Library Boy

Última atualização: 15/06/2022

Capítulo 1

— Porra, de novo? — Me lamuriei ao pegar os papéis recém pousados na minha mesa.
Tinha bombado em história, a caneta vermelha destacada no alto da folha me deixou possessa ao ponto de meus dedos se fecharem involuntariamente amassando o papel. Estiquei-me para ver a mesa de Lianne, que também continha uma prova com a mesma pontuação, afinal ela tinha tido a péssima ideia de colar de mim.
Porém, a morena não parecia nem um pouco preocupada com a nota que levou, deu uma rápida olhada e voltou a se concentrar no pequeno espelho que tinha nas mãos e na pinça que lhe arrancava os pelos em volta da sobrancelha escura e bem marcada. Aquele não era um comportamento normal, eu já a tinha alertado algumas vezes, Lianne era obcecada por si mesma e vivia se encarando no espelho, às vezes até de forma provocante. Era bizarro.
Levei uma das mãos a testa, tentando controlar meu nervosismo, ao contrário de Lia e sua mãe esteticista que a cobrava excessivamente para que fosse bonita, a minha mãe realmente queria que eu fosse para a faculdade e lhe trouxesse um diploma anos depois. Claro que não era qualquer universidade, tinha que ser uma renomada para que ela pudesse enfim esfregar na cara das amigas dela em jantares para evidenciar o fato de que eu era inteligente e não apenas um rostinho bonito.
O que, se parar para pensar olhando para minha situação atual, elas não estavam de todo erradas.
Porém eu não era somente aquilo, tinha uma bela bunda também. Meus atributos físicos podem não ter me levado tão longe na vida acadêmica, mas socialmente falando, modéstia a parte, eu era um case de sucesso. Desde criança liderava grupos de admiradoras e tinha o público masculino comendo na minha mão, fazia parte do time de líderes de torcida desde dos doze e perdi a virgindade com o melhor do time de futebol. Minha vida era como um dos filmes adolescentes dos anos 2000, só que sem toda a psicose de Regina George. De fato éramos um grupo bem seleto e andávamos sempre em bandos, inclusive sentados na mesma mesa durante o almoço na escola, porém não tínhamos sido nós quem ditou as regras, as coisas simplesmente aconteceram para nós e acabamos nos destacando em meio a aquele rio de adolescentes.
Percebi que estava sendo observada e virei o rosto para fuzilar com os olhos o trio de nerds que tentou disfarçar o olhar em mim, reparei na mesa do garoto da frente, uma nota azul, tão azul quanto o céu aberto do lado de fora daquela sala. Bufei de ódio voltando a me concentrar nas minhas lamúrias, era tão difícil ser eu e corresponder às expectativas de meus pais. Por que eles não poderiam se contentar com o fato de eu ser bonita? E tem mais, quem diabos liga para história? Já passou, são novos tempos, deveríamos olhar para frente e esquecer o passado tedioso que nos trouxe para o presente.
Ouvi um risinho coletivo e voltei a encarar os três patetas.
— O que foi, por acaso estou cagada? — A senhora Winsley me repreendeu de sua mesa, atraindo as atenções da sala sobre nós.
— Relaxa amiga, eles nunca viram uma mulher tão de perto. — Lia riu sarcástica, arrancando-me um riso maldoso, provavelmente ela estava certa, ou você estuda ou transa, não era possível ter os dois de uma vez só.
Fomos dispensados e seguimos para o corredor principal. Joguei aquele pedaço de papel horrível para dentro do meu armário repleto de livros acadêmicos que jamais abri, eu os mantinha ali para que mamãe achasse que de fato os usava na escola, não os largava no quarto juntando poeira e deixando-a saber a verdade. Fechei a porta de metal no mesmo instante de Amber e Ronan passavam pelo corredor ainda atraindo a atenção do restante dos alunos.
Eu costumava estar ali, ao lado dele e segurando sua mão grande enquanto desfilávamos pra lá e pra cá, sentia a sensação de estar em câmera lenta quando transitamos pelos corredores da escola, um vento imaginário me bagunçava os fios curtos e eu tinha certeza em meu íntimo que qualquer uma das garotas que paravam para nos olhar queria estar em meu lugar.
