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Última atualização: 23/09/2021

Prólogo

Monte Carlo, Mônaco. 2012

O calor que fazia em Mônaco naquele domingo era incrivelmente irritante, principalmente porque odiava os dias de sol escaldante. Seu irmão mais velho diria que é por causa do seu mal humor constante de adolescente e a vontade de ser diferente de todo mundo, mas se você perguntasse a ela diria que sol em excesso deixava as pessoas à vontade demais. E ficar à vontade demais não era saudável, principalmente se ela quisesse levar aquele sonho à diante.
Com algum esforço seu pai tinha conseguido levá-la até o circuito histórico e famoso de Monte Carlo, tinha sido um fim de semana incrível cheios de conversas, passeios pelo paddock e momentos de pai e filha. Durante os treinos classificatórios Michael Schumacher tinha perdido a pole position por conta de uma colisão evitável, sendo assim, Mark Webber ia largar em primeiro e tinha visto tudo tão de perto que era como se ela fosse correr naquele domingo. A emoção das pessoas, o clima de competição que estava no ar e poder ver os pilotos tão de perto era tudo o que ela queria para sua vida. Seus olhos brilhavam cada vez que um carro passava por ela, seu coração batia mais acelerado a cada segundo que se aproximava da largada.
Aquele final de semana estava sendo um sonho, melhor que isso só se ela estivesse dentro de um daqueles carros, sentindo sua respiração acelerar dento do cockpit, o som do motor invadir seus ouvidos e a adrenalina que ela sentia cada vez que estava dentro de um carro. Era um sonho um dia chegar até a categoria principal, e sabia muito bem, era a única menina que disputava os campeonatos de kart. É verdade que ela já tinha ganhado alguns, a maioria nos últimos dois anos. Ia começar as competições a participar de campeonatos europeus maiores em 2013, estava empolgada com essa oportunidade, principalmente com a expectativa de começar a trilhar seu caminho rumo ao seu sonho.
Mas, por enquanto, só podia imaginar e sonhar com o seu futuro. Futuro que nem ao menos sabia se ia se concretizar. A competitividade no esporte era gigantesca, nem sempre o melhor conseguia uma vaga na categoria principal e dar tudo de si não era garantia de nada. sabia de todos os poréns, mas estar em Mônaco em um dia de corrida depois de ter andado por todo o paddock sentindo o cheiro de borracha, ouvindo de perto o som dos motores dos carros mais rápidos do mundo era como se todo o seu corpo se ativasse. A adrenalina era tudo o que sentia naquele momento.
— Está se divertindo, filha? – O pai de perguntou e mesmo que já soubesse da resposta queria ver o sorriso aberto da filha antes da largada.
mal conseguia se concentrar em qualquer conversa naquele momento. Os dois assistiam a corrida junto a milhares de torcedores em uma arquibancada completamente cheia e animada.
— Muito - sorriu com seu rosto inteiro. Aliás, sempre foi assim. Quando a garota sorria seus olhos se fechavam, as covinhas em sua bochecha ficavam evidentes. — É o melhor fim de semana da minha vida. - Completou.
— Por enquanto – disse com um sorriso e continuou —, um dia ainda vou te ver naquele pódio. - O pai da menina disse com um sorriso no rosto como se profetizasse.
Logo a corrida começou e já nas primeiras voltas o caos foi instalado. Pastor Maldonado e Romain Grosjean se envolveram em um acidente. O carro de Schumacher ficou imprensado. Um verdadeiro caos, o safity car ficou na pista por quatro voltas, mas logo houve a relargada, dessa vez sem muito tumulto. Mônaco não era um circuito de muitas surpresas, na verdade poderia ser um pouco monótono para quem não entendia o valor histórico do circuito. Se fosse ser bem sincera diria que Mônaco simbolizava todo o glamour, história e personalidade do automobilismo então sim, mesmo com poucas chances de surpresas e ultrapassagens aquele era a sua pista favorita.
Tim — o pai da jovem piloto tentava entender o que estava acontecendo ali, não conseguia perceber quem estava em primeiro e quem era o último, só sabia que aqueles carros faziam muito barulho e que era um esporte que sua filha adorava. Quando corria ele sempre era o pai que não entendia nada, aquele que ficava perdido no paddock tentando entender de estratégias, tempos e os nomes dados para cada engrenagem do kart que desandava a falar ao fim de cada treino ou competição. Queria se sentir mais presente na vida da filha, queria entender mais sobre o esporte para poder incentivar mais. Por isso quando o GP de Mônaco acabou com a vitória do australiano Mark Webber, Tim também comemorou com a filha mesmo que nem soubesse quem o piloto era. Mas aquele fim de semana era dela, ele sabia que era.

