Última atualização: 02/05/2022

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Capítulo 18

Duas semanas já haviam se passado desde aquela briga entre e eu no quarto de hotel nas Bahamas, e que eu retornei para Nova Iorque. Fiquei esse tempo sem trabalhar, sem nem sequer correr atrás de nenhum emprego, pois eu ainda tinha esperanças de que me ligaria avisando que eu ainda tinha meu emprego. Mas provavelmente eles já tinham retornado de viagem e ele não apareceu em minha porta e nem sequer me mandou uma mensagem dizendo algo sobre isso.
É, era isso, eu tinha de fato perdido meu emprego e já estava mais do que na hora de eu começar a correr atrás de outro se eu ainda quisesse ter um teto sobre minha cabeça e continuar a me alimentar.
Resolvi passar a tarde toda em meu apartamento, não sair nem para olhar a caixa do correio, o que eu estava fazendo já há uns bons três dias e minha mãe e irmã estavam começando a ficar irritadas e preocupadas comigo por causa disso. Elas diziam que eu precisava seguir em frente, que era só um emprego, que pessoas eram demitidas todos os dias, mas elas não entendiam que eu estava mais do que acostumada, eu trabalhava para a família há quase seis anos. Mas elas tinham razão, tinha que seguir em frente, mesmo com o coração apertado com saudades de .
Revirei os olhos e deixei meu computador em cima da mesinha de centro quando escutei a campainha tocar e em seguida batidas na porta. Em passos vagarosos, cheguei até a porta, eu não queria ser incomodada, queria ficar ali, afundada no sofá. Mas vai dizer isso para minha mãe. Ela brigava comigo, como parecia que ela ia fazer assim que abri a porta do meu apartamento. Ela estava com uma sobrancelha arqueada e com as mãos na cintura.
- Ah, oi, mãe. - falei e dei as costas, voltando para o sofá enquanto ela entrava e fechava a porta.
- Quantas vezes mais eu tenho que te dizer para sair um pouco desse apartamento, ? - ela bufou, colocando a bolsa em cima do sofá e as cartas em cima da mesinha de centro, indo para a cozinha em seguida.
- Não estou a fim de sair, mãe.
- Mas deveria, , daqui a pouco você começa a mofar aqui. Está na hora de deixar de ser uma menina mimada e depressiva só porque foi demitida e arrumar outro emprego antes que seja despejada. – falou, agora tirando o blazer e o pendurando no encosto da poltrona, e em seguida dobrando as mangas de sua camisa social bem passada.
- É o que estou fazendo, mamãe, estou pesquisando vagas de emprego na internet e mandando currículo por e-mail.
- Você não vai conseguir nada só tentando pela internet, precisa bater perna, ver pessoas e conversar com elas. Dar a elas confiança para poder te contratar. - mamãe era muito agitada, não podia ver um negocinho fora do lugar que já ia lá arrumar, assim como estava fazendo na sala. Não era bem TOC, e sim sua mania de querer tudo em ordem.
- Eu quero algo diferente, sem que seja como babá.
- Já estava mais do que na hora. Não desmerecendo o emprego como babá, até porque todo emprego é digno, mas você precisa de algo que pague mais.
- me pagava bem, mamãe, até para meu emprego que era sossegado e que era uma criança bem calma.
- Eu sei, minha filha, mas agora está na hora de você procurar em outro ramo.
- É o que estou fazendo.
Mandei currículos para secretária, para recepcionista e até mesmo para ajudante em um pet shop. Para babás era o que mais tinha e muitos pagavam muito bem, mas eu não queria por agora trabalhar mais como babá, era ruim demais se apegar à criança e depois acabar sendo demitida.
- Sua irmã provavelmente vai passar aqui mais tarde. Ela está raivosa com você, por não sair mais daqui de dentro.
- Peça a ela então que não venha, não estou a fim de receber visitas.
- Para de ser assim, , você é diferente disso. Sei que você gostava muito de . Quer dizer, que o amava. - olhei para ela com a cara confusa.
- Quem te disse isso?
- Não preciso que ninguém me diga quando minhas filhas estão ou não amando. Eu vejo só pelo olhar de vocês. E sua irmã só confirmou.
- Eu vou matar aquela dedo duro.
- Eu te conheço, , assim como April, como a palma da minha mão. - ela me repreendeu com o olhar por ameaçar April de morte. - Como eu dizia, sei que o amava, mas não vai adiantar ficar reclusa por causa dele. O amor dói às vezes, mas você precisa seguir sua vida.
- Ai, mamãe, estou cansada disso.
- Do quê?
- De que de dez conversas nossas, nove são sobre .
- Se você não estivesse assim por causa do , isso não aconteceria.
- Eu não estou assim por causa dele, eu estou assim por causa da . Mamãe, ela acabou se tornando tudo para mim, mesmo não sendo minha filha, ter que ficar longe dela é doloroso.
- Eu entendo, minha filha, você se apegou muito a ela, mas não adianta se enganar, também é por ter que ficar longe de que você está assim. - ela disse de forma suave, finalmente se sentando ao meu lado no sofá.
- Talvez um pouco.
- Se Deus quiser vocês juntos, se for da vontade Dele, ele fará com que vocês se reencontrem novamente, e de uma forma que você nem espera.

***


Finalmente saí um pouco de casa, era de tarde e decidi dar uma volta pela cidade antes que April me levasse à força. Paguei umas contas e tomei um sorvete, em seguida, fui para um parquinho. Me sentei em um dos bancos brancos ali e fiquei observando as crianças brincarem nos brinquedos. Até que uma senhora se aproximou de mim, sorrindo. E eu podia jurar que eu a conhecia de algum lugar, eu só não conseguia identificar de onde.
- Posso me sentar aqui?
- Claro, fique à vontade. - ficamos uns minutos em silêncio até ela puxar assunto.
- Alguma dessas crianças é sua?
- Não. Eu só vim aqui para pensar um pouco.
- Ah, sim.
- E a senhora?
- Vim com o sapeca do meu neto, Ian. - sorri. - É aquele ali.
Ela apontou para um garotinho que descia no escorregador, ele era loirinho, dos olhos azuis, muito lindo, por sinal.
- Seu neto é uma graça.
- Obrigada. Ele tem 6 anos. - ela ficou meio triste na hora, mas decidi não perguntar o porquê. - Minha filha morreu assim que deu a luz a ele, e desde então estou criando ele.
- Me desculpe a pergunta, mas e o pai dele?
- Ele fugiu assim que soube que minha filha estava grávida. Um tremendo canalha. Se aproveitou dela e a abandonou quando mais ela precisou. - eu me senti tristonha por ela, que perdeu a filha, pela filha que não viu seu filho crescer, e pelo pequeno Ian que não tinha o carinho, companhia e amor de sua mãe. Apesar dele ter a avó, o amor da mãe verdadeira não pode ser substituído.
- Eu sinto muito, pela sua filha.
- Tudo bem, minha querida, ela me deixou um presente, que é o Ian. Ele é bem agitado e muitas vezes desobediente, mas eu o amo muito.
- Imagino.
- Menina, tenho a leve impressão de que lhe conheço de algum lugar. - ela falou, estreitando os olhos.
- Também tenho essa impressão. - ela não disse nada, ficou pensando um pouco e logo sorriu largamente.
- Você é aquela moça que eu encontrei na rua da Flórida esses tempos atrás. Você estava com uma menininha linda. - foi aí que me recordei da senhora que elogiou .
- Sim, sou eu mesma. Sabia que conhecia a senhora de algum lugar. A menininha com quem eu estava era a .
- Sim, isso mesmo. Eu estava na Flórida, cuidando de uma irmã doente, Ian ficou com um filho meu aqui. Mas aquela pequena é sua filha, não é? Ela é uma graça de menina.
- Ela é sim, mas ela não é minha filha. Eu era a babá dela. - falei um pouco triste.
- Eu podia jurar que ela era sua filha, linda igual a você. Mas por que está triste, menina? - ela tocou de leve em meu ombro.
- Eu fui demitida do meu emprego, por coisa fútil. Não sou mais a babá da pequena , e eu me apeguei tanto a ela que estou muito triste por ficar longe.
- Eu imagino, criança, não conversei com a pequena, mas só do que olhei de longe para vocês duas, eu pude perceber que a relação de vocês duas ia bem além de babá e a "patroinha" - rimos quando ela disse patroinha. - Era uma relação de mãe e filha.
- Eu a considero minha filha. Mas agora, como fui demitida, terei que ir em busca de outro emprego.
- Bom, não sei se você toparia, mas estou muito precisando de uma babá para o pequeno Ian, ele é muito agitado e muitas vezes não dou conta. Eu pagarei muito bem, caso a senhorita aceite. - Eu queria muito um emprego em outro ramo, mas das entrevistas que fui chamada para fazer, nenhuma me retornou de volta, nem para dizer que eu não era a cara da empresa e que eu não tinha conseguido a vaga. Aquele de babá estava batendo em minha porta, poderia ser bom para mim.
- Tudo bem.
- Você aceita? - ela parecia bem mais feliz.
- Sim, aceito.
- Que maravilha. - ela deu um leve bater de palmas, o que me fez sorrir largamente de seu jeito meigo. - Fazemos assim, amanhã vamos sair para almoçar e conversamos certinho sobre a rotina de Ian e o seu salário. Pode ser?
- Pode sim, claro.
- Que bom. Então nos vemos amanhã no restaurante aqui perto, estarei te esperando na frente às 12h00min. Combinado? – perguntou, se levantando do banco.
- Claro, senhora.
- Que isso, menina, pode me chamar só de Clair. - piscou e sorriu, e eu assenti com a cabeça. – Bom, vou indo, nos vemos amanhã.
- Até.
Ela chamou o pequeno Ian, que, serelepe, se aproximou da avó, pegando em sua mão, e então foram embora do parquinho.
Minutos depois, meu celular começou a tocar, era April me ligando.
- , cadê você? - ela parecia meio nervosa.
- Estou em um parquinho, por quê?
- Estou na frente da tua casa. Toquei a campainha igual louca, pensei que você não estava querendo me atender. Mas se você saiu dessa casa, tudo bem. Mas me encontra daqui a meia hora no Connolly's. - e simplesmente desligou na minha cara.
Olhei indignada para o celular em minha mão, quando April queria ser mal-educada, ela fazia direitinho. - Mal-educada. - revirei os olhos e me encostei no banco, cruzando os braços.
O Connolly's Pub é um pub irlandês em que eu e April quando queríamos sair e prosear, sempre íamos lá para fazer isso. Os garçons já nos conheciam, por sermos clientes assíduas, e por gastarmos bastante quando íamos lá. Mas Jack, um dos bartenders de lá, era nosso amigo, ele sempre conversava com a gente, se intrometendo nos nossos assuntos, mas não reclamávamos, até porque ele tinha ótimos conselhos para dar e ele era um cara bem engraçado. Quando eu estava triste, April me levava lá, para, com a ajuda de Jack, me colocar para cima, e costumava funcionar sempre.
- Olha só quem resolveu dar o ar de sua graça. - Jack deu uma zombada com a minha cara assim que entrei no pub. April já me esperava lá dentro, sentada em um dos banquinhos no bar e conversando com Jack.
- Pois é, Jack, depois de fazer parte do sofá e mofar dentro daquele apartamento, a madame resolveu dar um rolê. - ela me olhou e depois desviou o olhar para sua bebida.
- Por favor, April, sem deboches e ironias. – falei, respirando fundo e me sentando em um banquinho antes do seu.
- O que vai querer, gata? - Jack perguntou com aquela sua voz sexy e sedutora. Meu Deus, se ele não fosse meu amigo, eu teria dado uns pegas legais. Tudo bem que ele ser amigo não justifica, mas não quero estragar nossa amizade por causa de prazer. Ele é hétero, muito bonito com os seus 1,75 cm de altura, cabelos pretos curtos, olhos castanhos claros e barba rala. Não tinha uma mulher que não o desejasse.
- Quero um Bloody Mary, por favor.
- É para já, meu amor. - quando ele me chamava de gata, meu amor, coração, eu me segurava para não pular nele e lhe dar uns beijos.
- Já vai começar assim? - April me perguntou sobre o coquetel que pedi, que ia até pimenta.
- Eu quero relaxar.
- Já superou o fato de ter sido demitida? - Jack perguntou.
- Pelo visto, não. resolveu dar um chute em sem ter nenhum tipo de relacionamento sério.
- Eu não estou assim pelo . E você sabe que ele não me chutou.
- Uhum, sei. O seu emprego de babá, e o amor da sua vida te deram um tchauzinho de longe, junto com uma banana para você.
- April. - Jack a repreendeu. – Você está atentada, hein. Não seja tão dura com ela.
- A história nem foi essa. – a fuzilei com o olhar.
- Alguém precisa dar um choque de realidade nela. , você precisa seguir sua vida, sei que você está com saudades, mas a vida segue, amor.
- Quantas vezes eu tenho que dizer que não estou assim por ele, mas que estou assim pela . Caramba, qual o seu problema? - bufei e tomei um gole do coquetel que Jack havia acabado de colocar em minha frente.
- O meu problema é ver minha irmã sofrendo por um cara.
- um dia me fez prometer que eu não a abandonaria nunca.
- Você sabe que a culpa não foi só sua. - Jack tentou me acalmar.
- Exatamente, você também pode se divertir, assim como ele sempre fazia.
- Eu sei. Mas a questão não foi eu ter dormido com o Jonathan.
- Entendemos, meu amor. – será que eu poderia já me casar com o Jack? Ele era tão calmo e compreensível.
- O importante agora é que eu finalmente consegui outro emprego.
- Aí, está vendo, que legal. Em que você vai trabalhar?
- Babá.
- Você não queria em outra área? - questionou April.
- Sim, mas esse bateu na minha porta. Vou ser babá de um menininho chamado Ian, de seis anos.
- Tomara que ele seja bonzinho igual a . - Jack disse, cruzando os dedos.
- Tomara mesmo.

***


Acordei no dia seguinte às oito horas da manhã, fiz minha higiene, troquei o pijama, tomei café e fiquei largada no sofá a manhã toda. Eu só teria que sair para me encontrar com a Dona Clair na hora do almoço, então eu tinha a manhã toda para ficar de pernas para o ar.
A manhã se passou de forma arrastada, e quando já eram onze horas, comecei a me arrumar para encontrar Dona Clair no restaurante.
Faltando quinze minutos para o meio dia, eu consegui sair de casa. Deu para perceber que eu não sou muito pontual, por mais que eu esteja adiantada, eu sempre acabo me atrasando, mas não significa que eu não chegue na hora em alguns casos. Cheguei em frente ao restaurante cinco minutos atrasada, Dona Clair me esperava, mas ela não parecia irritada com a minha demora.
- Desculpe o atraso, Dona Clair.
- Imagina, querida, você não está tão atrasada assim. Vem, vamos entrar, que eu já estou faminta.
- Vamos sim.
Entramos e uma moça nos levou até uma mesa disponível, fizemos os pedidos e enquanto esperávamos nossos pratos chegarem, Dona Clair me falava sobre a rotina de Ian.
- Ian costuma dormir às onze horas da noite e acorda às oito da manhã. Segunda e quarta, ele tem treino de futebol das 15h00min às 16h30min; terça e quinta, ele tem aula de judô das 17h30min às 18:30 min. De sexta, ele não tem nenhuma aula, ele tem o dia livre comigo. De sábado, ele vai para a casa do meu filho mais velho, que é padrinho de Ian, e domingo ele também tem o dia livre e ele fica comigo. - assenti a todo os momento o que ela dizia, tentando guardar na cabeça. - Não será necessário você dormir lá em casa, você vai me ajudar a cuidar dele mesmo no período da manhã e da tarde, em horário comercial. Caso eu precise que você durma em minha casa, te avisarei.
- Tudo bem. - disse no mesmo momento em que nossos pratos chegaram. Quando senti o cheiro da comida, meu estômago deu sinal de vida, revelando estar com mais fome ainda do que já estava.
Eu não conseguia nem respirar direito enquanto comíamos, a comida estava uma maravilha, eu não sabia se era fome ou porque estava mesmo uma maravilha.
- Meu Deus, eu amo esse restaurante, a comida é boa demais. Você gostou, ? - Dona Clair me perguntou e eu sorri, limpando a boca com um guardanapo de papel.
- Sim, eu adorei a comida. Esse virou meu restaurante preferido também. - rimos.
Na hora de pagarmos a conta, eu tentei convencer a Dona Clair de pelo menos dividirmos, mas ela me fez guardar a carteira de volta na bolsa e pagou tudo sozinha com a desculpa de que quem me convidou foi ela, e que ela fazia questão de pagar a conta sozinha e não se falava mais nisso.
- Vejo você depois, minha querida. - ela me deu um beijo em cada lado do rosto.
- Nos vemos depois, Dona Clair. – sorri, tímida.
Nos despedimos e cada uma foi para um lado.
Que seja o que Deus quiser.

***


Parei em frente a casa da Dona Clair, respirei fundo e toquei a campainha. Eu mal tinha conseguido dormir durante a noite, e eu estava bastante nervosa com o novo emprego, eu estava com um certo medo de ser completamente diferente do meu antigo emprego, de Ian ser uma criança agitada demais e eu não aguentar.
Não demorou muito e Dona Clair apareceu na porta principal da casa. Ao constatar que era eu, ela sorriu largamente.
- Chegou cedo, minha querida. - Eu adiantada? Vai chover.
- É pelo menos hoje consegui chegar adiantada, já naquele dia do nosso almoço, eu cheguei atrasada. – sorri, apertando a alça da bolsa, e apertando a bolsa mais perto de mim, eu estava nervosa demais. E olha que eu já tinha trabalhado como babá.
- Imagina, querida, eu também nem sempre sou pontual. - rimos e ela abriu o portão. – Entre, minha querida, e fique à vontade. - Seria meio difícil eu ficar à vontade.
Entramos na casa e me deparei logo com Ian sentadinho no tapete da sala, brincando com seus brinquedos, quietinho.
- Bom, querida, eu vou na casa de uma filha minha mais nova, ajudar ela com meu neto que acabou de nascer. Você poderia ficar aqui tomando conta de Ian? - ela falou, pegando sua bolsa em cima do sofá.
- Fico sim, Dona Clair.
- Certo, se Ian quiser ir tomar um sorvete ou ir no parque, pode levá-lo. Vou deixar um pouco de dinheiro com você. - De dentro de sua bolsa, ela tirou sua carteira e de dentro dela ela tirou cem dólares, aquilo era muito só para um sorvete. Eu tentei protestar, mas não deu tempo algum. - Bom, vou indo. Tentarei chegar antes do anoitecer.
Depositou um beijo na cabeça do neto e um beijo em minha bochecha e saiu em seguida.
- É, Ian, somos só nós dois. - sorri e ele me olhou, dando um pequeno sorriso. Meu Deus, que olhinhos lindos esse menino tinha. - O que você quer Ian, por agora?
- Tô com fome. Quero leite com chocolate e pão.
- Ok, querido, vou preparar e já volto.
Em menos de meia hora, preparei o café da manhã de Ian, fui para sala para chamá-lo para comer e o encontrei ainda sentado no tapete, mas prestando atenção no desenho infantil que passava na televisão.
- Ian, querido, seu café está pronto. Vamos comer?
- Vamos! - ele se levantou de imediato e correu para cozinha feito um furacão, o que me fez sorrir.
Ele comeu tudinho e em tempo recorde, o que a fome não faz com uma pessoa.
Eu aproveitei e comi um pouco também, pois eu mal tinha comido em casa de tão ansiosa, e vendo Ian comer, estava me dando bastante fome.

A manhã passou de forma preguiçosa e lenta, e também nem deu para reclamar, pois Ian ficou quietinho o tempo todo no tapete da sala, brincando com seus brinquedos e assistindo televisão. Eu fiquei ali com ele na sala, checando e-mail e redes sociais pelo celular, mas me sentei depois que lavei a louça, dei uma organizada pela cozinha. E vendo que a cama de Ian e da Dona Clair estava arrumada, me sentei ali com o pequeno.
Durante a tarde, fiz o almoço e ele comeu tudinho, aquele menino era um bucho quebrado, mas era uma graça vê-lo assim. Depois de um tempo em que almoçamos, ajudei Ian a se arrumar para podermos ir ao parque a pedido dele, mas antes de sairmos de casa, o telefone tocou e era a Dona Clair perguntando como estava tudo por ali, se Ian estava dando muito trabalho e tudo o mais, respondi a ela que até ali tudo estava ocorrendo da melhor forma possível, que ele estava quietinho e obediente.

