Última atualização: 29/09/2021

Prólogo - Memories I want to forget

2001


Nem sempre você pode ficar.

Às vezes, você só precisa fugir porque, por mais dolorido que seja, você já se machucou demais, uma dor a mais já não faz diferença depois de tudo.

Quando se culpa, você remói todos os seus erros, pensa neles incansáveis vezes como se pudesse mudá-los apenas com isso.
O problema é que existem erros que nem pedidos de desculpas podem consertar porque, na realidade, a pessoa com quem você cometeu o maior erro já não está aqui para que você possa se redimir.

O vento em meus cabelos faz meu raciocínio parar e eu paro de observar o rio abaixo da ponte em que eu estou, erguendo meus olhos. Ah, eu estou na França. O lugar que eu quero esquecer, mas que me persegue.

O que eu estava dizendo?

Oh, sobre os erros. São esses erros que fazem você deixar de dormir, que fazem você querer ser beijada por um dementador para não pensar neles e só ficar vazia. Entretanto, isso nunca acontece, porque os dementadores não beijariam você.

E as formas que você esquece? Simples, você não esquece. Você simplesmente lembra, mesmo que depois de um bom tempo, e novamente isso a faz pensar no quanto queria voltar ao passado.

O segredo é viver a sua rotina, ignorar esse buraco no peito que se abre de repente, ignorar a culpa que você guarda, e talvez seguir em frente, mesmo que pareça que você esteja empurrando a poeira para debaixo do tapete, mesmo que pareça que essa não é a felicidade verdadeira.

Nem sempre as coisas são justas. E, por mais que a vida só dê socos em quem consegue aguentar, a gente cansa de lutar.

Eu cansei de lutar, cansei de resistir. Cansei de fingir que eu estava bem e fui embora, talvez de forma covarde.

Porém, sempre por um bem maior.

Essa é a minha história, a história de um fracasso que não sabe lidar com o seu passado medíocre.

O que eu posso fazer? As memórias são algo que eu só quero esquecer.

E quem eu sou? Prazer, .



Capítulo 1 - A Copa Mundial de Quadribol

1994


Andei lado a lado com Draco enquanto entrávamos no camarote de honra e suspirei alisando as minhas vestes completamente pretas, assim como as do meu primo e de meus padrinhos, Lúcio e Narcisa.
Era a Copa Mundial de Quadribol e eu realmente estava animada, tanto que havia passado o dia inteiro falando sobre ela com Draco, que também se sentia feliz, mesmo que as nossas expressões estivessem fechadas naquele momento, sem demonstrar nenhum sinal de alegria.

Oh, era sempre assim, todos queriam ser um Malfoy ou um , e eu já apreciei aquilo durante anos, estar séria, com as vestes de primeira mão, era como se eu estivesse em um nível superior ao dos outros que observavam. Mas eu já não me sentia daquela maneira há algum tempo, apenas mantinha a pose, como a mais grossa máscara.

— Ah, Fudge! — Disse meu padrinho, estendendo a mão para o ministro da magia assim que se aproximou dele. — Como vai? Acho que você não conhece minha mulher, Narcisa? Nem o nosso filho, Draco? Além da minha afilhada, . Ela é filha da srta. , suponho que a conheça.

Senti vontade de revirar os olhos, porém não o fiz, sabendo que iria ser repreendida pela minha madrinha, que sempre dizia que eu deveria ter bons modos. Olhei para as pessoas que também estavam ali no camarote e quis, por um momento, correr para o lado deles, lá estavam os Weasleys, Hermione e Harry.

— Como estão, como estão? — Disse Fudge, sorrindo e se curvando para a minha madrinha. — E me permitam apresentar a vocês o Sr. Oblansk, bem, o ministro da Magia da Bulgária, e de qualquer modo ele não consegue entender nenhuma palavra do que estou dizendo, portanto não faz diferença. E vejamos quem mais, você conhece Arthur Weasley, imagino?

Uma tensão logo se fez no ar, Lúcio olhou para o homem que estava a sua frente e meu padrinho fez questão de provocar o Sr. Weasley.

— Meu Deus, Arthur. — Disse o loiro baixinho. — O que foi que você precisou vender para comprar lugares no camarote de honra? Com certeza sua casa não teria rendido tudo isso, não?

Logo olhei para os meus amigos, quase que pedindo desculpas pelas atitudes patéticas dos meus familiares. Discretamente acenei e me permiti fazer uma careta, sem que meus padrinhos ou Draco vissem. Entretanto, de volta, recebi olhares sérios, meus melhores amigos Fred e George me encaravam como se quisessem me arrancar dali e eu agradeceria imensamente se o fizessem.

Sabia muito bem que, aos olhos deles, eu não me encaixava no lado em que eu estava, entretanto, aos meus olhos, eu deveria estar ali, certo? Havia nascido no meio dos Malfoy e os não eram os melhores exemplos de pessoas boas.

— Lúcio acabou de fazer uma generosa contribuição para o Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos. Está aqui como meu convidado. — Fudge, que não havia percebido a provocação do meu padrinho, continuou.

— Que... que bom. — Disse o Sr. Weasley com um sorriso muito forçado.

Troquei alguns olhares com Draco, que parecia levemente entediado com a conversa do pai, assim como eu. E, silenciosamente, vi a expressão de nojo contida que meu padrinho fez para Hermione.

Foi aí que bufei e revirei os olhos. Imediatamente, senti um beliscão no meu braço, e uma expressão dolorida se instalou em meu rosto. Era minha madrinha, me olhando de forma quase que mortal, e se ela se permitisse perder os modos, iria provavelmente me xingar por estar fazendo isso.

Antes que algo mais acontecesse naquele momento, Ludo Bagman, um homem que eu sabia que trabalhava para o ministério da magia, entrou no camarote.

— Todos prontos? — Perguntou ele, com animação. — Ministro, podemos começar?

— Quando você quiser, Ludo. — Disse Fudge, descontraído.

Assim que foi dito isso, senti Draco me puxando para sentar e eu o fiz, trocando um olhar animado com meu primo.

“Senhoras e senhores... bem-vindos! Bem-vindos à final da quadricentésima vigésima segunda Copa Mundial de Quadribol!” Ludo Bagman logo começou a falar, sua voz ecoando por todo estádio.

A maioria das pessoas presentes gritaram e bateram palmas, animadas, todos com suas bandeiras e torcidas. Eu dei um leve suspiro, havia sido impedida de comprar algum tipo de bandeira ou algo assim para o torcer porque, segundo meu padrinho “acessórios de time são ridículos”, então, o máximo que eu havia conseguido comprar tinha sido um onióculo, para ver e rever as partidas.

“E agora, sem mais demora, vamos apresentar... os mascotes do time búlgaro!” Ludo narrou e eu peguei o meu onióculo para ver melhor o campo.

Lá embaixo, estavam mulheres bastante bonitas, elas tinham vestes azuis, mas não pareciam totalmente humanas e, antes que eu pudesse dizer algo, as mulheres começaram a dançar, uma dança certamente hipnotizante, que, por mais que deixasse a maioria dos homens impressionados, não havia causado muito efeito em mim. Olhei para Draco e vi que ele estava levemente afetado, então, antes que o garoto fizesse alguma bobagem, botei as minhas mãos em seus ouvidos e ele teve um choque de realidade. Logo, meu primo colocou as mãos nos ouvidos, retirando as minhas.
Então, a música que as mulheres dançavam parou e o estádio inteiro gritou de forma indignada, o que me fez rir suavemente.

“E agora”, trovejou Ludo Bagman, “por favor levantem as varinhas bem alto... para receber os mascotes do time nacional da Irlanda!”

Algo muito parecido com um cometa verde entrou no estádio, deu uma volta completa e depois se dividiu em dois cometas menores. De repente, um arco-íris se fez presente no céu do campo, unindo as duas esferas, depois foi se dissolvendo e as esferas se fundiram, formando assim um trevo gigante que subiu em direção ao céu e ficou pairando sobre as arquibancadas.

Então, de repente, começou a chover dinheiro. Os espectadores lutavam para pegar o ouro. O maior dos trevos logo se desfez, revelando duendes irlandeses, os quais eu sabia que eram leprechauns; eles foram descendo no lado oposto das mulheres e se sentaram de pernas cruzadas para assistir o jogo.

“E agora, senhoras e senhores, vamos dar as boas-vindas... ao time nacional de quadribol da Bulgária! Apresentando, por ordem de entrada... Dimitrov!”

Um vulto vermelho apareceu no ar. O jogador entrou em campo com velocidade vindo de um lugar na parte de baixo e fez os torcedores da Bulgária aplaudirem. Eu suspirei ao ver a agilidade do jogador, achando incrível.
Crescer com Draco Malfoy era algo que me fazia ser uma fã nata de quadribol, visto que nós dois éramos do time de quadribol da Sonserina. Não havia dúvidas de que eu iria tentar ver as técnicas dos batedores, já que aquela era a minha área no time (um tanto incomum para uma garota, mas quem liga? Eu era ótima).

“Ivanova!”

Mais um jogador se fez presente em campo com velocidade.

“Zograf! Levski! Vulchanov! Volkov! Eeeeeeeee... Krum!

A maioria deu atenção ao último jogador, pois o apanhador da Bulgária era bastante conhecido. O observei, ele não parecia ter 17 anos e já não era tão bonito, porém parecia o tipo de garoto que muitas iriam se atirar em cima. Por interesse? Talvez.

“E agora vamos saudar... o time nacional de quadribol da Irlanda!”, berrou Bagman. “Apresentando... Connolly! Ryan! Troy! Mullet! Moran! Quigley! Eeeeeee... Lynch!”

Sete jogadores entraram em campo como borrões cortando o ar. Lá estava o time da Irlanda, o qual eu torcia, mesmo que nada indicasse isso em minhas roupas.

“E conosco, das terras distantes do Egito, o nosso juiz, o famoso bruxopresidente da Associação Internacional de Quadribol, Hassan Mostafa!”

Um homem entrou em campo vestindo roupas de ouro para combinar com o estádio. Um apito de prata saía por baixo dos bigodes e ele sobraçava de um lado uma grande caixa de madeira e, do outro, sua vassoura.

