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Última atualização: 01/04/2022

Epígrafe

Kára — Ou "a selvagem, tormentosa" (baseado no Nórdico Antigo afkárr, significando "selvagem") ou "ondulada" ou "a ondulada".



Prólogo

Odin sabia os riscos que estava correndo, e pior ainda, tinha consciência das leis que iria infringir só para proteger aquela que não era, mas considerava como sua filha. Ainda se lembrava daquele fatídico dia no mundo sombrio, onde encontrou aquele pequeno bebê, que mesmo com todo o poder e a linhagem que carregava, não seria capaz de se proteger, não até que fosse treinada para isso.
Ele encarou o caos que se instalava por Asgard e pegou sua lança, já seguindo para o fundo do salão. Precisava encontrá-lo, para poder salvar aquela que era tão importante para ele, só ele seria capaz de protegê-la de qualquer mal e mandá-la para bem longe de seu mundo, ao menos por um tempo.
Um longo tempo.
Passou por alguns elfos que o atacaram, mas conseguiu derrotá-los com facilidade. Fez sinal para que recebesse cobertura de seus bravos guerreiros asgardianos e logo avistou quem tanto procurava. Estava em batalha como todos os outros, mas, quando seus olhares se cruzaram, não foi preciso nenhuma palavra, ele sabia o que fazer.
O mais jovem puxou a jovem ao seu lado, seguiu Odin para um lugar isolado e com total proteção — ao menos pelo tempo que precisavam — e se virou para o mais velho, assim que a enorme porta foi fechada atrás deles.
— Preciso que faça agora! — Odin ordenou.
— Precisa do quê? — A mais jovem olhou, confusa. — O que está acontecendo, pai?
O rapaz o encarou com fúria nos olhos, não concordava com nada disso.
— Eu posso protegê-la — justificou. — Você pode, inclusive.
— Me proteger de quê? — indagou.
Odin bufou, ao menos uma vez, gostaria de não ser contrariado por ele.
— Eu estou pedindo que não contrarie minhas decisões, ao menos dessa vez. — Encarou o mais jovem, que andava de um lado para o outro.
— Se ela morrer... — começou a dizer, mas não teve forças para terminar a frase.
— Vocês estão me assustando — Kára disse, interrompendo-os. — O que está acontecendo? É apenas um ataque.
— Escute, filho — Odin começou a dizer e segurou-o outro através da gola de sua veste. — Se ela ficar aqui, ela morrerá. E talvez todos nós morreremos.
O jovem encarou os olhos do mais velho e se deu por vencido, afastando-se para poder recuperar a sanidade.
— Tudo bem — concordou. — Contudo, só queria entender por que sempre fico com a parte mais difícil.
— Eu quero saber o que está acontecendo, agora! — Kára ordenou. — Já fomos atacados muitas vezes, podemos ganhar esta batalha.
O rapaz riu fracamente, sentindo um pesar enorme e virou-se para Kára, levando as mãos até o rosto dela.
— Tem coisas — ele disse e passou os dedos com leveza na bochecha rosada da garota — sobre seu passado que você não sabe.
— Odin, o que está acontecendo? — Ela se afastou do rapaz e andou até seu pai.
Odin a encarava com pesar nos olhos e este foi o único momento nos dezoito anos que passou ao lado da garota que desejou nunca a ter salvado.
— Por favor... — Kára pediu.
— Ouça, criança — o mais velho começou e pegou a mão da garota. — Se tens todo este amor por mim, peço que faça o que mando.
— Thor e Loki podem nos ajudar... — disse.
— Não, eles não podem protegê-la — falou e desviou o olhar para o rapaz. — Contudo, ele pode salvá-la, então faça o que mando, .
Os olhos dela marejaram, era a primeira vez que Odin a chamava pelo seu nome mundano, que tinha escolhido depois da primeira vez que visitou a Terra.
— Me chamou de — disse e o abraçou.
— Até que nos reencontremos, minha pequena Kára — ele disse, afastou-se da garota e fez sinal para que fossem, o tempo estava acabando.
Kára se virou para o rapaz e seguiu até a enorme porta, mas parou para olhar Odin mais uma vez e então dizer:
— Até que nos reencontremos.

Thor encarou o outro lado do campo de batalha e estreitou os olhos ao ver a garota que tinha tanto apresso com um dos guardas de Asgard. Ele sabia que tinha algo de errado, por isso, segurou seu martelo e atingiu o máximo de elfos negros que tentavam barrar seu caminho na tentativa de impedi-lo de chegar até Kára.
Sorriu ao ver um sorriso se formar no rosto da garota, mas sabia que tinha algo de errado naquele gesto. Ela não era de baixar a guarda e muito menos sorrir em meio a uma batalha, tinha algo de muito estranho em tudo isso e, por isso, ele agarrou o martelo e saltou de forma que tomou impulso para voar e chegar mais rápido onde queria.
Tudo que aconteceu depois disso foi muito rápido e inexplicável. O corpo de Kára se projetou para frente, como acontece quando alguém é atingido por trás, em seguida seu corpo caiu para frente totalmente sem força e, pior ainda, sem nenhum resquício de brilho ou vida.
Kára estava morta.



Capítulo 1

Asgard — Dias Atuais.



O sentimento que pairava nos corações dos dois irmãos naquela pacata tarde em Asgard não era desconhecido, mas sim incomum nos últimos anos. A última vez em que tinham experienciado de tal sensação foi na primeira vez que seus olhos encontraram os da garota que um dia foi tão especial, mas que partiu de suas vidas de maneira repentina e trágica. Se não tivessem visto o corpo, até poderiam acreditar que ela se encontrava em algum lugar por aí onde poderiam resgatá-la.
Mas não passava de um desejo. Kára estava morta e nem mesmo os dois — filhos de um deus poderoso — possuíam o poder de mudar isso. Depois da partida, Asgard precisou lutar muito, mas conseguiu vencer aquela batalha contra os elfos negros e tudo voltou a ser como era antes, ou talvez só parte do que costumava ser.
Sem ela, nada mais seria igual.
Thor encarou seu reflexo no espelho e apertou os olhos, mantendo-os fechados — de forma mais relaxada — depois de um certo tempo e transportou seus pensamentos para quando era apenas um jovem guerreiro em ascensão. O rosto da companheira de batalha foi a primeira coisa a aparecer em seu campo de visão, ao virar para encarar algo que estava atrás dela.
Os cabelos estavam bagunçados, alguns fios caídos sobre a testa e as maçãs do rosto rosadas. Todos esses detalhes lhe mostravam que ela estava em treinamento, com ele mesmo... só que mais novo, afinal, aquilo era uma lembrança. Uma que ele havia guardado na memória sempre que sentia saudades como essa.
Estranhamente, a falta que sentia dela também parecia maior.
— Se a nossa mãe descobrir que você andou pegando alguns ingredientes dela para fazer isso, você está ferrado, meu querido irmão. — Uma voz masculina soou do outro lado do quarto e arrancou de Thor uma reação brusca que o fez erguer uma das mãos e segurar o martelo em seguida.
O rapaz riu fracamente e permaneceu parado ao ver o objeto ser atirado contra ele e passar por seu corpo como uma folha.
— Loki — Thor rosnou, fuzilando o irmão com os olhos e puxou o martelo de volta para si. — O que você quer?
— Especialmente hoje, eu não quero nada — o mais velho afirmou com um sorriso de canto no rosto e se recostou na porta de entrada do quarto. — É aniversário da nossa mãe, não quero estragar tudo.
— Loki, corta essa — Thor respondeu de forma irônica. — O que você quer?
— Você não é o único que sente falta dela, Thor — Loki afirmou com um pouco de tristeza no olhar. — Ela também era importante para mim.
O loiro deu de ombros, não estava com paciência para discutir com ele hoje, que nem sequer tinha se dado o trabalho de estar realmente ali.
— Vou treinar antes da festa começar — ele disse enquanto pegava seus equipamentos.
— Você sabe que não tinha nada que eu poderia ter feito... — Loki insistiu.
Thor revirou os olhos e caminhou em direção à porta, saindo do quarto em seguida e deixando seu irmão completamente sozinho com suas lamúrias. Ele não tinha mais paciência e nem mesmo energia para isso, muito menos para discutir com ele o que aconteceu no dia em que uma das pessoas que ambos mais amavam morreu de forma tão inesperada.


Oslo, Noruega — Dias atuais.



sabia que andar de um lado para o outro não mudaria em nada o nervosismo que estava sentindo. Tinha esperado muito por esse dia e não poderia deixar nada estragar o brilho dele. Para ela, tudo precisava sair perfeito e exatamente como ela havia planejado que seria ao longo dos anos em que se preparou para isso. Apesar de só ter vinte e seis anos, a mulher já tinha passado por muita coisa e aprendido a batalhar desde cedo por tudo.
Depois de ter lançado dois livros que foram sucesso mundial e se tornar umas das autoras infanto juvenis mais famosas do mundo, ela achou que toda a tensão de um lançamento ou premiação se tornariam mais fáceis. Contudo, a verdade é que parecia que cada vez ficava mais difícil, porque vinha sempre acompanhado daquela sensação de que as pessoas estavam cada vez mais depositando expectativas sobre ela.
sempre odiou expectativas.
Amava o que fazia, não poderia negar. Depois de perder todas as suas memórias aos dezoito anos e acordar em um hospital sem ter ideia de quem era, escrever suas estórias e colocar no papel todas aquelas coisas, que pareciam ser tão reais em seus pensamentos e sonhos, tinha lhe dado não só uma vida confortável e estável, mas também paz de espírito. E, talvez, a esperança de que um dia conseguiria se lembrar de tudo que era incapaz de lembrar há dez anos.
— Deus, preciso melhorar essa cara! — disse ao olhar-se no espelho e ver o tamanho das olheiras nas bolsas dos olhos. — Está às vésperas do melhor dia da sua vida, deveria estar ao menos apresentável.
Ela escutou uma risada que veio do andar debaixo da casa e bufou frustrada. Não tinha graça nenhuma naquela situação, longe disso...
— Qual é, , vamos logo! — a voz gritou, fazendo-a revirar os olhos.
— Não! — respondeu alto. — Você pode ir, eu tenho algumas coisas para resolver...
Sabia que era só uma desculpa para poder se lamentar mais um pouco, mas não se importou.
— Qual é! — Escutou a voz gritar e em seguida a porta da frente bater.
A dona daquela voz era Eillen Cortes, sua melhor amiga desde o colégio e que hoje em dia havia se tornado sua colega de quarto. As duas já se conheciam há 10 anos e tinham compartilhado muitas coisas, mas, definitivamente, não possuíam nada em comum.
Enquanto estava publicando seu terceiro livro e o transformando em uma série de televisão, Eillen era uma cientista incurável que estava procurando uma forma de provar que existiam muitos outros mundos além da Terra, ao mesmo tempo que dividia seu tempo para ser sua sócia e ajudá-la na editora.
Contudo, eram como irmãs, jamais se desgrudavam.
— Certo, um banho vai ajudar — disse para si mesma e abriu a torneira da banheira.
Enquanto a deixava encher, foi até o quarto e abriu seu notebook. Mais uma vez estava tendo uma de suas epifanias onde ideias surgiam em sua mente — quase como se pudesse vê-las diante de si —, e sempre que isso acontecia precisava escrever.
Seria a continuação de sua saga? Não saberia dizer, o que importava era anotar tudo que viesse à mente.
— “Loki colocou a mão no rosto da garota e a encarou como se aquela fosse a última vez que a veria” — disse enquanto digitava em seu notebook.
franziu o cenho por um instante. Uma sensação de conforto preencheu seu coração, como se fosse capaz de sentir exatamente o mesmo que sua personagem naquele momento.
— Que estranho — comentou rindo.
Escreveu mais algumas coisas e depois voltou ao banheiro, constatando que sua banheira já estava pronta. Entrou nela e fez o que sempre fazia, submergiu na água e fechou os olhos para imaginar cenas de seus livros — cenas essas que pareciam quase reais.
Naquele momento, algo aconteceu.
Não era nada desconhecido por , mas já não acontecia há muitos anos, desde que ela havia acordado naquele hospital sem memória alguma. Era como se algo fosse ser arrancado de seu peito e seus olhos sempre conseguiam visualizar coisas tão reais, mas que seria loucura acreditar que um dia aconteceram.
Estranhamente, sempre que imaginava a protagonista de seus livros era exatamente como ela. Mesmos cabelos, olhos, boca... personalidade e isso às vezes a fazia questionar muitas coisas, porque, quando se tratava de coragem e bravura, não se via nem um pouco daquela forma.
Kára era uma guerreira. E , bem, apenas uma escritora.
— Uma escritora de muito sucesso — disse ao emergir. — Você precisa se dar mais crédito.
Ela terminou de tomar banho e saiu já indo para o quarto escolher uma roupa, afinal, ainda tinha um dia todo de trabalho pela frente. Passou uma maquiagem leve como sempre fazia, escolheu algo um pouco mais formal para vestir e depois saiu em disparada porque não queria chegar atrasada.
O dia em Oslo estava frio como sempre e essa era uma das coisas que a mulher mais amava sobre o lugar, todo aquele clima com neve era o que deixava as coisas tão lindas e reconfortantes — ao menos no seu posto de vida. Gastou exatamente trinta minutos até a editora e passou pela porta de entrar com a mesma pressa de sempre, mas cumprimentando cada um dos seus funcionários ali presentes.
poderia ter dúvidas sobre muitas coisas em sua vida, mas não sobre o que tinha escolhido seguir como carreira. Ser escritora e abrir uma editora sempre foi seu sonho, então sentia-se perfeitamente satisfeita em seu trabalho, mesmo que fosse um dia com muitas coisas para fazer ou que não estivesse se sentindo bem. Colocava o melhor sorriso que tinha no rosto e só o tirava de noite, quando já estivesse em sua cama prestes a dormir.
Assim que adentrou sua sala, seus olhos foram parar diretamente sobre a sua mesa, onde tinha um buque de orquídeas enorme. Olhou ao redor — como se estivesse procurando por alguém — e caminhou até lá, pegando-o para olhar mais de perto e respirou de forma profunda para poder sentir o cheiro agradável da flor, que era sua favorita.
— Não tem cartão... — Torceu o nariz ao analisar, enquanto tentava se perguntar quem poderia ter enviado aquilo.
Elas eram lindas e pareciam trazer algum tipo de dejavu para ela, mas não tinha tempo para ficar pensando naquilo.
! — A voz de Eillen reverberou na sala, fazendo com que a mulher virasse rapidamente. — Uau!
— É, são lindas — a mulher respondeu a amiga, ainda encantada com o buquê. — Você sabe quem deixou isso aqui?
— Com certeza algum admirador. — A melhor amiga riu de forma sugestiva, fazendo-a revirar os olhos. — Pera, deve ter um cartão.
riu fraco.
— Se tivesse, eu não estaria te perguntando quem deixou minhas flores preferidas aqui — respondeu em tom brincalhão.
— Ela está ríspida hoje... — Eillen comentou como se estivesse falando sério.
— Isso é estranho — disse, voltando para sua mesa e colocando o buquê sobre ela. — Você e meus pais são os únicos que sabem como eu amo orquídeas.
— Amiga, eu sei que você quer muito saber quem foi, mas nós temos muitas coisas importantes para resolver. Então vou pedir para alguém verificar isso, tudo bem? — sugeriu. — E eu preciso sair mais cedo hoje, porque tenho algumas coisas da pesquisa para revisar.
franziu o cenho primeiro, pensando como a amiga conseguia dar conta de tudo.
— O que eu faria sem você, Lenn? — perguntou de forma retórica.
— Provavelmente nada — a mulher respondeu dando de ombros.
— Engraçadinha. — foi para o outro lado da mesa, ainda com a atenção sobre as flores. — Bom, temos uma reunião em vinte minutos, pode me dar um momento sozinha?
— Claro, te vejo logo — Lenn disse e saiu da sala em seguida.
A mulher decidiu sentar-se em sua cadeira um pouco para que pudesse colocar algumas coisas no lugar, mas simplesmente não conseguia pensar em nada além daquele buquê diante dela. Não saberia dizer o que tinha de tão especial em algumas orquídeas, mas estranhamente elas estavam prendendo sua atenção de uma forma absurda, como se ela precisasse desesperadamente saber quem havia lhe enviado aquilo.
Estava sendo paranoica, sabia disso. Mas como não ser?
Riu de si mesma e voltou a pegá-lo nas mãos, repetindo a mesma respirada funda da primeira vez. Por um momento, sentiu sua visão ficar turva e até um pouco de cansaço, e pensou ser algo nas flores, ou apenas sua mente lhe pregando peças por estar tão obcecada com aquilo. Decidiu colocá-las em um vaso, por hora.
, esqueceu da reunião? — Era Eillen, mais uma vez.
olhou um pouco confusa, porque poderia jurar que tinham se passado apenas cinco minutos, mas ao olhar o relógio de pulso percebeu que já estava dez minutos atrasada.
— Meu deus... — disse, já se encaminhando para a saída. — Eu perdi completamente a noção da hora.
— Você está se sentindo bem? — a melhor amiga perguntou enquanto as duas caminhavam por entre os corredores até a sala de reunião.
— Sim... — mentiu, afinal, não queria preocupar a amiga.
A verdade é que estava sentindo-se estranhamente cansada e até um pouco sonolenta, mas sabia que poderia ser porque não havia dormindo muito bem na noite anterior devido à ansiedade. Então, resolveu espantar qualquer preocupação relacionada ao evento que só aconteceria amanhã e decidiu que iria se concentrar em sua reunião.
Isso era tudo que importava agora.


Asgard — Dias atuais.



Loki passou os olhos pelo lugar e tentou ao máximo esconder o sorriso em seu rosto, porque não queria deixar transparecer a verdadeira razão pela qual sentia-se tão feliz e completo depois de tantos anos. O palácio estava mais cheio do que ele jamais havia visto, Asgardianos caminhavam de um lado para o outro com sorrisos em seus rostos e vozes reverberavam pelo local devido à empolgação do povo.
Ele estava quase gostando disso, exceto, é claro, que sempre surgia aquela falta.
Do outro lado do salão, Odin se encarregava para que tudo saísse perfeito em um dia tão especial para sua amada. Era a primeira vez após dez anos que ela havia concordado em comemorar seu aniversário e ele não poderia estar mais feliz com isso, já que, depois da morte daquela que sempre foi como uma filha para eles, ela jamais havia sido a mesma e ele odiava-se todos os dias por tê-la feito passar por isso.
A única coisa que confortava seu coração era saber que Kára estava salva em um lugar onde jamais poderia ser alcançada pelas sombras que a condenavam. Mesmo que isso custasse a felicidade de outros que ele também amava, o fato de saber que ela teria uma vida longa e plena já lhe bastava. Para ele, ser rei era isso, saber fazer escolhas difíceis que poderiam custar a felicidade de outros, inclusive de si mesmo.
— Pai? — A voz de Thor ecoou ao lado dele, tirando-o dos pensamentos mais profundos.
Odin se virou para encarar o filho.
— Sim, meu filho — respondeu abrindo um sorriso, não queria deixar transparecer que tinha algo de errado com ele.
Thor encarou o pai por alguns segundos, seu poder de ler as pessoas era sempre impecável e logo se deu conta de que algo incomodava Odin.
— Você parece preocupado. — Sorriu em cumplicidade.
O mais velho riu fraco com o comentário.
— Eu tenho um reino inteiro para governar, Thor — falou ao começar a caminhar, seguido do filho, que o acompanhava. — Viver preocupado é um dos muitos fardos que preciso carregar.
— Sim, claro — o mais novo afirmou. — Mas você parece preocupado de uma forma diferente.
— É a primeira vez que sua mãe aceita comemorar o aniversário dela em dez anos — explicou e parou, virando-se para encarar o filho. — Só quero ter certeza de que tudo sairá como planejado.
Odin não era muito bom em mentir, mas precisava convencer o filho de que nada estava errado, tanto o quanto ele vinha tentando fazer isso consigo desde a hora que havia acordado.
— Além do mais, preocupe-se com o que é sua obrigação — continuou, dessa vez com um pouco de autoridade. — Que é proteger Asgard, junto ao seu irmão.
Thor ficou em silêncio e seus olhos pararam em Loki, o que o fez revirar levemente os olhos.
— Sim, senhor — respondeu, voltando a olhar para seu pai. — Sempre protegerei.
Odin sorriu, já virando-se para se afastar, mas parou e encarou o filho.
— Eu estou contando com isso — afirmou e então saiu de lá, deixando Thor com uma estranha sensação de que ele parecia estar falando como se isso fosse acontecer em algum futuro muito próximo.
Do outro lado do castelo, Loki sabia que o que estava fazendo ia contra todas as regras impostas por seu pai, mas não era como se pudesse controlar o que seu coração sentia naquele momento. Já tinha esperado tempo demais para que pudesse reencontrar de verdade aquela que foi a única capaz de fazê-lo encontrar algo de bom em si mesmo, e ele sentia falta de conseguir enxergar-se dessa forma.
Ver o sorriso dela ao receber um presente, que para ele não era nada comparado ao que a mulher merecia de fato, fez seu coração apertar, mas ao mesmo tempo lhe deu a esperança de que um dia as coisas no futuro poderiam ser como ele havia imaginado por tanto tempo. Com os três andando por entre as dependências do castelo, comandando exércitos, lutando por Asgard e mais unidos do que jamais estiveram.