Assim que chegamos ao parque, muitas pessoas passeavam por ali, com seus filhos, cães e pessoas amadas. Paguei um sorvete para Ian, que pulou de felicidade, ele não era de falar muito, eu não sabia se era porque eu era nova ou porque ele era assim mesmo, mas, tudo bem, o importante é que ele estava comportadinho.
Ele se divertiu no parquinho com uma amiguinha que ele tinha acabado de conhecer ali, e não pude evitar de pensar quando eles estivessem maior e começassem a aprender um pouco mais sobre a vida, o quão dura e dolorosa às vezes ela era, que uma coisa que era certa, na verdade não era tão certa assim. Que um amor muitas vezes pode ser sua salvação e outras pode ser sua total ruína.
Eles eram tão novos para entender sobre essas coisas, e isso eles tinham que dar graças a Deus, sem pressa alguma de crescer, pois junto vinham as responsabilidades. Eles apenas se preocupavam com o momento, se preocupavam em curtir o máximo do momento, antes que suas mães, babás e avós os chamassem para ir embora.
Graças a Deus parecia que Ian era mesmo quietinho, quando Dona Clair disse que ele era agitado, pensei que ele era agitado até demais, mas o agitado que eu acho que ela quis dizer, era o de não conseguir ficar em um cantinho só. Como ficar sentadinho em frente a televisão só assistindo, mas ele tem que ter brinquedos ao seu redor para brincar enquanto assiste.
Acho que mais uma vez tirei a sorte grande!
Por que eu fui cantar vitória antes da hora? Como dizem, "boca fechada não entra mosquito", e a coisa não desanda. Isso serve para os pensamentos também, ao dizer que tirei a sorte grande por Ian ser tipo , uma criança tranquila.
Mas aquilo foi coisa só do primeiro dia, por eu ser babá nova e eu não acabar desistindo de primeira. Uma semana depois, eu sentia que poderia ficar maluca a qualquer momento, e olha que só tinha passado uma semana. Ian era de fato muito agitado, assim que acordei ele, pois cheguei cedo demais e ele ainda dormia, Dona Clair novamente foi para a casa da filha que tinha ganhado neném há pouco tempo, e eu tive que ficar sozinha com Ian. Até aí tudo tranquilo.
Ele tomou seu café e assistiu um pouco de televisão, para então, depois de um tempo, tentar virar a casa de cabeça para baixo. Ele descia o corrimão da escada sentado, e o pior, com uma capa vermelha, dizendo ser o super-homem. Ele seria, até aquela capa enganchar em algum lugar e ele cair e se machucar. Mas cadê que ele acatou o que eu disse? Nada, ele fingiu não ouvir, e se ouviu, entrou por um ouvido e saiu pelo outro.
Na hora do almoço, coloquei a comida dele no prato e respirei, aliviada, pois ali seria o momento dele sossegar o facho. Mas mais uma vez eu estava errada, ele me viu como uma inimiga (de brincadeira), sua colher como uma arma e sua comida como a munição, e então começou a atacar comida em mim, eu pedia para ele parar, mas ele simplesmente ignorava. Assim que ele terminou de comer o que restava da comida em seu prato, ele foi para a sala, fazer mais bagunça por lá, enquanto eu lavava a louça do almoço e limpava os armários que também foram atingidos pela comida jogada por Ian.
Assim que terminei, o chamei para tomar banho, ele protestou de início, mas o fiz ir. Mesmo no banho, ele não sossegou, sempre arrumava um jeito de me molhar, e até seu patinho de borracha ele tacou em mim, me fazendo bufar, frustrada.
Como uma criança de um ano, e não de seis anos, Ian começou a correr pela casa só de cueca, fugindo de mim, que queria vesti-lo. Eu já não estava mais com o pique para correr tanto como ele tinha.
- Ian, venha já aqui para eu te vestir.
- Vem me pegar primeiro, sua molenga. - eu não podia com isso. Onde fui amarrar meu burro?
Voltei a correr atrás dele, até que finalmente o capturei e o vesti. O deixei na sala, sentado no sofá, assistindo a um filme de desenho animado de super-herói, enquanto eu ia até o banheiro do corredor do andar de cima tomar um banho, eu estava imunda e molhada.
Nem no momento que fui levar as roupas sujas de Ian para a lavanderia eu tive paz, de fininho, Ian entrou na lavanderia e jogou água totalmente gelada em mim, me fazendo gritar e o fazendo gargalhar.
- Ian, saia daqui agora! – gritei e, pela primeira vez, ele me obedeceu.
E quando eu ia correr para pegar ele e tirá-lo dali, eu acabei dando uma leve escorregada, pelo piso estar molhado e meu sapato ser meio escorregadio. Para sorte dele, ele correu antes que eu o pegasse. Eu me segurei muito para não fazer o que não devia com Ian.
Eu já não sabia por mais quanto tempo eu aguentaria aquilo, mas por muito tempo que não seria.

Capítulo 19

Eu sabia muito bem que eu havia sido duro demais quando disse todas aquelas coisas para , mas quando dizem que o ser humano é muito orgulhoso, essas pessoas não estão brincando. , todos os dias desde que se despediram na recepção do hotel, me perguntava onde estava , e o que ela estava fazendo que ela não estava mais aparecendo. Me perguntava quando ela iria voltar pra casa (nossa casa), e as únicas coisas que eu sabia dizer era: "ela vai voltar um dia, filha, logo, logo”, mas eu não fazia nada para que esse dia chegasse. Me partiu o coração quando vi minha pequena princesa chorando por uma burrada que eu havia feito ao não impedir de ir embora quando ela entrou naquele táxi, mas que eu não tive a capacidade de ir até lá e reverter o decidido.
Quando ela pegou o táxi sentido ao aeroporto de volta para casa, correu até mim, a peguei no colo e no meu ombro ela chorou, pedindo muito para que eu não deixasse a tia ir embora, que a tia havia prometido que ela nunca a abandonaria e que agora ela estava indo embora. E o que eu fiz? Apenas tentei consolar minha filha, em seguida, a levei para a loja de doces na tentativa de distraí-la.
Todos haviam ido embora com ela, restando somente eu, Katherine e para uma Bahamas daquele tamanho. Para muitos, verdadeiras férias em família, mas o restante da família havia ido para casa mais cedo, mas eu não conseguia de forma alguma até aí assumir para mim mesmo que eu estava errado, eu ainda estava sendo movido pelo ciúmes. Da forma que a peguei naquele quarto, só fui assumir a merda que eu havia feito quando vi que os cafés da manhã, almoços e jantares não eram mais a mesma coisa de como era quando estávamos todos juntos, que eles, e, principalmente , fazia mais falta do que eu imaginava, eu não estava nada feliz com aquelas férias em "família", entre aspas porque por dentro eu sentia que a única família ali era somente eu e , mas mesmo assim fui teimoso e continuei com Katherine (quem sabe essa parte em breve eu abriria os olhos). A única que estava mais à vontade e feliz por estar só nós três ali era Katherine, não que eu e estivéssemos completamente infelizes, aproveitamos da melhor forma que conseguimos, mas carregamos no peito o peso da saudade, e eu os pesados pensamentos de tudo o que tinha acontecido.
Mas eu sabia bem que eu não teria cara para aparecer de frente à naquele momento e pedir para que ela voltasse como se nada tivesse acontecido, sendo que na verdade muita coisa havia acontecido.
Eu assumia o meu erro. O erro de ter apenas deixado o tempo passar na ilusão de que tudo se resolveria. De ter sido covarde o bastante para não chegar na pessoa que não abandona meus pensamentos e dizer de uma vez por todas o que eu sentia. De ter sido ciumento o bastante ao vê-la com outro, não ter conversado e sim tê-la deixado ir embora cedo demais, sendo que eu a queria perto de mim.
Mas eu não conseguiria naquele momento ficar frente a frente com ela, com o peso da vergonha do drama que eu fiz. E mesmo que eu seguisse minha enorme vontade de ir vê-la, o que diria a ela? Eu sabia sobre o que falaria, mas como eu começaria?
Assumo o gigantesco e esmagador ciúmes que eu senti ao vê-la com outro cara.
Mas para os sentimentos meu e de , talvez não fosse mais o momento, pois meu relacionamento com Katherine estava indo até que bem, não era somente pelo fato de estar longe, pois não fazia a enorme diferença estar, pois estando longe ou perto, eu não conseguia parar de pensar nela.
Mas eu citei que sou orgulhoso e ciumento, estava na hora de admitir que sou bem teimoso também, porque vendo que meu relacionamento com Katherine estava indo bem, fui contra minha cabeça e coração, que pela primeira vez estavam a favor de que eu fosse atrás de . Mas eu só pensava também que já tinha passado da hora de eu de fato decidir o que eu queria da vida, e eu decidi investir no meu relacionamento com Katherine, que agora parecia ter um futuro a mais.
Ignorante o suficiente para manter os olhos tampados para uma coisa que estava na cara que para mim não teria futuro algum.



Todos os dias eu perguntava para o meu papai onde tia tinha ido, quando ela iria voltar e o que ela estava fazendo que estava longe de mim. Papai sempre dizia que logo, logo ela iria voltar para mim, mas esse dia nunca chegava, eu estava morrendo de saudades dela, do seu carinho, das suas histórias divertidas quando eu ia dormir, das suas brincadeiras comigo, das nossas conversas. Mas eu percebia que não era somente eu que estava com saudades da tia , papai também estava, mas não admitia isso, ele sempre preferia guardar para ele mesmo.
Papai e Katherine ainda continuavam juntos, ela parecia estar mais legal comigo do que era antes, provavelmente ela queria tomar o lugar da tia ou me fazer esquecer dela, o que ela nunca conseguiria fazer, pois tia era inesquecível e insubstituível para mim. O exemplo eram as vezes que papai ia arrumar algumas coisas em casa e ele acabava se perdendo. Pois quem o ajudava era a tia .
Katherine muitas noites decidia ajudar papai e me contava uma história, mas me deixava mais entediada do que com sono, pois ela inventava umas histórias sem sentido algum. Mas quando tia ia me contar uma história, mesmo não tendo muita imaginação, ela se esforçava bastante para contar uma história de princesa e que fizesse sentido.
Eu ainda estava de férias das aulas de balé, mas sempre ia na vovó para dançarmos juntas, e quando eu ia, Katherine resolvia arrumar meu cabelo e muitas vezes ela puxava muito forte, me fazendo ficar com muita raiva, eu aceitava, pois via que ela estava se esforçando para me agradar e eu não queria ser malvada com ela. Mas com a tia , ela arrumava meu cabelo direitinho e ainda cantava comigo uma musiquinha.
Quando eu ia dormir e ela estava lá, eu pedia para meu papai colocar meu pijama, ela se intrometia e nunca me perguntava qual pijama eu queria colocar, e quando eu falava qual, ela não queria pegar, pois ela já tinha pegado o outro, eu apenas aceitava para não ser mal educada. Com tia era diferente, mesmo ela tendo pegado outro pijama, ela trocava quando eu queria dormir com outro e não com aquele que ela tinha separado.
Vou contar um segredinho para vocês, mas prometem que não vão contar para ninguém?
Sei que entre nós crianças isso é bem normal acontecer, mas eu sou tímida para dizer. Mas muitas noites, mesmo depois de termos voltado daquela cidade com água grandona e azul bonito, quando eu deitava para dormir, a saudades da tia era tão grande que eu acabava chorando. Mas eu não tinha culpa se eu amava tia tanto, como se fosse minha mamãe.
Tia tinha me prometido que nunca me abandonaria e eu acreditava muito nela, então eu sabia que em breve ela ia voltar para mim, e para o papai, que também sentia muito a sua falta, mas não conta para ele viu, porque ele irá sempre negar.



Mais três semanas havia se passado, as coisas com Ian não tinham melhorado quase nada, ele continuava desobediente, muito agitado e arteiro.
Um dia ele estava brincando e quando eu mandei ele ir tomar banho, ficou bravo, não querendo ir, retrucou comigo várias vezes até que jogou seu boneco em mim, acertando minha testa, que ficou vermelha e dolorida.
Ian estava quase conseguindo me deixar à beira da loucura, mas eu me mantive firme, pois eu não era mulher de desistir fácil das coisas. Nisso eu não iria perder.
Um dia eu conquistaria Ian de vez ou então ele não precisaria começar a gostar de mim, apenas aceitar que agora eu era sua babá, e passar a obedecer mais, deixando de ser tão pivetinho como era. Eu só precisava ter mais pulso firme e paciência, muita paciência.
Eu precisava ter alguma ideia que fizesse o pequeno Ian dar uma trégua com suas artes, algo que o deixaria feliz e distraído.
Foi então que a grande ideia atravessou minha mente, me fazendo dar um sorriso pequeno. Aquilo tinha que dar certo, nada melhor para Ian acalmar os ânimos do que ir para o parque e de brinde encontrar sua amiguinha, seria distração na certa.
- Ian, que tal irmos ao parque aproveitar esse sol gostoso que faz lá fora? – perguntei, sorrindo sentada no sofá com ele em minha frente, cada mão eu segurava um braço seu ao lado de seu pequeno corpo, o mantendo parado no canto por pelo menos um minuto.
- Eu quero! - ele sorriu largamente, e então eu iria impor minha condição.
- Mas tem uma coisinha que eu quero que faça por mim.
- Que coisa?
- Que você se comporte um pouco mais. E se fizer isso, seremos ainda mais amigos e te levarei com mais frequência ao parque para poder brincar com sua amiguinha.
- Tá bom. – concordou, dando de ombros de leve, por ainda estar segurando seus bracinhos.
- Você promete para mim?
- Prometo! - sorriu largamente.
- Perfeito. Então vamos lá para cima nos arrumar para sairmos.
Demoramos quase meia hora para sair de casa, tudo porque eu tentava convencer Ian a não ir com a capa vermelha do super-homem dele, mas ele pisou o pé que queria e como eu não estava no dia para ficar discutindo com uma criança, eu o deixei sair com a bendita capa vermelha. Como ele era apenas uma criança, as pessoas não reparariam e nem se importariam com aquilo.
Do trajeto da casa até o parque, Ian corria pela calçada, fingindo estar voando e gritando:
- EU SOU O SUPERMAN! - ele não saia de minha vista e não atravessava a rua sem me dar a mão, enquanto eu ria de sua graça de sair gritando pela rua.
Naquele dia em especial, o parquinho estava mais lotado que o normal, parecia até que tinha algo no ar, fazendo com que as crianças ficassem bem mais agitadas do que já eram, dando ainda mais trabalho para seus pais e babás. Mas aquela muvuca toda não impedia as crianças de brincarem. Coitado mesmo era dos adultos, que a maioria ficava em pé ali perto, de olho nas crianças enquanto muitos dos bancos estavam ocupados.
- Não saía de minha vista, Ian. Se quiser algo, venha me pedir, não converse com estranhos. Se alguém te pedir para ir a algum lugar, você vem até mim para conversar sobre isso. Entendido? - despejei todas as indicações de segurança nele, que assentiu com a cabeça.
- Sim!
- Ótimo. Se divirta, querido! - dito isso, ele saiu como um furação para o escorregador.
Achei um lugar vago em um banco ali perto e me sentei, peguei o celular, checando algumas pequenas coisas nele, e ao mesmo tempo atenta em Ian.
- Ian! - ouvi uma gritaria e dirigi meu olhar imediatamente para o local, em alerta, já que possivelmente Ian podia ter se machucado. Mas não, era a amiguinha dele que tinha acabado de chegar no parquinho e corria em sua direção. Aquela cena dos dois se abraçando de forma desajeitada e tímida daria uma bela foto, se eu tivesse pensado, eu a tiraria com a câmera do meu celular, mas eu estava atenta demais aquela cena tão bonita e pura.

- Babá, eu quero sorvete. - Ian se aproximou de mim, depois de mais ou menos uma meia hora ou uma hora brincando.
- Claro, querido, vamos lá comprar seu sorvete. - ele me deu a mão e atravessamos a rua. - Será que a sua amiguinha não vai querer um também?
- Acho que não. - deu de ombros e não disse mais nada.
Comprei seu sorvete de morango, ele foi o deliciando enquanto voltávamos para a praça, no local onde tinha os brinquedos para as crianças. Mas em um momento de loucura de Ian, quando estávamos perto dos brinquedos, ele parou com seu sorvete na mão, olhou do sorvete para mim, de mim para o sorvete, se aproximou de forma cautelosa até mim, e achei que tinha algo de errado com o sorvete, mas não, ele simplesmente tacou o sorvete na minha blusa que era branca, assim, sem mais nem menos, por maldade mesmo.
Visto o estrago que fez em minha blusa, ele sorriu como um menino inocente e voltou a caminhar para os brinquedos, chupando o resto de sorvete que sobrou em sua casquinha. Mas também de maldade, ele iria comer sorvete de morango com um pouco de poeira da rua que sempre fica um pouco na roupa, mesmo que não consigamos ver, e ao pensar isso, não pude evitar de sorrir. Mas assim que olhei o estrago em minha blusa que eu amava demais, bufei, frustrada, e me sentei no banco ali do parquinho, me perguntando como uma criança de apenas seis anos podia e conseguia aprontar tanto como Ian fazia.
Tirei meu olhar do celular para Ian que estava em uma pequena caixa de areia que ali fizeram, mas ele não estava brincando normalmente, ele estava comendo terra.
- Ian, para de comer terra. - corri até ele, o levantei da areia, tirei sua mão da boca, tirando a terra dali, de suas mãos e roupas. Me levantei, o olhei com as mãos na cintura e mais uma vez bufei, frustrada, enquanto ele me olhava de forma inocente. Eu de fato não sabia mais o que fazer com aquele garoto.
- Foi sem querer. - ele falou, olhando para suas mãos ainda com um pouco de terra. Eu odiava quando ele fazia aquela carinha de cão abandonado, minha raiva acabava passando e eu cedia aos seus encantos de criança fofinha e depois ele aprontava novamente comigo, mas mesmo assim eu não aprendia a suportar as chantagens emocionais daquelas miniaturas de gente, nomeadas de crianças.
Era nesses momentos que eu sentia muita saudade de , de sua calmaria e esperteza. Mas se a veria de novo seria por algum acaso nas ruas de Nova Iorque, acompanhada de seu pai, de seus avós ou até mesmo da songa monga da Katherine, e pensar isso dava uma grande reviravolta no estômago e um certo ciúmes também, por Katherine ter só para ela agora, enquanto eu só ficava na saudade.
- Você sabe que comer terra faz mal, Ian. Pode dar bichinhos em sua barriga.
- Não quero bichinhos em minha barriga. - ele disse de forma triste e bem preocupada, quase chorando.
- Eu sei que não, querido, mas é por isso que você não pode mais comer terra. Promete que irá parar de fazer isso? - eu o fazia prometer, mas de nada aquilo adiantaria, ele acabava quebrando a promessa, tudo bem que ele não tinha muito entendimento sobre fazer promessa e não quebrar, ele era apenas uma criança. Mas não custava nada tentar.
- Prometo, babá.
- Certo. Vamos para casa tomar um banho, você está precisando e muito.
- Desculpa.
- Certo, mas que isso não se repita mais. - ele apenas balançou a cabeça, concordando.
Assim que chegamos na casa, dei um banho em Ian, o coloquei para assistir televisão e depois fui até a lavanderia tentar dar um jeito na enorme mancha de sorvete que estava na minha blusa branca. Retirei a blusa e com água e sabão tentei retirar a mancha, uma boa parte saiu, mas outra boa parte ficou, e então eu somente passei um pouco de água em meu peito para tirar um pouco do grude do sorvete em minha pele.
Assim que terminei, Dona Clair chegou em casa, sorrindo.
- Ele deu muito trabalho hoje, ?
- Mais ou menos. - eu nunca tinha coragem de contar o que ele realmente fazia quando sua avó não estava presente, por mais que eu soubesse que eu deveria o fazer para o bem de Ian.
- Certo, mas o que houve com sua blusa? - olhei para minha blusa e para Dona Clair.
- Um pequeno incidente com um sorvete. - sorri amarelo.
- Ian, não foi?
- É. - revelei sem graça enquanto ela só balançou a cabeça negativa enquanto olhava para o pequeno Ian.
- Esse menino não tem jeito mesmo. O que já te falei, Ian, para que se comporte enquanto cuida de você. - Ian apenas olhava para a avó. - Peço muitas desculpas, , por isso e sua blusa.
- Não se preocupe, Dona Clair, acho que dando uma boa lavada a mancha saí.
- Certo, desculpas novamente, e se quiser pode ir para casa, querida, e até semana que vem. – sorri, assentindo com a cabeça, e sai da casa.
Peguei meu carro e rumei para a casa de April, eu precisava comer e desabafar com minha irmã, o trânsito estava com um pouco de caos, com engarrafamento. Mas por sorte não demorou muito, logo cheguei na casa de April, buzinei e ela logo apareceu na janela da cozinha. Pelo menos ela estava em casa.
Estacionei o carro, desci, o travei e logo entrei na casa, April já tinha deixado a porta destrancada, ainda bem, pois muitas vezes ela era meio lerda, e mesmo me vendo chegar, ela esquecia de destrancar a porta.
- Na cozinha. - ela gritou assim que ouviu a porta principal da casa sendo fechada.
- Oi. - disse a ela, me sentando em um dos banquinhos da bancada da cozinha.
- Olá. – disse, mas não se deu ao trabalho de me olhar, o negócio ali no fogão estava mais interessante do que eu. - Como foi o trabalho?
- Uma merda como sempre. Quando eu pensei que ele iria ficar bonzinho, ele me pega de surpresa e apronta.
- Estou vendo. Quem sofreu dessa vez foi sua blusa favorita. – disse, me olhando e apontando para a blusa.
- Sem contar que depois ele comeu terra. - ela fez sinal negativo com a cabeça. - Eu sei que eu deveria contar a Clair sobre as coisas que Ian apronta, mas quando ela chega, eu não consigo, pois eu vejo o olhar dela de vó orgulhosa. Mas sobre o incidente com o sorvete, eu tive que contar a ela.
- Incidente, não foi bem um incidente. Você está bem ciente que se você continuar a não contar o que ele faz, ela não vai corrigi-lo, achando que ele é realmente um anjinho, e então ele vai crescer achando que pode tudo e ninguém vai o repreender. Aí tanto ele quanto ela sofrerão, pois será tarde demais para corrigi-lo. - April tinha razão, muita razão.
- Eu vou falar com ela segunda. Pelo bem de Ian. Mas não sei muito se isso irá ajudar, ele é muito teimoso, apronta demais e, meu Deus, não sei mais o que fazer. - joguei minha cabeça sobre meus braços cruzados em cima da bancada.
- Posso te dar um conselho? - ela perguntou, parando o que fazia, me olhando e espalmando as mãos na bancada em minha frente.
- Deve!
- Procura o , tenta ter uma conversa civilizada com ele. E tente recuperar de volta seu emprego.
- Obrigada pelo conselho, mas você sabe que eu não posso fazer isso.
- Você ou o seu orgulho não pode? - isso também. - Você não sente saudades da ?
- Sim eu tenho, e muita, mas...
- Então lute por ela, pelo seu emprego.
- Eu não posso fazer isso e não é só pelo orgulho, pois você sabe que quando preciso, eu passo por cima do orgulho. Mas eu não posso fazer pelo simples fato de quem... Eu, por mais que não estivesse errada, não sei como chegar nele. Não saberia nem por onde começar.
- Começaria perguntando se você ainda tem uma chance de voltar com seu emprego.
- Ele não ter me ligado até agora, acho que já é a resposta.
- Bem, você quem sabe, . Você é adulta e madura o suficiente para saber o que fazer, e lidar com suas escolhas.
- Eu espero que você não esteja me acusando de ser a errada nessa história. Nem mesmo em pensamento.
- Não estou te acusando de nada, pois você sabe muito bem que para mim vocês dois estão errados. E você mesma já assumiu isso. Só estou dizendo o que acho que você deveria fazer.
- Não posso fazer. O orgulho também dessa vez está atrapalhando.
- Você é quem sabe, não posso te forçar a nada. É isso que estou tentando dizer. – falou, respirando fundo e voltando a fazer o que fazia antes.
April me emprestou uma de suas blusas e eu tomei um belo de um banho, e era nesse momento que eu agradecia por eu e ela termos praticamente o mesmo corpo, pois eu não iria ter que passar mais vergonha por ter que ir novamente para a rua de volta para o meu apartamento com aquela blusa manchada de sorvete.
- Se mamãe te visse agora, ela bufaria e reviraria os olhos. Diria pela milésima vez que você está fazendo tudo errado, por estar em um emprego que não tem nada a ver com sua cara, ou seja, que esse emprego de babá que não é digno de você.
- Eu sei que mamãe queria que eu arrumasse um emprego melhor, mas foi isso que eu consegui. Ninguém pode me acusar de não ter procurado um emprego decente. Mas eu já tenho experiência como babá.
- Eu já nem sei mais o que falar para você, . - Então, por favor, nem fale, eu quero mesmo é ficar quieta em um canto e esquecer da merda que Ian fez com minha blusa favorita.
- Por que eu faria isso, querido?
- Eu preciso muito tê-la de volta. E você fazendo isso por mim, talvez seja a chance de ela parar e me ouvir. Aceitar minhas desculpas.
- Então por que você simplesmente não vai até ela e pede desculpas, e a pede de volta?
- Talvez eu deveria fazer isso, mas a senhora fazendo isso, será mais garantia que ela aceite novamente. Porque, digamos que ela não terá escolha. - Dona Clair deu uma respirada fundo, me olhando de forma séria, analisando bem meu pedido, que era de coração.
- Sua sorte, menino , é que te conheço e gosto de você, se não, eu não faria isso por você. Ela está sendo ótima para mim.
- E eu entendo perfeitamente. Ela era maravilhosa com , que, por sinal, sente muitas saudades dela. Toda vez que ela pergunta o por que foi embora, e eu me lembro que foi por uma idiotice minha, por coisa tola, eu me sinto ainda mais babaca.
- Entendo como se sente, ela é realmente uma boa pessoa, muito confiável e paciente. Pois não é qualquer um que aguenta meu neto. - Soltamos uma pequena risada. - Mas sei que não é só porque ela é boa com que você a quer de volta.
Olhei para ela que tinha um pequeno sorriso no rosto.
- Não, não é só por isso. Mas está tão na cara assim?
- Pode acreditar que eu conheço você melhor do que sua própria mãe. - soltei uma risada baixa novamente.
- Eu pensava que eu tinha conseguido tirá-la do meu coração. Naquela época, há mais ou menos cinco anos. Meu medo também era de se apegar demais em e criar coisas em sua cabeça, como achar que ela era sua mãe e depois não dar certo com e então o que ela não sentiu quando a mãe biológica foi embora, ela sentisse agora. E por mim também, que não aguentaria me apegar e ser deixado novamente. - Dona Clair me escutava atentamente, eu me inclinei no banco, apoiando os cotovelos nas pernas e juntando as mãos. - Mas não gostar e deixar me envolver foi meio complicado, ela tem aquele jeito tímido e quieto, mas ela consegue causar uma grande confusão na mente e sentimento de um cara, como fez comigo. Para mim, ela não sentia o mesmo, e foi aí que fiquei nessa de procurar a pessoa certa. Mas o sentimento não havia ido totalmente embora, ele só estava escondido e, por coincidência, quando fizemos a viagem para Disney, eles voltaram mais fortes.
- Mas você já está com aquela outra moça.
- Sim, não quero magoá-la, por mais que não sinta nada tão forte como sinto por , não teria coragem de magoar Katherine.
- Eu entendo, mas querido não deixe de viver sua vida por um medo do passado. Nem todas, como a , te deixarão como a mãe de fez. Cada mulher tem um tipo de cabeça, e parece que quando ama, ela ama mesmo, e não abandona por bobagem.
- A senhora tem razão, mas também tenho medo dela não corresponder mais ao que sinto. Principalmente depois do que aconteceu nas Bahamas.
- Você não é mais um adolescente, , para continuar com esse medo bobo. Para saber a verdade, você precisa falar com ela, e se ela não corresponder, você seguirá em frente com sua vida como tem feito.
- Eu queria que fosse tão fácil assim, dona Clair.
- E é querido. Por causa disso, muitas pessoas deixaram seus amados irem embora. Desejam, mas não falam, e aí sofrem por isso. - Dona Clair sempre tinha razão. - Um conselho que dou, querido, é que não deixe que esse medo de ser deixado novamente se apodere do resto de você. Não cometa o mesmo erro que cometi. Quando meu marido foi embora, me deixando sozinha para criar meus filhos, anos depois, eu sentia o mesmo medo que você, então não me relacionei com mais ninguém, por mais que minha mãe me aconselhava a ter outro alguém. E hoje me arrependo por não ter escutado minha mãe.
- Não é nada fácil, dona Clair, só quem passou pelo o que nós passamos sabe o quão terrível é. E parece que todas as outras pessoas farão o mesmo.
- Mas é preciso superar e saber que nem todos os seres humanos são iguais. Querido, o que o seu coração deseja?
- Ele mais do que nunca deseja . Todo o meu eu deseja ela.
- Então dê ao seu coração e a si mesmo o que deseja. Sua felicidade é ela.
- Eu verei o que poderei fazer. Mas muito obrigado por tudo, dona Clair.
- Sempre que precisar. – como uma avó materna, ela deu um afago em meu cabelo, sorrindo maternalmente.