O juiz montou a vassoura e abriu a caixa com um pontapé, fazendo com que quatro bolas que estavam dentro da caixa se projetassem no ar. Assim, a partida de quadribol pôde ser iniciada.

“COOOOOOOOOOOMEÇOU a partida!”, berrou Bagman. “É Mullet! Troy! Moran! Dimitrov! De volta a Mullet! Troy! Levski! Moran!”

Os jogadores voavam com muita velocidade no campo. Cuidadosamente, usei meu onióculos para observar com mais atenção, eu estava focada, meus pensamentos só iam em direção a partida.

“GOL DE TROY!”, berrou Bagman, e o estádio estremeceu com o rugido dos aplausos e vivas. “Dez a zero para a Irlanda?”

A partida se tornava cada vez mais rápida e eu me permitia comemorar (mesmo que silenciosamente, já que minha madrinha provavelmente iria reclamar se eu torcesse animada demais) cada vez que a Irlanda fazia um gol.
Eu acho que nunca pensei que presenciaria confusões que aconteciam na copa, mas ali estava eu, rindo, porque, após os leprechauns provocarem as veelas, elas tinham começado a cantar, fazendo com que o juiz caísse em seus encantos. Agitado, estava alisando o bigode e flexionando os músculos para as mulheres.

“Ora, isso não é admissível!”, disse Ludo Bagman, embora seu tom de voz fosse o de quem estava achando muita graça. “Alguém aí dê um tapa nesse juiz!”

Logo a confusão aumentou: após os medibruxos entrarem em campo e cuidarem do juiz, o mesmo estava querendo botar as mascotes para fora.

“E a não ser que eu muito me engane, Mostafa está de fato tentando despachar as mascotes do time da Bulgária!”, comentou Bagman. “Aí está uma coisa que nunca vimos antes... ah, isso é capaz de dar confusão...”

E aconteceu realmente, os batedores Búlgaros discutiram com o juiz, gesticulando em direção aos leprechauns, que agora formavam alegremente as palavras “HI! HI HI!”. Mostafa, porém, não se deixou impressionar com a argumentação dos búlgaros; espetou o dedo indicador no ar, dizendo claramente a eles que voltassem ao ar e, quando os jogadores se recusaram, ele puxou dois silvos breves no apito.

“Dois pênaltis a favor da Irlanda!”, gritou Bagman, ao que a torcida búlgara ululou de raiva. “E é melhor Volkov e Vulchanov voltarem a montar as vassouras... é isso aí... e lá vão eles... e Troy toma a goles...”

A partida voltou. Os batedores dos dois lados jogavam sem piedade, principalmente Volkov e Vulchanov, que pareciam nem ligar se os seus bastões estavam fazendo contato com balaços ou com gente, quando os giravam violentamente no ar. Dimitrov disparou um balaço em cima de Moran, que segurava a goles, e quase a derrubou da vassoura.

— Falta! — Urraram os torcedores irlandeses em uníssono, todos de pé como uma enorme onda verde.

Falta!”, ecoou a voz de Ludo Bagman, magicamente ampliada. “Dimitrov esfola Moran... o jogador saiu com intenção de dar um encontrão... e tem que ser outro pênalti... e aí vem o apito!

Os leprechauns subiram ao ar mais uma vez e agora formaram uma gigantesca mão que fazia um gesto muito grosseiro para as veelas. Ao verem isso, elas se descontrolaram: se transformando em algo não muito belo, precipitaram-se pelo campo e começaram a atirar algo com o aspecto de bolas de fogo contra os duendes irlandeses. Bruxos do Ministério invadiam o campo para separar as veelas e os leprechauns, mas sem muito sucesso; entretanto, a partida que acontecia no ar estava melhor.

Levski — Dimitrov — Moran — Troy — Mullet — Ivanova — Moran de novo — Moran — É GOL DE MORAN!

Mas a gritaria da torcida irlandesa mal conseguia abafar os gritos agudos das veelas, os estampidos que agora vinham das varinhas dos funcionários do Ministério e os berros furiosos dos búlgaros. A partida recomeçou imediatamente; agora Levski estava com a posse da goles, agora Dimitrov...

O batedor irlandês Quigley levantou com violência o bastão contra um balaço que passava e arremessou-o com toda a força contra Krum, que não se abaixou com suficiente rapidez. O balaço atingiu-o em cheio no rosto. Ouviu-se um lamento ensurdecedor da multidão; o nariz de Krum parecia quebrado, saía sangue para todo lado, entretanto Hassan Mostafa não apitou. Distraíra-se graças a uma veela, que havia lançado uma bola de fogo na vassoura dele, a incendiando.

O apanhador da Irlanda cortou o ar, descendo para baixo repentinamente, ele havia visto o pomo. Percebendo o que aconteceu, o apanhador da Bulgária desceu, indo atrás do pomo também. Krum voava na esteira dele, os dois pareciam que iam bater no chão, Lynch realmente caiu, porém o apanhador Búlgaro não, pois havia conseguido pegar o pomo.

O placar indicou de imediato que a Bulgária havia capturado o pomo, entretanto, a Irlanda havia ganhado a partida.

VENCE A IRLANDA!”, gritou Bagman, que, como os irlandeses, parecia estar espantado com o inesperado desfecho da partida. “KRUM CAPTURA O POMO... MAS VENCE A IRLANDA... Deus do céu, acho que nenhum de nós esperava uma coisa dessas!

Eu sorri e soltei um gritinho animado, cutucando meu primo com o cotovelo. Havia sido emocionante. Minha madrinha me lançou um olhar de repreensão e eu logo parei de torcer. Dei uma cotovelada em meu primo, que também parecia ter gostado do jogo.
Suspirei, dessa vez procurando meus amigos com o olhar, e logo vi os gêmeos cobrarem Ludo sobre algo. Sorri suavemente, imaginando o que eles estavam aprontando.

George e Fred, assim que terminaram de falar com Ludo, me olharam, e eu jurei por um momento que iriam me cumprimentar. Os encarei e sorri suavemente, sentindo as palmas das minhas mãos suarem. Droga, por que George parecia tão bonito? Balancei a minha cabeça, afastando os pensamentos.

— Pare de encarar, fica muito óbvio que você é amiguinha deles. — Meu primo murmurou, me fazendo desviar o olhar.

Eu deveria estar sendo fria, não calorosa. Deveria olhar os Weasleys como inferiores.

Mas eu não conseguia. Meus amigos eram, sem dúvidas, as melhores pessoas que eu tinha na minha vida. E eu não queria estragar isso.

...


Tudo foi um terror e eu estava no meio.
Puxei a manga da roupa de Draco para levá-lo à floresta, enquanto as pessoas nos empurravam. Ele parecia animado, entretanto, a minha expressão estava séria e, daquela vez, não era atuação.

O meu primo se soltou do meu aperto quando chegamos na floresta. Eu suspirei e, enquanto o loiro ao meu lado espiava o terror que se fazia no acampamento onde ocorria a copa, eu sentia meu peito apertar.

Quantas pessoas inocentes estavam aterrorizadas naquele momento?

Ouvi barulho de gritos, de brigas com feitiços, e de passos, que certamente estavam indo em direção à floresta em que eu estava com Draco.
Estava escuro, então apenas conseguimos reconhecer as pessoas quando elas falaram e quando uma garota, que eu percebi ser Hermione, fez o feitiço “lumus”.

— Tropecei numa raiz de árvore. — Rony, o irmão mais novo dos meus melhores amigos, falou e eu estalei a língua.

— Ora, com pés desse tamanho, é difícil não tropeçar. — Disse Draco em resposta, sua voz estava arrastada e ele estava, sem dúvidas, zombando.

Harry, Rony e Hermione se viraram e eu dei uma cotovelada forte em meu primo, que fez uma troca de olhares comigo.

Porém, Rony logo se defendeu, xingando o loiro.

— Olha a boca suja, Weasley. — O meu primo disse. — Não é melhor você se apressar, agora? Não quer que descubram sua amiga, não é?

Draco indicou Hermione e eu bufei.

— O que é que você quer dizer com isso? — Perguntou Hermione, em tom de desafio.

— Ele não quis dizer nada, por que ele vai ficar caladinho, não é? — Eu falei em um tom ameaçador ao loiro, que não deu atenção.

— Granger, eles estão caçando trouxas. — Disse Malfoy. — Você vai querer mostrar suas calcinhas no ar? Porque, se quiser, fique por aqui mesmo... eles estão vindo nessa direção, e todos vamos dar boas gargalhadas.

— Hermione é bruxa. — Rosnou Harry.

Eu fiz a maior careta do mundo para Draco, querendo bater no rosto dele sem parar.

— Ignorem ele. — Falei aos meus amigos, que estavam sérios. — Ele é só um idiota e, em minha defesa, eu não tenho culpa se nasci parente desse daí.

— Olha só… — Draco começou e eu fiz a expressão mais mortal que eu tinha.

— Cala a boca. — Murmurei de forma ríspida, mas logo voltei a minha atenção ao trio que também estava ali. — Mas o Malfoy está certo em dizer que vocês devem ir, não é bom que fiquem por aqui. — Menti suavemente, até porque, na verdade, era sim. — As coisas estão perigosas por lá.

Mas, antes que o trio fizesse algo, ouvi um estrondo e várias pessoas gritaram de pânico.

— Eles se assustam à toa, não é? — Disse meu primo, com a fala mole. — Imagino que papai disse a vocês para se esconderem? O que é que ele está fazendo, tentando salvar os trouxas?

— Onde estão os seus pais? — Perguntou Harry. — Lá no acampamento usando máscaras, é isso?

Eu cruzei os braços.

— Ora... se eles estivessem, eu não iria dizer a você, não é mesmo, Potter?

— Ah, anda, gente, — Disse Hermione, com um olhar de repugnância. — vamos procurar os outros.

— Fica com essa cabeçorra lanzuda abaixada, Granger.

— Cala a boca. — Repeti, com mais raiva ao meu primo.

— Cala você. — Draco disse e, enquanto isso, o trio foi embora.

Eu já sabia que, de qualquer maneira, a noite seria uma das que mais trariam confusões.



