O Peso da Coroa

Última atualização: 31/12/2021

#1 Diário da Eleanor

Nem toda escolha que fazemos é de fato o que queremos.
Eu precisei deixá-lo.
Eu tive que vê-lo partir.
Eu assumi responsabilidades cedo demais.
Era tudo ou nada. Meus pais se foram e deixaram tudo em minhas mãos.
Pegar ou largar?
Seguir em frente ou deixar tudo para trás?
Eu nunca assumi um compromisso que não pudesse cumprir e era por isso que hoje seria coroada.
Agora eu me tornaria a rainha e era meu dever proteger a todos.
Disse adeus para quem eu não gostaria, mas abracei outros que puderam ficar ao meu lado.
Eu não desistiria.
Eu não seria mais Eleanor, a princesa.
Agora eu sou Vossa Majestade, Eleanor, a Rainha de Atra.




Capítulo 1

Minha imagem refletia no espelho, meus cabelos acobreados estavam todos presos, os grampos agarrando-se no meu coro cabeludo, impedindo que um mísero fio sequer caísse. Minha roupa velha e rasgada me deixaria passar despercebida, assim como o pano que eu havia enrolado na cabeça, formando um capuz. Eu só precisava tomar cuidado, se evitasse a todos poderia ter pelo menos algum vislumbre da vida lá fora.
Eu já tinha feito isso, era só colocar um aspecto sujo na pele e no vestuário que as pessoas não dariam a mínima para mim, afinal, desde quando os outros se preocupam com alguém que parece uma desabrigada?
Enfiei o último grampo — o que agora seguraria o tecido em minha cabeça —, a base que usava em meu rosto me deixava mais morena e as sombras escuras, esquisita. No entanto, era a minha máscara, o meu ingresso para sair daqui.
Pousei a mão no coração, como se o simples ato fosse fazer com que as palpitações pudessem parar, mas não adiantava, o medo de ser pega e que minha mãe descobrisse latejava todas as vezes, independentemente da quantidade de fugas que eu repetisse. Abaixei a minha mão e, ainda trêmula, ergui-a até a maçaneta. Hesitei, porém, respirei fundo e lembrei-me do motivo que havia feito tudo isso em primeiro lugar.
Liberdade.
A única coisa que eu nunca poderia alcançar.
Abri a porta e passei pelo corredor escuro, um caminho que poucos tinham acesso e conheciam, apenas a realeza e soldados de alta patente. O local era estreito e fedia a mofo, mas era a única forma que eu conseguiria chegar ao lado de fora.
Quando criança, eu me perdia no meio dos túneis secretos. Uma vez minha mãe mobilizou todos os soldados do castelo para me encontrar, mas quem me achou foi o meu pai, eu estava em prantos e em pânico, não conseguia voltar e quanto mais eu tentava sair, mais perdida ficava. O choque me fez estagnar, não saía do lugar mesmo que meu pai me chamasse diversas vezes e me balançasse para sair desse transe. Quando viu que nada dava certo, ele apenas sentou-se ao meu lado, me puxou para seus braços e começou a cantar uma canção nos meus ouvidos, até que eu me acalmasse. Lembro com clareza de tudo o que se passou depois, ele me disse “, o medo existe para todos, no entanto, a capacidade de enfrentá-lo só depende de você”.
Não passou muito tempo e eu voltei aos túneis. Não fiz como das outras vezes, entrando sem rumo e direção. Apenas caminhei aos poucos, gravando e transcrevendo o caminho até que eu pudesse dominá-lo e me tornar maior do que o meu medo.
Era por isso que agora, embora ainda sentisse minhas mãos suando ou o frio percorrer a minha espinha, eu poderia caminhar por cada buraco escondido desse castelo, conhecendo cada saída, curva e trajeto.
Após cerca de meia hora, eu estava diante de uma pequena portinha no fundo do palácio, corri por meio dos arbustos, pausando e arfando em cada parada em que eu me escondia, esperando a passagem dos guardas. Outro ponto positivo de ser fugitiva, eu decorei cada horário, com os anos você acaba aprimorando as técnicas e sabe quando cada guarnição passa e os intervalos que eles fazem.
Como a última passagem era um túnel, a saída dava para o lado de fora do castelo, após correr até onde eu sabia não ter mais nenhum guarda, peguei o cavalo que havia selado mais cedo e escondido entre as árvores. Saltei sobre ele, o vento cortando a minha pele e minha boca ressecando com o frio, cavalguei por minutos afins até ouvir o doce som da melodia das canções, os risos ecoando pela floresta, os batuques dos tambores bombeando o meu sangue.
Desci um pouco antes de chegar na vila, amarrei o meu cavalo em um galho e puxei um pouco do pano para cobrir o meu rosto, andei pelas beiradas até entrar no meio das pessoas. Pelo canto do olho ia observando a festa, crianças, jovens e velhos pulando e saltando, outros tocando flautas, percussões e violões. A magia de tudo era intensa, meus dedos tamborilavam em minha coxa enquanto eu cantarolava baixinho as canções entoadas.
— Não fique aí parada, vamos? — uma criança me gritou, puxando a minha mão e me arrastando até uma das rodas cheia dos pequeninos que se formavam ali.
Gargalhei e acompanhei-a, girando e rodopiando com aquelas miniaturinhas de gente que não se importavam se eu parecia uma mendiga, apenas brincavam e riam, acolhendo-me no meio delas. Cantei até meus pulmões arderem, permiti que o suor escorresse em minhas costas e deixei a música me levar. Nesse momento, toda hesitação, medo e angústia se desfez. Era isso o que eu queria, a sensação de liberdade tomando conta do meu ser.
Nessas horas não existiam responsabilidades ou deveres, muito menos manual de comportamento ou rédeas para me restringir, eu apenas me jogava e deixava o meu próprio ritmo me guiar, permitindo que o engano de uma vida diferente me guiasse nem que fosse por pouco tempo.
Parei por alguns segundos, segurando o peito com uma mão e a outra me abanando, sentindo o efeito da quantidade de panos me cobrindo surtirem.
— Eu preciso de uma pausa — murmurei para a criança ao meu lado e sorri para ela.
Demorou apenas dois segundos para ela trocar de par e segurar a mão de outra pessoa, pulando e dançando da mesma forma. Sorri e me afastei, caminhando até a mesa de comidas e bebidas expostas na lateral da festa.
De tempos em tempos as aldeias marcavam seus festejos, reunindo todos para cantar, comer e beber, uma festa livre e dançante, diferente das que eu tinha no castelo, cheio de normas e formalidades.
Peguei um copo e derramei um pouco de água nele, precisava me refrescar e tudo o que eu menos precisava era tentar chegar escondido em casa alcoolizada. Virei-me para poder continuar assistindo a festa, mas assim que fiz o movimento, meu braço esbarrou em um corpo duro e o líquido derramou por toda a roupa da pessoa.
— Ei, você não presta atenção? — uma voz dura e raivosa rugiu contra mim.
Ergui os meus olhos, minha visão pairando no peitoral molhado de um homem bem afeiçoado. Subi mais um pouco até focar no rosto da pessoa que eu havia trombado, o vinco entre os olhos proeminentes e seus glóbulos azuis encarando-me diretamente.
Meu coração disparou e eu dei um passo em falso para trás, esbarrando na mesa e cambaleando até sentir a mão dele segurar o meu braço e me puxar, impedindo que eu tropeçasse.
Eu não conseguia parar de encará-lo. Com tantas pessoas para eu encontrar, por que justo ele estava aqui?
Na minha frente estava a quem eu mais odiava. Aliás, a segunda pessoa que eu mais odiava. , filho do governador Marcus , pupilo e queridinho de toda Lavarelli, principal comunidade da ilha de Artra e, em consequência, capital e local onde o castelo se localizava.
Mas por que ele estaria aqui neste vilarejo?
era o rapaz modelo, desde cedo havia ingressado na política e sempre esteve ao lado do seu pai nas campanhas. Apesar de receber muitos chamados para tentar a liderança de algumas vilas, boatos diziam que ele preferiu esperar um pouco mais para apoiar o seu pai na carreira e com isso poder aprender por mais tempo antes de assumir algum cargo de valor.
Por que eu sei disso?
Pelas inúmeras vezes que minha mãe havia me comparado com ele, mostrando-me como eu deveria ser e como eu não atendia às suas expectativas frustradas.
Eu não podia negar que era bom. Eu já havia assistido inúmeros dos seus discursos e, para alguém tão novo, ele conseguia hipnotizar o público com suas palavras eloquentes e invejáveis.
Em contrapartida, tanto ele como o seu pai aproveitavam de todas as brechas que conseguiam para criticar e desmoralizar a realeza, principalmente a mim, a princesa desafortunada.
Em épocas mais antigas, isso poderia ter levado a morte, no entanto, nos dias de hoje, tal punição já não existia. As pessoas tinham voz e opinião desde que não fossem ofensivos. Claro que, para mim, os seus discursos eram bem daí para pior, mas, ao que parece, para todos os demais, era "apenas" uma forma de mostrar os pontos negativos da administração atual e propor melhorias ao governo.
Desde então eu os odiava.
Acho que era a única coisa que minha mãe e eu concordávamos.
— Desculpa — respondi-o e desviei o olhar para o chão, dei um passo para o lado a fim de me desviar dele e fugir dali, mas ele me bloqueou, acompanhando-me e impedindo a minha passagem.
— Eu não conheço você? — inclinou a cabeça e franziu o cenho, não pude evitar que meus olhos pousassem nele de novo, no entanto, eu não poderia me deixar ludibriar pelo seu cabelo loiro sujo caído por sobre os olhos, ou a barba rala que cobria o seu rosto, e pior, nem mesmo pelos ombros largos atrelados ao impactante azul dos seus olhos.
Se tinha uma boa fama na política, dentre as mulheres, ela era a pior, o que só adicionava ainda mais aos fatores que me levavam a ficar longe dele, seja nas festas no castelo no qual era obrigada a ir ou nos eventos políticos em que eu era arrastada.
— Acredito que não. — Tentei dar mais um passo, contudo, novamente ele me acompanhou, a sobrancelha agora arqueada e uma das suas mãos em sua cintura.
— Tem certeza? Porque eu posso jurar que eu te conheço de algum lugar.
Minhas mãos começaram a suar, meus olhos se desviaram rapidamente dele e passaram de um lado para o outro, ainda que, ao redor, as pessoas pulassem e dançassem. Era como se eu não conseguisse escutar nada, apenas as batidas desesperadas do meu coração.
Pior do que a minha mãe descobrir sobre as minhas fugas, seria fazer essa descoberta pela boca do nosso pior inimigo. Saber que eu estava aqui seria um prato em cheio para Marcus e eu já poderia imaginar todo o tipo de piada que ele jogaria contra a minha pessoa.
— Eu preciso ir. — Apertei minhas mãos em punhos e dei um passo à frente, determinada a ultrapassá-lo ainda que ele tentasse me deter.
Ele deu um passo para trás, confuso, e deixou seus ombros caírem um pouco em uma postura mais relaxada, sua mão voou até o seu cabelo, jogando-o para trás, mas não impedindo que uma mecha caísse de volta na sua testa.
— Desculpe, acredito que eu tenha sido grosso com você no primeiro momento e talvez tenha te assustado. Foi a água. — Elevou um pouco o lábio em um sorriso e apontou para a camiseta molhada.
Meus olhos foram até o local apontado, mas logo desviei, virando-me para ele e analisando o seu sorriso fácil moldar o seu rosto. Se eu não o conhecesse, talvez pudesse acreditar na inocência e gentileza das suas palavras, contudo, era um articulador e se ele estava desconfiado de algo, era melhor que eu fosse embora já.
— Eu sou , e você? — ele me surpreendeu erguendo a mão e estendendo-a para mim.
Encarei-a sem saber muito bem o que fazer. Se eu saísse correndo agora, chamaria muita atenção e era tudo o que eu menos queria nesse instante. A outra opção era pensar rápido, me apresentar e torcer para que ele me deixasse em paz.
— Mellanie Strith. — Estendi vagarosamente a minha mão e toquei a dele, o suficiente para cumprimentá-lo e ir embora.
Assim que minha pele encontrou a dele e eu tentei puxar de volta, apertou seus dedos em volta e carregou a minha mão até a sua boca, depositando um lento beijo ali. Seus lábios estavam quentes, fato que eu não conseguia entender, pois a temperatura da noite estava mais gelada do que o habitual. Ele permaneceu ali por alguns segundos, até que eu balançasse a cabeça desconcertada e puxasse a minha mão contra o meu corpo, dando um passo em falso para trás.
Pela segunda vez na noite, segurou-me para que eu não caísse, só que dessa vez eu estava dentre os seus braços, tomada por um abraço, sua cabeça um palmo acima da minha, mas o seu rosto inclinadamente para baixo, a boca perto do meu ouvido.
— Prazer, Mellanie. Nunca conheci alguém com este nome, mas continuo pensando que seu rosto é estranhamente familiar — murmurou contra a minha orelha e meu corpo se empertigou em seus braços. Empurrei-o levemente até que eu conseguisse me desvencilhar e apenas a sua mão ainda segurava a minha. — Nós poderíamos dançar e nos conhecer mais, eu não conseguirei dormir enquanto essa dúvida continuar latejando em minha cabeça.
Aquele sorriso fácil surgiu em seus lábios novamente e a cabeça levemente arqueada me estudava enquanto eu não respondia.
— O senhor não vai querer dançar com alguém como eu — respondi da forma mais formal possível, deixando que minha mão escorregasse e criando uma barreira invisível entre nós.
— E por que não iria querer dançar com uma moça bonita como você? — Suas sobrancelhas franziram e ele deu um passo à frente.
estava intrigado e pelo visto não cessaria em seu interrogatório enquanto não se desse por satisfeito. Talvez o melhor que eu poderia fazer era aceitar o pedido, pelo menos enquanto dançássemos, não teria como me interrogar e, se eu tivesse sorte, eu poderia ao final me misturar na multidão e ir embora, já que a presença dele aqui havia estragado todos os meus planos de uma noite livre e divertida.
— Aceitarei o seu pedido só porque eu quero muito dançar, mas fique sabendo que seus elogios vazios não me afetam. — Segurei a barra do vestido e virei-me antes que pudesse ver a sua reação. Ele teria duas escolhas, me deixar em paz ou vir atrás de mim mesmo com a minha má resposta, e pelos passos que eu escutei, provavelmente ele havia escolhido a última opção.
Já que ele estava me importunando tanto, o mínimo que eu podia fazer era dar-lhe uma boa resposta, jamais que eu deixaria pensar que eu havia caído em um dos seus truques de sedução baratos.
Entrei na área onde as pessoas dançavam e virei-me, pronta para ver o garoto prodígio de Atra atrás de mim. Não consegui disfarçar o sorriso satisfatório em meu rosto, no entanto, pelo jeito, ele não se importava tanto também, porque sua boca continha uma leve inclinação e suas sobrancelhas se arquearam de uma maneira que indicava que ele havia entrado bem na “brincadeira”.
inclinou-se para mim em um cumprimento, uma mão pousada sobre o seu coração e a outra estendida para mim. A música que tocava agora era alegre e agitada, levei a minha mão para a dele e ambos nos posicionamos juntos com os demais e começamos os movimentos. As danças em grupo geralmente eram as mais divertidas, dançávamos em pares, mas continha saltos, giros e trocas de pares.
Demos um passo em salto para perto do outro, nossos rostos bem próximos por um segundo até girarmos e darmos um outro passo para o lado. As mãos para cima e depois para baixo, meio giro, um passo para a trás, outro meio giro voltando e de novo para frente. Erguemos as mãos e entrelaçamos os dedos levando-as para cima, depois trocamos de posição, de forma que nossos braços se cruzassem ainda com as mãos unidas, eu virada de costas para o seu peito, depois voltando para a posição original. Uma mão minha foi libertada e me rodopiou até que eu fosse parar com outro par e ele continuasse a dança com uma jovenzinha que estava ao seu lado.
Na hora de dar um passo para frente, a menininha deu um maior que o normal, quase trombando cara a cara com , que cambaleou para trás na tentativa de se afastar. Uma gargalhada saiu pela minha garganta e ele me olhou pelo canto do olho, observando-me rir. Logo ele recuperou a sua postura e piscou para mim no momento antes de estarmos de costas um para o outro. Meu sorriso caiu e uma carranca se formou em meu rosto.
Eu não deveria estar aqui me divertindo ou mesmo rindo do , muito menos recebendo piscadinhas dele em meio a uma dança informal no vilarejo. Nós não éramos amigos.
Lembrar disso me fez estagnar e parar a dança automaticamente, no entanto, era tarde demais e o homem no qual eu dançava já havia me empurrado para retornar ao meu par, ainda que meu corpo estivesse como uma estátua diante dele agora.
— O que foi? — perguntou-me intrigado, com certeza conseguia ver a minha resignação estampada em minha face.
— Nada. — Balancei a cabeça e segurei a saia do meu vestido. — Eu só preciso ir embora agora.
Ficar ali não era mais uma opção, eu não podia vacilar e acabar revelando a minha identidade, muito menos perder meu tempo tentando ser cordial com um cara que detestava a mim e a minha mãe.
— Por que está fugindo tão depressa? — Ouvi a sua pergunta ressoar atrás de mim quando me virei para ir embora, apressando os meus passos para que ele não me alcançasse.
Saí empurrando todos que estavam a minha frente até estar em um local mais afastado, tentando chegar logo onde eu havia escondido o meu cavalo para poder fugir dali. Porém, antes que me desse conta, correu mais rápido do que eu e parou em minha frente, estendendo a mão em um pedido mudo para parar enquanto ele ofegava e passava a outra entre o seu cabelo.
— Por que está fugindo assim?
— Não acredito que seja da sua conta — cuspi e me empertiguei, passando meus braços pelo meu corpo e sentindo a brisa fria saindo de dentro da floresta.
se endireitou com a resposta que eu lhe dei e cruzou os braços diante de mim.
— Eu não sei o que possa ter feito para que você me tratasse com tamanha rispidez, além do que, você foi a única que derramou água em mim, lembra?
Levei as minhas mãos até o meu rosto e esfreguei-o, nervosa com a sua insistência e teimosia em me deixar em paz. Queria gritar para ele todos os motivos que me faziam ter vontade de sumir da frente dele, a começar pelas provocações que ele e seu pai causavam em nossa pequena ilha, Atra. Nós já éramos um povo pequeno e isolado, não precisávamos de discórdias internas provocadas por pura intriga da oposição.
Eu precisei morder a minha língua mordaz antes que falasse demais. Minha mãe sempre dizia que um dia eu poderia ser derrubada por falar pelos cotovelos, por isso, eu não iria dar essa chance para o rapaz em minha frente.
— Veja bem, senhor , eu não sei se você está acostumado a ter tudo do jeito que você quer, mas quando as pessoas não querem conversar ou ficar em sua presença, você não pode obrigá-las, principalmente quando se trata de uma dama. Desde que a lei 1.931 de Atra foi sancionada que, nós mulheres, podemos ir, vir, falar ou não falar com quem nós quisermos. Ou seja, não importa se você fez algo ou não, mas sim o que eu quero, que no caso, é ficar livre de você! — Apontei para ele e puxei o vestido de novo, entrando no meio da floresta apressadamente, certa de que independente do que ele fizesse, dessa vez eu não pararia, só pegaria o meu cavalo e daria o fora dali.
O vento frio adicionado a minha raiva, arrepiava a minha pele até a ponta do pé, continuei caminhando até ouvir um som alto que me fez vacilar um pouco. Era longe, mas eu ainda conseguia ouvir o grito de . No entanto, o problema não era que ele havia me retrucado, mas a frase em questão que ele havia emitido, fazendo meu estômago embrulhar e meus passos continuarem ainda mais rápidos para alcançar o meu cavalo.
Você pode até querer ser livre, mas não sei se tem tanta liberdade assim como diz, princesa .



Capítulo 2

Eu não sei quando consegui dormir depois que cheguei em casa. Passei horas e horas revirando-me na cama e perpassando em minha cabeça a fala que havia gritado contra mim. Eu sabia que ele desconfiava de algo, mas acreditava estar bem diferente do meu eu habitual para que ele não pudesse me reconhecer, afinal, eu já havia feito isso inúmeras vezes e em nenhuma delas havia acontecido tal coisa.
Se minha mãe soubesse, ela iria me matar.
Eu ainda tinha esperanças que ela me deixaria fazer uma viagem ao exterior enquanto não me tornasse rainha, mas, se isso viesse à tona, eu poderia dar adeus ao sonho de conhecer algo além do que essa ilha oferecia.
Atra era um país esquecido pelo mundo, 7.127 km de água nos separavam da civilização mais próxima, isso é, se as contas estiverem realmente corretas. Nossa energia era racionalizada e não tínhamos praticamente nenhuma das tecnologias que ouvi dizer que os países do mundo tinham. Éramos uma ilha pequena que se auto sustentava, um paraíso natural, mas que, no entanto, era coberto por montanhas rochosas, penhascos e altos recifes em sua costa, impedindo que qualquer tipo de avião ou helicóptero pudessem pousar aqui. O clima costuma ser chuvoso em grande parte do ano, quase 20 dias por mês de água e apenas 10 de pura luz do sol, o que faz com que as viagens para cá em alto mar sejam altamente perigosas e demoradas. Muitos navios não conseguiam chegar e, com o tempo, as pessoas perderam a vontade de se arriscar ou não quiseram demorar quase sessenta dias em alto mar apenas para poder conhecer o nosso lugar.
Por isso, não temos muitas coisas inovadoras e nos consideram um tanto rudimentais. Mas como querer desenvolvimento para um local isolado e com uma cultura quase que intacta? Isso não quer dizer que não somos felizes como somos, a natureza nos provê o que é necessário para a nossa agricultura e mantimentos. Além disso, tudo o que precisamos de extremamente necessidade, minha mãe, como rainha, faz o pedido para a ONU e ela dá um jeito de nos enviar duas vezes ao ano, que é o máximo que eles consideram se arriscar por nós.
Nessas duas únicas vezes que eles aparecem — isso é, se nada trágico acontecer —, o povo tem a oportunidade de poder sair daqui e desbravar novas aventuras. Assim como fica aberto a visita de turistas a nossa região, caso sejam devidamente registrados com antecedência, se não vira bagunça.
Eram poucos que se ousavam a ir. Em gerações anteriores isso era proibido, mas quando a minha família subiu ao poder, tudo mudou, e foi lhes dado a escolha entre ir ou ficar. Não que tenha mudado tanto a realidade, afinal, não é uma viagem muito atrativa. Mas eu queria, havia implorado aos meus pais para me deixarem e eu estava cansada de ouvir o não sair da boca da minha mãe.
Provavelmente ela acha que se eu fosse, nunca mais voltaria. E em alguns momentos, eu também achava o mesmo.
A maioria das pessoas nasciam e tinham toda uma vida para frente para planejar o que quisessem ser, contudo, eu, desde o meu primeiro respiro, estava fadada a uma responsabilidade que nunca escolhi ter.
Talvez para muitos, ser princesa fosse uma dádiva, mas, para mim, soava como uma maldição. Regras para como me vestir, como conversar, como comer, com quem me relacionar… Cada passo meu era supervisionado e cada erro exposto para toda Atra, o que já não era difícil acontecer, pois um lugar pequeno como esse, a fofoca corria como o vento.
Eu não conseguia me conformar com isso. Se todos eram livres, por que não nós da realeza? Estaríamos fadados para sempre em sermos um padrão? E se eu não quisesse? E se eu não gostasse? O peso da dinastia estava em minhas mãos. Mas e se eu não fosse boa o suficiente? A única coisa que me dava forças para continuar era saber todo o empenho que meus avós fizeram pelo povo, ao ponto de morrer por uma causa. Se eu tivesse que fazer alguma coisa e manter o legado, seria por eles.
Eu vi e ouvi coisas no castelo que eu não queria para mim. Minha mãe raramente sorria e sempre tinha uma expressão séria para tudo. Meu pai dizia que nem sempre ela foi assim, apesar do gênio forte. Eu não conseguia imaginar diferente, ainda mais quando algumas atrocidades eram jogadas contra os seus ouvidos, nessas horas, até eu tinha medo do seu olhar.
Algumas pessoas diziam coisas horrorosas, principalmente do fato da minha mãe ter rompido um relacionamento anterior para casar com o meu pai. Palavras como traição e adultério eram recorrentes entre aqueles que eram contra a coroa, até mesmo foi chamada maldosamente de assassina, e, todos os dias, eu precisei ver minha mãe escutar tudo calada, deixando palavra por palavra cair por terra.
Havia uma época que eu perguntava ao meu pai sobre isso, mas ele apenas me dizia que as pessoas eram maldosas demais e preferiam acreditar em vãs mentiras do que apenas ver a realidade. Já a minha mãe, ela limitava-se a dizer que nunca foi noiva de ninguém e que eu esquecesse o assunto, pois fofoca quanto mais se explicava, mais difícil era de ser esquecida.
Talvez fosse verdade. Hoje não se ouve mais falar tanto sobre isso como quando eu era nova. Acredito que as pessoas não gostam de fofoca velha, os anos trataram de colocar assuntos novos no lugar. Mas até onde eu sei, minha mãe tinha um namorado que faleceu no auge da Rebelião dos Portos, mesma época em que meus avós também morreram.
De qualquer forma, pensar em tudo isso me trazia dor de cabeça e ainda mais insônia. Virei-me para o lado, na tentativa de dormir mais um pouco, no entanto, um som alto de socos na minha porta me fizeram pular da cama assustada. Eu escutava o barulho e uma voz ao fundo, contudo, o sono não permitia que meus olhos se abrissem direito e nem que a minha mente conseguisse processar o que estava acontecendo. A impressão que eu tinha é que não havia dormido nem uma hora completa esta noite, minhas pálpebras pregavam e eu fazia um esforço enorme para abri-las.
, abre essa porta agora! — a voz ecoou mais alto, batendo na porta novamente.
— Calma, estou indo — respondi, sonolenta, empurrei meus pés para fora da cama e cambaleei até conseguir me arrastar a porta e abri-la, topando com uma Eleanor furiosa na minha frente.
Suas mãos estavam em punhos em sua cintura, os olhos como fogo em minha direção, no entanto, sua postura impecável, ereta e contida, com exceção da veia proeminente na lateral da sua testa e as sobrancelhas tão franzidas que quase se uniam entre os olhos.
— Onde é o incêndio para esse alvoroço todo? — reclamei e dei meia volta, deixando que ela entrasse no quarto. Caminhando até a minha cama, joguei-me de volta no meu colchão fofo e afundei a minha cabeça no travesseiro.
Os passos da minha mãe soaram forte no chão e, pelo seu barulho, eu podia identificar que ela já estava ao meu lado.
— Quantas vezes eu já lhe falei para não trancar a porta do quarto? Esperamos você para o café da manhã e como não apareceu, ficamos preocupados. Seu pai e eu pedimos para que Lylliane viesse te chamar, mas ela disse que bateu diversas vezes e você não atendeu.
— Se eu não atendi era porque estava dormindo, mãe. E trancar a porta do quarto é o mínimo de privacidade que uma garota precisa para viver.
Minha mãe bufou ao meu lado e puxou a coberta que eu havia colocado sobre as minhas pernas, jogando-a no chão. Resmunguei e virei-me para impedi-la, mas ela puxou o meu travesseiro debaixo da minha cabeça e jogou-o para longe também.
— Protocolos, ! É o mínimo que eu peço para você seguir. Os tempos são outros, mas nunca sabemos quando pode acontecer uma emergência no castelo. Se o pior vier, como os soldados poderão te retirar às pressas se você estiver aqui trancada em seu quarto e hibernando em um sono profundo?
— Pelo menos se eu morrer, vou morrer dormindo. Quer coisa melhor? Partir para o paraíso sem sofrimento? — retruquei-a rindo e balançando a cabeça, enquanto me levantava e sentava na cama, afinal, dormir eu não iria voltar mesmo.
Minha mãe avançou na minha frente, ficando de pé diante de mim, apontou o seu dedo indicador em meu rosto e inclinou a sua coluna para que ficássemos cara a cara.
— Nem ouse brincar com uma coisa dessa, está me ouvindo, ? Não. Repita. Isso. Jamais! Já tivemos mortes demais nesse castelo — disse ela abruptamente e girou de costas para mim, permitindo que eu percebesse apenas suas costas se moverem para cima e para baixo em um movimento longo e profundo.
Eu havia me esquecido que citar a palavra morte era algo delicado por aqui. Minha mãe não era a pessoa mais aberta do mundo, então ficava difícil adivinhar todos os seus sentimentos, lidávamos com as coisas de formas diferentes e se ela não se permitia conversar comigo sobre o que lhe afligia, eu jamais saberia o que poderia a incomodar.
— Desculpa — respondi com um pouco de remorso, mas logo uma pontada de indignação me surgiu. Eu não deveria pisar em ovos dentro da minha própria casa. — Talvez se você me falasse o motivo de uma simples brincadeira te afetar tanto, talvez eu pudesse compreender o peso que isso tem para você — destilei contra ela, farta de tantas omissões.
Levantei-me da cama e caminhei direto para a minha penteadeira, pegando um pente e permanecendo de costas para ela, nem um pouco a fim de continuar essa conversa.
— A morte dos seus avós não é o suficiente para você? — ouvi sua voz carregada de raiva virar-se contra mim.
Virei-me chateada e pousei o pente com força sobre o móvel.
— Na verdade não, eu nunca os conheci! Talvez esteja na hora de você superar isso, seja lá o que tenha acontecido no seu passado que você quer tanto guardar a sete chaves de mim. E não venha me dizer que isso tudo é pelo vovô e vovó porque eu escuto as coisas, eu sei o que…
— Cale a boca, ! — gritou me interrompendo, sua fúria ondulando pelo nosso espaço e batendo diretamente em mim. — Só cale… a boca — terminou arfando e passou a mão por seu rosto, antes de caminhar até mim vagarosamente, como uma leoa age quando vai capturar a sua presa.
Essa era a verdadeira Eleanor, a que todos conheciam. A mulher que exalava uma supremacia poderosa, como se não houvesse ninguém maior do que ela, até eu acreditava que ela era inabalável. Isso é, quando eu me esquecia dos lapsos, dos raros instantes como há pouco que ela mostrava vislumbres de uma fragilidade que quase ninguém sabia que existia. Momentos esses que só apareciam quando lembranças de um passado doloroso surgiam diante dela.
— Você não precisa saber nada, , sabe por quê? Você não está pronta. Se é uma princesa que não compreende a importância de seguir uma simples norma fundamental do castelo, por que mereceria entender qualquer outra coisa do que se passa por aqui? — contra-atacou, suas palavras mais afiadas do que qualquer espada. — E eu não vim aqui para conversar trivialidades, nem mesmo para ouvir sua malcriação contra mim. Seu pai e eu precisamos conversar algo muito mais sério com você, então arrume-se e desça, nós não temos o tempo todo mundo para te esperar.
Assim que completou, minha mãe virou-se e saiu do meu quarto apressadamente, não me dando chance de sequer perguntar nada ou retrucá-la. Não demorou muito para a minha ficha cair… eu havia saído ontem, descobriu a minha farsa e já de manhã meus pais queriam conversar comigo.
Este era o meu fim.
Eu havia sido delatada.
Já podia até imaginar os livros de história contando como o fim da dinastia havia se encerrado com a morte da princesa , porque, com certeza, se minha mãe não me matasse, no mínimo me castigaria até a morte.
Eu poderia pensar em alguma desculpa, inventar alguma mentira.
Eu ainda tinha alguns minutos, não tinha?
Pior era que qualquer coisa que eu dissesse talvez enganasse a minha mãe, mas não o meu pai. Ele me conhecia demais e sabia me ler com excelência. Nunca que eu conseguiria enganá-lo e isso não era algo que eu tinha hábito de fazer. Omitir sim, mentir… não.
Corri para fazer a minha higiene matinal e trocar de roupa, assim que terminei de me aprontar, passei pelo corredor correndo e desci as escadas, chegando rapidamente para a sala de descanso, que é onde meus pais costumavam ficar após o café da manhã.
Chegando lá, meu pai estava sentado sobre o sofá com os pés sobre a mesinha de centro, ele lia uns papéis em suas mãos e tinha o cenho franzido. Seus cabelos compridos e castanhos cobriam suas orelhas e os fios estavam despojados de uma forma que ele parecia que havia acabado de acordar e eu tinha certeza que tinha irritado a minha mãe.
Meu pai era um homem bonito e era incrível como seus olhos verdes seduziam todas as moças dos bailes que frequentávamos. Difícil alguma que não suspirava por ele, mas, para o azar delas, o olhar dele só se dignava a uma pessoa, e o nome dela era Eleanor .
Ao contrário do meu pai, minha mãe estava sentada elegantemente ao seu lado com uma xícara de chá em mãos. Só precisou de um passo meu adentro para que seu olhar pousasse em mim com fulgor e ela abaixasse lentamente o copo e o depositasse na mesa, colocando-se prontamente para fazer a minha cova.
— Desculpe, mãe, eu prometo nunca mais repetir isso, sei os riscos implicados, mas eu juro que vou consertar. Eu serei uma boa menina e a princesa que você deseja que eu seja, mas, por favor, não me tire a oportunidade de fazer a viagem. Você prometeu pensar. É a única coisa que te peço. A viagem seria uma boa para minha experiência e todo conhecimento obtido será refletido no meu desempenho como rainha um dia. Por favor, mãe, me perdoa — discursei rápido, soltando um monte de frases atropeladas e sem sentido. As lágrimas já se acumulavam em meus olhos, mas segurei o máximo que pude, pois tinha que mostrar que era tão forte quanto ela, apesar da escolha ruim que havia feito ontem à noite.
Assim que terminei, reparei que meu peito arfava em uma respiração acelerada e minhas mãos tremiam. Minha mãe me encarava com uma expressão confusa, a cabeça levemente inclinada para o lado e o cenho franzido em minha direção.
— Do que está falando, ? O que você aprontou?
Empertiguei o meu corpo e enruguei a testa. Ela estava me perguntando o que eu fiz? Mas se ela não havia me chamado porque tinha descoberto sobre a minha fuga…
Nossa! Eu havia feito um furo enorme!
— O que você queria falar comigo? — rebati, curiosa.
… Não brinque comigo. Você chegou aqui baforada pedindo desculpas e agora eu exijo que você me conte o que aprontou!
Se ela não sabia, não seria eu que iria contar. Uma coisa era ela descobrir e eu ter que confessar a minha “versão” das coisas, outra era ela nem imaginar e eu jogar a bomba no seu colo. Não mesmo. Além do que, por mais que eu tenha perdido a minha noite de sono pensando no que poderia amenizar a minha situação, não encontrei nada que fosse plausível. Precisava de mais tempo para preparar o terreno.
— Eu estava pedindo perdão pela nossa discussão lá em cima. Eu sei que errei em trancar a porta e reconheço o quanto é importante não fazer isso, o risco de se manter trancada caso seja necessário uma fuga pelos esconderijos secretos durante uma invasão é alta ou mesmo para a entrada dos guardas para me protegerem. Fora que, se os esconderijos fossem invadidos e meu quarto estiver trancado, seria o fim. — falei, lembrando de todas as aulas de emergência que já tive e quantas vezes isso já havia sido repetido para mim. — Além disso, eu fui longe demais nas coisas que falei com você lá em cima. Me desculpe — terminei de montar a minha historinha, torcendo para que isso fosse o suficiente para corrigir o meu gafe.
Minha mãe me olhou intrigada e se eu a conhecesse bem, ela ainda estava desconfiada de algo, no entanto, não ia muito longe nisso, ela era ardilosa o suficiente para me deixar enforcar com a minha própria mentira.
— Não sei se acredito muito bem nisso, . Mas você sabe o que pode acontecer caso saia dos trilhos. Eu te passei todas as condições para que eu permitisse que você saísse de Atra, no entanto, não é porque você não estaria nos limites do nosso país que deixaria o seu legado de princesa para trás. Não se deixa a coroa, , a coroa é que deixa você. Lembre-se disso. Não se pode fugir daquilo que foi destinada a herdar. Eu acredito em você, mas você precisa acreditar em si mesma e se dar uma chance também. — Suspirou profundamente, os ombros caindo em exaustão.
Já havíamos tido várias conversas semelhantes e em todas elas minha mãe parecia sair frustrada. Um pouco da sua ferocidade se foi e ela aparentava mais calma agora, os vincos da sua testa se suavizaram e ela passou os dedos lentamente entre os olhos antes de abaixar a mão e voltar a falar.
― Sei o que pensa, filha, você acha que a coroa é apenas um peso, um fardo que estamos destinados a carregar. Por um lado você está certa, realmente temos que abdicar muitas coisas e até a nossa própria vida por ela. Nem sempre as escolhas que queríamos fazer são a que realmente devemos fazer, e isso não é fácil de decidir. Perdas, dores, abdicações, aflições, tudo isso é inevitável em algum momento da nossa vida, mas, por outro lado, há muita gratificação. Todo poder que temos nas mãos pode converter-se aos outros, fazer o nosso país crescer, fazer coisas que ninguém mais pode. Podemos transformar vidas! Você não consegue enxergar como isso é importante?! ― exclamou com os olhos brilhando e eram sempre nesses momentos que eu tinha certeza que seja a dor que minha mãe havia passado um dia, ela não se arrependeria de nenhuma das suas decisões.
Respirei fundo e desviei o olhar até meu pai, agora ele já havia largado os papéis sobre a mesa e tinha as mãos juntas e entrelaçadas sobre a perna, observando a interação entre minha mãe e eu.
― Eu só… A verdade é que na maioria das vezes eu só queria ser invisível. Poder ser eu mesma. Eu não posso nem me dar ao luxo de errar, vocês têm ideia de como isso é desgastante? ― consternei, gesticulando com as mãos e colocando para fora a minha frustração.
― Mas sua mãe e eu já não tentamos te ajudar nessa transição? ― meu pai falou, intrometendo-se pela primeira vez na conversa.
― Eu sei… ― Passei a mão no meu rosto e grunhi. ― Vocês têm me permitido sair mais e participar de alguns eventos da cidade, mas é horrível sair com um bando de guarda atrás de você, ou mesmo ter um monte de pessoas te vigiando e esperando qualquer passo falso que dê para te jogar do penhasco ― desabafei, cansada de tudo isso. ― Vocês falam como se parecesse tão fácil, como se todos os contras dessa realidade não afetassem vocês. Como se essa coroa tivesse algo tão bom que isentasse tudo de ruim que ela pode trazer. Como pode falar tranquilamente se eu sei que não é totalmente verdade? Não é fácil assim como você tenta demonstrar ser, mãe ― cuspi duramente.
Eles tentavam colocar algo na minha cabeça que não entrava de jeito nenhum. Não havia justificativa que me dessem que iria mudar a minha opinião. Eu odiava essa coroa maldita, odiava ser princesa e odiava ser filha de quem eu era, porque isso significava ter nascido debaixo de um jugo que eu nunca quis.
Minha mãe respirou fundo e bateu a mão ao lado dela do sofá, balancei a cabeça consternada, mas fui até ela e sentei-me ao seu lado. Senti seus dedos pousarem acima dos meus e um olhar diferente vindo dela em minha direção.
, querida… Eu tenho sim muita noção de como é desgastante e difícil. Só eu sei o que passei para chegar até aqui. Um dia talvez você entenda, talvez um dia você saiba por si só, ou mesmo eu conte a você. Então, se estou dizendo que vale a pena, é porque é verdade. Chega um momento que seria muito egoísmo da nossa parte simplesmente abandonar todo o povo por um sentimento que é só seu. Você pode até achar que não está preparada para o cargo, mas para isso chegará o momento certo. O que não pode acontecer é você querer deixar a coroa para viver sua própria vida e caprichos quando tantos esperam por nós. Quando aprender a usufruir do que é seu, descobrir todas as vantagens e tudo que pode fazer com o poder que lhe é dado, tenho certeza que esquecerá até de si própria para um bem muito maior, afinal, você é uma , está em nosso sangue.
Minha mãe deu dois tapinhas na minha mão e meu pai riu da outra ponta do sofá.
― Engraçado, pai? ― Sorri em falso pra ele, rolando os olhos.
― Acho incrível o poder que vocês duas têm de estarem quase se batendo há meia hora e agora estarem sentadas lado a lado, sua mãe saindo da fera para esse amor de pessoa. ― Piscou para ela e minha mãe sorriu.
― Se eu não soubesse que a minha mãe conta tudo para o senhor, eu acharia que você tinha ouvido nossos berros aqui de baixo ― brinquei, ficando em pé e indo até ele, me joguei para o seu lado no sofá e abracei-o.
― Você está certa, ela me disse, mas, ainda assim, acho que toda Lavarelli devem ter ouvido vocês ― gracejou e passou a mão pelo meu ombro, trazendo-me para o seu peito e me abraçando.
― Engraçadinho. ― Rolei os olhos e vi a boca da minha mãe se inclinar com a nossa interação, ela sempre aparentava satisfação quando nos via juntos.
― Tudo bem, Enrico, agora que colocou a conversa em dia com a , acredito que você possa falar para ela o motivo de termos a chamado aqui. ― Inclinou sua sobrancelha e estendeu a mão para apontá-lo, sinal para que ele seguisse em frente.
Eu havia até me esquecido disso após o alívio de não ser o que eu pensava.
― Ainda não, amor… ― Ele inclinou-se na direção dela e deu-lhe um beijo.
― Enric, Enric… Sempre mimando a nossa filha ― consternou docemente para ele. Minha mãe tinha um jeito completamente diferente de falar quando se travava do meu pai, não sei que poder ele tinha sobre ela. ― Vai deixar para que eu diga para , não é? Medroso… ― completou, balançando a cabeça para ele.
― Você sempre sabe de tudo, meu bem ― meu pai respondeu com um sorriso de orelha a orelha. ― Com certeza a me dobraria facilmente. Eu preciso de você, sempre. ― Deu-lhe outro selinho, olhando para ela com aquela cara de bobo apaixonado que ele sempre fazia.
― Dá para vocês pararem com o mel, por favor, e me digam de uma vez o que tanto querem conversar comigo. Deve ser muito grave ao ponto do meu pai não ter coragem para me dizer ― reclamei, coloquei uma mão em minha cintura e virei meu tronco para eles.
― Filha, você sabe em qual estação estamos? ― minha mãe perguntou.
― Primavera.
― Então… Como deve saber, a primavera sempre é uma estação especial para nós. É quando recebemos o navio, repomos as nossas mercadorias, ganhamos presentes e comemoramos.
― Óbvio que sei. Como esquecer do Famoso Baile Real da primavera de Atra ― respondi, querendo saber onde que chegaria tudo isso.
― Ótimo ― minha mãe prosseguiu. ― O baile, além de ser importantíssimo para a história da nossa família, hoje é um evento muito aguardado por todo o povo. A vinda dos governadores e suas famílias também é importante para estreitarmos os laços com eles. Faz algum tempo que não há ataques e a paz tem se ponderado em nosso reino. Não vou te dizer que as relações estão perfeitas, filha, muito pelo contrário... ― falou, franzindo o cenho e olhando de esguio para o meu pai.
Ele acenou a cabeça para ela e minha mãe respirou fundo, continuando o seu discurso.
― Já tem um tempo que certas coisas têm acontecido e estamos preocupados. Não sabemos realmente se as alianças do conselho estão firmes como antigamente. Por isso, o evento deste ano tem como objetivo estreitar estes laços de novo. Seus avós lutaram muito por isso e eu também. Foi muito difícil chegarmos a um acordo de paz e não será por mesquinharias de um ou de outro que vamos deixar isso acabar ― completou, pensativa.
Atra era composta por cinco governadores, cada um deles responsável por uma região da ilha de Atra. Os cinco compunham o conselho real, que tinha como objetivo apurar as decisões mais importantes da realeza. Por isso era importante manter a harmonia com eles e tê-los ao nosso favor e não como inimigos.
― Ok, mas onde eu me encaixo nessa história? ― perguntei, impacientemente.
Minha mãe não costumava me contar detalhes sobre os problemas do reino. Parte porque eu mesma não me interessava por isso e outra porque, se havia algum segredo embutido, ela faria questão de me deixar por fora.
― Sempre apressada, não é, , não é à toa que nasceu antes do tempo ― Meu pai retrucou-me em gracejo e eu lhe dei um empurrãozinho em resposta.
― Já que você cortou o belo discurso que eu fazia, vou ir direto ao ponto principal. ― minha mãe chamou a minha atenção de volta, agora com uma postura não mais tão relaxada, seus olhos eram sérios e cravaram-se aos meus, de forma que eu não desviasse. Meu pai segurou a mão dela e a olhou antes de se voltar para mim, também esperando que eu finalmente soubesse o motivo daquilo tudo. Toda essa demora e hesitação só me deixavam mais nervosa.
O que estava acontecendo, afinal?
― Seu pai e eu conversamos muito durante essa semana e cremos que já é a hora de você assumir certas responsabilidades por aqui, . Com isso chegamos a seguinte conclusão… ― Fez uma pequena pausa, antes de completar a frase que derrubou o meu chão. ― Queremos que você organize o Baile de Primavera deste ano.