Loki sabia dos poderes de Kára, mas provocá-la era particularmente divertido para ele e gostava de testar os limites da garota. A viu trocar de posição com a lança na mão e rodá-la lentamente enquanto parecia tentar ler cada movimento de seu oponente — que no caso era ele mesmo — e observou a precisão e calma dela em cada gesto que executava.
A garota nunca tinha pressa e isso o frustrava de uma certa forma.
— Você sabe que isso é golpe baixo. — A voz de Thor reverberou no salão em que eles se encontravam e Loki revirou os olhos.
Sabia exatamente do que o irmão estava falando.
— Ele não é nem louco — Kára se manifestou, mostrando que tinha entendido o que o loiro dizia.
Thor riu fracamente e cruzou os braços, na esperança de ver o irmão ser derrotado.
A guerreira aproveitou o momento de distração do moreno e se movimentou de forma furtiva, rodando sua lança três vezes no ar ao mesmo tempo em que rodopiou, caindo do outro lado ao lado de seu oponente, com o objeto pontudo quase colado ao rosto dele enquanto ela o encarava. Kára tinha certeza de que por essa ele não esperava e viu um sorriso se formar nos lábios do rapaz, que permaneceu imóvel.
O outro irmão não pôde conter a salva de palmas diante dos movimentos precisos dela enquanto sorria.
— Parece que você está ficando lento com o passar dos anos — Kára provocou.
Ela o encarou fixamente e sentiu perder o equilíbrio, sentindo em seguida mãos agarrarem-lhe a cintura enquanto viu sua lança cair no chão.
— Como pode ver, eu estou mesmo aqui — Loki disse, encarando-a nos olhos.
Thor engoliu em seco ao encarar a cena, sentindo-se profundamente desconfortável com a proximidade dos dois e vendo seu irmão por um momento desviar o olhar até ele, mas depois voltar a olhar a garota como fazia antes.
— Não duvidei que estava — a garota rebateu, ainda nos braços dele.
— Ótimo — Loki disse e a puxou, deixando-a em uma posição que ela fosse capaz de equilibrar-se sozinha. — Porque eu nunca quebraria uma promessa feita a você.


Parado naquele salão, tomado por aquela lembrança, ele quase conseguia sentir suas mãos sobre o corpo da garota e como suas palavras saíram ao prometer a ela que jamais usaria seus poderes em sua presença. Kára era importante para ele de uma forma quem nem mesmo ela tinha conhecimento, e nem por uma vez foi capaz de estar ao lado dela sem ser em sua verdadeira essência.


Noruega, Oslo — Dias Atuais.



A reunião havia sido muito melhor do que esperava. Tudo tinha corrido exatamente como planejado, mas ela ainda se sentia extremamente cansada e com a sensação de que iria botar tudo que tinha em seu estômago para fora a qualquer momento. Soube que ir para casa foi a melhor decisão que poderia ter tomado naquela tarde quando Eillen disse que cuidaria de tudo para o evento de amanhã.
A mulher respirou profundamente quando finalmente entrou em casa e livrou-se do frio congelante que estava do lado de fora, onde a neve caía incessantemente. Foi diretamente para o andar de cima, onde tomou um banho quente por pelo menos trinta e cinco minutos e depois jogou-se na cama já com seu notebook, abrindo no Word para que começasse a escrever seu próximo livro. Sentiu-se aliviada por estar melhor do que quando havia saído da empresa mais cedo.
Respirou fundo, tomou um gole de sua água e começou o que fazia de melhor: escrever.
O início do processo de escrita não foi nada difícil, afinal, já tinha escrito uma cena mais cedo quando teve um momento de epifania enquanto preparava seu banho antes de sair para trabalhar. Então logo se viu digitando e completamente inserida dentro daquelas linhas que só aumentavam diante de seus olhos.

“A morte chega para todos. Eu sempre soube disso, mesmo assim sentia um medo inexplicável todas as vezes que pensava em quando a minha chegaria e como seria deixar para trás todas as pessoas que eu amava e tanto me preocupava. Contudo, o privilégio de ser quase um ser imortal me dava a vantagem de não ter que me preocupar com isso.
O meu poder era conhecido e temido por muitos, e talvez isso tenha me dado ao longo dos meus cem anos de vida confiança o suficiente para não temer nada. Acredito que esse foi um dos maiores erros que cometi ao longo da minha jornada. Me achar imbatível tinha me custado muitas coisas as quais eu não me importei em perder ao longo do caminho, preocupada demais com o império que poderia construir.
E, de fato, eu havia construído um império.
Porém, quando se ergue algo assim às custas de sangue, suor e lágrimas e inocentes nada de bom é capaz de sair dali. E como era de se esperar, eu havia criado muitos demônios e agora eles estavam me caçando, da mesma forma que eu havia feito com eles em busca dos meus próprios ganhos.
Eu estava reconhecendo meus erros... a questão era: Será que eu estaria pronta para minha redenção? Ou, pior ainda, para a morte iminente?”


encarou o que havia escrito e sorriu satisfeita. Sem dúvidas aquela era uma das coisas mais profundas que já tinha colocado em seus livros desde que havia iniciado a saga e a conexão que sentia com aquela personagem era quase tangível, como se ela e Kára fossem a mesma pessoa. Exceto, é claro, que a garota descrita em seus livros era uma guerreira, dona de um império e poderes inimagináveis, enquanto era apenas uma escritora.
Escreveu mais algumas linhas e se deu por vencida quando seus olhos começaram a fechar involuntariamente, dando a ela o sinal de que o cansaço era evidente e forçando-a a aceitar que precisava descansar depois do dia cansativo que havia tido. Ela apenas fechou o notebook e o colocou de lado — já que não tinha nem forças para sair de onde estava — e virou-se, já desligando o abajur, caindo rapidamente no sono após deitar a cabeça no travesseiro.
Sentiu os olhos pesarem no meio da madrugada e a boca seca e praguejou-se por ter tomado toda a água que tinha no quarto. Levantou bufando da cama para ir em direção à cozinha, praticamente arrastando-se pelos cômodos que passava até chegar lá. Nunca foi fã de ter que sair da cama no meio da noite, mas mal conseguia engolir a própria saliva de tão seca que sua boca estava e a sensação era horrível, então pior do que ter que ir pegar algo para beber, era ficar se sentindo daquela forma até que caísse no sono mais uma vez.
Por um momento, sentiu uma estranha vontade de tomar chá, como se algo a fizesse ter uma pequena lembrança de qual era a sensação, caminhou até o armário onde sabia que eles ficavam e escolheu um de sabor hortelã. Estranhamente, enquanto pegava todas as coisas que precisava para fazer a bebida quente e tomava um copo de água — só para aliviar a secura da boca —, teve a sensação de estar sendo observada.
não era paranoica, longe disso. Sabia muito bem que Oslo era um dos lugares mais seguros que poderia viver, mas especialmente naquele momento tinha a sensação como se alguém estivesse ali tomando nota de cada passo dela sem que ela fosse capaz de vê-lo ou senti-lo por completo.
— Você só está com sono, — disse a si mesma, enquanto ligava o fogo.
A mulher passou a mão no rosto, deixando que um bocejo escapasse por entre os lábios, virou-se na direção da porta que dava para a sala de estar e, de forma embaçada, viu a estrutura de homem tomar forma conforme sua visão melhorava. Ela não teve reação alguma de correr, desesperar-se ou qualquer coisa normal que alguém faria se visse um estranho em sua cozinha no meio da madrugada.
Ela apenas permaneceu estática, encarando. Talvez porque, para ela, o homem encostado ao batente não era bem um estranho.
— Ainda é exatamente como eu me lembrava — o homem disse ainda imóvel e parado na entrada da cozinha.
o encarou por alguns instantes, tomando nota não só do que ele havia dito, mas também de cada detalhe nele. O terno preto, os cabelos tão escuros quanto sua roupa, o sorriso leve que se encontrava em seu rosto e, claro, a pele tão branca como nenhuma outra que ela já havia visto.
E naquele fragmento de segundos em que se encaravam, ela o reconheceu.
Porém reconhecê-lo lhe dava um atestado de loucura.
— Isso não pode ser real — disse finalmente, enquanto tocava-se para ter certeza de que estava mesmo acordada.
O homem riu fracamente.
Ela conhecia muito bem aquela risada, afinal, era responsável por dar vida a ela.
— Por que não? — indagou.
engoliu em seco e fechou os olhos, imaginando que, se os abrisse, acordaria em sua cama. Porém, não foi isso que aconteceu.
— Porque você é um personagem do meu livro — respondeu nervosa.

Capítulo 2

Oslo, Noruega — Dias Atuais.


encarou o estranho — ou não exatamente isso — diante dela ainda tentando compreender o que acontecia ali. Nem nos seus sonhos mais insanos achou que seria possível que aquilo estivesse mesmo acontecendo e em meio a uma risada nasalada, ela levou as mãos até os olhos, coçando-os, na convicção de que acordaria em sua cama segundos depois. O homem que a encarava, no entanto, deixou um sorriso ladino formar-se em seus lábios conforme acompanhava as reações da mulher, achando um tanto quanto engraçado. Usualmente ele teria feito algum comentário irônico ou alguma piada sem graça, mas o tempo que tinha ali era escasso e ele já havia o usado mais do que poderia, por isso, manteve-se apenas encarando-a. Sentiu o ar lhe faltar quando os olhos dela encontraram os seus e só então permitiu-se observá-la de forma mais precisa. O olhar dele correu daqueles olhos cheios de mistérios para a boca dela, permaneceu ali por alguns instantes, e então continuou fazendo seu percurso até chegar ao corpo de e dar-se conta de que ela se encontrava apenas de camisola.
Como se despertasse de uma espécie de transe, ele voltou a erguer seus olhos com um sobressalto que seu corpo deu e deixou escapar um muxoxo de seus lábios, totalmente frustrado com o que havia sentido ao vê-la daquela forma. A dona da casa ainda permanecia em silêncio, com os olhos tão fixos a ele que, se fosse possível, o teria queimado com tal ato. Então, ignorando qualquer autocontrole, Loki aproximou-se da mulher que permanecia encarando-o enquanto sua mente gritava que tinha um estranho em sua cozinha, mas não se moveu nem um centímetro. Porque, lá no fundo, sabia que o conhecia, e não só isso, também podia confiar nele. Manteve-se daquela forma e então sentiu um formigamento em sua pele quando a mão do homem tocou sua bochecha. Ele franziu o cenho com aquilo e fechou as pálpebras, ao passo que cerrou o maxilar, tamanha era a sensação que estar ali fazendo aquilo lhe causava.
Sua vontade era de poder contar a ela por que realmente estava em sua casa, mas não seria nem louco — ou talvez até seria — de fazer aquilo, porque protegê-la era tudo que importava. Então com a mesma rapidez que se aproximou, ele afastou-se da mulher que o encarava sem sequer piscar.
abriu a boca para dizer algo, e quando se deu o direito de fazer com que seus olhos se fechassem por uma fração de segundos e voltou a abri-los, se viu completamente só em sua cozinha.

A mulher acordou em um sobressalto na cama e sentiu o coração bater tão forte que achou que o órgão sairia de seu peito. Sua respiração estava descompassada, a pele molhada em suor e seu corpo tão cansado que parecia ter lutado com alguém a noite inteira. Piscou algumas vezes, tentando se recobrar de onde estava, então, gradualmente, conforme olhava à sua volta, constatou que o espaço era seu quarto. Riu daquilo, achando um tanto quanto sem sentido que estivesse se sentindo tão perdida ao acordar e levou as mãos até os cabelos. Estranhamente eles estavam pingando com o suor e aquilo a fez franzir o cenho em ainda mais confusão do que já estava. O sonho que havia tido pouco antes de acordar de forma tão incomum havia sido um tanto quanto bagunçado e confuso, mas aquilo não era motivo para que estivesse daquele jeito.
Um banho. Foi o que correu os pensamentos dela conforme empurrou as cobertas pesadas e começou a caminhar em direção ao banheiro. Onde logo abriu a torneira para que enchesse a banheira e depois foi em direção ao espelho. Suas pupilas estavam dilatadas, as bochechas vermelhas e por um momento levou um tempo para reconhecer a si mesma, como se, de alguma forma, fosse alguém completamente diferente do que conhecia. Correu os dedos levemente pelos lábios, olhos... maxilar, cabelos. Aquilo só podia ser algum delírio de sua mente, por isso, logo correu até a torneira, fechando-a, e livrou-se das roupas.
A água quente a ajudaria a colocar as ideias no lugar.
Estremeceu levemente ao sentir a temperatura alta bater contra sua pele, mas não se importou nem um pouco e entrou de uma só vez, sentando-se na banheira e deixou um suspiro de alívio escapar dos seus lábios. Não tinha se dado nem o trabalho de olhar o relógio para saber que horas eram, mas só de direcionar os olhos até a janela e ver como estava escuro, imaginou que ainda era madrugada e deixou-se relaxar. Como sempre fazia naqueles momentos, fechou as pálpebras e submergiu na água.
tentou abrir os olhos e sair de onde estava, mas estranhamente foi transportada para um lugar em que não foi preciso que o fizesse. A floresta à sua volta parecia familiar de alguma forma, mas não conseguiu se lembrar quando a tinha visitado, as roupas pesadas em seu corpo fizeram com que olhasse para baixo e pulou em sobressalto ao ver todo aquele tecido de couro preto contra seu corpo e seus olhos arregalaram-se ao sentir algo duro contra suas mãos.
Uma lança? Questionou ao olhar o objeto e o aproximou para que pudesse analisá-lo de alguma forma. Como uma escritora poderia portar aquilo? O que estava fazendo em uma floresta? Que roupas eram aquelas? Por que não sentia frio? Os questionamentos eram muitos e ao mesmo tempo que parecia ter a resposta na ponta da língua, elas também se esvaíam com muita facilidade. Sentiu o coração bater mais forte, e, apesar da hesitação — e medo —, deu alguns passos por entre as enormes árvores que a cercavam e projetou o corpo em modo de defesa.
Ataque. não era alguém que sabia lutar, então, por que raios se encontrava naquele posição? Parecia que nada daquilo importava, pois continuou seguindo seu caminho como se soubesse exatamente para onde ir. E após andar alguns metros, avistou um enorme castelo em cores douradas. Finalmente estava em casa.
. Kára.
Escutou a voz chamar seu nome. Uma que conhecia, mas por alguma razão não conseguiu dar nome a ela.
Eu sabia que voltaria para nós. Venha até mim.
Sentiu um arrepio correr sua espinha. Medo e perigo a envolverem. Não deveria estar ali, aquela não era sua casa.
— Kára! — gritou ao emergir e ver-se sentada em sua banheira, com água espalhada por todo banheiro. A temperatura ali parecia estranhamente muito elevada e por um momento pensou em sair de onde estava, porém, de uma maneira estranha, não lhe causava qualquer resquício de dor.
A mesma sensação na espinha que tinha sentido com aquele episódio — que não saberia dizer se foi um sonho porque tinha dormido no banho — apareceu de novo, quando seus olhos foram em direção à janela e viu que o sol já raiava.
— O-q-uê — gaguejou baixinho, sentindo-se completamente perdida. — Você só perdeu a noção do tempo, — disse para convencer a si mesma, e então saiu daquela banheira e puxou uma toalha para que pudesse seguir para o quarto. Vestiu o primeiro pijama confortável que encontrou em sua gaveta e então ponderou que talvez tomar algo quente lhe ajudaria.
Um chá. E aquele pensamento lhe fez morder a parte interna da boca, ao lembrar-se do homem em sua cozinha. Aquele com quem havia supostamente — só poderia ser isso, ou deveria ter corrido — sonhado. O personagem de seu livro.
E, mais uma vez, , acordou suada em sua cama e em completa confusão mental.


Reino de Asgard — Antes do sombrio.




Kara caminhava vagarosamente como se não tivesse preocupações, apesar de ter algumas que assolavam sua mente naquele momento, contudo, tinha acordado decidida a focar nos treinos e — infelizmente — no baile que aconteceria aquela noite. Passou seu olhar através do reino, cumprimentando algumas pessoas conforme ia até o lugar que era de seu interesse e pegou-se pensando o quanto gostava dali. Apesar de saber que não era uma asgardiana de sangue, Asgard havia se tornado seu lar, e acreditava que não poderia ter nenhum melhor que pudesse nomear daquela forma. Era plenamente feliz ali. Tinha uma família que amava, e bem... duas pessoas muito especiais, com quem adorava dividir a maior parte dos seus dias.
Empurrou a porta pesada do salão sem dificuldade alguma e sorriu ao encontrá-lo completamente vazio. Não é que não gostasse que tivessem pessoas ali, mas suas habilidades de socializar eram um tanto quanto limitadas, principalmente quando se tratava de treinar seus movimentos e estratégias para batalhas. Precisava de total concentração naqueles momentos, não era do tipo que gostava de plateia. E, por razões óbvias, aquele pensamento se direcionou aos irmãos asgardianos que adoravam se exibir, mas que também eram uma ótima companhia naquela situação.
Sentiu um arrepio bem de leve e aquilo fez com que respirasse fundo, precisava de concentração. Então ignorando qualquer coisa que pudesse continuar distraindo-a, sacou a lança que se encontrava sempre no mesmo lugar, apoiada próxima a outros aparatos de luta e preparou-se para que começasse o que tinha ido fazer ali. Ficou em posição de ataque, flexionando os joelhos e curvando-se de uma forma que seu tronco ficou um pouco mais para frente e os glúteos levemente empinados para trás. Fechou os olhos, como sempre fazia, para que pudesse sentir as coisas à sua volta sem que precisasse vê-las e rodopiou o objeto em suas mãos. Uma, duas, três... até que já não tinha mais consciência de quantas vezes havia feito, tudo o que conseguia se dar conta era de que o movimento havia sido preciso e seus pés se moviam estrategicamente, percorrendo um caminho que ela soube estar mais próxima de uma das janelas grande da sala.
Ainda de olhos fechados, tombou a cabeça para o lado, ponderando se estava do lado certo — ou iria atravessar o vidro e cair do lado de fora —, pois não queria causar uma bagunça como já havia acontecido uma vez. Tendo certeza do que fazia, a garota projetou-se para frente, jogando o bastão na mesma direção e rodopiou, sentindo seu corpo fazer aquele movimento giratório ao menos três vezes no ar. Caiu exatamente como havia planejado, segurando a lança com ela apontada para algum alvo, mas uma respiração que não era a sua a fez abrir os olhos de imediato.
— Loki — soprou baixo, ao ver que o rapaz de olhos negros a encarava, com um leve sorriso de canto estampado nos lábios. — Eu poderia ter machucado você bem feio, sabe disso, né? — indagou, então retesou o objeto para longe dele e endireitou-se.
— Mas não o fez — disse convicto, com os olhos ainda fixos a ela. — Você é muito bem treinada, Kára. Não cometeria um erro assim. — Ele abriu um sorriso mais largo ao falar aquilo e ela o viu levar os braços para trás do corpo, como sempre fazia, caminhando de forma vagarosa à sua volta. — Além disso, sei que pode sentir minha presença. — Sentiu um bafo quente contra sua orelha e pôde notar a presença do asgardiano atrás de si.
Ela podia mesmo, mas jamais havia dito aquilo a ele.
— Como você… — começou a dizer o que cruzava seus pensamentos, mas parou ao senti-lo ainda mais perto.
— Eu sei de muitas coisas, Kára — respondeu firme, então percebeu um afastamento da parte dele, algo que a fez soltar um muxoxo quase involuntário. Virou-se para que pudesse encará-lo. Loki mantinha uma expressão neutra como sempre, mas que continha um fundo daquele jeito ousado dele que ela tanto gostava, por mais que nunca fosse admitir. — Parece que algo lhe incomoda — fez a observação, que gerou nela um leve franzir de cenho.
— Sabe mesmo, mas não me conta muitas delas — soltou, com um certo rancor na voz, mesmo que não fosse aquela a intenção. — Só esse baile, preferia estar em alguma batalha. — Deu de ombros, na tentativa de não levar aquele assunto adiante.
Loki então aproximou-se da garota, ficando com o corpo a poucos centímetros.
— Você pode esconder o quanto quiser — soprou baixo, com os olhos fixos aos da guerreira. — Mas eu sempre sei quando tem algo errado. Então, saiba que estarei aqui quando quiser contar.
Ela abriu a boca para responder, mas desistiu ao escutar a porta do salão ser aberta, desviando sua atenção para lá. Os olhos de Thor recaíram sobre os dois no instante que os notou ali e ela correspondeu ao olhar, abrindo um sorriso e o acompanhou até que estivesse mais perto.
— Acho que esqueceu do que combinamos ontem de noite — Thor disse calmamente, fazendo com que Loki franzisse o cenho. — Quando fui ao seu quarto — completou, fazendo com que as bochechas de Kára corassem na hora.
— Eu mudei de ideia. — Deu de ombros. — Sabe que gosto de treinar sozinha, mas espero que seu machucado esteja melhor. — Afastou-se dos dois, de uma forma que pudesse encará-los ao mesmo tempo. — Odin não vai gostar de saber que andou nas florestas proibidas de noite, Thor.
— Muito menos de saber que depois disso foi ao quarto da Kára — Loki se intrometeu, falando aquilo entredentes, sem se preocupar se transparecia que a ideia lhe incomodava.
A guerreira riu de forma exasperada, acompanhando uma risadinha do loiro, que encarava o moreno.
— Eu te convido da próxima vez, irmão — respondeu ironicamente e viu o outro lhe fuzilar com os olhos cerrados.
A garota revirou os olhos e caminhou até onde antes estava sua lança e colocou-a no lugar, já sabendo que sua concentração para retornar aos treinos tinha ido embora de vez, sendo acompanhada pelos dois irmãos. E, de qualquer forma, o sol estava se pondo, e isso significava que precisava ver os últimos detalhes do baile, sendo acompanhada pelo olhar dos irmãos.
— Os meninos eu não sei — começou a dizer, conforme caminhava até a porta para sair dali —, mas eu tenho um monte de coisas para fazer até a hora do baile — disse, fazendo menção de sair, mas ficou parada na saída.
— Podemos ir juntos! — os dois disseram em uníssono, fazendo com que a garota abrisse um sorriso largo e eles se entreolharam.
— Bom — disse calmamente, ainda sorrindo. — Como tenho dois braços, posso ter um de cada lado. — Lançou uma piscadela para eles, e então saiu do ambiente. Deixando-os completamente afetados com aquilo.