Capítulo 2 - Sozinha

1994


Eu sabia que nada estava bem, eu sentia na pele.
Meus padrinhos haviam destruído qualquer chance que eu tivesse de ter amigos e, depois de dois meses, eu tive certeza. O que no início era uma animação constante para o baile de inverno, logo se transformou em melancolia. Meus amigos estavam me ignorando durante todo esse tempo, então eu andava sozinha pela escola.

— Ah, me diga, você não está triste porque os panacas da Grifinória não falam mais com você, né? — Pansy Parkinson disse com um tom debochado.

Eu encarava a mesa da Grifinória. Os meus melhores amigos estavam conversando e o meu olhar quase implorava que eles retribuíssem a vontade de falar comigo.

Mas era óbvio que não.

— Não os chame de panacas, Parkinson. — Eu murmurei.

— Ah certo, babacas, idiotas, mesquinhos… Existem vários xingamentos que eu posso usar, panacas é só uma lasquinha. — A voz irritante da garota falava ao meu lado e eu revirei os olhos, me levantando e dando o jantar como concluído.

Dois meses.

Dois meses e eles nem olharam para mim um dia sequer. Eu estava frustrada, odiava saber que havia afastado mais pessoas, que ninguém aguentaria ficar do meu lado e, por mais que sentisse raiva de mim mesma, agora, uma tristeza tomava conta de mim.

Eu iria ficar sozinha? Igual a anos atrás?

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10 de fevereiro de 1986 - Perto da residência dos .

Eu observava as crianças trouxas brincarem em um pequeno parque, era meu aniversário de sete anos e eu estava sozinha. Minha mãe tinha ido trabalhar e minha avó simplesmente não era uma boa companhia, odiava ouvir ela falar sobre o que ela considerava sangue-ruim. Já o meu pai… bem, digamos que ele não estava mais entre nós.

Mesmo que eu tivesse a mansão dos Malfoy como um lugar para passar o tempo, já odiava o lugar. As ideias dos meus tios não eram iguais às minhas e eu não entendia o porquê eles consideravam trouxas inferiores. Percebia até que, diante daquelas crianças felizes, a minha infelicidade me tornava inferior.

E, com tanta tristeza, senti um aperto no peito. Fugir de casa para aquele mesmo parquinho já era comum, mas, naquele dia, eu observava as meninas que eram empurradas pelos seus pais ou amigos nos balanços enquanto lágrimas brotavam em meus olhos. Eu era igual a elas por fora: com uma aparência de se invejar, tinha dinheiro, inteligência, carisma, era tão social e aberta quanto elas, porém eu não tinha nenhum amigo para chamar de meu, nenhum irmão e nem pais presentes para me empurrar no balanço como elas.

Por que as coisas são tão injustas? Me perguntava. Entretanto, nunca saberia a resposta.

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Diante de tantos pensamentos, eu havia me perdido nos corredores.
Já nem sabia aonde estava indo, mesmo que devesse estar indo para as masmorras. Fechei os olhos, frustrada, e logo passei a pensar nos milhares de problemas que eu tinha que lidar com: a minha família, os comensais, os meus amigos me ignorando e a droga do Torneio Tribruxo.

Merda.

Um bolo grande se instalou em minha garganta, meu estômago se revirou e eu senti que iria vomitar, mesmo que não fosse. Lágrimas se formaram em meus olhos, mas eu as limpei antes mesmo que elas caíssem.

Em seguida, veio o pânico.

As minhas mãos tremeram com o pensamento de ficar sozinha e eu já sentia que o enorme castelo de Hogwarts era tão pequeno quanto a casa de Hagrid. Minha respiração já estava brevemente ofegante e pensei, por algum momento, que iria asfixiar.

Passei as mãos nos cabelos enquanto tentava saber aonde ir. Mesmo que eu estivesse ali há seis anos, a sensação de que o lugar era completamente estranho se instalou no exato momento em que comecei a hiperventilar. E nada mais fazia sentido, nem meus pensamentos, que pareciam acelerar-se cada vez mais.

Meu corpo estava em alerta e eu só queria chorar, um medo me engolia inteira, só que eu já não sabia o porquê.

? — Ouvi uma voz familiar e suspirei, tentando trazer o ar de volta para os meus pulmões.

Eu estava passando mal em um dos corredores.

— Hã… — Eu busquei ar e tentei falar. Limpei meu rosto, porém continuei tremendo. Já não sabia como me acalmar.

— Shhh…

Olhei para a pessoa que falava comigo: cabelos ruivos, expressão suave…

George Weasley.

As palmas do meu melhor amigo limpavam lágrimas cuja presença eu não havia notado, sua expressão era de preocupação, entretanto, seu toque era definitivamente o mais carinhoso que eu já havia recebido. Então, sem se importar se algum estudante iria ver, ele me abraçou suavemente, numa tentativa bastante significativa de me acalmar.

— Calma. — Sua voz murmurou em meu ouvido e eu assenti. Pouco a pouco, senti meu corpo se acalmando, conforme sua mão suave tocava meus cabelos carinhosamente.

Tudo pareceu tão rápido.

Quando eu senti que tudo estava calmo novamente, me afastei do ruivo.

— É toque de recolher. — Murmurei, mas era mentira. Que melhor amiga dos gêmeos eu seria se me importasse com toque de recolher? — Preciso ir.

Partir era inevitável, eu sempre soube que em algum momento eu iria ficar sozinha novamente, só não esperava que seria porque meus amigos achariam que eu adorava os comensais da morte.

— Espera. — George me seguiu e eu o olhei com a expressão fechada. — Você está bem?

— Vou melhorar. — Respondi de forma seca. — Você não tem que encontrar o Fred e o Lee? Tenho certeza de que me encontrar nos corredores não foi um de seus planos.

. — Ele falou o meu nome e eu franzi o cenho. Que droga. — Me desculpa.

— Pelo quê? — Levantei a voz, eu não estava preocupada com isso, eu não deveria me importar.

— Acho que deveríamos conversar. — O meu melhor amigo falou e pegou no meu braço. — Vamos para a Torre de Astronomia.

Eu então assenti, meio a contragosto. Se a minha amizade terminasse ali, que fosse de maneira justa.

Nós andamos juntos, como sempre fazíamos quando pulávamos o toque de recolher, e George, calmamente, pegou a minha mão, entrelaçando na sua.
Algumas velas que a escola mantinha acesa já estavam apagadas, e, silenciosamente, fomos verificar se a Torre de Astronomia estava com alguém.

Felizmente, o lugar estava completamente vazio e, com calma, nós fomos para a parte onde mais conseguíamos ver as estrelas. Eu sempre amei estar ali, um velho hábito que eu e George pegamos. Se eu não estava aprontando com os gêmeos e Lee nos corredores, certamente estava na Torre de Astronomia.

— E então? — George murmurou e puxou dos bolsos alguns sanduíches, me fazendo franzir o cenho.

— Você passou na cozinha? Credo, Weasley, que estômago sem fundo. — Brinquei, baixinho, porém a minha expressão logo se tornou séria, e eu observei o céu acima de nós antes de perguntar suavemente: — E então o quê?

— Na Copa de Quadribol... — O meu melhor amigo começou, enquanto me estendia um dos sanduíches, após desembrulhá-lo. — Você estava com aqueles caras.

Eu ri suavemente.

Aqueles caras? — Brinquei novamente. — Eles são meus padrinhos.

— Por que você nunca me contou? — George logo me lançou outra pergunta e eu molhei os lábios.

— Bem, quem mais insulta a sua mãe? Ou quem, por algum acaso, simplesmente tira o sarro de Harry, Rony e Hermione sempre que os vêem? — Respondi com outra pergunta, e logo esfreguei as mãos no rosto, um claro sinal de que eu estava um tanto nervosa com o assunto. — Não é nem como se eu quisesse, mas eles são da minha família.

Senti o olhar do meu amigo em cima de mim e suspirei suavemente, dando uma mordida no sanduíche que ele havia me dado.

— Você não quer falar sobre o que aconteceu no corredor? — George perguntou e eu logo balancei a cabeça negando, quase não deixando-o terminar a frase.

O garoto ruivo suspirou, entretanto não insistiu. Isso era algo que eu adorava em George, ele respeitava o meu tempo, era com certeza a coisa mais adorável do mundo; no fim, no entanto, eu suspeitava que ele sabia que, de qualquer maneira, uma hora eu contaria a ele o que estava acontecendo dentro de mim. Afinal, ele era o mais próximo a mim das minhas amizades, até mais que Fred e Lee.

Olhei para ele, vendo o quanto a luz da lua o fazia ficar bonito. Não sei se era o céu, que naquela região parecia mais iluminado, ou se era ele. Eu poderia observá-lo a noite inteira.

Claro, como amigos.

No primeiro momento, posso dizer, pensei que quando ele soubesse que eu sofria de crises de ansiedade, logo iria me olhar com pena, entretanto, ele não me olhou assim, apenas ficou quieto. Não significava que ele não se importava, eu sabia. Esse era o modo mais gentil possível que alguém poderia ser e, enquanto eu olhava as constelações que se formavam no céu, o conforto me atingiu em cheio.

Eu adorava a presença de George Weasley.

— Ali? — A voz dele murmurou e ele logo olhou para mim, que já estava o observando.

— Hm.

— Sobre as constelações… — Ele logo perguntou e eu dei um sorriso de lado, já sabendo o que ele queria.

Me aproximei mais ainda de George e olhei para o céu, à procura de alguma constelação visível.

— Olha só. — Murmurei e puxei suavemente o braço de George, pegando-o para apontar para a constelação que eu estava olhando. — Essa é a constelação favorita da minha mãe. Costumava ser a minha também.

— Qual é o nome dela? — Meu melhor amigo murmurou e eu senti seu hálito devido à proximidade.

— Leão. — Respondi e logo expliquei. — Tem uma estrela nela, chamada Regulus, minha mãe gostava muito por causa disso.

Sorri suavemente, me lembrando das vezes em que não era tão ocupada com o trabalho e me ensinava a ver as estrelas da maneira correta.

Regulus.