Capítulo 3

― O quê? ― interpelei, levantando-me consternada com o que estavam me propondo. ― Vocês não podem me pedir isso, aliás, vocês não devem me pedir isso. ― Apontei para eles.
Minhas mãos suaram instantaneamente, meu coração batia forte no meu peito e minha cabeça zumbia. Só de pensar no pedido deles minha pele formigava.
― Posso saber o motivo, ? Você, como princesa e futura rainha, organizará todos os eventos do nosso reino posteriormente, nada melhor do que começar por esse. Na sua idade eu já auxiliava a sua avó e, ainda por cima, arcava com muitas outras atribuições ― minha mãe justificou tranquilamente, como se estivesse pedindo para pegar para ela um copo de café.
― Falou certo, mãe, você auxiliava, agora você quer que eu organize sozinha?! ― retruquei, ainda sem acreditar. ― Você acabou de dizer como o evento é importante e ainda tem coragem de deixar isso nas minhas mãos? Pai.. ― Olhei para ele em súplica. ― Convença ela, pelo amor de Deus. Isso vai ser um desastre!
Meu pai deixou o ar sair do peito em um suspiro e ergueu a sua mão até a minha, apertando-a numa tentativa falha de me acalmar.
― Filha, ouça a sua mãe. Nós conversamos bastante sobre isso e acreditamos na sua capacidade. Você sempre foi muito esforçada e organizada, o seu desempenho nos estudos sempre foi excelente também, só queremos que aplique o seu potencial em algo importante para nós ― justificou, suas palavras saindo em um tom tranquilo enquanto ele passava o polegar no dorso da minha mão.
Eu não podia acreditar. O Baile Real da Primavera era simplesmente, não só o maior evento de Atra, mas o mais importante também. Eu o adorava, o empecilho não era esse. Tínhamos uma semana inteira de festividades, a começar pelas ruas da nossa ilha, toda a população parava para cantar, dançar e comemorar. No meio da semana minha mãe pegava as mercadorias de doações que chegavam e distribuía para que os governadores levassem para seus territórios. Livros, brinquedos modernos, tecidos, entre outras coisas. Era muito variável e nunca sabíamos de fato o que viria. No entanto, era sempre uma grande comemoração. No último dia havia a festa no castelo, que era mais para um fim político, mas não deixava de ser estonteante.
Então, como podem ver, eu amava o evento, o único problema era eu ficar responsável por ele.
E se eu fizesse alguma coisa errada? Não queria ser a responsável por estragar a semana mais esperada de Atra. E se alguma coisa que eu fizesse causasse insatisfação no reino?
Só de imaginar meu peito doía e o ar sumia dos meus pulmões.
Não, definitivamente não.
Eu não poderia tomar essa responsabilidade para mim. Como meu pai poderia ser conivente com esse plano maléfico da minha mãe?
― Não, não e não. Nem pensar! Sério que vocês estão cogitando mesmo isso? ― Arranquei a mão que o meu pai segurava e afastei-me deles.
Minha mãe levantou devagar, mas, sombriamente, do sofá. Eu era um pouco mais alta que ela, no entanto, ainda que fosse menor, a sua postura era intimidante. Sua boca formou uma linha fina e sua veia latejada na lateral da sua testa.
― Chega! ― Sua mão cortou o ar em um movimento de basta e depois pousou em sua cintura. ― Isso não está em discussão! Nós já pegamos muito leve com você, , não queria ter que impor isso como uma obrigação, mas você não me dá escolha. Não há outras opções, somente uma. Ou você organiza o baile ou você organiza o baile. Quer manter as suas regalias? Então faça o que estamos mandando ― ordenou, alterando seu tom de voz e me olhando com a carranca proeminente.
― Lea... ― meu pai tentou interrompê-la, mas ela ergueu a mão para pará-lo.
― Eric, não! Não tente amenizar as coisas ― exclamou para ele e depois voltou o seu olhar novamente para mim. ― Me escute bem, , isso será apenas a primeirade muitas coisas que você fará por aqui. Já cansei de você fugindo das suas responsabilidades. Você nunca parou para olhar para si mesma e ver como é egoísta? E pode adicionar também mimada e ingrata.
Não conseguia abrir a boca para dizer nada, as palavras que ela soltava me chocavam e me tiravam o chão. Minha mãe e eu sempre discutimos, mas nunca ela havia sido tão agressiva comigo ou perdido a sua compostura dessa forma.
Eu fiquei calada e atônita, encarando-a.
― Veja, eu não sei onde posso ter errado com você, mas muita gente se sacrificou até aqui para manter isso tudo de pé e você precisa continuar esse legado. Eu espero muito que em algum momento você possa acordar para vida e ver que temos muito mais responsabilidades e deveres do que simplesmente ter tudo a disposição às nossas mãos. Somos um país pequeno e ilhado do mundo, precisamos racionalizar tudo o que fazemos para não faltar para o povo. Há pessoas que passam fome, sabia? Ou outras que estão desempregadas porque aqui não há muitas opções. Crianças sem lares, idosos abandonados, vícios e violência. Não é porque temos tudo em menor proporção que estejamos isentos.
Minha mãe explanava enquanto sua respiração ia acelerando a cada segundo.
― Eu luto todos os dias para fazer o melhor para Atra, tento manter tudo aquilo que meus pais começaram e trazer ainda melhorias de acordo com as nossas possibilidades, mas eu não faço milagres. Sei que somos limitados e tento com todas as minhas forças fazer a diferença. Mas você, , está tão preocupada em viver a sua vidinha tranquila, com suas pernoites por aí... ― Fez uma pequena pausa e eu senti o meu sangue ser drenado completamente fora do meu corpo nesse instante. ― Ah, não fique surpresa, querida, eu sei de tudo. Não há nada nesse reino que não me passe aos olhos e se você acha que não foi descoberta ainda porque tem disfarces mirabolantes, sinto em lhe informar que foi eu que encobri muito das suas travessuras.
Gesticulou com a mão e depois ambas estavam em punhos em sua cintura enquanto ela dava um passo para ficar mais perto de mim.
― Enfim, o que quero dizer é que esse seu tempo acabou. Chega de olhar para o seu próprio umbigo, fazer o que bem entende e correr das suas obrigações. Não deixe que eu perca o resquício de fé que eu tenho em você. Estamos entendidas? ― terminou com uma interrogação, mas, por acaso, depois de tudo, tinha eu espaço para pestanejar?
Óbvio que não.
Engoli em seco e meus olhos pinicaram, cerrei minhas mãos ao meu lado e mordi o lábio inferior com força, impedindo que qualquer lágrima caísse. Uma mistura de mágoa e raiva subiram pela minha espinha, mas assenti com a cabeça, olhando por último para o meu pai e vendo o rosto dele cabisbaixo, sem nem mesmo me encarar.
― Se me dão licença, vou me retirar, pois tenho um baile para organizar ― despedi-me com a voz embargada, um bolo se formando em minha garganta e a única coisa que eu desejava era voltar ao meu quarto.
Eu não permitiria que ela visse minhas lágrimas caindo e já que era para atuar como uma princesa, então eu seria, e princesas jamais deviam chorar em público.
Caminhei depressa até chegar aos meus aposentos e me joguei contra a minha cama, abraçando o travesseiro e deixando o choro que estava entalado escorrer pelas minhas bochechas.
Eu odiava a minha vida e odiava esse cargo. Tudo o que eu queria era sumir, mas, para completar, vivíamos em uma ilha isolada do mundo que não me dava nem chances de escolher quem eu realmente queria ser.
Escutei passos adentrarem o meu quarto e virei-me bruscamente em direção a porta, vendo o meu pai parado ali, seu olhar perdido e as mãos dentro do bolso.
― Posso entrar? ― perguntou e eu dei de ombros, fingindo não me importar.
Ele caminhou até a minha cama e senti o colchão afundar assim que ele se sentou, sua mão foi até os meus cabelos e ele retirou do meu rosto devagar, colhendo com o indicador uma das lágrimas que haviam escorrido.
― Sua mãe e eu só queremos o seu bem… ― murmurou e eu virei para olhá-lo, a raiva brotando novamente eu meu coração.
― Me obrigando a viver uma vida que eu não quero? ― repeli e depois voltei a enfiar a minha cabeça na cama, evitando o seu olhar.
Ficamos ambos em silêncio, meu pai sabia que conversar comigo nesse instante seria perda de tempo, ainda mais depois dessa briga fenomenal com a minha mãe. Não sei quantos minutos se passaram, mas meu pai continuou ali do meu lado até que o choro passasse e eu fosse me tranquilizando.
Quando eu me senti um pouco melhor, virei-me de lado na cama e dei um sorriso fechado para ele, recebendo um de volta também. Levantei-me e sentei-me com as pernas cruzadas em sua direção, colocando o travesseiro por cima delas para que eu pudesse apoiar o meu braço.
― Ainda quer conversar? ― perguntei.
― Não sobre isso… Acho que hoje já foi o suficiente, não é? ― Sorriu e piscou para mim e eu acabei por acompanhá-lo. ― Que tal aproveitar que o seu humor melhorou e me contar para onde você foi ontem à noite?
― Por que eu suspeitei que essa pergunta viria cedo? ― Balancei a cabeça e me preparei para conversar com ele.
Meu pai, diferente da minha mãe, sempre tinha calma comigo e uma forma diferente de conversar. Eu não sei que poder ele possuía sobre mim, mas sempre me arrancava até os segredos mais sórdidos.
― Não foi nada, pai. Havia uma festa no vilarejo e eu queria muito ir. Eu tenho 19 anos e tenho toda essa energia ainda na minha pele. Nada anormal, a única diferença é que lá fora os jovens podem extravasar e eu não.
Meu pai franziu levemente a sobrancelha e passou a mão por seu cabelo, deixando-a descer sobre o seu rosto, aparentando cansaço.
― Você sabe que eu nunca te castiguei ou briguei com você por querer aproveitar a sua juventude, no entanto, eu seria um péssimo pai se não te pedisse cautela quanto aos perigos lá fora. Por mais que você dê seu jeito para fugir sem ser reconhecida, o risco existe. Ser da realeza nos cobra uma postura diferente que as pessoas não entenderiam se vissem de outra forma, além disso, você é uma pessoa importante, filha, e não podemos confiar que toda a população de Atra, ainda que pequena, tenha um bom coração.
― Eu sei pai, eu sei... Mas eu precisava desse momento. Antes eu tinha a escola para poder me socializar mais e me distrair, mas agora não tenho mais nada. As oportunidades que eu tinha de me sentir um pouco normal acabaram e a qualquer hora eu vou ter que assumir de vez o meu espaço no trono. Eu precisava aproveitar minhas últimas oportunidades! ― elucidei com pesar, lembrando-me das poucas boas épocas que eu havia tido quando convenci a minha mãe que estudar na escola junto com o povo era o melhor a se fazer.
― Eu entendo, , mas, mesmo assim, preciso que tenha cuidado. Acredito que seria melhor você diminuir essas saídas aos poucos para já ir se habituando e, quem sabe, começar fazer uma ou outra coisa que sua mãe te peça. Quem sabe você perceba que nem tudo é tão ruim quanto pensa?!
― Talvez... Mas eu costumo ser bem tranquila nas minhas saídas. Sempre dá certo. Bem… ― Fiz uma pausa recordando-me do ocorrido da noite anterior. ― Pelo menos na maioria das vezes.
… ― meu pai chamou a minha atenção. ― O que aconteceu?
Olhei para os meus dedos e comecei a brincar com eles, uma gotícula de suor frio escorrendo pela minha nuca.
― Você se lembra do ? ― indaguei baixinho, ainda sem encará-lo.
― O filho do governador? ― jogou de volta, sua voz endurecendo um pouco.
Se até o meu pai, que tinha um coração de ouro, ficava assim quando o nome desse homem era tocado, já é de se imaginar que ele não é nem um pouco bem vindo aqui.
― Ele mesmo ― confirmei. ― Eu o encontrei na festa do vilarejo e de alguma forma ele me reconheceu ― contei, lembrando-me da última frase que havia me dito.
― O quê? Mas como?
― A gente meio que se esbarrou, depois ele acabou me chamando para dançar, e… ― parei quando as risadas do meu pai me interromperam.
― Então ele te chamou para dançar, foi? ― A boca dele se ergueu levemente e sua sobrancelha direita foi arqueada.
― Na verdade ele foi bem insistente quanto a isso… ― falei, arrancando os fiozinhos soltos do meu travesseiro enquanto me lembrava da noite embaraçosa.
― Hum…
― Hum o quê? ― Parei o que estava fazendo e franzi o cenho para o meu pai.
― Nada, só acho um tanto irônico logo o filho do , o pior inimigo da sua mãe, se interessar por você ― gracejou.
― Ele não estava interessado em mim, está louco?
― E por que não? Você é linda e nunca te faltou pretendentes. Esse não deve ser ileso a isso também.
― Ai, pai ― murmurei e coloquei as mãos sobre o meu rosto. ― Ele não estava interessado em mim, e se eu estiver certa, ele deve me odiar tanto quanto eu odeio ele. e eu nunca nem sequer conversamos, a gente se evita o máximo que pode. Por que você acha que agora seria diferente? Com certeza ele só me chamou para dançar para me provocar.
― Imagina só se vocês namorassem? Marcus iria enlouquecer. Eu pagaria para ver essa cena. ― Gargalhou com a mão no queixo e olhando para cima, parecendo nem ter ouvido a minha explicação.
― Eca! ― Coloquei a língua para fora. ― Nem que ele fosse o último homem de Atra. Eu fugiria dessa ilha nadando antes de ficar com alguém como o .
― Cuidado, quem muito desdenha... ― brincou e eu abri a boca, ultrajada.
― Você está engraçadinho hoje, não é? ― Rolei os olhos e ele me puxou para os seus braços, sacudindo o meu cabelo como quando eu era pequena, e eu grunhi reclamando até me desvencilhar dele, sorrindo.
― Ok. Vamos voltar a seriedade do assunto. Se sua mãe não ficou sabendo até agora, então é porque ele não contou que te viu. Talvez ele não se importe ou esteja planejando alguma outra coisa. Um suborno talvez?
― Não sei, eu espero de tudo vindo dessa família. Talvez ele só quis me provocar, mas não dá para confiar.
― Sua mãe vai ficar louca se ele usar isso contra ela ― suspirou e segurou a ponte do nariz enquanto cerrava os olhos.
Inspirei lentamente e soltei o ar devagar, querendo evitar até imaginar o que poderia acontecer.
― Você acha que ela vai ficar muito brava? Não é como se ela não soubesse das minhas escapadas. Ela mesmo falou isso agorinha.
Meu pai olhou para mim e arqueou a sobrancelha como se dissesse: “sério?”
― Uma coisa é ela saber, outra é ter Marcus usando isso contra ela.
― Ai, meu Deus… ― Trouxe o meu travesseiro até a minha cara e grunhi contra ele.
Na verdade eu queria gritar, mas não podia.
― Vamos torcer para que guarde isso para si, ok? Talvez nada aconteça e sua mãe não terá mais com o que lidar além do que já tem.
Balancei a cabeça, mesmo sem acreditar em uma única palavra dele. Ainda bem que ele tinha fé por nós dois.
― Agora eu vou tentar colocar um sorriso no rosto da outra mulher que eu mais amo aqui nesse palácio. ― Inclinou, me deu um beijo na cabeça e levantou-se da cama.
Meu pai sempre tinha o poder de acalmar a mim e a minha mãe. Só ele mesmo para trazer paz para casa. E, uma coisa era certa, se tinha alguém que conseguia fazê-la sorrir, essa pessoa era ele.
Várias vezes ele me contava histórias de uma juventude que eu não conseguia imaginar. Um tempo onde minha mãe sorria e era talvez tão aventureira quanto eu.
Eu não conseguia conceber isso, mas meu pai não era de mentir.
― Pai, quem foi? ― questionei e ele se virou, olhando para mim por cima do ombro.
― Quem foi o quê? ― lançou a pergunta de volta com o cenho franzido.
― Quem fez com que a minha mãe ficasse como ela é hoje?
As sobrancelhas dele caíram e ele mordeu levemente a bochecha interna, desviando o olhar por um segundo para o chão.
Ele me deu um sorriso triste e balançou a cabeça. Não fora preciso palavras, ele não ia contar. E, por isso, eu era a única que poderia tentar juntar as lembranças e tentar descobrir mais informações sobre a vida antiga e secreta da minha mãe.



Capítulo 4

10 anos atrás

Os pássaros cantavam e sobrevoavam sobre o jardim florido. A fonte que ficava em nosso quintal estava coberta por trepadeiras e jorrava, tornando-se um manancial para os animais matarem a sua sede. O canto das aves era música para meus ouvidos e o cheiro das flores da primavera como perfume enquanto eu corria pelo jardim.
Minhas pernas doíam e o suor escorria pela minha testa, fazendo meus cabelos pregarem em meu rosto, uma dorzinha lateral na minha barriga me incomodava, mas não era o suficiente para me parar.
A primavera era a minha época do ano preferida, eu corria pela relva, erguendo a mão e tocando as flores enquanto aspirava o aroma e deixava a luz do sol me aquecer. A adrenalina subia em minhas veias e eu me esquecia o quanto era sozinha no castelo. Às vezes eu encontrava uma criança ou outra para brincar, no entanto, ser princesa vinha com um título subscrito de intocável. Nenhum pai queria que seu filho brincasse comigo e acabasse levando a culpa caso eu me machucasse. Ou então, caso eu aprontasse alguma coisa, dificilmente levaria os danos por isso, ao contrário deles.
Contudo, essa semana seria diferente, além do lindo cenário que a primavera nos fornecia, teríamos a grande festa. Muitos convidados viriam, os governantes e suas famílias, pessoas que eram mais próximas a minha realidade e eu poderia me divertir pela primeira vez com menos ressalvas. Se eu tivesse sorte, os governadores trariam sobrinhos e sobrinhas, aumentando meu leque de oportunidades de me divertir, já que poucos eram os filhos biológicos.
Seria meu primeiro baile oficial, já que a realeza só era autorizada a participar quando completasse nove anos de idade. Os demais não poderiam, apenas quando completassem a maioridade, no entanto, esse ano seria diferente, meus pais abriram para que eles pudessem trazer a todos e eu finalmente teria a oportunidade de conhecer mais pessoas.
Corri para dentro do palácio assim que escutei o som das trombetas anunciando a chegada dos convidados. Eu esperava que fosse Katherine, minha única amiga de verdade e a única pessoa que vinha me visitar em outras datas que não fossem o Baile da Primavera. Não que a gente fosse do tipo de fazer pulseirinha uma para outra ou pacto de cuspe, mas era a pessoa mais próxima a mim e eu gostava de dizer que possuía pelo menos alguém no meu rol de amizade.
Apesar da proibição de participar do baile, a mãe da Kath e a minha eram amigas, então ela sempre vinha e a gente ficava no meu quarto brincando enquanto os adultos permaneciam na festa.
Assim que cheguei no local, escondi-me atrás de uma pilastra, pois se minha mãe me visse no estado em que eu estava, ia arrancar o meu pescoço fora. Eu aparentava uma mendiga, suada, os cabelos desgrenhados e a roupa suja de terra.
Ouvi uma agitação do lado de fora e esgueirei meu pescoço para que pudesse ver melhor, dois homens estavam ao lado da minha mãe, cada um deles tinha um menino ao seu lado. Um deles parecia ser um pouco mais velho do que eu, era magro e tinha um cabelo liso escorrido castanho, ele estava meio escondido atrás das pernas do seu pai e encarava o garoto do outro lado, que estava perto de um homem que gritava e gesticulava fortemente.
O homem parecia zangado e seu filho não aparentava ter a cara mais sociável do mundo. Seu cabelo loiro escuro caía sobre a sua testa e seus braços estavam cruzados ao lado do seu pai. Era fácil notar o seu parentesco porque eles eram muito parecidos, até na cara ranzinza.
O garoto sério olhou para o lado e franziu as sobrancelhas assim que pousou seu olhar em mim, eu me escondi rapidamente atrás da coluna, sentindo meu coração saltar pela garganta. Inclinei-me um pouquinho, só para tentar ver alguma coisa de novo e o garoto ainda me olhava, agora inclinando um pouco o lábio antes de voltar o olhar para o seu pai e continuar prestando atenção na conversa.
A sua ação deve ter chamado a atenção do menino magrinho, porque ele também me olhou e logo em seguida puxou a camiseta do homem ao seu lado e este inclinou em sua direção. Ele cochichou algo para o mais velho e recebeu uma confirmação de cabeça dele, que fez com que ele saísse do local e desaparecesse.
Olhei de um lado para outro sem compreender muito bem, mas voltei a prestar atenção na agitação dos adultos.
Você não é obrigado a participar, Marcus, se quiser pode ir embora ― minha mãe exclamou alto.
Meu pai chegou nesse mesmo momento e segurou em seu ombro, ele fez um sinal com a mão, que eu achava que era um pedido de silêncio ou calma, não sei bem. O homem brigão respondeu algo, mas não consegui escutar. Desviei meus olhos para o garoto novamente, mas senti um dedo cutucar meu ombro e eu pulei de susto, caindo de bunda no chão.
O que está fazendo?
O menino magricelo agora estava na minha frente, seu cenho franzido para mim e a cabeça inclinada para o lado, me analisando. De perto agora eu podia notar seus olhos azuis e o cabelo castanho brilhoso. Juro que o dele era bem mais bonito que o meu.
Levantei-me depressa e bati a mão em minha roupa, que ficou mais amarrotada do que já estava. Minha mãe ia me matar e, se ela soubesse que eu tinha encontrado os convidados desse jeito, nunca mais ia me deixar sair do meu quarto.
Você não fala? ― perguntou-me novamente e eu mordi o lábio inferior, pensando em uma rota de fuga rápida que me fizesse chegar a tempo em meu aposento, antes que minha mãe me flagrasse também.
O garoto tinha as roupas impecavelmente passadas, vestia um terno azul escuro, sem gravata e os sapatos pretos brilhantes. Bem diferente do meu estado atual.
Meu nome é Koddy ― ele estendeu a sua mão para mim e sorriu. Quando ele fez isso, seus olhos ficaram pequeninhos e sua feição amigável me coagiu a cumprimentá-lo.
Estendi a minha mão para apertar a dele, mas logo notei as unhas cheias de terra embaixo e a sujeira que a cobria. Meu rosto queimou de vergonha e minhas bochechas esquentaram. Puxei a minha mão de volta em punho e escondi-a atrás das costas, enquanto saía correndo do garoto. Corri o máximo que pude para sair do salão e fui em direção ao jardim.
Olhei para os lados, notando os empregados pararem o que estavam fazendo para me ver como uma louca fugitiva e antes que conseguisse olhar para frente de novo, meu corpo trombou com algo e eu caí, batendo minha lateral no chão.
Rolei e resmunguei de dor, enquanto ouvia uma voz de menino fazer o mesmo. Tentei me levantar e olhei para o lado, notando que havia batido no garoto estranho que estava ao lado do pai briguento. Coloquei-me de pé e pensei em estender a minha mão para ajudá-lo a levantar, mas recordei-me que ela estava imunda, então achei melhor não fazer nada.
Desculpe ― murmurei, olhando para baixo e colocando minhas mãos entrelaçadas para trás.
O garoto tinha o cenho franzido com raiva e levantou-se em um pulo rápido. Ele me esquadrinhou de baixo para cima e depois olhou para o lado, focando a sua visão na pequena tiara real que eu usava, mas que, na queda, havia parado longe.
Ele caminhou até ela, abaixou-se e a pegou, girou-a de um lado para o outro, analisando-a, e depois voltou seu olhar para mim, andando em minha direção. Ele era bem mais alto do que eu e seu olhar de desdenho intimidou-me. Ele levantou o meu adorno e colocou-o em minha cabeça de qualquer jeito, dando um passo para trás em seguida, cruzando os braços e deixando que seu lábio se inclinasse como mais cedo.
Essa é a princesa de Atra? ― soltou, o veneno explícito em suas palavras. ― Eu esperava algo melhor. ― Girou o seu corpo e saiu, como se não tivesse me insultado segundos antes.
Minha boca caiu aberta pelo choque e uma onda de raiva inundou a minha pele.
Quem aquele garoto era para me insultar assim?
Antes que eu dominasse a minha língua ou me lembrasse da minha mãe dizendo que princesas devem manter a compostura, eu já havia soltado o verbo.
Imbecil! ― gritei e o garoto olhou para trás imediatamente.
Minha respiração era pesada e meus punhos estavam fechados ao meu lado enquanto olhava para ele com raiva, o menino me encarou por alguns segundos e depois rolou os olhos, continuando a se afastar.
Bati o pé no chão com raiva e voltei furiosa para o meu quarto, deixando que a porta colidisse e fizesse um alto som ao fechar. Andei de um lado para outro até alguém bater, interrompendo meu momento de fúria.
Cadê a minha princesinha rebelde? ― uma voz feminina gritou do lado de fora e eu saltei para lá correndo, abrindo a porta de uma só vez.
Kath! ― exclamei e abracei-a. ― Já estava achando que não viria.
Katherine Beluzzo era filha da governadora de Swaina, seus cabelos loiros longos e ondulados iam até a cintura e seu olhar pertinente era o que mais chamava atenção.
E você acha que eu perderia a oportunidade de participar do baile pela primeira vez? ― Sorriu assim que eu a soltei e puxei-a até a minha cama para podermos nos sentar. ― Quais as novidades?
O de sempre. ― Balancei a cabeça em descaso. ― Aulas chatas de etiqueta e um monte de “ você não pode fazer isso”. Nada muito diferente do que você já saiba. ― Dei de ombros.
Aí que se engana, a minha vida é muito mais divertida.
Uma pequena e dolorida verdade.
Katherine poderia ser filha da governadora e ter suas responsabilidades para lidar, mas não era como eu. Não era à toa que ela tinha muito mais coragem para se meter em confusão do que eu também.
Enquanto eu tinha medo das represálias, Kath me dava força para enfrentar a lei. Eu era uma pessoa mais corajosa perto dela, não queria ser conhecida como a medrosa e ser chamada de princesinha pela minha amiga, apesar do apelido já ter pegado.
Então, senhorita divertida, o que sua cabecinha mirabolante planejou para nós hoje? ― perguntei, sabendo que ela sempre tinha um plano.
Kath dizia que se fosse para ser princesa e não dominar o mundo, nem precisava carregar, então, a coroa.
Hoje não, princesinha. Hoje vamos somente ouvir as conversas dos mais velhos. ― Deu uma risada maquiavélica, típica de quando íamos aprontar algo. ― Você viu a confusão lá fora? Sua mãe puxou a minha na hora que chegamos e parecia que o assunto era sério. Você não quer saber? ― Esfregou uma mão na outra.
Onde elas foram?
Acho que estão naquela salinha que elas sempre ficam quando vão fofocar.
Ok, mas como vamos fazer isso?
Fácil, . Para que servem todas as passagens secretas de um castelo se não for para ouvir as conversas alheias? ― gargalhou e eu a acompanhei.
Então vamos, o que estamos esperando? ― Levantei-me e ajeitei a minha roupa, sendo seguida por Katherine.
Esgueiramo-nos pelos corredores e fomos direto para a portinhola da biblioteca, que eu sabia que, após um tempo percorrido nos corredores escuros, sairia direto na sala secreta de reuniões onde estavam as nossas mães. Eu ainda não conhecia todas as passagens, mas essa era uma das mais fáceis de decorar.
Com o coração palpitando pelo medo de ser descoberta, abri a portinhola e entramos naquele beco escuro e fedido a mofo que nos levaria a saciar nossa curiosidade.
É aqui. — Apontei depois de um tempo para o local. — Elas estão atrás dessa porta, já ouço até os sussurros. — Coloquei meu ouvido na porta e já podia ouvir claramente uma movimentação por detrás dela. — Kath, o outro lado dessa porta é disfarçado em forma de quadro, mas se não abrirmos não vamos conseguir entender nada. E, definitivamente, eu não vou me arriscar abrindo essa porta e ficando de castigo pelo resto da minha vida. Não mesmo!
Larga de ser uma chata medrosa, . Nossa vida já é um castigo, não sei o que mais poderia mudar aqui. Vamos lá, não precisa abrir a porta toda, só uma gretinha para conseguirmos ouvir o som direito.
Kath passou na minha frente, me deu um leve empurrão e, devagar, abriu um pouco a porta falsa, nos permitindo ver a mãe dela e a minha mãe conversando.
Eleanor, você tem que superar. A vida continua, você não pode viver no passado.
Não consigo, Elza. É como se fosse um pesadelo revivido todas as noites. Eu tentei de tudo, tentei seguir minha vida, tentei fazer tudo direito e nos conformes, mas nada consegue tirar a dor do meu peito.
Lea… Você tem uma filha linda e um marido incrível. Isso deveria ser motivo suficiente para você deixar o passado para trás e olhar para o futuro. Quantos anos já se passaram? Não deixe essa tristeza formar essa barreira gélida em torno de você. Você é uma pessoa formidável, permita que as pessoas vejam isso e não afaste o seu marido. O que tanto te aflige? A tragédia que aconteceu ou o arrependimento por ter deixado aquela pessoa partir?
Eu não entendia o que elas estavam falando, mas imaginava que talvez tinha a ver com a morte dos meus avós. Minha mãe parecia fragilizada, eu nunca tinha lhe visto assim, ela sempre aparentava ser tão forte.
Do outro lado da sala, meu pai entrava cautelosamente, como se não soubesse se seria bem-vindo.
Posso interromper, garotas?
Enric — a mãe de Kath exclamou, sorrindo para ele.
Olá, Elza, você está linda! Stuart é privilegiado por ter tamanha beleza ao seu lado. Claro que perde apenas para a minha querida esposa, obviamente. — Sorriu para minha mãe e olhou-a com encanto.
Meu pai era a pessoa mais carinhosa que eu conhecia. Enquanto minha mãe era o gelo, ele era o sol que derretia qualquer coisa. A forma que ele a tratava, falava e a olhava, transbordava claramente todo o amor que sentia. Eu ainda era criança e não entendia muito bem o amor, mas eu podia compreender que, quando chegasse a minha vez, eu queria alguém que gostasse de mim tanto quanto o meu pai gostava da minha mãe.
Obrigada, Enric. Vou te perdoar por tamanha ofensa porque sei que você é cego de amor pela Lea. Se não fosse por isso, claramente diria que eu sou a mulher mais bela desse castelo. — Elza retrucou-o em meios aos risos.
Você sabe que sou mesmo — meu pai respondeu e sentou-se ao lado da minha mãe, encarando e tocando o seu queixo para que ela olhasse para ele. — Amor?! — perguntou, incerto. — Aconteceu alguma coisa?
Elza pigarreou e levantou-se, caminhando até a porta em seguida.
Acho que devo deixar vocês um pouco sozinhos. Depois colocamos mais o papo em dia, tudo bem? — despediu-se e foi se retirando da sala. Ao chegar na porta, virou-se para minha mãe e disse: — Não se esqueça do que conversamos, Lea. — Piscou e saiu.
Tentei chegar mais perto da porta para entender o que estava acontecendo, mas minha amiga tomava a minha frente e eu não conseguia entender direito.
Dá licença, Kath, são meus pais aí, eu preciso ouvir melhor — resmunguei, empurrando-a e me colocando a frente.
Ai, princesinha! — resmungou. — Cadê a sua educação e gentileza? Assim você decepciona o apelido que te coloquei. — Cruzou os braços, emburrada por trocar de lugar comigo.
Isso ficou lá no meu quarto no momento que você inventou de me fazer espionar as nossas mães.
Já que está reclamando, então vamos voltar. Duvido que você não estava tentada a descobrir o que elas estão falando — Kath me desafiou, presunçosamente.
Ai, cala a boca que eu quero ouvir. — retruquei-a e voltei a colocar os olhos na greta para observar meus pais.
Meu pai estava abraçado a minha mãe e falava algo em seu ouvido. Lágrimas escorriam dos seus olhos, eu nunca tinha visto ela chorar em toda a minha vida. Ela parecia tão frágil…
Eleanor, você sabe que eu te amo e estarei sempre para você, não é? — meu pai perguntou a ela e acarinhou seu rosto. — Eu sei que foram tempos difíceis, você teve que fazer escolhas duras que refletiram em sua vida. A dor do que aconteceu ainda pesa no seu coração, mas lembre-se que também dói no meu. Ele era tão importante para mim quanto era para você. Não deixe as amarras do passado ofuscarem a bela mulher que você é e que eu conheço tão bem.
Me desculpe, Enric, você não merece nada disso. Você sempre foi tão bom pra mim, meu porto seguro. Se não tivesse me ajudado tanto nesse período, eu nem sei o que seria de mim. Me perdoa, Enric, me perdoa. — Minha mãe recostou-se no peito do meu pai e ele passou seus braços por suas costas, trazendo-a ainda mais para si, as lágrimas rolavam pelo rosto dela e, sem perceber, eu mesma chorava sem nem compreender.
Ver ela dessa forma me machucava, eu não queria que ela sofresse. Por que ela estava chorando?
Não tem porque se desculpar, meu amor. Eu te compreendo, o peso da coroa sempre foi maior para você do que para mim. Eu sempre soube disso tudo antes de nos casarmos e, ainda assim, estou aqui, não estou? — Sorriu para ela e beijou a sua cabeça. — Agora respire fundo e enxugue essas lágrimas, pois nós temos uma festa para conduzir e eu preciso mostrar para toda Atra quem é a rainha mais bela desse mundo. — Meu pai riu e abraçou-a ainda mais forte.
Eu não conseguia mais suportar isso, me sentia mal por bisbilhotar um momento como aquele.
Vamos embora. — Virei-me para Kath ainda com os olhos marejados e passei por ela, indo em direção a saída do esconderijo.
Mas, ... — tentou me parar, mas eu apenas balancei a cabeça em negativa.
Eu não queria mais saber, eu não correria mais atrás dessas coisas. Seja lá o que tivesse feito minha mãe chorar daquela forma, se trazia tanto sofrimento, era que melhor que ficasse no esquecimento então.



#2 Diário da Eleanor

22 de fevereiro de 2000

Duas vezes por ano chegavam coisas novas a Atra. Dentre elas, alguns livros velhos e usados, doados para nós. Os que vinham repetidos, iam para a biblioteca nacional, os exemplares únicos, para o palácio. Eu gostava de me aventurar por lá, lendo histórias de cavalheiros, princesas, fantasias e sapos que viravam príncipes. Mas, o mais legal de todos, era o que contava a história de três jovens, os três mosqueteiros.
Eu gostava porque me identificava com aquele tipo de amizade. Eu também tinha meus parceiros e os intitulei como os meus três mosqueteiros. Enquanto éramos adolescentes bobos e cheios de energia, foi fácil lidar. Éramos sempre nós contra o mundo. Eles eram o que eu precisava para viver. Paz, razão e coração. Cada um me completava de uma forma.
Éramos sonhadores e risonhos, achávamos que eu dominaria o mundo e eles seriam os cavalheiros que trabalhariam ao meu favor. Um por todos e todos por um, para sempre.
Mas como sonhos bobos da infância, a gente cresce e as coisas mudam.
Como o vento que não sabe sua origem ou destino, fraco, forte, ou destruidor.
Aí você começa a ver que os sonhos morrem, a realidade aparece e tudo muda tão bruscamente que fica impossível voltar.
Nada nunca mais foi o mesmo.
Nada nunca mais voltaria.
E dos meus três mosqueteiros, só me restou um.