E ali estava ela, Amber, com seus cabelos loiros e falsos caídos pelos ombros, eu sabia que com um puxão conseguiria lhe arrancar aquela extensão barata e deixá-la mortificada na frente de todos, mas estava tentando ser civilizada e manter minhas reais vontades apenas em minha cabeça. Até porque eu acho que já deixei as coisas bem claras para ela da última vez que me dirigiu a palavra.
A novata tinha acabado de chegar na escola, não tinha demonstrado nada em especial, apenas se aproximou de Lia e de mim, nós a acolhemos porque ela parecia ter dinheiro e usava roupas legais. Na boa, eu nunca mais deixaria mais ninguém se aproximar de nós novamente, na primeira oportunidade numa festa ela levou Ronan para o andar de cima da casa dela e deu para ele.
— Eaí, vai na festa do Summers? — Torci o nariz diante da ideia. Dylan Summers era um dos amigos de Ronan, jogavam juntos no time e eu tinha certeza que ele tinha convidado meu ex e o atual passatempo dele.
— Eu não sei, acho que tenho que estudar. — Senti-me tonta só de me ouvir falar aquela frase em voz alta. Por um momento duvidei se tinha mesmo saído da minha boca.
Jenny e Lia se entreolharam de forma pitoresca antes de caírem na gargalhada, como se tivessem acabado de ouvir uma piada hilária. Revirei os olhos diante da implicância. Pensei que talvez estivesse na TPM, meus nervos estavam à flor da pele desde que me levantei da cama mais cedo.
— Está brincando, não é? — A loira indagou ainda em risos, fazendo-me encostar as costas no armário e fechar os olhos antes de me esforçar para parecer mais convincente.
— Não, minha mãe vai me trucidar se eu não entrar em uma faculdade boa. — Não era bem uma grande mentira, na verdade, queria eu que fosse apenas um drama inventado apenas para fugir de ter que encontrar meu ex com outra numa festa.
— Não é meio tarde pra pensar nisso? — Encarei Lia segurando minha língua afiada. Ela não estava me ajudando nem um pouco. — Tudo bem, não está mais aqui quem falou. — Ergueu as mãos em sinal de rendição, tentando - e falhando miseravelmente - esconder o sorrisinho nos lábios carnudos.
— Vamos indo, L. Você ainda precisa me ajudar a escolher meu look de hoje. — Jenny a puxou pela mão, largando um beijo no ar para mim. Apesar de conhecer Lia há mais tempo, às vezes me pegava preferindo ter Jennifer ao lado, ela pelo menos se esforçava para não ser escrota na sua frente.
Era mais sorrateira, se aproveitava da aparência quase angelical e da voz amena para destilar o veneno, era calma e graciosa, ninguém percebia à primeira vista do que ela e sua postura passivo-agressiva eram capazes. Já Lianna era o contrário, visceral e passional, agia sempre por impulso e era tão extravagante quanto sua aparência física, tinha um olhar mal intencionado antes mesmo de ter alguma intenção.
Desci as escadas encontrando o andar debaixo praticamente vazio, após o sino bater avisando o fim do período de aulas não costumava ficar uma única alma ali para contar história, ainda mais em plena sexta-feira. Olhei distraída a estante de troféus bem cheia, adornada de fotos dos jogadores mais ilustres que a London Heights já teve com o passar dos anos. Ao lado, uma estante menor e mais apagada, ali ficavam os prêmios em competições científicas e de matemática. Parei diante dela não encontrando nenhum rosto interessante nas imagens, logo depois encarei a entrada do ginásio, do outro lado ficava o corredor para a biblioteca.
Parecia uma piada de mal gosto. Como já disse, não parecia ser possível ter as duas coisas, ou você escolhia o ginásio e ganhava prestigio, popularidade, sexo e era sempre convidado para festas ou então ia para a biblioteca enfiar a cara nos livros, se matar nas olimpiadas de matemática, fazer avanços em estudos e não ganhar nenhum mérito ou incentivo para isso. Falando em estudos… Será que a testosterona em excesso matava os neurônios? Aí uma pesquisa interessante a ser desenvolvida, iria patentear a ideia para ganhar dinheiro com ela daqui há uns anos.
Ri de meus pensamentos indo para o lado contrário do que era habituada a ir, por algum momento senti que estava errada e me repreendi por aquilo. Qual é, era apenas uma ida à biblioteca, não era como se os livros lá de dentro fossem sugar minha popularidade como um dementador sinistro.