Kara encarou seu reflexo no espelho e tombou um pouco a cabeça, fazendo uma expressão de confusão. Ver a si mesma em um vestido era algo bastante incomum, por isso, além de sentir-se desconfortável, também existia aquele sentimento de que não era ela mesma. Bufou de um jeito frustrado, porque odiava aquelas festas asgardianas, mas decepcionar Odin era a última coisa que queria fazer e o homem estava tão animado com aquilo que o esforço valeria a pena. Ao menos era o que gostava de acreditar, na tentativa de tornar tudo um pouco menos difícil.
Após ajeitar seu cabelo pela milésima vez, saiu dos aposentos, caminhando por entre os enormes corredores e seguiu em direção ao enorme salão onde a celebração aconteceria.
Ao atravessar a enorme porta de entrada, seus olhos recaíram nos dois irmãos que pareciam esperar por ela. Abriu o melhor sorriso que conseguiu, mas antes de aproximar-se, fez uma reverência para eles. Ambos corresponderam ao gesto e aquela foi sua deixa para que se aproximasse, tomando nota do quanto estavam bonitos em suas roupas formais. Considerando aquilo, até que estava começando a gostar da ideia do rei.
— Meninos — disse sorridente, conforme passou os olhos um pouco pelo lugar para então voltar a encará-los. — Quem vai ser o primeiro a me conceder a honra de uma dança? — Arqueou uma de suas sobrancelhas, de um jeito quase sugestivo.
— Acho que eu diria o Loki — Odin respondeu, interrompendo a conversa e fazendo com que os três direcionassem os olhares a ele. — Preciso que o Thor venha comigo.
O loiro assentiu, mas antes de sair, virou-se para a garota.
— Guarda uma dança para mim — pediu, depositando um beijo no rosto dela e então acompanhou o mais velho.
— Nunca fiquei tão feliz por não ter sido chamado — Loki se manifestou, trazendo a atenção de Kára para si, que sorria. — Me concede essa dança, então? — Estendeu a mão para ela, que pegou sem hesitar.
A garota limitou-se a ficar em silêncio e levou a mão que estava livre até os ombros do rapaz. Ele segurou a mão dela com firmeza e levou a outra até a cintura dela, que o encarava a todo instante, tomando nota de seus gestos. Outras pessoas dançavam a volta deles também, o que tornava aquilo mais normal para ambos e logo começaram a movimentar-se, dando passos em perfeita sincronia conforme o ritmo da música lenta que tocava no ambiente. Já fazia algum tempo que não tinham um contato como aquele, e ali, ambos estavam compartilhando de uma ansiedade que nenhum deles sabia explicar muito bem o que significava, mas a sensação era prazerosa e parecia se intensificar cada vez que se olhavam.
— Como estão os treinos? — Kára perguntou baixinho, conforme movia-se com ele pelo salão.
— Você saberia se também me convidasse para eles — o rapaz respondeu calmamente, com um sorrisinho.
— A sua versão ciumenta não é das melhores, Loki — retrucou, rindo levemente, o que arrancou um riso dele. Porque aquilo não era bem verdade, até achava engraçado ver como ele reagia à sua proximidade com Thor. — Não que eu deva te dizer isso. Mas apenas o ajudei com um ferimento ontem, a ideia do treino foi dele — explicou-se, dando de ombros e foi puxada por ele.
Sem que ela esperasse, o rapaz a rodeou de uma forma que seus braços foram esticados, afastando-a dele, mas ainda conseguia segurar sua mão. Então a puxou com força o suficiente para seus corpos se colarem e seus rostos ficarem bem próximos, e ele a inclinou de um jeito que foi preciso segurá-la com firmeza pela cintura.
— Você parece entediada, Kára — soprou baixo, sem se importar se alguém os olhava. — Como posso te ajudar com isso?
— Você sabe mesmo tudo sobre mim — respondeu prontamente, com os olhos fixos aos dele. — Pode começar me levando para um lugar em que eu não me sinta.
Pronto para atender ao seu pedido, Loki a impulsionou para que ambos voltassem à posição em que estavam inicialmente e a puxou pela mão, passando por entre as pessoas que pareciam se divertir conforme dançavam. Ela se viu ser puxada por ele conforme passou os olhos à sua volta, se perguntando se alguém estava reparando no que acontecia ali, dois jovens praticamente fugindo do baile dado pelo próprio rei. Riu um pouco com aquele pensamento e sentiu o coração acelerar quando atravessaram a enorme porta, adentrando o corredor gigantesco. Ele, obviamente, não se importou nem um pouco com tudo aquilo que atormentava a cabeça dela e continuou puxando-a.
Passaram por alguns guardas que pareceram não se importar muito com os dois e seguiram até a entrada principal, fazendo a garota concluir que ele a levaria para o lado de fora do castelo. Seu coração bateu em expectativa e ela sentiu até o ar mudar quando chegaram de fato à parte de fora, sendo tomada pela brisa leve do vento batendo contra sua pele. O moreno virou para olhá-la de soslaio rapidamente, então continuou puxando-a. Passaram por uma floresta, então ele reduziu a velocidade com que andava e de repente entrou em uma espécie de caverna, fazendo com que uma parte da garota ficasse em alerta, mas os olhos de Kára se acenderam quando um lago com uma água de um azul que jamais havia visto antes apareceu em seu campo de visão.
— Como você encontrou isso? — questionou, conforme soltou a mão dele e caminhou vagarosamente, tentando tomar nota do espaço.
Era como se estivessem dentro de uma pedra gigante. Da água parecia raiar uma espécie de luz e era possível ver exatamente o fundo do que parecia ser um pequeno lago e ela sentiu uma certa vontade entrar ali.
— Você sabe que tenho meus métodos — falou de uma forma convencida conforme observava o olhar encantado de Kára.
— Só me pergunto se eles são os mais corretos — disse e caminhou para perto da água, abaixando-se para que pudesse tocá-la. — É uma das coisas mais lindas que eu já vi.
Ele sorriu ao ouvir aquilo, porque a ideia era exatamente aquela. Vê-la encantada com a beleza daquilo, que ele acreditava lá no fundo que se tornaria um segredo entre eles. Um lugar que só os dois pudessem compartilhar. E antes de dizer algo, aproximou-se dela.
— Se não forem, você vai embora? — questionou, quase dando um duplo sentido àquela pergunta. — Exatamente como você — disse em resposta ao que ela havia dito por último.
Kára ergueu o olhar em direção ao rapaz, com um sorriso estampado e levantou-se para que ficassem frente a frente.
— Você sabe a resposta, mas parece que sempre precisa me ouvir dizer — falou calma conforme seus olhos se fixaram aos dele. — Não, eu não vou — sua voz dessa vez saiu mais firme e seus olhos por uma fração de segundos foram até a água límpida para então voltar a atenção a ele. — Eu adoraria poder nadar aqui.
— Eu preciso, Kara — o rapaz respondeu, levando uma de suas mãos até o rosto da garota e levou uma mecha teimosa que caía sobre os olhos dela para trás da orelha. — Você pode, não tem nada te impedindo. — Deu de ombros, como se fosse algo extremamente simples. Fazendo com que os olhos dela se arregalassem um pouco diante daquilo. — Eu não vou ficar olhando, pode tirar o vestido.
De forma rápida, afastou-se, ficando de costas para que pudesse dar privacidade a ela. Kára permaneceu encarando-o de costas, ponderando se aquilo era uma boa ideia, sabia que podia confiar em Loki porque ele jamais viraria ou tentaria espiá-la de alguma forma e estava realmente tentada a entrar na água. Respirou fundo, buscando a coragem que sabia existir dentro de si, e levou as mãos até as alças do vestido, empurrando-as pelos ombros e deixando que o tecido caísse sobre seus pés, ficando apenas de roupas íntimas. Então virou-se e mergulhou na água de uma só vez, fazendo com que o rapaz virasse para que pudesse vê-la e um sorriso formou-se em seus lábios quando a viu emergir.
Seus cabelos estavam para trás bem molhados e os olhos dela pareciam iluminados.
— Obrigada — ela disse, antes que ele pudesse falar algo. O que não foi um problema, pois estava entorpecido demais pela beleza dela.
— Você não deveria ter que me agradecer por isso — falou calmamente, voltando a se aproximar da borda. — Mas, claro, sempre que precisar. — Abriu um sorriso, que foi correspondido pela mulher.
Kára submergiu, nadando naquela água que a deixava ainda mais encantadora e Loki a acompanhou com o olhar. Soube no momento em que tinha encontrado o lugar que ela gostaria, e vê-la daquela forma, tão feliz, o deixava verdadeiramente satisfeito. A viu sair parcialmente da água de novo, e continuou sorrindo.
— Você não vai entrar? — Kára questionou, encarando-o. — Eu não vou ficar olhando, pode tirar a roupa — disse, virando-se antes que recebesse alguma resposta, arrancado dele um risinho.
Ao contrário dela, ele não hesitou em momento algum e retirou as roupas, pulando na água logo em seguida. Loki nadou rapidamente até a garota, emergindo na água bem atrás dela, que virou-se tomando um susto.
— Não tem graça — disse, conforme empurrou-o levemente pelo ombro, rindo levemente junto a ele.
— Minha intenção não foi te assustar — falou, com os olhos fixos nos dela. — Se sentindo menos entediada, agora?
— Sim — respondeu baixinho, porque a forma como ele encarava a intimidava em alguns momentos. E aquele era um deles.
— Então já pode me dizer o que há de errado — sua voz era firme, mas o olhar sobre ela não condizia com o jeito de falar. — Me refiro ao que disse mais cedo, o algo que te incomoda — explicou, ao ver a expressão confusa da garota.
Kára o encarou por alguns instantes, ponderando se deveria compartilhar o que se passava dentro dela com ele. Confiava em Loki, então por que toda aquela apreensão?
— Pode confiar em mim, sempre — Loki disse, quase como se pudesse ler os pensamentos dela. — Seja lá o que for, vamos dar um jeito. — Deu de ombros, demonstrando uma despreocupação que a fez soltar um risinho.
— Precisa me prometer algo antes — finalmente se manifestou, aproximando-se um pouco do rapaz de cabelos negros, que se limitou às palavras e apenas assentiu positivamente. — Esse lugar será nosso. E tudo que acontecer ou for dito dentro dele, nunca sairá daqui. — As palavras dela eram muito calmas e ele sentiu o coração disparar com aquela proposta, ficando ainda mais próximo, quase que involuntariamente.
— Segredo, então — afirmou, com uma expressão brincalhona no olhar, mas logo a desfez para provar que falava sério.
— Eu não tenho conseguido dormir — falou baixinho, como se de alguma forma sentisse vergonha daquilo e seus olhos passearam pela caverna. Preferia olhar qualquer ponto que não fosse ele. — Meus sonhos parecem vívidos. E são coisas horríveis… — Fechou os olhos por alguns instantes, de forma que conseguia ver tudo aquilo passar rapidamente diante de seus olhos, e deu um pulo, voltando a abri-los e encontrando Loki a encarando. — Eu machuco as pessoas. Usando um poder que eu nem sequer sei que existe dentro de mim. Sinto uma escuridão terrível.
— Fecha os olhos — o rapaz pediu firme, mas mantendo o mesmo tom de voz de sempre. Kára estreitou os olhos diante daquilo e permaneceu olhando para ele, que se aproximou ainda mais. — Você confia em mim? — perguntou, recebendo uma resposta imediata com aceno de cabeça positivo por parte dela, que os fechou.
Em um movimento lento, ele passou uma mão através da cintura da garota — que estremeceu com aquilo, um tanto quanto surpresa — e a puxou de forma lenta na água. Ele a encarava atentamente, com os olhos fechados, a boca que tremia levemente e os cabelos molhados que agora já caíam para frente, dando um ar ainda melhor ao rosto dela.
— Me diz o que você sente, Kára — pediu calmamente, fazendo com que ela sentisse o bafo quente que saía de sua boca.
— Eu sinto a temperatura da água passando pelo meu corpo — respondeu, respirando fundo como se quisesse sentir cada odor presente no ambiente. — E o cheiro refrescante que ela exala.
— E o que mais? — questionou, enquanto ainda a segurava e levou a outra mão até a cintura da garota.
— A natureza passando por nós... a energia que ela é capaz de produzir. — Os olhos dela tremeram levemente, como se fosse abri-los, mas não o fez.
Ele abriu a boca para responder, mas parou quando um tremor forte percorreu o corpo dela, fazendo com que Loki a segurasse com ainda mais firmeza, puxando-a para tão perto que ela teve que entrelaçar as pernas na cintura dele.
— E agora? — continuou, com a mesma voz calma de sempre.
— Eu sinto você — respondeu firme, então abriu os olhos, encontrando o olhar negro dele, que a estudava calmamente. — Algo que não sei explicar o que é. Mas tem luz, nada de escuridão.
— Ah, Kára — Loki soprou baixo, com a voz levemente afetada e apertou-a ainda mais contra sim. — Mesmo que tivesse, você ainda me sentiria.
A garota abriu a boca para responder, mas um barulho que pareceu ser os passos de alguém fez com que despertasse do que acontecia ali e desvencilhou-se dele, afastando-se rapidamente.
— Precisamos voltar para a festa — falou, já de costas. Ele encarou aquela atitude, mas não disse nada, como sempre.
— Claro — concordou, então saiu da água.
Kára acabou virando na direção de Loki, mas logo olhou para o lado oposto.
Ela estava mentindo. Sabia exatamente o que sentia, mas admitir poderia levá-la a lugares desconhecidos, e, por isso, preferia sempre voltar atrás.
Esperou que ele colocasse a roupa para então virar-se e sair da água, já se vestindo rapidamente. Não sabia ao certo por que estavam fazendo aquilo, já que a água era tão límpida que foi possível ver o corpo um do outro, além de que tinham ficado mais próximos do que qualquer coisa. E sem falar absolutamente nada, retomaram o caminho para voltarem ao castelo, mais especificamente para o baile.


Oslo, Noruega — Dias Atuais.


atravessou a porta do prédio desejando que o dia passasse com a mesma velocidade que havia acontecido com a sua noite, em uma lentidão quase torturante, pois tinha incontáveis coisas para fazer antes do evento. Acenou para algumas pessoas — como sempre fazia — e pôde perceber os olhares confusos por vê-la de óculos escuros naquele ambiente fechado. Ela também estava achando aquilo incomum, mas de um jeito estranho, como tudo vinha sendo desde a noite anterior, seus olhos estavam mais sensíveis que o normal e a ideia de que poderia cair no sono lhe assustava.
Parecia não ter certeza de qual era a realidade.
Jogou suas coisas sobre a mesa e sentou-se em sua cadeira determinada a focar somente em trabalho, afinal naquilo era realmente boa. Puxou o primeiro manuscrito que precisava revisar e ativou o som para que uma música baixa e calma tocasse no ambiente, pois aquilo sempre lhe ajudava de algum jeito. Começou lendo, uma, duas, três...algumas páginas, mas sua atenção parecia ser desviada a todo momento por sons que ela antes jurava nunca ter escutado. Era como se pudesse ouvir as pessoas falando ao longe, passos batendo no concreto, respirações de desconhecidos e…
— O que… — Abriu a boca para falar, mas seus olhos foram desviados até o vaso com orquídeas em sua mesa. As pétalas balançavam levemente, apesar de não ter vento algum, e ela teve a sensação, por um momento, de que conseguia escutar o barulho delas quando aquilo acontecia. Então, aproximou-se um pouco mais, tocando-as de uma forma delicada e foi como se um choque percorresse sua mão, fazendo com que a afastasse de forma brusca.
Sua atenção só foi desviada daquela flor, pois seu celular começou a tocar de forma quase ensurdecedora em sua sala.
— Sim? — respondeu, ao perceber que não tinha checado quem ligava. De repente, pareceu voltar a ouvir tudo como era antes.
! — a voz de Eileen soou estranhamente preocupante do outro lado da linha.
— O que aconteceu? — perguntou prontamente conforme levantou-se da cadeira, já preparando-se para sair dali.
— Eu encontrei — a mulher respondeu, porém a ligação estava falha.
— O quê? — indagou, com uma expressão confusa. — Do que você está falando?
— Eu achei a passagem para outros… — Não terminou o que iria dizer, pois a ligação foi encerrada no meio da sentença.
— Eileen? — a escritora chamou pela amiga, porém não obteve resposta.
O evento de coisas que vieram a seguir fez a cabeça de quase explodir. Sua secretária entrou na sala como sempre fazia, porém logo um homem adentrou o ambiente, fazendo com que a mulher franzisse o cenho em confusão.
— Desculpa, ele não me deixou anunciá-lo — a secretária disse de forma nervosa.
piscou algumas vezes, então reparou nas roupas daquele estranho — mas nem tanto assim — diante dela. Ele usava roupas pretas com tons verdes, os cabelos pretos puxados para trás... e, bem, eram exatamente as vestes que ela havia desenhado algumas semanas antes junto de sua equipe para a capa de seu próximo livro. Ele era seu personagem encarnado.
— Não temos tempo para isso — o homem se manifestou, dando um passo à frente.
A escritora permanecia em silêncio, porque encontrava-se em estado de choque. Piscou mais algumas vezes e viu o homem fazer sinal para que Angela, sua secretária, saísse, que a obedeceu de imediato. Tudo parecia rodar à sua volta, a cabeça doía e seu estômago lhe avisava que colocaria tudo para fora se ela não voltasse ao normal.
— Kára, olha para mim — ele disse, agora bem na frente dela, que apenas elevou o olhar. — Você precisa vir comigo — falou, pegando-a pela mão.
Tudo rodou ainda mais à sua volta.
Kára.
— O que você disse? — foi a única coisa que conseguiu perguntar, antes que tudo ficasse preto.


Capítulo 3

Oslo, Noruega — Dias atuais.