Escutei as risadas na sala de estar e olhei para lá, mesmo que tudo o que via era a parede, eu estava esperando o chá ficar pronto para então levar nas xícaras para as madames, amigas de Clair. Ela mesma tinha resolvido reunir as amigas ali em sua casa em pleno sábado em que eu não trabalhava, e me chamou para ajudá-la a cuidar de Ian e receber suas amigas velhinhas (não tão velhinhas). Mas eu parecia mais uma empregada do que apenas a babá que deveria ficar apenas de olho em Ian, que ficava correndo pela casa como um foguete.
- Ian, para de correr, antes que você se machuque. - falei com tranquilidade pois eu sabia bem que dizer para parar ele não iria parar, era a décima vez que eu dizia aquilo, mas parecia que isso dava ainda mais gás para que ele continuasse. - Ian. - novamente ele não obedeceu e ainda por cima nem respondeu as minhas repreensões e chamados.
Assim que a água ferveu, coloquei dentro das xícaras e coloquei os sachês de chá dentro da xícara, na água quente. No espaço livre da bandeja, coloquei os açúcares em cubinhos. Com cuidado, peguei a bandeja em mãos e assim que dei os primeiros passos para fora da cozinha, parei de imediato com os olhos arregalados e levei as mãos à boca. Ian teve a mesma reação que a minha. Com a teimosia dele de ficar correndo, me fez derrubar com tudo a bandeja no chão, fazendo um enorme barulho. Eu estava lascada, ela adorava aquelas louças e eu quebrei. Mas a culpa não era só minha, Ian esbarrou em mim correndo, desequilibrando a bandeja e fazendo cair.
- Desculpa. - ele sorriu pequeno e voou até seu quarto, se ele não fosse apenas uma criança de cinco anos, acho que eu o teria matado.
Me desesperei ainda mais quando vi dona Clair chegar na porta da cozinha, olhar para mim e depois para o chão e então respirar fundo.
- Minhas louças preferidas, você as quebrou. - falou de forma rude, parecendo se segurar para não gritar, e suas amigas na sala escutaram seu descontrole.
- Desculpa mesmo, dona Clair, o Ian, ele...
- Não foi só culpa dele, você poderia muito bem ter evitado essa tragédia. - que tragédia? São só louças quebradas. - Agora que está feito, o mínimo que se pode fazer é limpar logo essa bagunça. Sim?
- Sim, dona Clair. - não entendi porque ela estava tão rude, por um incidente que seu neto causou.
- Ótimo. Depois prepare outro chá para nós, não demore, estamos há tempo demais esperando, e você nessa lerdeza toda. - com postura reta, ela saiu, voltando para a sala. - Mil desculpas, aconteceu um pequeno incidente na cozinha, sabe como é, empregada novinha, ela é avoada e lenta demais. Não presta atenção nas coisas que faz e acaba fazendo merda. Desculpem o palavreado.
- Imagina, nós entendemos bem. - uma de suas amigas respondeu e eu abaixei a cabeça quando escutei dona Clair dizer aquilo para suas amigas. Ela não precisava me difamar tanto assim, era a primeira vez que algo daquele tipo acontecia. Eu só queria entender o porquê dela ter mudado tanto comigo, e assim, tão de repente.
Assim que terminei de arrumar tudo, Clair apareceu na cozinha, checando se eu havia limpado tudo de forma certa.
- Que ótimo. Agora vê se não derruba novamente. E vou descontar de seu salário as louças que você quebrou. E não irá adiantar reclamar. - ela estava começando a se mostrar ser megera, e eu não estava gostando nem um pouco daquilo. Não demoraria muito, eu estaria me demitindo.
- Tudo bem, Clair.
- Para você, Dona Clair. - sua expressão facial era dura.
- Dona Clair.

- April me encontre no Connolly's em meia hora. - falei assim que minha irmã atendeu o seu celular no terceiro toque e desliguei assim que falei a frase que queria.
Ela deveria ter ficado super puta comigo por praticamente ter lhe dado uma ordem, e ela não aceitava isso, a não ser quando a ordem vinha de nossos pais, e também por eu ter desligado em sua cara, falta de educação das pessoas deixava minha irmã possessa de raiva. Mas eu não estava me importando se ela estava ou não me xingando naquele momento, pois eu também estava com raiva pela forma como minha nova patroa estava começando a me tratar, sem mais, nem menos, assim, de uma hora para outra, sem eu lhe ter feito nada demais, então se eu continuasse no telefone com April, eu iria me estressar ainda mais com ela, mais do que eu já estava, e então eu começaria a gritar e ela gritaria de volta e eu daria um showzinho para todos na rua, e evitar isso era o que eu mais queria.

Capítulo 20

Entrei no meu carro e sai voando rumo ao Connolly's pub, eu precisava demais de uma bebida e desabafar sobre a minha mais nova patroa, que estava começando a se mostrar ser uma megera, e eu não merecia isso. Eu precisava muito que April e Jack me ouvissem e depois me dessem um conselho bom do que eu poderia fazer, o de April eu já até imaginava qual seria.
Assim que cheguei, encontrei apenas Jack por trás do balcão, atendendo a uma cliente, mas ele aproveitava e flertava com a pobre coitada, que parecia ter as mesmas intenções que ele. Assim que ele me viu sentar em um dos bancos ali, ele se despediu da moça e foi até mim, mas não sem antes lhe lançar uma piscada de olho, fazendo a mulher morder o lábio inferior e voltar para a sua roda de amigas.
- O que aconteceu dessa vez, ? - Jack perguntou com o ar risonho, apoiando as suas mãos no balcão em minha frente.
- O que quer dizer com isso, Jack?
- Que eu tenho certeza que você tem algo sobre sua vida para lamentar para mim.
- Eu não venho só para me lamentar.
- Para me ver é que não é.
- Claro que não, Jack, você sabe que eu me importo com você.
- Claro que sim. - ele soltou uma pequena risada, me fazendo olhá-lo, incrédula, e ele foi logo preparar minha bebida preferida.
- Qual é a lamentação dessa vez? - April perguntou, jogando sua bolsa no balcão e se sentando em um banco depois do meu. Olhei incrédula para ela e Jack me olhou como quem diz "viu só".
- Certo, se vocês querem tanto me ouvir reclamar, então lá vai. Minha patroa está começando a se mostrar uma megera comigo.
- Ué, ela não uma senhora boazinha, como dizia? - April perguntou e Jack depositou o copo com bebida à minha frente no balcão, indo preparar a de April.
- Sim, ela era, mas não sei o que aconteceu. Hoje ela recebeu suas amigas na casa dela, no meu dia de folga, e eu tive que trabalhar. E ela ainda me tratou mal por ter derrubado sem querer uma bandeja com xícaras de chá. E nem foi culpa minha, foi Ian que me fez derrubar com aquela mania estúpida de ficar correndo pela casa feito um doido. Eu avisei para ele parar de correr, mas não adiantou de nada, entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Ele não obedece, eu não conseguia contar as artes que Ian fazia, mas já que Clair está me tratando mal, contarei tudo, não vou mais aguentar as desobediências de Ian. Eu não...
- Ok, .
- Como sei que você precisa de um conselho e que não está mais nada contente nesse emprego... - Jack parou o que fazia e cruzou os braços para me dar a total atenção. - Meu conselho é: por que você não vai até e conversa com ele? Tenta recuperar seu emprego de volta, você estava muito feliz naquele emprego.
- Foi o que eu disse a ela. - April disse em seguida, bebericando sua bebida. – Mas o orgulho, tanto dela, como dele, é do tamanho do mundo, se não maior.
- Vocês dois sabem muito bem que eu não posso fazer isso.
- O seu orgulho não pode, .
- E sem contar que provavelmente ele não contou a verdade para Katherine, então eu não posso chegar assim, do nada, na casa dele.
- Aí é que está, , se ele não contou a verdade para ela, você ainda é "mãe" da . - ao dizer mãe, April fez aspas com os dedos. - E essa é mais uma razão para você aparecer por lá, ela deve estar estranhando o fato de você não ir buscar para vocês duas passearem. Ela deve estar pensando que você abandonou sua própria filha.
- Olha, , eu te entendo. Mas vamos analisar outro ponto que, pelo visto, não foi analisado. Você disse que vocês tiveram aquela discussão depois que ele te viu com outro homem no quarto, certo?
- Certo.
- E você duvidava que ele pudesse gostar de você, certo?
- Certo, mas hoje eu tenho certeza que não.
- , você acha que se ele não gostasse de você, ele teria tido aquela reação ao ver você com outro? Ou seja, ele estava cego de ciúmes, , e aposto que depois desse tempo, ele parou para pensar no que falou e se arrependeu pelo que falou. E tanto ele, quanto você, não se procuram por causa do orgulho, meu bem. E aposto que sente muitas saudades de você, quando falo para procurar , não é exatamente por ele, é por você, que era muito feliz naquele emprego, e por , que deve estar precisando muito de você.
De nós três, Jack era o único que conseguia raciocinar direito e analisar de forma correta as coisas, apesar de ser homem, era ótimo em conselhos e em pensar no que fazer.
- Eu sei, Jack, mas... Vou pensar com carinho no que fazer.
- Faça isso, minha vida.
- Ótimo, mais um problema da vida de praticamente resolvido, agora focamos em mim.
- O que houve, April?
- Eu saí com um cara, e acho que ele é casado.

***

Ian segurava minha mão de modo firme enquanto olhava as vitrines de lojas de brinquedo em que passávamos durante nosso percurso para qualquer lugar, estávamos apenas passeando, aproveitando o dia bonito que fazia do lado de fora daquela casa. Dona Clair a cada dia se mostrava ainda mais impaciente comigo e com minha incompetência de não saber cuidar de seu neto direito (ela deveria ficar impaciente com seu neto, que era arteiro demais, e não comigo, que sempre fazia de tudo para que ele ficasse mais calmo e quieto) e olha que eu trabalhei por cinco anos como babá, mas era bem mais calma que Ian, eu nem mesmo precisava reclamar com a pequena por algo que ela fazia.
Está difícil de me manter firme no meu emprego atual, eu só estava me segurando muito para não dizer adeus àquela família porque eu precisava do dinheiro, e principalmente mostrar para minha mãe que eu estava muito bem ali. Se eu reclamasse sobre, ela logo iria dizer que ela tinha dito várias vezes que eu merecia um emprego melhor, que naquela profissão eu já tinha experiência demais.
Por incrível que pareça, Ian, naquele momento enquanto caminhávamos pela cidade, estava calmo, apenas observando as coisas à sua volta, até parecia que ele estava assim porque eu havia desistido de tentar colocá-lo na linha, até como se ele tivesse pensando "ela parou de tentar, agora eu fico quietinho. Quanto mais ela tenta, mais eu a atormento."
Paramos em frente a mais uma vitrine de lojas de brinquedo e deixei Ian ali, olhando um caminhão grande de brinquedo, acho até que ele estava babando sobre aquele enorme vidro. Eu, infelizmente, não pude comprar para ele, pois sua avó não havia me dado dinheiro o suficiente para pagar aquele grande caminhão.
Do lado de fora, percorri uma parte de dentro da loja com o olhar, mas parei em uma pessoa em específico que estava na fila do caixa com uma mão no bolso da calça e a outra com um ursinho, esperando para ser atendido. Aquela pessoa em específico, era , e aí eu não tive total certeza se queria que ele me visse e muito menos se eu queria vê-lo, ainda mais depois do que aconteceu. Não tínhamos resolvido nada sobre aquela discussão, e para mim estava bem claro que ele não queria mesmo me ver, que nossa amizade tinha acabado naquele quarto de hotel nas Bahamas.
- Ian, vamos para casa, querido. - peguei na mão dele e o desgrudei do vidro da loja, ele não protestou, mas dei os primeiros passos e ouvi o sino da loja tocar, indicando que a porta fora aberta, e em seguida meu nome foi dito por aquela voz que eu tanto conhecia. Virei meus calcanhares e encarei , que tinha um sorriso pequeno nos lábios que tanto desejei beijar nessa vida.
- . Oi.
- Quanto tempo!
- Sim, acho que quase dois meses. - assim que disse isso, ambos percebemos o real tempo em que ficamos sem nos falar, o que pareceu um pouco assustador. Dois meses era bastante tempo, e nesse tempo muitas coisas podiam acontecer.
- E quem é esse garotão com você?
- Esse é o Ian. Sou babá dele. - coloquei minha mão nas costas dele, indicando que ele desse um oi para o homem à sua frente, mas tudo o que ele fez foi apenas ficar olhando de mim para , de para mim.
- Ele parece ser um garoto bem legal.
- Ah, não se deixe levar pelas aparências, ele já me fez passar por muitos apuros. - eu poderia dizer algo sobre meu antigo emprego com , mas fiquei meio temerosa em tocar nesse assunto. Achava que seria nesse momento que ele me daria as costas e sairia andando por se lembrar do que aconteceu, mas ele continuou ali.
- Ela anda mais quieta ainda, depois que você foi embora. - ele pareceu ler meus pensamentos e acabou por si mesmo em tocar no assunto sobre .
- Ela é uma criança incrível, não me canso de dizer isso. Sinto muita falta dela.
- Ela também sente muito a sua falta. - foi o momento do meu coração se apertar ainda mais.
- E a Katherine, como está? - eu não queria falar sobre ela, mas acho que seria falta de educação não perguntar, ainda mais quando pareceu que íamos começar a nos dar bem.
- Ela está bem. Nós... - ele hesitou bastante em dizer o que queria falar para mim - Nós estamos pensando em morar juntos.
60 dias, 1440 horas, 86.400 minutos podem acontecer tantas coisas e tão rápido como foi. A relação de e Katherine parecia estar ainda mais sério, pois até morarem juntos eles iam, e eu nem fazia ideia do que dizer a ele naquele momento.
- Fico feliz por vocês dois. – algo que qualquer um diria, mesmo estando em um estado de "choque".
- Obrigado. Você me parece bem, .
- É, estou caminhando. Vivendo um dia de cada vez. - como sempre estive fazendo.
- Entendo. - ele deu um leve sorriso.
- Bem, eu preciso ir, a avó de Ian está para chegar em casa.
- Tudo bem, eu também preciso retornar para o restaurante. Foi bom te ver de novo, !
- Foi bom te ver de novo, ! Tchau.
- Até mais. - se teria um até mais.
Demos meia volta e fui me afastando, soltando aos poucos o ar que eu mantinha preso, depois de um curto, mas parecendo ser um longo tempo, sem nos falar e nos ver, agora parecia estar ainda mais bonito... E mais comprometido. Eu sentia seu olhar em minhas costas, mas me mantive firme, olhando para frente, caminhando, para não acabar olhando para trás e sentir ainda mais saudades do que eu já sentia.
- Quem era ele, babá? - Ian perguntou quando estávamos mais afastados de .
- Ele é um amigo. Na verdade, meu antigo patrão.
- Ele parece gostar de você. - dizem que crianças têm olhares sensíveis a certas coisas, e percebem coisas que nem mesmo os adultos são capazes de perceber. Mas sobre gostar de mim, acho que Ian estava errado. Apesar dos adultos estarem sempre complicando as coisas.

Com uma taça de vinho na mão, eu olhava para a janela do meu quarto em meu apartamento, eu estava ali fazia bem uma meia hora, pensando no encontro por acaso que tinha tido durante a tarde com . Eu não entendia bem como um simples encontro como aquele fora capaz de me deixar pensando nele durante aquele tempo todo desde o momento que nos despedimos, mas o principal que rondava minha mente era o fato do relacionamento dele com Katherine já estar tão avançado como estava com apenas dois meses.
Eles estavam de fato bastante apaixonados para pensarem nisso tão cedo?
Se fosse eu no lugar de Katherine ao receber a proposta de para morar juntos, analisaria se aquilo seria de fato uma boa ideia. Se nosso relacionamento não iria acabar se desgastando tão rápido quanto começou. Sabemos que no início são rosas, mas temos defeitos e esses defeitos vão se revelando e temos que estar dispostos a saber lidar e continuar amando.
Saí do mundo dos meus pensamentos malucos (e muitas vezes sem nexo) quando meu celular apitou, ele estava em cima da cama e quando o olhei, ele brilhava, indicando que uma nova mensagem havia chegado. Caminhei lentamente até a minha cama, onde peguei o aparelho em mãos e assim que olhei para a tela, meu coração palpitou depressa, quase chegando a doer pela velocidade em que bombeava.
" lhe enviou uma nova mensagem" é o que dizia a notificação na tela de bloqueio. Na hora, meus pensamentos começaram a ferver em busca do por que ele teria me mandado uma mensagem. Por que não ligar, dependendo do que queria me falar?
Cansada de tanto criar teorias sobre uma simples mensagem, desbloqueei meu telefone e então matei a curiosidade do que dizia ali.

Oi,
Depois que nos encontramos naquela loja, fiquei pensando durante a tarde toda. Você gostaria de me encontrar amanhã pela manhã na cafeteria que sempre frequento, a que você sabe bem qual é?
Preciso conversar com você. Se você quiser e puder, é claro. Tenha uma boa noite. Não tem um dia em que não pergunte por você.

