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Última atualização: 09/03/2022

Prólogo

O hóquei feminino sempre foi considerado — ou melhor, lembrado — como apenas um esporte olímpico, mas não para . Para , o esporte era a sua vida, ela vivia e respirava hóquei vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Afinal, a ex-jogadora havia acabado de se tornar a atual técnica do Boston Pride, e não dava moleza para o time feminino.
Longe de começar a nova temporada, aproveitava mais um almoço de domingo com sua família. Cercada de boas risadas, péssimas piadas de seu irmão, Dylan, e muito vinho, era assim que gostava de passar o tempo.
— Então, ansiosa para a nova temporada? — Foi seu pai, Michael, o primeiro a tocar no assunto.
— Um pouco, mas é normal. Eu sempre vou ficar ansiosa para cada temporada. — Ela deu de ombros, colocando mais um pedaço de queijo na boca. — Mas, por favor, agora eu só quero aproveitar minhas férias. Em breve estarei de volta ao trabalho e terei que colocar um time inteiro em ordem.
— Você não deveria se preocupar, todo mundo morre de medo de você, maninha.
— Não preciso que elas morram de medo de mim, preciso que elas joguem e levem aquilo a sério. Além de amar o que fazem, é claro.
— Ok, agora pare de comer queijo ou vai passar mal. Você sabe que não pode comer essas coisas, . — Sua mãe, Sarah, ralhou. Sem deixar sua mãe ver, revirou os olhos e prendeu o riso ao ver o irmão fazer o mesmo. Eles não gostavam de serem tratados como crianças, mas também não paravam de agirem como tais.
— Hoje tem pudim. — Dylan falou, e os olhos de brilharam na mesma hora.
— Hum, parece que alguém gostou mesmo dessa sobremesa. — olhou para a mãe, sabendo que a mulher não gostava muito de fazer doce, mas desde que aprendera a fazer a sobremesa, aquela tinha se tornado quase um prato principal.
— Culpe o seu pai, ele não perde a oportunidade de pedir. — A matriarca deu de ombros, colocando os pratos na mesa.
— Obrigada, pai. — sorriu para o pai. Ela era considerada uma formiga por todos, não era à toa que desde criança comia açúcar puro escondida na cozinha.
— Vamos almoçar, porque ‘tô sentindo que daqui a pouco você vai fugir de nós. — Sarah estreitou os olhos, sabendo que não conseguiria ficar um pouco mais de duas horas ali dentro. A questão não era que ela não gostava, mas lhe agradava muito mais o silêncio da sua própria casa.
— Desculpa, não gosto de deixar o Sulley e o Wazowski sozinhos. — Ela realmente sentia muito.
— Não acredito que esses são os nomes dos seus gatos. — Dylan retrucou.
— Você chama o seu cachorro de Bambi, vai mesmo falar dos nomes dos meus gatos? — olhou séria para o irmão.
— Alessia tinha apenas sete anos quando adotamos o cachorro, não ia estragar a felicidade dela. — Ela revirou os olhos, como se aquilo não fosse desculpa o suficiente para colocar o nome de um cachorro de Bambi.
— Ótimo, vocês dois continuam os mesmos. — Michael riu, terminando de tomar a sua taça de vinho e ajudando a esposa terminar de colocar a mesa para o almoço.
— Alguns hábitos nunca mudam, pai.
Todos sentaram ao redor da mesa, após Sarah colocar a lasanha no centro, pronta para ser devorada. serviu mais um pouco de vinho, aproveitando que não iria voltar dirigindo para a casa, já que Dylan tinha dito que a volta ficaria por conta dele. Enquanto Michael contava sobre o último jogo de basebol que tinha assistido, Dylan e tentavam fazer alguns comentários também, mas eles não eram muito fãs do esporte. Tanto Michael quanto Sarah sabiam disso, mas eles sempre tentavam se manter ocupados enquanto a temporada de hóquei não começava, diferente de que vivia para o esporte.
— Já ficou sabendo da notícia, ? — Sua mãe parecia animada, mas o olhar que Dylan lançou em direção a mulher não foi dos melhores, por mais que ela não tenha visto.
— Que notícia, mãe? — perguntou, curiosa.
— Acho que não é um assunto para o almoço. — Dylan respondeu, e franziu a testa.
— Ok, conta logo, estou curiosa agora.
está de volta. Parece que conseguiu um emprego melhor aqui, Ethan também acabou se mudando. Parece que eles vão se casar no próximo outono…
Não importava mais o que Sarah contava, não estava mais prestando atenção. Os pais de nunca souberam o real motivo pelo qual a filha parou de falar com a sua melhor amiga. Aparentemente, achavam que tinha sido por causa dos rumos diferentes que suas vidas tiveram, mas apenas Dylan sabia de todos os sentimentos que , um dia, nutriu por , e aquela não era a notícia que ela esperava receber em um almoço de domingo.



