La Nueva Era

Última atualização: 19/07/2022

Prólogo

As mãos estavam geladas e suando, assim como acontecia em todas as vezes em que ela se deparava com uma situação que lhe deixava nervosa. Ela podia jurar que via os dedos tremelicarem um pouco e que isso nada tinha a ver com o fato de não conseguir manter as pernas paradas, chacoalhando-as de um lado para o outro enquanto tomava coragem para sua próxima ação. Fazer login no Skype era uma tarefa simples, mas o que aconteceria a partir daquele momento iria moldar seu futuro. Concretizaria seus planos ou teria de ajustá-los à sua realidade? Embora tivesse um plano B, ela não queria ter de utilizá-lo e isso aumentava ainda mais a sua ansiedade.
Logou-se no aplicativo e seguindo as instruções recebidas pela equipe de recrutamento ela procurou o nome do entrevistador na lista de contatos e começou a digitar uma mensagem.
”Olá, Sr. Smith. Aqui é a . Nós temos uma entrevista em dez minutos e só queria avisá-lo que estou disponível. Estou ansiosa para falar com você em breve.”
Apertou o enter e buscou desesperadamente por sua garrafinha de água que estava repleta de chá de melissa. Ainda tinha alguns minutos e esperava que o chá milagrosamente fizesse efeito nesse meio tempo.
Inspirou.
Respirou.
Repetiu a ação mais algumas vezes até sentir-se mais calma.
Ela precisava tomar as rédeas de seu emocional se quisesse ter alguma chance de ser a escolhida para ser a próxima trainee daquele hotel. Caso fosse selecionada, ela iria participar de um programa de intercâmbio remunerado nos Estados Unidos, focado em hotelaria, sua área de formação e na qual ela já vinha atuando desde que ingressou na faculdade. Se tudo ocorresse conforme o planejado, ela passaria os próximos 12 meses adquirindo experiência profissional em um país diferente, praticando o inglês, ganhando em dólares, conhecendo pessoas novas… Enfim, viveria o sonho americano do seu próprio jeito.
Com isso em mente, ela passou a sorrir antes mesmo de atender a chamada de vídeo de seu entrevistador.
Era hora do show.

Capítulo 01

Embora o voo de oito horas e trinta minutos entre Guarulhos e Miami não tivesse escalas e fosse relativamente curto para um voo internacional, quando apareceu no saguão de desembarque do aeroporto, parecia ter sido atropelada por um caminhão. Se somasse a isso o voo entre Porto Alegre e Guarulhos, as infinitas horas de espera e todos os trâmites na imigração, ela tinha uma justificativa bem plausível para sua aparência naquele momento.
No entanto, quando naquele mar de pessoas ela viu uma jovem aparentando sua idade segurando uma placa com seu nome, todos seus pensamentos evaporaram e seu desconforto muscular desapareceu. O coração foi tomado por uma sensação de orgulho e felicidade e ela sentiu os olhos marejaram um pouco. Entre os amigos e ex-colegas de trabalho, ela era conhecida por ser chorona, mas ali ela tentaria manter a pose por um pouco mais de tempo. Sorriu e continuou empurrando o carrinho com suas bagagens até estar cara a cara com a moça.
— Nem acredito que consegui chegar ao nosso ponto de encontro sem me perder. Eu sou péssima com dire-ções mesmo em ambientes fechados, e aqui é gigante, não é? — ela disparou para quebrar o gelo antes de se apresentar oficialmente. — Prazer em finalmente te conhecer, Bethany — estendeu a mão, tentando já come-çar a deixar para trás o costume brasileiro de abraçar e beijar.
— Prazer, ! Já sabe que eu prefiro que me chamem de Beth e eu também não sou muito boa com direções — ela apertou a mão da outra enquanto ambas sorriram. — Meu carro não está tão longe daqui. Você quer ajuda com as bagagens?