— Deixa eu te contar uma coisa. — Eu disse baixinho, olhando para George. — A minha constelação é a ursa menor, sabe, Polaris , meu nome tem a estrela polaris. — Eu ainda olhava para o céu. — Bem, não é um nome comum, e eu não faço ideia do porquê minha mãe botou Polaris no meio de tudo. — Fiz uma pausa. Era mentira, eu sabia o motivo do meu nome do meio ser Polaris, mas também sabia o porquê não deveria falar.

— Eu não fazia ideia que era nome de uma estrela. — George falou. — Sempre achei estranho o seu nome do meio e…

— Ei! — O repreendi, dando um tapa em seu ombro. — Seu nome do meio é Fabian, você não pode falar nada sobre nomes estranhos.

George riu, claramente de uma forma brincalhona.

— Fabian é o meu tio. No caso, era. — O ruivo explicou.

— Ok, é bonito, linda homenagem. — Minha voz estava num tom engraçado e eu logo respondi: — Mas Polaris também é bonito, sabe, o nome de uma estrela, a mais brilhante da Ursa Menor, combina comigo. Eu sou ou não sou a mais brilhante da Sonserina?

— Não é. — George respondeu brincalhão, rindo em seguida, enquanto eu o enchia de tapas. — Ai! Tudo bem, você é a mais brilhante da Sonserina.

— Acho bom. — Fingi que estava honrada e lancei um beijinho para George, que achava graça.

Eu não pude evitar sorrir.

Polaris . — George falou o meu nome inteiro, dessa vez com um pouco mais de seriedade.

— George Fabian Weasley. — O cutuquei, dando um sorriso. — O que é isso? Votos de casamento?

Ele riu.

— Claro, vamos nos casar e fugir. — Brincou e eu gargalhei.

— Ah tá que vamos nos casar. Meus filhos vão ter que nascer ruivos? — Zombei, porém logo notei que a expressão do meu amigo havia ficado séria. — O quê? Desculpa se foi… ofensivo? Não que ruivos sejam feios e…

Ele riu do meu nervosismo e eu dei um soco em seu braço.

— Ei, às vezes eu posso acabar que nem o Draco, sabe, falando besteira sobre a sua família, fico nervosa. — Eu estava séria. — Acho sua família maravilhosa. — Falei com sinceridade, os Weasley eram a família que eu nunca iria ter, e queria, claro.

Os jamais foram calorosos e bonitos que nem todos pensavam que eram, com exceção de meu avô, que foi o melhor homem que conheci, entretanto era o único; minha mãe, por exemplo, me mandava uma coruja a cada comemoração festiva dando algum presente, mas jamais falava comigo no dia a dia ou se preocupava com como eu estava, e eu, talvez de forma orgulhosa, jamais iria abrir a boca.

— Não era isso o que eu queria dizer. — George então começou a falar sério também. — Hum, me sinto culpado por não ter falado com você nesses dois meses, mas é que, depois da Copa…

— Vocês pensavam que eu era a favor dos comensais da morte, eu sei. É direito de vocês, acho. — Disse suavemente. — Eu acho que… entendo?

— Mas foi erro nosso te julgar, eu sei que você não é esse tipo de pessoa. — O ruivo se explicou. — Só que eu quis falar com você, mas os seus… colegas sonserinos, eles não queriam de jeito nenhum, e eu sinto que deveria ter insistido, só não fiz porque eu estava com medo de que estivesse errado sobre você.

— Sem problemas e dramas. — Brinquei. — Eu odeio os comensais tanto quanto você, Harry e todo mundo. Sei que é inevitável me associar a eles e eu juro que não faço parte disso.

— Eu acredito em você. — George murmurou, olhando para mim, e, por um momento, ficamos ali, olhando um para o outro.

No fim, os sanduíches haviam sido esquecidos.



Capítulo 3 - Torneio Tribruxo

1994


A primeira prova do torneio havia chegado. Fiquei surpresa ao saber que seriam dragões, e um tanto tensa, para dizer a verdade. Depois de alguns minutos de puro fuzuê, eu finalmente consegui me sentar ao lado dos gêmeos e Lee nas arquibancadas que davam para a prova.

O local estava cheio de estudantes animados e, depois de muito insistir, consegui sair do meio dos meus colegas sonserinos, que quase me prendiam perto deles. E, após me reconciliar com os meus melhores amigos, eu tinha 0 vontade de ficar longe deles.

— Caramba. — Reclamei. — Finalmente consegui vir pra cá.

— Antes tarde do que nunca. — George disse, gentilmente.

Sentei-me no banco ao lado de George, que estava junto de Lee e Fred. Logo olhei para o que eu carregava em mãos: um livro, As Brumas de Avalon, o qual eu ainda estava terminando de ler. Não iria negar que, apesar de eu odiar o pouco contato com a minha mãe, eu adorava os presentes que ela me dava, no caso, apenas os livros.

Sorri suavemente e logo folheei, parando onde eu estava: “Não era uma mulher, era uma sacerdotisa, e dera a força da Virgem ao Galhudo, como havia sido determinado ao seu destino antes que as muralhas do mundo fossem construídas. Aceitara seu destino como sacerdotisa de Avalon, e sentia que alguma coisa de muito importante acontecera ali, na noite passada”

Soltei um suspiro um tanto que pesado. Eu estava imaginando as cenas do livro: a personagem principal estava em um dos ritos de Beltane, e por mais que, na minha realidade, o tipo de bruxa que ela era não existisse, eu achava muito boa a história.

Pelo amor de Deus, ela não está fazendo o que eu tô pensando, está? — Lee perguntou e eu revirei os olhos, parando de ler.

— Sim, eu estou lendo, e até onde vejo… — Respondi, olhando para a parte de baixo da arquibancada, vendo que apenas haviam instalado o primeiro dragão. — A prova ainda não começou.

— Mas vai começar! — Fred exclamou e eu bufei, voltando a ler.

— Ei… — George me cutucou e eu coloquei o indicador nos meus lábios, indicando silêncio.

No entanto, como Fred havia dito, a prova logo começou, o que logo notei devido ao anúncio que fizeram e ao barulho alto e animado dos espectadores, entretanto, ignorei, tão absorta na história que mal lembrava o que era o Torneio Tribruxo.
George me balançou, mas eu não dei atenção, continuando a minha leitura: “Morgana conhecia-se bastante bem para saber que quando o choque e o cansaço passassem, seriam seguidos por uma explosão de raiva, e queria encontrar-se com Viviane antes que isso ocorresse, quando ainda pudesse manter uma certa aparência de calma.”*²

O ruivo que estava sentado ao meu lado foi persistente: dessa vez, puxou a minha blusa de frio, fazendo o meu corpo balançar suavemente, porém meus olhos ainda estavam grudados ao livro.

. — Meu melhor amigo choramingou, dando mais um puxão na minha blusa, dessa vez deixando o meu livro cair devido à forma brusca que fez.

Se não fosse pelo meu reflexo, provavelmente o presente que a minha mãe havia me dado, teria estragado.

George! — O repreendi, mas parei no meio do caminho ao ver um olhar implorando por atenção, como uma criança. — Tudo bem. — Murmurei e decidi parar de ler.

Assim que olhei para ver o que acontecia lá embaixo, percebi que Krum e Fleur já haviam feito a prova, ou seja, era a vez de Harry. Suspirei e observei o meu amigo-não-tão-próximo adentrar na área do dragão. O moreno lá embaixo ergueu a varinha e conjurou algo, que logo se revelou: sua Firebolt voava no ar ao seu encontro e, nas cenas seguintes, eu o assisti voar, até mesmo para fora da arquibancada, e, durante todo esse momento, senti a minha mão formigar, eu estava com vontade de voltar a ler.

Quando vi, eu estava lendo novamente.

Mas não tanto quanto eu queria, pois, em meio a leitura, o livro foi puxado para cima de meu alcance.

Por favor! — George implorou e logo deu o livro para Lee que, pelo meu azar, o escondeu nas suas vestes; — E se o Harry morrer? Você iria estar lendo?

— O Harry não vai morrer, confio nele. — Falei e em seguida suspirei, frustrada.

— Mas eu vou se você não parar de ler. — George respondeu de forma dramática e eu balancei os ombros, como se não me importasse. — Ah, é?! Pois eu não me importo se você vai morrer também.

— É claro que você se importa. — Lancei um beijinho para ele, que me encarou por um segundo e logo balançou a cabeça. — Que foi? Menti?

— Não. — George disse e eu abracei sua cintura. Por um segundo, meu amigo pareceu desconfortável, rígido, então eu o soltei, franzindo o cenho. — Mas eu pensava que fosse seu gêmeo preferido.

Ouvi o tom brincalhão em sua voz e eu ri.

— Gêmeo preferido? — Zombei. — E isso existe? Já disse que só o Lee tem o meu coração.

— Não se preocupe, também amo você. — O meu outro amigo disse e rimos enquanto os gêmeos nos olhavam como se estivesse ofendidos.

— Ouch! Isso dói, sabia? — Fred disse e eu levantei as sobrancelhas.

— Mas é pra doer. — Um sorriso maléfico se fez em meu rosto e eu logo mostrei a minha língua.

Foi aí que a “discussão” começou, mas logo paramos de fazer bagunça quando vimos Harry voltar voando, logo apanhando o ovo dourado e, assim, concluindo a tarefa com maestria.



— Festa no salão comunal da Grifinória. — Fred dizia baixinho para alguns alunos da Grifinória e eu logo franzi o cenho, saindo de perto dos meus melhores amigos enquanto pegava o livro que eu estava lendo dos braços de Lee.

As pessoas já estavam saindo para os seus salões comunais, os grifinórios iriam fazer uma festa surpresa para Harry, já que ele havia ganhado a primeira prova do torneio. Eu não era bem-vinda, já que era da Sonserina, mas também não curtia festas para me importar.

— Vou indo, então. — Apertei meus lábios, mas George pegou no meu braço, impedindo que eu fosse embora.

— Ei! Você não vai para a festa? — Ele perguntou e eu franzi o cenho.

Dã? Eu sou da Sonserina e você sabe que eu não gosto de festas. — Falei e me soltei, era meio cansativo ser amiga dos gêmeos às vezes, mas não pelas festas e pegadinhas, longe disso.

Era cansativo ser da casa oposta.

— Você pode ir, se quiser. — Lee disse.