A dor lambendo seu corpo era insuportável e seus olhos estavam pesados como rocha. Tentou se mover e sentiu mãos apertarem seu corpo, fazendo-a entrar em alerta. Onde se encontrava relativamente deitada não era estável e não se parecia em nada com uma cama, mas achou, ainda assim, agradável. Fez um esforço descomunal para abrir os olhos, mas eles pareciam simplesmente não querer responder aos seus comandos.
Os forçou um pouco mais e deixou a respiração sair ruidosamente. O nó em sua garganta se fazia presente e ela queria desesperadamente desabar ali mesmo, chorar feito uma criança, para entender, de fato, o que estava acontecendo. Sua vida tinha se tornado uma bagunça, ela não sabia mais distinguir realidade de sonho.
se encontrava a ponto de enlouquecer.
Passos a colocaram em alerta, mais uma vez, e ela percebeu estar em movimento. De repente rápido demais. Então se deu conta de algo, alguém a carregava nos braços e o desespero que antes pairava seu peito só aumentou. Contudo, sentia-se confortável ali, como se nada no mundo fosse capaz de feri-la, simplesmente porque aquela pessoa jamais deixaria acontecer.
Suas pálpebras finalmente cederam e conseguiu abri-las, encontrando, então, o homem que havia visto em sua casa. O mesmo cara que apareceu em sua fala e a fez perder a consciência, mas a mulher ainda não tinha se dado conta daquilo, porque de repente se perdeu ao olhar para ele.
Quando seu olhar ganhou foco, conseguiu vê-lo melhor. Não sabia explicar exatamente o que tinha de tão intrigante nele, exceto, é claro, o fato de ser a encarnação do personagem de seu livro. Mas parecia que tinha algo mais, trazendo a sensação de a conhecer. Dando a sensação à mulher de que nutria algo por ela.
Que talvez ela nutrisse algo por ele.
Kára.
O nome se fez presente em sua mente e sentiu o peito arfar. Ele a tinha chamado daquela forma. Então se lembrou do jeito que todo seu corpo pareceu perder qualquer controle e desabou em sua sala.
A sala.
A ligação.
Eilen.
Aquelas três coisas a fizeram se mover, tentando se livrar do estranho que a carregava, mas só conseguiu chamar sua atenção. O homem a encarou diminuindo o ritmo de andar, saindo de um lugar para outro com uma rapidez bizarra e então parou. Sem dizer nada, a colocou no chão e permaneceu em silêncio, encarando-a como se esperasse por algo.
Loki não estava exatamente confuso como a mulher diante dele, apesar de suas feições demonstrarem o oposto. Sua confusão era outra. Tinha um bilhão de coisas se passando em sua mente naquele momento, mas a mais importante delas era que não deixaria nada acontecer a ela.
Ao notar um certo medo por parte dela, iniciou o que fazia de melhor, esperar, por mais que sua vontade fosse chegar mais perto e a tomar em seus braços.
o encarou por alguns instantes, e como se não fosse capaz de ter controle sobre o próprio corpo, deu alguns passos na direção do homem. Seus olhos o analisaram com a precisão que gostaria de ter feito na primeira vez que o viu. Os passou primeiro pelo rosto dele, abrindo um sorriso que não soube explicar por que estava ali, tombando levemente a cabeça conforme reparou em suas vestes e seu tamanho.
Tudo nele era convidativo e intimidador.
Nem se deu conta quando ficou praticamente colada a ele e sua mão foi até seu rosto. Laufeyson quase franziu o cenho diante daquele toque, sentindo uma vontade inexplicável de fechar os olhos, mas não podia se deixar levar pelas emoções, então permaneceu com eles fixados a ela. Um gritinho ecoou da boca de , reverberando em conjunto ao som de sua mão no rosto dele.
Loki levou a mão à bochecha, fazendo-a se retrair com choque estampado em suas feições.
— Vejo que você não esqueceu o que tanto praticou em mim — Loki disse, virando para encará-la e tinha um sorriso ladino estampado em seus lábios, demonstrando achar graça na atitude da mulher.
franziu o cenho com as palavras dele, mas não se afastou, sustentando aquele olhar.
— Eu não sei que tipo de maluco você é — falou pela primeira vez desde que tinha recobrado a consciência. — Mas eu nunca te vi na minha vida. Então seja lá qual festa a fantasia você esteja indo, não me interessa. Só quero voltar para casa!
Laufeyson desfez a expressão brincalhona e franziu o cenho, um tanto confuso com as palavras dela.
— Ou se é um fã, tudo bem, posso te dar autógrafos. Mas alguém já te disse que sequestro é crime? — indagou, deixando-o com um semblante de incerteza.
O homem abriu a boca para responder algo, mas desistiu ao ver uma expressão de susto tomar conta da mulher quando direcionou os olhos à volta deles. Encontravam-se em um local deserto, com pouca luminosidade e aquilo não parecia nada familiar para ela.
Estavam sequer na Noruega?
O correto seria dar um soco nele e sair dali. Foi o pensamento de , mas, ao invés disso, permaneceu encarando-o, esperando por uma resposta.
— Se prefere de outra forma — ele respondeu despretensiosamente, então, como se não fosse absolutamente nada, o homem utilizou uma espécie de “magia” para se transformar.
Em um piscar de olhos, não usava mais aquelas roupas que ela nomeou como fantasia. Agora vestia um terno todo preto, que, na visão da mulher, que detestava admitir, caía muito bem nele.
— O que está acontecendo? — indagou. Sua cabeça estava uma bagunça e ela só queria acordar daquele sonho bizarro que tinha se enfiado para variar. — Me diz que estou sonhando!
— Acredite, poderíamos nos divertir bem mais se estivesse, sweetie. — Sorriu simpático, estendendo a mão para que ela a segurasse, algo que a mulher recusou silenciosamente, com uma expressão de irritação. — Considerando todas as cenas muito interessantes presentes em seu livro, . — A voz dele falhou ao final da frase, quando disse o nome da mulher, levando-a a franzir o cenho conforme o encarava.
queria muito discutir, mas a dor em seu corpo ainda se fazia presente, além do frio e cansaço que começavam a varrer seu corpo a cada minuto que passava.
— Você... Leu meus livros? — Sentiu a garganta travar, estreitando os olhos.
Por que alguém como ele leria seus livros?
— Sim, , eu li. A prisão não é lá muito divertida — afirmou, mantendo os olhos fixos nos dela. A escuridão deles deveria assustá-la, ainda mais acompanhada daquela informação, mas algo em seu coração insistia em dizer que estava segura como nunca esteve. — É assim que devo lhe chamar, agora? Aliás, vejo que está surpresa.
Respirou fundo ao ouvir o conteúdo da última pergunta. Era evidente para ela que o homem se sentia levemente desconfortável sempre que pronunciava seu nome.
— Qual o problema com meu nome? — questionou, tentando manter a calma. Não queria ser rude, não mais do que já havia sido, sabe-se lá o que ele era capaz.
Além de toda aquela mágica bizarra, é claro.
— Não há problema algum. Cai perfeitamente em você, como eu sempre disse — explicou, dando um passo à frente, conforme seus olhos demonstravam emoção ao falar sobre aquilo.
Aquela foi a gota d'água para . Porque ouvi-lo falar como se a conhecesse lhe gerava uma porção de sentimentos desconhecidos e ela sentiu a respiração falhar por um momento, levando as mãos até o rosto como se fosse ajudar a diminuir a tempestade interna.
— Que tal começarmos com as formalidades? — A voz dele saiu mais leve e, mais uma vez, se afastou, como se pudesse ler os pensamentos dela.
soltou a respiração, demonstrando gostar da atitude dele e o encarou novamente.
— Bom, bater na sua cara não foi lá muito formal. — Riu levemente, negando com a cabeça. — — apresentou-se, mas não fez questão alguma de estender-lhe a mão, por hora, queria evitar mais contatos físicos.
— Loki Laufeyson — disse naturalmente, curvando-se em reverência.
Ela tentou, mas não conseguiu conter a sequência de risadas e gargalhadas tomando seu corpo. Aquilo só poderia ser uma piada e daquelas de muito mal gosto, onde só o outro se diverte e você se sente completamente idiota e impotente.
Aquele homem estava testando sua paciência, e ela odiava aquilo.
— Certo — afirmou retórica. — Agora vamos lá. Me diga seu real nome.
O homem franziu o cenho. Fechou os olhos brevemente, como se aquilo realmente o irritasse, então voltou a abri-los.
— Bom, é meu único nome, do que sei. — Riu sem humor. — Me chamam de irmão do mau também, mas isso não vem ao caso agora.
— Imagino o porquê — respondeu, tentando se manter sã.
Loki permaneceu em silêncio, parecendo compreender que ela precisava de um momento. No fundo, sua vontade era de bombardeá-la com uma porção de informações, dizer o que tinha ido fazer ali e também a questionar sobre muitas coisas que simplesmente pareciam não se encaixar em sua visão.
Mais silêncio se fez presente.
estava a ponto de surtar, perdida no tumulto que era sua cabeça enquanto tentava compreender que maluquice era aquela. Porque raios um personagem de seu livro tinha cruzado seu caminho.
Droga. O que ela estava pensando? Obviamente ele era apenas um maluco querendo visibilidade às custas dela.
Tinha que se concentrar no que era real.
Loki Laufeyson era um personagem fictício que ela havia criado, vindo de todos os sonhos insanos que ela já havia tido ao longo dos anos, desde aquela noite em que acordou no hospital sem memória alguma. Aquele homem não era real e provavelmente estava, novamente, em mais um pesadelo longo e cansativo.
— Kára… — a voz soprou baixo, em conjunto a uma brisa gélida que fez sua pele arrepiar.
Sentiu o coração bater mais forte ao ser chamada por aquele nome de novo. Seu estômago embrulhou, a cabeça pareceu pesar de repente e tudo à sua volta com certeza girava.
— Eu sinto muito, força do hábito. — Sentiu a mão de Loki sobre seu braço e tudo pareceu se movimentar muito rápido à sua volta.
Ela ia desmaiar, ou acordar... Não importava, nada mais parecia fazer sentido.
Se preparou para dizer que estava perdendo a consciência, mas antes de o fazer, tudo ficou escuro.


Asgard — Antes do sombrio.


Asgard tinha nascido com o sol raiando, trazendo mais um dia esplêndido para seu povo. Homens, mulheres e crianças caminhavam por entre as ruas da cidade sorridentes, contemplando o quanto era agradável viver ali, como todos eram felizes e realizados com todas as coisas que haviam conquistado ao longo dos anos. O reino enfrentava um momento de paz e alegria e nada poderia deixar o coração de Odinson mais repleto de alegria.
Mesmo com algumas coisas que o preocupavam vez ou outra, as quais seriam consideradas por seu pai e mentor, banais, ele não se deixava abalar nunca. Thor era aquele tipo de pessoa que vivia sempre de bom humor, sorrindo e sendo gentil com todos ao seu redor. Afinal, não tinha do que reclamar, sua vida era exatamente — ou até muito mais — como havia desejado para si e aqueles que amava.
Apressou um pouco mais o passo quando algo cruzou seu pensamento e sentiu uma empolgação aflorar em cada célula de seu corpo, quase como se fosse capaz de lhe causar um formigamento, tamanha era a ansiedade que sentia sempre que aquela possibilidade acontecia. Encontrá-la era uma rotina, algo que fazia todos os dias, mas, mesmo assim, a adrenalina de vê-la mais uma vez e apreciar de sua companhia vinha acompanhada.
Gostava daquela sensação, não podia negar.
Cumprimentou mais algumas pessoas pelo caminho conforme fazia algumas anotações mentais e respirava fundo em busca do ar que sempre lhe faltava na presença dela. Um sorriso largo foi estampado em seus lábios, assim que adentrou o enorme salão de treinamento, onde a garota se encontrava com sua lança em mãos bem ao centro.
O rapaz não tinha pressa, por isso recostou-se na parede próxima à entrada, fazendo o mínimo de barulho que conseguiu e cruzou os braços. Seus olhos acompanharam cada um dos passos dela, como se fosse capaz de calcular exatamente o que ela fazia, prestando atenção a cada decisão tomada e parecendo até ser possível escutar o jeito que sua respiração saía baixa e ritmada.
Aquela era outra coisa a qual gostava de fazer, e se pudesse enumerar seus passatempos favoritos, sem dúvidas, estar ali entraria no topo deles. A destreza com que a garota tomava conta do que estava à sua volta, mesmo com os olhos fechados, só usando seus sentidos, era encantador e ele até invejava um pouquinho aquela capacidade.
Outro sorriso, dessa vez um pouco mais sutil, formou-se nos lábios dele quando a viu virar o rosto em sua direção, com as pálpebras ainda fechadas. Havia uma grande possibilidade de ela ter notado sua presença, mas ele não se importou nem um pouco, continuou ali, analisando-a.
Estava apenas esperando para o show de verdade.
Demonstrando que nada poderia distrai-la, Kára moveu primeiro o pé direito, mantendo o esquerdo atrás para que pudesse equilibrar-se e apontou a lança como se existisse algo à sua frente. Dois passos foram dados, ela parou, puxou o ar, virou o rosto e rodou o objeto algumas vezes como se fizesse desenhos no ar, andando furtivamente.
Os olhos dele acompanharam cada detalhe. Podia sentir uma tensão maior no ar por parte dela e foi como se uma espécie de energia se formasse, arrepiando sua pele e fazendo-o puxar o ar com força.
A guerreira vinha sempre acompanhada de uma adrenalina inexplicável.
Foi pego completamente de surpresa quando ela abruptamente virou-se na direção em que se encontrava, lançando o objeto pontudo, passando a poucos centímetros de sua cabeça, prendendo-se à parede atrás dele.
Thor sequer moveu um músculo, abrindo um sorriso tendencioso e se virando para olhar a lança acima dele.
— Odinson — ela soprou baixo, abrindo um sorriso conforme seus olhos o encontraram.
O rapaz riu descontraído e virou para encará-la.
— Kára. — Sorriu ao proferir seu nome, dando alguns passos para quebrar aquela distância enorme entre eles. — Não gosta de ser observada, eu sei.
— E, mesmo assim, insiste em fazer isso — o repreendeu, abrindo um sorriso em seguida. — Não achei que você estava inclinado a ocupar o posto desobediente.
Thor riu daquele comentário, sabia muito bem ao que se referia. A encarou por alguns instantes, questionando como era possível que estivesse tão bonita mesmo com o suor presente em sua face e os cabelos levemente bagunçados.
A quem queria enganar? Aos seus olhos, Kára era encantadora de qualquer forma.
— Veio aqui para treinar ou ficar me olhando? — brincou, conforme caminhava, passando por ele para então pegar sua lança.
Outra risada ecoou no ambiente.
— Treinar, claro — Thor afirmou, virando-se para manter os olhos fixos a ela.
A garota abriu outro sorriso largo, o encarando.
— Que tal nada de lança? — ele sugeriu apressado.
— Com medo de que eu fure você? — Kára perguntou, rindo levemente.
Ele tentou, mas não conseguiu conter a gargalhada que escapou de seus lábios, ecoando todo o salão.
— Engraçadinha — comentou, parando de rir conforme retomava o ar. — Só acho importante manter em dia a luta corporal… Sem armas.
A garota nada disse, apenas aproximou-se dele, deixando que a lança caísse no chão, causando um estrondo. Sorriu ao encarar o rapaz e ele a acompanhou, atento a cada um dos movimentos dela e não conseguindo evitar segurar sua mão, puxando-a levemente para si.
— Você conhece esse, já fizemos antes — Odinson soprou baixo, ao passo que segurou o pulso de Kára, vendo-a manter os olhos em sua mão tocando seu peito.
Sem dar muito tempo para que ela pudesse processar as coisas, Thor a segurou com um pouco mais de firmeza, puxando-a e levando os pés aos dela na intenção de derrubá-la. Contudo, a mulher foi mais rápida, impulsionando o peso do corpo para cima, fazendo suas pernas se erguerem, abrindo-as graciosamente e prendendo-as ao pescoço dele. Não precisou de muito esforço para que soltasse o próprio pulso.
Agora ela estava sentada nos ombros dele, mas não ficou muito tempo ali, pois rodou, fazendo com que ele precisasse de toda força para não cair, viu a mulher saltar para trás, escutando o barulho do corpo dela chocar-se com o chão e a viu em posição de ataque quando virou ainda atordoado.
— Vamos lá, Odinson — ela provocou. — Me mostre que tem algo para me vencer além do seu charme — zombou.
O rapaz arqueou uma sobrancelha com tamanha audácia da garota e se preparou para o ataque, se ela queria uma luta de verdade, era isso que teria. Forçou os pés no concreto, ficando em posição de ataque conforme estudava cada uma das reações de sua oponente, que sequer piscava. Era inegável, adorava aqueles momentos com ela, tinham paixão pela luta e batalha em comum e aquilo parecia os aproximar a cada dia.
Deu dois passos para frente, vendo-a se mover para poder ganhar campo e continuou seu caminho. Parou no exato momento em que a mulher deu a volta, demonstrando que iria atacá-lo e a viu impulsionar o corpo, dando chance para ele ir em direção a ela com precisão.
Kára jogou o corpo para frente, dando uma pirueta na intenção de cair bem atrás de Thor, contudo, ele foi mais rápido, diminuindo o ritmo de sua corrida e jogou o corpo para baixo, deslizando no concreto e fazendo a garota cair em cima dele na intenção de segurá-la pelos braços. Ela foi mais rápida, levando as mãos ao pescoço dele.
— Charme, hum? — brincou, rindo fraco conforme encarava, até o sorriso aparecer no rosto da garota. Ele nem tinha se dado conta de que a guerreira se encontrava perfeitamente encaixada em seu colo.
— Você é quem está imobilizado aqui, loirinho. — Piscou para ele, vendo-o cair na gargalhada e fazendo o mesmo acontecer a ela. — Idiota — soltou, rindo, conforme tirou suas mãos do pescoço dele e deu-lhe alguns tapinhas no tronco.
— Idiota mais divertido que você poderia conhecer — respondeu, sorrindo.
Antes mesmo de Kára calcular uma resposta, ele a segurou pela cintura, impulsionando seu corpo e ficou em pé em uma facilidade que fez a mulher revirar os olhos e soltar um gritinho de surpresa.
— Thor, o que… — tentou questionar, sentindo o coração bater mais forte quando viu que ele não a soltou e tentou se desvencilhar.
— Hora de banho na cachoeira — ele disse, aproveitando que ela havia soltado as pernas para jogá-la sobre seus ombros.
Kára soltou um grito, debatendo-se para que ele a soltasse conforme escutava o loiro rir cada vez mais.
— Thor, não! — gritou, entre risadas. — Eu estou falando sério!
— Eu também — respondeu simplesmente, conforme andava, a essa altura já nos corredores do reino, vendo todos olharem para eles.
A garota sentiu as bochechas queimarem, mas se deu por vencida conforme ria e observava todos que os encaravam.
Sabia que ele não a soltaria.


— Eu juro, você me paga, Thor. — Kára o fuzilou com o olhar ao sair do lago com as roupas ensopadas.
— Por fazer você se divertir? — o rapaz perguntou, já ao lado de fora, onde torcia a camiseta.
— O seu conceito de diversão anda bem distorcido, Odinson. — Riu fracamente, zombando dele e foi acompanhada.
Nada tirava o humor dele? Por Deus!
Riu com aquele pensamento, conforme o observou sem camisa.
— Você anda passando muito tempo com o Loki — Thor debochou, sabendo estar cutucando onça com vara curta, mas não conseguia evitar.
Kára estreitou o olhar ao ouvir aquilo, revirando os olhos logo em seguida.
— Muito engraçadinho. — Deu de ombros. — Saiba que seu irmão é uma ótima companhia.
Ela não tinha intenção alguma de torturá-lo com aquele comentário, mas dizer aquilo foi certeiro no coração do guerreiro, que apenas assentiu, rindo. Antes que pudesse dar qualquer resposta, no entanto, seus olhos focaram em outro ponto, bem atrás da garota, onde seu irmão encontrava-se com um sorriso estampado no rosto.
— Eu adoraria discutir as qualidades da minha companhia agora, Svartálfar, ou até mesmo dar algumas dicas ao meu irmão — anunciou, com um sorriso perverso no rosto, chamando atenção da garota e fazendo o irmão bufar. — Mas os dois estão sendo convocados com extrema urgência.
Kára até teria dado risada, se não tivesse se atentado à forma como ele passou a informação.
— Nós estamos indo agora mesmo, Laufeyson. — Sorriu para ele, já caminhando para se afastar dos dois.
Se algo importante estava acontecendo, precisava sair o mais rápido possível.
— Pode pelo menos dizer quem? — escutou Thor questionar, conforme era seguida pelos dois por entre a trilha na floresta que os levariam rapidamente de volta ao castelo.
— Heimdall — Loki respondeu simplesmente.
Kára franziu o cenho ao ouvir aquilo, pois não era comum que o homem os chamasse fora dos horários de treino. Apressou ainda mais o passo, sem importar-se muito se os dois irmãos estavam logo atrás dela ou não, algo em seu coração dizia que era de extrema importância e não queria se atrasar nem mais um minuto. Estava tão tensa e apreensiva que nem sequer se lembrava das roupas ensopadas, até entrar no salão, com as pessoas a encarando como se tivesse algo de errado.
Não tinha nada a ser feito, então apenas deu de ombros e continuou seu caminho. A constatação de que algo estava acontecendo veio ao notar pessoas caminhando com pressa, mães puxando a mão dos filhos, homens falando com suas mulheres sobre ficarem em segurança e não saírem de seus aposentos sob circunstância alguma.
Nunca achou aquele reino tão grande como naquele momento, parecia que quanto mais aumentava o passo, mais distante ficava e sentiu o coração bater cada vez mais forte. Não tinha sequer perguntado a Loki onde estaria seu mentor, mas não precisava que lhe informasse, Kára sabia, ela sempre sentia a energia dele por entre as paredes de Asgard.
Tentou o máximo que podia ajustar as vestes enquanto atravessava a porta do salão, na intenção de parecer mais apresentável, mas aquilo perdeu completamente a importância quando seus olhos recaíram sobre o exército preenchendo todo o espaço.
— Agora o atraso faz mais sentido — Heimdall se manifestou, assim que ela ficou próxima o suficiente e sentiu o rosto queimar.
— Me desculpa, não é dia de…. — tentou falar, mas não sabia exatamente como explicar.
Não estava fazendo nada de errado, certo?
— Não quero explicações, Svartálfar. Um guerreiro sempre deve estar pronto para a batalha — disse, mas seus olhos dessa vez se focaram atrás da garota.
Loki e Thor haviam parado a poucos centímetros.
— Batalha? — Thor soltou de maneira retórica.
— Sim, vocês irão para a primeira batalha de suas vidas — falou, como se aquilo fosse rotineiro e desviou a atenção dos três jovens. Fez menção de se afastar, mas não sem antes virar sua atenção para Kára brevemente. — Eu usaria a lança, princesa.
Antes que ela pudesse rebater a forma como o homem a tinha nomeado, ele se afastou de fato, passando a dar ordens para todos ali presentes.