Eu não sabia se ficava feliz por saber que ficou praticamente a tarde toda pensando em mim (ou no nosso assunto mal resolvido), ou se ficava feliz por saber que ainda se lembrava de mim, apesar de que ela poderia estar bem magoada por eu não ter aparecido para vê-la.
Pela mensagem que eu havia recebido, pude perceber que não parecia estar mais remoendo a discussão que tivemos. Mas a questão era, eu ia ou não ia até a cafeteria?
Eu queria sentar com ele e resolver as questões pendentes que tínhamos, e mesmo que eu não fosse voltar a trabalhar para ele, teríamos resolvido tudo e poderia seguir adiante.
E para isso acontecer, eu teria que ir até a cafeteria no dia seguinte para encontrá-lo.

Capítulo 21

Abri meus olhos e fiquei encarando o teto do meu quarto enquanto ficava imaginando como seria o reencontro com , mil e uma coisas passavam por minha cabeça.
Por fim, me levantei da cama, fiz o que precisava fazer e me arrumei.
Assim que eu já me encontrava pronta, saí de casa rumo à cafeteria.
Durante o caminho, recebi uma ligação da minha irmã e foi onde eu lhe contei onde estava indo e com quem eu estava me encontrando.
Ela se declarou estar feliz por finalmente estarmos no caminho para resolver os assuntos pendentes e tudo voltar aos eixos. Encerrei a chamada assim que cheguei em frente à cafeteria.
Ao entrar pelas portas de vidro do estabelecimento, fui recebida por uma lufada de ar quente por conta do aquecedor (aquela manhã em Nova Iorque fazia frio), e pelo cheiro maravilhoso de café, entre outras coisas gostosas que ali faziam, e então percebi o quão faminta eu estava.
Percorri o local com os olhos até encontrar sentado em uma mesa no centro da cafeteria, bem que ele poderia ter pegado uma mesa mais no canto, onde melhor poderíamos conversar e onde eu, sempre que podia, me sentava.
Caminhei a passos lentos até ele, que não tinha percebido minha presença pois estava distraído olhando para sei lá o que no celular, mas assim que eu estava próxima o suficiente, enfim me notou e se levantou da cadeira com um sorriso nos lábios.
- Oi, .
- Oi, . - ele me abraçou e depositou um beijo em minha bochecha. Em seguida, se sentou e eu me sentei na cadeira em sua frente, retirando o cachecol que estava em volta do meu pescoço e o colocando na cadeira ao meu lado, junto com minha bolsa.
- Como você está? - sua atenção agora estava totalmente voltada para mim.
- Eu estou bem, e você?
- Estou bem também, na medida do possível.
- Que bom. E , como está?
- A cada dia crescendo mais, ficando mais esperta e engraçadinha.
- Fico feliz em saber.
- Mas e quanto a você, como vai o seu trabalho?
- Nunca acreditei muito quando as pessoas diziam que seus trabalhos é que as tinham escolhido, mas hoje eu posso dizer o mesmo. O trabalho de ser babá do Ian foi que me escolheu.
- E você está se dando bem lá? - ele parecia bem interessado.
- Sim. Quer dizer, no início eu estava conseguindo tirar de letra, ele era uma criança calma, mas depois demonstrou ser bem mais agitado do que eu imaginava. - sorri de leve ao lembrar das presepadas de Ian.
- E quanto a sua patroa ou patrões?
- Bem, dona Clair é uma senhora muito meiga e gentil... Quando ela quer.
- Sério? - ele não parecia tão surpreso quanto quis demonstrar.
- Sim. E eu descobri isso esses dias quando sem querer derrubei umas louças dela no chão.
- Suas preferidas?
- Sim, mas não foi só culpa minha, o que mais Ian sabe fazer parte do dia é ficar correndo igual maluco pela casa. O que causou esse acidente.
- Mas o que ela fez com você? – franziu o cenho.
- Ela falou muitas coisas e ficou aparentemente muito brava, se mostrou ser uma megera, como muitos dizem por aí.
- Então o seu trabalho não está indo tão bem assim?
- Infelizmente não. Ian é uma criança adorável, com muita energia e muita inteligência. Mas muitas artes que ele faz, caem nas minhas costas e eu não estou mais conseguindo tolerar isso.
- Eu imagino, você está bem mais acostumada com o tipo de criança igual a .
- Exatamente, criança calma. - ficamos por um tempo em silêncio, até que finalmente perguntei. – , porque você me chamou até aqui?
- Certo. Vou ser direto com você, até porque isso não precisa de enrolação. Eu, primeiramente e acima de tudo, quero te pedir mil desculpas pelo ocorrido no seu quarto nas Bahamas. Reconheço que fui grosso e ignorante com você. Que aquela discussão não foi necessária, que uma conversa civilizada ajeitaria as coisas. Mas fiquei cego e disse coisas que não devia. E em segundo, mas também importante, eu queria muito saber se você aceitaria voltar a ser a babá da minha filha, ela sente muito a sua falta, ... Nós dois sentimos muito a sua falta.
Por um minuto ou quase, fiquei apenas o observando enquanto o meu coração dava solavancos, quando eu imaginei as coisas que ele queria me dizer, eu não imaginava que ele iria assumir praticamente toda a culpa sozinho, sem nem pensar em colocar uma parte daquela culpa em mim também.
Já meio recuperada do que ouvi, me pronunciei.
- , eu aceito suas desculpas. Mas eu também queria te pedir desculpas por aquele dia, nós dois nos excedemos. Quanto a retornar ao emprego, eu não sei bem, quer dizer, eu também sinto muito a falta dela. De vocês dois, mas...
- Eu entendo, você tem esse novo emprego e as coisas podem estar ruins agora, mas há esperanças, né, de melhorar. - ele soltou uma risada nasalada.
- Não sei ao certo se tenho esperanças disso. Mas quanto a sua proposta de voltar a ser babá de , eu vou pensar um pouco sobre. Tudo bem?
- Tudo bem, claro. Não quero que se sinta pressionada nem nada do tipo.
- Certo. - olhei em meu relógio de pulso e constatei que era hora de ir para o trabalho. - Eu preciso ir agora, ainda tenho que trabalhar.
- Mas você não comeu nada e nem tomou um café, e aposto que não comeu antes de sair de casa.
- Não mesmo, mas antes de ir, eu pego algo no balcão e vou comendo no caminho. Estou quase me atrasando e não quero deixar dona Clair irritada.
- Tudo bem. Foi bom te ver, . E pensa com carinho na minha proposta, tudo bem?
- Tudo bem. - sorri pequeno e nos levantamos da cadeira, demos um breve abraço e eu caminhei até o balcão.
Pedi uns bolinhos e um café puro para viagem, durante o pequeno tempo que eu esperava receber meu pedido, eu sentia os olhos de em mim, mas eu não o olhei. Peguei meu pedido, paguei a conta e quando estava saindo, foi aí que eu o olhei dei um aceno de adeus que foi retribuído por ele, e por fim saí dali.
Durante o caminho até a casa, eu repensava sobre toda a nossa conversa e, caramba, como eu queria voltar, e era tão bom ter por perto de novo, sentir o cheiro de seu perfume tão de pertinho e de brinde ganhar um coração bombeando com mais força dentro do peito. Abraçá-lo aquela manhã me fez perceber que sumir com os sentimentos que tenho por ele não seria nada fácil de se livrar, acontecesse o que acontecesse.
Cheguei no meu trabalho e a casa toda estava silenciosa, dona Clair e Ian estavam dormindo, de certo, eu obviamente entrei com a cópia das chaves da casa. Aproveitei que todos ainda dormiam para poder fazer o café.
Já estava tudo na mesa quando Clair adentrou o cômodo e nem sequer me deu um bom dia, se sentou à mesa e esperou o suco de laranja que eu estava terminando de fazer.
Assim que terminei, coloquei a jarra na mesa e fui lavar as louças que eu tinha usado.
- Ian apareceu com uma mancha roxa no braço, pode me dizer como ele conseguiu aquilo? - ela perguntou de forma seca e não me olhou.
- Não, senhora, mas deve ter sido com algum brinquedo, sem querer.
- Eu te pago para ficar de olho nele, para que ele não me apareça com esses machucados, . - ela enfim olhou meio sem paciência para mim e eu fiquei com mais raiva ainda, pois ela estava me acusando de não olhá-lo quando ele poderia muito bem ter aderido aquele machucado fora do meu horário de trabalho.
E além do mais, ele era uma criança, então aparecer machucados era super normal, ainda mais sendo agitado como Ian era, e eu não podia ficar o tempo todo de olhos fixos nele, pois, além de babá, ela me contratou para faxinar a casa também, então ela teria que escolher qual função de fato ela queria que eu exercesse naquela casa.
- Faça o seu serviço direito, estou te pagando para isso, e não para deixá-lo como se você não estivesse aqui. - me segurei para não dar uma resposta mal criada, ou mandá-la para aquele lugar feio. Apenas balancei a cabeça, quando ela se levantou e se retirou da cozinha.
Eu simplesmente estava de saco cheio de tudo aquilo, então a proposta de ficou ainda mais tentadora.

Achei melhor aceitar sua proposta, estava com saudades do que eu fazia naquela casa e, ao contrário de Clair, reconhecia meu empenho e dedicação ao cuidar de sua filha. Nos cinco anos que trabalhei lá, nunca reclamou da forma que eu cuidava da pequena, e quando ela cresceu e machucados apareciam, ele sabia que era normal, pois ela era uma criança, coisa que Clair também não reconhece.
O meu lugar era trabalhando na casa dos . E o que passou, passou, ele pediu desculpas e assumiu perante a mim que estava errado.
Era meio da tarde, Ian estava sentado, quietinho (milagre), enquanto assistia a um desenho de super-heróis na televisão. Aproveitei que ele estava daquela forma e dei uma saída até os fundos da casa, onde fiquei parada com o meu celular em mãos, pensando mais um pouquinho sobre a proposta de e na minha resposta positiva para ela.
Sem muitas delongas, procurei em minha agenda do celular o número de , assim que o encontrei, iniciei a chamada. Admito que eu estava um pouco nervosa com aquela ligação. O motivo? Eu sabia e não sabia.
- Sim?!
- Oi, , sou eu, a .
- Sei que é você, . Está tudo bem? - soltou uma risada baixa e eu sorri.
- Está sim, obrigada por perguntar. Eu liguei para te dar a resposta sobre a proposta que você me fez hoje de manhã.
- E a que conclusão você chegou? - se não era impressão minha, ele parecia nervoso do outro lado da linha.
- Que eu aceito voltar a trabalhar para você.
- Sério? Que ótimo, . E quando você pode começar? - sua felicidade agora era evidente.
- Semana que vem está bom?
- Está, está ótimo.
- Mas, , tem uma condição em relação à minha volta.
- E que condição seria?
- Que você converse com Katherine, e conte a ela o que eu realmente sou da . - ele ficou em silêncio por um momento.
- Tudo bem, uma hora ou outra eu teria que contar. - eu não esperava que ele fosse aceitar.
- Obrigada. Não quero que entenda que estou impondo isso, mas acho que é o certo a ser feito. Senão, tudo pode ficar ainda mais confuso, e a bola de neve só aumentar.
- Eu entendo, . Sem problemas.
- Ok, então até semana que vem.
- Até.
Encerrei a chamada e logo em seguida escutei um barulho de algo sendo quebrado dentro da casa, e antes de correr até lá para ver o que tinha acontecido e se Ian tinha se machucado, não pude evitar de dar uma leve revirada nos olhos, respirei fundo e entrei.

***


Dois dias depois, eu fui trabalhar normalmente, cuidando de Ian, porém, naquela sexta-feira, seria meu último dia. Eu havia até ensaiado mentalmente como chegaria em Clair e conversaria sobre minha demissão, sem que houvesse alguma contenda entre nós duas.
A tarde passou normalmente, Clair saiu para ir na casa de umas amigas, enquanto Ian estava tranquilo naquele dia, ele parecia até estar triste por algo que eu não fazia ideia, e eu já havia lhe perguntado o motivo dele estar daquela forma, mas ele simplesmente não respondia, me olhava e não dizia nada.
Assim que estava quase anoitecendo, Clair chegou em casa e eu peguei minha bolsa e estava de saída, mas antes a chamei para conversarmos e seguimos até a cozinha, onde ela se sentou na ponta e eu em uma cadeira ao lado.
- O que quer falar comigo, ? - ela não parecia estar carrancuda ou irritada como nos dias anteriores, ela parecia leve e até feliz.
- Eu vou ser direta, dona Clair. Eu quero minha demissão.
- Mas por que, querida? - eu não sabia bem ao certo o que dizer, seria falta de ética, talvez, eu dizer que voltaria para o meu antigo emprego. - Fale a verdade para mim, não precisa mentir.
- Certo. Eu vou voltar a trabalhar para a família . - assim que disse isso, estranhei quando um pequeno sorriso apareceu em seus lábios.
- Bom, se é isso que você quer, não posso te forçar a ficar. Foi bom o tempo em que ficou com nós. - eu não conseguia entender todo aquele carinho dela por mim de repente. - Mesmo Ian sendo da forma que é, sei que ele irá sentir saudades suas.
- Obrigada pela oportunidade, dona Clair. Foi bom trabalhar para a senhora e cuidar de Ian.
- Ora, minha querida, não precisa mentir, sei que foi exaustivo e fui muito grosseira com você, e peço mil desculpas por isso, mas foi por uma boa causa, quem sabe um dia você irá entender.
- Certo. - rimos e me levantei da cadeira, prestes a sair dali.
- ?
- Sim?
- Pegue isso, e obrigada por tudo. Seja muito feliz, meu bem. - ela tirou da sua bolsa um envelope, o peguei e sorri em seguida, saindo da cozinha. Ian estava sentado no sofá, me arqueei à sua altura, depositando um beijo demorado no topo de sua cabeça.
- Tchau, querido. - ele me olhou, mas não disse nada.
- Babá? - parei assim que ouvi sua voz. - Vou sentir sua falta.
- Eu também. - sorri pequeno e por fim fui embora, deixando na mesinha de centro a cópia das chaves daquela casa, na qual vivi muitos apuros, aventuras e novas experiências.

***


Sábado à noite, eu estava em meu apartamento, novamente com uma taça de vinho em mãos enquanto eu observava a rua, mas dessa vez, da janela da minha sala. Um dia eu finalmente realizaria meu grande sonho, que seria ter uma sacada, poderia ser só na sala, ou só no meu quarto, não me importaria, mas se fosse em todos os cantos, seria melhor ainda. Sacadas eram minhas paixões, para observar o movimento da rua, observar o céu e sentir o vento que me acalmava e me ajudava a pensar.
April tinha me ligado umas cinco vezes. Eu não queria de forma alguma atender, pois eu sabia o porquê ela estava ligando, e eu não queria sair de casa para ir em festas, mas na sexta vez que ela ligou, não tive como ignorar, pois quanto mais eu ignorava, mais ela iria ligar e então eu iria me irritar e iríamos brigar pelo telefone, aí depois ela apareceria em meu apartamento e brigaríamos cara a cara. Então depois de quase nos estapear, ela me faria sair com ela, como muitas vezes já acontecera. Eu sabia que tínhamos um relacionamento meio conturbado, mas nos amávamos.
Novamente estava meu celular tocando, mas que porcaria, será que hoje não teria nenhuma paz?
Atendi o celular quando vi no visor que era . Por que ele me ligaria em pleno sábado à noite, quando tudo para minha volta a trabalhar lá já estava certo? E aconteceria somente na segunda.
- , preciso que venha até minha casa. - foi bem direto, não disse um oi, nem um tudo bem.
- O que aconteceu, ? Aconteceu algo com ?
- Não, ela está bem. É coisa entre nós, adultos. - ele estava me assustando.
- Certo, daqui a meia hora, mais ou menos, chego aí.
- Estou à sua espera. - e simplesmente desligou.
Fiquei uns minutos parada, olhando para o celular, para então me mexer. Tirei meu pijama e coloquei uma calça jeans, uma camiseta e um casaco por cima. Peguei minhas chaves e saí de casa, trancando tudo.


Assim que cheguei, toquei a campainha e esperei no máximo uns dez segundos para que enfim atendesse a porta. - Entre, por favor. - assim que entrei, encontrei Katherine sentada no sofá que ficava de costas para a porta.
- Onde está ? - o olhei rapidamente.
- Ela está na casa da minha mãe, para que possamos conversar melhor. - colocou uma mão sua atrás de minhas costas e de leve foi me empurrando para que ficássemos de frente para sua namorada. - Sente e fique à vontade, .
Fiz o que ele pediu, me sentei na poltrona e fiquei os olhando, esperando eles dizerem sei lá o que para eu ter ido até ali. estava na frente de Katherine, ao meu lado, de frente para a televisão e a lareira.
- Então, , por que você me chamou até aqui? - enfim sua namorada se manifestou, alguém tinha que começar aquilo.
- Eu chamei vocês duas aqui, porque eu andei pensando muito durante esses dias e cheguei a conclusão que está realmente na hora de colocar tudo em pratos limpos. - ele me olhou e bastou aquilo para que eu entendesse, mas Katherine estava visivelmente confusa. Estava na hora da verdade.
- Que pratos limpos e porque sua ex-mulher está aqui?
- Eu preciso que, acima de tudo, Katherine, você se coloque por um momento em meu lugar e entenda o porquê de eu ter feito isso.
- Espera, por um acaso, , você está tentando me dizer que voltou para ? Ou que vocês estavam tendo um caso pelas minhas costas? - ela parecia furiosa com sua dedução errada, mas muito furiosa.
- O quê? Não, Katherine, não é isso.
- Então o que é, ?
- Quando nos conhecemos, você se lembra que eu contei sobre e , após você ter encontrado a foto da minha filha na minha carteira?!
- Sim, como eu poderia esquecer aquele dia? Foi uma noite maravilhosa. - por favor, me poupem os detalhes, pensei e quase falei em voz alta.
- Sim. Mas eu omiti uma parte e contei uma pequena mentira, entre outras. - ela somente esperava ele continuar, sem dizer nada. - Tipo a ... A ... - ele apontou para mim e eu apenas observava. – Ela, na verdade, não é minha ex-mulher, e… E nem mãe da . Ela, na verdade, é a babá da minha filha. Mas a consideramos da família.
Ele terminou seu pequeno discurso da verdade, olhei para Katherine e ela tinha o canto dos olhos brilhando pelas lágrimas que começavam a ser formadas. Eu a entendia bem, não era nada legal você conhecer uma pessoa, se apaixonar, criar confiança nessa pessoa, e depois descobrir que praticamente tudo o que viveram e que aprenderam sobre o outro, era uma mentira. Desde o início de tudo isso, eu não desejava esse momento para ela.
- Então, quer dizer, que tudo o que eu aprendi sobre você, é uma grande mentira?
- Não exatamente, tem muitas verdades que te contei.
- Quais partes, ? O que na sua história é verdade? – ela gritou e eu não sabia ao certo se eu continuava ali na sala ou me retirava de fininho, mas eles não pareciam se lembrar que eu estava ali e muito menos se importarem de eu estar ali. - E agora, se você contar algo sobre você, como eu saberei que é verdade ou se você, mais uma vez, está mentindo para mim? Me fazendo de idiota?
- Katherine, por favor, entenda, a parte que eu omiti, foi a que mais doeu em mim.
- Jura? Eu aposto que a sabe a verdade sobre você.
- Nem toda a verdade, Katherine.
- Eu sou sua namorada, , como pode mentir assim para mim?
- Katherine, me entenda. Por favor.
- Não, eu não vou entender, porque se até a babá da sua filha sabe a real verdade sobre você, e eu, que sou sua namorada, não sei... - cheguei a conclusão que estava de fato na hora de eu sair dali, pelo menos ir até a cozinha, para eles ficarem mais à vontade e para não acabar sobrando ainda mais para mim.
- Se quer realmente toda a história, eu irei contar. - de fininho sai e cheguei até a cozinha, onde peguei um copo de água e fiquei escorada na bancada. - Em uma bela madrugada, minha esposa resolveu ir embora, abandonando a mim e a nossa filha, que era apenas um bebezinho. E a história não acaba por aí. Muito antes da nascer, muitas coisas aconteceram. Primeiro, foi ter descoberto a traição dela com quem eu julgava ser meu amigo. Conversamos e então acabei perdoando-a e dando uma nova chance, foi quando ela engravidou, me dando esperança de que tudo tinha se consertado entre nós. Já estávamos planejando o quarto e escolhendo possíveis nomes, eu estava apegado demais ao bebê. E então, um belo dia, recebo a ligação do hospital, ela simplesmente resolveu que não queria o meu filho, e então a desgraçada abortou, sem pensar em como eu ficaria, muito menos sem pensar no nosso filho.
Em nenhum momento ele elevou a voz, manteve a calma, contando tudo aquilo que mais ardia nele ao se recordar. E mesmo da bancada da cozinha, eu podia ouvir tudo.
- Mas então, dias passaram, e mesmo estando desolado, ela conversou comigo, implorando perdão, e eu, idiota, aceitei, porque, de certa forma, ainda a amava. Não confiava mais nela, porém, sabia que ela precisava de ajuda e eu tentava ajudá-la. E então veio a notícia da segunda gravidez, não consegui ficar animado ou planejar como antes, mas dessa vez ela levou até o fim e então nasceu. Quando olhei em seus olhos eu pude sentir a esperança, a felicidade, era um recomeço. Pouco depois, a mãe dela foi embora, deixando-nos. Para mim, não importou tanto a ida dela, o importante era que a minha filha estava comigo, segura em meus braços.
"Então, tenho motivos fortes o suficiente para deixar a mãe biológica da bem escondida no meu passado, nem ao menos dizer o nome dela quando perguntam. Eu estou fazendo, e sempre vou fazer o possível para manter a em segurança, bem longe da mãe biológica dela para que ela não sofra, caso um dia ela simplesmente desista e vá embora outra vez. Agora, tem idade e inteligência suficiente para se sentir rejeitada."
Ele se manteve em silêncio quando a história acabou, e tudo o que eu ouvia era meu ouvido zunindo pelo que tinha acabado de escutar.
Quem em sã consciência faria uma atrocidade dessa? A forma que eu imaginava que havia ficado com aquilo era pouco comparada à realidade de sua dor e sofrimento.
Quando eu percebi, lágrimas já desciam de meus olhos, tudo o que eu sentia no interior do meu peito era uma vontade absurda de ir até aquela sala, abraçar de forma bem apertada e fazê-lo esquecer pelo menos um pouco daquela dor. Abraçá-lo e fazê-lo esquecer todo o sofrimento que ele já passou.
Minutos depois, eu não ouvi mais nenhum barulho vindo da sala, a passos curtos e silenciosos, fui entrando na sala para não acontecer de eu atrapalhar o momento de reconciliação do casal, mas tudo o que eu encontrei foi largado no sofá com a cabeça no encosto, as mãos no rosto e o som do seu choro baixo, aquilo partiu meu coração em um milhão de pedacinhos.
Continuei me aproximando devagar, até que ele me notou e tentou enxugar as lágrimas que desciam por suas bochechas, uma atrás da outra.
- Me desculpe por isso. – um soluço escapou de sua garganta e eu então me aproximei rapidamente dele, sentando ao seu lado no sofá.
- Você não tem que pedir desculpas, . - estendi minhas mãos em direção à sua cabeça, mas hesitei por um momento. Quer saber, que se ferre, ele estava precisando de amparo, e se a mulher que dizia gostar dele não está aqui, eu vou fazer. E faria mesmo se ela estivesse aqui.
- Eu tento entender, até hoje, o porquê dela ter feito aquilo. Eu deveria, , ter entendido os sinais, se eu não tivesse insistido, eu não teria perdido um filho. – nisso, seu choro se intensificou mais ainda, um choro desesperado, e eu não pensei duas vezes em puxá-lo para mim e ele ajudou ainda mais, me abraçando, sua cabeça estava repousada em meu peito enquanto eu fazia um carinho em seus cabelos e tentava reconfortá-lo. - Muitas vezes acabo sendo um babaca, mas eu só tento me proteger e proteger minha filha. Para que não passemos por tudo aquilo de novo.
- Não se martirize, , por algo que você não teve culpa. Você a amava e quis ajudá-la, você foi humano. - eu sussurrava enquanto lágrimas escapavam de meus olhos, e ele ainda chorava muito, com sua mão em meu braço, me apertando, como se certificando de que eu não sairia dali e o deixaria sozinho. E eu não faria aquilo, já tinha pessoas demais o magoando e o deixando sozinho. - Eu estarei aqui com você para o que der e vier.
Ele não conseguia dizer nada, ele apenas conseguia chorar, e então ali, sentado no sofá, erámos eu e . Eu tentava, de alguma forma, aliviar seu coração pesado, pela dor e pela culpa.