— Existem regras e eu não poderia saber a senha da sala de vocês, sabe. — Respondi e os meus amigos reviraram os olhos.

— Ela só está dando desculpas para não ir. — Fred disse e logo puxou um dos meus braços, seguido por George, que segurou o outro. Lee riu, acompanhando os dois garotos que me obrigavam a ir para a maldita festa.

Algumas pessoas nos olhavam com curiosidade enquanto passávamos pelos corredores, e eu apenas me deixava ser levada para aonde quer que fosse a sala comunal da casa deles.

— Idiotas. — Falei assim que chegamos em frente a um quadro de uma mulher. — Vocês me pagam.

Os garotos riram em resposta.

— Senha? — A mulher perguntou de dentro do quadro.

— Asnice. — Disse George, então, a mulher me olhou.

— Uma sonserina. — Sua voz parecia estar com nojo e eu revirei os olhos;

Ah, não me diga. — Debochei.

A mulher fez uma expressão incrédula para os garotos e George repetiu a senha novamente, o que a irritou. Entretanto, a contragosto, ela abriu a porta.

Assim que entrei, torci o nariz. A sala da Grifinória não era ruim e, por mais que eu não tivesse preconceito com as outras casas, apenas alguns Grifinórios se davam bem comigo. Por tradição, quem era da Sonserina odiava quem era da Grifinória e vice-versa.

O lugar era cheio de poltronas, bastante confortável, eu diria. Seria um bom lugar para ler e acreditava que, se alguém se deitasse no chão, provavelmente seria quente, já que havia uma lareira acesa. Duas escadas subiam de lados opostos e eu supus que fossem para cada dormitório. Por fim, algo óbvio: a sala era decorada com as cores da Grifinória.

Acompanhei Lee, vendo que vários pares de olhos me encararam, murmurando. Ignorei todos, aquilo era algo comum a partir do momento em que você nascia um . E infelizmente eu tinha esse fardo no nome.

Olhei para Katie Bell, Angelina Johnson e Alicia Spinnet. Não podia negar, de maneira alguma, que elas eram, sem dúvidas, pessoas legais. Me afastei do meu amigo para cumprimentá-las.

— Oi. — Eu disse de forma tímida e elas logo me cumprimentaram, visivelmente animadas.

— Como vai, ? — Katie perguntou e eu sorri.

— Bem, mesmo que tenha sido arrastada para cá. — Falei suavemente.

Então ouvi George falar pelas minhas costas: — Arrastada, mas você deve admitir que aqui é um lugar legal.

— Tenho? — Eu ri, me virando para o meu melhor amigo. —Aqui é confortável, legal é o salão comunal da minha casa. Tem vista pro Lago Negro. — Eu disse de forma divertida, eu e os meninos usávamos a rivalidade das nossas casas por pura diversão. Na maioria das vezes, eram coisas completamente opostas, e a minha língua era afiada como uma navalha, eu adorava usá-la para defender a minha casa.

— Lago negro? Desconfortável. — George levantou as sobrancelhas. — Mas vamos, temos trabalho a fazer: buscar comida. — Sua mão pegou na minha e nós saímos do salão comunal.



Eu ria enquanto comia uma tortinha de geleia, pois Neville havia acabado de comer um creme de canário, se transformando em um canário amarelo e grande. A festa, que eu pensara que pudesse ser estranha e desconfortável para mim, se tornou divertida. Após um tempo interagindo com as pessoas, alguns Grifinórios como Dino Thomas passaram a me achar “até que legal para uma sonserina”.

— Eu não acredito que vocês andaram inventando e nem me contaram. — Sorri, achando graça. — Genial.

Dei uma leve cotovelada nos gêmeos, que estavam nos meus dois lados, e eles balançaram os ombros. Então, eu olhei para a janela da sala comunal, já estava escuro lá fora e eu provavelmente poderia acabar pegando uma detenção por ter ficado muito tempo fora da minha sala comunal. Foi isso o que eu disse para os gêmeos e, por mais que eles insistissem para que eu ficasse, eu sabia que não podia. Então, depois de um tempo, após me despedir de algumas pessoas que estavam lá, eu saí do local, acompanhada por George, que insistiu no ato.

— Então é isso? — George disse após sairmos.

— Sim, tenho que ir. — Sorri suavemente, dando um soco em seu braço. Em resposta, ele deu um breve sorriso.

— Sobre aquele dia no corredor… — Meu melhor amigo começou a dizer e eu o encarei. — Espero que você fique melhor.

Meu sorriso aumentou com isso, o ruivo era uma pessoa adorável aos meus olhos, saber que ele se importa comigo era a coisa mais bonitinha que alguém já havia feito por mim.

Fiquei nas pontas dos pés, dando um beijo na bochecha de George.

— Boa noite, até amanhã. — Eu falei, me virando para ir, mas logo parei, e voltei a minha atenção para o meu amigo. — A propósito, antes que eu me esqueça, você é sim o meu gêmeo favorito.


Notas finais: *1: As Brumas de Avalon é um livro escrito por Marion Zimmer Bradley, lançado em 1979

*2: Os trechos foram removidos do livro “As brumas de Avalon, A senhora da magia”.



Capítulo 4 - Casais

1994


Odiei o burburinho que fizeram nos dias seguintes. Ok, teríamos um baile, mas o que tinha demais nisso?

Tudo bem, eu estava animada para o baile, mas jamais pelos pares que teriam que ser formados.

Fui até abordada por um menino tímido do primeiro ano, que me convidou para acompanhá-lo. Eu neguei, afinal, eu não o conhecia, e primeiranistas nem sequer podiam ir ao baile, era a regra.

Suspirei pesadamente e logo carreguei meus livros nos braços, a próxima aula teria mais estudos e redações do que nunca. Sentaria na mesa dos gêmeos, escreveria sobre o assunto que Snape pediria, e por fim, quem sabe, dormiria e leria o dia inteiro. Já estava sem ânimo algum, nem sequer o tinha para as provas, que pareciam épicas por um lado, mas entre As brumas de Avalon e o torneio, a resposta era óbvia.

Eu andava com a mesma confiança de sempre, mas, daquela vez, estava acompanhada por uma preguiça de quem não havia dormido. Já não bastava ter que ouvir as meninas da minha casa todas animadas, todas surtando porque tinham um menino em mente. Ódio era a única palavra que descrevia meus sentimentos pelos gritinhos que eram soltados no salão comunal e nos dormitórios femininos desde que Snape anunciou o baile para nós.

Respirei fundo, procurando na enorme sala as duas cabeleiras ruivas idênticas e, assim que achei, passei a andar em direção a elas. Bem, teria andado, se Blaise Zabini não me puxasse no meio do caminho.

— Ei, . — O garoto falava com confiança e eu sabia que era por ser considerado um dos garotos mais bonitos da minha casa (eu não negava, mas havia um porém), ninguém nunca em sã consciência, sendo da Sonserina, iria recusar Zabini, e ele sabia disso. — Eu estava pensando se você gostaria de ir ao baile comigo?

Ninguém em sã consciência, exceto .

— Não. — Respondi. — Com licença.

O garoto ficou boquiaberto, sua expressão caiu. Alguns sonserinos riam da expressão e do susto de Blaise, mas eu bufei, finalmente indo sentar com os meus melhores amigos.

— E aí, . — Fred começou a zombar. — Arrasando corações, hein?!

— Cala a boca. — Eu fiz uma expressão preguiçosa, soltando os livros de poções em cima da mesa e, puxando a mochila que estava nas minhas costas, retirei um pergaminho, uma pena e um tinteiro que eu precisava para escrever.

— Mas e então? — George perguntou de forma gentil, diferente de Fred, que zombava da minha cara. — Por que recusou? Se eu me lembro bem, ano passado você falou algo sobre achar ele bonito.

— Aparência não é tudo. — Bufei. — Esse verão minha avó veio com um papo de que eu tenho que me casar. E uma das propostas dela era Zabini. — Murmurei, com raiva. — O garoto mal fala comigo durante o ano, mas agora do nada eu sou opção pra ele? Credo, tenho nojo desse supremacista.

— Ok, você tem um ponto. — George concordou. — Mas então, quem vai ao baile com você?

— Ninguém, simples. — Murmurei. — Eu não vou.

— Ah, você vai! — Fred exclamou, indignado.

— Não vou, não.

Os dois me olharam sérios, mas eu balbuciei palavras sem sentido e logo passei a prestar atenção no enorme texto que eu tinha que escrever. Meu foco ficou vidrado na lição de poções, mas após alguns segundos, eu acabei bufando alto, já que os gêmeos não paravam de conversar entre si.

Fred, em vez de me responder, escreveu algo em um pedaço de pergaminho, amassou e por fim jogou em seu irmão Rony, que estava na mesa atrás de nós.

— O que vocês estão fazendo? — Perguntei, curiosa, mas ao mesmo tempo irritada, eu havia perdido o raciocínio do meu trabalho.

Rony pegou o papel que Fred jogou nele e, após isso, murmurou algo para o irmão, que eu não pude entender. O meu melhor amigo simplesmente amassou outra bolinha de pergaminho e jogou na cabeça de Angelina que, após isso, nos olhou irritada.

— O que foi?

— Angelina. — Fred disse suavemente, quase sussurrando. — Você. Eu. Baile.

Suas mãos gesticularam e eu balancei a cabeça, sério, que forma direta de convidar era essa?

A garota, que estava sentada um pouco longe da gente, teve uma mudança de expressão inesperada, sorriu de forma boba para Fred.

— Baile? Legal. — Assentiu, e assim que os olhos dela voltaram para o papel em que antes ela escrevia, Fred olhou para Rony e piscou, me fazendo revirar os olhos.

Meu deus, que insuportáveis. — Brinquei, com uma pontinha de verdade. Rony conversou com Hermione e eu vi a expressão da garota passar para a raiva. Logo, ela levantou, pegou o seu pergaminho e levou-o até Snape, que estava por perto. Sem entender mais nada, eu logo disse aos meus amigos: — Vou ir lá falar com eles.

Em seguida, levantei, indo em direção à mesa dos garotos mais novos.

— Olá. — Falei simplesmente, ignorando o fato de que Snape circulava por ali. Hermione falou algo baixo para Rony e logo sumiu, puxando a sua mochila com raiva. — O que anda rolando? Os gêmeos parecem mais agitados do que nunca.