Capítulo 01



, você já marcou a prova do vestido? Marcou a prova do buffet? E os convites? Os vestidos das madrinhas já foram escolhidos?
olhou no relógio mais uma vez, respirando fundo antes de fechar a porta do banheiro e se esconder lá dentro. Enquanto do lado de fora do quarto, sua mãe, Grace, falava sozinha. não se deu ao trabalho de responder aquelas perguntas, elas já tinham sido feitas, no mínimo, um zilhão de vezes na última hora. Ela ainda precisava se arrumar e sair para o trabalho, as coisas do casamento poderiam ficar para mais tarde.
Bem, era o que pensava.
Quando a água bateu em seu corpo, foi o único momento naquela manhã que ela se permitiu relaxar. Fez de conta que não existia uma lista enorme de tarefas para ser cumprida, nem que existia uma Grace ao lado de fora do quarto, provavelmente, furiosa com as tarefas que ainda não havia cumprido. E, muito menos, que não tinha um casamento para planejar. O seu próprio casamento.

Casamento ou matrimônio é um vínculo estabelecido entre duas pessoas, mediante o reconhecimento governamental, cultural, religioso ou social e que pressupõe uma relação interpessoal de intimidade, cuja representação arquetípica é a coabitação, embora possa ser visto por muitos como um contrato.