Capítulo 5

Eu poderia começar a minha semana de diversas formas, no entanto, aqui estava eu, a coroa na cabeça, um belo e formal vestido longo com adornos bordados nas mangas e no colarinho e um salto alto nos pés, ainda que todo esse vestuário nem combine com Atra, contudo, éramos da realeza, precisávamos destacar dos demais.
Meus pais e eu havíamos acabado de descer da carruagem, aqui na ilha não tínhamos o costume de usar outros tipos de veículos além dos animais. As estradas eram rústicas, no intuito de não mudar a ambientação e preservar a naturalidade do ambiente e também, para que teríamos carros ou motos? Os combustíveis teriam que ser importados e, nas duas vezes que já vinham as cargas para Atra, tínhamos coisas mais importantes como trazer o diesel para gerar energia.
Hoje seria a inauguração da Casa do Turismo e um grande número de pessoas haviam se reunido para prestigiar esse grande passo para Atra.
Normalmente éramos autossustentáveis, no entanto, ainda precisávamos importar coisas como medicamentos ou contratar profissionais externos como alguns professores, médicos, dentistas ou até mesmo financiar que alguns cidadãos pudessem sair do nosso país para estudar e se capacitar no exterior, voltando em seguida para atuar aqui, devolvendo o conhecimento para a ilha. Era o sistema de bolsas de estudo que o meu avô havia implantado.
Tudo isso custava dinheiro e, apesar da minha mãe ter lutado por parcerias, ainda não era o suficiente para conseguir tudo o que precisávamos.
A ideia da casa da cultura era aproveitar os talentos dos artesãos de Atra para confeccionar coisas que pudessem ser vendidas e exportadas, aproveitando os navios cargueiros para levar a mercadoria. As praias da nossa ilha possuíam conchas raras que só eram encontradas por aqui, assim como outras especiarias. Minha mãe esperava que isso pudesse elevar a nossa renda e nos trazer benefícios, arcando com as despesas que tínhamos.
Eu não gostava de participar dessas formalidades, mas não é como se hoje eu tivesse escolha, pior ainda depois do final de semana que tive. Agora eu precisava estar ali como a filha modelo, sorrindo e acenando.
No ano passado meu tio Otto havia voltado da sua expedição à Dinamarca, ele era um aventureiro, vivia indo para o exterior e voltando, trazendo novidades e auxiliando minha mãe nas necessidades que ela precisava. Ele era o nosso porta voz no mundo lá fora, o braço direito da minha mãe e a pessoa que nos representava diante do restante dos países. Além disso, na época que ele estudou na Inglaterra, ele fez um curso de fotografia ― o que eu achava o máximo com aquela máquina que conseguia captar a nossa imagem. Ele vivia trazendo-me fotos das suas viagens e eu costumava colecioná-las em meu quarto, sonhando pelo dia que eu mesma poderia visitar cada um desses locais.
A vida que o meu tio Otto tinha, era o que eu queria para mim. Mas como filha única, isso era um sonho distante que a cada dia ia se apagando.
No final do ano passado, o meu tio havia voltado, por isso ele estava aqui no evento, tirando as fotos que, segundo ele, serviria como propaganda para nós. Após a semana da primavera, ele iria embora no cargueiro e eu já chorava internamente por sua ida. Tio Otto era a pessoa mais divertida da minha família e eu o adorava.
Mas como não amar o meu tio?
Aquele ruivo divertido conseguia dobrar até a minha mãe se bobeasse.
O início do discurso se daria daqui uns minutos ainda, antes minha mãe iria socializar com alguns representantes do comércio, artesãos e alguns governadores que haviam vindo para o evento. Meu pai a acompanhou e eu, que não tinha muito saco para conversa chata de política, resolvi aproveitar para dar uma volta no local ― que ainda estava fechado ― e conhecê-lo.
A casa do turismo era como um grande local comercial cheio de lojinhas internas. Cada uma tinha produtos específicos. Havia o setor dos perfumes, comidas, entalhes de madeira, artesanatos de coco, entre outros. Eu entrei no de adereços, os balcões tinham colares, brincos e anéis, um mais lindo que o outro, o que só não me trazia inveja porque nós sempre recebíamos algumas dessas regalias.
Passei meus dedos por alguns dos objetos que estavam lá expostos, admirando como as pessoas conseguiam produzir artes tão belas através das coisas naturais. Estendi minha mão e toquei em um colar que estava no fundo da exposição, ele era diferente dos demais e estava dentro de um pequeno baú de joias aberto, destoando de todos a sua volta. Ele era fino e delicado, feito de uma das nossas conchas mais raras. Seu aspecto era metalizado, como uma mistura entre o prata e o dourado e, dentro dele, havia uma pequena pérola, rodeada por mini conchas internas, que adornavam a concha maior.
― Não sabia que além de vigarista a princesa ainda era uma ladra ― uma voz soou atrás de mim e eu pulei com o susto, recolhendo a minha mão instantaneamente.
Girei o meu corpo para trás e deparei-me com e seu sorriso presunçoso no rosto, as mãos cruzadas para trás e os olhos encarando-me em meio as frestas do seu cabelo.
― O que está fazendo aqui? ― retruquei, recuando um passo e trazendo a minha mão para o meu peito.
― Bom... ― Ele deu um passo à frente. ― Eu que deveria perguntar, não fui eu que estava furtando os colares da exposição da Casa da Cultura. ― Inclinou a cabeça na tentativa de observar atrás de mim.
― Eu não estava roubando nada!
olhou-me de soslaio e abriu um pequeno sorriso, ignorou-me e caminhou até onde eu estava. Afastei-me, tentando manter a distância dele e ele passou por mim, parando em frente ao balcão que eu estava e fitando o mesmo colar que eu. Seu corpo se empertigou e ele franziu o cenho duramente, linhas de expressões profundas vincando a sua testa.
Sua postura durou alguns segundos, até que se lembrasse novamente de mim e virasse seu corpo, apoiando seu braço esquerdo no balcão em uma postura relaxada e voltando a me encarar.
― Não sei se dá para dar credibilidade a uma pessoa que costuma se fantasiar para andar no meio do povo e se autointitula Mellanie Strith.
― Você não sabe nada sobre mim! ― cuspi.
― Realmente... ― Balançou a cabeça e riu. ― Depois do nosso encontro eu fiquei meio na dúvida. Como devo chamá-la? Vossa alteza? Srta. ? Ou melhor... Mellanie, não é? Você se apresenta de tantas formas que fica difícil escolher.
Meu sangue ferveu em minha pele enquanto ele usava o seu tom de desdenho para comigo. Eu nunca deveria ter aceitado dançar com ele e provavelmente enxotá-lo ou sair correndo teria sido alternativas bem melhores a serem feitas.
― Para você, Sr. , Vossa Alteza é o suficiente. ― Tentei usar a mesma feição apática que ele, mostrando que o desprezo era mútuo entre nós.
desencostou do balcão, deu um passo à frente e passou seus olhos lentamente pelo meu rosto, sua língua molhou seus lábios e ele abaixou um pouco a cabeça para baixo, fitando-me entre os cílios e mordendo o lábio inferior para segurar o sorriso.
― A gente precisa parar de ter esses encontros escondidos, sabia? ― entoou baixo, sua voz saindo um pouco mais grave.
Engoli em seco e pisquei, um calafrio deslizando pela minha pele. Meu pai sempre dizia que o diabo nunca ia se mostrar na sua forma original, feia e assustadora. Sua aparência seria sempre bela e atrativa, pronta para nos seduzir. Nesse momento eu tinha a certeza absoluta que era a personificação do diabo, porque só isso explicaria porque uma pessoa tão intragável poderia vir em um pacote tão lindo.
― O que quer comigo? ― rosnei, apoiando-me no balcão e o segurando com força.
― E por que acha que eu quero algo com você? ― Abriu um sorriso travesso e deu mais um passo em minha direção.
― Não sei, talvez porque me perseguiu na festa? Ou porque me convidou para dançar? Ah... ― Olhei para cima e coloquei o dedo em meu queixo, fingindo pensar. ― Talvez porque está aqui nesse exato momento conversando comigo quando parece claro que não me suporta. Então, quais das três opções quer responder? ― Apontei para ele e depois cruzei os braços, um sorriso vitorioso nos lábios.
Eu acreditava que talvez isso o intimidaria, mas estava errada. O sorriso de ficou ainda mais largo e ele aproximou-se mais, caminhando com toda a sua elegância, como se estivesse pronto para devorar uma presa. Seu corpo parou bem a minha frente, ambos quase colados, a ponto de eu poder sentir a sua respiração na altura dos meus olhos. Ele inclinou-se até o meu ouvido, erguendo a mão para tocar o meu cabelo e colocá-lo para trás lentamente, abrindo espaço para o que ele queria dizer.
― Talvez, princesa, eu só queira provocar você ― sussurrou e deu um passo para trás, recuando.
Meu estômago se revirou com a adrenalina e a raiva cultivada pelo ser ultrajante na minha frente. Empurrei-o com força para que ele se afastasse ainda mais e passei por ele com passos fortes, parando assim que cheguei na abertura que dava para fora daquela sala.
Virei-me para ele, ainda tinha aquele sorriso presunçoso, o corpo escorado no balcão e os braços cruzados. Deixei que ele visse os meus olhos, todo gelo e ódio que eu tinha naquele momento transpassado em sua direção.
― Você pode achar que é engraçado provocar-me, . Mas não se esqueça que eu ainda sou a princesa de Atra e é melhor que você saiba bem quem está enfrentando antes de entrar nessa batalha.
Segui direto a saída, topando com meu pai logo em seguida. Ele estava sozinho e seus olhos voavam de uma direção a outra.
― Onde estava? ― perguntou assim que me viu.
Abri a boca, mas resolvi deixar para lá. Engoli as palavras e dei de ombros, como se não fosse importante.
― Já está na hora do discurso? ― perguntei, evitando o seu questionamento.
Meu pai franziu o cenho, mas olhou para trás, apontando com a cabeça na direção onde minha mãe estava. Ao lado dela estavam alguns governadores e ela se postava para começar. Fomos andando até perto, a fim de apoiá-la, e admiramos a sua eloquência assim que começou.
Minha mãe era uma líder nata, seus olhos emanavam firmeza e convicção de cada sílaba que soava. Talvez seja a sua couraça dura que tenha conquistado o povo afinal. Ela não era sociável, divertida ou cativante como meus avós eram. Eles eram a sensação da realeza, talvez a geração mais amada que já passou por Atra. Era difícil competir. Já a minha mãe, justamente o oposto. Fria, contida, porém, firme. Uma liderança diferente, oposta e difícil de se acostumar. Mas ela conseguiu dar a volta por cima e segurar as pontas por aqui.
Enquanto ela discursava, aproximou-se e parou ao lado do meu pai e eu. Olhei-o pelo canto do olho e lutei contra a vontade de torcer o nariz e me afastar. Contudo, estávamos na área exclusiva, era um direito dele ficar ali tanto quanto nós, já que o seu pai também estava no palanque com a minha mãe e deveria falar logo após ela.
Ficamos lá por algum tempo até que terminasse as solenidades, a faixa vermelha do local foi cortado, dando oficialmente a abertura e inauguração da Casa do Turismo. Minha mãe olhou para nós e fomos até ela, juntando aos demais políticos. Passamos alguns minutos sendo apresentados para cada sala interna com os produtos e conhecendo os departamentos. Ao entrar onde e eu estávamos anteriormente, eu jurava ter ouvido um pequeno riso dele perto de mim, mas preferi não virar para conferir, adotando a ignorância para manter a minha serenidade perto dele.
Sair de lá foi como um refresco e tudo o que eu queria era voltar para casa, mas, como tudo na vida, nem sempre é como desejamos, assim que deslizei pela porta a fora, fui abordada por cinco senhores me cercando e impedindo a minha passagem.
― Ei, princesa, não vai falar com seus súditos? ― Um deles estendeu o braço, impedindo minha passagem, e eu olhei para ele furiosa.
― O quê? Você é muito importante para falar com o povo? ― outro cuspiu, fazendo uma reverência estúpida e desleixada.
Meu coração começou palpitar e um frio percorreu a minha coluna. Tentei ultrapassá-los, empurrando-os com o ombro, eles abriram passagem, mas apenas o suficiente para que me afastasse um pouco. Logo eles estavam em meu entorno novamente, agora mais pessoas se unindo a eles.
― Estúpida! ― uma voz do fundo gritou e meus olhos se arregalaram.
― Mimada!
― Volte para o seu palácio!
As palavras sambaram em meio à multidão que se formava, enquanto aqueles homens me cercavam e riam da minha cara. Vozes e mais vozes zombavam enquanto eu tentava fugir entre eles e acabei sendo arremessada para trás novamente.
Senti uma pancada em meu braço e levei minha mão a ele instintivamente, olhei para baixo e vi uma laranja rolando. Meus olhos lacrimejaram e eu os fechei, a dor irradiando pelo meu músculo.
O pavor começou a tomar conta de mim, senti-me sufocada enquanto o ar se esvaía dos meus pulmões. As lágrimas salpicaram os meus olhos e quando vi uma onda de novas coisas serem arremessadas contra mim, levantei o braço até o meu rosto para tentar me proteger, ao mesmo tempo que me encolhi, girando para trás. Contudo, as pancadas não me atingiram e, no lugar delas, senti um corpo quente me abraçar e grunhir contra mim.
Ergui as minhas mãos para afastá-lo, trêmula e assustada com a invasão, no entanto, percebi que era . Seu corpo alto e forte me cobriu e me impediu de ver a multidão atrás dele, sua mão estava em minha nuca, empurrando o meu rosto contra o seu peito enquanto sua pele tremulava.
Não tive tempo para pensar, logo fui arrastada por entre as pessoas, a voz dele saindo como um trovão. Eu não consegui entender, estava atordoada com o barulho. Meus olhos cerrados pelo medo e assustada com o que havia acontecido. Não demorou muito até que eu sentisse o silêncio e suas mãos pousassem no meu rosto, pude sentir os dedos trêmulos dele me tocar, mas eu ainda não conseguia abrir os olhos.
― Está tudo bem, . Está tudo bem... ― A voz dele saiu entre suspiros e, lentamente, eu pude abrir meus olhos e vê-lo.
Sua roupa estava uma bagunça, os cabelos loiros grudados na testa suada e o peito subindo e descendo sem parar. Quando olhei para baixo, vi os restos de tomate mancharem sua camisa.
Não sabia o que dizer a ele.
Ainda estava estupefata.
― Que bagunça, hein? ― A voz de roubou a minha atenção e eu o olhei imediatamente, um pequeno sorriso cobria a ponta da sua boca, contrastando com seu rosto cansado.
― O que foi isso? ― perguntei, levando a mão ao meu coração e olhando em volta até um corredor vazio onde ele havia me trazido.
― Acredito que sejam alguns desafetos, nem todo mundo gosta da realeza, princesa. ― Seu olhar fugiu de mim e perpassou ao redor, observando atentamente se estávamos sozinhos.
A verdade crua fez com que a bile subisse a minha garganta, trazendo um gosto amargo. Eu sabia que nem todo mundo era obrigado a amar-nos, mas...
Aquelas palavras, aquelas pessoas... elas foram cruéis.
Eu estava mais que habituada com o desafeto do governador Marcus, ou mesmo com , porém aquilo... aquele tipo de agressão...
Minha mão voou até onde o meu braço fora atingido e eu senti os olhos de sobre mim. Ele se aproximou e tocou-me, levantando um pouco o meu membro, a mancha vermelha marcada na minha pele.
― Droga... ― praguejou baixinho antes de me soltar. ― Acho melhor você procurar o seu pai e ir embora, precisará colocar um gelo ou isso vai ficar feio.
se afastou rapidamente e encostou-se no muro, cruzando os braços e mantendo uma distância considerável.
Franzi a testa para ele.
― Por que me ajudou? ― indaguei-o com o questionamento que me atormentava.
Eu jamais imaginaria que alguém como ele faria isso por mim, se colocar a frente para me proteger assim... Eu não conseguia compreender.
A expressão dele mudou imediatamente para zombeteira e ele balançou a cabeça, pousando um sorriso irônico nos lábios.
― Você ainda é uma princesa, eu ainda sinto um resquício de dever como cidadão em honrar os meus monarcas. ― Piscou, tirando por menos.
Não engoli suas palavras, mas também não quis perder tempo com elas. Ainda estava assustada e tudo o que eu queria nesse momento era ir embora. Meu braço latejava e se estivesse correto, além de uma bolsa de gelo eu precisaria de um belo analgésico.
― Vamos, vou te levar embora. ― Ele desencostou-se de onde estava e pousou as mãos nas minhas costas.
Nesse momento eu pouco me importava que ele fosse um ou um dos nossos desafetos. Aproveitei-me por um instante da sua gentileza para poder partir. Amanhã eu lidaria com isso, pois agora, qualquer intriga entre nós era muito pequena, eu só conseguia pensar no quanto o meu próprio povo me odiava.



Capítulo 6

― Onde você estava? ― meu pai perguntou assim que o encontrei.
Mordi o lábio e pousei a mão sobre o braço machucado e puxei a manga o máximo que consegui para que ele não o visse, não queria criar uma confusão ali, em casa eu o colocaria a par do que aconteceu.
― Me perdi. ― Dei de ombros.
― Com o ? ― Ele arqueou a sobrancelha e desviou o olhar rapidamente para o filho do Marcus, que estava um pouco afastado da gente, mas ainda por ali.
― Claro que não! ― repudiei imediatamente. ― Ele me encontrou e me trouxe de volta, só isso ― esclareci antes que meu pai começasse a pensar o que não devia.
poderia ter sua beleza, seus cabelos loiros escuros brilhantes, aqueles olhos azuis intimidantes ou até mesmo aquele sorriso debochado que o deixava ainda mais atraente. Ele poderia ter o mundo aos seus pés, mas não eu. Para mim ele era apenas irritante e nossas divergências eram suficientes para que houvesse mais do que um oceano entre nós, apesar de morarmos na mesma ilha.
― Tudo bem. Vamos, sua mãe quer falar com você.
Meu pai me guiou para dentro do local novamente, levando-me até uma sala onde minha mãe estava sentada com outros governadores que haviam vindo para a inauguração. Se eu me recordava bem, estavam ali Trotton Neguesí, líder da região de Glassoi, Paul Pervarti, da região de Repotte e Marcus , que era o líder de Lavarelli.
― Ela chegou ― a voz da minha mãe sobrepôs a deles e sua mão se estendeu para que eu caminhasse até lá.
Ela parecia sociável, mas o breve olhar que me deu rapidamente era o suficiente para que eu soubesse que estava encrencada de alguma forma.
― Olá, princesa. Cada dia mais linda, como é possível? ― o governador de Glassoi levantou-se e me cumprimentou.
― Obrigada, Sr. Neguesí ― respondi sorrindo de volta, ele sempre era muito amável comigo, ao contrário do Sr. Pervati, que sempre tinha cara de quem chupou limão e o Marcus que mal balançou a cabeça para mim.
― minha mãe roubou a atenção da conversa ―, eu estava dizendo para os senhores que você será a responsável pelo baile desse ano.
Arregalei um pouco os olhos e examinei os homens ali, minha mãe me encarava esperando que eu dissesse alguma coisa, mas fiquei um pouco em choque pelo anúncio dessa forma. A mão do meu pai tocou as minhas costas, dando-me coragem, e eu suspirei sutilmente, tentando colocar um sorriso no meu rosto em pânico.
― Oh, claro. Espero atender as expectativas para termos um baile tão grandioso como sempre ― respondi e ouvi um bufo vir do meu lado direito.
― Você tem alguma coisa a dizer sobre isso, Sr. Marcus? ― Minha mãe franziu as sobrancelhas e olhou gelidamente para ele.
O Sr. era uma versão mais velha do , os dois eram muito parecidos e ambos continham aquele sorriso debochado no rosto.
― Na verdade eu tenho sim ― ele respondeu, levantando-se.
O Sr. Pervarti reclinou-se mais na sua cadeira, como se estivesse apreciando um show, enquanto o Sr. Neguesí tinha uma expressão preocupada no rosto.
― Eu não acredito que a sua filha possa dar conta de uma responsabilidade tão grande como essa e não sei se estou seguro com o nosso maior evento nas mãos dessa menina.
O sangue ferveu pelas minhas veias e eu abri a boca para retrucar, contudo, antes que eu dissesse alguma coisa, meu pai passou na minha frente, cruzando os braços diante dele.
― E com quais argumentos você pode dizer algo desse tipo?
― Fácil! ― Marcus abanou a mão em desdenho e riu. ― A princesa não participa de nada da política de Atra, ela nem mesmo deve conhecer os líderes ou pessoas importantes a serem convidados ou ter alguma ideia do que o povo precisa para esse ano. É impossível que alguém tão alheio a nós, agora, subitamente, consiga se envolver dessa forma.
― Discordo, ― minha mãe contrapôs, as mãos cruzadas sobre o queixo. ― tem total capacidade para dar este passo, além disso, ela será a futura rainha, estar à frente desse evento ajudará a conectá-la ao povo e lhe dará responsabilidades para assumir como princesa enquanto a sua posse não chega.
― Somos o conselho de Atra, acho que posso opinar com veemência que não me sinto confortável quanto a isso ― Marcus prosseguiu. ― Pergunte aos demais, com certeza não sou o único a pensar o mesmo.
Ele apontou para os outros dois homens e eu acompanhei-os com o olhar. Todos falavam de mim como se eu nem tivesse ali, mas eu estava e eu ouvia cada acusação.
No fundo eu sabia que ele não estava errado, eu nunca dei motivos para que pensassem diferente, contudo, aquele homem me irritava e eu faria questão de fazer a melhor festa de todas se necessário fosse, só para poder esfregar na cara daquele sujeito.
― Paul? Trotton? ― minha mãe virou para os outros dois homens e os indagou.
― Eu estou com o Marcus. Infelizmente, Majestade, nós nunca nem tivemos contato com a sua filha, não posso saber se ela tem essa capacidade. ― Paul Pervarti respondeu e virou-se para Trotton Neguesí, todos aguardando agora a sua opinião.
O homem lambeu os lábios e engoliu em seco, seus olhos desviando dos da minha mãe. Deixei meus ombros caírem, pois já imaginava o que ele ia dizer. Ninguém acreditava em mim e até o pobre e doce governador de Glassoi achava isso, só não tinha coragem de dizer.
Minha mãe suspirou e fechou os olhos brevemente, a decepção estampada em seu rosto. Ainda que fosse a rainha, o conselho era parte fundamental do reinado, não era ideal que ela batesse de frente com eles, ainda que só houvessem três deles ali.
― O que sugerem? ― ela perguntou, encostando suas costas na cadeira. ― Eu prossigo com minha proposta, creio que o ideal é que deixem que tome essa liderança.
― Bom... ― Sr. Neguesí finalmente abriu a boca. ― Eu penso que realmente é importante que a princesa se integre e que o povo a veja como uma alguém conectada ao reino, no entanto ― fez uma pequena pausa ―, talvez ainda seja cedo para que ela pegue algo tão grande. Porém, talvez haja uma forma de equilibrar isso. Por que não colocar alguém para ajudá-la? Alguém que seja mais conectado conosco e faça essa ponte entre ela e as necessidades do povo durante a semana festiva. Eu não tenho dúvidas que ela possa fazer uma grande festa, contudo, como o Marcus falou, o baile da primavera é muito mais que só o baile, é uma semana para o povo, é relacionado com as necessidades, nossas conexões com o mundo externo... São muitas coisas em cheque que realmente trazem um cuidado especial.
Os dedos da minha mãe batucaram a mesa e ela franziu o cenho, pensativa. O ar parecia rarefeito e a apreensão era notável ali.
― Tudo bem ― minha mãe falou, enfim, e eu pude ouvir alguns suspiros percorrerem.
― Se for de acordo com todos, eu tenho um nome para sugestão. ― Marcus levantou o dedo.
Claro que tinha, ele sempre queria palpitar em tudo.
― Pressuponho que meu filho seja a pessoa ideal para acompanhar a princesa ― completou.
O quê?!
― Claro que não!
― Ótima ideia!
Minha mãe e eu respondemos ao mesmo tempo.
― Você tem algo que queira nos dizer, ? ― minha mãe questionou e todos olharam para mim ao mesmo tempo.
Minha garganta secou enquanto minha pele pinicava. Isso seria um desastre!
Abri a minha boca para argumentar, mas o que eu diria?
― Eu... N-não sei se é uma boa ideia ― gaguejei, apertando as mãos em punho.
― Bom, eu acho excelente. Diga a ele, Marcus, que caso concorde, aguardo-o no castelo para que eu possa passar as informações necessárias para os dois.
O sorriso do Sr. se abriu e ele balançou a cabeça em seguida, confirmando. Todos pareciam satisfeitos enquanto eu transpirava e sentia meus pulmões se fecharem.
― Eu preciso tomar um ar puro, com licença ― sussurrei para o meu pai e sai de fininho, aproveitando-me que eles agora conversavam sobre outros assuntos e mal olhavam para mim.
Parecia que a vida tinha uma forma bem ridícula de conspirar contra mim, uma topada a cada passo.
Como que eu faria para lidar com nos preparativos de todo o festival?
Eu nem mesmo sabia como organizaria isso, agora ainda teria que tomar cuidado para não fazer nada errado e que desse motivo para ele usar contra mim.
Parei em um corredor e escorei minhas costas na parede, cerrando os olhos e tentando dominar a minha respiração afoita. Meu estômago remexia freneticamente em meu interior e gotículas de suor escorriam da minha nuca, o meu braço ainda latejando e minhas pernas tremendo.
Minha vida estava um caos.
A vontade de fugir e ir embora desse lugar batia contra mim cada vez mais forte. Eu precisava partir e obter um novo ar, ficar longe de todo o julgamento e tudo o que me prendia aqui. Eu não queria assumir nenhuma responsabilidade, eu não queria ser rainha um dia.
A tiara delicada que cobria a minha cabeça agora parecia um peso que eu não poderia carregar. Levei minha mão até ela e senti as pontas ásperas, desejando arrancá-la e jogá-la para longe, tornando-me apenas uma garota normal, , sem a carga que o meu sobrenome me trazia, uma prisão invisível no qual eu não era capaz de me libertar.
Ouvi um barulho à minha direita e virei o meu rosto rapidamente para ver surgir no corredor. A ira e tudo o que tinha me acometido nesse dia queimou a minha pele e antes que eu pudesse me controlar, estava marchando contra ele, o fogo sendo expelido pelos meus olhos, os punhos cerrados e prontos para atacá-lo.
― Foi você! ― infligi contra ele, rugindo com toda frustração que ruminava em mim.
virou o rosto em minha direção, só agora se dando conta da minha presença, sua sobrancelha direita foi arqueada enquanto eu pairava na frente dele.
― Quê?
― A culpa é toda sua! ― vociferei, sem lhe dar chance de contra atacar. ― Já não basta provocar-me o tempo todo, você tinha que se infiltrar na minha vida apenas para ter a chance de ter um arsenal de coisas contra mim. Você não tem mais nada interessante para fazer do que me provocar?
O rapaz a minha frente balançou a cabeça e franziu a testa, seus braços cruzando em seu peito.
― Ow! Calma aí, esquentadinha. Uma coisa de cada vez, eu não consegui acompanhar todas as sete pedras que você jogou contra mim, mas se estiver disposta a me explicar, estarei feliz em te escutar e compreender ― respondeu-me, firmando o seu sorriso travesso no canto da boca no final.
Grunhi, cansada das gracinhas.
― Chega, ! ― rugi, não suportando mais. ― Você vai me responder como você armou isso e é agora! ― completei, apontando meu indicador para ele e sua feição caiu no mesmo instante.
Seu olhar passou a ser mais intenso e raivoso, sua boca desceu e já não mostrava mais o sorriso ladino a que era acostumado. Ele deu um passo na minha direção, deixando-nos mais próximos e eu estufei e empinei o meu nariz, mostrando que não tinha medo da sua cara amarrada.
― Preste atenção, ... ― falou meu nome com desdenho. ― Sua posição de princesa não lhe dá direito de falar comigo como bem entender e nem me transformar em um cachorrinho no qual você aponta o dedo na cara com desdém. Você se acha importante por morar no palácio e ter uma coroa na cabeça, mas deixe eu te dizer uma coisa... Isso ― apontou para mim dos pés a cabeças até terminar na minha tiara ―, é a única coisa que você tem, no entanto, não te faz merecer o título que carrega. Você é apenas uma garota mimada atrás das suas próprias vontades, uma menina estúpida que fica se esgueirando pelos vilarejos à noite enquanto o resto de nós trabalha duro.
Acredito que recuei um passo com suas palavras ferozes contra mim, porém, ao invés de me intimidar, fez despertar uma fúria ainda maior. Eu precisava de um alvo e havia acabado de pintar um bem grande sobre ele e eu não me responsabilizaria por isso.
― E quem você acha que é? ― perguntei lentamente, deixando o veneno escorrer da minha boca. ― Trabalho duro? Você? ― gargalhei sem humor algum e deixando meu escárnio sobressair. ― Um mísero assistente do papai que vive à sua sombra, um papagaio domesticado que repete as palavras que ele diz sem ao menos ter as próprias opiniões. Pelo menos eu tento fazer minhas próprias escolhas, mas e você, ? Até quando vai viver na asa do papaizinho? ― Cruzei os meus braços, imitando o seu gesto e fiz a minha melhor cara de desdenho para ele. ― Você é uma vergonha ― finalizei, sussurrando e abrindo um sorriso.
Sua boca abriu e fechou e eu tinha certeza que ele não esperava por essa. Me chamem do que quiser, mas a visão da sua consternação encheu e aqueceu o meu peito. Eu fiz o meu ponto, havia ganhado a batalha. Encaramo-nos por alguns segundos até um pequeno sorriso crescer e sua cabeça balançar, fazendo seu cabelo cair um pouco por sobre seus olhos.
― Oh, ... Eu não sou uma vergonha. ― Riu baixinho enquanto soltava os braços e enlaçava os seus polegares no passante da sua calça. ― Animais tendem a dar o bote quando se sentem acuados, mas... Princesa ― deu um passo e inclinou-se um pouco, sua boca pairando perto do meu ouvido ―, não diga para mim coisas que na verdade pensa sobre si própria. ― Voltou a sua posição original e abriu um sorriso largo em minha direção, como se tivesse ganhando uma merda de prêmio.
Antes que eu contra-atacasse, minha mãe e sua comitiva pararam em nossa volta, interrompendo a nossa troca de farpas, o sorriso maldito ainda estava em sua face e eu fui obrigada a dar o meu mais falso para as pessoas que se achegavam ali.
― Olhem eles, já estão até se dando bem. Já contou a novidade para o , ? ― meu pai inseriu-se e eu quis estrangulá-lo só um pouco pela sugestão que fez.
― Olá, senhor. Acredito que não tivemos tempo para isso, mas adoraria saber o que a princesa tem para me dizer. Na verdade, acho que ela veio até aqui para me falar mesmo alguma coisa, o que estava dizendo, Vossa Alteza? ― cumprimentou o meu pai e depois olhou para mim, seu sorriso agora ainda mais largo.
Se eu contasse aqui um terço do assunto que passava na minha cabeça, eu estaria morta diante da minha mãe. Se queria ser falso, eu daria isso a ele e entraria no seu jogo, dois podiam ter a mesma artimanha.
― Oh, claro, deixe-me continuar. ― Tentei alargar o meu sorriso e fazer uma expressão dócil, já que estávamos diante das pessoas do conselho. Minha mãe encarava-me à minha espera e eu não podia vacilar em meu aspecto teatral. ― Eu vim aqui fora um instante e encontrei o Sr. , vejam que coincidência?! ― dei uma pequena risada. ― Eu já estava indo dizer-lhe, no momento que vocês chegaram, da alegria que será para mim tê-lo como companheiro durante as organizações do evento da primavera ― completei e pude ver as sobrancelhas do meu algoz subirem.
Durou exatamente três segundos, esse foi o momento do choque que ele teve até a lateral direita da sua boca se curvar lentamente para cima e seu sorriso crescer juntos aos olhos brilhantes. Sua mão foi até o seu peito e ele inclinou o tronco lentamente, nunca tirando sua visão da minha, a linha da boca agora mais contida e disfarçada, mas aquela pequena ponta arqueada ainda estava lá, mostrando o quanto estava se divertindo às minhas custas.
― Eu não sei como demonstrar a minha gratidão por tamanha honra que será para mim colaborar com o reino ― assinalou, agora virando-se para minha mãe em agradecimento.
Ela apenas fez um pequeno aceno com a cabeça, sem mostrar comoção e o pai deu apenas um sorriso fechado. Os outros dois homens andaram até e ergueram as suas mãos para cumprimentá-lo e iniciaram uma conversa, relembrando dos eventos antigos e falando besteiras políticas que não me interessavam.
Fiquei um pouco a par deles, recuando um passo e sentindo-me sufocada. Observei a interação de todos ali e o quanto eu era deslocada. Eu não conseguia entrar em nenhum diálogo e não sabia metade das coisas que eles falavam, enquanto sorria e encantava todos eles, se bobeasse até a minha mãe.
Meu coração comprimiu-se e fui levada aos momentos anteriores, quando aqueles homens me cercaram e as ofensas que jogaram contra mim. No final, acho que eles tinham razão. Eu era como um animal selvagem em meio a civilização, aquilo não era o meu habitat e eu não conseguia me adaptar. olhou levemente para mim por cima do ombro, abriu um sorriso e piscou rapidamente, voltando a sua mágica para os conselheiros, como se fosse fluente e PhD nisso, o que só fez um peso cair ainda mais sobre meus ombros.
Aquilo seria um desastre e se eu não conseguisse reverter a situação rapidamente, iria me engolir nos eventos que organizaremos juntos e, pelo visto, se eles pudessem, o povo arrancaria a minha coroa e colocaria na dele num piscar de olhos.



Capítulo 7

Ao findar aquele dia, tudo o que eu mais queria era afogar minhas mágoas sozinha em meu quarto. Depois de manter o máximo de compostura que era possível em público e ter minhas bochechas doendo de tanto sorrir falsamente, voltei para casa em silêncio e tranquei-me no único lugar que eu poderia ser apenas... Eu.
Antes de escapar, minha mãe pediu para que eu a encontrasse no escritório, no entanto, eu não estava em condição de ter nenhuma conversa com a toda poderosa Eleanor naquele momento. Joguei-me contra os meus lençóis, enfiei a cara no travesseiro e fiquei a espera de Lilian, minha criada, trazer a bolsa de gelo que eu pedi quando a encontrei no caminho para o meu quarto.
Uma batida ressoou na porta e eu grunhi contra o meu travesseiro, odiando o fato de que, provavelmente, meus pais estavam ali para conversar a respeito do evento.
― Já vou! ― gritei e me lancei para fora da cama, tendo certo que ainda ouviria um bê-á-bá porque havia trancado a porta, de novo. ― Eu só queria alguns momentos em paz, será que é pedir demais? ― ralhei assim que abri, tendo uma surpresa ao me deparar com o ruivo na minha frente.
― Não tem tempo nem para o seu próprio tio? ― O homem diante de mim abriu os braços e o sorriso. Dei um pequeno gritinho e me joguei nele, abraçando-o com força.
Na inauguração mais cedo eu só o tinha visto de longe e logo ele havia desaparecido. Ele não voltou com a gente e eu pensei que não o veria mais hoje, o que era comum para ele.
Meu tio me abraçou com força e me ergueu como não se eu pesasse nada. Vê-lo era sempre renovador, ele era a minha esperança e meu objetivo de vida, minha mãe sabia que eu ficava extasiada toda vez que passava muito tempo com tio Otto. Meus sonhos de viajar e conhecer o mundo palpitavam mais quando estava perto dele e não ajudava que ele me trazia sempre presentes e cartões postais.
― O que tem para mim? ― perguntei assim que nos soltamos.
― Nossa, eu sabia que era interesseira, mas nem tanto. Achei que a falta que sentia era de mim e não dos meus presentes ― gracejou e eu lhe dei um soquinho.
Apesar de ter voltado ano passado, meu tio ficava pouco no castelo, preferindo passar o tempo nas aldeias e percorrendo cada lugarejo de Atra. Quando estava na ilha, era ele quem fazia a conexão com os outros governadores e assessorava-os de acordo com as necessidades. Contudo, com a próxima viagem quase à porta, ele passaria os últimos dias aqui.
Meu tio era bem mais novo que a minha mãe e não tão mais velho do que eu, então acabou sendo um grande parceiro além de um parente.
― Você sabe que faz falta, sem você eu preciso enfrentar a fera sozinha ― falei e ele fingiu estremecer.
― Ela ainda pega no seu pé?
― Sempre ― suspirei.
Tio Otto me deu um leve tapinha nas costas em lamento, sabendo muito bem como era estar debaixo das garras da dona Eleanor. Claro que não na mesma proporção que eu, mas até ele provar que queria seguir o seu próprio caminho, foi um tempo difícil, minha mãe achava que toda a família real deveria ficar presa na ilha.
― Me conte o segredo ― pedi.
― Como? ― Meu tio arqueou a sobrancelha em incompreensão enquanto se sentava.
― O segredo para ir embora e poder ser como você ― revelei, arrancando um elevar de lábios dele. ― Como conseguiu convencê-la?
― Ah... Foi um longo trajeto, pode ter certeza ― Ele riu e inclinou-se para trás na cama, apoiando-se em seus cotovelos.
― Só me ajude, tio. Qualquer coisa... ― implorei.
O semblante dele caiu um pouco, ele sabia como eu me sentia e como isso era importante. Nossas almas eram parecidas demais e talvez ele fosse a única pessoa que me compreendesse ao invés de me julgar.
... ― lamentou. ― Não creio que isso seja tão fácil para você. Eu sou apenas o irmão da rainha, você é a única herdeira.
― Nessas horas eu só queria que meus pais tivessem tido mais filhos! ― resmunguei, jogando minhas costas na cama e levando meu antebraço até meus olhos.
― E ter a chance de ter várias minis Ayshas por aqui?! Sua mãe enlouqueceria ― provocou-me.
― Pare! É sério.
― Eu tenho minhas próprias cartas na manga, querida sobrinha. Foi um trajeto árduo até conseguir usar meus truques contra a minha linda irmã. Não dá para simplesmente entregar o ouro tão fácil, não é?
― Na verdade, eu esperava que sim. Não sei para que complicar tanto. ― Sorri.
― Há-há ― ironizou. ― Trace o seu próprio caminho, . Quem sabe você conseguirá também. ― Ele levantou-se, sacolejando meus cabelos, e caminhou em direção à porta. ― Já estou indo, tenho um compromisso com sua mãe, só passei para dizer um oi.
― E o meu presente? ― chamei-o.
― Mais tarde ― respondeu piscando e saiu, fazendo-me bufar e jogar a minha cabeça para trás novamente.



― Mãe? ― chamei-a depois que bati à porta do escritório.
Já era noite e eu finalmente resolvi sair do quarto. Meu machucado já não doía como antes, porém um grande e intenso roxo havia ficado no local, por isso optei por usar um vestido de manga comprida.
Após momentos de reflexões no meu quarto, decidi que era melhor não contar nada aos meus pais, seria humilhante e traria mais desavenças entre nós. Minha mãe diria que isso era o resultado do meu desprezo às minhas obrigações, o que não era errado em tudo, mas eu não queria ouvir isso mesmo assim. Portanto, falei comigo mesma que, se eles não soubessem do ocorrido, não seria por mim que eles ouviriam.
― Pode entrar ― respondeu e eu abri a porta, vendo meu tio Otto e meu pai reunidos com ela lá.
O clima parecia meio tenso, meu tio, que outrora parecia leve e despreocupado, agora tinha um vinco em sua testa, ainda que ele tenha tentado disfarçar dando-me um longo sorriso. Meu pai parecia pensar em qualquer coisa, menos notar a minha presença e somente a minha mãe possuía a mesma expressão séria de sempre.
― Estou interrompendo alguma coisa? ― questionei, varrendo meus olhos para os três, cautelosamente.
― Não, pode entrar, precisava mesmo falar com você. ― Minha mãe estendeu a mão direita para mim e indicou para que me sentasse em uma das cadeiras vazias e com a esquerda pegou um livro e jogou por cima de uns papéis que estavam em sua mesa.
― Espero que não esteja chateada por ainda não ter dado o presente ― Tio Otto falou baixinho para mim e cutucou a minha costela.
― Sempre mimando a . Não é, irmão?
― O que posso fazer?! É a minha única sobrinha. ― Ele repousou suas costas na cadeira de uma forma agora relaxada e cruzou a perna, formando um quatro.
Não sei como poderiam ser tão diferentes. Meu tio alegre e despojado, seus cabelos ruivos brilhantes e o sorriso sempre fácil. Enquanto minha mãe tinha os seus pretos brilhantes e sua carranca eterna. No entanto, ambos tinham a mesma cor de olhos, que enquanto no meu tio lhe dava um ar divertido, no da minha mãe provocava terror.
― Vamos ao que interessa. ― Minha mãe voltou-se para mim. ― , agora você tem um parceiro para organizar o Baile da primavera. Reclamou tanto que não queria fazer sozinha que por uma ironia, não está mais.
― Eu ainda não sei como você pode aceitar isso ― murmurei em meio a um resmungo.
― E você acha que a culpa é minha? ― Sua boca encheu-se de amargor.
Não era. Mas se tinha alguém poderoso o suficiente para impedir essa tragédia, o nome desse alguém era Eleanor .
Meu pai ergueu a mão para interromper a tempestade que vinha, mas minha mãe foi mais rápida em continuar.
― Se a sua postura como princesa de Atra fosse diferente, provavelmente o conselho sequer teria imposto isso. No entanto, você não é uma pessoa confiável e essa foi mais uma prova de tudo o que já andei falando com você. Por isso, agora terá que trabalhar com o , quer queira, ou não.
― Espera! ― Meu tio se empertigou na cadeira. ― Esse não é aquele salafrário que vive enchendo o saco da nossa família?
― Sim e não. Na verdade, esse é o pai do . O garoto não costuma dar muito trabalho para nós, ele trabalha com o Marcus ― meu pai explicou.
Meu tio não conseguiu conter a careta e olhou para mim com pesar e como se dissesse: boa sorte.
― Ele é terrível, mãe.
― E agora você entenderá um pouco como é ter que trabalhar com alguém que não se gosta ― respondeu e eu acho que vislumbrei um pequeno sorriso na ponta da sua boca, caçoando de mim. ― Pelo menos é um bom rapaz e responsável. Já o observei e tive a oportunidade de conversar com ele algumas vezes, não me surpreenderia se fosse um altíssimo candidato para o próximo cargo de governador.
Fiz uma careta e fechei a cara.
, , ... Até o infeliz tinha alguma consideração da minha mãe. Mesmo sendo um pé no saco.
― Falei com o pai dele e vocês começam as programações amanhã. Quanto antes se organizarem, maiores as chances de sair tudo certo ― ela prosseguiu.
― Se a gente não se matar antes, talvez...
― agora quem falava era o meu pai ―, tenho certeza que ele estará tão focado no evento quanto você. Apesar de eu não ter intimidade com o jovem, sei que ele tem planos políticos, com certeza não gostaria de ver o nome dele manchado por não conseguir dar conta do maior evento da ilha.
Fechei os olhos e balancei a cabeça, frustrada. O que meu pai dizia fazia sentido, mas eu não conseguia imaginar meus nervos não serem consumidos durante todo o tempo que eu teria que passar com o . E eu tinha convicção que ele faria de tudo para me irritar nesse período.
― Se for bonitinho, pelo menos você pode apreciar melhor o tempo juntos ― meu tio interrompeu meus pensamentos.
― Otto! ― meu pai e minha mãe exclamaram ao mesmo tempo que eu ralhava: ― Tio!
― Calma, estou só brincando. Vocês levam tudo tão a sério! ― Rolou os olhos e riu.
― Acho que já passou tempo demais com os povos estrangeiros, irmão ― minha mãe replicou com uma mão no coração, acredito eu que se acalmando. ― Vou mudá-lo de cargo, Otto. Acho que sinto falta do meu irmão comigo aqui.
― Nem pense nisso! ― ele exclamou, seus olhos saltando um pouco e uma risadinha saindo do meu pai.
― Não acha que precisa se aquietar, Otto? ― minha mãe questionou.
Aquilo era uma versão dela fazendo uma brincadeira?
Meu Deus! Meu tio precisava passar mais tempo em casa. Quem sabe aliviaria a barra.
― Para que vou me aquietar se tenho a oportunidade de conhecer todas as belezas do mundo? ― Sua sobrancelha se arqueou e um sorriso travesso despontou dos seus lábios.
― Quando conhecer a pessoa certa, talvez mude de ideia ― meu pai respondeu, seu olhar passando pela minha mãe cheio de brilho.
Mirei-a de soslaio e vi seus olhos caírem para a mesa e subirem rapidamente, durou apenas um segundo, mas logo ela tinha a mesma expressão neutra de sempre, destoando apenas um pequeno arquear de lábios em resposta ao meu pai.
― Bom, nem todos tem essa sorte, não é? ― Meu tio piscou para eles. ― Enquanto isso, eu aproveito como posso. E nossa pequena aqui também pode por enquanto.
― Não vem jogar a bagunça para mim porque eu já tenho problemas demais com meus pais, obrigada ― desvencilhei-me e voltei-me para minha mãe, querendo desviar do assunto " e eu". ― Você sabe quando a Katherine chega?
― Elza havia me dito que eles chegariam uma semana antes do evento. Na verdade, acredito que todos os governadores chegarão com alguns dias de antecedência. Averígue isso também, tudo bem? Pois caso assim seja, precisaremos providenciar a hospedagem aqui no castelo o quanto antes.
― Será que a família do Sr. Pervarti vem? ― meu pai perguntou com ligeiro temor.
― Acredito que sim.
― Serão dias difíceis ― suspirou.
A família do governador de Repotte era praticamente toda intragável. A começar pelos seus três filhos, que incluía Prina, que achava que era apaixonada pelo meu pai e o seguia por todos os cantos quando vinha para cá.
― Acho bom você prender a filha dele antes que ela queira roubar o seu marido, mãe.
― Sem chance ― respondeu confiantemente e meu pai inclinou-se para ela para lhe dar um beijo.
― Idade? ― meu tio perguntou, interessado.
― Pode esquecer, ela é mais nova que eu ― respondi e o sorriso dele morreu, revirando os olhos.
― Estou fora.
Todos nós rimos e por dentro eu desejei que a menina colasse no meu tio, só para que ele sofresse um pouco.
― Ah, o filho do Trotton Neguesí também vem ― falou minha mãe. ― Você se lembra dele, ?
― Koddy?!
― Sim, ele vem junto com a embarcação e, pelo o que o pai disse, é para ficar.
Meus olhos cresceram em interesse. Faziam anos que não via-o, ele havia se mudado de Atra e crescido no exterior. A curiosidade e excitação me bateu e o tal baile acabava de ficar menos pesaroso para mim.
― Isso é ótimo ― respondi, sem conseguir me conter.
Meu pai arqueou a sobrancelha e eu o ignorei, nem um pouco a fim de vê-lo bancar o cupido novamente. Já não bastava as piadinhas com o .
Minha mãe roubou a minha atenção novamente ao passar algumas outras orientações sobre minhas tarefas para os futuros eventos, o que conseguiu murchar toda a minha empolgação. Era tanta coisa que minha mente não dava conta, por isso estiquei a mão para pegar um papel para anotar, mas minha mãe me deteve, segurando o meu pulso com firmeza logo que uma folha rabiscada veio junto.
― O que...? ― comecei a perguntar, mas fui interrompida, antes que eu pudesse ler qualquer coisa além do nome dela no papel.
Os olhos dela saltaram-se e por um momento parecia assustada. Ela levantou-se apressadamente da cadeira e jogou um livro sobre o papel, fazendo com que eu tivesse que puxar a mão rapidamente antes que eu fosse socada pelo objeto.
― Acho que está bom por hoje, amanhã podemos terminar de passar o que for preciso ― falou um pouco desajeitada e franzindo a boca ao final.
― Mas, mãe, voc...
― Pode ir, ― retrucou-me, firme e rude.
Não compreendi nada, olhei para meu pai que tinha os olhos um pouco arregalados e depois para o meu tio, que parecia olhar para qualquer canto, menos para mim.
Eu estava perdida no meio daquela situação embaraçadora e ninguém se dignava nem mesmo a me explicar, eu era enxotada e as duas pessoas que eu mais gostava nesse palácio e nessa família nem mesmo se opuseram.
Levantei-me chateada e analisei como todos eles estavam agindo como loucos só porque eu peguei um pedaço de papel que não devia da mesa.
― Se isso é tudo, então, boa noite! ― Deixei minha indisposição transcender pelo tom de voz e virei-me, dando de costas para eles.
O que eles não contavam era que situações ridículas como essa moviam a minha raiva e a raiva... me levava a certeza que eu poderia não saber o que significava aquilo agora, mas eu daria um jeito para que todos os segredos desse castelo caíssem uma hora ou outra e eu nunca mais seria tratada dessa maneira depois disso.



#3 Diário da Eleanor

25 de agosto de 1999

Eu não sabia quando as coisas haviam mudado entre nós. Quando um simples olhar havia significado muito mais, quando só estar perto fazia meu estômago revirar. Talvez fosse efeito da adolescência, talvez ele tivesse mudado, ou mesmo eu. Não sei.
Mas agora tudo era diferente e não sei até quando eu poderia esconder isso dos demais.
Foi um momento bobo, estávamos fazendo o mesmo que sempre, jogando conversa fora e olhando para o horizonte em um ponto do telhado do palácio. Aquele sempre foi o nosso canto, pois de lá podíamos ver quase todas as belezas de Atra.
Ele que havia achado o esconderijo, uma escadinha suspensa no terraço superior, um dos pontos mais altos do castelo.
No início eu tinha medo, mas ele pegou a minha mão dizendo que tudo valeria a pena quando eu observasse a vista.
E tinha razão.
Naquele dia eu estava chateada, algumas rebeliões estavam ocorrendo na ilha, pessoas que eram contrárias a minha ascensão à realeza. Diziam que uma mulher não poderia assumir o trono, mas eu era a mais velha e Otto, bom... Otto não queria ser rei, enquanto eu desejava isso mais do que tudo. Meus pais disseram que eu precisava me casar - não que a ideia fosse originada deles, mas eles não enxergavam outra alternativa para acalmar o povo.
Por isso eu estava ali no telhado sozinha até ele me encontrar.
Sem dizer nada, ele sabia que eu estava chateada.
Mesmo assim eu contei. Desabafei e deixei as lágrimas correrem no meu rosto por ser imposta a um casamento para ser dada valor.
Ele enxugou o meu rosto e passou o polegar pela minha bochecha.
― Lea... Não deve ser ruim desde que você se case com alguém a que tenha apreço.
Contanto, eu nunca sequer havia pensado em casamento. Pior ainda dessa forma, como uma obrigação.
― Eu caso com você se for preciso ― ele falou, assustando-me. ― Deve ser menos ruim comigo, não é? Somos amigos e você vai poder reinar livremente como sempre quis.
― Mas como...? Isso mudaria tudo entre nós ― respondi, passando o dorso da minha mão pelo rosto.
Um pequeno sorriso despontou do seu rosto e ele inclinou a cabeça, repousando a bochecha no braço que estava apoiado no joelho enquanto me encarava.
― Não deve ser tão mau. ― Sorriu. ― A gente pode testar antes se não tiver certeza.
― Você está se oferecendo para me beijar? ― Ri e balancei a cabeça, enquanto via o seu sorriso se alargar.
― Dizem que não sou tão ruim assim. ― Um pequeno sorriso travesso apontou em seus lábios e eu lhe dei um leve empurrão.
Ambos gargalhamos, mas aos poucos as risadas foram esmorecendo enquanto nos encarávamos.
Não vou dizer que nunca tinha imaginado isso, mas há certas coisas que você prefere guardar no baú antes que bagunce tudo. No entanto, agora ele estava propondo exatamente o mesmo fato e foi impossível pensar de outra forma e não desejar, nem que fosse por curiosidade, tal feito.
― Tem certeza? ― sussurrei um pouco temerosa.
― Claro ― respondeu, mas percebi o pomo de adão dele subir e descer lentamente.
Ele se aconchegou um pouco mais perto de mim e, lentamente e um pouco trêmulo, ergueu a sua mão até que pousasse em minha bochecha.
Seu toque era quente e irradiava faísca pela minha pele, de repente, não era apenas ali, mas todo o meu corpo parecia queimar por antecipação. Ele inclinou-se e sua respiração abafou-se na minha até que, timidamente, nossos lábios se tocaram.
Parecia estranho beijar um amigo, mas, mais do que isso, parecia incrivelmente certo e excitante.