🏹 🏹 🏹


O lugar em que estavam não era nada que Kára já havia presenciado antes. O ar era rarefeito e tudo parecia sem vida, como se as únicas coisas capazes de nascerem dali fossem dor, sofrimento e angústia. Não queria se deixar abalar, mas era inegável a sensação de dor a cada passo dado quando via corpos mutilados ao chão, entre eles crianças, mulheres… Famílias que tinham perdido suas vidas pagando o preço da vingança e do poder.
Respirou fundo, puxando o ar o máximo possível, determinada a recobrar sua postura como guerreira. Seus passos se tornaram ainda mais precisos conforme escutava os comandos serem repassados, ela e Thor estavam na mesma base, enquanto Loki havia sido escalado para outra. Era inegável que o ter de longe em sua primeira batalha não lhe agradava, mas nada poderia ser feito sobre aquilo, apenas aceitar e torcer para que tudo desse certo.
Retomou sua concentração e postura, então segurou a lança que se encontrava em sua mão esquerda com ainda mais força. Pressionou tanto que os nós dos dedos ficaram doloridos, mas o fato não a incomodou.
Tudo aconteceu muito rápido, antes mesmo de se dar conta ou ter sequer a oportunidade de tomar nota de mais algumas coisas, a luta já havia começado. Sua lança movia-se em seu domínio com uma destreza desconhecida até por ela, dando passos com a mesma agilidade, como se fizesse uma dança a cada inimigo atingido pelo aço asgardiano.
Havia se imaginado em muitas batalhas e esperado por aquele momento, mas ali, olhando para toda aquela brutalidade e agressão, a mulher sentiu um arrependimento a corroer. Contudo, não tinha mais volta, Asgard estava sendo ameaçada e seu dever era protegê-la.
Vez ou outra, seus olhos ainda o procuravam, e sempre que recaíam sobre ele, era inevitável disfarçar o alívio. Sua atenção foi questionada quando sentiu algo lhe rasgar a pele, fazendo-a virar em direção ao responsável pelo golpe. Kára preparou a lança para atacá-lo, mas parou por um instante.
Algo parecia familiar…
Ao contrário do esperado, ele não a atacou, permaneceu analisando a garota tanto quanto ela fazia com ele. Era como se o tempo simplesmente tivesse parado e ninguém pudesse vê-los. O ar ficou rarefeito e por um momento ela achou que não fosse mais capaz de respirar.
Mais uma vez, aquela escuridão que sentia emanar de seu corpo estava ali, presente, quase palpável, e teria deixado os sentimentos falarem mais alto se não estivesse tão apavorada. Fechou os olhos por um breve instante, na intenção de recuperar os sentidos, e uma voz reverberou em sua mente.
Você é tudo que eu sinto.
Seus pés se moveram sem muita consciência de sua parte. Decidida a seguir seus instintos, a mulher continuou presa em seus pensamentos.
Sinto você e a natureza.
— Kára, agora! — a voz de Thor irrompeu a bolha que havia se formado, chamando a atenção dela.
Sabia ao que ele se referia.
Sem pensar muito, porque não havia tempo, Svartálfar moveu a lança como já pretendia fazer, ganhando impulso nos pés e girou o corpo, passando por cima de seu inimigo.
Tinha treinado aquilo com Thor diversas vezes, nada poderia dar errado, exceto pelo fato de que o outro era muito bem treinado.
Antes de sequer pousar do outro lado, como havia planejado, para atacá-lo, ele contra-atacou. O corpo do homem moveu-se para cima, atingindo as pernas da garota, levando-a a perder o equilíbrio.
— Não! — Kára gritou, ao visualizar que Odinson seria atingido e ao invés de soltar a lança, a segurou, girando-a mais uma vez e projetou seu corpo na mesma direção.
Tudo que sentiu foi o aço cortando a pele de seu abdômen e uma dor dilacerante, conforme a voz de Thor e todos ali presentes foram desaparecendo.
Tentou abrir os olhos, mas não conseguiu. Sequer sabia se ainda estava viva, tamanha era a dor sentida.


🏹 🏹 🏹


Loki atravessou o lugar sem dar importância aos olhares direcionados a ele. Seu coração batia insistentemente, fazendo-o jurar que todos à sua volta eram capazes de sentir a apreensão que sentia e o som das batidas.
Ela precisava estar viva.
Nem pediu para o guarda abrir a porta, diante daquela situação, não tinha tempo para formalidades. Precisava encontrá-la o quanto antes. Não importavam as notícias dadas a ele, precisava ver com seus próprios olhos qual era a gravidade. Contudo, ao chegar de frente para a tenda, pertencente a Kára, foi como se seu corpo congelasse e nada mais fizesse sentido dentro de sua cabeça e coração, simplesmente tinha perdido qualquer controle sobre o próprio copo.
Pela primeira vez, Loki Laufeyson sentiu medo.
— Princesa, nós precisamos ir — escutou uma voz desconhecida sussurrar.
— Kára, por favor — dessa vez, foi Thor quem se manifestou, o fazendo cerrar os punhos.
— Só mais um pouco — A voz dela ecoou baixa e fraca.
Aquilo foi a deixa para o rapaz empurrar a cortina de pano usada como porta e anunciar sua presença. Os olhos de seu irmão e de um dos oficiais do rei recaíram sobre ele, que não deu a mínima importância. Caminhou rapidamente até a maca em que a garota se encontrava deitada, sentindo os ombros curvarem quando ela o encarou.
Mais uma vez perdeu a fala, algo recorrente na presença dela. O rosto de Kára estava coberto de sangue, os cabelos molhados de suor e a mão sobre o abdômen lhe chamou atenção.
Ela tinha se ferido.
Tudo porque ele não estava ao lado dela.
— Escuta, Loki — Thor se manifestou, antes de todos.
O rapaz de olhos negros bufou, sentindo o sangue borbulhar em cada veia presente no corpo e bastou uma olhada dele para que o irmão desistisse de dar explicações.
— Laufeyson — Kára sussurrou, então sentiu a mão dela tocar a ponta de seus dedos, chamando sua atenção para ela.
Sua feição se transformou ao olhar para a garota daquela forma, tão ferida e fraca. O coração disparou, fazendo um arrepio percorrer a espinha, mas não hesitou em segurar a mão dela, aproximando-se ainda mais e ficando de joelhos ao lado da maca.
— Você veio. — Ela sorriu, fechando os olhos por um momento.
Ele não sabia disso, mas seus corações batiam no mesmo ritmo.
— Onde mais eu poderia estar, Svartálfar? — indagou, abrindo um breve sorriso, sendo correspondido por ela.
— Nós realmente precisamos ir, princesa — o oficial se fez ouvir, mais uma vez.
Ele sabia que ela precisava de cuidados médicos, mas a ideia de deixá-la era aterrorizante.
— Tudo bem — soprou baixinho, levando sua mão até os cabelos dela, onde fez um carinho. Curvou-se mais um pouco e então depositou um beijo na testa da garota. — Até nos reencontrarmos, sweetie.
Não deu abertura para ela responder nada, porque aquilo não era uma despedida, não podia ser.
Saiu da tenda sem dizer nada, sentindo a presença de alguém atrás de si e não precisava de muita inteligência para notar ser Thor. Ele tentaria se explicar, mas Loki não estava disposto a ouvir.
Andou ainda mais rápido, estava borbulhando de ódio e não queria tocar no assunto até ver a garota bem de novo. Não importava o que tinha de fato acontecido, Kára havia se machucado e aquilo o atingia muito mais do que gostava de admitir.
— Loki! — Thor gritou, entrando na sua frente logo em seguida.
— Seja lá qual desculpa você vai arrumar, não me interessa — disse ríspido, sentindo ainda mais ódio ao olhar para ele.
— Não vou arrumar nenhuma desculpa — respondeu prontamente. Estava tão nervoso quanto o irmão, mas não queria demonstrar. — Nós estávamos na luta e eu calculei errado.
Loki levou a mão até a testa, coçando-a com a ponta dos dedos, demonstrando ainda mais nervosismo.
— Agora vai me dizer que não teve a brilhante ideia de usar aquele movimento irresponsável? — indagou, vendo o outro assentir positivamente à sua pergunta. — Quantas vezes eu precisei repetir que era uma má ideia? Que ela se machucaria?
— Eu tinha tudo sob controle, mas…
— Tanto controle que ela está naquela maca com um buraco na barriga, irmão? — rosnou entre dentes, cerrando os punhos pela milésima vez.
— Eu fiz o possível para poder evitar que acontecesse. — Thor mantinha os olhos fixos nos dele, mas não podia negar que também estava começando a ficar irritado com aquela situação toda.
Ele não era o único que prezava pela vida da garota.
— Ah, fez tanto que olha só no que deu. — Riu sem humor.
— Loki, será que dá pra parar de achar que você é o único que se importa com a Kára? — esbravejou, finalmente colocando para fora o que realmente o incomodava.
Laufeyson nada disse, apenas revirou os olhos diante daquilo. Mais um pouco e começaria uma briga bem feia com o irmão ali mesmo, na frente de todos, que àquela altura já encaravam a discussão acalorada.
Ele sabia que não era culpa de Thor, mas jogar a responsabilidade em cima dele parecia diminuir sua dor.
Quando seria capaz de entender que não poderia salvá-la?
— Eu sei como você se sente, irmão. — O loiro se aproximou, na tentativa de amenizar aquela briga sem sentido.
— Não ouse comparar seus sentimentos por Kára aos meus. — Riu sarcástico.
— Só estou dizendo que você não é o único. — O encarou nos olhos, e mesmo que não terminasse aquela frase, de fato, Loki sabia ao que se referia.
— Só me avise quando ela acordar — pediu, saindo dali, evitando que as coisas saíssem de seu controle.
Talvez seria mais fácil, se ele fosse.
Único.

Asgard — Dias atuais.


— Thor, o que faz aqui? — Loki perguntou, conforme caminhava de um lado para o outro, mantendo a postura de sempre, mãos para trás e olhar baixo.
O guerreiro encarou seu irmão, mesmo do outro lado do vidro, ele sentia-se tenso e intimidado em sua presença. Não que não o amasse, mas não podia negar a natureza do rapaz.
Loki nunca mudaria. Trapaça estava no sangue dele e, preso ali, sabia que não poderia fazer nada.
— Onde estava? — indagou. A curiosidade era inegável, pois o encarava há uns bons minutos com os olhos fechados, concentrado.
— Estou preso, caro irmão. — Riu sem humor. — Aonde mais eu poderia ir, se não meus pensamentos?
Thor franziu o cenho, questionando se deveria acreditar nele. Só queria poder confiar em Loki.
— Então, ao que devo a honra de sua visita, majestade? — questionou sarcástico.
— Você sabe que eu recusei o trono, Loki! — devolveu um pouco ríspido.
Aquele de fato não era seu melhor dia.
— Como se isso não te fizesse dono de todo o reino. — Sorriu sem mostrar os dentes.
O loiro poderia ficar ali discutindo com ele pelo resto do dia, exceto, claro, que não dispunha de todo aquele tempo.
Ele sabia que o irmão não era a pessoa mais confiável para entrar naquele assunto, mas quando se tratava de paranoias, o homem era bom em captar coisas. Além de que, Loki era ótimo em guardar segredos, logo, para ele, fazia sentido saber quando alguém escondia um.
— Estou preocupado com nosso pai — informou, mesmo sentindo algo gritar dentro dele que não era uma boa ideia compartilhar aquilo com ele.
Loki cruzou os braços, revirando os olhos em seguida.
— Não finja que não se importa — Thor soltou ríspido.
— Não me importo — Laufeyson rebateu. — Mas, me diga, qual seria o motivo de tanta preocupação?
— Na festa de nossa mãe… — Ele caminhou um pouco de frente para a jaula, observando o local e vendo como ali era bem diferente de todo o restante do reino. Não era exatamente sombrio, mas existia um vazio e sentiu-se desconfortável de ver seu irmão ali. — Aquela em que você esteve, apesar dos apesares…
— Thor, corta a enrolação — pediu, sem alterar o tom de sua voz. — O que exatamente você quer perguntar?
— Nosso pai parecia estranho, parece que algo o preocupa — Thor finalmente desembuchou o que cruzava seus pensamentos e, apesar de não ter notado, Loki franziu o cenho ao ouvir aquilo. — Quando o questionei, ele disse que meu dever era proteger Asgard.
— Qual a novidade nisso, Thor? — o outro soltou sarcástico.
— Loki, eu acho que Asgard corre perigo. — Demonstrou em seu olhar o quanto aquilo o desesperava.
Um silêncio foi travado entre os dois irmãos. De repente, foi como se aquele vidro tivesse desaparecido e uma batalha se formasse entre eles, como jamais havia acontecido antes. Loki permaneceu encarando-o com sua expressão de sempre estar escondendo algo, mas que nada seria revelado, enquanto Thor tentava ler ao menos uma mísera informação.
— Você não vai dizer nada, Loki? — Odinson foi o primeiro a se manifestar.
Laufeyson arqueou uma sobrancelha, antes de fazer uma expressão dividida entre preocupação e tristeza.
— Não — respondeu, retomando sua postura impassível logo em seguida.
— Loki, Asgard corre perigo! — Thor alterou o tom de voz, sentindo como se fosse capaz de explodir aquela porcaria de vidro.
— Não me importo, irmão. — Sorriu minimamente, sem dar chance ao irmão de questioná-lo e retornou para um fundo de seu espaço.


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Odin havia repetido centenas de vezes estar tudo bem, mas nada o convencia. Thor não conseguia deixar de pensar nas palavras dele sobre suas obrigações, a forma como parecia referir a um futuro próximo o agoniava. Só de pensar na possibilidade de Asgard sendo quase levado às cinzas de novo o fazia perder o sono por noites a fio.
Mais do que nunca, seus pensamentos pareciam não desviar dela. Kára Svartálfar se fazia presente cada vez mais, como se aquilo fosse um sinal para algo impossível de achar uma resposta. A saudade avassaladora que sentia dela não era segredo algum, mas a imagem da garota sorrindo, correndo com ele pelo castelo e travando batalhas vinha se tornando mais recorrente.
Não queria render-se à nostalgia dos momentos, mas era difícil. Cada vez que seus olhos pesavam, em uma tentativa de o recordar do cansaço, a imagem daquele dia terrível lhe assombrava. Era como se a vida gritasse bem diante de sua face não ter feito o suficiente para salvá-la.
Rodou na cama pela milésima vez. Mesmo estando no quarto um dia pertencente a ela, ele não conseguia descansar. Era como se o tempo fosse lento e insólito desde que ela havia partido, talvez fosse porque tudo tinha perdido o sentido.
Estava finalmente quase fechando os olhos, quando um estrondo irrompeu o ambiente.
O que era aquilo? Batidas na porta… Ou talvez uma explosão. Ninguém sabia que estava ali, então era difícil acreditar ser alguém.
Se permitiu fechar os olhos mais uma vez e um estrondo ainda maior se fez presente, clareando todo o ambiente.
Algo estava errado.
Thor deu um salto e correu até a janela do aposento. Seus olhos demoraram para acreditar no que viam, o reino estava sendo atacado. Mulheres, homens e crianças corriam para todos os lados conforme o fogo parecia se alastrar e os guerreiros do reino tentavam tomar controle da situação.
Não pensou muito, de repente se viu esticando os braços e usando daquela força conhecida apenas por ele para o martelo vir em sua direção. Em questão de segundos, Odinson atravessou a janela sem importar-se com o vidro sendo estilhaçado, seu corpo foi lançado em direção aos seus inimigos e ele não se refreou em começar a golpeá-los.
Tudo parecia acontecer muito rápido à sua volta e era como se cada vez mais inimigos aparecessem em seu caminho, atacando-os de todos os lados. Sua prioridade era matar o maior número que conseguisse, mas também estava focado em salvar todas aquelas pessoas que se encontravam em meio àquela batalha.
— Thor! — A voz de Heimdall ecoou atrás dele.
— O que está acontecendo, Heimdall? — questionou alto, girando o martelo e atingindo outros em seu caminho.
Tinha algo ali que ninguém havia contado a ele.
— Não temos tempo para isso! — gritou, conforme jogou seu corpo para o lado do loiro, ajudando-o a se livrar de alguns alvos.
Mais guerreiros apareceram à volta deles, tentando ao máximo proteger as pessoas ali.
— Thor, preciso que vá atrás de Odin. — Dessa vez, Heimdall virou-se para encará-lo, parando bem à sua frente.
Ele franziu o cenho diante daquelas palavras, parando brevemente conforme atirou o martelo, atingindo uma centena de inimigos e o puxou para o segurar novamente.
— Agora! — seu mentor disse, virando a espada para atingir um alvo atrás de Thor.
Ele não o questionou, apenas segurou seu martelo com mais firmeza e o girou em suas mãos conforme viu mais daqueles estranhos se aproximarem.
Estava no ar em uma fração de segundos, indo em direção aonde sabia que o rei estaria. Mais vidros foram quebrados, mas aquilo não tinha importância alguma no momento e o encontrou lutando, como já se esperava.
Aquelas coisas que ele não soube nomear pareciam se multiplicar cada vez mais e ele não parou de atirar e pegar seu martelo de volta. O salão principal encontrava-se parcialmente destruído, com estátuas quebradas e muitas outras coisas desfeitas.
Não. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo de novo.
Asgard não merecia ver seu lar ser destroçado de novo.
Girou o martelo mais uma vez e atingiu o maior número que conseguiu conforme se movimentou atingindo-os com socos e pontapés. Enquanto fazia aquilo, viu flashes do último acontecimento passarem bem diante de seus olhos e por um momento sentiu uma dor enorme atingi-lo.
Mas não podia deixar os sentimentos falarem mais alto. Asgard precisava dele e tinha jurado que não perderia mais ninguém.
— Thor, meu filho! — Teve sua atenção chamada pela voz de seu pai, presente bem ao seu lado.
Conhecia aquele olhar e o medo das palavras seguintes o fez quase congelar.
— Você precisa ir — o rei disse, girando o corpo em sincronia ao dele e atingindo mais inimigos, assim como o filho, protegendo as pessoas presentes ali.
Thor franziu o cenho, confuso, nada ali parecia mais fazer sentido.
Foi pego de surpresa por seu pai, que o segurou nos ombros, encarando-o bem nos olhos.
— Você precisa encontrá-la!


Capítulo 4

Oslo, Noruega — agora.


.
Sua pálpebra tremeu ao ouvir aquele sussurrar parecer tão distante do seu alcance.
Ela não sabia explicar muito bem o que acontecia ali, tudo parecia um pouco confuso e precisou piscar algumas vezes para se dar conta de onde estava. Sua sala aparentava estranhamente menor, como se estivesse sufocando ali dentro e não encontrasse ar algum ao inflar os pulmões.
A sensação era horrível.
Eileen.
A voz sussurrando aquele nome a colocou em alerta, só então se dando conta de que estava sentada em sua cadeira. Para onde tinha ido o homem que invadiu sua sala? Ele sequer era real? Ela não tinha resposta para nenhuma daquelas perguntas e passou a mão nos cabelos, tremendo em frustração.
De repente se deu conta de como tudo ali parecia silencioso, absurdamente vazio. As luzes apagadas chamaram sua atenção, então a mulher se levantou em um rompante, caminhando até a saída de sua sala e abriu a porta.
Não tinha ninguém ali. Estava completamente sozinha.
Sua cabeça pareceu ainda mais conturbada e achou que perderia a consciência ao tocar a tela de seu celular e constatar que era meio-dia de um domingo.
— Não... não, não. — Seus lábios tremeram e os olhos marejaram. — Seja lá que tipo de jogo estiver fazendo comigo, não tem graça, Laufeyson.
Riu de si mesma.
Ele era um personagem. Não era real. Nada daquilo era.
Tudo não tinha se passado de um sonho e alguma confusão mental que vinha enfrentando nos últimos dias, apenas isso. Só podia ser…
Mas por que estava em sua sala de trabalho, então? Talvez estivesse sofrendo de sonambulismo, de um tipo bem grave.
Mais uma vez, clicou na tela do aparelho e algo lhe chamou atenção, uma ligação estava em andamento e não hesitou em levá-lo até seu ouvido. Algo se acendeu em seu peito, como se a puxasse para um lugar em que já havia estado antes e sentiu um leve arrepio lhe percorrer a espinha, misturado à sensação de queimação.
Dali para frente, não teve controle algum de suas ações.

O sol raiava naquele dia em Oslo, algo completamente incomum, mas a mulher não teve tempo para ficar questionando as condições climáticas do local em que morava. Coisas mais importantes estavam em jogo e ela precisava se concentrar em não bater o carro. Era como se uma vida toda estivesse passando diante de seus olhos e de repente algumas lembranças tomaram conta deles.
Pai.
Mãe.
Uma viagem especial. Um único sentimento… o amor.