— Nós estamos procurando alguém pra ir ao baile. — O ruivo a minha frente disse, percebi que seu tom de voz não continha animação e eu logo meneei a cabeça.

— Isso deveria ser fácil para vocês. — Eu falei com um tom de confusão, afinal, Harry era o campeão de Hogwarts e Rony o melhor amigo dele. — Mas não deve ser obrigatório levar um par. Podem ir sozinhos. — Sugeri, então.

— Eu preciso, os campeões têm que dançar, vai ser como uma abertura, McGonagall ordenou. — Harry falou, sem animação, parecendo até um tanto nervoso. — Você dança, ?

— Se eu danço? — Repeti a pergunta, sem entender, mas respondi mesmo assim: — Sim, eu danço, por quê?

Nós nos encaramos por um tempo, vi Harry balançar a cabeça e então eu gargalhei alto, talvez chamando um pouco de atenção.

Finalmente havia entendido.

— Ah, não. Você quer me levar pro baile? — Meu tom estava brincalhão, porém, ao ver a reação de Harry, segurei o riso. — Afinal, você não tem ninguém em mente? Sério, você chegou ao ponto de me convidar, tipo, não temos absolutamente nada a ver. — Zombei: — Você é dois anos mais novo que eu e é melhor amigo do irmão dos meus melhores amigos. Desculpa, eu te conheci quando você era um bebezinho.

— Ah, vai. — Rony começou em defesa do amigo. — Dois anos não é nada.

— Dois anos para uma garota é tudo. — Respondi. — Caramba, vocês tinham 11 anos quando eu os vi pela primeira vez e eu tinha 13, a diferença entre nós era palpável. Vocês animadinhos e bonitinhos andando junto com o Hagrid enquanto eu e os gêmeos colocávamos fogos de artifício na bunda do Filch.

— Ei, nunca fizemos isso. Grande ideia! — Fred comentou, se aproximando, e eu ri.

— Podemos enfeitiçar para que demorem a apagar, acho que o Pirraça ajudaria. — Sugeri e vi os gêmeos rirem com a ideia.

Maléficos, eu aprendi a gostar.

Meu olhar logo foi para os dois garotos sentados na minha frente e eu consegui ver o tédio em seus rostos.

— Ok ok, vamos fazer o seguinte: Harry, você vai tentar convidar alguém que você queira muito ir ao baile com, e aí, se essa pessoa recusar, eu aceito ir ao baile com você.

— E eu? — Rony então perguntou e eu dei um mini sorriso.

— Se sair com o Harry para o baile é estranho, imagina você! Irmão dos meus melhores amigos? Pf, não. — Dei um sorriso maldoso e me retirei. Vi que a paciência do Prof. Snape estava quase se esgotando com a pequena reunião que fizemos no meio da aula, então, sutilmente, voltei para a mesa onde meu pergaminho e meu tinteiro estavam me esperando.

...


Eu iria ao baile com Harry Potter.

No dia seguinte, recebi a notícia de que Harry havia tentado convidar a Cho Chang para o baile e ela recusou. Após isso, os gêmeos fizeram a maior bagunça zoando da minha cara porque eu teria que ir ao baile, querendo ou não. E, ainda por cima, teria que dançar.

Seguido disso, alguns sonserinos ficaram sabendo e o inferno foi armado pra mim, quase lancei diversas azarações para que Pansy e Draco calassem a boca. Afinal, os dois odiavam Harry e eu tinha quase certeza de que a notícia de que eu iria acompanhar o garoto chegaria aos ouvidos de meus padrinhos que, por sua vez, odiavam mais ainda Harry.

— Lee, que droga, hein. — Murmurei, andando com meu melhor amigo pelos corredores. Nós estávamos em um intervalo e os gêmeos haviam agido de forma misteriosa, não nos contando o que estavam indo fazer. — Eu fiz sem pensar! Caramba, agora mesmo minha avó vai me infernizar. Se eu for expulsa de casa, você me dá abrigo?

O garoto ao meu lado riu.

, sério, já faz meia hora que você continua falando isso. E se você for expulsa de casa, minha mãe vai te adotar. Às vezes, eu acho que ela prefere você a mim.

— Acho que ela me prefere porque eu sou um amorzinho. — Brinquei, tentando descontrair.

Amorzinho? Você? Todo mundo trata você como inocente quando, às vezes, você é a que mais apronta. — Zoou Lee e eu dei um soco em seu ombro, fazendo-o rir.

— E os gêmeos? O que será que eles andam fazendo? Não deram nem uma dica do que iriam fazer nesse intervalo… — Fiz uma expressão curiosa e meu amigo sorriu.

— Eles estão escrevendo cartas, só sei isso. — Lee respondeu, balançando os ombros, mas a sua expressão carregava a mesma curiosidade que a minha. Como melhores amigos, compartilhamos tudo, e, por algum motivo, algo estava sendo escondido.

Mas que droga. — Mordi o lábio inferior, pensando em que diabos de carta era aquela, logo descontei a ansiedade puxando os pequenos pedaços de pele dos meus dedos. — O que será que é? Vamos fofocar.

— Às vezes, acho que você precisa de uma amiga. — Lee me deu uma cotovelada. — Fofocar? E ei, pare de estragar a sua cutícula. — Zombou meu amigo.

— Lee Jordan, eu estou ansiosa! Você não vê?! Caramba, e se for algo muito sério? Os meninos nunca esconderam algo da gente, não é? — Comecei a falar, de forma rápida, sem me importar se eu estava sendo clara. — E outra, não está aqui para que eu possa fofocar e eu nem sei por onde ela anda. Você é a minha única opção e salvação. — Minhas mãos foram para os ombros do meu amigo, o balançando para frente e para trás.

— Ok, se importa tanto assim para você, vamos descobrir então! — Lee tinha um olhar animado e eu ri. Ele conseguia ser adorável.

— Vamos! — Assenti, retribuindo a animação.

— Mas prometa que vai parar de morder a sua boca e puxar a cutícula. — Dessa vez, ele falou sério. — Que agonia, ver você fazendo isso me dá arrepios.

Eu gargalhei com o comentário dele e confirmei, balançando a cabeça.


Capítulo 5 - Baile de Inverno

1994


O Natal chegou.

Quando meus olhos se abriram, tentei me acostumar com a luz esverdeada do dormitório. Suspirei e observei ao redor, um tanto atordoada.

As minhas colegas de quarto já haviam ido tomar café, coisa que não fazia diferença, já que não estava aqui e as outras garotas me tratavam com indiferença.

Apenas fiquei ali, deitada, sem pressa alguma. Uma das coisas que eu mais adorava em ser da Sonserina eram, sem dúvidas, as noites de sono bem dormidas. Inicialmente, parece estúpido pensar assim, mas eu me sentia confortável, as janelas do cômodo davam para o lago negro, então, o ambiente possuía um tom esverdeado. Eu poderia me encher de cobertas sem passar calor, já que o ambiente era geralmente um tanto frio.

Após me sentir mentalmente preparada, sentei-me na minha cama, vendo uma meia um tanto cheia de presentes, a puxei, logo retirando todos os presentes de dentro. Sorri suavemente ao ver alguns livros, Shakespeare incluso, mas meu sorriso diminuiu quando li o bilhete que havia junto, eram as mesmas palavras de sempre, sem nenhuma mudança.

“Feliz natal, espero que goste dos presentes - .”

Balancei a cabeça e amassei a droga do papelzinho, minha mãe mais um ano não perguntou como eu estava e mal escreveu uma linha no pergaminho. Era pedir demais uma mãe carinhosa?

Olhei para o resto dos presentes e vi que ela havia mandado mais presentes do que de costume, incluindo uma echarpe nova. Me senti uma droga, eu não usaria aquilo de maneira alguma, por que diabos ela fazia isso?! Eu não era comprável.

Minhas costas bateram contra o colchão da minha cama e eu quis morrer ali mesmo, mal querendo terminar de ver os presentes. Entretanto, eu teria que fazer e, suavemente, voltei a ver o que havia ali: uma carta de Sirius, acompanhada de um livro. Meu tio, de alguma forma, havia descoberto que eu gostava de ler livros. Remus também havia me mandado uma carta desejando feliz Natal e eu sorri suavemente, ele era sem dúvidas incrível para mim. Se eu não tivesse um pai, que tal um Remus Lupin?

Como um pontinho de alegria que aparece de repente, vi algo diferente no meio de todas aquelas coisas: Um suéter verde com um “” cinza. Puxei a veste para cima e, assim que olhei, dei um sorriso enorme. Reconheceria aquele tipo de roupa a quilômetros de distância. Eu me questionaria o porquê do presente mais tarde, mas meu coração estava quente em saber que eu tinha ganhado algo afetuoso de Molly Weasley, que fez questão de me dar um pouco de algum tipo de comida e uma carta desejando feliz Natal.

Após a decepção que foi ler o bilhete de minha mãe, o suéter foi o suficiente para me fazer levantar da cama, animada para o dia e a noite que viriam a seguir.

...


Eu ria alto, enquanto várias bolas de neve me atingiam. Me agachei e passei a jogá-las de volta. Hermione apenas observava.

— Ei, você vai se arrumar quando? — Perguntei, me juntando a ela para descansar da guerra de neve, enquanto os gêmeos jogavam as bolinhas em Harry e Rony. — Hum, se quiser, a gente pode fazer isso juntas, eu não sei se quero ficar observando as meninas da Sonserina cheias de frufru.

— Boa ideia. — Hermione deu um sorrisinho. — Pensava que você se dava bem com as meninas da sua casa.

Hã, jamais? A maioria delas vai ficar a vida inteira cuidando de casa ou fazendo merda. — Respondi e balancei os ombros. — Eu vou nas masmorras pegar o meu vestido e as minhas coisas, e se você me der a senha… ai — Então gemi quando uma bola de neve atingiu meu tronco. — Vai se fuder, Fred!

— A senha é Lutas de Covil. — Murmurou Hermione no meu ouvido e, então, ela se levantou, indicando que iria se arrumar.