Aquela definição se encaixava perfeitamente com a vida que , provavelmente, teria. Afinal, casar nunca foi seu sonho e nem sua prioridade, ainda que conhecesse Ethan desde o último ano da faculdade. Mas desde então sua vida teve uma mudança drástica e teve a sensação que foi naquele ano que perdeu totalmente o controle das coisas que aconteceram a seguir. Ela não sabia se ficava feliz de estar de volta a Boston, por mais que tivesse passado os melhores momentos da sua vida ali, ela também estava ciente de toda a carga emocional que aquele lugar sempre acarretaria em sua vida. Principalmente, pelo fato de ter entregue o convite de casamento para a família . Bem, apenas para Michael e Sarah, ela não teve nem coragem de mencionar na sua lista de casamento.
Isso a corroía por dentro. Mas foi uma decisão que ela precisou tomar, para o seu próprio bem.
, eu estou falando com você há horas. — Grace adentrou o banheiro, sem se importar se a filha já tinha tomado o seu banho.
— Mãe, pelo amor de Deus! Eu estou tomando banho. — Ela desligou o chuveiro, se enrolando na toalha. — Eu sei que você está falando há horas, está repetindo a mesma coisa desde que chegou. Eu preciso trabalhar, e você deveria ir para sua casa.
Num rompante de raiva, extravasou. Sua mãe sabia extrapolar todos os limites, mas com o tempo aprendeu a ser firme com a mãe, mesmo quando não queria.
— Você está me expulsando da sua casa? — O olhar firme de Grace fez se sentir uma garotinha novamente, mas ela não tinha mais doze anos, ela não precisava passar por aquilo.
— Não, estou dizendo que tenho outros compromissos e não estou disponível o dia todo. Já respondi o que você queria, agora eu preciso trabalhar. — Se a expulsasse de casa, Grace certamente faria mais uma das suas chantagens emocionais. não tinha mais tempo e nem paciência para lidar com aquilo.
Quando Grace murchou os ombros ao ouvir a resposta da filha, tinha mesmo entendido que havia exagerado. Então virou as costas e fechou a porta do banheiro, deixando sozinha novamente. Um gemido exasperado escapou dos lábios de , ela não lembrava mais do último dia que tinha realmente ficado sozinha naquele apartamento. O último dia que aproveitara o silêncio da sua própria casa já não era uma memória tão recente quanto gostaria. Desde que comunicou sua família sobre o noivado, foi como se tivesse dado passe livre para a sua mãe voltar a ser presente na sua vida, mas a verdade é que não gostava de quando Grace controlava tudo. Uma vez livre das garras da mãe, jurou nunca mais voltar para o mesmo lugar.
— Você quer uma carona para a clínica? — Grace perguntou quando apareceu, vestida com o uniforme do trabalho, na sala minutos mais tarde.
— Não, obrigada. — Ela gostava de ir sozinha para o trabalho, durante o caminho colocava uma música e tentava esquecer os problemas que a incomodavam. Não gostava de deixar que seus problemas pessoais afetassem seu desempenho no serviço. — Eu vou tentar marcar essa prova do buffet logo, então te aviso, ok? — Grace pareceu mais alegre dessa vez, como se sua insistência tivesse surtido algum efeito positivo. Mesmo que achasse totalmente o contrário.
— Tudo bem, seu pai não está muito feliz com tudo isso, mas tenho certeza que ele não vai aguentar te ver de noiva.
— Não é como se o papai estivesse feliz o tempo todo, raramente algo o agrada. — A verdade é que Robert era mais pão duro do que aparentava, se não fosse por Grace, ele não gastaria um real de toda a sua fortuna.
— Ele trabalhou muito para ter o que tem hoje. — Grace sempre defenderia o marido, então era uma discussão que não estava disposta a entrar.
Após se arrumar e sair de casa, o pequeno percurso até o estacionamento do prédio em que morava foi silencioso. Ainda que se sentisse um pouco mal por ter sido rígida demais com a sua mãe, ela também se sentia bem em conseguir impor um limite, e, de certo modo, conseguir ter mais controle da sua própria vida. Algo que alguns anos atrás, isso não era possível. Por fim, deixou aqueles pensamentos para trás, ela teria um dia cheio na clínica. Se concentrar em seu trabalho era sua prioridade no momento, então se despediu de sua mãe no estacionamento e dirigiu até o trabalho.
Durante o pequeno trajeto, deixou o rádio ligado, em meio às notícias ela se permitia prestar atenção na letra das músicas ao mesmo tempo que tentava não pensar em nada. A manhã tinha sido exaustiva, mas qualquer momento consigo mesma era sempre bem-vindo. até se permitiu cantarolar, mesmo que errado, as músicas que tocavam no rádio, e toda vez que percebia que a letra estava errada, ela ria de si mesma. Pelo menos, naquele momento, a tensão que sentia em seus ombros se dissipou.