— Não, não. Você já fez muito em vir me buscar, pode deixar que com isso eu me viro — estava de fato extremamente agradecida por não ter que lidar com táxi ou uber àquela hora da manhã no cansaço físico e mental em que se encontrava. Sem interromper a conversa, as duas começaram a andar para fora do aeroporto em direção ao estacionamento descoberto no qual Bethany havia milagrosamente conseguido uma vaga.
— Eles normalmente mandam alguém do RH para fazer isso, mas como hoje é meu dia de folga e nós vamos dividir o apartamento, eu pedi para que me deixassem vir — o olhar surpreso que direcionou à Bethany fez a mulher rir e questionar em tom divertido qual era o problema.
— Uma hoteleira abrindo mão do soninho até mais tarde no dia da folga? Eu não acredito nisso! Vou ter que dar tudo para te recompensar.
— Essa semana eu consegui dois dias de folga, então na segunda-feira eu dormi e hoje estou aqui. E eu nem precisei acordar às 5h, de forma que não considero que tenha acordado cedo hoje.
— Sei bem como é. Mas então quer dizer que os dois dias de folgas semanais que me falaram na entrevista não eram apenas uma forma de me fisgar? É verdade mesmo? — viu Bethany concordar com a cabeça e rir mais uma vez da reação exagerada da outra. — Estou chocada!
— Como funcionava sua escala no Brasil?
— Escala seis por um, com uma folga semanal fixa e um domingo por mês — fez uma cara de desgosto. Amava a profissão que havia escolhido, mas odiava profundamente aquele sistema de escala que não a deixava ter muito pique para uma vida fora do hotel.
— Nossa, que pesado! Aqui é bem melhor, eu te garanto.
— O bom daqui é receber por hora trabalhada... Em dólares! — parou o carrinho e fingiu jogar dinheiro para o céu. — Eu sei que existem alguns momentos em que é praticamente impossível fugir das horas extras e tá tudo bem, mas quando é todo dia isso acaba virando uma regra e não uma exceção e o desgaste acontece.
— Já trabalhei em um lugar assim. Estou nesse hotel há pouco mais de dois anos e até o momento não vivi nada assim. — Fez joinha com os polegares e elas voltaram a se mover.
Caminharam por mais alguns metros antes que a motorista indicasse com o dedo qual era seu carro, em seguida destravando o mesmo. aproveitou para esticar os braços em um alongamento discreto, porém altamente relaxante. Inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos por rápidos segundos, permitindo que os raios de sol batessem em cheio em sua face. Sentiu que poderia chorar de emoção a qualquer momento, então tratou de distrair a mente e a primeira coisa aleatória que lhe atingiu foi o fato de que agora ela morava na mesma cidade do pessoal do Miami Ink, programa que adorava assistir quando ainda era uma pré-adolescente sonhando com tatuagens. Sorriu para si mesma e voltou à posição normal, dando de cara com uma Bethany sorridente.
— Bem-vinda à Miami, .
Naquele momento, a brasileira não conseguiu reprimir a lágrima solitária que caiu de seu olho. Aquela foi sua maneira silenciosa de agradecer Bethany por todo o suporte que ela vinha lhe dando nas últimas semanas.
Quando o gerente de hospedagem anunciou que eles teriam uma trainee de outro país na equipe, a norte-americana logo tratou de unir o útil ao agradável. Ela sabia que o hotel iria oferecer alojamento para a nova funcionária por no máximo duas semanas e depois a pobre coitada teria de lutar sozinha para encontrar um local para morar. Como ela tinha um quarto sobrando em seu apartamento e estava precisando economizar, decidiu contatar a brasileira pelas redes sociais a fim de conhecê-la um pouco mais antes de fazer a proposta.