— Você precisa de três horas? — perguntou Rony, olhando para ela, incrédulo, mas logo se arrependendo pela perda de concentração, pois George jogou uma enorme bola de neve na lateral de sua cabeça. — Com quem é que você vai? — gritou ele para Hermione, mas a garota apenas acenou e desapareceu pela escada de acesso ao castelo.

— Eu vou indo também. — Levantei, batendo na minha roupa para limpar a neve.

— O quê? — George exclamou, dessa vez foi ele quem ficou incrédulo. — Você também? Três horas?! O que você faz nesse tempo todo?

— Vou me arrumar junto com a Hermione, babacão. — Soquei o braço dele. — Até a hora do baile, então.

...


Suspirei pela décima vez enquanto olhava as pessoas dançarem. Harry estava em profunda melancolia por ver Cho Chang com Cedric e eu estava em melancolia por estar com ele. O baile estava chato e eu estava morrendo de vontade de obrigar Harry a se divertir. Rony também estava sentado, a expressão fechada desde que ele viu Hermione com Krum.

Após algum tempo, Padma, uma grifinória que Rony havia levado ao baile, ficou extremamente cansada e se levantou, indo dançar. Invejei ela por uns instantes, mas logo senti um toque em meu ombro desnudo.

Sorri ao ver que era George.

— Ei, Harry, eu vou levar a embora, tudo bem? — O ruivo perguntou, mas Potter mal respondeu, pois seus olhos estavam grudados na chinesa, que dançava animadamente com o outro campeão de Hogwarts.

Visto que não obteria resposta, George pegou na minha mão e puxou-me para dançar. Ri e, com passos desajeitados, me deixei levar pelo barulho agitado que As Esquisitonas — a banda bruxa famosa que estava ali — tocavam.

Nós fazíamos palhaçadas e, por alguns segundos, me perguntei onde estava Alicia, que, por mais estranho que fosse, era para ser a acompanhante de George essa noite.

— Hm. — Meu amigo fez e eu levantei as sobrancelhas em questionamento, como um “o que foi?” silencioso. Mas George não respondeu, sua mão entrelaçou com a minha e, quando vi, estávamos em um canto bastante afastado do salão principal.

— E então? — Perguntei. — Mal falamos durante a noite e eu esperava ver você com a Spinnet.

— Ela foi se divertir com outra pessoa, sabe, nós somos apenas amigos e eu e ela éramos os únicos sem par… — Ele não precisou completar, eu apenas assenti. E George, com uma expressão mais tímida, logo comentou: — Você está linda.

Eu dei um breve risinho, desviando o meu olhar do dele, com medo de que as minhas bochechas ficassem tão vermelhas quanto o meu batom; era bem capaz que isso acontecesse e eu poderia abrir a minha boca para dizer que eu sabia que estava linda, porque era verdade, o vestido de seda que eu usava havia caído como uma luva, já que havia feito sob primeira mão, mas eu não quis estragar o momento, não quando aquilo era raro de acontecer.

Droga, eu quero dizer, não que George não me elogiasse, ele era gentil e sempre fazia questão de brincar comigo, então era uma gentileza dele me elogiar, não era?

— É engraçado, não é? A cor do meu vestido combina com você. — Foi o que eu disse, com um tom brincalhão.

— Por quê? Vermelho de Grifinória? — Sua pergunta me fez soltar uma risada curta.

— Não, vermelho de ruivo. — Eu vi George abrir e fechar a boca, sem saber o que dizer. Então, adquiri um tom debochado, ao mesmo tempo brincalhão. — Você acha mesmo que eu iria usar vermelho de Grifinória? Adoro você, mas definitivamente não gosto da Grifinória.

— Ei, eu também não gosto da Sonserina. — Ele respondeu em defesa e eu gargalhei, socando o seu ombro.

— Idiota. — Peguei a mão do ruivo, o puxando para mais perto da festa. — Vamos lá, eu quero beber alguma coisa.

— Então vá buscar. — Ele fingiu falsa grosseria e eu tentei chutá-lo.

— Molly não ensinou gentileza e cavalheirismo? — Zombei. — Pois eu vou buscar mesmo, não preciso de você.

George riu, achando graça da minha rebeldia, e eu mostrei a língua, me virando e indo em direção ao lugar onde eu sabia que tinha algo para beber.

Voltei com dois copos de ponche e dei um ao meu melhor amigo.

— Eu estava analisando. — Comentei. — Você não se atreveu a me chamar de nariguda esse ano.

— Lee disse que eu não posso mais falar isso com propriedade. — George respondeu e logo tomou um gole da bebida.

— E não pode mesmo, sabe, eu posso acabar chamando você de…

— Shhh… Não precisa dizer o que é, eu sei. — O ruivo interrompeu e eu ri, achando graça.

Tomei suaves goles da bebida, mas George terminou a dele muito rápido. Após um curto período de tempo, os olhos dele passaram a encarar o meu copo e eu entendi o motivo.

— Não. — Falei, afastando-me dele. — Essa bebida é minha.

O meu melhor amigo riu e logo se aproximou, diminuindo o espaço que eu havia aumentado anteriormente.

— Agora é minha. — Sua mão pegou o copo e eu fiz uma careta quando, após tomar um gole, George botou-o numa altura que ele sabia que eu não alcançava.

— Sua girafa. — Eu respondi, chamando-o pelo apelido que eu havia criado no primeiro ano. — Girafa ruiva.

George riu e eu vi que havia uma pontada de raiva em seus olhos. Ele odiava ser chamado de girafa ruiva, enquanto Fred respondia à provocação me chamando de nanica nariguda.

A girafa ruiva bebeu toda a minha bebida quase como uma vingança por eu tê-lo chamado assim e eu o olhei com raiva.

— Pois é assim? — O soquei. — Agora você vai dançar comigo, vou fazer você vomitar toda essa bebida.

Puxei o braço de George com certa dificuldade devido a nossa diferença de tamanho e de força, mas logo o obriguei a dançar. O que no início foi algo feito com raiva, logo se tornou algo divertido e, quando vi, lá estávamos rindo por algo bobo que vimos e fizemos.

Era engraçado pensar que nós sempre fomos assim: um misto de confusão e bagunça, até mesmo no nosso jeito de ser; eu adorava George, ele me adorava, nós dois éramos amigos confidentes que sabiam que podiam contar um com o outro, mas, em seguida, talvez inimigos, porque, no fundo, eu sentia que eu fui feita para ser aquilo, os opostos não deveriam se atrair daquela maneira, pelo menos não do lugar que eu havia vindo.

Eu ri e senti minhas bochechas doerem.

— Olha só, se você beber a minha bebida de novo, eu vou azarar você sem dó. — Respondi como um aviso.

O ruivo riu suavemente e passou os braços pelos meus ombros.

— Ah é? Que egoísta. — Ele disse.

Eu suspirei, ofegante, assim como George, depois da dança mais engraçada e sem sentido da minha vida, era quase que obrigatório ficar cansada.

— Egoísta é você. — Falei, o olhando de forma desafiadora.

— Não, é você.

— A cliente sempre tem razão. — Respondi, apontando o indicador para o seu rosto.

— Que cliente? — George perguntou, confuso, e eu revirei os olhos.

— Quem comprou cremes de canário e deu para a maioria dos alunos da Sonserina? — Falei como se fosse óbvio. — Pois bem, eu tenho sempre razão, egoísta é você.

Vi George gargalhar.

— Ok, bons argumentos. — Ele sorriu e eu encostei a minha cabeça em seu ombro, observando as pessoas do baile, ficando então quieta.

George também não fez questão de falar algo, acho que o silêncio após a agitação era bastante confortável e nós não precisávamos de mais nada. O tempo parecia até diferente quando ficávamos assim, mas eu sabia que já era tarde e que a pista de dança já estava ficando vazia.

— Acho que devemos ir. — Murmurei. — Obrigado por ter me tirado do meio do desânimo do Harry, seria um saco ficar sentada.

— Amigos são para isso, não é? — George respondeu e eu sorri, beijando a bochecha do mesmo, quase como um agradecimento pela noite.

Após isso, bem, não precisa ser detalhado: eu fui até o dormitório e dormi, admito que com um sorriso bobo no rosto.


Capítulo 6 - Cartas

1994


— Sério mesmo? — Reclamei, cruzando os braços. — Fala de uma vez, que diabos de cartas são essas que vocês andam escrevendo?

— Pois é, cara, eu e a Ali estamos curiosos. — Lee completou, em concordância.

Eu estava, depois de muito tempo, sentada na mesa da Grifinória para tomar café. Os burburinhos estavam bastante altos, já haviam se passado dois dias desde o baile e vários casais haviam se formado desde então, incluindo Fred e Angelina.

— Não interessa. — Fred respondeu de forma grossa e eu arregalei os olhos olhando para George, mas o meu outro melhor amigo estava no mundo da lua, ou apenas não se importava.

— Eu vou descobrir uma hora, sabe? — Arqueei as sobrancelhas, tentando persuadi-lo a falar alguma coisa, mas meu amigo balançou os ombros, voltando a comer. — Caramba, eu já disse que odeio você hoje?

— Não. — Fred disse, seco, e eu olhei dessa vez para Lee, que achava tudo engraçado, mas estava tão curioso quanto eu para saber o que estava acontecendo.

— Tudo bem, nada de gracinhas por hoje, entendi! — Falei para o ruivo, revirando os olhos e levantando os braços em rendição. O silêncio se instalou entre nós e eu passei a terminar o meu café da manhã, eu teria algumas aulas depois e sabia que não podia perdê-las.

Então, eu senti um arrepio na espinha e meus olhos arregalaram levemente. Ao olhar para cima, como habitualmente, vi as corujas entrando com a correspondência.

O que eu não esperava era que, entre elas, estava Athena, uma coruja negra com olhos extremamente amarelos, e a sua pata direita estava com uma carta amarrada. Ela era nada mais nada menos do que pertencente à família .

Ela pousou ali, na minha frente.

— Olá Atheninha. — Falei gentilmente para a coruja, evitando transparecer nervosismo. Passei as mãos sobre as suas penas e dei um morango que havia em um dos pratos dali. Ela mordiscou e engoliu de uma vez, tomando o cuidado para não machucar meus dedos. — Pronto, você já recebeu o seu petisquinho, agora me deixa ver a carta.