Capítulo 22

Uns dois dias haviam se passado, eu já tinha voltado à ativa no meu trabalho como babá da , e tudo estava ocorrendo bem. Levantei mais cedo e saí de casa um pouco mais cedo para chegar um pouco antes do horário normal que eu entrava.
Assim que cheguei na casa deles, entrei sem tocar a campainha, pois havia me devolvido a cópia das chaves de lá, que antes era minha.
Achei muito estranho quando vi aquela cabeleira sentada no sofá.
- Olá, . - Katherine me cumprimentou com um sorrisinho no rosto.
- Olá, Katherine. - franzi o cenho, a cumprimentando também, por educação, e fui até a cozinha. Lá encontrei sentado à mesa com enquanto tomavam café.
- Oi, gente.
- Tia , que saudade. - se levantou da cadeira e veio até mim, me abraçando pela cintura, eu a abracei da melhor forma que conseguia.
- Você contou para ela? - sussurrei para , que disse sim, apenas chacoalhando a cabeça. - Eu também senti muito falta sua, meu amor.
Me agachei, ficando em sua altura, e dei um beijo na ponta de seu nariz.
Ela voltou a se sentar na cadeira e terminou seu café da manhã.
- Está tudo bem, ?
- Tudo bem sim. Tanto comigo, quanto entre Katherine e eu.
- Terminei, papai, agora eu vou brincar. – sorte que naquele dia não tinha aula.
- Pode ir. - fui até a pia da cozinha e comecei a lavar umas louças que tinha ali, terminou seu café e foi tirando a mesa para mim, levando também as louças para lavar até a pia. - Eu e Katherine conversamos melhor, depois que esfriamos a cabeça, e demos a nós uma segunda chance. E dessa vez baseado apenas em verdades, sem mentiras alguma. E será a última tentativa.
- Certo. - pelo amor de Deus, , lembra naquela noite que ela foi embora, te deixando aos prantos, largado no sofá? Deu para perceber que por dentro eu estava um pouco indignada com a situação?!
- Amor, vamos? - a namorada de entrou na cozinha, chamando o namorado com um sorriso meio tímido no rosto.
- Vamos sim.
- Foi bom te ver de novo, , e dizendo por , seja bem-vinda novamente à essa casa.
- Obrigada. – agradeci, sem dar o sorriso educado que eu costumava dar a ela.

***


Semanas se passaram desde a minha volta àquela casa, tudo estava fluindo normalmente, sem muitos estresses como sempre foi, apesar de que muitas vezes eu acabava me irritando com algumas atitudes idiotas de Katherine, mas eu a respondia da minha forma irônica somente em pensamento, eu não queria porventura ser acusada por ela de estar querendo transformar nossa convivência naquela casa em algo complicado. Até porque eu não tinha nada contra ela, mas também não tinha nada a favor, ou seja, eu apenas ficava em meu canto, fazendo meu trabalho.
Mas como a vida nem sempre é da forma que queremos que seja, e o que é bom sempre acaba, a amiga legal que Katherine estava demonstrando ser, estava começando a se mostrar de verdade. Ou melhor dizendo, a mulher irritante que com certeza ela era.
Katherine começou a mostrar sua verdadeira face, muitas vezes (eu não sabia ao certo o porquê e para que daquilo) quando saía para trabalhar, Katherine ficava ali na casa, até porque o plano de morarem juntos havia com certeza sido descartado por . E quase sempre me tratando como se eu fosse a empregada dela, me pedindo para levar suco para madame, que estava largada no sofá da casa do namorado, vagabundeando. Mas eu algumas vezes me prestava a levar o suco até ela, até porque eu era prestativa e não custaria nada lhe fazer esse favor.
Mas uma coisa me irritou profundamente, eu estava na minha, como sempre, limpando umas coisas na cozinha (cômodo que eu mais gostava de limpar) e Katherine estava ali me olhando limpar, ela não tirava os olhos de mim.
- Está precisando de alguma ajuda, Katherine? - eu estava me segurando para não dar uma resposta malcriada, ou melhor, dar na cara dela. Eu odiava quando alguém (ainda mais ela) ficava me olhando fazer limpeza na casa, como se quisesse ter certeza de que eu estava fazendo o serviço direito.
- Não, eu só estou te observando.
- E por que, posso saber?
-Só para te avisar quando, por exemplo, tiver uma sujeirinha como tem aqui. - ela apontou para o vidro de um dos armários.
- Certo. Mas esse vidro eu ainda não limpei, como você deve ter percebido. - eu estava borbulhando de raiva por dentro.
- Bem, se não limpou ainda, então, por favor, limpe direitinho. - e ainda teve a coragem de dar um sorrisinho de simpatia, que de simpatia não tinha nada.
- Olha, Katherine, uma coisa que as pessoas não precisam me dizer é a forma que eu trabalho, que não é exatamente meu trabalho, mas não me custa nada fazer. Pois todos sabem que quando eu faço, eu faço direito. Eu já sou uma babá, não preciso de uma para mim.
Ela não falou mais nada, apenas saiu da cozinha e foi para a sala.

Na semana seguinte eu ainda me segurava muito para não voar no pescoço da namorada do meu patrão, por causa de sua petulância e pelo fato de a cada dia ela ficar mais folgada.
- . – e pela terceira vez, Katherine me chamava naquela bendita sala, onde a dona madame e umas amigas estavam conversando. E detalhe, o dono da casa, o , não se encontrava, ele estava trabalhando e eu muito menos sabia se ela tinha o consultado e se ele tinha concordado em receber aquelas visitas.
- O que foi?
- Olha a forma que fala, , não se esqueça qual é o seu lugar aqui nesta casa. - de forma indireta ela quis dizer que eu era somente a empregada daquela casa.
E ainda por cima, a cachorra queria dar uma de patroinha para as amigas, que riam de forma discreta da forma que a madame Katherine tinha falado comigo.
- Sim, eu não me esqueci, meu lugar nessa casa é como babá da filha do dono dessa casa. Na qual não me lembro dele ter me contratado como faxineira, e muito menos de ter me falado para te servir. Que pelo que eu saiba, você não é quadrada e pode muito bem pegar o que comer e beber para você e suas amigas. - essa parte ainda não tinha penetrado no cérebro miúdo dela, e agora sim ela parecia estar com bastante raiva, mas se segurou para não perder a linha na frente das amiguinhas mimadas dela.
- Certo, pode voltar para a cozinha agora.
- Claro, irei adiantar o café da tarde da e do dono da casa. Que no caso é só o senhor . - eu não iria perder a chance de jogar na cara dela quem era o real dono daquela casa, e não poderiam me acusar de ter sido grossa, eu até falei de forma educada. nem faria isso, pois ele mesmo não gostava quando pessoas se folgavam pra cima de mim, pois ele era justo, e com a namorada dele não seria diferente.
Mas antes de entrar na cozinha ouvi uma das amigas dela dizendo o quão mal-educada eu era, apenas sorri e não me importei.
Assim que as meninas cor-de-rosa foram embora, levando junto a mimada cor-de-rosa-mãe, fui para a sala e tive que contar até três para não gritar de ódio, eu tinha limpado toda a sala e agora havia revistas espalhadas, farelos de biscoito no chão e sofá e também papeizinhos cor-de-rosa picados pelo chão, sofá e mesinha de centro.
E então depois de contar até cinquenta, pois até três não foi nada suficiente, eu arrumei aquela baderna, pois eu não suportava ver aquilo e deixar da forma que estava.

- Oi, . - apareceu na cozinha e já se sentou na cadeira, veio logo atrás dele com uma cara meio emburrada.
- Olá! E que cara é essa, ?
- Essa menina está começando a ficar mimada demais para o meu gosto. - respondeu, fazendo cara feia para filha.
- O que aconteceu?
- Eu queria muito aquele ursinho de pelúcia.
- Eu sei que sua avó só quer o seu bem, mas ela está começando a te deixar mimada, e criança mimada eu não tolero, .
- , você não é assim.
- Eu não estou ficando mimada, eu queria apenas aquele ursinho.
- Mas não é fazendo birra, querendo chorar no meio da loja, que eu vou te dar as coisas. Sua avó pode ser assim com você, mas eu não sou. - era firme ao falar com a filha.
- Desculpa.
- Certo, agora coma e vá brincar. – falei, colocando leite em sua caneca e café da caneca de .



Depois do episódio em que eu confessei a Katherine o que já tinha se passado em minha vida e esses serem os motivos de eu ter mentido para ela, eu desabei no sofá depois que ela ouviu tudo o que eu disse e simplesmente virou as costas para mim e foi embora, naquele momento eu pensei que aquele fosse o nosso fim.
Eu estava me segurando muito para não chorar tudo o que ainda estava entalado em minha garganta até pelo fato de que eu não queria que me visse naquele estado. Mas no momento que ela se sentou ao meu lado no sofá e me disse que não tinha nada com o que me desculpar e que tudo iria ficar bem, eu acabei por desabar mais ainda, e o choro veio mais intenso quando ela me abraçou. O conforto do seu abraço, suas palavras de conforto e ela estando ali apenas para consolar e não para me julgar, me trouxeram uma paz tão grande e a vontade maior ainda de chorar, junto com o desejo de nunca mais querer sair dos braços de .
Se eu pudesse congelar os melhores momentos que eu já vivi em minha vida, esses momentos seriam: o nascimento de ; quando eu a peguei no colo pela primeira vez e vi aqueles olhinhos lindos meio temerosos, mas sorrindo por saber que estava no colo do papai e que ela estava segura.
E o momento em que me abraçou apertado no sofá da sala da minha casa. Sem medo do que poderia acontecer depois ou por medo do rótulo que tínhamos de empregada e patrão que muitos se vissem exigiriam. Ali eu tive ainda mais certeza que era a melhor pessoa que existia no mundo.
Será que eu, de fato, estava pedindo demais uma mulher como ela em minha vida? Uma mulher que vendo o meu estado não me julgou por eu ter que ser o macho que a sociedade impõe, de não poder chorar por ter sentimentos. Como ela mesma disse: "todos nós seres humanos choramos, independente se for homem ou mulher, pois não podemos ser fortes o tempo todo."
Ou melhor, seria demais ter a em minha vida?
Dias depois, Katherine me procurou e pediu desculpas pela sua atitude de ter ido embora, eu ainda estava decepcionado pelo o que ela fez, mas a perdoei e o fim que eu pensei que foi, não foi exatamente. pareceu não ter gostado de eu ter voltado com Katherine depois do que aconteceu naquela noite, mas eu também precisava dar aquela segunda chance a nós, para eu não ser acusado depois de não ter tentado, e de não ter perdoado quando na verdade eu perdoei.
voltou a trabalhar em casa e eu não pude ficar mais alegre, assim como ficou, tinha que admitir que provavelmente estava bem na cara há muito tempo, não fazia bem somente para minha filha, ela fazia bem para mim também. Conversar com ela era a melhor coisa que tinha, apesar de que ela sabia dar conselhos, mas não sabia seguir seus próprios conselhos.
Ela sabe levar certas brincadeiras na esportiva, e brinca sem se importar se outros vão pensar que ela é maluca. Ela também, muitas vezes, mostrava seu lado infantil, assim como mostrava seu lado sensível, mas detestava chorar na frente das pessoas, não por medo das pessoas a acharem uma fraca, mas por saber que se recebesse mais carinho, mais ela iria chorar.
Suas manias eram simples, mas estranhas, roía as unhas somente quando assistia um filme ou uma série, e vivia arrancando aquelas pelinhas do lábio com os dentes, mesmo isso deixando feridinhas depois, eu falava para ela parar, mas ela não aprendia.
As coisas estavam começando a se encaixar novamente, e a forma que tudo era antes me fazia muita falta.



Eu não era tão burra como muita gente pensava que eu era, principalmente como Katherine pensava. Pois eu sabia muito bem que a forma que ela estava me tratando não era retaliação da mentira que contaram a ela, porque ela sabia que eu não tinha tanta culpa, pois a ideia da mentira veio do namorado dela, enquanto ele estava lá com ela, mentindo para a namorada, eu estava na casa dele, cuidando da filha dele sem saber de nada do que estava se passando com eles.
Mas eu tinha a leve impressão que isso tudo era ciúmes, pela forma que me tratava, e ela tinha percebido isso (qualquer um perceberia), e então na cabecinha dela, se ela me tratasse mal, eu não aguentaria a pressão e eu pediria demissão, mas mais uma vez ela estava enganada, eu só estava me irritando com ela. Para me derrubar e me fazer pedir demissão ela teria que se esforçar muito mais.
- Maninha, eu vou te falar pela milésima vez só essa semana, conta o que está acontecendo para o . Ele precisa saber que a namoradinha mimada dele está mostrando a verdadeira cara de vagabunda.
- April, xingar ela não vai adiantar de nada.
- Mas alivia um pouco minha raiva.
- Eu não vou contar nada ao , pelo menos não por agora. Eles dois estão bem, se eu contar é perigoso ele acabar surtando com a Katherine, eles vão brigar e só Deus sabe o que pode acontecer depois. Se eles se separarem, irei me sentir culpada.
- Por que você nunca escuta o que eu falo?
- Porque tem certas coisas que você diz, que não podem ser levadas a sério.
- Eu só quero te ajudar, qual é o problema?
- Nenhum problema.
- Olá, filhas queridas. - mamãe adentrou na cozinha da casa da April e parecia mais animada do que era de costume.
- Olá, mamãe. - ela se aproximou de mim e depositou um beijo em minha testa. Quando foi a vez da minha irmã, ela abraçou apertado mamãe.
- Que saudades, mãe.
- Certo, o que você quer, April? - quando minha irmã abraçava e paparicava nossa mãe, podia ter certeza que algo ela queria. - Que você, por favor, fale para a deixar de ser cabeça dura e ouvir meus conselhos.
- Por quê? O que aconteceu?
- Nada demais, mamãe, April é muito dramática.
- Não, não e não, , pode contar a verdade. Diz para ela que a namoradinha piranha do está te tratando como se fosse a empregada dela, ou melhor, como um cachorro.
- E você deixa ela fazer isso com você, ? - eu ia falar, mas mamãe não deixou, - Eu não coloquei filha no mundo para ser maltratada por ninguém.
Naquele momento, ela parecia bem nervosa.
- Mamãe, eu não deixo...
- Por que vocês já estão brigando com a minha pequena menina? - papai entrou na cozinha e eu corri para abraçá-lo - Como você está, filha?
- Estou bem, papai.
- Estaria ainda melhor se contasse as coisas que anda sofrendo para o .
- Não começa, April.
- Sua irmã tem razão, . Deixa de ser boba, filha.
- Não é que eu sou boba, mamãe, eu só não quero arrumar confusão entre eles dois.
- Nisso minha menina tem razão. Seja lá sobre o que estejam conversando.
- Não é hora de você defender a , Christopher. Sua filha está permitindo que a façam de gato e sapato. E você melhor que ninguém sabe que eu não admito que façam isso com minhas filhas. - mamãe estava de fato bastante brava.
- Sua mãe tem razão, filha. Você não pode deixar que façam isso com você.
- Eu sei, papai, mas eu conheço meus limites. Estou muito irritada com a situação e é questão de tempo até que eu exploda e conte tudo para ele.
Eles tinham que entender meu lado também, e não queria de forma alguma causar contenda entre os dois, como eu já citara anteriormente várias e várias vezes, e essa minha decisão eles tinham que respeitar.

***


Meu celular começou a tocar de forma enlouquecida, bufando, desliguei e cobri meu rosto com o edredom, minha vontade de levantar e encarar a criatura da Katherine enchendo o saco a manhã e a tarde toda era zero.
Força, , você está indo pela ... E um pouco pelo .
Em menos de quarenta minutos eu já estava arrumada, já tinha tomado meu café da manhã e estava saindo de casa para ir trabalhar.
E em menos de meia hora eu já estava estacionando na frente da casa, desci do carro e fui para dentro. Quando entrei, quase tive o décimo troço só naquela semana, Katherine de fato era uma mulher maluca.
- O que você está fazendo?
- Ah, oi, . Eu só estou dando uma repaginada na sala. Apesar de estar apenas trocando os móveis de lugar. Mas já dá uma ótima melhorada.
- Cadê o ?
- Saiu mais cedo de casa e levou junto. – disse, arrastando a poltrona para o outro lado da sala.
- Ele sabe da sua repaginação na sala?
- Não. Eu ia conversar com ele, mas esqueci. - o que ela estava mesmo a fim era ter uma briga feia com o namorado.
- Mas você deve saber que ele detesta que mudem os móveis de lugar, ainda mais sem ser consultado.
- Relaxa, , é meu namorado e não irá se importar. Pelo contrário, irá amar.
- Se você tem toda essa confiança, quem sou eu para dizer algo. Eu somente o conheço há quase seis anos, e você o conhece nem há um ano direito. - a deixei sozinha na sala e fui para a cozinha.
Durante o tempo que fiquei naquele cômodo da casa, dei uma boa organizada que nem vi que o tempo tinha passado tão depressa como passou. A casa estava em total silêncio, e como dizem sobre as crianças, se está muito quieto, é porque está aprontando, e esse ditado se encaixava perfeitamente com a Katherine, mudando o fato de que ela era adulta, somente.
Saí da cozinha e fui à procura dela em todos os cantos da casa, mas nada da criatura, e quando cogitei a possibilidade de que ela teria ido embora sem me avisar, eu a encontrei no quarto de e meu sangue borbulhou, mas não pelo fato dela estar lá, mas sim pelo fato dela estar dentro do closet dele, fuçando nas coisas e de lá de dentro ela estava com uma caixa de cor azul, até aí tudo bem, se não fosse o fato de que odiava pra caramba quando mexiam em suas coisas que estavam guardadas, e principalmente naquela bendita caixa azul que estava nas mãos dela.
E eu sabia disso, pois no começo, quando eu trabalhava lá para ele, resolvi fazer o favor de tirar o pó das coisas e fui para o seu closet e quando ele viu que eu ia tirar o pó daquela caixa, ele quase teve um treco, ficou um pouco nervoso, mas se acalmou e me pediu para evitar aquela caixa azul, haviam coisas muito pessoais para ele ali dentro.
- Você está maluca, Katherine?
- O que foi?
- Você não pode mexer nessa caixa de forma alguma.
- E por que não, eu posso saber?
- Tem coisas muito pessoais de aí, e ele não quer que ninguém, ninguém mesmo, mexa aí. - Mas como eu já disse milhares de vezes, eu sou a namorada dele e é diferente. Eu e ele não temos segredos um para o outro.
- Não importa, Katherine, segredos é uma coisa, privacidade é outra. A partir do momento que uma pessoa pede para que não mexam porque é pessoal, você tem o dever de respeitar esse pedido. - eu estava tão nervosa que minha voz se elevou sem que eu percebesse, mas não cheguei a gritar.
Katherine colocou a caixa na cama e parecia também estar nervosa, mas comigo, como sempre.
- Qual é o seu problema, ? Você ainda não entendeu que aqui não queremos sua opinião em nada? Que você não deve se intrometer em nada, ainda mais quando é de desrespeito à minha relação e a do ?
- Eu estou aqui nessa casa há quase seis anos, se você ainda não percebeu, fui contratada pelo , o único dono desta casa. Então é meu dever como sua contratada não permitir que qualquer uma faça o que bem entender em sua casa, e nem com suas coisas, principalmente quando ele não se encontra em casa.
- Você me chamou de qualquer uma?
- Parabéns - bati de leve as palmas das minhas mãos umas nas outras -, lavou bem a orelha quando tomou banho. - não pude deixar de debochar, e quando estava muito, muito nervosa, aí que acabava fazendo, mesmo sem querer.
- Você não me teste, sua coisinha, eu não permito isso.
- Nesta casa, quem tem que permitir ou deixar de permitir alguma coisa, esse alguém é o . - ela vacilou por um momento, mas em seguida soltou uma risada.
- Se você pensa que fazendo esse papel de boa moça fará com que um dia possa gostar de você, sinto lhe informar que está errada, queridinha. - foi minha vez de dar uma vacilada, ela mexeu com algo perigoso - Você pensa que eu nunca percebi os olhares de apaixonada que você dava a ele? Eu sempre percebi. E saiba, , que ele nunca irá te olhar com outros olhos, pois para ele você sempre será somente a babá da filhinha dele.
Eu não iria me desequilibrar e chorar, não na frente dela e por uma coisa que eu sabia há muito tempo, e já até tinha meio que aceitado.
- Quer saber, vai se lascar, Katherine. Vai lá, fuça tudo o que pode e o que não pode também, faça o que quiser. - desci as escadas às pressas e peguei minhas coisas. Saí daquela casa ainda tentando acalmar os nervos que estavam à flor da pele.