A porta de vidro revelou meu reflexo conforme me aproximava. Eu continuava gostosa, aquilo me confortou imediatamente.
Alisei a saia que vestia sem saber direito como agir ali dentro, uma mulher de aproximadamente cinquenta e poucos anos acenou para mim da bancada à direita da porta de entrada, forcei um sorriso tendo plena certeza de que nunca a tinha visto na vida. Observei nervosa as grandes prateleiras extremamente organizadas à minha frente, inclinei-me para olhar entre uma delas e me impressionei com o tamanho do local. A parede ao fundo parecia a quilômetros de distância.
Andei entre as seções procurando o que eu queria, na verdade nem mesmo sabia o que deveria procurar primeiro. Tinha rodado em história, biologia, física, matemática…a única que consegui me salvar sem esforço foi inglês, o que era um alívio, significava que todos aqueles anos que passei na escola serviram para que eu ao menos aprendesse a escrever decentemente.
Precisava de um milagre para conseguir a proeza de aumentar minhas notas até as provas finais. Talvez Lia estivesse certa, era meio tarde para correr atrás do prejuízo, as avaliações aconteceriam em poucos dias. Estava tentando enfiar algo em minha cabeça para não me sair tão mal e quem sabe ganhar alguns pontos pelo esforço. O que eu duvidava muito que conseguiria com meus professores, a não ser que tivessem alguma espécie de amnésia e se esquecessem da minha postura em sala de aula nos últimos anos.
Bom, talvez eu pudesse fazer alguma prova depois para recuperar, não sei. Estava num grau de desespero tão grande que arrisco dizer que faria qualquer coisa para aumentar minhas notas nem que fossem míseros pontos.
A ansiedade foi me tomando à medida em que transitava pela infinitividade de livros de diferentes tamanhos e cores, iria começar com história mas me sentia tão perdida que logo veio a vontade de chorar.
Minha mãe me dizia que eu era daquele jeito desde bebê, quando via que as coisas não iriam cooperar para o meu querer, abria o berreiro. Era o meu jeito de extravasar, como se conseguisse expulsar os sentimentos ruins do meu corpo através de lágrimas, e eu já sentia várias delas molharem o meu rosto.
Lia e Jennifer não entendiam minha fixação por tentar mostrar para meus pais alguma credibilidade, também não era o meu sonho ir para a faculdade, eu nem ao menos sabia o que queria ser na vida! Mas devia aquilo à mamãe principalmente, aquele seria o primeiro aniversário dela após a cura do câncer de mama que lhe acometeu ano passado, eu queria presenteá-la com algo que o dinheiro não comprava, até porque ela já parecia ter tudo o que ele lhe possibilitava ter.
Levei meus dedos trêmulos aos olhos, tentando secá-los rapidamente ou ouvir um som abafado vindo da prateleira ao lado. Um dos livros foi retirado e o dono dos olhos verdes me encarou do outro corredor.
Era o nerd, não estava nem um pouco surpresa ao encontrá-lo ali dentro, enfurnado em meio aos livros. Diferente de mim, ele tinha os olhos levemente arregalados. Tentei virar de lado para que meu nariz vermelho não estivesse denunciando meu choro. A música que tocava em seus fones de ouvido parou, voltei a olhá-lo pensando se seria bom pedir a ajuda dele…
Não, não, precisar do nerd já seria humilhação demais para um dia só, já não bastava as boas risadas que ele e os amigos esquisitos deram ao me ver desesperada com a nota na aula de história.
— Quer que eu cheque se está cagada? — Abri a boca num arfar involuntário, que idiota! Eu estava apenas olhando de volta, quem tirou o livro para me espionar foi ele, ora! — O que está fazendo aqui?
Sumiu do meu campo de visão, porém logo consegui acompanhá-lo pelas frestas entre os livros e a prateleira de metal.
— Achei que a biblioteca era para o uso dos alunos. — Cocei a garganta a fim de disfarçar a rouquidão da minha voz quando o vi dobrar a esquina do corredor em que estava.
— Não você. — Franzi a testa estranhando a intimidade que ele achava que tinha em afirmar algo de mim se me conhecer direito. Também para não aparentar ser tão previsível, afinal de contas ele estava redondamente certo.