Capítulo 8

Eu não sei por que eu tinha que encontrar ao invés dele ir até o castelo falar comigo. Mas, como eu gostava de aproveitar todos os momentos que tinha para sair do palácio, cedi ao seu desejo.
Ele pediu que o encontrasse no escritório dele, ou melhor, do pai, já que ele trabalhava com o Sr. Marcus.
Fui deixada pela charrete em frente ao local, já que não possuíamos carros em Atra e eu não poderia vir montada a cavalo, normas da realeza. A porta estava fechada e eu bati, esperando que abrisse logo e me permitisse sair do calor que fazia aqui fora. Hoje era um daqueles dias ensolarados, onde tudo o que eu mais queria era tomar um banho na praia, o calor estava insuportável.
Um minuto se passou, dois...
Cansada de esperar, resolvi abrir e entrar por conta própria.
? ― chamei assim que entrei, mas não recebi nada em resposta, apesar de ouvir alguns murmúrios.
A mesa da secretária estava vazia, por isso passei direto. A porta da sala do pai do estava aberta e não tinha ninguém lá, então continuei o percurso até uma sala que tinha uma plaquinha com o nome do . Ouvi algumas vozes vindo de dentro dela e estiquei minha mão vagarosamente até a porta, abrindo-a com cuidado.
Assim que o fiz, quatro olhos se arregalaram em minha direção. Uma mulher loira estava sentada sobre a mesa, as pernas cruzadas para dentro, na direção de , seu peito inclinado sobre ele, assim como a mão dela sobre o seu ombro. , que tinha a mão na cintura da moça, inclinou-se para trás no momento que me viu, deixando-me notar a sua aparência um pouco bagunçada, os cabelos desgrenhados e uma mancha de batom na sua boca.
― Ora, ora... Olha o que temos aqui? Parece que alguém não é tão certinho como demonstra ser. Misturando prazer com o trabalho, ? Esperava mais de você. ― Cruzei os braços na direção deles e estalei a língua no céu da boca, fingindo indignação.
A mulher pulou por sobre a mesa imediatamente, mas não afastou-se dele. Seu semblante tinha um misto de susto por ter sido pega no flagra e frustração, pelo mesmo motivo, provavelmente. Seus cabelos loiros eram compridos e os olhos azuis inextinguíveis.
Annyelle Travics.
Impossível não reconhecer.
Annyelle era famosa por ser uma alpinista social. Em Atra havia muitos deles, sejam homens ou mulheres. Pessoas que se aproximavam de outras mais importantes para ter uma vida mais afável, já que em um país rústico como o nosso, qualquer sombra e água fresca já era melhor.
Ela me olhou de baixo para cima, um pequeno sorriso formando em sua boca enquanto sua mão esquerda ia para o ombro direito de .
Falando nele, parecia que estava um pouco sem ação ao ser pego no flagra, mas o toque dela o despertou, fazendo com que ele empurrasse sua cadeira para trás e ficasse de pé, fazendo com que a mão dela caísse e ela o olhasse com indignação.
― Annyelle, poderia me deixar a sós com a princesa, por favor? ― pediu, sem olhar para ela.
― Mas... zinho ― falou com uma voz melodiosa que embrulhou o meu estômago. Não por ela, mas pelo dito cujo ser chamado dessa forma.
Que raios de apelido era esse?
O nariz de se franziu ligeiramente, mas logo estava impassível. Eu arqueei a sobrancelha para a garota, esperando que ela saísse, pois não estava a fim de perder meu tempo ali enquanto ele ficava com a namoradinha.
― Então? ― perguntei, meu pé batendo no chão.
― Você chegou em um mal momento, querida ― Ela franziu o beiço e deu um pequeno passo para mais perto do .
Abri minha boca para respondê-la, mas foi mais rápido que eu.
― Annyelle, saia, por favor.
― Mas...
― O que a gente conversou a respeito? ― virou-se para ela pela primeira vez depois que eu cheguei e olhou-a com frustração.
Annyelle murchou, não satisfeita, mas girou para poder sair do escritório, esbarrando em mim na saída.
― Se eu soubesse que atrapalharia tanto assim a sua manhã, poderíamos ter marcado um outro horário. Sua amiguinha não me pareceu gostar ― resmunguei em desdenho, descruzando os braços e caminhando até onde era a sua mesa.
passou a mão por sobre o rosto e esfregou-o, em seguida sentou-se em sua cadeira e apontou para que eu fizesse o mesmo.
― Desculpe por isso.
Respondeu simplesmente, pegando-me de surpresa.
― Uau, será que eu escutei bem? ― provoquei.
― Espero que sim, pois não vou repetir. ― Rolou os olhos, irritado.
― Bom, e eu espero que esse tipo de situação também não se repita mais.
A expressão cansada dele foi abafada pelo pequeno sorriso que surgiu em sua boca.
― Se quer exclusividade, , precisa entrar em um relacionamento sério comigo primeiro. ― O ar travesso estava sobre os seus olhos e ele apoiou os cotovelos na mesa e cruzou as mãos, repousando o seu queixo sobre elas.
― Prefiro ir embora de Atra a nado ― respondi em meio a uma careta.
― Não acho que seja uma boa nadadora assim. ― sorriu.
― Situações de calamidades fazem com que a gente faça coisas que nem mesmo imaginaríamos.
― De fato. ― piscou e pareceu pensativo por um segundo antes de voltar a falar. ― Bom, acho que podemos começar, não? ― disse, recuperando-se.
Analisei-o por um tempinho mais e tive que morder a minha bochecha interna para conter o riso que queria sair pela minha boca, o que não adiantou muito, pois logo minha risada ecoou pelo lugar e eu precisei colocar a mão sobre meus lábios para impedir-me.
― Perdi alguma coisa? ― arqueou a sobrancelha e pousou seus braços sobre a mesa. ― Achei que levaríamos a sério nosso compromisso aqui, Alteza.
― Oh, eu levo! ― Sacudi a mão em sua direção, pontadas de lágrimas divertidas molhavam os cantos dos meus olhos. ― Quero que as festividades sejam um sucesso tanto quanto você. No entanto, é difícil conversar qualquer coisa quando a pessoa na sua frente está com a boca toda borrada de batom vermelho. ― Ergui o meu dedo e apontei para ele.
― Droga. ― abaixou-se de imediato e levou a mão até seus lábios, esfregando o dorso e piorando um pouco a situação. ― Saiu?
Eu poderia mentir e dizer que sim, deixá-lo passar vergonha quando ele encontrasse a próxima pessoa do dia. Contudo, eu jamais conseguiria conversar qualquer coisa séria com com seus lábios borrados e agora a bochecha também.
― Oh, pelo amor de Deus. Deixe-me te ajudar.
Saquei um lenço de dentro da minha bolsa e levantei-me, andando até ele. Senti seu corpo rijo por um instante quando dei a volta à mesa e me aproximei. Sua atitude acabou me fazendo hesitar e me vi com a mão que segurava o pedaço de pano erguida perto da sua bochecha, porém, paralisada. Ele deixou seus ombros caírem e o ar se esvaziar dos seus pulmões e eu levei isso como sua permissão para que eu o tocasse.
Eu havia feito isso no impulso, contudo, agora que havia percebido nossa proximidade, fiquei constrangida. Não éramos amigos, nem mesmo íntimos. Mas já que estava ali, então continuaria como se fosse algo completamente normal.
Levei meus dedos até o queixo dele e o ergui com delicadeza. Seu rosto virou-se para mim, seus olhos cravando-se nos meus. Desviei o olhar e foquei em seus lábios. Eles eram bem delineados, nem muito pequenos, nem muito grandes. A boca estava rosada por conta do batom, e parte dele se estendia pela lateral direita, onde ele tinha tentado limpar. Levei o lenço até o local e passei-o, sentindo o constrangimento do ato.
Eu estava tocando os lábios de .
Onde eu estava com a cabeça quando decidi fazer essa boa ação?
Tive que aplicar um pouco mais de força para conseguir ir retirando a cor que havia ficado grudada. O pano passava pelos lábios dele, que às vezes eram repuxados. Precisei me inclinar um pouco para a região da bochecha, devido a barba curta que dificultava a retirada do batom. Quando meu rosto se aproximou, senti a respiração dele ficar mais forte à medida que eu deslizava o pano com minha mão, agora um pouco trêmula.
Não consegui me impedir de deslizar meus olhos para o encontro dos dele de novo. Estavam fitados em mim de uma forma... O que era isso?
Um frio embrulhou meu estômago com a tensão e quando senti sua cabeça se inclinar milimetricamente, percebi que estávamos nos encarando, uma das minhas mãos ainda segurando o seu queixo e a outra em sua bochecha.
A pequena ação foi o suficiente para me fazer recuar e tirar minhas mãos dele como se pegassem fogo. Não sei se havia sido sutil, mas sutileza era o que eu menos me importava agora, eu só não queria que pensasse que alguma coisa tinha acontecido aqui.
Mas não havia acontecido nada, não é?
Talvez fosse tudo fruto da minha imaginação.
― Er... ― pigarrei. ― Agora sim. ― Coloquei o meu melhor sorriso, como se estivesse tudo normal. ― Podemos nos concentrar.
Voltei, sentei na cadeira que estava anteriormente e encarei-o, estranhando o silêncio. não havia respondido nada, apenas me olhava, o cenho levemente franzido, o corpo ainda paralisado.
...? ― chamei-o, cautelosamente.
Ele piscou uma vez e balançou ligeiramente a cabeça, acenando em seguida.
― Sim, claro. Por onde quer começar?

*

Fiquei surpresa quando horas se passaram e eu ainda me via ali com .
O início tinha sido estranho, mas, no momento que nos concentramos no nosso objetivo em comum ali, todo resto foi deixado.
A ideia inicial nessa primeira reunião era colocar os pontos na mesa, ver as ideias e coisas que fizeram sucesso no festival passado. havia rabiscado várias folhas, fazendo mapas e conexões que eu pouco entendia, contudo, eu tinha feito minhas próprias anotações, e era o suficiente.
Fiquei surpresa sobre como ele estava levando a sério isso. Imaginei que passaríamos a maior parte do tempo trocando farpas ou ele tentando me atrapalhar de alguma forma, contudo, parecia realmente empenhado em colaborar e, inclusive, havia dado várias boas ideias para a semana de festividades.
Havíamos conseguido dividir algumas coisas. Alguns projetos sociais que eram feitos, ficaria a cargo dele organizar, enquanto a parte do dia principal que compunha a grande festa, ficou comigo. Já que ele não levava jeito para isso, em suas palavras. Eu achei justo, já que eu também tampouco sabia das necessidades de Atra e ele já trabalhava na área.
Nos encontraríamos daqui uma semana com novos levantamentos. Ele traria mais sugestões para o que tinha ficado ao seu encargo e eu as minhas.
Não fora de tudo ruim.
Tirando a parte...
Deixa para lá.
De alguma forma, havia me surpreendido.
Lembrei-me das nossas brigas de alguns dias para trás. Ele havia falado coisas que haviam me magoado e eu também tinha sido bem rude com ele. Mas não é como se ele não tivesse provocado isso tudo.
Eu não retiraria o que eu disse, apesar dos nossos minutos de trégua.
Eu ainda acreditava que era um seguidor cego do pai e ele ainda estava na minha lista número um de inimigos, ocupando a posição dois. O que era uma pena, porque o pouco que eu havia conversado hoje com ele, realmente dava para perceber que era inteligente e esperto, assim como eloquente. Ele tinha um jeito com as palavras que fazia com que a gente se tornasse parte delas, sendo levado pelos seus diálogos entusiasmantes.
Contudo, isso não me fez baixar a guarda.
Eu sabia que era assim que ele hipnotizava as pessoas. Sua voz grave e melódica, a aparência bonita e jovem, acompanhado de seu aspecto corajoso e cheio de vigor.
Eu compartilhei minhas ideias com cautela, eu conversei com ele com cuidado para não dar munição para poder usar contra mim.
As coisas não haviam mudado porque éramos obrigados a trabalhar juntos.
Seu pai ainda odiava a minha mãe. E minha mãe ainda odiava o seu pai.
E tudo isso por conta de uma antiga história, um ódio contínuo perpetuado de gerações em gerações.
Os faziam parte de uma linhagem familiar antiga de Atra, assim como os . Eram um grupo de amigos que ficaram ilhados aqui e acabaram fixando sua residência. Alguns deles eram irmãos, os . À medida que os anos passaram, eles foram tendo filhos e mais filhos, até que certo dia, uma expedição chegou, encontrando-os na ilha. O lugar já estava mais habitável e eles não quiseram ser resgatados, contudo, precisavam de um representante, alguém que pudesse falar por eles quando outras pessoas de fora chegassem. Não foi surpresa para ninguém quando, por votação, um dos fora escolhido. Dizem que ele era um líder nato. Contudo, um homem da família não concordou, pois se achava no direito à posição, já que alegava que fora por causa de seu antepassado que haviam encontrado a ilha.
Isso é um resumo porco apenas do início da briga entre 's e 's.
Houveram muitas outras brigas e coisas muito mais horríveis no decorrer dos anos. A Rebelião dos Portos fora uma delas, o que suspeitamos que tenha sido liderada pelo Marcus , ainda que não seja muito comprovado o fato.
Então, talvez se perguntem, por que ele ainda é governador e um dos Conselheiros de Atra?
Uma oferta de paz.
Após muitas mortes e destruições, minha mãe estava disposta a ceder isso para que Atra não entrasse em um caos de destruição. Fora assim que os rebeldes foram contidos, pelo menos na teoria.
Ainda haviam pessoas que nos odiavam, seguidores do Sr. Marcus, que achava que ele poderia ser um rei muito melhor que minha mãe.
Na verdade, o ódio era gratuito. A rebelião realmente começou porque não aceitavam que a minha mãe, como mulher, poderia assumir e gerir o reino com maestria. Por isso ela lutava arduamente todo dia para mostrar a eles o contrário.
Para mim, era perda de tempo. Por que gastar a sua vida se sacrificando para provar um ponto para pessoas que não dão a mínima por você?
Eu apenas odiava a realeza e o sacrifício que vinha com ela.
Eu havia perdido meus avós.
Eu havia perdido a minha liberdade de escolha.
E eu perderia muito mais quando assumisse a coroa.
Enfim, manter Marcus no poder era uma estratégia de paz, de supervisão ― a fim de poder observá-lo mais de perto ― e, em partes, porque ele era bom nisso. Verdade seja dita.
Assim como seu filho era bom, apesar de eu ainda odiá-lo.



Capítulo 9

― Onde está a minha garotinha? ― uma voz surgiu no salão e todos nós levantamos nossos rostos e olhamos em direção à porta.
― Vovô! ― Levantei-me depressa, largando meu café da manhã na mesa, e corri para ele, jogando-me em seu abraço como uma pequena criança.
Ele e meu tio Otto eram os únicos familiares que eu tinha, além dos meus pais. E ambos eram maravilhosos. Vovô era um dos membros do conselho e governador de Hagen por muitos e muitos anos. Por conta dos seus afazeres, ele não conseguia vir com muita frequência, mas cada vez que conseguíamos nos ver, eu costumava não me desgrudar dele.
― Aí está ela. ― Ele afagou meus cabelos. ― Você cresceu? Cada vez que eu te vejo parece maior. Aqui não é terra de gigantes, menina ― brincou e eu ri.
Ele sempre insinuava que eu havia crescido, mas, a verdade era que ele nunca me via velha demais, eu sempre seria sua garotinha.
― Bartollo. ― Minha mãe se ergueu e sorriu para ele.
Meu avô me soltou e foi até ela.
― Minha nora mais linda. ― Beijou o seu rosto e depois andou em direção ao meu pai. ― Filho ― cumprimentou-o.
― Ela é a única que você tem ― meu pai respondeu, trocando algum tapinha nas costas com ele.
― De fato, mas ainda assim... ― Piscou para ela e todos sorriram.
― Quer tomar café conosco? ― minha mãe lhe dirigiu a pergunta.
― Vocês tem o prazer de querer me ver gordo, não é? Sua mãe era da mesma forma, sempre que eu vinha aqui tinha uma torta de morango para me oferecer ― gracejou e puxou uma cadeira para se sentar.
Vi um relance estranho no olhar da minha mãe com a citação, mas ela piscou e recuperou-se rapidamente.
― Bom, hoje eu tenho de chocolate. Talvez te agrade ainda mais ― ela respondeu.
― Enrico ― vovô girou seu corpo em direção ao meu pai ―, quanto você quer por ela? ― falou sério, mas conhecíamos bem para saber que era mais uma de suas gracinhas.
― Não está à venda, papai, lamento.
― Droga. Uma pena para você, Eleanor. ― Piscou.
― Garanto que estou bem. ― Mamãe emitiu um sorriso.
Tio Otto interrompeu a conversa entrando no recinto. Suas roupas estavam amarrotadas, a cara inchada e o cabelo ruivo desgrenhado. Se eu me recordava bem, ele vestia a mesma coisa do dia anterior, o que eu supunha...
Arqueei a sobrancelha para ele, preferindo nem concluir o pensamento.
― Otto, a que devo a honra da sua presença, irmão? ― minha mãe questionou-o, sarcástica, observando-o quando ele se jogava em uma cadeira perto de nós.
― Ah não, Lea. Ainda está cedo para o sermão ― resmungou, passando a mão por sobre o rosto.
― Na verdade, já está até um pouco tarde ― meu pai comentou. ― Não que eu queira colocar lenha na fogueira. ― Sua boca se inclinou levemente e ele deslizou seu olhar para minha mãe.
― Bons tempos de juventude ― meu avô disse, sonhador. ― Ah, quem me dera...
― Papai!
― O quê? Nem todo mundo usava cinto de castidade na juventude como você, Enrico ― vovô retrucou e eu quis queimar meus ouvidos com esse comentário.
A cor das bochechas do meu pai se avermelharam e ele passou a mão por sobre o cabelo.
― Minha filha está na mesa, vigie seus modos. ― Apontou para mim em frustração.
― Oh! ― Vovô olhou para mim. ― Desculpe, querida. Mas não é como se você não soubesse dessas coisas, não é? Na sua idade você já deve...
― Chega! ― minha mãe exclamou, as mãos por sobre a mesa. ― Acho que todo mundo aqui já entendeu. Já é suficiente, Bartollo ― cortou, sua voz um pouco aguda e constrangida ao mesmo tempo.
― Eu adoro esse homem ― Tio Otto sussurrou para mim e sorriu. Seus olhos inchados da noite provavelmente mal dormida.
Eu não consegui me impedir de rir junto.
Minha casa costumava ser tão séria que, apesar dos constrangimento a parte, ter vovô e meu tio aqui, era a melhor diversão que esse castelo poderia ter.

*

Entre troca de conversa fiada e muito bate-papo, assim que terminamos o nosso café da manhã, meu avô se reuniu com minha mãe e meu pai na sala de reuniões. O clima logo mudou e eu pude perceber uma certa tensão no ar, ainda que eu não soubesse do que se tratava. Assim que se retiraram, meu tio me solicitou em seu quarto, finalmente disposto a entregar o meu presente.
― Por que eu acho que todos estão escondendo algo de mim? ― perguntei, enquanto caminhava com meu tio.
Ele jogou seus cabelos ruivos para o lado e deixou seu sorriso crescer, dando de ombros.
― E quando sua mãe não esconde alguma coisa? ― Arqueou a sobrancelha duas vezes, olhando para trás em minha direção, depois voltou a cabeça para frente e estendeu a mão para abrir a porta, dando-me passagem para entrar primeiro.
Eu suspirei profundamente, deixando o sentimento ruim entrar na minha pele.
― O vovô veio para isso não foi? E eu achando que ele estava com saudades.
... ― Tio Otto me repreendeu com um tom de acusação. ― Você sabe que é difícil para ele. Eu admiro muito o seu avô e o adoro, ele aparentemente é o cara mais feliz que a gente conhece, mas nenhum de nós dois sabemos como é a dor de perder um filho, ainda mais pelas circunstâncias que foi...
Eu balancei a cabeça tentando deixar passar.
É, eu sabia.
Em partes.
O castelo trazia lembranças para o vovô, por isso ele frequentava o lugar a menor quantidade de vezes possíveis. Eu o visitava mais do que ele vinha aqui.
― Tudo bem, vamos falar de coisas boas, cadê meu presente? ― Virei para tio Otto sorrindo, preferindo não entrar em questões polêmicas.
― Interesseira, hein? ― Sorriu e foi até uma gaveta, retirando de lá um pacote. ― Toma aqui, agoniada, espero que goste.
Rasguei o embrulho rapidamente, deixando a curiosidade falar mais do que meus próprios modos. Assim que consegui tirar toda a papelada, de dentro da caixa saiu um pequeno objeto. Ele tinha uma plataforma de madeira e, acima dele, uma bola de vidro anexada. Virei-o na minha mão e trouxe para mais perto da minha vista, dentro da redoma tinha uma menina que parecia uma princesa, seus cabelos eram loiros e seu vestido azul.
― Balance ― Tio Otto indicou-me e eu o fiz, vendo vários pontinhos brancos se espalharem pelo globo.
― Isso é neve? ― perguntei, recordando-me de alguns dos cartões-postais que tio Otto havia me dado.
― Sim! Algo que você nunca verá em Atra, mas achei que poderia trazer pelo menos uma amostra para mais perto de você. É só balançar que poderá ver a neve cair.
Eu sacudi novamente, achando o máximo os floquinhos brancos inundarem o objeto, parecia uma grande miniatura de um lugar gelado.
― Quem é essa? ― perguntei, apontando para a garota de dentro do globo.
Tio Otto riu, pegando o presente das minhas mãos.
― É uma personagem muito famosa de um filme de desenho animado lá fora. O nome dela é Elsa.
― É um nome bonito, gostaria de conhecê-la.
― É sim, comprei esse porque me lembrei de você. Elsa é uma rainha que vive isolada no castelo por causa dos seus poderes, ela não tem contato com o mundo e tudo que ela gostaria é de poder ter uma vida lá fora. Ela canta uma musiquinha também que achei a sua cara. Acho que se apertar o botão aí embaixo vai poder ouvi-la, pelo menos foi o que o fabricante me garantiu.
Peguei de volta o presente e virei-o de cabeça para baixo, procurando o local, achei um pequeno botão e cliquei, ouvindo soar um cântico bonitinho e contagiante.

Livre estou, livre estou
Não posso mais segurar
Livre estou, livre estou
Eu saí pra não voltar

Ouvi a música atentamente, fechando meus olhos brevemente para apreciar a canção e sentindo meu coração arder.
― Ela conseguiu? ― perguntei em um sussurro, tendo certeza que meu tio entenderia o questionamento.
Ele esticou o braço, levando a mão até uma mecha do meu cabelo e deixando um pequeno afago.
― Sim. Mas acredito que você teria que assistir para compreender melhor a profundidade da história.
Senti meus olhos pinicarem e balancei a cabeça assentindo. Funguei rapidamente e abracei-o, a fim de afastar qualquer sentimentalismo e para agradecê-lo. Sem ele saber, aquele era o melhor presente de todos e, talvez, um gesto de esperança para mim.
― Obrigada.
― Não é nada ― respondeu enquanto nos afastávamos. ― É o mínimo que eu posso fazer para deixar seus dias aqui mais agradáveis.
― Já é mais do que muitos fazem por mim.
― É o peso de ser filha única ― ele tentou gracejar, mas o sorriso não chegou aos seus olhos.
― Você tem sorte ― confessei. ― Queria eu ter tido a mesma.
― Eu acho que Atra é que tem sorte, eu seria um péssimo rei. Sua mãe nasceu para isso.
― No meu caso, ela não tem outra opção. ― Dei de ombros, sabendo que era uma decepção para minha mãe e para o povo.
― Sua mãe desde sempre teve um espírito de liderança, ela sabia que queria ser rainha quase ao mesmo tempo que aprendeu a falar e andar. No entanto, isso não quer dizer que você tenha que ser a mesma pessoa, . Se você sempre se colocar a sombra do que as pessoas acham que é melhor para você, nunca se deixará descobrir seu verdadeiro potencial. Cada pessoa é única ao seu próprio modo.
― Eu não... ― comecei, mas me impedi de continuar essas palavras.
A verdade era que eu não conseguia me enxergar como rainha.
Eu nunca poderia ser alguém bom para o povo sendo que só tinha olhos para fora deles.
Minha mãe poderia me chamar de egoísta, ou mesquinha, ou qualquer outro nome que seja. Contudo, não é algo que dava para controlar. A minha prisão me fez detestar o meu cargo e, me imaginar ter que passar o resto da minha vida aqui, era um martírio para mim.
― Talvez eu nunca me encontre. O que vai acontecer se nada mudar? Como eu posso ser uma boa rainha se tudo o que eu quero é ir embora daqui? ― joguei para o meu tio.
― Eu poderia parafrasear várias frases de efeito aqui, , mas a verdade é que eu não sei. Não sei como tirar você dessa, não tenho resposta para como mudar a sua mente, até porque, eu bem sei como seria para mim se fosse eu no seu lugar. A única coisa que eu posso fazer é orar para que as coisas se ajeitem de alguma forma porque... , a realidade é que, se as coisas não mudarem, não só você será infeliz, mas o povo também, porque não há nada pior do que ser governado por uma rainha insatisfeita.
O gelo subiu pela minha coluna e meus temores nebularam meus olhos.
Eu sabia disso.
Não era só o meu que estava na reta.
Cada cidadão de Atra acabaria pagando por isso, ainda que eu me esforçasse para tentar gostar.
Um som nos interrompeu e uma das criadas entrou, fazendo uma reverência.
― Senhorita , desculpe interromper, mas Vossa Alteza possui uma visita.
Arqueei a sobrancelha e levantei-me, passando a mão por sobre a saia do vestido.
― E quem gostaria? ― perguntei.
― Ele se apresentou como Onmar Brito.
Olhei para o meu tio em um questionamento silencioso e ele deu de ombros, reconhecendo esse nome tão pouco como eu.
― Bom, diga que eu já vou ― respondi-a e virei-me para meu tio. ― Muito obrigada pelo presente novamente.
― Não há de quê.
Girei e segui os corredores até chegar ao salão de entrada. Um jovem estava parado, olhando para alguns de nossos quadros que estampavam as paredes. Mesmo de costas eu poderia reconhecer o porte altivo e os cabelos lisos e revoltos.
Onmar Brito uma ova.
― Olá, .



Capítulo 10

Ele se virou, seu sorriso largo alcançando todo o seu rosto, debochando diretamente para mim.
― Olá. ― respondeu, como se nada estivesse acontecendo.
― Falsidade ideológica é crime, sabia? ― irrompi, enquanto me aproximava dele.
Ele arqueou a sobrancelha ironizando.
― Sério, Mellanie Strith? ― A ponta do lábio curvou-se levemente para a direita.
Rolei os olhos e cruzei os braços.
― O que faz aqui?
― Vim te buscar. ― respondeu, dando de ombros e ainda analisando um dos nossos quadros.
― Marcamos um encontro e eu não fui avisada? É assim que agora você leva as garotas para saírem? ― Bufei uma risada e isso roubou a atenção dele, que virou e levou o indicador até o meu queixo rapidamente.
― Pode ter certeza que se um dia saíssemos juntos, você saberia. Não sequestro meninas, se elas querem estar comigo, tem que ser por escolha. ― Piscou e voltou seus olhos para o quadro.
― Graças a Deus não verei isso acontecer. ― Levantei as mãos para o céu e depois deixei meus olhos correrem na direção que ele olhava. ― Achou interessante?
― Curioso. A história do filho do governador que se suicidou sempre traz curiosidades.
― Shiiu. ― ralhei e levei minha mão até a sua boca. ― Não diga isso aqui! Pare!
Os olhos dele se arregalaram e ele se encolheu levemente.
― Perdão. Não quis ofender. É porque é tão comum lá fora as pessoas dizerem isso que... Desculpe. Deve ser difícil para você. ― Desviou os olhos e me pareceu verdadeiramente constrangido.
― Nem tanto, porque não o conheci. Mas para meus pais sim. ― comentei, observando a foto no qual meu pai abraçava o outro homem. ― Eu agradeceria se não tocasse no assunto.
balançou a cabeça, concordando e depois voltou a olhar para mim.
― Então, vamos?
― Se você me disser o local, talvez. ― respondi.
― Achei que poderia me acompanhar em um projeto e aproveitar o tempo para conversar algumas demandas do festival.
respondeu formalmente, deixando claro que não havia truque ali. Chamei uma criada para trazer o meu chapéu e pedi para que avisasse a minha mãe. Confirmado a nossa saída, me dirigi para fora, um guarda nos acompanhava enquanto descíamos as escadas da saída. caminhava ao meu lado e, ao chegar em frente a charrete, ele estendeu a mão para me ajudar subir.
Enruguei o nariz, mas me apoiei nele, sentando o mais encostada no lado oposto possível e evitando ao máximo colar o meu corpo ao dele quando subiu. Dois guardas iam a cavalo na frente e dois atrás a fim de fazer a segurança, havia dado a instrução para onde ir, porém eu não tinha conseguido entender, por já estar um pouco longe.
Dada a largada, ficamos em silêncio. Só queria alguns minutos em paz antes que começasse a me encher novamente, contudo, a minha esperança logo foi rompida, pois ele bateu seu joelho ao meu, chamando-me a atenção.
― Como está?
Franzi quase que inconscientemente o nariz com a pergunta formal, mas respondi-o.
― Ótima, e o senhor?
Sua testa enrugou levemente, mas logo ele desfez a carranca.
― Estou falando sobre isso. ― Ergueu sua mão e tocou levemente o meu braço, coberto pela manga do vestido.
Eu repeli o seu toque em imediato, sentindo-me vulnerável pela lembrança e por saber que ele viu toda a minha desgraça aquele dia.
― Estou ótima! ― repeti com mais ênfase dessa vez.
soltou um pouco o ar pelo nariz e passou a mão por entre seus fios de cabelo. Ele empurrou-se de leve para mais perto de mim, diminuindo o espaço entre nós, e abaixou sua cabeça até que sua boca estivesse perto do meu ouvido.
― Você não precisa fingir, ... Não para mim. Eu estava lá, esqueceu? ― falou baixinho, impedindo que o cocheiro o ouvisse.
― Não, eu não esqueci que estava lá, . Não precisa me lembrar disso. ― Virei-me para ele com raiva, encarando os olhos azuis que me miravam.
ficou em silêncio enquanto me fitava, eu gostaria de saber o que ele pensava ou o que ele queria tentando forçar a barra com essa conversa barata. Nós não éramos amigos e ele seria a última pessoa que eu faria um desabafo.
Os olhos dele viajaram rapidamente pelo meu rosto e foi quando percebi o quão perto estávamos. Corrigi a minha postura e me afastei dele, levando meu olhar para o lado oposto, preferindo reparar na estrada que corríamos do que no rapaz ao meu lado. Ouvi um "tudo bem" murmurado por ele e isso foi a última coisa que falamos até que chegássemos ao nosso local de destino.

Eu não esperava que parássemos ali e muito menos que veria nesse local de forma tão familiarizada.
Fazia dez minutos que tínhamos chegado ao abrigo infantil de Atra, Ilha Lar. Não tínhamos muitas crianças órfãs, mas, por vezes, alguma tragédia poderia acontecer e aquele era o local que cuidava desses pequeninos até conseguirem um lar – se conseguissem.
Eu já havia ido lá algumas vezes com minha mãe quando era mais nova e não me recordava de ter tido a mesma recepção que agora. Desde o momento que pisei os pés dentro do abrigo, as crianças vieram correndo e gritando. Mas não foram para mim. Foram em direção a .
Elas falavam todas ao mesmo tempo e eu pouco conseguia distinguir, mas cada uma que estava ali queria chamar a atenção dele de alguma forma, seja puxando a sua blusa, ou balançando o braço ou grudando na perna dele.
A coisa foi tão intensa que eu estava ainda no mesmo local de entrada, mas mais de escanteio, ainda constrangida e deslocada no meio da festa. tinha o sorriso mais sincero que já tinha visto em seus lábios, bem diferente dos que ele dava quando estava sendo político ou dos irônicos e malandros que mandava para mim.
Ele abraçava uma por uma, conversava com elas e gesticulava bastante. Até que em um momento ele olhou para trás e me viu. Seu sorriso parecia um pouco tímido agora, como se eu tivesse pego-o no flagra. No entanto, isso não impediu que ele estendesse a mão em minha direção, chamando-me, e desse um passo para trás, tentando colocar um espaço confortável para que eu me aproximasse.
― Turminha, eu sei que estão muito animados hoje, mas eu gostaria muito que desse um Oi bem grande para uma pessoa que eu trouxe aqui. ― falou, pousando sua mão em minhas costas assim que aproximei.
Dei um pequeno sorriso em direção as crianças, que pareciam me notar somente agora. Vi a carinha de espanto de algumas e outras apenas com olhares intrigados. Não era surpresa para mim que talvez alguns desses pequeninos não me reconhecessem, mas confesso que choquei quando vi uma menininha se encolher.
― Essa é , a nossa princesa de Atra. ― iniciou e acho que foi a primeira vez que o ouvi dizer isso sem um pingo de desdém na sua voz. ― Ela veio passar o dia com a gente hoje, não é legal?
Alguns gritaram e pularam, mas meus olhos só conseguiam focar na pequena menininha escondida detrás das pernas de uma funcionária do local. Ainda que eu sorrisse e cumprimentasse a criançada a minha volta, minha atenção fora roubada para a pequena menininha ruiva amedrontada.
Queria ir até ela, mas era difícil e tinha muita gente para conversar. Abaixei-me e fui cercada de abraços, ao ponto de quase cair se não tivesse colocado a mão nos meus ombros para me apoiar enquanto ria. Um dos guardas que acompanhavam trouxeram alguns sacos e as crianças começaram a gritar e pular ao mesmo tempo, me deixando perdida.
― É a hora dos presentes. ― ele sussurrou para mim, explicando.
Ele estendeu a mão para me ajudar a cumprimentar o restante e me orientou até um dos sacos.
― Quer fazer a honra? ― Apontou para um deles.
Nem havia sido eu que comprei os brinquedos, mas, ainda assim, me permitiu participar disso. Ele poderia apenas usufruir do momento e me deixar de lado, mostrando que ele era o herói daquelas criancinhas. Mas não o fez e eu não conseguia entender esse ato de bondade. Não era o que eu esperava dele.
― O que está tramando? ― cochichei de volta com o cenho franzido.
Sua expressão era confusa e ele aguardava uma explicação, no entanto, provavelmente entendeu o que eu quis dizer porque balançou a cabeça e ficou levemente sério.
― Eu não sou o monstro que você pensa, . ― retrucou, deixando-me constrangida.
Não continuou olhando para mim, apenas abriu o seu próprio saco e começou a distribuir os brinquedos. A fila na minha frente já estava formada, então também comecei meu próprio processo.
À medida que eu deixava o presente na mão de um dos meninos, o sorriso deles cresciam e o meu coração se aquecia. Eu nem mesmo me lembrava das suspeitas com relação a , as crianças haviam me conquistado por completo.
― Você é a melhor princesa do mundo. ― Um dos meninos me agarrou pelo pescoço e me abraçou apertado, deixando um beijo estalado na minha bochecha e saindo correndo depois com a bola na mão.
Melhor princesa...
Crianças eram tão inocentes.
Eu era uma impostora ali. O mérito era todo do .
Com o tempo ali no abrigo, fui descobrindo algumas coisas como: o toda semana ia lá, brincava de futebol com os meninos, lia para eles e brincava de boneca com as meninas. Um das recepcionistas até comentaram que ele deixava que as crianças fizessem trancinha ou amarrasse seus cabelos.
Isso me dava uma imagem diferente do cara que eu conhecia. Não que eu tivesse como saber essas coisas de outra forma, mas fazia um mais humano e não apenas o cara que eu achava que queria me derrubar.
Eu não queria vê-lo dessa forma, mas era impossível quando eu ouvia sua risada genuína enquanto rolava com os garotos no carpete ou quando ele segurava um bebê no colo e fazia careta para que ele risse.
― Ele é ótimo, não é? ― Uma das funcionárias me flagrou observando-o e eu tentei me recompor. ― Não há problema em admitir. ― Ela sorriu para mim antes que eu negasse. ― Eu vejo ele nos palanques dos discursos, mas aqui... ele é diferente. O Sr. sempre está ajudando as crianças e ele tenta negar, mas sabemos que parte do que conseguimos aqui veio do próprio bolso dele. Nenhum dos outros políticos costumam vir fora da época dos eventos, mas o é frequente e as crianças o adoram.
Eu não sabia o que dizer, então apenas assenti, aproveitando do momento para saber mais sobre ele.
― Muitos dos meninos foram abandonados e se lembram disso. Não é todo mundo que gosta de viver em Atra. ― Ela deu de ombros e eu entendi bem esse sentimento.
Mas a ponto de deixar um filho para trás? Essa não seria eu.
― Por que não os levam? ― perguntei, sentindo a bile formar na minha garganta.
― Pode ser uma viagem difícil. Deus sabe quantos barcos já naufragaram no processo e os navios mais seguros têm limite de passageiros, então... Alguns ainda tentam se esconder e fugir de alguma forma neles, por isso levar uma criança só seria mais trabalhoso.
― Como alguém pode deixar o próprio filho para trás? ― perguntei indignada.
― Eu me faço a mesma pergunta todos os dias ― respondeu, um olhar triste nos olhos. ― Enquanto há pessoas que daria tudo para tê-los.
― Qual seu nome? ― perguntei curiosa.
― Hope.
― Nome curioso, é inglês?
― Sim ― respondeu rindo, um pouco do brilho em seu olhar voltando. ― Minha mãe não podia ter filhos e me adotou.
― Oh! ― Fiquei sem saber muito o que dizer, imaginando a sua própria história.
― Não sinta por mim, minha mãe adotiva é maravilhosa, eu mal me lembro dos meus verdadeiros pais. ― Passou a mão por seus cabelos escuros, o olhar jovial varrendo as crianças e parando na menininha que eu tinha visto anteriormente.
Fixei meu olhar nela novamente, a garotinha acuada no canto, sem brincar com nenhuma outra criança.
― Ela é introspectiva. ― Hope me esclareceu, percebendo o meu olhar. ― Sua mãe a deixou para trás. Ela passou horas na beira da ilha gritando para que ela voltasse até que alguém a encontrou. Agora ela quase não fala mais.
Eu tinha certeza que conseguiria ouvir o estalo da rachadura do meu coração naquele instante e sem perceber, caminhei até a menininha, agachando-me perto dela ao mesmo tempo em que ela se encolhia para ficar longe de mim.
― Olá. ― falei o mais doce possível, mas a menina permaneceu quieta. ― Não vejo nenhum presente em suas mãos. Não quis nenhum dos brinquedos?
Ela encolheu-se mais um pouco e eu estremeci com a minha tentativa frustrada de ter uma conexão com a garotinha.
Seus olhos não encaravam o meu por muito tempo, mas eu percebi que fixava no alto da minha cabeça. Olhei para trás para ver se tinha algo que chamava a sua atenção, mas não vi nada importante.
― O que você quer? ― perguntei e ela apenas piscou, mas seus olhos ainda fixados um pouco para cima me fizeram compreender. ― É isso aqui? ― Apontei para minha tiara e percebi seus olhos brilharem levemente.
Sorri para ela e retirei-a da minha cabeça.
― Você quer? ― perguntei e os olhos dela se arregalaram. ― Vamos, pode tocar. ― incentivei.
No início ela permaneceu quieta, mas logo sua mãozinha se estendeu com temor até tocar a tiara que eu havia estendido para ela. A menina segurou e seus olhos não cabiam em seu rosto. Ela tentou colocar em sua cabeça, mas ficou meio desajeitado e caiu. A garota se assustou e encolheu-se contra a parede. Peguei a tiara do chão e levantei vagarosamente em sua direção.
― Posso? ― Elevei acima da sua cabeça, dando a entender que queria colocar nela.
Aos poucos ela acenou e abaixou um pouco, permitindo que eu completasse o ato. Enfiei a tiara no meio dos seus cabelos ruivos e fixei-a para que não caísse.
― Uma verdadeira princesa. É seu, pode ficar. ― Sorri para ela e a menina levantou-se de uma só vez e saiu correndo, me deixando sem saber o que aconteceu.
Fui em sua direção, tentando segui-la, até parar no quarto que ela havia entrado e encontrá-la de frente ao espelho com a boca aberta e os olhos luminosos, deixando os meus próprios cheios de água.
Não percebi a presença de Hope e ao meu lado, por isso, enxuguei rapidamente uma lágrima que havia escorrido em minha bochecha.
― Ela não é a criança mais fácil daqui, mas é maravilhosa e precisa de todo amor. Obrigada por entender isso, Alteza. ― Hope murmurou ao meu lado, seus próprios olhos embaçados também. ― Um dia terei condições de levá-la para casa. Eu a amo.
― Entendo. ― respondi. Nunca tinha passado por isso, mas de alguma forma conseguia entender aquilo, era inexplicável.
Hope entrou no quarto e passou seus braços pela garotinha que sorriu para ela. Eu nem imaginava que pudesse sorrir, mas a menina havia feito isso para a jovem ao seu lado.
A mão de foi até o meu ombro e seus dedos roçaram o local levemente.
― Você percebe que deu uma coroa que vale alguns zeros antes da vírgula para a criança, não é? ― perguntou-me, mas eu não senti acusação em seu tom.
― Eu tenho outras, ela merecia mais do que eu. ― respondi, dando de ombros e me retirando do local para deixar as garotas a sós.
também não disse mais nada, voltamos para o salão e passamos o resto da tarde com as outras crianças, brincando e conhecendo mais cada uma delas. E, de alguma forma, o dia que eu pensei que seria um martírio para mim, tinha sido surpreendente. E o cara que eu achava que sabia tudo sobre ele, apenas me mostrou que era uma verdadeira incógnita.