Todos os restaurantes de Mônaco estavam lotados, era impossível entrar em algum sem uma reserva. E é claro que Tim não tinha pensado nisso, e é claro que estava considerando levar para o McDonald's mais próximo do hotel. O que Tim não esperava era encontrar seu amigo de longa data Jean-Jaques Gasly o francês que sempre encontrava nos campeonatos em que a filha participava e que entendia absolutamente tudo sobre automobilismo. O patriarca da família Gasly era campeão em diversas categorias do kart e sua esposa também. Diversas vezes Jean e Evelyn passavam metade da corrida explicando regras básicas do esporte para Tim Walsh. Por isso não foi uma surpresa quando a família francesa os convidou para jantar.
— Como você está grande, menina. — Evelyn disse com um tom carinhoso direcionado à .
Estavam todos esperando para poder entrar no restaurante conversando amenidades como se fosse uma atividade comum. A garota estava um pouco sem graça, principalmente por se sentir totalmente deslocada naquele lugar, mas era inevitável sentir-se confortável ao lado de Evelyn, ela era sempre muito carinhosa e paciente com a garota.
— Realmente faz algum tempo que não nos vemos. – Respondeu, polida, com um sorriso no rosto.
detestava situações sociais em que tivesse de usar toda a educação que seus pais lhe deram. Como se sentar, qual talher usar, as palavras certas para dizer, o sorriso sempre no rosto. Ela simplesmente não tinha esse dom da etiqueta social por mais que sua mãe sempre tenha sido exigente e estrita quando se tratava de comportamento social. Mas ela sabia muito bem como se misturar, as mães a amavam, e ela fazia amizade com todas, diferente de adolescentes da idade dela, sua avó costumava dizer que ela tinha uma "alma antiga", mas aquela era só uma expressão para substituir "perdedora pra cacete".
— Soube que você vai começar a disputar campeonatos maiores agora. — Evelyn continuou, estreitando os olhos para a garota.
— Sim, creio que nos veremos mais, vou disputar mais vezes contra o Pierre. — Deu um sorriso sem graça, trocando o peso da perna esquerda para a direita.
Pierre Gasly era um dos filhos de Evelyn e Jean-Jaques Gasly. O menino seguia o passo dos pais com primor, sempre se destacava nos campeonatos que disputava, era alguns poucos anos mais velho do que e já estava conquistando seu espaço. , no entanto, não o conhecia tão bem assim, talvez pela dificuldade que tinha em entender e falar francês ou por simplesmente não saber se misturar com pessoas da idade dela.
— Tenho certeza que sim. — Evelyn respondeu em um tom baixo quase como se fosse uma confissão, o que fez rir. — Espero também que sua mãe possa nos acompanhar.
Mesmo sabendo que aquela era uma situação extremamente improvável a jovem simplesmente acenou com a cabeça e sorriu como se fosse uma confirmação. Liana Walsh nunca iria a corridas, nem se a filha estivesse disputando um campeonato mundial. Liana não acreditava que teria algum sucesso em um esporte extremamente masculino e com tão pouca classe e ainda mantinha a esperança que aquele hobbie da filha passasse rápido e ela se encontrasse logo.
Logo já estavam dentro do luxoso restaurante monegasco em uma mesa repleta de pais e pilotos jovens, parecia uma convenção anual dos dramas paternos e da euforia jovem motorizada. Seu pai e Jacques conversavam animados, Evelyn tinha engatado um papo entusiasmado com outras mães de piloto como se aquele fosse o domingo internacional do encontro das mães preocupadas.
A parte mais jovem daquele jantar decidiu por livre e espontânea vontade se dispersar dos mais velhos assim que terminaram de comer. O restaurante tinha um grande espaço externo sem mesas, mas com uma vista maravilhosa da cidade. Dava até para ouvir o mar se você se esforçasse direito. os seguiu depois de Evelyn insistir muito, ela não se sentia bem ou a vontade, mas também não sabia dizer não. Pierre, que ainda não tinha trocado uma palavra com , também estava entretido com os próprios amigos, até que um deles decidiu incluir a garota na conversa. Talvez por pena, talvez por curiosidade.
— Você também corre? – O garoto de cabelos lisos castanhos e olhos bem claros que tinha quase certeza de que se chamava Charles perguntou, depois de algum tempo a encarando.
se assustou quando percebeu que ele se direcionava a ela. Suas bochechas coraram um pouco ao notar que todos os meninos também a olhavam esperando uma resposta. Sentiu seu sorriso se abrir de uma maneira estranha e talvez mecânica e antes que sua insegurança tomasse conta, respondeu:
— Sim — respondeu, comedida, ela já estava acostumada com a curiosidade dos meninos. Ela até gostava dessa curiosidade, a destacava, ela se sentia diferente. Não seria a vida inteira assim, mas ali com 14 anos e com um menino bonito querendo saber sobre ela e dividindo os mesmos interesses não tinha como não sentir especial de alguma forma.
— Nunca te vi disputar as competições internacionais. — Ele disse com algum desdém. De certa forma sentia-se intimidado pela garota de um jeito que não entendia.
— Vai ver em breve — suspirou, ajeitando a franja que caía em seus olhos. — Provavelmente ano que vem. Tenho tido resultados muito bons no kart. — Retrucou rapidamente como se tivesse um ponto para provar.
— Espero que tenha sorte.
— Obrigada, você também. — Ela devolveu no mesmo tom, encarando os olhos do garoto de forma sagaz.
O silêncio se instalou por alguns longos segundos. Os dois queriam continuar a conversa mesmo que fosse para falar qualquer coisa. Ao lado os outros meninos conversavam sobre as espectativas para a nova temporada de kart. A maioria deles se conheciam desde muito novos, era inegável a intimidade que tinham, Charles e Pierre eram muito próximos, talvez por falarem o mesmo idioma e terem ainda alguma dificuldade com o inglês, no mesmo grupo ainda tinha George e Alex. Os dois últimos conhecia bem, eles também corriam nos campeonatos ingleses, eram extremamente focados e talentosos.
Por alguns segundos, desejou ter um grupo como aquele nas categorias que disputava, queria ter meninas que também corressem para poder compartilhar o quão difícil era correr quando estava com cólica, ou como era horrível encarar o semblante de pena das pessoas quando a viam toda paramentada, mas era igualmente maravilhoso encarar o olhar de raiva dos pilotos que duvidaram dela quando subia no lugar mais alto do pódio.
Aos poucos o grupo foi se dispersando, George e Alex foram embora depois da sobremesa, Pierre muito a contragosto teve de socializar com seus pais que apresentavam amigos importantes que seriam muito úteis no futuro.
Logo, na varanda barulhenta e com Monte Carlo toda iluminada naquela noite, sobraram só e Charles. A garota sabia que seu pai estava se divertindo pela primeira vez naquele fim de semana, estava cercado de adultos conversando sobre política, ações de bolsa de valores e todos aqueles assuntos que fingia que ouvia quando ele começava a falar, por isso decidiu continuar sentada naquele banco encarando o horizonte maravilhoso de Monte Carlo.
— Seu pai não entende nada de automobilismo? — o garoto de cabelos castanhos totalmente liso e olhos claros perguntou, desacreditado, depois que a inglesa pontuou como sua família lidava com o fato dela ter decidido uma carreira tão diferente da deles.
— Não, ele mal gosta de dirigir na verdade. — deu de ombros e tirou os cabelos que insistiam em cair em seus olhos.
— Mas ele te acompanha nas competições? — Perguntou, confuso.
— Eu gosto de pensar que ele faz isso por mim, para estar mais perto, sabe? - a garota sorriu, encarando os olhos claros do jovem piloto.
Charles já tinha ouvido os rumores que ela disputaria competições europeias no ano seguinte, Alex e George não paravam de falar sobre isso, era engraçado imaginar uma menina competindo com eles. Se tivesse pesquisado talvez soubesse do quanto ela era rápida, esforçada e muito, mais muito, estudiosa. Mas ele não tinha pesquisado, Charles sentia até um pouco de pena de , ela parecia tão frágil para aquele mundo.
— É um jeito de pensar — Charles se aproximou mais dela.
Era ridículo pensar o quão interessante aquela garota estava se tornando, ou poderiam simplesmente ser seus hormônios adolescentes falando.
— Eu acho que é o melhor jeito de pensar, porque quando eu correr em Mônaco e ganhar um pódio, eu vou saber que vou ter meu pai me aplaudindo. — disse com tanta convicção que Charles realmente acreditou em suas palavras.
— Você é bem confiante, . — Retrucou, com um sorriso no rosto.
— Acho que faz parte, não consigo imaginar o Schumacher com medo de correr, ou o Senna com alguma dúvida de que um dia seria campeão. — Deu de ombros e voltou a encarar o mar a sua frente.
— Justo – levantou as sobrancelhas e lançou um sorriso simpático à garota.
Monte Carlo não era uma cidade silenciosa, principalmente em fim de semana de corrida. A música tocava alta naquele restaurante de frente para o mar, as pessoas falavam alto e o tilintar dos talheres era constante, se parassem para prestar atenção ainda conseguiriam pescar uma ou outra conversa. Mas a atmosfera entre e Charles parecia impenetrável desde que ficaram sozinhos na varanda daquele restaurante super caro.
— Por que está me olhando assim? — Perguntou , depois do que pareceu uma eternidade de silêncio entre os dois.
— Assim como? — Charles desviou o olhar, sem graça.
— Assim, como se quisesse me falar alguma coisa. - por sua vez sustentou o olhar no garoto a ponto de perceber as pintinhas discretas perto do olho esquerdo de Charles.
— Você é muito bonita. - Sussurrou Charles, não conseguindo encarar a garota.
Se ele tivesse olhado talvez perceberia a bochecha da inglesa corando violentamente. Nenhum garoto tinha dito aquilo para ela. Nunca.
Com a coragem que só Monte Carlo proporcionou se aproximou mais de Charles. E com uma súbita coragem encostou seus lábios nos lábios do garoto. E ali aconteceu o seu primeiro beijo, com a cidade mágica de testemunha e umas tantas pessoas que nem ligavam para os dois adolescentes. O coração de batia violentamente rápido e o de Charles não estava tão diferente. Ele mal podia acreditar na coragem daquela menina, mas seu inconsciente agradecia por isso, ele nunca teria essa coragem.

MOTORGP
Walsh é a promessa que pode não se cumprir?