Cheguei em casa ainda muito nervosa, sem medir as consequências dos meus atos e principalmente se aquilo tinha valor sentimental ou valor financeiro, simplesmente peguei um dos meus vasos de flores e gritando o taquei com tudo no chão do meu apartamento.
Eu estava muito desgastada emocionalmente, eu já não aguentava mais amar uma pessoa que não me pertenceu nem sequer uma vez.
Cansada de brigar com uma pessoa por um certo ciúmes, dela estar com a pessoa que eu amava.
Cansada de fingir não sentir nada, quando na verdade sentia tudo.
Enxuguei as lágrimas teimosas que desceram (depois de as segurar) enquanto atendia ao telefone.
- Oi, mãe. - me segurei para não denunciar que eu estava chorando.
- Oi, filha, então, querida, te liguei pra te falar para vir jantar aqui com a gente essa noite. - não seria uma boa ideia por um ponto, eles seriam bem amorosos comigo e como estava muito sensível eu começaria a chorar feito louca, e eu teria que lhes contar o que tanto me perturbava.
Mas o ponto positivo de ir era que eu iria me distrair estando com minha família. Conversar e esquecer um pouco da loucura que minha vida voltava a ser. Jantar com eles naquela noite não seria exatamente uma má ideia.
- Ok, mãe, eu vou sim. Até mais tarde.
- Espera um minuto, , o que aconteceu, por que sua voz está estranha? - por que minha mãe não podia deixar uma coisa como essa passar despercebido pelo menos uma vez? - Você andou chorando, filha?
- Olha, mamãe, agora estou precisando muito de um banho, então quando eu chegar aí, a gente conversa melhor.
- Tudo bem, meu amor, se você deseja assim. Até mais tarde e não se atrase.
- Tudo bem, tchau.
Ela se despediu e eu finalizei a chamada, vi que naquele meio tempo havia recebido uma mensagem de , eu estava meio relutante para não abrir a mensagem naquele momento, mas eu o fiz mesmo assim.

O que aconteceu, ? Katherine apenas me disse que você deixou tudo por aqui e foi embora sem mais nem menos. Me conte o que aconteceu.
Assim que puder, retorne. Por favor.



Claro que ela não iria contar o real motivo para que eu fosse embora daquela forma para ele, ela sempre se fazia de boa moça, a que é incapaz de odiar alguém, mas que quando ele dava as costas, mostrava as garrinhas.
Não respondi a mensagem, e só iria responder mais tarde, quando chegasse da casa dos meus pais, e olhe lá.
Tomei um longo banho relaxante e me arrumei, indo em seguida para a casa dos meus pais, que provavelmente estavam tendo um mini ataque por eu estar poucos minutos (tipo uns dez minutos) atrasada. Infelizmente, a hora que me fizeram, a qualidade de pontualidade esqueceram de colocar.

Capítulo 23

Quando cheguei, todos já se sentaram à mesa e começamos a comer a maravilhosa comida caseira da mamãe.
- Pode agora me contar o que aconteceu? - mamãe perguntou e papai e April já me olharam, curiosos.
- O que você fez? - minha irmã, como sempre, me acusando, antes de saber toda a história.
- Eu não fiz nada e também não houve nada, mamãe.
- Então por que estava com voz de choro no telefone?
- Por que estava chorando, minha menina? - papai perguntou, preocupado.
- Besteira. Eu só estava cansada, um pouco desgastada, e foram poucas lágrimas.
- Mas agora você está no trabalho que sempre te fez bem, não entendo o porquê de estar desgastada. - mamãe parecia bem confusa, assim como eu fiquei no início de tudo isso.
- Simples, mamãe, não é o trabalho, é uma pessoa chamada Katherine. - a olhei feio e ela sinalizou que foi preciso ter falado.
- Você sabe muito bem o que deve fazer sobre essa moça.
- Não se preocupe mais, mamãe... Eu acabei explodindo hoje e eu e ela acabamos discutindo feio.
- Deu umas na cara dela?
- Claro que não, April.
- Mas deveria.
- Não deveria não, as coisas não se resolvem com violência.

Depois do jantar, eu fui até a sala e fiquei sentada no degrau entre a sala e o quintal, sendo separados por uma porta de correr de vidro, fiquei repassando tudo o que já tinha passando em minha vida e como tudo mudou de forma drástica e rápida. Mas April interrompeu meus pensamentos assim que se sentou ao meu lado na porta.
- E então, quer que eu pergunte ou já vai desembuchar de vez?
- Sobre o quê?
- O fato de você estar desgastada não é o trabalho e sim a relação entre você, e Katherine.
- Por que me pergunta se já sabe de tudo?
- Não sei de tudo, sei o que você me mostra por fora, mas por dentro você é resistente e nem sempre mostra, como agora. E quero saber da sua boca o que se passa.
- Eu não aguento mais lutar com algo que eu já não tenho mais controle algum.
- Diz sobre o seu amor por . - balancei a cabeça que sim.
- Eu não aguento mais demonstrar que não me machuca ver ele com ela, que não cuida dele da forma que ele merece. April, eu poderia amá-lo da forma certa, tratá-lo da forma carinhosa e amorosa como ele merece, eu posso fazê-lo feliz... Uma chance, April, uma chance é o que preciso.
- Não está pensando em desistir está?
- Não. Já pensei muito, mas eu o vejo todos os dias, principalmente vendo o seu sorriso enquanto ele conversa comigo, é o meu gás para lutar em silêncio e às cegas com Katherine. Pode parecer ridículo, mas é como eu me sinto, em uma grande guerra pelo amor que julgo ser o da minha vida.
- E como você é uma boa soldada, ganhará essa guerra com olhos fechados.
- Mas essa guerra já dura anos, April.
- Ela está chegando ao fim, irmãzinha, e o seu prêmio, digamos assim, será a felicidade ao lado de quem você sempre amou. - ela bateu o dedo no meu nariz e me abraçou em seguida. Que assim fosse.

***

Mais um dia cedo que o despertador tocava de forma violenta, o desliguei e antes de levantar da cama e fazer qualquer outra coisa, peguei meu celular e vi que não tinha mais nenhum registro de ligação perdida, ou mensagens (e eu nem tinha respondido a de e nem iria, seria bom ele ficar um pouco mais preocupado comigo), somente alguns novos e-mails e notificações de redes sociais.
Eu não sabia bem o que iria acontecer quando eu chegasse no meu trabalho, provavelmente iria querer uma explicação sobre o ocorrido do dia anterior. Eu iria contar a verdade ou uma desculpa esfarrapada?
Eu não fazia a menor ideia, eu iria decidir ali na hora.
Se ele iria acreditar? Aí que eu não fazia a menor ideia mesmo.
A única coisa que eu sabia era que tanto quanto Katherine estavam na casa, respirei fundo, contei até dez e entrei, orando para que aquele dia fosse melhor do que o anterior, que a batalha fosse mais tranquila um pouco.
Eu estava chegando na hora do almoço, eu tinha umas coisas para resolver pela manhã e como eu havia avisado a , ele não se importaria.
O cheiro de comida sendo preparado foi o primeiro a me receber, fiquei muito feliz por saber que o almoço era por conta do meu patrão.
- Boa tarde. – cumprimentei eles, estava à beira do fogão e Katherine sentada na cadeira na ponta da mesa.
- Boa tarde, . - ele foi o único a responder meu cumprimento. Katherine apenas sorriu pequeno para mim e parecia envergonhada.
Tirei minha bolsa do ombro e coloquei na cadeira ao lado da que eu sentaria, repousei o meu laptop na mesa e me sentei ali.

Quase meia hora depois que eu estava ali no computador, Katherine se levantou e se aproximou de mim e baixo perguntou:
- , eu posso falar com você por um momento?
- Pode falar.
- Vamos até a sala. - ela saiu, olhei para e ele nos observava, então me levantei e fui ao encontro dela.
- O que quer falar comigo, Katherine?
- Eu queria pedir desculpas pela forma que eu falei com você ontem. Eu estava nervosa por estar naqueles dias, mas eu não tinha o direito de ter dito todas aquelas coisas a você. - ela parecia estar sendo sincera, mas ficar com um pé atrás nunca seria demais.
- Tudo bem, Katherine, desculpas aceitas.
- Obrigada, . - seu abraço me pegou de surpresa, mas retribui mesmo que sem muito ânimo e simpatia.
- Meninas, vamos almoçar?! - apareceu na sala com um pequeno sorriso, provavelmente contente por achar que eu e Katherine estávamos nos tornando grandes amiguinhas, mas isso era mesmo só na cabeça dele, pois eu continuaria atenta com ela.
Durante o almoço todos ficamos em completo silêncio, eu podia sentir a tensão que estava instalada ali na sala de jantar, parecia que o casal queria iniciar uma conversa, mas não sabiam realmente como e muito menos eu, então o melhor que eu achei de ser feito, era ficar quieta.

***

Assim que mandei para a escola, subi para seu quarto, onde arrumei os edredons que estavam até pelo chão, por conta de mais um dia em que a garotinha não queria ir à escola , e olha que nem fazia frio, o sol brilhava no céu firme e forte.
Desci até a cozinha para terminar de organizar algumas coisas, quando na porta, entre a sala e a cozinha, ouvi Katherine dando risada enquanto falava ao telefone. Durante aquela mesma semana, eu tentei de tudo para fazer a convivência com Katherine ser a melhor possível, e mais suportável também, apesar de que estava sendo difícil por ela sempre me irritar, mas em seguida dava uma de que havia sido sem querer e eu estava vendo a hora em que minha mão voaria na cara dela.
Eu não ia ficar escutando a conversa dela escondido, mas o que ela falou prendeu minha atenção, pois eu sabia que aquela conversa era sobre mim, então eu precisava saber o porquê daquilo e principalmente com quem ela estava tendo aquela conversa.
- Como eu falei, ela é legalzinha, meio sonsa, mas legal. Está cuidando até que bem da e as duas parecem ser bem amigas, estão se dando muito bem. O que irrita mesmo é ela ficar tia para cá, tia para lá. - não posso negar que meu sangue ferveu por ela estar falando mal de - Se fosse com você, claro que seria bem melhor… O é meio bobo em algumas vezes, nem parece que cresceu... Sim, ele está diferente e parece estar mais maduro... Ah, mas ele mereceu, eu entendo bem sua atitude, é muito irritante também, meu Deus, aquele showzinho dele chegou a ser ridículo... Eu tive que fazer isso, se eu ficasse, eu teria pirado. Ele ter cuidado da garota sozinho não deu muito certo, porque a forma dele ser irritante muitas vezes e tontinho da forma que é acabou fazendo a menina aprender a ser a mesma coisa... Sim, teria com certeza sido bem melhor.
Sabe quando você está com tanto ódio que praticamente tudo o que você vê é vermelho? Foi exatamente isso que me aconteceu naquele momento, e quando dei por mim, eu já estava dentro da cozinha, falando tudo o que estava entalado em minha garganta há tempos.
- Como você tem a capacidade de criticar ou falar qualquer outra coisa sobre a forma que educou a filha? Você sabe muito bem que ele fez isso sozinho porque a cretina, egoísta e irresponsável da mãe biológica da foi embora no meio da noite, sem se importar que a filha dela precisaria muito dela, principalmente quando crescesse. Pouco se importou também com o amor que tinha por ela. Então você e nem ninguém tem o direito de criticar, ele fez tudo sozinho, educou e cuidou dela, e fez bem melhor que muito casal por aí, que só sabe bater, brigar e castigar seus filhos. Ele deu a ela uma coisa ainda mais importante que bens materiais, que é o carinho e o amor, e isso ele conseguiu dar em dobro. Por ele e pela mãe dela que não foi capaz de fazer isso por ser tão covarde. - Ela apenas me olhava e escutava após ter finalizado a chamada. - Presenciei tantos momentos em que ficou tão preocupado com a , o desespero de perdê-la, mas ele se mantinha forte por fora pelo bem da filha, para que ela mesma tivesse esperanças e lutasse pela vida. Mas por dentro ele estava com tanto medo quanto ela e eu juntas estávamos, medo de perder aquele pedacinho de gente que faz a alegria de seus dias.
Assim que terminei, ela deu uma pequena risada e bateu palmas de leve.
- Parabéns, , seu show foi maravilhoso, pena que o não está para ver isso, e principalmente ver o quão ridícula você está. Você nunca entende nada mesmo, não é, . Tudo o que eu falo entra por um ouvido e sai pelo outro.
- A única que não entendeu nada aqui foi você, Katherine. Deixei bem claro aqui, que não irei deixar você magoar nenhum deles, nem , muito menos . E você não será maluca o bastante de passar por cima disso. Porque pode ter certeza que eu serei bem mais maluca para te quebrar na porrada.
- , para, para com isso de achar que você os defendendo fará com que a olhe com outros olhos. Porque eu já te falei que isso não acontecerá. Isso é para o seu bem, .
- E eu estou pouco me lixando para o que você pensa ou deixa de pensar.
- É por essa sua má educação que continua solteira, e continuará assim por mais um longo tempo.
- VOCÊ NÃO SABE NADA SOBRE MIM.
- Mas sei o suficiente para saber que você é uma pessoa solitária, que sempre está em busca da aprovação das pessoas ao seu redor. Fazendo sempre de tudo para que as pessoas gostem de você. - não pude evitar de soltar uma risada.
- E é aí que você se engana, Katherine, eu não as obrigo ou faço de tudo para que gostem de mim, eu apenas dou a elas bons motivos para que gostem. E nisso conquistei muitos amigos que posso confiar de olhos fechados... E outra, essa pessoa que você descreveu, você descreveu a si mesma, Katherine.
- Cala a boca, .
- Quer saber, eu vou embora, não irei mais perder meu tempo discutindo com você.
- Isso foge mesmo, é o que você faz de melhor.
- Eu vou só para não socar essa sua cara nojenta. - ela ficou incrédula, mas não disse nada. - O que está acontecendo aqui? - parei no mesmo instante quando escutei a voz do meu patrão.
- Que bom que você chegou, amor, anda muito irritada e nisso desconta sua irritação em mim, sendo que eu não tenho culpa de nada. - A vagabunda teve coragem de fazer cara de inocente, eu me segurei para não voar nela naquela hora.
- Como é cínica você, Katherine. Para de dar uma de falsa vítima, deixa de ser covarde pelo menos uma vez nessa sua vida patética e conta a verdade a ele.
- , calma.
- Calma nada, . Fala para ele Katherine, que você estava no telefone até agora pouco com sei lá quem, falando mal dele e da filha pequena dele. Conta a ele que você disse que por ele ser irritante e ter cuidado sozinho da a fez também uma criança irritante. Conta também que você disse que aquela vez que você o deixou chorando por ter contado a você coisas que o machucavam muito, você achou que foi um showzinho desnecessário. Conta também da vez que você me fez de sua empregada, me humilhando na frente das suas amiguinhas mimadas e insuportáveis. - mantive calma para não gritar demais, mas minha voz saiu em um tom consideravelmente alto.
Katherine parecia não saber onde enfiar a cara por ter sido dedurada e por saber que não conseguiria me desmentir, ela querendo ou não, sabia que o seu namorado acreditava em mim.
Enquanto parecia bem pensativo sobre o que acabara de ouvir e provavelmente se sentindo um tolo por mais uma vez ter confiado na mulher errada, e pior ainda ter continuado quando a mesma já havia muitas vezes lhe dado sinais que não era exatamente a mulher que ele tanto procurara para ser feliz. Meu coração deu uma trincada quando vi ele soltando a mão de Katherine que antes segurava, com certa força com medo dela lhe soltar dele. Eu não queria que tudo tivesse acontecido daquela forma, mas eu não podia mais permitir que Katherine o enganasse como fazia, minha mente insistia em dizer que eu havia feito o certo.
- , vá para casa, esfrie a cabeça e amanhã você retorna mais calma, e aí conversaremos melhor.
- Sinto muito por despejar tudo isso de uma vez, . Mas enquanto isso continuar, não terei como trabalhar.
- Qual é, para de drama, .
- Cala a boca, Katherine. - tanto ela quanto eu ficamos assustadas pela forma que ele lhe dirigiu a palavra. Era bem visível sua irritação com a namorada.
- Mas eu não fiz nada, amor.
- Eu vou indo.
- Tenha uma boa noite, . - ele se virou para ir até a sala.
- Mas e eu, amor?
- Com você eu converso mais tarde. - ele respondeu Katherine de jeito frio e ignorante, fazendo com que a mesma ficasse sem jeito.

***


- Eu acho que sou uma pessoa horrível. - falei assim que April atendeu a porta.
- Não tem como, porque você é a melhor pessoa que eu conheço. Mas me conta o porquê se sente assim.
- Eu finalmente estourei, April...
- Contou ao tudo o que a namorada dele fez com você? - me entregou um copo com água.
- Sim, e acho que fiz um pouco pior.
- O que poderia ser pior?
- Eu ouvi uma conversa dela no telefone, onde ela falava coisas horríveis dele.
- Como, por exemplo?
- O chamando de irritante, e pior ainda chamando de irritante. Eu não aguentei, falei um monte para ela e discutimos, aí nos pegou discutindo e ela tentou se fazer de vítima, me irritei mais ainda e contei tudo a ele o que eu ouvi atrás da porta, e agora me sinto uma pessoa horrível.
- Não se sinta assim, irmãzinha, para mim foi o melhor que você já fez por ele, mostrou quem realmente a namoradinha dele era, que não era a princesinha das fantasias dele. Arrasou o coração dele? Arrasou. Mas a vida é assim.
- Eu só não queria ter sido a responsável por acabar com a fantasia dele.
- Não se martirize por isso. Ele um dia irá te agradecer.
- Não sei não.
- Vai sim, você vai ver.


Um dia depois da discussão entre minha namorada e a , chamei Katherine até minha casa, pois precisávamos resolver aquilo de uma vez, não poderia continuar daquela forma, e as coisas que falou que Katherine havia dito de mim e da minha filha para uma pessoa desconhecida ainda martelavam em minha cabeça e me machucavam por dentro.
- Amor, que bom que me ligou, eu estava muito angustiada com o seu silêncio. - ela se aproximou para me beijar, mas me desvencilhei. - O que foi, querido?
- Diz para mim, Katherine, que tudo o que a falou aquele dia foi mentira.
- Tudo o que ela falou foi mentira, amor. - percebi enfim que mentir fazia parte dela.
- Diz a verdade para mim. - e o silêncio dela foi tudo o que eu tive como resposta, e eu a interpretei como sendo a verdade, claro. estava certa como sempre. - Como pôde fazer isso comigo? COMO PÔDE? Eu gostava de verdade de você.
- Não, , você gosta da de verdade. Quem começou a mentir aqui foi você.
- Eu já te expliquei o porquê de eu ter feito isso.
- Não importa.
- Com quem você falava ao telefone?
- Você não irá querer saber. - sua voz saiu em um tom baixo.
- Eu quero a verdade, Katherine. Com quem você falava ao telefone? - ela hesitou por um momento, abaixando a cabeça, para então jogar a bomba em minha cabeça.
- Com a Blair. - Ao escutar esse nome, meu coração deu um solavanco, não do jeito bom por ela já ter sido o grande amor da minha vida e com quem eu tive uma filha maravilhosa, mas por conta das feridas que ela me causou.
- Por que você estava conversando com essa mulher? - se antes eu não conseguia olhar nos olhos de Katherine, naquele momento é que eu não conseguiria mesmo.
- Porque eu e Blair somos grandes amigas.
- E desde o início você sabia de tudo o que já havia se passado entre ela e eu! Então o que você estava fazendo comigo, fazendo dentro da minha casa? - eu não queria saber a verdade, mas eu precisava.
- Isso foi ideia da namorada da Blair, quando ela ficou um tempo preocupada e curiosa em saber como estava. Até mesmo saber como você estava. Então tiveram a ideia de me colocar na sua vida para lhes contar depois como vocês estavam e como você estava lidando com tudo isso, mesmo depois de anos.
- Eu já ouvi o bastante... Vai embora da minha casa, e ore para que não me encontre na rua, pois não me responsabilizo por meus atos.
- Eu sinto muito, , eu-
- VAI EMBORA DA MINHA CASA AGORA.
Ela relutou mais um pouco, mas foi sem dizer mais nada, eu fiquei ali lutando para me recompor depois de mais um grande baque.