A coruja obedientemente levantou a pata, indicando que eu desamarrasse o fio que prendia a correspondência. Eu o fiz e observei quem era o remetente, mas suspirei insatisfeita ao ler o nome de minha vó.

“De Anne para P. ”.

— Você pode ir descansar, meu amor. — Falei carinhosamente para Athena, que ainda esperava uma segunda ordem. — Vá, eu não vou mandar uma resposta.

Athena voou e bicou a ponta do meu nariz suavemente, como uma forma de carinho, e logo foi embora, indo provavelmente para o corujal que Hogwarts tinha.

Meus amigos me olharam e eu logo percebi a falta de expressão e frieza que se instalava em mim, suspirei e passei a mão pelo rosto, eu sabia que receber cartas de minha avó não era coisa boa. Pelo menos, não para mim.

— Eu preciso ir, meninos. — Dei um sorriso suave, que durou pouco pela minha falta de animação. — Vejo vocês depois.

Observei os três assentirem e me retirei da mesa da Grifinória.

...


Todos os limites haviam sido ultrapassados.

Eu não deveria me enturmar com grifinórios.

Era a decepção da família.

Nunca seria curandeira, porque ninguém permitiria, e eu iria me casar assim que conseguisse um pretendente.

Se eu não havia entrado para o Torneio Tribruxo, aquilo só podia significar que eu não era boa o suficiente.

Minha mãe estava indo passar as férias em casa.

Essas foram as palavras que a carta da minha avó trazia em seu conteúdo, e eu senti que iria morrer de forma sufocante quando passei a chorar no banheiro feminino do primeiro andar. Eu sabia que ninguém me veria ali, por isso, decidi que era melhor ficar sozinha enquanto meus pensamentos me sufocavam.

— Tadinha! — Murta começou a falar com a sua voz extremamente fina. — Algum menino zombou de você, foi?

— N-não. — Suspirei e passei os dedos sobre o meu rosto molhado.

Eu não queria voltar para casa, eu não queria ver a minha mãe, e nem queria estar ali.

— Sabe, eu morri… — Murta começou, mas eu não escutei o que ela falava, era como se a sua voz entrasse abafada em meus ouvidos, o espelho em minha frente parecia estranho.

Eu parecia estranha. Como se a que estava ali, não fosse de fato eu.
Minha respiração passou a ser irregular.

Eu sabia, durante a minha infância, sobre os supremacistas, sabia que, um dia, minha família faria com que eu me casasse com um sangue-puro, que eu iria ter os planos contados. E eu jurei, por muito tempo, de forma ambiciosa, que eu iria ser um orgulho para a minha família, não iria decepcioná-los, não iria tomar decisões erradas.

A realidade presente era o contrário e eu era, sem dúvidas, uma decepção, pelo menos para aqueles que me viram crescer.
Passei a mão pelo rosto, limpei as lágrimas e, a passos lentos em direção a saída, pensei no que o Sr. , ou melhor, Sr. Meia-noite, diria, se visse o que eu estava fazendo.

Será que ele se decepcionaria?

De fato, eu sabia que o homem que eu mais amava no mundo também me amava incondicionalmente. Mas… Orgulho? Orgulho não é amor.

Não conseguia esquecer o modo como tudo ocorreu, ele sempre foi o meu ponto preferido da família, ele sempre foi a pessoa mais admirável possível.

Desde a sua morte, toda família se perdeu e eu me perdi, em confusão e caos, que agora me faziam questionar se, entre as pessoas que me faziam feliz, e as pessoas que me criaram, qual eu deveria seguir e prezar.

Entre os meus melhores amigos, as pessoas que se tornaram a minha família afetiva e todas aquelas pessoas que passaram a vida me criando, qual eu deveria amar mais?

O que você diria, vovô?

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18 de fevereiro de 1984 - Residência dos

— Vovô! — Eu corria e meus braços se abriam conforme eu me aproximava de uma figura, que reconheci de longe. Eu estava voltando da França após ter acompanhado a minha mãe em sua viagem de negócios. Por mais demorado que fosse, voltar para casa era, sem dúvidas, satisfatório.

Senti braços me envolverem calorosamente quando me aproximei, o cheiro de uma colônia amadeirada inundando as minhas narinas, e um sorriso se abrindo em meu próprio rosto.

— Vovô, eu fui para a França, sabe, lá é muito bonito, eu vi patinhos em uma lagoa, eles eram lindos! — Comecei a tagarelar e vi o homem idoso que havia me envolvido em seus braços sorrir. — Só faltava você lá, sabe, talvez você pudesse ir de senhor meia-noite!

O homem riu.

— Mas eu estou muito velho para estas coisas, a coluna do vovô dói em longas viagens…

— Bobagem! Você é, sem dúvidas, o melhor bruxo que eu conheço! Como a sua coluna pode doer?

Observei o meu avô soltar uma risada mais alta, como se o que eu havia dito fosse algo muito engraçado, mas eu estava falando sério, então, fiquei o encarando com uma expressão confusa.

— Olha só, eu prometo que, quando eu puder, nós vamos viajar todos juntos, está bem? — Ele prometeu. — Agora vá tomar um banho, você precisa estar confortável após esta longa viagem.

— Tudo bem, mas depois podemos jogar xadrez? — Perguntei, com os olhos brilhando em expectativa. — Você prometeu que iria terminar de me ensinar!

— Certo, mas depois do banho. — Assentiu, me soltando do aperto.

Sorri e obedeci o que o homem me pediu. Minha família, pelo menos naquela época, parecia perfeita e eu não me sentia sozinha.

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— Vocês são meio malucos. — Brinquei, dando um sorrisinho ao ver a pegadinha que os gêmeos e Lee planejavam. — Não sei como somos amigos.

Eu estava na sala comunal da Grifinória e, por mais triste que eu estivesse, não conseguia ficar sem meus amigos. Afinal, quem tinha os gêmeos Weasley e Lee Jordan como melhores amigos não conseguia ficar sem sorrir.

Era difícil, depois de todos aqueles anos, deixá-los de lado.

Se eu queria ser o orgulho da família, esse era o primeiro passo a dar: terminar a minha amizade com eles.

Só que eu não queria fazer isso, o trio de amigos eram, sem dúvida alguma, as pessoas mais importantes para mim dentro de Hogwarts.

— Ei, vocês lembram do primeiro dia? — Comentou George, sua expressão estava bastante engraçada. — Eu achei a uma esquisitona.

— Cala a boca. — Falei, fingindo mágoa, mas, por mais que fosse fingimento, meu coração estava pesado, eu jamais poderia deixar pessoas tão incríveis para trás.

— Você estava usando vestido e nós estávamos no inverno, Ali. — Lee comentou, então riu. — Acho que foi por isso que nos damos tão bem.

— Claro, você é um esquisitão também. — Fred brincou.

— Olha quem fala! — Defendi Lee. — Vocês dois tinham cortes de cabelos de tigela.

George e Fred riram.

Suspirei, podia lembrar do meu primeiro dia em Hogwarts como nunca. Jamais esqueceria. O dia primeiro de setembro não só era uma data de volta às aulas, mas também marcava uma data de aniversário de amizades incríveis, que se iniciaram dentro de um trem.

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1 de setembro de 1988 - Expresso de Hogwarts

A cabine estava com três pessoas. Lee Jordan, Fred e George Weasley. Os dois ruivos pareciam bastante animados e logo passaram a conversar com o garoto de dreads, que estava sentado a minha frente.

— E você? Gosta de quadribol? — Fred perguntou para mim e eu assenti.

— Sim, gosto bastante, pena que os testes vão ser só para os alunos do segundo ano, acho que eu daria uma boa artilheira ou batedora. — Comentei, minha voz sempre no mesmo tom, sem animação, sem expressão.

Assim como vovó havia ensinado.

— Batedora? — Os gêmeos se entreolharam, animados, e logo falaram sobre quererem ser também, eu achei engraçado.

A nossa conversa fluiu naturalmente, eu podia me sentir animada ao ver o trio.

— E vocês tem quantos irmãos? — Lee perguntou, após dizer que era filho único.

— Sou filha única também. — Murmurei.

Os ruivos então se entreolharam e deram sorrisos idênticos, os quais eu não sabia identificar se eram maliciosos ou divertidos.

— Nós temos cinco. — Fred então respondeu e eu arregalei os olhos.

— O-o quê?! Cinco?! — Os dois riram da minha expressão surpresa. — Caramba, sua mãe precisa de bastante paciência. — Franzi o cenho. — Eu mesma sou xingada diariamente e sou só uma.

Lee achou graça e concordou. Nossa amizade começou em um trem e não acabou pela seleção de casas.

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Ri ao pensar em como nós éramos infantis, mas, de repente, eu senti o aperto em meu peito aumentar e meu riso…

...se transformou em choro.

— Ei! — Fred falou, achando graça. — Não sabia que você era do tipo sentimental.

— Tudo bem? — George perguntou, calmamente, enquanto eu escondia meu rosto entre as mãos. Senti os braços dele me acalmarem.

Lee riu com Fred, os dois não entendiam o que se passava por trás de todas aquelas lágrimas. A verdade é que havia chegado ao ponto de nem eu mesma entender. Mas era simples, tão claro quanto água: eu não podia abandonar as pessoas que me acolheram naqueles anos todos. Porra, eles eram os meus melhores amigos e essa explosão interna não tinha nenhum valor, o que a minha mãe me fazia passar era injusto, e eu já não queria continuar.

— Olha. — Murmurei, limpando as lágrimas. — Eu…

Soltei tudo o que se passava na minha cabeça, soltei cada palavra da carta que estava amassada no fundo do meu bolso e fui abraçada de forma descontraída por três garotos por quem eu tinha uma afeição imensa.

Eu estava em casa e sabia que não podia ir embora.


Continua...



Nota da autora: Espero que tenham gostado! A fic vai ficar mais animada, prometo de dedinho. Comentem o que acharam e tudo mais :)

Nota da beta: Só a para se envolver nessas confusões e acabar indo com o Harry para o baile. Ainda bem que o George salvou ela hahahah e coitada da menina, só sofre com a família. Ansiosa por mais dessa história ;)



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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