De Clara Sinelli

Walsh (21) apareceu como uma luz natural e o ar refrescante do esporte que sempre pareceu priorizar pessoas iguais.
Quando a jovem inglesa surgiu na fórmula 2 não foi difícil prever que ela ganharia em seu primeiro ano, pois logo na primeira corrida conseguiu a proeza de subir no andar mais alto do pódio. não só ganhou o campeonato, como ganhou com muitos pontos de vantagem do segundo colocado conseguindo assim uma vaga na categoria mais disputada do esporte a motor dois anos depois.
Mesmo com bons resultados foi surpresa para todo mundo quando a equipe irlandesa McDonnell Racing Team decidiu apresentar Walsh como sua piloto no inverno de 2018 o que chocou boa parte da imprensa especializada que não acreditava em seu talento ou capacidade de disputar em pé de igualdade com os melhores pilotos do mundo. A menina de cabelos perfeitos, maquiagem sempre alinhada parecia destoar do ambiente de borracha queimada e carros velozes, chegando até a ser comparada com sua mãe Liana Walsh — famosa apresentadora da televisão inglesa.
Mas mesmo com as desconfianças pela primeira vez na história tivemos uma mulher disputando um ano inteiro pela categoria de elite do motorsport e correndo bem. Nem seus críticos e muito os fãs mais desacreditados puderam negar que primeiro ano de foi especial, tivemos uma representante jovem que conseguiu pódios muito importantes na temporada, desbancado inclusive nomes consagrados do esporte. O talento de Walsh e o carro certo a fizeram sem muita dificuldade em 2019 conquistar pódios e pontos importantes na temporada o que a fez terminar em quarto lugar no campeonato mundial de pilotos em seu primeiro ano na categoria.
trouxe consigo pouca experiência em entrevistas, mas um carisma inegável, conseguiu o marketing certo para a equipe McDonnell Racing Team que desde 2015 decidiu apostar em talentos femininos em todos os setores da equipe. E deu certo!
2020, no entanto, foi um completo fracasso para a inglesa. Resultados pavorosos na pista começaram a aparecer com frequência, e ela não podia culpar o carro, prova disso foi o segundo lugar de seu companheiro de equipe - Zachary Hawk - que contrastou com o seu frustrante nono lugar no campeonato.
A queda de rendimento de Walsh era visível, a menina que se tornou sucesso nas redes sociais e uma espécie de símbolo feminino em um esporte machista tinha muito a provar ainda. E talvez seja hora de se preocupar menos com cabelos e delineados perfeitos e focar mais na pista.
Capacidade e habilidade Walsh tem de sobra, mas a jovem inglesa ainda tem muito o que provar. Com diversas inconstâncias e a arrogância típica de quem sempre ganhou tudo o que disputou, tem a obrigação de confirmar que não estavam errados a seu respeito.
Para quem é fã da Fórmula 1 é bom ver uma mulher disputar pelo terceiro ano consecutivo pela categoria mais rápida do automobilismo. No entanto, 2021 pode ser um ano decisivo para , que precisa provar na pista que consegue competir com os maiores do mundo.



Capítulo 1 – Sem Palhaço

Oh, eu consigo com uma ajudinha dos meus amigos
Eu vou longe com uma ajudinha dos meus amigos
Tentarei com uma ajudinha dos meus amigos

(With A Little Help with from My Friends – The Beatles)

Ímola, Itália.