— Por acaso você tem que decidir quem entra e quem sai agora? — Disfarcei, me afastando quando o moreno avançou em seu andar em minha direção.
Apanhei o primeiro livro que vi na minha frente, um marrom e infelizmente bem pesado. O segurei firme com ambas as mãos ainda trêmulas, ainda não sabia se ele estava me distraindo ou piorando a crise de ansiedade que eu estava tendo antes de sua chegada ali. Folheei as páginas levemente desgastadas e fingi ler o conteúdo, que para a minha surpresa continha bastante imagens. Eram homens e algumas divindades egípcias, não sabia se era o certo, mas serviria de qualquer forma.
Talvez eu conseguisse estudar daquela forma, minha memória fotográfica era ótima.
Ainda podia sentir sua presença próxima demais, levantei o rosto para encará-lo e me calei por um segundo, nunca tinha reparado no quão alto ele era.
— Já estou de saída, só vim buscar um livro. — Menti, eu não fazia ideia de como fazia para pegar um livro na biblioteca, achava que talvez sair sem falar nada poderia ser considerado furto.
— Com licença. — Antes que eu pudesse lhe dar as costas, sua mão retirou o livro das minhas. — Não, não, isso aqui é sobre o Egito antigo. Estamos estudando a segunda guerra mundial.
No fim das contas não mudava muita coisa, homens do Egito antigo ou os ocidentais, todos estavam estampados nos livros porque fizeram merda ou tomaram decisões ruins. Se o mundo fosse governado por mulheres talvez não tivéssemos tanta história ruim para contar às próximas gerações como colecionávamos as do passado. Se bem que a minha geração já estava poupando a próxima - isso se houver uma próxima - de ter fatos históricos para estudar. Não fazíamos nada de revolucionário.
Eu mesma era uma decepção para todas as mulheres que participaram de passeatas para que tivéssemos o direito a voto ou a estudar e trabalhar fora. Minhas antepassadas chorariam de desgosto se me conhecessem.
— Ah, eu já sabia. — Forcei um sorriso vendo-o arquear as sobrancelhas. Ele inclinou a cabeça levemente, fazendo-me virar o rosto. Será que dava para perceber que eu estava chorando? — Só peguei porque achei a capa interessante... — Lhe arranquei o livro antes que ele pudesse olhar a capa e constatasse minha mentira, a capa era apenas o título e o nome dos autores.
Tentei enfiá-lo de volta no buraco recém aberto na prateleira, porém foi estranho o fato de ele simplesmente não entrar ali, como se uma vez fora daquela ordem, não conseguisse voltar a se encaixar no espaço deixado.
— Deixe aí, Marge arruma os livros todos os dias. — Relutante, deixei o livro deitado sobre os outros.
Parecia errado bagunçar um lugar tão organizado como aquele, silencioso, limpinho…devia ser por isso que eu e meus amigos nunca pisávamos os pés ali. Além de, claro, da presença de livros e conhecimento.
— Eu tenho a listagem de livros do plano de ensino…se você quiser.
— Do que? — Franzi a testa, não entendia termos nerds.
— O plano de ensino, a Sra Winsley passou no início do ano. — Deu de ombros, como se fosse óbvio.
Então quer dizer que os professores nos dão spoiler do que vamos estudar durante o semestre? Ainda não conseguia entender porque parecia tudo tão difícil se no início de tudo eles já nos deixavam preparados. Eu era mesmo muito ruim ou muito burra, era só seguir o plano e ser como ele
Fiz uma careta involuntária com meu último pensamento.
Diante da minha confusão, ele foi até a mesa no canto e remexeu a própria mochila verde musgo, troquei o peso dos pés enquanto aguardava. Bom, pelo menos estava fazendo algum progresso e o melhor, sem precisar me humilhar!
— Aqui, tenho de outras matérias também, se quiser. — O olhei feio, mesmo sabendo que sim, eu provavelmente precisaria.
Minha reputação acadêmica era assim tão fodida ao ponto de qualquer um que olhasse de fora pudesse presumir que eu estava na merda daquele jeito?
Olhei para a listagem que continha mais ou menos uns seis livros e soltei um suspiro derrotado. Se todos fossem da grossura do Egito antigo eu estava oficialmente ferrada. Aliás, mesmo que cada um deles tivesse dez páginas eu continuaria numa situação crítica.