Capítulo 11 – Em Busca de Respostas

A semana passou rapidamente enquanto eu me esforçava ainda mais para transformar o Baile Real da Primavera em algo de respeito e admiração. Cada dia meu coração estremecia ao lembrar que era um dia a menos para a chegada da festividade. Já havia feito coisas grandes e até ridículas: Desde de fazer o levantamento com dos locais com maior necessidade de receber as mercadorias que chegariam no navio, até experimentar todos os tipos doces existentes em Atra para a festa, além de escolher tecidos para ornamentação, arte para os convites, entre outras milhares de afazeres. Definitivamente um saco. Porém, um saco que ficaria um resultado muito bonito. Modéstia à parte.
― Estou orgulhoso de você, filha ― disse meu pai, assim que entrou no salão e me viu com dezenas de papéis espalhados, revistas internacionais que achei na biblioteca e outros rabiscos que eu utilizava para planejar o evento.
Ergui o rosto e sorri para ele, satisfeita que estivesse percebendo todo meu esforço.
― Fico feliz em ouvir isso. O senhor, mais do que ninguém, sabe que eu não queria organizar nada, mas já que estou incumbida de tal cargo, não quero meu nome sendo desmoralizado por aí. Se é para fazer algo, que seja bem-feito, não é? ― respondi enquanto me levantava para dar-lhe um abraço.
Seus braços envolveram meu tronco e sua mão afagou meus cabelos. Ele deu um suspiro profundo, como se um peso saísse de si. Talvez achasse que eu daria mais trabalho ou bateria mais o pé. Eu tentei isso no início, porém, foi em vão. Então agora tinha que colocar as mãos para a obra. Além disso, no fundo, acho que eu estava me divertindo um pouco, por incrível que pareça. Não era tão ruim se sentir útil.
― Não esperaria nada diferente de você. Sei bem que é capaz ― murmurou com um sorriso.
Desfiz o abraço e caminhei até a mesinha de centro para pegar os modelos dos convites. Uma assistente havia me enviado alguns pela manhã e até o final de semana eu deveria fechar tudo para poder enviá-los. Ao lado deles, uma lista de todos os convidados e alguns nomes passados especialmente pela minha mãe, que dizia que o convite deveria ser reforçado.
― Foi ótimo você ter chegado nesse momento. Estou com algumas dúvidas e creio que o senhor pode me ajudar.
― Claro. O que precisa?
― Assim que eu escolher o modelo do convite definitivo, já vou começar enviá-los aos convidados. Vi as marcações que mamãe fez dos convites especiais. Alguns como os governadores eu entendo, gostando de todos ou não, eles precisam estar aqui, até mesmo esse Paul Pervarti que ninguém suporta. Aí vem alguns secretários, líderes de aldeias e tudo bem, no entanto... há uma família em especial que nunca ouvi falar. Sr. e Sra. Westfall e Jolie Westfall. Dois convites, apesar de ser da mesma família, pelo que percebi. Por quê? Quem são eles?
Não era como se o nome me lembrasse alguma coisa, se fosse alguém ligado a política, eu deveria ter, pelo menos, ouvido falar.
Por que eles teriam um convite especial? Se forem apenas plebeus, o que os torna privilegiados para um convite para o baile?
Meu pai suspirou e passou as mãos em seus cabelos, enquanto parecia pensar no que responder. Sua demora só me constatava mais que havia algo por trás daquilo. Eu não sabia o que era, como sempre, mas descobriria. Já estava farta de segredos naquela casa. Se não quisessem me contar, tudo bem, mas eu iria atrás de respostas assim mesmo dessa vez.
― Como posso te dizer... São antigos amigos da família e sua mãe sente-se em dívida com eles.
Ergui a sobrancelha sem entender. A expressão dele era preocupada e franzia o lábio meio perdido na conversa.
― Dívida? Como a família mais poderosa de Atra poderia ter dívida com alguém que nunca ouvi falar? Financeira eu tenho plena certeza que não é. Então que tipo de dívida minha mãe poderia ter com eles? Além disso, nunca ouvi falar desses amigos, nem mesmo os vi.
... ― retrucou-me com repreensão. ― Você sabe que há coisas que estão além da sua compreensão, filha. Não vejo necessidade de querer cavar situações que não estão ao seu alcance.
Aquilo me irritou profundamente. Era sempre assim! A mesma ladainha.
― Não, pai. Para mim já chega! ― refutei. ― Tudo está longe da minha compreensão porque vocês não me deixam a par das coisas. Como querem que eu seja uma rainha um dia se eu não sei nem as coisas do meu próprio palácio? Vou ser a rainha vendada, que não enxerga um palmo diante do seu nariz. Querem que eu mude? Que eu assuma o trono? Tenha responsabilidades? Certo. Posso fazer isso um dia. Mas no escuro não. Me recuso.
― Querida, entenda, não é nada contra você, só que há coisas... coisas intensas demais, tristes por demasia. Há feridas não totalmente cicatrizadas que é melhor ficar onde estão. Tocá-las só faria que a expusessem de novo e eu temo que o curativo desta vez não seja suficiente para estancar o sangue que pode jorrar. ― Esticou a mão um pouco trêmulo para me acalmar, mas eu recuei.
Suspirei com cansaço e me assentei. Coloquei minhas mãos em minhas têmporas, massageando-as enquanto pensava no que dizer, tentando resgatar na memória todos os boatos vis que já havia escutado.
― Tem a ver com o passado da minha mãe, não é? Tudo tem a ver com aquele tempo fatídico, tenho certeza. São tantas perguntas sem respostas, tanta coisa que eu gostaria de entender. Por que, pai? Por que isso mexe tanto com ela? Eu não entendo. Foi por causa da morte do... ― Engoli, sabendo que isso deveria ser doloroso para ele também. ― Ela... Ela o amava? ― criei coragem para perguntar, mesmo querendo poder morder de volta tais palavras.
Eu não queria sugerir nada, pelo contrário, se minha mãe tivesse casado com qualquer outro, não seria eu que estaria aqui. Não queria ferir meu pai com nenhuma ideia e estava me esforçando para me controlar, mas tive plena certeza que deveria ter ficado quieta quando em um súbito a expressão dele se tornou dolorida.
... ― Papai engoliu e passou a mão no rosto em frustração. ― Eu não posso, querida, desculpe. Não é minha história para contar, pergunte a sua mãe se assim quiser.
― Tudo bem. O relacionamento anterior foi dela, mas o casamento de vocês pertence aos dois. Me diga, então, como foi que ela casou com você. Eu sei que eram amigos e que você e o tio viviam aqui no castelo desde sempre por causa do cargo político do vovô Bartollo. Como se apaixonaram? Ela descobriu que gostava de você por isso dispensou o... o outro? Ela traiu ele com você? Havia mais alguém?
Vi o rosto do meu pai paralisar, sua boca fez uma linha fina, acompanhado de um olhar pálido. Caminhou um pouco de um lado para o outro até sentar-se ao meu lado. Segurou minha mão, tentando passar um conforto e tranquilidade que nem mesmo ele possuía, eu sabia que estava tão atordoado quanto eu. Ele olhou para frente e deu um longo suspiro até começar a falar.
― Eu era o filho do governador, por isso meu pai sempre me trazia durante suas viagens a capital. Neste processo, sua mãe e eu nos tornamos amigos, nunca mais que isso. Eu sabia muito bem o meu lugar no grupo e jamais ultrapassaria essa linha. Algumas coisas aconteceram para sua mãe nesse tempo e... como posso explicar? ― Pensou durante uns segundos. ― Vamos dizer que, depois da morte dos pais da Eleanor, seus avós, eu era a pessoa certa no momento certo em que sua mãe precisava. Ela estava muito machucada e eu era o amigo que estaria sempre ao seu lado para consolá-la. E hoje estou aqui. ― Abriu um sorriso para mim ao final, quando se referiu ao casamento.
Era inegável o que ele sentia pela minha mãe. Era só observar seus olhos e sua expressão, tudo exalava o seu amor.
― Espere, deixa eu ver se eu entendi. Você disse que sabia o seu lugar no grupo. Que grupo é esse? Quem fazia parte dele? Tio Harry era um desses, né?
― Quantas perguntas! ― Deu uma risada levemente humorada, ainda que carregado de tensão. ― Sim, ele era um, mas não era só nós.
― Então quem?
― Você não o conhece. Era um outro amigo de longa data, seus pais trabalhavam no castelo...
. ― A voz da minha mãe retumbou na sala, interrompendo o meu pai. ― Que bom que te encontrei. Gostaria de saber como andam os preparativos para o Baile ― falou em alto e bom som, entrando no salão com uma expressão severa. Vi rapidamente uma troca de olhares entre meus pais e no mesmo momento soube que aquele assunto terminaria ali. Pelo menos por hoje.
Respirei fundo e colei um grande sorriso falso para ela.
É, não seria dessa vez.

*

Já havia anoitecido e eu aguardava todos irem dormir para colocar meu plano em prática. Se a dona Eleanor pensava mesmo que iria me ludibriar, ela estava redondamente enganada. Meu pai postergava e não me revelava tudo, apesar de sempre soltar alguma informação a mais. Minha mãe era dura como uma rocha, dali eu poderia bater o que fosse que nunca jorraria nada. A única saída, então, seria descobrir as coisas por mim mesma. Eu já estava encucada há tempos, mas agora algo cintilava em meu cérebro e eu não poderia deixar passar de jeito nenhum.
Quando percebi que todos já estavam adormecidos no castelo, calcei minhas meias e fui andando vagarosamente para não fazer barulho, rumo ao escritório da minha mãe. Sabia que se tinha algo que eu poderia descobrir nesse lugar, seria ali ou no quarto dela. Mas como o quarto era meio que impossível de se invadir, a solução seria o escritório mesmo. Me esgueirei até a porta e, ao chegar lá, vi que a mesma estava trancada. Droga. Teria que arrumar outra maneira para entrar. Lembrei-me de todas as artimanhas que fiz com Kath durante a nossa infância e recordei-me de uma passagem secreta que ia até o local. Percorri o caminho e, chegando lá, respirei aliviada por conseguir entrar sem muita dificuldade.
Do que adiantava trancar a porta se havia passagem secreta? Se bem que essas passagens eram exclusivas para a realeza e no máximo poucos soldados de alto escalão tinham conhecimento, sendo protegida dos criados, visitantes ou invasores.
Comecei a abrir as portas dos armários em busca de algo que pudesse saciar a minha curiosidade. Achei muitos relatórios, papéis de despesas, memorandos dos governadores, cartas internacionais, nada que pudesse me interessar. Nenhuma novidade, apenas coisas que eu sabia que com um tempo minha mãe até me obrigaria a ler.
Tentei então as gavetas da sua mesa, muitas estavam trancadas, me levando a pensar que talvez aquela invasão não fosse de tudo perdida. Pelo menos eu sairia dali sabendo que havia algo a ser escondido, depois eu voltaria mais bem preparada. Ao abrir a terceira gaveta da esquerda, ao fundo, embaixo de vários papéis aleatórios, achei um álbum. Ele era bonito e chamava bastante atenção. Peguei-o com interesse e comecei a folheá-lo.
Em sua capa, por dentro, estava escrito o título:
"Nossas Memórias",
Para minha querida Alexandra, com amor Michael.
Meus olhos se embargaram. Era do meu avô, aliás, dele para a minha avó. Minha mãe já havia me contado que ele adorava colecionar fotos. Vi que ali tinha algo que parecia uma recontagem da vida no palácio. Tinha uma foto dele com a minha avó, seus cabelos ruivos como os do tio Otto. Eles estavam no jardim e pareciam bem novos na época, ambos com sorrisos largos e emocionados, a mão do meu avô tocando a barriga da minha avó. Em outra eles tinham uma garotinha no colo, minha mãe, com um pirulito na boca. Logo após essa era uma foto da minha mãe com o Tio Otto, ela emburrada enquanto seu irmão puxava o seu cabelo.
Observei que em uma foto estava minha mãe e tio Otto, com cerca de 7 anos, eu acho, junto com outro garoto. Suas mãozinhas estavam dadas e o cabelo da minha mãe estava pregado ao rosto. Provavelmente estavam brincando e meu avô os pegou de surpresa com a foto. Foi impossível não sorrir com essa imagem selvagem dela. Até me fez esquecer Eleanor, antes de ser rainha ou qualquer coisa parecida, foi uma criança que brincou, riu e se divertiu. Até mesmo teve muita gente ao seu redor, ao contrário de mim, que sempre fui mais solitária.
Fui passando as fotos da infância da minha mãe. Em algumas o menino de antes continuava aparecendo. E, não muito depois, encontrei uma dela com mais outros dois, além dele. Olhei atentamente até perceber que um deles era meu pai, o outro eu não conseguiria reconhecer se não fosse os traços semelhantes da família. Reparei que minha mãe sorria bastante, os garotos estavam em volta dela e todos pareciam felizes. Daí em diante era comum sempre ver os três nas fotos, com raras exceções. Uma delas era a que agora eu encarava. O menino desconhecido estava sentado junto a uma pequena mesa e desenhava algo enquanto minha mãe o encarava, não era como se eles tivessem visto que a foto estava sendo tirada. O menino tinha um pequeno sorriso no canto dos lábios e um lápis na mão, enquanto seus olhos, mesmo com a cabeça abaixada, olhavam de canto para minha mãe. Ela sorria largo e parecia brilhar na direção dele. Era uma linda foto, mas não era meu pai. Quem era ele?
Os boatos diziam que minha mãe tinha tido um relacionamento antes do meu pai. No entanto, se eu fosse acreditar nos boatos, isso significaria que meu tio havia morrido por culpa dela. Ou que ela havia o traído com o meu pai. E eu me recusava a pensar tão baixo disso tudo.
De todos os boatos, o mais fácil de lidar era que talvez ela tinha tido um outro relacionamento. Mas se ela gostava tanto dessa pessoa e sofresse com isso até hoje, por que ela casaria com meu pai? Ou pior... o que o meu falecido tio tinha a ver com tudo isso?
Continuei a encarar a foto, se eu pudesse interpretar toda a história apenas por elas, eu diria que ela e esse garoto tinham algo. Eu só havia visto esses mesmos olhos quando minha mãe olhava para meu pai. Porém, aquele sorriso parecia mais genuíno e leve, minha mãe parecia apenas uma garota... uma garota apaixonada.
Retirei a foto do álbum para observar melhor, queria ver de perto quem era o rapaz que estava com minha mãe, contudo, no mesmo momento, ouvi um barulho vindo de fora da sala. Um frio percorreu na minha nuca descendo pela minha coluna até o dedo mindinho do pé. Ouvi o som da fechadura da porta, apontando que alguém estava entrando ali. Não tive muito tempo para pensar, precisava sair dali de alguma forma ou mesmo me esconder. Se minha mãe soubesse que estava me esgueirando pela noite, eu perderia toda a minha vantagem. Com certeza ela esconderia qualquer coisa que estivesse disponível por ali e que pudesse me dar algum tipo de resposta. Com agilidade, desliguei o abajur, joguei o álbum novamente na gaveta e carreguei a foto comigo já que não daria tempo de guardá-la. Corri para a passagem secreta enquanto eu ouvi a porta ranger ao se abrir e a luz do escritório se acender.
Ufa, essa havia sido por pouco.
Não fui embora, pelo contrário, fiz como antigamente com Kath, fiquei observando pela porta falsa, disfarçada de quadro, a fim de saber quem havia entrado ali naquela hora e o que queria. Abri uma fresta para observar e me deparei com minha mãe. Ela tinha um semblante abatido e suas olheiras estavam expostas sem a maquiagem que usava no dia a dia. Ela percorreu a sala até chegar perto de um quadro que estava na parede. Retirou-o dali, revelando um cofre escondido, que ela abriu rapidamente. Dentro continha uma caixa que eu não conseguia definir de longe, mas acompanhei ela carregá-la até a sua mesa.
De dentro dela minha mãe retirou algumas folhas e colocou de lado, porém, fixou-se em uma com um olhar perdido e tenebroso. Por muito tempo ela ficou estática ali, olhando para aquele papel. Não havia como eu saber o que havia escrito, mas pude perceber a seriedade quando comecei ouvir soluços e fungadas vindo dela. Minha mãe elevou a mão direita, colocando sobre a boca enquanto as lágrimas desciam copiosamente sem parar. Já havia visto ela chorar escondida, mas não daquela forma. Foi como o desmantelamento de uma estátua, minha mãe sempre mantinha uma pose dura, porém, ali sozinha, ela se quebrou e deixou todos os seus sentimentos descarregarem.
Ela largou o papel sobre a mesa e colocou as duas mãos sobre o rosto. O seu soluço era alto e não consegui entender a minha própria emoção diante daquilo. Ela exalava uma dor tão profunda que cortava a minha alma. Eu só queria poder entrar ali, abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem, de uma forma ou de outra, porém, não podia.
Alguns minutos depois, minha mãe olhou para cima, parecendo conseguir recuperar o fôlego para respirar. Dobrou a folha e colocou-a juntamente com os outros papéis que estavam dentro da caixa, procurou uma outra e, ao achá-la, franziu o cenho e a observou. Desta vez o papel era bem pequeno, apenas uma tira. Ela olhava-o por um bom tempo com o cenho franzido, como se quisesse desvendar algo ou estivesse intrigada. Vi seu semblante sofrido ser trocado para furioso. Seus olhos exalavam raiva e suas unhas fincaram em seu próprio punho. Ela amassou o pequeno papel, jogou-o para longe com um alto rugido e deu um soco na mesa, fazendo-me cair de bunda assustada no chão.
Gelei com medo que ela estivesse escutado o barulho da minha queda e desconfiasse da minha espionagem. Voltei para a minha posição e pude ver que ela havia ido para o quadro falso que tampava a saída para o esconderijo, mas depois deu meia volta. Andou pequenos passos no escritório, bem meticulosamente, e eu tranquei a respiração com medo que apenas o meu expirar denunciasse a minha posição ali.
Ainda com um olhar desconfiado, minha mãe virou-se para o lado onde havia jogado o papel, abaixou-se e pegou-o, desembrulhando-o. Caminhou novamente para onde estava a caixa, guardou o pequeno pedaço, fechou a caixa e trancou-a novamente no cofre. Logo em seguida desligou as luzes e saiu do escritório, fazendo-me respirar aliviada novamente.
Voltei ao meu quarto pela passagem secreta e guardei a foto no mesmo baú onde escondia meus acessórios de disfarce. Por essa noite eu havia dado um passo mais perto para uma resposta, o problema era que ela só me levava para mais milhões de perguntas.



Capítulo 12

Durante a semana, passado o susto, resolvi guardar um pouco meus planos mirabolantes e continuar a organizar a festa. Já havia concluído que tirar algo do meu pai seria uma missão inútil. O melhor a se fazer era esperar a poeira baixar e tentar uma abordagem sutil. É claro que, como não sou boba, já estava planejando também uma forma de voltar ao escritório e conseguir chegar ao cofre. Algo me dizia que aquelas folhas que estavam com minha mãe me trariam muitas respostas.
Faltavam apenas duas semanas para o baile e os convites haviam ficado lindíssimos, mesmo dentro de nossas limitações. Eles tinham um estilo rústico e foi feito manualmente pelos nossos artesãos de Atra. Nele estava inserido o brasão da ilha e aos lados, em dourado, haviam flores que saíam de perto do brasão até as laterais do papel. O convite ficava dentro de uma caixinha de madeira decorada e, no centro, o nome do convidado. Estupendo.
Eu já havia mandado enviar todos os convites para os governadores e demais convidados especiais de Atra, com exceção de um. Este último estava bem guardado comigo e eu faria questão de entregar pessoalmente. Não que eu quisesse estar em sua presença, mas seria uma forma de abordá-lo novamente. Olhei para as letras impressas: " ". O petulante rapaz que vinha tirando minha paz e meu sono.
Analisei o restante da lista de afazeres, já estava praticamente tudo adiantado. Com as instruções que havia seguido de nossa cerimonialista, eu consegui praticamente resolver todas as pendências. O trabalho árduo mesmo eu não faria, como, por exemplo, a arrumação, mas eu precisava estar a par de tudo e saber todos os comandos. Os artefatos para decoração já estavam todos devidamente escolhidos. Sem muito exagero, mas nem simples demais, apenas atraente o suficiente para impressionar. As comidas também já estavam todas encomendadas.
Minha mãe disse que o baile era uma forma de investirmos e potencializarmos o que tínhamos em nosso país, por isso, haveria comidas típicas da ilha, dando oportunidade de crescimento para os comerciantes, além de fazer com que os visitantes que chegassem experimentassem das primícias e iguarias do reino.
Mais tarde, Lylliane trouxe o vestido que eu havia encomendado. Experimentei, auxiliada pela minha funcionária, e olhei-me no espelho, amando o resultado.
― O que acha, Lylli? ― perguntei, virando-me para ela.
― Está linda, Alteza. O tom champanhe faz jus com o tema Primavera, além disso, combinará perfeitamente com seus cabelos e olhos.
― Esse é meu primeiro evento como anfitriã, estou nervosa ― confessei, passando a mão pela saia do vestido e olhando-me novamente pelo reflexo.
― Vai dar tudo certo, Princesa. ― Sorriu para mim e entrelaçou seus dedos na frente do corpo. ― Observei a senhorita correr atrás das coisas durante a semana toda, tenho certeza que tudo ficará perfeito. Quanto às vestimentas, você já é linda, o vestido apenas realçará ainda mais a sua beleza. Quem sabe arrume até um pretendente ― murmurou, colocando a mão na frente da boca para disfarçar, como se não estivéssemos sozinhas no meu quarto.
― Nada de pretendentes, pelo menos não por enquanto. Tenho outros focos em mente primeiro, por isso, creio que não ocorrerá tão cedo. Além disso, se depender da minha mãe, terei tantos afazeres para governar que mal terei tempo para namorar. ― Suspirei.
― Ah, mas não diga que não tem ninguém em mente... Uma moça tão bela e importante como a senhorita deve ter todos os rapazes de Atra aos pés.
Ri de sua inocência. Se ela bem soubesse o quanto era difícil estar no cargo onde estou. Os homens de Atra basicamente dividiam-se em dois: os que se aproximavam devido a minha coroa e os que se intimidavam pela minha posição e não tinham coragem de se aproximar.
Bem trágico.
― Lylli, as coisas são bem mais difíceis do que você pensa. Não vejo homens em Atra para mim.
― Então a senhorita importará um rapaz estrangeiro? ― Gargalhei com sua pergunta, porque se bem a conhecia, não estava brincando com minha cara, ela realmente pensava que eu detinha de tal poder.
― Claro que não, Lylli. Se bem que... lá fora deve ter alguns muito interessantes ― falei, dando-lhe um sorriso malicioso e arrancando-lhe um outro de volta.
― Bem que eu sabia que algum rapaz, com certeza, já havia mexido com você.
― Calma lá! Eu só disse que são interessantes e não que estou planejando casamento ou algo do tipo. Quem sabe o navio me traga homens bonitos. ― Alarguei meu sorriso, lembrando de como eu adorava os Bailes. Ah, como eu gostava. Era a oportunidade de "conhecer" melhor os convidados. Desta vez como anfitriã oficial, com certeza serei mais requisitada ainda.
Ri internamente enquanto pensava em mil formas de me esbaldar durante a minha tarefa e após muita conversa jogada fora, retirei o vestido e entreguei-o para que Lylliane levasse-o de volta e o guardasse.
Terminado os meus afazeres, resolvi entregar o convite que faltava. Se me lembrava bem, neste horário ainda estaria no escritório. Chamei George para poder me levar até lá e, antes que eu saísse, ouvi minha mãe me chamar.
, espere. Irei com vocês ao centro. Preciso fazer umas visitas filantrópicas e aproveitarei o George para me levar ― disse, entrando na charrete comigo.
― Irá demorar? ― perguntei a ela.
― Provavelmente. Tenho que passar em algumas instituições, talvez só chegue em casa à noite. ― Arqueei a sobrancelha.
― Mas se não voltará tão cedo por que quer ir no mesmo carro que eu? Como irei voltar se você estará com o George para lá e para cá? Até onde eu sei o George é o meu motorista.
― Sim, mas eu quero passar um tempo a mais com minha filha, nem que seja poucos minutos ― respondeu, revirando os olhos com a minha pergunta. ― Tenho visto que tem se dedicado e quero parabenizá-la por isso. Ficou tão envolvida que tenho tido pouco tempo com você nos últimos dias. E quanto ao George, fique tranquila. Pedirei outra pessoa para te buscar.
― Obrigada ― murmurei pelo seu elogio. Pelo menos meu esforço não estava sendo em vão e estava acalmando a fera. ― Já está tudo pronto, pelo menos na teoria. As programações estão todas organizadas, as pautas em dia e fechamos a recepção do dia que o navio atracar. Os comandos para o baile também estão todos prontos e os convites enviados. Agora só falta a mão na massa, que no caso não é comigo ― informei-a e quando virei em sua direção, seus olhos estavam arregalados como em espanto. ― O que foi?
― Desculpe, filha. Não esperava que pudesse se sair bem tão rápido. Já acabou tudo mesmo?
― O problema é que sempre me subestima, mãe ― respondi, dando de ombros, fingindo não me importar. ― Tudo já está definido. Só falta um convite para entregar, mas farei isso agora.
― Sinto muito se lhe fiz pensar que não era capaz, . Você sabe que não é isso, pelo contrário, sei como pode ser eficiente quando quer, só achei que... talvez fizesse mais birra.
― E adiantaria? ― Arqueei a sobrancelha para ela.
― Na verdade não ― respondeu com um sorriso no canto dos lábios.
― Pois então! Para que retardar algo que não vou me livrar. Melhor concluí-lo logo e com êxito.
― Muito bem. ― Voltou a olhar para frente, ainda com uma expressão tranquila. Estaria minha mãe pela primeira vez orgulhosa de mim?
Assim que paramos em frente ao escritório do Sr. Marcus, desci e despedi da minha mãe. Meu foco era chegar até , mas acabei esbarrando com o seu pai na entrada e tive que cumprimentá-lo. Para a minha sorte, ele não estava com muita aptidão para conversa, tão pouco eu, então pude continuar andando até chegar ao meu destino, dessa vez não encontrando Annyelle, graças a Deus.
Ao chegar à porta, avistei-o com a cabeça baixa escrevendo alguma coisa. Encostei na lateral da entrada e esperei que ele desocupasse, não querendo ser mal educada, apesar do meu instinto provocador querer irritá-lo. Acho que fiz algum tipo de barulho, pois no momento que me escorei para esperá-lo, ele ergueu sua cabeça e olhou em minha direção com um sorriso soslaio.
― Ora, ora, ora! Olha quem está aqui! ― exclamou, encostando suas costas na cadeira e cruzando seus braços por sobre a mesa preguiçosamente. ― Sabe, , eu estou acostumado a ter mulheres vindo até mim, mas até mesmo eu esperava que você demorasse mais ― concluiu, levantando e andando até mim devagar até encostar do outro lado do batente da porta.
Ele inclinou-se, apoiou a mão na parede ao meu lado e esticou sua mão para pegar uma mecha do meu cabelo, deixando-me desconfortável com a proximidade. Dei um passo para o lado, desvencilhando-me dele e forcei um sorriso sorrateiro para que ele não percebesse.
― Seu ego deve ser do tamanho da sua cabeça oca, não é, ?! Pois saiba que eu estou atrás de você sim, mas por outros motivos.
― Ok... ― Riu e caminhou para o centro da sala novamente, fazendo um movimento para que eu pudesse entrar também.
Fechei a porta atrás de mim e caminhei até a mesa, colocando a caixa do convite em cima dela para mostrar o verdadeiro motivo de estar ali. Ele olhou e deu uma risada.
― Essa é a sua desculpa?
― Não, , essa é a verdade. Vim trazer o seu convite para o Baile deste ano que, caso tenha esquecido, fiquei incumbida de fazer. ― Ele arqueou uma sobrancelha, ainda com um sorrisinho petulante nos lábios.
― E o que me torna tão especial para que a princesa e anfitriã da bela festa venha pessoalmente entregar a mim o convite? Ah, que por sinal, eu estou na organização também, caso ela tenha esquecido.
Rolei os olhos porque eu não tinha resposta para isso, na verdade. Eu vim porque queria provocá-lo de alguma forma, eu acho. Preferia ver esse lado do do que o lado bonzinho que brinca com criancinhas, era mais fácil lidar com o filho do Marcus petulante do que o bondoso que se colocava diante de uma chuva de tomates para me proteger. Talvez eu só quisesse ver qual deles eu encontraria hoje.
― Não se ache tanto, eu estava de passagem e resolvi parar ― menti, mas ele não saberia mesmo.
― Eu acho... ― começou lentamente enquanto um sorriso se desenrolava ― que você veio garantir que eu guarde uma dança para você.
Gargalhei porque por essa eu não esperava.
― Sério? ― zombei.
― Não diga que não tem curiosidade de saber como seria valsar comigo. Talvez se não tivesse me evitado todos os anos anteriores já saberia.
― Tive pares melhores, eu garanto. ― Pisquei, lembrando de uns bonitinhos estrangeiros que eu já tinha dançado. Tá bom que eles não eram bons na valsa, mas, pelo menos, valia os beijos nos corredores escondido.
― Você não pode afirmar que não gosta de algo sem provar ― refutou, contraindo levemente a sobrancelha.
― Então talvez eu prove ― devolvi, sabendo que a frase tinha saído com um tom muito mais malicioso do que era a minha intenção, mas dane-se, o efeito foi o pretendido porque os olhos arregalados de não conseguiam esconder o choque que ele levou com a minha resposta.
Levantei e sorri para ele. Meu troco estava dado. Se ele achava que poderia brincar comigo, agora ele saberia que eu entraria nesse jogo também, seja lá qual fosse. Eu estava cansada de me sentir intimidada e perdendo para as insinuações dele, não deixaria isso se repetir. Ele queria me desestabilizar ou era apenas o jeito dele? Eu não sabia, mas se ele achava que poderia jogar, ele que se preparasse, porque eu também poderia.
Saí do escritório com um sorriso no rosto. Era muito bom ter a última palavra, ter o deixado lá boquiaberto me deu uma sensação maravilhosa. Eu deveria fazer isso mais vezes.
Quando saí, lembrei que George não estaria ali e minha visita a havia sido tão rápida que era capaz da minha mãe nem ter mandado outra pessoa me buscar. Fiquei na entrada, não querendo esperar no calor escaldante de hoje e sem querer também ter que lidar com algum outro rebelde com tomate.
Passados alguns minutos, minhas pernas já doíam de ficar em pé e eu já estava cogitando pedir carona a qualquer pessoa que passasse.
― Parece que alguém ficou na mão hoje. ― Ouvi uma voz sussurrada atrás de mim, soprando em minha orelha. Arrepiei no mesmo momento e dei um salto para o lado com o susto, não evitando revirar os olhos ao olhar para a face do indivíduo.
― Não que seja da sua conta, claro ― respondi, não querendo estragar toda a minha performance anterior.
― Talvez seja mais do que você pensa, princesa. ― Posicionou-se ao meu lado e apontou para um lado da estrada de onde vinha um homem puxando a charrete, que vinha com um brasão da família . ― Passei no escritório do meu pai e tinha uma nota, parece que você precisa de uma carona.
― Você não pode estar falando sério? ― A vida não colaborava também nem um pouquinho comigo, valha-me Deus.
― A não ser que você queira ir embora a pé, sim, é sério.
― Que raio caiu no mundo para minha mãe achar que de todas as pessoas eu iria querer mais algum tempo com você? ― reclamei, irritada.
A gente tinha não sei quantos cavalariços, mas não... Minha mãe precisava me fazer ir logo com .
― Olha, Alteza ― falou em tom de deboche, agora irritado. ― Não que eu ache você a melhor companhia do mundo, mas eu só estou atendendo às ordens da toda poderosa rainha ― disse com desdenho. ― Ao que parece ela convocou uma reunião para hoje ainda e meu pai quer que eu esteja presente também. Como estamos indo para o mesmo local, não custava nada que fôssemos juntos ao invés de ter que deslocar um motorista de lá só para buscar a madame aqui.
O problema não era eu ter que pegar carona, mas sim pegar carona com ele. Essa situação toda entre a gente estava me sufocando e eu me sentia instável perto de . Hora eu queria ir até ele, irritá-lo e provocá-lo e, momentos como agora, eu precisava de uma distância segura para respirar.
Bufei, revoltada com a ideia, mas caminhei ao seu lado até o veículo estacionado.
― Relaxa, . Quem sabe depois vai até querer pegar carona comigo mais vezes. Cuidado para não se apaixonar ― provocou com um sorriso de canto e abrindo a porta para que eu entrasse.
Fiquei surpresa com o gesto, porém não demonstrei. Um belo gesto associado a uma fala desprezível não mudaria meu conceito sobre ele.
― Há, há. Até parece, . Já lhe disse que preferia atravessar o mar de Atra e faria isso até pelada antes que tal coisa acontecesse ― falei sem pensar.
― Tá aí uma cena que seria maravilhosa de se ver. ― Olhou-me de canto e abriu um sorriso safado que me fez corar.
Normalmente eu não demonstrava meu constrangimento, mas com aquela frase, eu queria me esganar por ter lhe dado um arsenal tão grande para usar contra mim. Fiquei tão sem graça que não pude prosseguir com minhas alfinetadas e permaneci calada boa parte do percurso. depois disso também não me dirigiu a palavra, ficando apenas absorto em algum tipo de pensamento que eu esperava muito não estar relacionado a conversa anterior.
Fiquei distraída até o veículo parar em algum lugar que não era nem de perto o caminho para o castelo. Me assustei de início. Será que meus pensamentos sobre alguém sair morto ao final do "passeio" era realmente verídico na cabeça dele? Olhei-o, espantada, porém ele apenas acenou e saiu. Observei em volta até que ouvi o barulho da minha porta ser aberta. abriu-a e estendeu sua mão para mim, me deixando estarrecida. Demorei alguns segundos para entender o que queria, pois estava atordoada com tudo isso.
― Onde estamos? ― perguntei, vendo pular da charrete e estendendo a sua mão para mim.
Estava confusa, mas aceitei a sua mão. poderia ser filho do inimigo e muito irritante, mas nunca imaginei ele como um assassino, então sentia mais curiosidade do que medo.
― Muitas perguntas, princesa. Aguarde e verá ― respondeu, fazendo mistério.
― Você por acaso está me sequestrando? ― Olhei para ele, desconfiada.
mirou-me de volta e riu da minha pergunta.
― Apenas venha, , deixe de ser tão arredia apenas por um momento. ― Senti sua mão me puxar de leve e me fazendo caminhar em direção aonde ele queria.
Dei-me conta naquele instante que nossas mãos ainda se tocavam e a recolhi no mesmo instante. percebendo meu afastamento abrupto, olhou-me pelo canto e apenas balançou a cabeça.
Atravessamos por vários minutos um pequeno caminho de pedras e passamos por algumas árvores em uma pequena mata que havia no local. O mato ia se fechando até o fim da estradinha, mas, assim que chegamos ao final, o espaço se abriu e lá havia uma praia magnífica. Haviam cascalhos de pedras que formavam piscinas naturais com as águas que as ondas traziam. As folhas das árvores na costa faziam sombra e refletiam na transparência do mar. Era lindo.
― Por que me trouxe aqui? ― Virei-me para ele emocionada com a paisagem, mas, ao mesmo tempo, desconfiada de tudo.
― Você precisa relaxar mais, . Te vejo sempre tensa e arredia por aí, achei que precisasse de um tempo para espairecer ― respondeu, enquanto olhava o mar.
― Estou sempre assim porque você consegue extrair o pior de mim, ― contra-ataquei e fechei a cara para ele. Ele não podia simplesmente chegar para mim e falar coisas como se me conhecesse.
― Eu sei que causo algumas coisas em você. Mas, não falo disso, . Você quase não sai do castelo, tem os afazeres com sua mãe, agora o baile... Achei que seria bom só não fazer nada por um instante e admirar a natureza. Olha.. Que tal fazer um jogo?
Arqueei a sobrancelha sem entender aonde ele queria chegar com isso.
― Vou te propor algo, mas fique tranquila, pois não é nada indecente ― prosseguiu, dando uma risada.― É apenas uma forma para que a gente possa conversar sem entrarmos em uma disputa de quem ataca mais o outro.
― Estou ouvindo...
― Então... é o seguinte. Vamos chamar de Hora da Verdade, quando pedirmos esse momento, falaremos como duas pessoas civilizadas, sem xingamentos ou ofensas. Apenas conversaremos como duas pessoas normais. O que acha?
Ri da sua sugestão. Na verdade, nem saberia se daria certo. Estava tão acostumada já ao jeito agressivo e irritante que não ficaria à vontade sendo apenas normal com ele. E outro detalhe... Para que eu iria querer ter uma conversa civilizada com ? Eu não poderia esquecer quem ele realmente era. Filho do Marcus .
― E por que acha que eu aceitaria isso?
― Ah, vamos lá, , não seja tão dura – interpelou, virando-se em minha direção e ficando de frente para mim. ― O que tem a perder? É só por alguns minutos, eu não vou te amarrar em uma cadeira da verdade. Só quero poder ter algum momento normal com você caso um dia precisemos conversar algo que seja realmente sério.
Pensei em sua proposta. Realmente era muito difícil ter algum momento com ele em que nós não estivéssemos nos atacando. Se algum dia fosse necessário algo diferente, acho que eu nem saberia como abordá-lo.
― Caso eu aceite... ― iniciei, fazendo suspense ―, saiba que esse nome é péssimo. Até eu dizer as três palavras, já desisti de ter algum tipo de conversa com você.
― Então o que sugere? ― Abriu um sorriso que aparentava apenas feliz, nada dos cheios de insinuações.
― Verdade. Uma palavra só. Quando quisermos conversar algo basta dizer essa palavra que abaixaremos as armas. O que acha? ― perguntei, olhando para ele.
― Para mim está perfeito ― respondeu, me encarando com seus olhos azuis. – Venha comigo. ― Segurou minha mão novamente e puxou-me em direção a um tronco de madeira que havia mais adiante.
Sentamos ali e olhamos para a água, o sol estava se pondo e alguns pássaros sobrevoavam, o canto junto com o barulho da água era incrível... O sol parecia "afundar" no mar. A mesclagem do alaranjado, o entardecer e o encontro com a água tornava tudo surreal.
Eu estava embasbacada com a imagem ali quando senti se remexer ao meu lado e sua voz murmurar baixinho.
― Verdade ― pediu, encarando-me, e meus olhos voaram para ele. ― Eu realmente te trouxe aqui para que relaxasse, . Podemos ter nossas desavenças, porém imagino que deve ser difícil estar na sua posição. Não concordo com tudo que diz ou faz, mas, de qualquer forma, todos merecem um tempo para si mesmo.
Apenas consegui assentir com a cabeça. Acho que ainda não era boa em simplesmente conversar. Vendo que eu não diria nada, ele resolveu prosseguir.
― Sei que eu te irrito e você me irrita também. Porém venho te observando estes dias e vi que parece mais cansada e estressada do que o normal. Achei que talvez fosse bom apenas passar aqui, esquecer um pouco das obrigações e relaxar. Fiz mal?
― Não ― murmurei. ― Apenas ainda não sei o que dizer... Foi... inesperado. ― Engoli em seco suas palavras. Ele disse que estava me observando? Por quê? Nada fazia sentido na minha cabeça, mas como estávamos no momento da "Verdade", foi a única coisa que consegui proferir.
Como já disse, preferia lidar com o outro , esse me confundia.
― Como conhece este lugar? ― perguntei a primeira coisa que saiu da minha cabeça confusa.
― É apenas um local que eu gosto de vir quando estou com a cabeça cheia. Vi como estava pensativa e longe no caminho e pensei que fosse bom te trazer aqui também. Parecia precisar mais do que eu no momento.
Apenas arqueei minha sobrancelha. Não podia falar nada por causa do trato, mas o acordo não dizia nada sobre expressões faciais, né?
― Ah, qual é ? Eu te perturbo, mas também sou um cavalheiro. Fui criado em meios nobres como você. Não sou um monstro, posso até ser mais legal se tentar ― gracejou e soltou uma risada para mim. Apenas dei um sorriso fechado, erguendo o canto da boca e assentindo com suas palavras.
Voltamos a ficar em silêncio, apenas observando o sol terminar de se pôr. O vento soprava mais forte naquele fim de tarde, fazendo com que meus cabelos voassem e tampassem meu rosto. Em um dos momentos olhei para o lado e vi o perfil de em contraste com aquela paisagem. O sol que ainda restava ali batia em seus fios loiros escuros, fazendo-o ficar ainda mais bonito. Neste instante, parte do meu cabelo voou pela minha face. , olhando para o lado, viu a minha bagunça, ergueu a mão, pegou a mecha rebelde do meu cabelo e colocou atrás da minha orelha.
O gesto parecia simples, mas em meio àquele momento absorto, a forma gentil e a beleza presente, era muito... muito mais. Aquela proximidade estava mexendo comigo de uma forma que eu não saberia explicar e eu não me sentia à vontade. Engoli em seco no mesmo instante e virei minha cabeça novamente para frente.
― Acho que deveríamos voltar. Nossos pais já devem estar preocupados com a nossa demora. ― Cortei o momento levantando-me abruptamente e acabando com qualquer situação que tivéssemos tendo ali.
― Tem razão. ― Vi vestir aquela capa séria novamente e trazer de volta o olhar superior. Talvez não tivesse gostado da minha "fuga". ― Vamos. ― Guiou-nos novamente para ir embora.
Voltamos a charrete e ao chegar no castelo, saí apressada. Não queria ter que me despedir dele ou explicar para alguém porquê demoramos a chegar. foi direto para a sala de reunião e eu estava muito atordoada para conceber aquele momento atípico que tínhamos passado. Só queria tomar um banho, relaxar e não pensar em nada daquilo. Até porque, com certeza, não significava nada. Ele apenas me viu absorta com as coisas do baile durante as últimas semanas e quis fazer uma boa ação, pois como disse, querendo ou não, ainda era um cavalheiro.
Argh.
Quanto mais eu tentava afastá-lo da minha cabeça, parecia que meus pensamentos queriam voltar ao infeliz. Antes eram suas discórdias, insinuações e agora seu gesto gentil. Por que ele não poderia ser apenas aquele petulante? Ele já estava fazendo seu trabalho bem o suficiente me tirando do sério, não precisava me confundir com seu ato de bondade.
Decidida a não pensar mais sobre isso, tentei ler um livro em meu quarto para me entreter, no entanto, mais de uma hora depois, precisei sair e beber um copo de água, quando acabei avistando minha mãe caminhando pelo corredor. Meu pai veio ao seu encontro e pareciam conversar algum assunto sério de acordo com suas expressões. Não esperei, apenas dei passos apressados e quis interceptá-la ali mesmo.
― Como você pôde arrumar um qualquer para me dar carona? ― exclamei, indignada.
Minha mãe arqueou as sobrancelhas, assustada com a forma que a abordei, e meu pai me olhou com uma expressão questionável.
― Não entendo o problema, ― falou, séria.
― Como assim não sabe? O , um . Esqueceu quem eles são?
Minha mãe revirou os olhos com impaciência diante dos meus questionamentos.
― Não, , eu não esqueci. E sim, se houvesse outra forma eu até pediria outra pessoa, mas também não vejo motivo para essa arruaça por causa desse rapaz ― rechaçou-me.
― Talvez porque ele é irritante, nos provoca e segue os mesmos caminhos do pai. Simplesmente por isso. Você poderia ter pedido qualquer outra pessoa, qualquer uma das dezenas de pessoas que trabalham no palácio, mas me fez voltar com ele.
, querida ― minha mãe manteve o tom firme e brando, tentando manter a calma ―, eu estava ocupada quando surgiu um imprevisto e tive que convocar o conselho imediatamente. Voltei, encontrei o Sr. e ele me pediu que o filho também comparecesse. Vocês estavam juntos no escritório, ambos viriam para cá, então ele ofereceu a condução. Por qual motivo eu negaria? Queria que dissesse "Não, Marcus, não é necessário porque minha filha tem uma birra adolescente com o seu filho então não podem vir juntos"?!
― Na verdade eu gostaria sim que tivesse falado isso, mas sem a parte da birra adolescente. Você poderia trocar facilmente por "seu filho é intragável". Eu ficaria muitíssimo feliz. ― respondi com sarcasmo.
― Chega de me ocupar com bobagens, . Já expliquei, chega! ― retrucou, saindo impaciente enquanto meu pai ficou para trás, incrédulo.
Claro que ele não deixaria isso passar, já que eu havia contado antes o meu problema com o na festa.
― Pode me explicar o que foi isso? ― questionou-me.
― Nada, pai. Eu só não suporto ficar no mesmo ambiente que aquele rapaz ― desdenhei.
― E desde quando mentimos um para o outro, ? ― retrucou, suspirando com pesar.
― Não mentimos, pai, mas, pelo visto, alguém omite bastante. No fim, acho que é a mesma coisa. Se não confia em mim para contar os seus segredos por que contaria os meus? – joguei de volta, minhas palavras exalando minha raiva.
Meu pai piscou em minha direção, um pouco chocado com a rudez da minha voz. Não queria tratá-lo desta maneira, mas estava nervosa por causa do e acabei descontando nele.
― Já te expliquei tantas vezes os meus motivos... ― começou.
― Não quero mais desculpas, pai, sinto muito. Estou farta! Cansada de segredos, cansada de ser cobrada, cansada desse baile idiota e, mais ainda, não tenho condições emocionais para suportar, ou mesmo, entender o .
― Este garoto está mexendo com você.
― Sim, pai, mas não da forma que você pensa. Ele está mexendo é com meus nervos... ― Quis deixar claro antes que ele romantizasse a situação.
― Se é o que pensa, tudo bem. Só quero que tome cuidado. Estarei aqui para você se precisar ― falou com doçura, contrapondo o meu jeito agitado.
Seus braços me rodearam e me trouxeram para dentro do seu abraço, deixando um beijo no topo da minha cabeça e um longo suspiro.
― Eu te amo, filha.
Pisquei, deixando sair toda irritação que eu estava carregando. Dentro do carinho paterno, segurei as lágrimas e apenas me confortei.
― Também te amo, pai.