Quinta-feira era o último dia que tinha para ela, pelo menos quinta à noite, pois já tinha feito suas obrigações com os patrocinadores e com o marketing da equipe. Era também a semana do seu aniversário não que tivesse muitos motivos para comemorar, seu pai não tinha conseguido tirar a semana de folga do trabalho e sua mãe não se importava tanto com a data ou com ela, seu irmão tinha uma prova muito importante na faculdade e a previsão só não era pior, pois Noah tinha conseguido o final de semana para passar com ela. Era melhor do que nada, sabia que não conseguiria dar toda atenção ao namorado, pois no dia seguinte teria os treinos livres, sábado a qualificação e domingo seria a corrida. Na melhor das hipóteses ela iria bem na corrida e se sentiria minimamente confortável de procurar um bom restaurante para comemorar seus 22 anos em pleno domingo.
Mas ela tinha de pensar no agora, naquele momento estava parada em frente ao espelho do imenso quarto de hotel em Ímola analisando se seu vestido não estava curto demais, o salto alto demais ou a maquiagem exagerada demais. Lia diria que não, ela diria que não, Tom diria que não, qualquer pessoa razoavelmente sã diria que não, mas as fotos que já imaginava que vazariam diriam que sim. Principalmente por ela estar cometendo o crime de se divertir com os poucos amigos que tinha conseguido nesses anos de automobilismo para comemorar de maneira decente e antecipada o seu aniversario. Já conseguia até prever Clara Sinelli a pedra italiana no seu sapato Louboutin com a manchete “ Walsh esbanja glamour em bares italianos, mas decepciona na pista”, sentia seus olhos arderem só de imaginar. não tinha tanto tempo para se martirizar, não demorou para seu celular começar a apitar indicando que estava relativamente atrasada. E ela odiava estar atrasada. Pegou sua bolsa que estava jogada de qualquer jeito na cama, desbloqueou seu celular e sorriu antes de sair do quarto quando leu a mensagem de Lia a apressando.
O elevador não demorou para chegar no térreo e logo a inglesa pôde avistar seus amigos, todos perfeitamente arrumados e sorridentes. Lia tinha escolhido um vestido florido que combinava impecavelmente com sua pele naturalmente bronzeada e sua maquiagem marcada. Tom, por outro lado, tinha apostado nas cores claras, destacando sua pele negra e brilhante. Faltava Zach e, se ela bem conhecia o piloto, não o veria pelas próximas duas ou três horas, além de pontualidade não ser o forte do italiano por algum motivo ele sempre chegava no meio das festas, mesmo as dele.
— Você está tão linda que eu poderia morrer agora. — Tom exclamou assim que viu sair do elevador.
De fato ela estava muito bonita com o vestido que valorizava sua cintura e colo marcando as partes certas do corpo e com o tecido mais soltos no quadril. ficava muito bem de preto, era definitivamente sua cor, diferentemente de outras pessoas a cor dava mais vida para a garota. Que estava especialmente espetacular aquela noite com o sorriso aberto e os acessórios certos.
— Só diz isso porque hoje é como se fosse o meu dia. — Mordeu os lábios em um sorriso sem graça. — E também não quer que eu acorde de ressaca amanhã.
— Pode apostar que sim, meu bem. — Entrelaçou os braços com os de e caminharam até a porta acompanhados por Lia.
— Não seja tão duro com ela, uns drinks não fazem mal a ninguém. — Lia falou em um tom tranquilo, tentando se equilibrar em um salto alto demais enquanto tentava acompanhar o passo de Tom.
— Isso é porque você não tem de lidar com o mal humor dela logo cedo e a pouca vontade de treinar que ela sente todos os dias. — Alegou Tom, como se fosse óbvio.
conheceu Tom quando ainda era adolescente e procurava um preparador físico que a auxiliasse com as novas e muitas exigências que começavam a aparecer cada vez que progredia no esporte. Tom, ainda recém-formado, apareceu em sua vida no momento certo por indicação de um amigo de seu pai, foi amor à primeira vista. adorou o jeito despojado e criativo dos treinos de Tom e o preparador físico adorou o humor meio torto e reclamão da inglesa. Não se largaram desde então, o rapaz acompanhou cada progresso, cada conquista de de perto e foi recíproco, um crescia com o outro, Tom se especializando cada vez mais em preparação esportiva de alto rendimento e realizando seus sonhos no esporte a motor.
— Nossa, eu ainda estou aqui, por Deus. — revirou os olhos e agradeceu mentalmente quando seu carro apareceu no meio fio trazido pelo funcionário do hotel.
Iria dirigindo, é claro. tinha duas certezas em sua vida:
1. Ela só era ela mesma atrás de um volante.
2. Não se põe açúcar no chá em hipótese alguma.
Então não havia muita discussão quando o assunto era guiar um carro, exceto é claro quando bebia demais, mas nunca bebia demais. Nem nas comemorações de pódios, campeonatos e muito menos aniversários. O carro que ficaria à disposição da piloto naquele fim de semana logo apareceu e os três entraram rapidamente. O modelo era um Bentley Bentayaga Hybrid, para os leigos era um carro preto muito luxoso e extremamente confortável de duzentos mil euros circulando pela cidade de Ímola. Passavam por ruas estreitas normais para cidades de Bolonha e por catedrais que habitavam aquele lugar por mais tempo do que podiam calcular.
Tom estava no banco do carona e dominando o rádio assim como todas as vezes que os três dividiam um carro. Lia e apostariam o rim direito que que o preparador físico escolheria alguma música antiga da Madonna, nunca tinham conhecido alguém tão obcecado pela cantora.
— Alguém conseguiu falar com o Zach hoje? — perguntou Lia com o falso tom de desinteresse.
Era engraçado como as pessoas podem ser previsíveis quando você convivia muito tempo com elas. Até mesmo Lia que era dona da beleza e confiança podia ser previsível quando se tratava de Zachary Hawk, por mais que tentasse soar profissional ao lado do piloto sua voz falhava com muita frequência cada vez que estavam perto um do outro. Era até um pouco ridículo e também um milagre como Amelia Campos, a brasileira e chefe do grupo de comunicações da McDonnell Racing Team ainda não tivesse percebido o descontrole de Lia ao lado de Zach.
— Por que o interesse, Lia? — perguntou, arqueando a sobrancelha direita e com um sorrisinho esperto no rosto.
— Nenhum interesse. — Arregalou os olhos grandes e castanhos — Apenas curiosidade. — Voltou seus olhos para o celular e não viu o sorriso debochado que e Tom trocaram.
— Você sabe como ele é, se marcamos às 19h é capaz que ele chegue lá pelas 21h. — Concluiu Tom.
Lia e não estavam erradas de fato, Tom colocou Crazy For You da Madonna para tocar e o breve caminho até o restaurante terminou nos últimos acordes da música. Realmente as pessoas eram previsíveis.
estacionou o carro próximo ao meio fio e sem pestanejar entregou sua chave para o valet sorridente, os três caminharam até a entrada do restaurante com cara de despojado, mas que facilmente arrancaria 15 euros em uma água. Uma atendente simpática os levou até a mesa bem localizada na esplanada com iluminação baixa, mas suficiente do local. A noite em Ímola estava fresca, mas não fria, nada que uma ou duas taças de vinho tinto não resolvessem.
— Eu adorei o lugar — disse assim que sentaram e puderam dar uma boa vista de olhos no lugar.
— Eu também, olha essa vista. — Tom disse, com o olhar encantado. O inglês estava acostumado com sua cidade natal sempre cinzenta, e cada chance que tinha de apreciar o céu aberto era momentos que aproveitava de verdade, talvez fosse a melhor coisa de viajar o mundo inteiro.
Ímola era uma das cidades preferidas de , o clima era sempre agradável, as atrações da cidade variavam da alegria das festas de rua, para o aconchego de um bar desconhecido no centro, era a mistura perfeita do que uma cidade deveria ser. Era sempre muito cheia de turistas, talvez fosse a parte ruim, mas a vista, a comida e o sotaque valiam a pena. A vista privilegiada que tinham naquele momento era mais do que poderia pedir, aquela época do ano o sol se punha mais tarde então o céu alaranjado contrastando com as luzes dos postes que começavam a ser ligadas era simplesmente um espetáculo previsível de uma cidade grande, e a inglesa adorava.