Entre apresentações e conversas amenas sobre clima, seriados, livros e bandas, o click entre elas foi quase instantâneo e não demorou muito para que Bethany revelasse o real motivo por trás de seu contato. quase chorou de emoção e alívio quando elas acertaram todos os detalhes para se tornarem roommates, afinal, encontrar uma residência fixa era uma de suas maiores preocupações e ela havia resolvido aquilo antes mesmo de deixar o seu país de origem, o que gerou um alívio instantâneo em seus pais também.
— Vamos?
— Vamos, claro!

O trajeto de aproximadamente vinte minutos do aeroporto até o apartamento em Downtown Miami foi um pouco mais silencioso, já que o balanço do carro deixava relaxada ao mesmo tempo em que ela tentava absorver um pouquinho de cada rua percorrida.
Quando o veículo parou do nada e ela viu um portão eletrônico sendo aberto, respirou, aliviada, pois sua bexiga já dava sinais de que estava cheia novamente e ela estava doida para tomar banho e cair na cama. O automóvel foi estacionado em uma das vagas e Bethany a ajudou com as malas até o elevador.
— Sei que pode demorar um pouco até você ter esse sentimento, mas bem-vinda ao seu novo lar. — ela deu ênfase à última palavra e passou a agradecê-la em inglês, português e espanhol, fazendo-a rir.
— Uau, então foi por isso que te contrataram. Quase uma poliglota.
— Se não fosse o quase…
— Tenho certeza de que você consegue o quarto idioma fácil. Mas enfim, aqui é a nossa sala — ela disse estendendo os braços para o cômodo, ao qual passou a analisar com um pouco mais de atenção. Ela não tinha o mínimo gosto para decoração, mas gostou muito da composição do ambiente: o piso era laminado, ou seja, mais fácil de limpar; e fazia um contraste legal com o tapete cinza posicionado no meio do local. Havia uma mesa de centro vazia posicionada ali e na frente dela ficava um sofá preto de três lugares, sendo que nas outras extremidades havia duas poltronas da mesma cor. As paredes brancas eram preenchidas por três quadros decorativos na seguinte ordem: AME, SORRIA, VIVA.
— Nossa, adorei. Você fez um ótimo trabalho aqui.
Bethany agradeceu e a direcionou para o corredor, mostrando rapidamente onde ficava o banheiro, o qual pediu para usar assim que sentiu sua bexiga doer.
Quando saiu, viu que a última porta do corredor estava aberta e seguiu até lá, dando de cara com Bethany e suas malas já dentro do cômodo.
— Esse é o seu quarto. Espero que goste.
— Acredite em mim, eu já amo esse lugar! Será que posso te pedir um favor?
— Claro!
— Será que eu posso...hm...te abraçar? — perguntou, envergonhada. — É uma das minhas melhores formas de demonstrar afeto e gratidão e eu sei que americanos não costumam ser tão calorosos, mas…
— Calma, mulher. Eu venho de uma família de abraçadores, fique tranquila — ela riu e abriu os braços para que a outra pudesse se aconchegar.
— Obrigada por tudo mais uma vez — disse antes de afastar o corpo.
— Já perdi as contas de quantas vezes você me agradeceu em menos de uma hora.
— Mas é que eu realmente estou agradecida e…
! — chamou a atenção da brasileira antes que ela começasse mais uma vez. — Fico feliz em ajudar e você está me ajudando também, aqui é uma via de mão dupla de gratidão. E acho que você pode retribuir fazendo aquele doce de nome estranho que você me mandou uma foto esses dias…
— Brigadeiro! Claro que eu faço! Você vai ver, ou melhor, vai sentir. Parecem pedacinhos palatáveis do paraíso.
— Mal vejo a hora de provar! Mas até lá… Vamos tomar um café da manhã antes que você entre em coma pelas próximas horas — Bethany a guiou até a cozinha, onde uma mesa posta com pães, geleias de fruta e frios as aguardavam.
— Sei que daqui algumas semanas você já vai estar tomando café como uma norte-americana, mas para o primeiro dia e após uma viagem dessas, achei melhor não pegar pesado.