Durante quatro dias fiquei dormindo na casa da minha irmã, eu estava um pouco deprimida demais para voltar para meu pequeno apartamento e ficar sozinha, nisso eu iria me sentir ainda mais mal por ter sido responsável pelo possível término de Katherine e . Eu nunca em toda a minha vida havia feito algo do tipo como fiz naquela noite, mesmo estando correndo o grande risco daquilo acontecer a qualquer momento por conta do grande estresse que ela estava me fazendo passar, mas em minha cabeça eu deveria ter me controlado para não dizer tudo o que eu falei.
Naqueles quatro dias, eu não dei notícias minhas a e, como eu havia avisado a ele, eu não voltei no dia seguinte. Ele também não havia ligado ou mandado mensagem naquele período pedindo para que eu voltasse. Acho que era porque ele sabia, eu havia deixado bem claro a ele que se continuasse daquela forma, não teria condição de eu continuar o meu trabalho. E o que me deixava ainda mais triste era saber que tudo continuava na mesma, senão ele teria me ligado.
- Você precisa fazer alguma coisa.
- E o que você quer que eu faça? Eu já conversei com ele. - April e Tom discutiam em minha frente enquanto eu tentava assistir televisão, mas na real eu não prestava a atenção em praticamente nada.
- Tom, presta atenção, não podemos deixar essa situação continuar assim. Principalmente deixar assim, estou começando a me irritar com ela.
- Eu sei, April, mas você falando sendo a irmã dela ela não ouve, você acha que a mim ela irá ouvir?
- Não era com você que ela era sua grande amiguinha?! E é seu melhor amigo, caramba, não é a primeira vez que isso acontece.
- Eu sei que não, April, mas o que eu estou tentando te dizer, é que eu não sei mais o que fazer. já conversou com a Katherine, eles já terminaram, não sei por que ele ainda não ligou.
Sem querer ouvir mais aquela pequena discussão, me levantei do sofá e fui para o quarto de hóspedes (que já podia ser considerado meu). Enquanto isso, o meu eu interior festejava por Katherine e terem rompido, mas festejava de forma silenciosa e um pouco contida, com medo disso voltar para mim, e acabar acontecendo o mesmo comigo um dia.
Jogada na cama, eu pensava que rumo eu iria tomar na minha vida e nisso me vi há um tempo, quando tive que procurar outro emprego porque tinha perdido meu atual por uma bobagem e tudo parecia estar se repetindo, e eu estava ficando cada vez mais insegura com medo disso se tornar um ciclo vicioso e não conseguir parar em um emprego por muito tempo e aí nada mais na minha vida daria certo.
- Tem uma pessoa querendo te ver. - April abriu a porta do quarto com um sorriso contido no rosto, e nem me deixou concluir meu pensamento paranoico.
- Não estou a fim de ver ninguém.
- Mas vai, então coloca um sorriso nessa cara linda e tenham uma conversa civilizada.
- Se for a mamãe me criticando indiretamente, eu não prometo nada, pois não estou para isso hoje.
- Só faça o que eu falei, pelo menos dessa vez. - apenas balancei a cabeça, afirmando.
Ela saiu fechando a porta, para segundos depois a porta abrir novamente, fiquei surpresa pela pessoa que estava em minha frente, em minha mente ele nunca estaria ali em minha casa.
- Olá, .
- Oi, .
- Como você está?
- Estou bem e você?
- Bem... Estou tentando me recompor ainda, depois de mais uma vez meu passado me dar um olá seguido de um rasteira.
- Blair te procurou?
- Não, mas acho que foi pior. O satanás mandou a secretária. - apenas balancei com a cabeça. - Eu tive a infelicidade de descobrir que Katherine e Blair são amigas, que ela estava comigo só para saber como estava sem a mãe e como eu estava lidando com as coisas sem a Blair.
Ele soltou uma risada amargurada e eu por dentro desejava demais pegar a vaca da Katherine e a matar com minhas próprias mãos, por ela ter tido aquela coragem e insensibilidade.
- Eu não sei o que te dizer, .
- O que eu mais tenho raiva é porque quando eu decidi largar o medo e confiar em alguém para um relacionamento, eu descubro que fui um idiota e confiei na mulher errada novamente. Me fizeram de tolo outra vez. - dei um pequeno pulo na cama quando ele deu um murro na parede, fazendo um barulho alto. - Me desculpe.
- Não, tudo bem, . Eu entendo como se sente. - ele massageava a mão a todo instante, não era segredo que ele havia machucado. - Vem aqui, deixa eu ver se machucou.
Cauteloso por conta da vergonha do que tinha acabado de fazer, se sentou ao meu lado com cuidado, peguei sua mão e analisei, estava somente vermelho e felizmente não tinha cortado.
- Fico me perguntando se algum dia conseguirei ser de fato feliz, em um relacionamento como desde pequeno desejei.
- Pode ter certeza, , mesmo que ainda demore um pouco, você irá achar a pessoa certa, e será muito especial.
- Promete?
- Prometo. - sua mão, que antes estava sobre a minha, foi devagar até a lateral do meu rosto no lado esquerdo.
- Me desculpa por tudo isso, , pela humilhação que você passou por idiotice e teimosia minha por achar que ela era diferente. Desculpe de verdade eu ter sido um completo babaca. Eu não sabia das coisas que ela fazia - eu não disse nada, apenas balancei a cabeça devagar, aceitando suas desculpas. – Por que você não me contou?
- Eu não queria causar briga entre vocês dois.
- Você sabe que eu não permito que te tratem dessa forma. Eu só quero te proteger, .
- Eu sei e agradeço.
Um leve frio na barriga surgiu em mim, com a expectativa do que poderia acontecer em seguida, e o que estava na cara que iria acontecer, pois aos poucos o rosto dele ia se aproximando ainda mais do meu. Na realidade, aquilo não seria certo acontecer, ele tinha acabado de romper um relacionamento, mas por dentro eu queria muito que aquele beijo acontecesse. Só mais um pouquinho, era questão de um centímetro para que nossas bocas se tocassem, para eu ficar sabendo como era beijá-lo.
- Crianças, estou saindo, mas… - nos separamos rapidamente quando minha bendita irmã abriu com tudo a porta do quarto, que mania idiota dela de não bater antes de entrar. - Desculpa ter atrapalhado, só vim mesmo te avisar que estou saindo e não sei que horas volto.
- O Tom vai com você? - ela relutou para responder minha pergunta.
- Tchau para vocês e se comportem.
- Ela vai sair com o Tom. - falei para quando April fechou a porta.
- Vai sim, eles não se desgrudam mais.
- Concordo com você, mas enfim...
- Claro, o porquê de eu ter vindo até aqui. Eu vim te pedir para que você volte para nós. Sei que eu poderia ter ligado ou mandado mensagem, mas preferi vir te pedir pessoalmente para voltar novamente. - fiquei muito feliz com a atitude dele, achei fofinho, então eu iria voltar, claro. - E prometo que dessa vez será diferente, você não irá passar mais pelo que você passou esses tempos. E se você ver que corre o risco disso acontecer, pode chamar minha atenção, puxar minha orelha, me bater, só não deixa eu fazer isso com você novamente.
- Certo, pode deixar. Quando posso começar? - e ele sorriu lindamente para mim.

Capítulo 24

Acordei e fui direto para o banheiro fazer minha higiene necessária, daquela vez, para variar, eu não estava atrasada.
Assim que fiz o que tinha de ser feito no banheiro, saí do quarto e fui até o andar de cima da casa.
Adentrei o quarto de , e ela ainda dormia em um sono pesado, mas aquilo infelizmente mudaria no mesmo instante.
- , acorda. Levanta, anda. - abri as cortinas e do lado de fora fazia sol.
- Não quero.
- Mas vai, senhorita, ou vai se atrasar para a escola.
- Não quero ir.
- Não vamos começar com isso novamente.
- Tá bom. Já estou levantando. - mas sua cara era de que não estava gostando nem um pouco de ser contrariada.
- Perfeito. Seu café daqui a pouco estará pronto.
- Já vou descer.
Era bom estar pela segunda vez de volta ao trabalho, já haviam se passado dois dias desde a minha volta.
Passei pelo quarto de e vi que ele ainda dormia enterrado no monte de edredom, e parecia que não iria acordar nem tão cedo, resultando em seu atraso.
- , acorda, ou vai se atrasar.
- Já vou. - o cutuquei e ele resmungou.
- Tem que ser agora. Sua filha já levantou.
- Ok, ok, já estou levantando. - se dando por vencido, ele se levantou do monte de edredons, e olha que nem fazia tanto frio.
- Você tem três minutos para estarem prontos, e lá embaixo, tomando café.
- Estava com saudades de você mandando em todo mundo desse jeito. – disse, dando risada e sendo meio irônico.
- Engraçadinho.
- Tudo bem. Tentarei ser o mais rápido que eu conseguir. - piscou e eu saí do quarto.
No mesmo momento que o café ficou pronto, e chegaram na cozinha e se sentaram à mesa.
- É muito bom ter a tia de volta, toda manhã me puxando da cama e dando bronca.
- Mandando na gente, como se fosse nossa mãe.
- É bom estar de volta para cuidar de vocês, crianças.

Os dois saíram de casa e não foi nem questão de quinze minutos depois, a campainha da casa estava tocando.
- Já vou. - A bendita pessoa só podia ser surda, porque mesmo eu gritando, continuava apertando a campainha. E adivinha quem era a criatura: April. - O que você tá fazendo aqui, April?
- Eu vim ver minha irmãzinha, como ela está se saindo.
- Eu só fiquei quatro dias longe do trabalho.
- Que para você foi a mesma coisa que ficar um ano, bebê.
- Eu estava bem, você que dizia que eu estava em depressão. - voltei para a cozinha para terminar de passar o pano na mesa.
- Tudo bem se você diz, não insistirei mais nisso... ?
- Sim!
- Promete que não irá brigar comigo, se eu te contar uma coisinha?
- O quê?
- Então, mamãe foi lá em casa e ficou sabendo que você voltou a trabalhar aqui depois dessa pequena confusão. Então ela meio que está vindo para cá. - larguei o pano na mesa e olhei meio que desacreditada para minha irmã.
- Meio?
- Inteiro.
- Eu não acredito. Ela não pode vir, eu estou em local e horário de trabalho. E outra, e se o chegar e mamãe estiver aqui? O que irei fazer? Me diz.
- Calma, , ele chegar é somente uma suposição. Não significa que de fato vai acontecer.
- Mas se acontecer, com que cara eu fico?
- Com a mesma de sempre.
- Isso é sério, April, que merda. Não é assim que funcionam as coisas.
- O que você queria que eu fizesse? É difícil fazer a mamãe mudar de ideia. Na verdade, é praticamente impossível.
- Tenho quase certeza que você não tentou o bastante.
- Sim, eu tentei, mas em seguida ela me deu o olhar de determinada a fazer, aquele que me dá medo.
- Você é frouxa, isso sim, April.
- Quando se trata da mamãe, não tem como não ser. - levantei a mão para retrucar, mas decidi deixar para lá.
A campainha da casa retornou a tocar e um pequeno medo bobo se apossou de mim.
- Mamãe, oi. - tive que fingir uma falsa empolgação quando abri a porta, para não decepcioná-la.
- Olá, minha querida. – disse, adentrando a casa e observando. - Bonita casa, tem bom gosto.
- Ele tem sim, mamãe. - ela foi para cozinha e eu fui em seu encalço. – Então, a que devo a honra de sua presença em meu local de trabalho?
- Ah, minha filha, eu queria saber como você está depois do que você passou esses dias. - ela beijou minha testa e se sentou em um dos banquinhos da bancada.
- Estou bem, mãe. Eu não entrei em depressão por conta disso.
- Pela forma que April falou, fiquei preocupada.
- A senhora sabe que ela é exagerada.
- Eu só relatei o que vi.
- Cheguei, , por incrível que pareça, o pessoal está conseguindo se virar bem no restaurante. Por agora eles não vão precisar de mim.
Naquele momento, me senti como se estivesse na seguinte situação: uma mulher está com o amante na cama dela e do marido, e o dito cujo chega em casa mais cedo, e desesperada corre, escondendo o amante no armário.
Eu poderia escondê-las no armário, mas, detalhe, os armários da cozinha são pequenos e fixados no alto na parede. Tinha a geladeira, onde eu poderia esconder a April, mas somente se não tivesse nada dentro dela.
Então eu poderia levá-las para o meu quarto, em seguida, para o banheiro e colocá-las dentro da banheira, fechando a cortininha, mas detalhe número dois: eu não tinha cortininha na banheira. Então o melhor e mais certo seria escondê-las no meu guarda-roupa.
Não me leve a mal, não quero fazer isso com elas porque sinto vergonha delas, mas sim pela situação que não é todo dia que o patrão chega na própria casa e encontra a mãe e a irmã da babá da filha, sentadas nos bancos da cozinha, se sentindo como se estivessem na própria casa.
Eu já lhes disse o quanto prezo por meu querido emprego.
E escondê-las já não fazia mais sentido, pois já estava na porta da cozinha, olhando da minha mãe para mim, de mim para minha irmã e da minha irmã para mim novamente.
Merda, por que justo naquele dia ele tinha que chegar mais cedo?
- Olá! - ele parecia bem perdido do que estava acontecendo ali.
- , ahn, essa aqui é a minha mãe, Susan. - meu patrão se aproximou dela com a mão estendida, e sorrindo ela apertou a mão dele.
- É um prazer finalmente conhecê-la, senhora .
- Me chame somente de Susan, querido.
- E a April, minha irmã. Você já conhece.
- Conheço sim, tudo bom, April?
- Tudo sim, obrigada por perguntar. - aquela situação era muito estranha, mas pelo visto era somente para mim, pois o restante parecia bem confortável.
- Desculpa invadirmos assim sua casa. Mas estava preocupada com e é meio difícil encontrá-la em seu apartamento. - mamãe se justificou, mas realmente não parecia desconfortável.
- Imagina, não tem problema algum. Sei que muitas vezes promete ligar, mas não liga. - foi aí que todos deram um riso, concordando, menos eu, que não estava conseguindo acompanhar aquela conversa e acontecimento todo.
- Mas me diz, querido, como está a lindeza da sua filha?
- Ela está bem, esperta demais para a idade dela, mas com bastante saúde e bem educada. Ainda bem.
- Fiquei orgulhosa de você, querido, que apesar de tudo o que passou, não desistiu e com garra criou a filha tão bem.
- Obrigado. Não foi fácil, mas eu precisava focar nela e seguir em frente. - foi até a cafeteira, colocou todas as coisas necessárias ali e a ligou. - Hoje percebo que fiz a escolha certa.
Assim que o café ficou pronto, ele serviu em quatro canecas e distribuiu uma para mim, outra para minha mãe, minha irmã e outra para ele. Em seguida, se sentou no banco da bancada ao lado da minha mãe, onde ficaram conversando sobre diversos assuntos, enquanto eu e April somente olhávamos eles, e muitos raciocínios dos dois eu não conseguia acompanhar, então eu fingia que entendia e tudo ficava bem.

Tempinhos depois, minha mãe e minha irmã estavam de saída, até porque estava quase na hora da sair da escola.
- Tchau, filha, se cuida. Te amo.
- Tchau. Também te amo, mamãe.
- Novamente, foi um prazer conhecê-la, Susan.
- O prazer foi meu, . - ele as levou até a porta, enquanto eu fiquei ali na cozinha tentando decifrar se o que tinha acontecido naquela cozinha havia sido de fato verdade, ou somente algo da minha mente extremamente fértil.
- Sua mãe é uma mulher muito engraçada e divertida.
- Desculpa por isso, . Não era dessa forma que eu imaginava você conhecer minha mãe.
- Mesmo, e como você imaginava? Depois do nosso terceiro encontro ou no pedido de casamento? - sua pergunta na forma que ele interpretou o que falei, me deixou meio tonta por conta do que imaginei.
- Ahn. Desculpe, não foi bem isso que quis dizer. - soltei uma risada e fez o mesmo.
- Tudo bem, , eu estava brincando. Não quis te deixar envergonhada. - não parecia muito bem ter saído em um tom de brincadeira. - Vem comigo buscar a na escola?!
- Tudo bem. Vamos.
- Certo, te espero no carro. - piscou para mim e saiu.
Esperei uns segundos para então ir atrás dele, ele me esperava já dentro do carro, quando viu que eu me aproximava, se esticou no banco do motorista até a porta do lado do passageiro e a abriu para mim.
- Obrigada. – agradeci, já dentro do carro.
- De nada. - ele respondeu, dando partida no carro.
Em questão de dez ou quinze minutos, estávamos parando na frente da escola. desceu do carro e foi para a frente da escadaria enquanto eu fiquei parada ao lado do carro, do lado de fora, é claro.
Uns minutinhos depois, uma linda menininha de olhos claros saiu de dentro da escola e ao ver o pai saiu às pressas até ele, abriu os braços e pulou em seu colo.
Qualquer pessoa que estivesse triste, ao ver aquela cena de pai e filha, ficaria mais feliz, pelo menos um sorriso ela daria, assim como eu estava naquele momento.
- Tia - assim que ela se soltou do pai, foi até mim e agarrou minha cintura, me abraçando.
- Oi, meu amor, como foi a aula?
- Foi bem.
- Vamos para casa, meninas?! - ele abriu a porta de trás do carro, onde entrou, e abriu também a porta do carona para mim, que agradeci, sorrindo.
O que não pude deixar de perceber naquele meio tempo que estávamos na frente da escola, foi que a maioria das mamães casadas, solteiras e viúvas olhavam para . As mais sem vergonha o olhavam com desejo, umas até piscavam, mas ele não dava bola.
- Papai, vamos à sorveteria?
- Hoje não vai dar, filha, temos um jantar na casa dos seus avós. - eu havia me esquecido totalmente que era quarta-feira e que eu sairia mais cedo do trabalho por conta dos jantares às quartas. – Desculpa, , por ter esquecido de te avisar que iremos jantar na casa dos meus pais hoje.
- Não, tudo bem, eu sei que às quartas você e jantam lá.
- Sim, mas hoje o “nós”, eu quero dizer eu, e você.
- Não sei se é uma boa ideia, .
- Por que não seria, ? Você já conhece meus pais, não precisa ficar nervosa, eles já gostam de você.
- Tudo bem. – eu não iria ganhar aquela batalha de “não vou” com "você vai sim” então o negócio foi ceder somente.