Fazia muito tempo que não sentia vontade de chorar ao pensar nas duas pessoas mais especiais que um dia teve em sua vida. Por algumas frações de segundos, conseguiu sentir o toque dos dedos daquela mulher tão generosa que a encontrou no hospital tocar a pele de sua bochecha, da mesma forma que foi capaz de apreciar a sensação de ser tomada pelos braços aconchegantes do homem mais bem-humorado e engraçado que poderia conhecer.
Uma lágrima teimosa escorreu e ela tratou de limpá-la. Aquelas impressões eram vívidas demais e se repetiram algumas vezes, vindo também acompanhadas de outras. Parecia um déjà-vu, mas aquele não era exatamente o nome a se dar para o acontecimento.
Parecia tão real.
Sentia tanta falta deles que chegava a doer. Se não fosse por Eil…
Um estrondo misturado ao nome quase mencionado em sua mente a colocou em alerta. O caos do local e uma sensação quase familiar a fez ter a certeza de que havia chegado ao lugar certo. Era como se alguma coisa ali lhe chamasse… ou melhor, clamasse por ela como se dependesse daquilo para se manter vivo.
O caminho do carro até o prédio em destroços foi tão rápido que ela só se deu conta de estar em outro ambiente quando o sol a abandonou. Risadas de crianças reverberaram, chamando sua atenção, pois não deveriam estar ali. Ergueu a cabeça para confirmar quantas eram e balançou a cabeça em negação quando um pensamento lhe ocorreu.
Por que estava agindo daquela forma? Que ideia era aquela de simplesmente saltar e ir direto para o quarto andar?
Talvez devesse fazer aquela anotação para usar em seu próximo livro… claro. Era a única possibilidade.
Mesmo com o tremor nas pernas, a mulher subiu todos os andares daquela escada exaustiva e deu uma ordem para que aquelas crianças saíssem dali.
— A moça pulou e nunca mais voltou. — Uma garotinha que parecia ter apenas uns seis anos falou baixo, antes de se virar para ir embora.
Aquilo deixou intrigada e ela segurou o ombro da menina.
— Me diga como era a moça — pediu gentilmente, mesmo que o medo a consumisse.
— Parecia uma cientista… muito bonita.
A menininha saiu correndo sem dizer mais nada ou sequer dar chance para outras perguntas. Estava claro desde o início que precisaria agir sozinha, então apoiou-se sobre a grade enferrujada e sentiu um frio lhe percorrer a espinha. Se sua amiga de tinha se jogado ali, ela obviamente teria que fazer o mesmo. Puxou o ar o mais forte que conseguiu, sentindo os lábios tremerem sem parar e decidiu que faria aquela loucura sem olhar.
Seria mais fácil, não?
Era aquele ditado: o que os olhos não veem, o coração não sente…
Mas naquele momento não pareceu exatamente certo quando suas mãos agarraram o material de aço gelado e suas pernas fizeram o restante do trabalho, lhe dando uma força que ela nem sabia estar ali por um bom tempo. O coração batia tão forte que ela teve a certeza de que o barulho reverberaria por todo o ambiente.
1… 2… 3.
Foi preciso contar apenas uma vez para sentir o corpo se impulsionar para aquela queda sem pensar duas vezes, mas não foi exatamente como ela havia imaginado. Seu corpo parecia flutuar em meio àquele desconhecido, e então, se permitiu abrir os olhos para poder observar onde tinha acabado de se lançar. O que ela encontrou foi inesperado, mas ao mesmo tempo parecia tão familiar que não conseguia sequer piscar.
Parecia um mar vermelho, mas existia um vazio… escuridão, sofrimento e talvez até uma dor que ela foi capaz de sentir por um milésimo de segundo.
Se preparou para ter seus ossos estilhaçados ao chegar ao chão, mas aquilo também foi inesperado. Ela flutuou com destreza em meio ao que parecia a base de algum outro planeta, o ar era especialmente rarefeito e teve a sensação de que seus pulmões fossem explodir. Trazendo o sentimento de que não era feita para estar ali.
Se não era, por que toda aquela conexão?
Lembre-se de quem você é, . Uma voz sussurrou em seu ouvido, tão familiar… tão aconchegante.
A escritora se virou bruscamente, procurando pela dona dela. Acabou repetindo o gesto em todas as vezes que aquilo foi sussurrado, até parar abruptamente com a boca seca e os olhos arregalados ao se dar conta de que a voz vinha de dentro de sua cabeça.
Parecia estar enlouquecendo cada vez mais.
Você não está.
Lembre-se porque veio até aqui…

— Eileen! — O grito saiu alto e foi ecoado por todo aquele lugar sombrio.
Finalmente sentiu que seus pés eram capazes de se mover e passou a correr, não sabia exatamente para onde ir — ou talvez soubesse —, gritando o nome de sua amiga cada vez mais alto. Quanto mais ela corria, pior parecia ficar sua respiração, como se algo fosse ser arrancado de seu peito e tinha uma energia parecendo querer atravessar cada parte dela.
Parou ao notar que não seria capaz de sustentar a energia exigida por seu corpo e quis cair de joelhos para chorar, mas não o fez, ao avistar uma silhueta alguns metros dela.
— Graças a Deus… — soprou, ao dar passos largos.
Não conseguiu dizer mais nada ao alcançar a amiga, seus braços apenas envolveram o pescoço dela com força o suficiente para fazê-la soltar um resmungo. Queria rir daquela situação bizarra que Eileen havia enfiado as duas, mas não conseguiu, ao se afastar e ver os olhos dela. Estavam vermelhos como pérolas, parecendo quase capazes de ler sua alma.
— Olha pra mim, Leen — pediu baixinho, levando as mãos até o rosto da mulher.
Foi como se seu abdômen tivesse sido rasgado ao meio e sentiu os braços queimarem. Não importava o tamanho da dor sentida, só queria acabar com aquilo e que nada machucasse sua melhor amiga. passou as mãos nos cabelos dela em um ato de desespero, engolindo o choro sufocado na garganta.
— Estou tão feliz em te ver, minha pequena. — Aquela não era a voz que estava acostumada a escutar.
Estremeceu ao sentir aquela conexão ficar cada vez mais intensa.
— Eileen, fala comigo, eu sei que você está aí em algum lugar. — Não sabia muito bem o que estava fazendo, mas não importava muito.
Um sorriso perverso tomou conta dos lábios da mulher, conforme a observou tombar a cabeça, a estudando minuciosamente e, em um ato abrupto, se afastou. A sensação de estar sendo rasgada e queimada viva foi quebrada e ela soltou uma lufada de ar misturada ao grito que não conseguiu liberar antes.
O que era aquilo? Mais um sonho maluco?
Só queria acordar.
De repente algo lhe ocorreu e soltou uma risada exasperada, sabendo ainda ser observada por aquela coisa dentro de sua amiga. Tinha acabado de ter a ideia mais estúpida de sua vida, mas não havia muitas opções naquele momento e pareceu ser sua luz no fim do túnel. Então fechou seus olhos.
Loki.
Sussurrou aquele nome em sua mente. Era inexplicável o porquê de seu coração achar que seria sempre protegido pelo homem e ele bateu mais forte.
Por favor, Laufeyson.
Suas pálpebras tremeram e sentiu algo crescer dentro do peito e as pontas de seus dedos serem tocadas por algo. Ele estava ali… Soube daquilo e abriu os olhos, conforme virou seu rosto, mas, antes de ter sequer um vislumbre, sentiu mãos agarrarem seu pescoço, a erguendo no ar.
— Como ousa? — A voz dentro de Eileen rosnou, conforme a apertava com cada vez mais força.
Lágrimas escorreram pelas bochechas da mulher, não por ela. Tinha falhado em salvá-la, assim como havia acontecido com seus pais e soube que não tinha razão alguma para continuar lutando. Com a mesma velocidade que aquele pensamento completamente insano ocorreu, um estrondo foi reverberado e raios atingiram o solo do lugar, fazendo aquela coisa soltá-la assim que rachaduras foram se formando. rastejou, tentando não se entregar à dor dilacerante lambendo seu corpo devido à queda, mas parecia impossível.
Os olhos daquele que possuía sua amiga passaram de confiantes para apavorados e a mulher franziu o cenho, um tanto confusa. apoiou os braços com dificuldade no chão para poder se virar e, quando o fez, foi difícil de acreditar no que seus olhos viam.
Odinson. Aquela voz sussurrou novamente.
Permaneceu onde estava, conforme viu o homem esticar o braço e segurar um enorme martelo que foi parar em suas mãos. Só então os olhos dele pareceram encontrá-la e ele mudou a expressão de furioso para completamente cheio de nostalgia e confusão, mas também emocionado e feliz por vê-la ali. Tentou sustentar a expressão daquele estranho — ou nem tanto —, mas foi impossível não voltar sua atenção para a amiga.
Ela era tudo o que importava naquele momento.
Lute.
— Como? Eu não posso…
, eu estarei com você. A voz de Loki parecia tão perto, mas ao mesmo tempo distante o suficiente para ela achar ser alguma paranoia de sua cabeça.
Não soube de onde veio aquela força, mas quando uma mão tocou seu ombro, a mulher a segurou, ficando em pé e a torceu, fazendo o dono dela ir parar há muitos metros de distância. O cara que antes a encarava estava jogado em meio aos escombros e encarou suas mãos, completamente sem entender o que tinha acabado de fazer.
A busca da resposta ficaria para depois.
Se voltou para a outra direção e caminhou até aquela coisa. Suas mãos mais uma vez voltaram a agarrar o rosto da amiga, olhando-a bem no fundo dos olhos como se soubesse exatamente o que fazer.
— Eileen, eu estou aqui — sussurrou. — Lembre-se de quem você é.
Uma risada assustadora foi ecoada, mas ela permaneceu ali.
— Toque o coração dela — o dono do martelo gritou e ela olhou de soslaio, vendo-o em pé.
Por que ele não estava fazendo nada?
— Lembre de nós duas no balanço. Foi assim que nos conhecemos, tomando nosso sorvete favorito… — Seus lábios tremeram, já não tinha mais esperanças de que conseguiria trazer a amiga de volta.
Fechou os olhos brevemente.
— Por favor…
Quando voltou a abri-los, encontrou o olhar castanho da amiga, completamente confusa e sem parecer saber onde estava.
?
sorriu em meio às lágrimas que brotaram e concordou com um aceno de cabeça ao puxar a amiga para um abraço. Foi quando se deu conta de que o homem havia se aproximado das duas e virou-se bruscamente, ficando na frente de Eileen.
— É você mesma… — Ele parecia nervoso e não fez nenhum movimento de que as atacaria ali. — Mas como?
Thor.
O nome foi soprado em sua mente. Ela soube quem ele era desde o primeiro momento, mas depois dos eventos anteriores, não tentou se convencer ser mais o sonho maluco dentro de sua mente ou sua sanidade em questionamento. Tudo aquilo era real e a confirmação para si a assustava em proporções catastróficas.
— Não sou quem você procura, Odinson. — Seu tom era firme e manteve-se protegendo a mulher atrás dela.
— Que loucura é essa? — Eileen soltou, confusa. — Como assim Odinson? Thor Odinson?
riu fracamente, mas logo se repreendeu. Aquilo tudo estava longe de ser engraçado.
— Nós precisamos sair daqui. Explico melhor depois! — Thor disse firme, mas ao mesmo tempo sem querer parecer autoritário.
As duas mulheres o encararam e não deu sinal de que o escutaria, afinal, não sabia se poderia confiar cem por cento no homem forte diante dela e nem se aquela coisa havia desaparecido completamente.
— Precisamos levá-la para Asgard — Thor se manifestou mais uma vez, sem conseguir tirar os olhos da mulher à sua frente. — Agora!
estreitou o olhar, confusa, esperando ao menos voltar ao seu escritório, mas aquilo não aconteceu e ela se virou para encarar a amiga. Não queria ir para lugar nenhum que pudesse colocá-la em perigo, mas ainda sentia algo estranho.
— Como você está se sentindo? — Encarou Leen nos olhos ao virar-se.
Não tinha a intenção de ignorar a presença de Thor ali, mas olhar para ele era difícil demais. Seria a confirmação de estar enlouquecendo.
— Essa coisa ainda está dentro de mim, . Eu estou com medo…. — Eileen murmurou, com os olhos cobertos de lágrimas.
? Thor tentou absorver aquele nome.
Odinson encarou aquela cena se esforçando para não surtar, afinal não era nada do que havia esperado encontrar, sua mente estava tentando entender como depois de todos aqueles anos a garota estava viva e bem ali na sua frente. Piscou algumas vezes e olhou à sua volta, esperando acordar de algum pesadelo, mas no fundo sabia muito bem que tudo aquilo ali era real. Queria abraçá-la e dizer o quanto havia sentido sua falta, mas não o fez, afinal não parecia o momento apropriado.
Abriu a boca para se manifestar de novo, porém um estrondo o colocou em alerta e apenas lançou um olhar em direção às duas mulheres, na intenção de lembrá-las de que precisavam sair daquele lugar de uma vez por todas. assentiu com um aceno de cabeça e agarrou a mão da amiga, puxando-a na direção de onde lembrava ter vindo.
Antes mesmo de chegarem ao portal que os levaria de volta para a terra, aquele lugar começou a desabar, o chão passou a se abrir da mesma forma que havia acontecido quando Thor colocou os pés naquele lugar e eles precisaram apressar o passo. Odinson foi o primeiro, seguido de Eileen e, na vez de , foi como se uma energia não quisesse deixá-la ir, mas conseguiu saltar para fora dali depois de muito esforço.
A situação ao lado de fora parecia ainda pior. O prédio estava completamente caindo aos pedaços e os três precisaram ser rápidos para sair dali.
— Vamos sair daqui — falou, ao sentir a chuva caindo sobre sua pele.
Aquilo também era algo estranho, porém, mais uma vez, não tinha espaço para questionar os eventos estranhos que vinham acontecendo.
— Ei, me escuta. — Thor segurou o braço dela delicadamente, torcendo para não ser arremessado para longe, como havia acontecido na primeira vez. — Sua amiga precisa de ajuda. Ela tocou algo poderoso e desconhecido, precisamos levá-la para Asgard.
— Escuta aqui. Eu não sei o que você e seu irmão estão tramando, mas eu estou cansada! — esbravejou, conforme Odinson a encarou com uma expressão visivelmente confusa. — Pode ir parando com esse papo de Asgard!
Eileen encarava tudo muito confusa, tentando não deixar transparecer a dor que sentia em cada pedacinho de seu corpo.
Ela sabia que a qualquer momento ele poderia aparecer.
— Loki? — O homem franziu o cenho, tentando compreender o que ela queria dizer com aquelas acusações. — Loki esteve na terra?
soltou uma risada irônica.
— Não finja que não sabe do que eu estou falando.
Thor realmente não tinha ideia, apesar de ter algumas opiniões sobre, mas não era sensato discutir aquilo em meio às circunstâncias.
— Me deixa ajudar sua amiga e prometo explicar tudo… — praticamente implorou por aquilo.
A ideia de perdê-la mais uma vez era assustadora.
virou para encarar a amiga por um momento, percebendo que a chuva não caía sobre ela e estreitou o olhar. Aquilo era no mínimo estranho, nunca tinha visto nada assim em todo o tempo de pesquisa que a mulher havia feito e passou os olhos à sua volta, arregalando o olhar ao se dar conta de onde estavam.
Área 51.
A amiga já havia falado sobre aquilo.
— Estamos na área 51, bem no meio de uma anomalia gravitacional. Isso quer dizer que, seja lá o que estiver dentro de mim, vai me matar.
— Eileen, ninguém vai morrer… — sentiu os lábios tremerem e então voltou a encarar Thor.
Ele apenas a encarou, quase como se pudesse ler seu pedido silencioso e mesmo assim esperou ela dizer.
— Nos tire daqui.
O asgardiano abriu um sorriso mínimo, assentindo positivamente e então ergueu o martelo em sua mão.
— Heimdall! — gritou, disparando um raio em direção aos céus.
Heimdall.
Como desejar, princesa.
Use a lança, Svartálfar.

O ar pareceu ficar rarefeito e conseguiu acompanhar minimamente quando o braço de Thor a envolveu e sua visão foi ficando levemente escura.


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Reino de Asgard — agora.


— Heimdall! — Thor fez sinal para que o grande amigo não se aproximasse ao atravessarem o portal.
Assim como ele, o homem ficou completamente estático ao ver quem se encontrava nos braços dele. Colocou a espada de volta ao seu posto para fechar o portal e franziu o cenho ao ver uma outra mulher bem atrás do guerreiro, encarou-a por alguns instantes, sentindo a presença dentro dela e voltou a olhar Odinson.
— Kára… — falou baixinho, ainda de longe.
— Ok, isso aqui já está virando loucura. Eu estou em uma pegadinha? — Eileen se manifestou, rindo exasperada. — O nome dela é , Kára é apenas a personagem de um livro, meus caros.
O guerreiro trocou um olhar com o loiro, ainda tentando processar o que acontecia ali.
— Me diga o que precisa.
— Quero que a leve para as feiticeiras. Informe meu pai, mas não diga nada ainda sobre ela, quero que a presença dela em Asgard permaneça em segredo.
Heimdall aproximou-se de Leen, demonstrando em seu olhar que não a machucaria, mas não teve muito tempo para dizer alguma coisa. Ao tocá-la, uma energia foi lançada para todo o lado, jogando não só ele para longe, como também Thor, que carregava em seus braços, que desmaiou na hora.
— Príncipe, o que é isso? — Voltou a pegar a espada, ficando em posição de ataque.
Eileen permanecia em pé, ainda sem entender muito o que tinha acabado de acontecer, mas sentindo seu corpo ficar cada vez mais frágil.
— Está tentando protegê-la. — Thor caminhou até a ponte e virou para olhar o amigo. — Leve-a imediatamente.
Antes que qualquer um dos dois pudessem dar uma resposta, o homem empunhou o martelo e desapareceu em meio ao céu azul que tomava conta de Asgard naquele dia. Thor teria apreciado aquela vista conforme seguia em direção ao seus aposentos, se não fosse a imagem de uma cidade completamente destruída pelo ataque ocorrido há alguns dias e seu povo tentando recuperar o que havia sido perdido.
Era uma cena triste e que ele havia desejado muitas vezes nunca mais presenciar.
O tempo que passou no ar não foi o suficiente para pensar sobre tudo que tinha acontecido tão repentinamente em sua vida, então refletiu após repousar o corpo de … Kára sobre a cama e sentar-se a poucos metros dali, esperando quando acordaria. Era muito difícil acreditar que a garota estava viva e, pior ainda, pensar que seu pai sabia disso o tempo todo e tinha esperado mais de dez anos para dizer a ele.
Mas por quê?
Tinha visto a garota morrer bem diante de seus olhos, sofrido todo aquele luto doloroso e sombrio que o acompanhou por tantos anos, assim como precisou assistir sua mãe morrer por dentro aos poucos todos os dias.
Precisava existir uma razão para aquela mentira.
Tem muitas coisas que não sabe sobre Odin, querido irmão. De repente, a voz de seu irmão dizendo aquilo reverberou em seus pensamentos e ele sentiu cada veia de seu corpo queimar, apertando os dedos e sentindo uma raiva descontrolável o consumir.
Não podia ser verdade.
Puxou os cabelos pela milésima vez, conforme mantinha os cotovelos apoiados sobre as coxas e passou a mão no rosto, deixando clara sua frustração. Sentia-se até um pouco ridículo por estar ali naquele quarto, esperando por uma única garota acordar, enquanto o reino precisava de sua ajuda por causa do ataque que havia sofrido.
Mas o que poderia fazer? Estava em completo choque. Quando seu pai havia feito aquele pedido em meio à batalha, não achou ser realmente possível.
Bufou novamente, até sua atenção ser chamada de volta a ela.
Kára.
Caminhou lentamente até próximo da cama onde ela se encontrava e sentou-se bem ao seu lado. A mulher dormia tranquilamente, parecendo estar em um sonho profundo, mas era muito clara a expressão de preocupação em seu rosto e ele ficou curioso para saber qual seria o conteúdo dele. O que estava fazendo ali trazia uma lembrança muito vívida de como costumava ir até o quarto dela só para observá-la em seu sono.
Abriu um sorriso leve ao pensar naquilo. Uma época em que achou não precisar se preocupar com nada, onde pensou que sempre seria daquele jeito, lutas, os três correndo pelo castelo e ouvindo sermões de seu pai e Heimdall.
Obviamente estava errado.
Sabia que aquilo era arriscado, mas não conseguiu resistir e levou uma de suas mãos até o cabelo da garota próximo a testa, puxando os fios levemente. Sua pele ainda tinha a mesma textura e por mais que aquela observação fosse estranha, até a temperatura era igual e deixou um suspiro escapar por entre os lábios.
Mesmo depois de todos aqueles anos ainda tinha aquelas sensações e sentimentos pela garota, como se nunca tivessem se separado. Thor, então, fechou os olhos brevemente e afastou sua mão, virando seu rosto em outra direção, conforme tentava compreender tudo o que sentia e acontecia à sua volta.


Reino de Asgard — antes do sombrio.