— Sim, vocês escolheram bem o restaurante, quase que perdoo os bonitos pelo meu último aniversário. — Disse, gesticulando exageradamente, mas com o sorriso de covinhas no rosto ao se lembrar do seu último aniversário.
— Você nunca vai esquecer essa história? — Lia revirou os olhos, divertida.
— Na verdade não, às vezes acordo no meio da noite com medo de aparecer um palhaço bizarro embaixo da minha cama. — sorriu, debochada, deixando seu olhar passear pelo local.
— Você é tão dramática que me comove, – Tom revirou os olhos.
O garçom logo apareceu com o pedido dos três, uma sangria tinta para Lia, um mojito para Tom e uma água saborizada para – qual é, ela estava dirigindo, afinal.
— Eu? Dramática? — Dramatizou — Vocês contrataram um palhaço para cantar parabéns para mim no meio de um paddock cheio de gente. Foi a maior vergonha da minha vida. E eu sou dramática?
— Em minha defesa a Amelia achou que você ia adorar e nós mal nos conhecíamos na época. — Lia deu de ombros, se desculpando. — Ela tinha lido em algum lugar que você gostava de mágica e palhaços.
— É claro que sim, eu adoro exposições públicas envolvendo palhaços. — Retrucou, irônica. — Quem não gostaria de receber uma surpresa dessas no meio do trabalho?
— Garanto que esse ano não vai ter nada parecido. — Lia garantiu, ajeitando sua franja. — Talvez um bolo sim, mas é só para postarmos nas mídias sociais da equipe. — Garantiu.
A noite seguiu animada em meio a sangria, mojitos, águas com sabores e as últimas fofocas que rolavam nos bastidores da equipe, Jack Russel, o herdeiro da equipe irlandesa tinha sido flagrado aos beijos com a mulher de um ex piloto. Um verdadeiro caos que aparentemente Lia sabia todos os detalhes, pois teve de ajudar a equipe de comunicação a abafar a fofoca toda que se instalou.
estava mesmo se divertindo com aqueles dois, mesmo sem ter bebido uma única gota de álcool, era bom ouvir e falar de assuntos que não envolviam velocidade ou rendimento, pensou que deveria sair mais vezes, já tinha quase 22 anos e agia como se um peso muito maior convivesse em seus ombros constantemente, o que de fato era verdade se considerasse que o trabalho de muita gente dependia do seu, no entanto, não parecia tão errado se divertir com seus amigos uma vez ou outra. O maxilar de estava dolorido de tanto rir com os amigos que faziam imitações duvidosas das pessoas enquanto compartilhavam as histórias.
Tom já estava para lá de bagdá quando Zach chegou com aqueles olhos azuis brilhantes e o sorriso largo que era característico do rapaz. Claro, ele estava acompanhado, uma morena de sorriso contido e olhos bem escuros, mas talvez outros atributos se destacavam para o piloto. A mesma morena que tinha viajado com a equipe na etapa anterior e não tinha deixado Lia dormir por conta do barulho excessivo que ecoava pelas paredes não tão a prova de som do hotel. Lia cerrou os olhos quando os viu, trancou o maxilar de tal jeito que ficou com medo de precisar procurar um ortodentista às nove da noite.
— Parabéns, bella — Zach se aproximou da mesa, com uma animação de quem já tinha bebido algumas doses extras de álcool.
se levantou e abraçou o companheiro de equipe que a pegou pelos braços e a apertou com entusiasmo. Podia sentir o olhar da morena queimando suas costas. Coitada, pensou a inglesa, não conhecia a morena, mas queria sentar alguns minutos com ela e explicar o golpe que Zachary era. A cara de bom moço, o sorriso fácil e os olhos azuis enganavam fácil.
— Muito obrigada, Hawk — sorriu sem graça quando se separou do abraço do italiano. Cumprimentou a morena com um sorriso e o casal recém-chegado logo se aconchegou ao lado dos amigos.
O clima que antes estava ameno entre risadas e fofocas que rolavam pelo paddock ficou um pouco pesado, talvez por Lia se sentir um pouco ciumenta e Tom ter detestado a falta de sensibilidade de Zach em levar uma completa desconhecida para uma comemoração que ela não tinha sido convidada. E ? Bem, era adepta de vários macetes que foram desenvolvidos com o tempo, como: seu humor autodepreciativo, a dificuldade em confrontar pessoas e uma autoestima que variava entre ela ser a melhor do mundo e desacreditar de todos os seus feitos.
O trauma do aniversário passado reacendeu sua mente quando no meio de uma conversa entre a importância de fazer uma skincare elaborada antes de dormir e a não utilização de produtos de qualidade duvidosa Lia e a acompanhante de Zach começaram a se exaltar. Na realidade o monólogo entre Lia e a morena, que por acaso se chamava Beatriz, parecia bem efervescente, percebeu que Tom queria pontuar sua opinião, mas logo era cortado pelas duas, Zach mal prestava atenção e a sua diversão naquele dia era sua bebida colorida com duas doses de vodka. Então usando seu macete de autopreservação decidiu que fugir seria uma boa escolha.
— Eu… é… eu vou ao banheiro, volto já. — Anunciou para espectadores que não estavam prestando atenção nela.
Caminhou a passos rápidos até o banheiro feminino e quis rir sozinha. O quão ridícula era sua vida? Não, ela não reclamava da sua profissão — por mais que não estivesse no melhor momento de sua carreira — nem reclamava de seus amigos, mas situações constrangedoras e aleatórias lhe perseguiam sem sombra de dúvidas. Pelo menos esse ano não tem um palhaço, pensou.
Enquanto retocava sua maquiagem, que por sinal estava muito bem feita e alinhada, tinha de ser honesta consigo, se a noite estava prestes a ficar bizarra pela falta de noção de Zach ao menos o seu delineado estava deslumbrante. Sorriu mais uma vez para si mesma no espelho se admirando por breves segundos e saiu do banheiro. Enquanto guardava o batom vermelho em sua pequena bolsa esbarrou com alguém. Um alguém de olhos verdes e cabelos bem melhores do que cinco anos atrás. Alguém que ela pouco falava no paddock ou durante qualquer momento de reunião entre pilotos. Charles. Charles Leclerc. O piloto monegasco que sempre a deixava nervosa por algum motivo irracional e até adolescente.
— Me desculpe. — Arriscou, um pouco sem graça. Era ridículo, ela sabia, mas era inevitável.
— Sem problemas. – O monegasco respondeu, com um sorriso tímido no rosto. Era inevitável para ele também, não que percebesse.
O piloto estava especialmente bonito naquela noite com seus cabelos que desafiavam a etiqueta e estavam rebeldes, um terno preto que delineava bem seu corpo e um sorriso bem bonito. Particularmente o preferia mais despojado, com os tênis habituais, jeans e moletom, talvez até a bandana inseparável, mas não diria isso, aliás nunca disse, pois, dizer era admitir que passava um tempo considerável de sua vida reparando em como Charles se vestia, andava e falava o que não era a completa verdade. Por exemplo, naquele momento estava parada em frente ao monegasco o encarando de um jeito que poderia ser até considerado esquisito se ele não estivesse fazendo a mesma coisa.
— Bom, eu vou indo antes que a pré comemoração do meu aniversário vire uma guerra… —mordeu os lábios e fez uma careta debochada.
— Espero que sem palhaços dessa vez. — Riu da cara da inglesa quando ela fechou os olhos em lamentação.
Charles lembrava muito bem do último aniversário da inglesa, nunca tinha visto um show tão bizarro nos seus poucos anos como piloto. O palhaço contratado pela equipe de mídia tinha um ar assustador, vestido todo de vermelho, com detalhes em preto, e a maquiagem não era colorida, era quase melancólica. Foi um “parabéns” triste cheio de balões e um bolo tão estranho que as pessoas que assistiam sentiram pena de , o que era bizarro se considerasse que era o dia do aniversário da menina.
— Eu também espero — concordou e encerrou a pequena conversa. Se despediu do piloto com um sorriso tímido.
caminhou até sua mesa, com o sorriso ainda no rosto. Seu celular, no entanto, lembrou de apitar, escandalosamente se era permitido dizer. Abriu a bolsa no meio do caminho e desbloqueou o telefone quando viu que era uma nova mensagem de Noah.