Oh, saturday sun, I met someone. Don't care what it costs, no ray of sunlight's ever lost. cantarolou quando saiu do carro, o estacionamento da clínica em que trabalhava não estava tão cheio. Isso era um bom sinal.
— Que bom humor. — Janice comentou, sorrindo, ao estacionar ao lado de .
— Ah, é o jeito, né? — deu de ombros, sorrindo para a colega de trabalho.
— Fiquei sabendo que Lenna está de volta. — Os olhos de brilharam, estava aliviada com a notícia. Lenna era uma senhora cheia de comentários sarcásticos e histórias vividas na juventude que contava para os enfermeiros, mas que no fundo tinha um coração bom. tentava não se apegar aos pacientes, sabendo que qualquer dia que ela chegasse, eles não estariam mais lá. Principalmente agora, no novo emprego onde estava trabalhando há pouco mais de um mês, mas a conexão que teve com Lenna foi quase instantânea que nem sequer tentou esconder o carinho que nutria pela senhora.
— Que ótima notícia. — colocou a mochila no ombro, caminhando ao lado de Janice para dentro da clínica.
— Você sabe o que isso significa, não é? — olhou para Janice, esperando uma resposta. — Mais trabalho, é claro. Lenna é tão teimosa.
— Bom, eu já estou familiarizada com tanta teimosia, que dificilmente Lenna me dá trabalho. — Naquele momento pensou na relação com a sua mãe, e nada chegava perto da teimosia daquela mulher. Lidar com Lenna não era nenhum trabalho para .
— Eu não sei qual é o problema dela com todos nós, mas com você ela é sempre tão… — parou de caminhar, virando-se de frente para sua colega, mas a expressão que encontrou no rosto de Janice foi quase de inveja.
— Tudo tão...?
— Sei lá, com você é tudo mais fácil. — Janice deu de ombros, voltando sua atenção para o celular.
— Não é, acredite em mim. Mas tem que ter um jeitinho com Lenna, e ela vai te ajudar a fazer o seu trabalho, só isso.
— Ah, isso é quase impossível.
balançou a cabeça, rindo baixo e voltando a fazer o seu caminho. Lenna estava longe de ser a paciente mais fácil de lidar na clínica, mas não era impossível, um pouco de conversa aqui e ali, e pronto você já tinha feito o seu trabalho no final. Quando entrou na clínica, a correria pela troca de turno era tão habitual que ela conseguiu desviar dos colegas de trabalho e ir direto para o vestiário, guardou sua mochila no armário e trocou de roupa rapidamente. Enquanto caminhava para a ala infantil, passou em frente ao quarto de Lenna e foi inevitável ouvi-la reclamar do enfermeiro que tentava tirar sangue de seu braço.
— Senhora Carter. — a cumprimentou, controlando o sorriso em seu rosto. Lenna pareceu aliviada quando encontrou com o olhar de , mas não tirou a carranca mal humorada do rosto.
— Ei, deixa comigo. — Dylan não demonstrou nenhuma resistência em tentar fazer seu trabalho, e logo saiu do quarto, deixando apenas e Lenna no cômodo. — Então, Lenna, vejo que você anda dando trabalho para os meus colegas.
— Não é culpa minha, . — Lenna nunca a chamava pelo nome, o que soava até engraçado para . — Mas que bom que você já chegou. E, bem… não foi dessa vez que eu parti para o outro plano.
— Lenna! — Dessa vez, não conseguiu controlar o riso. A conversa fiada era tão natural entre as duas, que Lenna parecia não notar que tirava sangue de seu braço. E se notava, bom, então ela fingia muito bem.
— E o casamento? Eu não sou surda, escutei a fofoca entre os seus colegas, mas então eu fui parar no hospital antes de conseguir comentar com você. — Os olhos verdes de Lenna não eram julgadores, mas curiosos.
— Eu juro que faria você voltar para esse plano a todo custo só para mim mesma poder contar a novidade. — tentou parecer animada, mas algo dentro de si não a deixava mais tão entusiasmada quando contava sobre o noivado.
— Não, por favor! Eu ficaria bem lá, não se preocupe. — Lenna calçou o chinelo peluciado, caminhando até a janela, esperando que falasse sobre a novidade. Quem visse de fora entenderia que eram duas grandes amigas, e que tinha todo o tempo do mundo para ficar horas e horas conversando com a senhora Carter. No fundo, ambas gostavam da companhia uma da outra, e era isso que os outros enfermeiros não conseguiam compreender. Entretanto, essa parte elas também não faziam muita questão de explicar.
— Então… — Lenna sentou na poltrona próxima da janela, apertando o cardigan no corpo pequeno, e esperou que fizesse o mesmo. — Eu espero uma história romântica, de desastre já basta a minha vida.
— Foi tão romântico que eu acho que você vai ficar até enjoada. — respondeu, rindo ao lembrar do pedido de casamento, voltando a sentir as famosas borboletas da boca do estômago.
— Essas são as melhores.