— Er…você sabe onde eu consigo achar resumido? — Indaguei sentindo meu rosto arder em vergonha. Eu odiava pedir favores a…pessoas como ele. A simples iminência de um não já me deixava ansiosa.
O que eu faria se ele me negasse? Começaria a chorar ou estufaria o peito para xingá-lo?
— O que, os livros?
— Sim, já viu quantos livros tem aqui? — Indiquei a folha, porém ele mal se deu ao trabalho de olhar para ela, lógico, ele já devia ter até decorado. — Vou ficar mais de um ano pra ler tudo isso! — Não consegui camuflar o tremor em minha voz. Já conseguia imaginar minha mãe decepcionada comigo.
— Não precisa ler tudo, apenas se aprofundar mais em alguns assuntos. — Era para aquilo soar tranquilizador? Meu Deus, estava sentindo o coração voltar a acelerar. — Eu posso ajudar com isso…Se quiser…
Por que ele perguntava tanto se eu queria? Não era nítido o quão desesperada eu estava? Acho que o fato de me encontrar ali já devia lhe dar uma dimensão da catástrofe que era!
— Você? — Tinha ciência de que devia aceitar calada, mas não pude controlar minha língua e nem o risinho que escapou da minha boca.
— Sim, porque o espanto? — Franziu o cenho, levando-me a fazer o mesmo. Agora era óbvio para mim!
— Achei que me odiava. — Exclamei, ainda desacreditada.
Uma coisa era ele me oferecer um pedaço de papel que provavelmente iria descartar logo, outra era me oferecer seu tempo. Meu pai dizia que o tempo era a coisa mais preciosa que nós tínhamos na vida, ninguém perde o seu com alguém que não suporta. Não fazia sentido!
— Eu odeio seus amigos. — Pisquei confusa, continuava a me incluir, afinal eu estava sempre no meio deles. — Você…não é como seus amigos.
Sim, eu era, nós passávamos horas juntos, eu falava mais com eles do que com meus pais, então era claro que éramos iguais. Senão, por que diabos eu andaria com eles?
— Seus amigos são um bando de filhos da puta. — Arfei, surpresa com o modo como sua expressão mudou de serena para raivosa. — E você não é como eles. Te vi ajudando Denise a descarregar o carro esses dias atrás na entrada, e agora, com receio de bagunçar a biblioteca para Marge ter que arrumar…Você não é tão ruim assim.
Listar coisas simples como aquelas para me comparar com a Madre Teresa de Calcutá não me deixou menos brava ao ouvi-lo falar daquele jeito dos meus amigos. Tudo bem, eles não eram uns santos, mas não era para tanto! Eu os amava, não gostava de ouvir ninguém criticá-los daquela forma, mesmo com os defeitos, ainda eram pessoas incríveis.
Novamente, por que eu os manteria em minha vida se não fossem?
— Quem você pensa que é para falar dos meus amigos? Nós não somos um bando de psicopatas
Defendi com veemência, baixando meu dedo hasteado quando me peguei pensando melhor ao me lembrar de ter jogado bebida no vestido de Amber na última festa em que a encontrei e de tê-la banido do grupo de líderes de torcida por ter quebrado as regras.
No início enfrentei uma pequena oposição entre as meninas, mas no fim todas concordamos que talaricagem é sempre uma regra implícita para uma boa convivência. E eu também ameacei sair se ela ficasse, eu era a coreógrafa principal, ficariam perdidas sem mim e com aquela mosca morta.
— Tá, eu fiz aquilo com Amber, mas ela mereceu por ter pegado meu namorado! Eu precisei lhe dar uma lição para mostrar que… — O moreno arqueou as sobrancelhas.
Além da minha vingança, já tinha presenciado algumas implicâncias dos meninos com alguns alunos, incluindo os dois amigos nerds dele. Ok, talvez ele tivesse um pouco de razão em nos odiar.
— Não fique aí se achando o golden boy porque eu sei que já te pegaram fumando maconha aqui na escola. — Acusei, sorrindo triunfante por ter encontrado defeito no Sr. Perfeito.
— Isso não prejudicou ninguém, ao contrário das ações dos seus amigos. — Abanei o ar desdenhando. Ele parecia ter sempre a resposta na ponta da língua.
— Tá, tá, digamos que eu aceite sua ajuda. — Criei uma situação hipotética, afinal ainda pisava num terreno estranho com ele, que supostamente “não me odiava”.