— Awn! — exclamou enquanto juntava as mãos em frente ao peito. — Você acertou em cheio.
Fizeram a primeira refeição do dia com calma e quando acabaram até tentou ajudar a colega a recolher os itens e lavar a louça, mas foi enxotada da cozinha sob as alegações de que precisava tomar banho para relaxar e dormir. Ao ver que aquela era uma discussão já perdida, ela tratou de seguir as “recomendações” e partiu para ter seu primeiro sono em solo americano.

Capítulo 02

A sensação de abrir os olhos e estar em um lugar que ainda não parecia ser seu era… estranha. No entanto, não era um estranho desconfortável, apenas diferente. Pelo pouco que conhecia de sua colega, sabia que em breve o sentimento de ser uma intrusa passaria e ela conseguiria sentir como se pertencesse ao ambiente.
“Um passo de cada vez”, pensou.
Sentou-se sobre a cama e puxou o celular de debaixo do travesseiro, conectando o wifi em seguida. Esperou que o mesmo parasse de vibrar com as diversas notificações das redes sociais. Abriu o whatsapp e no grupo com suas amigas mais chegadas tirou uma selfie divertida com a cara amassada e os cabelos fora de ordem, e enviou com a legenda: #MiamiJetLagStyle e vários emojis de risadas. Mandou um áudio curtinho avisando que havia dado tudo certo na viagem e que ela recém havia acordado e estava com fome, mas que estava bem, então retornaria mais tarde com novas notícias.
Depois ela imediatamente abriu a conversa da mãe e deu início a uma chamada de vídeo. Por estarem no horário de verão de Miami, a diferença para o Brasil era de apenas uma hora e o fato dos pais serem autônomos que trabalhavam em casa contribuía para que pudessem lhe atender em praticamente qualquer horário.
— Oi! — ela disse, realmente feliz ao ver os rostos que sempre lhe transmitiam segurança e apoio.
— Oi, filha — escutou os pais responderem em coro, como se tivesse sido ensaiado. — Como foi a viagem? — a mãe perguntou.
— O voo em si foi bem tranquilo, sabe? Sem turbulências. Consegui dormir um pouquinho e no resto do tempo me dividi entre assistir e escutar música, estava agitada demais para ler. Não quis tomar Dramin porque vocês sabem que meio comprimido é o suficiente para me deixar bem boba e eu não queria correr riscos na imigração — riu, sendo acompanhada pelos mais velhos.
— E como foi essa parte? — dessa vez o questionamento partiu do pai.
— Então… Apesar de estar com a documentação certinha, eu pensei que meu coração ia saltar pela boca e pensei que meus pés e mãos fossem capazes de me causar uma hipotermia de tão gelados que estavam — ouviu os pais rirem baixinho, aquelas reações físicas foram herdadas da senhora . — Mas o oficial foi legal comigo, fez perguntas adicionais sobre o programa e até me contou que uma sobrinha dele está cursando Hotelaria. Eu tive que me controlar para não me empolgar demais na conversa, mas fiquei feliz demais por ter tirado a sorte grande nessa parte.
— Você atrai aquilo que é, meu amor — a mais velha falou, fazendo o sorriso da filha alargar.
— Eu não vou mentir para vocês que quando ele disse “Welcome to Miami”, eu tive vontade de pular sobre o balcão e abraçá-lo. E depois eu quis chorar e gritar, mas podem ficar tranquilos que eu me controlei, assim como o papai mandou — posicionou uma palma sobre cada lado do rosto em uma pose angelical bem convincente.
— Ainda bem, né, filha? Lembre-se do que eu falei sobre nos envergonhar em outro país. Você sabe que eu sou muito famoso no mundo todo, preciso manter minha imagem intacta — o Sr. debochou e os três gargalharam. — Ai, papito, você é demais — ela mandou um beijo para a câmera e o homem fingiu pegar no ar e posicionar sobre o seu coração. sentiu seu peito fisgar e ficou feliz quando a mãe surgiu com um novo questionamento, pois sabia que se abrisse a torneirinha do choro naquele momento, seria incapaz de fechá-la.
