca na minha. Seu corpo se levantou um pouco, ficando mais próximo do meu. Me encaixei melhor em sua cintura, me remexendo de propósito para sentir o seu volume encostar em mim. E foi nesse momento, como música para os meus ouvidos, que um gemido escapou da sua boca, me fazendo morder seu lábio inferior.
— Vamos lá pra cima — Harry murmurou. O calor da sua respiração me tensionou. Nossos olhos encaravam ambas as bocas que estavam mais que atrativas naquele milésimo de segundo.
Utilizei minhas mãos pressionadas em seu peito para me sustentar e deslizar meu corpo para fora do sofá. Ele me conduziu pela casa até seu quarto com nossos dedos entrelaçados. Nada do que meus olhos viam eu lembraria, mesmo assim eu observava cada quadro pendurado na parede do corredor. Obras de arte que tinha certeza que foram escolhidas a dedo, cada uma delas.
Quando dei de cara para sua cama a alguns mínimos metros de distância, ouvi a porta se fechar atrás de mim. Suas mãos empurraram as alças do meu vestido, e eu o observava percorrer meu corpo até finalmente cair no chão. Seus lábios úmidos deixavam rastros de desejo passando pelo meu pescoço, travando no meu ombro.
— Sua pele é tão macia que eu poderia passar a noite toda beijando ela — Harry sussurrou em meu ouvido.
— Não me faça implorar!
A luz suave e tênue do quarto ainda me permitia ver o desenho que seu toque traçava pelo meu corpo, descobrindo cada pedacinho de pele que se arrepiava com suas mãos. Mas foi quando apertou minha cintura que meu desejo tiniu. Virei meu corpo em sua direção e levantei meu olhar até seus olhos, que declaravam libertinagem e tentavam revezar, percorrendo ora por meus seios, ora por minha boca. Juntei nossos lábios, sentindo todo meu tesão por ele me aquecer, ao passo que suas mãos tratavam de apalpar minha bunda e me levantar para seu colo. Entrelacei minhas pernas em sua cintura enquanto Harry nos guiava para o destino final.
Minhas costas bateram na superfície macia do colchão, me fazendo sentir sua falta no instante em que ele se levantou um pouco para tirar a camisa. Seus braços cruzados em frente ao seu corpo seguraram a barra do tecido e a puxaram para cima, dando uma bela visão de suas perfeitas tatuagens negras. Me sustentei em meus cotovelos enquanto meus olhos analisavam os desenhos por tempo demais; no entanto, os ramos desenhados próximos de sua virilha me atraíam em maior grau naquele segundo, além daquela linha de pelos que o dividiam. Na verdade, conduziam meu olhar para o caminho da perdição, e eu não via a hora de Harry tirar a cueca para que eu finalmente me perdesse nele.
Harry se aproximou novamente, levantando minha perna em sua direção, o que o permitiu distribuir uma trilha de beijos molhados do meu pé até o meu joelho, me deixando desnorteada. Com um sorriso dançante nos lábios, seu rosto se aproximava da minha intimidade enquanto seus dedos roçavam minha pele levemente, me deixando cada vez mais quente, cada vez o querendo mais.
Harry puxou minha calcinha parecendo querer se demorar na provocação, o que se confirmava à medida que a arrastava por minhas pernas, lentamente. Fechei meus olhos, controlando toda minha vontade de simplesmente gritar excitação, e só os abri quando senti sua língua quente lamber meu clitóris.
A intensidade que seus olhos emanavam declarava que ele amava fazer aquilo. Dar prazer!
Arqueei minhas costas quando senti um de seus dedos me penetrar enquanto me chupava, torturando cada parte de mim. Meus gemidos longos preenchiam o quarto cada vez que o vai-e-vem da sua língua pressionava perfeitamente meus nervos.
Suas mãos apertavam minha cintura cada vez que eu rebolava em seu rosto para senti-lo cada vez mais. Os lábios que eu estava desejando durante todo o jantar agora estavam me pressionando para me fazer gozar.
Meu sangue começou a ferver quando Harry começou a me sugar em um movimento mais rápido, levantando involuntariamente meu quadril em sua direção.
— Hmmm — soltei um gemido longo, sentindo minhas pernas automaticamente fecharem em seu rosto quando senti meu corpo ferver em meu ápice. — Porra!
— Guarde um pouco desse fogo pra mim, — ele disse, trazendo seu rosto para perto e me roubando um beijo intenso, mas rápido.
Senti minha coxa arder com um tapa que ele me deu antes de se levantar bruscamente em busca do que eu acreditava ser a camisinha. Levantei parte do meu corpo para obter a visão dos sonhos: Styles tirando sua cueca box preta. E era algo que eu nunca reclamaria da sua demora em tirá-la, só para observá-lo por tempo demais.
Supliquei com meu olhar para que Harry voltasse para cima de mim, e foi o que ele fez em tempo recorde. Suas mãos em cada lado do meu corpo me prendiam para encarar aqueles olhos flamejantes e esverdeados que brilhavam de volúpia, e não consegui desviar. Enrosquei meus braços em seu pescoço e o puxei para colar nossos lábios, o que não durou muito tempo, já que seu anseio era beijar toda minha pele, mapeando cada espaço que estava vazio antes dele. Foi quando minha língua passeou pelo seu pescoço e, naquela fração de segundo que cada nervo do meu corpo sentiu, ele deslizou para dentro de mim.