Capítulo 02



Assim que atravessou as portas duplas, o rinque ainda estava vazio. O ar frio a recebeu como um velho amigo e ela inspirou fundo, sentindo falta de tudo que aquele lugar sempre lhe proporcionava. analisou mais uma vez o plano de aula para aquele semestre. Ela sabia que estava ótimo, era um pouco perfeccionista com essas questões, mas sentia que faltava alguma coisa e ainda não descobrira o que era. Tentaria lembrar ao longo do dia, e se não fosse possível, deixaria daquela forma se desse certo para o time da escola.
Apesar do pouco interesse dos alunos e a pouca verba que a escola tinha para oferecer as aulas, aproveitou para formar um time misto de meninas e meninos, o que de início foi um desafio para criar uma tática que desse certo com eles. Porém, alguns rostinhos a reconheceram logo de cara, já que também era conhecida por seu desempenho como treinadora do Boston Pride. Além de ser um pouco autoritária, ela conseguia ser bem convincente quando queria com as crianças e não deixava que houvesse briga entre os colegas de equipe. Aos poucos, as crianças foram chegando e se encaminhando direto para o vestiário, já acostumados com aquela rotina. Ao passarem pela treinadora, ela dava um hi-five em cada um, vendo o sorriso nos rostos tão conhecidos por ela, o que a motivava cada vez mais estar naquele lugar. apoiou a prancheta com as anotações ao seu lado no banco, assim que avistou a nova aluna se aproximando.
— Ei, você deve ser a Violet, certo? — se abaixou, ficando na mesma altura da menina, ainda que ela não fosse tão baixa quanto a maioria das crianças.
— Sim, treinadora. — Os olhos curiosos de Violet mostravam o quanto ela estava ansiosa para aquele momento. — Cadê o restante do time?
— No vestiário, mas logo estarão aqui conosco. — Ela deu um sorriso para a menina. — Por que não coloca os patins e esperamos a turma no gelo? Acho que isso é mais animador do ficarmos aqui paradas.
Assim que Violet escutou a palavra patins, ela não esperou muito para colocá-los em seus pés. Foi inevitável Violet virar a cabeça para o lado à procura de outro colega de time, mas entendia perfeitamente o que se passava na cabeça da pequena defensora. Quando a turma saiu do vestiário, pronta para pisar na pista de gelo, haviam olhos curiosos para todos os lados. Violet analisava seus novos colegas e o restante da turma fazia o mesmo ao vê-la ao lado da treinadora.
— Pessoal, essa é a Violet, nossa nova colega. Ela vai jogar na linha de defesa e tenho certeza que vocês têm muito o que aprender com ela e ela com vocês, certo? — Os rostinhos atentos, balançaram a cabeça em concordância.
— Treinadora, . — Erick levantou a mão, enquanto balançou a cabeça pra ele continuar. — Você vai tirar alguém do time?
De repente a turma começou a falar ao mesmo tempo, fazendo com que ninguém entendesse o que o outro falava.
— Não, Erick. Não irei tirar ninguém do time, nós sabemos que nosso time sempre cabe mais um, não é mesmo? — O menino suspirou, aliviado, concordando com a treinadora.
— Ok, ok. Agora vamos fazer o que sabemos de melhor. Exercícios, agora! — Ela disse, rindo, mas sem deixar o seu leve tom autoritário de fora.
A turma já conhecia o ritmo da treinadora, e ela o deles. Sabia que eles se expressavam muito melhor com um taco em mãos, e não perdeu tempo ao mandá-los começar a fazer os exercícios básicos de treino. aproveitou para observar o desempenho de Violet com os seus novos colegas, a pequena defensora era rápida e habilidosa, principalmente para a sua idade. Mas o que a deixou ainda mais contente, foi o ótimo desempenho que a turma teve naquela tarde. Após o fim do treino, conversou com cada um individualmente, destacando os erros que cometeram, mas dando algumas dicas de como eles poderiam melhorá-los na próxima vez. Ver o sorriso no rosto de cada um, o brilho nos olhos e a vontade de vê-los querendo melhorar a cada dia era um incentivo para continuar ensinando os pequenos.
— Oi, senhora . — Dakota, a irmã mais velha de Erick, apareceu no rinque.