— E a Bethany? E o apartamento?
— Ela é maravilhosa! Me buscou no aeroporto e preparou um café da manhã com pães e frios, exatamente como eu gosto. Se bem que ela disse que em breve estarei comendo como uma americana, vai saber, né? — deu de ombros. — E o apartamento é ainda mais aconchegante do que nos vídeos que vimos — acionou a câmera traseira do celular e começou a rodar pelo quarto para mostrá-lo aos pais. — Ah, mãe, antes que você fale das malas, eu prometo arrumar tudo amanhã. Hoje estou de folga — declarou, rindo sobre os protestos de sua progenitora. — Outro dia eu mostro o apartamento completo para vocês.
Quando sentou-se novamente sobre a cama, voltou para a câmera frontal. Pela cara de ambos, ela já sabia o que estava por vir e dessa vez também sabia que não iria conseguir se controlar.
— A saudade já é grande, minha filha, mas estamos muito orgulhosos de você por não ter medo de encarar uma mudança dessas para realizar seu sonho — antes que o pai terminasse de falar, ela já sentia as lágrimas descendo livremente pela sua face.
— E acima de tudo, nós só queremos que você seja feliz, nunca se esqueça disso, meu amor. Sabemos que as chances de você não se adaptar são mínimas, mas você precisa saber que as portas do ninho sempre estarão abertas, sem necessidade de vergonha — agora ela sorria em meio às lágrimas, bem como os mais velhos faziam. — Também sabemos que se surgir a oportunidade, você pode ficar aí em definitivo, e tem nosso total suporte, sempre lembrando daquelas condições das visitas anuais, hein?!
Assim que conseguiu diminuir a intensidade das lágrimas e controlar a respiração a ponto de falar sem que a voz falhasse, começou a falar.
— O que eu posso falar além de obrigada e eu amo vocês? É sério, vocês são fantásticos. Se eu não tivesse esse apoio, acho que não teria coragem para fazer o que eu ‘tô fazendo agora — declarou, sincera. — Vocês me criaram para o mundo, e agora eu vou conquistá-lo… Por mim e por vocês — sentiu a garganta embolar e decidiu parar por ali.
As demonstrações de afeto entre os três eram diárias, então eles sabiam o quão apreciados eram. Durante alguns segundos, a família apenas ficou se admirando pelo vídeo, até que escutaram uma batida na porta do quarto da filha.
— Olhem quem está aqui! — levantou-se e foi até Bethany, que estava parada na beirada da cama, sorrindo.
Os pais não falavam inglês, mas a americana sabia falar espanhol, então no final eles conseguiam se comunicar sem tanto problema. E caso fosse necessário, serviria como a tradutora para todos.
— Olá, senhor e senhora !
— Oi, Bethany! — eles novamente responderam em coro e a mais nova não conteve o sorrisinho de canto que surgiu em seus lábios.
— Muito obrigada por ter recepcionado nossa menina tão bem, além de tudo o que você já fez por ela — pela voz falha, a matriarca estava lutando para reprimir a emoção. Já o Sr. apenas sorria em concordância.
— Fico feliz em ajudar — sorriu, verdadeira. — E ela também me prometeu aquele doce que eu não consigo dizer o nome.
— Bri-ga-dei-ro — falou pausadamente e Bethany repetiu diversas vezes até acertar, mas já alegando que no segundo seguinte já não se lembraria da pronúncia correta.
Os eram extremamente simpáticos e isso fazia eles se enturmarem com os amigos da filha sem problemas, então a herdeira sabia que se não os cortasse logo, a conversa se estenderia por muito mais e seu estômago já estava resmungando de fome. Despediram-se, e Bethany, sempre preocupada em deixá-la confortável, indagou se ela gostaria de jantar em um pub bem próximo do apartamento ou se preferia comer algo em casa mesmo.