O barulho de pés batendo contra as poças de água deixadas pela chuva da noite anterior reverberava conforme os três jovens corriam entusiasmados. Como já era de se esperar, depois de uma bela tempestade, o sol raiava por todo o reino, trazendo uma beleza ainda maior. Todos olhavam curiosos para saber de onde vinha tanta empolgação pela forma que eles davam risadas, conforme passavam pelos moradores, trabalhadores e guerreiros da cidade.
A garota corria, seguida dos dois rapazes, que demonstravam em seus olhares o apreço por ela. Atravessaram primeiro toda a vila, para então chegar ao castelo e seguir por todo o corredor principal até o enorme salão de treinamentos, constatando que eram os únicos ali, exatamente como previam.
Nenhum dos três disse sequer uma palavra.
A guerreira caminhou até o fundo do local e, como sempre, procurou por sua fiel aliada: sua lança.
Rodando o objeto em sua mão com destreza enquanto observava os dois irmãos, estudando cada passo que davam e caminhando tranquilamente pelo espaço que tinha ali; moveu os pés com calma, ainda empunhando sua arma, pronta para atacar quando fosse preciso.
Não podia negar, adorava uma boa luta.
— Os mocinhos ainda vão demorar muito? — Kára se pronunciou um pouco impaciente.
O dono dos cabelos negros foi o primeiro a olhar para ela, sorrindo humorado, mas logo em seguida fechando sua expressão e ficando em posição de ataque. O loiro parecia muito mais relaxado e abriu um sorriso, conforme terminava de colocar sua armadura e pegava as armas.
Ela correspondeu aos olhares com uma só expressão, sem sequer piscar. Era impressionante como os dois irmãos eram como a água e o vinho, absolutamente nada os conectava, mas, ao mesmo tempo, eram aquelas diferenças que os faziam tão fortes.
Era inegável que gostava de tê-los ao seu lado.
— Ótimo. — Sorriu satisfeita, rodando a lança em sua mão e ficando em posição para atacar. — Dois contra um, então?
Os rapazes se entreolharam, sorrindo brevemente.
— Com medo de se machucar, princesa? — Loki fez questão de provocar e Kára riu fracamente.
Thor permaneceu em silêncio. Afinal, ele sabia bem que provocá-la antes de uma batalha não era bem a coisa mais esperta a se fazer e apenas assentiu, demonstrando que estava pronto para começar.
Foi preciso poucos segundos para que os barulhos de lanças e espadas se chocando reverberassem por todo o ambiente. Passos eram dados com precisão e cada um deles sabia exatamente como mover o corpo em busca do golpe perfeito, apesar de ser dois contra um, a garota estava se saindo muito bem com apenas sua lança e a capacidade inquestionável de saltar no ar e livrar-se dos oponentes.
Aquilo era para ser só um treinamento, mas a excitação presente em cada uma das células daqueles jovens tornava tudo muito real e até bonito de se assistir, poderiam facilmente entreter uma plateia, se aquela fosse a intenção.
— Cuidado onde pisa, loirinho — Kára avisou convencida, ao passar a perna bem nas pernas do rapaz, o derrubando quase de cara com o concreto.
Notando que um havia caído, ela se preparou para atacar o outro. Ao contrário do que Loki esperava, ela jogou a lança para longe e impulsionou o corpo, correndo em sua direção, dando piruetas conforme percorria o caminho e ele rodou o corpo, segurando as suas adagas em suas mãos com mais firmeza.
Thor observou de longe como corriam em direção ao outro.
A garota esticou as duas pernas, batendo os pés contra o peito do rapaz, mas ele foi rápido o suficiente para enfiar as adagas no suporte preso às suas costas e segurar os tornozelos dela. Em resposta, ela rodou o corpo, jogando seu corpo em direção ao dele e o dobrou, ficando apoiada nos ombros dele, porém, de novo, Loki foi preciso ao puxá-la para frente, derrubando-a no chão e a imobilizando.
Ele sabia muito bem o que ela faria, então prontamente puxou as adagas e as colocou em volta do pescoço da garota. Kára nem conseguiu disfarçar o olhar surpreso, arrancando dele um sorriso, que foi rapidamente acompanhado por ela.
Thor levantou-se, batendo palmas, sem acreditar em como o irmão havia a derrotado. Não que fosse impossível, mas Kára era realmente muito bem treinada e estava sempre um passo à frente.
— Muito obrigado. — Laufeyson fez um sinal de reverência ao afastar-se.
Kára revirou os olhos diante daquilo.
— Não precisa ficar brava, Svartálfar, a próxima eu deixo você vencer.
Odinson soltou uma gargalhada, não se aguentando, afinal era cômico vê-la naquela posição.
— Tá rindo do que, loirinho? — A guerreira virou para olhá-lo, levantando-se. — Do que sei, acabei com você.
Dessa vez, todos deram risadas, que foram interrompidas com o barulho da enorme porta do salão sendo aberta. A rainha vinha acompanhada de seus guarda-costas e os três não hesitaram em abaixar diante dela, antes mesmo de chegar perto o suficiente, em um gesto de respeito à presença da mulher.
— Vocês são meus filhos, não precisamos dessas formalidades. — Frigga fez um sinal de tanto faz com as mãos, abrindo um sorriso. — Quero que nos deixem a sós, por favor.
Os três se entreolharam, mas não disseram nada conforme os guardas foram saindo.
— Mãe, aconteceu alguma coisa? — Kára deu um passo à frente, demonstrando sua preocupação.
A mulher sorriu carinhosamente, levando uma de suas mãos até o rosto da garota e o acariciou.
— Muito ocupada com os treinos? Gostaria de uma palavrinha.
— Não para a senhora. — Sorriu calorosamente, lançando um olhar para os dois rapazes ao seu lado.
Thor e Loki não precisaram de mais nada para entender que a conversa seria apenas entre as duas e se despediram, saindo logo em seguida.
— Sei que não é a forma mais apropriada, mas ando com dificuldade de te encontrar, Kára. — Frigga caminhou vagarosamente, observando o salão enquanto a garota acompanhava os gestos dela.
Nunca em sua vida havia se sentido desconfortável na presença da mulher, mas devido a todos os acontecimentos recentes e as coisas que vinha sentindo, era inevitável. A culpa em seu peito foi quase tangível, principalmente por saber que ela poderia estar notando algo diferente nela.
— Me desculpa. Eu tenho tentado me aperfeiçoar cada vez mais. — Dessa vez foi a guerreira quem caminhou, só que com muito menos delicadeza e rapidamente até a enorme janela do salão.
Não conseguia encará-la e, pior do que isso, estava mentindo.
Frigga observou a filha, que encarava o reino fixamente, e andou até onde ela estava calmamente, parando bem ao seu lado. Não tinha intenção alguma de pressioná-la, só temia por sua vida e queria recuperar a relação que tiveram desde o início.
— Você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe?
Kára respirou fundo diante daquelas palavras, odiava o que estava fazendo, mas queria a manter o mais longe possível de sua escuridão.
— Você sempre será a minha menina, Kára. — Sua mão tocou o longo rabo de cavalo da garota com delicadeza, sorrindo carinhosa. — Sei que você não saiu de mim… mas a tenho com todo meu coração.
A guerreira engoliu em seco conforme virou seu rosto para encará-la. Frigga era a mulher mais linda e generosa que ela já havia conhecido em toda sua vida e só a ideia de a magoar já era o suficiente para a despedaçar por inteiro. Mas aparentemente aquela era a única forma de protegê-la de todo aquele mal que sabia existir dentro de si.
— Eu quero muito acreditar nisso… — soprou baixinho, sentindo os lábios tremerem. — Mas todos nós precisamos crescer um dia.
A rainha sorriu diante das palavras dela e se virou para encarar a garota, conforme Kára ainda permanecia em direção à janela. Com delicadeza, segurou seus ombros e a virou para ficarem cara a cara.
— Não precisa me contar se não quiser, minha querida. — Svartálfar acompanhou com o olhar quando a mulher desatou uma bolsinha verde de seu vestido e puxou um medalhão. — Quero te dar isso. Sempre te dará conselhos sábios e te trará de volta para onde realmente pertence. De corpo, coração e alma….
Kára conseguiu sequer piscar conforme ela passou o cordão de ouro asgardiano em seu pescoço e levou as mãos rapidamente até ele, observando que continha uma pantera desenhada bem ao centro dele.
Era seu eu espiritual.
Foi inevitável sorrir.
Abriu a boca para poder expressar como se sentia, mas foi pega de surpresa pelos braços da mulher a envolvendo.
— Sei que acredita existir uma escuridão aí dentro, querida. Mas eu quero que se lembre muito bem, também há uma luz dentro de você capaz de dominá-la.
Não conseguiu dizer nada além de abraçá-la bem forte, deixando uma lágrima teimosa escorrer furtivamente sobre a pele macia de suas bochechas.


Reino de Asgard — agora.



atravessou a porta do salão, seguida de Thor e todos aqueles guardas que a encaravam como se fosse uma espécie de fantasma. Eileen encontrava-se deitada em uma mesa, completamente desacordada, onde mulheres usando roupas em tons azuis pareciam examiná-la como médicos fazem com humanos, exceto pela parte que uma luz dourada se projetava de seu corpo… como se fosse sua alma.
Deveria ter hesitado ao menos um pouco em se aproximar diante do que via, mas depois de tudo o que já tinha presenciado nos últimos dias, não se intimidou nem um pouco. Curar a amiga e voltar para onde realmente pertencia e fosse chamada apenas por seu verdadeiro nome era seu único objetivo, então precisava se manter firme.
O guerreiro permanecia atrás dela o tempo todo, mas tinha ficado em silêncio absoluto desde que havia acordado com ele a encarando em seu quarto. Não tinha nada contra o homem, mas não conseguia sustentar o jeito triste e afetuoso que a encarava sempre que estavam prestes a trocar algumas palavras.
Simplesmente não conseguia.
fez um movimento com a mão para poder segurar a da amiga, mas foi impedida por ele.
— Não pode tocá-la, desculpe — Thor falou baixinho e ela franziu o cenho, sem entender. — Aparentemente, esse negócio dentro dela está tentando protegê-la. Assim que descobrirmos o que é, vamos arrancar da sua amiga. Eu prometo.
— Por favor, não me venha com promessas. — Riu fracamente. — A última vez que ouvi alguém fazendo uma, perdi as pessoas que mais amava nesse mundo.
Algo dentro do guerreiro se acendeu ao ouvir aquelas palavras, mas logo foi apagado quando a viu se afastar dele.
— Isso não é da terra. O que é? — O olhar de Thor se dividia entre Eileen e .
— Não sabemos. Mas ela não sobreviverá à energia crescendo dentro dela — a feiticeira informou, trazendo a atenção de até ela, mas, antes que a escritora fizesse qualquer coisa, se afastou.
— O que ela disse? — gaguejou aquela pergunta.
— É um gerador de campo quântico, não é? — A voz de Leen reverberou o ambiente.
fez menção de se aproximar e tocar a amiga ao escutar que se encontrava acordada, mas Thor a impediu novamente.
— É uma forja de almas.
— Uma forja de almas faz transferência de energia molecular? — a mulher deitada indagou, rindo fracamente.
tentou, mas não conseguiu segurar uma risada de orgulho. Contudo, a feiticeira a encarou com cara de poucos amigos.
— Sim.
— Como eu disse, gerador de campo quântico.
Thor também acabou rindo dessa vez, vendo um sorriso convencido aparecer no rosto da mulher.
— Minhas palavras são só ruídos para você ignorar? — Uma voz grossa irrompeu o ambiente, chamando a atenção de todos, menos de , que havia se afastado da mesa para tentar processar o que acontecia ali, ou acabaria tendo um ataque de pânico.
Thor engoliu em seco ao ver o rei, Odin, e também seu pai, adentrar a sala.
— Ela está doente. — Virou-se para encará-lo.
preferiu permanecer onde estava e não conseguiu evitar o sentimento de gratidão pela resposta dada. Ele não tinha razão alguma para se indispor com um homem que claramente parecia ser poderoso só pelo seu jeito de falar, mas havia feito… tinha compaixão em sua voz.
— Ela é mortal.
A escritora quis ir até lá e gritar com aquele homem arrogante, mas não o fez.
— Doença é o traço que os define. — Odin caminhou mais para dentro, passando pela mesa sem sequer olhar a mulher deitada ali.
— Eu a trouxe aqui porque podemos ajudá-la — Thor insistiu, desviando o olhar vagamente para onde se encontrava, esperando pelo momento em que seu pai a visse. — Você me mandou para a terra, lembra? Deu uma ordem. Foi o que fiz, pai.
— Ela não pertence a Asgasrd… mais que um bode pertence a uma mesa de jantar.
ficou boquiaberta com a prepotência do homem e abriu a boca para dizer algo, mas não o fez ao ver a amiga ficar sentada. Leen daria a ele uma boa resposta.
— Ele acabou de me… — tropeçou nas palavras, estava indignada com as coisas que havia escutado. — Quem você acha que é?
Aquilo foi o estopim para o homem perder a paciência, enquanto Thor apenas observou, aprovando a personalidade da garota.
— Sou Odin. Rei de Asgard. Protetor de Nove Reinos.
Leen ficou em silêncio após aquilo, enquanto Thor apenas observava, achando graça no que acontecia e se perguntava como alguém poderia ser tão prepotente.
— Presumo que isso não te faça dono do universo — se manifestou, saindo da sombra onde havia se escondido todo aquele tempo.
Odinson sentiu o coração ir parar na boca ao escutar a voz dela ser reverberada por todo o ambiente e a expressão do seu pai ficou ainda mais enfurecida.
— Não só uma humana, mas duas — bufou frustrado. — Lamento informar, mas não foi essa a missão que eu te enviei, Thor.
— Pai…
Um gesto com a mão foi o suficiente para o jovem desistir de falar. Odin, então, se virou em direção à dona daquela voz, mas perdeu completamente qualquer fio de raciocínio que havia criado diante das palavras dela ao encarar a mulher.
— Não precisa me olhar com tanta surpresa, sou apenas mais uma humana informou com confiança, dando passos para se aproximar do homem. Thor não conseguiu evitar admirar a coragem que ela também tinha, assim como sua amiga. Se ela não era a Kára de seu passado, com certeza tinha muito dela. — . Sou só uma escritora, mas não permitirei que trate minha amiga como mais uma, então… — Suas palavras foram interrompidas quando o homem a tomou nos braços.
Leen encarou tudo com os olhos marejados, não só por ser defendida daquela forma, mas também porque, ao contrário da amiga, já tinha percebido o que acontecia ali. Por mais que pudesse parecer loucura, ficava bem claro que , ou Kára, pertenciam àquele lugar e ela era amada ali.
— Finalmente… — Odin sussurrou, ainda acariciando os cabelos da mulher e Thor sorriu com aquilo. Tinha visto como a tristeza em perdê-la havia levado seu pai para um mundo frio e solitário. — Demorou, mas eu sempre soube que nos reencontraríamos.
estava confusa e não sabia como retribuir àquele gesto tão estranho e reconfortante ao mesmo tempo. Um homem que nunca havia visto em sua vida — mas, sim, em seus livros e histórias loucas dentro de sua cabeça — a abraçava como se ela fosse a coisa mais importante em sua vida e de repente sentiu uma vontade incontrolável de desabar ali mesmo, mas se segurou.
Precisava, mais uma vez, ser forte.
Odin, notando que a mulher não retribuiu ao seu gesto, afastou-se.
— Desculpa… eu acho que todos vocês têm me confundido com uma pessoa que um dia foi muito especial. — Sua garganta estava seca e ela não sabia muito bem o que dizer. — Eu escrevi muitas coisas sobre a Kára, mas não sou ela… isso é, simplesmente, impossível.
O rei a encarou com tristeza, mas deu um passo em sua direção, levando a mão até a altura de seu tronco e puxou o cordão pendurado em seu pescoço.
— Frigga… — ele murmurou e aquilo lhe causou uma queimação no peito e o medalhão se acendeu.
Todos encaravam o que acontecia ali, sem conseguirem dizer nada.
Odin se recompôs depois da confirmação que precisava e virou-se, pronto para dar as ordens necessárias. Como se não tivesse acabado de reencontrar aquela que sempre quis de volta e Thor notou aquele comportamento.
— Cuidem da moça — ordenou, com uma expressão completamente diferente do início.
Odinson não conseguiu deixar de sorrir e aproximou-se de , como se fosse seu protetor.
— Quero que atendam a qualquer pedido feito pela princesa. Faremos um baile de comemoração amanhã. Não comentem nada com minha esposa, quero que seja uma surpresa. — O homem, que já se encontrava na porta da sala, virou-se para olhar a mulher. — Seja bem-vinda de volta, .
Tudo na cabeça da escritora parecia rodar, enquanto Leen sorria sem parar de felicidade pela amiga, afinal conseguia se lembrar de todas as vezes que a ouviu dizer sobre não se encaixar na terra ou ter algo de errado com ela. Contudo, precisava colocar a cabeça no lugar e, de repente, algo lhe ocorreu.
Loki.
— Eu tenho um pedido.
Odin assentiu para que ela prosseguisse.
— Preciso falar com Loki Laufeyson.
Thor arregalou o olhar sem acreditar nas palavras dela, conforme seu pai franziu o cenho em uma expressão nada agradável e respirou fundo.
— Infelizmente, a este pedido eu não posso atender, minha querida — informou, e então deixou a sala.
ficou parada sem saber o que dizer, sentindo o olhar do asgardiano queimar diante de si e seus olhos encontraram o de Eileen, que foi colocada novamente na mesa para que mais exames fossem feitos.

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já tinha perdido as contas de quantas vezes havia rodado naquela cama enorme conforme tentava decifrar as imagens no teto de vidro do quarto em que estava. Não conseguia desligar nem por um momento, principalmente por saber que ainda não se tinha descoberto nada sobre a situação de sua amiga, assim como toda a loucura que estava vivendo.
Deveria sair correndo, não deveria? Mas parecia que ela tinha perdido qualquer capacidade de se chocar com as coisas que aconteciam à sua volta nos últimos dias. Depois daquele homem estranho aparecer na cozinha da sua casa, tudo estava desandando e ela simplesmente não conseguia dizer não ou gritar que aquilo era uma loucura total.
Algo dentro dela dizia ser tudo verdade, por mais insano que fosse.
O jantar havia sido estranho, assim como a tentativa de Thor em apresentar o reino a ela conforme as pessoas se curvavam e diziam o quanto estavam felizes por tê-la de volta. Mas como poderia se sentir feliz e agradecida? Não conhecia aquele lugar, nem aquelas pessoas e muito menos se identificava como Kára. Era apenas a , uma garota que começou postando fanfics na internet, que não tinha nenhuma lembrança sobre seus pais biológicos e sua vida antes dos dezoito anos, e que, por sorte, virou uma grande escritora.
Kára era importante. Fazia parte de sua vida, mas nunca, em seus sonhos mais insanos, quis ser mais do que isso.
Só queria fechar os olhos e acordar em sua cama, rir de manhã contando a Leen o sonho mais bizarro e absurdo que havia tido e depois encaixar aquelas coisas para seu novo livro, mas, por mais que tentasse, simplesmente não acontecia. Precisava encarar, aquela era sua nova realidade, e precisava de respostas.
Respostas.
Loki.

Ele era o único capaz de dar aquilo a ela, por mais que uma parte dela sempre a mandasse tomar cuidado com o homem. Apesar de tudo, ele lhe dava alguma sensação de conforto… segurança.
Muito antes de realmente se dar conta, ela já estava andando descalça e apenas de camisola e roupão pelos corredores escuros daquele castelo enorme. Não sabia explicar como, porque tudo parecia simplesmente inexplicável ultimamente, mas ela conhecia cada parte daquele lugar e soube exatamente para onde seguir, como se uma energia a levasse até o homem. Não foi difícil criar uma distração para os guardas deixarem seus postos e ela conseguir adentrar a área da prisão.
O lugar ficava localizado no subsolo do castelo. Era frio, escuro e completamente sombrio, mas não hesitou em momento algum.
Precisou pegar uma tocha para poder enxergar melhor e seguiu seu caminho para onde sabia que o encontraria.
— Kára… — Loki soprou baixo, quando seus olhos recaíram sobre a mulher.
Vê-la todas aquelas vezes era uma coisa, mas a ter ali, bem diante dele… era completamente fora de tudo que um dia havia imaginado. Ela realmente não tinha mudado nada, mesmos cabelos, altura… e aqueles olhos cheios de confiança, capazes de intimidar qualquer um que os encarassem.
— Eu não estou louca… — gaguejou com a voz fraca. — Você é real. — Sua voz tinha um tom de alívio e conforto, como se tivesse desejado aquilo, por mais que jamais admitisse para si ou qualquer outra pessoa.
Ele não conseguiu evitar o sorriso brotando em seus lábios e apoiou-se no vidro.
— Mesmo em seus pensamentos, eu sempre fui, Svartálfar.