— Oi, Dakota, como está? Ah, e já disse que não precisa me chamar de senhora. — Ela sorriu para a garota, que apenas revirou os olhos.
— Estou bem, apenas cansada. O pirralho do meu irmão ainda está lá dentro?
— Eles só estão trocando de roupa, logo, logo, ele estará aqui.
Dakota jogou a mochila no banco e sentou-se, esperando o irmão aparecer. Porém, a menina não parava de olhar o celular há cada cinco segundos, o que, obviamente, chamou a atenção de .
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou baixo, mas Dakota apenas balançou a cabeça, negando. Ela não insistiria para que a garota falasse, se sentisse à vontade ela falaria.
— Tudo bem. — Ela bufou, irritada. — Erick está demorando e, se não aparecer em dois minutos, nós perderemos nosso ônibus.
— Eu vou chamá-lo, tudo bem? — A garota balançou a cabeça, parecendo um pouco mais aliviada, mas sentia que essa não era a sua única preocupação.
— Eu já estou aqui. — Erick apareceu antes mesmo que pudesse se levantar.
— Vamos logo, pirralho. — Dakota o puxou pela mão, arrastando o irmão mais novo para fora do rinque sem que ele pudesse, ao menos, se despedir da treinadora.
— Se cuidem! — gritou os vendo sair porta a fora.
Quando o restante do time foi embora, começou a guardar os tacos no armário da parede, fechando o vestiário e saindo da arena em seguida. A temporada oficial da National Hockey League ainda não havia começado, o que dava uma folga para se dedicar totalmente ao seu pequeno time, mas ela sabia que iria precisar de um ajudante muito em breve. Assim que guardou os instrumentos de treino e pegou sua bolsa, pronta para ir embora, seu celular vibrou no bolso do casaco.
— Fala, pirralho. — não precisou olhar na tela do celular para saber que era seu irmão. Afinal de contas, I Want It That Way só tocava quando ele ligava.
— Você sabe que eu sou o irmão mais velho, não sabe? — A voz do outro lado da linha tentava se manter séria.
— Acho que três anos de diferença nem é tanto assim. — Ela segurou o riso, apenas para provocar o irmão.
— Que seja. — podia jurar que Dylan tinha acabado de revirar os olhos. — Eu liguei para falar uma coisa.
— ‘Tô entrando no carro, mas pode falar que ‘tô te ouvindo. — jogou a mochila no banco do carona e colocou o celular no suporte, escutando o irmão pelo fone de ouvido.
— Olha, sobre domingo… — Dylan estava receoso sobre o assunto, eles não tinham conversado desde então, e até pensou que ele tinha esquecido. — Eu ia te contar, só na-
— Dylan, você não precisa me contar nada. Sobre o almoço está tudo bem. A nossa mãe não é adivinha, né?
não queria deixar transparecer sua mágoa, mas já era tarde demais.
, você não precisa ficar na defensiva comigo. — A voz suave do irmão a fez se sentir culpada.
— Desculpa, é inevitável. E cansativo, sabe? Não achei que depois de todos esses anos, ela ainda pudesse ter algum efeito sobre mim.
Se tinha alguma pessoa para quem não conseguia mentir, essa pessoa era o seu irmão. Dylan tinha sido por anos o melhor amigo de , e depois que saiu de vez da vida da patinadora, não havia outra pessoa no mundo em quem confiasse mais.
— Olha, não precisamos falar disso, tá bom? — não queria que seus pensamentos voltassem para . — Que dia você vai buscar Alessia? — Ela mudou de assunto.
— Amanhã, e acabei de lembrar que ela pediu para você preparar aquele pão recheado que só você sabe fazer.
— Ela pediu? — soltou uma risada. — Quem não te conhece que te compre, Dylan!
— Tenho certeza que você não irá resistir a esse pedido da sua sobrinha e afilhada. — Dylan não resistiu e começou a rir.