#4 Diário da Eleanor

23 de maio 1999

― Você está com ele? ― perguntou e meu coração deu um solavanco com o susto.
Abri a boca para tentar retrucar, mas ele levantou a mão pedindo que eu parasse.
― Eu os vi, não negue. ― Sua expressão se fechou e ele parecia desolado. ― Eu achei que sempre seria nós três.
― E nós somos… ― Dei um passo para frente, tentando tocá-lo. ― Isso não muda nada, eu sempre serei amiga de todos vocês.
― Amiga… ― repetiu, sua mão fechando ao lado de si. ― Achei que essa linha nunca se cruzaria. Não que um dia tivéssemos feito algum acordo, mas achei que estava claro que era nós três ou ninguém. Não acredito que ele passou na frente de todos nós.
― Não estou entendendo. ― Franzi a sobrancelha, ainda atordoada e tentando compreender onde ele queria chegar.
― Por que não eu? ― perguntou-me.
― O quê?
Ele chegou mais perto rapidamente e, quando percebi, já estava na minha frente, suas mãos em meu rosto e a respiração misturando-se com a minha.
― Eu não posso permitir, Eleanor, se ele tentou, eu também posso. O que não posso é deixar que o amor da minha vida passe diante dos meus olhos antes que eu não faça nada.
― Mas… ― comecei, mas fui interrompida com seus lábios sobre os meus.
Fiquei em choque por poucos segundos, minhas mãos voaram para os braços dele e empurrei-os para que me soltassem, não que tivesse grande efeito devido a diferença de força. No entanto, ele soltou assim que ouvimos murmúrios de pessoas chocadas ao redor. Olhei para o lado e vi alguns dos criados do castelo, que logo se afastaram ao se verem pegos no flagra olhando para nossa situação. No fundo, estava o meu Coração, um olhar decepcionado em seu rosto antes de virar-se e sair juntamente com as pessoas ali.
Virei-me novamente para o rapaz que há muito chamava de amigo e que agora não sabia nem como portar diante dele. Meus olhos cheios de água e minha voz quebrada quando sussurrei:
― Você não devia ter feito isso.



Capítulo 13

Hoje Atra inteira estava em polvorosa, os auxiliares do palácio corriam de um lado para outro e eu podia ouvir da janela do meu quarto os murmúrios do povo lá fora, alegres com a chegada do navio.
Eu havia sido acordada quase de madrugada, pois ele tinha atracado antes do previsto. Eu não ia reclamar, pois isso era um bom sinal, se atrasasse, estaríamos ansiosos e com medo da viagem não ter dado certo. Não iria ser a primeira vez que os navios não haviam conseguido chegar à ilha. Mas, graças a Deus, ele estava aqui, e eu me encontrava mais do que ansiosa para ver quem estava chegando, o que eles trariam e todas as notícias do mundo lá fora.
Já estava vestida e do lado de fora do castelo, batendo o pé de nervosismo ao esperar que meus pais saíssem também. Por mim já estaria lá, mas minha mãe já tinha me barrado, dizendo que a família deveria chegar unida.
Passados uns cinco minutos eles chegaram e entramos todos na charrete. O castelo não ficava muito distante do lugar de atracagem dos navios imigrantes. Então, não muito tempo depois, chegamos ao local. Haviam muitas pessoas aglomeradas, os soldados de Atra formavam uma fila, contendo a população e mantendo o lugar reservado mais acessível a nós.
Havia uma área destinada aos governadores, onde iríamos acenar e receber os convidados. Descemos da charrete e fomos diretos para lá, encontrando já alguns conhecidos no local.
Não importava que o sol ainda não havia nascido, todos aguardavam uma das eventualidades mais promissoras de Atra, além disso, não queríamos deixar a tripulação esperando, já que a porta do navio só era aberta após a chegada da realeza.
Logo de cara encontramos o governador de Glassoi, Tretton Neguesí, com um sorriso de orelha a orelha. Fomos até ele cumprimentá-lo e o homem parecia um raio de sol, seu sorriso não saía nem por um instante.
― Vejo que está ansioso, Sr. Neguesí ― minha mãe esboçou um cumprimento.
― Como não? Depois de ficar tanto tempo sem ver meu filho! ― respondeu, esfregando uma mão na outra e logo depois olhando para mim. ― Espero que vocês possam se dar bem como quando crianças, . Tenho certeza que Koddy sentiu muita sua falta.
― E eu a dele! ― respondi, com um sorriso. ― Apesar de que talvez nem o reconheça... faz tanto tempo. Ele mal deve se lembrar de mim, ainda mais depois de conhecer tantas pessoas novas.
― Ah, doce menina. Claro que irá lembrar. Ele não parava de falar sobre você um instante quando era mais novo. Amores infantis dificilmente são esquecidos. ― Ele elevou levemente o lábio e voltou o seu olhar para o navio com ansiedade.
Ainda bem que não estava mais me encarando, porque era certo que eu estava sem graça com o seu comentário.
Eu não sabia que o Koddy tinha uma queda infantil por mim, andávamos juntos nos eventos, brincávamos, e era isso. Eu sempre andei mais com a Katherine, minha amiga de longa data. E ... bom, sempre foi intragável desde criança, então eu nunca dei bola e ele sempre ficou de fora das brincadeiras.
Meus pais se afastaram para cumprimentar outras pessoas e eu olhei o navio, meu coração palpitando por vários motivos, mas a mente indo longe e imaginando quando poderia ser eu a embarcar em um desses.
― Se você encarar mais, vai fazer um furo nesse barco! ― uma voz altamente conhecida por mim falou no meu ouvido por trás, me dando um susto e me fazendo dar um pequeno salto.
― Katherine! ― exclamei e joguei meus braços em sua volta, ela fez o mesmo e nós ficamos lá dando pequenos saltos e abraços apertados, bem aquela coisa brega que as amigas fazem quando ficam muito tempo sem se ver, mas que está pouco se lixando com o que as pessoas pensam em volta.
― Eu mesma, garota! Nem acredito que finalmente estou te vendo. Quanto tempo foi dessa vez? Meses? Não é possível que em uma ilha tão pequena as pessoas demorem tanto a assim a se ver! ― rugiu, colocando a mão na cintura e jogando seus cabelos loiros para o lado.
Katherine era maravilhosa e chamava atenção por qualquer lugar que passasse, é aquele tipo de pessoa que vai além da aparência, ela tinha uma presença que atraía todos olhares como um imã. Provavelmente minha coroa combinava muito mais com ela do que comigo, mas ela não nasceu na família real, então era apenas a filha da governadora. O que não tinha muita relevância, a não ser que fosse um da vida que se dedicava a política desde pequeno.
― Você precisa vir me visitar mais vezes ― ralhei, mas com um sorriso emocionado ainda no meu rosto. No entanto, o dela deu uma leve vacilada, mas foi controlado rapidamente.
― Você sabe... Minha mãe acha que eu preciso de um controle. ― Revirou os olhos com sarcasmo.
― O que tem aprontado?
― E por que acha que aprontei algo? ― Elevou uma sobrancelha, mas a cara dela não negava.
― Imagina... Você é uma santa! ― gracejei.
― Ainda bem que você sabe. ― Piscou para mim e logo soltou um suspiro. ― Tão lindo, mas tão babaca. Por que?
― Quem? ― Virei-me para ver para onde olhava e ela deu uma leve sacudida com a cabeça para apontar a direção.
Eu devia ter imaginado a quem ela se referia, esses dois adjetivos só se aplicavam a uma pessoa que eu conhecia.
― cantarolou. ― Oh, ele está vindo para cá ― falou, surpresa.
Meu corpo inteiro se retesou. Minha amiga não sabia dos últimos ocorridos entre ele e eu, então, ver qualquer interação da parte dele conosco era algo inédito.
― Estou trabalhando com ele ― tentei adiantar antes que ele chegasse.
― O quê? ― ela exclamou, mas não teve muito tempo de continuar a conversa, pois logo estava à nossa frente, com um pequeno elevar no canto da sua boca e com seu estilo altamente charmoso ligado a todo vapor.
― Olá, Vossa Alteza! ― cumprimentou-me e virou para minha amiga. ― Srta. Beluzzo, quanto tempo!
Kath por um segundo estava sem fala e eu tratei de tomar conta da situação.
― Ei, ― respondi friamente e desviei o olhar para ignorá-lo.
― Tá... Ok. Alguém me explica o que está acontecendo aqui. ― Katherine parecia que havia encontrado a sua voz novamente.
veio para o meu lado com um sorriso cínico em seu rosto e posicionou o braço para que eu me apoiasse nele, o que fez com que as sobrancelhas da minha amiga quase chegassem ao fim da sua testa e eu olhasse para ele sem entender.
― Nós somos os anfitriões dessa organização, acredito eu que as pessoas esperam que a gente apareça juntos na hora da abertura das portas do navio. Além disso, seu pai pediu para que eu a buscasse!
Meu pai traidor!
Contive minha pequena fúria, percebendo que vários olhos eram atraídos para nós. Mas como não? A princesa, o jovem solteiro mais popular e querido de Atra e Katherine, que ainda que não fosse filha da governadora, já atrairia uma multidão de admiradores. Guiei minha mão e apoiei no seu braço e ele colocou a dele em cima da minha, fazendo um pequeno carinho que me pegou desprevenida.
Por pouco não recolhi a mão no susto, mas a minha reação foi rapidamente ficar estática, um leve arrepio passando pelo meu corpo e um frio pesado encontrando o meu estômago.
― Vai dar tudo certo, nós vamos fazer a nossa parte e as pessoas terão o seu grande show. Não há nada com o que se preocupar. ― Ele cochichou baixinho apenas para que eu o ouvisse.
Eu quis rir internamente por ele ter achado que a minha reação era porque eu estava nervosa com o dia de hoje. Bom, era melhor assim do que ele perceber que era por causa dele. Além disso, eu não conseguia entender o , uma hora ele era o babaca que eu odiava e outra era o cara atencioso que fazia coisas como essa.
Não querendo gastar meus neurônios agora, apenas assenti com a cabeça e caminhamos os três para a entrada da área exclusiva. Cumprimentamos algumas pessoas por lá, incluindo o asqueroso do Sr. Pervarti e o pai do , que estava ao lado dos nossos pais e do governador Trotton.
Minha mãe fez um aceno assim que me viu, aparentando estar satisfeita ao me ver em bom tom com . Nós passamos por todos até estarmos a frente da grande fita, meu estômago gelou em nervosismo, mas eu lutei para que as pessoas não me vissem tremer enquanto um funcionário me entregava a garrafa de champanhe e eu a sacudia. pousou a sua mão na parte inferior das minhas costas e por algum mistério o seu gesto me trouxe um pouco de tranquilidade. Eu não estava sozinha.
Fiz o anúncio em alta voz e estourei a garrafa, a rolha voando junto com a espuma. me auxiliou, levando a garrafa um pouco para longe para que não me sujasse, ele virou-a sobre a garganta e a ergueu para o povo, antes de a entregar de volta ao funcionário. Todo mundo foi à loucura, gritando ao mesmo tempo que viam a grande porta do navio abaixar e as pessoas saírem, sorrisos em seu rostos e canções sendo entoadas de alegria.
Haviam familiares, amigos e velhos conhecidos. Um chororô podia ser escutado no momento que os entes queridos se reviam. Tinham também estrangeiros, apesar de não muitos. Nós tínhamos uma equipe liderada por tio Otto para recepcioná-los, já que ele sabia falar várias línguas e conhecia outras culturas, por ter ficado um tempo fora também.
Meus pais, , eu e outros ministros fazíamos uma fila, recepcionando cada um que passava. Uma cabeça alta com cabelos lisos escuros se destacou na fila com um grande sorriso em seus lábios. Seus traços eram familiares e eu pude confirmar sua identidade assim que o Sr. Neguesí atropelou a fila e o puxou para os seus braços. Meus pais e eu nos aproximamos um pouco mais para que fossem feitas as apresentações. Sr. Neguesí o soltou após uns bons minutos, dando uns tapas nas costas do filho e em seguida enxugando os olhos de emoção. O rapaz sorria de volta para ele e tentou endireitar a sua roupa, que amassou diante a demonstração de afeto.
― Majestade, você deve se lembrar do meu filho, Koddy ― O pai se aproximou, colocou o braço nos ombros do filho e virou-se para minha mãe. Ela deu um pequeno sorriso e fez um aceno com a cabeça, enquanto o meu pai estendia a sua mão para cumprimentá-lo.
Fiquei um pouco para trás, um pouco tímida com a situação. Eu conheci Koddy a minha infância quase toda, apesar de não poder dizer que éramos melhores amigos, já que a frequência no palácio não era tão constante. Mas brincávamos juntos até o início da adolescência, quando o seu pai o mandou para fora.
Nosso último encontro havia sido... constrangedor. E a última imagem que eu tinha de Koddy na minha cabeça foi quando ele me roubou um beijo detrás das cortinas do palácio.
Não era um bom momento para lembrar disso, visto que agora eu estava sendo empurrada pela mão do meu pai até ele, a fim de cumprimentá-lo.
O antigo garotinho, que agora mais parecia um belo rapaz, deu um passo à frente e se curvou, estendendo a mão em seguida. Coloquei minha mão sobre a dele e ele a levou até seus lábios, dando-me um sorriso no fim do seu gesto.
― É um prazer te ver novamente, Alteza ― falou, enquanto me encarava.
― O prazer é meu, Sr. Neguesí. Seja bem-vindo novamente ― respondi educadamente, como uma princesa faria. Minha mãe deveria estar orgulhosa.
Koddy deu uma pequena risada.
― Só Koddy, por favor. Me sinto o meu pai com o "senhor".
Minha mãe arqueou levemente o lábio com a interação. Parece que alguém tinha ganhado pontos com ela.
― Oh, ei, ― Koddy desviou seu olhar e estendeu a sua mão para a pessoa que eu nem sabia que estava atrás de mim.
Virei um pouco o pescoço levemente para trás, notando sério e com um uma postura impecável. Levou um segundo para que ele estendesse a mão de volta para Koddy. Poderia ser insignificante, mas dado que eu estava do lado de desde que começou as felicitações e ele praticamente já andava com a mão estendida e com um sorriso no rosto para todos, então notei a diferença.
― Olá, Koddy. De volta a sua terra, hein? ― A versão irônica e maléfica de estava de volta.
― Sim! ― Koddy sorriu, sem se afetar, balançando levemente os cabelos escorridos que caíam aos olhos. ― Viajei pelo tanto que esse mundo permitiu, estou cheio de ideias e novos projetos. Agora vim para ficar e ajudar Atra da melhor forma que puder. ― completou, colocando as mãos para trás e virando para mim com um sorriso.
― Com certeza eu vou adorar saber tudo! ― exclamei, exultante.
Koddy alargou ainda mais o sorriso e deu um passo em minha direção.
― Me sentirei honrado em compartilhar, Alteza.
― Mas não agora, , querida ― minha mãe interrompeu com um tom educado. ― Precisamos dar continuidade aos eventos. Mas, Koddy ― virou-se para ele ― sinta-se à vontade de nos visitar no castelo e ficar lá durante as festividades.
― Obrigado, Majestade. ― Fez um pequeno aceno. ― , se me permite, gostaria de acompanhá-la. Posso? ― Estendeu o braço para mim.
Eu havia vindo com até aqui, mas não tínhamos combinado nada, apesar de ser de bom tom que ficássemos juntos. Mas dar o braço para Koddy não significava que não poderia estar junto e seria feio da minha parte negar. Ou talvez, lá no fundo, também havia um tom provocador da minha parte. Por isso, sorri de volta e acenei concordando.
O Sr. Neguesí tinha um largo sorriso no rosto, meus pais caminharam juntos na frente e Koddy e eu fomos atrás. Não olhei para ver se nos acompanhava, mas era bem provável que sim, já que eu ouvia som de passos. A Kath eu não fazia nem ideia de onde estava, já que havia desaparecido desde que vim fazer a recepção dos tripulantes.
― Então... como estão as coisas em Atra? Foi tanto tempo fora. ― Olhou-me pelo canto do olho e deu um pequeno sorriso.
― Como se tivesse muita coisa para contar ― zombei com um rolar de olhos e senti seu corpo tremer com uma risada.
― Eu queria poder ter te levado. ― Deu uma palminha na minha mão. ― Bom... pelo menos pude levar a lembrança. ― falou mais baixo, inclinando um pouco a cabeça na direção do meu ouvido.
Minha pele esquentou de constrangimento e eu quis me enterrar.
― Koddy! ― exclamei.
― Desculpe. ― Voltou a olhar para frente, mas seu tom de voz e o elevar de lábios em seu rosto mostrava que não havia desculpa alguma da sua parte. ― Acho que não deveria tocar nesse assunto logo no nosso reencontro.
― Eu agradeceria ― murmurei, olhando para frente e sem querer encará-lo durante o caminho.
― Mas eu realmente senti sua falta, . ― Levou sua mão direita até a minha que agarrava o seu braço e fez um pequeno carinho. ― As pessoas lá fora são... diferentes. As ambições, desejos, a correria. Levou um tempo para adaptar. Foi louco, mas consegui perceber várias coisas e absorver muita informação que acredito que poderá ajudar por aqui.
― Espero que tenha tempo para me contar, pelo menos, a maioria delas ― falei, sorrindo, e agora mais entusiasmada pelo rumo da conversa. Koddy sempre soube meus anseios, com certeza não me pouparia de muitas histórias.
― Não só contar, pequena . Acredito que você poderá participar de toda essa bagagem que trouxe comigo.
― Ei, não sou pequena mais! Não me chame assim.
― Mas eu lembro da época que parecia uma nanica. ― Riu.
― Não mais. ― Acabei desencostando dele e soltando-me enquanto me virava e colocava a mão na cintura para encará-lo.
Koddy fez uma pausa e seu olhar varreu por mim com diversão até parar nos meus olhos e deixar apenas um sorriso sutil no seu rosto.
― Posso perceber ― respondeu, estendendo a mão novamente para que pudéssemos continuar.
Meu sorriso vacilou levemente e eu pigarreei, dando um passo à frente para poder voltarmos a nossa posição, mas, antes que eu pudesse encostar em Koddy, passou entre nós um pouco duro e andando à frente. Ele fez uma pequena pausa e virou levemente a cabeça para trás para nos ver. Seu olhar era duro, sua mandíbula estava cerrada e eu nunca havia o visto tão sério.
― Se pararem para conversar a cada instante, nunca chegaremos a tempo para o próximo evento. Alteza, você sabe que precisamos estar à frente da programação ― reclamou e eu me empertiguei com a raiva que parecia estar no seu tom.
Passei meu braço por Koddy novamente e meu semblante caiu. Pelo visto havíamos voltado à estaca zero novamente.
― Pode deixar, Sr. , estarei lá logo atrás de você. Pode ir. ― Fiz um sinal com a mão que ele pudesse ir em frente, enxotando-o.
Talvez não tivesse sido a melhor escolha de palavras, porque seu rosto endureceu mais ainda com o meu gesto. Seus olhos passaram rapidamente por Koddy e depois voltou para mim.
― Como quiser... Alteza. ― Fez uma reverência que eu sabia que ele achava estúpida e virou-se para frente, sem olhar novamente para nós.
Fiquei olhando ele partir, até ser interrompida por Koddy.
― Bom... Ele parece que não mudou muita coisa, não? ― meu par zombou, voltando a andar novamente comigo.
Lembrei de todas as vezes que Koddy e eu havíamos falado mal de e seu jeito sério e ranzinza, ou como ele era um mini Marcus, intragável. No entanto, também lembrei do outro lado que não tinha conhecido antes, quando ele me protegeu ou como ele era doce com as crianças do orfanato.
Minha língua coçou para em partes defendê-lo, mas Koddy não conhecia essa parte de e não é como se precisasse de defesa. Ele realmente tinha o seu lado intragável.
― É o , não é? ― Coloquei um sorriso falso e falei com desdenho, mesmo que houvesse sentido o amargo do falso desprezo na minha língua. ― Vamos? ― chamei-o, antes que eu pudesse dar razão para a reclamação do meu pseudo-inimigo.
Koddy sorriu, ignorando o ataque anterior e eu só orei internamente para que o dia conseguisse terminar sem mais alguma explosão da nossa parte.



Capítulo 14

Após quase ter um infarto e desmaiar em frente a uma multidão, fiz o meu discurso, seguido por . Por incrível que pareça, as pessoas me ouviram, talvez atrelado ao fato que minha mãe estivesse ao meu lado.
Os recém chegados a ilha tiveram que passar pela triagem de saúde e em seguida estavam aptos para poderem se registrar e passear pelas tendas e outras coisas que eram vendidas pelos aldeões. Foi quase uma tarde inteira de eventos, muitos apertos de mãos, sorrisos e calor. Agora que todo mundo estava disperso e eu já tinha cumprido com todas as minhas obrigações, tentei escapar e ir em direção ao navio.
Não foi tão difícil, não é como se eu fosse embora com ele. O transporte nem sairia por esses dias. Eu só queria conhecer, ter a sensação de como era entrar naquele barco tão grande e passar semanas nele rumo a infinitude de oportunidades que o mundo poderia me levar.
Os soldados que ficavam na entrada e guardavam o navio me deram passagem e eu entrei com o coração palpitando por pisar ali. Minhas mãos suavam enquanto eu tocava o corrimão e subia a plataforma até chegar ao solo do navio. Eu imaginei que ele balançaria mais, mas era apenas uma leve ondulação junto ao cheiro da água salgada do mar que o vento trazia enquanto bagunçava os fios dos meus cabelos.
Andei devagar, observando o máximo possível e guardando na memória o local que era o transporte para o meu sonho. Passando por um corredor, fui observando os cômodos. Ainda havia algumas pessoas remanescentes, trabalhadores do navio que terminavam de ajeitar algumas coisas por lá. Quando uns começaram a arregalar os olhos ao me ver, paralisar ou mesmo fazer reverência, achei por bem ser mais sutil. Assim que vi uma porta que dava ao que parecia ser um quarto vazio, entrei, parando de frente para o espelho para retirar a minha tiara real. Isso não ajudaria muito a não me identificarem, mas, pelo menos, chamaria menos atenção do que circular com pedras de diamante e ouro na cabeça.
Enquanto tentava terminar de ajeitar o meu cabelo, o barulho de uma porta se fechando dentro do quarto me assustou. Virei-me, trazendo a tiara junto ao meu peito e encontrando um homem sair de dentro do banheiro minúsculo que havia ali.
O homem arregalou seus olhos ao me ver e estancou no lugar. Eu não imaginava encontrar alguém ali ainda, mas agora, olhando ao redor, havia uma mala feita em cima da cama e alguns poucos itens masculinos espalhados pelo local.
Os olhos dele voaram direto para a minha tiara, perpassando por mim em uma análise tão profunda que fiquei constrangida. Eu mudei o peso do meu corpo de lugar com minhas pernas e pigarreei, tentando tomar o controle da situação. Eu havia sido pega em flagrante ali e estava invadindo, mas ainda era a princesa de Atra, eu era a autoridade ali.
― Você parece com a sua mãe ― ele falou, após o silêncio constrangedor, porém antes que a minha própria voz pudesse ter tempo de alcançar a boca.
Franzi o cenho levemente e o encarei.
― Não é algo que costumo ouvir com frequência ― refutei, pensando nos meus cabelos mais claros.
Ele abriu um pequeno sorriso, ainda de lábios fechados, e sua postura relaxou um pouco, aparentando mais leveza.
― Aí está. ― Ele apontou para a região da minha testa e eu entendi que ele dizia sobre a minha expressão.
Não sei que careta fiz nesse momento, mas o sorriso dele se alargou e fui tomada imediatamente de um sentimento de preservação. Não gostei do tom dele ou do seu modo de falar intimista, ainda mais aparentando saber mais do que um cidadão comum.
Dei um passo para trás, colocando mais distância entre nós.
― Fala como se a conhecesse.
Sua boca abriu e fechou rapidamente, mas eu deveria dar pontos a ele pela agilidade.
― E alguém em Atra por acaso não conhece a rainha? ― Ergueu a sobrancelha e cruzou os braços estrategicamente em bloqueio a sua resposta evasiva.
Eu queria ter perguntado quem era ele, mas fomos interrompidos pela voz da última pessoa que eu esperava encontrar ali naquele navio.
― Aí está você. Te procurei por toda parte.
entrou de supetão no aposento e com um tom irritado. Seu vinco estava franzido e seus olhos pregados em mim com uma mistura de alívio e raiva. Contudo, aqueles sentimentos que me estavam dirigidos foram realocados no momento que ele notou o homem naquele quarto. Seus dedos se fecharam e sua coluna se endireitou, voltando-se completamente para o desconhecido antes de passar o olho entre nós rapidamente.
― Não é o que você… ― comecei a dizer, tentando imaginar a quantidade de coisas que ele deveria estar pensando ao me pegar num quarto estranho com um cara qualquer.
― Quem é você? ― Sua voz sobressaiu a minha quando ele voltou-se ao homem para interrogá-lo.
O desconhecido não pareceu intimado com a pergunta, na verdade, ele parecia mais curioso. Talvez fosse o seu jeito ou os vários anos mais velho do que que lhe impedia abaixar a cabeça para um jovenzinho de tom autoritário.
― Eu poderia te fazer essa mesma pergunta ― retrucou.
Suspirei, sabendo que não chegaria a lugar algum e estava cansada de perder meu tempo ali, afinal, a minha missão de passear pelo navio sem ser vista já havia ido para os ares de qualquer forma.
― Vamos, . Preciso voltar. Eu só entrei por acaso nesse quarto, mas descobri que estava ocupado. Foi um engano. ― Tirei por menos enquanto balançava a mão. Afinal, era verdade.
Ele não pareceu muito satisfeito com minha resposta, mas o desconhecido não parecia que cederia ao questionamento dele e não tinha posição para exigir que ninguém falasse seu nome, e nem motivo para isso. E vendo que eu já me virava para ir embora, ele simplesmente me seguiu.
Apressei meus passos, querendo fugir do cara atrás de mim, mas eu sabia que era em vão. Assim que passamos pelo corredor apertado e ele tratou de observar se estávamos só, me encurralou. Não corporalmente, apenas com o seu interrogatório.
― O que você pensa que estava fazendo nesse navio sozinha? ― perguntou, apenas com uma virada leve do queixo. Ninguém que nos visse acharia que ele estava irritado ou falando qualquer coisa importante. Seus olhos nem estavam em mim, continuávamos andando de volta ao píer olhando para frente como se nada tivesse acontecido.
― Não sabia que devia me reportar a você. ― Passei o olho por ele rapidamente antes de voltar o foco adiante, bem a tempo de perceber a veia do seu pescoço mais proeminente com a minha resposta. ― Até onde eu sei eu ainda sou a princesa e você… bom... ― Dei de ombros, sem precisar completar. ― E como me achou, afinal?
Ele riu sem humor algum, esquecendo por um segundo sua pose imaculável.
― Eu sempre sei onde você está ― respondeu. E simples assim, parecia que o assunto estava finalizado e resolvido.
Andamos em silêncio, já no topo do navio, quando senti seus dedos suavemente me tocarem no braço, parando-me. Ele me puxou para uma porta que levava a uma sala cheia de maquinário, a sala do capitão talvez.
Ele parou um segundo, respirando fundo, antes que seus olhos encarassem os meus.
― Quando vi você entrar aqui sozinha eu pensei naquele incidente ― disse baixinho, lentamente levando sua mão a minha e a segurando entre nós. Não sei mesmo se ele percebeu o seu gesto ou se me sentiu estremecer ao lembrar daquele dia. Eu ainda tinha pesadelos com aquilo. ― As pessoas são más, , e muitos querem o seu mal. Eu nem mesmo sei que tipo de gente pode estar chegando nesse navio, então me perdoe se eu me preocupei com você ― completou com um leve vinco na testa.
Eu poderia ter achado fofo o seu gesto se ele não tivesse terminado me cutucando de alguma forma. Puxei minha mão da dele e dei um passo ao lado, porém seu corpo me impedia de passar por completo, a menos que eu quisesse me espremer contra ele - o que estava fora de cogitação.
― Eu não o nomeei como meu protetor! ― ralhei, espalmando minhas mãos contra o seu peito.
Ele passou a mão pelo rosto e deu um passo para trás, frustrado.
…― interpelou com um suspiro ― É que… Eu não entendo, por que você viria aqui sozinha?
Eu não devia explicações a ele, eu poderia ir embora naquele momento se quisesse e não seria impedida. Mas a nítida preocupação em sua voz, apesar dos seus modos grotescos, me fizeram querer aliviá-lo. De certa forma, eu gostaria que ele me entendesse. Não porque era , mas porque praticamente ninguém me compreendia.
― Minha mãe não me deixaria. ― Suspirei ― Você não tem ideia do que é ter um sonho que jamais poderá cumprir, o considerando bobo ou não. Estar aqui ― apontei em volta ― é o mais perto que vou chegar um dia de velejar, saber o que é ser livre ou conhecer o mundo além da nossa ilha. Então sim, eu vim sozinha ou mesmo escondida, se assim você quer julgar, porque quando se tem a oportunidade de chegar mais próximo do que se quer, você a agarra sem pestanejar.
me encarou por alguns segundos sem nada dizer, já eu, sentia minha respiração ofegante com a resposta e meus dedos tremiam levemente. Ele virou-se de lado, me dando passagem enquanto abria a porta para sairmos, mas antes que voltássemos para o caminho que levava a saída, ele estendeu seu braço em um gesto para acompanhá-lo.
― Acho que podemos passar em um local antes de voltarmos para a loucura lá de fora. O que acha? Confia em mim?
Olhei para ele um momento antes de passar meu braço pelo seu.
― Não. ― respondi com honestidade, mas deixando um pequeno levantar de lábios sair no final. ― Mas topo.
Pelo canto do olho vi seu lábio se erguer num pequeno sorriso, que fez seu rosto mais belo. E por algum motivo que não conseguia compreender, meu coração deu um pequeno salto, que tratei de enterrar no mais profundo abismo da minha mente.
me guiou até umas escadas que levavam para uma área vazia no ponto mais alto do navio. O local ficava na ponta voltada para o mar e eu podia sentir a maresia do vento grudando e bagunçando meus cabelos, quase que podendo imaginar o sal na ponta dos meus lábios. Foi impossível não chegar até a grade e fechar os olhos, pouco me importando que quando eu descesse não estaria tão apresentável como antes. Ouvi o som longe da conversa dos funcionários do navio, mas o que me preenchia era o barulho do mar, as ondas batendo na proa do navio e o seu balanço me jogando levemente de um lado para o outro.
― Gostou? ― O som da voz de interrompeu a minha apreciação após alguns minutos.
Fui pega de surpresa com o calor do seu corpo atrás do meu, mesmo que o toque fosse sutil, apenas um roçar de roupas, mas poderia ser como um abraço. O sopro da sua voz bateu em minha orelha, me fazendo virar para trás com brusquidão, meu rosto ficando a poucos centímetros do dele.
Acho que nem meu algoz previu o meu gesto, pois ele teve um pequeno desequilíbrio, que foi corrigido rapidamente ao colocar suas mãos na grade, uma de cada lado do meu corpo. Seus olhos correram pelo meu rosto, descendo lentamente até minha boca e voltando. Eu não conseguia me mexer, de alguma forma minha visão ia para seus cabelos bagunçados pelo vento que vinha do mar, o sol refletindo sua íris e deixando sua aparência menos formal e mais selvagem. Ou talvez fossem a intensidade dos seus olhos que focavam os meus.
Não o mar ou qualquer outra coisa nesse navio. Mas a mim.
Percebi ele se mexer, sutilmente. Tão vagarosamente que não tive oportunidade de sequer imaginar o que seria, pois o som de uma gaivota voando bem perto de onde estávamos nos assustou e fez com que ele desse um passo para trás.
Inspirei profundamente, recuperando o ar e colocando minha mente em ordem novamente.
― Então,,, ― pigarreou. ― Gostou?
― Sim, é claro. Obrigada, ― agradeci, sendo bem sincera.
Não esperava essa atitude benéfica da parte dele e nem compreendia porque havia de certa forma me ajudado, mas como eu disse anteriormente sobre oportunidades… eu as agarraria.
E essa foi a nossa última troca de frases, findando com um aceno de cabeça dele em retribuição enquanto voltávamos para as festividades que nos esperavam.



#5 Diário da Eleanor

15 de junho 1999

Ele pediu a minha mão para os meus pais. Por que ele havia feito isso quando eu nunca havia retribuído os seus sentimentos?
Meu coração não era dele.
Mamãe me disse que era uma boa opção, filho mais velho do governador e bem apreciado pelo povo. Papai também parecia concordar e acredito que ninguém entendeu a minha relutância e espanto, já que ele também fazia parte do meu trio de amigos.
Contudo, eles não sabiam o que eu realmente sentia e por quem sentia.
Seu irmão havia me dito que ele tinha as melhores das intenções e achava que realmente estava me ajudando.
Mas onde que pedir alguém em casamento sem nem conversar com a pessoa interessada antes era ajudar?
Isso só complicaria os meus planos.
Como eu poderia chegar agora e dizer que não era ele a quem eu queria?
As pessoas começavam a fofocar sobre um interesse romântico da minha parte e até um possível casamento.
Quando as coisas tornaram-se tão confusas?
Quando tudo começara a mudar?
― Eleanor, eu amo você. Como não percebeu durante todo esse tempo? ― Foi o que ele tentou me explicar.

Eu não queria partir o seu coração, mas como dizer para ele que eu já havia entregue o meu a outro?
Apesar de tudo, todos éramos amigos e eu também o amava, mas não dessa maneira.
No mesmo dia, a pessoa ao qual eu realmente queria havia me procurado, e eu nunca havia o visto tão triste e tão despedaçado.
― Parece que mudaram-se os planos. ― Tentou sorrir, porém, foi impossível .
― Não fui eu...
― Eu sei ― respondeu e fez um leve carinho na minha bochecha. ― Nunca daria certo. Quem sou eu? ― Riu sem humor. ― Foi uma ilusão sequer pensar que poderiam me aceitar como candidato.
― Eu vou contar para os meus pais, eles gostam de você e te amam como eu. Eles vão me ouvir.
Ele sorriu, mas a tristeza era tão pesada que meus olhos se encheram de lágrimas. Ele havia desistido, mesmo antes de falar, eu sabia.
― Eu amo você.
― Não ouse terminar comigo assim! ― Dei um passo para trás e retruquei com raiva, afastando-me dele. ― Eu darei um jeito nisso. Sou a futura rainha e não aceitarei que ninguém me diga com quem irei casar.
― Lea... ― começou, porém eu o interrompi.
― Se for para dizer coisas bonitas para mim e me largar depois, prefiro que não as diga.
Ele respirou fundo e deixou os ombros caírem. Seus olhos encheram-se de água, no entanto, não as derramou.
Por um momento achei que ele voltaria, me abraçaria e diria que ambos lutaríamos contra tudo e contra todos. Mas não foi o que aconteceu.
― Eu realmente amo você ― falou, antes de virar as costas e partir.
E para meu desconsolo, ele partiu também meu coração.



Capítulo 15 - Que comece o baile

Nos últimos dias as coisas foram loucas. Entre terminar de organizar o grande evento, recepcionar os visitantes e políticos e preparar um baile, não sobrou tempo para que e eu trocássemos farpas. Muito menos que eu tivesse algum atrito com a minha mãe. Foi trabalho e mais trabalho, mas eu havia superado qualquer expectativa que tivesse colocado nesse evento. A festa estava estupenda. A iluminação, decoração, música, buffet… tudo em seu devido lugar. Fiquei surpresa comigo mesma, sabia que ficaria bom, mas estava simplesmente perfeito.
Os governadores e família foram recepcionados a se hospedarem aqui no castelo durante as festividades. Todos bem recebidos e acomodados, mas, na correria, consegui pouquíssimo tempo para falar com Kath ou Koddy. Esbarramos pelos corredores, mas era basicamente isso, com exceção da minha amiga, que às vezes invadia o meu quarto a noite tentando colocar o papo em dia.
Agora o restante dos convidados haviam chegado e eu estava pronta para fazer meu papel de anfitriã. O nervosismo pairava no fundo do meu estômago, pronto para atacar como uma gastrite mal curada e, por um segundo, eu desejei que estivesse ao meu lado para apaziguar. Ele era bom nisso e eu sei que deixaria as coisas mais leves. Tentei estudar o máximo que pude, mas detestava ter que ficar puxando assunto com pessoas que por trás eu sabia que me detestavam. Não todos, mas a maioria, pelo menos.
Cumprimentei a filha do governador de Repotte que chegava com seus dois irmãos atrás, como uma comitiva. Eles eram sempre assim, os trigêmeos de Atra. Prina tinha a pele escura e um cabelo encaracolado curto, adornado com um arco de cristais. Seus olhos cor de oliva estavam sempre compenetrados, analisando tudo ao seu redor. Ah, ela conseguia ser tão fria quanto o seu pai. Peter ainda tinha o rosto um pouco mais amigável, mas Postel conseguia ser uma cópia descarada. Eu nunca havia conseguido trocar mais do que algumas palavras com eles. Sempre parecia que estavam me julgando. Ou talvez fosse eu espelhando o pai sobre os filhos. De toda forma, queria fazer o possível para que nossa conversa fosse rápida o suficiente.
Minha mãe havia pedido na noite anterior que eu mantivesse o olho neles. Achei estranho, mas também compreensível, visto toda animosidade que tinha entre o governador de Repotte e nós. Ela tinha estado tensa durante toda a última semana, mais do que o normal. O que me levou a crer que tinha mais coisas acontecendo do que eu imaginava.
― A festa está deslumbrante, ― Prina comentou, enquanto passava seu olhar ao redor do salão. ― Sua mãe provavelmente deve estar orgulhosa de que esteja seguindo seus passos ― completou, voltando-se para mim.
Eu não esperava qualquer tipo de glorificação, por isso a minha surpresa.
― Muito obrigada. Espero que você possa aproveitar nossa hospitalidade e aproveite os festejos ― meu tom entoou feliz com o elogio. ― Quanto a minha mãe, sei que ainda tenho um longo caminho a percorrer até alcançar a grande Eleanor.
Mal completei a frase e uma voz que me causava arrepios intrometeu-se na conversa.
― Com certeza. Uma festa não prova nada. Assumir o reino é que mostrará se é apta ou não. Um baile é apenas uma futilidade que não alimenta a boca de ninguém ― disse o governador Pervati, colocando-se ao lado da filha e estendendo o braço para ela, pouco se importando por ter se metido grosseiramente em nossa conversa.
Pelo canto de olho eu achei ter visto Prina ter dado um leve suspiro, mas logo sua postura era austera como sempre. Eu esperava que não tivesse aberto a boca algumas vezes sem dizer nada, após o meu desconcerto com a situação. Não poderia ser insultada dessa maneira e ninguém me defenderia além de mim mesma.
― Concordo em partes com o senhor, Sr. Pervati. Realmente o baile é apenas algo ínfimo ao total do significado do que é reinar. É a minha primeira atividade das muitas que ainda farei e o sucesso desta só mostra a minha competência. O que estão vendo é apenas um fio de tudo o que eu ainda mostrarei. ― Inclinei meu nariz e olhei quase de forma autoritária e superior, tentando imitar as inúmeras vezes que minha mãe havia feito isso.
Não é porque ele era mais velho e governador que poderia me diminuir. Ele não sabia as desavenças que tinha sobre esse assunto aqui em casa, mas jamais deixaria ele me desmerecer sendo que nem sabia do que eu era capaz. Ele poderia ser um político importante, mas eu era a princesa anfitriã. Eles estavam em minha casa e eu exigiria ao menos respeito.
― Veremos então ― respondeu, encarando-me, puxou uma taça de vinho de um dos garçons que passavam e tomou um gole.
― Se me dão licença agora, preciso ir cumprimentar os demais convidados. Foi um prazer vê-los. ― Sorri falsamente e me retirei. O pouco que conversei com aquela família foi o suficiente para me tirar do sério. Não sei como minha mãe conseguia aturar toda essa gente e, pior de tudo, tinha audácia de pedir para que eu desse uma atenção especial para esse governador asqueroso.
Continuei andando pelo salão até encontrar a família que eu mais gostava do reino. As Beluzzo estavam perto da mesa do buffet rindo e pareciam estar se divertindo. Avistei aquela cabeleira loira reluzente que eu tanto amava. Ao virar em minha direção, ela abriu um sorriso que contagiava qualquer um ao redor.
― Aí está minha princesa rebelde – entoou Kath assim que me viu, largando qualquer etiqueta e estendendo os braços para mim..
― Enfim um lugar seguro. ― Abracei-a de volta, deixando um peso sair. Ouvi o som da risada de Katharine soando nos meus ouvidos e logo nos endireitamos. Ela tinha uma beleza exuberante e espírito altivo, era mais do que algo físico, Kath transmitia algo que chamava a atenção de todos e me fazia sempre sentir pequena ao seu lado.
Sua cabeleira loira estava em um penteado preso e seus olhos claros marcados com uma maquiagem escura. Seu vestido no busto era azul e descia em uma calda sereia justa no quadril na cor preta. Em suas mãos estavam luvas de renda que expunha seus dedos e iam até os cotovelos na cor azul. Como eu disse, sempre um destaque.
― Você está linda, , parece até uma princesinha de verdade com seu vestido delicado. E quem diria, você, a anfitriã desse belíssimo baile! Jamais esperaria... ― Riu, passando a mão por meu ombro.
― Ossos do ofício, Kath. Parece que meus dias longe de tudo que se relaciona ao palácio estão se acabando. Mas você sabe também que não gosto de ser subestimada. Fui coagida pela minha mãe a fazer esse baile, isto é verdade, mas não faria de qualquer maneira e jogaria meu nome na lama. Tenho respeito a tudo aquilo que minha família construiu, não quero envergonhá-los.
Ela acenou em confirmação, dando-me um sorriso acolhedor.
― Já não era sem tempo, né, ? Nem eu, louca como sou, fujo do que me espera. Apenas faço minhas obrigações de forma que fique tudo mais divertido. ― Piscou e elevou sua boca de forma maliciosa.
Eu conhecia bem a Katharine e sabia que por mais aventureira que fosse, ela poderia fazer todas suas incumbências, por incrível que pareça. Ela assumiria todas as responsabilidades da mãe, se necessário fosse, ainda que "tia" Elza estivesse longe de querer passar o cargo. A diferença era que Kath não precisava deixar de ser ela mesma para isso, ela não anulava seu jeito excêntrico. Talvez se eu aprendesse mais com ela, conseguisse conciliar as minhas vontades com o que a minha mãe esperava de mim.
― Não começa, Kath. Eu já ouço demais por aqui e só quero poder relaxar nessa festa com minha amiga, pode ser? ― Suspirei, não querendo entrar no assunto do quanto eu era a ingrata de ter o poder de Atra nas mãos e não querer comandar, blá, blá, blá.
― Tudo bem, minha pequena rebelde. E acho que já sei exatamente como pode começar a relaxar... ― Ela fitou alto atrás de mim. ― Uau, sinto os hormônios masculinos exalados aqui de onde eu estou, pena que está acompanhado ― prosseguiu, sorrindo descaradamente e olhando para a entrada do salão.
Virei-me para a acompanhá-la e saber sobre quem ela estava se referindo, contudo assustei quando avistei o homem que havia recebido o elogio, pois quem estava entrando no salão era o e... Annyelle.
O choque desceu frio pela minha espinha. Não acreditei na audácia de trazê-la para minha festa. O convite dava-lhe o direito a um acompanhante, mas ele trazer logo ela era quase uma declaração de guerra novamente. Era uma provocação e eu sabia disso.
Minha expressão foi de espanto para raiva no mesmo instante, captando a atenção de Kath.
― O que foi? Disse algo errado? Não posso elogiar o babaca Junior? ― questionou.
― Não é nada disso. ― Revirei os olhos. ― Óbvio que não esperava ter que ouvir elogios do , mas só fiquei surpresa pela acompanhante.
― Uh uh. Sinto ciúmes no ar, dona !? ― Ela olhou-me de canto, bebericando sua taça de champanhe e dando um sorriso sugestivo.
― Claro que não ― respondi, irritada. ― A última pessoa que eu sentiria ciúmes seria do .
― Faz bem, porque se ele for um terço tão intragável quanto o pai, é uma furada certa.
― Não é igual, mas é um protótipo do mal.
― Protótipo do mal ele é mesmo... do mal caminho ― completou em meio às risadas, enquanto eu franzia o cenho. Não precisava dela insinuando o quanto o era bonito. Eu já havia percebido isso.
― Vamos, , não seja carrancuda. ― Deu-me um pequeno beliscão, tentando aliviar a tensão. ― Tire essa cara azeda do rosto e melhore seu humor porque de homens bonitos esse lugar está cheio e, se esse te deixa com cara que chupou limão, talvez aquele que está vindo em nossa direção melhore definitivamente o seu humor. Melhoraria o meu com certeza. ― Apontou para a direção oposta me mostrando um rapaz belíssimo que caminhava até nós.
Katherine tinha razão, ver Koddy aliviou em partes meu humor. Não exatamente pelos motivos que ela falou. Claro que ele era lindo, mas além disso era um rosto mais afável e que eu conhecia, apesar de ter perdido o contato. Não tinha percebido que estava sorrindo para ele de volta até quando se aproximou com uma pequena reverência, erguendo a mão para me cumprimentar.
― Olá novamente, Alteza. ― Estiquei minha mão a ele em forma de cumprimento e o rapaz a beijou-a, sem tirar seus olhos do meu. O gesto pareceu demorar um pouco mais do que o normal, o que me rendeu belas bochechas vermelhas com toda a certeza.
― Olá ― respondi com uma voz falhada, tentando soar o mais natural possível. Ele viu Kath ao nosso lado e cumprimentou-a também, mas a todo momento mantinha seus olhos cravados em mim.
― Agora que está entre nós, pode dizer por onde se escondeu? ― disse Kath, me salvando de ficar sem palavras novamente, mas, ao mesmo tempo, achei-a interessada demais no assunto.
― Não estava escondido. Não exatamente. ― Riu da sua pergunta. ― Agora vim para ficar ― terminou, fixando em mim novamente.
― Isso me lembra que está me devendo uma longa conversa. ― Sorri de volta, agora ansiosa pensando em tudo que ele poderia compartilhar comigo de suas viagens.
Koddy deve ter entendido muito mais na minha expressão porque seu sorriso pareceu se alargar, contudo, nada disse para levar o assunto a outra questão e eu agradeci internamente.
― Espero que tenhamos tempo para isso. Agora que ficarei em Atra, espero ter muito para contribuir. Sei que estará ocupada hoje dando atenção para muitas pessoas, , mas confio que reservará uma dança para mim? Não posso voltar das festividades com meu pai e perder essa oportunidade.
― Seu desejo será concedido. ― Sorri, ainda um pouco envergonhada, mas também lembrando-me de uma época que eu o obrigaria dançar comigo de qualquer forma.
― Muito obrigado. Agora preciso cumprimentar seu pai, mas logo retorno para que possa cumprir o prometido. Com licença, madames. ― Fez um aceno para Kath e eu e despedimo-nos.
Assim que ele saiu, Kath olhou para mim, segurando o riso.
― Hoje realmente você está rebelde, hein, princesinha. O que será que vai escolher no fim da noite, o loiro ou o moreno bonitão? ― sarrou da minha cara.
Meu estupor caiu, lembrando-me de novamente. Eu estava feliz por não ter que pensar nele nesse momento, ele já ocupava espaço demais em mim. Mais do que eu queria e lutava para conceder.
― Pare com isso, Kath. Eu não tenho nada com o ou mesmo Koddy.
Ela deu de ombros, continuando a tomar a sua bebida.
― Pode até não ter nada com o , mas ele não tirou os olhos de você o tempo todo que o Koddy esteve aqui.
― Sério? ― indaguei-a, virando meu rosto em sua direção rapidamente.
― Ah há! Te peguei! ― Apontou o indicador na minha cara. ― Você está tão interessada nele que não consegue nem disfarçar.
― Não é nada disso, Kath. Só fiquei surpresa ― exasperei.
A expressão dela caiu levemente, deixando um pouco o ar blasé que ela sempre carregava.
― Bom mesmo que não tenha, , porque até onde eu sei, sua família não se dá bem com os como antigamente. Não tenho certeza se sua mãe gostaria de saber que você está se envolvendo com um deles. Agora quanto ao moreno bonitão... quem sabe. Fica esperta. Melhor investir naquilo que não vai te dar problemas e não vai estragar seu baile ― aconselhou-me.
Onde estava minha amiga maluca agora para dizer só "Se joga, amiga"? No fundo queria a outra versão da Kath, mesmo que eu contestasse. Não era a primeira ou segunda vez que eu imaginava como seria ter os lábios do contra os meus. Talvez, depois disso, esse desejo que crescia noite e dia deixasse de me aplacar. Dizem que ansiamos pelo proibido, então essa seja a explicação para a atração letal que tinha entre nós dois.
Não querendo mais tocar no assunto, preferi me despedir da minha amiga. A irritação de tudo até ali corroeu-me novamente e era melhor eu circular pelo salão.
Cumprimentei mais algumas pessoas que encontrei pelo caminho, inclusive o Sr. Marcus que, por incrível que pareça, foi super cordial comigo e até elogiou a festa. Eu o respondi com a mesma falsidade que provavelmente ele estava usando contra mim, afinal, eu era uma boa anfitriã.
Passei meus olhos pelo salão. Vi minha mãe conversando com a mãe da Kath ao longe enquanto meu pai trocava palavras com alguns homens por ali perto. Olhei atentamente de um lado a outro, meus olhos buscavam algo que nem eu mesma entendia. Minhas mãos abriam e fechavam, uma leve gota de suor escorrendo da minha nuca e descendo pelas minhas costas enquanto eu perambulava.
Parei um pouco afastada da área central do salão, sentindo o coração pesado. No fundo eu sabia o que procurava. E cada vez que eu não via nem Annyelle e nem , sentia meu estômago afundar. Foi só quando vi o cabelo longo da mulher na ponta oposta junto a um grupo desconhecido, que um leve alívio tomou conta de mim.
― Procurando alguém? ― Uma voz soprou no meu ouvido, fazendo-me saltar.
― Meu Deus, por que você sempre faz isso? ― Dei um passo, me afastando, minha mão voando para o local atingido e arrepiado enquanto eu girava para ficar de frente a ele.
estava ali com toda a sua elegância e reconhecimento, o detentor da minha tormenta.
― O que está fazendo aqui? ― ralhei.
― Achei que eu também fizesse parte do comitê ― ele respondeu irritantemente, cruzando os braços e escorando na pilastra perto de nós.
― Você me entendeu ― retruquei, agora endireitando-me e retomando meu controle. ― Não deveria estar com sua acompanhante?
Suas sobrancelhas se elevaram quando cuspi a pergunta, mas assim que notou a rispidez em minha voz, seu lábio inclinou-se em um sorriso divertido.
― Nós não precisamos ficar grudados vinte quatro horas. ― Deu de ombros.
― Eu não sabia que estava namorando.
E eu sabia que não deveria tocar nesse assunto, mas era mais forte do que eu pudesse me controlar.
― O convite dizia que eu poderia trazer um acompanhante. Eu não preciso namorar a Annyelli para trazê-la. Muito pelo contrário, tenho certeza que ela adoraria vir de uma forma ou de outra, ainda mais me tendo como acompanhante. ― Piscou para mim com aquela carinha ordinária. ― Por acaso está com ciúmes, ? Se quisesse me ter como seu par era só pedir.
Como ele conseguia me fazer arrepiar de duas formas tão diferentes em momentos tão próximos. tinha o poder de me tirar dos nervos.
― Eu jamais iria querer você como meu acompanhante! ― contra-ataquei asperamente. ― Eu tenho certeza que você só quer me irritar. Pensando bem, deve ser exatamente isso que você planejou. Está armando para mim e tudo isso é um jogo sujo para me derrubar, por isso disse que queria brincar comigo ― acusei-o, dando mais um passo para trás, disposta a manter-me longe o suficiente para me resguardar.
rolou os olhos como se tudo o que eu estivesse dizendo não fizesse o menor sentido na sua cabeça, porém na minha encaixava-se muito bem. Isso é, se ele percebesse como ele conseguia atingir as minhas emoções.
Ciúmes não era um sentimento que eu estava habituada, mas Kath tinha razão.
, pare. Teorias de conspiração não combinam com você. ― Ele saiu do seu encosto e deu um passo em minha direção. Sua mão subiu até praticamente encostar na pele da minha mandíbula. Era questão de milímetros, um fio invisível apenas separando e fazendo com que a tensão entre nós aumentasse. ― Aliás, você está linda. Isso deveria ter sido a primeira coisa que eu deveria ter dito.
Engoli em seco. Odiando as sensações que ele me provocava.
― Por que faz essas coisas? ― Diminui o tom de voz, detestando como pareceu vulnerável. ― Me irrita, faz coisas que me chateiam e depois tenta ser gentil de alguma maneira? ― perguntei, deixando que o incômodo que eu carregava há muito tempo saísse do meu peito.
Os olhos de se desviaram por um segundo e percebi ele suspirando e deixando seus ombros caírem de leve.
― Não tente traduzir tudo o que faço, . Às vezes nem mesmo eu me entendo. O que já disse a você sobre espairecer? Pare de pensar e curta os momentos.
― E você quer que eu curta o quê? O quanto tenta me irritar? ― Arqueei minha sobrancelha e recebi uma risada sincera em resposta. Uma muito gostosa por sinal, pena que eu ainda estava irritada para poder curti-la.
Eu sempre gostava de apreciar quando era verdadeiro. Era diferente de quando tentava soar sarcástico ou falso. E eram essas risadas que faziam meu coração palpitar.
― Não, , mas talvez você curta a dança que teremos mais tarde. ― Piscou, pegando minha mão e trazendo um pouco para mais perto dele.
Eu não deveria, ainda tinha pessoas perto que poderiam compreender errado. Mas era nosso imã, quando os pólos se atraem não dava para conter.
― Quem disse que quero dançar com você? ― Eu tentei soar firme e acredito que minha voz tenha saído como tal, mas deu um passo para ficar mais próximo ainda de mim. Os dedos da mão oposta ergueram-se e dessa vez tocaram a lateral da minha cabeça.
Respirei e segurei o ar em meus pulmões, incerta do que ele estava fazendo naquele momento, sua mão indo em direção ao meu rosto. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, um escrutínio novo que eu não estava acostumada, o tempo balançando sobre nós enquanto nos encarávamos.
― Eu não sei o que está fazendo comigo ― sussurrou, seu hálito quente soprando contra a minha boca ―, mas suas reações diante a mim respondem por suas palavras, ― completou, dando um passo para trás e largando-me, enquanto estendia o braço agora para pegar um drink com o garçom que vinha passando perto de nós e eu não havia visto.
Soltei o ar em alívio e me martirizei por ter desejado que algo acontecesse entre nós ali. Encaramo-nos e não tínhamos nada a dizer, por isso, dei meia volta e saí com raiva do por me provocar desta maneira e ainda mais nervosa comigo por cair em cada encanto em que ele me lançava.