Capítulo 5

queria respostas.
Não importava qual fosse o preço delas, ela estava ali diante do homem mais intimidador que já havia encontrado para obtê-las. O olhar dele era o mesmo de seus sonhos ou da realidade paralela que ele a tinha enfiado. Não importava, Loki Laufeyson, toda vez que a encarava, parecia poder enxergar sua alma.
Mesmo desejando apenas voltar para sua vida normal e entediante, ela sustentou a batalha silenciosa sendo travada ali. A vida de sua melhor amiga dependia daquilo, pois com toda certeza, se fosse a sua, teria apenas desistido.
Tudo aquilo era loucura demais para suportar.
Dessa vez, não tentou seu clássico truque de fechar os olhos para ver se acordaria, já estava óbvio que não.
— Quando estiver pronta, princesa. — A voz de Loki interrompeu seus pensamentos, trazendo sua atenção para ele imediatamente.
Como ele conseguia sorrir diante daquela situação?
Precisou respirar fundo para não começar a nomeá-lo de vários palavrões.
— Não me chame assim. — Aquilo foi uma ordem e ele soube, mas deixou passar. — Eu quero... digo, preciso da sua ajuda, Loki.
Era claro que ela precisava.
— Por que não começa me contando algo mais importante e menos óbvio?
Aquele homem era prepotente em um nível insuportável, mas ela não ia cair naquele joguinho.
— Não se faça de sonso comigo, Loki Laufeyson! Eu criei você. Sei tudo sobre os seus truques — a mulher avisou, visivelmente sem paciência. — Vai me ajudar ou não?
Uma risada alta ecoou no ambiente. Era ele, mais uma vez, se divertindo com a desgraça alheia.
— Se sabe mesmo tudo sobre mim, deveria ter em mente que me tratar com tanta soberba não vai me convencer a te ajudar, . — Dessa vez, o olhar dele era escuro e sem emoção.
O frio que correu a espinha da mulher foi algo inexplicável, mas manteve a postura, como se aquela resposta não a tivesse causado absolutamente nada.
— Você sabe de algo. Não é coincidência eu ter te visto todas aquelas vezes em meus sonhos e Leen encontrar aquele lugar… Eu sei que não é. — Seus olhos quase marejaram, então ela os desviou por alguns instantes.
Loki a encarou quando os olhos da mulher voltaram a focar nos seus, e ela pôde jurar que ele tinha de alguma forma entendido sua dor, mas a expressão logo se transformou em indiferença.
— No que posso te ajudar, princesa? — questionou, ignorando totalmente aquele sentimentalismo todo por parte dela.
— Eu quero respostas e sei que pode me dar muitas delas. — parou para observar à sua volta pela primeira vez, vendo que tudo permanecia extremamente calmo e silencioso, dando um passo à frente para ficar próxima ao vidro os separando. — A começar pela nossa comunicação.
Ele estava se esforçando para disfarçar o quanto admirava a perspicácia da mulher, mas ela não estava facilitando nem um pouco.
— Talvez eu tenha. — Deu um passo dentro da cela, ficando também mais perto.
De repente, foi como se algo os conectasse de uma maneira muito intensa e conseguia sentir aquilo. Ambos se encararam sem nem mesmo piscar, conforme tudo pareceu ficar mais frio e gelado à volta deles e , então deu-se conta de que agora dividia o mesmo ambiente com o homem.
Aquilo parecia simplesmente impossível, tinha certeza de ter apenas piscado, nenhum apagão. E ela estava… ao lado de dentro da cela.
— O que está acontecendo? — balançou a cabeça, tendo a sensação de que iria explodir.
— O mesmo de sempre, Svartálfar.
Uma revirada de olhos foi arrancada dela.
— Loki, nós não temos muito tempo. Preciso que me dê respostas. O que você quer dizer com o mesmo de sempre? — indagou impaciente.
Ele viu tudo ir por água baixo e que estava colocando as coisas a perder quando simplesmente sentiu-se impossibilitado de falar ao olhar para ela de tão perto. As mãos de Laufeyson suaram frio e ele pôde jurar que tinha acabado de completar dezesseis anos, sendo apenas o jovem príncipe inocente, correndo pelo palácio em busca de sua paixão.
Não se lembrava de ter se sentindo vulnerável daquela forma recentemente.
Tentou fugir do transe, mas era como se não fosse capaz de interromper a forte conexão, estudando cada parte do infinito de possibilidades dentro dos olhos de . Ela não havia mudado absolutamente nada, exceto pelo amadurecimento evidente e também a forma como a vida a tinha feito ser ainda mais dura do que antes. era uma guerreira, assim como Kára, e isso fez seu coração encher-se de orgulho.
Loki jamais admitiria aquilo para ela, mas estava ainda mais encantado.
Aquela proximidade toda tirava sua sanidade e ele desejou poder apenas jogá-la para fora dali e dizer coisas que a fizessem nunca mais querer chegar perto dele, mas o homem simplesmente não conseguiu.
A quem estava querendo enganar? Havia esperado muito por aquele momento.
— Não foi isso que eu planejei… — deixou o sussurro escapar, fazendo a mulher franzir o cenho. — Digo, estar aqui não era o planejado.
Não era àquilo que ele se referia e ela sabia muito bem.
— Qual era o planejado, então?
— Não ser preso — rebateu com prontidão. — Preciso que saia daqui, !
Era como se aquele homem tivesse uma tomada em que o humor dele se transformava a cada momento.
— Você perguntou que ajuda…
— Mudei de ideia.
ficou irritada com a mudança repentina de atitude e engoliu a seco, sentindo-se fraca e idiota ao mesmo tempo. Como pôde esperar que alguém como ele a ajudaria?
Por que o sentimento de proteção vinha acompanhado de confiança? Se odiou por aquilo.
— Eu quero saber como isso acontece! — O grito saiu rápido e agudo, impedindo a mulher de retardá-lo.
Loki a encarou como se ela não tivesse acabado de gritar com ele, analisando-a. Então calmamente ele ficou ainda mais perto de , quase grudando seu corpo ao da mulher, que deu um passo para trás, assustando-se tanto quanto ele ao ouvir barulhos de passos ecoando pelo enorme corredor.
— Olhe para si mesma e encontrará as respostas. Mas eu preciso que saia daqui e não volte.
franziu o cenho, se sentindo levemente confusa, mas logo algo lhe ocorreu. A mulher então virou-se, ficando de frente para o vidro e de costas para Laufeyson, que ainda a observava de perto.
Era como se aquela película de repente tivesse se tornado um espelho, pois ela conseguia se ver. Ao menos foi o que cogitou nos primeiros segundos, ao dar-se conta de que os movimentos não eram repetidos do outro lado.


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Apesar dos acontecimentos do dia anterior, acordou sentindo como se aquele tivesse sido o melhor sono de toda sua vida. O brilho do sol invadia o quarto em que ela se encontrava, trazendo uma aura serena e agradável para o ambiente.
A imagem da última noite ainda estava impregnada em sua cabeça, pois era simplesmente impossível que aquilo fosse real. Só queria conseguir apagar a cena de sua memória e voltar para casa.
Casa. Ela já nem sabia mais onde era exatamente… como se não tivesse estado lá por muito tempo. Para ser bem honesta consigo mesma, não tinha ideia alguma de quanto tempo havia se passado desde que toda aquela maluquice começou a aparecer em sua vida.
Uma semana? Um mês? Um ano? Parecia simplesmente irrelevante encontrar a resposta para aquilo diante de toda a situação.
Seus pensamentos estavam tão perturbados que a mulher não teve coragem de sequer abrir os olhos para encarar a realidade e ver, de fato, que se encontrava ainda presa àquele lugar. Queria poder estalar os dedos e voltar para sua vida antiga.
Entediante, porém normal. Ninguém tinha coragem de admitir, mas todos gostavam da normalidade.
Bufou frustrada como uma adolescente em crise, mas se sentiu no direito de fazer aquilo ao repassar tudo o que vinha vivendo. Um cara maluco em seus sonhos, um mais doido ainda aparecendo bem na sua frente… sua melhor amiga. Era tanta coisa que ela só queria poder chorar, mas nem isso conseguia fazer.
Aqueles malditos livros. Eles a tinham levado até ali.
Riu exasperada.
Estava muito óbvio que era o contrário. Então por que relutar tanto?
— A relutância nos traz conforto. Por isso, minha criança. — A voz feminina reverberando quase ao seu lado a fez dar um pulo na cama e ela logo tratou de abrir os olhos. Seu coração bateu forte, fazendo-a pensar que sufocaria por alguns momentos.
Levou algum tempo para sua visão ficar limpa e ela procurou pela dona daquela voz, já pronta para gritar pelos guardas, mas não foi preciso. Uma mulher completamente inofensiva foi avistada quando conseguiu ter plena visibilidade das coisas à sua volta.
Quem era ela? Ótimo, mais perguntas. Era tudo o que a escritora realmente precisava.
— Quem é você? — Seu tom não foi dos mais educados, mas estava começando a ficar cansada daquilo.
Apesar de sua pergunta um pouco bruta, a mulher manteve-se com uma expressão leve e um sorriso nos lábios.
— Eu imaginei que faria esse questionamento. — Ela olhou à volta, antes de encarar os olhos de no exato momento em que a mundana se sentou na cama. — Eu sou a Frigga, Mãe do Thor.
— E do Loki — completou.
Frigga arqueou uma das sobrancelhas, não de surpresa, mas pela forma como lembrou dele.
— Vejo que já teve a oportunidade de revê-lo. — A mulher aproximou-se, se sentando na cama bem ao seu lado. — Nos deixem a sós.
Foi só quando ouviu aquele pedido que se deu conta de terem guardas dentro do quarto. O comentário sobre rever Loki não a assustou, não após toda aquela bizarrice.
— Mais vezes do que eu gostaria. — foi sincera, abrindo um sorriso amarelo e arrancou uma risada de Frigga.
Não poderia culpá-la por aquilo. Afinal era um tanto quanto interessante que agora a garota o via daquela forma. Ou melhor, a mulher.
Um silêncio foi travado entre as duas enquanto um turbilhão de pensamentos atormentava mais do que nunca. Ela não estava esperando por mais um “reencontro” e aquilo parecia nunca acabar. Sempre tinha alguém cruzando seu caminho, dizendo a conhecer de alguma forma. Havia lutado tanto para se aceitar depois de tantos anos e era horrível a possibilidade de que morreria na praia.
Sua visão foi ficando turva e uma pressão horrível se fez presente dentro de sua cabeça, deixando a mulher levemente zonza.
Outras vozes reverberaram um pouco longe, parecendo vir do lado de fora.
Ela então sentiu as pernas um pouco pesadas e ficou levemente confusa. Estava em pé? Não lembrava de ter levantado da cama.
O ar pareceu mais pesado.
— Kára, minha querida… — A voz de Frigga e a menção daquele nome a trouxe de volta à órbita.
Balançou a cabeça, sentindo-se envergonhada, e teve vontade de gritar implorando para ficar sozinha, mas quando seus olhos encontraram os da mulher, ela simplesmente não conseguiu.
Aquilo foi mais estranho do que ela foi capaz de compreender.
— Desculp…. — Seja lá o que ela tinha para dizer, foi interrompido quando a estranha a tomou nos braços.
E foi então que Odin adentrou o quarto, acompanhado por Thor, que não parecia nada feliz em suas expressões.
— Vejo que minhas palavras são apenas ruídos para serem ignorados por minha esposa também.
Não sabia por que, mas a presença do homem a incomodava mais do que de qualquer outra pessoa. Seus olhos pararam diretamente no loiro, pois ele a encarava com um sorriso no rosto, que foi retribuído por ela. Aquele ato a assustou um pouco, mas logo lembrou-se que ele tinha sido tão solícito e salvo não só ela, mas sua amiga.
Eileen.
Ficou tanto tempo focada no rapaz que só se deu conta de estar nos braços de Frigga ainda quando ela se afastou, entrando em seu campo de visão. A mulher estava com lágrimas nos olhos e ela sentiu o coração apertar diante daquilo, mal conseguia lembrar a última vez que alguém havia demonstrando tanto carinho por sua causa.
— Sou tão dona deste reino quanto você, querido. — A rainha virou-se para o marido. — Além do mais, não sei por que ainda tenta esconder coisas de mim. Sou uma feiticeira, não se esqueça disso.
— Certamente — Odin respondeu calmamente, o que pegou de surpresa.
O homem não havia sido dos mais simpáticos desde que o conhecera.
A mulher passou os olhos pelas pessoas presentes ali e dentro de sua cabeça só conseguia gritar o quanto queria ficar sozinha. Contudo, precisava ser forte e pensar em sua amiga, então respirou fundo.
— Quero ver a minha amiga. — Seu tom era de exigência, longe de ser um pedido, mas ela não se importou.
— Suponho…
— Eu a levo — Thor se ofereceu, cortando a fala do rei, que o encarou com uma raiva evidente nas expressões.
— Não acho que seja apropriado — Odin deixou evidente que discordava.
queria pular em cima do homem e enchê-lo de socos.
— Eu ordeno que me leve de volta para a Terra, então. Sou uma mulher livre, assim como Leen, e tenho escolhas. — Seu tom de voz era firme e ela se aproximou do homem, deixando bem claro que falava sério.
Um silêncio se formou no ambiente, contemplado com uma tensão quase tangível. Odin cerrou o maxilar, conforme Thor permanecia sem falar, implorando por dentro que o pai acabasse cedendo aos pedidos da mulher. Ele não estava pronto para perdê-la de novo.
Frigga, notando a tempestade dentro de cada um dos três presentes ali, voltou a se aproximar de , pegando em sua mão.
— Poderá ver sua amiga, minha querida. — Desviou o olhar até o marido, que apenas assentiu, para a surpresa dela. — Mas peço que não a retire do ambiente em que foi colocada. É para o seu bem e de todos presentes em Asgard.
A escritora tentou encontrar alguma pista nas entrelinhas, mas nada veio.
estava profundamente grata pelo que a mulher havia feito, mas, por hora, apenas assentiu, não queria criar laços demais ou dar a entender que existia alguma intimidade entre elas. A rainha ainda era uma estranha e não queria confiar demais.
— Acredito que ela precise de um tempo sozinha. — A feiticeira continuou, se afastando. — Thor pode lhe mostrar todo o reino e te deixar a par de todas as coisas.
Odin não disse nada, apenas depositou um beijo rápido na testa de , que pensou em se afastar, mas acabou ficando parada ali e o viu seguir em direção à saída junto da mulher determinada com quem havia se casado.
— Desculpe por isso. — Thor a encarou nos olhos, demonstrando sinceridade genuína.
— Ele é quem deveria estar se desculpando. — não escondeu o descontentamento com o pai do rapaz. — Ele é sempre assim?
Odinson soltou uma risada leve, ele achava um tanto engraçada a forma como ela falava de seu pai.
— Odin está apenas preocupado com o futuro de Asgard e o seu — sentenciou, conforme se afastou, se mantendo na posição de ficar com as mãos para trás e observá-la.
Ela pensou em argumentar, mas preferiu escolher a privacidade.
— Poderia me dar um tempo sozinha?
Thor apenas assentiu diante do pedido, mesmo querendo passar cada minuto ao lado dela, e se retirou.


esperava que o rapaz esperando por ela ao lado de fora não pensasse que ela o tinha feito esperar propositalmente. Quando entrou na banheira após a saída dele, a mulher não imaginava estar tão necessitada de fazer uma boa limpeza em todo o seu corpo. Mas a julgar pela expressão dele ao caminhar do seu lado, ficava claro que não.
Thor a tinha levado até sua amiga, que infelizmente encontrava-se completamente desacordada e presa a uma mesa de experimentos. Tentou negociar para soltá-la dali, mas nem mesmo ele foi capaz de dar aquela autorização a ela e preferiu não insistir. Se ele fosse exatamente como em seus livros, estava fazendo aquilo apenas baseado no bom coração que tinha para proteger seu povo e aqueles que amava.
Não poderia culpá-lo. Era exatamente igual quando se tratava dos que importava para ela.
Enquanto caminhavam por uma varanda, depois de já terem andado por pelo menos oitenta por cento daquele reino — ao menos era o que ela achava —, ele contava a ela sobre toda a história de Asgard e coisas terríveis que já tinham acontecido com seu povo.
Por diversas vezes, achou curioso que Odinson sempre se corrigia ao dizer “você” quando queria contar da guerreira Kára e acabava fazendo uso do nome. Achou que ficaria irritada ou o mandaria parar com aquela baboseira toda, mas de repente pegou-se interessada em escutar cada vez mais detalhes e nem se sentia mais incomodada com o erro constante de ser nomeada de outra forma.
Não podia ser injusta, Thor era uma boa companhia e estava dando o seu melhor para mantê-la segura e confortável diante de tudo o que estava vivendo. Ele não fazia perguntas pessoais sobre sua vida ou a questionava devido ao acontecimento na terra que o levou até lá, por mais que ela pudesse ler no olhar do rapaz a vontade de bombardeá-la com perguntas.
Ela não fazia ideia se ele estava agindo daquela maneira de propósito, mas por hora decidiu dar um voto de confiança e agradeceu internamente por aquilo.
— Quando você veio até mim, sabia que eu estava em perigo — sentenciou, mesmo sabendo ser arriscado expor o que se passava em seus pensamentos. — Como? Você é algum tipo de vidente?
O loiro riu, conforme caminhava.
— Não, sem visões. Feitiços são coisas do outro irmão. — A encarou nos olhos, demonstrando sinceridade.
— Então? — insistiu.
— Meu pai me ordenou buscá-la na terra. Heimdall não conseguia mais vê-la, aparentemente. — Thor então parou, escorando-se na parede histórica do palácio, em uma das centenas de varandas.
o acompanhou.
A mulher achava curioso como era fácil arrancar respostas do homem.
— Como isso é possível?
A pergunta deveria ser sobre como o cara mencionado era capaz de vê-la, mas aquilo ela já parecia saber, então foi mais sobre como poderia não estar em terra.
— Eu acredito que você estava e não estava. — Os olhos dele corriam por todo o reino. — Os Nove Reinos viajam dentro de Yggdrasil… — Thor disse, erguendo sua mão e ficando um pouco mais próximo, então pegou a de e grudou a sua para demonstrar o que dizia.
pensou em retrair sua mão, mas não o fez, por algum motivo que ela não deu muita atenção naquele momento. Seu foco era saber cada vez mais sobre Asgard. Obter informações para conectar com as colocadas em seu livro.
— Uma árvore colossal… — sussurrou, demonstrando saber o que aquilo significava. — Alguns dizem que é um freixo, outros que é um teixo, mas o que realmente importa é que essa árvore é o centro do mundo.
Thor assentiu, sorrindo satisfeito com as palavras dela, então continuou:
— Elas orbitam Midgard, assim como seus planetas com o sol. A cada cinco anos, os mundos se alinham perfeitamente….
A escritora encarou no fundo dos olhos, conforme teve a sensação de tudo ter ficado silencioso à sua volta. O loiro correspondeu conforme segurou a outra mão dela, demonstrando, mais uma vez, como funcionava.
— É o que chamamos de convergência.
Um silêncio pairou entre os dois, trazendo-lhes a sensação de que iriam sufocar em meio ao misto de sentimentos.
— Durante esse tempo, as fronteiras entre os mundos ficam turvas — Odinson continuou, apesar da distração momentânea. — É possível que tenha encontrado um desses pontos.
queria dizer que Leen havia encontrado, mas era como se ela de repente fosse incapaz de formular qualquer coisa e deixou ele terminar a bela explicação.
— Tivemos sorte por ele ter ficado aberto. Assim que os mundos saem do alinhamento… A conexão se perde — concluiu, fixando seu olhar ao dela, conforme, sem perceber, suas mãos ficaram perfeitamente encaixadas.
Aquele momento era completamente deles e ambos sabiam disso, apesar de jamais admitirem. mal conseguia respirar de tão pesada que a atmosfera parecia à sua volta, enquanto Thor só conseguia ficar com os olhos grudados a ela ao sentir aquela pele macia e quente, da qual havia sentido tanta falta.
O mundo poderia parar e eles nem se dariam conta.
A mulher pensou por um momento que aquele efeito com certeza era muito maior nela do que nele, afinal, estava literalmente tendo uma conversa sobre coisas não mundanas com um Deus….
— Gosto de como explica as coisas. — As palavras pularam de sua boca, então a mulher se deu conta da proximidade toda e se afastou em um rompante.
Thor nada disse, apenas permaneceu encarando-a, apesar de aquilo o ter afetado negativamente.
— Digo, você é muito bom com esclarecimentos. O que acontecera com Leen? Ou comigo?
Ele assentiu, então ponderou pela primeira vez o quanto poderia ser franco com ela sem machucá-la.
— Eu não sei, . — Franziu o cenho, deixando claro o desconforto em feri-la de alguma forma. — A situação da sua amiga é muito delicada, estamos fazendo o possível para mantê-la viva.
Aquilo atingiu a boca do estômago da mulher em cheio e ela precisou ser rápida em limpar a lágrima que escorreu, logo tratando de virar seu rosto, na tentativa de esconder seus sentimentos.
— Eu entendo… — sussurrou, pois era a única coisa que conseguia dizer.
Thor podia demonstrar ser bobo, mas não era nada daquilo, ele apenas respeitava o espaço dela. Contudo, naquele momento, sentiu-se na obrigação de confortá-la. Em passos lentos, ele se aproximou, levando suas mãos até os ombros de , que o encarou tentando entender o que acontecia.
— Eu prometo que darei o meu sangue para proteger a sua amiga. — Então deslizou uma mão até o rosto dela, que acompanhou o gesto, mas nada disse, pois logo o encarou nos olhos.
— Obrigada, Thor — agradeceu com um meio sorriso e mais uma vez se afastou. — Nos vemos no baile?
O rapaz deu um passo para trás e assentiu, deixando claro em seus olhos que mal poderia esperar para vê-la de novo, ainda mais em um evento como aquele. Enquanto ela pensava que apesar das ótimas intenções de Thor, precisaria fazer um pacto com o diabo para salvar sua amiga.


Continua...



Nota da autora: EU DEMOREI, MAS CHEGUEI!

Amores, quero pedir MIL desculpas pela minha demora em atualizar Kára, mas prometo que agora serei mais regular hahahaha.
Espero que gostem da att e nos falamos em breve!


xoxo ❤️





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Nota da beta: Essa pp é simplesmente maravilhosa, né? O tanto que ela afronta o Loki! Eu MORRO de dar risada!
O jeito que ele fica todo indignado é épico demais. E você está caracterizando ele de forma perfeita. Igualzinho ao que imagino e ao que vi nos filmes.
Mano, eu preciso exaltar primeiro a Frigga porque essa mulher é perfeita, nunca errou e colocou o Odin no lugar dele!
Agora exalto o Thor, porque ele é MUITO fofo! Socorro! O jeito que ele trata a pp, meu Deus do céu!
Nem culpo a Kára se ficar entre os dois, não hehehehe.
Esse capítulo tá maravilhoso. Super fluído, como sempre, e com aquele gostinho de quero mais.
Continuaaaaa. ♥

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