— Ah, vamos até o pub. Vai ser bom dar uma esticada nas pernas. Mas você me promete que é bem perto mesmo? — perguntou, manhosa, e a outra riu.
— Sim, fica a menos de três quadras daqui. Acho que você vai amar! — piscou.
— Olha, se eu amar vai ser um perigo ter um lugar desses tão próximo de casa — riram. — Vou me trocar e já venho.
O Cosmo Pub possuía um balcão central bem extenso, onde os clientes podiam solicitar as bebidas e também fazer os pedidos de lanches ou petiscos caso não quisessem aguardar até serem atendidos na mesa. À frente, ficavam várias banquetas altas - para aqueles que estavam realmente no fundo do poço ou aqueles que gostavam de se sentir desconfortáveis, de acordo com a opinião das duas recém-chegadas ao local. As luminárias suspensas deixavam o ambiente mais claro do que os bares costumam ser, trazendo uma sensação maior de aconchego. O resto do espaço era preenchido por mesas, inclusive algumas com sofás - sendo essas as preferidas de ambas e obviamente onde resolveram sentar.
— Você conhece todo mundo aqui, deve ser cliente VIP — comentou devido ao fato de Bethany cumprimentar todos os funcionários pelo nome.
— Confesso que passei a ser mais frequente depois que meu namorado e um amigo dele compraram o pub — pelo brilho no olhar e o tom carregado de orgulho, a brasileira percebeu que aquele não havia sido uma conquista fácil, então mesmo sem conhecê-los ou sem conhecer outros lugares, ela decidiu que aquele seria seu local de happy hour favorito a fim de apoiar os novos empreendedores.
— Ah, sério? Que legal! E eles ficam por aqui ou ficam escondidos na administração?
— O Albert, que é o amigo, fica mais no back, pois é o gênio da contabilidade, mas ele tá sempre circulando por aí e ajudando como pode, seja no caixa ou anotando e entregando pedidos. Eu acho que já comentei contigo que o meu namorado Darell é bartender há bastante tempo, né? — balançou a cabeça em sinal de concordância, recordando-se de algumas videochamadas que elas haviam feito meses antes da mudança. — Sempre foi a paixão dele, mas ele fazia como uma forma de ganhar dinheiro extra, até que surgiu essa oportunidade. Não faz muito tempo que eles adquiriram aqui, então ele está enlouquecido estudando um novo menu de drinks, e já quero deixar avisado que se me ver alcoolizada, sabe que a culpa é dele por me fazer provar tudo — ela levou as mãos para o alto em sinal de “não tenho culpa”.
— Olha, se você quiser dividir esse fardo comigo eu estou totalmente disponível — fez joinha com ambos os polegares antes de começar a rir.
— Tenho certeza de que ele não irá se opor — ela afirmou e viu a roomie comemorar baixinho. — Ah, falando nele…
— Boa noite, senhoritas — ele saudou a namorada com um selinho rápido. — Você deve ser a famosa — esticou a mão para cumprimentá-la, gesto que foi automaticamente replicado pela intercambista.
— Famosa? Me sinto lisonjeada — riu. — É um prazer te conhecer, Darell. Soube por aí que você está precisando de cobaias para o novo menu de drinks, vim me voluntariar.
— As notícias correm rápido por aqui — ele fuzilou a namorada com o olhar, mas logo riu. — Voluntariado aceito. Pode deixar que a Bethany te avisa quando fizermos uma nova rodada de testes.
— Uhul! Mas como não dá nem para pensar em beber de estômago vazio, o que você indica para uma novata na cidade que está faminta?
— Em breve essa parte do cardápio também será modificada, mas que tal um club sandwich?
— Hmmm, acho que é uma boa pedida.
— Eu também vou querer um — Bethany declarou. — Seria exagero pedir uma porção de batatas fritas com bacon e cheddar?