Como eu não conseguiria tirar a prova daquilo, não iria acreditar 100% naquela lorota.
— O que quer em troca? — Elevei uma das sobrancelhas desconfiada. Lá vinha a humilhação que neguei tanto que me submeteria.
Dependendo do que ele escolhesse até que não seria má ideia. O que um nerd poderia querer? Um pouco de popularidade? Um gostinho do que era ser cultuado pelos meros mortais daquela escola? Uma namorada de mentirinha como nos filmes?
O analisei disfarçadamente, ele até que não era de se jogar fora, hein, era o melhorzinho dos três mosqueteiros, além de ter uma boca linda.
— Nada. — Quase não identifiquei o que aqueles lábios rosados disseram quando se moveram.
— Nada? — Tive uma confirmação com um aceno de cabeça, mas não fiquei satisfeita. Não confiava muito em homens e em suas palavras ditas da boca pra fora. — Nadinha?
— Já disse, nada! Por que está tão na defensiva? — Revirei os olhos diante de sua postura ofendida.
Ele devia saber que nada nessa vida é de graça. E eu não gostava de saber o preço que pagaria só no momento em que a fatura chegava.
Na verdade quem pagava geralmente era o meu pai, então…caramba! Será que ele iria querer algo como…algo como…favores sexuais? Será que ele ainda era virgem? Ah não, aquilo estava fora de cogitação.
Está vendo? Eu tinha milhões de razões para agir do jeito que estava agindo!
— Quero te ajudar porque vi o jeito que ficou hoje quando recebeu a prova. — Baixei um pouco a guarda, caramba, Lia que estava ao meu lado não percebeu nada em mim mas ele…do outro lado da sala sentiu meu desespero. — E além do mais, se eu te ensinar vou pegar a matéria mais rápido.
— Tudo bem, eu aceito sua ajuda. — Disse com um ar superior. No fim das contas quem quase implorou foi ele. — Como isso vai funcionar?
— Todos os dias, após o fim das aulas. — Ficar na escola voluntariamente e estudando? Esse seria o motivo da minha morte.
— Por mim tudo bem. — Respirei fundo, desanimada, indo me sentar em uma das cadeiras.
Eu já não tinha mais tantas festas pra ir, afinal, Amber iria na maioria delas acompanhando Ronan e eu não queria cruzar com eles tão cedo.
— Hoje não, está ficando tarde, começamos na segunda. — Levantei-me esbaforida, não que eu estivesse com pressa de estudar, longe de mim! Mas se estava atrasada, esperar dois dias não pioraria tudo? — Traga um caderno e canetas para fazer anotações. Você tem um, não tem?
Assenti de má vontade, também estava perdido pelo meu armário. Não cabia na minha bolsa e eu não queria andar pra cima e para baixo de mochila feito uma tartaruga ninja. Não combinava com meus looks.
— Enquanto isso leve esse livro e estude, vamos tratar como se fosse um dever de casa. Quero um pequeno resumo sobre o fim da guerra. — Peguei o livro que deslizou pela mesa lisa e bateu contra minha coxa. Não era tão grande, talvez eu conseguisse ler a parte que contava sobre a conclusão da guerra.
— Onde nos encontramos?
— Aqui mesmo, longe dos seus amiguinhos. Não quero ser visto por aí com você. — Encarei seu rosto esperando um riso pela piada de mal gosto, porém ele estava falando sério.
Abri a boca algumas vezes esperando que minhas cordas vocais vibrassem nos palavrões que tinha em mente enquanto o via me dar as costas e sair andando com sua mochila.
— Eu é que não quero ser vista com um nerd como você. — Exclamei, me arrependendo logo depois, nos filmes sempre tinha alguém fazendo “xiu” para quem fazia barulho ou falava alto demais em bibliotecas. — Desculpa…se tiver alguém aí ainda. — Completei debilmente, constatando de que falava sozinha.


Continua...



Nota da autora: Aqui estou com mais uma história inspirada em Nemesis da Bridgit Mendler. (Se não leu Atlantis dê uma olhadinha, se quiser!). Essa é inspirada em Library, outro hino injustiçado. Espero muito que gostem! Não se preocupem com a demora, essa história será curtinha e está quase finalizada, logo enviarei tudo o que tenho por aqui!



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