Noah
Online

, precisamos conversar. Chego no seu hotel em dez minutos.





Capítulo 2 – Tradição de Aniversário

Depois de tantos desenganos
Nós nos abandonamos
Como tantos casais

(Depois – Marisa Monte)

Ímola, Itália.

Tradições trazem em si o conceito de carregar fatos, lendas, histórias e costumes que são levados de geração para geração. O poder de uma tradição é tão forte em uma sociedade que repetimos costumes milenares sem nem saber o porquê. Tradições são tão reais e simbólicas que permanecem e não são questionadas. Aniversários desagradáveis eram uma tradição na vida de . Poderia elencar sem precisar pensar muito o top 3 de aniversários desagradáveis:

1. Com 12 anos ficou menstruada pela primeira vez no dia do seu aniversario. No meio de uma importante prova de kart. Na frente de todos os seus colegas pilotos.
2. Com 15 anos descobriu que o garoto que estava a fim também ficava com sua melhor amiga.
3. Com 20 anos passou a noite no hospital depois de comer uma pizza estragada na sua festa de aniversário surpresa.

Todo aniversário tinha um ponto no mínimo incomodo no dia. Sua terapeuta a perguntaria se não estava aumentando fatos desagradáveis e colocando numa perspectiva completamente aumentada. diria que não, que era realmente uma tradição. E como tradições não podem ser quebradas, lá estava ela dentro de um quarto de hotel com seu vestido espetacular e olhando para parede enquanto seu namorado tentava encontrar as palavras certas para dizer o que ela já sabia. Mas não descartaria a hipótese de Noah ter voado dois dias antes para passar mais tempo com ela, ou quem sabe as coisas tenham ficado difíceis na faculdade e em casa e ele precisasse passar um tempo longe de Londres. Eram hipóteses credíveis e aceitáveis se seus pessimismos não levassem todos aqueles meses separados e com pouca saudade em consideração.
Quinze minutos antes, quando o encontrou no lobby do hotel, tentou parecer suave e decidida, mas aquela pose não enganava nem ela mesma. Sua ansiedade teimava em criar os piores cenários possíveis.
— Olha só quem chegou mais cedo. — disse com o tom de voz suave ao notar que estava frente a frente ao namorado.
— Me desculpe por atrapalhar a sua saída com seus amigos, eu… eu não sabia. — Noah estava nervoso. Era perceptível até para quem não o conhecia.
Seu sorriso estava pequeno, seus dedos se esfregavam na palma da mão direita e seu olhar indicava um pouco de pena.
— Não tem problema — se apressou em dizer.
Noah concordou rapidamente. Não era preciso ser um gênio para perceber que tinha algo muito estranho entre Noah e . O casal que desperdiçava química aos quatro ventos e que tinha uma intimidade que sobrava estava completamente imerso em seus pensamentos enquanto o silêncio os fazia companhia. Dois meses atrás os dois estariam comentando a última série que viram ou o quão bom tinha sido o último disco do Harry Styles, no entanto, aquele momento era preenchido por um silêncio escandaloso.
— Você viajou de Londres para Itália dois dias antes do combinado — começou, se levantando da cama depois de não aguentar mais encarar a parede do quarto que por acaso estava com a pontinha do papel de parede descolando.
Se arrependeu por breves segundos quando notou o quão bagunçado seu quarto estava, realmente ela não era modelo algum de organização o completo oposto de Noah que era quase a Marie Kondo. Mas Noah nem notou o pijama jogado no chão ou a mala mal desfeita no meio do quarto, só se sentou na cama e encarou a namorada que estava em pé e quase estática em sua frente.
— Eu não sei como te dizer isso, — desviou o olhar e respirou fundo.
Era nítido o nervosismo do rapaz. Não estava com seu habitual sorriso afetuoso ou com o olhar de quem sentia saudade. Sua voz não estava firme e seu tom de voz parecia incerto.
—Me dizer o que, Noah? — disse com a voz já embargada.
sempre fora muito sensível e por mais que aparentasse ser confiante demais quando estava trabalhando ou respondendo perguntas ácidas de jornalistas, na sua vida pessoal a inglesa sempre se permitia ser mais real sem medo de ser ela mesma.
— Eu vou dizer isso o mais rápido possível. — Mirou os olhos claros da garota e continuou — Eu não consigo mais continuar te namorando, não dá. — Disparou.
— Eu não entendo, o que aconteceu? — respirou fundo, tentando controlar seu coração que batia acelerado.
— Eu simplesmente não consigo mais. — Bufou — As coisas não são como eram antes e eu entendo isso, eu entendo que você tem um compromisso com a sua carreira e que não sou prioridade na sua vida. — Sorriu, triste — Eu não consigo te ter pela metade, , eu preciso te dividir o tempo todo com um milhão de pessoas e eu não consigo mais.
— Noah, você está terminando comigo? — perguntou o óbvio, ainda desacreditada.
Os olhos verdes e costumeiramente claros de Noah estavam mais escuros, sua postura sempre confiante estava curvada e reticente. Era a decisão mais difícil que tinha tomado nos últimos anos de sua vida, talvez a primeira decisão difícil em muito tempo visto que a vida do rapaz era muito organizada e perfeitamente planejada. Com doze anos ele já sabia exatamente o que queria fazer da vida e os passos que precisaria seguir para chegar lá, privilégios de vir de uma família que nunca precisou se preocupar com dinheiro. Conhecer com certeza foi o ponto fora da sua curva, apesar de amar a garota ela não se encaixava nos moldes de um relacionamento perfeito para ele, a inglesa viajava demais, estava sempre cercada de jornalistas, era ácida, nunca estava nos eventos que importavam para ele.
Naquele momento era uma necessidade se sentir egoísta, era a vontade ter seu espaço. Conhecera ainda muito jovem e acompanhou cada vitória da garota, mas ter alguém tão maior do que você ao lado poderia ser sufocante. E Noah se sentia sufocado naquele momento.
— Sim. —Respondeu. Lágrimas grossas rolavam por seu rosto.
— E agora? — perguntou que tentava controlar suas lágrimas. Seus olhos ardiam por causa da tentativa.
— Agora que vou torcer por você de longe, . — O garoto levantou e parou em frente da agora ex namorada.
não respondeu nada, apenas aceitou o abraço que conhecia muito bem. Não conseguia assimilar ainda que não teria mais aquele conforto que estava acostumada. Noah era essa pessoa que trazia a sensação de paz quando ela precisava fugir das suas difíceis responsabilidades, era seu ponto de equilíbrio. Era alguém que ela amava. Por isso foi tão difícil segurar o choro quando ele finalmente decidiu extravasar, seus olhos estavam queimando e o buraco no seu peito só parecia ficar cada vez maior. Era verdade que os últimos meses tinham sido difíceis, quase não se viam pessoalmente e o relacionamento acontecia por videochamadas, mas não era justo dizer que não tentava. A garota tentava e muito fazer aquele relacionamento acontecer mesmo com os fusos malucos, ou com a necessidade quase obsessiva que tinha em ser cada vez melhor. Tentava se enfiar em vestidos extravagantes demais e com joias brilhantes demais quando tinha que o acompanhar em um coquetel de celebração sem razão alguma de amigos da faculdade dele. Não era falta de tentativa quando ela se fazia presente em jantares em que tinha que ser a namorada perfeita que nunca falava de suas vitórias porque aquele era o momento de Noah de brilhar. Era injusto pensar que não se esforçava para encaixar na vida de Noah.
— Não é justo, Noah… — disse tão baixo que o rapaz quase não ouviu — Você não me ama mais?
— Eu te amo — o rapaz desfez o abraço e disse, incerto — Mas não consigo mais te ter de longe, você ao menos se lembra da última vez que saímos com nossos amigos?
— Eu sei que estou vivendo um momento complicado, mas é também uma chance em um milhão, você sabe disso, não sabe? — devolveu a pergunta em uma tentativa de se explicar.
Noah a abraçou de novo, ele sabia que entrariam em uma espiral de acusações em pouco tempo, e de alguma forma iriam se machucar mais. Ele sentia que precisava ir embora, tanto sabia que tinha comprado uma passagem de volta para aquele mesmo dia.
— Eu preciso ir — Noah se soltou dos braços de e sinalizou a porta.
Ele não ficaria mais tempo que o necessário, se conhecia muito bem para saber que mais cinco minutos e diria que aquilo era um mal-entendido. Mas não era, por mais que não tivesse certeza de sua escolha, sentia que aquilo era o certo, bastava se lembrar da sua festa de aniversário que não compareceu porque estava correndo na Bélgica, ou as vezes em que ela desistiu de sair com seus amigos porque estava cansada demais por conta dos milhares de compromissos, ou os fins de semana que simplesmente não existia tempo para um namorado. Noah deixou com lágrimas nos olhos e saiu depois de beijar sua testa de maneira fraterna.
se jogou na cama e se sentiu completamente inútil, dessa vez o seu inferno astral estava se superando. Mal conseguia pensar em algo pior para acontecer no seu aniversário, mas não brincaria com a persistência e a criatividade do universo. Encarou o teto do quarto de hotel enquanto tentava não pensar em nada, mesmo sabendo que seria impossível. Na sua cabeça se passava os treinos livres do dia seguinte, a qualificação de sábado e a corrida de domingo. Ela não podia fracassar de novo, era só a segunda corrida do ano, mas já sentia a cobrança cair sob seus ombros.
Com esses pensamentos rondando sua cabeça entendeu Noah, era realmente difícil competir com sua paixão pelo automobilismo, ele nem deveria tentar. Não era justo com ela. não se sentia egoísta, sempre deixou claro que sua carreira sempre estaria em primeiro lugar e depois de três anos de namoro ter suas decisões de vida sendo jogadas na sua cara não era tão fácil para quem via de fora. sentia-se insuficiente e incapaz, afinal como seus colegas conseguiam fazer essa dinâmica funcionar e ela não?