— Jamais! — prontamente respondeu.
— Vou repassar o pedido de vocês à cozinha e voltar ao trabalho. Espero que vocês aproveitem — ele disse, sorrindo ao se afastar.
— Eu não queria dormir muito tarde para não perder o ritmo, mas sem condições depois dessa jantinha, ainda mais com o mimo de sobremesa.
— Vamos dormir em pé — ambas riram. — Tudo estava delicioso.
— Nossa, sim. Nem comecei a trabalhar e já sei onde vou querer deixar quase todo meu salário.
— Ou você pode marcar todos os seus dates lá e fazer os boys pagarem a conta. Assim aproveita, e se precisar, qualquer coisa o Darell estará por perto e eu em pulo estou lá também.
— Não acredito que você tá pensando nisso — riu. — Mas acho que vai demorar um tempo até isso começar a acontecer, sabe? Muita mudança na minha vida e eu quero estar totalmente focada no trabalho.
— Você está certíssima, mas a ideia foi lançada — piscou. — E como você está se sentindo até o momento? Tudo bem? Sabe que apesar de nos conhecermos há pouco tempo, estou realmente aqui para tudo o que você precisar.
— Argh! Eu odeio ser assim — falou enquanto secava uma lágrima solitária que havia escorrido de seu olho. As palavras de Bethany foram extremamente genuínas e sentir carinho na fala dela lhe deixou emocionada. Era realmente sortuda por ter sido acolhida por uma boa alma como aquela. — Bom, como você pode perceber, estou super sensível… Mas, no geral, estou bem. É um mix de sentimentos, confesso que nem sei explicar direito. Medo, ansiedade, receio, animação, saudade de casa e ao mesmo tempo vontade de fazer tudo acontecer aqui... Eu acho que a ficha só vai cair quando eu começar a trabalhar, para ser sincera. Sei que nem tudo serão flores, assim como nada na vida é, mas saber que já tenho com quem contar faz toda a diferença — abriu um sorriso sincero, desejando que Bethany sentisse a verdade em suas palavras assim como ela havia sentido nas palavras da outra segundos antes.
— Eu nunca mudei de país, mas já mudei de cidade e sei o quão difícil é começar do zero sem ninguém, por isso fico extremamente feliz de poder contribuir com essa nova fase da sua vida.
— Serei eternamente grata por isso e retribuirei, eu juro. E não apenas com brigadeiros — riu e se aproximou da mulher, abraçando-a. — Mas se você não quiser que eu comece a chorar novamente, é melhor mudarmos de assunto.
— Tudo bem, não quero ser a responsável pela sua desidratação — riram. — Então, se isso não for te fazer cair em lágrimas novamente, me conta mais um pouco da sua vida no Brasil.
abriu um enorme sorriso antes de desatar a falar com empolgação na voz e brilho no olhar.



Continua...



Nota da autora: Mais um capítulo morninho, mas precisamos dar tempo ao tempo para a nossa pp, né? Me imaginei na pele dela daqui alguns meses e chorei enquanto revisava esse capítulo (tenho ibagens). E já quero voltar a chorar com todo o carinho que eu e La Nueva Era recebemos aqui na caixinha do Disqus e na NB da Lala (eu tava ansiosa!!!), sério... não tenho palavras pra explicar <3
E calma que os boys vão aparecer em breve, tá? O script será adicionado hahaha
Hasta luego!

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Nota da beta: Mulher, ela merece todo tempo e amor e carinho do mundo, essa personagem já tem meu coração todinho, assim como você já tem e terá quando estiver longe e precisando de apoio! Se você não tiver uma Bethany, sabe que tem várias por aqui para te apoiar no momento sensível hahaha Eu amo ler a história dela e pensar que em breve você viverá igual, por isso esses capítulos “morninhos” estão sendo tudo pra mim, sei o quanto são especiais! Ansiosa pelo próximo, como sempre! Arrasou 💙

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