Até a metade do caminho de sua casa, foi conversando ao telefone com o seu irmão. Dylan contava sobre as férias de Alessia com a mãe na França. No primeiro casamento de Dylan, ele e Julia tiveram Alessia. Apesar de novos, Dylan não podia ter ficado mais animado ao descobrir que seria pai de uma menina. Agora, com Alessia prestes a completar dezesseis anos, ela o deixava com o cabelo em pé. aproveitava a fase da sobrinha — um pouco rebelde — para atormentar ainda mais seu irmão, mas adorava poder ser a tia babona que ela sempre quis ser. Mesmo com todo o esforço, o casamento de Dylan não deu certo e os dois enfrentaram um divórcio amigável, principalmente para manter uma relação saudável com a filha. A situação toda já era difícil e brigas na frente de Alessia era a última coisa que eles queriam. No fim das contas, perceberam que funcionavam melhor separados, e a cada quinze dias Alessia intercalava entre a casa da mãe e do pai.
Quando entrou em sua casa naquela noite, ela sabia que precisava tomar um banho e descansar. Os treinos seriam mais intensos nos próximos dias, principalmente porque começariam os encontros com o time profissional. Mas, antes que ela pudesse chegar até o banheiro, a campainha da sua casa tocou.
— Pois, não? — não conhecia a mulher parada em frente à sua porta.
— Boa noite, desculpe aparecer assim. Mas minha avó insistiu que eu trouxesse esse prato de empada para você.
— Sua avó? — Aquele papo não fazia nenhum sentido na cabeça de , e definitivamente, ela não aceitaria aquele prato de uma estranha. — Desculpe, acho que errou o apartamento.
— Ah, claro, desculpe. — A loira do outro lado da porta balançou a mão, pegando o celular do bolso da calça para conferir o número do apartamento em que estava. — Me chamo Lilian, minha avó é a Margo do apartamento 205.
De repente um alívio percorreu o corpo de . É claro que ela conhecia a dona Margo, já tinha perdido as contas de quantas tardes passou assistindo as reprises dos jogos de hockey com a senhorinha do segundo andar.
— Ah, dona Margo. — sorriu ao lembrar da vizinha. — Está tudo bem com ela? — Logo seu tom de preocupação apareceu, mas Lilian sorriu antes de responder.
— Está ótima, quase me enlouquecendo. — A loira riu ao lembrar da tarde agitada em que passou com a avó.
— Por acaso você é a pequena Lilica, de quem a dona Margo comenta? — O rosto de Lilian esquentou ao lembrar dos apelidos que já recebera da avó ao longo dos anos. — Ok, vamos esquecer esse apelido.
— Bem, como pode ver eu já não sou tão pequena e Lilica é um apelido de infância, meio que não faz mais sentido usá-lo. — Ela fez uma careta ao pronunciar o apelido. Sabia que não adiantaria discutir com a avó sobre isso, mas com as outras pessoas ela poderia tentar.
— Ah, claro. — concordou com a cabeça, sem saber o que dizer em seguida e deixando que o clima ficasse um pouco constrangedor. — Olha, eu acabei de chegar em casa, então eu preciso mesmo descansar. Mas pode avisar sua avó que eu passo amanhã na casa dela para compensar?
— Você é treinadora do Boston Pride, não é? — A postura de Lilian mudou rapidamente, quase demonstrando um leve nervosismo.
começou a rir. Não, melhor ainda, a gargalhar. Era bem possível que Dona Margo tenha deixado aquela informação escapar. Ela adorava contar para as suas amigas do clube de xadrez que tinha uma amiga "famosa", nas suas palavras. Por mais que tentasse manter toda a sua vida em segredo, sabia que tinha se tornado uma figura pública, pelo menos no meio esportivo. Então, muitas vezes, era difícil manter a sua vida o mais discreta possível.
— Sua avó deixou essa informação escapar, não é? — disse, dessa vez, mais controlada.
— Na verdade, assisti ao último campeonato da Liga Nacional. Bem, não só o último. — Lilian deu de ombros, tentando controlar o sorriso.
Aquela informação pegou totalmente de surpresa, principalmente porque estava sendo uma segunda-feira totalmente atípica para ela.
— Bom, eu vou deixar você descansar logo. — tratou de pegar o prato que Lilian ainda segurava. — Desculpe o incômodo. Boa noite, .
— Boa noite, Lilian.
Quando fechou a porta, ela ainda ficou parada no mesmo lugar tentando compreender o que acabara de acontecer. Lilian era tão diferente da Dona Margo, principalmente a personalidade, e aquilo deixou ainda mais intrigada.
— Não sei o que acabou de acontecer aqui, mas eu preciso muito de um banho. — falou para si mesma, aproveitando para desfrutar de um delicioso e longo banho de banheira.