Xx

Tom estava eufórico na manhã daquela sexta-feira. Tinha bebido doses consideráveis de sangria na noite anterior, principalmente quando tinha decidido sumir da sua própria comemoração e o deixado com o show de horrores que foi Lia discutindo política grega com a atual ficante de Zach com o objetivo de impressioná-lo.
— Bom dia, minha flor. — Tom cumprimentou assim que a viu chegar na academia improvisada pela equipe.
Sexta-feira era dia de treinos mais leves e mais concentrados na boa performance, ou seja, alongamentos, exercícios para o pescoço e postura eram o foco. Sexta-feira também era um dia que Tom, enquanto preparador físico, passava o dia criando estratégias para melhorar a performance da sua atleta. No entanto, ao notar chegar logo de manhã não foi difícil perceber os olhos fundos da amiga e a voz baixa quando ela o cumprimentou. Era palpável o seu desânimo.
— O que aconteceu? Por que está com essa cara? — Tom apertou os olhos e levantou a sobrancelha esquerda.
— Noah terminou comigo. — Suspirou e disse, dando os ombros — Ele viajou de Londres até Ímola só para terminar comigo. — Respondeu, sem expressão alguma.
Tinha sido uma noite horrível, só queria suar todo aquele sentimento ruim e esquecer que tinha uma vida pessoal. Afinal, sua obsessão em ser a melhor tinha que servir para alguma coisa. Jogar de cabeça no trabalho nunca tinha sido tão necessário quanto naquele momento. Talvez se jogasse tudo para debaixo do tapete doesse menos.
— Como assim? Do nada? — A voz de Tom aumentou algumas oitavas. Ele estava claramente incrédulo.
Ele já tinha ouvido algumas tantas vezes o quão perfeito era Noah, por mais que não tivesse a mesma opinião nas poucas vezes em que se encontraram. O rapaz loiro de cabelos sempre impecáveis não fazia questão de ser muito simpático com ninguém, mas ele parecia gostar realmente de , pelo menos era o que parecia toda vez que a acompanhava nos fins de semana com a feição totalmente entediada e a certeza de que estava odiando estar ali. Tinha ouvido poucas vezes nos últimos meses o nome do rapaz, era bem verdade, mas não os imaginava terminando de uma hora para outra ainda mais tão perto do aniversário de , que tipo de monstro ele era?
— Do nada, ele simplesmente disse que não aguentava mais me dividir com a minha carreira. — Soltou o ar de uma vez e se aproximou da esteira. Correr uns bons quilômetros faria bem para sua saúde mental e física.
— Não faz sentido — analisou Tom.
— Não faz, mas agora você vai fazer o seu trabalho direitinho e me deixar pronta para vencer a corrida no domingo, eu estou cansada de as coisas só darem errado na minha vida. — Lamentou, soltando um suspiro cansado.
tinha o dom para o drama. Aquele era um daqueles momentos, dramatizaria o término do namoro como se nenhum aspecto da sua vida estivesse dando certo e elevaria à máxima potencia até conseguir um fôlego extra para conseguir o seu objetivo. Era um daqueles momentos que descarregaria sua frustração amorosa nas pistas. Afinal, é como dizem: “sorte no jogo, azar no amor”.
— Mas é isso que vamos fazer, minha flor — Tom disse em um tom quase paterno — Eu sinto de verdade que esse vai ser o seu fim de semana, prevejo até um pódio. — Sorriu, enquanto pegava o elástico.
— Que assim seja, eu preciso de um pódio, nem que seja para jogar na cara daquela jornalista ressentida com a vida. — Disse entredentes, enquanto se ajeitava na maca de exercícios.
Clara Sinelli, a jornalista ressentida com a vida, alimentava os instintos assassinos de . A jornalista italiana tinha um prazer oculto em colocar lentes de aumento em cada erro que a jovem piloto cometia na fórmula 1, cada ultrapassagem mal calculada, cada largada mal feita, cada posição cedida lá estava Clara para enfatizar seu erro no jornal. não achava que era a melhor piloto do grid, mas seu ego era pisoteado em pedacinhos cada vez que lia uma matéria assinada pela italiana.
— Você precisa de um pódio por você — Tom arqueou as sobrancelhas e sorriu de lado.
bufou e não disse mais nada. Só obedeceu Tom que fazia os alongamentos certeiros que evitavam dores horríveis no pescoço e na coluna pós corrida. Como tinha imaginado suar um pouco tirou um pouco do seu mal humor e cansaço. Não pensou em mais nada também, pelo menos até sair da improvisada academia e andar até sua equipe, tendo de parar para uma ou duas entrevistas no caminho. Tentou colocar o seu melhor sorriso e evitar assuntos desagradáveis. Lia tinha sido uma boa media trainer, a ensinando técnicas de entrevista e como sempre ser agradável, mesmo em seus piores dias. E aquele definitivamente não era um bom dia.
Continuou andando e já podia visualizar o motorhome da McDonnell Racing, as cores laranja e verde já se destacavam sob a luz do sol que já brilhava irritantemente naquela manhã. não podia evitar se impressionar toda vez que entrava naquele lugar, era um sonho fazer parte de uma equipe tão familiar e com tanta história no automobilismo. Enquanto admirava o espaço interior do motorhome perfeitamente decorado para ser funcional sentiu alguém se aproximar.
— Por que saiu tão cedo da sua comemoração ontem? — Zach perguntou sem rodeios, enquanto caminhavam lado a lado até a sala de descanso.
— Meu namorado viajou de Londres para cá para terminar comigo — deu um sorriso irônico — eu meio que precisei encontrá-lo. — respondeu, irônica.
Não era comum contar tanto da sua vida pessoal, mas era Zach, alguém que ela conhecia desde a adolescência e que compartilharam momentos demais para que ela se fizesse a linha misteriosa. Já tinha chorado vezes demais no ombro do amigo nesses anos. No entanto, aquele era o primeiro estágio do término. A ironia que estaria presente pelos próximos dias sempre que a alguém perguntasse sobre Noah, era sua maneira de lidar e tentar não passar os próximos dias chorando. Os primeiros dias eram os piores e todo mundo sabia disso.
— Sinto muito — Zach disse, sincero. — Não sei como é terminar um namoro, mas deve ser horrível.
— É sim, mas vai passar assim que eu ganhar de você no domingo. — deu um sorriso esperto e piscou o olho esquerdo.
A sexta-feira de treinos estava só começando.



Capítulo 3 – P1 Italiano

Pressão, me pressionando
Pressionando você,
Ninguém pede isso.

(Under Pressure – Queen)
Ímola, Itália.

O cheiro de gasolina e o barulho dos motores funcionando misturado com a torcida entusiasmada fazia o estômago de qualquer apaixonado por automobilismo se revirar. O paddock estava abarrotado de pessoas andando de um lado para o outro, mesmo àquela hora da manhã. Charles passou sua credencial pelas catracas de entrada e cumprimentou algumas pessoas antes de chegar à garagem da equipe, muito em breve começariam as classificatórias e todos pareciam agitados demais.
— Bom dia, flor do dia. — Allegra cumprimentou, com um sorriso largo no rosto.
Allegra era a assessora de imprensa designada para o piloto desde o momento em que chegou na equipe italiana. A napolitana era extrovertida demais e se destacava com facilidade no meio dos assessores mais sérios e tradicionais, era fácil localizá-la nas coletivas de imprensa, era sempre a loira com acessórios demais no cabelo e tênis escandalosamente coloridos que não combinavam em nada com o uniforme vermelho da scuderia. Naquele dia eram verdes.
— Que animação é essa? — Charles perguntou, franzindo o cenho, estranhando o repentino comportamento da assessora.
Ajeitou suas coisas em sua sala de descanso e foi acompanhado pela animada Allegra.
— Depois de amanhã vou ter alguns dias livres para viver a vida que eu finjo que ainda tenho desde que comecei a trabalhar na equipe. — Deu de ombros, como se sua afirmação fizesse sentido, o que foi acompanhado por um riso baixo de Charles.
— Ainda tem a corrida de amanhã, e pode dar tudo errado e precisarmos passar essa semana em Maranello e… — Começou o discurso com o objetivo de provocar a italiana.
— Nem começa, você vai ganhar essa corrida, o Carlos vai chegar na frente também e eu vou ter meus dias de folga mais do que merecidos. — Alterou o tom de voz deixando-a mais aguda — E durante esses dias você vai se comportar e não vou precisar apagar incêndio nenhum, que tal?
— Eu sabia que você me considerava o melhor piloto da equipe e que secretamente me imagina ganhando sempre. — Piscou um olho e lançou um sorriso esperto para a garota.
— Vai se ferrar! — disparou, já saindo da saleta. Arrumou a sua inseparável prancheta junto ao corpo e antes de fechar a porta disse: — Pequena entrevista com a SportingV do Brasil hoje, repórter nova, não deve fazer perguntas muito difíceis.
Charles sorriu quando Allegra fechou a porta e tentou acalmar seus nervos. Não era muito adepto de meditações ou concentrações guiadas, mas naquele momento em que sentia o peso da responsabilidade em seus ombros queria algum tipo de alento. O ano anterior tinha sido um fracasso em termos de desempenho e pontuações, e por mais que a equipe o tivesse em alta conta, ainda assim sentia-se pressionado. Tentava aprender com os erros que tinha cometido, porém de um jeito ou outro estava cansado de cometer erros, a ansiedade em mostrar que era bom era grande demais. Em uma tentativa de acalmar o frio na barriga que sentia pegou o telefone e discou o número que já sabia de cor.
Um, dois, três, quatro toques depois e pode escutar a voz calma e serena da pessoa que o acalmava. O início do seu relacionamento com Georgia tinha sido conturbado e talvez até tenha começado um pouco torto, mas atualmente as coisas estavam funcionando muito bem.
Bonjour, mon amour, como está? — atendeu com a voz um pouco ofegante.
— Um pouco nervoso com as classificatórias. — Admitiu, jogando a cabeça para trás.
— Você está preparado, não é como se não soubesse o que fazer. — Concluiu.
Do outro lado da linha Charles conseguia ouvir pincéis caindo e chiados constantes enquanto a namorada falava. Ela estava trabalhando, decerto. Não entendia muito de arte, mas sabia que era necessária alguma concentração e foco tudo o que ele parecia não ter naquele momento.
— Você tem razão — suspirou — Bem, tenho de ir, só liguei para ouvir sua voz. — Finalizou.
— Boa sorte, mon amour. Vai dar tudo certo. — E desligou. Por alguns segundos se sentiu egoísta, queria que Georgia o desse mais atenção, talvez a querendo por perto para poder conversar e desabafar a angústias que não falava com ninguém.
Ouviu algumas batidas na porta e sabia que era hora de sair da caverna e colocar o sorriso confiante no rosto e fazer àquilo que tinha nascido para fazer: correr. Seu engenheiro principal o chamou e juntos começaram a repassar detalhes importantes das mudanças feitas, seu estrategista o acompanhava deixando claro seus planos para aquele circuito pouco previsível e com muitas chances de ultrapassagens. O circuito da Ímola era um grande conhecido de todas as equipes por carregar tanta história e tradição. Mas para a Ferrari tinha uma importância especial, pois além de ser na Itália o autódromo ainda levava o nome do fundador da marca.
— Quero que preste atenção nas curvas 2, 3 e 4, são mais fechadas e com possibilidade de grande trânsito. — O estrategista disse com muita certeza, enquanto indicava os equipamentos que Charles utilizaria.
Na pista os carros na McDonnell Racing já faziam suas primeiras tentativas de tempo mais rápido. O carro de número de 90 corria com voltas mais rápidas do que seu companheiro de equipe, talvez tivesse um aniversário melhor, afinal de contas. Charles não tinha muito tempo para pensar nisso, colocou a balaclava, fechou o macacão, respirou fundo e entrou no cockpit. A adrenalina dos treinos classificatórios era bem menor do que um dia de corrida, mas mesmo assim a responsabilidade era enorme. O carro 16 saiu da garagem da Ferrari pronto para começar a primeira tentativa do dia.
Em dez segundos o carro já atingia a velocidade máxima e passava pela curva 5, diferente dos anos anteriores a potência do carro vermelho era melhor em retas, tudo parecia correr bem demais. Não havia muitos carros na pista ainda, era uma estratégia segura tentar voltas mais rápidas nos primeiros instantes, afinal, os pneus precisavam aquecer e por mais conhecido que aquele asfalto fosse era melhor saber que havia tempo suficiente.
— Está indo muito bem, Charles, mas pode acelerar sem medo depois da curva 15. — Paolo, o engenheiro chefe, disse pelo rádio.
— Tudo bem. — respondeu Charles.
O carro estava com um bom desenvolvimento, não foi inesperado quando chegou com tempo necessário para passar para o Q2, se desse sorte chegaria ao Q3 com boas chances de pole position.