Senti sua mão projetar meu quadril para cima, para que pudesse ir mais fundo, e ouvi nossas respirações descompassadas a cada movimento mais acelerado. Me joguei um pouco para cima para mordiscar seu lábio inferior, e logo sua boca tomou a minha para um beijo. Nossas línguas entrelaçadas se mantiveram unidas até que nossos gemidos deram espaço para amplificar o choque de nossas intimidades. E quando ele tinha achado o lugarzinho que me faria gozar, tirou de dentro de mim.
— Volte aqui, Harry! — soei chateada por não tê-lo mais em mim, apenas aumentando a energia sexual que estava emanando desde que começou a noite.
Harry trilhou beijos molhados dos meus seios para minha barriga, lambendo e usando a mão para apertar os lugares certos. Minhas costas arquearam a cada toque, e seus olhos pesados me observavam me contorcer de excitação.
Eu precisava de mais, precisava estar no controle.
— Deixa eu sentar em você — sussurrei, me aproximando dele. Seu sorriso malicioso anunciava que tinha gostado da ideia.
Ele deslizou seu corpo para o lado e me puxou para ficar em cima dele. Minhas mãos se sustentaram em seu peitoral enquanto eu provocava sua entrada, até que finalmente me senti preenchida.
— Gostosa!
Comecei cavalgando Harry lentamente, provocando o tanto quanto ele tinha me provocado antes. Ele posicionou suas mãos em minha bunda, me incentivando a não parar e aumentar o ritmo. Seu olhar ressacado, cada vez que um gemido escapava da minha boca, pronunciava que seu tesão por mim estava no mesmo nível que o meu.
Seu quadril levantado acelerava a rapidez das estocadas, fazendo meus músculos internos contrair no seu pau.
— Devagar, zinha. Você não quer gozar agora — ele levantou meu quadril, saindo de dentro de mim um pouco, esfriando meu clímax.
— Por queee não? — soei desesperada, porque eu estava. Como assim eu não queria gozar agora? Como assim ele não ia terminar o que estava fazendo, bem ali, no meio das minhas pernas?
— Calma, . Temos a noite toda… — Harry sussurrou em meu ouvido.
— Só não me faça implorar, Harryzinho — e foi quando ele movimentou seu quadril me preenchendo novamente. — Hmmm, não pare mais!
As sensações voltaram a se intensificar, aumentando gradualmente nossas respirações densas. Deitei por cima do seu corpo para poder beijá-lo e por pura safadeza sentir a fricção do meu clitóris em sua pele quente.
— Você quer gozar, ? — murmurou contra minha boca. Gemi em seguida. — Vou entender isso como um sim.
Eu estava quase lá novamente; minhas pernas fraquejaram, me impedindo de continuar sentando nele. Então, Harry aumentou a velocidade, trazendo tudo que eu queria dele desde o momento que o vi. Minhas estruturas tremiam, se contraindo nele, e demoradamente senti o orgasmo invadir meu corpo em ondas. Eufórica, entrelacei nossas línguas, chupando de vez em quando, ainda sentindo minha intimidade arder do ápice.
— Agora eu quero que você goze pra mim, Harry — murmurei em sua boca e mordisquei seu maxilar, o incentivando a continuar me penetrando.
— Repete pra mim — sua voz saiu baixa, sem força.
— Goza pra mim.
Suas mãos apertaram cada lado da minha bunda com força. Ouvi ele arfar a cada movimento, sentindo-o tremer embaixo de mim.
— Eu vou… caralho!
Fechou os olhos e finalmente relaxou.
Joguei meu corpo e me deitei ao seu lado; sua mão passou por cima da minha cintura ainda em silêncio. Nossas respirações foram se retomando gradualmente, e os sentimentos de satisfação, calma e cansaço abraçavam meu corpo.
— O que foi aquilo quando você parou várias vezes do nada só para me tirar do ápice? — questionei quando já conseguia formar uma frase.
— Gostou, né? — ele disse rindo e me provocando. Respondi com um tapa em seu braço.
— Estou curiosa, sim — dei língua.
Edging! — respondeu. Franzi a testa confusa, ainda sem respostas.
— Vou precisar de mais que uma palavra solitária, Styles.
— Posso te explicar depois com palavras… — ele veio se aconchegando por trás de mim, já sentindo sua ereção em minhas costas. — Ou… na prática, novamente. Assim você vai entender melhor.
Seu perfume de baunilha, agora misturado com cheiro do nosso sexo, invadia minhas narinas. Me virei mais ainda de lado enquanto sentia seus beijos pelos meus ombros. Nunca negaria segundas, terceiras, ou quartas vezes com ele, então esperava minha aula sobre o assunto depois.



1. Jazz Dance: é uma dança que surgiu nos EUA, na mesma época do gênero musical jazz. Nasceu da cultura negra no século passado e recebe influências de diversos outros estilos e princípios técnicos do ballet e da dança contemporânea.
2. Street Dance: é um estilo de dança que teve sua origem nos guetos americanos na década de 30. Mistura estilo e toda realidade de gestos harmoniosos e coordenados, reproduzindo uma comunicação com a música.
3. Lift: do inglês, a elevação. No filme ‘Dirty Dancing’ , é a cena icônica e o passo que Johnny levanta Baby e a sustenta sobre seus ombros.


Continua...



Nota da autora: Oiiii gente! Os primeiros capítulos foram reescritos, se quiserem ler novamente para a leitura ser mais fiel a tudo, eu recomendo! Até a próxima att. Beijooos
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Fiz uma playlist para DC, se quiserem ouvir enquanto leem, o link segue abaixo ❤️


Outras Fanfics:
MV: Baila Conmigo
MV: Closer


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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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