Capítulo 03



— Tem algo programado para amanhã à noite? — Ethan perguntou, de novo, na esperança que tivesse trocado o seu plantão.
— Sim, ainda vou trabalhar. — ouviu o suspiro descontente do outro lado da linha, Ethan odiava ser contrariado. Às vezes, ele parecia uma criança birrenta.
— Não existe nenhuma possibilidade de você trocar?
— Não. — nem ao menos tinha tentado, mas não queria ceder sempre as vontades de Ethan. Era o seu trabalho e ele precisava entender que ela não estaria sempre disponível para o que ele quisesse. — Podemos viajar no próximo fim de semana, vou estar de folga.
— Já tenho uma viagem marcada para a próxima semana.
— Ok, vamos dar um jeito. — o cortou logo, conhecia Ethan o suficiente para saber que ele era capaz de falar durante horas até fazê-la mudar de ideia e ceder a sua vontade. Mas estava tentando cortar algumas manias. — Eu preciso trabalhar.
Ethan desligou sem se despedir de , um sinal claro de que ele não havia ficado contente com o fim daquela conversa. apenas guardou o celular de volta no bolso da calça, realmente não era sua prioridade no momento. Já tinha preocupações o suficiente, principalmente com um casamento para planejar, aquilo era o que mais tirava seu sono nos últimos meses. já estava pensando em fazer um casamento mais simples, apenas com pessoas realmente próximas, no entanto, era tarde demais para cancelar tudo.
, você pode olhar o quarto do Darwin? — Maggie passou correndo ao lado de , sem dar chance de resposta para ela. logo fez o caminho contrário ao que tinha planejado, indo para a ala oeste da clínica. Às vezes, ela se perguntava como aquele lugar era tão grande, mas apressou o passo, tinha um paciente esperando por sua ajuda.

Quando o intervalo para o almoço de chegou — também conhecido como os únicos minutos de descanso que ela conseguiu no dia —, ela aproveitou para buscar qualquer lanche rápido e um copo de café no restaurante da clínica. O tempo era curto e infelizmente não poderia gastar seus preciosos minutos para desfrutar de um almoço decente. Sabia que o pastel era puro carboidrato, não ajudando em nada a perder aqueles quilinhos para caber no vestido, algo que sua mãe odiaria saber.
Antes de voltar para o próximo paciente, foi até o estacionamento da clínica, aproveitando para refrescar a mente, numa tentativa falha de organizar seus pensamentos. Pegou o celular no bolso e abriu a página da ESPN, já salva no navegador. Ler as notícias do dia era uma forma de se manter informada sobre , mas a treinadora do time de hóquei conseguia manter sua vida de forma tão discreta, que todo o trabalho que tinha em ler as reportagens era quase em vão. Às vezes, com sorte, conseguia uma notícia ou outra da mulher. Antes que conseguisse terminar de ler a reportagem aberta na tela de seu celular, o aparelho vibrou com uma mensagem de seu noivo.

Ethan
Online

Consegui sair mais cedo do escritório, uma garrafa de vinho e o seu jantar favorito para hoje. Até mais tarde, te amo



Na mesma hora, começou a repensar suas atitudes com Ethan. Estava tão sobrecarregada por causa dos preparativos para o casamento, com as loucuras que sua mãe inventava de última hora e a correria do serviço, que na maioria das vezes não conseguia enxergar o apoio que recebia de Ethan. Ele tinha algumas manias que a irritava, mas ela também tinha e, mesmo assim, ele estava ao seu lado. sentia falta do tempo que conseguiam passar juntos, mas com a mudança para Boston as coisas acabaram se perdendo no meio do caminho. Talvez, aquela noite fosse uma forma deles conseguirem se reconectarem e as coisas voltassem a ser como era antes. No fundo, torcia para que tudo fosse como antes.

Ethan
Online

Consegui sair mais cedo do escritório, uma garrafa de vinho e o seu jantar favorito para hoje. Até mais tarde, te amo

Desculpe por hoje mais cedo, é muita coisa para o casamento. Vou chegar cedo para o jantar. Te amo



Aquilo tudo era só uma fase, era só a loucura de preparar um casamento. torcia para tudo passar o mais rápido possível; mas a angústia que sentia no peito lhe dizia justamente o contrário, mesmo que ela tentasse ignorar.





Continua...



Nota da autora: Sem nota.




Outras Fanfics:
Em Andamento:
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Ficstapes:
» 05. Too Much To Ask [Ficstape Niall Horan: Flicker]
» 06. POV [Ficstape McFly: Radio:Active]
» 12. Nothing Else Matters [Ficstape Little Mix: Glory Days]
» 16. Hoax [Ficstape Taylor Swift: Folklore]


Finalizadas:
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» I’m still In Love With You [Restritas - Originais - Shortfic]
» My Best Shot [Originais - Shortfic]
» We’ll All Be [Bandas - McFFLY - Shortfic]

Nota da beta: , , larga esse homem, mulher! Tu fica pesquisando a vida da ex, a gente sabe muito bem o que isso significa...



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