A classificação para a corrida terminaria em dois minutos, Charles, Carlos, Hamilton e Zach disputavam o melhor tempo. Os carros da Ferrari saíram em vantagem no último minuto da corrida, deixando Hamilton e Zach para trás no Grid. A garagem da Ferrari era só gritos de felicidade, P1 e P2 era o melhor que podiam imaginar para aquele fim de semana.
— Parabéns, Charles, P1. — O engenheiro confirmou.
O piloto levou o carro até o Grid e o posicionou em frente ao número 1. Largaria em primeiro e poderia dormir bem melhor naquele dia. Mas ainda teria de enfrentar algumas entrevistas antes de poder ir descansar. Depois da pequena euforia da comemoração, Allegra chegou com sua prancheta colorida indicando com quais repórteres o piloto falaria, todos estavam empoleirados no pitlane com o objetivo de receber as mesmas respostas de sempre. Charles se direcionou para os repórteres seguindo Allegra que ia na frente e dava instruções básicas para repórteres afoitos.
— Boa tarde, Charles como se sente sendo p1 em Barcelona, parece importante para a largada. — O sotaque francês do repórter se destacava em meio a frase, não que Charles não o conhecesse, pois o paddock era uma pequena cidade do interior onde todos se conheciam.
— Sim, sabemos como a pista funciona, sem sombra de dúvidas é uma grande vantagem largar em primeiro. — respondeu, com um sorriso pequeno nos lábios.
Algumas perguntas depois Charles foi seguindo para outros jornalistas que estavam ali dispostos, televisão italiana, francesa, inglesa, uma combinação do mundo todo. Quando pensou que estava quase no fim uma repórter que ele nunca tinha visto antes o chamou. Sua roupa arrumada demais para os padrões jornalísticos, o vestido florido e o blazer amarelo se destacavam mesmo que ela não quisesse.
— Sente que a pole de hoje é um novo ponto de partida para a Ferrari, visto que o carro apresentou um desempenho infinitamente superior nas retas e estabilidade maior nas curvas? — a repórter perguntou, com um sorriso no rosto. Um sorriso confiante de que tinha feito uma boa pergunta.
— Na verdade sim, é a primeira pole do ano e o carro tem apresentado um bom desenvolvimento. — Charles respondeu, trocando o peso da perna direita para a perna esquerda um pouco impaciente.
Allegra acenou para a jornalista querendo que ela terminasse a entrevista, ainda tinha muita coisa para fazer antes que pudesse por fim poder descansar, fazer releases para a imprensa do mundo todo e como tinha sido um bom sábado não teria muitas páginas para digitar, tampouco explicações para dar, ou seja, havia grande possibilidade de chegar antes das oito no hotel, pedir um vinho e se tivesse de bom humor ainda assistir uma série qualquer.
— Muito obrigada pela atenção, Charles e boa sorte amanhã. — Finalizou a jornalista, desligando a câmera e abaixando o microfone.
— Obrigado. — Agradeceu Charles e seguiu seu caminho, não sem antes esbarrar em que parecia um pouco frustrada ao julgar seu semblante tristonho.
Não teve muito tempo para acompanhar o resultado de seus colegas, mas tinha a vaga lembrança de ter visto na oitava colocação quando viu o resumo da qualificatória. Qualquer pessoa que entendesse alguma coisa do esporte diria que aquela posição era horrível se fosse comparar com o quarto lugar conseguido por Zachary. Então ele entendia mais do que ninguém aquele semblante triste, principalmente ao saber que Clara Sinelli seria extremamente indelicada e faria as perguntas mais perspicazes e inadequadas para momentos de frustração.
caminhava em direção ao pit lane com Lia, a assessora da sua equipe. Lia falava alguma coisa para a piloto que a fazia revirar os olhos, era engraçado como a inglesa não conseguia esconder suas emoções, Charles imaginava que por esse motivo as entrevistas pós resultados ruins eram tão difíceis para ela. sorriu para Charles assim que percebeu que ele a encarava e seguiu caminhando até os jornalistas que a esperavam.
— Walsh, como consegue explicar a classificação de hoje? — ouviu a voz de Clara soar afiada demais, mas continuou andando.





Continua...



Nota da autora: Realmente esse não foi um bom pré-aniversário para a PP, pelo menos não teve palhaços dessa vez e sim um término para lidar. Do outro lado tem o Charles um pouco carente sentindo falta da namorada. Já estou ansiosa pelo próximo.




Nota da beta: Gente, ela tem mesmo motivos para odiar aniversário, e o namorado sabendo disso, ainda me faz isso, tadinhaaa! E ainda ter que lidar com a Clara pegando no pé dela, eita maré de azar kkkkk. E o Charles arrasandoooo, alguém tem que se dar bem kkkk!
Ansiosa pela continuação! 💜💜

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