Capítulo 16

Deixar para trás não foi tão difícil, o problema era tirá-lo dos meus pensamentos. Contudo, para minha sorte, esbarrei no meu pai que, pelo que observei em seu olhar, estava me procurando.
― Ei, querida, até que enfim te encontrei. Esqueceu da dança pai e filha? Já estamos atrasados ― disse rapidamente, enquanto apoiava meu braço no dele e me encaminhava até o centro do salão.
Esse momento era tradição nos bailes anuais. Desde pequena eu ansiava para que chegasse a hora de poder rodopiar pelo salão com ele, pois era o único instante que eu poderia participar de fato da festa.
Lembranças felizes de quando eu ainda mal batia em sua cintura voltavam a minha mente me fazendo sorrir. Na primeira vez, meu pai me pegou no colo e dançou erguendo meu bracinho infantil, dando voltas, girando rápido e fazendo-me gargalhar. Tenho certeza que muitos desaprovaram tamanha irreverência, mas ele não se importava. Era o nosso momento e eu sabia que ele só queria me deixar à vontade e feliz.
Eu estava nervosa na minha primeira dança oficial e ele fez com que tudo se tornasse fácil. Sem pressão.
Depois desse dia, tornou-se o nosso negócio.
À medida que andávamos para o centro, as pessoas iam se afastando, já sabendo o que estava por vir. Os músicos estavam à disposição e nos aguardavam.
Seríamos só nós no início. Em seguida, as pessoas estariam livres para entrar com seus acompanhantes e dançar enquanto eu trocaria de par, provavelmente bailando com todos os solteiros que estivessem dispostos a dançar comigo. Ainda bem que eu havia escolhido uma sandália confortável o suficiente para que durasse a noite inteira.
Meu pai guiou-me com a mão em minhas costas, posicionando-me para as primeiras melodias. Meu pai dançava divinamente. Minha mãe deve ter insistido bastante em aulas de dança já que, provavelmente, quando se casaram, meu pai não sabia dançar, mas, como futuro rei, era algo bastante necessário.
— Queria te parabenizar, filha. Sei que já te disse antes, mas você merece ouvir novamente. Todo o seu empenho para esse baile o tornou um sucesso. Eu sabia que você tinha condições e sei que pode fazer muito mais do que isto. Sua mãe está orgulhosa!
Meu peito se apertou, uma pontada de felicidade irradiando em meu rosto.
— Obrigada, pai. Sei que sou teimosa, dou trabalho, porém, fico realmente feliz que deu tudo certo.
— O baile é um sucesso, todos estão comentando que o festival entrará para a história — falou com tanto carinho, que sorri.
O alívio preencheu minhas entranhas ao saber que, apesar de todas as coisas, o baile estava indo bem.
— Me parece que mesmo assim ainda não está satisfeita? — Arqueou a sobrancelha. — O que está te afligindo? — perguntou, enquanto inclinava a cabeça um pouco para trás para me analisar. Incrível como ele me conhecia tão bem.
— Ai, pai. — Suspirei. — Só estou cansada. Fique tranquilo.
— Quantas vezes vou ter que repetir até que aprenda que pode contar comigo para tudo? — Elevou sutilmente o lábio em um gesto amável enquanto trocamos os passos.
Sorri sem graça para ele. Eu sabia que ele sempre estaria ali por mim, meu pai era meu porto seguro. A calmaria em meio a tempestade, a brisa após o furacão. Eu poderia passar por qualquer coisa, mas se eu tivesse ele em minha vida, saberia que teria forças para enfrentar o que viesse. Ele que me dava os conselhos que eu nem imaginava ouvir, me apoiava de forma que eu pensaria que nunca existiria, mesmo nas minhas mais loucas ideias. Ele colocava sensatez em minha cabeça sem eu ao menos perceber que era isso o que estava fazendo.
Eu sabia que não era justo esconder minhas angústias, pois meu pai era de minha inteira confiança. Porém, me sentia envergonhada por sempre reclamar ou levar alguma situação aos seus ouvidos. Ele tinha coisas demais para lidar, afinal, ter minha mãe como esposa e eu como filha não devia ser fácil. Não queria relatar mais uma preocupação.
De toda forma, toda vez que ele vinha conversar comigo, eu sabia que acabaria derretendo que nem manteiga ao sol, pois era isso que sua presença me transformava. Sem perceber eu já estaria falando aos cotovelos e ele teria, com certeza, uma bela palavra para me confortar.
— Desculpa, pai. Na tentativa de poupar-lhe eu acabo não querendo contar coisas bobas. Não é que eu não confie, pelo contrário, sei que você terá bons conselhos para me dar e tornar meu problema pequeno. — Desviei o olhar.
, entenda, esse é meu papel de pai. Foi para esta missão que Deus nos enviou ao mundo. O que seria da minha vida se eu não pudesse exercer o que mais amo? — disse, com os olhos brilhando. — Quando você nasceu e te vi pela primeira vez, não sei explicar, mas, algo muito profundo mudou dentro de mim. A sensação da paternidade mexe com nossa vida por completo, eu olhava para aquele rostinho pequenino, tão indefeso, tão frágil... eu apenas soube que precisava protegê-la de qualquer coisa neste mundo. Ali eu descobri a minha primeira função como pai: protetor. Enquanto eu estivesse aqui, não deixaria nada atingir a minha doce filha — passou sua mão num gesto gentil por meu rosto — e eu entendi isso à medida que você ia crescendo. Seus primeiros passos, as primeiras palavras, o primeiro tombo... Você não sabe como eu me martirizei por não ter te salvado a tempo. Você corria pelo jardim brincando comigo e, logo depois, estava caída no chão com seu joelhinho sangrando. Sei que é comum acontecer com crianças, mas meu coração se partiu. — Abaixou levemente a cabeça e deu um sorriso triste pela lembrança.
— Você não teve culpa, pai. — Dei um pequeno tapa de brincadeira por ele se importar com algo tão pequeno.
— Eu sei, filha. Mesmo assim, se eu pudesse, colocaria você em uma redoma onde eu te salvaria de qualquer coisa que o mundo tentasse atingir. Sei que não é possível, mas o que estiver ao meu alcance, eu sempre te protegerei. Daria minha vida por você, — falou, encarando-me nos olhos e passando os dedos por meu cabelo.
— Nem brinca. Não sei o que faria sem você nessa vida. — Abracei-o, quebrando o protocolo como sempre fazíamos de uma forma ou de outra quando dançávamos. Encostei-me mais perto e confortei minha cabeça em seu peitoral, enquanto nos mexíamos.
— Você fará muitas coisas, querida. Por mais protetor que eu seja e por mais que eu queira estar o tempo todo contigo, vejo um futuro muito grande para você, comigo ou não por perto. Você não tem noção do poder que tem, . Eu olho em seus olhos e vejo toda a força dos Phtelus e a liderança dos . Desde nova sei que pode ser uma grande rainha um dia, mesmo que ache que não. E eu também sempre soube que estaria aqui somente para apoiá-la e ajudá-la a tornar-se uma grande mulher. Sou um mero conselheiro em sua vida, a fim de auxiliá-la a encontrar o seu caminho.
— Não me canso de surpreender com a forma que acredita em mim. — Suspirei, ainda descrente de todo esse potencial.
— Você é a única em seu próprio caminho, . Ninguém pode detê-la além de você mesma. Nenhuma pedra em seu caminho, nenhum buraco na estrada, nada é capaz de impedir a sua caminhada. Você só não chegará ao final desta corrida se desistir, mas você é a filha da Eleanor, desistir nunca estará em seus planos — completou, piscando para mim.
— Eu te amo.
— Eu te amo muito mais — respondeu, beijando minha testa e afastando-se já que a música havia terminado.
Depois dele dancei com alguns outros rapazes, incluindo os filhos do Sr. Pervarti. Entrei no modo automático logo após a conversa com meu pai. Absorvia cada palavra dita e a fé que tinha em mim. Se eu não pudesse crer no meu poder, com suas palavras eu poderia atravessar montanhas.
Ouvia a voz do meu par, Postel, dizer alguma coisa, mas só conseguia responder acenando com a cabeça em um sim ou um não. Não estava a fim de conversar, então apenas fiquei observando as pessoas pelo salão. Via Kath sorridente dançando com um rapaz não muito longe de mim, minha mãe com o meu pai e a ministra Elza com meu avô Bartollo. O Sr. Pervati continuava com aquela cara fechada enquanto conversava com Marcus e meu tio Otto perto de uma mulher muito bela, provavelmente estava a xavecando. Ali não perdia tempo.
Onde estava ? Não o via em lugar algum.
Fui tirada dos meus pensamentos quando a dança acabou e Koddy apareceu ao meu lado.
― A Alteza me concederia a honra desta dança?
Sorri em sua direção e acenei para Postel em despedida, antes de colocar minha mão sobre a de Koddy e iniciar a próxima dança.
― Claro, Sr. Koddy, será um prazer ― respondi-lhe.
Iniciamos os passos e reparei a forma como ele me olhava intensamente. Eu não tinha problema em encarar as pessoas, mas quando os olhos não se desviam nem por um segundo, há de se confessar que fico constrangida. Tenho certeza que ele percebeu quando olhei ao redor do salão.
― Sei que já havia dito isso, mas gostaria de repetir que está lindíssima.
― Muito obrigada ― murmurei, esboçando um pequeno levantar de lábios..
― Tenho certeza que deve ouvir esse tipo de coisa o tempo todo. Mas é merecido e inegável. ― Sorriu, fazendo com que sua expressão se tornasse mais suave e menos forte.
― Desse jeito vou ficar envergonhada com tantos elogios, Koddy ― brinquei.
Ele chegou um pouco mais perto do que o apropriado para a dança e inclinou para que pudesse sussurrar em meu ouvido.
― Não se preocupe. Comigo aqui Vossa Alteza se acostumará em breve.
Eu joguei minha cabeça um pouco para trás, me afastando, e franzi o cenho para ele.
, você não acha que vai ficar livre de mim tão fácil agora que voltei, não é? Eu senti sua falta.
A voz dele trazia insinuação de lembranças de muitos anos atrás. Eu era apenas uma garotinha querendo experimentar o mundo atrás de uma pilastra. Tenho certeza que Koddy havia beijado tantas bocas quando esteve fora que mal lembrava de mim. Nunca esperei que ele voltasse e demonstrasse interesse.
Eu não estava louca, não é? Ele parecia definitivamente interessado.
― Não procuro nenhum relacionamento agora, Koddy. ― Preferi adotar minha postura mais franca.
Ele deu uma pequena risada despreocupada e apertou um pouco os dedos que seguravam minha cintura.
― Eu sou paciente, . ― Inclinou-se novamente, mas perto demais, ao ponto de eu desviar o rosto. Nesse momento meus olhos foram direto para , escorado numa parede com uma taça de vinho na mão. Annyelli estava ao seu lado falando alguma coisa, mas os olhos dele estavam todos em mim.
O cabelo acobreado caía quase em seus olhos, mas eu poderia notar o cenho franzido, deixando o seu semblante sério, parecendo que poderia me perfurar. Ele virou a mão em direção a garota ao seu lado e entregou sua taça. No mesmo instante, seus passos eram firmes e furiosos, e estavam vindo para cá, em minha direção.
Eu não sei o que temi naquele momento. Constrangimento? Uma briga?
Nem fazia sentido porque jamais se daria ao luxo de passar vergonha em público. Mas também eu nunca havia o visto daquela maneira e, foi por isso que eu fugi. Interrompi a dança com Koddy, segurei a mão dele e o puxei, como se pudesse salvá-lo de qualquer ira que carregava.
Não olhei para trás, mas eu sentia algo perfurando minhas costas e um peso afundou meu estômago.
― Venha, Koddy, preciso falar algo com minha mãe ― falei apressadamente como justificativa por ter rompido com o nosso momento.
Koddy me olhou, confuso, mas logo seu rosto se suavizou. Eu olhei para os dois lados e vi minha mãe em uma conversa com meu tio Otto e parecia séria. Parei levemente, pensando se valia a pena interrompê-la, mas meu gesto provocou uma sugestão inesperada de Koddy.
― Você quer achar um local menos movimentado? ― Seu lábio inclinou-se em um gesto travesso.
Fiquei confusa, mas instantaneamente compreendi o que dizia e apressei ainda mais para chegar na minha mãe.
― Oi, filha. ― Ela falou cordialmente quando me aproximei com Koddy a reboque. Em seguida ela virou para cumprimentá-lo e, nesse instante, ao longe, vi na parte mais escura do salão um vulto que me parecia meramente conhecido.
― Oi, mãe ― respondi, meus olhos ainda atentos ao longe, a curiosidade me chamando. Pisquei, tentando me reorganizar. ― O Koddy disse no dia que voltou que tinha grandes ideias para Atra, achei que ele estaria interessado em te passar alguma delas enquanto eu cumprimento as últimas pessoas que chegaram.
O rapaz me olhou com o cenho franzido, surpreso por eu o ter arrastado e largado-o ali.
― Oh, Koddy. Adoraria ouvi-lo. Talvez marquemos alguma reunião na próxima semana. estará presente, com certeza, não é? ― Ela desviou o olhar para mim e eu tentei forçar o meu melhor sorriso.
― Claro.
― Eu adoraria, Majestade ― Koddy fez uma pequena mesura, piscando para mim com sua postura novamente tranquila.
Eu pedi desculpas novamente por sair, ergui a barra do meu vestido e acelerei os passos. Fui cumprimentando quem eu vi e tentei desviar das pessoas até chegar ao local mais afastado. Passei pelos corredores até onde não havia uma grande concentração de pessoas. Eu tinha certeza que havia visto alguém ali.
Quando olhei para a direita, vi um corpo curvando no final do trecho que ia para a área da biblioteca. O caminho era ladeado de pinturas antigas da família, meus ta-ta-taravôs, assim como as outras famílias que participaram da fundação de Atra. Do mais antigo até o mais novo, era um corredor que contava histórias sem palavras. Fui andando até chegar nas mais recentes e encontrar de costas a pessoa que eu seguia. Eu não quis me aproximar mais, disposta a fazer com que ele não me notasse. Mas era impossível não reparar suas mãos dentro do bolso e o olhar contemplativo. Era um quadro da minha mãe mais jovem. Ao seu lado estava o meu pai e o falecido irmão dele.
Por algum motivo, eu fiquei ainda mais certa de que não deveria me aproximar. A mão dele se levantou levemente em direção a figura da minha mãe, mas não a tocou. Um barulho se fez no corredor e ele assustou. Não fui eu.
Tentei dar alguns passos para trás e me esconder na divisória da porta, atrás da parede que ligava esse e o outro aposento em que ele estava. Era apenas um pequeno espaço entre as duas portas.
Estava atordoada e distraída, foi tudo muito rápido entre eu tentar me esquivar e esconder até sentir um puxão em meu braço. Uma mão me arrastou rapidamente para um canto escuro da porta ao lado, me fazendo bater de frente com algo duro e quente. Tentei gritar no momento que fui arrastada, mas o homem colocou sua mão em minha boca me impedindo.
Um frio na barriga tomou conta de mim até que a voz sussurrou em meu ouvido:
― Fique quietinha, princesa.



Capítulo 17 - As Emoções Mais Loucas

Eu reconhecia aquela voz grossa, meio rouca e familiar. Era uma que eu vinha ouvindo bastante nos últimos dias.
― Pare de se debater, . Eu vou te soltar e retirar minha mão aos poucos se me prometer que não vai gritar ― sussurrou perto do meu ouvido como se me falasse um segredo. ― Posso contar com você? ― Assenti com a cabeça.
À medida que foi me soltando, meus olhos também foram se habituando com a escuridão, fazendo-me enxergar um pouco melhor com o reflexo da luz que entrava pelo corredor. Minha respiração se regularizava aos poucos e eu tentava tomar o controle novamente das minhas emoções.
Assim que vi que já estava estabilizada, olhei dentro dos olhos do meu raptor e lhe dei um tapa ardido em seu braço. Com certeza não deve ter feito muito efeito, mas, pelo menos, descontei a minha raiva.
― Você ficou louco? Quer me matar do coração? Eu achei que era algum sequestrador querendo me levar para sei lá onde ― briguei, aumentando meu tom de voz.
― Bem que eu gostaria de te sequestrar e levá-la para bem longe daqui ― respondeu aos risos e dando uma piscadela com uma tranquilidade oposta ao que eu sentia.
Dei-lhe outro tapa com irritação e virei-me para ir embora dali o mais rápido possível. Ele segurou-me novamente e me puxou para junto dele.
― Por que está fugindo de mim, ? Estou tentando me aproximar durante toda a festa, mas parece que toda vez que se dá conta disso, dá meia volta e vai para o mais longe possível de mim. ― Sua voz soou amargurada, o vinco da sua testa proeminente.
― Não sei que motivo tem para vir até mim quando tem sua acompanhante para dar atenção ― retruquei e ele rolou os olhos com a minha indignação.
… ― Passou uma mão por sobre o rosto e depois, com a mão livre, deslizou o dedo indicador e polegar pela ponta do meu cabelo. ― Nem tudo que vemos é o que parece.
― Pois eu acho que não tem como parecer outra coisa além do que eu enxergo. Primeiro eu vi os dois juntos no escritório e hoje você a traz como sua acompanhante. Acho que está bem claro. Mas o que isso importa também, né, ? Não tenho nada a ver com isso ― bufei, nervosa. Ele também pareceu irritado com minhas acusações, mas não poderia retrucar porque sabia que o que eu dizia era verdade. Seria muito difícil me contestar.
― ele suspirou ―, me diga, você está assim por causa da sua intriga boba com a Anny ou por qualquer relação que ela tenha comigo? ― retrucou.
Eu não sabia o que me deixava mais nervosa, ele ter falado o nome dela através de um apelido íntimo ou por ter usado a palavra “relação” na frase. Pior de tudo, eu não entendia porque isso me afetava tanto. Eu odiava . Ele poderia ficar com quem quisesse.
Pelos céus, eu estava mesmo inconformada com qualquer coisa que tenha entre os dois?
― Então agora você e a Anny tem uma relação? ― Joguei a pergunta de volta.
― Meu Deus! ― Ele deu um passo, se afastando de mim e passou a mão pelos seus cabelos em frustração.
― Se está incomodado, não precisa perder seu tempo aqui comigo. Afinal, quem veio atrás de mim foi você! O que quer? Me provocar? Causar alguma situação humilhante para mim?
Seu rosto rebateu e ele apertou os olhos, balançando a cabeça.
― Claro que não! Jamais faria isso. ― Apertou os lábios e olhou em direção a porta, antes de se aproximar novamente, soltando um ar cansado. ― Eu só… precisava conversar com você.
― E para isso precisava de todo esse suspense?
― Se fosse de outra forma você viria? ― Arqueou a sobrancelha. ― Você mal falou comigo e quando paramos foi para me atirar pedras por estar aqui com a Anny…elli ― completou o nome dela, certamente para não me irritar ainda mais.
― De fato, eu não tenho mais nada a tratar com você. ― Desviei o olhar para não ter que encará-lo, tentando manter-me alheia a mão que ele deslizou pelo meu braço e pousou no meu ombro, uma leve carícia do seu dedão arrepiando minha pele nua.
― sua voz soou rouca e suplicante ―, por favor.
Olhei rapidamente para ele, mas continuei focando o nada, no meio da escuridão que nos envolvia, apenas a luz do corredor adentrando. deu um passo para mais perto, sua cabeça se inclinou para minha que estava virada, dando acesso total a sua boca à minha orelha, o sopro da sua voz batendo no meu lóbulo como se fosse um beijo.
― Você não tem o direito de ficar brava comigo quando estava lá feliz com o filho do governador. ― Pausou e estava tão próximo que eu escutei o som da sua língua umedecendo seu lábio antes de continuar. ― Você acha que não notei como você ficou vermelha com os flertes dele? Ou como ele achava que poderia ter você em suas mãos?
A palma da mão esquerda de foi para a parede atrás de mim, ao lado da minha cabeça. Eu estava cercada, seu antebraço forte em frente ao meu rosto curvado e sua boca no meu ouvido do outro.
― O feitiço virou contra o feiticeiro, afinal, não é? ― Eu ri sem humor, meu rosto inclinando levemente para frente. Eu queria ver os seus olhos diante do ciúme que escorria em suas palavras. ― Parece que era você o incomodado.
Uma pequena risada saiu dele, seu tórax remexendo um pouco e raspando nos meus peitos no processo.
― Fiquei mesmo, e diferente de você, não tenho problemas em confessar isso, . Esta é a diferença entre nós dois. Eu não tenho medo de ir atrás do que eu quero.
Um frio desceu pela minha nuca enquanto todos meus poros arrepiavam. Eu sempre escutei falar sobre corações que batem descontroladamente nos livros de romance, mas nada me preveniu para o que eu sentia agora.
Era insano. Eu sempre o odiei. Mas eu o queria. Eu o desejava loucamente.
― E o que você quer, ? ― Virei minha cabeça completamente para ele agora. Nossos narizes quase se colaram e eu vi um pequeno tremular das suas sobrancelhas, pegando-o de surpresa com meu gesto.
Ele deu um pequeno passo, juntando nossos corpos de uma forma que eu achei não ser possível. Eu não teria forças para me afastar naquele instante, nem mesmo se quisesse. Não sabia como conseguia ficar de pé.
― Eu não sei se posso te contar ainda, . ― A mão que estava no meu ombro deslizou devagar subindo para meu pescoço.
― Por que não? ― perguntei, tirando forças de onde nem sabia para dizer alguma coisa.
O fundo da minha mente queria sabotar o momento, lembrar que ele estava com a Annyelli, mas meu corpo não estava mais sob meu comando. Eu era um barro nas mãos de , pronta para ser moldada por ele.
― Porque ainda há muitas coisas entre nós ― respondeu, e agora as lufadas de ar iam direto contra os meus lábios. ― Não sei se quando eu contar você sairá correndo e nunca mais olhará na minha cara. ― Sua mão segurou meu pescoço com mais força. Ele estava se contendo, ainda que estivesse tão inebriado quanto eu.
― Se você não disser nada, nunca saberá ― murmurei.
Céus, minha boca estava me traindo dizendo todas aquelas palavras. Esse era , meu inimigo e filho do maior algoz da minha mãe. Em qualquer lugar daquela festa sua acompanhante estaria à sua procura enquanto eu e ele estávamos em algum tipo de flerte maluco e incontrolável.
Eu não podia me esquecer disso, mas era difícil quando essa tensão poderosa estava sobre a gente. Mas eu precisava tentar impedir.
― Sua namorada deve estar à sua procura ― pronunciei enquanto fechava os olhos para esconder a dor que essa frase me causou.
Estávamos tão próximos que eu pude sentir seu corpo tencionar. A mão que me agarrava com desejo no pescoço sumiu e ainda que eu soubesse que continuávamos tão colados quanto antes, parecia que havia um quilômetro de distância causado por minhas palavras.
― Olhe para mim ― pediu após segundos de silêncio e finalmente abri os olhos. ― Você acha mesmo que se eu namorasse a Annyelli eu estaria aqui com você? Você acha mesmo que a gente passaria aquela tarde juntos e a levaria a um lugar que tenho guardado como só meu?
Pisquei com a intensidade da sua voz.
― Não sei, . Nós não nos conhecemos tão bem assim. Eu só sei o quanto você me odiava, aliás, o quanto nos odiamos. Não sei o que quer, o que pode fazer, sua índole, não sei nada, . Você não pode me cobrar que confie em você assim de repente, ainda mais quando só sabemos nos alfinetar. ― Fui sincera porque, apesar de ter algo nítido rolando entre a gente, eu não sabia se poderia confiar nele. ― Nós não conseguimos nem ter uma conversa simples e agradável antes de nos matarmos.
Seus olhos arregalaram ligeiramente com minha franqueza, mas logo seu lábio se inclinou em um sorriso.
― Agora é a Hora da Verdade.
Franzi a testa, perdida e ele repetiu com animação. Só aí entendi o nosso código estúpido e secreto que combinamos justamente para evitar as nossas brigas intermináveis.
era impossível e eu acabei rindo com a lembrança.
― Ok.
Ele abriu o sorriso mais bonito de toda a noite e, naquele momento, eu sabia que precisava abaixar meus muros também.
― Eu não namoro com a Annyelle ― afirmou, ficando sério rapidamente. Não havia risadas ou provocações, o que eu agradeceria, senão eu ainda duvidaria das suas palavras. ― Não vou negar que já tivemos nossos envolvimentos, você mesma sabe bem. Mas não namoro e nem tenho qualquer tipo de relação com ela.
― Então por que a trouxe? ― perguntei, querendo lavar qualquer resto de dúvida.
― Não querendo ser provocativo porque nosso trato não permite, mas você sabe que eu sou um solteiro muito cobiçado e influente em Atra. Não sou famoso como uma princesa, mas tenho lá a minha popularidade. ― Piscou e voltou a me tocar no ombro involuntariamente. ― Vir desacompanhado não seria elegante e meu pai não permitiria. Ele me encheu muito para que trouxesse alguém. Na verdade, ele me enche em várias outras coisas também, mas não quero falar disso agora. Enfim, Annyelle era a pessoa mais fácil para que eu arrastasse para cá sem achar que eu estava propondo alguma coisa. Ela não espera nada de mim essa noite além de poder participar de uma festa da realeza. Na verdade, ela amou as condições do convite ― completou com tranquilidade.
Eu nunca tinha visto dizer qualquer coisa que imputasse uma leve mancha na imagem do seu pai. Nenhuma reclamação, careta ou o que seja. Nunca.
Ele se abrir mesmo que minimamente sobre Marcus significava muito mais que qualquer coisa sobre Annyelle. Talvez ele passasse o mesmo que eu com minha mãe. As intimações, ter que cumprir deveres e muitas vezes ter que fazer aquilo que não se quer. De alguma forma eu me senti mais próxima e, por isso, minha mão voou para o peito dele, pegando-o de surpresa.
― Obrigada ― murmurei.
― Pelo quê? ― Pegou minha mão do seu peito e ergueu até a sua boca, depositando ali um beijo na minha palma.
― Por ser honesto.
Ele balançou a cabeça e colocou a mão em meu rosto.
― Eu responderia qualquer coisa que me perguntasse nesse instante, . Qualquer coisa. Eu… ― Fez uma pausa torturado e molhou os lábios. ― Quando te vi hoje ali no salão, sabia que precisava conversar com você. Pergunte-me o que quiser, . Eu sou todo seu. ― Seu dedo traçou minha bochecha, caindo até meu pescoço novamente.
― Eu vou repetir algo que já havia questionado. ― Inclinei minha cabeça, encarando os olhos claros de . Enfrentando-o. Seus dedos cravaram mais na minha pele trazendo meu rosto para mais perto do seu.
Eu lambi meus lábios, minha língua quase tocando os dele no processo. Eu sabia que era uma preparação. Não havia volta para nós. Eu não desistiria agora. A respiração dele era quente e ofegante no meu rosto e eu segurei meus braços no lugar.
Não era o momento.
Ainda não.
― O que você quer, ? ― repeti a pergunta que havia feito antes da nossa hora da verdade.
Os olhos de denunciavam um animal enjaulado que acabava de ter recebido permissão para voar. Seus olhos fecharam junto aos meus no processo, todo nosso corpo se tocando. Eu poderia sentir a movimentação dos lábios dele contra os meus enquanto falava e isso era avassalador.
Mas ainda não era um beijo.
Ainda não.
― Eu quero você ― rugiu antes que seus dentes agarrassem meu lábio inferior e o puxasse, seus dedos entrelaçando no meu cabelo com força enquanto sua outra mão apertava minha cintura. ― Eu não sei o que está acontecendo entre a gente e nem quero pensar. Eu só sei que preciso de você aqui e agora.
Dito isso, era a hora.
Nossos lábios foram selados em um beijo fora de controle.
Haviam mãos que voaram um pelo outro e eu não conseguia definir onde eu começava e ele terminava. Onde meus cabelos eram puxados ou os dele. Qual mordida era a minha ou a de . Nossas línguas duelavam uma batalha de gigantes. Não poderia ser diferente, sempre foi assim para nós, uma guerra. Mas agora era a melhor luta que eu poderia ter entrado e eu não ligava de perder ou ganhar, porque no final, qualquer um de nós sairia vencedor.
Minha mente falhou. Eu não queria pensar quem éramos ou onde estávamos. Não era uma ou um . Era apenas uma moça e um rapaz sendo levados por um sentimento intenso que não entendiam, mas que era real.
Beijar era como dançar. Estávamos bailando num ritmo só nosso entre afetos, sorrisos e arrepios. Não conseguíamos parar, ainda que precisássemos de ar. As inspirações eram curtas o suficiente para que pudéssemos voltar. As mãos dele me apertando, meu corpo instigando-o.
Tudo era insuficiente e, ainda que tivéssemos o tempo do mundo, era como se não fosse possível. As mãos de deslizaram por mim inquietas, como se eu fosse sumir a qualquer instante. Meus minutos favoritos eram quando ambas seguravam o meu rosto, quase como se ele não acreditasse que eu fosse real. Eu o devolvia da mesma forma, colocando meus dedos em seu cabelo e trazendo-o para mim em uma bagunça de beijos e lascívia. Tenho certeza que minhas unhas arranharam seu pescoço no processo, fazendo com que a pele dele arrepiasse e ele ficasse ainda mais intenso.
Eu jamais imaginaria que conseguiria ter tantos calafrios e em tantos lugares como quando a língua dele me tomava, emergida nessa bolha de emoções. Ou mesmo que quando seus dedos deslizassem no meu colo, eu desejaria por mais.
Estávamos inebriados e tomados pelo acúmulo de toda tensão acumulada entre nós. E, talvez por isso, não havia percebido que o ambiente estava mais escuro do que antes. Ao abrir rapidamente o olho, percebi que a luz que irradiava pelo corredor no aposento havia sumido.
Incitei quebrar o beijo para comentar a estranheza com , mas ele ainda estava preso ao momento, entretanto, um grito ensurdecedor veio do salão principal, fazendo com que pulássemos. Quebramos nosso contato com o susto e a luz do ambiente havia voltado ao normal. Sons de murmúrio e gritos começaram a se alastrar.
Guardas passaram pelo corredor correndo e, ainda que eu não soubesse o motivo, algo muito ruim tinha acontecido. Meu coração subitamente apertou e eu corri em direção a movimentação, minhas pernas franqueando contra a minha respiração acelerada.
Eu não sabia se tinha vindo ao meu encalço, nem mesmo tinha pensado nele quando empurrei uma multidão que estava no centro do salão para ver o que havia acontecido. Uma mão pousou no meu ombro e tentou me puxar, mas eu me desfiz, meus olhos vidrados na situação que encontrei à minha frente.
Coloquei a mão em minha boca e gritei enquanto lágrimas tempestuosas desciam em minha face de imediato. Eu não tinha certeza se um coração poderia ser quebrado, mas o meu estava se desfazendo. Encarei minha mãe, a grande rainha Eleanor, debulhada em lágrimas e debruçada em meio a uma poça de sangue sobre um corpo. Suas mãos estavam trêmulas e ela chorava, falando coisas de impossível compreensão.
Era o corpo do meu pai jogado ao chão com um punhal encravado em seu peito.
Meu pai estava morto e eu sabia que a minha vida acabava naquele momento ali também.