***


Mais tarde, foi me buscar em meu apartamento. Sobre sair mais cedo, eu estava certa, pois assim que buscamos , ele em seguida me deixou no meu apartamento e pediu para que eu ficasse pronta até às seis da noite, e eu consegui essa proeza sem me atrasar.
Ele estava lindo, com sua calça jeans e camisa social básica de cor preta. , como sempre, uma princesa com seu vestido rosa rodado.
Quanto a mim, coloquei um vestido azul marinho.
- Você está magnífica, .
- Obrigada, , você também está muito bonito.
- Você tá linda, tia ! - eu me derretia quando colocava as mãozinhas para trás e se balançava sorrindo, tímida como estava.
- Você também está linda, boneca.
- Então vamos, meninas.
No caminho até a casa dos pais dele, fomos em silêncio, exceto por , que cantarolava a música de seu filme de desenho favorito, e a voz dela era tão fofa.
Eu assumo que estava com um friozinho na barriga, não estava tão nervosa pois já conhecia os pais dele, mas estávamos prestes a nos ver novamente em uma ocasião diferente do habitual. Eles não iriam jantar na casa do filho e eu estaria lá como babá da neta deles, mas sim eu estava indo na casa deles, jantar com eles, como provavelmente amiga do filho deles, e eu nem sabia ao certo se eles iriam gostar daquilo.
E como minha mãe sempre costumava dizer: "tudo pode acontecer em apenas uma noite".
Assim que chegamos, ele abriu as portas do carro para mim e para . Nos encaminhamos até a porta de entrada e ele nem tocou a campainha, já foi abrindo a porta. Fomos até a sala e ali encontramos o senhor .
- Oi, filhão. - ele se levantou do sofá, onde assistia a televisão e se aproximou de nós, abraçando o filho e dando dois tapinhas em suas costas.
- Oi, pai. - se soltaram do abraço. – Bem, essa aqui o senhor já conhece, é a , minha amiga.
- Sim, claro que conheço essa simpática moça.
- Olá, senhor .
- Ela me chamou de senhor, . - meu pequeno sorriso se desfez, mal eu tinha chegado e já tinha dado um bola a fora. Como eu sou bocó, mas pelo menos sou educada. - , querida , eu já lhe disse para me chamar somente de Alan.
- Ela também me chama de senhor muitas vezes, mas eu sei que é só pra irritar.
- Desculpa, senh... Alan.
- Agora está melhor.
- Você se esqueceu de mim, vovô. - se manifestou com a voz triste e os braços cruzados.
- Claro que não, pequena. - Alan se abaixou e pegou no colo. - Não tem como esquecer uma princesa como você.
- Até que enfim chegaram. - a mãe de apareceu. - A mesa já está posta.
- Mas não seria eu que iria cozinhar hoje, mãe?
- Sim. Mas eu estava sem fazer nada, então me adiantei e resolvi eu mesma fazer o jantar. Olá, , querida.
- Olá, Agatha. - eu lembrei de chamar a senhora pelo nome.
- Oi, meu amorzinho. - foi até e a pegou do colo do marido.
- Oi, vovó.
- Cumprimentos feitos, agora vamos jantar. - ela foi na frente e a gente logo atrás.
- Ela é também a babá da , não é, filho?
- Sim, mas essa noite ela é nossa amiga. - não pude deixar de sorrir com aquela pequena conversa.
Todos nos sentamos à mesa, que estava repleta de comidas deliciosas só de olhar, e o cheiro maravilhoso começava a me dar fome.
- fique à vontade e se sirva. - dona Agatha falou e eu apenas sorri, apesar da fome, eu estava com vergonha de me servir primeiro. Olhei para e ele graças a Deus pareceu entender.
- Certo, eu começo a me servir então. - nisso todos começaram e eu também.
De gostoso não era só a aparência e o cheiro, o gosto estava dos deuses. Dona Agatha tinha mão cheia para cozinha, com certeza o dom de na cozinha havia sido herdado dela.
- O que achou da comida, ? - dona Agatha tinha grande expectativa sobre minha opinião. Engoli o que comia e limpei minha boca com o guardanapo.
- Desculpe, a comida está tão divina que até me esqueci de parar para elogiar. Está tudo maravilhoso, Agatha.
- Ah, obrigada, querida. - e voltamos a comer em silêncio novamente.
Uns minutos depois foi que dona Agatha voltou a se manifestar.
- Então, , como você está?
- Estou bem, mãe.
- Eu sei, meu amor, estou querendo dizer no sentido do que aconteceu dias atrás.
- Estou superando.
- Então, agora, querido, você deve abrir os olhos, e ver que bem perto de você pode estar a mulher da sua vida. - ela falou e pegou a taça de vinho, o bebericando, enquanto olhava de para mim, de mim para . Meu coração acelerou e eu não sei como eu não me engasguei, mas decidi ficar na minha sobre aquela insinuação da dona Agatha.
- É, mamãe, provavelmente.
- Mas você já tem alguma ideia de quem possa ser. Você já se interessou por alguém?
- Na verdade, já sim. E isso já é de um tempo.
- Mesmo? E você pretende arriscar, mesmo depois de tudo?
- Eu acho que você deve se arriscar sim, filho, quem sabe não é dessa vez. - o senhor Alan resolveu se pronunciar depois de tanto tempo apenas observando a conversa.
- Sim, pai, por que não arriscar? Ela eu sei que é diferente.
- Que bom. - dona Agatha parecia feliz com isso. - Arrisque com ela, que eu sei que você será bem feliz.
Eu arriscava dizer que eles poderiam estar falando de mim como se eu não estivesse ali escutando tudo. Mas poderia ser um engano meu novamente, então simplesmente não me manifestei e não pensei sobre.
- Sei que sim, mãe. - todos voltaram a comer, incluindo eu, que nem tinha parado. Que conversa maluca tinha sido aquela?
- Vou pegar as sobremesas agora.
- Precisa de ajuda, Agatha?
- Não, querida, pode deixar. O Alan vai me ajudar.
- Vou é? - ele perguntou, confuso e com cara de quem não queria nem um pouco.
- Vai sim, e agora, querido. Vamos. - segurei o riso por conta da cara um pouco brava que ela fazia, e a forma que ela se segurou para não gritar com ele. Enfim ele se levantou e a seguiu até a cozinha.
- O jantar está ótimo, e seus pais, como sempre, são uns amores.
- Fico muito feliz que esteja gostando. Quem sabe não repetimos esse jantar mais vezes, não?!
- Eu adoraria.
- E para a sobremesa, teremos torta alemã de framboesa. - Dona Agatha disse, adentrando novamente na sala de jantar.
A sobremesa também estava maravilhosa, até senti saudades da torta de maçã que mamãe fazia.
Quando todos terminaram de comer e eu ajudei a tirar a mesa, fui até o andar de cima para usar o banheiro e acabei por ficar lá mesmo em uma grande varanda que dava para os fundos da casa, que havia um jardim extraordinário e a piscina iluminada deixava a vista ainda mais bela.
- Eu sabia que você estaria aqui. - chegou até mim com um sorriso.
- Desculpa, eu...
- Tudo bem, , não precisa se explicar. Eu sei sobre sua paixão por varandas. - parou ao meu lado e se apoiou sobre a grade.
- Eu nunca resisto a uma varanda. Estando nela, consigo melhor clarear as ideias, e quem sabe tomar as decisões certas.
- No seu apartamento não tem varanda, então, como você faz?
- Eu fico olhando pela janela do meu quarto. É pequena, mas a vista do lado de fora é encantadora.
- Você já desejou mais, ? Do que uma janelinha pequena em um apartamento pequeno?
Pensei no que exatamente ele quis dizer para então responder sua pergunta.
- Sim, todas as noites que eu olho por aquela pequena janela, eu me imagino em uma grande varanda, vendo o nascer do sol.
- Mas você sonha em se casar? Digo, na igreja, com o tradicional vestido branco e véu.
- Na minha adolescência eu sonhava em fugir com o meu namorado e casar em Vegas. - demos risada.
- E cadê o sequestrado?
- Não deu certo, os namorados que April me arrumava, seus defeitos gritavam mais alto que suas qualidades.
- E hoje em dia?
- Devem estar todos casados, uns frustrados, outros largados na sarjeta depois um longo porre enquanto se perguntam o por que nada em suas vidas deu certo, ou então por estarem decepcionados após um casamento errado e ainda por cima deixaram suas mulheres ou namoradas grávidas, sozinhas em casa.
- Nossa você tem uma grande imaginação ou desejo de vingança.
- Pois é, talvez. - não consegui permanecer séria. - Mas hoje em dia eu sonho em ter um casamento tradicional, incluso junto no pacote o discurso bêbado das madrinhas e padrinhos de honra. Também o primo bêbado nos fazendo passar vergonha durante a festa toda.
- Quando o assunto é fantasiar, você não brinca em serviço. - ouvir sua risada fazia com que eu me sentisse mais leve, e acabava rindo junto. - Eu estava pensando no que minha mãe disse durante o jantar.
- No sentido de?
- Me arriscar novamente, em um novo amor.
- Pelo visto seu coração é de ferro, sempre preparado para a próxima.
- Quem me dera ele fosse assim. Mas é que dessa vez eu sinto que é a certa, que a minha felicidade está nela.
- E quem será a vítima dessa vez? - ele se desencostou da grade e ficou de frente para mim.
- Alguém que me conquistou desde a primeira vez que a vi, com seu sorriso tímido e uma grande esperança no olhar. Seu único defeito é dar conselhos, mas não saber os seguir, principalmente quando o assunto é o amor.
- Olha, analisando assim, poderia dizer que é alguém parecido comigo. – ri, meio incerta, e ele sorriu.
- É exatamente você!
Nisso, ele quebrou o restante de distância entre nós dois, colocando uma mão na minha nuca, aproximando nossos rostos e bocas. Naquele momento, eu senti um pouco de medo, mas não de , e sim que algo poderia acontecer e o beijo mais uma vez não acontecer, restando somente frustração.
Daquela vez, não havia nada e nem ninguém para nos impedir daquilo, alegando ser errado. Nossas consciências estavam limpas, poderíamos dar esse passo sem nos preocuparmos se estaríamos traindo ou machucando alguém.
E isso tudo tornava aquele momento surreal demais para absorver tão rapidamente.
Coloquei uma mão em seu peito, o afastando um pouco para que não desse o próximo passo.
- eu não sei, e se-
- Vamos parar de ter medo e arriscar, .
- Podemos ir devagar.
- Certo, vamos devagar. - me pegando de surpresa, ele grudou nossas bocas em um beijo devagar, mas urgente ao mesmo tempo.
Era uma grande mistura dentro de mim, de medo e desejo.
Medo daquele momento acabar tão rápido quanto começou, e acabar por nunca mais retornar a acontecer.
E desejo de aprofundar ainda mais, e levar a outros ares, fazendo o coração bater ainda mais rápido de quase querer sair do peito.
O beijo representava mais que amor, um amor de muito tempo. As mãos dele queriam me segurar inteiramente ao mesmo tempo. E apesar de eu estar nos braços dele, eu ainda não acreditava nisso, e temia que aquele sonho acabasse de novo, de modo não resolvido, como tinha acontecido tantas vezes no passado e me causara tanta dor e agonia.
E então eu soube, ali naquele momento, que poderiam se passar quanto tempo fosse, que o meu amor por não mudaria nunca, sempre seria aquele amor intenso, que ao mesmo tempo que me consome é gostoso, ainda mais pelo fato de agora ser correspondido. Seu beijo era mil vezes melhor do que em meus sonhos mais profundos. Era capaz de me tirar de uma dimensão, me mandando para uma outra que me causava arrepios e um frio gostoso na barriga.
Um beijo marcante, onde se era dito tantas coisas, mas o que mais nos interessava, era o sentimento que acontecia dentro e entre nós dois. Nem se eu quisesse e tentasse de tudo, eu nunca, de forma alguma, conseguiria tirar da minha mente o beijo que me deu.
Aquilo finalmente estava acontecendo, na minha mente não passava nada mais além da sensação de proveito e de guardar cada segundo e seus sentimentos.

Capítulo 25



Um mês e meio se passou desde o dia em que finalmente tomei coragem e então beijei . E estar com ela naquele momento me fez sentir que eu havia finalmente acertado ao arriscar. Que eu havia feito a melhor escolha da minha vida.
me traz uma enorme paz e me traz sensações inexplicáveis de que tudo é possível.
Antes, quando éramos somente amigos, ela já me fazia tão bem, e quando decidimos tentar, ela me fazia ainda mais bem.
E o que mais estava consumindo minha criatividade, era o fato de que o aniversário da minha namorada estava bem próximo e eu não fazia a menor ideia do que dar de presente e do que fazer de especial para ela.
E não há nada melhor do que pegar ideias com a minha mãe, sei que ela não conhece tão a fundo para saber o que ela iria ou não iria gostar de ganhar, mas como ambas são mulheres, ela poderia deduzir o que gostaria de ganhar.
Eu estava a caminho da casa dos meus pais para conversar com minha mãe, e assim que cheguei, ela me recebeu e fomos para a cozinha, o lugar preferido dela na casa.
- E então, filho, como você está?
- Estou bem, mãe, e você?
- Também estou, querido. Mas como te conheço muito bem, sei que não veio aqui somente para saber como estou.
- Tudo bem, a senhora me pegou. Eu na verdade preciso da sua ajuda. - Com o quê?
- O aniversário da está chegando e eu não sei o que dar de presente a ela, muito menos o que eu poderia fazer de especial para ela. - o sorriso de minha mãe se iluminou.
- Você quer algo bem especial mesmo?
- Sim. Por favor.
- Então eu recomendo que você faça o seguinte... - enquanto ela dava as instruções perfeitas, eu ouvia atentamente, anotando cada detalhe na mente, enquanto pensava em mais alguns detalhes para incrementar também.
- Eu te amo, mãe. Você sempre tem ideias brilhantes.
- Imagina, querido, faço o que posso. E quero você e felizes. Juntos. - deu uma piscada para mim, me fazendo sorrir.



Amor, às 20h00min estarei passando em seu apartamento para te buscar. Tenho uma surpresa para você.
!

Assim que li sua mensagem, olhei para o relógio e constatei que faltavam duas horas ainda para ele ir me buscar, o que me daria tempo de sobra, pois nunca precisei mais de uma hora para me arrumar.
Tomei um banho um pouco mais demorado do que o de costume, mas não era para menos, pois naquele dia era meu aniversário e eu merecia ser mimada um pouco.
Até então, os únicos que haviam me dado os parabéns eram meu pai, minha mãe, minha irmã e Tom, mas eu ainda estava na esperança de receber os parabéns de , até pareceu na mensagem que ele havia se lembrado, pois até surpresa ele havia feito para mim, apesar de que ele poderia ter feito mesmo sem ter se lembrado que data era e que nessa data eu estava ficando um ano mais velha. Infelizmente.
Mas, de qualquer forma, eu estava com expectativa do que estava aprontando para mim, eu sentia de leve que a surpresa seria maravilhosa.
Coloquei um vestido, um salto alto preto, cabelo solto e um batom vermelho. Resumindo, esse era meu look para aquela noite, que prometia.
Na hora indicada na mensagem, estava tocando a campainha do meu apartamento, e quando abri a porta para ele, senti meu fôlego indo embora e meu coração palpitando com rapidez enquanto meu cérebro mandava alertas de que eu estava ficando ainda mais apaixonada por aquele homem, e que era melhor eu ir mais devagar, mas eu não estava nem um pouco ligando naquele momento.
usava camisa social branca, um blazer preto por cima, calça jeans de lavagem escura e um sapato que ornou muito bem com o seu look, enquanto seu cabelo estava da forma que eu amava, arrumado, mas ao mesmo tempo bagunçado.
Ao me ver, ele abriu aquele sorriso que me quebrava toda, me fazendo imaginar coisas, na mesma proporção em que eu sentia tantas coisas.
- Você está linda, meu amor. - está aí uma palavra que eu sempre imaginei ele dizendo para mim, me chamando de amor.
- Obrigada, você também está muito lindo.
- Obrigado. - ele estendeu sua mão para mim, eu a peguei, ele se aproximou, e quando estávamos próximos o suficiente, ele depositou um beijo em minha bochecha, deixando o local quente com minha timidez.
Eu esperava muito que mesmo depois de muito tempo em que estivéssemos juntos, ele não perdesse seu amor, romantismo e cavalheirismo.
Muitos falam que depois do casamento as coisas vão esfriando e o marido não é mais o mesmo de quando começaram a namorar, e eu esperava muito que isso nunca acontecesse comigo e .
Eu só precisava manter os pés no chão e viver a realidade, e não somente pelas expectativas que eu criava.
O trajeto que fazia não me era desconhecido, estávamos passando por ruas onde haviam grandes restaurantes caros nos quais eu não conseguiria nem pagar uma salada. Foi aí que me vi me perguntando se um jantar caro seria minha surpresa, mas deveria já saber bem que para me agradar e me fazer feliz, eu não precisava de jantares e presentes caros, coisas simples já me faziam super feliz. Pois o que mais vale é a intenção e a lembrança.
- Para onde estamos indo? - ele apenas deu um sorriso.
- É surpresa. Se eu te contar, irá perder a graça.
- É que eu estou muito curiosa.
- Sei que sim. Mas tenho grande expectativa de que você irá gostar. - me olhou por um segundo para então voltar a prestar atenção no trânsito.

De fato, sua surpresa havia sido maravilhosa. Quando paramos em frente ao seu restaurante, dentro havia pouca iluminação e não havia nenhum tipo de tráfego de pessoas ali dentro. Mesmo não trabalhando a maioria dos sábados à noite, o restaurante abria normalmente, sobre os comandos de Tom, e eram os dias que havia mais movimentação.
Matthew me ajudou a descer do carro e fomos adentrar o local, estava totalmente vazio, exceto por um garçom e um cozinheiro que estavam próximos a uma mesa para duas pessoas e nessa mesa havia um grande buquê de rosas e velas acesas.
- O que está acontecendo, ?
- , esses aqui são Trevor, nosso garçom. - ele apontou para o garçom, que fez uma breve reverência. - E esse é o Oliver, nosso chef francês.
- Mademoiselle.
- Olá. - os cumprimentei e olhei, confusa, para .
- Você irá entender meu amor. Enquanto isso, vamos apenas aproveitar. - com sua ajuda, me acomodei na cadeira da mesa e fez o mesmo em seguida. - Traga aquele vinho que eu lhe falei, por favor.
- Sim, senhor. - enquanto o garçom se distanciava, eu deduzia o que ali acontecia.
- Quer dizer então que você fechou o restaurante para um jantar somente para nós dois?!
- Você me pegou. - sorri, como não sorrir e se sentir especial mediante ao que ele tinha planejado para nós?
- Por que fez isso? Quero dizer, esse é o dia da semana que o restaurante dá mais movimento.
- Sim, mas não importa. Eu queria algo especial para você e achei isso uma boa ideia. , não estou preocupado com o tanto de dinheiro que poderíamos ganhar essa noite, pois tudo o que me importa agora é você. Nós dois.
- Às vezes nem parece que você é de verdade.
- Mas eu sou, amor. - por cima da mesa, ele esticou sua mão e de imediato coloquei a minha por cima da dele, o fazendo entrelaçar nossos dedos.
- Você é incrível!
- Tudo isso poderia ser ainda melhor, mas é que eu não conseguia pensar em nada e...
- Então como chegou nessa ideia de fechar o restaurante para nós?
- Certo, você me pegou mais uma vez. Na verdade, quem teve essa ideia foi a minha mãe, somente acrescentei mais alguns detalhes e voilá. Desculpa por eu não ter conseguido pensar em algo por mim mesmo.
- , amor, está perfeito. Na verdade, não consigo pensar em nada que seria mais perfeito que isso. Só sua intenção valeu mais que tudo.
- Você é maravilhosa, . - Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, o garçom apareceu com o nosso vinho, encheu nossa taça e se afastou.
- A surpresa ainda não acabou, tem mais coisas planejadas na minha casa. Se você quiser ir até lá, é claro.
- Quero sim.

O restante do jantar foi agradável e romântico, a conversa fluía e muitas vezes as risadas eram altas pois não conseguíamos controlar.
A comida estava espetacular, mas, particularmente, eu ainda preferia a comida que fazia.
No final, uma música lenta e baixa tomou conta do recinto, ele se levantou, estendendo a mão para mim, me chamando para dançar. Mesmo sendo ruim de dança, eu aceitei seu convite.
Colamos nossos corpos e ali nos movimentamos de forma lenta, aproveitamos cada segundo do toque um do outro, do calor um do outro.
- À propósito. Parabéns, meu amor. - ele sussurrou próximo ao meu ouvido.
- Obrigada.
- Pode parecer cedo, mas depois de quase seis anos sentindo isso tudo, acho que não é mais tão cedo e rápido demais para dizer que eu amo você. - meu coração parou por um momento para então começar a bater com mais rapidez.
Eu só desejava que se fosse um sonho, eu acordasse no mesmo instante, antes que fosse tarde demais, antes que houvesse esperança demais, amor demais e depois decepção e desilusão demais.
Mas não era um sonho e pude perceber isso pelo brilho intenso em seus olhos lindamente claros direcionados a mim, que me faziam sentir mais viva que nunca e mais amada que nunca.
O que eu sempre havia sonhado estava finalmente acontecendo, a realidade superou as fantasias mais bem planejadas.
E esse grande amor estava a minha frente ansioso por uma reação da minha parte, e não havia medo em seus olhos.
- Céus, , o quanto esperei por esse momento. Eu amo tanto você. - sem mais delongas ou palavras, ele apenas me beijou.
- Você aceita finalmente oficializar nosso relacionamento?
- Claro que aceito.

Chegamos em sua casa e tudo estava escuro. Pela escuridão da casa, ele foi me guiando até o primeiro andar e, chegando em frente à porta do seu quarto, ele a abriu, me deixando de boca aberta com o que eu estava vendo ali.
Ao entrar no quarto, me deslumbrei com o que vi, a cama e o chão não estavam forrados com pétalas de rosas como imagino que vocês deveriam estar pensando. O quarto estava iluminado sobre luzes de velas que espalhou por todo o cômodo, e só aquilo trazia ao quarto o ar de aconchego e romantismo. Havia também um balde com gelos onde uma garrafa de champanhe ali estava repousada, e ao lado do balde, duas taças.
conseguiu transformar o simples em algo grandioso e que significaria muito para mim pelo resto da minha vida.
- , está lindo.
- Eu achei que ficou simples demais. Na hora em que arrumei, achei que ficou bonito, mas olhando agora, poderia ter ficado melhor. - colocou as mãos nos bolsos e de leve ficou se balançando para frente para trás.
- Não. Está perfeito, . Eu simplesmente adorei. - sorri largamente e me aproximei dele, colocando uma mão em sua nuca e a outra em seu peito por cima do blazer que usava.
- Fico muito feliz que tenha gostado. - sussurrou para mim, passando as costas de sua mão em minha bochecha.
- Obrigada por tudo isso. Por essa noite incrível. – sussurrei, abrindo os olhos e me deparando com aqueles olhos tão lindos e aquele sorriso de tirar o fôlego.
- Você merece tudo isso e muito, muito mais.
Assim que ele terminou a frase, não me aguentei e o puxei para um beijo, eu não me cansava de sentir seus lábios sobre os meus e as sensações que causavam em mim. Eu me sentia ainda mais completa, e todas as vezes tinha ainda mais certeza, que estar nos braços de era o lugar certo para eu estar. era meu lar.
O beijo era calmo, não tínhamos pressa alguma, por mais que quiséssemos sentir nossas peles coladas, queríamos curtir cada momento, cada toque, cada sensação.
Quando o beijo foi partido por ele, seus olhos me observavam, me despindo sem pudor, queria explorar cada cantinho da minha alma. E me ter em seus braços sem pressa alguma.
De forma lenta, acendendo chamas em meu corpo, ele desceu os beijos para meu queixo, pescoço e clavícula.
Seus beijos eram demorados e molhados, me fazendo apertar os olhos. Eu estava inebriada e, com os olhos fechados, eu apreciava cada pequeno toque.
Eu tinha tantas coisas para dizer a ele, não só coisas sobre aquele momento, mas de tantos outros que tivemos juntos, mas simplesmente ao olhar para ele sentia que as palavras não eram o suficiente para expressar tudo.
Quando mais uma vez o beijo foi partido, começou a lentamente descer o zíper do vestido que eu usava, a expectativa para os próximos passos em mim era grande, e aquele pequeno sorriso malicioso nos lábios de não ajudava em nada.
Assim que ele desceu todo o zíper, suspirei pesadamente, percebendo seu sorriso se alargar mais por perceber que eu não usava sutiã algum. Suas mãos voltaram para meu ombro, onde foi deslizando as alças do vestido de forma lenta, minha vontade era de arrancar aquela peça de uma só vez do meu corpo que parecia estar em chamas. Então jogar na cama fazendo a maravilhosa mágica acontecer, mas controlei minhas vontades, pois sabia bem o que estava fazendo, e aquela lentidão só estava aumentando ainda mais nossos desejos para que então na hora fosse ainda melhor do que já estava.
Quando enfim meu vestido já se encontrava no chão, suas mãos foram deslizando, subindo a lateral do meu corpo me causando arrepios. Passou então um braço por minha cintura e a outra em minha perna, me dando impulso para cima, para que eu entrelaçasse minhas pernas em sua cintura, e assim o fiz. Mais uma vez, nossas bocas se juntaram em um beijo, dessa vez com mais pressa, mais quente e mais intenso, e ficamos assim até o pequeno trajeto até a cama, e ao chegar ali, ele me deitou da forma mais delicada que conseguiu.
Seus beijos foram descendo de forma lenta até minha barriga. Ele estava adorando brincar com minha sanidade e testar os meus limites.
Com certa pressa, e meio desajeitada, eu desabotoava sua camisa, e com os botões fora das casas, retirei por fim a camisa de seu corpo, o fazendo sorrir.
Por algumas vezes havia passado por aquela situação, mas com tudo era diferente e eu tinha o desejo de superar todas suas expectativas.
Ali, no meio dos lençóis, nós nos amamos.

- Obrigada por ter feito esse momento maravilhoso.
- Por você eu faço tudo.
E ficamos ali, ele deitado em meu peito e eu olhando para o teto com um sorriso largo no rosto, me sentindo a mulher mais amada e desejada do mundo, pelo idiota que eu amava há quase seis anos, cujo nome é .

Ainda com os olhos fechados, mas acordada, esbocei em meus lábios um sorriso pequeno por conta do carinho gostoso que eu recebia em minhas costas nuas, causado pelas pontas dos dedos do meu grande amor. Eu estava deitada de costas para , praticamente abraçada ao travesseiro que cobria meus seios e um lençol me cobria da cintura para baixo.
- Você não deveria mais fazer isso! - me virei para ele, ainda sorrindo, ele também sorria, mas parecia confuso com minhas palavras.
- O que eu não deveria mais fazer?
- Me olhar dormir.
- Te olhar dormir é uma das minhas coisas preferidas agora. Pois ao te ver assim aqui, comigo, eu vejo o quão sortudo sou por ter você.
- Até que um dia se assustar com minha cara amassada, meu cabelo em pé e bafo, e então você desejar mais que tudo a separação.
- Não seja dramática, . Demorei muito tempo para ficar com você. Agora eu não te largo por nada. - falou e depositou um selinho em meus lábios. - E a propósito, você é linda dormindo, linda de qualquer jeito.
Soltei uma risada abafada por conta de suas palavras enquanto ele me olhava de forma maliciosa. Assim que parei de rir, ele se ajeitou em mim.
- Nem a essa hora da manhã você não para de pensar nisso.
- Como não pensar, com uma coisa linda dessas na minha cama e ainda por cima sem roupas?!
- Toma jeito, . - bati de leve em seu braço o fazendo rir.



Continua...



Nota da autora: Olá, amores, quero agradecer de coração a todas vocês que tem acompanhado Quem Sabe Sou Eu. Tem sido muito importante para mim! ❤️
Beijos, meus amores!!!

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