#6 Diário da Eleanor

01 de junho de 1999

Eu nunca imaginei que poderia sentir tanto amor quanto sentia. Era muito maior do que eu poderia imaginar. Quem diria que isso seria possível? Levar a vida inteira com alguém sem saber que poderia ser o amor da minha vida? Passamos parte de nossas vidas olhando para tantas coisas, preocupações em demasia ou sonhando tão longe, que perdemos os detalhes que estão ao nosso redor.
Éramos o exemplo vivo que o amor era inesperado e surpreendente. O garoto estranho e desgrenhado, na minha opinião, e para ele, eu era a princesa metida e cheia de si. Ainda assim, crescemos, nos tornamos amigos e hoje nossa vida havia balançado de cabeça para baixo.
— Temos que parar. Eu não posso pedir isso para você, afetaria todo o seu futuro. Você nunca planejou permanecer em Atra, atrelar-se a mim só iria te prender. — Passei a mão em seu rosto, a insegurança tomando conta do meu coração. E se eu fosse apenas temporária ou apenas um fogo de palha? — Não podemos continuar. — Minha voz saiu insegura e eu tinha certeza que meus olhos haviam me traído.
Ele engoliu em seco, acho que no fundo sabia que esse momento chegaria. Passei a vida inteira ouvindo dele que seu sonho era viajar nos altos-mares, conhecer o mundo, planejar grandes monumentos… Ser alguém de relevância. Que tipo de pessoa eu seria se o prendesse aqui?
Seus olhos pareciam tristes. Ele não deveria ficar alegre? Eu estava livrando-o, era a sua chance.
— E o que vai fazer? Casar com o filho do governador? É isso o que você quer, Lea? — Ele recuou um pouco, ferido. — Ele fez o pedido, seus pais aceitaram, logo o povo vai saber. É isso o que quer? Está pronta para esse passo?
Eu sabia que era uma confusão, nós deveríamos ter nos afastado depois que tudo isso surgiu, mas eu não podia, mesmo que eu esperasse a poeira abaixar para resolver todos os maus entendidos. Eu não queria terminar, uma parte de mim era egoísta demais e o prendia ao meu lado, porém, eu sabia que deveria deixá-lo partir.
— Pronta para um casamento que eu nunca quis ter? — Ri com amargor. — Definitivamente não, mas é necessário. — Olhei para ele com tristeza.
Eu nunca tinha dito tais palavras e nem cogitado em sua frente casar com outro. Na verdade, fui a primeira a me sentir quebrada quando ele cogitou me deixar. Antes da confusão, minha única e desejada opção era ele. Mas, no fundo, eu sabia que se ele partisse, eu acabaria casada com o filho de Bartollo de alguma forma, ainda que não o amasse.
— Algum momento enquanto sonhamos é necessário acordar e encarar que a realidade é diferente do que aspiramos — concluí com pesar.
— E com que está sonhando, Lea? — Sua mão voou para meu rosto novamente e me acariciou. — O que você realmente quer? — perguntou, fazendo círculos com seu polegar em minha bochecha.
Eu estava presa naquele momento, no seu toque, em seus olhos. O arrepio era incontrolável e meu coração não conseguia conter as palavras que saíram da minha boca.
— Você… — Suspirei fracamente e fechei os olhos enquanto abaixava a cabeça em derrota.
Com a mão que não me segurava, ele tocou o meu queixou e guiou-me para que eu levantasse a cabeça e olhasse diretamente em seus olhos.
— Então… por que não tornamos esse sonho realidade? Eu também quero você, Lea. Dane-se os planos, eles mudam!
Com isso ele me tomou em seus braços e lançou-me em um beijo recheado de paixão. Havia nele confissões, entregas e respostas. Era como falar sem nada dizer, o tempo fazendo-nos entender com apenas gestos, nossos beijos falando mais do que qualquer palavra proferida de um para outro.
Sem contestar, levei minha mão ao pescoço dele, subindo até seus cabelos e fazendo-o suspirar. Poderiam passar segundos, minutos, horas e não perceberia. Em meio aos beijos, ele me afastou levemente, sem descolar minha testa na dele.
— Você tem certeza? Mas você sempre disse…
— Nunca tive tanta certeza de algo em toda a minha vida — falou, interrompendo-me e prosseguindo em mais um beijo longo e profundo. Suas mãos me tocavam e as únicas coisas possíveis de se ouvir eram nossas respirações ofegantes e os estalos dos nossos beijos.
— O que faremos agora? — perguntei, ainda um pouco insegura. Tinha medo de sonhar e que fosse acordada em algum momento.
— Achei que a dona de Atra soubesse o que fazer, Vossa Alteza — disse, rindo e provocando-me ao mesmo tempo.
— Você é um pé no saco, sabia? — Sorri com ele. — Falo sério agora. — Deixei minha expressão dizer a seriedade do assunto. — Nós ainda precisamos conversar, não quero que façamos qualquer ação por impulso.
— Lea… — chamou-me por meu apelido com doçura. — Você pode denominar o que eu sinto por você de várias coisas, mas creio que impulso não seja a palavra correta. Que tal chamar de amor?
Eu queria chorar.
No meio de toda a confusão e toda pressão do governo, eu tinha encontrado o amor. Ele me amava… não conseguia nem acreditar nisso. Era recíproco, não apenas o amor de amigos que existia, era algo mais.
Sem pensar, passei meus braços ao redor do seu pescoço e o abracei. Ele sabia o quanto demonstrações de afetos eram difíceis para mim, por isso, ficou surpreso com a ação repentina. Contudo, não demorou para que me envolvesse de forma que pudéssemos sentir a verdade entre nós.
— Eu sinto o mesmo — murmurei baixo, mas ele me escutou perfeitamente.
Afastou-se um pouco do meu corpo, passando o polegar na minha bochecha e beijou lentamente os meus lábios.
— Não precisa ter pressa, Eleanor. Eu estou aqui e não vou a lugar algum. Não mais. Não precisa resolver tudo agora. Quando pudermos assumir, quero que possa fazer com total liberdade e certeza, de forma que não se sinta mais acanhada de mostrar ao mundo que a futura rainha Eleanor pode amar. — Deu-me um sorriso sincero e confortante. — Eu sei o que sinto e sei o que você sente. Podemos esperar as coisas se acalmarem, não quero que ninguém saia ferido. Nosso grupo nunca mais será o mesmo… — concluiu com pesar e eu assenti, sabendo que depois do que nosso amigo arquitetou, nada seria como antes.
— Vamos fazer isso, mas quero que seja mais cedo do que tarde. Não aguento mais essa situação.
— E eu espero que não apareça mais nenhum amigo apaixonado — retrucou-me, brincando, mas senti uma pitada de ciúmes.
Não devia ser fácil para ele. Seu nome nunca foi cogitado como uma opção para mim diante da sociedade. Ele era apenas o filho da criadagem aos olhos dos outros. Por esse ponto de vista, qualquer outra pessoa seria mais viável, até mesmo o esquisito do Marcus.
Ri levemente para ele, sabendo que, apesar disso, ele ainda confiaria em mim para esperar. E isso era amor.
— Fique tranquilo. Ninguém pode conseguir aquilo que não é seu por direito, e o que querem de mim, só você pode ter — confortei-o, levando a minha mão até o seu coração e tocando meus lábios no dele.
Assim, despedi e me levantei, sabendo que não conseguiria me segurar. Eu contaria para os meus pais e eles me ajudariam a resolver esse problema. Eu estava farta de tentar ser a princesa perfeita e ver os outros tentando dizer o que era o melhor para a minha vida. Eu poderia ser a Rainha que eles queriam, mas o meu coração, eles não teriam poder para opinar.



Capítulo 18 - A Dor

É possível alguém morrer mesmo estando viva? Sentir como se alguém abrisse suas entranhas e arrancasse cada pedaço seu, mesmo estando intacta?
Quem olhasse para mim, veria uma figura sã, mas eu mesma não sabia como ainda me mantinha de pé. Minha mente era um turbilhão de pensamentos desconexos e em nenhum deles eu conseguia compreender aquela cena em minha frente.
Dizem que só damos valor quando perdemos alguém. Não é verdade. Eu valorizava e muito o meu pai. Apreciava cada instante que nós tínhamos, quem ele era e o que significava para mim. O que eu não sabia era processar a perda, saber que teria que trilhar o meu caminho sem ele ao meu lado.
Ele não seguraria mais as minhas lágrimas, não me diria mais palavras de conforto quando estivesse triste, não entraria comigo em meu casamento e nem brincaria com meus futuros filhos. Minha vida agora teria uma brecha infindável. Uma cratera que andaria comigo para todo o sempre. Cada passo que eu desse, cada ar que eu inspirasse, tudo me lembraria a dor de não tê-lo mais.
A pessoa que eu mais me importava na vida me deixou. Ele prometeu que estaria ao meu lado para sempre, mas o para sempre terminou cedo demais.
Tentei dar um passo à frente, mas cambaleei. Percebi que não tinha forças nem para me dirigir ao corpo do meu pai. As lágrimas que desciam por meu rosto eram regadas do espírito que se esvaziava de mim naquele instante. O sentimento de solidão preenchendo cada espaço da alegria que antes ocupava meu coração.
Eu ouvia vozes, murmúrios, barulhos, sons que não conseguia compreender. Estava muito atordoada para processar qualquer palavra que entoassem.
Quebrada.
Inconformada.
Dilacerada.
Minha mãe se rasgava sob o corpo do meu pai, agarrando-o como se fosse o único que restasse em sua vida, como se não soubesse o que fazer se ele não estivesse mais ali com ela. Eu sabia o que ela sentia, pois era o mesmo em meu coração. Sem ele não éramos nada. Meu pai era a cola de tudo que era bom entre nós.
A relação que eu tinha com minha mãe não chegava nem perto da que eu tinha com ele. Agora eu seria a princesa solitária, sem grandes amigos e sem pai. Eu queria morrer, trocar de lugar com ele e ser eu deitada com o corpo estendido ao chão. Ele significava muito mais para as pessoas do que eu significaria para alguém. Não era justo!
Após um tempo, minha mãe se levantou, o rosto banhado de lágrimas e seu corpo se endireitando. A roupa que antes era bela, agora continha manchas de sangue por toda parte. Sangue do meu pai que escorria pelos seus braços e manchava até a face da grande rainha Eleanor.
O olhar da minha mãe encontrou o meu e vi ali duas mulheres perdidas, aos pedaços por terem sido deixadas pelo homem que era a base do nosso lar. Talvez fosse imperceptível para os demais, mas percebi sua boca tremer. Ela tinha que dizer alguma coisa, qualquer coisa no meio desse caos. Mas aparentemente ela não era tão invencível assim.
Eu desviei, sem conseguir suportar a dor em seus olhos. Virei para o corpo do meu pai novamente, tão sem vida, agora apenas uma mistura pútrida de sangue e carne morta. Eu jamais esqueceria essa imagem em minha cabeça. Nenhum filho merecia ver seu pai morto e ainda mais de uma forma tão brutal.
Todo filho espera que seus pais o acompanhem por todas as fases da vida. Nascimento, crescimento, casamento, filhos… Ter o ciclo interrompido é como romper a gravidade do mundo. Tudo sai do controle e não temos mais nossos pés firmes ao chão. Eu andaria e vagaria por passos em falso, pois nenhum seria firme o suficiente sem ele.
Esperamos enterrar nossos pais velhinhos depois de terem desfrutado de tudo que essa vida fornece, mas como um ladrão que entra na casa sem aviso prévio, a vida também pode se esvair.
E eu estava ali, parada, olhando uma expectativa se dissipar. Vendo o adiantamento da morte de uma pessoa que era tão viva, amorosa e bondosa.
Meus pais eram novos, poderiam ter anos e anos pela frente, até me dar o irmão que eu tanto um dia quis ter. Mas agora era tarde. Nada disso seria possível. Só restariam as lembranças do grande homem que foi e sua memória nos livros de história.
Tentei reunir forças de onde não tinha para me aproximar. Dei um passo cambaleante, não suportando o peso das minhas pernas. Eu cairia bem aqui, na frente de todas as pessoas que nos sufocavam em volta. Uma mão veio ao meu braço, olhei rapidamente em meio as lágrimas que me embaçavam e vi que era tentando me equilibrar.
Aproveitei a ajuda e cheguei perto do corpo do meu pai, ajoelhando-me diante da sua figura. Minha mão trêmula foi até seu rosto e deslizei meus dedos para fechar seus olhos devagar. Era demais para mim, agachei-me e o abracei com força, soltando um gemido desesperado do fundo da minha alma. Meu choro era compulsivo e inconsolável.
― Não, pai, você não pode me deixar. Volte para mim, você prometeu. Não faz isso comigo, pai ― comecei a sussurrar repetidamente entre soluços, apertando-o como se ele pudesse voltar a qualquer instante e me ouvir.
Seu corpo ainda estava quente, mas já poderia se ver a palidez em sua face pela perda do sangue. Senti uma mão tocar a minha e virei-me para ver quem era. Minha mãe, mesmo tão quebrada quanto eu, estava tentando me passar forças. Aos poucos ela tentava mudar sua postura e transformar-se na rainha fria que sempre foi. Ela se fragilizou, as pessoas viram sua maior fraqueza e agora ela estava exposta. Mas, se bem a conhecia, ela não deixaria que ninguém usasse disso para a derrubar.
E esse era um dos motivos porque eu não queria servir a realeza, não poderíamos ter nem o nosso momento de luto e dor. Minha mãe, mesmo sentindo todo sofrimento e choque, teria suas obrigações e precisava lidar com toda a confusão que instaurou com o homicídio.
Engolindo as lágrimas, eu a observei enquanto fechou os punhos com força, engoliu as lágrimas e bradou convocando os guardas do palácio.
― Ninguém sai desse palácio sem segunda ordem. Todos são suspeitos até que se prove ao contrário e eu juro por Deus que eu mesma mando aniquilar quem quer que seja que tenha feito isso, político ou plebeu ― rugiu, passando seus olhos mortais pela multidão.
Muitos murmúrios ecoaram pelo local, alguns poderosos indignados por serem vistos como suspeitos, mas ela estava certa, seja quem for, se deixassem irem embora, jamais saberíamos o que aconteceu.
Meu tio Otto se aproximou com um lençol e minhas lágrimas voltaram a cair com força.
, por favor ― ele pediu em súplica para eu me afastar do corpo. Eu cravei minhas unhas nele, não querendo deixá-lo ir.
… ― Ouvi a voz de tocando meu ombro.
― Me deixem! ― gritei e ambos se afastaram.
Deslizei meus dedos pela última vez nos cabelos dele e inclinei para beijar sua testa. Levantei-me devagar, impedindo que qualquer um me tocasse enquanto minha mãe deu um comando para os guardas afastarem as pessoas em volta de nós.
Tomei o pano do meu tio e eu mesma cobri meu pai, tirando os olhos curiosos do corpo sem vida no chão. Eu virei-me para minha mãe e seus olhos brilhavam em minha direção, intensos, dolorosos e orgulhosos. Se ela poderia ser forte diante dessas pessoas, eu também seria. Seu aceno foi tudo o que ganhei, mas aquele olhar era mais do que qualquer palavra.
― Todos poderão ser acomodados em nossos quartos de hóspedes, talvez não seja o suficiente, mas dividiremos entre famílias de forma que todos possam ficar alojados aqui. Amanhã bem cedo eu quero que todos os governadores, prefeitos e qualquer outra autoridade aqui presente compareça à sala de reuniões. Além disso, a nossa equipe investigativa conversará com cada um, sem exceção ― completou, olhando para o governador de Repotte. ― Tiraremos isso a limpo ― disse enquanto homens se aproximavam do corpo do meu pai e o colocavam numa espécie de maca e o carregavam para longe.
Minha mãe observou-o ser levado e percebi seus olhos embargarem novamente. Achei que ela quebraria ali em frente a todos novamente, mas não.
― A festa acabou ― completou, retirando-se do salão às pressas e dando ordens para que os criados preparassem os quartos e encaminhassem os convidados conforme a divisão de famílias da lista de convidados.
Não havia percebido que eu ainda estava ali, parada, com as mãos cheias de sangue. Meu vestido cobriu-se em carmesim no meio da poça que eu me encontrava. Precisava sair, mas só permanecia no mesmo lugar, olhando para todo aquele sangue derramado ao chão.
― Vem, pediu, erguendo a mão para mim. ― Vamos sair daqui.
Olhei para a mão dele, ainda incerta sobre o que fazer. Trêmula, aceitei, porque sabia que precisava me retirar e não teria forças suficientes para fazer isto sozinha.
Todo o salão olhava para mim. Uns com raiva por serem forçados a permanecer aqui, outros tristes e muitos assustados com a cena que ocorrera. Milhares de feições, mas todos direcionados a mim.
Não vi meu tio em lugar algum, provavelmente foi atrás da minha mãe. Kath abraçava a dela com o rosto escondido em seu ombro.
― Meu avô… ― sussurrei, lembrando nesse momento que ele acabava de perder seu outro filho.
― Ele foi levado ao quarto assim que a cena ocorreu. ― O chefe da guarda da minha mãe apareceu ao meu lado e me informou. ― Ele entrou em estado de choque.
― Eu preciso vê-lo… ― Virei-me disposta a correr até o lugar que ele estava.
Trotton Neguesí entrou na minha frente com seu filho ao lado, mas minha atenção foi roubada por Paul Pervati, que marchava em minha direção.
― Preste atenção, garotinha, é melhor você dizer a sua mãe que nós sairemos já daqui. Não podemos ser obrigados a permanecer neste castelo e simplesmente deixar nossas coisas à deriva por um capricho dela. Eu quero que liberem a nossa passagem imediatamente antes que eu os acusem de sequestro ― rosnou, furioso.
Meus olhos se espremeram contra meu rosto em transtorno contra a sua falta de sensibilidade. Eu acabara de perder o meu pai. Será que ele não poderia ter um pouco de senso antes de vir me atingir com grosseria?
― Sr. Pervarti, eu não sei se ainda não compreendeu a situação, mas o meu pai, o Rei de Atra, acabou de ser assassinado. Eu garanto para o senhor que qualquer um compreenderia as medidas de urgência que acabamos de tomar ― falei com a voz ainda trêmula, mas o mais sério que consegui.
― Isso é ridículo. Eu exijo que abram os portões ― bradou, dando um passo em minha direção.
Sua proximidade exalava agressividade e, por um segundo, pensei que ele faria algo contra mim, tamanha a raiva que estava. Porém, no momento que se reduziu a distância, uma mão tocou em seu ombro, fazendo-lhe olhar para trás.
― Deixe-a em paz. Não precisamos de mais confusão. Creio que a noite foi turbulenta para todos ― disse Koddy, com seriedade na direção do governador.
― E quem você pensa que é para falar comigo assim, garoto? ― indagou.
― Sou Koddy Neguesí, filho do governador de Glassoi e nem por isso meu pai e eu estamos fazendo algum escândalo aqui. A não ser que você tenha algo a temer, caso contrário ficaremos aqui até descobrirmos quem causou isso tudo.
O Sr. Pervarti olhou em volta para todos os olhos que giravam em sua direção e saiu nervoso, puxando seus filhos por trás dele. Koddy deixou sua postura cair e virou-se para mim, seu pai atrás dele.
― Peço desculpas por ele. Você não merecia passar por isso, . Se tiver algo que eu possa fazer, estou a seu dispor. ― Seu olhar era pesaroso e vi que ele fitou a minha mão. Em meio à confusão com o governador de Repotte, eu havia esquecido de soltar minha mão da de , que estava ao meu lado como um segurança. Soltei-a rapidamente e passei pelo cabelo que caía em meu olho.
― Não tem porque se desculpar, Koddy, a culpa não foi sua. Nem todas as pessoas conseguem ter bom senso como você. ― Tentei deixar minha feição mais amena em um agradecimento, ainda que fosse impossível emitir um sorriso.
Olhei para o lado e vi encarar Koddy. O filho do governador reparou e não desviou o olhar, fitando-o também com afinco. Eu não tinha tempo para isso agora, só havia espaço para dor.
― Se me dão licença, preciso ir ― disse a eles, virando-me para sair dali.
― Quer que eu te acompanhe, ? ― perguntou com vulnerabilidade, pela primeira vez sua voz saindo incerta quando deu um passo para me seguir.
― Não. Eu só preciso ficar sozinha neste momento ― disse, olhando para trás, querendo sumir daquele salão que me oprimia.
Caminhei para fora daquela arruaça e ouvi passos atrás de mim, olhei para trás e vi que me seguia. Parei imediatamente.
, eu… ― Interrompi-o antes que falasse qualquer coisa.
, eu sei o que aconteceu entre nós, mas eu não quero falar disso agora. Eu realmente preciso ficar sozinha. Você não tem noção do que eu estou sentindo neste instante. ― Meus olhos embargaram novamente e algumas lágrimas começaram a deslizar. ― Eu preciso respirar. Não tenho cabeça para falar qualquer outra coisa neste instante.
― Eu entendo ― disse, passando uma mão na outra.
Seus cabelos eram uma bagunça onde meus dedos haviam traçado momentos antes. Quando eu achei que estava vivendo o momento mais louco e prazeroso da minha vida. Mas enquanto eu estava com , meu pai era assassinado.
Isso me cortou.
― Não quero falar sobre nós, . Só quero que saiba que pode contar comigo. Eu não vou sair daqui enquanto não perceber que você está bem o suficiente para se reerguer.
Deu outro passo como se fosse tentar me confortar, mas eu dei outro para trás.
― Então creio que não sairá nunca, . Porque isso não acontecerá! ― refutei, nervosa e exausta. ― Eu nunca mais serei a mesma. A minha vida… ― Engoli. ― Acabou , eu não tenho mais ninguém. Ele era o único em minha vida e agora se foi ― completei, chorando e limpando minhas lágrimas com o dorso da mão.
― Não precisa ser assim, .
O rosto de era um misto de sofrimento e insegurança.
― Assim como? ― questionei com amargura.
― Sozinha. Eu estou aqui para você ― respondeu, tentando se aproximar novamente.
Eu era um bicho acuado. Como um animal selvagem que era encurralado e precisava lutar por si. Eu queria que essa dor sumisse, eu precisava que ela fosse transferida para outra pessoa.
Você? ― indaguei em descrença e desdenho.
Eu estava triste e ferida. Não queria pensar em outra pessoa ocupando o lugar que meu pai havia deixado. Ninguém nunca seria o suficiente para isto. Ele era o único que eu confiava, ele era único para mim.
― Me deixe em paz, . Um beijo não significa que será o homem da minha vida. Eu já beijei outros antes. Não pense que foi ou será o único ― atirei contra ele.
― Não vou relevar o que disse, pois sei que está sofrendo e está machucada. ― Deu outro passo à frente. ― Sei que quer atirar palavras duras, quer me machucar para esquecer como você está machucada. ― Deu outro passo enquanto minhas lágrimas transbordaram ainda mais. Minha visão estava embaçada e meu corpo tremia.
Eu achei que fosse cair, mas deu um último passo e passou seus braços para me segurar no momento que eu não suportei.
― Só deixe sair, , você não precisa controlar sua dor comigo, suas palavras não vão me machucar.
Não consegui, passei os braços em sua volta e chorei, agradecida que tivesse me afastado o suficiente para ninguém me ver assim. não disse nenhuma outra palavra, apenas passava a palma da sua mão pelas minhas costas enquanto eu ensopava seu peito com minhas lágrimas. Não havia nada romântico no gesto.
Ele estava certo, eu precisava ferir para ofuscar a minha dor. Mas isso não funcionaria com ele. E, por mais que eu quisesse afastá-lo, eu percebi que precisava daquele abraço e um lugar para lamentar. Mas eu não o agradeceria agora. No momento eu apenas viveria minha dor e tentaria lidar com isto.
Após uns minutos, quando eu tive um pouco mais de força para afastar minha face do seu tórax, ajudou-me a levantar e acompanhou-me até o meu quarto em meio aos meus tropeços. Sentei na minha cama e ele me acompanhou ao meu lado, sem parecer constrangido por estar ali
Ele segurou a minha mão e eu repousei minha cabeça em seu ombro em silêncio. Às vezes as lágrimas não paravam de cair, outras eu ficava no vazio da minha mente, sem quaisquer palavras, apenas deixando a fraqueza me consumir.
― ele sussurrou enquanto seus dedos passaram por meu cabelo. ― Você precisa se trocar.
Eu olhei para meu vestido, antes tão belo, agora às traças e consumido pelo sangue do meu pai. As lágrimas voltaram a brotar com força e eu acenei com a cabeça, tentando me levantar.
― Você precisa de ajuda? ― perguntou, incerto, seu rosto denotando nenhum tipo de emoção além de empatia.
Eu balancei a cabeça enquanto ia em direção ao banheiro. Por mais que eu estivesse sem forças, não queria a ajuda dele para isso, eu me sentiria ainda mais frágil e exposta diante de . Com meus dedos trêmulos, fui desabotoando minha roupa assim que fechei a porta, deixando cair o tecido pela minha pele. Entrei no box e a água começou a lavar o sangue sobre mim. Meus olhos fitavam o chão com o líquido avermelhado misturado ao transparente que corria pelo ralo.
Ali eu deixei que a água também lavasse minhas lágrimas. Eu nunca imaginaria que o corpo fosse capaz de produzir tanto. Nunca era suficiente, sempre tinha mais.
Terminei, enxuguei-me e vesti um robe que ficava no meu banheiro. Pegando o pente, saí do banheiro e notei ainda no mesmo lugar, sentado na cama a minha espera. Agora ele estava sem o terno, apenas a camisa de baixo, que ainda tinha respingos de sangue, mas poucos. Provavelmente manchei-o quando o abracei.
Não disse nada, apenas me virei e sentei-me em frente à minha penteadeira para escovar meu cabelo. Olhei para meu rosto abatido contra o espelho. Uma imagem outrora bela, agora sem vida, ainda que o meu coração batesse. Minha mão tremia e eu não conseguia tirar os nós dos meus fios.
Com a raiva emergida contra a frustração do que havia acontecido, eu joguei o pente contra o espelho, rachando-o no processo e fazendo com que pulasse da cama. Meus ombros tremeram com o meu choro e ele se aproximou, pegando o objeto do chão e erguendo sua mão para mim. Eu passei meus dedos nos dele e ele me trouxe até minha cama. Sentada, começou a escovar meu cabelo, até que todos os nós saíssem.
Assim que terminou, ele colocou o pente no console ao lado da minha cama e recostou suas costas na cabeceira, puxando-me e me aconchegando contra ele. Sem palavras, deitou minha cabeça em seu peito e passou a mão em volta do meu corpo.
Nada que fosse dito cessaria a minha dor ou aliviaria o que eu estava sentindo. Ou mesmo traria o meu pai de volta. Contudo, era bom ter um lugar para sofrer.
apenas acarinhava os meus cabelos de uma forma pura e reconfortante, e por um instante, não me senti mais tão sozinha. Eu não sabia ainda o que sentia por ele e eu nem conseguia processar nada naquele instante. Mas, eu sentia que o cuidado que ele mostrava por mim era o que eu precisava agora.
Por mais que fosse bom, eu não poderia me entregar nesse estado fragilizado. Da forma que eu estava, talvez, qualquer pessoa que me desse carinho me tornasse suscetível. Eu precisava ir devagar e pensar meticulosamente em qualquer ação que fosse fazer daqui em diante.
Comecei a me sentir mais mal do que já estava. Além da dor, agora sentia culpa por estar confortável ao lado de . Meu pai merecia todo o meu luto, todas as minhas lágrimas e toda a minha dor. E quem estava ao lado da minha mãe agora? me confortava, mas minha mãe havia perdido a pessoa que sempre esteve ao seu lado.
Era injusto.
Contra tudo o que meu corpo e meu coração destruído pedia, eu me forcei a me levantar e pedi que se retirasse.
Ele sentiu a tensão, mas sabia que agora poderia me deixar sozinha. Após um segundo hesitante, ele me deu um beijo na testa e saiu.
Sem o seu abraço, cheiro e calor, eu pude me desembriagar e refletir.
Choraria até o amanhecer, sofreria tudo que tinha para sofrer, deixaria doer tudo que tinha para doer. E amanhã… Sim, amanhã seria um novo dia.
Eu me ergueria.
Não porque a dor teria cessado, mas porque eu não poderia me entregar. Meu pai havia sido assassinado e a pessoa estava por aí impune.
E se tinha algo que meu pai merecia, além das minhas lágrimas, seria justiça, e eu lutaria por ela com todas as minhas forças.



Capítulo 19 - Os Suspeitos

Eu poderia contar no relógio cada segundo da noite que passou. Dormir era a última coisa que eu poderia fazer diante da dor que me atormentava.
Era o meu baile. Era para ser um sucesso. Porém, tudo foi fadado ao fracasso. Uma coisa era certa, ninguém jamais esqueceria deste evento, mas eu mal imaginaria que seria devido a morte do meu pai.
Cada vez que eu tentava fechar os meus olhos, àquela cena brutal invadia minha mente, então, preferi ficar com eles abertos e apenas sofrer… Sofrer lentamente por cada minuto que passava.
Quando percebi que o sol já estava aparecendo, decidi me levantar. Eu ainda não havia visto minha mãe após a confusão e estava tão atordoada com minha própria dor que nem pensei em procurá-la.
Saí da cama e me olhei no espelho, meu cabelo estava desgrenhado e havia crateras negras abaixo dos meus olhos. Nem mesmo a melhor maquiagem do mundo abrandaria a minha tristeza.
Lavei o rosto para me recompor, pois o dia seria longo e eu precisava de forças para enfrentar tudo que estava por vir. Talvez a água ajudasse a regar um pouco das minhas angústias e lavar um pouco da minha alma.
Quando sai do banheiro, Lylliane já estava à minha espera. Ela também tinha um semblante abatido, seus olhos vermelhos denunciavam lágrimas derramadas. Todos os serviçais amavam meu pai, ele era muito bondoso com qualquer cidadão. Realmente seria uma perda enorme para eles também. Ela tentou esboçar um sorriso triste enquanto vinha em minha direção.
― Senhorita , saiba que lamentamos muito a perda do rei. Nós o admirávamos bastante ― entoou com a voz trêmula.
― Eu sei, Lylli, muito obrigada pelo carinho ― respondi, pegando em sua mão apreciando o gesto. ― Gostaria que me ajudasse a estar apresentável para esta manhã. Você sabe onde minha mãe está?
― Desde que ela saiu do salão ninguém mais a viu rainha. Seu tio tentou falar com ela, mas parece que sua mãe ficou em seu quarto e não autorizou a entrada de ninguém.
Ponderei a resposta de Lylliane. Minha mãe estaria muito machucada e jamais iria se deixar expor. Sua reação diante da morte dele foi um equívoco inevitável devido à imprevisibilidade do momento, caso contrário, ela jamais deixaria um salão cheio de gente ver seus sentimentos daquela maneira.
Eu confiava que veria uma outra faceta dela hoje perante a reunião, mas isso não significava que não estava sofrendo. Eu tinha plena certeza dos sentimentos da minha mãe. Ontem nunca havia a visto tão perdida e desconsolada.
Pensando nisso, resolvi que antes de ir na reunião, eu a visitaria em seu quarto, agora só éramos nós duas contra o mundo, precisaríamos nos apoiar de alguma maneira.
Lylli me ajeitou o máximo possível. Não estava deslumbrante, mas, pelo menos, menos assustadora do que quando acordei. Agradeci-a e fui em direção ao quarto da minha mãe. Ao chegar lá, bati em sua porta, mas não tive nenhuma resposta. Bati de novo e anunciei que eu que estava ali. Ouvi um murmúrio de algo parecido com um "entre" e acreditando que foi isso que ela havia me dito, adentrei no quarto.
Após os primeiros passos, uma sensação de nostalgia invadiu meus pensamentos. Se eu fechasse os olhos, conseguia sentir o cheiro dele no local. Lembrei das vezes que eu tinha pesadelos e ia em passos silenciosos para lá. Entrava devagarinho, mas, por mais silenciosa que fosse, minha mãe sempre me descobria. Ela me olhava com uma cara séria e feia, mas eu sabia que era só para não dar o braço a torcer, pois assim que olhava para meu pai, ela dava aquele sorrisinho de canto, não conseguindo mais disfarçar como achava aquilo engraçado. Meu pai me mandava subir e eu deitava entre eles em seus braços. Ali eu estava protegida de qualquer coisa. Ele começava a contar histórias engraçadas e quando eu menos percebia, já nem lembrava que havia acabado de ter um pesadelo. Logo mais eu estava dormindo em meio a um sonoro “Eu te amo, filha".
Meus olhos passaram pelo quarto e vi minha mãe sentada diante da escrivaninha com várias fotos espalhadas na madeira maciça do móvel. Assim que ouviu meus passos, ela juntou rapidamente as fotografias e passou a mão por uma lágrima que descia em seu rosto. Aproximei-me dela, colocando uma mão em seu ombro, enquanto ela guardava as fotos em uma caixa – que se não me engano era a mesma que havia visto naquele dia –, ficando apenas com uma em sua mão.
― Ele te amava muito ― disse, virando e erguendo a foto para mim.
Era minha mãe com uma barriga enorme e meu pai ajoelhado diante dela sorrindo e tocando o local.
Meus olhos encheram-se de água e algumas escaparam, mesmo eu sem saber como ainda era capaz de chorar.
― Nesse dia ele estava me dizendo que não sabia como era possível amar tanto alguém que nem mesmo tinha chegado ao mundo. Um ser que nunca havia visto, que não estava dentro de si, mas que já mexia com o mais intrínseco do seu ser ― continuou, virando de volta para a mesa e fitando o nada.
Vi outra lágrima escorrer dos seus olhos, mesmo que a carranca em sua testa fosse proeminente, como se não pudesse entender o que tinha acontecido.
― Ele prometeu que estaria do meu lado sempre, não apenas para ser rei, mas para ser o melhor pai do mundo. E tenho certeza que ele foi ― terminou, amenizando sua feição e me dando um pequeno sorriso enquanto algumas lágrimas desciam do seu rosto. ― Eu posso ser dura com você, fechada e muitas vezes não corresponder às suas expectativas, , mas eu sempre fiquei tranquila porque sabia que Enrico supria qualquer falta que eu fizesse em sua vida. Sei que não é certo, mas eu jamais conseguiria ser para você o que ele era. Me desculpe.
Seus olhos voaram para longe de mim ao final, sua mão fechando em punho diante da mesa.
Abaixei-me para ficar diante dela e segurei sua mão, abrindo seus dedos para que pudéssemos entrelaçar os nossos.
― Você é ótima na sua forma, mãe. Eu não compreendo muitas de suas atitudes, mas eu sei que tem um motivo para ser assim. Nossa relação não é só culpa sua, sei que sou difícil também. Na verdade, nossas personalidades fortes nos fazem ser assim, eu acho. ― Ergui os ombros e tentei elevar o canto do lábio em conforto.
De certo, não éramos melhores amigas, esse posto sempre foi do meu pai. Éramos duas cabeças duras que queríamos vencer a guerra de nossas discussões, mas nos amávamos. E esse amor teria que ser suficiente para nos dar força para superar juntas, portanto, eu levantaria bandeira branca naquele momento.
― Sim. Seu pai sempre foi o nosso intermediador. O que faremos sem ele, filha? – Apertou minha mão, cedendo ao meu afeto.
― Eu não sei ― confessei, alisando meu dedo no dorso da sua mão. ― Eu só sei que não consigo passar por isso sozinha. Eu preciso de você, mãe. ― Minha voz tremeu ao final e não pude impedir a nova cascata de lágrimas que desceram. Minha mãe abriu os braços e passou-os em minhas costas, trazendo-me ao seu seio maternal.
― Vamos passar, querida ― disse com a voz embargada. ― O luto vem, mas nós não podemos deixá-lo vencer. A realeza infelizmente não pode se entregar ao sofrimento. Agora mesmo ergueremos nossas cabeças e enfrentaremos cobras e escorpiões venenosos.
Ela se afastou, colocando minha cabeça em suas mãos e usou o polegar para limpar minhas lágrimas.
― Não sei se consigo demonstrar tamanha imparcialidade, mãe ― murmurei, balançando a cabeça.
― É necessário ― respondeu, firme. Suas lágrimas agora secando. ― Pelo seu pai, . Se as pessoas verem fraqueza em nós, acharão que podem nos atropelar e nos desrespeitar. Não posso permitir isso. Ontem eu fiz uma promessa e eu hei de cumpri-la.
A carranca do seu rosto se atenuou, suas feições duras substituindo as vulnerabilidades que havia demonstrado até aqui.
― Você interrogará as pessoas na reunião? O que eu devo fazer? ― Passei minha mão no meu rosto para tentar me recompor e me dispor para minha mãe.
― Muito mais do que isso, . Na verdade, não quero que você esteja lá.
Senti como se tivesse levado um soco. Meu corpo se empertigou e franzi a sobrancelha.
― Por favor, não diga isso. Eu preciso estar lá. Eu vou, você querendo ou não. Foi o meu pai que morreu e não é justo me omitir a isso. Além do que, você não quer me preparar para o reinado?
Ela ficou em silêncio por uns segundos e tentou pegar minha mão novamente, mas eu a retirei.
― Eu só quero te poupar, . As pessoas nem sempre são compreensivas e podem até ser bem cruéis. Mas se quer ir, vá, porém se achar que é demais para você, não hesite em se retirar.
Assenti com a cabeça, aliviada dela ter voltado atrás em sua decisão. Precisava de um tempo para respirar antes da reunião, por isso, despedi e levantei-me para me retirar do quarto quando ela tocou meu braço.
, seja o que for que você escute lá, eu te peço que não diga nada. Ouça, analise, mas pondere suas palavras. Seja o que for, guarde para si. Você costuma ser impulsiva, ainda mais com surpresas. Não reaja, pelo menos não de imediato. Me prometa que se conterá.
Mordi o lábio, encarando sua súplica.
― Não posso prometer, mas tentarei. Como uma prova da sua confiança em mim, eu farei de tudo para ficar quieta.
― Obrigada. ― Ela acenou. ― Não se atrase, logo começará.
Saí e caminhei pelos corredores do palácio, respirando fundo para me preparar para enfrentar tantas pessoas. Era cedo demais. Não fazia nem 24 horas que tudo havia acontecido e teríamos que nos reunir para lidar com o rebuliço da situação. Era a maldição de ser da realeza e um dos vários motivos que eu pensava se valia a pena.
Passei meus dedos pelas paredes, fechando os olhos por um segundo para conter tantas lembranças que cada tijolo carregava. Ao abrir novamente, vi algumas pessoas ao longe, mas ainda não estava pronta para elas, por isso, desviei o caminho até ir para um parapeito que dava para o jardim. Senti a brisa bater em meu rosto, a natureza tão simples e contínua que se contrastava com o vendaval em meu coração.
Eu não podia esperar mais, havia pedido para participar da reunião, ainda que não soubesse se estava preparada para tal. Mas precisava mostrar a minha mãe que poderia. Assim, voltei e fui até o salão de reuniões. De longe avistei as portas abertas, vários guardas faziam a cobertura enquanto as pessoas entravam e sentavam em volta da mesa. Do lado de fora havia um aglomerado de pessoas, convidados do baile que ficaram retidos no palácio. Murmúrios vinham por todos os lados e várias cabeças giravam em minha direção ao notar que a princesa estava ali.
Olhares de pena, outros de raiva. Alguns indignados por ficarem ali, outros com medo de ter que conviver em portas fechadas com o assassino. Ignorei todos, apenas acenando com a cabeça e tentando replicar a postura altiva que minha mãe tinha. Ela já estava lá em sua cadeira elevada, que simulava um trono. Seus olhos voaram por todo o salão antes de sentar e, com apenas um elevar de mãos, o silêncio se alastrou e as pessoas começaram a sentar, ajeitando-se em seus lugares.
Eu caminhei até o seu lado, desviando o olhar da cadeira que seria do meu pai. Saltando-a, o outro local mais próximo à minha mãe era ocupado pelo Sr. Caliagri, chefe da guarda-real e ao lado dele estava a Ministra de Segurança, Sra. Veliatti. Meu tio Otto chegou levemente atrasado e roubou a atenção, o que foi amplamente ignorado pela minha mãe.
― Começou? ― ele sussurrou ao se jogar ao meu lado.
Eu balancei a cabeça em negativa e ele abriu um sorriso, apenas para deixar morrer quando me encarou, seus olhos enchendo-se de pena. Eu sempre gostei do jeito irreverente do meu tio, mas neste momento eu odiei como ele poderia rir e, pior ainda, como ele o deixou desfalecer o sorriso apenas por lembrar que meu pai morreu.
Eu sabia que não fazia sentido, mas alguém por acaso consegue ser racional em meio a dor?
Desviei meus olhos dele e passei pelo restante das pessoas que se encontravam ali. Cada ministro de Atra estava posicionado, junto com eles alguns representantes, sejam seus filhos ou auxiliares. Meus olhos encontraram os de Koddy, que me encarava; ele tentou sorrir e sussurrar um olá quando o encontrei. Eu acenei a cabeça em resposta e senti meu coração palpitar ao direcionar minha visão mais para a esquerda onde se encontrava e seu pai. Eles não estavam muito longe de onde eu estava, Marcus tinha uma posição privilegiada mais perto da rainha do que os outros governadores por causa da sua importância para Atra. Minha mãe sempre foi justa e, apesar dos dois terem uma grande rixa, o pai de nunca havia falhado como governador.
Eu encarei o rapaz que foi digno da minha atenção e calor há tão pouco tempo, antes que tudo desmoronasse. Pela primeira vez eu o via desalinhado, se é que posso falar que estava uma bagunça. Ele ainda era atraente como um pecado e vestia-se bem, contudo, eram os detalhes em seu rosto e barba por fazer, alguns fios fora do lugar, camisa levemente amassada. Nada que fosse muito digno de ser notado por outra pessoa, e nem deveria ser por mim, mas infelizmente, eu sabia.
Olhar para ele trazia um emaranhado de lembranças da noite passada, algumas loucas e confusas que eu não poderia pensar, mas não me impediam de me sentir constrangida. Eu ainda não havia conseguido pensar em nós e nem no que fizemos. Por isso, apenas desviei, alisando as mãos suadas em meu vestido.
Falar que eu estava nervosa seria um eufemismo. Atrelado a tudo, ainda tinha o fato que eu nunca havia participado de uma reunião desse nível, nem mesmo para assuntos mais banais. Além de tudo, com todos os ânimos aflorados nos mais diversos sentimentos, não poderia imaginar como aconteceria tudo.
Assim que todos estavam assentados, os guardas dispuseram-se em quase o mesmo número de pessoas ali presentes, porém em pé e um pouco mais afastados pelos aos redores do salão. Assim que minha mãe observou que tudo estava pronto, ela se levantou e começou a falar.
― Toda Atra hoje está em luto. Perdemos não só um rei, mas um grande pai e marido. Por esse motivo, convoquei esta reunião. A maioria dos presentes aqui estavam ontem no salão de festas quando aconteceu o assassinato e foram intimados a permanecer para que possamos averiguar a situação. Sei que nem todos estiveram de acordo com isso, porém, devo reforçar que não haveria como permitir que pudessem sair ontem após o crime. Todos deveriam prestar depoimento e nossa equipe de segurança precisava ir atrás de todas as pistas antes que fossem liberados. Não é nada diferente do que seria feito em qualquer outro lugar ou situação, portanto, espero que não tenhamos mais controvérsias quanto a essa questão. Sei que precisam voltar para seus lares, por isso, garanto que hoje mesmo, após as entrevistas, serão liberados aos poucos ― concluiu, sem tremular a voz por um segundo qualquer.
Eu não sei como ela fazia isso, mas se por algum momento eu tivesse duvidado dessa mulher, hoje eu acharia inumana.
Ouviam-se poucos murmúrios pelo salão. Ontem muitos quiseram brigar, mas com minha mãe falando de forma tão imponente, creio que ou foram convencidos por ela ou coagidos pela sua fala. De qualquer forma, não houve confusão sobre a questão.
― Agora passarei a palavra para o Sr. Evan Caliagri, nosso Chefe da Guarda Real, responsável junto à Ministra de Segurança pela investigação ― terminou, apontando para os dois respectivamente e assentou-se de volta à sua cadeira.
Sr. Caliagri levantou-se, trazendo consigo vários papéis. Ele era um homem mais velho que a minha mãe e trabalhava no palácio desde a época que meus avós eram reis.
― Bom dia, senhoras e senhores. Quero primeiro lamentar pela morte prematura do nosso amado Rei Enrico e dizer a vossa Majestade que estarei durante todo este tempo fazendo o possível para que a justiça seja feita ― recitou, virando o corpo para minha mãe. Ela assentiu com a cabeça e retornou seu olhar para os ministros. ― Antes de chegar no ponto que eu quero, preciso relatar o acontecido a todos e peço perdão de antemão a rainha e a princesa por esse momento delicado que terão que passar.
Engoli em seco, consentindo que prosseguisse. Deixei minhas mãos sobre as coxas para que as pessoas não vissem como meus dedos tremiam. Coloquei a língua no céu da boca, preparando-me para não deixar nenhuma lágrima rolar na frente daquelas pessoas ali, se é que isso fosse possível.
― Às onze horas todos puderam perceber que houve um blackout de energia. As luzes se apagaram e foi neste momento que o fatídico aconteceu. O rei estava ao lado da rainha quando alguém apunhalou-o no peito, local onde o punhal atingiu diretamente no coração. Nossa primeira suspeita é que a trama foi arquitetada por mais de uma pessoa. Alguém mexeu no disjuntor de energia enquanto o seu parceiro apunhalava o rei.
Sr. Caliagri lia o relatório de forma séria e impessoal, como se recitasse um livro de receitas. Ouvir tudo aquilo fazia minha bile retorcer e querer vomitar.
― De início, começamos a ir atrás das pessoas que estavam próximas a rainha no momento, visto que, estando escuro, seria muito difícil que uma pessoa que estivesse longe conseguisse acertar o coração ou mesmo próximo dele, que foi o que aconteceu. O problema é: no meio de uma festa, pessoas andam e se locomovem o tempo todo, então é difícil que os convidados se lembrem ao certo quem estava perto de quem. Após averiguar com a rainha quem ela recordava e questionar mais algumas outras pessoas, pudemos fazer uma lista das pessoas arredores, mais ou menos por cerca de 5 m de distância. Essas pessoas eu já antecipo que não poderão sair do castelo e terão guardas acompanhando por todo o tempo de hospedagem aqui. São elas: a famíla Beluzzo, o chefe de Itoc, Eliaquim, o governador Marcus, o chefe de Tronce, Adelio, a família Neguesí, o irmão da rainha, Sr. Otto, o chefe de Larus, Kallen, a prefeita Eliodora e o ministro Paul Pervarti. Alguns outros estão sob análise e podem ser adicionados à lista após mais algumas averiguações. Por hora, são estas.
Um frio percorreu a minha coluna, deixando-me ligeiramente paralisada. Essa era a lista de suspeitos e possivelmente o assassino do meu pai estava entre eles. Meus olhos percorreram sem parar por cada um ali no salão. Vários nomes eram improváveis, outros tão prováveis que eu mesma queria fazer minha própria investigação. A lista era um caminho. Era o começo de uma caçada e o final eu já havia escrito: Justiça.




Continua...



Nota da autora: É isso, galera! Fechamos nosso 2021 com várias atualizações, mesmo com todas as intercorrências e dificuldades do ano. Espero que 2022 seja um tempo de vitórias, alegrias e felicidades para todos nós. Obrigada por me acompanharem até aqui e espero que continuem curtindo a história nos capítulos que ainda estão por vir. E, enquanto isso, façam suas apostas: Quem matou o rei?


Nota da beta: Cara, como a rainha é forte, meu Deus. Eu gostei bastante do momento que elas compartilharam juntas, a cena ficou maravilhosa! E minha aposta é no Marcus, apesar de ser meio óbvia kkkk! Ansiosa pela continuação!

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